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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:52:13 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Luar de Janeiro + +Author: Augusto Gil + +Release Date: March 10, 2006 [EBook #17962] +[Date last updated: April 18, 2006] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUAR DE JANEIRO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +Augusto Gil + +Luar de Janeiro + + + +[Figura: Olhos Olhae a Direito] + + + + +Luar de Janeiro + + + + +AUGUSTO GIL + + +*Luar de Janeiro* + + +LISBOA + +1909 + + + + +Edição da empreza d'A Lanterna--Escriptorios, rua das Gaveas, 45, 2.^o + +Typ. do Commercio, rua da Oliveira, ao Carmo, 10, Lisboa + + + + +Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada +sobre a génese d'_O Canto da Cigarra_ objectarei, com antecipada promessa +de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a +existente entre os pontos extremos da curva d'amplitude dum pêndulo. + +Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na minha +subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio +estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que neste confuso seculo de +latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade +conjunctamente afflictiva e sceptica, terá a coragem de dizer que o +encontrou--já não quero como artista, porque a esse as influencias +ambientes lhe communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações--mas +na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me +retorquir com o _eureka_ do antigo geometra, ou é um sectario, ou um +caturra,--ou um simples. + +Sabio, como o de Syracusa, é que não é... + +Adeante. + +Novembro de (1)909. + +O auctor + + + + +De la musique encore et toujours + + * * * * * + +Que ton vers soit la bonne aventure +Éparse au vent crispé du matin +Qui va fleurant la menthe et le thym, +_Et tout le reste est litterature_. + +Verlaine + + + + +Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous +savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le +tête-à-tête--et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire. +Et tu sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de +faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la bonne +page, celle que ce livre encore annonce et ordone--_tu sais, tu +comprends et tu pardonnes_... + +Charles Morice. + + + + +_A Coelho de Carvalho_ + + + _Tout court_, porque não ha adjectivos que não empallideçam ante a + claridade dos seus talentos. + + +Luar de janeiro, +Fria claridade + +Á luz delle foi talvez +Que primeiro +A bocca dum português +Disse a palavra saudade... + +Luar de platina, +Luar que allumia +Mas que não aquece, +Photographia +D'alegre menina +Que ha muitos annos já... envelhecesse. + +Luar de janeiro, +O gelo tornado +Luminosidade... +Rosa sem cheiro, +Amor passado +De que ficasse apenas a amizade... + +Luar das nevadas, +Algido e lindo, +Janellas fechadas, +Fechadas as portas +E elle fulgindo, +Limpido e lindo, +Como boquinhas de creanças mortas, +Na morte geladas +--E ainda sorrindo... + +Luar de janeiro, +Luzente candeia +De quem não tem nada, +--Nem o calor dum brazeiro, +Nem pão duro para a ceia, +Nem uma pobre morada... + +Luar dos poetas e dos miseraveis, +Como se um laço estreito nos unisse, +São similhaveis +O nosso mau destino e o que tens... + +De nós, da nossa dôr, a turba--ri-se +--E a ti, sagrado ladram-te os cães! + + +[Figura: A linda imagem pertence ao arruinado Mosteiro do Calvario, +d'Evora, e constitue a unica mas encantadora manifestação d'arte desse +pobrissimo convento. Foi doado ás monjas que o occupavam, por D. Izabel +Juliana de Souza Coutinho, forçada noiva de José de Carvalho, filho do +Marquez de Pombal. D. Izabel esteve enclausurada no Mosteiro do +Calvario, por ordem do duro ministro, até se resolver a acceitar a mão +do filho. Depois da morte do rei D. José, foi o matrimonio annullado, +vindo D. Izabel a formar o tronco da casa Palmella pelo casamento com D. +Alexandre de Souza. (Notas extrahidas dum artigo do erudito antiquario +eborense Sr. José Barata. In _Serões_, Junho de (1)907) + +O menino Jesus será obra de Machado de Castro?] + + + + +SEXTILHAS A UM MENINO JESUS D'EVORA + +_A João Barreira_ + + +«Em Evora vi um menino... +...Que a dois annos não chegava +...Era de maravilhar»... + +Garcia de Rezende. _Miscellanea._ + + +Num convento solitario +D'Evora, cidade clara, +Claro celleiro de pão, +Existe uma imagem rara +Obra dum imaginario +Dos tempos que já lá vão... + +É um menino Jesus, +De bochechinha brunida +Côr de maçã camoeza, +Mas no seu rosto transluz +Uma expressão dolorida +Que enche a gente de tristeza... + +De tantissimas imagens +Nenhuma vi que mais prenda, +Que maior ternura expanda, +Com suas calças de renda, +Seu vestido de ramagens, +--E corôa posta á banda... + +Gordo, nedio, bem trajado, +Deveria ser feliz, +Deveria estar sorrindo; +Mas o seu olhar maguado, +Tão maguado, tão lindo, +Que não o é, bem n'o diz... + +Se não fosse por ser Deus +E o seu poder infinito +Ter sempre que o demonstrar, +Cá na terra e lá nos ceus, +Estenderia o beicito +--E desatava a chorar!... + +Corre o tempo descuidado, +Passa uma hora, outra hora, +Atraz desta outras se vão +E, quem o vê, encantado, +Sem se poder ir embora +Numa perpetua attração... + +Eu entrei com sol a pino. +Pouco depois da chegada +(Pouco a mim me pareceu) +Deixei de ver o Menino... +Não era a vista cançada, +--Foi a noite que desceu... + +Mesmo assim lá ficaria +Absorto em muda prece +De quem mal sabe rezar, +Se o sacristão não viesse, +Com rodas de Senhoria, +Dizer-me que ia fechar... + +Pudesse tel-o trazido +E não fosse eu rico, apenas +De phantasias, d'esp'ranças, +Punha-o num nicho florido +Por sobre as camas pequenas +Dum hospital de creanças... + +Dum hospital modelar +Sustentado por meus bens, +Entre olaias e roseiras, +Cheio de sol, cheio d'ar, +E em que as boas enfermeiras +--Seriam as proprias mães... + +A mais ampla enfermaria +Desse escolhido local +De bondade e soffrimento +--Era o fundo natural +Da funda melancolia +Do Menino do convento... + + + + +BALLADA DA NEVE + + +Il pleure dans mon coeur +Comme il pleut sur la ville. + +Verlaine + + +_A Vicente Arnoso_ + + +Batem leve, levemente +Como quem chama por mim... +Será chuva? Será gente? +Gente não é certamente +E a chuva não bate assim... + +É talvez a ventania; +Mas ha pouco, ha poucochinho, +Nem uma agulha bolia +Na quieta melancolia +Dos pinheiros do caminho... + +Quem bate assim levemente +Com tão estranha leveza +Que mal se ouve, mal se sente?... +Não é chuva, nem é gente, +Nem é vento com certeza. + +Fui ver. A neve cahia +Do azul cinzento do ceu +Branca e leve, branca e fria... +--Ha quanto tempo a não via! +E que saudades, Deus meu! + +Olho-a atravez da vidraça. +Poz tudo da côr do linho. +Passa gente e quando passa +Os passos imprime e traça +Na brancura do caminho... + +Fico olhando esses signaes +Da pobre gente que avança +E noto, por entre os mais, +Os traços miniaturais +Duns pézitos de creança... + +E descalcinhos, doridos... +A neve deixa inda vel-os +Primeiro bem definidos, +--Depois em sulcos compridos, +Porque não podia erguel-os!... + +Que quem já é peccador +Soffra tormentos, emfim! +Mas as creanças, Senhor, +Porque lhes daes tanta dôr?!... +Porque padecem assim?!... + +E uma infinita tristeza +Uma funda turbação +Entra em mim, fica em mim prêsa. +Cae neve na natureza... +--E cae no meu coração. + + + + +TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS + +_A Bertha Cayolla Gil Vianna_, minha sobrinha + + +Oh Desgraça! vae-te embora, +Que esta linda criancinha +Andou no meu ventre e agora +Trago-a nos braços. É minha!... + +Do berço, segue-me os passos; +Onde eu vou, seus olhos vão... +E quando a aperto nos braços +--Abraço o meu coração. + +Quando o seu chôro receio, +Embalo-a, faço que acceite +A alegria do meu seio +Na brancura do meu leite... + +E quando assim não descança, +Que tristezas me consomem! +--Mas antes chore em creança +Que depois, quando fôr homem... + +Se ao dal-o ao mundo soffri +Tormentos, ancias mortaes, +Desgraça, vae-te d'aqui, +O que pretendes tu mais?! + +Bate as azas, mas ao voares, +Não me apagues esta estrella. +Se alguem d'aqui precisares, +--Aqui me tens, em vez della! + +Tocam ás ave-marias. +Foi-se o sol. Não vem a lua. +Luzinha que me allumias, +Que sorte será a tua?... + +Riquezas tenhas tão grandes, +E tal bondade tambem, +Que ao redor d'onde tu andes +Não fique pobre ninguem. + +Que a todos chegue a ventura: +Toda a bocca tenha pão, +Toda a nudez cobertura, +Toda a dôr, consolação... + +Mas se o oiro é mau caminho, +--Antes tu venhas a ser +O pobre mais pobrezinho +De quantos pobres houver. + +Iremos por esses montes +Altos e azues, como os céus... +Que onde ha fructos e onde ha fontes, +--Está a meza de Deus! + +E, quando a neve cahir +E as seivas adormecerem, +Iremos então pedir... +(Acceitar o que nos derem!) + +Andaremos á mercê +Dos genios bons, e dos falsos, +Leguas e leguas a pé, +Rotinhos, magros, descalços... + +E onde houver urzes e tojos, +Pedras que rasgam a pelle, +Porei o corpo de rôjos +--Passarás por cima delle! + +Dorme, dorme, meu menino, +Foi-se o sol. Nasceu a lua. +Qual será o teu destino? +Que sorte será a tua?... + +Se um crime tens de fazer, +Antes fique vago um throno, +Antes um palacio a arder, +--Do que uma enxada sem dono... + +Se, porém, no teu destino, +Ha tão cruentos signaes, +Dorme, dorme, meu menino, +--Não tornes a acordar mais! + + + + +O NOSSO LAR + +_A Antonio Arroyo_ + + +«Sonhar a vida é apenas entretel-a. +Partamos della para nós, senão +Lá vae o coração para uma estrella +E fica a gente sem o coração!» + +_GUEDES TEIXEIRA_. _Esperança Nossa_ + + +Quem vir--como eu os vejo--decorrer +Annos e annos duma vida rasa +Em miseraveis quartos d'aluguer, + +Frios no inverno e no estío em braza, +--A um amôr sonhado de mulher +Allía sempre o sonho duma casa... + +O aspecto duma casa raro mente, +A côr, as linhas duma frontaria +Dão logo a perceber nitidamente, + +Melhor do que um vizinho o contaria, +O genio e a indole da gente +Que nella tem o lar, a moradia. + +Vejam esses _cottages_ tanto em moda +Entre os inglezes e os capitalistas, +Com grades no jardim, a toda a roda... + +Impenetraveis ás alheias vistas... +Não abrem nunca uma janella toda... +São mudos, graves, individualistas. + +E aquelles caixotões de pedra e cal +Que surgem ao formar-se um bairro novo, +No constante engordar da Capital, + +(O que eu, aliás, muito aprecio e louvo...) +--Não mostram bem, com o seu ar banal, +A falta de caracter deste povo? + +Quando uma santa e pobre rapariga, +Em cujo olhar se abranda o meu soffrer +E a cujo coração o meu se liga, + +Puder chegar a ser minha mulher, +Eu quero então que a nossa casa diga +Bondade e alegria de viver. + +Terá um só andar. Grandes alturas +Causam vertigens, trazem ambições. +Os sonhos de riqueza e d'aventuras + +Enchem as almas de desillusões. +A f'licidade vem ás creaturas +Da pacificação dos corações. + +As portas sem degraus. Que sejam rentes +Da terra. Portas largas e rasgadas, +Convidativas, francas, attrahentes; + +Ao rez da terra, para as aleijadas +e os tropegos velhinhos indigentes +Se não cançarem a subir escadas... + +Amplas janellas para a natureza. +Que o sol na sua clara irradiação +Dissipe atravez dellas a tristeza; + +Amplas--e baixas. Quem precise pão, +E o vir da rua sobre a nossa meza, +Que estenda o braço, que lhe lance a mão... + +Ao lado um horto e um jardim fragrante, +Sem grades aguçadas para o céu. +A grade é agressiva, hostilisante, + +E sempre a impressão cruel me deu +Dum dono que bradasse ao caminhante: +--Tudo isto aqui é meu, sómente meu... + +Sem gradeamento. Um murosito apenas +Revestido de rosas de toucar, +De ariolas, de glicinias, de verbenas. + +Muro d'onde os que forem a passar +Vejam lilazes, cravos, assucenas... +--E a paz, a doce paz do nosso lar. + + + + +O QUE O FOGO POUPOU DUM POEMETO QUEIMADO + +_Ao Conego Manuel do Nascimento Simão_ + + +I + + +Escrevo em testamento este poema +Que elle tenha, na angustia com que o ligo, +O brilho rutilante duma gemma +Achada nos farrapos dum mendigo... + +Ao vesperal crepusculo da vida +E sob o olhar da morte é que o componho; +Erguendo assim, por minha despedida, +O ultimo escalão dum alto sonho. + +Nesse degrau que d'entre os soes dispersos +Hade attingir a cúpula dos céus, +Direi ao mundo os derradeiros versos, +Porei o coração nas mãos de Deus! + +E as mãos de Deus que os astros têm guiado +Como se leve pluma cada um fôra, +Hão de o sentir pesar, sollicitado +Pelo logar da terra onde ella móra... + + +II + + +...Sei lá pintar! +Se eu soubesse pintar, era pintor. + +_Guedes Teixeira_ + + +Na mais alta cidade portuguêsa +Nasceu, para abrandar meu fundo mal, +A mais santa, a mais cheia de pureza +Das moças deste lindo Portugal. + +Os seus olhos são tristes e suggerem +Todo um passado de resignação. +São tristes, certamente por não verem +O rosto incomparavel onde estão... + +A voz é clara como as assucenas +E dolorida, candida, modesta. +É dolorida, porque sente penas +D'abandonar a sua bocca honesta... + +O riso, que é em nótulas delidas +Vibra em seus labios tão rapidamente +Como um beijo d'amor, ás escondidas, +Na curva duma estrada em que vem gente... + +A mão della, uma vez, poisou na minha; +Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção, +Que era o seu proprio coração que eu tinha +A palpitar dentro da minha mão... + +Se passa, ás tardes, e de traz cahindo, +O sol abraza os longes da paizagem, +A sombra que em sua frente vae seguindo +É a luz--a abrir-se, p'ra lhe dar passagem... + +Se passa, acalma os corações maguados +Como outr'ora as parabolas de Christo +Acalmavam a dôr aos desgraçados. +Acalma os corações?! Não... não é isto. + +As estrophes d'amor, a quem o sinta, +Dão um trabalho cheio de tormento; +O tenebroso liquido da tinta +Apaga, rouba a côr ao sentimento. + +Quiz celebrar dum modo original +As finas graças do seu corpo. Errei-as. +Oh Fórma! És como um fato d'hospital. +Palavras! Sois a nevoa das ideias... + + + + +MELODIA CONFIDENCIAL + +(De Albert Samain) + +_A L.C._ + + + Num andamento + Discreto, lento, +Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo. + + Vamos vogando + No lago brando +E sem limites do silencio amigo... + + O ultimo e cavo + Accorde do cravo +Ficou vibrando exclamativamente. + + E, em espiral + Ascencional, +Cingiu-nos num abraço enlanguescente. + + Na alcatifa macia + Entrou na agonia +Uma rosa sedenta e abandonada, + + E a ambos nos invade + A mistica vontade +D'entrar na morte, no não ser, no nada... + + Com seu docel vermelho + Forrado d'oiro velho, +Que evoca velhas eras d'esplendor, + + O leito pesado, + Como um deus concentrado, +Remembra obscuramente o nosso amor... + + Na atmosphera morna + O teu corpo entorna +Um perfume subtil, sensual, complexo, + + Aroma inapagavel, + Philtro informulavel +Gerado á chama clara do teu sexo. + + Teus olhos silentes + E transparentes +Teem, no fundo, verdes melancolicos, + + E as brazas do fogão, + Já quasi extinctas, dão +Clarões hypnotisantes e symbolicos... + + Amêmo-nos assim + Com um amor sem fim, +Verdadeiro na carne e nas ideias; + + P'los dedos enlaçados + Sejamos penetrados +D'amor, até ás mais miudinhas veias. + + Em extasis intensos + Quedemo-nos suspensos +Por sobre a terra ironica e brutal + + Sem nada saber, + Sem nada ver, +--Numa vida isolada e musical... + + Não fales. Não? + Ou se o fizer's, então +Que seja de vagar, muito baixinho, + + Numa toada, leve + Como o halito breve +Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho... + + + + +O PASSEIO DE SANTO ANTONIO + +_A Columbano_ + + + La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a tous + de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les admirables + pretextes à fiction qu'il recèle. + + (_Litterature à Tout á L'Heure_.) + + +Sahira Santo Antonio do convento, +A dar o seu passeio costumado +E a decorar, num tom rezado e lento, +Um candido sermão sobre o peccado. + +Andando, andando sempre, repetia +O divino sermão piedoso e brando, +E nem notou que a tarde esmorecia, +Que vinha a noite placida baixando... + +E andando, andando, viu-se num outeiro, +Com arvores e casas espalhadas, +Que ficava distante do mosteiro +Uma legua das fartas, das puxadas. + +Surprehendido por se vêr tão longe, +E fraco por haver andado tanto, +Sentou-se a descançar o bom do monge, +Com a resignação de quem é santo... + +O luar, um luar clarissimo nasceu. +Num raio dessa linda claridade +O Menino Jesus baixou do céu, +Poz-se a brincar com o capuz do frade. + +Perto, uma bica d'agua murmurante +Juntava o seu murmurio ao dos pinhaes. +Os rouxinoes ouviam-se distante. +O luar, mais alto, illuminava mais. + +De braço dado, para a fonte, vinha +Um par de noivos todo satisfeito. +Ella trazia ao hombro a cantarinha, +Elle trazia... o coração no peito. + +Sem suspeitarem de que alguem os visse, +Trocaram beijos ao luar tranquillo. +O menino, porém, ouviu e disse: +--Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?... + +O santo, erguendo a manga de burel +Para tapar o noivo e a namorada, +Mentiu numa voz doce como o mel: +--Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada... + +Uma risada limpida, sonora, +Vibrou com timbres d'oiro no caminho. +--Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora? +--Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho... + +--Tu não estás com a cabeça boa... +Um passarinho a cantar assim!... +E o pobre Santo Antonio de Lisboa +Calou-se embaraçado, mas por fim, + +Córado como as véstes dos cardeaes, +Achou esta sahida redemptora: +--Se o Menino Jesus pregunta mais, +...Queixo-me á sua mãe, Nossa Senhora! + +Voltando-lhe a carinha contra a luz +E contra aquelle amôr sem casamento, +Pegou-lhe ao collo e acrescentou: Jesus, +São horas... + --E abalaram p'r'ó convento. + + + + +UM GRÃO DE INCENSO + +_A Lourenço Cayolla_ + + +Entraste com ar cançado +Numa egreja fria e triste. +Ajoelhei-me ao teu lado +--E nem ao menos me viste... + +Ficaste a rezar alli, +Naquella immensa tristeza. +Rezei tambem, mas a ti, +--Que aos anjos tambem se reza... + +Ficaste a rezar até +Manhã dentro, manhã alta. +Como é que tens tanta fé +--E a caridade te falta?... + + + + +A MÁSCARA + +_A Santos Tavares_ + + +Por acaso, parou na minha frente, +De _loup_ e dóminó de seda negra, +Uma mulher d'olhar resplandecente +E mento breve de figura grega. + +Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas... + +E os seus olhos doirados reluziram +Como os punhaes ao sol, quando se tiram, +Aguçados e frios, das bainhas. + +--Máscara, quem és tu? + +--E tu quem és?... + +--Um homem que te viu e te deseja... + +E um riso vago, de desdem talvez, +Floriu na sua bocca de cereja. + +Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as. + +Em vibrações entrecortadas, sêccas, +Tiniam taças irisadas, cheias. +E uma phrase d'amôr, toda em colcheias, +Vibrava nas arcadas das rebecas. + +Levei-a para o vão duma janella. +--Máscara, quem és tu? + +--Para que insistes?... + +Outro riso subiu da bocca della +Aos olhos enigmaticos e tristes. + +E descobriu a face. No capuz +Emoldurou-se um rosto lindo e sério. + +Que differente porém do que eu supuz! + +A gente nunca deve entrar com luz +Nos divinos recantos do misterio... + + + + +IN PROMPTUM PASTORAL + +_A Amadeu de Freitas_ + + +«Muito vence quem se vence +Muito diz quem não diz tudo, +Porque a um discreto pertence +A tempo fazer-se mudo.» + +(_Copla do Infante D. Luiz_.) + + +Sob este céu creador +De manhã vergiliana, +Apetece ser pastor +E tocar frauta de cana; + +Não, pastor d'autos d'amor, +D'eclogas frias e velhas, +Mas verdadeiro pastor +De verdadeiras ovelhas... + +Não conhecer o talento +Nem nada do que se ensina. +Esta dôr do entendimento +É peor do que se imagina... + +Guiar o meu coração +Num ingenuo christianismo. +Esta civilisação +É cheia de pessimismo... + +Comer pão negro, pão duro, +Beber o leite das peáras. +Pão de centeio é escuro, +--Mas põe as almas ás claras... + +Amar alguma pastora +Com palavras e com obras. +Estas senhoras d'agora +São mais falsas do que as cóbras... + +E vêr crear com carinho, +Com cuidados infinitos, +Á companheira, um filhinho... +E ás ovelhas, borreguitos... + + + + +MEDITAÇÕES SOBRE THEMAS DO ECCLESIASTES + + +I + +_A Celestino Steffanina_ + + Vaidade de vaidades, disse o Ecclesiastes: vaidade de vaidades, e + tudo vaidade. + + (_Capit. I, v. 1_). + + +Semeador de iniquidades, +Porque é que mandas sobre os teus eguaes?! +O mando o que é? _Vaidade de vaidades_, +Fumo que ao desfazer-se engrossa mais... + +Oh minha vista o que é que foi que viste +Cá neste mundo impiedoso e rudo? + +_Que só a vaidade existe_ +--Em todos nós, e em tudo!... + + +II + +_A Israel Anahory_ + + Todas as coisas são difficeis; o homem não as póde explicar com + palavras. Os olhos não se fartam de vêr nem o ouvido se enche de + escutar. + + (_Capit. I, v. 8_). + + +Palavras são palavras... Nada dizem. +Teias d'aranha que jámais impedem +Que as ideias se escapem e deslizem... + +Nescios os homens são quando procedem +Como quem a verdade sempre traja +E nunca della se encontrou despido... + +Difficil é... o que mais simples haja +--Quanto mais o que fôr mais escondido!... + +Para que uma verdade vá julgar, +Para que um sentimento vá sentir, +Olhos: não vos canceis nunca d'olhar +E vós, ouvidos, não deixeis d'ouvir. + + Mas por fim + Nem assim... + +O mais profundo pensamento +É sempre insubsistente e aerio, +Por que a todo o momento +--Se perde no misterio... + + +III + +_A José Barbosa_ + + + Que é o que foi? É o mesmo que hade ser. Que é o que se fez? É o + mesmo que o que se hade fazer. + + + Que é o que foi? + --O mesmo que hade ser... + +A vida é como o passo egual dum boi +Que vem dos campos ao anoitecer; +Com o seu lento e resignado aspeito, +Andou um passo, e logo um outro dá. + + _Tudo quanto foi feito + De novo se fará_... + + +IV + +_A Ladislau Patricio_ + + Os olhos do sabio estão na sua cabeça: o insensato anda em trevas: + e aprendi que era uma e mesma a morte dum e doutro. + + (_Capit. II, v. 14_) + + +O sabio tem os olhos da razão +Além desses que tu na fronte levas, +Oh nescio que sem guia e sem bordão +Vaes pela vida a caminhar nas trevas... + + (_E d'ahi? E depois? + Se surge um incidente, + Fere indistinctamente +Ou ambos elles, ou qualquer dos dois_...) + + +V + +_A Adelaide Gil, minha irmã_ + + + Todas as coisas caminham a um logar: de terra foram feitas e em + terra se hão de tornar do mesmo modo. + + (_Capit. III, v. 3_). + + +Mas o que é, afinal, a perfeição? +Como é que tudo, oh sabios, evolue +_Se as coisas todas caminhando vão +Para um egual e unico logar, + Se o pó que as constitue + Em pó se hade tornar_? + + +VI + +_A Eduardo Graça_ + + + Todas as coisas teem seu tempo e todas ellas passam debaixo do céu + segundo o termo que a cada uma foi prescripto. + + (_Capit. III, v. 2_). + + +Socega, coração attribulado, +De toda a dôr se apaga todo o traço. +Pois quanto ao mundo vem, traz já marcado +_O seu tempo e tambem o seu espaço_... + + E queira Deus, coração, + Que esta hora de anciedade + E de pranto e d'afflicção + --Nunca te cause saudade!... + + + + +A CANÇÃO DAS PERDIDAS + +_A Vianna da Motta_ + + +I + + +Quem por amôr se perdeu +Não chore, não tenha pena. +Uma das santas do céu +--É Maria Magdalena... + + +II + + +Minha mãe foi o que eu sou. +Eu sou o que tantas são. +Que triste herança te dou, +Filha do meu coração! + + +III + + +Meu pae foi para o degredo +Era eu inda pequena. +Se não morresse tão cedo, +Morria agora--de pena... + + +IV + + +E ha no mundo quem afronte +Uma mulher quando cae! +Nasce agua limpa na fonte, +Quem a suja é quem lá vae... + + +V + + +Aquelle que me roubou +A virtude de donzella +Se outra honra lhe não dou, +--É porque só tive aquella!... + + +VI + + +Nós temos o mesmo fado, +Oh fonte d'agua cantante, +Quem te quer, pára um boccado. +Quem não quer, pássa adeante... + + +VII + + +O meu amôr, por amal-o, +Poz-me o peito numa chaga: +Deu-me facadas. Deixal-o. +Mas ao menos não me paga! + + +VIII + + +Nem toda a agua do mar +Por estes olhos chorada +Daria bem a mostrar +O que eu sou de desgraçada! + + +IX + + +Como querem vêr contente +Este paiz desgraçado, +Se dão só livros á gente +Nas escolas do peccado... + + +X + + +Dormia o meu coração +Cançado de fingimento. +Bateste-me, e vae então +Acordou nesse momento. + + +XI + + +Se aquillo que a gente sente, +Cá dentro, tivesse vóz, +Muita gente... toda a gente +Teria pena de nós! + + + + +CARTA A UM RAPAZ SENTIMENTAL + + +«Um mover d'olhos brando e piedoso +Sem vêr de quê; um riso brando e honesto +Quasi forçado; um doce e humilde gesto +De qualquer alegria duvidoso + + * * * * * + +Um encolhido ousar; uma brandura, +Um medo sem ter culpa; um ar sereno, +Um longo e obediente soffrimento. + + * * * * * + +Camões + + +Num quente e perturbante fim de tarde, +Cujo magnetico e profundo enlevo +Ainda agora em mim crepita e arde, +Como se fosse a tarde em que te escrevo, + +Ergui os olhos distrahidamente, +A ver se já brilhava alguma estrella +No concavo do céu opalescente +--E vi, numa varanda, os olhos della... + +Do episodio que acabo de contar-te +Tão simples, tão banal, que dá vontade, +Para lhe pôr um boccadinho d'arte, +De lhe roubar um pouco de verdade, + +Foi que este amor espiritual nasceu, +Nasceu, cresceu e se tornou eterno... +Repara, amigo, como olhando o céu +A gente, ás vezes, póde achar o inferno. + +Mas quem podia então adivinhal-o? +O olhar dessa mulher era tão lindo +Que deslumbrado me fiquei a olhal-o. +Descera a noite. A lua ia subindo... + +Era lua cheia e, para mais, d'agosto; +Dava em toda a varanda. Assim, eu via +As fórmas portuguêsas do seu rosto +Nitidamente, como á luz do dia. + +E cá dentro de mim senti nascer +A dúvida, a incerteza, a hesitação +Sobre o que mais desejaria ser: +Se o noivo della, se o primeiro irmão... + +Uma estrella cadente reluziu +Por sobre as torres da vizinha egreja, +Pensei commigo: Deus o decidiu: +É minha noiva que Elle quer que seja. + +Não dizia ventura, mas desgraça, +A claridade do signal aereo. +(Na mesma direcção da egreja, passa +A rua que vae dar ao cemiterio...) + +Porém, como querendo agradecer-me +A decisão que attribuira a Deus, +Inclinou-se de leve para ver-me +E os doces olhos demorou nos meus. + +Sob a caricia desse olhar cinzento, +Que ao abaixar-se parecia negro, +O coração que me batia lento, +Mudou o andamento para alegro. + +Uma hora decorreu. Outras passaram. +Passaram, foram-se; e naquelle enleio +Que tempo os nossos olhos conversaram!... +Estava a noite já em mais de meio. + +Vinha dos montes uma brisa ardente. +O céu ganhára tons d'azul cobalto. +O luar cahia silenciosamente. +Na sombra, os rouxinoes cantavam alto. + +Arrependidos, ou então, cançados +De se fitarem com demora em mim, +Os seus olhos piedosos e sagrados +Ao dialogo d'amor puzeram fim. + +Desviára-os; e entre as palpebras discretas, +Poisára-os nas mãos claras e pequenas, +Como se foram duas borboletas +Voando para duas assucenas. + +Ergueu-se. O busto delicado e fino +Tinha os suaves, religiosos traços +Da Virgem num altar. Só o Menino +Faltava na doçura dos seus braços... + +Num olhar impregnado de candura, +Disse-me adeus e recolheu. Depois... +A luminosa noite fez-se escura. +Calaram-se na sombra os rouxinoes. + +Entrei em casa e quiz dormir. Raiára +A madrugada sem que o conseguisse. +Quem um sonho tão limpido sonhára, +Inutil se tornava que dormisse... + +Annos felizes neste amor gastei. +Vieram em seguida as horas más. +O que nellas soffri, o que passei, +Um dia, noutra carta, o saberás. + + + + +MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE + + +Dez da manhã. Vento da +serra. Tres graus negativos + + +_Mãos frias, coração quente_! +Quanta vez isto dizias +Com o teu ar sorridente, +Apertando-me as mãos frias... + +Agora decerto o tenho +Num brazeiro, num vulcão. +O frio é tanto, é tamanho +Que a penna cae-me da mão... + +Q'ria dizer-te o que penso +E o que faço e premedito, +Mas posso lá ser extenso +Com este frio maldito! + +Tu perdoas certamente, +Tu não te zangas, pois não? +_Mãos frias, coração quente_ +--Lá diz o velho rifão... + + + + +NOIVA + +_A João da Silva_ + + +«Anda a dôr dissimulada +Mas ella dará seu fruito.» + +Crisfal + + + «_Vae ser pedida. Casa qualquer dia._» + + (_Trecho duma carta_) + + +Tive noticias hoje a teu respeito: +«Vae ser pedida. Casa qualquer dia». +E o coração tranquillo no meu peito +--Continuou a bater como batia... + +Surpreso duma tal serenidade, +Todo eu, intimamente, me sondava: +Pois nem ciume? Nem sequer saudade?! +--E nem ciumes, nem saudade achava... + +Saudades, não; que o teu amor antigo +Guardam-no as cinzas (neste coração) +Como em Pompeia aquelles grãos de trigo +Que após centenas d'annos deram pão... + +Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu +A lei antiga como o proprio mundo +De que o prazer mal chega, já morreu, +E só a dôr nas almas cava fundo? + +Causei-te longas horas d'amargura, +Não consegues voltar a ser feliz; +A chaga que te abri não terá cura, +E se curar--lá fica a cicatriz. + +Á luz dum juramento que trahiste +Tu has de vêr-me toda a vida pois. +Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste +E Deus casou-nos esse dia, aos dois... + +Ciumes tambem não, por te venderes. +Desgraçadinha! Antes te houvesses dado; +Não descerias tanto entre as mulheres, +Seria mais humano o teu peccado. + +Porém, embora a tua falta aponte, +P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz); +O sol desapparece no horisonte +--E a gente vê-o ainda a dar-nos luz... + +Póde a desgraça erguer em frente a mim +Altas montanhas d'elevados cumes. +O sol do amôr doiral-as-ha, e assim, +Vendo-o tão alto, não terei ciumes. + +Ciumes! _Elle_ é que hade tel-os, quando, +Em claras noites de luar silente, +Ouvir vibrar alguma voz, cantando +Os versos que te fiz devotamente. + +Versos para te ungirem os ouvidos +E os labios d'anemica e de santa, +Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos, +Que o povo humilde os acolheu e os canta. + +Então, se te olhar bem, logo adivinha... +Logo sombriamente se convence +De que a tua alma se fundiu na minha +--E apenas o teu corpo lhe pertence. + + + + +DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE + +_Á Leo_ + + +Ao charco mais escuso e mais immundo +Chega uma hora no correr do dia +Em que um raio de sol, claro e jocundo, +O visita, o alegra, o alumía; + +Pois eu, nesta desgraça em que me afundo, +Nesta contínua e intérmina agonia, +Nem tenho uma hora só dessa alegria +Que chega ás coisas infimas do mundo!... + +Deus meu, acaso a roda do destino +A movimentam vossas mãos leaes +Num aceno impulsivo e repentino, + +Sem que na cega turbulencia a domem?! +Senhor! Não é um seixo o que esmagaes; +Olhae que é--_o coração dum homem_!... + + + + +JOANNINHA + +_A Mayer Garção_ + + +Descance de quando em quando... +Passar assim toda a tarde +Sempre bordando, bordando, +Sem que um momento desista, +Até faz pena! Não lhe arde +Nem se lhe perturba a vista?... + +Descance de quando em quando... +Erga os olhos do bordado +E veja quem vae passando. +O trabalho alegra a gente, +Mas assim, tão aturado, +--Não lhe faz bem certamente. + +Erga a carinha tranquilla, +Erga esse rosto tão lindo +E veja os moços da villa +A passarem por aqui, +Uns descendo, outros subindo, +--E todos d'olhos em si... + +Descance de quando em quando +E veja se escolhe algum; +Já é tempo d'ir pensando +Em casar. Não é assim?... +Se não lhe agrada nenhum, +--Diga se gosta de mim. + +Desde os começos do outono +Que eu a trago no sentido, +Não como, não tenho sono, +Tudo me dá ralação? +Quer-me para seu marido? +--Diga que sim ou que não... + + + + +QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM... + +_A Cassianno Neves_ + + +Bocca talhada em milagrosas linhas, +A luz augmenta com o seu falar. + +Esta manhã um bando de andorinhas +Ia-se embora, atravessava o mar. + +Chegou-lhes ás alturas, pela aragem, +Um adeus suave que ella lhes dissera, + +--E suspenderam todas a viagem, +Julgando que voltára a primavera... + + + + +A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA + + + Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na + disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas + realidades da vida, teriam observado que... o viver do povo encerra + em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de + machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos + theatraes. + + ... O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e + na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do + lar, nestas sombras de Rembrandt. + + _MICHELET_. _O Povo_ + + +_A Manuel Penteado_ + + +Buscava em algum assunto adrede +A versos que inculcassem novidade, +Quando uma intensa e irreprimivel sêde +Me fez voltar do sonho á realidade. + +E pedi agua (já se vê) que veio +Consoante é d'uzo cá por entre o povo +Num pucaro de barro ingenuo e feio, +Servindo-lhe de salva um prato côvo. + +Bebi o liquido dum trago só; +E dito o «Deus te pague» habitual, +Subi de novo a escada de Jacob +No heroico intuito de escalar o ideal... + +Mas o idealismo é como a nevoa ondeante +Que os rios erguem pela madrugada; +O olhar destingue-a, quando está distante, +E da que nos rodeia--não vê nada... + +De que serve afinal tentar a gente +Reter, dentro das mãos, fumo de palha, +Se aqui, aos nossos olhos, no existente, +Ha tanta coisa que os attráia e valha?... + +A agua vinda neste vaso fragil +Que um ignorado artista modelou +Num gesto--já mechanisado e agil-- +Á força d'imitar o que encontrou, + +É um assunto cheio de belleza, +Cheio de claro e alto ensinamento. +Assim na branda fala portuguêsa +O désse eu, como o tenho em pensamento!... + +A agua é como a esp'rança +Que a tudo se sujeita... +Onde quer que se deita +Lá fica humildemente acommodada, +Seja a concha da mão duma creança, +Ou a taça lendaria da ballada... + +Tanto sacia +Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma +(Que um só valia +O rútilo oiro d'avaro banqueiro) +Como a que se toma +Na argilla porosa, +Alegre trabalho dum simples oleiro... + +E é +Até +Bem mais saborosa +No barro suarento +Deixado á janella, +Que num opulento +Copo lavrado +Que seja pertença de rica baixella +E sonho gentil, cinzel phantasista +Dalgum grande artista +Dos raros d'agora, ou do tempo afastado... + +Bichos humanos, féras em pé, +Sêde bondosos como a agua o é... + +No luzente alcantil da magnitude, +Ou no áspero declive da pobreza, +Nunca cerreis o espirito á virtude, +Nunca fecheis os olhos á belleza. +Que todo o coração, +Desde o sabio de genio ao cavador, +Seja o Calix de paz e de perdão +Contendo a agua limpida e lustral +Dum irmanado e perpetuo amôr... + +Agua que limpe a mácula do mal +E mitigue a miseria, a ancia, a magua +Desta cruenta e impiedosa guerra +Em que tantas creaturas se consomem. + + Nem só da agua + Que vem da terra + Tem sêde o homem... + +Nasce uma fonte +Rumurejante +Na encosta dum monte; + +E mal que do seio +Da terra brotou, +Logo o seu veio +Transparente +E diligente +Buscou e achou +Mais baixo logar... + +E sempre descendo, +E sempre a cantar, +Vae andando, +Galgando, +Vencendo, +(Ou tenta vencer...) +Folha, raíz, areia, o que tolher +A sua descida... + +Ao brotar da dura frágoa +--É uma lagrima d'agua... + +Mas esse humilde fiozinho, +Que um destino bom impelle, +Encontra pelo caminho +Um outro que é como elle... + +Reunem-se, fundem-se os dois, +Proseguem de companhia, +E fica dupla depois +A força que os leva e guia... + +Junta-se aos dois um terceiro, +Outros confluindo vão, +E o regato é já ribeiro +E o ribeiro é rio então... + +E nada agora o domina +Ao fiozinho da fonte. +Entre collina e collina, +Ou entre um monte e outro monte, + +Caminha sem descançar, +Circula atravez do mundo +--Até á beira do mar +Omnipotente e profundo... + +Da altura em que estejaes (ou vos pareça; +A vaidade é uma amante enganadora) +Que o mais alto de vós se humilhe e desça +Como se humilde e pobre sempre fôra... + +E que os demais desçam tambem de todo +O orgulho e mando sobre escravas gentes +Até ao valle, de lagrimas e lôdo +Onde a miseria brada e range os dentes. + +E como as aguas que se vão juntando +E juntas, e cantando, vão descendo, +Reuni o choro derramado, quando +Atravessardes esse valle horrendo. + +E o atoleiro que se havia feito +No val, dantesco, pútrido, sombrio, +Mudar-se-ha no irrigante leito +Dum fertilisador e claro rio; + +E o rio, andando, andando, hade alargar +--Com biliões de lagrimas vertidas-- +Num infinito e luminoso mar +De novas e amplas e cantantes vidas! + +Outubro de 1909. + + + + +INDICE + + +Prefacio +Dedicatoria +Luar de Janeiro +Sextilhas a um menino Jesus d'Evora +Ballada da Neve +Toada para as mães acalentarem os filhos +O nosso lar +O que o fogo poupou dum poemeto queimado +Melodia confidencial +O passeio de Santo Antonio +Um grão de incenso +A máscara +In promptum pastoral +Meditações sobre themas do Ecclesiastes +A canção das perdidas +Carta a um rapaz sentimental +Mãos frias coração quente +Noiva +De profundis clamavi ad te domine +Joanninha +Quando as andorinhas partiam +A parábola do pucaro d'agua + + + + +Acabado de imprimir aos trinta e um de dezembro de 1909 em Lisboa, na +Typographia do Commercio, Rua da Oliveira, 10, ao Carmo. + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Luar de Janeiro, by Augusto Gil + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUAR DE JANEIRO *** + +***** This file should be named 17962-8.txt or 17962-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/7/9/6/17962/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + +*** END: FULL LICENSE *** + diff --git a/17962-8.zip b/17962-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a63ece0 --- /dev/null +++ b/17962-8.zip diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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