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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/18026-8.txt b/18026-8.txt new file mode 100644 index 0000000..7c280fa --- /dev/null +++ b/18026-8.txt @@ -0,0 +1,5727 @@ +Project Gutenberg's Chronica de el-rei D. Affonso Henriques, by Duarte Galvão + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Chronica de el-rei D. Affonso Henriques + +Author: Duarte Galvão + +Release Date: March 20, 2006 [EBook #18026] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + +Bibliotheca de Classicos Portuguezes + +Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo + +(VOLUME LI) + + +Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques + +POR + +DUARTE GALVÃO + + +_ESCRIPTORIO_ + +147--Rua dos Retrozeiros--147 + +LISBOA + +1906 + + + + +Bibliotheca de Classicos Portuguezes + +Proprietario e fundador + +_Mello d'Azevedo_ + + + + +Bibliotheca de Classicos Portuguezes + +Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo + +(VOLUME LI) + + +Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques + +POR + +DUARTE GALVÃO + + +_ESCRIPTORIO_ + +147--Rua dos Retrozeiros--147 + +LISBOA + +1906 + + + + +PROLOGO + + +A Chronica de Duarte Galvão é a lenda de Affonso Henriques, do fundador +de Portugal. O autor encontrou noticias, narrativas, tradições; +agrupou-as, apurou-lhes a linguagem, e formou assim a Chronica que +apresentou a D. Manoel. Mais tarde mudaram costumes, augmentaram +convenções sociaes, cresceu a polidez cortezan, e a critica abafou o +livro perigoso, inconveniente. Chegaram a chamar-lhe conjuncto de +fabulas. As brigas com a mãi, a violencia feroz com o legado de Roma +offendiam os bons costumes, as delicadas maneiras. + +Na Chronica ha lenda e tradição a par de narrativas baseadas em factos. +As luctas com D. Affonso de Castella, as campanhas systematicas e +porfiadas com os sarracenos, todo esse esforço enorme para augmentar o +reino e garantir-lhe a independencia são factos averiguados. + +A bella tradição a respeito de Egas Moniz, a do cavalleiro Henrique e da +palmeira que nasceu na sua cova, a lenda do corpo de S. Vicente, +guardado pelo corvo, são lendas ou tradições antigas acreditadas já na +funda edade media, justificadas pela escultura, pela epigraphia, ou por +antiquissimos escriptos. A descripção do casamento de D. Mafalda, filha +de D. Affonso Henriques, parece ter uma base verdadeira, algum escripto +mui antigo que o chronista soube approveitar. + +É interessante attender á maneira como os historiadores trataram do +fundador do reino; Duarte Galvão no começo do seculo XVI; Antonio +Brandão no seculo XVII; Alexandre Herculano no meio do XIX. Os elementos +de trabalho vão crescendo, e o entendimento humano apura-se; vê-se mais +e melhor; a critica, a analyse profundam com maior liberdade. Não +devemos esquecer que Duarte Galvão foi uma summidade no seu tempo. +Antonio Brandão foi uma intelligencia superior. Herculano o intellectual +maximo, energico trabalhador com intenso fermento artistico. A maneira +como estes tres espiritos tratam o fundador, e o conjuncto de recursos +que elles possuiam, constitue um motivo de estudo merecedor de attenção. + +Sobre Duarte Galvão é bem que se leia a noticia que vem publicada no +dicionario da lingua portugueza, da Academia Real das Sciencias de +Lisboa (Tomo 1.^o e unico. Lisboa, 1793. Catalogo de autores, pag. +CXXVII). + +==Galvão (Duarte) nasceu pelos annos de 1446, e faleceo em 1517 +«carregado (como diz João Pinto Ribeiro) (a)» de annos, de prudencia, «e +de autoridade.» no mar da Arabia, na ilha de Camarão, indo de mandado +del-Rei D. Manoel por Embaixador a David, Emperador e Rei dos Abexins. + +El-Rei D. João II. o enviou com grandes poderes por Embaixador a +Maximiliano I. Emperador de Alemanha, seu primo coirmão, Rei naquelle +tempo dos Romanos, e prezo em Burgos pelos Governadores da dita Cidade. +E se bem o achasse já solto, quando chegou a Flandres, lhe fez todavia +abalizados serviços, muito a contentamento do mesmo Rei. Segunda vez +voltou por Embaixador a Alemanha, e conforme expressamente declara +Damião de Goes, servio os dous Reis, D. João II. e D. Manoel «em muitas +Embaixadas nas cortes dos Papas, e do Emperador Fedrique e Maximiliano, +seu filho, e dos Reis de França e Inglaterra, e em outros muitos +negocios, de que sempre deo boa conta.» O referido Goes já em outro +lugar, a que se remette, havia tratado, como diz, «o demais das +calidades e partes dignas de louvor, que nelle se dava.» Tendo sido os +Priores Crasteiros de Santa Cruz de Coimbra, Chronistas do Reino desde o +anno de 1145 por provisão del-Rei D. Affonso Henriques «até o tempo +del-Rei D. Affonso V. o Prior mór de santa Cruz D. João Galvão, (assim o +escreve o Chronista dos Conegos Regrantes de S. Agostinho) deo o officio +de Chronista do Reino a seu irmão, Duarte Galvão, pelos annos de 1460, +ainda que sobre isto houve grandes resistencias por parte dos Priores +Crasteiros de Santa Cruz, e durou a demanda por muito tempo.» Por ordem +del-Rei D. Manoel começou, mas não proseguio, as Chronicas dos Reis, +seus predecessores, para cujo trabalho, e para cousas outras de _mór +importancia foi homem por sua doutrina assás desperto e mui +sufficiente_, conforme o reputa Rui de Pina. + +_Vir non minus aetate, quam prudentia, ac rerum usu gravissimus_ he elle +qualificado por Damião de Goes. _Raro em sciencia e valor_ o denomina +João Pinto Ribeiro; _homem douto_, Duarte Nunes do Leão. Publicou-se +modernamente: + +_Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso +Henriques, primeiro Rey de Portugal, composta por Duarte Galvão, Fidalgo +da Casa Real, e Chronista Mór do Reino. Fielmente copiada do seu +original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. Offerecida +á Magestade sempre Augusta del-Rey D. João V. nosso Senhor por Miguel +Lopes Ferreyra. Lisboa Occidental, na Officina Ferreyriana M. DCC. +XXVI._==fol. + +«Nesta Chronica, que Duarte Galvão _diz_, que fez de novo (são palavras +de Damião de Goes) faltão muitas cousas, que não chegárão á sua +noticia.» O Abbade Barboza traz o lugar citado, e com elle prova que +Goes dissera, que Duarte Galvão a fizera de novo. Mas esta asserção, +como se vê claramente, só pertence ao mesmo Galvão, a quem Goes a +attribue. O qual porém nisto mesmo se enganou, visto que o referido +Galvão no Prologo da sobredita Chronica, dirigido a el-Rei D. Manoel, +assim lhe falla: «Pelo qual, Serenissimo Senhor, como quer que além da +materia, me haja de ser trabalho e difficuldade ajuntar e supprir cousa +de tantos tempos, desordenada e falecida, e para haver de _emendar +escritos alhêos_, vejo que armo sobre mim juizos de muitos:» O que se +ajusta melhor com o parecer de Barros, o qual escreve, que Duarte Galvão +sómente lhe _apurára a lingoagem antiga em que estava escrita_.» + +«E quem quer que foi (prosegue o mesmo Barros) o compoedor della dará +conta a Deos de macular a fama de tão illustres duas pessoas, como forão +a Rainha Dona Tareja, e el-Rei D. Affonso Henriques, seu filho.» Acudio +a isto com a merecida emenda o P. Fr. Antonio Brandão na terceira Parte +da Monarchia Lusitana. André de Resende só diz que Duarte Galvão a +escrevéra: porém Pedro de Mariz a declara expressamente recopilada de +outra antiquissima por mandado del Rei D. Manoel. No mesmo engano de +Goes, cahio depois Gaspar Estaço, dizendo assim: + +«Como escreve Duarte Galvão na Chronica del Rei D. Affonso Henriques, +que elle compôz por mandado del Rei D. Manoel, a quem a dedicou: da qual +elle não foi autor, senão apurador do antigo lingoage, em que andava, +como diz João de Barros. Espantame dizer Duarte Galvão (no principio +desta Chronica) que elle a fez de novo, porque o Chronista Fernão Lopes, +Escrivão da Puridade, que foi do Infante Santo D. Fernando, e Guarda mór +da Torre do Tombo fez todas as Chronicas dos Reis té seu tempo como +prova Damião de Goes.» Rui de Pina, André de Resende, Duarte Nunes do +Leão, e muitos outros de grande autoridade o dão por Autor da sobredita +Chronica==. + +Nos manuscriptos da Bibliotheca Nacional de Lisboa encontro oito copias +desta Chronica. A marcada B--12--8 tem no final a data 1568. Bello +exemplar é a B--4--2 (n.^o 376), escripta no seculo XVI. Da mesma epoca +a B--4--4 (n.^o 378). Ha tres copias do seculo XVII; uma destas foi +doada pelo bispo de Beja, D. fr. Manoel do Cenaculo. Do seculo XVIII +possue a Bibliotheca duas copias. A copia n.^o 841 offerece algumas +notas e explicações do texto. + +Acho ainda um fragmento sob n.^o 8.169. Em todas estas copias acho os +taes quatro capitulos riscados para a primeira edição. Parecem estes +codices ter pertencido a particulares, não a institutos religiosos: não +lhes vejo sellos ou ex-libris de conventos. A Chronica foi impressa em +Lisboa em 1726, eliminados os celebres capitulos escandalosos. + +Antes d'isto a publicação da _Monarquia Lusitana_, pòde suppôr-se, +tornára inutil a impressão ou publicação da chronica de Affonso +Henriques por Duarte Galvão. Mas, talvez por causa dos taes capitulos +continuaram a fazer-se copias; ainda, em pleno seculo XVIII, depois da +impressão, se fizeram copias. Esta a razão de por todos os archivos se +encontrarem copias manuscritas da chronica de Galvão. + +Os quatro capitulos foram publicados na Revista litteraria do Porto +(1838, 2.^o vol. pag. 322). Ahi se fazem as observações seguintes. + + + + +Quatro capitulos ineditos da Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte +Galvão + + +A Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, foi estampada pela +1.^a vez, em Lisboa no anno de 1726. + +«O original desta Chronica» diz Barboza, em sua Bibliotheca Lusitana, +«se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo, da qual extrahio uma +_copia fiel_ Miguel Lopes Ferreira, e a publicou em nossos tempos». + +A simples inspecção da mesma Chronica impressa denuncia a incorreção da +asserção de que a copia fiel gozou da luz publica. + +No «Prologo ao Leitor» falla Miguel Lopes Ferreira do modo +seguinte:--«Nesta historia se acham alguns pontos encontrados com a +verdade, o que de nenhum modo se deve attribuir á malicia do Autor, +senão a que naquelle tempo devia de ser esta a tradicção, que havia +entre nós, mal fundada no principio, e peor continuada na boca dos que a +passavão a outros, em que, como é natural, cada dia se vai desfigurando +e perdendo sua fórma verdadeira. Estes descuidos emendou doutissimamente +o Dr. Fr. Antonio Brandão, na 3.^a Parte da Monarchia Luzitana, porque +examinou a verdade no segredo dos Cartorios em que estava sepultada. + +Algumas pessoas me aconselhavão que lhe fizesse notas, porém segui o +parecer de outros, que assentárão, que como esta Chronica se imprimio +para os que sabem, (Curiosa razão! Sómente os sabios devião lêr a +Chronica; e não haveria ignorante que se quizesse instruir!) elles não +ignorão pela lição de Fr. Antonio Brandão o que é tradição errada. Sahe +pois a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques da sorte que a escreveu +Duarte Galvão.» + +Enganou-se Miguel Lopes Ferreira. Não foi tão brando em sua qualificação +dos «pontos encontrados com a verdade,» o Censor Regio por cuja alçada +teve a Chronica de passar, nem seguia elle systema de cura tão leniente +e delicado. São suas palavras: + +«Vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, +e que quer mandar imprimir Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em +fazer publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tempos ha que se +conservão manuscriptas, e do outro não posso deixar de lhe não accusar a +negligencia com que se houve na composição desta Chronica, porque parece +que não fez exame algum para o que havia de escrever. Mas _como vejo +riscado nella alguns capitulos_, e tudo vejo reformado pelo Dr. Fr. +Antonio Brandão Chronista Mòr do Reino, no 3.^o Tomo da Monarchia +Luzitana, bem se pode imprimir sem escrupulo»... + +A mutilação da Chronica foi portanto publicamente annunciada. + +Mas já não estava na mão de D. José Barbosa, ou de quem quer que foi que +riscou esses capitulos, o privar a posteridade da gratificação de saber +quaes esses effeitos da neglicencia e nenhum exame do Chronista, que +El-Rei Dom Manoel encarregou de escrever a historia do Fundador da +Monarchia Portugueza. + +Já em 1600 tinha Duarte Nunes de Leão impresso suas «Chronicas dos Reis +de Portugal,» e na Vida e feitos de seu 1.^o Monarcha tinha elle +dedicado um capitulo inteiro ao texto e á _refutação_ das fabulas da +_Chronica velha_[1] de D. Affonso Henriques. Este texto encerra toda a +substancia dos Capitulos que hoje publicamos em sua fórma original. + +Havia ainda outro autor em cujas obras (ineditas em 1726) tinha sido +incorporada a materia dos Capitulos riscados. Fallamos de Christovão +Rodrigues Acenheiro, que escreveo em 1535 um Summario das Chronicas dos +Reis de Portugal, cuja publicação devemos á Academia Real das Sciencias +de Lisboa. (Ineditos da Historia Portugueza, Tomo 5.^o--1824). Ahi +encontramos esses impugnados feitos de D. Affonso Henriques, e +encontramos de mais um juizo do Compilador sobre elles muito mais +franco, muito mais claro, e muito menos mistico, do que aquelle que quiz +idear Duarte Galvão. «Devem bem de notar os Reis e os Principes +Christãos» diz Acenheiro, «estas façanhas do Cardeal e Bispo, e quanto +devem pugnar pela honra de suas pessoas e Reino, quando com justiça e +verdade o perseguem, como este Catholico Rei fazia e fez». + +Não é comtudo do nosso intento entrarmos na discussão da veracidade da +narração do nosso Chronista, que muito longe nos levaria, e em empreza +nos metteria para a qual não temos forças. + +Numerosas são as duvidas que obscurecem a historia dos começos da +Monarquia. A illigitimidade do nascimento da Snr.^a D. Thereza, mãi de +D. Affonso Henriques--seu casamento com D. Fernando Peres de Trava, +Conde de Trastamara, que a seu proprio irmão D. Vermuim Peres, (com quem +já era casada) a usurpou,[2]--suas desavenças com seu filho e guerras +que contra elle suscitou,--a jornada que por causa do exito de uma +destas D. Egas Moniz emprehendeu a Castella;--a prisão a que D. Affonso +Henriques condemnou sua mãi e desavenças que por este respeito teve com +o Papa:--todos estes são pontos que tão tenazmente se tem affirmado, +como fortemente combatido. + +Todavia a um e outro ponto já a bem instituida critica tem feito devida +justiça; e a illigitimidade do nascimento e segundo casamento de D. +Thereza (pelas doutas Dissertações de Antonio Pereira de Figueiredo, no +Tomo 9.^o das Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa--1825), +assim como a jornada d'Egas Moniz (pela descripção de seu tumulo, como +ainda hoje se vê em Paço de Souza, o que tambem devemos á mesma +Academia) são pontos já reconhecidos como demonstrados. Mas tanto +nestes, como nos assumptos que fazem o immediato objecto dos capitulos +que ajuntamos, ha lugar para contestação, na qual não quizeramos aqui +entrar: por não termos outros fins em vista além da integração do texto +d'um dos nossos antigos Chronistas. + +Não podemos comtudo deixar de apontar a infelicidade de Duarte Nunes de +Leão na formula de seus argumentos. De todos os factos contenciosos que +temos indicado fórma elle uma cadêa, cuja mutua e necessaria dependencia +julga intuitiva, e contentando-se com expor a falsidade das allegações +d'um só facto, pertende d'ahi inferir a falsidade de todos; e deste modo +d'argumentar conclue que a Snr.^a D. Thereza nunca fôra 2.^a vêz casada, +nunca teve desavenças com seu filho, nunca suscitou o Rei de Castella +contra elle, e que nem Egas Moniz fôra offerecer-se a este com a corda +ao pescoço, nem D. Affonso Henriques prendêra sua mãi, nem o Papa tivera +motivo algum para enviar um legado a Portugal. Mal estava Duarte Nunes +se voltassemos o argumento contra si mesmo, e pela indubitabilidade do +offerecido sacrificio do Ayo de nosso 1.^o Rei, corroborassemos a +verdade de toda a narrativa de Galvão. + +Fraco arguente era o Licenciado. O alto nascimento e as nobilissimas +allianças de sangue da Snr.^a D. Thereza erão para elle effectiva +salva-guarda em abono da virtude da mesma Senhora; e comtudo, nessa +mesma pagina, não acha elle absurdo em traspassar todo esse montão +d'infamias á propria _irmã_ dessa mesma princêza, com quem igualava em +nobreza! + +Algumas das suas razões não deixão de ter seu xiste. «O dito Snr. D. +Affonso» (o 6.^o de Castella) «como Catholico Rei que era, quando lhe +morria uma mulher, casava logo com outra»! E daqui funda elle motivo +para se crer que D. Ximena Nunes de Gusmão (mãi de D. Thereza) fôra sua +legitima esposa, que não concubina. Quanto ás circunstancias que +poderião afiançar alguma exactidão em Duarte Galvão, contentar-nos-hemos +com dizer que foi filho de um secretario de D. João 1.^o e de D. Affonso +V, e irmão d'um Bispo de Coimbra, e Escrivão da paridade do ultimo +citado monarcha. Elle mesmo foi Secretario de D. João 2.^o, e alem de +Chronista-mor, foi encarregado de varias missões importantes. Temos +portanto que nem relações nem occasião pessoal lhe faltárão para +certificar-se do que era verdade. + +Sobre o Bispo _negro_ não deixa de parecer especiosa a explicação que +offerece Fr. Joaquim de Santa Roza de Viterbo em seu Elucidario:-- + +«Muitos monges forão tirados dos Mosteiros para encherem o lugar de +Bispos: e como não depunhão o Habito Monachal, que era Preto, o Clero se +compunha á imitação do seu Prelado. Deste tempo ficou na Sé de Coimbra a +mal tramada Fabula do _Bispo Negro_. Este foi D. Bernardo, Francez de +Nação, Monge de S. Bento, e Arcediago de Braga, feito por S. Giraldo, de +quem escreveo elegantemente a vida. O Principe D. Affonso Henriques (a +despeito de sua mãi, a Rainha D. Thereza, e todo o Clero e povo de +Coimbra, que postulavão para Bispo daquella Sé o Arcediago da mesma _D. +Tello_) o nomeou Bispo de Coimbra no anno de 1128. E como este monge +nunca depôz o habito dos _Negros_ como então chamavão aos que +professavão a Religião de S. Bento, e os Conegos da Sé de Coimbra +vestião branco, em razão das grandes sobrepelizes que então uzavão; os +mal affectos dizião que tinhão naquella Sé um _Bispo Negro_, para não +dizerem com maior indecencia, e atrevimento, um Negro Bispo». + +Elucidario, Tomo 1.^o pagina 285. + +Mas esta explicação, recebida com cautella em quanto aos factos +allegados, não deve ter-se senão em conta de conjectura. + +A copia dos Quatro Capitulos que aqui offerecemos ao publico foi tirada +sobre um nitidissimo exemplar manuscripto em pergaminho da Chronica de +Duarte Galvão que vimos em Santa Cruz de Coimbra, e que deve hoje +existir na Bibliotheca Publica Portuense. Este exemplar era coetaneo dos +tempos do Chronista-mor, e na encadernação e riqueza das iniciaes +illuminadas, inculcava ter pertencido a pessoa ou repartição Real; e +coincide, na discripção que fez Pedro de Mariz no Prologo á sua +intentada edição da Chronica de D. Affonso 4.^o por Rui de Pina com os +Codices que se guardavão na Torra do Tombo. + +A copia é verbal, mas não julgamos conveniente conservar a orthographia +daquelles tempos. + +Acautelamos os menos versados contra muita copia espuria da Chronica de +D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, que se encontra nas Bibliothecas +Manuscriptas. A maior parte são compilações. + +Igual advertencia fazemos em quanto ás copias que por ahi andão (e +algumas de pessoas doutas) destes mesmos Capitulos==. + +Na presente edição os quatro capitulos entram na sua competente altura. + +_G. Pereira._ + + + + +CHRONICA DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE D. AFFONSO +HENRIQUES PRIMEIRO REY DE PORTUGAL, + +COMPOSTA POR DUARTE GALVAÕ, + +Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mor do Reyno. Fielmente Copiada do Seu +Original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. + +OFFERECIDA + +Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI D. JOAÕ V. NOSSO SENHOR + +POR MIGUEL LOPES FERREYRA + +LISBOA OCCIDENTAL, Na Officina FERREYRIANA. + +M. DCC. XXVI. + +_Com todas as licenças necessarias_. + + + + +SENHOR + + +Prostrado aos Reais pés de V. Magestade, lhe offereço a Chronica do +Fundador da sua gloriosa Monarchia o Santo Rei D. Affonso Henriques +decimo quinto Avô de V. Magestade, que ha mais de dous seculos escreveo +Duarte Galvão, tão estimado dos Senhores Reis de Portugal, como dizem os +grandes lugares, em que o occuparam, especialmente o Senhor Rei D. +Manoel quinto Avô de V. Magestade, em cujo Reinado se vio com maior +admiração a grande capacidade deste Chronista. Aceite V. Magestade com a +sua Real, e costumada benignidade este meu pequeno obsequio, para que +desta sórte animado possa continuar com a impressão das outras Chronicas +dos Serenissimos Predecessores de V. Magestade. Deos guarde a V. +Magestade muitos annos como desejamos, e havemos de mister. + +_Miguel Lopes Ferreira._ + + + + +AO EXCELLENTISSIMO SENHOR + +*FERNÃO TELLES DA SILVA* + +Marquez de Alegrete, dos conselhos de Estado, e guerra del-Rei Nosso +Senhor, Gentil-homem de sua Camara, Vêdor de sua fazenda, Embaixador +extraordinario á Corte de Vienna, ao Serenissimo Emperador Joseph, e +Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, Academico, +e Censor da Academia Real da Historia Portuguesa, &c. + + +Depois de ter resoluto dedicar esta Chronica del-Rei D. Affonso +Henriques a El-Rei Nosso Senhor, não podia ter duvida em que fosse Vossa +Excellencia quem lha offerecesse em meu nome. Se para se consultarem os +Oraculos, se procuravam aquellas pessoas, que eram dedicadas aos Templos +em que elles respondiam, justamente dezejo a protecção de Vossa +Excellencia para um Oraculo tão Soberano, que o merece ser de todo o +mundo. A proporção é o que mais se deve de procurar, e sendo assim, não +póde Vossa Excellencia accuzar a confiança, com que lhe peço, offereça +este livro a S. Magestade que Deos guarde, pois é para este fim um meio +tão proporcionado, que o mesmo Principe elegeo a Vossa Excellencia para +lhe assistir com a pessoa no seu Palacio, e com as prudentes +experiencias do seu grande entendimento aos negocios mais importantes de +toda a Monarchia. Deos guarde a Vossa Excellencia muitos annos como +desejo. + +Criado de Vossa Excellencia + +_Miguel Lopes Ferreira_ + + + + +MIGUEL LOPES FERREIRA + +AO LEITOR + + +Pela Chronica do primeiro Rei de Portugal começo a satisfazer a promessa +de dar ao prelo todas as Chronicas dos nossos Reis, que até agora se +conservavam manuscritas. Esta do fundador glorioso do Imperio Portuguez +tem mais de dous seculos de antiguidade, porque seu Author Duarte Galvão +falleceu na Ilha de Camarão a 9 de Junho do anno de mil e quinhentos e +dezasete. A authoridade de quem a escreveu não é menor, porque o Pai +deste Chronista foi Ruy Galvão, Secretario, e Escrivão da Puridade de +El-Rei D. Affonso V. de Portugal, lugares tão grandes, e tão immediatos +á Magestade, que suppõem illustre a quem os exercita. Duarte Galvão seu +filho foi do Conselho dos Reis D. João o II e D. Manoel, Chronista Mór +do Reino, Alcaide Mór de Leiria, doutissimo nas Letras humanas, e +Embaixador a França, e Alemanha, e ultimamente ao Preste João, levando +em sua companhia ao Embaixador Matheus, que da Corte do Abexim tinha +passado á de Portugal, vencidas, e compostas as injustissimas duvidas da +sua verdade. O irmão deste Chronista foi D. João Galvão, que depois dos +maiores lugares da Congregação de Santa Cruz de Coimbra, sendo Bispo da +mesma Cidade, lhe fez mercê El-Rei D. Affonso V do Titulo de Conde de +Arganil, que até agora se conserva nos seus Successores, e desta Mitra +passou para a de Braga. Nesta Historia se acham alguns pontos +encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve de attribuir a +malicia do Author senão a que naquelle tempo devia de ser esta a +tradição, que havia entre nós mal fundada no principio, e peior +continuada na boca dos que a passavam a outros, em que como é natural, +cada dia se vai desfigurando, e perdendo a sua fórma verdadeira. Estes +descuidos emendou doutissimamente o Doutor Fr. Antonio Brandão na +Terceira Parte da Monarchia Lusitana, porque examinou a verdade no +segredo dos Cartorios, em que estava sepultada. Algumas pessoas me +aconselhavam, que lhe fizesse notas, porém segui o parecer de outras, +que assentáram, que como esta Chronica se imprimia para os que sabem, +elles não ignoram pela lição de Fr. Antonio Brandão, o que é tradição +errada. Sahe pois a Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques da sórte que +a escreveu Duarte Galvão, e lhe fiz o beneficio de lhe ordenar um Index +para utilidade de todos. Agradeça o leitor o meu cuidado, que brevemente +lhe darei impressas todas as mais Chronicas manuscritas dos nossos Reis, +e entre ellas a de El-Rei D. João o II que escreveu Ruy de Pina, tão +rara como desejada. + +_Vale._ + + + + +PROLOGO + +DO AUTHOR + +Dirigido ao Serenissimo, e Muito Poderoso Principe El-Rei D. Manoel +nosso Senhor, sobre as vidas, e excellentes feitos dos Reis de Portugal, +seus Antecessores, ordenados, e escritos por seu mandado, por Duarte +Galvão Fidalgo da sua Casa, e do seu Conselho, no qual falla do grande +louvor destos mesmos Reis de Portugal. + + +Muito devem, Serenissimo Senhor, trabalhar os homens, por em sua vida +obrarem virtudes, para que mereçam a Deos no outro mundo, e neste leixem +de seu tempo memoria, não sómente, que viveram o que as animalias tem +por igual comnosco; mas que bem, e louvadamente passaram sua vida, que é +proprio do homem, o qual tendo a vida, em dias breve, com a virtude que +obra, a faz longa, e durar mais des que morre, vivendo depois de morto +no outro mundo, por gloria, e neste por exemplo assi, que para nós +necessario nos é nossa virtuosa vida, e para os outros nossa virtuosa +fama; esto como quer que convem a todos, muito mais cabe em os +Principes, e Reis faze-lo, cuja maior excellencia de seu nome traz logo +maior obrigação de seu carrego, que é serem Reis postos por Deos, para +regedores principaes na terra sobre os outros homens para execução, e +exemplo de toda perfeita virtude, mas pois que toda desposição para +obrar virtudes por muito que naça com a pessoa não póde ser comprida, +nem haver perfeição senão por ajuda, e graça Divinal. Grandes e +perpetuos louvores devem ser dados a nosso Senhor, por todos os naturaes +do Reino de Portugal, por tanto participar de sua graça, com os Reis +vossos Antecessores, e com vossa Real pessoa, com tão clara mostrança de +os querer honrar, e escolher para seu santo serviço, exalçamento da sua +Santa Fé, de maneira, que para se mais mostrar que vinha delle, e por +elle, segundo em seus grandes mysterios sempre neste mundo, até em si +mesmo escolheo o menos, para fazer, ou desfazer o mais, e o baixo para +se fazer conhecer por mais alto, lhe aprouve dar graça, e poder a vossos +Antecessores por onde no Reino, e senhorio menos de outros que vemos na +Christandade, alcançáram por suas louvadas famas, e obras, em todo o +genero de louvor, e virtudes grande, e assinado merecimento para o outro +mundo, e neste muita honra, fama, e proveito, para sua Real Coroa, e de +seus Reinos, e esto então poucas idades, que se as contarmos parece mui +pouco tempo, e segundo a grandeza de suas obras julgar-se-ha por +infindo, querendo nosso Senhor que assi como no desejo, e fervor de +serviço em especial de punhar pela Fé vossos Antecessores fossem sempre +mui singulares, assi fosse singular antre os outros Principes nesta +parte, e em outra seu louvor, remunerando-lhes nosso Senhor nisso seus +grandes merecimentos como hoje em dia faz a vossa Real Alteza, segundo +se grandemente manifesta no grande louvor, e não menos mysterio de +vossas mui louvadas, e excellentes obras, as quais bem condradas +concludem, e claramente mostram não menos, que vosso Divino nome ser +Deos comnosco, e com o bem destes Reinos mais que de antes, dando-vos +nellos para o diante como fruito mostrado, e prometido, no grande +emflorecer de vossos Antecessores, escuza-me, Senhor, de ser, nem +parecer adulação o que digo. + +Primeiramente vossa successão nestos Reinos por nosso Senhor tão +claramente querida, e ordenada levando para si tantos, que vos nella +precediam, segundo seus ocultos Juizos, porém sempre justos, e escuza-me +o grande fervor, que logo poz em vosso virtuoso coração para seu +serviço, em tirar Judeus, e Mouros destos Reinos por tal, que lançado +fóra todo Judaico, e Mosometico culto, ficasse só o verdadeiro de sua +Christã Religião, e escuza-me esso mesmo vossa perseverante devação, e +cuidado, em proseguir, e obrar por mar, e terra, guerra contra Mouros, +em as partes Dafrica, do que não satisfeito vosso manhanimo coração, e +desejo, que sempre ha por menos o muito de tão santas emprezas, não +leixou de mandar a Levante por mar Armada de mui nobre gente, maior do +que des memoria de homens, sem Rei saio destes Reinos em soccorro da +Christandade contra os Turcos, e por Capitão della D. João de Menezes +Conde de Tarouca vosso Mordomo Mor, e Capitão da Cidade de Tanger, mui +dino de semelhantes, e maiores encargos por sua singular cavalaria, e +prudencia. Escuzo-me finalmente antes, e depois desto, a grande +maravilha, e mysterio, do achamento, ou mais com verdade conquista das +Indias; nunca esperado, nem cuidado pelas gentes, até que se vio feito +por vosso mandado, e posto por obra, e assi descobrimento de minas, +terras outras, mares, climas, polos, e gentes inconhitas, nunca de antes +sabidas, nem de nós conversadas, o que nem aquelle grão Rei Alexandre +Conquistador do mundo, nem Carthaginenses Senhores Dafrica, e grande +parte Deuropa, nem Romãos, que todos os outros passaram em senhorio, +poderam alcançar trabalhando-se desso, como se lê, nem esso mesmo fazer +vossos Antecessores em sessenta annos com muitas mortes de gentes, +grandes despezas, e continuadas diligencias, o que se fez, e comprio nos +primeiros dous, e tres annos de vosso Reinado trigando-se (segundo +parece) a Divina Clemencia a manifestar este grande mysterio, por elle +em vosso tempo predestinado, pelo qual quiz que em tão breve espaço se +fizesse de uma só viagem, e por os primeiros, que a esto mandastes, +outro tanto caminho, para achar a India, como em sessenta annos estava +feito, no que, Senhor, grandemente servistes a Deos, ganhaste perpetua +honra, nobrecestes vosso Reino, obrigastes o mundo, fazendo que em muita +parte não sabida, o mundo soubesse parte de si mesmo, e por conseguinte +de seu Creador, e Redemptor, o qual por sua infinda piedade, e amor que +sempre mostrou ao bem, e honra destos Reinos, ordenou, que por vossas +mãos se supprisse pelo mundo outra quasi segunda Prégação dos Apostolos, +para notificação de nossa Fé, renovada ás gentes, que apoz seus peccados +depois de recebida perderam, e necessaria para outra, que a nunca +houveram, e de necessidade hão de haver, segundo affirma Santo +Agostinho, que em tempo dos Apostolos não foi prégada a Fé de Christo +por todo o mundo, nem até seu tempo, quatro centos annos despois, dando +logo em prova desso muitas gentes em Africa donde elle era, como pelos +Cativos, que se de lá traziam era manifesto, e que em todo caso a dita +universal manifestação havia de ser, para se comprir, o que nosso Senhor +disse, que seu Evangelho havia de ser notificado por o mundo universo +ante do fim, em testemunho a todalas gentes, segundo se ora assás +confirma por vossa navegação e conquista o qual mysterio traz consigo +grande mostra, e pronostico de ser, não sómente para convertimento de +muitos infieis, mas ainda para desfazimento, e destruimento da +Mahometica secta consirado bem, Deos seja louvado, os começos, e +proseguimentos de seus maravilhosos effectos. + +Muitos outros louvores, Serenissimo Rei, apontaria de vossas mui +singulares obras, e virtudes mui compridas, se tão facil me fosse +poder-lhe dar cabo, quão facil me é achar-lhe começo, e se a elle não +aprouvera faze-los mais sobidos, e manifestos por vossas obras, do que +poderiam ser por minhas palavras, mas hi ficará tempo, e lugar para com +sua graça se poderem dizer em vossa Chronica mais compridamente, com +todo, Senhor, é-me forçado dizer ainda de vossas virtuosas obras uma +necessaria á presente materia, a qual é, mandar-me V.A. mui +afficadamente, que os notaveis feitos dos mui esclarecidos Reis vossos +Antecessores, escritos, e postos por negligencia de Escritores, ou culpa +dos tempos, não só em menos polida, mas ainda em desordenada, e acerca +não achada memoria, os quizesse ordenar, e escrever, e quasi trespassar, +e a mais honrados Jazigos, e sepulturas, como é meu desejo para vosso +serviço, e na confiança que me nesso V. A. mostra muito para folgar, mas +para nella presumir sufficiencia não mais de atrever, que quanto está +conhecido, que tão grandes, e verdadeiros louvores participados de tanta +graça Divinal, não pode nhum humano falecimento apouquenta-los, nem +faze-los menos da verdade toda humana eloquencia, sem receo de nhum +prasmo deve de folgar achar-se vencida de tão excellente materia, cujo +mui estimado pezo mais é de culpar quem não queira, que quem não possa +leva-lo; porque ainda não leixará de precalçar muito louvor, e +contentamento quem de tão nobres, e louvados feitos fizer lembrança, que +foram, posto que não abaste dinamente faze-la de quão louvados foram, +pois a grandeza de seu louvor por elles mesmos milhor se póde estimar, +que dizer. Escuzo aqui poder pela ventura parecer este carrego, e +serviço menos da maneira, e estimação de meus serviços; porque certo +amor, e vontade, sobeja não acha serviço minguado, nem devem de mais +para os Principes, cujas causas por grandes que sejam, não devem tolher +atrevimento, maiormente quando por algumas rezões necessarias a seu mais +serviço se mandam, a quem sem ellas poderiam ser escusado mandar-se, +assi que, Senhor, esto que me V.A. manda fazer se deve a meu juizo antre +outras vossas louvadas obras muito estimar, e haver por outro quasi novo +descobrimento, e renovação de cousa ácerca perdida, que tanto devia +estar sã, e alumeada como cousa principal do mui devulgado bem, e honra +que vossos Reinos tem, e logram, no que não menos, que em todas outras +cousas esclarece vosso grande louvor, porque bem se mostra povoado de +muitas virtudes, e não invejar as alheias, quem as dos outros muito ama, +e assi as manda renovar, e apregoar, pelo qual, Serenissimo Senhor, como +quer-que álem da grandeza da materia, me haja de ser trabalho, e +difficuldade ajuntar, e supprir cousa de tantos tempos, desordenada, e +falecida, e para haver de emendar escritos alheios, vejo que armo sobre +mim juizos de muitos; porém pois V.A. o ha tanto por bem, e serviço seu, +e de seus Antecessores, mui de vontade me puz a faze-lo, sendo certo, +que haverei ante elle grado se não de sufficiencia, ao menos de +obediencia, pois por comprir seu mandado, no que muito me não atrevo +fazer, me não pude, nem soube negar. + + + + +LICENÇAS + +DO SANTO OFFICIO + + +Vistas as informações, pode-se imprimir (menos o riscado) a Chronica do +Senhor Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e depois de +impressa tornará para se conferir, e dar licença para correr, sem a qual +não correrá. Lisboa Occidental, 23 de Julho de 1726. + +_Rocha.--Fr. R. de Allencastre.--Cunha.--Teixeira.--Silva.--Cabedo._ + + +DO ORDINARIO + + +_Approvação do Reverendissimo P. Mestre Fr. Joseph de Sousa, Religioso +da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, Lente jubillado na Sagrada +Theologia, Qualificador do Santo Officio, Prior que foi do Real Convento +do Carmo de Lisboa Occidental, Vigario Provincial Apostolico, que foi da +dita Provincia, Provincial, Commissario, Visitador Geral que foi da +mesma Ordem nestes Reinos, &c_. + + +Illustrissimo e Reverendissimo Senhor + + +Li a Chronica do Invictissimo Monarca o Serenissimo Senhor D. Affonso +Henriques, de santa e eterna memoria, famoso conquistador, e primeiro +Rei de Portugal, a qual quer dar á estampa Miguel Lopes Ferreira, +dignissimo do titulo de Vivicador das glorias de Portugal, pois que +zeloso da fama Regia, por meio do Prelo intenta resuscitar as memorias +daquelle seculo dourado, em que Portugal no berço da sua infancia, com +maior fortuna, que a do valeroso Alcides no da sua meninisse, soube +despedaçar innumeraveis Hydras Africanas, que em varios recontros, +capitaneados por dezoito Reis, e um Emperador de Marrocos Almiramolim, +em formidolosos exercitos intentaram cortar os venturosas progressos, +com que ia sacudindo o forte jugo do perfido Mauritano. Mas a pezar +sentidissimo de Mafoma, em tão perfiados recontros, e em tão sentidas +batalhas, havendo em algumas quasi cem Mouros contra cada um só +Portuguez, ficaram sempre os Mouros inteiramente destroçados, os seus +Reis vergonhosamente vencidos, e só Portugal gloriosamente triumfante, e +senhor pacifico não só das terras, que pela repartição dos Estados +tocavam á sua Monarchia, mas de muitas, que pertenciam á de Hespanha, +porque de umas, e outras, á força de forte braço, e duro ferro fez +largar a iniqua, e injusta posse, que havia muitos seculos, desde a +sempre lacrimosa perda de Hespanha, logravam os Agarenos: protegido +sempre daquelle destemido Capitão, e valerosissimo Heroe D. Affonso +Henriques, que efficazmente soccorrido da mão Omnipotente do Senhor dos +exercitos, na miraculosa apparição do Campo de Ourique quando batalhou +com cinco Reis Africanos, ficou seu valente braço revestido de uma +fortaleza tão desmedidamente grande, que já vibrando a lança, nunca +tirou bote, que não fosse inexoravel desizivo da morte, já empunhando a +espada não descarregou golpe, que não fosse infeliz Parca da vida. E +sendo tal o esforço de seu braço, que o manejo das Armas, não era menos +o valor do seu coração para o exercicio das virtudes: porque foi +constantissimo no da Justiça administrando-a, e fazendo-a guardar +rigorosamente aos seus povos, sem que o continuo exercicio de Marte lhe +embaraçasse as execuções de Nemesis, mas antes, que com a espada sempre +empunhada representava um vivo simulacro da Justiça. No da Humildade foi +singular, porque sem respeito aos sacros decoros da Magestade, familiar, +e urbanissimamente com palavras, e obras, como a companheiros e amigos a +todos os seus vassallos, tratava carinhoso, e careciava benigno. No da +Liberalidade foi magnifico, porque quando nas campanhas, os ricos +despojas das batalhas, (e não foram poucos) primeiro os enfardelavam os +soldados, do que elle se redimisse com parte das coroas dos triunfos, +porque até destes repartia seu nobre coração com os que o ajudavam a +vencer; e quando na Corte, dos seus Erarios eram chaves mestras os +merecimentos de seus vassallos. No da Misericordia foi insigne, porque +não cabendo já nos limites de seu estado, lá se dilatou para o Hospital +de Jerusalem com oitenta mil dinheiros de ouro (que nem tudo lhe +consumiam as guerras consumindo-lhe as guerras muito) para emprego de +que annual, e perpetuamente rendessem para sustento dos pobres, que +nelle se alvergassem. No da Piedade foi magnanimo, como testemunham +entre muitas Igrejas que fundou os Reais Mosteiros de S. Vicente de Fóra +em Lisboa, o de Santa Cruz em Coimbra, e o de Alcobaça, aos quaes dotou +de amplos Senhorios, e copiosissimos patrimonios. No da Religião, todo +este livro é breve compendio dos vastos dominios que conquistou para as +cearas da Igreja; instituindo de muitos delles o nobilissimo Bispado de +Coimbra, e o Illustrissimo de Lisboa, que offereceu ao Romano Pontifice +adiantando-se este tanto nos seus augmentos que não cabendo na esfera de +sua propria grandeza se multiplicou em duas Sagradas Sedes, nas quaes, +uma conservando o titulo de Archiepiscopal, que já tinha, se separou com +a differença de Oriental por respeito do sitio que tem na Corte, e a +outra com o distintivo de Occidental que é o sitio deste Reino a +respeito do Mundo, se exalta com o especioso titulo de Patriarcal sendo +a primeira que o logra em todo elle. Por ventura que tanta gloria lá +tenha o seu proporcionado auspicio, no seu glorioso fundador, que tambem +foi o primeiro em Portugal; mas sem questão, deve o seo glorioso +augmento á Serenissima, Augustissima, Felicissima, e sempre Magnifica +Magestade do Senhor Rei D. João o V no nome que somando na linha de +todas suas acções sempre em tudo heroicas, em tudo excellentes, e +magnanimas em tudo, o numero admiravel de todas as de seus +gloriosissimos Progenitores se dignou illustra-las com a Real +preheminencia de engrandecer a sua Corte com uma Santa Sé Patriarcal, +realçando seus lustres com o feliz, e premeditado acerto de instituir +por seu primeiro Patriarca ao Meritissimo, Illustrissimo, e +Reverendissimo Senhor D. Thomás de Almeida da Nobilissima Casa de +Avintes, Bispo que foi de Lamego, e Porto; e para que finalmente na sua +Corte pela destas Igrejas Occidental, e Oriental constasse notoriamente +o ardentissimo desejo, que rezide no seu religioso coração de que o nome +da Divina Magestade, o Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores seja sempre +louvado desde o Oriente onde o Sol nasce, té o Occaso onde fenece: «A +Solis ortu usque ad Occasum laudabile nomen Domine». + +Tão gloriosos progressos, tiveram o seu feliz principio nas acções do +Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, que esta Chronica descreve, e é +mais que justo, saiam a luz do mundo, que pertende dar-lhe este +Restaurador das primitivas, e estupendas memorias de Portugal, para que +por benificio da estampa resuscite no mundo um vivo modelo da Magestade, +um elegante exemplo do valor, e um famoso trofeo da admiração. Este o +meu parecer salv. semp. mel. Carmo de Lisboa Occidental 1 de Agosto de +1726. + +_Fr. José de Sousa_. + + +Vista a informação, póde-se imprimir a Chronica de que se trata, e +depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, +sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 3 de Agosto de 1726. + +_D. F. Arcebispo de Lacedemonia_. + + +DO PAÇO + + +_Approvação do Reverendissimo P. Mestre D. José Barbosa, Clerigo Regular +da Divina Providencia, Chronista da Serenissima Casa de Bragança, e +Academico do Numero da Real Academia da Historia Portugueza, &c_. + + +SENHOR + + +Por Ordem de V. Magestade vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, +que compoz Duarte Galvão, e que quer mandar imprimir Miguel Lopes +Ferreira. De um louvo o zelo em fazer publicar as Chronicas dos nossos +Reis, que tantos tempos ha que se conservam manuscritas, e do outro não +posso deixar de lhe não occultar a negligencia com que se houve na +composição desta Chronica, porque parece que não fez exame algum para o +que havia de escrever. Mas como vejo riscados nella alguns Capitulos, e +tudo vejo reformado pelo Doutor Frei Antonio Brandão Chronista mór deste +Reino no 3.^o tomo da Monarchia Lusitana, bem se póde imprimir sem +escrupulo. Vossa Magestade ordenará o que fôr servido. Nesta Casa de N. +Senhora da Divina Providencia 12 de Agosto de 1726. + +_D. Jose Barbosa C.R._ + + +Que se possa imprimir vistas as licenças do S Officio, e Ordinario, e +despois de impresso tornará á Mesa para se conferir, e taxar, que sem +isso não correrá. Lisboa Occidental, 22 de Agosto de 1726. + +_Pereira.--Galvão.--Teixeira.--Bonicho._ + + + + +_Chronica do muito alto, e esclarecido princepe D. Affonso Anriques, +primeiro Rei de Portugal_ + + + + +CAPITULO I + +_Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha +Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por +Condado com certas condições_. + + +Começando de escrever das vidas, e mui excellentes feitos dinos de +eterna memoria, dos mui esclarecidos Reis de Portugal, encomendo-me +áquelle guiador de seus nobres, e virtuosos corações Espirito Santo, que +assi participou com elles de sua infinda graça para as obras, me queira +dar alguma para os escrever, e assentar em devida lembrança, por tal que +não pareçam falecidas minhas palavras na grande excellencia de tão +louvadas obras, de cujo louvor a primeira prova, e testemunho será o meu +esforçado, e manifico Rei D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal, +fundamento logo proprio, e necessario, por Deos ordenado para tão alto +cume da gloria destes Reinos, como nelle edeficou, segundo que seu +immenso louvor não menos se verá ao diante acrescentado, e conformado +pelos Reis seus successores, os quaes, contando deste primeiro Rei, são +por todos quatorze com o Serenissimo de todo louvor illustrado El-Rei D. +Manuel N. Senhor, o qual vai em dez annos que ao presente Reina, anno do +Senhor de mil e quinhentos e cinco.[3] Mas porque melhor se saiba o +procedimento deste mui virtuoso Rei D. Affonso Anriques, é forçado +recorrer algum tanto pelas Chronicas atraz, a El-Rei D. Affonso de +Castella o Sexto, chamado Emperador, que tomou Toledo aos Mouros, dino +de muito louvor em todo principalmente em guerrear os imigos da nossa +Santa Fé Catholica, de que então a Espanha estava occupada, a cuja mui +devulgada fama, movidos com mui devota cavalaria, grandes Senhores, e +outras gentes Estrangeiras vinham busca-lo, para em sua companhia, por +ser serviço de Deos, e salvação de suas almas, participarem de suas +santas empresas, e trabalhos, antre os quaes vieram trez mui principaes +senhores, a saber, o Conde D. Reymão de Tolosa, grande senhor em França, +e o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença, e D. Anrique sobrinho deste +Conde de Tolosa, filho segundo genito de uma sua irmã, e Del Rei +Dungria, com quem era cazada, os quaes trez foram mui honradamente por +El-Rei D. Affonso recebidos. + +Era este Conde D. Anrique mui discreto, e esforçado Cavaleiro, e não +menos de todas outras bondades comprindo, trazia em seu Escudo de Armas +campo branco sem outro nhum sinal, e andando sempre dedepois, na guerra +dos Mouros com El-Rei D. Affonso, fez muitas, e assinadas cavalarias, +por onde Del-Rei, e de todos os da terra era mui estimado, e querido, e +assi o Conde de Tolosa seu tio, e o Conde de S. Gil de Proença, e tendo +El-Rei assi delles contentamento querendo honra-los, e remunerar seus +nobres feitos e trabalhos, que em sua companhia passaram na guerra +contra os infieis, determinou de cazar trez filhas suas com elles, uma +chamada Dona Urraca, cazou com o Conde D. Reimão de Tolosa, de que +depois naceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado tambem Emperador, +donde decendem tambem todos os Reis de Castella; outra Dona Elvira, +cazou com o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença; outra chamada D. +Tareja deu por molher a D. Anrique sobrinho do Conde de Tolosa, +dando-lhe com ella em cazamento Coimbra, com toda a terra até o Castello +de Lobeira, que é uma legua além de ponte Vedra, em Caliza, e com toda a +terra de Vizeu, e Lamego, que seu pai El-Rei D. Fernando, e elle +ganharam nas Comarcas da Beira. De todo o que lhe assi deu, fez Condado +chamado o Condado de Portugal, com tal condição, que o Conde D. Anrique +o servisse, e fosse ás suas Cortes, e chamados, e sendo caso que fosse +doente, ou tivesse legitimo impedimento a não poder lá ir, lhe mandasse +um dos mais principaes de sua terra a seu serviço com trezentos de +cavalo, não havendo naquelle tempo mais naquella terra de Portugal. E +ainda lhe assinou mais terra da que os Mouros possoiam, que a +conquistasse, e tomando-a, a crescentasse em seu Condado, o que elle, e +seus successores com muito esforço, e valentia por muito arriscados +perigos e trabalhos depois fizeram, como ao diante se verá, e que não +querendo o Conde D. Anrique cumprir assi esto, qualquer que fosse Rei de +Castella pudesse tomar a terra ao dito Conde, e mais toda a outra que o +dito Conde, e seus successores ganhassem, e fazer della o que lhe +aprouvesse, como de cousa sua propria. + + + + +CAPITULO II + +_Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e +donde se chamou Portugal_. + + +Deste Conde D. Anrique, e Dona Tareja sua molher descendem todolos Reis +de Portugal, que até agora foram, e a causa porque a terra se chamou +Portugal, foi que antigamente sobre o Douro foi povoado o Castello de +Gaya, e por aportarem ahi mercadores, e navios, e assi pescadores pelo +Rio dentro ancorarem, e estenderem suas redes da outra parte para isso +mais conveniente, se povoou outro lugar, que se chamou o Porto, que ora +é Cidade mui principal, donde ajuntando estes dous nomes, foi chamado +Portugal. E era então naquelle tempo costume, que todos os filhos dos +Reis se chamavam Reis, e as filhas Rainhas, posto que fossem bastardos, +e como quer que El-Rei D. Affonso de Castella, desse este Condado de +Portugal, ao Conde D. Anrique, e a sua filha, e ella se chamasse Rainha; +porém elle nunca se chamou Rei em sua vida, nem seu filho o Principe D. +Affonso, até que houve uma grande batalha, e vencimento no Campo de +Ourique, contra cinco Reis Mouros, onde foi alevantado por Rei de +Portugal, cuja geração veio de Reis, assi da parte do pai, como da mãi, +que segundo já dissemos este Rei D. Affonso Anriques primeiro Rei que +foi de Portugal, era neto de El-Rei Dungria da parte do pai o Conde D. +Anrique, que foi filho legitimo dEl-Rei Dungria, e da parte de sua mãi, +era neto dEl-Rei D Affonso acima dito, filho de sua filha Dona Tareja, +por onde se mais manifesta a esclarecida gloria dos Reis de Portugal, +pela nosso Senhor de todolos cabos tanto a exalçar, que de Nobreza, e +Realeza de sangue não menos, que de excellentes virtudes, fossem em +tanto gráo illustrados. + + + + +CAPITULO III + +_Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique, que +foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo_. + + +Depois que o Conde D. Anrique foi cazado com a Rainha D. Tareja, filha +del-Rei de Castella como dito é, vindo ella a emprenhar, D. Egas Moniz +mui esforçado e nobre Fidalgo, grande seu privado, que com elle viera da +sua terra, e a quem tinha feito muita mercê, chegou ao Conde pedindo-lhe +que qualquer filho, ou filha, que a Rainha parisse lho quizesse dar para +o elle criar, e o Conde lho outrogou. Veio a Rainha a parir um filho +grande, e fermoso, que não podia mais ser uma creatura, salvo, que naceo +com as pernas tão encolheitas, que a parecer de Mestres, todos julgavam +que nunca poderia ser são dellas. O seu nacimento foi no anno de nosso +Senhor de mil noventa e quatro. + +Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou á pressa, e +veio-se a Guimarães onde o Conde estava, e pedio-lhe por mercê que lhe +desse o filho que lhe nacera para o haver de criar, como lhe tinha +prometido. O Conde lhe respondeo que não quizesse tomar tal carrego; +porque o filho, que lhe Deos dera, nacera por seus peccados tolheito de +modo, que todos tinham, que nunca guareceria, nem seria para homem. D. +Egas quando esto ouvio pesou-lhe muito, e disse: «Senhor, antes cuido eu +que por meus peccados aconteceo; mas pois a Deos aprouve de tal ser +minha ventura, dai-me todavia vosso filho, quejando quer que seja»: E o +Conde posto que tivesse grande pejo polo bem que a D. Egas Moniz queria, +de o encarregar em semelhante criação, por causa da aleijão da criança, +com tudo lha deu por lhe comprazer, e quando D. Egas vio a criança tão +fermosa, e com tal aleijão, houve mui grão dó della, e confiando em +Deos, que lhe poderia dar saude, a tomou, e fez criar, não com menos +amor, e cuidado como se fora são. + +E jazendo D. Egas uma noite dormindo, sendo já o Menino de cinco annos, +lhe appareceo nossa Senhora, e disse: «D. Egas dormes». Elle a esta voz, +e visão acordando respondeo. «Senhora quem soes vós». Ella disse: «Eu +sou a Virgem Maria, que te mando que vás a um tal lugar,», dando-lhe +logo os sinaes delle, «e faze hi cavar, e acharás hi uma Egreja que em +outro tempo foi começada em meu nome, e uma Imagem minha; faze correger +a Imagem e a Igreja feita á minha honra; esto feito farás hi vigilia +poendo o Menino que crias sobre o Altar, e sabe que guarecerá, e será +são de todo, e não menos te trabalha da hiavante de o bem guardar, e +criar como fazes; porque meu filho quer por elle destruir muitos imigos +da Fé». + +Desaparecida esta vizão ficou mui consolado D. Egas Moniz, e alegre, +como vassallo que com são, e verdadeiro amor amava seu Senhor, e suas +cousas, e tanto que foi manhã levantou-se logo, e foi-se com gente +áquelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar achou aquela +Egreja, e Imagem pondo em obra todas as cousas que lhe N. Senhora +mandára. Á qual aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino foi +posto sobre o seu Altar, ser logo guarecido, e são das pernas de toda +aleijão, como se nunca tivera nada della. + +Vendo D. Egas este tão grande milagre, foi muito o seu prazer, deu +muitas graças, e louvores a Deos, e a Nossa Senhora sua Madre, criando, +e guardando dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cujo Aio foi +sempre, até que seu pai morreo em Estorgua, sendo elle já de tal idade, +que nas guerras, e fadigas supria os carregos de seu pai. E por causa +deste milagre foi depois feito em esta Egreja com muita devação o +Mosteiro de Carquare; e como quer que alguns contem seu nacimento ser +ultra mar, e bautizado no Rio do Jordão, porém por mais verdade achei +ser seu nacimento como disse. + + + + +CAPITULO IV + +_Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a seu +filho ante que falecesse_. + + +Era este Conde D. Anrique mui nobre, e esforçado cavaleiro, muito amador +da Justiça, e a temor de Deos mui chegado, e elle com grande devação fez +a Sé de Coimbra, e de Braga, e do Porto, e de Vizeu, e Lamego, e pôz em +ellas Bispos, que as houvessem de reger por mandado, e licença do Santo +Padre. Em este tempo andando a era de Nosso Senhor de mil cento e trez, +(1103) foi este Conde D. Anrique a ultra mar á Caza Santa de Jerusalem, +conquistada havia quatro annos de Christãos, novamente pelo Duque +Gudufre de Bulhão, quatro centos e noventa annos depois que em tempo de +Mafamede, e do Araclio Emperador foi tomada a Christãos, e possuida de +Mouros, e quando de lá veio trouxe este Conde muitas reliquias de +Santos, entre as quaes foi um braço de S. Lucas Evangelista, que por +filho del-Rei Dungria, e fama de sua grande bondade, e cavalarias lhe +foi dado em Constantinopla, e a rogo de S. Giraldo que então era Bispo +de Braga, deu parte delle á Sé da dita Cidade, o qual elle recebeo em +mui grande dom, e o pôz com outras Reliquias da Egreja, e depois que +assi o Conde D. Anrique veio de Jerusalem não lhe cessaram guerras com +os Lionezes, e ganhou-lhes muita terra até chegar a Estorgua, a qual +tendo tomada, e metida sob seu senhorio, dali os guerreou fazendo +continuamente muitas cavalgadas pela terra estragando-lhes pães, e +vinhas, matando, e prendendo muita gente delles, com que os pôz em tanto +aperto, que se lhe não podiam defender, e lhes foi forçado +preitejarem-se por esta guiza, que se El-Rei D. Affonso de Castella seu +primo chamado Emperador, lhes não soccorresse até quatro mezes, elles +lhe entregassem a Cidade de Lião com todas as rendas, e senhorio que +El-Rei nella tinha. E tendo-a assi preitejada veio o Conde a doecer de +modo, que bem conheceo não haver nelle vida. Pelo qual vendo-se elle em +tal ponto chamou seu filho D. Affonso Anriques, e lhe fez uma falla +muito de Cavaleiro entendido, e esforçado em esta maneira. + +«Filho esta hora derradeira que me Deos ordena para te haver de leixar +com a vida deste mundo me faz, que te veja, e fale com dobrado amor, e +sentido do nosso apartamento, e por esso assenta em teu coração minhas +palavras como de pai a quem após estas já não has douvir outras. Deves +filho de saber, que o poderio que o Senhor Deos neste mundo ordenou de +alguns Princepes sobre outros sometidos a elles foi por tal, que os máos +sejam constrangidos, e os bons vivam entre elles em paz, e assocego, +porque conservação é dos bons, e pungimento dos máos, pelo qual filho +more sempre em teu coração vontade de fazer justiça, virtude é que dura +para sempre na vontade, e corações dos justos, e dá igualmente seu +direito, que é o maior louvor, e merecimento que os Principes em seu +regimento podem alcançar, que todo o governo, e bem commum consiste +principalmente em duas cousas, a saber: em premio, e em pena; e assi +como os bons pela justiça se fazem milhores recebendo premio, e galardão +de suas boas obras, assi os máos vem a ser bons, ou a menos cessam de +seus males com receo da pena, e por tanto faze filho sempre como hajam +todos direito assi grandes como pequenos, e nunca por rogo, nem cobiça, +nem outra nhuma afeição leixes de fazer justiça, que o dia que um só +palmo a leixares de fazer logo no outro se arredará de teu coração uma +braçada. + +«Trabalha-te muito de saber se os que tem teu carrego fazem justiça, e +direito compridamente, e se a fizerem, faze-lhe compridamente bem, e +mercê, e se o contrario, dá-lhe pena segundo seu merecimento, por os +outros tomarem castigo, não consintas em modo algum, que os teus sejam +soberbos, nem atrevidos em mal fazer, que perderás teu preço, e +estimação se taes cousas não vedares; mas segue todavia justiça temendo, +e amando muito a Deos, para que sejas dos teus amado, e temido, tendo +Deos em tua ajuda, terás as gentes para teu serviço, e sem ella não ha +poder, nem saber que te aproveite, de sua mão somos isso que somos, e o +que temos não teriamos, se da sua mão, e bondade o não tivessemos, e +portanto trabalha-te por conservar em seu serviço. O que tiveres, e de +toda esta terra que te eu leixo Destorgua até Lião não percas della um +palmo que eu a ganhei com grande fadiga e trabalho. Toma filho do meu +coração um pouco; porque sejas esforçado, e sem medo: aos fidalgos sê +companheiro, e dá-lhe dos teus dinheiros, e aos Conselhos faze +gazalhado, e trata bem, e chama agora estes Destorgua, e mandarás que te +façam logo menagem da Villa, e des que me levarem a enterrar logo te +torna, e não a percas, e daqui conquistarás toda a outra terra adiante, +ou manda-me com alguns meus vassalos, e teus que me vão enterrar a Santa +Maria de Braga, que eu povoei. Tudo esto filho faze assi com a minha +benção; porque sejas como filho de benção a serviço de Deos com muita +honra prosperada». + + + + +CAPITULO V + +_Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar +Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi +Dona Tareja_. + + +Desta doença se veio a finar o Conde D. Anrique em Estorgua dous mezes, +e cinco dias antes que o prazo de Lião fosse acabado. Seu finamento foi +no anno de nosso Senhor de mil cento e doze, (1112) e tanto que elle +faleceo logo seu filho D. Affonso Anriques ficando em idade de dezoito +annos se fez chamar Principe, dando ordem como o corpo de seo pai fosse +mui honradamente levado a Santa Maria de Braga onde se mandara lançar, e +perguntou a seus vassallos se iria com elle a seu enterramento, ou se +ficaria, e elles disseram que fosse com seu pai, e o honrasse, nem por +isso temesse nada da terra, porque obrar virtude nunca deu a ninguem +perda, e então se foi com seu pai; porque mais honradamente fosse +enterrado, e em quanto assi foi com elle tomaram-lhe toda a terra de +Lião que elle tinha por sua, e a terra de Galiza lhe ficou que lha não +poderam tomar. Quando elle vio a terra tomada mandou desafiar a El-Rei +D. Affonso de Castella chamado Emperador seu primo com irmão filho do +Conde D. Reymão de Tolosa, e de Dona Urraca irmã de sua mãi a Rainha +Dona Tareja, mas logo foram reconciliados, e amigos, e então se foi a +Portugal, e não achou onde se acolhesse: porque toda a terra se alçara +com sua mãi a qual cazou com D. Vermuy Paes de Trava, e depois D. +Fernando Conde de Trastamara seu irmão delle lha tomou, e cazou com +ella, e D. Vermuy Paes cazou depois com uma filha desta Rainha D. +Tareja, e do Conde D. Anrique já finado, que elle tinha em sua casa, que +chamavam Dona Tareja Anriques, e por este peccado foi feito em Galiza um +Mosteiro chamado de Sobrado. Outra filha ficou do Conde D. Anrique, que +havia nome D. Sancha que foi cazada com D. Fernão Mendes. Este Conde D. +Fernando de Trastamara acima nomeado, era naquelle tempo o maior homem +de Espanha que Rei não fosse, e por esta causa se alçou toda a terra ao +Principe D. Affonso Anriques com sua mãi. + + + + +CAPITULO VI + +_Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi +vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a +sua mãi com elle_. + + +Quando o Principe D. Affonso Anriques vio que não tinha onde se acolher, +e que sua mãi tão pouco delle curava, segundo mal peccado muitas vezes +vemos as mãis com novos esposos se tornarem madrastas, trabalhou de lhe +furtar dous Castellos: um delles foi Neiva, e o outro o Castello da +Feira terra de Santa Maria, e destes dous Castellos fazia muita guerra a +seu padrasto, tanto que vieram ambos á fala com a Rainha Dona Tareja de +presente, e disse o Conde D. Fernando: «Principe não nos afadiguemos +mais nesta contenda, mas ajuntemo-nos um dia em batalha, eu e vós quando +quizerdes, e ou vós vos sahireis de Portugal, ou eu». Respondeu o +Principe D. Affonso. «Não devia de aprazer a Deos tal cousa que vós me +queirais deitar fóra da terra que meu pai ganhou». E acodio a Rainha sua +mãi dizendo. «Minha é a terra, e será que meu pai ma deu, e ma leixou». +Disse então o Conde D. Fernando a ella «Não andemos mais neste debate, +ou vós vos ireis comigo para a Galiza, ou leixareis a terra a vosso +filho, se mais poder que nós». + +Sobre esto se desafiaram para um dia certo, e vieram-se ájuntar em +Guimarães em um lugar que chamam Santilanhas, elles estando prestes para +peleijar disse a Rainha ao Conde seu marido: «Comvosco quero eu ir á +batalha; porque tenhais mais rezão de fazer mais por meu amor, e +trabalhai todavia muito por prender o Principe meu filho, que maior +poder temos que elle». + +A batalha foi gravemente peleijada, e o Principe D. Affonso lançado do +campo desbaratado, e indo elle assi uma legoa de Guimarães encontrou com +D. Egas Moniz seu Aio, que o vinha ajudar, e ser com elle na batalha, e +quando D. Egas o vio disse: «Que é esto Senhor, como vindes vós assi». +Respondeo o Principe: «Venho mui desbaratado, que me venceu meu +padrasto, e minha mãi, que hi era com elle». Disse então D. Egas: «Não +fizestes bem, nem sizo dardes batalha sem mim, mas tornai, e eu +comvosco, e espero em Deos, que a hi prendamos vosso padrasto, e vossa +mãi, recolhei a vós toda vossa gente que vem fogindo, e tornemos a +peleijar». Respondeo o Principe: «Praza a Deos que assi seja». + +Tornáram então á batalha, e venceram-no, e o Principe prendeu hi seu +padrasto, e sua mãi, e quando se o Conde D. Fernando vio prezo, cuidou +logo de ser morto, e fez preito, e menagem ao Principe de nunca mais +entrar em Portugal, e o Principe o soltou e foi-se, uns dizem que para +sua terra, outros, que para terra dultra mar, sem nunca mais tornar. O +Principe D. Affonso poz então sua mãi em ferros e ella vendo se assi +preza, disse. «Filho D. Affonso prendeste-me, e desherdaste-me da terra, +e honra que me leixou meu pai, e quitaste-me de meu marido, a Deos pesso +que prezo sejais vós assi como eu me vejo, e porque puzestes minhas +pernas em ferros que vos ajudaram a trazer, e a criar com muitas dores +em meu ventre, e fóra delle, com ferros sejam as vossas quebradas, a +Deos praza que assi seja». E depois aconteceo a este Principe D. Affonso +sendo já Rei, que lhe quebrou uma perna em sahindo pela porta de +Badalhouce, e foi prezo del-Rei D. Fernando de Lião, como se ao diante +dirá, dizendo todos, que lhe acontecêra por lho assi mal dizer sua mãi. + + + + +CAPITULO VII + +_Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso de +Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as +Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um +Rei Mouro cercar Coimbra_. + + +Vendo assi Dona Tareja Rainha como o Principe D. Affonso seo filho a não +queria soltar enviou seus recados o mais secreto que pôde a El-Rei D. +Affonso de Castella chamado Emperador como El-Rei D. Affonso seu avô, em +que lhe fazia queixume do Principe seu filho a ter preza dizendo que +Portugal pertencia a elle de direito, e que assi por elle cobrar o que +seu era, como pelo que devia á virtude em acudir por uma sua tia posta +fóra de seu marido, e em prizão tão deshonesta lhe pedia, que a quizesse +vir livrar, pois não tinha a quem com mais rezão se soccorresse, e lhe +podesse valer. Quando El-Rei de Castella vio o recado de sua tia, +aprouve-lhe muito com elle, e fez logo prestes suas gentes de Castella, +e de Lião, e de Aragão, e de Galiza, e abalou com mui grande poder +contra Portugal. Os Portuguezes desque souberam que El-Rei de Castella +ajuntava seu poder para vir conquistar Portugal, e tirar sua tia da +prizão, houveram todos seu acordo, que estivessem com o Principe D. +Affonso Anriques, e o ajudarem contra elle, e então se vieram todos para +o Principe mui guarnecidos de suas armas, e ajuntaram-se com elle em um +lugar que chamam Val de Vez, entre Monção e Ponte de Lima, e ali +esperaram El-Rei de Castella, o qual tanto que chegou logo uns e os +outros ordenaram suas azes para a batalha, e dambas as partes foi grande +peleija, e tão grande vencimento por parte do Principe D. Affonso, que +El-Rei de Castella foi ferido na perna esquerda de duas lançadas, e +sahio-se da batalha em um cavallo fogindo, acolhendo-se o mais que pode +a Toledo, por haver medo de com este desbarato perder a Cidade, e +prenderam-lhe na batalha sete Condes, e outros muitos Cavalleiros, e +mataram-lhe os Portuguezes muita gente. E o Princepe D. Affonso se foi +logo dalli levando comsigo sua mãi preza, e todos os lugares que se +levantáram contra elle os tomou por força, e tratou asperamente os que +os tinham. + +Emquanto elle assi andava na guerra com El-Rei de Castella, e com +aquelles que tinham os Castellos por parte de sua mãi, El-Rei Achi Mouro +veio guerrear Coimbra com grande multidão de Mouros que ao juizo de +todos passariam de trezentos mil de pé, e teve-a cercada muitos dias +combatendo-a mui rijamente, mas os da Cidade com grande esforço, e ajuda +de Deos se defendiam mui bem matando muitos dos Mouros com setas, e +pedras, e muitos delles morriam por fome, e pestelencia que no arraial +havia. Aos da Cidade nunca lhes faleceo mantimentos em abastança em +quanto estiveram cercados, e vendo os Mouros a Fortaleza da Cidade, e +sentindo a abondança de mantimentos que dentro havia, e a mortandade da +peste, e a fome do arraial, que cada dia viam, desesperaram de a tomar, +e levantáram o cerco destruindo pães, vinhas, olivaes, e foram-se +perdendo grande parte da gente que trouxeram, e tanto estava a Cidade +abastada, que depois do cerco alevantado davam cinco quarteiros de trigo +por um maravedi de ouro, e dous moros de vinho por outro maravedi, e +valia o vinho pelo preço dantes do cerco, e este cerco se poz nove dias +por andar de Junho no anno do Senhor de mil cento e dezasete (1117). + + + + +CAPITULO VIII + +_Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o +Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz +lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco_. + + +A cabo de pouco tempo, estando El-Rei D. Affonso de Castella chamado +Emperador em Toledo sentindo muito seu desbarato, e vencimento que delle +houve o Principe D. Affonso Anriques tendo elle que toda Espanha lhe +havia de obedecer, e conhecer senhorio, determinou em mui secreto +conselho tornar a Portugal, e ajuntada muita gente o mais dessimulada +que pode, abalou para Galiza, e chegou de supito a Guimarães onde cercou +o Principe D. Affonso, que dentro estava despercebido, nem a Vílla +estava bastecida, que a poucos dias a tomára El-Rei de Castella se +tivera o cerco, e sobre esto vendo D. Egas Moniz Aio do Principe o +grande perigo em que seu Senhor estava, vestindo sua capa pelo trajo, e +nome daquelle tempo, cavalgou secretamente um dia pela manhã cedo, sem +levar ninguem comsigo, e foi-se ao arraial dos imigos. Cavalgara El-Rei, +e andava alongado de redor da Villa, vendo por onde mais ligeiramente se +poderia combater, e tomar, e chegando D. Egas a elle, fez-lhe sua +reverencia, e beijou-lhe a mão; El Rei salvou-o perguntando-lhe a que +vinha. Respondeo D. Egas que queria falar com elle; então se apartáram +ambos, e perguntou-lhe D. Egas porque se viera lançar sobre aquella +Villa? E El-Rei respondeo, que viera cercar D. Affonso Anriques seu +primo porque lhe não queria conhecer senhorio, nem ir a suas Cortes como +era rezão, e como lhe faziam em toda Espanha, que sua determinação era +leva-lo prezo comsigo, e dar a terra a quem lhe conhecesse senhorio com +ella. + +Respondeo entonces D. Egas, e disse: «Senhor não fostes bem aconselhado +virdes aqui cercar esta Villa, porque o Principe vosso primo é tal +Cavaleiro como vós bem sabeis, e tem comsigo dentro tanta gente, e tão +boa afóra muita que tem pela terra muito a seu querer, e mandar, que +grande será o poder, e muito mor a ventura de quem lhe forçar, e tomar a +Villa, porque Senhor havei por certo, que destes movimentos das guerras +que com vosso primo houvestes, elle foi sempre tão suspeitoso, e receado +de vós, e se poz tanto a recado para semelhantes cazos, esperando cada +dia de se ver nelles comvosco, como se ora vê, que toda sua terra e +Fortalezas fez guarnecer, e abastecer grandemente, e assi as tem bem +providas, e bastecidas, em especial esta Villa, em que a miudo está que +a meu entender, outra mais gente da que está, dentro, se nella podesse +caber teria abastança para muitos annos de cerco, pois estando vós tempo +sobre ella, ainda que escuzado tendes meu conselho, poderia trazer +trovação a vosso estado, assi dos de vosso Reino, como dos Mouros que +tão vizinhos, e fronteiros tendes, e quanto ao que Senhor dizeis que +vosso primo vos conheça senhorio, e vá a vossas Cortes, certo a mim +parece rezão, e ainda Senhor, me parece mais, que se vos partirdes daqui +para vossa terra, que não pareça que vosso primo por força, nem +rendimento de medo o faz; eu acabarei com elle que vá a vossas Cortes +onde vós quizerdes, e disto Senhor vos farei preito, e omenagem». Quando +El-Rei de Catella esto ouvio, prouve-lhe muito de receber a omenagem de +D. Egas Moniz a cerca dello, ficando-lhe de se partir ao outro dia, e +depois de dada, e recebida a dita menagem D. Egas se tornou para a Villa +mui callado como della saira, sem dar conta a ninguem do que viera +fazer. + + + + +CAPITULO IX + +_Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre Guimarãez, +e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso fez D. Egas +Moniz_. + + +Ao dia seguinte levantou El-Rei de Castella o cerco, e se partio com +toda sua Corte, como ficára a D. Egas Moniz, e o Principe D. Affonso vio +partir El-Rei, e espantando-se muito porque não sabia a causa, perguntou +a D. Egas Moniz que lhe parecia de tal alevantamento, e partida de +El-Rei de Castella, porque entendia que era? D. Egas lhe contou então +tudo o que era, e como a causa passára; ouvindo o Principe esto, houve +grande pezar, e foi mui indinado dizendo que escolhera antes ser morto, +que fazer semelhante, nem ir a suas Cortes. Disse D. Egas: «Senhor não +haveis de que vos queixar, que no que eu fiz vos tenho feito muito +serviço; porque El-Rei de Castella por força vos tomara, segundo +estaveis desapercebido de mantimentos, e de todo o que para vossa +defensa cumpria, assi que em todo o cazo foreis prezo, ou morto, e o +senhorio de Portugal dado a outrem, de tudo esto eu vos livrei, e quanto +á menagem que fiz a El-Rei de Castella não vos dê desso nada, que assi +como o fiz sem vosso mandado, assi o livrarei sem vosso conselho com a +graça de Deos». + + + + +CAPITULO X + +_Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei +D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de +Guimarães_. + + +Vindo o tempo do prazo em que o Principe D. Affonso Anriques havia de ir +ás Cortes, que se faziam em Toledo, segundo a menagem que D. Egas fizera +a El Rei de Castella, ordenou-se D. Egas de todo, e partio com sua +molher, e filhos, e chegáram a Toledo, foram decer ao Paço onde El-Rei +estava, e ali se despiram de todolos panos senão os de linho, e sua +molher com um pelote mui ligeiro, trajo daquelle tempo, descalçaram-se +todos, e pozeram senhos baraços nos pescoços, e assi entráram pelo Paço +onde El-Rei estava com muitos Fidalgos, e Cavalleiros, e chegando a +El-Rei pozeram-se todos assi como iam de joelhos ante elle, falou então +D. Egas Moniz, e disse. + +«Senhor estando vós em Guimarães sobre o Principe vosso primo meu +Senhor, eu vos fiz a omenagem que sabeis, a qual eu fiz por ver que sua +pessoa e honra áquelle tempo corria grande risco de se perder por na +Villa não haver mantimentos, nem percebimento algum para defensão, se +lhe vós tivesseis o cerco, e eu porque o criei de seu nacimento, quando +o vi em tamanho trabalho, e perigo, tomei de mim aquelle conselho, de me +ir a vós, e fazer esso que fiz». Recontando dahi ávante perante todos +cumpridamente o feito como passara, e em cabo de todo disse: «Por causa +desto Senhor me venho presentar ante vós, e eis aqui estas mãos com que +vos fiz a menagem, e a lingua com que vo-la disse, e demais vos trago +aqui minha molher, e estes moços meus filhos para se vossa ira houver +por maior minha culpa que a vingança do meu corpo só, por esta molher, e +por estes moços a cuja fraqueza, e idade, a ira dos imigos soe +apiedar-se, seja vossa indinação satisfeita, prestes Senhor vos trago +tudo para esso, tomai se vos assi parece por culpa de um só vingança de +muitos, do pai, da mãi, de seis filhos quejanda vossa mercê for, não me +pezará que vossa sobeja vingança faça maior meu cumprimento, e que se +diga em todo o tempo mais comprio D. Egas, do que errou». + +Desque D. Egas acabou de falar ficou El-Rei mui irado, e quizera +manda-lo matar, dizendo que o havia enganado: mas os Fidalgos, e nobres +que ahi estavam lhe disseram, que tal não fizesse, que não tinha rezão +de lhe fazer nhum mal, porque D. Egas fizera todo seu dever como mui +nobre, e leal vassallo, quejando elle era, e todos os Principes deviam +de desejar ter muitos tais, que seu mesmo fora o engano de se deixar +enganar, e que antes por seu bom nome tinha razão de lhe fazer muita +honra, e mercê, e manda-lo em paz. El-Rei assocegado de sua sanha pelo +que lhe diziam, conhecendo que era assi na verdade perdeo todo o +despeito de D. Egas, e quitou-lhe a omenagem que lhe feito tinha, e +depois de lhe fazer muitas mercês o mandou livremente elle, e sua +molher, e filhos tornar para Portugal. + + + + +CAPITULO XI + +_Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de Castella +se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual apoz esto +juntou gente, e foi tomar Leiria_. + + +Desque D. Egas Moniz se assi partio del-Rei de Castella quite, e livre +de sua menagem, e com sua graça veio caminho de Guimarães, e ante que +ahi chegasse, o Princepe D. Affonso Anriques sabendo sua vinda o sahio a +receber com toda sua Corte mui alegre como quem parecia que aquella ora +cobrava de novo um tal servidor, e vassallo, como era D. Egas; porque +sempre esperára que elle em Castella fosse morto, ou deshonrado para +sempre, e tudo sómente por seu respeito, ou serviço, e assi quanto lhe +estas cousas tinham dado pezar, lhe davam agora sobejo prazer com sua +vinda em salvo. Quando D. Egas chegou ao Princepe quiz-lhe beijar as +mãos, e o Principe as tirou a si, e abraçou-o mui de vontade com grande +gazalhado parecendo-lhe com muita rezão que tal obra, e merecimento mais +merecia ser recebida com mostrança de muita honra, e agradecimento que +sobgeição, e assi vieram ambos fallando com muito prazer até Guimarães, +onde depois dalguns dias o Princepe por se prover de não cair em outra +tal mingua, e desastre de se ver cercado, e não apercebido como dantes, +começou abastecer seus Castellos, e Villas de todalas cousas que para +sua defenção lhe compriam, e em dar ordem a esto per si, e pelos seus, +passáram alguns dias. + +E dahi veio-se a Coimbra onde lhe pareceo que estava mui de vago, e sem +proveito, pois se não occupava em mais, que no que tinha mandado aos +seus que fizessem pelo qual ajuntou alguma gente, e fez entrada na terra +dos Mouros, e no primeiro lugar em que deu foi Leiria a qual combateo +rijamente, e posto que o Castello fosse muito forte, e os Mouros o mui +bem defendessem tomou-o por força, e os mais dos Mouros que ahi achou +andáram á espada, e assi esta Villa tomada o Princepe a deu ao Prior de +Santa Cruz de Coimbra, por ser homem em que elle tinha grande devação, e +fez a elle, e ao Moesteiro doação della no temporal, e espritual, e o +Prior lha teve em mui grande mercê; e pondo-lhe logo por Alcaide no +Castello Paio Guoterres homem bom Fidalgo. E desque o Princepe D. +Affonso Anriques assi tomou a Villa de Leiria, seguio mais sua entrada +pela terra dos Mouros, e tomou Torres Novas, e então se tornou para +Coimbra com muita honra, e vitoria, e os seus ricos, e abastados de +despojos, e estas duas Villas foram tomadas no mez de Dezembro andando a +era do Senhor em mil cento e dezasete annos (1117) de sua idade. + + + + +CAPITULO XII + +_Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos +Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas +Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros +daquelle tempo_. + + +Depois que o Principe D. Affonso Anriques tornou de ganhar Leiria, e +Torres Novas, esteve em Coimbra alguns dias, e vendo que tinha suas +terras, e Fortalezas mui providas, e postas em ordem do que lhe compria, +e tambem que de Castella estava seguro de guerra por algumas rezões que +a Estoria não declara, consirando elle, que não devia, nem podia milhor +empregar o bem, e honra que seu pai, e elle ganháram, que em serviço de +nosso Senhor de cuja mão a tinham récebido, e como não havia então nhum +serviço de Deos mais necessario em Espanha occupada de Mouros, que serem +guerreados, e lançados fóra della, segundo fora sempre seu proposito, e +vontade, houve conselho com os seus de fazer guerra nas terras de +Alentejo especialmente na Comarca do Campo Dourique, e esto por duas +rezões, a primeira, porque a terra era mui povoada, e de poucas +Fortalezas, em que os seus haveriam assaz mantimentos, e prezas; a +segunda, e principal porque se El-Rei Ismar, que regia em Espanha toda a +maior parte dos Mouros contra Ponente, viesse a peleijar com elle, e +dando-lhe Deos delle o vencimento que esperava, toda a terra que se +chama Estremadura, que era sob seu senhorio, não haveria poder de se lhe +defender, e o Princepe D. Affonso tinha que iria acompanhado de tão boa +gente, que era bastante para peleijar com elle. + +E tanto que juntou, e teve sua gente prestes, partio de Coimbra, e a +poucas jornadas no Campo Dourique adoeceo á morte D. Egas Moniz seu Aio, +e se finou, de cujo falecimento o Principe tomou pezar, e o sentio +grandemente mostrando o menos pelo da gente, e feito a que ia. Cazo é a +morte de bons vassallos, e servidores em que os Princepes sempre devem +mostrar sentimento, por animarem mais os que ficam para seu serviço, e +se mostrarem virtuosos, e bons, não sómente em vida, mas depois de +mortos, porque as virtudes (onde ha virtude) auzentes devem de ser +queridas, e lembradas. Então mandou o Princepe tornar com o corpo de D. +Egas tantos dos seus, e taes pessoas com que podia ir honradamente. +Mandou-se elle enterrar no Moesteiro do Paço de Souza, que elle mesmo +fez, e o seu moimento está dentro da Capella que se chama do Corporal, +ou dos Freguezes, e entre elle, e a parede não está se não um moimento +baixo, esto se poz aqui para se saber onde jaz tão nobre, e honrado +Cavalleiro. + +Elle fundou em sua vida dous Moesteiros, este do Paço, e o de S. +Martinho de Cucujães áquem da Cidade do Porto, os quaes dotou de muitas +possessões, e guarneceo de grandes ornamentos, no que é bem de notar, e +seguir a muita devoção dos Cavalleiros daquelle tempo, que com todas +suas presas, e trabalhos, e grandes, e continuas despezas, em guerra tão +santa, e quasi do Reino a dentro sendo então o Reino mais pequeno, e +menos rico, não se descuidáram por esso de todo o serviço de Deos, +conhecendo que o serviço de Deos salva para o outro mundo, e acrescenta +a cavallaria, e honra deste mundo, e por tanto vemos muitas Egrejas +honradas, e grandes, e sumptuosos Moesteiros feitos daquelle tempo, e +nhuns Paços, e cazarias maiores, e pompa sobeja, edeficadas, mas os +passados segundo parece, fundavam-se mais em fazer, guarnecer moradas +para as Almas, que para os corpos, lembrando-se sómente dos corpos o +enterramento que delles havia de ser, mais que a vivenda, que havia +deixar de ser. + + + + +CAPITULO XIII + +_Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar, que +com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como +sentaram seus arraiaes um á vista do outro_. + + +Finado D. Egas, e mandado assi enterrar como dito é, o Princepe D. +Affonso Anriques como quer que lhe muito pezasse do falecimento de tão +honrado Cavalleiro, em quem tinha grande confiança; seguio avante o que +ia fazer, por serviço de Deos, e partindo daquelle lugar, onde se D. +Egas finara, passou o Tejo, e as charnecas mui grandes, e despovoadas +que agora ainda hi ha, e então seriam maiores, e sahindo dellas começou +a fazer grande guerra aos Mouros, correndo-lhe a terra, e tomando-lhe +Villas, e lugares, e fazendo grandes cavalgadas, e havendo muitos +vencimentos contra elles, do que tanto que El-Rei Ismar houve nova, +mandou requerer toda a mourama dos lugares, e outras partes do redor, +mandando seus alvites, que elles entre si hão por homens de santa vida, +que fossem pregar, e requerer da parte de Mafamede, que acorressem á +terra que estava em ponto de se perder, pelo qual houve El-Rei Ismar +muita em sua ajuda de Mouros dáquem, e dalém mar, e outras gentes +barbaras, que era infinda a multidão delles em tanta desigualança dos +Christãos, que se ha por certo serem pouco menos de cento para um, entre +os quaes vieram quatro Reis outros, cujos nomes não achamos escritos, e +vieram com estas gentes molheres vezadas a peleijar como as Amazonas, o +que foi sabido, e provado depois pelos mortos, que acharam no campo. O +Princepe D. Affonso quando soube que El-Rei vinha com aquellas gentes, +foi mui ledo, e moveo contra elle, com mui grande esforço, e vontade de +servir a Deos em tal afronta, e andando suas jornadas veio a um lugar, +que se hora chama Cabeças de Rei junto com Castro Verde, onde estava uma +Ermida, e nella um Irmitão. Esto era a hora da Sexta, ali se viram as +Ostes ambas, e o Princepe D. Affonso, e El-Rei Ismar sentáram seus +arraiaes um á vista do outro, em vespera de Santiago, anno de N. Senhor +de mil cento e trinta e nove (1139). + + + + +CAPITULO XIV + +_Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao Principe +D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que lhe o Princepe fez +sobre esso_. + + +Os Christãos que eram com o Principe, vendo a grande multidão dos Mouros +sem conto, começaram de poer duvida em se haver de dar batalha pela mui +grande desigualança, que havia delles aos Mouros. Então se foram ao +Principe, e lhe disseram: «Senhor quem sua carga compassa póde com ella, +e vós vedes bem a multidão de gente que El-Rei Ismar traz comsigo, e +cuidardes de com tão pouca, como tendes peleijar com elle, é cousa fóra +de toda a rezão, que ainda parece mais tentar a Deos, que sezuda +valentia, nem se deve haver por serviço de Deos, antes por muito seu +desserviço para tamanha aventura, e risco de uma só ora o senhorio de +Portugal, ganhado em tantos de muitos dias, e annos, pelo qual Senhor, a +todos parece, e não com mingoa de coração, e vontade que em nós nunca +achastes, devesse ter modo por onde toda via se escuze esta batalha». +Quando o Princepe D. Affonso ouvio aos seus esto, pezou-lhe muito, e +posto que nelle só houvesse o esforço que a toda a Oste compria, lhe +pareceo necessario fazer a todos uma falla, a qual depois de todos +ajuntados, assi começou. + +«Meus bons vassallos, e amigos, muito vos deve lembrar a tenção e +desejos com que partimos de Coimbra para servir a Deos, e punhar por sua +santa Fé Catholica, contra estes seus imigos, e nossos, e ora estando +nós já em vista dos que viemos buscar, será grande mingua, e ainda +poder-se-ia mais azinha de Portugal seguir essa perda, não peleijando, +que peleijando receaes se fogissemos ás batalhas a que nos Deos, e +nossas vontades tão acerca trouxeram, que já nosso recolhimento não +podia leixar de parecer fugida, ou ser desbarato. Deos por sua piedade +nunca abrio mão dos que em elle esperam, nem para dar, ou tolher, a quem +lhe praz vitoria, ha mister poder de mais, nem menos gente. Lembre-vos +quantas vezes, e em quantos lugares, peleijaram nossos antecessores com +estes imigos da Fé, e os venceram poucos, pois não é agora menos +poderosa a mão do Senhor Deos para nos ajudar contra El-Rei Ismar, do +que foi nos tempos passados para ajudar a elles, e assi outros muitos +Princepes, e Senhores Christãos, em semelhantes casos, e tanto mais da +ventagem de nossos imigos; deve nosso coração, e esforço quanto temos +mais justas causas, e rezão de peleijar. Nós peleijamos por Deos, pela +Fé, pela verdade, e estes arrenegados que vedes, peleijam contra Deos, +pela falsidade. Nós por nossa terra, elles pela que nos tem tomada, e +furtada, e querem furtar. Nós pelo sangue, e vingança de nossos +Antecessores, elles por ainda cruelmente espargerem o nosso. Nós por +poer nossos pais, nossas mãis, nossas pessoas, molheres, e filhos, com +liberdade, elles a nós todos em seu cativeiro, a terra que hoje em dia +tem, e pessuem em Africa, em Espanha, nossa foi, e a Christãos por +nossos peccados a tomaram, e agora que Deos quer que a cobremos, com seu +desfazimento, e destruição, não desfaleçamos a vontade do Senhor Deos, e +a tamanho bem nosso; oh quanta mercê nos Deos faz Cavalleiros, e a +quanto bem nos chegou, se lho bem conhecessemos, chegou-nos a um dia e +feito tão glorioso, quanto Cavalleiros não poderiam, nem saberiam mais +desejar. Chegou-nos a peleijarmos por elle, e por nós, peleija sua, e +nossa contra cinco Reis Mouros imigos da sua Santa Fé, em que nos elle +salvou, peleija em que mataremos, seguros de culpa, morreremos mais +seguros de galardão, matando, ganharemos terra, e honra temporal, +morrendo ganhamos o Ceo, e gloria eterna, matando tolhemos a vida a +nossos imigos, e morrendo damos vida e gloria a nós para sempre, a quem +se deve mais nossa vida que a Deos que no la deu, nem nosso sangue que a +Christo, que o seu proprio por nós espargeo, nem que podemos fazer neste +mundo por elle, que muito mais, o primeiro não fizesse por nós, elle +sendo filho de Deos, se abaixou a fazer homem por nos fazer filhos de +Deos, e nós filhos de homens, ainda por elle não faremos por onde filhos +de Deos pareçamos? Elle padeceo por nós, só nu, e despido, sem galardão, +e nós cubertos de armas, e acompanhados, e com galardão, muito maior que +merecimento, receamos peleijar por quem assi por nós morreo, para que +nos fez logo Deos, para que nos teve amor tão sobejo, que por remir tão +ingratos servos, deu seu proprio filho, sendo logo (quanto assi por nós, +e nós possamos fazer por elle) feito tudo só por nós, e para nós, que +Deos nada lhe faz mister? Certo não é de homens, nem de Cavalleiros, e +muito menos de Christãos, e mais nós Portuguezes recearmos trabalho, que +nos sae em tanta gloria, nem morte que nos passa a vida para sempre +segura da morte, pelo qual meus bons Cavalleiros tenhamos muita Fé, e +muita Esperança, em N. Senhor, o dia de amenhã em que com sua graça +venceremos a batalha, será de tanto prazer para nós, e nos aprezenta +tanta gloria e honra para o outro mundo, e para este cuidando no premio, +faz ligeiro o trabalho; não cureis de nhumas rezões, nem temores que a +lembrança de Deos só, e de tanto bem nosso, no los deve lançar fóra de +nossos corações. Hi-vos agora todos em boa hora a repouzar, e esperai +com muito prazer, e descanço o dia damenhã, tão ledo, e de prazer, como +nunca foi a Cavalleiros, tanto que amanhecer vamos logo com a ajuda de +Deos, e sua graça ao que viemos fazer, que elle ha de ser comnosco como +sempre o é com os seus, e elle por sua piedade no-lo dará feito, e +vencido, em nossas mãos, e de manhã prazendo a elle acabareis de +confirmar para sempre o bom nome, e louvor que os Portuguezes tem de +saberem bem aguardar seu Senhor nas pressas, e perigos maiores, porque +com a ajuda do Senhor Deos, eu espero tomar tal lugar na peleija, onde +me faça mester vossas mãos, e ajuda». + +Quando os Portuguezes ouviram taes palavras, com tanto e tão confiado +esforço do Principe, foram assi todos esforçados, e animados de um +coração para servir a Deos, e a elle naquella batalha que pareceo ser +trespassado em cada um o mesmo esforço, que no Princepe viam, +responderam todos mui ledos, que pois elle queria, e lhe assi perecia, +elles estavam mui prestes para fazer o que sempre fizeram aquelles donde +elles decendiam. + + + + +CAPITULO XV + +_Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso Anriques, +posto na Cruz como padeceo por nós_. + + +Quando foi contra a tarde depois que o Princepe fez poer as guardas em +seu arraial, o Irmitão que estava na Irmida, que acima dissemos, veio a +elle, e disse-lhe: «Princepe D. Affonso Deos te manda por mim dizer, que +pela grande vontade e desejos que tens de o servir, quer que tu sejas +ledo, e esforçado, elle te fará de menhã vencer El-Rei Ismar, e todos +seus grandes poderes, e mais te manda por mim dizer, que quando ouvires +tanger uma campainha que na Irmida está sairás fóra, e elle te +apparecerá no Ceo, assi como padeceo pelos peccadores». (E já antes +desto elle tinha feito, e dotado com grande devação o Moesteiro de Santa +Cruz de Coimbra, á honra da morte e paixão que N. Senhor recebeo na +Cruz, pelo qual é de crer que lhe quiz Deos assi apparecer, porque por +onde cada um mais merece, por hi o mais honra, e alevanta) Des que se +partio o Irmitão, o Princepe D. Affonso poz os giolhos em terra, e +disse: «Oh bom Senhor Deos todo poderoso a que todalas creaturas +obedecem, sogeitas a teu poder, e querer, a ti só conheço, e tenho em +mercê os grandes bens e mercês que me tens feito, e fazes em me mandares +prometer tão grande cousa, como esta, e tu Senhor sabes que por te +servir, passei muita fadiga e trabalho contra estes teus imigos, com os +quaes, por serem contra ti, eu não quero paz, nem os ter por amigos, e +pois em quanto viver, me não heide partir de teu serviço á tua infinda +piedade peço que me ajudes, e tenhas em tua santa guarda; porque o imigo +da linhagem humanal não seja poderoso para torvar teu santo serviço, nem +fazer que os meus feitos sejam ante ti aborrecidos». + +E desde que esto disse com outras muitas devotas palavras, encomendou-se +a Deos, e á Virgem gloriosa sua Madre, acostou-se, e adormeceo, e quando +foi uma hora, ante menhã tangeo-se a campa, como o Irmitão disséra, e +então o Princepe saio-se fóra da sua tenda, e segundo elle mesmo disse, +e dentro em sua Estoria se contem, vio Nosso Senhor em a Cruz no modo +que disséra o Irmitão, e adorou-o mui devotamente com lagrimas de grande +prazer, confortando-se, e animando-se com tal elevamento, e confirmação +do Espirito Santo, que se afirma (tanto que vio N. Senhor) haver antre +outras palavras falado alguma sobre coração, e espirito humano dizendo: +«Senhor, aos Ereges, aos Ereges faz mister appareceres, que eu sem nhuma +duvida creio, e espero em ti firmemente». Esto mesmo não é para leixar +de crer, o que tambem se afirma que neste apparecimento foi o Princepe +D. Affonso certificado por Deos de sempre Portugal haver de ser +conservado em Reino, e o tempo, e caso, aquella ora sua virtude, e +merecimentos eram taes para lho Deos prometer. E mais se afirma que por +ser esta a vontade de N. Senhor confirmou-o depois um parceiro de S. +Francisco homem santo, que veio a Portugal, do que nos tempos passados, +e em nossos dias, Deos seja louvado, se vio muito grande mostra desto +atégora, e será para sempre; tudo é para crer que N. Senhor queria, e +faria a Princepe tão virtuoso, sobre que fundava Reino, e Reis tão +virtuosos, para tanto seu serviço, e da santa Fé Catholica, e por suas +cousas andarem por culpas dos tempos em mui falecida lembrança de +escritura quiz Deos, segundo parece, que ficassem algumas em confirmada +fama. + + + + +CAPITULO XVI + +_Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes para +peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei_. + + +Tanto que N. Senhor desapareceo, o Principe mui cheio de prazer, e +esforço, se veio para sua tenda, e fez-se armar, mandando dar ás +trombetas, e atabales, e anafins, os do arraial foram logo todos +levantados, e começaram-se de confessar, e ouvir suas Missas, e +commungar encomendando-se todos a Deos, com grande devação, e alegria. +Esto acabado partio o Princepe sua gente em quatro azes, na primeira +meteo trezentos de cavallo, e tres mil homens de pé, e na reguarda fez +outra az em que iam outros trezentos de cavallo, e tres mil de pé; uma +das azes fez de duzentos de cavallo, e dous mil de pé, outra az fez de +outros tantos, que eram por todos dez mil homens de pé, e mil de +cavallo; na primeira az ia o Princepe com mui bons Cavalleiros, ia com +elle D. Pero Paes Alferes que levava sua bandeira, e D. Diogo Gonçalves, +que era grande rico homem; a reguarda foi encomendada a D. Lourenço +Viegas, e a D. Gonçalo de Souza, e a az esquerda a Mem Moniz filho de D. +Egas Moniz já finado, e a direita a seu irmão Martim Moniz. + +Não cessava o Princepe em ordenando as azes, e depois de ordenados, +correndo por todos a anima-los, e esforça-los, chamando-os por seus +nomes, trazendo-lhe á lembrança o que lhes tinha falado, e encomendado, +e nelles cabia fazer, e assi desde que o Sol sahio, e ferio nas armas +dos Christãos, maiormente indo acompanhados da graça de Deos +resplandeciam e reluziam tão grandemente, que ainda que poucos fossem, +não havia poder maior que os não temesse. + +Os Mouros tambem de seu cabo postos no campo, fizeram de si doze azes de +gente mui grossa, assi de pé, como de cavallo, e quando os Senhores e +grandes que estavam com o Principe viram as azes dos Mouros, e grande +multidão delles sem conto, chegaram ao Principe, e disseram: «Senhor, +nós vimos a vós que nos façais uma mercê, a qual será grande bem, e +honra dos que aqui viverem, e aos que morrerem, e a todolos os de sua +geração». O Princepe lhe respondeo que dissessem, que não havia cousa, +que em seu poder fosse de fazer, que de boa vontade não fizesse, elles +disseram: «Senhor, o que toda esta vossa gente vos pede é, que vós +consintais que vos façam Rei, e assi haverão mais esforço para +peleijar». Respondeo elle e disse: + +«Amigos seres irmãos, eu assaz tenho de honra, e senhorio antre vós, por +sempre ser de vós mui bem servido, e guardado, e porque desto me +contento muito, não me quero chamar Rei, nem se-lo, mas eu como vosso +irmão, e companheiro, vos ajudarei com meu corpo contra estes infiels +imigos da Fé, quanto mais que para o que dizeis o lugar, nem ora, não +são convenientes, pelo qual para o feito em que estamos vós sede mui +esforçados, e não temais nada, que o Senhor Jesu Christo, por cuja Fé +somos aqui juntos, e prestes para peleijar, e esparger nosso sangue, +como elle fez por nós, nos ajudará contra estes imigos, e os dará +vencidos em nossas mãos, e o preciozo Apostolo Santiago cujo dia hoje é, +será nosso Capitão, e valedor nesta batalha». Responderam elles todos: +«Senhor praza a Deos que assi seja, e não menos o esperamos de sua +graça, porém para elle ser milhor serviço de vós, e de nós neste feito, +e em todos os outros adiante, é mui necessario que vos alcemos por Rei, +e não deve uma só vontade vossa trovar a de todos que vo-lo tanto +pedimos, e desejamos». O princepe vendo-se tão aficado delles, disse que +pois assi era que fizessem o que lhes bem parecesse. Então todos o +levantaram por Rei; bradando com grande prazer e alegria: «Real, Real, +por El-Rei D. Affonso Anriques de Portugal». Anno de Christo de mil +cento e trinta e nove (1139). + + + + +CAPITULO XVII + +_Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de Portugal deu +batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande vencimento +della_. + + +Feito esto El-Rei cavalgou logo em um cavallo grande, e fermoso, que lhe +foi trazido cuberto de suas armas brancas, como dantes trazia, e os +senhores Cavalleiros se tornaram cada um a suas azes, e lugares +ordenados, e sem mais tardança, moveram contra os Mouros que já vinham +contra elles. El-Rei quando vio ser tempo disse a D. Pero Paes seu +Alferes que abalasse mais rijo com a bandeira, e toda sua az, o fez +assi, e foram todos juntos ferir nos Mouros mui rijo, onde El-Rei que ia +diante ferio um Mouro da lança, de tal sorte, e encontro, que deu logo +com elle morto em terra, e rompendo a primeira az dos Mouros chegaram á +segunda da gente mui grossa, e ali foi grande sem conto o poder dos +Mouros, que tambem das outras azes carregaram sobre El-Rei. Então D. +Lourenço Viegas, e D. Gonçalo de Souza que traziam a reguarda acodiram a +El-Rei mui esforçadamente, e foi a peleija mui grande, e ferida de ambas +as partes, esso mesmo Martim Moniz, e Mem Moniz irmãos, Capitães das +azes entraram cada um de sua parte na batalha, como esforçados +Cavalleiros que eram, fazendo grande matança nos Mouros. + +Todos o faziam muito bem: mas em especial El-Rei da ventagem que era mui +grande de corpo, e de mui assinada valentia, de força grande, e coração +muito maior, e gram cortador de espada, e por tanto seu peleijar onde se +topava, antre todos era avantejado. Foi esta batalha tão bravamente +peleijada, que durou até horas do meio dia, sem tomar fim, sendo o dia +tão quente, e tanto pó naquelle tempo, que cada uma destas cousas com +pouca mais afronta os devera cansar; mas N. Senhor que era com El-Rei D. +Affonso tão esforçado Cavalleiro, e com os seus lhes deu esforço, como +nem com nhuma destas cousas, nem com tanta multidão de Mouros +afraquassem dando-lhe batalha, e de tudo tão grande vencimento, qual se +não deu, de tão poucos, e tantos em batalha campal aprazados; foi assi +vencido El-Rei Ismar, e os quatro Reis Mouros que vinham com elle, e +mortos na peleija mui grande conto de Mouros, e muitas das molheres +pelejadoras, que acima dissemos, nem da parte dos Christãos foi a +vitoria sem perda grande, morreram muitos antre os quaes Martim Moniz +Capitão da az direita, e D. Diogo Gonçalves, homens mui principaes. + +Não se espante ninguem, nem duvide do que em cima escrevo da grandeza +deste vencimento, como já vi espantar alguns por mo assi ouvirem, quando +Plutarco, e outros Authores Gregos, e assi Tito Livio com outros +Latinos, concordando affirmam, e dizem a vitoria da batalha que Lucullo +Lentullo Capitão de Roma houve em Asia contra El-Rei Tigrames ser a +maior que o Sol nunca vio sendo os Romãos onze mil de pé, a fora a gente +de cavallo, e os imigos duzentos e vinte mil de peleija, havendo-o logo +com gente tão cobarda, e prestes para fogir, que sobre morrerem delles +cem mil no desbarato, dos Romões sómente cinco morreram, e feridos não +passaram de cento, donde se escreve, que os Romãos houveram vergonha, e +se riram de si mesmos por tomarem armas para tão vil gente, da qual +segundo affirma Tito Livio eram os vencedores quasi a vigessima parte, o +que em mui maior gráo, e desigualança se deve estimar, e dizer desta +vitoria del-Rei D. Affonso assi pelo muito mais numero de imigos, e +menos dos Christãos, como pela valentia, e animosidade, e seita +contraria dos infieis, e além desso vezados ás mesmas guerras nossas, e +a muitas vitorias havidas contra nós, com que se tinham feito vencedores +da Christandade, e senhoreado o mundo, nem des o tempo de Lucullo +Lentullo para cá, não acho vitoria destas mais assinadas, que foram; +porque desta del-Rei D. Affonso se devia julgar, nem dizer menos do que +disse. + + + + +CAPITULO XVIII + +_Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida acrecentou em +suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, e da nova +que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que ahi foram tomados_. + + +Depois da batalha vencida esteve El-Rei D. Affonso tres dias no campo, +como é de costume fazerem os Reis se forçados necessidade lhes não vem, +e estando assi no campo, em lembrança da grande mercê que lhe Deos +naquelle dia fizera acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que +lhe alli acontecera, no Ceo, em Cruz. Poz sobre o campo que dantes no +Escudo trazia, por Armas uma Cruz toda azul, partida em cinco Escudos, +pelos cinco Reis que vencera, e meteo trinta dinheiros de prata em cada +um dos Escudos em relembrança da morte e Paixão de Jesu Christo, vendido +por trinta dinheiros, e os Reis de Portugal, que depois vieram, vendo +que se não podiam meter tantos dinheiros em pequenos Escudos Darmas +puzeram em cada um dos cinco Escudos cinco dinheiros em aspa, e assi +contando por si cada uma carreira da Cruz do longo, e atravez metendo +sempre no conto de ambas as vezes o Escudo da ametade, fazem trinta +dinheiros, e desta maneira se trazem agora. + +Depois dos tres dias passados que El-Rei D. Affonso esteve no campo com +mui grande honra, e grandes prezas de ouro, e prata, presioneiros, e +gados tomados na batalha, tornou-se para Coimbra. Antre os prisioneiros +era um bom quinhão de gente que chamavam Moçaraves, os quaes eram +Christãos, que os Mouros tinham por cativos naquella terra, e quando +El-Rei chegou a Coimbra o Prior de Santa Cruz o saio a receber, e +disse-lhe: «Oh Senhor Rei, e vós outros nobres varões que sois filhos da +Santa Madre Egreja, porque trazeis assi prezos, e cativos estes +Christãos irmãos vossos como se fossem infieis, devendo-os de ter, e +tratar como vós mesmos; ora vos peço senhor, pois são da Lei de Christo +como nós, sejam soltos, e livres da prizão». E El-Rei que era muito +sogeito a toda rezão, e virtude, de todo bom, e verdadeiro Christão, +outorgou logo no que o Prior falou, e os mandou todos soltar, e livrar +de cativeiro. + +Vinham entre estes Moçaraves dous homens de grande idade, e mui louvada +vida, os quaes contáram a El-Rei como já estiveram no cabo da terra do +Algarve que mais sae ao mar do Occidente, que naquelle lugar jazia o +Corpo de S. Vicente, ao qual elles alli viram fazer muitos milagres. +Quando El-Rei esto ouvio, tomou grande desejo de haver aquelle Santo +Corpo em sua terra, mas pois me a Estoria trouxe a fazer menção de tão +glorioso Martyre que em Portugal temos, parece-me erro passar assi por +elle, sem dizer primeiro ao menos em soma como, e onde foi martyrizado, +e seu Corpo guardado dos Christãos, e depois em seus lugares contarei +como foi trazido áquelle Cabo, que se ora de seu nome chama Cabo de S. +Vicente, onde por duas vezes foy buscado, e não se podendo achar da +primeira, foi achado da segunda, e foi trazido á Cidade de Lisboa. + + + + +CAPITULO XIX + +_Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e mandou +matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de +Christo_. + + +Foi S. Vicente natural da Cidade de Osqua, que ora é no Reino de Aragão, +de nobre linhagem, de Fé, e virtude muito mais nobre. Foi discipulo do +Martyre Papa Sixto I e praceiro muito como irmão de S. Lourenço, e sendo +enviado a Espanha pelo Papa, chegou-se a S. Valerio Bispo de Valença, o +qual por ser empachado na lingoa, em prégações, e muitos outros autos do +serviço de Deos, cometia o carrego a S. Vicente. Era então Emperador de +Roma Diocleciano gentio, que fez geralmente pelo mundo a decima +persecução contra Christãos, que durou dez annos, e foi maior, e mais +cruel, que nhuma feita antes, nem depois, e antre muitos emxuqutores, +que a esso mandou por todalas Provincias, enviou Daciano em Espanha o +qual estando em a Cidade de Valença, tanto que soube da vida de S. +Valerio, e S. Vicente, e da doutrina de Christo, que ao povo prégavam, +os fez trazer ante si, preguntando-lhes, e emquerendo com gram sanha, e +ameaços pelas obras que faziam, e prégavam, e S. Valerio por ser já +velho, e empachado da fala, como dito é, começou a responder manço, e de +vagar. + +Disse então S. Vicente a S. Valerio: «Padre não cumpre aqui resposta que +seja emcolheita, mas se mandardes eu responderei a este Juiz». S. +Valerio respondeo: «Pras-me filho, que como sabes dias ha que te tenho +minhas vezes cometido». Então S. Vicente respondeo, e falou a Daciano +com tanto fervor, e constancia pela Fé de Christo, que Daciano mui irado +o mandou fortemente atormentar mudando-lhe, e dobrando-lhe, (a fim de o +tirar de Christo por muitos dias) os tormentos, taes, e tantos, quanto +crueza sobeja muito podia sobejamente inventar e fazer, sem ficar nhum +que se possa cuidar, os quaes por brevidade, dizer escuzo. Vendo-se +Daciano com todos seus tormentos, perante todos vencido, e S. Vicente +cada vez em elles mais vencedor, e glorificado, receando, que se por +então morresse nos tormentos leixaria de si maior gloria, mandou que o +lançassem em sua cama mui mole, e curar muito bem delle, para depois de +convalecido lhe renovar novas dores, e chagas, e assi por continuação de +tormentos faze-lo render; mas elle jazendo naquella preciosa, e não +caridosa cama, deu a Alma a Deos, que como sua a levou para si, e a quiz +haver por escuza de mais exames, nem provas de virtudes. + +Sabendo sua morte Daciano ainda então se não doeo delle, se não de sendo +vivo lhe ser tolhido sua crueza, dizendo: «Pois em vivo o não venci, +morto o vencerei, e desfarei». Mandou então lançar o Corpo ás aves, e +animalias, que o comecem, onde houve pelos Anjos tão guardado, que nhuma +lhe poz boca, antes de Corvos que al não buscavam, foi um visto +guarda-lo, e defende-lo, o que sendo dito a Daciano, disse com a mesma +sanha, e crueza dantes demais: «Se nem morto o poderei vencer». Então +mandou atar uma grande mó ao Corpo, e lanca-lo no mar para debaixo do +mar ser escondido, e desfeito, quem sobre a terra não pudéra; mas o +Corpo de S. Vicente milagrosamente veio até á terra primeiro que o mesmo +barco, que o foi deitar, e alli por sua revelação foi sabido e recolhido +seu Corpo dalguns Christãos, que o devotamente enterraram, fazendo ahi +sempre muitos milagres. Padeceo depois de N. Senhor duzentos e oitenta e +sete annos (287). Deste Martyre precioso falam muitos Doutores, mui +grandes louvores, antre os quaes diz delle Santo Agostinho: «Oh +Bemaventurado Vicente, verdadeiramente venceste: venceo nas palavras, +venceo nas penas, venceo queimado, venceo alagado, venceo vivo, venceo +morto». + + + + +CAPITULO XX + +_Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de S. +Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo achar +se tornou para Coimbra_. + + +Contam as Estorias dos Arabigos, que andando a era dos Mouros, em cento +e trinta e cinco annos, se levantou nas Espanhas um poderoso homem, a +que chamavam Abdenamer, o qual começou a conquistar, e sobgigar por +Espanha assi Mouros, como Christãos, não achando Santuario de Christãos, +que não destruisse, nem ossos de Martyres, que não queimasse, e andando +nesta conquista foi ter a Aragão, e a Valença, e os homens que tinham o +Corpo do Martyre S. Vicente, quando souberam de sua vinda, e do que +fazia ás Reliquias, e Corpos dos Santos, houveram seu acordo de fogirem +com elle, para terra onde fosse guardado; aprouve a N. Senhor de os +guiar áquelle Cabo chamado ora de S. Vicente, como acima se diz, para o +seu Corpo alli ser enterrado, e escondido, e aquelles homens bons que o +trouxeram, estiveram continuadamente com elle até que por alli chegou um +Cavalleiro Mouro, que morava naquella terra dos Algarves, natural do +Reino de Fês a que chamavam Albofacem, e contam as Estorias em como elle +disse, que andando por alli de noite achára certos homens guardando +aquelle Corpo, os quaes matara, e leixara o Corpo. + +El-Rei D. Affonso ouvindo o conteudo nesta Estoria com o que lhe tinham +falado e affirmado os dous velhos Moçaraves de como estiveram no mesmo +lugar, onde jazia o Corpo de S. Vicente, teve Conselho com os seus em +que modo o poderiam haver, e acordaram que fizessem tregua com os +Mouros, e por tempo certo. Ellas feitas El-Rei D. Affonso partio de +Coimbra para aquelle lugar, com tanto desejo, e devação, que apagava em +seu coração todo receio, trabalho, e perigo que nisto corria, e chegando +lá fez buscar com grande deligencia o Corpo, e nunca o pode achar por N. +Senhor ter ordenado, que o Jazigo deste glorioso Martyre fosse na Cidade +de Lisboa onde agora jaz, a qual ainda então era de Mouros. Quando +El-Rei D. Affonso vio que não podia achar este Santo Corpo, como quer +que muito lhe pezasse, remeteu seu pezar á vontade de Deos, que por +então parecia ser aquella, e dali tornou-se para Coimbra. + + + + +CAPITULO XXI[4] + +_Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a El-Rei +Dom Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi, e o que nisso passou +com o Bispo_. + + +Depois disto, estando El-Rei D. Affonso Henriques em Coimbra, sua Mãi se +enviou muito querelar ao Santo Padre da prisão em que a tinha seu filho +tantos tempos havia; e o Padre Santo teve aquella cousa por estranha e +muito mal feita, e determinou de mandar a Portugal sobre isto o Bispo de +Coimbra que então lá estava em Roma, dando-lhe cartas e grandes mandados +para El-Rei D. Affonso que tirasse sua mãi da prisão, e não o querendo +assim comprir fosse interdito posto em todo o reino. + +Partio-se o Bispo para Portugal, e veio a El Rei, ao qual depois de dar +as letras do Santo Padre e dizer sua embaixada, El-Rei disse ao Bispo: +«Que tinha o Santo Padre de fazer em elle ter sua mãi preza? Que fosse +bem certo que nem por mandado do Papa nem d'outro nenhum elle em modo +algum a soltaria, porque o havia assim por mais serviço de Deos e bem de +seu Reino.» Quando o Bispo vio que outro recado não podia nem esperava +achar em El-Rei, trabalhou-se de comprir o que o Santo Padre lhe tinha +mandado, e então excummungou toda a terra e partiu-se de novo fugindo. + +Quando veio pela manhã disseram a El-Rei que era excommungado e toda sua +terra, do que sendo mui irado se foi á Sé, e fez entrar todos os Conegos +no Claustro em Cabido, e disse-lhes: «D'entre todos me dai um Bispo». +Elles responderam todos: «Bispo temos; como vos daremos outro Bispo?» +Disse El-Rei: «Esse, que vós dizeis nunca aqui será Bispo em todos meus +dias; mas pois assim é, sahi-vos todos pela porta fora, e eu catarei +quem faça Bispo». Elles sahiram-se, e El-Rei vindo pela Claustra vio vir +um clerigo que era negro, e disse-lhe: «Como has nome?» O clerigo +respondeu: «Hei nome Martins».--«E teu pai como se chamava».--Colleima +disse elle. El-Rei perguntou-lhe: «És bom clerigo, ou sabes bem o +officio da Igreja?» E elle respondeu: «Não ha ahi melhores dous na +Hespanha, nem que o melhor saibão». Então disse El-Rei: «Tu serás Bispo +Dom Colleima, e ordena logo como me digas Missa». «Senhor», disse elle +«eu não sou ordenado como Bispo, para vo-la poder dizer». Acudio El-Rei: +«Eu te ordeno como Bispo, que m'a possas dizer, e apparelha-te como logo +m'a digas, senão eu te cortarei a cabeça com esta espada». E o clerigo, +com medo, revestio-se para dizer Missa solemnemente como Bispo. + +Sabido este feito em Roma, cuidaram que El Rei era herege, e enviou-lhe +o Papa um Cardeal que lhe ensinasse a fé. + + + + +CAPITULO XXII + +_Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El-Rei D. Affonso +Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados_. + + +A novidade que esta cousa assim feita por El-Rei D. Affonso Henriques +assim poderá parecer a quem quer que a ler e ouvir, como pareceu +naquelle tempo, me faz haver por necessario, antes que mais por ella +prosiga, fazer alguma salva deste caso por trazer comsigo mostra de +exorbitancia. No que certo, assim como se não pode negar cousas de tal +modo feitas serem fóra do que os homens devem, assim se não pode deixar +de confessar o modo e maneira do Rei ser mui fóra dos outros homens; que +o Rei não é Rei per si nem para si, e para obrar e se salvar, outro ha +de ser o caminho do Rei, outro o do frade. E pois o coração do Rei é na +mão de Deos e onde Deos quer o inclina, segundo diz a sagrada +Escriptura, como se deve crer nem cuidar que Rei catholico e virtuoso +faça nenhuma cousa similhante fora da vontade e querer de Deos, ainda +que seja fóra da vontade e parecer dos homens? Que assim como Deos, sem +nosso saber, nos leva muitas vezes por onde não queremos ao que mais +devemos querer, assim é de cuidar que dispensa occultamente, sempre +porem justamente, como se faça ás vezes o que parece que não deve ser, +porque venhamos ao que elle quer e ordena que seja. + +Ordenava Deos e queria constituir e estabelecer Portugal reino para +muito misterio de seu serviço, e exalçamento da santa fé; como elle seja +louvado se manifestou e cada vez mais manifesta, no que com muita razão +póde tambem entrar este feito d'El-Rei D. Affonso Henriques em fazer +assim este bispo como figura já então prognosticada do grande misterio +que só por mão de seus successores Nosso Senhor adiante ordenava, que as +gentes tinctas das Ethiopias e Indias, e outras terras novamente por sua +navegação e conquista achadas, viessem a entrar e ser mettidas na fé de +Christo; e isto tanto pela ventura por Deos querido e figurado então +neste um negro assi tomado e metido no seio da Santa Madre +Igreja,--quanto agora a seu muito louvor se vê manifestado e comprido em +mui e muitos outros, por mão dos successores de quem aquillo fêz. Assim +que era El-Rei D. Affonso posto então nos começos destas cousas, tendo +Castella por contraria e pelo seu respeito por ventura o Papa, e pois +lhe Deus para isso tirava e desfazia os impedimentos, e chegava todos os +bens e ajudas, como não creremos que dispensando com a ordem que deu +geralmente entre os homens, inspirasse no coração de El-Rei D. Affonso +que houvesse por bem fazer assim por então aquellas cousas, e as +fizesse; quanto mais perseverando elle depois no preposito dellas sem +mostrança d'arrependimento, como cousa que assim mais compria ao +misterio que se de Portugal ordenava, que era constituir-se Reino, e +constituido accrescentar-se, e accrescentado conservar-se, sem ter dever +com impedimentos humanos contrarios a tal disposição e juiz divino? + +Tem a igreja por Santas, e faz festa a certas mulheres que se matarão, +por em seus corpos não consentirem corrompimento, e ha por salvo Santo +Sansão, que tambem se matou, e outros muitos comsigo; havendo a Igreja +por certo que o virtuoso coração destes não podia obrar tamanho mal como +é matar-se, senão pelo instincto de Deos inspirado. Quanto mais deve +cuidar e crer em menos erro de Reis virtuosos por Deos mui ajudados e +prosperados sendo pessoas publicas postas nos reinos para bem dos reinos +por Deos, e nas mãos de Deus mais que nenhuns outros homens; e posto que +por ventura se veja ou leia, que cousas assim feitas não carecerão neste +mundo de alguma punição, é de cuidar que ordena Deos isso por que se +conserve todavia proposito e exemplo do que geralmente mandou que se +fizesse, maiormente não sendo as tribulações e penas deste mundo +condenação para o outro, mas provação ou mezinha por de um muito bom rei +fazerem ainda melhor, dando-lhe azo e cauza de mais lembrança e +conhecimento de Deos e da virtude. Porque, como diz S. Gregorio, os +males que neste mundo nos apressão para Deos nos empuxão; pelo qual os +similhantes casos em principes Catholicos e virtuosos, como era El-Rei +D. Affonso Henriques, não os queiramos assim ligeiramente julgar, que +não remettamos o intrinseco delles áquelle Supremo Saber do Senhor Deos, +por cuja providencia se não faz nada neste mundo sem causa, e assim não +nos fará novidade nem espanto lê-los nem ouvi-los. + + + + +CAPITULO XXIII + +_Como o papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a prisão de +sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles se passou +em Coimbra_. + + +Quando as novas chegaram ao Santo Padre de como El-Rei D. Affonso +Henriques não queria obedecer a suas cartas e mandados para soltar sua +mãi, e fizera assim aquelle Bispo da maneira que se disse, o Santo +Padre, e toda a Côrte, teve que elle era Herege, e propozeram de lhe +enviar um Cardeal, que o ensinasse e mostrasse a fé, e corrigisse de +quaesquer erros que tivesse. O qual veio pelas Côrtes dos Reis de +Hespanha, que sahião a recebe-lo mui honradamente. E vindo já o Cardeal +perto de Coimbra onde El-Rei estava, vieram alguns fidalgos a El-Rei e +disserão-lhe: «Senhor, aqui vos vem um Cardeal de Roma por estardes em +desprazer e descontentamento do Papa por este Bispo que fizestes.» Disse +El-Rei. «Ainda me não arrependo.» Elles proseguindo mais avante pela +nova do Cardeal, disseram: «Senhor, todos os Reis por cujas terras vem, +segundo se diz, lhe fazem quanta honra podem, e provão para lhe beijarem +a mão.» Disse então El-Rei: «Não sei Cardeal nem Papa que a Coimbra +viesse, e me tendesse a mão para lh'a beijar em minha casa que lhe eu +não cortasse o braço pelo cotovello com esta espada, e disto não podia +escapar.» + +Estas palavras soube o Cardeal em chegando a Coimbra, e tomou grande +receio, e El-Rei não quiz sahir fóra a recebê-lo. O que logo o Cardeal +teve a máo sinal, e portanto em chegando se foi direito a Alcaçova onde +El-Rei pousava. Alli o recebeo El-Rei mui bem e disse-lhe: «Pois, +Cardeal, a que viestes a esta terra, ou que riquezas me trazeis de Roma +para estas hostes que tão a miude faço de dia e de noute contra Mouros? +Dom Cardeal amigo? Se vós por ventura me trazeis algo que me dês, +dai-mo, e se me não trazeis nada, tornai-vos vossa via.» «Senhor,» disse +o Cardeal: «Eu sou vindo a vós da parte do Santo Padre para vos ensinar +a fé de Christo.» Respondeu então El-Rei: «Certo assim temos nós outros +cá bons da fé nesta terra como vós lá em Roma, e portanto bem sabemos +como o Filho de Deos encarnou na Virgem Maria e della nasceo, e isto por +obra do Espirito Santo, e como morreo na cruz por remir a geração +humanal e descendeu aos infernos, e ao terceiro dia resurgiu não mortal, +e que o Padre e o Filho e o Espirito Santo são Tres Pessoas realmente +distinctas em uma só essencia. Esta fé temos e cremos firmemente tão bem +como vós lá em Roma; pelo qual não havemos por agora mister de vós outra +doutrina nem ensino. Mas deem-vos agora essas cousas que houverdes +mister, e de manhã, se Deos quizer, eu e vós fallaremos.» + +Foi-se então o Cardeal para a pousada, e mandou logo pôr cevada ás +bêstas, e tanto que foi meia-noute mandou chamar todos os clerigos da +cidade e excommungou a cidade e todo o Reino, e cavalgou, e foi-se da +guisa que ante manhã andou duas legoas. + + + + +CAPITULO XXIV + +_Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal +escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle +passou_. + + +Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manhã, e disse a seus cavalleiros: +«Vamos ver o Cardeal.» Disseram elles: «Senhor, ante manhã se foi daqui, +e deixou excommungado a vós e a toda vossa terra.» Disse assim El-Rei: +«Sellem-me á pressa tal cavallo:» e cingio sua espada, e cavalgou a +grande pressa quanto pode após elle. Seguião-o todos, mas elle, segundo +era melancholico, não quiz esperar por ninguem, e foi alcançar o Cardeal +em um lugar que chamão a Vimieira, a par de Poiares, caminho da Beira, e +como chegou a elle lançou-lhe mão do cabeção, e com a outra tirou a +espada, e alçou o braço com ella, dizendo: «Dá a cabeça, traidor,» +querendo-lh'a cortar. Disserão quatro cavalleiros, que ahi chegarão com +elle: «Senhor, por mercê não queiraes tal fazer, que se matardes este +Cardeal cuidarão de todo em todo que sois herege.» Disse então El-Rei: +«Por essa palavra que ora dissestes, vós lhe daes a cabeça; mas pois +assim é, disse El-Rei, Dom Cardeal, ou vós desfazei quanto fizeste, ou +cá vos ficará todavia a cabeça.» «Senhor» disse o Cardeal «não me +queiraes fazer mal, e toda a cousa que vós quizerdes eu a farei de boa +mente.» «O que eu quero que vós,» disse El-Rei «façaes, é que +descommungaes quanto excommungastes, e que não leveis daqui ouro, nem +prata, nem bestas senão tres que vos abastarão, e mais que me envieis +uma letra de Roma que nunca eu nem Portugal em meus dias seja +excommungado, que eu o ganhei com esta minha espada. E isto quero de vós +por agora, e porem vós deixareis aqui este vosso sobrinho filho de vossa +Irmã, em prenda até que a letra venha, e se ella até quatro mezes aqui +não fôr que eu lhe corte a cabeça.» A tudo, disse o Cardeal que lhe +aprazia, e assim ficou de fazer. Então lhe tomou El-Rei quanta prata e +ouro lhe achou e bêstas, e não lhe deixando mais de tres que levasse, e +disse-lhe: «Ora, Dom Cardeal, ide-vos ahi vosso caminho, que este é o +serviço que eu de vós quero, e todavia venha a letra.» E isto acabado +ante que se o Cardeal partisse tirou El-Rei a capa pelle, e despio-se +todo e mostrou muitos signaes de feridas que tinha pelo corpo e disse: +«Cardeal como eu sou herege bem se mostra por estes signaes, que eu +houve estas em tal peleja e tal, e estas em tal cidade ou villa que +tomei, e todas por serviço de Deos contra os inimigos de nossa fé; e +para isto levar adiante vos tomo este ouro e prata, porque estou muito +mingoado e me faz mister para mim e para os meus.» Foi-se então o +Cardeal, e El-Rei tornou-se a Coimbra. Por estas muitas feridas que +El-Rei assi mostrou ao Cardeal, se póde conhecer quanto maiores forão +seus feitos e valentia do que se achão escriptos, porque em nenhum cabo +faz a historia menção que fosse ferido nem uma só vez de tantas nem em +que lugar. + +Mandou El-Rei logo um escudeiro á Corte de Roma a saber lá o mais +encubertamente que pudesse que era o que o Papa e Cardeaes lá dizião +delle por estas cousas que fazia. E o escudeiro partiu e andou de tal +pressa que chegou primeiro que o Cardeal. A cabo de dias escreveu este +escudeiro a El-Rei D. Affonso uma carta que elle mostrou e fez lêr a +esses do seu Conselho, na qual dizia que quando o Cardeal chegára de +Portugal, e o Papa soubéra como hia, lhe perguntou como passára com +El-Rei D. Affonso; e o Cardeal lhe contou como lhe acontecera com elle, +e como lhe ficára de lhe enviar a letra acima dita. O Papa lhe +reprehendera muito por isto, dizendo que tal cousa como aquella lhe não +pertencia, sómente á Sé apostolica, nem era dado a elle nem a outro +nenhum prometter nem ficar por tal caso.--«Senhor Santo Padre!» disse o +Cardeal: «Eu não digo letra, mas se a cadeira de S. Pedro fôra minha eu +lh'a deixára e déra de boa mente por escapar de suas mãos; que se vós +vireis sobre vós um cavalleiro, tão forte e tão espantoso como elle é, +ter-vos uma mão no cabeção, e outra alçada para vos cortar a cabeça, e o +seu cavallo não menos alvoraçado, ora com uma mão ora com outra cavando +a terra, parecendo que já me fazia a cova, vós dereis a letra e o Papado +por escapardes da morte; e portanto me não deveis de culpar.» Então lhe +outorgou o Papa a letra na maneira que o Cardeal quiz, e mandou-a a +El-Rei antes dos quatro mezes. E El-Rei lhe mandou seu sobrinho mui +honradamente como compria dando-lhe muito. E por causa disto foi depois +este Cardeal sempre tanto amigo d'El-Rei D. Affonso que todas as cousas +que elle havia mister da Côrte lh'as fazia e acabava com o Papa. + +E fêz El-Rei D. Affonso em quanto viveo arcebispos e bispos em sua terra +quaes elle quiz; e a carta que lhe enviou o seu escudeiro mandou ao seu +escrivão que assentasse e escrevesse no livro das Historias. + +Ora torna a historia a El-Rei Ismar que veio a tomar Leiria. + + + + +CAPITULO XXV + +_Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique veio +tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e tomou +Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar Leiria aos +Mouros_. + + +El-Rei Ismar, que foi vencido no Campo Dourique, por El-Rei D. Affonso +Anriques como já dissemos, tendo sempre grande vontade em guerrear +Christãos, em especial depois de haver aquelle grande desbarato, ajuntou +muitas gentes, e veio-se a Santarem, e dali partio levando consigo a +Euzari que era Alcaide da Villa, e correo a terra, até chegar a Leiria, +a qual combateo tão fortemente, que entrou por força matando os mais dos +Christãos que hi acharam, e levando cativo Paio Goterres, que o Prior de +Santa Cruz ahi leixára por Alcaide, e depois de leixarem Mouros no +Castello, e Villa, que a bem mantivessem, e guardassem, tornaram-se logo +para suas terras, fazendo tudo esto com tanta preça, e trigança, que +El-Rei D. Affonso estando em Coimbra não teve tempo para soccorrer, e +vir á batalha com elles. + +Foi tomada Leiria del-Rei Ismar era de N. Senhor de mil cento e quorenta +annos (1140). Quando o Prior de Santa Cruz a que chamavam Theotonio +homem ante El-Rei muito estimado, vio tomada Leiria, que lhe El-Rei D. +Affonso com muita devação, e vontade tinha dado, tomou em si grande +pezar, e partindo-se do Moesteiro, foi-se a guerrear ás terras de +Alentejo, que os Mouros pessuiam, onde tomou a Villa de Arronches, e em +quanto assi o Prior lá andou guerreando, El-Rei D. Affonso tendo grande +pezar por se assi tomar Leiria, ajuntou outra vez gente, e foi sobre +ella, e Deos que sempre o ajudava em todos os seus feitos, lhe deu tão +boa esquença, que por força a tornou a tomar, posto que os Mouros a mui +bem defendessem. E esto foi quatro dias por andar de Fevereiro era do +Senhor de mil cento e quorenta e cinco annos (1145) e porque vio o Prior +a quem elle dantes dera a Villa lha não guardára bem, poz em ella, e no +Castello tal guarda, como compria para sua defensão, que lha não +podessem assi os Mouros outra vez ligeiramente tomar, e tornou-se a +Coimbra. + + + + +CAPITULO XXVI + +_Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz, e +assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os +Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D. +Anrique de Lara_. + + +Acabo de dias, estando El-Rei D. Affonso em Coimbra chegou o Prior de +Santa Cruz, e disse a El-Rei: «Senhor vós déstes a esta vossa Egreja a +Villa de Leiria quando a tomastes aos Mouros, e com quanto eu fiz para +ella ser guardada todo o que bem podia, e devia, porém por nossos +peccados foi tomada de Mouros como se vio, pelo qual eu tomei tanto +nojo, que me fez leixar o modo de meu viver ordenado, e tomar vida de +andar em guerra, no que me ainda Deos ajudou tanto que tomei a Villa de +Arronches, e ora Senhor somos aqui ante vós, eu, e meus amigos, o feito +de Arronches, e Leiria todo pomos em vossas mãos». El-Rei havendo sobre +esso concelho, e vendo como os negocios temporaes não convinham a tal +Habito, e religião, maiormente em feitos de guerra, teve por bem que +todo o espiritual destas Villas ambas, fosse de Santa Cruz, e o temporal +ficasse sempre aos Reis de Portugal. + +Estando assi El-Rei D. Affonso com mui grande honra, e fama em Coimbra, +foi-lhe cometido o cazamento com Dona Mofalda Anriques filha do Conde D. +Anrique de Lara, e a elle aprouve-lhe muito de cazar com ella por estes +respeitos, primeiramente por a Caza de Lara ser havida, por a mais alta +linhagem de Espanha, esso mesmo porque em toda Espanha, não havia molher +nhuma de linhagem de Reis a que elle não fosse mui chegado em +parentesco, tambem por ella ser muito fermosa, e dotada de muitas +virtudes, e bondades, e por tanto tomou mui grande contentamento deste +cazamento, o qual foi feito em Coimbra, era de N. Senhor de mil cento e +quorenta e seis annos (1146) havendo já sete annos que fora levantado +por Rei, e fazendo cincoenta e dous annos de sua idade, e por se não +achar escrito nada das cousas, que se neste cazamento fizeram, nem como +foram, se não poz aqui mais, que sómente cazar El-Rei, e o tempo em que +cazou, pelo qual passando por esto, falaremos, como se El-Rei moveo +depois para tomar a Villa de Santarem. + + + + +CAPITULO XXVII + +_Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D. +Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou_. + + +Ao tempo que os Mouros a que em Arabigo chamam Miçamidas entraram por +Espanha, e destruiram a Cidade de Sevilha na era do Senhor de mil cento +quorenta e sete annos (1147) estava El-Rei D. Affonso em Coimbra havendo +já oito annos que depois de alçado por Rei reinava, o qual havia muito +que tinha grande vontade, e desejos de tomar a Villa de Santarem a uma, +por della se fazer muita guerra, a toda sua terra, a outra por ser a +milhor Villa do Reino, pela nobreza, e abastança de seu assento, que da +parte do Oriente a vista dos homens não se póde fartar de ver a +fermosura dos campos mui chãos, abastados de muito pão, correndo por +elles o grande, e mui nomeado Rio do Tejo, esso mesmo ao Occidente, e ao +meio dia desfallece a vista dos olhos em o ver espaçoso, e ao Norte +contra os Montes, grande avondança de vinhas, e olivaes, pelo qual +falando muitas vezes El-Rei D. Affonso em seu deleitoso, e abastado +assento em todalas cousas, chamava-lhe Paraiso deleitoso; era El-Rei mui +magoado, e todo penoso em seu coração por a ver em poder de Mouros, e +não poder toma-la, com quanto trabalho já tomára sobre ella, porque a +Villa não era tão grande de manter, nem defender, aos que dentro +estavam, nem tão pequena, que se pudesse furtar de poucos, álem desto, +era mui forte de muro, e torres, e barreira da parte do Occidente a que +os Mouros chamam Alfão, porque parecia deste cabo cham, em respeito do +outro cerco que é sobre barrocas mui altas, e da parte do Oriente +fizeram os Mouros carretar tanta terra aos Christãos que tinham cativos, +com que encheram de fundo acima, e fizeram um oiteiro de tal altura, que +lhe puzeram os Mouros nome Alarfa, que quer dizer couza ingreme, e +temerosa, porque lançavam por alli os que eram condenados por sentença á +morte, e iam os corpos mortos ter ao fundo á ribeira do Tejo, e da parte +do Sul por rezão da propriedade da terra esbarrondada que seubre +chamavam Alfange, que em Portuguez soa quebrada, e não se podia por alli +haver entrada ao lugar, se não por recaios, e da parte do Norte não +menos está afortalezado, pela grande altura do Monte que é pedregoso, e +aspero, pelo qual assi pela grande Fortaleza da Villa, que por nhuma +maneira de engenhos se podia combater, como pelo grande percebimento de +muito boa gente, e mantimentos que dentro havia, não podia El-Rei D. +Affonso haver modo de a tomar, nem remedio para tolher a grande guerra, +que já de gram tempo desta Villa se fazia a Coimbra, e a outros seus +lugares. + +Ajudava muito a Fortaleza da Villa, a defficuldade para se poder tomar a +grandeza das aguas do Tejo, que por junto corre, porque quando lhe +El-Rei punha guardas de uma parte, se passavam com seus gados para a +outra, demais que estes campos eram tão cheos de pavez, e insoas, nem se +podiam andar, se não por barcas em tempos certos: por onde a Villa era +tão grave de filhar, que seu avô El-Rei D. Affonso de Castella nunca a +pudera tomar, senão por fome, nem esto mesmo Cid Rei Mouro, nem +Abderazaca que teve o senhorio della trinta e quatro annos, o que +parecerá cousa muito de maravilhar quando se ouvir, que semilhante Villa +foi tomada por El-Rei D. Affonso Anriques com tão pouca gente, e como +quer que elle cuidasse muitas vezes em seu pensamento como a poderia +tomar por força, ou por algum despercebimento, aquelles com que esta +cousa comunicava, representavam-lhe sempre duvidas, de muito grande +perigo, e receo. + + + + +CAPITULO XXVIII + +_Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de +Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que +teve com os seus para ir sobre ella_. + + +Duvidoso El-Rei D. Affonso Anriques nesta maneira de poder tomar a nobre +Villa de Santarem, assi pelas duvidas que punham esses com que falava, +como pela grande deficuldade que desse mesmo feito parecia, com todo seu +grande animo, que sempre em Deos esperava, e a nhumas deficuldades se +rendia, determinou toda via de trabalhar sobre esso, e fazendo treguas +com os Mouros, por certo tempo, mandou D. Mem Moniz sabedor de todo este +negocio, e conselho lá, para que visse, por qual parte, se podia a Villa +furtar, e entrar mais descançado, e seguramente, o qual indo lá, e +assentando a tregua espiou todo mui bem, como homem mui avizado, e de +grande engenho, e esforço que era, e da tornada falou com El-Rei em +segredo fazendo-lhe o caso possivel, prometendo-lhe que elle seria o que +fosse diante, e dos primeiros que no lugar entrassem, e poria a sua +bandeira sobre o muro, e quebraria as fechaduras das portas, e assi o +fez depois, porque era tão bom Cavalleiro, de sua pessoa, e para tanto, +que para servir El-Rei, e cumprir sua Cavallaria, todalas cousas lhe +pareciam mui ligeiras, e seguras de perigo. + +El-Rei foi mui ledo com seu recado, e esforço, porque entendia, +fazendo-se como D. Mem Moniz dizia, a Villa poderia tomar, não sendo +primeiro descuberto, e tanto lhe pareceo que cumpria ser feito com +grande segredo, que não quiz falar esta cousa aos de seu Conselho, em +seu Paço, receando-se de poder ser em algum modo ouvido, antes foi um +dia a folgar ao campo chamado Arnado, e alli apartou D. Lourenço Viegas, +e D. Gonçalo de Souza, e D. Pero Paes seu Alferes, e outros, e +contou-lhes todo seu intento, e proposito do que queria fazer, +mandou-lhes que o tivessem em mui grande segredo sobpena de morte, em +tal guiza, que ninguem o podesse entender, em quanto alli estivessem, +nem á partida, e o conselho acabado, tornou-se El-Rei para o Paço, e +vindo pela rua da figueira velha chegando á Praça disse uma velha +regateira contra as outras: «Quereis vós saber, o que El-Rei com +aquelles seus companheiros falou» disseram ellas: «Que falou?» Falou +disse ella, «como fossem furtar Santarem». El-Rei que passando ouvio +tudo, e vendo todos aquelles com que falara esta cousa ir comsigo diante +sem nunca se apartarem delle, foi assi maravilhando-se até o Paço, e +como descavalgou chamou os todos, e disse-lhes: «Não atentastes no que +disse aquella velha, certo se algum de vós se apartára de mim, eu +cuidava que fora descuberto por elle, e lhe mandara por ello cortar a +cabeça, sem o merecer». + + + + +CAPITULO XXIX + +_Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar +Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella +hora lhe foi revelado lá em França, onde estava_. + + +Depois desto fez El-Rei prestes sómente os seus continuos de sua caza, e +alguns poucos de Coimbra, com Gonçalo Gonçalves, e assi mantimentos que +lhes abastassem, e ante que partisse foi-se ao Moesteiro de Santa Cruz a +falar com aquelle devoto homem Prior do Moesteiro em que elle tinha +grande e singular devação, e encomendou-lhe sua alma, e seu estado, assi +como houvesse de partir deste mundo, dizendo-lhe todo o que tinha +ordenado para ir fazer, e quando havia de ser, encomendando-lhe muito +afincadamente que naquelle dia com seus amigos rogasse a Deos de vontade +que o quizesse ajudar naquelle feito a que iam por seu serviço, e que +esta couza tivesse em grande segredo. Então se partio El-Rei uma segunda +feira não sabendo ninguem para onde iam; salvo aquelles a que o +comunicara, e levaram o caminho tão revessado, e encuberto que os Mouros +não houveram novas delles, e vieram aquelle dia poer as tendas em +Alfasar, esta foi a sua primeira jornada, ao seguinte dia partiram, e +foram dormir a Codornolos, e dali mandou El-Rei a Martim Mohaz que fosse +dizer aos Mouros de Santarem que elle levantava a tregua da li em +diante, e que a paz dantre si, e elles, fosse quebrada até tres dias, +que segundo costume daquelle tempo, cada um podia engeitar a tregua a +seu imigo quando lhe aprovesse, com tanto que lho fizesse primeiro +saber. Martim Mohaz foi, e depois de comprir o mandado que levava, +tornou á quarta feira a Aldeguas, onde El-Rei estava, o qual partio da +li, e indo pela serra Dalvardos acertou-se que D. Pedro irmão bastardo +del-Rei, que fora já em França, ia falando com elle dos muitos milagres, +que naquella terra Deos fazia pelo Abbade S. Bernaldo que então era +vivo, e como lhe Deos outorgava toda couza que lhe pedia. + +Então El-Rei movido a devação pelas couzas que lhe seu irmão assi +contava, disse: «Eu á honra, e louvor de Deos, prometo que se me elle +Santarem quizer dar, por sua piedade, e pelos rogos do Bemaventurado S. +Bernaldo, que vós dizeis, e eu lhe dê toda esta terra para a sua Ordem +quanta vejo daqui até o mar, e que faça um Moesteiro em que Frades da +sua Ordem vivam a serviço de Deos, e porque ella seja mais acrecentada». +E segundo conta a Lenda de S. Bernaldo, tanto que El-Rei fez este voto, +logo lhe a elle foi revelado lá em França, onde estava esta promessa +del-Rei, e como havia de tomar Santarem aos Mouros, e em como aquelle +Moesteiro que El-Rei prometera de fazer seria mui nobre, e abastado de +todalas couzas, segundo depois foi, e é agora um dos grandes, e ricos +Moesteiros da sua Ordem que ha na Christandade. + +Tanto que o Abbade S. Bernaldo assi houve esta revelação mandou logo +tanger a Cabido, e todos os Monges juntos, lhes contou o que lhe fora +revelado, então todos cantando: «Te Deum Laudamus», foram á Egreja dar +graças a Deos, e mandáram logo partir certos Monges para Portugal com +livros da sua regra, e ordenança, e os que quizessem, viessem para alli, +os quaes em se começando a obra do Moesteiro, vieram hi ter, e tomaram +posse pela ordem da Doação que lhe El-Rei fizera, começando hi de viver, +segundo sua Regra com muito acrecentamento, o qual a N. Senhor aprouve +que fosse sempre depois, e agora neste tempo. + + + + +CAPITULO XXX + +_Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre +Santarem, e das rezões que disse a todos_. + + +Na serra Dalvados, que acima dissemos, esteve El-Rei a quinta feira até +noite, e dahi abalaram ao serão andando toda a noite, até a mata que +está sobre Pernes, onde chegaram sexta feira amanhecente, então concirou +El-Rei que era bem descobrir a todos seu desejo, e ao que iam, e fez-lhe +uma falla nesta maneira: «Meus bons Cavalleiros, e amigos, mais +verdadeiramente, que a outros nhuns se ha de chamar, bem sabeis quantos +trabalhos, e fadigas comigo, e sem mi padecestes por azo desta Villa de +que ácerca estamos, e quanta guerra, e males tem feitos á nossa Cidade +de Coimbra, e a todo meu Reino por muito tempo, pelo qual detreminei de +a vir com vosco escalar, e tomar, como em Deos espero, e ainda que +parece necessario chamar mais gente para esso, e seja certo que me viera +de mui boa vontade, porém não quiz, nem escolhi mais que vós soes, em +que sempre puz, e ponho meus conselhos, e fadigas, e cuja lealdade, e +valentia, em muitos perigos meus conhecida me deu sempre de vós, tal, e +tão firme confiança, que com a graça de Deos, ei já por feito o que +vimos a fazer, alem desto vejo em vossos gestos, e continencias não +menos sentirdes, e dezejardes, esta couza que eu mesmo, o que me cauza +tanto prazer, que já me não parece termos nisto mais pejo, que a detença +deste dia, que passe azinha, para com a graça de N. Senhor nos irmos a +noite seguinte apossentar dentro na Villa, e o que tenho cuidado para se +esto mais ligeiramente fazer, escolham-se cento e vinte de nós, para dez +esquadras partidos a cada uma doze, que logo no primeiro sobir, se achem +não menos de dez sobre o muro, e assi se dobre cada vez o conto da +gente. + +Os primeiros que sobirem alevantem logo minha bandeira, para esforço dos +nossos, e esmaio dos imigos se espertarem do sono, e a poz esto quebrai +as fechaduras das portas, e assi a volta, e estrondo, dos que pela porta +entrarem, ajuntados com os de dentro esmaiarão mais os imigos, em cuja +matança de homens sahidos do sono, uns, e desarmados, bem vedes quam +pouco ha de fazer. Vós a nhuma pessoa não perdoeis, nem deis vida, nem a +homem, nem a mulher, moço, nem velho, de qualquer idade, e qualidade, +todos andem á espada, e esto fazei com grande e trigozo esforço, que +Deos será ahi em nossa ajuda, para cada um de nós matar cento delles, e +hoje, e á menhã fazem por nós oração geral o Prior, e todos os Conegos +do Moesteiro de Santa Cruz, a que eu ante que partisse notifiquei o que +vinhamos fazer, e assi tambem a Cleresia, com todo o povo, e por que +lhes disse que tinha trato, e intelligencia na Villa, para nos dentro +receberem, me perdoe Deos esta mentira, que ácinte lhe disse, porque lhe +esforçasse os corações, e vontades; assi meus amigos vos esforçai, e +peleijai como sempre fizestes, lembrando-vos o que fazeis por Deos, por +mi, e por vós, por vossos filhos, e netos, hi serei eu, e me verei com +vosco, que não póde haver afronta, nem perigo, que a viver, e morrer me +aparte de vós, como vejo que fareis por mi». + +Ouviram todos a El-Rei, mui promptos, e animados, em seus corações, para +ouzarem, e cometerem todo o que lhes falou, mas consirando elles antre +si, a grande ardideza del-Rei, e o muito perigo a que se queria poer, +apartaram-se com elle, e disseram. «Senhor vossa pessoa, não irá com +nosco, que se formos vencidos, nossos imigos não haverão tanto louvor, +nem que morramos delles, ou todos, não é muito de curar, salva vossa +pessoa, e tirada de semelhante risco, cuja perda que Deos defenda seria +perder-se Portugal, e leixando-vos nòs entrar em tamanho perigo, seria +nossa linhagem sempre desdita, e prasmada, como filhos de tredores, que +tendo tal Rei consentiram perde-lo». El-Rei respeitando o que lhe assi +diziam, a muito amor respondeo-lhes com outro tanto, estas palavras: «Oh +amigos, rogo a Deos se este anno, eu hei de viver sem vós tais +Cavalleiros tomardes esta Villa de Santarem, a elle praza que antes eu +desta vez em ella morra». + + + + +CAPITULO XXXI + +_Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de +Santarem, e dos sinais que pareceram_. + + +Passado assi esto com outras muitas palavras, e praticas sobre o caso, +aparelharam todo o que fazia mister, para tal obra, e leixando alli as +tendas, e todo o al que traziam, cavalgaram em seus cavallos, e chegaram +aos olivaes de Santarem, de noite. Esto era em vespora de S. Miguel de +Maio sete dias andado do mez, na era de mil cento e quorenta e sete +annos, (1147) e chegados alli viram um sinal, que lhes esforçou muito +mais os corações; viram uma estrella grande ardente com grande raio +correndo pelo Ceo, da parte da Serra, que alumiava a terra, e foi ferir +no mar. Vendo esto disseram logo todos. _Senhor Deos todo poderoso a +Villa é em vossas mãos_. Esso mesmo no dia que El-Rei mandou notificar +aos Mouros o britamento das treguas, que acima dissemos aos da Villa, +appareceo outro sinal mui espantoso pronostico de sua mortindade, que +foi na terceira noite seguinte, viram no Ceo a horas do meio dia +semelhança de um Touro ir por meio do Ceo, levando chamas de fogo +acezas, desde o cabo até á cabeça. O que esses mais sabedores antre os +Mouros, intrepetáram que Santarem haveria cedo Rei novo, e seria o filho +del-Rei de Sevilha Mouro, cujo Santarem, e Lisboa, e parte da +Estremadura era. + +Sendo já El-Rei com os seos perto da Villa, lançaram-se em um valle +encuberto, e escuso, tão acerca do lugar, que ouviam falar as velas do +muro, quando bradavam uns aos outros, e estiveram alli toda a noite, com +os cavallos pelas redeas, vigiando com grande cuidado, do que ao dia +seguinte esperavam de fazer, sem os Mouros delles haverem nhum +sentimento. + +Em esta noite, e o dia seguinte o Prior de Santa Cruz de Coimbra, com +grande devação ocupado em rogar a Deos por El-Rei, mandou fazer aos seus +Conigos orações publicas, e particulares, e elle em seu orar mui +devotamente dizia: «Senhor Deos todo poderoso, que sem combate, nem +força humana fizeste cair os muros de Jericó, e a rogo, e voz de Jezoé, +mandaste estar quedo o Sol de seu curço contra Guabaão, pesso á tua +infinda bondade, que segundo tua grande misericordia queiras dar vitoria +a El-Rei D. Affonso afadigado por te servir, dando-lhe Sol, e sombra que +ajude sua tenção, e todo o azo como tome a Villa, que vai ganhar, para +teu serviço, e livrar dos imigos que a tem com doesto de tua santa Fé, e +por tal que a çuja seita de Mafamede seja lançada fóra della, e o teu +santo nome seja sempre hi louvado. + + + + +CAPITULO XXXII + +_Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de +Santarem, e foi entrada, e tomada_. + + +Desque veio a madrugada sobre o quarto dalva, quando elles entenderam +que as velas estavam mais sosegadas, e sonorentas, e os da Villa mais +desegurados, e entregues ao sono, partiram donde estavam, leixando +naquelle valle os pajes com os cavallos, e tomaram o somideiro antre +Motiraz, e a fonte Datamarma, a qual assi chamam em Arabigo, pelas aguas +della, que são doces, e foram assi pelo meio do Vale, indo diante D. Mem +Moniz que sabia bem as entradas, e saidas, e El-Rei mais atraz, e posto +que por onde levaram tenção de escalar, achassem o contrario do que +cuidavam, porém Deos a cujo poder não póde haver contrario, lhe tornou +em bem este impedimento, por mostrar assi seu poder e ajuda, que no +lugar porque haviam de entrar, e sobir, tinham por certo não haver ahi +nhuma guarda, e acharam estar duas velas, postas em um cadafalço, feito +de novo, que se espertavam um ao outro; e nisto, a rolda que andava pelo +muro requerendo ás velas, chegou por hi, e falou-lhe, e os Christãos +leixáram-se estar quedos, em um pão, que hi estava, até lhes parecer que +as velas poderiam adormecer. + +E ao cabo de pouco abalou D. Mem Moniz trigozo com os seus pelo infesto, +e foi por cima da caza de um oleiro, ao muro a poer a escada, em uma +aste a fundo, e deu no telhado fazendo grande som; do que D. Mendo +havendo grande pezar de pela ventura, espertarem as velas amergeu-se, e +de hi a pouco fez assentar curvo, um mancebo, e por cima delle poz a +escada mais entregue no muro por onde tanto que acima sobio logo +levantou a bandeira del-Rei, que levava; subiram dous com elle, e não +sendo ainda mais de tres sobre o muro, não leixaram as velas de acordar, +e senti-los, e falou um delles com voz rouca, e dormente, como +desvelado, e tresnoitado, e disse: _Menhu_ que quer dizer, _quem anda +ahi_. Respondeo então D. Mendo por Aravia, que era dos da rolda, e +tornava por lhe dizer cousas que compriam, que decesse abaixo; o Mouro +tanto que deceo foi D. Mendo mui prestes a mata-lo, e cortou-lhe a +cabeça, e deitou-a aos de fóra, para mais seu esforço, e seguro, e nesto +a outra vela quando ouvio, e conheceo que eram Christãos, e não sendo +ainda em cima do muro, mais que dez dos nossos, chegaram os da rolda +correndo aos brados da vela que ouviram, e encontrando-se com os +Christãos, vieram ás cutiladas bravamente os nossos por darem começo, e +entrada ao porque iam, e os Mouros pola tolher, antes que o mal mais +crecesse. + +D. Mendo nesta afronta bradou chamando em ajuda Santiago Patrão de +Espanha; e El-Rei tambem do pé do muro, altas vozes acodio: «Santa Maria +Virgem Bemaventurada, e glorioso Apostolo Santiago acorre-nos». Bradando +aos seus, que eram em cima do muro. «Matai-os: andem á espada todos, que +não fique nhum», e os que sobiram, apartaram-se logo pelo muro, em duas +partes peleijando cada uma com os Mouros que vinham. + +Era já tamanha a volta, e arroido de ambas partes que se não podiam +entender, El-Rei disse então aos seus mui apressado: «Façamos ajuda aos +nossos, e tenhamo-nos á parte dextra se podermos sobir alfam, e Gonçalo +Gonçalves com os seus a seextra, que filhe primeiro o caminho que do +ceicego, que não possam os Mouros vir por lá, e tomar primeiro a entrada +da porta, e assi atalhados se percam os nossos dentro á nossa mingua, e +deshonra». Mas o Senhor Deos, que ajuda as obras de seu serviço lhes +mudou em melhor, e mais seguro sua tenção, e fadiga, que onde se +trabalhavam de entrar pelo muro, entraram pela porta, e de dez escadas +que fizeram, duas sós abastaram para tudo, porque sobiram até vinte e +cinco, os quaes correram mui prestes a quebrar as portas com um machado +que lhes fora dado de fora, e britadas as fechaduras, e ambudes entrou +El-Rei a pé com os seus, e poendo os giolhos em terra, antre as portas, +com grande prazer, se encomendou, e deu muitas graças a Deos. + +Os Mouros acodiram todos alli peleijando mui rijamente, e vendo já +dentro comsigo tanta gente desesperando de se poder alli ter, +acolheram-se os mais delles a Alfam, mas pelo despercebimento em que se +acharam foram logo entrados, e mui muitos delles homens, e molheres, e +moços trazidos á espada de que foi o sangue tanto pelas ruas, que +parecia serem alli mortos grande multidão de gados. Todos os que +escaparam de não serem mortos na peleija, foram cativos com grandes, e +ricos despojos que na Villa se acharam. Foram hi antre outros cativos, +tres Cavalleiros principaes mui ricos de que El Rei houve fazenda de +grande valia. Para o escalamento desta Villa foram escolhidos, +primeiramente D. Mem Moniz Guarda mór del-Rei, e delle mui querido, +filho de D. Egas Moniz, e D. Pedro Affonso irmão del-Rei bastardo, e D. +Lourenço Viegas, e D. Pero Paes seu Alferes, e D. Gonçalo de Souza, e +outros nobres homens. + + + + +CAPITULO XXXIII + +_Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para Sevilha, e +El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa Santarem_. + + +Entrada, e tomada assi a Villa de Santarem, Auzary Alcaide mór della, +escapou fugindo, com tres de cavallo consigo caminho de Sevilha, quanto +mais pôde. Estava El Rei Mouro de Sevilha sobre a Torre do ouro chamada, +e quando Auzary assomou vendo-o El-Rei vir, veio-lhe por sentido, +segundo muitas vezes o coração sente dante mão, e advinha as cousas, que +seria aquelle Auzary, e disse-o alli aos que com elle estavam; elles +mostráram não cair em couza de tão longe enxergada, e tambem por desviar +El-Rei do sentido de más novas antecipado; e disse então El-Rei: «Se +aquelle que vem é Auzary, e chegando a aquelle porto derem agua aos +cavallos: Santarem é tomado; e se não derem de beber, Santarem é +cercado, e vem Auzary a gram pressa a demandar soccorro». Os de cavallo +chegando ao porto deram agua de seu vagar, El-Rei carregou-se mais de +sua prognostica, e chegando Auzary, contou-lhe como se tomára a Villa, e +da grande mortindade que se nella fizera de que El-Rei de Sevilha, e +todos os Mouros houveram grande pezar, não só pela perda desta Villa, +mas de outras a que a perda desta dava cauza forçada. + +El-Rei D. Affonso desque tomou a Villa, poz nella seu Alcaide, +leixando-a abastecida como compria, e tornou-se para Coimbra com muito +prazer, onde contando á Rainha sua molher, e a outros muitos como lhe +acontecera na tomada de Santarem, disse estas palavras: «Dou a Deos dos +Ceos muitos louvores, ante cujos olhos todalas couzas são sabidas, e +conhecidos; que não tenho agora a grande maravilha, serem pelo seu poder +em outro tempo os muros de Jericó, como se lê derribados, nem estar +quedo o Sol por rogo de Josué um dia todo, em comparação da piedade, e +misericordia que lhe aprouve fazer comigo, em me dar um tão forte lugar +tomado com tão pouca gente, pelo qual glorifico o seu Santo nome, e suas +maravilhosas obras, as quaes renovando em nossos dias elle, quiz mostrar +neste feito, tanto sobre poder humano, que qaando me eu vi ante as +portas da Villa abertas, poendo meus giolhos em terra com muita devação, +e prazer de minha alma, orei a elle palavras que me elle naquella hora, +como todo o al, então deu no esprito quejandas agora não saberia dizer: +mas dos ousados esforços, e cometimentos, que se na tomada da Villa +fizeram, digam-no os que se alli acharam, porque não é em mi dize-lo». +Esta Villa se chamava antigamente Cabilycrasto, e depois da morte de +Santa Eyrea, lhe pozeram os Christãos nome de Santarem, que vem de Santa +Eyrea Martyre que a ella veio ter. + + + + +CAPITULO XXXIV + +_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a tomou, +e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda_. + + +Depois de tomado Santarem se foi El-Rei D. Affonso para Coimbra como se +disse, e não para descançar, nem repousar seu coração, que nunca cessava +de buscar afrontas, e louvadas impresas, em que Deos fosse servido, mas +para o melhor ordenar, como em fresco, se milhor aproveitasse do +vencimento, e tomada de Santarem, sabendo que nas guerras fama de uma +vitoria aproveitada com tempo dá azo a muitas, pelo qual ajuntou logo +seu poder para conquistar os lugares que ficavam na Estremadura de +Santarem até o mar, em especial a Cidade de Lisboa, a qual tomou no modo +que se segue. + +Chegando El-Rei a terra onde Lisboa está situada, pareceo-lhe milhor +guerrear, e tomar as fortalezas ao redor della ante de cercar a Cidade +por tal que quando viesse o cerco tivessem os seus menos trabalho nas +forragens, e se podessem os seus mais ligeiramente sem outras guardas +estender pela terra, e alli tomou logo o Castello de Mafora, e deu-o a +D. Fernão Monteiro, o primeiro Mestre de Aviz que houve em Portugal, e +apoz esto foi logo cercar Sintra, e tomou-a, mas se foi por força, se +por preitesia não o achamos escrito, e sendo assi tomada, appareceo no +mar uma frota de cento e oitenta velas, de gentes, que naquelle tempo +moveram de Alemanha, e de Inglaterra, e de França, para guerrear os +infieis por serviço de Deos, e vindo assi todos de mar em fóra demandar +terra á rocha de Sintra. + +Estava El-Rei D. Affonso em cima do Castello, e seus principaes que com +elle eram, e maravilhando-se do ajuntamento, e navegação de tão grande +frota, mandou logo quatro Cavalleiros, a saber que gentes eram, e a +causa de sua vinda, os quaes chegando a Cascaes já a frota toda pousava, +vieram então a fallar, e preguntar-lhes que gentes eram? Elles +responderam, que eram Christãos partidos de suas terras para virem +guerrear por serviço de Deos os Mouros imigos de sua santa Fé. Nesta +frota vinham muitos Condes, e outros grandes Senhores, mas a escritura +não falla de seus nomes, mais que de quatro, um por nome Mossem Guilhem +de longa espada, Conde de Lincoll de que se diz ser em seu tempo havido +pelo milhor Cavalleiro, que sabiam em toda a Inglaterra, nem França, ao +outro chamavam Childe Rolym, ao outro D. Liberche, ao outro D. Ligel. + +Sabendo El-Rei pelos que lá mandára como eram Christãos, e da tenção que +traziam para servir a Deos, foi desso mui ledo, e bem se lhe poz no +sentido que Deos fizera mover aquella gente, e aportar em sua terra, por +lhe fazer tanta mercê, que a Cidade de Lisboa fosse tomada, e deu-lhe +por ello em seu coração muitos louvores, pelo qual lhes enviou +mensageiros, porque lhes mandou dizer como elle soubera os bons +movimentos, e tenção de suas boas vontades, que traziam para servir a +Deos, e que fossem bem certos que não sem misterio seu, e vontade, elles +eram alli aportados trazendo-os N. Senhor a tal logar, onde o bem podiam +servir, e comprir seus desejos, e devação, e não menos accrescentar suas +honras para esse mundo, porque de alli donde elles estavam pouzados não +mais de cinco leguas, estava uma cidade de Mouros mui guerreira das +principaes de Espanha, de que por mar, e por terra se fazia muita +guerra, e dano aos Christãos, a qual tinha mui fermoso porto, em que +suas Náos, e muitas mais podiam mui seguramente estar ancoradas, e elles +haver muitos mantimentos em abastança, e pois ao Senhor Deos aprouvera +sem irem trabalhar mais longe, traze-los tão perto de tamanho azo, e +oportunidade para o que vinham buscar, não leixassem esta empresa por +Deos tão querida, e mostrada por outra nhuma creatura, e que elle como +Rei que era da terra os ajudaria a esso com todas suas forças, como +elles bem veriam. + +Andaram assim estes recados de uma parte, e da outra, até que vieram +concertar de irem juntamente todos cercar a Cidade, á condição que sendo +tomada, ametade fosse del-Rei, e a outra metade dos Estrangeiros, e +assim logo El-Rei por terra, e a frota por mar foram poer cerco a +Lisboa; El-Rei acentou seu arrayal da parte do Oriente, onde agora está +o Moesteiro de S. Vicente de Fóra, e os Inglezes, e outras gentes +tomaram a parte do Ponente, onde ora são os Martyres. Durou o cerco +perto de cinco mezes, por a Cidade ser mui forte, de sitio, e cerca, e +estarem dentro muitos Mouros, que a mui bem defendiam; fizeram-se neste +cerco grandes escaramuças, e fortes combates, em que se matavam muitos +Cavalleiros de uma parte, e da outra. Cada um arrayal dos Christãos, +edeficou sua Egreja em que enterrassem os que alli morriam, e El-Rei D. +Affonso fez a sua, onde depois foi edeficado o Moesteiro de S. Vicente á +honra do Martyre S. Vicente, e os Estrangeiros edeficaram outra que ora +é chamada Santa Maria dos Martyres. Estas Egrejas estão agora dentro dos +muros da Cidade, desque a cercou El-Rei D. Fernando o noveno Rei de +Portugal, como se adiante dirá, porque quando Lisboa esta vez foi tomada +a Mouros, não era sua cerca maior, que quanto se ora vê, e chama cerca +velha. + +Quando veio em dia dos Martyres S. Chrispino, e Chrispiniano, que é aos +vinte e cinco dias do mez de Outubro, andando a era do Senhor em mil +cento quorenta e sete annos, (1147) foi a Cidade mui rijamente, e com +grande determinação combatida, dando o Senhor Deos tanta graça aos +Christãos, que seu esforço, e gram devação de peleijar por seu serviço, +passava pelas muitas feridas, e mortes, e todas outras grandes +difficuldades, e perigos do combate, havendo elles todo por menos, pelo +grande pezar que tinham em lhe parecer que todo seu trabalho seria +debalde, e Deos não servido, se a Cidade se não tomasse, e assi com este +fervor, e mui animosa determinação, poendo em fim o que os seus devotos +corações tanto desejavam, entraram a Cidade por força. + +Entrou-se principalmente por a porta que ora chamam de Alfama, e de hi +pelas outras portas, e depois de entrada foi dentro a peleija muito mais +fera, que janda soe antre irados vencedores, e vencidos, desesperados, +peleijando já os Mouros com estremada desesperação, e vontade de querer +antes morrer antre as mortes de suas molheres, e perdimento de filhos, +paes, parentes, e amigos, e assi os Christãos não com menos indinação +por infieis entrados, e vencidos querendo ainda mais deter, e daninficar +seu vencimento, nem se querendo dar por vencidos, por tanto foi tão +grande a mortindade delles, e sobejo o conto dos que foram mortos, e +trazidos a ferro, que é escuzado cuidar quão poucos ficáram. + + + + +CAPITULO XXXV + +_Do que El Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade de +Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes Estrangeiras_. + + +Oesque a Cidade de Lisboa assi foi tomada por El-Rei D. Affonso +Anriques, e aquelles Estrangeiros, com elle ajuntou logo El-Rei todos, e +com grande procissão se foram á Mesquita onde ora está a Sé edeficada, e +depois de limpa, e mundificada das abominaveis ceremonias que hi eram +feitas da seita de Mafamede, os Clerigos, e Bispos revestidos, segundo +sua ordem, com _Te Deum laudamus_, entraram nella, e assi foi +consagrada, e instituida á honra e louvor da Virgem Maria, celebrando +logo em ella os officios Divinos, nomeando-a por Sé Cathedral, se ao +Santo Padre aprouvesse. Feito esto mandou El-Rei logo chamar Mossem +Guilhem de longa espada, Childe Rolim, e D. Liberche, e D. Ligell, e +outros Capitães, grandes, que eram na companhia dos Estrangeiros, e +disse-lhes. «Amigos bem sabeis como concertámos se nos Deos desse a +Cidade que a partissemos por meio, e pois a elle por sua piedade aprouve +de a tomarmos, muitos louvores, e graças lhe sejam dadas, vós escolhei, +e tomai Cavalleiros, e eu darei outros que vão partir a Cidade, e assi +todalas cousas que dentro, e fóra della houver, e forem achadas.» + +Vendo esto aquelles Capitães, e gentes Estrangeiras tiveram a grande bem +o que El Rei dizia, e responderam-lhe que haveriam sobre ello concelho, +e lhe tornariam reposta. O concelho, e determinação delles foi, que pois +partiram de suas terras, e foram alli vindos, só com tenção de servir a +Deos, nem fora outro nenhum seu proposito, e vontade, não queriam haver +Cidades, nem terras, nem outras riquezas, quanto mais não lhes parecendo +cousa conveniente que tal Cidade fosse partida, nem manteuda com El Rei +de por meio em sua terra, que abastava para elles leixarem-na em poder +de Christãos como fora seu dezejo, e assi se foram a El-Rei, e lho +disseram mui francamente, o que lhes elle muito agradeceo, +offerecendo-se, que se alguns delles, e de suas gentes quizessem ficar +em sua terra, elle lhe daria lugares para povoarem, e viverem em elles +izentamente, e ás suas vontades. Depois desto partio El-Rei grandemente +com os Capitães, e gentes que quizeram tornar para suas terras, e assi +se espediram delle com muita sua graça, e os que ficáram para morarem na +terra escolheram para sua povoração vivenda a Atouguia, e Lourinhã, e +Arruda, e Villa-verde, e Villa-franca, que primeiro foi chamada +Cornagoa, porque aquelles que a povoaram eram Ingrezes de Cornualha, e +chamaram-na do nome de sua terra, e povoaram tambem a Azambuja, e +pozeram-lhe este nome, porque estava alli um grande Azambujeiro, e os +Ingrezes por em sua lingoa fazerem do mascolino, femenino, chamaram-lhe +Azambuja. E segundo memoria dos edeficadores daquelle lugar, o senhor +daquelles que a povoaram havia nome Rolim, não que por esso fosse Childe +Rolim, o que em cima dissemos ser um dos grandes Senhores que naquella +frota vinha, o qual não é de cuidar que ficasse em Portugal para povoar +terra de novo, havendo tantas Villas, e lugares povoados, de que mais +com rezão se devera partir com elle ficando na terra, mas é bem de crer, +que fosse outro algum Capitão Fidalgo seu parente, com que folgassem de +ficar, e seguir alguma daquella gente, segundo que desentão, e hoje em +dia seus sucessores, bem mostráram sua cavallaria, e fidalguia com muita +honra, e serviços feitos aos Reis, e Reino de Portugal, e outros alguns +destas gentes povoaram Almada, e pela nomeação deste nome se mostra que +foram muitos a povoa-la, e faze-la, ou por trabalho de suas pessoas, ou +por contribuirem dinheiros para esso, porque o proprio nome seu em +linguagem Ingreza é, vimadel, que quer dizer em Portuguez: _todos a +fazemos_, e depois por tempo, que todalas cousas muda, corrompendo-se o +nome, lhe chamáram Almadam, o que ainda vae ter a Almadee, que soa em +Ingrez, todo feito, mas leixaremos aqui um pouco de proseguir a Estoria +por contarmos de alguns milagres, que a N. Senhor aprouve de fazer por +alguns Martyres, que no cerco, e entrada de Lisboa morreram, em especial +de um Cavalleiro Alemão por nome Anrique, sendo muita razão, que os +Justos sejam como diz a sagrada Escritura em memoria eterna, e de sua +gloria por Deos manifestada, se faça louvada menção, pois se faz de seus +temporaes feitos, cujos merecimentos por muito que neste mundo +mereçamos, não chega á gloria, e louvor do premio, que no outro ante +Deos se alcança. + + + + +CAPITULO XXXVI + +_Dos milagres que Deos mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que morreo +quando a Cidade de Lisboa foi entrada_. + + +Acima se disse, como durando o cerco de Lisboa soterraram os mortos +naquellas duas Egrejas, que nos reaes se fizeram para esso, e tomando-se +a Cidade aconteceo dos que na entrada soterraram na Egraja que ora é +chamada S. Vicente de Fóra, um nobre, e valente Cavalleiro Alemão +chamado Anrique, comprido de bons, e virtuosos costumes, foi morto +naquelle combate peleijando mui esforçadamente, e sendo assi enterrado +naquelle lugar N. Senhor em cujos olhos é mui preciosa a morte dos seus +Santos, e Bemaventurados aquelles, segundo elle disse, que no amor de +Deos, quanto mais os que por seu amor morrem, fazia por este Cavalleiro +Anrique muitos milagres de que alguns sómente por mostra brevemente +diremos. + +Vinham na frota daquellas gentes Estrangeiras dous homens surdos, e +mudos de seu nacimento, e indo um dia á sepultura daquelle Cavalleiro +deitaram-se apar delle com grande devação, pedindo em suas vontades, que +por seus merecimentos lhes empetrasse do Senhor Deos piedade, e +misericordia para sua infermidade, elles jazendo assi adormeceram ambos, +e appareceu-lhes logo em sonhos o Cavalleiro Anrique vestido em trajos +de Romeiro, trazendo na mão um bordão de palma, e falou áquelles +mancebos, dizendo-lhe: «Alevantai-vos folgai, e havei prazer, e hi ouvi, +e falai, que pelos merecimentos meus, e destes Martyres, que aqui +jazemos, ganhastes do Senhor Deos graça, a qual é com vosco». E dito +esto desapareceo; elles então acordaram, e achando-se sãos de todo, +ouvindo, e falando milagrosamente, e assi em voz e linguagem clara, +começaram a contar a todo o povo o milagre que Deos em elles fizera +pelos merecimentos deste Cavalleiro. + +E El-Rei D. Affonso, e todos os que hi estavam davam muitas graças, e +louvores ao Senhor Deos, que taes maravilhas obra, como diz o Profeta, +por honrar, e exaltar os seus Santos, e amigos. Era este Cavalleiro +Anrique natural de uma Villa que se chama Bom composta na ribeira de +Reina quatro leguas acima de Colonha, na qual eu fui, e estive dessas +vezes, que áquellas partes fui enviado por Embaixador, vendo-a sempre +com muita affeição, e saudosa lembrança deste Santo Cavalleiro Anrique. + + + + +CAPITULO XXXVII + +_Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom, +mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada +de Lisboa muito ferido morrera_. + + +Logo a poucos dias que esto aconteceo veio a morrer um Escudeiro deste +Cavalleiro Anrique de grandes feridas, que tambem houve na entrada da +Cidade, e enterraram-no na mesma Egreja donde jazia seu senhor, e sendo +alli soterrado, appareceo de noite o Cavalleiro Anrique a um homem muito +velho, que servia aquella Egreja e havia nome Anrique como elle, +dizendo-lhe: «Levanta-te, e vai ao lugar onde os Christãos enterraram o +meu Escudeiro alongado de mim, toma o seu corpo, e vem enterra-lo aqui +junto comigo, porque quem me seguio, e se ajuntou comigo na morte, não +deve ser apartado na sepultura». Do que aquelle homem bom nada curou, e +vindo-lhe outro tal segundo aparecimento, e amoestação tão pouco curou +desso, como da primeira, então lhe appareceo a terceira vez o Cavalleiro +Anrique mui irado, e com sembrante bravo, e queixoso ameaçando-o com +palavras de grande medo, se logo não fosse comprir o que por tantas +vezes lhe dissera, pelo qual aquelle bom velho cheio de temor se +levantou logo de noite, e foi com candeias á sepultura onde jazia o +Escudeiro, e desenterrou-o trazendo-o elle por si só e lhe fez uma cova +a milhor que pode apar do Cavalleiro Anrique onde o enterrou, e quando +veio pela menhã, achou-se o velho tão são, e sem cançasso do trabalho da +noite passado, sendo impossivel por sua cançada idade pode-lo fazer, +como se jouvera em sua cama folgando sem fazer nada, e contando ao outro +dia todo assi como lhe acontecera, aos Prelados, e a todo o povo deram +todos muitos louvores a N. Senhor. + + + + +CAPITULO XXXVIII + +_Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos milagres que +Deos por elle fazia_. + + +Querendo ainda o Senhor Deos segundo a grande avondança de sua infinda +benificencia, mostrar por mais maravilhas quanto lhe tinha aprazido, o +serviço deste Cavalleiro Anrique, appareceo á cabeceira de sua sepultura +uma palma semelhante áquella que trazem os Romeiros de Jerusalem em suas +mãos; assi começou em verdecer, e deitar folhas, e crecer sobre a terra, +em sua altura juxta. El-Rei, e todos vendo tão grande, e famoso milagre, +louvaram muito a Deos, e quantos enfermos alli vinham tomar palma, e +deitavam ao colo logo eram sãos a essa hora, de qualquer infermidade que +tivessem, e outros a tomavam, e tostavam, e depois de moida bebiam della +aquelle pó, e assi mesmo se achavam logo sãos das dores que tinham, e +tanta foi a continuação da muita gente que vinha tomar daquella palma, +que a pouco tempo não ficou nada della sobre a terra, até por não porem +boa guarda nella, vieram alguns de noite, e a arrancaram de todo, +levando o que ficava sobre a terra. Por estes milagres, e outros que N. +Senhor aprouve de fazer pelos seus Santos Martyres, que alli morreram, +tinha El-Rei nelles mui grande devação, que se sentia em si algum +abalamento de doença deitava-se em oração sobre seus jazigos, e +achava-se logo remediado. + + + + +CAPITULO XXXIX + +_De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa Bispado, e +quem foi o primeiro Bispo della_. + + +Passado assi todo esto fez El-Rei juntar toda sua gente que com elle +era, e disse-lhe: «Amigos meus eu até agora como vistes depois de tomada +esta terra, e Cidade, me ocupei em ordenar, e destribuir os bens +temporaes della, os quaes muitas vezes tem rezão, não em dignidade, nem +em preiminencia, mas em ordem para se haver primeiro de entender nelles, +que nos espirituaes, para que Deos seja assi mais ordenadamente servido, +segundo requere a orde, e maneira das cousas deste mundo, e a fraqueza +da condição humana sem o temporal não póde vagar no espiritual, agora é +muita rezão que não tardemos mais de entender no espiritual, ordenemos, +e elejamos quem nesta Cidade seja Bispo, e Pastor de nossas Almas, e +regedor da Egreja Cathedral». Louvaram todos o que El-Rei dizia, e então +foi eleito um homem virtuoso, que alli era, chamado Gilberto, de muito +boa vida, e costumes, e leterado em Degredos, e a poz esto mandou El-Rei +logo notificar ao Papa cumpridamente o cerco, e tomada de Lisboa, da +eleição do Bispo, que por serviço de Deos novamente fizera, pedindo a +Sua Santidade o quizesse confirmar. O Papa lhe outorgou todo esto, e +outras mais cousas que lhe enviou pedir, dando-lhe grandes perdões, +indulgencias para as Egrejas que tinha feitas. Tanto que este recado +veio de Roma chamou El-Rei o Bispo Gilberto, e disse-lhe: «Bispo estas +duas Egrejas, foram aqui edeficadas como sabeis, tendo nós ainda esta +Cidade cercada para se nellas enterrarem os que morriam, pois a N. +Senhor aprouve de vermo-lo, e podermo-lo fazer, eu quero dotalas +começando primeiro no Moesteiro de S. Vicente de Fora». E então o dotou +de muitas posseções, porque entendeo que poderiam bem, e sem mingoa +viver, os que em elle houvessem de servir a Deus, e para os Povos terem +mais azo, e devação de ajudar, e fazer o Moesteiro poz em elle grandes +indulgencias, que lhe o Papa mandou, e assi tambem na Egreja de Santa +Maria dos Martyres. + + + + +CAPITULO XL + +_De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S. +Vicente de Fóra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem_. + + +E depois desto consirando El-Rei como o seu Moesteiro de S. Vicente de +Fóra houvesse de ser milhor servido prepoz de poer em elle Capellães +Clerigos onestos, e estando neste seu preposito, aconteceo chegar a +Lisboa um Frade Flamengo de boa, e onesta vida, chamado Gualterio, e com +elle quatro Frades seus companheiros, que vinham a buscar onde fizessem +um Moesteiro da Ordem de que elles eram, para nelle viverem. El-Rei +sabido de sua vida e preposito folgou muito, e mandou por elle +dizendo-lhe como edeficara aquelle Moesteiro de S. Vicente, rogando-lhe +que elle, e seus companheiros quizessem nelle viver, e estar por ser +caza para esto mui conveniente, e para Deos hi delle ser servido; +aprouve muito dello a Gualterio, e a seus companheiros, e foram-se logo +para o Moesteiro. + +Queria muito este Prior Gualterio, que o Moesteiro fosse chamado da +Ordem que elle era, e que El-Rei no Moesteiro não tivesse nhum especial +poder, o que não querendo El-Rei consentir, se partio Gualterio com os +seus compenheiros para onde vieram. El-Rei fez então Prior um Conego +Estrangeiro, que havia nome Damer, o qual a cabo de poucos annos se foi +tambem para sua terra, por onde parecendo a El-Rei que Religiosos assi +vaguanãos, e fóra de Suprior, por muita devação que tragam, e presumam +não hão graça para durar á ordem, e serviço de Deus, determinou de +mandar ao Moesteiro do Banho que é da Ordem dos das sobrepelizes por um +Conego que chamavam Guodinos, que fosse o Prior do Moesteiro, o qual +assi Prior por suas virtudes foi eleito por Bispo de Lamego, e El-Rei +então mandou por outro Conego a esse mesmo Moesteiro do Banho, que havia +nome D. Mendo, e havendo oito annos que era Prior, se veio a finar; e a +poz este houve outro Prior, que chamavam D. Paio, e foi o derradeiro +Prior que em S. Vicente houve em tempo del Rei D. Affonso, e posto que +estas cousas que dissemos fossem feitas por espaço de tempos, em vida +del-Rei D. Affonso, nós contamo-las aqui juntas por pertencerem á tomada +de Lisboa. Ora adiante diremos outras cousas que se fizeram logo +seguintes á sua tomada. + + + + +CAPITULO XLI + +_Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na Estremadura, +e Alem do Tejo_. + + +Depois de El-Rei D. Affonso Anriques ter tomado Lisboa como se já disse, +logo naquelle anno seguinte andando a era de N. Senhor em mil e cento e +quorenta e oito annos, (1148), foi El-Rei sobre Alanquer, e Obidos, e +Torres Vedras, e sobre outros Castellos da Estremadura, que ainda eram +de Mouros, durando em os tomar seis annos, e depois que os teve +assentados, e assi toda a terra da Estremadura, ajuntou todas suas +gentes, e passou-se a Alentejo, onde fez grande destruição em os Mouros, +tomando-lhes Alcacere, Evora, Elvas, Moura, e Serpa, e outros lugares +até chegar a Beja, o qual tendo-a cercada entrou grande poder de Mouros +pela Comarca da Beira a fim de retraher, e fazer cessar o dano que +El-Rei em elles fazia em Alentejo, e cercaram Trancozo, e depois de +combatido e tomado por força destruiram o logar, e deixaram-no, matando +muitos Christãos, e levando muitos delles cativos. + +El-Rei D. Affonso posto que lhe estas novas chegassem, não se quiz +levantar do cerco, que tinha sobre Beja, antes a combateo então +fortemente com engenhos, e artilharias, até que a tomou por força, e +pelo despeito que tinha do mal que os Mouros fizeram em Trancozo, todos +os Mouros de Beja andaram á espada, ficando mui poucos vivos. Foi Beja +tomada na era do Senhor de mil cento e cincoenta e cinco annos (1155). +Feita assi esta destruição nos Mouros, e havidas estas vitorias nas +terras Dalentejo, leixou El-Rei Beja, e todolos outros Lugares mui +bastecidos, e providos de Cavalleiros, e gente que os mui bem podassem +defender, e guardar, e tornou-se para Coimbra com muita honra, e grande +prazer, pelas mercês, e grandes vencimentos, que lhe N. Senhor Deos +contra Mouros dera. + + + + +CAPITULO XLII + +_Dos filhos que El-Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha Dona +Mofalda_. + + +Tanto que El-Rei D. Affonso chegou a Coimbra lhe foi logo commettido +cazamento para sua filha Dona Mofalda; elle teve tres filhas, e um só +filho, o filho houve nome D. Sancho, que herdou o Reino por falecimento +de seu pai, e em sendo Ifante foi sempre mui bom e esforçado Cavalleiro, +e valente, e depois que Reinou, não menos bom, virtuoso, e esforçado +Rei, fazendo muitas cavallarias, e accrescentando seu Reino como em seu +logar contaremos, e a primeira filha houve por nome Dona Mofalda, que +foi cazada com D. Reymondo, filho do Conde D. Reymondo de Barcelona, e a +outra chamada Dona Urraca, cazou com El-Rei D. Fernando de Lião; a +terceira filha houve nome Dona Tareja. Esta foi cazada com D. Felippe +Conde de Frandes, e sendo assi commettido a El-Rei D. Affonso o dito +cazamento para sua filha Dona Mofalda, o vieram a concertar, que o Conde +D. Reymondo de Barcelona viesse á Cidade de Tuye, que era del-Rei D. +Affonso, e alli fizessem vistas antre si sobre este cazamento. Então se +partio El-Rei para lá com muitos Senhores, Prelados, e Cavalleiros, +levando comsigo a Rainha Sua mulher, e suas filhas. Chegáram a Tuye dez +dias andados do mez de Janeiro; dahi a oito dias chegou o Conde D. +Reymondo; fez-lhe El-Rei dar bairro, e pouzadas grandes, e boas para +elle, e toda sua gente, que com elle vinha, a qual era muita, e mui +luzida; vindo o Conde, El-Rei sahio-o a receber acompanhado de honrados +Prelados, e outros Grandes do Reino, e Cavalleiros mui principaes; iam +com elle D. João Arcebispo de Braga, D. Mendo Bispo de Lamego, D. +Izidoro Bispo de Tuye, D. Pedro Conde das Asturias, o Conde D. Ramiro, e +o Conde D. Vasco, D. Gonçalo de Souza, D. Pedro Paes seu Alferes, e +outros muitos ricos homens, e Cavalleiros com muita gente. Quando o +Conde chegou veio El-Rei para elle, e o recebeu com muita honra, e +gazalhado, trazendo-o consigo até o Paço, alli descavalgáram, e se foram +logo para onde estava a Rainha, e as Ifantes, e o Conde esso mesmo fez +grande reverencia á Rainha, e suas filhas, de que foi mui bem recebido, +e depois de fallarem alli um pouco tomou El-Rei o Conde, e levou-o para +onde haviam de comer. + +Aquelle dia comeo o Conde com El-Rei em sala, elle, e todos os que com +elles vinham, e assi a Rainha, e as Ifantes com suas Donas, e Donzelas, +e desque acabáram de comer, vieram Jograes, e tangedores, e foram +grandes danças. Isto acabado, havendo-se o Conde de ir colher a suas +pouzadas se quizera alli despedir del-Rei, e elle não quiz, se não que +se espedice só da Rainha, e suas filhas, e foi-se com elle até porta do +Paço onde havia de cavalgar, e El-Rei tinha já ahi cavallo para ir com o +Conde; mas o Conde não o quiz consentir em nhuma maneira; ficou então +El-Rei, e todos os outros Senhores, e Cavalleiros da Corte, se foram com +o Conde até sua pouzada. El Rei mandou a todos seus Officiaes, que +dessem todas as cousas sem dinheiro, que o Conde houvesse mister, em +quanto hi estivesse, e des aquelle dia em diante, começáram a fallar no +trato do cazamento da Ifante, e do filho do Conde; estiveram em o +concertar até dous dias por andar de Janeiro em que se fez o cazamento; +no qual dia sendo hi juntos muitos Senhores, e Prelados, e Cavalleiros +de uma parte e da outra, foi lida á Rainha, e Ifantes uma Procuração de +D. Reymondo filho do dito Conde porque dava poder a seu Pai, que em seu +nome podesse receber com elle a Ifante D. Mofalda filha del-Rei D. +Affonso. E vista a Procuração, El-Rei tomou sua filha, e trouxe-a ante o +Arcebispo de Braga, o qual tomou o Conde pela mão, e assi a Ifante, e +então os recebeu, elle como Procurador de seu filho, e ella por si, como +manda a Santa Madre Egreja de Roma, e esto feito, entregou El-Rei sua +filha ao Conde, que a levasse consigo até onde houvessem de ser feitas +as vodas, e o Arcebispo de Braga, e D. Martim Moniz, e assi Donas, e +Donzelas foram em sua companhia della. Deu El-Rei ricas joias ao Conde, +e aos seus fez mercês de modo que elle, e todos os que com elle vinham +partiram mui contentes del-Rei. Partio-se assi o Conde, levando a Ifante +consigo, e elle partido, El-Rei se tornou para Coimbra com toda sua +gente, e Corte. + + + + +CAPITULO XLIII + +_Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e venceo +El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama_. + + +Sempre despois deste cazamento El-Rei D. Affonso esteve, e andou por +aquelles lugares, que ganhára aos Mouros, provendo-os das couzas, que +lhe compriam para sua defenção, como fossem governados em justiça, e +estando assi em Alcacer na era do Senhor de mil e cento e sessenta e +cinco annos (1165) havendo já El-Rei setenta e um de sua idade, veio +recado como Cezimbra estava mingoada de gente, que a tomaria se fosse +sobre ella. A esta nova partio logo El-Rei de Alcacer com toda sua +gente, e foi-a combater com tanta affronta, que ainda que a Villa, e +Castello eram mui fórtes, filhou-a por força, e desque teve a Villa +socegada, e posto nella quem a guardasse, determinou de ir ver Palmella, +e o acento, e fortaleza della, levando consigo, sessenta bons +Cavalleiros, e alguma gente de pé, e besteiros, e chegando a Palmella, e +estando vendo-a, asomou El-Rei de Badalhouse com muita Mourama das +frontarias daredor, em que havia quatro mil homens de cavallo, e +sessenta mil de pé, e vinham ao longo sem ordem a gram pressa para +soccorrer Cezimbra, descuidados de verem, nem acharem alli Christãos. +Teve-se El-Rei traz um cabeço, e vendo os que eram com elle tanta gente, +começáram de haver grande receio, e todos aconselhavam El-Rei que se +acolhesse a seu araial o milhor que podesse, e delles diziam, que se +puzesse em uma alta serra, que por hi vai, que se chama a serra +Dazeitão, e tomassem em ella algum lugar fórte para se deffenderem, até +ir recado aos do arraial. + +El-Rei com quanto vio o medo, e receio dos seus pela grande multidão dos +Mouros; porém esforçando-se no poderio de Deos ser maior que o dos +homens, no qual elle sempre esperando se achava vencedor, fallou aos +seus em esta maneira: «Que esmaio é este amigos, ou que nova +desconfiança do Senhor Deos, nem que vedes vós agora de novo, para tanta +torvação; estes muitos, que vedes são os que vós muito menos, dos que +ora soes, sempre vencestes, para esso ganhamos nós peleijando, e +vencendo, á cincoenta annos, tanto merecimento, e honra ante Deos, e o +Mundo, para todo em uma só hora, fugindo perdermos, certo que +ouvindo-vos, o que ouço, se vos a todos não conhecera, podera mal +cuidar, serdes os que comigo vencestes muitos mais, que estes imigos no +campo Dourique, e em outros lugares, não ponhaes ante vós meus amigos, +quantos mais são, que nós, mas quanto no poder, e querer de Deos, por +quem peleijamos, são muito menos que nós; o medo, em que os Deos já poz +para nós maiormente se dermos nelles de sobresalto, fará que lhes +pareçamos muitos mais do que somos, e elles assi mesmos, menos muito, do +que são, e tendo-nos Deos tantas vezes mostrado esta verdade, podeis +ainda cuidar em nos devermos de retraher, nem fugir, Deos por nós sempre +contra elles em honra, e vencimento, e nos queremos ora poer em +deshonra, e nossos imigos em gloria, e esforço contra nós. Ora havei +Cavalleiros, que mingua de fé, mingua de crença, nos encurta o esforço, +mal concorda no coração de Christão esmaio com ardideza, mal no Christão +desconfiança com fé, que inda que poucos sejamos, tambem de muitos, +poucos são os que peleijam, não tem hoje estes nossos imigos em seus +corações, cousa mais certa que topando-se no campo convosco, e comigo, +haverem-se logo por vencidos, tanto que nos virem não ficará destroço, +nem mortos, nem vencimentos passados, quantos contra elles houvemos, que +como prezentes ante si não ponham, este de agora, que com a graça de +Deos haveremos. Pelo qual meus bons Cavalleiros, não vos venham por +sentido medos, de que nosso Senhor Deos sempre livrou, e mostrou o +contrario, e pois por tantas, e tão milagrosas vitorias, que sobre nosso +poder, por sua piedade nos deu, temos tão sabido nada ser a elle +impossivel, não devemos nada temer, vamos logo com sua graça, que nos +sempre acompanha ferir nos imigos. Eu quero hoje ser vosso pendão, e ver +se me quereis seguir, e guardar como sempre fizestes, que pois Deus +ordenou para mostrar mais seu gram poder, com tão poucos me aqui +acertasse, eu determino por seu serviço, hoje neste dia, de vencedor, ou +de morto me não partir do campo». + +Desque El-Rei acabou de fallar, vendo os seus em elle tão grande +confiança, e determinação, todos mui esforçados com suas palavras, e +esforço, disseram, que por muito mais dezigual que o cazo fosse, delles +aos Mouros, pois elle seu corpo determinava poer a tal feito, elles lhes +não faleceriam, e o seguiriam como sempre fizeram, dizendo que dessem +logo nelles. Vinham já pelo infesto acima, a cerca, e não haviam mais +que tardar. Abalou então El-Rei á pressa com grande coração, e esforço, +e todos com elle, em se mostrando fez dar ás trombetas, e foram ferir +nos primeiros tão rijamente, que logo muitos delles foram derribados, +antre mortos, e feridos. Os Mouros achando-se salteados, e conhecendo, +que aquelle era El-Rei D. Affonso, que tanto temiam, figurando-se-lhe, +que seria muita mais gente, foi o medo em elles tão grande, que +começaram logo a fugir, parecendo aos trazeiros, que os seus mesmos, que +voltavam fugindo, eram imigos, como soi a fazer gente de medo cortada, e +assi correndo o desmaio por elles, se puzeram todos em desbarate. Alguns +contam, que se guardou El-Rei para de madrugada dar nelles, onde foram +vistos pouzar, por ser ora, e tempo azado, para mais desmaio, e +desbarato dos Mouros, e assi o fez, e os desbaratou. Como quer, que +fosse feito, foi em que entrou saber de Cavallaria, com grande coração, +e esforço ajudado por nosso Senhor, por cujo serviço se aventurava. +Seguio El-Rei apoz os Mouros matando, e ferindo, e cativando muitos no +alcance tomando-lhes a carriagem, e despojos grandes, de quanto traziam. +Tanto que o desbarato foi acabado, mandou El-Rei dous Cavalleiros a +grande pressa a Cezimbra a suas gentes, que lá ficaram, que logo fossem +todos com elle, e foram ao outro dia todos e juntos, muito ledos, pela +boa andança, que Deos dera a El-Rei, e não menos tristes, por se não +acertarem com elle na batalha. Tanto que os de Palmella viram o +desbarato dos seus Mouros, e os Christãos juntos contra si, tendo +perdida a esperança do soccorro, preitejaram se com El-Rei, que os +leixasse sahir em salvo, e lhes dariam a Villa, e a El Rei aprouve +dello, e assi houve a Villa de Palmella. + + + + +CAPITULO XLIV + +_Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e El-Rei D. +Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El Rei D. +Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada_. + + +Sendo El-Rei D. Fernando de Lião casado com Dona Urraca, filha del-Rei +D. Affonso Anriques como acima dissemos, veio a deixa-la, e apartar-se +della por mandado do Papa, por serem parentes mui chegados, e cazarem +sem dispensação, mas o modo como este apartamento foi feito, nem o que +se fez desta Rainha Dona Urraca não achamos escrito, salvo, que houve +della um filho chamado D. Affonso, que depois da morte de seu pai foi +Rei de Lião. Tomando El-Rei D. Affonso deste feito grande pezar, pôs em +sua vontade de ir cercar Badalhouse, que estava em poder de Mouros, por +ser da Conquista del-Rei D. Fernando de Lião, e ajuntando suas gentes +para esso foi poer cerco sobre a Villa, estragando-lhe pães, e vinhas, e +fazendo-lhe tanto dano, e apresso, que veio a toma-la. Como quer que os +Mouros se mui bem defendessem, El-Rei D. Fernando quando soube que +El-Rei D. Affonso de Portugal tomára Badalhouse, enviou lhe a dizer por +seus Mensageiros, que lha leixasse, pois sabia que era sua, e de seu +Reino, e El-Rei D. Affonso lhe respondeo que lha não havia de leixar, e +então o dezafiáram sobre esto, pelo qual El-Rei D. Fernando de Lião +ajuntou logo seu poder, e veio contra El-Rei a Badalhouse, e vinha com +elle D. Diogo o bom senhor de Biscaya, com cuja irmã chamada Dona Urraca +Lopes filha do Conde de Navarra, foi depois cazado este Rei D. Fernando. +Vinha tambem D. Fernando Rodriguez de Castro, sendo então ambos +vassallos deste Rei D. Fernando de Lião, dezavindos del-Rei de Castella, +e vindo já acerca disseram a El-Rei D. Affonso. + +«Senhor, aqui é El-Rei D. Fernando, e toda a sua oste. Pois assi é, +disse El-Rei: Armemo-nos, e saiamos a elle ao campo, que pois nos vem +buscar, bem é que nos achem lá fóra em campo comsigo». Então se armáram +todos, e sahiram fóra da Villa, e nisto disseram a El-Rei D. Affonso +como os seus se embaraçavam já com D. Diogo o bom, e com D. Fernando +Rodriguez de Castro, que vinham na dianteira mui bons Cavalleiros, e +El-Rei com este recado abalou rijo a cavallo, correndo por sahir fóra da +Villa a chegar aos seus, e aconteceo, que o cabo do ferrolho não ficára +bem colhido ao abrir das portas, e o cavallo, assi como ia correndo +topou nelle com uma ilharga de guiza, que se ferio muito, e quebrou a +perna esquerda del Rei, o qual não deixou por esto de chegar aos seus a +ajuda-los, e nisto o cavallo que ia ferido, não podendo mais sofrer-se +cahio com El-Rei em um senteal, sobre a mesma perna, e acabou-se de +quebrar de todo, de modo que os seus não poderam mais levanta-lo, nem +poer a cavallo, e então Fernão Rodriguez Castelhano, que o vio cair foi +dizer a El-Rei D. Fernando: «Senhor ali jás El-Rei D. Affonso com uma +perna quebrada, hi prende-lo, que mais sem trabalho vo-lo deu Deos nas +mãos do que eu cuidava.» + +Chegou então El-Rei D. Fernando onde El-Rei jazia, e por os seus, que o +viram cair, e se acertaram serem poucos, e os imigos muitos, houve de +ser tomado, e prezo com estes que hi eram com elle; não se podendo +valer, nem ser valido, e com os outros seus, que se colhiam á Villa, +entráram os del-Rei D. Fernando de mistura, e devulgando-se já o +dezastre del-Rei D. Affonso, foi a Villa nessa hora tomada, segundo logo +tudo falece, como falece o Capitão. Levou assi El-Rei D. Fernando +consigo a El-Rei D. Affonso para a Villa, e fez-lhe mui bem pençar da +perna, e em quanto o teve em poder, assentando-o sempre a par de si, +fazendo-lhe muita honra; despois veio apreitejar com elle, que lhe desse +a terra da Corunha, que é do Minho, até o Castello da Lobeira, uma legoa +álem de ponte Vedra, e porcima pelos chãos de Castella, aquella terra, +que deram ao Conde D. Anrique seu pai, como no começo da Estoria se +disse, fazendo-lhe tambem menagem, que tanto que em besta cavalgasse se +tornasse a sua prizão; El Rei D. Affonso nem podendo al fazer disse que +lhe prazia. + +Despois de entregar a terra, e Fortalezas, e fazer a dita menagem, +El-Rei D. Fernando o soltou, e elle tornou para seu Reino, e sendo mui +bem são da perna, nunca mais quiz cavalgar em besta, por não tornar a +menagem, antes sempre depois andou em carro, como soiam andar os Reis +antigamente, e logo no anno seguinte de mil e cento e sessenta e seis +annos (1166), dia Dassenção, em Coimbra fez El-Rei como mui prudente, e +discreto que era, fazer todos os Grandes, e Conselhos do Reino todo +menagem a seu filho o Ifante D. Sancho, e este seu quebramento de perna, +foi sempre atribuido ao que sua mãi lhe rogou, quando a poz em prizão, +segundo atraz nesta Estoria se contem. + + + + +CAPITULO XLV + +_Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar as +maldições dos pais, e mãis aos filhos_. + + +O pezar que me faz, e a todos fará vendo este dezastre del-Rei D. +Affonso Anriques, me faz falar contra as maldições dos pais, e mãis, que +ameude se lançam com pouco tento e resguardo, devendo-se escuzar com +muito, vendo, e sabendo todos, que com nome de filhos nos reconciliou +Deos para si, e com nome de Pai nosso, mandou que o adorassemos, com o +nome em que se conclue, e encerra a maior obrigação e ajuntamento de +reverencia, e amor que póde haver, antre nós, nem de nós para elle, por +onde os filhos devem muito fazer por acatar sempre seus pais, e mãis, +segundo por Deos lhe é distintamente mandada escuzar de os provocar a +semilhantes maldições, antes recea-las muito, e teme las, por injustas +que sejam, como se diz das excommunhões, que desprezando-as haverá por +ventura lugar de obrar, como justas, e ajuntadas com outros males de que +mal peccado andamos acompanhados descote, e ante Deos desmerecemos, +porque tanto quiz Deos, que se guarde, e acate, a ordem que neste mundo +ordenou, que elle mesmo sendo sem peccado justo Julgador, sofreo ter +injustamente julgado, por injustos, e perversos julgadores, por terem na +terra o cargo, e presidencias por elle ordenadas, o que tanto mais devem +os filhos acatar, e sofrer a seus pais, e mãis, quanto a lei de justiça, +e ordenança de Deos, lho devem ainda por grande obrigação de natural +reverencia, e amor. + +E os pais muito mais de seu cabo devem a meu juizo escuzar semelhantes +maldições, quanto mais idade, e entender tem, concirando que são homens, +e pais de homens, e que elles poderiam já fazer outro tanto a seus pais, +e mãis, maiormente que os erros dos filhos não podem ser tão danosos, +que muito mais não sejam as maldições dos pais, lançando-se sempre por +humano defeito da sanha vendicativa, a qual se decega em desenfriada +ira, não procedesse, não haveria lugar contra o sobejo amor dos pais, e +mãis, sendo sempre tamanho, que quanto mais com causa dizem ao filho: +«Má morte te mate», vendo-lhe algum mal muito menos de morte se culpam, +e matam por elle, e Deos manda, que das nossas injurias, e danos, +leixemos a vingança a elle. Dessas pessoas lhe devemos mais leixar de +que aos outros devemos tomar que são pais, e filhos, os quais toda a +rezão obriga, que antre si mais se comportem, e hajam em suas cousas +paciencia, pois Deos que as fez a quem se ainda mais nesso erra, ha com +elles paciencia, e assi escuzaram os filhos a culpa tão crime como é +desobediencia aos pais, de conhecimento tamanho para Deos como é aos +filhos, que lhe deu, por benção, fazerem filhos de maldição, a qual por +esto só tambem por injusta que fosse abastaria pela ventura, para +fazerem por pena, e peccado do pai, penar o filho inocente neste mundo, +em que bem podemos padecer por culpas, e peccados alheios, assi como +filhos por pais, e servos por senhores; ainda que no outro não possamos, +se não pelos proprios nossos, e da verdade deste caso prouvera a Deos +que tiveramos em outra parte a prova, e exemplo mais longe, e +estrangeiro, e não del-Rei D. Affonso, que sendo tão virtuoso, e todos +seus feitos sempre com virtuosa tenção, e de serviço de Deos, não leixou +maldição de mãi, mais madrasta que empecer a este Rei, na pessoa, na +fazenda, e na honra, a filho tão virtuoso. + + + + +CAPITULO XLVI + +_Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D. +Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e +os desbaratou e venceo_. + + +Estando assi El-Rei D. Affonso em seu Reino, andando em colos de homens, +e outras horas em carros como já em cima dissemos, veio-se para +Santarem, e correndo novas pela terra, do desastre do britamento da +perna, e da preitezia e menajem que ficára com El-Rei D. Fernando de +Lião por cuja causa, não cavalgava em cavallo, nem era de sua pessoa +poderoso para fazer guerra como dantes, nem suas costumadas cavallarias, +tomaram os Mouros ousadia, e esperança grande de se vingarem, e fazer +grande danno a Portugal, pelo qual Albojame Rei de Sevilha, ajuntou +grande multidão de Mouros, de toda Andaluzia, e de outras partes, e +atravessando todo, antre Tejo e Odiana, matando, e estragando tudo por +onde vinham, vieram cercar Santarem, onde El-Rei D. Affonso estava, +destroindo-lhe toda a terra de redor. Saiam os Christãos ás barreiras a +escaramuçar com elles, e de uma parte, e da outra morriam muitos. + +El Rei D. Affonso por não poder cavalgar a cavallo, e sair a elles era +mui enojado em seu coração acostumado a vencer nos campos, e cercar, e +não ser cercado, pelo qual determinando de sair fóra em carro, a lhes +dar batalha, alguns dos seus lho contradisseram, e outros diziam que era +bem ficar na Villa, e que elles sairiam a peleijar com os Mouros, +concelhos ambos muito fóra do parecer del-Rei, e do seu grande animo, e +por tanto lhe respondeo, e disse: «Amigos não cumpre agora ver se +sairemos, ou não; mas é tempo de tomardes tal esforço para peleijar, que +eu possa perante todos louvar os que o bem fizerem, e eu mesmo em pessoa +vos ajudarei a esso contra os imigos, quanto em mim fôr como sempre fiz, +e se pela ventura alguns tiverem receo, o que não cuido, fiquem na +Villa, e não vão lá que eu não poderei sofrer já mais tanta vergonha.» +Então acordaram que era bem sair fóra em toda maneira, e estando já +prestes para um dia certo, e corregidos como deviam de ir, e de quaes +havia El-Rei de ser guardado, aconteceo virem novas a El-Rei D. Affonso +como El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, vinha com muita gente, o qual +por ser Rei mui virtuoso, e mui chegado a Deos, como quer que se +quitasse de sua filha, e sobre vence-lo parecesse ser rezão estar delle +queixoso, por buscar azo de não cumprir a menagem que lhe tinha feito de +tanto que cavalgasse em uma besta, acudir a sua Corte, não olhando nada +desto, como soube, que El-Rei Albojame com grande poder tinha cercado +El-Rei D. Affonso em Santarem ajuntou sua gente, e partio para o ajudar, +e andando então a era do Senhor em mil e cento e setenta e um annos, +(1171) assi que vindo recado certo a El-Rei D. Affonso Anriques de como +El-Rei D. Fernando de Lião era acerca, e que em poucos dias seria com +elle, foi em grande pensamento, cuidando que vinha contra elle por rezão +da menagem a que não fora, e posto nesta duvida tanto mais, determinou +de peleijar primeiro com os Mouros, e tambem os Mouros de sua parte +quando souberam de sua vinda, crendo que vinha contra elles, em ajuda +del-Rei D. Affonso seu sogro, determinaram levantar o cerco, e saio +então El-Rei D. Affonso a elles, no modo que dantes tinha ordenado, e +depois de muito peleijarem fez grande mortindade nelles, e desbarato, de +muitos prezos, mortos, e feridos, e grandes e ricos despojos tomados. + +Assi se foram os Mouros destroçados fogindo quanto mais podiam. El-Rei +D. Fernando quando soube que os Mouros eram desbaratados, e El-Rei D. +Affonso descercado, não quiz ir mais adiante, posto que perto fosse, e +esteve alli quedo tres dias, enviando dizer a El-Rei D. Affonso que +tomasse prazer, e nada receasse delle, que não abalára, nem vinha a +outra cousa, se não só por o descercar, e pois os Mouros já eram idos, +que ficasse com a paz de Deus, e El-Rei D. Affonso lhe deu por ello +muitas graças, e é que desque foi prezo na batalha que houve com este D. +Fernando de Lião seu genro, nunca depois foi visto ledo, nem haver +prazer como dantes, e quando lhe lembravam as cavallarias que dantes +soia fazer contra Mouros, e quam temido era delles, não podia estar que +mui enxergadamente se não entristecesse, mas porque deste tempo até que +o Corpo de S. Vicente foi trazido a Lisboa, não achamos outra cousa que +de contar seja, queremos aqui dizer como, e em que modo foi aqui +trazido. + + + + +CAPITULO XLVII + +_Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que o +foram buscar_. + + +Já antes desto, em seu lugar contamos como El-Rei D. Affonso Anriques +foi por si com grande cuidado, e devação, buscar o Corpo de S. Vicente, +e não o pôde achar havendo já vinte e seis annos que a Cidade de Lisboa +era em poder de Christãos, tomada a Mouros, fez El-Rei Albojaque +tregoas, com El-Rei D. Affonso Anriques por cinco annos, as quaes foram +feitas quatro dias do mez de Maio era do Senhor de mil cento e setenta e +trez annos, (1173) então, certos homens de Lisboa, com grande devação, +vendo que já podiam ir seguros áquelle lugar onde o Corpo de Vicente +jazia, fizeram prestes uma barca, com todo o que lhes fazia mister, e +foram-se lá sem nhum impedimento, nem deficuldade, chegaram, e +desembarcaram no mesmo lugar, onde postos em oração, mui devotamente a +Deos pediam que lhes mostrasse onde jazia o Corpo daquelle glorioso +Martyr; a poz esto começaram a cavar, e aprouve a N. Senhor que o +acharam, e dando-lhe muitas graças e louvores, o tomaram com muito +prazer, e devação, e puzeram-no dentro na barca, e logo Deos alli +mostrou por elle um grande milagre, que um dos que iam na barca, em +desenterrando aquelle santo Corpo, furtou um dos ossos, e tanto que o +tomou, cegou logo de todo, pelo qual cortado de medo, e arrependimento +tornou a poello donde o tomara, e neste ponto lhe foi restituida toda +sua vista, e foi são como dantes, e tambem se deve atribuir aos grandes +merecimentos deste Santo Martyr, que sendo sempre o mar alli alevantado, +e perigoso, e reçafa muito grande, foi visto tão chão e manço fóra do +acostumado ao embarcar do seu Corpo, como se fôra em qualquer outro +lugar, onde nunca houvesse, nem podesse fazer ondas, e assi tornaram com +muito prazer a salvamento. + + + + +CAPITULO XLVIII + +_Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa_. + + +Elles chegados ao porto da Cidade de Lisboa, não quizeram logo tirar +fóra o Corpo do glorioso Martyr, com receo de lho tomarem por força, e +aguardando a noite levaram-no escondidamente á Egreja de Santa Justa, o +qual sendo logo sabido ao outro dia pela menhã, segundo Deos não quer +sua gloria escondida, toda a Cidade corria para alli, e uns diziam que +era bem de o poerem em S. Vicente de Fòra, e outros, que mais rezão era +estar na Sé, e neste debate D. Gonçalo Viegas Adiantado mór de +Cavallaria del-Rei, que era presente, vendo quão errada cousa era, +arguir-se mal e arroido sobre cousa tão santa e devota, que mais com +rezão deviam tolhe-lo, fez cessar o alvoroço da gente, e que esperassem +até que o El-Rei soubesse, e mandasse o que sua mercê fosse nesso. D. +Roberto Daião da Sé homem onesto, e de boa vida, foi o mais onesta e +escuzamente que pode a D. Moniz Prior da Egreja de Santa Justa, e +rogou-lhe mui afincadamente, que por honrar, e obrigar a Sé, que era a +principal e mais dina Egreja da Cidade em que aquelle Santo Corpo mais +honradamente, que em outra parte podia estar, lho quizesse dar, e a elle +aprouve dar lho, e então os da Sé, com toda outra Clerezia mui ledos, +foram por elle, e o levaram mui honradamente em procissão, acompanhado +de toda a gente da Cidade dando todos muitas graças, e louvores a N. +Senhor, e assi foi trazido, e posto na Sé, onde ora jaz. Os Conegos de +S. Vicente vieram logo hi a pedir que lhe dessem das Reliquias daquelle +santo Corpo, mas não lhe foram dadas. + +Quando El-Rei D. Affonso Anriques soube esto, segundo era devoto, chorou +com prazer, louvando muito ao Senhor Deos, por querer em seus dias +honrar seu Reino com tão preciosas Reliquias, mandando outra vez áquelle +lugar donde o Corpo fora trazido, que vissem, e catassem bem, se ficara +ainda lá alguma cousa delle. Foram lá, e feita toda diligencia, acharam +ainda um pedaço do testo da cabeça, e pedaços pequenos desatandados do +Ataude, o que todo trazido sem nada ficar, pozeram com o Corpo. E conta +a Estoria, que depois que este santo Corpo alli foi na Sé, o Corvo o +qual, segundo já dissemos, que foi visto guarda-lo quando foi deitado ás +aves, e animalias veio sempre na barca com elle, e o acompanhou, e +depois de posto na Sé, o viram muitas vezes sobre o seu Moimento, como +quem o não queria desemparar, e outras oras se punha sobre o Altar mór, +e assi andava voando pela Egreja, e aconteceo, que um moço chamado +Joane, que servia na Egreja deu com uma pedra a este Corvo, e foi cousa +milagrosa, que logo a essa hora foi tolheito, de todos seus membros, e +então seu pai do moço quando vio tamanho pezar ao moço seu filho, +lançou-se em oração de noite muito devotamente ante o Corpo de S. +Vicente, e foi logo o moço são de todo, como dantes era; e da li nunca +mais ninguem ouzou de fazer nojo áquelle Corvo, o qual foi hi visto por +muitos tempos. El-Rei mandou escrever o dia, e era em que o Corpo deste +glorioso Martyr veio a Lisboa, e foi aos quinze dias do mez de Setembro +da sobredita era de mil e cento e setenta e tres annos (1173). + + + + +CAPITULO XLIX + +_Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D. Sancho +seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe sobre +ello disse_. + + +Depois que os cinco annos das tregoas que El-Rei D. Affonso fez com +El-Rei Albojaque, como acima dissemos, foram acabados, que foi na era do +Senhor de mil cento e setenta e oito annos, (1178) estando El-Rei D. +Affonso Anriques em Coimbra, vendo que em toda sua terra era guerra +cessada sem ter receo, salvo dantre Tejo, e Odiana, que pelo acabamento +da tregoa cumpria ser bem defeza, e guardada, e que álem desto seria +cousa honroza, se com a defenção della, se assás se ganharem mais alguns +Lugares a Mouros, chamou seu filho o Ifante D. Sancho, e perante alguns +do seu Concelho lhe disse assi: «Filho tu sabes bem quanto trabalho +tenho passado na guerra com os Mouros, e pela tregoa que tinha com +El-Rei Albojaque já ser acabada, hei por certo que os Mouros, não +estarão quedos, e guerrearão esses Lugares que delles ganhei em +Alentejo, donde recebem, e esperam de receber muito dano, e já me foi +falado e requerido que entendesse na defensão delles, pelo qual eu +cuidando como se esto milhor podia fazer de quantas cousas me vieram por +sentido me pareceo, e parece milhor que tudo, que eu te mande lá em +pessoa, e esto por duas rezões, a primeira, porque sabes que está meu +cazo de não poder cavalgar em besta por não ir ás Cortes del-Rei D. +Fernando, o que eu não fora por cousa que no mundo houvesse, que fazendo +traria a ti, e a mim grande perda, e a todos os do Reino de Portugal; a +segunda porque prazendo ao Senhor Deos depois de meus dias, tu hás de +ter o carrego de reger, e defender este Reino, e pois te deu Deos +entender, e corpo, e manhas para o poderes fazer, é bem que já agora +commeces, e o faças.» + +Quando o Ifante ouvio esto a seu pai foi muito ledo, e beijou-lhe as +mãos, dizendo: «Senhor, eu vos tenho em mui grande mercê esto, que me +encarregais, e espero em a graça do Senhor Deos com os bons Senhores e +Cavalleiros, de vosso Reino trabalhar como seu serviço, e vossa vontade, +e mandado seja comprido; e pois Senhor se esta cousa ha de fazer seja +vossa mercê querer que se faça logo; porque quanto mais cedo for tanto +porei a terra em milhor estado, e defensão.» El-Rei respondeo que lhe +prazia, que assi o mandava poer em obra, e ordenando logo quais, e +quantos daquem do Tejo contra o Porto fossem chamados para haver de ir +com o Ifante escrevendo que todos se ajuntassem em Coimbra a certo dia; +esso mesmo fizeram ordenanças, e Regimentos que o Ifante havia de ter no +feito da guerra, que havia de começar. + + + + +CAPITULO L + +_Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da +gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo +no meio da Ponte se despediram todos del-Rei_. + + +Despois de vindos todos os que eram chamados ao tempo que lhes foi +assinado, fez El Rei fazer Alardo no campo que se chamava Arnado, de +assás fermoza, e ataviada gente de armas, e de bésteiros, e piães, e +outros todos com grande mostra de coração, e mui ledos para ir com o +Ifante D. Sancho a fazerem por suas honras o que a cada um convinha em +tal cazo, e desque o soldo foi pago, e elles todos prestes partiram de +Coimbra no mez de Julho da sobredita era (1178). El Rei saio de seus +Paços a pé, e veio até ponte, e o Ifante D. Sancho, e todolos outros +Grandes com elle, e a outra gente passada da parte dálem, e chegando ao +meio da ponte disse o Ifante a El-Rei: «Senhor esto e assaz de vossa +vinda, não tome vossa mercê mais trabalho, mas lançai-nos vossa benção, +e com a graça de Deos eu, e estes Senhores vossos Cavalleiros, e +Vassalos, que aqui estamos, iremos fazer o que mandais, e a elle que +sempre endereçou vossos feitos, e teve em sua boa guarda apraza de nos +ajudar em tal modo que vosso coração seja ledo, e descançado.» Respondeo +El-Rei: «Filho vós fazeis muito bem, mas crede que me é tão grave vossa +partida, e destes Vassallos meus naturaes com que soia estar, e ter +continos comigo, que ainda que vós, e elles fosseis a cavallo e eu +sempre a pé, parece-me que não enfadaria, nem cansaria tanto, que muito +mais não faça, como faz este apartamento; mas pois é forçado, pesso a N. +Senhor em cujo serviço his vos ajude a todos, e vos haja em sua guarda +de guiza, que por vós seja sua santa Fé acrecentada, e seus imigos +lançados fóra da terra, que nossos antecessores ganharam». Esto assi +passado, quantos ahi estavam foram beijar a mão a El-Rei, e se +despediram delle. O Ifante foi o derradeiro que se delle despedio +beijando-lhe as mãos. El-Rei lhe lançou sua benção, e se tornou para a +Cidade, e elles cavalgaram todos, e se foram seu caminho. + + + + +CAPITULO LI + +_Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora +guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com +os Mouros peleijasse_. + + +Partidos dalli foram aquella noite pouzar a Penella, e alli disse o +Ifante a todos que lhe parecia bem não irem juntos, e que para irem mais +folgados, fosse cada um á sua vontade, por onde mais quizesse, porém que +se juntassem com elle na Guoleguam. Aos tres dias andados do dito mez de +Julho, e juntos hi todos como lhes era mandado, partiram dalli, e +passando o Tejo se meteram todos em ordem, como quem entrava em terra a +cada passo sospeita de imigos, andaram assi tanto por suas jornadas, que +chegaram a Evora onde o Ifante foi bem recebido dos que hi moravam, e +todos os seus que com elle iam. Esteve o Ifante em Evora alguns dias por +sentir o que os Mouros queriam fazer por sua vinda, e tambem por dar +folgado caminho aos seus. Este tempo que o Ifante hi esteve, os Mouros +nunca fizeram entrada, nem intentaram cousa alguma, que de contar seja, +pelo qual pareceo ao Ifante tempo de fazer o porque viera. Então mandou +chamar alguns das frontarias ao redor, para irem com elle, e que todavia +as Villas, e Lugares ficassem bem guardadas. De nhuma lhe acodiam +tantos, como de Beja, o que causou ficar a Villa muito minguada de +gente, que para sua defensão lhe fazia mister. + +O Ifante desque teve sua gente junta, abalou de Evora oito dias andados +de Outubro da sobredita era de mil cento e setenta e oito annos, (1178) +e foi seu caminho direito pelo Castello da Gineta, e dalli se começaram +de estender os corredores, e outros homens de armas guerreando os +Mouros, estragando-lhes a terra, e assi correo todo aquelle caminho, +contra Sevilha, até que passou a Serra Morena. Quando os de Sevilha, e +Andaluzia, souberam da vinda do Ifante D. Sancho tiveram-se por mui +desonrados, porque depois que Espanha fora tomada, e Sevilha em poder de +Mouros, nunca fora guerreada de Christãos, quanto mais ouzarem de chegar +tão a cerca della, pelo qual houveram acordo de sair ao Ifante, e +pozeram-se todos á saida do Inxarafe. Chegaram novas ao Ifante como os +Mouros esperavam alli para peleijar com elle, do que foi mui ledo, dando +muitas graças a Deos, por se achar a tempo, e ora que o podesse servir +contra aquelles infieis seus imigos, mandou então chamar os Grandes, e +outros principaes Cavalleiros de sua oste e disse-lhes: «Quero-vos +amigos dar boas novas, com que muito deveis de folgar, como eu faço. +Sabei que todo o poder de Sevilha, e terras de redor vos estão +aguardando para peleijar com nosco, parece-me que muito nos mostra o +Senhor Deos aprazer-lhe de nos dar em nossas mãos o porque viemos, cousa +com que elle seja mui servido, e vós grandemente honrados, que por eu +ser novo nestas cousas, e vós que comigo vindes Cavalleiros, em ellas +tão provados, ainda agora esta honra ha de ser mais vossa que minha, +pelo qual sede muito ledos, e com muito prazer ordenemos, como logo de +menhã vamos a elles, e assi a ordenança que a nossa gente hade levar, +que do mais hei por mui escuzado dizer-vos nada do que cada um hade +fazer, nem meter-vos esforço para esso, conhecendo-vos que sois tais, e +que sabeis tanto de honra, e cavallaria exercitados em muitas peleijas, +e batalhas, e grandes vencimentos com El-Rei meu Senhor, e pai, que +soies mais para dar desso ensino e esforço, que toma-lo de ninguem; hei +por assás lembrar-vos, que ponhaes em vossos corações o mais que tudo +vos ha-de lembrar, que peleijamos por defender, e acrecentar a Fé de N. +Senhor Jesu Christo, o qual de sermos nada, fez de nós filhos, a elle +que nos tanto amou, a elle em cujo serviço se não perde trabalho: nos +encomendemos, elle que para havermos de servi-lo poz em nós o querer, +nos cumpra o poder que façamos com sua graça de menhã, por onde corram +de nós taes novas, que elle seja louvado, e meu Pai descançado, e vejam +todos que para parecer eu seu filho, e vós seus Cavalleiros, e amigos, +não faz mister ser elle presente». Com estas palavras do Ifante folgaram +todos muito, e foram mui satisfeitos, respondendo: «Senhor, nós todos +somos vossos, e por serviço de Deos e vosso faremos neste feito quanto +em nós for, e vós podereis ver, de modo que Deos seja servido, e com sua +ajuda vós ganheis muita honra para vós, e para nós, e desagora ordenai +logo o que se em ella ha de fazer, porque hoje seja sabido de cada um em +que lugar ha de ir, e estar». + + + + +CAPITULO LII + +_Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o +esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve_. + + +Esto assi passado, o Ifante se apartou logo com os principais para o +haverem de fazer, e ordenáram de toda sua gente cinco azes, a primeira +fosse a vangarda, e a outra apoz esta batalha do meio; e a terceira +reguarda, e as outras duas azes o Ifante levava comsigo, dous mil e +trezentos de cavallo, a fóra os corredores que agora chamam ginetes. O +Ifante meteo na primeira az em que elle ia, seiscentos de cavallo. Eram +hi com elle D. João Arcebispo de Braga, e o Conde D. Gonçalo, e D. Pero +Paes Alferes, que então naquella ida servio o Ifante de seu officio, e +D. Mem Moniz: a outra batalha segunda, foi encommendada a D. Gonçalo de +Souza, com outros seiscentos de cavallo, a terceira, que era reguarda, +com outros seiscentos a D. Lourenço Viegas, a az direita levava D. Pedro +das Esturias, com duzentos e cincoenta de cavallo, e a esquerda o Conde +D. Ramiro, com outros tantos, e os mais dos corredores com homens de pé +pozeram tras a carruagem, que a houvessem de guardar, se alguns Mouros +quizessem dar nella, e da gente de pé não lemos conto, nem repartição +acabada, mais que de quatro mil, de que na avanguarda, onde o Ifante ia, +foram metidos mil e quinhentos homens de pés. Ás azes foram dados dous +mil, e os mais com a carruagem como dito é. + +Tanto que essa ordenança foi feita, o Ifante mandou a D. Pedro Paes, que +fosse pela oste a encomendar a cada um o que havia de fazer, porque +naquelle tempo o Alferes tinha aquelle carrego, e poder, que ora tem os +Condestabres. Ao outro dia ante menhã, fez o Ifante dar ás trombetas, +foram logo todos levantados mui prestemente, de si ordenáram suas azes, +e onde cada um havia de ir, e estar. O Ifante fez mover sua bandeira, e +assi todos os outros, e foram todos em ordem até chegarem aonde os +Mouros estavam, e logo sem mais detença foram dar, e ferir em elles. Os +Mouros receberam-nos mui esforçadamente; ao juntar houve logo muitos +derribados, de uma parte, e da outra, e muitos cavallos andavam pelo +campo sem senhores. Sobre a az do Ifante, que primeiro juntou com os +Mouros carregaram tantos delles, que se não fora soccorrida, em modo +algum se pudera sofrer, que vendo D. Gonçalo de Souza, e D. Lourenço +Viegas o Ifante assi cercado, e encerrado antre tantos Mouros, foram a +gram pressa a ferir nelles; tambem os Condes D. Pedro das Esturias, e D. +Ramiro, Capitães das azes, e depois de as azes todas assi envoltas, e +antre si mui feridas, partio-se a peleija em quatro, ou cinco partes mui +brava em todolos cabos. Era para louvar a Deos, e folgar de ver o +esforçado peleijar dos nossos, que por força fizeram juntar-se onde +estava o pendão de Sevilha; e do Ifante, se acha escrito, que bem +mostrava ser filho de seu pae, em ferir, assi de lança como de espada +peleijando mui esforçadamente, onde quer que se acertava. Em esto vendo +D. Pero Paes Alferes, os Mouros assi todos juntos com o pendão de +Sevilha dando vozes a Mem Moniz, e a outros Senhores, remeteo ao Alferes +que o tinha, e deu-lhe tais duas feridas de espada, que o desatinou, e +leixando cair sua espada dependurada por uma cadea, para esso segundo +parece custumada travou no Alferes, e como era forçoso deu com elle, e +com o pendão em terra. + +Nesto os Mouros, que com algum esforço, ou vergonha de ver ainda o seu +pendão levantado, sostinham a peleija, tanto que o viram derribado +começaram todos a fugir, via da Cidade, e o Ifante e os seus apoz elles +matando, e derribando quantos podiam, e ao entrar de Trianna foi tanta a +pressa nos Mouros, que não poderam cerrar a porta, e os nossos entraram +de volta com elles. Os Mouros que tinham já a ponte passada, por +tornarem a soccorrer os que ficavam atraz, acalçados dos nossos, deram +tanto empacho e torvação aos trazeiros, que tiveram os nossos grande e +despejado tempo, e lugar, para fazer em elles grande matança, e em +muitas partes se acha escrito haver sido tanta mortindade dos Mouros, +feridos, e mortos no rio Guadalquibir, que suas aguas pareciam sangue, +segundo o sangue tinge sempre mais de sua quantidade a agua em mostra +muito maior. O Ifante feito este tão grande desbarato dos Mouros, +tornou-se para onde elles tiveram seu arraial de ante sentado, no qual +acharam prezas grandes, e ouro, e prata, e muitas joias, e cavallos, e +outras cousas, as quaes repartio por esses Grandes, e Cavalleiros, e +outra gente, como bem lhe pareceu sem tomar nada para si, do que todos +foram delle mui contentes. + + + + +CAPITULO LIII + +_Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e foi +sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre ella_. + + +Acha-se escrito, que ficando assi Beja falecida de gente para sua +defenção, pela muita que della se fora com o Ifante D. Sancho mais que +de outro nhum Lugar Dalentejo como acima dissemos, e ainda de esses que +nella ficaram alguns com medo de a não poderem defender, se partiram +della para outros lugares de Christãos, e os Mouros sabendo certo como a +Villa estava para ligeiramente se poder tomar, pela mingua de gente que +não tinha, ajuntaram-se dous mui principaes antre elles chamados um +Alboacamesim, e outro Albouzil, e muitos Mouros que os seguiram, e +chegaram a pôr cerco sobre ella. Os poucos Christãos que dentro estavam, +corregeram a Villa o milhor que poderam, e poseram se a defende-la, e +aprouve a N. Senhor, que com quanto os Mouros logo em chegando a +combateram, e afrontaram mui rijamente, os nossos a defenderam com tanto +esforço, que os imigos a não poderam tomar tão de ligeiro, como traziam +por certo, e assi por sua multidão, e os defensores da Villa serem +poucos, como por o Ifante ser com a outra gente mui alongado, para os +haver de soccorrer, detreminaram toda via sentar arraial sobre a Villa, +fazendo conta, que ainda que a não tomassem, logo em chegando a +tomariam, em alguns poucos dias, que para esso teriam despaço, e +começaram trazer, e fazer engenhos, e arteficios, que para tal cazo +cumpria. + +Quando os de dentro da Villa viram a determinação, e assento dos Mouros, +tomaram acordo de o fazerem saber ao Ifante, e mandaram um Escudeiro dos +que na Villa estavam sabedor mui bem da terra, cavalgado em um especial +cavallo, o qual como foi noite saio-se fóra da Villa com tal tento, e +avizo, que não houve sentimento, nem torvação dos do arrayal, e a carta +que levava era que os da Villa se encomendavam em sua mercê, e lhe +pediam que lhes acorresse em tão grande fadiga e trabalho em que +estavam; no qual entre tanto elles fariam quanto em si fosse, por toda +via guardarem o que lhes encomendara. Passando assi estas cousas depois +de vencida a batalha de Sevilha, o Ifante partio da li contra a terra, +que ora em Castella chamam Algarve, fazendo muita destruição nos Mouros +por toda aquella terra, e estando sobre Niebla, chegou o recado dos +Cavalleiros de Beja, como aquelles Mouros a tinham cercada. O Ifante +vista a carta chamou logo os do seu Concelho, e amostrou-lha, dizendo: +_Amigos que vos parece desto, ou que devemos fazer_. E todos acordaram +que para andarem correndo a terra, não era bem perder-se tal Villa, como +era Beja. Então pareceo ser bem, que o Ifante tomasse de sua gente até +mil e quatro centos de cavallo dos melhores emcavalgados para logo +partirem com elle, e que toda a outra oste o seguisse, e tirassem de pôs +elle o milhor que podessem direito a Beja. + +Esto assi detreminado, disse o Ifante a D. Pero Paes Alferes, que +tomasse carrego dos que haviam de ficar e elle lhe respondeo: «Que cousa +Senhor será irdes vós em algum lugar poer em a ventura a vosso corpo, em +que me eu não ache a ter vossa bandeira, como ora em esta batalha, que +vencestes de Sevilha, e outras muitas com vosso pai, até agora me sempre +achei.» O Ifante lhe tornou a dizer, que elle fora desso mais ledo, mas +pois seu cargo era guardar a oste, e rege-la, e governa-la, e nelle +tanto confiava toda via quizesse ficar com ella. Então ficou D. Pero +Paes com a gente, e deu de sua mão a bandeira a um seu sobrinho, por +nome Sueiro Paes, mui bom Cavalleiro. Logo ao outro dia cedo, sem mais +tardar partio o Ifante com aquelles mil e quatro centos de cavallo, a +mais andar, e os Adais e Guias que comsigo levava, o levaram por tais +Lugares, e caminhos, que os Mouro não poderam haver novas delles, e +passaram pelo váo de Mertola, onde chamam as Asenhas. Os Mouros de +Mertola, tinham escuitas no váo, e vieram dar novas á Villa, e porque o +Ifante passava ao Serão, e a Villa era mui forte, não temeram os Mouros +de Mertola, que aquella gente vinha sobre elles, mas que iam soccorrer a +Beja, pelo qual mandaram logo a gram pressa homens de pé, e de cavallo +fazer saber a Alboacamezim, e Albouzil, como pelo váo das Asenhas +passara aquella noite muita gente, e que haviam por certo não ser outrem +se não o Ifante D. Sancho. + +Havido este recado, foi muito grande alvoroço no arraial dos Mouros, e +uns diziam que era bem que se fossem, e outros que era milhor +aguardarem, e peleijarem com os Christãos. O Ifante tanto que veio aos +chãos do Campo Dourique, disse aos seus, que se não trigassem a andar +por chegarem mais folgados aos imigos, porque o caminho fora grande, e +mao, e vinham trabalhados, e por causa desso não poderam chegar á vista +dos imigos se não a ora de Terça. Tinham os Capitães dos arraiaes, +especiais espias, e tanto que houveram avizo de Mertola, mandáram logo +essa noite corredores a saber que gente era a que vinha, e se vinham +para alli, se para outra parte. Os corredores dos Mouros amanheceram +acerca de alguns do Ifante, que vinham adiantados, e prenderam um +Escudeiro, que lhes contou todo como era, e tornáram logo á pressa com +elle a seus Capitães, e sabida a verdade por elle, esses milhores do +arraial, por escuzarem vergonha de não esperar, mostraram grande +esforço, e tenção de quererem em todo cazo peleijar com os nossos, como +quer que al tivessem na vontade, outros mostravam o contrario, pelo +grande receio que tinham ao Ifante, e aos outros que vinham com elle, +havendo que seriam assinados Cavalleiros, dobrava-lhes este medo o +fresco desbarato, e mortindade de Sevilha, segundo, que a corações +encontrados em receios, sempre se lhes agoura, e apresenta o peor. Este +incerto alvoroço dos Mouros deu espaço para o Ifante poder chegar sem +elles poderem al fazer, se não esperar, e sair-se fóra do arraial, tão +acerca viam já o pó da gente dos Christãos. + +Quando o Ifante chegou estavam já os Mouros com suas azes prestes, e sem +mais aguardar, disse logo o Ifante a Sueiro Paes, que abalasse rijo com +a bandeira, e assi foram rijo ferir nos Mouros, e a peleija, esse espaço +que durou, foi fortemente peleijada dambas as partes, e com mostra de +haver mais de durar, mas aprouve a N. Senhor, que os Mouros não poderam +sofrer o grande esforço, e combate dos nossos, e começáram a fugir, e +foram delles muitos cativos, e mortos, antre os quais morreram hi os +dous Capitães Alboacamezim, e Albouzil. O Ifante com o seu, e assi os da +Villa houveram grandes prezas em aquelle desbarato, e o Ifante assentou +seu arraial fóra da Villa, sem querer entrar nella, até que chegasse a +outra gente sua, que elle mandára que o seguisse. Os da Villa sairam +fóra, e trouxeram-lhe serviços desso que podiam. O Ifante os recebeo com +muito prazer e agradecimento louvando-os muito do grande esforço, e +bondade que tiveram em defender a Villa, sendo tão poucos. + +Foi esta peleija, e vencimento do cerco de Beja, em dia Dascenção de N. +Senhor dezoito dias de Maio, do Nascimento de N. Senhor de mil cento e +setenta e nove annos (1179). A cabo de tres dias, do desbarato dos +Mouros, chegou D. Pero Paes com toda a oste que lhe ficou encarregada, e +depois de chegados, foi o Ifante com certos Cavalleiros ver a Villa, e +entrando pela porta vio ainda em cima estar as Armas de Almançor, +mandou-as logo tirar, e poer as del-Rei seu pai. Mas ora deixará a +Estoria de falar do Ifante D. Sancho, que ficou em Beja mui temido dos +Mouros de toda aquella terra, e contará de uma entrada que El-Rei Guami +Mouro, e um seu irmão fizeram em Portugal, e como foi desbaratado, e +prezo em Porto de Mós, por um Cavalleiro, que havia nome D. Fuas +Roupinho. + + + + +CAPITULO LIV + +_Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D. Fuas +Roupinho Alcaide do Castello_. + + +Sabendo os Mouros de cima do Tejo, como o Ifante D. Sancho era em Beja, +de socego, parecendo-lhes que com a occupação que lá teria, elles podiam +a seu salvo fazer entrada em Portugal, um Rei daquella terra onde ora é +Caceres, e Valença, que chamavam Guami, e um seu irmão com soma de gente +das terras a redor, passou o Tejo, e correo toda a terra de Christãos, +até chegar a Porto de Mós. Em aquelle tempo tinha o Lugar um Cavalleiro, +que chamavam D. Fuas Roupinho, o qual quando soube que vinha aquelle +Mouro sobre elle, saio-se do Castello, leixando em elle gente que o +podesse defender, encomendando-lhes muito, que assi o fizessem, que elle +se não saia se não para logo lhes soccorrer com mais gente. Saido elle +meteo-se em cima da Serra, que chamam Amendiga, da parte donde nace o +roio de Porto de Mós, fazendo esconder os seus, mandou logo a gram +pressa a Alcaneide, e Santarem fazendo saber a vinda daquelles Mouros, e +que lhe enviassem gente, porque com a ajuda de Deos esperava que havia +haver delles honra, e vencimento. Acodiu-lhe logo bom quinhão de gente, +e no dia que elles chegaram aonde estava D. Fuas Roupinho, chegou o +mesmo Rei Guami com todas suas gentes sobre Porto de Mós, e vendo o +Castello tão pequeno, fazendo conta que ligeiramente o tomaria, foram +logo todos em chegando a combate-lo mui rijamente. Foi o combate tão +profiado, que dureu até noite, dos Mouros foram muitos mortos, e +feridos, e assi da parte dos Christãos houve danno assás, e durando o +combate os que estavam na Serra com D. Fuas Roupinho, debatiam-se todos +por ir soccorrer aos seus, e elle lhes disse. + + * * * * * + +«Amigos posto que nós aqui sejamos muitos, porém eu vos rogo, que vos +rejais hoje neste cazo por mim, que segundo cuido, e espero prazerá a +Deos que vossos desejos, e meus, eu vo-los darei compridos com muito +prazer, e honra, antes que estes Mouros daqui vão, e vós sede certos, +que os que eu leixei no Castello são taes, que se defenderão bem, ainda +que creio que os Mouros de os ter em pouco, não cessarão do combate até +que a noite os desparta, e esso é o que eu mais desejo, porque então do +caminho e combate mais cançados se lançarão a repouzar, e dormir, e nós +ante menhã daremos nelles, e os desbarataremos.» + +E assi lhes saio em todo, porque de madrugada deram nos Mouros entregues +ao sono, e não menos em descuido de lhes tal acontecer, e porque o lugar +onde os Mouros estavam ante o Rio e o Castello ser mui estreito, deu +ainda mais azo para sendo assi cometidos se embaraçarem antre si, e +desbaratarem, e serem mortos, e feridos muitos mais, sem se poderem +remediar. Foi ahi prezo El Rei Guami, e seu irmão com elle, e outros +muitos, os quais com cincoenta dos melhores D. Fuas Roupinho levou a +El-Rei D. Affonso Anriques a Coimbra. El-Rei o recebeo com muito prazer +e gazalhado, e mandou meter em prizão a El-Rei Guami, e todos os que com +elle foram levados, e a D. Fuas, e aos que com elle iam, e foram na +batalha fez grandes mercês, como cabe aos Principes fazer por serviços, +e merecimentos, assinados como aquelle. Foi esta batalha de D. Fuas +Roupinho, e El-Rei Guami, em Porto de Mós aos vinte dias do mez de Maio, +era de mil cento e oitenta annos (1180). + + + + +CAPITULO LV + +_Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e +tomou delles nove Galés_. + + +Estando assi D. Fuas Roupinho com El-Rei em Coimbra, quando lhe levou +aquelle Rei Mouro prezo, escreveram os de Lisboa a El-Rei como hi +andavam nove Galés de Mouros, de que era Almirante um Mouro por nome +João Ferreira Dalfamim, o qual fazia muita guerra e dando por aquella +Costa, que fosse sua mercê manda-lo remediar. El Rei havendo este +recado, chamou D. Fuas Roupinho, encomendou-lhe que fosse a Lisboa, e +fizesse armar Galés, e que fosse elle por Capitão, para ir peleijar com +os Mouros, se o esperassem; e deu-lhe logo cartas e mandados para seus +officiais, que lhe dessem para ello todo o que lhe fizesse mister, e +outra para a Cidade, de como o mandava lá para armar aquella frota, e +por tanto fizessem todo o que acerca desso elle lhes requeresse. Tanto +que D. Fuas foi despachado, espedio-se del-Rei, e partio-se para Lisboa, +e como chegou deu a Carta del-Rei á Cidade, e as outras aos officiaes +daquelle carrego, e logo á pressa se deu ordem para se armar a frota, e +como foi prestes, D. Fuas entrou em ella, e partio volta do Cabo de +Espichel, por haver novas que na paragem do rio de Setubal +continuadamente, continuavam mais as Galés dos Mouros, e faziam sua +guerra, as quais havendo lá nova da Armada que se fazia, vinham tambem +contra Lisboa a sabe-lo, e trova-lo se podessem, e em dobrando o Cabo, +houveram vista da frota dos Christãos, e sem mais detença se foram +aferrar uns com outros, peleijando mui fortemente, e quiz N. Senhor que +os Mouros foram desbaratados, e todas suas Galés tomadas. Esto foi na +era já dita de mil cento e oitenta annos (1180) a quinze dias de Julho. +Tornou-se então D. Fuas para Lisboa com grande vitoria e honra, com a +qual como era rezão foi recebido. + + + + +CAPITULO LVI + +_Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado del Rei +D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os seus_. + + +Tanto que D. Fuas Roupinho tornou a Lisboa, com este vencimento, segundo +muitas vezes, pequena boa andança engana para dezaventura maior, +escreveo logo a El-Rei D. Affonso a Coimbra da vitoria que houvera onde +o mandára, e mais lhe fazia certo, que os da Cidade, e toda a terra ao +redor estavam em grande reto, e vontade de entrar nas Fustas e Galés +para irem fazer guerra aos Mouros, e se houvesse por seu serviço, elle +os serviria nesso. E El-Rei lhe mandou dizer, que lho tinha muito em +serviço, e que assi o fizesse, escrevendo á Cidade sobre esso, e visto o +recado del-Rei armaram logo uma soma de Galés, e D. Fuas, foi Almirante, +e foram correr a Costa do Algarve; mas de couza notavel, e para contar +que hi fizessem nada achamos escrito, e então D. Fuas teve Conselho do +que fariam, e acordáram ser bem ir sobre o porto de Cepta, e hi acharam +Fustas de Armada de Mouros, e tomaram-nas, e assi outros Navios grandes +com elles, e depois de estarem ahi dous dias ante Cepta, tornáram para +Lisboa trazendo os Navios tomados comsigo, vindo com grande prazer e +contentamento de suas prezas, e logo a poucos dias depois de chegados, +com não menos alvoroço, sem tento, o que não consente rezão ser sempre +ditozo, se fizeram prestes para tornarem lá. + +Os Mouros mui sentidos dos dannos feitos por D. Fuas, receando-se de +mais adiante, mandáram sobre ello recado por toda a Mourisma da praia, e +tambem das partes da Espanha, e ajuntáram cincoenta e quatro Galés, e D. +Fuas não sabendo desto parte, entrou pelo Estreito dentro, e depois +achou-se lá com Galés dos Mouros, e pela grande corrente lançaram-se as +nossas Galés sobre a frota dos imigos, e não poderam os nossos al fazer, +se não peleijarem com elles, e assi aferráram, e peleijaram muito +espaço. Mas pela grande desigualança, e os Mouros serem muitos mais +foram os nossos vencidos, e desbaratados, e mortos muitos, e antre elles +o nobre D. Fuas Roupinho. Esta foi aos dezasete de Outubro da dita era +de mil e cento e oitenta annos (1180). + + + + +CAPITULO LVII + +_Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em +Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho, +em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso, +que veio a soccorrer seu filho_. + + +Despois que o Ifante D. Sancho teve Beja corregida do que compria para +sua defensão, leixando em ella fronteiros, e assi nos outros Lugares e +Villas Dalentejo veio-se para Santarem com a gente que de continuo +trazia comsigo, e alguma pouca mais, porque a outra ficava repartida +pela frontaria dos Mouros, e estando assi o Ifante D. Sancho em Santarem +Almiramolim Emperador antre os Mouros Rei de Marrocos, vendo o grande +danno e estrago que os Mouros tinham recebido del-Rei D. Affonso +Anriques, e do Ifante D. Sancho seu filho, e como de toda a terra se lhe +mandavam desso cada vez mais agravar, foi movido a fazer guerra a +Portugal, e juntou muitas gentes infieis, dáquem, e dalém mar, e segundo +diz uma Chronica, que foi achada em Santa Cruz de Coimbra, não era em +memoria até aquelle tempo que tanta gente de Mouros fosse junta para +entrar em Portugal. Vinham com Almiramolim, El-Rei Albojaque de Sevilha, +e El-Rei Albozady, e El-Rei de Grada, e El-Rei de Fês, e outros Reis +Mouros, que por todos eram treze, cujos nomes se não acham escritos, e +vieram pelas partes Dalentejo a entrar na Estremadura, passando o Tejo +um Domingo, dia de S. João Bautista, sete dias por andar de Junho, era +do Senhor de mil e cento e oitenta e quatro annos; os Mouros logo em +esse dia foram sobre o Castello de Torres Novas, e destruiram-no, e á +Segunda feira vieram poer seu arraial em um lugar que se chama o monte +de Pompeo, e á Terça feira se ajuntáram todos na Redinha, e á Quarta +feira, se vieram a Orta lagoa, e alli sentáram seu raial, e esta conta +da entrada, e jornadas de Almiramolim se escreve assi na Coronica, como +quer que um letreiro dos que estão no Convento de Thomar, desvaire algum +tanto, e diz que foi Almiramolim cercar o Castello de Thomar o primeiro +dia de Julho, e o teve cercado seis dias, e que trazia comsigo +quatrocentos mil de cavallo, quinhentos mil de pé, poderia passado o +Tejo de tanta multidão apartar-se muita gente, poer este cerco, e fazer +outras corridas pela terra, e chegar elle a esto, e deixa-lo posto. + +O Ifante D. Sancho que estava em Santarem, como dissemos, não tendo +comsigo gente, que com rezão podesse peleijar com tanta multidão de +Mouros, meteo-se a correger a Villa o milhor que pode para se haver de +defender, e segundo achamos escrito ainda então a maior parte de +Santarem era arrevalde, nem havia ahi mais cerca que Alcaceva pela torra +de Alfam, até Alfanja, o Ifante despois de correger os muros, e ordenar +a defensão saio-se fóra ao arravalde, e tomou uma parte delle, para o +abairreirar de cubas, e portas, e escudos, e fez palanques, e lugares em +que podessem estar para defender, mandando derribar todas as casas de +redor, e então repartio sua gente, e elle poz se com sua bandeira onde +lhe pareceo haver de ser mór pressa, e ao outro dia pela menhã Quinta +feira vinte e oito de Junho vespora de S. Pedro, e S. Paulo abalou +Almiramolim com toda sua gente, e chegou a Santarem, segundo conta +aquella Estoria achada em Santa Cruz, como já disse, e em chegando, +tanto que soube que o Ifante o esperava assi naquelle palanque houve por +desprezo, e fez logo dar ás trombetas, e mover toda sua gente, e +combater o palanque. + +Foi o combate tão forte, que morreram e foram feridos muitos de uma +parte e da outra, em quanto uns peleijavam, destroiam os outros todo o +arravalde de fóra do palanque até torre Lavinha, por fazerem aos Mouros +maior praça, e despejo, para combater. Tanto que veio a noite, que +partio o combate, o Ifante poz guarda no palanque, e fez agazalhar e +repousar outra gente, e pensar dos feridos, e esta mesma afronta +sofreram os Christãos assi cinco dias arreio, porque os Mouros eram +tantos, que mui folgadamente se renovavam cada vez muitos aos combates, +desde pela menhã até noite; e segundo conta a dita Estoria, quando +El-Rei D. Affonso soube que Almiramolim vinha sobre o Ifante seu filho, +ajuntou a mais gente que pode, e abalou tanto á pressa, que aos tres +dias desque o Almiramolim chegou a Santarem, foi El Rei a Porto de Mós. +Os Mouros sabendo da vinda del-Rei D. Affonso não leixáram por esso +seguir com maior afronta seus combates, cada dia, como antes faziam, e +ao quinto dia foi o Ifante e os seus tão afincados dos Mouros, e postos +em tanto aperto, que o palanque foi roto por algumas partes, e muitos +dos Christãos mortos, e feridos, e o Ifante esso mesmo foi ferido, com +todo mui esforçadamente se defenderam, e sostiveram aquelle dia, que não +foram entrados, e já não tinham modo de defensão, se não desemparar o +palanque, e acolher-se ácerca; mas o Senhor Deos, que é poderoso em +todalas cousas, quando se os homens em ellas não sabem, nem podem valer, +então acode elle com sua ajuda, porque se então mais conheça, e poz tal +medo e receo nos Mouros, com a vinda e chegada del-Rei D. Affonso, que +começaram a dezemparar os combates que faziam, e ir-se poucos a poucos, +a mais andar, como desbaratados, como soi a muita gente de fazer, e +desmandar-se, quando se menos póde reger, e os Christãos vendo os raiaes +dos Mouros mover se, e partirem-se de onde estavam, saio gente de pé do +Ifante contra elles, e os Mouros se afastáram para um Lugar, que se +chama monte de Abbade, e nisto appareceo El-Rei D. Affonso com sua +gente, de que o Ifante e os seus foram mui ledos, e pozeram-se logo +todos a cavallo, e juntos com El-Rei déram nos Mouros, fazendo nelles +grande estrago, e mortindade, de que morreram alguns dos Reis que alli +vinham, e grande parte dos mais nobres Mouros, e foi alli ferido +Almiramolim, e feito assi nelle, e nos seus tão grande desbarato. + +Tornou-se El-Rei, e o Ifante com grande vencimento, e prazer de todos os +seus, e acháram no Arraial dos Mouros grandes despojos de ouro e prata, +e tendas armadas, cavallos, e camellos, e outras muitas cousas com +pressa da peleija deixadas. E com todo esto, e muitos Mouros cativos, +entráram na Villa mui ledos, dando muitas graças e louvores a N. Senhor. +Estos Mouros, que assi iam fugindo com quanto iam desbaratados, porém +por ainda ficarem mui muitos de tanta multidão foram poer arraial acerca +Dalanquer, e tiveram-na cercada alguns dias, combatendo-a rijamente sem +lhe poderem empecer, e depois se alçaram dali, e foram-se a Aruda, e +destruiram-na toda por terra, e dali se foram cercar Torres Vedras, e +estiveram sobre ella onze dias, e vendo que a não podiam tomar, houveram +Conselho de se ir volta de sua terra, achando que eram dos seus muitos +mortos, e perdidos, e assi muitas riquezas que trouxeram, e então se +partiram seu caminho, e passado o Tejo morreo o seu grande Emperador +Almiramolim das muitas feridas que houve na batalha. + + + + +CAPITULO LVIII + +_Como cazou Dona Tareja, filha del-Rei D. Affonso Anriques a derradeira, +com D. Felippe Conde de Frandes_. + + +Despois que a batalha assi foi feita, El-Rei D. Affonso Anriques esteve +alguns dias em Santarem, partio se para Coimbra levando comsigo o +Infante D. Sancho seu filho, e como quer que já tenhamos dito, +juntamente que El-Rei D. Affonso teve tres filhas, e que uma dellas +cazara com El-Rei D. Fernando de Lião, e outra com o Conde D. Reymon de +Barcelona, e outra com D. Felippe Conde de Frandes, nesta era acima dita +de mil e cento e oitenta e quatro annos, metendo-se antre o seu +cazamento, e de suas Irmãs passante de vinte e cinco annos, em que +parece, que ainda esta Dona Tareja não era nacida, ou havia pouco que +nacera, mas como se veio tratar o seu cazamento, não achamos escrito +cousa para dizer de certo, sómente que desta tornada del-Rei D. Affonso, +de Santarem para Coimbra, mandou o Conde D. Felippe de Frandes, por Dona +Tareja sua molher, e vieram por ella Cavalleiros, e Senhores muitos, e +outra muito nobre gente, e bem luzida, e Náos mui bem guarnecidas, á +Cidade do Porto, e tanto que El-Rei soube que elles hi eram, partio-se +com sua filha para lá, levando comsigo desses grandes do Reino, e homens +principais, e quando chegou os Senhores, e Cavalleiros, que vinham pela +Ifante, sairam a El-Rei, e a ella de quem foram bem recebidos, e com +muita honra agazalhados, perguntando-lhe El-Rei com muita afeição, e +assi a Ifante por novas da saude, e disposição do Conde, e de seu +estado, e depois desto entregou-lhes El-Rei sua filha muito +honradamente, mandando com ella em outras Náos dos seus naturaes alguns +Grandes do Reino, e pessoas principais, e asi Donas, e Donzellas de +linhagem quantas compria, e esta Dona Tareja viveo com seu marido vinte +e tres annos. + + + + +CAPITULO LIX + +_De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes +louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente +escritas_. + + +Vendo-me chegado haver de dar cabo aos mui nobres feitos del-Rei D. +Affonso Anriques com sua morte, a qual nos bons sempre é temporam, por +tarde que venha, tomo desso grande pezar, como se vivendo com elle o +visse falecer. Tão conversado, e affeiçoado trazia o esprito na materia +de suas excellencias! Depois de feito o cazamento acima dito, veio o +nobre Rei adoecer logo ao anno seguinte, e faleceo dessa doença o +Excellente Principe mui manhanimo igual a qualquer dos mui excellentes +antigos em valentia de forças, e coração mui grande, nem que na +Christandade houve outro, antes, nem depois delle mais temido dos +Mouros, cujos mui notaveis feitos não é duvida acharem-se muito menos +postos em escrito, do que foram por obra, ora fosse por culpa dos +tempos, ora por mingoa dos Escritores, segundo em alguns passos dessa +sua Estoria se pode assás comprehender, porque em ella se não faz menção +de muitas cousas assinadas de sua pessoa, nem dos seus, assi como de D. +Gualdino Paes, que foi Mestre do Templo de Christo, em Portugal, e fez o +Castello de Thomar, e outras Fortalezas, e servio grandemente em seu +tempo. + +Teve este muito esforçado Rei, em suas excellentes cavallarias, como por +ellas se mostra, o animoso fervor, e ardente esforço de Julio Cesar, e a +segurança mui confiada de Publio Cipião Africano, em tanto gráo, que +todo o que estava por fazer, cometia como se o tivesse já feito, e o que +mui deficil se acha sendo tão activo. Era cheio de muita fé e devação, +sem a qual toda cavallaria no Christão, é deslouvada, e ainda muitas +vezes danoza, e com rezão mal preparada, pelo qual este mui virtuoso +Rei, tendo tamanha occupação de guerras tão santas, e meritorias, contra +os infieis, que assás bastavam para muito merecer ante Deos, não leixou +por esso de fazer muitas Egrejas, e Moesteiros mui sumptuosos, dotados +de muita renda, e ornamentos com muito serviço e acrescentamento do +culto Divino, de que hoje em dia são principaes o Moesteiro de Santa +Cruz de Coimbra, e o Moesteiro de Alcobaça, leixando manifesto exemplo +aos menos devotos, que occupação de servir a Deos em uma cousa, não +tolhe por esso, mas antes dá graça e poder para muitas outras. + +E em uma Chronica achei, que elle começou a Ordem de Santiago, e deu ao +Esprital de Jerusalem oitenta mil dinheiros de ouro para se comprar +herança, e tanta renda, porque désse cada dia a todos os enfermos de +enfermaria mantimento de pão, e vinho, para que o metessem cada dia em +orações, e satisfez outras muitas cousas de caridade, e devação, foi mui +amado, e temido dos seus. Houve, e venceo em pessoa muito grandes +batalhas, e afrontas de peleijas, segundo se achou com muito poucos +contra muitos; desbaratou em pessoa dous Emperadores, um Christão, e +outro Mouro, e vinte Reis Mouros, com grandes poderes, e gentes, sendo +elle muito menos. Primeiramente em Val de vez, antre Monção, e Ponte de +Lima, venceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador. Depois no +Campo Dourique venceo cinco Reis Mouros, com infinda Mourama, e junto +com Palmela venceo El-Rei de Badalhouce Mouro, vindo com grande poder. E +em Santarem Albojaque Rei de Sevilha, e apoz esto, Almiramolim +Emperador, que se dizia antre os Mouros Rei de Marrocos, que trazia +treze Reis Mouros comsigo, com novecentos mil homens, como dito é, não +contando outros vencimentos grandes, que houve de Lugares, e Fortalezas, +que tomou a Mouros, muitas, e mui grandes, e fortes: primeiramente na +Estremadura, Santarem, Lisboa, e todas outras Fortalezas della, desde +Lisboa até Coimbra, em Alentejo, tomou Cezimbra, Palmela, Alcacer, +Evora, Elvas, Cerpa, Moura, Beja, e outras Fortalezas muitas, mui +fortes, e grandes. + + + + +CAPITULO LX + +_Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era em +que se finou, e onde foi sepultado_. + + +Na verdade El-Rei foi dino de grande louvor, e memoria de todos seus +feitos, e que alguns escrevessem delle que em sua mancebia foi bravo, e +esquivo, sobejo, certo a mim parece concirando bem tudo, que em nhum +tempo teve cousa alguma, que sendo elle o primeiro Rei de Portugal, e no +modo que o foi, lhe não fosse compridouro ser em tudo qual foi, assi +para serviço de Deos, como para bem, e muita honra do seu Reino, e que +se tal não fora, não sabemos que fora de Portugal, o que Deos seja +louvado, agora é, porque como diz Aristoteles, o principio é mais, que o +meio das cousas, porque muitas vezes ouvi dizer a meu irmão D. João +Galvão, Arcebispo que foi de Braga, e Prior de Santa Cruz de Coimbra, +Escrivão da Puridade del-Rei D. Affonso o Quinto, que Santa gloria haja, +que segundo achava pelas cousas daquelle Moesteiro, e outras obras +daquelle virtuoso Rei, elle o tinha por Santo, e por tal a seu parecer +deve ser havido. + +Os annos, que neste mundo viveo ainda que se achem escritos em diversos +modos, porém tirada a limpo com muita diligencia, a verdade desso, achei +que viveo noventa e um annos; porque elle naceo na era de N. Senhor Jesu +Christo de mil e noventa e quatro, cinco annos antes que a Caza Santa de +Jerusalem fosse tomada aos Mouros pelo Duque Gudufre de Bulhão; e por +morte de seu pai o Conde D. Anrique ficou elle de dezoito annos, e des +então foi chamado Principe vinte e sete annos, e despois chamado Rei +quorenta e seis annos, e sendo alçado Rei em idade de quorenta e cinco +annos, que são assi por todos noventa e um annos, em que o Senhor Deos +aprouve leva-lo para si, tres annos antes que a Caza Santa se tornasse a +perder, e tomar de infieis, pelos peccados dos Christãos, tolhendo N. +Senhor a este virtuoso Rei, que não visse tão grande pezar, quem lhe +tanto mereceo empunhar pela sua Santa Fé. + +Finou-se aos seis dias do mez de Dezembro, era de N. Senhor Jesu Christo +de mil cento e oitenta e cinco annos. Foi enterrado no Moesteiro de +Santa Cruz de Coimbra que elle mandou fazer. Ainda que velho foi mui +sentida sua morte, de seu filho, o Ifante D. Sancho, e de todos seus +Cavalleiros e Vassallos, do Povo, do Reino de Portugal, e seu corpo +enterrado com muita honra, e grandes obsequias, e sua Alma levada nas +mãos dos Anjos, á gloria do Paraiso, onde todos sejamos. Amen. Tem de +fóra da sepultura um letreiro de versos em latim, que diz, outro +Alexandre jaz aqui, ou Julio outro. + + + DEO GRATIAS + + + + +INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS + + +A + + +Abdenamer cativou em Espanha muitos Mouros, e Christãos, e abrazou muitos +Santuarios. + +Achy Rei Mouro com trezentos mil Soldados cerca Coimbra, e levanta o cerco +com grande perda. + +Affonso (D.) Rei de Lião foi filho de D. Fernando, e Dona Urraca filha +del-Rei D. Affonso Anriques. + +Affonso de Castella (D.) chamado o Emperador caza sua filha Dona Tareja +com o Conde D. Anrique. + É vencido na batalha de Valdevez por D. Affonso Anriques. + +Affonso Anriques (D.) Quando naceo. + É entregue a Egas Monis para ser seu Aio. + É apresentado por este Fidalgo a N. Senhora a qual o livra da aleijão + com que naceu. + Acompanhou a seu pai defunto até o lugar onde o sepultáram. + Dezafia a seu Primo el-Rei de Castella D. Affonso filho do Conde D. + Reymão por lhe tomar Lião, mas logo se reconciliáram. + Peleja com seu Padrasto, e é vencido. + Torna Segunda vez a batalhar, e o vence, e prende juntamente com elle + a sua Mãi. + Alcança a batalha de Valdevez onde fica vencido D. Affonso de Castella + chamado Emperador. + É cercado em Guimarães por D. Affonso de Castella. + De como levantou o cerco. + Conquista Leiria, e Torres novas. + Parte ao Alentejo para pelejar com os Mouros. + Sentio muito a morte de Egas Monis. + Busca a el-Rei Ismar, e assenta os arrayaes no lugar chamado Cabeças de + Rei. + É despersuadido pelos Soldados a não commetter a batalha do campo de + Ourique, mas elle os anima para o conflito. + Aparece-lhe Christo Senhor nosso, e lhe segura o bom successo da + batalha. + Antes da batalha é levantado Rei. + Dá-se a batalha, e sae vitorioso. + Depois d'esta vitoria acrecentou o escudo suas Armas. + É informado do lugar onde está o Corpo de S. Vicente Martyr. + Vai buscar este santo Corpo ao Cabo do seu nome, e o não acha. + Toma Leiria aos Mouros. + Faz doação a S. Theotonio de Leiria, e Arronches sómento no espiritual. + Caza com Dona Mofalda. + Intenta tomar Santarem. + Manda por Martim Mohás levantar a tregoa com os Mouros de Santarem. + Voto que fez a S. Bernardo se conquistasse Santarem. + Pratica que fez aos Soldados para conquistar esta Villa. + Escala esta Villa, e se fez Senhor della. + De que modo rendeo a Deos as graças pela tomada desta Villa. + Ordena cercar Lisboa. + Exhorta aos estrangeiros que chegáram na Armada para a conquista de + Lisboa. + Conquista esta Cidade, e purifica a sua Mesquita. + Determina fazer esta Cidade Bispado, e quem foi o seu primeiro Bispo. + Nomeia o primeiro Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fóra, e quem foi? + Conquista Alanquer, Obidos, Torres vedras, e Alcacere, Elvas, Moura, e + Serpa. + Dos filhos que teve. + Recebe com grande pompa em Tuy ao Conde de Barcelona D. Reymondo, que + vinha com procuração de seu filho a despozar-se com Dona Mofalda + filha do mesmo Rei. + Toma Cezimbra, e Palmella onde desbaratou os Mouros. + Conquista Badalhouse. + Contendas que teve com seu genro D. Fernando Rei de Lião, e sahindo a + pelejar com elle quebra uma perna no ferrolho das portas de + Badalhouse. + Por causa deste desastre fica prisioneiro, e para recuperar a liberdade + concede, e larga algumas terras, e Fortalezas a D. Fernando. + Fez juramento a seu filho D. Sancho por successor da Coroa, e quando + se celebrou este acto. + Desbarata em Santarem a Albojame Rei de Sevilha, que a vinha cercar. + Manda a seu filho D. Sancho a pelejar com os Mouros no Alentejo. + Soccorre ao mesmo Infante, que estava em Santarem cercado por + Almiramolim Emperador de Marrocos, e o desbarata. + Acções illustres, que obrou. + Annos, que viveo. + Dia, e anno da sua morte, e onde está sepultado. + +Alanquer é conquistado por D. Affonso Anriques. + +Albojame Rei de Sevilha é desbaratado pertendendo tomar Santarem, por D. +Affonso Anriques. + Faz tregoas com o mesmo Rei por cinco annos. + +Alcacere é conquistado por D. Affonso Anriques. + +Almada, diversos nomes que teve. + +Almiramolim Emperador de Marrocos cerca em Santarem ao Infante D. Sancho, +e é desbaratado. + +Arronches é tomado por São Theotonio Prior de Santa Cruz de Coimbra. + +Auzery Alcaide mór de Santarem foge para Sevilha quando se tomou a dita +Villa. + +Azambuja porque cauza lhe puzeram este nome. + + +B + + +Badalhouse é tomado por D. Affonso Anriques. + No ferrolho das suas portas quebrou o mesmo Rei uma perna, e por esta + causa é prisioneiro por seu genro D. Fernando Rei de Lião, e recupera + outra vez Badalhouse. + +Batalha de Santilhanas, nella foi prisioneiro por D. Affonso Anriques D. +Fernando Conde de Trastamara juntamente com a Rainha Dona Tareja mãi do +mesmo Rei. + A de Valdevez, nella ficou destruido D. Affonso de Castella chamado + Emperador. + A do Campo de Ourique. + A de junto de Palmella. + A de Inxarafe alcançada pelo Infante D. Sancho. + A de Beja alcançada pelo mesmo Infante. + A de Santarem onde é destruido Almiramolim Emperador de Marrocos. + +Beja é conquistado por D. Affonso Anriques, e em que anno. + É cercada pelos Mouros governados por Albocamesim, e Albouzil, e + levantam o cerco derrotados pelo Infante D. Sancho. + +Bernardo (S.) Estando em França soube por illustração Divina o voto que +fizera á sua Religião D. Affonso Anriques se conquistasse Santarem. + + +C + + +Cezimbra é conquistada por D. Affonso Anriques. + +Childe Rolim foi um dos principaes Cavalleiros que veio na Armada que +ajudou conquistar Lisboa. + Passou á Villa de Azambuja, que ficou a seus descendentes. + +Coimbra é cercada por Achy Rei Mouro, e levanta o sitio com grande perda. + + +D + + +Daciano Martyrizou a S. Vicente. + +D. Diogo Gonçalves morre valerosamente na batalha de Ourique. + + +E + + +Egas Moniz (D.) foi o aio del-Rei D. Affonso Anriques. + Aparece-lhe de noute N. Senhora, e lhe manda leve a este Principe a um + lugar, onde achará uma Igreja sua onde ficará livre da aleijão com + que nacera, e assim sucedeo. + Da maneira que fallou a El-Rei de Castella D. Affonso, e lhe fez + levantar o cerco de Guimarães. + Vai com sua mulher, e filhos apresentar se a El-Rei de Castella pela + menagem que lhe tinha feito em Guimarães. + É livremente despedido pelo dito Rei. + É recebido com grande alegria por D. Affonso Anriques quando voltou de + Castella. + Da sua morte, e onde está enterrado. + +Elvas é conquistada por D. Affonso Anriques. + +Elvira (D.) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador casou +com o Conde D. Reymão de S. Gil de Proença. + +Evora é conquistada por D. Affonso Anriques. + + +F + + +Felippe (D.) Conde de Frandes cazou com Dona Tareja filha terceira del-Rei +D. Affonso Anriques. + +Fernando (D.) Conde de Trastamara cazou com D. Tareja viuva do Conde D. +Anrique. + Era o maior homem de Espanha, e por esta causa se levantou todo Portugal + por elle contra El Rei D. Affonso Anriques. + É prisioneiro na batalha de Santilhanas por El-Rei D. Affonso Anriques. + +Fernando (D.) Rei de Lião cazou com Dona Urraca filha de D. Affonso +Anriques. + Separa-se delle por ordem do Papa por serem parentes. + Prisiona em Badalhouse a seu sogro D. Affonso Anriques. + +Fuas Roupinho (D.) desbarata os Mouros que cercavam Porto de Mós. + Alcança uma victoria naval dos mesmos inimigos, e lhe toma nove Galés. + Peleja segunda vez com os Mouros em o mar, onde foi desbaratado, e morto. + + +G + + +Gilberto foi o primeiro Bispo que teve Lisboa depois de ganhada aos Mouros. + +Gonçalo de Sousa (D.) valerosamente peleja na batalha de Ourique. + Achou-se na conquista de Santarem. + Acompanhou a D. Affonso Anriques quando foi a Tuy receber ao Conde de + Barcelona D. Reymondo. + Assistio na batalha de Inxarafe com o Infante D. Sancho governando a + seiscentos homens de cavallo. + +Gonçalo Viegas (D.) adiantado mór da Cavallaria del-Rei, socega o tumulo +que havia sobre o lugar onde se havia de collocar o Corpo de S. Vicente +quando chegou a Lisboa. + +Gualterio frade Flamengo é nomeado primeiro Prior do Mosteiro de S. +Vicente de Fóra por D. Affonso Anriques, e não permanece. + +Guimarães é cercada por El-Rei de Castella D. Affonso. + Levanta o sitio por persuasão de D. Egas Moniz. + +Guodinos Conego Regrante, e Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fóra é +eleito Bispo de Lamego. + + +I + + +Inglezes que vieram na Armada para cercar Lisboa assentam o seu arrayal +no logar donde está a Igreja Parochial dos Martyres. + +Ismar (El-Rei) com quatro Reis é vencido na batalha de Ourique sendo o +numero dos inimigos muito superior ao dos Christãos. + Toma Leiria. + +Izidoro (D.) Bispo de Tuy acompanhou a esta Cidade a El-Rei D. Affonso +Anriques quando foi receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo. + + +J + + +João (D.) Arcebispo de Braga recebe em Tuy a Dona Mofalda filha del-Rei +D. Affonso Anriques com D. Reymondo filho do Conde de Barcellona +assistindo este com procuração do filho. + Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe. + + +L + + +Leiria é conquistada por D. Affonso Anriques. + É tomada por El-Rei Ismar. + +Lisboa é cercada por D. Affonso Anriques. + Em que dia, e anno foi ganhada. + Quem foi o primeiro Bispo, que teve depois de conquistada aos Mouros. + +Lourenço Viegas (D.) Peleja valerosamente na batalha de Ourique. + Achou-se na conquista de Santarem. + Assistio na batalha de Inxarafe governando seiscentos homens. + + +M + + +Martim Moniz filho de Egas Moniz Capitão de uma Az na batalha do Campo +de Ourique peleja valerosamente. + Morre na batalha. + +Mem Moniz filho de Egas Moniz era Capitão na batalha de Ourique. + É mandado por D. Affonso Anriques a fazer tregoas com os Mouros de + Santarem, e de como espiou a Villa, e do conselho que deu a El-Rei + para poder ser conquistada. + Acha-se na conquista de Santarem sendo já Guarda mór del-Rei. + Assistio na batalha de Inxarafe D. Sancho. + +Mendo (D.) Bispo de Lamego acompanhou a El-Rei D. Affonso Anriques a Tuy +onde recebeo a D. Reymondo Conde de Barcelona. + +Moçaraves são prisioneiros na batalha do Campo de Ourique os quaes +informaram a El-Rei D. Affonso Anriques donde estava o Corpo do Martyr +S. Vicente. + +Mofalda (D.) Filha do Conde D. Anrique de Lara caza com D. Affonso +Anriques. + +Mofalda (D.) Filha del Rei D. Affonso Anriques caza com D. Reymondo +filho do Conde de Barcelona, e quando, e como se fez este cazamento. + +Mossem Guilhem de longa espada, Conde de Lincoll foi um dos principaes +Cavalleiros que vieram na Armada, que ajudou a tomar Lisboa. + +Mosteiro de S. Vicente de Fóra. Nelle, antes de ser fundado, pôs o seu +arraial D. Affonso Anriques para conquistar Lisboa. + Qual foi o seu primeiro Prior nomeado pelo mesmo Rei. + +Moura é conquistada por D. Affonso Anriques. + + +O + + +Obidos foi conquistado por D. Affonso Anriques. + + +P + + +Payo Guoterres é feito Alcaide do Castello de Leiria por S. Theotonio +quando foi conquistado por D. Affonso Anriques. + É prisioneiro no Castello de Leiria quando foi conquistado por El-Rei + Ismar. + +Palmella é conquistada por El-Rei D. Affonso Anriques onde desbarata em +uma batalha aos Mouros de Badajós. + +Pedro (D.) Conde das Asturias acompanha a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques +quando foi receber a D. Reymondo Conde de Barcelona. + +Pedro Affonso (D.) Irmão bastardo del-Rei D. Affonso Anriques se achou na +conquista de Santarem. + +Pedro das Esturias (D.) governou na batalha, que se compunha de duzentos e +cincoenta cavallos. + +Pero Paes (D.) Alferes de D. Affonso Anriques se achou na conquista de +Santarem. + Acompanha o mesmo Rei a Tuy quando foi receber ao Conde de Barcelona D. + Reymondo. + Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe. + +Porto de Mós é cercado pelos Mouros, onde foram desbaratados por D. Fuas +Roupinho. + +Portugal é dado em dote ao Conde D. Anrique por El-Rei de Castella D. +Affonso chamado Emperador quando cazou com elle a sua filha Dona Tareja. + Porque tomou este nome? + + +R + + +Ramiro (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi +a receber a D. Reymondo Conde de Barcelona. + Assistio na batalha de Inxarafe governando a Az esquerda, que se + compunha de duzentos e cincoenta cavallos. + +Reymondo (D.) Conde de Barcelona recebe com procuração de seu filho a Dona +Mofalda filha del-Rei D. Affonso Anriques, e quando, e como se fez este +cazamento. + +Roberto (D.) Daião da Sé de Lisboa faz que o Prior da Igreja de Santa +Justa lhe conceda que o Corpo do Martyr S. Vicente seja collocado na Sé. + + +S + + +Sancha (D.) filha do Conde D. Anrique cazou com D. Fernão Mendes. + +Sancho (Infante D.) filho de D. Affonso Anriques em que dia e anno foi +jurado em Coimbra. + É mandado por seu pai ao Alentejo a peleijar com Mouros, e do alvoroço +com que recebeo esta ordem, e o que executou. + Alcança uma gloriosa vitoria dos Mouros em Sevilha. + Alcança outra vitoria dos mesmos inimigos indo cercar Beja. + É cercado dentro em Santarem por Almiramolim Emperador de Marrocos com + quatrocentos mil cavallos, e quinhentos mil de pé, e sendo soccorrido + por El-Rei seu pai é desbaratado com todo o exercito. + +Santarem, descreve-se a bondade do seu paiz, e como D. Affonso Anriques +determinou conquista-la, e da difficuldade que havia para o conseguir. + É escalada, e entrada por El-Rei D. Affonso Anriques. + Porque tem este nome. + É cercada por Albojame Rei de Sevilha, onde foi derrotado por D. Affonso + Anriques. + +Serpa é conquistada por D. Affonso Anriques. + +Sinaes espantosos que appareceram em o Ceo de noute quando El-Rei D. +Affonso Anriques quiz tomar Santarem. + + +T + + +Tareja (D.) caza com o Conde D. Anrique, e leva por dote a Portugal como +Condado. + Depois da morte do Conde D. Anrique cazou com D. Vermuy Paes de Trava, + e depois com D. Fernando Conde de Trastamara Irmão de Vermuy Paes. + É prisioneira na batalha de Santilhanas por seu filho D. Affonso + Anriques. + +Tareja (D.) Filha terceira del-Rei D. Affonso Anriques cazou com D. +Felippe Conde de Frandes. + Como foi conduzida para aquelle Condado. + +Theotonio (S.) Prior de Santa Cruz conquista Arronches. + Faz-lhe doação D. Affonso Anriques de Leiria, e Arronches sómente no + Espiritual. + Recebe do mesmo Rei Leiria assim no Espiritual, como no temporal, e + lhe põe por Alcaide do Castello a Payo Guoterres. + Faz oração com os seus Conegos pelo bom sucesso da conquista de + Santarem. + +Thomar. O seu Castello é cercado por Almiramolim Emperador de Marrocos. + +Torres Novas. Quando foi conquistada por D. Affonso Anriques? + O seu Castello foi destruido por Almiramolim Emperador de Marrocos. + +Torres Vedras foi conquistada por D. Affonso Anriques. + +Trancoso é tomado pelos Mouros, onde fizeram grande mortandade. + + +U + + +Urraca (D) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador caza +com o Conde D. Reymão de Tolofa. + +Urraca (D.) filha de D. Affonso Anriques cazou com D. Fernando Rei de +Lião. + +Urraca Lopes (D.) filha do Conde de Navarra Irmã de D. Diogo o bom Senhor +de Biscaya cazou com El-Rei de Lião D. Fernando. + + +V + + +Vasco (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi +receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo. + +Vermuy Paes de Trava (D.) cazou com a Rainha Dona Tareja viuva do Conde D. +Anrique. + Depois deixando-a cazou com uma filha da mesma Dona Tareja. + +Vicente (S.) donde era natural, e como foi martyrizado. + O seu Corpo é trazido ao Cabo que agora tem o seu nome, e de como o foi +buscar D. Affonso Anriques, e o não achou. + Como foi achado o seu Corpo, e collocado na Sé de Lisboa. + +Villa franca foi chamada antigamente Cornagoa. + + + + +TRASLADO DO JURAMENTO DEL-REI D. AFFONSO ANRIQUES + +O qual se conserva no Archivo do Real Mosteiro de Alcobaça + + +Ego Alfonsus Portugalliae Rex, filius illustris Comitis Henrici, nepos +magni Regis Alfonsi, coram vobis bonis viris, Episcopo Bracharensi, & +Episcopo Colimbriensi, & Theotonio, reliquisque magnatibus officialibus +vassalis Regni mei in hac Cruce aerea, & in hoc libro Sanctissimorum +Euangeliorum juro cum tactu manuum mearum, quod ego miser peccator, vidi +hisce oculis indignis verum Dominum nostrum JESUM Christum in Cruce +extensum in hac forma. Ego eram cum mea hoste in terris ultra Tagum, in +agro Auriquio, ut pugnarem cum Ismaele, & aliis quatuor Regibus Maurorum +habentibus secum infinita millia, & gens mea timorata propter +multitudinera, erat fatigata, & multum tristis, ia tantum, ut multi +dicerent esse temeritatem inire bellum, & ego tristis de eo quod +audiebam, caepi mecum cogitare, quid agerem, & habebam unum librum in +meo papillione, in quo erat scriptum Testamentum antiquum, & Testamentum +JESU Christi. Aperui illum, & legi victoriam Gedeonis, & dixi intra me: +Tu seis Domine JESU Christe, quia pro tuo amore suscepi bellum istud +contra tuos inimicos, & in manu tua est dare mihi, & meis fortitudinem, +ut vincamus illos blasphemantes tuum nomen, & sic dicens dormivi supra +librum, & videbam virum senem ad me venientem, dicentemque: Adefonse, +confide, vinces enim, debellabisque Reges istos infideles, conteresque +potentiam illorum, & Dominus noster ostendet se tibi. Dum haec video, +accedit Joannes Ferdinandus de Sousa vassallus de meo cubiculo, +dixitque: Surge domine mi. Adest homo fenex, vultque te alloqui. +Ingrediatur, dixi, sic fidelis est. Ingressus ad me, agnovi esse illum, +quem in visione videram, qui dixit mihi, domine, bono animo esto, +vinces, & non vinceris. Dilectus es Domino, posuit enim super te, & +super semen tuum post te oculos misericordiae fuae usque in sextam +decimam generationem, in qua attenuabitur proles, sed in ipsa attenuata +ipse respiciet, & videbit. Ipse me jubet indicare tibi, quod dum +audieris sequenti nocte tintinnabulum Remisorii mei, in quo vixi +sexaginta sex annis inter infideles, fervatus favore altissimi, +egrediaris extra castra, solus sine arbitris, ostendere tibi pietatem +suam multam. Parui, & reverenter in terra positus, & nuntium, & +mittentem veneratus sum, & dum iu oratione positus sonitum expectarem, +secunda noctis vigilia tintinnabulum audivi, & ense, & scuto armatus, +egressus sum extra castra, vidique subito a parte dextra, orientem +versus, micantem radium, & paulatim splendor crescebat in maius, & dum +oculos ad illam partem efficaciter pono, ecce in ipso radio clarius sole +signum Crucis aspicio, & JESUM Christum in eo crucifixum, & ex una, & +altera parte multitudinem juvenum candidissimorum, quos Sanctos Angelos +fuisse credo. Quam visionem dum video, deposito ense, & scuto, +relictisque vestibus, & calceamentis, pronus in terram me projicio, +lacrymisque abundè missis, caepi rogare pro confortatione vassalorum +meorum, dixi que nihil turbatus. Quid tu ad me Domine? Credenti enim +Fidem vis augere? Melius est ut te videant Infideles, & credant, quam +ego, qui a fonte baptismatis te Deum verum Filium Virginis, & Patris +Aeterni agnovi, & agnosco. Erat autem Crux mirae magnitudinis, & elevata +a terra quasi decem cubitos. Dominus suavi vocis sono, quem indignae +aures meae perceperunt, dixit mihi. Non ut tuam Fidem augerem hoc modo +apparui tibi, fed ut corroborem co tuum in hoc conflitu, & initia Regni +tui supra firmam petram stabilirem. Confide Alfonse, non folum enim hoc +certamen vinces, sed omnes alios in quibus contra inimicos Crucis +pugnaveris. Gentem tuam invenies alacrem ad bellum, & fortem, petentem, +ut sub Regis nomine in hac pugna ingrediaris; nec dubites, sed quidquid +petierint, liberè concede. Ego enim aedificator, & dissipator Imperiorum +& Regnorum sum: volo enim in te, & in semine tuo Imperium mihi +stabilire, ut deferatur nomen meum in exteras gentes; & ut agnoscant +successores tui datorem Regni, insigne tuum ex pretio, quo ego humanum +genus emi, & ex eo quo ego a Judaeis emptus sum, compones, & erit mihi +Regnum sanctificatum, Fide purum, & pietate dilectum. Ego ut haec +audivi, humi prostratus adoravi dicens: Quibus meritis, Domine, tantam +mihi annuntias pietatem? Quidquid jubes faciam, & ut in mea prole, quam +promittis oculos benignos pone, gentemque Portugallensem salvam custodi, +& si contra eos aliquod paraveris malum, verte illum potius in me, & in +successores meos, & populum quem tanquam unicum filium diligo, absolve. +Annuens Dominus inquit: Non recedet ab eis, neque a te unquam +misericordia mea, per illos enim paravi mihi messem multam, & elegi eos +in messores meos in terris longinquis: haec dicens disparuit, & ego +fiducia plenus, & dulcedine redii in castra, & quod taliter fuerit, juro +ego Aldefonsus Rex per Sanctissima Jesu Christi Euangelia hisce manibus +tacta. Idcirco praecipio successoribus meis in perpetuum futuris, ut +scuta quinque in crucem partita, propter Crucem, & quinque vulnera +Christi, in insigne ferant, & in unoquoque triginta argenteos, & super +serpentem Moysis, ob Christi figuram, & hoc sit memoriale nostrum in +generatione nostra: & si quis aliud attentaverit, a Domino sit +maledictus, & cum Juda traditore in Infernum maceratus. Facta carta +Colimb. III. Kalend. Novembris. Era M. C. LII. + +Ego Aldefonsus Rex Portugaliae + + +_I. Colimb. Episcop.--I. Bracharens. Metropol.--T. Prior.--Ferdinandus +Petri Curiae Dapif.--Petrus Pelag. Curiae Signifer.--Velascus +Sancij.--Alfonsus Menen. praef. Ulis.--Gondisalvus de Sousa procur. +Imn.--Pelagius Menen. procur. Visen.--Suer. Martin. procurar. +Colimb.--Menendus Petri, pro Magistro Alberto Regis Cancellario_. + + +_Cuja significação em Portuguez é a seguinte_ + + +Eu Affonso Rei de Portugal, filho do Conde Henrique, e neto do grande +Rei D. Affonso, diante de vós Bispo de Braga, e Bispo de Coimbra, e +Theotonio, e de todos os mais Vassallos de meu Reino, juro em esta Cruz +de metal, e neste livro dos Santos Evangelhos, em que ponho minhas mãos, +que eu miseravel peccador vi com estes olhos indignos a nosso Senhor +JESU Christo estendido na Cruz, no modo seguinte. Eu estava com meu +exercito nas terras de Alentejo, no Campo de Ourique, para dar batalha a +Ismael, e outros quatro Reis Mouros, que tinham consigo infinitos +milhares de homens, e minha gente temerosa de sua multidão, estava +atribulada, e triste sobremaneira, em tanto que publicamente diziam +alguns ser temeridade acommetter tal jornada. E eu enfadado do que +ouvia, comecei a cuidar comigo, que faria; e como tivesse na minha tenda +um livro em que estava escripto o Testamento Velho, e o de Jesu Christo, +abri-o, e li nelle a vitoria de Gedeão, e disse entre mim mesmo. Mui bem +sabeis vós, Senhor JESU Christo, que por amor vosso tomei sobre mim esta +guerra contra vossos adversarios, em vossa mão está dar a mim, e aos +meus fortaleza para vencer estes blasfemadores de vosso nome. Ditas +estas palavras adormeci sobre o livro, e comecei a sonhar, que via um +homem velho vir para onde eu estava, e que me dizia: Affonso, tem +confiança, porque vencerás, e destruirás estes Reis infieis, e desfarás +sua potencia, e o Senhor se te mostrará. Estando nesta visão, chegou +João Fernandes de Sousa meu Camareiro dizendo-me: Acordai, senhor meu, +porque está aqui um homem velho, que vos quer fallar. Entre (lhe +respondi) se é Catholico: e tanto que entrou, conheci ser aquelle, que +no sonho vira; o qual me disse: Senhor tende bom coração, vencereis, e +não sereis vencido; sois amado do Senhor, porque sem duvida poz sobre +vós, e sobre vossa geração depois de vossos dias os olhos de sua +misericordia, até a decima sexta decendencia, na qual se diminuiria a +successão, mas nella assim diminuida elle tornará a pôr os olhos e verá. +Elle me manda dizer-vos, que quando na seguinte noite ouvirdes a +campainha de minha Ermida, na qual vivo ha sessenta e seis annos, +guardado no meio dos infieis, com o favor do mui Alto, saias fóra do +Real sem nenhuns creados, porque vos quer mostrar sua grande piedade. +Obedeci, e prostrado em terra com muita reverencia, venerei o +Embaixador, e quem o mandava; e como posto em oração aguardasse o som, +na segunda vela da noite ouvi a campainha, e armado com espada e rodela +sahi fóra dos Reais, e subitamente vi a parte direita contra o Nacente, +um raio resplandecente; e indo-se pouco, e pouco clarificando, cada hora +se fazia maior; e pondo de proposito os olhos para aquella parte, vi de +repente no proprio raio o sinal da Cruz, mais resplandecente que o Sol, +e Jesu Christo Crucificado nella, e de uma e de outra parte, uma copia +grande de mancebos resplandecentes, os quaes creio, que seriam os Santos +Anjos. Vendo pois esta visão, pondo á parte o Escudo, e espada, e +lançando em terra as roupas, e calçado me lancei de bruços, e desfeito +em lagrimas comecei a rogar pela consolação de meus vassallos, e disse +sem nenhum temor. A que fim me apareceis Senhor? Quereis por ventura +accrescentar fé a quem tem tanta? Melhor é por certo que vos vejam os +inimigos, e cream em vós, que eu, que desde a fonte do Baptismo vos +conheci por Deos verdadeiro, Filho da Virgem, e do Padre Eterno, e assim +vos conheço agora. A Cruz era de maravilhosa grandeza, levantada da +terra quasi dez covados. O Senhor com um tom de voz suave, que minhas +orelhas indignas ouviram, me disse. Não te apareci deste modo para +accrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração neste conflito, e +fundar os principios de teu Reino sobre pedra firme. Confia Affonso, +porque não só vencerás esta batalha, mas todas as outras em que +pelejares contra os inimigos de minha Cruz. Acharás tua gente alegre, e +esforçada para a peleja, e te pedirá que entres na batalha com titulo de +Rei. Não ponhas duvida, mas tudo quanto te pedirem lhe concede +facilmente. Eu sou o fundador, e destruidor dos Reinos, e Imperios, e +quero em ti, e teus decendentes fundar para mim um Imperio, por cujo +meio seja meu nome publicado entre as Nações mais estranhas. E para que +teus decendentes conheçam quem lhe dá o Reino, comporás o Escudo de tuas +Armas do preço com que eu remi o genero humano, e daquelle porque fui +comprado dos judeos, e ser-me-ha Reino santificado, puro na fé, e amado +por minha piedade. Eu tanto que ouvi estas cousas, prostrado em terra o +adorei dizendo: Porque meritos, Senhor, me mostrais tão grande +misericordia? Ponde pois vossos benignos olhos nos successores que me +prometeis, e guardai salva a gente Portugueza. E se acontecer, que +tenhais contra ella algum castigo apparelhado, executai-o antes em mim, +e em meus descendentes, e livrai este povo, que amo como a unico filho. +Consentindo nisto o Senhor, disse: Não se apartará delles, nem de ti +nunca minha misericordia, porque por sua via tenho apparelhadas grandes +searas, e a elles escolhidos por meus segadores em terras mui remotas. +Ditas estas palavras dezapareceu, e eu cheio de confiança, e suavidade +me tornei para o Real. E que isto passasse na verdade, juro eu D. +Affonso pelos Santos Evangelhos de JESU Christo tocados com estas mãos. +E por tanto mando a meus decendentes, que para sempre succederem, que em +honra da Cruz e cinco Chagas de JESU Christo tragam em seu Escudo cinco +Escudos partidos em Cruz, e em cada um delles os trinta dinheiros, e por +timbre a Serpente de Moysés, por ser figura de Christo, e este seja o +tropheo de nossa geração. E se alguem intentar o contrario, seja maldito +do Senhor, e atormentado no Inferno com Judas o treidor. Foi feita a +presenta carta em Coimbra aos vinte e nove de Outubro, era de mil e +cento e cincoenta e dous. + +Eu El-Rei D. Affonso. + + +_João Metropolitano Bracharense.--João Bispo de Coimbra.--Theotonio +Prior.--Fernão Peres Vedor da Casa.--Vasco Sanches.--Affonso Mendes +Governador de Lisboa.--Gonçalo de Sousa Procurador de entre Douro e +Minho.--Payo Mendes Procurador de Viseu.--Sueiro Martins Procurador de +Coimbra.--Mem Peres o escreveu por Mestre Alberto Cancellario del-Rei_. + + +Fim Da Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques + + + + +INDICE DOS CAPITULOS + + +I--Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha +Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por +Condado com certas condições. + +II--Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e +donde se chamou Portugal. + +III--Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique, +que foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo. + +IV--Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a +seu filho ante que falecesse. + +V--Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar +Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi +D. Tareja. + +VI--Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi +vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a +sua mãi com elle. + +VII--Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso +de Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as +Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um +Rei Mouro cercar Coimbra. + +VIII--Como El Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o +Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz +lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco. + +IX--Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre +Guimarães, e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso +fez D. Egas Moniz. + +X--Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei +D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de +Guimarães. + +XI--Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de +Castella se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual +apoz esto juntou gente, e foi tomar Leiria. + +XII--Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos +Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas +Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros +daquelle tempo. + +XIII--Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar, +que com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como +sentaram seus arraiaes um á vista do outro. + +XIV--Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao +Principe D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que o Principe +fez sobre esso. + +XV--Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso +Anriques, posto na Cruz como padeceo por nós. + +XVI--Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes +para peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei. + +XVII--Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de +Portugal deu batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande +vencimento della. + +XVIII--Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida +acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli +acontecera, e da nova que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que +ahi foram tomados. + +XIX--Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e +mandou matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de +Christo. + +XX--Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de +S. Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo +achar se tornou para Coimbra. + +XXI--Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a +El-Rei Dom Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi, e o que nisso +passou com o Bispo. + +XXII--Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El Rei D. Affonso +Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados. + +XXIII--Como o Papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a +prisão de sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles +se passou em Coimbra. + +XXIV--Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal +escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle +passou. + +XXV--Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique +veio tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e +tomou Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar +Leiria aos Mouros. + +XXVI--Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz, +e assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os +Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D. +Anrique de Lara. + +XXVII--Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D. +Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou. + +XXVIII--Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de +Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que +teve com os seus para ir sobre ella. + +XXIX--Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar +Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella +hora lhe foi revelado lá em França, onde estava. + +XXX--Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre +Santarem, e das rezões que disse a todos. + +XXXI--Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de +Santarem, e dos sinais que pareceram. + +XXXII--Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de +Santarem, e foi entrada, e tomada. + +XXXIII--Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para +Sevilha, e El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa +Santarem. + +XXXIV--Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a +tomou, e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda. + +XXXV--Do que El-Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade +de Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes +Estrangeiras. + +XXXVI--Dos milagres que Deus mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que +morreo quando a Cidade de Lisboa foi entrada. + +XXXVII--Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom, +mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada +de Lisboa muito ferido morrera. + +XXXVIII--Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos +milagres que Deus por elle fazia. + +XXXIX--De como El Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa +Bispado, e quem foi o primeiro Bispo della. + +XL--De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S. +Vicente de Fóra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem. + +XLI--Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na +Estremadura, e Alem do Tejo. + +XLII--Dos filhos que El Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha +Dona Mofalda. + +XLIII--Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e +venceo El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama. + +XLIV--Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e +El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El-Rei +D. Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada. + +XLV--Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar +as maldições dos pais, e mãis aos filhos. + +XLVI--Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D. +Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e +os desbaratou e venceo. + +XLVII--Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que +o foram buscar. + +XLVIII--Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa. + +XLIX--Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D. +Sancho seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe +sobre ello disse. + +L--Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da +gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo +no meio da Ponte se despediram todos del-Rei. + +LI--Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora +guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com +os Mouros peleijasse. + +LII--Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o +esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve. + +LIII--Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e +foi sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre +ella. + +LIV--Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D. +Fuas Roupinho Alcaide do Castello. + +LV--Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e +tomou delles nove Galés. + +LVI--Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado +del-Rei D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os +seus. + +LVII--Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em +Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho, +em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso, +que veio a soccorrer seu filho. + +LVIII--Como cazou Dona Tareja filha del-Rei D. Affonso Anriques a +derradeira, com D. Felippe Conde de Frandes. + +LIX--De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes +louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente +escritas. + +LX--Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era +em que se finou, e onde foi sepultado. + + + + +OBRAS PUBLICADAS + + +I--Historia do Cerco de Diu, por _Lopo de Sousa Coutinho_, 1 volume. 400 + +II--Historia do Cerco de Mazagão, por _Agostinho Gavy de Mendonça_, 1 +volume. 400 + +III--Ethiopia Oriental, por _Fr. João dos Santos_, 2 grossos volumes. +1$500 + +IV--O Infante D. Pedro, chronica inédita por _Gaspar Dias de Landim_, 3 +volumes. 700 + +V--Chronica d'El-Rei D. Pedro I, (o Cru ou Justiceiro) por _Fernão +Lopes_, 1 volume. 400 + +VI--Chronica d'El-Rei D. Fernando, por _Fernão Lopes_, 3 volumes. 1$200 + +VII--Chronica d'El-Rei D. João I, por _Fernão Lopes_, 7 volumes. 2$800 + +VIII--Chronica d'El-Rei D. João I, por _Gomes Eannes d'Azurara_, VOL. I, +II e III (VIII, IX e X). 1$200 + +IX--Dois Capitães da Índia, por _Luciano Cordeiro_, 1 volume. 400 + +X--Arte da Caça de Altenaria, por _Diogo Fernandes Ferreira_, 2 volumes. +800 + +XI--Apologos Dialogaes, por _D. Francisco Manuel de Mello_, 3 volumes. +1$200 + +XII--Chronica d'El-Rei D. Duarte, por _Ruy de Pina_, 1 volume. 400 + +XIII--Chronica d'El-Rei D. Affonso V, por _Ruy de Pina_, 3 volumes. +1$200 + +XIV--Chronica d'El-Rei D. João II, por _Garcia de Resende_, 3 volumes. +1$500 + +XV--Vida de D. Paulo de Lima Pereira, por _Diogo do Couto_, 1 volume. +500 + +XVI--Chronica d'El-Rei D. Sebastião, por _Fr. Bernardo da Cruz_, 2 +volumes. 1$000 + +XVII--Jornada de Africa, por _Jeronymo de Mendoça_, 2 volumes. 800 + +XVIII--Historia Tragico-Maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, VOL I a +X. 3$800 + +XIX--Jornada de Antonio d'Albuquerque Coelho, por _João Tavares de +Vellez Guerreiro_, 1 volume. 600 + +XX--Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, por _Duarte Galvão_, 1 +volume. 600 + + +EM PUBLICAÇÃO + +Historia Tragico-maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, VOL XI + +Cancioneiro Geral, por _Garcia de Resende_. + + + + +NOTAS + +[1] Duarte Galvão morreu em 1517. + +[2] Ainda mais. D. Vermuim vendo seu irmão impossado de sua mulher, +casou com uma filha d'esta e do Conde D. Henrique. Assim o diz o Conde +D. Pedro (em seu Livro de Linhagens) e assim o repete Duarte Galvão. A +este peccado, accrescentão, se deve a fundação do Mosteiro de Sobrado. + +[3] No anno de 1505 se escreveo esta Chronica. + +[4] Os capitulos XXI a XXIV da presente edição, foram os cortados na de +1726. + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Chronica de el-rei D. Affonso Henriques, by +Duarte Galvão + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. *** + +***** This file should be named 18026-8.txt or 18026-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/8/0/2/18026/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + +*** END: FULL LICENSE *** + diff --git a/18026-8.zip b/18026-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ad25de7 --- /dev/null +++ b/18026-8.zip diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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