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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:51:21 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os Simples + +Author: Guerra Junqueiro + +Release Date: January 16, 2006 [EBook #17534] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS SIMPLES *** + + + + +Produced by João Miguel Neves, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This +file was produced from images generously made available +by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de +Portugal).) + + + + + + + +GUERRA JUNQUEIRO + + +*Os Simples* + + +PORTO + +TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL + +MDCCCXCII + + + + +OS SIMPLES + + + + +IMPRIMIRAM-SE D'ESTE LIVRO: + + +1 exemplar em papel pergaminho +16 exemplares em papel Wathman + +Todos estes exemplares são assignados e numerados pelo auctor. + + + + +GUERRA JUNQUEIRO + + +*Os Simples* + + +PORTO + +TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL + +MDCCCXCII + + + + +A F. + + +_Querida: + +É este por emquanto o meu melhor livro. +Pertence-te. + +teu J._ + + + + +*PRELUDIO* + + +I + +A CAMINHO + +(_Abril, ao raiar d'alva. Por uma encosta de sementeiras, pastos, +olivedos e amendoaes em flor vae um loiro peregrino adolescente, d'olhos +ingenuos e extasiados no alvor da estrella da manhã_.) + + +Um Lavrador + +(_de noventa anos, em mangas de camísa a lavrar uma terra_) + +Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança, +Ides de caminho para algum logar? + + +O Peregrino + +Vou dar volta ao mundo... + + +O Lavrador + +Sem arnez ou lança?! +Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança, +Penas e miserias é o que ireis achar!... + + +Uma Velhinha + +(_mais adiante_) + +Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes, +Ides com cuidados para um tal andar!... + + +O Peregrino + +Vou a prender monstros, combater serpentes... + + +A Velhinha + +Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes, +Os dragões ferozes vam-no espostejar!... + + +Uma Joven Camponeza + +(_mais adiante_) + +Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados, +Ides pela fresca para algum pomar? + + +O Peregrino + +Vou-me a ler Destinos, descobrir os Fados... + + +A Camponeza + +Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados, +Feiticeiros negros vam-no enfeitiçar!... + + +Uma Pastorinha + +(_mais adiante_) + +Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes, +Vossos olhos disem que ides p'ra casar... + + +O Peregrino + +Vou fazer tesoiros, fabricar diamantes... + + +A Pastorinha + +Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes, +Ha ladrões nos bosques, vam-no assassinar!... + + +Um Mendigo + +(_mais adiante_) + +Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama, +Vossos olhos ardem como a luz solar!... + + +O Peregrino + +Vou descobrir mundos, quero gloria e fama!... + + +O Mendigo + +Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama, +Sobe o pó mais alto que os trovões do mar!... + + +A Estrella D'Alva + +Ó creança, d'olhos côr da flor dos linhos, +Por infernos deixas tua paz, teu lar!... + + +O Peregrino + +(_desaparecendo ao longe_) + +Florirei as pedras pelos maus caminhos! +Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos +A sorrir nos beijos e a tremer no olhar!... + + +II + +DE VOLTA + +(_Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando, +esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordão_.) + + +Um Lavrador + +(_de cem anos, ainda robusto, à porta do casebre_) + +Mendigo d'olhos sem esp'rança, +Vaes-te perder na escuridão... +Entra em meu lar; dorme, descança... + + +O Pobresinho + +(_andando sempre_) + +Quem dera a paz divina e mansa, +Velho, que tens no coração!... + + +Uma Velhinha + +(_a resar à porta do moinho_) + +Mendigo d'olhos sem ventura, +Dentro da azenha ha um enxergão; +Terás lençoes, terás fartura... + + +O Pobresinho + +(_andando sempre_) + +Eu só quizera essa candura, +Irmã da Graça e da Ilusão!... + + +Uma Camponeza + +(_que vem da vindima_) + +Mendigo d'olhos d'engeitado, +Na nossa casa ha vinho e pão; +E ha leite fresco; e ha mel doirado... + + +O Pobresinho + +(_andando sempre_) + +Tua alegria sem cuidado, +Eis o que eu busco... em vão! em vão!... + + +Uma Pastorinha + +Mendigo d'olhos de coveiro, +Trago a merenda no surrão; +O queijo é bom, mas é grosseiro... + + +O Pobresinho + +(_andando sempre_) + +Dá-me o teu riso feiticeiro, +Lirio do monte inda em botão! + + +Um Pedinte + +Mendigo d'olhos na agonia, +Dou-te o meu manto e o meu bordão; +Nada mais levo... a noite é fria... + + +O Pobrezinho + +(_andando sempre_) + +Apenas ai! desejaria +Tua cristã resignação!... + + +A Estrella Vesper + +Ó sonhador louco d'outrora, +Teus sonhos lindos onde estão?! +Ebrio da luz, rico d'aurora, +Vi-te partir... e vejo agora +Um morto erguido d'um caixão! + +Teus olhos fulvos namorei-os +De dia e noite, da amplidão: +Vi-os sorrir entre gorgeios, +Vi-os cantar e vi-os cheios +De pranto e febre e indignação! +Regressa emfim, é teu destino, +Á paz obscura, á submissão... +E outra vez meigo e pequenino +Deixa dormir, como um menino, +Teu velho e exhausto coração!... + + +O Pobresinho + +(_chorando_) + +Só tu, estrella, me conheces +Em minha dor, minha aflição!... +Só tu não dormes, não esqueces... +Só tu ouviste as minhas preces... +Bemdito, estrella, o teu clarão! + +Setembro--91. + + + + +I + +*A MOLEIRINHA* + + +A MOLEIRINHA + + +Pela estrada plana, toc, toc, toc, +Guia o jumentinho uma velhinha errante. +Como vão ligeiros, ambos a reboque, +Antes que anoiteça, toc, toc, toc, +A velhinha atraz, o jumentito adiante!... + +Toc, toc, a velha vae para o moinho, +Tem oitenta anos, bem bonito rol!... +E comtudo alegre como um passarinho, +Toc, toc, e fresca como o branco linho, +De manhã nas relvas a córar ao sol. + +Vae sem cabeçada, em liberdade franca, +O gerico russo d'uma linda côr; +Nunca foi ferrado, nunca usou retranca, +Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca +Com o galho verde d'uma giesta em flor. + +Vendo esta velhita, encarquilhada e benta, +Toc, toc, toc, que recordação! +Minha avó ceguinha se me representa... +Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta, +Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!... + +Toc, toc, toc, lindo burriquito, +Para as minhas filhas quem m'o dera a mim! +Nada mais gracioso, nada mais bonito! +Quando a Virgem pura foi para o Egipto, +Com certeza ia n'um burrico assim. + +Toc, toc, é tarde, moleirinha santa! +Nascem as estrellas, vivas, em cardume... +Toc, toc, toc, e quando o galo canta, +Logo a moleirinha, toc, se levanta, +P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume... + +Toc, toc, toc, como se espaneja, +Lindo o jumentinho pela estrada chan! +Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja, +Dá-me até vontade de o levar á egreja, +Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan! + +Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga, +Toda, toda branca, vae n'uma frescata... +Foi enfarinhada, sorridente amiga, +Pela mó da azenha com farinha triga, +Pelos anjos loiros com luar de prata!... + +Toc, toc, como o burriquito avança! +Que prazer d'outrora para os olhos meus! +Minha avó contou-me quando fui creança, +Que era assim tal qual a jumentinha mansa +Que adorou nas palhas o menino Deos... + +Toc, toc, é noite... ouvem-se ao longe os sinos, +Moleirinha branca, branca de luar!... +Toc, toc, e os astros abrem diamantinos, +Como estremunhados cherubins divinos, +Os olhitos meigos para a ver passar... + +Toc, toc, e vendo sideral tesoiro, +Entre os milhões d'astros o luar sem veo, +O burrico pensa: Quanto milho loiro! +Quem será que moe estas farinhas d'oiro +Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!... + +Novembro de 1888. + + + + +II + +*CADAVER* + + +I + +PRESTITO FUNEBRE + + +Que alegrias virgens, campezinas, fremem +N'este imaculado, limpido arrebol! +Como os galos cantam!... como as noras gemem!... +Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem, +Refulgente e novo passarinha o sol!... + +Pela estrada, que entre cerejaes ondea, +Uma pequerrucha,--tro-la-ró-la-rá!-- +Vae cantando e guiando o carro para a aldeia... +São os bois enormes, e a carrada cheia +Com um castanheiro apodrecido já. + +Oh, que donairosa, linda boieirinha! +Grandes olhos garços, sorrisinho arisco... +D'aguilhada em punho lepida caminha, +Com a graça aerea d'ave ribeirinha, +Verdilhão, arveola, toutinegra ou pisco. + +Loira, mas do loiro fulvo das abelhas; +Fresca como os cravos pelo amanhecer; +Brincos de cerejas presos nas orelhas, +Na boquita rosea tres canções vermelhas, +Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder! + +Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo, +Nada mais esvelto, mais encantador! +Veste-a d'oiro a gloria do bom sol amigo... +O chapeu é palha que inda ha um mez deu trigo, +A saíta é linho inda ha bem pouco em flor!... + +E os dois bois enormes, colossaes, fleugmaticos, +Na aleluia imensa, triunfal, da aurora, +Vão como bondosos monstros enigmaticos, +Almas por ventura d'ermitões extaticos +Ruminando biblias pelos campos fora!... + +Ao arado e ao carro presos noite e dia, +Como dois grilhetas, quer de inverno ou v'rão! +E, submissos, uma pequerrucha os guia! +E nos sulcos que abrem canta a cotovia, +As boninas riem-se e amadura o pão!... + +Levam as serenas frontes magestosas +Enramalhetadas como dois altares: +Madresilvas, loiros, pampanos, mimosas, +Abelhões ardentes desflorando rosas, +Borboletas claras em noivado, aos pares... + +E eis no carro morto o castanheiro, emquanto +Melros assobiam nos trigaes alem... +Heras amortalham-no em seu verde manto... +Deu-lhe a terra o leite, dá-lhe a aurora o pranto... +Que feliz cadaver, que até cheira bem!... + +Musgos, lichens, fetos,--chimica incessante!-- +Fazem montões d'almas d'essa podridão... +Já n'esse esqueleto seco de gigante, +Sob a luz vermelha, n'um festim radiante, +Mil milhões de vidas polulando estão!... + +Sempre á fortaleza casa-se a doçura: +Como o leão da Biblia morto n'um vergel, +Do seu tronco ainda na caverna escura +Um enxame d'oiro rutilo murmura, +Construindo um favo candido de mel!... + +Oh, os bois enormes, mansos como arminhos, +Meditando estranhas, incubas visões!... +Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos, +E por sobre os longos, torridos caminhos +Dos seus olhos caem bençãos e perdões... + +Chorarão o velho castanheiro ingente, +Sob o qual dormiram sestas estivaes? +Almas do arvoredo, o seu olhar plangente +Saberá acaso misteriosamente +Traduzir as lingoas em que vós fallaes?!... + +Castanheiro morto! que é da vida estranha +Que no ovario exiguo d'uma flor nasceu, +E criou raizes, e se fez tamanha, +Que tresentos anos sobre uma montanha +Seus tresentos braços de colosso ergueu?!... + +Onde a alma, origem d'essas formas bellas? +Em tão varias formas que sonhou dizer? +Qual a ideia, ó alma, convertida n'ellas? +E desfeito o encanto, que nos não revelas, +Que aparencias novas tomará teu ser?... + +Noite escura!... enigmas!... Ai, do que eu preciso, +Boieirinha linda, linda d'encantar, +É d'essa inocencia, d'esse paraiso, +Da alegria d'oiro que ha no teu sorriso, +Da candura d'alva que ha no teu olhar!... + +Grandes bois que adoro, p'ra fortuna minha, +Quem me dera a vossa mansidão christã! +Arrotear os campos, fecundar a vinha, +E nos olhos garços d'uma boieirinha, +Ter duas estrellas virgens da manhã!... + +E tambem quizera, mortos castanheiros, +Como vós erguer-me para o sol a flux, +Dar tresentos anos sombra aos pegureiros, +E n'um lar de choça, em festivaes braseiros, +A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!... + +1889. + + +II + +IN PULVIS... + + +Oh, que noite negra, que invernia brava! +Nem uma estrellinha pelo ceo reluz! +Chora o vento ao longe com a voz tão cava, +Como quando dizem que de dor chorava +Toda a santa noite em que expirou Jesus!... + +Vem sanguinolentos gritos muribundos +Das soturnidades torvas do horisonte!... +Já nos ermos andam lobos vagabundos... +Já os rios cheios, com bramidos fundos, +N'um diluvio d'agoa vão de mar a monte!... + +Em casal de serras arde o castanheiro, +Lampada de pobres a fazer serão; +De redor do grande, festival braseiro, +A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro, +A mulher, os filhos, o bichano e o cão. + +Queima-se o gigante, rude centenario, +Que jamais os astros hão-de ver florir... +E do seu cadaver o esplendor mortuario +Faz d'essa choupana quasi que um sacrario +Com uma alma d'oiro dentro d'ella a rir!... + +Tem o velho ao colo o seu netinho doente; +--Morte negra, foge do telhado, ó, ó...-- +E no lar as brasas simultaneamente +Dizem para o anjo:--tudo é oiro ardente... +Dizem para o velho:--tudo é cinza e pó!... + +Quantas vezes, quantas! por manhãs radiantes +Em pequeno, alegre como um colibri, +Não trepara aos braços todos verdejantes +D'esse castanheiro, que n'alguns instantes +Ha-de ver em cinzas já desfeito ali!... + +Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno! +Quantas noites, quantas! elle ali dormia +Pelo mez das ceifas, quando o luar é morno, +E das restolhadas, quentes como um forno, +Se evolavam cheiros d'arreçã bravia!... + +Como não sentir um entranhado afecto, +Como não amal-o com veneração, +Se lhe dera a trave que sustenta o tecto, +Se lhe dera o berço onde repoisa o neto, +Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão! + +Fez com elle o jugo e fez com elle o arado; +Fez com elle as portas contra os vendavaes; +E com elle é feito o velho leito amado, +Onde se deitara para o seu noivado, +E onde já morreram seus avós, seus paes! + +E o bom velho embala o seu netinho doente... +--Morte negra, foge... dorme, dorme... ó, ó...-- +E, fitando as chamas simultaneamente, +Ri-se a creancinha, vendo o oiro ardente, +Lagrimeja o velho, vendo cinza e pó!... + +A velhinha resa, resa afervorada... +Tão velhinha e branca, branca de jasmins, +Que a idealiso e creio d'esplendor banhada, +Entre palmas verdes até Deos levada +N'um andor de rosas pelos serafins... + +Resa pelos mortos... resa á virgem pura... +Desde a sua infancia tão ditosa e bella, +Já d'essa choupana (como a noite é escura!) +Quantos tem partido para a sepultura, +Quantos tem ficado dentro d'alma d'ella!... + +Dentro d'alma d'ella, triste campo santo, +Muitas almas vivem mortas a sonhar!... +Vivem mortas, mudas, n'um dorido encanto... +Nos seus olhos vitreos cristalisa o pranto, +Nos seus labios roxos fosforece o luar... + +E essas almas fluidas que ella traz comsigo, +--Talisman da crença, magico poder!-- +Frias como a neve vem do seu jasigo, +Vem sentar-se todas no logar antigo, +A chorar á roda do braseiro a arder!... + +Ai dos pobres mortos que não tem fogueiras, +Nem velhinhas santas que lhe deem luz! +Sob leivas, onde ninguem põe roseiras, +Umas sobre as outras juntam-se as caveiras, +Dando sangue aos vermes, podridões á Cruz... + +D'esses desgraçados, mortos no abandono, +Onde estão as almas? P'ra que Deos as fez? +Quando o vento uivando lhes perturba o somno +Pela treva errantes, como cães sem dono, +Andarão perdidas a ulular talvez!... + +Pois até por essas que ninguem conforta +A velhinha chama... e todas ellas vem... +--Vinde pobresinhas, (como o vento as corta!) +Vinde aqui sentar-vos, que eu vos abro a porta, +A aquecer-vos, filhas, ao meu lar tambem!-- + +E a dos olhos garços pastorinha bella +Fia no seu fuso linho por corar; +É trigueiro o linho, trigueirinha é ella... +Rodopia o fuso... quando for donzella, +Já terá camisas para se ir casar!... + +E esse fuso alegre onde se enrosca o linho +Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas: +Deu já cachos brancos como o branco arminho, +Já sobre elle a ave construiu seu ninho, +Já sobre elle amando palpitaram azas!... + +Fuso como giras em dedinhos breves +Prasenteiramente, com tão louco ardor! +Que estarás fiando?... que enxovaes?... que neves? +Se serão camisas, ou mortalhas leves, +Cama para bodas, ou lençoes de dor!... + +No vetusto escano o lavrador sombrio +Pensa na courela... Santo Deos, Jesus! +Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio, +Como é que hade o gado pelo ardor do estio +Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!... + +Choram ventanias!... panica tristeza!... +Sentem-se na loja bois a ruminar... +Queixas insondaveis vem da naturesa!... +Quanto monstro mudo, quanta lingoa presa, +Contemplando a Noite sem poder fallar!... + +Ronronando ao lume, dorme o cão e o gato. +Almas misteriosas, em que sonharão?... +Como que n'um dubio lusco-fusco abstracto, +De ter sido tigre lembra-se inda o gato?... +De ter sido hiena lembra-se inda o cão?... + +Eis as brasas mortas... Eil-o já converso +O castanheiro em cinza, em fumo vão, em luz... +Luz e fumo e cinza tudo irá disperso +Reviver na vida eterna do universo, +Circulo de enigmas, que ninguem traduz... + +Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama +Viverão, morrendo a toda a hora... sempre!... +Nuvem que troveja, calix que enbalsama, +Planta, pedra, insecto, humanidade, lama, +Serão tudo, tudo!... inconcebivel!... Sempre! + +Mas a alma, as almas quem as ha criado? +Qual a origem d'onde a sua essencia emana?... +Ah, em vão levanto o triste olhar magoado +Para os olhos d'ouro que do azul sagrado +Lançam as estrellas á miseria humana!... + +Oh em vão!... que os astros, onde em sonho habito, +São tambem fogueiras sobrenaturaes, +Que na pavorosa noite do Infinito +Crepitando espalham seu clarão bemdito, +Suas alvoradas roseas, virginaes, + +Para em torno d'ellas se aquecerem mundos +A tremer com frio, a soluçar com dor, +Miseraveis monstros cegos, vagabundos, +Atravez d'eternos turbilhões profundos, +N'um virtiginoso, angustioso horror!... + +E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros, +No Infinito imenso ou n'um tugurio assim, +Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros, +Atomos errantes, sonhos vãos, argueiros +Na inconsciencia calma da amplidão sem fim!... + +E o mundo e os mundos a girar na altura +Como vós, ó velhos, morrerão tambem... +Blocos de materia fria, sem verdura, +Errarão na vaga imensidade escura, +Cemiterio d'astros que nem cruzes tem!... + +Dormirão? oh, nunca!... vão eternamente +Circular na eterna vida universal: +Nebulosa fluida, lavareda ardente, +Lodo, o mesmo lodo, como antigamente, +Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!... + +Formas da materia, que eu em vão desnudo, +Que invisiveis forças, e almas encobris? +Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo... +Mas o enigma impresso no seu labio mudo +Só na treva aos mortos é que a morte o diz!... + +Só a Morte o sabe... mais a Fé que abrasa, +Que penetra as coisas com o seu olhar! +Não ha fé na alma, não ha luz na casa... +A rasão é um verme, mas a crença é aza... +Verme! aos infinitos poderás chegar!... + +Ó velhinha santa, minha boa amiga, +Resa o teu rosario, move os labios teus!... +A oração é ingenua? Vem de crença antiga? +Não importa! resa, minha boa amiga, +Que orações são lingoas de falar com Deos!... + +Ha pedintes cegos de inspiradas frontes, +Com estrellas n'alma, com visões mentaes, +Que atravessam rios, que vão dar com fontes, +Que andam por agrestes, solitarios montes, +Sem errar a estrada, sem cahir jamais!... + +Pelos bosques ermos, onde venta e neva, +Com os seus farrapos mais o seu bordão, +Marcham por milagre na continua treva... +Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva? +Que prodigio oculto? que invisivel mão? + +Pois, velhinha branca, tua crença pura, +Tua resa antiga, que me faz chorar, +É egual aos cegos, que na noite escura +Não precisam d'astros para ver a altura, +Não precisam d'olhos para ter olhar! + +No Infinito mudo tua ingenua crença, +Tremula ceguinha de risonho alvor, +Eil-a andando, andando, como que suspensa, +Pelos descampados d'uma noite imensa, +Vastidões d'assombros, amplidões d'horror!... + +E onde a aguia, o genio de pupila ovante, +Tem vertigens, auras, desfalece e cae, +A ceguinha debil, vagabunda, errante, +D'olhos ás escuras. Infinito adiante, +N'um enlevo aereo perpassando vae!... + +Branca e pequenina, ligeirinha e leve, +Corta por abismos, plagas sem faroes, +Stepes infindaveis que ninguem descreve, +Lugubres desertos de mudez e neve, +Bategas de brasas, turbilhões de soes!... + +Vae andando, andando, té que emfim cercada +D'uma aleluia mystica de luz, +Com o bordãosinho que a amparou na estrada +Bate ás portas d'oiro da feliz morada, +Presbiterio d'Almas, onde está Jesus!... + +Vem um anjo abril-as; a ceguinha mansa +Põe-se de joelhos, em adoração... +Diz-lhe o anjo:--Toma, guarda esta lembrança: +Uma palma d'astros, a luzir Esp'rança, +Que á velhinha humilde levarás na mão! + +E, ave pressurosa recolhendo ao ninho, +Já com alimento para os filhos seus, +Eil-a que regressa por egual caminho, +E vem dar-te, ó santa, côr de jaspe e arminho, +Tão amada ofrenda que te envia Deos!... + +Resa esse rosario, santa lagrimosa! +Sobre os teus joelhos deixa-me deitar! +Triste da minh'alma!... vê, que desditosa!... +Unge-m'a de bençãos, mão religiosa!... +Cobre-m'a de graças, cristalino olhar!... + +Resa-lhe baixinho, minha boa amiga! +Resa-lhe rosarios de orações ideaes! +Morta de miseria, morta de fadiga, +Deixa que ella durma na pureza antiga... +Que ella durma... sonhe... e não acorde mais!... + +89. + + + + +III + +*EIRAS AO LUAR* + + +EIRAS AO LUAR + + +Alvor da lua nas eiras, +Nem linhos de fiandeiras, +Nem veos de noivas ou freiras, +Nem rendas d'ondas do mar!... +Sobre espigas d'ouro bailam as ceifeiras, +Na aleluia argentea do clarão do luar!... + +Bailae sob as lagrimosas +Estrellinhas misteriosas, +Scintilações, nebulosas, +Fremitos vagos d'empyreos!... +Deos golpeia a aurora p'ra dar sangue ás rosas, +Deos ordenha a lua p'ra dar leite aos lirios!... + +Ai, medas de prata e oiro, +De lua branca e pão loiro, +Malhadas no malhadoiro, +A enfeitiçar e a fulgir!... +Oh, bailae á volta d'esse bom tesoiro, +Que é a codea negra que ceaes a rir!... + +Quem nas ladeiras e prados, +Com as lanças dos arados, +Abriu sulcos e valados +Na terra gelida e nua? +Oh, bailae á volta desses bois deitados, +Que estão d'olhos tristes adorando a lua!... + +Que bandos de passarinhos, +Vem lá de campos maninhos, +De fraguedos, de caminhos, +Jantar aqui, merendar!... +Oh, bailae em volta de milhões de ninhos! +Oh, bailae cantando para os acordar!... + +Entre as palhas do centeio, +Quantas esmolas no meio, +Que deixam lirios no seio +E as mãos escorrendo luz!... +Oh, bailae em volta do celeiro cheio! +Oh, bailae á volta dos mendigos nus!... + +Quanta hostia consagrada, +--Pão da ultima jornada!-- +Dorme na meda encantada +Ao luar tão leve e tão lindo!... +Oh, bailae em volta d'essa mó doirada, +Que bailaes á volta de Jesus dormindo!... + +Alvor da lua nas eiras, +Nem linhos de fiandeiras, +Nem veos de noivas ou freiras, +Nem rendas d'ondas do mar!... +Oh, bailae ceifeiras, lindas feiticeiras, +Na aleluia argentea do clarão do luar!... + +Setembro--91. + + + + +IV + +*AS ERMIDAS* + + +AS ERMIDAS + + +Alvas ermidinhas sob azues maguados, +Vejo-vos de longe n'uma adoração, +Como ninhos brancos de Ideal pousados +Lá n'esses fragosos montes escalvados, +Onde não ha agoa, nem germina o pão. + +Serranias ermas, solidões contritas... +Azinheiras como velhos Briarcus.... +Pedras calcinadas... gados parasitas... +Tristes montes ermos! ermos cenobitas, +Que em burel d'estevas amortalha Deos!... + +Pelas torvas, fundas noites de invernada, +Quando os lobos uivam, quando a neve cae, +Que infinitos sustos n'uma tal morada, +Para debil virgem tão desamparada +Com um inocente nos seus braços... ai! + +Como é que não treme pelo seu menino? +Como é que não chora seu piedoso olhar? +Como é que o seu labio, fresco e matutino, +Se abre n'um sorriso, precursor divino +Da estrellinha d'alva quando vae raiar?! + +Não receia feras quem de rosto ledo +Sofre sete espadas sobre o coração!... +E ao filhinho a noite não lhe causa medo, +Deu-lhe Deos o mundo para seu brinquedo, +Como um fructo d'oiro tem-no ali na mão!... + +Lá nos altos montes sem trigaes, nem vinhas, +Sem o bafo impuro que dos homens vem, +É que a mãe de Christo com as andorinhas, +E as estrellas d'oiro mesmo ali visinhas, +N'um casebre terreo se acomoda bem. + +Bispos não precisa; servem-na pastores, +Capelães d'ovelhas, mais o seu zagal... +Lampada ás Trindades, chão varrido, flores, +Nada falta á Virgem, mãe dos pecadores, +N'uma egrejasinha que é como um pombal. + +E nas brutas, rudes solidões tão calmas +Ai, muito se engana quem a julga só! +Entre o luar dos hinos e o verdor das palmas, +Para lá caminham romarias d'almas... +Todos nós lá fomos com a nossa avó!... + +Oh, as invisiveis procissões piedosas, +Romarias fluidas, sobrenaturaes! +Por onde ellas marcham, brancas, vaporosas, +Fica nos espaços um alvor de rosas +E uma angelisante tremulina d'ais!... + +Almas de velhinhas, do palor silente +D'uma estrella, quando desmaiando está... +Vão buscar alivios p'ro netinho doente, +Vão pedir noticias d'algum filho ausente, +Vão rogar a Gloria para os mortos já... + +Almas de meninos, loiras como abelhas, +A sorrir ao colo d'almas a cantar... +Almas em noivados, roseas e vermelhas... +E almas de pastores ofertando ovelhas, +Chocalhinhos d'astros, velos de luar... + +Almas d'assassinos dos montados ermos, +Com o seu remorso como um javali... +Almas de mendigos, d'aleijões, d'enfermos... +Almas vagabundas, de perdidos termos, +Que atravessam agoas p'ra chegar ali!... + +Almas das corolas matinaes, dos ninhos, +Das aradas verdes, da campina em flor... +Almas de borregos, touros, passarinhos... +E almas, sim! das urzes e hervas dos caminhos, +Porque até nas fragas dorme o Sonho e a Dor!... + +E essas almas todas ella apasigua +Com o dos seus olhos balsamo eficaz: +Verte sobre as penas sugestões de lua, +Mantos dá d'estrellas á miseria nua, +Lagrimas aos crimes e ao remorso paz... + +Esconjura demos, bruxas, feiticeiras, +E dos sonhos loucos o torpor febril... +Dá verdura aos gados, chuva ás sementeiras, +Faz bailar as moças ao luar nas eiras, +Faz fugir os lobos vendo o seu candil. + +Mas tambem ha almas, pobresinhas d'ellas! +Que á romagem d'oiro não acodem já! +Almas moribundas... Noites de procellas... +Olha nos casebres tremeluzem velas!... +É signal que a Morte anda a rondar por lá!... + +Mas a sempre linda Virgem da Amargura +Baixa do altarzinho toda afadigada, +E atravez de serras, pela noite escura, +De menino ao colo,--santa creatura!-- +Lá vae ella andando, não tem medo a nada!... + +Lá vae ella andando... no caminho estreito +Deixa um rasto d'oiro pela escuridão... +Deixa um rasto d'oiro de divino efeito, +Porque as sete espadas, a fulgir no peito, +Põem-lhe um setestrello sobre o coração... + +E de povo em povo, que é de serra em serra, +Almas na agonia visitando vae; +Quando chega, a Morte já as não aterra, +Ella lhes dá azas p'ra voar da terra, +Seu menino beijos p'ra levar ao Pae... + +Virgem das Angustias, Virgem da Bonança, +Quantas noites, quantas! tremula de dor, +Não vae ser parteira da ovelhinha mansa +A parir, balando como uma creança, +Entre fragaredos de meter horror! + +A deshoras mortas eil-a vigilante, +Prompta a dar socorros ao menor queixume: +Acender estrellas para o navegante, +Ir levar ás mães o cordeirinho errante, +Defender das cobras a ninhada implume... + +Pois como não ha-de consolar as dores +Dos humildes, simples, engeitados, nus, +Se inda se recorda de só ver pastores, +Com cordeiros brancos, cantilenas, flores, +Na sagrada noite em que pariu Jesus!... + +Sim! adora a rude gente da lavoira, +Sementeiras, gados, matagaes, lebreus, +Porque não se esquece da vaquinha loira, +Que se poz de joelhos ante a mangedoira, +Quando nas palhinhas dormitava Deos... + +E por isso arreda pestes, ventanias, +Fomes e procellas, bruxas e trovão, +Lá para malditas, negras penedias, +Onde silvam cobras doudas e bravias, +E onde não existe nem christão, nem pão!... + +E por isso ex-votos, que relembram dores, +Cobrem de ternura todo o seu altar: +Bustos de meninos, mãos de cavadores, +Tranças de donzellas, soluçando amores... +Corações e peitos, de fazer chorar!... + +Alvas capelinhas, sempre milagrosas, +Sois n'essas alturas para os olhos meus, +Como ninhos virgens d'orações piedosas, +Miradoiros brancos de luar e rosas, +D'onde as almas simples entreveem Deos!... + +90-91. + + + + +V + +*CANÇÃO PERDIDA* + + +CANÇÃO PERDIDA + + +Halitos de lilaz, de violeta e d'opala, +Roxas macerações de dor e d'agonia, +O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala... + +Triste, canta uma voz na sincope do dia: + +Alguem de mim se não lembra +Nas terras d'alem do mar... +Ó Morte, dava-te a vida, +Se tu lha fosses levar!... + +Ó Morte, dava-te a vida, +Se tu lha fosses levar!... + +Com o beijo do sol na face cadaverica, +Beijo que a morte esvae em palidez algente, +Eis a lua a boiar sonambula e chimerica... + +Doce, canta uma voz melancolicamente: + +O meu amor escondi-o +N'uma cova ao pé do mar... +Morre o amor, vive a saudade... +Morre o sol, olha o luar!... + +Morre o amor, vive a saudade... +Morre o sol, olha o luar!... + +Latescente a neblina opalica flutua, +Diluindo, evaporando os montes de granito +Em colossos de sonho, extasiados de lua... + +Flebil, chora uma voz no letargo infinito: + +Quem dá ais ó rouxinol, +Lá para as bandas do mar?... +É o meu amor que na cova +Leva as noites a chorar!... + +É o meu amor que na cova +Leva as noites a chorar!... + +A lua enorme, a lua argentea, a lua calma, +Imponderalisou a natureza inteira, +Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma... + +Triste expira uma voz na canção derradeira: + +Ó meu amor, dorme, dorme +Na areia fina do mar, +Que em antes da estrella d'alva +Comtigo me irei deitar!... + +Que em antes da estrella d'alva +Comtigo me irei deitar!... + +Maio--91. + + + + +VI + +*O PASTOR* + + +O PASTOR + + +Sinos a defuntos! ai, quem morreria! +Olha, foi o pobre do Ti Zé-Senhor!... +Velho tão velhinho nenhum outro havia... +P'ra cumprir cem anos lhe faltava um dia, +Ha noventa e quatro que era já pastor. + +Zagalzinho alegre, desde tenra infancia +Já de surrãosito cheio a tiracol, +A escalar montanhas com ardor, com ancia, +Por pastagens bravas d'auroral fragancia, +Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!... + +A deserta, imensa, rustica paisagem, +Cordilheiras, campos, astros d'oiro, luar, +Tudo se invertera, por continua imagem, +Em heroica, em livre candidez selvagem +Na extasiada flor do seu ingenuo olhar. + +Ordenhado o leite, cantarinho cheio, +Ala para a aldeia, por manhãs sonoras, +Mordiscando a codea do seu pão centeio, +Arrancando á frauta um pastoril gorgeio, +Rapinando ás sebes chupa-meis e amoras. + +Fez-se moço e grande pelas serras brutas, +Onde as aguias pairam, onde o roble medra, +E onde os fragaredos barbaros, com grutas, +Se encastelam crespos, infernaes, em lutas, +Tal como tormentas de trovões de pedra! + +Cada serrania alcantilada e brava, +Sob o azul d'Agosto, côr de fogo e pó, +Recozida a febre e atordoada em lava, +Lagrimeja apenas d'uma rocha cava +Pranto, que o bebera uma ovelhinha só! + +E por essas fulvas, ingremes ladeiras +Pastoreava o gado, quasi morto já: +Só rochedos tristes, nus como caveiras, +E zambulhos, zimbros, tojos, cornalheiras, +Acres como pragas d'uma boca má! + +E depois as torvas, negras invernadas, +Noites formidandas, lobos a ulular, +Desmoronamentos, temporaes, nevadas, +Carcavões abertos pelas enxurradas, +Troncos de sobreiros de raiz ao ar!... + +Oh, as noites tristes, alapado e quedo, +N'um covil de feras, ou algar deserto!... +E dormia ao lume sem temor, sem medo, +Pois Nossa Senhora, Virgem do Degredo, +Na ermidinha branca lhe ficava perto... + +Mas no mez de Março pincaros maninhos, +Montes cenobitas, d'ossos e burel, +Vestem-se de trevos e de rosmaninhos, +Com sorrisos d'oiro que alvoroçam ninhos, +E distilam favos de inocencia e mel!... + +Era então alegre como o sol nascente, +Mais feliz nos campos do que Deos no altar! +Anhos e cabritos, leite rescendente, +Pastos tão mimosos, que quizera a gente +Transformar-se em ave para os não calcar! + +Tanto Abril florido, tanta calma adusta, +Tantas inverneiras, sem pesar ou dor, +Tinham-lhe gravado na expressão robusta +Como que uma sombra de grandeza augusta, +Junta a uma inocencia matinal de flor. + +Que importavam gelos, ventanias, feras? +Peito nu, aberto; construção de touro! +Quasi me admirava que nas primaveras +D'esse peito rude não brotassem heras, +Margaridas, lirios com abelhas d'ouro! + +Ao relento a cama no orvalhado pasto, +Cerca dos carneiros e dos bons lebreus; +Que divino leito primitivo e casto, +Todo embalsamado de serpol, mentrasto, +Sob a paz imensa do perdão de Deos!... + +E esse gigantesco latagão corado +Era, como os santos ermitões, frugal: +Duas azeitonas, queijo do seu gado, +E de rala escura meio pão migado +N'um caldeiro d'agoa com azeite e sal. + +Não jantava morte, assassinato, dores, +Hecatombes tristes que jantamos nós; +E por isso ria como riem flores, +Atrahindo em bandos aves de mil cores, +Feiticeiro simples, com o olhar e a voz!... + +Sua rude frauta de pastor ouvindo +Na misteriosa luz crepuscular, +Iam-se as estrellas uma a uma abrindo, +E desabrochava pelo azul infindo +Soluçante a lua como um nenufar!... + +Que trinados vivos, d'argentino encanto +Ai, missa do galo, lhe inspiravas tu, +N'essa frauta, quando de cajado e manto +Ia deitar loas ao menino santo +No altar-mór da egreja sorridente e nu! + +Fôra lá creança, magica ventura! +Centenario quasi a derradeira vez... +E gorgeava a frauta com egual candura, +Pois a alma virgem, luminosa e pura, +Conservara-a sempre como Deos a fez. + +N'ella penetrava, n'ella se embebia +Tudo que é inocencia, riso, amor, clarão: +Fremito de pomba, voz de cotovia, +Canticos dos montes ao nascer do dia, +Lagrimas dos astros pela escuridão!... + +Longe dos Pecados de raivosas presas, +Belzebuths famintos d'olhos de metal, +Longe das horriveis tentações acezas +No torpor dos leitos, na embriaguez das mezas, +Pululantes larvas, vibriões do Mal, + +O pastor ditoso envelheceu ridente +Por despenhadeiros, alcantis, calvarios, +E na fronte augusta de ermitão, de crente, +Lhe geavam anos luminosamente, +Como as pombas brancas sobre os campanarios! + +Das ovelhas meigas,--intimas heranças!-- +Recolhera toda a abnegação christã: +Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas, +Que com vosso leite sustentaes creanças, +E vestis os pobres com a vossa lã! + +Aos noventa anos, festival, risonho, +Alamo gigante d'agoa viva ao pé; +Sim! inda na boca risos de medronho, +E nos olhos lentos, a tremer em sonho, +Dois miosotis virgens de candura e fé! + +Com seu manto branco de burel grosseiro, +Cans de puro arminho, baculo na mão, +Alembrava um santo feito pegureiro, +Que eu desejaria sobre o altar cruzeiro +D'uma ogiva d'astros, em adoração! + +Centenario quasi, recordava aspectos +De lendario tronco n'um feliz vergel, +Moribundo em meio de seus verdes netos, +Com a Providencia a agasalhal-o em fetos, +Com abelhas d'ouro inda a nutril-o a mel, + +E que surdo á voz dos ledos passarinhos, +E que cego ao ether de esplendor ideal, +Com o ai extremo lança dois raminhos, +A chamar ainda por canções de ninhos +E a dizer aos astros um adeos final! + +Tal o pastor santo, já de vez cahido, +Já corcovadinho, flebil, quasi morto, +Arrimado ao velho baculo torcido, +Nada ouvindo, nada, com o duro ouvido, +Vagamente olhando com o olhar absorto, + +Ia pelos montes na tristeza infinda +D'um coração ermo, com a morte aceite, +A pedir aos anjos para ouvir ainda +Badalar ovelhas n'uma noite linda, +Quando a lua os campos alagasse em leite!... + +Seu bisavô fora guardador de gado, +Guardador de gado seu avô, seu pae; +Creou filho e netos como foi creado, +E morreu ditoso porque o seu cajado +Seu rebanho ainda pastoreando vae! + +Candido, na paz das solidões dormentes, +Ignorando o mundo rancoroso e vil +Aos cem anos inda, com a fé dos crentes, +Punha olhos claros, simples, inocentes, +Na estrellinha d'alva das manhãs d'Abril! + +Levará no esquife para os ceos a palma +Da grandeza mansa, da virtude austera. +Realisou no mundo a perfeição da Alma: +Porque foi bondoso como a lua é calma, +Porque foi um santo sem saber que o era!... + +Vós, ó semideuses do entremez da Gloria, +Cesares, tiranos, capitães, heroes, +Epicas figuras de imortal memoria, +Que de serro em serro iluminaes a historia +Como crepitantes, tragicos faroes, + +Na região do Imenso, no Infinito puro, +Onde me deslumbra, como um sol, Jesus, +Não sois mais que larvas a tremer no escuro, +Que ninguem conhece, que eu em vão procuro +Com meus olhos calmos n'esse mar de luz! + +E o pastor d'ovelhas, que comeu centeio, +Que viveu nos montes, que dormiu nas grutas, +Tão asselvajado, cabeludo e feio, +Que dissereis quasi que esse monstro veio +Da matriz da terra, como as pedras brutas, + +Já liberto agora da Ilusão do mundo +Fez-se em anjo branco, inda outra vez pastor: +Milhões d'astros seguem seu olhar jocundo, +São rebanhos d'almas pelo azul profundo +As ovelhas novas do Ti Zé-Senhor!... + +90-91. + + + + +VII + +*O CAVADOR* + + +O CAVADOR + + +Dezembro, noite, canta o galo... +Rouco na treva canta o galo... +--Oh, dor! oh, dor!-- +Aldeão não durmas!... Vae chamal-o, +Miseria negra, vae chamal-o!... +--Oh, dor! oh, dor!-- +Bate-lhe á porta, é teu vassalo, +Que traga a enxada, é teu vassalo, +Miseria negra, o cavador! + +O vento ulula... Tremem ninhos... +Na noite aziaga tremem ninhos... +--Oh, dor! oh, dor!-- +A neve cae, fria d'arminhos... +Na escuridão, fria d'arminhos... +--Oh, dor! oh, dor!-- +Passa maldito nos caminhos, +D'enxada ao hombro nos caminhos, +Fantasma negro, o cavador! + +Vem roxa a estrella d'alvorada... +Vem morta a estrella d'alvorada... +--Oh, dor! oh, dor!-- +Montanhas nuas sob a geada!... +Hirtas, de bronze, sob a geada... +--Oh, dor! oh, dor!-- +Torvo, inclinado sobre a enxada, +Rasga as montanhas com a enxada. +Fantasma negro, o cavador! + +Cavou, cavou desde que é dia... +Cavou, cavou... Bateu meio dia... +--Oh, dor! oh, dor!-- +De pé na encosta erma e bravia, +Triste na encosta erma e bravia, +--Oh, dor! oh, dor!-- +Largando a enxada, «Ave Maria!...» +Resa em silencio... «Ave Maria!...» +Fantasma negro, o cavador! + +Cavou, cavou na serra agreste, +D'alva á noitinha em serra agreste... +--Oh, dor! oh, dor!-- +E um caldo em premio tu lhe deste, +Meu Deos!... seis filhos tu lhe deste... +--Oh, dor! oh, dor!-- +Batem trindades... «Pae celeste!... +Bemdito sejas, Pae celeste!...» +Resa, fantasma, o cavador! + +Cavou cem montes... que é do trigo?! +Gerou seis bocas... que é do trigo?! +--Oh, dor! oh, dor!-- +Bateu a Fome ao seu postigo... +Bateu a Morte ao seu postigo... +--Oh, dor! oh, dor!-- +«Que a paz de Deos seja comigo! +Que a paz de Deos seja comigo!...» +Disse, expirando, o cavador! + +Junho--91. + + + + +VIII + +*OS POBRESINHOS* + + +OS POBRESINHOS + + +Pobres de pobres são pobresinhos, +Almas sem lares, aves sem ninhos... + +Passam em bandos, em alcateias, +Pelas herdades, pelas aldeias. + +É em Novembro, rugem procellas... +Deos nos acuda, nos livre d'ellas! + +Vem por desertos, por estevaes, +Mantas aos hombros, grandes bornaes. + +Como farrapos, coisas sombrias, +Trapos levados nas ventanias... + +Filhos de Christo, filhos d'Adão, +Buscam no mundo codeas de pão! + +Ha-os ceguinhos, em treva densa, +D'olhos fechados desde nascença. + +Ha-os com f'ridas esburacadas, +Roxas de lirios, já gangrenadas. + +Uns de voz rouca, grandes bordões, +Quem sabe lá se serão ladrões!... + +Outros humildes, riso magoado, +Lembram Jesus que ande disfarçado... + +Engeitadinhos, rotos, sem pão, +Tremem maleitas d'olhos no chão... + +Campos e vinhas!... hortas com flores!... +Ai, que ditosos os lavradores! + +Olha, fumegam tectos e lares... +Fumo tão lindo!... branco, nos ares!... + +Batem ás portas, erguem-se as mães, +Choram meninos, ladram os cães... + +Resam e cantam, levam a esmola, +Vinho no bucho, pão na sacola. + +Fructa da horta, caldo ou toucinho, +Dão sempre os pobres a um pobresinho. + +Um que tem chagas, velho, coitado, +Quer ligaduras ou mel-rosado. + +Outro, promessa feita a Maria, +Deitam-lhe azeite na almotolia. + +Pelos alpendres, pelos curraes, +Dormem deitados como animaes. + +Em caravanas, em alcateias, +Vão por herdades, vão por aldeias... + +Sabem cantigas, oraçõesinhas, +Contos d'estrellas, reis e rainhas... + +Choram cantando, penam resando, +Ai, só a morte sabe até quando! + +Mas no outro mundo Deos lhes prepara +Leito o mais alvo, ceia a mais rara... + +Os pés doridos lh'os lavarão +Santos e santas com devoção. + +Para laval-os, perfumaria +Em gomil d'ouro, d'ouro a bacia. + +E embalsamados, transfigurados, +Tunicas brancas, como em noivados, + +Viverão sempre na eterna luz, +Pobres bemditos, amen, Jesus!... + +Outubro--91 + + + + +IX + +*CAMPO SANTO* + + +CAMPO SANTO + + +Ai ao relento, ai ao relento, sonham cavadores!... +Somno d'arminho... colxão de terra... lençol de flores!... + +Cahi dormentes, +Cahi exanimes, trementes, +Palidos silencios do luar dorido! +Litanias fluidas do luar dorido! +Misereres brancos do luar dorido! +Balsamos, piedades, orações dolentes +Do luar dorido!... + +Ai ao relento, ai ao relento sonham pegureiros!... +Cama tão fresca!... cobertor branco, de jasmineiros... + +Cahi maviosas, +Cahi somnambulas, piedosas, +Concavas tristezas do luar magoado! +Resonancias d'orgão do luar magoado! +Extrema-unções profundas do luar magoado! +Sincopes, oblivios, quietações chorosas +Do luar magoado!... + +Ai ao relento, ai ao relento sonha a boeirinha!... +Cama de violetas!... que lhe fez a Virgem, sua madrinha... + +Cahi radiantes, +Angelisantes, +Esfolhados lirios do luar divino! +Musselina argentea do luar divino! +Halitos de leite do luar divino! +Perolas, opalas, beijos e diamantes +Do luar divino!... + +Ai ao relento, ai ao relento as bisavós dormindo!... +Cama de rosas, sobre-ceo d'astros!... que sonho lindo!... + +Cahi cantando, +Cahi mas brando, muito brando, +Misticas nevadas do luar de prata! +Linho da candura do luar de prata! +Angelus da ermida do luar de prata! +Extasis boiando, sagrações ondeando +No luar de prata!... + +Dormi, dormi!... que bellas camas!... ai, que bons lençoes!... +Na travesseira, que bem que cheira! cantam roussinoes!... + +Dorme de costas, cavador, ao luar, ao luar de neve!... +Ai, como a terra era pesada, e se fez leve, leve!... + +Dorme, pastor, ao luar de Junho, dorme sem cuidado!... +Que anda a Senhora dos Montes-Ermos a guardar-te o gado... + +Durmam velhinhas! durmam creanças! durmam donzellas! +Quando acordarem já tem os anjos á espera d'ellas... + +Ha-de acordar tudo lá nos ceos doirados... +Ha-de haver banquetes, ha-de haver noivados... + +Põe a mesa a Virgem para os pobresinhos... +Ai, que lindos fructos!... ai, que ricos vinhos!... + +Vinhos d'um vinhedo, fructos d'um pomar, +Que no ceo os anjos regam com luar... + +Ordenhando ovelhas andam serafins, +Cantarinhos d'oiro, leite de jasmins. + +Outros nas arribas crestam as colmeias, +Grandes favos brancos como luas cheias. + +Ai, que bom almoço, feito n'um vergel, +Pomos cor de aurora, leite, vinho e mel!... + +Para as avósinhas tem lá Deos bastantes +Fusos d'esmeraldas, rocas de diamantes... + +Como vós, ó moças, lá no ceo casaes, +Ellas darão teias para os enxovaes... + +Já no setestrello dançam nos terreiros, +Tamboris e violas, frautas e pandeiros... + +Já lá vejo os noivos, com S. João á espera, +N'uma ermida branca revestida d'hera... + +Ai, dormi, donzellas, ai dormi ao luar, +Que no ceo com anjos vos ireis casar... + +Ai, dormi, creanças! que no azul divino +Brincareis alegres com o Deos-menino... + +Partirá comvosco, porque é vosso irmão, +A laranja,--o mundo, que lá tem na mão... + +Dormi, dormi, sem dor, sem penas... +Dormi, dormi!... +E em vossos leitos florescentes, +De rosas brancas e assucenas, +Caiam dormentes, +Caiam exanimes, trementes, +Graças do baptismo do luar alvissimo! +Beijos do noivado do luar purissimo! +Lagrimas da morte do luar tristissimo! +Canticos d'exequias, orações dolentes +Do luar santissimo!... + +Abril--91. + + + + +*EPILOGO* + + +REGRESSO AO LAR + + +Ai, ha quantos anos que eu parti chorando +D'este meu saudoso, carinhoso lar!... +Foi ha vinte?... ha trinta?... Nem eu sei já quando!... +Minha velha ama, que me estás fitando, +Canta-me cantigas para me eu lembrar!... + +Dei a volta ao mundo, dei a volta á Vida... +Só achei enganos, decepções, pesar... +Oh! a ingenua alma tão desiludida!... +Minha velha ama, com a voz dorida, +Canta-me cantigas de me adormentar!... + +Trago d'amargura o coração desfeito... +Vê que fundas maguas no embaciado olhar! +Nunca eu sahira do meu ninho estreito!... +Minha velha ama, que me déste o peito, +Canta-me cantigas para me embalar!... + +Poz-me Deos outrora no frouxel do ninho +Pedrarias d'astros, gemas de luar... +Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!... +Minha velha ama, sou um pobresinho... +Canta-me cantigas de fazer chorar!... + +Como antigamente, no regaço amado, +(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar! +Ai, o teu menino como está mudado! +Minha velha ama, como está mudado! +Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!... + +Canta-me cantigas, manso, muito manso... +Tristes, muito tristes, como á noite o mar... +Canta-me cantigas para ver se alcanço +Que a minh'alma durma, tenha paz, descanço, +Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!... + +90. + + + + +*NOTA* + + +NOTA + + +É este o primeiro dos tres volumesinhos, que hão-de encerrar as minhas +liricas ineditas. Os outros dois--_Flores de Ideal_--e _Infinito_ +(_Livro d'orações_) virão a lume successivamente, com intervalos de +mezes. + +Duas palavras sobre os _Simples_. + +Precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida, atravessei ha +anos um periodo agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo +salutar. Ante a morte proxima, n'uma anciedade inenarravel, senti-me +electrisado, como por encanto, de energias subitas. O problema do _alem_ +(como agora se diz) impunha-se, dilacerante e devorador, á minha +natureza inquieta de religioso e de metafisico. Mas o problema da +_morte_ é, no fundo, o problema da vida. Estudei, pensei, meditei. Li +com sofreguidão milhares de paginas. Dias, noites, semanas, mezes, +revolvi no cerebro escandecido todos os enigmas torturantes. Pedi á +historia natural (unica historia verdadeira) o segredo intimo das +coisas. Questionei a razão, ouvi a consciencia. Dei balanço a mim +proprio. E consegui, ao cabo, o que desejava: ter da vida, ter do +universo uma ideia metodica e definitiva. Qual? Não é este o momento de +dizel-o, nem isso interessa seguramente. + +A minha metafisica é para uso proprio. Não construi um sistema de +filosofia humana. Tratei de responder apenas ás duvidas e curiosidades +do meu espiríto. Não cheguei sequer a pontos de vista fundamentaes, +muitissimo diversos dos que já tinha anteriormente. Mas o que era +intuição tornou-se certeza, e o que era hipotese, mais ou menos +sentimental e imaginaria, transformou-se n'um corpo de doutrina +raciocinado e logico. Continuei pela mesma estrada; mas d'antes ia ás +cegas e tateando, e agora d'olhos bem abertos e a passo firme e +resoluto. + +D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas +emoções, e portanto uma nova arte. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo +renascimento psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda literaria, +meramente verbal e de superficie. + +No prefacio d'outro livro explanarei com vagar as conclusões ultimas do +meu exame de consciencia, não pelo seu merito intrínseco, repito, mas +como util comentario da minha obra poetica, de que ellas são +verdadeiramente a alma essencial e geradora. + +Apasiguada um pouco a dupla crise de angustia intelectual e padecimento +fisico, esbocei e dei começo a este pequenino poema lirico d'_Os +Simples_. + +Quiz mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas +creaturas, que atravessam um mundo de miserias e de injustiças, de +vicios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição +para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então +encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha +octogenaria e sorridente, no cavador tragico, nos mendigos bíblicos, na +mansidão dos bois arroteando os campos e nas lavarêdas d'oiro do +castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infancia, iluminando a +choupana. E, depois d'uma existencia de sacrificio e de puresa, +d'abnegação e de bondade, deitei esses ingenuos e pobres aldeões na +terra misericordiosa e florida do campo-santo, pondo-lhes por cima das +sepulturas rasas o ceo maravilhoso e candido, que em vida sonharam e +desejaram. + +É claro que essas figuras não são inteiramente reaes, da realidade +estricta, efemera e tangivel. Criei-as, ou antes completei-as com a +minha alma, com o meu proprio ideal. + +Quem vir n'este livrinho somente o lado externo e literario, a forma, a +paisagem, a pintura rustica, não o entendeu, nem o soube ler. + +É muito mais uma auto-biographia psicologica que uma serie de quadros +campestres e bucolicos. + +A feição, por assim dizer, regional, do livro é, embora importante, +subordinada e secundaria. A _Moleirinha_ é mínhota. O _Prestito funebre_ +minhoto é. Mas coisa curiosa, o segundo canto--_In Pulvis_ é já de todo +transmontano. Inconscientemente, sem dar por tal, levei o castanheiro +para a minha terra, e queimei-o no lar saudoso da minha meninice. Tambem +eu me queria aquecer a elle, sentar-me ao pé da sua chama... + +Engana-se quem entre _Os Simples_ e a _Velhice do Padre Eterno_ +descobrir porventura contradições. Este lirismo é o reverso d'aquella +satira. Aquella indignação é o comentario d'esta elegia. O christianismo +dos _Simples_ é o innocente e meigo christianismo popular, feito com a +ignorancia absoluta do dogma e com a intuição humana dos Evangelhos. A +exegese do povo, na sua rudeza nativa e embrionaria, é por vezes d'uma +penetração sublime e reveladora. + +As minhas antigas opiniões religiosas, em vez de se modificarem, +acentuam-se cada vez mais. Redobra em mim, com um desenvolvimento +progressivo de misticismo naturalista, a aversão e a hostilidade á +egreja catolica, grosseira formula materialisada do transcendente e +divino espirito de Jesus. + +Em quanto á tecnica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota +não fosse escripta rapidamente, á ultima hora, com o impressor á espera. + +A forma poetica encaminha-se á evolução final. Horisonte imenso. O pouco +que fiz de novo, em tal sentido, não deve nada a ninguem. É meu, +pertence-me. + +E, de passagem, uma ligeira observação. Este livro, só hoje dado a +publico, é d'ha muito conhecido entre homens de letras e poetas. E valha +a verdade exerceu, aqui e alem, ainda inedito, uma certa influencia, +que, embora leve, é inegavel e manifesta. Podia apontar, citar. Inutil. +Desejo apenas estabelecer o facto, mais nada. + +Concluindo: tentei uma obra d'arte, que fosse ao mesmo tempo +absolutamente individual, ingenitamente portugueza e vasta e +fundamentalmente humana. Alcancei-o? O tempo o dirá. + +14 de Maio de 1892. + +_G. J._ + + + + +*INDICE* + + +PRELUDIO +I--A Caminho +II--De Volta + +I--A MOLEIRINHA + +II--CADAVER +I--Prestito funebre +II--In Pulvis + +III--EIRAS AO LUAR + +IV--AS ERMIDAS + +V--CANÇÃO PERDIDA + +VI--O PASTOR + +VII--O CAVADOR + +VIII--OS POBRESINHOS + +IX--CAMPO SANTO + +EPILOGO +Regresso ao lar + +NOTA + + + + +ERRATA + + +Passaram desapercebidos varios erros, principalmente ortograficos, +de facil emenda para o leitor. + + + + +PREÇOS DA TIRAGEM ESPECIAL + + +Exemplar unico em pergaminho 45$000 +Exemplares em papel Wathman 4$000 + + +_A 1.^a edição d'este livro, destinada a Portugal, pertence ao snr. +Baptista Domingues, Vianna do Castello, a quem devem dirigir-se todas as +requisições_. + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os Simples, by Guerra Junqueiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS SIMPLES *** + +***** This file should be named 17534-8.txt or 17534-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/7/5/3/17534/ + +Produced by João Miguel Neves, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This +file was produced from images generously made available +by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de +Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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