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+Project Gutenberg's Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II), by Rui de Pina
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II)
+
+Author: Rui de Pina
+
+Release Date: April 14, 2006 [EBook #18167]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA D'EL REI D. DINIZ ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ
+
+2 vol. 800 réis
+
+
+
+
+Bibliotheca de Classicos Portuguezes
+
+Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo
+
+(VOLUME LXXI)
+
+
+
+
+CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ
+
+POR
+
+RUY DE PINA
+
+2.^a edição
+
+
+VOL. II
+
+
+_ESCRIPTORIO_
+
+147--Rua dos Retrozeiros--147
+
+LISBOA
+
+1912
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES
+
+Proprietario e fundador
+
+_MELLO D'AZEVEDO_
+
+
+
+
+Bibliotheca de Classicos Portuguezes
+
+Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo
+
+(VOLUME LXXI)
+
+
+CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ
+
+POR
+
+RUY DE PINA
+
+2.^a edição
+
+
+VOL. II
+
+
+_ESCRIPTORIO_
+
+147--Rua dos Retrozeiros--147
+
+LISBOA
+
+1912
+
+
+
+
+CAPITULO XIII
+
+_Como ElRei D. Diniz ordenou em Coimbra ho primeiro Estudo, que ouve em
+Portugal._
+
+
+ElRei D. Diniz assi como foi dotado de muitas boondades naturaaes, assi
+tambem nom lhe faleceram has outras virtudes em todo Reaes, cuja prova,
+e exemplo, saõ suas excellentes obras, & mui louvadas, ha todos
+mostrava, que foi Principe mui prudente, e de mui singular concelho, e
+na fala Portuguez de seu tempo asaaz copioso, e de muita graça, e
+tratava com grande humanidade ha todos aquelles, que com elle
+conversavão, e por esso era de todos mui amado especiaalmente, que todos
+seus cuidados eram honrar, e acrescentar mais sua teerra, e assi
+procurar que fosse abastada, e provida daquellas couzas porque seus
+vassallos, e naturaaes fossem mais nobres, e melhor ensinados, sobre ho
+quaal se diz que hum dia estando com os seus Prelados, e nobres homens
+em concelho, lembrandose com mostranças de sentimento, que seus Regnos
+careciam de Escolas, e Estudos de que outras teerras eram mui abastadas,
+lhes falou nesta maneira.
+
+«Aho boom Principe, que da maaõ de Deos aa muitos de reger sobre todo
+lhe conveem, que trabalhe, e cumpre que elle, e os seus subditos sobre
+todas as virtutudes abracem ha virtude da Justiça, e amem, e sigam os
+fruitos della, porque hos merecimentos sam taaes ante Deos, e de tanta
+estima, que nom soomente daa por elles neste mundo alegre, e pacifica
+vida em quanto duramos, mas ainda no outro pera alma nom nega ha gloria
+eterna, e bemaventurança pera sempre, certamente ho Rei em hos Regnos,
+que por graça de Deos lhe sam encomendados nom pode fazer melhores
+obras, nem officios de moor valor, que procurar que vivaõ nelles hos
+homens em fee, e justiça, e façam obras santas, justas, e onestas, e
+porque esto se nom póde assi beem conseguir, e aver efeito sem aver no
+Regno varoens em toda doutrina e ciencias divinas, e humanas beem
+ensinados, e concirando eu que meus Regnos pela Providencia, e boondade
+de Deos, nom soomente saõ asaaz providos de todolos mantimentos do maar,
+e teerra, mas abastados de onesta gente darmas, e de boom uzo, e
+exercicio dellas assi beem dezejo de todo meu coraçam, que tambeem aja
+avondança de homens leterados, e mui sabedores, e por esso propus em
+minha vontade por beem comum de meu Regno, e grande proveito de meus
+vassalos, e naturaaes, fazer nelle huum Estudo geraal, e muito honrado,
+onde todalas ciencias se leaõ, e que seja feito nesta Cidade de Coimbra,
+que hee no meio do Regno, e abastada das couzas necessarias, e asaaz
+temperada dos ares pera saude dos homens, e poreem ante que ho pozesse
+em obra volo quiz assi notificar pera me dizerdes vosso concelho, e
+parecer».
+
+Aho quaal todos responderam louvando muito sua tençam, pedindolhe por
+mercee, que obra tam sancta, e tam virtuoza, e de tanto proveito, e de
+tanto ennobrecimento de seus Regnos logo ha exequtasse. Pera ho quaal
+ElRei sopricou logo sobresso aho Papa Joaõ XXII que por suas Bullas lhe
+enviou has graças, e privilegios, que lhe foram pedidos, e fundou ho
+dicto Estudo cujos fundamentos parecem agora mui pequenos, e pera elle
+fez vir boons leterados doutras teerras pera que hos Rex dellas por
+mandado do Papa, e por requerimento delRei deram consentimento, hos
+quaaes por salairos ordenados leram nelle algum teempo, e elle foi ho
+primeiro Estudo, que ouve em Portugal, mas depois floreceo mais ho da
+Cidade de Lixboa, ha que ho de Coimbra se mudou, onde agora se leem
+todas has sete artes, e ciencias pubricamente, e saõ pagos hos Mestres
+por salairos dos Rex, que depois Regnaram em Portugal.
+
+
+
+
+CAPITULO XIV
+
+_Como foi feito em Portugal Mestre de San-Tiago izento da Ordem de Ucres
+de Castella._
+
+
+Hos Comendadores Cavalleiros, e Freires da Ordem de San-Tiago, que avia
+em Portugal atee este tempo delRei D. Diniz, todos eram sugeitos aho
+Mestre de San-Tiago de Castella, cujo Convento, e cabeça era Ucres, de
+quem por muitas vias, e maneiras recebiam individamente muitos aggravos,
+e opressoens, chamando-hos sem tempo, e sem necessidade ha Capitulo, e
+poendo nelles por leves cazos sentenças descomunhões, ha quaal couza
+sentio muito ElRei D. Diniz, e como era Principe que sempre dezejou, e
+procurou acrecentamento, e izençam de seus Regnos, e vassallos, enviou
+notificar todas estas couzas aho Papa Nicolao IV e supricou ha Sua
+Sãctidade, que desse licença, e autoridade pera que hos dictos Freires,
+e Comendadores de seus Regnos, podessem antre si eleger Mestre da sua
+Ordem, que de todo fosse izento do Mestre de Castella, ha que ho Papa
+deu poder asoluto, e carta de sentença, e em todo satisfez, e desso
+vieram ha este Regno suas Bullas inteiras, por virtude das quaaes
+elegeraõ por primeiro Mestre de San-Tiago de Portugal hum D. Lourenço
+Annes.
+
+Sobre ho quaal ho Mestre com favor delRei de Castella, como
+descontentes, e agravados de semelhante izençaõ supricaram aho Papa
+Celestino, que socedeo ha Nicolao IV e delle ouveram Rescrito sorreticio
+com crauzulas revocatorias daa concessoens passadas, annulando a eleiçam
+do Mestre de Portugal, e hos Juizes que foram dados por exequtores
+procediam por excomunhoens, e censuras contra ho Regno de Portugal, e
+requereram Prelados delle, que has fossem cõprir atee antredicto ahos
+quaaes procedimentos ElRei D. Diniz, e o dicto Mestre, e Freires de
+Portugal intrepuzeram suas apelaçoens, e devolveram ho feito aho mesmo
+Papa Celestino que mandando ha seus Leterados conhecer da cauza achouse
+ho Rescrito de Castella, nom seer verdadeiramente impetrado, e ho Papa
+Celestino aprovou ha sentença pela primeira concessaõ feita, dada pelo
+Papa Nicolao, seu antecessor, e que ho Mestre de San-Tiago de Portugal,
+e do Algarve nom reconhecesse superioridade salvo aho Papa, e ahos Rex
+que Regnassem nos Regnos de Portugal, sobre os quaaes letigios se
+fizeram por ElRei grandes despezas, e deste tempo ateegora, sempre ouve
+Mestre da Ordem de San-Tiago em Portugal, e no Algarve, cujo primeiro
+Convento foi logo em Alcacer do Sal, e depois se mudou ha Palmella onde
+agora estaa.
+
+
+
+
+CAPITULO XV
+
+_Do fundamento que teve ha Ordem do Templo de Salamaõ em Jerusalem, e
+como foi desfeita, e se fez ha Ordem de Christo._
+
+
+No anno de nosso Senhor Jesu Christo de mil cento e oito annos, sendo o
+Papa na Egreja de Deos Gelazio II, Regnando em Jerusalem Valdovino deste
+nome ho primeiro, e dos Rex de Jerusalem ho segundo, que socedeu ha seu
+irmaaõ Gudufre primeiro Rei se acha, que dous homens devotos dos quaes
+hum ouve nome Ugo de Payaõ, naturaal da cerqua de Troya, e outro ho Ficu
+Sancto homem Frances, estes com dezejos de servirem ha Deos leixados hos
+gostos, e doçuras de suas fazendas, e natureza, se foram aa Cidade Santa
+de Jerusalem pera nella viverem, e por sua defençaõ acabarem suas vidas,
+ahos quaaes o dicto Rei Valdovino porque conheceu que eram homens de
+boom esforço, e de singular devaçaõ, mandou dar huma pouzada dentro dos
+seus Paaços, que eram junto com ho Templo de nosso Senhor, e hos Conegos
+do dicto Templo lhe deraõ hum Altar, e Capella apartado pera que melhor,
+e mais quietamente comprissem suas devaçoens.
+
+E por suas boondades que por todos foram vistas, e experimentadas ElRei,
+e ho Patriarca, e assi hos Perlados, e nobre, e devota gente, que era em
+Jerusalem lhe mandavaõ abastadamente por esmola hos mantimentos, e
+provisam, & ho primeiro encargo que o Patriarca por pendença, e remissam
+de seus peccados lhe deu, foi que com ha gente devota, que se ha elles
+quizesse ajuntar, guardassem hos caminhos por onde hos Romeiros vinham a
+Jerusalem, porque dos muitos ladrões, e maalfeitores nom recebessem hos
+roubos, e danos, que muitas vezes recebiam, ho que elles quanto foi
+possivel fizeraõ, e continuaraõ com grande honra, trabalho, e muito
+cuidado atee nove annos, nos quaaes foram grandemente ajudados desmolas
+por ElRei, e por ho Patriarca, e por todalas outras naçoens, que eram em
+Jerusalem, e nestes annos nom fizeraõ alguma mudança dos Abitos
+seculares, cõ que primeiro vieraõ, mas aho anno decimo depois de sua
+chegada lhe foi dada Regra por o Papa Honorio II, ha quaal S. Bernaldo
+compoz, e lha deu com Abitos brancos por humildade, e nelles por defora
+huma Cruz vermelha por sinificaçaõ do sangue de Christo, e tomaraõ
+Religiaõ em que fizeraõ voto de castidade, e obediencia, e renunciaraõ
+pera sempre ho proprio.
+
+Hos quaaes antre todolos outros Cavalleiros, e calidades de Christaãos,
+que nas partes dultra maar pela Fee, e defensaõ da Teerra Sancta
+peleijavam estes sobre todos com mais devaçam, e esforço faziam com mais
+louvada avantagem, que por seus grandes merecimentos, e serviços, e fama
+eraõ assi celebrados, e estimados em todo ho mundo, que hos Rex,
+Principes, e Senhores de toda Christandade avendo nelles has ajudas, e
+esmolas por mui beem empregadas no fervor desta primitiva devaçaõ, e
+Religiaõ lhe deraõ em seus Regnos, e Senhorios grãdes teerras, Cidades,
+Villas, e Castellos, com muitas rendas, e possessoens. E nesta Ordem por
+sua grande devaçaõ fizeraõ muitas gentes profissam, e antre hos
+Cavalleiros avia outros Religiosos Freires sergentes, que traziaõ has
+mesmas Cruzes vermelhas, mas nos mantos avia antre elles deferença, e
+ordenaram antre si pendaõ, e bandeira, que diante elles levava nas
+batalhas seu Alferes, e era ametade de branquo, e ametade de preto, por
+senefiquaçam que na Fee sempre fossem limpos, castos, e humildosos, e
+firmes, e no meio della ha Cruz vermelha.
+
+E por serem do principio alojados junto com ho Templo, como atraas dice,
+por esso foram chamados Templarios, dos quaes ho Papa, e ho Patriarca
+fizeraõ alguns antre hos outros mais principaes, ha que chamaraõ logo
+Abbades Bentos, e depois foraõ dictos Mestres, e repartidos pelos
+Regnos, e Provincias da Christandade, de que soo em Jerusalem avia
+destar como estava ho Graõ Mestre delles ha que todos aviaõ dobedecer
+como obedeciaõ. Ha este chamavaõ ho Graõ Mestre do Templo de Salamaõ em
+Jerusalem, e no principio, e fundamento consta que hos Cavalleiros, e
+Freires viviaõ, e guardavaõ ha Religiaõ em muita profissaõ, e louvados
+costumes, por esso foraõ sempre em todos seus feitos muito vitoriosos, e
+bemaventurados, que por exemplo da verdadeira Fee, muitos delles com
+grande confiança, e constancia sofreraõ morte, Cruz, e martyrios,
+incomportaveis cativeiros, sem mostrarem alguma fraqueza dos corações,
+nem da fee que sustinham, e tam grande foi ha fama, e boom nome da
+Religiaõ, e disciplina Militar destes Cavalleiros da Ordem do Templo,
+que hos Rex Despanha, que naquelle tempo Regnavaõ, porque nella ainda
+avia grandes Regnos, e poderosos Rex Mouros por conquistar mandaram por
+elles ha ultra maar, e nas conquistas, e batalhas dos infieis por grãde
+ajuda hos trouxeram consigo, e assi por armas, boondade, e esforço
+respoderaõ sempre aa confiança que delles era conhecida, e por esso na
+mesma Espanha por os Rex, e Principes, e Senhores della, e doutras
+gentes particulares em seus testamentos elles foraõ erdados de muitas
+Villas, teerras, e grãdes rendas, has quaaes elles assi davaõ ha obras
+piedozas, e meritorias, e assi has repartiaõ pelos fieis Christaãos que
+craramente parecia que todo ho que lhe davaõ por esmola quesse era ho
+proprio, e verdadeiro patrimonio de Christo.
+
+Mas depois como nellas creceraõ grandes Senhorios, e grandes riquezas,
+logo segundo se delles diz, ha que muitos nom daõ verdadeira autoridade,
+ha cobiça ocupou nelles, e em sua Ordem ho galardam dos virtuosos
+merecimentos passados, porque has virtudes, e boondades em que eram
+professos converteraõ logo em todos seus contrairos, em que fizeraõ ho
+cõtrairo do que ante faziaõ, de maneira, que por autoridade do Papa se
+izentaraõ da obediencia do Patriarca de Jerusalem, e assi de todolos
+outros Prelados, ahos quaaes denegavaõ depois hos dizimos, primicias, e
+rendas com que no principio foraõ delles ajudados, e sustentados,
+trazendo-os em demandas, e legitios como se diz, que ho fizeraõ no Regno
+Daragam onde tiveram guerra contra has Egrejas Catredaes, e riquos
+homens daquelle Regno.
+
+
+
+
+CAPITULO XVI
+
+_Do principaal fundamento, e verdadeira causa pera esta Ordem dos
+Templarios seer destroida._
+
+
+Por morte do Papa Benedicto XI, que faleceu em Italia na Cidade de
+Perosa, antre hos Cardeaes, que eram prezentes ouve discordia na criaçaõ
+do futuro Sumo Pontifice porque huus queriaõ, que fosse Italiano, e
+outros procuravam que Frances fosse, Regnando entam em França El Rei
+Felippe a que por sobre nome diceraõ Fremozo, mas por suas obras de
+sobeja cobiça, e grande tirania, foi avido por asaas feio, e disforme, e
+por estucia, e engenho de Nicolao Cardeal Partenes, que era Varaõ
+astuto, e mui prudente, foi elegido por Papa, sendo auzente, e nom
+Cardeal D. Reymaõ, Arcebispo de Bordeos, e foi chamado Clemente V, na
+quaal criaçaõ hos Italianos consentiraõ porque este Arcebispo era grande
+imigo deste Rei de França, cuja parcialidade pareceu que seguia, ho
+quaal Rei por avizo do dicto Cardeal Partenes antes de seer pubricada ha
+eleiçaõ do dicto Arcebispo em huma Abbadia se foi com elle ha ver, e
+concertar secretamente, e conveio aho dicto Arcebispo pera seer Papa
+outorgar, e prometer tudo ho que ElRei de França lhe pedio, porque sem
+sua concordia, e amizade elle nom avia de seer elegido, e criado em
+Papa, segundo foi certificado, e ali lhe pedio ElRei seis cousas has
+quaaes ho Arcebispo cõ juramento sobre ho Sacramento da Ostia que fez, e
+com ha refens da hum seu irmaão, e dous sobrinhos que lhe deu, lhe
+prometeu de comprir logo como fosse Papa, das quaaes has cinquo logo
+declarou, e huma sem ha dizer reservou em si pera depois a asinar, e
+pedir quando lhe comprisse.
+
+E depois da creaçaõ do Papa hos Cardeaes do Conclave ho avisaraõ ha elle
+em Bordeos, e ali tomou o dicto nome de Clemente V, dõde tambem mandou
+ahos dictos Cardeaes, que eram em Italia que logo se viessem, como
+vieraõ ha Leaõ de França, onde avia de seer como foi coroado, e logo ali
+depois da sua coroaçaõ comprio com ElRei has cinquo cousas, que lhe
+prometera, e assi ha que nom quiz pedir e declarar ha reservou pera
+depois no anno de Christo de mil tresentos e sete annos. Ho Papa mudou
+sua Corte aa Cidade Pitansis, onde ElRei de França lhe pedio exequçaõ da
+sexta cousa que lhe pedira, e pera si reservara, ha quaal era que
+tirasse pera sempre do Catalogo, e numero dos Papas, ho Papa Bonifacio
+VIII seu predecessor, e como de Erege, o tredor lhe mandasse queimar ho
+corpo e hos ossos.
+
+E ha cauza desto era porque este Papa o tinha excommungado, e privado do
+Regno de França, e como de juro dado aho Emperador Dalemanha, e por
+vinguãça desso, ElRei de França manhosa, e encobertamente mandou prender
+o dicto Bonifacio na Cidade de Pavia em Italia, e dali foi levado ha
+Roma, onde logo faleceu, e por esta cauza ElRei de França, que ficava
+excommungado ha elle Papa de sua memoria tinha grande odio, e porém ho
+Papa Clemente com ha dezonestidade, e injustiça deste requerimento pelo
+juramento que tinha feito, e ha refens que tinha dados que corriaõ
+risquo de morte, foi muito torvado, e posto em pensamento, e avido
+sobresso concelho por ganhar tempo de dilaçaõ em que ha vontade delRei,
+por ventura se amanssaria, dilatou ha dicta exequçam da sexta promessa
+pera Concilio géral ha que convocou hos Principes, e Prelados pera a
+Cidade de.... que era fóra da jurdiçam delRei de França, pela quaal
+cauza, e por logo nom comprir, elle se mostrou do Papa muito aggravado.
+
+E durando has pendenças deste injusto, e torpe requerimento delRei, que
+ho Papa nunqua quiz outorgar, acõteceo que hum Prior de Monte Falcaõ de
+Toloza, que era desta Ordem, e Religiaõ dos Templarios homem perversso,
+e maao, que por seus erros, e grandes crimes jazia prezo em Pariz,
+condenado por sentença ha carcere perpetuo, e com elle outro chamado
+..... homem cheio de todalas maldades, e traiçoens, hos quaes ambos por
+seerem de mui malinos espiritos, por tentarem algum caminho de sua
+deliberaçaõ notificaram, e certificaram ha certos officiaes delRei de
+Frãça, ho quaal sabiam seer Rei grande tirano, e sobre todolos homens
+mais cobiçoso, que ho Mestre, Cõmendadores, e Freires da Ordem do
+Templo, eram todos Ereges, e culpados em tam abominaveis crimes, que por
+inquiriçaõ logo se provariam por hos quaaes ha Ordem devia seer
+desfeita, e ElRei aver pera sua Coroa toda sua fazenda, que em França
+era muita.
+
+Ha quaal couza significada ha ElRei elle movido mais de cobiça, que por
+guardar verdade, nem fazer justiça requereo aho Papa, e ho inclinou
+maliciosamente, que desfizesse esta Ordem cheia de muitos erros, e
+offenssas que lhe apontou, ha que o Papa seguundo se diz, pelo afrouxar
+da promessa do Papa Bonifacio, com que ho apertava logo satisfez, porque
+sem fazer muito exame, nem ver has certas provas que se requeriam ácerca
+do que contra os Templarios se dizia, nem se guardar alguma ordem de
+direito juizo foram em França todos prezos, e seus beens tomados, e
+ElRei hos apropriou logo aa sua Coroa, e assi o notificou logo aho Papa,
+e mandou por suas Bullas que assi fizessem todolos outros Rex, e
+Principes Christaãos em cujos Regnos, e Senhorios avia a dicta Religião,
+e foi logo prezo em Paris ho Mestre do Templo, que era hum homem por
+linhagem, e autoridade de mui principaal devaçaõ, e avia nome Jacobo, e
+com elle sessenta nobres Cavalleiros da dicta Ordem, contra os quaaes
+por artigos formados se poz: «Que aho tempo de sua profissaõ que todos
+faziaõ secreta, cospiaõ em Christo Crucificado, e que indistintamente, e
+seem escuza, e com especialidades feias, e mui deshonestas, uzavam antre
+si do abominavel peccado de contra natura, e que juravam que justa, e
+injustamente sempre assi ajudariaõ, e conservariaõ a dicta Ordem, e que
+elles Templarios como tredores da Teerra, e Caza Sãcta foram cauza de se
+perder corrutos de dadivas pelos infieis».
+
+E sobre algumas provas de testemunhas falças, que sobresso foram dadas,
+ElRei mandou meter estes, e outros muitos ha mui asperos tormentos pera
+que com elles confeçassem hos delictos que dezejava pera logo aver has
+teerras que cobiçava. E porque alguns destes tudo esto navegaõ foraõ
+retornados ahos carceres em que longamente foram reteudos, e por se
+tomar delles ha concruzaõ que ElRei desejava, foram levados fora de
+Pariz, e postos aa vista de poovo em hum alto cadafalço de madeira nùs
+das carnes, e atados hos corpos ha senhos paaos, logo ha hum, e depois
+aho outro, lhe pozeram fogo ahos pees, e assi pouquo a pouquo, por
+todolos membros acima atee serem de todo queimados, dizendo ha cada hum
+alto, que se confeçasse seus erros que seriaõ perdoados, e livres com
+piedade, e mesiricordia, cujos amiguos, e partes movidos de sua
+compaixam hos conselhavaõ, e amoestavam, que por nom morrerem cõ tantas
+cruezas confeçassem por nom perecerem.
+
+Aho que muitos com medo das atormentadas mortes, que viaõ padecer,
+confessarão todolos maalles, e erros que lhes eram preguntados, aho que
+outros em que avia mais esforço nunqua quizeram obedecer, antes com
+muitas lagrimas, e grandes prantos que fizeraõ se escuzavaõ affirmando,
+que dos semelhantes crimes elles, e hos da Ordem eram de todo inocentes,
+e encomendando suas almas a Deos, e aa Virgem Maria sua madre eraõ
+contentes de acabar como acabavaõ em tormento de suas vidas, e destes
+fiquaram reservados, que nom foram aho pubrico tormento, ho dicto Jacobo
+Mestre da dieta Ordem em Frãça, e hum Ruy Dalfino seu parceiro, e Frey
+Ugo Paradi, e hum outro dos mais principaaes da Ordem, que jaa foraõ
+officiaaes da Caza delRei de França, hos quaaes foram levados aa Cidade
+de Liaõ onde ho Papa, e ElRei eraõ prezentes, ante hos quaaes hos
+sobredictos aconselhados de seus imigos por averem relevamento da
+prizaõ, e por salvarem has vidas, com mercee, e honra, que lhe foi
+prometida se diz, que confessaraõ alguns dos crimes, e malleficios que
+lhes eraõ postos.
+
+E porque ha cõfissaõ destes seendo pubrica parecia, que era prova
+sufficiente pera hos dictos artigos seerem verdadeiros, e beem provados,
+ho Papa ha requerimento delRei tornou ha enviar ha Pariz hos dictos
+prezos, onde quiz que pubricamente confeçassem ho que tinhaõ em secreto
+confessado, e por autoridade de Juizo enviou dous Cardeaes pera depois
+da dicta confissaõ darem ahos culpados alguma pendença piedosa, e
+condenarem ha dicta Ordem ha perdiçaõ, e destruiçaõ dos beens que tinha,
+hos quaaes prezos postos em outro pulpito mui alto aa vista dos Cardeaes
+e de muitos poovos, que eram juntos, foi perante elles lido, e pubricado
+em alta voz ho processo, que do dicto cazo era feito, em que era escrita
+ha confissaõ que os dictos prezos fizeraõ, ho quaal como foi acabado, ho
+dicto Mestre Jacobo como pessoa mais principaal alevantado em pee, e
+pedindo com grandes brados lugar de silencio se diz, que perante todos
+dice.
+
+«Que aquelles erros, e crimes porque foram perguntaados Deos sabia que
+elles nunqua hos cometeraõ, nem hos avia nelles, nem na sua Religiaõ,
+que sempre fora, e era mui sancta, e hos Freires della de mui honesta
+vida, e de mui limpa conversaçam, e crentes inteiramente na sancta Fee
+Catolica de Jesu Christo, mas que nem por esso deixava de confessar que
+era dino da crua morte, que se lhe aparelhava ha quaal elle com
+paciencia sofreria pois por temor delRei que era prezente, e com
+branduras do Papa elle malíciozamente, e com grãde mentira confeçara
+alguns dos dictos crimes, que nom devera.»
+
+E com esto sem ho acabarem beem douvir se deu toda via sentença contra
+elle, e hos Cardeaes, e hos outros Prelados se partiram, e logo se
+tornaram aho Papa, pelo quaal ho dicto Mestre, que era cõpadre delRei,
+com Frei Delfim seu companheiro foraõ levados ante hos Paaços Reaes de
+Pariz onde ElRei era presente, e ali dãdolhe pouquo ha pouquo ho fogo
+por maior tormento como deram ahos outros, foraõ de todo queimados, sem
+nunqua se quererem desdizer, antes no meio das maiores chamas se diz,
+que elles nunqua deixaraõ de cõfessar, e defender ha pureza de sua
+Religiaõ, e que na opiniaõ de todos como verdadeiros Martyres morreraõ,
+e por taaes se diz, que foraõ avidos, e reverenciados, e seus ossos de
+muitos guardados, mas Frei Ugo, e outro seu parceiro, e assi outros cõ
+elles com espãto, e temor de taõ cruas mortes confessaraõ hos dictos
+crimes contra ha dicta Religiaõ, por salvarem has vidas, que da li ha
+poucos dias por seus peccados vilmente perderaõ, ha quaal sentença de
+condenaçaõ cõtra ha dicta Ordem do Templo, Freires, e Cavalleiros della,
+soccedeo no mez de Dezembro do anno de mil trezentos e nove annos. No
+quaal tempo se compriam cento e quorenta e hum annos, que a dicta Ordem
+fora principiada do tempo do Papa Gelasio, como atraas fiqua.
+
+
+
+
+CAPITULO XVII
+
+_Como ho Papa, e ElRei de Frãça noteficaraõ ha ElRei D. Diniz esta
+condenação dos Templarios, e de sua Ordem._
+
+
+A qual condenaçaõ, e cauzas della, ho Papa fez saber por sua Bulla ha
+ElRei D. Diniz, e cõ mostranças de grande sentimento encomendou, que
+logo fizesse em seus Regnos prender todolos Freires da dicta Ordem, e
+hos remetece ahos Bispos, e Ordinarios, em cujos Bispados fossem prezos,
+pera delles tirarem inquirições, e sabeerem de seus delictos ha verdade,
+e averem justo castigo, e aquelles que confeçassem hos dictos crimes, e
+deles se arrependessem fossem a piedozo perdam recebidos, e assi tomasse
+todos seus beens, e teerras que tivessem, e sobre estivesse atee se
+derterminar no Concilio Geral ho que de todo se fizesse, ha quaal couza
+ElRei de Frãça noteficou ha ElRei de Castella, e ha ElRei D. Diniz, e
+lhes enviou ho treslado do processo, e sentença que contra elles foi
+dada, pedindolhes com razoens, que pareciam teer cor de justiça e
+onestidade que quizessem em seus Regnos inteiramente cõprir ho que lhe
+ho Papa encomendava, e elle nos seus tinha jaa feito, e com ha
+noteficação deste maal tam grande, e tam universaal, ElRei D. Diniz, e
+todolos de seu Regno foram mui maravilhados.
+
+E porque has cauzas, e fundamentos do Papa, e delRei de Frãça, porque
+inteiramente foi deste cazo informado vinhaõ postas em taal ordem, e
+assi clarificadas que pareciam mui verdadeiras, crendo ElRei D. Diniz
+que a dicta Ordem por esso nom escuzaria de seer desfeita, e hos beens
+della perdidos, e dados ha ontrem, antes de tudo mandou logo tomar toda
+ha fazenda, e Lugares da dicta ordem, e tudo teve em si, e na pessoa do
+Mestre, que avia nome Vasquo Fernandes, e nos Cavalleiros, e Freires da
+dicta Ordem nom se acha que ElRei, nem outrem fizessem alguma exequçam
+de mortes, prizoens, nem outra pena alguma, antes em muitas partes
+parece claro que muitos destes foraõ recolhidos aa nova Ordem de
+Christo, que se depois fez, como aho diante direi, e nella viveram beem,
+e onestamente como boons Religiosos, porque o dicto Vasquo Fernãdes,
+Mestre que era, foi recolhido aa Ordem de Christo, e lhe deram ha
+comenda de Castello novo em que viveo, e acabou.
+
+E porque como ha noteficaçaõ deste desfazimento logo geral, se dice que
+o Papa determinava atrebuir has teerras, e beens desta Ordem do Templo
+aa Ordem do Esprital de S. Johaõ de Jerusalem, e ha ElRei D. Diniz
+pareceo que seria grande inconveniente pera ho assecego, e obediencia de
+seus Regnos ho que assi por iguaal medida tocava ha Castella, enviou
+logo apõtar especificamente ha ElRei D. Fernando seu genro, que estava
+no cerquo sobre Algezira, hos pejos que ha elles, e ha estes Regnos
+nesta concessaõ, se aa Ordem de S. Johaõ se fizesse viria, e ambos por
+esso se concordaraõ por contrato jurado, com pena de déz mil marquos de
+prata, que seendo cazo que ho Papa quizesse dar, ou atrebuir estes beens
+dos Templarios ha quaalquer Ordem sem suas vontaades, e consentimento,
+que elles contra todos ho defendessem, e nom consentissem, e que hum sem
+ho outro cõ ho Papa, nem outro quaalqner se nom podesse sobre este cazo
+concordar, nem fazer avença, e concerto, por quaalquer maneira que fosse
+soo ha dicta pena, sobre fizeraõ contracto escrito, e aselado com
+juramentos, e menagens de sempre assi se comprir, e que ElRei Daragam se
+quizesse, como quiz, fosse nesta cõcordia, e chegouse ho tempo do dicto
+Concilio, que ho dicto Papa Clemente V atermou ahos Rex, e Principes
+Cristaãos pera determinaçaõ da Ordem do Templo, e de suas cousas, e assi
+pera sabeer ho que se determinaria acerqua do Papa Bonifacio VIII que
+ElRei de França requeria ha pagamento de sua memoria, e que seus ossos
+fossem queimados, ho quaal se celebrou na Cidade de Viena, na Provincia
+de Narbona, no mez de Outubro da era de mil trezentos e onze annos,
+(1311) que foram juntos grandes Rex, e Senhores, e assi Embaixadores, e
+Procuradores, e nelle primeiramente se determinou que ho requerimento,
+que ElRei de França fazia acerqua de se declarar por Erege ho dicto Papa
+Bonifacio, e seus ossos queimados, e sua memoria perdida, era injusto, e
+taal que por alguma maneira por muitas cauzas se nom devia comprir.
+
+Do que El-Rei de França se mostrou muito anojado, e aggravado do Papa, e
+no dicto Concilio foraõ pubricamente lidos hos dictos processos
+fulminados cõtra hos Templarios, e sua Ordem, pelo quaal depois de
+muitas amirações, e nom menos opiniens se confirmou ha sentença contra
+elles, ha saber que fossem todos prezos, e apresentados ha juizo da
+Sancta Egreja, e aquelles que se quizessem arrepender daquellas
+maaldades, e tornar ha devida pendença, nom fossem prezos, mas que lhe
+dessem algum remedio saudavel pera suas almas, e hos que pelo contrairo,
+fossem ostinados, fossem prezos, e de justo juizo punidos, e foi posto
+por Edito geral pera sempre, que dahi em diante alguem nom entrasse mais
+na dicta Ordem, e Religiam, nem trouxesse Abito della, nem sechamasse
+Templario e que todos seus beens, assi moveis como de rais, que tinham
+em toda Christandade fossem, como foram dados, e aplicados aa Ordem do
+Esprital de S. Johaõ, por seerem hos Cavalleiros della firmes, fieis, e
+constantes guerreiros pela Fee de Jesu Christo.
+
+Mas ha entrega destes beens nom foi inteiramente feita aa dicta Ordem de
+S. Johaõ; porque em muitas partes os Rex, e Senhores ouveraõ pera si
+muitas couzas, e dellas derão ha outras pessoas particulares, que sempre
+depois has tiveraõ, e logo na concessam destes beens, e fazendas foram
+tirados aquelles, que ha dicta Ordem do Templo tinha nos Regnos de
+Portugal, de Castella, e Aragão, cuja aplicaçaõ, e concessaõ, que pelos
+Embaixadores destes Rex foi com muitas cauzas, e razoens empedida em se
+nom dar, e fazer ha dicta aa Ordem de S. Johaõ. E mandou ho Papa, e
+Concilio juntamente que estes beens estivessem assi socrestados atee que
+ho Papa com maior deliberaçaõ, e mais resguardo tornasse aver has dictas
+couzas, e razoens que hos dictos Rex Despanha tinham alegados, e
+quizessem por si mais alegar, pera hos dictos beens nom seerem dados aa
+dicta Ordem de S. Johaõ, porque depois de todo beem visto, e examinado
+deteerminaria ho que fosse justiça.
+
+Hos Embaixadores delRei, D. Diniz, e DelRei de Castella nom partiram da
+Corte do Papa pera Hespanha, atee ho negocio dos da Ordem do Templo nom
+aver final concruzaõ. Ahos quaaes pelo Papa foi mandado, que finalmente
+apontassem hos fundamentos, que faziaõ, e rezoens que davam pera nom
+seerem com hos outros dados aa dicta Ordem de S. Johaõ, e dos
+fundamentos principaaes, e de moor sustancia, que foram apontados, ho
+primeiro foi: «Que quando hos Rex Despanha seus antecessores mandaram
+chamar hos Templarios pera ha guerra, e conquista dos infieis, que nella
+avia, tambeem chamaram, e vieram outro si da Ordem do Esprital, e de
+huns, e outros por uzarem beem de seus officios de Cavallaria, tinham
+dados em seus Regnos, e Senhorios muitas Villas e teerras, e rendas, com
+que cada Ordem tinha por si grande poder, has quaes todas juntas aa
+Ordem de S. Johaõ, ella teria dobrada potencia em cazo, que se dicesse
+que has da dicta Ordem refariam ha guerra contra hos imigos da fee, e no
+serviço delRei, e do Regno outra tanta gente quanta era ha dos
+Templarios quando serviam, esto diceram que seria quando hos da dicta
+Ordem de S. Johaõ quizessem, cujas vontades por suas grandes forças que
+teriam, se nom poderiam forçar, nem sojugar de que se seguiria outro tam
+impossivel, e grande inconveniente que nom convinha pera ho beem, e
+segurança dos Regnos, que quando estes do Esprital nom quizessem guardar
+divida lealdade elles segundo hos muitos Castellos, e Fortalezas que
+tinham nos estremos de seus Regnos teendo taal desposição, e poder
+poderiam meter na teerra, e alevantar no Regno outro novo, e contrairo
+Senhorio, com que tudo se lhe despedesse, e destroisse, e denegariam ha
+obediencia ahos Rex, e Prelados, como, e quando quizessem segundo em
+Aragam hos dictos Templarios em outros tempos por seu grande poder jaa
+fizeram.»
+
+E alem destas razoens apontaraõ hos dictos Embaixadores outras casi ha
+estas conformes que aqui são escuzadas. Durando ho quaal debate, e ante
+de se concruir ho dicto Papa Clemente V faleceu, e depois de sua morte
+ha dous annos, e tres mezes antre hos Cardeaes ouve discordia antre ha
+eleição do socessor, e cessando seus debates, e seendo conformes foi em
+eleição criado Papa seu sucessor, ho Papa Johaõ XXII no quaal tempo da
+dicta discordia, e vocaçam da Cadeira de S. Pedro, hos Embaixadores, e
+Procuradores dos Regnos se vieraõ ha Espanha, sem se tomar final assento
+sobre has couzas dos Templarios, que queriaõ, e no mesmo tempo antes da
+determinaçaõ ElRei D. Diniz ouve pera si todalas rendas dos beens, e
+propriedades delles, e hos converteo no que lhe pareceu serviço de Deos,
+e beem de seus Regnos, aho qual ho dicto Sancto Padre escreveo, que pera
+determinaçam desta couza, que ficara suspensa enviaasse ha elle seus
+Procuradores, hos quaaes logo enviou hum Pero Martins Conego de Coimbra,
+e Johaõ Lourenço de Monçaraas Cavalleiro, que eram pessoas de boom
+saber, e aacerca delRei de booa auctoridade.
+
+E chegaados ante ho Papa diceraõ ha Sua Santidade em sustancia, e ahos
+Cardeaes que eram presentes has rezoens, e cauzas acima apontadas pera
+hos beens, e fazendas dos Templarios nom virem aa Ordem de S. Johaõ, ha
+quaal se nom podia ajuntar, e encorporar seem grande perjuizo delRei, e
+do Regno de Portugal, e com esto diceraõ mais que pera Sua Santidade, e
+ho Sagrado Collegio dos Cardeaes mui claramente verem que ElRei D. Diniz
+nom contrariava taal concessão por alguma cobiça que tivesse daver hos
+beens, Lugares, e teerras dos dictos Templarios, mas que antes hos
+queria pera serviço de Deos, e defençaõ, e exalçamento de sua sancta
+Fee, que soubessem que ho dicto Rei tinha no seu Regno do Algarve hum
+Castello mui forte, que diziaõ Crasto Marim, que era na frontaria dos
+Mouros Despanha, e Dafriqua, na quaal Fortaleza se podia fazer novo
+Convento, e nova Religiaõ, em que entrassem novos Cavalleiros de Jesu
+Christo lidadores por defençaõ da sua sancta Fee, e por seu
+acrecentamento.
+
+Ho quaal Castello lhe aprazia tirar da Coroa de seu Regno, e dalo de
+todo por seu isento aa dicta nova Ordem que se fizesse em que averia
+muitos Cavalleiros de continoa, e forçosa resistencia contra hos imigos
+da Fee, e que estes beens dos Templarios dividamente se poderiaõ
+conceder, e apropriar, e porém pediam ha Sua Santidade em nome delRei D.
+Diniz, que assi ho quizesse outorgar, pelo quaal ho Papa, e Cardeaes
+vendo ha sancta tenção, e boom dezejo delRei aacerca do serviço de Deos,
+e de sua Fee, satisfez em todo ha suas onestas petiçoens, e ouve por
+beem de se fazer ha nova Ordem de Cavallaria de Christo, que agora hee,
+aa quaal hos dictos beens, e couzas dos dictos Templarios fossem pera
+sempre atrebuidas, e que hos Freires della fizessem sua profissaõ pela
+Regra, e Estatutos da Ordem de Calatrava, e que ho Abbade Dalcobaça, que
+pelo tempo fosse vizitasse esta Ordem; com outras mais crausulas, e
+folenidades que nas Bulas da nova instituiçaõ saõ conteudas, has quaaes
+hos dictos Procuradores trouxeram ha ElRei D. Diniz, que era na Villa de
+Santarem, com que foi mui alegre.
+
+E ali foi feita, estabelecida, e decrarada ha dicta nova Ordem de
+Christo, e foi logo della ho primeiro Mestre D. Frei Gil Martins, que
+então era Mestre Daviz, e foi esto feito, e celebrado na dicta Villa de
+Santarem no mez de Maio da era de mil trezentos e vinte annos, (1320)
+avendo jaa doze annos, que ha dicta Ordem do Templo era jaa destroida
+por cobiça do dicto Rei Felippe de França, ha cujas culpas Deos que hee
+em todo justo, nom tardou muito com justiça e pena, porque este Rei
+Felippe correndo monte ho cavallo em que corria arrastrando como touro
+ho matou, e delle ficaraõ tres filhos, e huma filha Dona Isabel, ha
+saber ho maior Felippe, e o segundo Luis, e ho menor Carlos, e ha filha
+Dona Isabel que cazou com ElRei D. Anrique Dingraterra, hos quaaes todos
+morreram sem delles ficar erdeiro de França, e ficou desta vez estinta
+ha geraçaõ dos Rex de França, que vieraõ de Ugo Capet.
+
+Nos quaaes annos que ha Ordem de Christo nom foi feita, El-Rei D. Diniz
+recolheo pera si has rendas da dicta Ordem do Templo como dice, e dellas
+ouve solene quitaçaõ dada, e outorgada pelo dicto novo Mestre de Christo
+fundada em razoens que pareciaõ asaas justas, e onestas, e por
+compensassaõ desso se deu aa dicta Ordem ho Castello de Crasto Marim,
+onde primeiramente foi ordenado ho Convento della, e depois se mudou aa
+Villa de Thomar, onde era ho Convento dos do Templo.
+
+Ha quaal Ordem de Christo por proprios Mestes, e com nomes de Mestres se
+governou, e regeo atee ho tempo do Ifante D. Anrique, filho legitimo
+delRei D. Johaõ deste nome ho primeiro de Portugal, que da dicta Ordem
+foi ho primeiro, e perpetuo administrador, ho quaal por sua singular
+devaçaõ, e grandeza de animo por nom seer cazado, nem teer filhos,
+acrecentou muito na dicta Ordem ha que procurou, que fossem dadas muitas
+rendas com jurdiçam do Espiritaal das Ilhas de Guinee, que elle
+primeiramente descobrio, e depois ha dicta Ordem em rendas, e comendas,
+e jurdiçoens, e em privilegios, e liberdades foi muito mais ennobrecida,
+e acrecentada em tempo delRei D. Manuel N. Senhor, que della tambem por
+autoridade Apostolica foi perpetuo Governador ha que creceram reçoens,
+edeficios, e excellentes Ornamentos, e novas comendas, e ha vintena das
+grandes riquezas das Indias, Arabia, Persia, que elle como Princepe
+virtuozo, e de grande animo, novamente mandou descobrir, e achou, como
+em sua Coronica mais propria, e largamente hee decrarado.
+
+
+
+
+CAPITULO XVIII
+
+_Da discordia, que ouve antre ElRei D. Dinis, e ho Ifante D. Affonso seu
+filho erdeiro, e has causas porque._
+
+
+Atraaz fica escrito has deficuldades, e trabalhos com que ElRei D. Diniz
+cazou o Ifante D. Affonso seu filho, com ha Ifante Dona Breatiz, filha
+delRei D. Sancho de Castella, e por lhe teer grande amor, e afeiçaõ como
+ha rezaõ requeria, lhe deu sua caza em Lixboa, com muitas, e graãdes
+festas, pera que de seus poovos ouve grandes ajudas, e assi se acha, que
+aalem de muitas Villas, e teerras, que tinha lhe ordenou mais de seu
+assentamento, em cada hum anno oitenta mil livras, que estimadas segundo
+ha valia da prata daquelle teempo, valiam da moeda dagora trinta e dous
+mil cruzados, ha rezaõ de duas livras, e meia hum cruzado, que hee
+verdadeira conta, e asaaz aprovada, como outras vezes jaa dice, e assi
+em todalas couzas, que occurriam se vio que ho honrava, e estimava
+muito, e tinha cuidado de lhe criar seus filhos, porque jaa atee este
+teempo elle ouvera ho Ifante D. Affonso, que menino faleceu em Penella,
+e assi ouve ho Ifante D. Diniz, que seu avoo ElRei D. Diniz com grande
+amor criava em sua caza, e nella faleceu moço, porque ElRei foi tam
+anojado, e triste que nom sabia, nem podia com nenhuma couza seer ledo,
+nem consolado, e em tanto estremo sentio ha morte deste seu neto, que ho
+Papa lhe escreveo sobresso hum Breve de consolaçam, cheio de muita
+prudencia, e graãdes confortos.
+
+E por estas cauzas aalem das outras obrigações naturaaes, e Reaaes que
+nelle avia, nom hee de duvidar, que ho Ifante D. Affonso devera sempre
+de amar, e obedecer sobre todos a ElRei D. Diniz seu padre, e assi lhe
+acatar por aver abençam de Deos, e ha sua, ho que em principio de sua
+idade, em seendo Ifante nom se acha seer assi, antes ho contrairo, cuja
+verdade, e declaraçam em cazo, que por sua graveza nom seja doce, nem
+gracioza couza pera ouvir, porém ha necessidade de sua Estoria, que
+escrevo obriga, e constrange ami que ho nom cale, principaalmente por
+mostrar, que hos lizongeiros, e maaldizentes antre hos padres, e hos
+filhos nunca ajam lugar, nem sejam ouvidos, que se estes nom foram
+cridos, nom ouvera tantas cauzas de desavença dantre ElRei, e seu filho,
+e assi pera que se saiba quam grande erro hee daar pena, e castigo ha
+algumas pessoas por quaalquer maal, que delles seja dicto posto que
+traga em si muita cor de verdade, atee elle sem paixaõ nom seer primeiro
+sabido, e justificado, e tambem porque nos erros, e graveza, que se vir
+nas desobediencias, e desacatamentos que ho Ifante teve ha ElRei seu
+padre se vejam, e resprandeçaõ mais craro has boondades, e merecimentos
+dos filhos, quando acerqua de seus padres usarem ho contrairo.
+
+E porque nestas desavenças delRei, e de seu filho ouve, e se passaraõ
+muitas, e mui largas couzas, que seriaõ mui longas pera escrever, eu
+dellas soomente apurarei brevemente has principaaes, e has que pera esta
+Estoria mais necessarias me parecerem. E segundo ho que acho, e pude
+comprender, tres rezoens ouve, e todas sem cauza, nem rezaõ, porque ho
+Ifante D. Affonso se moveo ha esta sua desobediencia contra seu padre,
+das quaaes ha primeira foi em Beja, por sentir que ElRei D. Diniz queria
+grande beem ha D. Affonso Sãches, e aho Conde D. Joaõ Affonso seus
+filhos naturaaes, hos quaaes segundo se acha nom serviam, nem catavaõ
+aho Ifante como elle desejava, e merecia, e deste conto nom era ho Conde
+D. Pedro tambem seu irmaão bastardo, e de todos hos bastardos ho mais
+velho, porque sempre seguio ha parte do Ifante, e por esso foi ha
+requerimento de D. Affonso Sanches desterrado de Portugal pera Castella,
+e todas suas teerras, e fazenda tomadas, e depois retornado, como aho
+diante se diraa, e ha segunda cauza foi ha grande cobiça, e desordenado
+desejo, que sempre teeve de aver, e cobrar pera si has riquezas, e
+tezouros delRei seu padre, e ha terceira por querer, que em toda maneira
+ElRei deixasse, e tirasse de si ha Justiça, e Governança do Regno, e
+livremente ha deixasse ha elle.
+
+E porém em algumas destas couzas nom avia cauza, nem rezaõ que pera ho
+Ifante nom fosse grande erro querellas, e muito mais procurallas, porque
+ElRei querer beem ha D. Affonso Sanches, e aho Conde D. Joaõ era grande
+rezaõ, e assi por seerem seus filhos, como por hos achar sempre em
+todolas couzas mui conformes aa sua vontade, e ha seu serviço mui
+obedientes, especialmente que ha afeiçaõ, que ElRei lhes mostrava nom
+empedia, nem mingoava ho do Ifanto seu filho, mas como ho amor, e
+senhorio sempre querem seer senhores, por esso saõ mui amiude mui cheios
+de ciumes, e sospeita, pelo quaal ho beem, que ElRei mostrava ahos
+outros seus filhos cauzava na vontade do Ifante mui duvidosa tençaõ, com
+que enganandose cuidava, que ElRei ho nom amava tanto, quanto devia, e
+por esso por todolas as maneiras, que podia trabalhava, e procurava de
+apartar, e desavir estes filhos delRei seu padre, assi como logo fez aho
+Conde D. Pedro seu irmaão, que era ho maior dos filhos bastardos, ho
+quaal por couzas craras, que lhe fez entender, ho tirou da obbediencia,
+e seu serviço delRei que antes andava, e ho recolheo pera si, porque
+favorecia sua parte, e dizer, e requerer que ho regimento da Justiça do
+Regno devia seer todo do Ifante, aho que ElRei contrariava com muitas
+rezoens asaaz justas, por as quaaes aconselhava ho filho, que o taal
+requerimento ouvesse por escuzado.
+
+E porque ho Ifante vio, que ElRei seu padre em nhuma parte destas lhe
+nom satisfazia, aconselhado, e induzido falsamente de hum Gomes Lourenço
+Vogado de Beja, filho de hum Carpinteiro, que depois foi Freire de
+San-Tiago, teve taaes meios, e inteligencias com a Rainha Dona Maria de
+Castella sua sogra, que ella enviou pedir ha ElRei D. Diniz, que por
+quanto desejava ver muito sua filha, e seu genro, e os Ifantes seus
+netos, que jaa tinha, ouvesse por beem que elles ha fossem ver ha
+Castella, e porque ElRei por secretos meios que laa trazia soube, e
+entendeu craramente, que has taaes vistas naõ eram pera algum beem, nem
+asecego seu, e de seu filho antes pera alguma torvaçaõ, e dano dambos, e
+do Regno, falou sobresso aho Ifante, e lhe rogou, e encomendou que por
+sua bençam escuzasse sua ida, ha quaal fosse certo, que ha elles, nem ha
+Portugal nom trazia proveito, antes era fundada, e requerida pera seu
+desserviço, e dano da teerra, e que abastava por principaal pera elle
+deixar de hir ha Castella, em cazo que outro nom ouvesse dezejar elle, e
+querer que nom fosse, ha que elle por aver sua bençaõ devia mais de
+obedecer que aa Rainha sua sogra.
+
+E com tudo esto, e com mais outras alegaçoens, e inconvenientes que
+ElRei lhe poz, ho Ifante nom desistio de seu proposito, e sem licença, e
+contra vontade delRei foi todavia, e levou ha Castella ha Ifante Dona
+Breatiz sua molher, e depois de consultarem em Cidad Rodrigo has couzas
+sobre que foram, que todas eraõ contra ho gosto, honra, e serviço
+delRei, ho Ifante se tornou ha Portugal, e nom se passaram muitos dias,
+que logo nom veio ha ElRei D. Diniz em nome da Rainha Dona Maria sogra
+do Ifante, hum Pero Rondel Ouvidor da Justiça em caza delRei D. Fernando
+de Castella, e da sua parte, aa sua grande instancia lhe requereo, e
+pedio que por algumas cauzas coradas, que apontou desse ho Regimento da
+Justiça aho Ifante D. Affonso seu filho. Do quaal requerimento ElRei cõ
+grandes estranhamentos se escuzou, maravilhandose muito da boondade, e
+prudencia da Rainha requerer taal couza, e taõ contraira ha toda rezaõ,
+e onestidade, porque elle quando em cazo de velhice, ou por outro
+empedimento que tivera, requerera aho Ifante seu filho pera tomar
+semelhante regimento, ainda elle como filho obediente seendo seu pai
+vivo, e em booa idade pera reger como era, se devera desso escuzar,
+quanto mais querer forçar ho que boom filho nunca fizera, e desta
+reposta delRei ha que ho Ifante era prezente, elle como aggravado, e mui
+anojado se despedio logo de seu pai, e foi sempre andar apartado delle.
+
+
+
+
+CAPITULO XIX
+
+_Das couzas que ho Ifante capitulou pera matar Affonso Sãches seu
+irmaão, ou ho desterrar fóra do Regno._
+
+
+Porque ha maginaçam, e sospeita que o Ifante tinha do beem, que ElRei
+queria ha Affonso Sanches seu filho, ho trazia em muita door, e cuidado,
+para desto seer livre, elle cõtra ho que ha seu Real sangue, e Estado
+devia, fantaziou em sua memoria hum engano com que falsamente, e com
+algum achaque ho matasse, ou ElRei ho desterrasse do Regno, e esto fez,
+que ho Ifante falou secretamente com hum Pedro Guilhelme, e com outro
+Pero Gonçalves, que viviaõ com elle e em que se muito fiava, ahos quaaes
+mandou que fossem fóra da teerra, e de lá trouxessem escrituras com
+sinaaes, e mostranças de seerem pubricas, e mui autenticas, e
+verdadeiras, porque craramente se mostrasse, que elles de mandado do
+Ifante foram buscar, e acharaõ homens ha que ho dicto Affonso Sanches
+peitara porque trouxessem, e dessem peçonha aho Ifante D. Affonso, de
+que logo morresse. E estes passado algum tempo depois, que manhosamente
+partiram do Regno, tornaraõ ha elle, e trouxeram aho Ifante, que estava
+em Coimbra estromentos pubricos escritos em Castelhano, que perante hos
+Juizes da Cidade, foram logo pubricados, e tomados delles autorizados
+trelados, cuja sustancia era.
+
+«Que ahos trinta e hum dias do mez de Novembro da era de mil trezentos
+cincoenta e sete annos, ante ha porta de Sancta Maria de Magazella,
+presente Johaõ Pires, que aquelle anno fora Algoazil, e Diogo Dias, e
+Vasco Fernandes Alcaides, e Johaõ Preto, Tabaliam do Lugar, nove
+vaqueiros que vinhaõ por si nomeados, com outros vaqueiros de Ruy
+Sanches Davilla, trouxeram prezos aho dicto Lugar de Magazela cinco
+homens do Senhorio de Portugal, antre hos quaaes vinha hum acavallo, que
+parecia de rezão, e boom entendeer, e que hos dictos vaqueiros disseram,
+que no Lugar que dizem Aguama termo da Magazela, aquelle homem de
+cavallo com outros traziam prezo outro homem Portuguez, que tinha feiçaõ
+Descudeiro, ho quaal bradando dizia, homens do Senhorio de Castella
+acorreime, que Portuguezes me levam prezo pera em sua teerra me matarem,
+e que ha estes brados hos dictos vaqueiros acodiraõ, e querendo livrar
+ho prezo Portuguez daquelles Portuguezes que ho traziam, que o dicto
+homem de cavallo dicera apressadamente ahos seus de pee: «Matai este
+tredor porque nom fique com vida.» E que hum delles lhe dera huma
+lançada por hum braço, e que o de cavallo sobresso lhe arremessara ha
+lança que trazia, e ho atrevessara por detraaz atee hos peitos, e que os
+vaqueiros vendolhe fazer taal crime lançaram maão logo de quatro homens
+seus, e que ho de cavallo querendolhos tirar, e defender, hum dos
+vaqueiros arrancou hum dardo, e ho ferio, e ho Escudeiro quando vira hos
+seus homens prezos, dicera ahos vaqueiros, que nom tinham rezaõ de
+prenderem, nem fazerem maal ha elle, nem ahos seus, pois nom fizeraõ
+mais maal, que matar seu imigo, e que pera verem que elle demandava
+rezaõ, que ho deixassem, e que elle era contente de ir ha cavallo
+perante os Juizes de Maguazela, e que elles depois de ho ouvirem
+mandariam ho que fosse justiça.
+
+E que ante de irem pera ho dicto Lugar, que ho Cavalleiro rogou ahos
+vaqueiros, que pera certidão do que dizia, chegassem aaquelle lugar onde
+jazia ho ferido Portuguez, hos quaaes chegando ha elle ho Cavalleiro
+dicera aho ferido. «Amigo eu saão Pero Gonsalves, Escrivão do Ifante D.
+Affonso de Portugal, e voos sabeis beem ha maaldade, e treição que
+tendes feita, com Garcia Dalmuche, que eu fiz matar nas manchas Daragam
+por ambos buscardes, e ordenardes peçonha pera mataarem ho Ifante meu
+senhor, e agora lembrevos, que estais em tempo da rependimento, e de
+dizerdes ha verdade, por nom perderdes ha alma, pois jaa perdestes o
+corpo.» E que ho ferido respondera, que tudo era verdade, e que por esto
+elle tinha tratado, e buscado contra ho Ifante aquelles Portuguezes que
+ho traziaõ prezo, ho quaal logo falecera, e que sobre esto em chegando
+ahos Alguazis do lugar, ho dicto Pero Gonsalves mostrara huma carta
+aberta patente do Ifante, porque geraalmente fazia sabeer, que elle
+enviava ho dicto Pero Gonsalves contra alguns que procuravam de fazer
+maaos feitos contra elle, e que porem ho encomendava aas Justiças dos
+Lugares pera que lhe dessem ha ajuda, e favor, que elle requeresse, e
+aalem desto, que ho dicto Pero Gonsalves requeria mais ahos dictos
+Juizes, que perguntassem hos vaqueiros aacerqua do que ho Escudeiro
+morto em morrendo confeçara, hos quaaes diceram todo ho que atraaz hee
+escrito, e mais que ho dicto ferido em querendo morrer dicera.
+
+Eu naci em na maa hora antre todolos homens da teerra, de que saõ
+naturaal, e assi aquelle por cujo concelho esto fiz, porque certo hee
+que Garcia Dalmuche, e eu com outros buscamos, e compuzemos peçonha pera
+matar ho Ifante, mas quiz ha sua booa ventura, que por ella se nom obrou
+couza, que lhe danasse. E com tudo diceram, que ho Ifante se guardasse,
+e que perguntado ho ferido pelo nome daquelle do sangue do Infante por
+cujo concelho, e mandado esta peçonha se ordenava, que elle respondera,
+que pera que era perguntar ho que todo ho mundo sabia, e que mais nom
+deria, e com esto pedira confissam, e em lhe tirando ha lança, que tinha
+atravessada logo morrera, pelo quaal hos dictos Alguoazis, e Alcaide,
+visto esto mandaram que ho dicto Pero Gonsalves, e hos seus se fossem em
+booa ora, e livres, e lhe mandaram daar hos estromentos pubricos, com
+muitas testemunhas, que sobre esto pediram.»
+
+E depois que estes estromentos em Coimbra se pubricaraõ, de que todos
+foraõ hi espantados, ho Ifante mandou mostrar ho treslado delles ha seu
+padre, por Nuno Martins Barreto, e por Ruy Garcia do Cazal, e pedir-lhe
+que logo desse ha Affonso Sanches ha emenda, e castigo, que em tam feio
+cazo merecia. Do que ElRei foi asaaz maravilhado, e posto em mui tristes
+pensamentos, ainda que logo conheceo, que tudo eram manhozas envençoens,
+e maal compostas, e ahos messageiros do cazo, respondeu por maneira, que
+foraõ elles contentes, e sobresto ElRei enviou logo aho Ifante, Fernam
+Rodrigues Bugalho, e Lopo Esteves Dalvarengua, pessoas de que fiava,
+pelos quaaes lhe enviou certificar ho nojo, e tristeza que do cazo
+passado tinha recebido, ho quaal era de calidade, que fazendose contra
+ho mais pequeno vassallo seu, elle ho estranharia, e puniria mui
+gravemente, quanto mais contra elle seu filho, que elle amava de
+coração, e suas couzas assi lhe doiam, e tocavam como se fossem feitas,
+e ordenadas contra sua Reaal pessoa, e que fosse certo, que quaalquer
+seu irmaão lidimo, se ho tivera, que contra elle fizesse semelhante
+treiçam, que seem nhuma piedade lhe mandaria tirar ho coraçaõ pelas
+espadoas, como aho mais vil homem de sua teerra, e que porem ElRei lhe
+rogava, que hos proprios originaes de que vira hos treslados lhe
+quizesse mandar, que logo lhos tornaria, e porque por elles se queria
+beem informar pera sabeer ha verdade donde tanto maal nacera, e quaaes
+eraõ hos participantes nelle, pera tudo emmendar, e castigar com penas,
+e rigores que elle viria.
+
+Aho que ho Ifante respondeo, que se maravilhava muito delRei seu padre,
+hum feito tam craro, e de taal importancia querelo poor em vagarias, nas
+quaaes elle nom queria poor seu corpo, vida, e honra, porque se ElRei
+tivesse vontade de ho estranhar, e punir como lhe enviava dizer asaaz
+provado estava ho erro pera na exequçaõ delle nom procederem
+interlucutorias nem tantas delongas, e que jaa em cazos, que menos
+relevavaõ, e comprova que nom era tam abastante, mas por soo prosunçam
+lhe vira proceder contra muitos, e punillos, e que assi ho devia fazer
+neste cazo, e que hos originaes por seerem escritos em papel, e por se
+nom perderem tinha mui beem guardados antre duas tavoas, e que ha ElRei
+hos mostraria quando fosse necessario, e que porém, que sobresso mais se
+avia de fazer com mostranças da meaça.
+
+
+
+
+CAPITULO XX
+
+_Da diligencia que ElRei fez pera saber ha verdade dos estromentos de
+Maguazella._
+
+
+Com esta reposta do Ifante em que pareceo que elle se cerrava pera
+prefeitamente se nom saber ha verdade do cazo, que desejava, ElRei pera
+tirar de si sospeiçoens, e escrupulos da vontade, antes de tudo ouve por
+beem denviar, como enviou, por messageiro avizado com sua carta de rogo
+ahos do Concelho de Maguazella, encomendandolhes, que do cazo que nos
+estromemos era particularmente apontado, lhe mandassem dizer ha verdade,
+e que viesse por todos beem autorizada, hos quaaes juntos todos em seu
+consistorio maravilhados primeiramente de taal novidade, responderamlhe
+sustancialmente, que todalas couzas conteudas nos dictos estromentos nem
+soomente huma nom fora, nem era verdade, porque naquella Villa nom avia,
+nem nunca ouvera taaes homens, que fossem justiças, nem Tabalians, nem
+taaes vaqueiros, nem memoria de taal feito, como aquelle acontecesse em
+Maguazella, nem em seu termo, nem em toda aquella Comarqua, sobre que
+fizeram grandes deligencias de que enviaram ha ElRei D. Diniz suas
+certidoens asinadas por todos, e aseladas com ho selo do Concelho.
+
+E com esta reposta de Maguazella, em ha falcidade foi ho Ifante beem
+compreendido, e ElRei foi muito maravilhado, e recebeo grande nojo, que
+lhe pareceram começos, e fundamentos que ho Ifante lançava, e fazia pera
+descobertamente lhe desobedecer, e ho desservir, e pera alguma
+temperança, e resguardo desto ElRei fez ajuntar em sua Camara ha D.
+Johaõ Mendes de Briteiros, e Martim Affonso de Souza, e Gonçalo Anes de
+Berredo, seus sobrinhos, e D. Pedro Estaço Mestre de San-Tiago, e D. Gil
+Martins Mestre de Christo, e D. Vasquo Mestre Daviz, e Vasquo Pereira, e
+Vasquo Martins de Rezende, e outras pessoas nobres de sua Corte, e em
+Concelho, e perante elles todos fez leer ha carta, e titolo que hos de
+Maguazella lhe enviaram, e acabada de leer, ElRei perante todos logo
+dice.
+
+«Certo hee, que ha alguns pareceraa esta minha fala escuzada, pois ha
+faço com paixam, que nom posso dizer has muitas mercees, e grandes
+beneficios que tenho feitos aho Ifante meu filho, que apoz elles nom
+diga hos erros, e desobediencias, e desagradecimentos, que contra mi
+teem cometidos, e cada dia comete, e porém ha door, que tenho em minha
+alma, e ha sanha que encende ho meu coraçam, são tamanhas, que me forçam
+meu proprio sizo, pera que has nom possa encobrir, e dellas me fazem que
+vos diga algumas, aho menos pera saberdes minha fortuna, e minha
+desculpa, e sobresso procurardes, e dardes ha esto algum remedio, e
+concelho pois eu jaa nom sei, nem posso.
+
+Beem sabeis todos, quam honradamente, e com quanta prosperidade sempre
+criei ho Ifante, e quanto de coraçam sempre ho amei, e por este grande
+amor, que lhe tinha nom seendo inda em idade de seis annos, lhe dei caza
+apartada com muita teerra, e grande contia, e com boons e honrados
+vassalos, ho que hos Rex de Portugal meus antecessores, ha seus filhos
+erdeiros de tam pouca idade nunqua costumaram fazer, porque cazados, e
+em moores idades sempre andavam com seus padres em sua caza, atee que
+lhe apartavam has suas sem teerem vassalos, nem servidores proprios, e
+pera prova desto sabeis, que como quer que ElRei D. Affonso meu avoo,
+filho delRei D. Sancho sendo Ifante, fosse cazado com ha Ifante Dona
+Orraqua, e tivesse filhos, sempre porém andou em caza delRei seu padre,
+e se ElRei D. Affonso Conde de Bolonha ho fez ha mi, foi em tempo que eu
+avia jaa dezoito annos, e avia catorze que elle jazia em cama seem se
+poder soster e alevantar, de maneira que depois, que me apartou caza, e
+asinou teerra nom viveo mais que dezanove mezes, e quantos trabalhos,
+perigos, e despezas, eu com muitos de minha caza, e teerra passei, por
+se fazer seu cazamento com ha Ifante Dona Breatis sua molher, vós todos
+ho sabeis pois tambeem ho passastes comigo e ho conhecimento, que elle
+desto teem, e ho galardam que por esso me daa, sam nojos, e
+desobediencias que andando em minha caza, e fóra della sempre me fez, e
+que todas aqui nom diga algumas por minha satisfaçam seraa forçado, que
+ha aponte.
+
+Primeiramente despedindose de mi, e de meu serviço ho Conde D. Martim
+Gil pela contenda, que antre elle e Martim Sanches meu filho avia sobre
+partilha derança, por seerem ambos cazados com duas irmãas posto, que eu
+soubesse que o dicto meu filho fora maltratado, e deserdado contra
+direito, eu fui favoravel aho dicto Conde, por amor do Ifante meu filho
+por seer seu, aacusta do muito dinheiro meu que por composiçam, que dei
+ao dicto Affonso Sanches, hos concordei, e seendo ho Conde meu vassallo,
+e meu Alferes moor, e Mordomo do Ifante, que eram officios pera me teer
+muito em mercee, e avia por ello obrigaçam pera me lealmente sempre
+servir, elle antes, que se de mi espidisse, errando nesso ha lei de
+nobreza, e fidalguia, que como nobre devera guardar, se foi fazer
+vassallo delRei de Castella, e lhe fez preito, e menagem contra mi
+sopena de tredor, que toda sua vida ho servisse contra mi, quando elle
+mandasse, convocando pera si alguns homens honrados do meu Regno, pera
+que fossem contra meu serviço.
+
+E como quer, que ho Ifante desto fosse beem sabedor, nom estimou o
+grande dano, desserviço, e deshonra, que se desso podia seguir ha mi,
+que sam seu pai, e aa Coroa de meu Regno de que hee successor, mas antes
+por estos erros ho ama, e estima, e fia mais delle do que antes fazia, e
+ihe escreve cartas de grande favor, e lhe faas mercees como se ha mi, e
+ha elle has merecesse, ha quaal couza nom sei ha quem nom pareça muito
+estranha se nom ha elle, que sendo meu filho, e vassallo, e ha quem meus
+Regnos pertencem de direito ho aa por beem sem teer lembrança destas
+obrigaçoens polas quaaes de razam naturaal, e divina, devia querer maal,
+e desamar muito ha quem cõtra miuza de tanta treiçam. Tambem sabeis, que
+estando Affonso Sanches meu filho, concertado com Dona Isabel sobre
+escaibo de Medelim por Aguiar, e seendo dia antre elles certo, e asinado
+pera ho dicto concerto se fazer sopena de dous mil marquos de prata, e
+indo ha esso ho dicto Affonso Sanches por meu mandado, e consentimento
+ho Ifante saio ha elle com voos, e tençaõ de ho matar, posto que Ihe eu
+mandasse dizer por Johaõ Rodrigues de Vasconcellos, que o nom
+perseguisse, e ho deixasse, que hia por meu mandado, elle ho nom quiz
+fazer, e me mandou dizer, que ho que começar a havia de acabar, aho que
+eu por evitar tamanho maal como se aparelhava, aahi fóra em pessoa, e
+voos comigo, e porém nom se pacificou ho cazo seem ho dano que vistes.
+
+E outro si Vasquo Paaes Dazevedo, que em Castella contra mi, e meu
+serviço dice algumas couzas, que nom devia, querendose dellas alimpar
+perante mi, poz ha culpa de maao ha Martim Reimondo, e porque Affonso
+Martins Reimondo seu sobrinho, que era presente lhe dice que lhe poeria
+de praça has maãos, e ho corpo, por prova que seu tio nunqua taal
+dicera, e que lhe faria confessar, que nom dizia verdade, ho Ifante
+tomou a parte de Vasquo Paaes, e falou por elle palavras descompostas, e
+por Affonso Martins querer alimpar, e escuzar seu tio, hos do Ifante ho
+quizeraõ logo matar, e perante mi seem acatamento de minha pessoa ho
+fizeraõ, seem meu filho tornar a esso, como devera, consentindo em
+tamanha injuria, como ha mi era feita. E sabeis mais, que dous sabrinhos
+do Bispo de Lixboa confiando, e esforçandose como nom deviam, que pela
+parte que de mi dava, e booa vontade que tinha ha seu tio, poderiam por
+favor escapar de quaalquer crime, e maleficio que cometessem, e
+fizessem, elles sobre segurança mataram pubricamente no meio do dia, e
+da Cidade hum filho do nobre homem, e boom Cavalleiro Estevam Esteves, e
+por ha fieldade, e graveza do cazo seer taal hos mandei logo prender, e
+fazer pubricamente justiça, e de todos aquelles que foram em su ajuda, e
+por esso ho dicto Bispo com meu desamor, porque eu quiz fazer justiça,
+se foi ha Roma onde por todalas maneiras que pode procurou ho meu nojo,
+e desserviço do quaal ho Ifante perdeo toda suspeita, e ho teem por
+boom, e leaal servidor, e fia delle, e lhe faaz honra, e mercee, e ha
+todolos seus, sabeendo notoriamente que nisso me desserve, e anoja.
+
+E além destas couzas que dice, outras mais desta calidade teem ho Ifante
+contra mi feitas, que atee qui soportei, esperando que com crecimeto dos
+dias, e da honra, e estado que tinha se temperasse, e emendasse, porque
+com ha emenda desso, que em si fizesse refreasse ha mi que nom dicesse
+maal de pessoa de meu sangue, especiaalmente delle, que depois de minha
+morte aa esta teerra de soceder em meu lugar: mas porque vejo que elle
+cada dia, tira ho beem do beem, e acrecenta maal ha maal, ho descubro ha
+voos outros pera que nesso me deis concelho com remedio».
+
+Aho que cada hum dos Senhores, que eram prezentes, responderaõ com ha
+door, e tristeza que por esso tinha, e pera booa paaz, e concordia antre
+ElRei e ho Ifante, deram seu voto, e offereceram suas forças, e booa
+vontaade. Mas ho Ifante veendo que has couzas passadas pera morte, ou
+desterro de Affonso Sanches seu irmaão, nom tinham socedido aa sua
+vontade pera esprimentar se com ho poovo do Regno ho podia fazer,
+ordenou estando elle em Coimbra, e assi em Santarem onde ElRei era, que
+se dicesse como por muitos dos seus pubricamente se dizia, que ElRei com
+asinados, e selos seus, e de trinta, e duas Cidades, e Villas
+principaaes de seus Regnos, enviara cartas de certidaõ aho Papa porque
+lhe certificava, que ho Ifante D. Affonso por falecimento de sizo
+naturaal, e por outros grandes defeitos que tinha, nom era auto pera
+seer Rei, porque como parvo, e desmemoriado andava tirando, e comendo
+has aranhas das paredes, e que por esso pedia ha Sua Santidade por
+merecee, que lhe tirasse a socessaõ, e abilitasse ho dicto Affonso
+Sanches pera depois de sua morte Regnar, porque pera taal socessaõ era
+mui pertencente, e que elle das rendas do Regno mantivesse ho Ifante seu
+irmaão em sua vida.
+
+Das quaaes couzas sendo ElRei D. Diniz certificado, recebeo por ello
+grande pezar, e muito sentimento, e enviou logo Lourence Anes Redondo, e
+Pero Esteves seus vassallos aho Ifante, ha que diceram todo o passado,
+que os seus diziam, e ho nojo em que por esse ElRei estava, por
+difamarem seem cauza de sua boondade, e conciencia, e da lealdade, e
+boom nome das Cidades, e naturaaes de seus Regnos, e ho que desto mais
+sentia assi era que ho Ifante sabeendo que estas falcidades assi se
+diziam, nom has extranhar, e castigar com grandes penas, e muita
+aspereza, como taal cazo requeria, por onde parecia, que ellas naciam de
+toda sua vontade, e consentimento, mas que pera todos sabeerem
+craramente desso ha verdade, e que nunqua taal malicia, e treiçaõ por
+elle, nem pelos seus fora, nem soomente cuidada, que elle daria por esso
+taaes penas por dezafio, e reto posessem hos corpos, e has vidas,
+aaquelles que esto diziam, e asacavam, e que por suas bocas lhe fariam
+confessar que eram mui falsos, e tredores, e que pera mais abastança, e
+moor comprimento elle escrevera logo aho Papa em quem nom avia paixam
+dodio, temor, nem afeiçaõ, pera que por suas Bullas, e letras patentes,
+e com outorgua, e aprovaçam dos Cardeaes, enviassem desto testimunho, e
+dizer ha verdade. E esto passou na era de mil trezentos e vinte annos.
+Mas ho Ifante respondeo que taaes couzas nunqua ouvira, nem sabia dellas
+parte, e porém ElRei notificou tudo aas Cidades, e Villas de seus
+Regnos, que sobre esto enviaram logo pubricos estromentos de muita
+lealdade, afirmando cada hum que combateriam em campo ha quaaesquer que
+contra ElRei, e seu Regno taaes treições, e falcidades asacassem, porque
+nunqua passaraõ assi, nem elles por sua lealdade has consentiriam.
+
+
+
+
+CAPITULO XXI
+
+_Dalgumas couzas mais, que ho Ifante fez contra vontade, e serviço
+DelRei seu padre._
+
+
+Como ho Ifante andava posto em desobediencia, e com pouquo acatamento
+delRei, nom olhava has couzas de seu serviço, e da justiça com aquelle
+resguardo, que devia, pelo quaal ElRei era posto em grande cuidado, e
+muita pena, porque ho Ifante pera mais danamento de sua boondade
+soltamente trazia, e acolhia em sua casa muitos maalfeitores obrigados
+grandemente por seus crimes aa justiça, com que hos do Ifante tomavam
+grande ouzadia de fazerem ho maal que queriam, porque nom receavam pena,
+nem castigo dos maales que fizessem, nem ElRei podia delles tomar ha
+emenda, que mereciam, e antre estes era hum Estevão Gonçalves Leitaõ,
+vassallo do Ifante, e outro seu irmãao, e com outro em sua companhia,
+partiram de caza do Ifante seendo elle aallem do Douro, e foram teer oo
+caminho ha Estevaõ Fernandes Cavalleiro, e vassallo delRei, e ha Gonçalo
+Fernandes, vassallo de Fernaõ Sanches, e seem cauza ha ambos hos
+mataram, e acolheraõ-se aa caza do Ifante, que hos nom quiz entregar ha
+ElRei, que com grande instancia lhos mandou pedir pera delles fazer
+justiça. Outro si, hum Paio de Meira, e Johaõ Coelho vassallos do
+Ifante, hum de huma parte, e outro de outra, sem algum temor delRei, e
+de suas justiças, fizeram de Cavalleiros, e de outras muitas gentes, hum
+grande ajuntamento, e ambos ouveraõ peleja em que morreram muitos, antre
+hos quaaes foi Lopo Gomes Dabreu, que era hum dos melhores Cavalleiros,
+que avia em sua linhagem.
+
+Pelo quaal insulto, ElRei por seu meirinho hos mandou desterrar fóra do
+Regno, e elles foraõse logo pera Castella, mas dahi a pouquos dias se
+tornaram pera caza do Ifante, em que acharaõ boom acolhemento, e muita
+mercee. Outro si, hum Xeres Portel vivendo com o Ifante, com outro foi
+roubar ho Moesteiro do Marmellar de quanto tinha, e elles, e hos seus
+por força se lançaram aas molheres cazadas, e virgens, que acharam pela
+teerra, e quizeram matar ho Comendador do dicto Lugar se nom se
+escondera, e cheios de roubos, e de maleficios se foram pera casa do
+Ifante que hos emparou, e favoreceo. E assi depois Affonso Novaes, e Mem
+Martins Barreto, vassallos do Ifante, e seus moradores partiram de sua
+caza, e com homens de cavallo, e de pee armados, foram sem cauza matar
+D. Giraldo Bispo Devora, que era do Concelho delRei, e vivia com elle, e
+tambeem muitos homiziados, e maal feitores, que por seus homizidios, e
+fugidas de cadeas, e delitos andavam fóra do Regno, vinhaõse soltamente
+pera caza do Ifante de quem recebiam emparo, e merecee, hos quaaes em
+grande numero ali asinou, e hos cazos porque eram obrigados aa justiça,
+cuja mais particular declaraçam nom hee aqui necessaria.
+
+E posto que ElRei por muitas vezes, e por muitos com cauzas evidentes
+enviasse rogar, e mandasse estreitamente aho Ifante, que lançasse de sua
+casa hos taaes homens maalfeitores, e que dali em diante nom acolhesse
+outros semelhantes, elle ho nom queria fazer, antes insistia, e faria
+tudo contra vontade delRei, pela notificaçam, que ElRei fez aho Papa
+Johaõ XXII das desobediencias, e pouquo acatamento de que ho Ifante
+aacerqua delle uzava. E assi do que neste Regno falsamente se dizia, que
+ElRei asaquando defeitos do dicto Ifante lhe suplicara pela legitimaçam
+do dicto Affonso Sanches pera Regnar, e Sua Santidade em reposta desto
+enviou ha ElRei D. Diniz pera si, e assi a todolos Estados de seus
+Regnos, suas Bullas patentes, em que cõ palavras de padre boom, e
+piedozo se doe, e maravilha da discordia antre o pai, e ho filho, e assi
+afirma, e daa testemunho da verdade, que aquellas difamaçoens, elle como
+Vigairo indinho de Christo, que do Ceo decendeo por dar testemunho da
+verdade, afirmava seerem falsas, e que em seu tempo taaes requerimentos,
+e suplicaçoens nunqua lhe foram feitos, nem has provizoens de taal couza
+nom se concedaram, nem passaram em seu tempo, nem dos Papas Clemente V e
+Benito XI seus Predecessores, cujos registros pera moor justificaçam
+desto mandara com deligencia buscar, e porèm que ha todos por muitas, e
+booas cauzas, que apontou, encomendava que por serviço de Deos, e por
+boom asecego do Regno procurassem antre todos paaz, e amizade, e
+concordia, como era rezaõ, ha quaal Bulla ElRei por sua limpeza mandou
+mostrar aho Ifante, e assi publicar em sua caza, e por todolos Lugares
+principaaes do Regno, ha que hos poovos respondiam conformes aa verdade,
+de que se tiraram estormentos pera limpeza delRei, e do Regno.
+
+
+
+
+CAPITULO XXII
+
+_Como o Ifante se partio de Coimbra pera Lixboa, e do que lhe aconteceo
+com ElRei no caminho._
+
+
+E estas Bullas autentiquas, que ho Papa enviou por certeza que has
+sospeitas do Ifante contra ElRei, e contra Affonso Sanches, nom eram
+verdadeiras, nom asocegaram ha vontade do Ifante pera deixar de ter
+odio, e desamor aho dicto Affonso Sanches, porque quando ho defamava, e
+queria matar, e desterrar, beem sabia que has cauzas, que contra elle
+punha, todas eram fingidas; nem abrandou de sua dureza pera com hos
+rogos do Papa seer obediente ha ElRei seu padre, como por Prégadores, e
+grandes homens em pubriquo, e em secreto lhe era dicto, antes continuava
+no que tinha começado, pelo quaal deixando ha Ifante sua molher em
+Coimbra, e com ella ho Conde D. Pedro seu irmaão, partio da i, e levando
+cõsiguo hos maalfeitores, e degradados, e outra gente armada, foi
+caminho de Leiria com fama de ir ha Lixboa em romaria a S. Vicente, mas
+ha verdadeira tençam de sua ida, era pera tomar, e teer Lixboa contra
+ElRei seu padre, e ElRei estando em Santarem, e seendo certifiquado da
+maneira em que ho Ifante ia, ouve taal atrevimento por grande seu
+desprezo, ca parecia nom aver algum temor, nem vergonha delle, nem de
+sua justiça, especiaalmente pelo Ifante vir com tantos omiziados tam
+junto delle, e como quer que ho seu primeiro movimento foi acodir logo
+ha esso com mais trigança, e moor aspereza, porém ouve por beem
+enviar-lhe primeiro dizer por Pero Esteves, e Gomes Anes seus vassallos,
+que lhe rogava lançasse fóra de sua companhia hos maalfeitores que
+levava, porque com elles mais parecia ir fazer almogavaria em teerra de
+imigos, que comprir com devaçaõ sua romaria em sua teerra propria.
+
+Aho que ho Ifante nom quiz satisfazer, e neste cazo estes mesageiros
+levaraõ provizoens porque em nome delRei ouveraõ hos dictos maalfeitores
+por degradados fóra do Regno, ho que com favor do Ifante nunqua quizeraõ
+fazer, e ha cazo ElRei por este cazo em muita sanha, moveo logo contra
+Lixboa, e ha Rainha Dona Isabel sua molher com elle, e indo jaa ho
+Ifante diante, em chegando ElRei aho Lumiar, que he huma legoa de
+Lixboa, soube que ho Ifante seendo avizado da ira delRei, com seu medo
+se partira pera ha Villa de Cintra, e ElRei dice contra hos seus.
+«Pareceme que ho Ifante meu filho, sabeendo quanto me anojava por elle
+trazer estes omiziados afastado oito legoas, que agora por me mais
+desprazer, e menos acatar se foi com elles, e hos tem comsigo nom mais
+de quatro, e porque são maales, que pera Deos, e pera ho mundo jaa se
+nom podem sofrer hee beem, que pera mais nom creccerem, vamos logo
+sobrestes homens, que saõ cauza desto, e trabalhemos polos aver».
+
+Pelo quaal ElRei mandou logo fazer prestes sua gente, que muito ante
+manhaã armados partiram, e foram contra ho lugar onde estava ho Ifante,
+e dice, que ElRei ordenou esto seer feito mui cedo, e secretamente,
+porque ha Rainha ho nom soubesse, e da sua ida nom avizasse ho Ifante.
+Mas ha Rainha maravilhada por sentir no Lugar tanta revolta, e veer
+tanta trigança, e rumores daparelhos darmas, e cavallos, como soube que
+era contra ho Ifante seu filho, foi posta em muita angustia por taal,
+que nom sabia que remedio pozesse, e porém se diz, que tantos homens
+mandou aho Ifante, e pera tantos Lugares, e com taal pressa que ante
+delRei chegar ha Cintra elle era jaa avizado de sua ida. E em tanto ha
+Rainha se socorria ha Deos, ha que em Missas, e orações com muitas
+lagrimas pedia guardasse ho Ifante da ira delRei seu padre, e por beem
+de todos hos pozesse em paaz, e amor.
+
+E como ElRei chegou ha Cintra onde era ho Ifante, elle como vio seu
+pendão, e suas gentes, armouse logo, e mandou armar hos seus, e
+pozeraõse contra ElRei em dous lugares com mostrança daspera peleja, ha
+quaal nom ouve, porque ho Ifante, e hos seus por quaalquer cauza, que
+fosse partiraõ dali, e nom esperaraõ ha ElRei. E esta se acha, que foi a
+primeira vez, que ho Ifante se armou contra ElRei seu padre pera com
+elle pelejar em cazo, que nom pelejasse. ElRei tomou por satisfaçaõ,
+partirse ho Ifante, e pera ho seguir nom deu lugar ha grande sanha, que
+contra elle tinha. ElRei partiose tambem de Cintra, e em chegando aa
+Aldea de Bemfiqua, soube que ho Ifante estava da i huma legoa em huma
+Aldea, que dizem Alvogas, de que ElRei foi muito mais anojado, porque
+lhe pareceo que ha soberba do Ifante, e seu desprezo contra elle, ia
+cada vez em maior crecimento, pelo quaal ElRei determinou de ir sobre ho
+Ifante ho quaal porque desta determinação foi logo avizado, tambem com
+hos seus maalfeitores, e com outras gentes com maao concelho esforçado,
+asentou logo em sua vontade esperar ElRei, e dar-lhe batalha, como se
+fora a hum imigo estranho.
+
+ElRei como soube ha maneira em que ho Ifante estava lhe mandou dizer:
+«Que pois ho diabo cujas carreiras elle seguia, ho punha em taal
+determinaçaõ contra elle, que era seu pai, e seu senhor, que esso nom
+era salvo pera lhe dar ho castigo, que por seus grandes erros merecia, e
+que por esso esperasse, e nom fogisse». Pelo quaal ho Ifante vendo, que
+por forças, e por rezaõ tinha contra ElRei, seu partido mais fraco, nom
+esperou El-Rei, e se tornou pera Coimbra, e ElRei ha Bemfica, e da i ha
+Santarem, e nom seem muitas lamentaçoens, e grandes maravilhas por ver
+seu filho tam seem razaõ contra si, seem nunqua querer amançar.
+
+
+
+
+CAPITULO XXIII
+
+_Como ho Ifante levou ha molher, e hos filhos ha Castella, e hos
+Lugares, que tomou ha ElRei seu padre._
+
+
+Como ho Ifante foi em Coimbra, logo levou sua molher, e filhos a
+Alcanizes, que hee em Castella, ho quaal tinha hum Fernam Martins
+Dafoncequa, e ali ha deixou acompanhada dalguns Escudeiros, e se tornou
+pera Coimbra, onde por suas cartas cheias de piedades, e palavras,
+promessas, e necessidades, que apontou logo fez chamamento de todos seus
+vassallos, e servidores dizendo, que o socorressem, porque ElRei queria
+vir sobrelle, e destroilo, ou matalo, sem causa. E ElRei que estava em
+Santarem quando soube ha mudança, que seu filho fizera da molher, e dos
+filhos pera Castella, e percebia seem cauza tantas gentes, era por esso
+cada vez mais anojado, porque como prudente sabia, que nom podia delle
+tomar vingança, que pera todos nom fosse mui periguoza, e porém
+pareceolhe que hos taaes ajuntamentos nom eram se nom pera ho Ifante vir
+sobre elle incitado de algum espirito diabolico ho tentar pera batalha,
+maravilhado de ho Ifante jaa nom cançar de seus odios, e perseguiçoens.
+
+Ha esto proveo, e atalhou com cartas geraaes, que logo enviou ha todalas
+Cidades, e Villas do Regno encomendandolhes, que se nom enganassem das
+palavras coradas, que ho Ifante mandava semear, com que hos enganasse, e
+desviasse de seu serviço, porque hos afagos, e promessas, que em suas
+cartas aas gentes fazia nom era pera com elles conquistar, nem guerrear
+se nom ha elle seu padre, e com esto mandou ElRei geraalmente pubriquar
+por tredores todos aquelles, que pera taal ajuntamento mais acodisseem
+aho Ifante, nem com elle andassem, ainda que fossem proprios seus
+vassallos, contra hos quaaes assi asperamente procederia, como contra
+aquelles, que cometessem treiçaõ contra ha Reaal pessoa de seu Rei e
+Senhor, e que da i por diante mandava ha todos seus Alcaides, e
+justiças, e ha todolos outros seus naturaaes que ha todos estes que
+desobedecessem seu mandado, matassem sem receo dalguma pena, que por
+esso ouvessem, e assi mandou, e defendeo que nom acolhessem ho Ifante,
+nem os seus nas Villas, e Castellos, nem lhes dessem mantimentos, nem
+outra couza alguma, antes assi ho esquivassem, e fizessem contra elles,
+como contra imigos delRei, e de seus Regnos, e desto se passaram muitas
+provizões, e cartas que foraõ enviadas, e pubriquadas por todo ho Regno.
+
+Mas ho Ifante nos Lugares onde se achava nom consentia daremse taaes
+cartas, nem serem feitas suas pubriquaçoens, nem obedecer ha couza que
+ElRei mandasse. E andando has couzas neste danamento, ElRei apartou de
+si ha Rainha, e ha mandou Alanquer, com fundamento de fazer seus
+negocios secretamente seem ho saber ha Rainha sua molher, de quem
+prezomia, que ho Ifante era logo avizado, e logo foi certifiquado, que
+hos da Villa de Leiria, deram nella entrada aho Ifante, e que tinha jaa
+ho Castello, e irado ElRei por este feito moveo, logo contra Leiria com
+tenção de queimar, e destroir todos aquelles, que foram em consentimento
+da entrada do Ifante, porque ha pena destes fosse ahos outros exemplo, e
+quando chegou ha Alcobaça jaa i achou muitos moradores de Leiria, que
+com medo de sua ira ali se acoutavaõ, como ha Caza sagrada, que lhes
+podia valer, hos quaaes posposto todo acatamento Daltares, e das
+sepulturas dos Rex seus avoos, ha que se abraçavam, mandou ElRei logo
+tirar, e estando pera irozamente delles mandar fazer crua justiça lhe
+chegou recado, que ho Ifante por força entrara ho alcacer de Santarem,
+ha que ElRei com grande pressa logo acodio e ho Ifante receozo delRei, e
+de sua ira, e poder que trazia, deixou ha Santarem, e se foi ha Torres
+Novas, onde se diz, que foi ho enterramento de Affonso Vaas Pemintel,
+que era seu Cavalleiro, ha que queria grande beem.
+
+E tanto que ElRei chegou ha Santarem, logo mandou ha Lourence Anes
+Redondo, que jaa estava no alcacer de Leiria, que logo dece passe, e
+matasse todos aquelles que deraõ entrada da Villa aho Ifante, em
+comprimento do quaal, decepou, e queimou nove homens dos melhores, e
+mais principaaes da Villa. ElRei mandou tornar aho Moesteiro Dalcobaça
+hos prezos, que da i levara pera justiçar, que depois de sua ira seer
+temperada, ouve por beem que lhes valesse ha Egreja, e mais Alcobaça, em
+que tinha singular devação. Ho Ifante nom menos perseguido, que
+desobediente, e contumaas partio de Torres Novas, e chegou ha Thomar,
+onde pera si, nem pera hos seus, e suas bestas nom achou algum genero de
+mantimentos, nem forragem, porque atee hos moinhos, e acenhas achou de
+suas ferramentas, e engenhos, de todo desconcertados, por taal que nom
+podessem moer mantimentos pera ho Ifante, e com esto elle se foi aho
+Castello da Villa, e seem ho poder tomar tomou por força todolos
+mantimentos, que nella achou, e da i se foi pera Coimbra.
+
+Da quaal se apoderou, e tomou ho Castello ho derradeiro dia de Dezembro
+de mil trezentos e vinte hum annos, (1321) e logo da i tomou ho Castello
+de Monte moor ho Velho, donde mandou dizer aho Conde D. Pedro seu
+irmaão, que andava em Castella desterrado, que se viesse aa Cidade do
+Porto, porque elle hia pera laa, e no caminho tomou ho Ifante ho
+Castello da Feira, que hee em teerra de Sancta Maria, de que era Alcaide
+por ElRei Gonçalo Rodrigues de Macedo e da i foi tomar ho Castello de
+Guaia, do quaal e assi do outro de Monte moor que jaa fora tomado, era
+Alcaide por ElRei Gonçalo Pires Ribeiro, e da i se foi aho Porto, e ho
+tomou, e ali chegou o Conde D. Pedro, que sempre andou em sua companhia,
+e da i se foi aa Villa de Guimaraens esforçado de hum Martim Anes de
+Briteiros, que fez crer aho Ifante que por inteligencias, que tinha
+dentro na Villa, lhe faria entregar, mas ho Ifante chegou ha ella, achou
+defensor dentro Mem Rodrigues de Vasconcelos, que era nobre homem, e
+boom Cavalleiro, e com elle boons Escudeiros, e outra gente da Villa, e
+com quanto foi pelo Ifante grandemente requerido com dadivas, e mercees,
+e ameaçado com morte, e outras penas pera que lhe entregassem ha Villa,
+e ho Castello, elle ho nom quiz fazer, dizendo que em quanto ElRei seu
+padre fosse vivo, ha quem tinha feito menagem, nom entregaria ha Villa,
+nem o Castello, se nom ha elle, e que atee sobresso morrer ho
+defenderia.
+
+Ho Ifante mandou combater ha Villa da quaal couza seendo ElRei avizado,
+ajuntou logo muitas gentes dos Concelhos da Estremadura, e das Ordens, e
+se veio lançar sobre Coimbra, que estava pelo Ifante, e nom entrou logo
+na cerqua, porque estava beem guardada, e lha defenderam, mas passou no
+alcacer, que estava acerqua de Saõ Lourenço. E avendo jaa dez dias que
+ho Ifante jazia em cerquo sobre Guimaraens, foi avizado, que ElRei tinha
+cerquada Coimbra, pelo quaal deixou ho cerquo da Villa, e se veio ha
+Coimbra pera ha socorrer, e com elle ho Conde D. Pedro, e ante que
+chegasse aa Cidade se preitejou com ElRei, que se alevantasse, como
+alevantou, e se fosse ha S. Martinho do Bispo, e ho Ifante chegou aa
+Cidade, e pouzou em Sancta Cruz, e ElRei porque ho Ifante dilatou ha
+concordia, que prometera, veio-se logo pera S. Francisquo donde se fez
+muito dano, e grande estrago no arrabalde, e nos olivaes, porque de huma
+parte, e da outra eram ali juntos hos mais dos Fidalgos, e gentes que
+avia em Portugal, e antre huns, e outros avia barreiras, e repairos, de
+que escaramuçavam, e pelejavam, em que de huma parte, e da outra com
+door de muitos, morria muita gente, porque hos pais seem vontade, e
+certa sabedoria matavam hos filhos, e hos filhos ahos pais, e huns
+irmaãos, e amigos ha outros seem alguma piedade, nem misericordia.
+
+
+
+
+CAPITULO XXIV
+
+_Como ElRei, e ho Ifante foram concordados por meio, e intercessaõ da
+Rainha Dona Isabel, e da maneira que nesso teve, e das menagens que pera
+segurança desso se fizeram._
+
+
+E por esta discordia, que antre ElRei, e ho Ifante avia, ha Rainha Dona
+Isabel era triste, e anojada, e por aver antre elles booa paaz, e amor
+como era rezaõ fazia ha Deos, e mandava fazer muitas oraçoens, e
+devaçoens, e seendo certifiquada destas mortes, e maales tam grandes que
+desta desaventura se seguiam, ella de sua propria, e virtuoza vontade
+partio Dalanquer donde estava, e se veio ha Coimbra, e por si falou a
+todolos Senhores, que eram com ElRei, e com ho Ifante, e assi com ho
+Conde D. Pedro, e com elles por sua sancta intercessam banhada com
+piedozas lagrimas, asentou que era beem fazerse logo paaz, e concordia,
+e ha Rainha com ElRei, e com ho Ifante concordou, que ambos se partissem
+da li, e se fossem ha outros lugares, dõde por pessoas seem sospeita se
+veriam has couzas que ho Ifante requeria pera dellas lhe serem
+outorgadas aquellas que fossem de razam, e onestidade, e ElRei com
+prazer, e consentimento desto, se foi ha Leiria, e ha Rainha, e ho
+Ifante e se foram da i ha Pombal, e ali concertaram.
+
+Que ElRei desse aho Ifante Coimbra, e Monte moor com seus Castellos, e
+ha Fortaleza da See do Porto, porque ha Cidade ainda entam nom era
+cerquada, e por ellas fez ho Ifante menagem ha ElRei, pera de todas
+fazer guerra, e manter paaz, como elle mandasse, e assi acrecentou aho
+Ifante pera seu soportamento, mais contia de dinheiro, e panos aalem do
+que tinha, e ElRei perdoou aho Ifante, e ahos seus todo ho passado, e ho
+Ifante ahos delRei, e ha rogo do Ifante foi tambem perdoado ho Conde D.
+Pedro, que foi restituido ha todo ho que tinha, e lhe era tomado, e
+destas couzas mostrou ho Ifante seer mui ledo, e mui contente, e dice,
+que nom menos obrigava, e tanta alegria tomava das mercees, e
+acrecentamentos, que delRei seu padre entam recebia, como de seer seu
+filho, pera por ellas dahi em diante, beem, e leaalmente ho servir
+sempre seem algum nojo, nem escandalo. E sobresto lhe fez pobriqua, e
+solene menagem, e tomou por esso juramento dos Sanctos Evangelhos sobre
+que poz has maãos e no Altar de S. Martinho do Pombal prezente ha
+Rainha, e muitos Fidalgos, que sobpena de seer tredor, e de encorrer na
+maaldiçaõ de Deos, e na sua, dali em diante sempre ho servisse, e lhe
+fosse obediente assi como deve seer boom filho, e leal vassalo ha seu
+padre, e ha seu Senhor, e que da i em diante nom acolhesse mais nhuns
+maalfeitores, antes hos que podesse aver prenderia, e entregaria ha
+ElRei, e ha suas justiças, e hos que trazia lançaria fóra logo de sua
+caza, e de seu favor.
+
+E pera mais firmeza, e moor segurança rogou, e encomendou aho Conde D.
+Pedro seu irmaão, e ha Martim Anes de Souza, e ha Gonçale Anes de
+Briteiros, e Affonso Telles, e ha Gonçale Anes de Berredo, e ha Lopo
+Fernandes Pacheco, e ha Paio de Meira, todos riquos homens de Portugal,
+e ha outros nobres seus vassallos, que fizessem, como fizeram outro taal
+juramento, e menagem, como elle tinha feito, e ho Ifante tambem pedio aa
+Rainha por mercee, que pera maior, e mais seguro penhor desta concordia,
+e porque ElRei da i em diante mais descançasse sobre ello, que tambem
+ella quizesse fazer por elle este juramento, e menagem ha ElRei, e ella
+tambem assi ho fez, com cada hum dos outros. E outro si ElRei pera
+satisfaçam do Ifante, e de todos tambem fez no Altar da Capella de S.
+Simaõ de Leiria, solene juramento de nunqua falecer aho Ifante em alguma
+destas couzas, que lhe prometera, e outorgara. E foram estes juramentos
+feitos no mez de Maio, no anno de mil trezentos e vinte tres, (1323) e
+acabadas estas concordias de que todo Regno pareceo, que recebia muito
+prazer, e descanço, ElRei, e ha Rainha, e ho Ifante se foraõ ha
+Santarém, e da i ha Lixboa, onde todos estiveraõ atee Sancta Maria
+Dagosto, e da i ho Ifante se tornou pera as teerras, que ElRei lhe dera.
+
+
+
+
+CAPITULO XXV
+
+_De huma carta ao Papa Johaõ XXII aho Ifante D. Affonso filho delRei D.
+Diniz, sobre has dezavenças com seu pai._
+
+
+Destas dezavenças, e roturas, que avia antre ElRei, e seu filho, ante de
+assi seerem concordados, ho Papa por quaalquer maneira que fosse, foi
+muito inteiramente informado do que lhe muito pezou, porque tinha
+grande, e particular afeição ha ElRei D. Diniz, que ho avia em todo por
+Rei excellente, e por ha Sua Santidade parecer, que seus Sanctos
+conselhos, e booas amoestaçoens podiaõ nisto muito aproveitar, enviou
+sua carta de Bulla aho Ifante D. Affonso, cujo theor tirado por mi
+fielmente de Latim em lingoagem hee ho que se segue.
+
+
+JOANNE BISPO
+
+Servo dos servos de Deos
+
+
+«Aho amado em Christo filho D. Affonso enviamos este escrito de mais
+saaõ concelho, com muita torvaçam de nossa alma, mui ameude ouvimos como
+ho imigo semeador de odio, e enveja, por estorvar ho boom estado, e paaz
+do Regno, e seu louvado regimento com sua maaldade te poz em coraçaõ de
+te levantares contra teu pai, e como primeiramente soou em nossas
+orelhas taal fama de desobediencia, que por toda ha teerra hee jaa mui
+espargida, fez a noos grande nojo, e encheo de muita amargura nossa
+paternal afeiçam, e pois noos teemos nesta vida taal lugar, e poder
+porque aho Rei pacifico no dia do grande Juizo, avemos de dar conta das
+almas, aprazate, e nom te agraves se ha tua duramente por seu beem
+reprendermos, e porque ha palavra de Deos nom seja atada na nossa boca,
+e falemos com espirito de liberdade, por esso nom podemos encobrir
+tamanho maal como hee perseguir aquelle que te criou, e gerou, e
+estragares tam seem tento ha teerra (que atee espargeres por ella ho
+sangue) devias sempre defender, quem hee aquelle que seem grande
+torvaçaõ do epirito possa ouvir, que hum Rei tam nobre ha juizo do quaal
+hos Rex isentos doutras teerras com grande vontade se sometem, e
+obedecem a seu mandado, e concelho, seja por ti com injurias seem razam,
+e seem seus merecimentos tam anojado, e perseguido, e porem nom sabemos
+quaal couza agora digamos primeiro, ou quaal recontaremos por
+derradeiro, nem sabemos se choremos ho beem que perdes, ou se nos doamos
+do maal que fazes, dize em que te errou teu padre, ou de que ho
+reprendes, e que te nom fez de graças e beneficios que devesse fazer,
+cremos por sua confiança, que nhuma couza de erro te fez, mas afirmamos,
+que avondança de booa vontade, que te sempre mostrou, foi verdadeira
+cauza de lhe seeres tam desobediente, mas agora prouvesse ha Deos, que
+ainda melhor soubesses, e entendesses com melhor aviso, e esguardasses
+no que te compria de fazer, quem he aquelle que seem grande door, e
+tristeza possa recontar, que hos direitos, e obrigaçõens do parentesco
+antre aquelles, que sam conjuntos com tanta afinidade de sangue, sejam
+assi quebrantados, quem consentiraa seem amargozo coraçam, que ho filho
+ante do tempo, nom soomente queira abreviar hos annos de seu padre, mas
+ainda que com maliciosos cometimentos se trabalhe de hos acabar mais
+cedo, ho quaal tu sabe, que jaa mais vive por teu proveito, que pelo
+seu, porque qualquer couza de beem que faz, e ajunta jaa todo he pera
+ti, e com muitos trabalhos, e despezas afirmou e acrecentou seu Regno,
+porque tu depois de sua morte podesses viver nelle, grande, e poderoso,
+porque te trigas ante tempo por cobrares aquillo, que ha natureza ainda
+te nom quer dar? Nom sabes, que diz Salamaõ, que nom averraa ha bençam
+no fim dos dias, ho que aa erdade se atrigar primeiro que deve? Tu
+juntamente perdes ha alma, e ha fama por averes antes de tempo ho que
+depois aas de perder, e segues ho contrairo desto nom curando de tua
+propria saude.
+
+Has lex, e direitos de todalas naçoens mandam que hos filhos em
+quaalquer estado alto, e baxo sempre obedeçam ha seus padres, e hos
+amem. Pois dize, onde hee aqui ho amor, onde hee ha reverencia do filho
+aho padre, onde ha lei de natureza, onde finalmente he ho temor de Deos?
+Ha elle aprouvesse ora que soubesses quam alegre, e quam doce couza hee
+ho filho obedecer, e honrar ha seu padre, e quam maa, e desventurada hee
+ha desobediencia, e desprezo, que ho filho contra elle mostra, de
+maneira, que como se afasta de obedecer, logo nom parece filho. Nom
+sabes, que Felipo dos Emperadores ho primeiro Christaão, posto que desse
+ho regimento do Imperio ha seu filho delle em sua vida, lhe nom era
+menos obediente, que cada hum de seus Cavalleiros, e avia por grande
+prazer teer vivo seu pai, e lhe obedecer? E ho Emperador Decio, quiz em
+sua vida Coroar seu filho, e elle ho refuzou, dizendo: Receo tomar
+Coroa, e ho regimento do Imperio, que me pode esquecer cujo filho sam,
+pelo quaal mais quero nom seer Emperador, que reger, e seer dicto filho
+desobediente, Reja ho Imperio meu padre, e ho meu senhorio, de que me
+mais contento seja em sua vida sempre lhe obedecer.
+
+E muitos que ho contrairo desto uzaram perseguindo, e nom obedecendo ha
+seus padres, huns morreram maa morte, outros cairam em taal cativeiro de
+que nunqua sairam, porem meu filho muito amado rogote, que ames, e
+honres a teu padre, e toma aquillo, que a igualdade da natureza em seu
+tempo te ofrecer, e nom queiras aver por força destroido ho Regno, que
+teu aa de seer, beem sabemos que ho arroido da tempestade diaboliqua
+armou ho filho contra ho pai, e armou hum irmaão contra outro, alevantou
+hos sogeitos contra ho senhor, e porém hos beens, e fazendas em
+destroiçam, e hos corpos em estrago, e ho que hee mais amargo, que vos
+poz has almas em desesperaçam de sua saude, teu padre mostra, e chora
+has injurias, que por ti lhe sam feitas, e noos em especial avemos
+compaixam delle, quanto ha opiniam do poovo, elle hee por ti
+injustamente, e contra razaõ aggravado, e perseguido, que couza hee, que
+alguns maaldizentes que contigo vivem avorrecidos de Deos, busquando
+palavras prazenteiras, e maliciosas de suas lingoas por mordeduras
+peçonhentas, e concelhos enganozos sam ouzados de encher tuas orelhas de
+vento prazenteiro, e agradavel com que ho amor natural, que ha teu
+padre, e ha teu irmaão devias, hee todo corrompido, quaal he ho
+entendimento assi boom como rudo, que nom entenda quam maa, e quam
+nojoza couza hee andares armado contra teu padre, e ajuntares ha ti
+omiziados, e maalfeitores, com que te rebelas contra elle? Quaal couza
+hee mais contra ha Lei de Deos, e da natureza, que ho padre movido pela
+injuria de seu proprio filho, mover tambem armas contra elle? E que por
+outra couza nom dizistisses do que fazes, por esta ho devias fazer.
+
+Sabe, que tu nom combates has Villas, e Fortalezas dos imigos, nem
+ganhas teerra alhea, mas destrues ho Regno, que por direito te hee
+devido, ho quaal parece que nom queres, pois nom obedeces aaquelle, que
+te gerou. Ó obra merecedora de gram doesto! Ó mancebia mui dina de seer
+chorada! prouvesse ha Deos filho meu muito amado, que com lima de melhor
+razam tu esquaaldrinhasses todas estas couzas, mas certamente ho teu
+odoor filial jaa perdeo seu boom cheiro, antes hee jaa convertido em
+fedoranto, ha presença do padre injuriado, quem poderaa sofrer seem
+amargura, que hum irmaão por soo odio seem outra injuria se mova contra
+outro, ha procurarlhe com todas suas forças ha derradeira queda de sua
+morte, com sua infamia, e desonra tam pubriquada? Ha quem nom
+avorreceraa muito, que hos sogeitos sejam tam ouzados, que cortados hos
+noos, e rota ha preitezia de sua leaaldade, se trabalhem de someter, e
+derribar ha Reaal Alteza de seu senhor, que segundo por fama commum, e
+mui notoria fomos certifiquados, hos vassalos do mesmo Rei, por teu
+favor se alevantaram contra elle, querendo querer tam desonesto, que
+elle nom aja poderio sobre seus Regnos? Pois seendo desto tantas vezes
+combatido, que queres que nesto façamos, por ventura calarnos-emos e nom
+te daremos ho saaõ Concelho, que aas mister? Certamente nom.
+
+Antes esguardando todas estas couzas com mui afiquado desejo, como ha
+filho muito amado te rogamos, que ames, e honres teu padre, e lhe
+obedeças, e por esso teus dias seram longuos sobre ha terra, e esto por
+teu beem te dizemos, nom te aggraves, porque todo nosso dezejo, e tençam
+hee que vivas em paaz, e obediencia com elle, pelo quaal com humildozas
+preces, rogamos aho mui alto Deos, que sobre toda ha teerra senhorea, em
+cuja maão saão hos poderios dos homens, e hos direitos dos Regnos, que
+elle prestes, e beninamente queira esguardar sobre ti, e sobre hos
+moradores desses Regnos de guiza, que de voos aparte toda dezavença, e
+hos coraçoens de todos firme em booa concordia, e humildade, e noos de
+nossa parte devotamente pediremos aaquelle Senhor, cuja providencia em
+sua ordenança hee certa, e nom enganada, que em taal maneira esforce ha
+Reaal seda desse Regno, que aproveite assi, e ahos seus, e hos Reja de
+taal maneira, que vam pera saude perduravel com folgança de paaz.
+
+E se ho teu Reaal resplandor assi mostrado, nom quizer penssar, e
+obedecer ha esto que te avemos dicto, obedecendo em tudo ha teu padre,
+noos por ha que com toda ha afeiçam dezejamos paaz necessaria, e por
+taal que possamos trazer nosso dezejo ha boom efeito, em ha nossa
+vontade amoestamos filho logo ha ti sopena de excõmunham, e ha todolos
+outros de quaalquer estado que sejam assi pessoas Ecclesiasticas, como
+seculares, que torvam, ou anojaõ esse Rei, e seu Regno como nom devem,
+ou contra elle pobriqua, ou em secreto te dam ajuda, conselho, ou favor,
+daqui em diante se cavidem, e ho nom façam, porque em outra maneira
+ainda, que seja com grande door nossa, see certo que passados oito dias
+da pubriquaçam desta nossa carta, noos mandamos aho venerado irmaão
+Bispo Devora, que logo excommungue ha ti, e ha todos aquelles, que se ha
+ti chegarem, ainda que sejam Bispos, e quaaesquer outras maiores, e
+superiores pessoas, que torvem ha paaz de teu padre contiguo, seem
+embargo de quaaesquer privilegios que tenham, que desta nossa carta nom
+fizerem mençam, paaz, e asecego, venha ha ti e ha esses Regnos como
+dezejamos, por maneira, que hos perigos das almas sejam escuzados, e ha
+ti creça titulo de honra acerqua dos homens, e abastança de merecimentos
+ante Deos».
+
+Esta carta, ou Bulla do Papa foi dada aho Bispo Devora, que ha fizesse
+pubriquar aho Ifante estando ElRei em Lixboa, mas porque ha esse tempo
+ElRei estava jaa em alguma concordia com seu filho, nom foi pubriquada,
+mas depois em outras voltas, e desobediencias, que ho Ifante cometeu se
+pubriquou com que ha final paaz antre elles se comprio, como aho diante
+direi.
+
+
+
+
+CAPITULO XXVI
+
+_Como ha Rainha Dona Maria de Castella depois da morte delRei D.
+Fernando seu filho, teve vistas com ElRei D. Diniz, ha que trouxe ElRei
+D. Affonso menino neto dambos, e do que concertaram._
+
+
+ElRei D. Fernando de Castella, genro delRei D. Diniz faleceu de morte
+supitanea em Jaem emprazado de dous seus vassallos, que segundo se diz
+mandara injustamente matar, como atraaz brevemente toquei, e por sua
+morte fiquou seu sucessor, e erdeiro ho Ifante D. Affonso seu filho
+primogenito em idade de hum anno, e vinte e seis dias, ho quaal fiquou
+logo em poder da Rainha. Dona Constança sua madre, filha delRei D.
+Diniz, e tambem em poder da Rainha Dona Maria sua avoo, e porque ha
+dicta Rainha Dona Constança da i ha pouquos annos logo faleceu, ho dicto
+Rei D. Affonso fiquou pricipaalmente em poder da dicta Rainha Dona Maria
+sua avoo, e sobre estas titurias deste Rei, ouve antre hos Ifantes, e
+grandes Senhores de Castella, grandes competencias, e muitas
+differenças, e discordias, de que se seguio muito maal, e estrago nos
+Regnos de Castella, e em fim se tomou por concruzam, que com ha dicta
+Rainha Dona Maria fossem juntamente tutores, como foram, ho Ifante D.
+Pedro, filho da dicta Rainha Dona Maria, e ho Ifante D. Johaõ tio
+delRei, filho que fora delRei D. Affonso Decimo, ho quaal Ifante D.
+Johaõ, que em outro tempo esteve em Portugal, e se chamava Rei de Liam
+durando sua titoria, e depois da morte da Rainha Dona Constança, Dona
+Maria confiando da muita verdade, e grande poder delRei D. Diniz, e assi
+na razam, que tinha daconcelhar, e ajudar ha ElRei D. Affonso seu neto,
+concertou em Guinaldo Lugar de Castella vistas com elle, aas quaaes
+contra vontade dos grandes de Castella trouxe ho dicto Rei D. Affonso
+seendo mui moço, e ali pratiquaram sobre hos desvairos de Castella, em
+fim dos quaaes ha Rainha lhe pedio, que se lembrasse delRei seu neto, e
+de seus Regnos, e que lhos ajudasse ha conservar, e defender polas
+grandes necessidades, que desso tinham.
+
+Aho que ElRei respondeo: «Que lhe agradecia muito taal confiança, e
+quando suas forças, poder, e sabeer pera esso lhe comprissem, que nunqua
+com tudo lhe faleceria, como pelas obras poderia ver.» E com esto
+concordado ha Rainha, e ElRei D. Diniz se tornaram pera Portugal, e
+sobre esto passado logo da i ha pouquos dias hos dictos Ifantes D.
+Pedro, e D. Johaõ tutores, e juntamente com grande poder entraraõ na
+Veiga de Grada, pera fazerem guerra ahos Mouros, onde seendo elles
+perseguidos ambos dafronta, e desmaio, e seem seer feridos morreram em
+huma soo hora, ha saber ho Ifante D. Pedro, e logo ho Ifante D. Johaõ,
+como atraaz brevemente jaa dice, e na Coronica de Castella mais
+compridamente se contem da quaal morte dos Ifantes como ElRei D. Diniz
+foi sabedor, mostrou receber por esso sentimento, porque eram boons
+Princepes, e com elle muito conjuntos em sangue, e logo enviou seus
+Embaixadores ha ElRei, e aa Rainha de Castella, ha notifiquarlhe, que da
+morte dos Ifantes, lhe pezava muito porque eram boons Cavalleiros, e
+aviam com elle tam grande divido, e que pois era chegado ho tempo em que
+lhe compria sua ajuda, e favor, que lhe tinha ofrecido, lhes pedia que
+lhe fizessem sabeer ho que delle lhes compria, e que fossem certos, que
+elle em pessoa, e com ajuda, e poder de seus Regnos, contra todos hos
+iria ajudar, e ElRei, e ha Rainha lhe responderaõ, que taal lembrança
+com taal vontade, e ofrecimento lhe gradeciaõ singularmente, que eraõ
+sinaaes com que ho cazo parecia, que lhes tinha grande amor, e que
+quando lhes comprisse ho enviariam requerer. E pera mais favor das
+couzas delRei D. Fernando, ElRei D. Diniz notifiquou aho Papa ho estado
+perigozo em que has couzas de Castella pela morte dos Ifantes estavam,
+pedindo ha Sua Santidade, que ho favorecesse certifiquandolhe com esso
+ha vontade com que estava pera em tudo ho ajudar, e defender, e ho Papa
+lhe respondeo, dandolhe muitas graças, e louvores por sua boondade, e
+manificencia por querer com tam boom dezejo encarregarse da defenssaõ, e
+emparo dos Regnos de seu neto.
+
+
+
+
+CAPITULO XXVII
+
+_Como ho Ifante D. Affonso se aparelhou pera pelejar com ho Ifante D.
+Felipe, que contrariava ho asecego de Castella, e como ho Ifante D.
+Felipe se foi._
+
+
+Por morte destes Ifantes, e tutores, que dice ElRei D. Affonso, fiquou
+inda em poder da Rainha Dona Maria sua avoo, pelo quaal D. Johaõ, que
+diceram o Torto, filho do Ifante D. Johaõ, que morreo na Veiga de Grada,
+e assi D. Johaõ Manuel, filho do Ifante D. Manuel, e ho Ifante D. Felipe
+tio delRei, filho da Rainha Dona Maria, todos tres tambem contenderaõ
+pera seer tutores delRei com ha Rainha, sobre que outro si ouve grandes
+discordias, debates, e partiçoens de que por seus desvairos, ha que se
+nom achava rezoado meio, que elles quizessem se seguiram outros muitos
+maalles, e danos ha Castella, porque cada hum sojugava, e mandava
+ausolutamente ha parte do Regno, que podia antre hos quaaes era ho
+Ifante D. Felipe, que seem outorga delRei, e do Regno, e por sua soo
+vontade, e cobiça procurava sojugar, e mandar sua parte do Regno, assi
+como fizera aa Cidade de Badalhouse, que tinha cerquada, com que sua
+teerra estragava de todo.
+
+E estando ElRei D. Diniz em Santarem, ElRei D. Affonso seu neto lhe
+enviou pedir que por quanto elle estava em Valhadolid donde ainda nom
+podia sahir, nem remediar por si ho maal, e danos, que ho Ifante D.
+Felipe fazia, que lhe rogava mui afiquadamente, que se lembrasse da
+ajuda, e defença que muitas vezes lhe prometera, e que em comprimento
+della mandasse dizer aho Ifante D. Felipe, que ceçasse, e se apartasse
+daquella teerra, e dos maalles que nella fazia. E quando por respeito
+delRei D. Diniz ho nom quizesse fazer, que entam ho fizesse por aquella
+Cidade, e por seus vizinhos, como em similhante cazo elle faria por
+outros seus naturaaes, que taal padecessem.
+
+Aho quaal ElRei D. Diniz respondeo, que mui degrado ho faria como elle
+por obra logo veria, pelo quaal escreveo com trigança aho Ifante D.
+Affonso seu filho, ha que quiz dar este cargo por moor autoridade, que
+elle mandasse, como mandou dizer aho Ifante D. Felipe, que por muitas
+cauzas, que lhe apontou, nom fizesse dano, nem maal ahos da Cidade de
+Badalhouse, e se alevantasse de sobre ella, e que se o fizesse, que lho
+gradecceria muito, e quando nom quizesse que elle em pessoa lho
+defenderia, e porque ho Ifante D. Felipe respondeo aho Ifante, mais duro
+que temperado, ElRei D. Diniz, que desta reposta foi avizado ouve della,
+e do Ifante D. Felipe grande desprazer, e mãdou logo ha todos seus
+vassalos, que com suas gentes, e armas se fossem pera ho Ifante seu
+filho, aho quaal se ajuntou grãde poder, cõ ho quaal moveo pera
+Badalhouse, e ho Ifante D. Felipe sabendo de sua ida, e do poder que
+levava, alevantouse forçado, e foi pera Sevilha, e ho Ifante D. Affonso
+chegou ha Elvas onde vio algumas duvidas, que antre hos da Villa, e
+Badalhouse sobre seus termos, e tomadias avia, e depois de hos
+concordar, se tornou pera Santarem onde era ElRei, e da i se foi pera
+Coimbra onde tinha sua molher, e asento de sua caza.
+
+
+
+
+CAPITULO XXVIII
+
+_Como ho Ifante D. Affonso requereo ha ElRei D. Diniz seu padre, que
+fizesse Cortes aas quaaes depais nom quiz vir._
+
+
+Avendo jaa hum anno, e sete mezes, que ha concordia antre ElRei, e ho
+Ifante era feita por algumas cauzas, e razoens, que alegou da minguoa de
+Justiça, e outros defeitos, que dizia aver no Regno, lhe pedio, que pera
+remedio de tudo fizesse, e quizesse fazer Cortes, has quaaes ElRei por
+nom aver dellas tanta necessidade quizera escuzar, em fim por satisfazer
+aho Ifante, e assi pera notifiquar ahos fidalgos, e poovos hos aggravos,
+e nojos, que do Ifante depois de suas avenças recebera, prouve-lhe
+fazelas em Lixboa pera onde chamou seus poovos, como em taal cazo hee
+costume, onde tambem foi ho Ifante, e ho dia em que se ouve de fazer ha
+fala pubriqua, e proposiçaõ costumada, ElRei mãdou dizer aho Ifante, que
+viesse aas Cortes pera nellas estar como ha elle em taal auto convinha,
+e ho Ifante se escuzou fazelo, e de tantas delongas, e sem razoens uzou
+aacerqua desso, que ElRei ouve por beem cometelas seem elle, e porque
+ElRei vio que ho Ifante em todo se desviava do que lhe tinha jurado, e
+prometido porque ho Conde D. Pedro seu filho, era pessoa de grãde
+credito aacerqua do Ifante, e tinha grande caza lhe dice: «Que se
+lembrasse da menagem, e juramento, que em Pombal fizera, e que hos nom
+quebrasse, nem fosse por algum respeito contra seu serviço». E esto lhe
+dise por alguns alevantamentos, que no Ifante jaa sentia. E ho Conde lhe
+respondeo: «Senhor, eu sei beem ho que sobresso devo fazer, e de mi se
+dee seguro, que nunqua vos venha nojo, nem desprazer, nem desserviço,
+porque bem conheço, que nom aa pessoa neste mundo ha que tam obrigado
+seja como ha voos». E sobresta segurança dice, que com sua licença se
+queria ir ha Santarem com ho Ifante, e que na jornada ho nom
+desserveria, e que logo se tornaria pera elle, e assi ho fez.
+
+
+
+
+CAPITULO XXIX
+
+_Como ho Ifante sobre huma vinda, que contra vontade delRei quisera
+fazer ha Lixboa, foram perto de pelejar, e porque ho leixaram de fazer._
+
+
+Passadas estas couzas, e has Cortes acabadas estando ainda ElRei D.
+Diniz em Lixboa foi certifiquado, que ho Ifante seu filho de Santarem
+onde estava queria i vir, e porque soube que nom vinha com sam propozito
+lhe mandou rogar, e encomendar por sua bençam, sobpena de maldiçam de
+Deos, e da sua, que por aquella vez escuzasse sua ida, e ho nom quizesse
+nesso anojar, pois sabia que taal ida ha elle nom relevava, e podia
+cauzar muito maal, e ho Ifante lhe enviou dizer, que nom sabia razaõ
+porque lhe pezasse sendo seu filho, que viesse ha Lixboa, onde elle
+estava pera ho ver, e servir, e que por esso nom avia de leixar dir. E
+desta determinaçam que ho Ifante tomou, pezou muito ha ElRei, e foi por
+esso contra elle acezo em grande sanha, e sabeendo que ho Ifante toda
+via proseguia seu caminho, e que era jaa no Lumiar, saio contra elle com
+suas gentes armadas, e em saindo, lhe mandou dizer, que logo se tornasse
+por beem, e quando nom que ho faria tornar por maal, e com seu pezar. E
+ho Ifante ho nom quiz fazer, antes abalou, e se poz junto com ElRei
+procurando todavia contra sua vontade entrar em Lixboa, e hos delRei
+concertandose por seu mandado pera lhe defender ha entrada, foram de
+huma parte, e da outra postas, e ordenadas suas azes pera batalha, e
+nellas alevantadas humas mesmas bandeiras das Quinas contrairas, e pera
+esso jaa toquadas trombetas, e anafins, que traziam em se começando
+alguma rotura antre hos homens baixos, alguns dambalas partes se diz,
+que morreram de pedras, e dardos, que se arremessavaõ.
+
+E com esta triste nova, que aa Rainha chegou, ella por escuzar com sua
+sancta pessoa outra maior rotura antre ho pai, e o filho, com grande
+pezar cavalgou em huma mula, e passando por meio das azes seem alguma
+pessoa ir diante, nem ha levar pela redea, nem tam pouquo esperar pela
+companhia, que ha ella por sua Reaal pessoa se devia, e seem medo dos
+muitos perigos ha que se oferecia, chegou logo aho Ifante seu filho, ha
+que estranhou ho cazo muito de taal vinda pois era contra vontade delRei
+seu padre, acuzando-o pela quebra da menagem que dera, e dos grandes
+juramentos que em Pombal ha Deos fizera, rogandolhe que se tornasse, e
+nom anojasse ha ElRei em tantas couzas, e aho menos ho fizesse por seu
+amor della que por elle, e por seu rogo tinha feitos hos juramentos, e
+prometimentos, que sabia, hos quaaes porposta ha conciencia, e
+honestidade hos via por elle de todo quebrados, e sobresto tornou logo
+ha ElRei cuja ira poz em taal temperança com que outra vez tratou avença
+antre elles.
+
+Donde se diz, que ho Ifante jaa sobre concordia com soo seis de cavallo
+veo falar ha ElRei, e pedirlhe perdam, dizendo, que lhe obedeceria em
+todo, como ha ElRei seu padre, e seu Senhor, e que ElRei lhe respondera,
+que ha elle nom agradecia sua taal obediencia, mas aaquelles seus boons,
+e naturaaes vassallos que com elle estavam, dizendolhe que se partisse
+se quizesse, e seria beem aconcelhado fazello, e que onde quer que fosse
+se mais lhe dezobedecesse laa ho iria tomar pela garganta. E com esto ho
+mandou ir ha Santarem, e ElRei se tornou ha Lixboa.
+
+
+
+
+CAPITULO XXX
+
+_Como has gentes delRei, e do Ifante pelejaram sobresto em Santarem e do
+que se fez._
+
+
+Passados alguns dias depois deste alvoroço, ElRei se foi de Lixboa pera
+Santarem, e entrando no termo da Villa foi avizado no caminho, que hos
+moradores della por mandado do Ifante que i era, estavam pera ho nom
+acolher na Villa, mas ElRei com quanto avia entam grandes chuvas nom
+leixou por esso de continuar seu caminho, e foi pouzar ha humas cazas,
+que foram de Rodrigo Affonso Redondo, e hos seus se agazalharam em mui
+estreito lugar que hos do Ifante lhe leixaram, e sobre comer por
+razoens, que hos do Ifante ouveram com hos del-Rei, se alevantou hum
+grande, e perigoso aroido ha que ElRei, e ho Ifante acodiram em pessoas
+cada hum ha seu bando apartado, e porém depois de alguns mortos, e
+feridos dambalas partes foi procurada, e posta tregoa sobre ha tarde
+antre ElRei, e ho Ifante, e hos seus, e porque hos Cavalleiros, e nobres
+homens que se acharaõ nestas roturas, e pelejas, vendo ho grãde dano,
+que delles seem cauza se seguia, pediram ha ElRei por mercee, que por
+muitas cauzas, e razões mui urgentes, que lhe alegaram lhes desse
+licença pera entenderem finalmente em sua concordia com ho Ifante.
+
+Aho que ElRei respondeo mui aspero: nom querendo que sobre tantas
+paazes, e tantas concordias firmadas, e menagens taõ seem cauza
+quebradas se fizessem mais outras com tanta quebra, e desprezo, mas que
+queria castigar ho Ifante como merecia, e como faria ha hum seu imigo
+mortaal. E porém tanto aprofiaram aquelles Senhores com ElRei, e assi
+terçaram Affonso Sanches, e ho Conde D. Pedro seus filhos, que ElRei
+aprouve estar ha todo boom remedio, e aseceguo que antre elles se desse,
+pelo quaal se diz, que hos Cavalleiros, e Escudeiros que ElRei consigo
+ali tinha, eram por todos quorenta, e hos do Ifante trezentos e vinte, e
+huns destes se ajuntaraõ aho Moesteiro de S. Domingos das Donas, e hos
+outros em Sancta Maria de Marvilla, e estes escolheram vinte e coatro
+pessoas, homens de beem, e de conciencia, e de booa inclinaçam, ha
+saber, doze por parte delRei, e doze por parte do Ifante, que logo foram
+nomeados, hos quaaes determinassem, e compuzessem todolos debates, e
+contendas, que entam avia antre ElRei e ho Ifante, e que sua
+determinaçam, e composiçaõ fosse inteiramente guardada, e comprida, e
+fosse por maneira feita, que della nom se seguissem mais desvairos,
+segundo se logo apontaram, e nomearam outras pessoas, que tudo dentro de
+sessenta dias tornassem logo ha concordar em toda sua prosperidade, e
+qualquer dos delRei, e do Ifante que contrairo fosse, que pelo mesmo
+feito caisse em cazo de treiçam, e nom se de livrar se nom poendo seu
+corpo ha quatro Cavalleiros, que lho quizessem combater, e nom ho
+fazendo, que ficasse encartado, e quaalquer do povo ho podesse matar
+seem pena.
+
+E ali pedio ho Ifante ha ElRei, por grande mercee, que tirasse ha
+Affonso Sanches seu filho, ha teerra, e has quantias dos maravedis, que
+delle tinha, e assi ho officio de seu Mordomo, e ha Mem Rodrigues de
+Vasconcellos ho Meirinhado moor. Ha que ElRei respondeo: «Que lhe
+parecia couza muito contra razaõ, e seem justiça dar ha estes pena sem
+culpa, e fazerlhes maal tendolhe beem mercee merecida, e que fazendolho
+nom sabia, que conta daria desso ha Deos, e aho mundo, aho que por sua
+Reaal dinidade era obriguado», e porém por comprir, e asegurar ha
+vontade do Ifante seu filho prouvelhe outorgar todo o que quiz, e lhe
+pedio.
+
+E desta vez se partio Affonso Sanches pera Albuquerque cujo era, e
+fiquou vassallo delRei de Castella. E assi foram de huma parte, e da
+outra perdoados nesta concordia todos aquelles que serviram, e seguiram
+quaalquer partido, e assi que se fizesse entrega das couzas, que nas
+pelejas foram tomadas. E concordaram mais, que se ho Ifante D. Pedro
+filho do dicto Ifante D. Affonso, que jaa era nacido viesse em taal
+idade, que sahindo do mandado de seu padre quizesse vir contra ElRei D.
+Diniz seu avoo, que ho Ifante seu padre sempre fosse contra elle com
+ElRei seu padre, e seem elle. E assi concordaram, que fosse dado mais
+certa contia de dinheiro aho dicto Ifante D. Affonso, e que nunqua mais
+lhe podesse pedir, nem ElRei dar, e que pera segurança de todo se
+pozessem de cada parte dous Castellos, dos quaaes ho Ifante polla sua
+poz ho Castello de Gaya, e ho Castello da Feira, e ElRei ho Castello de
+Celorico da Beira, e ho de Faria.
+
+E foram assinados quatro Juizes logo nomeados pera determinaçaõ, seem
+revogaçaõ de todalas duvidas e debates que antre ElRei, e ho Ifante
+ouvesse, hos quaaes nom podessem estar, nem estivessem nos Lugares onde
+taaes Juizes se ouvessem de fazer, e que ha parte desobediente, e
+danifiquada hos Castellos da outra revel fossem logo entregues, e que ha
+parte desobediente pagasse mais duzentas livras de pena has quaaes
+repartissem hos Juizes, e Fidalgos do Regno antre si, e que hos
+Fidalgos, e nobres do Regno sob pena de treiçaõ hos fizessem pagar
+inteiramente ha quaalquer, que esta concordia quebrantasse, e com ha
+dicta pena logo elles se viessem, e servissem ha ElRei, ou aho Ifante
+quaalquer destes, que aas determinaçoens dos Juizes fosse obediente, e
+estas concordias, e convenças foram feitas em Santarem ha vinte e sinquo
+de Fevereiro do anno de mil trezentos e vinte e quatro (1324), hum anno
+antes da morte delRei, que se tornou ha Lixboa, e ho Ifante ha Coimbra.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXI
+
+_Da morte delRei D. Diniz._
+
+
+Depois destas concordias acabadas, ElRei D. Diniz se foi ha Lisboa como
+dice, e da i ha hum anno se partio da dicta Cidade, e se tornou pera
+Santarem, e indo aacerqua do Lugar, que se diz Villa nova adoeceo de
+infirmidade, que consigo traaz todalas dores, e accidentes mortaaes de
+que se sentio mais maal tratado, e ho Ifante seu filho, que era em
+Leiria avizado desso por ha Rainha D. Isabel sua mãi, que era com ElRei
+ho veo logo vizitar, e concordaraõ de ho levarem ha Santarem em andas, e
+em colos de homens, e ha i jouve doente por algum tempo seem algum
+melhoramento, na quaal ha Rainha sempre foi prezente, e nas couzas de
+sua cura, e remedios era mais diligente, e humildoza que quaalquer outra
+simpres molher, que em semilhantes necessidades nom teem quem has
+escuze, e vendo ella que has afiquadas dores, e paixoens da doença
+delRei eram continuas, e pareciam mortaaes, duvidando da vida delRei
+estando em sua Camara, e prezente alguns, que i eram, dice ha todos
+nesta maneira.
+
+«Porque eu tenho grande esperança em Jesu Christo meu Senhor, e nom
+menos confiança na Glorioza Virgem sua Madre, e assi singular devaçam na
+Ordem, e Abito de Sancta Clara, assi como sempre ha tiveram aquelles de
+que descendo, sempre puz em minha vontade, que falecendo primeiro ElRei
+meu Senhor, e marido, eu acabar ha vida no dicto Abito, e por esso ho
+tenho feito, e aa muitos dias que comigo ho trago, e em minha arqua, por
+taal que se por ventura acontecesse delRei meu Senhor, primeiro que eu
+falecer, ho que Deos nom queira, eu vestisse logo ho dicto Abito por
+lembrança de minha tristeza, e por sinal de tamanha mudança destado, que
+eu mais nom devo teer, nem por fazer no dicto Abito profissam, nem
+obedecer ha alguma Ordem que nom hee minha tençam fazello.
+Especiaalmente porque eu por minha idade, e grandes infirmidades nom
+poderia soportar hos grandes encargos, e trabalhos da Relegiam, mas
+posto que eu esse Abito vista, e traga, por esso nom leixarei minha
+Caza, nem has Donas, e Donzelas, que comigo vivem, mas prazendo ha Deos,
+espero trazer estas, e tomar outras como filhas, e irmaãs, e cazallas, e
+aviallas com ho que eu poder de meus beens, e fazenda, porque como dice,
+eu proponho nom fazer profissaõ nesta Ordem, nem em outra alguma, nem
+tenho em alguma feito voto pubriquo solene, nem secreto, e esto digo
+porque em cazo, que no meu corpo vista ho dicto Abito, que minha alma
+fique livre pera de minha fazenda seem algum outro cargo, nem obrigaçam
+de Relegiam poder despoer livremente todo ho que por beem tiver, e assi
+ho tenho dicto, e decrarado muitas vezes aho Ifante D. Affonso meu
+filho, e ha Frei Johaõ meu Confessor».
+
+E com esto sendo ha doença delRei cada vez mais perigoza, e mortaal,
+teendo mui craro conhecimento, que hos dias de sua vida se acabavam,
+elle como Princepe virtuozo, prudente, e mui catolico, proveo seu
+testamento, que tinha feito com grande devaçam, e muito temor de Deos, e
+ho confirmou, no quaal mandou, que ho seu corpo se enterrasse no seu
+Moesteiro de S. Diniz Dodivellas da Ordem de Cistel, on de S. Bernardo,
+que elle de novo fundou, e dotou, no quaal entam avia oitenta Freiras de
+Cogula com voto de ençarramento, que nom teem has dos outros Moesteiros
+desta Ordem, e em que jaa tinha feita sua sepultura, e de sua fazenda,
+apartou no dicto testamento pera soos descargos de sua alma, trezentas e
+sinquoenta livras, que taxadas pelo preço dagora ha razam da valia da
+prata, e ouro, que daquelle tempo tinham ho valor, e preço, que agora
+teem hos ducados, e cruzados douro, como muitas vezes jaa dice, e esta
+soma mandou que logo se tirasse da torre do tezouro de Lixboa, que agora
+hee do Tombo em que tinha grandes tezouros, e se entregassem ha seus
+testamenteiros, de que ho principaal foi ha Rainha Dona Isabel sua
+molher, e ha estes mandou, que tivessem este dinheiro de sua maão no
+tezouro da See da dicta Cidade, de que cada hum tivesse sua chave pera
+nom aver embargo, nem estorvo quando delle quizessem despender, e
+comprir hos legados, e couzas, que ordenava, e leixou ha sua Capella
+toda aho dicto Moesteiro Dodivellas.
+
+E toda outra sua fazenda, e baixellas douro, e prata, joias, e colares,
+pedrarias, e panos aho Ifante D. Affonso seu filho erdeiro, e destes
+cento e corenta mil cruzados ordenou muitas, e grandes esmolas
+repartidas por todolos Moesteiros, e Espritaaes, e Cazas piedozas do
+Regno, e assi certa soma pera cazamentos de moças orfaãs, e pera criaçam
+de meninos engeitados, e tambem dellas ordenou, que hum Cavalleiro de
+booa vida, e vergonhosa estivesse em Jerusalem, e servisse por elle na
+guerra contra hos infieis dous annos, e pera esto ordenou tres mil
+livras, que eraõ mil e duzentos cruzados, e quando se nom achasse taal
+Cavalleiro, ou nom ouvesse desposiçam pera ir ha Ultra-maar, que este
+dinheiro se convertesse em vistir pobres, e envergonhados, e outro si
+ordenou, que outro boom homem de booa vida, fosse estar em Roma duas
+quarentenas, e que por elle andasse todalas Estaçoens em que ganham has
+Idulgencias plenarias, e ha este ordenou mil livras, e depois desto
+confeçando seus peccados com grande contriçaõ, e arrependimento delles,
+recebendo ho Corpo de N. Senhor, e todolos outros Sacramentos como Rei
+mui Catolico, e fiel Christaão acabou vida dando sua alma ha Deos em
+Santarem, ha sete dias de Janeiro do anno de mil trezentos e vinte
+sinquo, em idade de sessenta, e quatro annos, dos quaaes Regnou quorenta
+e seis.
+
+E ha Rainha que era prezente se apartou logo em huma Camara, e das maãos
+de humas Freiras seculares, que consigo trazia recebeo logo, e vestio ho
+Abito de Sancta Clara, que trazia feito, como jaa dice, e sendo nelle
+vestida ante de se fazer do corpo delRei alguma mudança, ella prezente
+muitas que ha ouviam, dice estas palavras: «Pois Deos por seu grande
+poder, e profundo Juizo ouve por beem, que ha morte delRei meu Senhor, e
+marido antepassasse ha minha, e seem a sua vida eu fiquo, e sam tanto
+como morta, e de razam eu jaa morri com elle, e por esso eu quis logo
+mudar hos vestidos, e trajos que vedes, que sam este Abito pardo cingido
+com esta corda, e este veeo branquo, que ponho sobre minha cabeça porque
+ha vida, que seem elle viver seja com doo, e tristeza pera sempre, e
+esto nom faço por seer Freira, nem teer feito algum voto, e obrigaçam de
+Religiam como teenho dicto, mas por minha humildade, porque nelle sirva
+a Deos, nas couzas em que ha sua graça me ajudar».
+
+E com esto acabado ho corpo delRei fiquou concertado, como devia, e com
+muitas tochas acezas, e acompanhado da mesma Rainha, e do Ifante D.
+Affonso seu filho, e do Conde D. Pedro, e D. Johaõ Affonso, e doutros
+Prelados, e riquos, e nobres homens do Regno, que ali eram juntos, e
+assi de muitos Clerigos, e Religiozos que com elle iaõ rezando, e
+encomendando sua alma ha Deos, foi levado aho dicto seu Moesteiro de S.
+Diniz Dodivellas, onde nom seem grandes prantos, e lamentaçoens foi
+metido em sua ordenada sepultura, e depois de seu enterramento, fiquou i
+ha Rainha por algum tempo comprindo seus legados, e fazendo outras
+muitas esmolas, devaçoens, e oraçoens, por beneficio, e descargos de sua
+alma. E da vida que depois esta Rainha, e como acabou, e quantos
+milagres fez Deos por seus rogos, e merecimentos, e onde jaas, direi na
+Coronica delRei D. Affonso seu filho, em cujo tempo, e Regnado ella
+depois faleceo, que foi onze annos depois da morte delRei D. Diniz, como
+se diraa.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXII
+
+_Das obras, e couzas notaveis, que ElRei D. Diniz fez em sua vida._
+
+
+Has obras, e feiçoens, e couzas notaveis que este mui excellente Rei D.
+Diniz fez em toda sua vida aalem das que nesta Coronica tenho escritas,
+em cazo que por desvairados tempos has fizesse, e mandasse fazer, porque
+de certidam dos annos, e tempos em que semelhantes obras se fizeram,
+esta Estoria que delle escrevo, nem hos que ha lerem nom teem alguma
+final necessidade, e assi juntas se comprendem, e entendem melhor, por
+tanto has reservei pera este derradeiro capitolo, e has mais principaaes
+saõ estas, primeiramente elle fez muitas Lex, e Ordenaçoens em seu
+tempo, e deu boons foraaes ha muitos Lugares de seus Regnos, fez ho
+Estudo de Coimbra, que foi o primeiro de Portugal, e fez ho primeiro
+Mestre de San-Tiaguo izento de Castella, e ordenou primeiramente ha
+Ordem de Christo, e fez nella o primeiro Mestre, como jaa dice. Este Rei
+em seu tempo fez quasi de novo todalas Villas, e Castellos de riba
+Dodiana, ha saber: Serpa, Moura, Olivença, Campo maior, Ouguella, cujos
+alcaceres, e Castellos fez de fundamento com muitas despezas, e assi fez
+na dicta Comarqua dantre Tejo, e Odiana hos Castellos de Monforte, e
+Darronches, Portalegre, e Marvam, Alegrete, Castello Davide, Borba,
+Villa Viçoza, Arraiolos, Evora monte, Veiros, e ho Alandroal, Monçaraas,
+e Noudar, e acrescentou ho Castello de Jurumenha, e fez ho Redondo, e ho
+Assumar, e fez ha Torre, e Alcacer de Beja, e na Comarqua da Beira, e
+riba de Coa, fez de novo estes Castellos, ha saber, Avoo, que agora hee
+do Bispo de Coimbra, ho Sabugal, Alfaiates, Castel Rodriguo, Villar
+maior, Castel boom, Almeida, Castel melhor, Castel mendo, Sam Felizes
+dos Galegos, que tem agora Castella, e nom fez ho Castello de Monforte
+de riba de Coa, que tambeem lhe foi dado por estar em maa despoziçam da
+teerra, e sua força pera defençaõ do Regno, nom seer muito necessaria,
+fez mais Pinhel, e seu Castello, e nas Comarquas dantre Douro, e Minho,
+e Tralos montes fez estas Villas, e Fortalezas, ha saber, cerquou
+Guimaraães da cerqua, que agora teem, e Braga, e Miranda de Douro, e seu
+Castello, e Monçam, e Crasto Laboreiro, e povoou de novo, e fez hos
+Castellos de Vinhaes, e Villa frol, Alfandega, Mirandella, Freixo
+Despada Cinta, Villa nova de Cerveira, e fez de novo, e do primeiro
+fundamento Villa Real, que fazem numero de corenta, e coatro Villas,
+Castellos, e Fortalezas do Regno, de que algumas fez novamente, e outras
+reformou, e fez de novo hos Castellos, e assi fez outras muitas
+povoaçoens, assi como Muja, Salvateerra, Atalaia, Ceiceira, Montargil, e
+outras semilhantes, e fez ha rua nova de Lixboa, e assi ho Moesteiro de
+Sam Diniz Dodivellas em que jaas, ho quaal logo ha pouquos annos, que
+Regnou mandou começar, e em sua vida se acabou em dés annos, e foi logo
+dado aas molhores Monjas, pera que foi ordenado, porque ho Moesteiro de
+Sancta Clara de Coimbra fez, e dotou ha Rainha Dona Isabel sua molher, e
+nelle jaas, como aho diante direi.
+
+
+DEO GRATIAS
+
+
+
+
+INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS
+
+
+A
+
+
+Affonso III (El Rei D.) de Portugal, em que dia, e anno falleceo.
+ Fez doação das Villas de Portalegre, e Marvão, e dos Castellos da
+ Vide, e Arronches a seu filho o Infante D. Affonso.
+
+Affonso (D.) chamado o Casto filho de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão,
+não cazou mas morreo Religiozo Franciscano.
+
+Affonso (D.) Rei de Castella, Avô del-Rei D. Diniz de Portugal, fez
+doação a sua filha a Rainha Dona Beatriz, mãe do dito Rei D. Diniz,
+das Villas de Niebla, Serpa, Moura e Mourão.
+
+Affonso (Principe D.) Filho herdeiro del-Rei D. Diniz em que anno, e
+lugar naceo.
+ Tendo sete annos, lhe nomeou seu pae officiaes para a sua caza.
+ Em que parte se recebeo com a Infante Dona Beatriz.
+ Discordias, que teve injustas com seu pai.
+ Parte para Castella contra vontade de seu pai.
+ Intenta matar a seu irmão Affonso Sanches, e quanto machinou para
+ este fim.
+ Continua em machinar novas falsidades contra seu irmão.
+ He avizado pelo Papa João XXII, a que dezista do odio contra seu
+ irmão, e não cessa de o perseguir.
+ Intenta batalhar com seu pai, mas deziste deste intento.
+ Toma os Castellos de Coimbra, Montemor e Feira, e a Cidade do Porto.
+ Faz levantar o sitio que tinha posto a Badajoz o Infante D. Felippe.
+
+Affonso (Infante D.) Filho del-Rei D. Affonso III de Portugal, cazou
+com Dona Violante, filha do Infante D. Manoel, filho del-Rei D.
+Fernando II de Castella, e da Infante Dona Constança.
+ Que filhos teve deste matrimonio.
+ Deu-lhe seu pai as Villas de Portalegre, e Marvão, e os Castellos da
+ Vide e Arronches.
+ Differenças que teve com seu irmão El-Rei D. Diniz.
+ Fez guerra a seu irmão, e mata a D. Lopo Conde, e senhor de Biscaya,
+ e a D. Diogo Lopes de Campos.
+ Cede das contendas, que tinha com seu irmão por intervenção de sua
+ cunhada Santa Izabel.
+ Em que anno falleceo, e onde está enterrado.
+
+Affonso (Infante D.) Filho do Infante D. Affonso, e Dona Constança
+filha de D. Jaymes primeiro Rei de Aragão, e neto del-Rei D. Affonso
+III de Portugal, foi senhor de Leiria, e falleceu sem filhos.
+
+Affonso Pires de Gusmão, acompanhado de muitos Capitaens entra em
+Portugal onde obra algumas hostilidades, e priziona novecentos homens.
+
+Affonso Sanches (D.) Chamado de Albuquerque, foi filho natural del-Rei
+D. Diniz.
+ Seu filho D. João Affonso de Albuquerque cazou com Dona Izabel,
+ filha de D. Tello, e Dona Maria neta del-Rei D. Affonso III de
+ Portugal.
+ He notavelmente aborrecido por seu irmão o Principe D. Affonso.
+
+Arronches. O seu Castello, foi doado por El-Rei D. Affonsso III de
+Portugal a seu filho o Infante D. Affonso.
+ He cercado por El-Rei D. Diniz.
+
+
+B
+
+
+Beatriz (Dona), mãe del-Rei D. Diniz, foi senhora das Villas de
+Niebla, Serpa, Moura, e Mourão por doação que dellas lhe fez seu pai
+D. Affonso Rei de Castella.
+
+Benedicto XI. Manda Nuncio para pacificar a El-Rei D. Fernando de
+Castella com El-Rei D. Jayme de Aragão, e o Infante D. Affonso de
+Lacerda.
+ Insinua a El-Rei D. Diniz, que seja medianeiro nestas pazes.
+
+Branca (Dona). Filha de Pedro Annes de Portel, cazou com D. Pedro
+filho natural del-Rei D. Diniz.
+
+
+C
+
+
+Carlos, Irmão de S. Luiz Rei de França, recebe a investidura dos
+Reinos de Secilia, e Napoles do Papa Urbano IV, e vence na batalha de
+Benavente a Manfreu Rei de ambas as Secilias, na qual morreo.
+ Cerca a Cidade de Messina, e levanta o sitio.
+ Queixa-se ao Papa Martinho IV, da violencia com que o queria
+ despojar de Secilia El-Rei D. Pedro de Aragão.
+ Dezafia a este Rei para Bordeos.
+ Morre em Messina.
+
+Celestino V. Confirma o privilegio concedido por seu Antecessor
+Niculao IV, de que se elegesse Mestre da Ordem de San-Thiago em
+Portugal independente do de Castella.
+
+Clemente V. Como foi eleito, e das promessas, que fez a ElRei Felippe
+de França chamado o Fermozo.
+
+Constança (Rainha Dona), Filha de Manfreu Rei de ambas Secilias,
+mulher delRei D. Pedro de Aragão, e mãe da Infante Dona Isabel, que
+cazou com El-Rei D. Diniz de Portugal.
+
+Constança (Dona), Filha de D. Jaymes Decimo Rei de Aragão, e a Rainha
+Dona Violante, cazou com o Infante de Castella D. Manoel, Avô da
+Infante Dona Constança, mulher que foi delRei D. Pedro I de Portugal.
+
+Constança (Dona). Filha delRei D. Diniz de Portugal, e a Rainha Santa
+Isabel, cazou com D. Fernando III de Castella.
+
+Constança (Dona). Filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante, foi
+cazada com Nuno Gonsalves de Lara de quem não teve geração.
+
+
+D
+
+
+Diniz (El-Rei D.) Em que tempo foi aclamado Rei e que idade tinha.
+ Virtudes, e acções heroicas, que praticou.
+ Hospedou magnificamente no seu Reino a pessoas muito grandes de
+ Castella.
+ Prendeo a João Nunes de Lara, senhor de Biscáya, e o soltou
+ fazendo-lhe grandes mercês.
+ Caza com a Infante Dona Isabel, filha delRei D. Pedro IV de Aragão,
+ e que idade tinha quando se recebeo.
+ Celebrão-se estes despozorios em Trancozo.
+ Filhos legitimos, e naturaes que teve.
+ Diferenças, que teve com seu irmão o Infante D. Affonso.
+ Avista-se com ElRei D. Sancho de Castella, e ajusta com elle os
+ cazamentos de seus filhos D. Affonso, e D. Constança.
+ Ordena a seu irmão D. Affonso, que se não faça hostilidade alguma
+ contra D. Sancho de Castella, e lhe não obedece.
+ Manda cercar Arronches, Mourão e Portalegre, onde estava seu irmão.
+ Por intervenção de sua espoza Santa Isabel se pacifica com seu
+ irmão, e este lhe entrega as Villas e Castellos, que tinha em seu
+ poder.
+ Manda Embaixadores a ElRei de Castella D. Sancho porque lhe largue
+ os Lugares, que lhe tem uzurpado.
+ Por morte de D. Sancho manda novos Embaixadores a seu filho D.
+ Fernando, e do que lhe disserão os Embaixadores, e de como se
+ concertarão estes Principes.
+ Prepara se com exercito para vingar a inconstancia das promessas
+ delRei de Castella.
+ Recebe por seu vassallo a D. Sancho de Ledesma, filho dos Infantes
+ D. Pedro, e Dona Margarida, e lhe affirma copioza renda.
+ Entra por Castella com exercito, onde faz muitas hostilidades.
+ Toma o Castello de Medicina.
+ He solicitado por El-Rei de Castella a que celebre com elle pazes, e
+ assim o executa.
+ Avista-se em Alcanizes com El Rei de Castella para ajustar as pazes,
+ e os cazamentos mutuos de seus filhos, e de que modo se celebrou
+ este acto.
+ Parte de Alcanizes donde traz em sua companhia a Dona Beatriz, filha
+ delRei D. Fernando de Castella, para molher de seu filho D.
+ Affonso.
+ Das pessoas que nomeou para officiaes da Caza que fez ao Principe
+ seu filho.
+ Escreve-lhe o Papa Benedicto XI para que seja medianeiro entre as
+ discordias delRei de Castella, e o de Aragão.
+ Parte a Castella acompanhado da Rainha Santa Isabel, e muitos
+ Cavalleiros a compor as discordias, que havia entre os Reis de
+ Castella e Aragão.
+ Passa a Granada com Santa Isabel, onde é recebido magnificamente por
+ ElRei D. Jaymes e a Rainha Dona Maria.
+ He arbitro em Tarraçona entre as contendas que havia entre D.
+ Fernando de Castella, e D. Jaymes de Aragão sobre o Reino de
+ Murcia, e como os compoz.
+ Voltando de Tarraçona é recebido por El-Rei de Castella e a Rainha
+ Dona Maria, onde deu preciosas joias a D. Affonso de Lacerda.
+ Firma pazes com os Reis de Castella e Aragão.
+ Não aceita dés mil dobras de ouro a ElRei D. Jaymes de Aragão que
+ lhe tinha emprestado.
+ Dá muitas e preciosas joias á Rainha Dona Branca, mulher delRei de
+ Aragão, e aos Senhores daquella Côrte.
+ A meza de prata em que comia mandou dar a um Fidalgo que por
+ esquecimento não tinha sido premiado como os outros.
+ Que idade tinha, e em que anno fez esta jornada a Castella.
+ Manda Martim Gonsalves de Souza seu Alferes mór com setecentos
+ cavallos a ElRei D. Fernando para ajuda da guerra contra os mouros
+ e lhe empresta dezasseis mil, e seis marcos de prata para o mesmo
+ fim.
+ Funda em Coimbra os primeiros estudos, que houve em Portugal, e como
+ alcançou do Papa João XXII privilegios para elles.
+ Izenta os Cavalleiros de San-Thiago da obediencia do Mestre de
+ Castella, e institue Mestre em Portugal por Bulla de Niculao IV.
+ Ajusta com D. Fernando de Castella os bens dos Templarios dos seus
+ Reinos não fossem dados pelo Papa a outra Ordem.
+ Representa por seus Embaixadores ao Papa João XXII não ser
+ conveniente, que as rendas dos Templarios se dessem aos do
+ Hospital de S. João.
+ Institue a Ordem Militar de Jesus Christo a quem assina as rendas
+ que erão dos Templarios.
+ Assina para gasto de seu filho D. Affonso quando cazou com a Infante
+ Dona Beatriz, alem de muitas Villas que lhe deu, outenta mil
+ livras de prata.
+ Sentimento que teve com a morte de seu neto o Infante D. Diniz.
+ Relatão-se as discordias que teve com o Principe seu filho.
+ Manda o processo que este Princepe tinha machinado para matar seu
+ irmão D. Affonso Sanches, e acha ser falso.
+ Pratica que fez na prezença dos seus vassalos quando descubrio ser
+ falso tudo quanto tinha machinado o Princepe seu filho contra D.
+ Affonso Sanches seu irmão.
+ He buscado por seu filho para lhe dar batalha.
+ Manda a Lourenço Annes Redondo, que mate a todos os que deram
+ entrada em Santarem ao Princepe seu filho, e assim se executa.
+ Por intervenção da Rainha Santa Isabel, se concerta com seu filhe D.
+ Affonso.
+ Avista-se em Guinaldo com a Rainha Dona Maria, e o que aqui passou.
+ Significa aos Reis de Castella o sentimento que teve com a morte dos
+ Infantes D. Pedro e D. João.
+ Pede-lhe seu neto El-Rei D. Affonso de Castella os danos que fazia
+ naquelle Reino seu tio o Infante D. Felippe, e o obriga a levantar
+ o sitio de Badajoz.
+ Celebra Côrtes em Lisboa, onde não assiste o Princepe D. Affonso seu
+ filho.
+ Sem embargo de que não queria que entrasse em Lisboa seu filho, este
+ o executa com gente armada de que se seguirão muitas mortes.
+ Em Santarem depois de uma grande contenda, se compõem com o
+ Princepe.
+ Legados que dispoz, antes de morrer.
+ Em que lugar, dia e anno morreo.
+ Foi levado a enterrar ao Mosteiro de S. Diniz de Odivellas que elle
+ fundara.
+ Das açoens heroicas que obrou, e das Villas, e Cidades que fundou, e
+ reedificou.
+
+Diogo Garcia, Chanceller mór do sello da puridade delRei D. Diniz, e
+Mordomo mór da Rainha Dona Constança sua mulher assiste em Tarraçona com
+o mesmo Princepe para compor as discordias, que havia entre D. Fernando
+de Castella, e D. Jaymes de Aragão.
+
+
+F
+
+
+Filippe (El-Rei de França) chamado o Fermozo, como concorreu para ser
+Pontifice Clemente V a quem pedio que queimasse o corpo de Bonifacio
+VIII.
+ Á sua instancia, extinguiu o Papa a Ordem dos Templarios.
+ Morre desgraçadamente, e que filhos deixou.
+
+Felippe, (Ifante D.) Tio delRei de Castella, cerca a Badajoz, e é
+obrigado a levantar o sitio pelo Princepe D. Affonso, filho delRei D.
+Diniz.
+
+Fernando, (El-Rei D.) Terceiro de Castella, cazou com Dona Constança
+filha delRei D. Diniz, e Santa Isabel.
+ Com que circunstancias, e conveniencias foi contratado este casamento.
+ He requerido por El-Rei D. Diniz, que largue os Lugares, que lhe tinha
+ uzurpado, e da pratica que lhe fizerão João Annes Redondo, e Mem
+ Rodrigues Rebotim Embaixadores de Portugal.
+ Recebe-se por palavras de prezente com a Infante Dona Constança, e da
+ pratica que fez aos circunstantes.
+ Sahe a receber a El-Rei D. Diniz com o Infante D. João na Villa de
+ Coelhar.
+ Pede soccorro a D. Diniz para continuar a guerra contra os Mouros, e
+ lhe manda setecentos cavallos, e lhe empresta para a mesma empreza
+ dezasseis mil, e seiscentos marcos de prata.
+ Dá-lhe em caução deste emprestimo as Cidades de Badalhouse, Alconchel,
+ e Brugilhos.
+ Cerca Algezira, e levanta o sitio.
+ Onde morreo, e de que idade.
+
+
+G
+
+
+Gibraltar foi tomado aos Mouros por João Nunes de Lara.
+
+Gil Martins, (D. Fr.) He eleito primeiro Mestre da Ordem militar de Jesu
+Christo, instituida por ElRei D. Diniz.
+
+Guimarães, o seu Castello é defendido por Mem Rodrigues de Vasconcellos,
+contra a invasão do Infante D. Affonso.
+
+
+H
+
+
+Henrique (Infante D.) Filho delRei D. João I de Portugal, foi perpetuo
+administrador da Ordem de Christo.
+
+Honorio II. Deu regra aos Templarios.
+
+
+I
+
+
+Isabel, (Rainha Santa) Filha de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão, sendo
+pretendida de muitos Princepes para espoza, é preferido entre todos
+ElRei D. Diniz de Portugal.
+ Acompanhada do Bispo de Valença, e outros Cavalleiros, parte para
+ Portugal, e como della se despedio seu pai.
+ Sahe a recebella em Castella seu primo com irmão, o Infante D. Sancho,
+ e das palavras, que lhe disse.
+ Chega a Bragança, onde é cortejado pelo Infante D. Affonso irmão
+ delRei D. Diniz, e outros Cavalleiros.
+ Virtudes que praticou em toda a sua vida, e milagres que fez.
+ Por sua intervenção, e deligencia, se ajustarão as discordias del-Rei
+ D. Diniz com o Princepe seu filho.
+ Segunda vez pacifica ao mesmo Princepe com seu pai.
+ Por morte de seu Espozo se veste no habito de Santa Clara.
+ Edifica o Convento desta Santa em Coimbra, e o dotou da sua fazenda, e
+ nelle está sepultada.
+
+Isabel (D.) Filha do Infante D. Affonso de Portugal, e a Infante Dona
+Violante, foi casada com D. João o Torto, filho do Infante D. João
+chamado Rei de Lião.
+
+Isabel (D.) Filha de D. Jaimes Decimo Rei de Aragão, e da Rainha Dona
+Violante, cazou com o Princepe D. Felippe filho herdeiro de São Luiz Rei
+de França.
+
+
+J
+
+
+Jaymes (D.) Decimo Rei de Aragão, e avô paterno da Infante Dona Isabel,
+mulher de D. Diniz de Portugal como naceo, e a cauza porque lhe puzerão
+o nome de Jaime.
+ Tomou segunda vez Valença de Aragão aos Mouros.
+ Acabou a vida feito Monge.
+ Cazou com Dona Lianor filha delRei D. Affonso Nono de Castella, e foi
+ separado pela Igreja deste matrimonio.
+ Casa segunda vez com Dona Violante, filha de D. André Rei de Ungria de
+ quem teve muitos filhos.
+
+Jaimes, (D.) Rei de Malhorca, e Minorca, foi filho de D. Jaimes Decimo
+Rei de Aragão, e da Rainha Dona Violante.
+
+Jaimes, (D.) Filho de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão a quem ficou o
+Reino de Secilia, foi depois Rei de Aragão.
+
+João XXII. Concede privilegios para os Estudos que em Coimbra instituio
+ElRei D. Diniz.
+ Expede uma Bulla na qual consola a D. Diniz nas discordias que tinha
+ com o Princepe seu filho.
+ Escreve huma carta a este mesmo Princepe sobre as discordias, que
+ tinha com seu pai.
+
+João, (D.) Infante de Castella sendo desterrado daquelle Reino, é
+recebido em Portugal por seu tio ElRei D. Diniz.
+
+João Affonso (D.) Foi filho natural delRei D. Diniz.
+
+João Nunes de Lara, Senhor de Biscaya, foi preso por ElRei D. Diniz a
+quem mandou soltar, e lhe fez grandes merces.
+ Tomou Gibraltar aos Mouros.
+
+João Velho, com Vasquo Pires, e João Martins são mandados por
+Embaixadores a Aragão a ajustar o cazamento delRei D. Diniz com a
+Infante Dona Isabel filha de D. Pedro Rei de Aragão.
+
+
+L
+
+
+Lianor (Rainha Dona) Filha de Affonso Nono de Castella, irmã de Dona
+Urraqua Rainha de Portugal, casou com D. Jaimes Decimo Rei de Aragão, e
+é separada de seu marido pela Igreja.
+
+Lopo (D.) Conde, e Senhor de Biscaya, é morto em Alfaro pelo Infante D.
+Affonso irmão delRei D. Diniz.
+
+Lourenço Annes (D.) É eleito primeiro Mestre em Portugal dos Cavalleiros
+de San-Tiago.
+
+
+M
+
+
+Manfreu Rei de ambas Secilias de quem foi filho.
+ Matou com veneno a seu pai, e irmão.
+ É morto em a batalha junto de Benavente em Italia que lhe deu o
+ Princepe Carlos, irmão de São Luiz Rei de França.
+
+Manoel (El-Rei D.) Foi perpetuo administrador da Ordem de Christo.
+
+Maria (Dona) Filha natural del-Rei D. Diniz, foi casada com D. João de
+Lacerda.
+
+Maria (Dona) Filha natural delRei D. Diniz, foi Freira no Mosteiro de
+Odivellas.
+
+Maria (Dona) Filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante, foi cazada
+com D. Tello, Filho do Infante D. Affonso de Molina.
+
+Martim Gonçalves de Souza, Alferes mór delRei D. Diniz, é mandado por
+este Princepe com setecentos cavallos a ajudar a ElRei de Castella na
+guerra contra os Mouros.
+
+Mem Rodrigues de Vasconcellos, sustenta o Castello de Guimarães por D.
+Diniz contra a invasão do Princepe D. Affonso.
+
+Messina, cercada pelo Infante Carlos irmão de São Luis Rei de França, e
+levanta o sitio obrigado por D. Pedro Rei de Aragão.
+
+Mouros, ganhão as Fortalezas de Quesada, e Alcaudete com outros
+Castellos no arrebalde de Jaen.
+
+
+N
+
+
+Nicoleo IV concede a ElRei D. Diniz, que os Cavalleiros de San-Tiago se
+eximão da obediencia do Mestre de Castella.
+
+Nuno Gonçalves de Lara, filho de João Nunes de Lara, cazou com Dona
+Constança filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante.
+
+
+O
+
+
+Ordem Militar de Jesu Christo, quando foi instituida por ElRei D. Diniz,
+e quem foi o seu primeiro Mestre.
+
+Orraqua Vasques, é curada milagrosamente de um achaque pela Rainha Santa
+Isabel.
+
+
+P
+
+
+Pedro (D.) undecimo Rei de Aragão, foi filho de D. Jaimes, e a Rainha
+Dona Violante, e pai da Infante Santa Isabel.
+ Com quem cazou.
+ Recebe obediencia do Reino de Secilia.
+ É desafiado para Bordeos pelo Infante D. Carlos irmão de São Luis Rei
+ de França.
+ É excommungado pelo Papa.
+ Morreo violentamente sobre o cerco de Girona.
+ Filhos que teve.
+ Pratica que fez a sua filha quando partio para se receber com ElRei D.
+ Diniz.
+
+Pedro, (D.) Filho natural delRei D. Diniz, cazou com Dona Branca filha
+de Pedro Annes Portel.
+
+Pedro, (D.) Conde de Barcellos filho natural delRei D. Diniz, foi o
+autor das linhagens de Portugal.
+
+
+S
+
+
+Sancho (El-Rei D.) de Castella ajusta com ElRei D. Diniz cazar seus
+filhos D. Fernando, e Dona Beatriz com os Infantes D. Affonso, e Dona
+Constança, filhos daquelle Princepe.
+ Falta ás condições prometidas para estes despozorios.
+ Manda uma armada sobre o Algarve com que fez muitas hostilidades.
+ Manda por seu Embaixador o Bispo de Palença a tratar pazes com D.
+ Diniz, e não conclue o que intenta.
+ Em que lugar, e anno morreu.
+
+Sancho, (Infante D.) primo com irmão da Infante Dona Isabel, veio
+recebella a Castella quando vinha desposarse com ElRei D. Diniz de
+Portugal.
+
+Sancho (D.) Arcebispo de Toledo, e filho de D. Jaimes Decimo Rei de
+Aragão, e da Rainha Dona Violante, foi morto na batalha de Andaluzia
+contra os Mouros.
+
+Sancho de Ledesma, (D.) Filho dos Infantes D. Pedro, e Dona Margarida,
+descontente delRei de Castella, veio fazerse vassallo delRei D. Diniz, o
+qual lhe assinou uma grande renda.
+ Volta para Castella.
+
+
+T
+
+
+Tello (D.) filho do Infante D. Affonso de Molina, cazou com Dona Maria,
+filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante, e neto de Affonso III de
+Portugal.
+
+Templarios, quem forão os seus instituidores em Jerusalem, e que habitos
+trazião.
+ Ações heroicas, e virtuozas que obravão.
+ São extinctos violentamente por Clemente V á instancia de Felippe de
+ França chamado o Fermozo.
+ No Concilio celebrado em Vianna da Provincia de Narbona se promulgou a
+ extenção desta Ordem.
+ As rendas desta Ordem são applicadas á do Hospital de S. João.
+
+
+U
+
+
+Urbano IV. Dá a investidura dos Reinos da Secilia, e Napoles ao Princepe
+Carlos irmão de S. Luiz Rei de França.
+
+
+V
+
+
+Valdovino Rei de Jurusalem manda hospedar dentro do seu Palacio aos
+primeiros fundadores da Ordem do Templo.
+
+Vasco Fernandes, Mestre dos Templarios em Portugal quando se extinguiu
+esta Ordem.
+
+Violante (Dona) Filha de D. André Rei de Ungria, caza com D. Jaimes
+Decimo Rei de Aragão, de quem teve muitos filhos.
+
+Violante (Dona) filha de D. Jaimes Decimo Rei de Aragão, e da Rainha
+Dona Violante, cazou com D. Affonso Decimo de Castella avô delRei D.
+Diniz de Portugal.
+
+Violante (Dona) Filha de D. Pedro undecimo Rei de Aragão, cazou com
+ElRei Carlos irmão de São Luis Bispo de Toloza.
+
+Violante (Dona) Filha do Infante D. Manoel filho delRei D. Fernando de
+Castella, e da Infante Dona Constança foi cazada com o Infante D.
+Affonso filho de Affonso III, de Portugal, e que filhos teve.
+
+
+Fim da Chronica d'ElRei D. Diniz
+
+
+
+
+INDICE DOS CAPITULOS
+
+
+I--Como El-Rei D. Diniz sendo Ifante, foi levantado por Rei, e
+obedecido, e das virtudes que teve
+
+II--Como El-Rei D. Diniz cazou com Dona Isabel, filha del-Rei D. Pedro
+Daraguam, e da Rainha Dona Constança, e de suas grandes virtudes, e
+santidade
+
+III--Do Fundamento, e cousas, que ouve pera El-Rei D. Diniz aver algumas
+Villas, e Castellos de riba Dodiana, que forão de Castella
+
+IV--Dos filhos legitimos, que El Rei D. Diniz ouve da Rainha D. Isabel,
+e assi doutros bastardos
+
+V--Do desacordo, que ouve entre El-Rei D. Diniz, e o Ifante D. Affonso
+seu irmão
+
+VI--Do que succedeu do Casamento do Ifante D. Affonso, filho del-Rei D.
+Diniz, e do Ifante D. Fernando, filho del-Rei D. Sancho de Castella
+
+VII--Como El-Rei D. Diniz entrou em Castella, e da crua guerra, que de
+uma parte e da outra se fazia
+
+VIII--Dos grandes males, e danos que de um Reino a outro se faziam, e
+dalguns Luguares de Castella, que os Mouros tomaram
+
+IX--Da razam porque El-Rei D. Diniz desistio desta guerra, e se tornou a
+Portugal
+
+X--Dos casamentos, e Escaibos que depois da concordia se fizerão antre
+estes Rex em Alcanizes
+
+XI--Como El-Rei D. Fernando cazou com a Ifante Dona Constança, e o
+Ifante D. Affonso de Portugal com a Ifante Dona Beatriz de Castella, e
+das Menagens, que sobreesso se fizerão, e da decisão, que fez nas
+contendas que havia antre os Princepes Despanha, e da grandeza, e
+prudencia com que nella se ouve, e muitas mercees que fez
+
+XII--Das ajudas, que El Rei D. Fernando de Castella, ouve delRei D.
+Diniz, pera a guerra dos Mouros de Grada
+
+XIII--Como El-Rei D. Diniz ordenou em Coimbra o primeiro Estudo, que
+ouve em Portugal
+
+XIV--Como foi feito em Portugal Mestre de San-Tiago izento da Ordem de
+Ucres de Castella
+
+XV--Do fundamento que teve a Ordem do Templo de Salamão em Jerusalem, e
+como foi desfeita, e se fez a Ordem de Christo
+
+XVI--Do principaal fundamento, e verdadeira cauza pera esta Ordem dos
+Templarios ser destroida
+
+XVII--Como o Papa, e El-Rei de França notificarão a El Rei D. Diniz esta
+condenação dos Templarios, e de sua Ordem
+
+XVIII--Da discordia, que ouve antre El-Rei D. Diniz, e o Ifante D.
+Affonso seu filho herdeiro, e as cauzas porque
+
+XIX--Das couzas que o Ifante capitulou pera matar Affonso Sãches seu
+irmaão, ou o desterrar fóra do Regno
+
+XX--Da diligencia que El-Rei fez pera saber a verdade dos estromentos de
+Maguazella
+
+XXI--Dalgumas couzas mais, que o Ifante fez contra vontade, e serviço
+del-Rei seu padre
+
+XXII--Como o Ifante se partio de Coimbra pera Lixboa, e do que lhe
+aconteceo com El-Rei no Caminho
+
+XXIII--Como o Ifante levou a molher, e os filhos a Castella, e os
+Lugares, que tomou a El-Rei seu padre
+
+XXIV--Como El Rei, e o Ifante foram concordados por meio, e intercessão
+da Rainha Dona Isabel, e da maneira que nesso teve, e das menagens que
+pera segurança desso se fizerão
+
+XXV--De huma carta do Papa João XXII ao Ifante D. Affonso filho del-Rei
+D. Diniz, sobre as desavenças com seu pai
+
+XXVI--Como a Rainha Dona Maria de Castella depois da morte del-Rei D.
+Fernando seu filho, teve vistas com El-Rei D. Diniz, a que trouxe El-Rei
+D. Affonso menino neto dambos, e do que concertaram
+
+XXVII--Como o Ifante D. Affonso se apparelhou pera pelejar com o Ifante
+D. Felipe, que contrariava o asecego de Castella, e como o Ifante D.
+Felipe se foi
+
+XXVIII--Como o Ifante D. Affonso requereo a El-Rei D. Diniz seu padre,
+que fizesse Cortes ás quaes depois nom quiz vir
+
+XXIX--Como o Ifante sobre uma vinda, que contra vontade del-Rei quizera
+fazer a Lixboa, foram perto de pelejar, e porque o leixaram de fazer
+
+XXX--Como as gentes del-Rei, e do Ifante pelejaram sobresto em Santarem,
+e do que se fez
+
+XXXI--Da morte del-Rei D. Diniz
+
+XXXII--Das obras, e couzas notaveis, que El-Rei D. Diniz fez em sua vida
+
+
+
+
+CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ
+
+2 vol. 800 réis
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II), by
+Rui de Pina
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA D'EL REI D. DINIZ ***
+
+***** This file should be named 18167-8.txt or 18167-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/1/8/1/6/18167/
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
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+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+*** START: FULL LICENSE ***
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+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
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+distribution of electronic works, by using or distributing this work
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+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
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+electronic works
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
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+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
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+electronic work, or any part of this electronic work, without
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+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
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+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
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+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
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+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
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+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
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+ License. You must require such a user to return or
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+electronic work or group of works on different terms than are set
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
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+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
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+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
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+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
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+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
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+refund. If you received the work electronically, the person or entity
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
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+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+*** END: FULL LICENSE ***
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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