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+The Project Gutenberg EBook of A senhora Rattazzi, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A senhora Rattazzi
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: September 25, 2006 [EBook #19375]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A SENHORA RATTAZZI ***
+
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+A SENHORA RATTAZZI
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+NOVA EDIÇÃO
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+Porto: 1880--Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62
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+
+A SENHORA RATTAZZI
+
+POR
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+
+NOVA EDIÇÃO
+
+MAIS INCORRECTA E AUGMENTADA
+
+
+LIVRARIA INTERNACIONAL
+DE
+ERNESTO CHARDRON, EDITOR
+PORTO E BRAGA
+
+1880
+
+
+
+
+PREAMBULO
+
+Á NOVA EDIÇÃO
+
+
+O assumpto aqui tratado--a brochura da snr.^a Rattazzi--tem duas
+physionomias: uma para risos, outra para critica sisuda. Se uma das
+faces nos avinca a fronte, a outra tem virtudes therapeuticas de
+_désopiler la rate_. Eu tentei, pela galhofa pachorrenta, esquivar-me ás
+phrases amargas que a segunda physionomia--a seriedade--me impunha.
+
+Se uma dama de má lingua nos belisca, devemos imaginar que ella nos faz
+cocegas; e, em vez de lhe trincarmos os dedos que nos estorcegaram a
+pelle, corre-nos o dever de imitar quem soffre as cocegas--rir e
+pernear; mas a mim, ás vezes, succedia-me, quando fazia cocegas a
+alguem, levar o meu sopapo involuntario. É o que póde acontecer a quem
+faz cocegas disfarçadas em beliscões.
+
+Un ami de madame, no _Jornal de Noticias_, cheio d'uma paciencia
+portugueza e muito namorada com as lerdas chalaças da snr.^a Rattazzi,
+acha que o zangarem-se os portuguezes beliscados por madame é _falta de
+espirito_.
+
+Assim como, no dizer da princeza de pacotilha, _il y a ventre et
+ventre_, tambem ha beliscões e beliscões, ó invejavel amigo de madame!
+Uns são attritos de arminho, cariciosos, como o roçar de dous botões de
+rosa-chá, em dous dedos opalinos com unhas nacarinas, pelos bigodes
+encalamistrados de s. exc.^a, o amigo d'ella e de Peniche; outros, são
+mordentes como tenazes de caranguejo, farpadas de vibora; e, se não
+deixam contusões rôxas e largas como pontapés de gallegos, penetram os
+filamentos nervosos e os tecidos cellulares como uma injecção
+subepidermica de vitriolo. Que a injecção me seja ministrada pela
+regateira que me vende os seus carapaus, ou pela princeza que me vende
+os seus livros, queima-me do mesmo feitio. A cravache de Lola Montes
+doía como se a vibrasse o pulso rijo de Roger de Bauvoir.
+
+Mulher escriptora, por via de regra pouco exceptuada, é um homem por
+dentro. O coração, que devia ser urna de suavissimas lagrimas,
+faz-se-lhe botija de tinta; e as dôces penas da alma metallisam-se-lhe
+aguçadas em pennas de aço. O fuso de Lucrecia e da rainha Bertha
+desfez-se em canetas. Em vez de tecerem o seu bragal, urdem intrigas.
+Suspiram publicamente em 8.^o portuguez, 250 paginas; e, quando não
+suspiram, bufam coleras represadas, dizem que tem idéas, que se querem
+emancipar, muito aziumadas, naturalistas, com um grande ar de pimponas
+que entraram no segredo dos processos; e, se não batem nos homens, não é
+porque elles o não mereçam. O amigo de madame, esse, tem de apanhar do
+sexo, mais hoje, mais ámanhã.
+
+O Dom Francisco Manoel de Mello tinha razão: _Mulheres doutoras,
+authoras e compositoras_ dava-as ao diabo. _É triste cousa_, prosegue o
+critico do Hospital das Letras--_que estejaes com vossa mulher na cama,
+na mesa, ou na casa, e andem lá pelas tendas mil barbados perguntando
+por ella_.
+
+Não ha feminilidades que se respeitem desde que a mulher se masculinisa,
+e, como escriptora virago, salta as fronteiras do decoro, sofraldando as
+espumas das rendas até á altura da liga azul-ferrête.
+
+Mau! começo a ser muito serio e metaphorico. Por aqui me fecho.
+
+N'esta edição augmentam as incorrecções á proporção das paginas. Algumas
+vão muito alagartadas de francezias para que sua alteza perceba pouco
+que seja do pamphleto.
+
+Se um periodo serio não destoasse d'esta brincadeira, eu lembraria aos
+meus conterraneos que o repellirem patrioticamente as zombarias dos
+insultadores estrangeiros lhes é mais airoso do que esse palavriado de
+rimas bombasticas e fofas com que suppuram em golfadas annuaes o seu
+patriotismo no _Primeiro de dezembro_.
+
+Não obstante o silencio dos vates encartados na hymnologia patriotica, a
+maioria da imprensa antecipou-se-me no vigoroso desforço da justiça, e
+nomeadamente o snr. Urbano de Castro, um escriptor moderno, com os dons
+do estylo e da graça que seduzem velhos impertinentes e glaciaes como eu
+e outros infelizes da minha idade. A favor da snr.^a Rattazzi tem sahido
+uns poucos periodicos faiantes, sargêtas por onde tresandam os seus
+fedores as fezes litterarias de Lisboa. São os orgãos da ralé
+sarrafaçal, uns madraços desencadernados que vivem na gandaia politica,
+engenhando republicas carnavalescas. É n'esses periodicos de mixordias
+plebêas até ao asco que o snr. Theophilo Braga se esconde a escrever,
+como em parede de latrina, uns desabafos pelintras de quem não acha na
+imprensa séria fonticulos por onde suppurar o pus. A princeza póde
+contar com este panegyrista.
+
+
+
+
+A SENHORA RATTAZZI
+
+
+Depois de estudar os portuguezes e as portuguezas com frequentes visitas
+celebradas por _menus_ economicos e risos de ironia larga, a snr.^a
+Rattazzi concebeu das suas impressões viris e masculas um livro que deu
+á luz em janeiro, e denominou Portugal à vol d'oiseau. Portugais et
+portugaises.
+
+Eu, creado no velho noticiario, tendo de annunciar o producto d'uma dama
+dado á luz, antes quizera, em vez d'um livro bom, annunciar um menino
+robusto. Acho muito mais sympathica a feminilidade das mães pallidas,
+com olheiras, emaciadas, que aconchegam dos seios exuberantes a
+criancinha rosada, recem-nascida. Não me commove nem alvoroça o
+espectaculo d'uma authora que se remira e envaidece na brochura que deu
+á luz, obra entre cinco e sete tostões--740 reis com estampilha. Por
+isso, antes quero noticiar um menino robusto que um _oitavo_ compacto.
+
+Principia a snr.^a Rattazzi por declarar com raro entono _que conta e
+pinta o que viu sem deferencias pessoaes nem preoccupações do que a seu
+respeito se possa dizer ou pensar_. Bom é isso. O menospreço que a
+escriptora liberalisa á opinião publica portugueza permitte á critica o
+dispensar-se de grandes melindres. Á vontade.
+
+Se alguém me arguir de bastante descosido no exame do livro, queira
+lêl-o com paciente pachorra, e verá que eu bispontei sobre os alinhavos
+atrapalhados da senhora princeza. Se me acharem um pouco em mangas de
+camisa, façam-me o favor de vêr que a _shocking_ irlandeza nos visita de
+penteador de rendas transparentes e chinelinha de chinchilla.
+
+Calumnía, apenas começa, affirmando, contra o caracter d'esta boa gente
+portugueza, que D. Pedro V, e os infantes D. Luiz, D. João e D. Augusto
+foram atacados do _typho-arsenical_--envenenados. Uns morreram. D.
+Augusto ficou atarantado, mas com graça--uma timidez _non dépourvue de
+charme_; e D. Luiz, esse, teve _de la chance_:--que duas vezes fôra
+preservado da sorte de Britannicus. Exceptuados os gremios palurdios
+d'algumas boticas de provincia, ninguem hoje repete semelhantes
+atoardas. Quando quizeram por odio politico enlamear a reputação
+immaculada d'um duque, desembéstaram-lhe o venabulo ao rosto sereno. O
+aleive cahiu então, e levantou-se agora na indiscreta obra mexeriqueira
+da snr.^a Rattazzi.
+
+Quando a morte fulminou, a curtos intervallos, na Italia, duas rainhas
+da Sardenha e o duque de Genova, madame Marie de Solms, em versos por
+signal muito ordinarios, insinuou que o fanatismo tôrvo dos padres tinha
+brandido nas trevas a cruz á feição de gladio. Na Italia era o clero,
+aqui foi o veneno dos Medicis. Acha que os principes não podem morrer de
+morte natural; e bem póde ser que sua alteza venha a acabar de doença
+reles, com pedra na bexiga, hydropica, com lombrigas, com grandes
+perturbações flatulentas no seu apparelho digestivo--uma desgraça para
+as letras.
+
+Avaliando o clero portuguez, manda lêr o Crime do padre Amaro. Um
+romancista habil engenhou um padre mau que afoga um filho, uma
+perversidade estupida e quasi inverosimil em Portugal, onde os padres
+criam os afilhados paternalmente. Eis, segundo ella, o typo da clerezia
+portugueza, o _padre Amaro_. A snr.^a Rattazzi geme escandalisada sobre
+a corrupção do sacerdocio, e cita o romance.
+
+Do clero naturalmente deriva para o culto. A respeito do S. Jorge da
+procissão de Corpus-Christi, a princeza espirra fagulhas de espirito
+forte, d'um voltairismo sediço, com um desplante extraordinario em
+mulher. Não se cohibe de gracejar com o symbolismo sempre respeitavel
+quando inculca, seja como fôr, uma religião e uma moral--cousas
+consubstanciaes. Não a retém a senhoril e prudente moderação de Staël e
+Sand, e sobretudo o feminil decoro de viuva duplicada, de mãi e de
+velha, embora os atavios façam pirraça á chronologia. Moteja das pompas
+religiosas no tom das _turlupinades_ da petrolista André Léo, e arma á
+risada com facecias d'um alumno da escóla-militar que leu o Testamento
+de Jean Meslier e o Citador de Lebrun.
+
+Moteja dos _Cyrios_. Segundo ella, os portuguezes, tomando a parte pelo
+todo, chamam ás «procissões» _Cyrios_, porque levam _velas accesas_.
+Muita chalaça a este respeito. Mulher irreligiosa é uma razão perdida no
+vacuo da consciencia; mas a que faz praça da sua incredulidade é cousa
+repugnante, tanto monta ouvil-a na sala como na taberna.
+
+Se a snr.^a Rattazzi fosse uma escriptora seriamente critica,
+ridiculisando o maior santo de Inglaterra, devia contar aos portuguezes
+que Jorge foi um fornecedor de toucinho (_bacon_) do exercito romano, e
+que em vez de fornecer, cosia-se com os lardos suinos como qualquer
+fornecedor do exercito brazileiro do Paraguay. A justiça perseguiu-o
+como concussionario; Jorge safou-se, fez-se ariano, e levou d'assalto a
+cadeira archiepiscopal de Athanasio. Depois, na capital do Egypto, a
+execração publica encarcerou-o afim de o processar; mas o povo,
+impacientado com as delongas do processo, atirou-o ao mar. «Como é que
+este malandrim (pergunta Campbell na biographia de Shakspeare) chegou a
+ser transformado em S. Jorge, patrono dos exercitos, da arma de
+cavallaria e da ordem da Jarreteira?» Campbell diria á senhora princeza:
+«Patricia, antes de escarnecer as crenças portuguezas, zombe das
+inglezas. O santo é nosso, e Deus sabe que bestialidade grande
+praticaram os lusos admittindo um santo da Gran-Bretanha na vanguarda
+d'uma jolda de velhacos que lhes fizeram á industria da metropole e ás
+colonias d'Africa o que o tal Jorge fez ao toucinho dos soldados
+romanos».
+
+Ora, se é facto que o sujeito sizava a carne de porco das legiões
+romanas, esse devia ser coherentemente o santo tutelar d'Inglaterra. Eu,
+porém, segundo a minha historia ecclesiastica, muito mais orthodoxa e
+correcta que a de Campbell, pendo a crêr que S. Jorge era um principe da
+Cappadocia que soffreu martyrio, imperando Diocleciano, depois de ter
+matado um certo crocodilo que queria comer a filha do rei Aja. Jorge
+levou talvez em vista, n'este crocodilicidio, plagiar Perseu que matou
+outra fera que queria comer Andromeda, filha do rei Cepheu. O que é
+certo é que os saxonios, estes selvagens, incapazes de produzir um
+santo, adoptaram o da Cappadocia. Nós é que não tinhamos necessidade do
+santo, dando-se o caso de mais a mais de sermos ridiculisados por causa
+d'elle no livro da snr.^a Rattazzi, princeza que de certo não vai ao
+florilegio como o seu collega principe Jorge.
+
+Sobre materia intrincada de cultos, presume que o enigma poderia ser
+resolvido pelo bispo de _Visens_, Alves _Martius_. Este nome está
+bastante corrompido para se pensar que o prelado de _Visens Martius_ é
+um bispo mosarabe, coevo do duque de _Laf[oe]s_, com diphthongo.
+
+Deturpar nomes de bispos e duques pouco importa; é muito peor divulgar,
+ácerca das realengas aspirações d'uma duqueza benemerita de respeito,
+umas chocalhices cochichadas nas salas, mas nunca escoadas pelo esgôto
+da imprensa séria. Allude em termos esbandalhados de actriz patusca ao
+duque, marido d'essa duqueza, e attribue ás barrigas das senhoras
+portuguezas um exquisito predominio abdominal sobre os esposos. Esta
+senhora, que tem apenas a carne indispensavel para se não confundir com
+um fluido, abomina metaphoricamente os ventres grandes, as barrigas das
+damas portuguezas fidalgas que nobilitam nas suas membranas os maridos e
+os filhos. Pilherias de _farceuse de goguette_. Umas _buffoneries de
+petit souper_,--_can-can_ de sobre-loja entre costureiras que bebem do
+fino e teem namoros nas cavalhariças do paço.
+
+A snr.^a Rattazzi ri muito das superfetações cosmeticas e oleosas do
+conde de M. Valha-nos Deus! A snr.^a princeza, como objecto colorido, é
+ha muitos annos uma chromo-lithographia das obras do bibliophilo Jacob.
+Que Alphonse Karr me não deixe mentir.
+
+Do duque de Saldanha repete anecdotas chinfrins que põem gargalhadas
+sobre a campa do bravo caudilho a quem D. Pedro IV agradeceu a corôa de
+sua filha. Conta um dialogo forte que elle teve em 1851, ás quatro horas
+da manhã, com a rainha D. Maria Pia, e que ella mostrára desejos de o
+mandar espingardear. Ora, em 1851, a senhora D. Maria Pia, o Anjo, tinha
+quatro annos, e desde que veio para o throno de Santa Isabel e de Santa
+Carlota Joaquina apenas tem espingardeado alguns borrachos, 4 em 5. E o
+duque de Saldanha--conta a princeza--apresentou-lhe a esposa no seu
+palacio d'ella em Antin. Assim zomba a snr.^a Rattazzi dos seus amigos
+mortos e matraquêa Saldanha que a visitava, quando o _Figaro_ a
+escarnecia e Pelletan lhe desenhava o perfil na Nouvelle Babylone.
+
+Está a caracter quando, annotando um artigo espirituoso do _Pimpão_,
+explica á Europa o que é o «Perna de pau» e a «Horta das tripas»
+(_Jardin des tripes_). Falla muito de _faguêtes_ que a incommodam, e diz
+que _Vm.^{cê}_ é o diminutivo de _V. Exc.^a_. Investigando a
+linguistica, observa que não dizemos _o_ rei, mas _el_-rei; e que o _el_
+é recordação mourisca e vestigio da occupação dos arabes. Confunde o
+artigo hespanhol _el_ (do latim _ille_) com o artigo arabico _al_,
+prefixo a muitas palavras portuguezas. As _Therezas philosophas_ são
+muito mais vulgares que as Therezas philologas. Diz que o nosso _ai
+Jesus!_ tambem é musulmano, e o _se Deus quizer_ tambem é vestigio
+arabico. É uma mulher das arabias, ella!
+
+Faz rir á custa dos archeiros que tocam o tambor á chamada. A snr.^a
+Rattazzi nasceu em Inglaterra onde hoje em dia se conservam usanças
+ridiculas, ratices que se avantajam muito á do archeiro que rufa a
+caixa. Exemplo: os dous manequins monstruosos chamados Gog e Magog que
+assistem á recepção do lord-maior no salão Guil-Hall. Depois, mais
+irrisorias que os archeiros, as sentinellas da Torre de Londres, chapéos
+de velludo emplumados, adaga á ilharga, farda escarlate acolchetando nas
+costas, e as armas de Inglaterra com a tenção de Henrique VIII matizadas
+no peito. E que nos diz a snr.^a Rattazzi ás cabelleiras Luiz XV, de
+cachos empoados, com que se toucam os juizes antes de se amezendrarem
+com offenbachiana parlapatice magestosa nas cadeiras da magistratura em
+Westminster-Hall? E aquelle sumptuoso coche tirado por cavallos baios em
+que se estadêa o carniceiro opulento, com os braços nús e a camisa
+arremangada até ás claviculas? Se a Gran-Bretanha nos não exhibisse
+estas gargalhadas, teriamos de nos remediarmos com o producto da
+ex-princeza Studolmire Wyse que só de per si tem a _vis insita_, a força
+ridicula latente das dynamisações altas.
+
+Penetra na vida intima dos portuguezes, no segredo dos seus amores
+castos, amor que só os olhos exprimem. Não gosta. Acha isto semsaboria,
+e chama-lhe _paixão è olhadas_, para exprimir bem portuguezmente a
+cousa. Á _Casa Havaneza_, onde se refastelam muitos dos taes
+«apaixonados das olhadas», chama _clubo des bavards_. Diz que em
+Portugal as meninas de doze annos tem _olhadas_ e carteiam-se.
+Acrescenta que é rara uma mulher galante portugueza; mas que os homens
+são, na generalidade, bonitos e bem feitos--_beaux et bien faits_. Isto
+captiva a gente. Contou alguem á princeza a historia fresca de um velho
+par do reino «que se lambia» dizendo a paixão que inspirára a uma joven
+que só á beira d'elle sentia o lyrismo e as delicias do amor. A snr.^a
+Rattazzi espantou-se, e do velho idiota inferiu que em Portugal todos os
+velhos se lambiam d'amor.
+
+Foi aos touros; viu os _capêlhas_ portuguezes, e os _torreros_ e os
+_forçados_ (forcados) que ella diz assim chamarem-se, _forçados_, porque
+_forçam_ os applausos. Está em primeira mão esta sandice. (Se o leitor
+quizer corrigir a minha indelicadeza, onde está _sandice_ leia
+_sandwiche_). Como successor do _conde_ de Castello Melhor no garbo e
+destreza cavalleirosa de toureiro, menciona _Rebello da Silva el
+Castro_. Provavelmente do historiador da Ultima corrida de touros em
+Salvaterra fez um toureiro equestre no campo de Sant'Anna. Diz que, a
+pedido da commissão, offerecera uma «mona»--_reminiscencia poetica da
+idade média_. Achou na idade média as _monas_. Sua alteza acha um tanto
+canibal o prazer das touradas, mas nem por isso é _moins immense_ (este
+_immenso menor_ que o immenso maior, é bom). Nos theatros da _Trinidade_
+e do _Principo_, desagradou-lhe o pessimo costume de _pateader_. Diz que
+as obras do theatro de S. Carlos foram dirigidas por _Santo Antonio da
+Cruz Sobral_. Lá fóra ha de cuidar-se que temos um _Santo Antonio de
+Lisboa_ para os milagres e outro _Santo Antonio da Cruz_ para os
+theatros.
+
+Sobre politica decifra alguns artigos bons do _Pimpão_ e guiza varias
+beldroegas de sua lavra. Entra bem na questão financeira, na fiduciaria,
+dos Bancos, no escandalo das loterias e do jogo. Faz um moral opusculo
+em assumpto de rolêta.
+
+Tratando de jornaes, traslada e traduz annuncios aphrodisiacos do
+_Diario de Noticias_, e diz que o snr. Thomaz Antunes é _moco fidalgo_.
+O snr. Antunes não é _fidalgo moco_; tem a cedilha: saiba-o a França. Do
+_Jornal da Noite_, escreve que A. A. _Texero_ de Vasconcellos noticiava
+principalmente anniversarios e nascimentos, dava a lista dos numeros
+mais premiados na loteria, e d'isso ia vivendo. Assim atassalha a snr.^a
+Rattazzi a reputação jornalistica do mais rijo pulso athleta que teve a
+arêna dos gladiadores politicos--o rival de A. Rodrigues Sampaio. Nem A.
+Augusto era outra cousa. Logo veremos como ella conceitua socialmente o
+seu conviva e panegyrista.
+
+Menciona como collaborador da _Correspondencia de Portugal_ o snr.
+Rodrigues de _Treitas_. Se lhe chama _Tretas_ ao illustrado e honesto
+republicano, merecia uma descompostura.
+
+Tambem versa a questão cornigera dos gados, _des bestiaux_. Louva, ao
+intento, um Relatorio do snr. conselheiro _Morres_ Soares. Morres? Longe
+vá o agouro. Desejo que o snr. Moraes Soares viva muitos annos, para nos
+dar muitos relatorios sobre _bestiaux_, e mais occasiões a que esta
+princeza se occupe das nossas vaccas--objecto em que é ella a unica
+senhora concorrente com as leiteiras saloias.
+
+Em uma pagina util e talvez a unica proveitosa aos viajantes, informa
+ácerca dos hoteis. Diz que no «Hotel de Lisbonne» ha muitos ratos; no
+«Alliança» persevejos; e no «Gibraltar» _baratos_ (não confundir preços
+_baratos_ com «baratas», ou «carochas»). Depois d'esta asseveração
+impugnavel, esteia a sua affirmativa em uma passagem do _Cousin Bazilio_
+onde se lê que em Lisboa ha persevejos. Luxo escusado de erudição. Os
+persevejos em Lisboa são d'uma tamanha evidencia fetida e mathematica
+que se dispensava o testemunho do snr. _Eca de Queroz_, de _Querioz_, ou
+de _Querioze_, que vem citado como Plinio para os lacráos, e Livingstone
+para a _Tsetse-fly_, mosca mortifera da Africa.
+
+Espanta-se dos muitos Burnay que em Lisboa exercitam varios ramos de
+industria. Acha que a Lusitania, n'este medrar de Burnay, virá a
+chamar-se _Burnaisie_. Depois escreve: _Il faut mentionner, ne fût ce
+que pour faire contraste, les Gallegos à cotê des Burnay. Les uns
+exploitent, les autres sont exploités_. Esta princeza, com quem o snr.
+Ramalho trocou o seu francez parisiense, de certo ouviu dizer ao
+festejado escriptor que a familia Burnay é um grupo de homens honrados e
+laboriosos que não se pejam de ser defrontados com outros homens
+honestos e trabalhadores embora procedam da Galliza; mas não exploram:
+trabalham e colhem, quando lh'o não desfalcam, o estipendio honesto das
+suas fadigas.
+
+Tem bons chascos quando zomba dos nossos _viscondes das Ervilhas_ e _do
+Esperregado_. D'estes viscondes saberá sua alteza que se fazem as
+_princezas do Esperregado_ e _das Ervilhas_. Se a snr.^a Rattazzi se
+lembra d'arranjar um _visconde dos Tabacos_, sahido d'um estanco, esse
+visconde ferido na sua honrada industria, poderia lembrar á neta de
+Luciano Buonaparte que a princeza Rattazzi é bisneta d'um vendedor de
+tabacos, pai de sua avó, a snr.^a Blescamb, viuva d'um empregado
+bancario. Mas os _tabacos_ trahiram-na, quando, enxovalhando os enormes
+serviços do fallecido conde de Farrobo á causa da liberdade, diz
+desdenhosamente que o pai do conde tinha o monopolio dos tabacos e que
+_a sua nobreza era de fabrica_.
+
+Esteve a snr.^a Rattazzi em _Pedroncos_ e _Massa_. O leitor que já lhe
+conhece o processo da orthographia geographica, entende que ella esteve
+em Pedrouços e Mafra. Exhibe as vulgaridades obrigatorias, e dá-nos a
+noticia inedita e lisonjeira de que Byron chamou a Cintra _glorious
+Eden_.
+
+Espeta-se na historia da litteratura portugueza, lamentando que não haja
+uma grammatica official. Ha dez ou doze officialmente approvadas; mas
+não é isso que a snr.^a Rattazzi pretende: quer uma grammatica official,
+uma cousa em que os poderes legislativo e moderador decretem
+positivamente o que ha sobre o gerundio e o participio indeclinavel.
+Para que diabo quereria ella uma grammatica official? Depois, estabelece
+a fileira dos escriptores classicos, e manda lêr as Cartas de Marianna
+de _Alcofarrada_. Infausta freira! um francez atormentou-lhe o coração:
+e uma irlandeza martyrisou-lhe o appellido. _Alcofarrada_! Credo!
+
+Disseram-lhe que Affonso Henriques teve um aio, Egas Moniz, o da lenda
+heroica, que era poeta. Teve ignorantissimos informadores que
+confundiram o aio Egas Moniz com o trovador Egas Moniz Coelho, fabuloso
+author das conhecidas trovas.
+
+Trata dos Autos, mysterios christãos posteriores ás _judarias_--uma
+perfeita judiaria d'esta litterata;--e conclue que as melhores peças do
+theatro moderno portuguez são a _Nova Castros_ de João B. Gomes, e a
+_Osmia_ da condessa de Vimieiro. Convém saber que o Gomes e a condessa
+estão enterrados ha bons 70 annos. Tem este modernismo.
+
+Em seguida, põe á frente do progresso dramatico José Freire de Serpa,
+Alexandre Herculano, e mais o snr. Ennes. Estão bem postos todos tres.
+
+Entre os oradores especifica o conde de _Thomaz_; e, como Manoel Passos
+dava eloquencia a dous, fez d'elle dous oradores--um orador _Silva_, e
+outro orador _Passos_. Diz que Rodrigues Sampaio é o primacial do
+jornalismo litterario; não chega a attribuir-lhe algum soláo. Quanto a
+Almeida Garrett, escreve que era um catholico cheio de fé e sem
+philosophia, e por isso não fez escóla nem discipulos. Idéas parvoinhas
+do snr. Theophilo Braga.
+
+Conta que Alexandre Herculano viera em 1836 da emigração que lhe
+inspirára a Harpa do Crente. Que Alexandre Herculano, antes de emigrar,
+estivera ao serviço de D. Miguel--_qu'il avait servi d'abord_. E, no
+restante, as idéas do snr. Ramalho expendidas nas Farpas, mas um pouco
+deturpadas. Aquelle grande homem, Herculano, segundo conta a snr.^a
+Rattazzi, visitou-a e levou-lhe os seus livros. Diz ella que foi a
+ultima visita que fez o eminente escriptor. Se isto é verdade, foi a
+ultima e talvez a primeira asneira da sua vida.
+
+No seu grande juizo, A. Herculano devia achal-a ridicula. Uma ingleza
+ridicula equivale a dous inglezes ridiculos. Ora, A. Herculano tinha
+escripto: _Dous inglezes ridiculos são incontestavelmente as duas cousas
+mais ridiculas d'este mundo_. Eu creio no contundente publicista Silva
+Pinto--um grande lapidario de phrases causticas, tartarisadas. Diz elle
+que Alexandre Herculano não a visitou. Elle era mais austero e sensato
+que o padre Lamennais e o astronomo Babinet, do _Instituto_, que no
+poente da vida e na aurora da tolice lhe escreviam versos e prosas de
+pieguice senil. O velho astronomo explicava-se assim, paternalmente, ha
+dezoito annos:
+
+_Sans cesse vous brillez de charmes imprévus;
+Près de vous on ne peut jamais manquer de verve;
+ Car vous avez les attraits de Vénus
+ Avec les talents de Minerve [1]_!
+
+Os attractivos de Venus. Bom proveito. E, depois, esta senhora zomba dos
+portuguezes velhos que _se babam d'amor!_ Pudera não! Quando nos
+apparecem bellezas mythologicas, a Venus com a sobrecarga de Minerva, a
+gente baba-se irreprehensivelmente.
+
+Contra Castilho, faz-se echo das inepcias do snr. Theophilo Braga:--que
+elle conhecia imperfeitamente as linguas de que _traduisait, traduisait,
+traduisait_. Castilho aos vinte annos fazia versos latinos como Virgilio
+e francezes como Lamartine. Accusa-o de inimigo acerbo do romantismo.
+Castilho escreveu a Noite do castello e Ciumes do Bardo na afinação
+ultra-romantica da Dama do Lago de W. Scott e do caudilho das balladas
+romanticas em França.
+
+Tagarellando contra os classicos, a boa da romantica diz que surgiram em
+Coimbra os dissidentes da velha escóla. Os dissidentes eram Rebello da
+Silva, Mendes Leal, Latino Coelho e Lopes de Mendonça. Sim, estes
+innovadores sahiram de Coimbra com o estandarte da rebellião arvorado.
+Ora, Rebello da Silva, como o reprovassem em latim, não voltou a
+Coimbra; Mendes Leal e Latino Coelho nunca frequentaram a universidade,
+e Lopes de Mendonça não sei se chegou a matricular-se em mathematica.
+D'este infeliz luctador, submerso em trevas quando as espancava com
+vertiginosa ancia de luz, diz a ignorante que _elle consumira a maior
+parte da mocidade em dissipações_. Meu pobre amigo, tu que aos quinze
+annos trocavas por pão escasso os teus primeiros labores, não merecias
+ser apontado como victima de tuas dissipações.
+
+Contra Mendes Leal, a casquilha poetisa em annos de prosa ejacula
+injuriosas calumnias de plagiatos, e accusa entre os livros d'este
+escriptor verdadeiramente polygrapho o Calabar, um romance em que Mendes
+Leal declara que parte do seu livro é imitação. O author da Herança do
+Chanceller, a meu vêr, nas suas occupações diplomaticas em Paris, não
+tem tido vagar para attender ás princezas vadias.
+
+De Rebello da Silva conhece _Odio_, _Velho vraô cauca_, e a «Ultima
+corrida de touros _reas em Salvatorra_». É um bom titulo para uma
+simulcadencia muito forte, peninsular, talvez vestigio arabe. A snr.^a
+Rattazzi, que assim escreve a lingua portugueza, propõe-se traduzir a
+Historia da Inquisição de Herculano. Em inquisição de torturas vai ella
+pôr a pobre lingua, que ainda assim possue uma palavra energica para
+interpretes d'este quilate. Byron, encantado com a sonoridade do termo,
+transmittiu-o como mimo philologico ao seu amigo Hodgson. Ella que o
+fareje. Está na carta 37.^a da collecção de Thomaz Moore--bom documento
+ethnologico que esqueceu ao snr. Alberto Telles no seu interessantissimo
+livro Lord Byron em Portugal.
+
+As insolencias que desembésta á cabelleira de Bulhão Pato como se
+explicam? Ella, prefaciando um drama que peorou com o seu francez, disse
+que Alexandre Herculano escrevêra um opusculo contra o imperador do
+Brazil, e que o imperador, sem embargo da offensa, vindo a Portugal,
+visitára Herculano. A snr.^a Rattazzi, muito admirada, perguntou, em
+Paris, ao imperador que lhe contára o caso da offensa e da visita:
+«Visitou Herculano, Sire?» E D. Pedro II respondeu com um sorriso fino:
+«Sim, de certo, visitei-o. Deveria eu castigar-me a mim por comprazer
+com o meu despeito?»
+
+Leu isto Bulhão Pato, e sahiu honrada e severamente contra a calumnia; e
+vai ella agora, no livro Portugal _a vôo de pássara_, explica o prefacio
+da comedia dizendo que se enganou--porque lia muita cousa--attribuindo
+as Farpas a Herculano; e acrescenta que o imperador não lhe emendára o
+_blunder_, o equivoco desgraçado, ouvindo-a sem lhe corrigir o erro. Mas
+a snr.^a Rattazzi, no tal prefacio sarapantão, diz que o proprio D.
+Pedro II lhe contára que elle, offendido, visitára o offensor: _Don
+Pedro me l'apprit lui même à l'hôtel d'Aquila_. Uma trapalhona!
+
+Bulhão Pato emendou a parvolêza da snr.^a Rattazzi; e ella, em vez de se
+agachar contrita na humildade das tolas conscienciosas, ergue-se nos
+tacões _benoiton_, e faz chalaças de _estaminet_ entre dous
+_petits-verres de anisette_.
+
+Dos meus futeis romances tambem chalacêa e não anda mal;--que todos os
+meus livros se adivinham do terceiro em diante: um brazileiro, um
+namorado sentimental, e uma menina em convento. Cita quatro novellas, e
+por casualidade nenhuma d'ellas tem _brazileiro_; porém, quanto a
+namorados, são tantos que nem a senhora princeza é capaz de ter tido
+mais.
+
+No merito de _Julio Diniz_ faz os descontos que o snr. Ramalho lhe
+incutiu. Conhece os _Fidalgos de casa nourisca_, e a _Morgadinka dos
+Canariaes_. Tenciona fallar de Soares de _Posses_, poeta portuense, cuja
+elegia do _sepulchro_, diz ella, se canta nas ruas. Exalta o snr. T.
+Braga que escreveu a _Visáo das tempes_, e _As tempos tades sanoras_, a
+«Historia do _direitor_ portuguez», e os «_Tracos_ geraes da philosophia
+_positivia_». Não se sabe se quer dizer _Traços_ ou _Trancos_; talvez
+seja _Tratos_, ou mais provavelmente _Trapos_, se não fôr cousa peor.
+Seja o que fôr, pertence á philosophia _positivia_.
+
+Conta que elle foi typographo em Coimbra _para pagar os estudos_. Não
+havia de gastar muito se pagou o que sabe. Diz que o snr. Braga é
+«philosopho, mathematico, astronomo, physico, chimico, biologista e
+anthropologista»--o que se demonstra nos _Tracos_ acima.
+
+Consta-me que o snr. Chardron consente que este opusculo seja trasladado
+a francez e hespanhol. Suspeita-se que a Allemanha e o Reino-Unido
+pensam em o traduzir com uma grande sêde de idéas. Pois, se isto assim
+é, como não póde deixar de ser, bom será que lá fóra se leia em
+linguagem conhecida uma opinião ingenua a respeito do _escriptor moderno
+mais consciencioso de Portugal_, como a princeza, baseada em
+anthropologia e assás biologica, qualificou o snr. Theophilo. De si
+proprio dizia elle com paspalhona philaucia no Ath[ae]neum de Londres,
+_Revista do anno de 1878_:
+
+«Actualmente a philosophia positiva conta muitos admiradores em
+Portugal, e os novos espiritos disciplinados por ella vão conhecendo com
+grande clareza de que trabalhos este povo precisa para progredir.
+
+N'este espirito acabam de sahir á luz os dous primeiros fasciculos d'uma
+Historia Universal, que a imprensa portugueza tem considerado como _uma
+renovação dos estudos historicos em Portugal_; a noção positiva da
+historia e o esboço da historia dos egypcios estão a par dos (muito
+_pardos_) modernos trabalhos da archeologia prehistorica e egitilogica».
+
+É o que pensa de si o egitilogico snr. Theophilo. Já lhe não basta o
+elogio mutuo. O oraculo, quando os catechumenos de cá o não incensam,
+trata elle de salvar na Inglaterra a reputação da critica portugueza,
+escrevendo que a imprensa lhe considera as farfalharias uma _renovação
+dos estudos historicos em Portugal_. Ridiculo até á compaixão!
+
+Os livros do snr. Theophilo são uma balburdia, retraços de sciencia
+apanhados a dente, mal mascados, um cerebro atrapalhado como armazem de
+adeleiro, golfos do bôlo não esmoido, cousas apocalypticas, muito
+desatadas, em prosa deslavada, derreada, enxarciada de gallicismos,
+cahotica, apontoado enxacôco de retalhinhos apanhados á tôa n'uma
+canastra de apontamentos baralhados e atirados para o prélo. Toda a
+farragem do snr. Braga é isto, creiam-me os Pisões e a snr.^a Rattazzi.
+A cabeça tôa-lhe a vazio, em competencia com a da sua admiradora. Todo
+elle é uma bexiga de gazes maus; quando a apertam, faz-se mister, como
+para o _portugaison_, apertar o citado appendice.
+
+Diz que o snr. Luciano Cordeiro é um dramaturgo original: parece que a
+originalidade do snr. Luciano Cordeiro está em não ter escripto drama
+algum.
+
+Reflexionando conspicuamente sobre a nossa deploravel instrucção
+publica, sahe-lhe de molde contar que nós, os portuguezes, a um
+brazileiro que passa chamamos _macaca_. Que o brazileiro vai passando, e
+nós dizemos: _É una macaca_.
+
+Não é tanto assim; não se lhe desfigura o sexo. Se a princeza, ao
+passar, ouviu dizer: _é una macaca_, isso não era com o brazileiro.
+
+E a proposito de _macaco_:
+
+Tendo esta dama escripto lisonjeiras cousas da gentileza e bonito feitio
+dos homens portuguezes, exceptuou caprichosamente um criado do Hotel
+Mondego, o _José Macaque_. Diz que elle tem uma _fealdade socratica_. Eu
+não affirmo que José Macaco seja um galan com o perfil de Bathylo de
+Samos nem os tres quartos do Cupido de Corregio. Anacreonte de certo lhe
+não toucaria as louras madeixas de pampanos e rosas de Teos, nem me
+persuado que Sodoma ardesse por causa d'elle ou de mim. Assim mesmo, sem
+algum motivo estranho á plastica, a princeza Maria Letizia, indisposta
+com José Macaco, não lhe perpetuaria no seu livro como em um bronze de
+Esopo, a fealdade. Devia de haver uma causal esthetica para injuria tão
+desproporcionada com as culpas arguidas a José Macaco. Sua alteza não o
+baldeava á zombaria dos seculos porvindouros pelo delicto de lhe não
+servir _mayonnaise de lagosta à la gele_, nem _mexilhões á provençal_.
+Indaguei, por intermedio d'um meu amigo em Coimbra, quaes as causas
+ingentes dos odios assanhados pela Discordia ignivoma, como diria
+Homero, entre Macaco e Princeza. Tentaria elle como o hediondo Thersites
+da Iliada arrancar com suspiros absorventes os olhos meigos da nova
+Pantasilea? Trato de averiguar. Se a resposta não vier a tempo,
+dar-se-ha em appendice supplementar.
+
+Trata com amoravel equidade o snr. G. _Junqiero_. Acha-lhe bellas cousas
+no seu _don Jooâ_, e que realça no estylo menineiro, _enfantin_. O snr.
+Junqueiro, se bacorejasse este obsequio, não mettia na sua Viagem á roda
+da Parvonia uma _Princeza Ratazana_, «em toilette myrabolante, cheia de
+pedrarias e plumas». A princeza Ratazana da farça dá um jantar a lyricos
+e satanicos, e canta:
+
+_É um paiz singular
+A patria dos malmequeres!
+Póde-se dar um jantar
+Ficando os mesmos talheres_.
+
+Mas os convivas, a quatro libras por cabeça,--o snr. Guerra,
+_gratis_--põem-se nas flautas, e ella abysma-se no buraco do ponto. A
+troça está impressa. Guerra Junqueiro vingou A. A. Teixeira de
+Vasconcellos.
+
+Este escriptor, prodigo de gabos e cortezias aos seus collegas, houve-se
+cavalheirescamente com a princeza. Fez folhetim heraldico da sua raça
+corsa, do espirito e dos livros que eu apenas conhecia de lh'os vêr
+citados no Dictionnaire de l'argot parisien, por Lorédan Larchey, Paris,
+1872. Ella é authoridade em giria. Antonio Augusto achava-lhe talento, e
+ia jantar com ella. O escriptor morreu; e a snr.^a Rattazzi celebra
+d'est'arte a memoria do seu panegyrista e hospede:
+
+«_Antonio-Augusto Texeiro de Vasconcellos_. O Casa nova portuguez[2].
+Seria de mais chamar-lhe celebre, mas notavel por muitas distincções,
+sim. A primeira pelos grossos escandalos que datam já de Coimbra, onde
+estudava; depois por grandes farçolices de que uns riam, e outros
+choravam. Por algumas foi asperamente castigado. O que elle podia melhor
+escrever eram as suas memorias; com certeza, tinha com que alvoroçar a
+curiosidade publica. Pensaria n'isso? É provavel que sim, mas faltou-lhe
+o tempo. Como quer que fosse, essas memorias só poderiam publicar-se
+depois d'elle morto; se as publicasse em vida, correria o perigo de o
+espatifarem». É uma princeza a escrever d'um homem fallecido que a
+inculcára litterata distincta no _Jornal da Noite_, mentindo á gente por
+um excesso de cavalheirismo fidalgo que o desculpa, e mais relevante faz
+resaltar a ingratidão da leitora do _Casa nova_.
+
+Crueza e indignidade que não desafinam das tradições corsas da sua
+familia; mas que será difficil encontrarem-se em uma senhora de _la
+haute vie_, uma irlandeza de mais a mais, uma Wyse, fina flôr fanada da
+_Gentry_.
+
+A snr.^a Maria Letizia esteve no Porto, onde «viu o _lindo riacho, Rio
+de Viela_ que atravessa diversas ruas»; conversou com a snr.^a
+_Alveolos_, ingleza gorda que, por signal, a não percebeu.
+Conta-nos--digno Plutarcho--a biographia da estalajadeira do
+_Francfort_, e viu a confraria dos _Pénitents rouges a descer da collina
+para o rio, e parar com tochas accesas á porta d'uma casa mourisca com
+vidraças coloridas, e paredes esmaltadas de adobes azues_. Que diabo de
+visão! O Hoffmann não veria isto no Porto sem beber muito de 1815. Os
+_penitentes vermelhos_!
+
+Tambem esteve em _Cedeifata_ e no palacio de crystal, acompanhada _par
+le savant docteur Ricardo Costa_. É admiravel como ella, n'um lance
+d'olhos, apanhou as linhas intellectuaes e scientificas do senhor doutor
+Ricardo Costa! Quantas pessoas andam duzias de annos á volta d'um sabio
+sem o penetrar!
+
+Na carta XXIII, esta mirifica epistolographa mette a riso a nossa
+pronuncia nacional, os sons nasaes, as desinencias em _oês_ e em _aô_,
+que nos ficaram da lingua _galoga_, e se pronunciam _ouenche_, _anhon_
+«com um accento «violento de nariz que só bem póde imitar-se pegando
+n'este appendice com a mão toda para bem proferir o _portugaison_». Sim,
+elle é preciso pegar no appendice para bem pronunciar o _portugaison_.
+
+Vence-me o tedio; mas não me punge o remorso de ter lido 415 paginas.
+Tenho, porém, vergonha de que um ou outro portuguez, desnacionalisado
+por despeitos pessoaes e politicos, se compraza de vêr os seus
+conterraneos enxovalhados pela snr.^a Rattazzi, cuja maledicencia é
+notoriamente europêa. O seu renome de desbragada sem-ceremonia ganhou-o
+em Italia e Paris a ponto de lhe imputarem as brochuras crapulosas do
+infame bandido Vésinier, um corcunda petroleiro que espingardearam em
+71. Elle publicára na Belgica o Mariage d'une espagnole com as iniciaes
+_M. de S._, em que muitos decifraram _Marie de Solms_ (Les membres de la
+commune, par _Paul Dehon_, pag. 241). Outros davam quinhão na torpeza a
+_Sch[oe]lcher_ (Histoire de la revolution de 1870-71, por _Claretie_).
+Era uma calumnia que a não pungiu grandemente; um dia, porém, o
+despejado amanuense de E. Sue fez confissão publica e vaidosa de ter
+vendido esses farrapos de baixo alcouce aos editores belgas.
+
+A senhora princeza, se em vez de _puffs_ usasse calças e voltasse a
+Portugal, de certo acharia quem lhe désse umas. Tem por si o arnez da
+fragilidade, posto que as senhoras um pouco durazias, e por isso menos
+quebradiças, devem ater-se menos á irresponsabilidade das qualidades
+vidrentas. Em todo o caso, a gente admira-se, porque esta especie de
+extravagancia não é vulgar, e só póde perdoar-se ao talento que a snr.^a
+Rattazi não professa. Tenha paciencia. É uma patarata, _a ragged woman_,
+com uns quindins de _mauvais aloi_, trescalando a _boudoir-Lenclos_, com
+umas guinadas de _verve_, barrufadas de _champagne frappé_. De resto, é
+uma princeza que nos faz lembrar, quanto aos seus diplomas principescos,
+a rainha Jacintha de negra memoria, e quanto aos seus morgadios
+realengos não nos parece mais donataria que a illustre senhora da ilha
+das Gallinhas. Em conclusão: o seu livro não é cano de escorrencias
+muito nauseabundas, nem é canal de noticias uteis, tirante a dos hoteis
+infamados de persevejos; não é pois cano, nem canal; mas é canudo,
+porque custa sete tostões; e--vá de calão--como troça e bexiga, é caro.
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] La verité sur M. Rattazzi, par _l'Inconnu_.
+
+[2] Quem houver lido as Memorias de Casa nova, um patife no genero
+Lovelace peorado, tem comprehendido a crueza da comparação.
+
+
+
+
+
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+
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+works. See paragraph 1.E below.
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+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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+your equipment.
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+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
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+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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