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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/18082-8.txt b/18082-8.txt new file mode 100644 index 0000000..e0c3768 --- /dev/null +++ b/18082-8.txt @@ -0,0 +1,6242 @@ +The Project Gutenberg EBook of Marilia de Dirceo, by Tomás António Gonzaga + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Marilia de Dirceo + +Author: Tomás António Gonzaga + +Release Date: March 30, 2006 [EBook #18082] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MARILIA DE DIRCEO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + +MARILIA DE DIRCEO. + + + + +MARILIA DE DIRCEO. + +POR T.A.G. + + +PRIMEIRA PARTE. + + +LISBOA: + +Na Typ. de J.F.M. de Campos. 1824. + + + + +MARILIA DE DIRCEO. + + + + +LYRA I. + + +Eu, Marilia, não sou algum vaqueiro, +Que viva de guardar alheio gado, +De tosco trato, de expressões grosseiro, +Dos frios gelos, e dos sóes queimado. +Tenho proprio casal, e nelle assisto; +Dá-me vinho, legume, fruta, azeite, +Das brancas ovelhinas tiro o leite, +E mais as finas lãs, de que me visto. + Graças, Marilia bella, + Graças á minha Estrella! + + Eu vi o meu semblante n'uma fonte, +Dos annos inda não está cortado: +Os Pastores, que habitão este monte, +Respeitão o poder do meu cajado. +Com tal destreza toco a sanfoninha, +Que inveja até me tem o proprio Alceste: +Ao som della concerto a voz celeste; +Nem canto letra que não seja minha. + Graças, Marilia bella, + Graças á minha Estrella! + + Mas tendo tantos dotes da ventura, +Só aprêço lhes dou, gentil Pastora, +Depois que o teu affecto me segura, +Que queres do que tenho ser Senhora. +He bom, minha Marilia, he bom ser dono +De hum rebanho, que cubra monte, e prado +Porém, gentil Pastora, o teu agrado +Vale mais [~q] h[~u] rebanho, e mais [~q] h[~u] throno. + Graças, Marilia bella, + Graças á minha Estrella! + + Os teus olhos espalhão luz divina, +A quem a luz do Sol em vão se atreve: +Papoila, ou rosa delicada, e fina, +Te cobre as faces, que são côr da neve. +Os teus cabellos são huns fios d'ouro; +Teu lindo corpo balsamos vapora. +Ah! não, não fez o Ceo, gentil Pastora, +Para gloria de Amor igual Thesouro. + Graças, Marilia bella, + Graças á minha Estrella! + + Leve-me a sementeira muito embora +O rio sobre os campos levantado: +Acabe, acabe a peste matadora, +Sem deixar huma rez, o nedeo gado. +Já destes bens, Marilia, não preciso: +Nem me céga a paixão, que o mundo arrasta, +Para viver feliz, Marilia, basta +Que os olhos movas, e me dês hum riso. + Graças, Marilia bella, + Graças á minha Estrella! + + Hirás a divertir-te na floresta, +Sustentada, Marilia, no meu braço; +Aqui descançarei a quente sésta, +Dormindo num leve somno em teu regaço: +Era quanto a luta jogão os Pastores, +E emparelhados correm nas campinas, +Toucarei teus cabellos de boninas, +Nos troncos gravarei os teus louvores. + Graças, Marilia bella, + Graças á minha Estrella! + + Depois que nos ferir a mão da Morte +Ou seja neste monte, ou n'outra serra, +Nossos corpos terão, terão a sorte +De consumir os dous a mesma terra. +Na campa, rodeada de cyprestes, +Leráõ estas palavras os Pastores: +"Quem quizer ser feliz nos seus amores, +Siga os exemplos que nos derão estes" + Graças, Marilia bella, + Graças á minha Estrella! + + + + +LYRA II. + + +Pintão, Marilia, os Poetas +A hum menino vendado, +Com huma aljava de settas, +Arco empunhado na mão: +Ligeiras azas nos hombros, +O tenro corpo despido; +E de Amor, ou de Cupido +São os nomes que lhe dão. + + Porém eu, Marilia, nego, +Que assim seja Amor; pois elle +Nem he moço, nem he cégo, +Nem settas, nem azas tem, +Ora pois, eu vou formar-lhe +Hum retrato mais perfeito, +Que elle já ferio meu peito; +Por isso o conheço bem. + + Os seus compridos cabellos; +Que sobre as costas ondeão, +São que os de Apollo mais bellos; +Mas de loura côr não são. +Tem a côr da negra noite; +E com o branco do rosto +Fazem, Marilia, hum composto +Da mais formosa união. + + Tem redonda, e lisa testa; +Arqueadas sobrancelhas; +A voz meiga, a vista honesta, +E seus olhos são huns sóes, +Aqui vence Amor ao Ceo, +Que no dia luminoso +O Ceo tem hum Sol formoso, +E o travesso Amor tem dous. + + Na sua face mimosa, +Marilia, estão misturadas +Purpureas folhas de rosa, +Brancas folhas de jasmim. +Dos rubins mais preciosos +Os seus beiços são formados; +Os seus dentes delicados +São pedaços de marfim. + + Mal vi seu rosto perfeito +Dei logo hum suspiro, e elle +Conheceo haver-me feito +Estrago no coração. +Punha em mim os olhos, quando +Entendia eu não olhava: +Vendo que o via, baixava +A modesta vista ao chão. + + Chamei-lhe hum dia formoso; +Elle ouvindo os seus louvores +Com hum modo desdenhoso, +Se surrio, e não fallou. +Pintei-lhe outra vez o estado, +Em que estava esta alma posta; +Não me deo tambem resposta, +Constrangeo-se, e suspirou. + + Conheço os signaes, e logo +Animado da esperança, +Busco dar hum desaffogo +Ao cansado coração. +Pégo em seus dedos nevados, +E querendo dar-lhe hum beijo, +Cubrio-se todo de pejo, +E fugio-me com a mão. + + Tu, Marilia, agora vendo +De Amor o lindo retrato, +Comtigo estarás dizendo, +Que he este o retrato teu. +Sim, Marilia, a copia he tua, +Que Cupido he Deos supposto: +Se ha Cupido he só teu rosto, +Que elle foi quem me venceo. + + + + +LYRA III. + + +De amar, minha Marilia, a formosura +Não se podem livrar humanos peitos. +Adorão os Heróes, e os mesmos brutos +Aos grilhões de Cupido estão sujeitos. +Quem, Marilia, despreza huma belleza, + A luz da razão precisa, + E se tem discurso, pisa +A Lei, que lhe ditou a Natureza. + + Cupido entrou no Ceo. O grande Jove +Huma vez se mudou em chuva de ouro: +Outras vezes tomou as varias fórmas +De General de Thebas, velha, e touro, +O proprio Deos da Guerra deshumano + Não viveo de amor illeso; + Quiz a Venus, e foi prezo +Na rede, que lhe armou o Deos Vulcano. + + Se amar huma belleza se desculpa +Em quem ao proprio Ceo, e terra move; +Qual he a minha gloria, pois igualo, +Ou excedo no amor ao mesmo Jove? +Amou o Pai dos Deoses Soberano + Hum semblante peregrino: + Eu adoro o teu divino, +O teu divino rosto, e sou humano. + + + + +LYRA IV. + + +Marilia, teus olhos +São réos, e culpados, +Que soffra, e que beije +Os ferros pezados +De injusto Senhor. + Marilia, escuta + Hum triste Pastor. + +Mal vi o teu rosto, +O sangue gelou-se, +A lingoa prendeo-se, +Tremi, e mudou-se +Das faces a côr. + Marilia, escuta + Hum triste Pastor. + +A vista furtiva, +O risco imperfeito, +Fizerão a chaga, +Que abriste no peito +Mais funda, e maior. + Marilia, escuta + Hum triste Pastor. + +Dispuz-me a servir-te; +Levava o teu gado +Á fonte mais clara, +Á vargem, e prado +De relva melhor. + Marilia, escuta + Hum triste Pastor. + +Se vinha da herdade, +Trazia nos ninhos +As aves nascidas, +Abrindo os biquinhos +De fome ou temor. + Marilia, escuta + Hum triste Pastor. + +Se alguem te louvava +De gosto me enchia; +Mas sempre o ciume +No rosto accendia +Hum vivo calor. + Marilia, escuta + Hum triste Pastor. + + Se estavas alegre, +Dirceo se alegrava; +Se estavas sentida, +Dirceo suspirava +Á força da dor. + Marilia, escuta + Hum triste Pastor. + + Fallando com Laura, +Marilia dizia; +Surria-se aquella, +E eu conhecia +O erro de amor. + Marilia, escuta + Hum triste Pastor. + + Movida, Marilia, +De tanta ternura, +Nos braços me déste, +Da tua fé pura +Hum doce penhor. + Marilia, escuta + Hum triste Pastor. + + Tu mesma disseste +Que tudo podia +Mudar de figura; +Mas nunca seria +Teu peito traidor. + Marilia, escuta + Hum triste Pastor. + + Tu já te mudaste; +E a Olaia frondoza, +Aonde escreveste +A jura horrorosa, +Tem todo o vigor. + Marilia, escuta + Hum triste Pastor. + + Mas eu te desculpo, +Que o fado tyranno +Te obriga a deixar-me; +Pois busca o meu damno +Da sorte, que for. + Marilia, escuta + Hum triste Pastor. + + + + +LYRA V. + + +A caso são estes +Os sitios formosos, +Aonde passava +Os annos gostosos? +São estes os prados, +Aonde brincava, +Em quanto pastava +O manso rebanho, +Que Alceo me deixou? + São estes os sitios? + São estes; mas eu + O mesmo não sou. + Marilia, tu chamas? + Espera que eu vou. + + Daquelle penhasco +Hum rio cahia, +Ao som do sussurro +Que vezes dormia! +Agora não cobrem +Espumas nevadas +As pedras quebradas: +Parece que o rio +O curso voltou. + São estes os sitios? + São estes; mas eu + O mesmo não sou. + Marilia, tu chamas? + Espera que eu vou. + + Meus versos alegre +Aqui repetia: +O Eco as palavras +Tres vezes dizia. +Se chamo por elle +Já não me responde; +Parece se esconde, +Cansado de dar-me +Os ais que lhe dou. + São estes os sitios? + São estes; mas eu + O mesmo não sou. + Marilia, tu chamas? + Espera que eu vou. + Aqui hum regato +Corria sereno, +Por marg[~e]s cobertas +De flores, e feno: +Á esquerda se erguia +Hum bosque fechado; +E o tempo apressado, +Que nada respeita, +Já tudo mudou. + São estes os sitios? + São estes; mas eu + O mesmo não sou. + Marilia, tu chamas? + Espera que eu vou. + + Mas como discorro? +Acaso podia +Já tudo mudar-se +No espaço de hum dia? +Existem as fontes, +E os freixos copados; +Dão flores os prados, +E corre a cascata, +Que nunca seccou. + São estes os sitios? + São estes; mas eu + O mesmo não sou. + Marilia, tu chamas? + Espera que eu vou. + + Minha alma, que tinha +Liberta a vontade, +Agora já sente +Amor, e saudade. +Os sitios formosos, +Que já me agradárão, +Ah! não se mudárão! +Mudárão-se os olhos, +De triste que estou. + São estes os sitios? + São estes; mas eu + O mesmo não sou. + Marilia, tu chamas? + Espera que eu vou. + + + + +LYRA VI. + + +Oh! quanto póde em nós a varia Estrella! +Que diversos que são os genios nossos! + Qual solta a branca vélla, +E affronta sobre o pinho os mares grossos. +Qual cinge com a malha o peito duro; +E marchando na frente das cohortes, +Faz a toare voar, cahir o muro. + + O sordido avarento em vão trabalha, +Que possa o filho entrar no seu Thesouro. + Aqui fechado estende +Sobre a taboa, que verga, as barras de ouro. +Sacode o jogador da copo os dados; +E n'uma noite só, que ao somno rouba, +Perde o resto dos bens do pai herdados. + + O que da voráz gulla o vicio adora +Da lauta meza os prazeres fia. + E o terno Alceste chora +Ao som dos versos a que o genio o guia. +O sabio Gallileo toma o compasso, +E sem voar ao Ceo, calcula, e mede +Das Estrellas, e Sol o immenso espaço. + + Em quanto pois, Marilia, a varia gente, +Se deixa conduzir do proprio gosto; + Passo as horas contente +Notando as graças do teu lindo rosto. +Sem cansar-me a saber se o Sol se móve, +Ou se a terra voltea, assim conheço. +Aonde chega a mão do grande Jove. + + Noto, gentil Marilia, os teus cabellos; +E noto as faces de Jasmins, e rosas: + Noto os teus olhos bellos; +Os brancos dentes, e as feições mimosas. +Quem fez huma obra tão perfeita, e linda, +Minha bella Marilia, tambem póde +Fazer os Ceos, e mais, se ha mais ainda. + + + + +LYRA VII. + + +Vou retratar a Marilia, +A Marilia meus amores; +Porém como, se eu não vejo +Quem me empreste as finas cores! +Dar-mas a terra não póde; +Não que a sua côr mimosa +Vence o lyrio, vence a rosa: +O jasmim, e as outras flores. + Ah soccorre, Amor, soccorre + Ao mais grato empenho meu! + Vôa sobre os Astros, vôa, + Traze-me as tintas do Ceo. + + Mas não se esmoreça logo; +Busquemos hum pouco mais; +Nos mares talvez se encontrem +Cores que sejão iguaes. +Porém não, que em parallelo +Da minha Ninfa adorada +Perolas não valem nada, +Não valem nada os coraes. + Ah soccorre, Amor, soccorre + Ao mais grato empenho meu! + Vôa sobre os Astros, vôa, + Traze-me as tintas do Ceo. + + Só no Ceo achar se podem +Taes bellezas, como aquellas, +Que Marilia tem nos olhos, +E que tem nas faces bellas. +Mas ás faces graciosas, +Aos negros olhos, que matão, +Não imitão, não retratão +Nem Auroras, nem Estrellas. + Ah soccorre, Amor, soccorre + Ao mais grato empenho meu! + Vôa sobre os Astros, vôa, + Traz-me as tintas do Ceo. + + Entremos, Amor, entremos, +Entremos na mesma Esfera. +Venha Pallas, Venha Juno, +Venha a Deosa de Cithera. +Porém não, que se Marilia +No certame antigo entrasse, +Bem que a Paris não peitasse, +A todas as tres vencera. + Vai-te, Amor, em vão soccorres + Ao mais grato empenho meu: + Para formar-lhe o retrato + Não bastão tintas do Ceo. + + + + +LYRA VIII. + + +Marilia, de que te queixas? +De que te roube Dirceo +O sincero coração? +Não te deo tambem o seu? +E tu, Marilia, primeiro +Não lhe lançaste o grilhão? + Todos amão: só Marilia + Desta Lei da Natureza + Queria ter izenção? + + Em torno das castas pombas +Não rulão ternos pombinhos? +E rulão, Marilia, em vão? +Não se afagão c'os biquinhos? +E a provas de mais ternura +Não os arrasta a paixão? + Todos amão: só Marilia + Desta Lei da Natureza + Queria, ter izenção? + + Já viste, minha Marilia, +Avezinhas, que não fação +Os seus ninhos no verão? +Aquellas com quem se enlação +Não vão cantar-lhe defronte +Do molle pouzo em que estão? + Todos amão: só Marilia + Desta Lei da Natureza + Queria ter izenção? + + Se os peixes, Marilia, gerão +Nos bravos mares, e rios, +Tudo effeitos de Amor são. +Amão os brutos impios, +A serpente venenosa, +A Onça, o Tigre, o Leão. + Todos amão: só Marilia + Desta Lei da Natureza + Queria ter izenção? + + As grandes Deosas do Ceo, +Sentem a setta tyranna +Da amorosa inclinação. +Diana, com ser Diana, +Não se abrasa, não suspira +Pelo amor de Endymão? + Todos amão: só Marilia + Desta Lei da Natureza + Queria ter izençao? + + Desiste, Marilia bella, +De huma queixa sustentada +Só na altiva opinião. +Esta chamma he inspirada +Pelo Ceo; pois nella assenta +A nossa conservação. + Todos amão: só Marilia + Desta Lei da Natureza + Não deve ter izenção. + + + + +LYRA IX. + + +Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo, +Porém não me venceo a mão armada + De ferro, e de furor: +Huma alma sobre todas elevada +Não cede a outra força que não seja + Á tenra mão de Amor. + + Arrastem pois os outros muito embora +Cadêas nas bigornas trabalhadas + Com pezados martellos: +Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas +Com duros ferros não, com fios d'ouro, + Que são os teus cabellos. + + Occulto nos teus meigos vivos olhos +Cupido a tudo faz tyranna guerra: + Sacode a setta ardente; +E sendo despedida cá da terra, +As nuvens rompe, chega ao alto Impirio, + E chega ainda quente. + + As abelhas nas azas suspendidas +Tirão, Marilia, os succos saborosos + Das orvalhadas flores: +Pendentes dos teus beiços graciosos +Ambrosias chupão, chupão mil feitiços + Nunca fartos Amores. + + O vento quando parte em largas fitas +As folhas, que menêa com brandura; + A fonte crystallina, +Que sobre as pedras cáe de immensa altura; +Não fórma hum som tão doce, como fórma + A tua voz divina. + + Em torno dos teus peitos, que palpitão; +Exalão mil suspiros desvelados + Enchames de desejos; +Se encontrão os teus olhos descuidados, +Por mais que se atropelem, voão, chegão, + E dão furtivos beijos. + + O Cisne, quando corta o manso lago, +Erguendo as brancas azas, e o pescoço; + A Náo que ao longe passa, +Quando o vento lhe infuna o panno grosso; +O teu garbo não tem, minha Marilia, + Não tem a tua graça. + + Estimem pois os mais a liberdade: +Eu prézo o captiveiro: sim, nem chamo + Á mão de Amor impia: +Honro a virtude, e os teus dotes amo: +Tambem o grande Achilles veste a saia + Tambem Alcides fia. + + + + +LYRA X. + + +Se existe hum peito, +Que izento viva +Da chamma activa, +Que accende Amor. + Ah! não habite +Neste montado; +Fuja apressado +Do vil traidor. + + Corra, que o Impio +Aqui se esconde: +Não sei aonde; +Mas sei o que vi. + Traz novas settas, +Arco robusto; +Tremi de susto; +Em vão fugi. + + Eu vou mostrar-vos, +Tristes mortaes, +Quantos signaes +O Impio tem. + Oh! como he justo, +Que todo o humano +Hum tal tyranno +Conheça bem! + + No corpo ainda +Menino existe: +Mas quem resiste +Ao braço seu? + Ao negro Inferno +Levou a guerra: +Vencêo a terra, +Vencêo o Ceo. + + Já mais se cobrem +Seus membros bellos; +E os seus cabellos +Que lindos são! + Vendados olhos, +Que tudo alcanção, +E já mais lanção +A setta em vão. + + As suas faces +São côr da neve; +E a bocca breve +Só rizos tem. + Mas, ah! respira +Negros venenos, +Que nem ao menos +Os olhos vem. + + Aljava grande +Dependurada, +Sempre atacada +De bons farpões. + Fere com estas +Agudas lanças, +Pombinhas mansas, +Bravos leões. + + Se a setta falta +Tem outra prompta, +Que a dura ponta +Já mais torcêo. + Ninguem resiste +Aos golpes della: +Marilia bella +Foi quem lha dêo. + + Ah! não sustente +Dura peleija, +O que deseja +Ser vencedor. + Fuja, e não olhe, +Que só fugindo +De hum rosto lindo, +Se vence Amor. + + + + +LYRA XI. + + +Naõ toques, minha Musa, não, não toques + Na sonorosa Lyra, +Que ás almas, como a minha, namoradas + Doces Canções inspira: +Assopra no clarim, que apenas sôa + Enche de assombro a terra; +Naquelle, a cujo som cantou Homero, + Cantou Virgilio a Guerra. + + Busquemos, ó Musa, +Empreza maior; +Deixemos as ternas +Fadigas de Amor. + +Eu já não vejo as graças, de que fórma + Cupido o seu thesouro: +Vivos olhos, e faces côr da neve, + Com crespos fios de ouro; +Meus olhos só vem gramas, e loureiros; + Vem carvalhos, e palmas; +Vem os ramos honrosos, que destinguem + As vencedoras almas. + +Busquemos, ó Musa, +Empreza maior; +Deixemos as ternas +Fadigas de Amor. + +Cantemos o Heróe, que já no berço + As Serpes despedaça; +Que fere os Cácos, que destronca as Hidras, + Mais os leões que abraça. +Cantemos, se isto he pouco, a dura guerra + Dos Tritães, e Tyféos, +Que arrancão as montanhas, e atrevidos + Levão armas aos Ceos. + + Busquemos, ó Musa, + Empreza maior; + Deixemos as ternas + Fadigas de amor. + +Anima pois, ó Musa, o instrumento, + Que a voz tambem levanto; +Porém tu déste muito assima o ponto, + Dirceo não póde tanto: +Abaixa, minha Musa, o tom, que ergueste; + Eu já, eu já te sigo. +Mas, ah! vou a dizer _Heróe_, e _Guerra_, + E só _Marilia_ digo. + + Deixemos, ó Musa, + Empreza maior, + Só posso seguir-te + Cantando de Amor. + + Feres as cordas d'ouro? Ah! sim, agora + Meu canto já se afina; +E a huma voz, parece que ao som dellas + Se faz tambem divina. +O mesmo que cercou de muro a Thebas + Não canta assim tão terno; +Nem póde competir comigo aquelle, + Que desce ao negro Inferno. + + Deixemos, ó Musa, + Empreza maior, + Só posso seguir-te + Cantando de Amor. + + Mal repito _Marilia_, as doces aves + Mostrão signaes de espanto, +Erguem os collos, voltão as cabeças, + Parão o ledo canto; +Move-se o tronco, o vento se suspende + Pasma o gado, e não come: +Quanto podem meus versos! Quanto póde + Só de Marilia o nome! + + Deixemos, ó Musa, + Empreza maior; + Só posso seguir-te + Cantando de Amor. + + + + +LYRA XII. + + +Topei hum dia +Ao Deos vendado, +Que descuidado +Não tinha as settas +Na impia mão. + Mal o conheço, +Me sóbe logo +Ao rosto o fogo, +Que a raiva accende +No coração. + + _Morre, Tyranno, +Morre, inimigo_! +Mal isto digo, +Raivoso o apérto +Nos braços meus. + Tanto que o moço +Sente apertar-se, +Para salvar-se +Tambem me aperta +Nos braços seus. + + O leve corpo +Ao ar levanto, +Ah! e com quanto +Impulso o trago +Do ar ao chão! + Poude suster-se +A vez primeira; +Mas á terceira +Nos pés, que alarga, +Se firma em vão. + + Mal o derrubo, +Ferro aguçado +No já cançado +Peito, que arqueja, +Mil golpes deo. + Suou seu corpo; +Tremêo gemendo; +E á côr perdendo, +Batêo as azas; +Em fim morreo. + + Qual bravo Alcides, +Que a hirsuta pelle +Vestio daquelle +Grenhoso bruto, +A quem matou. + Para que próve +A empreza honrada, +C'o a mão manchada +Recolho as settas, +Que me deixou. + + Ouvio Marilia +Que Amor gritava, +E como estava +Vizinha ao sitio +Valer-lhe vem. + Mas quando chega +Espavorida, +Nem já de vida +O féro monstro +Indicio tem. + + Então Marilia, +Que o vê de perto +De pó cuberto, +E todo involto +No sangue seu; + As mãos aperta +No peito brando, +E afflicta dando +Hum ai, os olhos +Levanta ao Ceo. + + Chega-se a elle +Compadecida; +Lava a ferida +C'o pranto amargo, +Que deramou. + Então o monstro +Dando hum suspiro, +Fazendo hum gyro +C'o a baça vista, +Resuscitou. + + Respira a Deosa; +E vem o gosto +Fazer no rosto +O mesmo effeito, +Que fez a dôr. + Que louca idéa +Foi a que tive! +Em quanto vive +Marilia bella, +Não morre Amor. + + + + +LYRA XIII. + + +Oh! quantos riscos, +Marilia bella, +Não atropella +Quem cégo arrasta +Grilhões de Amor! + Hum peito forte, +De acordo falto, +Zomba do assalto +Do vil traidor. + + O amante de Hero +Da luz guiado, +C'o peito ousado +Na escura noite +Rompia o mar, + Se o Helesponto +Se encapellava, +Ah! não deixava +De lhe ir fallar. + + Do cantor Thracio +A heroicidade +Esta verdade, +Minha Marilia, +Prova tambem. + Cheio de esfôrço +Vai ao Cocyto +Buscar afflito +Seu doce bem. + + Que acção tão grande +Nunca intentada! +Ao pé da entrada +Já tudo assusta +O coração! + Pendentes rochas, +Campos adustos, +Que nem arbustos +Nem hervas dão. + + Na funda fralda +De calvo monte, +Corre Acheronte, +Rio de ardente +Mortal licor. + Tem o barqueiro +Testa enrugada, +Vista inflammada, +Que mete horror. + + Que seguranças! +Que fechaduras! +As portas duras +Não são de lenhos; +De ferro são. + Por tres gargantas, +Quando alguem bate, +Raivoso late +O negro cão. + + Dentro da cova +Soão lamentos; +E que tormentos +Não mostra aos olhos +A escassa luz! + Minos a pena +Manda se intime +Igual ao crime, +Que alli conduz. + + Grande penedo +Este carrega; +E apenas chega +Do monte ao cume, +O faz rolar. + A pedra sempre +Ao valle desce, +Sem que elle cesse +De a ir buscar. + + Nas limpas aguas +Habita aquelle: +Por cima delle +Verdejão ramos, +Que pomos dão. + Debalde a bocca +Molhar pertende; +De balde estende +Faminta mão. + + Tem outro o peito +Despedaçado: +Monstro esfaimado +Já mais descança +De lho roêr. + A rôxa carne, +Que o abutre come, +Não se consome, +Torna a crescer. + + Mas bem que tudo +Pavor inspira, +Tocando a lyra +Desce ao Averno +O bom Cantor. + Não se entorpece +A lingua, e braço; +Não treme o passo, +Não perde a côr. + + Ah! tambem quanto +Dirceo obrára, +Se precisára, +Marilia bella, +Do esforço seu! + Rompêra os mares +C'o peito terno, +Fôra ao Inferno, +Subíra ao Ceo. + + Aos dois amantes +De Thracia, e Abydo +Não deo Cupido +Do que aos mais todos +Maior valor. + Por seus vassallos +Forças reparte, +Como lhes parte +Os gráos de Amor. + + + + +LYRA XIV. + + +Minha bella Marilia, tudo passa; +A sorte deste mundo he mal segura; +Se vem depois dos males a ventura, +Vem depois dos prazeres a desgraça. + Estão os mesmos Deoses +Sujeitos ao poder do impio Fado: +Apollo já fugio do Ceo brilhante, + Já foi Pastor de gado. + + A devorante mão da negra Morte +Acaba de roubar o bem, que temos; +Até na triste campa não podemos +Zombar do braço da inconstante sorte. + Qual fica no sepulchro, +Que seus a vós erguêrão, descançando: +Qual no campo, e lhe arranca os frios casos + Ferro do torto arado. + + Ah! em quanto os Destinos impiedosos +Não voltão contra nós a face irada, +Façamos, sim façamos, doce amada, +Os nossos breves dias mais ditosos. + Hum coração que frouxo +A grata posse de seu bem difere, +A si, Marilia, a si proprio rouba, + E a si proprio fere. + + Ornemos nossas testas com as flores, +E façamos de feno hum brando leito, +Prendamo-nos, Marilia, em laço estreito, +Gozemos do prazer de sãos Amores. + Sobre as nossas cabeças, +Sem que o possão deter, o tempo corre; +E para nós o tempo, que se passa, + Tambem, Marilia, morre. + + Com os annos, Marilia, o gôsto falta, +E se entorpece o corpo já cançado; +Triste o velho cordeiro está deitado, +E o leve filho sempre alegre salta. + A mesma formosura +He dote, que só goza a mocidade: +Rugão-se as faces, o cabello alveja, + Mal chega a longa idade. + + Que havemos d'esperar, Marilia bella? +Que vão passando os florecentes dias? +As glorias, que vem tarde, já vem frias; +E póde em fim mudar-se a nossa estrella. + Ah! não, minha Marilia, +Aproveite-se o tempo, antes que faça +O estrago de roubar ao corpo as forças, + E ao semblante a graça. + + + + +LYRA XV. + + +A minha bella Marilia +Tem de seu hum bom thesouro, +Não he, doce Alceo, formado + Do buscado + Metal louro. +He feito de huns alvos dentes, +He feito de huns olhos bellos, +De humas faces graciosas, +De crespos, finos cabellos; +E de outras graças maiores, +Que a natureza lhe dêo: +Bens, que valem sobre a terra, +E que tem valor no Ceo. + + Eu posso romper os montes, +Dar ás correntes desvios, +Pôr cercados espaçosos + Nos caudosos + Turvos rios. +Posso emendar a ventura +Ganhando astuto a riqueza; +Mas, ah! charo Alceo, quem póde +Ganhar huma só belleza +Das bellezas, que Marilia +No seu thesouro metêo? +Bens, que valem sobre a terra, +E que tem valor no Ceo. + + Da sorte, que vive o rico +Entre o fausto alegremente, +Vive o guardador de gado + Apoucado, + Mas contente. +Beije pois torpe avarento +As arcas de barras chêas: +Eu não beijo os vís thesouros; +Beijo as douradas cadêas, +Beijo as settas, beijo as armas +Com que o cego Amor vencêo: +Bens, que valem sobre a terra, +E que tem valor no Ceo. + + Ama Apollo o fero Marte, +Ama, Alceo, o mesmo Jove: +Não he, não, a vã riqueza, + Sim belleza, + Quem os move. +Posto ao lado de Marilia +Mais que mortal me contemplo: +Deixo os bens, que aos homens cegão, +Sigo dos Deoses o exemplo: +Amo virtudes, e dotes; +Amo em fim, prezado Alceo, +Bens, que valem sobre a terra, +E que tem valor no Ceo. + + + + +LYRA XVI. + + +Eu, Glauceste, não duvido +Ser a tua Eulina amada + Pastora formosa, + Pastora engraçada. +Vejo a sua côr de rosa, +Vejo o seu olhar divino, +Vejo os seus purpùreos beiços, +Vejo o peito crystallino; +Nem ha cousa, que assemelhe +Ao crespo cabello louro. +Ah! que a tua Eulina vale, +Vale hum immenso thesouro! + + Ella vence muito, e muito +Á laranjeira copada, + Estando de flores, + E frutos ornada. +He, Glauceste, os teus Amores; +E nem por outra Pastora, +Que menos dotes tivera, +Ou que menos bella fôra, +O meu Glauceste cançára +As divinas cordas de ouro. +Ah! que a tua Eulina vale, +Val hum immenso thesouro! + + Sim, Eulina he huma Deosa; +Mas anîma a formosura + De huma alma de féra, + Ou inda mais dura. +Ah! quando Alceo pondéra +Que o seu Glauceste suspira, +Perde, perde o soffrimento, +E qual enfermo delira! +Tenha embora brancas faces, +Meigos olhos, fios de ouro, +A tua Eulina não vale, +Não vale immenso thesouro. + + O fuzil, que imita a cobra, +Tambem aos olhos he bello; + Mas quando alumêa, + Tu tremes de velo. +Que importa se mostre chêa +De mil bellezas a ingrata? +Não se julga formosura +A formosura, que mata. +Evita, Glauceste, evita +O teu estrago, e desdouro; +A tua Eulina não vale, +Não vale immenso thesouro. + + A minha Marilia quanto +Á natureza não deve! + Tem divino rosto, + E tem mãos de neve. +Se mostro na face o gôsto, +Ri-se Marilia contente: +Se canto, canta comigo; +E apenas triste me sente, +Limpa os olhos com as tranças +Do fino cabello louro. +A minha Marilia vale, +Vale hum immenso thesouro. + + + + +LYRA XVII. + + +Minha Marilia, +Tu enfadada? +Que mão ousada +Perturbar póde +A paz sagrada +Do peito teu? + + Porém que muito +Que irado esteja +O teu semblante +Tambem troveja +O Claro Ceo. + + Eu sei, Marilia, +Que outra Pastora +A toda a hora, +Em toda a parte, +Céga namora +Ao teu Pastor. + + Ha sempre fumo +Aonde ha fogo; +Assim, Marilia, +Ha zelos, logo +Que existe amor. + + Olha, Marilia, +Na fonte pura +A tua alvura, +A tua bocca, +E a compostura +Das mais feições. + Quem tem teu rosto, +Ah! não receia, +Que terno amante +Solte a cadeia, +Quebre os grilhões. + + Não anda Laura +Nestas campinas +Sem as boninas +No seu cabello, +Sem pelles finas +No seu jubão. + + Porém que importa? +O rico aceio +Não dá, Marilia, +Ao rosto feio +A perfeição. + + + + +LYRA XVIII. + + +Não ves aquelle velho respeitavel, + Que á moleta encostado, +Apenas mal se move, e mal se arrasta? +Oh quanto estrago não lhe fez o tempo? + O tempo arrebatado, + Que o mesmo bronze gasta. + +Enrugárão-se as faces, e perdêrão + Seus olhos a viveza; +Voltou-se o seu cabello em branca neve: +Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo; + Nem tem huma belleza + Das bellezas que teve. + + Assim tambem serei, minha Marilia + Daqui a poucos annos; +Que o impio tempo para todos corre. +Os dentes cahiráõ, e os meus cabellos. + Ah! sentirei os damnos, + Que evita só quem morre. + + Mas sempre passarei huma velhice + Muito menos penoza. +Não trarei a moleta carregada: +Descançarei o já vergado corpo + Na tua mão piedoza, + Na tua mão nevada. + + As frias tardes em que negra nuvem + Os chuveiros não lance, +Irei comtigo ao prado florescente: +Aqui me buscarás hum sitio ameno, + Onde os membros descance, + E ao brando Sol me aquente. + + Apenas me sentar, então movendo + Os olhos por aquella +Vistoza parte, que ficar fronteira; +Apontando direi: _Alli fallámos, + Alli, ó minha bella, + Te vi a vez primeira_. + + Verteráõ os meus olhos duas fontes, + Nascidas de alegria: +Farão teus olhos ternos outro tanto: +Então darei, Marilia, frios beijos, + Na mão formosa, e pia, + Que me limpar o pranto. + + Assim irá, Marilia, docemente + Meu corpo supportando +Do tempo deshumano a dura guerra. +Contente morrerei, por ser Marilia + Quem sentida chorando, + Meus baços olhos cerra. + + + + +LYRA XIX. + + +Em quanto pasta alegre o manso gado, +Minha bella Marilia, nos sentemos +Á sombra deste cedro levantado. + Hum pouco meditemos + Na regular belleza, +Que em tudo quanto vive, nos descobre + A sabia Natureza. + + Attende, como aquella vaca preta +O novilhino seu dos mais separa, +E o lambe, em quanto chupa a liza teta. + Attende mais, ó chara, + Como a ruiva cadella +Supporta que lhe morda o filho o corpo; + E salte em cima della. + + Repara, como cheia de ternura +Entre as azas ao filho essa ave aquenta: +Como aquella esgravata a terra dura, + E os seus assim sustenta; + Como se encoleriza, +E salta sem receio a todo o vulto, + Que junto delles piza. + + Que gosto não terá a esposa amante +Quando der ao filhinho o peito brando, +E reflectir então no seu semblante! + Quando, Marilia, quando + Disser comigo: _he esta +De teu querido pai a mesma barba, + A mesma bocca, e testa_. + + Que gosto não terá a mãi, que toca, +Quando o tem nos seus braços, c'o dedinho +Nas faces graciosas, e na bocca + Do innocente filhinho! + Quando, Marilia bella, +O tenro infante já com risos mudos + Começa a conhecê-la! + + Que prazer não terão os pais ao verem +Com as mãis hum dos filhos abraçados; +Jogar outros a luta, outros correrem + Nos cordeiros montados! + Que estado de ventura! +Que até naquillo, que de pezo serve, + Inspira Amor doçura. + + + + +LYRA XX. + + +Em huma frondosa +Roseira se abria +Hum negro botão. +Marilia adorada +O pê lhe torcia +Com a branca mão. + + Nas folhas viçosas +Á abelha inraivada +O corpo escondêo. +Tocou-lhe Marilia, +Na mão descuidada +A fera mordêo. + + A penas lhe morde, +Marilia gritando, +C'o dedo fugio. +Amor, que nos bosques +Estava brincando, +Aos ais acudio. + + Mal vio a rotura, +E o sangue espargido, +Que a Deoza mostrou; +Rizonho beijando +O dedo offendido, +Assim lhe fallou. + + _Se tu for tão pouco +O pranto desatas, +Ah! dá-me attençaõ; +E como daquelle, +Que feres, e matas, +Naõ tens compaixaõ_? + + + + +LYRA XXI. + + +Não sei, Marilia, que tenho, +Depois que vi o teu rosto; +Pois quanto não he Marilia, +Já não posso ver com gosto. + Noutra idade me alegrava, +Até quando conversava +Com o mais rude vaqueiro: +Hoje, ó bella, me aborrece +Inda o trato lizongeiro +Do mais discreto pastor. +Que effeitos são os que sinto! +Serão effeitos de amor? + + Sáio da minha cabana +Sem reparar no que faço; +Busco o sitio aonde moras, +Suspendo defronte o passo. + Fito os olhos na janella, +Aonde, Marilia bella, +Tu chegas ao fim do dia; +Se alguem passa, e te saúda, +Bem que seja cortezia, +Se accende na face a côr. +Que effeitos são os que sinto! +Serão effeitos de Amor? + + Se estou, Marilia, comtigo, +Não tenho hum leve cuidado; +Nem me lembra, se são horas +De levar á fonte o gado. + + Se vivo de ti distante, +Ao minuto, ao breve instante, +Finge hum dia o meu desgosto: +Já mais, Pastora, te vejo +Que em teu semblante composto +Não veja graça maior. +Que effeitos são os que sinto! +Serão effeitos de Amor? + + Aonde já com o juizo; +Marilia, tão perturbado, +Que no mesmo aberto sulco +Metto de novo o arado. + Aqui no centêo pégo, +Noutra parte em vão o cégo: +Se alguem comigo conversa, +Ou não respondo, ou respondo +Noutra coiza tão diversa, +Que nexo tão tem menor. +Que effeitos são os que sinto! +Serão effeitos de Amor? + + Se geme o bufo agoureiro +Só Marilia me desvella: +Enche-se o peito de magoa, +E não sei a causa della. + Mal durmo, Marilia, sonho, +Que féro leão medonho +Te devora nos meus braços: +Gella-se o sangue nas veias. +E sólto do somno os laços +Á força da immensa dor. +Ah! que os effeitos que sinto +Só são effeitos de Amor. + + + + +LYRA XXII. + + +Muito embora, Marilia, muito embora +Outra belleza, que não seja a tua, +Com a vermelha roda, a seis puxada, + Faça tremer a rua. + + As paredes da salla aonde habita +Adorne a seda, e o tremó dourado; +Pendão largas cortinas, penda o lustre + Do této apainelado. + + Tu não habitarás Palacios grandes, +Nem andarás nos coches voadores; +Porém terás hum Vate, que te preze, + Que cance os teus louvores. + + O tempo não respeita a formosura; +E da palida morte a mão tyranna +Arraza os edificios dos Augustos, + E arraza a vil choupana. + + Que bellezas, Marilia, florecerão +De quem nem se quer temos a memoria? +Só podem conservar hum nome eterno + Os versos, ou a historia. + + Se não houvesse Tasso, nem Petrarcha, +Por mais que qualquer dellas fosse linda, +Já não sabia o mundo, se existirão + Nem Laura, nem Clorinda. + + He melhor, minha bella, ser lembrada +Por quantos hão de vir sabios humanos, +Que ter urcos, ter coches, e thesouros, + Que morrem com os annos. + + + + +LYRA XXIII. + + +N'um sitio ameno +Cheio de rosas, +De brancos lyrios, +Murtas viçosas; + + Dos seus amores +Na companhia +Dirceo passava +Alegre o dia. + + Em tom de graça, +Ao terno amante +Manda Marilia +Que toque, e cante. + + Péga na lyra, +Sem que a tempere, +A voz levanta, +E as cordas fere. + + C'os doces pontos +A mão atina, +E a voz iguala +A voz divina. + + Ella, que teve +De rir-se a idéa, +Nem move os olhos +De assombro chêa. + + Então Cupido +Apparecendo, +Á bella falla +Assim dizendo: + + _Do teu amado +A lyra fias, +Só porque delle +Zombando rias_? + + _Quando n'um peito +Assento faço, +Do peito subo +Á lingoa, e braço_. + + _Nem creias que outro +Estylo tome, +Sendo eu o mestre, +A acção teu nome_. + + + + +LYRA XXIV. + + +Encheo, minha Marilia, o grande Jove +De immensos animaes de toda a especie + As terras, mais os ares, +O grande espaço dos salobros rios, + Dos negros, fundos mares. + Para sua defeza, +A todos dêo as armas, que convinha; + Á sabia Natureza. + + Dêo as azas aos passaros ligeiros; +Dêo ao peixe escamoso as barbatanas: + Dêo veneno á serpente, +Ao membrudo Elefante a enorme tromba, + E ao Javali o dente. + Coube ao leão a garra: +Com leve pé saltando o servo foge; + E o bravo touro marra. + + Ao homem dêo as armas do discurso +Que valem muito mais que as outras armas: + Dêo-lhe dedos ligeiros, +Que podem converter em seu serviço + Os ferros, e os madeiros; + Que tecem fortes laços, +E forjão raios com que aos brutos cortão + Os vôos, mais os passos. + + Ás timidas donzellas pertencerão +Outras armas, que tem dobrada força: + Dêo-lhes a Natureza +Além do entendimento, além dos braços + As armas da belleza. + Só ella ao Ceo se atreve, +Só ella mudar póde o gello em fogo, + Mudar o fogo em neve. + + Eu vejo, eu vejo ser a formosura +Quem arrancou da mão de Coriolano + A cortadora espada. +Vejo que foi de Helena o lindo rosto + Quem pôz em campo armada + Toda a força de Grecia. +E quem tirou o Sceptro aos Reis de Roma, + Só foi, só foi Lucrecia. + + Se podem lindos rostos, mal suspirão, +O braço desarmar do mesmo Achilles; + Se estes rostos irados +Podem soprar o fogo da descordia + Em póvos alliados; + Hes arbitra da terra; +Tu pódes dar, Marilia, a todo o mundo + A paz, e a dura guerra. + + + + +LYRA XXV. + + +O cego Cupido hum dia +Com os seus Genios fallava, +Do modo que lhe restava +De captivar a Dirceo. + Depois de larga disputa, +Hum dos Genios mais sagazes +Este conselho lhe dêo: + + As settas mais aguçadas, +Como se em roxa batessem, +Dão nos seus peitos, e descem +Todas quebradas ao chão. + Só as graças de Marilia +Podem vencer hum tão duro, +Tão izento coração. + + A fortuna desta empreza +Consiste em armar-se o laço, +Sem que sinta ser o braço, +Que lho prepara, de Amor. + Que elle vive como as aves, +Que já deixárão as pennas +No visco do Caçador. + + Na força deste conselho +O raivoso Deos socega, +E á tropa a honra entrega +De o fazer executar. +Todos pertendem ganhá-la, +Batem as azas ligeiros, +E vão as armas buscar. + + Os primeiros se occultárão +Da Deosa nos olhos bellos; +Qual se enlaçou nos cabellos; +Qual ás faces se prendêo. + Hum amorinho cansado +Cahio dos labios ao seio, +E nos peitos se escondêo. + + Outro Genio mais astuto +Este novo ardil alcança, +Muda-se n'uma criança +De divino parecer. + Esconde as azas, e a venda; +Esconde as settas, e quanto +Póde dá-lo a conhecer. + + Ella que vê hum menino +Todo de graças cuberto, +Tão risonho, e tão esperto +Alli sózinho brincar. + A elle endireita os passos; +Finge Amor ter medo, e a Deosa +Mais se empenha em lhe pegar. + + Ella corria chamando; +Elle fugia, e chorava: +Assim forão onde estava +O descuidado Pastor. + Este, mal vio a belleza, +E o gentil menino, entende +A malicia do traidor. + + Põe as mãos sobre os ouvidos, +Cerra os olhos, e constante +Não quer ver o seu semblante, +Não o quer ouvir fallar. + Qual Ulysses n'outra idade +Para illudir as Serêas +Mandou tambores tocar. + + Cupido, que a empreza via, +Julga o intento frustrado, +E de raiva transportado +O corpo no chão lançou. + Traçou a lingoa nos dentes; +Mettêo as unas no rosto, +E os cabellos arrancou. + + O Genio, que se escondia +Entre os peitos da Pastora, +Erguêo a cabeça fóra, +E o successo conhecêo. + Deixa o socego em que estava, +E vai ligeiro metter-se +No peito do bom Dirceo. + + Apenas c'o brando peito +Lhe tocou a neve fria, +Com o calor que trazia +Lhe abrazou o coração. + Dá o Pastor hum suspiro, +Abre os seus olhos, e sólta +Do apertado ouvido a mão. + + Logo que virão os Genios +Ao triste Pastor disposto +Para ver o lindo rosto, +Para as palavras ouvir. + Cada hum as armas toma, +Cada hum com ellas busca +Seu terno peito ferir. + + Com os cabellos da Deosa +Lhe fórma hum Cupido laços, +Que lhe segurão os braços, +Como se fossem grilhões. + O Pastor já não resiste; +Antes beija satisfeito +As suas doces prizões. + + + + +LYRA XXVI. + + +O destro Cupido hum dia +Extrahio mimosas cores +De frescos lyros, e rosas, +De jasmins, e de outras flores. + + Com as mais delgadas pennas +Usa de huma, e de outra tinta, +E nos angulos do cobre +A quatro bellezas pinta. + +Por fazer pensar a todos +No seu lizo centro escreve +Hum letreiro, que pergunta: +_Este espaço a quem se deve_? + + Venus, que vio a pintura, +E lêo a letra engenhosa, +Pôz por baixo: _Eu delle cedo; +Dê-se a Marilia formosa_. + + + + +LYRA XXVII. + + +Alexandre, Marilia, qual o rio +Que engrossando no Inverno tudo arraza; + Na frente das cohortes + Cérca, vence, abraza + As Cidades mais fortes. +Foi na gloria das armas o primeiro, +Morrêo na flor dos annos, e já tinha + Vencido o mundo inteiro. + + Mas este bom Soldado, cujo nome +Não ha poder algum, que não abata, + Foi, Marilia, sómente + Hum ditozo pirata, + Hum salteador valente. +Se não tem huma fama baixa, e escura; +Foi por se pôr ao lado da injustiça + A insolente ventura. + + O grande Cesar, cujo nome vôa, +Á sua mesma Patria a fé quebranta; + Na mão a espada toma, + Opprime-lhe a garganta, + Dá Senhores a Roma. +Consegue ser heróe por hum delicto; +Se acaso não vencesse então seria + Hum vil traidor proscripto. + + O ser heróe, Marilia, não consiste +Em queimar os Imperios: move a guerra, + Espalha o sangue humano, + E despovoa a terra + Tambem o máo tyranno. +Consiste o ser heróe em viver justo: +E tanto póde ser heróe o pobre, + Como o maior Augusto. + + Eu he que sou heróe, Marilia bella, +Seguindo da virtude a honroza estrada. + Ganhei, ganhei hum throno. + Ah! não manchei a espada, + Não a roubei ao dono. +Ergui-o no teu peito, e nos teus braços: +E valem muito mais que o mundo inteiro + Huns tão ditosos laços. + + Aos barbaros, injustos vencedores +Atormentão remorsos, e cuidados; + Nem descanção seguros + Nos Palacios cercados + De tropa, e de altos muros. +E a quantos nos não mostra a sabia historia +A quem mudou o fado em negro opprobrio + A mal ganhada gloria? + + Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo +Nos braços do descanço, e mais do gosto: + Quando estou acordado, + Contemplo no teu rosto + De graças adornado; +Se durmo logo sonho, e alli te vejo. +Ah! nem desperto, nem dormindo sóbe + A mais o meu desejo. + + + + +LYRA XXVIII. + + +Cupido tirando +Dos hombros a aljava, +N'um campo de flores +Contente brincava. + + E o corpo tenrinho +Depois enfadado, +Incauto reclina +Na relva do prado. + + Marilia formosa, +Que ao Deos conhecia, +Occulta espreitava +Quanto elle fazia. + + Mal julga que dorme +Se chega contente, +As armas lhe furta, +E o Deos a não sente. + + Os Faunos, mal virão +As armas roubadas, +Sahirão das grutas +Soltando rizadas. + + Acorda Cupido, +E a causa sabendo, +A quantos o insultão +Responde, dizendo: + + _Temieis as settas +Nas minhas mãos cruas? +Vereis o que podem +Agora nas suas_. + + + + +LYRA XXIX. + + +O tyranno Amor risonho +Me apparece, e me convida +Para que seu jugo acceite; +E quer que eu passe em deleite +O resto da triste vida. + + _O sonoro Anacreonte_ +(Astuto o moço dizia) +_Já perto da morte estava, +Inda de amores cantava; +Por isso alegre vivia_. + + _Aos negros, duros pezares +Não resiste hum peito fraco, +Se Amor o não fortalece: +O mesmo Jove carece +De Cupido, e mais de Baccho_. + + Eu lhe respondo: _Perjuro +Nada creio ao que dizes; +Porque já te fui sujeito, +Inda conservo no peito +Estas frescas cicatrizes_. + + Amor, vendo que da offerta +Algum apreço não faço, +Me diz affoito que trate +De ir com elle a combate +Peito a peito, braço a braço. + + Vou buscar as minhas armas; +Cinjo primeiro que tudo +O brilhante arnêz, e á pressa +Ponho hum elmo na cabeça, +Tomo a lança, e o grosso escudo. + + Mal no Campo me apresento, +Marilia (oh Ceos!) me apparece: +Logo os olhos me fita, +O meu coração palpita, +A minha mão desfallece. + + Então me diz o tyranno: +_Confessa louco o teu erro; +Contra as armas da belleza +Não vale a externa defeza. +Dessa armadura de ferro_. + + + + +LYRA XXX. + + +Junto a huma clara fonte +A mãi de Amor se sentou: +Encostou na mão o rosto, +No leve somno pegou. + + Cupido, que a vio de longe, +Contente ao lugar corrêo; +Cuidando que era Marilia +Na face hum beijo lhe dêo. + + Acorda Venus irada: +Amor a conhece; e então +Da ousadia, que teve, +Assim lhe pede o perdão: + + _Foi facil, ó Mãe formosa, +Foi facil o engano meu; +Que o semblante de Marilia +He todo o semblante teu_. + + + + +LYRA XXXI. + + +Minha Marilia, +Se tens belleza, +Da natureza +He hum favor. +Mas se aos vindouros +Teu nome passa, +He só por graça +Do Deos de amor, +Que terno inflamma +A mente, o peito +Do teu Pastor. + + Em vão se virão +Perlas mimosas, +Jasmins, e rosas +No rosto teu. +Em vão terias +Essas estrellas, +E as tranças bellas +Que o Ceo te dêo; +Se em doce verso +Não as cantasse +O bom Dirceo. + + O voraz tempo +Ligeiro corre: +Com elle morre +A perfeição. +Essa, que o Egypto +Sábia modera, +De Marco impera +No coração; +Mas já Octavio +Não sente a força +Do seu grilhão. + + Ah! vem, ó bella, +E o teu querido +Ao Deos Cupido +Louvores dar; +Pois faz que todos +Com igual sorte +Do tempo, e morte +Possão zombar: +Tu por formosa, +E elle, Marilia, +Por te cantar. + + Mas ai! Marilia, +Que de hum amante, +Por mais que cante, +Gloria não vem! +Amor se pinta +Menino, e cego: +No doce emprêgo +Do charo bem +Não vê defeitos, +E augmenta, quantas +Bellezas tem. + + Nenhum dos Vates, +Em teu conceito, +Nutrio no peito +Nescia paixão? +Todas aquellas, +Que vês cantadas, +Forão dotadas +De perfeição? +Forão queridas; +Porém formosas +Talvez que não. + + Porém que importa +Não valha nada +Seres cantada +Do teu Dirceo? +Tu tens, Marilia, +Cantor celeste; +O meu Glauceste +A voz ergueo; +Irá teu nome +Aos fins da Terra, +E ao mesmo Ceo. + + Quando nas azas +Do leve vento +Ao Firmamento +Teu nome for: +Mostrando Jove +Graça extremosa, +Mudando a Esposa +De inveja a côr; +De todos ha-de, +Voltando o rosto, +Sorrir-se Amor. + + Ah! não se manche +Teu brando peito +Do vil defeito +Da ingratidão: +Os versos beija, +Gentil Pastora, +A penna adora, +Respeita a mão, +A mão discreta, +Que te segura +A duração. + + + + +LYRA XXXII. + + +N'uma noite socegado +Velhos papeis revolvia, +E por ver de que tratavão +Hum por hum a todos lia. + + Erão copias emendadas +De quantos versos melhores +Eu compuz na tenra idade +A meus diversos amores. + + Aqui leio justas queixas +Contra a ventura formadas, +Leio excessos mal acceitos, +Doces promessas quebradas. + + Vendo sem razões tamanhas +Eu exclamo transportado: +_Que finezas tão mal feitas! +Que tempo tão mal passado_! + + Junto pois n'hum grande monte +Os soltos papeis, e logo, +Porque reliquias não fiquem, +Os intento pôr no fogo. + + Então vejo que o Deos cego +Com semblante carregado +Assim me falla, e crimina +O meu intento acertado. + + _Queres queimar esses versos? +Dize, Pastor attrevido, +Essas Lyras não te forão +Inspiradas por Cupido_? + + _Achas que de taes amores +Não deve existir memoria? +Sepultando esses triunfos, +Não roubas a minha gloria_? + + Disse Amor; e mal se calla, +Nos seus hombros a mão pondo, +Com hum semblante sereno +Assim á queixa respondo: + + _Depois, Amor, de me dares +A minha Marilia bella, +Devo guardar humas Lyras, +Que não são em honra della_? + + _E que importa, Amor, que importa +Que a estes papeis destrua; +Se he tua esta maõ; que os rasga, +Se a chamma, que os queima, he tua_? + + Apenas Amor me escuta +Manda que os lance nas brazas; +E ergue a chamma c'o vento, +Que formou batendo as azas. + + + + +LYRA XXXIII. + + +Péga na lyra sonora, +Péga meu charo Glauceste; +E ferindo as cordas de ouro, +Mostra aos rusticos Pastores +A formosura celeste +De Marilia, meus amores. + Ah, pinta, pinta + A minha bella! + E em nada a cópia + Se affaste della. + + Que concurso, meu Glauceste, +Que concurso tão ditoso! +Tu és digno de cantares +O seu semblante divino; +E o teu canto sonoroso +Tambem do seu rosto he dino. + Ah, pinta, pinta + A minha bella! + E em nada a cópia + Se affaste della. + + Para pintares ao vivo +As suas faces mimosas, +A discreta Natureza +Que providencia não teve! +Creou no jardim as rosas, +Fez o lyro, e fez a neve. + Ah, pinta, pinta + A minha bella! + E em nada a cópia + Se affaste della. + + A pintar as negras tranças +Peço que mais te desvelles: +Pinta chusmas de amorinhos +Pelos seus fios trepando; +Huns tecendo cordas delles, +Outros com elles brincando. + Ah, pinta, pinta + A minha bella! + E em nada a cópia + Se affaste della. + + Para pintares, Glauceste, +Os seus beiços graciosos, +Entre as flores tens o cravo, +Entre as pedras a granada; +E para os olhos formosos, +A estrella da madrugada. + Ah, pinta, pinta + A minha bella! + E em nada a cópia + Se affaste della. + + Mal retratares do rosto +Quanto julgares preciso, +Não dês a cópia por feita; +Passa a outros dotes, passa, +Pinta da vista, e do riso +A modestia, mais a graça. + Ah, pinta, pinta + A minha bella! + E em nada a cópia + Se affaste della. + + Pinta o garbo de seu rosto +Com expressões delicadas; +Os seus pés, quando passeão, +Pizando ternos amores; +E as mesmas plantas calcadas +Brotando viçosas flores. + Ah, pinta, pinta + A minha bella! + E em nada a cópia + Se affaste della. + + Pinta mais, prezado amigo, +Hum terno amante beijando +Suas douradas cadeias; +E em doce pranto desfeito, +Ao monte, e valle ensinando +O nome, que tem no peito. + Ah, pinta, pinta + A minha bella! + E em nada a cópia + Se affaste della. + + Nem suspendas o teu canto, +Inda que, Pastor, se veja +Que a minha bocca suspira, +Que se banha em pranto o rosto; +Que os outros chorão de inveja, +E chora Dirceo de gosto. + Ah, pinta, pinta + A minha bella! + E em nada a cópia + Se affaste della. + + +FIM DA 1.^a PARTE. + + + + +MARILIA DE DIRCEO. + +POR T.A.G. + + +SEGUNDA PARTE. + + +LISBOA: 1824. + +Na Typ. de J.F.M. de Campos. + + + + +MARILIA DE DIRCEO + + + + +LYRA I. + + +Já não cínjo de loiro a minha testa, +Nem sonoras Canções o Deos me inspira: + Ah! que nem me resta + Huma já quebrada, + Mal sonora Lyra! + +Mas neste mesmo estado em que me vejo, +Pede, Marilia, Amor que vá cantar-te: + Cumpro o seu desejo; + E ao que resta supra + A paixão, e a arte. + +A fumaça, Marilia, da candêa, +Que a molhada parede ou çuja, ou pinta; + Bem que tosca, e fêa, + Agora me póde + Ministrar a tinta. + +Aos mais preparos o discurso apronta: +Elle me diz, que faça no pé de huma + Má laranja ponta, + E delle me sirva + Em lugar de pluma. + +Perder as uteis horas não, não devo +Verás, Marilia, huma idéa nova: + Sim, eu já te escrevo, + Do que esta alma dita + Quanto amor approva. + +Quem vive no regaço da ventura, +Nada obra em te adorar, que assombro faça: + Mostra mais ternura + Quem te estima, e morre + Nas mãos da desgraça. + +Nesta cruel masmorra tenebrosa +Ainda vendo estou teus olhos bellos, + A testa formosa, + Os dentes nevados, + Os negros cabellos. + +Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda +A chusma dos Cupidos, que pendentes + Dessa bôcca linda, + Nos ares espalhão + Suspiros ardentes. + +Se alguem me perguntar onde eu te vejo, +Responderei--no peito--que huns Amores + De casto desejo + Aqui te pintárão, + E são bons Pintores. + +Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora +Teu Retrato fizerão, e tão forte, + Que entendo, que agora + Só póde apagallo + O pulso da Morte. + +Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo! +Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro. + Ah! dá-lhes hum beijo, + E diz-me que valem + Mais que letras de oiro. + + + + +LYRA II. + + +Esprema a vil calumnia muito embora +Entre as mãos denegridas, e insolentes + Os venenos das plantas, + E das bravas serpentes. + +Chovão raios e raios, no meu rosto +Não has-de ver, Marilia, o modo escrito; + O medo perturbado, + Que infunde o vil delicto. + +Pódem muito conheço, pódem muito, +As Furias infernaes, que Pluto move; + Mas póde mais que todas + Hum dedo só de Jove. + +Este Deos convertêo em flor mimosa; +A quem seu nome derão, a Narciso, + Fêz d' muitos os Astros, + Qu' inda no Ceo diviso. + +Elle póde livrar-me das injurias +Do nescio, do atrevido ingrato povo; + Em nova flor mudar me, + Mudar-me em Astro novo. + +Porém se os justos Céos por fins occultos +Em tão tyranno mal me não soccorrem, + Verás então, que os sabios, + Bem como vivem, morrem. + +Eu tenho hum coração maior que o mundo. +Tu, formosa Marilia, bem o sabes: + Hum coração, e basta, + Onde tu mesma cabes. + + + + +LYRA III. + + +Succede, Marilia bella, +Á medonha noite o dia: +A estação chuvosa e fria, +Á quente secca estação. + Muda-se a sorte dos tempos; + Só a rainha sorte não? + +Os troncos, nas Primaveras, +Brotão em flores viçosos; +Nos Invernos escabrosos +Largão as folhas no chão. + Muda-se a sorte dos troncos; + Só a minha sorte não? + +Aos brutos, Marilia, cortão +Armadas redes os passos; +Rompem depois os seus laços, +Fogem da dura prisão. + Muda-se a sorte dos brutos; + Só a minha sorte não? + +Nenhum dos homens conserva +Alegre sempre o seu rosto; +Depois das penas vem gosto, +Depois do gosto afflicção. + Muda-se a sorte dos homens; + Só a minha sorte não? + +Aos altos Deoses movêrão +Soberbos Gigantes guerra; +No mais tempo o Ceo, e a Terra +Lhes tributa adoração. + Muda-se a sorte dos Deoses; + Só a minha sorte não? + +Hade, Marilia, mudar-se +Do destino a inclemencia: +Tenho por mim a innocencia, +Tenho por mim a razão. + Muda-se a sorte de tudo; + Só a minha sorte não? + +O tempo, ó bella, que gasta +Os troncos, pedras, e o cobre, +O véo rompe, com que encobre +Á verdade a vil traição. + Muda-se a sorte de tudo; + Só a minha sorte não? + +Qual eu sou verá o mundo, +Mais me dará do que eu tinha, +Tornarei a ver-te minha. +Que feliz consolação! + Não ha de tudo mudar-se, + Só a minha sorte não. + + + + +LYRA IV. + + +Já, já me vai, Marilia, branquejando +Loiro cabello, que circúla a testa. +Este mesmo, que alveja, vai cahindo, + E pouco já me resta. + +As faces vão perdendo as vivas côres, +E vão-se sobre os ossos enrugando, +Vai fugindo a viveza dos meus olhos; + Tudo se vai mudando. + +Se quero levantar-me, as costas vergão; +As forças dos meus membros já se gastão, +Vou a dar pela casa huns curtos passos, + Pesão-me os pés, e arrastão. + +Se algum dia me vires desta sorte, +Vê que assim me não pôz a mão dos annos: +Os trabalhos, Marilia, os sentimentos, + Fazem os meus danos. + +Mal te vir me dará em poucos dias, +A minha mocidade o doce gosto; +Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se, + Voltar a côr ao rosto. + +No calmoso Verão as plantas seccão, +Na Primavera, que aos mortaes encanta, +Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho, + Verdeja logo a planta. + +A doença deforma a quem padece; +Mas logo que a doença fez seu termo, +Torna, Marilia, a ser quem era d'antes, + O definhado enfermo. + +Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta, +No meio da desgraça, que me altera: +Eu tambem te supponho qual saude, + Ou qual a Primavera. + +Se dão esses teus meigos, vivos olhos +Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores; +Que effeitos não farão, em quem por elles + Sempre morrêo de amores? + + + + +LYRA V. + + +Os mares, minha bella, não se movem; +O brando Norte assopra, nem diviso +Huma nuvem sequer na Esfera toda, +O destro Nauta aqui não he preciso; +Eu só conduzo a náo, eu só modéro + Do seu governo a roda. + +Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla, +Rasga-se a véla, o mastaréo se parte! +Qualquer varão prudente aqui já teme +Não tenho a necessaria força, e arte. +Corra o sabio Piloto, corra, e venha + Reger o duro leme. + +Como succede á náo no mar, succede +Aos homens na ventura, e na desgraça: +Basta ao feliz não ter total demencia, +Mas quem de venturoso a triste passa, +Deve entregar o leme do discurso + Nas mãos da sã prudencia. + +Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem; +E esta alma, em tanta pena consternada, +Nem sabe aonde possa achar conforto. +Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada, +Toma o leme da náo, marêa o panno, + Vai-a salvar no porto. + +Mas ouço já de Amor as sabias vozes: +Elle me diz que soffra se não morro; +E perco então se morro huns doces laços. +Não quero já, Marilia, mais soccorro, +Oh ditoso soffrer, que lucrar póde + A gloria dos teus braços. + + + + +LYRA VI. + + +De que te queixas, +Lingua importuna? +De que a Fortuna +Roubar-te queira, +O que te deu? + Este foi sempre + O genio seu. + +Levou, Marilia, +A impia sorte +Catoens á morte; +Nem sepultura +Lhes concedeu. + Este foi sempre + O genio seu. + +A outros muitos, +Que vís nascêrão, +Nem merecêrão, +A grandes thronos +A impia ergueu. + Este foi sempre + O genio seu. + +Espalha a cega +Sobre os humanos +Os bens, e os damnos; +E a quem se devão +Nunca escolheu. + Este foi sempre + O genio seu. + +A quanto he justo, +Já mais se dobra; +Nem igual obra +C'os mesmos Deoses +Do cáro Ceo. + Este foi sempre + O genio seu. + +Sóbe ao Ceo Venus +N'hum carro ufano; +E cahe Vulcano +Da pura esfera, +Em que nasceu. + Este foi sempre + O genio seu. + +Mas não me rouba, +Bem que se mude, +Honra, e virtude: +Que o mais he della, +Mas isto he meu. + Este foi sempre + O genio seu. + + + + +LYRA VII. + + + Meu prezado Glauceste, + Se fazes o conceito, + Que bem que réo abrigo +A candida virtude no meu peito. +Se julgas, digo, que mereço ainda + Da tua mão soccorro; + Ah! vem dar-m'o agora, + Agora sim que morro. + + Não quero, que montado + No Pegaso fogoso, + Venhas com dura lança +Ao monstro infame traspassar raivoso. +Deixa que viva a perfida calumnia, + E forge o meu tormento: + Com menos, meu Glauceste, + Com menos me contento. + + Toma a lyra doirada, + E toca hum pouco nella: + Levanta a vóz celeste +Em parte que te escute a minha bella; +Enche todo o contorno de alegria; + Não soffras, que o desgosto + Affogue em pranto amargo + O seu divino rosto. + + Eu sei, eu sei, Glauceste, + Que hum bom Cantor havia, + Que os brutos amansava; +Que os troncos, e os penedos attrahia. +De outro destro Cantor tambem affirma; + A sábia Antiguidade, + Que as muralhas erguêra + De huma grande Cidade. + + Orfeo as cordas fere; + O som delgado, e terno + Ao Rei Plutão abranda, +E o deixa que penetre o fundo Averno. +Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste; + Na lyra, e mais no canto: + Podes fazer prodigios; + Obrar ou mais, ou tanto. + + Levanta pois as vozes: + Que mais, que mais esperas? + Consola hum peito afflito; +Que he menos inda, que domar as féras. +Com isto me darás no meu tormento + Hum doce lenitivo, + Que em quanto a bella vive, + Tambem, Glauceste, vivo. + + + + +LYRA VIII. + + +Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen, +A quem o nome derão de Fortuna, + Pega-me pelo braço, + E com voz importuna + Me diz que mova o passo; +Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra, + Quanto o destino manda, + Que ella obre sobre a terra. + +Que coizas portentosas nelle encontro! +Eu vejo a pobre fundação de Roma, + Vejo-a queimar Carthago; + Vejo que as gentes doma; + E vejo o seu estrago. +Lá florece o poder do Assyrio Povo: + Aqui os Medos crescem + E os perde hum braço novo. + +Então me diz a Deosa: _E que pertendes? +Todas estas Medalhas vêr agora? + Ah! não, não sejas louco! + Espaço de annos fôra + Para isto ainda pouco. +Deixo estranhos successos; vem comigo, + Verás quanto inda deve + Acontecer comtigo_. + +Levou-me aonde estava a minha historia, +Que toda me explicou com medo, e arte. + _Tirei-te libras de oiro_ + Me diz, _e quero dar-te + Todo aquelle thesoiro. +Não suspira por bens hum peito nobre_: + Sevéro lhe respondo. + _Vivo affeito a ser pobre_. + +Aqui me enruga a Deosa irada a testa; +E fica sem fallar hum breve espaço. + _Alegra, alegra o rosto_, + Prosegue, _alli te faço + Restituir o posto_. +Respondo com ar de mofa, e tom sereno. + _Conheço-te, Fortuna, + Posso morrer pequeno_. + +_Aqui te dou_, me diz, _a tua amada_. +Então me banho todo de alegria + _Cuidei_, me torna a cega, + _Que essa alma não queria + Nem esta mesma entrega. +He esse o bem_, respondo, _que me move; + Mas este bem he santo, + Vem só da mão de Jove_. + +Queria mais fallar; eu insoffrido +Desta maneira rompo os seus accentos: + _Basta, Fortuna, basta; + Estes breves momentos + Lá noutras coizas gasta; +Da minha sorte nada mais contemplo_. + E chamando Marilia + Suspiro, e deixo o Templo. + + + + +LYRA IX. + + +A estas horas +Eu procurava +Os meus Amores; +Tinhão-me inveja +Os mais Pastores. + +A porta abria, +Inda esfregando +Os olhos bellos, +Sem flor, nem fitta +Nos seus cabellos: + +Ah! que assim mesmo +Sem compostura, +He mais formosa, +Que a estrella d'alva; +Que a fresca rosa. + +Mal eu a via, +Hum ar mais leve, +(Que doce effeito!) +Já respirava +Meu terno peito. + +Do cerco apenas +Soltava o gado, +Eu lhe amimava +Aquella ovelha +Que mais amava. + +Dava-lhe sempre +No rio, e fonte, +No prado, e selva, +Agua mais clara, +Mais branda relva. + +No cóllo a punha, +Então brincando +A mim a unia; +Mil coizas ternas +Aqui dizia. + +Marilia vendo +Que eu só com ella +He que fallava; +Ria-se a furto, +E disfarçava. + +Desta maneira +Nos castos peitos, +De dia, em dia +A nossa chamma +Mais se accendia. + +Ah! quantas vezes +No chão sentado, +Eu lhe lavrava +As finas rócas, +Em que fiava? + +Da mesma sorte +Que á sua amada, +Que está no ninho, +Fronteiro canta +O passarinho. + +Na quente sésta, +Della defronte, +Eu me entretinha +Movendo o ferro +Da sanfoninha. + +Ella por dar-me +De ouvir o gosto, +Mais se chegava: +Então vaidoso +Assim cantava: + +Não ha Pastora, +Que chegar possa +Á minha bella; +Nem quem me iguale +Tambem na estrella: + +Se Amor concede +Que eu me recline +No branco peito, +Eu não invejo +De Jove o leito: + +Ornão seu peito +As sãs virtudes, +Que nos namorão; +No seu semblante +As Graças morão. + +Assim vivia: +Hoje em suspiros +O canto mudo: +Assim, Marilia, +Se acaba tudo. + + + + +LYRA X. + + +Arde o velho barril, arde a cabeça, +Em honra de João na larga rua; +O credulo Mortal agora indaga, + Qual seja a sorte sua? + +Eu não tenho alcaxofra, que á luz chegue, +E nella orvalhe o Ceo de madrugada, +Para ver se rebentão novas folhas, + Aonde foi queimada. + +Tambem não tenho hum ovo, que despeje +Dentro de hum cópo d'agua, e possa nella +Fingir Palacios grandes, altas Torres, + E huma Náo á véla. + +Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido +Que na boca hum bochecho d'agoa tome, +E atráz de qualquer porta attento esteja, + Até ouvir hum nome. + +Que o nome, que primeiro ouvir, he esse +O nome, que ha de ter a minha amada: +Pode verdade ser, se fôr mentira, + Tambem não custa nada. + +Vou tudo executar, e de repente +Ouvi dizer o nome de Filena: +Despejo logo a boca: ah! não sei como + Não morro alli de pena! + +Apparece Cupido: então soltando +Em ar de zombaria huma risada. +E que tal, me pergunta, esteve a peça? + Não foi bem pregada? + +Eu já te disse, que Marilia he tua: +Tu fazes do meu dito tanta conta, +Que vais acreditar, o que te ensina + Velha mulher já tonta. + +Humilde lhe respondo: quem debaixo +Do açoite da Fortuna afflito geme, +Nas mesmas coisas, que só são brinquedos, + Se agoirão males, teme. + + + + +LYRA XI. + + +Se acaso não estou no fundo Averno +Padece, ó minha bella, sim padece + O peito amante, e terno, +As afflições tyrannas, que os Preceitos +Arbîtra Rhadamantho em justa pena + Dos barbaros delictos. + +As Furias infernaes, rangendo os dentes +Com a mão descarnada não me applicão + As raivosas serpentes. +Mas cercão-me outros monstros mais irados: +Mordem-me sem cessar as bravas serpes + De mil, e mil cuidados. + +Eu não gasto, Marilia, a vida toda +Em lançar o penedo da montanha; + Ou em mover a roda. +Mas tenho ainda mais cruel tormento: +Por coisas que me affligem, roda, e gyra + Cançado pensamento. + +Com retorcidas unhas agarrado +Ás tepidas entranhas não me come + Hum abutre esfaimado. +Mas sinto de outro monstro a crueldade: +Devora o coração, que mal palpita, + O abutre da saudade. + +Não vejo os pomos, nem as aguas vejo, +Que de mim se retirão, quando busco + Fartar o meu desejo; +Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato, +Que lograr-te não possa, estando vendo + Nesta alma o teu retrato. + +Estou no Inferno, estou, Marilia bella; +E n'huma coisa só he mais humana + A minha dura estrella: +Huns não podem mover do Inferno os passos; +Eu pertendo vôar, e vôar cedo + Á gloria dos teus braços. + + + + +LYRA XII. + + +Ah, Marilia, que tormento +Não tens de sentir saudosa! +Não podem ver os teus olhos +A campina deleitosa, +Nem a tua mesma Aldêa, +Que tyrannos não proponhão +Á inda inquieta idéa +Huma imagem de afflição. + Mandarás aos surdos Deoses + Novos suspiros em vão. + +Quando levares, Marilia, +Teu ledo rebanho ao prado +Tu dirás: aqui trazia +Dirceo tambem o seu gado. +Verás os sitios ditosos +Onde, Marilia, te dava, +Doces beijos amorosos +Nos dedos da branca mão. + Mandarás aos surdos Deoses + Novos suspiros em vão. + +Quando á janella sahires +Sem quereres, descuidada, +Tu verás, Marilia, a minha +E minha pobre morada. +Tu dirás então comtigo: +Alli Dirceo esperava +Para me levar comsigo: +E alli soffreo a prisão. + Mandarás aos surdos Deoses + Novos suspiros em vão. + +Quando vires igualmente +Do caro Glauceste a choça, +Onde alegre se juntavão +Os pouco da escolha nossa, +Pondo os olhos na varanda +Tu dirás, de mágoa chêa: +Todo o congresso alli anda, +Só o meu Amado não. + Mandarás aos surdos Deoses + Novos suspiros em vão. + +Quando passar pela rua +O meu companheiro honrado, +Sem que me vejas com elle +Caminhar emparelhado, +Tu dirás: não foi tyranna +Sómente comigo a sorte; +Tambem cortou deshumana +A mais fiel união. + Mandarás aos surdos Deoses + Novos suspiros em vão. + +N'uma masmorra mettido +Eu não vejo imagens destas, +Imagens, que são por certo +A quem adora funestas. +Mas se existem separadas +Dos inchados rôxos olhos, +Estão, que he mais, retratadas +No fundo do coração. + Tambem mando aos surdos Deoses + Tristes suspiros em vão. + + + + +LYRA XIII. + + + Ves, Marilia, hum cordeiro + De flores enramado, + Como alegre caminha + A ser sacrificado? +O Povo para o Templo já concorre: +A Pyra sacro-santa já se accende: +O Ministro o fere, elle bala, e morre. + + Vês agora o novilho, + A quem segura o laço: + No chão as mãos especa: + Nem quer mover hum passo: +Não conhece que sahe de hum máo terreno; +Que o forte pulso, que a seguir o arrasta, +O conduz a viver n'um campo ameno. + + Ignora o bruto, como + Lhe dispomos a sorte: + Hum vai forçado á vida, + Vai outro alegre á morte, +Nós temos, minha bella, igual demencia: +Não sabemos os fins, com que nos move +A sábia, occulta Mão da Providencia. + + De Jacob ao bom filho + Os máos matar quizerão: + De conselho mudárão, + Como escravo o vendêrão: +José não corre a ser hum servo afflito: +Vai subindo os degráos, por onde chega +A ser hum quasi Rei no grande Egypto. + + Quem sabe se o Destino + Hoje, ó bella, me prende, + Só porque nisto de outros + Mais damnos me defende? +Póde inda raiar hum claro dia. +Mas quer raie, quer não, ao Ceo adoro; +E beijo a santa mão, que assim me guia. + + + + +LYRA XIV. + + +Alma digna de mil Avós Augustos! + Tu sentes, tu soluças + Ao ver cahir os justos; +Honras as santas leis da Humanidade: + E aos teus exemplos deve +Gravar com letras de oiro no seu Templo + A candida Amizade. + +Não he, não he de Heróe huma alma forte, + Que vê com rosto enchuto + No seu igual a morte. +Não he tambem de Heróe hum peito duro, + Que a sua gloria firma, +Em que lhe não resiste ao ferro, e fogo, + Nem legião, nem muro. + +Oh! quanto ousado Chefe me namora, + Quando vê a cabeça + Do bom Pompeo, e chora! +He grande para mim, quem move os passos, + E de Dario aos filhos, +Que como escravos seus tratar podéra, + Recebe nos seus braços. + +Se alcança Eneas, Capitão piedoso, + Entre os Heróes do Mundo + Hum nome glorioso, +Não he, porque levanta huma cidade; + He sim, porque nos hombros +Salvou do incendio ao Pai a quem detinha + A mão da branca idade. + +Ah! se ao meu contrario entre as chãmas vira; + Eu mesmo, sim, da morte + Aos hombros o remira: +Inda por elle muito mais obrára: + E se nada servisse, +Fizera então, Amigo, o que fizeste, + Gemêra, e suspirára. + +Oh! quanto são duraveis as cadêas + De huma amizade, quando + Se dão iguaes idéas! +Se a pezar dos estorvos se sustinha + Nossa união sincera, +Foi por ser a minha alma igual á tua, + E a tua igual á minha. + +Se, ó caro Amigo, te merece tanto, + Lá lhe fica a sua alma, + Limpa-lhe o terno pranto. +De quem eu fallo, és tu, Marilia bella. + Ah! sim, honrado Amigo, +Se enxugar não poderes os seus olhos; + Prantêa então com ella. + + + + +LYRA XV. + + +Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro; +Fui honrado Pastor da tua Aldêa; +Vestia finas lãns, e tinha sempre +A minha chóça do preciso chêa. +Tirarão-me o casal, e o manso gado, +Nem tenho a que me encoste hum só cajado. + +Para ter, que te dar, he que eu queria +De mór rebanho ainda ser o dono; +Prezava o teu semblante, os teus cabellos +Ainda muito mais que hum grande Throno. +Agora que te offerte já não vejo +Além de hum puro amor, de hum são desejo. + +Se o rio levantado me causava +Levando a sementeira prejuiso, +Eu alegre ficava apenas via +Na tua breve boca hum ar de riso. +Tudo agora perdi; nem tenho o gosto +De ver-te ao menos compassivo o rosto. + +Propunha-me dormir no teu regaço +As quentes horas da comprida sésta, +Escrever teus louvores nos olmeiros, +Toucar-te de papoilas na floresta. +Julgou o justo Ceo, que não covinha +Que a tanto gráo subisse a gloria minha. + +Ah, minha bella, se a Fortuna volta, +Se o bem que já perdi alcanço, e provo; +Por essas brancas mãos, por essas faces +Te juro renascer hum homem novo; +Romper a nuvem que os meus olhos cerra, +Amar no Ceo a Jove, e ati na terra. + +Fiadas comprarei as ovelhinhas, +Que pagarei dos poucos do meu ganho; +E dentro em pouco tempo nos veremos +Senhores outra vez de hum bom rebanho. +Para o contagio lhe não dar sobeja +Que as affague Marilia, ou só que as veja. + +Se não tivermos lans, e pelles finas, +Podem mui bem cobrir as carnes nossas +As pelles dos cordeiros mal cortidas, +E os pannos feitos com as lans mais grossas. +Mas ao menos será o teu vestido +Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido. + +Nós iremos pescar na quente sésta +Com canas, e com cêstos os peixinhos: +Nós iremos caçar nas manhãs frias +Com a vara envisgada os passarinhos; +Para nos divertir faremos quanto +Reputa o varão sabio, honesto, e santo. + +Nas noites de serão nos sentaremos +C'os filhos se os tivermos á fogueira; +Entre as falsas historias, que contares, +Lhes contarás a minha verdadeira: +Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto +Ainda o rosto banharei de pranto. + +Quando passarmos juntos pela rua +Nos mostraráõ c'o dedo os mais Pastores, +Dizendo huns para os outros: olha os nossos +Exemplos da desgraça, e sãos amores. +Contentes viviremos desta sorte, +Até que chegue a hum dos dois a morte. + + + + +LYRA XVI. + + +Vejo, Marilia, +Que o nédeo gado +Anda disperso +No monte, e prado; +Que assim succede +Ao desgraçado, +Que a perder chega +O seu Pastor. +Mas inda soffro +A viva dôr. + +Tambem conheço, +Que os Pegureiros, +Que apascentavão +Os meus cordeiros, +Darão suspiros +E verdadeiros; +Porque perdêrão +Hum pai no amor. +Mas inda soffro +A viva dôr. + +Eu mais alcanço; +Que a minha herdade +Estando eu prezo, +Soffrer não ha-de +Nem a charrua, +E nem a grade; +Que a mão lhe falta +Do Lavrador. +Mas inda soffro +A viva dôr. + +Mas quando sobe +Á minha idéa, +Que tu ficaste +Lá nessa Aldêa. +De mil cuidados +E mágoa cheia; +Das paixões minhas +Não sou senhor. +Eu já não soffro +A viva dôr. + +A quanto chega +A pena forte! +Peza-me a vida, +Desejo a morte, +A Jove accuso, +Maldigo a sorte, +Trato a Cupido +Por hum traidor. +Eu já não soffro +A viva dôr. + +Mas este excesso +Perdão merece, +E delle Jove +Se compadece; +Que Jove, ó bella, +Mui bem conhece, +Aonde chega +Paixão de amor. +Eu já não soffro +A viva dôr. + + + + +LYRA XVII. + + + Dirceo te deixa, ó bella, + De padecer cançado: + Frio suor já banha + Seu rosto descórado; +O sangue já não gyra pela vêa, + Seus pulsos já não batem; +E a clara luz dos olhos se bacêa: +A lagrima sentida já lhe corre; +Já pára a convulsão, suspira, e morre. + + Seu espirito chega + Onde se pune o erro: + Late o cão, e se lhe abrem + Grossos portões de ferro. +Aos severos Juizes se apresenta; + E com sentidas vozes +Toda a sua tragedia representa: +Enche-se de ternura, e novo espanto +O mesmo inexoravel Rhadamantho. + + Abre hum pasmado a boca, + E a pedra não despede; + Outro já não se lembra + Da fome, e mais da sede: +Descança o curvo bico, e a garra impia + Negro abutre esfaimado: +Nem a roca medonha a Parca fia, +Até as mesmas Furias inclementes +Deixão cahir das unhas as serpentes. + + Já votão os Juizes; + E o Rei Plutão lhe ordena + Deixe o sitio, em que ficão + Almas dignas de pena. +Já sahe do escuro Reino, e da memoria + Lhe passa tudo quanto +Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria. +Só, bem que o gosto as turvas agoas tome, +Inda, Marilia, inda diz teu nome. + + Entra já nos Elysios + Campinas venturosas, + Que mansos rios cortão, + Que cobrem sempre as rosas. +Escuta o canto das sonoras aves, + E bebe as agoas puras, +Que o mel, e de que o leite mais suaves. +Aqui, diz elle, espero a minha bella, +Aqui contente viverei com ella. + + Aqui... porém aonde + Me leva a dôr activa? + He illusão desta alma. + Jove inda quer que eu viva. +Eu devo sim gosar teus doces laços; + E em paga dos meus males +Devo morrer, Marilia, nos teus braços. +Então eu passarei ao Reino amigo; +E tu irás despois lá ter comigo. + + + + +LYRA XVIII. + + +Não mólho, Marilia, +De pranto a masmorra +Que o terno Cupido +Não vôe, e não corra, +A hilo apanhar. +Estende-o nas azas +Sobre elle suspira, +Por fim se retira, +E vai-to levar. + +Se o moço não mente, +Aos tristes gemidos, +Aos ais lastimosos +Não guardes unidos, +Marilia, c'os teus: +As lagrimas nossas +No seio amontôa +Fórma azas, e vôa, +Vai pô-las nos Ceos. + +A Deosa formosa, +Que amava aos Troianos, +Livra-los querendo +De riscos, e damnos +A Jove buscou. +As aguas, que o rosto +Da Deosa banhárão, +A Jove abrandárão, +E assim os salvou. + +Confia-te, ó bella, +Confia-te em Jove; +Ainda se abranda, +Ainda se move +Com ancias de amor. +O pranto de Venus, +Que obrou no Pai tanto, +Não tem que o teu pranto +Apreço maior. + + + + +LYRA XIX. + + + Nesta triste masmorra, +De hum semivivo corpo sepultura, + Inda, Marilia, adoro + A tua formosura. +Amor na minha idéa te retrata, +Busca extremoso, que eu assim resista +Á dôr immensa, que me cerca, e mata. + + Quando em meu mal pondero, +Então mais vivamente te diviso: + Vejo o teu rosto, e escuto + A tua voz, e riso. +Movo ligeiro para o vulto os passos: +Eu beijo a tibia luz em vez de face; +E aperto sobre o peito em vão os braços. + + Conheço a illusão minha; +A violencia da mágoa não supporto; + Foge-me a vista, e caio + Não sei se vivo, ou morto. +Enternece-se Amor de estrago tanto; +Reclina-me no peito, e com mão terna +Me limpa os olhos do salgado pranto. + + Despois que represento +Por largo espaço a imagem de hum defunto, + Movo os membros, suspiro, + E onde estou pergunto. +Conheço então que Amor me tem comsigo; +Ergo a cabeça, que inda mal sustento, +E com doente voz assim lhe digo. + + Se queres ser piedoso, +Procura o sitio em que Marilia móra, + Pinta-lhe o meu estrago, + E vê, Amor, se chora. +Se as lagrimas verter a dôr a arrasta, +Huma dellas me traze sobre as pennas, +E para allivio meu só isto basta. + + + + +LYRA XX. + + +E me visses com teus olhos +Nesta masmorra mettido; +De mil idéas funestas, +E cuidados combatido: +Qual seria, ó minha bella, +Qual seria o teu pezar? + +Á força da dôr cedêra; +E nem estaria vivo, +Se o menino Deos vendado, +Extremoso, e compassivo, +Com o nome de Marilia +Não me viesse animar. + +Deixo a cama ao romper d'alva; +O meio dia tem dado, +E o cabello inda flutua +Pelas costas desgrenhado. +Não tenho valor, não tenho; +Nem para de mim cuidar. + +Diz-me Cupido: E Marilia; +Não estima esse cabello? +Se o deixas perder de todo +Não se ha de enfadar ao vêllo? +Suspiro pego no pente, +Vou logo o cabello atar. + +Vem hum taboleiro entrando +De varios manjares cheio, +Põe-se na meza a toalha, +E eu pensativo passeio: +De todo o comer esfria, +Sem nelle poder tocar. + +Eu entendo que matar-te, +Diz Amor, te tens proposto; +Fazes bem: terá Marilia +Desgosto sobre desgosto. +Qual enfermo c'o remedio +Me afflijo, mas vou jantar. + +Chegão as horas Marilia, +Em que o Sol já se tem posto, +Vem-me á memoria que nellas +Via á janella o teu rosto: +Reclino na mão a face +E entro de novo a chorar. + +Diz-me Cupido: Já basta, +Já basta, Dirceo, de pranto; +Em obsequio de Marilia +Vai erguer teu doce canto. +Pendem as fontes dos olhos, +Mas eu sempre vou cantar. + +Vem o Forçado accender-me +A velha çuja candêa; +Fica, Marilia, a masmorra +Inda mais triste, e mais fêa. +Nem mais canto, nem mais posso +Huma só palavra dar. + +Diz-me Cupido: São horas +De escrever-se o que está feito; +Do azeite, e da fumaça +Huma nova tinta ageito, +Tomo o páo, que penna finge, +Vou as Lyras copiar. + +Sem que chegue o leve sono +Canta o Gallo a vez terceira; +Eu digo ao Amor; que fico +Sem deitar-me a noite inteira: +Faço mimos, e promessas +Para elle me acompanhar. + +Elle diz que em dormir cuide, +Que hei-de ver Marilia em sonho; +Não respondo huma palavra, +A dura cama componho, +Apago a triste candêa, +E vou-me logo deitar. + +Como póde a taes cuidados +Risistir, ó minha Bella, +Quem não tem de Amor a graça? +Se eu que vivo á sombra della +Inda vivo desta sorte, +Sempre triste a suspirar? + + + + +LYRA XXI. + + +Que diversas que são, Marilia, as horas +Que passo na masmorra immunda, e fêa, +Dessas horas felizes, já passadas + Na tua patria Aldêa. + +Então eu me ajuntava com Glauceste; +E á sombra de alto Cédro na Campina +Eu versos te compunha, e elle os compunha + Á sua cara Eulina. + +Cada qual o seu canto aos Astros leva; +De exceder hum ao outro qualquer trata +O ecco agora diz: _Marilia terna_; + E logo: _Eulina ingrata_. + +Deixão os mesmos Sátyros as grutas: +Hum para nós ligeiro move os passos; +Ouve-nos de mais perto, e faz a flauta + C'os pés em mil pedaços. + +Dirceo (clama hum Pastor,) ah! bem merece +Da ternissima Marilia a formosura. +E aonde, clama o outro, quer Eulina + Achar maior ventura? + +Nenhum Pastor cuidava do rebanho, +Em quanto em nós durava esta porfia. +E ella, ó minha amada, só findava + Depois de acabar-se o dia. + +Á noite te escrevia na cabana +Os versos, que de tarde havia feito; +Mal tos dava, e os lias, os guardavas + No casto, e branco peito. + +Beijando os dedos dessa mão formosa, +Banhados com as lagrimas do gosto, +Jurava não cantar mais outras graças + Que as graças do teu rosto. + +Ainda não quebrei o juramento. +Eu agora, Marilia, não as canto; +Mas inda vale mais que os doces versos + A voz do triste pranto. + + + + +LYRA XXII. + + +Por morto, Marilia, +Aqui me reputo: +Mil vezes escuto +O som do arrastado, +E duro grilhão. +Mas, ah! que não treme, +Não treme de susto +O meu coração. + +A chave lá sôa +Na porta segura: +Abre-se a escura, +Infame masmorra +Da minha prizão. +Mas, ah! que não treme; +Não treme de susto +O meu coração. + +Eu vejo, Marilia, +A mil innocentes +Nas Cruzes pendentes, +Por falsos delictos, +Que os homens lhes dão. +Mas, ah! que não treme, +Não treme de susto +O meu coração. + +Se penso que posso +Perder o gozar-te +A gloria de dar-te +Abraços honestos, +E beijos na mão. +Marilia, já treme, +Já treme de susto +O meu coração. + +Repára, Marilia, +O quanto he mais forte +Ainda que a morte, +N'um peito esforçado +De amor a paixão. +Marilia, já treme, +Já treme de susto +O meu coração. + + + + +LYRA XXIII. + + +Não praguejes, Marilia, não praguejes +A justiceira mão que lança os ferros: +Não traz de balde a vingadora espada; + Deve punir os erros. + +Virtudes de Juiz, virtudes de homem +As mãos se derão, e em seu peito morão. +Mandão prender ao Réo austera a boca, + Porém seus olhos chorão. + +Se á innocencia denigre a vil calumnia +Que culpa aquelle tem que applica a penna. +Não he o Julgador, he o processo, + E a lei quem nos condemna. + +Só no Averno os Juizes não recebem +Accusação, nem prova de outro humano; +Aqui todos confessão suas culpas, + Não póde haver engano. + +Eu vejo as Furias affligindo aos tristes: +Huma o fogo chega, outra as serpes move; +Todos maldizem sim a sua estrella, + Nenhum accusa a Jove. + +Eu tambem inda adoro ao grande Chefe, +Bem que a prizão me dá que eu não mereço. +Qual eu sou, minha bella, não me trata, + Trata-me qual pareço. + +Quem suspira, Marilia, quando pune +Ao vassallo que julga delinquente; +Que gosto não terá podendo dar-lhe + As honras de innocente? + + + + +LYRA XXIV. + + +Eu vou, Marilia, vou brigar co' as feras: +Huma soltárão, eu lhe sinto os passos, + Aqui aqui a espero + Nestes despidos braços. +He hum malhado tigre; a mim já corre, +Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas, +Desfallece, cahe, urra, treme, e morre. + +Vem agora hum Leão: sacode a grenha, +Com faminta paixão a mim se lança; + Venha embora, que o pulso + Ainda não se cança. +Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira, +O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão, +Açoita o chão convulso, arqueja, e espira. + +Mas que vejo, Marilia! tu te assustas? +Entendes que os destinos inhumanos + Expoem a minha vida + No cêrco dos Romanos? +Com ursos, e com onças eu não luto. +Luto c'o bravo monstro que me accusa; +Que os tigres, e leões mais féro, e bruto. + +Embora contra mim raivoso esgrima +Da vil calumnia a cortadora espada; + Huma alma, qual eu tenho, + Não se recêa a nada. +Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia, +Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito +Co' as armas invenciveis da innocencia. + +Ah, quando imaginar, que vingativo +Mando que desça ao Tartaro profundo + Hei-de com mão honrada + Erguer-lhe o corpo immundo. +Eu então lhe direi: Infame, indîno, +Obras como costuma o vil humano; +Faço o que faz hum coraçao divino. + + + + +LYRA XXV. + + +Minha Marilia, +O passarinho, +A quem roubárão +Ovos, e ninho, +Mil vezes pousa +No seu raminho, +Piando finge +Que anda a chorar. + Mas logo vôa +Pela espessura, +Nem mais procura +Este lugar. + +Se acaso a vacca +Perde a vitéla, +Tambem nos mostra, +Que se desvéla, +O pasto deixa, +Muge por ella, +Até na estrada +A vem buscar. + Em poucos dias, +Ao que parece, +Della se esquece, +E vai pastar. + +O voraz Tempo, +Que o ferro come, +Que aos mesmos Reinos +Devora o nome, +Tambem, Marilia, +Tambem consome +Dentro do peito +Qualquer pezar. + Ah só não póde +Ao meu tormento +Por hum momento +Allivio dar. + +Tambem, ó bella, +Não ha quem viva +Instantes breves +Na chamma activa; +Derrete ao bronze +Sendo excessiva +Ao mesmo seixo +Faz estalar. + Mas do amianto +A fêbra dura +Na chamma atura +Sem se queimar. + +Tambem, Marilia, +Não ha quem negue, +Que bem que o fogo +Nos oleos pegue, +Que bem que em lingoas +Ás nuvens chegue, +Á força d'agoa +Se ha de apagar. + Se a negra pedra +Nós accendemos, +Com agoa a vemos +Mais s'inflammar. + +O meu discurso, +Marilia, he resto: +A pena iguala +Ao meu affecto. +O amor que nutro +Ao teu aspecto, +E o teu semblante +He singular. + Ah! nem o tempo, +Nem inda a morte +A dôr tão forte +Pode acabar. + + + + +LYRA XXVI. + + +Aquelle, a quem fêz cégo a Natureza, +C'o bordão apalpa, e aos que vem pergunta; +Ainda se despenha muitas vezes, + E dois remedios junta. + +De ser céga a Fortuna eu não me queixo; +Sim me queixo de que má céga seja +Céga que nem pergunta, nem apalpa, + He porque errar deseja. + +A quem gastar não sabe, nem se anima, +Entrega as grossas chaves de hum thesoiro; +E lança na miseria a quem conhece +Para que serve o oiro. + +A quem fere, a quem rouba, a infame deixa +Que a traz do vicio em liberdade corra, +Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime + N'esta vil masmorra. + +Mas ah! minha Marilia, que esta queixa +Co' a sólida razão se não coaduna, +Como me queixo da Fortuna tanto, + Se sei não ha Fortuna? + +Os Fados, os Destinos, essa Deosa +Que os Sábios fingem que huma roda move +He só a occulta mão da Providencia, + A sábia mão de Jove. + +Nós he que somos cegos, que não vemos; +A que fins nos conduz por estes modos; +Por torcidas estradas, ruins varedas + Caminha ao bem de todos. + +Alegre-se o perverso com as ditas; +C'o seu merecimento o virtuoso; +Parecer desgraçado, ó minha bella, + He muito mais honroso. + + + + +LYRA XXVII. + + +A minha amada +He mais formosa +Que branco lyrio, +Dobrada rosa, +Que o cinnamomo, +Quando matiza +Co' a folha a flor. +Venus não chega +Ao meu Amor. + +Vasta campina +De trigo chêa, +Quando na sésta +C'o vento ondêa, +Ao seu cabello +Quando flutua +Não he igual. +Tem a côr negra: +Mas quanto val! + +Os astros, que andão +Na esfera pura, +Quando scintilão +Na noite escura, +Não são humanos, +Tão lindos, como +Seus olhos são. +Que ao Sol excedem +Na luz que dão. + +Ás brancas faces, +Ah! não se atreve +Jasmis de Italia, +Nem inda a neve, +Quando a desata +O Sol brilhante +Com seu calôr. +São neve, e causão +No peito ardôr. + +Na breve boca +Vejo enlaçadas +As finas per'las +Com as granadas; +A par dos beiços +Rubins da India +Tem preço vil. +Nelles se agarrão +Amores mil. + +Se não lhe désse +Compadecido +Tanto soccorro +O Deos Cupido; +Se não vivêra +Huma esperança +No peito seu; +Já morto estava +O bom Dirceo. + +Vê quanto póde +Teu bello rosto; +E de goza-lo +O vivo gosto! +Que sobmergido +Em hum tormento +Quasi infernal, +Porqu' inda espero +Resisto ao mal. + + + + +LYRA XXVIII. + + + Deten-te, vil humano, + Não espremas cicutas + Para fazer-me damno. +O çumo que ellas dão he pouco forte, + Procura outras bebidas, + Que apressem mais a morte. + + Desce ao Reino profundo, + Ajunta ahi venenos, + Que nunca visse o mundo; +Traze o negro licôr, que tem nos dentes, + Nos dentes retorcidos + As raivosas serpentes. + + Cachopo levantado, + Que pôz a Natureza, + Dentro no Mar salgado, +Não se abala no meio da tormenta, + Bem que huma onda, e outra onda + Sobre elle em flor rebenta. + + Arvore, que na terra + Ás robustas raizes, + Buscando o centro, afferra, +Não teme ao furacão mais violento; + E menos se se deixa + Vergar do rijo vento. + + Sou tronco, e rócha, ó bella, + Que açoita o Sul que brama, + E o Mar, que se encapella: +Não temas que do rosto a côr se mude: + Vence as róchas, e os troncos + A sólida Virtude. + + A maior desventura + He sempre a que nos lança + No horror da sepultura: +O cobarde a morrer tambem caminha; + Com que males não póde + Huma alma como a minha? + + + + +LYRA XXIX. + + +Eu descubro procurar-me +Gentil mancebo, e loiro, +Trazia a testa adornada +Com folhas de verde loiro. +Vejo ser o Pai das Musas, +E me entrega a lyra d'oiro. + +Já basta, me diz, ó filho, +Já basta de sentimento; +O cançado peixe exige +Hum breve contentamento. +Louva a formosa Marilia +Ao som do meu instrumento. + +Firo as cordas; mas que importa? +A dôr não socega em tanto. +Ergo a voz, então reparo +Que quanto mais corre o pranto +He mais doce, e mais sonoro +Meu terno, e saudoso canto. + +Apollo fitou os olhos +Na mão, que regía o braço; +E depois de estar suspenso, +De me houvir hum largo espaço; +Assim diz: _o Deos Cupido +Faz inda mais do que eu faço_. + +_Eu te dou a minha lyra, +Louva, louva a tua Bella; +Porém vê que ta concedo +Com condição, e cautella_... +Eu lhe corto a voz, dizendo, +Que só canto em honra della. + + + + +LYRA XXX. + + +O pai das Musas, +O Pastor loiro +Deo-me, Marilia, +Para cantar-te +A lyra de oiro. + +As cordas firo, +O brando vento +Teus dotes leva +Nas brancas azas +Ao firmamento. + +O teu cabello +Vale hum thesoiro; +Hum só me adorna +A sabia frente +Melhor que o loiro. + +Nesses teus olhos +Amor assiste; +Delles faz guerra; +Ninguem lhe foge; +Ninguem resiste. + +Algumas vezes +Eu o diviso +Tão bem occulto +Nas lindas cóvas, +Que faz teu riso. + +Nesses teus peitos +Tem os seus ninhos +Destros Amores, +Nelles se gerão +Os Cupidinhos. + +Vences a Venus, +Quando com arte +As armas toma, +Porque mais prenda +Ao fero Marte. + +Eu produzia +Estas idéas, +Quando, Marilia; +O som escuto +Das vis cadêas. + +Dou hum suspiro. +Corre o meu pranto; +E inda bebendo +Lagrimas tristes, +De novo canto. + +Sou da constancia +Hum vivo exemplo. +E vós, ó ferros, +Honrareis inda +De Amor o Templo. + + + + +LYRA XXXI. + + +Roubou-me, ó minha Amada, a sorte impía, + Quanto de meu gosava + N'um só funesto dia. + +Honras de maioral, manada grossa, + Fertil, extensa herdade, + Bem reparada chóça. + +Metteo-me nesta infame sepultura, + Que he sepulcro sem honras, + Breve masmorra, escura. + +Aqui, ó minha Amada, nem consigo, + Venha outro desgraçado + Sentir tambem comigo. + +Mas se esta companhia não mereço; + Os Deoses me dão outra, + Inda de mais apreço. + +Não he, não, illusão o que te digo; + Tu mesma me acompanhas; + Peno, mas he comtigo. + +Não vejo as tuas faces graciosas, + Os teus soltos cabellos, + As tuas mãos mimosas. + +Se eu as visse, infeliz me não dissera, + Bem que subira ao Porto, + Bem que na Cruz pendêra. + +Não ouço as tuas vozes magoadas, + Com ardentes suspiros + Ás vezes mal formadas. + +Mas vejo, ó cara, as tuas letras bellas; + Huma por hum beijo, + E choro então sobre ellas. + +Tu me dizes que siga o meu destino; + Que o teu amor na ausencia + Será leal, e fino. + +De novo a carta ao coração aperto, + De novo a molha o pranto + Que de ternura verto. + +Ah! leve muito embora o duro Fado; + A tudo quanto tenho + Com meu suor ganhado. + +Eu juro, que do roubo nem me queixe, + Com tanto, ó minha cara, + Que este só bem me deixe. + +Que males voluntarios não subírão, + Os que te amão, sómente + Porque menos te ouvírão? + +Dê pois aos mais seus bens a Deosa céga; + Que eu tenho aquella gloria, + Que a mil felizes nega. + + + + +LYRA XXXII. + + +Se o vasto mar se encapella, +E na rócha em flor rebenta, +Grossa náo, q' não tem léme, +Em vão sustentar-se intenta; +Até que naufraga, e corre +Á discrição da tormenta. + +Quem não tem huma Belleza, +Em que ponha o seu cuidado, +Se o Ceo se cobre de nuvens, +E se assopra o vento irado, +Não tem forças que resistão +Ao impulso do seu fado. + +Nesta sombria masmorra, +Aonde, Marilia, vivo, +Encosto na mão o rosto, +Fico ás vezes pensativo. +Ah! que imagens tão funestas +Me finge o pezar activo. + +Parece que vejo a honra, +Marilia, toda enlutada, +A face de hum pai rugosa, +N'um mar de pranto banhada, +Os amigos mascilentos, +E a familia consternada. + +Quero voltar os meus olhos +Para outro diverso lado, +Vejo n'uã grande Praça +Hum Theatro levantado. +Vejo as Cruzes, vejo os Potros, +Vejo o Alfanje afiado. + +Hum frio suor me cobre, +Lação-se os membros, suspiro, +Busco allivio ás minhas ancias, +Não o descubro, deliro. +Já, meu Bem, já me parece, +Que nas mãos da morte espiro. + +Vem-me então ao pensamento +A tua testa nevada, +Os teus meigos, vivos olhos, +A tua face rosada, +Os teus dentes crystallinos, +A tua boca engraçada. + +Qual, Marilia, a estrella d'alva, +Que a negra noite affugenta, +Qual o Sol, que a nevoa espalha +Apenas a terra aquenta, +Ou qual Iris, que o Ceo limpa, +Quando se vê na tormenta. + +Assim, Marilia, desterro +Triste illusão, e demencia; +Faz de novo o seu officio, +A razão, e a prudencia; +E firmo esperanças doces +Sobre a candida innocencia. + +Restauro as forças perdidas, +Sóbe a viva côr ao rosto; +Gyra o sangue pela vêa, +E bate o pulso composto. +Vê, Marilia, o quanto póde +Contra os meus males teu rosto. + +FIM. + + + + +MARILIA DE DIRCEO. + +POR + +F.A.G. + + +TERCEIRA PARTE. + + +LISBOA: + +Na Impressão Regia. Anno 1812. + +_Com licença_. + +_Vende-se na loja da Gazeta_. + + + + +AO LEITOR. + + +A geral acceitação, que a primeira, e segunda parte da Marilia de Dirceo +tem devido ao Público, animou ao seu Editor a dar á luz huma terceira +parte da dita Obra, a que fez juntar outras diversas Rimas do mesmo +Author, que lhe fazem honra, e que abonão assás a distincta opinião que +tem adquirido naquelle genero de Poesia. Adverte o Editor, que huma +terceira parte da dita Marilia de Dirceo ha tempos publicada, he Obra de +outro engenho, o que facilmente conhecerá ainda o Leitor menos +intelligente. + + + + +MARILIA DE DIRCEO. + + + + +LYRA I. + + +Convidou-me a vêr seu Templo + O cego Cupido hum dia; + Encheo-se de gosto o peito, + Fiz deste Deos hum conceito + Como delle não fazia. + +Aqui vejo descorados + Os ternissimos amantes + Entre as cadêas gemerem; + Vejo nas piras arderem + As entranhas palpitantes. + +_A quem ama quanto avista_, + (Diz Cupido) _não aterra: + Quem quer cingir o loureiro, + Tambem vai soffrer primeiro + Todo o trabalho da guerra_. + +_Com tudo que te dilates + Neste sitio não convenho; + Deixa a estancia lastimosa, + Vem vêr a Salla formosa, + Aonde o meu Solio tenho_. + +Entro n'outro grande Templo: + Que perspectiva tão grata! + Tudo quanto nelle vejo + Passa além do meu desejo, + E o discurso me arrebata. + +He de marmore, e de jaspe + O soberbo frontespicio: + He todo por dentro d'ouro, + E a hum tão rico tesouro + Inda excede o artificio. + +As janellas não se adornão + De sedas de finas côres: + Em lugar de cortinados + Estão prezos, e enlaçados + Fastões de mimosas flores. + +Em torno da Salla Augusta + Ardem dourados brazeiros; + Queimão rezinas, que estalão, + E postas em fumo exalão + Da Panchaya os gratos cheiros. + +Ao pé do Throno os seus Genios + Alegres hymnos entoão: + Danção as Graças formosas; + E aqui as horas gostosas + Em vêz de correrem, vôão. + +Estão sobre o pavimento, + Igualmente reclinados + Nos collos de seus amores, + Os grandes Reis, e Pastores + De frescas rosas coroados. + +Mal o acôrdo restauro, + (Me diz, o Moço risonho:) + _Como ainda não reparas + Em tantas cousas tão raras, + De que este Templo componho_? + +_Sabes a historia de Jove? + Aqui tens o manso Touro; + Tens o Cisne decantado; + A Velha em que foi mudado, + Com a grossa chuva d'ouro_. + +_Applica, Dirceo, agora + Os olhos para esta parte: + Aqui tens o verde Louro, + Que inda estima o Pastor louro, + E a Rede, que enlaça a Marte_. + +_Vês este Arco destramente + De branco marfim ornado? + Á Casta Deosa servia, + E o perdêo quando dormia + Do gentil Pastor ao lado_. + +_Vês esta Lyra? com ella + Tira Orpheo ao bem querido + Dos infernos aonde estava. + Vês este Faról? guiava + Ao meu nadador de Abydo_. + +_Vês estas duas Espadas + Ainda de sangue cheias? + A Thysbe, e a Dido matárão; + E os fortes pulsos armárão + De Pyramo, e mais de Eneas_. + +_Sabes quem vai no Navio, + Que nesse mar se levanta? + He Theseo. Vês esse Pomo? + He de Cydippe, assim como + São aquelles de Atalanta_. + +_Vê agora estes retratos, + Que destros pinceis fizerão: + Ah! que pinturas divinas! + Todos são das Heroinas, + Que mais victorias me dérão_. + +_Repara nesse semblante, + He o semblante de Helena: + Lá se avista a Grega Armada, + E aqui de Troya abrazada + Se mostra a funesta scena_. + +_Vês est'outra_ formosura? + _He a bella Deidamía_; + _Lá_ tem Achilles ao lado, + _De huma saia disfarçado + Como com ella vivia_. + +_Cleópatra he quem se segue: + Alli tens lançando a linha + Marco Antonio socegado, + Ao tempo em que Augusto irado, + Com armada mão caminha_. + +_Aqui Hermes se figura: + Vê hum Sabio dos maiores, + Qual infame delinquente, + Ir desterrado sómente + Por contar os seus louvores_. + +_Este he de Omphale o retrato: + Aqui tens (quem o diria!) + Ao grande Hercules sentado + Com as mais damas no estrado, + Onde em seu obsequio fia_. + +_Anda agora a est'outra parte: + Conheces, Dirceo, aquella_? + Onde váes? (lhe digo:) explica, + Que belleza aqui nos fica, + Sem fazeres caso della? + +Ergo os olhos ponho a vista + Na imagem não explicada, + Ó quanto he digna de appreço! + Mal exclamo assim, conheço + Ser a minha doce amada. + +O coração pelos olhos + Em terno pranto sahia, + E no meu peito saltava: + Disfarçado Amor, olhava + Para mim a furto, e ria. + +Depois de passado tempo, + A mim se chega, e me aballa; + Desperto de tanto assombro: + Elle bate no meu hombro, + E assim affavel me falla. + +_Sim, caro Dirceo, he esta + A divina formosura, + Que te destina Cupido; + Aqui tens o laço urdido + Da tua immortal ventura_. + +_O Numen, Dirceo, o Numen + Que aos trabalhos de hum humano + Desta sorte felicita, + Não he, como se accredita, + Não he hum Numen tyranno_. + +_Olha se a cega Fortuna + De tudo quanto se cria, + Ou nos mares, ou na terra, + Em o seu thesouro encerra + Outro bem de mais valia_? + +_Lizas faces côr de rosa, + Brancos dentes, olhos bellos, + Grossos beiços encarnados, + Pescoço, e peitos nevados, + Negros e finos cabellos_; + +_Não vale mais, que cingires + Co' braço de sangue immundo + Na cabeça o verde louro? + Do que teres montes d'ouro? + Do que dares leis ao mundo_? + +_Ah! ensina, sim ensina + Ao vil mortal atrevido, + E ao peito que adora terno, + Que tem para hum Inferno, + Para o outro hum Ceo, Cupido_. + +Ao resto Amor me convida; + Eu chorando a mão lhe beijo: + E lhe digo, Amor, perdôa + Não seguir-te; pois não vôa + A vêr mais o meu dezejo. + + + + +LYRA II. + + + Em vão do amado +Filho que foge, +Venus quer hoje +Noticias ter. + + Sagaz, e astuto +Elle se esconde +Em parte aonde +Ninguem o vê. + + Dos signaes dados +Bem se conhece, +Que elle aborrece +A Mãi que tem. + + Se os seus defeitos +Ella publíca, +Razão lhe fica +De se offender. + + Foge o Menino, +E disfarçado +Vive abrigado +N'uma cruel. + + Com mil caricias +A impia o trata; +Nem o desata +Do peito seu. + + Se a semelhança +Sempre amor gera, +Deve huma fera +Outra accolher. + + Ah! se o teu nome, +Marilia, calo, +Que de ti fallo +Bem pódes crer. + + + + +LYRA III. + + +Tu não verás, Marilia, cem captivos +Tirarem o cascalho, e a rica terra, +Ou dos cercos dos rios caudelosos, + Ou da minada Serra. + +Não verás separar ao habil negro +Do pezado esmeril a grossa arêa; +E já brilharem os granetes de ouro, + No fundo da batêa. + +Não verás derrubar os virgens matos, +Queimar as capoeiras inda novas, +Servir de adubo á terra a fertil cinza, + Lançar os grãos nas cóvas. + +Não verás enrolar negros pacotes +Das secas folhas do cheiroso fumo; +Nem espremer entre as dentadas rodas + Da doce cana o sumo. + +Verás em cima da espaçosa meza +Altos volumes de enredados feitos; +Ver-me-has folhear os grandes livros, + E decidir os pleitos. + +Em quanto revolver os meus Consultos, +Tu me farás gostosa companhia +Lendo os fastos da sabia, mestra Historia, + Os Cantos da Poesia. + +Lerás em alta Voz a imagem bella; +Eu vendo que lhe dás o justo appreço; +Gostoso tornarei a lêr de novo + O cansado processo. + +Se encontrares louvada huma belleza, +Marilia, não lhe envejes a ventura, +Que tens quem leve á mais remota idade + A tua formosura. + + + + +LYRA IV. + + + Amor por acaso +A hum pouso chegava, +Aonde accolhida +A Morte se achava. + + Risonhos, e alegres +Os braços se dérão, +E as armas unidas +N'um sitio pozerão. + + De emprezas tamanhas +Cansados já vinhão, +E em larga conversa +A noite entretinhão. + + Hum conta que ha pouco +A seta aguçada +Em huma belleza +Deixára empregada. + + Diz outro que as flexas +Cravára no peito +De hum grande, que teve +O Mundo sujeito. + + Em quanto das forças +Cada hum persumia, +Seus membros já laços +O somno rendia. + + Dormindo tranquillos +A noite passárão, +E inda antes da Aurora +Com ancia acordárão. + + _He tempo que o leito +Deixemos, ó Morte_; +Amor, já erguido +Fallou desta sorte. + + _He tempo_, em resposta +A morte repete, +_Que á nossa fadiga +Dormir não compete_. + + _As armas colhamos, +Voltemos ao giro: +Cada hum a seu gosto +Empregue o seu tiro_. + + Vão inda c'os olhos +Em somno turbados, +Ao sitio em que os ferros +Estão pendurados. + + Amor para as setas +Da morte se enclina: +De amor logo a Morte +C'o as flexas atina. + + Oh golpes tyrannos! +Oh mãos homicidas! +São tiros da Morte +De Amor as feridas. + + De hum sonho, que pinto, +Marilia conhece, +Se amor, ou se morte +Este alma padece. + + + + +LYRA V. + + +Eu não sou, minha Nize, pegureiro, +Que viva de guardar alhêo gado; + Nem sou pastor grosseiro +Dos frios gêlos, e do Sol queimado, +Que veste as pardas lãs do seu cordeiro. + Graças, ó Nize bella, + Graças á minha Estrella! + +A Cresso não igualo no thesouro: +Mas deo-me a Sorte com que honrado viva. + Não cinjo corôa d'ouro; +Mas Póvos mando, e na testa altiva +Verdeja a Corôa do Sagrado Louro. + Graças, ó Nize bella, + Graças á minha Estrella! + +Maldito seja aquelle, que só trata +De contar escondido a vil riqueza! + Que cego se arrebata + Em buscar nos Avós a vã nobreza, +Com que aos mais homens seus iguaes abata. + Graças, ó Nize bella, + Graças á minha Estrella! + +As fortunas que em torno de mim vejo, +Por falsos bens que enganão não reputo; + Mas antes mais desejo, +Não para me voltar soberbo em bruto +Por vêr-me grande quando a mão te beijo. + Graças, ó Nize bella, + Graças á minha Estrella! + +Pela Ninfa que jaz vertida em Louro, +O grande Deos Apollo não delira? + Jove mudado em Touro, +E já mudado em Velha não suspira? +Seguir aos Deoses nunca foi desdouro. + Graças, ó Nize bella, + Graças á minha Estrella. + +Pertendão Hanibaes honrar a Historia, +E cinjão com a mão de sangue chêa + Os louros da victoria. +Eu revolvo os teus dons na minha idéa: +Só dons que vem do Ceo são minha gloria. + Graças, ó Nize bella, + Graças á minha Estrella! + + + + +LYRA VI. + +_Traducção_. + + + Amor que seus passos +Ligeiro movia, +Por mil embaraços +Que hum bosque tecia. + + Nos hombros me acena +Com brando raminho; +E logo me ordena +Que siga o caminho. + + Por entre a espessura +Do bosque me avanço: +E a traz da ventura +Incauto me lanço. + + Já tinha calcado +Os montes mais duros: +C'o peito rasgado +Os rios escuros. + + Eis que huma serpente +A lingua vibrando, +Me crava o seu dente, +Me deixa espirando. + + Então surprendida +Da dôr que a traspassa, +Minha alma ferida +Aos beiços se passa. + + As iras detesta +Amor isto vendo, +E as azas na testa +Me bate dizendo: + + _Tu choras, tu gemes +Da Serpe tocado, +E o braço não temes +De hum Numen irado_? + + + + +LYRA VII. + + +Tu, formosa Marilia, já fizeste +Com teus olhos ditosas as campinas, +Do turvo Ribeirão em que nasceste: + Deixa, Marilia, agora + As já lavradas terras; +Anda affoita romper os grossos mares, +Anda encher de alegria estranhas terras. + Ah! que por ti suspírão + Os meus saudosos lares. + +Não corres como Sapho sem ventura +Em seguimento de hum cruel ingrato, +Que não sede aos encantos da ternura: + Segues a hum fino amante, + Que a perder-te morria. +Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó bella; +Tu já foste no Sul a minha guia. + Ah! deves ser no Norte + Também a minha Estrella. + +Verás ao Deos Neptuno socegado +Aplainar co' tridente as crespas ondas; +Ficar como dormindo o mar salgado. + Verás, verás d' alheta + Soprar o brando vento, +Mover-se o léme, disrinzar-se o linho, +Seguirem os Delfins o movimento, + Que leva na carreira + O empavezado pinho. + +Verás como o Leão na prôa arfando +Converte em branca espuma as negras ondas +E as talha, e corta com murmurio brando. + Verás, verás Marilia + Da janella dourada, +Que huma comprida estrada representa +A linfa cristalina, que pizada + Pela poupa que foge + Em borbotões rebenta. + +Bruto peixe verás de corpo immenso, +Tornar ao torto anzol depois de o terem +Pela rasgada boca ao ar suspenso: + Os pequenos peixinhos + Quaes passaros voarem: +De toninhas verás o mar coalhado, +Ora surgirem, ora mergulharem, + Fingindo ao longe as ondas + Que fórma o vento irado. + +Verás que o grande monstro se apresenta +Hum repuxo formando com as aguas, +Que ao ar espalha da robusta venta. + Verás em fim, Marilia, + As nuvens levantadas +Humas de côr azul, ou mais escuras, +Outras de côr de rosa, ou prateadas + Fazerem no Orizonte + Mil diversas figuras. + +Mal chegares á foz do claro Téjo, +Apenas elle vir o teu semblante +Dará no léme do baixel hum beijo. + Eu lhe direi vaidoso: + Não trago, não comigo +Nem pedras de valor, nem montes d'ouro, +Roubei as aureas Minas, e consigo + Trazer para os teus cofres + Este maior Thesouro. + + + + +LYRA VIII. + + +Em cima dos viventes fatigados +As verdes dormideiras espremia, +Os mentirosos sonhos me cercavão. + Na vaga fantasia + Ao vivo me pintavão + As glorias, que disperto + Meu coração pedia. + +Eu vou, eu vou subindo a Náo possante +Nos braços conduzindo a minha bella; +Voltêa a grande roda, e a grossa amarra + Se enlêa em torno della: + Já ponho a prôa á barra, + Já cáhe ao som do apito + Ora huma, ora outra véla. + +Os arvoredos já se não distinguem: +A longa praia ao longe não branqueija; +E já se vão sumindo os altos montes. + Já não ha que se veja + Nos claros Orizontes, + Que não sejão vapores, + Que Ceo, e mar não seja. + +Parece vão correndo as negras ondas, +E o pinho qual rochedo estar parado: +Ergue-se a onda, vem á Náo direita + E quebra no costado: + O Navio se deita, + E ella finge a ladeira + Sahindo do outro lado. + +Vejo nadarem os brilhantes peixes; +Cahir do Láes a linha, que os engana: +Hum dourado no anzol está pendente, + Soffre morte tyranna; + Entre tanto que a sente + Ao tombadilho açoita + A cauda, e a barbatana. + +Sobre as ondas descubro huma Carroça +De formosas conchinhas enfeitada; +Delfins a movem, e vem Thetis nella: + Na popa está parada: + Nem póde a Deosa bella + Tirar os brandos olhos + Da minha doce amada. + +Nas costas dos Golfinhos vem montados +Os nûz Tritões, deixando a Esfera cheia +Co' rouco som dos buzios retorcidos. + Recrêa, sim recrêa + Meus attentos ouvidos + O canto sonoroso + Da musica Serêa. + +Já sóbe ao grande mastro o bom gageiro; +Descobre arrumação, e grita terra: +Á murada caminha alegre a gente; + Alguns entendem que erra: + Pelo immovel sómente + Conheço não ser nuvem, + Sim o cume de alta serra. + +De Mafra já descubro as grandes torres; +(E que nova alegria me arrebata!) +De Cascaes a muleta já vem perto, + Já de abordar-nos trata: + Já o piloro esperto + Inda debaixo manda + Soltar mezena, e gata. + +Eu vou entrando na espaçosa barra: +A grossa artilheria já me atrôa. +Lá ficão Paço de Arcos, e a Junqueira. + Já corre pela prôa + Huma amarra ligeira; + E a Náo já fica surta + Diante da grã Lisboa. + +Agora, agora sim, agora espero +Renovar da amizade antigos laços: +Eu vejo ao velho Pai, que lentamente + Arrasta a mim os passos: + Ah como vem contente! + De longe mal me avista + Já vem abrindo os braços. + +Dóbro os joelhos pelos pés o aperto, +E manda que dos pés ao peito passe: +Marilia quanto eu fiz fazer intenta; + Antes que os pés lhe abrace + Nos braços a sustenta; + Dá-lhe de filha o nome, + Beija-lhe a branca face. + +Vou a descer a escada (ó Ceos!) acórdo, +Conheço não estar no claro Tejo. +Abro os olhos, procuro a minha amada, + E nem se quer a vejo. + Venha a hora affortunada, + Em que não fique em sonhos + Tão ardente desejo. + + + + +_A huma despedida_. + + +Chegou-se o dia mais triste, +Que o dia da morte fêa: +Cahi do throno Dircéa, +Do throno dos braços teus. + Ah! não posso, não, não posso + Dizer-te meu bem adeos. + +Impio Fado, que não pôde +Os doces laços quebrar-me, +Por vingança quer levar-me +Distante dos olhos teus. + Ah! não posso, não, não posso + Dizer-te meu bem adeos. + +Parto em fim, e vou sem vêr-te, +Que neste fatal instante, +Ha de ser o teu semblante +Mui funesto aos olhos meus. + Ah! não posso, não, não posso + Dizer-te meu bem adeos. + +E crês, Dircéa, que devem +Vêr meus olhos penduradas +Tristes lagrimas salgadas +Correrem dos olhos teus? + Ah! não posso, não, não posso + Dizer-te meu bem adeos. + +De teus olhos engraçados, +Que podérão piedosos, +De tristes em venturosos +Converter os dias meus? + Ah! não posso, não, não posso + Dizer-te meu bem adeos. + +Desses teus olhos divinos, +Que ternos, e socegados, +Enchem de flores os prados, +Enchem de luzes os Ceos? + Ah! não posso, não, não posso + Dizer-te meu bem adeos. + +Desses teus olhos em fim, +Que domão Tigres valentes? +Que nem rigidas Serpentes +Resistem aos tiros seus? + Ah! não posso, não, não posso + Dizer-te meu bem adeos. + +Da maneira que serião +Em não vêr-te criminosos +Em quanto forão ditosos, +Agora serião réos. + Ah! não posso, não, não posso + Dizer-te meu bem adeos. + +Parto em fim, Dircéa bella, +Rasgando os ares cinzentos; +Virão nas azas dos ventos +Buscar-te os suspiros meus. + Ah! não posso, não, não posso + Dizer-te meu bem adeos. + +Talvez, Dircéa adorada, +Que os duros Fados me neguem +A gloria de que elles cheguem +Aos ternos ouvidos teus. + Ah! não posso, não, não posso + Dizer-te meu bem adeos. + +Mas se ditosos chegarem, +Pois os sólto a teu respeito; +Dá-lhes abrigo no peito, +Junta-os c'os suspiros teus. + Ah! não posso, não, não posso + Dizer-te meu bem adeos. + +E quando tornar a vêr-te +Ajuntando rosto, a rosto, +Entre os que dérmos de gosto; +Restitue-me então os meus. + Ah! não posso, não, não posso + Dizer-te meu bem adeos. + + + + +CANÇÃO. + + +Dês que vi, formosa Elvira, +Os teus divinos cabellos, +Esses vivos olhos bellos, +Que invéja dos astros são, +Foi-se, Elvira, foi-se embora +Toda a paz do coração. + E talvez, talvez que Elvira + Nem se lembre de que Alceo, + Se suspira, + Se delira, + He só por motivo seu. + +Em quanto, Elvira, se occulta +A meus olhos teu semblante, +Hum minuto, hum breve instante +Parece que fim não tem. +Se alcanço de vêr-te a gloria, +Então vôa o tempo bem. + E talvez, talvez que Elvira + Nem se lembre de que Alceo, + Se suspira, + Se delira, + He só por motivo seu. + +Quando te ris por acaso +Para outro qualquer sugeito, +Estala dentro do peito +De ciume o coração: +Se me pões os olhos julgo +Que zombas de mim então. + E talvez, talvez que Elvira + Nem se lembre de que Alceo, + Se suspira, + Se delira, + He só por motivo seu. + +Quando ha brinco na floresta, +E a divina Olaia canta, +O mesmo gado levanta +A cabeça para ouvir. +Só por mais que Alceo forceje +Não póde o prazer fingir. + E talvez, talvez que Elvira + Nem se lembre de que Alceo, + Se suspira, + Se delira, + He só por motivo seu. + +Quando levo á clara fonte +O rebanho do meu gado, +Cáhe-me da mão o cajado, +E com ella á testa vou: +Fico pasmado, e ignoro +O lugar aonde estou. + E talvez, talvez que Elvira + Nem se lembre de que Alceo, + Se suspira, + Se delira, + He só por motivo seu. + +Quando vou segar o trigo, +(Olha bem como ando cego.) +N'uma parte nelle pego, +Metto n'outra a fouce em vão; +Dos que vem alguns se riem, +Outros mostrão compaixão. + E talvez, talvez que Elvira + Nem se lembre de que Alceo, + Se suspira, + Se delira, + He só por motivo seu. + +Quando me deito no colmo, +Sempre sonho que te vejo, +Que te fallo, e que te beijo +A branca nevada mão. +Acórdo, Pastora, e foges: +Eu fico mais triste então. + E talvez, talvez que Elvira + Nem se lembre de que Alceo, + Se suspira, + Se delira, + He só por motivo seu. + +Quando alguem meu mal pergunta, +Bem que seja a vez primeira, +Rompo ainda que não queira +O segredo sem saber. +O teu nome, Elvira, digo, +Quando devo o seu dizer. + E talvez, talvez que Elvira + Nem se lembre de que Alceo, + Se suspira, + Se delira, + He só por motivo seu. + +Fujo ao trato dos pastores, +Para hum bosque me retiro; +Com desafogo suspiro, +E chamo por ti meu bem. +Os valles que se enternecem +Chamão-te ao longe tambem. + E talvez, talvez que Elvira + Nem se lembre de que Alceo, + Se suspira, + Se delira, + He só por motivo seu. + +Quando escuto o triste mocho +A gemer no meu telhado, +Qualquer mal excogitado +Não me deve algum temor: +Só receio que me agoure +Máo successo ao meu amor. + E talvez, talvez que Elvira + Nem se lembre de que Alceo + Se suspira, + Se delira, + He só por motivo seu. + +Os pastores que me avistão +Com o dedo já me apontão, +E á roda do fogo contão +Da maneira que me vem. +Sou o exemplo dos amantes +Que esta nossa Aldêa tem. + E talvez, talvez que Elvira + Nem se lembre de que Alceo, + Se suspira, + Se delira, + He só por motivo seu. + + + + +SONETO I. + + + He gentil, he prendada a minha Altéa; +As graças, a modestia do seu rosto +Inspírão no meu peito maior gosto, +Que vêr o proprio trigo quando ondêa. + + Mas vendo o lindo gesto de Dircéa +A nova sugeição me vejo exposto; +Ah! que he mais engraçado, mais composto, +Que a pura Esfera de mil astros chêa. + + Prender as duas com grilhões estreitos +He huma acção (ó Deoses!) inconstante, +Indigna de sinceros, nobres peitos. + + Cupido, se tens dó de hum triste amante, +Ou fórma de Lorino dous sugeitos, +Ou fórma desses dous hum só semblante. + + + + +SONETO II. + + + N'um fertil campo do soberbo Douro, +Dormindo sobre a relva descançava, +Quando vi que a Fortuna me mostrava +Com alegre semblante o seu Thesouro. + + De huma parte h[~u] montão de prata, e ouro +Com pedras de valor o chão curvava; +Aqui hum sceptro, alli hum trono estava, +Pendião coroas mil de grama, e louro. + + _Acabou-se_ (diz-me então) _a desventura: +De quantos bens te exponho qual te agrada, +Pois benigna os concedo, vai, procura_. + + Escolhi, acordei, e não vi nada: +Commigo assentei logo que a ventura +Nunca chega a passar de ser sonhada. + + + + +SONETO III. + + + Enganei-me, enganei-me, paciencia; +Accreditei as vozes, cri, Ormia, +Que a tua singeleza igualaria +Á tua mais que angelica apparencia. + + Enganei-me, enganei-me, paciencia; +Ao menos conheci que não devia, +Pôr nas mãos de huma externa galhardia +O prazer, o socego, e a innocencia. + + Enganei-me, Cruel, com teu semblante, +E nada me admiro de faltares, +Que esse teu sexo nunca foi constante. + + Mas tu perdestes mais em me enganares; +Que tu não acharás hum firme amante, +E eu posso de traidoras ter milhares. + + + + +SONETO IV. + + + Ainda que de Laura esteja ausente, +Ha de a chama durar no peito amante; +Que existe retratado o seu semblante, +Se não nos olhos meus, na minha mente. + + Mil vezes finjo vêla, e eternamente +Abraço a sombra vã; só nesse instante +Conheço que ella está de mim distante, +Que tudo he illusão que esta alma sente. + + Talvez que ao bem de a vêr Amor resista; +Porque minha paixão, que aos Ceos he grata, +Por innocente assim melhor persista: + + Pois quando só na idéa ma retrata, +Debuxa os dotes com que prende vista, +Esconde as obras com que offende ingrata. + + + + +SONETO V. + + + Ao Templo do Destino fui levado: +Sobre o Altar hum Cofre se firmava, +Em cujo seio cada qual buscava +Tremendo annuncio do futuro estado. + + Tiro hum papel, e leio: Ceo Sagrado! +Com quanta causa o coração pulsava: +Este duro Decreto escrito estava, +Com negra tinta pela mão do Fado. + + _Adore Polidoro a bella Ormia, +Sem della conseguir a recompensa, +Nem quebrar-lhe os grilhões a tyrannia_. + + Das mãos, Amor mo arranca, e sem detença +Tres vezes o levando á boca impía, +Jurou comprir á risca a tal sentença. + + + + +SONETO VI. + + + Ergue-te, ó Pedra, e desde a margem fria, +Que os muros banha a Lusitana Athenas, +Mostra-me as desmaiadas assucenas +Do rosto que me occupa a fantasia. + + Deixa [~q] eu beije a mão, [~q] pôde hum dia +Ceder de amor ás lastimosas scenas; +Q'entre as ancias, a dôr, a mágoa, as penas +Renove a saudosa idolatria. + + Solto do véo mortal, oh Feliz Astro, +Une ao cadaver a truncada testa, +Levanta o bello cólo de alabastro: + + Huma alma grande junto a ti protesta +Fazer a gloria da defunta Castro; +A illustre Neta vez: Maria he esta. + +_Á Illustrissima e Excellentissima Senhora Condessa de Cavalleiros, D. +Maria José de Eça e Bourbon_. + + + + +SONETO VII. + + + Quantas vezes Lidora me dizia, +Ao terno peito minha mão levando, +Conjurem-se em meu mal os Astros, quando +Achares no meu peito aleivosia. + + Então que não chorasse lhe pedia, +Por firme seu amor acreditando; +Ah! que em movendo os olhos suspirando +Ao mais acautellado enganaria. + + Hum anno assim viveo: ó Ceos! agora +Mostrou que era mulher: a natureza +Só por não se mudar a fez traidora. + + Não, não darei mais cultos á belleza, +Que depois de faltar á fé, Lidora, +Nem creio que nas Deosas ha firmeza. + + + + +SONETO VIII. + + + O Numen Tutelar da Monarquia, +Que fez do grande Henrique a invicta espada, +Procurou dos Destinos a morada, +Por consultar a idade que viria. + + A mil, e mil heróes descriptos via, +Que exaltão de Furtado a estirpe honrada, +E na serie, que adora dilatada, +O nome de Francisco descobria. + + Contempla huma por h[~u]a as letras d'ouro, +Este penhor, que o tempo não consome, +Promette ao Reino seu maior thesouro. + + Prosta-se o Genio: e sem [~q] a empreza tome +De lhe buscar sequer mais outro agoiro, +O sitio beija, e lhe mostra o nome. + +_Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Visconde de Barbacena, +Francisco Furtado de Mendonça_. + + + + +SONETO IX. + + + Nascer no berço da maior grandeza, +De palmas, e de louros rodeado, +Deve-se aos grandes Pais, ao Tronco honrado, +Que illusrra desde longe a natureza. + + Se porém muito mais se adora, e preza +O dom que o nobre sangue trás herdado +Pela propria virtude sustentado, +Feliz o objecto da presente empreza. + + De mil Heróes no Téjo vencedores +Hum ramo nasce, hum ramo que a memoria +Faz immortal de seus Progenitores. + + Eu leio em vaticinio a sua historia; +Une Francisco a par de seus maiores +Ao herdado explendor a propria gloria. + +_Ao mesmo excellentissimo Visconde_. + + + + +SONETO X. + + + Mudou-se em fim Lidora, essa Lidora +Por quem mil vezes fé me foi jurada; +Que vos detem (ó Ceos!) que castigada +Ainda não deixais tão vil traidora? + + Não haja piedade: sinta agora +A dita sem remedio em mal trocada; +Pois se assim não succede, fica ousada +Para ser outra vez enganadora. + + Vingai, ó justos Ceos..., mas ah! [~q] digo? +Que maltrateis Lidora? o sentimento +Privou-me do discurso, eu me desdigo. + + Não, não vibreis o raio violento; +Pois sei que a compaixão do seu castigo, +Hade augmentar depois o meu tormento. + + + + +SONETO XI. + + + A Deos cabana, a Deos; a Deos, ó gado, +Albina ingrata, a Deos, em paz te deixo: +A Deos doce rabil, neste alto freixo +Te fica ao meu destino consagrado. + + Se te for meu successo perguntado, +Não declares rabil de quem me queixo; +Não quero que se saiba vive Aleixo +Por causa de huma infame desterrado. + + Se vires a Pastor desconhecido, +Lhe dize então piedoso: Ah! vaite embora, +Atalha os damnos, que outros tem sentido. + + Habita nesta Aldêa huma Pastora +De rosto bello, coração fingido, +Humas vezes cruel, e as mais traidora. + + + + +SONETO XII. + + + Com pezadas cadeias maniatado, +Ás vozes da razão insurdecido, +Dos Ceos, de mim, dos homens esquecido +Me vi de amor nas trévas sepultado. + + Alli aliviava o meu cuidado +Cõ dar de quando em quando algum gemido: +Ah tempo! que sómente reflectido +Me fazes entre as ditas desgraçado. + + Assim vivia, quando a falsidade +De Laura me tornou n'um breve dia +Quanto a razão não pôde em longa idade. + + Quebrei o vil grilhão que me opprimia: +Ó feliz de quem gosa a liberdade! +Bem que venha por mãos da aleivosia. + + + + +SONETO XIII. + + + Obrei quanto o discurso me guiava; +Ouvi os Sabios quando errar temia: +Aos bons no gabinete o peito abria; +Na rua a todos como iguaes honrava. + + Julgando os crimes nunca voto dava +Mais duro, ou pio do que a Lei pedia; +Mas podendo salvar o justo ria, +E devendo punir ao réo chorava. + + Nem forão, Villa Rica, os meus intentos +Metter em ferreo cofre copia d'ouro, +Que chegue aos filhos, e que passe aos netos. + + Outras são as venturas que me agouro: +Ganhei saudades, adquiri affectos, +Vou fazer destes bens melhor thesouro. + +_Feito quando o Author acabou o Lugar de Ouvidor de Villa Rica, e foi +despaçhado para Desembargador da Bahia_. + + + + +SONETO XIV. + + + Quando o torcido buço derramava +Terror no aspecto ao Portuguez sisudo, +Quando sem pó, nem oleo o pente agudo +Duro intonso o cabello em laço atava. + + Quando contra os Irmãos o braço armava +O forte Nuno oppondo escudo, a escudo; +Quando a palavra que perfere a tudo +Com a barba arrancada João firmava. + + Quando a mulher á sombra do marido +Tremer se via: quando a Lei prudente +Zelava o sexo do civil ruido; + + Feliz então, então só innocente +Era de Luso o Reino: oh bem perdido! +Ditosa condição, ditosa gente! + + + + +SONETO XV. + + + Sombras illustres dos varões famosos, +Que á Grecia, e Roma destes Leis hum dia; +Vós que do Elysio na região sombria +Respiraes entre os Zefiros mimosos. + + Grande Licurgo, ó tu Solon, [~q] honrosos +Louros cingis, que egregia companhia +Fazeis aos Mazzarinos, eu queria +Adorar vossos vultos magestosos. + + Vós fizesteis da vossa Patria a gloria; +Por vós hoje he feliz a humanidade: +Que dignos sois de huma immortal historia! + + Cesce, cesse porém vossa vaidade; +Que basta a escurecer vossa memoria +Hum Carvalho, que adora a nossa idade. + +_Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Pombal reformando +a Universidade de Coimbra_. + + + + +SONETO XVI. + + + As molles azas a bater começa +Entre as palhas o tenro passarinho, +E largos dias por deixar o ninho +Se cança, se fadiga, se arremeça. + + H[~u] impulso, outro impulso é vão se apresa, +Já se firma no pé, já no biquinho, +Nas folhas se tem, passa ao raminho +Té que a penna se esforce, e se endureça. + + Quando emfim he capaz de movimento +Deixa os arbustos vaga pelos ares, +E sobre as altas faias toma assento: + + Estes sejão, Salicio, os exemplares +Em que a vossa virtude anime o alento, +Porque hum dia da Fama honre os Altares. + + + + +_Ao Illustrissimo Senhor Luiz Beltrão de Gouvea_. + +ODE. + + + Se entre as louras arêas +Do meu Jaquitinhonha, hum Genio erguido + Ás Regiões alheas +Manda que em doce metro reppetido + Hoje o teu Nome leve, +Tanto á virtude, meu Beltrão, se deve. + + Vejo a sordida inveja +De ira morder-se, e as serpes sacudindo + Por se tragar forceja: +De pejo, e de vergonha em vão cobrindo + Co' as frias mãos o rosto, +Geme a calumnia no mortal desgosto. + + Vós, Genios fortunados, +Que do Templo da Gloria honrais a estancia, + Os meritos sagrados +Cantai do bom Ministro: He a constancia, + A sabia fortaleza +He quem o guia na maior empreza. + + Se os rigidos palmares +Da Idumeya consulto; o bravo Noto + Os tormentosos ares +Não podem mais dobralos: zomba immoto, + Nem ás ondas tem medo +Sobranceiro ao Egeo, firme penedo. + + Tal a constancia tua +Em meio foi dos perfidos rumores; + A verdade, que nua +Derramava em teu rosto as vivas côres, + Sobre as aras decentes +Vio por triunfo mil trofeos pendentes. + + A vigilancia, o zelo, +A rectidão do espirito; elevada + Ao gráo mais rico, e bello, +Essa virtude, que nos traz provada + Em meio dos Thesouros +A sã virtude, que enobrece os Louros: + + Tudo, tudo apparece +Sabio Ministro da victoria ao lado; + Athenas, que me offerece +No seu público Erario accreditado + Aristides, o Justo, +Em ti acena o seu modelo augusto. + + Mil vezes orgulhosa +Negra calumnia o seu desterro tenta; + A virtude preciosa +Contra o fero Themistocles sustenta. + Não ha força que baste, +Não ha poder que o peito lhe contraste. + + Feliz o Rei, o Povo, +Feliz tambem de Themis a ballança; + De hum modo raro, e novo +Nas tuas mãos eu vejo, que descança: + Aos premios, ao castigo +Se reparte sem queixa o braço amigo. + + Ah! sinta a nossa idade +De hum sangue illustre, de hum talento raro + A próvida igualdade! +Melhor do que nos marmores de Pharo, + Em memoria nos vindouros +T'ergue o Serro h[~u] Padrão nos seus Thesouros. + + + + +_Imitando o sonho de Scipião_. + +ODE. + + + Já vou tocando, ó Licio, +De Lustros dez o fatigado termo; + E já meu corpo enfermo +Se avisinha da morte ao duro officio: +Que cedo o meu destino me promette +Calcar as sombras do medonho Lethe! + + Eu descerei contente +A ver os Manes dos Avós amados; + Que bem aventurados, +Se outro mundo tratarão, se outra gente! +Não virão elles, como eu triste vejo, +O velho mando peiorar sem pejo. + + Passárão da innocencia +Pela candida estrada os pés levando; + Inda a fera violencia +Não corrompia da Justiça o mando; +Praticava-se a próvida igualdade +Entre a Santa Virtude, e a vil maldade. + + A pura fé do Amigo, +Renovava de Orestes a memoria: + Commum era o perigo, +Reciproca tambem a pena, a gloria: +Que traições, e que enganos tem disposto +Em nossos dias hum fingido rosto! + + Tudo se vê mudado +Nesta idade fatal em que de ferro + O Idolo adorado +Torpemente protege o crime, o erro: +Como de susto, e de vergonha cheia +Se retira de nós a bella Astrea! + + Ah! E quem de teus laços +Deve ao pezo gemer, ó mundo cego? + Rotos em mil pedaços +Os teus grilhões a pendurar já chego; +Não mais os teus encantos me deleitem, +Estes miseros restos se aproveitem. + + Que differentes climas +Já me finjo habitar! Os brandos ares, + Que tu Zefiro, animas +Que prazeres me inspirão! Dos pezares, +Das magoas, do desgosto, e do tormento +Aqui não sôa o tragico lamento. + + Sôlto do mortal manto +Cuido que o centro dos Elysios piso! + Oh quanto he bella, quanto +A margem deste Lago! Em fresco riso +Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora, +Aqui saudão a perpetua Aurora. + + Adoravel sciencia, +Que encheste as noites, e esgotaste os dias, + Da humana intelligencia, +Agora sei quam longe te desvias! +Este o seio da luz, aonde tudo +Sem fadiga se alcança, e sem estudo! + + O número, a distancia +Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro: + Noto a eterna constancia +Do Planeta da Luz; observo o giro +Da Terra, que regula a varia face +Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce. + + Certa, e firme a carreira +Já marco de Saturno, Marte, ou Jove, + Da esfera derradeira +Contemplo a força, que os mais Orbes move; +A harmonia me encanta acorde, e rara, +Que de Samos o Sabio já notára. + + Aqui se patentêa +Dos errados systemas o conceito; + E longe a minha idéa +De vacilar, já firma o mais perfeito. +Quem senão tu, ó Genio, sobre humano +Libertar me podéra deste engano! + + De Massinissa o Paço +De Carthago ao Heróe tal scena pinta: + Ao soberbo ameaço +Da Fortuna, elle vê clara, e distincta, +Qual o meu Genio me retrata agora, +A bella Patria, onde o descanço mora. + + He este, ó Licio, he este +Sem dúvida, o Paiz bello, e sereno, + Aonde em paz celeste +Não respira da inveja o atroz veneno: +E aonde livres da infeliz mudança +Descança o teu, e o meu bom Pai descança. + + Que doce companhia +Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse + O momento que hum dia +Tão gostosa união nos lavra, e tece! +Cheguemos a beijar as Mãos Sagradas, +Que enchem de gloria as immortais Moradas. + + Em praticas suaves +Alli as breves horas gastaremos; + Nem já nos serão graves +Na lembrança os trabalhos que aqui temos; +Nem da pezada humanidade nossa +Pena haverá, que atormentar-nos possa. + + Mas tu, que dos humanos +Reges, ó Grande Deos, a dubia sorte; + Tu, que a meta dos annos +Firmas, descendo de teu mando a morte, +Dilata os dias do meu Licio, em quanto, +Douto me instrue, e me entertem seu canto. + +FIM + + + + + + +End of Project Gutenberg's Marilia de Dirceo, by Tomás António Gonzaga + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MARILIA DE DIRCEO *** + +***** This file should be named 18082-8.txt or 18082-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/8/0/8/18082/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + +*** END: FULL LICENSE *** + diff --git a/18082-8.zip b/18082-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..629d396 --- /dev/null +++ b/18082-8.zip diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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