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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 01:23:23 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 01:23:23 -0700
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+<html>
+<head>
+
+ <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="content-type">
+ <title>africa</title>
+
+
+</head>
+
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Como atravessei Àfrica (Volume I), by
+Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Como atravessei Àfrica (Volume I)
+
+Author: Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto
+
+Release Date: February 2, 2007 [EBook #20508]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMO ATRAVESSEI ÀFRICA (VOLUME I) ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha, João Miguel Neves, Carlo Traverso
+and the Online Distributed Proofreading Team at
+http://www.pgdp.net (This file was produced from images
+generously made available by the Bibliothèque nationale
+de France (BnF/Gallica) at http://gallica.bnf.fr)
+
+
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+</pre>
+
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 600px; height: 460px;" alt="" src="images/001.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Map.2"></a>Mappa
+2.--De Benguella ao Bih&eacute;</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h1><span style="font-weight: bold;">COMO EU
+ATRAVESSEI &Agrave;FRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE</span></h1>
+
+<h1><span style="font-weight: bold;">BENGUELLA
+&Aacute; CONTRA-COSTA.</span></h1>
+
+<h1><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">A-TRAV&Egrave;S
+REGI&Otilde;ES DESCONHECIDAS;</span></h1>
+
+<br style="font-weight: bold;">
+
+<h2><span style="font-weight: bold;">DETERMINA&Ccedil;&Otilde;ES
+GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.</span></h2>
+
+<br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">Por SERPA PINTO.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">Dois Volumes.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do<br>
+
+autor.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+VOLUME PRIMEIRO.<br>
+
+<br>
+
+Primeira Parte--A CARABINA D'EL-REI.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+LONDRES:<br>
+
+SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,<br>
+
+EDITORES,<br>
+
+CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.<br>
+
+1881.<br>
+
+<br>
+
+[<span style="font-style: italic;">T&ocirc;dos os
+direitos sam reservados.</span>]<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+LONDRES:<br>
+
+NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA),<br>
+
+STAMFORD STREET E CHARING CROSS.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">A SUA MAGESTADE EL-REI D.
+LUIZ 1^o,<br>
+
+<br>
+
+COM PR&Egrave;VIA LICEN&Ccedil;A<br>
+
+<br>
+
+OFFERECE ESTE LIVRO<br>
+
+<br>
+
+O AUT&Ocirc;R.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+SENHOR,<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">N&atilde;o foi um
+sentimento de
+adula&ccedil;&atilde;o servil que me levou a pedir
+licen&ccedil;a a
+Vossa Magestade para lhe dedicar este livro, foi o reconhecimento de
+uma dupla d&igrave;vida de justi&ccedil;a e de
+gratid&atilde;o: de
+justi&ccedil;a ao Monarcha intelligente e illustrado que firmou o
+decreto creando recursos para a primeira
+expedi&ccedil;&atilde;o
+scient&igrave;fica Portugueza d'este s&egrave;culo &aacute;
+&Agrave;frica Central; de gratid&atilde;o, ao
+pr&igrave;ncipe cujos
+dotes de cora&ccedil;&atilde;o e de esp&igrave;rito
+disputam primazias
+&aacute;s suas elevadas qualidades de um dos primeiros reis
+constitucionaes da Europa contempor&agrave;nea.<br>
+
+<br>
+
+Deu-me Vossa Magestade ensejo de prender indissoluvelmente o meu
+obscuro nome de soldado Portuguez, a uma das mais felizes e auspiciosas
+tentativas modernamente feitas por Portugal; por isso esse livro
+pertence a Vossa Magestade como leg&igrave;timo t&igrave;tulo
+da minha
+immensa gratid&atilde;o. Ouso rogar respeitosamente a Vossa
+Magestade
+queira aceitar a minha humilde offerta com a mesma benevolencia com que
+se dignou dar-me incitamentos para uma empresa, da qual, depois de
+realisada, f&ocirc;ram ainda os fav&ocirc;res de Vossa
+Magestade a mais
+sincera e n&atilde;o regateada recompensa.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+O Vosso ajudante de campo<br>
+
+E o mais dedicado dos<br>
+
+Vossos s&ugrave;bditos,<br>
+
+<br>
+
+Alexandre de Serpa Pinto.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Londres, 61 Gower Street,<br>
+
+<span style="font-style: italic;">5 de Dezembro de 1880</span>.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;">A SUA
+EXCELLENCIA, O CONSELHEIRO JO&Atilde;O D'ANDRADE CORVO.</span></h2>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Ill^{mo.} e Ex^{mo.} S^{nr.},<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">Com propor o meu nome,
+em 1877, na
+Commiss&atilde;o Central Permanente de Geographia, para fazer parte
+da
+expedi&ccedil;&atilde;o Portugueza ao interior
+d'&Agrave;frica, assumio
+Vossa Excellencia a responsabilidade da minha
+nomea&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Foi para mim pensamento constante, dar a Vossa Excellencia
+satisfa&ccedil;&atilde;o plena do encargo que tomou
+indigitando-me para
+t&atilde;o &agrave;rdua tarefa. <br>
+
+<br>
+
+Este livro contem, de envolta com a narrativa das minhas aventuras, os
+resultados dos meus trabalhos e estudos.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o sei se corresponder&aacute; ao que Vossa Excellencia
+esperava de mim; como n&atilde;o sei se cumpri os deveres que Vossa
+Excellencia, em nome do paiz, me impoz.<br>
+
+<br>
+
+Tenho a consciencia de que trabalhei quanto pude, e que segui, tanto
+quanto em f&ocirc;r&ccedil;as humanas cabia, o pensamento e as
+instruc&ccedil;&otilde;es de Vossa Excellencia.<br>
+
+<br>
+
+A leitura da minha narrativa mostrar&aacute; a Vossa Excellencia,
+com
+quantas difficuldades lutei, e de qu&atilde;o minguados recursos
+dispuz.<br>
+
+<br>
+
+Se, porem, os meus trabalhos corresponderem &aacute;
+confian&ccedil;a
+com que Vossa Excellencia me quiz honrar, ser&aacute; isso o maior
+pr&egrave;mio a que pode aspirar, o mais respeitoso admirador do
+talento, vasto saber e elevadas qualidades de Vossa Excellencia,<br>
+
+<br>
+
+</div>
+
+Alexandre de Serpa Pinto.<br>
+
+<br>
+
+Londres, 61 Gower Street,<br>
+
+<span style="font-style: italic;">28 de Novembro de 1880</span>.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;">TRIBUTO DE
+GRATID&Atilde;O.</span></h2>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">Vou citar nomes.
+&Eacute; difficil e
+perigosa tarefa. Ha sempre o receio de ferir modestias, ou levantar
+susceptibilidades. N&atilde;o importa; sigo avante.<br>
+
+<br>
+
+Ser&aacute; grande a lista, por serem multiplicados os
+fav&ocirc;res; e
+posso bem peccar por omiss&atilde;o, filha de memoria
+pregui&ccedil;osa.<br>
+
+<br>
+
+Que me perd&ocirc;em os que desejariam esconder &ecirc;sses
+fav&ocirc;res na mais velada modestia, como aquelles a quem um
+lapso de
+reminiscencia deixasse no olvido.<br>
+
+<br>
+
+Seguindo a ordem chronol&ograve;gica dos factos, procurarei no
+profundo
+sentimento de gratid&atilde;o a lembran&ccedil;a dos
+servi&ccedil;os e
+fav&ocirc;res recebidos.<br>
+
+<br>
+
+Cabe &aacute; Commiss&atilde;o Central de Geographia o primeiro
+logar
+no meu reconhecimento; por me ter distinguido com a sua
+esc&ocirc;lha
+para instrumento da explora&ccedil;&atilde;o que decidio fazer
+em
+&Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+Proposto pelo S^{nr.} Conselheiro Andrade Corvo, fui
+un&agrave;nimemente aceito, e attendido nas propostas que
+apresentei
+para a organiza&ccedil;&atilde;o da empr&ecirc;sa. Falando
+da
+Commiss&atilde;o Central de Geographia, n&atilde;o posso
+omittir de
+citar nomes; porque, recebendo obs&egrave;quios de t&ocirc;dos,
+fui
+particularmente auxiliado por muitos.<br>
+
+<br>
+
+O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, Marquez de Souza-Hollstein, Antonio
+Augusto Teixeira de Vasconcellos, sam nomes que as lousas tumulares dos
+seus jazigos, n&atilde;o podem occultar &aacute; minha
+gratid&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+O D^{or.} Julio Rodriguez, Luciano Cordeiro, o D^{or.} Bocage, Conde de
+Ficalho, Carlos Testa, Pereira da Silva, Jorge Figaniere, e Francisco
+da Costa e Silva, f&ocirc;ram os cavalheiros que, no seio da
+Commiss&atilde;o, mais se esfor&ccedil;&aacute;ram por me
+encher de
+fav&ocirc;res.<br>
+
+<br>
+
+Outro, que s&oacute; annos depois conheci pessoalmente (ausente em
+quanto se organizou a expedi&ccedil;&atilde;o), n&atilde;o
+deixou de
+concorrer com o sem cons&ecirc;lho abalizado para a parte
+scient&igrave;fica d'ella. Refiro-me ao S^{nr.} Brito Limpo.<br>
+
+<br>
+
+Fora da Commiss&atilde;o, prest&aacute;ram-me vali&ocirc;so
+auxilio, os
+meus particulares amigos Marrecas Ferreira e Jo&atilde;o Botto.<br>
+
+<br>
+
+Vem depois da Commiss&atilde;o Central, a Sociedade de Geographia
+de
+Lisboa; e com ella mais em evidencia, os seus Presidentes, D^{or.}
+Bocage e Vizconde de S. Januario, e os seus Secretarios Luciano
+Cordeiro e Rodrigo Pequito.<br>
+
+<br>
+
+Segue-se o jornalismo Portuguez, a quem cordialmente
+agrad&ecirc;&ccedil;o t&ocirc;dos os fav&ocirc;res que
+me dispensou, e
+a maneira por que acolheu a minha nomea&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Fora do paiz prest&aacute;ram-me vali&ocirc;so auxilio, o
+S^{nr.}
+Mendes Leal, Antonio d'Abbadie, e Ferdinand de Lesseps, em Paris; o
+Vizconde de Duprat e o Tenente Pinto da Fonseca Vaz, em Londres; sendo
+que &aacute;<br>
+
+coopera&ccedil;&atilde;o d'estes cavalheiros, e s&oacute; a
+ella,
+pod&eacute;mos eu e Capello ter dado conta do encargo que
+tom&aacute;mos de organizar em um mez o material da
+expedi&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Antes de ter deixado Portugal, ha que citar ainda dois cavalheiros, que
+concorr&ecirc;ram poderosamente para a
+realiza&ccedil;&atilde;o da
+nossa empr&ecirc;sa.<br>
+
+<br>
+
+Sam o Conselheiro Jos&eacute; de Mello e Gouvea, que
+ent&atilde;o
+governava nos negocios do Ultramar, e Francisco Costa, o Director Geral
+do Ministerio das Colonias.<br>
+
+<br>
+
+Pedro d'Almeida Tito, e Avelino Fernandes, dispens&aacute;ram-me
+taes
+fav&ocirc;res em viagem, que n&atilde;o posso deixar de
+escrever aqui
+os seus nomes.<br>
+
+<br>
+
+Vem, em seguida, o do Governador de Cabo V&ecirc;rde, Vasco Guedes,
+e o
+do Governador d'Angola, Caetano d'Albuquerque; que ambos me
+dispens&aacute;ram inn&ugrave;meras finezas.<br>
+
+<br>
+
+Em Loanda, Jos&eacute; Maria do Prado, Urbano de Castro, o Consul
+Newton, a Associa&ccedil;&atilde;o Commercial, e
+s&ocirc;bre tudo os
+officiaes e Commandante da Canhoneira&nbsp;<span style="font-style: italic;">T&acirc;mega</span>,
+sam cr&egrave;dores do meu mais profundo reconhecimento.<br>
+
+<br>
+
+Apparece agora um nome que n'esse tempo echoava por todas as partes do
+mundo, e assombrava com as suas fa&ccedil;anhas o orbe inteiro:<br>
+
+<br>
+
+Henrique Moreland Stanley.<br>
+
+<br>
+
+O grande explorador, o ousado viajante, que acabava de fazer a mais
+prodigiosa viagem dos tempos modernos, foi meu amigo, e meu
+conselheiro, e d'elle recebi proveitosas li&ccedil;&otilde;es.
+Melhor
+mestre n&atilde;o poderia ter. Que elle rec&ecirc;ba n'estas
+curtas
+linhas o mais sincero tributo da grande admira&ccedil;&atilde;o
+que
+nutro por elle, e a mais franca express&atilde;o da minha estima, e
+da
+gratid&atilde;o que lhe consagro.<br>
+
+<br>
+
+Em Benguella, Pereira de Mello e Silva Porto occupam o primeiro logar;
+e nem me detenho a falar d'elles, que mais alto falam por mim os seus
+actos narrados n'este livro. Antonio Ferreira Marquez, o Tenente
+Seraphim, o pharmac&egrave;utico Monteiro, e Vieira da Silva, sam
+outros tantos cavalheiros que n&atilde;o posso esqu&egrave;cer.<br>
+
+<br>
+
+Santos Reis, o meu hospedeiro do Dombe Grande, e o Tenente Roza de
+Quillengues, sam mais dois cr&egrave;dores &aacute; minha
+gratid&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Vou dar um salto enorme, e sem me deter a falar do D^{or.} Bradshaw e
+da familia Coillard, transp&ograve;rto-me ao Bamanguato, a&nbsp;<span style="font-style: italic;">Shoshong</span>
+(Xoxon), onde os fav&ocirc;res do rei Kama, e sobre tudo os de
+M^{r.} e
+Madame Taylor, me obrigam a n&atilde;o olvidar os seus nomes.<br>
+
+<br>
+
+Vai come&ccedil;ar para mim um embara&ccedil;o enorme. Estou em
+Pretoria; estou na primeira terra do mundo civilisado que encontro
+depois de Benguella; e ali sam tantos os fav&ocirc;res que se me
+prodigalizam, que n&atilde;o sei como sahir do embara&ccedil;o
+que
+elles me causam para os agradecer.<br>
+
+<br>
+
+M^{r.} Swart, o thesoureiro do Gov&ecirc;rno, foi o primeiro a
+obsequiar-me, e ser&aacute; o primeiro citado.<br>
+
+<br>
+
+Vem em seguida os nomes de Fred. Jeppe, Secretario Osborne, D^{or.}
+Bissik, M^{r.} Kisch, Major Tylor e Capit&atilde;o Saunders, e
+t&ocirc;dos os officiaes do Regimento 80.<br>
+
+<br>
+
+A Baron&ecirc;za Van-Levetzow, Madame Imink e Madame Kisch, e emfim
+o Coronel Lanyan.<br>
+
+<br>
+
+Sir Bartle-Frere veio logo em meu auxilio, e n&atilde;o se demorou
+o nosso Consul Portuguez no Cabo, o S^{nr.} Carvalho.<br>
+
+<br>
+
+Se d&ecirc;vo muita gratid&atilde;o ao Governador Inglez,
+n&atilde;o
+d&ecirc;vo menos ao Consul Portuguez, que, por telegrammas
+immediatos,
+veio prestar-me a maior assistencia.<br>
+
+<br>
+
+Monseigneur Jolivet, o sabio Bispo de Natal, ent&atilde;o residindo
+em
+Pretoria, n&atilde;o foi dos &ugrave;ltimos a encher-me de
+fav&ocirc;res.<br>
+
+<br>
+
+Em caminho para Durban, recebi um obsequio grande de M^{r.} Goodliffe,
+e em Maritzburgo multiplic&aacute;ram-se os obsequios do Coronel
+Baker,
+Capit&atilde;o Whalley e Madame Saunders, e M^{r.} Furs.<br>
+
+<br>
+
+Em Durban, M^{r.} Snell, o Consul Portuguez, e M^{r.} e Madame B. H. de
+Waal, chefe da Handels Company em &Agrave;frica Oriental, muito se
+distingu&iacute;ram em fav&ocirc;res prestados.<br>
+
+<br>
+
+Agora &eacute; que se torna verdadeiramente embara&ccedil;osa a
+minha
+miss&atilde;o. Vou regressar &aacute; Europa, tendo terminado a
+minha
+viagem, e accum&ugrave;lam-se os obs&egrave;quios que
+rec&ecirc;bo a
+cada momento.<br>
+
+<br>
+
+Em Louren&ccedil;o Marquez, sam Castilho, Machado, Maia e Fonseca.
+Em
+Mo&ccedil;ambique, o Governador Cunha, Torrez&atilde;o e
+t&ocirc;dos. <br>
+
+<br>
+
+Em Zanzibar, o D^{or.} e Madame Kirk, Widmar, e s&ocirc;bre
+t&ocirc;dos o Capit&atilde;o Draper do 'Danubio' da&nbsp;<span style="font-style: italic;">Union Steamship Company</span>,
+que de Durban me transportou ali.<br>
+
+<br>
+
+No Cairo, ainda Widmar me presta grandes fav&ocirc;res. Em
+Alexandria,
+sobress&aacute;e a t&ocirc;dos o Conde e a Cond&ecirc;ssa
+de Caprara. <br>
+
+<br>
+
+Ainda antes de chegar a Lisb&ocirc;a, rec&ecirc;bo um
+servi&ccedil;o importante do Bar&atilde;o de
+Mendon&ccedil;a, em Bordeos.<br>
+
+<br>
+
+Em Lisb&ocirc;a, o Gov&ecirc;rno, primeiro, e amigos velhos e
+conhecidos novos, porfiam em obsequiar-me.<br>
+
+<br>
+
+Estou ali apenas dez dias, em que mal tive tempo para receber
+fav&ocirc;res, e em que me n&atilde;o sobejou um minuto para os
+agradecer.<br>
+
+<br>
+
+Quiz&eacute;ram que eu fizesse uma conferencia, mal repousado ainda
+das
+fadigas da viagem; e sem o poder&ocirc;so concurso que me
+prest&aacute;ram Pequito, Sarrea Prado, Batalha Reis e D^{or.}
+Bocage,
+impossivel me seria fazel-a.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o querendo, n&atilde;o podendo mesmo, citar nomes,
+tantos
+seriam elles, n&atilde;o deixo de agradecer, com o mais sincero
+reconhecimento, &aacute; Sociedade de Geographia de Lisboa tudo o
+que
+por mim fez.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute; Associa&ccedil;&atilde;o Commercial e ao seu digno
+Presidente,
+o S^{nr.} Chamisso, que sempre tomou o maior interesse pela
+explora&ccedil;&atilde;o de que eu fiz parte.<br>
+
+<br>
+
+Sube em Lisb&ocirc;a um facto que n&atilde;o posso deixar de
+consignar aqui com um nome.<br>
+
+<br>
+
+Agrad&ecirc;&ccedil;o ao S^{nr.} Thomas Ribeiro as ordens que
+deu como
+Ministro da Marinha, para que me f&ocirc;ssem enviados soccorros de
+Mo&ccedil;ambique para o interior d'&Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+Ao C&ocirc;rpo Diplom&agrave;tico residente em Lisb&ocirc;a
+expresso os
+meus sentimentos de gratid&atilde;o, e sobre todos aos S^{nrs.}
+Morier,
+Bar&atilde;o de P. Hegeurt, Laboulay, Marquez d'Oldoini, e Ruata.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute; Associa&ccedil;&atilde;o Commercial do Porto, aos
+bombeiros
+voluntarios d'aquella cidade, &aacute; Sociedade Euterpe e
+&aacute;
+Sociedade de Instruc&ccedil;&atilde;o, aos municipios e mais
+institui&ccedil;&otilde;es do paiz que me
+obsequi&aacute;ram, consigno
+aqui um testemunho de agradecimento.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute;s Associa&ccedil;&otilde;es Portuguezas no Brazil,
+aos meus
+conterraneos que longe da patria me saud&aacute;ram, a elles que
+nada
+poup&aacute;ram para mim em honras e
+distinc&ccedil;&otilde;es, envio
+um fraternal protesto de immensa gratid&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Sobre todos &aacute;quelles que form&aacute;ram uma sociedade
+com o meu
+nome, e que de Pernambuco me offerec&ecirc;ram um mimoso presente,
+de
+tal distinc&ccedil;&atilde;o, que nunca os poderei
+esqu&egrave;cer.<br>
+
+<br>
+
+Cabe agora, pela ordem dos factos, agradecer aos Soberanos estrangeiros
+as altas honras com que me distingu&iacute;ram, s&ocirc;bre
+t&ocirc;dos
+ao Monarcha Belga, ao Illustrado e sabio Rei Leopoldo, ao grande
+impulsor do movimento geogr&agrave;phico Africano moderno, que, a
+par
+da mais alta honra com que me podia enobrecer, me dispensou a mais
+cordial estima, e me mostrou o mais affectuoso interesse.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">&Aacute;s Sociedades
+de Geographia da
+Fran&ccedil;a, principalmente &aacute;s de Paris, onde o
+Almirante La
+Ronci&egrave;re le&nbsp;Noury, Ferdinand de Lesseps, MM.
+Daubr&eacute;,
+Maunoir, d'Abbadie, de Quatrefages e Duveyrier,
+me&nbsp;ench&ecirc;ram
+de fav&ocirc;res; de Marselha, que me conferio uma subida
+distinc&ccedil;&atilde;o, e cujo Presidente,M^{r.} Babaut,
+muito me
+obsequiou; e &aacute; Commercial de Paris, onde distingo o seu
+digno
+Secretario Geral, M^{r.} Gauthiot. <br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">Ainda em Paris, tenho a
+nomear a
+Colonia Portugueza, e nella os S^{nrs.} Mendes Leal, Conde de S.
+Miguel, Camillo de Moraes, Pereira Leite, Garrido, e D^{or.} Aguiar, de
+quem nunca poderei olvidar os fav&ocirc;res recebidos.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute;s Sociedades de Geographia Belga, e &aacute; de Anvers,
+nomeadamente aos seus Presidentes, o General Liagne e Coronel
+Wauvermans; e &agrave;l&eacute;m d'estes cavalheiros,
+n&atilde;o posso
+deixar de falar, em um paiz onde t&ocirc;dos me
+obsequi&aacute;ram, nos
+nomes dos S^{nrs.} du Fief, Bamps, e Coronel Strauch, e ainda mais alto
+no Conde de Thomar, cujos fav&ocirc;res repetidos e cordialidade de
+trato convert&ecirc;ram em verdadeira amizade a sincera estima das
+primeiras rela&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Cabe, pela ordem dos factos, o &ugrave;ltimo lugar &aacute;
+Inglaterra,
+que seria talvez a primeira p&ecirc;lo n&ugrave;mero de
+fav&ocirc;res
+dispensados.<br>
+
+<br>
+
+Principiou nas colonias Inglezas da &Agrave;frica do Sul a ter juz
+&aacute; minha gratid&atilde;o este paiz, onde depois se me
+tinham de
+multiplicar os obsequios.<br>
+
+<br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: justify;">&Aacute; Sociedade
+de Geographia de
+Londres, ao seu Presidente o Conde de Northbrook, aos
+seus&nbsp;Secretarios Clements Markham e Bates, aos seus Membros
+Sir
+Rutherford Alcock, Lord Arthur Russell, Visconde de Duprat, e muitos
+outros que impossivel seria nomear, deixo aqui escritos os meus<br>
+
+sentimentos de reconhecimento.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">Ao S^{nr.} Frederico
+Youle, ao
+D^{or.} Peacock, aos S^{nrs.} M. d'Antas, Sampaio, Fonseca Vaz,
+Quillinan, Duprat, e Ribeiro Saraiva, a estes que alem de subidos
+fav&ocirc;res me dispens&aacute;ram grandes servi&ccedil;os
+durante a
+minha grave doen&ccedil;a, n&atilde;o posso deixar de lavrar um
+bem
+p&ugrave;blico testimunho de gratid&atilde;o.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">Ainda me falta citar o
+nome de M^{r.}
+David Ward, o Mayor de Sheffield, e do meu particular amigo, o grande e
+eminente explorador Verney Lovett Cameron, para fechar a lista, que
+seria interminavel a n&atilde;o tomar a
+resolu&ccedil;&atilde;o de a
+fechar aqui.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">&Aacute;s Sociedades
+Scient&igrave;ficas dos outros paizes, e a t&ocirc;dos aquelles
+que
+n&atilde;o posso citar, e que me cobr&iacute;ram de
+fav&ocirc;res,
+agrad&ecirc;&ccedil;o tudo quanto por mim fiz&eacute;ram, e
+agrad&ecirc;&ccedil;o tanto mais sinceramente, quanto me custa
+n&atilde;o os poder personalizar.<br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: justify;">
+<br>
+
+Major Alexandre de Serpa Pinto.<br>
+
+<br>
+
+Londres,&nbsp;<span style="font-style: italic;">5 de
+Dezembro de 1880</span>.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;">O LIVRO.</span></h2>
+
+</div>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">
+N&atilde;o tem preten&ccedil;&otilde;es a obra de
+literatura este livro.<br>
+
+<br>
+
+Escrito sem preoccupa&ccedil;&atilde;o da forma, &eacute; a
+fiel reproduc&ccedil;&atilde;o do meu diario de viagem.<br>
+
+<br>
+
+Cortei n'elle muitos epis&ograve;dios de ca&ccedil;adas, e
+outros, que
+um dia no descanso, produzir&aacute;m um volume de caracter
+especial.
+Busquei s&ocirc;bre tudo fazer real&ccedil;ar o que mais
+interessante
+se tornava para os estudos geogr&agrave;phicos e
+ethnogr&agrave;phicos,
+e se n&atilde;o me pude eximir a narrar um ou outro dos muitos
+epis&ograve;dios dram&agrave;ticos que abund&aacute;ram na
+minha
+fadigosa empresa, foi quando a &ecirc;sses epis&ograve;dios se
+ligavam
+factos consequentes, de importancia, ja para alterar o itinerario
+projectado, j&aacute; determinando demoras, ou marchas
+precipitadas,
+que seriam incomprehensiveis sem a exposi&ccedil;&atilde;o das
+causas
+determinantes.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute; Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos
+sert&otilde;es do interior d'&Agrave;frica, n&atilde;o
+&eacute; dado
+comprehender o que se soffre ali, quaes as difficuldades a vencer a
+cada instante, qual o trabalho de ferro n&atilde;o interrompido
+para o
+explorador.<br>
+
+<br>
+
+As narra&ccedil;&otilde;es de Livingstone, Cameron, Stanley,
+Burton,
+Grant, Savorgnan de Brazza, d'Abbadie, Ed. Mohr e muitos outros, estam
+longe de pintar os soffrimentos do viajante Africano. Difficil
+&eacute;
+comprehendel-o a quem o n&atilde;o o experimentou;
+&aacute;quelle que o
+experimentou difficil &eacute; descrevel-o.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o tento mesmo pintar o que soffri, n&atilde;o procuro
+mostrar
+o quanto trabalhei, que me fa&ccedil;am ou n&atilde;o a
+justi&ccedil;a
+de que me julgo merecedor aquelles que examinarem os meus trabalhos,
+h&ocirc;je &eacute; isso para mim indifferente; porque me
+convenci, de
+que s&oacute; posso ser bem comprehendido p&ecirc;los que como
+eu
+pis&aacute;ram os long&igrave;nquos sert&otilde;es do
+continente
+n&ecirc;gro, e pass&aacute;ram os maos tratos que eu por
+l&aacute;
+passei.<br>
+
+<br>
+
+Assim como s&oacute; o homem que, sendo pai, pode comprehender a
+d&ocirc;r pungente da p&ecirc;rda de um filho, assim tambem
+s&oacute; o
+homem que foi explorador pode comprehender as
+atribula&ccedil;&otilde;es de um explorador. Ha sentimentos que
+se
+n&atilde;o podem avaliar sem se haverem experimentado.<br>
+
+<br>
+
+Os factos narrados n'este livro sam a express&atilde;o da verdade.<br>
+
+<br>
+
+Verdade triste muitas v&ecirc;zes, mas que seria um crime occultar.<br>
+
+<br>
+
+Procurei apresentar n&ecirc;lle os resultados de um trabalho
+aturado de
+muitos m&ecirc;zes, e garanto o que digo s&ocirc;bre geographia
+Africana, porque s&oacute; eu sou autoridade para falar n'ella na
+parte
+respectiva &aacute; minha viagem, em quanto outro n&atilde;o
+houv&eacute;r seguido os meus passos atrav&eacute;z
+d'&Agrave;frica, e
+n&atilde;o me convencer do contrario.<br>
+
+<br>
+
+As minhas opini&otilde;es gen&egrave;ricas s&ocirc;bre um
+ou outro
+problema podem ser err&ograve;neas, sam sujeitas &aacute;
+cr&igrave;tica, podem cahir por terra com uma
+demonstra&ccedil;&atilde;o pr&agrave;tica das futuras
+viagens, como tem
+acontecido a asser&ccedil;&otilde;es de muitos dos meus
+antecessores os
+mais illustres; mas o que n&atilde;o tem nem pode ter
+contesta&ccedil;&atilde;o, sam os factos que eu vi, sam
+aquelles que se
+referem aos paizes que percorri, e que descr&ecirc;vo n'este livro
+com
+a consciencia que deve sempre dictar as ac&ccedil;&otilde;es do
+explorador.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o fui &aacute; &Agrave;frica ganhar dinheiro. Tive
+a mesquinha
+paga de official do ex&egrave;rcito e n&atilde;o quiz outra.<br>
+
+<br>
+
+Abandonei uma familia extremosamente querida; deixei a
+p&agrave;tria e
+tudo para trabalhar, e s&oacute; para trabalhar, em
+coopera&ccedil;&atilde;o com os outros paizes, na grande obra
+do estudo
+do continente desconhecido, e tenho a consciencia de que fiz tanto
+quanto podia fazer.<br>
+
+<br>
+
+Deixo aos homens de sciencia e &aacute;quelles que sam autoridades
+em tal materia o avalial-o.<br>
+
+<br>
+
+Ponho ponto n'este assumpto que parecer&aacute; filho de um orgulho
+que
+n&atilde;o tenho, mas factos ins&ograve;litos apparecidos no
+decurso
+dos primeiros m&ecirc;zes da minha residencia na Europa, depois de
+ter
+completado a fadigosa jornada d'&Agrave;frica, dict&aacute;ram
+as
+palavras que escrevi.<br>
+
+<br>
+
+Ha um anno que principiei a coordenar em livro os resultados dos meus
+trabalhos Africanos, mas uma pertinaz doen&ccedil;a por
+v&ecirc;zes
+interrompeu a vontade que nutria de dar &aacute; estampa esses
+trabalhos.<br>
+
+<br>
+
+Principiado em Londres em Setembro de 1879, o meu livro foi quasi
+t&ocirc;do escrito nos m&ecirc;zes de Setembro e Outubro, de
+1880, na
+Figueira da Foz, em Portugal.<br>
+
+<br>
+
+A pressa com que foi terminado contribuir&aacute; de certo muito
+para a incorrec&ccedil;&atilde;o da forma.<br>
+
+<br>
+
+A publica&ccedil;&atilde;o d'elle &eacute; feita em
+Londres, onde
+encontrei na grande casa editora Sampson Low, Marston, Searle and
+Rivington, todas as facilidades que n&atilde;o pude obter fora
+d'ella.<br>
+
+<br>
+
+Estes cavalheiros n&atilde;o recu&aacute;ram ante a enorme
+despesa a
+fazer com uma t&atilde;o difficil e custosa
+publica&ccedil;&atilde;o, e
+lev&aacute;ram a sua condescendencia a fazer imprimir em Inglaterra
+a
+edi&ccedil;&atilde;o Portugueza; trabalho difficilimo, porque a
+differen&ccedil;a das l&igrave;nguas dos dois paizes obrigou
+at&eacute;
+&aacute; fundi&ccedil;&atilde;o de typo, por causa dos
+signaes e
+accentos privativos do nossa idioma.<br>
+
+<br>
+
+Devo-lhes a maior gratid&atilde;o p&ecirc;lo interesse que
+t[~e]m
+dedicado a esta publica&ccedil;&atilde;o, para o
+m&egrave;rito da qual,
+se &eacute; que ella tiv&eacute;r algum m&egrave;rito,
+elles de certo
+concorr&ecirc;ram muito.<br>
+
+<br>
+
+O S^{nr.} Antonio Ribeiro Saraiva, que, a pesar dos seus trabalhos e da
+sua avan&ccedil;ada idade, me quiz fazer o favor especial de rever
+as
+provas do livro; o S^{nr.} E. Weller, o cart&ograve;grapho, que se
+encarregou da gravura das minhas cartas geogr&agrave;phicas; o
+S^{nr.}
+Cooper, que interpretou magn&igrave;ficamente os meus
+esboc&ecirc;tos
+de viagem nas gravuras que illustram a obra, concorr&ecirc;ram
+tambem
+de certo muito para o valor d'ella.<br>
+
+<br>
+
+Ahi vai, pois, o livro, e s&oacute; desejo que elle corresponda e
+sirva
+&aacute; curiosidade de uns e ao estudo de outros; e venha dar
+novos
+incitamentos &aacute; grande e sublime cruzada do s&egrave;culo
+XIX., a
+cruzada da civilisa&ccedil;&atilde;o do Continente
+N&ecirc;gro.<br>
+
+<br>
+
+Londres, 61 Gower Street,<br>
+
+<span style="font-style: italic;">5 de Dezembro de 1880</span>.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;">O
+T&Igrave;TULO DO LIVRO.</span></h2>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+H&ocirc;je, depois de jantar, sahi a dar um passeio, e de volta a
+casa,
+encontrei s&ocirc;bre a minha m&ecirc;sa de trabalho, pregado
+com um
+alfinete, um pedacinho de papel, recortado n&atilde;o sei de que
+jornal, que dizia assim:<br>
+
+<br>
+
+"O&nbsp;<span style="font-style: italic;">Athenaeum </span>diz,
+que o
+Major Serpa Pinto, restabelecido da sua prolongada doen&ccedil;a,
+chegou a Londres, para terminar a publica&ccedil;&atilde;o do
+livro
+descriptivo da sua jornada atravez d'&Agrave;frica.
+D&aacute;-nos
+grande satisfa&ccedil;&atilde;o o saber, que o
+t&igrave;tulo d'elle foi
+alterado, de 'Carabina d'El-Rei,' para o de 'Como eu Atravessei
+&Agrave;frica.' 'A Carabina d'El-Rei' pode ser um
+magn&igrave;fico
+t&igrave;tulo para um livro de aventuras de rapazes, por Mayne Reid
+ou
+Gustave Aimard; mas parece um pouco deslocado na p&agrave;gina
+t&igrave;tulo de um livro s&egrave;rio de explorador Africano."<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; meia noute, e eu sinto necessidade de me deitar; mas antes
+d'isso n&atilde;o posso deixar de escrever duas palavras
+s&ocirc;bre o
+assumpto. <br>
+
+<br>
+
+A considera&ccedil;&atilde;o tinha e n&atilde;o tinha
+raz&atilde;o de ser. <br>
+
+<br>
+
+As viagens n'&Agrave;frica produzem sempre um romance, e algumas
+v&ecirc;zes tambem um livro de sciencia.<br>
+
+<br>
+
+A minha, se, como todas, &eacute; um verdadeiro romance,
+n&atilde;o
+deixa por isso de conter trabalhos geogr&agrave;phicos de alguma
+importancia.<br>
+
+<br>
+
+Formei logo o projecto, que h&ocirc;je executo, de misturar em a
+narrativa esses trabalhos com as minhas aventuras, como elles tinham
+sido misturados nos sert&otilde;es Africanos.<br>
+
+<br>
+
+A respeito do t&igrave;tulo para o livro, nada me preoccupei d'isso.<br>
+
+<br>
+
+Sendo salva a expedi&ccedil;&atilde;o, e por isso
+t&ocirc;dos os
+trabalhos que a ella se ligavam, p&ecirc;la Carabina d'El-Rei,
+pensei
+em dar aquelle t&igrave;tulo &aacute; obra t&ocirc;da.
+N&atilde;o me
+davam cuidado juizos dos cr&igrave;ticos severos. A minha
+justifica&ccedil;&atilde;o estaria no correr da narrativa. <br>
+
+<br>
+
+Veio porem uma considera&ccedil;&atilde;o modificar o meu
+projecto.<br>
+
+<br>
+
+Um homem, um &ugrave;nico homem no mundo, incapaz de me increpar em
+p&ugrave;blico p&ecirc;lo exclusivismo do t&igrave;tulo, de
+certo
+pensaria um momento em que eu tinha sido injusto para com elle em fazer
+sobressahir no meu livro o facto de ter sido salva a
+expedi&ccedil;&atilde;o p&ecirc;la Carabina d'El-Rei,
+quando elle teria
+igual juz &aacute; minha gratid&atilde;o, tendo-me salvo por
+seu turno.<br>
+
+<br>
+
+Pesou-me aquelle primeiro t&igrave;tulo escolhido, como uma
+injusti&ccedil;a que fazia a Francisco Coillard, quando esse
+t&igrave;tulo me tinha sido dictado s&ograve;mente por um
+sentimento de
+justi&ccedil;a, porque sou pouco propenso a express&otilde;es
+de
+adula&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Resolvi immediatamente conservar o t&igrave;tulo de Carabina
+d'El-Rei
+&aacute; primeira parte da minha narrativa, e dar &aacute;
+segunda o
+nome de Francisco Coillard, o homem que, salvando-me, salvou os
+trabalhos da expedi&ccedil;&atilde;o que eu dirigia. Cumpria um
+dev&ecirc;r.<br>
+
+<br>
+
+Mas desde esse momento, era preciso dar um t&igrave;tulo geral
+&aacute;
+obra, e esse n&atilde;o &eacute; nunca difficil de se encontrar
+quando
+se tem atravessado um continente de mar a mar.<br>
+
+<br>
+
+Eis porque o meu livro se chama hoje:--"Como eu atravessei
+&Agrave;frica."<br>
+
+<br>
+
+Sei que pouco deve importar ao p&ugrave;blico o t&igrave;tulo,
+qualqu&eacute;r, de uma obra d'estas. &Eacute; preciso
+chamar-se-lhe
+alguma cousa, e eu chamei-lhe assim. <br>
+
+<br>
+
+Pesar-me-ha se elle desagradar a alguns, mas ainda assim n&atilde;o
+me
+preoccupo com isso a ponto de n&atilde;o me ir deitar
+j&aacute;,
+esperando ter um sono profundo durante a noite.<br>
+
+<br>
+
+Londres, 61 Gower Street,<br>
+
+<span style="font-style: italic;">12 de Dezembro de 1880,
+&aacute; meia noite</span>.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;">CONTE&Uuml;DO.</span></h2>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h3><span style="font-weight: bold; font-style: italic;">PR&Ograve;LOGO.</span></h3>
+
+</div>
+
+<br>
+
+I.--<a href="#I.">Como eu Fui Explorad&ocirc;r</a><br>
+
+II.--<a href="#II.">Como foi Preparada a
+Expedi&ccedil;&atilde;o</a><br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h3><a href="#Cap.I"><span style="font-style: italic; font-weight: bold;">CAP&Igrave;TULO
+I.</span></a><br style="font-style: italic; font-weight: bold;">
+
+</h3>
+
+<h4>EM BUSCA DE CARREGAD&Ocirc;RES.</h4>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Chegada a Loanda--O Governador Albuquerque--N&atilde;o
+ha&nbsp;carregad&ocirc;res--Vou ao Zaire--O
+Ambriz--Ch&ecirc;go ao
+Porto da Lenha--Os&nbsp;resgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou
+a
+Cabinda--Tomo Stanley&nbsp;a b&ocirc;rdo da&nbsp;<span style="font-style: italic;">T&acirc;mega</span>--Os
+officiaes da canhoneira--Stanley meu&nbsp;h&ograve;spede--O
+nosso itinerario--Chegada do Ivens<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h3><a href="#Cap.II"><span style="font-style: italic; font-weight: bold;">CAP&Igrave;TULO
+II.</span></a><br>
+
+</h3>
+
+<h4>AINDA EM BUSCA DE CARREGAD&Ocirc;RES.</h4>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O Governad&ocirc;r, Alfredo Pereira de Mello--A casa
+do&nbsp;Governad&ocirc;r--Cousas de que n&atilde;o tem
+culpa o Governo
+da Metr&ograve;poli--O&nbsp;que &eacute; Benguella--O
+commercio--Sou
+roubado--Outro roubo--A Catumbela--Obtenho
+carregad&ocirc;res--Chegada
+de Capello e Ivens--Nova&nbsp;altera&ccedil;&atilde;o de
+itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o
+velho&nbsp;sertanejo--Apparecem novos obst&agrave;culos--O
+Capello vai
+ao Dombe--Partida--O que &eacute; o Dombe--Novas
+difficuldades--Partimos&nbsp;emfim<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h3><a href="#Cap.III"><span style="font-weight: bold; font-style: italic;">CAP&Igrave;TULO
+III.</span></a></h3>
+
+<h4>HISTORIA DE UM CARNEIRO.</h4>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Nove dias no deserto--Falta de &agrave;gua--O ex-chefe de
+Quillengues--Eu&nbsp;perco-me nas brenhas--Dois tiros a
+tempo--Perde-se
+um muleque eu e&nbsp;uma pr&ecirc;ta--Perde-se um
+burro--Quillengues
+emfim--Morte do carneiro <br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h3><a href="#Cap.IV"><span style="font-weight: bold; font-style: italic;">CAP&Igrave;TULO
+IV.</span></a></h3>
+
+<h4>POR TERRAS AVASSALLADAS.</h4>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Jornada a Ngola--O sova Chimbarandongo--Belleza do
+caminho--Chegada&nbsp;a Caconda--Jos&eacute; d'Anchieta--Nada
+de
+correspondencia--Chegada do&nbsp;Chefe--Vamos aos
+carregad&ocirc;res--Ivens vai ao Cunene e eu vou
+ao&nbsp;Cunene--Volta
+de casa do Bandeira--Falham os carregad&ocirc;res--O meu&nbsp;
+juizo<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h3><a href="#Cap.V"><span style="font-weight: bold; font-style: italic;">CAP&Igrave;TULO
+V.</span></a><br>
+
+</h3>
+
+<h4>VINTE DIAS DE AGONIA.</h4>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Parto de Caconda--O sova Quissembe--Quingola e o sova
+C&aacute;imbo--40&nbsp;carregad&ocirc;res--Febre--O Huambo,
+o sova
+Bilombo e seu filho&nbsp;Cap&ocirc;co--80
+carregad&ocirc;res--Cartas e
+noticias--Quasi perdido!--Sigo&nbsp;avante--Grave
+quest&atilde;o no
+Chaca Quimbamba--Os rios Cal&aacute;e, Cahungamua&nbsp;e
+Cunene--Nova e
+s&eacute;ria quest&atilde;o no Sambo--O Cubango--Chuvas
+e&nbsp;temporaes--Grave doen&ccedil;a--Uma aventura horrivel--O
+Bih&eacute; finalmente!<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h3><a href="#Cap.VI"><span style="font-style: italic; font-weight: bold;">CAP&Igrave;TULO
+VI.</span></a><br>
+
+</h3>
+
+<h4>PEREIRA DE MELLO, E SILVA PORTO.</h4>
+
+</div>
+
+<br>
+
+No Bih&eacute;--Doen&ccedil;a--Melhoras--A casa de
+Belmonte--Decido ir
+ao alto&nbsp;Zambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma
+expedi&ccedil;&atilde;o
+no&nbsp;Bih&eacute;--Difficuldades, e como se
+vencem--Noticia s&ocirc;bre o Bih&eacute;--Os&nbsp;meus
+trabalhos--Novas difficuldades--Deixo Belmonte--At&eacute;
+ao&nbsp;Cuanza--Escravatura<br>
+
+<br>
+
+Rapido Golpe-de-Vista Retrospectivo<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h3><a href="#Cap.VII"><span style="font-style: italic; font-weight: bold;">CAP&Igrave;TULO
+VII.</span></a><br>
+
+</h3>
+
+<h4>ENTRE OS GANGUELAS.</h4>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Passagem do Cuanza--Os Quimbandes--O sova Mavanda--Os rios Varea
+e&nbsp;Onda--Fetus
+arb&ograve;reos--Atribula&ccedil;&otilde;es--Escravos--O
+rio
+Cuito--Os&nbsp;Luchazes--Emigra&ccedil;&atilde;o de
+Quibocos--Cambuta--O Cuando--Leopardos--Os&nbsp;Ambuelas--O sova
+Moem-Cahenda--Descida do rio Cubangui--Os Quichobos--Peripecias--Parto
+para o Cuchibi<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h3><a href="#Cap.VIII"><span style="font-weight: bold; font-style: italic;">CAP&Igrave;TULO
+VIII.</span></a><br>
+
+</h3>
+
+<h4>AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS.</h4>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O Cuchibi--O sova Ca&uacute;-eu-hue--Os Mucassequeres--Opudo
+e&nbsp;Capeu--Abundancia--Bondade dos
+ind&igrave;genas--Povoa&ccedil;&otilde;es e
+costumes--Um&nbsp;vao no
+Cuchibi--O rio Chicului--Ca&ccedil;ada--Feras--O Rio
+Chalongo--Uma&nbsp;jornada atroz--As Nascentes do Ninda--O
+t&ugrave;mulo de Luiz Albino--A&nbsp;planicie do
+Nhengo--Trabalhos e
+fome--O Zambeze a final<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;">LISTA DAS
+ILLUSTRA&Ccedil;&Otilde;ES.</span></h2>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<span style="font-weight: bold; font-style: italic;">
+FIG.</span><br>
+
+<br>
+
+<a href="#Fig.1">1.</a>--Mulheres Mundombes,
+vendedeiras de carv&atilde;o<br>
+
+<a href="#Fig.2">2.</a>--Mulheres e Donzellas,
+Mundombes<br>
+
+<a href="#Fig.3">3.</a>--Homens Mundombes (<span style="font-style: italic;">De uma photo. de Monteiro</span>)<br>
+
+<a href="#Fig.4">4.</a>--Homem e Mulh&eacute;r
+do Huambo<br>
+
+<a href="#Fig.5">5.</a>--Mulh&eacute;r do Sambo<br>
+
+<a href="#Fig.6">6.</a>--O meu Acampamento entre o
+Sambo e o Bih&eacute;<br>
+
+<a href="#Fig.7">7.</a>--Ponte de Cassanha
+s&ocirc;bre o rio Cubango<br>
+
+<a href="#Fig.8">8.</a>--O Sec&uacute;lo que me
+deu um P&ocirc;rco<br>
+
+<a href="#Fig.9">9.</a>--Mulheres Ganguelas das
+margens do Cubango<br>
+
+<a href="#Fig.10">10.</a>--Termites na margem do rio
+Cutato dos Ganguelas<br>
+
+<a href="#Fig.11">11.</a>--Monte
+term&igrave;tico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato
+dos Ganguelas, coberto de vegeta&ccedil;&atilde;o<br>
+
+<a href="#Fig.12">12.</a>--Sepultura de
+Sec&uacute;lo<br>
+
+<a href="#Fig.13">13.</a>--Ferreiros Caquingues<br>
+
+<a href="#Fig.14">14.</a>--1. Folles; 2. Bocal de
+Barro; 3. Bigorna; 4. Martello<br>
+
+<a href="#Fig.15">15.</a>--Objectos fabricados pelo
+gentio entre a Costa e o Bih&eacute;<br>
+
+<a href="#Fig.16">16.</a>--Casa de Belmonte<br>
+
+<a href="#Fig.17">17.</a>--Vista exterior da
+povoa&ccedil;&atilde;o de Belmonte, no Bih&eacute;<br>
+
+<a href="#Fig.18">18.</a>--Planta da
+povoa&ccedil;&atilde;o de Belmonte, no Bih&eacute;<br>
+
+<a href="#Fig.19">19.</a>--Mulh&eacute;r do
+Bih&eacute; cavando<br>
+
+<a href="#Fig.20">20.</a>--Carregador Biheno em
+marcha<br>
+
+<a href="#Fig.21">21.</a>--Palissada
+s&ocirc;lta; Palissada amarrada com Casca de &agrave;rvore;
+Palissada travada com Forquilhas<br>
+
+<a href="#Fig.22">22.</a>--Planta de uma Libata de
+gentio no Bih&eacute;<br>
+
+<a href="#Fig.23">23.</a>--Fora da Porta das Libatas
+ha isto<br>
+
+<a href="#Fig.24">24.</a>--Objectos fabricados por
+Bihenos<br>
+
+<a href="#Fig.25">25.</a>--Quinda, c&ecirc;sta
+de palha que n&atilde;o deixa passar a &agrave;gua; Peneiro
+para secar a farinha (fuba); Peneiro de peneirar; Caba&ccedil;a
+para tirar &agrave;gua &aacute; capata<br>
+
+<a href="#Fig.26">26.</a>--Uma Casquilha do
+Bih&eacute;<br>
+
+<a href="#Fig.27">27.</a>--Mulheres do
+Bih&eacute; pisando Milho<br>
+
+<a href="#Fig.28">28.</a>--Mulheres Ganguelas
+Luimbas e Loenas. Modo por que cortam os Dentes incisivos<br>
+
+<a href="#Fig.29">29.</a>--Montes
+term&igrave;ticos, dos terrenos entre a Costa e o Bih&eacute;<br>
+
+<a href="#Fig.29A">29A.</a>--Viagem ao Cunene<br>
+
+<a href="#Fig.30">30.</a>--Passagem do Cuanza<br>
+
+<a href="#Fig.31">31.</a>--Homem e Mulh&eacute;r
+Quimbandes<br>
+
+<a href="#Fig.32">32.</a>--Raparigas Quimbandes<br>
+
+<a href="#Fig.33">33.</a>--Os Bihenos construindo as
+Barracas nos Acampamentos<br>
+
+<a href="#Fig.34">34.</a>--Esqueleto da Barraca<br>
+
+<a href="#Fig.35">35.</a>--Barraca concluida em uma
+hora<br>
+
+<a href="#Fig.35A">35A.</a>--Ganguelas e Quimbandes<br>
+
+<a href="#Fig.36">36.</a>--O Sova Mavanda vem
+dan&ccedil;ar mascarado ao meu Campo<br>
+
+<a href="#Fig.37">37.</a>--Mulh&eacute;r
+Quimbande carregada<br>
+
+<a href="#Fig.38">38.</a>--1. Cachimbo; 2. Facas; 3.
+Cac&ecirc;tes de guerra<br>
+
+<a href="#Fig.39">39.</a>--Ditassoa, peixe do rio
+Onda<br>
+
+<a href="#Fig.40">40.</a>--Fetus arb&ograve;reos
+das margens do rio Onda<br>
+
+<a href="#Fig.41">41.</a>--Mulh&eacute;r de
+Cabango com o ferro de co&ccedil;ar a cabe&ccedil;a<br>
+
+<a href="#Fig.42">42.</a>--Homem de Cabango<br>
+
+<a href="#Fig.43">43.</a>--Homem de Cabango<br>
+
+<a href="#Fig.44">44.</a>--O Lago Liguri<br>
+
+<a href="#Fig.45">45.</a>--Luchaze das margens do
+rio Cuito<br>
+
+<a href="#Fig.46">46.</a>--Mulh&eacute;r Luchaze
+carregada<br>
+
+<a href="#Fig.47">47.</a>--Isqueiro dos Luchazes,
+Caixa da isca e Fuzil<br>
+
+<a href="#Fig.48">48.</a>--Atundo, Planta e Fruto<br>
+
+<a href="#Fig.49">49.</a>--Povoa&ccedil;&atilde;o
+de Cambuta, Luchaze<br>
+
+<a href="#Fig.50">50.</a>--Mulh&eacute;r Luchaze
+de Cambuta<br>
+
+<a href="#Fig.51">51.</a>--Homem Luchaze de Cambuta<br>
+
+<a href="#Fig.52">52.</a>--Objectos fabricados pelos
+Luchazes<br>
+
+<a href="#Fig.53">53.</a>--Mulh&eacute;r Luchaze
+do Cutangjo<br>
+
+<a href="#Fig.54">54.</a>--Cachimbo Luchaze<br>
+
+<a href="#Fig.55">55.</a>--Capoeira dos Luchazes<br>
+
+<a href="#Fig.56">56.</a>--Urivi, Armadilha para
+ca&ccedil;a<br>
+
+<a href="#Fig.57">57.</a>--Luchaze do Cutangjo<br>
+
+<a href="#Fig.58">58.</a>--Objectos Luchazes<br>
+
+<a href="#Fig.59">59.</a>--O Cuchibi<br>
+
+<a href="#Fig.60">60.</a>--F&ocirc;lha e Fruto
+do Cuchibi<br>
+
+<a href="#Fig.61">61.</a>--O Mapole,
+&Agrave;rvore e F&ocirc;lha<br>
+
+<a href="#Fig.62">62.</a>--Mapole, Fruto e
+disposi&ccedil;&atilde;o dos Ramos<br>
+
+<a href="#Fig.63">63.</a>--Moene-Cahenda, Sova de
+Cangamba<br>
+
+<a href="#Fig.64">64.</a>--Chimbenzengue. Machado
+dos Ambuelas do Cangamba<br>
+
+<a href="#Fig.65">65.</a>--Cachimbo Ambuela<br>
+
+<a href="#Fig.66">66.</a>--O Quich&ocirc;bo<br>
+
+<a href="#Fig.67">67.</a>--O&uacute;co<br>
+
+<a href="#Fig.68">68.</a>--Opumbulume<br>
+
+<a href="#Fig.69">69.</a>--O Rato mencionado<br>
+
+<a href="#Fig.70">70.</a>--Songue;<br>
+
+<a href="#Fig.70A">70A.</a>--Rasto do Songue<br>
+
+<a href="#Fig.71">71.</a>--Muene-Ca&uacute;-eu-hue,
+Chefe dos Ambuelas<br>
+
+<a href="#Fig.72">72.</a>--Mulh&eacute;r Ambuela<br>
+
+<a href="#Fig.73">73.</a>--Opudo<br>
+
+<a href="#Fig.74">74.</a>--Cap&ecirc;u<br>
+
+<a href="#Fig.75">75.</a>--Barco e Remo do Cuchibi<br>
+
+<a href="#Fig.76">76.</a>--Tambor das festas Ambuelas<br>
+
+<a href="#Fig.77">77.</a>--Ca&uacute;-eu-hue<br>
+
+<a href="#Fig.78">78.</a>--O Irm&atilde;o do Sova<br>
+
+<a href="#Fig.79">79.</a>--Ca&ccedil;ador Ambuela<br>
+
+<a href="#Fig.80">80.</a>--Chinguene<br>
+
+<a href="#Fig.81">81.</a>--Lincumba<br>
+
+<a href="#Fig.82">82.</a>--Chipulo ou Nhele<br>
+
+<a href="#Fig.83">83.</a>--O Vao do Cuchibi<br>
+
+<a href="#Fig.84">84.</a>--Azagaias dos Ambuelas<br>
+
+<a href="#Fig.85">85.</a>--Ferros de frechas dos
+Ambuelas<br>
+
+<a href="#Fig.86">86.</a>--Malanca<br>
+
+<a href="#Fig.87">87.</a>--1. Cornos vistos de
+frente; 2. Rasto da Malanca<br>
+
+<a href="#Fig.88">88.</a>--O B&ugrave;falo
+Africano<br>
+
+<a href="#Fig.89">89.</a>--Escudo dos Luinas<br>
+
+<a href="#Fig.90">90.</a>--O Chefe Cicota<br>
+
+<a href="#Fig.91">91.</a>--Termites do Nhengo<br>
+
+<a href="#Fig.92">92.</a>--1 e 2. Casas Luinas de
+1^{m.} 5 de altura; 3. Celeiro; 4. Enxada do Lui<br>
+
+<a href="#Fig.93">93.</a>--Corte vertical de uma
+Casa Luina da aldea da Tapa<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;">MAPPAS NO
+VOLUME PRIMEIRO.</span></h2>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Mappa No. 1.--Africa Tropical e Austral<br>
+
+&nbsp;&nbsp; "&nbsp;&nbsp; "&nbsp; <a href="#Map.2">2.</a>--De Benguella ao Bih&eacute;<br>
+
+&nbsp;&nbsp; "&nbsp;&nbsp; "&nbsp; <a href="#Map.3">3.</a>--Entre Cubango e Cuanza<br>
+
+&nbsp;&nbsp; "&nbsp;&nbsp; "&nbsp; <a href="#Map.4">4.</a>--O Paiz dos Quimbandes<br>
+
+&nbsp;&nbsp; "&nbsp;&nbsp; "&nbsp; <a href="#Map.5">5.</a>--Disposi&ccedil;&atilde;o
+da &agrave;gua em Cangala<br>
+
+&nbsp;&nbsp; "&nbsp;&nbsp; "&nbsp; <a href="#Map.6">6.</a>--De Cambuta ao Cubangu&eacute;<br>
+
+&nbsp;&nbsp; "&nbsp;&nbsp; "&nbsp; <a href="#Map.7">7.</a>--Pa&uacute;l da nascente do
+Cuando<br>
+
+&nbsp;&nbsp; "&nbsp;&nbsp; "&nbsp; <a href="#Map.8">8.</a>--De Cangamba ao Cuchibi<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;">
+<h1>COMO EU ATRAVESSEI A &Agrave;FRICA.</h1>
+
+<h1><br>
+
+</h1>
+
+<h1>
+Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.</h1>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;">PR&Ograve;LOGO.</span></h2>
+
+<br>
+
+<h3><a name="I."></a>I.--Como eu fui
+Explorador.</h3>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+No correr do anno de 1869, fiz parte da columna de
+opera&ccedil;&otilde;es que no baixo Zambeze sustentou cruenta
+guerra
+contra os ind&igrave;genas de Massangano. O S^{nr.} Jos&eacute;
+Maria
+Latino Coelho, ent&atilde;o Ministro da Marinha e Ultramar, dera
+ordem
+ao Governador de Mo&ccedil;ambique, para que, finda a guerra, me
+proporcionasse os meios de subir o Zambeze, a fazer um detalhado
+reconhecimento do paiz, t&atilde;o longe quanto me f&ocirc;sse
+possivel. <br>
+
+<br>
+
+A ordem foi dada, mas n&atilde;o foi cumprida; e depois de
+v&atilde;s
+instancias, e de um ligeiro passeio pelas terras Portuguezas
+d'&Agrave;frica Oriental, voltei &aacute; Europa, com mais
+desejo que
+antes, de estudar o interior d'aquelle continente, que mal tinha
+entrevisto.<br>
+
+<br>
+
+Raz&otilde;es particulares de familia fiz&eacute;ram adiar, se
+n&atilde;o aniquil&aacute;ram, os meus projectos.<br>
+
+<br>
+
+Official do ex&egrave;rcito, sempre de
+guarni&ccedil;&atilde;o em
+pequenas terras de provincia, fazia das minhas horas de &ograve;cio
+horas de trabalho; e ainda que mal antevia a possibilidade de ir
+&aacute; &Agrave;frica, era o estudo das quest&otilde;es<br>
+
+Africanas o meu &ugrave;nico e exclusivo passatempo.<br>
+
+<br>
+
+As sublimes quest&otilde;es de astronomia n&atilde;o eram por
+mim
+desprezadas, e o muito tempo que me deixava a vida da caserna era
+repartido entre o estudo da &Agrave;frica e do ceo.<br>
+
+<br>
+
+Servia em Ca&ccedil;adores 12 no correr de 1875, e ali tive por
+camarada um dos mais intelligentes homens que tenho conhecido, o
+Capit&atilde;o Daniel Sim&otilde;es Soares.<br>
+
+<br>
+
+Pouco depois de havermos feito conhecimento, &egrave;ramos ligados
+por estreita amizade.<br>
+
+<br>
+
+O quarto mesquinho do illustrado official, na caserna da Ilha da
+Madeira, reunia-nos durante as horas em que o regulamento nos obrigava
+a viver ali; e quantas vezes, estando um de n&oacute;s de
+servi&ccedil;o, t&ecirc;ve a companhia do outro!
+&Agrave;frica, e
+sempre &Agrave;frica, era o nosso assumpto de
+conversa&ccedil;&atilde;o. Apraz-me recordar esse tempo, essas
+horas
+que faz&igrave;amos correr velozes, debatendo quest&otilde;es,
+que eu
+mal pensava seria chamado a resolver um dia.<br>
+
+<br>
+
+Em fins de 1875, redigi uma memoria, que submetti &aacute;
+cr&igrave;tica de Sim&otilde;es Soares, e de outro meu
+camarada, o
+Capit&atilde;o Camacho; memoria filha das nossas interminaveis
+palestras Africanas.<br>
+
+<br>
+
+Propunha eu um meio de estudar parcialmente o interior das nossas
+colonias de &Agrave;frica Oriental, e isso com a maior
+econom&iacute;a
+para o Estado.<br>
+
+<br>
+
+Depois de muito debatida a quest&atilde;o por n&oacute;s tres,
+foi a
+memoria enviada ao Governo de Sua Magestade; mas sube depois que nunca
+chegara &aacute;s m&atilde;os do Ministro da Marinha.<br>
+
+<br>
+
+A esse tempo, eu pensava outra vez em voltar &aacute;
+&Agrave;frica,
+apesar de ser chefe de familia, e de me prenderem a Portugal interesses
+de subida importancia.<br>
+
+<br>
+
+Por fins de 1876 voltei a Lisboa, e conheci que as quest&otilde;es
+Africanas tinham ali tomado grande interesse com a
+crea&ccedil;&atilde;o da Commiss&atilde;o Central
+Permanente de
+Geographia, e com a funda&ccedil;&atilde;o da Sociedade de
+Geographia
+de Lisboa.<br>
+
+<br>
+
+Falava-se muito n'uma grande expedi&ccedil;&atilde;o
+geogr&agrave;phica ao interior d'&Agrave;frica Austral.<br>
+
+<br>
+
+Fui procurar immediatamente o Ministro das Colonias. Era o S^{nr.}
+Jo&atilde;o d'Andrade Corvo. Se n&atilde;o &eacute; facil
+explorar a
+&Agrave;frica, n&atilde;o &eacute; menos difficil falar ao
+Ministro, e
+s&ocirc;bre tudo se esse Ministro &eacute; o S^{nr.}
+Jo&atilde;o
+d'Andrade Corvo. Sua Excellencia tinha a seu cargo duas pastas, Marinha
+e Estrangeiros, e o tempo n&atilde;o lhe sobejava para falar aos
+importunos. <br>
+
+<br>
+
+Persegui-o uns oito dias, e na v&egrave;spera da minha partida de
+Lisboa, obtive uma audiencia do Ministro dos Negocios Estrangeiros. <br>
+
+<br>
+
+Sua Excellencia recebeu-me com secura, dizendo-me, que podia
+disp&ocirc;r de pouco tempo, e perguntando-me, &iquest;o que eu
+queria?<br>
+
+<br>
+
+Travou-se entre n&oacute;s o seguinte di&agrave;logo:--<br>
+
+<br>
+
+"Ouvi dizer, que V. Ex^{a.} pensa em enviar &aacute;
+&Agrave;frica uma
+expedi&ccedil;&atilde;o geogr&agrave;phica; e
+s&ocirc;bre isto venho
+falar."<br>
+
+<br>
+
+O Ministro mudou logo de tom para comigo, e mandou-me sentar com toda
+afabilidade.<br>
+
+<br>
+
+"&iquest;J&aacute; est&ecirc;ve em &Agrave;frica?" me
+perguntou elle.<br>
+
+<br>
+
+"J&aacute; estive em &Agrave;frica, conhe&ccedil;o um pouco
+o modo de
+viajar ali, e tenho-me occupado muito em estudar quest&otilde;es
+Africanas."<br>
+
+<br>
+
+"&iquest;Quer ir fazer uma longa viagem na &Agrave;frica
+Austral?"<br>
+
+<br>
+
+Declaro que hesitei um momento em responder. "Estou prompto a ir,"
+disse por fim.<br>
+
+<br>
+
+"Bem;" me disse elle, "penso em enviar uma grande
+expedi&ccedil;&atilde;o &aacute; &Agrave;frica, bem
+provida de
+recursos; e quando tratar de organizar o pessoal, n&atilde;o
+esqu&egrave;cerei o seu nome."<br>
+
+<br>
+
+"&Eacute; verdade"; me disse, quando eu j&aacute; ia a sahir,
+"&iquest;que condi&ccedil;&otilde;es e que vantagens pede
+por esse
+servi&ccedil;o?"--"Nenhumas," lhe respondi eu, e sahi. <br>
+
+<br>
+
+Fui do Ministerio dos Negocios Estrangeiros &aacute;
+Cal&ccedil;ada da
+Gloria, N^{o.} 3, e procurei o D^{or.} Bernardino Antonio Gomes,
+Vice-presidente da Commiss&atilde;o Central Permanente de
+Geographia.
+Tiv&eacute;mos larga conferencia, e o distincto sabio,
+ent&atilde;o
+todo entregue a quest&otilde;es geogr&agrave;phicas, disse-me,
+que
+j&aacute; tinha pensado em um distincto Official da nossa Marinha
+de
+Guerra, Hermenigildo Capello, para fazer parte da
+expedi&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte parti para o Norte. A viagem e os ares do campo
+fiz&eacute;ram arref&egrave;cer um pouco o febril enthusiasmo
+que se
+apossara de mim em Lisboa, e pensando maduramente, resolvi
+n&atilde;o
+ir explorar em &Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+Minha mulh&eacute;r e minha filha eram la&ccedil;os difficeis
+de
+romper, e cada vez que a id&eacute;a de me privar das caricias da
+meiga
+crian&ccedil;a me passava pela mente, arref&egrave;cia
+completamente em
+mim o ardor das explora&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+De um lado, a familia, e do outro a &Agrave;frica, eram dois
+poderosos
+atractivos que me tinham perplexo. Encontrei um meio de resolver a
+quest&atilde;o. Se eu fosse nomeado Governador de um districto,
+podia
+ir estudar uma parte d'&Agrave;frica, sem me separar da familia.
+Fui
+collocado no 4 de Ca&ccedil;adores, e na minha viagem para o
+Algarve,
+passei alguns dias em Lisboa. N&atilde;o se falava mais em
+expedi&ccedil;&atilde;o exploratoria, e apenas um enthusiasta,
+Luciano
+Cordeiro, n&atilde;o tinha descrido de que ella se faria; e na
+sociedade de geographia, de que era Secretario, tinha levantado um alto
+brado a favor d'ella. O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, j&aacute;
+de
+idade provecta, tinha cedido ao peso do seu incessante labutar, e
+sentia j&aacute; os primeiros symptomas do mal que, pouco depois,
+arrancando-lhe a vida, devia arrancar a Portugal e ao mundo uma das
+maiores illustra&ccedil;&otilde;es Portuguezas do
+s&egrave;culo 19.<br>
+
+<br>
+
+Eu n&atilde;o conhecia a esse tempo o homem ardente e illustrado a
+quem hoje me prende verdadeira amizade--Luciano Cordeiro.<br>
+
+<br>
+
+Todos aquelles a quem falava de explora&ccedil;&atilde;o, me
+diziam ser
+cousa adiada. Ao passo que o estado em que encontrei as cousas em
+Lisboa me compungia, pois que via perder-se a luz que um momento
+brilhara, para dar um impulso harm&ograve;nico &aacute;s
+explora&ccedil;&otilde;es Portuguezas em &Agrave;frica; por
+outro lado,
+sentia um certo prazer em ver-me, por esse meio, libertado do meu
+compromisso; compromisso que me separaria dos entes que me sam caros.<br>
+
+<br>
+
+Nutri ent&atilde;o a id&eacute;a de ir governar, e de me
+estabelecer em
+&Agrave;frica, n'essa &Agrave;frica em que eu queria trabalhar,
+sem por
+isso me separar dos meus.<br>
+
+<br>
+
+Fui falar ao Ministro.<br>
+
+<br>
+
+D'essa vez fui logo cordialmente recebido. Estranhei o caso,
+n&atilde;o se falando j&aacute; de
+explora&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+"&iquest;O que o traz por aqui?"--"Venho pedir a V. Ex^{a.} o
+governo
+de Quillimane, que est&aacute; vago." O S^{nr.} Corvo rio-se.
+"Tenho
+miss&atilde;o de maior monta a confiar-lhe;" me disse; "preciso de
+si
+para cousa<br>
+
+differente de governar um districto em &Agrave;frica; e por isso
+n&atilde;o lhe dou o governo de Quillimane."--<br>
+
+<br>
+
+"&iquest;Ent&atilde;o V. Ex^{a.} ainda pensa em fazer explorar
+a
+&Agrave;frica? Eu com franqueza digo, que hoje n&atilde;o creio
+que a
+id&eacute;a se realize."--<br>
+
+<br>
+
+"Dou-lhe a minha palavra de honra," me disse o Ministro, "que ou hei de
+deixar de ser Jo&atilde;o de Andrade Corvo, ou na
+pr&ograve;xima
+primavera, uma expedi&ccedil;&atilde;o organizada como ainda se
+n&atilde;o organizou expedi&ccedil;&atilde;o alguma na
+Europa, ha de
+partir de Lisboa para a &Agrave;frica Austral."--<br>
+
+<br>
+
+"&iquest;E conta comigo?"--<br>
+
+<br>
+
+"Conto comsigo," me disse, "e em breve ter&aacute; noticias minhas."<br>
+
+<br>
+
+Sahi aterrado do Gabinete do Ministro.<br>
+
+<br>
+
+Cheguei ao Hotel Central, e escrevi o seguinte: "N&atilde;o tenho a
+honra de o conhecer, mas preciso falar-lhe, e pe&ccedil;o-lhe uma
+entrevista." S&ocirc;breescritei, a "Hermenigildo Carlos de Brito
+Capello--Official de<br>
+
+guarni&ccedil;&atilde;o a bordo do
+coura&ccedil;ado&nbsp;<span style="font-style: italic;">Vasco
+de Gama</span>."<br>
+
+<br>
+
+No dia immediato, recebi a seguinte resposta:--"Estou hoje no
+Caf&eacute; Martinho, &aacute;s 3 horas.--Capello."<br>
+
+<br>
+
+&Aacute;s tres horas entrava no Caf&eacute; Martinho, e vi que
+as mesas
+estavam completamente desertas. S&oacute; a uma dellas estava
+sentado
+um primeiro tenente de marinha, que eu n&atilde;o conhecia mesmo de
+vista. Devia ser o meu homem. Bebia pausadamente um grog, e tinha a
+cabe&ccedil;a descoberta.<br>
+
+<br>
+
+Era de mediana estatura, tanto quanto eu pude avaliar estando elle
+sentado. Moreno, de olhar pl&agrave;cido; o cabello raro, e
+grisalho, o
+pequeno bigode j&aacute; esbranqui&ccedil;ado, davam-lhe um ar
+de
+velhice, que era desmentido pela tez desenrugada, e apresentando o
+lustre da juventude.<br>
+
+<br>
+
+"&iquest;&Eacute; o S^{nr.} Capello?"--<br>
+
+<br>
+
+"Sou; &iquest;&eacute; o S^{nr.} Serpa Pinto? j&aacute; o
+esperava, e sei que, provavelmente, vem falar-me d'&Agrave;frica."--<br>
+
+<br>
+
+"&Eacute; verdade. &iquest;Ent&atilde;o est&aacute;
+decidido a fazer parte da expedi&ccedil;&atilde;o?"--<br>
+
+<br>
+
+"Estou; e j&aacute; n'isso falei ao D^{or.} Bernardino Antonio
+Gomes."--<br>
+
+<br>
+
+"Foi elle que me falou no S^{nr.}; &iquest;que compromissos tem?"--<br>
+
+<br>
+
+"Nenhuns. N&atilde;o sei bem o que o Governo quer; falei duas vezes
+com
+o D^{or.} Gomes; ainda n&atilde;o vi o Ministro, e apenas lhe posso
+dizer, que, se for &aacute; &Agrave;frica, escolherei para
+companheiro
+um meu amigo, e camarada na armada, Roberto Ivens.
+&iquest;Conhece-o?"--<br>
+
+<br>
+
+"N&atilde;o o conhe&ccedil;o. Falei ao Ministro e elle
+disse-me, que contava comigo para a expedi&ccedil;&atilde;o."--<br>
+
+<br>
+
+"N'esse caso, uma vez que j&aacute; tem compromissos com o
+Ministro, eu desisto de ir."--<br>
+
+<br>
+
+"&iexcl;Ora essa!... ent&atilde;o desisto eu."--<br>
+
+<br>
+
+"Mesmo, eu n&atilde;o creio que a cousa v&aacute; a effeito."--<br>
+
+<br>
+
+"Nem eu creio muito; mas emfim, se for a effeito, &iquest;porque
+n&atilde;o havemos de ir ambos? N&atilde;o nos conhecemos,
+&eacute;
+verdade; mas em breve travaremos &igrave;ntimas
+rela&ccedil;&otilde;es,
+e creio bem chegaremos a ser amigos."--<br>
+
+<br>
+
+"&iquest;E porque n&atilde;o? Ent&atilde;o, se a
+expedi&ccedil;&atilde;o for &aacute;vante, iremos juntos, e
+escolheremos para nosso companheiro ao meu amigo Roberto Ivens."--<br>
+
+<br>
+
+"Esta dito. &iquest;Pensa s&egrave;riamente que o Governo
+votar&aacute;
+uma t&atilde;o grande verba como a que &eacute; precisa para
+uma
+empresa d'estas?"--<br>
+
+<br>
+
+"N&atilde;o sei, duvido; e agora &ugrave;ltimamente fala-se
+menos na expedi&ccedil;&atilde;o."<br>
+
+<br>
+
+Convers&aacute;mos largamente, e separ&aacute;mo-nos; tendo a
+&igrave;ntima convic&ccedil;&atilde;o de que a
+expedi&ccedil;&atilde;o
+nunca se realizar&iacute;a.<br>
+
+<br>
+
+Ainda me encontrei com Capello nos dias seguintes, e depois
+separ&aacute;mo-nos. Elle seguio viagem no coura&ccedil;ado <span style="font-style: italic;">Vasco da Gama</span> para
+Inglaterra; e eu fui tomar o commando da minha companhia em
+Ca&ccedil;adores 4, no Algarve.<br>
+
+<br>
+
+Com o descan&ccedil;o da vida de guarni&ccedil;&atilde;o,
+voltei ao
+estudo, e tive a felicidade de encontrar um amigo no Algarve, Marrecas
+Ferreira, distincto official de Engenheiros, que, meu companheiro nas
+mesas do trabalho, tinha sempre um bom conselho a dar-me, nas
+quest&otilde;es mathem&agrave;ticas, que elle maneja com
+intelligencia
+superior. Foi por seu intermedio que travei
+rela&ccedil;&otilde;es
+epistolares com Luciano Cordeiro, a quem depois me devia ligar estreita
+amizade.<br>
+
+<br>
+
+Por esse tempo, redigi duas pequenas memorias, que por intermedio de
+Luciano Cordeiro cheg&aacute;ram &aacute;s m&atilde;os do
+Ministro da
+Marinha, em que tratava do modo de organizar uma
+expedi&ccedil;&atilde;o de explora&ccedil;&atilde;o na
+&Agrave;frica
+Austral.<br>
+
+<br>
+
+Pass&aacute;ram-se mezes, e n&atilde;o mais me
+fal&aacute;ram de expedi&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Recebi duas cartas do Capello, em que me mostrava a sua completa
+descren&ccedil;a em que a cousa fosse a effeito. Eu mesmo nutria
+igual
+descren&ccedil;a. Na Commiss&atilde;o Permanente de Geographia
+discutiam-se varios projectos de expedi&ccedil;&otilde;es; mas
+tudo
+ficava em discuss&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Um dia, vi nos jornaes, que o Ministro, o S^{nr.} Jo&atilde;o
+d'Andrade
+Corvo, apresentara no parlamento um projecto, pedindo um
+cr&egrave;dito
+de 30 contos para uma expedi&ccedil;&atilde;o em
+&Agrave;frica; mas,
+pouco depois, cahio o Ministerio, e foi o S^{nr.} Jos&eacute; de
+Mello
+Gouvea encarregado da Pasta das Colonias; quando o projecto ainda
+n&atilde;o tinha sido votado no parlamento.<br>
+
+<br>
+
+Tornava-se a falar da projectada explora&ccedil;&atilde;o; mas
+os
+jornaes davam por escolhidos exploradores que eu n&atilde;o
+conhecia, e
+&aacute;s vezes apenas falavam em Capello.<br>
+
+<br>
+
+Eu ent&atilde;o estava em Faro, e se me n&atilde;o descurava
+dos meus
+estudos astron&ograve;micos e Africanos, ouvindo os conselhos de
+Jo&atilde;o Botto, distincto professor da escola de Pilotos de
+Faro,
+n&atilde;o nutria j&aacute; id&eacute;as de viajar. O meu
+tempo era
+passado entre as caricias da familia e os meus livros de estudo, e
+sentia-me muito feliz, nos conch&ecirc;gos do lar
+dom&egrave;stico,
+para pensar em trocar a minha vida pl&agrave;cida pelo bulicio e
+azares
+das viagens.<br>
+
+<br>
+
+Seguia com interesse nos jornaes as noticias de Lisboa, e vi que o
+n&ocirc;vo ministro, Jos&eacute; de Mello Gouvea, havia no
+parlamento
+apoiado a proposta de Jo&atilde;o d'Andrade Corvo, e que
+f&ocirc;ra
+votada a somma de 30 contos para uma explora&ccedil;&atilde;o.
+A morte
+de Bernardino Antonio Gomes, v&igrave;ctima, talves, do muito
+interesse
+que dedicou ao estudo das quest&otilde;es Africanas, n'uma idade em
+que
+as fadigas passadas lhe aconselhavam completo repouso de
+esp&igrave;rito, a morte d'esse eminente sabio, veio produzir um
+grande
+v&agrave;cuo na Commiss&atilde;o Central de Geographia. Outros,
+&eacute; verdade, tomando grande interesse nas quest&otilde;es
+palpitantes, levantavam a voz no seio da commiss&atilde;o; mas
+discuss&otilde;es repetidas iam adiando a pr&agrave;ctica
+urgente.<br>
+
+<br>
+
+Eu, apesar de se ter votado a verba no parlamento, j&aacute;
+n&atilde;o
+via possibilidade de se levar a effeito a
+expedi&ccedil;&atilde;o em
+1877; e em vista do que sabia pela imprensa, n&atilde;o pensava que
+se
+lembrassem de mim, se<br>
+
+aquella fosse a affeito; e devo dizel-o, dava-me isso um certo prazer. <br>
+
+<br>
+
+O Algarve &eacute; um paiz delicioso; reina ali uma atmosphera
+oriental, e as copas elegantes das palmeiras que se inclinam
+s&ocirc;bre as casas em terra&ccedil;os, faz-nos, &aacute;s
+vezes,
+esqu&egrave;cer de que vivemos no prosa&iuml;smo da Europa. Eu
+era ali
+o commandante militar, quer dizer, que afazeres poucos tinha.<br>
+
+<br>
+
+O convivio de uma sociedade escolhida; os carinhos da familia; os meus
+livros de estudo, e os meus instrumentos de
+observa&ccedil;&otilde;es,
+faziam-me passar horas bem felizes, d'essa pl&agrave;cida
+felicidade
+que a muitos n&atilde;o &eacute; dado conhecer. O lar caseiro,
+o xambre
+e os pantufos cheg&aacute;ram a ser para mim o ideal do bem-estar.<br>
+
+<br>
+
+Findara o mez d'Abril, e com o de Maio viera o calor, que se faz
+fortemente sentir em Faro; e eu fazia projectos para o
+ver&atilde;o;
+quando, um dia, recebo um telegrama em que me ordenavam de me
+apresentar immediatamente ao General commandante da Divis&atilde;o;
+e
+ali achei uma ordem para me apresentar sem perda de tempo ao Ministro
+das Colonias.<br>
+
+<br>
+
+Adeos casa, adeos xambre, adeos pantufos, adeos vida tranquilla e
+pl&agrave;cida junto dos meus; ahi v&ocirc;lvo a correr mundo.<br>
+
+<br>
+
+Quatro dias depois, em torno de uma grande mesa, n'uma grande sala do
+Ministerio da Marinha, uma duzia de graves personagens, uns
+d'&ograve;culos, outros sem &ograve;culos, uns velhos outros
+n&ocirc;vos, todos conhecidos, ou pelas sciencias, ou pelas letras,
+ou
+pelos seus servi&ccedil;os p&ugrave;blicos, tratavam de
+quest&otilde;es
+Africanas. Presid&iacute;a a esta solemne sess&atilde;o o
+Ministro
+Jos&eacute; de Mello Gouv&ecirc;a.<br>
+
+<br>
+
+Eram Secretarios D^{or.} Jos&eacute; Julio Rodrigues e Luciano
+Cordeiro. Conde de Ficalho, Marquez de Souza, D^{or.} Bocage, Carlos
+Testa, Jorge Figaniere, Francisco Costa, o Conselheiro Silva, e Antonio
+Teixeira de Vasconcellos, lembra-me que estavam ali.<br>
+
+<br>
+
+L&aacute; no fundo da mesa a um canto, encaixado na poltrona,
+estava um
+homem de basto cabello e basto bigode grisalho, a olhar para mim por
+entre os vidros da luneta de tartaruga. Era Jo&atilde;o de Andrade
+Corvo, que me dizia com o olhar: "Eu bem lhe afiancei que a cousa se
+havia de fazer."<br>
+
+<br>
+
+Junto de mim estava Capello, e ao cabo de duas horas
+sah&igrave;amos
+d'ali, com as instruc&ccedil;&otilde;es precisas para a nossa
+viagem.
+T&igrave;nhamos escolhido um terceiro socio, e esse era o tenente
+Roberto Ivens, o amigo de Capello, que eu n&atilde;o conhecia, e
+que a
+esse tempo estava em Loanda a bordo do seu navio de guerra.
+Est&agrave;vamos a 25 de Maio, e tom&aacute;mos o compromisso
+de partir
+a 5 de Julho. Era muito, porque t&igrave;nhamos que vir preparar a
+expedi&ccedil;&atilde;o a Fran&ccedil;a e Inglaterra, e
+s&oacute;
+disp&ugrave;nhamos de um mez para isso.<br>
+
+<br>
+
+Ent&atilde;o Francisco Costa, Director Geral do Ministerio, tomou a
+peito desfazer todos os obst&agrave;culos que os indispensaveis
+caminhos burocr&agrave;ticos nos podiam trazer; e andou de modo,
+que a
+28 de Maio eu e Capello part&igrave;amos para Paris e Londres, a
+comprar o que se nos tornava necessario. Lev&agrave;vamos um
+cr&egrave;dito de oito contos de r&eacute;is.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h3><a name="II."></a>II.--Como foi Preparada
+a Expedi&ccedil;&atilde;o.</h3>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Em Paris fomos logo procurar a M. d'Abbadie, o grande explorador da
+Abissinia, e M. Ferdinand de Lesseps.<br>
+
+<br>
+
+D'elles ouv&iacute;mos conselhos e receb&eacute;mos os maiores
+obsequios.<br>
+
+<br>
+
+Infelizmente, n&atilde;o encontr&aacute;mos no mercado, nem
+instrumentos, nem armas, nem artigos de viagem, taes como os
+desej&aacute;vamos.<br>
+
+<br>
+
+Foi preciso encommendar tudo.<br>
+
+<br>
+
+Com uma recommenda&ccedil;&atilde;o especial de M. d'Abbadie,
+fomos
+procurar os constructores de instrumentos, e durante 10 ou 12 dias,
+Lorieux, Baudin e Radiguet trabalh&agrave;ram para n&oacute;s.<br>
+
+<br>
+
+Walker tinha-se encarregado dos artigos de viagem, Lepage
+(Faur&eacute;) das armas, Tissier do cal&ccedil;ado, e Ducet
+jeune da
+roupa.<br>
+
+<br>
+
+Feitas as encommendas em Paris, seguimos para Londres, e ali
+compr&aacute;mos os chron&ograve;metros, em casa de Dent, e
+alguns
+instrumentos em casa de Casella; uma boa provis&atilde;o de sulfato
+de
+quinino, e muitos objectos de cautchouc na casa Macintosh, entre elles
+dous barcos e algumas banheiras.<br>
+
+<br>
+
+Procur&aacute;mos de balde em Londres, como t&igrave;nhamos de
+balde
+procurado em Paris, um theodolito que tivesse as
+condi&ccedil;&otilde;es necessarias para uma viagem de tal
+ordem qual
+&igrave;amos emprehender. Uns, &ograve;ptimos para
+observa&ccedil;&otilde;es terrestres, n&atilde;o tinham as
+condi&ccedil;&otilde;es precisas para as
+observa&ccedil;&otilde;es
+astron&ograve;micas; outros, que reuniam as
+condi&ccedil;&otilde;es
+requeridas, eram intransport&agrave;veis, j&aacute; pelo peso,
+j&aacute; pelo volume.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o havia tempo para fazer construir um de
+prop&ograve;sito, e
+de volta a Paris, tiv&eacute;mos de aceitar aquelle que
+j&aacute; antes
+nos tinha sido offerecido por M. d'Abbadie.<br>
+
+<br>
+
+Recolh&eacute;mos, em Paris, tudo o que t&igrave;nhamos
+encommendado, e
+que tinha sido fabricado em nossa curta ausencia; e no dia 1 de Julho,
+desembarc&agrave;vamos eu e Capello em Lisboa, completamente
+preparados
+para a nossa viagem; podendo assim cumprir o nosso compromisso, de
+partir para Loanda no paquete de 5. T&igrave;nhamos feito os
+preparativos em 19 dias.<br>
+
+<br>
+
+Quando eu estudava o modo de me preparar para uma longa viagem em
+&Agrave;frica, tinha procurado sem resultado em livros de viagens,
+o
+modo porque se haviam preparado outros viajantes.<br>
+
+<br>
+
+Em todas as narrativas havia escassez de
+informa&ccedil;&otilde;es a esse respeito, e lembra-me ainda o
+quanto isso me enfadou. <br>
+
+<br>
+
+Resolvi logo, se um dia chegasse a fazer uma viagem em
+&Agrave;frica, e
+se d'ella escrevesse a narrativa, n&atilde;o ser omisso n'essa
+parte, e
+dizendo quaes os objectos de que me provi, dizer quaes os que me
+prest&aacute;ram<br>
+
+servi&ccedil;os reaes, e quaes os que me f&ocirc;ram carga
+inutil.<br>
+
+<br>
+
+A historia das explora&ccedil;&otilde;es d'&Agrave;frica
+est&aacute; no seu com&ecirc;&ccedil;o.<br>
+
+<br>
+
+Muitos exploradores me succeder&aacute;m em &Agrave;frica, como
+eu
+succedi a muitos, e creio fazer um bom servi&ccedil;o
+&aacute;quelles
+que depois de mim se aventurarem no inh&ograve;spito continente,
+apresentando-lhes agora uma rela&ccedil;&atilde;o dos objectos
+de que
+me provi; e logo, no correr da minha narrativa, as vantagens ou os
+inconvenientes que n'elles encontrei.<br>
+
+<br>
+
+Segundo as instruc&ccedil;&otilde;es que do Governo tinha
+recebido,
+podia demorar-me tres annos em viagem, e para isso me preparei.<br>
+
+<br>
+
+A experiencia tinha-me mostrado, o grave inconveniente de me
+s&ocirc;brecarregar de bagagens; e francamente declaro, que fiquei
+aterrado quando, em Lisboa, vi o enorme trem comprado em Paris e
+Londres.<br>
+
+<br>
+
+S&oacute; malas t&igrave;nhamos 17! todas das mesmas
+dimens&otilde;es, 0^m,3 x 0^m,3 x 0^m,6. <br>
+
+<br>
+
+Uma era toucador perfeito, contendo um grande espelho, uma bacia,
+caixas para escovas e mais objectos competentes; outra continha um
+servi&ccedil;o de meza e ch&aacute; para tres
+pess&ocirc;as; e uma
+terceira o trem de cozinha.<br>
+
+<br>
+
+Tres outras malas de forte sola deviam conter cada uma o seguinte:--4
+frascos de quinino, uma pequena pharmacia, um sextante, um horizonte
+artificial, um chron&ograve;metro, umas t&agrave;buas
+logar&igrave;thmicas, umas ephem&egrave;rides, um aneroide, um
+hyps&ograve;metro, um therm&ograve;metro, uma
+b&ugrave;ssola
+prism&agrave;tica, uma b&ugrave;ssola simples, um livro em
+branco,
+lapis, pap&eacute;l e tinta; 50 cartuxos para cada arma; um
+vestuario
+completo, e tres mudas de roupa branca; isca, fusil, pederneiras, e
+alguns pequenos objectos de uso pess&ocirc;al.<br>
+
+<br>
+
+Cada uma d'estas malas tinha na parte superior um estojo de costura,
+escrivaninha e logar para pap&eacute;l. Eram pess&ocirc;aes, e
+pertencia cada uma a um de n&oacute;s.<br>
+
+<br>
+
+As outras 10 malas continham indistinctamente roupas,
+cal&ccedil;ado,
+instrumentos, e outros objectos de reserva. Todas tinham fechaduras
+iguaes e abriam com a mesma chave.<br>
+
+<br>
+
+A nossa barraca era uma&nbsp;<span style="font-style: italic;">tente
+marquise</span>
+de 3 metros de lado por 2^m, 3 de alto. As camas eram de ferro, fortes
+e c&ograve;mmodas. As mesas de tezoura, os bancos e cadeiras de
+lona.<br>
+
+<br>
+
+Todos estes artigos f&ocirc;ram da f&agrave;brica de Walker.<br>
+
+&nbsp;<br>
+
+Cada um de n&oacute;s tinha uma carabina magn&igrave;fica de
+calibre
+16, cujos canos, forjados por Leopoldo Bernard, tinham sido
+cuidadosamente montados por Faur&eacute; Lepage.<br>
+
+<br>
+
+Uma espingarda do mesmo calibre da f&agrave;brica de Devisme, uma
+Winchester de 8 tiros, um rev&oacute;lver e uma faca de mato
+completavam o nosso armamento.<br>
+
+<br>
+
+Em Lisboa tinha eu encommendado na Confeitaria Ultramarina 24 caixas,
+das mesmas dimens&otilde;es das malas, contendo, em latas
+cuidadosamente soldadas, ch&aacute;, caf&eacute;, assucar,
+hortali&ccedil;as secas, e farinhas substanciaes. Hoje devo aqui
+lavrar
+um alto agradecimento ao S^{nr.} Oliveira, proprietario da mesma
+f&agrave;brica, pelo escr&ugrave;pulo que t&ecirc;ve na
+esc&ocirc;lha
+dos g&egrave;neros que nos forneceu, e que muito nos
+serv&igrave;ram no
+com&ecirc;&ccedil;o da viagem. <br>
+
+<br>
+
+Os instrumentos que lev&aacute;mos f&ocirc;ram os seguintes: 3
+sextantes, sendo um de Casella, de Londres; um de Secretan, e um de
+Lorieux, verdadeiro primor. Dois c&igrave;rculos de Pistor,
+fabricados
+por Lorieux, com dois horizontes de espelho, e os competentes
+niv&eacute;is. Um horizonte de mercurio de Secretan. Tres lunetas
+astron&ograve;micas de grande f&ocirc;r&ccedil;a, duas de
+Bardou e uma
+de Casella. Tres pequenos aneroides, dois de Secretan e um de Casella;
+4 ped&ograve;metros, dois de Secretan e dois de Casella. 6
+b&ugrave;ssolas de algibeira; 1 b&ugrave;ssola Bournier de
+Secretan; 3
+outras azimutaes, duas de Berlin e uma de Casella; 2 agulhas circulares
+Duchemin; 6 hyps&ograve;metros Baudin, 1 de Casella, 3 de Celsius
+de
+Berlin, dois mais muito sensiveis de Baudin; 12 therm&ograve;metros
+de
+Baudin, Celsius e Casella; 1 bar&ograve;metro Marioti-Casella; 1
+anem&ograve;metro Casella; 2 bin&ograve;culos Bardou; 1
+b&ugrave;ssola
+de inclina&ccedil;&atilde;o, e um apparelho de
+f&ocirc;r&ccedil;a
+magn&egrave;tica, que nos f&ocirc;ram obsequiosamente
+emprestados pelo
+Capit&atilde;o Evans, por entremedio de M^{r.} d'Abbadie. E
+finalmente,
+o theodolito universal d'Abbadie, que tem o nome de&nbsp;<span style="font-style: italic;">Aba</span>, e que
+t&atilde;o cavalheirosamente nos foi cedido pelo seu inventor. <br>
+
+<br>
+
+Armas, instrumentos, bagagens, todos os artigos, enfim, tinham gravado
+o seguinte letreiro--<span style="font-style: italic;">Expedi&ccedil;&atilde;o
+Portugueza ao interior d'&Agrave;frica Austral, </span><span style="font-style: italic;">em 1877</span>.<br>
+
+<br>
+
+Duas caixas, contendo o necessario para conservar exemplares
+zool&ograve;gicos e bot&agrave;nicos nos f&ocirc;ram
+enviadas pelos
+S^{nrs.} D^{or.} Bocage e Conde de Ficalho.<br>
+
+<br>
+
+Ferramentas dos diversos officios augmentavam este enorme trem, com que
+&igrave;amos deixar Lisboa, para nos internarmos nos
+sert&otilde;es
+desconhecidos da &Agrave;frica Austral.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;"><a name="Cap.I"></a>CAP&Igrave;TULO I.</span><br>
+
+</h2>
+
+<h3>EM BUSCA DE CARREGADORES.</h3>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<span style="font-weight: bold;">Chegada a Loanda--O
+Governador Albuquerque--N&atilde;o
+ha&nbsp;carregadores--Vou ao Zaire--O Ambriz--Chego ao Porto da
+Lenha--Os&nbsp;resgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou a
+Cabinda--Tomo Stanley&nbsp;a bordo da&nbsp;</span><span style="font-style: italic; font-weight: bold;">T&acirc;mega</span><span style="font-weight: bold;">--Os officiaes da
+canhoneira--Stanley meu&nbsp;h&ograve;spede--O nosso
+itinerario--Chegada do Ivens.</span><br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+No dia 6 de Agosto de 1877, cheg&agrave;vamos a Loanda, no
+vapor&nbsp;<span style="font-style: italic;">Zaire</span>,
+do commando de Pedro d'Almeida Tito, a quem aqui lavro um testemunho
+affectuoso de muita gratid&atilde;o, pelos favores que me dispensou
+durante a viagem.<br>
+
+<br>
+
+Desde a minha sa&iuml;da de Lisboa, uma
+preoccupa&ccedil;&atilde;o
+constante me perseguia. A nossa bagagem era enorme, e tinha de ser
+ainda muito aumentada, com fazendas, missangas e outros
+g&egrave;neros,
+que seriam a nossa moeda no sert&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Em todos os livros de viagens, n'esta parte do continente Africano, li
+eu as difficuldades em que se encontr&aacute;ram muitos
+exploradores,
+por n&atilde;o poderem obter o n&ugrave;mero sufficiente de
+carregadores para as cargas indispensaveis. &iquest;Como os obteria
+eu?
+Em Cabo-Verde sube, que uma carta que eu e Capello t&igrave;nhamos
+dirigido ao Ivens n&atilde;o f&ocirc;ra por elle recebida; pois
+que
+sube ali, por um telegrama, que Ivens estava em Lisboa, e por isso
+n&atilde;o podia ter satisfeito ao pedido que n'aquella carta lhe
+faz&igrave;amos, de estudar a quest&atilde;o, e ver se nos
+obtinha em
+Loanda os auxiliares precisos. Uma tentativa feita em Cabo-de-Palmas
+ficou sem resultado, e apesar do apoio que nos prestou o
+Capit&atilde;o
+Tito, nem um s&oacute; <span style="font-style: italic;">keruboy
+</span>pod&eacute;mos ajustar ali.<br>
+
+<br>
+
+Cheg&aacute;mos finalmente a Loanda, e fomos hospedar-nos em casa
+do
+S^{nr.} Jos&eacute; Maria do Prado, um dos primeiros
+propriet&agrave;rios e capitalistas da Provincia de Angola, que
+immediatamente poz &aacute; nossa disposi&ccedil;&atilde;o,
+uma das
+muitas casas que possue na cidade; casa com
+accommoda&ccedil;&otilde;es
+bastantes para receber o enorme trem da expedi&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Do S^{nr.} Prado recebemos inn&ugrave;meros favores. Na noite do
+dia 6,
+fomos procurados por um dos ajudantes-de-campo de Sua
+Excell&egrave;ncia o Governador-Geral, que vinha, em nome do
+S^{nr.}
+Albuquerque, fazer-nos os mais cordiaes offerecimentos.<br>
+
+<br>
+
+No dia 7, procur&aacute;mos o Ex^{mo.} Governador, que nos recebeu
+affectuosamente, mostrando a maior benevolencia em desculpar os meus
+trajos, que, &ograve;ptimos para a vida do mato, eram, a
+n&atilde;o
+poder ser mais, rid&igrave;culos para uma visita ceremoniosa.<br>
+
+<br>
+
+O S^{nr.} Albuquerque, depois de nos assegurar, que nos daria a maior
+assistencia nas terras do seu governo, concluio por nos mostrar a
+impossibilidade de obtermos carregadores.<br>
+
+<br>
+
+Creio que nada mais desagradavel pode haver para quem quer viajar em
+&Agrave;frica, e tem 400 cargas, do-que dizer-se-lhe:&nbsp;<span style="font-style: italic;">N&atilde;o ha carregadores</span>.<br>
+
+<br>
+
+Decid&iacute; immediatamente ir ao Norte da provincia ver se por
+ali os
+poderia contratar; e n'esse sentido pedi ao S^{nr.} Albuquerque, me
+mandasse transportar ao Zaire.<br>
+
+<br>
+
+O s&oacute; navio de guerra que podia ser posto &aacute; minha
+disposi&ccedil;&atilde;o andava cruzando na foz do Zaire;
+resolvi d'ir
+procural-o, e no dia 8, parti n'um escal&eacute;r, tripulado por 8
+pr&ecirc;tos cabindas, que me foi fornecido pela<br>
+
+capitan&iacute;a do Porto. Levava ordens do Governo para o
+commandante
+da canhoneira. N&atilde;o ha nada mais desagradavel do-que fazer
+uma
+viagem de 120 milhas em um escal&eacute;r. De Loanda ao Ambriz comi
+apenas umas sardinhas e bolachas. Tendo resolvido fazer a viagem no
+escal&eacute;r no mesmo dia da partida, n&atilde;o tive tempo
+de fazer
+preparativos.<br>
+
+<br>
+
+No dia 9, ao anoitecer, chegava ao Ambriz, bonita villa assente no
+planalto de um c&ograve;moro, cujas escarpas, de 25 metros, sam
+cortadas a prumo s&ocirc;bre o mar.<br>
+
+<br>
+
+Fazia as v&ecirc;zes de chefe, um empregado de fazenda, o S^{nr.}
+Tavares, que caprichou em obsequiar-me, assim como t&ocirc;dos os
+habitantes da villa, mormente o S^{nr.} Cordeiro, em casa de quem
+estive hospedado.<br>
+
+<br>
+
+Esperava-me no Ambriz Avelino Fernandes. Tive a felicidade de
+conh&ecirc;cer Avelino Fernandes a bordo do vapor&nbsp;<span style="font-style: italic;">Zaire</span>, e
+rela&ccedil;&otilde;es &igrave;ntimas se
+estabelec&ecirc;ram entre n&oacute;s.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; filho das margens do Zaire, e tem grande paix&atilde;o
+por
+esse rico solo, onde as &agrave;rvores gigantescas da floresta
+virgem
+lhe assombr&aacute;ram o ber&ccedil;o. Tem 24 annos. A
+c&ocirc;r morena
+e o cabello crespo indicam que nas suas veias, de envolta com o sangue
+Europ&ecirc;u, gira o sangue Africano. Rico, dotado de uma esmerada
+educa&ccedil;&atilde;o, adquirida nos principaes centros da
+Europa, e
+que uma intelligencia superior soube desenvolver, &eacute; o
+verdadeiro
+typo do cavalheiro palaciano, que n&atilde;o se p&ocirc;de
+conh&ecirc;cer sem que a elle nos prenda logo verdadeira
+sympath&igrave;a. As muitas rela&ccedil;&otilde;es que elle
+tinha no
+Zaire podiam facilitar-me os meios de arranjar ali carregadores.<br>
+
+<br>
+
+Sube no Ambriz que a canhoneira&nbsp;<span style="font-style: italic;">T&acirc;mega </span>devia
+chegar &aacute;quelle ponto dentro de dois dias; e por isso resolvi
+esperal-a.<br>
+
+<br>
+
+A viagem de Loanda no escal&eacute;r n&atilde;o me tinha
+deixado
+recorda&ccedil;&otilde;es t&atilde;o f&agrave;gueiras,
+para que eu
+persistisse em continuar para o norte da mesma forma.<br>
+
+<br>
+
+No dia 10, fui visitar a villa e seus suburbios, e em dois
+tra&ccedil;os vou narrar o que vi.<br>
+
+<br>
+
+Do planalto em que assenta a povoa&ccedil;&atilde;o
+Europ&ecirc;a,
+desce-se para a praia por um caminho em zigzag, que estava sendo
+reconstruido por alguns grilhetas. Na praia, entre dois soberbos
+edificios, que sam armazens das casas commerciaes Franceza e
+Hollandeza, ostenta-se um albergue, meio-derrocado p&ecirc;la
+velhice,
+meio-em-construc&ccedil;&atilde;o recente
+n&atilde;o-continuada, que
+&eacute; a Alf&agrave;ndega; Alf&agrave;ndega sem
+dep&ograve;sitos,
+onde as fazendas, arrumadas &aacute; porta s&ocirc;bre o areal,
+pagam
+um irris&ograve;rio tributo de armazenagem. A N.N.E. da villa,
+muitos
+hectares de terreno sam occupados por um p&agrave;ntano, inferior
+de 3
+metros e 12 cent&igrave;metros ao maior pream&aacute;r; e na
+encosta da
+escarpa que do planalto da villa desce ao p&agrave;ntano, assentam
+as
+cubatas da povoa&ccedil;&atilde;o ind&igrave;gena, nas
+peiores
+condi&ccedil;&otilde;es de salubridade. Ao sul da villa, entre
+umas
+moitas de mato virgem, &eacute; o cemiterio--onde os
+cad&agrave;veres
+enterrados de dia, sam pasto das hyenas &aacute; noite.<br>
+
+<br>
+
+A ponte de desembarque, construida de ferro e madeira, est&aacute;
+prestes a ser inutilizada; porque a oxida&ccedil;&atilde;o do
+ferro em
+contacto com o ar e a &agrave;gua, produz-se c&ecirc;do; e a
+ponte
+n&atilde;o foi pintada, n&atilde;o ha verba para sua
+conserva&ccedil;&atilde;o, nem alguem que por ella vigie.<br>
+
+<br>
+
+A casa do chefe &eacute; um pardieiro derrocado, onde ha verdadeiro
+perigo em habitar.<br>
+
+<br>
+
+O paio amea&ccedil;ava ruina; e isso f&ecirc;z-me
+impress&atilde;o,
+porque elle cont&eacute;m a p&ograve;lvora do commercio, que
+n&atilde;o
+rende menos de duzentos mil r&eacute;is mensaes para o Estado.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; bem de esperar, que nos dois annos decorridos depois da
+minha
+visita ao Ambriz, se tenham dado mais cuidados &aacute;quella
+bonita
+villa, cuja importancia &eacute; patente, sendo um grande centro de
+commercio.<br>
+
+<br>
+
+Um kil&ograve;metro ao N. da ponte de desembarque, lan&ccedil;a
+no
+Atl&agrave;ntico as suas &agrave;guas o rio Loge, cuja foz
+&eacute;
+obstruida por um banco de areia, que lhe d&aacute; difficil
+accesso,
+mas que depois &eacute; navegavel por uns trinta
+kil&ograve;metros.<br>
+
+<br>
+
+No dia 11, fui visitar a importante propriedade agr&igrave;cula,
+fundada p&ecirc;lo c&egrave;lebre Jacintho do Ambriz, e
+h&ocirc;je
+perten&ccedil;a de seu filho Nicolao. Esta propriedade representa
+um
+dos maiores esf&ocirc;r&ccedil;os feitos na provincia de
+Angola, para o
+desenvolvimento da agricultura.<br>
+
+<br>
+
+Jacintho do Ambriz foi levado &aacute; &Agrave;frica por uma
+desgra&ccedil;a &igrave;ntima. Filho do povo, sem a menor
+instruc&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o sabendo mesmo ler ou
+escrever (mas
+dotado de uma raz&atilde;o clara, de um esp&igrave;rito fino, e
+de
+muita felicidade), ch&ecirc;gou a fazer uma grande fortuna.
+Jacintho
+casou no Ambriz com uma mulh&eacute;r da sua igualha. Era a tia
+Leonarda, mais conh&ecirc;cida por&nbsp;<span style="font-style: italic;">tia </span><span style="font-style: italic;">Lina</span>,
+natural da Beira-Alta; e em 1877, a conh&ecirc;ci eu vestida sempre
+&aacute; moda das camponezas da Beira, falando a linguagem vulgar
+que
+fala o p&ocirc;vo<br>
+
+d'aquella provincia, como se de l&aacute; tiv&ecirc;sse
+ch&ecirc;gado.
+Na sua casa comi um jantar beirense, e por um momento julguei-me
+transportado a uma das hospitaleiras casas dos nossos lavradores do
+Norte. A tia Lina entrou muito na felicidade que levou Jacintho
+&aacute; riqueza.<br>
+
+<br>
+
+Jacintho fazia o commercio, e esse commercio, na &Agrave;frica,
+obriga a dois distinctos ramos:<br>
+
+<br>
+
+Adquirir dos brancos fazendas, e vender-lhes os productos do paiz; e
+adquirir dos pr&ecirc;tos esses productos, vendendo-lhes as
+fazendas.<br>
+
+<br>
+
+Era Jacintho que fazia o commercio com os brancos, e a tia Lina com os
+pr&ecirc;tos.<br>
+
+<br>
+
+Jacintho, dotado de uma alma generosa, era muitas v&ecirc;zes
+v&igrave;ctima da sua boa f&eacute;, e das
+extor&ccedil;&otilde;es de
+alguns chefes; o que provocava uma phrase &aacute; tia Lina, que eu
+muitas v&ecirc;zes ouvi repetir: "Ah! Jacintho, os brancos
+esmagam-te;
+mas eu esmago os pr&ecirc;tos!"<br>
+
+<br>
+
+O verbo empregado p&ecirc;la tia Lina n&atilde;o era
+precisamente o verbo&nbsp;<span style="font-style: italic;">esmagar</span>,
+mas, por muito en&egrave;rgico, substituo-lhe outro algo semelhante.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">Um dia, Jacintho deu em
+ser lavrador.
+Era a costumeira de crian&ccedil;a que puxava por elle. Comprou
+terreno, e lan&ccedil;ou os fundamentos d'essa vastissima
+propriedade
+que &eacute; digna de ser visitada; e &aacute; qual dedicou o
+seu
+trabalho e a sua b&ocirc;l&ccedil;a, at&eacute; ao
+&ugrave;ltimo
+momento de vida que t&ecirc;ve.<br>
+
+<br>
+
+Era Jacintho conhecido por estropiar as palavras, e citam-se d'elle
+tolices engra&ccedil;adissimas, p&ecirc;lo mao emprego de um ou
+de
+outro voc&agrave;bulo que decorara, mas cuja
+significa&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o conhecia bem; com tudo, tinha muito esp&igrave;rito,
+e ha
+d'elle anecdotas engra&ccedil;adas. Esta por exemplo:<br>
+
+<br>
+
+J&aacute; elle se achava estabelecido na sua propriedade do Loge;
+mas,
+logo que ao porto ch&ecirc;gava navio de guerra Portuguez, ia a
+bordo
+fazer offerecimentos aos officiaes; que de genio era franco.<br>
+
+<br>
+
+Um dia que elle f&ocirc;ra a bordo, o commandante pediu-lhe um
+macaco.
+"&iquest;Quantos quiz&eacute;r?" lhe respondeu Jacintho; "mande
+&aacute;manh&atilde; um escal&eacute;r, pelo Loge
+at&eacute; minha
+casa, buscal-os."<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, um escal&eacute;r, tripulado por seis homens,
+encostava ao muro do jardim de Jacintho. F&ecirc;z elle subir o
+escal&eacute;r at&eacute; dois kil&ograve;metros mais, e
+ch&ecirc;gando
+&aacute; vertente de um monte coberto de gigantes baobabs, em cujos
+ramos horizontaes pulavam centos de macacos, disse aos marinheiros:
+"T&ocirc;dos estes macacos sam meus, vivem c&aacute; dentro da
+minha
+propriedade; tendes licen&ccedil;a de apanhar quantos quizerdes e
+leval-os ao commandante."<br>
+
+<br>
+
+Os marinheiros encar&aacute;ram com os cimos elevadissimos das
+enormes
+&agrave;rvores, cujos troncos, de espantoso di&agrave;metro,
+n&atilde;o
+lhes permitiam a subida; e depois de alguns v&atilde;os
+esf&ocirc;r&ccedil;os, retir&aacute;ram desanimados,
+perseguidos
+p&ecirc;la grita e p&ecirc;las caretas da macacaria.<br>
+
+<br>
+
+"Eu dei-lhos; se os n&atilde;o levam, n&atilde;o &eacute;
+culpa minha," dizia o Jacintho, rindo &aacute;s gargalhadas.<br>
+
+<br>
+
+Visitei a propriedade, e uma cousa que me impressionou foi ver, que,
+m&agrave;chinas, apparelhos, instrumentos, etc., tudo era de
+f&agrave;brica Portugueza.<br>
+
+<br>
+
+Nada Jacintho admitia que n&atilde;o f&ocirc;sse Portuguez, e,
+custassem-lhe o d&ocirc;bro, fazia elle fabricar em Lisboa
+t&ocirc;dos
+os seus artigos, j&aacute; para a agricultura, j&aacute; para a
+industria.<br>
+
+<br>
+
+A memoria d'esse homem obscuro--mais conh&ecirc;cido
+p&ecirc;los
+disparates que dizia, do-que p&ecirc;las muitas cousas acertadas
+que
+f&ecirc;z--d&ecirc;ve ser respeitada por t&ocirc;dos os que
+se
+interessam p&ecirc;lo desenvolvimento Africano; porque elle foi o
+homem
+que, nos modernos tempos, maior servi&ccedil;o f&ecirc;z, para
+desenvolver a agricultura em colonia Portugueza, empregando n'isso a
+sua immensa fortuna, e trabalhando at&eacute; ao seu
+&ugrave;ltimo dia.<br>
+
+<br>
+
+Na margem esqu&ecirc;rda do Loge, assenta outra propriedade
+agr&igrave;cula, tambem importante, pertencente ao S^{nr.} Augusto
+Garrido. N&atilde;o tive tempo de a visitar, porque, no dia que ali
+passei, n&atilde;o pude esquivar-me aos muitos favores de Nicolao e
+tia
+Lina, e tudo o tempo foi pouco para admirar o que ali, no brejo
+agreste, a vontade do homem tinha feito.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, ch&ecirc;gou a canhoneira&nbsp;<span style="font-style: italic;">T&acirc;mega</span>,
+e sube, indo a bordo, que se achava sem mantimentos, e com grande
+n&ugrave;mero de pra&ccedil;as doentes; motivo por que combinei
+com o
+commandante, o S^{nr.} Marques da Silva, esperal-o no Ambriz, em quanto
+ia a Loanda refrescar.<br>
+
+<br>
+
+Tr&ecirc;s dias depois ch&ecirc;gou a&nbsp;<span style="font-style: italic;">T&acirc;mega </span>de
+volta de Loanda; indo eu logo para bordo, com Avelino Fernandes,
+segu&iacute;mos viagem no mesmo dia para o Zaire.<br>
+
+<br>
+
+Eu tinha adoecido com uma bronchites aguda, de que felizmente melhorei
+logo que com&ecirc;&ccedil;ou a viagem.<br>
+
+<br>
+
+Sub&iacute;mos o Zaire at&eacute; ao Porto da Lenha, onde
+desembarquei
+com Avelino Fernandes, que me apresentou aos seus amigos d'ali. Falei
+logo em carregadores. Diss&eacute;ram-me, que seria,
+talv&ecirc;z,
+possivel obtel-os, se os chefes ind&igrave;genas me
+quiz&ecirc;ssem
+auxiliar; mas que, o melhor meio para mim, era resgatar escravos, e em
+seguida contratal-os para o servi&ccedil;o que eu exigia.<br>
+
+<br>
+
+Repugnou-me a id&eacute;a de comprar homens, embora f&ocirc;sse
+para os
+libertar em seguida. E depois, &iquest;quem sabe se elles me
+quereriam
+acompanhar sendo livres?<br>
+
+<br>
+
+Resolvi immediatamente n&atilde;o proceder d'este modo, embora
+n&atilde;o obtiv&ecirc;sse um s&oacute; carregador ali.<br>
+
+<br>
+
+Na casa em que estava sube que tinha ch&ecirc;gado a Boma, no dia
+9, o
+grande explorador Stanley, que descera tudo o curso do Zaire. Stanley
+tinha seguido para Cabinda.<br>
+
+<br>
+
+Voltei a bordo e combinei com o Commandante irmos a Cabinda offerecer
+os nossos servi&ccedil;os ao arrojado viajeiro.
+Part&iacute;mos, e logo
+que ancor&aacute;mos no porto, fui a terra, com Avelino Fernandes e
+alguns officiaes da canhoneira.<br>
+
+<br>
+
+Foi commovido que apertei a m&atilde;o de Stanley, homem de pequena
+estatura, que a meus olhos assumia propor&ccedil;&otilde;es de
+vulto
+colossal. <br>
+
+<br>
+
+Offereci-lhe os meus servi&ccedil;os, em nome do Governo Portuguez,
+e
+disse-lhe, que se quiz&ecirc;sse ir a Loanda, d'onde mais
+facilmente
+poderia obter transporte para a Europa, o Commandante Marques lhe
+offerecia transporte a elle e aos seus a bordo da canhoneira. Em nome
+do Governo Portuguez puz &aacute; sua
+disposi&ccedil;&atilde;o o
+dinheiro de que carec&ecirc;sse. <br>
+
+<br>
+
+Stanley respondeu-me com um vigoroso aperto-de-m&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Os officiaes da&nbsp;<span style="font-style: italic;">T&acirc;mega</span>
+confirm&aacute;ram os meus offerecimentos em nome do seu
+Commandante.<br>
+
+<br>
+
+Stanley aceitou, e desde esse momento, ficou a canhoneira &aacute;
+sua disposi&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Como bem se p&ocirc;de calcular, eu e Avelino Fernandes
+n&atilde;o
+deix&agrave;vamos Stanley, e &agrave;vidos de ouvir a
+narra&ccedil;&atilde;o da sua viagem, o tempo que elle tinha
+preso, era
+por n&oacute;s passado a questionar os seus homens.<br>
+
+<br>
+
+No dia 19, os officiaes da&nbsp;<span style="font-style: italic;">T&acirc;mega
+</span>d&eacute;ram
+um soberbo banqu&ecirc;te ao intr&egrave;pido explorador, para
+o qual
+convid&aacute;ram o Commandante Marques, Fernandes e a mim.<br>
+
+<br>
+
+No dia 20, part&iacute;mos para Loanda, levando a bordo
+t&ocirc;da a
+comitiva de Stanley, que se compunha de 114 pess&ocirc;as, entre
+ellas
+12 mulh&eacute;res e algumas crian&ccedil;as.<br>
+
+<br>
+
+Stanley, em Loanda, foi hospedar-se em minha casa;
+distinc&ccedil;&atilde;o a que eu fui muito sensivel, porque
+recusou,
+para isso, os muitos convites que t&ecirc;ve, e com elles
+commodidades
+que eu n&atilde;o podia offerecer-lhe, n'uma casa onde tinha por
+mobilia os meus utensilios de viajeiro.<br>
+
+<br>
+
+O Governador mandou logo comprimentar o ilustre Americano, e
+offereceu-lhe um banqu&ecirc;te, a que assisti. De volta a casa,
+perguntei a Stanley, &iquest;qual a impress&atilde;o que trazia
+do
+S^{nr.} Albuquerque? E elle disse-me apenas: "<span style="font-style: italic;">He is a very cold gentleman</span>."
+("&Eacute; um cavalheiro mui frio.")<br>
+
+<br>
+
+O Consul Americano, o S^{nr.} Newton, deu-nos um
+alm&ocirc;&ccedil;o, e muitos favores nos dispensou.<br>
+
+<br>
+
+Haviam festas e banqu&ecirc;tes; mas, a 23 de Ag&ocirc;sto,
+ainda
+n&atilde;o t&igrave;nhamos um s&oacute; carregador; e na
+noite do
+jantar offerecido a Stanley p&ecirc;lo Governador, me repetira sua
+Excellencia, que n&atilde;o me seria possivel obtel-os,
+s&ocirc;bre
+tudo em Loanda; mostrando-me a difficuldade em que se encontrara o
+Major Gorj&atilde;o, que apenas tinha podido obter metade do
+n&ugrave;mero de homens de que&nbsp;precisava, para estudar a
+linha
+ferrovial do Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; tempo de falar dos nossos projectos, segundo a lei, e as
+instruc&ccedil;&otilde;es do Governo.<br>
+
+<br>
+
+O Parlamento votara uma somma de 30 contos de r&eacute;is para se
+estudarem as rela&ccedil;&otilde;es hydrogr&agrave;phicas
+entre as
+bacias do Congo e Zambeze, e os paizes comprehendidos entre as
+Col&ograve;nias Portuguezas de uma e outra costa
+d'&Agrave;frica
+Austral.<br>
+
+<br>
+
+Umas instruc&ccedil;&otilde;es subsequentes indicavam mais
+particularmente o estudar-se o rio Cuango, nas suas
+rela&ccedil;&otilde;es com o Zaire; o estudo dos paizes
+comprehendidos
+entre as nascentes do Cuanza, Cunene, Cubango, at&eacute; ao
+Zambeze
+superior; indicando, que, se possivel f&ocirc;sse, deveria
+estudar-se o
+curso do Cunene.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">O que f&ocirc;ra
+designado na lei do
+Parlamento, elaborada p&ecirc;lo S^{nr.} Corvo, parece ao
+principio&nbsp;problema vasto de mais para uma s&oacute;
+expedi&ccedil;&atilde;o, e uma verba de trinta contos de
+r&eacute;is;
+mas a lei foi bem redigida. O S^{nr.} Corvo sab&iacute;a, que o
+viajante em &Agrave;frica, n&atilde;o s&oacute; nem sempre
+&eacute;
+senhor dos seus passos, mas tambem, que no seu caminho p&ocirc;de
+encontrar um n&atilde;o-previsto problema, que julgue de
+importancia
+superior &aacute; do que lhe foi designado; e por isso deixou a
+maior
+latitude aos exploradores.<br>
+
+<br>
+
+Quanto &aacute;s instruc&ccedil;&otilde;es, f&ocirc;ram
+ellas mais
+restrictas, mas ainda assim, deixavam bastante largos os movimentos da
+expedi&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+O ponto de entrada, como dependia essencialmente do logar onde
+obtiv&egrave;ssemos carregadores, ficou indeterminado.<br>
+
+<br>
+
+T&igrave;nhamos eu e Capello pensado em entrar por Loanda, seguir a
+leste, at&eacute; encontrar o Cuango; descer este rio por dois
+graos;
+passarmos ao Cassibi, que intent&agrave;vamos descer at&eacute;
+ao
+Zaire; e finalmente, reconh&ecirc;cer o Zaire at&eacute;
+&aacute; sua
+foz.<br>
+
+<br>
+
+Com a ch&ecirc;gada de Stanley, tendo elle feito uma parte do
+trabalho
+que n&oacute;s propunhamos fazer, e s&ocirc;bre tudo a
+impossibilidade
+de obter carregadores em Loanda, tiv&eacute;mos de modificar
+completamente o nosso plano.<br>
+
+<br>
+
+Decid&iacute;mos, que f&ocirc;sse eu ao Sul procurar
+carregadores em
+Benguella; e que, se ali os obtiv&ecirc;sse, entr&agrave;ssemos
+p&ecirc;la foz do rio Cunene, subindo-o at&eacute;
+&aacute;s suas
+nascentes; e depois segu&igrave;ssemos com os nossos estudos para
+S.E.,
+at&eacute; ao Zambeze.<br>
+
+<br>
+
+Como n&atilde;o pod&igrave;amos ter grande confian&ccedil;a
+na gente
+que ajust&agrave;ssemos, lembr&aacute;mo-nos de pedir ao
+Governador um
+certo n&ugrave;mero de soldados, que f&ocirc;ssem, por assim
+dizer, a
+escolta de vigia. Sua Excellencia accedeu e mandou saber aos
+regimentos, se alguns soldados nos quereriam acompanhar; porque,
+n&atilde;o sendo aquelle servi&ccedil;o regular, n&atilde;o
+podia
+compellir os soldados a irem.<br>
+
+<br>
+
+Ficou, pois, decidido, que eu partisse para Benguella no vapor que no
+principio de Setembro devia ch&ecirc;gar de Lisboa.<br>
+
+<br>
+
+N'esse vapor veio o Ivens, que p&ecirc;la primeira v&ecirc;z eu
+via.
+Symp&agrave;thico, ardente, dotado de grande verbosidade, e muito
+enthusiasmado p&ecirc;las viagens difficeis, depressa me ligou a
+elle a
+amizade. Narr&aacute;mos-lhe tudo o que resolv&ecirc;ramos
+fazer, e as
+difficuldades que t&igrave;nhamos encontrado at&eacute;
+ent&atilde;o.
+Ivens concordou com-nosco, e ficou definitivamente resolvida a minha
+partida para Benguella, no dia 6.<br>
+
+<br>
+
+Preparei-me logo para partir, e fui dar parte d'isso ao Governador.<br>
+
+<br>
+
+Durante a minha ausencia os meus companheiros deviam preparar as
+bagagens, que estavam em grande desarranjo, com a nossa precipitada
+partida da Europa.<br>
+
+<br>
+
+Cabe aqui contar um episodio que me aborreceu bastante; porque poderia
+ter feito, que Stanley julgasse do caracter meu e dos meus
+companheiros, differentemente do que o devia fazer.<br>
+
+<br>
+
+No dia 5, ao alm&ocirc;&ccedil;o, convers&agrave;vamos eu,
+Capello,
+Ivens, Stanley e Avelino Fernandes, a respeito da escravatura, e
+mostr&agrave;vamos a Stanley o esp&igrave;rito das leis
+Portuguezas
+s&ocirc;bre o infame tr&aacute;fico; notando-lhe a falsidade de
+asser&ccedil;&otilde;es de estrangeiros a nosso respeito; e a
+impossibilidade de fazer ent&atilde;o escravos onde o Governo tinha
+for&ccedil;a. Discorr&igrave;amos &aacute;cerca do
+assumpto, quando
+Capello t&ecirc;ve de ir a Palacio falar ao Governador.<br>
+
+<br>
+
+Voltou uma hora depois, e logo em seguida recebia Stanley uma carta
+official do S^{nr.} Albuquerque, a pedir que lhe certificasse,
+&iquest;se nas terras do seu governo se fazia escravatura? Stanley
+veio
+sorprendido<br>
+
+mostrar-me a carta, e n&atilde;o menos sorprendidos
+fic&aacute;mos eu,
+os meus companheiros, e Avelino Fernandes. Effectivamente, a nossa
+conversa&ccedil;&atilde;o ao alm&ocirc;&ccedil;o, e
+aquella carta
+depois de um de n&oacute;s ir a Palacio, pareceria ao illustre
+viajante
+uma comedia habilmente preparada.<br>
+
+<br>
+
+Stanley podia certificar a sua Excellencia, que a bordo da&nbsp;<span style="font-style: italic;">T&acirc;mega</span>,
+em minha casa, em casa de sua Excellencia, e na do Consul Newton,
+n&atilde;o tinha visto fazer escravatura. Fora d'isto, Stanley,
+como
+sua Excellencia muito bem sab&iacute;a, s&oacute; por
+informa&ccedil;&otilde;es nossas poderia falar, convivendo
+quasi
+exclusivamente com-nosco, e n&atilde;o tendo visitado ponto algum
+do
+paiz governado p&ecirc;lo S^{nr.} Albuquerque. Era querer o S^{nr.}
+Governador viesse Stanley a pagar caro um jantar e os seus favores,
+pedir-lhe um certificado que elle Stanley nunca deveria ter passado.<br>
+
+<br>
+
+Stanley, creio eu, f&ecirc;z-nos a justi&ccedil;a de pensar que
+&egrave;ramos estranhos &aacute;quella carta.<br>
+
+<br>
+
+No dia 6, parti para Benguella, levando cartas do S^{nr.}
+Jos&eacute;
+Maria do Prado para alguns particulares, e nem uma
+recommenda&ccedil;&atilde;o para o Governador do Districto, que
+eu
+n&atilde;o conhecia.<br>
+
+<br>
+
+Ia outra v&ecirc;z &aacute; busca de carregadores, que eu,
+Portuguez,
+n&atilde;o tinha podido obter em Loanda, e que, 4 mezes depois,
+tinha
+ali obtido um estrangeiro, o explorador Schutt, que n&atilde;o
+encontrou as menores difficuldades, para seguir o primeiro caminho que
+n&oacute;s t&igrave;nhamos tencionado seguir.<br>
+
+<br>
+
+Em viagem conheci um passageiro que me disse ser possivel obter alguns
+carregadores em N&ocirc;vo Redondo, e que se comprometteu a
+contratar
+ali uns 20 ou 30.<br>
+
+<br>
+
+Foi j&aacute; um pouco animado com esta promessa, que
+ch&ecirc;guei a
+Benguella, no dia 7 &aacute; noite; e ainda que levava cartas de
+recommenda&ccedil;&atilde;o para alguns negociantes, fui
+procurar o
+Governador, e pedir-lhe hospedagem. <br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;"><a name="Cap.II"></a>CAP&Igrave;TULO II.</span><br>
+
+</h2>
+
+<h3>AINDA EM BUSCA DE CARREGADORES.</h3>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<span style="font-weight: bold;">O Governador, Alfredo
+Pereira de Mello--A casa
+do&nbsp;Governador--Cousas de que n&atilde;o tem culpa o
+Governo da
+Metr&ograve;poli--O&nbsp;que &eacute; Benguella--O
+commercio--Sou
+roubado--Outro roubo--A Catumbela--Obtenho
+carregadores--Ch&ecirc;gada
+de Capello e
+Ivens--N&ocirc;va&nbsp;altera&ccedil;&atilde;o de
+itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o
+velho&nbsp;sertanejo--Apparecem n&ocirc;vos
+obst&agrave;culos--O
+Capello vai ao Dombe--Partida--O que &eacute; o
+Dombe--N&ocirc;vas
+difficuldades--Partimos&nbsp;emfim.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<br>
+
+<br>
+
+Alfredo Pereira de Mello,[<a href="#1">1</a>]
+Governador de Benguella, ao ouvir o meu
+pedido de hospedagem, mostrou um embara&ccedil;o que percebi, e
+disse-me, que n&atilde;o tinha meio de me receber em sua casa.
+Sorprendeu-me o caso, sabendo eu que o Governador era bizarro de genio
+e de natureza franco. Tive convites, logo &aacute; minha chegada,
+j&aacute; de Antonio Ferreira Marques, j&aacute; de Cauchoix;
+mas
+persisti no intento de hospedar-me em casa do Governador.<br>
+
+<br>
+
+Elle disse-me, que n&atilde;o tinha cama a offerecer-me, e eu
+mostrei-lhe a minha cama de viagem; porque fui logo pondo em casa
+d'elle a minha bagagem. Disse-me, que n&atilde;o tinha quarto;
+apontei-lhe para um canto da sala em que est&agrave;vamos, onde
+ficaria
+&ograve;ptimamente.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o havia mais que dizer, e fiquei. Agu&ccedil;ava-me a
+curiosidade a resistencia do Governador em negar-me a hospitalidade que
+pedia; mas c&ecirc;do desvendei o misterio.<br>
+
+<br>
+
+Alfredo Pereira de Mello era homem n&ocirc;vo, ainda que tinha
+j&aacute; uma patente superior na armada. Symp&agrave;thico e
+intelligente, &eacute; estimado por t&ocirc;dos aquelles que o
+conh&ecirc;cem de perto; porque a uma finissima
+educa&ccedil;&atilde;o,
+reune grande rectid&atilde;o de caracter, e a energ&iacute;a
+peculi&aacute;r a tudo bom marinheiro. Serviu na marinha Ingleza, e
+tem
+de viagens larga pr&agrave;tica.<br>
+
+<br>
+
+Vio as Am&egrave;ricas, e antes de ir para &Agrave;frica como
+Ajudante-de-Campo do Governador Andrade, tinha visitado a India, a
+China e o Jap&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+O Governador, que j&aacute; me conh&ecirc;cia de nome, ao ouvir
+o meu
+pedido, esqu&egrave;ceu que tinha diante de si o explorador, para
+s&oacute; se lembrar do homem habituado a viver no meio do luxo e
+das
+commodidades. Pereira de Mello t&ecirc;ve vergonha de hospedar-me.<br>
+
+<br>
+
+Um Governador de Benguella, se &eacute; recto e probo, vive
+mesquinhamente com a paga que recebe.<br>
+
+<br>
+
+A casa do governo &eacute; arrendada. A mobilia, um pouco menos de
+modesta, guarnece a sala e um quarto.<br>
+
+<br>
+
+Na sala, destoa da mobilia, ricamente amoldurado, um retrato d'El-Rei,
+o melhor que tenho visto.<br>
+
+<br>
+
+E com-tudo a este porto, v[~e]m repetidas v&ecirc;zes navios de
+guerra
+estrangeiros, cujos officiaes visitam o Governador, regalam-n-o a
+bordo; e elle nem um copo d'&agrave;gua lhes p&ocirc;de
+offerecer em
+sua casa, porque a pr&ecirc;ta ou o muleque tem de trazer o
+c&ocirc;po
+n'um prato velho. O servi&ccedil;o de mesa era, creio eu, a espada
+de
+Damocles suspensa s&ocirc;bre a cab&ecirc;&ccedil;a de
+Pereira de
+Mello, ao ouvir a minha teimoz&iacute;a em ficar. N&atilde;o
+tinha
+raz&atilde;o. O asseio que presid&iacute;a a tudo,
+suppr&iacute;a o
+vidrado da lou&ccedil;a gasto com o tempo, e os manjares simples,
+mas
+bem cozinhados, avivavam o appetite j&aacute; derrancado
+p&ecirc;los
+ares Africanos; e n&atilde;o se offenda o cozinheiro do Hotel
+Central
+em Lisboa, se eu lhe dizer, que comi melh&oacute;r em casa do
+Governador de Benguella do que comia dos seus op&igrave;paros
+manjares,
+ainda que a pr&ecirc;ta Concei&ccedil;&atilde;o, cozinheira
+do
+Governador, nunca ouvio falar do heroe das ca&ccedil;arolas, o
+c&egrave;lebre Brillat-Savarin.<br>
+
+<br>
+
+Pereira de Mello, logo ao primeiro dia de convivencia, abrio-me o seu
+cora&ccedil;&atilde;o, mostrando-me a menos que singeleza da
+sua vida
+interior. Tr&ecirc;s officios dirigidos ao Governo da Provincia, em
+que
+pedia autoriza&ccedil;&atilde;o para fazer algumas reformas
+caseiras,
+tinham ficado sem resposta. <br>
+
+<br>
+
+Isto n&atilde;o &eacute; de estranhar, porque foi sempre assim.<br>
+
+<br>
+
+Em um copiador de correspondencia, que existe nos archivos do Governo
+de Benguella, li eu uns officios datados de 1790, em que o Governador
+de ent&atilde;o j&aacute; se queixava a El-Rei das mesmas
+faltas; por a
+ellas lhe n&atilde;o dar remedio o Governador Geral da Provincia, e
+entre outras cousas que pede com urgencia, figuram os reparos para duas
+pe&ccedil;as de bronze que designa, e que ainda h&ocirc;je os
+carecem.<br>
+
+<br>
+
+Sam as mesmas de que fala Cameron; o que elle vai saber agora
+&eacute;,
+que os reparos j&aacute; f&ocirc;ram encommendados e
+n&atilde;o podem
+tardar em chegar; porque, sendo a encommenda d'elles feita em 1790,
+d&ecirc;ve estar quasi concluida a sua
+construc&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Benguella &eacute; uma bonita cidade, que se estende desde a praia
+do
+Atl&agrave;ntico at&eacute; ao sop&eacute; das montanhas
+que formam o
+primeiro degrao do planalto da &Agrave;frica tropical. &Eacute;
+cercada
+de uma espessa floresta, a Mata do Cavaco, ainda hoje povoada de feras;
+e isso n&atilde;o admira, que os Portuguezes, em geral, de
+ca&ccedil;adores n&atilde;o t[~e]m manhas. As
+habita&ccedil;&otilde;es
+dos Europ&ecirc;os occupam uma grande &agrave;rea, porque todas
+as
+casas t[~e]m grandes quintaes e dependencias.<br>
+
+<br>
+
+Os quintaes sam cuidados; produzem todas as hortali&ccedil;as da
+Europa, e muitos frutos tropicaes.<br>
+
+<br>
+
+Vastos p&agrave;teos cercados de alpendres servem para dar guarida
+&aacute;s grandes caravanas que do sert&atilde;o descem
+&aacute; costa
+em viagem de tr&agrave;fico, e que repousam tr&ecirc;s dias na
+casa
+onde effeituam as permuta&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Um rio, que na esta&ccedil;&atilde;o est&iacute;a apenas
+&eacute; larga
+fita de &agrave;rea branca, que se desenrola das montanhas ao mar,
+a
+travez da floresta do Cavaco, &eacute; ainda assim a grande fonte
+de
+Benguella, que os po&ccedil;os ali cavados dam &agrave;gua boa
+philtrada p&ecirc;las &agrave;reas calc&agrave;reas.<br>
+
+<br>
+
+Nas ruas da cidade, largas e direitas, crecem dois renques de
+&agrave;rvores, pela maior parte figueiras syc&ograve;moros, de
+pouco
+arraigadas, e por isso ainda pequenas. As pra&ccedil;as sam vastas,
+e
+em uma ajardinada, crescem bonitas plantas de vistoso aspecto.<br>
+
+<br>
+
+As casas, todas terreas, sam construidas de ad&ocirc;bes, e os
+pavimentos sam, em umas de tijolos, e de madeira em outras. <br>
+
+<br>
+
+A alf&agrave;ndega &eacute; bom edificio, recentemente
+construido, e
+tem vastos armazens para as mercadorias do tr&agrave;fico. Esta
+alf&agrave;ndega, e o largo ajardinado, como outros melhoramentos
+de
+Benguella, f&ocirc;ram de um Governador, Leite Mendes, que de si
+deixou
+rasto.<br>
+
+<br>
+
+Uma ponte magn&igrave;fica de architraves de ferro, creio que
+encommendada p&ecirc;lo mesmo Leite Mendes, mas muito
+posteriormente
+montada p&ecirc;lo Governador Teixeira da Silva, &eacute;
+guarnecida
+por dois guindastes e carr&iacute;s, por onde, em vagonetes, se
+transportam as mercadorias das lanchas &aacute;
+alf&agrave;ndega. Eu
+aqui commetti um erro de gramm&agrave;tica, escrevendo o verbo
+transportar no presente do indicativo, quando no condicional
+&eacute;
+que era.<br>
+
+<br>
+
+<span style="font-style: italic;">Transportariam</span>,
+se houvesse pess&ocirc;al para isso; mas n&atilde;o <span style="font-style: italic;">transportam</span>, porque
+o n&atilde;o ha.<br>
+
+<br>
+
+Tem a cidade um templo decente, e um cemiterio bem collocado e murado.<br>
+
+<br>
+
+A povoa&ccedil;&atilde;o Europ&ecirc;a &eacute;
+cercada, por todos os lados, de&nbsp;<span style="font-style: italic;">senzalas</span>, ou
+povoa&ccedil;&otilde;es de pr&ecirc;tos, e mesmo entre a
+povoa&ccedil;&atilde;o branca ha pequenas <span style="font-style: italic;">senzalas</span>, em
+quintaes abandonados. O seu aspecto geral &eacute; agradavel e
+aceiado.<br>
+
+<br>
+
+Tem Benguella m&aacute; fama entre as terras Portuguezas de
+&Agrave;frica; e sup&otilde;em muitos, ser aquillo um paiz
+infecto, que
+exhala de miasm&agrave;ticos p&agrave;ntanos a peste, e com a
+peste a
+morte.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o &eacute; assim. Eu n&atilde;o conh&ecirc;ci
+Benguella como
+ella f&ocirc;ra em tempos passados; mas h&ocirc;je,
+n&atilde;o &eacute;
+nem melhor nem peior do que outros muitos pontos d'&Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+O aceio e as planta&ccedil;&otilde;es de arvoredo, de certo
+t[~e]m.
+modificado muito as suas anteriores condi&ccedil;&otilde;es
+hygi&egrave;nicas, e com uma pouca de boa vontade, n&atilde;o
+seria
+difficil o seu saneamento; o que estou certo se far&aacute;, porque
+n&atilde;o p&ocirc;de deixar de merecer verdadeira
+atten&ccedil;&atilde;o um ponto de t&atilde;o subida
+importancia
+commercial, e em facil contacto com t&atilde;o ricas terras nos
+sert&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Os principaes productos que alimentam o commercio de Benguella sam
+c&ecirc;ra, marfim, borracha e urzella, que ch&ecirc;gam
+&aacute;
+cidade trazidos p&ecirc;las caravanas dos sert&otilde;es. Estas
+caravanas sam de duas esp&egrave;cies. Umas, dirigidas por agentes
+das
+casas commerciaes, trazem &aacute;s mesmas casas que os despacham
+os
+productos do seu tr&agrave;fico no interior; outras, exclusivamente
+compostas de gentio, descem a negociar por canta propria, onde melhor
+ganho encontram.<br>
+
+<br>
+
+O tr&agrave;fico com o gent&iacute;o faz-se por
+permuta&ccedil;&atilde;o directa do g&egrave;nero por
+fazenda de
+algod&atilde;o, branco, riscado ou pintado. Os outros productos
+Europ&ecirc;os sam objecto de uma segunda
+permuta&ccedil;&atilde;o
+p&ecirc;la fazenda recebida; e assim, depois da primeira troca do
+marfim ou c&ecirc;ra pelo algod&atilde;o, &eacute; este
+trocado por
+armas, p&ograve;lvora, &agrave;gua-ardente, missanga, etc.,
+&aacute;
+vontade do comprador; porque a fazenda de algod&atilde;o
+&eacute;, por
+assim dizer, a moeda corrente n'este tr&agrave;fico.<br>
+
+<br>
+
+O commercio est&aacute; entre m&atilde;os de Europ&ecirc;os
+e crioulos,
+e felizmente j&aacute; ali encontr&aacute;mos muitos d'esses
+rapazes
+que, aventurosos, deixam patria e familia, para ir em terras longinquas
+buscar fortuna.<br>
+
+<br>
+
+Alguns deportados de menor importancia tambem negociam, j&aacute;
+por conta propria, j&aacute; como empregados de casa alheia. <br>
+
+<br>
+
+Os maiores criminosos do Reino, os condenados por t&ocirc;da a
+vida,
+sam deportados para Benguella, do que resulta, encontrar-se ali
+quantidade de patifes, de que &eacute; bom resguardar-se;
+n&atilde;o os
+confundindo com a gente digna e capaz, que a ha.<br>
+
+<br>
+
+A policia &eacute; confiada &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a
+militar, que um
+dos regimentos destaca para Benguella; sendo que de Benguella ainda sam
+espalhadas differentes f&ocirc;r&ccedil;as nos
+conc&ecirc;lhos do
+interior; desfalcando a guarni&ccedil;&atilde;o da cidade,
+j&aacute; de
+si pequena.<br>
+
+<br>
+
+N&oacute;s temos dois ex&egrave;rcitos, um na
+Metr&ograve;poli, outro
+nas colonias, que nenhuma rela&ccedil;&atilde;o t[~e]m entre si.<br>
+
+<br>
+
+O nosso ex&egrave;rcito da Metr&ograve;poli &eacute; bom,
+porque o
+Portuguez &eacute; bom soldado; o nosso ex&egrave;rcito das
+colonias
+&eacute; mao, porque o pr&ecirc;to &eacute; mao soldado; e
+os brancos
+que ali servem de mistura com pr&ecirc;tos, sam peiores ainda do
+que
+estes. Deportados por crimes que os exclu&iacute;ram da sociedade,
+fazendo-lhes perder na Europa o f&ocirc;ro de cidad&atilde;os,
+vam
+desempenhar em &Agrave;frica o posto nobre do soldado; sendo a
+nossa
+autonom&iacute;a Africana, e a seguran&ccedil;a
+p&ugrave;blica e
+particular, confiada &aacute; defeza de homens, que dam por
+garant&iacute;a um detestavel passado.<br>
+
+<br>
+
+Dahi as cont&igrave;nuas scenas de caracter vergonhoso que se
+presenceiam ali. Durante a minha permanencia em Benguella, houve um
+grande roubo com arrombamento, no cofre militar. O Governador houve-se
+com a maior energ&iacute;a na maneira porque procedeu para
+descobrimento dos culpados, sendo muito coadjuvado p&ecirc;lo seu
+Secretario, o Capit&atilde;o Barata, que conseguio descobrir os
+ladr&otilde;es, e haver o dinheiro roubado. F&ocirc;ra o roubo
+planeado
+p&ecirc;lo proprio sargento do destacamento, e levado a effeito por<br>
+
+elle e alguns soldados!!!<br>
+
+<br>
+
+Se o nosso ex&egrave;rcito Metropolitano n&atilde;o se presta
+&aacute;
+censura do homem mais pichoso, as nossas f&ocirc;r&ccedil;as
+coloniaes
+sam v&igrave;ctimas das merecidas chufas de t&ocirc;dos os
+estrangeiros, que as observam.<br>
+
+<br>
+
+Por mais que tenha cogitado, nunca p&ocirc;de attingir ao
+pr&egrave;stimo de tal ex&egrave;rcito em nossas colonias, que
+para
+policia n&atilde;o serve; servindo menos para a guerra, que da
+minha
+lembran&ccedil;a tenho visto ser feita por c&ocirc;rpos
+voluntarios,
+levantados no reino, e que &agrave;l&eacute;m vam servir por
+certo
+praso. H&ocirc;je mesmo, em Lisboa, tr&ecirc;s
+batalh&otilde;es estam
+sempre prontos a marchar para as colonias, e j&aacute;
+l&aacute; t[~e]m
+ido; o que prova sabermos n&oacute;s, que o ter ex&egrave;rcito
+no
+ultramar, tal como elle &eacute;, n&atilde;o passa de velha
+costumeira.<br>
+
+<br>
+
+Na noite da minha chegada a Benguella, fiz o conh&ecirc;cimento do
+Juiz
+de Direito Caldeira, que se associou ao Governador para me certificar,
+que, como elle, empregaria t&ocirc;da a sua influencia para que eu
+n&atilde;o tiv&ecirc;sse vindo de balde a Benguella, e assim o
+f&ecirc;z.<br>
+
+<br>
+
+O Governador convocou os moradores importantes a uma reuni&atilde;o
+em
+sua casa, e expondo-lhes os motivos da minha viagem, e o meu projectado
+itinerario, pediu-lhes que o coadjuv&acirc;ssem na empresa de
+arranjar
+carregadores; para que eu pod&ecirc;sse levar a cabo a
+expedi&ccedil;&atilde;o. Todos assim o promet&ecirc;ram.<br>
+
+<br>
+
+O Governador Pereira de Mello, e o Juiz Caldeira, f&ocirc;ram
+incansaveis, e no dia 17, dia em que este &ugrave;ltimo se retirou
+para
+Lisboa, tinha eu o n&ugrave;mero de carregadores que pedira,
+cincoenta,
+que, com trinta esperados de N&ocirc;vo Redondo, prefaziam um total
+de
+oitenta; tantos quantos eu havia julgado precisos para subir da foz do
+Cunene ao Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+O velho sertanejo, Silva Porto, encarregara-se de fazer transportar ao
+Bih&eacute; o gr&ocirc;sso das bagagens, que n&oacute;s
+encontrar&igrave;amos n'aquelle ponto; onde dever&igrave;amos
+contratar
+mais carregadores para seguir &aacute;vante.<br>
+
+<br>
+
+N'esse dia mudei eu para a casa que antes occupava o juiz, continuando
+a ir jantar com o Governador, ou com Antonio Ferreira Marques, da Casa
+Ferreira e Gon&ccedil;alves, que porfiavam em obsequiar-me.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, um pr&ecirc;to meu servi&ccedil;al furtou-me
+uns 75
+mil r&eacute;is, e desappareceu, sem que d'elle mais se soubesse.<br>
+
+<br>
+
+A 19 cheg&aacute;ram os meus companheiros na canhoneira&nbsp;<span style="font-style: italic;">T&acirc;mega</span>,
+e n'esse mesmo dia resolveu-se, que n&atilde;o ir&igrave;amos
+&aacute;
+foz do Cunene, mas sim entrar&iacute;amos directamente ao
+Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Esta n&ocirc;va resolu&ccedil;&atilde;o que
+tom&aacute;mos, alterava o
+que havia contratado com os carregadores, e &agrave;l&eacute;m
+d'isso,
+a gente de Benguella, que, transportada a paiz distante, n&atilde;o
+pensar&iacute;a em desertar, n&atilde;o me inspirava
+garant&iacute;a,
+viajando logo no com&ecirc;&ccedil;o em paiz de que
+conh&ecirc;cia a
+l&iacute;ngua e os costumes.<br>
+
+<br>
+
+Com&ecirc;&ccedil;ou n&ocirc;va campanha. Eu tinha
+presentes as
+narra&ccedil;&otilde;es de Cameron e Stanley a respeito dos
+embara&ccedil;os causados por deser&ccedil;&otilde;es, e
+at&eacute; as
+do proprio Livingstone, que foi abandonado por trinta homens na viagem
+de Tete com o D^{or.} Kirk.<br>
+
+<br>
+
+Logo depois da ch&ecirc;gada dos meus companheiros,
+combin&aacute;mos
+em ser o Ivens encarregado dos trabalhos geogr&aacute;phicos, o
+Capello
+de Meteorologia e Sciencias Naturaes, e eu do pess&ocirc;al
+auxiliar da
+expedi&ccedil;&atilde;o, coadjuvando-nos mutuamente. Assim,
+pois, tive
+de me p&ocirc;r logo em campo, e o primeiro passo que dei, foi ir
+tomar
+cons&ecirc;lho de Silva Porto.<br>
+
+<br>
+
+Narrei-lhe a n&ocirc;va decis&atilde;o que hav&igrave;amos
+tomado, de
+seguir directamente ao Bih&eacute;, e expuz-lhe o meu
+embara&ccedil;o.
+Silva Porto veio a Benguella comigo, pois que a sua casa da Bemposta
+dista 6 kil&ograve;metros da cidade, e precorr&eacute;mos as
+casas onde
+haviam caravanas de Bailundos, sem que elles quiz&ecirc;ssem annuir
+a
+levar as cargas ao Bih&eacute;. &Aacute; casa Cauchoix tinha
+ch&ecirc;gado uma grande caravana, e este cavalheiro
+ch&ecirc;gou a
+offerecer uma avultada gratifica&ccedil;&atilde;o ao chefe, e
+paga
+dupla aos carregadores, se quiz&ecirc;ssem conduzir as nossas
+bagagens,
+mas nada consegu&iacute;o.<br>
+
+<br>
+
+Cabe aqui narrar um facto muito curioso. Os Bihenos sam os primeiros
+viajantes d'&Agrave;frica, e nenhum outro p&ocirc;vo estende
+mais longe
+as suas correrias, nem se lhe iguala em arrojo e robustez de
+caminheiros; mas os Bihenos viajam s&oacute; do Bih&eacute;
+para o
+interior como assalariados; e se de maravilha v[~e]m &aacute;
+costa,
+&eacute; por conta propria. Os Bailundos alugam os seus
+servi&ccedil;os
+entre a costa e o Bih&eacute;, e n&atilde;o vam ao interior
+para leste;
+mas ao norte estendem suas viagens at&eacute; ao Dondo e Loanda.<br>
+
+<br>
+
+Assim, pois, os negociantes sertanejos fazem transportar as mercadorias
+de Benguella ao Bih&eacute; por Bailundos, e d'ali aos pontos
+remotos
+do interior por Bihenos, que voltam, com os productos permutados, ao
+Bih&eacute;. D'este ponto &aacute; costa tornam a servir-se dos
+Bailundos.<br>
+
+<br>
+
+Depois de informado d'isto, s&oacute; me restava mandar assalariar
+Bailundos, para me virem buscar as cargas; e d'isso se encarregou Silva
+Porto, despachando logo cinco pr&ecirc;tos ao Bailundo, a ir buscar
+a
+gente. O velho sertanejo disse-me logo, que elles teriam muita demora,
+porque os enviados levavam 15 dias a ch&ecirc;gar ao paiz, e outro
+tanto tempo, p&ecirc;lo menos, gastariam a reunir os carregadores,
+e
+estes, 15 dias para vir; fazendo uma somma de 45 dias;
+afian&ccedil;ando-me elle, que antes n&atilde;o os teria.
+N&oacute;s
+est&agrave;vamos em fins de Setembro, e por isso s&oacute;
+poder&igrave;amos partir por meado de Novembro.[<a href="#2">2</a>]<br>
+
+<br>
+
+Vim participar isto aos meus companheiros, e depois de conferenciar com
+elles, resolv&eacute;mos n&atilde;o perder tanto tempo em
+Benguella; e
+entregando as cargas a Silva Porto, para que nol-as enviasse pelos
+Bailundos, partirmos immediatamente com as cargas indispensaveis, indo
+esperar no Bih&eacute;; tempo que aproveitar&igrave;amos no
+arranjar de
+carregadores ali para seguir &aacute;vante.<br>
+
+<br>
+
+Dos carregadores contratados em Benguella apenas uns 30 mereciam alguma
+confian&ccedil;a para seguir tal caminho; e estes, com 36 de
+N&ocirc;vo
+Redondo, faziam um total de 66 homens. T&igrave;nhamos,
+&agrave;l&eacute;m d'isso, 14 soldados; os meus muleques
+pequenos de
+servi&ccedil;o; uns Cabindas de servi&ccedil;o de Capello, e
+Ivens; e 2
+chefes pr&ecirc;tos, um contratado por mim na Catumbella, o
+pr&ecirc;to
+Barros, e outro por Capello, em N&ocirc;vo Redondo, o
+Cat&atilde;o. <br>
+
+<br>
+
+Em t&ocirc;da esta gente n&atilde;o t&igrave;nhamos um
+s&oacute; homem de confian&ccedil;a. <br>
+
+<br>
+
+Trat&aacute;mos de separar as cargas julgadas indispensaveis, e
+conh&ecirc;c&eacute;mos que eram 87; isto &eacute;,
+t&igrave;nhamos 21
+cargas mais do que carregadores. Foi de balde que trabalhei para os
+haver, n&atilde;o me foi possivel obter um s&oacute;.<br>
+
+<br>
+
+Os pr&ecirc;tos, n&atilde;o comprehendendo o que
+&igrave;amos fazer, ao
+sert&atilde;o, estavam receiosos, e com a sua
+desconfian&ccedil;a
+natural, imaginavam loucuras e recusavam-se.<br>
+
+<br>
+
+Ch&ecirc;gou o fim de Outubro sem nada termos adiantado.<br>
+
+<br>
+
+Resolvi, por cons&ecirc;lho de Silva Porto, ir ao Dombe,
+experimentar
+se os Mundombes far&iacute;am menos difficuldades, do que a gente
+de
+Benguella; mas, sentindo-me incommodado, pedi ao Capello ali
+f&ocirc;sse por mim. <br>
+
+<br>
+
+No dia 29, partio o Capello, e voltou no dia 3 de Novembro. Nada
+f&ecirc;z. Os Mundombes prestam-se com facilidade a ir a Quilengues
+por
+caminho conh&ecirc;cido d'elles; mas, fora d'isso, n&atilde;o
+fazem
+outras viagens; e recus&aacute;ram as pagas avultadas que lhes
+offerec&igrave;amos para irem ao Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Tornava-se necessario tomar uma resolu&ccedil;&atilde;o, e essa
+foi
+logo tomada; seguir&igrave;amos sempre para o Bih&eacute;, mas
+tomar&igrave;amos por Quillenges e Caconda. <br>
+
+<br>
+
+O Governador Pereira de Mello deu logo ordem ao chefe do Dombe, que
+tivesse prontos 50 carregadores, para seguirem com-nosco para
+Quillengues.<br>
+
+<br>
+
+Silva Porto encarregou-se das cargas que deviam ser mandadas ao
+Bih&eacute;, e eram umas 400.<br>
+
+<br>
+
+Poz o Governador &aacute; nossa disposi&ccedil;&atilde;o
+uma lancha,
+para transportar por mar ao Cuio (Dombe Grande) as cargas que d'ali
+deviam ser carregadas at&eacute; Quillenges, e alguns carregadores
+de
+Benguella que estavam doentes.<br>
+
+<br>
+
+No dia 11 de Novembro, est&agrave;vamos prontos a deixar a costa, e
+fix&aacute;mos a partida para o dia 12. Nesse dia
+fug&iacute;ram 4
+carregadores de N&ocirc;vo Redondo, e no seguinte 5 de Benguella.<br>
+
+<br>
+
+Emfim, no dia 12 deix&agrave;vamos a Cidade, depois das mais
+cordiaes
+despedidas dos amigos, que se reun&iacute;ram para nos dizer adeos.<br>
+
+<br>
+
+Pouco antes tinha eu ido &aacute; praia, e por muito tempo tive os
+olhos fixos na vastid&atilde;o do Atl&agrave;ntico, d'esse mar
+enorme
+que ia perder de vista; e mal cogitava ent&atilde;o, que
+s&oacute; o
+volveria a ver dois annos depois, na Fran&ccedil;a, em Bordeos.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o sei se a outros tem acontecido o mesmo; eu, no momento
+da
+partida, senti uma pungente m&aacute;goa, uma indefinivel saudade,
+uma
+d&ocirc;r profunda, que me produz&iacute;ram como que uma
+embriaguez, e
+confesso que n&atilde;o tenho muito a consciencia de ter deixado
+Benguella.<br>
+
+<br>
+
+A bandeira das Quinas estava desenrolada, e afastavase da cidade ao
+passo cadenciado da caravana; segu&iacute;-a.<br>
+
+<br>
+
+No dia 13, cheg&agrave;vamos ao Dombe, tendo feito uma jornada de
+64
+kil&ograve;metros. T&igrave;nhamos com-nosco 69
+pess&ocirc;as, e seis
+jumentos, que f&ocirc;ram, homens e burros, alojados na fortaleza.
+N&oacute;s tr&ecirc;s, com os nossos muleques de
+servi&ccedil;o, fomos
+obsequiosamente hospedados em casa de Manuel Antonio de Santos Reis,
+distincto cavalheiro que porfiou em obsequiar-nos.<br>
+
+<br>
+
+Dois dias depois, cheg&aacute;ram as cargas que tinham vindo por
+mar, e
+inventariando tudo, conh&ecirc;ci, que para seu transporte
+precisava de
+100 homens, &agrave;l&eacute;m dos effectivos que comigo tinha.<br>
+
+<br>
+
+Isto proveio de termos abusado da facilidade que nos offereceu a
+lancha, mettendo a bordo mais cargas do que t&igrave;nhamos julgado
+absolutamente necessarias.<br>
+
+<br>
+
+Decid&iacute;mos partir a 18, depois de recebermos cartas da
+Europa,
+porque o paquete, de costume, est&aacute; em Benguella a 14; mas a
+18
+nem o vapor tinha ainda chegado, nem o chefe tinha tambem assalariado
+um s&oacute; homem.<br>
+
+<br>
+
+A 21 ch&ecirc;gou a mala, mas de gente s&oacute;
+t&igrave;nhamos a
+trazida de Benguella. O chefe declarou-nos, que no dia 26
+poder&igrave;amos partir; mas, precisando n&oacute;s de 100
+homens,
+apenas nos mandou n'esse dia 19. No seguinte dia aparec&ecirc;ram
+mais
+27; e eu, receioso que elles viessem a debandar se os fizesse esperar,
+despachei-os logo para Quillengues, acompanhados por dois soldados dos
+que comigo tinha.<br>
+
+<br>
+
+O chefe declara-me que lhe &eacute; impossivel conseguir mais
+gente.
+Fa&ccedil;o reunir na fortaleza os tr&ecirc;s Sobas do Dombe,
+no dia
+28, e fui eu mesmo tratar com elles. Sam tr&ecirc;s typos
+magn&igrave;ficos.<br>
+
+<br>
+
+Um chama-se Brito, nome que tomou de um dos Governadores de Benguella,
+que o restaurou no poder; outro, Bahita; o terceiro &eacute;
+Batara. Os
+meus companheiros perdem o assistir a esta scena joco-seria, porque
+desde o dia 24 estam com febre.<br>
+
+<br>
+
+O Soba Brito apresenta-se com tr&ecirc;s saias de chita, pintada de
+ramageus, muito enxovalhadas; veste uma farda de capit&atilde;o de
+infanteria, desabotoada, deixando ver o peito n&uacute;, porque
+camisa
+n&atilde;o usa; e na cab&ecirc;&ccedil;a, s&ocirc;bre
+um barrete de
+l&atilde; vermelha, p&otilde;e nobremente um chap&eacute;o
+armado de
+estado-mai&oacute;r.<br>
+
+<br>
+
+O Bahita traja saias de l&atilde; de vistosas c&ocirc;res, uma
+rica
+farda de Par do Reino, quasi n&ocirc;va, e na
+cab&ecirc;&ccedil;a,
+s&ocirc;bre o indispensavel barrete, uma barretina de
+ca&ccedil;adores
+5.<br>
+
+<br>
+
+O Batara est&aacute; literalmente coberto de andrajos, e traz
+&aacute; cinta um espad&atilde;o enorme.<br>
+
+<br>
+
+Estes illustres e graves personagens estam rodeados dos
+s&eacute;culos
+e altos dignitarios das suas negras c&ocirc;rtes, que tomam assento
+no
+ch&atilde;o em torno da cadeira do soberano. O Bahita era
+acompanhado
+de um menestrel, que tirava de uma marimba, mon&ograve;tona toada.<br>
+
+<br>
+
+Esta marimba &eacute; formada de dois paos de 1 metro de comprido,
+ligeiramente curvos, em que assentam em cordas de tripa taboinhas
+pequenas de madeira, cada uma das quaes &eacute; uma nota da
+escala. O
+som &eacute; refor&ccedil;ado por uma fila de
+caba&ccedil;as collocadas
+inferiormente, sendo a que corresponde &aacute; nota mais baixa da
+capacidade de 3 a 4 litros, e &aacute; mais alta 3 a 4 decilitros.<br>
+
+<br>
+
+Os Sobas port&aacute;ram-se com grande seriedade, e eu fingi tambem
+que os tamava a s&eacute;rio.<br>
+
+<br>
+
+Depois de me prometterem carregadores, vi&eacute;ram acompanhar-me
+a
+casa, que distava uns dois kil&ograve;metros da fortaleza; e como
+eu
+desse uma garrafa de &agrave;gua-ardente a cada um,
+mand&aacute;ram
+elles dan&ccedil;ar a sua fidalgaria, e o Bahita mandou entrar na
+dan&ccedil;a umas raparigas que haviam ficado de parte.<br>
+
+<br>
+
+Eu pedi-lhes que dan&ccedil;assem elles; mas
+respond&eacute;ram-me, que
+a sua dignidade lh'o n&atilde;o permittia; sendo isso contra as
+pragm&agrave;ticas estabelecidas. Eu ardia em desejo de ver o
+Bahita
+dan&ccedil;ando, de saias e farda de Par; e conh&ecirc;cedor do
+imperio
+da &agrave;gua-ardente nos pr&ecirc;tos, mandei dar outra
+garrafa aos
+sobas.<br>
+
+<br>
+
+Foi o bastante. Atropel&aacute;ram as suas leis, e eil-os saltando
+em
+brutes&ccedil;a dan&ccedil;a no meio do seu p&ocirc;vo, que
+enthusiasmado por tal honra, redobra de contors&otilde;es e
+momices,
+que chegam a atingir o delirio. O Bahita &eacute;
+magn&igrave;fico, e
+com certeza o typo do rei Bobeche foi creado sobre este molde. Fala
+continuamente em mandar cortar cab&ecirc;&ccedil;as,
+senten&ccedil;as
+estas que os seus escutam com a maior submiss&atilde;o, mas de que
+interiormente se riem, porque bem sabem o Governo Portuguez lh'o
+n&atilde;o consente.<br>
+
+<br>
+
+O Dombe Grande &eacute; um fertilissimo valle, que se estende
+primeiro
+do Sul ao N., e depois a Oeste, quasi em &agrave;ngulo recto,
+at&eacute; ao mar. &Eacute; enquadrado por dois systemas de
+montanhas,
+um por oeste, que borda a costa, e outro por leste, em cujo
+sop&eacute;
+corre o rio&nbsp;<span style="font-style: italic;">Dombe</span>,&nbsp;<span style="font-style: italic;">Coporolo</span>,
+ou&nbsp;<span style="font-style: italic;">Quiporolo</span>,
+e at&eacute; rio&nbsp;de<span style="font-style: italic;">
+S. Francisco</span>--que todos estes nomes tem.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 423px;" alt="" src="images/002.png"><br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.1"></a>Figura
+1.--Mulh&eacute;res Mundombes, vendedeiras de carv&atilde;o.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">(De uma photographia do
+pharmaceutico Monteiro.)</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+&Eacute; rio que de inverno traz muita &agrave;gua, mas de
+ver&atilde;o
+&eacute; s&ecirc;co; sendo que, mesmo nas maiores estiagens,
+&agrave;gua se encontra cavando po&ccedil;os; o que acontece em
+tudo o
+valle do Dombe, onde n&atilde;o &eacute; preciso profundar mais
+de 3
+metros para a obter. Junto das montanhas de Oeste na parte em que o
+valle se estende N. S., ha uma lag&ocirc;a, de 50 metros de largo
+por 1
+kil&ograve;metro de exten&ccedil;&atilde;o, e da forma de
+S. Esta
+lag&ocirc;a &eacute; curiosa, porque n&atilde;o
+&eacute; formada por
+dep&ograve;sitos pluviaes, mas sim alimentada por uma forte
+nascente
+subterranea, por nunca alterar o seu nivel, e produzir
+infiltra&ccedil;&otilde;es, que, um kil&ograve;metro
+abaixo, vam formar
+nascentes, que sam aproveitadas na rega de uma propriedade. Dizem que
+tem peixe bagre, tainha e muitos crocodilos.<br>
+
+<br>
+
+Tenho-a visitado muitas v&ecirc;zes, e nunca vi ali crocodilos ou
+peixe; mas &eacute; certo que os ha, porque m'o afian&ccedil;ou
+o meu
+hospedeiro, dizendo-me mesmo, que sam muito vorazes; e que, tendo sido,
+em 1876, a sua propriedade atacada por um bando de salteadores de
+Quilengues, estes, recha&ccedil;ados p&ecirc;los seus
+pr&ecirc;tos,
+tent&aacute;ram na fuga atravessar a nado a lag&ocirc;a,
+n&atilde;o
+logrando um s&oacute; atingir &aacute; outra margem, porque
+t&ocirc;dos
+f&ocirc;ram pr&ecirc;sa dos vorazes amphibios.<br>
+
+<br>
+
+Nas montanhas de oeste junto &aacute; lag&ocirc;a, montanhas
+formadas
+de carbonato calc&agrave;reo e algum sulfato de cal, existem
+algumas
+grutas, uma das quaes nos afian&ccedil;ou o nosso hospedeiro, nunca
+ter
+sido visitada, ser enorme, e parecer, tanto quanto por f&oacute;ra
+se
+podia observar, que cont&eacute;m extensas galerias.<br>
+
+<br>
+
+Fomos visital-a, eu, Capello, e o nosso hospedeiro Reis, e
+verific&aacute;mos n&atilde;o ter ella merecimento.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; um sal&atilde;o pr&ograve;ximamente circular, de
+14 metros de
+di&agrave;metro, architectado p&ecirc;la natureza na immensa
+mole de
+calc&agrave;reo, que forma a montanha. Parece ser guarida habitual
+de
+feras, que o d&aacute; a entender o ar saturado do fed&ocirc;r
+almiscarado de certos animaes, bem como as tra&ccedil;as de
+le&atilde;o
+impressas no p&oacute; impalpavel que cobre o ch&atilde;o, onde
+encontr&aacute;mos alguns espinhos do Hystrix Africano.<br>
+
+<br>
+
+No valle do Dombe ha algumas feitorias agr&igrave;colas
+importantes,
+sendo as principaes a do Loache, a de Paula Barboza, e a do nosso
+hospedeiro Santos Reis. Esta &ugrave;ltima conta apenas
+tr&ecirc;s
+annos de existencia, e produz cana de a&ccedil;ucar de que extrahe
+para
+cima de 40 mil litros de &agrave;gua-ardente; e note-se, que o
+terreno
+era antes mato, e foi desbravado ha s&oacute; tr&ecirc;s annos.
+&Eacute; uma feitoria que come&ccedil;a, tudo ali
+est&aacute; ainda em
+construc&ccedil;&atilde;o; mas p&ecirc;lo resultado
+j&aacute; obtido se
+p&ocirc;de aquilatar a riqueza do solo ali.<br>
+
+<br>
+
+Tudo o valle &eacute; cultivado de mandioca, p&ecirc;los
+ind&igrave;genas, e t&atilde;o fertil &eacute;, que depois
+de
+tr&ecirc;s annos de falta de chuva, n&atilde;o tem deixado de
+ter
+produc&ccedil;&atilde;o regular, exportando cerca de 70 mil
+decalitros
+de farinha por anno. &Eacute; o celeiro de Benguella. Os
+ind&igrave;genas ali n&atilde;o permutam as fazendas, mas sim
+vendem a
+dinheiro, cujo valor j&aacute; conh&ecirc;cem. <br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 310px;" alt="" src="images/003.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.2"></a>Figura
+2.--Mulh&eacute;res e Donzellas, Mundombes.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">(De uma photo. de
+Monteiro.)</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+A demora que ali tiv&eacute;mos foi prejudicialissima &aacute;
+ordem, e disciplina da minha gente.<br>
+
+<br>
+
+T&ocirc;dos os dias apresentavam n&ocirc;vas exigencias,
+t&ocirc;dos os
+dias levantavam querellas entre si; e eu n&atilde;o podia ser
+demasiado
+severo, de receio que me desertassem t&ocirc;dos.<br>
+
+<br>
+
+Vend&eacute;ram os pannos para comprar &agrave;gua-ardente, e
+cheg&aacute;ram a vender as ra&ccedil;&otilde;es de comida
+para se
+embriagarem.<br>
+
+<br>
+
+Os soldados eram os peiores. Os sobas n&atilde;o
+mand&aacute;ram gente,
+e eu principiei a ver a repeti&ccedil;&atilde;o das scenas de
+Benguella. N&atilde;o pod&igrave;amos seguir.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 332px;" alt="" src="images/004.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.3"></a>Figura
+3.--Homens Mundombes.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">(De uma photo. de
+Monteiro.)</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<br>
+
+No dia 1 de Dezembro, cheg&aacute;ram ao Dombe 30 homens mandados
+de
+Quillengues p&ecirc;lo chefe militar, a buscar bagagem sua; mas eu
+lancei m&atilde;o d'elles, e decidi com os meus companheiros
+partirmos
+no dia 4.<br>
+
+<br>
+
+Tinha havido mais tr&ecirc;s deser&ccedil;&otilde;es, dois
+homens de N&ocirc;vo Redondo e um de Benguella.<br>
+
+<br>
+
+Os nossos burros eram muito manhosos, e n&atilde;o havia
+ensinal-os; todavia resolv&ecirc;mos conserval-os.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;"><a name="Cap.III"></a>CAP&Igrave;TULO III.</span><br>
+
+</h2>
+
+<h3>HISTORIA DE UM CARNEIRO.</h3>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;"><span style="font-weight: bold;">Nove dias no deserto--Falta de
+&agrave;gua--O ex-chefe de Quillengues--Eu&nbsp;perco-me nas
+brenhas--Dois tiros a tempo--Perde-se um muleque e
+uma&nbsp;pr&ecirc;ta--Perde-se um burro--Quillengues em
+fim--Morte do
+carneiro.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<br>
+
+</div>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: justify;">
+<br>
+
+A 4 de Dezembro deixei o Dombe, p&ecirc;las 8 horas da
+manh&atilde;, e
+segui para Quillengues. O Capello e o Ivens fic&aacute;ram ainda,
+para
+enviar algumas cargas; deviam ir encontrar-me &aacute; noite. Foi
+cons&ecirc;lho dos guias, que n&atilde;o tom&agrave;ssemos
+o caminho
+das caravanas, mas sim um atalho conh&ecirc;cido d'elles, para
+evitarmos as passagens do Rio Coporolo, que j&aacute;
+ent&atilde;o
+levava muita &agrave;gua; dando difficeis vaos, e que aquelle
+caminho
+corta em diversos pontos.<br>
+
+<br>
+
+Depois de duas horas de jornada na planicie, cheg&aacute;mos ao
+sop&eacute; da serra da Cangemba, que borda por leste o valle do
+Dombe.
+Descan&ccedil;&aacute;mos um pouco, e &aacute;s 11 horas,
+emprehend&eacute;mos o subir da serra p&ecirc;lo leito de uma
+torrente,
+ent&atilde;o s&ecirc;co. Foi difficil trabalho. Os homens iam
+muito
+carregados; porque, &agrave;l&eacute;m das cargas da
+expedi&ccedil;&atilde;o, do peso de 30 kilogrammas, levavam
+para si
+ra&ccedil;&otilde;es para nove dias, em farinha de mandioca e
+peixe
+s&ecirc;co. A differen&ccedil;a de nivel era de 500 metros
+apenas; mas
+o leito da torrente, formado de rochas calc&agrave;reas, offerecia
+obst&agrave;culos enormes ao caminhar por elle. Em muitos pontos,
+era
+preciso com as m&atilde;os ajudar o c&ocirc;rpo na subida, e o
+passar
+ali os seis jumentos, deu grande canceira. T&igrave;nhamos comprado
+no
+Dombe dois carneiros, para matar em caminho; um dos quaes facilmente
+seguiu a comitiva, mas o outro deu trabalho, porque se recusava a
+andar, e a sua teimos&iacute;a em volver ao Dombe era constante.
+F&ocirc;ram tr&ecirc;s horas de fadigosa marcha; que tanto
+gast&aacute;mos para transpor um espa&ccedil;o que
+n&atilde;o passava
+de mil metros, e isto por um sol abrasador, deixou-nos extenuados de
+fadiga. Acamp&aacute;mos logo junto a um po&ccedil;o cavado no
+leito
+arenoso de um ribeiro que ia s&ecirc;co; ribeiro a que os Mundombes
+chamam Cabindondo. O logar era &agrave;rido, e apenas vegetavam
+aqui e
+&agrave;l&eacute;m alguns espinheiros brancos,
+rach&igrave;ticos e
+ressequidos p&ecirc;lo sol, que n'esta &egrave;poca do anno
+queima. O
+nosso horizonte era formado p&ecirc;las cumiadas das montanhas que
+correm norte-sul.<br>
+
+<br>
+
+P&ecirc;la tarde cheg&aacute;ram Capello e Ivens, e fomos logo
+comer;
+que eu estava ainda em jejum. No dia 5 de manh&atilde;,
+segu&iacute;mos
+a S.E., e depois de 4 horas de marcha, em que venc&eacute;mos um
+espa&ccedil;o de 20 kil&ograve;metros, assent&aacute;mos
+campo em um
+logar que os guias cham&aacute;ram Taramanjamba; valle extenso,
+cercado
+de c&ecirc;rros pouco altos. A altitude &eacute; de 600 metros;
+mostrando que apenas est&agrave;vamos elevados 100 metros acima do
+nosso campo de hontem. <br>
+
+<br>
+
+A vegeta&ccedil;&atilde;o contin&uacute;a pobre, e a falta
+de &agrave;gua &eacute; grande.<br>
+
+<br>
+
+Para beber e cozinhar, apenas obtiv&eacute;mos pouca, de
+dep&ograve;sitos fluviaes nas cavidades das rochas;
+dep&ograve;sitos
+que f&ocirc;ram logo esgotados p&ecirc;la nossa sedenta
+caravana, sendo
+que &aacute; noite j&aacute; se fazia sentir a s&ecirc;de.<br>
+
+<br>
+
+Durante a marcha, se os jumentos continu&aacute;ram a ser
+inc&ograve;mmodos, n&atilde;o o foi menos o carneiro, que era
+bravissimo, e mais teimoso que os burros. Decidi matal-o, e tendo
+combinado isso com os meus companheiros, dei as ordens n'esse sentido
+aos muleques, e fui dar um passeio aos arredores.<br>
+
+<br>
+
+De volta ao campo, vi que os muleques n&atilde;o tinham
+comprehendido a
+minha ordem, e em logar de matarem o carneiro bravo, haviam morto o
+manso.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte part&iacute;mos de madrugada, e depois de cinco
+horas
+de marcha, acamp&aacute;mos no logar chamado Tine, onde nos
+afian&ccedil;&aacute;ram os guias haver &agrave;gua.<br>
+
+<br>
+
+Contra o que eu esperava, o carneiro, n&atilde;o s&oacute;
+deixou de
+ser teimoso, mas poz-se a seguir-me, fazendo-me constante companhia,
+j&aacute; em marcha j&aacute; no campo.<br>
+
+<br>
+
+A marcha n'esse dia foi difficil; porque, n&atilde;o s&oacute;
+a
+s&ecirc;de abrasava a gente, mas ainda por uma hora
+and&aacute;mos no
+leito s&ecirc;co do rio Canga, pedregoso e desnivelado, o que nos
+fatigou muito.<br>
+
+<br>
+
+O terreno &eacute; j&aacute; gran&igrave;tico, e a
+vegeta&ccedil;&atilde;o arborescente luxuriante.<br>
+
+<br>
+
+&Agrave;gua, como na v&egrave;spera, foi da chuva, recolhida
+nas
+cavidades das rochas; mas era melhor ao paladar e mais
+l&igrave;mpida
+&aacute; vista.<br>
+
+<br>
+
+T&igrave;nhamos alguns homens com feridas nos p&eacute;s, que
+s&oacute;
+chegavam tarde ao campo, porque se lhes difficultava o andar; e ainda
+outros que, por fracos, se atrazavam, e por pregui&ccedil;a muitos.<br>
+
+<br>
+
+N'esse dia, entre os retardatarios figuravam os carregadores do rancho;
+fazendo isso que s&oacute; tarde com&ecirc;ssemos. O Capello,
+de si
+pouco communicativo, n&atilde;o se queixava dos
+inc&ograve;mmodos que
+soffria; mas Ivens, loquaz e de g&egrave;nio alegre, n&atilde;o
+se
+calava e nos fazia rir a cada passo, com os seus ditos
+engra&ccedil;ados. O appetite era j&aacute; grande, quando
+cheg&aacute;ram os carregadores, e elle n&atilde;o desfitava os
+olhos
+de uma perna de carneiro que um muleque volteava junto da fogueira em
+espeto de pao, e de repente disse: "Se meu pai podesse ver como eu olho
+para aquella carne at&eacute; chorava."<br>
+
+<br>
+
+Desde o Dombe apenas t&igrave;nhamos comido uma v&ecirc;z no
+dia, e
+assim, a nossa gente; com a differen&ccedil;a, porem, que elles
+comiam
+sem interrup&ccedil;&atilde;o desde o acampar at&eacute;
+dormir: o que
+me fazia receiar, que as ra&ccedil;&otilde;es distribuidas para
+nove
+dias, depressa fossem gastas, e em seguida viesse a fome, em paiz onde
+era impossivel obter v&igrave;veres.<br>
+
+<br>
+
+Avan&ccedil;&aacute;mos 25 kil&ograve;metros no dia
+seguinte, a E.S.E.,
+e fomos acampar em uma floresta chamada a Chalussinga; sendo o piso
+d'esse dia relativamente melhor, sempre por terrenos
+gran&igrave;ticos,
+e por entre vegeta&ccedil;&atilde;o mais vigorosa que
+at&eacute; ali.<br>
+
+<br>
+
+N'essa floresta encontr&aacute;mos os primeiros baobabs que desde a
+costa temos visto. &Agrave;gua continuava a ser escassa, e sempre
+de
+dep&ograve;sitos pluviaes. P&ecirc;las tr&ecirc;s horas
+d'esse dia,
+fomos avisados de que uma caravana se dirigia ao nosso campo, vindo do
+interior; e saindo logo ao seu encontro, soub&eacute;mos ser o
+ex-chefe
+de Quillengues, Capit&atilde;o Roza, que ia doente para Benguella.<br>
+
+<br>
+
+Convid&aacute;mol-o &aacute; nossa barraca, onde jantou;
+partindo em
+seguida, depois de se prover de medicamentos, que gostosamente lhe
+offerec&ecirc;mos. Logo que elle partiu, fui avisado
+p&ecirc;los
+muleques, de que em torno do campo se viam tra&ccedil;as frescas de
+ca&ccedil;a; e sahi a ver se a encontrava. Segui um rasto de
+grandes
+ant&igrave;lopes, e t&atilde;o longe me levou elle, que veio a
+noite, e
+com ella as trevas, sem que podesse atinar com caminho para o campo.
+Uma montanha elevada projectava o seu vulto sombrio contra um ceo
+nebuloso, onde nem uma estrella brilhava. Tive id&eacute;a de subir
+a
+ella, para do cume, vendo o clar&atilde;o dos f&ocirc;gos do
+meu campo,
+dirigir ali meus passos; id&eacute;a que executei com bom
+resultado,
+porque effectivamente enxerguei ao longe um clar&atilde;o que
+tratei de
+alcan&ccedil;ar, tendo marcado p&ecirc;la b&ugrave;ssola a
+sua
+direc&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se imagina o que seja
+caminhar em
+noite escura por entre as s&aacute;r&ccedil;as de uma floresta
+virgem,
+e quanto tempo se leva a transpor um curto espa&ccedil;o; deixando
+aqui
+e &agrave;l&eacute;m farrapos da roupa, sen&atilde;o tiras
+da pelle.<br>
+
+<br>
+
+Ch&ecirc;guei por fim, j&aacute; guiado pelo vozear do gentio;
+mas
+&iexcl;qual n&atilde;o foi a minha
+decep&ccedil;&atilde;o, vendo, que
+p&ecirc;lo meu tinha tomado o campo do Capit&atilde;o Roza, que
+devia
+estar a 6 kil&ograve;metros longe d'elle! Porem, como um caminho
+ligava
+os dois campos, porque uma caravana que passa deixa trilho, endireitei
+n'elle, e depois de uma hora de jornada, j&aacute; ouvia o som das
+businas que os meus tocavam, e dos tiros que disparavam, para guiar
+meus passos.<br>
+
+<br>
+
+Foi extenuado de fadiga e molestado dos espinhos, que ch&ecirc;guei
+&aacute; minha tenda, onde Capello e Ivens n&atilde;o estavam
+livres de
+cuidados.<br>
+
+<br>
+
+Ali tive uma noticia inquietadora, mas que n&atilde;o foi sorpresa.<br>
+
+<br>
+
+J&aacute; se sentia falta de v&igrave;veres, e s&ocirc;bre
+tudo os
+soldados j&aacute; tinham em 5 dias comido a
+ra&ccedil;&atilde;o de 9.<br>
+
+<br>
+
+No seguinte dia for&ccedil;&aacute;mos a marcha um pouco mais,
+e percorr&eacute;mos em 6 horas 30 kil&ograve;metros a E.S.E.<br>
+
+<br>
+
+O caminho era bom, marchando no trilho da caravana do
+Capit&atilde;o
+Roza. Nas florestas que atravess&aacute;mos continu&aacute;ram
+apparecendo baobabs gigantescos. Depois de passarmos o rio
+Caluc&uacute;la, acamp&aacute;mos na sua margem direita.<br>
+
+<br>
+
+O rio leva pouca &agrave;gua, mas esta &eacute;
+l&igrave;mpida e b&ocirc;a.<br>
+
+<br>
+
+Continu&agrave;vamos a comer s&oacute; uma v&ecirc;z ao
+dia, e a hora
+da refei&ccedil;&atilde;o variava entre a 1 e 3, conforme
+&aacute;s
+marchas. Era preciso poupar os v&igrave;veres. Ressentido da fadiga
+da
+v&egrave;spera n&atilde;o sahi a ca&ccedil;ar n'esse dia, e
+fiquei na
+barraca.<br>
+
+<br>
+
+O Ivens foi desenhar, como costumava; e o Capello apanhar insectos e
+r&eacute;ptiz.<br>
+
+<br>
+
+Os soldados termin&aacute;ram as ra&ccedil;&otilde;es, e
+come&ccedil;&aacute;ram a queixar-se de fome, falando em matar
+o
+carneiro. Eu tinha-me afei&ccedil;oado ao animal, que de bravo que
+era
+se tinha tornado manso e meigo, acompanhando-me nas marchas e
+n&atilde;o me abandonando um momento. Opuz-me a que f&ocirc;sse
+morto,
+e o<br>
+
+Ivens deu aos soldados um pouco de arroz do nosso.<br>
+
+<br>
+
+A 9, levant&aacute;mos campo, &aacute;s 5 horas, e
+sustent&aacute;mos a
+marcha at&eacute; &aacute; uma; hora a que acamp&aacute;mos
+nas faldas
+da serra da Tama. Das 8 &aacute;s 9 horas segu&iacute;mos ao
+sul, na
+margem esqu&ecirc;rda do rio Chic&uacute;li Diengui, que vai ao
+N.,
+provavelmente ao Coporolo. A vegeta&ccedil;&atilde;o
+&eacute; cada
+v&ecirc;z mais luxuriante, e n'esse dia o nosso caminhar foi por
+entre
+floresta esp&ecirc;ssa.<br>
+
+<br>
+
+Logo que se estabeleceu o campo, renov&aacute;ram-se as
+representa&ccedil;&otilde;es dos soldados famintos, e com ellas
+a
+id&eacute;a de matar o carneiro. O Ivens deu n&ocirc;va
+ra&ccedil;&atilde;o de arroz aos soldados, e isto, ainda que
+contemporizava, n&atilde;o era uma positiva
+salva&ccedil;&atilde;o para
+o pobre animal.<br>
+
+<br>
+
+Ainda que extremamente fatigado, resolvi ir ca&ccedil;ar, para
+salvar a vida do meu carneiro.<br>
+
+<br>
+
+Durante uma hora percorri a floresta sem resultado, e j&aacute;
+voltava
+ao campo, quando avistei, n'uma pequena clareira, duas gazellas que
+pastavam.<br>
+
+<br>
+
+Aproximei-me, mas a mais de cem metros fui presentido. O macho saltou
+para s&ocirc;bre uma rocha, e d'ali com&ecirc;&ccedil;ou a
+espiar a
+floresta com a sua vista experimentada; em quanto a f&ecirc;mea, de
+orelha &aacute; escuta, investigava os arredores.<br>
+
+<br>
+
+Era grande a distancia, mas n&atilde;o hesitei, e atirei ao macho,
+que
+vi cair fulminado para &agrave;l&eacute;m do roch&ecirc;do.
+A
+f&ecirc;mea, ouvindo o estampido do tiro, saltou ligeira
+s&ocirc;bre o
+penhasco e su disparei-lhe o meu segundo tiro, vendo-a em seguida
+pular, em salto elegante, e desapparecer no mato.<br>
+
+<br>
+
+O meu muleque correu logo a buscar o ant&igrave;lope
+m&ocirc;rto, mas
+eu vi que, em logar de parar junto do roch&ecirc;do, seguiu sempre;
+eu
+dirigi-me para ali com o cora&ccedil;&atilde;o palpitante,
+porque
+suppuz que me tinha enganado julgando ver cair o primeiro
+ant&igrave;lope. Torneei a rocha, e tive um grande
+alvor&ocirc;&ccedil;o. O lindo animal (<span style="font-style: italic;">Cervicapra bohor</span>)
+estava estendido sem vida.<br>
+
+<br>
+
+Mal tinha tido tempo de o contemplar, quando do mato sahio o muleque
+curvado ao peso de grande carga.<br>
+
+<br>
+
+Era o segundo ant&igrave;lope, que elle tinha levantado
+m&ocirc;rto, a
+poucos passos na floresta. Ambos tinham sido feridos no peito, mas ao
+passo que o macho cahiu sem vida, a f&ecirc;mea p&ocirc;de
+effeituar
+uma pequena carreira.<br>
+
+<br>
+
+Estava salvo o carneiro, e como em dois dias dev&igrave;amos chegar
+a
+Quillengues, e ali ter&igrave;amos recursos, estava salvo para
+sempre.<br>
+
+<br>
+
+No seguinte dia, depois de marcha de 35 kil&ograve;metros, e de
+termos
+passado a vao os rios Umpuro, Cumbambi e Comooluena, fomos acampar na
+margem direita do Vambo--que t&ocirc;dos correm ao N., a unir as
+suas
+&agrave;guas (quando as t[~e]m), ao Coporolo, que aqui
+j&aacute; se
+chama Calunga, nome que conserva<br>
+
+at&eacute; &aacute; sua nascente. <br>
+
+<br>
+
+Na jornada d'esse dia come&ccedil;&aacute;mos a encontrar
+gram&igrave;neas enormes, nas clareiras do mato. T&atilde;o
+grandes,
+que era impossivel ver nada com ellas, e difficil o caminhar. Durante a
+marcha desappareceu um meu muleque pequeno, e uma pr&ecirc;ta,
+mulh&eacute;r do muleque Catraio do Capello; e ainda que despachei
+gente a buscal-os, n&atilde;o f&ocirc;ram encontrados.<br>
+
+<br>
+
+A esca&ccedil;ez dos mantimentos era grande, e n&atilde;o eram
+j&aacute; s&oacute; os soldados a queixarem-se de fome,
+t&ocirc;dos
+faziam representa&ccedil;&otilde;es, e n&atilde;o attendiam
+raz&atilde;o. Tiv&eacute;mos de seguir.<br>
+
+<br>
+
+No dia 11, depois de passarmos dois riachos que as chuvas tornam
+caudalosos, o Quitaqui e o Massonge, fomos acampar na margem direita do
+rio Tui, muito pr&ograve;ximo de Quillengues. Dos muleques perdidos
+n&atilde;o havia noticia, e faltava desde a v&egrave;spera um
+jumento,
+que n&atilde;o appareceu. Em quanto se estabelecia o campo, eu
+segui
+para a fortaleza de Quillengues &aacute; busca de
+v&igrave;veres, com
+que voltei &aacute;s 8 da noite. Estava decididamente salvo o meu
+carneiro.<br>
+
+<br>
+
+N'essa noite apparec&ecirc;ram o muleque e a pr&ecirc;ta
+perdidos, e
+isso deu-me um verdadeiro prazer; porque, f&ocirc;r&ccedil;ados
+a
+marchar, pela fome, n&atilde;o t&igrave;nhamos podido
+demorar-nos a
+procural-os.<br>
+
+<br>
+
+O logar onde acamp&aacute;mos era baixo e pantanoso, f&ocirc;ra
+de
+recursos, &eacute; isolado; e por isso resolv&eacute;mos ir
+acampar na
+libata do chefe de Quillengues, onde entr&aacute;mos no dia 12,
+pelas
+11 horas.<br>
+
+<br>
+
+Paguei e despedi os carregadores do Dombe e Quillengues contratados
+at&eacute; ali; e pedi-ao chefe, o Tenente Roza, para me obter
+outros
+at&eacute; Caconda; o que elle me certificou ser facil, dizendo-me
+logo, que sabia como os rios entre aquelle ponto e Caconda iam cheios,
+e por isso n&atilde;o davam passagem; o que nos impedia de partir
+immediatamente.<br>
+
+<br>
+
+N'esse dia j&aacute; com&eacute;mos bem, e tiv&eacute;mos
+duas comidas, alm&ocirc;&ccedil;o e jantar.<br>
+
+<br>
+
+Alguns dias depois, appareceu o jumento que se tinha perdido no mato,
+trazido por um ind&igrave;gena, que o tinha encontrado. Gratifiquei
+bem
+o pr&ecirc;to, para o encorajar a ser honesto; pois que nunca
+julguei
+ver mais o pobre animal, que, se escapasse das feras, n&atilde;o
+escaparia &aacute; ladroagem dos naturaes, pensava eu.<br>
+
+<br>
+
+Quillengues &eacute; um valle regado p&ecirc;lo Calunga (rio
+que eu
+supponho ser o curso superior do Coporolo), valle fertilissimo, e
+coberto de povoa&ccedil;&otilde;es ind&igrave;genas.<br>
+
+<br>
+
+O estabelecimento Portuguez occupa uma &agrave;rea de 45,500 metros
+quadrados; por ser um rect&agrave;ngulo de 250 metros por 182. Este
+rect&agrave;ngulo, cercado de palissada, tem quatro baluartes de
+alvenaria, a um meio de cada face; e dentro uns abarracamentos, que sam
+morada do chefe militar, e quart&eacute;is dos soldados.<br>
+
+<br>
+
+Algums baobabs e figueiras syc&ograve;moros crescem ali,
+assombrando
+com seus ramos gigantescos um terreno coberto de gram&igrave;neas
+ind&igrave;genas, onde pastam os rebanhos do chefe.<br>
+
+<br>
+
+Se a import&agrave;ncia de Quillengues &eacute; grande como
+ponto
+productivo, e facilmente colonisavel, n&atilde;o o &eacute;
+menos como
+posi&ccedil;&atilde;o estrat&egrave;gica; pois que
+p&ocirc;de ser
+considerado uma das chaves do sert&atilde;o interior, com respeito
+a
+Benguella.<br>
+
+<br>
+
+Os sobetas do paiz reconh&ecirc;cem a autoridade Portugueza; mas,
+de
+natureza salteadores, atacam sem cessar outros p&ocirc;vos
+ind&igrave;genas, para lhes furtarem o gado.<br>
+
+<br>
+
+Sam mais pastores do que lavradores, mas, ainda assim, cultivam a
+terra, que de ub&egrave;rrima suppre o pouco trato; produzindo
+milho,
+massambala, e mandioca, em quantidade grande.<br>
+
+<br>
+
+As suas habita&ccedil;&otilde;es sam cubatas circulares, de 3 a
+4
+metros de di&agrave;metro, construidas de grossos troncos de
+madeira,
+revestidas de barro. A porta &eacute; bastante alta, para dar
+entrada a
+um homem sem curvar-se.<br>
+
+<br>
+
+Os Quillengues sam de estatura elevada, e robustos, atrevidos e
+guerreiros. Sam pouco industriosos, e apenas fabricam o ferro, fazendo
+azagaias, ferros de frechas, e machados, j&aacute; de guerra,
+j&aacute;
+de cortar madeira.<br>
+
+<br>
+
+As enxadas n&atilde;o as forjam, e sam por elles compradas no
+Dombe, ou em Benguella.<br>
+
+<br>
+
+Os seus curraes sam, como as povoa&ccedil;&otilde;es, cercados
+de forte
+palissada; sendo esta revestida exteriormente de abatises espinhosos,
+para evitar o assalto nocturno de feras.<br>
+
+<br>
+
+Os campos de mandioca sam igualmente cercados de espinheiros; porque
+ali abundam cor&ccedil;as pequenas (<span style="font-style: italic;">Cephalophus mergens</span>),
+que das folhas sam &agrave;vidas, e causam damno grande
+&aacute;s planta&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+A &agrave;gua-ardente &eacute; g&egrave;nero muito estimado
+p&ecirc;los
+Quillengues, e sam elles t&atilde;o dados &aacute; embriaguez,
+que,
+durante tr&ecirc;s mezes no anno, tanto quanto dura o fruto do
+gongo,
+fazem d'elle uma bebida fermentada, com que estam continuamente
+embriagados; n&atilde;o sendo possivel obter d'elles o menor
+servi&ccedil;o.<br>
+
+<br>
+
+Quando um homem quer casar-se, envia ao pai da escolhida um presente,
+que d&ecirc;ve ser p&ecirc;lo menos de 4 metros de panno da
+costa, e
+duas garrafas de &agrave;gua-ardente; e logo com o portador vem a
+noiva
+e seus parentes comer, em grande br&ograve;dio, um boi, que
+d&ecirc;ve
+offerecer-lhes o noivo. O adulterio &eacute; coisa de grande
+estima&ccedil;&atilde;o para os maridos; sendo que por lei
+fazem pagar
+ao amante multa, que se traduz em gado e &agrave;gua-ardente.<br>
+
+<br>
+
+A mulh&eacute;r que n&atilde;o tem commettido algum adulterio
+&eacute;
+mal vista do marido, que n&atilde;o augmenta o seu haver por esse
+meio.<br>
+
+<br>
+
+Logo que alguma commette a falta, vai ao marido queixar-se de que foi
+seduzida, e entre elles faz prova a accusa&ccedil;&atilde;o da
+mulh&eacute;r.<br>
+
+<br>
+
+Entre o p&ocirc;vo, os cad&agrave;veres sam enterrados em logar
+escolhido, e conduzidos &aacute; cova n'uma pelle de boi, cobertos
+de
+panno de algod&atilde;o branco. Os dias de n&ocirc;jo, sam dias
+de
+grande festa em casa do finado. Os sobetas t[~e]m sepultura reservada,
+e sam ali conduzidos dentro de uma pelle de boi preparada em
+&ocirc;dre, depois de lhe vestirem as melhores roupas.<br>
+
+<br>
+
+Nas festas d'&ograve;bito ha mortandade enorme de gado, porque o
+herdeiro tem obriga&ccedil;&atilde;o de matar todo o rebanho,
+para
+regalar o seu p&ocirc;vo, e contentar a alma do finado.<br>
+
+<br>
+
+No dia 22, houve um desastroso acontecimento no nosso campo. <br>
+
+<br>
+
+Um dos meus muleques furtou-me uma bala explosiva do systema
+Pertuisset; e de companhia com dois outros, decid&iacute;ram
+repartil-a
+de modo que a cada um tocasse seu peda&ccedil;o de chumbo.
+Arm&aacute;ram-se de uma faca, e p&ocirc;sta a bala
+s&ocirc;bre uma
+pedra, deu-lhe elle um golpe, estando os outros dois acocorados para
+melhor ver a partilha; quando s&ugrave;bito a bala faz
+explos&atilde;o,
+ficando os tr&ecirc;s feridos, e s&ocirc;bre tudo o muleque de
+Silva
+Porto Calomo, que recebeu treze estilha&ccedil;os, produzindo
+alguns
+feridas profundas.<br>
+
+<br>
+
+Mand&aacute;mos uns pr&ecirc;tos reconh&ecirc;cer, se
+j&aacute; dariam
+vao os rios; e por elles soub&eacute;mos, que se conservavam altos;
+o
+que bem sopp&ugrave;nhamos, porque, durante a nossa estada ali,
+n&atilde;o cessou de chover. Resolv&eacute;mos ent&atilde;o
+seguir
+outro caminho, o qual, ainda que mais longo, era mais euxuto de
+&agrave;guas; e por isso, ped&iacute;mos ao chefe nos tivesse
+prontos
+os carregadores; o que elle fez, distribuindo eu as cargas no dia 23;
+mas n'esse dia senti-me muito mal, e ainda que fiz seguir as cargas,
+fiquei eu, e os meus companheiros por meu respeito. Lutei com violenta
+febre por tr&ecirc;s dias, e n&atilde;o tenho consciencia de
+ter
+passado o dia 25; dia duplamente festivo para mim, porque, sendo o de
+Natal, &eacute; o anniversario de minha filha.<br>
+
+<br>
+
+Tiv&eacute;ram cuidado de mim Capello e Ivens, o Chefe Roza e sua
+esposa; e no dia 28, pude levantar-me e sair, decidindo logo partir no
+1^{o.} de Janeiro de 1878, isto &eacute;, tr&ecirc;s dias
+depois.<br>
+
+<br>
+
+A esposa do Tenente Roza f&ecirc;z-me dois presentes, que eu mal
+sabia
+ent&atilde;o estavam destinados a representar um pap&eacute;l,
+ao
+diante, na minha viagem.<br>
+
+<br>
+
+F&ocirc;ram elles um servi&ccedil;o de ch&aacute; de
+porcelana de
+S&egrave;vres, e uma cabrinha muito meiga, de ra&ccedil;a
+pequena, a
+que puz o nome de C&oacute;ra. <br>
+
+<br>
+
+A esse tempo succedeu um desastre, que de v&eacute;ras me
+contristou. O
+meu carneiro, por causa de quem eu tive de sustentar tantas lutas com
+os carregadores famintos, foi m&ocirc;rto por uma cadella
+perdigueira,
+que eu levara de Portugal, e dera ao Capello. Perseguido p&ecirc;la
+cadella, na fuga quebrou uma perna ao passar por entre a
+pali&ccedil;ada do campo, e em breve se finou. Foi o meu primeiro
+grande desgosto n'esta viagem, t&atilde;o abundante d'elles.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;"><a name="Cap.IV"></a>CAP&Igrave;TULO IV.</span><br>
+
+</h2>
+
+<h3>POR TERRAS AVASSALLADAS.</h3>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<span style="font-weight: bold;">Jornada a Ngola.--O Sova
+Chimbarandongo.--Belleza
+do&nbsp;caminho.--Chegada a Caconda--Jos&eacute;
+d'Anchieta.--Nada
+de&nbsp;correspondencia.--Chegada do Chefe.--Vamos aos
+carregadores.--Ivens&nbsp;vai ao Cunene e eu vou ao Cunene.--Volta
+de
+casa do&nbsp;Bandeira.--Falham os carregadores.--O meu juizo.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<br>
+
+<br>
+
+No dia 1^{o.} de Janeiro de 1878, deix&aacute;mos Quillengues,
+tendo
+ali feito provis&atilde;o de v&igrave;veres, e comprado
+bastante gado
+para matar, bois e carneiros. O chefe, Tenente Roza, acompanhou-nos uns
+7 kil&ograve;metros, e voltou &aacute; sua residencia, seguindo
+n&oacute;s sempre a S.E., at&eacute; &aacute;s faldas da
+serra de
+Quillengues, onde acamp&aacute;mos junto &aacute;
+povoa&ccedil;&atilde;o do Sec&uacute;lo Unguri.
+T&igrave;nhamos um
+companheiro de viagem, que em Quillengues nos tinha pedido, o
+deix&agrave;ssemos ir at&eacute; ao Bih&eacute; em nossa
+companhia. Era
+elle Ver&igrave;ssimo Gon&ccedil;alves, filho de um
+conh&ecirc;cido
+sertanejo do Bih&eacute;, m&ocirc;rto havia pouco, que em
+Quillengues
+era empregado de um ex-criado de seu pai. Este rapaz, mulato e de
+mesquinha educa&ccedil;&atilde;o, como era de c&ocirc;rpo
+acanhado,
+cheio de vicios, dos proprios a tal gente, tinha alguma cousa de bom, e
+era intelligente.<br>
+
+<br>
+
+Tem de figurar no correr d'esta narrativa, e por isso o menciono mais
+particularmente.<br>
+
+<br>
+
+Era acanhado e t&igrave;mido, mas n&atilde;o covarde, e debaixo
+de uma
+apparencia fraca, possuia uma forte organiza&ccedil;&atilde;o e
+m&ugrave;sculos de ferro. Sab&iacute;a apenas ler e escrever,
+mas era
+um soffrivel atirador de segunda ordem, e manhoso ca&ccedil;ador.<br>
+
+<br>
+
+Durante a demora em Quillengues, consegui domesticar dois dos jumentos,
+que n'esta n&ocirc;va jornada j&aacute; me serv&iacute;ram
+de
+cavalgaduras.<br>
+
+<br>
+
+No seguinte dia, logo &aacute; sa&iacute;da,
+come&ccedil;&aacute;mos a
+ascens&atilde;o da serra de Quillengues, que n'esse ponto se chama
+Serra Quiss&egrave;cua.<br>
+
+<br>
+
+A subida foi diffic&igrave;lima, e durante tr&ecirc;s horas
+lut&aacute;mos com as agruras da montanha, elevando-nos a 1740
+metros
+do nivel do mar, ou 836 acima do planalto que termina em Quillengues.<br>
+
+<br>
+
+Em um desfiladeiro da serra pass&aacute;mos um pequeno ribeiro, que
+os ind&igrave;genas chamam&nbsp;<span style="font-style: italic;">Obaba-tenda</span>, o que
+quer dizer &agrave;gua fria, fomos acampar na margem de outro
+chamado&nbsp;<span style="font-style: italic;">Cuverai</span>,
+affluente do C&uacute;e. Estes<br>
+
+dois ribeiros sam permanentes, e sam &agrave;guas que correm ao
+Cunene.<br>
+
+<br>
+
+O terreno contin&uacute;a gran&igrave;tico, mas a
+vegeta&ccedil;&atilde;o muda completamente de aspecto--de certo
+devido
+isto &aacute; altitude. O baobab desappareceu, e j&aacute; se
+encontram
+fetos &aacute; sombra das inn&ugrave;meras e variadas acacias
+que
+pov&ocirc;am as matas. A fl&ocirc;ra apresenta riqueza maior em
+plantas
+herb&agrave;ceas, e nas gram&igrave;neas s&ocirc;bre tudo
+nota-se uma
+f&ocirc;r&ccedil;a de vegeta&ccedil;&atilde;o
+vigorosissima.<br>
+
+<br>
+
+Notei que atravess&aacute;mos regi&otilde;es onde se
+n&atilde;o
+encontra uma s&oacute; ave, e de repente entra-se em zonas onde
+milhares de passarinhos fazem uma chiada enorme. Ca&ccedil;a vi ali
+pouca, mas os rastos anunciam havel-a.<br>
+
+<br>
+
+Na noite do seguinte dia aconteceu-nos uma aventura curiosa.
+Est&agrave;vamos acampados junto do ribeiro Quic&uacute;e, que
+corre a
+S.E., em leito gran&igrave;tico, e vai, provavelmente, engrossar o
+C&uacute;e; quando sent&iacute;mos a cadella do Capello
+ladrando e
+arremettendo furiosa, contra alguma cousa que se aproximava da barraca.
+Ao mesmo tempo sent&igrave;amos um forte ruminar perto de
+n&oacute;s; o
+que nos fez suppor, que os jumentos se tinham soltado e pastavam dentro
+do campo, que era cercado de abatises espinhosas. Fal&aacute;mos
+&aacute; cadella e adormec&eacute;mos. Ao alvorescer
+ouv&iacute;mos
+grande rumor no campo, e saindo logo, soub&eacute;mos, que os
+pr&ecirc;tos, que ao principio tinham julgado, como n&oacute;s,
+que os
+burros andavam &aacute; s&ocirc;lta, perceb&ecirc;ram
+depois que se
+enganavam, e que um animal estranho se tinha introduzido no campo.
+F&ocirc;ra effectiva menta um b&ugrave;falo enorme que nos dera
+a honra
+da sua companhia durante a noite.<br>
+
+<br>
+
+O caso era notavel e de explica&ccedil;&atilde;o difficil, a
+n&atilde;o
+serem os repetidos rugidos dos le&otilde;es que se tinham ouvido;
+fazendo com que o b&ugrave;falo viesse buscar guarida entre
+n&oacute;s.<br>
+
+<br>
+
+No seguinte dia fomos acampar pr&ograve;ximo da
+povoa&ccedil;&atilde;o
+de Ng&oacute;la, e eu fiz logo annunciar a minha visita ao Sova.<br>
+
+<br>
+
+Depois do alm&ocirc;&ccedil;o, fui &aacute; libata
+procural-o. <br>
+
+<br>
+
+Fiz-me acompanhar dos meus muleques, levando uma cadeira para mim, e
+dois guardas&oacute;es.<br>
+
+<br>
+
+O Sova appareceu-me logo, armado de dois cacetes e uma azagaia.<br>
+
+<br>
+
+Trajava tanga comprida de panno da costa, e s&ocirc;bre ella uma
+pelle
+de leopardo. Tinha o peito n&uacute; pendendo-lhe do
+pesc&ocirc;&ccedil;o um sem-n&ugrave;mero de amuletos.
+Recebeu-me
+f&ocirc;ra da sua barraca, por um sol abrasador; e eu offereci-lhe
+um
+guardasol, que levava para isso, de panninho encarnado; favor a que
+elle se mostrou muito grato.<br>
+
+<br>
+
+Disse-lhe o que andava por ali a fazer, cousa que elle n&atilde;o
+percebeu muito bem; comprehendendo com-tudo perfeitamente, que lhe
+offerecia um pequeno barril de p&ograve;lvora, 50 pederneiras e uma
+duzia de guizos de lat&atilde;o, sem nada lhe pedir em troca--o que
+s&ocirc;bre modo o espantou.<br>
+
+<br>
+
+Convidei-o a vir ao nosso campo ver os meus companheiros; e elle
+accedeu a isso acompanhando-me; coisa muito de notar, que os chefes
+ind&igrave;genas sam desconfiados.<br>
+
+<br>
+
+Dizendo-lhe, que mandasse uma vasilha em que eu lhe podesse dar
+&agrave;gua-ardente, foi elle buscar uma botija de litro.
+Mostrei-me
+admirado de que um chefe quizesse t&atilde;o pouco, e convidei-o a
+procurar vasilha maior. Mandou ent&atilde;o buscar uma
+caba&ccedil;a
+que levaria o duplo da botija, e eu pedi-lhe que juntasse outra igual.<br>
+
+<br>
+
+O R&egrave;gulo n&atilde;o podia dissimular a sua
+admira&ccedil;&atilde;o p&ecirc;la minha generosidade.<br>
+
+<br>
+
+Part&iacute;mos a p&eacute;, acompanhados por tr&ecirc;s
+das
+mulh&eacute;res, as filhas, e muito p&ocirc;vo, t&ocirc;dos
+sem armas,
+para me mostrarem a confian&ccedil;a que eu lhes havia inspirado.<br>
+
+<br>
+
+Cheg&aacute;mos ao campo quando Capello fazia
+observa&ccedil;&otilde;es
+meteorol&ograve;gicas, e o Sova ficou admirado diante dos
+therm&ograve;metros e dos bar&ograve;metros.<br>
+
+<br>
+
+O Ivens veio logo para junto de n&oacute;s, e depois de grandes
+comprimentos, mostr&aacute;mos ao R&egrave;gulo as armas de
+Snider e de
+Winchester, que lhe caus&aacute;ram verdadeiro assombro.<br>
+
+<br>
+
+Este&nbsp;<span style="font-style: italic;">Chimbarandongo</span>,
+que tal &eacute; o nome do sova de Ng&oacute;la, &eacute;
+intelligente, e sabe viver com o seu p&ocirc;vo.<br>
+
+<br>
+
+Offereceu-nos um boi, e tendo eu pedido licen&ccedil;a para o
+matar,
+por haver necessidade de provis&otilde;es, consentio n'isso,
+pedindo-me
+para lhe atirar eu.<br>
+
+<br>
+
+O boi estava estranho, e fugio para o mato, a uns oitenta metros de
+n&oacute;s. Indiquei ao Sova o sitio em que o ia ferir, e disparei.
+O
+boi cahio.<br>
+
+<br>
+
+Chimbarandongo foi ver o animal, e attentando na ferida, da qual corria
+o sangue, aberta entre os olhos, no sitio que eu indicava, ficou
+t&atilde;o maravilhado, que me deu repetidos abra&ccedil;os no
+meio do
+seu enthusiasmo.<br>
+
+<br>
+
+P&ecirc;las 4 horas, formou-se s&ocirc;bre n&oacute;s
+tempestade
+violenta, que se desfez em raios e copiosa chuva, durando
+at&eacute;
+&aacute;s 6 horas.<br>
+
+<br>
+
+O Sova e as mulh&eacute;res recolh&eacute;ram-se &aacute;
+nossa barraca, assim como alguns dos macotas.<br>
+
+<br>
+
+Chimbarandongo fez um discurso aos seus macotas, tendente a
+provar-lhes, que n&oacute;s t&igrave;nhamos trazido a chuva, e
+com ella
+um grande beneficio ao paiz, ressequido p&ecirc;los calores do
+est&iacute;o.<br>
+
+<br>
+
+Tent&aacute;mos explicar-lhe, que n&atilde;o
+t&igrave;nhamos t&atilde;o
+grandes poderes, e que s&oacute; Deus governava nos grandes
+phen&ograve;menos da natureza; levando o Ivens a quest&atilde;o
+a ponto
+de lhe explicar como e porque chov&iacute;a. Ouvindo isto, fez o
+Sova
+sair os seus macotas e mais p&ocirc;vo que escutava a
+li&ccedil;&atilde;o meteorol&ograve;gica.<br>
+
+<br>
+
+Depois d'isso, tendo-se de novo reunido o p&ocirc;vo, elle disse,
+que
+se deixasse de chover, indagaria qual dos seus s&ugrave;bditos
+tirara a
+chuva, e o castigaria de morte. N&ocirc;vo discurso da nossa parte
+contra a pena capital; e n&ocirc;va ordem de despejo da parte
+d'elle,
+que, a pesar do meio embriagado, tinha tino bastante para
+n&atilde;o
+comprehender que as nossas theor&iacute;as n&atilde;o quadravam
+ao seu
+systema governativo.<br>
+
+<br>
+
+Ao anoitecer retirou-se do modo o mais c&ograve;mico, indo acavallo
+em
+um dos seus conselheiros, que levava as m&atilde;os nos hombros de
+outro; e como estivessem t&ocirc;dos embriagados, a cada passo
+perdiam
+o equilibrio, amea&ccedil;ando com a queda partir a
+cab&ecirc;&ccedil;a
+ao seu soberano.<br>
+
+<br>
+
+Este r&egrave;gulo &eacute; sensato e homem de bom juizo.
+N&atilde;o
+acredita em feiti&ccedil;os; nem acreditava que n&oacute;s lhe
+tivessemos trazido a chuva; mas convem-lhe apparentar que o
+cr&ecirc;,
+para n&atilde;o perder o prestigio entre os seus, que s&oacute;
+assim
+querem ser governados.<br>
+
+<br>
+
+No seguinte dia, vindo elle despedir-se de n&oacute;s, me disse,
+que a
+sua pol&igrave;tica era ser amigo dos brancos; pois que das
+b&ocirc;as
+rela&ccedil;&otilde;es com elles provinha a roupa com que se
+cobria, e
+as armas e a p&ograve;lvora com que continha em respeito os seus
+inimigos.<br>
+
+<br>
+
+"Sem os brancos," me disse elle, "n&oacute;s somos mais pobres que
+os
+animaes; porque a elles temos de tirar as pelles para nos cobrirmos; e
+sam bem loucos os pr&ecirc;tos que n&atilde;o cultivam a
+amizade dos
+filhos do Puto."<br>
+
+<br>
+
+A libata ou povoa&ccedil;&atilde;o de Ng&oacute;la
+&eacute; fortemente
+defendida por uma dupla palissada feita com arte, que tem
+at&eacute;
+uma das faces dentada para cruzamento de fogos. &Eacute;
+t&atilde;o
+vasta que p&ocirc;de conter t&ocirc;da a
+povoa&ccedil;&atilde;o do
+paiz, que ali se recolhe, em caso de guerra, com seus rebanhos. O
+ribeiro Cut&oacute;ta corre dentro d'ella, fazendo que possa
+resistir a
+longo assedio sem receiar a s&ecirc;de.<br>
+
+<br>
+
+Deixando Ng&oacute;la, caminh&aacute;mos por duas horas a N.E.,
+e
+encontr&aacute;mos o C&uacute;e, o maior dos rios, que corre
+entre
+Quillengues e Caconda. No sitio em que tent&aacute;mos a passagem
+tinha
+elle 15 metros de largo por 3 a 4 de fundo, n&atilde;o dando por
+isso
+vao. A chuva torrencial da v&egrave;spera, augmentando-lhe o volume
+d'&agrave;gua, tinha tornado impetuosa a corrente.<br>
+
+<br>
+
+Uma ponte de finos troncos de arbustos, offerecia uma perigosa difficil
+passagem aos homens carregados; mas os b&ocirc;is e os jumentos
+s&oacute; a nado podiam passar. Depois de grande trabalho, os
+b&ocirc;is nad&aacute;ram para a outra margem; os burros porem
+recus&aacute;ram seguil-os. <br>
+
+<br>
+
+S&oacute; a grande custo conseguio o pr&ecirc;to Barros,
+ajudado de
+mais dois, fazel-os nadar, nadando ao seu lado, e obrigando-os a tomar
+p&eacute; na outra margem; o que era perigoso, que ali abundam
+crocodilos.<br>
+
+<br>
+
+Depois de uma hora de trabalho, avan&ccedil;&aacute;mos para
+E.N.E.,
+encontrando o ribeiro Usserem, d'ali marquei, a N.N.O., o monte Uba,
+onde assentam as povoa&ccedil;&otilde;es de Caluqueime.
+Pass&aacute;mos
+depois o rio Cacuroc&aacute;e, que corre a S.S.E. ao
+C&uacute;e; e meia
+hora depois o rio Quissengo, que corre a S.E., e vai affluir ao
+C&uacute;e; acampando na margem d'este &ugrave;ltimo,
+p&ecirc;las 4
+horas da tarde, junto da povoa&ccedil;&atilde;o de Catonga,
+onde tem a
+sua libata um tal Roque Teixeira.<br>
+
+<br>
+
+A marcha foi de 30 kil&ograve;metros, o que muito nos fatigou. <br>
+
+<br>
+
+O caminho foi sempre por planicie, onde a altitude var&iacute;a
+apenas entre 1450 e 1500 metros.<br>
+
+<br>
+
+A vegeta&ccedil;&atilde;o arb&ograve;rea apresenta um certo
+rachitismo;
+mas a herb&agrave;cea contin&uacute;a a ser variada e rica.<br>
+
+<br>
+
+No dia 6, segu&iacute;mos sempre a N.E., passando logo o
+C&uacute;e, em
+ponte feita p&ecirc;lo gent&iacute;o. Este ribeiro tem 5 metros
+de
+largo, por 1 de fundo, e corre a S.E. ao Cat&aacute;pi.
+Alcan&ccedil;&aacute;mos o Co&uacute;ngi ou
+Cat&aacute;pi, &aacute;s 11
+e meia, e acamp&aacute;mos na sua margem esqu&ecirc;rda. O
+Co&uacute;nge, que a montante toma o nome de Cat&aacute;pi,
+tinha ali
+10 metros de largo por um de fundo, com violenta corrente, e
+dirigindo-se a S.E. vai lan&ccedil;ar-se no Cunene
+pr&ograve;ximo do
+Luc&eacute;que.<br>
+
+<br>
+
+N'esse dia matei uma grande gazella (<span style="font-style: italic;">Cervicapra bohor</span>),
+a maior do g&egrave;nero que vi em t&ocirc;da a minha viagem,
+t&atilde;o grande que f&ocirc;ram precisos 4 homens para a
+transportar
+ao campo.<br>
+
+<br>
+
+Ao fechar da noite, a cadella ladrou muito, arremettendo com o mato;
+verificando n&oacute;s ser contra as hyenas que nos rondavam as
+barracas, e por noite f&ocirc;ra tiv&eacute;mos
+m&ugrave;sica, em um
+du&ecirc;to de baixo e contra-baixo, pela voz clara de um
+le&atilde;o,
+na mata, e p&ecirc;la ronquenha de um hippop&ograve;tamo, no
+rio.<br>
+
+<br>
+
+O aspecto do paiz contin&uacute;a o mesmo. Nas lombadas matas
+rach&igrave;ticas, de uma vegeta&ccedil;&atilde;o que mais
+se
+p&ocirc;de chamar arborescente do que arb&ograve;rea,
+p&ecirc;la maior
+parte. Leguminosas, nas depress&otilde;es; vastas clareiras,
+verdadeiros prados de gram&igrave;neas diversas, por entre as quaes
+serpea um ribeiro ou um rio. O terreno contin&uacute;a
+gran&igrave;tico, apresentando as rochas aspectos variados; mas
+sendo
+pouco abundantes em mica. <br>
+
+<br>
+
+Continu&aacute;mos caminho ao N.E., passando junto da libata de
+Cuassequera, fortificada entre enormes roch&ecirc;dos
+gran&igrave;ticos, e rodeada de gigantescos syc&ograve;moros,
+produzindo um aspecto muito pintoresco. Depois de passar o ribeiro
+Loss&oacute;la, que corre ao S. para o Catapi, fomos acampar na
+margem
+do Nondumba, riacho que, como o antecedente, afflue ao
+Cat&aacute;pi,
+mas correndo ao N.<br>
+
+<br>
+
+O planalto j&aacute; &eacute; mais elevado, e
+caminh&agrave;vamos ent&atilde;o n'uma altitude de 1600 metros.<br>
+
+<br>
+
+D'esse ponto segu&iacute;mos a Caconda, tendo atravessado
+tr&ecirc;s
+ribeiros, que correm a N.N.O. ao Catapi, e sam, por sua ordem, o
+Chitequi, o Jamba, e o Upanga; encontrando em seguida o Catapi, que
+corre a O.S.O., e que j&aacute; no dia 6 t&igrave;nhamos
+atravessado
+com o nome de Co&uacute;nge.<br>
+
+<br>
+
+No ponto em que o pass&aacute;mos tem 10 metros de largo por 1 de
+fundo, e pequena corrente.<br>
+
+<br>
+
+Algumas das clareiras que n'esse dia atravess&aacute;mos eram
+cobertas de junco, pantanosas e de difficil accesso. <br>
+
+<br>
+
+A passagem do rio levou tempo, e os meus companheiros
+preced&ecirc;ram-me na chegada a Caconda.<br>
+
+<br>
+
+Alcancei depois d'elles a fortaleza, e fui recebido &aacute; porta
+p&ecirc;lo chefe interino, mulato e rico proprietario do
+cons&ecirc;lho, sargento da guerra pr&ecirc;ta; o qual me
+disse, que o
+chefe tinha ido para Benguella, deixando-lhe a&nbsp;<span style="font-style: italic;">espiga</span> de nos
+receber (textuaes palavras).<br>
+
+<br>
+
+Depois de me ter dito esta amabilidade, o S^{nr.} Matheus convidou-me a
+entrar na fortaleza. Logo que passei o recinto das
+fortifica&ccedil;&otilde;es, vi entre os meus companheiros um
+homem de
+estatura mais que mediana, aspecto macilento, testa ampla e elevada,
+olhar pouco fixo, trajando casaca e gravata branca, que o Capello me
+apresentou, dizendo-me, "Aqui tem Jos&eacute; d'Anchieta." Estava
+diante de mim o primeiro explorador zoologista d'&Agrave;frica,
+esse
+homem que tinha passado 11 annos nos sert&otilde;es d'Angola,
+Benguella, e Moss&agrave;medes, enchendo as vitrinas do museu de
+Lisboa
+com valiosissimos exemplares. Tive depois occasi&atilde;o de
+presenciar
+o seu viver, que &eacute; digno de ser descrito.<br>
+
+<br>
+
+Anchieta estava estabelecido nas ruinas de uma igreja, a 200 metros da
+fortaleza.<br>
+
+<br>
+
+A casa no interior era em forma de T, e t&ocirc;da cercada de
+estantes,
+onde haviam, de mistura, livros, instrumentos mathem&agrave;ticos,
+m&agrave;chinas photogr&agrave;phicas, telescopios,
+microscopios,
+retortas, p&agrave;ssaros de mil c&ocirc;res, vidros variados,
+lou&ccedil;a, p&atilde;o, frascos cheios de l&igrave;quidos
+multicolores, estojos de cirurgia, montes de plantas, medicamentos,
+cartuxeiras, roupa, etc. A um canto, um feixe de espingardas e
+carabinas de differentes systemas. Junto &aacute; casa, um cercado,
+aprisionando umas vacas e uns porcos. &Aacute; porta algumas
+pr&ecirc;tas e pr&ecirc;tos esfolando p&agrave;ssaros e
+preparando
+mam&igrave;feros; e d'entro, a uma grande mesa, Anchieta, sentado
+em
+velha poltrona, que attesta longos servi&ccedil;os.<br>
+
+<br>
+
+S&ocirc;bre a mesa &eacute; impossivel dizer o que ha. <br>
+
+<br>
+
+Pin&ccedil;as, escalpellos e microscopios ha muitos.<br>
+
+<br>
+
+De um lado, um monte de bocados de p&agrave;ssaros mostra que elle
+acabou de se entregar ao estudo da anatomia comparada. Em frente
+d'elle, uma fl&ocirc;r cuidadosamente dissecada, attesta que elle
+acaba
+de ler na disposi&ccedil;&atilde;o das suas p&egrave;talas,
+no
+n&ugrave;mero de seus estames, na forma do seu
+recept&agrave;culo, no
+arranjo das sementes, no pistilo, os nomes da familia, do
+g&egrave;nero
+e da especie em que a d&ecirc;ve collocar.<br>
+
+<br>
+
+De escalpello na m&atilde;o e microscopio no &ocirc;lho, passa
+elle as
+horas que p&ocirc;de tirar ao trabalho de colleccionador, e
+&eacute;
+j&aacute; a planta, j&aacute; a ave, o ponto de mira do seu
+estudo.<br>
+
+<br>
+
+A momentos, &eacute; interrompido por um doente que chega, a quem
+elle
+dispensa os cuidados de m&egrave;dico, e ao mesmo tempo os remedios
+da
+cura, quando lhe n&atilde;o d&aacute; tambem a gallinha da
+dieta.<br>
+
+<br>
+
+Anchieta professa um respeito sem limites ao Doutor Bocage, director do
+Museu Zool&ograve;gico de Lisboa, e fala d'elle com essa respeitosa
+amizade que &eacute; difficil encontrar onde n&atilde;o existem
+estreitos la&ccedil;os do mesmo sangue.<br>
+
+<br>
+
+Isso comprehende-se. Anchieta, que tem a consciencia dos
+servi&ccedil;os que tem prestado &aacute;s sciencias
+zool&ograve;gicas,
+conh&ecirc;ce que tem no D^{or.} Bocage o homem que lhe faz
+justi&ccedil;a, e sabe aquilatar esses servi&ccedil;os; o homem
+que
+completa na Europa o trabalho que elle come&ccedil;a em
+&Agrave;frica;
+o homem, emfim, que sabe quantas fadigas, quantas febres, quantos
+inc&ograve;mmodos cust&aacute;ram cada um d'esses exemplares,
+que
+descreve, descrevendo com elles n&ocirc;vas especies.<br>
+
+<br>
+
+Jos&eacute; d'Anchieta &eacute; um d'esses nomes que merece o
+respeito
+dos homens de sciencia, e o respeito dos Portuguezes seus compatriotas;
+porque, trabalhador infatigavel, tem sabido honrar o seu paiz,
+conservando-se elle mesmo honrado e pobre, no meio do vicio e da
+desmoraliza&ccedil;&atilde;o que lavra nas terras em que vive,
+e de que
+poderia tirar proveito se f&ocirc;sse menos escrupuloso.<br>
+
+<br>
+
+Basta de falar d'elle, que n&atilde;o ha elogios que lhe
+n&atilde;o
+caibam; falando mais alto do que eu as suas obras, e o seu nome, ligado
+para sempre aos seus trabalhos, que n&atilde;o morrem.<br>
+
+<br>
+
+Soub&eacute;mos que o Chefe Castro tinha sido exonerado do
+commando, e
+f&ocirc;ra nomeado outro official do ex&egrave;rcito de
+&Agrave;frica
+para o substituir.<br>
+
+<br>
+
+Dois dias depois da nossa chegada, cheg&aacute;ram tambem a Caconda
+o
+n&ocirc;vo chefe e o Alferes Castro, e por elles a nossa
+correspondencia da Europa, que lemos com avidez.<br>
+
+<br>
+
+Falei logo em carregadores, e o Alferes Castro promptificou-se a
+acompanhar-me a casa de Jos&eacute; Duarte Bandeira, o primeiro
+potentado de Caconda, onde me disse que se arranjariam, p&ecirc;la
+grande influencia de que dispunha o tal Bandeira.<br>
+
+<br>
+
+Part&iacute;mos para Vic&eacute;te no dia 13 de
+manh&atilde;, e n'esse
+mesmo dia o Ivens seguio para casa de Matheus, a fazer um
+reconhecimento ao Cunene, no logar da sua confluencia com o Quando. Eu
+tambem devia ir fazer uma visita ao mesmo rio para o sul.<br>
+
+<br>
+
+O Capello ficou em Caconda atacado por uma ligeira febre, e entregue
+aos cuidados de Anchieta. Segu&iacute; a S.S.E., passando logo os
+rios
+Secula-Binza, Catapi, e Ussongue, que afflue a leste, correndo a
+O.N.O., com 3 metros de largo por 1 de fundo, dando-lhe por isso grande
+contribui&ccedil;&atilde;o d'&agrave;gua.<br>
+
+<br>
+
+Depois de caminhar a S.E. umas 26 milhas, ch&ecirc;guei
+p&ecirc;la
+noite a Vic&eacute;te, libata fortificada entre rochas, no cume de
+um
+outeiro que domina vasta planicie.<br>
+
+<br>
+
+Fui recebido por Jos&eacute; Duarte Bandeira, que, depois de
+b&ocirc;a
+ceia, me proporcionou &ograve;ptima cama, de que bem precisava. <br>
+
+<br>
+
+Logo na manh&atilde; seguinte, o Alferes Castro falou nos
+carregadores,
+e Bandeira prontamente se offereceu para obter 120, que tantos nos eram
+precisos para seguirmos ao Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Mostrei o desejo de ir ao Cunene, e ficou decidido que
+part&igrave;ssemos no seguinte dia.<br>
+
+<br>
+
+Caminh&aacute;mos nove milhas a Leste, e encontr&aacute;mos o
+rio no Porto do Fende.<br>
+
+<br>
+
+Logo &aacute; chegada, matei um grande hippop&ograve;tamo, que
+t&ecirc;ve a imprudencia de vir resfolgar a meio rio ao alcance da
+minha carabina. Passei ali dois dias. O rio tem ahi 100 metros de largo
+por 6 a 7 de fundo, com uma corrente de 1 milha por hora. O seu eixo no
+Fende &eacute; N.O. a S.E. por espa&ccedil;o de 2 milhas, sendo
+a
+montante de N.E. a S.O., e ainda acima E.O. a jusante inclina-se para
+S.S.O. por 26 milhas, at&eacute; ao Luceque. Por v&ecirc;zes
+toma uma
+largura de 200 metros e mais.<br>
+
+<br>
+
+Abundam n'elle hippop&ograve;tamos e crocodilos.<br>
+
+<br>
+
+1 milha a jusante do Porto do Fende, ha uns r&agrave;pidos a que
+chamam
+Da Libata Grande; meia milha abaixo, outros, as Mupas de Canhacuto; e
+10 milhas mais a jusante, as cataractas de Quiverequete,
+&ugrave;ltimas
+que tem no seu curso superior; sendo depois navegavel at&eacute; ao
+Humbe.<br>
+
+<br>
+
+A margem direita &eacute;, nos pontos em que a visitei, montanhosa
+e
+coberta de mato virgem; &aacute; esqu&ecirc;rda, vasta
+planicie, de 4 a
+5 kil&ograve;metros de largo, que encosta ao sop&eacute; dos
+montes,
+que formam um pouco elevado systema, correndo N.S.; em cujas vertentes
+oeste assentam as povoa&ccedil;&otilde;es do Fende.<br>
+
+<br>
+
+P&ecirc;las 11 horas da noite do dia 15, formou-se sobre
+n&oacute;s uma
+tormenta, que despedio inn&ugrave;meras fa&iuml;scas e copiosa
+chuva,
+deixando-nos completamente molhados.<br>
+
+<br>
+
+A 17 volt&aacute;mos para Caconda, com a promessa de termos os
+carregadores dentro de 8 dias; tendo de mandar, logo no dia seguinte,
+um barril de &agrave;gua-ardente para a&nbsp;<span style="font-style: italic;">convoca&ccedil;&atilde;o</span>.
+Nesta parte de &Agrave;frica, a &agrave;gua-ardente desempenha
+para com
+os homens o mesmo pap&eacute;l, que na Europa o azeite para com as
+m&agrave;chinas. Sem ella n&atilde;o se movem.<br>
+
+<br>
+
+O nosso hospedeiro, que bem nos regalou em sua casa,
+esqu&egrave;ceu-se
+de que t&igrave;nhamos a gastar o dia em jornada; e saindo
+n&oacute;s
+ao alvorecer, s&oacute; &aacute; noite
+alcan&ccedil;ar&igrave;amos
+Caconda. Part&iacute;mos com o alforje vazio, e p&ecirc;lo
+meio-dia
+j&aacute; o appetite degenerava em fome.<br>
+
+<br>
+
+Par&aacute;mos n'uma clareira, e eu disse ao Alferes Castro, que ia
+ver
+se matava ca&ccedil;a para comer; mas apenas avistei uma codorniz,
+que
+nos servio a ambos de alm&ocirc;&ccedil;o e jantar, cozinhada
+n'uma
+marmita de soldado. Confesso que j&aacute; tenho
+almo&ccedil;ado e
+jantado melhor do que n'esse dia.<br>
+
+<br>
+
+Os meus pr&ecirc;tos, vendo a minha avidez em roer os ossos da
+codorniz, que a cadella de balde devorou com os &ocirc;lhos,
+fazendo-me
+mil nega&ccedil;as com a cauda, d&eacute;ram-me uma raiz de
+mandioca,
+que partilhei com o Alferes. <br>
+
+<br>
+
+Ch&ecirc;guei, &aacute; noite, a Caconda, e depois de uma
+b&ocirc;a
+ceia, dei f&eacute; que Ivens ainda n&atilde;o tinha chegado, e
+que
+Capello j&aacute; estava bom.<br>
+
+<br>
+
+O Ivens chegou a 19, e n'esse dia mand&aacute;mos o tal barril de
+&agrave;gua-ardente ao Bandeira, pedindo-lhe a maior urgencia na
+convoca&ccedil;&atilde;o dos carregadores.<br>
+
+<br>
+
+No dia 23, cheg&aacute;ram de Benguella uns artigos que tinham sido
+requisitados; e para mim um presente de 6 latas de biscoito, que me
+offerecia Antonio Ferreira Marques.<br>
+
+<br>
+
+N'esse dia despachei outro portador a Vic&eacute;te, pedindo ao
+Bandeira os carregadores, que j&aacute; se demoravam.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o appareciam os homens promettidos, e eu pedi ao chefe
+para
+que f&ocirc;sse a Vic&eacute;te, e usando da sua influencia
+como
+autoridade, visse se dava pressa ao Bandeira em nos mandar a gente
+precisa.<br>
+
+<br>
+
+O chefe partio, e escreveu-me logo, dizendo j&aacute; estarem
+promptos
+61 homens, e em breve haver os mais. Levara elle logo fazenda para os
+pagamentos, que ali s&oacute; querem algod&atilde;o branco, mas
+disse
+serem precisas mais 50 pe&ccedil;as, que n&oacute;s
+n&atilde;o
+t&igrave;nhamos, mas que o Bandeira ficou de emprestar.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, n&ocirc;va carta do chefe, dizendo, que os
+carregadores iam ser pagos e viriam logo; dois dias depois, terceira
+carta, dizendo, j&aacute; l&aacute; ter 94 homens; e
+finalmente, no dia
+5 de Fevereiro, outra carta,<br>
+
+dizendo, que n&atilde;o havia nem um carregador, e que nenhum se
+arranjaria. <br>
+
+<br>
+
+Imagine-se o nosso desapontamento.<br>
+
+<br>
+
+Eu a esse tempo ainda n&atilde;o tinha formulado e arraigado no meu
+esp&igrave;rito um principio, que mais tarde me sugerio a
+experiencia,
+e que entrou depois, de parelhas com a carabina d'El-Rei, no feliz
+resultado da minha viagem. <br>
+
+<br>
+
+O principio formulado e depois profundamente arraigado no meu
+esp&igrave;rito, traduzio-se n'esta senten&ccedil;a:--<br>
+
+<br>
+
+"Desconfiar, no sert&atilde;o d'&Agrave;frica, de tudo e de
+t&ocirc;dos, at&eacute; que provas repetidas e irrefutaveis nos
+permittam confiar um pouco em alguma cousa ou alguem."<br>
+
+<br>
+
+Ora, para mim, essas provas sam t&atilde;o difficeis de se
+apreciarem,
+como o sam as de um amor eterno, ou as da s&ograve;lida fortuna do
+commerciante, embrulhado em transac&ccedil;&otilde;es de vulto.<br>
+
+<br>
+
+Creio que, ao tomarmos conhecimento da carta do chefe, cada um de
+n&oacute;s propoz alvitre qual d'elles mais disparatado.<br>
+
+<br>
+
+O desapontamento era grande. Socegados os esp&igrave;ritos,
+decid&iacute;mos ir eu procurar os carregadores f&ocirc;sse
+onde
+f&ocirc;sse, e se longe ou perto os n&atilde;o podesse
+encontrar,
+seguirmos para o Bih&eacute;, e mandarmos d'ali buscar as cargas.
+Julg&agrave;vamos isso possivel.<br>
+
+<br>
+
+O chefe voltou de Vic&eacute;te, e n&atilde;o me deu
+explica&ccedil;&atilde;o plausivel do facto. <br>
+
+<br>
+
+Acord&aacute;mos em ir eu ao Huambo, a ver se do Soba d'ali obtinha
+carregadores; porque, n&atilde;o s&oacute; o Alferes Castro,
+como o
+chefe, e Anchieta mesmo, nos mostravam a impossibilidade de os ajustar
+mais perto.<br>
+
+<br>
+
+Pouco antes, Anchieta tinha encontrado grandes embara&ccedil;os
+para
+fazer uma remessa de productos zool&ograve;gicos para Benguella, o
+que
+era relativamente mais facil.<br>
+
+<br>
+
+O que nos estava acontecendo &eacute; digno de notar-se.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o s&oacute; Bandeira, mas um tal Mathias, o sargento
+Matheus e
+outros, enviam grandes caravanas a sert&otilde;es
+long&igrave;nquos;
+&iexcl;e todos elles n&atilde;o pod&eacute;ram obter um
+s&oacute;
+carregador para n&oacute;s!<br>
+
+<br>
+
+Eu come&ccedil;ava de antever um prop&ograve;sito firme de nos
+embara&ccedil;arem o passo, e mal cuidava ent&atilde;o que esse
+prop&ograve;sito f&ocirc;sse t&atilde;o longe como
+infelizmente tive
+occasi&atilde;o de experimentar depois.<br>
+
+<br>
+
+O correr d'esta narrativa mostrar&aacute;, quam habilmente me
+f&ocirc;ram levantados obst&agrave;culos, que s&oacute; uma
+decidida
+protec&ccedil;&atilde;o de Deos me fez vencer.<br>
+
+<br>
+
+Deixemos este assumpto por enquanto, e antes que contin&uacute;e
+com a
+narra&ccedil;&atilde;o das minhas aventuras, que
+come&ccedil;am aqui a
+tomar um caracter mais extraordinario, cabe-me dizer duas palavras a
+respeito de Caconda.<br>
+
+<br>
+
+A fortaleza de Caconda, o ponto mais interior onde h&ocirc;je no
+districto de Benguella tremula a bandeira Portugueza, &eacute; um
+quadrado de 100 metros, cercado de um profundo fosso e de um parapeito,
+onde aqui e &agrave;l&eacute;m se p&ocirc;dem ver as linhas
+distinctas
+de uma fortifica&ccedil;&atilde;o passageira, construida
+outrora com
+arte. Uma palissada forma segunda fortifica&ccedil;&atilde;o no
+interior, resguardando umas casas arruinadas, que f&ocirc;ram
+habita&ccedil;&atilde;o do chefe, quart&egrave;is e paiol.<br>
+
+<br>
+
+Algumas b&ocirc;as pe&ccedil;as de bronze, montadas a barbete,
+deixam
+ver por s&ocirc;bre o plano de tiro, deformado p&ecirc;lo
+tempo, as
+suas b&ocirc;cas verde-negras e oxidadas.<br>
+
+<br>
+
+A 200 metros ao Sul da fortaleza, as ruinas de uma igreja.<br>
+
+<br>
+
+Ao norte, uma reuni&atilde;o de pequenas cubatas, morada dos
+soldados.<br>
+
+<br>
+
+O paiz &eacute; agradavel, e sem ser, como se pertende, isento de
+febres, &eacute; certo que ellas ali sam mais benignas do que em
+outros
+pontos. A povoa&ccedil;&atilde;o &eacute; pouquissima, e
+tem-se
+retirado muito da fortaleza.<br>
+
+<br>
+
+O solo &eacute; ub&egrave;rrimo, e muitas plantas
+Europ&ecirc;as
+facilmente se aclimam ali, produzindo espantosamente. No trigo,
+feij&atilde;o e batata vi eu isso, em pequenissimas
+planta&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+O ribeiro Secula-Binza &eacute; uma fonte de &agrave;gua
+cristallina correndo em leito de granito.<br>
+
+<br>
+
+Junto da fortaleza ha poucas &agrave;rvores; que as necessidades
+dos
+habitantes t[~e]m despovoado as matas que d&ecirc;vem ter existido
+outrora, como ainda h&ocirc;je existem mais longe.<br>
+
+<br>
+
+O commercio &eacute; pouco, e esse mesmo &eacute; feito muito
+longe no interior. <br>
+
+<br>
+
+A mesma p&eacute;gada de decadencia que se nos revela em
+Quillengues, &eacute; ainda mais patente aqui.<br>
+
+<br>
+
+A importancia de Caconda &eacute; igual, sen&atilde;o superior,
+&aacute; de Quillengues; mas tem menos seguran&ccedil;a ainda
+para o
+commercio; que o caminho de Benguella &eacute; infestado de
+salteadores.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;"><a name="Cap.V"></a>CAP&Igrave;TULO V.</span><br>
+
+</h2>
+
+<h3>VINTE DIAS DE AGONIA.</h3>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<span style="font-weight: bold;">Parto de Caconda--O sova
+Quipembe--Quingolo e o sova
+C&aacute;imbo--40&nbsp;carregadores--Febre--O Huambo, o sova
+Bilombo e
+seu filho&nbsp;Cap&ocirc;co--80 carregadores--Cartas e
+noticias--Quasi
+perdido!--Sigo&nbsp;avante--Grave quest&atilde;o no Chaca
+Quimbamba--Os
+rios Cal&aacute;e,&nbsp;Canhungamua e Cunene--N&ocirc;va e
+s&eacute;ria
+quest&atilde;o no Sambo--O&nbsp;Cubango--Chuvas e
+temporaes--Grave
+doen&ccedil;a--Uma aventura horrivel--O&nbsp;Bih&eacute;
+finalmente!</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<br>
+
+<br>
+
+Parti de Caconda a 8 de Fevereiro de 1878, levando em minha companhia
+10 homens de Benguella, o meu muleque Pepeca, Verissimo
+Gon&ccedil;alves, de quem j&aacute; falei, e o chefe de
+Caconda, o
+Tenente Aguiar, que quiz por f&ocirc;r&ccedil;a acompanhar-me
+n'esta
+expedi&ccedil;&atilde;o, que tinha por &ugrave;nico fim o
+arranjar
+carregadores; querendo mostrar assim a sua b&ocirc;a vontade em nos
+auxiliar, e que era estranho aos acontecimentos de Caconda.<br>
+
+<br>
+
+Cumpre-me dizer, que eu nunca duvidei da sinceridade do Tenente Aguiar;
+porque a esse tempo n&atilde;o tinha ainda arreigado no meu
+esp&igrave;rito o principio que formulei no cap&igrave;tulo
+anterior, e
+h&ocirc;je mesmo creio que elle foi enganado como eu, apesar da sua
+muita experiencia dos sert&otilde;es avassallados.<br>
+
+<br>
+
+Depois de uma jornada de 17 kil&ograve;metros a N.E.,
+alcan&ccedil;ei a
+libata de Quipembe, onde fui recebido pelo sova Quimbundo, que me deu
+hospitalidade. Passei um pequeno ribeiro o Carungolo, junto a Caconda;
+e depois o Catapi, que ali corre a S.O.<br>
+
+<br>
+
+O sova mandou-me logo um porco pequeno, e n&atilde;o tendo eu
+podido
+comprar gallinhas, mandou-me uma. &Agrave; tarde veio &aacute;
+minha
+barraca, e depois de larga conversa, disse-me, que, ainda que os seus
+antepassados f&ocirc;ram sempre avassallados a El-Rei de Portugal,
+elle
+n&atilde;o o era; porque as muitas arbitrariedades commettidas
+p&ecirc;los chefes contra elle e os seus, tinham quebrado os
+compromissos antigos; que o&nbsp;<span style="font-style: italic;">Mueneputo</span>
+ja lhe n&atilde;o fazia justi&ccedil;a, e narrou-me muitos dos
+acontecimentos em que baseava as suas accusa&ccedil;&otilde;es
+aos
+chefes, falando com modo muito atilado.<br>
+
+<br>
+
+O chefe estava presente &aacute; entrevista, e n&atilde;o podia
+responder &aacute;s accusa&ccedil;&otilde;es dirigidas aos
+seus
+antecessores, t&atilde;o claramente eram ellas formuladas.<br>
+
+<br>
+
+Este velho era homem de tino, e falou-me na pol&igrave;tica dos
+Portuguezes em Caconda com um juizo difficil de encontrar em
+pr&ecirc;to bo&ccedil;al.<br>
+
+<br>
+
+Procurei desfazer a m&aacute; impress&atilde;o que o soba tinha
+dos
+chefes de Caconda, mas creio que nada alcancei n'esse sentido. Mais uma
+v&ecirc;z tive occasi&atilde;o de apreciar o mao resultado dos
+minguados estipendios que se conferem aos chefes dos
+cons&ecirc;lhos do
+interior; causa primordial da decadencia do nosso poderio e influencia
+ali.<br>
+
+<br>
+
+O sova de Quipembe &eacute; muito idoso, e soffre de gota, que lhe
+embara&ccedil;a o caminhar.<br>
+
+<br>
+
+A sua libata &eacute; vasta, bem fortificada e muito bem situada.
+Desde
+a minha chegada muitas dezenas de pr&ecirc;tos e pr&ecirc;tas
+pequenos
+olhavam pasmados para mim, fugindo em debandada ao menor movimento que
+eu fazia. Tentei fazer-lhes perder o m&ecirc;do que manifestavam,
+dando-lhes alguns guisos e bagos de coral; mas s&oacute; mui
+receosos
+se chegavam a mim, fugindo logo que recebiam o presente.<br>
+
+<br>
+
+F&ocirc;ram objecto de grande admira&ccedil;&atilde;o, os
+meus
+&ograve;culos e o meu cobertor, em que se desenhava um enorme
+le&atilde;o em fundo vermelho. <br>
+
+<br>
+
+No dia 9 deixei a libata, seguindo a N.E.; passei logo o ribeiro
+Utapaira, e uma hora depois alcan&ccedil;ava o Cuce, affluente do
+Quando. Este rio tem ali 3 metros de largo por 2 de fundo, dando
+difficil passagem, por serem as suas margens escarpadas e lodoso o
+fundo.<br>
+
+<br>
+
+A margem direita &eacute; montanha suave e pouco elevada, e a
+esqu&ecirc;rda campina de 1 kil&ograve;metro de largo. Passei
+ao sul da
+libata de Banja, magnificamente situada no t&ocirc;po de um
+outeiro, e
+depois de atravessar tr&ecirc;s ribeiros, o Canata e Chitando, que
+vam
+ao Cuce, e o Atuco ao Quando, alcancei este &ugrave;ltimo rio, um
+dos
+grandes affluentes do Cunene.<br>
+
+<br>
+
+O Quando corre ao Sul, com uma largura de 20 metros por dois a
+tr&ecirc;s de fundo.<br>
+
+<br>
+
+No sitio de Pessange, em que acampei, desapparece o rio por baixo de
+massas enormes de granito, para reapparecer um kil&ograve;metro a
+jusante. <br>
+
+<br>
+
+Este ponto offerece uma das mais bellas paisagens que tenho visto. As
+margens do rio, um poco elevadas, sam cobertas de luxuriante
+vegeta&ccedil;&atilde;o, onde as palmeiras elegantes se
+destacam do
+verde-negro dos gigantescos espinheiros. Os roch&ecirc;dos
+denegridos
+sobressaem aqui e &agrave;l&eacute;m por entre os tufos de
+mato,
+mostrando os cab&ecirc;&ccedil;os pu&iuml;dos do bater das
+tempestades.
+<br>
+
+<br>
+
+Nuvens de passarinhos chilram nas &aacute;rvores e
+inn&ugrave;meras
+r&ocirc;las esvoa&ccedil;am s&ocirc;bre os espinheiros. De
+quando em
+quando ouve-se o resfolgar dos hippop&ograve;tamos nos pegos do rio.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; a belleza selvagem em t&ocirc;da a sua
+for&ccedil;a, mas a par
+d'ella ha ali alguma cousa de horrivel, que sam venenosissimas
+serpentes que a cada passo se arrastam junto de n&oacute;s.<br>
+
+<br>
+
+Matei algumas, que me certific&aacute;ram os pr&ecirc;tos serem
+de mortal pe&ccedil;onha.<br>
+
+<br>
+
+Apparec&eacute;ram alguns Hyrax, e eu, internando-me no mato virgem
+da
+margem esqu&ecirc;rda, em sua busca, deparei com as ruinas de uma
+muralha de pedra, que p&ecirc;la extens&atilde;o parecem ter
+sido muro
+de povoa&ccedil;&atilde;o antiga. Foi este o primeiro dia na
+minha
+viagem em que de noite tive por tecto o ceo estrellado, mas por isso
+n&atilde;o foi menos profundo o meu sono. Ao alvorecer
+mat&aacute;mos,
+entre a minha cama e a do tenente Aguiar, uma cobra venenosa.<br>
+
+<br>
+
+Segu&iacute;mos a N.E., e para &agrave;l&eacute;m da
+povoa&ccedil;&atilde;o de Pessange, encontr&aacute;mos a de
+Canjongo,
+governada por um sec&uacute;lo, que nos offereceu capata e vendeu
+algumas gallinhas a tr&ocirc;co de panno de algod&atilde;o
+ordinario, e
+depois de passarmos o rio Droma, affluente do Calae, que corre a S.E.,
+descan&ccedil;&aacute;mos algumas horas na margem
+esqu&ecirc;rda, e
+caminhando depois a N.N.E., cheg&aacute;mos, &aacute;s 5 horas
+da
+tarde, &aacute; libata grande de Quingolo.<br>
+
+<br>
+
+O sova deu-me hospitalidade, e mandou logo comida para a minha gente. <br>
+
+<br>
+
+Sabendo o motivo da minha viagem, disse-me, que se a elle tivessemos
+recorrido com tempo, nos teria arranjado os carregadores, mas que os
+chefes de Caconda n&atilde;o faziam caso d'elle, e faziam mal
+n'isso;
+que ainda assim, me ia dar 40 carregadores que enviaria a Caconda, e
+f&ocirc;sse eu ver se obtinha os outros ao Huambo. <br>
+
+<br>
+
+Fui atacado de uma ligeira febre. No dia 11, logo de manh&atilde;,
+o
+sova veio visitar-me e confirmou o seu offerecimento de 40 homens, que
+me disse partiriam no seguinte dia para Caconda.<br>
+
+<br>
+
+Quiz fazer algumas compras de v&igrave;veres, mas nada me
+quis&eacute;ram vender; sabendo isto o sova Caimbo, enviou-me um
+grande
+porco. Eu fiz-lhe um presente de 3 pe&ccedil;as de riscado e duas
+garrafas de &agrave;gua-ardente. <br>
+
+<br>
+
+O chefe Aguiar decidio voltar a Caconda, no que me deu um verdadeiro
+prazer.<br>
+
+<br>
+
+Ao meio dia apparec&eacute;ram os chefes dos carregadores que
+partiam, para receberem os pagamentos.<br>
+
+<br>
+
+Esta libata grande de Quingolo &eacute; situada s&ocirc;bre um
+outeiro gran&igrave;tico que domina uma enorme planicie.<br>
+
+<br>
+
+Por entre as rochas crec&eacute;ram syc&ograve;moros enormes,
+que lhe
+dam uma frescura constante. Estas rochas combinadas com as palissadas
+formam uma temivel fortifica&ccedil;&atilde;o, rodeada de um
+fosso meio
+obstruido. No t&ocirc;po do outeiro dois roch&ecirc;dos enormes
+de
+elevadas propor&ccedil;&otilde;es formam uma especie de
+mirante, d'onde
+se goza um dos mais sorprendentes panoramas que tenho visto.<br>
+
+<br>
+
+Semelhante ao golpe de vista da cruz alta do Bussaco, se a mata, em vez
+de limitada na estreita cinta de muralhas, se estendesse dos cabos
+Carvoeiro ao Mondego at&eacute; &aacute; beira-mar, apenas
+interrompida
+aqui e &agrave;l&eacute;m por verdejantes clareiras, o paiz que
+se
+avista do alto de Quingolo &eacute; talvez, mais vasto e grandioso,
+sendo limitado em t&ocirc;rno por um perfil azulado de
+long&iacute;nquas montanhas que de distantes mal se avistam.<br>
+
+<br>
+
+No dia 12, ainda que me recresceu a febre, decidi partir, e tendo feito
+as mais cordiaes despedidas ao sova e ao chefe Aguiar, segui
+&aacute;s
+8h. 30m., acompanhado de 3 guias que me deu o sova Caimbo, com quem
+fiquei nos melhores termos de amizade. Logo &aacute; saida passei o
+ribeiro Luvubo, que corre ao Calae, e p&ecirc;las 10 horas alcancei
+a
+libata do sec&uacute;lo Palanca, onde pedi agasalho, por me ser
+impossivel caminhar com febre que recrescia a cada momento.<br>
+
+<br>
+
+Apesar do meu estado de saude, fiz observa&ccedil;&otilde;es
+astron&ograve;micas, para determinar a minha
+posi&ccedil;&atilde;o; e
+falo n'isso, por ser este o primeiro d'essa s&egrave;rie de pontos
+que
+eu devia determinar atrav&eacute;s d'&Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+Foi a povoa&ccedil;&atilde;o de Palanca o primeiro ponto
+determinado
+por mim, n'essa linha que marca o meu caminho do mar
+Atl&agrave;ntico
+ao Indico.<br>
+
+<br>
+
+Tres gramas de quinino que tomei durante a apyrexia
+produz&iacute;ram-me r&agrave;pidas melhoras que me
+permit&iacute;ram
+seguir no dia immediato.<br>
+
+<br>
+
+Eu viajava acavallo em um possante b&ocirc;i, e tinha um outro de
+reserva, b&ocirc;is muito bem domesticados e que offereciam
+b&ocirc;a
+commodidade ao andar, podendo obter d'elles um aturado trote e mesmo um
+galope curto.<br>
+
+<br>
+
+Segui perto das 8 horas e passei logo o rio D&ocirc;ro, a que
+chamam
+das mulh&eacute;res, onde foi muito difficil a passagem dos
+b&ocirc;is,
+por ser de fundo lodoso.<br>
+
+<br>
+
+O calor era intenso, e eu comecei a sentir-me mais doente,
+p&ecirc;lo que resolvi deitar-me a descan&ccedil;ar um pouco. <br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o haviam arvores no sitio, e ao sol ardente
+s&ocirc;bre uma
+terra ardente adormeci. Foi curto o meu sono, e ao despertar, senti que
+estava fresco e tinha sombra. Eram os meus pr&ecirc;tos que, de
+motu
+proprio estavam em t&ocirc;rno de mim segurando um panno para
+desviar
+do meu c&ocirc;rpo as ardencias de um sol a prumo. Tocou-me tal
+prova
+de cuidado. Segui &aacute;vante e passei um riacho--o
+D&ocirc;ro, a que
+chamam dos homens, que se une ao primeiro e corre depois ao Calae,
+n&atilde;o sei se com o mesmo nome. Duas horas depois encontrava o
+rio
+Guandoassiva, que tem 5 metros de largo por 1 metro de fundo, em cuja
+margem descancei. &Eacute; affluente do Calae e abunda em peixe
+miudo,
+que muito ali pesc&aacute;mos. Eu sentia-me bastante doente.
+&Aacute;
+febre que tinha reapparecido unia-se uma extrema fraqueza, pois que,
+havia dois dias, apenas tinha tomado alguns caldos de gallinha.<br>
+
+<br>
+
+Aproveitei o descan&ccedil;o para mandar fazer um caldo de frango,
+que
+n&atilde;o levou sal, por se me ter acabado a pequena
+provis&atilde;o
+trazida de Caconda. <br>
+
+<br>
+
+Depois de duas horas de repouso, segu&iacute;mos sempre a N.E., e
+meia
+hora depois pass&agrave;vamos o rio Cuena, que tem ali 6 metros de
+largo por 1,5 de fundo, e corre ao Calae.<br>
+
+<br>
+
+Este rio corre entre as vertentes suaves de montanhas mui pouco
+elevadas, mas cavou um leito fundo, cujas escarpas verticaes de 2
+metros, torn&aacute;ram difficil a passagem dos bois.<br>
+
+<br>
+
+Trabalh&aacute;mos ali duas horas. Duas horas depois, j&aacute;
+ao
+cahir da noite, alcancei a libata do Cap&ocirc;co, o poderoso filho
+do
+sova do Huambo. <br>
+
+<br>
+
+O Cap&ocirc;co recebeu-me muito bem, deu-me a sua propria casa para
+habitar, offereceu-me logo um grande porco, e sabendo-me doente
+mandou-me duas gallinhas.<br>
+
+<br>
+
+Falei-lhe em carregadores, que elle me prometeu arranjar.<br>
+
+<br>
+
+Fiz-lhe um presente de duas pe&ccedil;as de riscado e duas garrafas
+de
+&agrave;gua-ardente. Pouco depois, um grande rancho de virgens, que
+se
+conh&ecirc;cem pelas muitas manilhas de verga de pao, que lhe sobem
+dos
+artelhos, trouxeram em cestas abundante comida aos meus
+pr&ecirc;tos.
+Depois de tomar alturas da lua, deitei-me, feliz, apesar de doente, por
+ver coroada de &egrave;xito a minha excurs&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte deveriam chegar ali os meus companheiros, e com elles,
+n&atilde;o s&oacute; a amizade e a companhia dos meus
+conterraneos, mas
+ainda os recursos que j&aacute; me faltavam completamente.<br>
+
+<br>
+
+Adormeci sorrindo. &iexcl;Quam longe estava eu de pensar que
+adormecia
+na v&egrave;spera de uma agonia, immensa agonia que devia durar por
+20
+dias!<br>
+
+<br>
+
+No dia 14 fui a casa do pai do Cap&ocirc;co, o sova das terras do
+Huambo. A libata d'este sova, que se chama Bilombo, dista 3
+kil&ograve;metros da do filho, e est&aacute; assente na margem
+esqu&ecirc;rda do rio Calae.<br>
+
+<br>
+
+Bilombo esperava-me. Rodeado do seu p&ocirc;vo, trajava
+soberbamente
+uma casaca escarlate, cobrindo-lhe a cab&ecirc;&ccedil;a uma
+barretina
+de ca&ccedil;adores. Entreguei-lhe o meu presente, que consistia em
+3
+pe&ccedil;as de riscado ordinario e duas garrafas de
+&agrave;gua-ardente, a que se mostrou muito grato. Ficou muito
+sorprendido vendo a minha carabina Winchester, e pedio-me para eu
+atirar com ella, ficando admiradissimo de me ver metter algumas balas
+n'um pequeno alvo a 200 metros, e muito mais quando lhe quebrei um
+&ocirc;vo a 50 metros.<br>
+
+<br>
+
+Este sova governava em tudo o paiz do Huambo: mas est&aacute;
+h&ocirc;je reduzido a dominar apenas em parte d'elle. A sua
+historia
+&eacute; curta, mas vulgar. Elle era casado com a filha do sova do
+Bih&eacute;, que entretinha rela&ccedil;&otilde;es amorosas
+com um dos
+seus sec&uacute;los.<br>
+
+<br>
+
+Tremiam os criminosos da c&ograve;lera do rei se viesse a saber a
+sua
+falta. Houve rompimento entre Bilombo e um r&egrave;gulo vizinho, e
+a
+guerra foi declarada. Bilombo tomou o commando do seu
+ex&egrave;rcito e
+partio, ficando a governar na sua ausencia o amante da sua
+mulh&eacute;r. Conspir&aacute;ram ambos e
+Capussoc&uacute;sso
+f&ecirc;z-se acclamar sova. Retirou-se Bilombo para esta parte do
+paiz
+banhada p&ecirc;lo Calae, onde o p&ocirc;vo se lhe conservou
+fiel, e
+&aacute; epocha da minha passagem, me disse, estar preparando uma
+terrivel vingan&ccedil;a &aacute; ad&ugrave;ltera e ao seu
+amante o
+traidor Capussoc&uacute;sso.<br>
+
+<br>
+
+De volta a casa do Cap&ocirc;co, despedi os tr&ecirc;s guias,
+que me
+acompanh&aacute;ram desde Quing&ocirc;lo, e por elles escrevi a
+Capello
+e Ivens, dizendo-lhes, que os esperava, e que n&atilde;o
+abandonassem
+as cargas, por ser o paiz pouco seguro.<br>
+
+<br>
+
+Fui de tarde dar um passeio &aacute;s margens do Calae, e
+sorprendeu-me
+a quantidade de ca&ccedil;a que encontrei, que nunca tanta tinha
+visto,
+mas nada matei por n&atilde;o ir prevenido para isso.<br>
+
+<br>
+
+O sova Bilombo mandou-me um presente de farinha de milho e um grande
+b&ocirc;i, presente mui valioso, por ser esca&ccedil;o o gado
+bovino
+n'aquelle paiz.<br>
+
+<br>
+
+Os carregadores estavam preparando os mantimentos para seguirem no dia
+immediato para Caconda, e eu escrevia aos meus companheiros, quando
+cheg&aacute;ram tr&ecirc;s portadores do sova de
+Quing&ocirc;lo, com
+cartas d'elles, e uma cesta contendo sal e um pequeno saco de arroz.<br>
+
+<br>
+
+Abri pressuroso as cartas; eram ellas duas officiaes e uma particular,
+assignadas por Capello e Ivens. Diziam-me, que tinham resolvido seguir
+s&oacute;s, e que p&ecirc;los 40 carregadores enviados por mim
+de
+Quing&ocirc;lo, me mandavam 40 cargas, acompanhadas p&ecirc;lo
+guia
+Barros, para eu as conduzir ao Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+S&oacute; o pouco ou nenhum conhecimento do sert&atilde;o
+Africano, que
+ent&atilde;o tinham os meus companheiros, podia desculpar um tal
+proceder. Eu achava-me n'um paiz hostil, e se at&eacute; ali tinha
+sido
+respeitado, f&ocirc;ra s&oacute; porque o gentio me julgava a
+vanguarda
+de uma grande comitiva capitaneada por elles, e o receio das
+represalias tinha at&eacute; ent&atilde;o sostido a rapacidade
+dos
+ind&igrave;genas. Eu estava no paiz onde Silva Porto, o velho
+sertanejo, que percorrera impunemente os mais longinquos
+sert&otilde;es
+Africanos, tivera de sustentar cruento combate com um gentio
+&agrave;vido de rapina.<br>
+
+<br>
+
+&iquest;Que seria de mim logo que se soubesse que t&ocirc;da a
+minha
+for&ccedil;a consistia em 10 homens? Encarei a minha
+posi&ccedil;&atilde;o e achei-a um pouco s&eacute;ria.
+Capello e Ivens
+tinham sido enganados por alguem, que a sua lealdade n&atilde;o
+lhes
+consentiria de certo o deixarem-me em tal
+posi&ccedil;&atilde;o, se
+elles conh&ecirc;cessem bem essa posi&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+&iquest;Que fazer? Em tr&ecirc;s dias podia alcan&ccedil;ar
+Caconda, e
+voltar d'ali a Benguella. Tinha, por outro lado, diante de mim uma
+jornada de vinte dias ao Bih&eacute;, jornada em que teria de
+arriscar
+cada dia e a cada hora a vida e as bagagens. &iquest;Que fazer?<br>
+
+<br>
+
+A noite de 17 de Fevereiro foi passada em uma
+agita&ccedil;&atilde;o febril indescriptivel.<br>
+
+<br>
+
+&iquest;Devia seguir &aacute;vante? &iquest;Tinha o direito
+de arriscar
+as vidas dos dez homens que me cercavam, e que dormiam tranquillos
+junto de mim? &iquest;Teria o direito de arriscar a minha propria
+vida
+em imprudente passo? &iquest;Deveria voltar a Benguella?<br>
+
+<br>
+
+&iquest;Quem comprehenderia na Europa o obst&agrave;culo quasi
+insuperavel que me fazia recuar? Ninguem, a n&atilde;o ser um ou
+outro
+explorador infeliz como eu.<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;Que noite horrivel! e a febre a desvairar-me a mente, e o
+cuidado a augmentar-me a febre. A aurora do dia 18 encontrou-me de
+p&eacute;, e havia momentos que uma phrase estava gravada no meu
+pensamento e eu repetia machinalmente aquella phrase.<br>
+
+<br>
+
+<span style="font-style: italic;">Audaces fortuna juvat</span>.
+Era a velha senten&ccedil;a dos fortes Romanos, era a lei que dicta
+as ac&ccedil;&otilde;es dos aventureiros.<br>
+
+<br>
+
+Decidi seguir &aacute;vante, eu que n&atilde;o tinha ido a
+&Agrave;frica para s&oacute; visitar o paiz do Nano, que,
+digamos a
+verdade, n&atilde;o deixa de ser muito interessante,
+s&ocirc;bre tudo
+para n&oacute;s os Portuguezes.<br>
+
+<br>
+
+Descrevi aos meus 10 homens a nossa posi&ccedil;&atilde;o
+precaria e a
+resolu&ccedil;&atilde;o tomada de caminhar para o
+Bih&eacute;; elles
+protest&aacute;ram-me a sua dedica&ccedil;&atilde;o e a
+inten&ccedil;&atilde;o de sempre me acompanharem.<br>
+
+<br>
+
+D'esses dez homens 3, Verissimo Gon&ccedil;alves, Augusto e
+Camutombo
+estiv&eacute;ram em Lisboa depois de terem atravessado comigo a
+&Agrave;frica; 4 segu&iacute;ram do Bih&eacute; Capello e
+Ivens, por
+minha ordem; 1, o pr&ecirc;to Cossusso, enlouqueceu, junto ao
+Quanza, e
+foi por mim entregue ao aviado de Silva Porto, Domingos Chacahanga,
+para d'elle ter cuidado; e os dois restantes, Manuel e Catraio grande,
+cahiram aos meus pes varados p&ecirc;las azagaias Luinas, e
+cumprindo a
+sua promessa formulada rudemente n'este dia, morr&eacute;ram
+defendendo-me, quando eu mesmo defendia a bandeira das Quinas.<br>
+
+<br>
+
+Ao tempo em que vai a minha narrativa, eu mal os conh&ecirc;cia, e
+n&atilde;o tivera at&eacute; ent&atilde;o logar de
+experimentar o seu
+valor.<br>
+
+<br>
+
+Eu estava em casa do Cap&ocirc;co, que at&eacute;
+ent&atilde;o me tinha
+dispensado os maiores favores; mas Cap&ocirc;co era o
+c&egrave;lebre
+salteador do Nano, que chegara a ir atacar Quillengues, um anno antes.
+&iquest;O que faria elle, logo que conh&ecirc;cesse a minha
+fraqueza?<br>
+
+<br>
+
+D'elle dependia o &egrave;xito da minha empresa. Cap&ocirc;co
+&eacute;
+homem de vinte e quatro annos, symp&agrave;thico e de maneiras
+agradaveis. Muitas v&ecirc;zes me dizia Verissimo
+Gon&ccedil;alves, que
+lhe parecia impossivel ser elle o homem cujo nome era t&atilde;o
+temido, e que t&atilde;o longe dirigia as suas correrias de
+devasta&ccedil;&atilde;o e morte. Entre as suas escravas
+conh&ecirc;ceu
+Verissimo algumas raparigas roubadas em Quillengues, no ataque do anno
+anterior. Uma mesmo, com quem falei, era filha de um dos sovas de
+Quillengues, e Cap&ocirc;co pedia por ella grande resgate.<br>
+
+<br>
+
+Cap&ocirc;co &eacute; intelligente, parco no comer e beber, e
+ainda que
+possue grande n&ugrave;mero de escravas, as que formam o seu harem
+sam
+mui poucas.<br>
+
+<br>
+
+Ha no seu fundo alguma cousa de justo por entre a barbaria do seu viver
+e dos seus principios. Por exemplo: eu vi que a escrava, a que acima me
+referi, filha do sova de Quillengues, trazia nos artelhos as manilhas
+de pao, signal infallivel de virgindade, a pesar de ser muito bonita e
+elegante. Admirou-me isso, e perguntei ao Cap&ocirc;co
+&iquest;porque
+n&atilde;o havia feito d'ella sua amante? "Porque n&atilde;o
+d&ecirc;vo," me respondeu elle, "&eacute; minha escrava
+p&ecirc;lo
+direito da guerra, mas em quanto seu pai manifestar o intento de a
+resgatar, d&ecirc;vo respeital-a e ser&aacute; respeitada,
+porque a
+d&ecirc;vo entregar como a tomei."<br>
+
+<br>
+
+Um dia Cap&ocirc;co disse-me, que, estando Benguella d'aquelle lado
+(apontava para o oeste), o sol passava primeiro p&ecirc;lo Huambo
+antes
+de ir a Benguella. Disse-lhe eu ser isso verdade, e elle quiz saber
+quanto tempo depois de nascer ali, nascia elle em Lisboa. Procurei
+fazer-lhe comprehender, que hora e meia; dizendo-lhe o tempo que um
+homem leva a percorrer tal caminho, elle mostrou-se admirado; porque
+julgava, me disse, ser o nosso paiz muito mais longe.<br>
+
+<br>
+
+Os costumes entre os p&ocirc;vos do Nano e do Huambo sam os mesmos
+que
+entre os Quillengues, assim como falam a mesma lingua. Trabalham o
+ferro, de que fazem setas, azagaias e machadinhas; mas n&atilde;o
+enxadas, que v[~e]m do norte.<br>
+
+<br>
+
+Como j&aacute; incidentalmente notei, as raparigas, em quanto
+virgens,
+usam nos artelhos de ambas as pernas ou s&oacute; na
+esqu&ecirc;rda,
+umas manilhas de verga de pao, e &eacute; grande crime para a
+familia,
+conservar as manilhas &aacute;quellas que j&aacute;
+n&atilde;o t[~e]m
+direito de as usar.<br>
+
+<br>
+
+Uma cousa curiosa nos costumes d'estes p&ocirc;vos, &eacute;
+haver em
+t&ocirc;das as povoa&ccedil;&otilde;es uma especie de
+kiosques para
+conversa&ccedil;&atilde;o. <br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 207px;" alt="" src="images/005.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.4"></a>Figura
+4.--Homem e Mulh&eacute;r do Huambo.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Sam como uma cubata, mas os prumos que sustentam o tecto de
+c&ocirc;lmo, sam bastante separados. No meio arde a fogueira, socia
+constante do gentio Africano, e em t&ocirc;rno tomam assento os
+habitantes da povoa&ccedil;&atilde;o em toros de pao.
+&Eacute; o sitio
+da palestra, s&ocirc;bre tudo quando chove; ali narram-se episodios
+de
+guerra ou de ca&ccedil;a, fala-se tambem de amor, e muito menos de
+vidas alheias do que na Europa.<br>
+
+<br>
+
+No paiz do Huambo com&ecirc;&ccedil;a na costa de oeste o
+grande luxo
+nos penteados, tanto em homens como em mulh&eacute;res, e tenho
+visto
+alguns que difficilmente seriam executados pelos melhores
+cabelleireiros da Europa. <br>
+
+<br>
+
+Ha penteados que levam dois e tr&ecirc;s dias a fazer, e que se
+conservam por muitos mezes.<br>
+
+<br>
+
+Os penteados das mulh&eacute;res sam profusamente enfeitados com
+umas
+contas de vidro que no commercio em Benguella tem o nome de coral
+branco ou encarnado, e &eacute; este g&egrave;nero muito
+procurado no
+paiz. Eu infelizmente n&atilde;o levava nenhum.<br>
+
+<br>
+
+A p&ograve;lvora, armas e o sal de cozinha sam ali
+g&egrave;neros de
+grande valia. Nada d'isso eu tinha, em quantidade de que podesse
+dispensar, o que tornava mais embara&ccedil;osa a minha
+posi&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Fui falar ao Cap&ocirc;co e expuz-lhe que os meus companheiros
+tinham
+seguido por Gallangue, e que s&oacute; viriam 50 cargas,
+n&atilde;o
+precisando eu por isso mais de 40 homens e esses s&oacute; para
+irem
+d'ali ao Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Desped&iacute;mos por isso os 80 carregadores que a essa hora
+j&aacute;
+estavam reunidos, e que se retir&aacute;ram muito descontentes.
+Cap&ocirc;co prometeu-me que teria os 40 de que precisava
+at&eacute; ao
+Bih&eacute;. N'esse dia chegou o pr&ecirc;to Barros com as 40
+cargas, e
+trouxe-me n&ocirc;va carta dos meus companheiros, confirmando o que
+diziam as primeiras.<br>
+
+<br>
+
+Por elle sube que elles tinham sa&iuml;do de Caconda para o
+Bih&eacute;; acompanhados p&ecirc;lo ex-chefe, Alferes Castro,
+e
+p&ecirc;lo degradado Domingos, que me tinham mostrado a
+impossibilidade
+de obter gente em Caconda, e que a obtiv&eacute;ram no dia em que
+eu
+sahi d'aquelle ponto.<br>
+
+<br>
+
+A elles, talvez, devia eu a cr&igrave;tica
+posi&ccedil;&atilde;o em que
+me achava, porque os meus companheiros, pouco conh&ecirc;cedores
+d'&Agrave;frica, e nada d'aquelle paiz, n&atilde;o podiam
+julgar das
+difficuldades que me creavam, ao passo que aquelles dois senhores, de
+sobra as conheciam. N&atilde;o os accuso de um crime, mas culpo-os
+de
+uma leviandade.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o lhes quero mal, porque a ningem quero mal, e um mez
+depois
+de se passarem os successos que estou narrando; espantado ainda dos
+perigos a que tinha conseguido escapar; prostrado no leito, onde me
+tinha prendido com garras de ferro a doen&ccedil;a, proveniente de
+20
+dias de cruel agonia, a que elles d&eacute;ram causa; vi-os entrar,
+famintos e sem recursos, na casa de Silva Porto, que eu occupava no
+Bih&eacute;; e esqu&egrave;cendo tudo o mal que me haviam
+feito; e
+n&atilde;o me lembrando de que um estava privado dos direitos<br>
+
+de cidad&atilde;o por uma senten&ccedil;a infamante; reparti
+com elles
+o pouco de v&igrave;veres que eu tinha, dando-lhes os meios de
+voltarem
+com relativa commodidade a Caconda. &Eacute; que eu vi n'elles,
+n&atilde;o s&oacute; dois brancos, dois Portuguezes, perdidos
+no
+j&aacute; longinquo sert&atilde;o do Bih&eacute;, mas vi
+mais os homens
+que me fiz&eacute;ram ter de mim uma opini&atilde;o de que me
+sentia
+orgulhoso, os homens que em 20 dias de agonia que me d&eacute;ram,
+em
+mil perigos a que me lan&ccedil;&aacute;ram, com que me
+fiz&eacute;ram
+lutar e que eu venci, me retemper&aacute;ram a alma para
+commettimentos
+maiores. A elles devia a confian&ccedil;a que tinha em Deos e em
+mim
+mesmo; e repartindo com elles o pouco que tinha, julgava pagar uma
+d&igrave;vida de gratid&atilde;o, onde outros, succumbindo ao
+soffrimento, s&oacute; veriam, talvez, um motivo de
+vingan&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o antecipemos factos.<br>
+
+<br>
+
+Cap&ocirc;co veio dizer-me, que no dia seguinte teria os 40 homens
+que
+queria, mas s&oacute; at&eacute; ao Sambo, porque elles se
+recusavam a
+ir mais &agrave;l&eacute;m; por estarem despeitados
+p&ecirc;la
+despedida dos 80 que se haviam reunido para ir a Caconda e ao
+Bih&eacute;, e que eu tinha dispensado. &Agrave;l&eacute;m
+d'isso,
+elles exigiam um pagamento muito superior; porque eu os havia
+contratado por 10 pannos de Caconda ao Bih&eacute;, e estes exigiam
+s&oacute; do Huambo ao Sambo 8 pannos. Acertei tudo, para poder
+partir.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte de manh&atilde;, reun&iacute;ram-se os 40
+homens; mas
+de repente surgio uma n&ocirc;va difficuldade. Quando em Caconda
+fomos
+enganados p&ecirc;lo Bandeira, o Ivens tinha tirado a
+t&ocirc;dos os
+fardos sortidos o algod&atilde;o branco; porque os pr&ecirc;tos
+que
+esper&agrave;vamos do Bandeira n&atilde;o queriam pagamento em
+outro
+g&egrave;nero. Esqu&egrave;ceu esta circunstancia, e eu,
+levando dois
+fardos sortidos, n&atilde;o levava nem uma s&oacute;
+pe&ccedil;a de
+algod&atilde;o branco. A gente do Cap&ocirc;co declarou-me
+logo, que
+n&atilde;o queriam receber sen&atilde;o algod&atilde;o
+branco, e
+n&atilde;o pegariam nas cargas se eu lho n&atilde;o
+d&eacute;sse.<br>
+
+<br>
+
+Recus&aacute;ram-se a receber o riscado, e j&aacute; se iam,
+quando
+appareceu o Cap&ocirc;co, e n&atilde;o sem custo os decidio a
+receberem
+metade em riscado, metade em zuarte.<br>
+
+<br>
+
+Havia grande descontentamento entre elles quando &aacute;s 10 horas
+os
+fiz seguir acompanhados p&ecirc;lo guia Barros. Eu devia partir
+dentro
+de uma hora; mas fui atacado de t&atilde;o violento accesso de
+febre,
+que tive de deitar-me.<br>
+
+<br>
+
+Desde a v&egrave;spera chovia torrencialmente, e s&ocirc;bre
+tudo a noite foi tempestuosa.<br>
+
+<br>
+
+A febre com&ecirc;&ccedil;ou a declinar &aacute;s 4 horas
+da tarde, e a
+chuva cessou. P&ecirc;las 5 horas, precisei sahir da libata e fui a
+um
+mato pr&ograve;ximo, os meus passos eram vacilantes e apoiava-me
+pesadamente no meu bord&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Precavido sempre, disse ao meu pr&ecirc;to pequeno
+P&eacute;p&eacute;ca, que me acompanhasse e trouxesse uma das
+minhas
+carabinas. <br>
+
+<br>
+
+Ia a entrar no mato, quando a vinte passos de mim surge um enorme
+b&ugrave;falo a olhar desvairado, resfolgando estrondosamente.<br>
+
+<br>
+
+Tomei das m&atilde;os do pequeno a espingarda, e qual
+n&atilde;o
+&eacute; o meu desesp&ecirc;ro, vendo que, em logar de
+carabina, elle
+tinha trazido uma simples arma de ca&ccedil;a, carregada de chumbo!
+Senti-me perdido e vi a morte inevitavel, terrivel caminhando para mim
+n'aquella fera, que mugia surdamente.<br>
+
+<br>
+
+Lembrei-me de Deos, de minha mulh&eacute;r e de minha filha. A fera
+avan&ccedil;ava aos saltos, n'esse irregular galope que elles tomam
+para o ataque. A 8 passos de mim, disparei-lhe o primeiro tiro de
+chumbo, elle parou meio segundo, para seguir logo. Ao dispararar-lhe o
+outro tiro n&atilde;o havia mais distancia entre a b&ocirc;ca
+da
+espingarda e a cab&ecirc;&ccedil;a do b&ugrave;falo do que
+alguns
+dec&igrave;metros. Atirei e fiz um enorme salto para o lado. O
+b&ugrave;falo seguio sempre, passando a tomar uma carreira
+vertiginosa,
+e desappareceu no mato. O meu P&eacute;p&eacute;ca ria a
+bandeiras
+despregadas, e inconsciente do perigo, batia as palmas gritando, "O
+b&ocirc;i fugio, o b&ocirc;i fugio, t&ecirc;ve
+m&ecirc;do de
+n&oacute;s."<br>
+
+<br>
+
+Voltei a casa do Cap&ocirc;co; e passei a noite mais socegado. Quiz
+escrever, e para isso improvisei uma luz de manteiga de porco em uma
+velha caixa de sardinhas de Nantes.<br>
+
+<br>
+
+Era a 21 de Fevereiro de manh&atilde;. Despedi-me do
+Cap&ocirc;co, e
+febril ainda, segui caminho do Sambo. Antes de chegar ao Calae, recebi
+un bilhete. Era elle do guia Barros, dizendo-me, que na
+v&egrave;spera
+&aacute; noite, os carregadores tinham fugido t&ocirc;dos,
+deixando as
+cargas na libata do sec&uacute;lo Quimbungo, irm&atilde;o do
+sova
+Bilombo. <br>
+
+<br>
+
+Parei, e mandei chamar o Cap&ocirc;co. Contei-lhe o occorrido, e
+elle
+disse-me, que seguisse para a libata do tio, que tudo ia remediar.
+Segui &aacute;vante, e pouco depois passei o Calae, que corre N.S.
+para
+o Cunene, tendo ali 30 metros de largo por l,5 de fundo, com violenta
+corrente.<br>
+
+<br>
+
+As margens sam vastas planicies levemente accidentadas e cobertas de
+gram&igrave;neas, por entre as quaes surge aqui e
+&agrave;l&eacute;m um
+solitario dragoeiro. O solo &eacute; de
+forma&ccedil;&atilde;o animal,
+que tudo o terreno &eacute; coberto por um mundo infinito de
+termites,
+ou antes o cobre.<br>
+
+<br>
+
+Uma ponte, construida toscamente de troncos de &agrave;rvore, une
+as
+duas margens do rio. 100 metros a montante da ponte, recebe o Calae um
+affluente importante, o Cu&ccedil;uce, que traz volume
+d'&agrave;gua
+igual ao seu. Caminhei a E.N.E., e p&ecirc;las 10 horas passei
+junto
+&aacute; libata do sec&uacute;lo Chacaquimbamba, em cuja frente
+havia
+grande ajuntamento de gentio. Passei sem nada me dizerem; mas tinha
+andado uns 50 metros, quando senti um grande barulho do lado da libata.
+N'esse momento Verissimo correu a mim e disse-me, que havia
+quest&atilde;o com um carregador nosso.<br>
+
+<br>
+
+Voltei a traz e vi o pr&ecirc;to Jamba, carregador da minha mala, a
+quem tinham tirado a espingarda, o que consegu&iacute;ram
+facilmente,
+porque elle a largou com receio de deixar cair a mala, que continha os
+chron&ograve;metros e outros instrumentos delicados.<br>
+
+<br>
+
+&Agrave;l&eacute;m da arma, elles tinham mettido para a libata
+uma
+cabra e um carneiro, que me tinham sido dados p&ecirc;lo
+Cap&ocirc;co.
+Intimei-os a que me entregassem o roubo; mas apenas me
+respond&eacute;ram com um murmurio amea&ccedil;ador.<br>
+
+<br>
+
+Calculei r&agrave;pidamente as circunstancias, e vi-me com 10
+homens, cercado por 200 que me amea&ccedil;avam furiosos.<br>
+
+<br>
+
+Esqu&egrave;ci por um momento t&ocirc;da a prudencia e bom
+senso, e
+quiz experimentar o que valiam esses 10 homens, que no futuro teriam de
+ser meus socios em perigos maiores, e caminhando para a porta da
+libata, armei o rev&oacute;lver e ordenei-lhes que entrassem e me
+trouxessem o roubo. O meu pr&ecirc;to de Benguella, Manuel, um
+m&ocirc;&ccedil;o de que eu nunca fizera caso, soffreu uma
+transforma&ccedil;&atilde;o s&ugrave;bita, e armando a
+carabina, de um
+salto entrou na libata. Foi logo seguido por Augusto, Verissimo e
+Catraio grande. Os<br>
+
+outros segu&iacute;ram, e eu, estudando os meus homens,
+esqu&egrave;ci-me de mim, e podia ter sido v&igrave;ctima do
+furor da
+popula&ccedil;a que me cercava; mas a nossa audacia espantou-os, e
+recu&aacute;ram, vendo sahir da libata Verissimo com a cabra, o
+Augusto
+com o carneiro, e os outros de carabina prompta cobrindo-lhes a
+retirada.<br>
+
+<br>
+
+A arma, mais facil de esconder do que os animaes, n&atilde;o foi
+encontrada, mesmo em uma segunda busca mais minuciosa do que a
+primeira; que o successo desta tinha autorizado.<br>
+
+<br>
+
+Os meus pr&ecirc;tos, animados p&ecirc;la indecis&atilde;o
+dos gentios,
+s&oacute; proferiam palavras de morte, e custou-me a contel-os para
+que
+n&atilde;o fizessem fogo s&ocirc;bre os ind&igrave;genas.<br>
+
+<br>
+
+Consegui acalmal-os, e prometi-lhes que em breve teriamos
+satisfa&ccedil;&atilde;o plena.<br>
+
+<br>
+
+Eu dizia isto fiado no Cap&ocirc;co, em quem j&aacute; confiava
+um pouco.<br>
+
+<br>
+
+Segu&iacute;mos, uma hora depois, e a 1.30 passava o rio
+P&otilde;e,
+affluente do Cal&aacute;e, que tem 5 metros de largo por 1 de
+fundo,
+cujo leito lodoso e molle d&aacute; difficil passagem.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute;s 3 horas chegava &aacute; libata do sec&uacute;lo
+Quimbungo,
+irm&atilde;o do sova do Huambo, onde estavam as cargas abandonadas
+e o
+pr&ecirc;to Barros. O Quimbungo recebeu-me muito bem, e disse-me
+que me
+daria carregadores at&eacute; ao Sambo, e sabendo do occorrido de
+manh&atilde;, pedio-me que n&atilde;o fizesse mal ao
+sec&uacute;lo<br>
+
+Chacaquimbamba, que elle me faria entregar a arma roubada, e dar plena
+satisfa&ccedil;&atilde;o do insulto. P&ecirc;las 6 horas,
+chegou ali o
+Cap&ocirc;co, trazendo alguns carregadores dos que tinham fugido, e
+as
+fazendas apprehendidas aos outros, fazendas dos pagamentos que eu havia
+feito adiantados. Disse-me, que no seguinte dia me faria entregar a
+arma roubada, e poria &aacute; minha
+disposi&ccedil;&atilde;o o chefe
+da povoa&ccedil;&atilde;o para eu o castigar.<br>
+
+<br>
+
+Que n&atilde;o receasse eu mais fuga de carregadores, porque elle
+mesmo, ou o tio, me acompanhariam at&eacute; ao Sambo.<br>
+
+<br>
+
+Fui deitar-me ardendo em febre, e passei uma noite horrivel.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte reun&iacute;ram-se mais carregadores; mas
+n&atilde;o ainda os sufficientes.<br>
+
+<br>
+
+Cap&ocirc;co tinha partido logo de madrugada para casa do
+Chacaquimbamba, e ao meio dia appareceu-me com a arma roubada e aquelle
+sec&uacute;lo, a quem perdoei a offensa da v&egrave;spera. O
+delinquente deu-me mil satisfa&ccedil;&otilde;es, e melhor do
+que as
+satisfa&ccedil;&otilde;es, dois magn&igrave;ficos carneiros.<br>
+
+<br>
+
+Cap&ocirc;co, esse homem selvagem e fer&ocirc;z, que
+&eacute; o terror
+do Nano, esse homem que eu consegui dominar completamente e que tantos
+servi&ccedil;os me prestou, despede-se de mim e volta &aacute;
+sua
+libata, recommendando-me instantemente ao tio.<br>
+
+<br>
+
+De tarde desencadeou-se s&ocirc;bre n&oacute;s uma horrivel
+tempestade,
+e &aacute; chuva torrencial misturava-se o raio e o
+trov&atilde;o da
+tormenta perpendicular. Recresceu-me a febre.<br>
+
+<br>
+
+Durante a noite n&ocirc;va tormenta; mas com chuva moderada. O
+sec&uacute;lo Quimbungo, logo de manh&atilde; c&ecirc;do,
+me veio dizer
+estarem promptos os carregadores; mas exigirem o pagamento adiantado.<br>
+
+<br>
+
+Recusei positivamente, porque, &agrave;l&eacute;m da
+experiencia
+adquirida com o mao resultado dos pagamentos adiantados, foi
+cons&ecirc;lho do Cap&ocirc;co, nunca fazer taes pagamentos.<br>
+
+<br>
+
+Os homens recus&aacute;ram-se a seguir e f&ocirc;ram-se.
+Quimbungo
+reune a gente da sua povoa&ccedil;&atilde;o, e ordena-lhe que
+sigam
+comigo; elles obedec&ecirc;ram, mas sam mui poucos e reunidos aos
+que
+me trouxe o Cap&ocirc;co, deixam ainda 27 cargas, que eu entrego ao
+Barros, e que o Quimbungo promette mandar-me
+&aacute;manh&atilde; para
+o Sambo, para onde eu decidi seguir immediatamente.<br>
+
+<br>
+
+Parti &aacute;s 10 horas a Leste, e uma hora depois, passei o rio
+Canhungamua, de 30 metros de largo por 4 a 5 de fundo, que correndo ao
+Sul vai unir as suas &agrave;guas &aacute;s do Cunene.<br>
+
+<br>
+
+Uma ponte de troncos de &agrave;rvore, de
+construc&ccedil;&atilde;o
+n&ocirc;va, deu-me facil passagem e &aacute; comitiva, que na
+margem
+esqu&ecirc;rda do rio se recusou a ir mais longe n'aquelle dia,
+sendo-me preciso empregar a maior energia para&nbsp;os fazer seguir
+at&eacute; as 3 horas, hora a que acampei n'uma esp&ecirc;ssa
+floresta
+de acacias.<br>
+
+<br>
+
+O mao tempo continuava sempre, e a febre resistia ao muito irregular
+tratamento que eu lhe podia fazer.<br>
+
+<br>
+
+Durante a noite uma trovoada horrivel, correndo de S.O. a N.E., passou
+junto de mim, despedindo raios e chuva torrencial.<br>
+
+<br>
+
+Levanto campo no dia seguinte &aacute;s 6 horas, e duas horas
+depois,
+passava o Cunene, em ponte construida, como t&ocirc;das n'esta
+parte
+d'&Agrave;frica, de troncos grosseiros. O rio tem ali 20 metros de
+largo por 2 de fundo, e corre ao Sul. As margens sam levemente
+accidentadas, cobertas de gram&igrave;neas, e pouco arborizadas.
+Duas
+fileiras de &agrave;rvores, mui semelhantes aos salgueiros da
+Europa,
+desenham duas linhas tortuosas, por entre as quaes o rio se deslisa com
+veloz corrente em leito de areia branca e fina.<br>
+
+<br>
+
+Descancei um pouco, depois de ter feito as
+observa&ccedil;&otilde;es
+precisas para determinar a altitude, e segui ao meio dia,
+alcan&ccedil;ando, p&ecirc;las 2 horas, a libata do sova Dumbo,
+no paiz
+do Sambo.<br>
+
+<br>
+
+Este sov&ecirc;ta &eacute; vassallo do sova do Sambo,
+&eacute; homem
+rico e tem muita gente nas povoa&ccedil;&otilde;es que governa.
+Recebeu-me muito bem, e quiz que me hospedasse na libata, o que aceitei.<br>
+
+<br>
+
+Prometteu-me carregadores para o dia seguinte, ainda que me disse ter
+eu chegado em m&aacute; occasi&atilde;o, por ter muita gente
+f&ocirc;ra
+em guerra. Paguei e despedi os carregadores do Quimbungo, e fiquei
+certo de seguir no dia<br>
+
+immediato.<br>
+
+<br>
+
+Pouco antes de mim tinha chegado ao Dumbo um sec&uacute;lo rico,
+que
+mora na margem do Cubango, chamado Cassoma, e vinha visitar o
+sov&ecirc;ta de quem era amigo. Este Cassoma, com quem
+n&atilde;o
+sympathizei, veio fazer-me mil protestos de amizade, offerecendo-se
+para me acompanhar ao Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+De tarde mandei ao sov&ecirc;ta 3 garafas de
+&agrave;gua-ardente, e fiz
+lembrar-lhe que me n&atilde;o faltassem os carregadores na
+manh&atilde;
+seguinte. Ao contrario dos usos da hospitalidade do gentio n'estas
+paragens, o sov&ecirc;ta nada me mandou para comer, e eu e os meus
+tiv&eacute;mos fome, porque ninguem nos vendeu farinha.<br>
+
+<br>
+
+Seriam 8 horas da noite, quando eu, de muito mao humor e
+est&ocirc;mago
+vazio, me ia deitar, senti bater &aacute; porta e logo entrarem o
+sov&ecirc;ta Dumbo, o tal Cassoma e um sec&uacute;lo chamado
+Palanca,
+amigo e principal conselheiro do sov&ecirc;ta, e cinco das
+mulh&eacute;res d'este &ugrave;ltimo.<br>
+
+<br>
+
+Convers&aacute;mos um pouco s&ocirc;bre a minha viagem; mas de
+repente
+o Cassoma, interrompendo a conversa, disse ao sov&ecirc;ta,
+"N&oacute;s
+n&atilde;o vi&eacute;mos aqui para conversar, queremos
+&agrave;gua-ardente, e diga a esse branco que nol-a d&ecirc;
+j&aacute;." <br>
+
+<br>
+
+O sov&ecirc;ta animado pela arrogancia do Cassoma, disse-me, que
+lhe
+desse &agrave;gua-ardente a elles e &aacute;s
+mulh&eacute;res. Eu
+respondi-lhe que j&aacute; lhe tinha dado tr&ecirc;s garrafas,
+que elle
+nada me tinha offerecido, que era esta a primeira hospedagem que eu
+recebia de um chefe em que me deitava com fome, e por isso
+n&atilde;o
+lhe daria nem mais uma gota de &agrave;gua-ardente. O Cassoma
+meteu-se
+logo na quest&atilde;o, animando o sov&ecirc;ta contra mim, e
+entre
+n&oacute;s com&ecirc;&ccedil;ou uma controversia que durou
+mais de uma
+hora, em que eu fiz prova de uma prudencia e paciencia sem limites. Por
+fim elles concluiram dizendo-me, que pois eu lh'a n&atilde;o queria
+dar
+por bem, m'a iam tirar &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+Eu ent&atilde;o, perdendo a paciencia, empurrei com o p&eacute;
+o
+barril, e armando o rev&oacute;lver, perguntei-lhes qual era o
+primeiro
+que bebia. <br>
+
+<br>
+
+Elles vacil&aacute;ram um momento, mas o Cassoma disse ao
+sov&ecirc;ta:
+"Tu es rei, vae, bebe primeiro." Dumbo, tirando o cobertor que o
+envolvia, entregou-o ao Palanca, dizendo-lhe: "Guarda-o, para que o
+branco m'o n&atilde;o furte," e caminhou ao barril.<br>
+
+<br>
+
+Eu levantei o rev&oacute;lver &aacute; altura da
+cab&ecirc;&ccedil;a do
+sov&ecirc;ta e fiz fogo; mas Verissimo Gon&ccedil;alves, que
+estava
+junto a mim, empurrou-me o bra&ccedil;o e a bala, desviando-se da
+pontaria, foi cravar-se na par&ecirc;de.<br>
+
+<br>
+
+Os tr&ecirc;s n&ecirc;gros, transidos de m&ecirc;do,
+recu&aacute;ram
+at&eacute; &aacute; par&ecirc;de, e as 5
+mulh&eacute;res fiz&eacute;ram
+um berreiro horrivel.<br>
+
+<br>
+
+Eu ouvi ent&atilde;o junto &aacute; porta uma estrepitosa
+gargalhada
+que me chamou a atten&ccedil;&atilde;o, e devisei na sombra
+dois homens
+encostados &aacute;s carabinas, que riam como riem
+pr&ecirc;tos. Eram
+os meus Augusto e Manuel, que se tinham aproximado, ao ouvirem a
+discuss&atilde;o, e que, acompanhados dos outros 8 homens,
+guardavam a
+porta.<br>
+
+<br>
+
+O Verissimo disse ent&atilde;o ao sov&ecirc;ta e aos seus
+companheiros,
+que se f&ocirc;ssem deitar, e n&atilde;o me dissessem mais
+nada,
+porque, se eu me zangasse outra vez, elle n&atilde;o lhes poderia
+salvar a vida como ha pouco.<br>
+
+<br>
+
+Elles tom&aacute;ram o prudente cons&ecirc;lho, e
+retir&aacute;ram-se, ficando tudo em silencio.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">Sem o
+empurr&atilde;o que me deu o
+Verissimo, eu teria m&ocirc;rto um homem, e na
+situa&ccedil;&atilde;o
+em que nos ach&agrave;vamos, estar&igrave;amos completamente
+perdidos.
+Foi elle que salvou tudo.<br>
+
+<br>
+
+</div>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: justify;">Com a
+excita&ccedil;&atilde;o que me
+produziu a c&ograve;lera, recresceu a febre, e cahi sem
+f&ocirc;r&ccedil;as nas pelles que&nbsp;estendidas no
+ch&atilde;o me
+serviam de leito.<br>
+
+<br>
+
+Os meus pr&ecirc;tos deit&aacute;ram-se atravez da porta, e
+diss&eacute;ram-me, que dormisse descan&ccedil;ado, que elles
+velariam
+por mim.<br>
+
+<br>
+
+Havia quatro dias, que por um momento estive quasi perdido em
+tr&ecirc;s occasi&otilde;es differentes: 1^o com o
+b&ugrave;falo no
+Huambo, 2^o na libata do Chacaquimbamba, e 3^o ali n'aquella noite.<br>
+
+<br>
+
+Depois de um sono agitado, acordei ao som da tempestade que bramia
+l&aacute; fora.<br>
+
+<br>
+
+Pensei nos acontecimentos da noite e n&atilde;o fiquei tranquillo.
+&iquest;O que succederia de manh&atilde;? Eu estava
+s&oacute; com 10
+homens, dentro de uma povoa&ccedil;&atilde;o fortificada,
+d'onde
+n&atilde;o era facil sahir; e ainda que se me abrissem as portas
+&iquest;onde iria eu obter carregadores, agora que me tinha
+indisposto
+com o r&egrave;gulo?<br>
+
+<br>
+
+P&ocirc;de bem julgar-se da anciedade com que esperei o raiar da
+aurora.<br>
+
+<br>
+
+Ao alvorecer a febre tinha abrandado um pouco. Apromptei-me para
+partir, e mandei chamar o sov&ecirc;ta, que appareceu logo.<br>
+
+<br>
+
+Disse-lhe que ia seguir, e ali deixava as cargas s&ocirc;b sua
+responsabilidade, e que depois as mandaria buscar; mas elle pedio-me
+que o n&atilde;o fizesse, que me ia dar os carregadores; e dando-me
+mil
+satisfa&ccedil;&otilde;es<br>
+
+do occorrido na v&egrave;spera, disse-me, que o culpado
+f&ocirc;ra o
+Cassoma, que elle j&aacute; tinha posto f&ocirc;ra de casa; o
+que era
+falso, porque eu ali o vi depois.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 416px;" alt="" src="images/006.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.5"></a>Figura
+5.--Mulh&eacute;r do Sambo.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+&Aacute;s 10 horas, apresentou-me os carregadores precisos.
+Verdadeiramente n&atilde;o eram s&oacute; carregadores, que no
+grupo
+devisei 6 raparigas, ainda de manilhas nos art&ecirc;lhos; tal
+cuidado
+poz elle em servir-me, que, para n&atilde;o me demorar, mandando ir
+homens das povoa&ccedil;&otilde;es distantes, me deu os que na
+sua
+tinha disponiveis, e ainda seis das suas escravas, para completar o
+n&ugrave;mero pedido. Agradeci muito e mostrei-me sensivel a tal
+prova
+de cuidado, declarando-lhe logo, que n&atilde;o tinha comigo
+presente
+digno, de offerecer-lhe, e que querendo dar-lhe uma espingarda lhe
+pedia mandasse um homem da sua confian&ccedil;a recebel-a no
+Bih&eacute;, mostrando-lhe desejos de que esse homem
+f&ocirc;sse o
+sec&uacute;lo Palanca seu conselheiro &igrave;ntimo. Exultei de
+alegria
+(que me abstive de deixar transparecer) ao ver o meu pedido satisfeito,
+e o Palanca nomeado para me acompanhar. O sov&ecirc;ta Dumbo
+entregava
+nas minhas m&atilde;os um preci&ocirc;so refem, que me
+responderia
+j&aacute; p&ecirc;la minha seguran&ccedil;a, j&aacute;
+p&ecirc;la das
+cargas que deixei dois dias antes entregues ao Barros, a quem preveni e
+acautelei em carta deixada ao Dumbo.<br>
+
+<br>
+
+Deixei a povoa&ccedil;&atilde;o &aacute;s 11 horas,
+&aacute; frente da
+estranha comitiva, formada dos meus dez bravos de Benguella, dez
+salteadores do Sambo, e seis virgens escravas do sov&ecirc;ta
+Dumbo. A
+chuva era torrencial; mas eu, apesar d'isso, segui sempre, tanto me
+tardava de ver longe a povoa&ccedil;&atilde;o onde passei
+t&atilde;o
+horrivel noite.<br>
+
+<br>
+
+Quatro horas depois, tendo andado a N.E., fui acampar junto da
+povoa&ccedil;&atilde;o de Burundoa, completamente molhado e
+tiritando
+de frio e febre.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o aceitei a hospitalidade offerecida p&ecirc;lo chefe
+da
+povoa&ccedil;&atilde;o, porque, depois do que se passou na
+v&egrave;spera, recordei-me de um bom cons&ecirc;lho que me deu
+Stanley, e protestei n&atilde;o mais em &Agrave;frica pernoitar
+em casa
+de gentio.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 222px;" alt="" src="images/007.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.6"></a>Figura
+6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bih&eacute;.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Vi&eacute;ram ao meu campo muitas raparigas vender capata, milho,
+fuba
+e batatas magn&igrave;ficas, em nada inferiores &aacute;s da
+Europa.<br>
+
+<br>
+
+A chuva continuava mais moderada, mas persistente, e eu sentia-me muito
+doente.<br>
+
+<br>
+
+Junto do meu campo corria um pequeno riacho, cujas &agrave;guas iam
+a
+um ribeiro affluente do Cubango, sam as &agrave;guas que este
+&ugrave;ltimo rio recebe mais de Oeste.<br>
+
+<br>
+
+Durante a noite houve chuva moderada, mais forte das 4 &aacute;s 5
+da
+manh&atilde;, hora em que parou. Ha grande abundancia de
+&ograve;ptimo
+tabaco n'este paiz, onde me vend&ecirc;ram muito e baratissimo. Ali
+poucos pr&ecirc;tos fumam, mas t&ocirc;dos cheiram tabaco em
+p&oacute;,
+que preparam torrando a fogo brando o tabaco de fumo, e reduzindo-o a
+p&oacute; no mesmo tubo que lhe serve de caixa, com um pao, especie
+de
+m&atilde;o-de-almofariz, que a elle anda pr&ecirc;so com uma
+correa
+fina.<br>
+
+<br>
+
+Parti as 7^{h.} 40^{m.} a N.E., atravessando uma regi&atilde;o
+muito cultivada e muito povoada.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute;s 8^{h.} 30^{m.} passei junto da grande
+povoa&ccedil;&atilde;o
+de Vaneno, e &aacute;s 10 parei para descan&ccedil;ar junto da
+aldea de
+Moenacuchimba. Segui &aacute;s 10 e meia sempre a N.E.,
+&aacute;s 11
+passei junto da povoa&ccedil;&atilde;o de Chacapombo, muito
+populosa, e
+meia hora depois parei perto de Quiaia, a mais importante de
+t&ocirc;das. O chefe d'esta aldea veio ao caminho comprimentar-me e
+offerecer-me um grande porco. Dei-lhe em algod&atilde;o riscado o
+valor
+do porco, e elle retirou-se satisfeito, mandando em seguida muitas
+caba&ccedil;as de capata para a minha gente. Segui no mesmo rumo, e
+duas horas depois fui acampar no mato pr&ograve;ximo da
+povoa&ccedil;&atilde;o do Gongo.<br>
+
+<br>
+
+Esta &ugrave;ltima parte da marcha d'aquelle dia foi trabalhosa,
+porque choveu muito, e o vento S.O. era rijo e frio.<br>
+
+<br>
+
+P&ecirc;la tarde chegou um enviado do sova grande do Sambo, cuja
+povoa&ccedil;&atilde;o me ficava uns 15 kil&ograve;metros a
+N.O.,
+mandando-me pedir alguma cousa, e dizendo-me o portador do recado, que
+se eu houvera passado &aacute; porta do sova, elle me daria um
+b&ocirc;i. Agradeci a b&ocirc;a inten&ccedil;&atilde;o,
+e resolvi
+dar-lhe no dia seguinte alguma cousa, receoso que o enviado, se eu o
+despedisse sem dar nada, influisse nos carregadores a abandonarem-me, o
+que seria facil porque j&aacute; o tinham querido fazer, e foi
+preciso
+t&ocirc;da eloquencia do Verissimo para os convencer a seguirem
+&aacute;vante.<br>
+
+<br>
+
+O sec&uacute;lo Capu&ccedil;o, chefe da
+povoa&ccedil;&atilde;o
+pr&ograve;xima, mandou-me comprimentar por tr&ecirc;s das suas
+mulh&eacute;res (t&ocirc;das feias), e por ellas um presente de
+uma
+gallinha e tr&ecirc;s caba&ccedil;as de capata. Mandei-lhe seis
+c&ocirc;vados de riscado e dei algumas missangas &aacute;s
+mulh&eacute;res. Junto &aacute; noite vi&eacute;ram algumas
+mulh&eacute;res vender farinha, milho e mandioca.<br>
+
+<br>
+
+Usam ellas ali os mais extravagantes penteados, e a carapinha
+&eacute;
+enfeitada com coral branco e reluz da grande profus&atilde;o de
+oleo de
+ricino, que ellas prodigalizam na sua&nbsp;<span style="font-style: italic;">toilette</span>.
+Os homens do sov&ecirc;ta Dumbo eram verdadeiramente
+insobordinados,
+querelavam-se com a gente de Benguella, e durante a noite s&oacute;
+houve tranquillidade na barraca onde dormiam as seis virgens
+n&ecirc;gras, as minhas gent&iacute;s carregadoras.<br>
+
+<br>
+
+A noite foi tormentosa de chuva e vento. Ao alvorecer o
+sec&uacute;lo
+Capu&ccedil;o, veio agradecer os 6 c&ocirc;vados de riscado que
+lhe
+dei, e em logar das tr&ecirc;s mulh&eacute;res feias que me
+enviou na
+v&egrave;spera, trouxe-me um lindo porco e uma gorda gallinha.<br>
+
+<br>
+
+O enviado do sova veio receber o presente que lhe tinha promettido; e
+que foi muito insignificante, sendo como era em tr&ocirc;co da
+inten&ccedil;&atilde;o de me dar um b&ocirc;i, se eu
+passasse junto da
+libata d'elle.<br>
+
+<br>
+
+Segui p&ecirc;las 8 horas, e &aacute;s 9 passei junto das
+povoa&ccedil;&otilde;es de Chac&aacute;h&ocirc;nha,
+primeiras da
+ra&ccedil;a (Ganguela) na &Agrave;frica de Oeste.<br>
+
+<br>
+
+Passei o riacho Bomba, cuja margem esqu&ecirc;rda segui por dois
+kil&ograve;metros, quando os carregadores pous&aacute;ram as
+cargas,
+recusando seguir &aacute;vante, e pedindo os seus pagamentos para
+voltarem. Eu estava a dois kil&ograve;metros do Cubango, e querendo
+passar o rio, instei com elles a que andassem mais aquelle curto
+espa&ccedil;o, e que logo que estivesse na outra margem lhes daria
+os
+seus pagamentos e os despediria.<br>
+
+<br>
+
+Recus&aacute;ram-se formalmente, dizendo, que eu tinha sido muito
+offendido na sua libata, p&ecirc;lo sov&ecirc;ta Dumbo, e por
+isso
+n&atilde;o iam para diante, sendo certo que, logo que eu os tivesse
+na
+outra margem do rio, f&ocirc;ra do seu paiz, me vingaria n'elles
+das
+offensas recebidas.<br>
+
+<br>
+
+F&ocirc;ram baldados os meus esf&ocirc;r&ccedil;os e tudo
+foi
+eloquencia perdida. Recusei-me a pagar-lhes se elles n&atilde;o
+passassem o Cubango; responder&atilde;o-me que se retiravam sem
+pagamento, e logo cham&aacute;ram as seis raparigas e
+orden&aacute;ram-lhes que os seguissem.<br>
+
+<br>
+
+Eu estava no desespero; ali perto era a povoa&ccedil;&atilde;o
+do
+Cassoma, e eu vi ser aquillo plano combinado de antem&atilde;o para
+me
+entregarem a elle, que me havia precedido no caminho.<br>
+
+<br>
+
+As cargas abandonadas n'aquelle ponto eram cargas perdidas. Calcule-se
+com que &ocirc;lhos eu vi partirem os carregadores, abandonando-me.<br>
+
+<br>
+
+Olhei para as cargas e estremeci de prazer. Sentado em uma d'ellas
+estava um homem alto e magro, de figura impassivel, com a longa
+carabina atravessada s&ocirc;bre os jo&ecirc;lhos.<br>
+
+<br>
+
+Era o sec&uacute;lo Palanca, que eu havia esqu&egrave;cido.
+Saltar
+s&ocirc;bre elle e derrubal-o foi obra de um momento. Mandei-o
+amarrar
+de p&eacute;s e m&atilde;os, e dei ordem a Augusto e Manuel que
+o
+enforcassem no ramo de uma acacia que se estendia s&ocirc;bre as
+nossas
+cab&ecirc;&ccedil;as. Ao ver que a ordem ia ser cumprida, elle,
+transido de m&ecirc;do, gritou-me, "N&atilde;o me mates, os
+carregadores vam passar o Cubango," e logo soltou um grito agudo que
+f&ecirc;z reunir os carregadores j&aacute; dispersos.<br>
+
+<br>
+
+Ordenou-lhes que pegassem nas cargas e seguissem, e elles
+obedec&ecirc;ram.<br>
+
+<br>
+
+Mandei que lhe desamarrassem os p&eacute;s, e prometti-lhe um tiro
+na
+cab&ecirc;&ccedil;a &aacute; menor
+excita&ccedil;&atilde;o dos
+carregadores. Meia hora depois passava o Cubango n'uma bem construida
+ponte, e acampava na margem esqu&ecirc;rda junto das
+povoa&ccedil;&otilde;es de Chindonga.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 230px;" alt="" src="images/008.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.7"></a>Figura
+7.--Ponte de Cassanha s&ocirc;bre o Rio Cubango.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Entre o rio e o meu campo ficavam umas minas de ferro, d'onde o gentio
+extrae abundante minerio.<br>
+
+<br>
+
+Estava finalmente em terras de Moma, e livre dos paizes do Nano, Huambo
+e Sambo, de que guardarei eterna memoria.<br>
+
+<br>
+
+O Cubango corre ali a S.S.E., e tem 35 metros de largo por 2 a 4 de
+fundo. Fiz observa&ccedil;&otilde;es para determinar a
+posi&ccedil;&atilde;o e altitude, e logo corri &aacute;
+barraca, que
+uma trovoada vinda de N.N.E. descarregou s&ocirc;bre n&oacute;s
+copiosa
+chuva.<br>
+
+<br>
+
+Paguei e despedi os carregadores do Sambo, dando-lhes dois
+c&ocirc;vados de riscado a cada um, que tal tinha sido o ajuste.<br>
+
+<br>
+
+Chamei as 6 raparigas, e disse-lhes, que a ellas nada daria, porque as
+mulh&eacute;res tinham obriga&ccedil;&atilde;o de trabalhar
+e
+n&atilde;o mereciam paga. Ellas retir&aacute;ram-se tristes;
+mas
+achando natural o meu modo de proceder, t&atilde;o aviltada
+&eacute; a
+mulh&eacute;r n'aquelles paizes.<br>
+
+<br>
+
+Quando j&aacute; se mettiam a caminho para voltarem ao Sambo,
+mandei-as
+chamar e dei 4 c&ocirc;vados do mais brilhante zuarte pintado que
+possuia a cada uma, e algums fios de missangas differentes.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; impossivel descrever o contentamento d'aquellas
+desgra&ccedil;adas ao receberem t&atilde;o valiosa paga. Os
+homens
+roiam-se de inveja, e eu convenci-os de que, se n&atilde;o tivessem
+querido voltar para casa na outra<br>
+
+margem do Cubango lhes pagaria do mesmo modo.<br>
+
+<br>
+
+Foi a minha vingan&ccedil;a, e ao mesmo tempo proveitosa
+li&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 364px;" alt="" src="images/009.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.8"></a>Figura
+8.--O Sec&uacute;lo que me deu um Porco.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+N'essa noite veio procurar-me um sec&uacute;lo da
+povoa&ccedil;&atilde;o de Chindonga, que me trouxe de presente
+um porco.<br>
+
+<br>
+
+Este sec&uacute;lo prometeu-me carregadores para o dia seguinte, a
+um
+c&ocirc;vado de riscado por dia, dizendo-me, que elles
+s&oacute; iriam
+at&eacute; ao paiz de Caquingue, onde eu facilmente obteria gente
+para
+o Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+A minha febre tinha cedido a fortissimas doses de quinino; mas
+completamente molhado havia tr&ecirc;s dias, eu sentia
+j&aacute; os
+primeiros symptomas do terrivel ataque de rh&egrave;umatismo que
+depois
+ia compromettendo a minha viagem.<br>
+
+<br>
+
+A noite foi tempestuosa e o dia seguinte continuou chuvoso.<br>
+
+<br>
+
+O sec&uacute;lo veio logo de manh&atilde; com os carregadores;
+mas eu
+tinha resolvido descan&ccedil;ar ali um dia, e por isso
+convoquei-os
+para o dia seguinte. Disse-me elle, que os meus companheiros tinham
+passado na v&egrave;spera, vindos do Sul.<br>
+
+<br>
+
+O sec&uacute;lo Palanca, do Sambo, contin&uacute;a bem vigiado,
+mas
+livre. Eu na v&egrave;spera tinha mandado dizer ao sov&ecirc;ta
+Dumbo,
+que a cab&ecirc;&ccedil;a do seu amigo me respondia
+p&ecirc;las cargas
+que vinham escoltadas p&ecirc;lo pr&ecirc;to Barros,
+resolu&ccedil;&atilde;o que Palanca achou muito justa e
+natural, por
+ser lei do paiz. Talvez o meu procedimento, que eu confesso
+francamente, me seja censurado, mas eu rogo aos censores, que pensem um
+pouco na posi&ccedil;&atilde;o de algum, acompanhado
+s&oacute; de dez
+homens, n'um paiz em que tudo lhe &eacute; hostil, desde o clima
+at&eacute; ao homem. Se eu n&atilde;o professo o principio de
+que os
+fins justificam os meios, n&atilde;o sou tambem bastante virtuoso
+para
+apresentar uma face &aacute; m&atilde;o que me esbofeteou a
+outra.
+Longe das vistas do mundo civilisado, f&ocirc;ra d'esses dois
+c&igrave;rculos de ferro que apertam a humanidade culta, a que
+chamam o
+c&ograve;digo penal e as conveniencias sociaes, c&igrave;rculos
+que,
+apesar de estreitos, deixam ainda bastante latitude ao crime e
+&aacute;
+infamia; o explorador d'&Agrave;frica, perdido no meio de
+p&ocirc;vos
+ignaros, cujos c&ograve;digos differem essencialmente dos nossos;
+tendo
+por &ugrave;nica testemunha dos seus actos a Deos, por
+&ugrave;nico
+censor das suas obras a sua consciencia, precisa ter uma
+f&ocirc;r&ccedil;a sublime para se conservar honrado e digno,
+quando
+muitas v&ecirc;zes as paix&otilde;es travam no seu
+&igrave;ntimo uma
+luta infrene. Por mim o digo, que t&ocirc;das as
+ova&ccedil;&otilde;es
+que me tem dispensado o mundo civilisado, p&ecirc;la felicidade que
+tive de vencer os obst&agrave;culos materiaes no meu caminho,
+seriam
+talvez mais justamente applicadas, se se soubesse quantas lutas, e que
+terriveis lutas sustentei para me vencer a mim mesmo.<br>
+
+<br>
+
+Vencer as suas paix&otilde;es ind&ograve;mitas, vencer os seus
+h&agrave;bitos materiaes e moraes da vida civilisada, sam os dois
+grandes trabalhos do explorador. Aquelle que o conseguiu,
+attingir&aacute; o seu fim, cumprir&aacute; a sua
+miss&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Eu, no principio da minha viagem, receei muito de mim mesmo.<br>
+
+<br>
+
+Tive lutas ingentes, lutas terriveis, por serem surdas e ignoradas, de
+que sahi sempre vencedor. O meu genio ind&ograve;mito
+t&ecirc;ve de
+ceder &aacute; vontade inquebrantavel, e na falta de tempo para
+escrever um c&ograve;digo, tomei um que accommodei ao meu uso. Os
+meus
+principios f&ocirc;ram os do direito natural; a minha lei, curta
+mas
+&ograve;ptima, resumiu-se nos dez preceitos do Dec&agrave;logo.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o se julgue que quero fazer jus &aacute;
+canoniza&ccedil;&atilde;o, nem mesmo que pretendo ter seguido
+&aacute;
+risca os preceitos gravados no vig&egrave;simo cap&igrave;tulo
+do livro
+sublime do &Egrave;xodo, de certo o mais bello do Pentateuco; mas
+fiz o
+que pude para n&atilde;o me afastar muito d'elles, e fiz bem.<br>
+
+<br>
+
+Esta divaga&ccedil;&atilde;o fica aqui, n&atilde;o como
+narrativa de
+&agrave;guas passadas, mas como cons&ecirc;lho a exploradores
+futuros,
+que n&atilde;o sejam missionarios, que a esses Deos me defenda de
+falar
+em materia da sua competencia.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; verdade que eu encontrei alguns em &Agrave;frica que
+me
+fiz&eacute;ram lembrar o velho rif&atilde;o, "Em casa de
+ferreiro,
+espeto de pao."<br>
+
+<br>
+
+Passemos adiante.<br>
+
+<br>
+
+Durante o dia, vi&eacute;ram muitas pr&ecirc;tas vender
+alimentos, e
+entre outras cousas vulgares, troux&eacute;ram uma mui
+extraordinaria.<br>
+
+<br>
+
+Era uma grande cesta cheia de lagartas, mui semelhantes &aacute;s
+do <span style="font-style: italic;">Acherontia Atropos</span>,
+e da mesma grandeza. Este gigantesco Lepid&ograve;ptero no seu
+primeiro
+estado vive nas gram&igrave;neas, e &eacute; facil ali colher
+grande
+provis&atilde;o. Os Ganguelas sam &agrave;vidos de tal manjar,
+que os
+meus pr&ecirc;tos recus&aacute;ram.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 183px;" alt="" src="images/010.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.9"></a>Figura
+9.--Mulh&eacute;res Ganguelas das margens do Cubango.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+No dia seguinte logo de manh&atilde;, vi&eacute;ram
+offerecer-se muitos mais carregadores, que recusei, por me serem
+inuteis.<br>
+
+<br>
+
+Parti depois das 10 horas, hora a que a chuva abrandou. No momento da
+sahida quebrei os meus &ograve;culos, que usava desde Lisboa. Andei
+a
+N.E., e cinco horas depois, acampava na margem esqu&ecirc;rda do
+rio
+Cutato das Ganguelas, rio que passei em umas alpondras s&ocirc;bre
+uma
+pequena cataracta.<br>
+
+<br>
+
+No caminho passei um pequeno ribeiro, chamado Chimbuicoque, affluente
+do Cutato.<br>
+
+<br>
+
+O rio corre n'aquelle ponto a Leste, voltando em seguida ao N., e
+depois p&ecirc;lo Leste para o Sul. Este S gigantesco &eacute;
+uma
+serie de r&agrave;pidos, em que o rio se precipita com fragor
+enorme,
+p&ocirc;r s&ocirc;bre as rochas de granito que formam o seu
+leito.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 600px; height: 383px;" alt="" src="images/011.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.10"></a>Figura
+10.--Termites na margem do Rio Cutato dos Ganguelas.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+No sitio das alpondras naturaes, mede 80 metros de largo, e a montante
+e jusante 27 metros com 4 a 5 de fundo. Vai afluir ao Cubango, dizem os
+naturaes que 15 dias de caminho ao sul d'este ponto.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 151px;" alt="" src="images/012.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.11"></a>Figura
+11--Monte term&igrave;tico, de
+4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato dos Ganguelas, coberto de
+vegeta&ccedil;&atilde;o.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<br>
+
+A margem direita &eacute; occupada p&ecirc;las
+planta&ccedil;&otilde;es
+da povoa&ccedil;&atilde;o de Moma, que occupam um
+espa&ccedil;o que
+avaleei em mais de mil hectares de terreno. Sam as maiores que tenho
+visto em &Agrave;frica. A cultura entre estes p&ocirc;vos
+consiste
+principalmente em milho, feij&atilde;o e batata, mas o que mais se
+v&ecirc; sam campos de milho. Antes de chegar &aacute;s
+planta&ccedil;&otilde;es, atravessei uma floresta de acacias
+enormes,
+de sorprendente belleza. O aspecto das margens do Cutato &eacute;
+muito
+original. Onde termina o granito do leito do rio
+com&ecirc;&ccedil;a um
+solo de forma&ccedil;&atilde;o term&igrave;tica, e o
+terreno coberto de
+milhares de mont&igrave;culos, uns cultivados, outros cobertos de
+vegeta&ccedil;&atilde;o silvestre, t&ocirc;dos ligados,
+formando como
+que systemas de montanhas, ferem a vista, admirada ao contemplar um
+t&atilde;o estranho systema orogr&agrave;phico artificial.
+Marquei a
+grande povoa&ccedil;&atilde;o de Moma, tr&ecirc;s
+kil&ograve;metros a
+O.S.O., e depois de ter determinado a altitude do rio ali, retirei-me,
+molhado da incessante chuva, e atacado de n&ocirc;vo accesso de
+febre.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">Os amea&ccedil;os de
+rheumatismo
+continuavam. Durante a noite a chuva foi torrencial, e como sempre,
+dormi molhado, porque, n'esta &egrave;poca do anno, as
+gram&igrave;neas
+de que cobria a minha barraca improvisada, n&atilde;o tinham mais
+comprimento que 50 centimetros, e com herva t&atilde;o curta
+&eacute;
+difficil, sen&atilde;o impossivel, vedar a &agrave;gua em uma
+barraca.<br>
+
+<br>
+
+A chuva s&oacute; abrandou no dia seguinte ao meio dia, e eu,
+apesar de
+abrazado em febre, segui &aacute;s 2 horas, tinha 144
+pulsa&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Caminhei a p&eacute;, por me ser impossivel segurar-me a cavallo no
+b&ocirc;i; mas, depois de uma hora de marcha, as pernas
+recusavam-se a
+continuar. Acampei. Os meus pr&ecirc;tos e os proprios carregadores
+Ganguelas dispensavam-me os maiores cuidados.<br>
+
+<br>
+
+O logar em que acampei foi junto de umas
+povoa&ccedil;&otilde;es a que
+chamam Lamupas, por estarem perto das cachoeiras do rio, que em lingua
+do paiz t[~e]m o nome de&nbsp;<span style="font-style: italic;">Mupas</span>.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; logar muito povoado e muito cultivado, sendo estes
+p&ocirc;vos grandes cultivadores.<br>
+
+<br>
+
+Encontrei no caminho algumas sepulturas de sec&uacute;los, que sam
+cobertas de barro, com uma forma semelhando algumas da Europa. Estas
+sepulturas sam cobertas por um alpendre de c&ocirc;lmo, e sam
+sempre
+debaixo de uma &agrave;rvore grande.<br>
+
+<br>
+
+S&ocirc;bre ellas vi cacos de pratos e panellas, que ali sam
+depostos
+p&ecirc;los parentes do defunto, como n&oacute;s depomos nos
+t&ugrave;mulos das pess&ocirc;as queridas, as saudades e as
+perp&egrave;tuas.<br>
+
+<br>
+
+De noite a chuva moderou, e o dia seguinte amanheceu nublado mas estio.
+A febre abrandou muito, mas as d&ocirc;res rheum&agrave;ticas
+com&ecirc;&ccedil;avam a fazer-se sentir atrozmente. Segui
+&aacute;vante, e meia hora depois de ter deixado o meu campo,
+passei
+junto da grande povoa&ccedil;&atilde;o de Cassequera.<br>
+
+<br>
+
+Logo que passei um pequeno riacho que fica para
+&agrave;l&eacute;m da
+povoa&ccedil;&atilde;o, deparei com umas clareiras enormes
+cobertas de
+gram&igrave;neas, que me prenderam a atten&ccedil;&atilde;o
+p&ecirc;lo
+seu enorme e completo desenvolvimento, em uma &egrave;pocha do anno
+em
+que as plantas d'esta familia estam em principio desse desenvolvimento.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 300px; height: 203px;" alt="" src="images/013.png"></span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.12"></a>Figura
+12.--Sepultura de Sec&uacute;lo.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O meu muleque P&eacute;p&eacute;ca foi atacado de
+t&atilde;o violento e
+repentino accesso de febre, que cahio inerte. Tive de parar e mandar
+contratar um homem, na povoa&ccedil;&atilde;o de Cassequera,
+para o
+levar &aacute;s costas. Ao meio dia, passei junto da libata do
+Capit&atilde;o do Quingue, primeira povoa&ccedil;&atilde;o
+do paiz de
+Caquingue. Fui hospedar-me em casa de Jo&atilde;o Albino,
+mesti&ccedil;o de Benguella, filho do antigo sertanejo Portuguez
+Luiz
+Albino, m&ocirc;rto por um b&ugrave;falo nos sert&otilde;es
+do Zambeze.<br>
+
+<br>
+
+Jo&atilde;o Albino mora na libata de Camenha, filho do
+Capit&atilde;o do Quingue. <br>
+
+<br>
+
+Camenha estava ausente, por ter ido tomar o commando das
+f&ocirc;r&ccedil;as do sova de Caquingue, que ia fazer a guerra
+a uns
+sov&ecirc;tas do Cubango.<br>
+
+<br>
+
+O tempo melhorou, e a minha febre cessou de tudo, mas o rheumatismo
+continuava a amea&ccedil;ar-me.<br>
+
+<br>
+
+A noite foi sem chuva, e o dia seguinte amanheceu claro e sem nuvens.<br>
+
+<br>
+
+Fui visitar o velho capit&atilde;o do Quingue, a quem levei de
+presente
+uma pe&ccedil;a de len&ccedil;os. Elle deu-me um b&ocirc;i,
+que mandei
+logo matar, porque h&aacute; muito que t&igrave;nhamos
+s&oacute; carne
+de porco para comer. O capit&atilde;o era muito velho e doente.
+Conversou muito comigo a respeito do motivo da minha viagem, e
+n&atilde;o comprehendeu o que eu andava fazendo.<br>
+
+<br>
+
+Quando eu ia a retirar-me, disse-me elle, "Eu sei o que tu fazes, tu
+&eacute;s sec&uacute;lo de Moeneputo, e elle mandou-te ver
+estas terras
+e estudar os caminhos; por aqui fazem-se muitas cousas que
+n&atilde;o
+sam b&ocirc;as, e o Moeneputo hade querer p&ocirc;r termo a
+isso;
+pe&ccedil;o-te, que quando isso aconte&ccedil;a, te lembres de
+que eu
+te dei um b&ocirc;i, e te tratei como meu irm&atilde;o; eu
+pouco
+viverei, mas ent&atilde;o lembra-te de meus filhos, e
+n&atilde;o lhes<br>
+
+fa&ccedil;as mal." Comov&eacute;ram-me estas palavras do
+anci&atilde;o.
+Os seus sec&uacute;los vi&eacute;ram acompanhar-me
+respeitosamente
+at&eacute; &aacute; libata do filho onde estava hospedado, e
+poucos
+deix&aacute;ram, no correr do dia, de me trazer pequenos presentes,
+j&aacute; gallinhas, j&aacute; &ocirc;vos e j&aacute;
+canna de assucar.
+Na libata do capit&atilde;o vi uma pequena
+planta&ccedil;&atilde;o de
+cana de assucar, t&atilde;o vi&ccedil;osa como n&atilde;o
+vi no
+litoral, e em que esta enorme gram&igrave;nea tinha um
+desenvolvimento
+descommunal.<br>
+
+<br>
+
+Notei esta circunstancia, por ter julgado at&eacute;
+ent&atilde;o, que
+a uma t&atilde;o grande altitude, cerca de 1700 metros,
+n&atilde;o
+vegetaria tal planta.<br>
+
+<br>
+
+De volta &aacute; libata, encontrei ali Francisco
+Gon&ccedil;alves (<span style="font-style: italic;">o
+Carique</span>), irm&atilde;o do Verissimo, que, sabendo da
+minha chegada, vinha visitar-me. <br>
+
+<br>
+
+Este&nbsp;<span style="font-style: italic;">Carique</span>,
+filho
+do sertanejo Guilherme, como o Verissimo, &eacute; comtudo filho de
+outra m&atilde;e, e a elle pertence por heran&ccedil;a materna
+o throno
+de Caquingue.<br>
+
+<br>
+
+Vive junto do sova, seu tio, e &eacute; casado com uma filha do
+futuro sova do Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Foi educado em Benguella, e possue alguma
+instruc&ccedil;&atilde;o e
+bastante intelligencia. Elle trazia com-sigo alguns pr&ecirc;tos
+que
+f&ocirc;ram escravos de seu pai, e que logo se
+offerec&eacute;ram para
+me acompanharem na viagem do Bih&eacute; para Leste.<br>
+
+<br>
+
+Assim, pois, j&aacute; antes de chegar ao Bih&eacute;, arranjei
+alguns carregadores.<br>
+
+<br>
+
+Carique, Albino, o filho do Capit&atilde;o, e outros que fazem
+commercio sertanejo, sahem d'aquelle ponto para o Mucusso e
+Sulatebelle, descendo o Cubango at&eacute; ao Ngami, sempre
+p&ecirc;la
+margem direita, e vam tambem negociar ao Cuanhama, paiz a leste do
+Humbe, na margem esqu&ecirc;rda do Cunene.<br>
+
+<br>
+
+O artigo principal do tr&agrave;fico &eacute; o escravo, que em
+caminho
+tr&ocirc;cam por b&ocirc;is, e estes e fazendas, por
+c&ecirc;ra e
+marfim. <br>
+
+<br>
+
+Resolvi demorar-me ali um dia, n&atilde;o s&oacute; para
+descan&ccedil;ar e enxugar, mas tambem para me informar
+s&ocirc;bre
+este paiz, cujos usos j&aacute; differem muito dos dos povos que
+tinha
+encontrado at&eacute; ali. De tarde, o Carique e Jo&atilde;o
+Albino
+d&eacute;ram-me largas informa&ccedil;&otilde;es
+s&ocirc;bre o paiz,
+das quaes transcrevo do meu diario as mais curiosas.<br>
+
+<br>
+
+O paiz de Caquingue limita ao N. com o Bih&eacute;, a oeste com o
+paiz
+de Moma, a leste e ao sul com p&ocirc;vos confederados de
+ra&ccedil;a
+Ganguela. A ra&ccedil;a Ganguela occupa n'esta parte
+d'&Agrave;frica um
+vasto territorio, e est&aacute; dividida em 4 grandes grupos, os
+quaes
+soffrem ainda subdivis&otilde;es. A l&igrave;ngua e usos sam os
+mesmos;
+mas a sua organiza&ccedil;&atilde;o pol&igrave;tica
+differente. No paiz
+de Caquingue tomam os Ganguelas o nome de Gonzellos, estam constituidos
+em reino, tendo um &ugrave;nico chefe.<br>
+
+<br>
+
+Nas suas outras divis&otilde;es formam
+confedera&ccedil;&otilde;es,
+muito vulgares em &Agrave;frica, sendo cada
+povoa&ccedil;&atilde;o
+governada por um chefe independente. Os que demoram a S.E. de Caquingue
+chamam-se Nhembas, os do sul Massacas, e aquelles que vivem a leste do
+Bih&eacute;, Bundas. D'estes &ugrave;ltimos terei de falar
+detidamente
+no correr d'esta narrativa. Os Gonzellos, Ganguelas de Caquingue, sam
+cultivadores e negociantes, e sam, de t&ocirc;dos os
+p&ocirc;vos da
+&Agrave;frica Austral, aquelles que mais se aproximam dos Bihenos,
+em
+commettimentos de explora&ccedil;&atilde;o commercial.<br>
+
+<br>
+
+No paiz trabalham muito em ferro, e esta industria estabelece entre
+elles e outros p&ocirc;vos activas rela&ccedil;&otilde;es
+de commercio.
+<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o tem a menor id&eacute;ia de uma religi&atilde;o
+qualquer, e
+vivem com os seus feiti&ccedil;os, n&atilde;o pensando na
+existencia de
+um Ente Supremo que tudo dirija.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 202px;" alt="" src="images/014.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.13"></a>Figura
+13.--Ferreiros Caquingues.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Nos mezes mais frios, Junho e Julho, os ferreiros Gonzellos deixam as
+suas libatas, e vam estabelecer grandes acampamentos junto das minas de
+ferro, que sam abundantes no paiz.<br>
+
+<br>
+
+Para extrac&ccedil;&atilde;o do minerio cavam po&ccedil;os
+circulares
+de tr&ecirc;s a quatro metros de di&agrave;metro, que
+n&atilde;o
+profundam mais de dois metros; de certo por lhe escacearem os meios de
+elevarem com facilidade o minerio a maior altura.<br>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 618px; height: 579px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 300px;"><img style="width: 300px; height: 567px;" alt="" src="images/015.png"></td>
+
+ <td style="width: 300px; vertical-align: bottom;"><span style="font-weight: bold;">1. Folles.<br>
+
+2. Bocal de&nbsp;Barro.<br>
+
+3. Bigorna.<br>
+
+4. Martello.</span></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><br>
+
+<a name="Fig.14"></a>
+Figura. 14.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Visitei muitos d'esses po&ccedil;os junto ao Cubango. Extraido que
+&eacute; o minerio que elles julgam sufficiente para o trabalho
+d'aquelle anno, com&ecirc;&ccedil;a a
+separa&ccedil;&atilde;o do ferro,
+que elles fazem em c&ocirc;vas pouco profundas, misturando o
+minerio
+com carv&atilde;o vegetal, e elevando a temperatura por meio dos
+seus
+instrumentos de insufla&ccedil;&atilde;o, que consistem em dois
+cylindros de pao, cavados de 10 cent&igrave;metros, com 30 de
+di&agrave;metro, e recobertos por duas p&ecirc;lles de cabra
+curtidas,
+&aacute;s quaes estam ligados dois paos, de 50
+cent&igrave;metros de
+comprido por 1 de di&agrave;metro. &Eacute; por meio d'estes
+paos que
+um r&agrave;pido movimento dado &aacute;s p&ecirc;lles
+produz a
+corrente de ar, que &eacute; dirigida s&ocirc;bre o
+carv&atilde;o por
+dois tubos de pao ligados aos cylindros, e terminados por um bocal de
+barro.<br>
+
+<br>
+
+Depois com&ecirc;&ccedil;a um incessante trabalhar, noite e
+dia,
+at&eacute; que tudo o metal &eacute; transformado em enxadas,
+machados,
+machadinhas de guerra, ferros de frecha, azagaias, pregos, facas e
+balas para as armas, e at&eacute; mesmo fuzis para ellas, de ferro
+temperado com unha de b&ocirc;i e sal. Vi muitos d'esses fuzis
+darem
+fogo tambem como os do melhor a&ccedil;o fundido.<br>
+
+<br>
+
+Durante tudo o tempo que duram os trabalhos &eacute; expressamente
+prohibido a qualquer mulh&eacute;r aproximar-se do campo dos
+ferreiros,
+porque dizem elles que se estraga logo o ferro. Eu creio que isto foi
+estabelecido para que os homens se n&atilde;o distraiam do
+trabalho, em
+que empregam, como j&aacute; disse, noite e dia.<br>
+
+<br>
+
+<img style="width: 600px; height: 776px;" alt="" src="images/016.png"><br>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.15"></a>
+Figura. 15.--Objectos fabricados p&ecirc;lo gentio entre a Costa e
+o Bih&eacute;.</span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;">1. </span><span style="font-weight: bold;">Machado de Trabalho.</span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;">2. Ferro de Frecha para a
+Guerra.</span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;">3. Frechas.</span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;">4. </span><span style="font-weight: bold;">Ferro de Frecha para
+Ca&ccedil;ar.</span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;">5. P&eacute; das
+Frechas.</span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;">6. Machado de Guerra.</span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;">7.</span><span style="font-weight: bold;"> Enxada.</span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;">8. Azagaias.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Findo que &eacute; o metal e transformado em obra, voltam os
+ferreiros
+a suas casas carregados com a sua manufactura, que vendem em seguida
+depois de terem reservado o necessario para seu uso.<br>
+
+<br>
+
+T&ocirc;dos estes p&ocirc;vos n&atilde;o admittem causas
+naturaes de
+doen&ccedil;a ou de morte. Sempre que adoece ou morre alguem, ou
+f&ocirc;ram as almas do outro mundo (uma certa &eacute;
+designada) que
+produzio o mal, ou ent&atilde;o foi algum vivo que f&ecirc;z
+feiti&ccedil;o ao doente ou ao m&ocirc;rto. Logo que morre
+alguem, se
+os parentes n&atilde;o estam na localidade, mandam-n-os prevenir, e
+no
+entanto penduram o cadaver em um grande pao a 200 ou 300 metros da
+porta da povoa&ccedil;&atilde;o, e esperam que elles venham
+para fazer
+o enterro.<br>
+
+<br>
+
+Logo que elles chegam ou se estam na localidade, procede-se
+immediatamente &aacute; devinha&ccedil;&atilde;o para saber
+a causa da
+morte. <br>
+
+<br>
+
+Para isso amarram o cadaver a uma vara comprida, e pegando dois homens
+nas extremidades, levam o c&ocirc;rpo ao logar destinado
+&aacute;s
+adevinha&ccedil;&otilde;es, onde o espera o adevinho e o
+p&ocirc;vo
+formado em duas alas.<br>
+
+<br>
+
+O adevinho tomando na m&atilde;o direita um coral branco,
+com&ecirc;&ccedil;a a adevinha&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Depois de fazer mil momices e grande grita e de ter feito mexer o
+m&ocirc;rto, que o p&ocirc;vo acredita que mexeu sem
+interven&ccedil;&atilde;o estranha, o adevinho declara que foi
+a alma
+de fulano ou de fulana que o matou, ou ent&atilde;o que foi
+feiti&ccedil;o dado por alguem que elle designa.<br>
+
+<br>
+
+No primeiro caso, o enterro faz-se em paz, abrindo uma c&ocirc;va
+no
+mato, em qualquer logar indistinctamente, e lan&ccedil;ando n'ella
+o
+cadaver que cobrem de pedras, paos e terra; mas no segundo caso, a
+pess&ocirc;a designada p&ecirc;lo adevinho como feiticeiro
+&eacute;
+agarrada, e, ou paga ao mais pr&ograve;ximo parente a vida do
+m&ocirc;rto, ou lhe cortam ali a cab&ecirc;&ccedil;a, indo
+dar parte do
+occorrido ao sova, a quem tem de levar de presente uma cabra para elle
+escutar o caso.<br>
+
+<br>
+
+Comtudo p&ocirc;de dar-se o caso de um accusado negar firmemente a
+sua
+culpabilidade na morte, e ent&atilde;o tem direito de defesa. <br>
+
+<br>
+
+Para isso, vai elle buscar um cirurgi&atilde;o que vem, na
+presen&ccedil;a do p&ocirc;vo proceder &aacute;s provas da
+innocencia
+ou culpabilidade do accusado.<br>
+
+<br>
+
+O cirurgi&atilde;o chega &aacute; presen&ccedil;a dos
+parentes e do
+p&ocirc;vo, e comp&otilde;e uma bebida venenosa de que tomam
+quantidades iguaes o accusado e o mais pr&ograve;ximo parente do
+m&ocirc;rto.<br>
+
+<br>
+
+A beberagem produz uma especie de loucura temporaria, e &eacute;
+n'aquelle dos dois em que ella se manifesta com mais intensidade que
+recae a culpa da morte.[<a href="#3">3</a>]<br>
+
+<br>
+
+Se &eacute; no accusado, ou paga a vida do defunto, ou morre; se
+&eacute; no parente, tem este de indemnizar o accusado
+p&ecirc;la
+accusa&ccedil;&atilde;o feita, dando-lhe logo um porco para lhe
+pagar o
+trabalho de ir buscar um cirurgi&atilde;o, e depois tem de lhe dar
+o
+que o accusado exigir, sejam dois b&ocirc;is, dois escravos, um
+fardo
+de fazenda, etc. etc.<br>
+
+<br>
+
+Antes de continuar, d&ecirc;vo fazer sentir uma grande
+differen&ccedil;a que existe de tr&ecirc;s entidades
+importantes, nos
+p&ocirc;vos da &Agrave;frica Austral, e que muitas
+v&ecirc;zes sam
+confundidas.<br>
+
+<br>
+
+Sam ellas o cirurgi&atilde;o, o adevinho e o feiticeiro.
+Effectivamente, estas tr&ecirc;s entidades que parecem &aacute;
+primeira vista ter pontos de contacto, nenhum t[~e]m na realidade.<br>
+
+<br>
+
+O cirurgi&atilde;o fica definido p&ecirc;la palavra.
+&Eacute; um
+curandeiro, tem conhecimento de um certo n&ugrave;mero de plantas e
+raizes, que empega sempre emp&igrave;ricamente, bem como as
+ventosas
+sarjadas, de que faz grande uso; sendo bem certo que a sciencia de
+curar est&aacute; muito em atrazo n'aquelles paizes. O
+cirurgi&atilde;o, que nunca faz diagn&ograve;stico da molestia,
+faz
+sempre o progn&ograve;stico. A dosagem das plantas medicamentosas
+&eacute; sempre emp&igrave;rica, e nas suas polypharmacias
+entram os
+mais absurdos e inuteis componentes. &Eacute; verdade que entre
+n&oacute;s ainda n&atilde;o vai longe o uso da Triaga. O
+cirurgi&atilde;o, que &eacute; ao mesmo tempo
+pharmac&egrave;utico,
+emprega durante a prepara&ccedil;&atilde;o das suas drogas, um
+certo
+n&ugrave;mero de ceremonias e de palavras sem as quaes ellas
+perderiam
+a virtude. Fazem grande segr&ecirc;do das plantas que empregam, e
+dam-se ares de sabios pedantes quando a esse respeito sam interrogados.
+O cirurgi&atilde;o &eacute; pess&ocirc;a muito importante,
+e muitos
+actos solemnes requerem a sua presen&ccedil;a. Elle decide altas
+quest&otilde;es, porque a sua opini&atilde;o prevalece
+&aacute; do
+adevinho (Ditangja), sendo que o cirurgi&atilde;o nunca a emitte
+sem
+fazer antes um certo n&ugrave;mero de remedios e ceremonias,
+j&aacute;
+com plantas, j&aacute; com sangue do homem ou dos irracionaes, a
+que
+chamam, <span style="font-style: italic;">fazer os
+curativos</span>.<br>
+
+<br>
+
+O adevinho s&oacute; adevinha, e mais nada. No caso de
+doen&ccedil;a, o
+adevinho &eacute; sempre chamado para adevinhar se sam almas do
+outro
+mundo ou feiti&ccedil;os, e s&oacute; depois d'elle, vem o
+cirurgi&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Estes dois sujeitos entendem-se sempre. <br>
+
+<br>
+
+O adevinho n&atilde;o &eacute; s&oacute; consultado em caso
+de
+doen&ccedil;a ou morte, &eacute; ouvido em tudo e por tudo, e
+nada se
+faz sem que elle adevinhe primeiro.<br>
+
+<br>
+
+Para a consulta, coloca-se elle no centro de um c&igrave;rculo
+formado
+p&ecirc;lo p&ocirc;vo, que d&ecirc;ve estar sentado.
+Arma-se de uma
+caba&ccedil;a e um cesto. A caba&ccedil;a contem missanga
+grossa e
+milho s&ecirc;co, o cesto &eacute; cheio das cousas mais
+disparatadas,
+ossos humanos, legumes s&ecirc;cos, pedras, paos,
+caro&ccedil;os de
+frutas, ossos de aves, espinhas de peixes, etc.<br>
+
+<br>
+
+Com&ecirc;&ccedil;a por sacudir fren&egrave;ticamente a
+caba&ccedil;a, e durante a chocalhada que faz invoca os&nbsp;<span style="font-style: italic;">esp&igrave;ritos malignos</span>,
+ao mesmo tempo sacode o cesto, e nos objectos que vam apparecendo na
+parte superior, vai lendo o que se quer saber do passado, do presente,
+ou do futuro. Este uso encontrei eu desde a costa, mas n&atilde;o
+t&atilde;o seguido como aqui. <br>
+
+<br>
+
+Falei em&nbsp;<span style="font-style: italic;">esp&igrave;ritos
+malignos</span>, e &eacute; preciso dizer, que ali
+os&nbsp;<span style="font-style: italic;">esp&igrave;ritos
+</span><span style="font-style: italic;">malignos</span>
+emparelham em malignidade com as almas do outro mundo (<span style="font-style: italic;">Cassumbi</span>)
+e com os feiticeiros. &Aacute;s vezes entram no c&ocirc;rpo de
+alguem,
+e custa muito fazel-os sahir. Outras v&ecirc;zes, fazem tropelias
+maiores, tomando conta de uma povoa&ccedil;&atilde;o, onde
+durante a
+noite n&atilde;o deixam socegar ninguem, sendo preciso que o
+cirurgi&atilde;o fa&ccedil;a grandes <span style="font-style: italic;">curativos</span> para os
+expulsar.<br>
+
+<br>
+
+Estava ali um adevinho, e eu calculei o partido que podia tirar d'elle.
+<br>
+
+<br>
+
+Chamei-o em particular, e fiz-lhe alguns presentes, mostrando por elle
+grande respeito, e fingindo acreditar na sua sciencia. <br>
+
+<br>
+
+Pedi-lhe para adevinhar o meu futuro, e elle logo convocou o
+p&ocirc;vo
+da libata, e muito da povoa&ccedil;&atilde;o do
+capit&atilde;o, para
+assistirem &aacute; adevinha&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+A ceremonia f&ecirc;z-se com grande apparato, e elle
+com&ecirc;&ccedil;ou a ler nas trapalhadas do cesto as cousas
+mais
+lisongeiras a meu respeito. Eu era o melhor dos brancos, passados,
+presentes e futuros; a minha viagem seria feita com grande felicidade,
+e felizes seriam aquelles que fossem comigo.<br>
+
+<br>
+
+Este vaticinio produzio o melhor effeito, e t&ecirc;ve grande
+influencia no resultado da minha partida do Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+J&aacute; falei do cirurgi&atilde;o e do adevinho, e vou dizer
+o que
+&eacute; feiticeiro. Esta palavra tem uma
+significa&ccedil;&atilde;o
+que, tendo alguns pontos de contacto com a que lhe damos na Europa,
+n&atilde;o &eacute; comtudo a mesma cousa.<br>
+
+<br>
+
+Ali qualquer &eacute;, ou p&ocirc;de ser feiticeiro, e
+feiticeiro
+&eacute; mais o envenenador do que homem que governa nos
+esp&igrave;ritos. <br>
+
+<br>
+
+Effectivamente, o&nbsp;<span style="font-style: italic;">feiti&ccedil;o</span>
+ali &eacute; veneno, e dar&nbsp;<span style="font-style: italic;">feiti&ccedil;o</span>
+a alguem, &eacute; dar veneno, que determine, ou doen&ccedil;a,
+ou morte, ou loucura. <br>
+
+<br>
+
+Esta &eacute; a rigorosa accep&ccedil;&atilde;o da palavra,
+mas ainda
+assim o feiticeiro p&ocirc;de causar grandes prejuizos, e como tudo
+se
+atribue a&nbsp;<span style="font-style: italic;">feiti&ccedil;o</span>,
+a perda de um combate, a epidemia nos gados, as tempestades, etc., tudo
+provem da sua malevolencia.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o se julgue porem que se p&ocirc;de designar o
+feiticeiro;
+n&atilde;o p&ocirc;de. O feiticeiro apparece como causa do
+effeito, e
+como essa causa &eacute; logo destruida, o feiticeiro &eacute;
+como um
+meteoro que se desvanece logo depois de apparecer. Esta
+pr&agrave;tica
+d&aacute; logar a terriveis vingan&ccedil;as, como bem se
+p&ocirc;de
+suppor.<br>
+
+<br>
+
+&Agrave;l&eacute;m d'estas tr&ecirc;s entidades, duas das
+quaes sam
+definidas e uma indefinida, ha ainda um sujeito que tem certa
+importancia entre estes p&ocirc;vos b&agrave;rbaros.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; elle o homem que d&aacute; e tira a chuva. Ha um certo
+n&ugrave;mero de indiv&igrave;duos que se atribuem o poder de
+governar
+nos meteoros aquosos. Possuindo um esp&igrave;rito observador,
+attent&aacute;ram em que com taes ventos em certa &egrave;pocha
+do anno
+chove, e que com outros estia. E servindo-se d'esses signaes, que sam
+t&atilde;o vulgarmente observados na Europa, e mesmo recommendados
+por
+homens de sciencia, como Fitz-Roy e outros, que se observam na vida dos
+animaes, s&ocirc;bre tudo das aves, elles que podem com certa
+probabilidade fazer um progn&ograve;stico do tempo, atribuem a si o
+poder, de dar e tirar chuva, tendo previamente annunciado que a vam dar
+ou tirar.<br>
+
+<br>
+
+Estes sujeitos sam vulgares, mas acreditam n'elles muito, porque raras
+v&ecirc;zes se enganam.<br>
+
+<br>
+
+Estas pr&agrave;ticas que nos causam estranheza, eram ha dois
+s&egrave;culos vulgares na Europa, e ainda h&ocirc;je existem
+entre
+n&oacute;s no baixo p&ocirc;vo dos campos.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o &eacute; preciso ir &aacute; idade media para se
+encontrarem
+os Reis consultando os seus astr&ograve;logos, e mesmo em Portugal
+existe um livro, impresso,&nbsp;<span style="font-style: italic;">com
+</span><span style="font-style: italic;">t&ocirc;das
+as licen&ccedil;as necessarias</span>, em 1712, que o seu
+autor&nbsp;<span style="font-style: italic;">Gaspar
+Cardozo </span><span style="font-style: italic;">de
+Sequeira</span>,
+mathem&agrave;tico da villa de Mur&ccedil;a, intitulou Thesouro
+de
+Prudentes, livro acrescentado p&ecirc;lo engenheiro
+Gon&ccedil;alo
+Gomes Caldeira, que ensina as cousas mais estupendas e maravilhosas,
+aos homens cultos d'essas eras, porque o p&ocirc;vo de
+ent&atilde;o
+n&atilde;o sabia ler. Desculpemos pois os ignaros pr&ecirc;tos
+d'&Agrave;frica Austral.<br>
+
+<br>
+
+Uma lei engra&ccedil;ada d'aquelle paiz, &eacute; a respeito
+das mulh&eacute;res que morrem de parto.<br>
+
+<br>
+
+Logo que uma mulh&eacute;r morre de parto, o marido tem
+obriga&ccedil;&atilde;o de a enterrar elle s&oacute;,
+levando o cadaver
+&aacute;s costas at&eacute; &aacute; sepultura, e fazendo
+s&oacute;zinho o trabalho da inhuma&ccedil;&atilde;o. Em
+seguida, tem
+de pagar a vida d'ella aos parentes, e se n&atilde;o tem com que,
+constitue-se escravo d'elles.<br>
+
+<br>
+
+As sepulturas dos proletarios n&atilde;o t[~e]m signal algum que as
+indique, e sam feitas em qualquer logar indistinctamente entre o mato.<br>
+
+<br>
+
+Quando eu falar do Bih&eacute;, serei mais minucioso em certos
+costumes
+que sam communs a estes paizes, e que tive depois occasi&atilde;o
+de
+estudar detidamente, s&ocirc;bre tudo aquelles que se referem aos
+sovas
+e aos grandes.<br>
+
+<br>
+
+Um costume que &eacute; privativo de Caquingue &eacute; o que
+elles chamam&nbsp;<span style="font-style: italic;">tratar
+as </span><span style="font-style: italic;">mulh&eacute;res</span>.
+Logo que uma mulh&eacute;r est&aacute; gr&agrave;vida, um
+sujeito pede
+ao marido em casamento a filha que ella vai ter, e desde logo
+&eacute;
+obrigado a <span style="font-style: italic;">tratal-a</span>,
+isto &eacute;, dar-lhe vestuario e satisfazer as suas exigencias de
+<span style="font-style: italic;">toilette</span>.<br>
+
+<br>
+
+Este costume vigora s&oacute; entre gente rica. Logo que nasce a
+crian&ccedil;a, o noivo redobra de presentes &aacute;
+m&atilde;e, e tem
+o dever de vestir a filha at&eacute; &aacute; pubredade, isto
+&eacute;,
+&aacute; &egrave;pocha do casamento. Se acontece nascer um
+var&atilde;o, a obriga&ccedil;&atilde;o de vestir
+m&atilde;e e filho
+subsiste, e este, logo que chega a ser homem, fica para Quissongo do
+que o&nbsp;<span style="font-style: italic;">tratou</span>.<br>
+
+<br>
+
+Mais adiante direi o que &eacute; um Quissongo. <br>
+
+<br>
+
+Este costume n&atilde;o &eacute; t&atilde;o extraordinario
+como parece
+&aacute; primeira vista, e se em &Agrave;frica s&oacute; o
+encontrei no
+paiz de Caquingue, c&aacute; na Europa &eacute; elle vulgar,
+n&atilde;o
+na forma, mas na essencia, e na phrase polida dos sal&otilde;es
+chama-se a isso, creio eu,&nbsp;<span style="font-style: italic;">casamentos
+de conveniencia</span>.<br>
+
+<br>
+
+Amanheceu o dia 5 de Mar&ccedil;o, depois de uma noite tormentosa
+em
+que a chuva foi diluvial. Eu estava melhor da febre; mas as
+d&ocirc;res
+rheum&agrave;ticas eram mais persistentes e estendiam-se dos
+joelhos
+aos artelhos. O meu P&eacute;p&eacute;ca estava melhor, e por
+isso
+resolvi partir. Receiando porem do meu rheumatismo, fui pedindo uma
+maca e carregadores para ella, que me f&oacute;ram obsequiosamente
+cedidos por Francisco Gon&ccedil;alves (<span style="font-style: italic;">o Carique</span>).
+Depois de cordiaes despedidas, parti &aacute;s 10 e meia ao N., e
+uma
+hora depois, passei o ribeiro Cassongue, que corre a S.E. para o Cuchi.
+Tem 6 metros de largo por 2 de fundo. Ao passar o rio, o meu boi
+cavallo (Bonito) embara&ccedil;ou-se em umas sar&ccedil;as,
+perdeu o
+&agrave;nimo, e foi ao fundo; custou muito salval-o, e
+s&oacute; pude
+seguir ao meio dia. &Aacute; 1^{h.} e 15^{m.} passei o riacho
+Gov&ecirc;ra, de 3 metros de largo por 50 cent&igrave;metros de
+fundo,
+e &aacute; 1 e 45 acampava a S.S.O. da
+povoa&ccedil;&atilde;o de
+Chind&uacute;a. Passei no caminho junto de duas grandes
+povoa&ccedil;&otilde;es, a de Cacurura, e a de Cachota.
+J&aacute;
+estava em terras que prestam obediencia ao sova do Bih&eacute;. O
+paiz
+contin&uacute;a ali a ser muito povoado e cultivado.<br>
+
+<br>
+
+Durante a noite, chuva torrencial e forte trovoada de leste. A minha
+febre tinha desapparecido completamente, mas as d&ocirc;res
+rheum&agrave;ticas recresciam n'uma progress&atilde;o
+assustadora, e
+j&aacute; amea&ccedil;avam estender-se a tudo o
+c&ocirc;rpo. Logo de
+madrugada, o dono da ponte s&ocirc;bre o Cuchi mandou-me avisar
+para
+passar a ponte sem demora, porque estas pontes, dando passagem
+s&oacute; a um homem de cada vez, leva ella muito tempo, e
+&eacute;
+lei, que quando uma comitiva toma conta da ponte, ninguem ali
+p&ocirc;de passar sem terminar a passagem da gente que primeiro
+chegou,
+e constava que uma grande comitiva de gentio se dirigia para ali em
+sentido inverso ao meu.<br>
+
+<br>
+
+Agradeci o aviso, e parti immediatamente, tomando conta da ponte meia
+hora depois.<br>
+
+<br>
+
+O rio Cuchi tem ali 25 metros de largo por 5 de fundo, e corre ao sul
+ao Cubango.<br>
+
+<br>
+
+Da ponte avista-se, 2 kil&ograve;metros ao N., a grande cataracta
+do
+Cuchi, de sorprendente belleza, cujo ruido ch&ecirc;ga
+at&eacute;
+n&oacute;s.<br>
+
+<br>
+
+Demorei-me um pouco para determinar a altitude, e segui depois a
+E.N.E., passei o pequeno ribeiro Liap&ecirc;ra, que c&ocirc;rre
+ao
+Cuchi, e mudando de rumo para N.N.E., passei o ribeiro Caruci, que
+c&ocirc;rre a N.E. para o Cuqueima; indo acampar, p&ecirc;lo
+meio dia,
+nas matas do Charo, a S.O. da povoa&ccedil;&atilde;o de Ungundo.<br>
+
+<br>
+
+Estes dois pequenos riachos, o Liap&ecirc;ra e o Caruci, marcam a
+separa&ccedil;&atilde;o das &agrave;guas para o Cubango e
+Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+O sec&uacute;lo Chaquimbaia, chefe da
+povoa&ccedil;&atilde;o de
+Ungundo, veio comprimentar-me, e trouxe-me um porco e umas gallinhas;
+retribui o presente, e elle deu-me guias para me acompanharem no dia
+seguinte. Durante o dia, n&atilde;o s&oacute; em caminho
+encontrei
+muitos ranchos de gente armada que vam reunir-se &aacute;s
+for&ccedil;as do sova de Caquingue, mas ainda depois que acampei,
+pass&aacute;ram inn&ugrave;meros pr&ecirc;tos armados que
+levavam o
+mesmo destino.<br>
+
+<br>
+
+Das 7 &aacute;s 9 da noite houve moderada chuva, e ouvia-se a N.E.
+uma
+trovada longinqua; mas, &aacute;s 9 horas, form&aacute;ram-se
+trovoadas
+em muitos pontos do horizonte, e pareciam t&ocirc;das convergir
+sobre o
+meu campo, que era situado em um alto. &Aacute;s 10 horas, 5
+trovoadas
+encontravam-se em choque immenso s&ocirc;bre o campo, e a mais
+horrivel
+tormenta que at&eacute; ent&atilde;o tinha presenceado se
+desencadeou
+s&ocirc;bre mim. Os raios succediam-se com intervallos de
+tr&ecirc;s a
+cinco segundos, e o estalar s&ecirc;co dos trov&otilde;es era
+incessante.<br>
+
+<br>
+
+Havia perfeita calma e apenas algumas grossas g&ocirc;tas de chuva
+cahiam aqui e &agrave;l&eacute;m.<br>
+
+<br>
+
+O bar&ograve;metro apenas desceu dois milimetros, e o
+therm&ograve;metro conservava uma temperatura de 16 graos Cent. As
+agulhas magn&egrave;ticas desnorteavam, e conservavam um oscillar
+constante.<br>
+
+<br>
+
+Uma b&ugrave;ssola circular Duchemim, chegou a voltear
+r&agrave;pidamente.<br>
+
+<br>
+
+Durou este estado de cousas at&eacute; &aacute;s 11 horas, hora
+a que
+soffreu modifica&ccedil;&atilde;o mais terrivel ainda. Um vento
+fortissimo, um verdadeiro tuf&atilde;o, come&ccedil;ou a soprar
+de
+leste, e n'um momento correu os quadrantes<br>
+
+p&ecirc;lo norte at&eacute; S.O., onde se fixou com a mesma
+intensidade. Copiosa chuva come&ccedil;ou a cahir ent&atilde;o.
+O
+vento, no seu passar furioso, soprou aos ares as barracas do meu campo,
+e n&oacute;s fic&aacute;mos expostos &aacute; chuva
+torrencial que
+cahio at&eacute; &aacute;s 4 horas, em que a tempestade
+come&ccedil;ou
+a abrandar.<br>
+
+<br>
+
+Quem o n&atilde;o presenceou n&atilde;o avalia o que seja uma
+tempestade, de noite, no meio das florestas d'&Agrave;frica
+Austral,
+quando ao rebombar dos trov&otilde;es se une o grito
+mult&igrave;sono
+das feras, que nos vem ferir os ouvidos com acordes terriveis.<br>
+
+<br>
+
+A chuva apagou os f&ocirc;gos do campo, o vento soprou longe os
+frageis
+abrigos, e o raio descendo em luminoso zig-zag, torna mais escuras as
+trevas, depois do seu r&agrave;pido fulgor.<br>
+
+<br>
+
+Muitas v&ecirc;zes, ao estalido do raio succede outro estalar
+medonho.
+Foi a &agrave;rvore, que levou s&egrave;culos a crescer, e que
+n'um
+momento, ferida por elle, voou em rachas e baqueou no solo.<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;O espect&agrave;culo &eacute; horrivel, mas
+grandioso e sublime!<br>
+
+<br>
+
+Amanheceu finalmente, e de tudo aquelle pelejar dos elementos,
+s&oacute; restavam para o lembrar, inn&ugrave;meras
+&agrave;rvores
+derrubadas e um terreno encharcadissimo.<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;A mim restava mais alguma cousa!<br>
+
+<br>
+
+O ataque de rheumatismo tinha-se declarado com grande intensidade, e
+estendendo-se a t&ocirc;das as articula&ccedil;&otilde;es,
+tolhia-me os
+movimentos. Soffria muito. Parti ao meio-dia na maca, e fazia
+esfor&ccedil;os enormes para calar na garganta os gritos arrancados
+p&ecirc;lo soffrimento que infligia o movimento da maca.<br>
+
+<br>
+
+Uma hora depois, envolvi-me em um p&agrave;ntano extenso, onde a
+&agrave;gua dava p&ecirc;la cintura aos homens que me
+carregavam.<br>
+
+<br>
+
+O terreno, encharcado p&ecirc;la chuva da noite, estava
+transformado em
+p&agrave;ntano enorme. Alcan&ccedil;&aacute;mos um outeiro,
+quando,
+&aacute;s 2 horas, n&ocirc;va tempestade, vinda de leste, cahio
+sobre
+n&oacute;s. Da maca, onde gemia d&ocirc;res atrozes, animei a
+minha
+gente a seguir sempre, com inten&ccedil;&atilde;o de
+alcan&ccedil;ar as
+povoa&ccedil;&otilde;es de Bilanga, onde queria pernoitar.<br>
+
+<br>
+
+Sei que, no dia seguinte, me achei, n'uma cubata, e me disse o
+Verissimo, estar eu n'aquellas povoa&ccedil;&otilde;es, na
+libata do
+Vicente; mas n&atilde;o tenho a menor id&eacute;ia, nem do
+caminho
+andado, nem da noite velada, que me diss&eacute;ram os
+pr&ecirc;tos ter
+sido horrivel. Ao rheumatismo viera juntar-se a febre e o delirio.<br>
+
+<br>
+
+A cab&ecirc;&ccedil;a estava livre, mas o ataque e as
+d&ocirc;res recresc&eacute;ram, se era possivel isso.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o podia fazer o menor movimento nem mesmo com as phalanges
+das m&atilde;os.<br>
+
+<br>
+
+Verissimo e os meus pr&ecirc;tos dispensavam-me os maiores cuidados.<br>
+
+<br>
+
+Sube que o rio Cuqueima levava uma cheia enorme, e n&atilde;o dava
+passagem no vao; mas, sabendo que existia uma pequena can&ocirc;a a
+jusante da cataracta, resolvi seguir e passar o rio ali. Chegados ao
+rio, tratou-se de calafetar com musgo a can&ocirc;a j&aacute;
+muito
+velha, e que apenas podia soportar o peso de dois homens. O rio, que
+trazia uma enorme cheia, ia caudalosissimo. Resaltando por
+s&ocirc;bre
+as rochas da cataracta, divide-se, formando uma pequena ilha, e logo
+depois, une as suas &agrave;guas em um s&oacute; canal, largo
+de 100
+metros. <br>
+
+<br>
+
+Era ali que &igrave;amos passar. Eu fui collocado dentro da
+can&ocirc;a
+com mil cuidados, porque o menor movimento que me davam, me arrancava
+um grito doloroso.<br>
+
+<br>
+
+Um habil barqueiro tomou o remo e a can&ocirc;a deixou a margem.
+T&igrave;nhamos de atravessar 100 metros de &agrave;gua, mas de
+&agrave;gua animada de violenta corrente, e encrespada por ondas
+furiosas produzidas p&ecirc;los bald&otilde;es da cataracta. O
+barqueiro dirigio a can&ocirc;a para a ilha, e at&eacute;
+chegar
+&aacute; junc&ccedil;&atilde;o das &agrave;guas tudo
+foi bem; mas ali o
+fragil barco preso nos enormes rodomoinhos n&atilde;o quiz seguir
+&aacute;vante, apesar da pericia do habil n&ecirc;gro. Eu via a
+&agrave;gua, em ondas espumantes ainda do salto de ha pouco,
+referver
+em volta de mim, e comecei a comprehender o grande perigo em que estava.<br>
+
+<br>
+
+Tentei mover um bra&ccedil;o e apenas consegui soltar um grito de
+d&ocirc;r! Julguei-me perdido, porque, se a can&ocirc;a
+afundasse, eu
+n&atilde;o poderia nadar. Sempre presa no rodopiar das
+&agrave;guas,
+n&atilde;o seguia &aacute;vante, e de repente
+come&ccedil;ou a rodopiar
+ella mesma. O pr&ecirc;to receiou que nos afundasse-mos, e decidio
+saltar ao rio para alijar o barco. Prevenio-me, e saltou.<br>
+
+<br>
+
+Alliviada d'aquelle peso, a can&ocirc;a fluctuou melhor, mas
+n&atilde;o
+deixou o sitio em que estava presa p&ecirc;las
+f&ocirc;r&ccedil;as
+desencontradas da &agrave;gua.<br>
+
+<br>
+
+De repente um bald&atilde;o entrou na barca e molhou-me. Tive um
+momento de verdadeira imbecilidade, e n&atilde;o sei o que se
+passou;
+s&oacute; me lembra, que de repente me achei nadando com tudo o
+vigor,
+s&oacute; com um bra&ccedil;o, sustentando f&ocirc;ra
+d'&agrave;gua com
+o outro um dos chron&ograve;metros que trazia comigo, para que
+n&atilde;o lhe chegasse a &agrave;gua.<br>
+
+<br>
+
+Sentia um verdadeiro prazer em nadar, e cortava r&agrave;pido os
+remoinhos das caudalosas &agrave;guas, o que me era facil a mim,
+que
+desde crian&ccedil;a aprendi a lutar com os r&agrave;pidos do
+meu
+patrio Douro.<br>
+
+<br>
+
+Os pr&ecirc;tos, sempre tendentes a admirar a destreza physica,
+prodigalizavam-me da margem fervorosos applausos.<br>
+
+<br>
+
+Tinham desapparecido as d&ocirc;res, a febre cessou de repente, e
+eu
+sentia-me bem disposto e forte. Ao submergir-se a can&ocirc;a, do
+meio
+de 100 homens que assistiam &aacute; scena, e que
+fic&aacute;ram
+boquiabertos e indecisos, um arrojou-se valorosamente &aacute;
+&agrave;gua para me salvar.<br>
+
+<br>
+
+Menos perito nadador do que eu, n&atilde;o alcan&ccedil;ou a
+margem
+sen&atilde;o depois de mim, e de nenhum auxilio me foi, mas a sua
+dedica&ccedil;&atilde;o ficou gravada no meu
+cora&ccedil;&atilde;o para
+sempre. Era o meu pr&ecirc;to Garanganja, que enlouqueceu depois,
+n&atilde;o tendo uma alma ass&aacute;s forte para sopportar as
+miserias
+que experiment&aacute;mos.<br>
+
+<br>
+
+Quando me firmei em terra andei, sem d&ocirc;res, sem febre.
+Despi-me
+immediatamente; mas n&atilde;o tinha roupa para mudar, porque as
+bagagens estavam ainda na outra margem; e tive de estar exposto a um
+sol abrasador em quanto a elle enxuguei a roupa que trazia.
+Volt&aacute;ram as d&ocirc;res e a febre, e s&oacute; sei
+que no outro
+dia, estava estendido em um leito na libata da Annunciada, morada que
+tinha sido do sertanejo Guilherme Gon&ccedil;alves, pai do
+Verissimo.<br>
+
+<br>
+
+Cheio de d&ocirc;res e ardendo em febre, mas um pouco melhor,
+decidi partir e ir encontrar os meus companheiros.<br>
+
+<br>
+
+Parti &aacute;s 11 horas, e durante uma grande parte do caminho,
+atravessei uma planicie coberta de fetos herbaceos enormes, e vi muitas
+&agrave;rvores feridas do raio. Vi tambem uma planta que ali
+abunda, e
+que &eacute;, ou a nossa urze das altas montanhas do norte de
+Portugal,
+ou a ella mui semelhante.<br>
+
+<br>
+
+Os meus &ocirc;lhos, pouco afeitos &aacute;s subtilezas das
+observa&ccedil;&otilde;es que demanda o estudo do reino
+vegetal,
+n&atilde;o sam bastante penetrantes para differen&ccedil;ar
+especies,
+g&egrave;neros e familias, quando ellas n&atilde;o se
+differen&ccedil;am por si mesmo.<br>
+
+<br>
+
+Ch&ecirc;guei ao sitio do Silva Porto (Belmonte) p&ecirc;la uma
+hora, e
+fazendo um supremo esf&ocirc;r&ccedil;o, fui a casa dos meus
+companheiros.<br>
+
+<br>
+
+Elles, confirmando o que me tinham escrito, diss&eacute;ram-me que
+iam
+continuar s&oacute;s, e que me deixariam uma ter&ccedil;a parte
+de
+fazendas e material, salvo as cousas indivisiveis que guardariam. O
+Ivens offereceu-se para me acompanhar a Benguella, visto o meu precario
+estado de saude, se eu quizesse voltar &aacute; Europa.<br>
+
+<br>
+
+Manifesto-lhe aqui a minha gratid&atilde;o, por t&atilde;o
+generosa offerta.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;"><a name="Cap.VI"></a>CAP&Igrave;TULO VI.</span><br>
+
+</h2>
+
+<h3>PEREIRA DE MELLO E SILVA PORTO.</h3>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<span style="font-weight: bold;">No
+Bih&eacute;--Doen&ccedil;a--Melhoras--A casa de
+Belmonte--Decido ir
+ao alto&nbsp;Zambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma
+expedi&ccedil;&atilde;o
+no&nbsp;Bih&eacute;--Difficuldades, e como se
+vencem--Noticia s&ocirc;bre o Bih&eacute;--Os meus
+trabalhos--N&ocirc;vas difficuldades--Deixo
+Belmonte--At&eacute;
+ao&nbsp;Cuanza--Escravatura.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<br>
+
+<br>
+
+Depois de 20 dias de cru&eacute;l agonia e grandes soffrimentos,
+estava
+emfim no Bih&eacute;, muito doente &eacute; verdade, mas cheio
+de
+f&eacute; e contente de mim mesmo. Logo que falei aos meus
+companheiros, deixei a casa de Belmonte, e fui em maca para a libata
+pr&ograve;xima do Magalh&atilde;es, onde cahi sem
+f&ocirc;r&ccedil;as
+s&ocirc;bre as pelles do meu leito. Os primeiros symptomas de uma
+meningite declar&aacute;ram-se, ao passo que redrobravam as
+d&ocirc;res
+rheum&agrave;ticas.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, f&oacute;ram ver-me o Capello e Ivens, que me
+lev&aacute;ram medicamentos. Peiorei, e veio o delirio. <br>
+
+<br>
+
+Quando despertei, julguei sonhar. Achava-me deitado em
+magn&igrave;fico
+leito, despido e entre len&ccedil;oes de fina bertanha. O leito era
+coberto de elegante cortinado de reps c&ocirc;r-de-rosa e franjado
+de
+branco.<br>
+
+<br>
+
+Diss&eacute;ram-me, que Capello viera durante o meu delirio, e me
+mandara aquella cama; que as havia assim no Bih&eacute;, em
+Belmonte,
+em casa de Silva Porto.<br>
+
+<br>
+
+Tinham-me coberto de sanguesugas, e o muito sangue que me
+tir&aacute;ram os pr&ecirc;tos, deixara-me em um estado de
+fraqueza
+indescriptivel. As d&ocirc;res tinham cedido um pouco, mas
+continuava a
+febre. De tarde, vi&eacute;ram os pr&ecirc;tos de
+N&ocirc;vo Redondo
+procurar-me, e eu recebi-os diante de Magalh&atilde;es, Verissimo e
+Joaquim Guilherme Jos&eacute; Gon&ccedil;alves,
+irm&atilde;o mais velho
+do Verissimo. Vinham elles dizer-me, que n&atilde;o queriam seguir
+com
+os meus companheiros, e que ou iam comigo, ou voltavam.<br>
+
+<br>
+
+Depois de um grande trabalho, convenci-os a voltarem para elles, e a
+acompanhal-os. Sube ent&atilde;o, que Capello e Ivens estavam
+construindo um abarracamento a 5 kil&ograve;metros d'ali, e
+j&aacute;
+l&aacute; tinham as bagagens, devendo em breve mudarem-se de
+Belmonte.<br>
+
+<br>
+
+Dois dias depois, veio procurar-me o Ivens, com quem tive larga
+conversa.<br>
+
+<br>
+
+Dei-lhe t&ocirc;das as cartas de recomenda&ccedil;&atilde;o
+que Silva
+Porto me havia dado em Benguella para obter carregadores, e
+comprometi-me a n&atilde;o pedir gente ao sova Quilemo, ficando-lhe
+o
+campo completamente livre a elles. Ivens disse-me, que iam mudar para o
+abarracamento que tinham, e que em casa de Silva Porto me deixavam o
+que me pertencia na partilha. Eu mandara-lhes entregar t&ocirc;das
+as
+cargas que trouxera comigo, e as que acompanhou o pr&ecirc;to
+Barros,
+que j&aacute; tinham chegado. O pr&ecirc;to Barros declarou-me,
+que
+n&atilde;o queria continuar a viagem, e por isso despedi-o, bem
+como a
+alguns pr&ecirc;tos de Benguella, que manifest&aacute;ram igual
+inten&ccedil;&atilde;o. Escrevi poucas linhas a Pereira de
+Mello, que o
+meu estado de saude n&atilde;o me permitia ser extenso. Quando,
+fatigado de determinar tanta cousa, eu ia embrulhar-me nos
+len&ccedil;oes e procurar no sono um pouco de descan&ccedil;o,
+surgio
+diante de mim, como um espectro, um homem alto e magro, de physionomia
+en&egrave;rgica e distincta. Era o meu prisioneiro que eu havia
+olvidado, era o sec&uacute;lo Palanca, o conselheiro
+&igrave;ntimo do
+sova Dumbo do Sambo.<br>
+
+<br>
+
+"J&aacute; despachaste t&ocirc;da a tua gente, me disse elle,
+uns
+despediste-os, outros ficaste com elles, &iquest;o que determinas
+de
+mim, e qual &eacute; a minha sorte?" "Tu vais voltar a tua casa,
+lhe
+respondi, levar&aacute;s ao Dumbo a<br>
+
+espingarda que lhe prometti, e alguma p&ograve;lvora, e para ti
+terei
+alguma cousa tambem. D&ecirc;vo-te uma
+indemniza&ccedil;&atilde;o por
+aquella corda que tiveste ao pesc&ocirc;&ccedil;o
+pr&ograve;ximo do
+Cubango, e p&ecirc;los sulcos que te fiz&eacute;ram nos pulsos
+as
+cordas com que te amarrei." Chamei o Verissimo, e dei-lhe as minhas
+&oacute;rdens n'esse sentido.<br>
+
+<br>
+
+Palanca, sempre impassivel diante da liberdade e dos presentes, como o
+tinha sido diante da pris&atilde;o e da morte, retirou-se, e deixou
+logo o Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Dois homens segu&iacute;ram-se no meu quarto &aacute; sahida do
+sec&uacute;lo do Sambo. Estava escrito que eu n&atilde;o
+descan&ccedil;asse no primeiro dia das minhas melhoras. Estes dois
+pr&ecirc;tos eram Cahinga e Jamba, os dois homens de
+confian&ccedil;a
+de Silva Porto, que elle me mandava de Benguella.<br>
+
+<br>
+
+Depois de lhes ouvir mil protestos de dedica&ccedil;&atilde;o,
+muitas
+v&ecirc;zes repetidos, consegui ficar s&oacute;. S&oacute;,
+n&atilde;o!
+Junto de mim estava a &ugrave;nica, a grande
+dedica&ccedil;&atilde;o
+que tive na minha viagem a travez d'&Agrave;frica. C&oacute;ra,
+a minha
+cabrinha, em p&eacute;, com as patas pousadas s&ocirc;bre o
+leito,
+berrando e lambendo-me as m&atilde;os, pedia-me uma caricia, que eu
+n&atilde;o lhe fazia ha muito.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, os meus companheiros avis&aacute;ram-me de que
+deixavam a casa de Silva Porto, e eu em uma maca mudei para ali.
+Encontrei 7 cargas de fazenda, 6 caixas de rancho, uma mala com
+instrumentos, e tr&ecirc;s carabinas Snider, que elles me haviam
+deixado.<br>
+
+<br>
+
+A libata de Silva Porto, ou povoa&ccedil;&atilde;o de Belmonte,
+est&aacute; situada s&ocirc;bre a parte mais elevada de um
+outeiro,
+cuja vertente norte desce suavemente at&eacute; ao leito do rio
+Cuito,
+que corre a leste para o Cuqueima.<br>
+
+<br>
+
+A posi&ccedil;&atilde;o da libata &eacute; muito bonita, e
+forte como ponto estrat&egrave;gico.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 600px; height: 387px;" alt="" src="images/017.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.16"></a>Figura
+16.--Casa de Belmonte (Bih&eacute;).</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Tem dentro um laranjal, onde as larangeiras estam sempre em fruto e
+fl&ocirc;r, o que n&atilde;o acontece a outras algumas no
+Bih&eacute;.
+O laranjal &eacute; cercado de uma sebe de roseiras, que attingem
+uma
+altura de tres metros, e estam sempre floridas.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 190px;" alt="" src="images/018.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.17"></a>Figura
+17.--Vista exterior da povoa&ccedil;&atilde;o de Belmonte, no
+Bih&eacute;.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Syc&ograve;moros enormes assombram as ruas e rodeam a
+povoa&ccedil;&atilde;o, defendida por uma forte palissada de
+madeira.<br>
+
+<br>
+
+Debaixo d'essas larangeiras, cuja sombra perfumada me abrigava do sol
+ardente, quantos dias e quantas horas passei scismando na minha
+posi&ccedil;&atilde;o, e elaborando projectos mais ou menos
+sensatos!<br>
+
+<br>
+
+Foi ali, que, arrastando ainda os membros tolhidos de d&ocirc;res,
+que,
+queimado da febre, conceb&iacute;, e organizei na minha mente o
+plano
+que havia realizar depois.<br>
+
+<br>
+
+Se de alguma cousa me orgulhe&ccedil;o na minha viagem,
+&eacute; d'esse tempo.<br>
+
+<br>
+
+Mais tarde joguei muitas v&ecirc;zes a vida, fui de certo mais de
+uma vez temerario, mas era obrigado a isso para me salvar.<br>
+
+<br>
+
+Ali n&atilde;o! Estava doente, quasi an&egrave;mico, e sem
+recursos.
+Uma facilidade relativa me abria o caminho de Benguella e da Europa.
+Mil difficuldades, que provinham da minha
+separa&ccedil;&atilde;o dos
+meus companheiros, apresentavam-me uma barreira quasi impossivel de
+transpor, para emprehender uma explora&ccedil;&atilde;o
+qualquer. O
+des&agrave;nimo reinava na minha pouca gente. <br>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 400px; height: 387px;" alt="" src="images/019.png"></span></td>
+
+ <td><span style="font-weight: bold;">*
+Sycomoros.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">* Forte palissada
+de pao.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">* Palissada da
+horta coberta de roseiras sempre floridas.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">* Romeiras.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">* Larangeiras.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">* Hortas.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">* Cemiterio.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">* Casas dos
+pr&ecirc;tos.<br>
+
+ <br style="font-weight: bold;">
+
+ </span> <span style="font-weight: bold;">1.
+Entrada da povoa&ccedil;&atilde;o.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">2. Entrada da casa
+de Silva Porto</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">3. Casa.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">4. Pateo interior.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">5. Cusinha e
+dispensa.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">6. Casas de criados.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">7. Armazem.</span></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"></span><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.18"></a>Figura.
+18.--Planta da povoa&ccedil;&atilde;o de Belmonte, no
+Bih&eacute;.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;">
+<span style="font-weight: bold;"></span><span style="font-weight: bold;"></span><br>
+
+</div>
+
+Entr&egrave;vado e sem f&ocirc;r&ccedil;as, n&atilde;o
+pensar um
+s&oacute; momento em voltar face ao desconhecido que se erguia ante
+mim
+como um abysmo attrahente; desfazer uma a uma as difficuldades que
+surgiriam; reconstruir muitas v&ecirc;zes o trabalho feito, que se
+esva&iuml;a como cahe um castello de cartas; criar recursos onde os
+n&atilde;o havia; conseguir organizar uma
+expedi&ccedil;&atilde;o
+s&ocirc;bre as ruinas de outras que se haviam desmembrado;
+&eacute;,
+aos meus &ocirc;lhos, a parte mais difficil da minha viagem, e de
+que
+mais me orgulhe&ccedil;o, se &eacute; que me
+orgulhe&ccedil;o de alguma
+cousa.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">
+Comecei por contratar Verissimo Gon&ccedil;alves para me
+acompanhar, e consegui fazer-me obedecer por elle c&eacute;gamente.<br>
+
+<br>
+
+Depois de muito estudar o caminho a seguir, resolvi ir direito ao alto
+Zambeze, seguindo a cumiada do paiz onde nascem os rios d'aquella parte
+d'&Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+Chegado ao Zambeze, queria seguir a leste, estudar os affluentes da
+margem esquerda, e descendo ao Zumbo, ir d'ali a Quilimane por Tete e
+Senna.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">Os mais
+pr&agrave;ticos sertanejos,
+sabedores do meu projecto, diziam-me, que eu n&atilde;o chegava a
+meio&nbsp;caminho do Zambeze, e creio que me tinham por
+t&ocirc;lo.<br>
+
+<br>
+
+Eu deixava-os falar e prossegui sempre na
+organiza&ccedil;&atilde;o do
+pessoal e confec&ccedil;&atilde;o do material necessario aos
+meus
+planos.<br>
+
+<br>
+
+No dia 27 de Mar&ccedil;o, primeiro em que pude escrever
+livremente,
+escrevi ao Governo da Metr&ograve;poli, e ao Pereira de Mello, e
+Silva
+Porto. Dava-lhes parte do occorrido at&eacute; ent&atilde;o, e
+pedia-lhes auxilio e cons&ecirc;lho, submettendo &aacute; sua
+cr&igrave;tica os meus projectos. Despachei portadores para
+Benguella
+com as cartas, e fui trabalhando, mais confiado em mim do que em outrem.<br>
+
+<br>
+
+A esse tempo, uma grande parte das cargas deixadas em Benguella, em
+Novembro &iexcl;havia 5 mezes! ainda n&atilde;o tinham chegado.<br>
+
+<br>
+
+Apparec&eacute;ram-me na libata o ex-chefe de Caconda, Alferes
+Castro,
+e o degradado Domingos, que iam para Caconda. Cont&aacute;ram-me
+que,
+chegados ao Bih&eacute;, tinham sido encarregados por Capello e
+Ivens
+de ir construir o abarracamento, e de fazer transportar para ali as
+cargas que estavam em Belmonte.<br>
+
+<br>
+
+O Alferes Castro voltava sem nenhum conf&ocirc;rto, e eu, das 6
+caixas
+de rancho que me tinha deixado o Ivens, dei-lhe o assucar,
+ch&aacute;,
+caf&eacute;, etc., necessario para a viagem.<br>
+
+<br>
+
+Creio que aquelle senhor, depois de ter sido a causa de tanto
+soffrimento que tive, de tantos riscos que corri, n&atilde;o
+ter&aacute; motivo de queixar-se do modo por que o recebi no
+Bih&eacute;; se quiz&eacute;r ser justo e verdadeiro.<br>
+
+<br>
+
+Quanto ao degradado Domingos, se bem me recordo, dei-lhe uma carta de
+recommenda&ccedil;&atilde;o para o Governador de Benguella, de
+quem ia
+solicitar um favor.<br>
+
+<br>
+
+Foi assim que tratei os dois homens que mais me fiz&eacute;ram
+soffrer
+em &Agrave;frica, porque quando d&eacute;ram causa a isso, eu
+ainda
+n&atilde;o estava habituado ao soffrimento.<br>
+
+<br>
+
+No principio de Abril, eu j&aacute; bastante melhor, tinha promptos
+60
+carregadores, e esperava apenas a chegada das cargas de Benguella, para
+receber mais alguma fazenda e partir.<br>
+
+<br>
+
+A minha vida era um trabalhar incessante, e ao mesmo tempo compilava um
+livro de lembran&ccedil;as, para ter &aacute; m&atilde;o as
+f&ograve;rmulas que me eram necessarias para os meus
+c&agrave;lculos;
+fazia umas t&agrave;buas de raizes quadradas e raizes
+c&ugrave;bicas,
+que calculei para os n&ugrave;meros de 1 a 1000. Deduzia com
+trabalho
+immenso algumas f&ograve;rmulas trigonom&egrave;tricas, porque
+na
+Europa, para tornar mais portateis as minhas t&agrave;buas
+logar&igrave;thmicas, as tinha feito encadernar, supprimindo a
+parte
+explicativa; e por um engano deploravel, n'uma remessa de objectos que
+de Loanda fiz para Portugal, f&ocirc;ram incluidos os meus livros
+mathem&agrave;ticos. N&atilde;o se riam os sabios, da singeleza
+com que
+lhes narro as difficuldades com que lutei no Bih&eacute; para poder
+ter
+escritas n'um livr&ecirc;te algumas f&ograve;rmulas vulgares.
+Quem
+n&atilde;o &eacute; explicador de mathem&agrave;tica,
+v&ecirc;-se
+muitas v&ecirc;zes embara&ccedil;ado para resolver uma
+quest&atilde;o
+mui simples, quando lhe falte um livro que lhe avive a memoria
+prigui&ccedil;osa. No Bih&eacute; faltavam-me t&ocirc;dos
+os livros, e
+por isso eu fazia um, para meu uso, e ou se riam ou n&atilde;o,
+declaro-lhes que n&atilde;o me foi facil. T&ocirc;da a minha
+bibliotheca consistia em tr&ecirc;s almanacs para 1878, 1879, e
+1880,
+as t&agrave;buas de logarithmos, como j&aacute; disse, sem
+texto,
+t&agrave;buas somente, o Eurico de Herculano, as poesias de
+Casimiro
+d'Abreu, e um livrinho de Flamarion,&nbsp;<span style="font-style: italic;">As Maravilhas Celestes</span>.<br>
+
+<br>
+
+Em tudo isto n&atilde;o tinha muito onde refazer a memoria para as
+quest&otilde;es de <span style="font-style: italic;">x
+</span>e&nbsp;<span style="font-style: italic;">y</span>.<br>
+
+<br>
+
+Depois havia ainda outra difficuldade. Eu tinha de fazer e de pensar em
+muitas cousas ao mesmo tempo, e cousas um pouco incompativeis entre si.
+&Aacute;s v&ecirc;zes tinha conseguido quasi reconstruir uma
+das
+f&ograve;rmulas de Neper para resolver tri&agrave;ngulos
+esph&egrave;ricos, quando entrava o muleque, e me exigia que
+dizesse,
+se a gallinha para o jantar devia ser cozida ou assada (durante a minha
+estada no Bih&eacute;, comi cento e sessenta e nove gallinhas).
+Logo,
+entrava outro pedindo sab&atilde;o para lavar a roupa; depois, eram
+carregadores que me vinham falar; em seguida, enviados do sova, que me
+queriam extorquir mais algumas jardas de fazenda. Um inferno, um
+verdadeiro inferno.<br>
+
+<br>
+
+Eu tinha feito e fazia um grande n&ugrave;mero de
+observa&ccedil;&otilde;es meteorol&ograve;gicas. <br>
+
+<br>
+
+Os meus chron&ograve;metros estavam perfeitamente regulados, e a
+minha
+posi&ccedil;&atilde;o determinada. Algumas excurs&otilde;es
+que fiz no
+paiz com a b&ugrave;ssola na m&atilde;o,
+permit&iacute;ram-me fazer uma
+carta, de certo grosseira, mas t&atilde;o aproximada quanto se
+p&ocirc;de exigir de um trabalho d'estes em viagem de
+explora&ccedil;&atilde;o. Apesar dos meus trabalhos, ou talvez
+por
+causa d'elles, eu estava satisfeito, e mal pensava nas
+tribula&ccedil;&otilde;es porque tinha de passar ainda nas
+terras do
+Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Antes porem de continuar a narrativa das minhas aventuras, abro um
+parenthesis para falar um pouco d'este paiz, t&atilde;o importante
+e
+rico quanto pouco conhecido entre n&oacute;s, a quem interessa mais
+o
+seu conhecimento do que a ninguem.<br>
+
+<br>
+
+O Bih&eacute; limita ao Norte com o sert&atilde;o do Andulo, a
+N.O. com
+o Bailundo, a Oeste com o paiz de Moma, a S.O. com os Gonzellos de
+Caquingue, ao S. e L. com os p&ocirc;vos Ganguelas livres. O rio
+Cuqueima &eacute; quasi um limite natural do Bih&eacute; por
+Oeste, Sul
+e Leste, mas, na realidade, a autoridade do sova do Bih&eacute;
+ainda
+se exerce para &agrave;l&eacute;m d'aquelle rio em alguns
+pontos. O
+paiz &eacute; pequeno, mas muito povoado.<br>
+
+<br>
+
+Eu avalio grosseiramente a sua &agrave;rea em 2500 milhas
+quadradas, e
+um c&agrave;lculo ainda mais grosseiro f&ecirc;z-me estimar a
+sua
+popula&ccedil;&atilde;o em 95 mil habitantes; o que nos
+d&aacute;
+apenas 38 habitantes por milha quadrada; e ainda que este
+n&ugrave;mero
+nos pare&ccedil;a mui pequeno, por ser menos de um ter&ccedil;o
+do que
+se d&aacute; entre n&oacute;s, &eacute; consideravel para a
+&Agrave;frica Austral, onde a popula&ccedil;&atilde;o
+est&aacute; muito
+pouco accumulada.<br>
+
+<br>
+
+Em tempo, como se ver&aacute;, pouco distante, estas terras do
+Bih&eacute; eram povoadas de matas densas, onde abundavam
+elefantes, e
+onde assentavam raras povoa&ccedil;&otilde;es de
+ra&ccedil;a Ganguela.<br>
+
+<br>
+
+O rio Cuanza, depois da sua confluencia com o Cuqueima, divide o paiz
+do Andulo do paiz de Gamba, que lhe fica a leste. Era sova de Gamba um
+tal Bomba, que possuia uma filha de grande formosura, chamada Cahanda. <br>
+
+<br>
+
+Este sova Bomba vivia na margem esqu&ecirc;rda do rio Loando,
+affluente do Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+A formosa e n&ecirc;gra princesa Cahanda, pediu ao pai para ir
+visitar
+umas parentas que eram senhoras da povoa&ccedil;&atilde;o de
+Ungundo,
+&ugrave;nica de alguma importancia no Bih&eacute; de outrora.<br>
+
+<br>
+
+Estando a filha do sova Bomba n'esta povoa&ccedil;&atilde;o de
+Ungundo
+a visitar as parentas, aconteceu chegar ao paiz um ouzado
+ca&ccedil;ador de elefantes chamado Bih&eacute;, filho do sova
+do
+Humbe, que com grande comitiva tinha passado o Cunene e estendido as
+suas excurs&otilde;es venatorias at&eacute; &aacute;quellas
+remotas
+terras. Um dia o selvagem disc&igrave;pulo de Santo Huberto
+t&ecirc;ve
+fome, e estando perto da povoa&ccedil;&atilde;o de Ungundo,
+dirigio-se
+ali a pedir de comer. Foi ent&atilde;o que vio a formosa Cahanda, e
+&eacute; preciso dizel-o, que vel-a e amal-a foi obra de um
+momento.
+Estas quest&otilde;es de amor em &Agrave;frica sam muito
+semelhantes
+&aacute;s quest&otilde;es de amor na Europa, e pouco depois do
+encontro
+dos dois jovens, Cahanda era raptada, e Bih&eacute; plantava a
+estacada
+da grande povoa&ccedil;&atilde;o que ainda h&ocirc;je
+&eacute; a
+capital do paiz, paiz a que deu o seu nome, fazendo-se acclamar sova.
+As dispersas tribus Ganguelas f&ocirc;ram por elle submettidas, e o
+pai
+da primeira soberana do Bih&eacute; reconciliando-se com a filha,
+permittio uma grande immigra&ccedil;&atilde;o do seu
+p&ocirc;vo para
+ali. Ao casamento do sova succed&eacute;ram-se muitos outros entre
+as
+mulh&eacute;res do norte e os ca&ccedil;adores do seu
+s&egrave;guito, e
+esta &eacute; a origem do p&ocirc;vo Biheno.<br>
+
+<br>
+
+Assim os Bihenos sam Mohumbes, nome que na &Agrave;frica Austral de
+oeste dam aos descendentes da ra&ccedil;a do Humbe, os quaes
+n&atilde;o
+se encontram s&oacute; no Bih&eacute;, mas estam tambem
+espalhados em
+outros pontos, s&ocirc;bre tudo frente da costa entre
+Moss&agrave;medes
+e Benguella, misturados com os Mundombes, que sam a verdadeira
+ra&ccedil;a d'aquelle paiz. H&ocirc;je a verdadeira
+ra&ccedil;a Mohumbe
+no Bih&eacute; &eacute; representada p&ecirc;la nobreza e
+gente rica do
+paiz, os descendentes dos ca&ccedil;adores do primeiro sova, e
+ainda
+assim, f&ocirc;ra da familia reinante, est&aacute; ella
+misturada com
+sangue de ra&ccedil;as muito differentes; porque, sendo o
+Bih&eacute;
+desde o seu com&ecirc;&ccedil;o um grande emporio de
+escravatura, e
+tendo sido colonizado em grande parte por escravos de ra&ccedil;as
+diversas, o baixo p&ocirc;vo provem de uma mistura inexplicavel, e
+a
+nobreza mesmo, nas suas bastardias numerosas, tem trazido &aacute;s
+suas descendencias sangue dos paizes mais remotos da &Agrave;frica
+Austral.<br>
+
+<br>
+
+Da uni&atilde;o de Bih&eacute; e da formosa Cahanda nasceu um
+&ugrave;nico filho var&atilde;o, que t&ecirc;ve o nome de
+Jambi, e
+succedeu no governo a seu pai. Este Jambi t&ecirc;ve dois filhos,
+dos
+quaes o primog&egrave;nito se chamou Gira&uacute;l, e o segundo
+Cangombi. Gira&uacute;l herdou o poder por morte de seu pai, e
+receiando de seu irm&atilde;o, que tinha grande influencia no
+p&ocirc;vo, o fez prender secretamente de noite, e o vendeu como
+escravo, a um pr&ecirc;to que ia levar uma leva de escravos a
+Loanda.<br>
+
+<br>
+
+Cangombi, por acaso, em Loanda foi comprado p&ecirc;lo Governador
+Geral, de quem foi escravo. Tempos depois, os despotismos e as
+arbitrariedades de Gira&uacute;l fiz&eacute;ram-n-o detestado
+do seu
+p&ocirc;vo; houve conspira&ccedil;&atilde;o, e alguns
+nobres
+part&iacute;ram secretamente para Loanda, com muito marfim, para
+resgatar seu irm&atilde;o, e acclamal-o, depois de deporem aquelle.
+O
+governador de Angola de ent&atilde;o, vendo o partido que podia
+tirar
+d'esta quest&atilde;o, para a cor&ocirc;a Portugueza,
+n&atilde;o
+s&oacute; entregou Cangombi sem resgate, mas ainda o encheu de
+presentes, e lhe deu auxilio contra seu irm&atilde;o; e por isso
+Cangombi se apresentou no Bih&eacute; com grande comitiva, que veio
+por
+Pungo-andongo e subio o Cuanza, entre a qual se contavam muitos
+Portuguezes. Declarada a guerra, Gira&uacute;l foi vencido, sendo
+traido p&ecirc;los seus, e entregou as redeas do governo a seu
+irm&atilde;o mais n&ocirc;vo, que lhe deu uma
+povoa&ccedil;&atilde;o e
+um pequeno dominio para viver.<br>
+
+<br>
+
+Quatro annos depois, Gira&uacute;l revoltava-se e vinha
+p&ocirc;r
+c&ecirc;rco &aacute; capital. Novamente vencido e prisioneiro,
+foi
+entregue por seu irm&atilde;o aos Ganguelas de
+&agrave;l&eacute;m
+Cuanza para o comerem; n&atilde;o que estes Ganguelas sejam
+positivamente canibaes, mas, de vez em quando, n&atilde;o desgostam
+de
+comer um bocado de homem assado.<br>
+
+<br>
+
+Eu n&atilde;o pude saber o nome do governador que prestou
+m&atilde;o-forte ao filho segundo do Jambi para lhe dar o poder,
+mas
+estou certo que a esse respeito alguma cousa d&ecirc;ve existir no
+Ministerio da Marinha e Ultramar, porque um passo d'aquelles
+n&atilde;o
+podia deixar de ser communicado ao governo da Metr&ograve;poli.<br>
+
+<br>
+
+Cangombi foi grande sova, e t&ecirc;ve oito filhos, dos quaes seis
+f&ocirc;ram sovas do Bih&eacute;; o que n&atilde;o
+&eacute; para
+admirar, porque ali herda o poder o mais pr&ograve;ximo da
+ascendencia.
+Assim, em quanto existem filhos de um sova, os netos n&atilde;o vam
+ao
+poder, e o neto primog&egrave;nito do filho primog&egrave;nito
+s&oacute; toma as r&egrave;deas do governo quando
+n&atilde;o existe
+nenhum dos seus tios, irm&atilde;os mais n&ocirc;vos de seu pai.<br>
+
+<br>
+
+Por esta lei herdou o poder Cahueue, filho mais velho de Cangombi, e
+por mortes successivas, seus irm&atilde;os Moma, Band&uacute;a,
+Ungulo,
+Leam&uacute;la e Caiang&uacute;la. Os dois filhos de Cangombi
+que
+n&atilde;o f&ocirc;ram sovas, f&ocirc;ram Calali e
+&Oacute;chi, por
+terem morrido c&ecirc;do. Este &Oacute;chi era immediato ao
+mais velho
+Cahueue, e deixou um filho que foi sova por morte de seu tio
+Caiang&uacute;la, por n&atilde;o ter deixado filhos o
+irm&atilde;o mais
+velho de seu pai. <br>
+
+<br>
+
+Este sova chamava-se Muquinda, e por sua morte foi o governo a seu
+primo Gubengui, filho mais velho do sova Moma immediato a seu pai. A
+este Muquinda seguia-se outro irm&atilde;o chamado Quitungo, que
+morreu
+quando ia ser acclamado, j&aacute; dentro da capital.<br>
+
+<br>
+
+De t&ocirc;dos os oito filhos de Cangombi, s&oacute; existia um
+descendente leg&igrave;timo, filho do sova Band&uacute;a, que
+foi
+acclamado. &Eacute; elle Quillemo, o actual sova do Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Ha contudo um filho bastardo de Moma, chamado Canhamangole, que
+est&aacute; indigitado para succeder a Quillemo; em seguida
+passar&aacute;m ao poder, os filhos d'este &ugrave;ltimo, que
+sam
+muitos.<br>
+
+<br>
+
+Por este breve resumo da historia do Bih&eacute; se v&ecirc;,
+que
+aquelle paiz &eacute; de funda&ccedil;&atilde;o recente, e
+que desde o
+seu com&ecirc;&ccedil;o quasi, exist&iacute;ram
+rela&ccedil;&otilde;es
+&igrave;ntimas entre os Portuguezes e Bihenos, p&ecirc;la
+interven&ccedil;&atilde;o tomada p&ecirc;lo Governador
+Geral de Angola,
+na acclama&ccedil;&atilde;o do sova Cangombi, av&ocirc; do
+actual sova
+Quillemo, e neto do fundador da monarchia Bihena. <br>
+
+<br>
+
+Assim, pois, o Bih&eacute;, desde a sua
+funda&ccedil;&atilde;o tem sido
+governado por treze sovas em cinco
+g&egrave;ra&ccedil;&otilde;es, que
+vam representadas no seguinte quadro:--<br>
+
+<br>
+
+<img style="width: 600px; height: 288px;" alt="" src="images/019a.png"><br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+<br>
+
+Na carta de Angola, de Pinheiro Furtado, j&aacute; vem, indicado o
+Bih&eacute;, mas a sua origem n&atilde;o d&ecirc;ve ir
+muito
+&agrave;l&eacute;m da coordena&ccedil;&atilde;o
+d'aquella carta. <br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 287px;" alt="" src="images/020.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.19"></a>Figura
+19.--Mulh&eacute;r do Bih&eacute; cavando.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Os Bihenos sam pouco agricultores e pouco industriosos, e ali tudo o
+trabalho &eacute; feito p&ecirc;las mulh&eacute;res, que
+s&oacute;
+ellas cultivam a terra.<br>
+
+<br>
+
+Os homens sam dados a viajar, talvez de origem, que o seu primeiro
+r&egrave;gulo de longe veio, e atrevem-se a ir commerciar nos
+remotos
+sert&otilde;es onde vam traficar em marfim e escravos. Aproveitando
+estas disposi&ccedil;&otilde;es, alguns homens ousados, taes
+como Silva
+Porto, Guilherme (o Candimba), Pernambucano, Ladislao Magiar, e outros
+negociantes sertanejos, come&ccedil;&aacute;ram a dirigir os
+Bihenos
+nas suas excurs&otilde;es, e fiz&eacute;ram n'isso um grande
+servi&ccedil;o ao mundo; porque, abrindo n&ocirc;vos mercados
+ao
+commercio, abr&iacute;ram n&ocirc;vos horizontes &aacute;
+civilisa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o foi s&oacute; o
+seu
+tr&agrave;fico que veio augmentar o movimento commercial da
+pra&ccedil;a de Benguella, mas, ainda animado por elles, e perdido
+o
+receio dos brancos, o gentio dos mais remotos paizes, desceu a vir
+permutar directamente os seus g&egrave;neros nas casas commerciaes
+de
+Benguella.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 363px;" alt="" src="images/021.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.20"></a>Figura
+20.--Carregador Biheno em marcha.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Nas viagens sertanejas, aos brancos segu&iacute;ram-se os
+pr&ecirc;tos,
+e obtendo, primeiro alguns, depois muitos, um certo cr&egrave;dito
+na
+pra&ccedil;a de Benguella, f&ocirc;ram ao Bih&eacute;
+organizar
+expedi&ccedil;&otilde;es, d'onde partem a procurar a
+c&ecirc;ra e o
+marfim nos sert&otilde;es mais distantes.<br>
+
+<br>
+
+Muitos pr&ecirc;tos conh&ecirc;&ccedil;o eu que negoceiam
+com um
+cr&egrave;dito de 4 e 5 contos de r&eacute;is, e alguns com
+mais, como
+o pr&ecirc;to Chaquingunde, que foi escravo de Silva Porto, que,
+durante a minha permanencia no Bih&eacute;, chegou do
+sert&atilde;o,
+onde tinha negociado por sua conta uma factura de 14 contos de
+r&eacute;is!<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o &eacute; difficil no Bih&eacute; encontrar um
+branco
+Portuguez, escapado dos presidios da costa, secretario de um
+pr&ecirc;to commerciante rico.<br>
+
+<br>
+
+Para o Biheno, em quest&otilde;es de viagens de tr&agrave;fico,
+nada
+&eacute; impossivel, e tudo lhe parece natural. Se elles soubessem
+dizer onde t[~e]m estado e descrever o que t[~e]m visto, os
+ge&ograve;graphos da Europa n&atilde;o teriam em branco grande
+parte da
+carta de &Agrave;frica Austral.<br>
+
+<br>
+
+O Biheno deixa com o maior desap&ecirc;go o lar, e carregado com
+trinta
+kilogrammas de fazendas, vai para o sert&atilde;o, onde se demora
+2, 3,
+e 4 annos, voltando em seguida a casa, onde &eacute; recebido com a
+naturalidade de quem volta de uma viagem de tr&ecirc;s dias.<br>
+
+<br>
+
+Silva Porto, ao passo que se dirigia ao Zambeze, enviava
+pr&ecirc;tos
+seus em outras direc&ccedil;&otilde;es, e negociava ao mesmo
+tempo no
+Mucusso, na Lunda e no Luapula.<br>
+
+<br>
+
+A fama dos Bihenos tinha chegado longe, e Gra&ccedil;a quando
+intentou a viagem ao Matianvo, foi ali procurar carregadores.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; mui raro que um Biheno deserte da comitiva, e roube algum
+fardo; o que acontece frequentemente com os Zanzibares.<br>
+
+<br>
+
+&Agrave;l&eacute;m d'isso, os Bihenos t[~e]m outra grande
+vantagem
+s&ocirc;bre os Zanzibares. Ainda que muito dados ao commercio de
+escravos, n&atilde;o promovem elles mesmos no interior guerras para
+os
+haverem; comprando-os a quem os vende, mas nunca tratando de os obter
+por f&ocirc;r&ccedil;a. Isto quando em viagem de
+tr&agrave;fico
+sertanejo, que, nas guerras com paizes circunvizinhos, fazem o que
+podem, e sam dotados de inaudita crueldade.<br>
+
+<br>
+
+Os Bihenos, apesar das suas grandes qualidades, coragem e
+h&agrave;bito
+de viajar, possuem grandes defeitos, e n&atilde;o
+conh&ecirc;&ccedil;o
+em &Agrave;frica p&ocirc;vo mais profundamente viciado, mais
+abertamente depravado, mais duramente cruel, e mais sagazmente
+hyp&ograve;crita.<br>
+
+<br>
+
+Tem esta gente uma certa emula&ccedil;&atilde;o entre si como
+viajantes, e muitos conh&ecirc;&ccedil;o eu que se ufanam de
+ter ido
+onde outros n&atilde;o f&ocirc;ram, a que elles chamam&nbsp;<span style="font-style: italic;">descobrir terras n&ocirc;vas</span>.
+Elles sam educados na vida de caminheiros, e t&ocirc;das as
+comitivas
+levam inn&ugrave;meras crian&ccedil;as, que, com cargas
+proporcionaes
+&aacute;s suas for&ccedil;as, acompanham os pais ou parentes
+nas mais
+long&igrave;nquas correrias; e &eacute; por isso que
+n&atilde;o causa
+estranheza encontrarmos ali um homem de 25 annos que tenha estado no
+Matianvo, no Niangu&eacute;, no Luapula, no Zambeze, e no Mucusso,
+se
+elle viajou desde os 9 annos.<br>
+
+<br>
+
+Ao homem que chega ao Bih&eacute; para seguir em viagem sertaneja,
+offerecem-se dois meios de obter carregadores. Um &eacute; por meio
+de
+presentes ao sova e aos potentados, obtel-os, pedindo-os; o outro
+&eacute; annunciar a viagem, e esperar que elles se venham
+offerecer.<br>
+
+<br>
+
+O primero &eacute; mao, porque, &agrave;l&eacute;m do
+grande dispendio
+feito com os presentes que &eacute; preciso dar &aacute;s
+pess&ocirc;as
+a quem se pedem os carregadores, estes sam obrigados a ir, e o que os
+pedio &eacute; responsavel pela vida d'elles para com as familias
+ou
+senhores. &Agrave;l&eacute;m d'isso, as pess&ocirc;as a
+quem se pedem,
+com o int&ugrave;ito de extorquir mais presentes, vam demorando
+quanto
+podem a partida, e quando se est&aacute; na sua dependencia as
+exigencias crescem. <br>
+
+<br>
+
+O segundo meio &eacute; bom, porque os que se v[~e]m offerecer sam
+pr&ecirc;tos livres, v[~e]m por sua vontade, e se algum morre,
+segundo
+a lei do paiz, como foi elle que se offereceu, n&atilde;o tem o que
+o
+aceitou a menor responsabilidade do facto. <br>
+
+<br>
+
+&Eacute; occasi&atilde;o de falar em Quissongos e Pombeiros. Os
+carregadores, n&atilde;o s&oacute; os Bihenos mas sim
+t&ocirc;dos em
+geral, formam grupos pequenos debaixo do commando de um d'elles que
+&eacute; chefe do grupo. Este chefe, desde a costa at&eacute; a
+Caquingue chama-se&nbsp;<span style="font-style: italic;">Quissongo</span>,
+e no Bih&eacute; e Bailundo&nbsp;<span style="font-style: italic;">Pombeiro</span>.<br>
+
+<br>
+
+Sam estes Pombeiros que se v[~e]m offerecer, trazendo uns 10, outros
+mais, outros menos carregadores. Estes grupos sam de differentes
+naturezas. Uns sam constituidos por parentes que escolh&eacute;ram
+um
+para Pombeiro, e n'estes sam t&ocirc;dos livres. Outros sam
+formados
+por gente livre, que combinam ir debaixo das ordens de um certo
+Pombeiro em quem t[~e]m confian&ccedil;a. Outros ainda, sam grupos
+de
+escravos dos Pombeiros que os commandam.<br>
+
+<br>
+
+A obriga&ccedil;&atilde;o do Pombeiro &eacute; vigiar
+p&ecirc;la sua
+gente, e responder por ella ante o chefe da comitiva. Come e dorme com
+elles, &eacute; emfim o cabo de esquadra da caravana.<br>
+
+<br>
+
+O Pombeiro n&atilde;o leva carga, mas, em caso de doen&ccedil;a
+ou
+morte de algum dos seus, substitue-o como carregador temporariamente.
+Durante a marcha o seu logar &eacute; no couce da comitiva, e logo
+que
+um seu carregador se atraza, elle fica para o acompanhar.<br>
+
+<br>
+
+O pagamento dos carregadores nunca &eacute; feito adiantado, e nas
+viagens de tr&agrave;fico regulares &eacute; diminutissimo.<br>
+
+<br>
+
+Assim, um carregador, para ir do Bih&eacute; &aacute;
+Garanganja
+(Luapula), recebe 12 pannos ou valor de 2400 r&eacute;is, e na
+volta
+uma ponta de marfim escravelho, talvez de 4000 r&eacute;is, ao tudo
+6400 reis, comida &aacute; parte, porque o chefe da comitiva tem
+obriga&ccedil;&atilde;o de sustentar t&ocirc;da a sua gente
+durante a
+viagem, excepto nos primeiros tr&ecirc;s dias de sahida do
+Bih&eacute;,
+para os quaes cada um leva de comer.<br>
+
+<br>
+
+Esta regra tem ainda uma excep&ccedil;&atilde;o. Muitos
+sertanejos, ao
+sahirem do Bih&eacute;, destinam um certo n&ugrave;mero de
+pombeiros
+para destacarem em caminho, ou no termo da sua viagem, para differentes
+pontos.<br>
+
+<br>
+
+A estes Pombeiros dam um certo n&ugrave;mero de fazendas,
+p&ecirc;las
+quaes elles lhes devem trazer um certo producto. Estas fazendas dos
+Pombeiros que vam traficar livremente, chamam-se&nbsp;<span style="font-style: italic;">banzos</span>,
+e d'ellas comem o Pombeiro e carregadores desde o
+com&ecirc;&ccedil;o
+da jornada. Afora este caso, em t&ocirc;dos os mais o chefe
+sustenta
+Pombeiros e carregadores.<br>
+
+<br>
+
+Os Pombeiros n&atilde;o sahem nunca por tempo determinado, e tanto
+ganham demorando-se pouco como muito. &Eacute; sabido que os
+n&ecirc;gros em &Agrave;frica n&atilde;o dam valor ao tempo.<br>
+
+<br>
+
+Os costumes Bihenos sam aproximadamente os mesmos de Caquingue, e o
+contacto com brancos n&atilde;o tem trazido o menor adiantamento a
+essa
+gente. <br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o t[~e]m a menor id&eacute;a de uma
+religi&atilde;o qualquer,
+n&atilde;o adoram nem sol, nem lua, nem &igrave;dolo, e vivem
+com os
+seus feiti&ccedil;os e advinha&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Todavia, parecem acreditar na immortalidade da alma, ou antes no
+desassocego d'ella em quanto n&atilde;o cumprem certos preceitos ou
+vingan&ccedil;as em favor do morto.<br>
+
+<br>
+
+A forma do governo &eacute; mon&agrave;rchica absoluta, e tem
+muito do feudalismo.<br>
+
+<br>
+
+Cada um &eacute;, muitas v&ecirc;zes, juiz em causa propria, e
+quando eu falar dos <span style="font-style: italic;">mucanos</span>
+direi como ali se faz justi&ccedil;a. <br>
+
+<br>
+
+Os maiores acontecimentos entre os Bihenos sam aquelles que se ligam
+aos sovas, e s&ocirc;bre tudo &aacute; sua morte e &aacute;
+acclama&ccedil;&atilde;o do n&ocirc;vo r&egrave;gulo.
+Antes porem de
+descrever estes dois grandes acontecimentos, preciso &eacute; falar
+da
+sua c&ocirc;rte.<br>
+
+<br>
+
+O sova &eacute; rodeado de um certo n&ugrave;mero de sujeitos,
+a que chamam&nbsp;<span style="font-style: italic;">Macotas</span>,
+que muitos julgam corresponderem aos ministros entre n&oacute;s,
+mas
+que assim n&atilde;o &eacute;. Os Macotas formam apenas uma
+especie de
+cons&ecirc;lho a que o sova submette sempre as suas
+delibera&ccedil;&otilde;es, mas de cuja opini&atilde;o
+poucas
+v&ecirc;zes faz caso. Sam sec&uacute;los e favoritos do sova, e
+nada
+mais. Sec&uacute;lo &eacute; o fidalgo, filho de nobre, ou
+enobrecido
+p&ecirc;lo sova.<br>
+
+<br>
+
+Muitos sec&uacute;los que possuem libatas, dentro d'ellas t[~e]m o
+tratamento de sovas, e os seus p&ocirc;vos, quando lhe dirigem a
+palavra, dizem&nbsp;<span style="font-style: italic;">N&aacute;
+</span><span style="font-style: italic;">c&ocirc;co</span>,
+o que quer dizer Vossa Magestade.<br>
+
+<br>
+
+&Agrave;l&eacute;m dos Macotas, ha tr&ecirc;s
+pr&ecirc;tos que rodeiam
+o sova, e que, quando elle d&aacute; audiencia, se sentam no
+ch&atilde;o junto d'elle, e apanham da terra os escarros do
+reg&ugrave;lo para os irem deitar fora. Ha ainda o que leva a
+cadeira,
+e o B&ocirc;bo, figura indispensavel em t&ocirc;das as
+c&ocirc;rtes de
+sova, e mesmo dos sec&uacute;los ricos e poderosos. O
+b&ocirc;bo tem
+obriga&ccedil;&atilde;o de limpar a porta da casa do sova e a
+rua em
+t&ocirc;rno d'ella.<br>
+
+<br>
+
+As libatas sam defendidas por uma forte palissada de madeira, quasi
+sempre coberta de syc&ograve;moros enormes, e dentro d'ellas uma
+segunda palissada defende e fecha a morada do sova. Este segundo
+recinto chama-se o&nbsp;<span style="font-style: italic;">lombe</span>.
+Dados estes esclarecimentos, vamos ver o que se passa p&ecirc;la
+morte ou acclama&ccedil;&atilde;o dos r&egrave;gulos.<br>
+
+<br>
+
+Logo que morre o sova, o acontecimento &eacute; sabido dos Macotas,
+que
+guardam o maior segr&ecirc;do. Dam parte ao p&ocirc;vo de que o
+sova
+est&aacute; doente e por isso n&atilde;o apparece. O cadaver
+&eacute;
+deitado na cama, na cubata, e coberto com um panno; isto em Caquingue,
+porque no Bih&eacute;, &eacute; dependurado p&ecirc;lo
+pesc&ocirc;&ccedil;o ao tecto da cubata.<br>
+
+<br>
+
+O c&ocirc;rpo ali jaz at&eacute; que a
+putrefac&ccedil;&atilde;o e os
+insectos deixam a ossada nua, no paiz de Caquingue; no Bih&eacute;,
+at&eacute; que a cab&ecirc;&ccedil;a se separa do corpo.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; ent&atilde;o que anunciam a morte do
+r&egrave;gulo, e que se
+procede ao enterro. Os ossos sam metidos em uma pelle de boi e
+enterrados em uma cubata que existe no Lombe, sarc&ograve;phago de
+t&ocirc;dos os sovas. A cubata em que apodreceu o cadaver
+&eacute;
+demolida, e tudo o material &eacute; transportado f&ocirc;ra da
+libata,
+e abandonado no mato. Ser&aacute; desnecessario dizer, que a morte
+de
+um sova &eacute; sempre produzida por feiti&ccedil;o, e que um
+desgra&ccedil;ado paga com a vida, n&atilde;o o
+feiti&ccedil;o, que
+n&atilde;o fez, mas a vingan&ccedil;a particular de um dos
+Macotas.
+Logo que se anunc&iacute;a a morte do sova, o p&ocirc;vo sahe
+furioso,
+e durante alguns dias, sam roubados t&ocirc;dos os que passam
+pr&ograve;ximo da capital, sendo que se apossam das
+pess&ocirc;as
+mesmas, que escravizam para venderem depois.<br>
+
+<br>
+
+Os Macotas vam buscar o herdeiro, e acompanham-n-o at&eacute;
+&aacute;
+Libata Grande (capital); mas ali elle n&atilde;o entra no Lombe, e
+fica
+vivendo na povoa&ccedil;&atilde;o como qualquer do seu
+p&ocirc;vo. Em
+seguida &aacute; entrada do herdeiro na Libata, sahem dois bandos
+de
+ca&ccedil;adores, um em busca de uma malanca (<span style="font-style: italic;">Catoblepas </span><span style="font-style: italic;">taurina</span>), e outro
+em procura de uma creatura humana.<br>
+
+<br>
+
+Do grupo que v&ecirc; o ant&igrave;lope, se adianta um
+ca&ccedil;ador
+que lhe atira, fugindo logo, e sam os outros que lhe vam cortar a
+cab&ecirc;&ccedil;a, porque, se f&ocirc;r o que lhe atirou,
+&eacute;
+logo assassinado, e nunca p&ocirc;de dizer que foi elle que o matou.<br>
+
+<br>
+
+O bando que procura a creatura humana, apossa-se da primeira que
+encontra (homem ou mulh&eacute;r), e arrastando-a para o mato,
+cortam-lhe a cabe&ccedil;a, que trazem com tudo o cuidado,
+abandonando
+o c&ocirc;rpo. Chegados &aacute; libata, esperam p&ecirc;lo
+bando que
+foi ca&ccedil;ar o ant&igrave;lope; porque mais facil sempre
+&eacute;
+encontrar e matar um homem do-que encontrar e matar uma malanca.<br>
+
+<br>
+
+Reunidas em uma cesta as duas cabe&ccedil;as, a do homem e do
+ant&igrave;lope, vem o cirurgi&atilde;o, e
+com&ecirc;&ccedil;a a
+fazer&nbsp;<span style="font-style: italic;">os
+curativos</span>
+precisos para que o n&ocirc;vo sova possa tomar as redeas do
+governo, e
+quando acaba a sua mag&iacute;a, declara que elle p&ocirc;de
+entrar no
+Lombe. Acompanhado dos Macotas, o sova entra no Lombe, no meio de
+grande grita e muita fuzilaria.<br>
+
+<br>
+
+O primeiro passo que d&aacute; o sova no seu governo, &eacute;
+escolher
+entre as suas amantes uma que apresenta como sua mulh&eacute;r, a
+qual
+fica morando com elle, e toma o nome de In&aacute;c&uacute;lo,
+e o
+governo caseiro; as outras ficam vivendo no Lombe, mas f&ocirc;ra
+do
+recinto do r&egrave;gulo.<br>
+
+<br>
+
+No Bih&eacute;, como em t&ocirc;da a &Agrave;frica Austral,
+est&aacute; estabelecida a polygamia.<br>
+
+<br>
+
+Os crimes no Bih&eacute; sam sempre julgados em primeira instancia
+p&ecirc;lo lesado, e s&oacute; se o culpado se n&atilde;o
+sujeita ao
+pagamento da multa, &eacute; que, algumas v&ecirc;zes, sobe a
+causa ao
+conhecimento do sova, porque em outras a justi&ccedil;a
+&eacute; feita
+p&ecirc;lo lesado. A palavra terrivel no Bih&eacute;, o
+voc&agrave;bulo&nbsp;<span style="font-style: italic;">Mucano</span>,
+n&atilde;o exprime simplesmente o crime, mas designa uma
+id&eacute;a
+que involve ao mesmo tempo o crime e o pagamento da multa.<br>
+
+<br>
+
+Ali t&ocirc;dos os crimes sam remiveis a dinheiro, isto
+&eacute;, ao
+pagamento de multas; e n&atilde;o ha penalidades intermediarias
+entre a
+multa e a pena de morte. Se alguem rico s&ocirc;bre quem pesa um
+mucano, se recusa a pagar, e o lesado &eacute; poderoso, faz presa
+ao
+culpado em valor muito superior &aacute; multa, ficando a presa em
+dep&ograve;sito, para ser vendida, ou ficar pertencendo ao que a
+fez.<br>
+
+<br>
+
+Aquelle que faz uma presa injusta &eacute; obrigado p&ecirc;lo
+sova
+&aacute; restitui&ccedil;&atilde;o, e a dar um porco ao
+prejudicado.<br>
+
+<br>
+
+Este systema &eacute; &aacute;zado a roubos, e t&ocirc;dos
+os dias apparecem mucanos os mais estupendos.<br>
+
+<br>
+
+Um dos mais vulgares &eacute; o do adulterio das
+mulh&eacute;res, a
+quem os maridos mandam que se fa&ccedil;am seduzir por este ou
+aquelle
+homem que possue alguma cousa, para lhe fazerem depois pagar o mucano.
+O chefe de uma comitiva &eacute; obrigado a pagar os mucanos dos
+seus
+pr&ecirc;tos, e responsavel p&ecirc;lo comportamento d'elles.<br>
+
+<br>
+
+Quando um branco responsavel p&ecirc;los mucanos dos seus
+pr&ecirc;tos,
+tem por seu lado for&ccedil;a bastante e se recusa a pagar, elles
+esperam, &aacute;s v&ecirc;zes, annos at&eacute; poderem
+atacar outro
+branco mais fraco, e fazerem-lhe presas, dizendo-lhe, que &eacute;
+por
+causa do outro, e que se entenda com elle.<br>
+
+<br>
+
+Se o que t&ecirc;ve um mucano &eacute; fallecido, o
+desgra&ccedil;ado
+que vem habitar a sua povoa&ccedil;&atilde;o paga por elle.<br>
+
+<br>
+
+O modo por que se&nbsp;<span style="font-style: italic;">faz
+justi&ccedil;a </span>no Bih&eacute;, &eacute; a
+causa do grande transtorno que soffre o commercio, e das grandes perdas
+das casas de Benguella.<br>
+
+<br>
+
+Durante a minha estada em casa do Silva Porto, vi&eacute;ram ali
+uns pr&ecirc;tos que traziam uma gallinha para fazer uns&nbsp;<span style="font-style: italic;">curativos</span>, e o
+hortel&atilde;o vendo-a disse, que tinha uma muito parecida com
+ella. F&ocirc;ram estas palavras<br>
+
+objecto de um mucano, em que o hortel&atilde;o t&ecirc;ve de
+pagar 16 c&ocirc;vados de algod&atilde;o ao dono da gallinha.<br>
+
+<br>
+
+Logo que chega alguem ao Bih&eacute; e traz fazendas, procuram
+arranjar-lhe inn&ugrave;meros mucanos, e roubam-lhe assim uma
+grande
+parte d'ellas.<br>
+
+<br>
+
+Os sertanejos, quando chegam ao Bih&eacute;, sam t&atilde;o
+defraudados
+pelos mucanos, que muitas vezes n&atilde;o lhes fica para ir
+negociar
+no interior mais do que a ter&ccedil;a-parte das facturas trazidas.
+Guilherme (o Candimba), pai do Verissimo, a &ugrave;ltima vez que
+ali
+foi em viagem de tr&agrave;fico, foi obrigado a dar fazendas no
+valor
+de 600 mil r&eacute;is, por um mucano que lhe
+arranj&aacute;ram, de um
+seu pr&ecirc;to ter comprado um bocado de carne de carneiro por
+tr&ecirc;s cartuxos de p&ograve;lvora, e n&atilde;o os ter
+dado no dia
+aprasado, mas sim no seguinte, em que j&aacute; n&atilde;o
+f&ocirc;ram
+aceites. Durante a minha estada no Bih&eacute;, Silva Porto
+t&ecirc;ve
+de pagar um mucano de 700 mil r&eacute;is por uma bagatela ainda
+maior.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; o mucano, esse roubo infame, porque &eacute; legal e
+autorizado, a causa principal do est&ocirc;rvo ao commercio, e da
+decadencia do Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Foi o mucano que expulsou do Bih&eacute; a Silva Porto e aos
+sertanejos honrados.<br>
+
+<br>
+
+Supprima-se o mucano, segure-se o caminho de Benguella, organize-se e
+legisle-se para as comitivas sertanejas, e dentro em pouco
+triplicar&aacute; o commercio de Benguella, e novas fontes de
+riqueza,
+atrofiadas h&ocirc;je pela pouca seguran&ccedil;a,
+vir&aacute;m
+alimentar as industrias Europeas.<br>
+
+<br>
+
+O p&ocirc;vo do Bih&eacute; &eacute; &aacute;zado a
+grandes
+commettimentos. Esmague-se no seu seio a v&igrave;bora da
+ignorancia
+que o corr&oacute;e; levantem-se esses brutos ignaros &aacute;
+altura
+de homens, d&ecirc;-se-lhes uma direc&ccedil;&atilde;o, e
+elles
+caminhar&aacute;m na via do progresso e chegar&aacute;m onde
+difficilmente chegar&aacute; outro p&ocirc;vo Africano.<br>
+
+<br>
+
+Os pr&ecirc;tos d'&Agrave;frica sam como os cavallos de fina
+ra&ccedil;a, quanto mais fogosos e bravos, mais promptamente se
+tornam
+doceis e obedientes.<br>
+
+<br>
+
+Aquelles em que predomina a inercia e a cobardia, difficilmente se
+poder&aacute;m civilizar; aos outros n&atilde;o ser&aacute;
+difficil
+tarefa trazel-os ao caminho do bem.<br>
+
+<br>
+
+Os Bihenos, como t&ocirc;dos os povos d'esta parte de
+&Agrave;frica, sam muito dados &aacute; embriaguez.<br>
+
+<br>
+
+Ali ainda chega a &agrave;gua-ardente, e na falta d'ella fabrica-se
+muita capata.<br>
+
+<br>
+
+A Capata, Quimbombo ou Chimbombo, que lhe chamam de qualquer destes
+modos, &eacute; uma especie de cerveja feita de milho.<br>
+
+<br>
+
+Nas terras onde cultivam o l&ugrave;pulo (<span style="font-style: italic;">Humulus lupulus</span>),
+servem-se das c&ograve;nicas sementes d'esta trepadeira para
+confeccionarem a bebida.<br>
+
+<br>
+
+Para isso, reduzem as sementes a p&oacute;, e misturado este
+p&oacute;
+com fuba de milho, em uma enorme panella, ferve por espa&ccedil;o
+de
+oito ou dez horas em muita &agrave;gua, e logo, retirada do
+f&ocirc;go
+e fria, &eacute; a capata, que se bebe immediatamente.<br>
+
+<br>
+
+N'este preparado a fermenta&ccedil;&atilde;o ac&egrave;tica
+predomina,
+e &eacute; t&atilde;o pequena a
+fermenta&ccedil;&atilde;o
+alcoh&ograve;lica, que n&atilde;o embriaga sen&atilde;o em
+grande
+quantidade. Como a bebida n&atilde;o &eacute; filtrada, fica
+cheia de
+farinha em suspens&atilde;o, e &eacute; mais massa muito
+fl&ugrave;ida,
+do que puramente um l&igrave;quido. &Eacute; muito substancial,
+e ha
+pr&ecirc;tos que passam um e mais dias sem comer, bebendo
+s&oacute;
+capata.<br>
+
+<br>
+
+Nas terras onde n&atilde;o ha l&ugrave;pulo &eacute; este
+substituido
+por uma farinha feita de milho em estado de
+germina&ccedil;&atilde;o,
+que elles fazem produzir, j&aacute; enterrando o milho,
+j&aacute;
+deitando-o em &agrave;gua por alguns dias.<br>
+
+<br>
+
+No tempo do mel, fazem produzir na capata uma grande
+fermenta&ccedil;&atilde;o alcoh&ograve;lica,
+addicionando-lhe mel, que
+no fim de alguns dias est&aacute; em parte transformado em alcohol.<br>
+
+<br>
+
+Esta bebida assim preparada embriaga muito, e tem o nome de Quiassa.<br>
+
+<br>
+
+Preparam ali ainda outra bebida que apenas pode considerar-se refresco,
+mas que &eacute; agradavel e muito nutriente.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; ella feita com a raiz de uma planta herb&agrave;cea,
+que os
+meus poucos conhecimentos bot&agrave;nicos n&atilde;o me
+permit&iacute;ram classificar, a que os pr&ecirc;tos
+chamam&nbsp;<span style="font-style: italic;">imbundi</span>.
+Uma forte decoc&ccedil;&atilde;o da raiz do imbundi, depois de
+fria e
+de uma ligeira fermenta&ccedil;&atilde;o em uma grande
+caba&ccedil;a, e
+addicionada, a frio, &aacute; fuba fervida como para a capata.<br>
+
+<br>
+
+A raiz do imbundi contem grande quantidade de materia sacharina.<br>
+
+<br>
+
+Esta bebida chama-se Quissangua.<br>
+
+<br>
+
+A alimenta&ccedil;&atilde;o do p&ocirc;vo do
+Bih&eacute; &eacute; quasi
+toda vegetal, e tendo elles poucos gados, que nunca matam para comer,
+apenas uma ou outra vez comem carne de p&ocirc;rco, animaes estes
+que
+abundam ali no estado dom&egrave;stico. Creio que f&ocirc;ram
+introduzidos por Silva Porto. No paiz, muito povoado, escaceia a
+ca&ccedil;a, e a pouca que h&aacute; sam pequenos
+ant&igrave;lopes (<span style="font-style: italic;">Cephalophus
+mergens</span>), difficeis de matar por muito esquivos.<br>
+
+<br>
+
+Os Bihenos comem toda carne que encontram, e a preferem no estado de
+putrefac&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+O le&atilde;o, o chacal, a hyena, o crocodilo, e t&ocirc;dos os
+carn&igrave;voros, sam para elles finos manjares, mas
+s&ocirc;bre tudo
+o que mais amam sam os c&atilde;es, que engordam para comerem. Isto
+talvez provenha da falta de alimenta&ccedil;&atilde;o animal
+que t[~e]m
+no seu paiz. Elles n&atilde;o sam positivamente canibaes, mas comem
+de
+tempos a tempos um bocado de homem cozido. Preferem os velhos, e um
+anci&atilde;o de cabelleira branca &eacute; &ograve;ptimo
+presente que
+recebe o sova, ou algum rico sec&uacute;lo, para um banquete.<br>
+
+<br>
+
+Os sovas do Bih&eacute; fazem repetidas vezes uma festa, na sua
+libata,
+a que chamam a festa do Quissunge, em que sam immoladas e devoradas 5
+pess&ocirc;as, sendo 1 homem e 4 mulheres, desta sorte:--1
+mulh&eacute;r que fa&ccedil;a panellas, 1 do primeiro parto, 1
+que
+tenha papeira (&eacute; vulgar ali), 1 cesteira, e 1
+ca&ccedil;ador de
+c&ocirc;r&ccedil;as.<br>
+
+<br>
+
+Presas as v&igrave;ctimas, sam degolladas, e as cabe&ccedil;as
+lan&ccedil;adas no mato. Os corpos entram de noite para o Lombe da
+libata grande, onde sam esquartejados, e morto um boi, a sua carne
+&eacute; cozida com a carne humana, parte da qual &eacute;
+tambem
+fervida na capata; sendo que tudo o que apparecer no banquete deve
+levar sangue humano. Logo que est&aacute; prompta a sinistra e
+repugnante ceia, o sova manda participar que vai come&ccedil;ar o
+Quissunge, e todos os habitantes da povoa&ccedil;&atilde;o
+correm
+pressurosos ao festim.<br>
+
+<br>
+
+Os Bihenos gostam muito das termites, e destroem as suas
+habita&ccedil;&otilde;es para as comerem cruas.<br>
+
+<br>
+
+O Biheno &eacute; altamente ladr&atilde;o, e furta sempre que
+pode
+algum objecto, logo que est&aacute; no seu paiz; f&oacute;ra
+d'elle,
+n&atilde;o s&oacute; se abstem de roubar, mas, como carregador,
+respeita a carga que lhe confi&aacute;ram.<br>
+
+<br>
+
+Quando uma comitiva acampa no mato, no Bih&eacute;, &eacute;
+preciso
+logo dar parte d'isso ao sec&ugrave;lo dono da terra, mandando-lhe
+um
+pequeno presente; sem o que, ficam autorizados os pr&ecirc;tos da
+povoa&ccedil;&atilde;o vizinha a roubarem quanto possam. Logo
+que se
+d&aacute; o presente ao dono da terra, &eacute; elle o
+responsavel por
+qualquer roubo que haja.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; tambem necessario mandar um presente, ou antes um tributo,
+ao sova; ao que se chama dar a&nbsp;<span style="font-style: italic;">Quibanda</span>. Elles
+nunca ficam satisfeitos, e exigem sempre mais do que se lhes manda.<br>
+
+<br>
+
+As libatas ou povoa&ccedil;&otilde;es fortificadas (que todas o
+sam,
+desde a costa ao Bih&eacute;) t[~e]m as mesmas
+condi&ccedil;&otilde;es,
+salvo pequenas modifica&ccedil;&otilde;es, devidas &aacute;
+disposi&ccedil;&atilde;o do terreno. Sam grupos de cubatas
+feitas de
+madeiras e cobertas de c&ocirc;lmo, cercadas por uma palissada, que
+var&iacute;a entre 2 a 3,5 metros de altura. Esta palissada
+&eacute;
+formada por estacas de pao-ferro de vinte cent&igrave;metros de
+di&agrave;metro, umas apenas cravadas no terreno, outras amarradas
+com
+travessas e cascas de leguminosas, e outras amparadas por travessas
+encaixadas em forquilhas enormes.<br>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center; width: 200px;"><img style="width: 88px; height: 196px;" alt="" src="images/022a.png"><br>
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 204px;"><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 150px; height: 196px;" alt="" src="images/022b.png"></span></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 200px;"><img style="width: 131px; height: 196px;" alt="" src="images/022c.png"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center; width: 200px;"><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.21"></a>Figura
+21A.<br>
+
+Palissada Solta.</span></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 204px;"><span style="font-weight: bold;">Figura 21B.<br>
+
+Palissada amarrada com<br>
+
+Casca de arvore.</span></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 200px;"><span style="font-weight: bold;">Figura 21C.<br>
+
+Palissada travada<br>
+
+com Forquilhas.</span></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br>
+
+Outra palissada igual &aacute; exterior, sen&atilde;o mais
+forte, rodea
+o Lombe, ou morada do chefe da povoa&ccedil;&atilde;o. Em
+muitas vi
+grupos de casas rodeadas de palissada.<br>
+
+<br>
+
+As libatas, e s&ocirc;bre tudo as antigas, sam cobertas de
+frondosas
+&agrave;rvores, e estam junto de rio ou ribeiro, sendo que em
+algumas
+lhes fazem passar a &agrave;gua por dentro.<br>
+
+<br>
+
+Sam quasi todas rectangulares, mas muitas ha ell&igrave;pticas ou
+circulares, e outras formando polygonos irregularissimos.
+N&atilde;o ha
+a menor ordem nas construc&ccedil;&otilde;es, e em geral
+&eacute; a
+disposi&ccedil;&atilde;o do terreno que as determina.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 400px; height: 264px;" alt="" src="images/023.png"></span><br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"></span><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.22"></a>Figura
+22.--Planta de uma Libata de gentio no Bih&eacute;.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;">
+<br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">
+A. Entrada.<br>
+
+B. Cubata onde se enterram os sovas.<br>
+
+C. Troph&eacute;u de cornos.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-style: italic; font-weight: bold;">c c c</span><span style="font-weight: bold;">. Casas das amantes do sova. O O.
+Casa do sova.&nbsp;</span><span style="font-style: italic; font-weight: bold;">a a a</span><span style="font-weight: bold;">. Lombe ou</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">
+morada do sova.&nbsp;</span><span style="font-style: italic; font-weight: bold;">d d d</span><span style="font-weight: bold;">. Casas dos pr&ecirc;tos.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 200px; height: 181px;" alt="" src="images/023a.png"></span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;">Figura
+22C.--Troph&eacute;u de Cornos de ca&ccedil;a, em quasi todas
+as libatas.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 227px;" alt="" src="images/024.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.23"></a>Figura
+23.--Fora da porta das libatas ha isto.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">As
+povoa&ccedil;&otilde;es sam
+fortificadas com o receio dos ataques do homem, que feras
+n&atilde;o
+abundam muito no paiz, e n&atilde;o &eacute; mesmo isso
+necessario para
+feras, porque no interior, onde as ha em bandos, as
+povoa&ccedil;&otilde;es sam abertas.<br>
+
+</div>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: justify;">
+<br>
+
+As guerras dos pr&ecirc;tos ali sam, a maior parte das vezes, sem
+causa, e basta a riqueza de um p&ocirc;vo para que elle seja
+atacado. <br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Sam verdadeiros ataques de salteadores.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">Logo que um
+r&egrave;gulo decide ir
+fazer a guerra a outro, ou a um p&ocirc;vo qualquer, manda
+emissarios
+seus aos sovas e sec&uacute;los circumvizinhos, convidando-os a
+tomar
+parte na campanha, e estes, como na Europa no<br>
+
+tempo do Feudalismo, sahem com os seus guerreiros a reunirem-se ao que
+os convoca.<br>
+
+<br>
+
+Alguns povos fazem peri&ograve;dica e system&agrave;ticamente a
+guerra,
+e no Nano, por exemplo, vam, de tres em tres annos, roubar os gados ao
+Mulondo, Camba e Quillengues, e dizem, que estes povos criam gados para
+elles, e sam os seus pastores.<br>
+
+<br>
+
+Uma circunstancia muito notavel das guerras n'esta parte de
+&Agrave;frica, &eacute; a de ser sempre vencedor o que ataca.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Ha excep&ccedil;&otilde;es, mas muito raras.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">Uma das
+excep&ccedil;&otilde;es foi o
+ataque dirigido por Quillemo, o actual sova do Bih&eacute;, contra
+o
+paiz de&nbsp;Caquingue, em que os Bihenos f&ocirc;ram
+derrotados pelos
+Gonzellos, e em que o proprio sova Quillemo foi prisioneiro do sova de
+Caquingue, onde seria degollado, se por elle n&atilde;o pagassem um
+grande resgate Silva Porto e Guilherme Jos&eacute;
+Gon&ccedil;alves (o
+Candimba).<br>
+
+<br>
+
+Nas guerras entre os povos d'estes paizes, pode contar-se, que apenas
+um quinto dos combatentes sam armados de espingardas, e os outros
+4-quintos de arcos e frechas, machadinhas e azagaias. Dizem, que uma
+guerra vai muito poderosa e forte, quando leva trinta tiros por
+espingarda. As armas de que usam sam as chamadas no commercio
+Lazarinas, sam muito compridas, de pequeno adarme, e de silex. Estas
+armas sam fabricadas na B&egrave;lgica, e tiram o seu nome de um
+c&egrave;lebre armeiro Portuguez que viveu na cidade de Braga, no
+principio d'este s&egrave;culo, cujos trabalhos cheg&aacute;ram
+a
+adquirir grande fama, em Portugal e Colonias. Nas armas fabricadas na
+B&egrave;lgica para os pr&ecirc;tos, que sam uma
+imita&ccedil;&atilde;o
+grosseira dos perfeitos trabalhos do armeiro Portuguez, l&ecirc;-se
+nos
+canos o nome d'elle--Lazaro--Lazarino, natural de Braga.<br>
+
+<br>
+
+Os Bihenos n&atilde;o usam balas de chumbo, que sam, dizem elles,
+muito
+pesadas, e fabricam-n-as de ferro forjado. Os cartuxos, que elles
+fabricam tambem, levam 15 grammas de p&ograve;lvora, e t[~e]m 22
+cent&igrave;metros de comprido.<br>
+
+<br>
+
+As balas de ferro sam de di&agrave;metro muito inferior ao adarme,
+pesando apenas 6 a 7 grammas. Como sam forjadas, sam mais polyedros
+irregulares do que espheras.<br>
+
+<br>
+
+As armas assim carregadas, de nenhuma precis&atilde;o, como se pode
+bem julgar, t[~e]m um alcance de cem metros apenas.<br>
+
+<br>
+
+O alcance da frecha &eacute; de 50 a 60 metros, mas a grosseira
+precis&atilde;o do tiro de frecha, entre os pr&ecirc;tos,
+n&atilde;o
+vai &agrave;l&eacute;m de 25 a 30 metros. As azagaias sam todas
+de
+ferro, curtas e ornadas de pello de carneiro ou de cabra,
+n&atilde;o
+sam de arrem&ecirc;sso, e o Biheno em combate nunca as deixa da
+m&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Talvez haja reparo em eu escrever&nbsp;<span style="font-style: italic;">pello</span>
+de carneiro, mas cabe dizer, j&aacute; que falei n'isso, que os
+carneiros ali n&atilde;o t[~e]m l&atilde;. Existem no paiz duas
+differentes especies, que os pr&ecirc;tos em Hambundo designam pelos<br>
+
+nomes de Ongue e Om&ecirc;me. O ongue tem um pello grosso e curto;
+e o
+om&ecirc;me, que tem o pello mais longo, differe muito da
+l&atilde;.<br>
+
+<br>
+
+Estes carneiros, de ra&ccedil;as ex&ograve;ticas,
+degener&aacute;ram de
+certo por effeito do clima e das pastagens. T[~e]m os Bihenos cabras de
+uma ra&ccedil;a muito inferior, e o seu gado bovino &eacute;
+pouco, e
+de ra&ccedil;a muito pequena e fraca. <br>
+
+As gallinhas abundam, mas, sam, como todos os animaes
+dom&egrave;sticos no Bih&eacute;, de pequeno corpo.<br>
+
+<br>
+
+Deixo aqui o que nos meus apontamentos encontrei de mais curioso a
+respeito d'este paiz, cujas posi&ccedil;&otilde;es e
+condi&ccedil;&otilde;es climat&egrave;ricas se
+encontrar&aacute;m em um
+cap&igrave;tulo especial; e retomo o meu diario no dia 14 de Abril
+de
+1878.<br>
+
+<br>
+
+As &ugrave;ltimas chuvas tinham cahido das 6 &aacute;s 9 da
+noite do
+dia primeiro de Abril, produzindo apenas 17 milimetros
+d'&agrave;gua, o
+que mostra terem sido j&aacute; muito fracas. O tempo estava
+espl&egrave;ndido, e alguns cirrus alvissimos que em seguida
+&aacute;s
+chuvas tinham pairado nos ares a enorme altura,
+desapparec&ecirc;ram,
+para deixar logar a um firmamento l&igrave;mpido, esclarecido de
+dia
+por um sol brilhante, e &aacute; noite constellado d'estrellas, que
+dardejavam s&ocirc;bre a terra escura d'&Agrave;frica essa luz
+melanc&ograve;lica e scintillante, que ellas s&oacute; t[~e]m
+nas
+regi&otilde;es tropicaes. <br>
+
+<br>
+
+Era o bom tempo de viajar, era j&aacute; o dia 14 de Abril, e eu
+estava ainda no Bih&eacute;!<br>
+
+<br>
+
+Eram 14 de Abril, e eu n&atilde;o partia, porque ainda
+n&atilde;o
+tinham chegado as fazendas e as cargas que deix&aacute;mos em
+Benguella, em Novembro de 1877, isto &eacute;, uma grande parte
+d'ellas, que outras tinham chegado em principio de Mar&ccedil;o.
+Esta
+demora estava sendo de grande prejuizo para mim. Dos sete fardos de
+fazendas que me deix&aacute;ram Capello e Ivens, quatro tinham sido
+gastos, com a sustenta&ccedil;&atilde;o da minha gente de
+Benguella e
+com a minha.<br>
+
+<br>
+
+Ainda n&atilde;o tinha dado presente ao sova, que teimava em m'o
+pedir, e comecei a ver um sombrio futuro na minha empresa.<br>
+
+<br>
+
+Reduzi as minhas despesas pessoaes, e por isso tive de dispor de duas
+horas por dia para ca&ccedil;ar. Na falta de ca&ccedil;a
+grossa, tinha,
+na margem esquerda do rio Cuito, nas terras cultivadas de Silva Porto,
+muitas<br>
+
+perdizes. <br>
+
+<br>
+
+Chamei-lhe a minha capoeira, e todos os dias ia ali matar uma ou duas,
+n&atilde;o excedendo nunca esse n&ugrave;mero para
+n&atilde;o destruir
+a provis&atilde;o. Semelhante ao jogador que faz da banca meio de
+vida,
+e que sopeando os impulsos do vicio, se levanta com um pequeno ganho
+que lhe assegura a sustenta&ccedil;&atilde;o diaria; assim eu,
+contendo
+os instinctos de ca&ccedil;ador, deixei muitas vezes a
+ca&ccedil;a que
+podia matar; fazendo s&ocirc;bre mim supremo
+esf&ocirc;r&ccedil;o, para
+n&atilde;o proseguir n'um prazer, que destruiria ao mesmo tempo as
+muni&ccedil;&otilde;es pouco abundantes, e a ca&ccedil;a
+necessaria ao
+meu sustento futuro.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o eram s&oacute; as bandas de perdizes dos campos de
+Silva
+Porto que forneciam um prato &aacute; minha modesta mesa.
+Centenares de
+rolas Africanas, esvoa&ccedil;avam continuamente s&ocirc;bre as
+&agrave;rvores das margens do Cuito, e vinham beber ao rio de
+manh&atilde; e de tarde. Os meus muleques pequenos, por meio de
+armadilhas ca&ccedil;avam algumas, que vinham figurar na minha mesa
+a
+par das perdizes e de um prato de massa, feita com farinha de milho
+cozida em &agrave;gua, que me servia de p&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Assim pude reduzir a minha despesa, que era p&ecirc;lo menos de
+quatro
+jardas de algod&atilde;o branco por dia, custo de duas gallinhas.<br>
+
+<br>
+
+A demora e com ella o decrescimento r&agrave;pido dos meus
+recursos, fez modificar o meu plano de viajar. O&nbsp;<span style="font-style: italic;">mucano</span>
+aterrava-me, e se eu tivesse de pagar algum, ficava impossibilitado de
+sahir do Bih&eacute;. A demora da minha gente, tinha, com a
+ociosidade,
+feito despertar n'elles os vicios adormecidos pelas fadigas e pelos
+trabalhos da jornada.<br>
+
+<br>
+
+O perigo pairava s&ocirc;bre mim, e estava suspenso por um fio,
+como a
+espada s&ocirc;bre a cabe&ccedil;a de Damocles. Resolvi, depois
+de
+muito cogitar, colocar-me em circunstancias de ter a for&ccedil;a
+de
+meu lado, e de defender a t&ocirc;do o trance a minha propriedade.<br>
+
+<br>
+
+Para isso precisava armar-me, e depois de ter armas precisava ainda de
+muni&ccedil;&otilde;es de guerra. Eu tinha 10 carabinas Snider,
+que me
+tinham dado Capello e Ivens; pude obter mais 11 das deixadas por
+Cameron no fim da sua viagem, e para estas armas tinha quatro mil
+cartuxos. &Agrave;l&eacute;m d'estas, possuia umas 20
+espingardas de
+silex, das &ugrave;ltimas d'esse systema usadas pelos
+ex&egrave;rcitos
+na Europa. Para estas n&atilde;o tinha
+muni&ccedil;&otilde;es. Fiz
+correr a noticia de que comprava t&ocirc;das as armas inutilizadas
+que
+me trouxessem. Principi&aacute;ram a affluir ellas, e eu ia
+comprando
+as que poderia concertar, o que me n&atilde;o era difficil, por ter
+aprendido o officio de serralheiro e espingardeiro, com meu pai, que
+&eacute; habil art&igrave;fice, e que ainda h&ocirc;je
+emprega as horas
+de &ograve;cio trabalhando na sua officina, mais bem montada que as
+d'aquelles que as t[~e]m por profiss&atilde;o. Lembra-me aqui uma
+anecdota engra&ccedil;ada. Um dia, entra na nossa quinta do Douro
+um
+cavalheiro que ia procurar meu pai, e ouvindo um martellar estridente
+n'uma casa pr&ograve;xima &aacute; de
+habita&ccedil;&atilde;o,
+dirigio-se para ali. Era uma vasta forja, onde dois homens, de tamancos
+nos p&eacute;s, carapu&ccedil;as vermelhas na
+cabe&ccedil;a, largos
+aventaes de couro pendentes do pesc&ocirc;&ccedil;o e justos
+&aacute;
+cintura, a cara e m&atilde;os negras do carv&atilde;o e do
+ferro,
+estendiam em enorme bigorna uma grossa barra, que projectava em todas
+as direc&ccedil;&otilde;es chispas ardentes, ao bater
+cadenciado de
+dois pesados martellos, puxados por bra&ccedil;os nus
+at&eacute; ao
+cotovelo.<br>
+
+<br>
+
+O cavalheiro parou &aacute; porta e perguntou: "&iquest;O
+Senhor Doutor
+est&aacute; em casa?" Meu pai, que era elle um dos ferreiros,
+respondeu-lhe com uma pergunta: "&iquest;Que lhe quer o Senhor?"<br>
+
+<br>
+
+O cavalheiro, que n&atilde;o era de genio brando, n&atilde;o
+gostou da
+pergunta do ferreiro, que tomou por insolencia, e respondeu pouco
+convenientemente, dizendo, que vinha procurar sua Excellencia, e que
+n&atilde;o admittia que um ferreiro que trabalhava em sua casa
+respondesse com perguntas a elle.<br>
+
+<br>
+
+Meu pai quiz explicar o caso, dizendo, que o ferreiro e o Doutor eram a
+mesma pess&ocirc;a, o que mais fez exasperar o seu interlocutor,
+que
+julgou lhe juntavam a zombaria &aacute; insolencia. Ambos de genio
+irritavel, iam ter uma desagradavel contenda, quando o outro ferreiro,
+que era eu, entreveio e fez cessar a guerilha; dando o visitante as
+suas desculpas logo que se convenceu da nossa identidade.<br>
+
+<br>
+
+Esta pequena circunstancia de ter aprendido um officio, servio-me de
+grande auxilio, e foi um dos pequenos ribeiros que veio engrossar o rio
+dos felizes resultados da minha tentativa.<br>
+
+<br>
+
+Assim, pois, mais um trabalho se veio juntar ao meu incessante labutar
+de t&ocirc;dos os dias, e dentro em pouco pude aproveitar umas
+vinte-e-cinco espingardas que o gentio julgava inutilizadas.<br>
+
+<br>
+
+Faltavam as muni&ccedil;&otilde;es, e era preciso fazel-as. Em
+casa de
+Silva Porto encontrei uma colec&ccedil;&atilde;o completa
+da&nbsp;<span style="font-style: italic;">Gazeta de
+Portugal</span>, e n'ella o papel necessario aos cartuxos. Nas
+cargas que esperava de Benguella<br>
+
+devia vir muita p&ograve;lvora, e por isso apenas me faltavam as
+balas.
+Obter chumbo era impossivel, e decidi logo fazer balas de ferro
+forjado. Faltava o ferro &eacute; verdade, mas esse era possivel
+obter-se.<br>
+
+<br>
+
+Annunciei que comprava t&ocirc;do o ferro velho que me trouxessem,
+e
+n&atilde;o tardou a apparecer grande quantidade de enxadas
+inutilizadas, e s&ocirc;bre tudo de arcos de barris de
+&agrave;gua-ardente. S&oacute; suspendi a compra de ferro
+quando tinha
+uns duzentos kilogrammas.<br>
+
+<br>
+
+Mandei chamar 4 ferreiros do paiz, estabeleci duas forjas
+ind&igrave;genas no pateo interior, com grande esc&agrave;ndalo
+da
+pr&ecirc;ta Rosa, administradora da povoa&ccedil;&atilde;o
+de Belmonte,
+e em quanto, fora da libata, os meus pr&ecirc;tos faziam
+carv&atilde;o
+queimando os restos de uma pali&ccedil;ada de pao ferro, de uma
+libata
+abandonada, come&ccedil;ou no pateo um forjar cont&igrave;nuo.<br>
+
+<br>
+
+O primeiro trabalho a fazer era reduzir t&ocirc;do aquelle ferro a
+var&atilde;o cyl&igrave;ndrico do di&agrave;metro das
+balas. Os
+ferreiros haviam-se com grande destreza. Dobravam os arcos em molhos de
+20 cent&igrave;metros de comprido por 4 de espessura, e levando-os
+ao
+rubro, mergulhavam-n-os em uma massa de cali&ccedil;a e
+&agrave;gua.
+Depois de frios voltavam &aacute; forja, e chegados &aacute;
+tempera da
+fus&atilde;o eram facilmente caldeados, tornando-se em massa
+&ugrave;nica e homog&egrave;nea. Depois d'isso o trabalho era
+facil.<br>
+
+<br>
+
+A compra das armas e do ferro tinha deminuido consideravelmente o meu
+haver.<br>
+
+<br>
+
+Eu n&atilde;o possuia missangas, porque um sacco que me
+mand&aacute;ram
+os meus companheiros n&atilde;o tinha curso nos sert&otilde;es
+para
+onde me dirigia. Tratei de procurar alguma no Bih&eacute;, e pude
+comprar aos pr&ecirc;tos aqui e &agrave;l&eacute;m uma
+pequena
+por&ccedil;&atilde;o, que me fez a carga de um homem.<br>
+
+<br>
+
+Esta compra veio dar um n&ocirc;vo golpe na minha fazenda de
+algod&atilde;o, e por 17 de Abril, possuia apenas um fardo.<br>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 400px; height: 420px;" alt="" src="images/025.png"></span></td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom;"><span style="font-weight: bold;">1. Folle.<br>
+
+2. Folle preparado para servir.<br>
+
+3. Bocal de barro em contacto</span><span style="font-weight: bold;"> com a chama.<br>
+
+4. Tenaz.<br>
+
+5. Martello grante.<br>
+
+6. Um bocado de cano de </span><span style="font-weight: bold;">espingarda encabado em
+p&aacute;o que serve ao ferreiro para levar &aacute;o lume </span><span style="font-weight: bold;">pequenas pe&ccedil;as.<br>
+
+7. Martello pequeno.<br>
+
+8. Panellas de cozinha.<br>
+
+9. Panella </span><span style="font-weight: bold;">para
+capata.<br>
+
+10. Tambores dos bat&uacute;ques.</span></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"></span><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.24"></a>Figura
+24.--Objectos fabricados por Bihenos.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;">
+<br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;"></span></div>
+
+Sentia desde a minha chegada ao Bih&eacute; uma grande falta, e era
+ella a de um despertador. Foi olvido que me custou no correr da viagem
+muitos inc&ograve;mmodos e algumas febres. Sempre que tinha de
+fazer
+observa&ccedil;&otilde;es depois da meia noite, tinha de estar
+acordado
+at&eacute; &aacute; hora precisa; e asseguro que &eacute;
+triste passar
+uma noite a lutar com o sono, sem luz, e por isso sem nada poder fazer
+para matar o tempo.<br>
+
+<br>
+
+No dia 19, o Ivens veio ver-me, e causou-me funda impress&atilde;o
+o seu estado.<br>
+
+<br>
+
+Estava muito magro, de uma palidez cadav&egrave;rica, e accusava
+nas
+fei&ccedil;&otilde;es um soffrimento constante. Eu pedi-lhe
+para vir
+jantar comigo no dia immediato, que era o dia dos meus annos. Elle
+disse-me, que talvez n&atilde;o podesse vir p&ecirc;lo seu
+estado de
+saude.<br>
+
+<br>
+
+Dois dias depois, fui ao acampamento dos meus companheiros pagar a
+visita ao Ivens. Capello estava ausente, pois tinha ido determinar a
+posi&ccedil;&atilde;o da nascente do Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+No dia 25, tinha eu dez mil balas, ou antes dez mil bocados de ferro,
+toscamente forjados, com perten&ccedil;&otilde;es a terem uma
+forma
+esph&egrave;rica. Era o que me bastava, e despedi os ferreiros.
+N'esse
+dia cheg&aacute;ram os primeiros Bailundos com as cargas de
+Benguella,
+e nos seguintes dias f&ocirc;ram apparecendo novas levas com
+cargas.
+Estes Bailundos eram insolentes, e iam fazendo uma grande desordem em
+Belmonte, que teria tomado s&egrave;rias
+propor&ccedil;&otilde;es se eu
+n&atilde;o interviesse. Tirei das cargas 10 fardos de fazenda,
+tr&ecirc;s barris de &agrave;gua-ardente, e dois saccos de
+caurim.<br>
+
+<br>
+
+Faltava-me a p&ograve;lvora e o sal, que tinham ficado atraz.<br>
+
+<br>
+
+Tratei logo de mandar o presente ao sova, e de me preparar para partir,
+porque, tendo os cartuxos promptos e embalados, em dois ou
+tr&ecirc;s
+dias os carregaria de p&ograve;lvora. Mandei emissarios a reunir os
+carregadores, que t&ocirc;dos estavam justos e promptos.<br>
+
+<br>
+
+No dia 29 de Abril, os pr&ecirc;tos de Silva Porto
+fiz&eacute;ram-me um
+pequeno furto, e eu zanguei-me muito com elles, e ameacei-os de os
+mandar para Benguella. Elles, para entrarem nas minhas b&ocirc;as
+gra&ccedil;as, vi&eacute;ram denunciar-me, que sabiam onde
+estavam 4
+espingardas que tinham sido roubadas &aacute;
+expedi&ccedil;&atilde;o
+no caminho de Benguella. Uma d'ellas f&ocirc;ra furtada pelo
+S^{nr.}
+Magalh&atilde;es, dono da povoa&ccedil;&atilde;o onde
+primeiro estive
+no Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Pude havel-as todas.<br>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td><img style="width: 300px; height: 266px;" alt="" src="images/026-1.png"></td>
+
+ <td><img style="width: 300px; height: 288px;" alt="" src="images/026-2.png"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center;"><a name="Fig.25"></a>Figura 25A.<br>
+
+Quinda, cesta de palha que<br>
+
+n&atilde;o deixa passar a &agrave;gua.</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Figura 25B.<br>
+
+Peneiro para&nbsp;seccar a Farinha (fuba).</span></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><img style="width: 300px; height: 294px;" alt="" src="images/026-3.png"></td>
+
+ <td><img style="width: 300px; height: 132px;" alt="" src="images/026-4.png"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Figura 25C.<br>
+
+Peneiro de peneirar.</span></td>
+
+ <td style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Figura 25D.<br>
+
+Caba&ccedil;a para tirar &Agrave;gua a capata.</span></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span style="font-weight: bold;"></span><span style="font-weight: bold;"></span><br>
+
+A esse tempo eu mal tinha occasi&atilde;o de comer. Arranjava as
+cargas, e era preciso estar presente a tudo, para n&atilde;o ser
+roubado, porque t&ocirc;dos os pr&ecirc;tos, os de Silva Porto
+e os
+meus, eram uma quadrilha de ladr&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Havia uma excep&ccedil;&atilde;o, uma &ugrave;nica. Era o
+meu pr&ecirc;to Augusto, que me deu sempre prova da maior
+fidelidade.<br>
+
+<br>
+
+Quando contratei os carregadores em Benguella, contratei entre elles o
+Augusto, de quem nunca fiz caso, porque elle se n&atilde;o
+distinguia
+dos outros, a n&atilde;o ser talvez por ser um pouco mais dado a
+embriaguez.<br>
+
+<br>
+
+Na distribui&ccedil;&atilde;o das armas, os pr&ecirc;tos
+fiz&eacute;ram
+repugnancia em receber as de Snider, e s&oacute; o Augusto me pedio
+logo uma. Foi a primeira vez que attentei n'elle. Um dia, no Dombe, fiz
+um exercicio ao alvo, e vi que elle era um soffrivel atirador. Depois,
+em Quillengues, sube, que elle dissera entre os pr&ecirc;tos, que
+me
+n&atilde;o deixaria nunca, e como, p&ecirc;la sua
+for&ccedil;a
+herculea, e p&ecirc;la sua coragem, elle tinha tomado um grande
+ascendente s&ocirc;bre os outros pr&ecirc;tos, chamei-o a mim.<br>
+
+<br>
+
+Ao tempo em que vai a minha narrativa elle tinha subido de
+posi&ccedil;&atilde;o, e de simples carregador, estava chefe da
+comitiva. <br>
+
+<br>
+
+Alguns eram seus amigos, outros respeitavam-n-o, e muitos temiam-n-o.<br>
+
+<br>
+
+Augusto &eacute; o melhor pr&ecirc;to que eu tenho encontrado
+em
+&Agrave;frica; mas ninguem &eacute; perfeito n'este mundo, e
+Augusto
+n&atilde;o quer ser excep&ccedil;&atilde;o &aacute;
+regra. Entre os
+seus defeitos avulta um, que eu sou propenso a desculpar, e que sendo
+um grande defeito em viageiro Africano, fora d'ali poderia passar por
+virtude.<br>
+
+<br>
+
+Augusto &eacute; louco p&ecirc;lo bello sexo.<br>
+
+<br>
+
+Forte como um b&ugrave;falo, corajoso como um le&atilde;o,
+entende que
+deve protec&ccedil;&atilde;o e apoio &aacute;s creaturas
+frageis que
+encontra no seu caminho.<br>
+
+<br>
+
+J&aacute; n&atilde;o tinham conta as suas aventuras galantes
+desde
+Benguella ao Bih&eacute;. Casado em Benguella, casou de
+n&ocirc;vo no
+Dombe, em Quillengues, Caconda, no Huambo, e desde a sua chegada ao
+Bih&eacute;, j&aacute; tinha feito ali tr&ecirc;s ou quatro
+casamentos.
+&Eacute; um verdadeiro D. Juan de c&ocirc;r pr&ecirc;ta.<br>
+
+<br>
+
+Obediente em tudo o mais, desprezava completamente as minhas
+admoesta&ccedil;&otilde;es n'esta parte.<br>
+
+<br>
+
+Um dia, como as queixas das mulh&eacute;res fossem muitas, chamei-o
+e
+reprehendi-o severamente, amea&ccedil;ando de o abandonar se elle
+continuasse. Chorou muito, lan&ccedil;ou-se de jo&ecirc;lhos
+aos meus
+p&eacute;s, fez mil protestos de emenda, e pedio-me para lhe dar
+uma
+pe&ccedil;a de fazenda, que com isso iria contentar as
+mulh&eacute;res,
+e s&oacute; ficaria com Marcolina, a sua mulh&eacute;r de
+Benguella.<br>
+
+<br>
+
+Dei-lhe a pe&ccedil;a de pano, e fiquei satisfeito de
+t&atilde;o sincero arrependimento.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 348px;" alt="" src="images/027.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.26"></a>Figura
+26.--Uma Casquilha do Bih&eacute;.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Na tarde d'esse dia, ouvi grande batuque para um canto da
+povoa&ccedil;&atilde;o, e cantos e festas que anunciavam um
+acontecimento desusado.<br>
+
+<br>
+
+Tive curiosidade de saber o que era, e mandei alguem a ver.
+&iexcl;Qual
+n&atilde;o &eacute; o meu espanto, sabendo que o Augusto
+festejava o
+seu n&ocirc;vo casamento com uma rapariga da libata de Jamba!<br>
+
+<br>
+
+Vi que o furor de casar-se era superior &aacute;s suas
+for&ccedil;as, e
+decidi n&atilde;o mais me importar com os seus negocios galantes,
+mesmo
+porque elle n&atilde;o compromettia ninguem, e casava sempre
+legalmente.<br>
+
+<br>
+
+Est&agrave;vamos a dois de Maio, e ainda n&atilde;o tinha
+podido reunir
+os carregadores, e ainda n&atilde;o tinham chegado do Bailundo, nem
+a
+p&ograve;lvora nem o sal vindos de Benguella.<br>
+
+<br>
+
+O Verissimo andava por l&aacute; reunindo a gente; mas ainda nem um
+s&oacute; se tinha apresentado.<br>
+
+<br>
+
+Na manh&atilde; do dia tr&ecirc;s, estando eu em casa, ouvi
+fora da
+porta os acordes de uma rabeca, onde se tocavam arias muito melodiosas,
+coisa mui differente da m&ugrave;sica mon&ograve;tona dos
+pr&ecirc;tos.<br>
+
+<br>
+
+Mandei chamar o menestrel, e appareceu-me um pr&ecirc;to alto e
+magro, quasi nu, de physionomia triste e expressiva.<br>
+
+<br>
+
+Tocava em uma rabeca fabricada por elle, que dava sons tam melodiosos e
+fortes como o melhor Stradivarius. Este instrumento, mui semelhante em
+forma &aacute;s nossas rabecas, era cavado em uma s&oacute;
+pe&ccedil;a
+de pao, que formava a caixa e o bra&ccedil;o, sendo o tampo de uma
+tabua fina da mesma madeira.<br>
+
+<br>
+
+Tinha tres cordas de tripa, fabricadas p&ecirc;lo
+m&ugrave;sico, e o
+arco era guarnecido de duas cordas iguaes, em logar de clina. <br>
+
+<br>
+
+Era de certo uma imita&ccedil;&atilde;o das rabecas da Europa,
+e n&atilde;o um instrumento primitivo.<br>
+
+<br>
+
+A madeira de que era feita chama-se no paiz&nbsp;<span style="font-style: italic;">B&oacute;le</span>,
+e abunda nas matas da &Agrave;frica de Oeste. N&atilde;o seria
+talvez
+para desprezar o ensaio d'esta madeira na
+fabrica&ccedil;&atilde;o de
+instrumentos de corda.<br>
+
+<br>
+
+O b&agrave;rbaro m&ugrave;sico cantou uma aria em meu louvor,
+a&nbsp;<span style="font-style: italic;">mezzo petto</span>,
+com voz muito agradavel, acompanhando-se na t&ocirc;sca mas
+harmoniosa
+rabeca. Foi muito applaudido pelos pr&ecirc;tos que tinha attraido
+em
+volta de si, e eu mesmo gostei d'aquella m&ugrave;sica original.<br>
+
+<br>
+
+Cheg&aacute;ram &aacute; libata uns pr&ecirc;tos do
+sert&atilde;o do
+Andulo, que vinham vender tabaco muito bom, que n'aquelle paiz cultivam
+em quantidade. &Eacute; este tabaco do Andulo que os Bihenos
+compram e
+mandam para Benguella, vendendo-o ali com o nome de tabaco do
+Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Eu comprei grande provis&atilde;o, e calculei que me ficou por 500
+r&eacute;is o kilogramma.<br>
+
+<br>
+
+Os pre&ccedil;os dos differentes g&egrave;neros no
+Bih&eacute;
+n&atilde;o sam aquelles que me t[~e]m for&ccedil;ado a pagar, e
+sam os
+seguintes:<br>
+
+<br>
+
+Uma gallinha, uma jarda de fazenda de algod&atilde;o; seis ovos,
+uma
+jarda; um cabrito de dois annos, oito jardas; um porco de 5 a 6 arrobas
+(75 a 90 kilogrammas), uma pe&ccedil;a de algod&atilde;o branco
+e outra
+de zuarte; o alqueire de farinha de milho, duas jardas; o de farinha de
+mandioca ou de feij&atilde;o, tr&ecirc;s jardas. Isto sam
+jardas de
+fazendas das mais ordinarias, cujo pr&ecirc;&ccedil;o no
+Bih&eacute;
+n&atilde;o se d&ecirc;ve calcular superior a 200
+r&eacute;is.<br>
+
+<br>
+
+Uma jarda de fazenda chama-se no Bih&eacute; um&nbsp;<span style="font-style: italic;">Pano</span>, 2 jardas
+uma&nbsp;<span style="font-style: italic;">B&eacute;ca</span>,
+4 jardas um&nbsp;<span style="font-style: italic;">Len&ccedil;ol</span>,
+8 jardas uma&nbsp;<span style="font-style: italic;">Quirana</span>.<br>
+
+<br>
+
+As fazendas de negocio proprias para o Bih&eacute; e
+sert&otilde;es
+explorados pelos Bihenos, sam, algod&atilde;o branco, zuarte,
+zuarte
+pintado, len&ccedil;os de zuarte pintado, len&ccedil;os finos,
+len&ccedil;os cangengos, fazendas de lei e riscados, tudo da mais
+inferior qualidade.<br>
+
+<br>
+
+As pe&ccedil;as de algod&atilde;o branco tem 28 jardas umas, e
+outras
+de melhor qualidade 30. Os zuartes e riscados 18 jardas, os
+len&ccedil;os pintados 8 jardas, os len&ccedil;os cangengos 6,
+e a
+fazenda de lei 12 jardas.<br>
+
+<br>
+
+As fazendas boas sam muito inconvenientes ao viajante que percorre esta
+parte de &Agrave;frica, porque, n&atilde;o tendo muito mais
+importancia
+para o gentio, sam consideravelmente mais pesadas.<br>
+
+<br>
+
+Eu tinha dois fardos de fazenda que tinha preparado ali, cada um dos
+quaes continha 624 jardas, e os outros, de algod&atilde;o fino,
+t[~e]m
+apenas 180 jardas, e sam mais pesados.[<a href="#4">4</a>]<br>
+
+<br>
+
+J&aacute; se deduz d'aqui a inconveniencia das fazendas de
+b&ocirc;a
+qualidade, que &agrave;l&eacute;m de ser grande o seu custo,
+&eacute;
+grande tambem a difficuldade do seu transporte, pois que tr&ecirc;s
+homens carregam d'ellas tanto quanto um carrega de fazenda ordinaria.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">E s&ocirc;bre tudo
+para o viajante
+explorador, como o seu dispender de fazenda &eacute; em
+tr&ocirc;co de
+alimento, tantas jardas de fazenda b&ocirc;a tem de dar por um
+objecto,
+como de jardas de m&aacute; fazenda dar&aacute; pelo mesmo
+objecto.<br>
+
+<br>
+
+O algod&atilde;o branco de inferior qualidade e o zuarte sam o
+melhor dinheiro que pode levar o viajante n'aquellas paragens.<br>
+
+<br>
+
+Nas missangas j&aacute; se n&atilde;o d&aacute; o mesmo
+caso, e a que
+&eacute; moda aqui, n&atilde;o &eacute; recebida
+&agrave;l&eacute;m,
+&aacute;s vezes em pontos pouco distantes, por ex.: no Bailundo
+querem
+muito a missanga preta, que j&aacute; no Bih&eacute;
+n&atilde;o tem
+curso.<br>
+
+<br>
+
+Ha contudo uma missanga que &eacute; quasi geralmente bem recebida
+em
+toda a &Agrave;frica Austral. &Eacute; ella uma missanga miuda
+encarnada, de &ocirc;lho branco, a que no commercio em Benguella
+dam o
+nome de Maria 2^a.<br>
+
+<br>
+
+O buzio miudo (caurim) serve &agrave;l&eacute;m Cuanza
+at&eacute; ao Zambeze, mas o gra&uuml;do n&atilde;o
+&eacute; recebido.<br>
+
+<br>
+
+O arame de lat&atilde;o ou de cobre vermelho &eacute; estimado
+para
+manilhas; mas, n'estas paragens, n&atilde;o d&ecirc;ve ter mais
+de 3 a
+5 milimetros de espessura.<br>
+
+<br>
+
+Os barretes vermelhos, sapatos de liga, fardas de soldados, etc., sam
+frandulagens, que, sendo muito estimados presentes para sovas e
+sec&uacute;los, sam p&egrave;ssima moeda.<br>
+
+<br>
+
+Os cobertores, e s&ocirc;bre tudo aquelles vistosos que na Europa
+usamos para embrulhar as pernas em viagem, sam muito
+cubi&ccedil;ados
+do gentio; estando porem no caso das fardas e barretes, que, sendo
+&ograve;ptimo presente, n&atilde;o sam b&ocirc;a moeda.<br>
+
+<br>
+
+Os realejos, caixas de m&ugrave;sica, e outros objectos d'este
+g&egrave;nero, estam no mesmo caso.<br>
+
+<br>
+
+Prestigia&ccedil;&otilde;es, sortes de physica e
+ch&igrave;mica,
+produzem certa impress&atilde;o no gentio, mas n&atilde;o tanta
+como se
+julga na Europa. N&atilde;o comprehendendo as causas que determinam
+certos phen&ograve;menos, lan&ccedil;am a cousa &aacute;
+conta de
+feiti&ccedil;aria, com que explicam tudo que n&atilde;o sabem
+explicar
+de outro modo.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute;s vezes at&eacute; podem ser contraproducentes, e
+prejudicarem aquelle que as fiz&eacute;r.<br>
+
+<br>
+
+De tudo o que eu vi fazer impress&atilde;o em pretos, aquillo que
+mais os admira &eacute; verem um bom atirador.<br>
+
+<br>
+
+M&ecirc;tta qualquer, diante de um ajuntamento de pretos, 6 balas
+em
+alvo pequeno e distante, corte o pequeno fruto de uma
+&agrave;rvore,
+mate um passarinho, e fique certo de que ganha logo a maior
+considera&ccedil;&atilde;o, e ser&aacute; objecto das
+conversa&ccedil;&otilde;es por muito tempo.<br>
+
+<br>
+
+A este respeito vou narrar um facto que se deu na libata, comigo. Um
+dia, um cirurgi&atilde;o Biheno appareceu ali trazendo um remedio
+que
+era preservativo contra as balas, &aacute;quelle que o tomasse.<br>
+
+<br>
+
+Isto &eacute; cren&ccedil;a geral entre Bihenos, e muitos ha
+que gastam
+tudo o que t[~e]m para adquirirem aquelle aben&ccedil;oado remedio,
+que
+os torna mais invulneraveis do que Achilles, porque nem mesmo lhes
+deixa a possibilidade de receberem a morte por um calcanhar.<br>
+
+<br>
+
+Um mesti&ccedil;o civilizado, e educado em Benguella, encontrei eu,
+que
+se ria de mim quando eu lhe dizia que se lhe desse um tiro furava-o de
+lado a lado, apesar do remedio contra as balas de que elle fazia uso.<br>
+
+<br>
+
+Mas vamos ao conto. O cirurgi&atilde;o Biheno trazia uma panellinha
+de
+meio litro cheia do precioso preservativo, e apregoava que aquelle que
+o tomasse seria depois t&atilde;o invulneravel como o era a panella
+que
+continha o l&igrave;quido, panella a que t&ocirc;do o mundo, no
+seu
+dizer, tinha atirado sem que as balas lhe fizessem o menor damno. Quiz
+elle dar ao p&ugrave;blico uma prova irrefutavel, e desafiou-me de
+atirar &aacute; panella; tendo previamente o cuidado de me marcar a
+distancia (uns 80 passos) a que elle julgava ser impossivel acertar em
+t&atilde;o pequeno alvo.<br>
+
+<br>
+
+Tomei a carabina, atirei, e fiz a panella em cacos, derramando-se o
+precioso licor.<br>
+
+<br>
+
+Nunca vi applaudir mais phren&egrave;ticamente alguem, do que eu
+fui applaudido ent&atilde;o p&ecirc;lo gentio entusiasmado.<br>
+
+<br>
+
+O pobre cirurgi&atilde;o foi completamente corrido no meio de geral
+assuada. <br>
+
+<br>
+
+Este pobre homem foi ali buscar o seu descr&egrave;dito.<br>
+
+<br>
+
+Os melhores atiradores do sert&atilde;o sam grandes mediocridades,
+e
+sam bem mais para temer pretos de frecha e azagaia, do que de arma
+carregada.<br>
+
+<br>
+
+O Verissimo partio a reunir os carregadores, voltando a 5 de Maio com
+alguns, e dizendo que outros chegariam no dia seguinte.<br>
+
+<br>
+
+N'esse dia recebi cartas e cargas de Benguella, enviadas para mim por
+Pereira de Mello e Silva Porto.<br>
+
+<br>
+
+Fiz&eacute;ram-me uma tal impress&atilde;o aquellas cartas, que
+no meu
+diario escrevi ent&atilde;o, na cabe&ccedil;a do
+cap&igrave;tulo em que
+falo do Bih&eacute;, aquelles dous nomes, e h&ocirc;je ainda os
+conservo, como preito e homenagem &aacute;quelles dous cavalheiros.<br>
+
+<br>
+
+Enviava-me Pereira de Mello 16 espingardas, 30 kilogramas de
+sab&atilde;o, um relogio e uma carga de sal, tudo objectos de
+subido
+valor para mim.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o &eacute; todavia esta valiosa remessa que me dictou
+a
+immensa gratid&atilde;o para com o governador de Benguella; foi a
+sua
+carta e f&ocirc;ram as express&otilde;es dos seus sentimentos a
+meu
+respeito.<br>
+
+<br>
+
+Dizia-me o Governador, que n&atilde;o hesitasse em seguir a minha
+viagem, que contasse com todo o apoio que elle me podia dar como
+autoridade, e se acaso ordens superiores coarctassem o Governador, que
+podia contar com o homem, com Pereira de Mello.<br>
+
+<br>
+
+Dizia-me elle, que n&atilde;o tinha recebido de superior autoridade
+ordem alguma para n&atilde;o me fornecer os meios de que eu
+carecesse;
+mas que, se tal ordem viesse a receber, elle e os negociantes de
+Benguella estavam promptos a enviar-me tudo o que eu pedisse.<br>
+
+<br>
+
+Vinha depois a carta de Silva Porto, que n&atilde;o menos valiosa
+era.<br>
+
+<br>
+
+Dizia-me o velho sertanejo, que n&atilde;o partisse sem recursos.
+Que
+requisitasse para Benguella o que eu julgasse necessario, e que elle se
+encarregaria de me fazer chegar ao Bih&eacute; aquillo que eu
+pedisse.<br>
+
+<br>
+
+Terminava o honrado anci&atilde;o por estas palavras: "Estou velho,
+mas
+rijo e forte; se o meu amigo se vir n'um d'esses trances, vulgares no
+sert&atilde;o, em que a esperan&ccedil;a se perde, sustente-se
+no ponto
+em que estiv&eacute;r, e d&ecirc; tudo ao gentio para me fazer
+chegar
+&aacute;s m&atilde;os uma carta sua. N&atilde;o hesite em o
+fazer, e
+tenha esperan&ccedil;a; porque no mais curto espa&ccedil;o
+possivel eu
+serei com-sigo, e comigo ir&aacute;m todos os recursos, todos os
+socorros. Sabe que eu n&atilde;o uso fazer offerecimentos
+v&atilde;os,
+quando precisar escreva, e eu irei logo."<br>
+
+<br>
+
+A estas palavras n&atilde;o preciso eu de fazer commentarios, e nem
+mesmo aqui lhe juntarei uma palavra de agradecimento, que seria
+rid&igrave;cula. <br>
+
+<br>
+
+Aquella remessa que recebi de Benguella foi-me trazida por um
+irm&atilde;o do Verissimo, Joaquim Guilherme, que me disse deverem
+chegar no dia seguinte o resto das cargas da
+expedi&ccedil;&atilde;o, e
+com ellas a p&ograve;lvora por que eu almejava.<br>
+
+<br>
+
+Como sempre que chegava um portador de Benguella, Joaquim
+Gon&ccedil;alves trazia-me uma lembran&ccedil;a de Antonio
+Ferreira
+Marques. <br>
+
+<br>
+
+Eram sempre alguns regalos para a pobre mesa do sertanejo. <br>
+
+<br>
+
+Chegou finalmente o 6 de Maio, e come&ccedil;ou logo grande tarefa
+de
+encher cartuxos, porque de manh&atilde; recebi a p&ograve;lvora.<br>
+
+<br>
+
+Durante 4 dias empreguei entre 36 e 40 homens no encher dos cartuxos,
+que estavam promptos, e s&oacute; era deitar-lhes
+p&ograve;lvora e
+dobral-os.<br>
+
+<br>
+
+Ficou tudo prompto a 10 de Maio, e no dia 11 tinha eu reunidos todos os
+carregadores prompto a seguir no dia immediato. Fiz a
+distribui&ccedil;&atilde;o das cargas, e dei as ordens para a
+partida.<br>
+
+<br>
+
+Na manh&atilde; de 12, quando esperava p&ocirc;r-me a caminho,
+vejo que
+s&oacute; tinha uns trinta homens, tendo fugido todos os outros.<br>
+
+<br>
+
+Sube ent&atilde;o, que na tarde da v&egrave;spera, tinha andado
+o
+pr&ecirc;to Muene-hombo de Silva Porto, com uns pretos
+desconhecidos,
+dizendo aos Bihenos, que eu os queria levar para o mar, e que aquelles
+que fossem comigo n&atilde;o voltariam mais, porque eu os venderia.<br>
+
+<br>
+
+O pr&ecirc;to Muene-hombo fugira com os Bihenos, e d'elle
+n&atilde;o havia mais noticia.<br>
+
+<br>
+
+Esta nova deu-me um profundo golpe de des&agrave;nimo.<br>
+
+<br>
+
+Os carregadores, que eu a tanto custo tinha reunido, que eu com
+trabalho imenso tinha contratado, a quem f&ocirc;ra preciso
+desfazer
+uma a uma todas as aprehens&otilde;es que tinham contra a minha
+empresa, fugiam-me, convictos de que eu os ia encaminhar &aacute;
+perdi&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Era um golpe terrivel.<br>
+
+<br>
+
+Breve se espalharia no Bih&eacute; a noticia do facto; breve se
+arreigaria entre os pretos aquella convic&ccedil;&atilde;o, mal
+destruida pelos meus re&iuml;terados argumentos, e ent&atilde;o
+seria
+impossivel obter um s&oacute; carregador mais.<br>
+
+<br>
+
+Quasi desanimei.<br>
+
+<br>
+
+Pela primeira vez, depois que em Lisboa tinha pensado em ser
+explorador, entrou no meu &agrave;nimo o desalento.<br>
+
+<br>
+
+Eu sabia que lutar com uma convic&ccedil;&atilde;o de pretos
+era baldado esf&ocirc;r&ccedil;o.<br>
+
+<br>
+
+&iquest;Quem seria aquelle que levou o pr&ecirc;to Muene-hombo
+a trair-me?<br>
+
+<br>
+
+&iquest;Quem seriam os pretos que com elle estiv&eacute;ram na
+libata no dia anterior?<br>
+
+<br>
+
+&iquest;Qual seria a m&atilde;o occulta que moveu aquella
+intriga?<br>
+
+<br>
+
+Fazia a mim mesmo estas perguntas, &aacute;s quaes, nem
+ent&atilde;o
+nem depois, encontrei resposta que fosse &agrave;l&eacute;m de
+suspeita
+muito vaga.<br>
+
+<br>
+
+Perdi a esperan&ccedil;a, e fiquei possuido de um verdadeiro
+desalento.<br>
+
+<br>
+
+Meditei todo o dia, e veio o pensamento de voltar a Benguella, mas de
+repente lembrou-me a carta de Silva Porto recebida dias antes, e
+lembrou-me a carta de Pereira de Mello em que me dizia "Avante!"<br>
+
+<br>
+
+&iquest;Porque n&atilde;o aceitaria eu o offerecimento de Silva
+Porto?
+Se elle viesse ao Bih&eacute; elle me obteria carregadores.<br>
+
+<br>
+
+Decidi escrever-lhe no dia seguinte, e esta id&eacute;a
+tranquilizou um pouco o meu &agrave;nimo alquebrado.<br>
+
+<br>
+
+Com a noute veio a reflex&atilde;o, e eu escudado no
+&ugrave;ltimo
+recurso, o pedir o auxilio do velho sertanejo, resolvi j&aacute;
+forte
+com aquelle apoio, trabalhar, lutar ainda, antes de recorrer a elle.<br>
+
+<br>
+
+Na madrugada de 13, fiz marchar o Verissimo e alguns pretos de
+confian&ccedil;a do Silva Porto a procurarem contratar nova gente.<br>
+
+<br>
+
+Volt&aacute;ram elles dando-me algumas esperan&ccedil;as, e
+ent&atilde;o come&ccedil;ou de n&ocirc;vo o trabalho de
+organizar nova
+comitiva, trabalho mais difficil ent&atilde;o do que antes.<br>
+
+<br>
+
+Aconselh&aacute;ram-me sahir de Belmonte e ir acampar no mato a
+alguma
+distancia; porque me diziam, que uma comitiva em marcha, despertava nos
+Bihenos vontade de se alistar n'ella.<br>
+
+<br>
+
+A 22 de Maio j&aacute; eu tinha podido obter alguns carregadores,
+ainda
+que poucos, e resolvi com os meus Quimbares, aquelles carregadores e
+gente de ganho, seguir no dia 23 para um acampamento, id&eacute;a
+que
+levei a effeito indo estabelecer o campo nas matas do Cabir.<br>
+
+<br>
+
+N'esse dia ao escurecer, apparec&eacute;ram uns 11 carregadores
+trazidos por um pr&ecirc;to Antonio, homem j&aacute; velho,
+natural de
+Pungo Andongo, que estivera ao servi&ccedil;o de dois sertanejos de
+nomeada, Luiz Albino, e Guilherme Gon&ccedil;alves.<br>
+
+<br>
+
+Durante a noute houve muito frio, for&ccedil;ando-nos a passar a
+maior parte d'ella despertos junto &aacute;s fogueiras.<br>
+
+<br>
+
+O soveta de Cabir veio visitar-me no dia immediato, trazendo-me um
+p&ocirc;rco de presente, que eu retribui, ficando n&oacute;s
+nos
+melhores termos.<br>
+
+<br>
+
+Emprestou-me elle alguns pil&otilde;es, e mandou
+mulh&eacute;res para fazerem farinha de milho.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 357px;" alt="" src="images/028.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.27"></a>Figura
+27.--Mulh&eacute;res do Bih&eacute; pisando Milho.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Indo agradecer-lhe &aacute; sua povoa&ccedil;&atilde;o,
+passei pelas
+planta&ccedil;&otilde;es, onde andavam algumas
+mulh&eacute;res cavando,
+completamente curvadas, empunhando as enxadas pelos seus dous cabos.<br>
+
+<br>
+
+De volta ao acampamento, encontrei um pr&ecirc;to dos de
+N&ocirc;vo
+Redondo, que n&atilde;o tinha podido seguir com Capello e Ivens,
+p&ecirc;lo seu estado de saude. N&atilde;o se sustinha em
+p&eacute;, e
+uma ardente febre o devorava.<br>
+
+<br>
+
+Vi que o seu estado era melindroso e que pouco poderia viver; mas elle
+pedio-me que o n&atilde;o abandonasse, e eu agasalhei-o no campo,
+entregando-o aos cuidados do doutor Chacaiombe.<br>
+
+<br>
+
+Veio visitar-me Tiberio Jos&eacute; Coimbra, filho do Coimbra,
+Major do
+Bih&eacute;, o qual me obt&ecirc;ve alguns carregadores de
+gente da sua
+povoa&ccedil;&atilde;o. <br>
+
+<br>
+
+N'esse dia aparec&ecirc;ram mais uns 12 carregadores com que eu
+j&aacute; n&atilde;o contava, e eram capitaneados
+p&ecirc;lo
+pr&ecirc;to Chaqui&ccedil;onde, irm&atilde;o da
+m&atilde;e de Verissimo.<br>
+
+<br>
+
+Ia renascendo a esperan&ccedil;a, e de n&ocirc;vo se ia
+organizando a nova comitiva. <br>
+
+<br>
+
+Resolvi partir no dia 27, e ir acampar junto da casa de Jos&eacute;
+Alves, com esperan&ccedil;a de completar ali o n&ugrave;mero de
+gente
+que carecia. Obtive do soveta de Cabir alguns homens para me
+transportarem as cargas que n&atilde;o tinham carregador, e tambem
+4
+homens e uma maca para o doente de N&ocirc;vo Redondo.<br>
+
+<br>
+
+Pude seguir no dia marcado, parando, meia hora depois de ter sahido, na
+povoa&ccedil;&atilde;o de Cuionja, de Tiberio Jos&eacute;
+Coimbra, onde
+me esperava um &ograve;ptimo alm&ocirc;&ccedil;o, com
+&ograve;ptimo
+ch&aacute;. At&eacute; havia guardanapos!<br>
+
+<br>
+
+Depois de duas horas que ali me demorei, segui avante, chegando
+&aacute; povoa&ccedil;&atilde;o de Caquenha, com 4 horas de
+caminho.<br>
+
+<br>
+
+Ali parei para ver o velho Domingos Chacahanga, dono da
+povoa&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Este Chacahanga, antigo escravo de Silva Porto, f&ocirc;ra o chefe
+da
+c&egrave;lebre expedi&ccedil;&atilde;o que Silva Porto
+mandou do
+Bih&eacute; a Mo&ccedil;ambique, e que conseguio
+alcan&ccedil;ar Cabo
+Delgado, na costa do mar Indico.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; elle o &ugrave;nico dos homens d'aquella
+expedi&ccedil;&atilde;o que h&ocirc;je vive.<br>
+
+<br>
+
+O velho recebeu-me muito bem, e deu-me um alentado cabrito.<br>
+
+<br>
+
+Conversei muito com elle; mas a pesar de todos os meus
+esfor&ccedil;os
+foi-me impossivel colher d'elle dados com que podesse marcar com alguma
+seguran&ccedil;a o seu trajecto.<br>
+
+<br>
+
+De que foi muito mais ao norte do que vem indicado nas cartas
+n&atilde;o me restou a menor d&ugrave;vida, porque ha
+tr&ecirc;s pontos
+que elle precisa perfeitamente.<br>
+
+<br>
+
+Um &eacute; ter, no Zambeze, deixado ao sul o paiz dos Machachas;
+outro
+ter atravessado o Luapula; e terceiro ter contornado pelo norte o Lago
+Nyassa.<br>
+
+<br>
+
+Duas horas depois de ter deixado o velho Chacahanga, acampava nas matas
+do commandante, dois kil&ograve;metros a S.E. da libata de
+Jos&eacute;
+Alves.<br>
+
+<br>
+
+Era j&aacute; noute, e por isso guardei-me para ir no dia seguinte
+ver
+este personagem, que Cameron tornou conhecido de todo o mundo.<br>
+
+<br>
+
+Effectivamente, a 28 de Maio estava eu em presen&ccedil;a do
+t&atilde;o falado sertanejo.<br>
+
+<br>
+
+Jos&eacute; Antonio Alves &eacute; um pr&ecirc;to (<span style="font-style: italic;">pur sang</span>) de Pungo
+Andongo, que, como muitos d'ali e de Ambaca, sabe ler e escrever.<br>
+
+<br>
+
+No Bih&eacute; chamam-lhe branco, porque ali todo o pr&ecirc;to
+que usa
+cal&ccedil;as e sapatos de liga e guardasol, &eacute; tratado
+assim.[<a href="#5">5</a>]
+Em Benguella levam a condescendencia a chamarem-n-o mulato, um pouco
+escuro; mas a verdade &eacute;, que nas suas veias n&atilde;o
+ha uma
+g&ocirc;ta de sangue Europeu, e que elle &eacute;
+pr&ecirc;to
+n&atilde;o s&oacute; na c&ocirc;r como na ascendencia, e
+qui&ccedil;&aacute; na alma.<br>
+
+<br>
+
+Veio para o Bih&eacute; em 1845, onde foi empregado de um
+sertanejo, e
+depois come&ccedil;ou a negociar por conta propria, abonado pela
+casa
+Ferramenta de Benguella, que h&ocirc;je faz avultado commercio sob
+a
+firma J. Ferreira Gon&ccedil;alves.<br>
+
+<br>
+
+Jos&eacute; Alves &eacute; homem de 58 annos, j&aacute; um
+pouco
+grisalho, de corpo franzino, e soffrendo de uma
+affec&ccedil;&atilde;o
+pulmonar.<br>
+
+<br>
+
+Vive como pr&ecirc;to, tendo todos os costumes e crendices do
+gentio ignaro. <br>
+
+<br>
+
+Quando cheguei a casa de Jos&eacute; Alves, estava elle decidindo
+um&nbsp;<span style="font-style: italic;">mucano</span>.<br>
+
+<br>
+
+Informado da quest&atilde;o, sube que um empregado mulato do
+Jos&eacute; Alves seduzira uma das amantes d'este, e como o rapaz
+nada
+tinha de seu, elle fez-lhe um mucano &aacute; familia da
+m&atilde;e,
+que possuia alguma cousa, exigindo, em paga do delicto, um boi, ou
+uma&nbsp;<span style="font-style: italic;">cabecinha</span>,
+para ficar limpo o seu cora&ccedil;&atilde;o. Isto me disse
+elle,
+passando a palma abranqueada da m&atilde;o n&ecirc;gra por
+sobre a
+parte da caixa thor&agrave;cica onde se alberga aquella
+v&igrave;cera,
+nos que a tem para cousa differente de alimentar a vida physica com os
+seus movimentos de s&igrave;stole e di&agrave;stole.<br>
+
+<br>
+
+Que a elle servia para ser limpa de vez em quando com um&nbsp;<span style="font-style: italic;">mucano</span>, percebi eu.<br>
+
+<br>
+
+Depois de decidido o&nbsp;<span style="font-style: italic;">mucano</span>,
+falei-lhe da minha viagem, que elle duvidou podesse levar a effeito com
+os pequenos recursos de que dispunha.<br>
+
+<br>
+
+Combinou ceder-me uma pouca de missanga, e falando-lhe em carregadores,
+evadio-se a responder-me, dizendo-me, sabia que Capello e Ivens estavam
+junto ao Cuanza lutando com falta de gente; mas que, se elles lhe
+quizessem pagar bem, n&atilde;o teria difficuldade em os arranjar.
+Era
+o mesmo que dizer-me, que lhe pagasse bem para os ter. <br>
+
+<br>
+
+Retirei-me lastimando pela primeira vez a Cameron, por ter sido
+for&ccedil;ado a tal companhia, por tanto tempo.<br>
+
+<br>
+
+Nesta parte do Bih&eacute; a vegeta&ccedil;&atilde;o
+arb&ograve;rea
+come&ccedil;a a ser mais vigorosa, e junto ao rio Cuito, apresenta
+o
+terreno a mesma disposi&ccedil;&atilde;o term&igrave;tica
+que descrevi
+na margem do Cutato dos Ganguellas.<br>
+
+<br>
+
+Com uns carregadores que me cheg&aacute;ram no dia 29, enviados
+pelo
+irm&atilde;o de Verissimo, Joaquim Guilherme, tinha eu a gente
+sufficiente para seguir viagem, e dei as ordens n'esse sentido para o
+dia 30.<br>
+
+<br>
+
+Quem rege as cousas d'este mundo tinha decidido porem de outro modo.<br>
+
+<br>
+
+Na tarde d'esse dia, alguem espalhou entre os meus carregadores as
+mesmas atoardas de Belmonte, e vi&eacute;ram muitos d'elles
+declarar-me, que voltavam a suas casas, e n&atilde;o me seguiriam.<br>
+
+<br>
+
+Fiz esfor&ccedil;os de eloquencia para os convencer a seguirem-me,
+mas poucos me escut&aacute;ram.<br>
+
+<br>
+
+Era a segunda vez que, em v&egrave;spera de partida, no
+Bih&eacute;, ficava eu sem gente.<br>
+
+<br>
+
+Ali fic&aacute;ram contudo alguns Bihenos, e decidido a prescindir
+de
+todas as commodidades, e a abandonar toda a
+alimenta&ccedil;&atilde;o
+que levava, com poucos mais poderia seguir.<br>
+
+<br>
+
+Era preciso arranjar esses poucos mais, e eu n&atilde;o desanimei
+na
+empresa. Um estranho episodio, acontecido no dia 30, veio coroar de
+resultado feliz a minha esperan&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+No Bih&eacute; andam a monte muitos degradados e desertores,
+escapados dos presidios da Costa.<br>
+
+<br>
+
+Um d'estes honrados cidad&atilde;os veio procurar-me, e pronunciou
+uma
+estudada arenga, que, pela profusa troca da primeira consoante pela
+d&egrave;cima-s&egrave;tima, e repetido empr&ecirc;go de
+termos
+s&oacute; usados na minha provincia, me denunciou n'elle um
+conterraneo.<br>
+
+<br>
+
+Se a forma do discurso era picaresca, a sua essencia mostrava, que a
+alma do orador era sentina de todas as podrid&otilde;es, em
+decomposi&ccedil;&atilde;o n'um clima tropical, trascalando
+fedores em
+cada phrase evaporada d'aquelle esp&igrave;rito immundo.<br>
+
+<br>
+
+Depois de me aconselhar a dispor das armas e
+muni&ccedil;&otilde;es que
+tinha, n'uma empresa abjecta, a que elle me fazia a honra de se ligar,
+terminou por me dizer positivamente, que, ou eu o associava a mim,
+f&ocirc;sse para o que f&ocirc;sse, ou elle, empregando manhas
+que
+tinha de geito para o gentio, faria que todos me abandonassem, e me
+poria na impossibelidade de dar um passo.<br>
+
+<br>
+
+Terminada esta perora&ccedil;&atilde;o, que o homem julgou ser
+argumento triumphante nas minhas decis&otilde;es, exigio immediata
+resposta.<br>
+
+<br>
+
+Eu dei-lh'-a logo. Chamei os meus Quimbares, e mandei amarrar o
+sujeito, a quem mandei applicar logo cincoenta a&ccedil;outes, para
+fazermos maior conhecimento; porque, se eu o conheci &aacute;s
+primeiras palavras, elle n&atilde;o me conhecia ainda.<br>
+
+<br>
+
+Depois de castigado, fiz-lhe um pequeno discurso, em que lhe disse, que
+o constituia meu prisioneiro, durante o tempo que estivesse em terras
+do Bih&eacute;, com ra&ccedil;&atilde;o de comida e de
+chicote todos os
+dias.<br>
+
+<br>
+
+Reuni toda a minha gente, e mostrei-lhe, que a alma d'aquelle branco
+era mais n&ecirc;gra do que a pelle d'elles ouvintes.<br>
+
+<br>
+
+A nova da minha justi&ccedil;a espalhou-se nas
+povoa&ccedil;&otilde;es
+circumvizinhas, e deu-me cr&egrave;dito entre os pretos, que tinham
+em
+m&aacute; conta o meu prisioneiro.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, alguns pombeiros do sitio vi&eacute;ram
+offerecer-me carregadores, e que m'-os traziam dentro de dois dias.<br>
+
+<br>
+
+Todos os dias tinha promessas, mas os carregadores n&atilde;o
+chegavam,
+e a 5 de Junho, j&aacute; no maior desesp&ecirc;ro, decidi
+abandonar
+muitas cargas e seguir &aacute;vante.<br>
+
+<br>
+
+Reuni os meus pombeiros, e communiquei-lhes a minha decis&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Tiv&eacute;mos um longo conselho, em que eu sustentei a minha
+resolu&ccedil;&atilde;o, dando ordem para que os carregadores
+me
+acompanhassem ao rio Cuito com as cargas que eu tinha decidido
+abandonar, para as lan&ccedil;ar ao rio.<br>
+
+<br>
+
+J&aacute; se ia executar esta delibera&ccedil;&atilde;o,
+quando o
+doutor Chacaiombe tomou a palavra, e me pedio para adiar de alguns dias
+a execu&ccedil;&atilde;o d'ella, dizendo-me, que obtivesse nas
+povoa&ccedil;&otilde;es vizinhas gente de ganho que<br>
+
+transportasse tudo at&eacute; ao Cuanza; que elle ia tentar um
+esf&ocirc;r&ccedil;o junto de um sova seu amigo, e me iria
+encontrar no
+Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+Discutido este alvitre, decidi, partir no dia 6, e demorar-me no Cuanza
+at&eacute; 14; por isso, concedi 8 dias a Chacaiombe,
+declarando-lhe
+positivamente, que n&atilde;o esperaria um s&oacute; dia mais.<br>
+
+<br>
+
+Os meus pombeiros mostravam-me a maior dedica&ccedil;&atilde;o,
+e
+depois de uma proposta de Miguel (o ca&ccedil;ador de elefantes),
+decid&iacute;ram pegar tambem elles em cargas, ainda que isso seja
+n&atilde;o s&oacute; contra os usos, mas tambem inconveniente
+em
+marcha, onde elles t[~e]m o seu servi&ccedil;o especial a
+desempenhar.<br>
+
+<br>
+
+Obtida a gente de ganho, preparei tudo para seguir no dia immediato.<br>
+
+<br>
+
+N'esse dia morreu o homem de N&ocirc;vo Redondo que eu tinha
+recolhido no Cabir.<br>
+
+<br>
+
+Levantei campo &aacute;s 9 horas do dia 6, tendo muita gente de
+ganho &aacute; raz&atilde;o de 1 panno por dia.<br>
+
+<br>
+
+Segui a Leste, e duas horas depois acampei junto da
+povoa&ccedil;&atilde;o de Cassamba.<br>
+
+<br>
+
+Fica esta povoa&ccedil;&atilde;o no meio de grande e espessa
+floresta, onde fui ca&ccedil;ar, encontrando apenas
+algumas&nbsp;<span style="font-style: italic;">pintadas</span>
+que matei.<br>
+
+<br>
+
+Quando, a 7 de Junho, levantei campo, sa&iacute;o-me ao encontro o
+soveta de Cassamba, que me vinha comprimentar, e trazer um boi de
+presente.<br>
+
+<br>
+
+Desculpei-me de n&atilde;o lhe dar immediatamente um presente, por
+estarem os carregadores em marcha, e pedi-lhe, que mandasse gente sua
+ao meu n&ocirc;vo acampamento, d'onde lhe enviaria uma
+lembran&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+Depois de tr&ecirc;s horas de marcha, e de ter nas duas
+&ugrave;ltimas
+atravessado grandes planicies pantanosas, alcancei a margem esquerda do
+rio Cuqueima, que ali corre ao norte, tendo 80 metros de largo por
+tr&ecirc;s de fundo, com uma velocidade de 12 metros por minuto.<br>
+
+<br>
+
+Armei o meu bote Macintosh, e n'elle se effeituou a passagem da gente e
+cargas com grande morosidade, porque a pequena
+embarca&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o tinha capacidade para mais de cinco pess&ocirc;as,
+ainda que
+o poder de fluctua&ccedil;&atilde;o da sua caixa de ar era
+muito
+superior.<br>
+
+<br>
+
+Terminada a passagem, e achando-me na margem direita em terreno
+apa&uuml;lado, e nu de arvor&ecirc;do, mandei pedir ao sova do
+Gando,
+para me dar algumas cubatas onde eu podesse pernoitar com a minha gente.<br>
+
+<br>
+
+Elle veio ao meu encontro, dizendo-me que punha &aacute; minha
+disposi&ccedil;&atilde;o o lombe da sua
+povoa&ccedil;&atilde;o, que
+aceitei e onde me fui estabelecer.<br>
+
+<br>
+
+Cheg&aacute;ram uns pr&ecirc;tos de mando do soveta de
+Cassamba, a
+reclamar o presente que eu lhe havia promettido, e para se fazerem
+reconhecer como vindo da sua parte, traziam a azagaia do
+sov&ecirc;ta,
+que de manh&atilde; eu lhe vira na m&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; costume entre estes povos, onde a ignorancia da leitura e
+escrita existe, o mandarem um objecto conhecido pelo portador de uma
+mensagem, para que n&atilde;o se duvide que elles vam da parte de
+quem
+os envia.<br>
+
+<br>
+
+Mandei o promettido presente.<br>
+
+<br>
+
+O sova Iumbi, do Gando, conversou muito comigo, e era para elle motivo
+de espanto tudo quanto eu trazia. Deu-me um magn&igrave;fico boi,
+ficando muito satisfeito com uma pe&ccedil;a de algod&atilde;o
+riscado
+e algumas cargas de p&ograve;lvora que lhe dei.<br>
+
+<br>
+
+No dia immediato levantei campo logo de manh&atilde;, e duas horas
+depois, fui acampar 1 kil. a Oeste da povoa&ccedil;&atilde;o de
+Muzinda.<br>
+
+<br>
+
+Antes de partir, mandei soltar, e p&ocirc;r na outra margem, o meu
+prisioneiro branco, j&aacute; impossibilitado de me fazer mal,
+porque,
+passando o Cuqueima, eu estava fora das terras do Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 139px;" alt="" src="images/029.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.28"></a>Figura
+28.--Mulh&eacute;res Ganguellas Luimbas e Loenas.</span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;">Modo por que cortam </span><span style="font-weight: bold;">os Dentes incisivos.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<br>
+
+Vi&eacute;ram ao meu acampamento muitas mulh&eacute;res da
+povoa&ccedil;&atilde;o de Muzinda, algumas das quaes traziam a
+cara
+pintada de verde, sendo dois riscos transversaes s&ocirc;bre a
+testa,
+de orelha a orelha, e outros dois, descendo d'esses, cruzando-se entre
+os olhos, passando aos lados do nariz, ligados por um s&ocirc;bre o
+labio superior.<br>
+
+<br>
+
+Os penteados d'essas Ganguelas sam originalissimos, e alguns, a certa
+distancia, arremedam um chap&eacute;o de dama Europea.<br>
+
+<br>
+
+T&ocirc;dos os homens cortam em tri&agrave;ngulo os dois
+incisivos da
+frente na maxila superior, formando uma abertura triangular com o
+v&egrave;rtice apoiado na gengive. Esta
+opera&ccedil;&atilde;o &eacute;
+feita com uma faca em que vam batendo pequenas pancadas.<br>
+
+<br>
+
+Deu-me um ind&igrave;gena uma cana sacharina de 2 metros e 30 cent.
+de
+comprido por 50 milimetros de di&agrave;metro, affirmando-me que a
+produc&ccedil;&atilde;o d'aquella rica gram&igrave;nea
+&eacute;
+abundante ali.<br>
+
+<br>
+
+Sahio de Muzinda uma pequena comitiva que ia para
+&agrave;l&eacute;m do
+Cuanza comprar c&ecirc;ra a tr&ocirc;co de peixe s&ecirc;co
+do Cuqueima.<br>
+
+<br>
+
+Estes ind&igrave;genas andam quasi nus, tendo por &ugrave;nico
+vestuario duas pequenas pelles, que pendem de um estreito cinto de
+couro.<br>
+
+<br>
+
+As mulh&eacute;res, essas andam ainda um pouco menos cobertas!<br>
+
+<br>
+
+O sov&ecirc;ta de Muzinda veio visitar-me, e trouxe-me um boi, que
+eu
+retribui com presente igual ao que dei ao sova Iumbi do Gando.<br>
+
+<br>
+
+A 9 de Junho, fui acampar na margem esquerda do rio Cuanza, a E.N.E. da
+povoa&ccedil;&atilde;o de Liu&iacute;ca. N'aquelle ponto o
+Cuanza
+&eacute; mais modesto do que o Cuqueima, porque tem 50 metros de
+largo
+por 2 de fundo, com uma corrente de 15 metros por minuto.<br>
+
+<br>
+
+O seu leito &eacute; de area branca e fina, e notavel a
+transparencia das suas &agrave;guas.<br>
+
+<br>
+
+O rio serpea n'uma vasta planicie de dois a tr&ecirc;s
+kil&ograve;metros de largo, que encosta de um e outro lado a
+pequena
+eleva&ccedil;&atilde;o de vertentes d&ocirc;ces, cobertas
+do
+arvor&ecirc;do.<br>
+
+<br>
+
+Na planicie vegetam gram&igrave;neas altissimas, t&atilde;o
+bastas que difficil &eacute; romper por entre ellas.<br>
+
+<br>
+
+O terreno da planicie &eacute; mais ou menos pantanoso.<br>
+
+<br>
+
+Como eu devia esperar ali 5 dias pelo cirurgi&atilde;o Chacaiombe,
+tinha, logo que cheguei, mandado construir um acampamento mais vasto do
+que aquelles que construia s&oacute; para uma noute.<br>
+
+<br>
+
+Veio ali visitar-me o sova de Quipembe, a quem obedecem os sovetas de
+entre Cuqueima e Cuanza, e que &eacute; elle mesmo tributario do
+sova
+do Bih&eacute;, a quem s&oacute; obedece quando lhe faz conta;
+porque
+n&atilde;o teme os seus ataques, sendo-lhe facil defender a linha
+do
+Cuqueima, e sendo a maior parte, sen&atilde;o t&ocirc;dos, os
+barcos
+que navegam ali, das povoa&ccedil;&otilde;es Ganguelas.<br>
+
+<br>
+
+Trouxe-me um carneiro de presente, desculpando-se de me n&atilde;o
+dar
+um boi, por ser a sua povoa&ccedil;&atilde;o muito distante.<br>
+
+<br>
+
+Recebi tambem a visita do sov&ecirc;ta de Liu&iacute;ca, que me
+offereceu um boi.<br>
+
+<br>
+
+Este sov&ecirc;ta, homem de boa fei&ccedil;&atilde;o,
+frequentou muito
+o meu campo durante a minha permanencia na sua vizinhan&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+Um dia que elle me tinha visto atirar ao alvo, e que admirava a justeza
+dos tiros, passou o seu grande rebanho bovino por ali.<br>
+
+<br>
+
+Eu propuz-lhe dar-me elle um boi, se o meu muleque
+P&eacute;p&eacute;ca o matasse com um tiro.<br>
+
+<br>
+
+Elle olhou para a crian&ccedil;a e aceitou.<br>
+
+<br>
+
+O P&eacute;p&eacute;ca, sofrivel atirador ensinado por mim,
+tomou a
+carabina, e fez f&ocirc;go a um boi que ia mais separado dos
+outros, e
+que cahio fulminado. Ouve espanto geral da parte dos Ganguelas, e o
+sov&ecirc;ta disse-me que mandasse tomar conta do boi, e lhe desse
+a
+pelle, e um bocado de carne para elle comer, o que eu fiz logo.<br>
+
+<br>
+
+Entre Cuqueima e Cuanza os Ganguelas, que sam de differente
+ra&ccedil;a
+dos outros povos designados pelo mesmo nome, chamam-se Luimbas junto ao
+Cuqueima, e Loenas junto ao Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+No dia 12, aconteceu-me uma aventura extraordinaria, que n&atilde;o
+posso deixar de narrar aqui.<br>
+
+<br>
+
+Andava eu fora, quando alguns dos meus pr&ecirc;tos
+vi&eacute;ram
+encontrar-me com um mulato, desconhecido para mim, que me
+diss&eacute;ram ser chefe de uma comitiva, que me vinha procurar,
+para
+me pedir licen&ccedil;a de ir comigo at&eacute; &aacute;s
+margens do
+rio Cuito, e deixal-o acampar nos meus acampamentos, para
+seguran&ccedil;a sua.<br>
+
+<br>
+
+Consenti no pedido, ainda que n&atilde;o de bom grado.<br>
+
+<br>
+
+N'essa noute, demorei-me a conversar com os meus pombeiros
+at&eacute;
+tarde, e sentados &aacute; porta da minha barraca,
+discurs&agrave;vamos
+s&ocirc;bre as probabilidades que haveria de ser bem succedido o
+meu
+cirurgi&atilde;o Chacaiombe na sua empresa, quando eu senti para
+uma
+parte do campo um tinido singular.<br>
+
+<br>
+
+Era como o bater de martello em safra. Tive curiosidade de saber o que
+era aquillo, e mandei l&aacute; o meu Augusto.<br>
+
+<br>
+
+Voltou elle a dizer-me, que na parte do campo occupada pelas barracas
+do pombeiro Biheno que me pedira agasalho, se acorrentava uma leva de
+escravos chegados n'essa noute do Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Nas barracas dos meus tudo dormia, excepto tr&ecirc;s ou quatro
+pombeiros que estavam junto de mim.<br>
+
+<br>
+
+Contive a c&ograve;lera que me dominou por um momento, e mandei
+chamar o meu h&ograve;spede.<br>
+
+<br>
+
+Elle compareceu logo, e veio sentar-se junto da fogueira defronte de
+mim.<br>
+
+<br>
+
+Perguntei-lhe &iquest;o que era aquelle bater de ferro?
+Respondendo-me elle, que era a acorrentar umas&nbsp;<span style="font-style: italic;">cabecinhas</span> que
+levava para vender no sert&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;No meu acampamento! onde tremulava a bandeira Portugueza,
+acorrentava-se uma leva de escravos!<br>
+
+<br>
+
+Continuei a fazer um grande esfor&ccedil;o para me conter, e disse
+ao
+pombeiro, que fosse soltar t&ocirc;dos aquelles
+desgra&ccedil;ados e
+m'os trouxesse livres.<br>
+
+<br>
+
+Elle negou-se a fazel-o, e respondeu-me com uma gargalhada de riso
+alvar.<br>
+
+<br>
+
+Perdi ent&atilde;o a paciencia, e a raiva contida a custo
+transbordou violenta.<br>
+
+<br>
+
+Cego de furor, lancei-me por s&ocirc;bre a fogueira
+&aacute;quelle
+bo&ccedil;al mulato, e j&aacute; a minha faca o ia ferir de
+morte,
+quando vi, que algumas espingardas dos meus Quimbares lhe
+amea&ccedil;avam a cabe&ccedil;a, e por um d'esses reviramentos
+t&atilde;o vulgares como r&agrave;pidos no meu
+esp&igrave;rito,
+s&oacute; pensei em salvar-lhe a vida.<br>
+
+<br>
+
+Ao meu grito de raiva, e ao barulho da luta, tinha-se levantado
+t&ocirc;da a minha gente, e amea&ccedil;avam exterminar
+t&ocirc;da a
+comitiva Bihena.<br>
+
+<br>
+
+Eu, que conh&ecirc;&ccedil;o a ferocidade dos negros logo que
+se sentem
+fortes, tremi pela vida dos inocentes que podiam ser immolados. <br>
+
+<br>
+
+Era uma balburdia em que ninguem se entendia, e &aacute;
+excep&ccedil;&atilde;o de 5 dos meus pombeiros que
+assist&iacute;ram ao
+com&ecirc;&ccedil;o da scena, t&ocirc;dos ignoravam o que
+era aquillo,
+e s&oacute; proferiam palavras de morte.<br>
+
+<br>
+
+Consegui dominar o tumulto e fazer me ouvir.<br>
+
+<br>
+
+Mandei o meu Augusto soltar os escravos, e trazel-os &aacute; minha
+presen&ccedil;a, assim como t&ocirc;das as correntes e
+pris&otilde;es
+que encontrassem nas barracas onde elles estavam.<br>
+
+<br>
+
+Mandei lan&ccedil;ar ao rio Cuanza as pris&otilde;es de ferro,
+reservando s&oacute; aquellas com que prendi os pr&ecirc;tos,
+guardas
+da leva.<br>
+
+<br>
+
+Declarei aos escravos, que podiam ir-se, se quizessem, porque teria os
+seus guardas presos o tempo sufficiente para os n&atilde;o poderem
+alcan&ccedil;ar. Desapparec&ecirc;ram t&ocirc;dos, excepto
+uma pequena,
+que quiz ficar comigo, por n&atilde;o saber onde ir; e
+s&oacute; na
+occasi&atilde;o de deixar o meu acampamento soltei e dei liberdade
+aos
+chefes e guardas d'aquelle rebanho de escravos. <br>
+
+<br>
+
+Passou-se o dia 13 sem haver noticias do meu cirurgi&atilde;o, e na
+noute d'esse dia distribui eu as cargas que pude distribuir, umas 87,
+separando ainda umas 12 que me custava a abandonar, e pondo em pilha
+aquellas que estavam irremediavelmente condenadas.<br>
+
+<br>
+
+Declaro que &eacute; difficil tal escolha.<br>
+
+<br>
+
+Creio que um dos peores problemas a resolver por um explorador,
+&eacute; escolher entre as cargas, indispensaveis t&ocirc;das,
+aquella
+que hade dispensar.<br>
+
+<br>
+
+Se n&atilde;o &eacute; mais difficil, &eacute; pelo menos
+tanto como achar o modo de determinar uma boa longitude.<br>
+
+<br>
+
+Ali abandonei tudo o que de commodidades eu tinha, t&ocirc;da a
+alimenta&ccedil;&atilde;o que para mim levava, e parte da que
+levava
+para a minha gente, e algumas cargas de missanga que os meus
+companheiros me haviam cedido, e que, comprada em Loanda, era de valor
+problem&agrave;tico nos sert&otilde;es em que me ia internar.<br>
+
+<br>
+
+Se no dia 14 de manh&atilde; n&atilde;o tivesse novas do
+Chacaiombe, as
+cargas condenadas seriam destruidas, queimando umas e
+lan&ccedil;ando
+outras ao Cuanza.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">
+&iquest;Para qu&ecirc;? me perguntar&aacute;m os meus
+leitores.<br>
+
+<br>
+
+Eu lhes respondo. O chefe de uma comitiva em marcha nos
+sert&otilde;es
+da &Agrave;frica, onde tiv&eacute;r de empregar carregadores,
+tem de
+inutilizar e tornar inaproveitaveis t&ocirc;dos os objectos que
+f&ocirc;r for&ccedil;ado a abandonar, e isto por duas
+raz&otilde;es,
+uma que diz respeito &aacute; sua propria gente, e outra ao gentio
+dos
+paizes que atravessa.<br>
+
+<br>
+
+Se consentio que os seus proprios carregadores aproveitem alguma cousa
+da carga abandonada, t&ocirc;dos os dias ter&aacute;
+carregadores
+doentes, que o obrigar&aacute;m a abandonar cargas, para d'ali
+retirarem objectos em proveito proprio; organizando assim um
+industrioso roubo permanente.<br>
+
+<br>
+
+Por outro lado, sabendo o gentio da terra, que lhe deixam cargas por
+falta de carregadores, n&atilde;o deixar&aacute; de ministrar
+&aacute;s
+comitivas futuras, na muita capata que lhe offerecem, um
+t&ograve;xico
+qualquer, que, se n&atilde;o matar, os torne doentes; obrigando
+assim o
+chefe a abandonar cargas em seu favor; o que n&atilde;o fazem,
+sabendo
+que nada aproveitam, porque tudo o que houv&eacute;r de ser
+abandonado
+&eacute; inutilizado.<br>
+
+<br>
+
+Foi isto li&ccedil;&atilde;o de Silva Porto, de que sempre fiz
+uso.<br>
+
+<br>
+
+No dia 14 de manh&atilde;, n&atilde;o tendo noticia do
+Chacaiombe inutilizei 61 cargas!<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">
+RAPIDO GOLPE DE VISTA RETROSPECTIVO.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+O Mappa junto mostra o meu caminho de Benguella ao Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Procurei designar n'elle tudo o que em viagem de
+explora&ccedil;&atilde;o se pode colher de dados
+geogr&agrave;phicos e
+topogr&agrave;phicos.<br>
+
+<br>
+
+Muitos dos pontos marcados sam determinados
+astron&ograve;micamente,
+sendo os intermediarios, achados grosseiramente pelos rumos da agulha e
+projec&ccedil;&atilde;o das distancias percorridas, distancias
+avaliadas pelos ped&ograve;metros e pelo tempo gasto a percorrel-as.<br>
+
+<br>
+
+As posi&ccedil;&otilde;es do Benguella, Dombe, Quilengues,
+Ngola e
+Caconda, que empreguei na carta, sam determinadas por Capello e Ivens,
+e como eu apenas tinha os resultados dos c&agrave;lculos, ahi os
+designo taes como m'os deu o Ivens, sem as
+observa&ccedil;&otilde;es
+iniciaes. De Caconda ao rio Cuanza as posi&ccedil;&otilde;es
+astron&ograve;micamente determinadas por mim vam precedidas das
+observa&ccedil;&otilde;es iniciaes.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="1" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="center">
+
+ <td colspan="13" rowspan="1">Resultado das
+observa&ccedil;&otilde;es de Capello e Ivens, da Costa a
+Caconda.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Nome dos Logares.</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">Longitude E. de Greenwich</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">Latitude Sul.</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">Declina&ccedil;&atilde;o
+da Agulha</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">Inclina&ccedil;&atilde;o da Agulha.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Altitude em metros.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&deg;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">'</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&deg;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">'</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&deg;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">'</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&deg;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">'</td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Benguella</td>
+
+ <td style="text-align: center;">13</td>
+
+ <td style="text-align: center;">25</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">34</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">O.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">39</td>
+
+ <td style="text-align: center;">37</td>
+
+ <td style="text-align: right;">7</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dombe Grande</td>
+
+ <td style="text-align: center;">13</td>
+
+ <td style="text-align: center;">7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">45</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">55</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23</td>
+
+ <td style="text-align: center;">26</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">39</td>
+
+ <td style="text-align: center;">44</td>
+
+ <td style="text-align: right;">98</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Quilengues</td>
+
+ <td style="text-align: center;">14</td>
+
+ <td style="text-align: center;">5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">14</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">40</td>
+
+ <td style="text-align: center;">40</td>
+
+ <td style="text-align: right;">900</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ngola</td>
+
+ <td style="text-align: center;">14</td>
+
+ <td style="text-align: center;">39</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">14</td>
+
+ <td style="text-align: center;">16</td>
+
+ <td style="text-align: center;">46</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1,410</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Caconda</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">51</td>
+
+ <td style="text-align: center;">13</td>
+
+ <td style="text-align: center;">44</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: right;">1,676</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br>
+
+Tendo-me separado dos meus companheiros em Caconda, prossegui nos
+trabalhos que t&igrave;nhamos come&ccedil;ado, n&atilde;o
+podendo fazer
+observa&ccedil;&otilde;es de inclin&ograve;metro e
+f&ocirc;r&ccedil;a
+magn&egrave;tica, porque os &ugrave;nicos instrumentos que para
+isso
+lev&agrave;vamos fic&aacute;ram em poder de Capello.<br>
+
+<br>
+
+Come&ccedil;arei a expor os meus trabalhos pela
+determina&ccedil;&atilde;o das coordenadas
+geogr&agrave;phicas de
+Caconda &aacute; margem esquerda do Cuanza, onde p&aacute;ra a
+minha
+narrativa no precedente cap&igrave;tulo.<br>
+
+<br>
+
+No seguinte quadro procurei compendiar os necessarios dados para se
+poderem verificar os resultados que designo.<br>
+
+<br>
+
+Todas estas observa&ccedil;&otilde;es calculadas em
+&Agrave;frica
+f&ocirc;ram recalculadas em Londres pelo 1^o tenente calculador da
+marinha ingleza, Selwyn Sugden.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Quadro das
+Observa&ccedil;&otilde;es Astron&ograve;micas feitas pelo
+Major Serpa Pinto<br>
+
+entre </span><span style="font-weight: bold;">Caconda
+e o rio Cuanza</span>.<br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: justify;">
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="1" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Anno de 1878.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Logares onde
+observei.</td>
+
+ <td colspan="5" rowspan="1">Hora dos
+Chron&ograve;metros.</td>
+
+ <td colspan="4" rowspan="1">Estado para
+Greenwich.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">H.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">M.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">S.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">H.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">M.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>a</td>
+
+ <td>Janeiro 14</td>
+
+ <td>Vicete (junto ao Cunene)</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">24</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>b</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp;"&nbsp;</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">27</td>
+
+ <td style="text-align: center;">44</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23</td>
+
+ <td style="text-align: center;">2</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>c</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; 16</td>
+
+ <td> Fende
+(Cunene)&nbsp;</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">2</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23</td>
+
+ <td style="text-align: center;">6</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>d</td>
+
+ <td>Fevereiro 12</td>
+
+ <td>Libata do
+Palanca&nbsp;</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">55</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">-</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>e</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; " &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp; "&nbsp;</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">56</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">27</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>f</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; " &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; 13</td>
+
+ <td> Libata do
+Cap&ocirc;co</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">-</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>g</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; " &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp; "&nbsp;</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">57</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">27</td>
+
+ <td style="text-align: center;">27</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>h</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; " &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; 18</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18</td>
+
+ <td style="text-align: center;">14</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">28</td>
+
+ <td style="text-align: center;">8</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>i</td>
+
+ <td>Mar&ccedil;o 16</td>
+
+ <td>Belmonte
+(Bih&eacute;)&nbsp;</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">25</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">-</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>j</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp;&nbsp;" &nbsp;&nbsp;
+&nbsp; 18</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">31</td>
+
+ <td style="text-align: center;">43</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>l</td>
+
+ <td colspan="1" rowspan="3">&nbsp;
+&nbsp;&nbsp;" &nbsp;&nbsp; &nbsp; 22</td>
+
+ <td colspan="1" rowspan="3">&nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td style="text-align: center;">{</td>
+
+ <td style="text-align: center;">5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">}</td>
+
+ <td colspan="1" rowspan="3" style="text-align: center;"></td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="3" style="text-align: center;">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>m</td>
+
+ <td style="text-align: center;">{</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">}</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>n</td>
+
+ <td style="text-align: center;">{</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&nbsp;9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">51</td>
+
+ <td style="text-align: center;">41</td>
+
+ <td style="text-align: center;">}</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>o</td>
+
+ <td>Abril 2</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>p</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp;&nbsp;3</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>q</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; 4</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>r</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; 5</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>s</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; "</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">53</td>
+
+ <td style="text-align: center;">40</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">24</td>
+
+ <td style="text-align: center;">29</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>t</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; 6</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>u</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; 7</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>v</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; "</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">32</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">-</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">57</td>
+
+ <td style="text-align: center;">43</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>x</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; "</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">50</td>
+
+ <td style="text-align: center;">54</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>z</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; "</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">55</td>
+
+ <td style="text-align: center;">6</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">34</td>
+
+ <td style="text-align: center;">54</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; 23</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">25</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; "</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">38</td>
+
+ <td style="text-align: center;">16</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">37</td>
+
+ <td style="text-align: center;">26</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>2</td>
+
+ <td> Maio&nbsp;24</td>
+
+ <td>Matas do Cabir
+(Bih&eacute;)&nbsp;</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>3</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">38</td>
+
+ <td style="text-align: center;">55</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">42</td>
+
+ <td style="text-align: center;">47</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>4</td>
+
+ <td>|&nbsp;&nbsp; "&nbsp;&nbsp;&nbsp; 31</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">5</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">43</td>
+
+ <td style="text-align: center;">56</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>5</td>
+
+ <td>Junho 1</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>6</td>
+
+ <td>|&nbsp;&nbsp; "&nbsp;&nbsp; &nbsp; 9</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22</td>
+
+ <td style="text-align: center;">33</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">45</td>
+
+ <td style="text-align: center;">52</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>7</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">53</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>8</td>
+
+ <td>|&nbsp;&nbsp; "&nbsp;&nbsp;&nbsp; 10</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>9</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; " &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">+</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">45</td>
+
+ <td style="text-align: center;">57</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="1" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Natureza da
+Observa&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">Dupla altura do astro.</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">[A]</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">[B]</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">[C]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[D]</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">Resultados</td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&ordm;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">'</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&ordm;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">'</td>
+
+ <td style="text-align: center;">H.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">M.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">'</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&ordm;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">'</td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>a</td>
+
+ <td>Alt. Mer. [-)]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">101</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;">-3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: left;">Lat.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">14</td>
+
+ <td style="text-align: center;">2&nbsp;</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>b</td>
+
+ <td>Chron. [*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">101</td>
+
+ <td style="text-align: center;">2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">14</td>
+
+ <td style="text-align: center;">2</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: left;">Long.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ <td style="text-align: center;">14</td>
+
+ <td>E.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>c</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">104</td>
+
+ <td style="text-align: center;">31</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ <td style="text-align: center;">25</td>
+
+ <td>E.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>d</td>
+
+ <td>Alt. Mer. [-)]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">97</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="1" rowspan="1" style="text-align: center;">-0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">50</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: left;">Lat.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">13</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>e</td>
+
+ <td>Chron. [*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">99</td>
+
+ <td style="text-align: center;">6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">13</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: left;">Long.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ <td style="text-align: center;">27</td>
+
+ <td>E.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>f</td>
+
+ <td>Alt. Mer. [-)]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">98</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: left;">Lat.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">13</td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>g</td>
+
+ <td>Chron. [*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">115</td>
+
+ <td style="text-align: center;">5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">13</td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: left;">Long.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td>E.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>h</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">104</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ <td style="text-align: center;">28</td>
+
+ <td>E.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>i</td>
+
+ <td>Alt. Mer. [-)]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">131</td>
+
+ <td style="text-align: center;">38</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: left;">Lat.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>j</td>
+
+ <td>Chron.&nbsp;[*-] </td>
+
+ <td style="text-align: center;">104</td>
+
+ <td style="text-align: center;">58</td>
+
+ <td style="text-align: center;">40</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: left;">Long.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">16</td>
+
+ <td style="text-align: center;">51</td>
+
+ <td>E.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>l</td>
+
+ <td colspan="1" rowspan="3">Alt. iguaes</td>
+
+ <td colspan="1" rowspan="3" style="text-align: center;">103</td>
+
+ <td colspan="1" rowspan="3" style="text-align: center;">21</td>
+
+ <td colspan="1" rowspan="3" style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="3" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="3" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="3" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td colspan="1" rowspan="3" style="text-align: center;">2</td>
+
+ <td colspan="1" rowspan="3" style="text-align: left;">Estado</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="3" style="text-align: center;">3^h.31^m.54^s.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>m</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>n</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>o</td>
+
+ <td>Alt. Mer. [*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">144</td>
+
+ <td style="text-align: center;">49</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">-3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: left;">Lat.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12&ordm;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23'</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>p</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">144</td>
+
+ <td style="text-align: center;">4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>q</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">143</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>r</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">142</td>
+
+ <td style="text-align: center;">32</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>s</td>
+
+ <td>Azimuth<br>
+
+266-30&nbsp;&nbsp;&nbsp; [*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">93</td>
+
+ <td style="text-align: center;">34</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;">-1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: left;">Varia&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21</td>
+
+ <td style="text-align: center;">11</td>
+
+ <td>Oes.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>t</td>
+
+ <td>Alt. Mer. [*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">141</td>
+
+ <td style="text-align: center;">47</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">-3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: left;">Lat.</td>
+
+ <td>12</td>
+
+ <td>22</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>u</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">141</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td>12</td>
+
+ <td>22</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>v</td>
+
+ <td>Alt. prox.<br>
+
+do Mer.&nbsp;&nbsp; [*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">140</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td>12</td>
+
+ <td>22</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>x</td>
+
+ <td>Eclipse do 1^o<br>
+
+sat. de J&ugrave;p.</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td>Long.</td>
+
+ <td>16</td>
+
+ <td>46</td>
+
+ <td>E.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>z</td>
+
+ <td>Chron.&nbsp;[*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">65</td>
+
+ <td style="text-align: center;">48</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;">-1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td>Diff p^a<br>
+
+o logar</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1">4^h.42^m.23^s.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>0</td>
+
+ <td>Eclipse do 1^o<br>
+
+sat. de J&ugrave;p.</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td>Long.</td>
+
+ <td>16&ordm;</td>
+
+ <td>49'</td>
+
+ <td>E.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>1</td>
+
+ <td>Chron.&nbsp;[-)]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">71</td>
+
+ <td style="text-align: center;">31</td>
+
+ <td style="text-align: center;">40</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;">-0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td>Atrazado</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1">4^h.44^m.56^s.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>2</td>
+
+ <td>Alt. Mer. [*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">113</td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">40</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">-1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">25</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td>Lat.</td>
+
+ <td>21&ordm;</td>
+
+ <td>22'</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>3</td>
+
+ <td>Chron.&nbsp;&nbsp;&nbsp; [*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">79</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22</td>
+
+ <td style="text-align: center;">50</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td>Long.</td>
+
+ <td>16</td>
+
+ <td>53</td>
+
+ <td>E.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">86</td>
+
+ <td style="text-align: center;">38</td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">28</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td>17</td>
+
+ <td>9</td>
+
+ <td>E.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>5</td>
+
+ <td>Alt. Mer. [*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">110</td>
+
+ <td style="text-align: center;">26</td>
+
+ <td style="text-align: center;">40</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td>Lat.</td>
+
+ <td>12</td>
+
+ <td>28</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>6</td>
+
+ <td>Chron.&nbsp;&nbsp;&nbsp; [)-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">63</td>
+
+ <td style="text-align: center;">59</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">35</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">35</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td>Diff p^a<br>
+
+o logar</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1">4^h.54^m.34^s.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>7</td>
+
+ <td>Eclipse do 2^o<br>
+
+sat. de J&ugrave;p.</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td>Long.</td>
+
+ <td>17&ordm;</td>
+
+ <td>25'</td>
+
+ <td>E.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>8</td>
+
+ <td>Alt. Mer. [*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">108</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">-0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">40</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td>Lat.</td>
+
+ <td>12</td>
+
+ <td>35</td>
+
+ <td>S.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>9</td>
+
+ <td>Chron.&nbsp;&nbsp;&nbsp; [*-]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">82</td>
+
+ <td style="text-align: center;">43</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23</td>
+
+ <td>12</td>
+
+ <td>35</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">---</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td>Long.</td>
+
+ <td>17</td>
+
+ <td>25</td>
+
+ <td>E.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br>
+
+<span style="font-weight: bold;">Legenda</span>:<br>
+
+[A] Latitude Sul.<br>
+
+[B] Longitude em tempo.<br>
+
+[C] Erro do instrumento.<br>
+
+[D] N^o. de Obs.<br>
+
+<br>
+
+[-)] s&iacute;mbolo da lua debaixo da barra<br>
+
+[*-] s&iacute;mbolo do sol por cima da barra<br>
+
+[)-] s&iacute;mbolo da lua por cima da barra<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Tr&agrave;nsito de Mercurio a
+trav&eacute;s do Sol em 6 de Maio de 1878</span>.<br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: justify;">
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="1" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Data</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Logar da
+Observa&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">Latitude</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">Longitude</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">Hora do Chron.<br>
+
+para a hora local</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">Altura do Sol.<br>
+
+Erro do sext.<br>
+
+- 1' 25".</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">Media de 4</td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1">Media de 4</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&ordm;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">'</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&ordm;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">'</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">H.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">M.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">S.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&ordm;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">'</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>6 Maio 1878</td>
+
+ <td>Belmonte </td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22</td>
+
+ <td style="text-align: center;">40</td>
+
+ <td style="text-align: center;">16</td>
+
+ <td style="text-align: center;">49</td>
+
+ <td style="text-align: center;">24</td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">50</td>
+
+ <td style="text-align: center;">74</td>
+
+ <td style="text-align: center;">36</td>
+
+ <td style="text-align: center;">55</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="1" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Data</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">Estado
+atrazado&nbsp;de&nbsp;Greenw.&nbsp;</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">Hora do 1^o contacto&nbsp;interno.</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="3" rowspan="1">Longitude</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1"></td>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1" style="text-align: center;">No chron&ograve;metro</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">H.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">M.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">S.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">H.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">M.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">S.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&ordm;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">'</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>6 Maio 1878</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">39</td>
+
+ <td style="text-align: center;">39</td>
+
+ <td style="text-align: center;">11</td>
+
+ <td style="text-align: center;">35</td>
+
+ <td style="text-align: center;">29</td>
+
+ <td style="text-align: center;">16</td>
+
+ <td style="text-align: center;">50</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br>
+
+&Eacute; muito notavel que a primeira longitude que determinei em
+Belmonte pelo chron&ograve;metro &eacute; muito
+pr&ograve;ximo da
+verdadeira obtida pelo tr&agrave;nsito de Mercurio. Esta longitude
+muito pouco differe tambem da obtida pelo eclipse do 1^o
+Sat&egrave;lite de J&ugrave;piter a 23 de Abril.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o inclui n'este quadro as inn&ugrave;meras
+observa&ccedil;&otilde;es feitas para estudar as marchas dos
+chron&ograve;metros, que publicarei em separado um dia. <br>
+
+<br>
+
+Nos estados dos chron&ograve;metros a grande differen&ccedil;a
+que se
+nota entre alguns prov&eacute;m do pertencerem a differentes
+chron&ograve;metros.<br>
+
+<br>
+
+Como se v&ecirc;, o instrumento empregado por mim foi o sextante
+com o
+horizonte artificial de mercurio, que outro n&atilde;o tinha, tendo
+ficado em poder dos meus companheiros o Abba, &ugrave;nico
+theodolito
+universal que possu&igrave;amos.<br>
+
+<br>
+
+Os meus sextantes eram: um de Casela, de Londres, contando 5"; e outro
+de Lorieux, de Paris, contando 30". As minhas b&ugrave;ssolas
+azimutaes
+eram fabricadas em Berlim, e tinham pertencido ao infeliz
+Bar&atilde;o
+de Barth. <br>
+
+<br>
+
+Os meus chron&ograve;metros eram de Dent, de Londres, sendo dois de
+algibeira, e um, que, depois, de Benguella me envi&aacute;ram ao
+Bih&eacute;, de marinha, tambem de Dent.<br>
+
+<br>
+
+Este &ugrave;ltimo era mao; mas os primeiros excellentes, sobre
+tudo o que eu designo com a letra S, nos c&agrave;lculos.<br>
+
+<br>
+
+Das altitudes muitas sam determinadas pelo hyps&ograve;metro, e
+outras pelo aneroide, cotisado com o hyps&ograve;metro.<br>
+
+<br>
+
+Essas altitudes vam marcadas na carta em metros.<br>
+
+<br>
+
+A carta do paiz do Bih&eacute;, muito grosseira e incompleta de
+certo,
+foi levantada &aacute; b&ugrave;ssola, nas minhas
+excurs&otilde;es
+venatorias; mas, ainda assim, possue a sufficiente exactid&atilde;o
+para se julgar do paiz, e prouvera a Deus que as cartas de pontos muito
+mais pr&ograve;ximos da costa em que dominamos, estivessem
+t&atilde;o
+pr&ograve;ximas da verdade como ella.<br>
+
+<br>
+
+Ponho ponto aqui nos detalhes das minhas cartas, para falar
+r&agrave;pidamente do paiz que ellas representam.<br>
+
+<br>
+
+De Benguella ao Dombe, como se v&ecirc;, costeei o mar, em terreno
+calc&agrave;reo, abundante de min&egrave;rios diversos.<br>
+
+<br>
+
+As &agrave;guas faltam ali na esta&ccedil;&atilde;o
+s&ecirc;ca, e
+apenas o valle do Dombe Grande tem a sufficiente para ser enormemente
+productivo. A vegeta&ccedil;&atilde;o, sem ser pobre,
+n&atilde;o tem,
+todavia, a opulencia peculiar aos paizes intertropicaes. Entre
+Benguella e o Dombe apenas se encontra &agrave;gua potavel n'um
+pequeno
+charco na Quipupa.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 600px; height: 435px;" alt="" src="images/030.png"></span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"></span></div>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><a name="Map.3"></a>Mappa
+3.--Entre Cubango e Cuanza</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O paiz &eacute; abundante de ca&ccedil;a, e encontra-se n'elle
+grande
+variedade de ant&igrave;lopes, sendo os mais vulgares o&nbsp;<span style="font-style: italic;">Strepsiceros kudu</span>,
+o&nbsp;<span style="font-style: italic;">Cephalophus </span><span style="font-style: italic;">mergens</span>, o&nbsp;<span style="font-style: italic;">Cervicapra bohor</span>, e
+o&nbsp;<span style="font-style: italic;">Oreas canna</span>.
+Nas rochas de<br>
+
+carbonato de cal que formam o systema orogr&agrave;phico do Dombe
+Grande, abundam os&nbsp;<span style="font-style: italic;">hyrax</span>,
+e na planicie, entre as grandes e pomposas
+planta&ccedil;&otilde;es de mandioca, vivem muitos&nbsp;<span style="font-style: italic;">hystrix</span>,
+maiores um pouco do que os da Europa, e que causam ali grande estrago
+nas terras cultivadas. O valle do Dombe Grande &eacute; de certo a
+melhor por&ccedil;&atilde;o de terreno da provincia de Angola.
+As suas
+condi&ccedil;&otilde;es de salubridade n&atilde;o sam
+m&aacute;s, e o
+solo &eacute; de grande fertilidade. Um porto de mar, o
+C&uacute;io,
+dista apenas alguns kil&ograve;metros do maior centro de
+produc&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+As montanhas que enquadram o valle, sam cheias de minerio, e
+j&aacute;
+tem estado em explora&ccedil;&atilde;o, sempre em pequena
+escala, por
+falta de capitaes. Ha ali enx&ocirc;fre e cobre.<br>
+
+<br>
+
+A popula&ccedil;&atilde;o ind&igrave;gena &eacute; de
+b&ocirc;a
+&igrave;ndole e trabalhadora, tanto quanto o pode ser um
+pr&ecirc;to
+abandonado a si mesmo.<br>
+
+<br>
+
+Entre o Dombe e Quilengues o paiz &eacute; deserto. Pelo caminho
+que
+segui h&aacute; falta de &agrave;gua, e a
+vegeta&ccedil;&atilde;o,
+pobre ao principio, toma luxuriante esplendor ao passo que nos
+approximamos de Quilengues.<br>
+
+<br>
+
+Seguindo o curso do rio Coporolo n&atilde;o ha falta de
+&agrave;gua, e
+ouvi dizer, que se encontra sempre uma vegeta&ccedil;&atilde;o
+rica.
+Contudo, o paiz mesmo por ali n&atilde;o &eacute; habitado.<br>
+
+<br>
+
+Ao sahir do Dombe o terreno eleva-se bruscamente a 550 metros, e um
+systema de montanhas que corre N.S. forma pequenos valles que se vam
+elevando gradualmente at&eacute; atingir 900 metros em Quilengues.
+No
+rio Canga come&ccedil;a o terreno gran&igrave;tico, e com elle
+uma
+vegeta&ccedil;&atilde;o mais pomposa. Todos os rios designados
+no Mappa
+at&eacute; Quilengues sam apenas torrentes na
+esta&ccedil;&atilde;o
+chuvosa, mas em muitos &eacute; possivel encontrar &agrave;gua
+na
+estia, cavando po&ccedil;os nos seus leitos arenosos. O proprio
+Coporolo est&aacute; sujeito a esta condi&ccedil;&atilde;o
+de pobreza.<br>
+
+<br>
+
+Quilengues &eacute; um extenso e fertil valle, em
+condi&ccedil;&otilde;es iguaes ao do Dombe; tendo por em quanto
+muito
+menos valor, por falta de communica&ccedil;&otilde;es com a
+costa.<br>
+
+<br>
+
+A sua popula&ccedil;&atilde;o &eacute; densa, e nas suas
+campinas
+pastam milhares de cabe&ccedil;as de gado vaccum de excellente
+ra&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+Os Quilengues sam fortes e aguerridos, e nos ataques que dirigem contra
+os Mundombes sam sempre vencedores; o que os n&atilde;o impede de
+serem
+vencidos pelos povos do Nano, que descem ali a roubar gados e gente.<br>
+
+<br>
+
+Estes povos de Quilengues, como os do Dombe, sam avassalados a El-Rei
+de Portugal, mas n&atilde;o sam t&atilde;o submissos como os
+Mundombes.<br>
+
+<br>
+
+Tem de certo um futuro o paiz de Quilengues, quando faceis
+communica&ccedil;&otilde;es o ligarem &aacute; costa,
+&aacute; Huila e
+a Caconda, e quando f&ocirc;r administrado como o deve ser.<br>
+
+<br>
+
+De Quilengues a Caconda o caminho &eacute; por Caluqueime, paiz
+muito
+povoado; mas eu segui outro, por motivos que cito na minha narrativa.<br>
+
+<br>
+
+Ao sahir de Quilengues para o S.E. encontra-se a alta serra de
+Quilengues, que se eleva r&agrave;pidamente a 1750 metros, e que eu
+passei na parte chamada Monte Quiss&eacute;cua.<br>
+
+<br>
+
+Ali come&ccedil;a o grande planalto da &Agrave;frica Austral, e
+d'ali
+ao Bih&eacute; a planicie enorme conserva aquella altitude, tendo
+apenas ligeiras depress&otilde;es nos leitos dos rios, e um ou
+outro
+pequeno systema de montanhas isoladas.<br>
+
+<br>
+
+D'este planalto j&aacute; correm rios permanentes, sendo o primeiro
+que
+encontrei n'estas condi&ccedil;&otilde;es affluente do Cunene.<br>
+
+<br>
+
+A vegeta&ccedil;&atilde;o arb&ograve;rea no planalto
+n&atilde;o
+&eacute; j&aacute; t&atilde;o forte como em Quilengues, mas
+a
+herb&agrave;cea &eacute; mais rica, se &eacute; possivel
+sel-o.<br>
+
+<br>
+
+O terreno contin&uacute;a gran&igrave;tico, e come&ccedil;a
+a apparecer
+n'elle maior abundancia de termites. As &ugrave;nicas
+povoa&ccedil;&otilde;es que se encontram no caminho que segui
+sam Ngola
+e Catonga, de que ja falei detidamente.<br>
+
+<br>
+
+Em Caconda o paiz &eacute; um pouco mais accidentado, devendo ser
+n&atilde;o menos rico e productivo do que o de Quilengues.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; cortado de rios permanentes, que o regam em todas as
+direc&ccedil;&otilde;es, affluindo ao Catapi, affluente do
+Cunene.<br>
+
+<br>
+
+A febre miasm&agrave;tica &eacute; end&egrave;mica em
+Caconda, como em
+Quilengues e como na costa; mas apresenta ali um caracter mais benigno,
+e raras vezes faz v&igrave;ctimas.<br>
+
+<br>
+
+Eu julgo Quilengues nas mesmas condi&ccedil;&otilde;es de
+salubridade de Caconda.<br>
+
+<br>
+
+As condi&ccedil;&otilde;es climatol&ograve;gicas do paiz de
+Caconda
+&eacute; que j&aacute; differem essencialmente das da costa, e
+mesmo
+das de Quilengues.<br>
+
+<br>
+
+Apenas 13&deg; e 44' distante do Equador, o clima, que deveria ser
+ardente, &eacute; temperado pela altitude enorme a que se encontra;
+mas
+est&aacute; por isso mesmo sujeito &aacute;s bruscas
+mudan&ccedil;as
+que se dam entre o dia e a noite em todo o planalto. Ha ali uma luta
+constante entre a altitude e a latitude, sendo que esta impera de dia
+quando um sol a prumo dardeja raios de fogo, e aquella de noute quando
+uma altura de 1700 metros nos faz viver n'uma atmosphera t&atilde;o
+rarefeita.<br>
+
+<br>
+
+Lembra-me aqui que o Anchieta me dizia, que se viveria
+&ograve;ptimamente em Caconda, se uma m&agrave;china em
+contacto com um
+therm&ograve;metro, nos fosse deitando cobertores na cama
+&aacute;
+medida que o therm&ograve;metro descesse, durante o somno.<br>
+
+<br>
+
+Esta grande desigualdade de temperatura entre o dia o a noute
+d&aacute;-se quando o sol tem declina&ccedil;&atilde;o
+Norte, porque
+durante o tempo em que elle anda ao sul do Equador &eacute; ella
+muito
+menor.<br>
+
+<br>
+
+Sempre ouvi dizer, que em Caconda produzem as frutas da Europa, mas
+infelizmente n&atilde;o o sei de sciencia propria, que nenhumas ali
+encontrei; todavia, creio que se poder&aacute;m ali aclimatar. A
+batata
+&eacute; muito boa e produz muito, n&atilde;o s&oacute; ali
+como em
+todo o planalto; mas &eacute; t&atilde;o difficil o seu
+transporte para
+Benguella, que a batata que se consome ali vai de Lisboa.<br>
+
+<br>
+
+Ha muito boa hortali&ccedil;a e legumes da Europa, que se dam bem
+em todo o planalto.<br>
+
+<br>
+
+Perto da fortaleza, a popula&ccedil;&atilde;o &eacute;
+rara, mas a uma
+certa distancia est&aacute; condensada; sendo governada por chefes
+independentes.<br>
+
+<br>
+
+De Caconda ao Bih&eacute; o paiz &eacute; muito populoso, e, se
+menos
+pastores do que os povos at&eacute; Caconda, sam um pouco mais
+agricultores.<br>
+
+<br>
+
+Nos paizes do Nano, Huambo, Sambo e Moma, os povos sam mais bruscos,
+mais aguerridos e independentes.<br>
+
+<br>
+
+Os terrenos, como se v&ecirc; no mappa, sam cortados de rios que
+dividem as suas &agrave;guas para tres grandes arterias, o Cunene,
+o
+Cubango e o Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+Ao N. das terras do Sambo, o planalto forma um enorme descampado, a que
+chamam no paiz a&nbsp;<span style="font-style: italic;">Enhana</span>
+de Ambamba, terreno alagadi&ccedil;o onde nascem cinco rios
+importantes, dois dos quaes vam ao Norte e tres ao Sul.<br>
+
+<br>
+
+Dos que vam ao Norte, um &eacute; o Qu&eacute;be, que vai
+entrar no mar
+por 10&deg; 50' de Latitude S., junto &aacute;s Tres Pontas,
+entre Novo
+Redondo e Benguella Velha.<br>
+
+<br>
+
+Este rio na parte inferior do seu curso toma o nome de Cuvo. O outro
+&eacute; o Cutato das Mongoias, que corre ao N. a afluir ao Cuanza.
+<br>
+
+<br>
+
+Os tres que correm ao S. sam o Cunene, o Cubango e o Cutato dos
+Ganguelas, que se une ao Cubango.<br>
+
+<br>
+
+O maior systema de montanhas que encontrei &eacute; uma serra que
+corre
+de N.E. a S.O. ao N. do paiz do Huambo, em cujas vertentes nascem o
+Cal&aacute;e e o Cu&ccedil;&uacute;ce, que se unem para
+affluir ao
+Cunene.<br>
+
+<br>
+
+Uma grosseira observa&ccedil;&atilde;o do aneroide indicou-me o
+seu cume a mais de 2500 metros acima do nivel do mar.<br>
+
+<br>
+
+Fazendo excep&ccedil;&atilde;o &aacute; minha regra de
+n&atilde;o
+baptizar em &Agrave;frica rios ou montes, dei a esta serra o nome
+de
+Andrade Corvo, por ser designada no paiz apenas por serra do Huambo.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o encontrei entre os ind&igrave;genas vestigios de ter
+o paiz
+outro minerio &agrave;l&eacute;m do ferro, o que n&atilde;o
+quer dizer
+que o n&atilde;o haja.<br>
+
+<br>
+
+O terreno &eacute; ainda gran&igrave;tico, e o solo pode
+dizer-se que
+em muitos pontos &eacute; de forma&ccedil;&atilde;o animal,
+pois que
+&eacute; construido pelas termites.<br>
+
+<br>
+
+&Agrave;l&eacute;m da disposi&ccedil;&atilde;o especial
+que encontrei
+no terreno term&igrave;tico das margens do Cutato dos Ganguellas,
+encontram-se 4 differentes construc&ccedil;&otilde;es
+term&igrave;ticas, que suponho pertencerem a 4 differentes especies.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 400px; height: 191px;" alt="" src="images/031.png"></span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.29"></a>Figura
+29.--Montes term&igrave;ticos, dos terrenos entre a costa e o
+Bih&eacute;.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">1 e 2 tem altura entre 2
+e 3 decimetros, 3 e 4 entre 1 e 2 metros.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<br>
+
+Ha abundancia de ca&ccedil;a, sobre tudo nas faldas da serra de
+Andrade
+Corvo, entre o Cal&aacute;e e o Cu&ccedil;&uacute;ce, que
+nunca vi
+tanta em &Agrave;frica, a n&atilde;o ser no Zambeze.<br>
+
+<br>
+
+Alem dos ant&igrave;lopes que j&aacute; citei falando do Dombe,
+abundam ali o <span style="font-style: italic;">Hippotragus
+equinus</span>, o <span style="font-style: italic;">Catoblepas
+taurina</span>, e o&nbsp;<span style="font-style: italic;">Bubalus
+Caffer</span>.<br>
+
+<br>
+
+As florestas sam em grande parte formadas de Leguminosas, sobresahindo
+um sem-n&ugrave;mero de especies da Acacia.<br>
+
+<br>
+
+Ha muito poucas plantas trepadeiras.<br>
+
+<br>
+
+Passamos a linha divisoria das &agrave;guas entre o Cubango e o
+Cuanza,
+e entramos no paiz do Bih&eacute;, de certo o mais importante do
+Sudoeste d'&Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+O paiz do Bih&eacute;, de cujos povos falo detidamente no capitulo
+anterior, &eacute; cortado por dois rios importantes, ainda que
+innavegaveis, o Cuqueima e o Cuito. Inn&ugrave;meros riachos sulcam
+em
+todas as direc&ccedil;&otilde;es o terreno, e vam affluir
+&aacute;quellas arterias principaes.<br>
+
+<br>
+
+O clima &eacute; igual ao de Caconda, e subsistem ali as mesmas
+condi&ccedil;&otilde;es atmosph&egrave;ricas.<br>
+
+<br>
+
+O terreno &eacute; gran&igrave;tico e de uma admiravel
+f&ocirc;r&ccedil;a productiva. As pastagens sam
+&ograve;ptimas para
+todos os gados. &Eacute; pobre de ca&ccedil;a; mas, em
+compensa&ccedil;&atilde;o, &eacute; desinfestado de feras.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o creio muito que seja rico em productos
+mineral&ograve;gicos,
+porque a sua densa popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem
+encontrado
+vestigios de minerios ricos, e eu tenho visto em &Agrave;frica, que
+os
+primeiros a encontrarem o ouro, o cobre, o chumbo e o ferro sam os
+ind&igrave;genas.<br>
+
+<br>
+
+No Bih&eacute; o que &eacute; verdadeiramente rico &eacute;
+o terreno,
+e n&atilde;o sei de paiz Africano que mais podesse prosperar pela
+agricultura e commercio.<br>
+
+<br>
+
+A ra&ccedil;a Europea vive ali muito bem, e o producto do
+cruzamento
+d'ella com as ra&ccedil;as do paiz &eacute; physicamente
+admiravel.<br>
+
+<br>
+
+Durante a minha permanencia em Belmonte, fiz um estudo detido das
+condi&ccedil;&otilde;es climatol&ograve;gicas, e sobre tudo
+no primeiro
+mez, em que o pertinaz rheumatismo, contrahido em viagem, me impedio de
+sahir, observei regularmente o bar&ograve;metro e o
+therm&ograve;metro
+de 3 em 3 horas durante o dia.<br>
+
+<br>
+
+Adiante apresento um quadro d'essas observa&ccedil;&otilde;es,
+durante
+trinta dias, fazendo notar, que a igualdade de temperatura que se nota
+durante o dia &eacute; devida &aacute;
+esta&ccedil;&atilde;o do anno em
+que
+f&ocirc;ram feitas as observa&ccedil;&otilde;es,
+esta&ccedil;&atilde;o
+que corresponde ao nosso outono.<br>
+
+<br>
+
+As chuvas t[~e]m duas &egrave;pochas, com uma
+interrup&ccedil;&atilde;o
+de estiagem que se d&aacute; em Dezembro e Janeiro. As primeiras
+chuvas
+cahem em meado de Outubro, e duram at&eacute; principio de
+Dezembro,
+sendo mais moderadas do que as segundas que cahem do fim de Janeiro ao
+principio de Mar&ccedil;o.<br>
+
+<br>
+
+Os ventos reinantes sam dos quadrantes de leste, sendo muitas vezes
+persistente o vento leste bastante forte; isto na estiagem, porque na
+esta&ccedil;&atilde;o chuvosa as maiores tormentas que observei
+vinham
+do oes-sudoeste, e dos quadrantes do sul. As chuvas v[~e]m sempre,
+sobre tudo as de Fevereiro, envoltas com meteoros
+el&egrave;ctricos, e
+cahem no meio de terriveis trovoadas.<br>
+
+<br>
+
+O seguinte quadro apresenta as minhas observa&ccedil;&otilde;es
+desde o dia 25 de Mar&ccedil;o ao dia 23 de Abril de 1878.<br>
+
+<br>
+
+Por esta serie de observa&ccedil;&otilde;es se v&ecirc;
+qu&atilde;o
+ameno &eacute; o clima do Bih&eacute; n'esta &egrave;pocha
+do anno.<br>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="1" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">Anno de 1878</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">6 Horas.</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">9 Horas.</td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">Meio dia </td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">3 Horas. </td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">6 Horas.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Mez.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Dia.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[E]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[F]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[E]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[F]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[E]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[F]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[E]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[F]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[E]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[F]</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Mar&ccedil;o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">25</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">628.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.6</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">26</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.0</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">27</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">628.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.6</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">28</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.6</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">29</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">628.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.1</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.3</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">31</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.4</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Abril</td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.8</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.2</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.9</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.7</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.1</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.2</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.5</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.3</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.1</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.5</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">11</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">16.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.7</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">16.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">627.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.8</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">13</td>
+
+ <td style="text-align: center;">628.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.1</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">14</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.7</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.7</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">16</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">16.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.2</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">633.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.0</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.8</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.7</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">16.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.1</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21</td>
+
+ <td style="text-align: center;">631.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.5</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">14.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">628.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.4</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">14.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">632.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.0</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br>
+
+<span style="font-weight: bold;">Legenda</span>:<br>
+
+[E] Bar&ograve;metro<br>
+
+[F] Therm&ograve;metro<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; muito notavel a marcha diurna do bar&ograve;metro, que
+ali
+&eacute; inalteravel em presen&ccedil;a das mudan&ccedil;as
+bruscas da
+atmosphera.<br>
+
+<br>
+
+Um boletim meteorol&ograve;gico feito a 0^h. 43^m. de Greenwich, ou
+1^h. 50^m. do logar, completa o estudo atmosph&egrave;rico d'este
+paiz
+n'aquella &egrave;pocha.<br>
+
+<br>
+
+Este boletim de que agora dou conta em trinta dias, foi continuado
+durante toda a viagem, tendo apenas as
+interrup&ccedil;&otilde;es
+provenientes de doen&ccedil;as ou de estorvos occasionaes.<br>
+
+<br>
+
+O terreno de Belmonte para Leste desce um pouco at&eacute; ao
+Cuqueima,
+na parte em que este rio corre de S. ao N. Na margem direita do
+Cuqueima eleva-se um pouco para descer ao valle do Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+Na parte leste do paiz reapparece a vegeta&ccedil;&atilde;o
+arb&ograve;rea mais rica, e ha pequenas mas densas florestas.<br>
+
+<br>
+
+Em todo o vasto territorio comprehendido entre o Bih&eacute; e
+Benguella, n&atilde;o existe o z&eacute;-z&ecirc;, esse
+flagello de
+muitos pontos da &Agrave;frica Austral, que, matando o cavallo e o
+boi,
+priva o homem de dois dos seus maiores auxiliares na vida
+pr&agrave;tica.<br>
+
+<br>
+
+Uma especie de epizotia, que no paiz chamam&nbsp;<span style="font-style: italic;">cah&ocirc;nha</span>,
+ataca o gado bovino e lan&igrave;gero; n&atilde;o fazendo ainda
+assim
+os estragos que na Europa e outras partes d'&Agrave;frica produz a
+epizotia.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Boletim meteorol&ograve;gico
+feito a 0h. 43m. de Greenwich ou 1h. 51m. do </span><span style="font-weight: bold;">Bih&eacute;</span>.<br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: justify;">
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="1" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">Mez.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Dia</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[E]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[F1]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[F2]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">[G]</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Direc&ccedil;&atilde;o
+do Vento.</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Estado da Atmosfera.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Mar&ccedil;o</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">25</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">628.7</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">22.9</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">20.2</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">40</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">S.S.O. fraco</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">{Durante a noute<br>
+
+{trovoada, h&ocirc;je ceo<br>
+
+{limpo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">"</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">26</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">629.6</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">22.1</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">20.0</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">2</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">O.S.O. fraco</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">{Nublado de noute,<br>
+
+{de dia cirrus.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">27</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">629.1</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">21.0</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">20.1</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center;">31</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">E. forte</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Chuva durante a
+noute.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">28</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">628.8</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">21.5</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">21.2</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">0</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Calma</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Algumas nuvens,
+cirrus.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">29</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">30</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td style="text-align: center;">"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">31</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>E. forte</td>
+
+ <td>Nublado.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Abril</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">20.2</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">19.4</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">17</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Calma</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">{Nublado.<br>
+
+{De noute trovoada a N.O.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>E. forte</td>
+
+ <td>Algumas nuvens, cirrus.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>E. moderado</td>
+
+ <td style="text-align: left;">&nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; "&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+&nbsp; &nbsp;&nbsp;
+"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td style="text-align: left;">&nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; "&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+&nbsp; &nbsp;&nbsp;
+"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td style="text-align: left;">&nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; "&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+&nbsp; &nbsp;&nbsp;
+"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td style="text-align: left;">&nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; "&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+&nbsp; &nbsp;&nbsp;
+"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td style="text-align: left;">&nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; "&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+&nbsp; &nbsp;&nbsp;
+"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">628.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td style="text-align: left;">&nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; "&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+&nbsp; &nbsp;&nbsp;
+"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>Calma</td>
+
+ <td style="text-align: left;">&nbsp; &nbsp;
+&nbsp; &nbsp; "&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+&nbsp; &nbsp;&nbsp;
+"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td>Ceo limpo.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">11</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td>&nbsp;
+&nbsp;"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">12</td>
+
+ <td style="text-align: center;">627.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td>Alguns cirrus.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">13</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td>Nublado.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">14</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td>Alguns cirrus.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>E. forte.</td>
+
+ <td>Ceo limpo.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">16</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>Calma</td>
+
+ <td>Alguns cirrus.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">17</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>E. forte.</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp;"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp;"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>E. moderado</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp;"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.2</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp;
+&nbsp;"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">21</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.8</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">15.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td>Ceo limpo.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">22</td>
+
+ <td style="text-align: center;">629.6</td>
+
+ <td style="text-align: center;">19.9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">16.1</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>&nbsp; &nbsp; &nbsp; "</td>
+
+ <td>&nbsp;
+&nbsp;"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">"</td>
+
+ <td style="text-align: center;">23</td>
+
+ <td style="text-align: center;">630.0</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20.5</td>
+
+ <td style="text-align: center;">18.3</td>
+
+ <td style="text-align: center;">0</td>
+
+ <td>E. forte</td>
+
+ <td>&nbsp;
+&nbsp;"&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; "</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br>
+
+<span style="font-weight: bold;">Legenda</span>:<br>
+
+[E] Bar&ograve;metro<br>
+
+[F1] Therm&ograve;metro seco<br>
+
+[F2] Therm&ograve;metro molhado<br>
+
+[G] Chuva em milimetros<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o existe ali a molestia que mata tantos cavallos no
+Transvaal e no Cala&aacute;ri, a que os inglezes chamam&nbsp;<span style="font-style: italic;">Horse-sickness</span>.
+Em toda a parte o gado suino prospera e desenvolve-se como na Europa,
+sendo facil a conserva&ccedil;&atilde;o da carne, o que
+j&aacute;
+n&atilde;o acontece perto da costa.<br>
+
+<br>
+
+O paiz at&eacute; ao Cuanza, e ainda para
+&agrave;l&eacute;m, tem
+grande carencia de sal, sendo todo o que ali se gasta proveniente da
+costa.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o ha minas de sal gemma, e as &agrave;guas, mesmo as
+das lagoas, sam potaveis.<br>
+
+<br>
+
+N'este succinto resumo, procurei compendiar o resultado das minhas
+observa&ccedil;&otilde;es, dando uma noticia geral do paiz, e
+terminarei com um curto juizo meu &aacute;cerca d'elle.<br>
+
+<br>
+
+Collocado em uma posi&ccedil;&atilde;o geogr&agrave;phica
+muito
+differente da do Transvaal, o paiz comprehendido entre a costa e o
+Bih&eacute;, aproxima-se d'elle pelo clima, e possue um solo mais
+fertil. A compara&ccedil;&atilde;o entre a mesma planta
+vegetando nos
+dois paizes indica isso.<br>
+
+<br>
+
+Tem uma popula&ccedil;&atilde;o ind&igrave;gena muito mais
+condensada
+do que a do Transvaal e muito mais agricultora. N&atilde;o
+&eacute;
+menos abundante em boas pastagens, e &eacute; mais rico em
+florestas.<br>
+
+<br>
+
+O Transvaal possue uma grande riqueza mineral&ograve;gica, que
+escaceia
+ali; mas eu creio que estar&aacute; reservado a este paiz um futuro
+mais pr&ograve;spero do que &aacute;quelle, porque o Transvaal
+est&aacute; isolado do resto d'&Agrave;frica pelos desertos
+&agrave;ridos e pela mosca z&eacute;-z&ecirc;, em quanto
+estes terrenos
+estam em facil communica&ccedil;&atilde;o com um interior
+qui&ccedil;&aacute; mais rico.<br>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td><img style="width: 400px; height: 627px;" alt="" src="images/032.png"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; vertical-align: bottom;">1.
+R&agrave;pido da Libata Grande. <br>
+
+2. R&agrave;pido de Canhacuto.<br>
+
+3. R&agrave;pido de Quiverequete.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.29A"></a>Figura
+29A.--Viagem ao Cunene.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;"><a name="Cap.VII"></a>CAP&Igrave;TULO VII.</span><br>
+
+</h2>
+
+<h3>ENTRE OS GANGUELAS.</h3>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;"><span style="font-weight: bold;">Passagem do Cuanza--Os
+Quimbandes--O
+sova Mavanda--Os rios Varea e Onda--Fetus
+arb&ograve;reos--Atribula&ccedil;&otilde;es--Escravos--O
+rio Cuito--Os
+Luchazes--Emigra&ccedil;&atilde;o de Quibocos--Cambuta--O
+Cuando--Leopardos--Os&nbsp;Ambuelas--O sova Moem-Cahenda--Descida
+do
+rio Cubangui--Os&nbsp;Quichobos--Peripecias--Parto para o Cuchibi.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<br>
+
+<br>
+
+No dia 14 de Junho, como eu tinha decidido, levantei campo, e
+&aacute;s
+10 horas comecei a passagem do Cuanza, que durou duas horas.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 293px;" alt="" src="images/033.png"><span style="font-weight: bold;"></span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.30"></a>Figura
+30.--Passagem do Cuanza.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Prestou-me valiosos servi&ccedil;os o meu barco de cautchuc da casa
+Macintosh de Londres; mas ainda assim, o sova de Liu&iacute;ca
+emprestou-me quatro can&ocirc;as, que muito me
+auxili&aacute;ram.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o houve o menor accidente durante a passagem, e ao meio
+dia
+seguia a leste internando-me no paiz dos Quimbandes. Tendo passado
+junto das povoa&ccedil;&otilde;es de Muzeu e Cai&aacute;io,
+fui acampar
+pelas 2 horas a E.S.E. da povoa&ccedil;&atilde;o de Mavanda,
+junto da
+nascente do riacho Mutango, que corre a N.O. para o Cuanza. As
+povoa&ccedil;&otilde;es ali n&atilde;o sam j&aacute;
+t&atilde;o
+s&ograve;lidamente fortificadas como as de
+&agrave;l&eacute;m Cuanza.
+Os Quimbandes formam uma confedera&ccedil;&atilde;o, sendo o
+paiz
+dividido em pequenos estados, que se unem sempre para
+protec&ccedil;&atilde;o m&ugrave;tua. Todas as numerosas
+povoa&ccedil;&otilde;es em t&ocirc;rno do meu campo
+obedecem ao sova
+Mavanda, que &eacute; tributario do sova do Cuio ou Mucuzo, na
+mesma
+margem do Cuanza um pouco ao N. A cousa que primeiro me ferio a
+atten&ccedil;&atilde;o entre os Quimbandes, foi o penteado das
+mulh&eacute;res, que sam as mais extraordinarias que tenho visto.
+Algumas entran&ccedil;am o cabello de forma que, depois de ornado
+com
+buzio (caurim), assimelha um chap&eacute;o de dama Europea.<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 204px;" alt="" src="images/034.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.31"></a>Figura
+31.--Homem e Mulh&eacute;r Quimbande.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Outras dam-lhe tal forma, que parecem trazer na
+cab&ecirc;&ccedil;a um capacete Romano.<br>
+
+<br>
+
+O buzio (caurim) &eacute; distribuido ou accumulado com
+profus&atilde;o
+nas cabe&ccedil;as feminiz, e o coral branco ou encarnado aparece
+ainda, mas muito mais raramente, do que entre os povos de Oeste-Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+O cabello, n'estes penteados estupendos, &eacute; fixo com um
+cosm&egrave;tico nauseabundo, massa formada de tacula em
+p&oacute; e
+&ograve;leo de ricino, que lhe d&aacute; uma c&ocirc;r
+avermelhada. O
+&ograve;leo de ricino &eacute; preparado em grande quantidade
+entre
+estes povos. Depois de extrahirem as sementes do&nbsp;<span style="font-style: italic;">Ricinus </span><span style="font-style: italic;">communis</span>,
+dam-lhe uma ligeira torrefac&ccedil;&atilde;o e reduzem-n-as a
+p&oacute;. Este p&oacute; conservado por muitas horas em
+&agrave;gua
+ebulliente, fornece o &ograve;leo, que a frio &eacute; separado
+grosseiramente da &agrave;gua, e guardado em caba&ccedil;as
+pequenas.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 158px;" alt="" src="images/035.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.32"></a>Figura
+32.--Raparigas Quimbandes.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Estes povos n&atilde;o o empregam como purgante. Notei logo, que o
+typo
+feminino entre os Quimbandes se approxima um pouco do typo caucasio, e
+vi algumas mulh&eacute;res que se poderiam chamar bonitas se
+n&atilde;o
+fossem pr&ecirc;tas.<br>
+
+<br>
+
+Logo que cheguei, mandei um pequeno presente ao sova Mavanda, que me
+agradeceu muito, mandando contudo pedir-me uma camisa.<br>
+
+<br>
+
+Igual pedido me tem sido j&aacute; feito por outros, o que mostra a
+tendencia que t[~e]m para se vestirem.<br>
+
+<br>
+
+Os homens Quimbandes cobrem a sua nudez com duas pelles de pequenos
+ant&igrave;lopes que cahem adiante e atraz de um largo cinto de
+couro
+de boi. S&oacute; os sovas usam pelles de leopardo. As
+mulh&eacute;res
+andam quasi nuas, e algum farrapo de pano, ou de liconte, substitue a
+folha de vinha cl&agrave;ssica.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte logo de manh&atilde;, vi&eacute;ram uns
+portadores do
+sova dar-me parte, de que a gente que eu esperava chegara de noute
+&aacute; outra margem do Cuanza, onde estavam acampados.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o dei o menor cr&egrave;dito &aacute; noticia,
+porque,
+j&aacute; conhecedor das manhas do gentio, sabia que elles t[~e]m
+costume de indagar o que mais desejamos, para nos virem burlar com uma
+noticia agradavel e pedir alv&igrave;&ccedil;aras. Contudo,
+disse ao
+ind&igrave;gena que me certificou tel-os visto, que f&ocirc;sse
+a
+elles, e pedisse ao Doutor Chacaiombe, que me mandasse um signal seu
+para ficar certo de que vinha a caminho.<br>
+
+<br>
+
+Ainda de manh&atilde;, o sova Mavanda mandou-me uns enviados
+dizendo,
+que sahia n'aquelle dia a combater uma povoa&ccedil;&atilde;o
+vizinha
+onde um seu s&ugrave;bdito se revoltara contra o seu poder, e ao
+mesmo
+tempo pedindo-me que o auxiliasse n'aquella campanha. Recussei dar-lhe
+auxilio, mas procurei fazel-o de modo a n&atilde;o me indispor com
+o
+sova, o que consegui com b&ocirc;as raz&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Seria meio-dia, quando passou junto ao meu campo o ex&egrave;rcito
+de Mavanda.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute; frente ia, em pau muito alto, uma bandeira tricolor como a
+Francesa, mas com as cores invertidas. Depois seguiam-se dois homens
+levando a pao e corda uma enorme caixa de p&ograve;lvora,
+provavelmente
+vazia. Seguia-se o sova rodeado dos seus grandes, e ap&oacute;s
+este
+estado maior o ex&egrave;rcito a 1 de fundo. Seriam uns 600 homens
+armados de arcos e frechas, levando ao t&ocirc;do 8 espingardas.
+Alguns
+passos &aacute; frente da bandeira, dois pr&ecirc;tos tocavam
+os
+tambores de guerra, fazendo um barulho infernal.<br>
+
+<br>
+
+Ao anoutecer voltou o ex&egrave;rcito sem ter combatido; porque o
+inimigo rendeu-se &aacute; discri&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Logo que pass&aacute;ram o meu campo, principi&aacute;ram a
+fazer
+exercicio, simulando um ataque &aacute;
+povoa&ccedil;&atilde;o do
+r&egrave;gulo.<br>
+
+<br>
+
+Estend&eacute;ram em linha de atiradores, tomando a bandeira o
+centro
+da linha, e sempre atraz d'ella a caixa da p&ograve;lvora e o sova.<br>
+
+<br>
+
+Esta grande linha singela, porque cada homem estava isolado,
+come&ccedil;ou a envolver a povoa&ccedil;&atilde;o,
+j&aacute;
+avan&ccedil;ando, j&aacute; recuando, sempre em accelerado.<br>
+
+<br>
+
+A uma v&oacute;z do sova, precipit&aacute;ram-se
+s&ocirc;bre a
+povoa&ccedil;&atilde;o, dando saltos enormes, e fazendo
+t&ocirc;da a
+especie de momices que usam para aterrar os adversarios, com uma grita
+infernal.<br>
+
+<br>
+
+Quando eu pensava que elles iam direitos a suas casas atacar o jantar,
+vejo que voltavam &aacute; posi&ccedil;&atilde;o que tinham
+antes do
+ataque, e que reunidos &aacute; voz do chefe, entravam na
+povoa&ccedil;&atilde;o na mesma ordem de marcha em que tinham
+sahido.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute; noute voltou o Quimbande a dizer-me, que est&ecirc;ve
+com o
+meu doutor, mas que elle n&atilde;o lhe quizera dar signal algum
+para
+mim. Vi que se verificavam as minhas previs&otilde;es, e que era
+tudo
+falso.<br>
+
+<br>
+
+O meu acampamento dava-me serios receios, porque, coberto de erva
+s&ecirc;ca, podia incendiar-se de um momento a outro, e os meus
+pr&ecirc;tos, transidos de frio, n&atilde;o calculavam o
+perigo, e
+alimentavam dentro das barracas fogueiras enormes.<br>
+
+<br>
+
+Desde o rio Cuqueima at&eacute; Mavanda, e ainda mais
+&agrave;l&eacute;m, produz vigorosamente a cana de assucar e o
+algodoeiro. Os Quimbandes cultivam o algod&atilde;o, que fiam para
+fazer linhas onde enfiar o buzio e a missanga.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, continu&aacute;ram a asseverar-me, que os
+carregadores
+estavam na margem do Cuanza, e n&atilde;o podiam passar o rio por
+n&atilde;o lhes emprestarem as can&ocirc;as as
+ind&igrave;genas d'ali.<br>
+
+<br>
+
+Decidi-me a mandar l&aacute; o Augusto, acompanhado de um guia
+Quimbande.<br>
+
+<br>
+
+Pelas 11 horas, chegou um enviado do sova, a participar-me que este
+viria visitar-me.<br>
+
+<br>
+
+Pouco depois chegava Mavanda, rodeado da sua c&ocirc;rte, e se
+ficou
+espantado a olhar para mim; eu n&atilde;o fiquei menos a olhar para
+elle, porque era o maior homem que tenho visto em minha vida. A uma
+altura enorme reunia uma grossura e gordura verdadeiramente phenomenal.
+Cobria a cintura com um panno usado, sobre o qual cahiam tr&ecirc;s
+pelles de leopardo.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">
+Muitos amul&ecirc;tos lhe pendiam de um collar de missangas.<br>
+
+<br>
+
+Se Mavanda &eacute; grande, possue coisas grandes tambem, porque me
+trazia de presente o maior boi&nbsp;que vi em &Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+Depois dos extensos comprimentos do costume, elle disse-me ex-abrupto,
+que me vinha pedir um favor, e era o de lhe fazer um curativo ao
+rebanho de gado bovino, que costumava ir pastar muito longe,
+prenoitando &aacute;s vezes fora do curral, e sendo, nas florestas
+em
+que se acoutava, atacado por feras que lhe causavam grande damno.<br>
+
+<br>
+
+Dei-lhe immediatamente o remedio com um conselho, e foi elle, o de ter
+um pastor; porque, se o gado entregue a si mesmo ia longe, se fosse
+guiado &aacute;s pastagens iria onde o pastor o conduzisse. Elle
+n&atilde;o achou mao o conselho, e disse-me, que apesar de ser
+contra
+os usos do paiz o fazer vigiar o gado, daria um pastor ao seu, para
+evitar as cont&igrave;nuas perdas. <br>
+
+<br>
+
+Mostrei-lhe o realejo, as armas, etc., atirei diante d'elle, e vi-o com
+prazer caminhar de espanto em espanto. Pela tarde retirou-se muito
+satisfeito, e nos melhores termos de amizade.<br>
+
+<br>
+
+Logo que se retirou o sova, cheg&aacute;ram uns enviados do sova
+Cap&ocirc;co com uma carta para mim. Dava-me noticia do Chacaiombe,
+e
+dizia-me, que me mandava os carregadores, pedindo-me para eu consentir,
+que f&ocirc;sse comigo uma comitiva sua, que desejava enviar aos
+sert&otilde;es do Zambeze a fazer negocio.<br>
+
+<br>
+
+Em vista da carta, decidi demorar-me ali uns 6 dias a esperar os
+carregadores, n&atilde;o contando muito, ainda assim, que elles
+viessem, e n'esse sentido respondi ao sova Cap&ocirc;co.<br>
+
+<br>
+
+Em vista d'aquella delibera&ccedil;&atilde;o, ordenei a
+reconstruc&ccedil;&atilde;o do acampamento para o dia seguinte,
+mandando cobrir todas as barracas de ramos verdes, com receio de um
+incendio.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 400px; height: 307px;" alt="" src="images/036.png"></span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.33"></a>Figura
+33.--Os Bihenos construindo as Barracas nos Acampamentos.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, houve grande actividade na
+reconstruc&ccedil;&atilde;o
+do campo, que estava prompto ao meio-dia, apresentando um bonito
+aspecto.<br>
+
+<br>
+
+O campo era formado de barracas c&ograve;nicas, de troncos de
+&agrave;rvore, medindo tr&ecirc;s metros de di&agrave;metro
+na base,
+por dois e meio de alto.<br>
+
+<br>
+
+A minha barraca, feita pelos Bihenos com mais esmero do que as outras,
+media c&igrave;nco metros de di&agrave;metro na base, por
+tr&ecirc;s e
+meio de alto.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 231px;" alt="" src="images/037.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.34"></a>Figura
+34.--Esqueleto da Barraca.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O acampamento era formado por uma linha circular de barracas, ligadas
+por uma fileira de abatizes de &agrave;rvores espinhosas.<br>
+
+<br>
+
+A minha barraca occupava o centro, e em frente d'ella as cargas estavam
+em pilha. A minha gente de servi&ccedil;o estabeleceu o seu campo
+em
+t&ocirc;rno de mim, ao alcance da voz.<br>
+
+<br>
+
+Tinha finalizado o trabalho do campo, quando me vi&eacute;ram
+avisar de
+que uns enviados do sova do Gando me procuravam. Mandei-os vir
+&agrave;
+minha presen&ccedil;a, e conheci em um d'elles um dos grandes do
+sova,
+que tinha visto junto d'elle no Gando. Traziam-me uma carta, e uma
+encomenda, que n&atilde;o sei que sov&ecirc;ta lhe tinha
+enviado para
+mim.<br>
+
+<br>
+
+Abri a carta, e vi ser ella do meu amigo Galv&atilde;o da
+Catumbella,
+que me enviava um presente, que tinha dirigido ao Bih&eacute;,
+julgando
+que eu estivesse ainda ali. A b&ocirc;a harmonia que eu tinha
+guardado
+com as povoa&ccedil;&otilde;es por onde passei, fez com que
+aquella
+carta e o presente chegassem at&eacute; mim vindo de m&atilde;o
+em
+m&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Abri a caixa, e encontrei uma por&ccedil;&atilde;o de passas de
+M&agrave;laga, que vi&eacute;ram a prop&ograve;sito
+ado&ccedil;ar um
+pouco a monotonia da minha j&aacute; bem pobre
+alimenta&ccedil;&atilde;o. <br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 242px;" alt="" src="images/038.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.35"></a>Figura
+35.--Barraca concluida em uma hora.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Na carta dava-me elle algumas noticias da Europa, as &ugrave;ltimas
+que
+tive at&eacute; chegar a Pretoria. Pensei n'isso ent&atilde;o;
+e, quam
+profunda n&atilde;o foi a minha tristeza ao lembrar-me de quanto
+tempo
+teria de ficar sem noticias dos meus, noticias que j&aacute; me
+faltavam havia tanto!<br>
+
+<br>
+
+Deitei-me debaixo de uma triste impress&atilde;o de saudade. Ao
+alvorecer, vi&eacute;ram avisar-me, de que uma pequena comitiva,
+capitaneada por um pr&ecirc;to, levando c&ecirc;ra, se dirigia
+ao
+Bih&eacute;. Mandei chamar o chefe, e pedi-lhe que me levasse uma
+carta, que entregaria a alguem no Bih&eacute;, pedindo-lhe que a
+fizesse chegar a Benguella. Elle accedeu, dizendo-me logo, que
+n&atilde;o se podia demorar, porque queria ir dormir junto ao
+Cuqueima.<br>
+
+<br>
+
+Tinha pouco tempo; &iquest;a quem escrever? N&atilde;o podia
+perder este portador do accaso para dizer aos meus: Ainda sou vivo.<br>
+
+<br>
+
+Peguei na penna, e escrevi algumas linhas ao Doutor Bocage. Na carta
+inclui dois pequenos bilhetes, um para minha mulh&eacute;r, outro
+para
+Luciano Cordeiro.<br>
+
+<br>
+
+O chefe da pequena caravana, j&aacute; impaciente, recebeu a carta
+e partio.<br>
+
+<br>
+
+H&ocirc;je sei que aquella carta chegou &aacute; Europa, e foi
+recebida
+pelo seu destinat&agrave;rio. Como ella foi do Bih&eacute; a
+Benguella
+n&atilde;o sei. <br>
+
+<br>
+
+Era essa protec&ccedil;&atilde;o que tinha levantado em volta
+de mim Silva Porto, que ainda se fazia sentir.<br>
+
+<br>
+
+O sova Mavanda passou o dia comigo, e convers&aacute;mos muito. Eu
+dei-lhe alguns pequenos objectos, e entre elles uma caixa de
+f&ograve;sforos, com que ficou maravilhado.<br>
+
+<br>
+
+Na occasi&atilde;o de retirar-se, disse elle aos seus macotas estas
+palavras, que me impression&aacute;ram pela figura empregada. <br>
+
+<br>
+
+"N&atilde;o v&ecirc;des de longe um p&agrave;ssaro que
+v&ocirc;a muito
+alto, e vai pousar em &agrave;rvore distante, e dizeis &eacute;
+uma
+r&ocirc;la; depois caminhaes e abeirais-vos d'elle, e ficais
+admirados
+do tamanho; era uma &agrave;guia. Assim foi o Manj&oacute;ro
+(nome que
+me davam); passou ao largo da povoa&ccedil;&atilde;o, e
+n&oacute;s
+diss&eacute;mos &eacute; a r&ocirc;la; agora vivemos com
+elle e
+conhecemo-l-o, e dizemos, &eacute; a &agrave;guia."<br>
+
+<br>
+
+Nos passeios que dei nas cercanias, perseguindo os
+ant&igrave;lopes,
+que sam escassos, levantei a carta do paiz, ou antes, pude concluir a
+carta do paiz comprehendido entre o Cuqueima e Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+O sova Mavanda mandou-me dizer, que o maior pedido que me podia dirigir
+era, o de lhe eu dar um par de cal&ccedil;as. Resolvi logo
+fazer-lhe a
+vontade, e chamei o velho Antonio.<br>
+
+<br>
+
+Arvorei-o em Alfaiate, cousa que muito o sorprendeu, e enviei-o a tomar
+medida &aacute;s cal&ccedil;as do sova. Talhei depois as
+cal&ccedil;as,
+que f&ocirc;ram cosidas pelo velho Antonio, e lev&aacute;ram 5
+jardas
+de algod&atilde;o largo!! Este rei &eacute; um verdadeiro
+hippop&ograve;tamo, mas muito boa pess&ocirc;a.<br>
+
+<br>
+
+No dia 20 de manh&atilde;, veio um enviado do sova dizer-me, que,
+por
+ser ent&atilde;o a &egrave;pocha em que festejam uma especie de
+carnaval, o sova, para me fazer honra, viria ao meu campo mascarado, e
+dan&ccedil;aria diante de mim.<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 500px; height: 579px;" alt="" src="images/039.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.35A"></a>Figura
+35A.--Ganguelas &aacute; Quimbandes.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Pelas 8 horas, cheg&aacute;ram os batuques, e juntou-se grande
+concurso de p&ocirc;vo.<br>
+
+<br>
+
+Meia hora depois, appareceu o sova, com a cab&ecirc;&ccedil;a
+mettida
+em uma caba&ccedil;a, pintada de branco e pr&ecirc;to, e o
+enorme corpo
+augmentado por uma arma&ccedil;&atilde;o de varas coberta de
+liconde,
+igualmente pintado de pr&ecirc;to e branco.<br>
+
+<br>
+
+Um saio de clinas e caudas de animaes, completavam o trajo.<br>
+
+<br>
+
+Logo que elle chegou, os homens form&aacute;ram em linha, com os
+batuques a traz, e as mulh&eacute;res e rapazis
+desvi&aacute;ram-se
+para longe. Come&ccedil;&aacute;ram os batuques, e os homens
+immoveis
+do corpo, cantando as suas mon&ograve;tonas toadas e batendo as
+palmas.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 600px; height: 385px;" alt="" src="images/040.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.36"></a>Figura
+36.--O sova Mavanda vem dan&ccedil;ar mascarado ao meu campo.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O sova foi collocar-se a uns trinta passos em frente da linha, e
+come&ccedil;ou uma brutesca dan&ccedil;a, em que parecia fera
+enraivecida; conquistando os maiores applausos da sua e da minha gente.
+Meia hora depois, correu, e foi sumir-se na sua
+povoa&ccedil;&atilde;o,
+sendo seguido pelos seus. Pouco tempo mais tarde, voltou ao meu campo,
+j&aacute; sem o seu trajo feroz, e andou comigo at&eacute;
+&aacute;
+noute. Decididamente eu tinha-lhe cahido em gra&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+Tinha aproveitado t&ocirc;do o tempo que podia tirar aos meus
+trabalhos, dando melhor arruma&ccedil;&atilde;o &aacute;s
+cargas,
+tendente a diminuir o n&ugrave;mero d'ellas. A fazenda que tinha
+era
+j&aacute; quasi nenhuma, e t&ocirc;da a minha riqueza monetaria
+consistia em um saco de buzio e na missanga comprada ao Jos&eacute;
+Alves; mas o gasto, para sustentar a minha gente, era grande, e eu via
+com horror a diminui&ccedil;&atilde;o do meu pequeno haver. No
+paiz a
+ca&ccedil;a era pouca e mi&uuml;da, pois apenas se encontravam
+algumas
+gazellas (<span style="font-style: italic;">Cervicapra
+bohor</span>).<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 333px;" alt="" src="images/041.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.37"></a>Figura
+37.--Mulh&eacute;r Quimbande carregada.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+&iexcl;Quantas vezes a pobre rima pouco volumosa das fazendas e
+missangas me n&atilde;o despertava uma atroz ang&ugrave;stia!<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;Quantas vezes uma d&ocirc;r pungente me n&atilde;o
+cerrava o
+cora&ccedil;&atilde;o, fazendo-me antever um futuro bem sombrio!<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;Quantas vezes ficavam sem resposta as caricias da minha
+cabrinha
+Cora, e os cantares folgaz&atilde;os do meu meigo papagaio, que
+voava
+para o meu hombro pedindo-me uma meiguice!<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;Quantas vezes uma f&eacute; sem limites me invadia o
+cora&ccedil;&atilde;o, e o desalento era banido do meu
+&agrave;nimo!<br>
+
+<br>
+
+A raz&atilde;o queria lutar contra esses raios de infundada
+esperan&ccedil;a que me alegravam o esp&igrave;rito; mas essa
+esperan&ccedil;a era t&atilde;o tenaz que procurava argumentos
+e
+sophismas para combater a raz&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Sam momentos indescriptiveis, essas lutas do esp&igrave;rito,
+estando o
+homem isolado, sendo elle mesmo o pro e o contra das suas
+id&eacute;as,
+sem um amigo, ou um inimigo, que lhe adule um pensamento ou lhe combata
+outro.<br>
+
+<br>
+
+Fui joven e tive amores, e com elles as penas dos amores; fui pai, e vi
+morrer-me nos bra&ccedil;os uma filha que adorava; mas confesso que
+nunca senti n'alma t&atilde;o profunda tristeza, t&atilde;o
+cruel
+melancolia, como a que por vezes, em dias aziagos, experimentei em
+&Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+S&oacute;! s&oacute;zinho, no meio de uma multid&atilde;o
+ignara, e
+estridente, cuja l&igrave;ngua e falares n&atilde;o
+comprehendia, tinha
+momentos horriveis, que se traduziam logo em febre e doen&ccedil;a!<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o conto como soffrimento as fomes, as doen&ccedil;as,
+a
+miseria. N&atilde;o! que homem &eacute; e deve ser superior
+&aacute;
+materia bruta, que deve dominar, para se afastar do irracional.<br>
+
+<br>
+
+O soffrimento &eacute; a d&ugrave;vida. O soffrimento
+&eacute;
+n&atilde;o saber como se hade vencer o abysmo que a
+raz&atilde;o nos
+mostra cavado ante os passos que queremos dar. O soffrimento
+&eacute;
+ver dezenas de pess&ocirc;as, que nos acompanham c&eacute;gas,
+dizendo:
+"Elle sabe o que faz;" e que arrastamos com-nosco ao abysmo! O<br>
+
+soffrimento &eacute; a responsabilidade tremenda da
+miss&atilde;o que
+nos impos&eacute;mos. Se me n&atilde;o importava h&ocirc;je
+muito que
+os meus detractores experimentassem um pouco da fome, da s&ecirc;de
+e
+das priva&ccedil;&otilde;es que passei; n&atilde;o lhes
+desejo, mesmo a
+elles, que soffressem a millesima parte do que eu soffri moralmente.
+&Eacute; verdade, que, para soffrer como eu soffri, &eacute;
+preciso
+ter alma, cora&ccedil;&atilde;o e uma consciencia.<br>
+
+<br>
+
+A carta que de Mavanda escrevi ao D^{or.} Bocage, ressentia-se
+j&aacute; do que eu soffria ent&atilde;o. Foi escrita n'um dos
+meus
+dias nebulosos.<br>
+
+<br>
+
+Deixemos porem esta divaga&ccedil;&atilde;o, que pouco
+interessa; e falemos dos acontecimentos de ent&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Os Quimbandes fabricam alguns objectos de ferro e de madeira, muito
+mais perfeitos do que os fabricados no Oeste-Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td><img src="images/042.png" alt="" style="width: 400px; height: 371px;"></td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom;"><span style="font-weight: bold;"></span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">1. Cachimbo.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">2, 2. Facas.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">3, 3. Cacetes de
+guerra.</span></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.38"></a>Figura
+38.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O frio de noute era muito intenso, e j&aacute; era grande a
+differen&ccedil;a entre as m&agrave;ximas e as
+m&igrave;nimas. Apesar
+da carta que recebi do sova Cap&ocirc;co, n&atilde;o acreditava
+muito
+na promessa dos carregadores, nem na volta do meu Doutor Chacaiombe; e
+por isso, ia sempre reduzindo as cargas quanto era possivel; o que
+s&oacute; podia fazer distribuindo o conteudo de uma pelas outras.
+Isto
+tinha um limite, com o limite do peso que podiam carregar os homens.<br>
+
+<br>
+
+Est&agrave;vamos a 22 de Junho, dia em que expirava o prazo que eu
+decidira esperar por os carregadores do sova Cap&ocirc;co.<br>
+
+<br>
+
+A minha ang&ugrave;stia era grande, e s&oacute;
+ent&atilde;o avaliei
+bem o mao bocado porque t[~e]m passado outros exploradores, tendo de
+abandonar cargas que lhes sam absolutamente precisas.<br>
+
+<br>
+
+A esc&ocirc;lha &eacute; cousa s&egrave;ria, quando todas
+se nos afiguram indispensaveis.<br>
+
+<br>
+
+O pouco que de commodidades eu levava j&aacute; tinha sido
+abandonado; o resto de algumas latas de comida dei-as aos muleques.<br>
+
+<br>
+
+Os meus carregadores, vendo o meu embara&ccedil;o, pedem-me que os
+carregue at&eacute; ao m&aacute;ximo p&ecirc;so com que
+pod&eacute;rem
+caminhar; mas, ainda assim, &eacute; impossivel ir tudo.<br>
+
+<br>
+
+Depois de todas as reduc&ccedil;&otilde;es, e de ter
+distribuido as cargas, ficam 4 sem carregadores.<br>
+
+<br>
+
+Sam ellas as duas do meu barco Macintosh, um barril de
+&agrave;gua-ardente, e 50 libras de p&ograve;lvora.<br>
+
+<br>
+
+Decidi abandonar o barco, com grande pesar, e pedir ao sova Mavanda
+dois homens para me levarem a p&ograve;lvora e o barril
+d'&agrave;gua-ardente de acampamento em acampamento, at&eacute;
+que
+dois dos meus carregadores ficassem sem carga, o que n&atilde;o
+tardaria a succeder pelo grande gasto que faziamos.<br>
+
+<br>
+
+O sova tomou conta do barco, e deu-me os dois homens que lhe pedi,
+ficando tudo prompto para seguirmos no dia immediato.<br>
+
+<br>
+
+Levantei campo no dia 23 &aacute;s 8 horas, e depois de
+tr&ecirc;s e
+meia horas, cheguei &aacute; margem esquerda do rio Varea, que
+passei
+sobre uma soffrivel ponte de madeira.<br>
+
+<br>
+
+O sov&ecirc;ta de Divindica, povoa&ccedil;&atilde;o que
+assenta na
+margem esquerda do Varea, na confluencia do riacho Moconco, veio
+pedir-me alguma cousa pela passagem da ponte, e dando-lhe eu quatro
+jardas de fazenda, retirou-se satisfeito.<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 600px; height: 388px;" alt="" src="images/043.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Map.4"></a>Mappa
+4.--O Paiz dos Quimbandes</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O rio Varea corre ali ao N., e vai affluir ao Cuime. Tem 25 metros de
+largo por 2 de fundo, e pequena corrente, n&atilde;o tendo
+cataractas a
+jusante de Divindica. Marquei a uma milha ao sul as
+povoa&ccedil;&otilde;es de Moariro e Moaringonga.<br>
+
+<br>
+
+Segui a leste, indo acampar, pelas 2 horas, na margem esquerda do rio
+Onda, em frente &aacute; grande povoa&ccedil;&atilde;o de
+Cabango,
+capital dos povos Quimbandes de Leste.<br>
+
+<br>
+
+Eu levava duas garrafas de vinho do Porto de 1815, resto de um presente
+do meu amigo E. Borges de Castro, e ao chegar ao ponto em que acampei,
+o muleque Moero, que as levava, cahio, quebrando-se uma d'ellas, e
+entornando-se o precioso nectar, sem que se podesse aproveitar uma
+g&ocirc;ta.<br>
+
+<br>
+
+Desde Mavanda at&eacute; &aacute;s nascentes do riacho Moconco,
+cujo
+curso segui at&eacute; &aacute; confluencia com o Varea, a
+vegeta&ccedil;&atilde;o arb&ograve;rea &eacute;
+espl&egrave;ndida, e no
+cimo dos montes que marginam o riacho &eacute; tambem pomposa. Para
+&agrave;l&eacute;m do Varea &eacute; ainda mais rica.<br>
+
+<br>
+
+Desde que passei o Cuanza ouvia falar no rio Cuime, como o rio maior do
+paiz dos Quimbandes, affirma&ccedil;&atilde;o que me era
+confirmada
+pelos grandes affluentes que lhe ia encontrando, o que me fazia arder
+em desejos de lhe ir lan&ccedil;ar uma vista d'olhos.<br>
+
+<br>
+
+Do Cuanza a leste o planalto apresenta um aspecto muito differente do
+que at&eacute; ali.<br>
+
+<br>
+
+As paizagens sam mais pintorescas e n&atilde;o apresentam a
+monotonia
+do Bih&eacute;. Os rios e ribeiros cavam os seus leitos mais
+fundos,
+tornando mais sensiveis os accidentes do terreno. As margens dos rios e
+ribeiros &agrave;l&eacute;m dos limites das cheias,
+j&aacute; se
+apresentam cobertas de vigorosa vegeta&ccedil;&atilde;o
+arb&ograve;rea,
+e a vegeta&ccedil;&atilde;o arborescente forma barreiras
+impassaveis
+nas florestas.<br>
+
+<br>
+
+Na parte leste do paiz dos Quimbandes, a
+popula&ccedil;&atilde;o
+come&ccedil;a a rarear. O sova de Cabango &eacute; ainda
+tributario do
+sova do Cuio ou Mucuzo.<br>
+
+<br>
+
+Os costumes d'estes povos sam os mesmos dos Bihenos, salvo na
+actividade, que &eacute; entre os Quimbandes substituida pela mais
+vergonhosa pregui&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+Os Quimbandes andam quasi nus, n&atilde;o trabalham, n&atilde;o
+viajam e n&atilde;o negociam. <br>
+
+<br>
+
+Poucos t[~e]m espingardas, por n&atilde;o terem com que as comprar.
+J&aacute; apanham alguma c&ecirc;ra, que os Bailundos lhes
+v[~e]m
+permutar a buzios e missangas, mas isto em pequenissima escala.<br>
+
+<br>
+
+A terra &eacute; cultivada pelas mulh&eacute;res, e a sua
+produc&ccedil;&atilde;o &eacute; rica. O que mais tenho
+visto nas
+planta&ccedil;&otilde;es &eacute; mandioca e ginguba.<br>
+
+<br>
+
+Este paiz deve merecer particular atten&ccedil;&atilde;o.
+Cortado com
+rios navegaveis que vam affluir a um grande tra&ccedil;o navegavel
+do
+Cuanza; tendo um clima magn&igrave;fico e ub&egrave;rrimos
+terrenos,
+onde produz bem o algod&atilde;o, a canna de assucar, os cereaes e
+virentes pastagens, occupado por uma popula&ccedil;&atilde;o
+que
+facilmente se submette, est&aacute; nas melhores
+condi&ccedil;&otilde;es de um desenvolvimento r&agrave;pido.<br>
+
+<br>
+
+No dia 24 de Junho passei o rio Onda, e fui acampar na sua margem
+direita, tr&ecirc;s milhas &agrave;l&eacute;m do meu campo
+anterior.<br>
+
+<br>
+
+O rio Onda tem, em Cabango, 15 metros de largo por 5 de fundo, e vindo
+de leste corre depois a N.O. a affluir ao Varea.<br>
+
+<br>
+
+Depois de ter determinado a posi&ccedil;&atilde;o do meu
+acampamento,
+fui passear rio acima, e encontrei bastante ca&ccedil;a. Logo acima
+de
+Cabango, o Onda estreita a 10 metros, mas profunda a 6, tendo uma
+corrente de 10 metros por minuto; corrente que se estende
+at&eacute; ao
+fundo; o que me foi denunciado n&atilde;o s&oacute; pela sonda,
+mas
+tambem pela inclina&ccedil;&atilde;o que tomam as plantas que
+vegetam
+no fundo; o que se v&ecirc; facilmente, por serem as
+&agrave;guas muito
+crystallinas e o fundo de area alvissima.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 105px;" alt="" src="images/044.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.39"></a>Figura
+39.--Ditassoa, peixe do rio Onda.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+N'este rio n&atilde;o vi outro peixe, a n&atilde;o ser um que
+os naturaes chamam <span style="font-style: italic;">Ditassoa</span>,
+e que &eacute; soffrivel.<br>
+
+<br>
+
+Percorrendo as margens do rio, vi, a distancia, um grupo de
+&agrave;rvores que se destacava da paizagem, e que julguei serem
+palmeiras; mas aproximando-me reconheci um lindo grupo de Fetus
+arboreos, da mais elegante belleza.<br>
+
+<br>
+
+As margens do rio sam cortadas verticalmente, e por isso apresentam
+junto &aacute; borda a mesma profundidade que no meio. <br>
+
+<br>
+
+Retirei do meu passeio, satisfeito com o que vira. O rio Onda era outro
+rio navegavel, outra estrada natural, que encontrava n'este soberbo
+paiz.<br>
+
+<br>
+
+Ao chegar ao meu campo aguardava-me uma agradavel sorpresa.<br>
+
+<br>
+
+O Doutor Chacaiombe foi a primeira pess&ocirc;a que veio
+comprimentar-me. <br>
+
+<br>
+
+Eu, que julgava n&atilde;o mais vel-o, saudei-o com o maior
+j&ugrave;bilo, porque o seu desapparecimento era uma nuvem
+n&ecirc;gra
+na minha viagem.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 350px; height: 461px;" alt="" src="images/045.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.40"></a>Figura
+40.--Fetus arb&ograve;reos das margens do rio Onda.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+J&aacute; por vezes tenho falado no Doutor Chacaiombe, e
+n&atilde;o disse quem era.<br>
+
+<br>
+
+Este homem foi o adevinho que, em casa do filho do capit&atilde;o
+do
+Quingue, me predisse as cousas mais agradaveis a respeito do meu futuro.<br>
+
+<br>
+
+Accumulando as func&ccedil;&otilde;es de cirurgi&atilde;o
+com as de
+adevinho, veio elle estabelecer-se junto a mim no Bih&eacute;, e
+n&atilde;o mais me deixou at&eacute; que se encarregou da
+miss&atilde;o
+de obter carregadores no Cap&ocirc;co, d'onde julguei que
+n&atilde;o
+mais voltaria.<br>
+
+<br>
+
+Depois de muitos comprimentos, annunciou-me Chacaiombe que os
+carregadores chegariam dentro de dois dias, e eu resolvi esperal-os.<br>
+
+<br>
+
+O meu Augusto veio dar-me parte, de que o sova de Cabango viera
+visitar-me, e se retirara muito contrariado por me n&atilde;o
+encontrar.<br>
+
+<br>
+
+Mandei logo o pombeiro Chaqui&ccedil;onde ao sova, pedir-lhe dois
+homens para mandar a Mavanda buscar o barco que ali tinha deixado, com
+bem pesar meu e da minha gente, que viram os servi&ccedil;os que
+elle
+nos prestou nas passagens do Cuqueima e do Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+Fui em seguida enxugar-me ao fogo, pois que cheguei do rio muito
+molhado, e ainda me lembrava com horror do rheumatismo no
+Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, parti de madrugada para a ca&ccedil;a,
+dirigindo-me ao
+norte, onde o paiz &eacute; coberto de densas florestas. Depois de
+ter
+andado oito milhas, encontrei o rio Cuime, a jusante da sua grande
+cataracta. Voltei e j&aacute; era noute quando alcancei o meu
+campo,
+extenuado de fadiga; mas tendo feito boa ca&ccedil;ada, e tendo
+visto o
+rio que ardia em desejos de ver, e que effectivamente &eacute; uma
+via
+importante, sendo como me assegur&aacute;ram os naturaes, navegavel
+desde a sua grande cataracta at&eacute; ao Cuanza.<br>
+
+<br>
+
+No seguinte dia, voltei ao rio Onda, e ali sorprendeu-me a vista mais
+de uma povoa&ccedil;&atilde;o que divisava ao longe. Ao
+approximar-me,
+conheci que eram, n&atilde;o povoa&ccedil;&otilde;es de
+pr&ecirc;tos,
+mas sim de formigas brancas (<span style="font-style: italic;">termites</span>),
+que juntavam em grandes grupos as suas
+construc&ccedil;&otilde;es
+c&ograve;nicas, cuja c&ocirc;r alvacenta, devida &aacute;
+da argila que
+iam buscar ao sub-solo, lhes dava toda a apparencia de aldeas de
+ind&igrave;genas. De volta ao meu campo, encontrei o sova de
+Cabango,
+que ali tinha chegado havia pouco, com uma comitiva de 60 homens e
+muitas mulh&eacute;res.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 260px;" alt="" src="images/046.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.41"></a>Figura
+41.--Mulh&eacute;r de Cabango com o ferro de co&ccedil;ar a
+cabe&ccedil;a.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Esta gente, que se apresenta quasi em completa nudez, faz consistir
+todo o seu luxo nos penteados. Variam-n-os ao infinito e sam elles
+verdadeiras obras d'arte, e t[~e]m technologia propria.<br>
+
+<br>
+
+Nas mulh&eacute;res o cabello, que fica em forma de cimeira de elmo
+Romano, chama-se <span style="font-style: italic;">tronda</span>,
+e o que cae em trancinhas, dos lados,&nbsp;<span style="font-style: italic;">cahengue</span>.<br>
+
+<br>
+
+Os penteados masculinos, que formam tufos encrespados, chamam-se <span style="font-style: italic;">sanica</span>.<br>
+
+<br>
+
+O sova offereceu-me um boi, e eu dei-lhe um presente com que elle
+pareceu retirar-se satisfeito.<br>
+
+<br>
+
+Cheg&aacute;ram n'esse dia os carregadores que vinham do
+Cap&ocirc;co e
+eram apenas quatro, mas eram os sufficientes, sendo dous para o barco,
+e outros dous para alliviar algumas cargas mais pesadas.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute; noute os meus pr&ecirc;tos e os da terra
+fiz&eacute;ram grande batuque, que durou at&eacute; depois das
+10 horas.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 243px;" alt="" src="images/047.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.42"></a>Figura
+42.--Homem de Cabango.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O frio de noute continuava intenso, sendo que &aacute;s 3 e meia
+horas
+da manh&atilde; d'esse dia, o therm&ograve;metro marcara
+0&deg;C. A
+desigualdade entre a m&agrave;xima e a m&igrave;nima era
+j&aacute;
+muito extraordinaria, e grande a seccura da atmosphera, como se
+ver&aacute; dos boletins meteorol&ograve;gicos.<br>
+
+<br>
+
+O sova voltou a ver-me, e deu-me alguns esclarecimentos sobre o paiz.
+Diz elle, que j&aacute; n&atilde;o reconhece a soberania do
+sova do
+Cuio ou Mucuzo, e se considera independente.<br>
+
+<br>
+
+As matas t[~e]m muita c&ecirc;ra, e os Bailundos v[~e]m ali
+permutal-a
+a buzio (caurim) e missangas. Trabalham em ferro, e fazem machados
+grandes, balas e facas.<br>
+
+<br>
+
+Os machados de guerra, frechas e azagaias, v[~e]m-lhes dos Luchazes, e
+as enxadas dos Ganguelas, Nhembas e Gonzellos.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 251px;" alt="" src="images/048.png"><br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.43"></a>Figura
+43.--Homem de Cabango.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Este soba, que se chama Chaquiunde, &eacute; um pouco falto de
+probidade, o que n&atilde;o admira muito. Veio, depois de larga
+conversa, fazer-me exigencias, allegando ter-me dado um boi. Vi-me na
+necessidade de o p&ocirc;r fora do acampamento; mas elle, vendo a
+aspreza com que eu o tratava, mostrou-se contente, e explicou a sua
+impertinencia, desculpando-se com os seus macotas, que o tinham
+aconselhado a fazer grandes exigencias, e que o que pedia era para
+elles, pois que a elle eu tinha dado um presente superior ao valor do
+boi.<br>
+
+<br>
+
+Tendo chegado os dois Quimbandes com o meu barco, resolvi seguir no dia
+immediato.<br>
+
+<br>
+
+O dia 28 amanheceu frigidissimo, pois que o therm&ograve;metro,
+&aacute;s 6 horas marcava apenas dois graos acima de zero; e por
+isso
+pude s&oacute; levantar campo &aacute;s 8 horas, indo acampar
+&aacute;s
+10 e 40 junto da margem do Onda, tendo andado a E.S.E.<br>
+
+<br>
+
+Precisava fazer pequenas marchas, porque os meus carregadores iam muito
+pesados.<br>
+
+<br>
+
+O terreno desde o rio Varea at&eacute; ali &eacute; coberto de
+uma
+camada arenosa, sendo o sub-solo formado por uma argila de
+c&ocirc;r
+cinzenta, variando desde o branco sujo at&eacute; ao azul
+acinzentado.<br>
+
+<br>
+
+Junto ao leito do Onda o solo &eacute; formado por uma forte camada
+de
+humos, que ainda assim assenta sobre o sub-solo da mesma argila
+acinzentada. Junto ao rio vi alguns montes term&igrave;ticos,
+apresentando a c&ocirc;r azul cobalto.<br>
+
+<br>
+
+O terreno das clareiras &eacute; habitado por uma especie de
+termites
+differente d'aquella que habita as florestas. As termites das clareiras
+construem montes mamelados, apresentando o aspecto de cones truncados
+cobertos por c&ugrave;pulas hemisph&egrave;ricas, tendo de 80
+cent&igrave;metros a um metro de di&agrave;metro na base, por
+igual
+altura. Nas florestas formam ellas verdadeiros cones, tendo de 4 a 6
+cent&igrave;metros de di&agrave;metro na base, por 25 a 30
+cent&igrave;metros de altura.<br>
+
+<br>
+
+Sam muito approximados, e semelham um eri&ccedil;ado de espinhos
+que parecem brotar da terra.<br>
+
+<br>
+
+Estas termites das florestas vam buscar os materiaes das suas
+construc&ccedil;&otilde;es muito perto da superficie da terra,
+porque
+nas suas architecturas figura como materia prima a terra vegetal que
+forma o solo dos matos, e estas, apesar do cimento empregado,
+n&atilde;o t[~e]m a liga&ccedil;&atilde;o e dureza das
+termites das
+clareiras, que, empregando uma argila consistente, formam verdadeiras
+petrifica&ccedil;&otilde;es. Nas
+habita&ccedil;&otilde;es das termites
+das clareiras, apesar do seu interior ser formado de c&egrave;lulas
+como as de um favo de abelhas, a bala Snider n&atilde;o penetra
+n'ellas
+a mais de 10 cent&igrave;metros.<br>
+
+<br>
+
+Como j&aacute; disse, nas encostas que abeiram o Onda, estas
+formigas
+accumulam as suas habita&ccedil;&otilde;es em limitados
+espa&ccedil;os,
+figurando, a quem de longe as v&ecirc;, verdadeiras
+povoa&ccedil;&otilde;es Quimbandes.<br>
+
+<br>
+
+Por espa&ccedil;o de uma hora, depois que deixei o acampamento,
+caminhei na margem do rio em terreno descoberto; mas depois entrei em
+uma espl&egrave;ndida floresta, cortada de riachos affluentes do
+Onda.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 284px;" alt="" src="images/049.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.44"></a>Figura
+44.--O Lago Liguri.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Por vezes, a floresta tomava o aspecto de um d'esses grandes parques do
+norte da Europa, onde uma vi&ccedil;osa relva cobria completamente
+o
+solo. No meio da mata os meus passos f&ocirc;ram suspensos para
+contemplar uma das mais pintorescas paizagens que tenho visto.<br>
+
+<br>
+
+Uma vasta clareira era occupada por uma lag&ocirc;a de
+&agrave;goa
+crystallina e fundo arenoso. &Agrave;rvores enormes assombravam o
+pequeno lago, que reflectia os seus ramos de um bello verde-escuro,
+onde chilravam mil p&agrave;ssaros.<br>
+
+<br>
+
+A relva descia dos lados at&eacute; &aacute; &agrave;gua, e
+s&oacute;
+desapparecia para deixar logar a uma ar&ecirc;a alva e fina. Os
+pr&ecirc;tos d'este paiz, que n&atilde;o sam muito poetas,
+acham
+encanto n'este pequeno lago, a que chamam Lago Liguri, e em que ja me
+haviam falado.<br>
+
+<br>
+
+T&ocirc;dos os riachos d'este paiz t[~e]m as margens
+apa&uuml;ladas, e
+na &agrave;gua estagnada ha um dep&ograve;sito de c&ocirc;r
+vermelha,
+que ao principio atribui &aacute; presen&ccedil;a de ferro; o
+que
+conheci ser engano, porque o ch&aacute; verde feito com aquella
+agua
+n&atilde;o a denunciava ferrea, pela forma&ccedil;&atilde;o
+do tanato
+de ferro. S&oacute;, talvez, por uma
+accumula&ccedil;&atilde;o de
+anim&agrave;lculos infusorios se produzam aquelles
+dep&ograve;sitos
+vermelhos.<br>
+
+<br>
+
+Desde o Bih&eacute;, observei, que em t&ocirc;dos os pontos
+onde ha
+&agrave;guas estagnadas abundam sanguesugas, mas n'estes
+c&ograve;rregos affluentes do Onda sam ellas em maior
+n&ugrave;mero.<br>
+
+<br>
+
+O rio contin&ugrave;a a ter entre 10 e 12 metros de largo, por 4 a
+5 de
+fundo, tem corrente muito insensivel. Abunda a ca&ccedil;a. <br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, caminhei a S.E., sempre na margem direita do Onda, por
+espa&ccedil;o de tr&ecirc;s horas, sendo difficil a passagem de
+uma
+emmaranhada floresta, e mais difficil ainda o vadear o ribeiro Cobongo,
+de 4 metros de largo por 1 de fundo, e cujo leito lod&ocirc;so
+embara&ccedil;ava o andar.<br>
+
+<br>
+
+Depois de tr&ecirc;s horas de caminho, afastei-me do Onda, seguindo
+a
+margem do ribeiro Cangombo, que passei indo acampar na margem esquerda
+do ribeiro Bitovo.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">A 30 de Junho, segui a
+leste,
+aproveitando toda a margem do Bitovo, para caminhar livre de floresta,
+e d'ali passei ao valle do ribeiro Chiconde, cujo curso segui
+at&eacute; ao Cuito, onde acampei. Fez-me&nbsp;profunda
+impress&atilde;o o contemplar as aguas do ribeiro Chiconde,
+correndo
+velozes para o Cuito. At&eacute; ali tinha encontrado
+&agrave;guas
+correndo ao oceano Atl&agrave;ntico, e essas &agrave;guas, cujo
+murmurio acalentava o meu somno, eram como um la&ccedil;o que me
+prendia &aacute; minha patria, indo cahir no mesmo mar que banhava
+o
+meu Portugal. Se ellas podessem converter o seu murmurio em falas, que
+de saudades, que de ang&ugrave;stias que viram, podiam ir contar
+aos
+meus!<br>
+
+<br>
+
+Ao deixar o Bitovo partio-se esse la&ccedil;o que me ligava
+&aacute;
+costa do Oeste. &iexcl;Que pungente saudade n&atilde;o foi a
+minha!<br>
+
+<br>
+
+Fazia um anno n'aquelle dia que eu f&ocirc;ra dar o
+abra&ccedil;o de
+despedida a meu velho pai, e recordou-me mais do que nunca que elle me
+deixara com o presentimento de n&atilde;o mais me ver.<br>
+
+<br>
+
+N'aquelle dia j&aacute; assentava o meu campo no paiz dos Luchazes,
+tendo deixado o dos Quimbandes com o ribeiro Bitovo.<br>
+
+<br>
+
+Vi&eacute;ram alguns homens e mulh&eacute;res das
+povoa&ccedil;&otilde;es da margem direita do Cuito ao meu
+campo; mas
+nada troux&eacute;ram que vender, e n&oacute;s
+precis&agrave;vamos de
+comida. Promet&ecirc;ram contudo que no dia seguinte traziam algum
+Massango, porque n&atilde;o cultivam milho nem mesmo Massambala.<br>
+
+<br>
+
+Nos seus arimbos cultivam o Massango, alguma mandioca,
+feij&atilde;o
+fradinho, ginguba, mamona e algod&atilde;o, tudo em pequena escala,
+apenas o necessario para o consumo do cultivador.<br>
+
+<br>
+
+Colhem bastante c&ecirc;ra, j&aacute; apanhada nas florestas, e
+j&aacute; de colmeas que collocam sobre as &agrave;rvores, e
+onde os
+enxames v[~e]m habitar.<br>
+
+<br>
+
+A c&ecirc;ra &eacute; um g&egrave;nero, que elles permutam
+por peixe
+s&ecirc;co do Cuanza, que os Quimbandes ali vam levar. O rio Cuito
+ali
+n&atilde;o tem peixe.<br>
+
+<br>
+
+Os povos Luchazes sam pouco viajantes, e apenas deixam as suas
+povoa&ccedil;&otilde;es para fazerem pequenas
+ca&ccedil;adas aos
+ant&igrave;lopes, afim de obterem pelles para se vestirem.<br>
+
+<br>
+
+A pequena cultura &eacute; feita por homens e mulh&eacute;res. <br>
+
+<br>
+
+O sov&ecirc;ta que governa as poucas
+povoa&ccedil;&otilde;es da margem
+do rio Cuito &eacute; o Muene-Calengo, que paga tributo a outro
+sova
+Muene-Mutemba, cuja povoa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pude
+precisar bem
+onde fica.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 260px;" alt="" src="images/050.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.45"></a>Figura
+45.--Luchaze das margens do rio Cuito.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Estes Luchazes trabalham em ferro e fazem todas as obras de que
+precisam. O ferro &eacute; encontrado no paiz.<br>
+
+<br>
+
+Uma cousa &ugrave;nica que vi entre os povos b&agrave;rbaros
+que
+visitei, &eacute; usarem os Luchazes de isqueiros para fazerem
+fogo,
+com fusil e pederneira. As pederneiras sam trazidas pelos
+Quib&ocirc;cos, ou Qui&ocirc;cos, que as v[~e]m trocar a
+c&ecirc;ra; e
+os fuzis fabricados por elles sam de ferro forjado e temperados em
+&agrave;gua fria, onde os lan&ccedil;am estando o ferro rubro.
+A isca
+&eacute; preparada com algod&atilde;o misturado com a amendoa,
+pisada,
+contida no endocarpio de um fruto chamado Micha.<br>
+
+<br>
+
+As mulh&eacute;res Luchazes usam cestos differentes dos empregados
+pelas Quimbandes, e differentemente os trazem, porque sam suspensos da
+cab&ecirc;&ccedil;a por uma larga tira de casca de
+&agrave;rvore, e
+caem s&ocirc;bre as costas. <br>
+
+<br>
+
+Este modo de trazer os cestos impede-as de trazerem os filhos, como
+&eacute; uso geral em &Agrave;frica, sobre os rins, trazendo-os
+ao
+lado. <br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, vi&eacute;ram de manh&atilde; algumas
+mulh&eacute;res
+trazer massango; mas em t&atilde;o pequena quantidade, que mais fez
+sentir a fome que j&aacute; t&igrave;nhamos.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 349px;" alt="" src="images/051.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.46"></a>Figura
+46.--Mulh&eacute;r Luchaze carregada.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O rio Cuito tem no ponto em que o passei 7 metros de largo por 1 de
+fundo, com uma corrente de 25 metros por minuto.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; affluente do Cubango, e na sua confluencia assenta a
+grande povoa&ccedil;&atilde;o de Darico.<br>
+
+<br>
+
+Nasce na planicie de Cangaba, onde t[~e]m nascente muito
+pr&ograve;xima
+o Cuime e o Cuiba, affluentes do Cuanza, e o Lungo-&eacute;-ungo,
+affluente do Zambeze.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 280px;" alt="" src="images/052.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.47"></a>Figura
+47.--Isqueiro dos Luchazes, Caixa da isca e Fuzil.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+N&atilde;o podendo obter v&igrave;veres, resolvi seguir
+&aacute;vante,
+e quando dava ordens para levantar campo, chegava &aacute; margem
+do
+rio Cuito uma comitiva de escravos, capitaneada por tr&ecirc;s
+pr&ecirc;tos.<br>
+
+<br>
+
+Apoderei-me dos tr&ecirc;s pr&ecirc;tos, e soltei todas as
+escravas,
+pois que na comitiva n&atilde;o iam escravos. Fiz com que entrassem
+no
+meu campo, e disse-lhes, que eram livres, e se quizessem acompanhar-me
+eu as fazia chegar a Benguella.<br>
+
+<br>
+
+Disse-lhes, que nada receiassem dos seus guardas, e que se convencessem
+de que eram livres. Declar&aacute;ram-me uma a uma, que
+n&atilde;o
+queriam a minha protec&ccedil;&atilde;o, e que as deixasse ir
+como
+tinham vindo.<br>
+
+<br>
+
+&iquest;D'onde eram? N&atilde;o m'-o sabiam dizer.
+&iquest;Que fazer?
+Repugnou-me leval-as comigo a despeito seu. Depois de algumas
+instancias, resolvi deixar aquellas desgra&ccedil;adas seguirem o
+triste fado a que n&atilde;o queriam esquivar-se.<br>
+
+<br>
+
+Demais, &iquest;seria elle melhor se me seguissem? N&atilde;o
+&eacute;
+facil, ainda que isso se afigure na Europa, libertar uma leva de
+escravos, quando essa leva &eacute; encontrada longe dos dominios
+Europeus.<br>
+
+<br>
+
+Uma leva de escravos tem gente de naturalidades differentes, e muitas
+vezes longinquas.<br>
+
+<br>
+
+Se aquelle que os pode libertar os quiz&eacute;r restituir
+&aacute;s
+suas familias, tem de percorrer uma grande parte d'&Agrave;frica
+&aacute; busca dos lares dos seus protegidos, o que &eacute;
+pr&agrave;ticamente impossivel.<br>
+
+<br>
+
+Abandonal-os e dizer-lhes:--<span style="font-style: italic;">Ide-vos</span>--&eacute;
+fazel-os novamente escravos dos primeiros povos que encontrarem.<br>
+
+<br>
+
+Muitas vezes, aquelles desgra&ccedil;ados, arrancados das
+povoa&ccedil;&otilde;es em tenros annos, perd&ecirc;ram da
+memoria o
+sitio onde nasc&ecirc;ram, e falando j&aacute; uma
+l&igrave;ngua
+differente da que balbuci&aacute;ram crian&ccedil;as, e
+esqu&egrave;c&ecirc;ram longe dos seus, t[~e]m por sua patria a
+terra
+da escravid&atilde;o, e n&atilde;o conhecem outra.<br>
+
+<br>
+
+H&ocirc;je, depois que os navios de guerra, Portuguezes e Inglezes,
+cruzam no Atl&agrave;ntico e no &Igrave;ndico, e impedem a
+exporta&ccedil;&atilde;o do homem, a escravatura &eacute;
+g&egrave;nero
+de permuta&ccedil;&atilde;o apenas no interior, e o seu systema
+tem-se
+modificado.<br>
+
+<br>
+
+O escravo apparece em &Agrave;frica por dois modos. Ou &eacute;
+o
+prisioneiro de guerra, ou &eacute; o g&egrave;nero de pagamento
+de
+d&igrave;vida pelos parentes.<br>
+
+<br>
+
+Outrora fazia-se a guerra expressamente para se fazer o prisioneiro, e
+infelizmente ainda h&ocirc;je se faz, posto-que em menor escala. <br>
+
+<br>
+
+O ente humano dado, pelo parente proletario, em pagamento da
+d&igrave;vida contrahida, ou da multa decretada, &eacute;
+vulgar.<br>
+
+<br>
+
+No caso de guerra, outrora todo prisioneiro servia para escravo, porque
+lhe n&atilde;o era facil, adulto que f&ocirc;sse, voltar da
+Am&egrave;rica &aacute; &Agrave;frica. O
+Atl&agrave;ntico era garantia
+segura.<br>
+
+<br>
+
+Os adultos mesmos, podendo logo produzir um trabalho maior, eram
+preferidos ao adolescente e &aacute; crian&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+H&ocirc;je n&atilde;o &eacute; assim. O homem feito foge, e
+tem sempre
+na id&eacute;a o voltar ao ninho d'onde o arranc&aacute;ram, e
+essa
+esperan&ccedil;a n&atilde;o o abandona em quanto pisa o
+continente onde
+tem seu paiz.<br>
+
+<br>
+
+Disse-me a mim um negreiro:--<span style="font-style: italic;">sam
+muito fugitivos</span>.<br>
+
+<br>
+
+A crian&ccedil;a, o adolescente e a mulh&eacute;r, offerecem ao
+commerciante maior garantia, porque, esp&igrave;ritos mais
+irresolutos,
+n&atilde;o ousam encarar o pensamento de atravessar paizes enormes,
+para voltar ao seu.<br>
+
+<br>
+
+Tem por isso mais valor, h&ocirc;je, na &Agrave;frica Austral,
+a
+crian&ccedil;a e a mulh&eacute;r, e nas levas de
+desgra&ccedil;ados que
+infelizmente ainda arrastam os duros grilh&otilde;es a travez do
+solo
+Africano, &eacute; raro vermos um homem feito.<br>
+
+<br>
+
+Uma vez que falei na escravatura, direi ainda mais algumas palavras
+sobre ella.<br>
+
+<br>
+
+Portugal, a Inglaterra e a Fran&ccedil;a, t[~e]m, nos
+&ugrave;ltimos
+tempos, empenhado uma verdadeira luta contra o commercio da carne
+humana, e as modifica&ccedil;&otilde;es feitas nas antigas
+praxes
+Americanas, concorr&ecirc;ram para que esse commercio diminuisse
+consideravelmente, e se modificasse essencialmente na &Agrave;frica
+Austral.<br>
+
+<br>
+
+Contudo, eu atrevo-me a dizer, que n&atilde;o ser&aacute; ainda
+a
+gera&ccedil;&atilde;o que ora come&ccedil;a, aquella que
+ver&aacute;
+desapparecer o escravo do solo Africano.<br>
+
+<br>
+
+O mesmo principio que imperava outrora na Am&egrave;rica, fazendo
+colonisar com os escravos, existe e existir&aacute; por muito tempo
+em
+&Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+Os governos pr&ecirc;tos tambem t[~e]m a sua pol&igrave;tica
+colonisadora, e entre elles e os logares de procedencia do escravo,
+falta-nos um Oceano, onde possamos fazer singrar as nossas esquadras, e
+proteger os mesquinhos com as nossas baterias d'a&ccedil;o.
+S&oacute;
+os principios civilisadores poder&aacute;m fazer cessar um dia a
+escravid&atilde;o; mas infelizmente esse dia est&aacute; longe,
+porque
+os argumentos de que se servem esses principios, sam menos eloquentes e
+menos en&egrave;rgicos do que os projecteis
+cylindro-c&ograve;nicos o
+f&ocirc;ram no Atl&agrave;ntico e no &Igrave;ndico.<br>
+
+<br>
+
+Eu tenho para mim, que a aboli&ccedil;&atilde;o da escravatura,
+no
+interior da &Agrave;frica Austral hade existir de facto, quando
+deixar
+de existir a polygamia entre os pr&ecirc;tos; porque, ainda que os
+principios civilisadores fa&ccedil;am desapparecer o escravo, a
+sensualidade asinina do negro far&aacute; subsistir a escrava.<br>
+
+<br>
+
+Isto n&atilde;o quer dizer, que eu descreia de que se possam dar
+alguns
+rudes golpes de immediato effeito no reprovado commercio; mas sim que
+penso na difficuldade do seu completo exterminio. J&aacute; vai
+longa a
+divaga&ccedil;&atilde;o, voltemos ao assumpto.<br>
+
+<br>
+
+Dizia eu, que as raparigas n&atilde;o quiz&eacute;ram ser
+livres, e segu&iacute;ram os seus conductores.<br>
+
+<br>
+
+Eu preparei-me tambem para partir, for&ccedil;ado sobre tudo pelas
+imperiosas necessidades dos est&ocirc;magos, que em viagens de
+explora&ccedil;&atilde;o governam tanto e mais do que as
+sociedades de
+Geographia. <br>
+
+<br>
+
+Segui quasi a Leste, e depois de marcha de duas horas, avistava uma
+povoa&ccedil;&atilde;o, e acampava na margem de um ribeiro
+perto
+d'ella. Sube que ribeiro e povoa&ccedil;&atilde;o se chamavam
+Bembe.<br>
+
+<br>
+
+Quando come&ccedil;ava a faina de cortar madeira para acampar, vi
+de
+repente os meus pr&ecirc;tos dispersarem-se em varias
+direc&ccedil;&otilde;es, fugindo espavoridos. N&atilde;o
+atinava eu com
+a causa de tal terror, e dirigi-me ao sitio onde elles trabalhavam, a
+investigar o que seria. No logar onde eu tinha mandado<br>
+
+construir o campo, milh&otilde;es da terrivel formiga chamada pelos
+Bihenos Quissonde, sahiam da terra, e d'ella fug&iacute;ram os meus
+homens. A formiga Quissonde &eacute; uma das mais temiveis feras do
+continente Africano. Dizem os naturaes, que ataca e mata o elephante,
+introduzindo-se-lhe na tromba e nos ouvidos. &Eacute; inimigo que
+se
+n&atilde;o pode combater, e atacando aos milhares, s&oacute; se
+lhe
+pode escapar na fuga. O Quissonde tem entre 6 e 8 milimetros de
+comprido, c&ocirc;r castanho-clara muito luzid&iacute;a.<br>
+
+<br>
+
+As mand&igrave;bulas d'este feroz hymen&ograve;ptero, sam
+fortissimas e de grandeza desproporcionada.<br>
+
+<br>
+
+Da sua mordedura no homem sahi logo um jacto de sangue.<br>
+
+<br>
+
+Os chefes conduzem as suas phalanges a grandes distancias, e atacam
+todo animal que encontram no seu caminho.<br>
+
+<br>
+
+Por mais de uma vez, durante a minha viagem, tive de fugir aos ataques
+d'este feroz insecto. Algumas vezes vi nos caminhos centenares d'ellas
+esfregadas aos p&eacute;s, levantarem-se, e continuarem a sua
+marcha,
+primeiro lentamente, depois com a sua celeridade ordinaria, tanta
+&eacute; a sua vitalidade.<br>
+
+<br>
+
+Vem a prop&ograve;sito falar aqui de outras formigas mais vulgares
+do que o Quissonde.<br>
+
+<br>
+
+Uma &eacute; pequena, de tr&ecirc;s milimetros a quatro de
+comprido,
+negra e como o Quissonde armada de fortes mand&igrave;bulas.
+Chamam-lhe
+os Bihenos Olunginge. &Eacute; o maior inimigo das termites, contra
+as
+quaes dirige terriveis ataques, e que vence apesar da
+despropor&ccedil;&atilde;o do seu tamanho.<br>
+
+<br>
+
+Estas pequenas formigas sam um verdadeiro beneficio, pela enorme
+destrui&ccedil;&atilde;o que causam nas larvas, nymphas e ovas
+das
+termites.<br>
+
+<br>
+
+Em alguns pontos encontrei nas habita&ccedil;&otilde;es das
+termites
+uma grande quantidade de formigas enormes, atingindo o comprimento de
+20 milimetros, que vivem em communidade com os abundantes
+nevr&ograve;pteros da &Agrave;frica Austral.<br>
+
+<br>
+
+Estas formigas, supponho eu, que, pouco dadas ao trabalho de construir
+habita&ccedil;&otilde;es, vam procurar nas
+construc&ccedil;&otilde;es
+term&igrave;ticas, abrigo e morada. <br>
+
+<br>
+
+Nenhum d'estes pequenos insectos ataca o homem
+&agrave;l&eacute;m do
+Quissonde, que o ataca sempre, e ainda nas margens do rio Bembe fez
+dispersar os meus carregadores.<br>
+
+<br>
+
+Tive pois de ir longe escolher outro sitio para acampar.<br>
+
+<br>
+
+Volt&aacute;ram da povoa&ccedil;&atilde;o do Bembe alguns
+homens que
+ali tinha enviado, com a triste nova, de que o sov&ecirc;ta dera
+ordem
+para nada me venderem.<br>
+
+<br>
+
+A fome j&aacute; se fazia sentir muito, ca&ccedil;a
+n&atilde;o
+apparecia, e apenas tiv&eacute;mos n'esse dia um punhado de
+massango,
+que tanto coube a cada um de n&oacute;s na divis&atilde;o que
+fiz, do
+pouco que obtiv&eacute;mos na margem do rio Cuito.<br>
+
+<br>
+
+Ali o paiz j&aacute; era completamente desconhecido a todos, e
+nenhumas
+informa&ccedil;&otilde;es podiamos colher do gentio esquivo.<br>
+
+<br>
+
+Reuni os meus pombeiros, e fiz-lhes ver a grande necessidade de
+alargarmos a marcha no dia seguinte, at&eacute; encontrarmos
+povoa&ccedil;&otilde;es mais hospitaleiras.<br>
+
+<br>
+
+Elles convi&eacute;ram na imperiosa necessidade, e apesar de muito
+carregada a comitiva, e enfraquecida pela falta de alimento,
+decid&iacute;ram animar a sua gente para os fazer ir avante. Havia
+dous
+dias que encontrava vestigios de ter sido outrora povoadissimo este
+paiz, pelas ruinas, j&aacute; antigas, de muitas
+povoa&ccedil;&otilde;es que encontrei.<br>
+
+<br>
+
+&iquest;O que determinaria este abandono?<br>
+
+<br>
+
+&iquest;Seria a devasta&ccedil;&atilde;o pela escravatura?
+&iquest;Seria a insalubridade do clima? &iquest;Seria a falta
+de
+ca&ccedil;a? &iquest;Seria a m&aacute; qualidade do terreno?<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o o pude saber; mas a primeira hyp&ograve;these
+parece-me a mais admissivel. <br>
+
+<br>
+
+O facto era, que essa falta de popula&ccedil;&atilde;o
+inesperada, nos
+creou o maior embara&ccedil;o, e eu n'essa noute soffri
+horrivelmente
+das torturas da fome.<br>
+
+<br>
+
+No dia immediato, tive logo de manh&atilde; o transtorno de um
+carregador doente; mas o meu Doutor Chacaiombe houve-se com toda a
+bizarria e offereceu-se para levar a carga.<br>
+
+<br>
+
+Na occasi&atilde;o de partir, apparec&ecirc;ram uns enviados do
+sov&ecirc;ta do Bembe, pedindo-me alguma cousa para elle; fiz-lhes
+ver
+o mao procedimento do sov&ecirc;ta para comigo, e mandeios
+p&ocirc;r
+fora do campo.<br>
+
+<br>
+
+Segui &aacute;s 8 horas e 40 minutos. O rio Bembe, que tinha a
+vadear,
+tem dois metros largo por um de fundo e corre a S.O. para o Cuito.<br>
+
+<br>
+
+A sua margem direita &eacute; montanha &igrave;ngreme; mas a
+esquerda,
+depois de uma trincheira quasi vertical, de 10 metros, estende-se,
+plana e paludosa, por um kil&ograve;metro.<br>
+
+<br>
+
+A marcha atravez do pa&uacute;l levou uma hora, e fatigou muito a
+faminta caravana.<br>
+
+<br>
+
+O terreno em seguida &eacute; levemente inclinado e coberto de uma
+vegeta&ccedil;&atilde;o arborescente difficil de transpor.
+Depois de
+outra hora de fatigante caminhar, comecei a descer uma encosta, a cujo
+sop&eacute; se desenrolava uma planicie, occulta por densa
+floresta.
+Desci uns 50 metros para alcan&ccedil;ar a orla da mata; mas tive
+logo
+de alterar o meu rumo. A floresta era impassavel.<br>
+
+<br>
+
+Aprovetei um difficil trilho de ca&ccedil;a, que ora me levava a
+Leste,
+ora a Noroeste, e depois a Sueste, at&eacute; que o terreno me
+faltou
+de repente.<br>
+
+<br>
+
+Um sulco profundo de cem metros, cavado pelas &agrave;guas de um
+ribeiro, tolhia-me a passagem.<br>
+
+<br>
+
+A difficuldade do caminho, o peso das cargas, e a fraqueza dos meus
+carregadores, obrig&aacute;ram-me a acampar ali.<br>
+
+<br>
+
+A fome j&aacute; se fazia sentir em todos os seus horrores. Uma
+esperan&ccedil;a todavia me animava; eu tinha visto vestigios de
+ca&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+Pouco depois de chegarmos, matou-se no campo uma cobra, que me disse o
+meu doutor ser muito venenosa; mas haver contraveneno &aacute; sua
+mordedura. Tinha um metro de comprido, e era c&ocirc;r de telha no
+dorso, tendo o ventre um pouco mais claro. Os olhos eram verdes muito
+brilhantes e a lingua bipartida.<br>
+
+<br>
+
+A b&ocirc;ca era armada de quatro dentes dispostos como as presas
+de um
+c&atilde;o. Ahi ficam os signaes d'ella para aquelles que pisarem
+um
+dia aquellas paragens.<br>
+
+<br>
+
+Era preciso ca&ccedil;ar, e eu, logo que fiz as minhas
+observa&ccedil;&otilde;es, parti para um lado, e mandei em
+outras
+direc&ccedil;&otilde;es os meus pr&ecirc;tos Augusto e
+Miguel, os
+&ugrave;nicos que t[~e]m algumas manhas de ca&ccedil;adores na
+minha
+comitiva. <br>
+
+<br>
+
+Encontrei perto do campo um grande rasto de b&ugrave;falos e
+segui-o. <br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o se faz id&eacute;a na Europa do que seja
+ca&ccedil;ar para comer. &Eacute; um prazer horrivel.<br>
+
+<br>
+
+Deve ser assim o apontar &aacute; banca, do jogador que precisa
+ganhar
+uma certa quantia para pagar uma d&igrave;vida de honra, e que
+mistura
+o febril prazer do j&ocirc;go, com a cruciante ang&ugrave;stia
+da
+incerteza. Os olhos com que elle devora as cartas que lentamente vam
+escorregando por entre os dedos do banqueiro; os olhos que queriam
+penetrar atravez da carta opaca para anticipar o desfecho da agonia da
+d&ugrave;vida, no fim da qual est&aacute; a
+salva&ccedil;&atilde;o ou a
+morte suicida; devem ter a mesma express&atilde;o dos olhos do
+ca&ccedil;ador faminto, que perscruta a floresta em busca da
+ca&ccedil;a que &eacute; para elle quest&atilde;o de vida
+ou morte.<br>
+
+<br>
+
+Ha contudo uma differen&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; que o ca&ccedil;ador faminto pode invocar em seu
+auxilio a Divindade, pode balbuciar uma s&ugrave;pplica a Deus.<br>
+
+<br>
+
+Ao passo que o ca&ccedil;ador por prazer segue descuidoso uma
+pista,
+cheio de felizes emo&ccedil;&otilde;es ao avistar o gamo que
+procura;
+caminha desassombradamente, sabendo que no sitio ajustado, um
+cozinheiro prepara &ograve;ptimos manjares; que p&aacute;ra
+aqui e
+&agrave;l&eacute;m para contemplar uma fl&ocirc;r mimosa,
+uma paizagem
+agradavel. O ca&ccedil;ador por necessidade s&oacute; pensa na
+ca&ccedil;a que, matando-a, lhe matar&aacute; a fome.<br>
+
+<br>
+
+Ao passo que um caminha curvado para chegar ao alcance do tiro, o outro
+deita-se de rastos, n&atilde;o sente os espinhos que lhe razgam as
+carnes, e por umas palhas que faz tremer, treme tambem de dar um
+alarme, e caminha devagar, devagar, reduzindo a distancia para que o
+tiro n&atilde;o falhe, com o cora&ccedil;&atilde;o a
+palpitar, e com o
+est&ocirc;mago a bradar em contors&otilde;es pungentes.<br>
+
+<br>
+
+Deve ser assim o ca&ccedil;ar do tigre e do le&atilde;o. O
+rasto que eu
+segui levou-me ao fundo do precipicio onde corre o pequeno
+c&ograve;rrego, e por muito tempo segui a sua margem direita,
+passando
+depois &aacute; esquerda, onde vi os b&ugrave;falos, que
+caminhavam
+pastando na orla de uma densa floresta virgem.<br>
+
+<br>
+
+Estavam a 500 metros de mim.<br>
+
+<br>
+
+Come&ccedil;ou ent&atilde;o esse fatigante caminhar de
+r&ocirc;jo, a
+carabina a tiracollo como que nadando n'um mar de palha curta. De
+quando em quando levantava a cab&ecirc;&ccedil;a descoberta
+para
+espreitar a minha presa, e prosseguia n'aquelle caminhar difficil cheio
+de commo&ccedil;&otilde;es. Os b&ugrave;falos pastando, ora
+caminhavam
+ora paravam, sempre na orla da mata. Se paravam que alegria, se andavam
+que desesp&ecirc;ro o meu!<br>
+
+<br>
+
+Na mente phantasiava eu chegar ao acampamento e dizer, "vam
+&aacute;
+margem do c&ograve;rrego, e l&aacute; encontrar&aacute;m
+ca&ccedil;a
+para matar a fome."<br>
+
+<br>
+
+Era uma mistura de prazer e de ang&ugrave;stia que me causava a
+incerteza horrivel.<br>
+
+<br>
+
+De repente os animaes desapparec&ecirc;ram na floresta em apressado
+trotar.<br>
+
+<br>
+
+&iquest;O que seria? &iquest;Terme-hiam presentido?<br>
+
+<br>
+
+Levantei-me e segui o rasto com a maior presteza; mas entrando na
+floresta, o meu desesp&ecirc;ro subio de ponto.<br>
+
+<br>
+
+Na mata virgem o solo coberto de musgo espesso n&atilde;o deixa
+perceber um rasto ao &ocirc;lho mais experimentado.<br>
+
+<br>
+
+Parei desanimado. Tudo o que tinha phantasiado cahio como sonho
+f&aacute;gueiro ao impertinente despertar.<br>
+
+<br>
+
+Ainda fui longe sem nada perceber de ca&ccedil;a, e perto das 6
+horas
+da tarde recolhi ao campo, prostrado de fadiga e fome, tendo andado
+inutilmente 20 kil&ograve;metros!<br>
+
+<br>
+
+Ao entrar no acampamento, achegou-se a mim o meu Augusto, mostrando-me
+radiante de alegria um soberbo ant&igrave;lope que tinha morto! Era
+uma
+enorme Malanca (<span style="font-style: italic;">Hippotragus
+equinus</span>) da corpulencia de um boi.<br>
+
+<br>
+
+Fiz immediatamente a partilha pelos meus carregadores e por mim mesmo,
+e depois de um longo jejum, que nem Deos me leva em conta por ser
+involuntario, tive um op&igrave;paro jantar, adubado pela fome, que
+faria inveja aos mais pichosos gastr&ograve;nomos.<br>
+
+<br>
+
+Miguel, o meu bravo ca&ccedil;ador de elephantes, tambem veio
+comprimentar-me; mas revelava-se-lhe no rosto a mais profunda tristeza.<br>
+
+<br>
+
+Logo que sube a causa do desesp&ecirc;ro do meu valente,
+n&atilde;o pude deixar de me consternar muito.<br>
+
+<br>
+
+Durante a ausencia de Miguel, a minha cabrinha C&oacute;ra entrou
+na
+sua tenda, e comera-lhe o grande feiti&ccedil;o que elle possuia
+para
+matar os elephantes.<br>
+
+<br>
+
+Consistia o valioso talisman em um dente humano cahido do tecto de uma
+casa velha, embrulhado em palha e trapos por um cirurgi&atilde;o de
+grande fama, que lhe tinha incutido as maiores virtudes; sendo facilimo
+ao portador de t&atilde;o extraordinario objecto, o encontrar e
+matar
+elephantes sem o menor perigo. Miguel estava inconsolavel; mas eu
+consegui tranquelizal-o, promettendo-lhe maior feiti&ccedil;o do
+que o
+perdido, para o mesmo fim.<br>
+
+<br>
+
+E n&atilde;o o enganava, pois que a boa carabina que tencionava
+dar-lhe, logo que cheg&agrave;ssemos a paiz de elephantes, valia
+bem
+por t&ocirc;dos os dentes humanos embrulhados em palha e trapos.<br>
+
+<br>
+
+Depois de comer, reun&iacute;ram-se em t&ocirc;rno da minha
+fogueira os
+meus pombeiros, e cont&aacute;ram-me, que durante a minha ausencia,
+toda a gente tinha ido ao mato, seguindo uns os&nbsp;<span style="font-style: italic;">indicators</span>, haviam
+colhido bastante mel, sendo que outros haviam feito larga colheita de
+uma fruta chamada pelos Bienos&nbsp;<span style="font-style: italic;">atundo</span>,
+semelhante &aacute; goiaba, mas produzida por uma planta herbacea
+de
+pequeno talhe. Os ped&ugrave;nculos d'esta fruta partem do caule
+junto
+&aacute; terra, e o fruto cresce semi-enterrado. O seu sabor
+&eacute;
+agradavel, n&atilde;o julgando eu que seja muito nutriente.<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 240px;" alt="" src="images/053.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.48"></a>Figura
+48.--Atundo, Planta e Fruto.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+No dia seguinte era preciso seguir avante, e por isso, apesar do frio,
+levant&aacute;mos campo muito mais c&ecirc;do que do custume.<br>
+
+<br>
+
+Segu&iacute;mos a S.E., encontrando, depois de duas horas de
+marcha, um
+rio difficil de transpor. Tinha 4 metros de largo, por 4 de fundo, e
+violenta corrente.<br>
+
+<br>
+
+Mandei cortar grandes &agrave;rvores na floresta, e pouco depois
+estava
+lan&ccedil;ada uma ponte e a comitiva passava. Pouco a jusante do
+sitio
+em que passei o rio, affluia a elle um riacho vindo de Leste. Segui a
+margem direita d'este riacho, e uma hora depois, acampava perto de duas
+povoa&ccedil;&otilde;es que avistava.<br>
+
+<br>
+
+Logo que cheg&aacute;mos, vi&eacute;ram espreitar-nos alguns
+gentios,
+com quem pud&eacute;mos falar a pedir provis&otilde;es. Pouco
+depois,
+j&aacute; apparecia no nosso campo algum massango que pretas quasi
+nuas
+vinham vender. Comprando a missanga sem regatear, em breve
+tiv&eacute;mos alimenta&ccedil;&atilde;o sufficiente para
+aquelle dia.<br>
+
+<br>
+
+Em breve se estabelec&ecirc;ram rela&ccedil;&otilde;es
+cordiaes entre
+aquelle gentio e n&oacute;s. Por elles soub&eacute;mos, que o
+ribeiro
+onde acamp&aacute;mos na v&egrave;spera se chamava
+Lic&oacute;c&oacute;toa, o rio onde n'aquelle dia
+hav&igrave;amos
+lan&ccedil;ado a ponte Nhongoaviranda, e o c&ograve;rrego em
+cujas
+nascentes est&agrave;vamos acampados Cambimbia.<br>
+
+<br>
+
+As duas povoa&ccedil;&otilde;es que ficam na margem esquerda do
+ribeiro
+sam Luchazes, aquella que ficava a N.O. do meu campo era de
+Qui&ocirc;cos ou Quib&ocirc;cos. F&ocirc;ram estes
+&ugrave;ltimos que
+vi&eacute;ram ao meu campo e com quem estava em
+rela&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Comi mais de um litro de massango cozido em &agrave;gua,
+n&atilde;o me foi desagradavel tal alimento.<br>
+
+<br>
+
+Depois de ter saciado o appetite, calculei a
+posi&ccedil;&atilde;o em
+que estaria n'aquella noute o planeta J&ugrave;piter, no momento do
+eclipse do 1^o sat&egrave;lite que eu precisava observar.<br>
+
+<br>
+
+Eu estava acampado n'uma floresta copada, que n&atilde;o me deixava
+ver os astros.<br>
+
+<br>
+
+Logo que achei pelo c&agrave;lculo a posi&ccedil;&atilde;o
+do planeta
+no momento desejado, escolhi o logar onde assentaria o meu telescopio,
+e mandei rasgar na floresta um claro sufficiente para poder fazer a
+observa&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Houve grande faina; e os meus bravos Bihenos, machado em punho,
+consegu&igrave;ram em duas horas razgar uma abertura por onde eu
+podesse dirigir o meu &ograve;culo.<br>
+
+<br>
+
+As mulh&eacute;res dos Qui&ocirc;cos ou Quib&ocirc;cos que
+vi&eacute;ram ao meu campo traziam os filhos ao lado como as
+Luchazes,
+suspensos do hombro opposto por uma faixa de casca de &agrave;rvore.<br>
+
+<br>
+
+&Agrave;l&eacute;m de massango, troux&eacute;ram ellas para
+vender umas
+raizes tuberculosas chamadas Genamba, de que os meus pretos gostavam
+muito e eu nada. N&atilde;o cultivam o milho, e alimentam-se de
+massango.<br>
+
+<br>
+
+O luxo dos penteados n&atilde;o se encontra entre os
+Quib&ocirc;cos ou
+Qui&ocirc;cos, e o seu vestir &eacute; mais miseravel do que
+entre os
+Quimbandes. As mulh&eacute;res andam nuas!<br>
+
+<br>
+
+Causar&aacute; de certo estranheza ao leitor, que eu, estando em
+pleno
+paiz dos Luchazes, lhe esteja falando em Qui&ocirc;cos. Se isso o
+admira, n&atilde;o me sorprendeu menos a mim o caso de os encontrar
+ali.<br>
+
+<br>
+
+A emigra&ccedil;&atilde;o constante dos Qui&ocirc;cos e a
+coloniza&ccedil;&atilde;o das terras Luchazes por elles,
+&eacute; um
+facto.<br>
+
+<br>
+
+O paiz dos Qui&ocirc;cos ou Quib&ocirc;cos (que lhes chamam
+indifferentemente) &eacute; collocado ao norte de Lobar, nas
+vertentes
+leste da serra da Mozamba. Livingstone fal-o cortar pelo parallelo 11
+sul, e pelo meridiano 20 leste de Greenwich.<br>
+
+<br>
+
+Os Qui&ocirc;cos sam viajantes, ca&ccedil;adores, e ousados.
+Alguns,
+descontentes com o seu paiz, emigr&aacute;ram para o sul,
+atravess&aacute;ram o Lobar, e vi&eacute;ram estabelecer-se na
+margem
+direita do Lungo-&eacute;-ungo, em paiz Luchaze. <br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o foram hostilizados, e atraz d'estes
+segu&igrave;ram-se
+outros, sendo constante h&ocirc;je a
+emigra&ccedil;&atilde;o.
+N&atilde;o par&aacute;ram ali, e segu&iacute;ram muitos
+emigrantes mais
+ao sul, indo at&eacute; ao Cubango. A maior parte da
+povoa&ccedil;&atilde;o de Darico &eacute; de
+Qui&ocirc;cos.<br>
+
+<br>
+
+Perguntando-lhes eu, &iquest;qual o motivo de abandonarem o seu
+paiz?
+diss&eacute;ram-me, que a doen&ccedil;a e a falta de
+ca&ccedil;a os
+afugentava de l&aacute;.<br>
+
+<br>
+
+Estes Qui&ocirc;cos com quem entrei em
+rela&ccedil;&otilde;es, estavam
+estabelecidos ali havia pouco, e n&atilde;o lhes sobravam as
+provis&otilde;es para venderem; mas diss&eacute;ram-me elles,
+que<br>
+
+<br>
+
+[**Nota de editor: No original h&aacute; um salto da
+p&aacute;gina 235 &agrave; 237. Trata-se de um erro de
+impress&atilde;o.]<br>
+
+<br>
+
+[**Transcriber's note: In the original book there is a gap between
+pages 235, 236 and 237... it is a printing error.]<br>
+
+<br>
+
+No alto da serra ha um espl&egrave;ndido panorama de N.E. a N.O.
+V&ecirc;-se t&ocirc;do o curso do rio Cuango, affluente do
+Lungo-&eacute;-ungo pelo sul.<br>
+
+&nbsp;<br>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 600px; height: 377px;" alt="" src="images/054.png"></span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Map.5"></a>Mappa
+5.--Disposi&ccedil;&atilde;o da &agrave;gua em Cangala</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Avista-se a bacia d'este desde Cangala at&eacute; &aacute;
+confluencia
+do Cuango, e bem assim as bacias superiores dos rios Cuito, Cuime e
+Cuiba. <br>
+
+<br>
+
+O golpe de vista &eacute; sorprendente.<br>
+
+<br>
+
+Na vertente de oeste da serra Cassara-Cai&eacute;ra a
+vegeta&ccedil;&atilde;o arb&ograve;rea &eacute;
+espl&egrave;ndida, na
+cumiada enf&egrave;zada e pobre; na vertente leste a
+vegeta&ccedil;&atilde;o arborescente e herb&agrave;cea
+verdadeiramente
+rica.<br>
+
+<br>
+
+Esta vertente leste &eacute; chamada Bongo-Iacongonz&ecirc;lo.<br>
+
+<br>
+
+Fui acampar na nascente do ribeiro Canssamp&ocirc;a, affluente do
+Cuango, e durante t&ocirc;do o trajecto d'aquelle dia
+n&atilde;o
+encontrei &agrave;gua.<br>
+
+<br>
+
+Junto ao meu campo, na outra margem do ribeiro, ficavam cinco
+povoa&ccedil;&otilde;es Luchazes.<br>
+
+<br>
+
+Estas cinco povoa&ccedil;&otilde;es sam governadas por um
+sov&ecirc;ta
+que obedece ao soba Chic&ocirc;to, cuja
+povoa&ccedil;&atilde;o &eacute;
+na confluencia do Cuango com o Lungo-&eacute;-ungo.<br>
+
+<br>
+
+As duas povoa&ccedil;&otilde;es Luchazes que ficam no Cambimbia
+obedecem ao Muene-calengo do Cuito.<br>
+
+<br>
+
+O sov&ecirc;ta Cassangassanga veio visitar-me, e trouxe-me de
+presente
+um cabrito. Dei-lhe alguma missanga com que se retirou satisfeito,
+promettendo mandar-me algum massango n'aquelle dia, e guias no
+immediato para me conduzirem a Cambuta, onde me disse eu encontraria
+muitos v&igrave;veres. Cumprio as suas promessas, n&atilde;o
+s&oacute;
+mandando o massango n'aquelle dia, como os guias no seguinte.<br>
+
+<br>
+
+O massango, dividido, deu uma pequena ra&ccedil;&atilde;o a
+cada um de
+n&oacute;s; o cabrito n&atilde;o era cousa de vulto para tanta
+gente, e
+francamente dorm&iacute;mos com fome.<br>
+
+<br>
+
+Ali cultivam massango, pouca mandioca, menos feij&atilde;o,
+bastante mamona e algum l&ugrave;pulo.<br>
+
+<br>
+
+Trabalham o ferro com bastante perfei&ccedil;&atilde;o, sendo o
+minerio encontrado no paiz.<br>
+
+<br>
+
+No dia 6 de Julho, parti a leste, e depois de tr&ecirc;s horas de
+caminho, na &ugrave;ltima das quaes segui a margem do ribeiro
+Andara-canssampoa, acampava em frente da povoa&ccedil;&atilde;o
+de
+Cambuta, junto ao rio Bic&eacute;que, que corre a N.E. para unir-se
+ao
+Cutangjo, affluente do Lungo-&eacute;-ungo. O paiz tem uma certa
+agglomera&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&atilde;o,
+que obedece ao
+sova de Cambuta. Ali pude obter bastante massango, &ugrave;nico
+alimento que cultivam em abundancia, e por isso &ugrave;nico que me
+vi&eacute;ram vender.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 280px;" alt="" src="images/055.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.49"></a>Figura
+49.--Povoa&ccedil;&atilde;o de Cambuta, Luchaze.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Nunca vi t&atilde;o grande quantidade de r&ocirc;las como ali,
+e eu
+matei muitas, carregando a arma com pedrinhas mi&ugrave;das das
+margens
+do ribeiro. Adoec&ecirc;ram-me alguns carregadores com papeira, e
+outros com gastrites, de certo provenientes da m&aacute;
+alimenta&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Entre as raparigas que vi&eacute;ram ao meu campo vender massango,
+notei algumas muito galantes e muito esbeltas.<br>
+
+<br>
+
+Andam quasi nuas, e mal se lhes percebe, n&atilde;o uma folha de
+vinha, mas um pequeno farrapo de casca de &agrave;rvore. <br>
+
+<br>
+
+Ali homens e mulh&eacute;res sem excep&ccedil;&atilde;o
+t[~e]m os
+dentes incisivos da frente cortados em tri&agrave;ngulo, de modo
+que
+estando a dentadura unida, apparece um lozango vazio, formado por os
+dois tri&agrave;ngulos cortados na frente em dentes de ambas as
+maxilas.<br>
+
+<br>
+
+O frio continuava a ser intensissimo durante a noute, e s&oacute;
+junto de grandes fogueiras podiamos repousar.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 200px; height: 242px;" alt="" src="images/056.png"></span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.50"></a>Figura
+50.--Mulh&eacute;r Luchaze de Cambuta.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, continuavam as doen&ccedil;as. Um caso bem para
+notar
+era, serem s&oacute; atacados os Bihenos, e resistirem os negros de
+Benguella, n&atilde;o t&atilde;o habituados como aquelles
+&aacute;s
+vicissitudes da vida sertaneja.<br>
+
+<br>
+
+De manh&atilde;, matou-se perto do acampamento uma ave de rapina,
+que a
+minha vista pouco experimentada n&atilde;o soube collocar em algum
+dos
+g&egrave;neros em que se divide a familia dos rapaces diurnos,
+querendo, na minha ignorancia em tal assumpto, que fosse um Gypeta,
+ainda que julgo ser &ugrave;nica a especie do g&egrave;nero
+conhecida.<br>
+
+<br>
+
+O meu p&agrave;ssaro parecia-se enormemente com o gypeta, excepto
+nas
+dimens&otilde;es que as tinha muito menores, pois contava apenas,
+de
+ponta a ponta de aza, 1 metro e 75 cent&igrave;metros.<br>
+
+<br>
+
+F&ocirc;sse o que f&ocirc;sse, foi saboreado pelos Bihenos, que
+em
+materia de gastronomia, desde o homem at&eacute; ao abutre,
+passando
+pelo crocodilo, leopardo e hyena, de tudo comem sem
+escr&ugrave;pulo.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 228px;" alt="" src="images/057.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.51"></a>Figura
+51.--Homem Luchaze de Cambuta.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+N'esse dia, como na v&egrave;spera, o tempo que me ficou livre das
+observa&ccedil;&otilde;es, empreguei-o a percorrer os
+arredores,
+levantando, como costumo, uma planta grosseira dos terrenos que avisto,
+tendo marcado tres milhas ao sul da nascente do Biceque, a nascente do
+rio Cuanavare, grande affluente do Cuito. Junto da nascente do
+Cuanavare, estive na povoa&ccedil;&atilde;o de Muenevinde,
+governada
+por uma dama, cujo marido que se chama Ungira, n&atilde;o tem voz
+activa na governa&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Eu nunca fui amante de feij&atilde;o-fradinho, mas &aacute;
+noute, de
+volta ao campo, tive um pequeno presente d'elle, e comi-o com devorador
+appetite.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<table style="width: 599px; height: 332px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td><img style="width: 400px; height: 320px;" alt="" src="images/058.png"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; vertical-align: top;">1
+e 3. Machados. <br>
+
+ <br>
+
+2. Frecha. <br>
+
+ <br>
+
+4, 4. Ferros de frecha.<br>
+
+ <br>
+
+5. Enxada.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><a name="Fig.52"></a><span style="font-weight: bold;">Figura 52.--Objectos fabricados
+pelos Luchazes.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O sova de Cambuta estava ausente em ca&ccedil;ada, e
+fiz&eacute;ram-me
+as honras da casa as suas damas, com quem conservei as mais cordiaes
+rela&ccedil;&otilde;es, obtendo d'ellas, n&atilde;o
+s&oacute; boa
+provis&atilde;o de massango, mas ainda 12 carregadores para elle, e
+dois guias para me encaminharem &aacute;s nascentes do Cuando e do
+Cubangui, affluente d'aquelle, rios que me diziam no paiz serem
+os&nbsp;<span style="font-style: italic;">maiores do
+mundo</span>.<br>
+
+<br>
+
+Permittam-me aqui agora os meus leitores duas palavras, a respeito das
+&ugrave;ltimas do per&igrave;odo anterior que sublinhei.<br>
+
+<br>
+
+O rio Cuando, de certo o maior affluente do Zambeze, n&atilde;o foi
+conhecido por mim pelas informa&ccedil;&otilde;es dos Luchazes
+de
+Cambuta; e eu, tendo sustentado a minha marcha do Bih&eacute;
+at&eacute; ali, uma grande parte do caminho f&oacute;ra e muito
+ao
+norte do trilho das caravanas Bihenas, sabia o que fazia, e onde
+deveria pouco mais ou menos ir encontrar as nascentes de t&atilde;o
+grande arteria. Devia isso &aacute;s
+informa&ccedil;&otilde;es de Silva
+Porto, que j&aacute; tinha descido aquelle rio do Cuchibi
+at&eacute;
+Liniante, levando cargas em can&ocirc;as.<br>
+
+<br>
+
+Silva Porto tinha-me assignalado as nascentes d'aquelle rio, que elle
+conhecia nos seus ter&ccedil;os medio e inferior, pouco mais ou
+menos
+no ponto em que as encontrei, e isto por
+informa&ccedil;&otilde;es
+colhidas por elle do gentio.<br>
+
+<br>
+
+Se Silva Porto podesse dar aos pontos que conhece da &Agrave;frica
+Austral, as posi&ccedil;&otilde;es traduzidas em longitudes e
+latitudes, enchiam-se facilmente os espa&ccedil;os em branco que
+ainda
+existem na carta d'aquelles paizes.<br>
+
+<br>
+
+Assim, pois, partindo de Cambuta a buscar as nascentes do Cuando, eu
+cumpria o itinerario que havia tra&ccedil;ado, e ia resolver um dos
+problemas que mais desejava resolver.<br>
+
+<br>
+
+As noticias detalhadas ia eu colhendo em caminho, as geraes essas
+j&aacute; as tinha aprendido de Silva Porto.<br>
+
+<br>
+
+Diss&eacute;ram-me os meus guias, que &igrave;amos atravessar,
+para
+&agrave;l&eacute;m do rio Cutangjo, uma regi&atilde;o
+despovoada, e por
+isso era mist&eacute;r fazer provis&otilde;es para o caminho.
+Foi essa
+informa&ccedil;&atilde;o que me levou a comprar mais massango,
+e a
+pedir 12 homens, &aacute;s mulh&eacute;res do sova.<br>
+
+<br>
+
+Parti no dia 9 de Julho &aacute;s 9 da manh&atilde;, e
+tr&ecirc;s horas
+depois passava o rio Cutangjo, e acampava na sua margem direita, junto
+da povoa&ccedil;&atilde;o de Chaquissengo. O Cutangjo tem ali 4
+metros
+de largo, por 1 de fundo, e corre a N.N.E. para o
+Lungo-&eacute;-ungo.
+Vi que nas planta&ccedil;&otilde;es havia alguma mandioca e
+muito
+massango--o terrivel massango, que tanto me havia de perseguir em
+&Agrave;frica!<br>
+
+<br>
+
+Algodoeiros e mamona cultivam muito estes Luchazes.<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 600px; height: 450px;" alt="" src="images/059.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Map.6"></a>Mappa
+6.--De Cambuta ao Cubangu&eacute;</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Trabalham o ferro, que tiram das margens do Cassongo, e as suas obras
+sam muito perfeitas.<br>
+
+<br>
+
+Quasi todos os Luchazes t[~e]m barba por baixo do queixo, e pequeno
+bigode. Vai ali desapparecendo o luxo dos penteados extraordinarios que
+at&eacute; ali faziam a minha admira&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 223px;" alt="" src="images/060.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.53"></a>Figura
+53.--Mulh&eacute;r Luchaze do Cutangjo.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Os homens usam um largo cinto de couro cru, com fivelas feitas por
+elles; cobrem com pelles a sua nudez, e abrigam-se do frio com
+licondes, que extrahem de &agrave;rvores das florestas.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o fabricam panellas, e as que usam vam obtel-as dos
+Quimbandes.<br>
+
+<br>
+
+Fazem manilhas, com cobre, que ali lhes v[~e]m permutar a
+c&ecirc;ra os Lobares, sendo que estes o obt[~e]m da Lunda.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 250px; height: 81px;" alt="" src="images/061.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.54"></a>Figura
+54.--Cachimbo Luchaze.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Fui ver a povoa&ccedil;&atilde;o de Chaquicengo, que, como
+todas do
+paiz, &eacute; muito bonita e de um grande aceio. As casas sam
+feitas
+de troncos de &agrave;rvores, de 1 metro e 20
+cent&igrave;metros de
+altura, que tanto &eacute; a altura das paredes. O intervallo da
+madeira, que &eacute; encostada uma &aacute; outra,
+&eacute; cheio, em
+umas de barro, em outras de palha. Os tectos sam de c&ocirc;lmo, e
+como
+as arma&ccedil;&otilde;es sam feitas de varas muito finas,
+fazem uma
+curva, tomando um aspecto de tectos Chinezes. Os celeiros sam
+collocados muito altos sobre uma arma&ccedil;&atilde;o de
+madeira,
+todos de palha, e de cobertura movel; pois &eacute; preciso
+levantal-a
+para ir dentro buscar os mantimentos. T[~e]m accesso por uma escada de
+m&atilde;o, e n&atilde;o sam mais do que um cesto gigantesco
+&aacute;
+prova d'&agrave;gua, em que &eacute; tampa um tecto
+c&ograve;nico.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 361px;" alt="" src="images/062.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.55"></a>Figura
+55.--Capoeira dos Luchazes.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+As capoeiras sam umas pyr&agrave;mides quadrangulares de varas
+d'&agrave;rvore, assentes em quatro pes ou estacas muito altas,
+para as
+p&ocirc;r ao abrigo dos pequenos carn&igrave;voros.<br>
+
+<br>
+
+No centro da povoa&ccedil;&atilde;o ha, como no Huambo, uma
+especie de kiosque para conversa.<br>
+
+<br>
+
+Ali, em t&ocirc;rno de uma fogueira, alguns homens preparavam arcos
+e
+frechas. Receb&ecirc;ram-me muito bem, e vi&eacute;ram-me
+offerecer uma
+bebida preparada com &agrave;gua, mel e farinha de
+L&ugrave;pulo, que
+misturam em uma caba&ccedil;a onde a deixam fermentar. Chamam-lhe
+Bingundo, e &eacute; a mais alcoh&ograve;lica que tenho
+encontrado.<br>
+
+<br>
+
+Estes Luchazes usam uma armadilha para apanhar pequenos
+ant&igrave;lopes e lebres, que &eacute; engenhosa, e bem so
+comprehende
+em vista do desenho. Chama-se Urivi.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 158px;" alt="" src="images/063.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.56"></a>Figura
+56.--Urivi, Armadilha para ca&ccedil;a.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Depois de um passeio at&eacute; &aacute;s nascentes do
+Cutangjo, voltei
+ao meu campo, acompanhado por grande n&ugrave;mero de homens e
+mulh&eacute;res que n&atilde;o cessavam de me admirar.<br>
+
+<br>
+
+Entre esta gente das margens do Cutangjo vi muitos typos masculinos de
+uma fealdade repugnante.<br>
+
+<br>
+
+Estes povos, n&atilde;o s&oacute; apanham muita c&ecirc;ra
+nas
+florestas, mas ainda collocam nas &agrave;rvores
+inn&ugrave;meras
+colmeas que fabricam com uma grossa casca de &agrave;rvore ligada
+com
+pinos de pao.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 223px;" alt="" src="images/064.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.57"></a>Figura
+57.--Luchaze do Cutandjo.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 620px; height: 324px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td><img style="width: 400px; height: 312px;" alt="" src="images/065.png"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; vertical-align: bottom;"><br>
+
+ <br>
+
+1. Bainha de faca.<br>
+
+2. Cesto. <br>
+
+3. Travesseiro de pao.<br>
+
+4. Corti&ccedil;o d'abelhas.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.58"></a>Figura
+58.--Objectos Luchazes.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+No dia 10 de Julho, parti &aacute;s 8 da manh&atilde;, e meia
+hora
+depois, apesar dos guias, andava perdido em uma floresta impassavel,
+d'onde pud&eacute;mos a muito custo sahir &aacute;s 10 horas.
+Ent&atilde;o encontr&aacute;mos terreno limpo de arbustos, mas
+coberto
+de &agrave;rvores gigantes, que nos abrigavam do sol; prazer que<br>
+
+durou pouco, porque, meia hora depois, j&aacute;
+and&agrave;vamos outra
+vez mettidos em mato t&atilde;o emmaranhado que nos deu verdadeiro
+trabalho a transpor. Emfim, &aacute;s 11 e 20 minutos, descia eu a
+vertente suave de um c&ograve;moro, em cujo sop&eacute; a
+&agrave;gua
+limosa de uma pequena lag&ocirc;a era cercada por um
+tap&ecirc;te de
+verdejantes gram&igrave;neas.<br>
+
+<br>
+
+Ao chegar ali, dei um tiro em um animal que creio se chama&nbsp;<span style="font-style: italic;">Leopardus </span><span style="font-style: italic;">jubatus</span>,
+cuja pelle veio augmentar a minha cama felina. Esta pelle, que foi
+minha cama at&eacute; Pretoria, offereci eu ao Doutor Bocage. <br>
+
+<br>
+
+Este leopardo jubatus bastante raro, porque em toda a minha viagem vi
+apenas dois, v&ecirc; muito pouco de dia, supponho eu, e supponho
+isto
+por ter notado em ambos, que, ao deparar com elles, fitavam as orelhas
+para o meu lado, em que sentiam rumor, como querendo perceber o perigo
+mais pelos org&atilde;os auditivos do que pelos visuaes.<br>
+
+<br>
+
+Abeirei-me da lag&ocirc;a, e determinei a sua
+posi&ccedil;&atilde;o,
+tendo mandado construir o meu campo uns 100 metros ao sul, sobre a
+encosta, ficando uns 30 metros sobranceiro ao pa&uacute;l, que mais
+pa&uacute;l do que lag&ocirc;a &eacute; o charco onde nasce
+o grande
+affluente do Zambeze.<br>
+
+<br>
+
+Quando trabalhava fui acommettido de um repentino e violento accesso de
+febre que me prostrou por tr&ecirc;s horas. Quando voltei a mim,
+n&atilde;o pude deixar de sorrir. Estava coberto de amuletos, tendo
+ao
+pesc&ocirc;&ccedil;o um sem-n&ugrave;mero de cornos de
+pequenos
+ant&igrave;lopes, cheios das mais virtuosas medicinas. Uma pulseira
+de
+dentes de crocodilo enla&ccedil;ava-me o bra&ccedil;o direito,
+e dois
+enormes cornos de malanca pendiam de dois paos espetados dentro da
+barraca.<br>
+
+<br>
+
+Os meus pr&ecirc;tos, durante a febre, n&atilde;o se haviam
+poupado a
+cuidados, e ouvido o doutor Chacaiombe, tinham posto tudo aquillo sobre
+mim, com a mais inteira f&eacute; no resultado.<br>
+
+<br>
+
+Uma forte dose de quinino, que tomei, determinando o meu prompto
+restabelecimento, veio corrobar mais as virtudes dos amuletos, que tudo
+a elles foi attribuido.<br>
+
+<br>
+
+Os meus pr&ecirc;tos Augusto e Miguel, tinham ido ca&ccedil;ar;
+mas
+volt&aacute;ram sem nada, tendo encontrado alguns leopardos.
+V&iacute;ram contudo muitos rastos de ca&ccedil;a grossa.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">No dia seguinte de
+manh&atilde;,
+levantei uma grosseira planta do pa&uacute;l, rectifiquei a minha
+posi&ccedil;&atilde;o, e levantei um pequeno padr&atilde;o,
+construido
+de barro, dentro da barraca das observa&ccedil;&otilde;es, onde
+enterrei um frasco que f&ocirc;ra de quinino, perfeitamente
+rolhado,
+contendo um pap&eacute;l, onde, de um lado, por baixo do nome
+d'El-Rei,
+escrevi os nomes dos membros da commiss&atilde;o central permanente
+de
+geographia, e do outro, as coordenadas do ponto, e a data.<br>
+
+<br>
+
+Depois do meio-dia, os guias Luchazes f&ocirc;ram mostrar-me a
+nascente
+do rio Queimbo, affluente do Cuando por oeste. Marquei estas nascentes,
+6 milhas geogr&agrave;phicas a S.O. do pa&uacute;l da nascente
+do
+Cuando.<br>
+
+<br>
+
+Os doze carregadores Luchazes estavam muito saudosos de suas casas, e
+queixavam-se muito do frio. O paiz &eacute; despovoado, e deve ter
+muita ca&ccedil;a, porque d'ella haviam rastos, continuando a
+apparecer
+leopardos, que d'ella sam tambem indicio certo. N&oacute;s
+n&atilde;o
+vimos nenhuma. Era preciso seguir avante, porque os mantimentos
+desappareciam r&agrave;pidamente, e precis&agrave;vamos
+alcan&ccedil;ar
+as povoa&ccedil;&otilde;es Ambuelas, para escapar &aacute;
+fome.<br>
+
+<br>
+
+Na manh&atilde; de 12 de Julho, por um frio de dois graos acima de
+zero, mandei levantar campo e preparar para partir; n&atilde;o
+conseguindo deixar o acampamento antes das 8 horas.<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 600px; height: 388px;" alt="" src="images/066.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Map.7"></a>Mappa
+7.--Pa&uacute;l da nascente do Cuando</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Milhares de periquitos esvoa&ccedil;avam nas matas e faziam uma
+chiada infernal.<br>
+
+<br>
+
+Segui a margem direita do Cuando por duas horas, e em seguida, por
+indica&ccedil;&atilde;o dos guias, passei &aacute; margem
+esquerda
+sobre uma ponte que improvis&aacute;mos de troncos de
+&agrave;rvore.<br>
+
+<br>
+
+Ali j&aacute; o rio tinha dois metros de largo por dois de fundo, e
+violenta corrente.<br>
+
+<br>
+
+Ao passar o rio, avistei uma manada de gnous, a que n&atilde;o pude
+atirar.<br>
+
+<br>
+
+Acampei ali. As margens do Cuando sam montanhosas, e desde a nascente
+at&eacute; &aacute;quelle ponto t[~e]m uma faxa
+apa&uuml;lada de 30 a
+40 metros, que deita em toda a extens&atilde;o muita
+&agrave;gua, que
+vai engrossar o rio. <br>
+
+<br>
+
+Este facto d&aacute;-se com quasi todos os rios d'aquellas
+regi&otilde;es, que recebem por aquelle meio enorme quantidade de
+&agrave;guas, de modo que, sem a elles affluirem outros, sam
+navegaveis
+a algumas milhas das pequenas nascentes.<br>
+
+<br>
+
+Na margem direita do rio vi aqui e &agrave;l&eacute;m algumas
+barreiras
+verticaes estratificadas, apresentando faxas c&ocirc;r-de-rosa,
+brancas
+e azues.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, levantei &aacute;s 8, e caminhei at&eacute; ao
+meio-dia, indo acampar junto de um c&ograve;rrego affluente do
+Cuando.<br>
+
+<br>
+
+Adoec&ecirc;ram-me alguns homens, com papeira, e outros com
+inflamma&ccedil;&otilde;es nas pernas.<br>
+
+<br>
+
+Felizmente, as cargas das provis&otilde;es tinham diminuido
+sensivelmente, e tinha carregadores de sobrecelente. Nas margens
+apa&uuml;ladas do Cuando abundavam sanguesugas, que mandei apanhar,
+para applicar a alguns doentes que d'ellas careciam.<br>
+
+<br>
+
+As matas que atravessei, e aquella em que estava acampado, eram quasi
+exclusivamente formadas de umas &agrave;rvores enormes, a que os
+Bihenos chamam Cuchibi, &agrave;rvores prestadias ao viajante
+faminto.<br>
+
+<br>
+
+O seu fruto semelha um feij&atilde;o, onde s&oacute; um
+gr&atilde;o de
+vivo escarlate est&aacute; encerrado na casca verde-escura. Este
+fruto,
+depois de uma demorada coc&ccedil;&atilde;o, separa os
+inv&ograve;lucros escarlates dos cotyl&egrave;dones brancos.
+Sam
+aquelles inv&ograve;lucros escarlates a parte comestivel d'esta
+semente.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 250px; height: 306px;" alt="" src="images/067.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.59"></a>Figura
+59.--O Cuchibi.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Sam bastante oleaginosos, e os Ambuelas e Luchazes extrahem d'elles um
+&ograve;leo que tempera a comida.<br>
+
+<br>
+
+Este fruto &eacute; de certo um grande socorro ao viajante faminto;
+mas
+n&atilde;o &eacute; para pressas, que a sua
+coc&ccedil;&atilde;o
+&eacute; demoradissima.<br>
+
+<br>
+
+Outro fruto que se encontra ali e que &eacute; bastante vulgar em
+todo o planalto, &eacute; o que os Bihenos chamam Mapole.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; produzido por uma &agrave;rvore de mediana
+corpolencia, e semelha pela c&ocirc;r e tamanho uma laranja madura.<br>
+
+<br>
+
+Um ped&ugrave;nculo bastante comprido suspende este fruto
+verticalmente
+dos ramos da &agrave;rvore. O epicarpio e o mesocarpio
+estreitamente
+ligados, formam um inv&ograve;lucro de quatro milimetros de
+espessura,
+de dureza cornea.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<img style="width: 300px; height: 242px;" alt="" src="images/068.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.60"></a>Figura
+60.--Folha e Fruto do Cuchibi.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">(Tamanho natural.)</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<br>
+
+S&oacute; com um forte machado se pode partir. No interior a parte
+comestivel &eacute; um l&igrave;quido espesso e coagulado em
+que se
+agglomeram umas sementes como as das ameixas pequenas.<br>
+
+<br>
+
+Este l&igrave;quido, de sabor agro-d&ocirc;ce, tomado em
+quantidade,
+&eacute; bastante purgativo; mas assegur&aacute;ram-me os
+Bihenos, que
+&eacute; muito nutritivo e um homem pode viver d'elle alguns dias.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, deixei o rio Cuando, que j&aacute; ali se inclina
+a
+S.S.E.; e por indica&ccedil;&atilde;o dos guias, caminhei a
+leste, para
+ir demandar as nascentes do Cubangu&iacute;, rio que elles me
+diziam
+ser muito grande.<br>
+
+<br>
+
+Depois de uma hora de marcha, passei um ribeir&atilde;o que corre
+ao
+sul, n'um terreno apa&uuml;lado de 100 metros de largo, que custou
+a
+transpor; 4 milhas &agrave;l&eacute;m, outro grande ribeiro
+corre
+parallelo ao antecedente.
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 250px; height: 307px;" alt="" src="images/069.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.61"></a>Figura
+61.--O Mapole, &Agrave;rvore e Folha.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Entre os leitos d'estes ribeiros, e bem assim entre os dos affluentes
+do Cuando, a leste, correm montanhas norte-sul, montanhas que pertencem
+a um systema mais importante, que ao norte corre leste-oeste, indo as
+suas vertentes N. terminar no valle do Lungo-&eacute;-ungo.<br>
+
+<br>
+
+Pelas 11 e meia, cheguei ao alto da serra, d'onde os guias me
+mostr&aacute;ram, muito ao longe, as nascentes do rio
+Cubangu&iacute;.
+Marquei aquellas nascentes perfeitamente a leste; e como receei
+n&atilde;o poder, chegado que f&ocirc;sse, determinar a
+latitude,
+parei, e ao meio-dia determinei a d'aquelle ponto em que estava, por
+ser a mesma das nascentes do rio, estando, como estavam, leste-oeste
+com elle.<br>
+
+<br>
+
+Pelas 2 horas da tarde, acampei junto &aacute;s nascentes, que sam
+em
+tudo semelhantes &aacute;s do Cuando. O p&agrave;ntano que
+d&aacute;
+nascente a este rio tem o seu eixo norte-sul, e estende-se por um
+kil&ograve;metro, variando a sua largura entre 80 e 100 metros.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 266px;" alt="" src="images/070.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.62"></a>Figura
+62.--Mapole, Fruto e disposi&ccedil;&atilde;o dos Ramos.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+N&atilde;o appareceu ca&ccedil;a, mas vimos d'ella muitos
+rastos, e
+durante a noute, os le&otilde;es fiz&eacute;ram um concerto
+infernal em
+t&ocirc;rno do campo. <br>
+
+<br>
+
+J&aacute; ali se distribu&iacute;ram as &ugrave;ltimas
+ra&ccedil;&otilde;es, e de n&ocirc;vo t&igrave;nhamos
+diante de
+n&oacute;s a fome.<br>
+
+<br>
+
+Os guias diziam, estarem perto as povoa&ccedil;&otilde;es, mas
+termos
+de marchar dois dias para as alcan&ccedil;ar; porque os muitos
+doentes,
+e sobre tudo o pombeiro Canhengo, que estava mal, nos impediam de
+for&ccedil;ar as marchas.<br>
+
+<br>
+
+O meu cuidado era extremo, e receiava j&aacute; que o aggravarem-se
+as
+doen&ccedil;as com a fome e com a fadiga me impedisse de
+alcan&ccedil;ar a tempo os recursos precisos.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, apesar de todos os meus esfor&ccedil;os,
+n&atilde;o
+consegui sustentar a marcha &agrave;l&eacute;m de quatro horas,
+e tive
+de acampar na margem do Cubangu&iacute;, que n&atilde;o deixei
+desde a
+sua nascente. No ponto em que acampei j&aacute; o rio conta
+tr&ecirc;s
+metros de largo por um de fundo.<br>
+
+<br>
+
+Um gnou, que matei, e algum mel que os pr&ecirc;tos
+colh&eacute;ram na
+floresta, deu minguada ra&ccedil;&atilde;o com que
+pass&aacute;mos um
+dia. <br>
+
+<br>
+
+No dia immediato continuei a seguir a margem direita do
+Cubangu&iacute;, e depois de quatro horas de marcha, acampei junto
+ao
+ribeiro Linde, em frente de tr&ecirc;s
+povoa&ccedil;&otilde;es
+Ambuelas. Mandei logo n&atilde;o s&oacute; &aacute;quellas
+povoa&ccedil;&otilde;es, mas ainda a outras que ficavam na
+margem
+direita, e apenas pud&eacute;mos obter uma escassa
+ra&ccedil;&atilde;o
+de massango.<br>
+
+<br>
+
+Todos nos diziam, que no dia seguinte chegariamos &aacute; terra do
+sova, e que elle nos daria de comer. Na confluencia do Linde
+j&aacute;
+o rio Cubangu&iacute; tem 5 metros de largo por 3 de fundo.<br>
+
+<br>
+
+Os meus doentes n&atilde;o melhoravam muito, o que n&atilde;o
+era por falta de dieta.<br>
+
+<br>
+
+Foi preciso sustentar marcha de seis horas, para alcan&ccedil;armos
+no
+dia immediato a povoa&ccedil;&atilde;o do chefe, a quem mandei
+logo um
+presente de uma farda velha de cabo de infanteria 2, que elle muito
+agradeceu, dando ordem aos seus povos para me venderem mantimentos. A
+tr&ocirc;co de missanga obtiv&eacute;mos massango, o maldito
+massango,
+que tanto me havia de perseguir. <br>
+
+<br>
+
+Despedi os meus guias, e os doze Luchazes que at&eacute; ali me
+acompanh&aacute;ram, e que se retir&aacute;ram satisfeitos com
+o que
+lhes dei. <br>
+
+<br>
+
+Elles fraterniz&aacute;ram com a gente das
+povoa&ccedil;&otilde;es
+Ambuelas, que estam ali um pouco misturadas com a ra&ccedil;a
+Luchaze.<br>
+
+<br>
+
+Em um dos dias seguintes que passei ali, acampou junto de mim uma
+grande por&ccedil;&atilde;o de familias Luchazes que se vinham
+estabelecer no paiz.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 259px;" alt="" src="images/071.png"><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.63"></a>
+Figura 63.--Moene-Cahenda, Sova de Cangamba.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">1. O que elle traz na
+m&atilde;o.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Passou ali tambem um rancho de ca&ccedil;adores, que iam para o sul
+em
+busca dos elephantes. Foi a primeira vez que ouvi falar em elephantes,
+porque todo o paiz que atravessei desde Benguella at&eacute; ao
+Cubangu&iacute;, n&atilde;o os tem, nem mesmo d'elles vi rasto
+antigo.<br>
+
+<br>
+
+Ainda assim, os taes ca&ccedil;adores diss&eacute;ram-me, que
+precisavam andar seis dias para os encontrarem.<br>
+
+<br>
+
+Dois dias depois da minha chegada, veio visitar-me o sova de Cangamba,
+Muene Cahenda, que me levava um presente de quatro gallinhas e um
+grande cesto de massango.<br>
+
+<br>
+
+Trajava a farda que eu lhe tinha enviado, e da cinta pendiam-lhe pelles
+de leopardo. Na m&atilde;o trazia elle um objecto formado de caudas
+de
+ant&igrave;lope, com que sacudia as moscas.<br>
+
+<br>
+
+A cultura &eacute; feita no paiz por homens e mulh&eacute;res,
+que, em
+pequenas planta&ccedil;&otilde;es, cultivam massango,
+algod&atilde;o,
+pouca mandioca, e ainda menos batata d&ocirc;ce.<br>
+
+<br>
+
+Trabalham muito em ferro, que extrahem das minas na margem direita do
+rio, junto das quaes passei, ao norte de Cangamba. <br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 152px;" alt="" src="images/072.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.64"></a>Figura
+64.--Chimbenzengue.<br>
+
+Machado dos Ambuelas de Cangamba.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Ao contrario dos outros povos Ganguelas, em Cangamba sam os homens que
+fazem as panellas e as mulh&eacute;res esteiras.<br>
+
+<br>
+
+Fiam o algod&atilde;o, que tecem em teares de occasi&atilde;o,
+fazendo
+uns pannos, do tamanho de toalhas de rosto, muito perfeitos.<br>
+
+<br>
+
+Vi&eacute;ram vender-me tabaco, que dizem cultivar no paiz, mas que
+eu n&atilde;o vi nas planta&ccedil;&otilde;es que visitei.<br>
+
+<br>
+
+As armas de que usam sam frechas e machadinhas.<br>
+
+<br>
+
+O Cubangu&iacute; tem, junto a Cangamba, 15 metros de largo por 6
+de fundo, e 12 metros de corrente por minuto.<br>
+
+<br>
+
+Tem peixe, a que n&atilde;o posso assignalar o feitio, porque os
+que vi
+eram s&ecirc;cos, e tinham de 40 a 50 cent&igrave;metros de
+comprido.<br>
+
+<br>
+
+Mandioca e peixe s&ecirc;co; &iexcl;que op&igrave;paro
+banqu&ecirc;te para quem andava condenado ao atroz massango!<br>
+
+<br>
+
+O rio Cubangu&iacute;, para n&atilde;o escapar &aacute; lei
+geral
+d'aquelle Continente, tem crocodilos, mas sam nada vorazes, e
+afian&ccedil;&aacute;ram-me os Ambuelas, n&atilde;o haver
+exemplo de
+uma desgra&ccedil;a causada por elles.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 145px;" alt="" src="images/073.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.65"></a>Figura
+65.--Cachimbo Ambuela.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Fui pagar a visita ao sova, que &eacute; sujeito distincto e
+symp&agrave;thico. Como me n&atilde;o vendiam sen&atilde;o
+massango,
+pedi-lhe, que me desse alguma mandioca e algumas batatas
+d&ocirc;ces,
+presente que elle me fez em minguada por&ccedil;&atilde;o,
+escusando-se
+por n&atilde;o ter mais.<br>
+
+<br>
+
+Ainda assim, chegou para tr&ecirc;s dias. &iexcl;Tr&ecirc;s
+dias de f&egrave;rias de massango!<br>
+
+<br>
+
+Tendo obtido guias, alguns carregadores, e bastante massango, decidi
+seguir &aacute;vante, no dia 22 de Julho, a demandar as
+povoa&ccedil;&otilde;es do sova Ca&uacute;-eu-hue, no rio
+Cuchibi, onde
+passa, o caminho outrora seguido por Silva Porto, e que eu abandonei no
+Cuanza, seguindo mais ao norte.<br>
+
+<br>
+
+Diss&eacute;ram-me os guias, que teria de jornadear em paiz deserto
+por
+espa&ccedil;o de 8 dias, e por isso precisava ir bem provido de
+ra&ccedil;&otilde;es. Os meus doentes tinham melhorado com o
+descan&ccedil;o e mais abundante alimenta&ccedil;&atilde;o;
+ainda
+assim, o Muene-Cahenga forneceu-me dez homens para ajudarem a carregar
+o massango de que me provi.<br>
+
+<br>
+
+Tendo-me dito os guias, que durante dois dias dev&igrave;amos
+caminhar
+na margem do rio, tive a lembran&ccedil;a infeliz de o descer
+embarcado.<br>
+
+<br>
+
+A 22 de manh&atilde;, mandei transportar o meu barco de cautchuc ao
+rio, fiz levantar campo, e tendo entregue o commando da comitiva ao
+Verissimo, dirigi-me ao barco, que tripulei com dois muleques pequenos,
+o meu Catraio, e outro pequeno de 12 annos, chamado Sinjamba, filho de
+um carregador Biheno, que escolhi por falar bem a l&igrave;ngua
+Ganguela, e poder servir-me de int&egrave;rprete, se isso
+f&ocirc;sse
+preciso.<br>
+
+<br>
+
+Declaro, que n&atilde;o foi sem uma certa
+commo&ccedil;&atilde;o que
+deixei a margem, e me lancei na corrente de um rio desconhecido, tendo
+por &ugrave;nicos companheiros duas crian&ccedil;as, e
+governando um
+barco de fragil tela. <br>
+
+<br>
+
+O rio, que nasce trinta milhas ao N., j&aacute; tem ali 15 metros
+de
+largo por 6 de fundo, e pouco a jusante, alarga a 40 e 50 metros, e
+&aacute;s vezes mais. <br>
+
+<br>
+
+O seu fundo, que var&iacute;a entre 3 e 6 metros, &eacute;
+coberto de
+area muito alva, que de certo cobre uma camada de l&ocirc;do,
+porque a
+flora aqu&agrave;tica do rio &eacute; verdadeiramente
+assombrosa.<br>
+
+<br>
+
+Muitas especies de juncos e outras plantas aqu&agrave;ticas
+enraizam no
+fundo, atravessam com suas f&ocirc;lhas e seus troncos finos,
+sempre
+agitados pela corrente, 6 metros d'&agrave;gua, e v[~e]m
+desabrochar
+&aacute; superficie, as suas fl&ocirc;res de variado colorido,
+e
+elegantes formas. Por vezes, esta pomposa
+vegeta&ccedil;&atilde;o
+occupa t&ocirc;da a largura do rio, e parece impedir a passagem. A
+principio hesitei em lan&ccedil;ar o barco s&ocirc;bre aquelle
+prado
+aqu&agrave;tico, julgando encontrar fundo e falta de
+&agrave;gua para
+navegar; mas depois que a sonda ali me accusou, ora 4 ora 6 metros de
+&agrave;gua, n&atilde;o mais duvidei em deslizar por entre
+aquelles
+jardins floridos.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 647px;" alt="" src="images/074.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Map.8"></a>Mappa
+8.--De Cangamba ao Cuchibi</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Nos pontos onde a &agrave;gua, pela
+disposi&ccedil;&atilde;o do leito,
+tem corrente insensivel, &eacute; que esta
+vegeta&ccedil;&atilde;o
+submersa se converte em verdadeira mata virgem, que prende o barco e
+n&atilde;o o deixa avan&ccedil;ar.<br>
+
+<br>
+
+Vi muitos peixes nadando ligeiros por entre as sar&ccedil;as, sendo
+alguns de mais de 60 cent&igrave;metros de comprido.<br>
+
+<br>
+
+Bandos de patos fugiam diante de mim, estranhando de certo o serem
+interrompidos n'aquellas regi&otilde;es nunca devassadas por uma
+can&ocirc;a.<br>
+
+<br>
+
+Nos juncaes das margens, milhares de passarinhos chilreavam e saltavam
+nos ramos das gram&igrave;neas, que mal se curvavam ao seu
+p&ecirc;so
+ligeiro.<br>
+
+<br>
+
+Aqui e &agrave;l&eacute;m, um p&agrave;ssaro pescador
+sustentava a
+mesma posi&ccedil;&atilde;o no ar com um r&agrave;pido
+bater d'azas,
+at&eacute; descer verticalmente com velocidade de frecha a tomar a
+pr&ecirc;sa que espreitava.<br>
+
+<br>
+
+Nos canaviaes da margem, um grande rumorejar na folhagem verde
+deixava-me perceber um ou outro crocodilo que desapparecia nas
+&agrave;guas.<br>
+
+<br>
+
+Outras vezes, aquelle rumor era seguido pelo baque de um
+c&ocirc;rpo
+que em leve salto se precipitava no pego, e mal eu tinha tempo de
+perceber uma esquiva lontra.<br>
+
+<br>
+
+O rio, cuja direc&ccedil;&atilde;o geral &eacute;
+Norte-sul, descreve
+as mais caprichosas curvas, que quadruplicam o caminho. A margem
+direita &eacute; um vasto pa&uacute;l de largura muito
+variavel, que
+&aacute;s vezes alcan&ccedil;a 1000 metros. D'ali se
+esc&ocirc;a um
+grande volume d'&agrave;goas que engrossam o rio a olhos vistas.<br>
+
+<br>
+
+Tr&ecirc;s milhas &agrave;l&eacute;m de Cangamba, vi um
+rancho de 18
+mulheres que pescavam junto &aacute; margem, peixes pequenos, com
+cestos de vime.<br>
+
+<br>
+
+Em uma das voltas do rio, percebi tr&ecirc;s ant&igrave;lopes
+desconhecidos para mim, e quando ia a tomar a carabina para lhes fazer
+f&ocirc;go, elles salt&aacute;ram na &agrave;gua e
+desapparec&ecirc;ram
+em profundo mergulho.<br>
+
+<br>
+
+Este facto causou-me a maior estranh&ecirc;za, que cresceu de ponto
+quando, no correr da viagem, por vezes divisei muitos d'aquelles
+animaes, j&aacute; nadando e mergulhando r&agrave;pidamente,
+j&aacute;
+conservando sempre a cab&ecirc;&ccedil;a submersa, e deixando
+ver
+apenas as pontas dos cornos.<br>
+
+<br>
+
+Este animal curioso, que tive depois occasi&atilde;o de matar no
+Cuchibi, e de cujos h&agrave;bitos tive algum conhecimento,
+obriga-me a
+suspender por um momento a minha narrativa, para falar d'elle.<br>
+
+<br>
+
+Chamam-lhe os Bihenos Quich&ocirc;bo, e os Ambuelas Buzi. O seu
+tamanho, no estado adulto, &eacute; o de um bezerro de um anno. O
+p&ecirc;llo &eacute; cinzento escuro, de 5 a 6
+cent&igrave;metros de
+comprido, e extremamente mac&iacute;o. Na
+cab&ecirc;&ccedil;a o
+p&ecirc;llo &eacute; mais curto, e tem s&ocirc;bre as
+fossas nasaes uma
+lista esbranqui&ccedil;ada transversal. Os cornos t[~e]m 60
+cent&igrave;metros de comprido, e a sua
+sec&ccedil;&atilde;o na base
+&eacute; semicircular, tendo a corda quasi rectil&igrave;nea.
+Conserva
+esta sec&ccedil;&atilde;o at&eacute; tr&ecirc;s-quartos
+da sua altura,
+depois do qu&ecirc; se torna quasi circular at&eacute;
+&aacute; ponta.
+O eixo medio dos cornos &eacute; recto, e formam entre si pequeno
+&agrave;ngulo. Sam torcidos em t&ocirc;rno do eixo, sem perder
+a sua
+forma rectil&igrave;nea, apresentando as arestas uma espiral de
+passo
+muito largo. <br>
+
+<br>
+
+As patas t[~e]m compridas unhas semelhantes &aacute;s do carneiro,
+e reviradas nas pontas.<br>
+
+<br>
+
+A disposi&ccedil;&atilde;o das patas e os seus
+h&agrave;bitos
+sedentarios tornam este notavel ruminante improprio para correr. A sua
+vida passa-se na &agrave;gua, e nunca se afasta muito da margem do
+rio,
+onde sahe a pastar, raras vezes de dia, e muito de noute.<br>
+
+<br>
+
+O seu sono e o seu repouso &eacute; na &agrave;gua. <br>
+
+<br>
+
+A sua potencia mergulhadora &eacute; igual, sen&atilde;o
+superior,
+&aacute; do Hippop&ograve;tamo. Durante o sono aproximam-se da
+superficie da &agrave;gua, e deixam ver fora d'ella metade dos seus
+cornos.<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 600px; height: 380px;" alt="" src="images/075.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.66"></a>Figura
+66.--O quich&ocirc;bo.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+&Eacute; muito t&igrave;mido, e acoita-se no fundo das
+&agrave;guas ao menor signal de perigo.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; facil de surprender e de matar, sendo que os
+ind&igrave;genas
+lhe dam grande ca&ccedil;a, para se aproveitarem das suas pelles,
+que
+sam magn&igrave;ficas, e da sua carne, que n&atilde;o
+&eacute; muito
+b&ocirc;a.<br>
+
+<br>
+
+Quando sahem a pastar, a sua pouca destr&ecirc;za na carreira,
+permitte
+aos ind&igrave;genas o apanharem-n-o vivo, n&atilde;o se
+defendendo no
+&ugrave;ltimo trance, como fazem quasi t&ocirc;dos os
+ant&igrave;lopes.<br>
+
+<br>
+
+A f&egrave;mea, como o macho, &eacute; armada de cornos.<br>
+
+<br>
+
+Ha muitos pontos de contacto entre a vida d'este extraordinario
+ruminante e a dos hippop&ograve;tamos seus conterr&agrave;neos.<br>
+
+<br>
+
+O rio Cubangu&iacute;, o rio Cuchibi e o alto Cuando, dam guarida a
+centenares de Quichobos, que n&atilde;o apparecem j&aacute; no
+baixo
+Cuando, nem no Zambeze. Eu explico este facto pela voracidade dos
+crocodilos no Zambeze e baixo Cuando, que em pouco tempo dizimariam
+t&atilde;o t&igrave;mido animal, se elle se afoutasse a ir
+viver nas
+&agrave;guas onde reina com absoluta soberania o carniceiro
+amphibio.<br>
+
+<br>
+
+Em uma entrevista que tive em Pretoria com um notavel
+ca&ccedil;ador de
+ant&igrave;lopes, Mr. Selous, me disse elle ter ouvido falar do meu
+ant&igrave;lope, aos ind&igrave;genas do alto Cafucue, onde lhe
+diss&eacute;ram existir um animal n'aquellas
+condi&ccedil;&otilde;es de
+vida.<br>
+
+<br>
+
+A minha pouca competencia em materia de zoologia, n&atilde;o me
+permittio fazer mais minucioso estudo de um animal, que eu julgo
+merecer a atten&ccedil;&atilde;o dos homens de sciencia pelos
+seus
+estranhos h&agrave;bitos.<br>
+
+<br>
+
+Continuando com a minha narrativa, tenho a fazer os maiores elogios ao
+meu barco Macintosh, que se portava muito bem nas &agrave;guas do
+Cubangu&iacute;; mas cuja exiguidade de formas me obrigava a uma
+posi&ccedil;&atilde;o constrangida, que, pelas 4 horas da
+tarde, me
+produzia d&ocirc;res em t&ocirc;das as
+articula&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Desde que deixei Cangamba n&atilde;o mais vi signaes da minha
+comitiva,
+e p&ecirc;las 4 horas da tarde, &aacute;s d&ocirc;res de
+uma
+posi&ccedil;&atilde;o contrafeita j&aacute; se unia um vago
+cuidado e
+uma fome bem pronunciada. Os meus pequenos remad&ocirc;res estavam
+extenuados de fadiga. Aportei &aacute; margem esqu&ecirc;rda, e
+mandei
+o muleque Sinjamba subir ao tope de uma &agrave;rvore a investigar
+se
+na outra margem se erguia o fumo do acampamento.<br>
+
+<br>
+
+Elle julgou ver o fumo a N.O., a montante por isso do sitio em que
+est&agrave;vamos.<br>
+
+<br>
+
+Torn&aacute;mos a subir o rio, e eu com muito custo pude saltar no
+pa&uacute;l da margem direita e encaminhar-me ao logar onde
+f&ocirc;ram
+assignalados os indicios de fumo.<br>
+
+<br>
+
+Teria andado um kil&ograve;metro, quando percebi vestigios da
+passagem
+da minha comitiva para o sul. Os rastos da minha cabra e dos
+c&atilde;es n&atilde;o me podiam enganar.<br>
+
+<br>
+
+Voltei ao barco e tornei a navegar rio abaixo. De v&ecirc;z em
+quando
+parava e mandava o muleque trepar a alguma &agrave;rvore da margem
+esqu&ecirc;rda, mas esta manobra repetia-se sem resultado.<br>
+
+<br>
+
+Aproximava-se a noute, e eu n&atilde;o estava sem cuidados; porque,
+&agrave;l&eacute;m da fome que sentia, receiava o dormir fora
+do campo,
+por causa dos meus chron&ograve;metros que ficariam sem corda.<br>
+
+<br>
+
+Tinha desapparecido o sol, e n'aquellas paragens o
+crep&ugrave;sculo
+&eacute; curto. Decidi acampar com os meus dous pequenos na margem
+esqu&ecirc;rda, e quando j&aacute; dava
+execu&ccedil;&atilde;o ao meu
+plano, pareceu-me ouvir o estampido de um tiro muito longe a S.O.
+Redobr&aacute;mos de esfor&ccedil;os, e pouco depois ouvia
+outro tiro,
+a que respondi.<br>
+
+<br>
+
+Ao meu tiro, vi o clar&atilde;o de outro atirado a 200 metros de
+mim.
+Dirigi para ali o barco, e deparei com o meu Augusto mettido em
+&agrave;gua at&eacute; &aacute; cinta no pa&uacute;l de
+margem direita.
+Um Biheno estava com elle. Foi grande a sua alegria ao
+v&ecirc;rem-me,
+e logo vi&eacute;ram tirar-me do barco e transportar-me
+&aacute;s
+costas por t&ocirc;do o pa&uacute;l que era largo ali.<br>
+
+<br>
+
+Foi difficil aquelle caminhar que levou meia hora, mas eu cheguei
+enxuto &aacute; margem.<br>
+
+<br>
+
+Os pequenos, depois de prenderem o barco a um canavial,
+segu&iacute;ram-nos. Disse-me o Augusto, ser longe o acampamento e
+termos de atravessar uma esp&ecirc;ssa floresta.<br>
+
+<br>
+
+Eram profundas as trevas na floresta, e difficil o caminhar por entre
+as sar&ccedil;as.<br>
+
+<br>
+
+Trope&ccedil;ar aqui, cahir &agrave;l&eacute;m, andar dez
+metros em dez
+minutos, rasgando o vestuario e a carne nos espinhos do matagal, tal
+&eacute; o jornadear &aacute; noute em mata virgem.<br>
+
+<br>
+
+Depois de uma hora de violentos esfor&ccedil;os,
+sent&iacute;mos perto tiros e grande grita.<br>
+
+<br>
+
+Eram os meus, que me buscavam.<br>
+
+<br>
+
+Fiz-lhe signal e encontr&aacute;mo-n-os.<br>
+
+<br>
+
+Vinha Verissimo Gon&ccedil;alves &aacute; frente de um grupo de
+Bihenos, que quiz&eacute;ram por f&ocirc;r&ccedil;a
+transportar-me ao
+campo, em umas andas que ali improvis&aacute;ram com troncos
+cortados
+na mata e folhagem d'arbustos.<br>
+
+<br>
+
+Assim entrei no meu acampamento, onde, &aacute; meia noute, junto
+de um bom f&ocirc;go, matava a fome de 36 horas.<br>
+
+<br>
+
+Demorei-me ali um dia, e no seguinte logo de manh&atilde; comecei a
+passagem do rio, que foi muito demorada, porque dispunha apenas para
+isso do meu pequeno barco Macintosh.<br>
+
+<br>
+
+Segui &aacute;s 9 horas na margem esqu&ecirc;rda do rio, e uma
+hora
+depois, encontrava um ribeiro nas margens do qual appareceu muita
+ca&ccedil;a; segui sempre, e pela 1 hora fui acampar junto de outro
+riacho, que como o primeiro era tributario do Cubangui.<br>
+
+<br>
+
+Aparec&ecirc;ram no meu campo dois Ambuelas ca&ccedil;adores de
+c&ecirc;ra (como elles dizem), que preven&igrave;ram os guias
+de que
+era imprudente seguir para o Cuchibi; porque, tendo morrido um
+sov&ecirc;ta pr&ograve;ximo do caminho que dev&igrave;amos
+seguir,
+est&agrave;vamos expostos aos desatinos que elles costumam praticar
+em
+taes occasi&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Vi&eacute;ram prevenir-me d'isso, mas eu, a despeito da morte de
+t&ocirc;dos os sov&ecirc;tas possiveis, resolvi seguir
+&aacute;vante, e
+effectivamente no outro dia, depois de marcha bastante
+for&ccedil;ada
+de 6 horas, alcancei a margem direita do rio Cuchibi.<br>
+
+<br>
+
+Na minha comitiva havia muita gente com uma molestia que tinha alguma
+cousa de rid&igrave;culo; 18 ou 20 pess&ocirc;as estavam com
+papeira. <br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;"><a name="Cap.VIII"></a>CAP&Igrave;TULO VIII.</span><br>
+
+</h2>
+
+<h3>AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS.</h3>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<span style="font-weight: bold;">O Cuchibi--O sova
+Ca&uacute;-eu-hue--Os Mucassequeres--Opudo
+e&nbsp;Capeu--Abundancia--Bondade dos
+ind&igrave;genas--Povoa&ccedil;&otilde;es e
+costumes--Um&nbsp;vao no
+Cuchibi--O rio Chicului--Ca&ccedil;ada--Feras--O rio
+Chalongo--Uma&nbsp;jornada atroz--As nascentes do Ninda--O
+t&ugrave;mulo de Luiz Albino--A&nbsp;planicie do
+Nhengo--Trabalhos e
+fome--O Zambeze a final.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<br>
+
+<br>
+
+Foi a 25 de Julho que acampei na margem direita do rio Cuchibi. <br>
+
+<br>
+
+O terreno que medea entre este rio e o Cubangu&iacute;,
+&eacute;
+occupado por floresta virgem, onde se nota
+vegeta&ccedil;&atilde;o
+opulentissima.<br>
+
+<br>
+
+Um naturalista bot&agrave;nico encontraria ali vasto assumpto para
+demorado estudo; tal &eacute; a variedade de plantas que crescem,
+umas
+&aacute; sombra d'outras, n'aquella brenha enorme.<br>
+
+<br>
+
+Por espa&ccedil;os o caminhar foi difficil, e mais de uma vez as
+machadas sah&iacute;ram dos fortes cintur&otilde;es de couro,
+para
+tornar transitavel um ou outro carreiro de feras.<br>
+
+<br>
+
+Ao caminhar na mata foi o meu olfato impressionado por um aroma suave e
+delicadissimo, emanado da fl&ocirc;r de uma &agrave;rvore
+abundante ali.<br>
+
+<br>
+
+Nenhuma das fl&ocirc;res conhecidas tem mais delicado aroma do que
+o da fl&ocirc;r do&nbsp;<span style="font-style: italic;">O&uacute;co</span>,
+que assim chamam os naturaes &aacute; primorosa &agrave;rvore.<br>
+
+<br>
+
+A configura&ccedil;&atilde;o da &agrave;rvore, a
+disposi&ccedil;&atilde;o das f&ocirc;lhas, as
+fl&ocirc;res, em cachos,
+e s&ocirc;bre tudo a minha ignorancia em bot&agrave;nica,
+fiz&eacute;ram-me escrever no meu diario sem
+hesita&ccedil;&atilde;o,
+&eacute; uma Acacia.<br>
+
+<br>
+
+Ha tempo, recebendo a visita do boticario da minha aldea, e vendo elle
+um dos meus albuns de desenhos, disse-me com t&ocirc;da a franqueza
+de
+alde&atilde;o: "O senhor escreveu aqui uma asneira, esta
+fl&ocirc;r
+n&atilde;o pode ser de uma acacia, porque tem s&oacute; duas
+p&egrave;talas e tr&ecirc;s estames, e deve saber, que a acacia
+produz
+fl&ocirc;res de cinco p&egrave;talas, e dez estames; por isso
+entra na
+familia das Papilion&agrave;ceas, e h&ocirc;je entra na classe
+das
+Leguminosas, e eu vou-lhe buscar o meu&nbsp;<span style="font-style: italic;">de Candolle</span>..."
+N&atilde;o v&aacute;, lhe disse eu, acredito-o s&ocirc;bre
+palavra, e
+como ahi vai representada a fl&ocirc;r, n&atilde;o me metterei
+a querer
+classifical-a.<br>
+
+<br>
+
+<span style="font-weight: bold;">
+</span>
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 300px; height: 234px;" alt="" src="images/076.png"></span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"></span></div>
+
+<div style="text-align: center;">
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.67"></a>Figura
+67.--O&uacute;co.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">Fl&ocirc;r dez vezes
+augmentada. As
+fl&ocirc;res formam cachos de 3 cent. de comprido por 15^{mm.} de
+di&agrave;metro. P&egrave;talas brancas, ovario e estames
+castanhos,
+perfume delicioso.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Esta &agrave;rvore, cujas fl&ocirc;res cubicei para offerecer
+&aacute;s
+damas da Europa, n&atilde;o a encontrei antes d'este ponto, e
+desappareceu no curso superior do rio Ninda.<br>
+
+<br>
+
+Outra &agrave;rvore que encontrei ali e que chamou a minha
+atten&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o pelo aroma das
+fl&ocirc;res, mas
+pelo g&ocirc;sto dos frutos, foi uma que os naturaes
+chamam&nbsp;<span style="font-style: italic;">Opumbulume</span>.<br>
+
+<br>
+
+O fruto &eacute; em tudo semelhante ao Mapole, que j&aacute;
+descrevi,
+sendo o seu g&ocirc;sto differente, e muito mais differente a
+&agrave;rvore que o produz.<br>
+
+<br>
+
+O rio Cuchibi apresenta um aspecto differente do dos outros affluentes
+do Cuando at&eacute; ao ponto em que os visitei.<br>
+
+<br>
+
+Corre no meio de uma planicie que encosta &aacute;s vertentes
+d&ocirc;ces de montanhas cobertas de esp&ecirc;sso mato.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 244px;" alt="" src="images/077.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.68"></a>Figura
+68.--Opumbulume.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+A planicie completamente enxuta, e n&atilde;o apa&uuml;lada,
+como quasi
+t&ocirc;das as que fazem margem aos seus cong&egrave;neres da
+&Agrave;frica de Sudoeste, ch&ecirc;ga por vezes a alargar-se
+em oito
+kil&ograve;metros de extens&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+O rio serpea ali, n&atilde;o em curvas de curto raio como o
+Cubangu&iacute;, mas em pouco ondulada linha, que ao longe faz
+parecer
+rectil&igrave;nea a sua directriz.<br>
+
+<br>
+
+Uma pomposa vegeta&ccedil;&atilde;o herb&agrave;cea vai
+terminar nas
+escarpas do leito, onde corre uma &agrave;gua cristallina, deixando
+perceber o fundo de area branca. Carece completamente da flora
+aqu&agrave;tica que abunda no Cubangu&iacute;, n&atilde;o
+sendo
+inferior a sua fauna, de que falarei mais tarde.<br>
+
+<br>
+
+Havia ca&ccedil;a e fiz uma b&ocirc;a ca&ccedil;ada, pois
+que matei um
+songue, ant&igrave;lope vulgar nas margens do Cuando e nas dos seus
+affluentes.<br>
+
+<br>
+
+Aparec&ecirc;ram-me n'aquelle dia alguns homens queixando-se de uns
+tum&ocirc;res que se desenvolviam nas
+articula&ccedil;&otilde;es das
+pernas, e os impediam de andar. Felizmente, o gasto de mantimentos
+j&aacute; me deixava livres outros homens, que tom&aacute;ram
+as cargas
+d'aquelles.<br>
+
+<br>
+
+Uma grande parte dos meus carregadores tinham feridas s&ocirc;bre
+as
+t&igrave;bias, s&ocirc;bre a cab&ecirc;&ccedil;a do
+proneo e
+tend&atilde;o d'Achilles, que n&atilde;o havia meio de curar.
+Debalde
+esgotei t&ocirc;da a minha sciencia m&egrave;dica, emprestada
+do
+Chernoviz, e debalde o meu doutor Chacaiombe reunio os seus
+medicamentos selvagens, aos mais estupendos processos de
+feiti&ccedil;aria, ellas a tudo resist&iacute;ram.<br>
+
+<br>
+
+Eu attribui o caso a duas causas, e n&atilde;o sei se atribuia bem.
+Em
+primeiro logar, o constante exercicio de andar, pensei eu ser uma; em
+segundo logar, a alimenta&ccedil;&atilde;o seria outra.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o julguem os meus leitores que lhes vou falar contra o
+innocente Massango. N&atilde;o, sou muito leal inimigo para atacar
+na
+ausencia aquelle que tanto me perseguio. Deixo em paz o Massango,
+n&atilde;o &eacute; elle offensivo, e creio mesmo que
+&eacute;
+b&ocirc;a dieta.<br>
+
+<br>
+
+A alimenta&ccedil;&atilde;o a que me refiro, e &aacute;
+conta de quem
+deito em parte a inutilisa&ccedil;&atilde;o dos meus
+esfor&ccedil;os e
+dos do doutor Chacaiombe, em curar os meus doentes, &eacute; outra.<br>
+
+<br>
+
+Os Bihenos, como j&aacute; tive occasi&atilde;o de dizer, comem
+de tudo
+e de todas as carnes em estado de putrefac&ccedil;&atilde;o. <br>
+
+<br>
+
+Ainda que repugne um facto que vou narrar, mostra elle bem a que grao
+sobe o g&ocirc;sto do Biheno pela carne.<br>
+
+<br>
+
+A minha cadella Traviata t&ecirc;ve em caminho oito
+cach&ocirc;rros
+mortos. Mandei-os enterrar pelo meu Augusto, em sitio occulto, para os
+subtrahir &aacute; voracidade dos meus Bihenos; mas dois d'elles,
+do
+acampamento seguinte, volt&aacute;ram atraz, logr&aacute;ram
+descobrir
+o sitio onde elles f&ocirc;ram enterrados, e
+lev&aacute;ram-n-os;
+fazendo com aquella carne um banqu&ecirc;te. As termites comem
+elles
+cruas &aacute;s m&atilde;os cheias, e apreciam muito os ratos.<br>
+
+<br>
+
+Na ordem dos roedores ha um que elles muito procuram, e &eacute; um
+rato pequeno de farta cauda sedosa, que vive nas tocas das abelhas, as
+quaes n&atilde;o aggride.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 180px;" alt="" src="images/078.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.69"></a>Figura
+69.--O Rato mencionado.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O ponto do rio Cuchibi onde eu estava acampado &eacute; despovoado
+de
+gente, e diziam-me os guias, que s&oacute; depois de quatro dias de
+marcha lograriamos alcan&ccedil;ar as
+povoa&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+No dia immediato, segu&iacute;mos viagem rio-abaixo pela margem
+direita.<br>
+
+<br>
+
+A meia jornada, n'esse dia, notei eu que me faltava muita gente. Mandei
+fazer alto, e voltei atraz a indagar do caso; quando deparo em um mato
+com muitos dos meus, que compr&aacute;ram a uns Ambuelas, carne de
+Quich&ocirc;bo, a tr&ocirc;co de cartuxos que me tinham furtado.<br>
+
+<br>
+
+Fug&iacute;ram, ao ver-se descobertos; mas menos destros pude
+alcan&ccedil;ar o pombeiro Chaqui&ccedil;onde e o meu doutor
+Chacaiombe. Este lan&ccedil;ou-se de jo&ecirc;lhos a pedir
+perd&atilde;o, mas o sec&uacute;lo Chaqui&ccedil;onde tirou
+do machado
+para me agredir.<br>
+
+<br>
+
+Dei-lhe t&atilde;o forte pancada na cab&ecirc;&ccedil;a com
+a coronha
+da arma, que elle cahio por terra atordoado, e eu julgei-o
+m&ocirc;rto;
+n&atilde;o me causando tanta impress&atilde;o ter
+m&ocirc;rto um homem
+em defensa propria, como o ter sido isso por uma
+insubordina&ccedil;&atilde;o, a primeira que se dava comigo.
+Voltei
+&aacute; comitiva, que mandei acampar, e fiz transportar ao campo o
+s&eacute;culo Chaqui&ccedil;onde, que vinha banhado em sangue
+de larga
+ferida produzida pela pancada.<br>
+
+<br>
+
+Fiz-lhe um curativo, e reconheci que n&atilde;o era de
+circunstancia o
+ferimento, porque feridas na cab&ecirc;&ccedil;a, quando
+n&atilde;o
+matam logo, em breve cicatrizam. Reuni depois os pombeiros, por quem
+fiz julgar o delicto do culpado, sendo a maioria de voto, que elle
+devia ser condenado &aacute; morte. Outros entenderam, que lhe
+deveria
+mandar dar muita pancada.<br>
+
+<br>
+
+Mandei-o comparecer, fil-o reconhecer a sua culpa, e perdoei-lhe. A
+minha generosidade produzio geral assombro.<br>
+
+<br>
+
+No dia seguinte, sustentei marcha de seis horas, sempre na margem
+direita do rio.<br>
+
+<br>
+
+Continuava de apparecer bastante ca&ccedil;a muito esquiva. Matei
+um&nbsp;<span style="font-style: italic;">songue</span>.<br>
+
+<br>
+
+Este elegante ant&igrave;lope differe bastante d'aquelle a que os
+Bihenos dam o mesmo nome entre a Costa e o Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Tem 1 metro e 50 cent&igrave;metros de altura na agulha, e 1 e 40
+da agulha &aacute; raiz da cauda.<br>
+
+<br>
+
+O p&ecirc;llo curto &eacute; amarello torrado, e de tinta
+igual. Medi
+alguns saltos de 5 metros, e vi-os saltar por s&ocirc;bre um
+canavial
+de 2 metros de alto.<br>
+
+<br>
+
+No momento do&nbsp;<span style="font-style: italic;">hallali</span>
+defende-se e ataca raiv&ocirc;so. A sua carne &eacute;
+saborosa, mas,
+como a de t&ocirc;dos os ant&igrave;lopes, muito s&ecirc;ca.<br>
+
+<br>
+
+Vive em manadas, sempre na planicie, e tem vigias em quanto pasta. <br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 249px;" alt="" src="images/079.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.70"></a>Figura
+70.--Songue.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 122px;" alt="" src="images/080.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.70A"></a>Figura
+70A.--Rasto do Songue.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+S&oacute; muito perseguido se embrenha nas matas, ou atravessa um
+rio a nado.<br>
+
+<br>
+
+Este ant&igrave;lope desapparece completamente
+&agrave;l&eacute;m do curso superior do rio Ninda.<br>
+
+<br>
+
+Segui no dia immediato. &Aacute; medida que ia descendo o rio, vi
+que a planicie marginal mais e mais se alargava.<br>
+
+<br>
+
+N'ella pastam bandos de ant&igrave;lopes, predominando os&nbsp;<span style="font-style: italic;">songues</span>.<br>
+
+<br>
+
+N'esse dia j&aacute; se sentia grande falta de v&igrave;veres,
+e
+com&ecirc;ram-se as &ugrave;ltimas ra&ccedil;&otilde;es
+de massango.<br>
+
+<br>
+
+Finalmente, a 29 de Julho, depois de tr&ecirc;s horas de marcha,
+fui
+acampar em frente das povoa&ccedil;&otilde;es de
+Ca&uacute;-eu-hue,
+onde reside o sova do Cuchibi.<br>
+
+<br>
+
+Antes de falar dos povos Ambuelas, e d'um rico paiz atravessado pelo
+Cuchibi, quero dizer duas palavras do meu modo de viajar, ou antes da
+minha vida em &Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; certo que t&ocirc;dos os meus predecess&ocirc;res
+t[~e]m tido
+o seu systema, e aquelles que me seguirem ter&aacute;m o seu,
+t&ocirc;dos &ograve;ptimos.<br>
+
+<br>
+
+A minha vida, salvas raras excep&ccedil;&otilde;es, foi a
+seguinte.
+Levantava-me &aacute;s 5 horas, despia-me (porque dormia sempre
+vestido
+e armado), e tomava banho em &agrave;gua &aacute; temperatura
+de 33
+cent&igrave;grados.<br>
+
+<br>
+
+Os Inglezes tomam banho em &agrave;gua fria, que &eacute; mui
+t&ograve;nica; eu por mim, lavo-me por aceio, e n&atilde;o uso
+da
+hydropathia; para isso tinha uma chaleira de ferro que me servia para
+aqu&egrave;cer a &agrave;gua. Narrando o meu viver Africano,
+falarei de
+alguns objectos que a elle estavam estreitamente ligados. O primeiro,
+depois da chaleira, era a minha banheira de cautchuc, fabricada pela
+casa Macintosh de Londres. Era um traste preci&ocirc;so, que,
+depois de
+t&atilde;o aturado servi&ccedil;o, ainda se acha h&ocirc;je
+em
+&ograve;ptimo estado.<br>
+
+<br>
+
+Coisa de borracha fabricada em Inglaterra &eacute; assim.<br>
+
+<br>
+
+Depois do banho, passava ao meu&nbsp;<span style="font-style: italic;">toilet</span>.
+A bacia era cortada em uma caba&ccedil;a de 50
+cent&igrave;metros de
+di&agrave;metro. As toalhas eram de finissimo linho de
+Guimar&atilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Esc&ocirc;vas, esponjas, sabon&ecirc;tes e perfumarias (eu em
+&Agrave;frica usava muito de perfumarias), eram de primeira
+qualidade,
+fornecidas pelo Carlos Godefroy, que vende tudo muito caro, mas muito
+bom. Terminado o meu <span style="font-style: italic;">toilet</span>,
+a que assistia o meu criado de quarto Catraio, guardava elle
+cuidadosamente t&ocirc;dos os objectos de que eu me tinha servido,
+e
+vinha apresentar-me os chron&ograve;metros, therm&ograve;metros
+e
+bar&ograve;metro.<br>
+
+<br>
+
+Dava corda, e comparava os primeiros, registrava as
+indica&ccedil;&otilde;es dos segundos.<br>
+
+<br>
+
+A esse tempo j&aacute; o meu muleque P&eacute;p&eacute;ca
+tinta feito o ch&aacute;, e vinha apresentar-m'-o.<br>
+
+<br>
+
+Figura aqui um objecto a que eu ligava a maior importancia. Era uma
+ch&agrave;vena de porcelana, ch&agrave;vena que me foi
+offerecida pela
+esp&ocirc;sa do tenente Rosa, em Quillengues.<br>
+
+<br>
+
+Fina como uma f&ocirc;lha de pap&eacute;l, transparente e
+elegante,
+aquella ch&agrave;vena fazia as minhas delicias, tornando mais
+saborosa
+a infus&atilde;o das f&ocirc;lhas do arbusto Chinez.<br>
+
+<br>
+
+Depois de tomar tr&ecirc;s ch&agrave;venas de ch&aacute;
+v&ecirc;rde,
+sem assucar, porque o n&atilde;o tinha, fechava as malas, e dava
+ordem
+de partida; partida, que raras vezes se effeituava antes das 8 horas,
+por ser impossivel arrancar os carregadores de junto das fogueiras,
+onde os prendia um frio intenso.<br>
+
+<br>
+
+Part&igrave;amos pelas 8 horas. Na frente da comitiva o
+pr&ecirc;to
+Cahinga, de Silva Porto, levantava a bandeira, e logo ap&oacute;s
+elle
+seguiam as caixas de cartuxos, a pao e corda. Iam ap&oacute;s os
+outros
+carregadores indistinctamente a um de fundo, fechando a marcha eu, o
+Verissimo, e os pombeiros.<br>
+
+<br>
+
+O carregador que por qualqu&eacute;r motivo tinha de deixar o
+caminho,
+pousava a carga, e era isso signal para junto d'ella parar o pombeiro a
+quem elle pertencia, que depois o acompanhava.<br>
+
+<br>
+
+Durante o caminho observava os meus rumos, e calculava as minhas
+marchas, combinando o ped&ograve;metro com o relogio. As marchas
+regulares eram entre 8 e 10 milhas geogr&agrave;phicas, sendo
+elevadas
+a muito mais quando as circunstancias o exigiam. A tempo acampava, e
+durante uma hora durava a faina de construir barracas.<br>
+
+<br>
+
+Era um cortar de madeira, de ramos e de erva que durava uma hora. Se
+n&atilde;o tinha observa&ccedil;&otilde;es a fazer,
+estendia-me
+horizontalmente na erva vi&ccedil;osa, e dormia at&eacute; me
+virem
+prevenir que estava prompta a barraca.<br>
+
+<br>
+
+Geralmente a barraca estava prompta &aacute; uma hora; tinha pois
+de
+esperar algum tempo para fazer as minhas
+observa&ccedil;&otilde;es para
+o boletim meteorol&ograve;gico, que era feito a 0^{h.} 43^{m.} de
+Greenwich.<br>
+
+<br>
+
+Para saber a hora consultava um relogio que o Pereira de Mello me
+mandara de Benguella para o Bih&eacute;, relogio de
+lat&atilde;o, puro
+cylindro de construc&ccedil;&atilde;o helv&egrave;tica,
+oito rubins
+etc., que trabalhava desembara&ccedil;adamente.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute; hora precisa, chamava o Catraio, que me trazia os
+instrumentos, e usando eu de um therm&ograve;metro de funda, que
+pertenc&ecirc;ra ao infeliz Bar&atilde;o de Barth, quando eu
+fazia
+girar o therm&ograve;metro, juntavam-se sempre a distancia
+t&ocirc;dos
+os carregadores Bihenos, que contemplavam pasmados aquella
+opera&ccedil;&atilde;o, que eu repetia t&ocirc;dos os dias,
+e elles
+t&ocirc;dos os dias vinham contemplar pasmados.<br>
+
+<br>
+
+Logo que registava as observa&ccedil;&otilde;es, vinha o meu
+muleque
+Moero com os pratos, e a ra&ccedil;&atilde;o, que eu
+n&atilde;o quero
+chamar jantar, aquelle punhado de massango cozido em &agrave;gua.<br>
+
+<br>
+
+Depois da refei&ccedil;&atilde;o, se a fadiga me impedia de ir
+ca&ccedil;ar e percorrer os arred&ocirc;res, empregava o tempo
+passando
+as notas do dia para o diario, calculando as
+observa&ccedil;&otilde;es,
+desenhando, etc. A tinta que eu empreguei em t&ocirc;dos os meus
+trabalhos, foi a dos pequenos tinteiros m&agrave;gicos, cada um dos
+quaes me durava de dois a tr&ecirc;s mezes. <br>
+
+<br>
+
+Este systema de fazer apontamentos durante as marchas e durante o dia,
+que depois passava ao diario, dava em resultado, o ter eu um duplicado
+dos meus trabalhos, e de haver sempre a possibilidade de se salvar um,
+se o outro se perdesse. Os apontamentos diarios eram feitos a lapis, em
+pequenos quadernos, que eu ia lacrando e sellando &aacute; medida
+que
+os prehenchia. Nelles, &agrave;l&eacute;m dos factos, estavam
+registradas t&ocirc;das as observa&ccedil;&otilde;es
+iniciaes,
+j&aacute; astron&ograve;micas, j&aacute;
+meteorol&ograve;gicas. Estes
+cadernos, que ao deixar Durban enviei a Portugal por via de Inglaterra,
+cheg&aacute;ram a salvo a Lisboa, onde ainda estam por abrir, ao
+passo
+que a copia desenvolvida do que elles cont[~e]m, sempre me acompanhou,
+e est&aacute; servindo de norma ao que estou escrevendo agora.<br>
+
+<br>
+
+Foi-me preciso fazer esta viagem, para saber o quanto vale o tempo, e
+para quanto elle ch&ecirc;ga sendo bem aproveitado.<br>
+
+<br>
+
+Vinha &aacute; noute, e ent&atilde;o crepitava na minha barraca
+grande
+fogueira, que me proporcionava calor e luz. Se eu n&atilde;o tinha
+observa&ccedil;&otilde;es a fazer durante a noute, ou, muitas
+vezes, se
+a fadiga obrigava o repouso a preterir tudo o que houvesse a fazer, ia
+deitar-me sobre as pelles de leopardo que formavam a minha cama, tendo
+por travesseiro a pequena malinha em que guardava os meus papeis.<br>
+
+<br>
+
+Um h&agrave;bito que adquiri em viagem, de envolta com o frio da
+ante-manh&atilde;, faziam-me regularmente acordar &aacute;s
+tr&ecirc;s
+horas. Levantava-me ent&atilde;o e reaccendia a fogueira
+amortecida.
+Vinha &aacute; porta da barraca, onde via um therm&ograve;metro
+deixado
+f&oacute;ra, e que a essa hora me dava uma m&igrave;nima muito
+approximada. Eu n&atilde;o tinha therm&ograve;metros de
+m&agrave;xima e
+m&igrave;nima, e sam apenas approximadas estas duas
+indica&ccedil;&otilde;es thermom&egrave;tricas que v[~e]m
+nos meus
+boletins; sendo a temperatura m&agrave;xima approximada a que se
+fazia
+sentir &aacute; 1^{h.} e meia, proximamente &aacute; hora do
+meu
+boletim a 0^{h.} 43^{m.} do tempo de Greenwich.<br>
+
+<br>
+
+Depois das 3 horas at&eacute; &aacute;s 5, o meu tempo era
+passado
+junto ao f&ocirc;go, fumando ininterrompidamente 10 ou 12 cigarros,
+e
+pensando na minha patria e nos meus.<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;Quantas vezes a essa hora, hora para mim de
+medita&ccedil;&atilde;o e tristeza, n&atilde;o cogitava eu
+no futuro do
+meu emprehendimento!<br>
+
+<br>
+
+Estava ent&atilde;o no Cuchibi, 20 graos a leste de Greenwich, e 14
+e
+meio ao sul do equador. Estava longe de t&ocirc;do o soccorro que
+carec&ecirc;sse, &iquest;onde iria buscar recursos para seguir
+&aacute;vante?<br>
+
+<br>
+
+Do Bih&eacute; at&eacute; ali ainda tive a pouca fazenda de
+algod&atilde;o de que dispunha; mas as &ugrave;ltimas
+pe&ccedil;as
+estavam diante de mim. Eram o meu &ugrave;ltimo dinheiro.<br>
+
+<br>
+
+Em t&ocirc;dos os povos encontrei mais ou menos facilidade de
+permutar
+o alimento pela fazenda de algod&atilde;o, sendo a preferida o
+zuarte,
+o zuarte pintado e o algod&atilde;o branco ordinario.<br>
+
+<br>
+
+Raras vezes querem os riscados e a fazenda de lei. O buzio
+mi&uuml;do
+(caurim), que tem muito valor entre os Quimbandes, e muito pouco entre
+os Luchazes, recupera no Cuchibi a sua importancia, para emprego bem
+diverso d'aquelle que lhe dam os primeiros d'estes povos.<br>
+
+<br>
+
+Ali &eacute; para ornamentar as cabe&ccedil;as, aqui
+&eacute; para fazer cintur&otilde;es, em que ha grande luxo.<br>
+
+<br>
+
+A missanga Maria 2^a tem grande valor em toda a parte; mas no Cuchibi
+&eacute; preferida a tudo, excepto &aacute; p&ograve;lvora.
+<br>
+
+<br>
+
+Chegando ao Cuchibi, cheguei ao primeiro ponto em que n'esta viagem me
+ped&iacute;ram manilhas de cobre e arame para ellas.<br>
+
+<br>
+
+Logo depois de ter estabelecido o meu campo, appareceu n'elle um homem
+que veio falar-me, dizendo ser Biheno e ter ficado ali doente, deixado
+por uma comitiva, havia tr&ecirc;s annos.<br>
+
+<br>
+
+Foi reconhecido por muitos dos meus carregadores, e engajou-se ao meu
+servi&ccedil;o.<br>
+
+<br>
+
+Eu estava no caminho das comitivas do Bih&eacute;, e como
+tencionava
+demorar-me alguns dias, mandei um pequeno presente ao sova, e
+participar-lhe a minha resolu&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Sube pelo Biheno que me appareceu, que corria a noticia de ter havido
+uma revolu&ccedil;&atilde;o no Bar&ocirc;ze, tendo sido
+expulso o
+r&egrave;gulo Man&aacute;uino, e acclamado um outro de que
+n&atilde;o
+se conhecia por ora o caracter. <br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o me foi agradavel esta noticia, porque eu sabia que
+Man&aacute;uino era feroz e sanguinario com os seus, mas
+hospitaleiro
+para com estranhos.<br>
+
+<br>
+
+Estes Ambuelas, entre os quaes estava, sam a pura ra&ccedil;a
+Ambuela,
+porque as do Cubangui estam muito misturadas com a ra&ccedil;a
+Luchaze.<br>
+
+<br>
+
+Sam os habitantes do Cuchibi inimigos dos Ambuelas de Oeste, e muitas
+vezes v[~e]m &aacute;s m&atilde;os.<br>
+
+<br>
+
+A ra&ccedil;a Ambuela occupa t&ocirc;do o paiz banhado pelo
+Cuando
+superior, e est&aacute; agglomerada, s&ocirc;bre tudo na parte
+em que
+este rio recebe os seus confluentes, Queimbo, Cubangui, Cuchibi, e
+Chicului.<br>
+
+<br>
+
+As povoa&ccedil;&otilde;es no rio Cubangui sam construidas,
+j&aacute;
+nas ilhas do rio, j&aacute; no mesmo rio sobre estacaria. Sendo
+estes
+povos os &ugrave;nicos que possuem can&ocirc;as, dormem de
+noute
+descan&ccedil;ados nas suas habita&ccedil;&otilde;es
+aqu&agrave;ticas,
+sem receio de serem atacados.<br>
+
+<br>
+
+O sova mandou-me logo provis&otilde;es e bastante milho.
+&iexcl;Com que prazer eu comi um prato de milho cozido!<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;Estava por algum tempo livre do fatal massango!<br>
+
+<br>
+
+Mandou elle dizer, que viria visitar-me no dia immediato.<br>
+
+<br>
+
+N'esse dia, logo de manh&atilde;, sahi a dar um passeio.<br>
+
+<br>
+
+O emmaranhado da brenha espinhosa tornava difficil o caminhar na
+floresta.<br>
+
+<br>
+
+Ainda assim, afastei-me uns tr&ecirc;s kil&ograve;metros do
+acampamento, e fui deparar com uma enorme armadilha de apanhar
+ca&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+Era ella formada por uma sebe que devia ter alguns
+kil&ograve;metros de
+extens&atilde;o, fechando um espa&ccedil;o
+pr&ograve;ximamente
+circular. Este cercado enorme tinha de 20 em 20 metros,
+pr&ograve;ximamente, umas aberturas, em cada uma das quaes estava
+armado um Urivi, armadilha em que a ca&ccedil;a, lebres e
+ant&igrave;lopes pequenos, sam esmagados por um pesado
+c&ecirc;po.
+Reunida muita gente fazem uma grande batida no mato, e ent&atilde;o
+a
+ca&ccedil;a foge espavorida, e n&atilde;o podendo saltar o
+cercado,
+investe com as aberturas, onde v&igrave;ctima &eacute; dos
+Urivis ali
+collocados.<br>
+
+<br>
+
+De volta ao meu campo, encontrei no mato um acampamento de
+Mucassequeres, abandonado de ha pouco. <br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<img style="width: 200px; height: 222px;" alt="" src="images/081.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.71"></a>Figura
+71.--Muene-Ca&uacute;-eu-hue, Chefe dos Ambuelas.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Recebi a visita do sova, homem de idade avan&ccedil;ada, de typo
+symp&agrave;thico, com um perfil judaico. Vinha bem vestido,
+trazendo
+s&ocirc;bre uma farda um casaco de linho branco, e ao
+pesc&ocirc;&ccedil;o um grande e vistoso len&ccedil;o. <br>
+
+<br>
+
+Cubria-lhe a cab&ecirc;&ccedil;a um barr&ecirc;te de listas
+pr&ecirc;tas e encarnadas. Na m&atilde;o trazia uma concertina
+de que
+tirava sons desordenados.<br>
+
+<br>
+
+Deu-me n&ocirc;vo presente, de milho, mandioca, feij&atilde;o e
+gallinhas, que eu retribui dando-lhe algumas cargas de
+p&ograve;lvora,
+o mais estimado presente que se pode fazer no Cuchibi.<br>
+
+<br>
+
+Retirou-se o velho muito satisfeito, promettendo avistar-nos mais vezes.<br>
+
+<br>
+
+Disse-me elle n'esta primeira visita, que os reis do Bar&ocirc;ze,
+mandam ali receber tributos, e que elle, para evitar guerra, lh'os
+manda pagar, estando assim estabelecida uma especie de vassalagem; que,
+havia pouco, soubera da revolu&ccedil;&atilde;o do Zambeze, mas
+n&atilde;o conhecia o n&ocirc;vo potentado, e nenhumas
+informa&ccedil;&otilde;es me podia dar d'elle.<br>
+
+<br>
+
+N'essa tarde, os meus pr&ecirc;tos prend&ecirc;ram no mato dous
+Mucassequeres que troux&eacute;ram &aacute; minha
+presen&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+Os dous pobres selvagens tremiam de m&ecirc;do e julgavam-se
+perdidos.<br>
+
+<br>
+
+Falavam um pouco a l&igrave;ngua Ambuela, e por meio de um
+int&egrave;rprete pud&eacute;mos entender-nos. Elles julgavam
+que uma
+senten&ccedil;a de morte os ia fulminar, ou ao menos que a
+escravid&atilde;o iria sujeitar o resto de seus dias.<br>
+
+<br>
+
+Mandei que os desamarrassem, e lhes entregassem as suas armas.
+Disse-lhes que estavam livres, e que voltariam para a sua tribu, e
+dei-lhes alguns fios de missanga para as suas mulheres.<br>
+
+<br>
+
+Elles caminhavam de sorpresa em sorpresa, e n&atilde;o podiam crer
+na
+verdade das minhas palavras. Dei-lhes de comer, e pedi-lhes que me
+levassem a ver o seu bivac.<br>
+
+<br>
+
+Depois de discutirem acaloradamente um com o outro, n'uma
+l&igrave;ngua
+desconhecida a t&ocirc;dos os que ouviam, e completamente
+differente na
+intona&ccedil;&atilde;o a tudo o que em l&igrave;nguas
+Africanas eu
+tinha ouvido at&eacute; ali, decid&iacute;ram que me levariam
+&aacute;
+sua tribu se eu quisesse ir s&oacute;. Aceitei, e parti com os dois
+horrorosos selvagens.<br>
+
+<br>
+
+Apesar do meu muito h&agrave;bito da floresta, era-me difficil
+acompanhar os ageis guias, que mais de uma vez tiv&eacute;ram de
+esperar por mim. <br>
+
+<br>
+
+Ao cabo de uma hora de caminho, depar&aacute;mos, no meio de uma
+pequena clareira, com o acampamento da tribu.<br>
+
+<br>
+
+Haviam ali mais tr&ecirc;s homens, sete mulheres e cinco
+crian&ccedil;as. <br>
+
+<br>
+
+Alguns ramos d'&agrave;rvore derreados, com outros encostados na
+frente, sam os seus &ugrave;nicos abrigos.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o t[~e]m o menor apresto de cozinha. Sustentam-se de
+raizes, e
+de carne que assam em esp&ecirc;tos de pao. N&atilde;o conhecem
+o sal.<br>
+
+<br>
+
+Homens e mulheres mal cobriam a sua nudez com pequenas pelles de
+macacos.<br>
+
+<br>
+
+Arcos e frechas sam as &ugrave;nicas armas de que se servem. Eu
+estava
+muito embara&ccedil;ado, porque n&atilde;o os entendia nem
+podia
+fazer-me entender d'elles. Dirigi-me &aacute;s mulheres, a quem dei
+alguns fios de missangas que tinha levado para isso. Ellas
+receb&ecirc;ram-n-os sem darem mostra de nenhum sentimento de
+agrado.<br>
+
+<br>
+
+A miseria d'aquelles desgra&ccedil;ados compungia-me. O seu
+r&ocirc;sto
+&eacute; feissimo, olhos pequenos e um pouco inclinados nas
+&ograve;rbitas, ossos molares muito distanciados e salientes, nariz
+achatado, com as fossas nasaes desmesuradas.<br>
+
+<br>
+
+T[~e]m o cabello encarapinhado e pouco, crescendo em mont&otilde;es
+separados, mais basto no alto da cab&ecirc;&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+Alguns bocados de pelle de animaes atados nos pulsos e nos artelhos sam
+o seu ornamento, ou talvez amuleto milagroso.<br>
+
+<br>
+
+Procurei fazer comprehender aos meus guias que ia voltar, e elles
+preced&ecirc;ram-me no caminho, deixando-me, j&aacute; noute,
+na orla
+do bosque d'onde eu ouvia o vozear do meu campo e alegres cantares.<br>
+
+<br>
+
+Durante a minha permanencia no Cuchibi, pude recolher algumas
+informa&ccedil;&otilde;es, ainda que esca&ccedil;as, a
+respeito de
+t&atilde;o estranhas gentes.<br>
+
+<br>
+
+Os Mucassequeres partilham com os Ambuelas os territorios de entre
+Cubango e Cuando, sendo que estes vivem s&ocirc;bre os rios e
+aquelles
+nas florestas, estes sam b&agrave;rbaros, aquelles selvagens.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o convivem, mas n&atilde;o se hostilizam.<br>
+
+<br>
+
+Se a fome os obriga, os Mucassequeres v[~e]m aos Ambuelas permutar
+marfim e c&ecirc;ra por alimentos.<br>
+
+<br>
+
+As tribus Mucassequeres sam independentes, e n&atilde;o obedecem a
+chefe commum.<br>
+
+<br>
+
+Guerreiam-se mesmo e os escravos que fazem uns aos outros v[~e]m elles
+vender aos Ambuelas, que os permutam depois &aacute;s comitivas do
+Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Os Mucassequeres sam os verdadeiros selvagens da &Agrave;frica
+tropical
+do sul, os outros povos podem ser chamados b&agrave;rbaros.<br>
+
+<br>
+
+O Mucassequer nunca t&ecirc;ve casa ou simulacro d'ella. Nasceu sob
+a
+&agrave;rvore da floresta, viveu e morreu sob a &agrave;rvore
+da
+floresta.<br>
+
+<br>
+
+Despreza a chuva e o sol, e soporta as intemperies como
+qualqu&eacute;r fera dos matagaes.<br>
+
+<br>
+
+Ainda o le&atilde;o e o tigre t[~e]m um antro onde se escondem; o
+Mucassequer precisa que p&ecirc;lo c&ocirc;rpo despido lhe
+sopre a
+briza do mato.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o conhece a enxada, porque nunca cultivou a terra. Raizes,
+mel
+e ca&ccedil;a sam o seu alimento, e cada tribu vagueia sem cessar
+em
+busca de raizes, mel e ca&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+Nunca dormem h&ocirc;je onde fic&aacute;ram hontem. A frecha
+&eacute; a
+sua arma, e t&atilde;o destros sam no seu manejo, que
+ca&ccedil;a
+apontada &eacute; ca&ccedil;a morta.<br>
+
+<br>
+
+O proprio elefante cahi traspassado pelas suas setas
+lan&ccedil;adas por musculosos bra&ccedil;os.<br>
+
+<br>
+
+As duas ra&ccedil;as que habitam este paiz, sam t&atilde;o
+differentes no c&ocirc;rpo como nos h&agrave;bitos.<br>
+
+<br>
+
+O Ambuela &eacute; pr&ecirc;to e tem o typo da ra&ccedil;a
+cauc&agrave;sica; o Mucassequer &eacute; branco e tem o typo da
+ra&ccedil;a hotent&ograve;tica em t&ocirc;da a sua
+hediondez.<br>
+
+<br>
+
+O nosso marinheiro crestado pelo sol e pelo vento dos temporaes
+&eacute; mais escuro do que o Mucassequer. Ha contudo n'aquella
+c&ocirc;r branca alguma cousa de amarello terroso, que os torna
+hediondos.<br>
+
+<br>
+
+Tive o maior pesar de n&atilde;o poder recolher dados mais precisos
+s&ocirc;bre esta curiosa ra&ccedil;a, que me parece dever
+merecer
+atten&ccedil;&atilde;o especial dos anthropologistas e dos
+ethn&ograve;graphos.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; minha opini&atilde;o, que este ramo da ra&ccedil;a
+Eth&igrave;ope, pode ser collocado no grupo da divis&atilde;o
+Hotent&ograve;tia. Tem na forma muito dos seus caracteres, e
+n&oacute;s
+vemos n'essa ra&ccedil;a uma varia&ccedil;&atilde;o
+sensivel na
+c&ocirc;r da pelle. O&nbsp;<span style="font-style: italic;">bushman
+</span>do
+sul do Cala&aacute;ri &eacute; de c&ocirc;r mui clara, e
+alguns tenho
+visto quasi brancos. Sam de estatura pequena, e de c&ocirc;rpo
+franzino, mas t[~e]m t&ocirc;dos os caracteres do typo
+Hotent&ograve;tio. No norte do mesmo deserto, s&ocirc;bre tudo
+junto
+aos lagos salgados, formiga outra ra&ccedil;a n&ograve;mada, os
+Massaruas, fortes e de estatura elevada, de c&ocirc;r
+n&ecirc;gra
+carregada, possuindo o mesmo typo Hotentote, e indubitavelmente
+pertencendo ao mesmo grupo. Diss&eacute;ram-me no Cuchibi, que
+ainda
+entre o Cubango e Cuando, mas muito ao sul, existia outra
+ra&ccedil;a
+em tudo semelhante aos Mucassequeres, em typo e h&agrave;bitos, mas
+muito pr&ecirc;tos.<br>
+
+<br>
+
+Assim, pois, em vista da affinidade dos caracteres, n&atilde;o me
+repugna admittir, que o grupo Hotent&ograve;tico da ra&ccedil;a
+Eth&igrave;ope, se estenda ao N. do Cabo at&eacute; entre
+Cubango e
+Cuando, passando por diversas modifica&ccedil;&otilde;es de
+c&ocirc;r e
+de estatura, devidas qui&ccedil;&aacute; aos meios em que
+vivem,
+&aacute; altitude, &aacute; grande differen&ccedil;a de
+latitudes, ou
+ainda a outras causas menos apreciaveis.<br>
+
+<br>
+
+Por muito tempo as subdivis&otilde;es da ra&ccedil;a
+Eth&igrave;ope na
+&Agrave;frica tropical, ser&aacute;m mal conhecidas na Europa,
+por
+n&atilde;o ser facil colligir os dados para o seu estudo.<br>
+
+<br>
+
+&iquest;Qual &eacute; o ind&igrave;gena d'essas tribus
+b&agrave;rbaras que deixa moldar o seu c&ocirc;rpo? <br>
+
+<br>
+
+&iquest;Caso deixasse, como pode o anthropologista levar a materia
+para
+fazer os moldes, e reconduzir depois esses moldes at&eacute;
+&aacute;
+costa?<br>
+
+<br>
+
+&iquest;Como colleccionar esquel&ecirc;tos, cr&agrave;neos
+mesmo
+s&oacute;mente, em paizes onde a profana&ccedil;&atilde;o
+de uma
+sepultura pode ser caso da perda de uma expedi&ccedil;&atilde;o?<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">&iquest;Como
+occultar da sua propria
+comitiva, dos seus proprios carregadores, esses despojos humanos, que
+seriam olhados como uma fonte de maleficios?<br>
+
+<br>
+
+A photographia, de t&ocirc;dos o meio mais incompleto de fazer
+esses
+estudos, apresenta, ainda assim, difficuldades insuperaveis.<br>
+
+<br>
+
+Em primeiro logar, &eacute; difficil empregal-a em viagem de
+explora&ccedil;&atilde;o, onde nem sempre d&aacute; os
+resultados que
+d'ella se esperam; sendo quasi impossivel o transporte de um
+laboratorio, em frascos de vidro &aacute;
+cab&ecirc;&ccedil;a de um
+carregador, que trope&ccedil;a e cahi dez vezes por dia. Eu sei-o
+de
+experiencia propria, e que o digam Capello e Ivens. <br>
+
+<br>
+
+Suppondo porem que se podiam mais ou menos facilmente empregar os meios
+photogr&agrave;phicos, &iquest;qual era o ind&igrave;gena
+do interior
+que deixava apontar uma m&agrave;china, e estava um momento firme
+diante da objectiva da c&agrave;mara escura?<br>
+
+<br>
+
+No correr da minha narrativa terei occasi&atilde;o de narrar uma
+anecdota acontecida comigo e com o phot&ograve;grapho Suisso M.
+Gross,
+em que eu consegui obter um grupo de Betjuanas, j&aacute;
+meio-civilizadas, com uma paciencia e uma despesa incalculaveis.<br>
+
+<br>
+
+Com os Mucassequeres, aconteceu-me, de nem mesmo lhes poder apanhar o
+typo com o lapis e pap&eacute;l!<br>
+
+<br>
+
+Voltemos &aacute; minha narrativa.<br>
+
+<br>
+
+Ao deixarem-me na orla da floresta, j&aacute; noute, os meus
+Mucassequeres diss&eacute;ram-me umas palavras, que provavelmente
+queriam dizer b&ocirc;a noute, e f&ocirc;ram-se. A claridade
+espalhada
+na atmosphera pelas fogueiras do meu campo, e o som de alegres cantares
+guiavam meus passos, e pouco depois entrava eu no recinto do
+acampamento, onde, ao som da m&ugrave;sica b&agrave;rbara dos
+Ambuelas,
+havia um dan&ccedil;ar phren&egrave;tico.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 208px;" alt="" src="images/082.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.72"></a>Figura
+72.--Mulh&eacute;r Ambuela.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Muitas raparigas Ambuelas dan&ccedil;avam com os meus carregadores,
+fazendo soar as manilhas dos bra&ccedil;os em compassado tinir.<br>
+
+<br>
+
+Impressionou-me o typo d'aquellas raparigas, que era perfeitamente
+Europeo, e algumas vi que, com a mudan&ccedil;a de c&ocirc;r,
+fariam
+inveja a muitas formosas Europeas, a quem igualariam em belleza, e
+excederiam em formas e elegancias naturaes.<br>
+
+<br>
+
+Ali sube um caso n&ocirc;vo para mim.<br>
+
+<br>
+
+Estes Ambuelas, quando ch&ecirc;ga ao paiz uma comitiva, v[~e]m
+tocar e
+dan&ccedil;ar ao seu campo, e &aacute; medida que a noute se
+adianta,
+vam pouco a pouco retirando, e deixando ali mulheres, irm&atilde;s
+e
+filhas. &Eacute; costume de hospitalidade d'esta gente, offerecerem
+companheiras aos foragidos que apparecem. No dia seguinte, muito
+c&ecirc;do, ellas retiram para as suas
+povoa&ccedil;&otilde;es, e pouco
+depois voltam, a trazer presentes ao amante de uma noite.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 258px;" alt="" src="images/083.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.73"></a>Figura
+73.--Opudo.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Comigo deu-se uma estranha aventura.<br>
+
+<br>
+
+Moene-Ca&uacute;-eu-hue, o velho sova, mandou-me as suas duas
+filhas, Opudo e Cap&ecirc;u.<br>
+
+<br>
+
+Opudo teria uns vinte annos, Cap&ecirc;u dezaseis.<br>
+
+<br>
+
+A mais velha era feia, e tinha um modo altivo; a mais nova,
+symp&agrave;thica, tinha um r&ocirc;sto c&agrave;ndido e
+ing&egrave;nuo.<br>
+
+<br>
+
+Desde que me internei em &Agrave;frica, decidi ter uma vida
+austera, o
+que me deu sempre grande influencia s&ocirc;bre os meus
+pr&ecirc;tos,
+que, n&atilde;o me vendo beber sen&atilde;o &agrave;gua, e
+n&atilde;o
+me conhecendo uma s&oacute; aventura galante, me
+julg&aacute;ram sempre
+um ente superior e privilegiado.<br>
+
+<br>
+
+Apesar da minha f&ocirc;r&ccedil;a de vontade, tive de
+sustentar uma
+luta atroz comigo mesmo para resistir &aacute;
+tenta&ccedil;&atilde;o
+da filha mais nova do sova Ca&uacute;-eu-hue.<br>
+
+<br>
+
+Cap&ecirc;u s&oacute; fala o Ganguela, que eu n&atilde;o
+entendia, mas Opudo falava o Hambundo.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 249px;" alt="" src="images/084.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.74"></a>Figura
+74.--Cap&ecirc;u.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+"&iquest;Porque nos desprezas?" me perguntou ella com modo altivo.<br>
+
+<br>
+
+"&iquest;Por ventura na tua terra tens mulheres mais bonitas do que
+minha irm&atilde;?"<br>
+
+<br>
+
+"N&oacute;s dormir&ecirc;mos aqui; porque eu n&atilde;o
+quero que se
+diga, que as filhas do chefe dos Ambuelas f&ocirc;ram expulsas por
+um
+branco."<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;Imagine-se a rid&igrave;cula
+situa&ccedil;&atilde;o em que eu
+estava collocado! Era tal a atribula&ccedil;&atilde;o do meu
+esp&igrave;rito, que n&atilde;o sabia que responder.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; verdade que a &ugrave;nica resposta a dar, era aquella
+que eu n&atilde;o queria dar.<br>
+
+<br>
+
+Na minha barraca estavam sentadas duas mulheres, s&ocirc;bre pelles
+de
+leopardo; entre mim e ellas a vasta fogueira deitava uma luz
+p&agrave;lida, que era inda amortecida pelo verde escuro da
+folhagem
+que forrava o interior da cabana.<br>
+
+<br>
+
+Os lampejos da fogueira alumiavam a cab&ecirc;&ccedil;a
+c&agrave;ndida,
+e collo n&uacute; de uma mulh&eacute;r de dezaseis annos, que
+me fitava
+com um olhar l&agrave;nguido, t&ugrave;mido de desejos,
+inebriante de
+lascivas promessas.<br>
+
+<br>
+
+Eu via o arfar d'aquelle peito nu, de belleza esculptural, e
+n&atilde;o podia desviar os meus olhos d'elle.<br>
+
+<br>
+
+L&aacute; f&oacute;ra, ao ruidoso som dos batuques, havia um
+cantar
+mais brando, e o dan&ccedil;ar mais compassado indicava a
+lassid&atilde;o dos membros.<br>
+
+<br>
+
+Os meus bravos carregadores escolhiam as companheiras da noute.<br>
+
+<br>
+
+Eu estava s&oacute; com as duas raparigas, mais s&oacute; do
+que se estivesse muito longe de gente.<br>
+
+<br>
+
+"N&oacute;s ficar&ecirc;mos aqui, me disse a orgulhosa Ambuela;
+n&atilde;o quero expor minha irm&atilde; aos chascos das
+mulheres
+velhas das povoa&ccedil;&otilde;es, e s&oacute; te digo,
+branco, que se
+tu &eacute;s sec&uacute;lo do Muene-Puto, eu sou filha do sova."<br>
+
+<br>
+
+O rid&igrave;culo da minha posi&ccedil;&atilde;o
+augmentava; eu
+sustentava uma luta comigo mesmo para n&atilde;o ceder aos
+atractivos
+da joven selvagem, e n&atilde;o tinha uma palavra a dizer, porque
+n&atilde;o sabia o que fazer.<br>
+
+<br>
+
+Aquella situa&ccedil;&atilde;o picaresca n&atilde;o podia
+continuar, e eu n&atilde;o sabia como terminal-a.<br>
+
+<br>
+
+Preferia mil vezes estar em luta com o guerreiro pai, que em tal
+colloquio com a amante filha.<br>
+
+<br>
+
+De repente levantou-se a pelle que fechava a porta da barraca, e alguem
+entrou.<br>
+
+<br>
+
+Era a pequena Mariana, que tinha escutado tudo o que se disse na tenda.<br>
+
+<br>
+
+Entrou e foi acocorar-se junto &aacute; fogueira que
+ati&ccedil;ou.
+Depois comprimentou as Ambuelas batendo repetidas vesses as palmas,
+como &eacute; uso no paiz, e repetindo a palavra&nbsp;<span style="font-style: italic;">C&ocirc;-q&uacute;&eacute;-t&uacute;</span>--<span style="font-style: italic;">c&ocirc;-q&uacute;&eacute;-t&uacute;</span>,
+e disse-lhes: "O branco n&atilde;o as depreza; se as n&atilde;o
+deixa
+dormir aqui, &eacute; porque aqui s&oacute; eu durmo, o branco
+&eacute;
+meu. Junto d'esta est&aacute; a minha barraca, podem ir dormir
+ali." As
+filhas do sova Ca&uacute;-eu-hue levant&aacute;ram-se e
+sah&iacute;ram
+com a pequena, a quem eu daria tudo para pagar tal servi&ccedil;o;
+mas,
+momentos depois, voltava Opudo, e dizia-me baixo, "H&ocirc;je
+durmimos
+f&oacute;ra, mas tu has de ser amante de minha irm&atilde;."
+Confesso
+que me metteu m&ecirc;do aquella mulh&eacute;r, a mim que nunca
+temi as
+feras!<br>
+
+<br>
+
+Deitei-me pensando na estranha aventura, e vindo-me vivamente
+&aacute;
+lembran&ccedil;a a b&igrave;blica historia da capa de
+Jos&eacute; no
+Egypto.<br>
+
+<br>
+
+No dia immediato, as filhas do r&egrave;gulo vi&eacute;ram como
+as
+outras trazer-me presentes; eu dei-lhes alguma missanga, e ellas
+retir&aacute;ram, sem fazer a menor allus&atilde;o &aacute;
+scena da
+noute.<br>
+
+<br>
+
+Pouco depois, um portador do sova veio prevenir-me, de que elle me
+esperava essa tarde, e me mandaria um barco para eu ir &aacute; sua
+povoa&ccedil;&atilde;o. No acampamento apparec&ecirc;ram
+algumas cobras
+que os pr&ecirc;tos diziam serem venenosas, e muitos
+escorpi&otilde;es
+n&ecirc;gros de 10 a 12 cent&igrave;metros de comprido. Alguns
+dos meus
+pr&ecirc;tos f&ocirc;ram picados por estes repugnantes
+ar&agrave;chnides, cujo veneno n&atilde;o produzio outro
+accidente
+&agrave;l&eacute;m de violenta d&ocirc;r e
+tumefac&ccedil;&atilde;o dos
+tecidos pr&ograve;ximos.<br>
+
+<br>
+
+Os Ambuelas sam os primeiros povos que se encontram no meu caminho, que
+n&atilde;o vam occultar nas florestas as suas
+planta&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; na grande planicie por onde corre o rio que a cultura
+&eacute;
+feita; por isso a abundancia de produc&ccedil;&atilde;o que tem
+afamado
+estes povos como cultivadores.<br>
+
+<br>
+
+As cheias alagam a campina; e o nateiro que ali deixam as
+&agrave;guas &eacute; ub&eacute;rrimo adubo que lhe avigora
+a cultura.<br>
+
+<br>
+
+Se n&atilde;o regam o terreno, como n&atilde;o vi fazer a
+p&ocirc;vo
+algum Africano, fazem irriga&ccedil;&otilde;es, e observei em
+volta das
+planta&ccedil;&otilde;es fundos sulcos, por onde se produz a
+secagem
+dos terrenos que cercam.<br>
+
+<br>
+
+Estive trabalhando, e s&oacute; tarde me lembrei de ir procurar a
+can&ocirc;a que o sova me prevenio estaria &aacute; minha
+disposi&ccedil;&atilde;o junto ao rio, para ir &aacute; sua
+povoa&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Ao chegar ao ponto designado, &iexcl;qual n&atilde;o foi a
+minha
+sorpresa ao ver a ligeira barca tripulada por Opudo e Cap&ecirc;u,
+as
+duas filhas do r&egrave;gulo! Eu, que me julgo pouco medroso,
+confesso
+que sempre tive muito m&ecirc;do de mulheres.<br>
+
+<br>
+
+Todavia n&atilde;o quiz deixar perceber receios, e saltei para a
+estreita piroga, que equilibrei, dizendo-lhes: "Vamos." Ellas com
+immensa destreza, com extrema elegancia, manobr&aacute;ram a
+can&ocirc;a, correndo por um canal&ecirc;te que conduz ao rio.<br>
+
+<br>
+
+O sol estava no occaso. O ligeiro barco deslisava por entre uma
+vegeta&ccedil;&atilde;o aqu&agrave;tica riquissima, que
+vinha expor as
+suas bellezas &aacute; superficie d'&agrave;gua do canal. As
+victoria-regias e muitas esp&egrave;cies de Nenuphar, prendiam
+&aacute;s vezes o andar da can&ocirc;a. <br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 86px;" alt="" src="images/085.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.75"></a>Figura
+75.--Barco e Remo do Cuchibi.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Eu s&oacute; pensava n'aquellas mulheres. Via j&aacute; a
+can&ocirc;a voltada, e eu presa de um crocodilo.<br>
+
+<br>
+
+De repente, por uma habil manobra dos remos, a can&ocirc;a estacou,
+e
+Opudo disse-me: "J&aacute; &eacute; muito tarde para irmos a
+casa de
+meu pai, eu esperei-te muito tempo, volvamos para a terra, e
+&aacute;manh&atilde; voltar&aacute;s."<br>
+
+<br>
+
+Pouco depois atrac&agrave;vamos, e ellas acompanh&aacute;ram-me
+ao campo.<br>
+
+<br>
+
+Veio a noute, e l&aacute; fora no acampamento, as dan&ccedil;as
+e os
+cantares, e na minha barraca as filhas do r&egrave;gulo conversando
+de
+cousas indifferentes.<br>
+
+<br>
+
+Levant&aacute;ram-se quando cessou o ruido das festas, e
+f&ocirc;ram
+deitar-se &aacute; porta da barraca junto de uma fogueira que
+accend&ecirc;ram.<br>
+
+<br>
+
+Quiz que ellas f&ocirc;ssem para a barraca da pequena Mariana, mas
+Opudo respondeu-me, que "era bicho do mato e estava acostumada a tudo."<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 219px;" alt="" src="images/086.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.76"></a>Figura
+76--Tambor das Festas Ambuelas.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+N'esse dia o meu Augusto, que foi ao mato ca&ccedil;ar, encontrou
+um
+bando de macacos pequenos, os primeiros que aparec&ecirc;ram no meu
+caminho desde a costa de Oeste.<br>
+
+<br>
+
+No dia immediato, fui logo de manh&atilde; visitar o sova, mas,
+querendo evitar aventuras, armei o meu barco de cautchuc e fui n'elle.<br>
+
+<br>
+
+O canal que segui vai desembocar n'um bra&ccedil;o do rio que tem
+20
+metros de largo por 6 de fundo, com corrente r&agrave;pida de 50
+metros
+por minuto. <br>
+
+<br>
+
+O rio divide-se, formando ilhotas baixas e encharcadas, onde cresce um
+canavial esp&ecirc;sso. &Eacute; n'estas ilhotas, ainda
+cortadas por
+pequenos canaes, formando um verdadeiro labyrintho, que assentam as
+povoa&ccedil;&otilde;es Ambuelas n'um solo pantanoso, ao nivel
+do rio.
+As casas sam meio-encobertas pelo canavial basto. As par&ecirc;des
+sam
+construidas de cani&ccedil;os, assentes s&ocirc;bre estacaria,
+e as
+coberturas sam de c&ocirc;lmo.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 600px; height: 381px;" alt="" src="images/087.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.77"></a>Figura
+77.--Ca&uacute;-eu-hue (Cidade do Cuchibi).</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Casas, como tudo o que fazem estes Ambuelas, sam
+p&egrave;ssimamente
+construidas, e pouco abrigam. Fora das portas, pendem de grandes
+estacas enormes caba&ccedil;as, onde elles guardam a
+c&ecirc;ra, e
+outros objectos.<br>
+
+<br>
+
+As proprias casas estam atulhadas de caba&ccedil;as. Entre os
+Ambuelas,
+a caba&ccedil;a &eacute; mala, &eacute; cofre, &eacute;
+o seu principal
+traste de mobilia. <br>
+
+<br>
+
+Os dep&ograve;sitos de mantimentos, s&oacute; differem das
+casas de
+habita&ccedil;&atilde;o em estarem dois metros elevados do
+solo,
+s&ocirc;bre estacas, e por isso livres das
+inunda&ccedil;&otilde;es do
+rio.<br>
+
+<br>
+
+N'uma das ilhotas mora o sova Moene-Ca&uacute;-eu-hue. Ha ali a sua
+casa de habita&ccedil;&atilde;o, quatro mais, de quatro
+mulheres, e
+alguns dep&ograve;sitos de mantimentos.<br>
+
+<br>
+
+Junto da casa do r&egrave;gulo estam misturados em
+troph&eacute;o
+r&ugrave;stico, c&agrave;veiras, cornos e outros despojos de
+ca&ccedil;a.<br>
+
+<br>
+
+Moene-Ca&uacute;-eu-hue recebeu-me tendo a seu lado dois dos seus
+favoritos.<br>
+
+<br>
+
+Logo que me sentei, o meu int&egrave;rprete e um dos favoritos
+come&ccedil;&aacute;ram um estridente bater de palmas, e
+apanhando uma
+pouca de terra, esfreg&aacute;ram com ella o peito, e
+repet&iacute;ram
+muitas vezes apressadamente as palavras <span style="font-style: italic;">Bamba </span>e <span style="font-style: italic;">Calunga</span>, terminando
+por n&ocirc;vo bater de palmas muito r&agrave;pido mas pouco
+forte. Estavam os comprimentos feitos.<br>
+
+<br>
+
+O r&egrave;gulo quiz ver o meu barco, e fez n'elle uma pequena
+excurs&atilde;o pelo rio.<br>
+
+<br>
+
+O seu espanto, ao ver o poder de fluctua&ccedil;&atilde;o do
+barco
+portatil, n&atilde;o tinha limites, e muitas vezes me repetio, que
+n&atilde;o vendesse d'aquelles barcos aos Ambuelas do Cubangui,
+sen&atilde;o estavam perdidos.<br>
+
+<br>
+
+Tranquillizei-o dizendo-lhe, que os brancos n&atilde;o queriam
+guerra
+entre elles, e por isso teriam t&ocirc;do o cuidado em
+n&atilde;o lhes
+dar os meios de a fazerem.<br>
+
+<br>
+
+De volta &aacute; ilha, mandou elle vir uma caba&ccedil;a
+de&nbsp;<span style="font-style: italic;">Bingundo</span>,
+e um copo de folha de flandres, lata troncoc&ograve;nica de
+marmelada
+de Lisboa, deixada ali por algum sertanejo Biheno, em viagem de
+commercio.<br>
+
+<br>
+
+Cheio o copo, entornou o sova algumas g&ocirc;tas do
+l&igrave;quido
+fermentado no solo, e cobrio de terra h&ugrave;mida o sitio,
+bebendo em
+seguida t&ocirc;do o seu conte&uuml;do.<br>
+
+<br>
+
+Tendo-lhe dito o int&egrave;rprete, que eu s&oacute; bebia
+&agrave;gua,
+elle passou a caba&ccedil;a aos seus favoritos, que a
+esgot&aacute;ram
+em um momento. Ao meio dia estava de volta ao meu acampamento.<br>
+
+<br>
+
+Estive n'esse dia com um ind&igrave;gena, irm&atilde;o do sova,
+que me
+disse, ter descido d'ali ao Zambeze embarcado pelo Cuchibi e Cuando.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 246px;" alt="" src="images/088.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.78"></a>Figura
+78.--O Irm&atilde;o do Sova.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Este pr&ecirc;to &eacute; intelligente, e fala bem o Portuguez,
+por ter
+sido soldado em Loanda, para onde f&ocirc;ra vendido no tempo da
+escravatura. &Eacute; um grande ca&ccedil;ador, e muitas vezes
+percorreu, nas suas excurs&otilde;es cyneg&egrave;ticas, as
+margens do
+Guando at&eacute; Linianti.<br>
+
+<br>
+
+Disse-me, ser o Guando completamente navegavel, sem r&agrave;pidos,
+mas
+por vezes alargar tanto que adquire pouco fundo, e ser t&atilde;o
+poderosa a vegeta&ccedil;&atilde;o aqu&agrave;tica, que
+prende os
+barcos, tornando em alguns pontos difficil a
+navega&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Affirmou-me, e depois tive occasi&atilde;o de verificar nas
+localidades, que o rio Cuando se chama sempre Cuando at&eacute;
+Linianti, e d'ali ao Zambe ainda Cuando ou rio de Linianti, e nunca
+Chobe, ou Tchobe, como vem designado nas cartas.<br>
+
+<br>
+
+A ra&ccedil;a Ambuela contin&uacute;a no Cuando o mesmo systema
+de vida
+que tem no Cuchibi, e as ilhas sam ainda o local onde edificam as suas
+povoa&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Nas margens do Cuchibi reapparece o luxo dos penteados, que tinha
+desapparecido com a ra&ccedil;a Quimbande. O b&ugrave;zio
+mi&uuml;do,&nbsp;<span style="font-style: italic;">caurim</span>,
+&eacute; de n&ocirc;vo muito apreciado ali, n&atilde;o para
+enfeitar as
+cab&ecirc;&ccedil;as, mas para fazer largos cintos adornados
+com elle.<br>
+
+<br>
+
+No fim do canal onde embarquei para ir a casa do sova, notei dois
+molhos de grossos paos espetados verticalmente e distanciados de alguns
+metros. D'estes paos pendiam bocados de esteiras j&aacute;
+meio-apodrecidas do tempo. Indagando o que era aquillo, sube que junto
+&aacute;quelles paos se praticava a circuncis&atilde;o
+&aacute;s
+crian&ccedil;as m&agrave;sculas de 6 a 7 annos, e depois as
+mandavam
+para o mato completamente despidas, at&eacute; completa cura,
+sendo-lhes ministrada a alimenta&ccedil;&atilde;o pelos
+operados do
+anno antecedente. Elles no mato teciam esteiras para cobrirem a sua
+nudez, e ao re-entrarem nas povoa&ccedil;&otilde;es,
+deixavam-n-as
+penduradas nos paos em que haviam sido operados.<br>
+
+<br>
+
+Mostr&aacute;ram-me ali tambem outra engenhoca muito curiosa.<br>
+
+<br>
+
+S&ocirc;bre duas forquilhas t&ocirc;scas elevadas meio metro da
+terra,
+descan&ccedil;a um pao cyl&igrave;ndrico de um metro de
+comprido com 30
+milimetros de di&agrave;metro, envolvido em palha fortemente
+amarrada,
+que lhe d&aacute; um aspecto fusiforme. <br>
+
+<br>
+
+Este appar&ecirc;lho &eacute; feito por um cirurgi&atilde;o
+de fama,
+que lhe incute um poder extraordinario. Logo que um marido suspeita sua
+mulh&eacute;r de esterilidade, manda chamar o cirurgi&atilde;o,
+que a
+conduz junto ao&nbsp;<span style="font-style: italic;">curativo</span>.<br>
+
+<br>
+
+No meio de palavras cabal&igrave;sticas, &eacute;-lhe esfregado
+o peito
+e as costas com o precioso pao env&ocirc;lto em palha, e
+afian&ccedil;ou-me o sova, que o resultado apenas se fazia esperar
+nove
+luas.<br>
+
+<br>
+
+Apesar da muita f&eacute; que os Ambuelas t[~e]m n'este systema de
+terminar a esterilidade, eu n&atilde;o me atr&ecirc;vo a
+aconselhal-o
+na Europa.<br>
+
+<br>
+
+As minhas rela&ccedil;&otilde;es com os ind&igrave;genas
+eram as mais cordiaes e affaveis.<br>
+
+<br>
+
+As filhas do r&egrave;gulo continuavam a trazer-me presentes, e
+s&oacute; ellas proviam &aacute; minha
+alimenta&ccedil;&atilde;o e
+&aacute; dos meus muleques de servi&ccedil;o.<br>
+
+<br>
+
+Cousa que eu desejava era logo procurada e a minha vontade satisfeita,
+querendo ellas fazer acreditar &aacute;s outras, que entre
+n&oacute;s
+existiam rela&ccedil;&otilde;es mais &igrave;ntimas do que
+as de uma
+leal amizade. Eu sabia que era uma vergonha para ellas o serem
+repudiadas pelo forasteiro a quem se dam, e deixava-as apparentar a meu
+respeito o que realmente n&atilde;o eram.<br>
+
+<br>
+
+Viv&igrave;amos assim nos termos da melhor amizade, sendo
+verdadeiramente importante a coadjuva&ccedil;&atilde;o que
+ellas me
+prestavam, para obter os carregadores e mantimentos de que eu
+precisava, para atravessar uma larga zona despovoada e falta de
+recursos.<br>
+
+<br>
+
+Pude obter larga provis&atilde;o de milho e algum
+feij&atilde;o, sendo a maior parte presente das filhas do
+r&egrave;gulo.<br>
+
+<br>
+
+Os meus haveres tocavam o seu fim, e salvo uma grande
+por&ccedil;&atilde;o de p&ograve;lvora encartuxada, alguma
+missanga e
+pouco cobre para manilhas, j&aacute; nada mais possuia. Dois dos
+meus
+carregadores levavam o presente que eu destinava ao r&egrave;gulo
+do
+Bar&ocirc;ze, no qual figurava um realejo, em cuja tampa dois
+bonecos
+autom&agrave;ticos, que dan&ccedil;avam ao som do
+mo&iuml;nho de
+m&ugrave;sica, faziam divertir enormemente o gentio. O meu Augusto
+aproveitava a curiosidade dos ind&igrave;genas, explorando-a em meu
+favor, e fazendo ver o realejo em ac&ccedil;&atilde;o, a
+tr&ocirc;co de
+ovos de gallinha, que elle tinha o cuidado pr&egrave;vio de deitar
+em
+&agrave;gua para ver se estavam em bom estado, porque mais de uma
+vez
+no principio, foi enganado pelo gentio manhozo, que &agrave;vido de
+satisfazer a curiosidade, n&atilde;o hesitava em ir aos ninheiros
+tirar
+&aacute;s gallinhas os ovos incubados.<br>
+
+<br>
+
+Moene-Ca&uacute;-eu-hue, de certo a instancias das filhas, resolvia
+todas as difficuldades que se apresentavam, e preparava-me
+r&agrave;pidamente a partida.<br>
+
+<br>
+
+Ellas tinham resolvido acompanhar-me at&eacute; onde
+f&ocirc;ssem os
+Ambuelas, devendo ser Opudo quem dirigisse a horda dos seus
+s&ugrave;bditos.<br>
+
+<br>
+
+Antes de seguir os acontecimentos da minha viagem, direi mais algumas
+palavras do paiz e dos Ambuelas, que t&atilde;o hospitaleiros
+f&ocirc;ram para mim.<br>
+
+<br>
+
+A l&igrave;ngua Ambuela n&atilde;o &eacute; mais do que a
+l&igrave;ngua
+Ganguela, a mesma que se come&ccedil;a a falar a leste do rio
+Cuqueima.<br>
+
+<br>
+
+Como o Hambundo, de que &eacute; um dialecto, &eacute;
+pobr&iacute;ssima, muito irregular nos verbos e falta de
+t&ocirc;dos os
+voc&agrave;bulos que exprimem um sentimento nobre e generoso.<br>
+
+<br>
+
+&iquest;Ser&aacute;m t&atilde;o infelizes estes povos que
+n&atilde;o
+sintam a necessidade de exprimir esses sentimentos pela palavra, por
+serem elles estranhos &aacute; sua existencia?<br>
+
+<br>
+
+Impossivel me foi averigual-o, mas n&atilde;o me repugna crel-o.<br>
+
+<br>
+
+N'este ponto, onde fui recebido como amigo, e por isso livre de
+qualquer influencia que predisposesse o meu esp&igrave;rito contra
+o
+gentio Africano, n&atilde;o pude ler ainda nos arcanos da alma do
+n&ecirc;gro, mais do que s&ograve;rdida cupidez, a material
+lasc&igrave;via, a cobardia em presen&ccedil;a do forte, a
+ousadia
+contra o fraco.<br>
+
+<br>
+
+Os povos Ambuelas sam, de t&ocirc;dos os que encontrei no meu
+caminho,
+os que em maior escala cultivam a terra, que lhes paga o trabalho que
+elles lhe dispensam com prodigalidade admiravel.<br>
+
+<br>
+
+O feij&atilde;o, a ab&ograve;bora, a batata d&ocirc;ce, a
+ginguba, o
+r&igrave;cino e o algod&atilde;o, sam cultivados entre as
+enormes
+searas de milho de &ograve;ptima qualidade. Tambem cultivam estes
+povos
+a mandioca, mas pouca pude obter, por terem sido n'aquelle anno
+destruidas as planta&ccedil;&otilde;es d'ella por uma cheia do
+rio
+extempor&agrave;nea.<br>
+
+<br>
+
+As gallinhas sam o &ugrave;nico dos animaes dom&egrave;sticos
+que
+possuem os Ambuelas. O seu viver, sempre em receio dos ataques dos
+vizinhos, faz com que estes povos n&atilde;o sejam
+past&ocirc;res,
+deixando ao abandono as extensas planicies cobertas de
+vi&ccedil;oso
+pasto, onde poderiam apascentar enormes rebanhos.<br>
+
+<br>
+
+O gado bovino deixa de apparecer onde desapparecem os Quimbandes. <br>
+
+<br>
+
+O caprino apparece, ainda que raro, entre os Luchazes, entre os quaes
+apparece mais raro ainda o p&ocirc;rco dom&egrave;stico, que
+abunda no
+Bih&eacute; e entre o Bih&eacute; e a Costa Oeste.<br>
+
+<br>
+
+Em paizes cobertos de ub&egrave;rrimas pastagens, livres da
+terrivel
+m&ocirc;sca z&ecirc;-z&ecirc;, em todas as
+condi&ccedil;&otilde;es
+desejaveis para largas cria&ccedil;&otilde;es de gados,
+&iquest;porque
+faltar&aacute;m elles?<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o &eacute; talvez difficil encontrar a
+explica&ccedil;&atilde;o. O gado &eacute; a riqueza maior
+dos povos
+Africanos, e excita sempre a cupidez dos vizinhos, sendo como eu
+j&aacute; tive occasi&atilde;o de dizer, a causa permanente das
+guerras
+entre os povos que demoram da Costa Oeste ao Bih&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+O receio de ser rico, e por isso de ser atacado e roubado,
+n&atilde;o
+&eacute; estranho talvez &aacute; falta de gados que se
+encontra do
+Cuanza ao Zambeze. Entre estas b&agrave;rbaras gentes os paradoxos
+sam
+vulgares, e ha ali<br>
+
+principios estabelecidos e arraigados que difficilmente podem ser
+comprehendidos na Europa.<br>
+
+<br>
+
+O c&atilde;o, esse fiel e dedicado amigo do homem, n&atilde;o
+desmente
+junto do pr&ecirc;to o seu mist&eacute;r de companheiro
+desvelado, e
+vigia ladino, encontrando-se entre t&ocirc;dos os povos das
+ra&ccedil;as Ganguelas. &Eacute; verdade que uma variedade de
+gozos e
+alguns podengos degenerados, sam apenas os esp&egrave;cimens que se
+encontram da ra&ccedil;a canina n'esta parte de &Agrave;frica.
+Entre os
+Quimbandes e os Bihenos sam os c&atilde;es desveladamente tratados,
+porque sam destinados a serem comidos, e sam apreciado manjar.<br>
+
+<br>
+
+Os Ambuelas, como disse, com elementos para serem dos primeiros povos
+pastores de &Agrave;frica Austral, nenhum gado possuem, e apenas
+fazem
+cria&ccedil;&atilde;o de uma variedade de gallinhas muito
+pequenas.<br>
+
+<br>
+
+Entre os habitantes do rio Cuchibi n&atilde;o ha logares destinados
+para cemiterios. Os sovas sam enterrados no mato em logar separado, mas
+o p&ocirc;vo &eacute; indistinctamente sepultado no
+l&ocirc;do do rio.<br>
+
+<br>
+
+Os Ambuelas t[~e]m costumes brandos, e &eacute; mais franca a sua
+hospitalidade.<br>
+
+<br>
+
+Sam bastante ca&ccedil;adores, e apanham muita c&ecirc;ra nos
+matos.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 200px; height: 392px;" alt="" src="images/089.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.79"></a>Figura
+79.--Ca&ccedil;ador Ambuela.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+A mulh&eacute;r tem mais alguma considera&ccedil;&atilde;o
+entre elles
+do que entre os outros povos que at&eacute; ali visitei, onde
+&eacute;
+apenas escrava ignobil.<br>
+
+<br>
+
+Estes ind&igrave;genas sam muito pescadores, o que n&atilde;o
+admira
+vivendo no meio de um rio cuja fauna aqu&agrave;tica &eacute;
+variadissima.<br>
+
+<br>
+
+Effectivamente, de t&ocirc;dos os rios que at&eacute; ali
+encontrei, nenhum vi t&atilde;o piscoso.<br>
+
+<br>
+
+Pude obter dos ind&igrave;genas, durante a minha estada ali, 18
+variedades de peixes, assegurando-me elles haverem outras ainda.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 95px;" alt="" src="images/090.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.80"></a>Figura
+80.--Chingu&ecirc;ne.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">
+1/4 do natural. Pelle molle e desprovida de escamas. Dorso castanho com
+</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">
+manchas mais escuras; forma triangular, sendo o ventre um lado e o dorso</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">
+o v&egrave;rtice; 3 barbatanas ventraes, 2 subdorsaes e duas
+dorsaes. Dois fios</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">
+musculares sobre a boca e dois na maxilla inferior. &Eacute;
+especie de um</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">
+g&egrave;nero muito vulgar em &Agrave;frica e que conta muitas
+especies.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<br>
+
+&Aacute;quelles que pude ver dam elles os nomes seguintes:--<br>
+
+<br>
+
+Peixes pequenos, menores de 20 cent&igrave;metros.<br>
+
+<br>
+
+&nbsp;1. Mussouzi &nbsp; &nbsp; &nbsp;peixe de pelle.<br>
+
+&nbsp;2. Mango &nbsp; &nbsp; &nbsp;idem.<br>
+
+&nbsp;3. Chinguene &nbsp; &nbsp; &nbsp;idem.<br>
+
+&nbsp;4. Chibembe &nbsp; &nbsp; &nbsp;idem.<br>
+
+&nbsp;5. Limbumbo &nbsp; &nbsp; &nbsp;idem.<br>
+
+&nbsp;6.
+Dipa&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+peixe de escamas.<br>
+
+&nbsp;7. Chitungulo&nbsp;&nbsp; idem.<br>
+
+&nbsp;8. Lincumba&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; idem.<br>
+
+&nbsp;9.
+Nhele&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+idem.<br>
+
+10. Lingumoeno&nbsp;&nbsp; idem.<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 99px;" alt="" src="images/091.png"><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.81"></a>
+Figura 81.--Lincumba.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">
+Tamanho natural. Escama dura e larga; dorso cinzento azulado; ventre</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">
+branco prateado; 5 barbatanas ventraes, 1 lombar. Barbatanas moles.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Peixes grandes, entre 20 e 50 cent&igrave;metros.<br>
+
+<br>
+
+11.
+Ch&oacute;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+peixe de pelle.<br>
+
+12. Mucunga&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; peixe de
+escamas.<br>
+
+13.
+Undo&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+idem.<br>
+
+14. Chinganja&nbsp;&nbsp;&nbsp; idem.<br>
+
+15.
+Nassi&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+idem.<br>
+
+16.
+Bula&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+idem.<br>
+
+17.
+Ganzi&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
+idem.<br>
+
+18. Boei-ie&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; idem.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 148px;" alt="" src="images/092.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.82"></a>Figura
+82.--Chipulo ou Nhele.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">
+Tamanho natural. Escama dura e miuda; dorso cinzento avermelhado; ventre</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">
+branco avermelhado; 3 barbatanas veutraes, duas sobreventraes, e 1</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">
+lombar percorrendo t&ocirc;do e dorso, armada de espinhos.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Seis diferentes grandes Mamiferos habitam o rio Cuchibi.<br>
+
+<br>
+
+1. O Hippop&ograve;tamo.<br>
+
+2. O Quich&ocirc;bo ou Buzi (ant&igrave;lope).<br>
+
+3. O Nhundo (Lontra commum).<br>
+
+4. Libao (Grande Lontra malhada de branco).<br>
+
+5. Chitoto (pequena Lontra completamente pr&ecirc;ta).<br>
+
+6. Dima (herb&igrave;voro do tamanho de uma cabra pequena,
+desarmado de
+cornos, vivendo nas mesmas condi&ccedil;&otilde;es do
+Quich&ocirc;bo ou
+Buzi).<br>
+
+<br>
+
+Ainda os reptis que habitam as &agrave;guas do rio sam numerosos,
+sendo
+que os crocodilos sam pequenos e pouco vorazes, e as cobras umas sam,
+outras n&atilde;o venenosas.<br>
+
+<br>
+
+Tem uma grande variedade de batr&agrave;chios, que os Ambuelas
+n&atilde;o distinguem, dando a t&ocirc;dos indistinctamente o
+nome de
+Manjunda.<br>
+
+<br>
+
+Nos canaes e sitios onde a &agrave;gua &eacute; estagnada,
+vivem
+milhares de sanguesugas, como em t&ocirc;dos os rios d'esta parte
+de
+&Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+Tinha feito larga provis&atilde;o de milho, e para elle muitos
+carregadores, sob o commando das filhas do sova; decidi-me pois a
+partir, e depois das mais cordiaes despedidas, segui, a 4 de Agosto,
+continuando a descer o rio na margem direita.<br>
+
+<br>
+
+Duas horas depois de ter deixado Ca&uacute;-eu-hue foi-me indicado
+pelos guias um vao onde seria possivel a passagem. Pass&aacute;ram
+elles para me mostrarem o caminho, e eu vi, que a um homem de estatura
+regular, dava a &agrave;gua pelo pesc&ocirc;&ccedil;o
+durante uns 20
+metros.<br>
+
+<br>
+
+O rio tem ali de 70 a 80 metros de largo. Despi-me e fui estudar o vao.
+Vi que era estreito, e logo a montante e a jusante profundava de 3 a 4
+metros, mas o fundo era de areia muito resistente. A corrente do rio
+era s&ocirc;bre o vao de 60 metros por minuto. N'estas
+condi&ccedil;&otilde;es a passagem &eacute; sempre difficil
+a uma
+comitiva carregada.<br>
+
+<br>
+
+Dei ordem de come&ccedil;ar a passagem, que levou duas horas,
+conservando-me eu sempre dentro de &agrave;gua, com o Verissimo e
+Augusto, os &ugrave;nicos que sab&igrave;amos nadar, promptos a
+acudir
+a algum que perd&ecirc;sse o p&eacute;. N&atilde;o houve
+porem o menor
+incidente, e nem uma carga se molhou, tal cuidado tiv&eacute;mos
+t&ocirc;dos. <br>
+
+<br>
+
+Passado o rio, como estiv&egrave;ssemos bastante fatigados, apenas
+ganh&aacute;mos a povoa&ccedil;&atilde;o de Lionzi, onde
+acamp&aacute;mos.<br>
+
+<br>
+
+Houve grande affluencia de gentio no meu campo, e chov&ecirc;ram
+presentes e offertas de venda de mantimentos. Nunca vi em
+&Agrave;frica
+tantas gallinhas como n'esse dia troux&eacute;ram os Ambuelas a meu
+campo. N&atilde;o houve carregador ou muleque que n&atilde;o
+com&ecirc;sse gallinha assada.<br>
+
+<br>
+
+Notei entre aquelle gentio uma modera&ccedil;&atilde;o e
+brandura verdadeiramente admiraveis em p&ocirc;vo Africano.<br>
+
+<br>
+
+T&ocirc;dos os homens vinham armados de arco e frechas; alguns
+traziam
+azagaias, e muitos, &agrave;l&eacute;m das armas
+gent&igrave;licas,
+compridas carabinas de silex, de f&agrave;brica Belga.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 600px; height: 380px;" alt="" src="images/093.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.83"></a>Figura
+83.--O vao do cuchibi.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Entre os Ambuelas, homens e mulheres cortam um tri&agrave;ngulo nos
+dois dentes incisivos da frente, mas em &agrave;ngulo muito mais
+aberto
+do que entre os Quimbandes.<br>
+
+<br>
+
+As suas armas sam fabricadas por elles, sendo muito imperfeito o
+trabalho do ferro, que extrahem em minas a jusante da confluencia do
+Cuchibi e Cuando.<br>
+
+<br>
+
+Os Ambuelas que usam espingardas s&oacute; querem, como eu
+j&aacute;
+disse, as armas lazarinas h&ocirc;je fabricadas na
+B&egrave;lgica, e a
+cada pe&ccedil;a de ca&ccedil;a que matam, enrolam em
+t&ocirc;rno do
+cano um bocado de pelle do animal, o que d&aacute; logar, pela
+simples
+inspec&ccedil;&atilde;o da arma, a saber quantas
+v&igrave;ctimas ella
+tem feito.<br>
+
+<br>
+
+Isto deforma a arma, e impede de apontar; mas, como elles s&oacute;
+arriscam um tiro a dez passos, acontece matarem. <br>
+
+<br>
+
+O ca&ccedil;ador que vi ali tendo morto mais ca&ccedil;a tinha
+dez bocados de pelle em t&ocirc;rno do cano da espingarda.<br>
+
+<br>
+
+Aquella pobre gente, sem as armadilhas do mato, n&atilde;o teria
+pelles para cobrir a sua nudez.<br>
+
+<br>
+
+P&ograve;lvora &eacute; rara ali, onde apenas de annos a annos
+apparece
+um sertanejo Biheno, que lhe vende pouca, e por isso tem subido valor.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"></span><img style="width: 300px; height: 52px;" alt="" src="images/093-1.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.84"></a>Figura
+84.--Azagaias dos Ambuelas.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Entre os Ambuelas que vi&eacute;ram ao meu campo appareceu um muito
+engra&ccedil;ado, que por t&ocirc;dos os modos procurava
+convencer-me a
+dar-lhe uma carga de p&ograve;lvora por um gallo grande que trazia.
+Divertio-me muito com o modo engra&ccedil;ado por que tentava
+convencer-me a fazer a transac&ccedil;&atilde;o, at&eacute;
+que eu lhe
+disse, que faria o negocio, se elle matasse o gallo a cincoenta passos
+com uma frecha.<br>
+
+<br>
+
+Elle aceitou, e eu medi a distancia.<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 228px;" alt="" src="images/094.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.85"></a>Figura
+85.--Ferros de frechas dos Ambuelas.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Collocado o gallo convenientemente disparou-lhe oito frechas que
+trazia, fazendo p&egrave;ssimos tiros.<br>
+
+<br>
+
+Outros ind&igrave;genas enthusiasm&aacute;ram-se com o
+divertimento, e
+come&ccedil;ou um chuveiro de frechas em t&ocirc;rno do pobre
+animal, e
+ainda que alguns se acerc&aacute;ram a quarenta passos, foi de meio
+metro distante do alvo o tiro mais certeiro. Eu ent&atilde;o disse
+aos
+Bihenos que dava o gallo a quem o matase. Vi&eacute;ram os melhores
+atiradores de frecha da comitiva, e quem melhores tiros fez foi o
+pr&ecirc;to Jamba, de Silva Porto, que chegou a cravar uma seta a
+cinco
+cent&igrave;metros do gallo, que ficaria vivo, se eu o
+n&atilde;o
+matasse com um tiro da minha carabina Winchester.<br>
+
+<br>
+
+No mato em que estava acampado havia uma enorme quantidade de aranhas
+brancas, com o c&ocirc;rpo volumoso como uma ervilha, que mordiam,
+causando uma d&ocirc;r violenta mas passageira.<br>
+
+<br>
+
+O acampamento est&ecirc;ve sempre cheio de mulheres, talvez por
+estarem
+ali comigo as filhas do r&egrave;gulo. Usam ellas grande
+n&ugrave;mero
+de manilhas de ferro da espessura de dois a tr&ecirc;s millimetros
+de
+sec&ccedil;&atilde;o quadrangular, tendo as duas arestas
+exteriores
+picadas.<br>
+
+<br>
+
+Quando dan&ccedil;am (e dan&ccedil;am muito as Ambuelas),
+s&oacute; o tinir das manilhas &eacute; uma m&ugrave;sica.<br>
+
+<br>
+
+Ellas comprimentam-se umas &aacute;s outras batendo repetidas vezes
+com as m&atilde;os abertas nos peitos n&uacute;s.<br>
+
+<br>
+
+Um costume que encontrei entre t&ocirc;dos os povos Ganguelas, mas
+mais
+rigorosamente cumprido no Cuchibi, &eacute; o modo de falar aos
+sovas
+ou sov&ecirc;tas.<br>
+
+<br>
+
+A pess&ocirc;a que fala, diz o que quer dizer ao sova, a um dos
+pr&ecirc;tos que elle tem a seu lado; este repete o recado a um
+segundo
+pr&ecirc;to, que o transmitte ao sova. A resposta segue pelas
+mesmas
+vias.<br>
+
+<br>
+
+A explica&ccedil;&atilde;o que me d&eacute;ram d'isto foi a
+seguinte:--A pess&ocirc;a que d&aacute; o recado, ouvindo
+repetir
+depois duas vezes o que disse, pode corrigir alguma
+interpreta&ccedil;&atilde;o err&ograve;nea que houvesse da
+sua
+id&eacute;a, e o mesmo se d&aacute; com quem responde.<br>
+
+<br>
+
+Eu supponho, porem, que ha ali mais alguma cousa, e que os sovas
+estabel&ecirc;ceram o uso, para durante a
+repeti&ccedil;&atilde;o
+tr&igrave;plice da arenga, terem tempo de preparar a resposta.<br>
+
+<br>
+
+De Lionzi fui dar um passeio de ca&ccedil;a pelo rio at&eacute;
+&aacute; sua confluencia com o Cuando, cuja
+posi&ccedil;&atilde;o
+marquei grosseiramente, por n&atilde;o ter podido fazer
+observa&ccedil;&otilde;es, mas que, ainda assim, n&atilde;o
+deve ter
+grande erro, por haver eu determinado perfeitamente a
+posi&ccedil;&atilde;o de Lionzi.<br>
+
+<br>
+
+Junto &aacute; confluencia do Cuchibi, encontrei duas grandes
+povoa&ccedil;&otilde;es Ambuelas, Linhonzi e Maramo, e entre
+ellas e
+Lionzi, uma grande povoa&ccedil;&atilde;o, Chimbambo.<br>
+
+<br>
+
+Na confluencia do rio Queimbo est&aacute; situada a
+povoa&ccedil;&atilde;o de Catiba, governada por um
+pr&ecirc;to da
+povoa&ccedil;&atilde;o de Ca&uacute;-eu-hue, e sujeito ao
+sova do
+Cuchibi.<br>
+
+<br>
+
+De volta ao meu campo, vim encontrar a minha gente de tal modo entregue
+&aacute;s delicias de C&agrave;pua, que n&atilde;o havia
+f&ocirc;r&ccedil;a para os arrancar dos bra&ccedil;os das
+formosas
+filhas desta nova Ninive Africana.<br>
+
+<br>
+
+A embriaguez do&nbsp;<span style="font-style: italic;">Bingundo</span>
+e a embriaguez do amor, tornavam surdos os meus homens a rogos e a
+amea&ccedil;as.<br>
+
+<br>
+
+O sov&ecirc;ta do Lionzi veio ao meu campo, e trouxe comsigo um
+Mucassequer, seu h&ograve;spede. Eu entendi-me logo com o
+Mucassequer,
+para elle ser guia at&eacute; &aacute;s nascentes do rio Ninda,
+que eu
+queria ir demandar; e estando n'esse dia de muito bom humor, chamei os
+pombeiros e disse-lhes, que ia seguir com os Ambuelas e os meus
+muleques, e que ficassem elles se quizessem, mas que eu lhes levava
+t&ocirc;dos os mantimentos.<br>
+
+<br>
+
+Puz-me logo a caminho, guiado pelo Mucassequer e acompanhado das filhas
+do sova e sua gente.<br>
+
+<br>
+
+Os meus Quimbares, vendo-me partir, deix&aacute;ram tambem o campo,
+e
+segu&iacute;ram-me, ficando t&ocirc;dos os Quimbundos e os
+muleques do
+Ver&igrave;ssimo.<br>
+
+<br>
+
+Depois de uma difficil marcha de seis horas a travez de floresta
+emmaranhada, e onde se n&atilde;o encontra &agrave;gua,
+alcan&ccedil;&aacute;mos a margem direita do rio Chicului,
+abrasados de
+s&ecirc;de.<br>
+
+<br>
+
+Este rio corre em uma planicie deserta e apa&uuml;lada, de 1600 a
+2000
+metros de largo, e a floresta sempre esp&ecirc;ssa vem terminar
+onde
+come&ccedil;a o pa&uacute;l. <br>
+
+<br>
+
+Durante a noute os le&otilde;es e leopardos rond&aacute;ram sem
+cessar o meu acampamento, rugindo em c&ocirc;ro infernal.<br>
+
+<br>
+
+No dia immediato, decido logo de manh&atilde; passar &aacute;
+outra margem.<br>
+
+<br>
+
+Passei o rio n'uma ponte, de certo construida outrora, por comitivas
+Bihenas, que eu reconstrui, e que me deu facil passagem; mas
+n&atilde;o
+foi igualmente facil alcan&ccedil;ar a floresta da margem esquerda,
+porque havia a atravessar a planicie lodosa, onde nos
+enterr&agrave;vamos at&eacute; por cima da cintura.<br>
+
+<br>
+
+O meu P&eacute;p&eacute;ca por vezes ficou s&oacute; com a
+cab&ecirc;&ccedil;a de f&oacute;ra, e deu trabalho a
+desenterrar.<br>
+
+<br>
+
+F&ocirc;ram 1500 metros de travessia difficil e fatigante.<br>
+
+<br>
+
+O rio tem 15 metros de largo por 4 a 5 de fundo, com uma corrente de 40
+a 45 metros por minuto. Vi n'elle muito peixe grande e pequeno, e
+alguns crocodilos de pequeno talhe.<br>
+
+<br>
+
+Depois de passar o rio, vi a um kil&ograve;metro jusante, uma
+grande
+manada de songue, e indo logo ali encoberto pelo mato, consegui matar
+tr&ecirc;s.<br>
+
+<br>
+
+A minha cabrinha C&oacute;ra n&atilde;o se separa um momento de
+mim, e
+anda em cont&igrave;nuo sobresalto desde que sentio os
+le&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Os meus pr&ecirc;tos apanh&aacute;ram muitas aves, variedade de
+codornizes, com uma poupa branca, e pernas brancas.<br>
+
+<br>
+
+Pela uma hora n'esse dia, cheg&aacute;ram os meus Quimbundos, e os
+pombeiros, de or&ecirc;lha baixa, vi&eacute;ram pedir-me mil
+perd&otilde;es de n&atilde;o terem seguido na
+v&egrave;spera.<br>
+
+<br>
+
+Eu andava ent&atilde;o de tal modo satisfeito, que tudo perdoei,
+indo
+em seguida pescar com um enorme tresmalho que levava, e com o qual
+apanhei inn&ugrave;meros peixes muito semelhantes aos mugens ou
+ta&iuml;nhas dos nossos rios.<br>
+
+<br>
+
+Esta r&ecirc;de, tresmalho ou barbal, como lhe chamam os pescadores
+do
+rio Douro, foi um presente que me fez meu pai, e que, em muitas
+circunstancias, foi o &ugrave;nico recurso que tiv&eacute;mos
+para
+matar a fome.<br>
+
+<br>
+
+A doen&ccedil;a grave de um dos meus pr&ecirc;tos fez-me
+demorar dois
+dias n'aquelle ponto; o que me contrariou em extremo, porque, tendo
+comigo numerosos Ambuelas, as provis&otilde;es que eu tinha trazido
+do
+Cuchibi desappareciam r&agrave;pidamente, e eu tinha diante de mim
+um
+enorme paiz a atravessar at&eacute; ao Zambeze, onde nenhum recurso
+encontraria, &agrave;l&eacute;m da ca&ccedil;a, sempre
+problem&agrave;tica em &Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+Em um dos dias, os Ambuelas f&ocirc;ram &aacute; floresta em
+busca de mel, guiados pelos<span style="font-style: italic;">
+indicators</span> ("indicadores"), e d'elle fiz&eacute;ram
+grande colheita.<br>
+
+<br>
+
+Muitos naturalistas notaveis, desde Sparmann e Leveillant, os primeiros
+que estud&aacute;ram esta curiosa ave, at&eacute; os mais
+modernos
+exploradores que t[~e]m descripto os seus h&agrave;bitos, que me
+perdoem ainda aqui falar d'ella, e lhes diga, na minha humildade, o que
+conclu&iacute; do muito que observei os seus costumes em
+&Agrave;frica.<br>
+
+<br>
+
+Que o&nbsp;<span style="font-style: italic;">indicator</span>
+seja ou n&atilde;o um c&uacute;co &eacute; coisa de que
+n&atilde;o
+fa&ccedil;o quest&atilde;o, deixando isso &aacute;
+autoridade dos
+Bocages e dos G&uuml;nthers.<br>
+
+<br>
+
+Que elle se d&ecirc;va chamar&nbsp;<span style="font-style: italic;">Cuculus albirostris</span>,
+como queria Temminck, ou s&oacute;mente indic&aacute;tor, como
+querem
+outros, &eacute; nova quest&atilde;o, em que n&atilde;o
+entro.
+Descrevel-o, sendo profano em ornithologia, seria pedantismo; e por
+isso limitar-me-hei a contar o que lhe vi fazer, e a tirar uma
+conclus&atilde;o minha.<br>
+
+<br>
+
+Logo que o homem penetra em uma floresta dos sert&otilde;es
+d'Africa Austral, apparece-lhe o&nbsp;<span style="font-style: italic;">indicator</span>
+saltitando de ramo em ramo, e chegando a aproximar-se,
+sempre com o seu chilrear mon&ograve;tono. Logo que lhe damos
+atten&ccedil;&atilde;o, levanta elle o seu v&ocirc;o
+pesado, e vai
+pousar mais longe, vigiando se o seguimos. <br>
+
+<br>
+
+Se o desprezamos, volta elle para junto de n&oacute;s, e continua a
+saltar e a chilrar, voando outra vez, e formulando muito
+pronunciadamente o convite de o seguirmos. Cedemos a final e
+acompanhamos a &aacute;vezinha, que de ramo em ramo, com
+v&ocirc;os
+curtos para nos n&atilde;o perder de vista, nos vai guiando a
+travez da
+floresta, a maior parte das vezes at&eacute; junto de um ninho de
+abelhas.<br>
+
+<br>
+
+Este caso &eacute; o mais vulgar, e &eacute; sempre aproveitado
+pelos ind&igrave;genas buscadores de c&ecirc;ra.<br>
+
+<br>
+
+Alguns exploradores, e entre elles o nosso Gamito, dizem, que elle
+conduz tambem o homem junto do antro da fera. Esse caso nunca se deu
+comigo, que segui dezenas de&nbsp;<span style="font-style: italic;">indicators</span>, e nunca
+encontrei ind&igrave;gena que m'-o affirmasse.<br>
+
+<br>
+
+Conduzir-me junto do cadaver de ca&ccedil;a j&aacute; em
+putrefac&ccedil;&atilde;o, a um acampamento abandonado de ha
+pouco, a
+uma lag&ocirc;a, junto de outra gente, isso me aconteceu a mim, e
+acontece a t&ocirc;dos os que seguem o buli&ccedil;oso
+passarinho. E
+contudo elle nada lucra em guiar os passos do homem para ali.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">O que &eacute; facto
+&eacute;, que
+elle leva o homem quasi sempre ao mel, e eu supponho que o quer
+levar&nbsp;sempre, e que sam occasionaes os outros encontros, que
+t[~e]m feito impress&atilde;o a muitos viajantes; encontros nada de
+estranhar em florestas Africanas.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; mesmo possivel, que no caminho para o enxame encontremos o
+le&atilde;o, sem que a inten&ccedil;&atilde;o do
+p&agrave;ssaro seja a
+de nos fazer devorar pela fera.<br>
+
+<br>
+
+Se porem a regra geral, de ir indicar as abelhas, tem
+excep&ccedil;&otilde;es, sam ellas tantas e t&atilde;o
+variadas, que eu
+atrevo-me a dizer, que o&nbsp;<span style="font-style: italic;">indicator
+</span>&eacute; o verdadeiro apodador da humanidade.<br>
+
+<br>
+
+Encontrei junto ao rio Chicului uma pelle de cobra de sete metros de
+comprido por 40 cent&igrave;metros de largo, affirmando-me os
+ind&igrave;genas que as ha ali maiores.<br>
+
+<br>
+
+Pude finalmente seguir a 9 de Agosto, j&aacute; desejoso que as
+filhas
+do sova do Cuchibi voltassem com a sua gente, porque os mantimentos que
+traz&igrave;amos desappareciam a olhos vistos, e j&aacute;
+n&atilde;o
+era pequeno o meu cuidado pensando no futuro.<br>
+
+<br>
+
+Depois de marcha de tr&ecirc;s horas, encontrei um ribeiro,
+correndo a
+S.S.E., e depois de atravessarmos a vao, encontr&aacute;mos uma
+lag&ocirc;a de duzentos metros, que tiv&eacute;mos de vadear
+com
+&agrave;gua pela cintura.<br>
+
+<br>
+
+Este ribeiro, que entra no Chicului perto da sua foz, &eacute; o
+Chalongo, provavelmente o que nas cartas apparece com o nome de Longo,
+e que, por uma errada informa&ccedil;&atilde;o, os
+cart&ograve;graphos
+t[~e]m feito correr ao Zambeze.<br>
+
+<br>
+
+Durante a passagem da lag&ocirc;a, vimos alguns abutres descendo
+com
+persistencia em um mesmo logar, a meio kil&ograve;metro de
+n&oacute;s.
+Fui ver o que atrahia ali os repugnantes rapaces, e ao longe vi uma
+nuvem d'elles esvoa&ccedil;ando s&ocirc;bre um corpo volumoso
+cercado
+de hyenas, que fug&iacute;ram sem que eu lhes podesse atirar.
+Aproximei-me, e encontrei uma enorme Malanca (<span style="font-style: italic;">Hippotragus equinus</span>)
+recentemente morta pelo le&atilde;o.<br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 300px; height: 320px;" alt="" src="images/095.png"></span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.86"></a>Figura
+86.--Malanca.</span><br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: justify;">
+<br>
+
+A pelle do soberbo ant&igrave;lope estava rasgada em tiras pelas
+garras
+da fera, e, cousa notavel, que eu n&atilde;o pude explicar, as
+unhas
+das patas estavam completamente ro&iuml;das.<br>
+
+<br>
+
+Os olhos tinham sido arrancados das &ograve;rbitas, de certo pelas
+aves rapaces.<br>
+
+<br>
+
+Os meus Quimbundos, logo que v&iacute;ram a Malanca,
+corr&ecirc;ram
+sobre ella, e com unhas e dentes disput&aacute;ram uns aos outros
+os
+restos d'aquella carne bafejada pelas hyenas, em mais repugnante
+espect&agrave;culo do que, minutos antes, me tinham offerecido as
+proprias hyenas e abutres. Mais pareciam feras do que homens.<br>
+
+<br>
+
+E note-se, que ent&atilde;o n&atilde;o havia necessidade,
+porque eu
+tinha m&ocirc;rto ca&ccedil;a, e as provis&otilde;es feitas
+no Cuchibi
+nos tinham em abundancia.<br>
+
+<br>
+
+Os meus proprios Quimbares n&atilde;o resistiram &aacute;
+tenta&ccedil;&atilde;o, e junt&aacute;ram-se aos Quimbundos
+no
+repugnante espect&agrave;culo.<br>
+
+<br>
+
+Metti em ordem a caravana, e fiz seguir &aacute;vante. Pelo caminho
+fui
+pensando no poder que tem a vida selvagem s&ocirc;bre o
+pr&ecirc;to.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<img style="width: 200px; height: 386px;" alt="" src="images/096.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.87"></a>Figura
+87</span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;">1. Cornos vistos de
+frente.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">2. Rasto da Malanca</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<br>
+
+Os meus Quimbares, gente meio-civilizada de Benguella, j&aacute;
+igualam os Quimbundos em selvageria e embrutecimento.<br>
+
+<br>
+
+Eu &aacute;s vezes penso, que isto, que se afigura possivel a muita
+gente na Europa, de civilizar o pr&ecirc;to em &Agrave;frica,
+&eacute;
+simplesmente absurdo.<br>
+
+<br>
+
+O elemento civilizador ser&aacute; por ora t&atilde;o pequeno
+junto do
+elemento selvagem, que este predominar&aacute; em quanto aquelle
+n&atilde;o tomar propor&ccedil;&otilde;es enormes.<br>
+
+<br>
+
+&Eacute; preciso que em &Agrave;frica haja por cada
+pr&ecirc;to um
+branco para se realizar esse sonho de muitos esp&igrave;ritos
+elevados
+do velho mundo; porque s&oacute; ent&atilde;o o elemento
+civilizador
+equilibrar&aacute; com o selvagem, e poder&aacute; vencel-o.<br>
+
+<br>
+
+Temos at&eacute; um exemplo d'isto com os B&ouml;ers do
+Transvaal, que,
+Europ&ecirc;os de origem, em um s&egrave;culo apenas,
+perd&ecirc;ram
+tudo que de civiliza&ccedil;&atilde;o troux&eacute;ram da
+Europa,
+f&ocirc;ram vencidos pelo elemento selvagem do meio em que viviam,
+e
+h&ocirc;je, se sam Europ&ecirc;os pela c&ocirc;r e pela
+religi&atilde;o
+de Christo que professam, sam b&agrave;rbaros pelos costumes que
+tir&aacute;ram do paiz.<br>
+
+<br>
+
+O notavel era, ter eu atravessado tantos povos b&agrave;rbaros,
+onde
+nunca chegou o menor elemento civilizador, e n&atilde;o ter
+encontrado
+p&ocirc;vo algum pei&oacute;r do que o Biheno, que
+est&aacute; em
+contacto com a civiliza&ccedil;&atilde;o da Costa de Oeste.<br>
+
+<br>
+
+Ao caminhar pensava eu n'isso, e repetia a phrase que tantas vezes me
+tinha repetido o meu amigo Silva Porto: "Olhe que os melhores Bihenos
+sam incorrigiveis, firme-se n'este principio e marche com elles."<br>
+
+<br>
+
+Depois que eu entendia o Hambundo &eacute; que bem podia avaliar o
+que elles eram.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute;s vezes, &aacute; noute, na minha barraca, eu escutava
+as
+conversas que se falavam em t&ocirc;rno de mim, e n&atilde;o se
+calcula
+o que eu ouvia.<br>
+
+<br>
+
+Uma noute, escutava eu episodios de uma guerra que um anno antes tinha
+havido no Bih&eacute;, contra gente Bihena que n&atilde;o
+reconhecia a
+autoridade do sova Quilemo, e entre outros ouvi o seguinte, no meio das
+gargalhadas e dos signaes de approva&ccedil;&atilde;o que os
+ouvintes
+dispensavam ao narrador:--<br>
+
+<br>
+
+Contava elle, que uma noute fizera dois prisioneiros, um muleque e uma
+rapariga pequena, e que, como a pequena chorasse e gritasse por elle
+lhe ter amarrado fortemente os bra&ccedil;os, elle cortou-lhe uma
+or&ecirc;lha com o machado, e depois deu-lhe com o mesmo machado no
+pesc&ocirc;&ccedil;o, mas de vagar para a n&atilde;o matar
+logo. Elle
+descrevia ao auditorio as contor&ccedil;&otilde;es e gritos da
+v&igrave;ctima, com grande applauso dos companheiros,
+at&eacute; que
+narrou o modo porque a tinha morto; coisa de que depois se
+arrep&ecirc;ndera muito, porque a familia d'ella, que
+n&atilde;o sabia
+do occorrido, veio offerecer-lhe em resgate tr&ecirc;s escravos,
+com
+que elle poderia ter come&ccedil;ado um pequeno negocio.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o quero narrar mais d'estas scenas repugnantes, e direi
+apenas, que se deve avaliar bem, como o chefe de bandidos na Europa
+n&atilde;o precisa, para sustentar a disciplina em sua orda de
+r&egrave;probos, ter mais energia do que o Europeo que em
+&Agrave;frica
+tem de commandar tal gente.<br>
+
+<br>
+
+Fui acampar &aacute; nascente de um c&ograve;rrego chamado
+Combule,
+que, a uma milha da sua fonte, vai lan&ccedil;ar, para o Oeste, no
+rio
+Chicului, as suas &agrave;guas, que ainda ali n&atilde;o seriam
+sufficientes para mover uma azenha.<br>
+
+<br>
+
+Convenci as filhas do sova a voltarem aos seus lares, e fizemos as mais
+cordiaes despedidas. Ainda Opudo arriscou com timidez o pedido, de eu
+voltar para o Cuchibi, e ir viver entre elles, e Cap&ecirc;u
+fez-me,
+mais eloquente ainda, a s&ugrave;plica, com um olhar de
+mulh&eacute;r,
+um d'esses olhares que sam a verdadeira for&ccedil;a d'ellas,
+porque
+sam espontaneos, e n&atilde;o aprendidos na escola da garridice.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o foi sem pesar que vi partir aquellas duas b&ocirc;as
+raparigas, as duas &ugrave;nicas amizades que percebi em
+ind&igrave;genas Africanos.<br>
+
+<br>
+
+Ao separarmo-nos, chegou-se a mim o meu guia Mucassequer, e disse-me:--<br>
+
+<br>
+
+"Eu tenho passado a minha vida no caminho que vais seguir d'aqui ao
+Limbai, e por isso conh&ecirc;&ccedil;o bem o paiz. Leva sempre
+prompta
+a tua melhor espingarda, e desconfia de tudo no mato, porque vais viver
+muitos dias entre feras. Toma cautela s&ocirc;bre tudo com os
+b&ugrave;falos do Ninda, no caminho has de ver sepulturas de gente
+morta por elles, e mesmo de brancos. Eu sou teu amigo, porque
+n&atilde;o me fizeste mal, e deste-me p&ograve;lvora e
+missangas, por
+isso te previno."<br>
+
+<br>
+
+Depois da partida dos Ambuelas, fiquei s&oacute; com a minha gente,
+e
+verifiquei, n&atilde;o sem algum sobresalto, que tinha havido uma
+reduc&ccedil;&atilde;o enorme nos v&igrave;veres.<br>
+
+<br>
+
+No dia immediato, embrenhei-me em uma enorme floresta espinhosa, e onde
+era a mi&uuml;do preciso abrir caminho para seguir
+&aacute;vante.<br>
+
+<br>
+
+Depois de uma fatigante marcha de 5 horas, a mais difficil e atroz que
+fiz em &Agrave;frica, acampei &aacute; nascente do rio Ninda,
+tendo
+deixado uma grande parte do fato nos espinhos da floresta. Meia hora
+depois de chegar, estava convertido em verdadeira caricatura, porque
+estava coberto de bocados de tafet&aacute; inglez, onde os espinhos
+me
+haviam rasgado as carnes.<br>
+
+<br>
+
+Estava pois &aacute; nascente do rio Ninda, afamado pela ferocidade
+dos
+habitantes das suas margens. Os le&otilde;es ainda me
+n&atilde;o tinham
+devorado; mas cheguei a pensar, que se o quizessem fazer tinham de se
+apressar, para encontrarem alguns restos do que deixassem milhares de
+insectos que dirigiam um ataque encarni&ccedil;ado contra mim.<br>
+
+<br>
+
+Ao cahir da tarde, uma nuvem de m&ocirc;scas, t&atilde;o
+pequenas que
+n&atilde;o tinham mais de um milimetro, cahio s&ocirc;bre o
+acampamento, e n'um louco esvoa&ccedil;ar, entravam pelo nariz,
+pela
+b&ocirc;ca, pelos ouvidos, e enchiam-nos os olhos, dando-nos um
+verdadeiro supplicio, verdadeira praga.<br>
+
+<br>
+
+O acampamento foi rodeado de fortes palissadas e enormes abatizes,
+tomando-se todas as precau&ccedil;&otilde;es para que
+fic&agrave;ssemos
+ao abrigo de um ataque das feras.<br>
+
+<br>
+
+Eu fui acommettido por um violento accesso de febre, o que
+n&atilde;o
+impedio que, durante a noute, por mais de uma vez sahisse da minha
+tenda a investigar porque ladravam os c&atilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Os le&otilde;es rug&iacute;ram toda a noute em volta do campo,
+e
+s&ocirc;bre a madrugada, um c&ocirc;ro de hyenas veio completar
+aquella
+m&ugrave;sica infernal.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o posso deixar de declarar aqui, &aacute;quelles que
+no
+enthusiasmo de uma coragem temeraria se fazem illus&otilde;es
+s&ocirc;bre as bellezas da vida das selvas, que a vida entre feras
+&eacute; positivamente desagradavel.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><img style="width: 600px; height: 397px;" alt="" src="images/097.png"></span><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.88"></a>Figura
+88.--O b&ugrave;falo africano.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+No dia immediato, demorei-me at&eacute; &aacute; tarde, para
+poder
+determinar aquella posi&ccedil;&atilde;o, e mudei o meu
+acampamento
+para uma milha mais a leste.<br>
+
+<br>
+
+Junto do sitio onde acampei ficava a sepultura de um Portuguez, o
+sertanejo Luiz Albino, morto n'aquelle ponto por um b&ugrave;falo.
+Na
+minha comitiva estava o pr&ecirc;to de confian&ccedil;a de Luiz
+Albino,
+o velho Antonio de Pungo Andongo, aquelle que eu fiz alfayate do sova
+Mavanda.<br>
+
+<br>
+
+Luiz Albino sahira do Bih&eacute; com uma grande factura que vinha
+negociar ao Zambeze, e em uma das suas etapes, veio acampar no mesmo
+ponto onde eu estava acampado n'aquelle dia. Sahio a ca&ccedil;ar,
+e
+deu um tiro em um b&ugrave;falo, ferindo-o na
+articula&ccedil;&atilde;o
+de um p&eacute;. J&aacute; se v&ecirc; que atirava mal,
+porque
+n&atilde;o se fere um b&ugrave;falo em um p&eacute;.<br>
+
+<br>
+
+Voltou ao acampamento, e chamou o velho Antonio (que ent&atilde;o
+era
+n&ocirc;vo), dizendo-lhe, que tinha ferido um b&ugrave;falo
+mortalmente, e que chamasse gente para o irem buscar.<br>
+
+<br>
+
+Os Bihenos, sempre cautelosos, n&atilde;o quiz&eacute;ram ir, e
+elle,
+chamando-lhes cobardes, foi s&oacute; com o pr&ecirc;to
+Antonio.
+Chegado ao mato, o b&ugrave;falo, que, como t&ocirc;dos os
+b&ugrave;falos feridos, queria vingan&ccedil;a e o esperava,
+correu
+s&ocirc;bre elle. Luiz Albino disparou-lhe os dous tiros da
+espingarda
+sem lhe acertar, e foi em seguida colhido pela fera, que com uma
+cornada lhe rasgou o baixo ventre.<br>
+
+<br>
+
+Antonio disparou contra o feroz ruminante, e o cadaver da fera foi
+cahir s&ocirc;bre o cadaver do branco.<br>
+
+<br>
+
+H&ocirc;je, uma forte estacada de madeira, cercando um quadrado de
+cinco metros de lado, f&ecirc;cha um recinto, onde se levanta uma
+cruz
+t&ocirc;sca de madeira; e lembra ao caminhante, que &eacute;
+preciso
+ter prompta a carabina e &ocirc;lho &aacute; mira para viajar
+ali.<br>
+
+<br>
+
+Tinha chegado ao primeiro ponto da minha viajem onde apparecem
+elephantes, e por isso mandei alguns homens &aacute; descoberta,
+mas os
+exploradores volt&aacute;ram tendo apenas encontrado alguns rastos
+antigos. Eu fui dar uma volta pelo mato, mas nada vi em que podesse dar
+um tiro.<br>
+
+<br>
+
+No dia immediato, segui viagem, sempre na margem direita do Ninda, sem
+que algum facto extraordinario viesse perturbar a marcha.<br>
+
+<br>
+
+A 13 de Agosto, fui estabelecer um n&ocirc;vo acampamento dez
+milhas
+para leste do da v&egrave;spera. Um vago receio j&aacute; me
+perturbava
+o esp&igrave;rito. Os v&igrave;veres diminuiam
+r&agrave;pidamente, e eu
+estava ainda longe de paiz de recursos. Tentei ca&ccedil;ar, mas
+sem
+resultado percorri a floresta, ainda que vi muitos rastos frescos e
+cheguei mesmo a perceber ca&ccedil;a, mas t&atilde;o longe e
+esquiva
+que nada fiz.<br>
+
+<br>
+
+No dia 14, tinha eu, s&ograve;zinho com o meu
+P&eacute;p&eacute;ca,
+tomado a dianteira &aacute; caravana, quando, ao chegar ao sitio
+onde
+resolvi terminar a marcha d'aquelle dia, percebi um enorme
+b&ugrave;falo que pastava tranquillamente.<br>
+
+<br>
+
+Pude, ao abrigo do mato, aproximar-me d'elle, e atirei-lhe a trinta
+metros, apontando &aacute; esp&agrave;dua, porque me ficava
+atravessado. O animal cahio fulminado, com grande espanto meu, porque o
+sitio onde atirei era para fazer uma ferida mortal, mas n&atilde;o
+produzir morte t&atilde;o r&agrave;pida como a que eu vi
+produzir.
+Abeirei-me d'elle, e &iexcl;como n&atilde;o fiquei espantado,
+vendo que
+a bala, em logar de ferir o ponto a que a dirigi, subio perto de vinte
+cent&iacute;metros na mesma vertical, indo cortar-lhe as
+v&egrave;rtebras, e produzindo a morte instantanea, pela
+solu&ccedil;&atilde;o de continuidade da espinal medula!<br>
+
+<br>
+
+Este caso fez-me profunda impress&atilde;o, porque um tal desvio da
+bala podia, em qualquer circunstancia, ser causa da minha perda; e logo
+que estabeleci o meu campo, tratei de alvejar a carabina a 25 metros.<br>
+
+<br>
+
+O desvio vertical revelado no tiro ao b&ugrave;falo continuava a
+manifestar-se.<br>
+
+<br>
+
+Era a minha carabina Lepage, de grande calibre e balas d'a&ccedil;o.<br>
+
+<br>
+
+Sendo a sua trajectoria muito curva, o armeiro calculou a
+&ugrave;ltima
+ranhura da al&ccedil;a para 80 metros; e como eu n&atilde;o
+tinha ainda
+com aquella arma atirado a menor distancia, n&atilde;o tinha ainda
+advertido no perigo que corria fazendo um tiro de 20 a 30 metros.
+Assim, pois, a estas distancias, ainda que eu pela ranhura mal
+perceb&ecirc;sse o ponto culminante da mira, o desvio vertical era
+constante.<br>
+
+<br>
+
+Cuidei logo de remediar o defeito, e por tentativas, fui profundando a
+ranhura da al&ccedil;a, at&eacute; que obtive a maior
+precis&atilde;o
+&aacute; pequena distancia requerida.<br>
+
+<br>
+
+Este episodio, que registei no meu diario e que h&ocirc;je
+descr&ecirc;vo aqui, ainda que seja de interesse nullo para a
+maioria
+dos meus leitores, &eacute; uma preven&ccedil;&atilde;o
+&aacute;quelles
+que me seguirem em &Agrave;frica, preven&ccedil;&atilde;o
+que lhes pode
+ser de subida utilidade.<br>
+
+<br>
+
+O rio Ninda corre n'uma planicie levemente inclinada a leste, e que me
+afirmam se estende ao sul at&eacute; &aacute;
+junc&ccedil;&atilde;o do
+Cuando e Zambeze.<br>
+
+<br>
+
+At&eacute; ao ponto em que eu estava acampado, a floresta desce
+esp&ecirc;ssa at&eacute; &aacute; margem do rio; mas d'ali
+em diante
+forma apenas tufos de &agrave;rvores, semeados aqui e
+&agrave;l&eacute;m n'uma planicie enorme.<br>
+
+<br>
+
+Ali o Ouco &eacute; &agrave;rvore corpulenta, e t&atilde;o
+abundante,
+que por espa&ccedil;o de horas o caminhante vive n'uma atmosphera
+embalsamada pelo suave perfume das suas flores.<br>
+
+<br>
+
+No dia immediato, sustentei marcha de seis horas, e desviei-me um pouco
+da margem do rio, cujo canavial esp&ecirc;sso era
+obst&agrave;culo ao
+caminhar; indo acampar junto de uma lag&ocirc;a de b&ocirc;a
+&agrave;gua, n&atilde;o longe da pequena
+povoa&ccedil;&atilde;o de
+Calombeu, p&ocirc;sto avan&ccedil;ado do r&egrave;gulo do
+Bar&ocirc;ze.<br>
+
+<br>
+
+Nada nos quiz&eacute;ram vender, e j&aacute;
+come&ccedil;avam a escacear os mantimentos. <br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o achando b&ocirc;a a minha
+posi&ccedil;&atilde;o, e
+n&atilde;o podendo seguir no dia immediato, por ter muitos doentes,
+mudei o campo para uma milha mais a leste, continuando a tirar
+&agrave;gua da mesma lag&ocirc;a, ou antes pa&uacute;l, que
+melhor lhe
+cabe este nome.<br>
+
+<br>
+
+Estava na enorme planicie do Nhengo, planicie elevada mil e doze metros
+ao nivel do mar, que se estende a leste at&eacute; ao Zambeze, e ao
+sul
+at&eacute; &aacute; confluencia do Cuando.<br>
+
+<br>
+
+O terreno enxuto na apparencia, &eacute; encharcado e esponjoso, e
+cede
+lentamente &aacute; press&atilde;o do c&ocirc;rpo, deixando
+infiltrar
+&agrave;gua do seu seio alagado.<br>
+
+<br>
+
+Nas noutes que ali dormi, deitei-me em leito s&ecirc;co de ervas
+cobertas de pelles, para acordar n'un charco.<br>
+
+<br>
+
+Come&ccedil;ava ali para mim uma nova vida de tormentos, porque nem
+&aacute; noute um sono reparador podia vir mitigar as fadigas do
+c&ocirc;rpo, e adormecer as aprehens&otilde;es do
+esp&igrave;rito.<br>
+
+<br>
+
+A falta de v&igrave;veres, que n&atilde;o tardaria a chegar; a
+difficuldade que me apresentava o paiz; a minha saude que eu sentia
+profundamente afectada; e a minha propria comitiva que
+come&ccedil;ava
+a dar signaes de insobordina&ccedil;&atilde;o, traziam o meu
+esp&igrave;rito perturbado, perturba&ccedil;&atilde;o que
+se traduzia
+por um mao-humor cont&igrave;nuo.<br>
+
+<br>
+
+No dia 16 de Agosto, tive um momento de desesp&ecirc;ro. Estavia
+s&oacute;, completamente s&oacute;.<br>
+
+<br>
+
+N&atilde;o havia um homem na minha comitiva que tivesse um pouco de
+energia.<br>
+
+<br>
+
+&Agrave;l&eacute;m das difficuldades que se erguiam diante de
+mim,
+t&ocirc;dos me creavam difficuldades. Eu tinha de decidir, de
+intervir
+em tudo, at&eacute; nas mais pequenas cousas de que nunca me
+deveria
+occupar.<br>
+
+<br>
+
+Algumas dedica&ccedil;&otilde;es me rodeavam, n&atilde;o o
+duvidava,
+mas dedica&ccedil;&otilde;es sem energia, em gente capaz de
+cumprir uma
+ordem, mas incapaz de fazer cumprir a outros as que lhe transmittia.<br>
+
+<br>
+
+O Verissimo n&atilde;o &eacute; cobarde, mas
+esp&igrave;rito
+acanhadissimo, sem vontade propria, e irresoluto, n&atilde;o tinha
+a
+f&ocirc;r&ccedil;a sufficiente para se impor no commando.
+&Agrave;l&eacute;m d'isso, aparentado com alguns dos pombeiros,
+era por
+elles desattendido.<br>
+
+<br>
+
+Via-me for&ccedil;ado at&eacute; a fazer cumprir as ordens que
+dava!<br>
+
+<br>
+
+No meu diario escrevi ent&atilde;o alguns per&igrave;odos, que
+vou
+transcrever aqui textualmente, e que traduzem o meu soffrimento de
+ent&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+"Isto desnortea-me, e traz-me de p&egrave;ssimo humor.
+&iexcl;Meu Deos!
+&iexcl;quanta vontade, quanta persistencia, quanta energia
+&eacute;
+precisa a um homem que s&oacute;, rodeado de difficuldades, rios
+proprios que o cercam as encontra, para proseguir na miss&atilde;o
+que
+se impoz! H&ocirc;je s&oacute;zinho no meio
+d'&Agrave;frica, tendo uma
+miss&atilde;o a cumprir, e tendo de sustentar a honra da bandeira
+da
+minha p&agrave;tria, &iexcl;quanto eu soffro! &iexcl;e
+quanto eu tremo
+por ella! Preciso de ser um anjo ou um demonio, e ch&ecirc;go a
+crer
+que sou &aacute;s vezes uma e outra cousa."<br>
+
+<br>
+
+N'este dia j&aacute; tive de dar comida &aacute;
+ra&ccedil;&atilde;o, e s&oacute; milho j&aacute; havia.<br>
+
+<br>
+
+Sentado &aacute; porta da minha barraca, ao cahir da tarde,
+terminava a
+minha parca refei&ccedil;&atilde;o, e olhava em roda os meus
+carregadores, que comiam em silencio.<br>
+
+<br>
+
+Parecia que uma tristeza profunda havia cahido s&ocirc;bre o meu
+campo, apossando-se de t&ocirc;dos os esp&igrave;ritos.<br>
+
+<br>
+
+De repente os meus c&atilde;es levant&aacute;ram-se e
+corr&ecirc;ram ao mato ladrando furiosos.<br>
+
+<br>
+
+Um homem desconhecido, seguido por uma mulh&eacute;r e dois
+rapazes,
+sahio do mato, e sem fazer caso dos c&atilde;es, entrou no
+acampamento,
+que percorreu com um r&agrave;pido olhar, vindo sentar-se a meus
+p&eacute;s.<br>
+
+<br>
+
+Era um pr&ecirc;to coberto de andrajos. Um panno esfarrapado mal
+encobria a sua nudez. Um casaco completamente despeda&ccedil;ado
+pendia-lhe dos hombros n&uacute;s. Na cab&ecirc;&ccedil;a
+uma cousa que
+muito esf&ocirc;r&ccedil;o de imagina&ccedil;&atilde;o
+faria suppor os
+restos de um chap&eacute;o braguez, e na m&atilde;o um pao.<br>
+
+<br>
+
+As suas armas eram trazidas pelos dois muleques que o seguiam. <br>
+
+<br>
+
+A physionomia en&egrave;rgica, o olhar, andar e os modos decididos,
+do
+ind&igrave;gena, prend&ecirc;ram logo a minha
+atten&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Perguntei-lhe quem era, e o que queria.<br>
+
+<br>
+
+Elle respondeu-me em Hambundo: "Eu sou Caiumbuca, e venho procural-o."<br>
+
+<br>
+
+Ao ouvir o nome de Caiumbuca, n&atilde;o pude conter a minha
+emo&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Tinha diante de mim o mais audaz dos sertanejos do Bih&eacute;. Do
+Nyangue ao Lago Ngami &eacute; conhecido o nome de Caiumbuca, o
+antigo
+pombeiro de Silva Porto.<br>
+
+<br>
+
+Em Benguella dissera-me Silva Porto: "Chame para junto de si a
+Caiumbuca, e ter&aacute; o melhor immediato que pode encontrar em
+t&ocirc;da a &Agrave;frica Austral."<br>
+
+<br>
+
+Procurei-o debalde no Bih&eacute;, onde n&atilde;o me
+soub&eacute;ram dar noticias d'elle. <br>
+
+<br>
+
+"Anda no sert&atilde;o, e nunca se sabe bem onde elle anda--" foi a
+resposta que obtive de t&ocirc;dos.<br>
+
+<br>
+
+Caiumbuca estava no Cuando abaixo da confluencia do Cuchibi, e sabendo
+da minha passagem, viera, s&oacute; com uma mulh&eacute;r e
+dois
+muleques, procurar-me.<br>
+
+<br>
+
+Conversei a s&oacute;s com elle por espa&ccedil;o de uma hora,
+li-lhe
+mesmo uma carta que Silva Porto me tinha dado em Benguella para elle,
+fiz-lhe as minhas propostas, e ao cahir da noute, reuni os meus
+carregadores e apresentei-lhes o meu immediato.<br>
+
+<br>
+
+A 17 de Agosto, forcei marcha de seis horas, porque os
+v&igrave;veres
+estavam no fim, e era preciso alcan&ccedil;ar as
+povoa&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Acampei na margem direita do rio Nhengo, que &eacute; o Ninda
+depois de receber do norte um affluente volumoso, o Loati.<br>
+
+<br>
+
+O Nhengo tem de 80 a 100 metros de largo, por 4 e mais de fundo, com
+uma corrente quasi insensivel. &Aacute;s v&ecirc;zes parece uma
+comprida lag&ocirc;a, onde vegetam milhares de plantas
+aqu&agrave;ticas. Nas suas margens ha uma forte
+vegeta&ccedil;&atilde;o
+arb&ograve;rea, vegeta&ccedil;&atilde;o que por
+v&ecirc;zes estende os
+seus ramos vigorosos por s&ocirc;bre as &agrave;guas, e de uma
+e outra
+margem v[~e]m dar um abra&ccedil;o fraternal a meio-rio.<br>
+
+<br>
+
+Este grande affluente do Zambeze corre na enorme planicie de que
+j&aacute; disse duas palavras, a planicie que d'elle toma o nome,
+planicie h&ugrave;mida, onde n&atilde;o &eacute; encharcada
+ou
+verdadeiro pa&uacute;l. Ali milhares de moluscos terrestres
+arrastam a
+sua casa espiral por entre a herva curta e rach&igrave;tica.<br>
+
+<br>
+
+Alguns c&agrave;gados e muitas tartarugas de lag&ocirc;a (<span style="font-style: italic;">Emydes</span>),
+vivem na campina, onde j&aacute;, aqui e
+&agrave;l&eacute;m, algumas
+palmeiras, as primeiras que encontrava desde Benguella,
+balan&ccedil;am
+ao vento as suas copas elegantes.<br>
+
+<br>
+
+Os meus pr&ecirc;tos fiz&eacute;ram colheita de tartarugas (<span style="font-style: italic;">Emydes</span>), que a fome
+lhes fez devorar, a pesar do repugnante cheiro que rescendem estes
+pequenos Cheloneas carn&igrave;voros.<br>
+
+<br>
+
+Tendo-me dito Caiumbuca, que, a pequena distancia do acapamento, haviam
+algunas povoa&ccedil;&otilde;es, decidi demorar-me ali um dia,
+para
+obter v&igrave;veres.<br>
+
+<br>
+
+Foi debalde que, no dia immediato, enviei gente &aacute;s
+povoa&ccedil;&otilde;es a pedir mantimentos; o gentio muito
+esquivo
+fugia, e n&atilde;o attendia raz&atilde;o nem offertas.<br>
+
+<br>
+
+A nossa posi&ccedil;&atilde;o tornava-se muito
+s&eacute;ria, porque
+j&aacute; nada havia que comer para &ecirc;sse dia, e as
+tentativas de
+ca&ccedil;a e pesca n&atilde;o d&eacute;ram o menor
+resultado.<br>
+
+<br>
+
+Um pequeno bando capitaneado pelo meu Augusto, entrou no campo,
+perseguido por um bando de le&otilde;es, que s&oacute;
+retir&aacute;ram
+ao perceber o ruido do acampamento.<br>
+
+<br>
+
+Conferenciei com Caiumbuca, e decid&iacute;mos fazer, no dia
+seguinte,
+marcha grande, para alcan&ccedil;ar umas
+povoa&ccedil;&otilde;es a que
+elle chamava Cacapa, e onde me disse que poder&igrave;amos obter
+v&igrave;veres.<br>
+
+<br>
+
+Segu&iacute;mos pois no dia 19, tendo comido pela &ugrave;ltima
+vez a 17 de manh&atilde;.<br>
+
+<br>
+
+A marcha foi sustentada por oito horas, indo acampar perto de uma
+lag&ocirc;a, porque t&igrave;nhamos deixado a margem do rio,
+para nos
+aproximarmos das povoa&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Apesar da fadiga da jornada e da fraqueza produzida pela fome, enviei
+gente a procurar v&igrave;veres, indo entre elles o proprio
+Caiumbuca.
+Volt&aacute;ram ao anoutecer com as m&atilde;os vazias. Nada,
+absolutamente, o gentio lhes quizera ceder, mostrando-se at&eacute;
+hostil!<br>
+
+<br>
+
+A nossa posi&ccedil;&atilde;o era grave. Tentar outra marcha,
+no estado
+de fraqueza em que est&agrave;vamos, era arrisc&agrave;rmo-nos
+a ficar
+t&ocirc;dos mortos de inani&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Reuni os pombeiros, a quem expuz as circunstancias prec&agrave;rias
+da
+caravana, e de tal modo os encontrei desalentados, que nenhum alvitre
+me foi prop&ocirc;sto.<br>
+
+<br>
+
+Chamei alguns dos pr&ecirc;tos que tinham ido &aacute;s
+povoa&ccedil;&otilde;es e perguntei-lhe, &iquest;se
+effectivamente ali
+haveria mantimentos? e tendo-me elles respondido afirmativamente, eu
+tomei uma resolu&ccedil;&atilde;o immediata. Disse aos
+pombeiros, que
+f&ocirc;ssem animar a sua gente, porque no dia immediato de
+manh&atilde; ter&igrave;amos de comer em abundancia.<br>
+
+<br>
+
+Ficando s&oacute; com Caiumbuca, communiquei-lhe a
+resolu&ccedil;&atilde;o que tinha tomado, de ir no dia
+immediato fazer
+provis&atilde;o de alimentos ou por bem ou por mal.<br>
+
+<br>
+
+Na madrugada de 20, mandei de n&ocirc;vo o Augusto com alguns
+pr&ecirc;tos &aacute;s povoa&ccedil;&otilde;es, pedir
+que me
+vend&ecirc;ssem milho ou mandioca, e expor as circunstancias em que
+nos
+encontr&agrave;vamos.<br>
+
+<br>
+
+A &ugrave;nica resposta que obtiv&eacute;ram os meus enviados
+foi uma aggress&atilde;o ins&ograve;lita.<br>
+
+<br>
+
+Ent&atilde;o reuni t&ocirc;dos aquelles a quem a fome
+n&atilde;o tinha
+completamente prostrado, e pude ter oitenta homens,
+semi-v&agrave;lidos.<br>
+
+<br>
+
+Puz-me &aacute; sua frente, e assaltei a
+povoa&ccedil;&atilde;o do
+chefe, que, depois de um curto tiroteio sem consequencias, se rendeu
+&aacute; discri&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+Corri logo aos celeiros, que estavam cheios de batata d&ocirc;ce, e
+tirei tanta quanta me era precisa para matar a fome da minha gente,
+regressando ao campo, com o chefe e mais alguns pr&ecirc;tos
+prisioneiros. Dei a estes o valor das batatas em missanga e
+p&ograve;lvora, e pul-os em liberdade, fazendo-lhes ver, que era
+melhor
+tratar as cousas por bem d'ali em diante. Elles agradec&ecirc;ram
+muito
+a minha generosidade, e promet&ecirc;ram fornecer-me aquillo que
+tivessem logo que eu lh'-o mandasse pedir.<br>
+
+<br>
+
+N'esse dia, &aacute; 1 hora e meia, estando o ceo limpo, apenas com
+esp&ecirc;ssa barra no horizonte, cahio um tuf&atilde;o vindo
+do N.,
+que, depois correu a S.O., o foco passou um kil&ograve;metro a O.
+de
+mim, arrancando &agrave;rvores e destruindo tudo na sua passagem.<br>
+
+<br>
+
+No meu campo, o vento soprou t&atilde;o rijo, que
+tiv&eacute;mos de nos
+deitar por terra em quanto durou a sua maior intensidade.<br>
+
+<br>
+
+O therm&ograve;metro subio de 20 a 32 graos, e o
+bar&ograve;metro
+desceu de 667^{mm.} a 663. Foi esta a mais violenta
+oscilla&ccedil;&atilde;o barom&egrave;trica que observei na
+&Agrave;frica tropical.<br>
+
+<br>
+
+&Aacute;s duas horas e meia, o vento acalmou de repente, ficando a
+atmosphera completamente coberta de um nevoeiro denso.<br>
+
+<br>
+
+As povoa&ccedil;&otilde;es que me ficavam um
+kil&ograve;metro ao sul
+chamam-se Lutu&eacute;; mas Caiumbuca disse-me, que entre os
+Bihenos
+sam conhecidas apenas pelo nome de Cac&aacute;pa, por serem ricas
+em
+batata d&ocirc;ce, que na l&igrave;ngua Hambunda se
+chama&nbsp;<span style="font-style: italic;">&eacute;c&aacute;pa</span>.<br>
+
+<br>
+
+As gentes d'estas povoa&ccedil;&otilde;es, como a de
+t&ocirc;das da
+planicie do Nhengo, sam de ra&ccedil;a Ganguela, submettidas pela
+f&ocirc;r&ccedil;a aos Luinas ou Bar&ocirc;zes. Sam povos
+miseraveis e
+intrataveis.<br>
+
+<br>
+
+P&ecirc;la tarde, chegou ao meu campo uma tropa de Luinas, que
+andavam
+rondando no paiz, e que, sabendo que eu chegara ali na
+v&egrave;spera,
+me vi&eacute;ram ver.<br>
+
+<br>
+
+Era commandada por tr&ecirc;s chefes, dos quaes o maioral se
+chamava Cic&oacute;ta.<br>
+
+<br>
+
+Os chefes vi&eacute;ram comprimentar-me e offerecer-me os seus
+servi&ccedil;os, e pedindo-lhes eu logo, que me obtivessem de
+comer,
+elles respond&ecirc;ram, que tambem estavam lutando com falta de
+v&igrave;veres, mas que no dia seguinte me acompanhariam
+at&eacute;
+umas povoa&ccedil;&otilde;es onde achar&igrave;amos
+recursos.
+Diss&eacute;ram-me, que me iriam conduzir at&eacute; junto do
+rei do
+Lui, e que nada me faltaria p&ecirc;lo caminho logo que
+cheg&agrave;ssemos &aacute;s povoa&ccedil;&otilde;es
+Luinas, j&aacute;
+pouco distantes.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 396px;" alt="" src="images/098.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.89"></a>Figura
+89.--Escudo dos Luinas.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Estes Luinas t[~e]m uma b&ocirc;a presen&ccedil;a, sam altos e
+robustos. Uma pelle de ant&igrave;lope primorosamente curtida,
+passada
+entre as pernas e pr&ecirc;sa no cinto de couro na frente e nas
+costas,
+e um amplo capote de pelles, &eacute; o seu vestuario. Os
+tr&ecirc;s
+chefes traziam carabinas raiadas de grande calibre, de
+f&agrave;brica
+Ingleza. Os outros sobra&ccedil;avam grandes escudos de forma
+ogival,
+de um metro e 40 cent. de comprido por 60 cent. de largo, e estavam
+armados de um feixe de azagaias de arrem&ecirc;sso. O peito e os
+bra&ccedil;os cheios de amul&ecirc;tos. Os pulsos sam ornados
+de
+manilhas de cobre, lat&atilde;o e marfim, e por baixo dos
+jo&ecirc;lhos
+trazem de 3 a 5 manilhas muito finas de lat&atilde;o. O que n'elles
+e
+admiravel sam as cab&ecirc;&ccedil;as, n&atilde;o
+p&ecirc;lo
+cab&ecirc;llo, que &eacute; cortado curto, mas p&ecirc;los
+enfeites que
+lhe p&otilde;em.<br>
+
+<br>
+
+A do chefe Cic&oacute;ta est&aacute; coberta de uma enorme
+cabelleira,
+feita da juba de um le&atilde;o. Os outros traziam penachos de
+plumas
+multicolores verdadeiramente assombrosos.<br>
+
+<br>
+
+Durante a noute apparec&ecirc;ram entre n&oacute;s
+inn&ugrave;meros
+escorpi&otilde;es, sendo mordidos por elles alguns dos meus homens.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 250px; height: 464px;" alt="" src="images/099.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.90"></a>Figura
+90.--O Chefe Cic&oacute;ta.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+O terreno contin&uacute;a esponjoso e h&ugrave;mido, sendo um
+tormento viver em tal paiz.<br>
+
+<br>
+
+Multiplicam-se ali as palmeiras, e j&aacute; vam apparecendo
+algumas &agrave;rvores no campo.<br>
+
+<br>
+
+As termites apresentam aqui j&aacute; um n&ocirc;vo aspecto nas
+suas curiosas construc&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+A 22 de Ag&ocirc;sto, levantei campo, e cinco horas depois, ia de
+n&ocirc;vo acampar junto da povoa&ccedil;&atilde;o de
+Canhete, a
+primeira povoa&ccedil;&atilde;o de ra&ccedil;a Luina.
+Durante a
+manh&atilde; houve um denso nevoeiro.<br>
+
+<br>
+
+Algumas matas que passei eram formadas de &agrave;rvores enormes, e
+limpas de arbustos, sendo facil o caminhar ali.<br>
+
+<br>
+
+Logo que acampei, por preven&ccedil;&atilde;o de
+Cic&oacute;ta,
+vi&eacute;ram muitas raparigas ao campo trazer-me gallinhas,
+mandioca,
+massambala e ginguba.<br>
+
+<br>
+
+Durante t&ocirc;da a tarde continu&aacute;ram a trazer-me
+presentes,
+que eu retribuia o melhor que podia. &iexcl;Tinha j&aacute; que
+comer
+em abundancia!<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 163px;" alt="" src="images/100.png"><br>
+
+<span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.91"></a>Figura
+91.--Termites do Nhengo.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+Pedi tabaco, de que eu trazia ainda b&ocirc;a provis&atilde;o,
+e sal, &iexcl;sal que eu n&atilde;o provava havia tantos mezes!<br>
+
+<br>
+
+Respond&ecirc;ram-me, que tinham o maior pesar de n&atilde;o
+poderem
+satisfazer ao meu desejo, mas que o tabaco e o sal s&oacute; se
+davam
+ou se vendiam por uma licen&ccedil;a especial do r&egrave;gulo.<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;Eis uma terra Africana onde ha dois artigos de contrabando!
+Felizmente n&atilde;o ha alf&agrave;ndegas.<br>
+
+<br>
+
+Fui visitar as povoa&ccedil;&otilde;es de Canhete. Cresce ali
+nos
+quintaes o tabaco e a cana de assucar com um desenvolvimento enorme.<br>
+
+<br>
+
+As casas sam feitas de cani&ccedil;o revestido de c&ocirc;lmo,
+e t[~e]m
+umas a forma de um semicylindro de 1,5 metro de raio, outras sam
+ogivaes, n&atilde;o tendo mais altura do que aquellas.<br>
+
+<br>
+
+Os celeiros sam como os das povoa&ccedil;&otilde;es Ambuelas,
+mas de menores dimens&otilde;es.<br>
+
+<br>
+
+Os Luinas vi&eacute;ram ao meu campo, e fiz&eacute;ram ali uma
+dan&ccedil;a guerreira, muito pintoresca, em que havia um mascarado
+que
+fazia o pap&eacute;l de tru&atilde;o.<br>
+
+<br>
+
+N'essa noute chegou o pr&ecirc;to Cainga, que eu tinha mandado,
+dois
+dias antes, ao r&egrave;gulo, a participar-lhe a minha chegada.<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 400px; height: 294px;" alt="" src="images/101.png"><br>
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.92"></a>Figura
+92.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">1 e 2. Casas Luinas de
+1^{m.} 5 de altura.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">3. Celeiro.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+<span style="font-weight: bold;">4, 4. Enxada do Lui.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+</div>
+
+<br>
+
+Vi&eacute;ram com elle alguns chefes com presentes do rei para mim,
+e entre elles seis bois.<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;Carne de vacca! &iexcl;tinha carne de vacca para comer!<br>
+
+<br>
+
+Disse-me o Cainga, que elle se mostrou ufano por eu vir falar com elle
+de mando do Mueneputo, e que me esperava uma
+recep&ccedil;&atilde;o
+espl&egrave;ndida.<br>
+
+<br>
+
+Eu estava sempre desconfiado, porque conhecia bem os n&ecirc;gros,
+e
+sabia quantas trai&ccedil;&otilde;es encerram as suas zumbaias,
+mas
+n&atilde;o deixei de ficar satisfeito.<br>
+
+<br>
+
+Elle mandou reunir muitos barcos, de modo que podesse passar a minha
+comitiva de uma s&oacute; vez, para mostrar a sua grandeza.<br>
+
+<br>
+
+Disse-me o Cainga, que elle era rapaz de 20 annos, e que, sabendo que
+eu era n&ocirc;vo, dissera, que seriamos amigos.<br>
+
+<br>
+
+Comi tanta carne e tanta batata, j&aacute; temperadas com sal,
+condimento que obtive por contrabando, que me senti muito incommodado,
+e passei uma p&egrave;ssima noute.<br>
+
+<br>
+
+Os chefes Luinas que vi&eacute;ram da parte do r&egrave;gulo,
+troux&eacute;ram ordem &aacute;s
+povoa&ccedil;&otilde;es para me
+fornecerem o que eu pedisse sem retribui&ccedil;&atilde;o. Esta
+ordem
+foi acertada, porque eu n&atilde;o tinha com que retribuir. <br>
+
+<br>
+
+Quando ia a levantar campo, cheg&aacute;ram novos enviados do rei
+com
+sal e tabaco para mim, e com o recado, de eu n&atilde;o seguir o
+caminho directo da embocadura do Nhengo, porque elle queria castigar as
+povoa&ccedil;&otilde;es privando-as da minha visita.<br>
+
+<br>
+
+Mandei dizer-lhe, que eu n&atilde;o seguiria outro caminho, por ser
+este o que mais me convinha. Que eu n&atilde;o servia para elle
+castigar comigo os seus povos delinquentes; e que, se elle me
+n&atilde;o mandasse barcos ao sitio do Zambeze que eu havia
+designado,
+eu passaria o rio sem o auxilio d'elle.<br>
+
+<br>
+
+Logo &aacute; sahida de Canhete, encontrei um pa&uacute;l
+horrivel, que
+tendo apenas 500 metros de largo, levou 1 hora a transpor. Caminhei a
+leste, e tr&ecirc;s horas depois alcancei as
+povoa&ccedil;&otilde;es da
+Tapa, onde aceitei uma casa offerecida p&ecirc;lo chefe, por
+n&atilde;o
+ser possivel acampar f&oacute;ra da povoa&ccedil;&atilde;o
+em terreno
+pantanoso.<br>
+
+<br>
+
+As casas ali sam formadas por uma pyr&agrave;mide
+troncoc&ograve;nica
+de cani&ccedil;o, coberto interna e externamente de barro. A porta
+tem
+60 cent&igrave;metros de alto por 50 de largo.<br>
+
+<br>
+
+Esta casa &eacute; cercada por outra s&oacute; de granito,
+conc&egrave;ntrica &aacute;quella, e que tem de raio um metro
+mais. O
+tecto abrange as duas casas e &eacute; feito de cani&ccedil;o
+coberto
+de c&ocirc;lmo.<br>
+
+<br>
+
+O chefe levou-me um presente de gallinhas e batata d&ocirc;ce. <br>
+
+<br>
+
+Marquei, duas milhas ao sul, a grande povoa&ccedil;&atilde;o de
+Aruchico.<br>
+
+<br>
+
+<table style="text-align: left; width: 614px; height: 285px;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td><img style="width: 400px; height: 269px;" alt="" src="images/102.png"></td>
+
+ <td style="text-align: justify; vertical-align: bottom;"><span style="font-weight: bold;">a. Casa interior.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <div style="text-align: left;"><span style="font-weight: bold;">b. Intervallo entre as
+duas&nbsp;par&ecirc;des.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ </div>
+
+ <span style="font-weight: bold;">c. Porta interior,
+50^{c.} por 40^{c.}</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">d. D^{a.} exterior
+1^m. por 50^{c.}</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">e. Ventilador.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">f.
+Par&ecirc;de, cani&ccedil;o e barro.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">g. D^{a.}
+cani&ccedil;o, 2^{m.}</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">h.
+Arma&ccedil;&atilde;o de cani&ccedil;o.</span><br style="font-weight: bold;">
+
+ <span style="font-weight: bold;">k. Cobertura de
+c&ocirc;lmo.</span></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"><a name="Fig.93"></a>Figura
+93.--Corte vertical de uma Casa Luin da aldea da Tapa.</span><br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+No dia 24 de Agosto, parti &aacute;s 8 horas da manh&atilde;, e
+depois
+de atravessar um pa&uacute;l como na v&egrave;spera, alcancei a
+margem
+direita do rio Nhengo &aacute;s 9 horas, descendo at&eacute; ao
+Zambeze
+que encontrei &aacute;s 10 e meia.<br>
+
+<br>
+
+&iexcl;Com que enthusiasmo eu saudei o grande rio! Alguns
+hippop&ograve;tamos vinham resfolgar &aacute; t&ocirc;na
+d'&agrave;gua
+a 30 metros de mim, e dois f&ocirc;ram v&igrave;ctimas da sua
+imprudencia.<br>
+
+<br>
+
+Um crocodilo enorme foi tambem infeliz em se conservar ao sol n'uma
+ilha pr&ograve;xima.<br>
+
+<br>
+
+Tinha saudado devidamente o Liambai! Tinha-o saudado tingindo-o de
+p&ugrave;rpura com o sangue das feras.<br>
+
+<br>
+
+No meio do maior enthusiasmo dos meus e dos muitos Luinas que me
+acompanhavam, alcancei as can&ocirc;as, e passei, ao meio-dia, para
+a
+margem esqu&ecirc;rda do rio.<br>
+
+<br>
+
+Segui sempre a leste, e &aacute;s 2 horas, encontrei outro
+bra&ccedil;o
+do Liambai, que se separa d'elle junto a Nariere. Andei por isso em uma
+grande ilha onde ha povoa&ccedil;&otilde;es, sendo a principal
+Liondo.<br>
+
+<br>
+
+Aquelle bra&ccedil;o do rio, ainda que tem 150 metros de largo,
+&eacute; pouco fundo, e foi transposto a vao. Na outra margem havia
+mais gente mandada pelo r&egrave;gulo.<br>
+
+<br>
+
+Segui sempre, e &aacute;s 3 horas, encontrei uma grande
+lag&ocirc;a
+junto &aacute; povoa&ccedil;&atilde;o de Liara, que passei
+embarcado.
+Este lago, formado p&ecirc;las &agrave;guas que o Zambeze lhe
+introduz
+no tempo das chuvas, chama-se Nor&ocirc;co.<br>
+
+<br>
+
+Segui sempre a leste, por entre um labyrintho de pequenas
+lag&ocirc;as,
+que era preciso evitar, e &aacute;s 5 horas cheguei a Lialui,
+grande
+cidade, capital do Bar&ocirc;ze, ou reino do Lui.<br>
+
+<br>
+
+O rei tinha feito programma. <br>
+
+<br>
+
+Tive em poucos dias duas grandes sorpresas, para mim j&aacute; meio
+selvagem e esquecido dos costumes Europeus. O contrabando de tabaco, de
+sal, e o programma do rei do Lui.<br>
+
+<br>
+
+Uns mil e duzentos guerreiros form&aacute;ram alas at&eacute;
+&aacute;
+casa que eu devia provisoriamente ir occupar, e um dos grandes da
+c&ocirc;rte, acompanhado de uns trinta figur&otilde;es,
+form&aacute;ram
+o meu s&egrave;quito.<br>
+
+<br>
+
+Chegado &aacute; casa, que tinha um grande p&agrave;teo cercado
+de
+cani&ccedil;al, estava um estrado, onde eu me devia sentar, para
+receber os comprimentos da c&ocirc;rte. <br>
+
+<br>
+
+Logo em seguida, cheg&aacute;ram os quatro conselheiros do rei, dos
+quaes &eacute; presidente Gambela. Com elles vinham t&ocirc;dos
+os
+grandes que formavam a c&ocirc;rte do rei Lobossi.<br>
+
+<br>
+
+Sent&aacute;ram-se, e come&ccedil;ou, da parte d'elles e da
+minha, uma
+troca de comprimentos e sauda&ccedil;&otilde;es, com mil
+protestos de
+amizade.<br>
+
+<br>
+
+Por fim retir&aacute;ram-se gravemente, e f&ocirc;ram
+substituidos por
+outros massadores, que s&oacute; me deix&aacute;ram
+&aacute; noute
+fechada.<br>
+
+<br>
+
+Retirei-me para a casa que me destinavam, que era um d'esses
+semicilindros de que j&aacute; falei, e tive uma noite de insomnia,
+pensando no futuro da minha empresa.<br>
+
+<br>
+
+Estava sem recursos, e se o rei n&atilde;o protegesse
+en&egrave;rgicamente a minha viagem, &iquest;que poderia fazer?<br>
+
+<br>
+
+Sem a generosidade d'elle, nem mesmo teria que comer ali. <br>
+
+<br>
+
+Elle mandara-me dizer, que me falaria no dia immediato.
+&iquest;Como
+nos entender&igrave;amos? Aquelle Gambela, o presidente do
+Cons&ecirc;lho, que acabava de estar comigo, o homem que
+t&ocirc;dos me
+diziam ser o verdadeiro rei, &iquest;que seria elle para mim?<br>
+
+<br>
+
+O cap&igrave;tulo seguinte mostrar&aacute;, que n&atilde;o
+era sem
+raz&atilde;o que um presentimento mal definido me produzio uma
+noite de
+insomnia em 24 de Agosto de 1878. <br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+<h2><span style="font-weight: bold;">INDICE.</span></h2>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Abbadie, M. d'., 10, 11<br>
+
+<br>
+
+Abutres, 308<br>
+
+<br>
+
+Acacias, 57<br>
+
+&nbsp; soberba floresta de, 103<br>
+
+<br>
+
+Adulterio, sanccionado, 54<br>
+
+<br>
+
+Adevinho, indigena dos sert&otilde;es d'&Agrave;frica, 112, 113<br>
+
+&nbsp; consulta a meu respeito, 114<br>
+
+<br>
+
+Agua, escassa, 48<br>
+
+<br>
+
+&Agrave;gua-ardente como incentivo, 67<br>
+
+<br>
+
+Algod&atilde;o, produc&ccedil;&atilde;o, 198, 210-242<br>
+
+<br>
+
+Ambriz, 17, 18<br>
+
+&nbsp; ponte de desembarque, 18<br>
+
+<br>
+
+Ambuellas, povoa&ccedil;&otilde;es, 248<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o do paiz, 265-277<br>
+
+&nbsp; seu chefe, 278<br>
+
+&nbsp; dan&ccedil;as, costumes do paiz, etc., 284, 285<br>
+
+&nbsp; aperfei&ccedil;oamento agricola entre elles, 288, 289<br>
+
+&nbsp; o paiz, 290-292<br>
+
+&nbsp; reino animal e vegetal, etc., 293-301<br>
+
+<br>
+
+Anchieta, Jos&eacute; de, 63<br>
+
+&nbsp; seu tracto pessoal, laboratorio, etc., 64, 65<br>
+
+<br>
+
+Andara-canssampoa, ribeiro, 238<br>
+
+<br>
+
+Angola, chegada a, 15<br>
+
+&nbsp; recep&ccedil;&atilde;o pelo governador, 16<br>
+
+<br>
+
+Ant&igrave;lopes, 48-50, 220-232<br>
+
+&nbsp; amphibios abundantes no rio Cuchibi, e outros, 261, 262<br>
+
+&nbsp; songue, 268-270<br>
+
+<br>
+
+&Aacute; prova de balla: incidente, 165, 166<br>
+
+<br>
+
+Armas, geralmente usadas, 151<br>
+
+&nbsp; fa&ccedil;o-me aprovisionar de, 154<br>
+
+&nbsp; fabrico ballas, 156<br>
+
+<br>
+
+Aruchico, grande povoa&ccedil;&atilde;o, 327<br>
+
+&nbsp; des&ccedil;o o Nhengo at&eacute; ao Zambeze<br>
+
+<br>
+
+Associa&ccedil;&otilde;es, obsequios recebidos de, xii<br>
+
+<br>
+
+Atuco, ribeiro, 73<br>
+
+<br>
+
+Atundo, sorte de goiaba, 233<br>
+
+<br>
+
+Augusto, pr&ecirc;to fiel, 160<br>
+
+&nbsp; um Don Juan de c&ocirc;r pr&ecirc;ta, 161<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Banja, libata de, 73<br>
+
+<br>
+
+Baobabs, 48<br>
+
+&nbsp; gigant&ecirc;scos, 49<br>
+
+<br>
+
+Bar&ocirc;ze, revolu&ccedil;&atilde;o no, 277-315<br>
+
+<br>
+
+Barracas, construc&ccedil;&atilde;o de, 200, 201<br>
+
+<br>
+
+Batatas, 94<br>
+
+<br>
+
+Belmonte, povoa&ccedil;&atilde;o de, 127<br>
+
+&nbsp; planta da povoa&ccedil;&atilde;o, 128<br>
+
+<br>
+
+Bembe, sov&ecirc;ta do, 229<br>
+
+&nbsp; rio Bembe, 229<br>
+
+<br>
+
+Benguella, sigo de Loanda para, 26<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o, 29-31<br>
+
+&nbsp; sou hospede do governador, 28<br>
+
+&nbsp; produc&ccedil;&atilde;o e commercio, 31, 32<br>
+
+&nbsp; obtenho carregadores, 34<br>
+
+&nbsp; partida de, 38<br>
+
+<br>
+
+Bernardino Antonio Gomes, vii, 4-6<br>
+
+<br>
+
+Biceque, rio, 240<br>
+
+<br>
+
+Bih&eacute;, resolvemos ir directamente ao Bih&eacute;, 35<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o do paiz, seu trafico, etc.,
+36<br>
+
+&nbsp; delibera&ccedil;&atilde;o de seguir eu
+s&ograve;zinho para o Bih&eacute;, 80<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o ethnogr&agrave;fica, 132<br>
+
+&nbsp; historica, 133<br>
+
+&nbsp; suas differentes ra&ccedil;as, 134<br>
+
+&nbsp; quadro genealogico de sovas, 136<br>
+
+&nbsp; figuras, 136, 137<br>
+
+&nbsp; commercio em larga escala, 138<br>
+
+&nbsp; fidelidade de carregadores, 138<br>
+
+&nbsp; qualidades moraes, 139<br>
+
+&nbsp; julgamento de crimes, 144<br>
+
+&nbsp; adulterio, 144<br>
+
+&nbsp; futuro commercial, 146-151<br>
+
+&nbsp; carneiros e cabras, 152<br>
+
+&nbsp; uma elegante, 161<br>
+
+&nbsp; sempre demora &aacute; espera de carregadores e cargas,
+etc., 162<br>
+
+&nbsp; modo de commerciar, 163<br>
+
+&nbsp; preparo muni&ccedil;&otilde;es, 168<br>
+
+&nbsp; prompto a deixar o Bih&eacute;, 170<br>
+
+&nbsp; episodio com um degradado, 174<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o do paiz, 190-193<br>
+
+<br>
+
+Bihenos, semy-carnivoros, 147<br>
+
+&nbsp; solemnidades barbaras com sacrificio de carne humana, 148<br>
+
+&nbsp; comendo carne putrefacta, 268, 269<br>
+
+&nbsp; sam incorrig&iacute;veis, 310<br>
+
+&nbsp; barbarismo, 310, 311<br>
+
+<br>
+
+Bilanga, povoa&ccedil;&atilde;o do, 120<br>
+
+<br>
+
+Bilombo, sova do Huambo, 77<br>
+
+&nbsp; presentes do, 78<br>
+
+<br>
+
+Bingundo, bebida dos Luchazes, 245-304<br>
+
+<br>
+
+Bitovo, ribeiro, 219<br>
+
+<br>
+
+Bocage (D^{or.} J.V.B. de), 9, 65<br>
+
+&nbsp; carta ao D^{or.}, 203<br>
+
+<br>
+
+Bois servindo de cavalgadura, 75, 76<br>
+
+<br>
+
+Bomba, riacho, 96<br>
+
+<br>
+
+Bongo-Tacongonz&ecirc;lo, vertente, 237<br>
+
+<br>
+
+B&ugrave;falos, 58<br>
+
+&nbsp; encontro com, 85, 231, 313, 314<br>
+
+<br>
+
+Burundoa, povoa&ccedil;&atilde;o, 94<br>
+
+<br>
+
+Buzi, ant&igrave;lope amphibio, 260<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Cabango, sova de, 214<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o do paiz e seus costumes,
+214-217<br>
+
+<br>
+
+Cabindondo, ribeiro, 46<br>
+
+<br>
+
+Ca&ccedil;a, 48-50<br>
+
+&nbsp; abundancia, 78<br>
+
+&nbsp; no Bih&eacute;, 153, 189, 231<br>
+
+<br>
+
+Cacapa, povoa&ccedil;&otilde;es, 320<br>
+
+&nbsp; marcha for&ccedil;ada, 321<br>
+
+&nbsp; mantimentos tomados &aacute; for&ccedil;a, 321<br>
+
+&nbsp; tuf&atilde;o, 321<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o de ra&ccedil;as, 322<br>
+
+<br>
+
+Cachota, povoa&ccedil;&atilde;o, 117<br>
+
+<br>
+
+Caconda, seguimos para, 63, 69<br>
+
+&nbsp; fertilidade, 188<br>
+
+<br>
+
+Cacuroc&aacute;e, rio, atravess&aacute;mos, 61<br>
+
+<br>
+
+Cacurura, povoa&ccedil;&atilde;o, 117<br>
+
+<br>
+
+Caiumbuca, sertanejo audaz do Bih&eacute;, 318<br>
+
+&nbsp; fica ao meu servi&ccedil;o, 318<br>
+
+<br>
+
+Calombeu, povoa&ccedil;&atilde;o no Baroze, 315<br>
+
+<br>
+
+Caluc&uacute;la, acamp&aacute;mos, 49<br>
+
+<br>
+
+Caluqueime, povoa&ccedil;&otilde;es de, 61<br>
+
+<br>
+
+Cambimbia, c&oacute;rrego, 234<br>
+
+&nbsp; serra, 236, 237<br>
+
+<br>
+
+Cambuta, povoa&ccedil;&atilde;o, 238<br>
+
+&nbsp; abundancia de r&ocirc;las, 238<br>
+
+&nbsp; ra&ccedil;as, costumes, etc., 239, 240<br>
+
+&nbsp; recep&ccedil;&atilde;o pelas mulheres do sova, 241<br>
+
+<br>
+
+Cameron, Commander Verney Lovett, xii<br>
+
+<br>
+
+Cana de assucar, 42, 198, 210<br>
+
+<br>
+
+Canata, ribeiro, 73<br>
+
+<br>
+
+Cangala, 237<br>
+
+<br>
+
+Cangamba, Muene-Cahenda, sova de, 255<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o do paiz e costumes, 256<br>
+
+<br>
+
+Cangemba, serra do, 45<br>
+
+<br>
+
+Cangombo, ribeiro, 219<br>
+
+<br>
+
+Canhete, povoa&ccedil;&atilde;o da ra&ccedil;a Luina, 324<br>
+
+&nbsp; traffico, costumes do paiz, etc., 325<br>
+
+<br>
+
+Canhungamua, rio, 89<br>
+
+<br>
+
+Canjongo, povoa&ccedil;&atilde;o de, 74<br>
+
+<br>
+
+Canssamp&otilde;a, ribeiro, 237<br>
+
+<br>
+
+Capata, 94, 146<br>
+
+<br>
+
+Cap&ecirc;llo e Ivens, 5, 7, 10, 25<br>
+
+&nbsp; encontr&agrave;mo-nos em Benguella, 35<br>
+
+&nbsp; combina&ccedil;&atilde;o de trabalhos scientificos,
+35<br>
+
+&nbsp; aprecia&ccedil;&atilde;o humor&igrave;stica, 47<br>
+
+&nbsp; escrevem-me, resolvendo seguir s&oacute;s, 78<br>
+
+&nbsp; resolvo-me, a meu turno, a seguir s&oacute;, 79-80<br>
+
+<div style="text-align: left;">
+&nbsp; Ivens offerece-se a acompanhar-me do Bih&eacute; a
+Benguella, em&nbsp;consequencia do meu estado de saude, 123<br>
+
+</div>
+
+&nbsp; separa&ccedil;&atilde;o entre mim e meus
+companheiros, 124, 125<br>
+
+&nbsp; visita trocada entre Ivens e mim, 158<br>
+
+<br>
+
+Cap&ocirc;co, poderoso filho do sova do Huambo, 77<br>
+
+&nbsp; minha visita a elle, 77<br>
+
+&nbsp; sua audacia, 80<br>
+
+&nbsp; id&eacute;a de pundonor, 81<br>
+
+&nbsp; presta bom servi&ccedil;o, 88, 89<br>
+
+&nbsp; mensagem do sova, 200<br>
+
+<br>
+
+Capu&ccedil;o, sec&uacute;lo, manda-me presentes, 96<br>
+
+<br>
+
+Caquingue, paiz do, 105<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o do paiz e ra&ccedil;as,
+107<br>
+
+&nbsp; figuras, 108<br>
+
+&nbsp; trabalh&atilde;o principalmente o ferro, 109, 110<br>
+
+&nbsp; supersti&ccedil;&atilde;o, 111<br>
+
+<br>
+
+Carabina d'El-Rei, significa&ccedil;&atilde;o, xx<br>
+
+<br>
+
+Caravana de Quilengues, 48<br>
+
+<br>
+
+Carbonato calcareo, 42<br>
+
+<br>
+
+Carregadores, falta de, 15, 22, 23<br>
+
+&nbsp; falta de confian&ccedil;a em, 25, 27<br>
+
+&nbsp; em procura de, 26<br>
+
+&nbsp; obtenho a final, 34, 37<br>
+
+&nbsp; novas difficuldades, 37, 40, 66, 67, 83, 85<br>
+
+&nbsp; fujida de, 86<br>
+
+&nbsp; ladr&otilde;es em geral, 150<br>
+
+<br>
+
+Caruci, ribeiro, 118<br>
+
+<br>
+
+Casamentos contractados antes da noiva nascer, 116<br>
+
+<br>
+
+Cassamba, acampo perto de, 176<br>
+
+<br>
+
+Cass&aacute;ra-Cai&eacute;ra, serra, 236<br>
+
+<br>
+
+Cass&ocirc;ma, sec&uacute;lo rico,
+imposi&ccedil;&atilde;o arrogante delle a seu sequito, 91<br>
+
+&nbsp; repulsa, 91<br>
+
+<br>
+
+Cassongue, ribeiro, 117<br>
+
+<br>
+
+Catapi, rio, 65<br>
+
+&nbsp; affluente do Cunene, 188<br>
+
+<br>
+
+Catonga, povoa&ccedil;&atilde;o de, 61<br>
+
+<br>
+
+Ca&uacute;-eu-hue, sova, 257<br>
+
+<br>
+
+C&ecirc;ra, 220<br>
+
+<br>
+
+Chacahanga, conversa com o velho, 172<br>
+
+<br>
+
+Chacahonha, povoa&ccedil;&atilde;o da ra&ccedil;a Ganguela,
+96<br>
+
+<br>
+
+Chacaiombe, D^{or.}<br>
+
+&nbsp; o adevinho, 212<br>
+
+&nbsp; pretende curar-me por meio de feiti&ccedil;os, 248<br>
+
+<br>
+
+Chacapombo, povoa&ccedil;&atilde;o, 95<br>
+
+<br>
+
+Chacaquimbamba, libata, 86<br>
+
+&nbsp; roubo e resgate, 87<br>
+
+<br>
+
+Chalongo, ribeiro, por outra, Longo, 307<br>
+
+<br>
+
+Chalussinga, floresta, 48<br>
+
+<br>
+
+Chaquicengo, povoa&ccedil;&atilde;o, 243<br>
+
+&nbsp; costumes e industrias, 244-246<br>
+
+<br>
+
+Chaqui&ccedil;onde, sec&uacute;lo, investe contra mim e
+&eacute; repellido, 270<br>
+
+<br>
+
+Chaquimbaia, sec&uacute;lo chefe da povoa&ccedil;&atilde;o
+de Ungundo, 118<br>
+
+&nbsp; extraordinaria temporal, tuf&atilde;o, etc., 119<br>
+
+<br>
+
+Charo, matas do, 118<br>
+
+<br>
+
+Chiconde, ribeiro, 219<br>
+
+&nbsp; &agrave;guas correndo para o Cuito, 219<br>
+
+<br>
+
+Chic&ocirc;to, soba, 237<br>
+
+<br>
+
+Chicului, rio, 304<br>
+
+&nbsp; passagem do rio, 305<br>
+
+<br>
+
+Chic&uacute;li-Diengin, rio, 50<br>
+
+<br>
+
+Chimbarandongo, sova de Ng&oacute;la, 59<br>
+
+&nbsp; discurso de supersti&ccedil;&atilde;o, 60<br>
+
+&nbsp; a cavallo em um de seu sequito, 60<br>
+
+&nbsp; amigo dos brancos, 61<br>
+
+<br>
+
+Chimbuicoque, ribeiro, affluente do Cutato, 102<br>
+
+<br>
+
+Chindonga, sec&uacute;lo de, traz-me um presente, 99<br>
+
+<br>
+
+Chind&uacute;a, povoa&ccedil;&atilde;o, 117<br>
+
+<br>
+
+Chinguene, peixe, 298<br>
+
+<br>
+
+Chipulo, peixe, 299<br>
+
+<br>
+
+Chitando, ribeiro, 73<br>
+
+<br>
+
+Chitequi, ribeiro, 63<br>
+
+<br>
+
+Circumcis&atilde;o, 293<br>
+
+<br>
+
+Cirurgi&atilde;o, indigena dos sert&otilde;es
+d'&Agrave;frica, 112<br>
+
+<br>
+
+Cobongo, ribeiro, 219<br>
+
+<br>
+
+Cobras, venenosas, 74, 229, 230, 288<br>
+
+<br>
+
+Coillard, referencias &aacute; familia, x, xx<br>
+
+<br>
+
+Combule, c&oacute;rrego, desaguando no Chicului, 311<br>
+
+<br>
+
+Comitiva, ordem da minha comitiva em viagem, 273<br>
+
+<br>
+
+Comooluena, rio, 51<br>
+
+<br>
+
+C&oacute;ra, cabrinha de leite, dada de presente, 55, 126, 232, 305<br>
+
+<br>
+
+C&ocirc;rpo diplom&agrave;tico, estrangeiro em Lisboa, xii<br>
+
+<br>
+
+C&ocirc;rte ou sequito no Dombe, 40<br>
+
+<br>
+
+C&ocirc;rvo, Jo&atilde;o de Andrade, homenagem a, v, 5, 10, 24<br>
+
+&nbsp; serra de And^{e.} Corvo, 189<br>
+
+<br>
+
+Coungi ou Cat&aacute;pi, rio, 62<br>
+
+<br>
+
+Crocodilos, 42, 327<br>
+
+<br>
+
+Cuanavare, rio, 240<br>
+
+<br>
+
+Cuando, o maior affluente do Zambeze, 241<br>
+
+&nbsp; suas nascentes, 242<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o, 249, 293<br>
+
+&nbsp; correc&ccedil;&atilde;o de nomes porque &eacute;
+designado, 293<br>
+
+<br>
+
+Cuango, affluente do Lungo-&eacute;-Ungo, 237<br>
+
+<br>
+
+Cuanza, nascente do, 158, 179<br>
+
+&nbsp; divis&atilde;o entre o Cubando e Cuanza, 190<br>
+
+&nbsp; passagem do, 194<br>
+
+&nbsp; o paiz entre o Cuqueima e o Cuanza, 209<br>
+
+<br>
+
+Cuassequera, libata de, 62<br>
+
+<br>
+
+Cubango, perto do, 96<br>
+
+&nbsp; a minha gente recusa-se a passar o, 97<br>
+
+&nbsp; passagem do, 28<br>
+
+&nbsp; ponte sobre o, 98<br>
+
+&nbsp; observa&ccedil;&otilde;es, 98<br>
+
+&nbsp; mulh&eacute;res, 102<br>
+
+&nbsp; divis&atilde;o entre o Cubango e Cuanza, 190<br>
+
+<br>
+
+Cubangui, affluente do Cuando, 241<br>
+
+&nbsp; nascentes, 252<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o, 257<br>
+
+<br>
+
+Cuchi, 117<br>
+
+&nbsp; atravessei a ponte sobre o, 117<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o,
+observa&ccedil;&otilde;es, etc., 118<br>
+
+<br>
+
+Cuchibi, produzindo fruto alimenticio, 249, 251<br>
+
+&nbsp; atravesso no meu barco de cautchuc, 258<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o do rio, perigos de, 259<br>
+
+&nbsp; em procura da minha comitiva, 262<br>
+
+&nbsp; aviso de perigos, 264<br>
+
+&nbsp; suas margens, 267, 289<br>
+
+<br>
+
+Cu&eacute;, rio, travessia do, 61<br>
+
+<br>
+
+Cuena, rio, 76<br>
+
+<br>
+
+Cuiba, 237<br>
+
+<br>
+
+Cuime, rio, 209, 213, 237<br>
+
+<br>
+
+Cuionja, povoa&ccedil;&atilde;o de, 171<br>
+
+<br>
+
+Cuito, rio, affluente do Cubango, 222, 237<br>
+
+<br>
+
+Cumbambi, rio, 51<br>
+
+<br>
+
+Cunene, rio, resolu&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o ir
+&aacute; foz do Cunene, mas directamente
+ao&nbsp;Bih&eacute;, 35<br>
+
+&nbsp; reconhecimento ao, 65, 73<br>
+
+&nbsp; travessia do, 90<br>
+
+<br>
+
+Cuqueima, rio, travessia perigosissima, 121<br>
+
+&nbsp; canoa submergida salvando-me eu por milagre, 122<br>
+
+&nbsp; chego a Belmonte, 118, 123<br>
+
+&nbsp; atravessei-o por meio de um barco Macintosh, 177, 178<br>
+
+<br>
+
+Cutangjo, rio, 242<br>
+
+<br>
+
+Cutato, rio, 102, 103<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Dan&ccedil;as, indigenas, 40, 205<br>
+
+<br>
+
+Desastres, explos&atilde;o de uma balla Pertuisset, 54<br>
+
+<br>
+
+Deser&ccedil;&atilde;o de serventes, 51, 52<br>
+
+<br>
+
+Doen&ccedil;as, eu doente, 55<br>
+
+&nbsp; Capello, 65, 104<br>
+
+&nbsp; muleque P&eacute;p&eacute;ca, 105<br>
+
+&nbsp; tolhido de dores rheumaticas, 119<br>
+
+&nbsp; durante jornada, peiorei, 120<br>
+
+&nbsp; grave, no Bih&eacute;, 124<br>
+
+&nbsp; end&egrave;micas, 188<br>
+
+&nbsp; acho-me envolto em feiti&ccedil;os de curandeiro, 247,
+254, 268<br>
+
+<br>
+
+Dombe Grande, chegada ao, 31, 40<br>
+
+&nbsp; Dombe, tem outros nomes, 41<br>
+
+&nbsp; sua descrip&ccedil;&atilde;o, 42<br>
+
+&nbsp; partida do, 45, 186, 187<br>
+
+<br>
+
+Donzellas, 77<br>
+
+<br>
+
+D&ocirc;ro, rio, chamado das mulh&eacute;res, 76<br>
+
+<br>
+
+Droma, rio, affluente do Calae, 74<br>
+
+<br>
+
+Dumbo, soveta, 90, 91, 93<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Elephantes, ca&ccedil;ador de, 232<br>
+
+&nbsp; feiti&ccedil;o contra, 232, 313<br>
+
+<br>
+
+Enterros, 54<br>
+
+&nbsp; da mulh&eacute;r que morre de parto, 116<br>
+
+&nbsp; de um sova, 142, 143<br>
+
+<br>
+
+Entrevistas com o Ministro das Colonias, 3, 5, 9<br>
+
+<br>
+
+Escravos resgatados para servirem de carregadores, 22, 107<br>
+
+&nbsp; libertei uma leva de, 181, 222, 223<br>
+
+&nbsp; escravatura, 224-226<br>
+
+<br>
+
+Expedi&ccedil;&atilde;o, preparos, 11<br>
+
+&nbsp; instrumentos, armamento, barracas, etc., de, 12-14<br>
+
+&nbsp; subsidio votado, 24<br>
+
+<br>
+
+Explorador, como eu fui, 1<br>
+
+<br>
+
+Extravio, jumento fugido, &eacute; entregue por um indigena, 52<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Feiticeiro, indigena dos sert&otilde;es d'&Agrave;frica, 112,
+115<br>
+
+<br>
+
+For&ccedil;as colonias, compostas de maos elementos, 33<br>
+
+<br>
+
+Frederico Youle, xii<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Gando, sova Tumbi, do, 177, 202<br>
+
+<br>
+
+Ganguelas, mulheres, 178, 180<br>
+
+&nbsp; o paiz, 124<br>
+
+&nbsp; mappa, 204<br>
+
+<br>
+
+Gazellas, grande, 62<br>
+
+<br>
+
+Gongo, povoa&ccedil;&atilde;o, 95<br>
+
+<br>
+
+Gov&ecirc;ra, riacho, 117<br>
+
+<br>
+
+Guandoassiva, rio, 76<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Hippop&ograve;tamos, 62, 66, 327<br>
+
+<br>
+
+Homenagem a Andrade C&ocirc;rvo, v, 9<br>
+
+<br>
+
+Huambo, descrip&ccedil;&atilde;o, 81<br>
+
+&nbsp; penteados, 83<br>
+
+&nbsp; figuras, 82<br>
+
+<br>
+
+Hyenas, 62, 308<br>
+
+<br>
+
+Hyrax, 73<br>
+
+<br>
+
+Hystrix Africano, 42<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+"Indicator." Como indicador, ou n&atilde;o, da existencia do mel
+nas florestas, 306, 307<br>
+
+<br>
+
+Instruc&ccedil;&otilde;es do Governo concernentes &aacute;
+explora&ccedil;&atilde;o, 21<br>
+
+<br>
+
+Instrumentos de m&ugrave;sica, 40;<br>
+
+&nbsp; rebeca, 163<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Jacintho, do Ambriz, 19<br>
+
+<br>
+
+Jamba, ribeiro, 63<br>
+
+<br>
+
+Jos&eacute; Antonio Alves, 172, 173<br>
+
+<br>
+
+Jos&eacute; Maria do Prado, hospede de, 16<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Lagartas como alimento, 102<br>
+
+<br>
+
+Lamupas (ou Mupas), 105<br>
+
+<br>
+
+Le&otilde;es, 62, 253, 304, 312, 319<br>
+
+<br>
+
+Leopardo, morto por mim, 247, 248, 304<br>
+
+<br>
+
+Lialui, capital do Bar&ocirc;ze, 328<br>
+
+&nbsp; sou recebido pomposamente pela c&ocirc;rte, etc., 328<br>
+
+&nbsp; o rei promette receber-me no dia immediato, 329<br>
+
+<br>
+
+Libatas, 142, 149<br>
+
+&nbsp; planta de uma libata, 150<br>
+
+<br>
+
+Lic&oacute;c&oacute;toa, ribeiro, 234<br>
+
+<br>
+
+Liguri, lago, 219<br>
+
+<br>
+
+Limbai, preven&ccedil;&atilde;o contra perigos no caminho para
+o, 311, 328<br>
+
+<br>
+
+Lincumba, peixe, 298<br>
+
+<br>
+
+Linica, povoa&ccedil;&atilde;o, 179, 180<br>
+
+<br>
+
+Linde, ribeiro, 254<br>
+
+<br>
+
+Liondo, povoa&ccedil;&atilde;o de uma Ilha, 328<br>
+
+<br>
+
+Lionzi, povoa&ccedil;&atilde;o, 300<br>
+
+&nbsp; seus costumes, etc., 301-304<br>
+
+<br>
+
+Livro. Seu pensamento e fim, xv<br>
+
+&nbsp; seu titulo, xix<br>
+
+<br>
+
+Loge, rio, 18<br>
+
+<br>
+
+Loss&oacute;la, ribeiro, 62<br>
+
+<br>
+
+Luceque, rio, 66<br>
+
+<br>
+
+Luchazes, paiz dos, 220<br>
+
+&nbsp; ra&ccedil;as, 221<br>
+
+&nbsp; o paiz, costumes, etc., 221-3, 237, 243, 255<br>
+
+<br>
+
+Luciano Cordeiro, viii<br>
+
+&nbsp; escrevo a, 203<br>
+
+<br>
+
+Luinas, commandados por Cicota, vem ao meu acampamento, 322<br>
+
+&nbsp; o paiz, 323<br>
+
+<br>
+
+Luiz Albino, sertanejo Portuguez morto por um b&ugrave;falo, 313<br>
+
+<br>
+
+Lungo-&eacute;-Ungo, rio, 237, 242<br>
+
+<br>
+
+Luvubo, ribeiro, 75<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Macacos, episodio de offerta de, 20, 290<br>
+
+<br>
+
+Macotas, conselheiros do sova, 141<br>
+
+<br>
+
+Malanca, 308, 309<br>
+
+<br>
+
+Mandioca, 43<br>
+
+<br>
+
+Mapole, arvore e folha, 252, 253<br>
+
+<br>
+
+Mappas, meu caminho de Benguella ao Bih&eacute;, 181<br>
+
+<br>
+
+Massango como alimento, 234, 237<br>
+
+<br>
+
+Massonge, riacho caudaloso, 51<br>
+
+<br>
+
+Mavando, sova, 196<br>
+
+&nbsp; seu exercito, 196-197<br>
+
+&nbsp; visita do sova e sua c&ocirc;rte, 199<br>
+
+<br>
+
+Mel, 306<br>
+
+<br>
+
+Milho, 94<br>
+
+<br>
+
+Minha vida diaria, hygiene, costumes, etc.; 272<br>
+
+&nbsp; trabalhos, 273-274<br>
+
+<br>
+
+Missionarios, referencia a, 101<br>
+
+<br>
+
+Moenacuchimba, aldea, 95<br>
+
+<br>
+
+M&ocirc;ma, povoa&ccedil;&atilde;o de,
+planta&ccedil;&otilde;es enormes, 103<br>
+
+<br>
+
+Mucano, crime sujeito a multa, 144, 145<br>
+
+&nbsp; receio de incorrer nelle, 155<br>
+
+<br>
+
+Mucassequeres, acampamento de, 278<br>
+
+&nbsp; verdadeiros selvagens, sua descrip&ccedil;&atilde;o,
+etc., 280-284<br>
+
+&nbsp; differen&ccedil;a entre elles e os Ambuellas, 281<br>
+
+<br>
+
+Muene-Calengo, sov&ecirc;ta, 221, 237<br>
+
+<br>
+
+Muene-Ca&uacute;-eu-hue, chefe dos Ambuellas, 278<br>
+
+&nbsp; sua visita, 279<br>
+
+&nbsp; episodio: duas filhas do Rei dos Ambuellas offerecem-se como<br>
+
+&nbsp;&nbsp;&nbsp; concubinas, 285, 288-290, 294<br>
+
+&nbsp; separ&atilde;o-se da minha comitiva, 311<br>
+
+<br>
+
+Muenevindo, povoa&ccedil;&atilde;o governada por uma
+mulh&eacute;r, 240<br>
+
+<br>
+
+Mundombes, figuras, 43, 44<br>
+
+<br>
+
+Muzinda, povoa&ccedil;&atilde;o, 177<br>
+
+&nbsp; costumes, 178, 179<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Nano, povos do, 81<br>
+
+<br>
+
+Nariere, 328<br>
+
+<br>
+
+Ng&oacute;la, visita ao sova de, 58<br>
+
+&nbsp; troca de presentes, 59<br>
+
+<br>
+
+Nhengo, planicie, 316<br>
+
+&nbsp; acampei, 318<br>
+
+&nbsp; grande affluente do Zambeze, sua
+descrip&ccedil;&atilde;o, 319<br>
+
+<br>
+
+Nhongoaviranda, rio, 234<br>
+
+<br>
+
+Ninda, rio, acampado em suas margens, 312<br>
+
+&nbsp; enxame de insectos, e perigo de feras, 312, 313<br>
+
+<br>
+
+Nondumba, r&igrave;acho, 62<br>
+
+<br>
+
+Nor&ocirc;co, lago formado pelas aguas do Zambeze, 328<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Observa&ccedil;&otilde;es scientificas. Systema por mim
+seguido, 130, 131<br>
+
+&nbsp; astron&ograve;micas, 185, 191, 192<br>
+
+&nbsp; outras, de Benguella ao Bih&eacute;, 186-193<br>
+
+&nbsp; em Cambuta, 240<br>
+
+<br>
+
+Obst&agrave;culos, 69<br>
+
+<br>
+
+Onda, rio, 209, 211<br>
+
+&nbsp; peixe "Ditass&ocirc;a," 211<br>
+
+&nbsp; fetus arb&ograve;reos, 212, 217, 218<br>
+
+<br>
+
+Opumbulume, &agrave;rvore, 267<br>
+
+<br>
+
+O&uacute;co, produzindo uma fl&oacute;r odorosissima 266, 315<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Palanca, libata, 75<br>
+
+&nbsp; primeiro ponto determinado por mim, 75<br>
+
+&nbsp; o sec&uacute;lo Palanca amarrado, 97<br>
+
+&nbsp; precau&ccedil;&otilde;es contra elle, 100<br>
+
+<br>
+
+Peacock, D^{or.}, meu m&egrave;dico assistente em Londres, xii<br>
+
+<br>
+
+Pereira de Mello, ix<br>
+
+&nbsp; servi&ccedil;o penhorante de, 166<br>
+
+<br>
+
+Permuta&ccedil;&atilde;o, commercio de, 43<br>
+
+<br>
+
+Pessange, povoa&ccedil;&atilde;o de, 74<br>
+
+<br>
+
+P&otilde;e, rio, 88<br>
+
+<br>
+
+Pombeiro, chefe de carregadores, 140, 141<br>
+
+<br>
+
+Pontes, sobre o Calae, 86<br>
+
+&nbsp; id. Canhungamua, 89<br>
+
+<br>
+
+Porto de Fende, rio, sua descrip&ccedil;&atilde;o, 66<br>
+
+<br>
+
+Provis&otilde;es, falta de, 49, 50, 74, 228, 272<br>
+
+&nbsp; longe de soccorros, 276, 317<br>
+
+&nbsp; tomadas &aacute; for&ccedil;a, 321<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Quando, rio, 65, 73<br>
+
+<br>
+
+Queimbo, nascente do, 248<br>
+
+<br>
+
+Quiaia, povoa&ccedil;&atilde;o, 95<br>
+
+<br>
+
+Quiassa, bebida, 147<br>
+
+<br>
+
+Quich&ocirc;bo, ant&igrave;lope amphibio, 260<br>
+
+<br>
+
+Quillengues, descrip&ccedil;&atilde;o, 52, 53<br>
+
+&nbsp; casamento, 53<br>
+
+&nbsp; embriaguez, 54<br>
+
+&nbsp; sahida de, 56, 187<br>
+
+<br>
+
+Quimbandes, paiz, 195<br>
+
+&nbsp; ra&ccedil;as e costumes, 195, 196<br>
+
+&nbsp; industrias, 207, 208<br>
+
+&nbsp; o paiz, 210<br>
+
+<br>
+
+Quimbungo, libata, 88<br>
+
+<br>
+
+Quingolo, libata, 74<br>
+
+<br>
+
+Quingue, velho capit&atilde;o do, seus protestos, etc., 107<br>
+
+<br>
+
+Quiocos, ou Quibocos, 234<br>
+
+&nbsp; descrip&ccedil;&atilde;o do paiz, seus costumes,
+etc., 234, 235<br>
+
+<br>
+
+Quipembe, chegada a, e recep&ccedil;&atilde;o pelo sova de, 71<br>
+
+&nbsp; queixas contra Portugal, 72<br>
+
+&nbsp; visita e presente do sova de, 179<br>
+
+<br>
+
+Quissangua, bebida, 147<br>
+
+<br>
+
+Quiss&egrave;cua, serra de, sua eleva&ccedil;&atilde;o,
+ascen&ccedil;&atilde;o, etc., 57<br>
+
+<br>
+
+Quissengo, rio, 61<br>
+
+<br>
+
+Quissonde, formiga destruidora, 226, 227<br>
+
+<br>
+
+Quissonge, festa selvagem com sacrificio de carne humana, 148<br>
+
+<br>
+
+Quissongo, 116<br>
+
+&nbsp; chefe de carregadores, 140<br>
+
+<br>
+
+Quitaqui, riacho, caudaloso, 51<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+R&agrave;pidos, da libata grande, 66<br>
+
+&nbsp; mupas de Canhacuto, 66<br>
+
+&nbsp; cataractas de Quiverequete, 66<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Sambo, libata do sova no paiz do, 90<br>
+
+&nbsp; mulh&eacute;r do Sambo, 93<br>
+
+&nbsp; acampamento entre Sambo e o Bih&eacute;, 94<br>
+
+&nbsp; um enviado do sova, 95<br>
+
+&nbsp; a "Enhana" de Ambamba, 189<br>
+
+<br>
+
+Sanguesugas, 218, 249, 299<br>
+
+<br>
+
+Secula-Binza, rio, 65, 70<br>
+
+<br>
+
+S&eacute;culo, fidalgo, 142<br>
+
+<br>
+
+Sepulturas de sec&uacute;los, 104, 105<br>
+
+<br>
+
+Silva Porto, ix, 34<br>
+
+&nbsp; chego a Belmonte, 122<br>
+
+&nbsp; meus companheiros deix&atilde;o a residencia de Silva
+Porto, que eu ent&atilde;o&nbsp;occupo, 126<br>
+
+&nbsp; casa de Silva Porto, 128<br>
+
+&nbsp; servi&ccedil;os penhorantissimos de, 166, 242<br>
+
+<br>
+
+Sociedades geogr&agrave;phicas e outras, referencias a, xi, xii, xiv<br>
+
+<br>
+
+Songue, especie de ant&igrave;lope, 270, 271, 305<br>
+
+<br>
+
+Sovas do Dombe, descrip&ccedil;&atilde;o, nomes, etc., 39<br>
+
+&nbsp; cerimonias selvagens na acclama&ccedil;&atilde;o do
+novo sova, 143<br>
+
+&nbsp; as mulheres do sova, 144<br>
+
+<br>
+
+Stanley, ix, 22<br>
+
+&nbsp; offerecimentos feitos em nome do Governo Portuguez a, 22, 23<br>
+
+&nbsp; sua estada em Loanda, 23<br>
+
+<br>
+
+Sulphato de cal, 42<br>
+
+<br>
+
+Supersti&ccedil;&atilde;o<br>
+
+&nbsp; esterilidade de mulheres, 293, 294<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Tama, serra da, 50<br>
+
+<br>
+
+"Tamega", corveta, ix<br>
+
+&nbsp; passageiro da corveta, 21<br>
+
+<br>
+
+Taramanjamba, valle extenso, 46<br>
+
+&nbsp; falta d'&agrave;gua, 46, 47<br>
+
+<br>
+
+Tartarugas, 319<br>
+
+<br>
+
+Termites, como alimento dos Bih&eacute;nos, 148, 189, 213, 217,
+218, 323<br>
+
+&nbsp; do Nhengo, 324<br>
+
+&nbsp; nas margens do Cutato, 103<br>
+
+<br>
+
+Tia Leonarda, ou Tia Lina, do Ambriz, 19<br>
+
+<br>
+
+Tributo a El-Rei, iii<br>
+
+<br>
+
+Tributo de gratid&atilde;o, em geral, vii<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Uba, monte, 61<br>
+
+<br>
+
+Umpuro, rio, 51<br>
+
+<br>
+
+Upanga, ribeiro, 63<br>
+
+<br>
+
+Urivi, armadilha dos Luchazes, para ca&ccedil;a, 245, 278<br>
+
+<br>
+
+Usserem, ribeiro, 61<br>
+
+<br>
+
+Ussongue, rio, 66<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Vambo, acamp&aacute;mos em suas margens, 51<br>
+
+<br>
+
+Vaneno, povoa&ccedil;&atilde;o, 95<br>
+
+<br>
+
+Varea, rio, affluente do Cuime, 209<br>
+
+<br>
+
+Verissimo Gon&ccedil;alves, 56<br>
+
+&nbsp; reconhece algumas raparigas roubadas em Quillengues, 81<br>
+
+<br>
+
+Vic&eacute;te, libata fortificada entre rochas, 66<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+Zaire, subi o, 21<br>
+
+<br>
+
+Zambeze, resolvo ir direito ao alto Zambeze, 129<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: center;">
+Fim do Volume primeiro.<br>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">
+LONDRES:<br>
+
+<div style="text-align: left;">NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME
+CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA), STAMFORD STREET E CHARING CROSS.<br>
+
+</div>
+
+</div>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<br>
+
+<h2><span style="font-weight: bold;">
+Notas:</span></h2>
+
+<br>
+
+<div style="text-align: justify;">
+[<a name="1"></a>1]
+Alfredo Pereira de Mello, capit&atilde;o-tenente, e Governador de
+Benguella, era o mesmo Tenente Mello de que fala Cameron no&nbsp;<span style="font-style: italic;">Across </span><span style="font-style: italic;">Africa</span>, e que era
+ent&atilde;o Ajudante-de-Campo do Governador da Provincia d'Andrade.<br>
+
+<br>
+
+[<a name="2"></a>2] Parte d'estes carregadores, 200,
+s&oacute; cheg&aacute;ram a Benguella a 27 de Dezembro, e
+outros 200 por fins de Fevereiro. <br>
+
+<br>
+
+[<a name="3"></a>3] Isto &eacute; quasi a
+pr&agrave;tica seguida entre os Maraves, a prova do Muave. (Gamito,
+e Muata Cazembe.)<br>
+
+<br>
+
+[<a name="4"></a>4] Eu chamo fardo a carga de um
+homem, proximamente trinta kilogrammas.<br>
+
+<br>
+
+[<a name="5"></a>5] Lembra-me aqui do que me dizia o
+Ivens, com aquella gra&ccedil;a que nunca perdeu nos transes mais
+dolorosos. Dizia elle, "Em eu vendo entrar no meu campo pr&ecirc;to
+de
+sapatos de liga e guardasol, j&aacute; sei que &eacute; branco,
+e estou
+logo a tremer."<br>
+
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Como atravessei Àfrica (Volume I), by
+Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMO ATRAVESSEI ÀFRICA (VOLUME I) ***
+
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+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
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+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
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+</html>