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+The Project Gutenberg EBook of Marilia de Dirceo, by Tomás António Gonzaga
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Marilia de Dirceo
+
+Author: Tomás António Gonzaga
+
+Release Date: March 30, 2006 [EBook #18082]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MARILIA DE DIRCEO ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+MARILIA DE DIRCEO.
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+MARILIA DE DIRCEO.
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+POR T.A.G.
+
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+PRIMEIRA PARTE.
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+LISBOA:
+
+Na Typ. de J.F.M. de Campos. 1824.
+
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+
+MARILIA DE DIRCEO.
+
+
+
+
+LYRA I.
+
+
+Eu, Marilia, não sou algum vaqueiro,
+Que viva de guardar alheio gado,
+De tosco trato, de expressões grosseiro,
+Dos frios gelos, e dos sóes queimado.
+Tenho proprio casal, e nelle assisto;
+Dá-me vinho, legume, fruta, azeite,
+Das brancas ovelhinas tiro o leite,
+E mais as finas lãs, de que me visto.
+ Graças, Marilia bella,
+ Graças á minha Estrella!
+
+ Eu vi o meu semblante n'uma fonte,
+Dos annos inda não está cortado:
+Os Pastores, que habitão este monte,
+Respeitão o poder do meu cajado.
+Com tal destreza toco a sanfoninha,
+Que inveja até me tem o proprio Alceste:
+Ao som della concerto a voz celeste;
+Nem canto letra que não seja minha.
+ Graças, Marilia bella,
+ Graças á minha Estrella!
+
+ Mas tendo tantos dotes da ventura,
+Só aprêço lhes dou, gentil Pastora,
+Depois que o teu affecto me segura,
+Que queres do que tenho ser Senhora.
+He bom, minha Marilia, he bom ser dono
+De hum rebanho, que cubra monte, e prado
+Porém, gentil Pastora, o teu agrado
+Vale mais [~q] h[~u] rebanho, e mais [~q] h[~u] throno.
+ Graças, Marilia bella,
+ Graças á minha Estrella!
+
+ Os teus olhos espalhão luz divina,
+A quem a luz do Sol em vão se atreve:
+Papoila, ou rosa delicada, e fina,
+Te cobre as faces, que são côr da neve.
+Os teus cabellos são huns fios d'ouro;
+Teu lindo corpo balsamos vapora.
+Ah! não, não fez o Ceo, gentil Pastora,
+Para gloria de Amor igual Thesouro.
+ Graças, Marilia bella,
+ Graças á minha Estrella!
+
+ Leve-me a sementeira muito embora
+O rio sobre os campos levantado:
+Acabe, acabe a peste matadora,
+Sem deixar huma rez, o nedeo gado.
+Já destes bens, Marilia, não preciso:
+Nem me céga a paixão, que o mundo arrasta,
+Para viver feliz, Marilia, basta
+Que os olhos movas, e me dês hum riso.
+ Graças, Marilia bella,
+ Graças á minha Estrella!
+
+ Hirás a divertir-te na floresta,
+Sustentada, Marilia, no meu braço;
+Aqui descançarei a quente sésta,
+Dormindo num leve somno em teu regaço:
+Era quanto a luta jogão os Pastores,
+E emparelhados correm nas campinas,
+Toucarei teus cabellos de boninas,
+Nos troncos gravarei os teus louvores.
+ Graças, Marilia bella,
+ Graças á minha Estrella!
+
+ Depois que nos ferir a mão da Morte
+Ou seja neste monte, ou n'outra serra,
+Nossos corpos terão, terão a sorte
+De consumir os dous a mesma terra.
+Na campa, rodeada de cyprestes,
+Leráõ estas palavras os Pastores:
+"Quem quizer ser feliz nos seus amores,
+Siga os exemplos que nos derão estes"
+ Graças, Marilia bella,
+ Graças á minha Estrella!
+
+
+
+
+LYRA II.
+
+
+Pintão, Marilia, os Poetas
+A hum menino vendado,
+Com huma aljava de settas,
+Arco empunhado na mão:
+Ligeiras azas nos hombros,
+O tenro corpo despido;
+E de Amor, ou de Cupido
+São os nomes que lhe dão.
+
+ Porém eu, Marilia, nego,
+Que assim seja Amor; pois elle
+Nem he moço, nem he cégo,
+Nem settas, nem azas tem,
+Ora pois, eu vou formar-lhe
+Hum retrato mais perfeito,
+Que elle já ferio meu peito;
+Por isso o conheço bem.
+
+ Os seus compridos cabellos;
+Que sobre as costas ondeão,
+São que os de Apollo mais bellos;
+Mas de loura côr não são.
+Tem a côr da negra noite;
+E com o branco do rosto
+Fazem, Marilia, hum composto
+Da mais formosa união.
+
+ Tem redonda, e lisa testa;
+Arqueadas sobrancelhas;
+A voz meiga, a vista honesta,
+E seus olhos são huns sóes,
+Aqui vence Amor ao Ceo,
+Que no dia luminoso
+O Ceo tem hum Sol formoso,
+E o travesso Amor tem dous.
+
+ Na sua face mimosa,
+Marilia, estão misturadas
+Purpureas folhas de rosa,
+Brancas folhas de jasmim.
+Dos rubins mais preciosos
+Os seus beiços são formados;
+Os seus dentes delicados
+São pedaços de marfim.
+
+ Mal vi seu rosto perfeito
+Dei logo hum suspiro, e elle
+Conheceo haver-me feito
+Estrago no coração.
+Punha em mim os olhos, quando
+Entendia eu não olhava:
+Vendo que o via, baixava
+A modesta vista ao chão.
+
+ Chamei-lhe hum dia formoso;
+Elle ouvindo os seus louvores
+Com hum modo desdenhoso,
+Se surrio, e não fallou.
+Pintei-lhe outra vez o estado,
+Em que estava esta alma posta;
+Não me deo tambem resposta,
+Constrangeo-se, e suspirou.
+
+ Conheço os signaes, e logo
+Animado da esperança,
+Busco dar hum desaffogo
+Ao cansado coração.
+Pégo em seus dedos nevados,
+E querendo dar-lhe hum beijo,
+Cubrio-se todo de pejo,
+E fugio-me com a mão.
+
+ Tu, Marilia, agora vendo
+De Amor o lindo retrato,
+Comtigo estarás dizendo,
+Que he este o retrato teu.
+Sim, Marilia, a copia he tua,
+Que Cupido he Deos supposto:
+Se ha Cupido he só teu rosto,
+Que elle foi quem me venceo.
+
+
+
+
+LYRA III.
+
+
+De amar, minha Marilia, a formosura
+Não se podem livrar humanos peitos.
+Adorão os Heróes, e os mesmos brutos
+Aos grilhões de Cupido estão sujeitos.
+Quem, Marilia, despreza huma belleza,
+ A luz da razão precisa,
+ E se tem discurso, pisa
+A Lei, que lhe ditou a Natureza.
+
+ Cupido entrou no Ceo. O grande Jove
+Huma vez se mudou em chuva de ouro:
+Outras vezes tomou as varias fórmas
+De General de Thebas, velha, e touro,
+O proprio Deos da Guerra deshumano
+ Não viveo de amor illeso;
+ Quiz a Venus, e foi prezo
+Na rede, que lhe armou o Deos Vulcano.
+
+ Se amar huma belleza se desculpa
+Em quem ao proprio Ceo, e terra move;
+Qual he a minha gloria, pois igualo,
+Ou excedo no amor ao mesmo Jove?
+Amou o Pai dos Deoses Soberano
+ Hum semblante peregrino:
+ Eu adoro o teu divino,
+O teu divino rosto, e sou humano.
+
+
+
+
+LYRA IV.
+
+
+Marilia, teus olhos
+São réos, e culpados,
+Que soffra, e que beije
+Os ferros pezados
+De injusto Senhor.
+ Marilia, escuta
+ Hum triste Pastor.
+
+Mal vi o teu rosto,
+O sangue gelou-se,
+A lingoa prendeo-se,
+Tremi, e mudou-se
+Das faces a côr.
+ Marilia, escuta
+ Hum triste Pastor.
+
+A vista furtiva,
+O risco imperfeito,
+Fizerão a chaga,
+Que abriste no peito
+Mais funda, e maior.
+ Marilia, escuta
+ Hum triste Pastor.
+
+Dispuz-me a servir-te;
+Levava o teu gado
+Á fonte mais clara,
+Á vargem, e prado
+De relva melhor.
+ Marilia, escuta
+ Hum triste Pastor.
+
+Se vinha da herdade,
+Trazia nos ninhos
+As aves nascidas,
+Abrindo os biquinhos
+De fome ou temor.
+ Marilia, escuta
+ Hum triste Pastor.
+
+Se alguem te louvava
+De gosto me enchia;
+Mas sempre o ciume
+No rosto accendia
+Hum vivo calor.
+ Marilia, escuta
+ Hum triste Pastor.
+
+ Se estavas alegre,
+Dirceo se alegrava;
+Se estavas sentida,
+Dirceo suspirava
+Á força da dor.
+ Marilia, escuta
+ Hum triste Pastor.
+
+ Fallando com Laura,
+Marilia dizia;
+Surria-se aquella,
+E eu conhecia
+O erro de amor.
+ Marilia, escuta
+ Hum triste Pastor.
+
+ Movida, Marilia,
+De tanta ternura,
+Nos braços me déste,
+Da tua fé pura
+Hum doce penhor.
+ Marilia, escuta
+ Hum triste Pastor.
+
+ Tu mesma disseste
+Que tudo podia
+Mudar de figura;
+Mas nunca seria
+Teu peito traidor.
+ Marilia, escuta
+ Hum triste Pastor.
+
+ Tu já te mudaste;
+E a Olaia frondoza,
+Aonde escreveste
+A jura horrorosa,
+Tem todo o vigor.
+ Marilia, escuta
+ Hum triste Pastor.
+
+ Mas eu te desculpo,
+Que o fado tyranno
+Te obriga a deixar-me;
+Pois busca o meu damno
+Da sorte, que for.
+ Marilia, escuta
+ Hum triste Pastor.
+
+
+
+
+LYRA V.
+
+
+A caso são estes
+Os sitios formosos,
+Aonde passava
+Os annos gostosos?
+São estes os prados,
+Aonde brincava,
+Em quanto pastava
+O manso rebanho,
+Que Alceo me deixou?
+ São estes os sitios?
+ São estes; mas eu
+ O mesmo não sou.
+ Marilia, tu chamas?
+ Espera que eu vou.
+
+ Daquelle penhasco
+Hum rio cahia,
+Ao som do sussurro
+Que vezes dormia!
+Agora não cobrem
+Espumas nevadas
+As pedras quebradas:
+Parece que o rio
+O curso voltou.
+ São estes os sitios?
+ São estes; mas eu
+ O mesmo não sou.
+ Marilia, tu chamas?
+ Espera que eu vou.
+
+ Meus versos alegre
+Aqui repetia:
+O Eco as palavras
+Tres vezes dizia.
+Se chamo por elle
+Já não me responde;
+Parece se esconde,
+Cansado de dar-me
+Os ais que lhe dou.
+ São estes os sitios?
+ São estes; mas eu
+ O mesmo não sou.
+ Marilia, tu chamas?
+ Espera que eu vou.
+ Aqui hum regato
+Corria sereno,
+Por marg[~e]s cobertas
+De flores, e feno:
+Á esquerda se erguia
+Hum bosque fechado;
+E o tempo apressado,
+Que nada respeita,
+Já tudo mudou.
+ São estes os sitios?
+ São estes; mas eu
+ O mesmo não sou.
+ Marilia, tu chamas?
+ Espera que eu vou.
+
+ Mas como discorro?
+Acaso podia
+Já tudo mudar-se
+No espaço de hum dia?
+Existem as fontes,
+E os freixos copados;
+Dão flores os prados,
+E corre a cascata,
+Que nunca seccou.
+ São estes os sitios?
+ São estes; mas eu
+ O mesmo não sou.
+ Marilia, tu chamas?
+ Espera que eu vou.
+
+ Minha alma, que tinha
+Liberta a vontade,
+Agora já sente
+Amor, e saudade.
+Os sitios formosos,
+Que já me agradárão,
+Ah! não se mudárão!
+Mudárão-se os olhos,
+De triste que estou.
+ São estes os sitios?
+ São estes; mas eu
+ O mesmo não sou.
+ Marilia, tu chamas?
+ Espera que eu vou.
+
+
+
+
+LYRA VI.
+
+
+Oh! quanto póde em nós a varia Estrella!
+Que diversos que são os genios nossos!
+ Qual solta a branca vélla,
+E affronta sobre o pinho os mares grossos.
+Qual cinge com a malha o peito duro;
+E marchando na frente das cohortes,
+Faz a toare voar, cahir o muro.
+
+ O sordido avarento em vão trabalha,
+Que possa o filho entrar no seu Thesouro.
+ Aqui fechado estende
+Sobre a taboa, que verga, as barras de ouro.
+Sacode o jogador da copo os dados;
+E n'uma noite só, que ao somno rouba,
+Perde o resto dos bens do pai herdados.
+
+ O que da voráz gulla o vicio adora
+Da lauta meza os prazeres fia.
+ E o terno Alceste chora
+Ao som dos versos a que o genio o guia.
+O sabio Gallileo toma o compasso,
+E sem voar ao Ceo, calcula, e mede
+Das Estrellas, e Sol o immenso espaço.
+
+ Em quanto pois, Marilia, a varia gente,
+Se deixa conduzir do proprio gosto;
+ Passo as horas contente
+Notando as graças do teu lindo rosto.
+Sem cansar-me a saber se o Sol se móve,
+Ou se a terra voltea, assim conheço.
+Aonde chega a mão do grande Jove.
+
+ Noto, gentil Marilia, os teus cabellos;
+E noto as faces de Jasmins, e rosas:
+ Noto os teus olhos bellos;
+Os brancos dentes, e as feições mimosas.
+Quem fez huma obra tão perfeita, e linda,
+Minha bella Marilia, tambem póde
+Fazer os Ceos, e mais, se ha mais ainda.
+
+
+
+
+LYRA VII.
+
+
+Vou retratar a Marilia,
+A Marilia meus amores;
+Porém como, se eu não vejo
+Quem me empreste as finas cores!
+Dar-mas a terra não póde;
+Não que a sua côr mimosa
+Vence o lyrio, vence a rosa:
+O jasmim, e as outras flores.
+ Ah soccorre, Amor, soccorre
+ Ao mais grato empenho meu!
+ Vôa sobre os Astros, vôa,
+ Traze-me as tintas do Ceo.
+
+ Mas não se esmoreça logo;
+Busquemos hum pouco mais;
+Nos mares talvez se encontrem
+Cores que sejão iguaes.
+Porém não, que em parallelo
+Da minha Ninfa adorada
+Perolas não valem nada,
+Não valem nada os coraes.
+ Ah soccorre, Amor, soccorre
+ Ao mais grato empenho meu!
+ Vôa sobre os Astros, vôa,
+ Traze-me as tintas do Ceo.
+
+ Só no Ceo achar se podem
+Taes bellezas, como aquellas,
+Que Marilia tem nos olhos,
+E que tem nas faces bellas.
+Mas ás faces graciosas,
+Aos negros olhos, que matão,
+Não imitão, não retratão
+Nem Auroras, nem Estrellas.
+ Ah soccorre, Amor, soccorre
+ Ao mais grato empenho meu!
+ Vôa sobre os Astros, vôa,
+ Traz-me as tintas do Ceo.
+
+ Entremos, Amor, entremos,
+Entremos na mesma Esfera.
+Venha Pallas, Venha Juno,
+Venha a Deosa de Cithera.
+Porém não, que se Marilia
+No certame antigo entrasse,
+Bem que a Paris não peitasse,
+A todas as tres vencera.
+ Vai-te, Amor, em vão soccorres
+ Ao mais grato empenho meu:
+ Para formar-lhe o retrato
+ Não bastão tintas do Ceo.
+
+
+
+
+LYRA VIII.
+
+
+Marilia, de que te queixas?
+De que te roube Dirceo
+O sincero coração?
+Não te deo tambem o seu?
+E tu, Marilia, primeiro
+Não lhe lançaste o grilhão?
+ Todos amão: só Marilia
+ Desta Lei da Natureza
+ Queria ter izenção?
+
+ Em torno das castas pombas
+Não rulão ternos pombinhos?
+E rulão, Marilia, em vão?
+Não se afagão c'os biquinhos?
+E a provas de mais ternura
+Não os arrasta a paixão?
+ Todos amão: só Marilia
+ Desta Lei da Natureza
+ Queria, ter izenção?
+
+ Já viste, minha Marilia,
+Avezinhas, que não fação
+Os seus ninhos no verão?
+Aquellas com quem se enlação
+Não vão cantar-lhe defronte
+Do molle pouzo em que estão?
+ Todos amão: só Marilia
+ Desta Lei da Natureza
+ Queria ter izenção?
+
+ Se os peixes, Marilia, gerão
+Nos bravos mares, e rios,
+Tudo effeitos de Amor são.
+Amão os brutos impios,
+A serpente venenosa,
+A Onça, o Tigre, o Leão.
+ Todos amão: só Marilia
+ Desta Lei da Natureza
+ Queria ter izenção?
+
+ As grandes Deosas do Ceo,
+Sentem a setta tyranna
+Da amorosa inclinação.
+Diana, com ser Diana,
+Não se abrasa, não suspira
+Pelo amor de Endymão?
+ Todos amão: só Marilia
+ Desta Lei da Natureza
+ Queria ter izençao?
+
+ Desiste, Marilia bella,
+De huma queixa sustentada
+Só na altiva opinião.
+Esta chamma he inspirada
+Pelo Ceo; pois nella assenta
+A nossa conservação.
+ Todos amão: só Marilia
+ Desta Lei da Natureza
+ Não deve ter izenção.
+
+
+
+
+LYRA IX.
+
+
+Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo,
+Porém não me venceo a mão armada
+ De ferro, e de furor:
+Huma alma sobre todas elevada
+Não cede a outra força que não seja
+ Á tenra mão de Amor.
+
+ Arrastem pois os outros muito embora
+Cadêas nas bigornas trabalhadas
+ Com pezados martellos:
+Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas
+Com duros ferros não, com fios d'ouro,
+ Que são os teus cabellos.
+
+ Occulto nos teus meigos vivos olhos
+Cupido a tudo faz tyranna guerra:
+ Sacode a setta ardente;
+E sendo despedida cá da terra,
+As nuvens rompe, chega ao alto Impirio,
+ E chega ainda quente.
+
+ As abelhas nas azas suspendidas
+Tirão, Marilia, os succos saborosos
+ Das orvalhadas flores:
+Pendentes dos teus beiços graciosos
+Ambrosias chupão, chupão mil feitiços
+ Nunca fartos Amores.
+
+ O vento quando parte em largas fitas
+As folhas, que menêa com brandura;
+ A fonte crystallina,
+Que sobre as pedras cáe de immensa altura;
+Não fórma hum som tão doce, como fórma
+ A tua voz divina.
+
+ Em torno dos teus peitos, que palpitão;
+Exalão mil suspiros desvelados
+ Enchames de desejos;
+Se encontrão os teus olhos descuidados,
+Por mais que se atropelem, voão, chegão,
+ E dão furtivos beijos.
+
+ O Cisne, quando corta o manso lago,
+Erguendo as brancas azas, e o pescoço;
+ A Náo que ao longe passa,
+Quando o vento lhe infuna o panno grosso;
+O teu garbo não tem, minha Marilia,
+ Não tem a tua graça.
+
+ Estimem pois os mais a liberdade:
+Eu prézo o captiveiro: sim, nem chamo
+ Á mão de Amor impia:
+Honro a virtude, e os teus dotes amo:
+Tambem o grande Achilles veste a saia
+ Tambem Alcides fia.
+
+
+
+
+LYRA X.
+
+
+Se existe hum peito,
+Que izento viva
+Da chamma activa,
+Que accende Amor.
+ Ah! não habite
+Neste montado;
+Fuja apressado
+Do vil traidor.
+
+ Corra, que o Impio
+Aqui se esconde:
+Não sei aonde;
+Mas sei o que vi.
+ Traz novas settas,
+Arco robusto;
+Tremi de susto;
+Em vão fugi.
+
+ Eu vou mostrar-vos,
+Tristes mortaes,
+Quantos signaes
+O Impio tem.
+ Oh! como he justo,
+Que todo o humano
+Hum tal tyranno
+Conheça bem!
+
+ No corpo ainda
+Menino existe:
+Mas quem resiste
+Ao braço seu?
+ Ao negro Inferno
+Levou a guerra:
+Vencêo a terra,
+Vencêo o Ceo.
+
+ Já mais se cobrem
+Seus membros bellos;
+E os seus cabellos
+Que lindos são!
+ Vendados olhos,
+Que tudo alcanção,
+E já mais lanção
+A setta em vão.
+
+ As suas faces
+São côr da neve;
+E a bocca breve
+Só rizos tem.
+ Mas, ah! respira
+Negros venenos,
+Que nem ao menos
+Os olhos vem.
+
+ Aljava grande
+Dependurada,
+Sempre atacada
+De bons farpões.
+ Fere com estas
+Agudas lanças,
+Pombinhas mansas,
+Bravos leões.
+
+ Se a setta falta
+Tem outra prompta,
+Que a dura ponta
+Já mais torcêo.
+ Ninguem resiste
+Aos golpes della:
+Marilia bella
+Foi quem lha dêo.
+
+ Ah! não sustente
+Dura peleija,
+O que deseja
+Ser vencedor.
+ Fuja, e não olhe,
+Que só fugindo
+De hum rosto lindo,
+Se vence Amor.
+
+
+
+
+LYRA XI.
+
+
+Naõ toques, minha Musa, não, não toques
+ Na sonorosa Lyra,
+Que ás almas, como a minha, namoradas
+ Doces Canções inspira:
+Assopra no clarim, que apenas sôa
+ Enche de assombro a terra;
+Naquelle, a cujo som cantou Homero,
+ Cantou Virgilio a Guerra.
+
+ Busquemos, ó Musa,
+Empreza maior;
+Deixemos as ternas
+Fadigas de Amor.
+
+Eu já não vejo as graças, de que fórma
+ Cupido o seu thesouro:
+Vivos olhos, e faces côr da neve,
+ Com crespos fios de ouro;
+Meus olhos só vem gramas, e loureiros;
+ Vem carvalhos, e palmas;
+Vem os ramos honrosos, que destinguem
+ As vencedoras almas.
+
+Busquemos, ó Musa,
+Empreza maior;
+Deixemos as ternas
+Fadigas de Amor.
+
+Cantemos o Heróe, que já no berço
+ As Serpes despedaça;
+Que fere os Cácos, que destronca as Hidras,
+ Mais os leões que abraça.
+Cantemos, se isto he pouco, a dura guerra
+ Dos Tritães, e Tyféos,
+Que arrancão as montanhas, e atrevidos
+ Levão armas aos Ceos.
+
+ Busquemos, ó Musa,
+ Empreza maior;
+ Deixemos as ternas
+ Fadigas de amor.
+
+Anima pois, ó Musa, o instrumento,
+ Que a voz tambem levanto;
+Porém tu déste muito assima o ponto,
+ Dirceo não póde tanto:
+Abaixa, minha Musa, o tom, que ergueste;
+ Eu já, eu já te sigo.
+Mas, ah! vou a dizer _Heróe_, e _Guerra_,
+ E só _Marilia_ digo.
+
+ Deixemos, ó Musa,
+ Empreza maior,
+ Só posso seguir-te
+ Cantando de Amor.
+
+ Feres as cordas d'ouro? Ah! sim, agora
+ Meu canto já se afina;
+E a huma voz, parece que ao som dellas
+ Se faz tambem divina.
+O mesmo que cercou de muro a Thebas
+ Não canta assim tão terno;
+Nem póde competir comigo aquelle,
+ Que desce ao negro Inferno.
+
+ Deixemos, ó Musa,
+ Empreza maior,
+ Só posso seguir-te
+ Cantando de Amor.
+
+ Mal repito _Marilia_, as doces aves
+ Mostrão signaes de espanto,
+Erguem os collos, voltão as cabeças,
+ Parão o ledo canto;
+Move-se o tronco, o vento se suspende
+ Pasma o gado, e não come:
+Quanto podem meus versos! Quanto póde
+ Só de Marilia o nome!
+
+ Deixemos, ó Musa,
+ Empreza maior;
+ Só posso seguir-te
+ Cantando de Amor.
+
+
+
+
+LYRA XII.
+
+
+Topei hum dia
+Ao Deos vendado,
+Que descuidado
+Não tinha as settas
+Na impia mão.
+ Mal o conheço,
+Me sóbe logo
+Ao rosto o fogo,
+Que a raiva accende
+No coração.
+
+ _Morre, Tyranno,
+Morre, inimigo_!
+Mal isto digo,
+Raivoso o apérto
+Nos braços meus.
+ Tanto que o moço
+Sente apertar-se,
+Para salvar-se
+Tambem me aperta
+Nos braços seus.
+
+ O leve corpo
+Ao ar levanto,
+Ah! e com quanto
+Impulso o trago
+Do ar ao chão!
+ Poude suster-se
+A vez primeira;
+Mas á terceira
+Nos pés, que alarga,
+Se firma em vão.
+
+ Mal o derrubo,
+Ferro aguçado
+No já cançado
+Peito, que arqueja,
+Mil golpes deo.
+ Suou seu corpo;
+Tremêo gemendo;
+E á côr perdendo,
+Batêo as azas;
+Em fim morreo.
+
+ Qual bravo Alcides,
+Que a hirsuta pelle
+Vestio daquelle
+Grenhoso bruto,
+A quem matou.
+ Para que próve
+A empreza honrada,
+C'o a mão manchada
+Recolho as settas,
+Que me deixou.
+
+ Ouvio Marilia
+Que Amor gritava,
+E como estava
+Vizinha ao sitio
+Valer-lhe vem.
+ Mas quando chega
+Espavorida,
+Nem já de vida
+O féro monstro
+Indicio tem.
+
+ Então Marilia,
+Que o vê de perto
+De pó cuberto,
+E todo involto
+No sangue seu;
+ As mãos aperta
+No peito brando,
+E afflicta dando
+Hum ai, os olhos
+Levanta ao Ceo.
+
+ Chega-se a elle
+Compadecida;
+Lava a ferida
+C'o pranto amargo,
+Que deramou.
+ Então o monstro
+Dando hum suspiro,
+Fazendo hum gyro
+C'o a baça vista,
+Resuscitou.
+
+ Respira a Deosa;
+E vem o gosto
+Fazer no rosto
+O mesmo effeito,
+Que fez a dôr.
+ Que louca idéa
+Foi a que tive!
+Em quanto vive
+Marilia bella,
+Não morre Amor.
+
+
+
+
+LYRA XIII.
+
+
+Oh! quantos riscos,
+Marilia bella,
+Não atropella
+Quem cégo arrasta
+Grilhões de Amor!
+ Hum peito forte,
+De acordo falto,
+Zomba do assalto
+Do vil traidor.
+
+ O amante de Hero
+Da luz guiado,
+C'o peito ousado
+Na escura noite
+Rompia o mar,
+ Se o Helesponto
+Se encapellava,
+Ah! não deixava
+De lhe ir fallar.
+
+ Do cantor Thracio
+A heroicidade
+Esta verdade,
+Minha Marilia,
+Prova tambem.
+ Cheio de esfôrço
+Vai ao Cocyto
+Buscar afflito
+Seu doce bem.
+
+ Que acção tão grande
+Nunca intentada!
+Ao pé da entrada
+Já tudo assusta
+O coração!
+ Pendentes rochas,
+Campos adustos,
+Que nem arbustos
+Nem hervas dão.
+
+ Na funda fralda
+De calvo monte,
+Corre Acheronte,
+Rio de ardente
+Mortal licor.
+ Tem o barqueiro
+Testa enrugada,
+Vista inflammada,
+Que mete horror.
+
+ Que seguranças!
+Que fechaduras!
+As portas duras
+Não são de lenhos;
+De ferro são.
+ Por tres gargantas,
+Quando alguem bate,
+Raivoso late
+O negro cão.
+
+ Dentro da cova
+Soão lamentos;
+E que tormentos
+Não mostra aos olhos
+A escassa luz!
+ Minos a pena
+Manda se intime
+Igual ao crime,
+Que alli conduz.
+
+ Grande penedo
+Este carrega;
+E apenas chega
+Do monte ao cume,
+O faz rolar.
+ A pedra sempre
+Ao valle desce,
+Sem que elle cesse
+De a ir buscar.
+
+ Nas limpas aguas
+Habita aquelle:
+Por cima delle
+Verdejão ramos,
+Que pomos dão.
+ Debalde a bocca
+Molhar pertende;
+De balde estende
+Faminta mão.
+
+ Tem outro o peito
+Despedaçado:
+Monstro esfaimado
+Já mais descança
+De lho roêr.
+ A rôxa carne,
+Que o abutre come,
+Não se consome,
+Torna a crescer.
+
+ Mas bem que tudo
+Pavor inspira,
+Tocando a lyra
+Desce ao Averno
+O bom Cantor.
+ Não se entorpece
+A lingua, e braço;
+Não treme o passo,
+Não perde a côr.
+
+ Ah! tambem quanto
+Dirceo obrára,
+Se precisára,
+Marilia bella,
+Do esforço seu!
+ Rompêra os mares
+C'o peito terno,
+Fôra ao Inferno,
+Subíra ao Ceo.
+
+ Aos dois amantes
+De Thracia, e Abydo
+Não deo Cupido
+Do que aos mais todos
+Maior valor.
+ Por seus vassallos
+Forças reparte,
+Como lhes parte
+Os gráos de Amor.
+
+
+
+
+LYRA XIV.
+
+
+Minha bella Marilia, tudo passa;
+A sorte deste mundo he mal segura;
+Se vem depois dos males a ventura,
+Vem depois dos prazeres a desgraça.
+ Estão os mesmos Deoses
+Sujeitos ao poder do impio Fado:
+Apollo já fugio do Ceo brilhante,
+ Já foi Pastor de gado.
+
+ A devorante mão da negra Morte
+Acaba de roubar o bem, que temos;
+Até na triste campa não podemos
+Zombar do braço da inconstante sorte.
+ Qual fica no sepulchro,
+Que seus a vós erguêrão, descançando:
+Qual no campo, e lhe arranca os frios casos
+ Ferro do torto arado.
+
+ Ah! em quanto os Destinos impiedosos
+Não voltão contra nós a face irada,
+Façamos, sim façamos, doce amada,
+Os nossos breves dias mais ditosos.
+ Hum coração que frouxo
+A grata posse de seu bem difere,
+A si, Marilia, a si proprio rouba,
+ E a si proprio fere.
+
+ Ornemos nossas testas com as flores,
+E façamos de feno hum brando leito,
+Prendamo-nos, Marilia, em laço estreito,
+Gozemos do prazer de sãos Amores.
+ Sobre as nossas cabeças,
+Sem que o possão deter, o tempo corre;
+E para nós o tempo, que se passa,
+ Tambem, Marilia, morre.
+
+ Com os annos, Marilia, o gôsto falta,
+E se entorpece o corpo já cançado;
+Triste o velho cordeiro está deitado,
+E o leve filho sempre alegre salta.
+ A mesma formosura
+He dote, que só goza a mocidade:
+Rugão-se as faces, o cabello alveja,
+ Mal chega a longa idade.
+
+ Que havemos d'esperar, Marilia bella?
+Que vão passando os florecentes dias?
+As glorias, que vem tarde, já vem frias;
+E póde em fim mudar-se a nossa estrella.
+ Ah! não, minha Marilia,
+Aproveite-se o tempo, antes que faça
+O estrago de roubar ao corpo as forças,
+ E ao semblante a graça.
+
+
+
+
+LYRA XV.
+
+
+A minha bella Marilia
+Tem de seu hum bom thesouro,
+Não he, doce Alceo, formado
+ Do buscado
+ Metal louro.
+He feito de huns alvos dentes,
+He feito de huns olhos bellos,
+De humas faces graciosas,
+De crespos, finos cabellos;
+E de outras graças maiores,
+Que a natureza lhe dêo:
+Bens, que valem sobre a terra,
+E que tem valor no Ceo.
+
+ Eu posso romper os montes,
+Dar ás correntes desvios,
+Pôr cercados espaçosos
+ Nos caudosos
+ Turvos rios.
+Posso emendar a ventura
+Ganhando astuto a riqueza;
+Mas, ah! charo Alceo, quem póde
+Ganhar huma só belleza
+Das bellezas, que Marilia
+No seu thesouro metêo?
+Bens, que valem sobre a terra,
+E que tem valor no Ceo.
+
+ Da sorte, que vive o rico
+Entre o fausto alegremente,
+Vive o guardador de gado
+ Apoucado,
+ Mas contente.
+Beije pois torpe avarento
+As arcas de barras chêas:
+Eu não beijo os vís thesouros;
+Beijo as douradas cadêas,
+Beijo as settas, beijo as armas
+Com que o cego Amor vencêo:
+Bens, que valem sobre a terra,
+E que tem valor no Ceo.
+
+ Ama Apollo o fero Marte,
+Ama, Alceo, o mesmo Jove:
+Não he, não, a vã riqueza,
+ Sim belleza,
+ Quem os move.
+Posto ao lado de Marilia
+Mais que mortal me contemplo:
+Deixo os bens, que aos homens cegão,
+Sigo dos Deoses o exemplo:
+Amo virtudes, e dotes;
+Amo em fim, prezado Alceo,
+Bens, que valem sobre a terra,
+E que tem valor no Ceo.
+
+
+
+
+LYRA XVI.
+
+
+Eu, Glauceste, não duvido
+Ser a tua Eulina amada
+ Pastora formosa,
+ Pastora engraçada.
+Vejo a sua côr de rosa,
+Vejo o seu olhar divino,
+Vejo os seus purpùreos beiços,
+Vejo o peito crystallino;
+Nem ha cousa, que assemelhe
+Ao crespo cabello louro.
+Ah! que a tua Eulina vale,
+Vale hum immenso thesouro!
+
+ Ella vence muito, e muito
+Á laranjeira copada,
+ Estando de flores,
+ E frutos ornada.
+He, Glauceste, os teus Amores;
+E nem por outra Pastora,
+Que menos dotes tivera,
+Ou que menos bella fôra,
+O meu Glauceste cançára
+As divinas cordas de ouro.
+Ah! que a tua Eulina vale,
+Val hum immenso thesouro!
+
+ Sim, Eulina he huma Deosa;
+Mas anîma a formosura
+ De huma alma de féra,
+ Ou inda mais dura.
+Ah! quando Alceo pondéra
+Que o seu Glauceste suspira,
+Perde, perde o soffrimento,
+E qual enfermo delira!
+Tenha embora brancas faces,
+Meigos olhos, fios de ouro,
+A tua Eulina não vale,
+Não vale immenso thesouro.
+
+ O fuzil, que imita a cobra,
+Tambem aos olhos he bello;
+ Mas quando alumêa,
+ Tu tremes de velo.
+Que importa se mostre chêa
+De mil bellezas a ingrata?
+Não se julga formosura
+A formosura, que mata.
+Evita, Glauceste, evita
+O teu estrago, e desdouro;
+A tua Eulina não vale,
+Não vale immenso thesouro.
+
+ A minha Marilia quanto
+Á natureza não deve!
+ Tem divino rosto,
+ E tem mãos de neve.
+Se mostro na face o gôsto,
+Ri-se Marilia contente:
+Se canto, canta comigo;
+E apenas triste me sente,
+Limpa os olhos com as tranças
+Do fino cabello louro.
+A minha Marilia vale,
+Vale hum immenso thesouro.
+
+
+
+
+LYRA XVII.
+
+
+Minha Marilia,
+Tu enfadada?
+Que mão ousada
+Perturbar póde
+A paz sagrada
+Do peito teu?
+
+ Porém que muito
+Que irado esteja
+O teu semblante
+Tambem troveja
+O Claro Ceo.
+
+ Eu sei, Marilia,
+Que outra Pastora
+A toda a hora,
+Em toda a parte,
+Céga namora
+Ao teu Pastor.
+
+ Ha sempre fumo
+Aonde ha fogo;
+Assim, Marilia,
+Ha zelos, logo
+Que existe amor.
+
+ Olha, Marilia,
+Na fonte pura
+A tua alvura,
+A tua bocca,
+E a compostura
+Das mais feições.
+ Quem tem teu rosto,
+Ah! não receia,
+Que terno amante
+Solte a cadeia,
+Quebre os grilhões.
+
+ Não anda Laura
+Nestas campinas
+Sem as boninas
+No seu cabello,
+Sem pelles finas
+No seu jubão.
+
+ Porém que importa?
+O rico aceio
+Não dá, Marilia,
+Ao rosto feio
+A perfeição.
+
+
+
+
+LYRA XVIII.
+
+
+Não ves aquelle velho respeitavel,
+ Que á moleta encostado,
+Apenas mal se move, e mal se arrasta?
+Oh quanto estrago não lhe fez o tempo?
+ O tempo arrebatado,
+ Que o mesmo bronze gasta.
+
+Enrugárão-se as faces, e perdêrão
+ Seus olhos a viveza;
+Voltou-se o seu cabello em branca neve:
+Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo;
+ Nem tem huma belleza
+ Das bellezas que teve.
+
+ Assim tambem serei, minha Marilia
+ Daqui a poucos annos;
+Que o impio tempo para todos corre.
+Os dentes cahiráõ, e os meus cabellos.
+ Ah! sentirei os damnos,
+ Que evita só quem morre.
+
+ Mas sempre passarei huma velhice
+ Muito menos penoza.
+Não trarei a moleta carregada:
+Descançarei o já vergado corpo
+ Na tua mão piedoza,
+ Na tua mão nevada.
+
+ As frias tardes em que negra nuvem
+ Os chuveiros não lance,
+Irei comtigo ao prado florescente:
+Aqui me buscarás hum sitio ameno,
+ Onde os membros descance,
+ E ao brando Sol me aquente.
+
+ Apenas me sentar, então movendo
+ Os olhos por aquella
+Vistoza parte, que ficar fronteira;
+Apontando direi: _Alli fallámos,
+ Alli, ó minha bella,
+ Te vi a vez primeira_.
+
+ Verteráõ os meus olhos duas fontes,
+ Nascidas de alegria:
+Farão teus olhos ternos outro tanto:
+Então darei, Marilia, frios beijos,
+ Na mão formosa, e pia,
+ Que me limpar o pranto.
+
+ Assim irá, Marilia, docemente
+ Meu corpo supportando
+Do tempo deshumano a dura guerra.
+Contente morrerei, por ser Marilia
+ Quem sentida chorando,
+ Meus baços olhos cerra.
+
+
+
+
+LYRA XIX.
+
+
+Em quanto pasta alegre o manso gado,
+Minha bella Marilia, nos sentemos
+Á sombra deste cedro levantado.
+ Hum pouco meditemos
+ Na regular belleza,
+Que em tudo quanto vive, nos descobre
+ A sabia Natureza.
+
+ Attende, como aquella vaca preta
+O novilhino seu dos mais separa,
+E o lambe, em quanto chupa a liza teta.
+ Attende mais, ó chara,
+ Como a ruiva cadella
+Supporta que lhe morda o filho o corpo;
+ E salte em cima della.
+
+ Repara, como cheia de ternura
+Entre as azas ao filho essa ave aquenta:
+Como aquella esgravata a terra dura,
+ E os seus assim sustenta;
+ Como se encoleriza,
+E salta sem receio a todo o vulto,
+ Que junto delles piza.
+
+ Que gosto não terá a esposa amante
+Quando der ao filhinho o peito brando,
+E reflectir então no seu semblante!
+ Quando, Marilia, quando
+ Disser comigo: _he esta
+De teu querido pai a mesma barba,
+ A mesma bocca, e testa_.
+
+ Que gosto não terá a mãi, que toca,
+Quando o tem nos seus braços, c'o dedinho
+Nas faces graciosas, e na bocca
+ Do innocente filhinho!
+ Quando, Marilia bella,
+O tenro infante já com risos mudos
+ Começa a conhecê-la!
+
+ Que prazer não terão os pais ao verem
+Com as mãis hum dos filhos abraçados;
+Jogar outros a luta, outros correrem
+ Nos cordeiros montados!
+ Que estado de ventura!
+Que até naquillo, que de pezo serve,
+ Inspira Amor doçura.
+
+
+
+
+LYRA XX.
+
+
+Em huma frondosa
+Roseira se abria
+Hum negro botão.
+Marilia adorada
+O pê lhe torcia
+Com a branca mão.
+
+ Nas folhas viçosas
+Á abelha inraivada
+O corpo escondêo.
+Tocou-lhe Marilia,
+Na mão descuidada
+A fera mordêo.
+
+ A penas lhe morde,
+Marilia gritando,
+C'o dedo fugio.
+Amor, que nos bosques
+Estava brincando,
+Aos ais acudio.
+
+ Mal vio a rotura,
+E o sangue espargido,
+Que a Deoza mostrou;
+Rizonho beijando
+O dedo offendido,
+Assim lhe fallou.
+
+ _Se tu for tão pouco
+O pranto desatas,
+Ah! dá-me attençaõ;
+E como daquelle,
+Que feres, e matas,
+Naõ tens compaixaõ_?
+
+
+
+
+LYRA XXI.
+
+
+Não sei, Marilia, que tenho,
+Depois que vi o teu rosto;
+Pois quanto não he Marilia,
+Já não posso ver com gosto.
+ Noutra idade me alegrava,
+Até quando conversava
+Com o mais rude vaqueiro:
+Hoje, ó bella, me aborrece
+Inda o trato lizongeiro
+Do mais discreto pastor.
+Que effeitos são os que sinto!
+Serão effeitos de amor?
+
+ Sáio da minha cabana
+Sem reparar no que faço;
+Busco o sitio aonde moras,
+Suspendo defronte o passo.
+ Fito os olhos na janella,
+Aonde, Marilia bella,
+Tu chegas ao fim do dia;
+Se alguem passa, e te saúda,
+Bem que seja cortezia,
+Se accende na face a côr.
+Que effeitos são os que sinto!
+Serão effeitos de Amor?
+
+ Se estou, Marilia, comtigo,
+Não tenho hum leve cuidado;
+Nem me lembra, se são horas
+De levar á fonte o gado.
+
+ Se vivo de ti distante,
+Ao minuto, ao breve instante,
+Finge hum dia o meu desgosto:
+Já mais, Pastora, te vejo
+Que em teu semblante composto
+Não veja graça maior.
+Que effeitos são os que sinto!
+Serão effeitos de Amor?
+
+ Aonde já com o juizo;
+Marilia, tão perturbado,
+Que no mesmo aberto sulco
+Metto de novo o arado.
+ Aqui no centêo pégo,
+Noutra parte em vão o cégo:
+Se alguem comigo conversa,
+Ou não respondo, ou respondo
+Noutra coiza tão diversa,
+Que nexo tão tem menor.
+Que effeitos são os que sinto!
+Serão effeitos de Amor?
+
+ Se geme o bufo agoureiro
+Só Marilia me desvella:
+Enche-se o peito de magoa,
+E não sei a causa della.
+ Mal durmo, Marilia, sonho,
+Que féro leão medonho
+Te devora nos meus braços:
+Gella-se o sangue nas veias.
+E sólto do somno os laços
+Á força da immensa dor.
+Ah! que os effeitos que sinto
+Só são effeitos de Amor.
+
+
+
+
+LYRA XXII.
+
+
+Muito embora, Marilia, muito embora
+Outra belleza, que não seja a tua,
+Com a vermelha roda, a seis puxada,
+ Faça tremer a rua.
+
+ As paredes da salla aonde habita
+Adorne a seda, e o tremó dourado;
+Pendão largas cortinas, penda o lustre
+ Do této apainelado.
+
+ Tu não habitarás Palacios grandes,
+Nem andarás nos coches voadores;
+Porém terás hum Vate, que te preze,
+ Que cance os teus louvores.
+
+ O tempo não respeita a formosura;
+E da palida morte a mão tyranna
+Arraza os edificios dos Augustos,
+ E arraza a vil choupana.
+
+ Que bellezas, Marilia, florecerão
+De quem nem se quer temos a memoria?
+Só podem conservar hum nome eterno
+ Os versos, ou a historia.
+
+ Se não houvesse Tasso, nem Petrarcha,
+Por mais que qualquer dellas fosse linda,
+Já não sabia o mundo, se existirão
+ Nem Laura, nem Clorinda.
+
+ He melhor, minha bella, ser lembrada
+Por quantos hão de vir sabios humanos,
+Que ter urcos, ter coches, e thesouros,
+ Que morrem com os annos.
+
+
+
+
+LYRA XXIII.
+
+
+N'um sitio ameno
+Cheio de rosas,
+De brancos lyrios,
+Murtas viçosas;
+
+ Dos seus amores
+Na companhia
+Dirceo passava
+Alegre o dia.
+
+ Em tom de graça,
+Ao terno amante
+Manda Marilia
+Que toque, e cante.
+
+ Péga na lyra,
+Sem que a tempere,
+A voz levanta,
+E as cordas fere.
+
+ C'os doces pontos
+A mão atina,
+E a voz iguala
+A voz divina.
+
+ Ella, que teve
+De rir-se a idéa,
+Nem move os olhos
+De assombro chêa.
+
+ Então Cupido
+Apparecendo,
+Á bella falla
+Assim dizendo:
+
+ _Do teu amado
+A lyra fias,
+Só porque delle
+Zombando rias_?
+
+ _Quando n'um peito
+Assento faço,
+Do peito subo
+Á lingoa, e braço_.
+
+ _Nem creias que outro
+Estylo tome,
+Sendo eu o mestre,
+A acção teu nome_.
+
+
+
+
+LYRA XXIV.
+
+
+Encheo, minha Marilia, o grande Jove
+De immensos animaes de toda a especie
+ As terras, mais os ares,
+O grande espaço dos salobros rios,
+ Dos negros, fundos mares.
+ Para sua defeza,
+A todos dêo as armas, que convinha;
+ Á sabia Natureza.
+
+ Dêo as azas aos passaros ligeiros;
+Dêo ao peixe escamoso as barbatanas:
+ Dêo veneno á serpente,
+Ao membrudo Elefante a enorme tromba,
+ E ao Javali o dente.
+ Coube ao leão a garra:
+Com leve pé saltando o servo foge;
+ E o bravo touro marra.
+
+ Ao homem dêo as armas do discurso
+Que valem muito mais que as outras armas:
+ Dêo-lhe dedos ligeiros,
+Que podem converter em seu serviço
+ Os ferros, e os madeiros;
+ Que tecem fortes laços,
+E forjão raios com que aos brutos cortão
+ Os vôos, mais os passos.
+
+ Ás timidas donzellas pertencerão
+Outras armas, que tem dobrada força:
+ Dêo-lhes a Natureza
+Além do entendimento, além dos braços
+ As armas da belleza.
+ Só ella ao Ceo se atreve,
+Só ella mudar póde o gello em fogo,
+ Mudar o fogo em neve.
+
+ Eu vejo, eu vejo ser a formosura
+Quem arrancou da mão de Coriolano
+ A cortadora espada.
+Vejo que foi de Helena o lindo rosto
+ Quem pôz em campo armada
+ Toda a força de Grecia.
+E quem tirou o Sceptro aos Reis de Roma,
+ Só foi, só foi Lucrecia.
+
+ Se podem lindos rostos, mal suspirão,
+O braço desarmar do mesmo Achilles;
+ Se estes rostos irados
+Podem soprar o fogo da descordia
+ Em póvos alliados;
+ Hes arbitra da terra;
+Tu pódes dar, Marilia, a todo o mundo
+ A paz, e a dura guerra.
+
+
+
+
+LYRA XXV.
+
+
+O cego Cupido hum dia
+Com os seus Genios fallava,
+Do modo que lhe restava
+De captivar a Dirceo.
+ Depois de larga disputa,
+Hum dos Genios mais sagazes
+Este conselho lhe dêo:
+
+ As settas mais aguçadas,
+Como se em roxa batessem,
+Dão nos seus peitos, e descem
+Todas quebradas ao chão.
+ Só as graças de Marilia
+Podem vencer hum tão duro,
+Tão izento coração.
+
+ A fortuna desta empreza
+Consiste em armar-se o laço,
+Sem que sinta ser o braço,
+Que lho prepara, de Amor.
+ Que elle vive como as aves,
+Que já deixárão as pennas
+No visco do Caçador.
+
+ Na força deste conselho
+O raivoso Deos socega,
+E á tropa a honra entrega
+De o fazer executar.
+Todos pertendem ganhá-la,
+Batem as azas ligeiros,
+E vão as armas buscar.
+
+ Os primeiros se occultárão
+Da Deosa nos olhos bellos;
+Qual se enlaçou nos cabellos;
+Qual ás faces se prendêo.
+ Hum amorinho cansado
+Cahio dos labios ao seio,
+E nos peitos se escondêo.
+
+ Outro Genio mais astuto
+Este novo ardil alcança,
+Muda-se n'uma criança
+De divino parecer.
+ Esconde as azas, e a venda;
+Esconde as settas, e quanto
+Póde dá-lo a conhecer.
+
+ Ella que vê hum menino
+Todo de graças cuberto,
+Tão risonho, e tão esperto
+Alli sózinho brincar.
+ A elle endireita os passos;
+Finge Amor ter medo, e a Deosa
+Mais se empenha em lhe pegar.
+
+ Ella corria chamando;
+Elle fugia, e chorava:
+Assim forão onde estava
+O descuidado Pastor.
+ Este, mal vio a belleza,
+E o gentil menino, entende
+A malicia do traidor.
+
+ Põe as mãos sobre os ouvidos,
+Cerra os olhos, e constante
+Não quer ver o seu semblante,
+Não o quer ouvir fallar.
+ Qual Ulysses n'outra idade
+Para illudir as Serêas
+Mandou tambores tocar.
+
+ Cupido, que a empreza via,
+Julga o intento frustrado,
+E de raiva transportado
+O corpo no chão lançou.
+ Traçou a lingoa nos dentes;
+Mettêo as unas no rosto,
+E os cabellos arrancou.
+
+ O Genio, que se escondia
+Entre os peitos da Pastora,
+Erguêo a cabeça fóra,
+E o successo conhecêo.
+ Deixa o socego em que estava,
+E vai ligeiro metter-se
+No peito do bom Dirceo.
+
+ Apenas c'o brando peito
+Lhe tocou a neve fria,
+Com o calor que trazia
+Lhe abrazou o coração.
+ Dá o Pastor hum suspiro,
+Abre os seus olhos, e sólta
+Do apertado ouvido a mão.
+
+ Logo que virão os Genios
+Ao triste Pastor disposto
+Para ver o lindo rosto,
+Para as palavras ouvir.
+ Cada hum as armas toma,
+Cada hum com ellas busca
+Seu terno peito ferir.
+
+ Com os cabellos da Deosa
+Lhe fórma hum Cupido laços,
+Que lhe segurão os braços,
+Como se fossem grilhões.
+ O Pastor já não resiste;
+Antes beija satisfeito
+As suas doces prizões.
+
+
+
+
+LYRA XXVI.
+
+
+O destro Cupido hum dia
+Extrahio mimosas cores
+De frescos lyros, e rosas,
+De jasmins, e de outras flores.
+
+ Com as mais delgadas pennas
+Usa de huma, e de outra tinta,
+E nos angulos do cobre
+A quatro bellezas pinta.
+
+Por fazer pensar a todos
+No seu lizo centro escreve
+Hum letreiro, que pergunta:
+_Este espaço a quem se deve_?
+
+ Venus, que vio a pintura,
+E lêo a letra engenhosa,
+Pôz por baixo: _Eu delle cedo;
+Dê-se a Marilia formosa_.
+
+
+
+
+LYRA XXVII.
+
+
+Alexandre, Marilia, qual o rio
+Que engrossando no Inverno tudo arraza;
+ Na frente das cohortes
+ Cérca, vence, abraza
+ As Cidades mais fortes.
+Foi na gloria das armas o primeiro,
+Morrêo na flor dos annos, e já tinha
+ Vencido o mundo inteiro.
+
+ Mas este bom Soldado, cujo nome
+Não ha poder algum, que não abata,
+ Foi, Marilia, sómente
+ Hum ditozo pirata,
+ Hum salteador valente.
+Se não tem huma fama baixa, e escura;
+Foi por se pôr ao lado da injustiça
+ A insolente ventura.
+
+ O grande Cesar, cujo nome vôa,
+Á sua mesma Patria a fé quebranta;
+ Na mão a espada toma,
+ Opprime-lhe a garganta,
+ Dá Senhores a Roma.
+Consegue ser heróe por hum delicto;
+Se acaso não vencesse então seria
+ Hum vil traidor proscripto.
+
+ O ser heróe, Marilia, não consiste
+Em queimar os Imperios: move a guerra,
+ Espalha o sangue humano,
+ E despovoa a terra
+ Tambem o máo tyranno.
+Consiste o ser heróe em viver justo:
+E tanto póde ser heróe o pobre,
+ Como o maior Augusto.
+
+ Eu he que sou heróe, Marilia bella,
+Seguindo da virtude a honroza estrada.
+ Ganhei, ganhei hum throno.
+ Ah! não manchei a espada,
+ Não a roubei ao dono.
+Ergui-o no teu peito, e nos teus braços:
+E valem muito mais que o mundo inteiro
+ Huns tão ditosos laços.
+
+ Aos barbaros, injustos vencedores
+Atormentão remorsos, e cuidados;
+ Nem descanção seguros
+ Nos Palacios cercados
+ De tropa, e de altos muros.
+E a quantos nos não mostra a sabia historia
+A quem mudou o fado em negro opprobrio
+ A mal ganhada gloria?
+
+ Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo
+Nos braços do descanço, e mais do gosto:
+ Quando estou acordado,
+ Contemplo no teu rosto
+ De graças adornado;
+Se durmo logo sonho, e alli te vejo.
+Ah! nem desperto, nem dormindo sóbe
+ A mais o meu desejo.
+
+
+
+
+LYRA XXVIII.
+
+
+Cupido tirando
+Dos hombros a aljava,
+N'um campo de flores
+Contente brincava.
+
+ E o corpo tenrinho
+Depois enfadado,
+Incauto reclina
+Na relva do prado.
+
+ Marilia formosa,
+Que ao Deos conhecia,
+Occulta espreitava
+Quanto elle fazia.
+
+ Mal julga que dorme
+Se chega contente,
+As armas lhe furta,
+E o Deos a não sente.
+
+ Os Faunos, mal virão
+As armas roubadas,
+Sahirão das grutas
+Soltando rizadas.
+
+ Acorda Cupido,
+E a causa sabendo,
+A quantos o insultão
+Responde, dizendo:
+
+ _Temieis as settas
+Nas minhas mãos cruas?
+Vereis o que podem
+Agora nas suas_.
+
+
+
+
+LYRA XXIX.
+
+
+O tyranno Amor risonho
+Me apparece, e me convida
+Para que seu jugo acceite;
+E quer que eu passe em deleite
+O resto da triste vida.
+
+ _O sonoro Anacreonte_
+(Astuto o moço dizia)
+_Já perto da morte estava,
+Inda de amores cantava;
+Por isso alegre vivia_.
+
+ _Aos negros, duros pezares
+Não resiste hum peito fraco,
+Se Amor o não fortalece:
+O mesmo Jove carece
+De Cupido, e mais de Baccho_.
+
+ Eu lhe respondo: _Perjuro
+Nada creio ao que dizes;
+Porque já te fui sujeito,
+Inda conservo no peito
+Estas frescas cicatrizes_.
+
+ Amor, vendo que da offerta
+Algum apreço não faço,
+Me diz affoito que trate
+De ir com elle a combate
+Peito a peito, braço a braço.
+
+ Vou buscar as minhas armas;
+Cinjo primeiro que tudo
+O brilhante arnêz, e á pressa
+Ponho hum elmo na cabeça,
+Tomo a lança, e o grosso escudo.
+
+ Mal no Campo me apresento,
+Marilia (oh Ceos!) me apparece:
+Logo os olhos me fita,
+O meu coração palpita,
+A minha mão desfallece.
+
+ Então me diz o tyranno:
+_Confessa louco o teu erro;
+Contra as armas da belleza
+Não vale a externa defeza.
+Dessa armadura de ferro_.
+
+
+
+
+LYRA XXX.
+
+
+Junto a huma clara fonte
+A mãi de Amor se sentou:
+Encostou na mão o rosto,
+No leve somno pegou.
+
+ Cupido, que a vio de longe,
+Contente ao lugar corrêo;
+Cuidando que era Marilia
+Na face hum beijo lhe dêo.
+
+ Acorda Venus irada:
+Amor a conhece; e então
+Da ousadia, que teve,
+Assim lhe pede o perdão:
+
+ _Foi facil, ó Mãe formosa,
+Foi facil o engano meu;
+Que o semblante de Marilia
+He todo o semblante teu_.
+
+
+
+
+LYRA XXXI.
+
+
+Minha Marilia,
+Se tens belleza,
+Da natureza
+He hum favor.
+Mas se aos vindouros
+Teu nome passa,
+He só por graça
+Do Deos de amor,
+Que terno inflamma
+A mente, o peito
+Do teu Pastor.
+
+ Em vão se virão
+Perlas mimosas,
+Jasmins, e rosas
+No rosto teu.
+Em vão terias
+Essas estrellas,
+E as tranças bellas
+Que o Ceo te dêo;
+Se em doce verso
+Não as cantasse
+O bom Dirceo.
+
+ O voraz tempo
+Ligeiro corre:
+Com elle morre
+A perfeição.
+Essa, que o Egypto
+Sábia modera,
+De Marco impera
+No coração;
+Mas já Octavio
+Não sente a força
+Do seu grilhão.
+
+ Ah! vem, ó bella,
+E o teu querido
+Ao Deos Cupido
+Louvores dar;
+Pois faz que todos
+Com igual sorte
+Do tempo, e morte
+Possão zombar:
+Tu por formosa,
+E elle, Marilia,
+Por te cantar.
+
+ Mas ai! Marilia,
+Que de hum amante,
+Por mais que cante,
+Gloria não vem!
+Amor se pinta
+Menino, e cego:
+No doce emprêgo
+Do charo bem
+Não vê defeitos,
+E augmenta, quantas
+Bellezas tem.
+
+ Nenhum dos Vates,
+Em teu conceito,
+Nutrio no peito
+Nescia paixão?
+Todas aquellas,
+Que vês cantadas,
+Forão dotadas
+De perfeição?
+Forão queridas;
+Porém formosas
+Talvez que não.
+
+ Porém que importa
+Não valha nada
+Seres cantada
+Do teu Dirceo?
+Tu tens, Marilia,
+Cantor celeste;
+O meu Glauceste
+A voz ergueo;
+Irá teu nome
+Aos fins da Terra,
+E ao mesmo Ceo.
+
+ Quando nas azas
+Do leve vento
+Ao Firmamento
+Teu nome for:
+Mostrando Jove
+Graça extremosa,
+Mudando a Esposa
+De inveja a côr;
+De todos ha-de,
+Voltando o rosto,
+Sorrir-se Amor.
+
+ Ah! não se manche
+Teu brando peito
+Do vil defeito
+Da ingratidão:
+Os versos beija,
+Gentil Pastora,
+A penna adora,
+Respeita a mão,
+A mão discreta,
+Que te segura
+A duração.
+
+
+
+
+LYRA XXXII.
+
+
+N'uma noite socegado
+Velhos papeis revolvia,
+E por ver de que tratavão
+Hum por hum a todos lia.
+
+ Erão copias emendadas
+De quantos versos melhores
+Eu compuz na tenra idade
+A meus diversos amores.
+
+ Aqui leio justas queixas
+Contra a ventura formadas,
+Leio excessos mal acceitos,
+Doces promessas quebradas.
+
+ Vendo sem razões tamanhas
+Eu exclamo transportado:
+_Que finezas tão mal feitas!
+Que tempo tão mal passado_!
+
+ Junto pois n'hum grande monte
+Os soltos papeis, e logo,
+Porque reliquias não fiquem,
+Os intento pôr no fogo.
+
+ Então vejo que o Deos cego
+Com semblante carregado
+Assim me falla, e crimina
+O meu intento acertado.
+
+ _Queres queimar esses versos?
+Dize, Pastor attrevido,
+Essas Lyras não te forão
+Inspiradas por Cupido_?
+
+ _Achas que de taes amores
+Não deve existir memoria?
+Sepultando esses triunfos,
+Não roubas a minha gloria_?
+
+ Disse Amor; e mal se calla,
+Nos seus hombros a mão pondo,
+Com hum semblante sereno
+Assim á queixa respondo:
+
+ _Depois, Amor, de me dares
+A minha Marilia bella,
+Devo guardar humas Lyras,
+Que não são em honra della_?
+
+ _E que importa, Amor, que importa
+Que a estes papeis destrua;
+Se he tua esta maõ; que os rasga,
+Se a chamma, que os queima, he tua_?
+
+ Apenas Amor me escuta
+Manda que os lance nas brazas;
+E ergue a chamma c'o vento,
+Que formou batendo as azas.
+
+
+
+
+LYRA XXXIII.
+
+
+Péga na lyra sonora,
+Péga meu charo Glauceste;
+E ferindo as cordas de ouro,
+Mostra aos rusticos Pastores
+A formosura celeste
+De Marilia, meus amores.
+ Ah, pinta, pinta
+ A minha bella!
+ E em nada a cópia
+ Se affaste della.
+
+ Que concurso, meu Glauceste,
+Que concurso tão ditoso!
+Tu és digno de cantares
+O seu semblante divino;
+E o teu canto sonoroso
+Tambem do seu rosto he dino.
+ Ah, pinta, pinta
+ A minha bella!
+ E em nada a cópia
+ Se affaste della.
+
+ Para pintares ao vivo
+As suas faces mimosas,
+A discreta Natureza
+Que providencia não teve!
+Creou no jardim as rosas,
+Fez o lyro, e fez a neve.
+ Ah, pinta, pinta
+ A minha bella!
+ E em nada a cópia
+ Se affaste della.
+
+ A pintar as negras tranças
+Peço que mais te desvelles:
+Pinta chusmas de amorinhos
+Pelos seus fios trepando;
+Huns tecendo cordas delles,
+Outros com elles brincando.
+ Ah, pinta, pinta
+ A minha bella!
+ E em nada a cópia
+ Se affaste della.
+
+ Para pintares, Glauceste,
+Os seus beiços graciosos,
+Entre as flores tens o cravo,
+Entre as pedras a granada;
+E para os olhos formosos,
+A estrella da madrugada.
+ Ah, pinta, pinta
+ A minha bella!
+ E em nada a cópia
+ Se affaste della.
+
+ Mal retratares do rosto
+Quanto julgares preciso,
+Não dês a cópia por feita;
+Passa a outros dotes, passa,
+Pinta da vista, e do riso
+A modestia, mais a graça.
+ Ah, pinta, pinta
+ A minha bella!
+ E em nada a cópia
+ Se affaste della.
+
+ Pinta o garbo de seu rosto
+Com expressões delicadas;
+Os seus pés, quando passeão,
+Pizando ternos amores;
+E as mesmas plantas calcadas
+Brotando viçosas flores.
+ Ah, pinta, pinta
+ A minha bella!
+ E em nada a cópia
+ Se affaste della.
+
+ Pinta mais, prezado amigo,
+Hum terno amante beijando
+Suas douradas cadeias;
+E em doce pranto desfeito,
+Ao monte, e valle ensinando
+O nome, que tem no peito.
+ Ah, pinta, pinta
+ A minha bella!
+ E em nada a cópia
+ Se affaste della.
+
+ Nem suspendas o teu canto,
+Inda que, Pastor, se veja
+Que a minha bocca suspira,
+Que se banha em pranto o rosto;
+Que os outros chorão de inveja,
+E chora Dirceo de gosto.
+ Ah, pinta, pinta
+ A minha bella!
+ E em nada a cópia
+ Se affaste della.
+
+
+FIM DA 1.^a PARTE.
+
+
+
+
+MARILIA DE DIRCEO.
+
+POR T.A.G.
+
+
+SEGUNDA PARTE.
+
+
+LISBOA: 1824.
+
+Na Typ. de J.F.M. de Campos.
+
+
+
+
+MARILIA DE DIRCEO
+
+
+
+
+LYRA I.
+
+
+Já não cínjo de loiro a minha testa,
+Nem sonoras Canções o Deos me inspira:
+ Ah! que nem me resta
+ Huma já quebrada,
+ Mal sonora Lyra!
+
+Mas neste mesmo estado em que me vejo,
+Pede, Marilia, Amor que vá cantar-te:
+ Cumpro o seu desejo;
+ E ao que resta supra
+ A paixão, e a arte.
+
+A fumaça, Marilia, da candêa,
+Que a molhada parede ou çuja, ou pinta;
+ Bem que tosca, e fêa,
+ Agora me póde
+ Ministrar a tinta.
+
+Aos mais preparos o discurso apronta:
+Elle me diz, que faça no pé de huma
+ Má laranja ponta,
+ E delle me sirva
+ Em lugar de pluma.
+
+Perder as uteis horas não, não devo
+Verás, Marilia, huma idéa nova:
+ Sim, eu já te escrevo,
+ Do que esta alma dita
+ Quanto amor approva.
+
+Quem vive no regaço da ventura,
+Nada obra em te adorar, que assombro faça:
+ Mostra mais ternura
+ Quem te estima, e morre
+ Nas mãos da desgraça.
+
+Nesta cruel masmorra tenebrosa
+Ainda vendo estou teus olhos bellos,
+ A testa formosa,
+ Os dentes nevados,
+ Os negros cabellos.
+
+Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda
+A chusma dos Cupidos, que pendentes
+ Dessa bôcca linda,
+ Nos ares espalhão
+ Suspiros ardentes.
+
+Se alguem me perguntar onde eu te vejo,
+Responderei--no peito--que huns Amores
+ De casto desejo
+ Aqui te pintárão,
+ E são bons Pintores.
+
+Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora
+Teu Retrato fizerão, e tão forte,
+ Que entendo, que agora
+ Só póde apagallo
+ O pulso da Morte.
+
+Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo!
+Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro.
+ Ah! dá-lhes hum beijo,
+ E diz-me que valem
+ Mais que letras de oiro.
+
+
+
+
+LYRA II.
+
+
+Esprema a vil calumnia muito embora
+Entre as mãos denegridas, e insolentes
+ Os venenos das plantas,
+ E das bravas serpentes.
+
+Chovão raios e raios, no meu rosto
+Não has-de ver, Marilia, o modo escrito;
+ O medo perturbado,
+ Que infunde o vil delicto.
+
+Pódem muito conheço, pódem muito,
+As Furias infernaes, que Pluto move;
+ Mas póde mais que todas
+ Hum dedo só de Jove.
+
+Este Deos convertêo em flor mimosa;
+A quem seu nome derão, a Narciso,
+ Fêz d' muitos os Astros,
+ Qu' inda no Ceo diviso.
+
+Elle póde livrar-me das injurias
+Do nescio, do atrevido ingrato povo;
+ Em nova flor mudar me,
+ Mudar-me em Astro novo.
+
+Porém se os justos Céos por fins occultos
+Em tão tyranno mal me não soccorrem,
+ Verás então, que os sabios,
+ Bem como vivem, morrem.
+
+Eu tenho hum coração maior que o mundo.
+Tu, formosa Marilia, bem o sabes:
+ Hum coração, e basta,
+ Onde tu mesma cabes.
+
+
+
+
+LYRA III.
+
+
+Succede, Marilia bella,
+Á medonha noite o dia:
+A estação chuvosa e fria,
+Á quente secca estação.
+ Muda-se a sorte dos tempos;
+ Só a rainha sorte não?
+
+Os troncos, nas Primaveras,
+Brotão em flores viçosos;
+Nos Invernos escabrosos
+Largão as folhas no chão.
+ Muda-se a sorte dos troncos;
+ Só a minha sorte não?
+
+Aos brutos, Marilia, cortão
+Armadas redes os passos;
+Rompem depois os seus laços,
+Fogem da dura prisão.
+ Muda-se a sorte dos brutos;
+ Só a minha sorte não?
+
+Nenhum dos homens conserva
+Alegre sempre o seu rosto;
+Depois das penas vem gosto,
+Depois do gosto afflicção.
+ Muda-se a sorte dos homens;
+ Só a minha sorte não?
+
+Aos altos Deoses movêrão
+Soberbos Gigantes guerra;
+No mais tempo o Ceo, e a Terra
+Lhes tributa adoração.
+ Muda-se a sorte dos Deoses;
+ Só a minha sorte não?
+
+Hade, Marilia, mudar-se
+Do destino a inclemencia:
+Tenho por mim a innocencia,
+Tenho por mim a razão.
+ Muda-se a sorte de tudo;
+ Só a minha sorte não?
+
+O tempo, ó bella, que gasta
+Os troncos, pedras, e o cobre,
+O véo rompe, com que encobre
+Á verdade a vil traição.
+ Muda-se a sorte de tudo;
+ Só a minha sorte não?
+
+Qual eu sou verá o mundo,
+Mais me dará do que eu tinha,
+Tornarei a ver-te minha.
+Que feliz consolação!
+ Não ha de tudo mudar-se,
+ Só a minha sorte não.
+
+
+
+
+LYRA IV.
+
+
+Já, já me vai, Marilia, branquejando
+Loiro cabello, que circúla a testa.
+Este mesmo, que alveja, vai cahindo,
+ E pouco já me resta.
+
+As faces vão perdendo as vivas côres,
+E vão-se sobre os ossos enrugando,
+Vai fugindo a viveza dos meus olhos;
+ Tudo se vai mudando.
+
+Se quero levantar-me, as costas vergão;
+As forças dos meus membros já se gastão,
+Vou a dar pela casa huns curtos passos,
+ Pesão-me os pés, e arrastão.
+
+Se algum dia me vires desta sorte,
+Vê que assim me não pôz a mão dos annos:
+Os trabalhos, Marilia, os sentimentos,
+ Fazem os meus danos.
+
+Mal te vir me dará em poucos dias,
+A minha mocidade o doce gosto;
+Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se,
+ Voltar a côr ao rosto.
+
+No calmoso Verão as plantas seccão,
+Na Primavera, que aos mortaes encanta,
+Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho,
+ Verdeja logo a planta.
+
+A doença deforma a quem padece;
+Mas logo que a doença fez seu termo,
+Torna, Marilia, a ser quem era d'antes,
+ O definhado enfermo.
+
+Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta,
+No meio da desgraça, que me altera:
+Eu tambem te supponho qual saude,
+ Ou qual a Primavera.
+
+Se dão esses teus meigos, vivos olhos
+Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores;
+Que effeitos não farão, em quem por elles
+ Sempre morrêo de amores?
+
+
+
+
+LYRA V.
+
+
+Os mares, minha bella, não se movem;
+O brando Norte assopra, nem diviso
+Huma nuvem sequer na Esfera toda,
+O destro Nauta aqui não he preciso;
+Eu só conduzo a náo, eu só modéro
+ Do seu governo a roda.
+
+Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla,
+Rasga-se a véla, o mastaréo se parte!
+Qualquer varão prudente aqui já teme
+Não tenho a necessaria força, e arte.
+Corra o sabio Piloto, corra, e venha
+ Reger o duro leme.
+
+Como succede á náo no mar, succede
+Aos homens na ventura, e na desgraça:
+Basta ao feliz não ter total demencia,
+Mas quem de venturoso a triste passa,
+Deve entregar o leme do discurso
+ Nas mãos da sã prudencia.
+
+Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem;
+E esta alma, em tanta pena consternada,
+Nem sabe aonde possa achar conforto.
+Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada,
+Toma o leme da náo, marêa o panno,
+ Vai-a salvar no porto.
+
+Mas ouço já de Amor as sabias vozes:
+Elle me diz que soffra se não morro;
+E perco então se morro huns doces laços.
+Não quero já, Marilia, mais soccorro,
+Oh ditoso soffrer, que lucrar póde
+ A gloria dos teus braços.
+
+
+
+
+LYRA VI.
+
+
+De que te queixas,
+Lingua importuna?
+De que a Fortuna
+Roubar-te queira,
+O que te deu?
+ Este foi sempre
+ O genio seu.
+
+Levou, Marilia,
+A impia sorte
+Catoens á morte;
+Nem sepultura
+Lhes concedeu.
+ Este foi sempre
+ O genio seu.
+
+A outros muitos,
+Que vís nascêrão,
+Nem merecêrão,
+A grandes thronos
+A impia ergueu.
+ Este foi sempre
+ O genio seu.
+
+Espalha a cega
+Sobre os humanos
+Os bens, e os damnos;
+E a quem se devão
+Nunca escolheu.
+ Este foi sempre
+ O genio seu.
+
+A quanto he justo,
+Já mais se dobra;
+Nem igual obra
+C'os mesmos Deoses
+Do cáro Ceo.
+ Este foi sempre
+ O genio seu.
+
+Sóbe ao Ceo Venus
+N'hum carro ufano;
+E cahe Vulcano
+Da pura esfera,
+Em que nasceu.
+ Este foi sempre
+ O genio seu.
+
+Mas não me rouba,
+Bem que se mude,
+Honra, e virtude:
+Que o mais he della,
+Mas isto he meu.
+ Este foi sempre
+ O genio seu.
+
+
+
+
+LYRA VII.
+
+
+ Meu prezado Glauceste,
+ Se fazes o conceito,
+ Que bem que réo abrigo
+A candida virtude no meu peito.
+Se julgas, digo, que mereço ainda
+ Da tua mão soccorro;
+ Ah! vem dar-m'o agora,
+ Agora sim que morro.
+
+ Não quero, que montado
+ No Pegaso fogoso,
+ Venhas com dura lança
+Ao monstro infame traspassar raivoso.
+Deixa que viva a perfida calumnia,
+ E forge o meu tormento:
+ Com menos, meu Glauceste,
+ Com menos me contento.
+
+ Toma a lyra doirada,
+ E toca hum pouco nella:
+ Levanta a vóz celeste
+Em parte que te escute a minha bella;
+Enche todo o contorno de alegria;
+ Não soffras, que o desgosto
+ Affogue em pranto amargo
+ O seu divino rosto.
+
+ Eu sei, eu sei, Glauceste,
+ Que hum bom Cantor havia,
+ Que os brutos amansava;
+Que os troncos, e os penedos attrahia.
+De outro destro Cantor tambem affirma;
+ A sábia Antiguidade,
+ Que as muralhas erguêra
+ De huma grande Cidade.
+
+ Orfeo as cordas fere;
+ O som delgado, e terno
+ Ao Rei Plutão abranda,
+E o deixa que penetre o fundo Averno.
+Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste;
+ Na lyra, e mais no canto:
+ Podes fazer prodigios;
+ Obrar ou mais, ou tanto.
+
+ Levanta pois as vozes:
+ Que mais, que mais esperas?
+ Consola hum peito afflito;
+Que he menos inda, que domar as féras.
+Com isto me darás no meu tormento
+ Hum doce lenitivo,
+ Que em quanto a bella vive,
+ Tambem, Glauceste, vivo.
+
+
+
+
+LYRA VIII.
+
+
+Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen,
+A quem o nome derão de Fortuna,
+ Pega-me pelo braço,
+ E com voz importuna
+ Me diz que mova o passo;
+Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra,
+ Quanto o destino manda,
+ Que ella obre sobre a terra.
+
+Que coizas portentosas nelle encontro!
+Eu vejo a pobre fundação de Roma,
+ Vejo-a queimar Carthago;
+ Vejo que as gentes doma;
+ E vejo o seu estrago.
+Lá florece o poder do Assyrio Povo:
+ Aqui os Medos crescem
+ E os perde hum braço novo.
+
+Então me diz a Deosa: _E que pertendes?
+Todas estas Medalhas vêr agora?
+ Ah! não, não sejas louco!
+ Espaço de annos fôra
+ Para isto ainda pouco.
+Deixo estranhos successos; vem comigo,
+ Verás quanto inda deve
+ Acontecer comtigo_.
+
+Levou-me aonde estava a minha historia,
+Que toda me explicou com medo, e arte.
+ _Tirei-te libras de oiro_
+ Me diz, _e quero dar-te
+ Todo aquelle thesoiro.
+Não suspira por bens hum peito nobre_:
+ Sevéro lhe respondo.
+ _Vivo affeito a ser pobre_.
+
+Aqui me enruga a Deosa irada a testa;
+E fica sem fallar hum breve espaço.
+ _Alegra, alegra o rosto_,
+ Prosegue, _alli te faço
+ Restituir o posto_.
+Respondo com ar de mofa, e tom sereno.
+ _Conheço-te, Fortuna,
+ Posso morrer pequeno_.
+
+_Aqui te dou_, me diz, _a tua amada_.
+Então me banho todo de alegria
+ _Cuidei_, me torna a cega,
+ _Que essa alma não queria
+ Nem esta mesma entrega.
+He esse o bem_, respondo, _que me move;
+ Mas este bem he santo,
+ Vem só da mão de Jove_.
+
+Queria mais fallar; eu insoffrido
+Desta maneira rompo os seus accentos:
+ _Basta, Fortuna, basta;
+ Estes breves momentos
+ Lá noutras coizas gasta;
+Da minha sorte nada mais contemplo_.
+ E chamando Marilia
+ Suspiro, e deixo o Templo.
+
+
+
+
+LYRA IX.
+
+
+A estas horas
+Eu procurava
+Os meus Amores;
+Tinhão-me inveja
+Os mais Pastores.
+
+A porta abria,
+Inda esfregando
+Os olhos bellos,
+Sem flor, nem fitta
+Nos seus cabellos:
+
+Ah! que assim mesmo
+Sem compostura,
+He mais formosa,
+Que a estrella d'alva;
+Que a fresca rosa.
+
+Mal eu a via,
+Hum ar mais leve,
+(Que doce effeito!)
+Já respirava
+Meu terno peito.
+
+Do cerco apenas
+Soltava o gado,
+Eu lhe amimava
+Aquella ovelha
+Que mais amava.
+
+Dava-lhe sempre
+No rio, e fonte,
+No prado, e selva,
+Agua mais clara,
+Mais branda relva.
+
+No cóllo a punha,
+Então brincando
+A mim a unia;
+Mil coizas ternas
+Aqui dizia.
+
+Marilia vendo
+Que eu só com ella
+He que fallava;
+Ria-se a furto,
+E disfarçava.
+
+Desta maneira
+Nos castos peitos,
+De dia, em dia
+A nossa chamma
+Mais se accendia.
+
+Ah! quantas vezes
+No chão sentado,
+Eu lhe lavrava
+As finas rócas,
+Em que fiava?
+
+Da mesma sorte
+Que á sua amada,
+Que está no ninho,
+Fronteiro canta
+O passarinho.
+
+Na quente sésta,
+Della defronte,
+Eu me entretinha
+Movendo o ferro
+Da sanfoninha.
+
+Ella por dar-me
+De ouvir o gosto,
+Mais se chegava:
+Então vaidoso
+Assim cantava:
+
+Não ha Pastora,
+Que chegar possa
+Á minha bella;
+Nem quem me iguale
+Tambem na estrella:
+
+Se Amor concede
+Que eu me recline
+No branco peito,
+Eu não invejo
+De Jove o leito:
+
+Ornão seu peito
+As sãs virtudes,
+Que nos namorão;
+No seu semblante
+As Graças morão.
+
+Assim vivia:
+Hoje em suspiros
+O canto mudo:
+Assim, Marilia,
+Se acaba tudo.
+
+
+
+
+LYRA X.
+
+
+Arde o velho barril, arde a cabeça,
+Em honra de João na larga rua;
+O credulo Mortal agora indaga,
+ Qual seja a sorte sua?
+
+Eu não tenho alcaxofra, que á luz chegue,
+E nella orvalhe o Ceo de madrugada,
+Para ver se rebentão novas folhas,
+ Aonde foi queimada.
+
+Tambem não tenho hum ovo, que despeje
+Dentro de hum cópo d'agua, e possa nella
+Fingir Palacios grandes, altas Torres,
+ E huma Náo á véla.
+
+Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido
+Que na boca hum bochecho d'agoa tome,
+E atráz de qualquer porta attento esteja,
+ Até ouvir hum nome.
+
+Que o nome, que primeiro ouvir, he esse
+O nome, que ha de ter a minha amada:
+Pode verdade ser, se fôr mentira,
+ Tambem não custa nada.
+
+Vou tudo executar, e de repente
+Ouvi dizer o nome de Filena:
+Despejo logo a boca: ah! não sei como
+ Não morro alli de pena!
+
+Apparece Cupido: então soltando
+Em ar de zombaria huma risada.
+E que tal, me pergunta, esteve a peça?
+ Não foi bem pregada?
+
+Eu já te disse, que Marilia he tua:
+Tu fazes do meu dito tanta conta,
+Que vais acreditar, o que te ensina
+ Velha mulher já tonta.
+
+Humilde lhe respondo: quem debaixo
+Do açoite da Fortuna afflito geme,
+Nas mesmas coisas, que só são brinquedos,
+ Se agoirão males, teme.
+
+
+
+
+LYRA XI.
+
+
+Se acaso não estou no fundo Averno
+Padece, ó minha bella, sim padece
+ O peito amante, e terno,
+As afflições tyrannas, que os Preceitos
+Arbîtra Rhadamantho em justa pena
+ Dos barbaros delictos.
+
+As Furias infernaes, rangendo os dentes
+Com a mão descarnada não me applicão
+ As raivosas serpentes.
+Mas cercão-me outros monstros mais irados:
+Mordem-me sem cessar as bravas serpes
+ De mil, e mil cuidados.
+
+Eu não gasto, Marilia, a vida toda
+Em lançar o penedo da montanha;
+ Ou em mover a roda.
+Mas tenho ainda mais cruel tormento:
+Por coisas que me affligem, roda, e gyra
+ Cançado pensamento.
+
+Com retorcidas unhas agarrado
+Ás tepidas entranhas não me come
+ Hum abutre esfaimado.
+Mas sinto de outro monstro a crueldade:
+Devora o coração, que mal palpita,
+ O abutre da saudade.
+
+Não vejo os pomos, nem as aguas vejo,
+Que de mim se retirão, quando busco
+ Fartar o meu desejo;
+Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato,
+Que lograr-te não possa, estando vendo
+ Nesta alma o teu retrato.
+
+Estou no Inferno, estou, Marilia bella;
+E n'huma coisa só he mais humana
+ A minha dura estrella:
+Huns não podem mover do Inferno os passos;
+Eu pertendo vôar, e vôar cedo
+ Á gloria dos teus braços.
+
+
+
+
+LYRA XII.
+
+
+Ah, Marilia, que tormento
+Não tens de sentir saudosa!
+Não podem ver os teus olhos
+A campina deleitosa,
+Nem a tua mesma Aldêa,
+Que tyrannos não proponhão
+Á inda inquieta idéa
+Huma imagem de afflição.
+ Mandarás aos surdos Deoses
+ Novos suspiros em vão.
+
+Quando levares, Marilia,
+Teu ledo rebanho ao prado
+Tu dirás: aqui trazia
+Dirceo tambem o seu gado.
+Verás os sitios ditosos
+Onde, Marilia, te dava,
+Doces beijos amorosos
+Nos dedos da branca mão.
+ Mandarás aos surdos Deoses
+ Novos suspiros em vão.
+
+Quando á janella sahires
+Sem quereres, descuidada,
+Tu verás, Marilia, a minha
+E minha pobre morada.
+Tu dirás então comtigo:
+Alli Dirceo esperava
+Para me levar comsigo:
+E alli soffreo a prisão.
+ Mandarás aos surdos Deoses
+ Novos suspiros em vão.
+
+Quando vires igualmente
+Do caro Glauceste a choça,
+Onde alegre se juntavão
+Os pouco da escolha nossa,
+Pondo os olhos na varanda
+Tu dirás, de mágoa chêa:
+Todo o congresso alli anda,
+Só o meu Amado não.
+ Mandarás aos surdos Deoses
+ Novos suspiros em vão.
+
+Quando passar pela rua
+O meu companheiro honrado,
+Sem que me vejas com elle
+Caminhar emparelhado,
+Tu dirás: não foi tyranna
+Sómente comigo a sorte;
+Tambem cortou deshumana
+A mais fiel união.
+ Mandarás aos surdos Deoses
+ Novos suspiros em vão.
+
+N'uma masmorra mettido
+Eu não vejo imagens destas,
+Imagens, que são por certo
+A quem adora funestas.
+Mas se existem separadas
+Dos inchados rôxos olhos,
+Estão, que he mais, retratadas
+No fundo do coração.
+ Tambem mando aos surdos Deoses
+ Tristes suspiros em vão.
+
+
+
+
+LYRA XIII.
+
+
+ Ves, Marilia, hum cordeiro
+ De flores enramado,
+ Como alegre caminha
+ A ser sacrificado?
+O Povo para o Templo já concorre:
+A Pyra sacro-santa já se accende:
+O Ministro o fere, elle bala, e morre.
+
+ Vês agora o novilho,
+ A quem segura o laço:
+ No chão as mãos especa:
+ Nem quer mover hum passo:
+Não conhece que sahe de hum máo terreno;
+Que o forte pulso, que a seguir o arrasta,
+O conduz a viver n'um campo ameno.
+
+ Ignora o bruto, como
+ Lhe dispomos a sorte:
+ Hum vai forçado á vida,
+ Vai outro alegre á morte,
+Nós temos, minha bella, igual demencia:
+Não sabemos os fins, com que nos move
+A sábia, occulta Mão da Providencia.
+
+ De Jacob ao bom filho
+ Os máos matar quizerão:
+ De conselho mudárão,
+ Como escravo o vendêrão:
+José não corre a ser hum servo afflito:
+Vai subindo os degráos, por onde chega
+A ser hum quasi Rei no grande Egypto.
+
+ Quem sabe se o Destino
+ Hoje, ó bella, me prende,
+ Só porque nisto de outros
+ Mais damnos me defende?
+Póde inda raiar hum claro dia.
+Mas quer raie, quer não, ao Ceo adoro;
+E beijo a santa mão, que assim me guia.
+
+
+
+
+LYRA XIV.
+
+
+Alma digna de mil Avós Augustos!
+ Tu sentes, tu soluças
+ Ao ver cahir os justos;
+Honras as santas leis da Humanidade:
+ E aos teus exemplos deve
+Gravar com letras de oiro no seu Templo
+ A candida Amizade.
+
+Não he, não he de Heróe huma alma forte,
+ Que vê com rosto enchuto
+ No seu igual a morte.
+Não he tambem de Heróe hum peito duro,
+ Que a sua gloria firma,
+Em que lhe não resiste ao ferro, e fogo,
+ Nem legião, nem muro.
+
+Oh! quanto ousado Chefe me namora,
+ Quando vê a cabeça
+ Do bom Pompeo, e chora!
+He grande para mim, quem move os passos,
+ E de Dario aos filhos,
+Que como escravos seus tratar podéra,
+ Recebe nos seus braços.
+
+Se alcança Eneas, Capitão piedoso,
+ Entre os Heróes do Mundo
+ Hum nome glorioso,
+Não he, porque levanta huma cidade;
+ He sim, porque nos hombros
+Salvou do incendio ao Pai a quem detinha
+ A mão da branca idade.
+
+Ah! se ao meu contrario entre as chãmas vira;
+ Eu mesmo, sim, da morte
+ Aos hombros o remira:
+Inda por elle muito mais obrára:
+ E se nada servisse,
+Fizera então, Amigo, o que fizeste,
+ Gemêra, e suspirára.
+
+Oh! quanto são duraveis as cadêas
+ De huma amizade, quando
+ Se dão iguaes idéas!
+Se a pezar dos estorvos se sustinha
+ Nossa união sincera,
+Foi por ser a minha alma igual á tua,
+ E a tua igual á minha.
+
+Se, ó caro Amigo, te merece tanto,
+ Lá lhe fica a sua alma,
+ Limpa-lhe o terno pranto.
+De quem eu fallo, és tu, Marilia bella.
+ Ah! sim, honrado Amigo,
+Se enxugar não poderes os seus olhos;
+ Prantêa então com ella.
+
+
+
+
+LYRA XV.
+
+
+Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro;
+Fui honrado Pastor da tua Aldêa;
+Vestia finas lãns, e tinha sempre
+A minha chóça do preciso chêa.
+Tirarão-me o casal, e o manso gado,
+Nem tenho a que me encoste hum só cajado.
+
+Para ter, que te dar, he que eu queria
+De mór rebanho ainda ser o dono;
+Prezava o teu semblante, os teus cabellos
+Ainda muito mais que hum grande Throno.
+Agora que te offerte já não vejo
+Além de hum puro amor, de hum são desejo.
+
+Se o rio levantado me causava
+Levando a sementeira prejuiso,
+Eu alegre ficava apenas via
+Na tua breve boca hum ar de riso.
+Tudo agora perdi; nem tenho o gosto
+De ver-te ao menos compassivo o rosto.
+
+Propunha-me dormir no teu regaço
+As quentes horas da comprida sésta,
+Escrever teus louvores nos olmeiros,
+Toucar-te de papoilas na floresta.
+Julgou o justo Ceo, que não covinha
+Que a tanto gráo subisse a gloria minha.
+
+Ah, minha bella, se a Fortuna volta,
+Se o bem que já perdi alcanço, e provo;
+Por essas brancas mãos, por essas faces
+Te juro renascer hum homem novo;
+Romper a nuvem que os meus olhos cerra,
+Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.
+
+Fiadas comprarei as ovelhinhas,
+Que pagarei dos poucos do meu ganho;
+E dentro em pouco tempo nos veremos
+Senhores outra vez de hum bom rebanho.
+Para o contagio lhe não dar sobeja
+Que as affague Marilia, ou só que as veja.
+
+Se não tivermos lans, e pelles finas,
+Podem mui bem cobrir as carnes nossas
+As pelles dos cordeiros mal cortidas,
+E os pannos feitos com as lans mais grossas.
+Mas ao menos será o teu vestido
+Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido.
+
+Nós iremos pescar na quente sésta
+Com canas, e com cêstos os peixinhos:
+Nós iremos caçar nas manhãs frias
+Com a vara envisgada os passarinhos;
+Para nos divertir faremos quanto
+Reputa o varão sabio, honesto, e santo.
+
+Nas noites de serão nos sentaremos
+C'os filhos se os tivermos á fogueira;
+Entre as falsas historias, que contares,
+Lhes contarás a minha verdadeira:
+Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto
+Ainda o rosto banharei de pranto.
+
+Quando passarmos juntos pela rua
+Nos mostraráõ c'o dedo os mais Pastores,
+Dizendo huns para os outros: olha os nossos
+Exemplos da desgraça, e sãos amores.
+Contentes viviremos desta sorte,
+Até que chegue a hum dos dois a morte.
+
+
+
+
+LYRA XVI.
+
+
+Vejo, Marilia,
+Que o nédeo gado
+Anda disperso
+No monte, e prado;
+Que assim succede
+Ao desgraçado,
+Que a perder chega
+O seu Pastor.
+Mas inda soffro
+A viva dôr.
+
+Tambem conheço,
+Que os Pegureiros,
+Que apascentavão
+Os meus cordeiros,
+Darão suspiros
+E verdadeiros;
+Porque perdêrão
+Hum pai no amor.
+Mas inda soffro
+A viva dôr.
+
+Eu mais alcanço;
+Que a minha herdade
+Estando eu prezo,
+Soffrer não ha-de
+Nem a charrua,
+E nem a grade;
+Que a mão lhe falta
+Do Lavrador.
+Mas inda soffro
+A viva dôr.
+
+Mas quando sobe
+Á minha idéa,
+Que tu ficaste
+Lá nessa Aldêa.
+De mil cuidados
+E mágoa cheia;
+Das paixões minhas
+Não sou senhor.
+Eu já não soffro
+A viva dôr.
+
+A quanto chega
+A pena forte!
+Peza-me a vida,
+Desejo a morte,
+A Jove accuso,
+Maldigo a sorte,
+Trato a Cupido
+Por hum traidor.
+Eu já não soffro
+A viva dôr.
+
+Mas este excesso
+Perdão merece,
+E delle Jove
+Se compadece;
+Que Jove, ó bella,
+Mui bem conhece,
+Aonde chega
+Paixão de amor.
+Eu já não soffro
+A viva dôr.
+
+
+
+
+LYRA XVII.
+
+
+ Dirceo te deixa, ó bella,
+ De padecer cançado:
+ Frio suor já banha
+ Seu rosto descórado;
+O sangue já não gyra pela vêa,
+ Seus pulsos já não batem;
+E a clara luz dos olhos se bacêa:
+A lagrima sentida já lhe corre;
+Já pára a convulsão, suspira, e morre.
+
+ Seu espirito chega
+ Onde se pune o erro:
+ Late o cão, e se lhe abrem
+ Grossos portões de ferro.
+Aos severos Juizes se apresenta;
+ E com sentidas vozes
+Toda a sua tragedia representa:
+Enche-se de ternura, e novo espanto
+O mesmo inexoravel Rhadamantho.
+
+ Abre hum pasmado a boca,
+ E a pedra não despede;
+ Outro já não se lembra
+ Da fome, e mais da sede:
+Descança o curvo bico, e a garra impia
+ Negro abutre esfaimado:
+Nem a roca medonha a Parca fia,
+Até as mesmas Furias inclementes
+Deixão cahir das unhas as serpentes.
+
+ Já votão os Juizes;
+ E o Rei Plutão lhe ordena
+ Deixe o sitio, em que ficão
+ Almas dignas de pena.
+Já sahe do escuro Reino, e da memoria
+ Lhe passa tudo quanto
+Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria.
+Só, bem que o gosto as turvas agoas tome,
+Inda, Marilia, inda diz teu nome.
+
+ Entra já nos Elysios
+ Campinas venturosas,
+ Que mansos rios cortão,
+ Que cobrem sempre as rosas.
+Escuta o canto das sonoras aves,
+ E bebe as agoas puras,
+Que o mel, e de que o leite mais suaves.
+Aqui, diz elle, espero a minha bella,
+Aqui contente viverei com ella.
+
+ Aqui... porém aonde
+ Me leva a dôr activa?
+ He illusão desta alma.
+ Jove inda quer que eu viva.
+Eu devo sim gosar teus doces laços;
+ E em paga dos meus males
+Devo morrer, Marilia, nos teus braços.
+Então eu passarei ao Reino amigo;
+E tu irás despois lá ter comigo.
+
+
+
+
+LYRA XVIII.
+
+
+Não mólho, Marilia,
+De pranto a masmorra
+Que o terno Cupido
+Não vôe, e não corra,
+A hilo apanhar.
+Estende-o nas azas
+Sobre elle suspira,
+Por fim se retira,
+E vai-to levar.
+
+Se o moço não mente,
+Aos tristes gemidos,
+Aos ais lastimosos
+Não guardes unidos,
+Marilia, c'os teus:
+As lagrimas nossas
+No seio amontôa
+Fórma azas, e vôa,
+Vai pô-las nos Ceos.
+
+A Deosa formosa,
+Que amava aos Troianos,
+Livra-los querendo
+De riscos, e damnos
+A Jove buscou.
+As aguas, que o rosto
+Da Deosa banhárão,
+A Jove abrandárão,
+E assim os salvou.
+
+Confia-te, ó bella,
+Confia-te em Jove;
+Ainda se abranda,
+Ainda se move
+Com ancias de amor.
+O pranto de Venus,
+Que obrou no Pai tanto,
+Não tem que o teu pranto
+Apreço maior.
+
+
+
+
+LYRA XIX.
+
+
+ Nesta triste masmorra,
+De hum semivivo corpo sepultura,
+ Inda, Marilia, adoro
+ A tua formosura.
+Amor na minha idéa te retrata,
+Busca extremoso, que eu assim resista
+Á dôr immensa, que me cerca, e mata.
+
+ Quando em meu mal pondero,
+Então mais vivamente te diviso:
+ Vejo o teu rosto, e escuto
+ A tua voz, e riso.
+Movo ligeiro para o vulto os passos:
+Eu beijo a tibia luz em vez de face;
+E aperto sobre o peito em vão os braços.
+
+ Conheço a illusão minha;
+A violencia da mágoa não supporto;
+ Foge-me a vista, e caio
+ Não sei se vivo, ou morto.
+Enternece-se Amor de estrago tanto;
+Reclina-me no peito, e com mão terna
+Me limpa os olhos do salgado pranto.
+
+ Despois que represento
+Por largo espaço a imagem de hum defunto,
+ Movo os membros, suspiro,
+ E onde estou pergunto.
+Conheço então que Amor me tem comsigo;
+Ergo a cabeça, que inda mal sustento,
+E com doente voz assim lhe digo.
+
+ Se queres ser piedoso,
+Procura o sitio em que Marilia móra,
+ Pinta-lhe o meu estrago,
+ E vê, Amor, se chora.
+Se as lagrimas verter a dôr a arrasta,
+Huma dellas me traze sobre as pennas,
+E para allivio meu só isto basta.
+
+
+
+
+LYRA XX.
+
+
+E me visses com teus olhos
+Nesta masmorra mettido;
+De mil idéas funestas,
+E cuidados combatido:
+Qual seria, ó minha bella,
+Qual seria o teu pezar?
+
+Á força da dôr cedêra;
+E nem estaria vivo,
+Se o menino Deos vendado,
+Extremoso, e compassivo,
+Com o nome de Marilia
+Não me viesse animar.
+
+Deixo a cama ao romper d'alva;
+O meio dia tem dado,
+E o cabello inda flutua
+Pelas costas desgrenhado.
+Não tenho valor, não tenho;
+Nem para de mim cuidar.
+
+Diz-me Cupido: E Marilia;
+Não estima esse cabello?
+Se o deixas perder de todo
+Não se ha de enfadar ao vêllo?
+Suspiro pego no pente,
+Vou logo o cabello atar.
+
+Vem hum taboleiro entrando
+De varios manjares cheio,
+Põe-se na meza a toalha,
+E eu pensativo passeio:
+De todo o comer esfria,
+Sem nelle poder tocar.
+
+Eu entendo que matar-te,
+Diz Amor, te tens proposto;
+Fazes bem: terá Marilia
+Desgosto sobre desgosto.
+Qual enfermo c'o remedio
+Me afflijo, mas vou jantar.
+
+Chegão as horas Marilia,
+Em que o Sol já se tem posto,
+Vem-me á memoria que nellas
+Via á janella o teu rosto:
+Reclino na mão a face
+E entro de novo a chorar.
+
+Diz-me Cupido: Já basta,
+Já basta, Dirceo, de pranto;
+Em obsequio de Marilia
+Vai erguer teu doce canto.
+Pendem as fontes dos olhos,
+Mas eu sempre vou cantar.
+
+Vem o Forçado accender-me
+A velha çuja candêa;
+Fica, Marilia, a masmorra
+Inda mais triste, e mais fêa.
+Nem mais canto, nem mais posso
+Huma só palavra dar.
+
+Diz-me Cupido: São horas
+De escrever-se o que está feito;
+Do azeite, e da fumaça
+Huma nova tinta ageito,
+Tomo o páo, que penna finge,
+Vou as Lyras copiar.
+
+Sem que chegue o leve sono
+Canta o Gallo a vez terceira;
+Eu digo ao Amor; que fico
+Sem deitar-me a noite inteira:
+Faço mimos, e promessas
+Para elle me acompanhar.
+
+Elle diz que em dormir cuide,
+Que hei-de ver Marilia em sonho;
+Não respondo huma palavra,
+A dura cama componho,
+Apago a triste candêa,
+E vou-me logo deitar.
+
+Como póde a taes cuidados
+Risistir, ó minha Bella,
+Quem não tem de Amor a graça?
+Se eu que vivo á sombra della
+Inda vivo desta sorte,
+Sempre triste a suspirar?
+
+
+
+
+LYRA XXI.
+
+
+Que diversas que são, Marilia, as horas
+Que passo na masmorra immunda, e fêa,
+Dessas horas felizes, já passadas
+ Na tua patria Aldêa.
+
+Então eu me ajuntava com Glauceste;
+E á sombra de alto Cédro na Campina
+Eu versos te compunha, e elle os compunha
+ Á sua cara Eulina.
+
+Cada qual o seu canto aos Astros leva;
+De exceder hum ao outro qualquer trata
+O ecco agora diz: _Marilia terna_;
+ E logo: _Eulina ingrata_.
+
+Deixão os mesmos Sátyros as grutas:
+Hum para nós ligeiro move os passos;
+Ouve-nos de mais perto, e faz a flauta
+ C'os pés em mil pedaços.
+
+Dirceo (clama hum Pastor,) ah! bem merece
+Da ternissima Marilia a formosura.
+E aonde, clama o outro, quer Eulina
+ Achar maior ventura?
+
+Nenhum Pastor cuidava do rebanho,
+Em quanto em nós durava esta porfia.
+E ella, ó minha amada, só findava
+ Depois de acabar-se o dia.
+
+Á noite te escrevia na cabana
+Os versos, que de tarde havia feito;
+Mal tos dava, e os lias, os guardavas
+ No casto, e branco peito.
+
+Beijando os dedos dessa mão formosa,
+Banhados com as lagrimas do gosto,
+Jurava não cantar mais outras graças
+ Que as graças do teu rosto.
+
+Ainda não quebrei o juramento.
+Eu agora, Marilia, não as canto;
+Mas inda vale mais que os doces versos
+ A voz do triste pranto.
+
+
+
+
+LYRA XXII.
+
+
+Por morto, Marilia,
+Aqui me reputo:
+Mil vezes escuto
+O som do arrastado,
+E duro grilhão.
+Mas, ah! que não treme,
+Não treme de susto
+O meu coração.
+
+A chave lá sôa
+Na porta segura:
+Abre-se a escura,
+Infame masmorra
+Da minha prizão.
+Mas, ah! que não treme;
+Não treme de susto
+O meu coração.
+
+Eu vejo, Marilia,
+A mil innocentes
+Nas Cruzes pendentes,
+Por falsos delictos,
+Que os homens lhes dão.
+Mas, ah! que não treme,
+Não treme de susto
+O meu coração.
+
+Se penso que posso
+Perder o gozar-te
+A gloria de dar-te
+Abraços honestos,
+E beijos na mão.
+Marilia, já treme,
+Já treme de susto
+O meu coração.
+
+Repára, Marilia,
+O quanto he mais forte
+Ainda que a morte,
+N'um peito esforçado
+De amor a paixão.
+Marilia, já treme,
+Já treme de susto
+O meu coração.
+
+
+
+
+LYRA XXIII.
+
+
+Não praguejes, Marilia, não praguejes
+A justiceira mão que lança os ferros:
+Não traz de balde a vingadora espada;
+ Deve punir os erros.
+
+Virtudes de Juiz, virtudes de homem
+As mãos se derão, e em seu peito morão.
+Mandão prender ao Réo austera a boca,
+ Porém seus olhos chorão.
+
+Se á innocencia denigre a vil calumnia
+Que culpa aquelle tem que applica a penna.
+Não he o Julgador, he o processo,
+ E a lei quem nos condemna.
+
+Só no Averno os Juizes não recebem
+Accusação, nem prova de outro humano;
+Aqui todos confessão suas culpas,
+ Não póde haver engano.
+
+Eu vejo as Furias affligindo aos tristes:
+Huma o fogo chega, outra as serpes move;
+Todos maldizem sim a sua estrella,
+ Nenhum accusa a Jove.
+
+Eu tambem inda adoro ao grande Chefe,
+Bem que a prizão me dá que eu não mereço.
+Qual eu sou, minha bella, não me trata,
+ Trata-me qual pareço.
+
+Quem suspira, Marilia, quando pune
+Ao vassallo que julga delinquente;
+Que gosto não terá podendo dar-lhe
+ As honras de innocente?
+
+
+
+
+LYRA XXIV.
+
+
+Eu vou, Marilia, vou brigar co' as feras:
+Huma soltárão, eu lhe sinto os passos,
+ Aqui aqui a espero
+ Nestes despidos braços.
+He hum malhado tigre; a mim já corre,
+Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas,
+Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.
+
+Vem agora hum Leão: sacode a grenha,
+Com faminta paixão a mim se lança;
+ Venha embora, que o pulso
+ Ainda não se cança.
+Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira,
+O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão,
+Açoita o chão convulso, arqueja, e espira.
+
+Mas que vejo, Marilia! tu te assustas?
+Entendes que os destinos inhumanos
+ Expoem a minha vida
+ No cêrco dos Romanos?
+Com ursos, e com onças eu não luto.
+Luto c'o bravo monstro que me accusa;
+Que os tigres, e leões mais féro, e bruto.
+
+Embora contra mim raivoso esgrima
+Da vil calumnia a cortadora espada;
+ Huma alma, qual eu tenho,
+ Não se recêa a nada.
+Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia,
+Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito
+Co' as armas invenciveis da innocencia.
+
+Ah, quando imaginar, que vingativo
+Mando que desça ao Tartaro profundo
+ Hei-de com mão honrada
+ Erguer-lhe o corpo immundo.
+Eu então lhe direi: Infame, indîno,
+Obras como costuma o vil humano;
+Faço o que faz hum coraçao divino.
+
+
+
+
+LYRA XXV.
+
+
+Minha Marilia,
+O passarinho,
+A quem roubárão
+Ovos, e ninho,
+Mil vezes pousa
+No seu raminho,
+Piando finge
+Que anda a chorar.
+ Mas logo vôa
+Pela espessura,
+Nem mais procura
+Este lugar.
+
+Se acaso a vacca
+Perde a vitéla,
+Tambem nos mostra,
+Que se desvéla,
+O pasto deixa,
+Muge por ella,
+Até na estrada
+A vem buscar.
+ Em poucos dias,
+Ao que parece,
+Della se esquece,
+E vai pastar.
+
+O voraz Tempo,
+Que o ferro come,
+Que aos mesmos Reinos
+Devora o nome,
+Tambem, Marilia,
+Tambem consome
+Dentro do peito
+Qualquer pezar.
+ Ah só não póde
+Ao meu tormento
+Por hum momento
+Allivio dar.
+
+Tambem, ó bella,
+Não ha quem viva
+Instantes breves
+Na chamma activa;
+Derrete ao bronze
+Sendo excessiva
+Ao mesmo seixo
+Faz estalar.
+ Mas do amianto
+A fêbra dura
+Na chamma atura
+Sem se queimar.
+
+Tambem, Marilia,
+Não ha quem negue,
+Que bem que o fogo
+Nos oleos pegue,
+Que bem que em lingoas
+Ás nuvens chegue,
+Á força d'agoa
+Se ha de apagar.
+ Se a negra pedra
+Nós accendemos,
+Com agoa a vemos
+Mais s'inflammar.
+
+O meu discurso,
+Marilia, he resto:
+A pena iguala
+Ao meu affecto.
+O amor que nutro
+Ao teu aspecto,
+E o teu semblante
+He singular.
+ Ah! nem o tempo,
+Nem inda a morte
+A dôr tão forte
+Pode acabar.
+
+
+
+
+LYRA XXVI.
+
+
+Aquelle, a quem fêz cégo a Natureza,
+C'o bordão apalpa, e aos que vem pergunta;
+Ainda se despenha muitas vezes,
+ E dois remedios junta.
+
+De ser céga a Fortuna eu não me queixo;
+Sim me queixo de que má céga seja
+Céga que nem pergunta, nem apalpa,
+ He porque errar deseja.
+
+A quem gastar não sabe, nem se anima,
+Entrega as grossas chaves de hum thesoiro;
+E lança na miseria a quem conhece
+Para que serve o oiro.
+
+A quem fere, a quem rouba, a infame deixa
+Que a traz do vicio em liberdade corra,
+Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime
+ N'esta vil masmorra.
+
+Mas ah! minha Marilia, que esta queixa
+Co' a sólida razão se não coaduna,
+Como me queixo da Fortuna tanto,
+ Se sei não ha Fortuna?
+
+Os Fados, os Destinos, essa Deosa
+Que os Sábios fingem que huma roda move
+He só a occulta mão da Providencia,
+ A sábia mão de Jove.
+
+Nós he que somos cegos, que não vemos;
+A que fins nos conduz por estes modos;
+Por torcidas estradas, ruins varedas
+ Caminha ao bem de todos.
+
+Alegre-se o perverso com as ditas;
+C'o seu merecimento o virtuoso;
+Parecer desgraçado, ó minha bella,
+ He muito mais honroso.
+
+
+
+
+LYRA XXVII.
+
+
+A minha amada
+He mais formosa
+Que branco lyrio,
+Dobrada rosa,
+Que o cinnamomo,
+Quando matiza
+Co' a folha a flor.
+Venus não chega
+Ao meu Amor.
+
+Vasta campina
+De trigo chêa,
+Quando na sésta
+C'o vento ondêa,
+Ao seu cabello
+Quando flutua
+Não he igual.
+Tem a côr negra:
+Mas quanto val!
+
+Os astros, que andão
+Na esfera pura,
+Quando scintilão
+Na noite escura,
+Não são humanos,
+Tão lindos, como
+Seus olhos são.
+Que ao Sol excedem
+Na luz que dão.
+
+Ás brancas faces,
+Ah! não se atreve
+Jasmis de Italia,
+Nem inda a neve,
+Quando a desata
+O Sol brilhante
+Com seu calôr.
+São neve, e causão
+No peito ardôr.
+
+Na breve boca
+Vejo enlaçadas
+As finas per'las
+Com as granadas;
+A par dos beiços
+Rubins da India
+Tem preço vil.
+Nelles se agarrão
+Amores mil.
+
+Se não lhe désse
+Compadecido
+Tanto soccorro
+O Deos Cupido;
+Se não vivêra
+Huma esperança
+No peito seu;
+Já morto estava
+O bom Dirceo.
+
+Vê quanto póde
+Teu bello rosto;
+E de goza-lo
+O vivo gosto!
+Que sobmergido
+Em hum tormento
+Quasi infernal,
+Porqu' inda espero
+Resisto ao mal.
+
+
+
+
+LYRA XXVIII.
+
+
+ Deten-te, vil humano,
+ Não espremas cicutas
+ Para fazer-me damno.
+O çumo que ellas dão he pouco forte,
+ Procura outras bebidas,
+ Que apressem mais a morte.
+
+ Desce ao Reino profundo,
+ Ajunta ahi venenos,
+ Que nunca visse o mundo;
+Traze o negro licôr, que tem nos dentes,
+ Nos dentes retorcidos
+ As raivosas serpentes.
+
+ Cachopo levantado,
+ Que pôz a Natureza,
+ Dentro no Mar salgado,
+Não se abala no meio da tormenta,
+ Bem que huma onda, e outra onda
+ Sobre elle em flor rebenta.
+
+ Arvore, que na terra
+ Ás robustas raizes,
+ Buscando o centro, afferra,
+Não teme ao furacão mais violento;
+ E menos se se deixa
+ Vergar do rijo vento.
+
+ Sou tronco, e rócha, ó bella,
+ Que açoita o Sul que brama,
+ E o Mar, que se encapella:
+Não temas que do rosto a côr se mude:
+ Vence as róchas, e os troncos
+ A sólida Virtude.
+
+ A maior desventura
+ He sempre a que nos lança
+ No horror da sepultura:
+O cobarde a morrer tambem caminha;
+ Com que males não póde
+ Huma alma como a minha?
+
+
+
+
+LYRA XXIX.
+
+
+Eu descubro procurar-me
+Gentil mancebo, e loiro,
+Trazia a testa adornada
+Com folhas de verde loiro.
+Vejo ser o Pai das Musas,
+E me entrega a lyra d'oiro.
+
+Já basta, me diz, ó filho,
+Já basta de sentimento;
+O cançado peixe exige
+Hum breve contentamento.
+Louva a formosa Marilia
+Ao som do meu instrumento.
+
+Firo as cordas; mas que importa?
+A dôr não socega em tanto.
+Ergo a voz, então reparo
+Que quanto mais corre o pranto
+He mais doce, e mais sonoro
+Meu terno, e saudoso canto.
+
+Apollo fitou os olhos
+Na mão, que regía o braço;
+E depois de estar suspenso,
+De me houvir hum largo espaço;
+Assim diz: _o Deos Cupido
+Faz inda mais do que eu faço_.
+
+_Eu te dou a minha lyra,
+Louva, louva a tua Bella;
+Porém vê que ta concedo
+Com condição, e cautella_...
+Eu lhe corto a voz, dizendo,
+Que só canto em honra della.
+
+
+
+
+LYRA XXX.
+
+
+O pai das Musas,
+O Pastor loiro
+Deo-me, Marilia,
+Para cantar-te
+A lyra de oiro.
+
+As cordas firo,
+O brando vento
+Teus dotes leva
+Nas brancas azas
+Ao firmamento.
+
+O teu cabello
+Vale hum thesoiro;
+Hum só me adorna
+A sabia frente
+Melhor que o loiro.
+
+Nesses teus olhos
+Amor assiste;
+Delles faz guerra;
+Ninguem lhe foge;
+Ninguem resiste.
+
+Algumas vezes
+Eu o diviso
+Tão bem occulto
+Nas lindas cóvas,
+Que faz teu riso.
+
+Nesses teus peitos
+Tem os seus ninhos
+Destros Amores,
+Nelles se gerão
+Os Cupidinhos.
+
+Vences a Venus,
+Quando com arte
+As armas toma,
+Porque mais prenda
+Ao fero Marte.
+
+Eu produzia
+Estas idéas,
+Quando, Marilia;
+O som escuto
+Das vis cadêas.
+
+Dou hum suspiro.
+Corre o meu pranto;
+E inda bebendo
+Lagrimas tristes,
+De novo canto.
+
+Sou da constancia
+Hum vivo exemplo.
+E vós, ó ferros,
+Honrareis inda
+De Amor o Templo.
+
+
+
+
+LYRA XXXI.
+
+
+Roubou-me, ó minha Amada, a sorte impía,
+ Quanto de meu gosava
+ N'um só funesto dia.
+
+Honras de maioral, manada grossa,
+ Fertil, extensa herdade,
+ Bem reparada chóça.
+
+Metteo-me nesta infame sepultura,
+ Que he sepulcro sem honras,
+ Breve masmorra, escura.
+
+Aqui, ó minha Amada, nem consigo,
+ Venha outro desgraçado
+ Sentir tambem comigo.
+
+Mas se esta companhia não mereço;
+ Os Deoses me dão outra,
+ Inda de mais apreço.
+
+Não he, não, illusão o que te digo;
+ Tu mesma me acompanhas;
+ Peno, mas he comtigo.
+
+Não vejo as tuas faces graciosas,
+ Os teus soltos cabellos,
+ As tuas mãos mimosas.
+
+Se eu as visse, infeliz me não dissera,
+ Bem que subira ao Porto,
+ Bem que na Cruz pendêra.
+
+Não ouço as tuas vozes magoadas,
+ Com ardentes suspiros
+ Ás vezes mal formadas.
+
+Mas vejo, ó cara, as tuas letras bellas;
+ Huma por hum beijo,
+ E choro então sobre ellas.
+
+Tu me dizes que siga o meu destino;
+ Que o teu amor na ausencia
+ Será leal, e fino.
+
+De novo a carta ao coração aperto,
+ De novo a molha o pranto
+ Que de ternura verto.
+
+Ah! leve muito embora o duro Fado;
+ A tudo quanto tenho
+ Com meu suor ganhado.
+
+Eu juro, que do roubo nem me queixe,
+ Com tanto, ó minha cara,
+ Que este só bem me deixe.
+
+Que males voluntarios não subírão,
+ Os que te amão, sómente
+ Porque menos te ouvírão?
+
+Dê pois aos mais seus bens a Deosa céga;
+ Que eu tenho aquella gloria,
+ Que a mil felizes nega.
+
+
+
+
+LYRA XXXII.
+
+
+Se o vasto mar se encapella,
+E na rócha em flor rebenta,
+Grossa náo, q' não tem léme,
+Em vão sustentar-se intenta;
+Até que naufraga, e corre
+Á discrição da tormenta.
+
+Quem não tem huma Belleza,
+Em que ponha o seu cuidado,
+Se o Ceo se cobre de nuvens,
+E se assopra o vento irado,
+Não tem forças que resistão
+Ao impulso do seu fado.
+
+Nesta sombria masmorra,
+Aonde, Marilia, vivo,
+Encosto na mão o rosto,
+Fico ás vezes pensativo.
+Ah! que imagens tão funestas
+Me finge o pezar activo.
+
+Parece que vejo a honra,
+Marilia, toda enlutada,
+A face de hum pai rugosa,
+N'um mar de pranto banhada,
+Os amigos mascilentos,
+E a familia consternada.
+
+Quero voltar os meus olhos
+Para outro diverso lado,
+Vejo n'uã grande Praça
+Hum Theatro levantado.
+Vejo as Cruzes, vejo os Potros,
+Vejo o Alfanje afiado.
+
+Hum frio suor me cobre,
+Lação-se os membros, suspiro,
+Busco allivio ás minhas ancias,
+Não o descubro, deliro.
+Já, meu Bem, já me parece,
+Que nas mãos da morte espiro.
+
+Vem-me então ao pensamento
+A tua testa nevada,
+Os teus meigos, vivos olhos,
+A tua face rosada,
+Os teus dentes crystallinos,
+A tua boca engraçada.
+
+Qual, Marilia, a estrella d'alva,
+Que a negra noite affugenta,
+Qual o Sol, que a nevoa espalha
+Apenas a terra aquenta,
+Ou qual Iris, que o Ceo limpa,
+Quando se vê na tormenta.
+
+Assim, Marilia, desterro
+Triste illusão, e demencia;
+Faz de novo o seu officio,
+A razão, e a prudencia;
+E firmo esperanças doces
+Sobre a candida innocencia.
+
+Restauro as forças perdidas,
+Sóbe a viva côr ao rosto;
+Gyra o sangue pela vêa,
+E bate o pulso composto.
+Vê, Marilia, o quanto póde
+Contra os meus males teu rosto.
+
+FIM.
+
+
+
+
+MARILIA DE DIRCEO.
+
+POR
+
+F.A.G.
+
+
+TERCEIRA PARTE.
+
+
+LISBOA:
+
+Na Impressão Regia. Anno 1812.
+
+_Com licença_.
+
+_Vende-se na loja da Gazeta_.
+
+
+
+
+AO LEITOR.
+
+
+A geral acceitação, que a primeira, e segunda parte da Marilia de Dirceo
+tem devido ao Público, animou ao seu Editor a dar á luz huma terceira
+parte da dita Obra, a que fez juntar outras diversas Rimas do mesmo
+Author, que lhe fazem honra, e que abonão assás a distincta opinião que
+tem adquirido naquelle genero de Poesia. Adverte o Editor, que huma
+terceira parte da dita Marilia de Dirceo ha tempos publicada, he Obra de
+outro engenho, o que facilmente conhecerá ainda o Leitor menos
+intelligente.
+
+
+
+
+MARILIA DE DIRCEO.
+
+
+
+
+LYRA I.
+
+
+Convidou-me a vêr seu Templo
+ O cego Cupido hum dia;
+ Encheo-se de gosto o peito,
+ Fiz deste Deos hum conceito
+ Como delle não fazia.
+
+Aqui vejo descorados
+ Os ternissimos amantes
+ Entre as cadêas gemerem;
+ Vejo nas piras arderem
+ As entranhas palpitantes.
+
+_A quem ama quanto avista_,
+ (Diz Cupido) _não aterra:
+ Quem quer cingir o loureiro,
+ Tambem vai soffrer primeiro
+ Todo o trabalho da guerra_.
+
+_Com tudo que te dilates
+ Neste sitio não convenho;
+ Deixa a estancia lastimosa,
+ Vem vêr a Salla formosa,
+ Aonde o meu Solio tenho_.
+
+Entro n'outro grande Templo:
+ Que perspectiva tão grata!
+ Tudo quanto nelle vejo
+ Passa além do meu desejo,
+ E o discurso me arrebata.
+
+He de marmore, e de jaspe
+ O soberbo frontespicio:
+ He todo por dentro d'ouro,
+ E a hum tão rico tesouro
+ Inda excede o artificio.
+
+As janellas não se adornão
+ De sedas de finas côres:
+ Em lugar de cortinados
+ Estão prezos, e enlaçados
+ Fastões de mimosas flores.
+
+Em torno da Salla Augusta
+ Ardem dourados brazeiros;
+ Queimão rezinas, que estalão,
+ E postas em fumo exalão
+ Da Panchaya os gratos cheiros.
+
+Ao pé do Throno os seus Genios
+ Alegres hymnos entoão:
+ Danção as Graças formosas;
+ E aqui as horas gostosas
+ Em vêz de correrem, vôão.
+
+Estão sobre o pavimento,
+ Igualmente reclinados
+ Nos collos de seus amores,
+ Os grandes Reis, e Pastores
+ De frescas rosas coroados.
+
+Mal o acôrdo restauro,
+ (Me diz, o Moço risonho:)
+ _Como ainda não reparas
+ Em tantas cousas tão raras,
+ De que este Templo componho_?
+
+_Sabes a historia de Jove?
+ Aqui tens o manso Touro;
+ Tens o Cisne decantado;
+ A Velha em que foi mudado,
+ Com a grossa chuva d'ouro_.
+
+_Applica, Dirceo, agora
+ Os olhos para esta parte:
+ Aqui tens o verde Louro,
+ Que inda estima o Pastor louro,
+ E a Rede, que enlaça a Marte_.
+
+_Vês este Arco destramente
+ De branco marfim ornado?
+ Á Casta Deosa servia,
+ E o perdêo quando dormia
+ Do gentil Pastor ao lado_.
+
+_Vês esta Lyra? com ella
+ Tira Orpheo ao bem querido
+ Dos infernos aonde estava.
+ Vês este Faról? guiava
+ Ao meu nadador de Abydo_.
+
+_Vês estas duas Espadas
+ Ainda de sangue cheias?
+ A Thysbe, e a Dido matárão;
+ E os fortes pulsos armárão
+ De Pyramo, e mais de Eneas_.
+
+_Sabes quem vai no Navio,
+ Que nesse mar se levanta?
+ He Theseo. Vês esse Pomo?
+ He de Cydippe, assim como
+ São aquelles de Atalanta_.
+
+_Vê agora estes retratos,
+ Que destros pinceis fizerão:
+ Ah! que pinturas divinas!
+ Todos são das Heroinas,
+ Que mais victorias me dérão_.
+
+_Repara nesse semblante,
+ He o semblante de Helena:
+ Lá se avista a Grega Armada,
+ E aqui de Troya abrazada
+ Se mostra a funesta scena_.
+
+_Vês est'outra_ formosura?
+ _He a bella Deidamía_;
+ _Lá_ tem Achilles ao lado,
+ _De huma saia disfarçado
+ Como com ella vivia_.
+
+_Cleópatra he quem se segue:
+ Alli tens lançando a linha
+ Marco Antonio socegado,
+ Ao tempo em que Augusto irado,
+ Com armada mão caminha_.
+
+_Aqui Hermes se figura:
+ Vê hum Sabio dos maiores,
+ Qual infame delinquente,
+ Ir desterrado sómente
+ Por contar os seus louvores_.
+
+_Este he de Omphale o retrato:
+ Aqui tens (quem o diria!)
+ Ao grande Hercules sentado
+ Com as mais damas no estrado,
+ Onde em seu obsequio fia_.
+
+_Anda agora a est'outra parte:
+ Conheces, Dirceo, aquella_?
+ Onde váes? (lhe digo:) explica,
+ Que belleza aqui nos fica,
+ Sem fazeres caso della?
+
+Ergo os olhos ponho a vista
+ Na imagem não explicada,
+ Ó quanto he digna de appreço!
+ Mal exclamo assim, conheço
+ Ser a minha doce amada.
+
+O coração pelos olhos
+ Em terno pranto sahia,
+ E no meu peito saltava:
+ Disfarçado Amor, olhava
+ Para mim a furto, e ria.
+
+Depois de passado tempo,
+ A mim se chega, e me aballa;
+ Desperto de tanto assombro:
+ Elle bate no meu hombro,
+ E assim affavel me falla.
+
+_Sim, caro Dirceo, he esta
+ A divina formosura,
+ Que te destina Cupido;
+ Aqui tens o laço urdido
+ Da tua immortal ventura_.
+
+_O Numen, Dirceo, o Numen
+ Que aos trabalhos de hum humano
+ Desta sorte felicita,
+ Não he, como se accredita,
+ Não he hum Numen tyranno_.
+
+_Olha se a cega Fortuna
+ De tudo quanto se cria,
+ Ou nos mares, ou na terra,
+ Em o seu thesouro encerra
+ Outro bem de mais valia_?
+
+_Lizas faces côr de rosa,
+ Brancos dentes, olhos bellos,
+ Grossos beiços encarnados,
+ Pescoço, e peitos nevados,
+ Negros e finos cabellos_;
+
+_Não vale mais, que cingires
+ Co' braço de sangue immundo
+ Na cabeça o verde louro?
+ Do que teres montes d'ouro?
+ Do que dares leis ao mundo_?
+
+_Ah! ensina, sim ensina
+ Ao vil mortal atrevido,
+ E ao peito que adora terno,
+ Que tem para hum Inferno,
+ Para o outro hum Ceo, Cupido_.
+
+Ao resto Amor me convida;
+ Eu chorando a mão lhe beijo:
+ E lhe digo, Amor, perdôa
+ Não seguir-te; pois não vôa
+ A vêr mais o meu dezejo.
+
+
+
+
+LYRA II.
+
+
+ Em vão do amado
+Filho que foge,
+Venus quer hoje
+Noticias ter.
+
+ Sagaz, e astuto
+Elle se esconde
+Em parte aonde
+Ninguem o vê.
+
+ Dos signaes dados
+Bem se conhece,
+Que elle aborrece
+A Mãi que tem.
+
+ Se os seus defeitos
+Ella publíca,
+Razão lhe fica
+De se offender.
+
+ Foge o Menino,
+E disfarçado
+Vive abrigado
+N'uma cruel.
+
+ Com mil caricias
+A impia o trata;
+Nem o desata
+Do peito seu.
+
+ Se a semelhança
+Sempre amor gera,
+Deve huma fera
+Outra accolher.
+
+ Ah! se o teu nome,
+Marilia, calo,
+Que de ti fallo
+Bem pódes crer.
+
+
+
+
+LYRA III.
+
+
+Tu não verás, Marilia, cem captivos
+Tirarem o cascalho, e a rica terra,
+Ou dos cercos dos rios caudelosos,
+ Ou da minada Serra.
+
+Não verás separar ao habil negro
+Do pezado esmeril a grossa arêa;
+E já brilharem os granetes de ouro,
+ No fundo da batêa.
+
+Não verás derrubar os virgens matos,
+Queimar as capoeiras inda novas,
+Servir de adubo á terra a fertil cinza,
+ Lançar os grãos nas cóvas.
+
+Não verás enrolar negros pacotes
+Das secas folhas do cheiroso fumo;
+Nem espremer entre as dentadas rodas
+ Da doce cana o sumo.
+
+Verás em cima da espaçosa meza
+Altos volumes de enredados feitos;
+Ver-me-has folhear os grandes livros,
+ E decidir os pleitos.
+
+Em quanto revolver os meus Consultos,
+Tu me farás gostosa companhia
+Lendo os fastos da sabia, mestra Historia,
+ Os Cantos da Poesia.
+
+Lerás em alta Voz a imagem bella;
+Eu vendo que lhe dás o justo appreço;
+Gostoso tornarei a lêr de novo
+ O cansado processo.
+
+Se encontrares louvada huma belleza,
+Marilia, não lhe envejes a ventura,
+Que tens quem leve á mais remota idade
+ A tua formosura.
+
+
+
+
+LYRA IV.
+
+
+ Amor por acaso
+A hum pouso chegava,
+Aonde accolhida
+A Morte se achava.
+
+ Risonhos, e alegres
+Os braços se dérão,
+E as armas unidas
+N'um sitio pozerão.
+
+ De emprezas tamanhas
+Cansados já vinhão,
+E em larga conversa
+A noite entretinhão.
+
+ Hum conta que ha pouco
+A seta aguçada
+Em huma belleza
+Deixára empregada.
+
+ Diz outro que as flexas
+Cravára no peito
+De hum grande, que teve
+O Mundo sujeito.
+
+ Em quanto das forças
+Cada hum persumia,
+Seus membros já laços
+O somno rendia.
+
+ Dormindo tranquillos
+A noite passárão,
+E inda antes da Aurora
+Com ancia acordárão.
+
+ _He tempo que o leito
+Deixemos, ó Morte_;
+Amor, já erguido
+Fallou desta sorte.
+
+ _He tempo_, em resposta
+A morte repete,
+_Que á nossa fadiga
+Dormir não compete_.
+
+ _As armas colhamos,
+Voltemos ao giro:
+Cada hum a seu gosto
+Empregue o seu tiro_.
+
+ Vão inda c'os olhos
+Em somno turbados,
+Ao sitio em que os ferros
+Estão pendurados.
+
+ Amor para as setas
+Da morte se enclina:
+De amor logo a Morte
+C'o as flexas atina.
+
+ Oh golpes tyrannos!
+Oh mãos homicidas!
+São tiros da Morte
+De Amor as feridas.
+
+ De hum sonho, que pinto,
+Marilia conhece,
+Se amor, ou se morte
+Este alma padece.
+
+
+
+
+LYRA V.
+
+
+Eu não sou, minha Nize, pegureiro,
+Que viva de guardar alhêo gado;
+ Nem sou pastor grosseiro
+Dos frios gêlos, e do Sol queimado,
+Que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
+ Graças, ó Nize bella,
+ Graças á minha Estrella!
+
+A Cresso não igualo no thesouro:
+Mas deo-me a Sorte com que honrado viva.
+ Não cinjo corôa d'ouro;
+Mas Póvos mando, e na testa altiva
+Verdeja a Corôa do Sagrado Louro.
+ Graças, ó Nize bella,
+ Graças á minha Estrella!
+
+Maldito seja aquelle, que só trata
+De contar escondido a vil riqueza!
+ Que cego se arrebata
+ Em buscar nos Avós a vã nobreza,
+Com que aos mais homens seus iguaes abata.
+ Graças, ó Nize bella,
+ Graças á minha Estrella!
+
+As fortunas que em torno de mim vejo,
+Por falsos bens que enganão não reputo;
+ Mas antes mais desejo,
+Não para me voltar soberbo em bruto
+Por vêr-me grande quando a mão te beijo.
+ Graças, ó Nize bella,
+ Graças á minha Estrella!
+
+Pela Ninfa que jaz vertida em Louro,
+O grande Deos Apollo não delira?
+ Jove mudado em Touro,
+E já mudado em Velha não suspira?
+Seguir aos Deoses nunca foi desdouro.
+ Graças, ó Nize bella,
+ Graças á minha Estrella.
+
+Pertendão Hanibaes honrar a Historia,
+E cinjão com a mão de sangue chêa
+ Os louros da victoria.
+Eu revolvo os teus dons na minha idéa:
+Só dons que vem do Ceo são minha gloria.
+ Graças, ó Nize bella,
+ Graças á minha Estrella!
+
+
+
+
+LYRA VI.
+
+_Traducção_.
+
+
+ Amor que seus passos
+Ligeiro movia,
+Por mil embaraços
+Que hum bosque tecia.
+
+ Nos hombros me acena
+Com brando raminho;
+E logo me ordena
+Que siga o caminho.
+
+ Por entre a espessura
+Do bosque me avanço:
+E a traz da ventura
+Incauto me lanço.
+
+ Já tinha calcado
+Os montes mais duros:
+C'o peito rasgado
+Os rios escuros.
+
+ Eis que huma serpente
+A lingua vibrando,
+Me crava o seu dente,
+Me deixa espirando.
+
+ Então surprendida
+Da dôr que a traspassa,
+Minha alma ferida
+Aos beiços se passa.
+
+ As iras detesta
+Amor isto vendo,
+E as azas na testa
+Me bate dizendo:
+
+ _Tu choras, tu gemes
+Da Serpe tocado,
+E o braço não temes
+De hum Numen irado_?
+
+
+
+
+LYRA VII.
+
+
+Tu, formosa Marilia, já fizeste
+Com teus olhos ditosas as campinas,
+Do turvo Ribeirão em que nasceste:
+ Deixa, Marilia, agora
+ As já lavradas terras;
+Anda affoita romper os grossos mares,
+Anda encher de alegria estranhas terras.
+ Ah! que por ti suspírão
+ Os meus saudosos lares.
+
+Não corres como Sapho sem ventura
+Em seguimento de hum cruel ingrato,
+Que não sede aos encantos da ternura:
+ Segues a hum fino amante,
+ Que a perder-te morria.
+Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó bella;
+Tu já foste no Sul a minha guia.
+ Ah! deves ser no Norte
+ Também a minha Estrella.
+
+Verás ao Deos Neptuno socegado
+Aplainar co' tridente as crespas ondas;
+Ficar como dormindo o mar salgado.
+ Verás, verás d' alheta
+ Soprar o brando vento,
+Mover-se o léme, disrinzar-se o linho,
+Seguirem os Delfins o movimento,
+ Que leva na carreira
+ O empavezado pinho.
+
+Verás como o Leão na prôa arfando
+Converte em branca espuma as negras ondas
+E as talha, e corta com murmurio brando.
+ Verás, verás Marilia
+ Da janella dourada,
+Que huma comprida estrada representa
+A linfa cristalina, que pizada
+ Pela poupa que foge
+ Em borbotões rebenta.
+
+Bruto peixe verás de corpo immenso,
+Tornar ao torto anzol depois de o terem
+Pela rasgada boca ao ar suspenso:
+ Os pequenos peixinhos
+ Quaes passaros voarem:
+De toninhas verás o mar coalhado,
+Ora surgirem, ora mergulharem,
+ Fingindo ao longe as ondas
+ Que fórma o vento irado.
+
+Verás que o grande monstro se apresenta
+Hum repuxo formando com as aguas,
+Que ao ar espalha da robusta venta.
+ Verás em fim, Marilia,
+ As nuvens levantadas
+Humas de côr azul, ou mais escuras,
+Outras de côr de rosa, ou prateadas
+ Fazerem no Orizonte
+ Mil diversas figuras.
+
+Mal chegares á foz do claro Téjo,
+Apenas elle vir o teu semblante
+Dará no léme do baixel hum beijo.
+ Eu lhe direi vaidoso:
+ Não trago, não comigo
+Nem pedras de valor, nem montes d'ouro,
+Roubei as aureas Minas, e consigo
+ Trazer para os teus cofres
+ Este maior Thesouro.
+
+
+
+
+LYRA VIII.
+
+
+Em cima dos viventes fatigados
+As verdes dormideiras espremia,
+Os mentirosos sonhos me cercavão.
+ Na vaga fantasia
+ Ao vivo me pintavão
+ As glorias, que disperto
+ Meu coração pedia.
+
+Eu vou, eu vou subindo a Náo possante
+Nos braços conduzindo a minha bella;
+Voltêa a grande roda, e a grossa amarra
+ Se enlêa em torno della:
+ Já ponho a prôa á barra,
+ Já cáhe ao som do apito
+ Ora huma, ora outra véla.
+
+Os arvoredos já se não distinguem:
+A longa praia ao longe não branqueija;
+E já se vão sumindo os altos montes.
+ Já não ha que se veja
+ Nos claros Orizontes,
+ Que não sejão vapores,
+ Que Ceo, e mar não seja.
+
+Parece vão correndo as negras ondas,
+E o pinho qual rochedo estar parado:
+Ergue-se a onda, vem á Náo direita
+ E quebra no costado:
+ O Navio se deita,
+ E ella finge a ladeira
+ Sahindo do outro lado.
+
+Vejo nadarem os brilhantes peixes;
+Cahir do Láes a linha, que os engana:
+Hum dourado no anzol está pendente,
+ Soffre morte tyranna;
+ Entre tanto que a sente
+ Ao tombadilho açoita
+ A cauda, e a barbatana.
+
+Sobre as ondas descubro huma Carroça
+De formosas conchinhas enfeitada;
+Delfins a movem, e vem Thetis nella:
+ Na popa está parada:
+ Nem póde a Deosa bella
+ Tirar os brandos olhos
+ Da minha doce amada.
+
+Nas costas dos Golfinhos vem montados
+Os nûz Tritões, deixando a Esfera cheia
+Co' rouco som dos buzios retorcidos.
+ Recrêa, sim recrêa
+ Meus attentos ouvidos
+ O canto sonoroso
+ Da musica Serêa.
+
+Já sóbe ao grande mastro o bom gageiro;
+Descobre arrumação, e grita terra:
+Á murada caminha alegre a gente;
+ Alguns entendem que erra:
+ Pelo immovel sómente
+ Conheço não ser nuvem,
+ Sim o cume de alta serra.
+
+De Mafra já descubro as grandes torres;
+(E que nova alegria me arrebata!)
+De Cascaes a muleta já vem perto,
+ Já de abordar-nos trata:
+ Já o piloro esperto
+ Inda debaixo manda
+ Soltar mezena, e gata.
+
+Eu vou entrando na espaçosa barra:
+A grossa artilheria já me atrôa.
+Lá ficão Paço de Arcos, e a Junqueira.
+ Já corre pela prôa
+ Huma amarra ligeira;
+ E a Náo já fica surta
+ Diante da grã Lisboa.
+
+Agora, agora sim, agora espero
+Renovar da amizade antigos laços:
+Eu vejo ao velho Pai, que lentamente
+ Arrasta a mim os passos:
+ Ah como vem contente!
+ De longe mal me avista
+ Já vem abrindo os braços.
+
+Dóbro os joelhos pelos pés o aperto,
+E manda que dos pés ao peito passe:
+Marilia quanto eu fiz fazer intenta;
+ Antes que os pés lhe abrace
+ Nos braços a sustenta;
+ Dá-lhe de filha o nome,
+ Beija-lhe a branca face.
+
+Vou a descer a escada (ó Ceos!) acórdo,
+Conheço não estar no claro Tejo.
+Abro os olhos, procuro a minha amada,
+ E nem se quer a vejo.
+ Venha a hora affortunada,
+ Em que não fique em sonhos
+ Tão ardente desejo.
+
+
+
+
+_A huma despedida_.
+
+
+Chegou-se o dia mais triste,
+Que o dia da morte fêa:
+Cahi do throno Dircéa,
+Do throno dos braços teus.
+ Ah! não posso, não, não posso
+ Dizer-te meu bem adeos.
+
+Impio Fado, que não pôde
+Os doces laços quebrar-me,
+Por vingança quer levar-me
+Distante dos olhos teus.
+ Ah! não posso, não, não posso
+ Dizer-te meu bem adeos.
+
+Parto em fim, e vou sem vêr-te,
+Que neste fatal instante,
+Ha de ser o teu semblante
+Mui funesto aos olhos meus.
+ Ah! não posso, não, não posso
+ Dizer-te meu bem adeos.
+
+E crês, Dircéa, que devem
+Vêr meus olhos penduradas
+Tristes lagrimas salgadas
+Correrem dos olhos teus?
+ Ah! não posso, não, não posso
+ Dizer-te meu bem adeos.
+
+De teus olhos engraçados,
+Que podérão piedosos,
+De tristes em venturosos
+Converter os dias meus?
+ Ah! não posso, não, não posso
+ Dizer-te meu bem adeos.
+
+Desses teus olhos divinos,
+Que ternos, e socegados,
+Enchem de flores os prados,
+Enchem de luzes os Ceos?
+ Ah! não posso, não, não posso
+ Dizer-te meu bem adeos.
+
+Desses teus olhos em fim,
+Que domão Tigres valentes?
+Que nem rigidas Serpentes
+Resistem aos tiros seus?
+ Ah! não posso, não, não posso
+ Dizer-te meu bem adeos.
+
+Da maneira que serião
+Em não vêr-te criminosos
+Em quanto forão ditosos,
+Agora serião réos.
+ Ah! não posso, não, não posso
+ Dizer-te meu bem adeos.
+
+Parto em fim, Dircéa bella,
+Rasgando os ares cinzentos;
+Virão nas azas dos ventos
+Buscar-te os suspiros meus.
+ Ah! não posso, não, não posso
+ Dizer-te meu bem adeos.
+
+Talvez, Dircéa adorada,
+Que os duros Fados me neguem
+A gloria de que elles cheguem
+Aos ternos ouvidos teus.
+ Ah! não posso, não, não posso
+ Dizer-te meu bem adeos.
+
+Mas se ditosos chegarem,
+Pois os sólto a teu respeito;
+Dá-lhes abrigo no peito,
+Junta-os c'os suspiros teus.
+ Ah! não posso, não, não posso
+ Dizer-te meu bem adeos.
+
+E quando tornar a vêr-te
+Ajuntando rosto, a rosto,
+Entre os que dérmos de gosto;
+Restitue-me então os meus.
+ Ah! não posso, não, não posso
+ Dizer-te meu bem adeos.
+
+
+
+
+CANÇÃO.
+
+
+Dês que vi, formosa Elvira,
+Os teus divinos cabellos,
+Esses vivos olhos bellos,
+Que invéja dos astros são,
+Foi-se, Elvira, foi-se embora
+Toda a paz do coração.
+ E talvez, talvez que Elvira
+ Nem se lembre de que Alceo,
+ Se suspira,
+ Se delira,
+ He só por motivo seu.
+
+Em quanto, Elvira, se occulta
+A meus olhos teu semblante,
+Hum minuto, hum breve instante
+Parece que fim não tem.
+Se alcanço de vêr-te a gloria,
+Então vôa o tempo bem.
+ E talvez, talvez que Elvira
+ Nem se lembre de que Alceo,
+ Se suspira,
+ Se delira,
+ He só por motivo seu.
+
+Quando te ris por acaso
+Para outro qualquer sugeito,
+Estala dentro do peito
+De ciume o coração:
+Se me pões os olhos julgo
+Que zombas de mim então.
+ E talvez, talvez que Elvira
+ Nem se lembre de que Alceo,
+ Se suspira,
+ Se delira,
+ He só por motivo seu.
+
+Quando ha brinco na floresta,
+E a divina Olaia canta,
+O mesmo gado levanta
+A cabeça para ouvir.
+Só por mais que Alceo forceje
+Não póde o prazer fingir.
+ E talvez, talvez que Elvira
+ Nem se lembre de que Alceo,
+ Se suspira,
+ Se delira,
+ He só por motivo seu.
+
+Quando levo á clara fonte
+O rebanho do meu gado,
+Cáhe-me da mão o cajado,
+E com ella á testa vou:
+Fico pasmado, e ignoro
+O lugar aonde estou.
+ E talvez, talvez que Elvira
+ Nem se lembre de que Alceo,
+ Se suspira,
+ Se delira,
+ He só por motivo seu.
+
+Quando vou segar o trigo,
+(Olha bem como ando cego.)
+N'uma parte nelle pego,
+Metto n'outra a fouce em vão;
+Dos que vem alguns se riem,
+Outros mostrão compaixão.
+ E talvez, talvez que Elvira
+ Nem se lembre de que Alceo,
+ Se suspira,
+ Se delira,
+ He só por motivo seu.
+
+Quando me deito no colmo,
+Sempre sonho que te vejo,
+Que te fallo, e que te beijo
+A branca nevada mão.
+Acórdo, Pastora, e foges:
+Eu fico mais triste então.
+ E talvez, talvez que Elvira
+ Nem se lembre de que Alceo,
+ Se suspira,
+ Se delira,
+ He só por motivo seu.
+
+Quando alguem meu mal pergunta,
+Bem que seja a vez primeira,
+Rompo ainda que não queira
+O segredo sem saber.
+O teu nome, Elvira, digo,
+Quando devo o seu dizer.
+ E talvez, talvez que Elvira
+ Nem se lembre de que Alceo,
+ Se suspira,
+ Se delira,
+ He só por motivo seu.
+
+Fujo ao trato dos pastores,
+Para hum bosque me retiro;
+Com desafogo suspiro,
+E chamo por ti meu bem.
+Os valles que se enternecem
+Chamão-te ao longe tambem.
+ E talvez, talvez que Elvira
+ Nem se lembre de que Alceo,
+ Se suspira,
+ Se delira,
+ He só por motivo seu.
+
+Quando escuto o triste mocho
+A gemer no meu telhado,
+Qualquer mal excogitado
+Não me deve algum temor:
+Só receio que me agoure
+Máo successo ao meu amor.
+ E talvez, talvez que Elvira
+ Nem se lembre de que Alceo
+ Se suspira,
+ Se delira,
+ He só por motivo seu.
+
+Os pastores que me avistão
+Com o dedo já me apontão,
+E á roda do fogo contão
+Da maneira que me vem.
+Sou o exemplo dos amantes
+Que esta nossa Aldêa tem.
+ E talvez, talvez que Elvira
+ Nem se lembre de que Alceo,
+ Se suspira,
+ Se delira,
+ He só por motivo seu.
+
+
+
+
+SONETO I.
+
+
+ He gentil, he prendada a minha Altéa;
+As graças, a modestia do seu rosto
+Inspírão no meu peito maior gosto,
+Que vêr o proprio trigo quando ondêa.
+
+ Mas vendo o lindo gesto de Dircéa
+A nova sugeição me vejo exposto;
+Ah! que he mais engraçado, mais composto,
+Que a pura Esfera de mil astros chêa.
+
+ Prender as duas com grilhões estreitos
+He huma acção (ó Deoses!) inconstante,
+Indigna de sinceros, nobres peitos.
+
+ Cupido, se tens dó de hum triste amante,
+Ou fórma de Lorino dous sugeitos,
+Ou fórma desses dous hum só semblante.
+
+
+
+
+SONETO II.
+
+
+ N'um fertil campo do soberbo Douro,
+Dormindo sobre a relva descançava,
+Quando vi que a Fortuna me mostrava
+Com alegre semblante o seu Thesouro.
+
+ De huma parte h[~u] montão de prata, e ouro
+Com pedras de valor o chão curvava;
+Aqui hum sceptro, alli hum trono estava,
+Pendião coroas mil de grama, e louro.
+
+ _Acabou-se_ (diz-me então) _a desventura:
+De quantos bens te exponho qual te agrada,
+Pois benigna os concedo, vai, procura_.
+
+ Escolhi, acordei, e não vi nada:
+Commigo assentei logo que a ventura
+Nunca chega a passar de ser sonhada.
+
+
+
+
+SONETO III.
+
+
+ Enganei-me, enganei-me, paciencia;
+Accreditei as vozes, cri, Ormia,
+Que a tua singeleza igualaria
+Á tua mais que angelica apparencia.
+
+ Enganei-me, enganei-me, paciencia;
+Ao menos conheci que não devia,
+Pôr nas mãos de huma externa galhardia
+O prazer, o socego, e a innocencia.
+
+ Enganei-me, Cruel, com teu semblante,
+E nada me admiro de faltares,
+Que esse teu sexo nunca foi constante.
+
+ Mas tu perdestes mais em me enganares;
+Que tu não acharás hum firme amante,
+E eu posso de traidoras ter milhares.
+
+
+
+
+SONETO IV.
+
+
+ Ainda que de Laura esteja ausente,
+Ha de a chama durar no peito amante;
+Que existe retratado o seu semblante,
+Se não nos olhos meus, na minha mente.
+
+ Mil vezes finjo vêla, e eternamente
+Abraço a sombra vã; só nesse instante
+Conheço que ella está de mim distante,
+Que tudo he illusão que esta alma sente.
+
+ Talvez que ao bem de a vêr Amor resista;
+Porque minha paixão, que aos Ceos he grata,
+Por innocente assim melhor persista:
+
+ Pois quando só na idéa ma retrata,
+Debuxa os dotes com que prende vista,
+Esconde as obras com que offende ingrata.
+
+
+
+
+SONETO V.
+
+
+ Ao Templo do Destino fui levado:
+Sobre o Altar hum Cofre se firmava,
+Em cujo seio cada qual buscava
+Tremendo annuncio do futuro estado.
+
+ Tiro hum papel, e leio: Ceo Sagrado!
+Com quanta causa o coração pulsava:
+Este duro Decreto escrito estava,
+Com negra tinta pela mão do Fado.
+
+ _Adore Polidoro a bella Ormia,
+Sem della conseguir a recompensa,
+Nem quebrar-lhe os grilhões a tyrannia_.
+
+ Das mãos, Amor mo arranca, e sem detença
+Tres vezes o levando á boca impía,
+Jurou comprir á risca a tal sentença.
+
+
+
+
+SONETO VI.
+
+
+ Ergue-te, ó Pedra, e desde a margem fria,
+Que os muros banha a Lusitana Athenas,
+Mostra-me as desmaiadas assucenas
+Do rosto que me occupa a fantasia.
+
+ Deixa [~q] eu beije a mão, [~q] pôde hum dia
+Ceder de amor ás lastimosas scenas;
+Q'entre as ancias, a dôr, a mágoa, as penas
+Renove a saudosa idolatria.
+
+ Solto do véo mortal, oh Feliz Astro,
+Une ao cadaver a truncada testa,
+Levanta o bello cólo de alabastro:
+
+ Huma alma grande junto a ti protesta
+Fazer a gloria da defunta Castro;
+A illustre Neta vez: Maria he esta.
+
+_Á Illustrissima e Excellentissima Senhora Condessa de Cavalleiros, D.
+Maria José de Eça e Bourbon_.
+
+
+
+
+SONETO VII.
+
+
+ Quantas vezes Lidora me dizia,
+Ao terno peito minha mão levando,
+Conjurem-se em meu mal os Astros, quando
+Achares no meu peito aleivosia.
+
+ Então que não chorasse lhe pedia,
+Por firme seu amor acreditando;
+Ah! que em movendo os olhos suspirando
+Ao mais acautellado enganaria.
+
+ Hum anno assim viveo: ó Ceos! agora
+Mostrou que era mulher: a natureza
+Só por não se mudar a fez traidora.
+
+ Não, não darei mais cultos á belleza,
+Que depois de faltar á fé, Lidora,
+Nem creio que nas Deosas ha firmeza.
+
+
+
+
+SONETO VIII.
+
+
+ O Numen Tutelar da Monarquia,
+Que fez do grande Henrique a invicta espada,
+Procurou dos Destinos a morada,
+Por consultar a idade que viria.
+
+ A mil, e mil heróes descriptos via,
+Que exaltão de Furtado a estirpe honrada,
+E na serie, que adora dilatada,
+O nome de Francisco descobria.
+
+ Contempla huma por h[~u]a as letras d'ouro,
+Este penhor, que o tempo não consome,
+Promette ao Reino seu maior thesouro.
+
+ Prosta-se o Genio: e sem [~q] a empreza tome
+De lhe buscar sequer mais outro agoiro,
+O sitio beija, e lhe mostra o nome.
+
+_Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Visconde de Barbacena,
+Francisco Furtado de Mendonça_.
+
+
+
+
+SONETO IX.
+
+
+ Nascer no berço da maior grandeza,
+De palmas, e de louros rodeado,
+Deve-se aos grandes Pais, ao Tronco honrado,
+Que illusrra desde longe a natureza.
+
+ Se porém muito mais se adora, e preza
+O dom que o nobre sangue trás herdado
+Pela propria virtude sustentado,
+Feliz o objecto da presente empreza.
+
+ De mil Heróes no Téjo vencedores
+Hum ramo nasce, hum ramo que a memoria
+Faz immortal de seus Progenitores.
+
+ Eu leio em vaticinio a sua historia;
+Une Francisco a par de seus maiores
+Ao herdado explendor a propria gloria.
+
+_Ao mesmo excellentissimo Visconde_.
+
+
+
+
+SONETO X.
+
+
+ Mudou-se em fim Lidora, essa Lidora
+Por quem mil vezes fé me foi jurada;
+Que vos detem (ó Ceos!) que castigada
+Ainda não deixais tão vil traidora?
+
+ Não haja piedade: sinta agora
+A dita sem remedio em mal trocada;
+Pois se assim não succede, fica ousada
+Para ser outra vez enganadora.
+
+ Vingai, ó justos Ceos..., mas ah! [~q] digo?
+Que maltrateis Lidora? o sentimento
+Privou-me do discurso, eu me desdigo.
+
+ Não, não vibreis o raio violento;
+Pois sei que a compaixão do seu castigo,
+Hade augmentar depois o meu tormento.
+
+
+
+
+SONETO XI.
+
+
+ A Deos cabana, a Deos; a Deos, ó gado,
+Albina ingrata, a Deos, em paz te deixo:
+A Deos doce rabil, neste alto freixo
+Te fica ao meu destino consagrado.
+
+ Se te for meu successo perguntado,
+Não declares rabil de quem me queixo;
+Não quero que se saiba vive Aleixo
+Por causa de huma infame desterrado.
+
+ Se vires a Pastor desconhecido,
+Lhe dize então piedoso: Ah! vaite embora,
+Atalha os damnos, que outros tem sentido.
+
+ Habita nesta Aldêa huma Pastora
+De rosto bello, coração fingido,
+Humas vezes cruel, e as mais traidora.
+
+
+
+
+SONETO XII.
+
+
+ Com pezadas cadeias maniatado,
+Ás vozes da razão insurdecido,
+Dos Ceos, de mim, dos homens esquecido
+Me vi de amor nas trévas sepultado.
+
+ Alli aliviava o meu cuidado
+Cõ dar de quando em quando algum gemido:
+Ah tempo! que sómente reflectido
+Me fazes entre as ditas desgraçado.
+
+ Assim vivia, quando a falsidade
+De Laura me tornou n'um breve dia
+Quanto a razão não pôde em longa idade.
+
+ Quebrei o vil grilhão que me opprimia:
+Ó feliz de quem gosa a liberdade!
+Bem que venha por mãos da aleivosia.
+
+
+
+
+SONETO XIII.
+
+
+ Obrei quanto o discurso me guiava;
+Ouvi os Sabios quando errar temia:
+Aos bons no gabinete o peito abria;
+Na rua a todos como iguaes honrava.
+
+ Julgando os crimes nunca voto dava
+Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;
+Mas podendo salvar o justo ria,
+E devendo punir ao réo chorava.
+
+ Nem forão, Villa Rica, os meus intentos
+Metter em ferreo cofre copia d'ouro,
+Que chegue aos filhos, e que passe aos netos.
+
+ Outras são as venturas que me agouro:
+Ganhei saudades, adquiri affectos,
+Vou fazer destes bens melhor thesouro.
+
+_Feito quando o Author acabou o Lugar de Ouvidor de Villa Rica, e foi
+despaçhado para Desembargador da Bahia_.
+
+
+
+
+SONETO XIV.
+
+
+ Quando o torcido buço derramava
+Terror no aspecto ao Portuguez sisudo,
+Quando sem pó, nem oleo o pente agudo
+Duro intonso o cabello em laço atava.
+
+ Quando contra os Irmãos o braço armava
+O forte Nuno oppondo escudo, a escudo;
+Quando a palavra que perfere a tudo
+Com a barba arrancada João firmava.
+
+ Quando a mulher á sombra do marido
+Tremer se via: quando a Lei prudente
+Zelava o sexo do civil ruido;
+
+ Feliz então, então só innocente
+Era de Luso o Reino: oh bem perdido!
+Ditosa condição, ditosa gente!
+
+
+
+
+SONETO XV.
+
+
+ Sombras illustres dos varões famosos,
+Que á Grecia, e Roma destes Leis hum dia;
+Vós que do Elysio na região sombria
+Respiraes entre os Zefiros mimosos.
+
+ Grande Licurgo, ó tu Solon, [~q] honrosos
+Louros cingis, que egregia companhia
+Fazeis aos Mazzarinos, eu queria
+Adorar vossos vultos magestosos.
+
+ Vós fizesteis da vossa Patria a gloria;
+Por vós hoje he feliz a humanidade:
+Que dignos sois de huma immortal historia!
+
+ Cesce, cesse porém vossa vaidade;
+Que basta a escurecer vossa memoria
+Hum Carvalho, que adora a nossa idade.
+
+_Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Pombal reformando
+a Universidade de Coimbra_.
+
+
+
+
+SONETO XVI.
+
+
+ As molles azas a bater começa
+Entre as palhas o tenro passarinho,
+E largos dias por deixar o ninho
+Se cança, se fadiga, se arremeça.
+
+ H[~u] impulso, outro impulso é vão se apresa,
+Já se firma no pé, já no biquinho,
+Nas folhas se tem, passa ao raminho
+Té que a penna se esforce, e se endureça.
+
+ Quando emfim he capaz de movimento
+Deixa os arbustos vaga pelos ares,
+E sobre as altas faias toma assento:
+
+ Estes sejão, Salicio, os exemplares
+Em que a vossa virtude anime o alento,
+Porque hum dia da Fama honre os Altares.
+
+
+
+
+_Ao Illustrissimo Senhor Luiz Beltrão de Gouvea_.
+
+ODE.
+
+
+ Se entre as louras arêas
+Do meu Jaquitinhonha, hum Genio erguido
+ Ás Regiões alheas
+Manda que em doce metro reppetido
+ Hoje o teu Nome leve,
+Tanto á virtude, meu Beltrão, se deve.
+
+ Vejo a sordida inveja
+De ira morder-se, e as serpes sacudindo
+ Por se tragar forceja:
+De pejo, e de vergonha em vão cobrindo
+ Co' as frias mãos o rosto,
+Geme a calumnia no mortal desgosto.
+
+ Vós, Genios fortunados,
+Que do Templo da Gloria honrais a estancia,
+ Os meritos sagrados
+Cantai do bom Ministro: He a constancia,
+ A sabia fortaleza
+He quem o guia na maior empreza.
+
+ Se os rigidos palmares
+Da Idumeya consulto; o bravo Noto
+ Os tormentosos ares
+Não podem mais dobralos: zomba immoto,
+ Nem ás ondas tem medo
+Sobranceiro ao Egeo, firme penedo.
+
+ Tal a constancia tua
+Em meio foi dos perfidos rumores;
+ A verdade, que nua
+Derramava em teu rosto as vivas côres,
+ Sobre as aras decentes
+Vio por triunfo mil trofeos pendentes.
+
+ A vigilancia, o zelo,
+A rectidão do espirito; elevada
+ Ao gráo mais rico, e bello,
+Essa virtude, que nos traz provada
+ Em meio dos Thesouros
+A sã virtude, que enobrece os Louros:
+
+ Tudo, tudo apparece
+Sabio Ministro da victoria ao lado;
+ Athenas, que me offerece
+No seu público Erario accreditado
+ Aristides, o Justo,
+Em ti acena o seu modelo augusto.
+
+ Mil vezes orgulhosa
+Negra calumnia o seu desterro tenta;
+ A virtude preciosa
+Contra o fero Themistocles sustenta.
+ Não ha força que baste,
+Não ha poder que o peito lhe contraste.
+
+ Feliz o Rei, o Povo,
+Feliz tambem de Themis a ballança;
+ De hum modo raro, e novo
+Nas tuas mãos eu vejo, que descança:
+ Aos premios, ao castigo
+Se reparte sem queixa o braço amigo.
+
+ Ah! sinta a nossa idade
+De hum sangue illustre, de hum talento raro
+ A próvida igualdade!
+Melhor do que nos marmores de Pharo,
+ Em memoria nos vindouros
+T'ergue o Serro h[~u] Padrão nos seus Thesouros.
+
+
+
+
+_Imitando o sonho de Scipião_.
+
+ODE.
+
+
+ Já vou tocando, ó Licio,
+De Lustros dez o fatigado termo;
+ E já meu corpo enfermo
+Se avisinha da morte ao duro officio:
+Que cedo o meu destino me promette
+Calcar as sombras do medonho Lethe!
+
+ Eu descerei contente
+A ver os Manes dos Avós amados;
+ Que bem aventurados,
+Se outro mundo tratarão, se outra gente!
+Não virão elles, como eu triste vejo,
+O velho mando peiorar sem pejo.
+
+ Passárão da innocencia
+Pela candida estrada os pés levando;
+ Inda a fera violencia
+Não corrompia da Justiça o mando;
+Praticava-se a próvida igualdade
+Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.
+
+ A pura fé do Amigo,
+Renovava de Orestes a memoria:
+ Commum era o perigo,
+Reciproca tambem a pena, a gloria:
+Que traições, e que enganos tem disposto
+Em nossos dias hum fingido rosto!
+
+ Tudo se vê mudado
+Nesta idade fatal em que de ferro
+ O Idolo adorado
+Torpemente protege o crime, o erro:
+Como de susto, e de vergonha cheia
+Se retira de nós a bella Astrea!
+
+ Ah! E quem de teus laços
+Deve ao pezo gemer, ó mundo cego?
+ Rotos em mil pedaços
+Os teus grilhões a pendurar já chego;
+Não mais os teus encantos me deleitem,
+Estes miseros restos se aproveitem.
+
+ Que differentes climas
+Já me finjo habitar! Os brandos ares,
+ Que tu Zefiro, animas
+Que prazeres me inspirão! Dos pezares,
+Das magoas, do desgosto, e do tormento
+Aqui não sôa o tragico lamento.
+
+ Sôlto do mortal manto
+Cuido que o centro dos Elysios piso!
+ Oh quanto he bella, quanto
+A margem deste Lago! Em fresco riso
+Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora,
+Aqui saudão a perpetua Aurora.
+
+ Adoravel sciencia,
+Que encheste as noites, e esgotaste os dias,
+ Da humana intelligencia,
+Agora sei quam longe te desvias!
+Este o seio da luz, aonde tudo
+Sem fadiga se alcança, e sem estudo!
+
+ O número, a distancia
+Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro:
+ Noto a eterna constancia
+Do Planeta da Luz; observo o giro
+Da Terra, que regula a varia face
+Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.
+
+ Certa, e firme a carreira
+Já marco de Saturno, Marte, ou Jove,
+ Da esfera derradeira
+Contemplo a força, que os mais Orbes move;
+A harmonia me encanta acorde, e rara,
+Que de Samos o Sabio já notára.
+
+ Aqui se patentêa
+Dos errados systemas o conceito;
+ E longe a minha idéa
+De vacilar, já firma o mais perfeito.
+Quem senão tu, ó Genio, sobre humano
+Libertar me podéra deste engano!
+
+ De Massinissa o Paço
+De Carthago ao Heróe tal scena pinta:
+ Ao soberbo ameaço
+Da Fortuna, elle vê clara, e distincta,
+Qual o meu Genio me retrata agora,
+A bella Patria, onde o descanço mora.
+
+ He este, ó Licio, he este
+Sem dúvida, o Paiz bello, e sereno,
+ Aonde em paz celeste
+Não respira da inveja o atroz veneno:
+E aonde livres da infeliz mudança
+Descança o teu, e o meu bom Pai descança.
+
+ Que doce companhia
+Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse
+ O momento que hum dia
+Tão gostosa união nos lavra, e tece!
+Cheguemos a beijar as Mãos Sagradas,
+Que enchem de gloria as immortais Moradas.
+
+ Em praticas suaves
+Alli as breves horas gastaremos;
+ Nem já nos serão graves
+Na lembrança os trabalhos que aqui temos;
+Nem da pezada humanidade nossa
+Pena haverá, que atormentar-nos possa.
+
+ Mas tu, que dos humanos
+Reges, ó Grande Deos, a dubia sorte;
+ Tu, que a meta dos annos
+Firmas, descendo de teu mando a morte,
+Dilata os dias do meu Licio, em quanto,
+Douto me instrue, e me entertem seu canto.
+
+FIM
+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Marilia de Dirceo, by Tomás António Gonzaga
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MARILIA DE DIRCEO ***
+
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+particular state visit http://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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