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+The Project Gutenberg EBook of A princeza na berlinda, by Urbano de Castro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A princeza na berlinda
+ Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza
+
+Author: Urbano de Castro
+
+Release Date: December 13, 2006 [EBook #20103]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+
+RATTAZZI A VOL D'OISEAU
+
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+
+
+URBANO DE CASTRO
+
+CHA-RI-VA-RI
+
+
+
+
+A PRINCEZA NA BERLINDA
+
+
+RATTAZZI A VOL D'OISEAU
+
+COM A BIOGRAPHIA DE SUA ALTEZA
+
+
+(SEGUNDA EDIÇÃO)
+
+
+LISBOA
+TYPOGRAPHIA PORTUGUEZA
+7, Rua da Paz, 7
+1880
+
+
+
+
+A PRINCEZA NA BERLINDA
+
+
+Não será talvez máo começar por fazer uma declaração:--nunca passei
+pelos beiços os guardanapos da princeza... Parece-me conveniente dizer
+isto. A _minha terra_, que era pequena no tempo de Garret, não me consta
+que tenha crescido, depois da sua morte... Tem até diminuido um pouco...
+talvez!
+
+ * * * * *
+
+Foi pelos jantares que a princesa conseguiu tornar-se conhecida em
+Lisboa. Quando aqui chegou, vendo que ninguem a procurava, que a
+litteratura não corria pressurosa ao _Bragança_, cumulando-a de elogios
+banaes e de bilhetes de visita baratos, sentio dentro da sua alma a
+mordedura cruel do amor proprio offendido. E amor proprio de mulher,
+amor proprio de princeza! Calculem que dentada! Esperou, um, dois, tres
+dias... uma semana, outra... a litteratura não apparecia!--Pois ha de
+apparecer! exclamou ella--E convidou-a para jantar. E a litteratura
+appareceu. Os livros da princeza, que até então ninguem conhecia em
+Lisboa, e que ella mandara adiante para os livreiros, como batedores da
+sua fama, começaram por essa epoca a ter uma tal ou qual extracção. Não
+é difficil advinhar quem os comprava--eram os convivas dos seus
+jantares--Comprehende-se. Realmente seria pouca amabilidade comer o
+_foie gras_ de Rattazzi, e não dizer ao menos, no fim, que era admiravel
+o seu livro _Si j'etais reine_; beber o champagne da princeza, e não lhe
+segredar que nunca mulher nenhuma escrevera um volume como _Nice la
+Belle_. E a proposito dos livros citavam-se os trechos das paginas
+abertas, abril-os seria muito, e bebia-se mais um copo. A princeza, que
+é inquestionavelmente uma mulher d'espirito, percebeu, o que de resto
+não era muito difficil, a _manobra fraudulenta_, como diz o sr. Duc nos
+livros de mortalhas, dos litteratos de Lisboa...
+
+Callou-se porém muito bem callada e continuou a dar-lhes jantares
+hebdomadarios. A concorrencia cada vez era maior. Houve sujeito que se
+fez litterato, só para jantar com a princeza. Cá fóra, no Martinho e na
+Havanesa, esses jantares eram digeridos e commentados com a face
+vermelha e a palavra quente... Contavam-se anecdotas, que é deveras pena
+não terem chegado aos ouvidos da princeza, porque, algumas d'ellas não
+são em nada inferiores a muitas que lêmos no seu livro...
+
+E aqui está como madame Rattazzi conseguiu durante um mez ser uma
+notabilidade em Lisboa. Sua altesa, porém, em vez de contentar-se com
+esta gloria, embora de 2.^a ordem, lembrou-se um dia de querer uma
+gloria de 1.^a sorte, e escreveu uma comedia que, depois de muito
+applaudida em sua casa pelos seus commensaes, foi representada no
+theatro dos Recreios, a quem ella, com carradas de rasão chama um
+calvario, visto que lá teve... a cruz da pateada...
+
+Tambem que diabo de publico este de Lisboa... atrever-se a patear uma
+princeza... Se sua alteza tem a mania dos cumulos,--e porque não a
+terá?--sim, porque não terá sua alteza a mania dos cumulos, se a tem, é
+impossivel que pelo seu preclaro espirito não tivesse passado este--o
+cumulo da selvageria:--_Patear uma princeza_...
+
+Ah! decididamente sua alteza não estava em sorte... _Pas de chance_! No
+hotel os convivas faziam muito mais despeza de iguarias do que de
+elogios; nos Recreios, o publico muita mais despeza de botas do que de
+luvas... _Pas de chance_!
+
+ * * * * *
+
+Foi então, naturalmente, que o seu espirito se orientou na direcção a
+dar ao _Portugal à vol d'oiseau_.
+
+--Ah! os senhores julgam que não é mais do que comerem-me os meus
+jantares, do que patearem-me as minhas peças, esperem ahi que já os
+ensino! Até aqui tenho-os recebido como convivas, agora vou passar a
+tratal-os como assumptos! Os senhores pensam, quando estão á minha mesa,
+que são meus commensaes?--pois enganam-se, são paginas para o meu livro!
+Não sou eu quem os obsequeio aos senhores, os senhores é que me
+obsequeiam. Escusam de dizer «muito obrigado!» eu é que tenho que
+dizer-lhes «_merci_»!
+
+E escreveu _Le Portugal à vol d'oiseau_.
+
+ * * * * *
+
+Lisboa já sabe pouco mais ou menos o que o livro é. Os jornaes tem dado
+excellentes amostras d'aquella famosa peça...
+
+Porque não havemos nós de dar tambem algumas? Estes dois perfis da nossa
+nobreza, por exemplo...
+
+Venha primeiro o conde de ***
+
+«--O conde *** um dos meus valsistas, e um valsista encantador, entre
+parenthesis, não é menos notavel. De muito antiga e nobre familia, é
+verdadeiramente um dos typos mais salientes de Lisboa. Orça pelos
+cincoenta, mas não obstante apparenta um grande ar de mocidade.
+Baixinho, apurado, e elegante, ha em toda a sua pessoa uma excessiva
+vivacidade. Esta vivacidade será natural ou o resultado d'um estudo
+paciente para parecer ainda mais novo?
+
+Talvez que sim a avaliar a sua petulancia pelo mais. Os bigodes do conde
+de *** são mais negros do que o ebano.
+
+Mas isto não é nada comparado ao craneo do encantador conde; o
+proprietario d'este craneo conserva n'elle alguns cabellos, raros,
+semeados aqui e ali, tratados com zelosos cuidados, e que puchados
+artisticamente para a testa, ahi occupam o maximo espaço possivel para
+assim substituirem os ausentes. Para suprir os defuntos põe no cucuruto
+uma especie de pequeno crescente--não, eu nunca ousaria dizer chinó
+fallando de tão perfeito cavalheiro--que se confunde graciosamente com
+os cabellos: depois cobre tudo isto com uma espessa camada de pez e
+summo de alcaçuz de que faz uma pomada a fogo lento; por fim o seu
+creado de quarto, confidente d'esta excentricidade, traça no meio d'esta
+pasta de _raisiné breton_, uma risca d'uma delicadeza, d'uma puresa,
+d'uma nitidez a causar inveja a uma rapariga de quinze annos. Quando a
+cataplasma está secca, o conde póde apparecer no meio dos seus
+concidadãos. Todos conhecem o mysterio d'aquella cabeça e ha delirios de
+alegria quando o excellente homem é obrigado, em pleno sol ou em pleno
+baile, a andar de chapeu na mão, porque o calor tendo acção dissolvente
+sobre aquella untura, resulta d'ahi começar ella a mover-se, a palpitar,
+a derreter-se, acabando por escorrer pelo pescoço e pelo nariz do seu
+proprietario.
+
+Não obstante o conde de *** é um grande conquistador, um namorador que
+não perde occasião de deitar a sua olhadella, sendo porém capaz de
+praticar heroismos, como o demonstram varias circumstancias da sua vida.
+
+Conta-se este facto digno dos melhores tempos da monarchia. O conde era
+camarista da infanta D. Izabel, que morreu ha annos, em avançada edade,
+no seu palacio de Bemfica nos arrebaldes de Lisboa. Sendo os principes
+da familia real depositados na egreja de S. Vicente, situada n'um dos
+extremos da cidade opposto a Bemfica, o cortejo funebre teve de
+percorrer duas leguas, a passo, em pleno mez de julho.
+
+O conde devia seguir a cavallo, uniformisado e de cabeça descoberta, o
+corpo da sua real ama, debaixo d'um sol torrido, o que elle fez
+magnanimamente, sem trepidar, entregando aos abrasadores raios de Phebo
+a sua untura quotidiana--facil presa--sem temer a troça dos graciosos
+que, no dia seguinte, alludindo á liquefação do cosmetico, diziam por
+toda a parte que ninguem figurara no cortejo com o rosto mais
+tristemente cheio de luto do que o infeliz conde de ***.»
+
+Igual a isto só aquella celebre caricatura do _Antonio Maria_...
+«_Dá-lhe cuspo_...»
+
+ * * * * *
+
+Agora o marquez de V. ***
+
+ * * * * *
+
+--«Como exemplo não, quero citar senão um dos meus amigos o marquez de
+V. ***. Vale bem a pena. É uma personalidade, uma celebridade, uma
+curiosidade de primeira ordem. Em vão lhe procurariam rival na galeria
+do duque de Saint-Simon, e ainda menos na collecção tão rica de Moliére.
+Em certas festas de gala ou de representação exterior, o marquez de V.
+*** julga-se obrigado a seguir as carruagens da côrte na sua equipagem,
+e é esta equipagem que faz do nobre marquez uma curiosidade unica do
+mundo.
+
+Imagine-se um coche do seculo passado, envidraçado de modo a ver-se todo
+o interior, montado sobre molas e rodas que fazem pensar nas machinas de
+_Leviathan_, tudo isto pintado de verde, cheio de dourados em alto e
+baixo relevo. No meio d'esta caixa throno, o marquez de V. *** só, de
+cabeça descoberta, com o grande uniforme d'uma ordem qualquer, com os
+olhos fitos na sua frente, parecendo contemplar em extase as abas da
+libré do seu cocheiro, não voltando a cabeça nunca, nem para a direita
+nem para a esquerda: dir-se-hia uma estatua e não um homem.
+
+A carruagem é atrelada a quatro cavallos, montados por dois postilhões e
+guiados por um cocheiro gorducho sentado n'uma almofada que parece um
+divan. Na taboa da carruagem dois enormes lacaios em pé. Todo este
+pessoal vem empoado e veste uma libré verde claro que deslumbra a vista
+e faz piscar os olhos. Não se póde imaginar nada mais original. Quando a
+cerimonia terminou e a parte official do programma está cumprida, o
+marquez faz gravemente o giro das principaes ruas e praças de Lisboa
+para se fazer admirar. Em Paris entraria em casa corrido a batatas
+cozidas. Aqui deixam-o em paz--_é costume_.
+
+Se eu fosse rei de Portugal prohibia a este fidalgo, sob as mais graves
+penas, de me fazer assim cortejo com a sua entrudada, mas, com isso,
+arriscaria talvez a minha corôa.
+
+É de justiça acrescentar que o marquez de V. é um homem instruido. Que
+seria, Deus meu, se o não fosse!»
+
+Realmente está parecido... O _Antonio Maria_ não o faz melhor...
+
+ * * * * *
+
+Depois d'estes perfis hilariantes como o protoxido de azote, tenha o
+leitor a paciencia de me acompanhar ao capitulo em que sua altesa nos dá
+a honra de fallar dos nossos enterros.
+
+Dêmos a palavra á princeza:
+
+«É realmente coisa curiosa que acompanhando o pae os filhos ao
+cemiterio, estes não acompanhem os paes: não é costume. Deixa-se este
+cuidado aos parentes mais affastados ou aos amigos. Porquê? Não m'o
+poderam explicar: acho porém esquisito.»
+
+Está no seu direito. Foi porém mal informada. Os paes tambem não
+acompanham os filhos. Quanto a achar o caso estranho não tem de quê. O
+facto de em França os parentes mais proximos acompanharem os cadaveres
+dos seus defunctos não prova nada, senão que até na morte é verdadeiro o
+dictado:--_Cada terra com seu uso_... O que é deveras esquisito, é
+querer sua altesa que os costumes sejam os mesmos em todos os paizes.
+Para quem se propõe escrever livros de viagem, não póde haver ponto de
+vista mais ridiculo nem mais acanhado.
+
+Continua a auctora:--«Quando uma pessoa morre, a familia não envia
+cartas de participação. Faz um annuncio nos jornaes, e está tudo
+prompto, visto que o dito annuncio termina invariavelmente por este
+_cliché_: _Não se fazem convites especiaes attendendo ao estado de
+consternação indizivel em que a familia está_...
+
+Comprehendo muito bem que a familia esteja n'um estado de consternação
+indizivel: entretanto, visto que esta consternação lhe permitte fazer
+annuncios nos jornaes, parece-me que, com um pequeno esforço, lhe
+permittiria tambem enviar cartas de participação impressas a casa de
+cada um, como se faz nos outros paizes.
+
+Resulta com effeito d'este costume que, se não se lerem os jornaes, ou
+antes os annuncios dos jornaes, póde muito bem acontecer deixar uma
+pessoa de acompanhar ao cemiterio o seu tio, primo, ou o seu melhor
+amigo.»
+
+Foi ainda mal informada sua alteza. É verdade que muitas vezes o
+annuncio funebre termina por aquelle molho, mas não é menos verdade que
+rarissimas vezes se deixa de enviar cartas de participação. Sua alteza
+não recebeu nenhuma, e por isso naturalmente lembrou-se de nos ensinar
+como estas coisas se fazem nos paizes civilisados. Obrigado princeza.
+Quanto a não ter recebido carta alguma de participação desculpe:--hei de
+mandar-lhe uma... quando morrer o meu Tareco.
+
+Coitada! Infeliz princeza! Ninguem lhe mandou carta de participação.
+Então que se lhe ha de fazer, no nosso paiz os enterros serão tudo
+quanto quizer... mas não são entrudadas...
+
+A respeito dos chavões com que é costume fechar annuncios funebres
+faltou-lhe ainda um. É este:--_não se fazem convites especiaes por
+expressa determinação do finado_. Foi pena escapar. Que bella pagina
+humoristica não escrevia a princeza com thema tão divertido!
+
+ * * * * *
+
+Mas nem só os enterros tem a honra de espantar sua alteza... O livro
+está cheio de exemplos do mesmo genero.
+
+Sente-se mesmo em algumas paginas que a princeza não chega a contar
+metade dos seus espantos... Qual metade!--nem a decima, nem a centesima,
+nem a milesima parte...
+
+Porque a verdade é esta:--sua alteza apenas transpoz a fronteira começou
+a sentir as dôres... do espanto... Exactamente, agora é que eu
+acertei... começou a sentir as dôres do espanto, e o seu livro, que até
+hoje ninguem sabia bem o que é, passa agora muito logicamente a ser o
+feliz parto que a alliviou das citadas dôres, logo que ella se viu em
+terreno conhecido, que é como quem diria:--logo que a natureza permittiu
+que o robusto menino visse a clara luz do dia...
+
+Espanto! Espanto! sempre espanto!
+
+Os portuguezes não dizem «até manhã» dizem «até ámanhã se Deus
+quizer»--espanto: não acompanham seus paes ao cemiterio,--espanto: as
+varinas carregam-se de oiro,--espanto: vae muita gente aos bastidores de
+S. Carlos,--espanto: dizemos _um copo d'agua_ e não _un verre
+d'eau_,--espanto: estamos a uma latitude e a uma longitude differentes
+de Paris,--espanto: as nossas pulgas mordem,--espanto: o nariz do sr.
+Minhava é enorme,--espanto: _pomme de terre_, chama-se
+batatas,--espanto: uma _precieuse ridicule_ é uma tola... espanto!
+
+Espanto, espanto, sempre espanto!
+
+Porque não escreveu o seu livro tal qual o pensou princeza?
+
+Porque não nos deu, por exemplo, uma pagina n'este genero:--«Uma vez,
+tendo entrado casualmente n'uma egreja, approximei-me d'uma mulher que
+estava rezando, em voz sufficientemente alta, para que se podesse
+perceber o que ella dizia... Approximo-me mais, e calculem o meu
+espanto, ao ouvir estas palavras:--_Padre, nosso, que estaes nos céus
+santificado_... Accreditarão agora que isto quer dizer em
+portuguez:--_Notre père qui étes aux cieux, que votre nom soit,
+santifié_...
+
+Como diabo, perdoe-se-me a heresia, quererão os meus bons amigos
+portuguezes que Nosso Senhor os entenda?»
+
+E não seria este por certo o menos notavel dos seus espantos.
+
+ * * * * *
+
+Antes de passarmos adiante contemos um disparate que não deixa de ter
+graça. A paginas, não sei quantas, escrevendo a princeza que nós não
+fazemos uso de fogões para aquecer as casas, diz pouco mais ou menos o
+seguinte:--De resto, se fizessem uso d'elles, não se haviam de vêr em
+pequenos embaraços para arranjar o combustivel, a não ser que deitassem
+a mobilia ao fogo. A lenha é absolutamente desconhecida em Portugal, e
+custa cada kilo... tres mil réis!»
+
+--Oh! princeza, se vossa alteza quando esteve em Lisboa pagou a lenha
+por aquelle preço, devo dizer-lhe duas coisas:--a primeira, é que o seu
+livro passa a ser um favo do Hymeto, a segunda... é que foi roubada!
+
+ * * * * *
+
+O que é verdade porém é que Lisboa deve um grande serviço á princesa.
+Nem mais nem menos do que a rusga feita ás casas de jogo nos principios
+d'este mez.
+
+Se duvidam, leiam.
+
+ * * * * *
+
+Ha muito que no governo civil havia uma tal ou qual suspeitasinha, uma
+vaga desconfiança, de que a roleta, esse terrivel philloxera das
+algibeiras, tivera o inqualificavel arrojo, o descaro inaudito de
+assentar os seus arraiaes--aqui--na patria de Camões, nas bochechas do
+sr. Rosa Araujo, representante da dita patria. Mas tudo era vago,
+incerto, nebuloso... A policia posta em campo nada descobrira.
+Procurara-a,--oh! se a procurara!--como o nauta procura o norte, como a
+ave procura o ninho, como a féra o seu covil--mas, apesar de a procurar
+com todo este excesso de poesia, o resultado era sempre o mesmo... nada,
+nada, nada, tres vezes nada coisa nenhuma!
+
+O habil Antunes, o eximio Castello Branco, o nunca assás cantado 37--e
+muitos outros egualmente habeis, egualmente eximios, egualmente nunca
+assás cantados, encarregados secretamente de a descobrirem, pozeram em
+pratica as maiores subtilesas policiaes. Um d'elles chegou a
+disfarçar-se em G. L. P... Nem assim a encontrou!
+
+Nada os fazia recuar, nada os intimidava, desconheciam... e creio que
+ainda desconhecem, o verbo trepidar! Passeios, botequins, theatros, tudo
+assaltaram em busca da criminosa... Era um phrenesi, um delirio, uma
+raiva... Mas a scelerada não apparecia!
+
+--E comtudo ella existe! exclamava o governo civil com o tom solemne com
+que por muito tempo se julgou que o sabio Gallileu dissera o
+legendario:--_E pur si muove_!
+
+Era para perder a cabeça.
+
+ * * * * *
+
+Estavam as coisas n'estes termos quando chegou o livro da princeza. O
+governo civil compra-o, começa a lêl-o e ao chegar a paginas 149, já não
+diz: «E comtudo ella existe!» no tom de Gallileu, mas, qual outro
+Archimedés, _toilette_ aparte, solta do fundo do seio um jubiloso
+_Eureka_!
+
+Ah! é que effectivamente o caso não era para menos. A pagina 149,
+fallando das batotas, diz a princeza:
+
+ Ha uma na rua do Alecrim.
+
+ Uma, rua das Gavias.
+
+ Uma, praça de Camões.
+
+ Duas, rua da Emenda.
+
+ Uma, rua de S. Francisco.
+
+ Uma, travessa de Santa Justa.
+
+ Tres ou quatro á Ribeira Velha.
+
+--Obrigado meu Deus! exclamou então o governo civil imitando d'esta vez
+a sr.^a Emilia das Neves, obrigado meu Deus!
+
+ * * * * *
+
+E aqui está como a policia conseguiu saber onde eram as batotas. Ah!
+princeza, princeza, vossa alteza merecia que pelo menos a fizessem...
+chefe d'esquadra.
+
+E note-se mais, é ella, é ella quem ensina no seu livro como se faz uma
+rusga. Duvidam?
+
+Leiam.
+
+«--Em Paris a policia tem um serviço especial para este genero de
+industria prohibida. Os agentes d'este serviço espiam os batoteiros,
+estudam cuidadosamente o terreno, e uma bella noite cahem lá dentro como
+um raio e prendem todos, levando o dinheiro que está em cima das mesas.»
+
+A policia seguiu as instrucções da princeza tanto á risca, que até
+escolheu uma bella noite, _une belle nuit_, para fazer a sua rusga!
+
+Diz ainda sua alteza:--A mobilia é confiscada... e a policia confiscou a
+mobilia.
+
+Decididamente, a princeza tem todo o direito... a um apito honorario!
+
+ * * * * *
+
+Vejamos agora como sua alteza falla de alguns dos nossos escriptores.
+
+ * * * * *
+
+--_Camillo Castello Branco_, que parece o condemnado aos trabalhos
+publicos da litteratura portugueza, escreve, escreve, escreve, escreve
+sempre: superiormente, é questão controversa; enormemente, com certesa.
+A quantidade excede em muito a qualidade, diz-se, (diz ella); dotado de
+uma actividade laboriosa, infatigavel, comparavel á de uma legião de
+formigas, construe romances contemporaneos sobre romances historicos,
+com uma preseverança e uma sequencia que intrigam a imaginação. É uma
+especie de Quevedo com certo sentimentalismo catholico.
+
+Particularidade curiosa: em todos os seus romances entram
+infallivelmente um brazileiro, uma menina que se mette n'um convento, um
+fidalgo provinciano, e um namorado amorudo e transparente. É invariàvel
+como a chuva e o bom tempo. De fórma, que o primeiro romance que se lê
+do sr. Branco parece muito interessante, o segundo accorda
+remeniscencias, e o terceiro adivinha-se; o quarto sabe-se de cór,
+volta-se a pagina sabendo-se o que vae passar-se. É uma galeria de
+personagens que raramente se renova, como a dos museus de figuras de
+cera. Os seus principaes romances são: _Onde está a felicidade_, _Doze
+casamentos felizes_, _O que fazem mulheres_, _Historia d'um homem rico_;
+são feitos com este arcabouço em que as vigas, as asnas e os alicerces
+são invariavelmente os mesmos.»
+
+ * * * * *
+
+«--_Bulhão Pato_. É um peninsular, um sybarita, um camaleão. Como muitos
+rapazes que se dizem artistas pintores ou esculptores, para terem o
+direito de usar umas enormes cabelleiras e de adoptarem umas maneiras e
+um modo de fallar desbragado, este, fez-se poeta, o que na alta
+sociedade de Lisboa é um titulo de apresentação.
+
+O sr. Bulhão Pato é incontestavelmente um homem d'uma conversação
+encantadora. Passando por espirituoso e mordente, imaginou que para ser
+um genio lhe bastava o querer sel-o, esquecendo que não é poeta quem
+quer. Assim, creou-se por si só, e por si só, ainda, se julga um grande
+poeta. O seu poema, a _Paquita_, é uma imitação dupla do estylo
+aggressivo de Byron e da finura de Musset, um urso fazendo rendas de
+Alençon. Escreveu muitos volumes de versos, satiras, novellas, etc.,
+onde se não encontra o reflexo do espirito notavel que tem a fallar. O
+que escreve não traduz o que diz (_Sa plume ne traduit pas sa langue_).
+Para acabar este retrato é necessario acrescentar que é impertinente,
+irritavel, invejoso, que pouco sabe da vida, julga-a mal, e por isso
+mesmo declara-se descontente com cada um e com todos, passando a vida a
+lamentar-se sem rima nem rasão.»
+
+N'uma nota continúa no mesmo tom amavel chamando-lhe o _poeta da melena_
+(_poète aux longs cheveux_).
+
+ * * * * *
+
+«--_Ernest Biestero_, o grande magro litterario de quem Castilho
+dizia:--É um fructo de inverno, por mais que o expremam não deita nada!
+O que elle traduziu, apanhou, pilhou, é incalculavel: seriam necessarios
+volumes só para fazer a sua rapida enumeração.
+
+Os seus dramas originaes, _Caridade na sombra_, _Moscovellos_, _Natureza
+de alma_ (?) são uma galeria de manequins sem vida e até sem cordeis.
+Deve accrescentar-se--segundo a chronica--que os seus dramas são
+retocados por seu cunhado Mendes Leal. O que os não embelleza!
+
+Biester teve a gloria de ser um dos fundadores da _Revista Contemporanea
+de Portugal e Brazil_, que durou cinco annos, onde se acham associadas
+todas as individualidades do _elogio mutuo_.»
+
+ * * * * *
+
+«--_Mendes Leal_ (José da Silva) nasceu em Lisboa em 1820. Sem talento e
+até sem disposições dramaticas escreveu muitos dramas e romances
+historicos. É o litterato portuguez que fez mais plagiatos, e isto com a
+maxima audacia e sem-cerimonia. O seu theatro pertence á escola do
+ultra-romantismo, e os _Dois renegados_, que passam por ser a fina flôr
+da sua corôa litteraria, são um drama insipido, cheio de punhaes,
+venenos e ciladas. O seu romance _Calabar_ é completamente tirado do
+_Bateur d'Estrade_, de Paul Duplessis; as suas poesias formam um volume
+no qual só uma poesia é digna de menção, a _Morte de Carlos Alberto_.
+Este fructo secco da litteratura foi bibliothecario de Lisboa, ministro,
+e finalmente ministro plenipotenciario em Paris. O que prova que as
+mediocridades são muita vez empregadas.»
+
+ * * * * *
+
+Agora querem saber como apparecem os nomes portuguezes no livro da
+princeza? Ahi vae uma amostra.
+
+_Odio velho não cança_, o notavel romance de Rebello da Silva,
+é:--_Odio, velho, vraô cauca_.
+
+_O prato de arroz dôce_, de Teixeira de Vasconcellos, chama-se:--_O
+Porto de oroz dou_.
+
+_As tempestades sonoras_, de Theophilo Braga, são:--_As tempos tades
+sanoras_.
+
+_Moços e velhos_, que a princeza erradamente attribue a Ernesto Biester,
+apparece assim no livro:--_Mocosvellos_.
+
+ * * * * *
+
+Aos theatros de Lisboa faz sua alteza a honra de lhes consagrar um
+capitulo do seu livro.
+
+E como a princeza é mulher coherente em todos os actos da sua vida, não
+quiz deixar de ser mexiriqueira tratando de assumpto que tanto a
+mexericos se presta.
+
+Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do Gymnasio:--«Este theatro
+não tem praso determinado para as suas representações pela excellente
+rasão de que as receitas são mais de que mediocres. Os artistas e
+directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os outros,
+na situação de um credor importuno para com Mr. de Tayllerand.
+
+--O senhor não me dirá quando me paga o que me deve? dizia o credor.
+
+--Ora sempre é muito curioso, respondeu o principe.»
+
+Realmente é difficil perceber a que vem isto. Pela nossa parte
+entendemos que são profundamente ridiculos todos estes promenores da
+vida intima dos theatros... Julgamos além d'isso haver falsidade no
+mexerico da princeza. Mas ainda que seja verdade o que ella diz, não
+será de mau gosto trazer questõesinhas de soalheiro para um livro de
+viagens?
+
+Do Gymnasio, diz ainda, que viu ali representar magistralmente o actor
+_Pedro_, secundado por duas jovens e formosas mulheres _Candida_ e
+_Lora_?
+
+Dou-lhes um doce se adivinharem quem são estas duas jovens e formosas
+mulheres. Candida e Lora quer dizer Amelia Vieira e Emilia dos Anjos. Ha
+porém uma difficuldade, e desde já nos confessamos incompetentes para a
+resolver:--Qual será a Lora?
+
+Mysterio que só a princeza poderá decifrar.
+
+ * * * * *
+
+Do theatro da Rua dos Condes diz que se representa ali _Lazaro, o
+pastor_... É possivel. Em todo o caso devemos declarar que essa peça
+subiu á scena expressamente para sua alteza a ver, e que foi ainda sua
+alteza a unica espectadora... O publico não a viu nunca.
+
+ * * * * *
+
+No capitulo _Theatros_ trata muito natural e judiciosamente o assumpto
+pateadas. Não gosta d'ellas, parecem-lhe estupidos e injustos os
+sujeitos que pateiam. Abre curso de sensibilidade no artigo _pateader_.
+Comprehende-se:--ella é que está sensibilisada ao escrever tudo isto,
+recordando-se do modo porque a plateia dos _Recreios_ recebeu a sua
+insipida e soporifera comedia.
+
+_Tenha paciencia_. Diz no seu livro que esta phrase se applica a tudo no
+nosso paiz. É verdade. Applica-se a tudo. Até ás princezas infelizes que
+são pateadas.
+
+Diz sua alteza fallando nos hoteis que os colchões são durissimos em
+todos elles; no _Braganza_ parecem até cheios de cacos de garrafas...
+Mas afinal sempre temos por cá alguma coisa mais dura do que os
+colchões... as pateadas...
+
+Custam a roer, custam... Mas que se hade fazer? Rôa, rôa. De resto
+parece-nos que sua alteza tem deveras a bossa do estylo lacrimoso...
+Chore--a lagrima é livre.
+
+ * * * * *
+
+Depois da nenia das pateadas passa sua alteza a fallar da vida dos
+bastidores em Lisboa. Dêmos-lhe mais uma vez a palavra:--«--A vida dos
+bastidores em Portugal está ainda no estado primitivo. É mais burgueza
+que desregrada. Na maioria dos theatros as actrizes são casadas ou vivem
+maritalmente com pessoas da sua escolha, dando, com rarissimas excepções
+tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento. Se quizesse
+citar alguma que se distinguisse das suas collegas pelo seu luxo ou
+pelos seus amores, ver me-hia deveras embaraçada, não obstante ter
+pedido informações a toda a gente.»
+
+ * * * * *
+
+Sim, a princeza pedio informações a toda a gente. Apenas qualquer
+sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a
+princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta á queima roupa:--Ora
+diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?--Que lhe
+consta da Delfina?--Não se rosna coisa nenhuma d'aquella Joanna Carlota
+da rua dos Condes?
+
+Esta febre da princeza em indagar a vida intima das nossas actrizes
+faz-me lembrar a historia de um provinciano que vindo a Lisboa pela
+primeira vez, com ideas muito errados acerca das nossas mulheres de
+theatro, começou durante a representação, de não sei que peça em D.
+Maria, a interrogar o visinho do lado, pelo theor que vae vêr-se, sempre
+que apparecia em scena alguma actriz.
+
+Entrava por exemplo a sr.^a Emilia das Neves, o provinciano voltava-se
+para o sujeito e dizia-lhe piscando-lhe o olho intencionalmente:
+
+--Esta...?
+
+E o sujeito:
+
+--Não sei...
+
+Entrava a sr.^a Virginia:
+
+--E esta...?
+
+--Homem deixe-me...
+
+Entrava a sr.^a Amelia Vieira.
+
+--E esta...?
+
+--Diabo, o senhor é inconveniente! Não sei nada...
+
+O provinciano porém não se dava por vencido.
+
+--E esta...? continuava elle sempre a perguntar.
+
+De repente entra o Theodorico. Então o sujeito, desesperado, fulo,
+volta-se para o pobre provinciano e diz-lhe muito serio:
+
+--Olhe este... com certesa...
+
+A princeza fez exactamente o papel do provinciano, e, tão infeliz como
+elle, não ficou sabendo coisa nenhuma...
+
+Ficou até sabendo menos que o provinciano...
+
+ * * * * *
+
+Em todo o caso registe-se que no entender de sua alteza a vida dos
+bastidores em Portugal é uma pulhice... «Mais burgueza que
+desregrada...» chega a ser infame, não é assim princeza?
+
+E depois que mulheres estas de theatro! Que impossiveis creaturinhas!
+Dão tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento... O mesmo
+não se pode dizer que aconteça com certa pessoa que nós sabemos...
+
+Essa dá muito mais que fallar pela sua conducta do que pelo seu
+talento...
+
+Foi devéras infeliz a princeza em questões de theatro. Viu-se sempre
+embaraçada. Até se quizesse citar alguma actriz que se distinguisse das
+suas collegas pelo seu luxo ou pelos seus amores, até n'essas
+circumstancias os embaraços lhe não permittiriam a citação...
+
+É realmente estar com azar.
+
+Pois nós se quizessemos citar alguma princeza que se distinguisse de
+todas as outras pelo seu luxo _tapageur_ ou pelos seus amores, faziamos
+isso sem a mais pequena difficuldade...
+
+ * * * * *
+
+Termina sua alteza o capitulo dos theatros fallando das dançarinas de S.
+Carlos. Diz sua alteza:--«As dançarinas não dão que fallar de si. Ha
+para isto duas razões:--a primeira é que, salvo duas ou tres excepções
+são feias que mettem medo a segunda é que a maioria d'ellas parece-me
+ter chegado, a esta edade feliz em que se tem jus á veneração e ao
+respeito.»
+
+Ora aqui está o que aconteceria a sua alteza se em vez de ser uma _bas
+bleue_ pretenciosa fôsse dançarina de S. Carlos. Ninguem fallaria
+n'ella... Por tudo, e principalmente... pela segunda razão...
+
+ * * * * *
+
+Deixemos porém os theatros e vejamos o que a princeza diz a respeito do
+nosso mais notavel monumento--o mosteiro da Batalha.
+
+«_Batalha_, tambem pequena cidade, (que disparate!) alguns kilometros
+mais longe (do que Alcobaça, que descreve antes) possue um mosteiro mais
+pequeno; mas tambem gothico, e de um estylo ainda mais puro que o de
+Alcobaça.
+
+Este mosteiro foi fundado pelo rei D. João I, que ahi repousa. Nota-se
+particularmente a sala do capitulo, cuja elegancia é superior a toda a
+expressão, bem como o claustro. Decididamente, os senhores frades
+d'aquelles tempos tinham bem boas habitações, e é pena que se não
+tivessem construido mais, tão encantadoras, não para lhe servirem
+unicamente de residencia, mas para alegrarem os olhos dos _touristes_.»
+
+Ter visto a Batalha, ter entrado n'aquelle monumento, que é uma
+verdadeira epopeia de pedra, e escrever o que ahi fica, sabe o que é,
+princeza?--é um diploma. Simplesmente não lhe digo de quê.--Vá ter com
+alguns dos muitos estrangeiros illustres que visitaram aquelle mosteiro,
+francezes, inglezes, italianos, hespanhoes, russos, allemães, ou de
+qualquer outra nacionalidade, diga-lhes que viu a Batalha, mostre-lhes
+depois o que escreveu no seu livro... qualquer d'elles lhe dirá de que é
+o tal diploma...
+
+Mas, que diabo! tambem não pode haver tempo para tudo, e, ella por ella,
+a equipagem do marquez de V. é decerto muito mais digna de attenção do
+que o monumental edificio da Batalha!
+
+É pena, diz sua alteza, que não se tivessem construido mais monumentos
+para alegrar os olhos dos _touristes_...
+
+Ah! sim, é pena! pois não! chega a ser uma dôr d'alma não estar o reino
+de Portugal cheio de monumentos, como a Batalha, para que sua alteza, a
+muito alta e muito nobre princeza Rattazzi, podesse percorrer o paiz com
+os olhinhos alegres!
+
+ * * * * *
+
+Porque afinal de contas, o magestoso e sublime mosteiro não lhe causou
+nenhuma outra impressão... alegrou-lhe o olho.
+
+Frei Luiz de Sousa, descreve-o com a sua penna de ouro, o inglez Murphy
+estuda-o maravilhado durante largos annos, o erudito patriarcha D.
+Francisco de S. Luiz dedica-lhe uma extensa memoria:--n'uma palavra,
+nacionaes e estrangeiros, curvam-se reverentes em presença do patriotico
+e veneravel monumento... Rattazzi vae vel-o... faz-lhe a honra de
+conceder-lhe doze linhas... e alegra-se-lhe o olho... Isto é, o mosteiro
+produz-lhe o mesmo effeito que um copinho de _chartreuse_... Vamos
+compatriotas, sirvam café á princeza, e tragam n'uma bandeja... mosteiro
+da Batalha e copos... Sua alteza tem o olhar basso e triste...
+alegremos-lhe o olho... dêmos-lhe um calicesinho da _sala do
+capitulo_... Então princeza, nada de ceremonias... Se quer mandamos
+tambem buscar os Jeronymos... Beba, beba... Alegre-se... alegre-se...
+
+É impagavel no fim de tudo esta Rattazzi:--Melicio é espirituoso e
+incisivo, e a Batalha... alegra-lhe o olho...
+
+Delicioso, como dizia o Leoni nos _Amores de Boccacio_...
+
+ * * * * *
+
+Tudo quanto o leitor tem visto até agora, fica porém eclipsado pelo
+capitulo em que a muito nobre princeza falla do modo porque os
+estrangeiros são recebidos em Lisboa.
+
+Leiam:
+
+ * * * * *
+
+«Pode dizer-se, sem grande exaggero, que ha um secreto horror pelos
+estrangeiros e que são olhados com maus olhos. Entretanto esta execração
+tem graus e não deixa de ser curioso fazer o seu estudo.
+
+Supponhamos que um pobre diabo cae de inanição n'uma das praças publicas
+de Lisboa, confessando que não recebeu do céu a graça de ter nascido
+cidadão portuguez.
+
+1.^o--Se é inglez, dão-lhe os restos da comida do dia antecedente.
+
+2.^o--Se é allemão, um bocado de pão.
+
+3.^o--Se é americano, umas migalhas.
+
+4.^o--Se é italiano, um copo de agua.
+
+5.^o--Se é francez, não lhe dão nada.
+
+Aqui está approximadamente a gradação do estima a que um estrangeiro
+póde aspirar em Portugal.
+
+Os inglezes são os mais considerados, o que se explica, dizendo-se que
+Portugal é um pouco uma colonia ingleza, uma terra de exportação para os
+productos da Grã-Bretanha: o ouro e os uniformes militares são inglezes.
+Ha n'este povo meridional muitos costumes anglicanos que ficaram como
+recordação da alliança das armas inglezas contra os francezes em 1808.
+
+Os allemães gosam de alguma consideração.
+
+Os americanos do norte são antes temidos do que estimados.
+
+Os italianos são todos pastelleiros ou tenores; é a opinião dos
+portuguezes que dou aqui, não a minha. Mas é uma opinião perfeitamente
+estabelecida, e qualquer que seja a posição social d'um italiano que
+chega a Portugal, será considerado por todos como um pastelleiro que fez
+fortuna, ou como um tenor em procura de escriptura.
+
+Os francezes muito bem acolhidos á superficie, são perfeitamente
+detestados no fundo. Quando não são luveiros, cabelleireiros ou
+cozinheiros consideram-os como uns aventureiros. Ha uma avidez por todos
+os fructos da sua intelligencia, tira-se-lhes tudo que produzem em
+sciencias, bellas artes e litteratura, mas ninguem se julga em obrigação
+de lhes dar nada em troca. Detestam-os por instincto. Esta antipathia
+transmitte-se de paes a filhos, ou para melhor dizer, remonta de filhos
+a paes até ao primeiro imperio.»
+
+ * * * * *
+
+Disse uma vez um poeta nosso que certo sujeito era uma perfidia dentro
+d'um assucareiro, d'este trechosinho póde dizer-se, parodiando aquella
+phrase:--que é tambem uma perfidia dentro d'outra coisa acabada em
+_eiro_.
+
+Com que então em Lisboa quando se encontra um francez cahido no meio da
+rua, cheio de fome, morto de inanição, passa-se para deante e não se lhe
+dá nada, absolutamente nada, _rien du tout_?
+
+Oh! honestissima e honradissima princeza, porque não se atolou mais um
+poucochinho no esterquilinio da calumnia,--para que deixou a cabecinha
+de fóra? Que diabo! tem pouca imaginação vossa alteza! gira-lhe nas
+veias sangue de principes, mas a calumniar não passa d'uma
+burguesinha--porque dizer só, que a um francez que se encontra estendido
+na praça publica, nada se dá, nada se lhe faz?--porque não disse antes,
+que se varria esse francez d'envolta com o lixo, porque não disse que se
+lhe dava um bolo de strichinina?--_Per Baco_, produzia mais effeito,
+princeza!
+
+ * * * * *
+
+Afinal, de tudo quanto ha no seu livro, a pagina deveras torpe, é
+aquella.
+
+Do resto, diga-se a verdade, nem quasi valia a pena fallar.
+
+Ah! mas aquella paginasinha, merece, merece que se escrevam algumas
+linhas...
+
+Quem lhe disse, princeza, que os francezes eram detestados em Lisboa,
+detestados por instincto?--Eu sei quem lh'o disse,--foi a sua espertesa
+saloia. Vossa alteza sahiu de Portugal despeitada com muita gente,--por
+isto, por aquillo, por aquell'outro,--porque a nossa boa nobreza, que
+ainda a temos, não a visitou;--porque os jornaes não fallaram tanto
+quanto vossa alteza queria do seu talento e das suas obras;--porque a
+platéa dos Recreios a pateou desapiedadamente; etc. Sahindo d'aqui
+despeitada quiz vingar-se. É natural. Era preciso porém para que a sua
+vingança fosse completa que ella encontrasse echo n'essa grande nação
+que ainda hoje dá as leis ao mundo.--«Vou desacreditar Portugal á face
+da França--» disse a princeza com os seus algodões.--Mas para que a
+França faça o acompanhamento á minha serenata, o que heide eu
+fazer?--Porque afinal a verdade é esta:--eu sou muito conhecida em
+França... Alfonse Karr, Boissieu, Pelletan... que o diabo, os confunda a
+todos,--mostraram bem quem eu sou, nas _Guépes_ nas _Lettres de
+Colombine_, na _Nouvelle Babylone_... Ah! já sei! exclamou vossa alteza
+de repente:--escrevo que os francezes são detestados, execrados em
+Portugal... Sim, sim, é isto:--_Tonerre de Dieu!_ estava-me
+desconhecendo... Que tempo levei para fazer uma descoberta afinal tão
+simples, e tanto na minha indole... É claro como agua:--dizendo eu que
+os francezes são odiados, detestados, execrados, que ao vêl'os
+estendidos no meio da rua ninguem os soccorre, e que para ali ficam
+abandonados como famintos cãos vadios, elles, esses bons e
+enthusiasticos francezes, sentirão o fogo da indignação girar-lhe nas
+veias, e correndo ao meu palacio, virão gritar em côro debaixo das
+minhas janellas:--Bravo princeza, bravo, quanto dizes d'essa cambada,
+d'essa canalha de portuguezes é pouco; nunca as mãos te doam, mulher!
+Patifes, deixarem-nos morrer sem soccorros no meio da rua... Tira-lhes a
+pelle, escorraça-os, frege-os em postas--e conta que as nossas bençãos
+cahirão sobre a tua cabeça.»
+
+ * * * * *
+
+Ora tudo isto, princeza, permitta-me que repita a phrase, não passou de
+esperteza saloia.
+
+A França, sabe perfeitamente quanto é querida e estimada em Portugal.
+Ella não ignora de certo que na hora da provação, quando rebentou essa
+terrivel guerra franco-prussiana, aqui n'esta cidade de Lisboa,--onde se
+abandonam vilmente francezes no meio da rua,--todos, sem distincção de
+classes, desde o chefe do estado, podemos dizel-o, até ao mais humilde
+cidadão, todos faziam votos para que a victoria fosse coroar com a sua
+rutilante aureola as armas d'esse valente e generoso povo, que Portugal
+tem o bom senso de não tornar responsavel pelos actos praticados por
+dois dos seus despotas.
+
+E olhe vossa alteza princeza:--tudo isto aconteceu estando um Bonaparte
+á frente da França... Hoje, que não está lá nenhum, calcule como terá
+augmentado a nossa sympathia por aquella grande nação.
+
+ * * * * *
+
+A esperteza saloia precisava de correctivo. Ahi fica. A princeza diz que
+nós os portuguezes somos muito pacientes. Assim é, mas quando um
+mosquito começa a zumbir-nos aos ouvidos, a importunar-nos, depois de o
+sacudirmos, uma, duas, tres vezes, zangamo-nos e damos-lhe uma palmada
+com tanta vontade... que o esborrachamos.
+
+É uma porcaria, d'accordo. Mas tambem para que serve a agua?
+
+ * * * * *
+
+Agora as ultimas palavras... as palavras da despedida.
+
+N'uma carta circular que sua alteza dirigiu á imprensa diz:--_Il faut me
+pardonner quelques plaisanteries sans importance et sans parti pris_...
+que é como se dissesse:--queiram os senhores desculpar alguns gracejos
+innoffensivos e sem intenção...
+
+Ah! pois não princeza! Com todo o gosto... Sem mais aquella, como se diz
+em giria... E se o nosso folheto tiver a honra de ser lido por vossa
+alteza, lembre-se das suas linhas e queira tambem
+desculpar-nos:--_quelques plaisanteries sans importance et sans parti
+pris_.
+
+ * * * * *
+
+Segue a biographia da princeza.
+
+
+
+
+BIOGRAPHIA
+
+
+Rattazzi--(Maria Studolmire Wyse, princeza de Solms, depois condessa)
+mulher de lettras franceza, nascida em Waterfard (Inglaterra) em 1833. É
+neta de Luciano Bonaparte, irmão de Napoleão I, e filha de Letizia
+Bonaparte, e de sir Thomaz Wise, membro do parlamento de Inglaterra, que
+morreu ministro plenipotenciario da Grã-Bretanha em Athenas. Descendente
+de uma serie de uniões consideradas como outras tantas _mesalliances_
+para a familia Bonaparte, foi sempre considerada por esta como uma
+intrusa, ou como uma inimiga. Quando o principe Luiz, seu primo, foi
+eleito presidente da Republica franceza, prohibiu-lhe formalmente que
+usasse o nome de Bonaparte-Wise, pelo qual eram conhecidos seu pae e seu
+irmão. Entretanto, a sua filiação napoleonica, está tão bem estabelecida
+senão melhor que a do seu proprio primo. Seu avô Luciano, principe de
+Canino, casára, em segundas nupcias, com madame Bleschamp, viuva de um
+agente de cambio, casamento que descontentou muito Napoleão, e fez
+romper todas as relações da familia imperial com Luciano; este, tendo-se
+retirado á Italia, fez naturalisar romanos todos os seus filhos, tão
+pouca era a sua fé na restauração da dynastia a que pertencia. A neta,
+nascida de mãe romana, Letizia Bonaparte, e de pae irlandez, era
+realmente uma Bonaparte, mas tão pouco franceza quanto possivel. Foi
+comtudo educada na casa da Legião de Honra de S. Diniz, e, como não
+tivesse meios, fez-se professora.
+
+Em 1848, quando á familia Bonaparte foi permittida a entrada em França,
+e o principe Luiz se propoz a presidente da Republica Franceza, foi
+pedida em casamento por Mr. Frederico de Solms, rico alsaciano que a
+dotou em 700 ou 800 mil francos, esperando que ella viesse a ser uma das
+estrellas da futura côrte de seu primo, e que assim o levasse ás
+grandezas. Não aconteceu nada d'isto. Os Bonapartes, e principalmente o
+futuro Napoleão 3.^o não a consideraram como da familia; como o pae da
+segunda mulher de Luciano occupara um emprego d'inspector _nos direitos
+reunidos_, pretendiam não terem nada de commum com a descendente d'um
+vendedor de tabacos, e foi isto o que os jornaes do Elysseu lhe
+disseram, nu e cru, quando Madame de Solms, posto que muito nova ainda,
+porque então apenas contava 16 annos, começou a tornar-se notavel.
+
+Lançou-se então na opposição, attrahiu a sua casa algumas notabilidades
+do partido democratico, abriu as suas salas aos litteratos, deu festas
+esplendidas, e ostentou um luxo que tinha a pretenção de fazer epoca na
+historia contemporanea. No seu pequeno circulo comparavam-a a
+mademoiselle Montpensier e dizia-se que do seu _boudoir_ sahiria uma
+nova Fronda. Por occasião do golpe de estado de 2 de dezembro, em que
+estavam implicadas algumas pessoas que frequentavam as suas salas,
+julgou-se tambem obrigada a deixar a França, habitando ora em Roma, na
+Belgica, ora as cidades de caldas mais notaveis.
+
+Considerava-se como exilada, e tendo alguns jornaes publicado que ella
+pedira para ser amnistiada, fez-lhes publicar esta resposta altiva:--«Só
+um governo liberal e sensato me póde fazer voltar á França. Até o dia em
+que triumphem as nossas liberdades, acceito o exilio; mas protesto
+energicamente contra toda e qualquer nova insinuação, grave ou pueril,
+tendente a fazer admittir que, no presente ou no futuro, sob qualquer
+consideração, e em qualquer extremidade em que me encontre, eu possa
+ligar-me directa, ou indirectamente, a uma familia da qual me separei
+voluntaria e seriamente.»
+
+Isto não a impediu de entrar em França em fins de 1852; mas em fevereiro
+de 1853, recebeu ordem de expulsão e seu primo fel-a conduzir á
+fronteira acompanhada pelos gendarmes. A causa d'esta expulsão
+escandalosa era sempre a mesma, a sua obstinação em querer usar o nome
+de Bonaparte que lhe negavam. Protestou pelos tribunaes, encarregou
+Berryer de a defender, e o governo fez admittir pelos jornaes que a
+ordem (arrêté) d'expulsão estava em fórma, visto que madame de Solms era
+estrangeira e casada com um estrangeiro não naturalisado. É muito
+provavel que M. de Solms, nascido em Strasburgo, fosse francez; mas o
+governo obteve d'elle uma declaração na qual dizia não reclamar a
+qualidade de francez. Na _Patria_ foi publicada a seguinte nota:
+
+«Por ordem do sr. intendente geral da policia, foram expulsos do
+territorio francez madame de Solms, dizendo-se condessa de Solms, e M.
+Wyse, (seu irmão, M. Bonaparte-Wyse) ambos estrangeiros; estas duas
+pessoas usavam sem direito nenhum o nome de Bonaparte, e longe de
+respeitarem o nome illustre que usurparam, serviam-se ao contrario
+d'elle para se entregarem a escandalos desordenados, afim de mais
+facilmente abusarem da credulidade das pessoas com quem estavam em
+contacto. A ordem do sr. intendente geral de policia foi posta em
+execução e madame de Solms e o sr. Wyse deixaram a França.»
+
+Quando se fez a annexação de Nice e da Saboya (1862), pediu a Napoleão
+III a permissão de ficar em França, e obteve mesmo a de voltar a Paris;
+abriu ali o seu salão, como antigamente, deu festas, escreveu chronicas
+e _causeries_ em varios jornaes, o _Pays_, o _Constitutionel_, o _Turf_,
+etc., fez fallar de si, como de costume, e, tendo-se reconhecido n'um
+malicioso retrato traçado por M. de Boissieu, (_Fragment d'histoire, une
+des plus spirituelles lettres de Colombine_, 1863), intentou no _Figaro_
+uma indemnisação de 200:000 francos de perdas e damnos. O tribunal
+regeitou-lh'a. Entretanto tendo-lhe morrido o marido, uniu-se a Rattazzi
+n'uma das suas viagens a Turim, e esta ligação teve algum tempo depois o
+casamento por desenlace. A sua estada em Paris em 1865 trouxe-lhe novas
+decepções; foi-lhes dada nova ordem de expulsão e retirada uma pensão de
+que havia tres annos gosava. Desde então madame Rattazzi viveu
+constantemente em Turim, Florença e Roma, e publicou grande numero de
+volumes. Um dos seus romances, _Richeville_, fez algum barulho na
+Italia, e valeu ao marido de madame Solms, algumas provocações em
+duello.
+
+
+
+
+
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+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
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+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
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+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
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+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
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+States.
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+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
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+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
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+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+1.F.
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+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
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+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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