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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:52:13 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of Luar de Janeiro, by Augusto Gil
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Luar de Janeiro
+
+Author: Augusto Gil
+
+Release Date: March 10, 2006 [EBook #17962]
+[Date last updated: April 18, 2006]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUAR DE JANEIRO ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+
+Augusto Gil
+
+Luar de Janeiro
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+[Figura: Olhos Olhae a Direito]
+
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+Luar de Janeiro
+
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+AUGUSTO GIL
+
+
+*Luar de Janeiro*
+
+
+LISBOA
+
+1909
+
+
+
+
+Edição da empreza d'A Lanterna--Escriptorios, rua das Gaveas, 45, 2.^o
+
+Typ. do Commercio, rua da Oliveira, ao Carmo, 10, Lisboa
+
+
+
+
+Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada
+sobre a génese d'_O Canto da Cigarra_ objectarei, com antecipada promessa
+de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a
+existente entre os pontos extremos da curva d'amplitude dum pêndulo.
+
+Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na minha
+subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio
+estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que neste confuso seculo de
+latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade
+conjunctamente afflictiva e sceptica, terá a coragem de dizer que o
+encontrou--já não quero como artista, porque a esse as influencias
+ambientes lhe communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações--mas
+na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me
+retorquir com o _eureka_ do antigo geometra, ou é um sectario, ou um
+caturra,--ou um simples.
+
+Sabio, como o de Syracusa, é que não é...
+
+Adeante.
+
+Novembro de (1)909.
+
+O auctor
+
+
+
+
+De la musique encore et toujours
+
+ * * * * *
+
+Que ton vers soit la bonne aventure
+Éparse au vent crispé du matin
+Qui va fleurant la menthe et le thym,
+_Et tout le reste est litterature_.
+
+Verlaine
+
+
+
+
+Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous
+savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le
+tête-à-tête--et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire.
+Et tu sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de
+faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la bonne
+page, celle que ce livre encore annonce et ordone--_tu sais, tu
+comprends et tu pardonnes_...
+
+Charles Morice.
+
+
+
+
+_A Coelho de Carvalho_
+
+
+ _Tout court_, porque não ha adjectivos que não empallideçam ante a
+ claridade dos seus talentos.
+
+
+Luar de janeiro,
+Fria claridade
+
+Á luz delle foi talvez
+Que primeiro
+A bocca dum português
+Disse a palavra saudade...
+
+Luar de platina,
+Luar que allumia
+Mas que não aquece,
+Photographia
+D'alegre menina
+Que ha muitos annos já... envelhecesse.
+
+Luar de janeiro,
+O gelo tornado
+Luminosidade...
+Rosa sem cheiro,
+Amor passado
+De que ficasse apenas a amizade...
+
+Luar das nevadas,
+Algido e lindo,
+Janellas fechadas,
+Fechadas as portas
+E elle fulgindo,
+Limpido e lindo,
+Como boquinhas de creanças mortas,
+Na morte geladas
+--E ainda sorrindo...
+
+Luar de janeiro,
+Luzente candeia
+De quem não tem nada,
+--Nem o calor dum brazeiro,
+Nem pão duro para a ceia,
+Nem uma pobre morada...
+
+Luar dos poetas e dos miseraveis,
+Como se um laço estreito nos unisse,
+São similhaveis
+O nosso mau destino e o que tens...
+
+De nós, da nossa dôr, a turba--ri-se
+--E a ti, sagrado ladram-te os cães!
+
+
+[Figura: A linda imagem pertence ao arruinado Mosteiro do Calvario,
+d'Evora, e constitue a unica mas encantadora manifestação d'arte desse
+pobrissimo convento. Foi doado ás monjas que o occupavam, por D. Izabel
+Juliana de Souza Coutinho, forçada noiva de José de Carvalho, filho do
+Marquez de Pombal. D. Izabel esteve enclausurada no Mosteiro do
+Calvario, por ordem do duro ministro, até se resolver a acceitar a mão
+do filho. Depois da morte do rei D. José, foi o matrimonio annullado,
+vindo D. Izabel a formar o tronco da casa Palmella pelo casamento com D.
+Alexandre de Souza. (Notas extrahidas dum artigo do erudito antiquario
+eborense Sr. José Barata. In _Serões_, Junho de (1)907)
+
+O menino Jesus será obra de Machado de Castro?]
+
+
+
+
+SEXTILHAS A UM MENINO JESUS D'EVORA
+
+_A João Barreira_
+
+
+«Em Evora vi um menino...
+...Que a dois annos não chegava
+...Era de maravilhar»...
+
+Garcia de Rezende. _Miscellanea._
+
+
+Num convento solitario
+D'Evora, cidade clara,
+Claro celleiro de pão,
+Existe uma imagem rara
+Obra dum imaginario
+Dos tempos que já lá vão...
+
+É um menino Jesus,
+De bochechinha brunida
+Côr de maçã camoeza,
+Mas no seu rosto transluz
+Uma expressão dolorida
+Que enche a gente de tristeza...
+
+De tantissimas imagens
+Nenhuma vi que mais prenda,
+Que maior ternura expanda,
+Com suas calças de renda,
+Seu vestido de ramagens,
+--E corôa posta á banda...
+
+Gordo, nedio, bem trajado,
+Deveria ser feliz,
+Deveria estar sorrindo;
+Mas o seu olhar maguado,
+Tão maguado, tão lindo,
+Que não o é, bem n'o diz...
+
+Se não fosse por ser Deus
+E o seu poder infinito
+Ter sempre que o demonstrar,
+Cá na terra e lá nos ceus,
+Estenderia o beicito
+--E desatava a chorar!...
+
+Corre o tempo descuidado,
+Passa uma hora, outra hora,
+Atraz desta outras se vão
+E, quem o vê, encantado,
+Sem se poder ir embora
+Numa perpetua attração...
+
+Eu entrei com sol a pino.
+Pouco depois da chegada
+(Pouco a mim me pareceu)
+Deixei de ver o Menino...
+Não era a vista cançada,
+--Foi a noite que desceu...
+
+Mesmo assim lá ficaria
+Absorto em muda prece
+De quem mal sabe rezar,
+Se o sacristão não viesse,
+Com rodas de Senhoria,
+Dizer-me que ia fechar...
+
+Pudesse tel-o trazido
+E não fosse eu rico, apenas
+De phantasias, d'esp'ranças,
+Punha-o num nicho florido
+Por sobre as camas pequenas
+Dum hospital de creanças...
+
+Dum hospital modelar
+Sustentado por meus bens,
+Entre olaias e roseiras,
+Cheio de sol, cheio d'ar,
+E em que as boas enfermeiras
+--Seriam as proprias mães...
+
+A mais ampla enfermaria
+Desse escolhido local
+De bondade e soffrimento
+--Era o fundo natural
+Da funda melancolia
+Do Menino do convento...
+
+
+
+
+BALLADA DA NEVE
+
+
+Il pleure dans mon coeur
+Comme il pleut sur la ville.
+
+Verlaine
+
+
+_A Vicente Arnoso_
+
+
+Batem leve, levemente
+Como quem chama por mim...
+Será chuva? Será gente?
+Gente não é certamente
+E a chuva não bate assim...
+
+É talvez a ventania;
+Mas ha pouco, ha poucochinho,
+Nem uma agulha bolia
+Na quieta melancolia
+Dos pinheiros do caminho...
+
+Quem bate assim levemente
+Com tão estranha leveza
+Que mal se ouve, mal se sente?...
+Não é chuva, nem é gente,
+Nem é vento com certeza.
+
+Fui ver. A neve cahia
+Do azul cinzento do ceu
+Branca e leve, branca e fria...
+--Ha quanto tempo a não via!
+E que saudades, Deus meu!
+
+Olho-a atravez da vidraça.
+Poz tudo da côr do linho.
+Passa gente e quando passa
+Os passos imprime e traça
+Na brancura do caminho...
+
+Fico olhando esses signaes
+Da pobre gente que avança
+E noto, por entre os mais,
+Os traços miniaturais
+Duns pézitos de creança...
+
+E descalcinhos, doridos...
+A neve deixa inda vel-os
+Primeiro bem definidos,
+--Depois em sulcos compridos,
+Porque não podia erguel-os!...
+
+Que quem já é peccador
+Soffra tormentos, emfim!
+Mas as creanças, Senhor,
+Porque lhes daes tanta dôr?!...
+Porque padecem assim?!...
+
+E uma infinita tristeza
+Uma funda turbação
+Entra em mim, fica em mim prêsa.
+Cae neve na natureza...
+--E cae no meu coração.
+
+
+
+
+TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS
+
+_A Bertha Cayolla Gil Vianna_, minha sobrinha
+
+
+Oh Desgraça! vae-te embora,
+Que esta linda criancinha
+Andou no meu ventre e agora
+Trago-a nos braços. É minha!...
+
+Do berço, segue-me os passos;
+Onde eu vou, seus olhos vão...
+E quando a aperto nos braços
+--Abraço o meu coração.
+
+Quando o seu chôro receio,
+Embalo-a, faço que acceite
+A alegria do meu seio
+Na brancura do meu leite...
+
+E quando assim não descança,
+Que tristezas me consomem!
+--Mas antes chore em creança
+Que depois, quando fôr homem...
+
+Se ao dal-o ao mundo soffri
+Tormentos, ancias mortaes,
+Desgraça, vae-te d'aqui,
+O que pretendes tu mais?!
+
+Bate as azas, mas ao voares,
+Não me apagues esta estrella.
+Se alguem d'aqui precisares,
+--Aqui me tens, em vez della!
+
+Tocam ás ave-marias.
+Foi-se o sol. Não vem a lua.
+Luzinha que me allumias,
+Que sorte será a tua?...
+
+Riquezas tenhas tão grandes,
+E tal bondade tambem,
+Que ao redor d'onde tu andes
+Não fique pobre ninguem.
+
+Que a todos chegue a ventura:
+Toda a bocca tenha pão,
+Toda a nudez cobertura,
+Toda a dôr, consolação...
+
+Mas se o oiro é mau caminho,
+--Antes tu venhas a ser
+O pobre mais pobrezinho
+De quantos pobres houver.
+
+Iremos por esses montes
+Altos e azues, como os céus...
+Que onde ha fructos e onde ha fontes,
+--Está a meza de Deus!
+
+E, quando a neve cahir
+E as seivas adormecerem,
+Iremos então pedir...
+(Acceitar o que nos derem!)
+
+Andaremos á mercê
+Dos genios bons, e dos falsos,
+Leguas e leguas a pé,
+Rotinhos, magros, descalços...
+
+E onde houver urzes e tojos,
+Pedras que rasgam a pelle,
+Porei o corpo de rôjos
+--Passarás por cima delle!
+
+Dorme, dorme, meu menino,
+Foi-se o sol. Nasceu a lua.
+Qual será o teu destino?
+Que sorte será a tua?...
+
+Se um crime tens de fazer,
+Antes fique vago um throno,
+Antes um palacio a arder,
+--Do que uma enxada sem dono...
+
+Se, porém, no teu destino,
+Ha tão cruentos signaes,
+Dorme, dorme, meu menino,
+--Não tornes a acordar mais!
+
+
+
+
+O NOSSO LAR
+
+_A Antonio Arroyo_
+
+
+«Sonhar a vida é apenas entretel-a.
+Partamos della para nós, senão
+Lá vae o coração para uma estrella
+E fica a gente sem o coração!»
+
+_GUEDES TEIXEIRA_. _Esperança Nossa_
+
+
+Quem vir--como eu os vejo--decorrer
+Annos e annos duma vida rasa
+Em miseraveis quartos d'aluguer,
+
+Frios no inverno e no estío em braza,
+--A um amôr sonhado de mulher
+Allía sempre o sonho duma casa...
+
+O aspecto duma casa raro mente,
+A côr, as linhas duma frontaria
+Dão logo a perceber nitidamente,
+
+Melhor do que um vizinho o contaria,
+O genio e a indole da gente
+Que nella tem o lar, a moradia.
+
+Vejam esses _cottages_ tanto em moda
+Entre os inglezes e os capitalistas,
+Com grades no jardim, a toda a roda...
+
+Impenetraveis ás alheias vistas...
+Não abrem nunca uma janella toda...
+São mudos, graves, individualistas.
+
+E aquelles caixotões de pedra e cal
+Que surgem ao formar-se um bairro novo,
+No constante engordar da Capital,
+
+(O que eu, aliás, muito aprecio e louvo...)
+--Não mostram bem, com o seu ar banal,
+A falta de caracter deste povo?
+
+Quando uma santa e pobre rapariga,
+Em cujo olhar se abranda o meu soffrer
+E a cujo coração o meu se liga,
+
+Puder chegar a ser minha mulher,
+Eu quero então que a nossa casa diga
+Bondade e alegria de viver.
+
+Terá um só andar. Grandes alturas
+Causam vertigens, trazem ambições.
+Os sonhos de riqueza e d'aventuras
+
+Enchem as almas de desillusões.
+A f'licidade vem ás creaturas
+Da pacificação dos corações.
+
+As portas sem degraus. Que sejam rentes
+Da terra. Portas largas e rasgadas,
+Convidativas, francas, attrahentes;
+
+Ao rez da terra, para as aleijadas
+e os tropegos velhinhos indigentes
+Se não cançarem a subir escadas...
+
+Amplas janellas para a natureza.
+Que o sol na sua clara irradiação
+Dissipe atravez dellas a tristeza;
+
+Amplas--e baixas. Quem precise pão,
+E o vir da rua sobre a nossa meza,
+Que estenda o braço, que lhe lance a mão...
+
+Ao lado um horto e um jardim fragrante,
+Sem grades aguçadas para o céu.
+A grade é agressiva, hostilisante,
+
+E sempre a impressão cruel me deu
+Dum dono que bradasse ao caminhante:
+--Tudo isto aqui é meu, sómente meu...
+
+Sem gradeamento. Um murosito apenas
+Revestido de rosas de toucar,
+De ariolas, de glicinias, de verbenas.
+
+Muro d'onde os que forem a passar
+Vejam lilazes, cravos, assucenas...
+--E a paz, a doce paz do nosso lar.
+
+
+
+
+O QUE O FOGO POUPOU DUM POEMETO QUEIMADO
+
+_Ao Conego Manuel do Nascimento Simão_
+
+
+I
+
+
+Escrevo em testamento este poema
+Que elle tenha, na angustia com que o ligo,
+O brilho rutilante duma gemma
+Achada nos farrapos dum mendigo...
+
+Ao vesperal crepusculo da vida
+E sob o olhar da morte é que o componho;
+Erguendo assim, por minha despedida,
+O ultimo escalão dum alto sonho.
+
+Nesse degrau que d'entre os soes dispersos
+Hade attingir a cúpula dos céus,
+Direi ao mundo os derradeiros versos,
+Porei o coração nas mãos de Deus!
+
+E as mãos de Deus que os astros têm guiado
+Como se leve pluma cada um fôra,
+Hão de o sentir pesar, sollicitado
+Pelo logar da terra onde ella móra...
+
+
+II
+
+
+...Sei lá pintar!
+Se eu soubesse pintar, era pintor.
+
+_Guedes Teixeira_
+
+
+Na mais alta cidade portuguêsa
+Nasceu, para abrandar meu fundo mal,
+A mais santa, a mais cheia de pureza
+Das moças deste lindo Portugal.
+
+Os seus olhos são tristes e suggerem
+Todo um passado de resignação.
+São tristes, certamente por não verem
+O rosto incomparavel onde estão...
+
+A voz é clara como as assucenas
+E dolorida, candida, modesta.
+É dolorida, porque sente penas
+D'abandonar a sua bocca honesta...
+
+O riso, que é em nótulas delidas
+Vibra em seus labios tão rapidamente
+Como um beijo d'amor, ás escondidas,
+Na curva duma estrada em que vem gente...
+
+A mão della, uma vez, poisou na minha;
+Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção,
+Que era o seu proprio coração que eu tinha
+A palpitar dentro da minha mão...
+
+Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,
+O sol abraza os longes da paizagem,
+A sombra que em sua frente vae seguindo
+É a luz--a abrir-se, p'ra lhe dar passagem...
+
+Se passa, acalma os corações maguados
+Como outr'ora as parabolas de Christo
+Acalmavam a dôr aos desgraçados.
+Acalma os corações?! Não... não é isto.
+
+As estrophes d'amor, a quem o sinta,
+Dão um trabalho cheio de tormento;
+O tenebroso liquido da tinta
+Apaga, rouba a côr ao sentimento.
+
+Quiz celebrar dum modo original
+As finas graças do seu corpo. Errei-as.
+Oh Fórma! És como um fato d'hospital.
+Palavras! Sois a nevoa das ideias...
+
+
+
+
+MELODIA CONFIDENCIAL
+
+(De Albert Samain)
+
+_A L.C._
+
+
+ Num andamento
+ Discreto, lento,
+Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.
+
+ Vamos vogando
+ No lago brando
+E sem limites do silencio amigo...
+
+ O ultimo e cavo
+ Accorde do cravo
+Ficou vibrando exclamativamente.
+
+ E, em espiral
+ Ascencional,
+Cingiu-nos num abraço enlanguescente.
+
+ Na alcatifa macia
+ Entrou na agonia
+Uma rosa sedenta e abandonada,
+
+ E a ambos nos invade
+ A mistica vontade
+D'entrar na morte, no não ser, no nada...
+
+ Com seu docel vermelho
+ Forrado d'oiro velho,
+Que evoca velhas eras d'esplendor,
+
+ O leito pesado,
+ Como um deus concentrado,
+Remembra obscuramente o nosso amor...
+
+ Na atmosphera morna
+ O teu corpo entorna
+Um perfume subtil, sensual, complexo,
+
+ Aroma inapagavel,
+ Philtro informulavel
+Gerado á chama clara do teu sexo.
+
+ Teus olhos silentes
+ E transparentes
+Teem, no fundo, verdes melancolicos,
+
+ E as brazas do fogão,
+ Já quasi extinctas, dão
+Clarões hypnotisantes e symbolicos...
+
+ Amêmo-nos assim
+ Com um amor sem fim,
+Verdadeiro na carne e nas ideias;
+
+ P'los dedos enlaçados
+ Sejamos penetrados
+D'amor, até ás mais miudinhas veias.
+
+ Em extasis intensos
+ Quedemo-nos suspensos
+Por sobre a terra ironica e brutal
+
+ Sem nada saber,
+ Sem nada ver,
+--Numa vida isolada e musical...
+
+ Não fales. Não?
+ Ou se o fizer's, então
+Que seja de vagar, muito baixinho,
+
+ Numa toada, leve
+ Como o halito breve
+Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho...
+
+
+
+
+O PASSEIO DE SANTO ANTONIO
+
+_A Columbano_
+
+
+ La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a tous
+ de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les admirables
+ pretextes à fiction qu'il recèle.
+
+ (_Litterature à Tout á L'Heure_.)
+
+
+Sahira Santo Antonio do convento,
+A dar o seu passeio costumado
+E a decorar, num tom rezado e lento,
+Um candido sermão sobre o peccado.
+
+Andando, andando sempre, repetia
+O divino sermão piedoso e brando,
+E nem notou que a tarde esmorecia,
+Que vinha a noite placida baixando...
+
+E andando, andando, viu-se num outeiro,
+Com arvores e casas espalhadas,
+Que ficava distante do mosteiro
+Uma legua das fartas, das puxadas.
+
+Surprehendido por se vêr tão longe,
+E fraco por haver andado tanto,
+Sentou-se a descançar o bom do monge,
+Com a resignação de quem é santo...
+
+O luar, um luar clarissimo nasceu.
+Num raio dessa linda claridade
+O Menino Jesus baixou do céu,
+Poz-se a brincar com o capuz do frade.
+
+Perto, uma bica d'agua murmurante
+Juntava o seu murmurio ao dos pinhaes.
+Os rouxinoes ouviam-se distante.
+O luar, mais alto, illuminava mais.
+
+De braço dado, para a fonte, vinha
+Um par de noivos todo satisfeito.
+Ella trazia ao hombro a cantarinha,
+Elle trazia... o coração no peito.
+
+Sem suspeitarem de que alguem os visse,
+Trocaram beijos ao luar tranquillo.
+O menino, porém, ouviu e disse:
+--Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?...
+
+O santo, erguendo a manga de burel
+Para tapar o noivo e a namorada,
+Mentiu numa voz doce como o mel:
+--Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada...
+
+Uma risada limpida, sonora,
+Vibrou com timbres d'oiro no caminho.
+--Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora?
+--Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho...
+
+--Tu não estás com a cabeça boa...
+Um passarinho a cantar assim!...
+E o pobre Santo Antonio de Lisboa
+Calou-se embaraçado, mas por fim,
+
+Córado como as véstes dos cardeaes,
+Achou esta sahida redemptora:
+--Se o Menino Jesus pregunta mais,
+...Queixo-me á sua mãe, Nossa Senhora!
+
+Voltando-lhe a carinha contra a luz
+E contra aquelle amôr sem casamento,
+Pegou-lhe ao collo e acrescentou: Jesus,
+São horas...
+ --E abalaram p'r'ó convento.
+
+
+
+
+UM GRÃO DE INCENSO
+
+_A Lourenço Cayolla_
+
+
+Entraste com ar cançado
+Numa egreja fria e triste.
+Ajoelhei-me ao teu lado
+--E nem ao menos me viste...
+
+Ficaste a rezar alli,
+Naquella immensa tristeza.
+Rezei tambem, mas a ti,
+--Que aos anjos tambem se reza...
+
+Ficaste a rezar até
+Manhã dentro, manhã alta.
+Como é que tens tanta fé
+--E a caridade te falta?...
+
+
+
+
+A MÁSCARA
+
+_A Santos Tavares_
+
+
+Por acaso, parou na minha frente,
+De _loup_ e dóminó de seda negra,
+Uma mulher d'olhar resplandecente
+E mento breve de figura grega.
+
+Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas...
+
+E os seus olhos doirados reluziram
+Como os punhaes ao sol, quando se tiram,
+Aguçados e frios, das bainhas.
+
+--Máscara, quem és tu?
+
+--E tu quem és?...
+
+--Um homem que te viu e te deseja...
+
+E um riso vago, de desdem talvez,
+Floriu na sua bocca de cereja.
+
+Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as.
+
+Em vibrações entrecortadas, sêccas,
+Tiniam taças irisadas, cheias.
+E uma phrase d'amôr, toda em colcheias,
+Vibrava nas arcadas das rebecas.
+
+Levei-a para o vão duma janella.
+--Máscara, quem és tu?
+
+--Para que insistes?...
+
+Outro riso subiu da bocca della
+Aos olhos enigmaticos e tristes.
+
+E descobriu a face. No capuz
+Emoldurou-se um rosto lindo e sério.
+
+Que differente porém do que eu supuz!
+
+A gente nunca deve entrar com luz
+Nos divinos recantos do misterio...
+
+
+
+
+IN PROMPTUM PASTORAL
+
+_A Amadeu de Freitas_
+
+
+«Muito vence quem se vence
+Muito diz quem não diz tudo,
+Porque a um discreto pertence
+A tempo fazer-se mudo.»
+
+(_Copla do Infante D. Luiz_.)
+
+
+Sob este céu creador
+De manhã vergiliana,
+Apetece ser pastor
+E tocar frauta de cana;
+
+Não, pastor d'autos d'amor,
+D'eclogas frias e velhas,
+Mas verdadeiro pastor
+De verdadeiras ovelhas...
+
+Não conhecer o talento
+Nem nada do que se ensina.
+Esta dôr do entendimento
+É peor do que se imagina...
+
+Guiar o meu coração
+Num ingenuo christianismo.
+Esta civilisação
+É cheia de pessimismo...
+
+Comer pão negro, pão duro,
+Beber o leite das peáras.
+Pão de centeio é escuro,
+--Mas põe as almas ás claras...
+
+Amar alguma pastora
+Com palavras e com obras.
+Estas senhoras d'agora
+São mais falsas do que as cóbras...
+
+E vêr crear com carinho,
+Com cuidados infinitos,
+Á companheira, um filhinho...
+E ás ovelhas, borreguitos...
+
+
+
+
+MEDITAÇÕES SOBRE THEMAS DO ECCLESIASTES
+
+
+I
+
+_A Celestino Steffanina_
+
+ Vaidade de vaidades, disse o Ecclesiastes: vaidade de vaidades, e
+ tudo vaidade.
+
+ (_Capit. I, v. 1_).
+
+
+Semeador de iniquidades,
+Porque é que mandas sobre os teus eguaes?!
+O mando o que é? _Vaidade de vaidades_,
+Fumo que ao desfazer-se engrossa mais...
+
+Oh minha vista o que é que foi que viste
+Cá neste mundo impiedoso e rudo?
+
+_Que só a vaidade existe_
+--Em todos nós, e em tudo!...
+
+
+II
+
+_A Israel Anahory_
+
+ Todas as coisas são difficeis; o homem não as póde explicar com
+ palavras. Os olhos não se fartam de vêr nem o ouvido se enche de
+ escutar.
+
+ (_Capit. I, v. 8_).
+
+
+Palavras são palavras... Nada dizem.
+Teias d'aranha que jámais impedem
+Que as ideias se escapem e deslizem...
+
+Nescios os homens são quando procedem
+Como quem a verdade sempre traja
+E nunca della se encontrou despido...
+
+Difficil é... o que mais simples haja
+--Quanto mais o que fôr mais escondido!...
+
+Para que uma verdade vá julgar,
+Para que um sentimento vá sentir,
+Olhos: não vos canceis nunca d'olhar
+E vós, ouvidos, não deixeis d'ouvir.
+
+ Mas por fim
+ Nem assim...
+
+O mais profundo pensamento
+É sempre insubsistente e aerio,
+Por que a todo o momento
+--Se perde no misterio...
+
+
+III
+
+_A José Barbosa_
+
+
+ Que é o que foi? É o mesmo que hade ser. Que é o que se fez? É o
+ mesmo que o que se hade fazer.
+
+
+ Que é o que foi?
+ --O mesmo que hade ser...
+
+A vida é como o passo egual dum boi
+Que vem dos campos ao anoitecer;
+Com o seu lento e resignado aspeito,
+Andou um passo, e logo um outro dá.
+
+ _Tudo quanto foi feito
+ De novo se fará_...
+
+
+IV
+
+_A Ladislau Patricio_
+
+ Os olhos do sabio estão na sua cabeça: o insensato anda em trevas:
+ e aprendi que era uma e mesma a morte dum e doutro.
+
+ (_Capit. II, v. 14_)
+
+
+O sabio tem os olhos da razão
+Além desses que tu na fronte levas,
+Oh nescio que sem guia e sem bordão
+Vaes pela vida a caminhar nas trevas...
+
+ (_E d'ahi? E depois?
+ Se surge um incidente,
+ Fere indistinctamente
+Ou ambos elles, ou qualquer dos dois_...)
+
+
+V
+
+_A Adelaide Gil, minha irmã_
+
+
+ Todas as coisas caminham a um logar: de terra foram feitas e em
+ terra se hão de tornar do mesmo modo.
+
+ (_Capit. III, v. 3_).
+
+
+Mas o que é, afinal, a perfeição?
+Como é que tudo, oh sabios, evolue
+_Se as coisas todas caminhando vão
+Para um egual e unico logar,
+ Se o pó que as constitue
+ Em pó se hade tornar_?
+
+
+VI
+
+_A Eduardo Graça_
+
+
+ Todas as coisas teem seu tempo e todas ellas passam debaixo do céu
+ segundo o termo que a cada uma foi prescripto.
+
+ (_Capit. III, v. 2_).
+
+
+Socega, coração attribulado,
+De toda a dôr se apaga todo o traço.
+Pois quanto ao mundo vem, traz já marcado
+_O seu tempo e tambem o seu espaço_...
+
+ E queira Deus, coração,
+ Que esta hora de anciedade
+ E de pranto e d'afflicção
+ --Nunca te cause saudade!...
+
+
+
+
+A CANÇÃO DAS PERDIDAS
+
+_A Vianna da Motta_
+
+
+I
+
+
+Quem por amôr se perdeu
+Não chore, não tenha pena.
+Uma das santas do céu
+--É Maria Magdalena...
+
+
+II
+
+
+Minha mãe foi o que eu sou.
+Eu sou o que tantas são.
+Que triste herança te dou,
+Filha do meu coração!
+
+
+III
+
+
+Meu pae foi para o degredo
+Era eu inda pequena.
+Se não morresse tão cedo,
+Morria agora--de pena...
+
+
+IV
+
+
+E ha no mundo quem afronte
+Uma mulher quando cae!
+Nasce agua limpa na fonte,
+Quem a suja é quem lá vae...
+
+
+V
+
+
+Aquelle que me roubou
+A virtude de donzella
+Se outra honra lhe não dou,
+--É porque só tive aquella!...
+
+
+VI
+
+
+Nós temos o mesmo fado,
+Oh fonte d'agua cantante,
+Quem te quer, pára um boccado.
+Quem não quer, pássa adeante...
+
+
+VII
+
+
+O meu amôr, por amal-o,
+Poz-me o peito numa chaga:
+Deu-me facadas. Deixal-o.
+Mas ao menos não me paga!
+
+
+VIII
+
+
+Nem toda a agua do mar
+Por estes olhos chorada
+Daria bem a mostrar
+O que eu sou de desgraçada!
+
+
+IX
+
+
+Como querem vêr contente
+Este paiz desgraçado,
+Se dão só livros á gente
+Nas escolas do peccado...
+
+
+X
+
+
+Dormia o meu coração
+Cançado de fingimento.
+Bateste-me, e vae então
+Acordou nesse momento.
+
+
+XI
+
+
+Se aquillo que a gente sente,
+Cá dentro, tivesse vóz,
+Muita gente... toda a gente
+Teria pena de nós!
+
+
+
+
+CARTA A UM RAPAZ SENTIMENTAL
+
+
+«Um mover d'olhos brando e piedoso
+Sem vêr de quê; um riso brando e honesto
+Quasi forçado; um doce e humilde gesto
+De qualquer alegria duvidoso
+
+ * * * * *
+
+Um encolhido ousar; uma brandura,
+Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
+Um longo e obediente soffrimento.
+
+ * * * * *
+
+Camões
+
+
+Num quente e perturbante fim de tarde,
+Cujo magnetico e profundo enlevo
+Ainda agora em mim crepita e arde,
+Como se fosse a tarde em que te escrevo,
+
+Ergui os olhos distrahidamente,
+A ver se já brilhava alguma estrella
+No concavo do céu opalescente
+--E vi, numa varanda, os olhos della...
+
+Do episodio que acabo de contar-te
+Tão simples, tão banal, que dá vontade,
+Para lhe pôr um boccadinho d'arte,
+De lhe roubar um pouco de verdade,
+
+Foi que este amor espiritual nasceu,
+Nasceu, cresceu e se tornou eterno...
+Repara, amigo, como olhando o céu
+A gente, ás vezes, póde achar o inferno.
+
+Mas quem podia então adivinhal-o?
+O olhar dessa mulher era tão lindo
+Que deslumbrado me fiquei a olhal-o.
+Descera a noite. A lua ia subindo...
+
+Era lua cheia e, para mais, d'agosto;
+Dava em toda a varanda. Assim, eu via
+As fórmas portuguêsas do seu rosto
+Nitidamente, como á luz do dia.
+
+E cá dentro de mim senti nascer
+A dúvida, a incerteza, a hesitação
+Sobre o que mais desejaria ser:
+Se o noivo della, se o primeiro irmão...
+
+Uma estrella cadente reluziu
+Por sobre as torres da vizinha egreja,
+Pensei commigo: Deus o decidiu:
+É minha noiva que Elle quer que seja.
+
+Não dizia ventura, mas desgraça,
+A claridade do signal aereo.
+(Na mesma direcção da egreja, passa
+A rua que vae dar ao cemiterio...)
+
+Porém, como querendo agradecer-me
+A decisão que attribuira a Deus,
+Inclinou-se de leve para ver-me
+E os doces olhos demorou nos meus.
+
+Sob a caricia desse olhar cinzento,
+Que ao abaixar-se parecia negro,
+O coração que me batia lento,
+Mudou o andamento para alegro.
+
+Uma hora decorreu. Outras passaram.
+Passaram, foram-se; e naquelle enleio
+Que tempo os nossos olhos conversaram!...
+Estava a noite já em mais de meio.
+
+Vinha dos montes uma brisa ardente.
+O céu ganhára tons d'azul cobalto.
+O luar cahia silenciosamente.
+Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.
+
+Arrependidos, ou então, cançados
+De se fitarem com demora em mim,
+Os seus olhos piedosos e sagrados
+Ao dialogo d'amor puzeram fim.
+
+Desviára-os; e entre as palpebras discretas,
+Poisára-os nas mãos claras e pequenas,
+Como se foram duas borboletas
+Voando para duas assucenas.
+
+Ergueu-se. O busto delicado e fino
+Tinha os suaves, religiosos traços
+Da Virgem num altar. Só o Menino
+Faltava na doçura dos seus braços...
+
+Num olhar impregnado de candura,
+Disse-me adeus e recolheu. Depois...
+A luminosa noite fez-se escura.
+Calaram-se na sombra os rouxinoes.
+
+Entrei em casa e quiz dormir. Raiára
+A madrugada sem que o conseguisse.
+Quem um sonho tão limpido sonhára,
+Inutil se tornava que dormisse...
+
+Annos felizes neste amor gastei.
+Vieram em seguida as horas más.
+O que nellas soffri, o que passei,
+Um dia, noutra carta, o saberás.
+
+
+
+
+MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE
+
+
+Dez da manhã. Vento da
+serra. Tres graus negativos
+
+
+_Mãos frias, coração quente_!
+Quanta vez isto dizias
+Com o teu ar sorridente,
+Apertando-me as mãos frias...
+
+Agora decerto o tenho
+Num brazeiro, num vulcão.
+O frio é tanto, é tamanho
+Que a penna cae-me da mão...
+
+Q'ria dizer-te o que penso
+E o que faço e premedito,
+Mas posso lá ser extenso
+Com este frio maldito!
+
+Tu perdoas certamente,
+Tu não te zangas, pois não?
+_Mãos frias, coração quente_
+--Lá diz o velho rifão...
+
+
+
+
+NOIVA
+
+_A João da Silva_
+
+
+«Anda a dôr dissimulada
+Mas ella dará seu fruito.»
+
+Crisfal
+
+
+ «_Vae ser pedida. Casa qualquer dia._»
+
+ (_Trecho duma carta_)
+
+
+Tive noticias hoje a teu respeito:
+«Vae ser pedida. Casa qualquer dia».
+E o coração tranquillo no meu peito
+--Continuou a bater como batia...
+
+Surpreso duma tal serenidade,
+Todo eu, intimamente, me sondava:
+Pois nem ciume? Nem sequer saudade?!
+--E nem ciumes, nem saudade achava...
+
+Saudades, não; que o teu amor antigo
+Guardam-no as cinzas (neste coração)
+Como em Pompeia aquelles grãos de trigo
+Que após centenas d'annos deram pão...
+
+Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu
+A lei antiga como o proprio mundo
+De que o prazer mal chega, já morreu,
+E só a dôr nas almas cava fundo?
+
+Causei-te longas horas d'amargura,
+Não consegues voltar a ser feliz;
+A chaga que te abri não terá cura,
+E se curar--lá fica a cicatriz.
+
+Á luz dum juramento que trahiste
+Tu has de vêr-me toda a vida pois.
+Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste
+E Deus casou-nos esse dia, aos dois...
+
+Ciumes tambem não, por te venderes.
+Desgraçadinha! Antes te houvesses dado;
+Não descerias tanto entre as mulheres,
+Seria mais humano o teu peccado.
+
+Porém, embora a tua falta aponte,
+P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz);
+O sol desapparece no horisonte
+--E a gente vê-o ainda a dar-nos luz...
+
+Póde a desgraça erguer em frente a mim
+Altas montanhas d'elevados cumes.
+O sol do amôr doiral-as-ha, e assim,
+Vendo-o tão alto, não terei ciumes.
+
+Ciumes! _Elle_ é que hade tel-os, quando,
+Em claras noites de luar silente,
+Ouvir vibrar alguma voz, cantando
+Os versos que te fiz devotamente.
+
+Versos para te ungirem os ouvidos
+E os labios d'anemica e de santa,
+Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos,
+Que o povo humilde os acolheu e os canta.
+
+Então, se te olhar bem, logo adivinha...
+Logo sombriamente se convence
+De que a tua alma se fundiu na minha
+--E apenas o teu corpo lhe pertence.
+
+
+
+
+DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE
+
+_Á Leo_
+
+
+Ao charco mais escuso e mais immundo
+Chega uma hora no correr do dia
+Em que um raio de sol, claro e jocundo,
+O visita, o alegra, o alumía;
+
+Pois eu, nesta desgraça em que me afundo,
+Nesta contínua e intérmina agonia,
+Nem tenho uma hora só dessa alegria
+Que chega ás coisas infimas do mundo!...
+
+Deus meu, acaso a roda do destino
+A movimentam vossas mãos leaes
+Num aceno impulsivo e repentino,
+
+Sem que na cega turbulencia a domem?!
+Senhor! Não é um seixo o que esmagaes;
+Olhae que é--_o coração dum homem_!...
+
+
+
+
+JOANNINHA
+
+_A Mayer Garção_
+
+
+Descance de quando em quando...
+Passar assim toda a tarde
+Sempre bordando, bordando,
+Sem que um momento desista,
+Até faz pena! Não lhe arde
+Nem se lhe perturba a vista?...
+
+Descance de quando em quando...
+Erga os olhos do bordado
+E veja quem vae passando.
+O trabalho alegra a gente,
+Mas assim, tão aturado,
+--Não lhe faz bem certamente.
+
+Erga a carinha tranquilla,
+Erga esse rosto tão lindo
+E veja os moços da villa
+A passarem por aqui,
+Uns descendo, outros subindo,
+--E todos d'olhos em si...
+
+Descance de quando em quando
+E veja se escolhe algum;
+Já é tempo d'ir pensando
+Em casar. Não é assim?...
+Se não lhe agrada nenhum,
+--Diga se gosta de mim.
+
+Desde os começos do outono
+Que eu a trago no sentido,
+Não como, não tenho sono,
+Tudo me dá ralação?
+Quer-me para seu marido?
+--Diga que sim ou que não...
+
+
+
+
+QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM...
+
+_A Cassianno Neves_
+
+
+Bocca talhada em milagrosas linhas,
+A luz augmenta com o seu falar.
+
+Esta manhã um bando de andorinhas
+Ia-se embora, atravessava o mar.
+
+Chegou-lhes ás alturas, pela aragem,
+Um adeus suave que ella lhes dissera,
+
+--E suspenderam todas a viagem,
+Julgando que voltára a primavera...
+
+
+
+
+A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA
+
+
+ Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na
+ disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas
+ realidades da vida, teriam observado que... o viver do povo encerra
+ em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de
+ machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos
+ theatraes.
+
+ ... O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e
+ na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do
+ lar, nestas sombras de Rembrandt.
+
+ _MICHELET_. _O Povo_
+
+
+_A Manuel Penteado_
+
+
+Buscava em algum assunto adrede
+A versos que inculcassem novidade,
+Quando uma intensa e irreprimivel sêde
+Me fez voltar do sonho á realidade.
+
+E pedi agua (já se vê) que veio
+Consoante é d'uzo cá por entre o povo
+Num pucaro de barro ingenuo e feio,
+Servindo-lhe de salva um prato côvo.
+
+Bebi o liquido dum trago só;
+E dito o «Deus te pague» habitual,
+Subi de novo a escada de Jacob
+No heroico intuito de escalar o ideal...
+
+Mas o idealismo é como a nevoa ondeante
+Que os rios erguem pela madrugada;
+O olhar destingue-a, quando está distante,
+E da que nos rodeia--não vê nada...
+
+De que serve afinal tentar a gente
+Reter, dentro das mãos, fumo de palha,
+Se aqui, aos nossos olhos, no existente,
+Ha tanta coisa que os attráia e valha?...
+
+A agua vinda neste vaso fragil
+Que um ignorado artista modelou
+Num gesto--já mechanisado e agil--
+Á força d'imitar o que encontrou,
+
+É um assunto cheio de belleza,
+Cheio de claro e alto ensinamento.
+Assim na branda fala portuguêsa
+O désse eu, como o tenho em pensamento!...
+
+A agua é como a esp'rança
+Que a tudo se sujeita...
+Onde quer que se deita
+Lá fica humildemente acommodada,
+Seja a concha da mão duma creança,
+Ou a taça lendaria da ballada...
+
+Tanto sacia
+Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma
+(Que um só valia
+O rútilo oiro d'avaro banqueiro)
+Como a que se toma
+Na argilla porosa,
+Alegre trabalho dum simples oleiro...
+
+E é
+Até
+Bem mais saborosa
+No barro suarento
+Deixado á janella,
+Que num opulento
+Copo lavrado
+Que seja pertença de rica baixella
+E sonho gentil, cinzel phantasista
+Dalgum grande artista
+Dos raros d'agora, ou do tempo afastado...
+
+Bichos humanos, féras em pé,
+Sêde bondosos como a agua o é...
+
+No luzente alcantil da magnitude,
+Ou no áspero declive da pobreza,
+Nunca cerreis o espirito á virtude,
+Nunca fecheis os olhos á belleza.
+Que todo o coração,
+Desde o sabio de genio ao cavador,
+Seja o Calix de paz e de perdão
+Contendo a agua limpida e lustral
+Dum irmanado e perpetuo amôr...
+
+Agua que limpe a mácula do mal
+E mitigue a miseria, a ancia, a magua
+Desta cruenta e impiedosa guerra
+Em que tantas creaturas se consomem.
+
+ Nem só da agua
+ Que vem da terra
+ Tem sêde o homem...
+
+Nasce uma fonte
+Rumurejante
+Na encosta dum monte;
+
+E mal que do seio
+Da terra brotou,
+Logo o seu veio
+Transparente
+E diligente
+Buscou e achou
+Mais baixo logar...
+
+E sempre descendo,
+E sempre a cantar,
+Vae andando,
+Galgando,
+Vencendo,
+(Ou tenta vencer...)
+Folha, raíz, areia, o que tolher
+A sua descida...
+
+Ao brotar da dura frágoa
+--É uma lagrima d'agua...
+
+Mas esse humilde fiozinho,
+Que um destino bom impelle,
+Encontra pelo caminho
+Um outro que é como elle...
+
+Reunem-se, fundem-se os dois,
+Proseguem de companhia,
+E fica dupla depois
+A força que os leva e guia...
+
+Junta-se aos dois um terceiro,
+Outros confluindo vão,
+E o regato é já ribeiro
+E o ribeiro é rio então...
+
+E nada agora o domina
+Ao fiozinho da fonte.
+Entre collina e collina,
+Ou entre um monte e outro monte,
+
+Caminha sem descançar,
+Circula atravez do mundo
+--Até á beira do mar
+Omnipotente e profundo...
+
+Da altura em que estejaes (ou vos pareça;
+A vaidade é uma amante enganadora)
+Que o mais alto de vós se humilhe e desça
+Como se humilde e pobre sempre fôra...
+
+E que os demais desçam tambem de todo
+O orgulho e mando sobre escravas gentes
+Até ao valle, de lagrimas e lôdo
+Onde a miseria brada e range os dentes.
+
+E como as aguas que se vão juntando
+E juntas, e cantando, vão descendo,
+Reuni o choro derramado, quando
+Atravessardes esse valle horrendo.
+
+E o atoleiro que se havia feito
+No val, dantesco, pútrido, sombrio,
+Mudar-se-ha no irrigante leito
+Dum fertilisador e claro rio;
+
+E o rio, andando, andando, hade alargar
+--Com biliões de lagrimas vertidas--
+Num infinito e luminoso mar
+De novas e amplas e cantantes vidas!
+
+Outubro de 1909.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+Prefacio
+Dedicatoria
+Luar de Janeiro
+Sextilhas a um menino Jesus d'Evora
+Ballada da Neve
+Toada para as mães acalentarem os filhos
+O nosso lar
+O que o fogo poupou dum poemeto queimado
+Melodia confidencial
+O passeio de Santo Antonio
+Um grão de incenso
+A máscara
+In promptum pastoral
+Meditações sobre themas do Ecclesiastes
+A canção das perdidas
+Carta a um rapaz sentimental
+Mãos frias coração quente
+Noiva
+De profundis clamavi ad te domine
+Joanninha
+Quando as andorinhas partiam
+A parábola do pucaro d'agua
+
+
+
+
+Acabado de imprimir aos trinta e um de dezembro de 1909 em Lisboa, na
+Typographia do Commercio, Rua da Oliveira, 10, ao Carmo.
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Luar de Janeiro, by Augusto Gil
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LUAR DE JANEIRO ***
+
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
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+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
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+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+*** END: FULL LICENSE ***
+
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