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+Project Gutenberg's Chronica de el-rei D. Affonso Henriques, by Duarte Galvão
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Chronica de el-rei D. Affonso Henriques
+
+Author: Duarte Galvão
+
+Release Date: March 20, 2006 [EBook #18026]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. ***
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+Bibliotheca de Classicos Portuguezes
+
+Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo
+
+(VOLUME LI)
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+Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques
+
+POR
+
+DUARTE GALVÃO
+
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+_ESCRIPTORIO_
+
+147--Rua dos Retrozeiros--147
+
+LISBOA
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+1906
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+Bibliotheca de Classicos Portuguezes
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+Bibliotheca de Classicos Portuguezes
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+Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo
+
+(VOLUME LI)
+
+
+Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques
+
+POR
+
+DUARTE GALVÃO
+
+
+_ESCRIPTORIO_
+
+147--Rua dos Retrozeiros--147
+
+LISBOA
+
+1906
+
+
+
+
+PROLOGO
+
+
+A Chronica de Duarte Galvão é a lenda de Affonso Henriques, do fundador
+de Portugal. O autor encontrou noticias, narrativas, tradições;
+agrupou-as, apurou-lhes a linguagem, e formou assim a Chronica que
+apresentou a D. Manoel. Mais tarde mudaram costumes, augmentaram
+convenções sociaes, cresceu a polidez cortezan, e a critica abafou o
+livro perigoso, inconveniente. Chegaram a chamar-lhe conjuncto de
+fabulas. As brigas com a mãi, a violencia feroz com o legado de Roma
+offendiam os bons costumes, as delicadas maneiras.
+
+Na Chronica ha lenda e tradição a par de narrativas baseadas em factos.
+As luctas com D. Affonso de Castella, as campanhas systematicas e
+porfiadas com os sarracenos, todo esse esforço enorme para augmentar o
+reino e garantir-lhe a independencia são factos averiguados.
+
+A bella tradição a respeito de Egas Moniz, a do cavalleiro Henrique e da
+palmeira que nasceu na sua cova, a lenda do corpo de S. Vicente,
+guardado pelo corvo, são lendas ou tradições antigas acreditadas já na
+funda edade media, justificadas pela escultura, pela epigraphia, ou por
+antiquissimos escriptos. A descripção do casamento de D. Mafalda, filha
+de D. Affonso Henriques, parece ter uma base verdadeira, algum escripto
+mui antigo que o chronista soube approveitar.
+
+É interessante attender á maneira como os historiadores trataram do
+fundador do reino; Duarte Galvão no começo do seculo XVI; Antonio
+Brandão no seculo XVII; Alexandre Herculano no meio do XIX. Os elementos
+de trabalho vão crescendo, e o entendimento humano apura-se; vê-se mais
+e melhor; a critica, a analyse profundam com maior liberdade. Não
+devemos esquecer que Duarte Galvão foi uma summidade no seu tempo.
+Antonio Brandão foi uma intelligencia superior. Herculano o intellectual
+maximo, energico trabalhador com intenso fermento artistico. A maneira
+como estes tres espiritos tratam o fundador, e o conjuncto de recursos
+que elles possuiam, constitue um motivo de estudo merecedor de attenção.
+
+Sobre Duarte Galvão é bem que se leia a noticia que vem publicada no
+dicionario da lingua portugueza, da Academia Real das Sciencias de
+Lisboa (Tomo 1.^o e unico. Lisboa, 1793. Catalogo de autores, pag.
+CXXVII).
+
+==Galvão (Duarte) nasceu pelos annos de 1446, e faleceo em 1517
+«carregado (como diz João Pinto Ribeiro) (a)» de annos, de prudencia, «e
+de autoridade.» no mar da Arabia, na ilha de Camarão, indo de mandado
+del-Rei D. Manoel por Embaixador a David, Emperador e Rei dos Abexins.
+
+El-Rei D. João II. o enviou com grandes poderes por Embaixador a
+Maximiliano I. Emperador de Alemanha, seu primo coirmão, Rei naquelle
+tempo dos Romanos, e prezo em Burgos pelos Governadores da dita Cidade.
+E se bem o achasse já solto, quando chegou a Flandres, lhe fez todavia
+abalizados serviços, muito a contentamento do mesmo Rei. Segunda vez
+voltou por Embaixador a Alemanha, e conforme expressamente declara
+Damião de Goes, servio os dous Reis, D. João II. e D. Manoel «em muitas
+Embaixadas nas cortes dos Papas, e do Emperador Fedrique e Maximiliano,
+seu filho, e dos Reis de França e Inglaterra, e em outros muitos
+negocios, de que sempre deo boa conta.» O referido Goes já em outro
+lugar, a que se remette, havia tratado, como diz, «o demais das
+calidades e partes dignas de louvor, que nelle se dava.» Tendo sido os
+Priores Crasteiros de Santa Cruz de Coimbra, Chronistas do Reino desde o
+anno de 1145 por provisão del-Rei D. Affonso Henriques «até o tempo
+del-Rei D. Affonso V. o Prior mór de santa Cruz D. João Galvão, (assim o
+escreve o Chronista dos Conegos Regrantes de S. Agostinho) deo o officio
+de Chronista do Reino a seu irmão, Duarte Galvão, pelos annos de 1460,
+ainda que sobre isto houve grandes resistencias por parte dos Priores
+Crasteiros de Santa Cruz, e durou a demanda por muito tempo.» Por ordem
+del-Rei D. Manoel começou, mas não proseguio, as Chronicas dos Reis,
+seus predecessores, para cujo trabalho, e para cousas outras de _mór
+importancia foi homem por sua doutrina assás desperto e mui
+sufficiente_, conforme o reputa Rui de Pina.
+
+_Vir non minus aetate, quam prudentia, ac rerum usu gravissimus_ he elle
+qualificado por Damião de Goes. _Raro em sciencia e valor_ o denomina
+João Pinto Ribeiro; _homem douto_, Duarte Nunes do Leão. Publicou-se
+modernamente:
+
+_Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso
+Henriques, primeiro Rey de Portugal, composta por Duarte Galvão, Fidalgo
+da Casa Real, e Chronista Mór do Reino. Fielmente copiada do seu
+original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. Offerecida
+á Magestade sempre Augusta del-Rey D. João V. nosso Senhor por Miguel
+Lopes Ferreyra. Lisboa Occidental, na Officina Ferreyriana M. DCC.
+XXVI._==fol.
+
+«Nesta Chronica, que Duarte Galvão _diz_, que fez de novo (são palavras
+de Damião de Goes) faltão muitas cousas, que não chegárão á sua
+noticia.» O Abbade Barboza traz o lugar citado, e com elle prova que
+Goes dissera, que Duarte Galvão a fizera de novo. Mas esta asserção,
+como se vê claramente, só pertence ao mesmo Galvão, a quem Goes a
+attribue. O qual porém nisto mesmo se enganou, visto que o referido
+Galvão no Prologo da sobredita Chronica, dirigido a el-Rei D. Manoel,
+assim lhe falla: «Pelo qual, Serenissimo Senhor, como quer que além da
+materia, me haja de ser trabalho e difficuldade ajuntar e supprir cousa
+de tantos tempos, desordenada e falecida, e para haver de _emendar
+escritos alhêos_, vejo que armo sobre mim juizos de muitos:» O que se
+ajusta melhor com o parecer de Barros, o qual escreve, que Duarte Galvão
+sómente lhe _apurára a lingoagem antiga em que estava escrita_.»
+
+«E quem quer que foi (prosegue o mesmo Barros) o compoedor della dará
+conta a Deos de macular a fama de tão illustres duas pessoas, como forão
+a Rainha Dona Tareja, e el-Rei D. Affonso Henriques, seu filho.» Acudio
+a isto com a merecida emenda o P. Fr. Antonio Brandão na terceira Parte
+da Monarchia Lusitana. André de Resende só diz que Duarte Galvão a
+escrevéra: porém Pedro de Mariz a declara expressamente recopilada de
+outra antiquissima por mandado del Rei D. Manoel. No mesmo engano de
+Goes, cahio depois Gaspar Estaço, dizendo assim:
+
+«Como escreve Duarte Galvão na Chronica del Rei D. Affonso Henriques,
+que elle compôz por mandado del Rei D. Manoel, a quem a dedicou: da qual
+elle não foi autor, senão apurador do antigo lingoage, em que andava,
+como diz João de Barros. Espantame dizer Duarte Galvão (no principio
+desta Chronica) que elle a fez de novo, porque o Chronista Fernão Lopes,
+Escrivão da Puridade, que foi do Infante Santo D. Fernando, e Guarda mór
+da Torre do Tombo fez todas as Chronicas dos Reis té seu tempo como
+prova Damião de Goes.» Rui de Pina, André de Resende, Duarte Nunes do
+Leão, e muitos outros de grande autoridade o dão por Autor da sobredita
+Chronica==.
+
+Nos manuscriptos da Bibliotheca Nacional de Lisboa encontro oito copias
+desta Chronica. A marcada B--12--8 tem no final a data 1568. Bello
+exemplar é a B--4--2 (n.^o 376), escripta no seculo XVI. Da mesma epoca
+a B--4--4 (n.^o 378). Ha tres copias do seculo XVII; uma destas foi
+doada pelo bispo de Beja, D. fr. Manoel do Cenaculo. Do seculo XVIII
+possue a Bibliotheca duas copias. A copia n.^o 841 offerece algumas
+notas e explicações do texto.
+
+Acho ainda um fragmento sob n.^o 8.169. Em todas estas copias acho os
+taes quatro capitulos riscados para a primeira edição. Parecem estes
+codices ter pertencido a particulares, não a institutos religiosos: não
+lhes vejo sellos ou ex-libris de conventos. A Chronica foi impressa em
+Lisboa em 1726, eliminados os celebres capitulos escandalosos.
+
+Antes d'isto a publicação da _Monarquia Lusitana_, pòde suppôr-se,
+tornára inutil a impressão ou publicação da chronica de Affonso
+Henriques por Duarte Galvão. Mas, talvez por causa dos taes capitulos
+continuaram a fazer-se copias; ainda, em pleno seculo XVIII, depois da
+impressão, se fizeram copias. Esta a razão de por todos os archivos se
+encontrarem copias manuscritas da chronica de Galvão.
+
+Os quatro capitulos foram publicados na Revista litteraria do Porto
+(1838, 2.^o vol. pag. 322). Ahi se fazem as observações seguintes.
+
+
+
+
+Quatro capitulos ineditos da Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte
+Galvão
+
+
+A Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, foi estampada pela
+1.^a vez, em Lisboa no anno de 1726.
+
+«O original desta Chronica» diz Barboza, em sua Bibliotheca Lusitana,
+«se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo, da qual extrahio uma
+_copia fiel_ Miguel Lopes Ferreira, e a publicou em nossos tempos».
+
+A simples inspecção da mesma Chronica impressa denuncia a incorreção da
+asserção de que a copia fiel gozou da luz publica.
+
+No «Prologo ao Leitor» falla Miguel Lopes Ferreira do modo
+seguinte:--«Nesta historia se acham alguns pontos encontrados com a
+verdade, o que de nenhum modo se deve attribuir á malicia do Autor,
+senão a que naquelle tempo devia de ser esta a tradicção, que havia
+entre nós, mal fundada no principio, e peor continuada na boca dos que a
+passavão a outros, em que, como é natural, cada dia se vai desfigurando
+e perdendo sua fórma verdadeira. Estes descuidos emendou doutissimamente
+o Dr. Fr. Antonio Brandão, na 3.^a Parte da Monarchia Luzitana, porque
+examinou a verdade no segredo dos Cartorios em que estava sepultada.
+
+Algumas pessoas me aconselhavão que lhe fizesse notas, porém segui o
+parecer de outros, que assentárão, que como esta Chronica se imprimio
+para os que sabem, (Curiosa razão! Sómente os sabios devião lêr a
+Chronica; e não haveria ignorante que se quizesse instruir!) elles não
+ignorão pela lição de Fr. Antonio Brandão o que é tradição errada. Sahe
+pois a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques da sorte que a escreveu
+Duarte Galvão.»
+
+Enganou-se Miguel Lopes Ferreira. Não foi tão brando em sua qualificação
+dos «pontos encontrados com a verdade,» o Censor Regio por cuja alçada
+teve a Chronica de passar, nem seguia elle systema de cura tão leniente
+e delicado. São suas palavras:
+
+«Vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão,
+e que quer mandar imprimir Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em
+fazer publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tempos ha que se
+conservão manuscriptas, e do outro não posso deixar de lhe não accusar a
+negligencia com que se houve na composição desta Chronica, porque parece
+que não fez exame algum para o que havia de escrever. Mas _como vejo
+riscado nella alguns capitulos_, e tudo vejo reformado pelo Dr. Fr.
+Antonio Brandão Chronista Mòr do Reino, no 3.^o Tomo da Monarchia
+Luzitana, bem se pode imprimir sem escrupulo»...
+
+A mutilação da Chronica foi portanto publicamente annunciada.
+
+Mas já não estava na mão de D. José Barbosa, ou de quem quer que foi que
+riscou esses capitulos, o privar a posteridade da gratificação de saber
+quaes esses effeitos da neglicencia e nenhum exame do Chronista, que
+El-Rei Dom Manoel encarregou de escrever a historia do Fundador da
+Monarchia Portugueza.
+
+Já em 1600 tinha Duarte Nunes de Leão impresso suas «Chronicas dos Reis
+de Portugal,» e na Vida e feitos de seu 1.^o Monarcha tinha elle
+dedicado um capitulo inteiro ao texto e á _refutação_ das fabulas da
+_Chronica velha_[1] de D. Affonso Henriques. Este texto encerra toda a
+substancia dos Capitulos que hoje publicamos em sua fórma original.
+
+Havia ainda outro autor em cujas obras (ineditas em 1726) tinha sido
+incorporada a materia dos Capitulos riscados. Fallamos de Christovão
+Rodrigues Acenheiro, que escreveo em 1535 um Summario das Chronicas dos
+Reis de Portugal, cuja publicação devemos á Academia Real das Sciencias
+de Lisboa. (Ineditos da Historia Portugueza, Tomo 5.^o--1824). Ahi
+encontramos esses impugnados feitos de D. Affonso Henriques, e
+encontramos de mais um juizo do Compilador sobre elles muito mais
+franco, muito mais claro, e muito menos mistico, do que aquelle que quiz
+idear Duarte Galvão. «Devem bem de notar os Reis e os Principes
+Christãos» diz Acenheiro, «estas façanhas do Cardeal e Bispo, e quanto
+devem pugnar pela honra de suas pessoas e Reino, quando com justiça e
+verdade o perseguem, como este Catholico Rei fazia e fez».
+
+Não é comtudo do nosso intento entrarmos na discussão da veracidade da
+narração do nosso Chronista, que muito longe nos levaria, e em empreza
+nos metteria para a qual não temos forças.
+
+Numerosas são as duvidas que obscurecem a historia dos começos da
+Monarquia. A illigitimidade do nascimento da Snr.^a D. Thereza, mãi de
+D. Affonso Henriques--seu casamento com D. Fernando Peres de Trava,
+Conde de Trastamara, que a seu proprio irmão D. Vermuim Peres, (com quem
+já era casada) a usurpou,[2]--suas desavenças com seu filho e guerras
+que contra elle suscitou,--a jornada que por causa do exito de uma
+destas D. Egas Moniz emprehendeu a Castella;--a prisão a que D. Affonso
+Henriques condemnou sua mãi e desavenças que por este respeito teve com
+o Papa:--todos estes são pontos que tão tenazmente se tem affirmado,
+como fortemente combatido.
+
+Todavia a um e outro ponto já a bem instituida critica tem feito devida
+justiça; e a illigitimidade do nascimento e segundo casamento de D.
+Thereza (pelas doutas Dissertações de Antonio Pereira de Figueiredo, no
+Tomo 9.^o das Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa--1825),
+assim como a jornada d'Egas Moniz (pela descripção de seu tumulo, como
+ainda hoje se vê em Paço de Souza, o que tambem devemos á mesma
+Academia) são pontos já reconhecidos como demonstrados. Mas tanto
+nestes, como nos assumptos que fazem o immediato objecto dos capitulos
+que ajuntamos, ha lugar para contestação, na qual não quizeramos aqui
+entrar: por não termos outros fins em vista além da integração do texto
+d'um dos nossos antigos Chronistas.
+
+Não podemos comtudo deixar de apontar a infelicidade de Duarte Nunes de
+Leão na formula de seus argumentos. De todos os factos contenciosos que
+temos indicado fórma elle uma cadêa, cuja mutua e necessaria dependencia
+julga intuitiva, e contentando-se com expor a falsidade das allegações
+d'um só facto, pertende d'ahi inferir a falsidade de todos; e deste modo
+d'argumentar conclue que a Snr.^a D. Thereza nunca fôra 2.^a vêz casada,
+nunca teve desavenças com seu filho, nunca suscitou o Rei de Castella
+contra elle, e que nem Egas Moniz fôra offerecer-se a este com a corda
+ao pescoço, nem D. Affonso Henriques prendêra sua mãi, nem o Papa tivera
+motivo algum para enviar um legado a Portugal. Mal estava Duarte Nunes
+se voltassemos o argumento contra si mesmo, e pela indubitabilidade do
+offerecido sacrificio do Ayo de nosso 1.^o Rei, corroborassemos a
+verdade de toda a narrativa de Galvão.
+
+Fraco arguente era o Licenciado. O alto nascimento e as nobilissimas
+allianças de sangue da Snr.^a D. Thereza erão para elle effectiva
+salva-guarda em abono da virtude da mesma Senhora; e comtudo, nessa
+mesma pagina, não acha elle absurdo em traspassar todo esse montão
+d'infamias á propria _irmã_ dessa mesma princêza, com quem igualava em
+nobreza!
+
+Algumas das suas razões não deixão de ter seu xiste. «O dito Snr. D.
+Affonso» (o 6.^o de Castella) «como Catholico Rei que era, quando lhe
+morria uma mulher, casava logo com outra»! E daqui funda elle motivo
+para se crer que D. Ximena Nunes de Gusmão (mãi de D. Thereza) fôra sua
+legitima esposa, que não concubina. Quanto ás circunstancias que
+poderião afiançar alguma exactidão em Duarte Galvão, contentar-nos-hemos
+com dizer que foi filho de um secretario de D. João 1.^o e de D. Affonso
+V, e irmão d'um Bispo de Coimbra, e Escrivão da paridade do ultimo
+citado monarcha. Elle mesmo foi Secretario de D. João 2.^o, e alem de
+Chronista-mor, foi encarregado de varias missões importantes. Temos
+portanto que nem relações nem occasião pessoal lhe faltárão para
+certificar-se do que era verdade.
+
+Sobre o Bispo _negro_ não deixa de parecer especiosa a explicação que
+offerece Fr. Joaquim de Santa Roza de Viterbo em seu Elucidario:--
+
+«Muitos monges forão tirados dos Mosteiros para encherem o lugar de
+Bispos: e como não depunhão o Habito Monachal, que era Preto, o Clero se
+compunha á imitação do seu Prelado. Deste tempo ficou na Sé de Coimbra a
+mal tramada Fabula do _Bispo Negro_. Este foi D. Bernardo, Francez de
+Nação, Monge de S. Bento, e Arcediago de Braga, feito por S. Giraldo, de
+quem escreveo elegantemente a vida. O Principe D. Affonso Henriques (a
+despeito de sua mãi, a Rainha D. Thereza, e todo o Clero e povo de
+Coimbra, que postulavão para Bispo daquella Sé o Arcediago da mesma _D.
+Tello_) o nomeou Bispo de Coimbra no anno de 1128. E como este monge
+nunca depôz o habito dos _Negros_ como então chamavão aos que
+professavão a Religião de S. Bento, e os Conegos da Sé de Coimbra
+vestião branco, em razão das grandes sobrepelizes que então uzavão; os
+mal affectos dizião que tinhão naquella Sé um _Bispo Negro_, para não
+dizerem com maior indecencia, e atrevimento, um Negro Bispo».
+
+Elucidario, Tomo 1.^o pagina 285.
+
+Mas esta explicação, recebida com cautella em quanto aos factos
+allegados, não deve ter-se senão em conta de conjectura.
+
+A copia dos Quatro Capitulos que aqui offerecemos ao publico foi tirada
+sobre um nitidissimo exemplar manuscripto em pergaminho da Chronica de
+Duarte Galvão que vimos em Santa Cruz de Coimbra, e que deve hoje
+existir na Bibliotheca Publica Portuense. Este exemplar era coetaneo dos
+tempos do Chronista-mor, e na encadernação e riqueza das iniciaes
+illuminadas, inculcava ter pertencido a pessoa ou repartição Real; e
+coincide, na discripção que fez Pedro de Mariz no Prologo á sua
+intentada edição da Chronica de D. Affonso 4.^o por Rui de Pina com os
+Codices que se guardavão na Torra do Tombo.
+
+A copia é verbal, mas não julgamos conveniente conservar a orthographia
+daquelles tempos.
+
+Acautelamos os menos versados contra muita copia espuria da Chronica de
+D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, que se encontra nas Bibliothecas
+Manuscriptas. A maior parte são compilações.
+
+Igual advertencia fazemos em quanto ás copias que por ahi andão (e
+algumas de pessoas doutas) destes mesmos Capitulos==.
+
+Na presente edição os quatro capitulos entram na sua competente altura.
+
+_G. Pereira._
+
+
+
+
+CHRONICA DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE D. AFFONSO
+HENRIQUES PRIMEIRO REY DE PORTUGAL,
+
+COMPOSTA POR DUARTE GALVAÕ,
+
+Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mor do Reyno. Fielmente Copiada do Seu
+Original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.
+
+OFFERECIDA
+
+Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI D. JOAÕ V. NOSSO SENHOR
+
+POR MIGUEL LOPES FERREYRA
+
+LISBOA OCCIDENTAL, Na Officina FERREYRIANA.
+
+M. DCC. XXVI.
+
+_Com todas as licenças necessarias_.
+
+
+
+
+SENHOR
+
+
+Prostrado aos Reais pés de V. Magestade, lhe offereço a Chronica do
+Fundador da sua gloriosa Monarchia o Santo Rei D. Affonso Henriques
+decimo quinto Avô de V. Magestade, que ha mais de dous seculos escreveo
+Duarte Galvão, tão estimado dos Senhores Reis de Portugal, como dizem os
+grandes lugares, em que o occuparam, especialmente o Senhor Rei D.
+Manoel quinto Avô de V. Magestade, em cujo Reinado se vio com maior
+admiração a grande capacidade deste Chronista. Aceite V. Magestade com a
+sua Real, e costumada benignidade este meu pequeno obsequio, para que
+desta sórte animado possa continuar com a impressão das outras Chronicas
+dos Serenissimos Predecessores de V. Magestade. Deos guarde a V.
+Magestade muitos annos como desejamos, e havemos de mister.
+
+_Miguel Lopes Ferreira._
+
+
+
+
+AO EXCELLENTISSIMO SENHOR
+
+*FERNÃO TELLES DA SILVA*
+
+Marquez de Alegrete, dos conselhos de Estado, e guerra del-Rei Nosso
+Senhor, Gentil-homem de sua Camara, Vêdor de sua fazenda, Embaixador
+extraordinario á Corte de Vienna, ao Serenissimo Emperador Joseph, e
+Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, Academico,
+e Censor da Academia Real da Historia Portuguesa, &c.
+
+
+Depois de ter resoluto dedicar esta Chronica del-Rei D. Affonso
+Henriques a El-Rei Nosso Senhor, não podia ter duvida em que fosse Vossa
+Excellencia quem lha offerecesse em meu nome. Se para se consultarem os
+Oraculos, se procuravam aquellas pessoas, que eram dedicadas aos Templos
+em que elles respondiam, justamente dezejo a protecção de Vossa
+Excellencia para um Oraculo tão Soberano, que o merece ser de todo o
+mundo. A proporção é o que mais se deve de procurar, e sendo assim, não
+póde Vossa Excellencia accuzar a confiança, com que lhe peço, offereça
+este livro a S. Magestade que Deos guarde, pois é para este fim um meio
+tão proporcionado, que o mesmo Principe elegeo a Vossa Excellencia para
+lhe assistir com a pessoa no seu Palacio, e com as prudentes
+experiencias do seu grande entendimento aos negocios mais importantes de
+toda a Monarchia. Deos guarde a Vossa Excellencia muitos annos como
+desejo.
+
+Criado de Vossa Excellencia
+
+_Miguel Lopes Ferreira_
+
+
+
+
+MIGUEL LOPES FERREIRA
+
+AO LEITOR
+
+
+Pela Chronica do primeiro Rei de Portugal começo a satisfazer a promessa
+de dar ao prelo todas as Chronicas dos nossos Reis, que até agora se
+conservavam manuscritas. Esta do fundador glorioso do Imperio Portuguez
+tem mais de dous seculos de antiguidade, porque seu Author Duarte Galvão
+falleceu na Ilha de Camarão a 9 de Junho do anno de mil e quinhentos e
+dezasete. A authoridade de quem a escreveu não é menor, porque o Pai
+deste Chronista foi Ruy Galvão, Secretario, e Escrivão da Puridade de
+El-Rei D. Affonso V. de Portugal, lugares tão grandes, e tão immediatos
+á Magestade, que suppõem illustre a quem os exercita. Duarte Galvão seu
+filho foi do Conselho dos Reis D. João o II e D. Manoel, Chronista Mór
+do Reino, Alcaide Mór de Leiria, doutissimo nas Letras humanas, e
+Embaixador a França, e Alemanha, e ultimamente ao Preste João, levando
+em sua companhia ao Embaixador Matheus, que da Corte do Abexim tinha
+passado á de Portugal, vencidas, e compostas as injustissimas duvidas da
+sua verdade. O irmão deste Chronista foi D. João Galvão, que depois dos
+maiores lugares da Congregação de Santa Cruz de Coimbra, sendo Bispo da
+mesma Cidade, lhe fez mercê El-Rei D. Affonso V do Titulo de Conde de
+Arganil, que até agora se conserva nos seus Successores, e desta Mitra
+passou para a de Braga. Nesta Historia se acham alguns pontos
+encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve de attribuir a
+malicia do Author senão a que naquelle tempo devia de ser esta a
+tradição, que havia entre nós mal fundada no principio, e peior
+continuada na boca dos que a passavam a outros, em que como é natural,
+cada dia se vai desfigurando, e perdendo a sua fórma verdadeira. Estes
+descuidos emendou doutissimamente o Doutor Fr. Antonio Brandão na
+Terceira Parte da Monarchia Lusitana, porque examinou a verdade no
+segredo dos Cartorios, em que estava sepultada. Algumas pessoas me
+aconselhavam, que lhe fizesse notas, porém segui o parecer de outras,
+que assentáram, que como esta Chronica se imprimia para os que sabem,
+elles não ignoram pela lição de Fr. Antonio Brandão, o que é tradição
+errada. Sahe pois a Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques da sórte que
+a escreveu Duarte Galvão, e lhe fiz o beneficio de lhe ordenar um Index
+para utilidade de todos. Agradeça o leitor o meu cuidado, que brevemente
+lhe darei impressas todas as mais Chronicas manuscritas dos nossos Reis,
+e entre ellas a de El-Rei D. João o II que escreveu Ruy de Pina, tão
+rara como desejada.
+
+_Vale._
+
+
+
+
+PROLOGO
+
+DO AUTHOR
+
+Dirigido ao Serenissimo, e Muito Poderoso Principe El-Rei D. Manoel
+nosso Senhor, sobre as vidas, e excellentes feitos dos Reis de Portugal,
+seus Antecessores, ordenados, e escritos por seu mandado, por Duarte
+Galvão Fidalgo da sua Casa, e do seu Conselho, no qual falla do grande
+louvor destos mesmos Reis de Portugal.
+
+
+Muito devem, Serenissimo Senhor, trabalhar os homens, por em sua vida
+obrarem virtudes, para que mereçam a Deos no outro mundo, e neste leixem
+de seu tempo memoria, não sómente, que viveram o que as animalias tem
+por igual comnosco; mas que bem, e louvadamente passaram sua vida, que é
+proprio do homem, o qual tendo a vida, em dias breve, com a virtude que
+obra, a faz longa, e durar mais des que morre, vivendo depois de morto
+no outro mundo, por gloria, e neste por exemplo assi, que para nós
+necessario nos é nossa virtuosa vida, e para os outros nossa virtuosa
+fama; esto como quer que convem a todos, muito mais cabe em os
+Principes, e Reis faze-lo, cuja maior excellencia de seu nome traz logo
+maior obrigação de seu carrego, que é serem Reis postos por Deos, para
+regedores principaes na terra sobre os outros homens para execução, e
+exemplo de toda perfeita virtude, mas pois que toda desposição para
+obrar virtudes por muito que naça com a pessoa não póde ser comprida,
+nem haver perfeição senão por ajuda, e graça Divinal. Grandes e
+perpetuos louvores devem ser dados a nosso Senhor, por todos os naturaes
+do Reino de Portugal, por tanto participar de sua graça, com os Reis
+vossos Antecessores, e com vossa Real pessoa, com tão clara mostrança de
+os querer honrar, e escolher para seu santo serviço, exalçamento da sua
+Santa Fé, de maneira, que para se mais mostrar que vinha delle, e por
+elle, segundo em seus grandes mysterios sempre neste mundo, até em si
+mesmo escolheo o menos, para fazer, ou desfazer o mais, e o baixo para
+se fazer conhecer por mais alto, lhe aprouve dar graça, e poder a vossos
+Antecessores por onde no Reino, e senhorio menos de outros que vemos na
+Christandade, alcançáram por suas louvadas famas, e obras, em todo o
+genero de louvor, e virtudes grande, e assinado merecimento para o outro
+mundo, e neste muita honra, fama, e proveito, para sua Real Coroa, e de
+seus Reinos, e esto então poucas idades, que se as contarmos parece mui
+pouco tempo, e segundo a grandeza de suas obras julgar-se-ha por
+infindo, querendo nosso Senhor que assi como no desejo, e fervor de
+serviço em especial de punhar pela Fé vossos Antecessores fossem sempre
+mui singulares, assi fosse singular antre os outros Principes nesta
+parte, e em outra seu louvor, remunerando-lhes nosso Senhor nisso seus
+grandes merecimentos como hoje em dia faz a vossa Real Alteza, segundo
+se grandemente manifesta no grande louvor, e não menos mysterio de
+vossas mui louvadas, e excellentes obras, as quais bem condradas
+concludem, e claramente mostram não menos, que vosso Divino nome ser
+Deos comnosco, e com o bem destes Reinos mais que de antes, dando-vos
+nellos para o diante como fruito mostrado, e prometido, no grande
+emflorecer de vossos Antecessores, escuza-me, Senhor, de ser, nem
+parecer adulação o que digo.
+
+Primeiramente vossa successão nestos Reinos por nosso Senhor tão
+claramente querida, e ordenada levando para si tantos, que vos nella
+precediam, segundo seus ocultos Juizos, porém sempre justos, e escuza-me
+o grande fervor, que logo poz em vosso virtuoso coração para seu
+serviço, em tirar Judeus, e Mouros destos Reinos por tal, que lançado
+fóra todo Judaico, e Mosometico culto, ficasse só o verdadeiro de sua
+Christã Religião, e escuza-me esso mesmo vossa perseverante devação, e
+cuidado, em proseguir, e obrar por mar, e terra, guerra contra Mouros,
+em as partes Dafrica, do que não satisfeito vosso manhanimo coração, e
+desejo, que sempre ha por menos o muito de tão santas emprezas, não
+leixou de mandar a Levante por mar Armada de mui nobre gente, maior do
+que des memoria de homens, sem Rei saio destes Reinos em soccorro da
+Christandade contra os Turcos, e por Capitão della D. João de Menezes
+Conde de Tarouca vosso Mordomo Mor, e Capitão da Cidade de Tanger, mui
+dino de semelhantes, e maiores encargos por sua singular cavalaria, e
+prudencia. Escuzo-me finalmente antes, e depois desto, a grande
+maravilha, e mysterio, do achamento, ou mais com verdade conquista das
+Indias; nunca esperado, nem cuidado pelas gentes, até que se vio feito
+por vosso mandado, e posto por obra, e assi descobrimento de minas,
+terras outras, mares, climas, polos, e gentes inconhitas, nunca de antes
+sabidas, nem de nós conversadas, o que nem aquelle grão Rei Alexandre
+Conquistador do mundo, nem Carthaginenses Senhores Dafrica, e grande
+parte Deuropa, nem Romãos, que todos os outros passaram em senhorio,
+poderam alcançar trabalhando-se desso, como se lê, nem esso mesmo fazer
+vossos Antecessores em sessenta annos com muitas mortes de gentes,
+grandes despezas, e continuadas diligencias, o que se fez, e comprio nos
+primeiros dous, e tres annos de vosso Reinado trigando-se (segundo
+parece) a Divina Clemencia a manifestar este grande mysterio, por elle
+em vosso tempo predestinado, pelo qual quiz que em tão breve espaço se
+fizesse de uma só viagem, e por os primeiros, que a esto mandastes,
+outro tanto caminho, para achar a India, como em sessenta annos estava
+feito, no que, Senhor, grandemente servistes a Deos, ganhaste perpetua
+honra, nobrecestes vosso Reino, obrigastes o mundo, fazendo que em muita
+parte não sabida, o mundo soubesse parte de si mesmo, e por conseguinte
+de seu Creador, e Redemptor, o qual por sua infinda piedade, e amor que
+sempre mostrou ao bem, e honra destos Reinos, ordenou, que por vossas
+mãos se supprisse pelo mundo outra quasi segunda Prégação dos Apostolos,
+para notificação de nossa Fé, renovada ás gentes, que apoz seus peccados
+depois de recebida perderam, e necessaria para outra, que a nunca
+houveram, e de necessidade hão de haver, segundo affirma Santo
+Agostinho, que em tempo dos Apostolos não foi prégada a Fé de Christo
+por todo o mundo, nem até seu tempo, quatro centos annos despois, dando
+logo em prova desso muitas gentes em Africa donde elle era, como pelos
+Cativos, que se de lá traziam era manifesto, e que em todo caso a dita
+universal manifestação havia de ser, para se comprir, o que nosso Senhor
+disse, que seu Evangelho havia de ser notificado por o mundo universo
+ante do fim, em testemunho a todalas gentes, segundo se ora assás
+confirma por vossa navegação e conquista o qual mysterio traz consigo
+grande mostra, e pronostico de ser, não sómente para convertimento de
+muitos infieis, mas ainda para desfazimento, e destruimento da
+Mahometica secta consirado bem, Deos seja louvado, os começos, e
+proseguimentos de seus maravilhosos effectos.
+
+Muitos outros louvores, Serenissimo Rei, apontaria de vossas mui
+singulares obras, e virtudes mui compridas, se tão facil me fosse
+poder-lhe dar cabo, quão facil me é achar-lhe começo, e se a elle não
+aprouvera faze-los mais sobidos, e manifestos por vossas obras, do que
+poderiam ser por minhas palavras, mas hi ficará tempo, e lugar para com
+sua graça se poderem dizer em vossa Chronica mais compridamente, com
+todo, Senhor, é-me forçado dizer ainda de vossas virtuosas obras uma
+necessaria á presente materia, a qual é, mandar-me V.A. mui
+afficadamente, que os notaveis feitos dos mui esclarecidos Reis vossos
+Antecessores, escritos, e postos por negligencia de Escritores, ou culpa
+dos tempos, não só em menos polida, mas ainda em desordenada, e acerca
+não achada memoria, os quizesse ordenar, e escrever, e quasi trespassar,
+e a mais honrados Jazigos, e sepulturas, como é meu desejo para vosso
+serviço, e na confiança que me nesso V. A. mostra muito para folgar, mas
+para nella presumir sufficiencia não mais de atrever, que quanto está
+conhecido, que tão grandes, e verdadeiros louvores participados de tanta
+graça Divinal, não pode nhum humano falecimento apouquenta-los, nem
+faze-los menos da verdade toda humana eloquencia, sem receo de nhum
+prasmo deve de folgar achar-se vencida de tão excellente materia, cujo
+mui estimado pezo mais é de culpar quem não queira, que quem não possa
+leva-lo; porque ainda não leixará de precalçar muito louvor, e
+contentamento quem de tão nobres, e louvados feitos fizer lembrança, que
+foram, posto que não abaste dinamente faze-la de quão louvados foram,
+pois a grandeza de seu louvor por elles mesmos milhor se póde estimar,
+que dizer. Escuzo aqui poder pela ventura parecer este carrego, e
+serviço menos da maneira, e estimação de meus serviços; porque certo
+amor, e vontade, sobeja não acha serviço minguado, nem devem de mais
+para os Principes, cujas causas por grandes que sejam, não devem tolher
+atrevimento, maiormente quando por algumas rezões necessarias a seu mais
+serviço se mandam, a quem sem ellas poderiam ser escusado mandar-se,
+assi que, Senhor, esto que me V.A. manda fazer se deve a meu juizo antre
+outras vossas louvadas obras muito estimar, e haver por outro quasi novo
+descobrimento, e renovação de cousa ácerca perdida, que tanto devia
+estar sã, e alumeada como cousa principal do mui devulgado bem, e honra
+que vossos Reinos tem, e logram, no que não menos, que em todas outras
+cousas esclarece vosso grande louvor, porque bem se mostra povoado de
+muitas virtudes, e não invejar as alheias, quem as dos outros muito ama,
+e assi as manda renovar, e apregoar, pelo qual, Serenissimo Senhor, como
+quer-que álem da grandeza da materia, me haja de ser trabalho, e
+difficuldade ajuntar, e supprir cousa de tantos tempos, desordenada, e
+falecida, e para haver de emendar escritos alheios, vejo que armo sobre
+mim juizos de muitos; porém pois V.A. o ha tanto por bem, e serviço seu,
+e de seus Antecessores, mui de vontade me puz a faze-lo, sendo certo,
+que haverei ante elle grado se não de sufficiencia, ao menos de
+obediencia, pois por comprir seu mandado, no que muito me não atrevo
+fazer, me não pude, nem soube negar.
+
+
+
+
+LICENÇAS
+
+DO SANTO OFFICIO
+
+
+Vistas as informações, pode-se imprimir (menos o riscado) a Chronica do
+Senhor Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e depois de
+impressa tornará para se conferir, e dar licença para correr, sem a qual
+não correrá. Lisboa Occidental, 23 de Julho de 1726.
+
+_Rocha.--Fr. R. de Allencastre.--Cunha.--Teixeira.--Silva.--Cabedo._
+
+
+DO ORDINARIO
+
+
+_Approvação do Reverendissimo P. Mestre Fr. Joseph de Sousa, Religioso
+da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, Lente jubillado na Sagrada
+Theologia, Qualificador do Santo Officio, Prior que foi do Real Convento
+do Carmo de Lisboa Occidental, Vigario Provincial Apostolico, que foi da
+dita Provincia, Provincial, Commissario, Visitador Geral que foi da
+mesma Ordem nestes Reinos, &c_.
+
+
+Illustrissimo e Reverendissimo Senhor
+
+
+Li a Chronica do Invictissimo Monarca o Serenissimo Senhor D. Affonso
+Henriques, de santa e eterna memoria, famoso conquistador, e primeiro
+Rei de Portugal, a qual quer dar á estampa Miguel Lopes Ferreira,
+dignissimo do titulo de Vivicador das glorias de Portugal, pois que
+zeloso da fama Regia, por meio do Prelo intenta resuscitar as memorias
+daquelle seculo dourado, em que Portugal no berço da sua infancia, com
+maior fortuna, que a do valeroso Alcides no da sua meninisse, soube
+despedaçar innumeraveis Hydras Africanas, que em varios recontros,
+capitaneados por dezoito Reis, e um Emperador de Marrocos Almiramolim,
+em formidolosos exercitos intentaram cortar os venturosas progressos,
+com que ia sacudindo o forte jugo do perfido Mauritano. Mas a pezar
+sentidissimo de Mafoma, em tão perfiados recontros, e em tão sentidas
+batalhas, havendo em algumas quasi cem Mouros contra cada um só
+Portuguez, ficaram sempre os Mouros inteiramente destroçados, os seus
+Reis vergonhosamente vencidos, e só Portugal gloriosamente triumfante, e
+senhor pacifico não só das terras, que pela repartição dos Estados
+tocavam á sua Monarchia, mas de muitas, que pertenciam á de Hespanha,
+porque de umas, e outras, á força de forte braço, e duro ferro fez
+largar a iniqua, e injusta posse, que havia muitos seculos, desde a
+sempre lacrimosa perda de Hespanha, logravam os Agarenos: protegido
+sempre daquelle destemido Capitão, e valerosissimo Heroe D. Affonso
+Henriques, que efficazmente soccorrido da mão Omnipotente do Senhor dos
+exercitos, na miraculosa apparição do Campo de Ourique quando batalhou
+com cinco Reis Africanos, ficou seu valente braço revestido de uma
+fortaleza tão desmedidamente grande, que já vibrando a lança, nunca
+tirou bote, que não fosse inexoravel desizivo da morte, já empunhando a
+espada não descarregou golpe, que não fosse infeliz Parca da vida. E
+sendo tal o esforço de seu braço, que o manejo das Armas, não era menos
+o valor do seu coração para o exercicio das virtudes: porque foi
+constantissimo no da Justiça administrando-a, e fazendo-a guardar
+rigorosamente aos seus povos, sem que o continuo exercicio de Marte lhe
+embaraçasse as execuções de Nemesis, mas antes, que com a espada sempre
+empunhada representava um vivo simulacro da Justiça. No da Humildade foi
+singular, porque sem respeito aos sacros decoros da Magestade, familiar,
+e urbanissimamente com palavras, e obras, como a companheiros e amigos a
+todos os seus vassallos, tratava carinhoso, e careciava benigno. No da
+Liberalidade foi magnifico, porque quando nas campanhas, os ricos
+despojas das batalhas, (e não foram poucos) primeiro os enfardelavam os
+soldados, do que elle se redimisse com parte das coroas dos triunfos,
+porque até destes repartia seu nobre coração com os que o ajudavam a
+vencer; e quando na Corte, dos seus Erarios eram chaves mestras os
+merecimentos de seus vassallos. No da Misericordia foi insigne, porque
+não cabendo já nos limites de seu estado, lá se dilatou para o Hospital
+de Jerusalem com oitenta mil dinheiros de ouro (que nem tudo lhe
+consumiam as guerras consumindo-lhe as guerras muito) para emprego de
+que annual, e perpetuamente rendessem para sustento dos pobres, que
+nelle se alvergassem. No da Piedade foi magnanimo, como testemunham
+entre muitas Igrejas que fundou os Reais Mosteiros de S. Vicente de Fóra
+em Lisboa, o de Santa Cruz em Coimbra, e o de Alcobaça, aos quaes dotou
+de amplos Senhorios, e copiosissimos patrimonios. No da Religião, todo
+este livro é breve compendio dos vastos dominios que conquistou para as
+cearas da Igreja; instituindo de muitos delles o nobilissimo Bispado de
+Coimbra, e o Illustrissimo de Lisboa, que offereceu ao Romano Pontifice
+adiantando-se este tanto nos seus augmentos que não cabendo na esfera de
+sua propria grandeza se multiplicou em duas Sagradas Sedes, nas quaes,
+uma conservando o titulo de Archiepiscopal, que já tinha, se separou com
+a differença de Oriental por respeito do sitio que tem na Corte, e a
+outra com o distintivo de Occidental que é o sitio deste Reino a
+respeito do Mundo, se exalta com o especioso titulo de Patriarcal sendo
+a primeira que o logra em todo elle. Por ventura que tanta gloria lá
+tenha o seu proporcionado auspicio, no seu glorioso fundador, que tambem
+foi o primeiro em Portugal; mas sem questão, deve o seo glorioso
+augmento á Serenissima, Augustissima, Felicissima, e sempre Magnifica
+Magestade do Senhor Rei D. João o V no nome que somando na linha de
+todas suas acções sempre em tudo heroicas, em tudo excellentes, e
+magnanimas em tudo, o numero admiravel de todas as de seus
+gloriosissimos Progenitores se dignou illustra-las com a Real
+preheminencia de engrandecer a sua Corte com uma Santa Sé Patriarcal,
+realçando seus lustres com o feliz, e premeditado acerto de instituir
+por seu primeiro Patriarca ao Meritissimo, Illustrissimo, e
+Reverendissimo Senhor D. Thomás de Almeida da Nobilissima Casa de
+Avintes, Bispo que foi de Lamego, e Porto; e para que finalmente na sua
+Corte pela destas Igrejas Occidental, e Oriental constasse notoriamente
+o ardentissimo desejo, que rezide no seu religioso coração de que o nome
+da Divina Magestade, o Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores seja sempre
+louvado desde o Oriente onde o Sol nasce, té o Occaso onde fenece: «A
+Solis ortu usque ad Occasum laudabile nomen Domine».
+
+Tão gloriosos progressos, tiveram o seu feliz principio nas acções do
+Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, que esta Chronica descreve, e é
+mais que justo, saiam a luz do mundo, que pertende dar-lhe este
+Restaurador das primitivas, e estupendas memorias de Portugal, para que
+por benificio da estampa resuscite no mundo um vivo modelo da Magestade,
+um elegante exemplo do valor, e um famoso trofeo da admiração. Este o
+meu parecer salv. semp. mel. Carmo de Lisboa Occidental 1 de Agosto de
+1726.
+
+_Fr. José de Sousa_.
+
+
+Vista a informação, póde-se imprimir a Chronica de que se trata, e
+depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
+sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 3 de Agosto de 1726.
+
+_D. F. Arcebispo de Lacedemonia_.
+
+
+DO PAÇO
+
+
+_Approvação do Reverendissimo P. Mestre D. José Barbosa, Clerigo Regular
+da Divina Providencia, Chronista da Serenissima Casa de Bragança, e
+Academico do Numero da Real Academia da Historia Portugueza, &c_.
+
+
+SENHOR
+
+
+Por Ordem de V. Magestade vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques,
+que compoz Duarte Galvão, e que quer mandar imprimir Miguel Lopes
+Ferreira. De um louvo o zelo em fazer publicar as Chronicas dos nossos
+Reis, que tantos tempos ha que se conservam manuscritas, e do outro não
+posso deixar de lhe não occultar a negligencia com que se houve na
+composição desta Chronica, porque parece que não fez exame algum para o
+que havia de escrever. Mas como vejo riscados nella alguns Capitulos, e
+tudo vejo reformado pelo Doutor Frei Antonio Brandão Chronista mór deste
+Reino no 3.^o tomo da Monarchia Lusitana, bem se póde imprimir sem
+escrupulo. Vossa Magestade ordenará o que fôr servido. Nesta Casa de N.
+Senhora da Divina Providencia 12 de Agosto de 1726.
+
+_D. Jose Barbosa C.R._
+
+
+Que se possa imprimir vistas as licenças do S Officio, e Ordinario, e
+despois de impresso tornará á Mesa para se conferir, e taxar, que sem
+isso não correrá. Lisboa Occidental, 22 de Agosto de 1726.
+
+_Pereira.--Galvão.--Teixeira.--Bonicho._
+
+
+
+
+_Chronica do muito alto, e esclarecido princepe D. Affonso Anriques,
+primeiro Rei de Portugal_
+
+
+
+
+CAPITULO I
+
+_Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha
+Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por
+Condado com certas condições_.
+
+
+Começando de escrever das vidas, e mui excellentes feitos dinos de
+eterna memoria, dos mui esclarecidos Reis de Portugal, encomendo-me
+áquelle guiador de seus nobres, e virtuosos corações Espirito Santo, que
+assi participou com elles de sua infinda graça para as obras, me queira
+dar alguma para os escrever, e assentar em devida lembrança, por tal que
+não pareçam falecidas minhas palavras na grande excellencia de tão
+louvadas obras, de cujo louvor a primeira prova, e testemunho será o meu
+esforçado, e manifico Rei D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal,
+fundamento logo proprio, e necessario, por Deos ordenado para tão alto
+cume da gloria destes Reinos, como nelle edeficou, segundo que seu
+immenso louvor não menos se verá ao diante acrescentado, e conformado
+pelos Reis seus successores, os quaes, contando deste primeiro Rei, são
+por todos quatorze com o Serenissimo de todo louvor illustrado El-Rei D.
+Manuel N. Senhor, o qual vai em dez annos que ao presente Reina, anno do
+Senhor de mil e quinhentos e cinco.[3] Mas porque melhor se saiba o
+procedimento deste mui virtuoso Rei D. Affonso Anriques, é forçado
+recorrer algum tanto pelas Chronicas atraz, a El-Rei D. Affonso de
+Castella o Sexto, chamado Emperador, que tomou Toledo aos Mouros, dino
+de muito louvor em todo principalmente em guerrear os imigos da nossa
+Santa Fé Catholica, de que então a Espanha estava occupada, a cuja mui
+devulgada fama, movidos com mui devota cavalaria, grandes Senhores, e
+outras gentes Estrangeiras vinham busca-lo, para em sua companhia, por
+ser serviço de Deos, e salvação de suas almas, participarem de suas
+santas empresas, e trabalhos, antre os quaes vieram trez mui principaes
+senhores, a saber, o Conde D. Reymão de Tolosa, grande senhor em França,
+e o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença, e D. Anrique sobrinho deste
+Conde de Tolosa, filho segundo genito de uma sua irmã, e Del Rei
+Dungria, com quem era cazada, os quaes trez foram mui honradamente por
+El-Rei D. Affonso recebidos.
+
+Era este Conde D. Anrique mui discreto, e esforçado Cavaleiro, e não
+menos de todas outras bondades comprindo, trazia em seu Escudo de Armas
+campo branco sem outro nhum sinal, e andando sempre dedepois, na guerra
+dos Mouros com El-Rei D. Affonso, fez muitas, e assinadas cavalarias,
+por onde Del-Rei, e de todos os da terra era mui estimado, e querido, e
+assi o Conde de Tolosa seu tio, e o Conde de S. Gil de Proença, e tendo
+El-Rei assi delles contentamento querendo honra-los, e remunerar seus
+nobres feitos e trabalhos, que em sua companhia passaram na guerra
+contra os infieis, determinou de cazar trez filhas suas com elles, uma
+chamada Dona Urraca, cazou com o Conde D. Reimão de Tolosa, de que
+depois naceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado tambem Emperador,
+donde decendem tambem todos os Reis de Castella; outra Dona Elvira,
+cazou com o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença; outra chamada D.
+Tareja deu por molher a D. Anrique sobrinho do Conde de Tolosa,
+dando-lhe com ella em cazamento Coimbra, com toda a terra até o Castello
+de Lobeira, que é uma legua além de ponte Vedra, em Caliza, e com toda a
+terra de Vizeu, e Lamego, que seu pai El-Rei D. Fernando, e elle
+ganharam nas Comarcas da Beira. De todo o que lhe assi deu, fez Condado
+chamado o Condado de Portugal, com tal condição, que o Conde D. Anrique
+o servisse, e fosse ás suas Cortes, e chamados, e sendo caso que fosse
+doente, ou tivesse legitimo impedimento a não poder lá ir, lhe mandasse
+um dos mais principaes de sua terra a seu serviço com trezentos de
+cavalo, não havendo naquelle tempo mais naquella terra de Portugal. E
+ainda lhe assinou mais terra da que os Mouros possoiam, que a
+conquistasse, e tomando-a, a crescentasse em seu Condado, o que elle, e
+seus successores com muito esforço, e valentia por muito arriscados
+perigos e trabalhos depois fizeram, como ao diante se verá, e que não
+querendo o Conde D. Anrique cumprir assi esto, qualquer que fosse Rei de
+Castella pudesse tomar a terra ao dito Conde, e mais toda a outra que o
+dito Conde, e seus successores ganhassem, e fazer della o que lhe
+aprouvesse, como de cousa sua propria.
+
+
+
+
+CAPITULO II
+
+_Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e
+donde se chamou Portugal_.
+
+
+Deste Conde D. Anrique, e Dona Tareja sua molher descendem todolos Reis
+de Portugal, que até agora foram, e a causa porque a terra se chamou
+Portugal, foi que antigamente sobre o Douro foi povoado o Castello de
+Gaya, e por aportarem ahi mercadores, e navios, e assi pescadores pelo
+Rio dentro ancorarem, e estenderem suas redes da outra parte para isso
+mais conveniente, se povoou outro lugar, que se chamou o Porto, que ora
+é Cidade mui principal, donde ajuntando estes dous nomes, foi chamado
+Portugal. E era então naquelle tempo costume, que todos os filhos dos
+Reis se chamavam Reis, e as filhas Rainhas, posto que fossem bastardos,
+e como quer que El-Rei D. Affonso de Castella, desse este Condado de
+Portugal, ao Conde D. Anrique, e a sua filha, e ella se chamasse Rainha;
+porém elle nunca se chamou Rei em sua vida, nem seu filho o Principe D.
+Affonso, até que houve uma grande batalha, e vencimento no Campo de
+Ourique, contra cinco Reis Mouros, onde foi alevantado por Rei de
+Portugal, cuja geração veio de Reis, assi da parte do pai, como da mãi,
+que segundo já dissemos este Rei D. Affonso Anriques primeiro Rei que
+foi de Portugal, era neto de El-Rei Dungria da parte do pai o Conde D.
+Anrique, que foi filho legitimo dEl-Rei Dungria, e da parte de sua mãi,
+era neto dEl-Rei D Affonso acima dito, filho de sua filha Dona Tareja,
+por onde se mais manifesta a esclarecida gloria dos Reis de Portugal,
+pela nosso Senhor de todolos cabos tanto a exalçar, que de Nobreza, e
+Realeza de sangue não menos, que de excellentes virtudes, fossem em
+tanto gráo illustrados.
+
+
+
+
+CAPITULO III
+
+_Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique, que
+foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo_.
+
+
+Depois que o Conde D. Anrique foi cazado com a Rainha D. Tareja, filha
+del-Rei de Castella como dito é, vindo ella a emprenhar, D. Egas Moniz
+mui esforçado e nobre Fidalgo, grande seu privado, que com elle viera da
+sua terra, e a quem tinha feito muita mercê, chegou ao Conde pedindo-lhe
+que qualquer filho, ou filha, que a Rainha parisse lho quizesse dar para
+o elle criar, e o Conde lho outrogou. Veio a Rainha a parir um filho
+grande, e fermoso, que não podia mais ser uma creatura, salvo, que naceo
+com as pernas tão encolheitas, que a parecer de Mestres, todos julgavam
+que nunca poderia ser são dellas. O seu nacimento foi no anno de nosso
+Senhor de mil noventa e quatro.
+
+Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou á pressa, e
+veio-se a Guimarães onde o Conde estava, e pedio-lhe por mercê que lhe
+desse o filho que lhe nacera para o haver de criar, como lhe tinha
+prometido. O Conde lhe respondeo que não quizesse tomar tal carrego;
+porque o filho, que lhe Deos dera, nacera por seus peccados tolheito de
+modo, que todos tinham, que nunca guareceria, nem seria para homem. D.
+Egas quando esto ouvio pesou-lhe muito, e disse: «Senhor, antes cuido eu
+que por meus peccados aconteceo; mas pois a Deos aprouve de tal ser
+minha ventura, dai-me todavia vosso filho, quejando quer que seja»: E o
+Conde posto que tivesse grande pejo polo bem que a D. Egas Moniz queria,
+de o encarregar em semelhante criação, por causa da aleijão da criança,
+com tudo lha deu por lhe comprazer, e quando D. Egas vio a criança tão
+fermosa, e com tal aleijão, houve mui grão dó della, e confiando em
+Deos, que lhe poderia dar saude, a tomou, e fez criar, não com menos
+amor, e cuidado como se fora são.
+
+E jazendo D. Egas uma noite dormindo, sendo já o Menino de cinco annos,
+lhe appareceo nossa Senhora, e disse: «D. Egas dormes». Elle a esta voz,
+e visão acordando respondeo. «Senhora quem soes vós». Ella disse: «Eu
+sou a Virgem Maria, que te mando que vás a um tal lugar,», dando-lhe
+logo os sinaes delle, «e faze hi cavar, e acharás hi uma Egreja que em
+outro tempo foi começada em meu nome, e uma Imagem minha; faze correger
+a Imagem e a Igreja feita á minha honra; esto feito farás hi vigilia
+poendo o Menino que crias sobre o Altar, e sabe que guarecerá, e será
+são de todo, e não menos te trabalha da hiavante de o bem guardar, e
+criar como fazes; porque meu filho quer por elle destruir muitos imigos
+da Fé».
+
+Desaparecida esta vizão ficou mui consolado D. Egas Moniz, e alegre,
+como vassallo que com são, e verdadeiro amor amava seu Senhor, e suas
+cousas, e tanto que foi manhã levantou-se logo, e foi-se com gente
+áquelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar achou aquela
+Egreja, e Imagem pondo em obra todas as cousas que lhe N. Senhora
+mandára. Á qual aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino foi
+posto sobre o seu Altar, ser logo guarecido, e são das pernas de toda
+aleijão, como se nunca tivera nada della.
+
+Vendo D. Egas este tão grande milagre, foi muito o seu prazer, deu
+muitas graças, e louvores a Deos, e a Nossa Senhora sua Madre, criando,
+e guardando dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cujo Aio foi
+sempre, até que seu pai morreo em Estorgua, sendo elle já de tal idade,
+que nas guerras, e fadigas supria os carregos de seu pai. E por causa
+deste milagre foi depois feito em esta Egreja com muita devação o
+Mosteiro de Carquare; e como quer que alguns contem seu nacimento ser
+ultra mar, e bautizado no Rio do Jordão, porém por mais verdade achei
+ser seu nacimento como disse.
+
+
+
+
+CAPITULO IV
+
+_Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a seu
+filho ante que falecesse_.
+
+
+Era este Conde D. Anrique mui nobre, e esforçado cavaleiro, muito amador
+da Justiça, e a temor de Deos mui chegado, e elle com grande devação fez
+a Sé de Coimbra, e de Braga, e do Porto, e de Vizeu, e Lamego, e pôz em
+ellas Bispos, que as houvessem de reger por mandado, e licença do Santo
+Padre. Em este tempo andando a era de Nosso Senhor de mil cento e trez,
+(1103) foi este Conde D. Anrique a ultra mar á Caza Santa de Jerusalem,
+conquistada havia quatro annos de Christãos, novamente pelo Duque
+Gudufre de Bulhão, quatro centos e noventa annos depois que em tempo de
+Mafamede, e do Araclio Emperador foi tomada a Christãos, e possuida de
+Mouros, e quando de lá veio trouxe este Conde muitas reliquias de
+Santos, entre as quaes foi um braço de S. Lucas Evangelista, que por
+filho del-Rei Dungria, e fama de sua grande bondade, e cavalarias lhe
+foi dado em Constantinopla, e a rogo de S. Giraldo que então era Bispo
+de Braga, deu parte delle á Sé da dita Cidade, o qual elle recebeo em
+mui grande dom, e o pôz com outras Reliquias da Egreja, e depois que
+assi o Conde D. Anrique veio de Jerusalem não lhe cessaram guerras com
+os Lionezes, e ganhou-lhes muita terra até chegar a Estorgua, a qual
+tendo tomada, e metida sob seu senhorio, dali os guerreou fazendo
+continuamente muitas cavalgadas pela terra estragando-lhes pães, e
+vinhas, matando, e prendendo muita gente delles, com que os pôz em tanto
+aperto, que se lhe não podiam defender, e lhes foi forçado
+preitejarem-se por esta guiza, que se El-Rei D. Affonso de Castella seu
+primo chamado Emperador, lhes não soccorresse até quatro mezes, elles
+lhe entregassem a Cidade de Lião com todas as rendas, e senhorio que
+El-Rei nella tinha. E tendo-a assi preitejada veio o Conde a doecer de
+modo, que bem conheceo não haver nelle vida. Pelo qual vendo-se elle em
+tal ponto chamou seu filho D. Affonso Anriques, e lhe fez uma falla
+muito de Cavaleiro entendido, e esforçado em esta maneira.
+
+«Filho esta hora derradeira que me Deos ordena para te haver de leixar
+com a vida deste mundo me faz, que te veja, e fale com dobrado amor, e
+sentido do nosso apartamento, e por esso assenta em teu coração minhas
+palavras como de pai a quem após estas já não has douvir outras. Deves
+filho de saber, que o poderio que o Senhor Deos neste mundo ordenou de
+alguns Princepes sobre outros sometidos a elles foi por tal, que os máos
+sejam constrangidos, e os bons vivam entre elles em paz, e assocego,
+porque conservação é dos bons, e pungimento dos máos, pelo qual filho
+more sempre em teu coração vontade de fazer justiça, virtude é que dura
+para sempre na vontade, e corações dos justos, e dá igualmente seu
+direito, que é o maior louvor, e merecimento que os Principes em seu
+regimento podem alcançar, que todo o governo, e bem commum consiste
+principalmente em duas cousas, a saber: em premio, e em pena; e assi
+como os bons pela justiça se fazem milhores recebendo premio, e galardão
+de suas boas obras, assi os máos vem a ser bons, ou a menos cessam de
+seus males com receo da pena, e por tanto faze filho sempre como hajam
+todos direito assi grandes como pequenos, e nunca por rogo, nem cobiça,
+nem outra nhuma afeição leixes de fazer justiça, que o dia que um só
+palmo a leixares de fazer logo no outro se arredará de teu coração uma
+braçada.
+
+«Trabalha-te muito de saber se os que tem teu carrego fazem justiça, e
+direito compridamente, e se a fizerem, faze-lhe compridamente bem, e
+mercê, e se o contrario, dá-lhe pena segundo seu merecimento, por os
+outros tomarem castigo, não consintas em modo algum, que os teus sejam
+soberbos, nem atrevidos em mal fazer, que perderás teu preço, e
+estimação se taes cousas não vedares; mas segue todavia justiça temendo,
+e amando muito a Deos, para que sejas dos teus amado, e temido, tendo
+Deos em tua ajuda, terás as gentes para teu serviço, e sem ella não ha
+poder, nem saber que te aproveite, de sua mão somos isso que somos, e o
+que temos não teriamos, se da sua mão, e bondade o não tivessemos, e
+portanto trabalha-te por conservar em seu serviço. O que tiveres, e de
+toda esta terra que te eu leixo Destorgua até Lião não percas della um
+palmo que eu a ganhei com grande fadiga e trabalho. Toma filho do meu
+coração um pouco; porque sejas esforçado, e sem medo: aos fidalgos sê
+companheiro, e dá-lhe dos teus dinheiros, e aos Conselhos faze
+gazalhado, e trata bem, e chama agora estes Destorgua, e mandarás que te
+façam logo menagem da Villa, e des que me levarem a enterrar logo te
+torna, e não a percas, e daqui conquistarás toda a outra terra adiante,
+ou manda-me com alguns meus vassalos, e teus que me vão enterrar a Santa
+Maria de Braga, que eu povoei. Tudo esto filho faze assi com a minha
+benção; porque sejas como filho de benção a serviço de Deos com muita
+honra prosperada».
+
+
+
+
+CAPITULO V
+
+_Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar
+Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi
+Dona Tareja_.
+
+
+Desta doença se veio a finar o Conde D. Anrique em Estorgua dous mezes,
+e cinco dias antes que o prazo de Lião fosse acabado. Seu finamento foi
+no anno de nosso Senhor de mil cento e doze, (1112) e tanto que elle
+faleceo logo seu filho D. Affonso Anriques ficando em idade de dezoito
+annos se fez chamar Principe, dando ordem como o corpo de seo pai fosse
+mui honradamente levado a Santa Maria de Braga onde se mandara lançar, e
+perguntou a seus vassallos se iria com elle a seu enterramento, ou se
+ficaria, e elles disseram que fosse com seu pai, e o honrasse, nem por
+isso temesse nada da terra, porque obrar virtude nunca deu a ninguem
+perda, e então se foi com seu pai; porque mais honradamente fosse
+enterrado, e em quanto assi foi com elle tomaram-lhe toda a terra de
+Lião que elle tinha por sua, e a terra de Galiza lhe ficou que lha não
+poderam tomar. Quando elle vio a terra tomada mandou desafiar a El-Rei
+D. Affonso de Castella chamado Emperador seu primo com irmão filho do
+Conde D. Reymão de Tolosa, e de Dona Urraca irmã de sua mãi a Rainha
+Dona Tareja, mas logo foram reconciliados, e amigos, e então se foi a
+Portugal, e não achou onde se acolhesse: porque toda a terra se alçara
+com sua mãi a qual cazou com D. Vermuy Paes de Trava, e depois D.
+Fernando Conde de Trastamara seu irmão delle lha tomou, e cazou com
+ella, e D. Vermuy Paes cazou depois com uma filha desta Rainha D.
+Tareja, e do Conde D. Anrique já finado, que elle tinha em sua casa, que
+chamavam Dona Tareja Anriques, e por este peccado foi feito em Galiza um
+Mosteiro chamado de Sobrado. Outra filha ficou do Conde D. Anrique, que
+havia nome D. Sancha que foi cazada com D. Fernão Mendes. Este Conde D.
+Fernando de Trastamara acima nomeado, era naquelle tempo o maior homem
+de Espanha que Rei não fosse, e por esta causa se alçou toda a terra ao
+Principe D. Affonso Anriques com sua mãi.
+
+
+
+
+CAPITULO VI
+
+_Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi
+vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a
+sua mãi com elle_.
+
+
+Quando o Principe D. Affonso Anriques vio que não tinha onde se acolher,
+e que sua mãi tão pouco delle curava, segundo mal peccado muitas vezes
+vemos as mãis com novos esposos se tornarem madrastas, trabalhou de lhe
+furtar dous Castellos: um delles foi Neiva, e o outro o Castello da
+Feira terra de Santa Maria, e destes dous Castellos fazia muita guerra a
+seu padrasto, tanto que vieram ambos á fala com a Rainha Dona Tareja de
+presente, e disse o Conde D. Fernando: «Principe não nos afadiguemos
+mais nesta contenda, mas ajuntemo-nos um dia em batalha, eu e vós quando
+quizerdes, e ou vós vos sahireis de Portugal, ou eu». Respondeu o
+Principe D. Affonso. «Não devia de aprazer a Deos tal cousa que vós me
+queirais deitar fóra da terra que meu pai ganhou». E acodio a Rainha sua
+mãi dizendo. «Minha é a terra, e será que meu pai ma deu, e ma leixou».
+Disse então o Conde D. Fernando a ella «Não andemos mais neste debate,
+ou vós vos ireis comigo para a Galiza, ou leixareis a terra a vosso
+filho, se mais poder que nós».
+
+Sobre esto se desafiaram para um dia certo, e vieram-se ájuntar em
+Guimarães em um lugar que chamam Santilanhas, elles estando prestes para
+peleijar disse a Rainha ao Conde seu marido: «Comvosco quero eu ir á
+batalha; porque tenhais mais rezão de fazer mais por meu amor, e
+trabalhai todavia muito por prender o Principe meu filho, que maior
+poder temos que elle».
+
+A batalha foi gravemente peleijada, e o Principe D. Affonso lançado do
+campo desbaratado, e indo elle assi uma legoa de Guimarães encontrou com
+D. Egas Moniz seu Aio, que o vinha ajudar, e ser com elle na batalha, e
+quando D. Egas o vio disse: «Que é esto Senhor, como vindes vós assi».
+Respondeo o Principe: «Venho mui desbaratado, que me venceu meu
+padrasto, e minha mãi, que hi era com elle». Disse então D. Egas: «Não
+fizestes bem, nem sizo dardes batalha sem mim, mas tornai, e eu
+comvosco, e espero em Deos, que a hi prendamos vosso padrasto, e vossa
+mãi, recolhei a vós toda vossa gente que vem fogindo, e tornemos a
+peleijar». Respondeo o Principe: «Praza a Deos que assi seja».
+
+Tornáram então á batalha, e venceram-no, e o Principe prendeu hi seu
+padrasto, e sua mãi, e quando se o Conde D. Fernando vio prezo, cuidou
+logo de ser morto, e fez preito, e menagem ao Principe de nunca mais
+entrar em Portugal, e o Principe o soltou e foi-se, uns dizem que para
+sua terra, outros, que para terra dultra mar, sem nunca mais tornar. O
+Principe D. Affonso poz então sua mãi em ferros e ella vendo se assi
+preza, disse. «Filho D. Affonso prendeste-me, e desherdaste-me da terra,
+e honra que me leixou meu pai, e quitaste-me de meu marido, a Deos pesso
+que prezo sejais vós assi como eu me vejo, e porque puzestes minhas
+pernas em ferros que vos ajudaram a trazer, e a criar com muitas dores
+em meu ventre, e fóra delle, com ferros sejam as vossas quebradas, a
+Deos praza que assi seja». E depois aconteceo a este Principe D. Affonso
+sendo já Rei, que lhe quebrou uma perna em sahindo pela porta de
+Badalhouce, e foi prezo del-Rei D. Fernando de Lião, como se ao diante
+dirá, dizendo todos, que lhe acontecêra por lho assi mal dizer sua mãi.
+
+
+
+
+CAPITULO VII
+
+_Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso de
+Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as
+Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um
+Rei Mouro cercar Coimbra_.
+
+
+Vendo assi Dona Tareja Rainha como o Principe D. Affonso seo filho a não
+queria soltar enviou seus recados o mais secreto que pôde a El-Rei D.
+Affonso de Castella chamado Emperador como El-Rei D. Affonso seu avô, em
+que lhe fazia queixume do Principe seu filho a ter preza dizendo que
+Portugal pertencia a elle de direito, e que assi por elle cobrar o que
+seu era, como pelo que devia á virtude em acudir por uma sua tia posta
+fóra de seu marido, e em prizão tão deshonesta lhe pedia, que a quizesse
+vir livrar, pois não tinha a quem com mais rezão se soccorresse, e lhe
+podesse valer. Quando El-Rei de Castella vio o recado de sua tia,
+aprouve-lhe muito com elle, e fez logo prestes suas gentes de Castella,
+e de Lião, e de Aragão, e de Galiza, e abalou com mui grande poder
+contra Portugal. Os Portuguezes desque souberam que El-Rei de Castella
+ajuntava seu poder para vir conquistar Portugal, e tirar sua tia da
+prizão, houveram todos seu acordo, que estivessem com o Principe D.
+Affonso Anriques, e o ajudarem contra elle, e então se vieram todos para
+o Principe mui guarnecidos de suas armas, e ajuntaram-se com elle em um
+lugar que chamam Val de Vez, entre Monção e Ponte de Lima, e ali
+esperaram El-Rei de Castella, o qual tanto que chegou logo uns e os
+outros ordenaram suas azes para a batalha, e dambas as partes foi grande
+peleija, e tão grande vencimento por parte do Principe D. Affonso, que
+El-Rei de Castella foi ferido na perna esquerda de duas lançadas, e
+sahio-se da batalha em um cavallo fogindo, acolhendo-se o mais que pode
+a Toledo, por haver medo de com este desbarato perder a Cidade, e
+prenderam-lhe na batalha sete Condes, e outros muitos Cavalleiros, e
+mataram-lhe os Portuguezes muita gente. E o Princepe D. Affonso se foi
+logo dalli levando comsigo sua mãi preza, e todos os lugares que se
+levantáram contra elle os tomou por força, e tratou asperamente os que
+os tinham.
+
+Emquanto elle assi andava na guerra com El-Rei de Castella, e com
+aquelles que tinham os Castellos por parte de sua mãi, El-Rei Achi Mouro
+veio guerrear Coimbra com grande multidão de Mouros que ao juizo de
+todos passariam de trezentos mil de pé, e teve-a cercada muitos dias
+combatendo-a mui rijamente, mas os da Cidade com grande esforço, e ajuda
+de Deos se defendiam mui bem matando muitos dos Mouros com setas, e
+pedras, e muitos delles morriam por fome, e pestelencia que no arraial
+havia. Aos da Cidade nunca lhes faleceo mantimentos em abastança em
+quanto estiveram cercados, e vendo os Mouros a Fortaleza da Cidade, e
+sentindo a abondança de mantimentos que dentro havia, e a mortandade da
+peste, e a fome do arraial, que cada dia viam, desesperaram de a tomar,
+e levantáram o cerco destruindo pães, vinhas, olivaes, e foram-se
+perdendo grande parte da gente que trouxeram, e tanto estava a Cidade
+abastada, que depois do cerco alevantado davam cinco quarteiros de trigo
+por um maravedi de ouro, e dous moros de vinho por outro maravedi, e
+valia o vinho pelo preço dantes do cerco, e este cerco se poz nove dias
+por andar de Junho no anno do Senhor de mil cento e dezasete (1117).
+
+
+
+
+CAPITULO VIII
+
+_Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o
+Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz
+lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco_.
+
+
+A cabo de pouco tempo, estando El-Rei D. Affonso de Castella chamado
+Emperador em Toledo sentindo muito seu desbarato, e vencimento que delle
+houve o Principe D. Affonso Anriques tendo elle que toda Espanha lhe
+havia de obedecer, e conhecer senhorio, determinou em mui secreto
+conselho tornar a Portugal, e ajuntada muita gente o mais dessimulada
+que pode, abalou para Galiza, e chegou de supito a Guimarães onde cercou
+o Principe D. Affonso, que dentro estava despercebido, nem a Vílla
+estava bastecida, que a poucos dias a tomára El-Rei de Castella se
+tivera o cerco, e sobre esto vendo D. Egas Moniz Aio do Principe o
+grande perigo em que seu Senhor estava, vestindo sua capa pelo trajo, e
+nome daquelle tempo, cavalgou secretamente um dia pela manhã cedo, sem
+levar ninguem comsigo, e foi-se ao arraial dos imigos. Cavalgara El-Rei,
+e andava alongado de redor da Villa, vendo por onde mais ligeiramente se
+poderia combater, e tomar, e chegando D. Egas a elle, fez-lhe sua
+reverencia, e beijou-lhe a mão; El Rei salvou-o perguntando-lhe a que
+vinha. Respondeo D. Egas que queria falar com elle; então se apartáram
+ambos, e perguntou-lhe D. Egas porque se viera lançar sobre aquella
+Villa? E El-Rei respondeo, que viera cercar D. Affonso Anriques seu
+primo porque lhe não queria conhecer senhorio, nem ir a suas Cortes como
+era rezão, e como lhe faziam em toda Espanha, que sua determinação era
+leva-lo prezo comsigo, e dar a terra a quem lhe conhecesse senhorio com
+ella.
+
+Respondeo entonces D. Egas, e disse: «Senhor não fostes bem aconselhado
+virdes aqui cercar esta Villa, porque o Principe vosso primo é tal
+Cavaleiro como vós bem sabeis, e tem comsigo dentro tanta gente, e tão
+boa afóra muita que tem pela terra muito a seu querer, e mandar, que
+grande será o poder, e muito mor a ventura de quem lhe forçar, e tomar a
+Villa, porque Senhor havei por certo, que destes movimentos das guerras
+que com vosso primo houvestes, elle foi sempre tão suspeitoso, e receado
+de vós, e se poz tanto a recado para semelhantes cazos, esperando cada
+dia de se ver nelles comvosco, como se ora vê, que toda sua terra e
+Fortalezas fez guarnecer, e abastecer grandemente, e assi as tem bem
+providas, e bastecidas, em especial esta Villa, em que a miudo está que
+a meu entender, outra mais gente da que está, dentro, se nella podesse
+caber teria abastança para muitos annos de cerco, pois estando vós tempo
+sobre ella, ainda que escuzado tendes meu conselho, poderia trazer
+trovação a vosso estado, assi dos de vosso Reino, como dos Mouros que
+tão vizinhos, e fronteiros tendes, e quanto ao que Senhor dizeis que
+vosso primo vos conheça senhorio, e vá a vossas Cortes, certo a mim
+parece rezão, e ainda Senhor, me parece mais, que se vos partirdes daqui
+para vossa terra, que não pareça que vosso primo por força, nem
+rendimento de medo o faz; eu acabarei com elle que vá a vossas Cortes
+onde vós quizerdes, e disto Senhor vos farei preito, e omenagem». Quando
+El-Rei de Catella esto ouvio, prouve-lhe muito de receber a omenagem de
+D. Egas Moniz a cerca dello, ficando-lhe de se partir ao outro dia, e
+depois de dada, e recebida a dita menagem D. Egas se tornou para a Villa
+mui callado como della saira, sem dar conta a ninguem do que viera
+fazer.
+
+
+
+
+CAPITULO IX
+
+_Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre Guimarãez,
+e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso fez D. Egas
+Moniz_.
+
+
+Ao dia seguinte levantou El-Rei de Castella o cerco, e se partio com
+toda sua Corte, como ficára a D. Egas Moniz, e o Principe D. Affonso vio
+partir El-Rei, e espantando-se muito porque não sabia a causa, perguntou
+a D. Egas Moniz que lhe parecia de tal alevantamento, e partida de
+El-Rei de Castella, porque entendia que era? D. Egas lhe contou então
+tudo o que era, e como a causa passára; ouvindo o Principe esto, houve
+grande pezar, e foi mui indinado dizendo que escolhera antes ser morto,
+que fazer semelhante, nem ir a suas Cortes. Disse D. Egas: «Senhor não
+haveis de que vos queixar, que no que eu fiz vos tenho feito muito
+serviço; porque El-Rei de Castella por força vos tomara, segundo
+estaveis desapercebido de mantimentos, e de todo o que para vossa
+defensa cumpria, assi que em todo o cazo foreis prezo, ou morto, e o
+senhorio de Portugal dado a outrem, de tudo esto eu vos livrei, e quanto
+á menagem que fiz a El-Rei de Castella não vos dê desso nada, que assi
+como o fiz sem vosso mandado, assi o livrarei sem vosso conselho com a
+graça de Deos».
+
+
+
+
+CAPITULO X
+
+_Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei
+D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de
+Guimarães_.
+
+
+Vindo o tempo do prazo em que o Principe D. Affonso Anriques havia de ir
+ás Cortes, que se faziam em Toledo, segundo a menagem que D. Egas fizera
+a El Rei de Castella, ordenou-se D. Egas de todo, e partio com sua
+molher, e filhos, e chegáram a Toledo, foram decer ao Paço onde El-Rei
+estava, e ali se despiram de todolos panos senão os de linho, e sua
+molher com um pelote mui ligeiro, trajo daquelle tempo, descalçaram-se
+todos, e pozeram senhos baraços nos pescoços, e assi entráram pelo Paço
+onde El-Rei estava com muitos Fidalgos, e Cavalleiros, e chegando a
+El-Rei pozeram-se todos assi como iam de joelhos ante elle, falou então
+D. Egas Moniz, e disse.
+
+«Senhor estando vós em Guimarães sobre o Principe vosso primo meu
+Senhor, eu vos fiz a omenagem que sabeis, a qual eu fiz por ver que sua
+pessoa e honra áquelle tempo corria grande risco de se perder por na
+Villa não haver mantimentos, nem percebimento algum para defensão, se
+lhe vós tivesseis o cerco, e eu porque o criei de seu nacimento, quando
+o vi em tamanho trabalho, e perigo, tomei de mim aquelle conselho, de me
+ir a vós, e fazer esso que fiz». Recontando dahi ávante perante todos
+cumpridamente o feito como passara, e em cabo de todo disse: «Por causa
+desto Senhor me venho presentar ante vós, e eis aqui estas mãos com que
+vos fiz a menagem, e a lingua com que vo-la disse, e demais vos trago
+aqui minha molher, e estes moços meus filhos para se vossa ira houver
+por maior minha culpa que a vingança do meu corpo só, por esta molher, e
+por estes moços a cuja fraqueza, e idade, a ira dos imigos soe
+apiedar-se, seja vossa indinação satisfeita, prestes Senhor vos trago
+tudo para esso, tomai se vos assi parece por culpa de um só vingança de
+muitos, do pai, da mãi, de seis filhos quejanda vossa mercê for, não me
+pezará que vossa sobeja vingança faça maior meu cumprimento, e que se
+diga em todo o tempo mais comprio D. Egas, do que errou».
+
+Desque D. Egas acabou de falar ficou El-Rei mui irado, e quizera
+manda-lo matar, dizendo que o havia enganado: mas os Fidalgos, e nobres
+que ahi estavam lhe disseram, que tal não fizesse, que não tinha rezão
+de lhe fazer nhum mal, porque D. Egas fizera todo seu dever como mui
+nobre, e leal vassallo, quejando elle era, e todos os Principes deviam
+de desejar ter muitos tais, que seu mesmo fora o engano de se deixar
+enganar, e que antes por seu bom nome tinha razão de lhe fazer muita
+honra, e mercê, e manda-lo em paz. El-Rei assocegado de sua sanha pelo
+que lhe diziam, conhecendo que era assi na verdade perdeo todo o
+despeito de D. Egas, e quitou-lhe a omenagem que lhe feito tinha, e
+depois de lhe fazer muitas mercês o mandou livremente elle, e sua
+molher, e filhos tornar para Portugal.
+
+
+
+
+CAPITULO XI
+
+_Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de Castella
+se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual apoz esto
+juntou gente, e foi tomar Leiria_.
+
+
+Desque D. Egas Moniz se assi partio del-Rei de Castella quite, e livre
+de sua menagem, e com sua graça veio caminho de Guimarães, e ante que
+ahi chegasse, o Princepe D. Affonso Anriques sabendo sua vinda o sahio a
+receber com toda sua Corte mui alegre como quem parecia que aquella ora
+cobrava de novo um tal servidor, e vassallo, como era D. Egas; porque
+sempre esperára que elle em Castella fosse morto, ou deshonrado para
+sempre, e tudo sómente por seu respeito, ou serviço, e assi quanto lhe
+estas cousas tinham dado pezar, lhe davam agora sobejo prazer com sua
+vinda em salvo. Quando D. Egas chegou ao Princepe quiz-lhe beijar as
+mãos, e o Principe as tirou a si, e abraçou-o mui de vontade com grande
+gazalhado parecendo-lhe com muita rezão que tal obra, e merecimento mais
+merecia ser recebida com mostrança de muita honra, e agradecimento que
+sobgeição, e assi vieram ambos fallando com muito prazer até Guimarães,
+onde depois dalguns dias o Princepe por se prover de não cair em outra
+tal mingua, e desastre de se ver cercado, e não apercebido como dantes,
+começou abastecer seus Castellos, e Villas de todalas cousas que para
+sua defenção lhe compriam, e em dar ordem a esto per si, e pelos seus,
+passáram alguns dias.
+
+E dahi veio-se a Coimbra onde lhe pareceo que estava mui de vago, e sem
+proveito, pois se não occupava em mais, que no que tinha mandado aos
+seus que fizessem pelo qual ajuntou alguma gente, e fez entrada na terra
+dos Mouros, e no primeiro lugar em que deu foi Leiria a qual combateo
+rijamente, e posto que o Castello fosse muito forte, e os Mouros o mui
+bem defendessem tomou-o por força, e os mais dos Mouros que ahi achou
+andáram á espada, e assi esta Villa tomada o Princepe a deu ao Prior de
+Santa Cruz de Coimbra, por ser homem em que elle tinha grande devação, e
+fez a elle, e ao Moesteiro doação della no temporal, e espritual, e o
+Prior lha teve em mui grande mercê; e pondo-lhe logo por Alcaide no
+Castello Paio Guoterres homem bom Fidalgo. E desque o Princepe D.
+Affonso Anriques assi tomou a Villa de Leiria, seguio mais sua entrada
+pela terra dos Mouros, e tomou Torres Novas, e então se tornou para
+Coimbra com muita honra, e vitoria, e os seus ricos, e abastados de
+despojos, e estas duas Villas foram tomadas no mez de Dezembro andando a
+era do Senhor em mil cento e dezasete annos (1117) de sua idade.
+
+
+
+
+CAPITULO XII
+
+_Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos
+Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas
+Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros
+daquelle tempo_.
+
+
+Depois que o Principe D. Affonso Anriques tornou de ganhar Leiria, e
+Torres Novas, esteve em Coimbra alguns dias, e vendo que tinha suas
+terras, e Fortalezas mui providas, e postas em ordem do que lhe compria,
+e tambem que de Castella estava seguro de guerra por algumas rezões que
+a Estoria não declara, consirando elle, que não devia, nem podia milhor
+empregar o bem, e honra que seu pai, e elle ganháram, que em serviço de
+nosso Senhor de cuja mão a tinham récebido, e como não havia então nhum
+serviço de Deos mais necessario em Espanha occupada de Mouros, que serem
+guerreados, e lançados fóra della, segundo fora sempre seu proposito, e
+vontade, houve conselho com os seus de fazer guerra nas terras de
+Alentejo especialmente na Comarca do Campo Dourique, e esto por duas
+rezões, a primeira, porque a terra era mui povoada, e de poucas
+Fortalezas, em que os seus haveriam assaz mantimentos, e prezas; a
+segunda, e principal porque se El-Rei Ismar, que regia em Espanha toda a
+maior parte dos Mouros contra Ponente, viesse a peleijar com elle, e
+dando-lhe Deos delle o vencimento que esperava, toda a terra que se
+chama Estremadura, que era sob seu senhorio, não haveria poder de se lhe
+defender, e o Princepe D. Affonso tinha que iria acompanhado de tão boa
+gente, que era bastante para peleijar com elle.
+
+E tanto que juntou, e teve sua gente prestes, partio de Coimbra, e a
+poucas jornadas no Campo Dourique adoeceo á morte D. Egas Moniz seu Aio,
+e se finou, de cujo falecimento o Principe tomou pezar, e o sentio
+grandemente mostrando o menos pelo da gente, e feito a que ia. Cazo é a
+morte de bons vassallos, e servidores em que os Princepes sempre devem
+mostrar sentimento, por animarem mais os que ficam para seu serviço, e
+se mostrarem virtuosos, e bons, não sómente em vida, mas depois de
+mortos, porque as virtudes (onde ha virtude) auzentes devem de ser
+queridas, e lembradas. Então mandou o Princepe tornar com o corpo de D.
+Egas tantos dos seus, e taes pessoas com que podia ir honradamente.
+Mandou-se elle enterrar no Moesteiro do Paço de Souza, que elle mesmo
+fez, e o seu moimento está dentro da Capella que se chama do Corporal,
+ou dos Freguezes, e entre elle, e a parede não está se não um moimento
+baixo, esto se poz aqui para se saber onde jaz tão nobre, e honrado
+Cavalleiro.
+
+Elle fundou em sua vida dous Moesteiros, este do Paço, e o de S.
+Martinho de Cucujães áquem da Cidade do Porto, os quaes dotou de muitas
+possessões, e guarneceo de grandes ornamentos, no que é bem de notar, e
+seguir a muita devoção dos Cavalleiros daquelle tempo, que com todas
+suas presas, e trabalhos, e grandes, e continuas despezas, em guerra tão
+santa, e quasi do Reino a dentro sendo então o Reino mais pequeno, e
+menos rico, não se descuidáram por esso de todo o serviço de Deos,
+conhecendo que o serviço de Deos salva para o outro mundo, e acrescenta
+a cavallaria, e honra deste mundo, e por tanto vemos muitas Egrejas
+honradas, e grandes, e sumptuosos Moesteiros feitos daquelle tempo, e
+nhuns Paços, e cazarias maiores, e pompa sobeja, edeficadas, mas os
+passados segundo parece, fundavam-se mais em fazer, guarnecer moradas
+para as Almas, que para os corpos, lembrando-se sómente dos corpos o
+enterramento que delles havia de ser, mais que a vivenda, que havia
+deixar de ser.
+
+
+
+
+CAPITULO XIII
+
+_Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar, que
+com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como
+sentaram seus arraiaes um á vista do outro_.
+
+
+Finado D. Egas, e mandado assi enterrar como dito é, o Princepe D.
+Affonso Anriques como quer que lhe muito pezasse do falecimento de tão
+honrado Cavalleiro, em quem tinha grande confiança; seguio avante o que
+ia fazer, por serviço de Deos, e partindo daquelle lugar, onde se D.
+Egas finara, passou o Tejo, e as charnecas mui grandes, e despovoadas
+que agora ainda hi ha, e então seriam maiores, e sahindo dellas começou
+a fazer grande guerra aos Mouros, correndo-lhe a terra, e tomando-lhe
+Villas, e lugares, e fazendo grandes cavalgadas, e havendo muitos
+vencimentos contra elles, do que tanto que El-Rei Ismar houve nova,
+mandou requerer toda a mourama dos lugares, e outras partes do redor,
+mandando seus alvites, que elles entre si hão por homens de santa vida,
+que fossem pregar, e requerer da parte de Mafamede, que acorressem á
+terra que estava em ponto de se perder, pelo qual houve El-Rei Ismar
+muita em sua ajuda de Mouros dáquem, e dalém mar, e outras gentes
+barbaras, que era infinda a multidão delles em tanta desigualança dos
+Christãos, que se ha por certo serem pouco menos de cento para um, entre
+os quaes vieram quatro Reis outros, cujos nomes não achamos escritos, e
+vieram com estas gentes molheres vezadas a peleijar como as Amazonas, o
+que foi sabido, e provado depois pelos mortos, que acharam no campo. O
+Princepe D. Affonso quando soube que El-Rei vinha com aquellas gentes,
+foi mui ledo, e moveo contra elle, com mui grande esforço, e vontade de
+servir a Deos em tal afronta, e andando suas jornadas veio a um lugar,
+que se hora chama Cabeças de Rei junto com Castro Verde, onde estava uma
+Ermida, e nella um Irmitão. Esto era a hora da Sexta, ali se viram as
+Ostes ambas, e o Princepe D. Affonso, e El-Rei Ismar sentáram seus
+arraiaes um á vista do outro, em vespera de Santiago, anno de N. Senhor
+de mil cento e trinta e nove (1139).
+
+
+
+
+CAPITULO XIV
+
+_Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao Principe
+D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que lhe o Princepe fez
+sobre esso_.
+
+
+Os Christãos que eram com o Principe, vendo a grande multidão dos Mouros
+sem conto, começaram de poer duvida em se haver de dar batalha pela mui
+grande desigualança, que havia delles aos Mouros. Então se foram ao
+Principe, e lhe disseram: «Senhor quem sua carga compassa póde com ella,
+e vós vedes bem a multidão de gente que El-Rei Ismar traz comsigo, e
+cuidardes de com tão pouca, como tendes peleijar com elle, é cousa fóra
+de toda a rezão, que ainda parece mais tentar a Deos, que sezuda
+valentia, nem se deve haver por serviço de Deos, antes por muito seu
+desserviço para tamanha aventura, e risco de uma só ora o senhorio de
+Portugal, ganhado em tantos de muitos dias, e annos, pelo qual Senhor, a
+todos parece, e não com mingoa de coração, e vontade que em nós nunca
+achastes, devesse ter modo por onde toda via se escuze esta batalha».
+Quando o Princepe D. Affonso ouvio aos seus esto, pezou-lhe muito, e
+posto que nelle só houvesse o esforço que a toda a Oste compria, lhe
+pareceo necessario fazer a todos uma falla, a qual depois de todos
+ajuntados, assi começou.
+
+«Meus bons vassallos, e amigos, muito vos deve lembrar a tenção e
+desejos com que partimos de Coimbra para servir a Deos, e punhar por sua
+santa Fé Catholica, contra estes seus imigos, e nossos, e ora estando
+nós já em vista dos que viemos buscar, será grande mingua, e ainda
+poder-se-ia mais azinha de Portugal seguir essa perda, não peleijando,
+que peleijando receaes se fogissemos ás batalhas a que nos Deos, e
+nossas vontades tão acerca trouxeram, que já nosso recolhimento não
+podia leixar de parecer fugida, ou ser desbarato. Deos por sua piedade
+nunca abrio mão dos que em elle esperam, nem para dar, ou tolher, a quem
+lhe praz vitoria, ha mister poder de mais, nem menos gente. Lembre-vos
+quantas vezes, e em quantos lugares, peleijaram nossos antecessores com
+estes imigos da Fé, e os venceram poucos, pois não é agora menos
+poderosa a mão do Senhor Deos para nos ajudar contra El-Rei Ismar, do
+que foi nos tempos passados para ajudar a elles, e assi outros muitos
+Princepes, e Senhores Christãos, em semelhantes casos, e tanto mais da
+ventagem de nossos imigos; deve nosso coração, e esforço quanto temos
+mais justas causas, e rezão de peleijar. Nós peleijamos por Deos, pela
+Fé, pela verdade, e estes arrenegados que vedes, peleijam contra Deos,
+pela falsidade. Nós por nossa terra, elles pela que nos tem tomada, e
+furtada, e querem furtar. Nós pelo sangue, e vingança de nossos
+Antecessores, elles por ainda cruelmente espargerem o nosso. Nós por
+poer nossos pais, nossas mãis, nossas pessoas, molheres, e filhos, com
+liberdade, elles a nós todos em seu cativeiro, a terra que hoje em dia
+tem, e pessuem em Africa, em Espanha, nossa foi, e a Christãos por
+nossos peccados a tomaram, e agora que Deos quer que a cobremos, com seu
+desfazimento, e destruição, não desfaleçamos a vontade do Senhor Deos, e
+a tamanho bem nosso; oh quanta mercê nos Deos faz Cavalleiros, e a
+quanto bem nos chegou, se lho bem conhecessemos, chegou-nos a um dia e
+feito tão glorioso, quanto Cavalleiros não poderiam, nem saberiam mais
+desejar. Chegou-nos a peleijarmos por elle, e por nós, peleija sua, e
+nossa contra cinco Reis Mouros imigos da sua Santa Fé, em que nos elle
+salvou, peleija em que mataremos, seguros de culpa, morreremos mais
+seguros de galardão, matando, ganharemos terra, e honra temporal,
+morrendo ganhamos o Ceo, e gloria eterna, matando tolhemos a vida a
+nossos imigos, e morrendo damos vida e gloria a nós para sempre, a quem
+se deve mais nossa vida que a Deos que no la deu, nem nosso sangue que a
+Christo, que o seu proprio por nós espargeo, nem que podemos fazer neste
+mundo por elle, que muito mais, o primeiro não fizesse por nós, elle
+sendo filho de Deos, se abaixou a fazer homem por nos fazer filhos de
+Deos, e nós filhos de homens, ainda por elle não faremos por onde filhos
+de Deos pareçamos? Elle padeceo por nós, só nu, e despido, sem galardão,
+e nós cubertos de armas, e acompanhados, e com galardão, muito maior que
+merecimento, receamos peleijar por quem assi por nós morreo, para que
+nos fez logo Deos, para que nos teve amor tão sobejo, que por remir tão
+ingratos servos, deu seu proprio filho, sendo logo (quanto assi por nós,
+e nós possamos fazer por elle) feito tudo só por nós, e para nós, que
+Deos nada lhe faz mister? Certo não é de homens, nem de Cavalleiros, e
+muito menos de Christãos, e mais nós Portuguezes recearmos trabalho, que
+nos sae em tanta gloria, nem morte que nos passa a vida para sempre
+segura da morte, pelo qual meus bons Cavalleiros tenhamos muita Fé, e
+muita Esperança, em N. Senhor, o dia de amenhã em que com sua graça
+venceremos a batalha, será de tanto prazer para nós, e nos aprezenta
+tanta gloria e honra para o outro mundo, e para este cuidando no premio,
+faz ligeiro o trabalho; não cureis de nhumas rezões, nem temores que a
+lembrança de Deos só, e de tanto bem nosso, no los deve lançar fóra de
+nossos corações. Hi-vos agora todos em boa hora a repouzar, e esperai
+com muito prazer, e descanço o dia damenhã, tão ledo, e de prazer, como
+nunca foi a Cavalleiros, tanto que amanhecer vamos logo com a ajuda de
+Deos, e sua graça ao que viemos fazer, que elle ha de ser comnosco como
+sempre o é com os seus, e elle por sua piedade no-lo dará feito, e
+vencido, em nossas mãos, e de manhã prazendo a elle acabareis de
+confirmar para sempre o bom nome, e louvor que os Portuguezes tem de
+saberem bem aguardar seu Senhor nas pressas, e perigos maiores, porque
+com a ajuda do Senhor Deos, eu espero tomar tal lugar na peleija, onde
+me faça mester vossas mãos, e ajuda».
+
+Quando os Portuguezes ouviram taes palavras, com tanto e tão confiado
+esforço do Principe, foram assi todos esforçados, e animados de um
+coração para servir a Deos, e a elle naquella batalha que pareceo ser
+trespassado em cada um o mesmo esforço, que no Princepe viam,
+responderam todos mui ledos, que pois elle queria, e lhe assi perecia,
+elles estavam mui prestes para fazer o que sempre fizeram aquelles donde
+elles decendiam.
+
+
+
+
+CAPITULO XV
+
+_Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso Anriques,
+posto na Cruz como padeceo por nós_.
+
+
+Quando foi contra a tarde depois que o Princepe fez poer as guardas em
+seu arraial, o Irmitão que estava na Irmida, que acima dissemos, veio a
+elle, e disse-lhe: «Princepe D. Affonso Deos te manda por mim dizer, que
+pela grande vontade e desejos que tens de o servir, quer que tu sejas
+ledo, e esforçado, elle te fará de menhã vencer El-Rei Ismar, e todos
+seus grandes poderes, e mais te manda por mim dizer, que quando ouvires
+tanger uma campainha que na Irmida está sairás fóra, e elle te
+apparecerá no Ceo, assi como padeceo pelos peccadores». (E já antes
+desto elle tinha feito, e dotado com grande devação o Moesteiro de Santa
+Cruz de Coimbra, á honra da morte e paixão que N. Senhor recebeo na
+Cruz, pelo qual é de crer que lhe quiz Deos assi apparecer, porque por
+onde cada um mais merece, por hi o mais honra, e alevanta) Des que se
+partio o Irmitão, o Princepe D. Affonso poz os giolhos em terra, e
+disse: «Oh bom Senhor Deos todo poderoso a que todalas creaturas
+obedecem, sogeitas a teu poder, e querer, a ti só conheço, e tenho em
+mercê os grandes bens e mercês que me tens feito, e fazes em me mandares
+prometer tão grande cousa, como esta, e tu Senhor sabes que por te
+servir, passei muita fadiga e trabalho contra estes teus imigos, com os
+quaes, por serem contra ti, eu não quero paz, nem os ter por amigos, e
+pois em quanto viver, me não heide partir de teu serviço á tua infinda
+piedade peço que me ajudes, e tenhas em tua santa guarda; porque o imigo
+da linhagem humanal não seja poderoso para torvar teu santo serviço, nem
+fazer que os meus feitos sejam ante ti aborrecidos».
+
+E desde que esto disse com outras muitas devotas palavras, encomendou-se
+a Deos, e á Virgem gloriosa sua Madre, acostou-se, e adormeceo, e quando
+foi uma hora, ante menhã tangeo-se a campa, como o Irmitão disséra, e
+então o Princepe saio-se fóra da sua tenda, e segundo elle mesmo disse,
+e dentro em sua Estoria se contem, vio Nosso Senhor em a Cruz no modo
+que disséra o Irmitão, e adorou-o mui devotamente com lagrimas de grande
+prazer, confortando-se, e animando-se com tal elevamento, e confirmação
+do Espirito Santo, que se afirma (tanto que vio N. Senhor) haver antre
+outras palavras falado alguma sobre coração, e espirito humano dizendo:
+«Senhor, aos Ereges, aos Ereges faz mister appareceres, que eu sem nhuma
+duvida creio, e espero em ti firmemente». Esto mesmo não é para leixar
+de crer, o que tambem se afirma que neste apparecimento foi o Princepe
+D. Affonso certificado por Deos de sempre Portugal haver de ser
+conservado em Reino, e o tempo, e caso, aquella ora sua virtude, e
+merecimentos eram taes para lho Deos prometer. E mais se afirma que por
+ser esta a vontade de N. Senhor confirmou-o depois um parceiro de S.
+Francisco homem santo, que veio a Portugal, do que nos tempos passados,
+e em nossos dias, Deos seja louvado, se vio muito grande mostra desto
+atégora, e será para sempre; tudo é para crer que N. Senhor queria, e
+faria a Princepe tão virtuoso, sobre que fundava Reino, e Reis tão
+virtuosos, para tanto seu serviço, e da santa Fé Catholica, e por suas
+cousas andarem por culpas dos tempos em mui falecida lembrança de
+escritura quiz Deos, segundo parece, que ficassem algumas em confirmada
+fama.
+
+
+
+
+CAPITULO XVI
+
+_Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes para
+peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei_.
+
+
+Tanto que N. Senhor desapareceo, o Principe mui cheio de prazer, e
+esforço, se veio para sua tenda, e fez-se armar, mandando dar ás
+trombetas, e atabales, e anafins, os do arraial foram logo todos
+levantados, e começaram-se de confessar, e ouvir suas Missas, e
+commungar encomendando-se todos a Deos, com grande devação, e alegria.
+Esto acabado partio o Princepe sua gente em quatro azes, na primeira
+meteo trezentos de cavallo, e tres mil homens de pé, e na reguarda fez
+outra az em que iam outros trezentos de cavallo, e tres mil de pé; uma
+das azes fez de duzentos de cavallo, e dous mil de pé, outra az fez de
+outros tantos, que eram por todos dez mil homens de pé, e mil de
+cavallo; na primeira az ia o Princepe com mui bons Cavalleiros, ia com
+elle D. Pero Paes Alferes que levava sua bandeira, e D. Diogo Gonçalves,
+que era grande rico homem; a reguarda foi encomendada a D. Lourenço
+Viegas, e a D. Gonçalo de Souza, e a az esquerda a Mem Moniz filho de D.
+Egas Moniz já finado, e a direita a seu irmão Martim Moniz.
+
+Não cessava o Princepe em ordenando as azes, e depois de ordenados,
+correndo por todos a anima-los, e esforça-los, chamando-os por seus
+nomes, trazendo-lhe á lembrança o que lhes tinha falado, e encomendado,
+e nelles cabia fazer, e assi desde que o Sol sahio, e ferio nas armas
+dos Christãos, maiormente indo acompanhados da graça de Deos
+resplandeciam e reluziam tão grandemente, que ainda que poucos fossem,
+não havia poder maior que os não temesse.
+
+Os Mouros tambem de seu cabo postos no campo, fizeram de si doze azes de
+gente mui grossa, assi de pé, como de cavallo, e quando os Senhores e
+grandes que estavam com o Principe viram as azes dos Mouros, e grande
+multidão delles sem conto, chegaram ao Principe, e disseram: «Senhor,
+nós vimos a vós que nos façais uma mercê, a qual será grande bem, e
+honra dos que aqui viverem, e aos que morrerem, e a todolos os de sua
+geração». O Princepe lhe respondeo que dissessem, que não havia cousa,
+que em seu poder fosse de fazer, que de boa vontade não fizesse, elles
+disseram: «Senhor, o que toda esta vossa gente vos pede é, que vós
+consintais que vos façam Rei, e assi haverão mais esforço para
+peleijar». Respondeo elle e disse:
+
+«Amigos seres irmãos, eu assaz tenho de honra, e senhorio antre vós, por
+sempre ser de vós mui bem servido, e guardado, e porque desto me
+contento muito, não me quero chamar Rei, nem se-lo, mas eu como vosso
+irmão, e companheiro, vos ajudarei com meu corpo contra estes infiels
+imigos da Fé, quanto mais que para o que dizeis o lugar, nem ora, não
+são convenientes, pelo qual para o feito em que estamos vós sede mui
+esforçados, e não temais nada, que o Senhor Jesu Christo, por cuja Fé
+somos aqui juntos, e prestes para peleijar, e esparger nosso sangue,
+como elle fez por nós, nos ajudará contra estes imigos, e os dará
+vencidos em nossas mãos, e o preciozo Apostolo Santiago cujo dia hoje é,
+será nosso Capitão, e valedor nesta batalha». Responderam elles todos:
+«Senhor praza a Deos que assi seja, e não menos o esperamos de sua
+graça, porém para elle ser milhor serviço de vós, e de nós neste feito,
+e em todos os outros adiante, é mui necessario que vos alcemos por Rei,
+e não deve uma só vontade vossa trovar a de todos que vo-lo tanto
+pedimos, e desejamos». O princepe vendo-se tão aficado delles, disse que
+pois assi era que fizessem o que lhes bem parecesse. Então todos o
+levantaram por Rei; bradando com grande prazer e alegria: «Real, Real,
+por El-Rei D. Affonso Anriques de Portugal». Anno de Christo de mil
+cento e trinta e nove (1139).
+
+
+
+
+CAPITULO XVII
+
+_Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de Portugal deu
+batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande vencimento
+della_.
+
+
+Feito esto El-Rei cavalgou logo em um cavallo grande, e fermoso, que lhe
+foi trazido cuberto de suas armas brancas, como dantes trazia, e os
+senhores Cavalleiros se tornaram cada um a suas azes, e lugares
+ordenados, e sem mais tardança, moveram contra os Mouros que já vinham
+contra elles. El-Rei quando vio ser tempo disse a D. Pero Paes seu
+Alferes que abalasse mais rijo com a bandeira, e toda sua az, o fez
+assi, e foram todos juntos ferir nos Mouros mui rijo, onde El-Rei que ia
+diante ferio um Mouro da lança, de tal sorte, e encontro, que deu logo
+com elle morto em terra, e rompendo a primeira az dos Mouros chegaram á
+segunda da gente mui grossa, e ali foi grande sem conto o poder dos
+Mouros, que tambem das outras azes carregaram sobre El-Rei. Então D.
+Lourenço Viegas, e D. Gonçalo de Souza que traziam a reguarda acodiram a
+El-Rei mui esforçadamente, e foi a peleija mui grande, e ferida de ambas
+as partes, esso mesmo Martim Moniz, e Mem Moniz irmãos, Capitães das
+azes entraram cada um de sua parte na batalha, como esforçados
+Cavalleiros que eram, fazendo grande matança nos Mouros.
+
+Todos o faziam muito bem: mas em especial El-Rei da ventagem que era mui
+grande de corpo, e de mui assinada valentia, de força grande, e coração
+muito maior, e gram cortador de espada, e por tanto seu peleijar onde se
+topava, antre todos era avantejado. Foi esta batalha tão bravamente
+peleijada, que durou até horas do meio dia, sem tomar fim, sendo o dia
+tão quente, e tanto pó naquelle tempo, que cada uma destas cousas com
+pouca mais afronta os devera cansar; mas N. Senhor que era com El-Rei D.
+Affonso tão esforçado Cavalleiro, e com os seus lhes deu esforço, como
+nem com nhuma destas cousas, nem com tanta multidão de Mouros
+afraquassem dando-lhe batalha, e de tudo tão grande vencimento, qual se
+não deu, de tão poucos, e tantos em batalha campal aprazados; foi assi
+vencido El-Rei Ismar, e os quatro Reis Mouros que vinham com elle, e
+mortos na peleija mui grande conto de Mouros, e muitas das molheres
+pelejadoras, que acima dissemos, nem da parte dos Christãos foi a
+vitoria sem perda grande, morreram muitos antre os quaes Martim Moniz
+Capitão da az direita, e D. Diogo Gonçalves, homens mui principaes.
+
+Não se espante ninguem, nem duvide do que em cima escrevo da grandeza
+deste vencimento, como já vi espantar alguns por mo assi ouvirem, quando
+Plutarco, e outros Authores Gregos, e assi Tito Livio com outros
+Latinos, concordando affirmam, e dizem a vitoria da batalha que Lucullo
+Lentullo Capitão de Roma houve em Asia contra El-Rei Tigrames ser a
+maior que o Sol nunca vio sendo os Romãos onze mil de pé, a fora a gente
+de cavallo, e os imigos duzentos e vinte mil de peleija, havendo-o logo
+com gente tão cobarda, e prestes para fogir, que sobre morrerem delles
+cem mil no desbarato, dos Romões sómente cinco morreram, e feridos não
+passaram de cento, donde se escreve, que os Romãos houveram vergonha, e
+se riram de si mesmos por tomarem armas para tão vil gente, da qual
+segundo affirma Tito Livio eram os vencedores quasi a vigessima parte, o
+que em mui maior gráo, e desigualança se deve estimar, e dizer desta
+vitoria del-Rei D. Affonso assi pelo muito mais numero de imigos, e
+menos dos Christãos, como pela valentia, e animosidade, e seita
+contraria dos infieis, e além desso vezados ás mesmas guerras nossas, e
+a muitas vitorias havidas contra nós, com que se tinham feito vencedores
+da Christandade, e senhoreado o mundo, nem des o tempo de Lucullo
+Lentullo para cá, não acho vitoria destas mais assinadas, que foram;
+porque desta del-Rei D. Affonso se devia julgar, nem dizer menos do que
+disse.
+
+
+
+
+CAPITULO XVIII
+
+_Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida acrecentou em
+suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, e da nova
+que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que ahi foram tomados_.
+
+
+Depois da batalha vencida esteve El-Rei D. Affonso tres dias no campo,
+como é de costume fazerem os Reis se forçados necessidade lhes não vem,
+e estando assi no campo, em lembrança da grande mercê que lhe Deos
+naquelle dia fizera acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que
+lhe alli acontecera, no Ceo, em Cruz. Poz sobre o campo que dantes no
+Escudo trazia, por Armas uma Cruz toda azul, partida em cinco Escudos,
+pelos cinco Reis que vencera, e meteo trinta dinheiros de prata em cada
+um dos Escudos em relembrança da morte e Paixão de Jesu Christo, vendido
+por trinta dinheiros, e os Reis de Portugal, que depois vieram, vendo
+que se não podiam meter tantos dinheiros em pequenos Escudos Darmas
+puzeram em cada um dos cinco Escudos cinco dinheiros em aspa, e assi
+contando por si cada uma carreira da Cruz do longo, e atravez metendo
+sempre no conto de ambas as vezes o Escudo da ametade, fazem trinta
+dinheiros, e desta maneira se trazem agora.
+
+Depois dos tres dias passados que El-Rei D. Affonso esteve no campo com
+mui grande honra, e grandes prezas de ouro, e prata, presioneiros, e
+gados tomados na batalha, tornou-se para Coimbra. Antre os prisioneiros
+era um bom quinhão de gente que chamavam Moçaraves, os quaes eram
+Christãos, que os Mouros tinham por cativos naquella terra, e quando
+El-Rei chegou a Coimbra o Prior de Santa Cruz o saio a receber, e
+disse-lhe: «Oh Senhor Rei, e vós outros nobres varões que sois filhos da
+Santa Madre Egreja, porque trazeis assi prezos, e cativos estes
+Christãos irmãos vossos como se fossem infieis, devendo-os de ter, e
+tratar como vós mesmos; ora vos peço senhor, pois são da Lei de Christo
+como nós, sejam soltos, e livres da prizão». E El-Rei que era muito
+sogeito a toda rezão, e virtude, de todo bom, e verdadeiro Christão,
+outorgou logo no que o Prior falou, e os mandou todos soltar, e livrar
+de cativeiro.
+
+Vinham entre estes Moçaraves dous homens de grande idade, e mui louvada
+vida, os quaes contáram a El-Rei como já estiveram no cabo da terra do
+Algarve que mais sae ao mar do Occidente, que naquelle lugar jazia o
+Corpo de S. Vicente, ao qual elles alli viram fazer muitos milagres.
+Quando El-Rei esto ouvio, tomou grande desejo de haver aquelle Santo
+Corpo em sua terra, mas pois me a Estoria trouxe a fazer menção de tão
+glorioso Martyre que em Portugal temos, parece-me erro passar assi por
+elle, sem dizer primeiro ao menos em soma como, e onde foi martyrizado,
+e seu Corpo guardado dos Christãos, e depois em seus lugares contarei
+como foi trazido áquelle Cabo, que se ora de seu nome chama Cabo de S.
+Vicente, onde por duas vezes foy buscado, e não se podendo achar da
+primeira, foi achado da segunda, e foi trazido á Cidade de Lisboa.
+
+
+
+
+CAPITULO XIX
+
+_Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e mandou
+matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de
+Christo_.
+
+
+Foi S. Vicente natural da Cidade de Osqua, que ora é no Reino de Aragão,
+de nobre linhagem, de Fé, e virtude muito mais nobre. Foi discipulo do
+Martyre Papa Sixto I e praceiro muito como irmão de S. Lourenço, e sendo
+enviado a Espanha pelo Papa, chegou-se a S. Valerio Bispo de Valença, o
+qual por ser empachado na lingoa, em prégações, e muitos outros autos do
+serviço de Deos, cometia o carrego a S. Vicente. Era então Emperador de
+Roma Diocleciano gentio, que fez geralmente pelo mundo a decima
+persecução contra Christãos, que durou dez annos, e foi maior, e mais
+cruel, que nhuma feita antes, nem depois, e antre muitos emxuqutores,
+que a esso mandou por todalas Provincias, enviou Daciano em Espanha o
+qual estando em a Cidade de Valença, tanto que soube da vida de S.
+Valerio, e S. Vicente, e da doutrina de Christo, que ao povo prégavam,
+os fez trazer ante si, preguntando-lhes, e emquerendo com gram sanha, e
+ameaços pelas obras que faziam, e prégavam, e S. Valerio por ser já
+velho, e empachado da fala, como dito é, começou a responder manço, e de
+vagar.
+
+Disse então S. Vicente a S. Valerio: «Padre não cumpre aqui resposta que
+seja emcolheita, mas se mandardes eu responderei a este Juiz». S.
+Valerio respondeo: «Pras-me filho, que como sabes dias ha que te tenho
+minhas vezes cometido». Então S. Vicente respondeo, e falou a Daciano
+com tanto fervor, e constancia pela Fé de Christo, que Daciano mui irado
+o mandou fortemente atormentar mudando-lhe, e dobrando-lhe, (a fim de o
+tirar de Christo por muitos dias) os tormentos, taes, e tantos, quanto
+crueza sobeja muito podia sobejamente inventar e fazer, sem ficar nhum
+que se possa cuidar, os quaes por brevidade, dizer escuzo. Vendo-se
+Daciano com todos seus tormentos, perante todos vencido, e S. Vicente
+cada vez em elles mais vencedor, e glorificado, receando, que se por
+então morresse nos tormentos leixaria de si maior gloria, mandou que o
+lançassem em sua cama mui mole, e curar muito bem delle, para depois de
+convalecido lhe renovar novas dores, e chagas, e assi por continuação de
+tormentos faze-lo render; mas elle jazendo naquella preciosa, e não
+caridosa cama, deu a Alma a Deos, que como sua a levou para si, e a quiz
+haver por escuza de mais exames, nem provas de virtudes.
+
+Sabendo sua morte Daciano ainda então se não doeo delle, se não de sendo
+vivo lhe ser tolhido sua crueza, dizendo: «Pois em vivo o não venci,
+morto o vencerei, e desfarei». Mandou então lançar o Corpo ás aves, e
+animalias, que o comecem, onde houve pelos Anjos tão guardado, que nhuma
+lhe poz boca, antes de Corvos que al não buscavam, foi um visto
+guarda-lo, e defende-lo, o que sendo dito a Daciano, disse com a mesma
+sanha, e crueza dantes demais: «Se nem morto o poderei vencer». Então
+mandou atar uma grande mó ao Corpo, e lanca-lo no mar para debaixo do
+mar ser escondido, e desfeito, quem sobre a terra não pudéra; mas o
+Corpo de S. Vicente milagrosamente veio até á terra primeiro que o mesmo
+barco, que o foi deitar, e alli por sua revelação foi sabido e recolhido
+seu Corpo dalguns Christãos, que o devotamente enterraram, fazendo ahi
+sempre muitos milagres. Padeceo depois de N. Senhor duzentos e oitenta e
+sete annos (287). Deste Martyre precioso falam muitos Doutores, mui
+grandes louvores, antre os quaes diz delle Santo Agostinho: «Oh
+Bemaventurado Vicente, verdadeiramente venceste: venceo nas palavras,
+venceo nas penas, venceo queimado, venceo alagado, venceo vivo, venceo
+morto».
+
+
+
+
+CAPITULO XX
+
+_Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de S.
+Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo achar
+se tornou para Coimbra_.
+
+
+Contam as Estorias dos Arabigos, que andando a era dos Mouros, em cento
+e trinta e cinco annos, se levantou nas Espanhas um poderoso homem, a
+que chamavam Abdenamer, o qual começou a conquistar, e sobgigar por
+Espanha assi Mouros, como Christãos, não achando Santuario de Christãos,
+que não destruisse, nem ossos de Martyres, que não queimasse, e andando
+nesta conquista foi ter a Aragão, e a Valença, e os homens que tinham o
+Corpo do Martyre S. Vicente, quando souberam de sua vinda, e do que
+fazia ás Reliquias, e Corpos dos Santos, houveram seu acordo de fogirem
+com elle, para terra onde fosse guardado; aprouve a N. Senhor de os
+guiar áquelle Cabo chamado ora de S. Vicente, como acima se diz, para o
+seu Corpo alli ser enterrado, e escondido, e aquelles homens bons que o
+trouxeram, estiveram continuadamente com elle até que por alli chegou um
+Cavalleiro Mouro, que morava naquella terra dos Algarves, natural do
+Reino de Fês a que chamavam Albofacem, e contam as Estorias em como elle
+disse, que andando por alli de noite achára certos homens guardando
+aquelle Corpo, os quaes matara, e leixara o Corpo.
+
+El-Rei D. Affonso ouvindo o conteudo nesta Estoria com o que lhe tinham
+falado e affirmado os dous velhos Moçaraves de como estiveram no mesmo
+lugar, onde jazia o Corpo de S. Vicente, teve Conselho com os seus em
+que modo o poderiam haver, e acordaram que fizessem tregua com os
+Mouros, e por tempo certo. Ellas feitas El-Rei D. Affonso partio de
+Coimbra para aquelle lugar, com tanto desejo, e devação, que apagava em
+seu coração todo receio, trabalho, e perigo que nisto corria, e chegando
+lá fez buscar com grande deligencia o Corpo, e nunca o pode achar por N.
+Senhor ter ordenado, que o Jazigo deste glorioso Martyre fosse na Cidade
+de Lisboa onde agora jaz, a qual ainda então era de Mouros. Quando
+El-Rei D. Affonso vio que não podia achar este Santo Corpo, como quer
+que muito lhe pezasse, remeteu seu pezar á vontade de Deos, que por
+então parecia ser aquella, e dali tornou-se para Coimbra.
+
+
+
+
+CAPITULO XXI[4]
+
+_Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a El-Rei
+Dom Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi, e o que nisso passou
+com o Bispo_.
+
+
+Depois disto, estando El-Rei D. Affonso Henriques em Coimbra, sua Mãi se
+enviou muito querelar ao Santo Padre da prisão em que a tinha seu filho
+tantos tempos havia; e o Padre Santo teve aquella cousa por estranha e
+muito mal feita, e determinou de mandar a Portugal sobre isto o Bispo de
+Coimbra que então lá estava em Roma, dando-lhe cartas e grandes mandados
+para El-Rei D. Affonso que tirasse sua mãi da prisão, e não o querendo
+assim comprir fosse interdito posto em todo o reino.
+
+Partio-se o Bispo para Portugal, e veio a El Rei, ao qual depois de dar
+as letras do Santo Padre e dizer sua embaixada, El-Rei disse ao Bispo:
+«Que tinha o Santo Padre de fazer em elle ter sua mãi preza? Que fosse
+bem certo que nem por mandado do Papa nem d'outro nenhum elle em modo
+algum a soltaria, porque o havia assim por mais serviço de Deos e bem de
+seu Reino.» Quando o Bispo vio que outro recado não podia nem esperava
+achar em El-Rei, trabalhou-se de comprir o que o Santo Padre lhe tinha
+mandado, e então excummungou toda a terra e partiu-se de novo fugindo.
+
+Quando veio pela manhã disseram a El-Rei que era excommungado e toda sua
+terra, do que sendo mui irado se foi á Sé, e fez entrar todos os Conegos
+no Claustro em Cabido, e disse-lhes: «D'entre todos me dai um Bispo».
+Elles responderam todos: «Bispo temos; como vos daremos outro Bispo?»
+Disse El-Rei: «Esse, que vós dizeis nunca aqui será Bispo em todos meus
+dias; mas pois assim é, sahi-vos todos pela porta fora, e eu catarei
+quem faça Bispo». Elles sahiram-se, e El-Rei vindo pela Claustra vio vir
+um clerigo que era negro, e disse-lhe: «Como has nome?» O clerigo
+respondeu: «Hei nome Martins».--«E teu pai como se chamava».--Colleima
+disse elle. El-Rei perguntou-lhe: «És bom clerigo, ou sabes bem o
+officio da Igreja?» E elle respondeu: «Não ha ahi melhores dous na
+Hespanha, nem que o melhor saibão». Então disse El-Rei: «Tu serás Bispo
+Dom Colleima, e ordena logo como me digas Missa». «Senhor», disse elle
+«eu não sou ordenado como Bispo, para vo-la poder dizer». Acudio El-Rei:
+«Eu te ordeno como Bispo, que m'a possas dizer, e apparelha-te como logo
+m'a digas, senão eu te cortarei a cabeça com esta espada». E o clerigo,
+com medo, revestio-se para dizer Missa solemnemente como Bispo.
+
+Sabido este feito em Roma, cuidaram que El Rei era herege, e enviou-lhe
+o Papa um Cardeal que lhe ensinasse a fé.
+
+
+
+
+CAPITULO XXII
+
+_Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El-Rei D. Affonso
+Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados_.
+
+
+A novidade que esta cousa assim feita por El-Rei D. Affonso Henriques
+assim poderá parecer a quem quer que a ler e ouvir, como pareceu
+naquelle tempo, me faz haver por necessario, antes que mais por ella
+prosiga, fazer alguma salva deste caso por trazer comsigo mostra de
+exorbitancia. No que certo, assim como se não pode negar cousas de tal
+modo feitas serem fóra do que os homens devem, assim se não pode deixar
+de confessar o modo e maneira do Rei ser mui fóra dos outros homens; que
+o Rei não é Rei per si nem para si, e para obrar e se salvar, outro ha
+de ser o caminho do Rei, outro o do frade. E pois o coração do Rei é na
+mão de Deos e onde Deos quer o inclina, segundo diz a sagrada
+Escriptura, como se deve crer nem cuidar que Rei catholico e virtuoso
+faça nenhuma cousa similhante fora da vontade e querer de Deos, ainda
+que seja fóra da vontade e parecer dos homens? Que assim como Deos, sem
+nosso saber, nos leva muitas vezes por onde não queremos ao que mais
+devemos querer, assim é de cuidar que dispensa occultamente, sempre
+porem justamente, como se faça ás vezes o que parece que não deve ser,
+porque venhamos ao que elle quer e ordena que seja.
+
+Ordenava Deos e queria constituir e estabelecer Portugal reino para
+muito misterio de seu serviço, e exalçamento da santa fé; como elle seja
+louvado se manifestou e cada vez mais manifesta, no que com muita razão
+póde tambem entrar este feito d'El-Rei D. Affonso Henriques em fazer
+assim este bispo como figura já então prognosticada do grande misterio
+que só por mão de seus successores Nosso Senhor adiante ordenava, que as
+gentes tinctas das Ethiopias e Indias, e outras terras novamente por sua
+navegação e conquista achadas, viessem a entrar e ser mettidas na fé de
+Christo; e isto tanto pela ventura por Deos querido e figurado então
+neste um negro assi tomado e metido no seio da Santa Madre
+Igreja,--quanto agora a seu muito louvor se vê manifestado e comprido em
+mui e muitos outros, por mão dos successores de quem aquillo fêz. Assim
+que era El-Rei D. Affonso posto então nos começos destas cousas, tendo
+Castella por contraria e pelo seu respeito por ventura o Papa, e pois
+lhe Deus para isso tirava e desfazia os impedimentos, e chegava todos os
+bens e ajudas, como não creremos que dispensando com a ordem que deu
+geralmente entre os homens, inspirasse no coração de El-Rei D. Affonso
+que houvesse por bem fazer assim por então aquellas cousas, e as
+fizesse; quanto mais perseverando elle depois no preposito dellas sem
+mostrança d'arrependimento, como cousa que assim mais compria ao
+misterio que se de Portugal ordenava, que era constituir-se Reino, e
+constituido accrescentar-se, e accrescentado conservar-se, sem ter dever
+com impedimentos humanos contrarios a tal disposição e juiz divino?
+
+Tem a igreja por Santas, e faz festa a certas mulheres que se matarão,
+por em seus corpos não consentirem corrompimento, e ha por salvo Santo
+Sansão, que tambem se matou, e outros muitos comsigo; havendo a Igreja
+por certo que o virtuoso coração destes não podia obrar tamanho mal como
+é matar-se, senão pelo instincto de Deos inspirado. Quanto mais deve
+cuidar e crer em menos erro de Reis virtuosos por Deos mui ajudados e
+prosperados sendo pessoas publicas postas nos reinos para bem dos reinos
+por Deos, e nas mãos de Deus mais que nenhuns outros homens; e posto que
+por ventura se veja ou leia, que cousas assim feitas não carecerão neste
+mundo de alguma punição, é de cuidar que ordena Deos isso por que se
+conserve todavia proposito e exemplo do que geralmente mandou que se
+fizesse, maiormente não sendo as tribulações e penas deste mundo
+condenação para o outro, mas provação ou mezinha por de um muito bom rei
+fazerem ainda melhor, dando-lhe azo e cauza de mais lembrança e
+conhecimento de Deos e da virtude. Porque, como diz S. Gregorio, os
+males que neste mundo nos apressão para Deos nos empuxão; pelo qual os
+similhantes casos em principes Catholicos e virtuosos, como era El-Rei
+D. Affonso Henriques, não os queiramos assim ligeiramente julgar, que
+não remettamos o intrinseco delles áquelle Supremo Saber do Senhor Deos,
+por cuja providencia se não faz nada neste mundo sem causa, e assim não
+nos fará novidade nem espanto lê-los nem ouvi-los.
+
+
+
+
+CAPITULO XXIII
+
+_Como o papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a prisão de
+sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles se passou
+em Coimbra_.
+
+
+Quando as novas chegaram ao Santo Padre de como El-Rei D. Affonso
+Henriques não queria obedecer a suas cartas e mandados para soltar sua
+mãi, e fizera assim aquelle Bispo da maneira que se disse, o Santo
+Padre, e toda a Côrte, teve que elle era Herege, e propozeram de lhe
+enviar um Cardeal, que o ensinasse e mostrasse a fé, e corrigisse de
+quaesquer erros que tivesse. O qual veio pelas Côrtes dos Reis de
+Hespanha, que sahião a recebe-lo mui honradamente. E vindo já o Cardeal
+perto de Coimbra onde El-Rei estava, vieram alguns fidalgos a El-Rei e
+disserão-lhe: «Senhor, aqui vos vem um Cardeal de Roma por estardes em
+desprazer e descontentamento do Papa por este Bispo que fizestes.» Disse
+El-Rei. «Ainda me não arrependo.» Elles proseguindo mais avante pela
+nova do Cardeal, disseram: «Senhor, todos os Reis por cujas terras vem,
+segundo se diz, lhe fazem quanta honra podem, e provão para lhe beijarem
+a mão.» Disse então El-Rei: «Não sei Cardeal nem Papa que a Coimbra
+viesse, e me tendesse a mão para lh'a beijar em minha casa que lhe eu
+não cortasse o braço pelo cotovello com esta espada, e disto não podia
+escapar.»
+
+Estas palavras soube o Cardeal em chegando a Coimbra, e tomou grande
+receio, e El-Rei não quiz sahir fóra a recebê-lo. O que logo o Cardeal
+teve a máo sinal, e portanto em chegando se foi direito a Alcaçova onde
+El-Rei pousava. Alli o recebeo El-Rei mui bem e disse-lhe: «Pois,
+Cardeal, a que viestes a esta terra, ou que riquezas me trazeis de Roma
+para estas hostes que tão a miude faço de dia e de noute contra Mouros?
+Dom Cardeal amigo? Se vós por ventura me trazeis algo que me dês,
+dai-mo, e se me não trazeis nada, tornai-vos vossa via.» «Senhor,» disse
+o Cardeal: «Eu sou vindo a vós da parte do Santo Padre para vos ensinar
+a fé de Christo.» Respondeu então El-Rei: «Certo assim temos nós outros
+cá bons da fé nesta terra como vós lá em Roma, e portanto bem sabemos
+como o Filho de Deos encarnou na Virgem Maria e della nasceo, e isto por
+obra do Espirito Santo, e como morreo na cruz por remir a geração
+humanal e descendeu aos infernos, e ao terceiro dia resurgiu não mortal,
+e que o Padre e o Filho e o Espirito Santo são Tres Pessoas realmente
+distinctas em uma só essencia. Esta fé temos e cremos firmemente tão bem
+como vós lá em Roma; pelo qual não havemos por agora mister de vós outra
+doutrina nem ensino. Mas deem-vos agora essas cousas que houverdes
+mister, e de manhã, se Deos quizer, eu e vós fallaremos.»
+
+Foi-se então o Cardeal para a pousada, e mandou logo pôr cevada ás
+bêstas, e tanto que foi meia-noute mandou chamar todos os clerigos da
+cidade e excommungou a cidade e todo o Reino, e cavalgou, e foi-se da
+guisa que ante manhã andou duas legoas.
+
+
+
+
+CAPITULO XXIV
+
+_Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal
+escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle
+passou_.
+
+
+Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manhã, e disse a seus cavalleiros:
+«Vamos ver o Cardeal.» Disseram elles: «Senhor, ante manhã se foi daqui,
+e deixou excommungado a vós e a toda vossa terra.» Disse assim El-Rei:
+«Sellem-me á pressa tal cavallo:» e cingio sua espada, e cavalgou a
+grande pressa quanto pode após elle. Seguião-o todos, mas elle, segundo
+era melancholico, não quiz esperar por ninguem, e foi alcançar o Cardeal
+em um lugar que chamão a Vimieira, a par de Poiares, caminho da Beira, e
+como chegou a elle lançou-lhe mão do cabeção, e com a outra tirou a
+espada, e alçou o braço com ella, dizendo: «Dá a cabeça, traidor,»
+querendo-lh'a cortar. Disserão quatro cavalleiros, que ahi chegarão com
+elle: «Senhor, por mercê não queiraes tal fazer, que se matardes este
+Cardeal cuidarão de todo em todo que sois herege.» Disse então El-Rei:
+«Por essa palavra que ora dissestes, vós lhe daes a cabeça; mas pois
+assim é, disse El-Rei, Dom Cardeal, ou vós desfazei quanto fizeste, ou
+cá vos ficará todavia a cabeça.» «Senhor» disse o Cardeal «não me
+queiraes fazer mal, e toda a cousa que vós quizerdes eu a farei de boa
+mente.» «O que eu quero que vós,» disse El-Rei «façaes, é que
+descommungaes quanto excommungastes, e que não leveis daqui ouro, nem
+prata, nem bestas senão tres que vos abastarão, e mais que me envieis
+uma letra de Roma que nunca eu nem Portugal em meus dias seja
+excommungado, que eu o ganhei com esta minha espada. E isto quero de vós
+por agora, e porem vós deixareis aqui este vosso sobrinho filho de vossa
+Irmã, em prenda até que a letra venha, e se ella até quatro mezes aqui
+não fôr que eu lhe corte a cabeça.» A tudo, disse o Cardeal que lhe
+aprazia, e assim ficou de fazer. Então lhe tomou El-Rei quanta prata e
+ouro lhe achou e bêstas, e não lhe deixando mais de tres que levasse, e
+disse-lhe: «Ora, Dom Cardeal, ide-vos ahi vosso caminho, que este é o
+serviço que eu de vós quero, e todavia venha a letra.» E isto acabado
+ante que se o Cardeal partisse tirou El-Rei a capa pelle, e despio-se
+todo e mostrou muitos signaes de feridas que tinha pelo corpo e disse:
+«Cardeal como eu sou herege bem se mostra por estes signaes, que eu
+houve estas em tal peleja e tal, e estas em tal cidade ou villa que
+tomei, e todas por serviço de Deos contra os inimigos de nossa fé; e
+para isto levar adiante vos tomo este ouro e prata, porque estou muito
+mingoado e me faz mister para mim e para os meus.» Foi-se então o
+Cardeal, e El-Rei tornou-se a Coimbra. Por estas muitas feridas que
+El-Rei assi mostrou ao Cardeal, se póde conhecer quanto maiores forão
+seus feitos e valentia do que se achão escriptos, porque em nenhum cabo
+faz a historia menção que fosse ferido nem uma só vez de tantas nem em
+que lugar.
+
+Mandou El-Rei logo um escudeiro á Corte de Roma a saber lá o mais
+encubertamente que pudesse que era o que o Papa e Cardeaes lá dizião
+delle por estas cousas que fazia. E o escudeiro partiu e andou de tal
+pressa que chegou primeiro que o Cardeal. A cabo de dias escreveu este
+escudeiro a El-Rei D. Affonso uma carta que elle mostrou e fez lêr a
+esses do seu Conselho, na qual dizia que quando o Cardeal chegára de
+Portugal, e o Papa soubéra como hia, lhe perguntou como passára com
+El-Rei D. Affonso; e o Cardeal lhe contou como lhe acontecera com elle,
+e como lhe ficára de lhe enviar a letra acima dita. O Papa lhe
+reprehendera muito por isto, dizendo que tal cousa como aquella lhe não
+pertencia, sómente á Sé apostolica, nem era dado a elle nem a outro
+nenhum prometter nem ficar por tal caso.--«Senhor Santo Padre!» disse o
+Cardeal: «Eu não digo letra, mas se a cadeira de S. Pedro fôra minha eu
+lh'a deixára e déra de boa mente por escapar de suas mãos; que se vós
+vireis sobre vós um cavalleiro, tão forte e tão espantoso como elle é,
+ter-vos uma mão no cabeção, e outra alçada para vos cortar a cabeça, e o
+seu cavallo não menos alvoraçado, ora com uma mão ora com outra cavando
+a terra, parecendo que já me fazia a cova, vós dereis a letra e o Papado
+por escapardes da morte; e portanto me não deveis de culpar.» Então lhe
+outorgou o Papa a letra na maneira que o Cardeal quiz, e mandou-a a
+El-Rei antes dos quatro mezes. E El-Rei lhe mandou seu sobrinho mui
+honradamente como compria dando-lhe muito. E por causa disto foi depois
+este Cardeal sempre tanto amigo d'El-Rei D. Affonso que todas as cousas
+que elle havia mister da Côrte lh'as fazia e acabava com o Papa.
+
+E fêz El-Rei D. Affonso em quanto viveo arcebispos e bispos em sua terra
+quaes elle quiz; e a carta que lhe enviou o seu escudeiro mandou ao seu
+escrivão que assentasse e escrevesse no livro das Historias.
+
+Ora torna a historia a El-Rei Ismar que veio a tomar Leiria.
+
+
+
+
+CAPITULO XXV
+
+_Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique veio
+tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e tomou
+Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar Leiria aos
+Mouros_.
+
+
+El-Rei Ismar, que foi vencido no Campo Dourique, por El-Rei D. Affonso
+Anriques como já dissemos, tendo sempre grande vontade em guerrear
+Christãos, em especial depois de haver aquelle grande desbarato, ajuntou
+muitas gentes, e veio-se a Santarem, e dali partio levando consigo a
+Euzari que era Alcaide da Villa, e correo a terra, até chegar a Leiria,
+a qual combateo tão fortemente, que entrou por força matando os mais dos
+Christãos que hi acharam, e levando cativo Paio Goterres, que o Prior de
+Santa Cruz ahi leixára por Alcaide, e depois de leixarem Mouros no
+Castello, e Villa, que a bem mantivessem, e guardassem, tornaram-se logo
+para suas terras, fazendo tudo esto com tanta preça, e trigança, que
+El-Rei D. Affonso estando em Coimbra não teve tempo para soccorrer, e
+vir á batalha com elles.
+
+Foi tomada Leiria del-Rei Ismar era de N. Senhor de mil cento e quorenta
+annos (1140). Quando o Prior de Santa Cruz a que chamavam Theotonio
+homem ante El-Rei muito estimado, vio tomada Leiria, que lhe El-Rei D.
+Affonso com muita devação, e vontade tinha dado, tomou em si grande
+pezar, e partindo-se do Moesteiro, foi-se a guerrear ás terras de
+Alentejo, que os Mouros pessuiam, onde tomou a Villa de Arronches, e em
+quanto assi o Prior lá andou guerreando, El-Rei D. Affonso tendo grande
+pezar por se assi tomar Leiria, ajuntou outra vez gente, e foi sobre
+ella, e Deos que sempre o ajudava em todos os seus feitos, lhe deu tão
+boa esquença, que por força a tornou a tomar, posto que os Mouros a mui
+bem defendessem. E esto foi quatro dias por andar de Fevereiro era do
+Senhor de mil cento e quorenta e cinco annos (1145) e porque vio o Prior
+a quem elle dantes dera a Villa lha não guardára bem, poz em ella, e no
+Castello tal guarda, como compria para sua defensão, que lha não
+podessem assi os Mouros outra vez ligeiramente tomar, e tornou-se a
+Coimbra.
+
+
+
+
+CAPITULO XXVI
+
+_Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz, e
+assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os
+Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D.
+Anrique de Lara_.
+
+
+Acabo de dias, estando El-Rei D. Affonso em Coimbra chegou o Prior de
+Santa Cruz, e disse a El-Rei: «Senhor vós déstes a esta vossa Egreja a
+Villa de Leiria quando a tomastes aos Mouros, e com quanto eu fiz para
+ella ser guardada todo o que bem podia, e devia, porém por nossos
+peccados foi tomada de Mouros como se vio, pelo qual eu tomei tanto
+nojo, que me fez leixar o modo de meu viver ordenado, e tomar vida de
+andar em guerra, no que me ainda Deos ajudou tanto que tomei a Villa de
+Arronches, e ora Senhor somos aqui ante vós, eu, e meus amigos, o feito
+de Arronches, e Leiria todo pomos em vossas mãos». El-Rei havendo sobre
+esso concelho, e vendo como os negocios temporaes não convinham a tal
+Habito, e religião, maiormente em feitos de guerra, teve por bem que
+todo o espiritual destas Villas ambas, fosse de Santa Cruz, e o temporal
+ficasse sempre aos Reis de Portugal.
+
+Estando assi El-Rei D. Affonso com mui grande honra, e fama em Coimbra,
+foi-lhe cometido o cazamento com Dona Mofalda Anriques filha do Conde D.
+Anrique de Lara, e a elle aprouve-lhe muito de cazar com ella por estes
+respeitos, primeiramente por a Caza de Lara ser havida, por a mais alta
+linhagem de Espanha, esso mesmo porque em toda Espanha, não havia molher
+nhuma de linhagem de Reis a que elle não fosse mui chegado em
+parentesco, tambem por ella ser muito fermosa, e dotada de muitas
+virtudes, e bondades, e por tanto tomou mui grande contentamento deste
+cazamento, o qual foi feito em Coimbra, era de N. Senhor de mil cento e
+quorenta e seis annos (1146) havendo já sete annos que fora levantado
+por Rei, e fazendo cincoenta e dous annos de sua idade, e por se não
+achar escrito nada das cousas, que se neste cazamento fizeram, nem como
+foram, se não poz aqui mais, que sómente cazar El-Rei, e o tempo em que
+cazou, pelo qual passando por esto, falaremos, como se El-Rei moveo
+depois para tomar a Villa de Santarem.
+
+
+
+
+CAPITULO XXVII
+
+_Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D.
+Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou_.
+
+
+Ao tempo que os Mouros a que em Arabigo chamam Miçamidas entraram por
+Espanha, e destruiram a Cidade de Sevilha na era do Senhor de mil cento
+quorenta e sete annos (1147) estava El-Rei D. Affonso em Coimbra havendo
+já oito annos que depois de alçado por Rei reinava, o qual havia muito
+que tinha grande vontade, e desejos de tomar a Villa de Santarem a uma,
+por della se fazer muita guerra, a toda sua terra, a outra por ser a
+milhor Villa do Reino, pela nobreza, e abastança de seu assento, que da
+parte do Oriente a vista dos homens não se póde fartar de ver a
+fermosura dos campos mui chãos, abastados de muito pão, correndo por
+elles o grande, e mui nomeado Rio do Tejo, esso mesmo ao Occidente, e ao
+meio dia desfallece a vista dos olhos em o ver espaçoso, e ao Norte
+contra os Montes, grande avondança de vinhas, e olivaes, pelo qual
+falando muitas vezes El-Rei D. Affonso em seu deleitoso, e abastado
+assento em todalas cousas, chamava-lhe Paraiso deleitoso; era El-Rei mui
+magoado, e todo penoso em seu coração por a ver em poder de Mouros, e
+não poder toma-la, com quanto trabalho já tomára sobre ella, porque a
+Villa não era tão grande de manter, nem defender, aos que dentro
+estavam, nem tão pequena, que se pudesse furtar de poucos, álem desto,
+era mui forte de muro, e torres, e barreira da parte do Occidente a que
+os Mouros chamam Alfão, porque parecia deste cabo cham, em respeito do
+outro cerco que é sobre barrocas mui altas, e da parte do Oriente
+fizeram os Mouros carretar tanta terra aos Christãos que tinham cativos,
+com que encheram de fundo acima, e fizeram um oiteiro de tal altura, que
+lhe puzeram os Mouros nome Alarfa, que quer dizer couza ingreme, e
+temerosa, porque lançavam por alli os que eram condenados por sentença á
+morte, e iam os corpos mortos ter ao fundo á ribeira do Tejo, e da parte
+do Sul por rezão da propriedade da terra esbarrondada que seubre
+chamavam Alfange, que em Portuguez soa quebrada, e não se podia por alli
+haver entrada ao lugar, se não por recaios, e da parte do Norte não
+menos está afortalezado, pela grande altura do Monte que é pedregoso, e
+aspero, pelo qual assi pela grande Fortaleza da Villa, que por nhuma
+maneira de engenhos se podia combater, como pelo grande percebimento de
+muito boa gente, e mantimentos que dentro havia, não podia El-Rei D.
+Affonso haver modo de a tomar, nem remedio para tolher a grande guerra,
+que já de gram tempo desta Villa se fazia a Coimbra, e a outros seus
+lugares.
+
+Ajudava muito a Fortaleza da Villa, a defficuldade para se poder tomar a
+grandeza das aguas do Tejo, que por junto corre, porque quando lhe
+El-Rei punha guardas de uma parte, se passavam com seus gados para a
+outra, demais que estes campos eram tão cheos de pavez, e insoas, nem se
+podiam andar, se não por barcas em tempos certos: por onde a Villa era
+tão grave de filhar, que seu avô El-Rei D. Affonso de Castella nunca a
+pudera tomar, senão por fome, nem esto mesmo Cid Rei Mouro, nem
+Abderazaca que teve o senhorio della trinta e quatro annos, o que
+parecerá cousa muito de maravilhar quando se ouvir, que semilhante Villa
+foi tomada por El-Rei D. Affonso Anriques com tão pouca gente, e como
+quer que elle cuidasse muitas vezes em seu pensamento como a poderia
+tomar por força, ou por algum despercebimento, aquelles com que esta
+cousa comunicava, representavam-lhe sempre duvidas, de muito grande
+perigo, e receo.
+
+
+
+
+CAPITULO XXVIII
+
+_Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de
+Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que
+teve com os seus para ir sobre ella_.
+
+
+Duvidoso El-Rei D. Affonso Anriques nesta maneira de poder tomar a nobre
+Villa de Santarem, assi pelas duvidas que punham esses com que falava,
+como pela grande deficuldade que desse mesmo feito parecia, com todo seu
+grande animo, que sempre em Deos esperava, e a nhumas deficuldades se
+rendia, determinou toda via de trabalhar sobre esso, e fazendo treguas
+com os Mouros, por certo tempo, mandou D. Mem Moniz sabedor de todo este
+negocio, e conselho lá, para que visse, por qual parte, se podia a Villa
+furtar, e entrar mais descançado, e seguramente, o qual indo lá, e
+assentando a tregua espiou todo mui bem, como homem mui avizado, e de
+grande engenho, e esforço que era, e da tornada falou com El-Rei em
+segredo fazendo-lhe o caso possivel, prometendo-lhe que elle seria o que
+fosse diante, e dos primeiros que no lugar entrassem, e poria a sua
+bandeira sobre o muro, e quebraria as fechaduras das portas, e assi o
+fez depois, porque era tão bom Cavalleiro, de sua pessoa, e para tanto,
+que para servir El-Rei, e cumprir sua Cavallaria, todalas cousas lhe
+pareciam mui ligeiras, e seguras de perigo.
+
+El-Rei foi mui ledo com seu recado, e esforço, porque entendia,
+fazendo-se como D. Mem Moniz dizia, a Villa poderia tomar, não sendo
+primeiro descuberto, e tanto lhe pareceo que cumpria ser feito com
+grande segredo, que não quiz falar esta cousa aos de seu Conselho, em
+seu Paço, receando-se de poder ser em algum modo ouvido, antes foi um
+dia a folgar ao campo chamado Arnado, e alli apartou D. Lourenço Viegas,
+e D. Gonçalo de Souza, e D. Pero Paes seu Alferes, e outros, e
+contou-lhes todo seu intento, e proposito do que queria fazer,
+mandou-lhes que o tivessem em mui grande segredo sobpena de morte, em
+tal guiza, que ninguem o podesse entender, em quanto alli estivessem,
+nem á partida, e o conselho acabado, tornou-se El-Rei para o Paço, e
+vindo pela rua da figueira velha chegando á Praça disse uma velha
+regateira contra as outras: «Quereis vós saber, o que El-Rei com
+aquelles seus companheiros falou» disseram ellas: «Que falou?» Falou
+disse ella, «como fossem furtar Santarem». El-Rei que passando ouvio
+tudo, e vendo todos aquelles com que falara esta cousa ir comsigo diante
+sem nunca se apartarem delle, foi assi maravilhando-se até o Paço, e
+como descavalgou chamou os todos, e disse-lhes: «Não atentastes no que
+disse aquella velha, certo se algum de vós se apartára de mim, eu
+cuidava que fora descuberto por elle, e lhe mandara por ello cortar a
+cabeça, sem o merecer».
+
+
+
+
+CAPITULO XXIX
+
+_Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar
+Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella
+hora lhe foi revelado lá em França, onde estava_.
+
+
+Depois desto fez El-Rei prestes sómente os seus continuos de sua caza, e
+alguns poucos de Coimbra, com Gonçalo Gonçalves, e assi mantimentos que
+lhes abastassem, e ante que partisse foi-se ao Moesteiro de Santa Cruz a
+falar com aquelle devoto homem Prior do Moesteiro em que elle tinha
+grande e singular devação, e encomendou-lhe sua alma, e seu estado, assi
+como houvesse de partir deste mundo, dizendo-lhe todo o que tinha
+ordenado para ir fazer, e quando havia de ser, encomendando-lhe muito
+afincadamente que naquelle dia com seus amigos rogasse a Deos de vontade
+que o quizesse ajudar naquelle feito a que iam por seu serviço, e que
+esta couza tivesse em grande segredo. Então se partio El-Rei uma segunda
+feira não sabendo ninguem para onde iam; salvo aquelles a que o
+comunicara, e levaram o caminho tão revessado, e encuberto que os Mouros
+não houveram novas delles, e vieram aquelle dia poer as tendas em
+Alfasar, esta foi a sua primeira jornada, ao seguinte dia partiram, e
+foram dormir a Codornolos, e dali mandou El-Rei a Martim Mohaz que fosse
+dizer aos Mouros de Santarem que elle levantava a tregua da li em
+diante, e que a paz dantre si, e elles, fosse quebrada até tres dias,
+que segundo costume daquelle tempo, cada um podia engeitar a tregua a
+seu imigo quando lhe aprovesse, com tanto que lho fizesse primeiro
+saber. Martim Mohaz foi, e depois de comprir o mandado que levava,
+tornou á quarta feira a Aldeguas, onde El-Rei estava, o qual partio da
+li, e indo pela serra Dalvardos acertou-se que D. Pedro irmão bastardo
+del-Rei, que fora já em França, ia falando com elle dos muitos milagres,
+que naquella terra Deos fazia pelo Abbade S. Bernaldo que então era
+vivo, e como lhe Deos outorgava toda couza que lhe pedia.
+
+Então El-Rei movido a devação pelas couzas que lhe seu irmão assi
+contava, disse: «Eu á honra, e louvor de Deos, prometo que se me elle
+Santarem quizer dar, por sua piedade, e pelos rogos do Bemaventurado S.
+Bernaldo, que vós dizeis, e eu lhe dê toda esta terra para a sua Ordem
+quanta vejo daqui até o mar, e que faça um Moesteiro em que Frades da
+sua Ordem vivam a serviço de Deos, e porque ella seja mais acrecentada».
+E segundo conta a Lenda de S. Bernaldo, tanto que El-Rei fez este voto,
+logo lhe a elle foi revelado lá em França, onde estava esta promessa
+del-Rei, e como havia de tomar Santarem aos Mouros, e em como aquelle
+Moesteiro que El-Rei prometera de fazer seria mui nobre, e abastado de
+todalas couzas, segundo depois foi, e é agora um dos grandes, e ricos
+Moesteiros da sua Ordem que ha na Christandade.
+
+Tanto que o Abbade S. Bernaldo assi houve esta revelação mandou logo
+tanger a Cabido, e todos os Monges juntos, lhes contou o que lhe fora
+revelado, então todos cantando: «Te Deum Laudamus», foram á Egreja dar
+graças a Deos, e mandáram logo partir certos Monges para Portugal com
+livros da sua regra, e ordenança, e os que quizessem, viessem para alli,
+os quaes em se começando a obra do Moesteiro, vieram hi ter, e tomaram
+posse pela ordem da Doação que lhe El-Rei fizera, começando hi de viver,
+segundo sua Regra com muito acrecentamento, o qual a N. Senhor aprouve
+que fosse sempre depois, e agora neste tempo.
+
+
+
+
+CAPITULO XXX
+
+_Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre
+Santarem, e das rezões que disse a todos_.
+
+
+Na serra Dalvados, que acima dissemos, esteve El-Rei a quinta feira até
+noite, e dahi abalaram ao serão andando toda a noite, até a mata que
+está sobre Pernes, onde chegaram sexta feira amanhecente, então concirou
+El-Rei que era bem descobrir a todos seu desejo, e ao que iam, e fez-lhe
+uma falla nesta maneira: «Meus bons Cavalleiros, e amigos, mais
+verdadeiramente, que a outros nhuns se ha de chamar, bem sabeis quantos
+trabalhos, e fadigas comigo, e sem mi padecestes por azo desta Villa de
+que ácerca estamos, e quanta guerra, e males tem feitos á nossa Cidade
+de Coimbra, e a todo meu Reino por muito tempo, pelo qual detreminei de
+a vir com vosco escalar, e tomar, como em Deos espero, e ainda que
+parece necessario chamar mais gente para esso, e seja certo que me viera
+de mui boa vontade, porém não quiz, nem escolhi mais que vós soes, em
+que sempre puz, e ponho meus conselhos, e fadigas, e cuja lealdade, e
+valentia, em muitos perigos meus conhecida me deu sempre de vós, tal, e
+tão firme confiança, que com a graça de Deos, ei já por feito o que
+vimos a fazer, alem desto vejo em vossos gestos, e continencias não
+menos sentirdes, e dezejardes, esta couza que eu mesmo, o que me cauza
+tanto prazer, que já me não parece termos nisto mais pejo, que a detença
+deste dia, que passe azinha, para com a graça de N. Senhor nos irmos a
+noite seguinte apossentar dentro na Villa, e o que tenho cuidado para se
+esto mais ligeiramente fazer, escolham-se cento e vinte de nós, para dez
+esquadras partidos a cada uma doze, que logo no primeiro sobir, se achem
+não menos de dez sobre o muro, e assi se dobre cada vez o conto da
+gente.
+
+Os primeiros que sobirem alevantem logo minha bandeira, para esforço dos
+nossos, e esmaio dos imigos se espertarem do sono, e a poz esto quebrai
+as fechaduras das portas, e assi a volta, e estrondo, dos que pela porta
+entrarem, ajuntados com os de dentro esmaiarão mais os imigos, em cuja
+matança de homens sahidos do sono, uns, e desarmados, bem vedes quam
+pouco ha de fazer. Vós a nhuma pessoa não perdoeis, nem deis vida, nem a
+homem, nem a mulher, moço, nem velho, de qualquer idade, e qualidade,
+todos andem á espada, e esto fazei com grande e trigozo esforço, que
+Deos será ahi em nossa ajuda, para cada um de nós matar cento delles, e
+hoje, e á menhã fazem por nós oração geral o Prior, e todos os Conegos
+do Moesteiro de Santa Cruz, a que eu ante que partisse notifiquei o que
+vinhamos fazer, e assi tambem a Cleresia, com todo o povo, e por que
+lhes disse que tinha trato, e intelligencia na Villa, para nos dentro
+receberem, me perdoe Deos esta mentira, que ácinte lhe disse, porque lhe
+esforçasse os corações, e vontades; assi meus amigos vos esforçai, e
+peleijai como sempre fizestes, lembrando-vos o que fazeis por Deos, por
+mi, e por vós, por vossos filhos, e netos, hi serei eu, e me verei com
+vosco, que não póde haver afronta, nem perigo, que a viver, e morrer me
+aparte de vós, como vejo que fareis por mi».
+
+Ouviram todos a El-Rei, mui promptos, e animados, em seus corações, para
+ouzarem, e cometerem todo o que lhes falou, mas consirando elles antre
+si, a grande ardideza del-Rei, e o muito perigo a que se queria poer,
+apartaram-se com elle, e disseram. «Senhor vossa pessoa, não irá com
+nosco, que se formos vencidos, nossos imigos não haverão tanto louvor,
+nem que morramos delles, ou todos, não é muito de curar, salva vossa
+pessoa, e tirada de semelhante risco, cuja perda que Deos defenda seria
+perder-se Portugal, e leixando-vos nòs entrar em tamanho perigo, seria
+nossa linhagem sempre desdita, e prasmada, como filhos de tredores, que
+tendo tal Rei consentiram perde-lo». El-Rei respeitando o que lhe assi
+diziam, a muito amor respondeo-lhes com outro tanto, estas palavras: «Oh
+amigos, rogo a Deos se este anno, eu hei de viver sem vós tais
+Cavalleiros tomardes esta Villa de Santarem, a elle praza que antes eu
+desta vez em ella morra».
+
+
+
+
+CAPITULO XXXI
+
+_Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de
+Santarem, e dos sinais que pareceram_.
+
+
+Passado assi esto com outras muitas palavras, e praticas sobre o caso,
+aparelharam todo o que fazia mister, para tal obra, e leixando alli as
+tendas, e todo o al que traziam, cavalgaram em seus cavallos, e chegaram
+aos olivaes de Santarem, de noite. Esto era em vespora de S. Miguel de
+Maio sete dias andado do mez, na era de mil cento e quorenta e sete
+annos, (1147) e chegados alli viram um sinal, que lhes esforçou muito
+mais os corações; viram uma estrella grande ardente com grande raio
+correndo pelo Ceo, da parte da Serra, que alumiava a terra, e foi ferir
+no mar. Vendo esto disseram logo todos. _Senhor Deos todo poderoso a
+Villa é em vossas mãos_. Esso mesmo no dia que El-Rei mandou notificar
+aos Mouros o britamento das treguas, que acima dissemos aos da Villa,
+appareceo outro sinal mui espantoso pronostico de sua mortindade, que
+foi na terceira noite seguinte, viram no Ceo a horas do meio dia
+semelhança de um Touro ir por meio do Ceo, levando chamas de fogo
+acezas, desde o cabo até á cabeça. O que esses mais sabedores antre os
+Mouros, intrepetáram que Santarem haveria cedo Rei novo, e seria o filho
+del-Rei de Sevilha Mouro, cujo Santarem, e Lisboa, e parte da
+Estremadura era.
+
+Sendo já El-Rei com os seos perto da Villa, lançaram-se em um valle
+encuberto, e escuso, tão acerca do lugar, que ouviam falar as velas do
+muro, quando bradavam uns aos outros, e estiveram alli toda a noite, com
+os cavallos pelas redeas, vigiando com grande cuidado, do que ao dia
+seguinte esperavam de fazer, sem os Mouros delles haverem nhum
+sentimento.
+
+Em esta noite, e o dia seguinte o Prior de Santa Cruz de Coimbra, com
+grande devação ocupado em rogar a Deos por El-Rei, mandou fazer aos seus
+Conigos orações publicas, e particulares, e elle em seu orar mui
+devotamente dizia: «Senhor Deos todo poderoso, que sem combate, nem
+força humana fizeste cair os muros de Jericó, e a rogo, e voz de Jezoé,
+mandaste estar quedo o Sol de seu curço contra Guabaão, pesso á tua
+infinda bondade, que segundo tua grande misericordia queiras dar vitoria
+a El-Rei D. Affonso afadigado por te servir, dando-lhe Sol, e sombra que
+ajude sua tenção, e todo o azo como tome a Villa, que vai ganhar, para
+teu serviço, e livrar dos imigos que a tem com doesto de tua santa Fé, e
+por tal que a çuja seita de Mafamede seja lançada fóra della, e o teu
+santo nome seja sempre hi louvado.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXII
+
+_Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de
+Santarem, e foi entrada, e tomada_.
+
+
+Desque veio a madrugada sobre o quarto dalva, quando elles entenderam
+que as velas estavam mais sosegadas, e sonorentas, e os da Villa mais
+desegurados, e entregues ao sono, partiram donde estavam, leixando
+naquelle valle os pajes com os cavallos, e tomaram o somideiro antre
+Motiraz, e a fonte Datamarma, a qual assi chamam em Arabigo, pelas aguas
+della, que são doces, e foram assi pelo meio do Vale, indo diante D. Mem
+Moniz que sabia bem as entradas, e saidas, e El-Rei mais atraz, e posto
+que por onde levaram tenção de escalar, achassem o contrario do que
+cuidavam, porém Deos a cujo poder não póde haver contrario, lhe tornou
+em bem este impedimento, por mostrar assi seu poder e ajuda, que no
+lugar porque haviam de entrar, e sobir, tinham por certo não haver ahi
+nhuma guarda, e acharam estar duas velas, postas em um cadafalço, feito
+de novo, que se espertavam um ao outro; e nisto, a rolda que andava pelo
+muro requerendo ás velas, chegou por hi, e falou-lhe, e os Christãos
+leixáram-se estar quedos, em um pão, que hi estava, até lhes parecer que
+as velas poderiam adormecer.
+
+E ao cabo de pouco abalou D. Mem Moniz trigozo com os seus pelo infesto,
+e foi por cima da caza de um oleiro, ao muro a poer a escada, em uma
+aste a fundo, e deu no telhado fazendo grande som; do que D. Mendo
+havendo grande pezar de pela ventura, espertarem as velas amergeu-se, e
+de hi a pouco fez assentar curvo, um mancebo, e por cima delle poz a
+escada mais entregue no muro por onde tanto que acima sobio logo
+levantou a bandeira del-Rei, que levava; subiram dous com elle, e não
+sendo ainda mais de tres sobre o muro, não leixaram as velas de acordar,
+e senti-los, e falou um delles com voz rouca, e dormente, como
+desvelado, e tresnoitado, e disse: _Menhu_ que quer dizer, _quem anda
+ahi_. Respondeo então D. Mendo por Aravia, que era dos da rolda, e
+tornava por lhe dizer cousas que compriam, que decesse abaixo; o Mouro
+tanto que deceo foi D. Mendo mui prestes a mata-lo, e cortou-lhe a
+cabeça, e deitou-a aos de fóra, para mais seu esforço, e seguro, e nesto
+a outra vela quando ouvio, e conheceo que eram Christãos, e não sendo
+ainda em cima do muro, mais que dez dos nossos, chegaram os da rolda
+correndo aos brados da vela que ouviram, e encontrando-se com os
+Christãos, vieram ás cutiladas bravamente os nossos por darem começo, e
+entrada ao porque iam, e os Mouros pola tolher, antes que o mal mais
+crecesse.
+
+D. Mendo nesta afronta bradou chamando em ajuda Santiago Patrão de
+Espanha; e El-Rei tambem do pé do muro, altas vozes acodio: «Santa Maria
+Virgem Bemaventurada, e glorioso Apostolo Santiago acorre-nos». Bradando
+aos seus, que eram em cima do muro. «Matai-os: andem á espada todos, que
+não fique nhum», e os que sobiram, apartaram-se logo pelo muro, em duas
+partes peleijando cada uma com os Mouros que vinham.
+
+Era já tamanha a volta, e arroido de ambas partes que se não podiam
+entender, El-Rei disse então aos seus mui apressado: «Façamos ajuda aos
+nossos, e tenhamo-nos á parte dextra se podermos sobir alfam, e Gonçalo
+Gonçalves com os seus a seextra, que filhe primeiro o caminho que do
+ceicego, que não possam os Mouros vir por lá, e tomar primeiro a entrada
+da porta, e assi atalhados se percam os nossos dentro á nossa mingua, e
+deshonra». Mas o Senhor Deos, que ajuda as obras de seu serviço lhes
+mudou em melhor, e mais seguro sua tenção, e fadiga, que onde se
+trabalhavam de entrar pelo muro, entraram pela porta, e de dez escadas
+que fizeram, duas sós abastaram para tudo, porque sobiram até vinte e
+cinco, os quaes correram mui prestes a quebrar as portas com um machado
+que lhes fora dado de fora, e britadas as fechaduras, e ambudes entrou
+El-Rei a pé com os seus, e poendo os giolhos em terra, antre as portas,
+com grande prazer, se encomendou, e deu muitas graças a Deos.
+
+Os Mouros acodiram todos alli peleijando mui rijamente, e vendo já
+dentro comsigo tanta gente desesperando de se poder alli ter,
+acolheram-se os mais delles a Alfam, mas pelo despercebimento em que se
+acharam foram logo entrados, e mui muitos delles homens, e molheres, e
+moços trazidos á espada de que foi o sangue tanto pelas ruas, que
+parecia serem alli mortos grande multidão de gados. Todos os que
+escaparam de não serem mortos na peleija, foram cativos com grandes, e
+ricos despojos que na Villa se acharam. Foram hi antre outros cativos,
+tres Cavalleiros principaes mui ricos de que El Rei houve fazenda de
+grande valia. Para o escalamento desta Villa foram escolhidos,
+primeiramente D. Mem Moniz Guarda mór del-Rei, e delle mui querido,
+filho de D. Egas Moniz, e D. Pedro Affonso irmão del-Rei bastardo, e D.
+Lourenço Viegas, e D. Pero Paes seu Alferes, e D. Gonçalo de Souza, e
+outros nobres homens.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXIII
+
+_Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para Sevilha, e
+El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa Santarem_.
+
+
+Entrada, e tomada assi a Villa de Santarem, Auzary Alcaide mór della,
+escapou fugindo, com tres de cavallo consigo caminho de Sevilha, quanto
+mais pôde. Estava El Rei Mouro de Sevilha sobre a Torre do ouro chamada,
+e quando Auzary assomou vendo-o El-Rei vir, veio-lhe por sentido,
+segundo muitas vezes o coração sente dante mão, e advinha as cousas, que
+seria aquelle Auzary, e disse-o alli aos que com elle estavam; elles
+mostráram não cair em couza de tão longe enxergada, e tambem por desviar
+El-Rei do sentido de más novas antecipado; e disse então El-Rei: «Se
+aquelle que vem é Auzary, e chegando a aquelle porto derem agua aos
+cavallos: Santarem é tomado; e se não derem de beber, Santarem é
+cercado, e vem Auzary a gram pressa a demandar soccorro». Os de cavallo
+chegando ao porto deram agua de seu vagar, El-Rei carregou-se mais de
+sua prognostica, e chegando Auzary, contou-lhe como se tomára a Villa, e
+da grande mortindade que se nella fizera de que El-Rei de Sevilha, e
+todos os Mouros houveram grande pezar, não só pela perda desta Villa,
+mas de outras a que a perda desta dava cauza forçada.
+
+El-Rei D. Affonso desque tomou a Villa, poz nella seu Alcaide,
+leixando-a abastecida como compria, e tornou-se para Coimbra com muito
+prazer, onde contando á Rainha sua molher, e a outros muitos como lhe
+acontecera na tomada de Santarem, disse estas palavras: «Dou a Deos dos
+Ceos muitos louvores, ante cujos olhos todalas couzas são sabidas, e
+conhecidos; que não tenho agora a grande maravilha, serem pelo seu poder
+em outro tempo os muros de Jericó, como se lê derribados, nem estar
+quedo o Sol por rogo de Josué um dia todo, em comparação da piedade, e
+misericordia que lhe aprouve fazer comigo, em me dar um tão forte lugar
+tomado com tão pouca gente, pelo qual glorifico o seu Santo nome, e suas
+maravilhosas obras, as quaes renovando em nossos dias elle, quiz mostrar
+neste feito, tanto sobre poder humano, que qaando me eu vi ante as
+portas da Villa abertas, poendo meus giolhos em terra com muita devação,
+e prazer de minha alma, orei a elle palavras que me elle naquella hora,
+como todo o al, então deu no esprito quejandas agora não saberia dizer:
+mas dos ousados esforços, e cometimentos, que se na tomada da Villa
+fizeram, digam-no os que se alli acharam, porque não é em mi dize-lo».
+Esta Villa se chamava antigamente Cabilycrasto, e depois da morte de
+Santa Eyrea, lhe pozeram os Christãos nome de Santarem, que vem de Santa
+Eyrea Martyre que a ella veio ter.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXIV
+
+_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a tomou,
+e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda_.
+
+
+Depois de tomado Santarem se foi El-Rei D. Affonso para Coimbra como se
+disse, e não para descançar, nem repousar seu coração, que nunca cessava
+de buscar afrontas, e louvadas impresas, em que Deos fosse servido, mas
+para o melhor ordenar, como em fresco, se milhor aproveitasse do
+vencimento, e tomada de Santarem, sabendo que nas guerras fama de uma
+vitoria aproveitada com tempo dá azo a muitas, pelo qual ajuntou logo
+seu poder para conquistar os lugares que ficavam na Estremadura de
+Santarem até o mar, em especial a Cidade de Lisboa, a qual tomou no modo
+que se segue.
+
+Chegando El-Rei a terra onde Lisboa está situada, pareceo-lhe milhor
+guerrear, e tomar as fortalezas ao redor della ante de cercar a Cidade
+por tal que quando viesse o cerco tivessem os seus menos trabalho nas
+forragens, e se podessem os seus mais ligeiramente sem outras guardas
+estender pela terra, e alli tomou logo o Castello de Mafora, e deu-o a
+D. Fernão Monteiro, o primeiro Mestre de Aviz que houve em Portugal, e
+apoz esto foi logo cercar Sintra, e tomou-a, mas se foi por força, se
+por preitesia não o achamos escrito, e sendo assi tomada, appareceo no
+mar uma frota de cento e oitenta velas, de gentes, que naquelle tempo
+moveram de Alemanha, e de Inglaterra, e de França, para guerrear os
+infieis por serviço de Deos, e vindo assi todos de mar em fóra demandar
+terra á rocha de Sintra.
+
+Estava El-Rei D. Affonso em cima do Castello, e seus principaes que com
+elle eram, e maravilhando-se do ajuntamento, e navegação de tão grande
+frota, mandou logo quatro Cavalleiros, a saber que gentes eram, e a
+causa de sua vinda, os quaes chegando a Cascaes já a frota toda pousava,
+vieram então a fallar, e preguntar-lhes que gentes eram? Elles
+responderam, que eram Christãos partidos de suas terras para virem
+guerrear por serviço de Deos os Mouros imigos de sua santa Fé. Nesta
+frota vinham muitos Condes, e outros grandes Senhores, mas a escritura
+não falla de seus nomes, mais que de quatro, um por nome Mossem Guilhem
+de longa espada, Conde de Lincoll de que se diz ser em seu tempo havido
+pelo milhor Cavalleiro, que sabiam em toda a Inglaterra, nem França, ao
+outro chamavam Childe Rolym, ao outro D. Liberche, ao outro D. Ligel.
+
+Sabendo El-Rei pelos que lá mandára como eram Christãos, e da tenção que
+traziam para servir a Deos, foi desso mui ledo, e bem se lhe poz no
+sentido que Deos fizera mover aquella gente, e aportar em sua terra, por
+lhe fazer tanta mercê, que a Cidade de Lisboa fosse tomada, e deu-lhe
+por ello em seu coração muitos louvores, pelo qual lhes enviou
+mensageiros, porque lhes mandou dizer como elle soubera os bons
+movimentos, e tenção de suas boas vontades, que traziam para servir a
+Deos, e que fossem bem certos que não sem misterio seu, e vontade, elles
+eram alli aportados trazendo-os N. Senhor a tal logar, onde o bem podiam
+servir, e comprir seus desejos, e devação, e não menos accrescentar suas
+honras para esse mundo, porque de alli donde elles estavam pouzados não
+mais de cinco leguas, estava uma cidade de Mouros mui guerreira das
+principaes de Espanha, de que por mar, e por terra se fazia muita
+guerra, e dano aos Christãos, a qual tinha mui fermoso porto, em que
+suas Náos, e muitas mais podiam mui seguramente estar ancoradas, e elles
+haver muitos mantimentos em abastança, e pois ao Senhor Deos aprouvera
+sem irem trabalhar mais longe, traze-los tão perto de tamanho azo, e
+oportunidade para o que vinham buscar, não leixassem esta empresa por
+Deos tão querida, e mostrada por outra nhuma creatura, e que elle como
+Rei que era da terra os ajudaria a esso com todas suas forças, como
+elles bem veriam.
+
+Andaram assim estes recados de uma parte, e da outra, até que vieram
+concertar de irem juntamente todos cercar a Cidade, á condição que sendo
+tomada, ametade fosse del-Rei, e a outra metade dos Estrangeiros, e
+assim logo El-Rei por terra, e a frota por mar foram poer cerco a
+Lisboa; El-Rei acentou seu arrayal da parte do Oriente, onde agora está
+o Moesteiro de S. Vicente de Fóra, e os Inglezes, e outras gentes
+tomaram a parte do Ponente, onde ora são os Martyres. Durou o cerco
+perto de cinco mezes, por a Cidade ser mui forte, de sitio, e cerca, e
+estarem dentro muitos Mouros, que a mui bem defendiam; fizeram-se neste
+cerco grandes escaramuças, e fortes combates, em que se matavam muitos
+Cavalleiros de uma parte, e da outra. Cada um arrayal dos Christãos,
+edeficou sua Egreja em que enterrassem os que alli morriam, e El-Rei D.
+Affonso fez a sua, onde depois foi edeficado o Moesteiro de S. Vicente á
+honra do Martyre S. Vicente, e os Estrangeiros edeficaram outra que ora
+é chamada Santa Maria dos Martyres. Estas Egrejas estão agora dentro dos
+muros da Cidade, desque a cercou El-Rei D. Fernando o noveno Rei de
+Portugal, como se adiante dirá, porque quando Lisboa esta vez foi tomada
+a Mouros, não era sua cerca maior, que quanto se ora vê, e chama cerca
+velha.
+
+Quando veio em dia dos Martyres S. Chrispino, e Chrispiniano, que é aos
+vinte e cinco dias do mez de Outubro, andando a era do Senhor em mil
+cento quorenta e sete annos, (1147) foi a Cidade mui rijamente, e com
+grande determinação combatida, dando o Senhor Deos tanta graça aos
+Christãos, que seu esforço, e gram devação de peleijar por seu serviço,
+passava pelas muitas feridas, e mortes, e todas outras grandes
+difficuldades, e perigos do combate, havendo elles todo por menos, pelo
+grande pezar que tinham em lhe parecer que todo seu trabalho seria
+debalde, e Deos não servido, se a Cidade se não tomasse, e assi com este
+fervor, e mui animosa determinação, poendo em fim o que os seus devotos
+corações tanto desejavam, entraram a Cidade por força.
+
+Entrou-se principalmente por a porta que ora chamam de Alfama, e de hi
+pelas outras portas, e depois de entrada foi dentro a peleija muito mais
+fera, que janda soe antre irados vencedores, e vencidos, desesperados,
+peleijando já os Mouros com estremada desesperação, e vontade de querer
+antes morrer antre as mortes de suas molheres, e perdimento de filhos,
+paes, parentes, e amigos, e assi os Christãos não com menos indinação
+por infieis entrados, e vencidos querendo ainda mais deter, e daninficar
+seu vencimento, nem se querendo dar por vencidos, por tanto foi tão
+grande a mortindade delles, e sobejo o conto dos que foram mortos, e
+trazidos a ferro, que é escuzado cuidar quão poucos ficáram.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXV
+
+_Do que El Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade de
+Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes Estrangeiras_.
+
+
+Oesque a Cidade de Lisboa assi foi tomada por El-Rei D. Affonso
+Anriques, e aquelles Estrangeiros, com elle ajuntou logo El-Rei todos, e
+com grande procissão se foram á Mesquita onde ora está a Sé edeficada, e
+depois de limpa, e mundificada das abominaveis ceremonias que hi eram
+feitas da seita de Mafamede, os Clerigos, e Bispos revestidos, segundo
+sua ordem, com _Te Deum laudamus_, entraram nella, e assi foi
+consagrada, e instituida á honra e louvor da Virgem Maria, celebrando
+logo em ella os officios Divinos, nomeando-a por Sé Cathedral, se ao
+Santo Padre aprouvesse. Feito esto mandou El-Rei logo chamar Mossem
+Guilhem de longa espada, Childe Rolim, e D. Liberche, e D. Ligell, e
+outros Capitães, grandes, que eram na companhia dos Estrangeiros, e
+disse-lhes. «Amigos bem sabeis como concertámos se nos Deos desse a
+Cidade que a partissemos por meio, e pois a elle por sua piedade aprouve
+de a tomarmos, muitos louvores, e graças lhe sejam dadas, vós escolhei,
+e tomai Cavalleiros, e eu darei outros que vão partir a Cidade, e assi
+todalas cousas que dentro, e fóra della houver, e forem achadas.»
+
+Vendo esto aquelles Capitães, e gentes Estrangeiras tiveram a grande bem
+o que El Rei dizia, e responderam-lhe que haveriam sobre ello concelho,
+e lhe tornariam reposta. O concelho, e determinação delles foi, que pois
+partiram de suas terras, e foram alli vindos, só com tenção de servir a
+Deos, nem fora outro nenhum seu proposito, e vontade, não queriam haver
+Cidades, nem terras, nem outras riquezas, quanto mais não lhes parecendo
+cousa conveniente que tal Cidade fosse partida, nem manteuda com El Rei
+de por meio em sua terra, que abastava para elles leixarem-na em poder
+de Christãos como fora seu dezejo, e assi se foram a El-Rei, e lho
+disseram mui francamente, o que lhes elle muito agradeceo,
+offerecendo-se, que se alguns delles, e de suas gentes quizessem ficar
+em sua terra, elle lhe daria lugares para povoarem, e viverem em elles
+izentamente, e ás suas vontades. Depois desto partio El-Rei grandemente
+com os Capitães, e gentes que quizeram tornar para suas terras, e assi
+se espediram delle com muita sua graça, e os que ficáram para morarem na
+terra escolheram para sua povoração vivenda a Atouguia, e Lourinhã, e
+Arruda, e Villa-verde, e Villa-franca, que primeiro foi chamada
+Cornagoa, porque aquelles que a povoaram eram Ingrezes de Cornualha, e
+chamaram-na do nome de sua terra, e povoaram tambem a Azambuja, e
+pozeram-lhe este nome, porque estava alli um grande Azambujeiro, e os
+Ingrezes por em sua lingoa fazerem do mascolino, femenino, chamaram-lhe
+Azambuja. E segundo memoria dos edeficadores daquelle lugar, o senhor
+daquelles que a povoaram havia nome Rolim, não que por esso fosse Childe
+Rolim, o que em cima dissemos ser um dos grandes Senhores que naquella
+frota vinha, o qual não é de cuidar que ficasse em Portugal para povoar
+terra de novo, havendo tantas Villas, e lugares povoados, de que mais
+com rezão se devera partir com elle ficando na terra, mas é bem de crer,
+que fosse outro algum Capitão Fidalgo seu parente, com que folgassem de
+ficar, e seguir alguma daquella gente, segundo que desentão, e hoje em
+dia seus sucessores, bem mostráram sua cavallaria, e fidalguia com muita
+honra, e serviços feitos aos Reis, e Reino de Portugal, e outros alguns
+destas gentes povoaram Almada, e pela nomeação deste nome se mostra que
+foram muitos a povoa-la, e faze-la, ou por trabalho de suas pessoas, ou
+por contribuirem dinheiros para esso, porque o proprio nome seu em
+linguagem Ingreza é, vimadel, que quer dizer em Portuguez: _todos a
+fazemos_, e depois por tempo, que todalas cousas muda, corrompendo-se o
+nome, lhe chamáram Almadam, o que ainda vae ter a Almadee, que soa em
+Ingrez, todo feito, mas leixaremos aqui um pouco de proseguir a Estoria
+por contarmos de alguns milagres, que a N. Senhor aprouve de fazer por
+alguns Martyres, que no cerco, e entrada de Lisboa morreram, em especial
+de um Cavalleiro Alemão por nome Anrique, sendo muita razão, que os
+Justos sejam como diz a sagrada Escritura em memoria eterna, e de sua
+gloria por Deos manifestada, se faça louvada menção, pois se faz de seus
+temporaes feitos, cujos merecimentos por muito que neste mundo
+mereçamos, não chega á gloria, e louvor do premio, que no outro ante
+Deos se alcança.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXVI
+
+_Dos milagres que Deos mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que morreo
+quando a Cidade de Lisboa foi entrada_.
+
+
+Acima se disse, como durando o cerco de Lisboa soterraram os mortos
+naquellas duas Egrejas, que nos reaes se fizeram para esso, e tomando-se
+a Cidade aconteceo dos que na entrada soterraram na Egraja que ora é
+chamada S. Vicente de Fóra, um nobre, e valente Cavalleiro Alemão
+chamado Anrique, comprido de bons, e virtuosos costumes, foi morto
+naquelle combate peleijando mui esforçadamente, e sendo assi enterrado
+naquelle lugar N. Senhor em cujos olhos é mui preciosa a morte dos seus
+Santos, e Bemaventurados aquelles, segundo elle disse, que no amor de
+Deos, quanto mais os que por seu amor morrem, fazia por este Cavalleiro
+Anrique muitos milagres de que alguns sómente por mostra brevemente
+diremos.
+
+Vinham na frota daquellas gentes Estrangeiras dous homens surdos, e
+mudos de seu nacimento, e indo um dia á sepultura daquelle Cavalleiro
+deitaram-se apar delle com grande devação, pedindo em suas vontades, que
+por seus merecimentos lhes empetrasse do Senhor Deos piedade, e
+misericordia para sua infermidade, elles jazendo assi adormeceram ambos,
+e appareceu-lhes logo em sonhos o Cavalleiro Anrique vestido em trajos
+de Romeiro, trazendo na mão um bordão de palma, e falou áquelles
+mancebos, dizendo-lhe: «Alevantai-vos folgai, e havei prazer, e hi ouvi,
+e falai, que pelos merecimentos meus, e destes Martyres, que aqui
+jazemos, ganhastes do Senhor Deos graça, a qual é com vosco». E dito
+esto desapareceo; elles então acordaram, e achando-se sãos de todo,
+ouvindo, e falando milagrosamente, e assi em voz e linguagem clara,
+começaram a contar a todo o povo o milagre que Deos em elles fizera
+pelos merecimentos deste Cavalleiro.
+
+E El-Rei D. Affonso, e todos os que hi estavam davam muitas graças, e
+louvores ao Senhor Deos, que taes maravilhas obra, como diz o Profeta,
+por honrar, e exaltar os seus Santos, e amigos. Era este Cavalleiro
+Anrique natural de uma Villa que se chama Bom composta na ribeira de
+Reina quatro leguas acima de Colonha, na qual eu fui, e estive dessas
+vezes, que áquellas partes fui enviado por Embaixador, vendo-a sempre
+com muita affeição, e saudosa lembrança deste Santo Cavalleiro Anrique.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXVII
+
+_Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom,
+mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada
+de Lisboa muito ferido morrera_.
+
+
+Logo a poucos dias que esto aconteceo veio a morrer um Escudeiro deste
+Cavalleiro Anrique de grandes feridas, que tambem houve na entrada da
+Cidade, e enterraram-no na mesma Egreja donde jazia seu senhor, e sendo
+alli soterrado, appareceo de noite o Cavalleiro Anrique a um homem muito
+velho, que servia aquella Egreja e havia nome Anrique como elle,
+dizendo-lhe: «Levanta-te, e vai ao lugar onde os Christãos enterraram o
+meu Escudeiro alongado de mim, toma o seu corpo, e vem enterra-lo aqui
+junto comigo, porque quem me seguio, e se ajuntou comigo na morte, não
+deve ser apartado na sepultura». Do que aquelle homem bom nada curou, e
+vindo-lhe outro tal segundo aparecimento, e amoestação tão pouco curou
+desso, como da primeira, então lhe appareceo a terceira vez o Cavalleiro
+Anrique mui irado, e com sembrante bravo, e queixoso ameaçando-o com
+palavras de grande medo, se logo não fosse comprir o que por tantas
+vezes lhe dissera, pelo qual aquelle bom velho cheio de temor se
+levantou logo de noite, e foi com candeias á sepultura onde jazia o
+Escudeiro, e desenterrou-o trazendo-o elle por si só e lhe fez uma cova
+a milhor que pode apar do Cavalleiro Anrique onde o enterrou, e quando
+veio pela menhã, achou-se o velho tão são, e sem cançasso do trabalho da
+noite passado, sendo impossivel por sua cançada idade pode-lo fazer,
+como se jouvera em sua cama folgando sem fazer nada, e contando ao outro
+dia todo assi como lhe acontecera, aos Prelados, e a todo o povo deram
+todos muitos louvores a N. Senhor.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXVIII
+
+_Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos milagres que
+Deos por elle fazia_.
+
+
+Querendo ainda o Senhor Deos segundo a grande avondança de sua infinda
+benificencia, mostrar por mais maravilhas quanto lhe tinha aprazido, o
+serviço deste Cavalleiro Anrique, appareceo á cabeceira de sua sepultura
+uma palma semelhante áquella que trazem os Romeiros de Jerusalem em suas
+mãos; assi começou em verdecer, e deitar folhas, e crecer sobre a terra,
+em sua altura juxta. El-Rei, e todos vendo tão grande, e famoso milagre,
+louvaram muito a Deos, e quantos enfermos alli vinham tomar palma, e
+deitavam ao colo logo eram sãos a essa hora, de qualquer infermidade que
+tivessem, e outros a tomavam, e tostavam, e depois de moida bebiam della
+aquelle pó, e assi mesmo se achavam logo sãos das dores que tinham, e
+tanta foi a continuação da muita gente que vinha tomar daquella palma,
+que a pouco tempo não ficou nada della sobre a terra, até por não porem
+boa guarda nella, vieram alguns de noite, e a arrancaram de todo,
+levando o que ficava sobre a terra. Por estes milagres, e outros que N.
+Senhor aprouve de fazer pelos seus Santos Martyres, que alli morreram,
+tinha El-Rei nelles mui grande devação, que se sentia em si algum
+abalamento de doença deitava-se em oração sobre seus jazigos, e
+achava-se logo remediado.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXIX
+
+_De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa Bispado, e
+quem foi o primeiro Bispo della_.
+
+
+Passado assi todo esto fez El-Rei juntar toda sua gente que com elle
+era, e disse-lhe: «Amigos meus eu até agora como vistes depois de tomada
+esta terra, e Cidade, me ocupei em ordenar, e destribuir os bens
+temporaes della, os quaes muitas vezes tem rezão, não em dignidade, nem
+em preiminencia, mas em ordem para se haver primeiro de entender nelles,
+que nos espirituaes, para que Deos seja assi mais ordenadamente servido,
+segundo requere a orde, e maneira das cousas deste mundo, e a fraqueza
+da condição humana sem o temporal não póde vagar no espiritual, agora é
+muita rezão que não tardemos mais de entender no espiritual, ordenemos,
+e elejamos quem nesta Cidade seja Bispo, e Pastor de nossas Almas, e
+regedor da Egreja Cathedral». Louvaram todos o que El-Rei dizia, e então
+foi eleito um homem virtuoso, que alli era, chamado Gilberto, de muito
+boa vida, e costumes, e leterado em Degredos, e a poz esto mandou El-Rei
+logo notificar ao Papa cumpridamente o cerco, e tomada de Lisboa, da
+eleição do Bispo, que por serviço de Deos novamente fizera, pedindo a
+Sua Santidade o quizesse confirmar. O Papa lhe outorgou todo esto, e
+outras mais cousas que lhe enviou pedir, dando-lhe grandes perdões,
+indulgencias para as Egrejas que tinha feitas. Tanto que este recado
+veio de Roma chamou El-Rei o Bispo Gilberto, e disse-lhe: «Bispo estas
+duas Egrejas, foram aqui edeficadas como sabeis, tendo nós ainda esta
+Cidade cercada para se nellas enterrarem os que morriam, pois a N.
+Senhor aprouve de vermo-lo, e podermo-lo fazer, eu quero dotalas
+começando primeiro no Moesteiro de S. Vicente de Fora». E então o dotou
+de muitas posseções, porque entendeo que poderiam bem, e sem mingoa
+viver, os que em elle houvessem de servir a Deus, e para os Povos terem
+mais azo, e devação de ajudar, e fazer o Moesteiro poz em elle grandes
+indulgencias, que lhe o Papa mandou, e assi tambem na Egreja de Santa
+Maria dos Martyres.
+
+
+
+
+CAPITULO XL
+
+_De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S.
+Vicente de Fóra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem_.
+
+
+E depois desto consirando El-Rei como o seu Moesteiro de S. Vicente de
+Fóra houvesse de ser milhor servido prepoz de poer em elle Capellães
+Clerigos onestos, e estando neste seu preposito, aconteceo chegar a
+Lisboa um Frade Flamengo de boa, e onesta vida, chamado Gualterio, e com
+elle quatro Frades seus companheiros, que vinham a buscar onde fizessem
+um Moesteiro da Ordem de que elles eram, para nelle viverem. El-Rei
+sabido de sua vida e preposito folgou muito, e mandou por elle
+dizendo-lhe como edeficara aquelle Moesteiro de S. Vicente, rogando-lhe
+que elle, e seus companheiros quizessem nelle viver, e estar por ser
+caza para esto mui conveniente, e para Deos hi delle ser servido;
+aprouve muito dello a Gualterio, e a seus companheiros, e foram-se logo
+para o Moesteiro.
+
+Queria muito este Prior Gualterio, que o Moesteiro fosse chamado da
+Ordem que elle era, e que El-Rei no Moesteiro não tivesse nhum especial
+poder, o que não querendo El-Rei consentir, se partio Gualterio com os
+seus compenheiros para onde vieram. El-Rei fez então Prior um Conego
+Estrangeiro, que havia nome Damer, o qual a cabo de poucos annos se foi
+tambem para sua terra, por onde parecendo a El-Rei que Religiosos assi
+vaguanãos, e fóra de Suprior, por muita devação que tragam, e presumam
+não hão graça para durar á ordem, e serviço de Deus, determinou de
+mandar ao Moesteiro do Banho que é da Ordem dos das sobrepelizes por um
+Conego que chamavam Guodinos, que fosse o Prior do Moesteiro, o qual
+assi Prior por suas virtudes foi eleito por Bispo de Lamego, e El-Rei
+então mandou por outro Conego a esse mesmo Moesteiro do Banho, que havia
+nome D. Mendo, e havendo oito annos que era Prior, se veio a finar; e a
+poz este houve outro Prior, que chamavam D. Paio, e foi o derradeiro
+Prior que em S. Vicente houve em tempo del Rei D. Affonso, e posto que
+estas cousas que dissemos fossem feitas por espaço de tempos, em vida
+del-Rei D. Affonso, nós contamo-las aqui juntas por pertencerem á tomada
+de Lisboa. Ora adiante diremos outras cousas que se fizeram logo
+seguintes á sua tomada.
+
+
+
+
+CAPITULO XLI
+
+_Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na Estremadura,
+e Alem do Tejo_.
+
+
+Depois de El-Rei D. Affonso Anriques ter tomado Lisboa como se já disse,
+logo naquelle anno seguinte andando a era de N. Senhor em mil e cento e
+quorenta e oito annos, (1148), foi El-Rei sobre Alanquer, e Obidos, e
+Torres Vedras, e sobre outros Castellos da Estremadura, que ainda eram
+de Mouros, durando em os tomar seis annos, e depois que os teve
+assentados, e assi toda a terra da Estremadura, ajuntou todas suas
+gentes, e passou-se a Alentejo, onde fez grande destruição em os Mouros,
+tomando-lhes Alcacere, Evora, Elvas, Moura, e Serpa, e outros lugares
+até chegar a Beja, o qual tendo-a cercada entrou grande poder de Mouros
+pela Comarca da Beira a fim de retraher, e fazer cessar o dano que
+El-Rei em elles fazia em Alentejo, e cercaram Trancozo, e depois de
+combatido e tomado por força destruiram o logar, e deixaram-no, matando
+muitos Christãos, e levando muitos delles cativos.
+
+El-Rei D. Affonso posto que lhe estas novas chegassem, não se quiz
+levantar do cerco, que tinha sobre Beja, antes a combateo então
+fortemente com engenhos, e artilharias, até que a tomou por força, e
+pelo despeito que tinha do mal que os Mouros fizeram em Trancozo, todos
+os Mouros de Beja andaram á espada, ficando mui poucos vivos. Foi Beja
+tomada na era do Senhor de mil cento e cincoenta e cinco annos (1155).
+Feita assi esta destruição nos Mouros, e havidas estas vitorias nas
+terras Dalentejo, leixou El-Rei Beja, e todolos outros Lugares mui
+bastecidos, e providos de Cavalleiros, e gente que os mui bem podassem
+defender, e guardar, e tornou-se para Coimbra com muita honra, e grande
+prazer, pelas mercês, e grandes vencimentos, que lhe N. Senhor Deos
+contra Mouros dera.
+
+
+
+
+CAPITULO XLII
+
+_Dos filhos que El-Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha Dona
+Mofalda_.
+
+
+Tanto que El-Rei D. Affonso chegou a Coimbra lhe foi logo commettido
+cazamento para sua filha Dona Mofalda; elle teve tres filhas, e um só
+filho, o filho houve nome D. Sancho, que herdou o Reino por falecimento
+de seu pai, e em sendo Ifante foi sempre mui bom e esforçado Cavalleiro,
+e valente, e depois que Reinou, não menos bom, virtuoso, e esforçado
+Rei, fazendo muitas cavallarias, e accrescentando seu Reino como em seu
+logar contaremos, e a primeira filha houve por nome Dona Mofalda, que
+foi cazada com D. Reymondo, filho do Conde D. Reymondo de Barcelona, e a
+outra chamada Dona Urraca, cazou com El-Rei D. Fernando de Lião; a
+terceira filha houve nome Dona Tareja. Esta foi cazada com D. Felippe
+Conde de Frandes, e sendo assi commettido a El-Rei D. Affonso o dito
+cazamento para sua filha Dona Mofalda, o vieram a concertar, que o Conde
+D. Reymondo de Barcelona viesse á Cidade de Tuye, que era del-Rei D.
+Affonso, e alli fizessem vistas antre si sobre este cazamento. Então se
+partio El-Rei para lá com muitos Senhores, Prelados, e Cavalleiros,
+levando comsigo a Rainha Sua mulher, e suas filhas. Chegáram a Tuye dez
+dias andados do mez de Janeiro; dahi a oito dias chegou o Conde D.
+Reymondo; fez-lhe El-Rei dar bairro, e pouzadas grandes, e boas para
+elle, e toda sua gente, que com elle vinha, a qual era muita, e mui
+luzida; vindo o Conde, El-Rei sahio-o a receber acompanhado de honrados
+Prelados, e outros Grandes do Reino, e Cavalleiros mui principaes; iam
+com elle D. João Arcebispo de Braga, D. Mendo Bispo de Lamego, D.
+Izidoro Bispo de Tuye, D. Pedro Conde das Asturias, o Conde D. Ramiro, e
+o Conde D. Vasco, D. Gonçalo de Souza, D. Pedro Paes seu Alferes, e
+outros muitos ricos homens, e Cavalleiros com muita gente. Quando o
+Conde chegou veio El-Rei para elle, e o recebeu com muita honra, e
+gazalhado, trazendo-o consigo até o Paço, alli descavalgáram, e se foram
+logo para onde estava a Rainha, e as Ifantes, e o Conde esso mesmo fez
+grande reverencia á Rainha, e suas filhas, de que foi mui bem recebido,
+e depois de fallarem alli um pouco tomou El-Rei o Conde, e levou-o para
+onde haviam de comer.
+
+Aquelle dia comeo o Conde com El-Rei em sala, elle, e todos os que com
+elles vinham, e assi a Rainha, e as Ifantes com suas Donas, e Donzelas,
+e desque acabáram de comer, vieram Jograes, e tangedores, e foram
+grandes danças. Isto acabado, havendo-se o Conde de ir colher a suas
+pouzadas se quizera alli despedir del-Rei, e elle não quiz, se não que
+se espedice só da Rainha, e suas filhas, e foi-se com elle até porta do
+Paço onde havia de cavalgar, e El-Rei tinha já ahi cavallo para ir com o
+Conde; mas o Conde não o quiz consentir em nhuma maneira; ficou então
+El-Rei, e todos os outros Senhores, e Cavalleiros da Corte, se foram com
+o Conde até sua pouzada. El Rei mandou a todos seus Officiaes, que
+dessem todas as cousas sem dinheiro, que o Conde houvesse mister, em
+quanto hi estivesse, e des aquelle dia em diante, começáram a fallar no
+trato do cazamento da Ifante, e do filho do Conde; estiveram em o
+concertar até dous dias por andar de Janeiro em que se fez o cazamento;
+no qual dia sendo hi juntos muitos Senhores, e Prelados, e Cavalleiros
+de uma parte e da outra, foi lida á Rainha, e Ifantes uma Procuração de
+D. Reymondo filho do dito Conde porque dava poder a seu Pai, que em seu
+nome podesse receber com elle a Ifante D. Mofalda filha del-Rei D.
+Affonso. E vista a Procuração, El-Rei tomou sua filha, e trouxe-a ante o
+Arcebispo de Braga, o qual tomou o Conde pela mão, e assi a Ifante, e
+então os recebeu, elle como Procurador de seu filho, e ella por si, como
+manda a Santa Madre Egreja de Roma, e esto feito, entregou El-Rei sua
+filha ao Conde, que a levasse consigo até onde houvessem de ser feitas
+as vodas, e o Arcebispo de Braga, e D. Martim Moniz, e assi Donas, e
+Donzelas foram em sua companhia della. Deu El-Rei ricas joias ao Conde,
+e aos seus fez mercês de modo que elle, e todos os que com elle vinham
+partiram mui contentes del-Rei. Partio-se assi o Conde, levando a Ifante
+consigo, e elle partido, El-Rei se tornou para Coimbra com toda sua
+gente, e Corte.
+
+
+
+
+CAPITULO XLIII
+
+_Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e venceo
+El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama_.
+
+
+Sempre despois deste cazamento El-Rei D. Affonso esteve, e andou por
+aquelles lugares, que ganhára aos Mouros, provendo-os das couzas, que
+lhe compriam para sua defenção, como fossem governados em justiça, e
+estando assi em Alcacer na era do Senhor de mil e cento e sessenta e
+cinco annos (1165) havendo já El-Rei setenta e um de sua idade, veio
+recado como Cezimbra estava mingoada de gente, que a tomaria se fosse
+sobre ella. A esta nova partio logo El-Rei de Alcacer com toda sua
+gente, e foi-a combater com tanta affronta, que ainda que a Villa, e
+Castello eram mui fórtes, filhou-a por força, e desque teve a Villa
+socegada, e posto nella quem a guardasse, determinou de ir ver Palmella,
+e o acento, e fortaleza della, levando consigo, sessenta bons
+Cavalleiros, e alguma gente de pé, e besteiros, e chegando a Palmella, e
+estando vendo-a, asomou El-Rei de Badalhouse com muita Mourama das
+frontarias daredor, em que havia quatro mil homens de cavallo, e
+sessenta mil de pé, e vinham ao longo sem ordem a gram pressa para
+soccorrer Cezimbra, descuidados de verem, nem acharem alli Christãos.
+Teve-se El-Rei traz um cabeço, e vendo os que eram com elle tanta gente,
+começáram de haver grande receio, e todos aconselhavam El-Rei que se
+acolhesse a seu araial o milhor que podesse, e delles diziam, que se
+puzesse em uma alta serra, que por hi vai, que se chama a serra
+Dazeitão, e tomassem em ella algum lugar fórte para se deffenderem, até
+ir recado aos do arraial.
+
+El-Rei com quanto vio o medo, e receio dos seus pela grande multidão dos
+Mouros; porém esforçando-se no poderio de Deos ser maior que o dos
+homens, no qual elle sempre esperando se achava vencedor, fallou aos
+seus em esta maneira: «Que esmaio é este amigos, ou que nova
+desconfiança do Senhor Deos, nem que vedes vós agora de novo, para tanta
+torvação; estes muitos, que vedes são os que vós muito menos, dos que
+ora soes, sempre vencestes, para esso ganhamos nós peleijando, e
+vencendo, á cincoenta annos, tanto merecimento, e honra ante Deos, e o
+Mundo, para todo em uma só hora, fugindo perdermos, certo que
+ouvindo-vos, o que ouço, se vos a todos não conhecera, podera mal
+cuidar, serdes os que comigo vencestes muitos mais, que estes imigos no
+campo Dourique, e em outros lugares, não ponhaes ante vós meus amigos,
+quantos mais são, que nós, mas quanto no poder, e querer de Deos, por
+quem peleijamos, são muito menos que nós; o medo, em que os Deos já poz
+para nós maiormente se dermos nelles de sobresalto, fará que lhes
+pareçamos muitos mais do que somos, e elles assi mesmos, menos muito, do
+que são, e tendo-nos Deos tantas vezes mostrado esta verdade, podeis
+ainda cuidar em nos devermos de retraher, nem fugir, Deos por nós sempre
+contra elles em honra, e vencimento, e nos queremos ora poer em
+deshonra, e nossos imigos em gloria, e esforço contra nós. Ora havei
+Cavalleiros, que mingua de fé, mingua de crença, nos encurta o esforço,
+mal concorda no coração de Christão esmaio com ardideza, mal no Christão
+desconfiança com fé, que inda que poucos sejamos, tambem de muitos,
+poucos são os que peleijam, não tem hoje estes nossos imigos em seus
+corações, cousa mais certa que topando-se no campo convosco, e comigo,
+haverem-se logo por vencidos, tanto que nos virem não ficará destroço,
+nem mortos, nem vencimentos passados, quantos contra elles houvemos, que
+como prezentes ante si não ponham, este de agora, que com a graça de
+Deos haveremos. Pelo qual meus bons Cavalleiros, não vos venham por
+sentido medos, de que nosso Senhor Deos sempre livrou, e mostrou o
+contrario, e pois por tantas, e tão milagrosas vitorias, que sobre nosso
+poder, por sua piedade nos deu, temos tão sabido nada ser a elle
+impossivel, não devemos nada temer, vamos logo com sua graça, que nos
+sempre acompanha ferir nos imigos. Eu quero hoje ser vosso pendão, e ver
+se me quereis seguir, e guardar como sempre fizestes, que pois Deus
+ordenou para mostrar mais seu gram poder, com tão poucos me aqui
+acertasse, eu determino por seu serviço, hoje neste dia, de vencedor, ou
+de morto me não partir do campo».
+
+Desque El-Rei acabou de fallar, vendo os seus em elle tão grande
+confiança, e determinação, todos mui esforçados com suas palavras, e
+esforço, disseram, que por muito mais dezigual que o cazo fosse, delles
+aos Mouros, pois elle seu corpo determinava poer a tal feito, elles lhes
+não faleceriam, e o seguiriam como sempre fizeram, dizendo que dessem
+logo nelles. Vinham já pelo infesto acima, a cerca, e não haviam mais
+que tardar. Abalou então El-Rei á pressa com grande coração, e esforço,
+e todos com elle, em se mostrando fez dar ás trombetas, e foram ferir
+nos primeiros tão rijamente, que logo muitos delles foram derribados,
+antre mortos, e feridos. Os Mouros achando-se salteados, e conhecendo,
+que aquelle era El-Rei D. Affonso, que tanto temiam, figurando-se-lhe,
+que seria muita mais gente, foi o medo em elles tão grande, que
+começaram logo a fugir, parecendo aos trazeiros, que os seus mesmos, que
+voltavam fugindo, eram imigos, como soi a fazer gente de medo cortada, e
+assi correndo o desmaio por elles, se puzeram todos em desbarate. Alguns
+contam, que se guardou El-Rei para de madrugada dar nelles, onde foram
+vistos pouzar, por ser ora, e tempo azado, para mais desmaio, e
+desbarato dos Mouros, e assi o fez, e os desbaratou. Como quer, que
+fosse feito, foi em que entrou saber de Cavallaria, com grande coração,
+e esforço ajudado por nosso Senhor, por cujo serviço se aventurava.
+Seguio El-Rei apoz os Mouros matando, e ferindo, e cativando muitos no
+alcance tomando-lhes a carriagem, e despojos grandes, de quanto traziam.
+Tanto que o desbarato foi acabado, mandou El-Rei dous Cavalleiros a
+grande pressa a Cezimbra a suas gentes, que lá ficaram, que logo fossem
+todos com elle, e foram ao outro dia todos e juntos, muito ledos, pela
+boa andança, que Deos dera a El-Rei, e não menos tristes, por se não
+acertarem com elle na batalha. Tanto que os de Palmella viram o
+desbarato dos seus Mouros, e os Christãos juntos contra si, tendo
+perdida a esperança do soccorro, preitejaram se com El-Rei, que os
+leixasse sahir em salvo, e lhes dariam a Villa, e a El Rei aprouve
+dello, e assi houve a Villa de Palmella.
+
+
+
+
+CAPITULO XLIV
+
+_Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e El-Rei D.
+Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El Rei D.
+Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada_.
+
+
+Sendo El-Rei D. Fernando de Lião casado com Dona Urraca, filha del-Rei
+D. Affonso Anriques como acima dissemos, veio a deixa-la, e apartar-se
+della por mandado do Papa, por serem parentes mui chegados, e cazarem
+sem dispensação, mas o modo como este apartamento foi feito, nem o que
+se fez desta Rainha Dona Urraca não achamos escrito, salvo, que houve
+della um filho chamado D. Affonso, que depois da morte de seu pai foi
+Rei de Lião. Tomando El-Rei D. Affonso deste feito grande pezar, pôs em
+sua vontade de ir cercar Badalhouse, que estava em poder de Mouros, por
+ser da Conquista del-Rei D. Fernando de Lião, e ajuntando suas gentes
+para esso foi poer cerco sobre a Villa, estragando-lhe pães, e vinhas, e
+fazendo-lhe tanto dano, e apresso, que veio a toma-la. Como quer que os
+Mouros se mui bem defendessem, El-Rei D. Fernando quando soube que
+El-Rei D. Affonso de Portugal tomára Badalhouse, enviou lhe a dizer por
+seus Mensageiros, que lha leixasse, pois sabia que era sua, e de seu
+Reino, e El-Rei D. Affonso lhe respondeo que lha não havia de leixar, e
+então o dezafiáram sobre esto, pelo qual El-Rei D. Fernando de Lião
+ajuntou logo seu poder, e veio contra El-Rei a Badalhouse, e vinha com
+elle D. Diogo o bom senhor de Biscaya, com cuja irmã chamada Dona Urraca
+Lopes filha do Conde de Navarra, foi depois cazado este Rei D. Fernando.
+Vinha tambem D. Fernando Rodriguez de Castro, sendo então ambos
+vassallos deste Rei D. Fernando de Lião, dezavindos del-Rei de Castella,
+e vindo já acerca disseram a El-Rei D. Affonso.
+
+«Senhor, aqui é El-Rei D. Fernando, e toda a sua oste. Pois assi é,
+disse El-Rei: Armemo-nos, e saiamos a elle ao campo, que pois nos vem
+buscar, bem é que nos achem lá fóra em campo comsigo». Então se armáram
+todos, e sahiram fóra da Villa, e nisto disseram a El-Rei D. Affonso
+como os seus se embaraçavam já com D. Diogo o bom, e com D. Fernando
+Rodriguez de Castro, que vinham na dianteira mui bons Cavalleiros, e
+El-Rei com este recado abalou rijo a cavallo, correndo por sahir fóra da
+Villa a chegar aos seus, e aconteceo, que o cabo do ferrolho não ficára
+bem colhido ao abrir das portas, e o cavallo, assi como ia correndo
+topou nelle com uma ilharga de guiza, que se ferio muito, e quebrou a
+perna esquerda del Rei, o qual não deixou por esto de chegar aos seus a
+ajuda-los, e nisto o cavallo que ia ferido, não podendo mais sofrer-se
+cahio com El-Rei em um senteal, sobre a mesma perna, e acabou-se de
+quebrar de todo, de modo que os seus não poderam mais levanta-lo, nem
+poer a cavallo, e então Fernão Rodriguez Castelhano, que o vio cair foi
+dizer a El-Rei D. Fernando: «Senhor ali jás El-Rei D. Affonso com uma
+perna quebrada, hi prende-lo, que mais sem trabalho vo-lo deu Deos nas
+mãos do que eu cuidava.»
+
+Chegou então El-Rei D. Fernando onde El-Rei jazia, e por os seus, que o
+viram cair, e se acertaram serem poucos, e os imigos muitos, houve de
+ser tomado, e prezo com estes que hi eram com elle; não se podendo
+valer, nem ser valido, e com os outros seus, que se colhiam á Villa,
+entráram os del-Rei D. Fernando de mistura, e devulgando-se já o
+dezastre del-Rei D. Affonso, foi a Villa nessa hora tomada, segundo logo
+tudo falece, como falece o Capitão. Levou assi El-Rei D. Fernando
+consigo a El-Rei D. Affonso para a Villa, e fez-lhe mui bem pençar da
+perna, e em quanto o teve em poder, assentando-o sempre a par de si,
+fazendo-lhe muita honra; despois veio apreitejar com elle, que lhe desse
+a terra da Corunha, que é do Minho, até o Castello da Lobeira, uma legoa
+álem de ponte Vedra, e porcima pelos chãos de Castella, aquella terra,
+que deram ao Conde D. Anrique seu pai, como no começo da Estoria se
+disse, fazendo-lhe tambem menagem, que tanto que em besta cavalgasse se
+tornasse a sua prizão; El Rei D. Affonso nem podendo al fazer disse que
+lhe prazia.
+
+Despois de entregar a terra, e Fortalezas, e fazer a dita menagem,
+El-Rei D. Fernando o soltou, e elle tornou para seu Reino, e sendo mui
+bem são da perna, nunca mais quiz cavalgar em besta, por não tornar a
+menagem, antes sempre depois andou em carro, como soiam andar os Reis
+antigamente, e logo no anno seguinte de mil e cento e sessenta e seis
+annos (1166), dia Dassenção, em Coimbra fez El-Rei como mui prudente, e
+discreto que era, fazer todos os Grandes, e Conselhos do Reino todo
+menagem a seu filho o Ifante D. Sancho, e este seu quebramento de perna,
+foi sempre atribuido ao que sua mãi lhe rogou, quando a poz em prizão,
+segundo atraz nesta Estoria se contem.
+
+
+
+
+CAPITULO XLV
+
+_Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar as
+maldições dos pais, e mãis aos filhos_.
+
+
+O pezar que me faz, e a todos fará vendo este dezastre del-Rei D.
+Affonso Anriques, me faz falar contra as maldições dos pais, e mãis, que
+ameude se lançam com pouco tento e resguardo, devendo-se escuzar com
+muito, vendo, e sabendo todos, que com nome de filhos nos reconciliou
+Deos para si, e com nome de Pai nosso, mandou que o adorassemos, com o
+nome em que se conclue, e encerra a maior obrigação e ajuntamento de
+reverencia, e amor que póde haver, antre nós, nem de nós para elle, por
+onde os filhos devem muito fazer por acatar sempre seus pais, e mãis,
+segundo por Deos lhe é distintamente mandada escuzar de os provocar a
+semilhantes maldições, antes recea-las muito, e teme las, por injustas
+que sejam, como se diz das excommunhões, que desprezando-as haverá por
+ventura lugar de obrar, como justas, e ajuntadas com outros males de que
+mal peccado andamos acompanhados descote, e ante Deos desmerecemos,
+porque tanto quiz Deos, que se guarde, e acate, a ordem que neste mundo
+ordenou, que elle mesmo sendo sem peccado justo Julgador, sofreo ter
+injustamente julgado, por injustos, e perversos julgadores, por terem na
+terra o cargo, e presidencias por elle ordenadas, o que tanto mais devem
+os filhos acatar, e sofrer a seus pais, e mãis, quanto a lei de justiça,
+e ordenança de Deos, lho devem ainda por grande obrigação de natural
+reverencia, e amor.
+
+E os pais muito mais de seu cabo devem a meu juizo escuzar semelhantes
+maldições, quanto mais idade, e entender tem, concirando que são homens,
+e pais de homens, e que elles poderiam já fazer outro tanto a seus pais,
+e mãis, maiormente que os erros dos filhos não podem ser tão danosos,
+que muito mais não sejam as maldições dos pais, lançando-se sempre por
+humano defeito da sanha vendicativa, a qual se decega em desenfriada
+ira, não procedesse, não haveria lugar contra o sobejo amor dos pais, e
+mãis, sendo sempre tamanho, que quanto mais com causa dizem ao filho:
+«Má morte te mate», vendo-lhe algum mal muito menos de morte se culpam,
+e matam por elle, e Deos manda, que das nossas injurias, e danos,
+leixemos a vingança a elle. Dessas pessoas lhe devemos mais leixar de
+que aos outros devemos tomar que são pais, e filhos, os quais toda a
+rezão obriga, que antre si mais se comportem, e hajam em suas cousas
+paciencia, pois Deos que as fez a quem se ainda mais nesso erra, ha com
+elles paciencia, e assi escuzaram os filhos a culpa tão crime como é
+desobediencia aos pais, de conhecimento tamanho para Deos como é aos
+filhos, que lhe deu, por benção, fazerem filhos de maldição, a qual por
+esto só tambem por injusta que fosse abastaria pela ventura, para
+fazerem por pena, e peccado do pai, penar o filho inocente neste mundo,
+em que bem podemos padecer por culpas, e peccados alheios, assi como
+filhos por pais, e servos por senhores; ainda que no outro não possamos,
+se não pelos proprios nossos, e da verdade deste caso prouvera a Deos
+que tiveramos em outra parte a prova, e exemplo mais longe, e
+estrangeiro, e não del-Rei D. Affonso, que sendo tão virtuoso, e todos
+seus feitos sempre com virtuosa tenção, e de serviço de Deos, não leixou
+maldição de mãi, mais madrasta que empecer a este Rei, na pessoa, na
+fazenda, e na honra, a filho tão virtuoso.
+
+
+
+
+CAPITULO XLVI
+
+_Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D.
+Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e
+os desbaratou e venceo_.
+
+
+Estando assi El-Rei D. Affonso em seu Reino, andando em colos de homens,
+e outras horas em carros como já em cima dissemos, veio-se para
+Santarem, e correndo novas pela terra, do desastre do britamento da
+perna, e da preitezia e menajem que ficára com El-Rei D. Fernando de
+Lião por cuja causa, não cavalgava em cavallo, nem era de sua pessoa
+poderoso para fazer guerra como dantes, nem suas costumadas cavallarias,
+tomaram os Mouros ousadia, e esperança grande de se vingarem, e fazer
+grande danno a Portugal, pelo qual Albojame Rei de Sevilha, ajuntou
+grande multidão de Mouros, de toda Andaluzia, e de outras partes, e
+atravessando todo, antre Tejo e Odiana, matando, e estragando tudo por
+onde vinham, vieram cercar Santarem, onde El-Rei D. Affonso estava,
+destroindo-lhe toda a terra de redor. Saiam os Christãos ás barreiras a
+escaramuçar com elles, e de uma parte, e da outra morriam muitos.
+
+El Rei D. Affonso por não poder cavalgar a cavallo, e sair a elles era
+mui enojado em seu coração acostumado a vencer nos campos, e cercar, e
+não ser cercado, pelo qual determinando de sair fóra em carro, a lhes
+dar batalha, alguns dos seus lho contradisseram, e outros diziam que era
+bem ficar na Villa, e que elles sairiam a peleijar com os Mouros,
+concelhos ambos muito fóra do parecer del-Rei, e do seu grande animo, e
+por tanto lhe respondeo, e disse: «Amigos não cumpre agora ver se
+sairemos, ou não; mas é tempo de tomardes tal esforço para peleijar, que
+eu possa perante todos louvar os que o bem fizerem, e eu mesmo em pessoa
+vos ajudarei a esso contra os imigos, quanto em mim fôr como sempre fiz,
+e se pela ventura alguns tiverem receo, o que não cuido, fiquem na
+Villa, e não vão lá que eu não poderei sofrer já mais tanta vergonha.»
+Então acordaram que era bem sair fóra em toda maneira, e estando já
+prestes para um dia certo, e corregidos como deviam de ir, e de quaes
+havia El-Rei de ser guardado, aconteceo virem novas a El-Rei D. Affonso
+como El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, vinha com muita gente, o qual
+por ser Rei mui virtuoso, e mui chegado a Deos, como quer que se
+quitasse de sua filha, e sobre vence-lo parecesse ser rezão estar delle
+queixoso, por buscar azo de não cumprir a menagem que lhe tinha feito de
+tanto que cavalgasse em uma besta, acudir a sua Corte, não olhando nada
+desto, como soube, que El-Rei Albojame com grande poder tinha cercado
+El-Rei D. Affonso em Santarem ajuntou sua gente, e partio para o ajudar,
+e andando então a era do Senhor em mil e cento e setenta e um annos,
+(1171) assi que vindo recado certo a El-Rei D. Affonso Anriques de como
+El-Rei D. Fernando de Lião era acerca, e que em poucos dias seria com
+elle, foi em grande pensamento, cuidando que vinha contra elle por rezão
+da menagem a que não fora, e posto nesta duvida tanto mais, determinou
+de peleijar primeiro com os Mouros, e tambem os Mouros de sua parte
+quando souberam de sua vinda, crendo que vinha contra elles, em ajuda
+del-Rei D. Affonso seu sogro, determinaram levantar o cerco, e saio
+então El-Rei D. Affonso a elles, no modo que dantes tinha ordenado, e
+depois de muito peleijarem fez grande mortindade nelles, e desbarato, de
+muitos prezos, mortos, e feridos, e grandes e ricos despojos tomados.
+
+Assi se foram os Mouros destroçados fogindo quanto mais podiam. El-Rei
+D. Fernando quando soube que os Mouros eram desbaratados, e El-Rei D.
+Affonso descercado, não quiz ir mais adiante, posto que perto fosse, e
+esteve alli quedo tres dias, enviando dizer a El-Rei D. Affonso que
+tomasse prazer, e nada receasse delle, que não abalára, nem vinha a
+outra cousa, se não só por o descercar, e pois os Mouros já eram idos,
+que ficasse com a paz de Deus, e El-Rei D. Affonso lhe deu por ello
+muitas graças, e é que desque foi prezo na batalha que houve com este D.
+Fernando de Lião seu genro, nunca depois foi visto ledo, nem haver
+prazer como dantes, e quando lhe lembravam as cavallarias que dantes
+soia fazer contra Mouros, e quam temido era delles, não podia estar que
+mui enxergadamente se não entristecesse, mas porque deste tempo até que
+o Corpo de S. Vicente foi trazido a Lisboa, não achamos outra cousa que
+de contar seja, queremos aqui dizer como, e em que modo foi aqui
+trazido.
+
+
+
+
+CAPITULO XLVII
+
+_Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que o
+foram buscar_.
+
+
+Já antes desto, em seu lugar contamos como El-Rei D. Affonso Anriques
+foi por si com grande cuidado, e devação, buscar o Corpo de S. Vicente,
+e não o pôde achar havendo já vinte e seis annos que a Cidade de Lisboa
+era em poder de Christãos, tomada a Mouros, fez El-Rei Albojaque
+tregoas, com El-Rei D. Affonso Anriques por cinco annos, as quaes foram
+feitas quatro dias do mez de Maio era do Senhor de mil cento e setenta e
+trez annos, (1173) então, certos homens de Lisboa, com grande devação,
+vendo que já podiam ir seguros áquelle lugar onde o Corpo de Vicente
+jazia, fizeram prestes uma barca, com todo o que lhes fazia mister, e
+foram-se lá sem nhum impedimento, nem deficuldade, chegaram, e
+desembarcaram no mesmo lugar, onde postos em oração, mui devotamente a
+Deos pediam que lhes mostrasse onde jazia o Corpo daquelle glorioso
+Martyr; a poz esto começaram a cavar, e aprouve a N. Senhor que o
+acharam, e dando-lhe muitas graças e louvores, o tomaram com muito
+prazer, e devação, e puzeram-no dentro na barca, e logo Deos alli
+mostrou por elle um grande milagre, que um dos que iam na barca, em
+desenterrando aquelle santo Corpo, furtou um dos ossos, e tanto que o
+tomou, cegou logo de todo, pelo qual cortado de medo, e arrependimento
+tornou a poello donde o tomara, e neste ponto lhe foi restituida toda
+sua vista, e foi são como dantes, e tambem se deve atribuir aos grandes
+merecimentos deste Santo Martyr, que sendo sempre o mar alli alevantado,
+e perigoso, e reçafa muito grande, foi visto tão chão e manço fóra do
+acostumado ao embarcar do seu Corpo, como se fôra em qualquer outro
+lugar, onde nunca houvesse, nem podesse fazer ondas, e assi tornaram com
+muito prazer a salvamento.
+
+
+
+
+CAPITULO XLVIII
+
+_Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa_.
+
+
+Elles chegados ao porto da Cidade de Lisboa, não quizeram logo tirar
+fóra o Corpo do glorioso Martyr, com receo de lho tomarem por força, e
+aguardando a noite levaram-no escondidamente á Egreja de Santa Justa, o
+qual sendo logo sabido ao outro dia pela menhã, segundo Deos não quer
+sua gloria escondida, toda a Cidade corria para alli, e uns diziam que
+era bem de o poerem em S. Vicente de Fòra, e outros, que mais rezão era
+estar na Sé, e neste debate D. Gonçalo Viegas Adiantado mór de
+Cavallaria del-Rei, que era presente, vendo quão errada cousa era,
+arguir-se mal e arroido sobre cousa tão santa e devota, que mais com
+rezão deviam tolhe-lo, fez cessar o alvoroço da gente, e que esperassem
+até que o El-Rei soubesse, e mandasse o que sua mercê fosse nesso. D.
+Roberto Daião da Sé homem onesto, e de boa vida, foi o mais onesta e
+escuzamente que pode a D. Moniz Prior da Egreja de Santa Justa, e
+rogou-lhe mui afincadamente, que por honrar, e obrigar a Sé, que era a
+principal e mais dina Egreja da Cidade em que aquelle Santo Corpo mais
+honradamente, que em outra parte podia estar, lho quizesse dar, e a elle
+aprouve dar lho, e então os da Sé, com toda outra Clerezia mui ledos,
+foram por elle, e o levaram mui honradamente em procissão, acompanhado
+de toda a gente da Cidade dando todos muitas graças, e louvores a N.
+Senhor, e assi foi trazido, e posto na Sé, onde ora jaz. Os Conegos de
+S. Vicente vieram logo hi a pedir que lhe dessem das Reliquias daquelle
+santo Corpo, mas não lhe foram dadas.
+
+Quando El-Rei D. Affonso Anriques soube esto, segundo era devoto, chorou
+com prazer, louvando muito ao Senhor Deos, por querer em seus dias
+honrar seu Reino com tão preciosas Reliquias, mandando outra vez áquelle
+lugar donde o Corpo fora trazido, que vissem, e catassem bem, se ficara
+ainda lá alguma cousa delle. Foram lá, e feita toda diligencia, acharam
+ainda um pedaço do testo da cabeça, e pedaços pequenos desatandados do
+Ataude, o que todo trazido sem nada ficar, pozeram com o Corpo. E conta
+a Estoria, que depois que este santo Corpo alli foi na Sé, o Corvo o
+qual, segundo já dissemos, que foi visto guarda-lo quando foi deitado ás
+aves, e animalias veio sempre na barca com elle, e o acompanhou, e
+depois de posto na Sé, o viram muitas vezes sobre o seu Moimento, como
+quem o não queria desemparar, e outras oras se punha sobre o Altar mór,
+e assi andava voando pela Egreja, e aconteceo, que um moço chamado
+Joane, que servia na Egreja deu com uma pedra a este Corvo, e foi cousa
+milagrosa, que logo a essa hora foi tolheito, de todos seus membros, e
+então seu pai do moço quando vio tamanho pezar ao moço seu filho,
+lançou-se em oração de noite muito devotamente ante o Corpo de S.
+Vicente, e foi logo o moço são de todo, como dantes era; e da li nunca
+mais ninguem ouzou de fazer nojo áquelle Corvo, o qual foi hi visto por
+muitos tempos. El-Rei mandou escrever o dia, e era em que o Corpo deste
+glorioso Martyr veio a Lisboa, e foi aos quinze dias do mez de Setembro
+da sobredita era de mil e cento e setenta e tres annos (1173).
+
+
+
+
+CAPITULO XLIX
+
+_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D. Sancho
+seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe sobre
+ello disse_.
+
+
+Depois que os cinco annos das tregoas que El-Rei D. Affonso fez com
+El-Rei Albojaque, como acima dissemos, foram acabados, que foi na era do
+Senhor de mil cento e setenta e oito annos, (1178) estando El-Rei D.
+Affonso Anriques em Coimbra, vendo que em toda sua terra era guerra
+cessada sem ter receo, salvo dantre Tejo, e Odiana, que pelo acabamento
+da tregoa cumpria ser bem defeza, e guardada, e que álem desto seria
+cousa honroza, se com a defenção della, se assás se ganharem mais alguns
+Lugares a Mouros, chamou seu filho o Ifante D. Sancho, e perante alguns
+do seu Concelho lhe disse assi: «Filho tu sabes bem quanto trabalho
+tenho passado na guerra com os Mouros, e pela tregoa que tinha com
+El-Rei Albojaque já ser acabada, hei por certo que os Mouros, não
+estarão quedos, e guerrearão esses Lugares que delles ganhei em
+Alentejo, donde recebem, e esperam de receber muito dano, e já me foi
+falado e requerido que entendesse na defensão delles, pelo qual eu
+cuidando como se esto milhor podia fazer de quantas cousas me vieram por
+sentido me pareceo, e parece milhor que tudo, que eu te mande lá em
+pessoa, e esto por duas rezões, a primeira, porque sabes que está meu
+cazo de não poder cavalgar em besta por não ir ás Cortes del-Rei D.
+Fernando, o que eu não fora por cousa que no mundo houvesse, que fazendo
+traria a ti, e a mim grande perda, e a todos os do Reino de Portugal; a
+segunda porque prazendo ao Senhor Deos depois de meus dias, tu hás de
+ter o carrego de reger, e defender este Reino, e pois te deu Deos
+entender, e corpo, e manhas para o poderes fazer, é bem que já agora
+commeces, e o faças.»
+
+Quando o Ifante ouvio esto a seu pai foi muito ledo, e beijou-lhe as
+mãos, dizendo: «Senhor, eu vos tenho em mui grande mercê esto, que me
+encarregais, e espero em a graça do Senhor Deos com os bons Senhores e
+Cavalleiros, de vosso Reino trabalhar como seu serviço, e vossa vontade,
+e mandado seja comprido; e pois Senhor se esta cousa ha de fazer seja
+vossa mercê querer que se faça logo; porque quanto mais cedo for tanto
+porei a terra em milhor estado, e defensão.» El-Rei respondeo que lhe
+prazia, que assi o mandava poer em obra, e ordenando logo quais, e
+quantos daquem do Tejo contra o Porto fossem chamados para haver de ir
+com o Ifante escrevendo que todos se ajuntassem em Coimbra a certo dia;
+esso mesmo fizeram ordenanças, e Regimentos que o Ifante havia de ter no
+feito da guerra, que havia de começar.
+
+
+
+
+CAPITULO L
+
+_Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da
+gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo
+no meio da Ponte se despediram todos del-Rei_.
+
+
+Despois de vindos todos os que eram chamados ao tempo que lhes foi
+assinado, fez El Rei fazer Alardo no campo que se chamava Arnado, de
+assás fermoza, e ataviada gente de armas, e de bésteiros, e piães, e
+outros todos com grande mostra de coração, e mui ledos para ir com o
+Ifante D. Sancho a fazerem por suas honras o que a cada um convinha em
+tal cazo, e desque o soldo foi pago, e elles todos prestes partiram de
+Coimbra no mez de Julho da sobredita era (1178). El Rei saio de seus
+Paços a pé, e veio até ponte, e o Ifante D. Sancho, e todolos outros
+Grandes com elle, e a outra gente passada da parte dálem, e chegando ao
+meio da ponte disse o Ifante a El-Rei: «Senhor esto e assaz de vossa
+vinda, não tome vossa mercê mais trabalho, mas lançai-nos vossa benção,
+e com a graça de Deos eu, e estes Senhores vossos Cavalleiros, e
+Vassalos, que aqui estamos, iremos fazer o que mandais, e a elle que
+sempre endereçou vossos feitos, e teve em sua boa guarda apraza de nos
+ajudar em tal modo que vosso coração seja ledo, e descançado.» Respondeo
+El-Rei: «Filho vós fazeis muito bem, mas crede que me é tão grave vossa
+partida, e destes Vassallos meus naturaes com que soia estar, e ter
+continos comigo, que ainda que vós, e elles fosseis a cavallo e eu
+sempre a pé, parece-me que não enfadaria, nem cansaria tanto, que muito
+mais não faça, como faz este apartamento; mas pois é forçado, pesso a N.
+Senhor em cujo serviço his vos ajude a todos, e vos haja em sua guarda
+de guiza, que por vós seja sua santa Fé acrecentada, e seus imigos
+lançados fóra da terra, que nossos antecessores ganharam». Esto assi
+passado, quantos ahi estavam foram beijar a mão a El-Rei, e se
+despediram delle. O Ifante foi o derradeiro que se delle despedio
+beijando-lhe as mãos. El-Rei lhe lançou sua benção, e se tornou para a
+Cidade, e elles cavalgaram todos, e se foram seu caminho.
+
+
+
+
+CAPITULO LI
+
+_Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora
+guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com
+os Mouros peleijasse_.
+
+
+Partidos dalli foram aquella noite pouzar a Penella, e alli disse o
+Ifante a todos que lhe parecia bem não irem juntos, e que para irem mais
+folgados, fosse cada um á sua vontade, por onde mais quizesse, porém que
+se juntassem com elle na Guoleguam. Aos tres dias andados do dito mez de
+Julho, e juntos hi todos como lhes era mandado, partiram dalli, e
+passando o Tejo se meteram todos em ordem, como quem entrava em terra a
+cada passo sospeita de imigos, andaram assi tanto por suas jornadas, que
+chegaram a Evora onde o Ifante foi bem recebido dos que hi moravam, e
+todos os seus que com elle iam. Esteve o Ifante em Evora alguns dias por
+sentir o que os Mouros queriam fazer por sua vinda, e tambem por dar
+folgado caminho aos seus. Este tempo que o Ifante hi esteve, os Mouros
+nunca fizeram entrada, nem intentaram cousa alguma, que de contar seja,
+pelo qual pareceo ao Ifante tempo de fazer o porque viera. Então mandou
+chamar alguns das frontarias ao redor, para irem com elle, e que todavia
+as Villas, e Lugares ficassem bem guardadas. De nhuma lhe acodiam
+tantos, como de Beja, o que causou ficar a Villa muito minguada de
+gente, que para sua defensão lhe fazia mister.
+
+O Ifante desque teve sua gente junta, abalou de Evora oito dias andados
+de Outubro da sobredita era de mil cento e setenta e oito annos, (1178)
+e foi seu caminho direito pelo Castello da Gineta, e dalli se começaram
+de estender os corredores, e outros homens de armas guerreando os
+Mouros, estragando-lhes a terra, e assi correo todo aquelle caminho,
+contra Sevilha, até que passou a Serra Morena. Quando os de Sevilha, e
+Andaluzia, souberam da vinda do Ifante D. Sancho tiveram-se por mui
+desonrados, porque depois que Espanha fora tomada, e Sevilha em poder de
+Mouros, nunca fora guerreada de Christãos, quanto mais ouzarem de chegar
+tão a cerca della, pelo qual houveram acordo de sair ao Ifante, e
+pozeram-se todos á saida do Inxarafe. Chegaram novas ao Ifante como os
+Mouros esperavam alli para peleijar com elle, do que foi mui ledo, dando
+muitas graças a Deos, por se achar a tempo, e ora que o podesse servir
+contra aquelles infieis seus imigos, mandou então chamar os Grandes, e
+outros principaes Cavalleiros de sua oste e disse-lhes: «Quero-vos
+amigos dar boas novas, com que muito deveis de folgar, como eu faço.
+Sabei que todo o poder de Sevilha, e terras de redor vos estão
+aguardando para peleijar com nosco, parece-me que muito nos mostra o
+Senhor Deos aprazer-lhe de nos dar em nossas mãos o porque viemos, cousa
+com que elle seja mui servido, e vós grandemente honrados, que por eu
+ser novo nestas cousas, e vós que comigo vindes Cavalleiros, em ellas
+tão provados, ainda agora esta honra ha de ser mais vossa que minha,
+pelo qual sede muito ledos, e com muito prazer ordenemos, como logo de
+menhã vamos a elles, e assi a ordenança que a nossa gente hade levar,
+que do mais hei por mui escuzado dizer-vos nada do que cada um hade
+fazer, nem meter-vos esforço para esso, conhecendo-vos que sois tais, e
+que sabeis tanto de honra, e cavallaria exercitados em muitas peleijas,
+e batalhas, e grandes vencimentos com El-Rei meu Senhor, e pai, que
+soies mais para dar desso ensino e esforço, que toma-lo de ninguem; hei
+por assás lembrar-vos, que ponhaes em vossos corações o mais que tudo
+vos ha-de lembrar, que peleijamos por defender, e acrecentar a Fé de N.
+Senhor Jesu Christo, o qual de sermos nada, fez de nós filhos, a elle
+que nos tanto amou, a elle em cujo serviço se não perde trabalho: nos
+encomendemos, elle que para havermos de servi-lo poz em nós o querer,
+nos cumpra o poder que façamos com sua graça de menhã, por onde corram
+de nós taes novas, que elle seja louvado, e meu Pai descançado, e vejam
+todos que para parecer eu seu filho, e vós seus Cavalleiros, e amigos,
+não faz mister ser elle presente». Com estas palavras do Ifante folgaram
+todos muito, e foram mui satisfeitos, respondendo: «Senhor, nós todos
+somos vossos, e por serviço de Deos e vosso faremos neste feito quanto
+em nós for, e vós podereis ver, de modo que Deos seja servido, e com sua
+ajuda vós ganheis muita honra para vós, e para nós, e desagora ordenai
+logo o que se em ella ha de fazer, porque hoje seja sabido de cada um em
+que lugar ha de ir, e estar».
+
+
+
+
+CAPITULO LII
+
+_Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o
+esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve_.
+
+
+Esto assi passado, o Ifante se apartou logo com os principais para o
+haverem de fazer, e ordenáram de toda sua gente cinco azes, a primeira
+fosse a vangarda, e a outra apoz esta batalha do meio; e a terceira
+reguarda, e as outras duas azes o Ifante levava comsigo, dous mil e
+trezentos de cavallo, a fóra os corredores que agora chamam ginetes. O
+Ifante meteo na primeira az em que elle ia, seiscentos de cavallo. Eram
+hi com elle D. João Arcebispo de Braga, e o Conde D. Gonçalo, e D. Pero
+Paes Alferes, que então naquella ida servio o Ifante de seu officio, e
+D. Mem Moniz: a outra batalha segunda, foi encommendada a D. Gonçalo de
+Souza, com outros seiscentos de cavallo, a terceira, que era reguarda,
+com outros seiscentos a D. Lourenço Viegas, a az direita levava D. Pedro
+das Esturias, com duzentos e cincoenta de cavallo, e a esquerda o Conde
+D. Ramiro, com outros tantos, e os mais dos corredores com homens de pé
+pozeram tras a carruagem, que a houvessem de guardar, se alguns Mouros
+quizessem dar nella, e da gente de pé não lemos conto, nem repartição
+acabada, mais que de quatro mil, de que na avanguarda, onde o Ifante ia,
+foram metidos mil e quinhentos homens de pés. Ás azes foram dados dous
+mil, e os mais com a carruagem como dito é.
+
+Tanto que essa ordenança foi feita, o Ifante mandou a D. Pedro Paes, que
+fosse pela oste a encomendar a cada um o que havia de fazer, porque
+naquelle tempo o Alferes tinha aquelle carrego, e poder, que ora tem os
+Condestabres. Ao outro dia ante menhã, fez o Ifante dar ás trombetas,
+foram logo todos levantados mui prestemente, de si ordenáram suas azes,
+e onde cada um havia de ir, e estar. O Ifante fez mover sua bandeira, e
+assi todos os outros, e foram todos em ordem até chegarem aonde os
+Mouros estavam, e logo sem mais detença foram dar, e ferir em elles. Os
+Mouros receberam-nos mui esforçadamente; ao juntar houve logo muitos
+derribados, de uma parte, e da outra, e muitos cavallos andavam pelo
+campo sem senhores. Sobre a az do Ifante, que primeiro juntou com os
+Mouros carregaram tantos delles, que se não fora soccorrida, em modo
+algum se pudera sofrer, que vendo D. Gonçalo de Souza, e D. Lourenço
+Viegas o Ifante assi cercado, e encerrado antre tantos Mouros, foram a
+gram pressa a ferir nelles; tambem os Condes D. Pedro das Esturias, e D.
+Ramiro, Capitães das azes, e depois de as azes todas assi envoltas, e
+antre si mui feridas, partio-se a peleija em quatro, ou cinco partes mui
+brava em todolos cabos. Era para louvar a Deos, e folgar de ver o
+esforçado peleijar dos nossos, que por força fizeram juntar-se onde
+estava o pendão de Sevilha; e do Ifante, se acha escrito, que bem
+mostrava ser filho de seu pae, em ferir, assi de lança como de espada
+peleijando mui esforçadamente, onde quer que se acertava. Em esto vendo
+D. Pero Paes Alferes, os Mouros assi todos juntos com o pendão de
+Sevilha dando vozes a Mem Moniz, e a outros Senhores, remeteo ao Alferes
+que o tinha, e deu-lhe tais duas feridas de espada, que o desatinou, e
+leixando cair sua espada dependurada por uma cadea, para esso segundo
+parece custumada travou no Alferes, e como era forçoso deu com elle, e
+com o pendão em terra.
+
+Nesto os Mouros, que com algum esforço, ou vergonha de ver ainda o seu
+pendão levantado, sostinham a peleija, tanto que o viram derribado
+começaram todos a fugir, via da Cidade, e o Ifante e os seus apoz elles
+matando, e derribando quantos podiam, e ao entrar de Trianna foi tanta a
+pressa nos Mouros, que não poderam cerrar a porta, e os nossos entraram
+de volta com elles. Os Mouros que tinham já a ponte passada, por
+tornarem a soccorrer os que ficavam atraz, acalçados dos nossos, deram
+tanto empacho e torvação aos trazeiros, que tiveram os nossos grande e
+despejado tempo, e lugar, para fazer em elles grande matança, e em
+muitas partes se acha escrito haver sido tanta mortindade dos Mouros,
+feridos, e mortos no rio Guadalquibir, que suas aguas pareciam sangue,
+segundo o sangue tinge sempre mais de sua quantidade a agua em mostra
+muito maior. O Ifante feito este tão grande desbarato dos Mouros,
+tornou-se para onde elles tiveram seu arraial de ante sentado, no qual
+acharam prezas grandes, e ouro, e prata, e muitas joias, e cavallos, e
+outras cousas, as quaes repartio por esses Grandes, e Cavalleiros, e
+outra gente, como bem lhe pareceu sem tomar nada para si, do que todos
+foram delle mui contentes.
+
+
+
+
+CAPITULO LIII
+
+_Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e foi
+sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre ella_.
+
+
+Acha-se escrito, que ficando assi Beja falecida de gente para sua
+defenção, pela muita que della se fora com o Ifante D. Sancho mais que
+de outro nhum Lugar Dalentejo como acima dissemos, e ainda de esses que
+nella ficaram alguns com medo de a não poderem defender, se partiram
+della para outros lugares de Christãos, e os Mouros sabendo certo como a
+Villa estava para ligeiramente se poder tomar, pela mingua de gente que
+não tinha, ajuntaram-se dous mui principaes antre elles chamados um
+Alboacamesim, e outro Albouzil, e muitos Mouros que os seguiram, e
+chegaram a pôr cerco sobre ella. Os poucos Christãos que dentro estavam,
+corregeram a Villa o milhor que poderam, e poseram se a defende-la, e
+aprouve a N. Senhor, que com quanto os Mouros logo em chegando a
+combateram, e afrontaram mui rijamente, os nossos a defenderam com tanto
+esforço, que os imigos a não poderam tomar tão de ligeiro, como traziam
+por certo, e assi por sua multidão, e os defensores da Villa serem
+poucos, como por o Ifante ser com a outra gente mui alongado, para os
+haver de soccorrer, detreminaram toda via sentar arraial sobre a Villa,
+fazendo conta, que ainda que a não tomassem, logo em chegando a
+tomariam, em alguns poucos dias, que para esso teriam despaço, e
+começaram trazer, e fazer engenhos, e arteficios, que para tal cazo
+cumpria.
+
+Quando os de dentro da Villa viram a determinação, e assento dos Mouros,
+tomaram acordo de o fazerem saber ao Ifante, e mandaram um Escudeiro dos
+que na Villa estavam sabedor mui bem da terra, cavalgado em um especial
+cavallo, o qual como foi noite saio-se fóra da Villa com tal tento, e
+avizo, que não houve sentimento, nem torvação dos do arrayal, e a carta
+que levava era que os da Villa se encomendavam em sua mercê, e lhe
+pediam que lhes acorresse em tão grande fadiga e trabalho em que
+estavam; no qual entre tanto elles fariam quanto em si fosse, por toda
+via guardarem o que lhes encomendara. Passando assi estas cousas depois
+de vencida a batalha de Sevilha, o Ifante partio da li contra a terra,
+que ora em Castella chamam Algarve, fazendo muita destruição nos Mouros
+por toda aquella terra, e estando sobre Niebla, chegou o recado dos
+Cavalleiros de Beja, como aquelles Mouros a tinham cercada. O Ifante
+vista a carta chamou logo os do seu Concelho, e amostrou-lha, dizendo:
+_Amigos que vos parece desto, ou que devemos fazer_. E todos acordaram
+que para andarem correndo a terra, não era bem perder-se tal Villa, como
+era Beja. Então pareceo ser bem, que o Ifante tomasse de sua gente até
+mil e quatro centos de cavallo dos melhores emcavalgados para logo
+partirem com elle, e que toda a outra oste o seguisse, e tirassem de pôs
+elle o milhor que podessem direito a Beja.
+
+Esto assi detreminado, disse o Ifante a D. Pero Paes Alferes, que
+tomasse carrego dos que haviam de ficar e elle lhe respondeo: «Que cousa
+Senhor será irdes vós em algum lugar poer em a ventura a vosso corpo, em
+que me eu não ache a ter vossa bandeira, como ora em esta batalha, que
+vencestes de Sevilha, e outras muitas com vosso pai, até agora me sempre
+achei.» O Ifante lhe tornou a dizer, que elle fora desso mais ledo, mas
+pois seu cargo era guardar a oste, e rege-la, e governa-la, e nelle
+tanto confiava toda via quizesse ficar com ella. Então ficou D. Pero
+Paes com a gente, e deu de sua mão a bandeira a um seu sobrinho, por
+nome Sueiro Paes, mui bom Cavalleiro. Logo ao outro dia cedo, sem mais
+tardar partio o Ifante com aquelles mil e quatro centos de cavallo, a
+mais andar, e os Adais e Guias que comsigo levava, o levaram por tais
+Lugares, e caminhos, que os Mouro não poderam haver novas delles, e
+passaram pelo váo de Mertola, onde chamam as Asenhas. Os Mouros de
+Mertola, tinham escuitas no váo, e vieram dar novas á Villa, e porque o
+Ifante passava ao Serão, e a Villa era mui forte, não temeram os Mouros
+de Mertola, que aquella gente vinha sobre elles, mas que iam soccorrer a
+Beja, pelo qual mandaram logo a gram pressa homens de pé, e de cavallo
+fazer saber a Alboacamezim, e Albouzil, como pelo váo das Asenhas
+passara aquella noite muita gente, e que haviam por certo não ser outrem
+se não o Ifante D. Sancho.
+
+Havido este recado, foi muito grande alvoroço no arraial dos Mouros, e
+uns diziam que era bem que se fossem, e outros que era milhor
+aguardarem, e peleijarem com os Christãos. O Ifante tanto que veio aos
+chãos do Campo Dourique, disse aos seus, que se não trigassem a andar
+por chegarem mais folgados aos imigos, porque o caminho fora grande, e
+mao, e vinham trabalhados, e por causa desso não poderam chegar á vista
+dos imigos se não a ora de Terça. Tinham os Capitães dos arraiaes,
+especiais espias, e tanto que houveram avizo de Mertola, mandáram logo
+essa noite corredores a saber que gente era a que vinha, e se vinham
+para alli, se para outra parte. Os corredores dos Mouros amanheceram
+acerca de alguns do Ifante, que vinham adiantados, e prenderam um
+Escudeiro, que lhes contou todo como era, e tornáram logo á pressa com
+elle a seus Capitães, e sabida a verdade por elle, esses milhores do
+arraial, por escuzarem vergonha de não esperar, mostraram grande
+esforço, e tenção de quererem em todo cazo peleijar com os nossos, como
+quer que al tivessem na vontade, outros mostravam o contrario, pelo
+grande receio que tinham ao Ifante, e aos outros que vinham com elle,
+havendo que seriam assinados Cavalleiros, dobrava-lhes este medo o
+fresco desbarato, e mortindade de Sevilha, segundo, que a corações
+encontrados em receios, sempre se lhes agoura, e apresenta o peor. Este
+incerto alvoroço dos Mouros deu espaço para o Ifante poder chegar sem
+elles poderem al fazer, se não esperar, e sair-se fóra do arraial, tão
+acerca viam já o pó da gente dos Christãos.
+
+Quando o Ifante chegou estavam já os Mouros com suas azes prestes, e sem
+mais aguardar, disse logo o Ifante a Sueiro Paes, que abalasse rijo com
+a bandeira, e assi foram rijo ferir nos Mouros, e a peleija, esse espaço
+que durou, foi fortemente peleijada dambas as partes, e com mostra de
+haver mais de durar, mas aprouve a N. Senhor, que os Mouros não poderam
+sofrer o grande esforço, e combate dos nossos, e começáram a fugir, e
+foram delles muitos cativos, e mortos, antre os quais morreram hi os
+dous Capitães Alboacamezim, e Albouzil. O Ifante com o seu, e assi os da
+Villa houveram grandes prezas em aquelle desbarato, e o Ifante assentou
+seu arraial fóra da Villa, sem querer entrar nella, até que chegasse a
+outra gente sua, que elle mandára que o seguisse. Os da Villa sairam
+fóra, e trouxeram-lhe serviços desso que podiam. O Ifante os recebeo com
+muito prazer e agradecimento louvando-os muito do grande esforço, e
+bondade que tiveram em defender a Villa, sendo tão poucos.
+
+Foi esta peleija, e vencimento do cerco de Beja, em dia Dascenção de N.
+Senhor dezoito dias de Maio, do Nascimento de N. Senhor de mil cento e
+setenta e nove annos (1179). A cabo de tres dias, do desbarato dos
+Mouros, chegou D. Pero Paes com toda a oste que lhe ficou encarregada, e
+depois de chegados, foi o Ifante com certos Cavalleiros ver a Villa, e
+entrando pela porta vio ainda em cima estar as Armas de Almançor,
+mandou-as logo tirar, e poer as del-Rei seu pai. Mas ora deixará a
+Estoria de falar do Ifante D. Sancho, que ficou em Beja mui temido dos
+Mouros de toda aquella terra, e contará de uma entrada que El-Rei Guami
+Mouro, e um seu irmão fizeram em Portugal, e como foi desbaratado, e
+prezo em Porto de Mós, por um Cavalleiro, que havia nome D. Fuas
+Roupinho.
+
+
+
+
+CAPITULO LIV
+
+_Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D. Fuas
+Roupinho Alcaide do Castello_.
+
+
+Sabendo os Mouros de cima do Tejo, como o Ifante D. Sancho era em Beja,
+de socego, parecendo-lhes que com a occupação que lá teria, elles podiam
+a seu salvo fazer entrada em Portugal, um Rei daquella terra onde ora é
+Caceres, e Valença, que chamavam Guami, e um seu irmão com soma de gente
+das terras a redor, passou o Tejo, e correo toda a terra de Christãos,
+até chegar a Porto de Mós. Em aquelle tempo tinha o Lugar um Cavalleiro,
+que chamavam D. Fuas Roupinho, o qual quando soube que vinha aquelle
+Mouro sobre elle, saio-se do Castello, leixando em elle gente que o
+podesse defender, encomendando-lhes muito, que assi o fizessem, que elle
+se não saia se não para logo lhes soccorrer com mais gente. Saido elle
+meteo-se em cima da Serra, que chamam Amendiga, da parte donde nace o
+roio de Porto de Mós, fazendo esconder os seus, mandou logo a gram
+pressa a Alcaneide, e Santarem fazendo saber a vinda daquelles Mouros, e
+que lhe enviassem gente, porque com a ajuda de Deos esperava que havia
+haver delles honra, e vencimento. Acodiu-lhe logo bom quinhão de gente,
+e no dia que elles chegaram aonde estava D. Fuas Roupinho, chegou o
+mesmo Rei Guami com todas suas gentes sobre Porto de Mós, e vendo o
+Castello tão pequeno, fazendo conta que ligeiramente o tomaria, foram
+logo todos em chegando a combate-lo mui rijamente. Foi o combate tão
+profiado, que dureu até noite, dos Mouros foram muitos mortos, e
+feridos, e assi da parte dos Christãos houve danno assás, e durando o
+combate os que estavam na Serra com D. Fuas Roupinho, debatiam-se todos
+por ir soccorrer aos seus, e elle lhes disse.
+
+ * * * * *
+
+«Amigos posto que nós aqui sejamos muitos, porém eu vos rogo, que vos
+rejais hoje neste cazo por mim, que segundo cuido, e espero prazerá a
+Deos que vossos desejos, e meus, eu vo-los darei compridos com muito
+prazer, e honra, antes que estes Mouros daqui vão, e vós sede certos,
+que os que eu leixei no Castello são taes, que se defenderão bem, ainda
+que creio que os Mouros de os ter em pouco, não cessarão do combate até
+que a noite os desparta, e esso é o que eu mais desejo, porque então do
+caminho e combate mais cançados se lançarão a repouzar, e dormir, e nós
+ante menhã daremos nelles, e os desbarataremos.»
+
+E assi lhes saio em todo, porque de madrugada deram nos Mouros entregues
+ao sono, e não menos em descuido de lhes tal acontecer, e porque o lugar
+onde os Mouros estavam ante o Rio e o Castello ser mui estreito, deu
+ainda mais azo para sendo assi cometidos se embaraçarem antre si, e
+desbaratarem, e serem mortos, e feridos muitos mais, sem se poderem
+remediar. Foi ahi prezo El Rei Guami, e seu irmão com elle, e outros
+muitos, os quais com cincoenta dos melhores D. Fuas Roupinho levou a
+El-Rei D. Affonso Anriques a Coimbra. El-Rei o recebeo com muito prazer
+e gazalhado, e mandou meter em prizão a El-Rei Guami, e todos os que com
+elle foram levados, e a D. Fuas, e aos que com elle iam, e foram na
+batalha fez grandes mercês, como cabe aos Principes fazer por serviços,
+e merecimentos, assinados como aquelle. Foi esta batalha de D. Fuas
+Roupinho, e El-Rei Guami, em Porto de Mós aos vinte dias do mez de Maio,
+era de mil cento e oitenta annos (1180).
+
+
+
+
+CAPITULO LV
+
+_Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e
+tomou delles nove Galés_.
+
+
+Estando assi D. Fuas Roupinho com El-Rei em Coimbra, quando lhe levou
+aquelle Rei Mouro prezo, escreveram os de Lisboa a El-Rei como hi
+andavam nove Galés de Mouros, de que era Almirante um Mouro por nome
+João Ferreira Dalfamim, o qual fazia muita guerra e dando por aquella
+Costa, que fosse sua mercê manda-lo remediar. El Rei havendo este
+recado, chamou D. Fuas Roupinho, encomendou-lhe que fosse a Lisboa, e
+fizesse armar Galés, e que fosse elle por Capitão, para ir peleijar com
+os Mouros, se o esperassem; e deu-lhe logo cartas e mandados para seus
+officiais, que lhe dessem para ello todo o que lhe fizesse mister, e
+outra para a Cidade, de como o mandava lá para armar aquella frota, e
+por tanto fizessem todo o que acerca desso elle lhes requeresse. Tanto
+que D. Fuas foi despachado, espedio-se del-Rei, e partio-se para Lisboa,
+e como chegou deu a Carta del-Rei á Cidade, e as outras aos officiaes
+daquelle carrego, e logo á pressa se deu ordem para se armar a frota, e
+como foi prestes, D. Fuas entrou em ella, e partio volta do Cabo de
+Espichel, por haver novas que na paragem do rio de Setubal
+continuadamente, continuavam mais as Galés dos Mouros, e faziam sua
+guerra, as quais havendo lá nova da Armada que se fazia, vinham tambem
+contra Lisboa a sabe-lo, e trova-lo se podessem, e em dobrando o Cabo,
+houveram vista da frota dos Christãos, e sem mais detença se foram
+aferrar uns com outros, peleijando mui fortemente, e quiz N. Senhor que
+os Mouros foram desbaratados, e todas suas Galés tomadas. Esto foi na
+era já dita de mil cento e oitenta annos (1180) a quinze dias de Julho.
+Tornou-se então D. Fuas para Lisboa com grande vitoria e honra, com a
+qual como era rezão foi recebido.
+
+
+
+
+CAPITULO LVI
+
+_Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado del Rei
+D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os seus_.
+
+
+Tanto que D. Fuas Roupinho tornou a Lisboa, com este vencimento, segundo
+muitas vezes, pequena boa andança engana para dezaventura maior,
+escreveo logo a El-Rei D. Affonso a Coimbra da vitoria que houvera onde
+o mandára, e mais lhe fazia certo, que os da Cidade, e toda a terra ao
+redor estavam em grande reto, e vontade de entrar nas Fustas e Galés
+para irem fazer guerra aos Mouros, e se houvesse por seu serviço, elle
+os serviria nesso. E El-Rei lhe mandou dizer, que lho tinha muito em
+serviço, e que assi o fizesse, escrevendo á Cidade sobre esso, e visto o
+recado del-Rei armaram logo uma soma de Galés, e D. Fuas, foi Almirante,
+e foram correr a Costa do Algarve; mas de couza notavel, e para contar
+que hi fizessem nada achamos escrito, e então D. Fuas teve Conselho do
+que fariam, e acordáram ser bem ir sobre o porto de Cepta, e hi acharam
+Fustas de Armada de Mouros, e tomaram-nas, e assi outros Navios grandes
+com elles, e depois de estarem ahi dous dias ante Cepta, tornáram para
+Lisboa trazendo os Navios tomados comsigo, vindo com grande prazer e
+contentamento de suas prezas, e logo a poucos dias depois de chegados,
+com não menos alvoroço, sem tento, o que não consente rezão ser sempre
+ditozo, se fizeram prestes para tornarem lá.
+
+Os Mouros mui sentidos dos dannos feitos por D. Fuas, receando-se de
+mais adiante, mandáram sobre ello recado por toda a Mourisma da praia, e
+tambem das partes da Espanha, e ajuntáram cincoenta e quatro Galés, e D.
+Fuas não sabendo desto parte, entrou pelo Estreito dentro, e depois
+achou-se lá com Galés dos Mouros, e pela grande corrente lançaram-se as
+nossas Galés sobre a frota dos imigos, e não poderam os nossos al fazer,
+se não peleijarem com elles, e assi aferráram, e peleijaram muito
+espaço. Mas pela grande desigualança, e os Mouros serem muitos mais
+foram os nossos vencidos, e desbaratados, e mortos muitos, e antre elles
+o nobre D. Fuas Roupinho. Esta foi aos dezasete de Outubro da dita era
+de mil e cento e oitenta annos (1180).
+
+
+
+
+CAPITULO LVII
+
+_Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em
+Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho,
+em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso,
+que veio a soccorrer seu filho_.
+
+
+Despois que o Ifante D. Sancho teve Beja corregida do que compria para
+sua defensão, leixando em ella fronteiros, e assi nos outros Lugares e
+Villas Dalentejo veio-se para Santarem com a gente que de continuo
+trazia comsigo, e alguma pouca mais, porque a outra ficava repartida
+pela frontaria dos Mouros, e estando assi o Ifante D. Sancho em Santarem
+Almiramolim Emperador antre os Mouros Rei de Marrocos, vendo o grande
+danno e estrago que os Mouros tinham recebido del-Rei D. Affonso
+Anriques, e do Ifante D. Sancho seu filho, e como de toda a terra se lhe
+mandavam desso cada vez mais agravar, foi movido a fazer guerra a
+Portugal, e juntou muitas gentes infieis, dáquem, e dalém mar, e segundo
+diz uma Chronica, que foi achada em Santa Cruz de Coimbra, não era em
+memoria até aquelle tempo que tanta gente de Mouros fosse junta para
+entrar em Portugal. Vinham com Almiramolim, El-Rei Albojaque de Sevilha,
+e El-Rei Albozady, e El-Rei de Grada, e El-Rei de Fês, e outros Reis
+Mouros, que por todos eram treze, cujos nomes se não acham escritos, e
+vieram pelas partes Dalentejo a entrar na Estremadura, passando o Tejo
+um Domingo, dia de S. João Bautista, sete dias por andar de Junho, era
+do Senhor de mil e cento e oitenta e quatro annos; os Mouros logo em
+esse dia foram sobre o Castello de Torres Novas, e destruiram-no, e á
+Segunda feira vieram poer seu arraial em um lugar que se chama o monte
+de Pompeo, e á Terça feira se ajuntáram todos na Redinha, e á Quarta
+feira, se vieram a Orta lagoa, e alli sentáram seu raial, e esta conta
+da entrada, e jornadas de Almiramolim se escreve assi na Coronica, como
+quer que um letreiro dos que estão no Convento de Thomar, desvaire algum
+tanto, e diz que foi Almiramolim cercar o Castello de Thomar o primeiro
+dia de Julho, e o teve cercado seis dias, e que trazia comsigo
+quatrocentos mil de cavallo, quinhentos mil de pé, poderia passado o
+Tejo de tanta multidão apartar-se muita gente, poer este cerco, e fazer
+outras corridas pela terra, e chegar elle a esto, e deixa-lo posto.
+
+O Ifante D. Sancho que estava em Santarem, como dissemos, não tendo
+comsigo gente, que com rezão podesse peleijar com tanta multidão de
+Mouros, meteo-se a correger a Villa o milhor que pode para se haver de
+defender, e segundo achamos escrito ainda então a maior parte de
+Santarem era arrevalde, nem havia ahi mais cerca que Alcaceva pela torra
+de Alfam, até Alfanja, o Ifante despois de correger os muros, e ordenar
+a defensão saio-se fóra ao arravalde, e tomou uma parte delle, para o
+abairreirar de cubas, e portas, e escudos, e fez palanques, e lugares em
+que podessem estar para defender, mandando derribar todas as casas de
+redor, e então repartio sua gente, e elle poz se com sua bandeira onde
+lhe pareceo haver de ser mór pressa, e ao outro dia pela menhã Quinta
+feira vinte e oito de Junho vespora de S. Pedro, e S. Paulo abalou
+Almiramolim com toda sua gente, e chegou a Santarem, segundo conta
+aquella Estoria achada em Santa Cruz, como já disse, e em chegando,
+tanto que soube que o Ifante o esperava assi naquelle palanque houve por
+desprezo, e fez logo dar ás trombetas, e mover toda sua gente, e
+combater o palanque.
+
+Foi o combate tão forte, que morreram e foram feridos muitos de uma
+parte e da outra, em quanto uns peleijavam, destroiam os outros todo o
+arravalde de fóra do palanque até torre Lavinha, por fazerem aos Mouros
+maior praça, e despejo, para combater. Tanto que veio a noite, que
+partio o combate, o Ifante poz guarda no palanque, e fez agazalhar e
+repousar outra gente, e pensar dos feridos, e esta mesma afronta
+sofreram os Christãos assi cinco dias arreio, porque os Mouros eram
+tantos, que mui folgadamente se renovavam cada vez muitos aos combates,
+desde pela menhã até noite; e segundo conta a dita Estoria, quando
+El-Rei D. Affonso soube que Almiramolim vinha sobre o Ifante seu filho,
+ajuntou a mais gente que pode, e abalou tanto á pressa, que aos tres
+dias desque o Almiramolim chegou a Santarem, foi El Rei a Porto de Mós.
+Os Mouros sabendo da vinda del-Rei D. Affonso não leixáram por esso
+seguir com maior afronta seus combates, cada dia, como antes faziam, e
+ao quinto dia foi o Ifante e os seus tão afincados dos Mouros, e postos
+em tanto aperto, que o palanque foi roto por algumas partes, e muitos
+dos Christãos mortos, e feridos, e o Ifante esso mesmo foi ferido, com
+todo mui esforçadamente se defenderam, e sostiveram aquelle dia, que não
+foram entrados, e já não tinham modo de defensão, se não desemparar o
+palanque, e acolher-se ácerca; mas o Senhor Deos, que é poderoso em
+todalas cousas, quando se os homens em ellas não sabem, nem podem valer,
+então acode elle com sua ajuda, porque se então mais conheça, e poz tal
+medo e receo nos Mouros, com a vinda e chegada del-Rei D. Affonso, que
+começaram a dezemparar os combates que faziam, e ir-se poucos a poucos,
+a mais andar, como desbaratados, como soi a muita gente de fazer, e
+desmandar-se, quando se menos póde reger, e os Christãos vendo os raiaes
+dos Mouros mover se, e partirem-se de onde estavam, saio gente de pé do
+Ifante contra elles, e os Mouros se afastáram para um Lugar, que se
+chama monte de Abbade, e nisto appareceo El-Rei D. Affonso com sua
+gente, de que o Ifante e os seus foram mui ledos, e pozeram-se logo
+todos a cavallo, e juntos com El-Rei déram nos Mouros, fazendo nelles
+grande estrago, e mortindade, de que morreram alguns dos Reis que alli
+vinham, e grande parte dos mais nobres Mouros, e foi alli ferido
+Almiramolim, e feito assi nelle, e nos seus tão grande desbarato.
+
+Tornou-se El-Rei, e o Ifante com grande vencimento, e prazer de todos os
+seus, e acháram no Arraial dos Mouros grandes despojos de ouro e prata,
+e tendas armadas, cavallos, e camellos, e outras muitas cousas com
+pressa da peleija deixadas. E com todo esto, e muitos Mouros cativos,
+entráram na Villa mui ledos, dando muitas graças e louvores a N. Senhor.
+Estos Mouros, que assi iam fugindo com quanto iam desbaratados, porém
+por ainda ficarem mui muitos de tanta multidão foram poer arraial acerca
+Dalanquer, e tiveram-na cercada alguns dias, combatendo-a rijamente sem
+lhe poderem empecer, e depois se alçaram dali, e foram-se a Aruda, e
+destruiram-na toda por terra, e dali se foram cercar Torres Vedras, e
+estiveram sobre ella onze dias, e vendo que a não podiam tomar, houveram
+Conselho de se ir volta de sua terra, achando que eram dos seus muitos
+mortos, e perdidos, e assi muitas riquezas que trouxeram, e então se
+partiram seu caminho, e passado o Tejo morreo o seu grande Emperador
+Almiramolim das muitas feridas que houve na batalha.
+
+
+
+
+CAPITULO LVIII
+
+_Como cazou Dona Tareja, filha del-Rei D. Affonso Anriques a derradeira,
+com D. Felippe Conde de Frandes_.
+
+
+Despois que a batalha assi foi feita, El-Rei D. Affonso Anriques esteve
+alguns dias em Santarem, partio se para Coimbra levando comsigo o
+Infante D. Sancho seu filho, e como quer que já tenhamos dito,
+juntamente que El-Rei D. Affonso teve tres filhas, e que uma dellas
+cazara com El-Rei D. Fernando de Lião, e outra com o Conde D. Reymon de
+Barcelona, e outra com D. Felippe Conde de Frandes, nesta era acima dita
+de mil e cento e oitenta e quatro annos, metendo-se antre o seu
+cazamento, e de suas Irmãs passante de vinte e cinco annos, em que
+parece, que ainda esta Dona Tareja não era nacida, ou havia pouco que
+nacera, mas como se veio tratar o seu cazamento, não achamos escrito
+cousa para dizer de certo, sómente que desta tornada del-Rei D. Affonso,
+de Santarem para Coimbra, mandou o Conde D. Felippe de Frandes, por Dona
+Tareja sua molher, e vieram por ella Cavalleiros, e Senhores muitos, e
+outra muito nobre gente, e bem luzida, e Náos mui bem guarnecidas, á
+Cidade do Porto, e tanto que El-Rei soube que elles hi eram, partio-se
+com sua filha para lá, levando comsigo desses grandes do Reino, e homens
+principais, e quando chegou os Senhores, e Cavalleiros, que vinham pela
+Ifante, sairam a El-Rei, e a ella de quem foram bem recebidos, e com
+muita honra agazalhados, perguntando-lhe El-Rei com muita afeição, e
+assi a Ifante por novas da saude, e disposição do Conde, e de seu
+estado, e depois desto entregou-lhes El-Rei sua filha muito
+honradamente, mandando com ella em outras Náos dos seus naturaes alguns
+Grandes do Reino, e pessoas principais, e asi Donas, e Donzellas de
+linhagem quantas compria, e esta Dona Tareja viveo com seu marido vinte
+e tres annos.
+
+
+
+
+CAPITULO LIX
+
+_De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes
+louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente
+escritas_.
+
+
+Vendo-me chegado haver de dar cabo aos mui nobres feitos del-Rei D.
+Affonso Anriques com sua morte, a qual nos bons sempre é temporam, por
+tarde que venha, tomo desso grande pezar, como se vivendo com elle o
+visse falecer. Tão conversado, e affeiçoado trazia o esprito na materia
+de suas excellencias! Depois de feito o cazamento acima dito, veio o
+nobre Rei adoecer logo ao anno seguinte, e faleceo dessa doença o
+Excellente Principe mui manhanimo igual a qualquer dos mui excellentes
+antigos em valentia de forças, e coração mui grande, nem que na
+Christandade houve outro, antes, nem depois delle mais temido dos
+Mouros, cujos mui notaveis feitos não é duvida acharem-se muito menos
+postos em escrito, do que foram por obra, ora fosse por culpa dos
+tempos, ora por mingoa dos Escritores, segundo em alguns passos dessa
+sua Estoria se pode assás comprehender, porque em ella se não faz menção
+de muitas cousas assinadas de sua pessoa, nem dos seus, assi como de D.
+Gualdino Paes, que foi Mestre do Templo de Christo, em Portugal, e fez o
+Castello de Thomar, e outras Fortalezas, e servio grandemente em seu
+tempo.
+
+Teve este muito esforçado Rei, em suas excellentes cavallarias, como por
+ellas se mostra, o animoso fervor, e ardente esforço de Julio Cesar, e a
+segurança mui confiada de Publio Cipião Africano, em tanto gráo, que
+todo o que estava por fazer, cometia como se o tivesse já feito, e o que
+mui deficil se acha sendo tão activo. Era cheio de muita fé e devação,
+sem a qual toda cavallaria no Christão, é deslouvada, e ainda muitas
+vezes danoza, e com rezão mal preparada, pelo qual este mui virtuoso
+Rei, tendo tamanha occupação de guerras tão santas, e meritorias, contra
+os infieis, que assás bastavam para muito merecer ante Deos, não leixou
+por esso de fazer muitas Egrejas, e Moesteiros mui sumptuosos, dotados
+de muita renda, e ornamentos com muito serviço e acrescentamento do
+culto Divino, de que hoje em dia são principaes o Moesteiro de Santa
+Cruz de Coimbra, e o Moesteiro de Alcobaça, leixando manifesto exemplo
+aos menos devotos, que occupação de servir a Deos em uma cousa, não
+tolhe por esso, mas antes dá graça e poder para muitas outras.
+
+E em uma Chronica achei, que elle começou a Ordem de Santiago, e deu ao
+Esprital de Jerusalem oitenta mil dinheiros de ouro para se comprar
+herança, e tanta renda, porque désse cada dia a todos os enfermos de
+enfermaria mantimento de pão, e vinho, para que o metessem cada dia em
+orações, e satisfez outras muitas cousas de caridade, e devação, foi mui
+amado, e temido dos seus. Houve, e venceo em pessoa muito grandes
+batalhas, e afrontas de peleijas, segundo se achou com muito poucos
+contra muitos; desbaratou em pessoa dous Emperadores, um Christão, e
+outro Mouro, e vinte Reis Mouros, com grandes poderes, e gentes, sendo
+elle muito menos. Primeiramente em Val de vez, antre Monção, e Ponte de
+Lima, venceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador. Depois no
+Campo Dourique venceo cinco Reis Mouros, com infinda Mourama, e junto
+com Palmela venceo El-Rei de Badalhouce Mouro, vindo com grande poder. E
+em Santarem Albojaque Rei de Sevilha, e apoz esto, Almiramolim
+Emperador, que se dizia antre os Mouros Rei de Marrocos, que trazia
+treze Reis Mouros comsigo, com novecentos mil homens, como dito é, não
+contando outros vencimentos grandes, que houve de Lugares, e Fortalezas,
+que tomou a Mouros, muitas, e mui grandes, e fortes: primeiramente na
+Estremadura, Santarem, Lisboa, e todas outras Fortalezas della, desde
+Lisboa até Coimbra, em Alentejo, tomou Cezimbra, Palmela, Alcacer,
+Evora, Elvas, Cerpa, Moura, Beja, e outras Fortalezas muitas, mui
+fortes, e grandes.
+
+
+
+
+CAPITULO LX
+
+_Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era em
+que se finou, e onde foi sepultado_.
+
+
+Na verdade El-Rei foi dino de grande louvor, e memoria de todos seus
+feitos, e que alguns escrevessem delle que em sua mancebia foi bravo, e
+esquivo, sobejo, certo a mim parece concirando bem tudo, que em nhum
+tempo teve cousa alguma, que sendo elle o primeiro Rei de Portugal, e no
+modo que o foi, lhe não fosse compridouro ser em tudo qual foi, assi
+para serviço de Deos, como para bem, e muita honra do seu Reino, e que
+se tal não fora, não sabemos que fora de Portugal, o que Deos seja
+louvado, agora é, porque como diz Aristoteles, o principio é mais, que o
+meio das cousas, porque muitas vezes ouvi dizer a meu irmão D. João
+Galvão, Arcebispo que foi de Braga, e Prior de Santa Cruz de Coimbra,
+Escrivão da Puridade del-Rei D. Affonso o Quinto, que Santa gloria haja,
+que segundo achava pelas cousas daquelle Moesteiro, e outras obras
+daquelle virtuoso Rei, elle o tinha por Santo, e por tal a seu parecer
+deve ser havido.
+
+Os annos, que neste mundo viveo ainda que se achem escritos em diversos
+modos, porém tirada a limpo com muita diligencia, a verdade desso, achei
+que viveo noventa e um annos; porque elle naceo na era de N. Senhor Jesu
+Christo de mil e noventa e quatro, cinco annos antes que a Caza Santa de
+Jerusalem fosse tomada aos Mouros pelo Duque Gudufre de Bulhão; e por
+morte de seu pai o Conde D. Anrique ficou elle de dezoito annos, e des
+então foi chamado Principe vinte e sete annos, e despois chamado Rei
+quorenta e seis annos, e sendo alçado Rei em idade de quorenta e cinco
+annos, que são assi por todos noventa e um annos, em que o Senhor Deos
+aprouve leva-lo para si, tres annos antes que a Caza Santa se tornasse a
+perder, e tomar de infieis, pelos peccados dos Christãos, tolhendo N.
+Senhor a este virtuoso Rei, que não visse tão grande pezar, quem lhe
+tanto mereceo empunhar pela sua Santa Fé.
+
+Finou-se aos seis dias do mez de Dezembro, era de N. Senhor Jesu Christo
+de mil cento e oitenta e cinco annos. Foi enterrado no Moesteiro de
+Santa Cruz de Coimbra que elle mandou fazer. Ainda que velho foi mui
+sentida sua morte, de seu filho, o Ifante D. Sancho, e de todos seus
+Cavalleiros e Vassallos, do Povo, do Reino de Portugal, e seu corpo
+enterrado com muita honra, e grandes obsequias, e sua Alma levada nas
+mãos dos Anjos, á gloria do Paraiso, onde todos sejamos. Amen. Tem de
+fóra da sepultura um letreiro de versos em latim, que diz, outro
+Alexandre jaz aqui, ou Julio outro.
+
+
+ DEO GRATIAS
+
+
+
+
+INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS
+
+
+A
+
+
+Abdenamer cativou em Espanha muitos Mouros, e Christãos, e abrazou muitos
+Santuarios.
+
+Achy Rei Mouro com trezentos mil Soldados cerca Coimbra, e levanta o cerco
+com grande perda.
+
+Affonso (D.) Rei de Lião foi filho de D. Fernando, e Dona Urraca filha
+del-Rei D. Affonso Anriques.
+
+Affonso de Castella (D.) chamado o Emperador caza sua filha Dona Tareja
+com o Conde D. Anrique.
+ É vencido na batalha de Valdevez por D. Affonso Anriques.
+
+Affonso Anriques (D.) Quando naceo.
+ É entregue a Egas Monis para ser seu Aio.
+ É apresentado por este Fidalgo a N. Senhora a qual o livra da aleijão
+ com que naceu.
+ Acompanhou a seu pai defunto até o lugar onde o sepultáram.
+ Dezafia a seu Primo el-Rei de Castella D. Affonso filho do Conde D.
+ Reymão por lhe tomar Lião, mas logo se reconciliáram.
+ Peleja com seu Padrasto, e é vencido.
+ Torna Segunda vez a batalhar, e o vence, e prende juntamente com elle
+ a sua Mãi.
+ Alcança a batalha de Valdevez onde fica vencido D. Affonso de Castella
+ chamado Emperador.
+ É cercado em Guimarães por D. Affonso de Castella.
+ De como levantou o cerco.
+ Conquista Leiria, e Torres novas.
+ Parte ao Alentejo para pelejar com os Mouros.
+ Sentio muito a morte de Egas Monis.
+ Busca a el-Rei Ismar, e assenta os arrayaes no lugar chamado Cabeças de
+ Rei.
+ É despersuadido pelos Soldados a não commetter a batalha do campo de
+ Ourique, mas elle os anima para o conflito.
+ Aparece-lhe Christo Senhor nosso, e lhe segura o bom successo da
+ batalha.
+ Antes da batalha é levantado Rei.
+ Dá-se a batalha, e sae vitorioso.
+ Depois d'esta vitoria acrecentou o escudo suas Armas.
+ É informado do lugar onde está o Corpo de S. Vicente Martyr.
+ Vai buscar este santo Corpo ao Cabo do seu nome, e o não acha.
+ Toma Leiria aos Mouros.
+ Faz doação a S. Theotonio de Leiria, e Arronches sómento no espiritual.
+ Caza com Dona Mofalda.
+ Intenta tomar Santarem.
+ Manda por Martim Mohás levantar a tregoa com os Mouros de Santarem.
+ Voto que fez a S. Bernardo se conquistasse Santarem.
+ Pratica que fez aos Soldados para conquistar esta Villa.
+ Escala esta Villa, e se fez Senhor della.
+ De que modo rendeo a Deos as graças pela tomada desta Villa.
+ Ordena cercar Lisboa.
+ Exhorta aos estrangeiros que chegáram na Armada para a conquista de
+ Lisboa.
+ Conquista esta Cidade, e purifica a sua Mesquita.
+ Determina fazer esta Cidade Bispado, e quem foi o seu primeiro Bispo.
+ Nomeia o primeiro Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fóra, e quem foi?
+ Conquista Alanquer, Obidos, Torres vedras, e Alcacere, Elvas, Moura, e
+ Serpa.
+ Dos filhos que teve.
+ Recebe com grande pompa em Tuy ao Conde de Barcelona D. Reymondo, que
+ vinha com procuração de seu filho a despozar-se com Dona Mofalda
+ filha do mesmo Rei.
+ Toma Cezimbra, e Palmella onde desbaratou os Mouros.
+ Conquista Badalhouse.
+ Contendas que teve com seu genro D. Fernando Rei de Lião, e sahindo a
+ pelejar com elle quebra uma perna no ferrolho das portas de
+ Badalhouse.
+ Por causa deste desastre fica prisioneiro, e para recuperar a liberdade
+ concede, e larga algumas terras, e Fortalezas a D. Fernando.
+ Fez juramento a seu filho D. Sancho por successor da Coroa, e quando
+ se celebrou este acto.
+ Desbarata em Santarem a Albojame Rei de Sevilha, que a vinha cercar.
+ Manda a seu filho D. Sancho a pelejar com os Mouros no Alentejo.
+ Soccorre ao mesmo Infante, que estava em Santarem cercado por
+ Almiramolim Emperador de Marrocos, e o desbarata.
+ Acções illustres, que obrou.
+ Annos, que viveo.
+ Dia, e anno da sua morte, e onde está sepultado.
+
+Alanquer é conquistado por D. Affonso Anriques.
+
+Albojame Rei de Sevilha é desbaratado pertendendo tomar Santarem, por D.
+Affonso Anriques.
+ Faz tregoas com o mesmo Rei por cinco annos.
+
+Alcacere é conquistado por D. Affonso Anriques.
+
+Almada, diversos nomes que teve.
+
+Almiramolim Emperador de Marrocos cerca em Santarem ao Infante D. Sancho,
+e é desbaratado.
+
+Arronches é tomado por São Theotonio Prior de Santa Cruz de Coimbra.
+
+Auzery Alcaide mór de Santarem foge para Sevilha quando se tomou a dita
+Villa.
+
+Azambuja porque cauza lhe puzeram este nome.
+
+
+B
+
+
+Badalhouse é tomado por D. Affonso Anriques.
+ No ferrolho das suas portas quebrou o mesmo Rei uma perna, e por esta
+ causa é prisioneiro por seu genro D. Fernando Rei de Lião, e recupera
+ outra vez Badalhouse.
+
+Batalha de Santilhanas, nella foi prisioneiro por D. Affonso Anriques D.
+Fernando Conde de Trastamara juntamente com a Rainha Dona Tareja mãi do
+mesmo Rei.
+ A de Valdevez, nella ficou destruido D. Affonso de Castella chamado
+ Emperador.
+ A do Campo de Ourique.
+ A de junto de Palmella.
+ A de Inxarafe alcançada pelo Infante D. Sancho.
+ A de Beja alcançada pelo mesmo Infante.
+ A de Santarem onde é destruido Almiramolim Emperador de Marrocos.
+
+Beja é conquistado por D. Affonso Anriques, e em que anno.
+ É cercada pelos Mouros governados por Albocamesim, e Albouzil, e
+ levantam o cerco derrotados pelo Infante D. Sancho.
+
+Bernardo (S.) Estando em França soube por illustração Divina o voto que
+fizera á sua Religião D. Affonso Anriques se conquistasse Santarem.
+
+
+C
+
+
+Cezimbra é conquistada por D. Affonso Anriques.
+
+Childe Rolim foi um dos principaes Cavalleiros que veio na Armada que
+ajudou conquistar Lisboa.
+ Passou á Villa de Azambuja, que ficou a seus descendentes.
+
+Coimbra é cercada por Achy Rei Mouro, e levanta o sitio com grande perda.
+
+
+D
+
+
+Daciano Martyrizou a S. Vicente.
+
+D. Diogo Gonçalves morre valerosamente na batalha de Ourique.
+
+
+E
+
+
+Egas Moniz (D.) foi o aio del-Rei D. Affonso Anriques.
+ Aparece-lhe de noute N. Senhora, e lhe manda leve a este Principe a um
+ lugar, onde achará uma Igreja sua onde ficará livre da aleijão com
+ que nacera, e assim sucedeo.
+ Da maneira que fallou a El-Rei de Castella D. Affonso, e lhe fez
+ levantar o cerco de Guimarães.
+ Vai com sua mulher, e filhos apresentar se a El-Rei de Castella pela
+ menagem que lhe tinha feito em Guimarães.
+ É livremente despedido pelo dito Rei.
+ É recebido com grande alegria por D. Affonso Anriques quando voltou de
+ Castella.
+ Da sua morte, e onde está enterrado.
+
+Elvas é conquistada por D. Affonso Anriques.
+
+Elvira (D.) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador casou
+com o Conde D. Reymão de S. Gil de Proença.
+
+Evora é conquistada por D. Affonso Anriques.
+
+
+F
+
+
+Felippe (D.) Conde de Frandes cazou com Dona Tareja filha terceira del-Rei
+D. Affonso Anriques.
+
+Fernando (D.) Conde de Trastamara cazou com D. Tareja viuva do Conde D.
+Anrique.
+ Era o maior homem de Espanha, e por esta causa se levantou todo Portugal
+ por elle contra El Rei D. Affonso Anriques.
+ É prisioneiro na batalha de Santilhanas por El-Rei D. Affonso Anriques.
+
+Fernando (D.) Rei de Lião cazou com Dona Urraca filha de D. Affonso
+Anriques.
+ Separa-se delle por ordem do Papa por serem parentes.
+ Prisiona em Badalhouse a seu sogro D. Affonso Anriques.
+
+Fuas Roupinho (D.) desbarata os Mouros que cercavam Porto de Mós.
+ Alcança uma victoria naval dos mesmos inimigos, e lhe toma nove Galés.
+ Peleja segunda vez com os Mouros em o mar, onde foi desbaratado, e morto.
+
+
+G
+
+
+Gilberto foi o primeiro Bispo que teve Lisboa depois de ganhada aos Mouros.
+
+Gonçalo de Sousa (D.) valerosamente peleja na batalha de Ourique.
+ Achou-se na conquista de Santarem.
+ Acompanhou a D. Affonso Anriques quando foi a Tuy receber ao Conde de
+ Barcelona D. Reymondo.
+ Assistio na batalha de Inxarafe com o Infante D. Sancho governando a
+ seiscentos homens de cavallo.
+
+Gonçalo Viegas (D.) adiantado mór da Cavallaria del-Rei, socega o tumulo
+que havia sobre o lugar onde se havia de collocar o Corpo de S. Vicente
+quando chegou a Lisboa.
+
+Gualterio frade Flamengo é nomeado primeiro Prior do Mosteiro de S.
+Vicente de Fóra por D. Affonso Anriques, e não permanece.
+
+Guimarães é cercada por El-Rei de Castella D. Affonso.
+ Levanta o sitio por persuasão de D. Egas Moniz.
+
+Guodinos Conego Regrante, e Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fóra é
+eleito Bispo de Lamego.
+
+
+I
+
+
+Inglezes que vieram na Armada para cercar Lisboa assentam o seu arrayal
+no logar donde está a Igreja Parochial dos Martyres.
+
+Ismar (El-Rei) com quatro Reis é vencido na batalha de Ourique sendo o
+numero dos inimigos muito superior ao dos Christãos.
+ Toma Leiria.
+
+Izidoro (D.) Bispo de Tuy acompanhou a esta Cidade a El-Rei D. Affonso
+Anriques quando foi receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo.
+
+
+J
+
+
+João (D.) Arcebispo de Braga recebe em Tuy a Dona Mofalda filha del-Rei
+D. Affonso Anriques com D. Reymondo filho do Conde de Barcellona
+assistindo este com procuração do filho.
+ Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe.
+
+
+L
+
+
+Leiria é conquistada por D. Affonso Anriques.
+ É tomada por El-Rei Ismar.
+
+Lisboa é cercada por D. Affonso Anriques.
+ Em que dia, e anno foi ganhada.
+ Quem foi o primeiro Bispo, que teve depois de conquistada aos Mouros.
+
+Lourenço Viegas (D.) Peleja valerosamente na batalha de Ourique.
+ Achou-se na conquista de Santarem.
+ Assistio na batalha de Inxarafe governando seiscentos homens.
+
+
+M
+
+
+Martim Moniz filho de Egas Moniz Capitão de uma Az na batalha do Campo
+de Ourique peleja valerosamente.
+ Morre na batalha.
+
+Mem Moniz filho de Egas Moniz era Capitão na batalha de Ourique.
+ É mandado por D. Affonso Anriques a fazer tregoas com os Mouros de
+ Santarem, e de como espiou a Villa, e do conselho que deu a El-Rei
+ para poder ser conquistada.
+ Acha-se na conquista de Santarem sendo já Guarda mór del-Rei.
+ Assistio na batalha de Inxarafe D. Sancho.
+
+Mendo (D.) Bispo de Lamego acompanhou a El-Rei D. Affonso Anriques a Tuy
+onde recebeo a D. Reymondo Conde de Barcelona.
+
+Moçaraves são prisioneiros na batalha do Campo de Ourique os quaes
+informaram a El-Rei D. Affonso Anriques donde estava o Corpo do Martyr
+S. Vicente.
+
+Mofalda (D.) Filha do Conde D. Anrique de Lara caza com D. Affonso
+Anriques.
+
+Mofalda (D.) Filha del Rei D. Affonso Anriques caza com D. Reymondo
+filho do Conde de Barcelona, e quando, e como se fez este cazamento.
+
+Mossem Guilhem de longa espada, Conde de Lincoll foi um dos principaes
+Cavalleiros que vieram na Armada, que ajudou a tomar Lisboa.
+
+Mosteiro de S. Vicente de Fóra. Nelle, antes de ser fundado, pôs o seu
+arraial D. Affonso Anriques para conquistar Lisboa.
+ Qual foi o seu primeiro Prior nomeado pelo mesmo Rei.
+
+Moura é conquistada por D. Affonso Anriques.
+
+
+O
+
+
+Obidos foi conquistado por D. Affonso Anriques.
+
+
+P
+
+
+Payo Guoterres é feito Alcaide do Castello de Leiria por S. Theotonio
+quando foi conquistado por D. Affonso Anriques.
+ É prisioneiro no Castello de Leiria quando foi conquistado por El-Rei
+ Ismar.
+
+Palmella é conquistada por El-Rei D. Affonso Anriques onde desbarata em
+uma batalha aos Mouros de Badajós.
+
+Pedro (D.) Conde das Asturias acompanha a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques
+quando foi receber a D. Reymondo Conde de Barcelona.
+
+Pedro Affonso (D.) Irmão bastardo del-Rei D. Affonso Anriques se achou na
+conquista de Santarem.
+
+Pedro das Esturias (D.) governou na batalha, que se compunha de duzentos e
+cincoenta cavallos.
+
+Pero Paes (D.) Alferes de D. Affonso Anriques se achou na conquista de
+Santarem.
+ Acompanha o mesmo Rei a Tuy quando foi receber ao Conde de Barcelona D.
+ Reymondo.
+ Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe.
+
+Porto de Mós é cercado pelos Mouros, onde foram desbaratados por D. Fuas
+Roupinho.
+
+Portugal é dado em dote ao Conde D. Anrique por El-Rei de Castella D.
+Affonso chamado Emperador quando cazou com elle a sua filha Dona Tareja.
+ Porque tomou este nome?
+
+
+R
+
+
+Ramiro (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi
+a receber a D. Reymondo Conde de Barcelona.
+ Assistio na batalha de Inxarafe governando a Az esquerda, que se
+ compunha de duzentos e cincoenta cavallos.
+
+Reymondo (D.) Conde de Barcelona recebe com procuração de seu filho a Dona
+Mofalda filha del-Rei D. Affonso Anriques, e quando, e como se fez este
+cazamento.
+
+Roberto (D.) Daião da Sé de Lisboa faz que o Prior da Igreja de Santa
+Justa lhe conceda que o Corpo do Martyr S. Vicente seja collocado na Sé.
+
+
+S
+
+
+Sancha (D.) filha do Conde D. Anrique cazou com D. Fernão Mendes.
+
+Sancho (Infante D.) filho de D. Affonso Anriques em que dia e anno foi
+jurado em Coimbra.
+ É mandado por seu pai ao Alentejo a peleijar com Mouros, e do alvoroço
+com que recebeo esta ordem, e o que executou.
+ Alcança uma gloriosa vitoria dos Mouros em Sevilha.
+ Alcança outra vitoria dos mesmos inimigos indo cercar Beja.
+ É cercado dentro em Santarem por Almiramolim Emperador de Marrocos com
+ quatrocentos mil cavallos, e quinhentos mil de pé, e sendo soccorrido
+ por El-Rei seu pai é desbaratado com todo o exercito.
+
+Santarem, descreve-se a bondade do seu paiz, e como D. Affonso Anriques
+determinou conquista-la, e da difficuldade que havia para o conseguir.
+ É escalada, e entrada por El-Rei D. Affonso Anriques.
+ Porque tem este nome.
+ É cercada por Albojame Rei de Sevilha, onde foi derrotado por D. Affonso
+ Anriques.
+
+Serpa é conquistada por D. Affonso Anriques.
+
+Sinaes espantosos que appareceram em o Ceo de noute quando El-Rei D.
+Affonso Anriques quiz tomar Santarem.
+
+
+T
+
+
+Tareja (D.) caza com o Conde D. Anrique, e leva por dote a Portugal como
+Condado.
+ Depois da morte do Conde D. Anrique cazou com D. Vermuy Paes de Trava,
+ e depois com D. Fernando Conde de Trastamara Irmão de Vermuy Paes.
+ É prisioneira na batalha de Santilhanas por seu filho D. Affonso
+ Anriques.
+
+Tareja (D.) Filha terceira del-Rei D. Affonso Anriques cazou com D.
+Felippe Conde de Frandes.
+ Como foi conduzida para aquelle Condado.
+
+Theotonio (S.) Prior de Santa Cruz conquista Arronches.
+ Faz-lhe doação D. Affonso Anriques de Leiria, e Arronches sómente no
+ Espiritual.
+ Recebe do mesmo Rei Leiria assim no Espiritual, como no temporal, e
+ lhe põe por Alcaide do Castello a Payo Guoterres.
+ Faz oração com os seus Conegos pelo bom sucesso da conquista de
+ Santarem.
+
+Thomar. O seu Castello é cercado por Almiramolim Emperador de Marrocos.
+
+Torres Novas. Quando foi conquistada por D. Affonso Anriques?
+ O seu Castello foi destruido por Almiramolim Emperador de Marrocos.
+
+Torres Vedras foi conquistada por D. Affonso Anriques.
+
+Trancoso é tomado pelos Mouros, onde fizeram grande mortandade.
+
+
+U
+
+
+Urraca (D) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador caza
+com o Conde D. Reymão de Tolofa.
+
+Urraca (D.) filha de D. Affonso Anriques cazou com D. Fernando Rei de
+Lião.
+
+Urraca Lopes (D.) filha do Conde de Navarra Irmã de D. Diogo o bom Senhor
+de Biscaya cazou com El-Rei de Lião D. Fernando.
+
+
+V
+
+
+Vasco (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi
+receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo.
+
+Vermuy Paes de Trava (D.) cazou com a Rainha Dona Tareja viuva do Conde D.
+Anrique.
+ Depois deixando-a cazou com uma filha da mesma Dona Tareja.
+
+Vicente (S.) donde era natural, e como foi martyrizado.
+ O seu Corpo é trazido ao Cabo que agora tem o seu nome, e de como o foi
+buscar D. Affonso Anriques, e o não achou.
+ Como foi achado o seu Corpo, e collocado na Sé de Lisboa.
+
+Villa franca foi chamada antigamente Cornagoa.
+
+
+
+
+TRASLADO DO JURAMENTO DEL-REI D. AFFONSO ANRIQUES
+
+O qual se conserva no Archivo do Real Mosteiro de Alcobaça
+
+
+Ego Alfonsus Portugalliae Rex, filius illustris Comitis Henrici, nepos
+magni Regis Alfonsi, coram vobis bonis viris, Episcopo Bracharensi, &
+Episcopo Colimbriensi, & Theotonio, reliquisque magnatibus officialibus
+vassalis Regni mei in hac Cruce aerea, & in hoc libro Sanctissimorum
+Euangeliorum juro cum tactu manuum mearum, quod ego miser peccator, vidi
+hisce oculis indignis verum Dominum nostrum JESUM Christum in Cruce
+extensum in hac forma. Ego eram cum mea hoste in terris ultra Tagum, in
+agro Auriquio, ut pugnarem cum Ismaele, & aliis quatuor Regibus Maurorum
+habentibus secum infinita millia, & gens mea timorata propter
+multitudinera, erat fatigata, & multum tristis, ia tantum, ut multi
+dicerent esse temeritatem inire bellum, & ego tristis de eo quod
+audiebam, caepi mecum cogitare, quid agerem, & habebam unum librum in
+meo papillione, in quo erat scriptum Testamentum antiquum, & Testamentum
+JESU Christi. Aperui illum, & legi victoriam Gedeonis, & dixi intra me:
+Tu seis Domine JESU Christe, quia pro tuo amore suscepi bellum istud
+contra tuos inimicos, & in manu tua est dare mihi, & meis fortitudinem,
+ut vincamus illos blasphemantes tuum nomen, & sic dicens dormivi supra
+librum, & videbam virum senem ad me venientem, dicentemque: Adefonse,
+confide, vinces enim, debellabisque Reges istos infideles, conteresque
+potentiam illorum, & Dominus noster ostendet se tibi. Dum haec video,
+accedit Joannes Ferdinandus de Sousa vassallus de meo cubiculo,
+dixitque: Surge domine mi. Adest homo fenex, vultque te alloqui.
+Ingrediatur, dixi, sic fidelis est. Ingressus ad me, agnovi esse illum,
+quem in visione videram, qui dixit mihi, domine, bono animo esto,
+vinces, & non vinceris. Dilectus es Domino, posuit enim super te, &
+super semen tuum post te oculos misericordiae fuae usque in sextam
+decimam generationem, in qua attenuabitur proles, sed in ipsa attenuata
+ipse respiciet, & videbit. Ipse me jubet indicare tibi, quod dum
+audieris sequenti nocte tintinnabulum Remisorii mei, in quo vixi
+sexaginta sex annis inter infideles, fervatus favore altissimi,
+egrediaris extra castra, solus sine arbitris, ostendere tibi pietatem
+suam multam. Parui, & reverenter in terra positus, & nuntium, &
+mittentem veneratus sum, & dum iu oratione positus sonitum expectarem,
+secunda noctis vigilia tintinnabulum audivi, & ense, & scuto armatus,
+egressus sum extra castra, vidique subito a parte dextra, orientem
+versus, micantem radium, & paulatim splendor crescebat in maius, & dum
+oculos ad illam partem efficaciter pono, ecce in ipso radio clarius sole
+signum Crucis aspicio, & JESUM Christum in eo crucifixum, & ex una, &
+altera parte multitudinem juvenum candidissimorum, quos Sanctos Angelos
+fuisse credo. Quam visionem dum video, deposito ense, & scuto,
+relictisque vestibus, & calceamentis, pronus in terram me projicio,
+lacrymisque abundè missis, caepi rogare pro confortatione vassalorum
+meorum, dixi que nihil turbatus. Quid tu ad me Domine? Credenti enim
+Fidem vis augere? Melius est ut te videant Infideles, & credant, quam
+ego, qui a fonte baptismatis te Deum verum Filium Virginis, & Patris
+Aeterni agnovi, & agnosco. Erat autem Crux mirae magnitudinis, & elevata
+a terra quasi decem cubitos. Dominus suavi vocis sono, quem indignae
+aures meae perceperunt, dixit mihi. Non ut tuam Fidem augerem hoc modo
+apparui tibi, fed ut corroborem co tuum in hoc conflitu, & initia Regni
+tui supra firmam petram stabilirem. Confide Alfonse, non folum enim hoc
+certamen vinces, sed omnes alios in quibus contra inimicos Crucis
+pugnaveris. Gentem tuam invenies alacrem ad bellum, & fortem, petentem,
+ut sub Regis nomine in hac pugna ingrediaris; nec dubites, sed quidquid
+petierint, liberè concede. Ego enim aedificator, & dissipator Imperiorum
+& Regnorum sum: volo enim in te, & in semine tuo Imperium mihi
+stabilire, ut deferatur nomen meum in exteras gentes; & ut agnoscant
+successores tui datorem Regni, insigne tuum ex pretio, quo ego humanum
+genus emi, & ex eo quo ego a Judaeis emptus sum, compones, & erit mihi
+Regnum sanctificatum, Fide purum, & pietate dilectum. Ego ut haec
+audivi, humi prostratus adoravi dicens: Quibus meritis, Domine, tantam
+mihi annuntias pietatem? Quidquid jubes faciam, & ut in mea prole, quam
+promittis oculos benignos pone, gentemque Portugallensem salvam custodi,
+& si contra eos aliquod paraveris malum, verte illum potius in me, & in
+successores meos, & populum quem tanquam unicum filium diligo, absolve.
+Annuens Dominus inquit: Non recedet ab eis, neque a te unquam
+misericordia mea, per illos enim paravi mihi messem multam, & elegi eos
+in messores meos in terris longinquis: haec dicens disparuit, & ego
+fiducia plenus, & dulcedine redii in castra, & quod taliter fuerit, juro
+ego Aldefonsus Rex per Sanctissima Jesu Christi Euangelia hisce manibus
+tacta. Idcirco praecipio successoribus meis in perpetuum futuris, ut
+scuta quinque in crucem partita, propter Crucem, & quinque vulnera
+Christi, in insigne ferant, & in unoquoque triginta argenteos, & super
+serpentem Moysis, ob Christi figuram, & hoc sit memoriale nostrum in
+generatione nostra: & si quis aliud attentaverit, a Domino sit
+maledictus, & cum Juda traditore in Infernum maceratus. Facta carta
+Colimb. III. Kalend. Novembris. Era M. C. LII.
+
+Ego Aldefonsus Rex Portugaliae
+
+
+_I. Colimb. Episcop.--I. Bracharens. Metropol.--T. Prior.--Ferdinandus
+Petri Curiae Dapif.--Petrus Pelag. Curiae Signifer.--Velascus
+Sancij.--Alfonsus Menen. praef. Ulis.--Gondisalvus de Sousa procur.
+Imn.--Pelagius Menen. procur. Visen.--Suer. Martin. procurar.
+Colimb.--Menendus Petri, pro Magistro Alberto Regis Cancellario_.
+
+
+_Cuja significação em Portuguez é a seguinte_
+
+
+Eu Affonso Rei de Portugal, filho do Conde Henrique, e neto do grande
+Rei D. Affonso, diante de vós Bispo de Braga, e Bispo de Coimbra, e
+Theotonio, e de todos os mais Vassallos de meu Reino, juro em esta Cruz
+de metal, e neste livro dos Santos Evangelhos, em que ponho minhas mãos,
+que eu miseravel peccador vi com estes olhos indignos a nosso Senhor
+JESU Christo estendido na Cruz, no modo seguinte. Eu estava com meu
+exercito nas terras de Alentejo, no Campo de Ourique, para dar batalha a
+Ismael, e outros quatro Reis Mouros, que tinham consigo infinitos
+milhares de homens, e minha gente temerosa de sua multidão, estava
+atribulada, e triste sobremaneira, em tanto que publicamente diziam
+alguns ser temeridade acommetter tal jornada. E eu enfadado do que
+ouvia, comecei a cuidar comigo, que faria; e como tivesse na minha tenda
+um livro em que estava escripto o Testamento Velho, e o de Jesu Christo,
+abri-o, e li nelle a vitoria de Gedeão, e disse entre mim mesmo. Mui bem
+sabeis vós, Senhor JESU Christo, que por amor vosso tomei sobre mim esta
+guerra contra vossos adversarios, em vossa mão está dar a mim, e aos
+meus fortaleza para vencer estes blasfemadores de vosso nome. Ditas
+estas palavras adormeci sobre o livro, e comecei a sonhar, que via um
+homem velho vir para onde eu estava, e que me dizia: Affonso, tem
+confiança, porque vencerás, e destruirás estes Reis infieis, e desfarás
+sua potencia, e o Senhor se te mostrará. Estando nesta visão, chegou
+João Fernandes de Sousa meu Camareiro dizendo-me: Acordai, senhor meu,
+porque está aqui um homem velho, que vos quer fallar. Entre (lhe
+respondi) se é Catholico: e tanto que entrou, conheci ser aquelle, que
+no sonho vira; o qual me disse: Senhor tende bom coração, vencereis, e
+não sereis vencido; sois amado do Senhor, porque sem duvida poz sobre
+vós, e sobre vossa geração depois de vossos dias os olhos de sua
+misericordia, até a decima sexta decendencia, na qual se diminuiria a
+successão, mas nella assim diminuida elle tornará a pôr os olhos e verá.
+Elle me manda dizer-vos, que quando na seguinte noite ouvirdes a
+campainha de minha Ermida, na qual vivo ha sessenta e seis annos,
+guardado no meio dos infieis, com o favor do mui Alto, saias fóra do
+Real sem nenhuns creados, porque vos quer mostrar sua grande piedade.
+Obedeci, e prostrado em terra com muita reverencia, venerei o
+Embaixador, e quem o mandava; e como posto em oração aguardasse o som,
+na segunda vela da noite ouvi a campainha, e armado com espada e rodela
+sahi fóra dos Reais, e subitamente vi a parte direita contra o Nacente,
+um raio resplandecente; e indo-se pouco, e pouco clarificando, cada hora
+se fazia maior; e pondo de proposito os olhos para aquella parte, vi de
+repente no proprio raio o sinal da Cruz, mais resplandecente que o Sol,
+e Jesu Christo Crucificado nella, e de uma e de outra parte, uma copia
+grande de mancebos resplandecentes, os quaes creio, que seriam os Santos
+Anjos. Vendo pois esta visão, pondo á parte o Escudo, e espada, e
+lançando em terra as roupas, e calçado me lancei de bruços, e desfeito
+em lagrimas comecei a rogar pela consolação de meus vassallos, e disse
+sem nenhum temor. A que fim me apareceis Senhor? Quereis por ventura
+accrescentar fé a quem tem tanta? Melhor é por certo que vos vejam os
+inimigos, e cream em vós, que eu, que desde a fonte do Baptismo vos
+conheci por Deos verdadeiro, Filho da Virgem, e do Padre Eterno, e assim
+vos conheço agora. A Cruz era de maravilhosa grandeza, levantada da
+terra quasi dez covados. O Senhor com um tom de voz suave, que minhas
+orelhas indignas ouviram, me disse. Não te apareci deste modo para
+accrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração neste conflito, e
+fundar os principios de teu Reino sobre pedra firme. Confia Affonso,
+porque não só vencerás esta batalha, mas todas as outras em que
+pelejares contra os inimigos de minha Cruz. Acharás tua gente alegre, e
+esforçada para a peleja, e te pedirá que entres na batalha com titulo de
+Rei. Não ponhas duvida, mas tudo quanto te pedirem lhe concede
+facilmente. Eu sou o fundador, e destruidor dos Reinos, e Imperios, e
+quero em ti, e teus decendentes fundar para mim um Imperio, por cujo
+meio seja meu nome publicado entre as Nações mais estranhas. E para que
+teus decendentes conheçam quem lhe dá o Reino, comporás o Escudo de tuas
+Armas do preço com que eu remi o genero humano, e daquelle porque fui
+comprado dos judeos, e ser-me-ha Reino santificado, puro na fé, e amado
+por minha piedade. Eu tanto que ouvi estas cousas, prostrado em terra o
+adorei dizendo: Porque meritos, Senhor, me mostrais tão grande
+misericordia? Ponde pois vossos benignos olhos nos successores que me
+prometeis, e guardai salva a gente Portugueza. E se acontecer, que
+tenhais contra ella algum castigo apparelhado, executai-o antes em mim,
+e em meus descendentes, e livrai este povo, que amo como a unico filho.
+Consentindo nisto o Senhor, disse: Não se apartará delles, nem de ti
+nunca minha misericordia, porque por sua via tenho apparelhadas grandes
+searas, e a elles escolhidos por meus segadores em terras mui remotas.
+Ditas estas palavras dezapareceu, e eu cheio de confiança, e suavidade
+me tornei para o Real. E que isto passasse na verdade, juro eu D.
+Affonso pelos Santos Evangelhos de JESU Christo tocados com estas mãos.
+E por tanto mando a meus decendentes, que para sempre succederem, que em
+honra da Cruz e cinco Chagas de JESU Christo tragam em seu Escudo cinco
+Escudos partidos em Cruz, e em cada um delles os trinta dinheiros, e por
+timbre a Serpente de Moysés, por ser figura de Christo, e este seja o
+tropheo de nossa geração. E se alguem intentar o contrario, seja maldito
+do Senhor, e atormentado no Inferno com Judas o treidor. Foi feita a
+presenta carta em Coimbra aos vinte e nove de Outubro, era de mil e
+cento e cincoenta e dous.
+
+Eu El-Rei D. Affonso.
+
+
+_João Metropolitano Bracharense.--João Bispo de Coimbra.--Theotonio
+Prior.--Fernão Peres Vedor da Casa.--Vasco Sanches.--Affonso Mendes
+Governador de Lisboa.--Gonçalo de Sousa Procurador de entre Douro e
+Minho.--Payo Mendes Procurador de Viseu.--Sueiro Martins Procurador de
+Coimbra.--Mem Peres o escreveu por Mestre Alberto Cancellario del-Rei_.
+
+
+Fim Da Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques
+
+
+
+
+INDICE DOS CAPITULOS
+
+
+I--Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha
+Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por
+Condado com certas condições.
+
+II--Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e
+donde se chamou Portugal.
+
+III--Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique,
+que foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo.
+
+IV--Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a
+seu filho ante que falecesse.
+
+V--Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar
+Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi
+D. Tareja.
+
+VI--Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi
+vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a
+sua mãi com elle.
+
+VII--Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso
+de Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as
+Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um
+Rei Mouro cercar Coimbra.
+
+VIII--Como El Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o
+Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz
+lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco.
+
+IX--Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre
+Guimarães, e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso
+fez D. Egas Moniz.
+
+X--Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei
+D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de
+Guimarães.
+
+XI--Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de
+Castella se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual
+apoz esto juntou gente, e foi tomar Leiria.
+
+XII--Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos
+Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas
+Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros
+daquelle tempo.
+
+XIII--Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar,
+que com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como
+sentaram seus arraiaes um á vista do outro.
+
+XIV--Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao
+Principe D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que o Principe
+fez sobre esso.
+
+XV--Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso
+Anriques, posto na Cruz como padeceo por nós.
+
+XVI--Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes
+para peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei.
+
+XVII--Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de
+Portugal deu batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande
+vencimento della.
+
+XVIII--Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida
+acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli
+acontecera, e da nova que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que
+ahi foram tomados.
+
+XIX--Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e
+mandou matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de
+Christo.
+
+XX--Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de
+S. Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo
+achar se tornou para Coimbra.
+
+XXI--Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a
+El-Rei Dom Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi, e o que nisso
+passou com o Bispo.
+
+XXII--Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El Rei D. Affonso
+Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados.
+
+XXIII--Como o Papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a
+prisão de sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles
+se passou em Coimbra.
+
+XXIV--Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal
+escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle
+passou.
+
+XXV--Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique
+veio tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e
+tomou Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar
+Leiria aos Mouros.
+
+XXVI--Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz,
+e assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os
+Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D.
+Anrique de Lara.
+
+XXVII--Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D.
+Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou.
+
+XXVIII--Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de
+Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que
+teve com os seus para ir sobre ella.
+
+XXIX--Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar
+Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella
+hora lhe foi revelado lá em França, onde estava.
+
+XXX--Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre
+Santarem, e das rezões que disse a todos.
+
+XXXI--Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de
+Santarem, e dos sinais que pareceram.
+
+XXXII--Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de
+Santarem, e foi entrada, e tomada.
+
+XXXIII--Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para
+Sevilha, e El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa
+Santarem.
+
+XXXIV--Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a
+tomou, e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda.
+
+XXXV--Do que El-Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade
+de Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes
+Estrangeiras.
+
+XXXVI--Dos milagres que Deus mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que
+morreo quando a Cidade de Lisboa foi entrada.
+
+XXXVII--Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom,
+mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada
+de Lisboa muito ferido morrera.
+
+XXXVIII--Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos
+milagres que Deus por elle fazia.
+
+XXXIX--De como El Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa
+Bispado, e quem foi o primeiro Bispo della.
+
+XL--De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S.
+Vicente de Fóra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem.
+
+XLI--Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na
+Estremadura, e Alem do Tejo.
+
+XLII--Dos filhos que El Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha
+Dona Mofalda.
+
+XLIII--Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e
+venceo El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama.
+
+XLIV--Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e
+El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El-Rei
+D. Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada.
+
+XLV--Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar
+as maldições dos pais, e mãis aos filhos.
+
+XLVI--Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D.
+Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e
+os desbaratou e venceo.
+
+XLVII--Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que
+o foram buscar.
+
+XLVIII--Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa.
+
+XLIX--Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D.
+Sancho seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe
+sobre ello disse.
+
+L--Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da
+gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo
+no meio da Ponte se despediram todos del-Rei.
+
+LI--Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora
+guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com
+os Mouros peleijasse.
+
+LII--Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o
+esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve.
+
+LIII--Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e
+foi sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre
+ella.
+
+LIV--Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D.
+Fuas Roupinho Alcaide do Castello.
+
+LV--Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e
+tomou delles nove Galés.
+
+LVI--Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado
+del-Rei D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os
+seus.
+
+LVII--Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em
+Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho,
+em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso,
+que veio a soccorrer seu filho.
+
+LVIII--Como cazou Dona Tareja filha del-Rei D. Affonso Anriques a
+derradeira, com D. Felippe Conde de Frandes.
+
+LIX--De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes
+louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente
+escritas.
+
+LX--Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era
+em que se finou, e onde foi sepultado.
+
+
+
+
+OBRAS PUBLICADAS
+
+
+I--Historia do Cerco de Diu, por _Lopo de Sousa Coutinho_, 1 volume. 400
+
+II--Historia do Cerco de Mazagão, por _Agostinho Gavy de Mendonça_, 1
+volume. 400
+
+III--Ethiopia Oriental, por _Fr. João dos Santos_, 2 grossos volumes.
+1$500
+
+IV--O Infante D. Pedro, chronica inédita por _Gaspar Dias de Landim_, 3
+volumes. 700
+
+V--Chronica d'El-Rei D. Pedro I, (o Cru ou Justiceiro) por _Fernão
+Lopes_, 1 volume. 400
+
+VI--Chronica d'El-Rei D. Fernando, por _Fernão Lopes_, 3 volumes. 1$200
+
+VII--Chronica d'El-Rei D. João I, por _Fernão Lopes_, 7 volumes. 2$800
+
+VIII--Chronica d'El-Rei D. João I, por _Gomes Eannes d'Azurara_, VOL. I,
+II e III (VIII, IX e X). 1$200
+
+IX--Dois Capitães da Índia, por _Luciano Cordeiro_, 1 volume. 400
+
+X--Arte da Caça de Altenaria, por _Diogo Fernandes Ferreira_, 2 volumes.
+800
+
+XI--Apologos Dialogaes, por _D. Francisco Manuel de Mello_, 3 volumes.
+1$200
+
+XII--Chronica d'El-Rei D. Duarte, por _Ruy de Pina_, 1 volume. 400
+
+XIII--Chronica d'El-Rei D. Affonso V, por _Ruy de Pina_, 3 volumes.
+1$200
+
+XIV--Chronica d'El-Rei D. João II, por _Garcia de Resende_, 3 volumes.
+1$500
+
+XV--Vida de D. Paulo de Lima Pereira, por _Diogo do Couto_, 1 volume.
+500
+
+XVI--Chronica d'El-Rei D. Sebastião, por _Fr. Bernardo da Cruz_, 2
+volumes. 1$000
+
+XVII--Jornada de Africa, por _Jeronymo de Mendoça_, 2 volumes. 800
+
+XVIII--Historia Tragico-Maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, VOL I a
+X. 3$800
+
+XIX--Jornada de Antonio d'Albuquerque Coelho, por _João Tavares de
+Vellez Guerreiro_, 1 volume. 600
+
+XX--Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, por _Duarte Galvão_, 1
+volume. 600
+
+
+EM PUBLICAÇÃO
+
+Historia Tragico-maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, VOL XI
+
+Cancioneiro Geral, por _Garcia de Resende_.
+
+
+
+
+NOTAS
+
+[1] Duarte Galvão morreu em 1517.
+
+[2] Ainda mais. D. Vermuim vendo seu irmão impossado de sua mulher,
+casou com uma filha d'esta e do Conde D. Henrique. Assim o diz o Conde
+D. Pedro (em seu Livro de Linhagens) e assim o repete Duarte Galvão. A
+este peccado, accrescentão, se deve a fundação do Mosteiro de Sobrado.
+
+[3] No anno de 1505 se escreveo esta Chronica.
+
+[4] Os capitulos XXI a XXIV da presente edição, foram os cortados na de
+1726.
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Chronica de el-rei D. Affonso Henriques, by
+Duarte Galvão
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. ***
+
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+even without complying with the full terms of this agreement. See
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
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+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+*** END: FULL LICENSE ***
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #18026 (https://www.gutenberg.org/ebooks/18026)