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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/18167-8.txt b/18167-8.txt new file mode 100644 index 0000000..5600856 --- /dev/null +++ b/18167-8.txt @@ -0,0 +1,3171 @@ +Project Gutenberg's Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II), by Rui de Pina + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II) + +Author: Rui de Pina + +Release Date: April 14, 2006 [EBook #18167] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA D'EL REI D. DINIZ *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + +CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ + +2 vol. 800 réis + + + + +Bibliotheca de Classicos Portuguezes + +Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo + +(VOLUME LXXI) + + + + +CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ + +POR + +RUY DE PINA + +2.^a edição + + +VOL. II + + +_ESCRIPTORIO_ + +147--Rua dos Retrozeiros--147 + +LISBOA + +1912 + + + + +BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES + +Proprietario e fundador + +_MELLO D'AZEVEDO_ + + + + +Bibliotheca de Classicos Portuguezes + +Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo + +(VOLUME LXXI) + + +CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ + +POR + +RUY DE PINA + +2.^a edição + + +VOL. II + + +_ESCRIPTORIO_ + +147--Rua dos Retrozeiros--147 + +LISBOA + +1912 + + + + +CAPITULO XIII + +_Como ElRei D. Diniz ordenou em Coimbra ho primeiro Estudo, que ouve em +Portugal._ + + +ElRei D. Diniz assi como foi dotado de muitas boondades naturaaes, assi +tambem nom lhe faleceram has outras virtudes em todo Reaes, cuja prova, +e exemplo, saõ suas excellentes obras, & mui louvadas, ha todos +mostrava, que foi Principe mui prudente, e de mui singular concelho, e +na fala Portuguez de seu tempo asaaz copioso, e de muita graça, e +tratava com grande humanidade ha todos aquelles, que com elle +conversavão, e por esso era de todos mui amado especiaalmente, que todos +seus cuidados eram honrar, e acrescentar mais sua teerra, e assi +procurar que fosse abastada, e provida daquellas couzas porque seus +vassallos, e naturaaes fossem mais nobres, e melhor ensinados, sobre ho +quaal se diz que hum dia estando com os seus Prelados, e nobres homens +em concelho, lembrandose com mostranças de sentimento, que seus Regnos +careciam de Escolas, e Estudos de que outras teerras eram mui abastadas, +lhes falou nesta maneira. + +«Aho boom Principe, que da maaõ de Deos aa muitos de reger sobre todo +lhe conveem, que trabalhe, e cumpre que elle, e os seus subditos sobre +todas as virtutudes abracem ha virtude da Justiça, e amem, e sigam os +fruitos della, porque hos merecimentos sam taaes ante Deos, e de tanta +estima, que nom soomente daa por elles neste mundo alegre, e pacifica +vida em quanto duramos, mas ainda no outro pera alma nom nega ha gloria +eterna, e bemaventurança pera sempre, certamente ho Rei em hos Regnos, +que por graça de Deos lhe sam encomendados nom pode fazer melhores +obras, nem officios de moor valor, que procurar que vivaõ nelles hos +homens em fee, e justiça, e façam obras santas, justas, e onestas, e +porque esto se nom póde assi beem conseguir, e aver efeito sem aver no +Regno varoens em toda doutrina e ciencias divinas, e humanas beem +ensinados, e concirando eu que meus Regnos pela Providencia, e boondade +de Deos, nom soomente saõ asaaz providos de todolos mantimentos do maar, +e teerra, mas abastados de onesta gente darmas, e de boom uzo, e +exercicio dellas assi beem dezejo de todo meu coraçam, que tambeem aja +avondança de homens leterados, e mui sabedores, e por esso propus em +minha vontade por beem comum de meu Regno, e grande proveito de meus +vassalos, e naturaaes, fazer nelle huum Estudo geraal, e muito honrado, +onde todalas ciencias se leaõ, e que seja feito nesta Cidade de Coimbra, +que hee no meio do Regno, e abastada das couzas necessarias, e asaaz +temperada dos ares pera saude dos homens, e poreem ante que ho pozesse +em obra volo quiz assi notificar pera me dizerdes vosso concelho, e +parecer». + +Aho quaal todos responderam louvando muito sua tençam, pedindolhe por +mercee, que obra tam sancta, e tam virtuoza, e de tanto proveito, e de +tanto ennobrecimento de seus Regnos logo ha exequtasse. Pera ho quaal +ElRei sopricou logo sobresso aho Papa Joaõ XXII que por suas Bullas lhe +enviou has graças, e privilegios, que lhe foram pedidos, e fundou ho +dicto Estudo cujos fundamentos parecem agora mui pequenos, e pera elle +fez vir boons leterados doutras teerras pera que hos Rex dellas por +mandado do Papa, e por requerimento delRei deram consentimento, hos +quaaes por salairos ordenados leram nelle algum teempo, e elle foi ho +primeiro Estudo, que ouve em Portugal, mas depois floreceo mais ho da +Cidade de Lixboa, ha que ho de Coimbra se mudou, onde agora se leem +todas has sete artes, e ciencias pubricamente, e saõ pagos hos Mestres +por salairos dos Rex, que depois Regnaram em Portugal. + + + + +CAPITULO XIV + +_Como foi feito em Portugal Mestre de San-Tiago izento da Ordem de Ucres +de Castella._ + + +Hos Comendadores Cavalleiros, e Freires da Ordem de San-Tiago, que avia +em Portugal atee este tempo delRei D. Diniz, todos eram sugeitos aho +Mestre de San-Tiago de Castella, cujo Convento, e cabeça era Ucres, de +quem por muitas vias, e maneiras recebiam individamente muitos aggravos, +e opressoens, chamando-hos sem tempo, e sem necessidade ha Capitulo, e +poendo nelles por leves cazos sentenças descomunhões, ha quaal couza +sentio muito ElRei D. Diniz, e como era Principe que sempre dezejou, e +procurou acrecentamento, e izençam de seus Regnos, e vassallos, enviou +notificar todas estas couzas aho Papa Nicolao IV e supricou ha Sua +Sãctidade, que desse licença, e autoridade pera que hos dictos Freires, +e Comendadores de seus Regnos, podessem antre si eleger Mestre da sua +Ordem, que de todo fosse izento do Mestre de Castella, ha que ho Papa +deu poder asoluto, e carta de sentença, e em todo satisfez, e desso +vieram ha este Regno suas Bullas inteiras, por virtude das quaaes +elegeraõ por primeiro Mestre de San-Tiago de Portugal hum D. Lourenço +Annes. + +Sobre ho quaal ho Mestre com favor delRei de Castella, como +descontentes, e agravados de semelhante izençaõ supricaram aho Papa +Celestino, que socedeo ha Nicolao IV e delle ouveram Rescrito sorreticio +com crauzulas revocatorias daa concessoens passadas, annulando a eleiçam +do Mestre de Portugal, e hos Juizes que foram dados por exequtores +procediam por excomunhoens, e censuras contra ho Regno de Portugal, e +requereram Prelados delle, que has fossem cõprir atee antredicto ahos +quaaes procedimentos ElRei D. Diniz, e o dicto Mestre, e Freires de +Portugal intrepuzeram suas apelaçoens, e devolveram ho feito aho mesmo +Papa Celestino que mandando ha seus Leterados conhecer da cauza achouse +ho Rescrito de Castella, nom seer verdadeiramente impetrado, e ho Papa +Celestino aprovou ha sentença pela primeira concessaõ feita, dada pelo +Papa Nicolao, seu antecessor, e que ho Mestre de San-Tiago de Portugal, +e do Algarve nom reconhecesse superioridade salvo aho Papa, e ahos Rex +que Regnassem nos Regnos de Portugal, sobre os quaaes letigios se +fizeram por ElRei grandes despezas, e deste tempo ateegora, sempre ouve +Mestre da Ordem de San-Tiago em Portugal, e no Algarve, cujo primeiro +Convento foi logo em Alcacer do Sal, e depois se mudou ha Palmella onde +agora estaa. + + + + +CAPITULO XV + +_Do fundamento que teve ha Ordem do Templo de Salamaõ em Jerusalem, e +como foi desfeita, e se fez ha Ordem de Christo._ + + +No anno de nosso Senhor Jesu Christo de mil cento e oito annos, sendo o +Papa na Egreja de Deos Gelazio II, Regnando em Jerusalem Valdovino deste +nome ho primeiro, e dos Rex de Jerusalem ho segundo, que socedeu ha seu +irmaaõ Gudufre primeiro Rei se acha, que dous homens devotos dos quaes +hum ouve nome Ugo de Payaõ, naturaal da cerqua de Troya, e outro ho Ficu +Sancto homem Frances, estes com dezejos de servirem ha Deos leixados hos +gostos, e doçuras de suas fazendas, e natureza, se foram aa Cidade Santa +de Jerusalem pera nella viverem, e por sua defençaõ acabarem suas vidas, +ahos quaaes o dicto Rei Valdovino porque conheceu que eram homens de +boom esforço, e de singular devaçaõ, mandou dar huma pouzada dentro dos +seus Paaços, que eram junto com ho Templo de nosso Senhor, e hos Conegos +do dicto Templo lhe deraõ hum Altar, e Capella apartado pera que melhor, +e mais quietamente comprissem suas devaçoens. + +E por suas boondades que por todos foram vistas, e experimentadas ElRei, +e ho Patriarca, e assi hos Perlados, e nobre, e devota gente, que era em +Jerusalem lhe mandavaõ abastadamente por esmola hos mantimentos, e +provisam, & ho primeiro encargo que o Patriarca por pendença, e remissam +de seus peccados lhe deu, foi que com ha gente devota, que se ha elles +quizesse ajuntar, guardassem hos caminhos por onde hos Romeiros vinham a +Jerusalem, porque dos muitos ladrões, e maalfeitores nom recebessem hos +roubos, e danos, que muitas vezes recebiam, ho que elles quanto foi +possivel fizeraõ, e continuaraõ com grande honra, trabalho, e muito +cuidado atee nove annos, nos quaaes foram grandemente ajudados desmolas +por ElRei, e por ho Patriarca, e por todalas outras naçoens, que eram em +Jerusalem, e nestes annos nom fizeraõ alguma mudança dos Abitos +seculares, cõ que primeiro vieraõ, mas aho anno decimo depois de sua +chegada lhe foi dada Regra por o Papa Honorio II, ha quaal S. Bernaldo +compoz, e lha deu com Abitos brancos por humildade, e nelles por defora +huma Cruz vermelha por sinificaçaõ do sangue de Christo, e tomaraõ +Religiaõ em que fizeraõ voto de castidade, e obediencia, e renunciaraõ +pera sempre ho proprio. + +Hos quaaes antre todolos outros Cavalleiros, e calidades de Christaãos, +que nas partes dultra maar pela Fee, e defensaõ da Teerra Sancta +peleijavam estes sobre todos com mais devaçam, e esforço faziam com mais +louvada avantagem, que por seus grandes merecimentos, e serviços, e fama +eraõ assi celebrados, e estimados em todo ho mundo, que hos Rex, +Principes, e Senhores de toda Christandade avendo nelles has ajudas, e +esmolas por mui beem empregadas no fervor desta primitiva devaçaõ, e +Religiaõ lhe deraõ em seus Regnos, e Senhorios grãdes teerras, Cidades, +Villas, e Castellos, com muitas rendas, e possessoens. E nesta Ordem por +sua grande devaçaõ fizeraõ muitas gentes profissam, e antre hos +Cavalleiros avia outros Religiosos Freires sergentes, que traziaõ has +mesmas Cruzes vermelhas, mas nos mantos avia antre elles deferença, e +ordenaram antre si pendaõ, e bandeira, que diante elles levava nas +batalhas seu Alferes, e era ametade de branquo, e ametade de preto, por +senefiquaçam que na Fee sempre fossem limpos, castos, e humildosos, e +firmes, e no meio della ha Cruz vermelha. + +E por serem do principio alojados junto com ho Templo, como atraas dice, +por esso foram chamados Templarios, dos quaes ho Papa, e ho Patriarca +fizeraõ alguns antre hos outros mais principaes, ha que chamaraõ logo +Abbades Bentos, e depois foraõ dictos Mestres, e repartidos pelos +Regnos, e Provincias da Christandade, de que soo em Jerusalem avia +destar como estava ho Graõ Mestre delles ha que todos aviaõ dobedecer +como obedeciaõ. Ha este chamavaõ ho Graõ Mestre do Templo de Salamaõ em +Jerusalem, e no principio, e fundamento consta que hos Cavalleiros, e +Freires viviaõ, e guardavaõ ha Religiaõ em muita profissaõ, e louvados +costumes, por esso foraõ sempre em todos seus feitos muito vitoriosos, e +bemaventurados, que por exemplo da verdadeira Fee, muitos delles com +grande confiança, e constancia sofreraõ morte, Cruz, e martyrios, +incomportaveis cativeiros, sem mostrarem alguma fraqueza dos corações, +nem da fee que sustinham, e tam grande foi ha fama, e boom nome da +Religiaõ, e disciplina Militar destes Cavalleiros da Ordem do Templo, +que hos Rex Despanha, que naquelle tempo Regnavaõ, porque nella ainda +avia grandes Regnos, e poderosos Rex Mouros por conquistar mandaram por +elles ha ultra maar, e nas conquistas, e batalhas dos infieis por grãde +ajuda hos trouxeram consigo, e assi por armas, boondade, e esforço +respoderaõ sempre aa confiança que delles era conhecida, e por esso na +mesma Espanha por os Rex, e Principes, e Senhores della, e doutras +gentes particulares em seus testamentos elles foraõ erdados de muitas +Villas, teerras, e grãdes rendas, has quaaes elles assi davaõ ha obras +piedozas, e meritorias, e assi has repartiaõ pelos fieis Christaãos que +craramente parecia que todo ho que lhe davaõ por esmola quesse era ho +proprio, e verdadeiro patrimonio de Christo. + +Mas depois como nellas creceraõ grandes Senhorios, e grandes riquezas, +logo segundo se delles diz, ha que muitos nom daõ verdadeira autoridade, +ha cobiça ocupou nelles, e em sua Ordem ho galardam dos virtuosos +merecimentos passados, porque has virtudes, e boondades em que eram +professos converteraõ logo em todos seus contrairos, em que fizeraõ ho +cõtrairo do que ante faziaõ, de maneira, que por autoridade do Papa se +izentaraõ da obediencia do Patriarca de Jerusalem, e assi de todolos +outros Prelados, ahos quaaes denegavaõ depois hos dizimos, primicias, e +rendas com que no principio foraõ delles ajudados, e sustentados, +trazendo-os em demandas, e legitios como se diz, que ho fizeraõ no Regno +Daragam onde tiveram guerra contra has Egrejas Catredaes, e riquos +homens daquelle Regno. + + + + +CAPITULO XVI + +_Do principaal fundamento, e verdadeira causa pera esta Ordem dos +Templarios seer destroida._ + + +Por morte do Papa Benedicto XI, que faleceu em Italia na Cidade de +Perosa, antre hos Cardeaes, que eram prezentes ouve discordia na criaçaõ +do futuro Sumo Pontifice porque huus queriaõ, que fosse Italiano, e +outros procuravam que Frances fosse, Regnando entam em França El Rei +Felippe a que por sobre nome diceraõ Fremozo, mas por suas obras de +sobeja cobiça, e grande tirania, foi avido por asaas feio, e disforme, e +por estucia, e engenho de Nicolao Cardeal Partenes, que era Varaõ +astuto, e mui prudente, foi elegido por Papa, sendo auzente, e nom +Cardeal D. Reymaõ, Arcebispo de Bordeos, e foi chamado Clemente V, na +quaal criaçaõ hos Italianos consentiraõ porque este Arcebispo era grande +imigo deste Rei de França, cuja parcialidade pareceu que seguia, ho +quaal Rei por avizo do dicto Cardeal Partenes antes de seer pubricada ha +eleiçaõ do dicto Arcebispo em huma Abbadia se foi com elle ha ver, e +concertar secretamente, e conveio aho dicto Arcebispo pera seer Papa +outorgar, e prometer tudo ho que ElRei de França lhe pedio, porque sem +sua concordia, e amizade elle nom avia de seer elegido, e criado em +Papa, segundo foi certificado, e ali lhe pedio ElRei seis cousas has +quaaes ho Arcebispo cõ juramento sobre ho Sacramento da Ostia que fez, e +com ha refens da hum seu irmaão, e dous sobrinhos que lhe deu, lhe +prometeu de comprir logo como fosse Papa, das quaaes has cinquo logo +declarou, e huma sem ha dizer reservou em si pera depois a asinar, e +pedir quando lhe comprisse. + +E depois da creaçaõ do Papa hos Cardeaes do Conclave ho avisaraõ ha elle +em Bordeos, e ali tomou o dicto nome de Clemente V, dõde tambem mandou +ahos dictos Cardeaes, que eram em Italia que logo se viessem, como +vieraõ ha Leaõ de França, onde avia de seer como foi coroado, e logo ali +depois da sua coroaçaõ comprio com ElRei has cinquo cousas, que lhe +prometera, e assi ha que nom quiz pedir e declarar ha reservou pera +depois no anno de Christo de mil tresentos e sete annos. Ho Papa mudou +sua Corte aa Cidade Pitansis, onde ElRei de França lhe pedio exequçaõ da +sexta cousa que lhe pedira, e pera si reservara, ha quaal era que +tirasse pera sempre do Catalogo, e numero dos Papas, ho Papa Bonifacio +VIII seu predecessor, e como de Erege, o tredor lhe mandasse queimar ho +corpo e hos ossos. + +E ha cauza desto era porque este Papa o tinha excommungado, e privado do +Regno de França, e como de juro dado aho Emperador Dalemanha, e por +vinguãça desso, ElRei de França manhosa, e encobertamente mandou prender +o dicto Bonifacio na Cidade de Pavia em Italia, e dali foi levado ha +Roma, onde logo faleceu, e por esta cauza ElRei de França, que ficava +excommungado ha elle Papa de sua memoria tinha grande odio, e porém ho +Papa Clemente com ha dezonestidade, e injustiça deste requerimento pelo +juramento que tinha feito, e ha refens que tinha dados que corriaõ +risquo de morte, foi muito torvado, e posto em pensamento, e avido +sobresso concelho por ganhar tempo de dilaçaõ em que ha vontade delRei, +por ventura se amanssaria, dilatou ha dicta exequçam da sexta promessa +pera Concilio géral ha que convocou hos Principes, e Prelados pera a +Cidade de.... que era fóra da jurdiçam delRei de França, pela quaal +cauza, e por logo nom comprir, elle se mostrou do Papa muito aggravado. + +E durando has pendenças deste injusto, e torpe requerimento delRei, que +ho Papa nunqua quiz outorgar, acõteceo que hum Prior de Monte Falcaõ de +Toloza, que era desta Ordem, e Religiaõ dos Templarios homem perversso, +e maao, que por seus erros, e grandes crimes jazia prezo em Pariz, +condenado por sentença ha carcere perpetuo, e com elle outro chamado +..... homem cheio de todalas maldades, e traiçoens, hos quaes ambos por +seerem de mui malinos espiritos, por tentarem algum caminho de sua +deliberaçaõ notificaram, e certificaram ha certos officiaes delRei de +Frãça, ho quaal sabiam seer Rei grande tirano, e sobre todolos homens +mais cobiçoso, que ho Mestre, Cõmendadores, e Freires da Ordem do +Templo, eram todos Ereges, e culpados em tam abominaveis crimes, que por +inquiriçaõ logo se provariam por hos quaaes ha Ordem devia seer +desfeita, e ElRei aver pera sua Coroa toda sua fazenda, que em França +era muita. + +Ha quaal couza significada ha ElRei elle movido mais de cobiça, que por +guardar verdade, nem fazer justiça requereo aho Papa, e ho inclinou +maliciosamente, que desfizesse esta Ordem cheia de muitos erros, e +offenssas que lhe apontou, ha que o Papa seguundo se diz, pelo afrouxar +da promessa do Papa Bonifacio, com que ho apertava logo satisfez, porque +sem fazer muito exame, nem ver has certas provas que se requeriam ácerca +do que contra os Templarios se dizia, nem se guardar alguma ordem de +direito juizo foram em França todos prezos, e seus beens tomados, e +ElRei hos apropriou logo aa sua Coroa, e assi o notificou logo aho Papa, +e mandou por suas Bullas que assi fizessem todolos outros Rex, e +Principes Christaãos em cujos Regnos, e Senhorios avia a dicta Religião, +e foi logo prezo em Paris ho Mestre do Templo, que era hum homem por +linhagem, e autoridade de mui principaal devaçaõ, e avia nome Jacobo, e +com elle sessenta nobres Cavalleiros da dicta Ordem, contra os quaaes +por artigos formados se poz: «Que aho tempo de sua profissaõ que todos +faziaõ secreta, cospiaõ em Christo Crucificado, e que indistintamente, e +seem escuza, e com especialidades feias, e mui deshonestas, uzavam antre +si do abominavel peccado de contra natura, e que juravam que justa, e +injustamente sempre assi ajudariaõ, e conservariaõ a dicta Ordem, e que +elles Templarios como tredores da Teerra, e Caza Sãcta foram cauza de se +perder corrutos de dadivas pelos infieis». + +E sobre algumas provas de testemunhas falças, que sobresso foram dadas, +ElRei mandou meter estes, e outros muitos ha mui asperos tormentos pera +que com elles confeçassem hos delictos que dezejava pera logo aver has +teerras que cobiçava. E porque alguns destes tudo esto navegaõ foraõ +retornados ahos carceres em que longamente foram reteudos, e por se +tomar delles ha concruzaõ que ElRei desejava, foram levados fora de +Pariz, e postos aa vista de poovo em hum alto cadafalço de madeira nùs +das carnes, e atados hos corpos ha senhos paaos, logo ha hum, e depois +aho outro, lhe pozeram fogo ahos pees, e assi pouquo a pouquo, por +todolos membros acima atee serem de todo queimados, dizendo ha cada hum +alto, que se confeçasse seus erros que seriaõ perdoados, e livres com +piedade, e mesiricordia, cujos amiguos, e partes movidos de sua +compaixam hos conselhavaõ, e amoestavam, que por nom morrerem cõ tantas +cruezas confeçassem por nom perecerem. + +Aho que muitos com medo das atormentadas mortes, que viaõ padecer, +confessarão todolos maalles, e erros que lhes eram preguntados, aho que +outros em que avia mais esforço nunqua quizeram obedecer, antes com +muitas lagrimas, e grandes prantos que fizeraõ se escuzavaõ affirmando, +que dos semelhantes crimes elles, e hos da Ordem eram de todo inocentes, +e encomendando suas almas a Deos, e aa Virgem Maria sua madre eraõ +contentes de acabar como acabavaõ em tormento de suas vidas, e destes +fiquaram reservados, que nom foram aho pubrico tormento, ho dicto Jacobo +Mestre da dieta Ordem em Frãça, e hum Ruy Dalfino seu parceiro, e Frey +Ugo Paradi, e hum outro dos mais principaaes da Ordem, que jaa foraõ +officiaaes da Caza delRei de França, hos quaaes foram levados aa Cidade +de Liaõ onde ho Papa, e ElRei eraõ prezentes, ante hos quaaes hos +sobredictos aconselhados de seus imigos por averem relevamento da +prizaõ, e por salvarem has vidas, com mercee, e honra, que lhe foi +prometida se diz, que confessaraõ alguns dos crimes, e malleficios que +lhes eraõ postos. + +E porque ha cõfissaõ destes seendo pubrica parecia, que era prova +sufficiente pera hos dictos artigos seerem verdadeiros, e beem provados, +ho Papa ha requerimento delRei tornou ha enviar ha Pariz hos dictos +prezos, onde quiz que pubricamente confeçassem ho que tinhaõ em secreto +confessado, e por autoridade de Juizo enviou dous Cardeaes pera depois +da dicta confissaõ darem ahos culpados alguma pendença piedosa, e +condenarem ha dicta Ordem ha perdiçaõ, e destruiçaõ dos beens que tinha, +hos quaaes prezos postos em outro pulpito mui alto aa vista dos Cardeaes +e de muitos poovos, que eram juntos, foi perante elles lido, e pubricado +em alta voz ho processo, que do dicto cazo era feito, em que era escrita +ha confissaõ que os dictos prezos fizeraõ, ho quaal como foi acabado, ho +dicto Mestre Jacobo como pessoa mais principaal alevantado em pee, e +pedindo com grandes brados lugar de silencio se diz, que perante todos +dice. + +«Que aquelles erros, e crimes porque foram perguntaados Deos sabia que +elles nunqua hos cometeraõ, nem hos avia nelles, nem na sua Religiaõ, +que sempre fora, e era mui sancta, e hos Freires della de mui honesta +vida, e de mui limpa conversaçam, e crentes inteiramente na sancta Fee +Catolica de Jesu Christo, mas que nem por esso deixava de confessar que +era dino da crua morte, que se lhe aparelhava ha quaal elle com +paciencia sofreria pois por temor delRei que era prezente, e com +branduras do Papa elle malíciozamente, e com grãde mentira confeçara +alguns dos dictos crimes, que nom devera.» + +E com esto sem ho acabarem beem douvir se deu toda via sentença contra +elle, e hos Cardeaes, e hos outros Prelados se partiram, e logo se +tornaram aho Papa, pelo quaal ho dicto Mestre, que era cõpadre delRei, +com Frei Delfim seu companheiro foraõ levados ante hos Paaços Reaes de +Pariz onde ElRei era presente, e ali dãdolhe pouquo ha pouquo ho fogo +por maior tormento como deram ahos outros, foraõ de todo queimados, sem +nunqua se quererem desdizer, antes no meio das maiores chamas se diz, +que elles nunqua deixaraõ de cõfessar, e defender ha pureza de sua +Religiaõ, e que na opiniaõ de todos como verdadeiros Martyres morreraõ, +e por taaes se diz, que foraõ avidos, e reverenciados, e seus ossos de +muitos guardados, mas Frei Ugo, e outro seu parceiro, e assi outros cõ +elles com espãto, e temor de taõ cruas mortes confessaraõ hos dictos +crimes contra ha dicta Religiaõ, por salvarem has vidas, que da li ha +poucos dias por seus peccados vilmente perderaõ, ha quaal sentença de +condenaçaõ cõtra ha dicta Ordem do Templo, Freires, e Cavalleiros della, +soccedeo no mez de Dezembro do anno de mil trezentos e nove annos. No +quaal tempo se compriam cento e quorenta e hum annos, que a dicta Ordem +fora principiada do tempo do Papa Gelasio, como atraas fiqua. + + + + +CAPITULO XVII + +_Como ho Papa, e ElRei de Frãça noteficaraõ ha ElRei D. Diniz esta +condenação dos Templarios, e de sua Ordem._ + + +A qual condenaçaõ, e cauzas della, ho Papa fez saber por sua Bulla ha +ElRei D. Diniz, e cõ mostranças de grande sentimento encomendou, que +logo fizesse em seus Regnos prender todolos Freires da dicta Ordem, e +hos remetece ahos Bispos, e Ordinarios, em cujos Bispados fossem prezos, +pera delles tirarem inquirições, e sabeerem de seus delictos ha verdade, +e averem justo castigo, e aquelles que confeçassem hos dictos crimes, e +deles se arrependessem fossem a piedozo perdam recebidos, e assi tomasse +todos seus beens, e teerras que tivessem, e sobre estivesse atee se +derterminar no Concilio Geral ho que de todo se fizesse, ha quaal couza +ElRei de Frãça noteficou ha ElRei de Castella, e ha ElRei D. Diniz, e +lhes enviou ho treslado do processo, e sentença que contra elles foi +dada, pedindolhes com razoens, que pareciam teer cor de justiça e +onestidade que quizessem em seus Regnos inteiramente cõprir ho que lhe +ho Papa encomendava, e elle nos seus tinha jaa feito, e com ha +noteficação deste maal tam grande, e tam universaal, ElRei D. Diniz, e +todolos de seu Regno foram mui maravilhados. + +E porque has cauzas, e fundamentos do Papa, e delRei de Frãça, porque +inteiramente foi deste cazo informado vinhaõ postas em taal ordem, e +assi clarificadas que pareciam mui verdadeiras, crendo ElRei D. Diniz +que a dicta Ordem por esso nom escuzaria de seer desfeita, e hos beens +della perdidos, e dados ha ontrem, antes de tudo mandou logo tomar toda +ha fazenda, e Lugares da dicta ordem, e tudo teve em si, e na pessoa do +Mestre, que avia nome Vasquo Fernandes, e nos Cavalleiros, e Freires da +dicta Ordem nom se acha que ElRei, nem outrem fizessem alguma exequçam +de mortes, prizoens, nem outra pena alguma, antes em muitas partes +parece claro que muitos destes foraõ recolhidos aa nova Ordem de +Christo, que se depois fez, como aho diante direi, e nella viveram beem, +e onestamente como boons Religiosos, porque o dicto Vasquo Fernãdes, +Mestre que era, foi recolhido aa Ordem de Christo, e lhe deram ha +comenda de Castello novo em que viveo, e acabou. + +E porque como ha noteficaçaõ deste desfazimento logo geral, se dice que +o Papa determinava atrebuir has teerras, e beens desta Ordem do Templo +aa Ordem do Esprital de S. Johaõ de Jerusalem, e ha ElRei D. Diniz +pareceo que seria grande inconveniente pera ho assecego, e obediencia de +seus Regnos ho que assi por iguaal medida tocava ha Castella, enviou +logo apõtar especificamente ha ElRei D. Fernando seu genro, que estava +no cerquo sobre Algezira, hos pejos que ha elles, e ha estes Regnos +nesta concessaõ, se aa Ordem de S. Johaõ se fizesse viria, e ambos por +esso se concordaraõ por contrato jurado, com pena de déz mil marquos de +prata, que seendo cazo que ho Papa quizesse dar, ou atrebuir estes beens +dos Templarios ha quaalquer Ordem sem suas vontaades, e consentimento, +que elles contra todos ho defendessem, e nom consentissem, e que hum sem +ho outro cõ ho Papa, nem outro quaalqner se nom podesse sobre este cazo +concordar, nem fazer avença, e concerto, por quaalquer maneira que fosse +soo ha dicta pena, sobre fizeraõ contracto escrito, e aselado com +juramentos, e menagens de sempre assi se comprir, e que ElRei Daragam se +quizesse, como quiz, fosse nesta cõcordia, e chegouse ho tempo do dicto +Concilio, que ho dicto Papa Clemente V atermou ahos Rex, e Principes +Cristaãos pera determinaçaõ da Ordem do Templo, e de suas cousas, e assi +pera sabeer ho que se determinaria acerqua do Papa Bonifacio VIII que +ElRei de França requeria ha pagamento de sua memoria, e que seus ossos +fossem queimados, ho quaal se celebrou na Cidade de Viena, na Provincia +de Narbona, no mez de Outubro da era de mil trezentos e onze annos, +(1311) que foram juntos grandes Rex, e Senhores, e assi Embaixadores, e +Procuradores, e nelle primeiramente se determinou que ho requerimento, +que ElRei de França fazia acerqua de se declarar por Erege ho dicto Papa +Bonifacio, e seus ossos queimados, e sua memoria perdida, era injusto, e +taal que por alguma maneira por muitas cauzas se nom devia comprir. + +Do que El-Rei de França se mostrou muito anojado, e aggravado do Papa, e +no dicto Concilio foraõ pubricamente lidos hos dictos processos +fulminados cõtra hos Templarios, e sua Ordem, pelo quaal depois de +muitas amirações, e nom menos opiniens se confirmou ha sentença contra +elles, ha saber que fossem todos prezos, e apresentados ha juizo da +Sancta Egreja, e aquelles que se quizessem arrepender daquellas +maaldades, e tornar ha devida pendença, nom fossem prezos, mas que lhe +dessem algum remedio saudavel pera suas almas, e hos que pelo contrairo, +fossem ostinados, fossem prezos, e de justo juizo punidos, e foi posto +por Edito geral pera sempre, que dahi em diante alguem nom entrasse mais +na dicta Ordem, e Religiam, nem trouxesse Abito della, nem sechamasse +Templario e que todos seus beens, assi moveis como de rais, que tinham +em toda Christandade fossem, como foram dados, e aplicados aa Ordem do +Esprital de S. Johaõ, por seerem hos Cavalleiros della firmes, fieis, e +constantes guerreiros pela Fee de Jesu Christo. + +Mas ha entrega destes beens nom foi inteiramente feita aa dicta Ordem de +S. Johaõ; porque em muitas partes os Rex, e Senhores ouveraõ pera si +muitas couzas, e dellas derão ha outras pessoas particulares, que sempre +depois has tiveraõ, e logo na concessam destes beens, e fazendas foram +tirados aquelles, que ha dicta Ordem do Templo tinha nos Regnos de +Portugal, de Castella, e Aragão, cuja aplicaçaõ, e concessaõ, que pelos +Embaixadores destes Rex foi com muitas cauzas, e razoens empedida em se +nom dar, e fazer ha dicta aa Ordem de S. Johaõ. E mandou ho Papa, e +Concilio juntamente que estes beens estivessem assi socrestados atee que +ho Papa com maior deliberaçaõ, e mais resguardo tornasse aver has dictas +couzas, e razoens que hos dictos Rex Despanha tinham alegados, e +quizessem por si mais alegar, pera hos dictos beens nom seerem dados aa +dicta Ordem de S. Johaõ, porque depois de todo beem visto, e examinado +deteerminaria ho que fosse justiça. + +Hos Embaixadores delRei, D. Diniz, e DelRei de Castella nom partiram da +Corte do Papa pera Hespanha, atee ho negocio dos da Ordem do Templo nom +aver final concruzaõ. Ahos quaaes pelo Papa foi mandado, que finalmente +apontassem hos fundamentos, que faziaõ, e rezoens que davam pera nom +seerem com hos outros dados aa dicta Ordem de S. Johaõ, e dos +fundamentos principaaes, e de moor sustancia, que foram apontados, ho +primeiro foi: «Que quando hos Rex Despanha seus antecessores mandaram +chamar hos Templarios pera ha guerra, e conquista dos infieis, que nella +avia, tambeem chamaram, e vieram outro si da Ordem do Esprital, e de +huns, e outros por uzarem beem de seus officios de Cavallaria, tinham +dados em seus Regnos, e Senhorios muitas Villas e teerras, e rendas, com +que cada Ordem tinha por si grande poder, has quaes todas juntas aa +Ordem de S. Johaõ, ella teria dobrada potencia em cazo, que se dicesse +que has da dicta Ordem refariam ha guerra contra hos imigos da fee, e no +serviço delRei, e do Regno outra tanta gente quanta era ha dos +Templarios quando serviam, esto diceram que seria quando hos da dicta +Ordem de S. Johaõ quizessem, cujas vontades por suas grandes forças que +teriam, se nom poderiam forçar, nem sojugar de que se seguiria outro tam +impossivel, e grande inconveniente que nom convinha pera ho beem, e +segurança dos Regnos, que quando estes do Esprital nom quizessem guardar +divida lealdade elles segundo hos muitos Castellos, e Fortalezas que +tinham nos estremos de seus Regnos teendo taal desposição, e poder +poderiam meter na teerra, e alevantar no Regno outro novo, e contrairo +Senhorio, com que tudo se lhe despedesse, e destroisse, e denegariam ha +obediencia ahos Rex, e Prelados, como, e quando quizessem segundo em +Aragam hos dictos Templarios em outros tempos por seu grande poder jaa +fizeram.» + +E alem destas razoens apontaraõ hos dictos Embaixadores outras casi ha +estas conformes que aqui são escuzadas. Durando ho quaal debate, e ante +de se concruir ho dicto Papa Clemente V faleceu, e depois de sua morte +ha dous annos, e tres mezes antre hos Cardeaes ouve discordia antre ha +eleição do socessor, e cessando seus debates, e seendo conformes foi em +eleição criado Papa seu sucessor, ho Papa Johaõ XXII no quaal tempo da +dicta discordia, e vocaçam da Cadeira de S. Pedro, hos Embaixadores, e +Procuradores dos Regnos se vieraõ ha Espanha, sem se tomar final assento +sobre has couzas dos Templarios, que queriaõ, e no mesmo tempo antes da +determinaçaõ ElRei D. Diniz ouve pera si todalas rendas dos beens, e +propriedades delles, e hos converteo no que lhe pareceu serviço de Deos, +e beem de seus Regnos, aho qual ho dicto Sancto Padre escreveo, que pera +determinaçam desta couza, que ficara suspensa enviaasse ha elle seus +Procuradores, hos quaaes logo enviou hum Pero Martins Conego de Coimbra, +e Johaõ Lourenço de Monçaraas Cavalleiro, que eram pessoas de boom +saber, e aacerca delRei de booa auctoridade. + +E chegaados ante ho Papa diceraõ ha Sua Santidade em sustancia, e ahos +Cardeaes que eram presentes has rezoens, e cauzas acima apontadas pera +hos beens, e fazendas dos Templarios nom virem aa Ordem de S. Johaõ, ha +quaal se nom podia ajuntar, e encorporar seem grande perjuizo delRei, e +do Regno de Portugal, e com esto diceraõ mais que pera Sua Santidade, e +ho Sagrado Collegio dos Cardeaes mui claramente verem que ElRei D. Diniz +nom contrariava taal concessão por alguma cobiça que tivesse daver hos +beens, Lugares, e teerras dos dictos Templarios, mas que antes hos +queria pera serviço de Deos, e defençaõ, e exalçamento de sua sancta +Fee, que soubessem que ho dicto Rei tinha no seu Regno do Algarve hum +Castello mui forte, que diziaõ Crasto Marim, que era na frontaria dos +Mouros Despanha, e Dafriqua, na quaal Fortaleza se podia fazer novo +Convento, e nova Religiaõ, em que entrassem novos Cavalleiros de Jesu +Christo lidadores por defençaõ da sua sancta Fee, e por seu +acrecentamento. + +Ho quaal Castello lhe aprazia tirar da Coroa de seu Regno, e dalo de +todo por seu isento aa dicta nova Ordem que se fizesse em que averia +muitos Cavalleiros de continoa, e forçosa resistencia contra hos imigos +da Fee, e que estes beens dos Templarios dividamente se poderiaõ +conceder, e apropriar, e porém pediam ha Sua Santidade em nome delRei D. +Diniz, que assi ho quizesse outorgar, pelo quaal ho Papa, e Cardeaes +vendo ha sancta tenção, e boom dezejo delRei aacerca do serviço de Deos, +e de sua Fee, satisfez em todo ha suas onestas petiçoens, e ouve por +beem de se fazer ha nova Ordem de Cavallaria de Christo, que agora hee, +aa quaal hos dictos beens, e couzas dos dictos Templarios fossem pera +sempre atrebuidas, e que hos Freires della fizessem sua profissaõ pela +Regra, e Estatutos da Ordem de Calatrava, e que ho Abbade Dalcobaça, que +pelo tempo fosse vizitasse esta Ordem; com outras mais crausulas, e +folenidades que nas Bulas da nova instituiçaõ saõ conteudas, has quaaes +hos dictos Procuradores trouxeram ha ElRei D. Diniz, que era na Villa de +Santarem, com que foi mui alegre. + +E ali foi feita, estabelecida, e decrarada ha dicta nova Ordem de +Christo, e foi logo della ho primeiro Mestre D. Frei Gil Martins, que +então era Mestre Daviz, e foi esto feito, e celebrado na dicta Villa de +Santarem no mez de Maio da era de mil trezentos e vinte annos, (1320) +avendo jaa doze annos, que ha dicta Ordem do Templo era jaa destroida +por cobiça do dicto Rei Felippe de França, ha cujas culpas Deos que hee +em todo justo, nom tardou muito com justiça e pena, porque este Rei +Felippe correndo monte ho cavallo em que corria arrastrando como touro +ho matou, e delle ficaraõ tres filhos, e huma filha Dona Isabel, ha +saber ho maior Felippe, e o segundo Luis, e ho menor Carlos, e ha filha +Dona Isabel que cazou com ElRei D. Anrique Dingraterra, hos quaaes todos +morreram sem delles ficar erdeiro de França, e ficou desta vez estinta +ha geraçaõ dos Rex de França, que vieraõ de Ugo Capet. + +Nos quaaes annos que ha Ordem de Christo nom foi feita, El-Rei D. Diniz +recolheo pera si has rendas da dicta Ordem do Templo como dice, e dellas +ouve solene quitaçaõ dada, e outorgada pelo dicto novo Mestre de Christo +fundada em razoens que pareciaõ asaas justas, e onestas, e por +compensassaõ desso se deu aa dicta Ordem ho Castello de Crasto Marim, +onde primeiramente foi ordenado ho Convento della, e depois se mudou aa +Villa de Thomar, onde era ho Convento dos do Templo. + +Ha quaal Ordem de Christo por proprios Mestes, e com nomes de Mestres se +governou, e regeo atee ho tempo do Ifante D. Anrique, filho legitimo +delRei D. Johaõ deste nome ho primeiro de Portugal, que da dicta Ordem +foi ho primeiro, e perpetuo administrador, ho quaal por sua singular +devaçaõ, e grandeza de animo por nom seer cazado, nem teer filhos, +acrecentou muito na dicta Ordem ha que procurou, que fossem dadas muitas +rendas com jurdiçam do Espiritaal das Ilhas de Guinee, que elle +primeiramente descobrio, e depois ha dicta Ordem em rendas, e comendas, +e jurdiçoens, e em privilegios, e liberdades foi muito mais ennobrecida, +e acrecentada em tempo delRei D. Manuel N. Senhor, que della tambem por +autoridade Apostolica foi perpetuo Governador ha que creceram reçoens, +edeficios, e excellentes Ornamentos, e novas comendas, e ha vintena das +grandes riquezas das Indias, Arabia, Persia, que elle como Princepe +virtuozo, e de grande animo, novamente mandou descobrir, e achou, como +em sua Coronica mais propria, e largamente hee decrarado. + + + + +CAPITULO XVIII + +_Da discordia, que ouve antre ElRei D. Dinis, e ho Ifante D. Affonso seu +filho erdeiro, e has causas porque._ + + +Atraaz fica escrito has deficuldades, e trabalhos com que ElRei D. Diniz +cazou o Ifante D. Affonso seu filho, com ha Ifante Dona Breatiz, filha +delRei D. Sancho de Castella, e por lhe teer grande amor, e afeiçaõ como +ha rezaõ requeria, lhe deu sua caza em Lixboa, com muitas, e graãdes +festas, pera que de seus poovos ouve grandes ajudas, e assi se acha, que +aalem de muitas Villas, e teerras, que tinha lhe ordenou mais de seu +assentamento, em cada hum anno oitenta mil livras, que estimadas segundo +ha valia da prata daquelle teempo, valiam da moeda dagora trinta e dous +mil cruzados, ha rezaõ de duas livras, e meia hum cruzado, que hee +verdadeira conta, e asaaz aprovada, como outras vezes jaa dice, e assi +em todalas couzas, que occurriam se vio que ho honrava, e estimava +muito, e tinha cuidado de lhe criar seus filhos, porque jaa atee este +teempo elle ouvera ho Ifante D. Affonso, que menino faleceu em Penella, +e assi ouve ho Ifante D. Diniz, que seu avoo ElRei D. Diniz com grande +amor criava em sua caza, e nella faleceu moço, porque ElRei foi tam +anojado, e triste que nom sabia, nem podia com nenhuma couza seer ledo, +nem consolado, e em tanto estremo sentio ha morte deste seu neto, que ho +Papa lhe escreveo sobresso hum Breve de consolaçam, cheio de muita +prudencia, e graãdes confortos. + +E por estas cauzas aalem das outras obrigações naturaaes, e Reaaes que +nelle avia, nom hee de duvidar, que ho Ifante D. Affonso devera sempre +de amar, e obedecer sobre todos a ElRei D. Diniz seu padre, e assi lhe +acatar por aver abençam de Deos, e ha sua, ho que em principio de sua +idade, em seendo Ifante nom se acha seer assi, antes ho contrairo, cuja +verdade, e declaraçam em cazo, que por sua graveza nom seja doce, nem +gracioza couza pera ouvir, porém ha necessidade de sua Estoria, que +escrevo obriga, e constrange ami que ho nom cale, principaalmente por +mostrar, que hos lizongeiros, e maaldizentes antre hos padres, e hos +filhos nunca ajam lugar, nem sejam ouvidos, que se estes nom foram +cridos, nom ouvera tantas cauzas de desavença dantre ElRei, e seu filho, +e assi pera que se saiba quam grande erro hee daar pena, e castigo ha +algumas pessoas por quaalquer maal, que delles seja dicto posto que +traga em si muita cor de verdade, atee elle sem paixaõ nom seer primeiro +sabido, e justificado, e tambem porque nos erros, e graveza, que se vir +nas desobediencias, e desacatamentos que ho Ifante teve ha ElRei seu +padre se vejam, e resprandeçaõ mais craro has boondades, e merecimentos +dos filhos, quando acerqua de seus padres usarem ho contrairo. + +E porque nestas desavenças delRei, e de seu filho ouve, e se passaraõ +muitas, e mui largas couzas, que seriaõ mui longas pera escrever, eu +dellas soomente apurarei brevemente has principaaes, e has que pera esta +Estoria mais necessarias me parecerem. E segundo ho que acho, e pude +comprender, tres rezoens ouve, e todas sem cauza, nem rezaõ, porque ho +Ifante D. Affonso se moveo ha esta sua desobediencia contra seu padre, +das quaaes ha primeira foi em Beja, por sentir que ElRei D. Diniz queria +grande beem ha D. Affonso Sãches, e aho Conde D. Joaõ Affonso seus +filhos naturaaes, hos quaaes segundo se acha nom serviam, nem catavaõ +aho Ifante como elle desejava, e merecia, e deste conto nom era ho Conde +D. Pedro tambem seu irmaão bastardo, e de todos hos bastardos ho mais +velho, porque sempre seguio ha parte do Ifante, e por esso foi ha +requerimento de D. Affonso Sanches desterrado de Portugal pera Castella, +e todas suas teerras, e fazenda tomadas, e depois retornado, como aho +diante se diraa, e ha segunda cauza foi ha grande cobiça, e desordenado +desejo, que sempre teeve de aver, e cobrar pera si has riquezas, e +tezouros delRei seu padre, e ha terceira por querer, que em toda maneira +ElRei deixasse, e tirasse de si ha Justiça, e Governança do Regno, e +livremente ha deixasse ha elle. + +E porém em algumas destas couzas nom avia cauza, nem rezaõ que pera ho +Ifante nom fosse grande erro querellas, e muito mais procurallas, porque +ElRei querer beem ha D. Affonso Sanches, e aho Conde D. Joaõ era grande +rezaõ, e assi por seerem seus filhos, como por hos achar sempre em +todolas couzas mui conformes aa sua vontade, e ha seu serviço mui +obedientes, especialmente que ha afeiçaõ, que ElRei lhes mostrava nom +empedia, nem mingoava ho do Ifanto seu filho, mas como ho amor, e +senhorio sempre querem seer senhores, por esso saõ mui amiude mui cheios +de ciumes, e sospeita, pelo quaal ho beem, que ElRei mostrava ahos +outros seus filhos cauzava na vontade do Ifante mui duvidosa tençaõ, com +que enganandose cuidava, que ElRei ho nom amava tanto, quanto devia, e +por esso por todolas as maneiras, que podia trabalhava, e procurava de +apartar, e desavir estes filhos delRei seu padre, assi como logo fez aho +Conde D. Pedro seu irmaão, que era ho maior dos filhos bastardos, ho +quaal por couzas craras, que lhe fez entender, ho tirou da obbediencia, +e seu serviço delRei que antes andava, e ho recolheo pera si, porque +favorecia sua parte, e dizer, e requerer que ho regimento da Justiça do +Regno devia seer todo do Ifante, aho que ElRei contrariava com muitas +rezoens asaaz justas, por as quaaes aconselhava ho filho, que o taal +requerimento ouvesse por escuzado. + +E porque ho Ifante vio, que ElRei seu padre em nhuma parte destas lhe +nom satisfazia, aconselhado, e induzido falsamente de hum Gomes Lourenço +Vogado de Beja, filho de hum Carpinteiro, que depois foi Freire de +San-Tiago, teve taaes meios, e inteligencias com a Rainha Dona Maria de +Castella sua sogra, que ella enviou pedir ha ElRei D. Diniz, que por +quanto desejava ver muito sua filha, e seu genro, e os Ifantes seus +netos, que jaa tinha, ouvesse por beem que elles ha fossem ver ha +Castella, e porque ElRei por secretos meios que laa trazia soube, e +entendeu craramente, que has taaes vistas naõ eram pera algum beem, nem +asecego seu, e de seu filho antes pera alguma torvaçaõ, e dano dambos, e +do Regno, falou sobresso aho Ifante, e lhe rogou, e encomendou que por +sua bençam escuzasse sua ida, ha quaal fosse certo, que ha elles, nem ha +Portugal nom trazia proveito, antes era fundada, e requerida pera seu +desserviço, e dano da teerra, e que abastava por principaal pera elle +deixar de hir ha Castella, em cazo que outro nom ouvesse dezejar elle, e +querer que nom fosse, ha que elle por aver sua bençaõ devia mais de +obedecer que aa Rainha sua sogra. + +E com tudo esto, e com mais outras alegaçoens, e inconvenientes que +ElRei lhe poz, ho Ifante nom desistio de seu proposito, e sem licença, e +contra vontade delRei foi todavia, e levou ha Castella ha Ifante Dona +Breatiz sua molher, e depois de consultarem em Cidad Rodrigo has couzas +sobre que foram, que todas eraõ contra ho gosto, honra, e serviço +delRei, ho Ifante se tornou ha Portugal, e nom se passaram muitos dias, +que logo nom veio ha ElRei D. Diniz em nome da Rainha Dona Maria sogra +do Ifante, hum Pero Rondel Ouvidor da Justiça em caza delRei D. Fernando +de Castella, e da sua parte, aa sua grande instancia lhe requereo, e +pedio que por algumas cauzas coradas, que apontou desse ho Regimento da +Justiça aho Ifante D. Affonso seu filho. Do quaal requerimento ElRei cõ +grandes estranhamentos se escuzou, maravilhandose muito da boondade, e +prudencia da Rainha requerer taal couza, e taõ contraira ha toda rezaõ, +e onestidade, porque elle quando em cazo de velhice, ou por outro +empedimento que tivera, requerera aho Ifante seu filho pera tomar +semelhante regimento, ainda elle como filho obediente seendo seu pai +vivo, e em booa idade pera reger como era, se devera desso escuzar, +quanto mais querer forçar ho que boom filho nunca fizera, e desta +reposta delRei ha que ho Ifante era prezente, elle como aggravado, e mui +anojado se despedio logo de seu pai, e foi sempre andar apartado delle. + + + + +CAPITULO XIX + +_Das couzas que ho Ifante capitulou pera matar Affonso Sãches seu +irmaão, ou ho desterrar fóra do Regno._ + + +Porque ha maginaçam, e sospeita que o Ifante tinha do beem, que ElRei +queria ha Affonso Sanches seu filho, ho trazia em muita door, e cuidado, +para desto seer livre, elle cõtra ho que ha seu Real sangue, e Estado +devia, fantaziou em sua memoria hum engano com que falsamente, e com +algum achaque ho matasse, ou ElRei ho desterrasse do Regno, e esto fez, +que ho Ifante falou secretamente com hum Pedro Guilhelme, e com outro +Pero Gonçalves, que viviaõ com elle e em que se muito fiava, ahos quaaes +mandou que fossem fóra da teerra, e de lá trouxessem escrituras com +sinaaes, e mostranças de seerem pubricas, e mui autenticas, e +verdadeiras, porque craramente se mostrasse, que elles de mandado do +Ifante foram buscar, e acharaõ homens ha que ho dicto Affonso Sanches +peitara porque trouxessem, e dessem peçonha aho Ifante D. Affonso, de +que logo morresse. E estes passado algum tempo depois, que manhosamente +partiram do Regno, tornaraõ ha elle, e trouxeram aho Ifante, que estava +em Coimbra estromentos pubricos escritos em Castelhano, que perante hos +Juizes da Cidade, foram logo pubricados, e tomados delles autorizados +trelados, cuja sustancia era. + +«Que ahos trinta e hum dias do mez de Novembro da era de mil trezentos +cincoenta e sete annos, ante ha porta de Sancta Maria de Magazella, +presente Johaõ Pires, que aquelle anno fora Algoazil, e Diogo Dias, e +Vasco Fernandes Alcaides, e Johaõ Preto, Tabaliam do Lugar, nove +vaqueiros que vinhaõ por si nomeados, com outros vaqueiros de Ruy +Sanches Davilla, trouxeram prezos aho dicto Lugar de Magazela cinco +homens do Senhorio de Portugal, antre hos quaaes vinha hum acavallo, que +parecia de rezão, e boom entendeer, e que hos dictos vaqueiros disseram, +que no Lugar que dizem Aguama termo da Magazela, aquelle homem de +cavallo com outros traziam prezo outro homem Portuguez, que tinha feiçaõ +Descudeiro, ho quaal bradando dizia, homens do Senhorio de Castella +acorreime, que Portuguezes me levam prezo pera em sua teerra me matarem, +e que ha estes brados hos dictos vaqueiros acodiraõ, e querendo livrar +ho prezo Portuguez daquelles Portuguezes que ho traziam, que o dicto +homem de cavallo dicera apressadamente ahos seus de pee: «Matai este +tredor porque nom fique com vida.» E que hum delles lhe dera huma +lançada por hum braço, e que o de cavallo sobresso lhe arremessara ha +lança que trazia, e ho atrevessara por detraaz atee hos peitos, e que os +vaqueiros vendolhe fazer taal crime lançaram maão logo de quatro homens +seus, e que ho de cavallo querendolhos tirar, e defender, hum dos +vaqueiros arrancou hum dardo, e ho ferio, e ho Escudeiro quando vira hos +seus homens prezos, dicera ahos vaqueiros, que nom tinham rezaõ de +prenderem, nem fazerem maal ha elle, nem ahos seus, pois nom fizeraõ +mais maal, que matar seu imigo, e que pera verem que elle demandava +rezaõ, que ho deixassem, e que elle era contente de ir ha cavallo +perante os Juizes de Maguazela, e que elles depois de ho ouvirem +mandariam ho que fosse justiça. + +E que ante de irem pera ho dicto Lugar, que ho Cavalleiro rogou ahos +vaqueiros, que pera certidão do que dizia, chegassem aaquelle lugar onde +jazia ho ferido Portuguez, hos quaaes chegando ha elle ho Cavalleiro +dicera aho ferido. «Amigo eu saão Pero Gonsalves, Escrivão do Ifante D. +Affonso de Portugal, e voos sabeis beem ha maaldade, e treição que +tendes feita, com Garcia Dalmuche, que eu fiz matar nas manchas Daragam +por ambos buscardes, e ordenardes peçonha pera mataarem ho Ifante meu +senhor, e agora lembrevos, que estais em tempo da rependimento, e de +dizerdes ha verdade, por nom perderdes ha alma, pois jaa perdestes o +corpo.» E que ho ferido respondera, que tudo era verdade, e que por esto +elle tinha tratado, e buscado contra ho Ifante aquelles Portuguezes que +ho traziaõ prezo, ho quaal logo falecera, e que sobre esto em chegando +ahos Alguazis do lugar, ho dicto Pero Gonsalves mostrara huma carta +aberta patente do Ifante, porque geraalmente fazia sabeer, que elle +enviava ho dicto Pero Gonsalves contra alguns que procuravam de fazer +maaos feitos contra elle, e que porem ho encomendava aas Justiças dos +Lugares pera que lhe dessem ha ajuda, e favor, que elle requeresse, e +aalem desto, que ho dicto Pero Gonsalves requeria mais ahos dictos +Juizes, que perguntassem hos vaqueiros aacerqua do que ho Escudeiro +morto em morrendo confeçara, hos quaaes diceram todo ho que atraaz hee +escrito, e mais que ho dicto ferido em querendo morrer dicera. + +Eu naci em na maa hora antre todolos homens da teerra, de que saõ +naturaal, e assi aquelle por cujo concelho esto fiz, porque certo hee +que Garcia Dalmuche, e eu com outros buscamos, e compuzemos peçonha pera +matar ho Ifante, mas quiz ha sua booa ventura, que por ella se nom obrou +couza, que lhe danasse. E com tudo diceram, que ho Ifante se guardasse, +e que perguntado ho ferido pelo nome daquelle do sangue do Infante por +cujo concelho, e mandado esta peçonha se ordenava, que elle respondera, +que pera que era perguntar ho que todo ho mundo sabia, e que mais nom +deria, e com esto pedira confissam, e em lhe tirando ha lança, que tinha +atravessada logo morrera, pelo quaal hos dictos Alguoazis, e Alcaide, +visto esto mandaram que ho dicto Pero Gonsalves, e hos seus se fossem em +booa ora, e livres, e lhe mandaram daar hos estromentos pubricos, com +muitas testemunhas, que sobre esto pediram.» + +E depois que estes estromentos em Coimbra se pubricaraõ, de que todos +foraõ hi espantados, ho Ifante mandou mostrar ho treslado delles ha seu +padre, por Nuno Martins Barreto, e por Ruy Garcia do Cazal, e pedir-lhe +que logo desse ha Affonso Sanches ha emenda, e castigo, que em tam feio +cazo merecia. Do que ElRei foi asaaz maravilhado, e posto em mui tristes +pensamentos, ainda que logo conheceo, que tudo eram manhozas envençoens, +e maal compostas, e ahos messageiros do cazo, respondeu por maneira, que +foraõ elles contentes, e sobresto ElRei enviou logo aho Ifante, Fernam +Rodrigues Bugalho, e Lopo Esteves Dalvarengua, pessoas de que fiava, +pelos quaaes lhe enviou certificar ho nojo, e tristeza que do cazo +passado tinha recebido, ho quaal era de calidade, que fazendose contra +ho mais pequeno vassallo seu, elle ho estranharia, e puniria mui +gravemente, quanto mais contra elle seu filho, que elle amava de +coração, e suas couzas assi lhe doiam, e tocavam como se fossem feitas, +e ordenadas contra sua Reaal pessoa, e que fosse certo, que quaalquer +seu irmaão lidimo, se ho tivera, que contra elle fizesse semelhante +treiçam, que seem nhuma piedade lhe mandaria tirar ho coraçaõ pelas +espadoas, como aho mais vil homem de sua teerra, e que porem ElRei lhe +rogava, que hos proprios originaes de que vira hos treslados lhe +quizesse mandar, que logo lhos tornaria, e porque por elles se queria +beem informar pera sabeer ha verdade donde tanto maal nacera, e quaaes +eraõ hos participantes nelle, pera tudo emmendar, e castigar com penas, +e rigores que elle viria. + +Aho que ho Ifante respondeo, que se maravilhava muito delRei seu padre, +hum feito tam craro, e de taal importancia querelo poor em vagarias, nas +quaaes elle nom queria poor seu corpo, vida, e honra, porque se ElRei +tivesse vontade de ho estranhar, e punir como lhe enviava dizer asaaz +provado estava ho erro pera na exequçaõ delle nom procederem +interlucutorias nem tantas delongas, e que jaa em cazos, que menos +relevavaõ, e comprova que nom era tam abastante, mas por soo prosunçam +lhe vira proceder contra muitos, e punillos, e que assi ho devia fazer +neste cazo, e que hos originaes por seerem escritos em papel, e por se +nom perderem tinha mui beem guardados antre duas tavoas, e que ha ElRei +hos mostraria quando fosse necessario, e que porém, que sobresso mais se +avia de fazer com mostranças da meaça. + + + + +CAPITULO XX + +_Da diligencia que ElRei fez pera saber ha verdade dos estromentos de +Maguazella._ + + +Com esta reposta do Ifante em que pareceo que elle se cerrava pera +prefeitamente se nom saber ha verdade do cazo, que desejava, ElRei pera +tirar de si sospeiçoens, e escrupulos da vontade, antes de tudo ouve por +beem denviar, como enviou, por messageiro avizado com sua carta de rogo +ahos do Concelho de Maguazella, encomendandolhes, que do cazo que nos +estromemos era particularmente apontado, lhe mandassem dizer ha verdade, +e que viesse por todos beem autorizada, hos quaaes juntos todos em seu +consistorio maravilhados primeiramente de taal novidade, responderamlhe +sustancialmente, que todalas couzas conteudas nos dictos estromentos nem +soomente huma nom fora, nem era verdade, porque naquella Villa nom avia, +nem nunca ouvera taaes homens, que fossem justiças, nem Tabalians, nem +taaes vaqueiros, nem memoria de taal feito, como aquelle acontecesse em +Maguazella, nem em seu termo, nem em toda aquella Comarqua, sobre que +fizeram grandes deligencias de que enviaram ha ElRei D. Diniz suas +certidoens asinadas por todos, e aseladas com ho selo do Concelho. + +E com esta reposta de Maguazella, em ha falcidade foi ho Ifante beem +compreendido, e ElRei foi muito maravilhado, e recebeo grande nojo, que +lhe pareceram começos, e fundamentos que ho Ifante lançava, e fazia pera +descobertamente lhe desobedecer, e ho desservir, e pera alguma +temperança, e resguardo desto ElRei fez ajuntar em sua Camara ha D. +Johaõ Mendes de Briteiros, e Martim Affonso de Souza, e Gonçalo Anes de +Berredo, seus sobrinhos, e D. Pedro Estaço Mestre de San-Tiago, e D. Gil +Martins Mestre de Christo, e D. Vasquo Mestre Daviz, e Vasquo Pereira, e +Vasquo Martins de Rezende, e outras pessoas nobres de sua Corte, e em +Concelho, e perante elles todos fez leer ha carta, e titolo que hos de +Maguazella lhe enviaram, e acabada de leer, ElRei perante todos logo +dice. + +«Certo hee, que ha alguns pareceraa esta minha fala escuzada, pois ha +faço com paixam, que nom posso dizer has muitas mercees, e grandes +beneficios que tenho feitos aho Ifante meu filho, que apoz elles nom +diga hos erros, e desobediencias, e desagradecimentos, que contra mi +teem cometidos, e cada dia comete, e porém ha door, que tenho em minha +alma, e ha sanha que encende ho meu coraçam, são tamanhas, que me forçam +meu proprio sizo, pera que has nom possa encobrir, e dellas me fazem que +vos diga algumas, aho menos pera saberdes minha fortuna, e minha +desculpa, e sobresso procurardes, e dardes ha esto algum remedio, e +concelho pois eu jaa nom sei, nem posso. + +Beem sabeis todos, quam honradamente, e com quanta prosperidade sempre +criei ho Ifante, e quanto de coraçam sempre ho amei, e por este grande +amor, que lhe tinha nom seendo inda em idade de seis annos, lhe dei caza +apartada com muita teerra, e grande contia, e com boons e honrados +vassalos, ho que hos Rex de Portugal meus antecessores, ha seus filhos +erdeiros de tam pouca idade nunqua costumaram fazer, porque cazados, e +em moores idades sempre andavam com seus padres em sua caza, atee que +lhe apartavam has suas sem teerem vassalos, nem servidores proprios, e +pera prova desto sabeis, que como quer que ElRei D. Affonso meu avoo, +filho delRei D. Sancho sendo Ifante, fosse cazado com ha Ifante Dona +Orraqua, e tivesse filhos, sempre porém andou em caza delRei seu padre, +e se ElRei D. Affonso Conde de Bolonha ho fez ha mi, foi em tempo que eu +avia jaa dezoito annos, e avia catorze que elle jazia em cama seem se +poder soster e alevantar, de maneira que depois, que me apartou caza, e +asinou teerra nom viveo mais que dezanove mezes, e quantos trabalhos, +perigos, e despezas, eu com muitos de minha caza, e teerra passei, por +se fazer seu cazamento com ha Ifante Dona Breatis sua molher, vós todos +ho sabeis pois tambeem ho passastes comigo e ho conhecimento, que elle +desto teem, e ho galardam que por esso me daa, sam nojos, e +desobediencias que andando em minha caza, e fóra della sempre me fez, e +que todas aqui nom diga algumas por minha satisfaçam seraa forçado, que +ha aponte. + +Primeiramente despedindose de mi, e de meu serviço ho Conde D. Martim +Gil pela contenda, que antre elle e Martim Sanches meu filho avia sobre +partilha derança, por seerem ambos cazados com duas irmãas posto, que eu +soubesse que o dicto meu filho fora maltratado, e deserdado contra +direito, eu fui favoravel aho dicto Conde, por amor do Ifante meu filho +por seer seu, aacusta do muito dinheiro meu que por composiçam, que dei +ao dicto Affonso Sanches, hos concordei, e seendo ho Conde meu vassallo, +e meu Alferes moor, e Mordomo do Ifante, que eram officios pera me teer +muito em mercee, e avia por ello obrigaçam pera me lealmente sempre +servir, elle antes, que se de mi espidisse, errando nesso ha lei de +nobreza, e fidalguia, que como nobre devera guardar, se foi fazer +vassallo delRei de Castella, e lhe fez preito, e menagem contra mi +sopena de tredor, que toda sua vida ho servisse contra mi, quando elle +mandasse, convocando pera si alguns homens honrados do meu Regno, pera +que fossem contra meu serviço. + +E como quer, que ho Ifante desto fosse beem sabedor, nom estimou o +grande dano, desserviço, e deshonra, que se desso podia seguir ha mi, +que sam seu pai, e aa Coroa de meu Regno de que hee successor, mas antes +por estos erros ho ama, e estima, e fia mais delle do que antes fazia, e +ihe escreve cartas de grande favor, e lhe faas mercees como se ha mi, e +ha elle has merecesse, ha quaal couza nom sei ha quem nom pareça muito +estranha se nom ha elle, que sendo meu filho, e vassallo, e ha quem meus +Regnos pertencem de direito ho aa por beem sem teer lembrança destas +obrigaçoens polas quaaes de razam naturaal, e divina, devia querer maal, +e desamar muito ha quem cõtra miuza de tanta treiçam. Tambem sabeis, que +estando Affonso Sanches meu filho, concertado com Dona Isabel sobre +escaibo de Medelim por Aguiar, e seendo dia antre elles certo, e asinado +pera ho dicto concerto se fazer sopena de dous mil marquos de prata, e +indo ha esso ho dicto Affonso Sanches por meu mandado, e consentimento +ho Ifante saio ha elle com voos, e tençaõ de ho matar, posto que Ihe eu +mandasse dizer por Johaõ Rodrigues de Vasconcellos, que o nom +perseguisse, e ho deixasse, que hia por meu mandado, elle ho nom quiz +fazer, e me mandou dizer, que ho que começar a havia de acabar, aho que +eu por evitar tamanho maal como se aparelhava, aahi fóra em pessoa, e +voos comigo, e porém nom se pacificou ho cazo seem ho dano que vistes. + +E outro si Vasquo Paaes Dazevedo, que em Castella contra mi, e meu +serviço dice algumas couzas, que nom devia, querendose dellas alimpar +perante mi, poz ha culpa de maao ha Martim Reimondo, e porque Affonso +Martins Reimondo seu sobrinho, que era presente lhe dice que lhe poeria +de praça has maãos, e ho corpo, por prova que seu tio nunqua taal +dicera, e que lhe faria confessar, que nom dizia verdade, ho Ifante +tomou a parte de Vasquo Paaes, e falou por elle palavras descompostas, e +por Affonso Martins querer alimpar, e escuzar seu tio, hos do Ifante ho +quizeraõ logo matar, e perante mi seem acatamento de minha pessoa ho +fizeraõ, seem meu filho tornar a esso, como devera, consentindo em +tamanha injuria, como ha mi era feita. E sabeis mais, que dous sabrinhos +do Bispo de Lixboa confiando, e esforçandose como nom deviam, que pela +parte que de mi dava, e booa vontade que tinha ha seu tio, poderiam por +favor escapar de quaalquer crime, e maleficio que cometessem, e +fizessem, elles sobre segurança mataram pubricamente no meio do dia, e +da Cidade hum filho do nobre homem, e boom Cavalleiro Estevam Esteves, e +por ha fieldade, e graveza do cazo seer taal hos mandei logo prender, e +fazer pubricamente justiça, e de todos aquelles que foram em su ajuda, e +por esso ho dicto Bispo com meu desamor, porque eu quiz fazer justiça, +se foi ha Roma onde por todalas maneiras que pode procurou ho meu nojo, +e desserviço do quaal ho Ifante perdeo toda suspeita, e ho teem por +boom, e leaal servidor, e fia delle, e lhe faaz honra, e mercee, e ha +todolos seus, sabeendo notoriamente que nisso me desserve, e anoja. + +E além destas couzas que dice, outras mais desta calidade teem ho Ifante +contra mi feitas, que atee qui soportei, esperando que com crecimeto dos +dias, e da honra, e estado que tinha se temperasse, e emendasse, porque +com ha emenda desso, que em si fizesse refreasse ha mi que nom dicesse +maal de pessoa de meu sangue, especiaalmente delle, que depois de minha +morte aa esta teerra de soceder em meu lugar: mas porque vejo que elle +cada dia, tira ho beem do beem, e acrecenta maal ha maal, ho descubro ha +voos outros pera que nesso me deis concelho com remedio». + +Aho que cada hum dos Senhores, que eram prezentes, responderaõ com ha +door, e tristeza que por esso tinha, e pera booa paaz, e concordia antre +ElRei e ho Ifante, deram seu voto, e offereceram suas forças, e booa +vontaade. Mas ho Ifante veendo que has couzas passadas pera morte, ou +desterro de Affonso Sanches seu irmaão, nom tinham socedido aa sua +vontade pera esprimentar se com ho poovo do Regno ho podia fazer, +ordenou estando elle em Coimbra, e assi em Santarem onde ElRei era, que +se dicesse como por muitos dos seus pubricamente se dizia, que ElRei com +asinados, e selos seus, e de trinta, e duas Cidades, e Villas +principaaes de seus Regnos, enviara cartas de certidaõ aho Papa porque +lhe certificava, que ho Ifante D. Affonso por falecimento de sizo +naturaal, e por outros grandes defeitos que tinha, nom era auto pera +seer Rei, porque como parvo, e desmemoriado andava tirando, e comendo +has aranhas das paredes, e que por esso pedia ha Sua Santidade por +merecee, que lhe tirasse a socessaõ, e abilitasse ho dicto Affonso +Sanches pera depois de sua morte Regnar, porque pera taal socessaõ era +mui pertencente, e que elle das rendas do Regno mantivesse ho Ifante seu +irmaão em sua vida. + +Das quaaes couzas sendo ElRei D. Diniz certificado, recebeo por ello +grande pezar, e muito sentimento, e enviou logo Lourence Anes Redondo, e +Pero Esteves seus vassallos aho Ifante, ha que diceram todo o passado, +que os seus diziam, e ho nojo em que por esse ElRei estava, por +difamarem seem cauza de sua boondade, e conciencia, e da lealdade, e +boom nome das Cidades, e naturaaes de seus Regnos, e ho que desto mais +sentia assi era que ho Ifante sabeendo que estas falcidades assi se +diziam, nom has extranhar, e castigar com grandes penas, e muita +aspereza, como taal cazo requeria, por onde parecia, que ellas naciam de +toda sua vontade, e consentimento, mas que pera todos sabeerem +craramente desso ha verdade, e que nunqua taal malicia, e treiçaõ por +elle, nem pelos seus fora, nem soomente cuidada, que elle daria por esso +taaes penas por dezafio, e reto posessem hos corpos, e has vidas, +aaquelles que esto diziam, e asacavam, e que por suas bocas lhe fariam +confessar que eram mui falsos, e tredores, e que pera mais abastança, e +moor comprimento elle escrevera logo aho Papa em quem nom avia paixam +dodio, temor, nem afeiçaõ, pera que por suas Bullas, e letras patentes, +e com outorgua, e aprovaçam dos Cardeaes, enviassem desto testimunho, e +dizer ha verdade. E esto passou na era de mil trezentos e vinte annos. +Mas ho Ifante respondeo que taaes couzas nunqua ouvira, nem sabia dellas +parte, e porém ElRei notificou tudo aas Cidades, e Villas de seus +Regnos, que sobre esto enviaram logo pubricos estromentos de muita +lealdade, afirmando cada hum que combateriam em campo ha quaaesquer que +contra ElRei, e seu Regno taaes treições, e falcidades asacassem, porque +nunqua passaraõ assi, nem elles por sua lealdade has consentiriam. + + + + +CAPITULO XXI + +_Dalgumas couzas mais, que ho Ifante fez contra vontade, e serviço +DelRei seu padre._ + + +Como ho Ifante andava posto em desobediencia, e com pouquo acatamento +delRei, nom olhava has couzas de seu serviço, e da justiça com aquelle +resguardo, que devia, pelo quaal ElRei era posto em grande cuidado, e +muita pena, porque ho Ifante pera mais danamento de sua boondade +soltamente trazia, e acolhia em sua casa muitos maalfeitores obrigados +grandemente por seus crimes aa justiça, com que hos do Ifante tomavam +grande ouzadia de fazerem ho maal que queriam, porque nom receavam pena, +nem castigo dos maales que fizessem, nem ElRei podia delles tomar ha +emenda, que mereciam, e antre estes era hum Estevão Gonçalves Leitaõ, +vassallo do Ifante, e outro seu irmãao, e com outro em sua companhia, +partiram de caza do Ifante seendo elle aallem do Douro, e foram teer oo +caminho ha Estevaõ Fernandes Cavalleiro, e vassallo delRei, e ha Gonçalo +Fernandes, vassallo de Fernaõ Sanches, e seem cauza ha ambos hos +mataram, e acolheraõ-se aa caza do Ifante, que hos nom quiz entregar ha +ElRei, que com grande instancia lhos mandou pedir pera delles fazer +justiça. Outro si, hum Paio de Meira, e Johaõ Coelho vassallos do +Ifante, hum de huma parte, e outro de outra, sem algum temor delRei, e +de suas justiças, fizeram de Cavalleiros, e de outras muitas gentes, hum +grande ajuntamento, e ambos ouveraõ peleja em que morreram muitos, antre +hos quaaes foi Lopo Gomes Dabreu, que era hum dos melhores Cavalleiros, +que avia em sua linhagem. + +Pelo quaal insulto, ElRei por seu meirinho hos mandou desterrar fóra do +Regno, e elles foraõse logo pera Castella, mas dahi a pouquos dias se +tornaram pera caza do Ifante, em que acharaõ boom acolhemento, e muita +mercee. Outro si, hum Xeres Portel vivendo com o Ifante, com outro foi +roubar ho Moesteiro do Marmellar de quanto tinha, e elles, e hos seus +por força se lançaram aas molheres cazadas, e virgens, que acharam pela +teerra, e quizeram matar ho Comendador do dicto Lugar se nom se +escondera, e cheios de roubos, e de maleficios se foram pera casa do +Ifante que hos emparou, e favoreceo. E assi depois Affonso Novaes, e Mem +Martins Barreto, vassallos do Ifante, e seus moradores partiram de sua +caza, e com homens de cavallo, e de pee armados, foram sem cauza matar +D. Giraldo Bispo Devora, que era do Concelho delRei, e vivia com elle, e +tambeem muitos homiziados, e maal feitores, que por seus homizidios, e +fugidas de cadeas, e delitos andavam fóra do Regno, vinhaõse soltamente +pera caza do Ifante de quem recebiam emparo, e merecee, hos quaaes em +grande numero ali asinou, e hos cazos porque eram obrigados aa justiça, +cuja mais particular declaraçam nom hee aqui necessaria. + +E posto que ElRei por muitas vezes, e por muitos com cauzas evidentes +enviasse rogar, e mandasse estreitamente aho Ifante, que lançasse de sua +casa hos taaes homens maalfeitores, e que dali em diante nom acolhesse +outros semelhantes, elle ho nom queria fazer, antes insistia, e faria +tudo contra vontade delRei, pela notificaçam, que ElRei fez aho Papa +Johaõ XXII das desobediencias, e pouquo acatamento de que ho Ifante +aacerqua delle uzava. E assi do que neste Regno falsamente se dizia, que +ElRei asaquando defeitos do dicto Ifante lhe suplicara pela legitimaçam +do dicto Affonso Sanches pera Regnar, e Sua Santidade em reposta desto +enviou ha ElRei D. Diniz pera si, e assi a todolos Estados de seus +Regnos, suas Bullas patentes, em que cõ palavras de padre boom, e +piedozo se doe, e maravilha da discordia antre o pai, e ho filho, e assi +afirma, e daa testemunho da verdade, que aquellas difamaçoens, elle como +Vigairo indinho de Christo, que do Ceo decendeo por dar testemunho da +verdade, afirmava seerem falsas, e que em seu tempo taaes requerimentos, +e suplicaçoens nunqua lhe foram feitos, nem has provizoens de taal couza +nom se concedaram, nem passaram em seu tempo, nem dos Papas Clemente V e +Benito XI seus Predecessores, cujos registros pera moor justificaçam +desto mandara com deligencia buscar, e porèm que ha todos por muitas, e +booas cauzas, que apontou, encomendava que por serviço de Deos, e por +boom asecego do Regno procurassem antre todos paaz, e amizade, e +concordia, como era rezaõ, ha quaal Bulla ElRei por sua limpeza mandou +mostrar aho Ifante, e assi publicar em sua caza, e por todolos Lugares +principaaes do Regno, ha que hos poovos respondiam conformes aa verdade, +de que se tiraram estormentos pera limpeza delRei, e do Regno. + + + + +CAPITULO XXII + +_Como o Ifante se partio de Coimbra pera Lixboa, e do que lhe aconteceo +com ElRei no caminho._ + + +E estas Bullas autentiquas, que ho Papa enviou por certeza que has +sospeitas do Ifante contra ElRei, e contra Affonso Sanches, nom eram +verdadeiras, nom asocegaram ha vontade do Ifante pera deixar de ter +odio, e desamor aho dicto Affonso Sanches, porque quando ho defamava, e +queria matar, e desterrar, beem sabia que has cauzas, que contra elle +punha, todas eram fingidas; nem abrandou de sua dureza pera com hos +rogos do Papa seer obediente ha ElRei seu padre, como por Prégadores, e +grandes homens em pubriquo, e em secreto lhe era dicto, antes continuava +no que tinha começado, pelo quaal deixando ha Ifante sua molher em +Coimbra, e com ella ho Conde D. Pedro seu irmaão, partio da i, e levando +cõsiguo hos maalfeitores, e degradados, e outra gente armada, foi +caminho de Leiria com fama de ir ha Lixboa em romaria a S. Vicente, mas +ha verdadeira tençam de sua ida, era pera tomar, e teer Lixboa contra +ElRei seu padre, e ElRei estando em Santarem, e seendo certifiquado da +maneira em que ho Ifante ia, ouve taal atrevimento por grande seu +desprezo, ca parecia nom aver algum temor, nem vergonha delle, nem de +sua justiça, especiaalmente pelo Ifante vir com tantos omiziados tam +junto delle, e como quer que ho seu primeiro movimento foi acodir logo +ha esso com mais trigança, e moor aspereza, porém ouve por beem +enviar-lhe primeiro dizer por Pero Esteves, e Gomes Anes seus vassallos, +que lhe rogava lançasse fóra de sua companhia hos maalfeitores que +levava, porque com elles mais parecia ir fazer almogavaria em teerra de +imigos, que comprir com devaçaõ sua romaria em sua teerra propria. + +Aho que ho Ifante nom quiz satisfazer, e neste cazo estes mesageiros +levaraõ provizoens porque em nome delRei ouveraõ hos dictos maalfeitores +por degradados fóra do Regno, ho que com favor do Ifante nunqua quizeraõ +fazer, e ha cazo ElRei por este cazo em muita sanha, moveo logo contra +Lixboa, e ha Rainha Dona Isabel sua molher com elle, e indo jaa ho +Ifante diante, em chegando ElRei aho Lumiar, que he huma legoa de +Lixboa, soube que ho Ifante seendo avizado da ira delRei, com seu medo +se partira pera ha Villa de Cintra, e ElRei dice contra hos seus. +«Pareceme que ho Ifante meu filho, sabeendo quanto me anojava por elle +trazer estes omiziados afastado oito legoas, que agora por me mais +desprazer, e menos acatar se foi com elles, e hos tem comsigo nom mais +de quatro, e porque são maales, que pera Deos, e pera ho mundo jaa se +nom podem sofrer hee beem, que pera mais nom creccerem, vamos logo +sobrestes homens, que saõ cauza desto, e trabalhemos polos aver». + +Pelo quaal ElRei mandou logo fazer prestes sua gente, que muito ante +manhaã armados partiram, e foram contra ho lugar onde estava ho Ifante, +e dice, que ElRei ordenou esto seer feito mui cedo, e secretamente, +porque ha Rainha ho nom soubesse, e da sua ida nom avizasse ho Ifante. +Mas ha Rainha maravilhada por sentir no Lugar tanta revolta, e veer +tanta trigança, e rumores daparelhos darmas, e cavallos, como soube que +era contra ho Ifante seu filho, foi posta em muita angustia por taal, +que nom sabia que remedio pozesse, e porém se diz, que tantos homens +mandou aho Ifante, e pera tantos Lugares, e com taal pressa que ante +delRei chegar ha Cintra elle era jaa avizado de sua ida. E em tanto ha +Rainha se socorria ha Deos, ha que em Missas, e orações com muitas +lagrimas pedia guardasse ho Ifante da ira delRei seu padre, e por beem +de todos hos pozesse em paaz, e amor. + +E como ElRei chegou ha Cintra onde era ho Ifante, elle como vio seu +pendão, e suas gentes, armouse logo, e mandou armar hos seus, e +pozeraõse contra ElRei em dous lugares com mostrança daspera peleja, ha +quaal nom ouve, porque ho Ifante, e hos seus por quaalquer cauza, que +fosse partiraõ dali, e nom esperaraõ ha ElRei. E esta se acha, que foi a +primeira vez, que ho Ifante se armou contra ElRei seu padre pera com +elle pelejar em cazo, que nom pelejasse. ElRei tomou por satisfaçaõ, +partirse ho Ifante, e pera ho seguir nom deu lugar ha grande sanha, que +contra elle tinha. ElRei partiose tambem de Cintra, e em chegando aa +Aldea de Bemfiqua, soube que ho Ifante estava da i huma legoa em huma +Aldea, que dizem Alvogas, de que ElRei foi muito mais anojado, porque +lhe pareceo que ha soberba do Ifante, e seu desprezo contra elle, ia +cada vez em maior crecimento, pelo quaal ElRei determinou de ir sobre ho +Ifante ho quaal porque desta determinação foi logo avizado, tambem com +hos seus maalfeitores, e com outras gentes com maao concelho esforçado, +asentou logo em sua vontade esperar ElRei, e dar-lhe batalha, como se +fora a hum imigo estranho. + +ElRei como soube ha maneira em que ho Ifante estava lhe mandou dizer: +«Que pois ho diabo cujas carreiras elle seguia, ho punha em taal +determinaçaõ contra elle, que era seu pai, e seu senhor, que esso nom +era salvo pera lhe dar ho castigo, que por seus grandes erros merecia, e +que por esso esperasse, e nom fogisse». Pelo quaal ho Ifante vendo, que +por forças, e por rezaõ tinha contra ElRei, seu partido mais fraco, nom +esperou El-Rei, e se tornou pera Coimbra, e ElRei ha Bemfica, e da i ha +Santarem, e nom seem muitas lamentaçoens, e grandes maravilhas por ver +seu filho tam seem razaõ contra si, seem nunqua querer amançar. + + + + +CAPITULO XXIII + +_Como ho Ifante levou ha molher, e hos filhos ha Castella, e hos +Lugares, que tomou ha ElRei seu padre._ + + +Como ho Ifante foi em Coimbra, logo levou sua molher, e filhos a +Alcanizes, que hee em Castella, ho quaal tinha hum Fernam Martins +Dafoncequa, e ali ha deixou acompanhada dalguns Escudeiros, e se tornou +pera Coimbra, onde por suas cartas cheias de piedades, e palavras, +promessas, e necessidades, que apontou logo fez chamamento de todos seus +vassallos, e servidores dizendo, que o socorressem, porque ElRei queria +vir sobrelle, e destroilo, ou matalo, sem causa. E ElRei que estava em +Santarem quando soube ha mudança, que seu filho fizera da molher, e dos +filhos pera Castella, e percebia seem cauza tantas gentes, era por esso +cada vez mais anojado, porque como prudente sabia, que nom podia delle +tomar vingança, que pera todos nom fosse mui periguoza, e porém +pareceolhe que hos taaes ajuntamentos nom eram se nom pera ho Ifante vir +sobre elle incitado de algum espirito diabolico ho tentar pera batalha, +maravilhado de ho Ifante jaa nom cançar de seus odios, e perseguiçoens. + +Ha esto proveo, e atalhou com cartas geraaes, que logo enviou ha todalas +Cidades, e Villas do Regno encomendandolhes, que se nom enganassem das +palavras coradas, que ho Ifante mandava semear, com que hos enganasse, e +desviasse de seu serviço, porque hos afagos, e promessas, que em suas +cartas aas gentes fazia nom era pera com elles conquistar, nem guerrear +se nom ha elle seu padre, e com esto mandou ElRei geraalmente pubriquar +por tredores todos aquelles, que pera taal ajuntamento mais acodisseem +aho Ifante, nem com elle andassem, ainda que fossem proprios seus +vassallos, contra hos quaaes assi asperamente procederia, como contra +aquelles, que cometessem treiçaõ contra ha Reaal pessoa de seu Rei e +Senhor, e que da i por diante mandava ha todos seus Alcaides, e +justiças, e ha todolos outros seus naturaaes que ha todos estes que +desobedecessem seu mandado, matassem sem receo dalguma pena, que por +esso ouvessem, e assi mandou, e defendeo que nom acolhessem ho Ifante, +nem os seus nas Villas, e Castellos, nem lhes dessem mantimentos, nem +outra couza alguma, antes assi ho esquivassem, e fizessem contra elles, +como contra imigos delRei, e de seus Regnos, e desto se passaram muitas +provizões, e cartas que foraõ enviadas, e pubriquadas por todo ho Regno. + +Mas ho Ifante nos Lugares onde se achava nom consentia daremse taaes +cartas, nem serem feitas suas pubriquaçoens, nem obedecer ha couza que +ElRei mandasse. E andando has couzas neste danamento, ElRei apartou de +si ha Rainha, e ha mandou Alanquer, com fundamento de fazer seus +negocios secretamente seem ho saber ha Rainha sua molher, de quem +prezomia, que ho Ifante era logo avizado, e logo foi certifiquado, que +hos da Villa de Leiria, deram nella entrada aho Ifante, e que tinha jaa +ho Castello, e irado ElRei por este feito moveo, logo contra Leiria com +tenção de queimar, e destroir todos aquelles, que foram em consentimento +da entrada do Ifante, porque ha pena destes fosse ahos outros exemplo, e +quando chegou ha Alcobaça jaa i achou muitos moradores de Leiria, que +com medo de sua ira ali se acoutavaõ, como ha Caza sagrada, que lhes +podia valer, hos quaaes posposto todo acatamento Daltares, e das +sepulturas dos Rex seus avoos, ha que se abraçavam, mandou ElRei logo +tirar, e estando pera irozamente delles mandar fazer crua justiça lhe +chegou recado, que ho Ifante por força entrara ho alcacer de Santarem, +ha que ElRei com grande pressa logo acodio e ho Ifante receozo delRei, e +de sua ira, e poder que trazia, deixou ha Santarem, e se foi ha Torres +Novas, onde se diz, que foi ho enterramento de Affonso Vaas Pemintel, +que era seu Cavalleiro, ha que queria grande beem. + +E tanto que ElRei chegou ha Santarem, logo mandou ha Lourence Anes +Redondo, que jaa estava no alcacer de Leiria, que logo dece passe, e +matasse todos aquelles que deraõ entrada da Villa aho Ifante, em +comprimento do quaal, decepou, e queimou nove homens dos melhores, e +mais principaaes da Villa. ElRei mandou tornar aho Moesteiro Dalcobaça +hos prezos, que da i levara pera justiçar, que depois de sua ira seer +temperada, ouve por beem que lhes valesse ha Egreja, e mais Alcobaça, em +que tinha singular devação. Ho Ifante nom menos perseguido, que +desobediente, e contumaas partio de Torres Novas, e chegou ha Thomar, +onde pera si, nem pera hos seus, e suas bestas nom achou algum genero de +mantimentos, nem forragem, porque atee hos moinhos, e acenhas achou de +suas ferramentas, e engenhos, de todo desconcertados, por taal que nom +podessem moer mantimentos pera ho Ifante, e com esto elle se foi aho +Castello da Villa, e seem ho poder tomar tomou por força todolos +mantimentos, que nella achou, e da i se foi pera Coimbra. + +Da quaal se apoderou, e tomou ho Castello ho derradeiro dia de Dezembro +de mil trezentos e vinte hum annos, (1321) e logo da i tomou ho Castello +de Monte moor ho Velho, donde mandou dizer aho Conde D. Pedro seu +irmaão, que andava em Castella desterrado, que se viesse aa Cidade do +Porto, porque elle hia pera laa, e no caminho tomou ho Ifante ho +Castello da Feira, que hee em teerra de Sancta Maria, de que era Alcaide +por ElRei Gonçalo Rodrigues de Macedo e da i foi tomar ho Castello de +Guaia, do quaal e assi do outro de Monte moor que jaa fora tomado, era +Alcaide por ElRei Gonçalo Pires Ribeiro, e da i se foi aho Porto, e ho +tomou, e ali chegou o Conde D. Pedro, que sempre andou em sua companhia, +e da i se foi aa Villa de Guimaraens esforçado de hum Martim Anes de +Briteiros, que fez crer aho Ifante que por inteligencias, que tinha +dentro na Villa, lhe faria entregar, mas ho Ifante chegou ha ella, achou +defensor dentro Mem Rodrigues de Vasconcelos, que era nobre homem, e +boom Cavalleiro, e com elle boons Escudeiros, e outra gente da Villa, e +com quanto foi pelo Ifante grandemente requerido com dadivas, e mercees, +e ameaçado com morte, e outras penas pera que lhe entregassem ha Villa, +e ho Castello, elle ho nom quiz fazer, dizendo que em quanto ElRei seu +padre fosse vivo, ha quem tinha feito menagem, nom entregaria ha Villa, +nem o Castello, se nom ha elle, e que atee sobresso morrer ho +defenderia. + +Ho Ifante mandou combater ha Villa da quaal couza seendo ElRei avizado, +ajuntou logo muitas gentes dos Concelhos da Estremadura, e das Ordens, e +se veio lançar sobre Coimbra, que estava pelo Ifante, e nom entrou logo +na cerqua, porque estava beem guardada, e lha defenderam, mas passou no +alcacer, que estava acerqua de Saõ Lourenço. E avendo jaa dez dias que +ho Ifante jazia em cerquo sobre Guimaraens, foi avizado, que ElRei tinha +cerquada Coimbra, pelo quaal deixou ho cerquo da Villa, e se veio ha +Coimbra pera ha socorrer, e com elle ho Conde D. Pedro, e ante que +chegasse aa Cidade se preitejou com ElRei, que se alevantasse, como +alevantou, e se fosse ha S. Martinho do Bispo, e ho Ifante chegou aa +Cidade, e pouzou em Sancta Cruz, e ElRei porque ho Ifante dilatou ha +concordia, que prometera, veio-se logo pera S. Francisquo donde se fez +muito dano, e grande estrago no arrabalde, e nos olivaes, porque de huma +parte, e da outra eram ali juntos hos mais dos Fidalgos, e gentes que +avia em Portugal, e antre huns, e outros avia barreiras, e repairos, de +que escaramuçavam, e pelejavam, em que de huma parte, e da outra com +door de muitos, morria muita gente, porque hos pais seem vontade, e +certa sabedoria matavam hos filhos, e hos filhos ahos pais, e huns +irmaãos, e amigos ha outros seem alguma piedade, nem misericordia. + + + + +CAPITULO XXIV + +_Como ElRei, e ho Ifante foram concordados por meio, e intercessaõ da +Rainha Dona Isabel, e da maneira que nesso teve, e das menagens que pera +segurança desso se fizeram._ + + +E por esta discordia, que antre ElRei, e ho Ifante avia, ha Rainha Dona +Isabel era triste, e anojada, e por aver antre elles booa paaz, e amor +como era rezaõ fazia ha Deos, e mandava fazer muitas oraçoens, e +devaçoens, e seendo certifiquada destas mortes, e maales tam grandes que +desta desaventura se seguiam, ella de sua propria, e virtuoza vontade +partio Dalanquer donde estava, e se veio ha Coimbra, e por si falou a +todolos Senhores, que eram com ElRei, e com ho Ifante, e assi com ho +Conde D. Pedro, e com elles por sua sancta intercessam banhada com +piedozas lagrimas, asentou que era beem fazerse logo paaz, e concordia, +e ha Rainha com ElRei, e com ho Ifante concordou, que ambos se partissem +da li, e se fossem ha outros lugares, dõde por pessoas seem sospeita se +veriam has couzas que ho Ifante requeria pera dellas lhe serem +outorgadas aquellas que fossem de razam, e onestidade, e ElRei com +prazer, e consentimento desto, se foi ha Leiria, e ha Rainha, e ho +Ifante e se foram da i ha Pombal, e ali concertaram. + +Que ElRei desse aho Ifante Coimbra, e Monte moor com seus Castellos, e +ha Fortaleza da See do Porto, porque ha Cidade ainda entam nom era +cerquada, e por ellas fez ho Ifante menagem ha ElRei, pera de todas +fazer guerra, e manter paaz, como elle mandasse, e assi acrecentou aho +Ifante pera seu soportamento, mais contia de dinheiro, e panos aalem do +que tinha, e ElRei perdoou aho Ifante, e ahos seus todo ho passado, e ho +Ifante ahos delRei, e ha rogo do Ifante foi tambem perdoado ho Conde D. +Pedro, que foi restituido ha todo ho que tinha, e lhe era tomado, e +destas couzas mostrou ho Ifante seer mui ledo, e mui contente, e dice, +que nom menos obrigava, e tanta alegria tomava das mercees, e +acrecentamentos, que delRei seu padre entam recebia, como de seer seu +filho, pera por ellas dahi em diante, beem, e leaalmente ho servir +sempre seem algum nojo, nem escandalo. E sobresto lhe fez pobriqua, e +solene menagem, e tomou por esso juramento dos Sanctos Evangelhos sobre +que poz has maãos e no Altar de S. Martinho do Pombal prezente ha +Rainha, e muitos Fidalgos, que sobpena de seer tredor, e de encorrer na +maaldiçaõ de Deos, e na sua, dali em diante sempre ho servisse, e lhe +fosse obediente assi como deve seer boom filho, e leal vassalo ha seu +padre, e ha seu Senhor, e que da i em diante nom acolhesse mais nhuns +maalfeitores, antes hos que podesse aver prenderia, e entregaria ha +ElRei, e ha suas justiças, e hos que trazia lançaria fóra logo de sua +caza, e de seu favor. + +E pera mais firmeza, e moor segurança rogou, e encomendou aho Conde D. +Pedro seu irmaão, e ha Martim Anes de Souza, e ha Gonçale Anes de +Briteiros, e Affonso Telles, e ha Gonçale Anes de Berredo, e ha Lopo +Fernandes Pacheco, e ha Paio de Meira, todos riquos homens de Portugal, +e ha outros nobres seus vassallos, que fizessem, como fizeram outro taal +juramento, e menagem, como elle tinha feito, e ho Ifante tambem pedio aa +Rainha por mercee, que pera maior, e mais seguro penhor desta concordia, +e porque ElRei da i em diante mais descançasse sobre ello, que tambem +ella quizesse fazer por elle este juramento, e menagem ha ElRei, e ella +tambem assi ho fez, com cada hum dos outros. E outro si ElRei pera +satisfaçam do Ifante, e de todos tambem fez no Altar da Capella de S. +Simaõ de Leiria, solene juramento de nunqua falecer aho Ifante em alguma +destas couzas, que lhe prometera, e outorgara. E foram estes juramentos +feitos no mez de Maio, no anno de mil trezentos e vinte tres, (1323) e +acabadas estas concordias de que todo Regno pareceo, que recebia muito +prazer, e descanço, ElRei, e ha Rainha, e ho Ifante se foraõ ha +Santarém, e da i ha Lixboa, onde todos estiveraõ atee Sancta Maria +Dagosto, e da i ho Ifante se tornou pera as teerras, que ElRei lhe dera. + + + + +CAPITULO XXV + +_De huma carta ao Papa Johaõ XXII aho Ifante D. Affonso filho delRei D. +Diniz, sobre has dezavenças com seu pai._ + + +Destas dezavenças, e roturas, que avia antre ElRei, e seu filho, ante de +assi seerem concordados, ho Papa por quaalquer maneira que fosse, foi +muito inteiramente informado do que lhe muito pezou, porque tinha +grande, e particular afeição ha ElRei D. Diniz, que ho avia em todo por +Rei excellente, e por ha Sua Santidade parecer, que seus Sanctos +conselhos, e booas amoestaçoens podiaõ nisto muito aproveitar, enviou +sua carta de Bulla aho Ifante D. Affonso, cujo theor tirado por mi +fielmente de Latim em lingoagem hee ho que se segue. + + +JOANNE BISPO + +Servo dos servos de Deos + + +«Aho amado em Christo filho D. Affonso enviamos este escrito de mais +saaõ concelho, com muita torvaçam de nossa alma, mui ameude ouvimos como +ho imigo semeador de odio, e enveja, por estorvar ho boom estado, e paaz +do Regno, e seu louvado regimento com sua maaldade te poz em coraçaõ de +te levantares contra teu pai, e como primeiramente soou em nossas +orelhas taal fama de desobediencia, que por toda ha teerra hee jaa mui +espargida, fez a noos grande nojo, e encheo de muita amargura nossa +paternal afeiçam, e pois noos teemos nesta vida taal lugar, e poder +porque aho Rei pacifico no dia do grande Juizo, avemos de dar conta das +almas, aprazate, e nom te agraves se ha tua duramente por seu beem +reprendermos, e porque ha palavra de Deos nom seja atada na nossa boca, +e falemos com espirito de liberdade, por esso nom podemos encobrir +tamanho maal como hee perseguir aquelle que te criou, e gerou, e +estragares tam seem tento ha teerra (que atee espargeres por ella ho +sangue) devias sempre defender, quem hee aquelle que seem grande +torvaçaõ do epirito possa ouvir, que hum Rei tam nobre ha juizo do quaal +hos Rex isentos doutras teerras com grande vontade se sometem, e +obedecem a seu mandado, e concelho, seja por ti com injurias seem razam, +e seem seus merecimentos tam anojado, e perseguido, e porem nom sabemos +quaal couza agora digamos primeiro, ou quaal recontaremos por +derradeiro, nem sabemos se choremos ho beem que perdes, ou se nos doamos +do maal que fazes, dize em que te errou teu padre, ou de que ho +reprendes, e que te nom fez de graças e beneficios que devesse fazer, +cremos por sua confiança, que nhuma couza de erro te fez, mas afirmamos, +que avondança de booa vontade, que te sempre mostrou, foi verdadeira +cauza de lhe seeres tam desobediente, mas agora prouvesse ha Deos, que +ainda melhor soubesses, e entendesses com melhor aviso, e esguardasses +no que te compria de fazer, quem he aquelle que seem grande door, e +tristeza possa recontar, que hos direitos, e obrigaçõens do parentesco +antre aquelles, que sam conjuntos com tanta afinidade de sangue, sejam +assi quebrantados, quem consentiraa seem amargozo coraçam, que ho filho +ante do tempo, nom soomente queira abreviar hos annos de seu padre, mas +ainda que com maliciosos cometimentos se trabalhe de hos acabar mais +cedo, ho quaal tu sabe, que jaa mais vive por teu proveito, que pelo +seu, porque qualquer couza de beem que faz, e ajunta jaa todo he pera +ti, e com muitos trabalhos, e despezas afirmou e acrecentou seu Regno, +porque tu depois de sua morte podesses viver nelle, grande, e poderoso, +porque te trigas ante tempo por cobrares aquillo, que ha natureza ainda +te nom quer dar? Nom sabes, que diz Salamaõ, que nom averraa ha bençam +no fim dos dias, ho que aa erdade se atrigar primeiro que deve? Tu +juntamente perdes ha alma, e ha fama por averes antes de tempo ho que +depois aas de perder, e segues ho contrairo desto nom curando de tua +propria saude. + +Has lex, e direitos de todalas naçoens mandam que hos filhos em +quaalquer estado alto, e baxo sempre obedeçam ha seus padres, e hos +amem. Pois dize, onde hee aqui ho amor, onde hee ha reverencia do filho +aho padre, onde ha lei de natureza, onde finalmente he ho temor de Deos? +Ha elle aprouvesse ora que soubesses quam alegre, e quam doce couza hee +ho filho obedecer, e honrar ha seu padre, e quam maa, e desventurada hee +ha desobediencia, e desprezo, que ho filho contra elle mostra, de +maneira, que como se afasta de obedecer, logo nom parece filho. Nom +sabes, que Felipo dos Emperadores ho primeiro Christaão, posto que desse +ho regimento do Imperio ha seu filho delle em sua vida, lhe nom era +menos obediente, que cada hum de seus Cavalleiros, e avia por grande +prazer teer vivo seu pai, e lhe obedecer? E ho Emperador Decio, quiz em +sua vida Coroar seu filho, e elle ho refuzou, dizendo: Receo tomar +Coroa, e ho regimento do Imperio, que me pode esquecer cujo filho sam, +pelo quaal mais quero nom seer Emperador, que reger, e seer dicto filho +desobediente, Reja ho Imperio meu padre, e ho meu senhorio, de que me +mais contento seja em sua vida sempre lhe obedecer. + +E muitos que ho contrairo desto uzaram perseguindo, e nom obedecendo ha +seus padres, huns morreram maa morte, outros cairam em taal cativeiro de +que nunqua sairam, porem meu filho muito amado rogote, que ames, e +honres a teu padre, e toma aquillo, que a igualdade da natureza em seu +tempo te ofrecer, e nom queiras aver por força destroido ho Regno, que +teu aa de seer, beem sabemos que ho arroido da tempestade diaboliqua +armou ho filho contra ho pai, e armou hum irmaão contra outro, alevantou +hos sogeitos contra ho senhor, e porém hos beens, e fazendas em +destroiçam, e hos corpos em estrago, e ho que hee mais amargo, que vos +poz has almas em desesperaçam de sua saude, teu padre mostra, e chora +has injurias, que por ti lhe sam feitas, e noos em especial avemos +compaixam delle, quanto ha opiniam do poovo, elle hee por ti +injustamente, e contra razaõ aggravado, e perseguido, que couza hee, que +alguns maaldizentes que contigo vivem avorrecidos de Deos, busquando +palavras prazenteiras, e maliciosas de suas lingoas por mordeduras +peçonhentas, e concelhos enganozos sam ouzados de encher tuas orelhas de +vento prazenteiro, e agradavel com que ho amor natural, que ha teu +padre, e ha teu irmaão devias, hee todo corrompido, quaal he ho +entendimento assi boom como rudo, que nom entenda quam maa, e quam +nojoza couza hee andares armado contra teu padre, e ajuntares ha ti +omiziados, e maalfeitores, com que te rebelas contra elle? Quaal couza +hee mais contra ha Lei de Deos, e da natureza, que ho padre movido pela +injuria de seu proprio filho, mover tambem armas contra elle? E que por +outra couza nom dizistisses do que fazes, por esta ho devias fazer. + +Sabe, que tu nom combates has Villas, e Fortalezas dos imigos, nem +ganhas teerra alhea, mas destrues ho Regno, que por direito te hee +devido, ho quaal parece que nom queres, pois nom obedeces aaquelle, que +te gerou. Ó obra merecedora de gram doesto! Ó mancebia mui dina de seer +chorada! prouvesse ha Deos filho meu muito amado, que com lima de melhor +razam tu esquaaldrinhasses todas estas couzas, mas certamente ho teu +odoor filial jaa perdeo seu boom cheiro, antes hee jaa convertido em +fedoranto, ha presença do padre injuriado, quem poderaa sofrer seem +amargura, que hum irmaão por soo odio seem outra injuria se mova contra +outro, ha procurarlhe com todas suas forças ha derradeira queda de sua +morte, com sua infamia, e desonra tam pubriquada? Ha quem nom +avorreceraa muito, que hos sogeitos sejam tam ouzados, que cortados hos +noos, e rota ha preitezia de sua leaaldade, se trabalhem de someter, e +derribar ha Reaal Alteza de seu senhor, que segundo por fama commum, e +mui notoria fomos certifiquados, hos vassalos do mesmo Rei, por teu +favor se alevantaram contra elle, querendo querer tam desonesto, que +elle nom aja poderio sobre seus Regnos? Pois seendo desto tantas vezes +combatido, que queres que nesto façamos, por ventura calarnos-emos e nom +te daremos ho saaõ Concelho, que aas mister? Certamente nom. + +Antes esguardando todas estas couzas com mui afiquado desejo, como ha +filho muito amado te rogamos, que ames, e honres teu padre, e lhe +obedeças, e por esso teus dias seram longuos sobre ha terra, e esto por +teu beem te dizemos, nom te aggraves, porque todo nosso dezejo, e tençam +hee que vivas em paaz, e obediencia com elle, pelo quaal com humildozas +preces, rogamos aho mui alto Deos, que sobre toda ha teerra senhorea, em +cuja maão saão hos poderios dos homens, e hos direitos dos Regnos, que +elle prestes, e beninamente queira esguardar sobre ti, e sobre hos +moradores desses Regnos de guiza, que de voos aparte toda dezavença, e +hos coraçoens de todos firme em booa concordia, e humildade, e noos de +nossa parte devotamente pediremos aaquelle Senhor, cuja providencia em +sua ordenança hee certa, e nom enganada, que em taal maneira esforce ha +Reaal seda desse Regno, que aproveite assi, e ahos seus, e hos Reja de +taal maneira, que vam pera saude perduravel com folgança de paaz. + +E se ho teu Reaal resplandor assi mostrado, nom quizer penssar, e +obedecer ha esto que te avemos dicto, obedecendo em tudo ha teu padre, +noos por ha que com toda ha afeiçam dezejamos paaz necessaria, e por +taal que possamos trazer nosso dezejo ha boom efeito, em ha nossa +vontade amoestamos filho logo ha ti sopena de excõmunham, e ha todolos +outros de quaalquer estado que sejam assi pessoas Ecclesiasticas, como +seculares, que torvam, ou anojaõ esse Rei, e seu Regno como nom devem, +ou contra elle pobriqua, ou em secreto te dam ajuda, conselho, ou favor, +daqui em diante se cavidem, e ho nom façam, porque em outra maneira +ainda, que seja com grande door nossa, see certo que passados oito dias +da pubriquaçam desta nossa carta, noos mandamos aho venerado irmaão +Bispo Devora, que logo excommungue ha ti, e ha todos aquelles, que se ha +ti chegarem, ainda que sejam Bispos, e quaaesquer outras maiores, e +superiores pessoas, que torvem ha paaz de teu padre contiguo, seem +embargo de quaaesquer privilegios que tenham, que desta nossa carta nom +fizerem mençam, paaz, e asecego, venha ha ti e ha esses Regnos como +dezejamos, por maneira, que hos perigos das almas sejam escuzados, e ha +ti creça titulo de honra acerqua dos homens, e abastança de merecimentos +ante Deos». + +Esta carta, ou Bulla do Papa foi dada aho Bispo Devora, que ha fizesse +pubriquar aho Ifante estando ElRei em Lixboa, mas porque ha esse tempo +ElRei estava jaa em alguma concordia com seu filho, nom foi pubriquada, +mas depois em outras voltas, e desobediencias, que ho Ifante cometeu se +pubriquou com que ha final paaz antre elles se comprio, como aho diante +direi. + + + + +CAPITULO XXVI + +_Como ha Rainha Dona Maria de Castella depois da morte delRei D. +Fernando seu filho, teve vistas com ElRei D. Diniz, ha que trouxe ElRei +D. Affonso menino neto dambos, e do que concertaram._ + + +ElRei D. Fernando de Castella, genro delRei D. Diniz faleceu de morte +supitanea em Jaem emprazado de dous seus vassallos, que segundo se diz +mandara injustamente matar, como atraaz brevemente toquei, e por sua +morte fiquou seu sucessor, e erdeiro ho Ifante D. Affonso seu filho +primogenito em idade de hum anno, e vinte e seis dias, ho quaal fiquou +logo em poder da Rainha. Dona Constança sua madre, filha delRei D. +Diniz, e tambem em poder da Rainha Dona Maria sua avoo, e porque ha +dicta Rainha Dona Constança da i ha pouquos annos logo faleceu, ho dicto +Rei D. Affonso fiquou pricipaalmente em poder da dicta Rainha Dona Maria +sua avoo, e sobre estas titurias deste Rei, ouve antre hos Ifantes, e +grandes Senhores de Castella, grandes competencias, e muitas +differenças, e discordias, de que se seguio muito maal, e estrago nos +Regnos de Castella, e em fim se tomou por concruzam, que com ha dicta +Rainha Dona Maria fossem juntamente tutores, como foram, ho Ifante D. +Pedro, filho da dicta Rainha Dona Maria, e ho Ifante D. Johaõ tio +delRei, filho que fora delRei D. Affonso Decimo, ho quaal Ifante D. +Johaõ, que em outro tempo esteve em Portugal, e se chamava Rei de Liam +durando sua titoria, e depois da morte da Rainha Dona Constança, Dona +Maria confiando da muita verdade, e grande poder delRei D. Diniz, e assi +na razam, que tinha daconcelhar, e ajudar ha ElRei D. Affonso seu neto, +concertou em Guinaldo Lugar de Castella vistas com elle, aas quaaes +contra vontade dos grandes de Castella trouxe ho dicto Rei D. Affonso +seendo mui moço, e ali pratiquaram sobre hos desvairos de Castella, em +fim dos quaaes ha Rainha lhe pedio, que se lembrasse delRei seu neto, e +de seus Regnos, e que lhos ajudasse ha conservar, e defender polas +grandes necessidades, que desso tinham. + +Aho que ElRei respondeo: «Que lhe agradecia muito taal confiança, e +quando suas forças, poder, e sabeer pera esso lhe comprissem, que nunqua +com tudo lhe faleceria, como pelas obras poderia ver.» E com esto +concordado ha Rainha, e ElRei D. Diniz se tornaram pera Portugal, e +sobre esto passado logo da i ha pouquos dias hos dictos Ifantes D. +Pedro, e D. Johaõ tutores, e juntamente com grande poder entraraõ na +Veiga de Grada, pera fazerem guerra ahos Mouros, onde seendo elles +perseguidos ambos dafronta, e desmaio, e seem seer feridos morreram em +huma soo hora, ha saber ho Ifante D. Pedro, e logo ho Ifante D. Johaõ, +como atraaz brevemente jaa dice, e na Coronica de Castella mais +compridamente se contem da quaal morte dos Ifantes como ElRei D. Diniz +foi sabedor, mostrou receber por esso sentimento, porque eram boons +Princepes, e com elle muito conjuntos em sangue, e logo enviou seus +Embaixadores ha ElRei, e aa Rainha de Castella, ha notifiquarlhe, que da +morte dos Ifantes, lhe pezava muito porque eram boons Cavalleiros, e +aviam com elle tam grande divido, e que pois era chegado ho tempo em que +lhe compria sua ajuda, e favor, que lhe tinha ofrecido, lhes pedia que +lhe fizessem sabeer ho que delle lhes compria, e que fossem certos, que +elle em pessoa, e com ajuda, e poder de seus Regnos, contra todos hos +iria ajudar, e ElRei, e ha Rainha lhe responderaõ, que taal lembrança +com taal vontade, e ofrecimento lhe gradeciaõ singularmente, que eraõ +sinaaes com que ho cazo parecia, que lhes tinha grande amor, e que +quando lhes comprisse ho enviariam requerer. E pera mais favor das +couzas delRei D. Fernando, ElRei D. Diniz notifiquou aho Papa ho estado +perigozo em que has couzas de Castella pela morte dos Ifantes estavam, +pedindo ha Sua Santidade, que ho favorecesse certifiquandolhe com esso +ha vontade com que estava pera em tudo ho ajudar, e defender, e ho Papa +lhe respondeo, dandolhe muitas graças, e louvores por sua boondade, e +manificencia por querer com tam boom dezejo encarregarse da defenssaõ, e +emparo dos Regnos de seu neto. + + + + +CAPITULO XXVII + +_Como ho Ifante D. Affonso se aparelhou pera pelejar com ho Ifante D. +Felipe, que contrariava ho asecego de Castella, e como ho Ifante D. +Felipe se foi._ + + +Por morte destes Ifantes, e tutores, que dice ElRei D. Affonso, fiquou +inda em poder da Rainha Dona Maria sua avoo, pelo quaal D. Johaõ, que +diceram o Torto, filho do Ifante D. Johaõ, que morreo na Veiga de Grada, +e assi D. Johaõ Manuel, filho do Ifante D. Manuel, e ho Ifante D. Felipe +tio delRei, filho da Rainha Dona Maria, todos tres tambem contenderaõ +pera seer tutores delRei com ha Rainha, sobre que outro si ouve grandes +discordias, debates, e partiçoens de que por seus desvairos, ha que se +nom achava rezoado meio, que elles quizessem se seguiram outros muitos +maalles, e danos ha Castella, porque cada hum sojugava, e mandava +ausolutamente ha parte do Regno, que podia antre hos quaaes era ho +Ifante D. Felipe, que seem outorga delRei, e do Regno, e por sua soo +vontade, e cobiça procurava sojugar, e mandar sua parte do Regno, assi +como fizera aa Cidade de Badalhouse, que tinha cerquada, com que sua +teerra estragava de todo. + +E estando ElRei D. Diniz em Santarem, ElRei D. Affonso seu neto lhe +enviou pedir que por quanto elle estava em Valhadolid donde ainda nom +podia sahir, nem remediar por si ho maal, e danos, que ho Ifante D. +Felipe fazia, que lhe rogava mui afiquadamente, que se lembrasse da +ajuda, e defença que muitas vezes lhe prometera, e que em comprimento +della mandasse dizer aho Ifante D. Felipe, que ceçasse, e se apartasse +daquella teerra, e dos maalles que nella fazia. E quando por respeito +delRei D. Diniz ho nom quizesse fazer, que entam ho fizesse por aquella +Cidade, e por seus vizinhos, como em similhante cazo elle faria por +outros seus naturaaes, que taal padecessem. + +Aho quaal ElRei D. Diniz respondeo, que mui degrado ho faria como elle +por obra logo veria, pelo quaal escreveo com trigança aho Ifante D. +Affonso seu filho, ha que quiz dar este cargo por moor autoridade, que +elle mandasse, como mandou dizer aho Ifante D. Felipe, que por muitas +cauzas, que lhe apontou, nom fizesse dano, nem maal ahos da Cidade de +Badalhouse, e se alevantasse de sobre ella, e que se o fizesse, que lho +gradecceria muito, e quando nom quizesse que elle em pessoa lho +defenderia, e porque ho Ifante D. Felipe respondeo aho Ifante, mais duro +que temperado, ElRei D. Diniz, que desta reposta foi avizado ouve della, +e do Ifante D. Felipe grande desprazer, e mãdou logo ha todos seus +vassalos, que com suas gentes, e armas se fossem pera ho Ifante seu +filho, aho quaal se ajuntou grãde poder, cõ ho quaal moveo pera +Badalhouse, e ho Ifante D. Felipe sabendo de sua ida, e do poder que +levava, alevantouse forçado, e foi pera Sevilha, e ho Ifante D. Affonso +chegou ha Elvas onde vio algumas duvidas, que antre hos da Villa, e +Badalhouse sobre seus termos, e tomadias avia, e depois de hos +concordar, se tornou pera Santarem onde era ElRei, e da i se foi pera +Coimbra onde tinha sua molher, e asento de sua caza. + + + + +CAPITULO XXVIII + +_Como ho Ifante D. Affonso requereo ha ElRei D. Diniz seu padre, que +fizesse Cortes aas quaaes depais nom quiz vir._ + + +Avendo jaa hum anno, e sete mezes, que ha concordia antre ElRei, e ho +Ifante era feita por algumas cauzas, e razoens, que alegou da minguoa de +Justiça, e outros defeitos, que dizia aver no Regno, lhe pedio, que pera +remedio de tudo fizesse, e quizesse fazer Cortes, has quaaes ElRei por +nom aver dellas tanta necessidade quizera escuzar, em fim por satisfazer +aho Ifante, e assi pera notifiquar ahos fidalgos, e poovos hos aggravos, +e nojos, que do Ifante depois de suas avenças recebera, prouve-lhe +fazelas em Lixboa pera onde chamou seus poovos, como em taal cazo hee +costume, onde tambem foi ho Ifante, e ho dia em que se ouve de fazer ha +fala pubriqua, e proposiçaõ costumada, ElRei mãdou dizer aho Ifante, que +viesse aas Cortes pera nellas estar como ha elle em taal auto convinha, +e ho Ifante se escuzou fazelo, e de tantas delongas, e sem razoens uzou +aacerqua desso, que ElRei ouve por beem cometelas seem elle, e porque +ElRei vio que ho Ifante em todo se desviava do que lhe tinha jurado, e +prometido porque ho Conde D. Pedro seu filho, era pessoa de grãde +credito aacerqua do Ifante, e tinha grande caza lhe dice: «Que se +lembrasse da menagem, e juramento, que em Pombal fizera, e que hos nom +quebrasse, nem fosse por algum respeito contra seu serviço». E esto lhe +dise por alguns alevantamentos, que no Ifante jaa sentia. E ho Conde lhe +respondeo: «Senhor, eu sei beem ho que sobresso devo fazer, e de mi se +dee seguro, que nunqua vos venha nojo, nem desprazer, nem desserviço, +porque bem conheço, que nom aa pessoa neste mundo ha que tam obrigado +seja como ha voos». E sobresta segurança dice, que com sua licença se +queria ir ha Santarem com ho Ifante, e que na jornada ho nom +desserveria, e que logo se tornaria pera elle, e assi ho fez. + + + + +CAPITULO XXIX + +_Como ho Ifante sobre huma vinda, que contra vontade delRei quisera +fazer ha Lixboa, foram perto de pelejar, e porque ho leixaram de fazer._ + + +Passadas estas couzas, e has Cortes acabadas estando ainda ElRei D. +Diniz em Lixboa foi certifiquado, que ho Ifante seu filho de Santarem +onde estava queria i vir, e porque soube que nom vinha com sam propozito +lhe mandou rogar, e encomendar por sua bençam, sobpena de maldiçam de +Deos, e da sua, que por aquella vez escuzasse sua ida, e ho nom quizesse +nesso anojar, pois sabia que taal ida ha elle nom relevava, e podia +cauzar muito maal, e ho Ifante lhe enviou dizer, que nom sabia razaõ +porque lhe pezasse sendo seu filho, que viesse ha Lixboa, onde elle +estava pera ho ver, e servir, e que por esso nom avia de leixar dir. E +desta determinaçam que ho Ifante tomou, pezou muito ha ElRei, e foi por +esso contra elle acezo em grande sanha, e sabeendo que ho Ifante toda +via proseguia seu caminho, e que era jaa no Lumiar, saio contra elle com +suas gentes armadas, e em saindo, lhe mandou dizer, que logo se tornasse +por beem, e quando nom que ho faria tornar por maal, e com seu pezar. E +ho Ifante ho nom quiz fazer, antes abalou, e se poz junto com ElRei +procurando todavia contra sua vontade entrar em Lixboa, e hos delRei +concertandose por seu mandado pera lhe defender ha entrada, foram de +huma parte, e da outra postas, e ordenadas suas azes pera batalha, e +nellas alevantadas humas mesmas bandeiras das Quinas contrairas, e pera +esso jaa toquadas trombetas, e anafins, que traziam em se começando +alguma rotura antre hos homens baixos, alguns dambalas partes se diz, +que morreram de pedras, e dardos, que se arremessavaõ. + +E com esta triste nova, que aa Rainha chegou, ella por escuzar com sua +sancta pessoa outra maior rotura antre ho pai, e o filho, com grande +pezar cavalgou em huma mula, e passando por meio das azes seem alguma +pessoa ir diante, nem ha levar pela redea, nem tam pouquo esperar pela +companhia, que ha ella por sua Reaal pessoa se devia, e seem medo dos +muitos perigos ha que se oferecia, chegou logo aho Ifante seu filho, ha +que estranhou ho cazo muito de taal vinda pois era contra vontade delRei +seu padre, acuzando-o pela quebra da menagem que dera, e dos grandes +juramentos que em Pombal ha Deos fizera, rogandolhe que se tornasse, e +nom anojasse ha ElRei em tantas couzas, e aho menos ho fizesse por seu +amor della que por elle, e por seu rogo tinha feitos hos juramentos, e +prometimentos, que sabia, hos quaaes porposta ha conciencia, e +honestidade hos via por elle de todo quebrados, e sobresto tornou logo +ha ElRei cuja ira poz em taal temperança com que outra vez tratou avença +antre elles. + +Donde se diz, que ho Ifante jaa sobre concordia com soo seis de cavallo +veo falar ha ElRei, e pedirlhe perdam, dizendo, que lhe obedeceria em +todo, como ha ElRei seu padre, e seu Senhor, e que ElRei lhe respondera, +que ha elle nom agradecia sua taal obediencia, mas aaquelles seus boons, +e naturaaes vassallos que com elle estavam, dizendolhe que se partisse +se quizesse, e seria beem aconcelhado fazello, e que onde quer que fosse +se mais lhe dezobedecesse laa ho iria tomar pela garganta. E com esto ho +mandou ir ha Santarem, e ElRei se tornou ha Lixboa. + + + + +CAPITULO XXX + +_Como has gentes delRei, e do Ifante pelejaram sobresto em Santarem e do +que se fez._ + + +Passados alguns dias depois deste alvoroço, ElRei se foi de Lixboa pera +Santarem, e entrando no termo da Villa foi avizado no caminho, que hos +moradores della por mandado do Ifante que i era, estavam pera ho nom +acolher na Villa, mas ElRei com quanto avia entam grandes chuvas nom +leixou por esso de continuar seu caminho, e foi pouzar ha humas cazas, +que foram de Rodrigo Affonso Redondo, e hos seus se agazalharam em mui +estreito lugar que hos do Ifante lhe leixaram, e sobre comer por +razoens, que hos do Ifante ouveram com hos del-Rei, se alevantou hum +grande, e perigoso aroido ha que ElRei, e ho Ifante acodiram em pessoas +cada hum ha seu bando apartado, e porém depois de alguns mortos, e +feridos dambalas partes foi procurada, e posta tregoa sobre ha tarde +antre ElRei, e ho Ifante, e hos seus, e porque hos Cavalleiros, e nobres +homens que se acharaõ nestas roturas, e pelejas, vendo ho grãde dano, +que delles seem cauza se seguia, pediram ha ElRei por mercee, que por +muitas cauzas, e razões mui urgentes, que lhe alegaram lhes desse +licença pera entenderem finalmente em sua concordia com ho Ifante. + +Aho que ElRei respondeo mui aspero: nom querendo que sobre tantas +paazes, e tantas concordias firmadas, e menagens taõ seem cauza +quebradas se fizessem mais outras com tanta quebra, e desprezo, mas que +queria castigar ho Ifante como merecia, e como faria ha hum seu imigo +mortaal. E porém tanto aprofiaram aquelles Senhores com ElRei, e assi +terçaram Affonso Sanches, e ho Conde D. Pedro seus filhos, que ElRei +aprouve estar ha todo boom remedio, e aseceguo que antre elles se desse, +pelo quaal se diz, que hos Cavalleiros, e Escudeiros que ElRei consigo +ali tinha, eram por todos quorenta, e hos do Ifante trezentos e vinte, e +huns destes se ajuntaraõ aho Moesteiro de S. Domingos das Donas, e hos +outros em Sancta Maria de Marvilla, e estes escolheram vinte e coatro +pessoas, homens de beem, e de conciencia, e de booa inclinaçam, ha +saber, doze por parte delRei, e doze por parte do Ifante, que logo foram +nomeados, hos quaaes determinassem, e compuzessem todolos debates, e +contendas, que entam avia antre ElRei e ho Ifante, e que sua +determinaçam, e composiçaõ fosse inteiramente guardada, e comprida, e +fosse por maneira feita, que della nom se seguissem mais desvairos, +segundo se logo apontaram, e nomearam outras pessoas, que tudo dentro de +sessenta dias tornassem logo ha concordar em toda sua prosperidade, e +qualquer dos delRei, e do Ifante que contrairo fosse, que pelo mesmo +feito caisse em cazo de treiçam, e nom se de livrar se nom poendo seu +corpo ha quatro Cavalleiros, que lho quizessem combater, e nom ho +fazendo, que ficasse encartado, e quaalquer do povo ho podesse matar +seem pena. + +E ali pedio ho Ifante ha ElRei, por grande mercee, que tirasse ha +Affonso Sanches seu filho, ha teerra, e has quantias dos maravedis, que +delle tinha, e assi ho officio de seu Mordomo, e ha Mem Rodrigues de +Vasconcellos ho Meirinhado moor. Ha que ElRei respondeo: «Que lhe +parecia couza muito contra razaõ, e seem justiça dar ha estes pena sem +culpa, e fazerlhes maal tendolhe beem mercee merecida, e que fazendolho +nom sabia, que conta daria desso ha Deos, e aho mundo, aho que por sua +Reaal dinidade era obriguado», e porém por comprir, e asegurar ha +vontade do Ifante seu filho prouvelhe outorgar todo o que quiz, e lhe +pedio. + +E desta vez se partio Affonso Sanches pera Albuquerque cujo era, e +fiquou vassallo delRei de Castella. E assi foram de huma parte, e da +outra perdoados nesta concordia todos aquelles que serviram, e seguiram +quaalquer partido, e assi que se fizesse entrega das couzas, que nas +pelejas foram tomadas. E concordaram mais, que se ho Ifante D. Pedro +filho do dicto Ifante D. Affonso, que jaa era nacido viesse em taal +idade, que sahindo do mandado de seu padre quizesse vir contra ElRei D. +Diniz seu avoo, que ho Ifante seu padre sempre fosse contra elle com +ElRei seu padre, e seem elle. E assi concordaram, que fosse dado mais +certa contia de dinheiro aho dicto Ifante D. Affonso, e que nunqua mais +lhe podesse pedir, nem ElRei dar, e que pera segurança de todo se +pozessem de cada parte dous Castellos, dos quaaes ho Ifante polla sua +poz ho Castello de Gaya, e ho Castello da Feira, e ElRei ho Castello de +Celorico da Beira, e ho de Faria. + +E foram assinados quatro Juizes logo nomeados pera determinaçaõ, seem +revogaçaõ de todalas duvidas e debates que antre ElRei, e ho Ifante +ouvesse, hos quaaes nom podessem estar, nem estivessem nos Lugares onde +taaes Juizes se ouvessem de fazer, e que ha parte desobediente, e +danifiquada hos Castellos da outra revel fossem logo entregues, e que ha +parte desobediente pagasse mais duzentas livras de pena has quaaes +repartissem hos Juizes, e Fidalgos do Regno antre si, e que hos +Fidalgos, e nobres do Regno sob pena de treiçaõ hos fizessem pagar +inteiramente ha quaalquer, que esta concordia quebrantasse, e com ha +dicta pena logo elles se viessem, e servissem ha ElRei, ou aho Ifante +quaalquer destes, que aas determinaçoens dos Juizes fosse obediente, e +estas concordias, e convenças foram feitas em Santarem ha vinte e sinquo +de Fevereiro do anno de mil trezentos e vinte e quatro (1324), hum anno +antes da morte delRei, que se tornou ha Lixboa, e ho Ifante ha Coimbra. + + + + +CAPITULO XXXI + +_Da morte delRei D. Diniz._ + + +Depois destas concordias acabadas, ElRei D. Diniz se foi ha Lisboa como +dice, e da i ha hum anno se partio da dicta Cidade, e se tornou pera +Santarem, e indo aacerqua do Lugar, que se diz Villa nova adoeceo de +infirmidade, que consigo traaz todalas dores, e accidentes mortaaes de +que se sentio mais maal tratado, e ho Ifante seu filho, que era em +Leiria avizado desso por ha Rainha D. Isabel sua mãi, que era com ElRei +ho veo logo vizitar, e concordaraõ de ho levarem ha Santarem em andas, e +em colos de homens, e ha i jouve doente por algum tempo seem algum +melhoramento, na quaal ha Rainha sempre foi prezente, e nas couzas de +sua cura, e remedios era mais diligente, e humildoza que quaalquer outra +simpres molher, que em semilhantes necessidades nom teem quem has +escuze, e vendo ella que has afiquadas dores, e paixoens da doença +delRei eram continuas, e pareciam mortaaes, duvidando da vida delRei +estando em sua Camara, e prezente alguns, que i eram, dice ha todos +nesta maneira. + +«Porque eu tenho grande esperança em Jesu Christo meu Senhor, e nom +menos confiança na Glorioza Virgem sua Madre, e assi singular devaçam na +Ordem, e Abito de Sancta Clara, assi como sempre ha tiveram aquelles de +que descendo, sempre puz em minha vontade, que falecendo primeiro ElRei +meu Senhor, e marido, eu acabar ha vida no dicto Abito, e por esso ho +tenho feito, e aa muitos dias que comigo ho trago, e em minha arqua, por +taal que se por ventura acontecesse delRei meu Senhor, primeiro que eu +falecer, ho que Deos nom queira, eu vestisse logo ho dicto Abito por +lembrança de minha tristeza, e por sinal de tamanha mudança destado, que +eu mais nom devo teer, nem por fazer no dicto Abito profissam, nem +obedecer ha alguma Ordem que nom hee minha tençam fazello. +Especiaalmente porque eu por minha idade, e grandes infirmidades nom +poderia soportar hos grandes encargos, e trabalhos da Relegiam, mas +posto que eu esse Abito vista, e traga, por esso nom leixarei minha +Caza, nem has Donas, e Donzelas, que comigo vivem, mas prazendo ha Deos, +espero trazer estas, e tomar outras como filhas, e irmaãs, e cazallas, e +aviallas com ho que eu poder de meus beens, e fazenda, porque como dice, +eu proponho nom fazer profissaõ nesta Ordem, nem em outra alguma, nem +tenho em alguma feito voto pubriquo solene, nem secreto, e esto digo +porque em cazo, que no meu corpo vista ho dicto Abito, que minha alma +fique livre pera de minha fazenda seem algum outro cargo, nem obrigaçam +de Relegiam poder despoer livremente todo ho que por beem tiver, e assi +ho tenho dicto, e decrarado muitas vezes aho Ifante D. Affonso meu +filho, e ha Frei Johaõ meu Confessor». + +E com esto sendo ha doença delRei cada vez mais perigoza, e mortaal, +teendo mui craro conhecimento, que hos dias de sua vida se acabavam, +elle como Princepe virtuozo, prudente, e mui catolico, proveo seu +testamento, que tinha feito com grande devaçam, e muito temor de Deos, e +ho confirmou, no quaal mandou, que ho seu corpo se enterrasse no seu +Moesteiro de S. Diniz Dodivellas da Ordem de Cistel, on de S. Bernardo, +que elle de novo fundou, e dotou, no quaal entam avia oitenta Freiras de +Cogula com voto de ençarramento, que nom teem has dos outros Moesteiros +desta Ordem, e em que jaa tinha feita sua sepultura, e de sua fazenda, +apartou no dicto testamento pera soos descargos de sua alma, trezentas e +sinquoenta livras, que taxadas pelo preço dagora ha razam da valia da +prata, e ouro, que daquelle tempo tinham ho valor, e preço, que agora +teem hos ducados, e cruzados douro, como muitas vezes jaa dice, e esta +soma mandou que logo se tirasse da torre do tezouro de Lixboa, que agora +hee do Tombo em que tinha grandes tezouros, e se entregassem ha seus +testamenteiros, de que ho principaal foi ha Rainha Dona Isabel sua +molher, e ha estes mandou, que tivessem este dinheiro de sua maão no +tezouro da See da dicta Cidade, de que cada hum tivesse sua chave pera +nom aver embargo, nem estorvo quando delle quizessem despender, e +comprir hos legados, e couzas, que ordenava, e leixou ha sua Capella +toda aho dicto Moesteiro Dodivellas. + +E toda outra sua fazenda, e baixellas douro, e prata, joias, e colares, +pedrarias, e panos aho Ifante D. Affonso seu filho erdeiro, e destes +cento e corenta mil cruzados ordenou muitas, e grandes esmolas +repartidas por todolos Moesteiros, e Espritaaes, e Cazas piedozas do +Regno, e assi certa soma pera cazamentos de moças orfaãs, e pera criaçam +de meninos engeitados, e tambem dellas ordenou, que hum Cavalleiro de +booa vida, e vergonhosa estivesse em Jerusalem, e servisse por elle na +guerra contra hos infieis dous annos, e pera esto ordenou tres mil +livras, que eraõ mil e duzentos cruzados, e quando se nom achasse taal +Cavalleiro, ou nom ouvesse desposiçam pera ir ha Ultra-maar, que este +dinheiro se convertesse em vistir pobres, e envergonhados, e outro si +ordenou, que outro boom homem de booa vida, fosse estar em Roma duas +quarentenas, e que por elle andasse todalas Estaçoens em que ganham has +Idulgencias plenarias, e ha este ordenou mil livras, e depois desto +confeçando seus peccados com grande contriçaõ, e arrependimento delles, +recebendo ho Corpo de N. Senhor, e todolos outros Sacramentos como Rei +mui Catolico, e fiel Christaão acabou vida dando sua alma ha Deos em +Santarem, ha sete dias de Janeiro do anno de mil trezentos e vinte +sinquo, em idade de sessenta, e quatro annos, dos quaaes Regnou quorenta +e seis. + +E ha Rainha que era prezente se apartou logo em huma Camara, e das maãos +de humas Freiras seculares, que consigo trazia recebeo logo, e vestio ho +Abito de Sancta Clara, que trazia feito, como jaa dice, e sendo nelle +vestida ante de se fazer do corpo delRei alguma mudança, ella prezente +muitas que ha ouviam, dice estas palavras: «Pois Deos por seu grande +poder, e profundo Juizo ouve por beem, que ha morte delRei meu Senhor, e +marido antepassasse ha minha, e seem a sua vida eu fiquo, e sam tanto +como morta, e de razam eu jaa morri com elle, e por esso eu quis logo +mudar hos vestidos, e trajos que vedes, que sam este Abito pardo cingido +com esta corda, e este veeo branquo, que ponho sobre minha cabeça porque +ha vida, que seem elle viver seja com doo, e tristeza pera sempre, e +esto nom faço por seer Freira, nem teer feito algum voto, e obrigaçam de +Religiam como teenho dicto, mas por minha humildade, porque nelle sirva +a Deos, nas couzas em que ha sua graça me ajudar». + +E com esto acabado ho corpo delRei fiquou concertado, como devia, e com +muitas tochas acezas, e acompanhado da mesma Rainha, e do Ifante D. +Affonso seu filho, e do Conde D. Pedro, e D. Johaõ Affonso, e doutros +Prelados, e riquos, e nobres homens do Regno, que ali eram juntos, e +assi de muitos Clerigos, e Religiozos que com elle iaõ rezando, e +encomendando sua alma ha Deos, foi levado aho dicto seu Moesteiro de S. +Diniz Dodivellas, onde nom seem grandes prantos, e lamentaçoens foi +metido em sua ordenada sepultura, e depois de seu enterramento, fiquou i +ha Rainha por algum tempo comprindo seus legados, e fazendo outras +muitas esmolas, devaçoens, e oraçoens, por beneficio, e descargos de sua +alma. E da vida que depois esta Rainha, e como acabou, e quantos +milagres fez Deos por seus rogos, e merecimentos, e onde jaas, direi na +Coronica delRei D. Affonso seu filho, em cujo tempo, e Regnado ella +depois faleceo, que foi onze annos depois da morte delRei D. Diniz, como +se diraa. + + + + +CAPITULO XXXII + +_Das obras, e couzas notaveis, que ElRei D. Diniz fez em sua vida._ + + +Has obras, e feiçoens, e couzas notaveis que este mui excellente Rei D. +Diniz fez em toda sua vida aalem das que nesta Coronica tenho escritas, +em cazo que por desvairados tempos has fizesse, e mandasse fazer, porque +de certidam dos annos, e tempos em que semelhantes obras se fizeram, +esta Estoria que delle escrevo, nem hos que ha lerem nom teem alguma +final necessidade, e assi juntas se comprendem, e entendem melhor, por +tanto has reservei pera este derradeiro capitolo, e has mais principaaes +saõ estas, primeiramente elle fez muitas Lex, e Ordenaçoens em seu +tempo, e deu boons foraaes ha muitos Lugares de seus Regnos, fez ho +Estudo de Coimbra, que foi o primeiro de Portugal, e fez ho primeiro +Mestre de San-Tiaguo izento de Castella, e ordenou primeiramente ha +Ordem de Christo, e fez nella o primeiro Mestre, como jaa dice. Este Rei +em seu tempo fez quasi de novo todalas Villas, e Castellos de riba +Dodiana, ha saber: Serpa, Moura, Olivença, Campo maior, Ouguella, cujos +alcaceres, e Castellos fez de fundamento com muitas despezas, e assi fez +na dicta Comarqua dantre Tejo, e Odiana hos Castellos de Monforte, e +Darronches, Portalegre, e Marvam, Alegrete, Castello Davide, Borba, +Villa Viçoza, Arraiolos, Evora monte, Veiros, e ho Alandroal, Monçaraas, +e Noudar, e acrescentou ho Castello de Jurumenha, e fez ho Redondo, e ho +Assumar, e fez ha Torre, e Alcacer de Beja, e na Comarqua da Beira, e +riba de Coa, fez de novo estes Castellos, ha saber, Avoo, que agora hee +do Bispo de Coimbra, ho Sabugal, Alfaiates, Castel Rodriguo, Villar +maior, Castel boom, Almeida, Castel melhor, Castel mendo, Sam Felizes +dos Galegos, que tem agora Castella, e nom fez ho Castello de Monforte +de riba de Coa, que tambeem lhe foi dado por estar em maa despoziçam da +teerra, e sua força pera defençaõ do Regno, nom seer muito necessaria, +fez mais Pinhel, e seu Castello, e nas Comarquas dantre Douro, e Minho, +e Tralos montes fez estas Villas, e Fortalezas, ha saber, cerquou +Guimaraães da cerqua, que agora teem, e Braga, e Miranda de Douro, e seu +Castello, e Monçam, e Crasto Laboreiro, e povoou de novo, e fez hos +Castellos de Vinhaes, e Villa frol, Alfandega, Mirandella, Freixo +Despada Cinta, Villa nova de Cerveira, e fez de novo, e do primeiro +fundamento Villa Real, que fazem numero de corenta, e coatro Villas, +Castellos, e Fortalezas do Regno, de que algumas fez novamente, e outras +reformou, e fez de novo hos Castellos, e assi fez outras muitas +povoaçoens, assi como Muja, Salvateerra, Atalaia, Ceiceira, Montargil, e +outras semilhantes, e fez ha rua nova de Lixboa, e assi ho Moesteiro de +Sam Diniz Dodivellas em que jaas, ho quaal logo ha pouquos annos, que +Regnou mandou começar, e em sua vida se acabou em dés annos, e foi logo +dado aas molhores Monjas, pera que foi ordenado, porque ho Moesteiro de +Sancta Clara de Coimbra fez, e dotou ha Rainha Dona Isabel sua molher, e +nelle jaas, como aho diante direi. + + +DEO GRATIAS + + + + +INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS + + +A + + +Affonso III (El Rei D.) de Portugal, em que dia, e anno falleceo. + Fez doação das Villas de Portalegre, e Marvão, e dos Castellos da + Vide, e Arronches a seu filho o Infante D. Affonso. + +Affonso (D.) chamado o Casto filho de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão, +não cazou mas morreo Religiozo Franciscano. + +Affonso (D.) Rei de Castella, Avô del-Rei D. Diniz de Portugal, fez +doação a sua filha a Rainha Dona Beatriz, mãe do dito Rei D. Diniz, +das Villas de Niebla, Serpa, Moura e Mourão. + +Affonso (Principe D.) Filho herdeiro del-Rei D. Diniz em que anno, e +lugar naceo. + Tendo sete annos, lhe nomeou seu pae officiaes para a sua caza. + Em que parte se recebeo com a Infante Dona Beatriz. + Discordias, que teve injustas com seu pai. + Parte para Castella contra vontade de seu pai. + Intenta matar a seu irmão Affonso Sanches, e quanto machinou para + este fim. + Continua em machinar novas falsidades contra seu irmão. + He avizado pelo Papa João XXII, a que dezista do odio contra seu + irmão, e não cessa de o perseguir. + Intenta batalhar com seu pai, mas deziste deste intento. + Toma os Castellos de Coimbra, Montemor e Feira, e a Cidade do Porto. + Faz levantar o sitio que tinha posto a Badajoz o Infante D. Felippe. + +Affonso (Infante D.) Filho del-Rei D. Affonso III de Portugal, cazou +com Dona Violante, filha do Infante D. Manoel, filho del-Rei D. +Fernando II de Castella, e da Infante Dona Constança. + Que filhos teve deste matrimonio. + Deu-lhe seu pai as Villas de Portalegre, e Marvão, e os Castellos da + Vide e Arronches. + Differenças que teve com seu irmão El-Rei D. Diniz. + Fez guerra a seu irmão, e mata a D. Lopo Conde, e senhor de Biscaya, + e a D. Diogo Lopes de Campos. + Cede das contendas, que tinha com seu irmão por intervenção de sua + cunhada Santa Izabel. + Em que anno falleceo, e onde está enterrado. + +Affonso (Infante D.) Filho do Infante D. Affonso, e Dona Constança +filha de D. Jaymes primeiro Rei de Aragão, e neto del-Rei D. Affonso +III de Portugal, foi senhor de Leiria, e falleceu sem filhos. + +Affonso Pires de Gusmão, acompanhado de muitos Capitaens entra em +Portugal onde obra algumas hostilidades, e priziona novecentos homens. + +Affonso Sanches (D.) Chamado de Albuquerque, foi filho natural del-Rei +D. Diniz. + Seu filho D. João Affonso de Albuquerque cazou com Dona Izabel, + filha de D. Tello, e Dona Maria neta del-Rei D. Affonso III de + Portugal. + He notavelmente aborrecido por seu irmão o Principe D. Affonso. + +Arronches. O seu Castello, foi doado por El-Rei D. Affonsso III de +Portugal a seu filho o Infante D. Affonso. + He cercado por El-Rei D. Diniz. + + +B + + +Beatriz (Dona), mãe del-Rei D. Diniz, foi senhora das Villas de +Niebla, Serpa, Moura, e Mourão por doação que dellas lhe fez seu pai +D. Affonso Rei de Castella. + +Benedicto XI. Manda Nuncio para pacificar a El-Rei D. Fernando de +Castella com El-Rei D. Jayme de Aragão, e o Infante D. Affonso de +Lacerda. + Insinua a El-Rei D. Diniz, que seja medianeiro nestas pazes. + +Branca (Dona). Filha de Pedro Annes de Portel, cazou com D. Pedro +filho natural del-Rei D. Diniz. + + +C + + +Carlos, Irmão de S. Luiz Rei de França, recebe a investidura dos +Reinos de Secilia, e Napoles do Papa Urbano IV, e vence na batalha de +Benavente a Manfreu Rei de ambas as Secilias, na qual morreo. + Cerca a Cidade de Messina, e levanta o sitio. + Queixa-se ao Papa Martinho IV, da violencia com que o queria + despojar de Secilia El-Rei D. Pedro de Aragão. + Dezafia a este Rei para Bordeos. + Morre em Messina. + +Celestino V. Confirma o privilegio concedido por seu Antecessor +Niculao IV, de que se elegesse Mestre da Ordem de San-Thiago em +Portugal independente do de Castella. + +Clemente V. Como foi eleito, e das promessas, que fez a ElRei Felippe +de França chamado o Fermozo. + +Constança (Rainha Dona), Filha de Manfreu Rei de ambas Secilias, +mulher delRei D. Pedro de Aragão, e mãe da Infante Dona Isabel, que +cazou com El-Rei D. Diniz de Portugal. + +Constança (Dona), Filha de D. Jaymes Decimo Rei de Aragão, e a Rainha +Dona Violante, cazou com o Infante de Castella D. Manoel, Avô da +Infante Dona Constança, mulher que foi delRei D. Pedro I de Portugal. + +Constança (Dona). Filha delRei D. Diniz de Portugal, e a Rainha Santa +Isabel, cazou com D. Fernando III de Castella. + +Constança (Dona). Filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante, foi +cazada com Nuno Gonsalves de Lara de quem não teve geração. + + +D + + +Diniz (El-Rei D.) Em que tempo foi aclamado Rei e que idade tinha. + Virtudes, e acções heroicas, que praticou. + Hospedou magnificamente no seu Reino a pessoas muito grandes de + Castella. + Prendeo a João Nunes de Lara, senhor de Biscáya, e o soltou + fazendo-lhe grandes mercês. + Caza com a Infante Dona Isabel, filha delRei D. Pedro IV de Aragão, + e que idade tinha quando se recebeo. + Celebrão-se estes despozorios em Trancozo. + Filhos legitimos, e naturaes que teve. + Diferenças, que teve com seu irmão o Infante D. Affonso. + Avista-se com ElRei D. Sancho de Castella, e ajusta com elle os + cazamentos de seus filhos D. Affonso, e D. Constança. + Ordena a seu irmão D. Affonso, que se não faça hostilidade alguma + contra D. Sancho de Castella, e lhe não obedece. + Manda cercar Arronches, Mourão e Portalegre, onde estava seu irmão. + Por intervenção de sua espoza Santa Isabel se pacifica com seu + irmão, e este lhe entrega as Villas e Castellos, que tinha em seu + poder. + Manda Embaixadores a ElRei de Castella D. Sancho porque lhe largue + os Lugares, que lhe tem uzurpado. + Por morte de D. Sancho manda novos Embaixadores a seu filho D. + Fernando, e do que lhe disserão os Embaixadores, e de como se + concertarão estes Principes. + Prepara se com exercito para vingar a inconstancia das promessas + delRei de Castella. + Recebe por seu vassallo a D. Sancho de Ledesma, filho dos Infantes + D. Pedro, e Dona Margarida, e lhe affirma copioza renda. + Entra por Castella com exercito, onde faz muitas hostilidades. + Toma o Castello de Medicina. + He solicitado por El-Rei de Castella a que celebre com elle pazes, e + assim o executa. + Avista-se em Alcanizes com El Rei de Castella para ajustar as pazes, + e os cazamentos mutuos de seus filhos, e de que modo se celebrou + este acto. + Parte de Alcanizes donde traz em sua companhia a Dona Beatriz, filha + delRei D. Fernando de Castella, para molher de seu filho D. + Affonso. + Das pessoas que nomeou para officiaes da Caza que fez ao Principe + seu filho. + Escreve-lhe o Papa Benedicto XI para que seja medianeiro entre as + discordias delRei de Castella, e o de Aragão. + Parte a Castella acompanhado da Rainha Santa Isabel, e muitos + Cavalleiros a compor as discordias, que havia entre os Reis de + Castella e Aragão. + Passa a Granada com Santa Isabel, onde é recebido magnificamente por + ElRei D. Jaymes e a Rainha Dona Maria. + He arbitro em Tarraçona entre as contendas que havia entre D. + Fernando de Castella, e D. Jaymes de Aragão sobre o Reino de + Murcia, e como os compoz. + Voltando de Tarraçona é recebido por El-Rei de Castella e a Rainha + Dona Maria, onde deu preciosas joias a D. Affonso de Lacerda. + Firma pazes com os Reis de Castella e Aragão. + Não aceita dés mil dobras de ouro a ElRei D. Jaymes de Aragão que + lhe tinha emprestado. + Dá muitas e preciosas joias á Rainha Dona Branca, mulher delRei de + Aragão, e aos Senhores daquella Côrte. + A meza de prata em que comia mandou dar a um Fidalgo que por + esquecimento não tinha sido premiado como os outros. + Que idade tinha, e em que anno fez esta jornada a Castella. + Manda Martim Gonsalves de Souza seu Alferes mór com setecentos + cavallos a ElRei D. Fernando para ajuda da guerra contra os mouros + e lhe empresta dezasseis mil, e seis marcos de prata para o mesmo + fim. + Funda em Coimbra os primeiros estudos, que houve em Portugal, e como + alcançou do Papa João XXII privilegios para elles. + Izenta os Cavalleiros de San-Thiago da obediencia do Mestre de + Castella, e institue Mestre em Portugal por Bulla de Niculao IV. + Ajusta com D. Fernando de Castella os bens dos Templarios dos seus + Reinos não fossem dados pelo Papa a outra Ordem. + Representa por seus Embaixadores ao Papa João XXII não ser + conveniente, que as rendas dos Templarios se dessem aos do + Hospital de S. João. + Institue a Ordem Militar de Jesus Christo a quem assina as rendas + que erão dos Templarios. + Assina para gasto de seu filho D. Affonso quando cazou com a Infante + Dona Beatriz, alem de muitas Villas que lhe deu, outenta mil + livras de prata. + Sentimento que teve com a morte de seu neto o Infante D. Diniz. + Relatão-se as discordias que teve com o Principe seu filho. + Manda o processo que este Princepe tinha machinado para matar seu + irmão D. Affonso Sanches, e acha ser falso. + Pratica que fez na prezença dos seus vassalos quando descubrio ser + falso tudo quanto tinha machinado o Princepe seu filho contra D. + Affonso Sanches seu irmão. + He buscado por seu filho para lhe dar batalha. + Manda a Lourenço Annes Redondo, que mate a todos os que deram + entrada em Santarem ao Princepe seu filho, e assim se executa. + Por intervenção da Rainha Santa Isabel, se concerta com seu filhe D. + Affonso. + Avista-se em Guinaldo com a Rainha Dona Maria, e o que aqui passou. + Significa aos Reis de Castella o sentimento que teve com a morte dos + Infantes D. Pedro e D. João. + Pede-lhe seu neto El-Rei D. Affonso de Castella os danos que fazia + naquelle Reino seu tio o Infante D. Felippe, e o obriga a levantar + o sitio de Badajoz. + Celebra Côrtes em Lisboa, onde não assiste o Princepe D. Affonso seu + filho. + Sem embargo de que não queria que entrasse em Lisboa seu filho, este + o executa com gente armada de que se seguirão muitas mortes. + Em Santarem depois de uma grande contenda, se compõem com o + Princepe. + Legados que dispoz, antes de morrer. + Em que lugar, dia e anno morreo. + Foi levado a enterrar ao Mosteiro de S. Diniz de Odivellas que elle + fundara. + Das açoens heroicas que obrou, e das Villas, e Cidades que fundou, e + reedificou. + +Diogo Garcia, Chanceller mór do sello da puridade delRei D. Diniz, e +Mordomo mór da Rainha Dona Constança sua mulher assiste em Tarraçona com +o mesmo Princepe para compor as discordias, que havia entre D. Fernando +de Castella, e D. Jaymes de Aragão. + + +F + + +Filippe (El-Rei de França) chamado o Fermozo, como concorreu para ser +Pontifice Clemente V a quem pedio que queimasse o corpo de Bonifacio +VIII. + Á sua instancia, extinguiu o Papa a Ordem dos Templarios. + Morre desgraçadamente, e que filhos deixou. + +Felippe, (Ifante D.) Tio delRei de Castella, cerca a Badajoz, e é +obrigado a levantar o sitio pelo Princepe D. Affonso, filho delRei D. +Diniz. + +Fernando, (El-Rei D.) Terceiro de Castella, cazou com Dona Constança +filha delRei D. Diniz, e Santa Isabel. + Com que circunstancias, e conveniencias foi contratado este casamento. + He requerido por El-Rei D. Diniz, que largue os Lugares, que lhe tinha + uzurpado, e da pratica que lhe fizerão João Annes Redondo, e Mem + Rodrigues Rebotim Embaixadores de Portugal. + Recebe-se por palavras de prezente com a Infante Dona Constança, e da + pratica que fez aos circunstantes. + Sahe a receber a El-Rei D. Diniz com o Infante D. João na Villa de + Coelhar. + Pede soccorro a D. Diniz para continuar a guerra contra os Mouros, e + lhe manda setecentos cavallos, e lhe empresta para a mesma empreza + dezasseis mil, e seiscentos marcos de prata. + Dá-lhe em caução deste emprestimo as Cidades de Badalhouse, Alconchel, + e Brugilhos. + Cerca Algezira, e levanta o sitio. + Onde morreo, e de que idade. + + +G + + +Gibraltar foi tomado aos Mouros por João Nunes de Lara. + +Gil Martins, (D. Fr.) He eleito primeiro Mestre da Ordem militar de Jesu +Christo, instituida por ElRei D. Diniz. + +Guimarães, o seu Castello é defendido por Mem Rodrigues de Vasconcellos, +contra a invasão do Infante D. Affonso. + + +H + + +Henrique (Infante D.) Filho delRei D. João I de Portugal, foi perpetuo +administrador da Ordem de Christo. + +Honorio II. Deu regra aos Templarios. + + +I + + +Isabel, (Rainha Santa) Filha de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão, sendo +pretendida de muitos Princepes para espoza, é preferido entre todos +ElRei D. Diniz de Portugal. + Acompanhada do Bispo de Valença, e outros Cavalleiros, parte para + Portugal, e como della se despedio seu pai. + Sahe a recebella em Castella seu primo com irmão, o Infante D. Sancho, + e das palavras, que lhe disse. + Chega a Bragança, onde é cortejado pelo Infante D. Affonso irmão + delRei D. Diniz, e outros Cavalleiros. + Virtudes que praticou em toda a sua vida, e milagres que fez. + Por sua intervenção, e deligencia, se ajustarão as discordias del-Rei + D. Diniz com o Princepe seu filho. + Segunda vez pacifica ao mesmo Princepe com seu pai. + Por morte de seu Espozo se veste no habito de Santa Clara. + Edifica o Convento desta Santa em Coimbra, e o dotou da sua fazenda, e + nelle está sepultada. + +Isabel (D.) Filha do Infante D. Affonso de Portugal, e a Infante Dona +Violante, foi casada com D. João o Torto, filho do Infante D. João +chamado Rei de Lião. + +Isabel (D.) Filha de D. Jaimes Decimo Rei de Aragão, e da Rainha Dona +Violante, cazou com o Princepe D. Felippe filho herdeiro de São Luiz Rei +de França. + + +J + + +Jaymes (D.) Decimo Rei de Aragão, e avô paterno da Infante Dona Isabel, +mulher de D. Diniz de Portugal como naceo, e a cauza porque lhe puzerão +o nome de Jaime. + Tomou segunda vez Valença de Aragão aos Mouros. + Acabou a vida feito Monge. + Cazou com Dona Lianor filha delRei D. Affonso Nono de Castella, e foi + separado pela Igreja deste matrimonio. + Casa segunda vez com Dona Violante, filha de D. André Rei de Ungria de + quem teve muitos filhos. + +Jaimes, (D.) Rei de Malhorca, e Minorca, foi filho de D. Jaimes Decimo +Rei de Aragão, e da Rainha Dona Violante. + +Jaimes, (D.) Filho de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão a quem ficou o +Reino de Secilia, foi depois Rei de Aragão. + +João XXII. Concede privilegios para os Estudos que em Coimbra instituio +ElRei D. Diniz. + Expede uma Bulla na qual consola a D. Diniz nas discordias que tinha + com o Princepe seu filho. + Escreve huma carta a este mesmo Princepe sobre as discordias, que + tinha com seu pai. + +João, (D.) Infante de Castella sendo desterrado daquelle Reino, é +recebido em Portugal por seu tio ElRei D. Diniz. + +João Affonso (D.) Foi filho natural delRei D. Diniz. + +João Nunes de Lara, Senhor de Biscaya, foi preso por ElRei D. Diniz a +quem mandou soltar, e lhe fez grandes merces. + Tomou Gibraltar aos Mouros. + +João Velho, com Vasquo Pires, e João Martins são mandados por +Embaixadores a Aragão a ajustar o cazamento delRei D. Diniz com a +Infante Dona Isabel filha de D. Pedro Rei de Aragão. + + +L + + +Lianor (Rainha Dona) Filha de Affonso Nono de Castella, irmã de Dona +Urraqua Rainha de Portugal, casou com D. Jaimes Decimo Rei de Aragão, e +é separada de seu marido pela Igreja. + +Lopo (D.) Conde, e Senhor de Biscaya, é morto em Alfaro pelo Infante D. +Affonso irmão delRei D. Diniz. + +Lourenço Annes (D.) É eleito primeiro Mestre em Portugal dos Cavalleiros +de San-Tiago. + + +M + + +Manfreu Rei de ambas Secilias de quem foi filho. + Matou com veneno a seu pai, e irmão. + É morto em a batalha junto de Benavente em Italia que lhe deu o + Princepe Carlos, irmão de São Luiz Rei de França. + +Manoel (El-Rei D.) Foi perpetuo administrador da Ordem de Christo. + +Maria (Dona) Filha natural del-Rei D. Diniz, foi casada com D. João de +Lacerda. + +Maria (Dona) Filha natural delRei D. Diniz, foi Freira no Mosteiro de +Odivellas. + +Maria (Dona) Filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante, foi cazada +com D. Tello, Filho do Infante D. Affonso de Molina. + +Martim Gonçalves de Souza, Alferes mór delRei D. Diniz, é mandado por +este Princepe com setecentos cavallos a ajudar a ElRei de Castella na +guerra contra os Mouros. + +Mem Rodrigues de Vasconcellos, sustenta o Castello de Guimarães por D. +Diniz contra a invasão do Princepe D. Affonso. + +Messina, cercada pelo Infante Carlos irmão de São Luis Rei de França, e +levanta o sitio obrigado por D. Pedro Rei de Aragão. + +Mouros, ganhão as Fortalezas de Quesada, e Alcaudete com outros +Castellos no arrebalde de Jaen. + + +N + + +Nicoleo IV concede a ElRei D. Diniz, que os Cavalleiros de San-Tiago se +eximão da obediencia do Mestre de Castella. + +Nuno Gonçalves de Lara, filho de João Nunes de Lara, cazou com Dona +Constança filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante. + + +O + + +Ordem Militar de Jesu Christo, quando foi instituida por ElRei D. Diniz, +e quem foi o seu primeiro Mestre. + +Orraqua Vasques, é curada milagrosamente de um achaque pela Rainha Santa +Isabel. + + +P + + +Pedro (D.) undecimo Rei de Aragão, foi filho de D. Jaimes, e a Rainha +Dona Violante, e pai da Infante Santa Isabel. + Com quem cazou. + Recebe obediencia do Reino de Secilia. + É desafiado para Bordeos pelo Infante D. Carlos irmão de São Luis Rei + de França. + É excommungado pelo Papa. + Morreo violentamente sobre o cerco de Girona. + Filhos que teve. + Pratica que fez a sua filha quando partio para se receber com ElRei D. + Diniz. + +Pedro, (D.) Filho natural delRei D. Diniz, cazou com Dona Branca filha +de Pedro Annes Portel. + +Pedro, (D.) Conde de Barcellos filho natural delRei D. Diniz, foi o +autor das linhagens de Portugal. + + +S + + +Sancho (El-Rei D.) de Castella ajusta com ElRei D. Diniz cazar seus +filhos D. Fernando, e Dona Beatriz com os Infantes D. Affonso, e Dona +Constança, filhos daquelle Princepe. + Falta ás condições prometidas para estes despozorios. + Manda uma armada sobre o Algarve com que fez muitas hostilidades. + Manda por seu Embaixador o Bispo de Palença a tratar pazes com D. + Diniz, e não conclue o que intenta. + Em que lugar, e anno morreu. + +Sancho, (Infante D.) primo com irmão da Infante Dona Isabel, veio +recebella a Castella quando vinha desposarse com ElRei D. Diniz de +Portugal. + +Sancho (D.) Arcebispo de Toledo, e filho de D. Jaimes Decimo Rei de +Aragão, e da Rainha Dona Violante, foi morto na batalha de Andaluzia +contra os Mouros. + +Sancho de Ledesma, (D.) Filho dos Infantes D. Pedro, e Dona Margarida, +descontente delRei de Castella, veio fazerse vassallo delRei D. Diniz, o +qual lhe assinou uma grande renda. + Volta para Castella. + + +T + + +Tello (D.) filho do Infante D. Affonso de Molina, cazou com Dona Maria, +filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante, e neto de Affonso III de +Portugal. + +Templarios, quem forão os seus instituidores em Jerusalem, e que habitos +trazião. + Ações heroicas, e virtuozas que obravão. + São extinctos violentamente por Clemente V á instancia de Felippe de + França chamado o Fermozo. + No Concilio celebrado em Vianna da Provincia de Narbona se promulgou a + extenção desta Ordem. + As rendas desta Ordem são applicadas á do Hospital de S. João. + + +U + + +Urbano IV. Dá a investidura dos Reinos da Secilia, e Napoles ao Princepe +Carlos irmão de S. Luiz Rei de França. + + +V + + +Valdovino Rei de Jurusalem manda hospedar dentro do seu Palacio aos +primeiros fundadores da Ordem do Templo. + +Vasco Fernandes, Mestre dos Templarios em Portugal quando se extinguiu +esta Ordem. + +Violante (Dona) Filha de D. André Rei de Ungria, caza com D. Jaimes +Decimo Rei de Aragão, de quem teve muitos filhos. + +Violante (Dona) filha de D. Jaimes Decimo Rei de Aragão, e da Rainha +Dona Violante, cazou com D. Affonso Decimo de Castella avô delRei D. +Diniz de Portugal. + +Violante (Dona) Filha de D. Pedro undecimo Rei de Aragão, cazou com +ElRei Carlos irmão de São Luis Bispo de Toloza. + +Violante (Dona) Filha do Infante D. Manoel filho delRei D. Fernando de +Castella, e da Infante Dona Constança foi cazada com o Infante D. +Affonso filho de Affonso III, de Portugal, e que filhos teve. + + +Fim da Chronica d'ElRei D. Diniz + + + + +INDICE DOS CAPITULOS + + +I--Como El-Rei D. Diniz sendo Ifante, foi levantado por Rei, e +obedecido, e das virtudes que teve + +II--Como El-Rei D. Diniz cazou com Dona Isabel, filha del-Rei D. Pedro +Daraguam, e da Rainha Dona Constança, e de suas grandes virtudes, e +santidade + +III--Do Fundamento, e cousas, que ouve pera El-Rei D. Diniz aver algumas +Villas, e Castellos de riba Dodiana, que forão de Castella + +IV--Dos filhos legitimos, que El Rei D. Diniz ouve da Rainha D. Isabel, +e assi doutros bastardos + +V--Do desacordo, que ouve entre El-Rei D. Diniz, e o Ifante D. Affonso +seu irmão + +VI--Do que succedeu do Casamento do Ifante D. Affonso, filho del-Rei D. +Diniz, e do Ifante D. Fernando, filho del-Rei D. Sancho de Castella + +VII--Como El-Rei D. Diniz entrou em Castella, e da crua guerra, que de +uma parte e da outra se fazia + +VIII--Dos grandes males, e danos que de um Reino a outro se faziam, e +dalguns Luguares de Castella, que os Mouros tomaram + +IX--Da razam porque El-Rei D. Diniz desistio desta guerra, e se tornou a +Portugal + +X--Dos casamentos, e Escaibos que depois da concordia se fizerão antre +estes Rex em Alcanizes + +XI--Como El-Rei D. Fernando cazou com a Ifante Dona Constança, e o +Ifante D. Affonso de Portugal com a Ifante Dona Beatriz de Castella, e +das Menagens, que sobreesso se fizerão, e da decisão, que fez nas +contendas que havia antre os Princepes Despanha, e da grandeza, e +prudencia com que nella se ouve, e muitas mercees que fez + +XII--Das ajudas, que El Rei D. Fernando de Castella, ouve delRei D. +Diniz, pera a guerra dos Mouros de Grada + +XIII--Como El-Rei D. Diniz ordenou em Coimbra o primeiro Estudo, que +ouve em Portugal + +XIV--Como foi feito em Portugal Mestre de San-Tiago izento da Ordem de +Ucres de Castella + +XV--Do fundamento que teve a Ordem do Templo de Salamão em Jerusalem, e +como foi desfeita, e se fez a Ordem de Christo + +XVI--Do principaal fundamento, e verdadeira cauza pera esta Ordem dos +Templarios ser destroida + +XVII--Como o Papa, e El-Rei de França notificarão a El Rei D. Diniz esta +condenação dos Templarios, e de sua Ordem + +XVIII--Da discordia, que ouve antre El-Rei D. Diniz, e o Ifante D. +Affonso seu filho herdeiro, e as cauzas porque + +XIX--Das couzas que o Ifante capitulou pera matar Affonso Sãches seu +irmaão, ou o desterrar fóra do Regno + +XX--Da diligencia que El-Rei fez pera saber a verdade dos estromentos de +Maguazella + +XXI--Dalgumas couzas mais, que o Ifante fez contra vontade, e serviço +del-Rei seu padre + +XXII--Como o Ifante se partio de Coimbra pera Lixboa, e do que lhe +aconteceo com El-Rei no Caminho + +XXIII--Como o Ifante levou a molher, e os filhos a Castella, e os +Lugares, que tomou a El-Rei seu padre + +XXIV--Como El Rei, e o Ifante foram concordados por meio, e intercessão +da Rainha Dona Isabel, e da maneira que nesso teve, e das menagens que +pera segurança desso se fizerão + +XXV--De huma carta do Papa João XXII ao Ifante D. Affonso filho del-Rei +D. Diniz, sobre as desavenças com seu pai + +XXVI--Como a Rainha Dona Maria de Castella depois da morte del-Rei D. +Fernando seu filho, teve vistas com El-Rei D. Diniz, a que trouxe El-Rei +D. Affonso menino neto dambos, e do que concertaram + +XXVII--Como o Ifante D. Affonso se apparelhou pera pelejar com o Ifante +D. Felipe, que contrariava o asecego de Castella, e como o Ifante D. +Felipe se foi + +XXVIII--Como o Ifante D. Affonso requereo a El-Rei D. Diniz seu padre, +que fizesse Cortes ás quaes depois nom quiz vir + +XXIX--Como o Ifante sobre uma vinda, que contra vontade del-Rei quizera +fazer a Lixboa, foram perto de pelejar, e porque o leixaram de fazer + +XXX--Como as gentes del-Rei, e do Ifante pelejaram sobresto em Santarem, +e do que se fez + +XXXI--Da morte del-Rei D. Diniz + +XXXII--Das obras, e couzas notaveis, que El-Rei D. Diniz fez em sua vida + + + + +CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ + +2 vol. 800 réis + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. II), by +Rui de Pina + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA D'EL REI D. DINIZ *** + +***** This file should be named 18167-8.txt or 18167-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/8/1/6/18167/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + +*** END: FULL LICENSE *** + diff --git a/18167-8.zip b/18167-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..97c5e6a --- /dev/null +++ b/18167-8.zip diff --git a/18167-h.zip b/18167-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..db2ace0 --- /dev/null +++ b/18167-h.zip diff --git a/18167-h/images/cover.jpg b/18167-h/images/cover.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ac3427c --- /dev/null +++ b/18167-h/images/cover.jpg diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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