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You may copy it, give it away or re-use it under the terms +of the Project Gutenberg License included with this eBook or online +at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. 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A creancinha pallida tinha os + olhos fechados. Respírava com difficuldade, e ás vezes tão + profundamente, que parecia gemer; mas a mãe causava ainda mais + lastima do que o pequenino moribundo.<br /> <br /> N'isto bateram á + porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado n'uma manta + d'arrieiro. Era no inverno. Lá fóra estava tudo coberto de + neve e de gêlo, e o vento cortava como uma navalha.<br /> <br /> O + pobre homem tremia de frio; a creança adormecêra por alguns + instantes, e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com + cerveja. O velho começou a embalar a creança, e a mãe, + pegando n'uma cadeira, sentou-se ao lado d'elle. E contemplando o seu + filhinho doente, que respirava cada vez com mais difficuldade, pegou-lhe + na mãosinha descarnada e disse para o velho:<br /> <br /> --Oh! Nosso + Senhor não m'o hade levar! não é verdade?--<br /> + <br /> <span class="pagenum">[4]</span> E o velho, que era a Morte, meneou + a cabeça d'uma maneira extranha, em ar de duvida. A mãe + deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas corriam-lhe em + fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de cabeça; + estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou ligeiramente pelo + somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a tremer de frio.<br /> + <br /> --Que é isto! exclamou, lançando á volta de si + o olhar hallucinado. O berço estava vasio. O velho tinha-se ido + embora, roubando-lhe a creança.<br /> <br /> + <div class="sbreak"> + <hr /> + </div> + <br /> A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. + Encontrou uma mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A + Morte entrou-te em casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu + filho. Anda mais depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a + entregar.»<br /> <br /> --Por onde foi ella? gritou a mãe. + Dize-m'o pelo amor de Deus!»<br /> <br /> --Sei o caminho por onde + ella foi, respondeu a mulher vestida de preto. Mas só t'o ensino, + se me cantares primeiro todas as canções que cantavas ao teu + filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e + muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.<br /> <br /> + --Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não + me demores, porque quero encontrar o meu filho.--<br /> <br /> A Noite ficou + silenciosa. A mãe então, desfeita em lagrimas, começou + a cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram mais + do que as palavras.<br /> <br /> <span class="pagenum">[5]</span> No fim + disse-lhe a Noite: «Toma á direita, pela floresta escura de + pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.»<br /> + <br /> A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o + caminho, e não sabia que direcção havia de seguir. + Diante d'ella havia um mattagal, cheio de silvas, sem folhas nem flores, + de cujos ramos pendia a neve cristallisada.<br /> <br /> + <div class="sbreak"> + <hr /> + </div> + <br /> --Não viste a Morte que levava o meu filho?» + perguntou-lhe a mãe.<br /> <br /> --Vi, respondeu o mattagal, mas não + te ensino o caminho, senão com a condição de me + aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»<br /> <br /> E a mãe + estreitou o mattagal contra o coração; os espinhos + dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se de + folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite d'inverno + frigidissima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe + angustiosa.<br /> <br /> E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia + seguir. Foi andando, andando, até que chegou á margem d'um + grande lago, onde não havia nem barcos, nem navios. Não + estava sufficientemente gelado para se andar por elle, e era + demasiadamente profundo para o passar a váo. Comtudo, querendo + encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio do seu + amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a agua do + lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, + faria talvez um milagre.<br /> <br /> <span class="pagenum">[6]</span> --Não! + não és capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e + entendamo-nos amigavelmente. Gosto de vêr perolas no fundo das + minhas aguas, e os teus olhos são d'um brilho mais suave do que as + perolas mais ricas que eu tenho possuido. Se queres, arranca-os das + orbitas á força de chorar, e levar-te-hei á estufa + grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a habitação + da Morte; e as flores e as arvores que estão lá dentro, + é ella quem as cultiva; cada flor e cada arvore é a vida + d'uma creatura humana.»<br /> <br /> --Oh! o que não darei eu, + para rehaver o meu filho!» disse a mãe. E apesar de ter já + chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do que nunca, e os seus + olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo do lago, + transformando-se em duas perolas, como ainda as não teve no mundo + uma rainha.<br /> <br /> O lago então ergueu-a, e com um movimento de + ondulação depositou-a na outra margem, aonde havia um + maravilhoso edificio, com mais d'uma legua de comprido. De longe não + se sabia se era uma construcção artistica ou uma montanha + com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada; + tinha dado os seus olhos.<br /> <br /> --Como heide eu reconhecer a Morte + que me roubou o meu filho!» bradou ella desesperada.<br /> <br /> --A + Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava + d'um lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. + Como vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?»<br /> <br /> + --Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus é misericordioso. <span + class="pagenum">[7]</span> Compadece-te de mim, e dize-me onde está + o meu filho.»<br /> <br /> --Eu não o conheço, e tu + és cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas e muitas arvores, + que murcharam esta noite: a Morte não tarda ahi para as tirar da + estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este sitio uma + arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem com ella. + Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes, sente-se bater um + coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as + pulsações do coração de teu filho. E que davas + tu por eu te ensinar o que tens ainda de fazer?»<br /> <br /> --Já + não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até + ao fim do mundo buscar o que tu quizeres.--«Fóra d'aqui não + preciso de nada, respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabellos + negros; tu sabes que são bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos + meus cabellos brancos.»--Não pedes mais nada do que isso? + disse a mãe. Ahi os tens, dou-t'os de boa vontade.»<br /> + <br /> E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o + seu orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e + inteiramente brancos da velha.<br /> <br /> Esta levou-a pela mão + á grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma vegetação + maravilhosa.<br /> <br /> Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos + mimosissimos ao lado de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem + plantas aquaticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas + raizes se ennovelavam cobras asquerosas.<br /> <br /> <span class="pagenum">[8]</span> + Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos frondosos; + depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa, tomilho, ortelã + e outras plantas humildes que representavam o genero de utilidade das + pessoas que ellas symbolisavam.<br /> <br /> Havia ainda grandes arbustos em + vasos demasiadamente estreitos, que pareciam rebentar; mas viam-se tambem + floresitas insignificantes, em vasos de porcelana, na melhor terra, + circumdadas de musgo, tratadas com esmero delicadissimo. Tudo isso + representava a vida dos homens, que a essa hora existiam no mundo, desde a + China até à Groenlandia.<br /> <br /> A velha queria + mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a mãe impacientada + pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas pequeninas; + tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do coração, + e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as pulsações + do coração do seu filho.<br /> <br /> --É elle!» + exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, + pendido sobre a terra, parecia completamente estiolado.<br /> <br /> --Não + lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte vier, que não + tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de arrancar + todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque + tem de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma póde ser arrancada sem o + seu consentimento.»<br /> <br /> N'isto sentiu-se um vento glacial, e + a mãe adivinhou que era a Morte, que se approximava.<br /> <br /> + <span class="pagenum">[9]</span> --Como é què deste com o + caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda primeiro do que eu! Como o + conseguiste?--«Sou mãe» respondeu ella.<br /> <br /> E a + Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.<br /> + <br /> Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, + tendo o cuidado de não ferir uma só das pequeninas petalas. + Então a Morte soprou-lhe nas mãos, fazendo-lh'as cair + inanimadas. O halito da Morte era mais frio do que os ventos enregelados + do inverno.<br /> <br /> --Não pódes nada comigo!» disse + a Morte.--Mas Deus tem mais força do que tu, respondeu a mãe.»--«É + verdade, mas eu não faço senão aquillo que elle + manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e arbustos, + quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins, um + dos quaes é o grande jardim do Paraizo. São regiões + desconhecidas; ninguém sabe o que se lá passa.»<br /> + <br /> --Misericordia! misericordia! soluçou a mãe. Não + me roubem o meu filho, agora que acabo de o encontrar!» Supplicava e + gemia. A Morte conservava-se impassivel; agarrou então + instantaneamente em duas flores lindissimas e disse á Morte: + «Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar, despedaçar não + só esta, mas todas as flores que estão aqui!<br /> <br /> --Não + as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és + desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!--«Outra + mãe!» disse a pobre mulher, largando as flores + immediatamente.--Toma, <span class="pagenum">[10]</span> aqui tens os teus + olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei do + lago. Não sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o + fundo d'este poço; vê o que ias destruir, se arrancasses + estas flores. Verás passar nos reflexos da agua, como n'uma + miragem, a sorte destinada a cada uma d'essas duas flores, e a que teria + tido o teu filho, se porventura vivesse.»<br /> <br /> Debruçou-se + no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria, quadros + risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de miseria, + d'angustias e de desolação.<br /> <br /> --N'isto que eu vejo, + disse a mãe afflictissima, não distingo qual era a sorte que + Deus destinava ao meu filho.»<br /> <br /> --Não posso + dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto que te appareceu + viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.»<br /> <br /> A mãe + desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me: + era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é + verdade! Falla! Não me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, não + vá elle soffrer desgraças tão horriveis. O meu + querido filho! Quero-lho mais que á minha vida. As angustias que + sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos. Esquece as minhas lagrimas, + as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz e tudo o que disse.»<br /> + <br /> --Não te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te + entregue o teu filho ou que o leve para a região desconhecida de + que não posso fallar-te!» Então a mãe + allucinada, convulsa, torcendo os braços, deitou-se de joelhos e + dirigindo-se <span class="pagenum">[11]</span> a Deus exclamou: «Não + me ouças, Senhor, se reclamo no fundo do meu coração + contra a tua vontade que é sempre justa! Não me attendas meu + Deus!»<br /> <br /> E deixou cair a cabeça sobre o peito, + mergulhada na sua agonia dilacerante.<br /> <br /> E a Morte arrancou o + pequenino açafroeiro, e foi transplantal-o no jardim do paraiso.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c2" id="c2"></a>O ouro + </h3> + <br /> Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas + d'ouro, empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas + minas; e o resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve + uma grande fome no paiz.<br /> <br /> Mas a rainha, que era prudente e que + amava o povo, mandou fabricar em segredo frangos, pombos, gallinhas e + outras iguarias todas de ouro fino; e quando o rei quiz jantar mandou-lhe + servir essas iguarias de ouro, com que elle ficou todo satisfeito, porque + não comprehendeu ao principio qual era o sentido da rainha; mas, + vendo que não lhe traziam mais nada de comer, começou a + zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem que o ouro não + era alimento, e que seria melhor empregar os seus vassallos em cultivar a + terra, que nunca se cansa de produzir, do que trazel-os nas minas á + busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e que não tem + outro valor além da estimação que lhe é dada + pelos homens, estimação que havia de converter-se em + desprezo, logo que ouro apparecesse em abundancia.<br /> <br /> A rainha + tinha juizo.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c3" id="c3"></a>Doçura e bondade + </h3> + <br /> Ha entre vós, meus filhos, indoles violentas, que não + sabem dominar-se, e que são arrastadas pelas primeiras impressões. + É uma pessima disposição, que é necessario + corrigir; dá lugar a disputas, e a que se commettam acções, + cujo arrependimento chega demasiadamente tarde. Citar-vos-hei dois + exemplos de que fui testemunha.<br /> <br /> Um rapaz, sacudido + violentamente na rua por um homem que vinha diante d'elle, volta-se e dá-lhe + uma bofetada.<br /> <br /> --Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena + que vae ter! bateu n'um cego!»<br /> <br /> Um homem ainda novo + montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns camponezes grosseiros + começaram a apupal-o e a bater no burro, para o fazer correr. O + homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a sua perna + aleijada, disse-lhes: «Se soubesseis que eu era coxo, não + terieis sido tão covardes.»<br /> <br /> Os camponezes, + envergonhados, córaram, afastando-se sem pronunciar uma palavra.<br /> + <br /> Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que + aproveitaram a quem as recebeu.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c4" id="c4"></a>O malmequer + </h3> + <br /> Ouvi com attenção esta pequenina historia!<br /> <br /> + No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que + deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores, + rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no meio + da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a olhos + vistos, graças ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por + elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella manhã, + já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes, + parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava + que o vissem no meio da herva e não fizessem caso d'elle, pobre + florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o + calor do sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.<br /> + <br /> N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira, + sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanças + sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, elle, + sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade + de Deus, e tudo o que <span class="pagenum">[15]</span> sentia + mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com admiravel + nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso poz-se a + olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha + feliz que cantava e voava.<br /> <br /> «Eu vejo e oiço, pensou + o malmequer; o sol aquece-me e o vento acaricia-me. Oh! não tenho + rasão de me queixar.»<br /> <br /> Dentro da sebe havia muitas + flores altivas, aristocraticas; quanto menos aroma tinham, mais orgulhosas + se aprumavam. As dalias inchavam-se para parecerem maiores do que as + rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa. As tulipas + brilhavam pela belleza das suas côres, pavoneando-se + pretenciosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o + pequeno malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: + «como são ricas e bonitas! A cotovia irá certamente + visital-as. Graças a Deus, poderei assistir a este bello + espectaculo.» E no mesmo instante a cotovia dirigiu o seu vôo, + não para as dalias e tulipas, mas para a relva, junto do pobre + malmequer, que morto d'alegria não sabia o que havia de pensar.<br /> + <br /> O passarinho poz-se a saltitar à roda d'elle, cantando: + «Como a herva é macia! oh! que encantadora florinha, com um + coração d'oiro, vestida de prata!»<br /> <br /> Não + se póde fazer idéa da felicidade do malmequer. A ave + acariciou-o com o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois + no azul do firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora não pôde + o malmequer reprimir a sua commoção. Meio envergonhado, mas + todo contente, olhou <span class="pagenum">[16]</span> para as outras + flores do jardim, que, como testemunhas da honra que acaba de receber, + deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as tulipas estavam + cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e ponteagada manifestava o + despeito. As dalias tinham a cabeça toda inchada. Se ellas podessem + fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis ao pobre malmequer. A + florinha viu isto, e ficou triste.<br /> <br /> Passados alguns momentos, + entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e brilhante, + aproximou-se das tulipas, e cortou-as uma a uma.<br /> <br /> «Que + desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrivel; foram-se + todas.»<br /> <br /> E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o + malmequer alegrára-se por ser simplesmente uma pequenina flor no + meio da herva. Apreciando reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da + tarde as suas folhas, adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a + cotovia.<br /> <br /> No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer + abriu as suas folhas ao ar e á luz, reconheceu a voz do passarinho, + mas o seu canto era triste, muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas + rasões para se affligir: haviam-n'a agarrado e mettido n'uma + gaiola, suspensa entre uma janella aberta. Cantava a alegria da liberdade, + a belleza dos campos e as suas antigas viagens atravez do espaço + illimitado.<br /> <br /> O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe + acudir: mas como? Era difficil. A compaixão pelo pobre passarinho + prisioneiro, fez-lhe esquecer <span class="pagenum">[17]</span> + inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e a alvura + resplandecente das suas proprias folhas.<br /> <br /> N'isto dois rapazinhos + entraram no jardim. O mais velho trazia na mão uma faca comprida e + afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as tulipas. + Encaminharam-se para o malmequer, que não podia comprehender o que + desejavam.<br /> <br /> «Podemos arrancar d'aqui um pedaço de + relva para a cotovia, disse um dos rapazes, e começou a fazer um + quadrado profundo à volta da florinha.<br /> <br /> --«Arranca + a flor, disse o outro.»<br /> <br /> A estas palavras o malmequer + estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era morrer; e nunca tinha abençoado + tanto a existencia, como no momento em que esperava entrar com a relva na + gaiola da cotovia.<br /> <br /> «Não; deixemol-a, disse o mais + velho. Está ahi muito bem.»<br /> <br /> Foi por conseguinte + poupado, e entrou na gaiola da cotovia.<br /> <br /> O pobre passarinho, + queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia com as azas nos arames + da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus desejos, + articular-lhe uma palavra de consolação.<br /> <br /> + Passou-se assim toda a manhã.<br /> <br /> «Já não + tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me deixarem ao + menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre terrivel, + sinto-me abafada! Ai! Não ha remedio senão morrer, longe do + sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da + creação!»<br /> <br /> <span class="pagenum">[18]</span> + Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu então + o malmequer; fez-lhe um signal de cabeça amigavel, e disse-lhe, + afagando-o: «Tambem tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez + do mundo inteiro, que eu tinha à minha disposição, + deram-me um pedacito de relva, e a ti só por unica companhia. Cada + pésinho de relva substitue para mim uma arvore, e cada uma das tuas + folhas brancas, uma flor odorifera. Ah! como me fazes recordar de todas as + coisas que perdi!<br /> <br /> --Se eu podesse consolal-a! pensava o + malmequer, incapaz de fazer o minimo movimento.<br /> <br /> Comtudo o + perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume; a cotovia + sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a herva, + teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na flor.<br /> + <br /> Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta + d'agua á desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas + azas, sacudindo-as convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha + melancolica; a sua cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração + quebrado de desejos e d'angustias cessou de bater. Vendo este triste + espectaculo, o malmequer não pôde como na vespera fechar as + suas folhas para dormir; curvou-se para o chão, doente de tristeza.<br /> + <br /> Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o + passarinho morto, rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram + o cadaver dentro d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro + de principe, e cobriram o tumulo com folhas de rosas.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[19]</span> Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, + esqueceram-se d'elle e deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de + morto é que o choraram e lhe fizeram honrarias pomposissimas.<br /> + <br /> A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada; + d'aquelle que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c5" id="c5"></a>Não quero + </h3> + <br /> Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito + alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.» + Parei e perguntei-lhe:--O que é que tu não queres, meu + rapaz?--«Não quero dizer á mamã que venho da + escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar, mas antes quero + que me ralhe do que mentir.»--E tens razão, disse-lhe eu. + És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto + que o outro pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, + ia-se embora todo envergonhado.<br /> <br /> D'ahi a alguns mezes, passando + pela mesma aldeia e tendo de fallar com o professor, entrei na escola, + onde reconheci immediatamente os meus dois pequenos; o que não quiz + mentir, sorria-me, emquanto que o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao + despedir-me interroguei o mestre sobre os dois alumnos: Oh! disse-me elle, + fallando do primeiro, è um magnifico estudante, um pouco teimoso, + mas honrado, sincero, sempre prompto a confessar as suas faltas e o que + é ainda melhor, a reparal-as. O outro pelo contrario, é + mentiroso, covarde e incorrigivel.»--Não me espanto, disse + eu, já tinha tirado o horóscopo d'estas duas creanças; + e contei-lhe o que tinha ouvido.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c6" id="c6"></a>Piloto + </h3> + <br /> Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos cães, + e o infatigavel companheiro dos brinquedos das creanças da quinta.<br /> + <br /> Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João + lhe lançava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na + bocca e trazia-o á margem, com grande alegria do pequerrucho e da + sua irmã Joaninha.<br /> <br /> Esta brincadeira recomeçava + vinte vezes sem cançar nunca a paciencia do Piloto. Depois eram + corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do creado + da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações: + partia então como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos + pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho.<br /> <br /> Quando o + hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da + carroça; e muito atrevido seria quem saltasse á noite a + parede da quinta.<br /> <br /> Uma vez deu prova d'uma extraordinaria + sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar saccos + de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um sacco.<br /> <br /> + Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração + de hostilidade emquanto o homem seguiu <span class="pagenum">[22]</span> o + caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o + guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.<br /> <br /> Era como se + dissesse: «Onde vaes tu com o trigo de meu dono?»<br /> <br /> O + ladrão quiz pôr então outra vez o sacco d'onde o tinha + tirado; Piloto não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem + o ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com elle n'esta + difficil posição, reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem + divulgar o caso para o não deshonrar.<br /> <br /> Mas o homem ficou + com odio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausencia do + quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para elle sem + desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até + á margem do ribeiro.<br /> <br /> Atou uma grande pedra á + outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o á agua; + mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforço, caiu tambem.<br /> + <br /> Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda + do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e + desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado + duas vezes e trazido para terra o seu mortal inimigo.<br /> <br /> Este, que + estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o cão + que elle tinha querido afogar, lhe salvára a vida.<br /> <br /> Teve + vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si mesmo + e combateu as suas más inclinações.<br /> <br /> O + exemplo do cão corrigiu o homem.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c7" id="c7"></a>O rico e o pobre + </h3> + <br /> Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um + dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e + deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da + estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para + jantar, quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com + o seu preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos + viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham + tempo, e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de + vinho.<br /> <br /> Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois + para a sua codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu + chapeo todo roto, e suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle + menino tão rico, em vez do desgraçado Martinho! que fortuna + se elle estivesse aqui, e eu dentro d'aquella carruagem!» O + preceptor ouviu casualmente o que dizia Martinho e repetiu-o ao seu + alumno, que, lançando a cabeça fóra da carruagem, + chamou Martinho com a mão.<br /> <br /> --Ficarias muito contente, não + é verdade, meu <span class="pagenum">[24]</span> rapaz, podendo + trocar a minha sorte pela tua?»--Peço que me desculpe senhor, + replicou Martinho córando, o que eu disse não foi por mal.»--Não + estou zangado comtigo, replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo + fazer a troca.»<br /> <br /> --Oh! está a divertir-se comigo! + tornou Martinho, ninguem quereria estar no meu lugar, quanto mais um bello + e rico menino como o senhor. Ando muitas leguas por dia, como pão + secco e batatas, emquanto que o senhor anda n'uma carruagem, póde + comer frangos e beber vinho.»--Pois bem, volveu o fidalguinho, se me + queres dar tudo aquillo que tens e que eu não tenho, dou-te em + troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho ficou com os olhos + espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o preceptor continuou: + «Acceitas a troca?»--Ora essa! exclamou Martinho, ainda m'o + pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada de me ver + entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a idéa + da entrada triumphante na sua aldeia.<br /> <br /> O fidalguinho chamou os + criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a descer. Mas qual foi a + surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma perna de pau e que a outra + era tão fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas: depois, + olhando para elle de mais perto, Martinho observou que era muito pallido e + que tinha cara de doente.<br /> <br /> Sorriu para o rapazito com ar + benevolo, e disse-lhe:--Então sempre desejas trocar? Querias + porventura, se podesses, deixar as tuas pernas valentes e as tuas faces córadas, + pelo prazer de ter <span class="pagenum">[25]</span> uma carruagem e andar + bem vestido?»--Oh! não, por coisa nenhuma! replicou + Martinho.--«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se + tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro os + meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças + a Deus pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.<br /> <br /> + «Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e + comes mal, tens força e saude, coisas que valem mais que uma + carroagem, e que não podem comprar-se com dinheiro.<br /> <br /> + <br /> <br /> + <h3> + <a name="c8" id="c8"></a>Como um camponez aprendeu o Padre Nosso + </h3> + <br /> Tinha o coração duro, e não dava esmolas. + Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitencia resar sete + vezes o Padre Nosso.<br /> <br /> «Não o sei, e nunca o pude + aprender, respondeu o aldeão.»<br /> <br /> «Pois n'esse + caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a credito um + alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da minha parte.»<br /> + <br /> No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.<br /> + <br /> «Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.<br /> <br /> «Padre--Nosso--Que--Estaes--No--Ceo, + respondeu o pobre.»<br /> <br /> «E o teu appellido?»<br /> + <br /> «Seja--Santificado--O--Vosso--Nome.»<br /> <br /> E o + pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.<br /> <br /> Ao outro dia + chega segundo pobre.<br /> <br /> «Como te chamas?<br /> <br /> «Venha--A--Nós--O--Vosso--Reino.»<br /> + <br /> «E o teu appellido?»<br /> <br /> «Seja--Feita--A--Vossa--Vontade.»<br /> + <br /> <span class="pagenum">[27]</span> E partiu com o seu alqueire de + trigo.<br /> <br /> Veiu terceiro pobre.<br /> <br /> «Como te chamas?»<br /> + <br /> «Assim--Na--Terra--Como--No--Ceo.»<br /> <br /> «E o + teu appellido?»<br /> <br /> «Dae-nos--Hoje--O--Pão--Nosso--De--Cada--Dia.»<br /> + <br /> E levou o seu alqueire.<br /> <br /> Vieram ainda dois pobres + successivamente, e passou-se tudo da mesma forma até chegar ao + _Amen_.<br /> <br /> Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.<br /> + <br /> «Então já sabes o Padre Nosso?»<br /> <br /> + «Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos + pobres a quem emprestei o meu trigo.»<br /> <br /> «Quaes são? + tornou o padre.»<br /> <br /> E o aldeão enumerou-lh'os a + seguir, e pela ordem porque cada um se tinha apresentado.<br /> <br /> + «Já vês, disse o confessor, que não era muito + difficil aprender o Padre Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c9" id="c9"></a>O talisman + </h3> + <br /> Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, + mas com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, + o que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus + negocios com uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue + inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção + da sua casa.<br /> <br /> «Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu + collega, qual é a razão porque a sorte nos trata de um modo + tão differente? Vendemos as mesmas mercadorias, a minha loja está + tão bem situada como a tua, e apezar d'isso, emquanto tu ganhas, eu + não faço senão perder. E não é porque + eu seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado + algumas vezes se não terás tu por acaso algum precioso + talisman.»<br /> <br /> «Effectivamente, respondeu o outro, + herdei de meu pae um talisman de uma virtude incomparavel. Trago-o ao + pescoço, e ando assim com elle todo o dia por toda a casa, do + celleiro para a adega, e da adega para o celleiro. E o caso é que + tudo me corre perfeitamente.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[29]</span> + «Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa + reliquia preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de + que t'a restituo.»<br /> <br /> «Pois vem buscal-a ámanhã + de manhã.»<br /> <br /> Quando ao outro dia foi procurar o seu + generoso concorrente, apresentou-lhe este uma avellã, através + da qual tinha tinha passado um fio de seda.<br /> <br /> O nosso homem pòl-a + immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a casa + com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a + parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na cozinha + o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o feijão; + na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos cavallos; + viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal + escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio, + comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por + terceira pessoa na direcção dos seus negocios.<br /> <br /> + Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman, + agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em + segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.<br /> <br /> <br /> + <br /> + <h3> + <a name="c10" id="c10"></a>A alma + </h3> + <br /> «Mamã, nem todas as creanças que morrem vão + para o Paraizo. O outro dia vi levar para o cemiterio um menino que tinha + morrido; o seu papá e as suas duas irmãsinhas acompanhavam o + caixão, e choravam tanto que me fazia pena. Iam a chorar porque + aquelle menino tinha sido mau, não é verdade?»<br /> + <br /> «Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, + emquanto choravam seus paes e suas irmãs, já estava vivendo + feliz no Paraizo.»<br /> <br /> «A alma? mamã; não + sei o que é; não comprehendo bem.»<br /> <br /> «Maria, + acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas pequerruchas.»<br /> + <br /> «Tive sim, mamã, tive muita pena.»<br /> <br /> + «Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e + triste? eram os braços?»<br /> <br /> «Não, mamã.»<br /> + <br /> «Eram as orelhas?»<br /> <br /> «Oh! não mamã, + era <em>cá dentro</em>.»<br /> <br /> «Esse <em>lá + dentro</em>, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece, + que te reprehende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando + praticas o bem.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c11" id="c11"></a>Alberto + </h3> + <br /> Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e + seus irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer + sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico + feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma + talhada de batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra + pagava com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma + libra no quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu + jardimzinho. «Ha de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dará + libras como uma cerejeira dá cerejas, e irei entregal-as ao papá, + que ficará muito contente.» Todas as manhãs ia ver se + a libra tinha nascido, mas não rebentava nada. Entretanto o pae + procurava a libra por toda a parte. Por fim perguntou ao Albertinho se a + tinha visto.<br /> <br /> «Vi papá; achei-a e fui semeal-a.»<br /> + <br /> «Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma + couve?»<br /> <br /> «Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se + encontrava na terra.»<br /> <br /> «É verdade, mas não + nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»<br /> <br /> + <span class="pagenum">[32]</span> Desenterrou-se a libra, e Alberto foi + castigado por dispor do que lhe não pertencia.<br /> <br /> Ha + comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe produzir + os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como é? + é dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa + sementeira.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c12" id="c12"></a>A canção da cerejeira + </h3> + <br /> Disse Deus na primavera: «Ponham a mesa ás lagartas!» + E a cereijeira cobriu-se immediatamente de folhas, milhões de + folhas, fresquinhas e verdejantes.<br /> <br /> A lagarta, que estava + dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se, abriu a bocca, + esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as folhinhas tenras, + dizendo: «Não se póde a gente despegar d'ellas. Quem + é que me arranjou este banquete?»<br /> <br /> Então + Deus disse de novo: «Ponham a mesa ás abelhas!» E a + cereijeira cobriu-se immediatamente de flores, milhões de flores + delicadas e brancas.<br /> <br /> E a abelha matinal aos primeiros raios da + aurora pousou sobre ellas, dizendo: «Vamos tomar o nosso café; + e que chávenas tão bonitas em que o deitaram!»<br /> + <br /> Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não + pouparam o assucar!»<br /> <br /> No verão disse Deus: «Ponham + a mesa aos passarinhos!» E a cereijeira cobriu-se de mil fructos + appetitosos e vermelhos.<br /> <br /> <span class="pagenum">[34]</span> + «Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasião; + temos appetite, e isto dar-nos-ha novas forças para podermos cantar + uma nova canção.» No outono disse Deus: «Levantae + a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento frio das + montanhas começou a soprar, e fez estremecer a arvore.<br /> <br /> + As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o + vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as + esvoaçar.<br /> <br /> Chegou o inverno e disse Deus: «Cobri o + resto!» E os turbilhões dos ventos trouxeram a neve, sob cuja + mortalha tudo dorme e descança.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c13" id="c13"></a>Os gigantes da montanha e os anões da + planicie + </h3> + <br /> Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na + montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um + alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer á planície + a ver o que faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe + pareciam anões. Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido + á caça e sua mãe estava dormindo, a joven giganta + desatou a correr para um campo, onde os jornaleiros trabalhavam. Parou + surprehendida a ver a charrua e os lavradores, coisas inteiramente novas + para ella. «Oh! que lindos brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e + estendeu por terra o avental, que quasi que cubriu o campo. Lançou-lhe + dentro os homens, os cavallos, a charrua; de dois passos tornou a subir a + montanha, e entrou no castello, onde seu pae estava a jantar.<br /> <br /> + --Que trazes ahi, minlia filha?» perguntou elle.<br /> <br /> --Olhe, + disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os mais + bonitos que tenho visto.»<br /> <br /> E pol-os em cima da mesa, a um + e um,--os cavallos, a charrua e os trabalhadores, que estavam <span + class="pagenum">[36]</span> todos espantados, como formigas a quem + tivessem transportado d'um formigueiro para um salão. A gigantinha + poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante + fez-se serio e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe elle. + Isso não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem + estimar-se e respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-n'o + immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da + montanha, morreriam de fome, se os anões da planicie deixassem de + lavrar a terra e de semear o trigo.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c14" id="c14"></a>A creança, a anjo e flôr + </h3> + <br /> Quando morre uma creança, desce um anjo do ceo, toma-a nos + braços, e desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os + sitios que ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se + de quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam + no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe + todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor + escolhida, adquirindo voz immediatamente, começa a cantar os coros + maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma creança + morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro sobre a + casa em que a creança brincára, e depois sobre jardins + deliciosos, cobertos de flores.<br /> <br /> «Qual é a flor que + desejas para plantar no paraiso?» perguntou o anjo.<br /> <br /> Havia + n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, magnifica; mas + quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de botõesinhos + lindissimos pendiam estiolados para o chão.<br /> <br /> «Pobre + roseira! disse a creança ao anjo; vamos buscal-a para que possa + reflorir no paraiso.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[38]</span> O + anjo foi buscal-a, e abraçou a creança. Colheram muitas + flores brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.<br /> <br /> A + colheita estava terminada, e comtudo não voavam ainda para Deus. + Caiu a noite silenciosa, e a creança e o seu guia Divino andavam + ainda por cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, + cheia de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a + casta de immundicie. Entre estes destroços distinguiu o anjo um + vaso de flores com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raizes + d'uma flor dos campos, já murcha, e que parecia não poder + reverdecer: tinham-n'a atirado para a rua como inutil e morta.<br /> <br /> + «Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, + voando, te contarei a historia da florinha. Lá ao fundo, lá + ao fundo, naquella rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma + creança miseravel e doente. Quando se sentia melhor, o mais que + podia conseguir era passeiar com a ajuda das moletas ao longo de seu + pequenino quarto. Em certos dias de verão os raios do sol + visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. Então a creança + sentada á janella, aquecida pelo sol, sem o cansaço do + andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca + verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do + visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabeça o + ramo verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, + sonhava com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho + trouxe-lhe flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que + tinha ainda raizes; <span class="pagenum">[39]</span> o pequerrucho + plantou-a n'um vaso, e pol-o á janella, junto da cama. A flor + plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e + todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico + thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe + aproveitar os raios do sol até ao ultimo. A flor apparecia-lhe em + sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e + ostentava as suas côres; quando se sentiu morrer foi para ella que + se voltou.<br /> <br /> «Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita + no paraiso; a sua querida flor, esquecida á janella desde então, + murchou, estiolou-se e atiraram-n'a à rua finalmente. E comtudo + esta flor quasi secca é o thesouro do nosso ramilhete. Deu mais + prazer e alegria do que todos os canteiros d'um jardim realengo.»<br /> + <br /> «Como sabes tu isso?» perguntou a creança, que o + anjo levava para o céo.<br /> <br /> --Sei-o, respondeu o anjo, + porque era eu o pequenino doente que andava em moletas; como não + havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»<br /> <br /> A creança + abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam no céo + onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores, levou-as ao + coração, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre, + despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar + com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe, + formando circulos que vão augmentando successivamente, + multiplicando-se até ao infinito, povoados <span class="pagenum">[40]</span> + de seres inteiramente felizes, cantando todos harmoniosamente--desde a + creança abençoada até á humilde florinha do + campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e + tortuosa.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c15" id="c15"></a>Presente por presente + </h3> + <br /> Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de + noite á choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda não + tinha chegado, foi a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o + o melhor que pôde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe + ia dar, porque eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia + offerecer; cama não a tinha, por conseguinte dormiria sobre a + palha. Mas o estrangeiro estava morto de fome e de fadiga; as batatas + souberam-lhe mais do que faisões, e dormiu melhor em cima da palha + do que n'um leito de principes. Ao outro dia pela manhã disse isto + mesmo á pobre mulher, gratificando-a ao despedir-se com uma moeda + de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha dito que a guardasse como uma + pequena lembrança, a boa camponeza julgou que seria uma medalha, e + sentiu que não tivesse um buraquito para a trazer ao pescoço. + Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o que lhe tinha + acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro examinou os cunhos + e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:<br /> <br /> <span + class="pagenum">[42]</span> «Esse forasteiro era nada mais nada + menos do que o nosso principe!<br /> <br /> E o bom do homem não + podia conter-se de alegria, por sua alteza ter achado as suas batatas + melhores do que faisões.<br /> <br /> «É necessário + confessar, disse elle com um ar triumphante, que não ha talvez no + mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das batatas; + hei de lhe levar um cesto d'ellas, já que as acha tão boas.<br /> + <br /> E partiu immediatamente para o palacio com uma provisão de + batatas escolhidas.<br /> <br /> Os lacaios e as sentinellas ao principio não + o queriam deixar entrar; mas insistiu energicamente, dizendo que não + vinha pedir nada, e que pelo contrario vinha trazer alguma cousa.<br /> + <br /> Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.<br /> <br /> «Meu + senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente pedir + hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca + d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar + demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis o + motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das batatas, + que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignae-vos + acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá + as encontrareis sempre ao vosso dispor.»<br /> <br /> A honrada + simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava n'um momento + de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta geiras + de terra.<br /> <br /> <span class="pagenum">[43]</span> Ora o carvoeiro + tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que, sabendo da + fortuna do irmão mais novo, disse comsigo: «Porque não + me ha de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo + qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer presente + d'elle: se deu ao João uma quinta com trinta geiras de terra, + simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de + recompensar ainda mais generosamente.»<br /> <br /> Tirou o cavallo da + estrebaria e levou-o para defronte das portas do palacio; recommendou ao + creado que o segurasse, e, atravessando com ar altivo as alas dos lacaios, + penetrou na sala da audiencia.<br /> <br /> «Ouvi dizer, disse elle, + que vossa alteza gosta do meu cavallo; não tenho querido trocal-o a + dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o offereça.»<br /> + <br /> O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e + disse comsigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que + mereces:<br /> <br /> Depois dirigindo-se a elle:<br /> <br /> «Acceito + a tua dadiva, mas não sei como agradecer-t'a condignamente. Oh! + espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que faisões. + Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que é um bom preço + para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»<br /> + <br /> E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c16" id="c16"></a>O pinheiro ambicioso + </h3> + <br /> Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua + sorte. «Oh! dizia elle, como são horrorosas estas linhas + uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou + um pouco mais orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para + andar vestido de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»<br /> + <br /> O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã + acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e + admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros + pinheiros, que, mais sensatos do que elle, não invejavam a sua + rapida fortuna. Á noite passou por alli um judeu, arrancou-lhe + todas as folhas, metteu-as n'um sacco, e foi-se embora, deixando-o + inteiramente nu dos pés á cabeça.<br /> <br /> «Oh! + disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça + dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a + floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de + oiro; o oiro attrae as ambições.<br /> <br /> Ah! se eu + arranjasse um vestuario de vidro! Era <span class="pagenum">[45]</span> + deslumbrante, e o judeu avarento não me teria despido.»<br /> + <br /> No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam + ao sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e + orgulhoso, fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo + cobriu-se de nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza + negra as folhas de cristal.<br /> <br /> «Enganei-me ainda, disse o + joven pinheiro, vendo por terra todo feito em pedaços o seu manto + cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir as florestas. + Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria menos brilhante, + mas viveria descansado.»<br /> <br /> Cumpriu-se o seu ultimo desejo, + e, apesar de ter renunciado ás vaidades primitivas, julgava-se + ainda assim mais bem vestido do que todos os outros pinheiros seus irmãos. + Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as folhas acabadas de + nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as todas sem deixar uma unica.<br /> + <br /> O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria + voltar á sua fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e + nunca mais se queixou da sua sorte.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c17" id="c17"></a>Perfeição das obras de Deus + </h3> + <br /> <em>A filha</em>.--Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Vou-te dar outra.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Como + se fazem as agulhas, mamã?<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Vê + se adivinhas.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Nã sei, mamã.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Conheces os metaes?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Conheço + mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de uma caixa.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Ora muito bem, dize-me lá, as agulhas + são de pau, de pedra, de marmore?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Oh! + não; são de metal; mas de que metal?<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Antes + de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas primeiro.<br /> + <br /> <em>A filha</em>.--Ora espere!... uma agulha é de metal: não + é de prata, porque não é branca; não é + de oiro, porque não é de um lindo amarello muito brilhante; + não é de cobre, porque não é de um amarello + muito feio, que cheira mal... Então é de ferro, mamã?<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Adivinhaste.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Mas, + mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.<br /> + <br /> <span class="pagenum">[47]</span> <em>A mãe</em>.--É + que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já + se não chama ferro, é aço.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Bem, + as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é + que as fazem.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--É impossivel, não + és capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma fabrica onde se fazem + agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar muito.<br /> <br /> <em>A + filha</em>.--Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que + nos servimos.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Tens razão; + é uma vergonha ignoral-o.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Mamã, + deixe-me ver as suas agulhas.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Olha, ahi + tens o meu estojo.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Meu Deus! Que pequeninas + algumas! Que lindas! São tão fininhas, tão + fininhas!... Muita habilidade ha de ser necessaria para fazer uma coisinha + tão delicada!<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Lembras-te de ver + na feira um carrinho de marfim puxado por uma pulga, presa por uma cadeia + de oiro?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Lembro, mamã; era tão + bonito!<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Li n'um jornal allemão + que um operario chamado Nerlinger fez um copo de um grão de + pimenta, e que dentro d'este copo havia mais doze...<br /> <br /> <em>A + filha</em>.--Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um grão + de pimenta!<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--E ainda não é + tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas doiradas, e sustentava-se + no pé.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Que vontade eu tinha de ver + isso!<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Tens razão de te admirares + da habilidade dos homens. É effectivamente espantoso, e <span + class="pagenum">[48]</span> deve saber-se, o modo porque se fabricam + certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admiração.<br /> + <br /> <em>A filha</em>.--Quaes, mamã?<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Já + t'o digo. (<em>Levanta-se</em>.)<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Que quer, + mamã?<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Quero que vejas o + microscopio de teu papá.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Pois sim; eu + gosto de olhar pelo microscopio.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Este + é magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes ver a + mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina, + lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?<br /> <br /> + <em>A filha</em>.--Meu Deus, que coisa tão feia! que agulha tão + grosseira!<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Vês-lhe buracos, + riscos, asperesas, não é verdade?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Parece + um prego muito grande e muito mal feito.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Pois + todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na + agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá + por ellas.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--O operario que fez esta agulha + ficaria envergonhado, se a visse ao microscopio.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Tiremos + a agulha, e vejamos outra coisa.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--O quê, + mamã?<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--O aguilhãosinho de + uma abelha.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Oh! que pequenino, que + bonito!... Como é liso, como é brilhante!... Mas já + sei que visto ao microscopio ha de acontecer o mesmo que com a agulha.<br /> + <br /> <span class="pagenum">[49]</span> <em>A mãe</em>.--Prompto: + olha.<br /> <br /> <em>A filha</em> (olhando).--É exquisito, mamã!<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Então?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Augmentou, + augmentou como a agulha, mas não é áspero, pelo + contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não + tinha ponta, e o ferrãosinho da abelha tem uma ponta tão + fina como um cabello. Porque será isto, mamã?<br /> <br /> <em>A + mãe</em>.--É porque o operario que fez este aguilhão + é muito mais habil do que o que fez a agulha.<br /> <br /> <em>A + filha</em>.--Quem é esse operario tão habil?<br /> <br /> <em>A + mãe</em>.--É o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as + plantas e as creaturas.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--É Deus.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Exactamente. Pois não é Deus + que fez as abelhas e todos os animaes?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--De + certo.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Foi elle por conseguinte que fez + o aguilhão d'esta abelha; e ahi tens porque o aguilhão + é superior á agulha: é obra de Deus. Mas continuemos + a olhar pelo microscopio. Aqui está um pedacinho de musselina + finissima. Olha pelo microscopio; o que é que vês?<br /> <br /> + <em>A filha</em>.--Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Aqui tens agora um pedacinho de renda + delicadissima.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Essa estou bem certa que ha + de ser linda, mesmo vista pelo microscopio.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Então?<br /> + <br /> <em>A filha</em>.--É horrorosa... Parece feita de pellos + grosseiros com grandes buracos deseguaes.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--As + obras do homem são todas assim.<br /> <br /> <span class="pagenum">[50]</span> + <em>A filha</em>.--Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Sabes o que é isto?<br /> <br /> <em>A + filha</em>.--Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.<br /> + <br /> <em>A mãe</em>.--Os fiosinhos que o compõem são + muito finos, muito lisos; olha pelo microscopio a ver se te parecem + deseguaes.<br /> <br /> <em>A filha</em> (olhando pelo microscópio).--Não, + mamã; os fios são todos eguaes, e o casulo é sempre + muito liso, muito brilhante.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--É + porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha sobre + este papel?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Pontinhos feitos com tinta e + manchasinhas redondas feitas também com tinta.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Estes + pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente redondos?<br /> <br /> + <em>A filha</em>.--Sim, mamã, perfeitamente redondos.<br /> <br /> + <em>A mãe</em>.--Vê-os agora ao microscopio.<br /> <br /> <em>A + filha</em>.--Oh! já não são redondos, são + todos deseguaes.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Tira o papel; vejamos + a obra de Deus. É uma aza de borboleta; vês que está + mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo microscopio; o que + é que vês?<br /> <br /> <em>A filha</em>.--Vejo a mesma coisa + que via sem o vidro, só com a differença que agora é + maior. Que bellas que são as obras de Deus!<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--Merece + bem a pena estudal-as.<br /> <br /> <em>A filha</em>.--De certo. Farei + sempre por isso, comparando-as com as obras dos homens.<br /> <br /> <em>A mãe</em>.--E + sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do homem, emquanto + que <span class="pagenum">[51]</span> as obras de Deus, quanto mais se + observam, mais perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas + coisas: a primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração + como o nosso amor; a segunda é que os homens orgulhosos são + insensatos, porque não podem fazer nada perfeitamente bello, + perfeitamente regular, e as suas obras mais primorosas são cheias + de imperfeições, se as compararmos com as obras do Creador.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c18" id="c18"></a>João e os seus camaradas + </h3> + <br /> Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno + rigoroso, possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João + resolveu-se a correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu + o resto da farinha, matou o gallo, e disse-lhe:<br /> <br /> «O que + é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção, + ou toda com a minha maldição?»<br /> <br /> «Que + pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no mundo eu + quereria a tua maldição.»<br /> <br /> «Bem, meu + filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te abençôe.»<br /> + <br /> E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, + que tinha caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair.<br /> <br /> + «Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi + a afogar-me.»<br /> <br /> «Espera, respondeu João.»<br /> + <br /> E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar + o quadrúpede do atoleiro.<br /> <br /> <span class="pagenum">[53]</span> + «Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te + posso ser util, aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?»<br /> + <br /> --«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha + vida.»<br /> <br /> «Queres tu que eu te acompanhe?<br /> <br /> + «Anda d'ahi.»<br /> <br /> E puzeram-se a caminho.<br /> <br /> Ao + passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da + eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre + animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a + ornear de tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.<br /> + <br /> «Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa + te for prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?»<br /> + <br /> «Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.»<br /> + <br /> «Queres que te acompanhe?»<br /> <br /> «Anda d'ahi.»<br /> + <br /> Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a + merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma + erva que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a + miar lastimosamente.<br /> <br /> Coitado, exclamou João!» E + deu-lhe uma asa do frango.<br /> <br /> --«Obrigado disse o gato. Oxalá + que um dia eu te possa ser util. Aonde vaes tu?<br /> <br /> --«Procurar + trabalho. Se queres, anda comnosco.»<br /> <br /> --De boa vontade.<br /> + <br /> <span class="pagenum">[54]</span> Os quatro viajantes puzeram-se a + caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um grito dilacerante, e viram uma + raposa correndo a toda a brida com um gallo na bocca.<br /> <br /> «Agarra! + agarra!» bradou o pequeno ao cão.<br /> <br /> E no mesmo + instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em perigo, + largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente disse a João:<br /> + <br /> --«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde + vaes tu?»<br /> <br /> --Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?<br /> + <br /> --«De boa vontade.»<br /> <br /> --Então anda. Se + te cançares, empoleira-te no jumento.»<br /> <br /> Os + viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro. + Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma + quinta, nem uma cabana.<br /> <br /> --«Paciencia, disse João, + outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos hoje a dormir ao ar livre; + além d'isso a noite está socegada, e a relva é macia.»<br /> + <br /> Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado + d'elle, o cão e o gato aninharam-se entre as pernas do burro + complacente, e o gallo empoleirou-se n'uma arvore.<br /> <br /> Dormiam + todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou a + cantar.<br /> <br /> --«Que demonio! disse o jumento accordando todo + zangado. Porque é que estás a gritar?»<br /> <br /> --«Porque + já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a + luz da madrugada, que vem rompendo?»<br /> <br /> <span class="pagenum">[55]</span> + --«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, + é d'uma lanterna. Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos + poderiamos recolher o resto da noite.»<br /> <br /> Foi acceita a + proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez dos campos, até + que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo, d'onde subiam + gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e blasphemias horriveis.<br /> + <br /> --Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, + a ver quem é que está lá dentro.»<br /> <br /> + Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se + banqueteavam alegremente, sentados a uma mesa principesca.<br /> <br /> --«Que + bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do + conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que + é este porteiro. Á sua saude!»<br /> <br /> --«Á + saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.<br /> + <br /> E d'um trago despejaram os copos.<br /> <br /> João voltou-se + para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:<br /> <br /> --«Uni-vos + uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der signal, rompei + todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.»<br /> <br /> O burro, + levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao + peitoril d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o + gato á cabeça do cão e o gallo á cabeça + do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do + jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes + do gallo.<br /> <br /> <span class="pagenum">[56]</span> --«Agora, + bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar + armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!»<br /> <br /> No mesmo + instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando cada vez mais; + os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo + precipitadamente por uma porta falsa.<br /> <br /> João e os seus + companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um excellente jantar, + e deitaram-se em seguida--João n'uma cama, o burro na cavallariça, + o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão + e o gallo n'um poleiro.<br /> <br /> Ao principio os ladrões ficaram + muito contentes, por se verem sãos e salvos na floresta. Mas + depois, começaram a reflectir.<br /> <br /> --«Era bem melhor a + minha cama, do que esta erva tão humida, disse um d'elles.»<br /> + <br /> --«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, + disse um outro.»<br /> <br /> --«E que rico vinho aquelle! + accrescentou o terceiro.»<br /> <br /> --«E o que é mais + lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o + dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das + gavetas.»<br /> <br /> --Vou ver se torno lá a entrar? disse o + capitão.<br /> <br /> --Bravo! exclamaram os ladrões.<br /> + <br /> E poz-se a caminho.<br /> <br /> Já não havia luz na + casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se para o + fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as + garras. <span class="pagenum">[57]</span> Soltou um grito doloroso, correu + para a porta, mas infelizmente pisou o rabo do cão, que lhe deu uma + grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu por fim transpor o limiar da + porta. Mas quando ia a sair, o gallo atirou-se a elle, rasgando-o com o + bico e com as unhas.<br /> <br /> --Anda o diabo n'esta casa! exclamou o + capitão, como poderei eu sair!»<br /> <br /> Julgou encontrar + refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma parelha de coices, que o + deitou quasi morto ao meio do chão.<br /> <br /> Passado algum tempo + veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem pernas nem braços + partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.<br /> <br /> --Então? + então?--perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.<br /> <br /> + --Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para + me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que + o trago n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha + fui assaltado por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na + cara com o cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair + a porta, um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a + sovella. Logo depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me + com as garras. Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se + vocês me não acreditam, vão lá, e experimentem.»<br /> + <br /> --Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo + todo ensanguentado: Não seremos nós que lá + tornaremos.»<br /> <br /> Pela manhã, João e os seus + camaradas almoçaram <span class="pagenum">[58]</span> ainda + excellentemente, e partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro + que os ladrões lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente + dentro de dois saccos, com que carregou o jumento. Foram andando, andando, + até que chegaram á porta do castello. Diante d'essa porta + estava o malvado do porteiro, com uma libré esplendida, meias de + seda, calções escarlates e cabello empoado.<br /> <br /> Olhou + com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.<br /> + <br /> --Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se + embora?»<br /> <br /> --Não queremos nada de ti, respondeu João. + O dono do castello far-nos-ha um bom acolhimento.<br /> <br /> --Fóra + d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a andar + immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os + meus cães de fila.»<br /> <br /> --Perdão, só um + instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do jumento; não + me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite + passada a porta do castello?»<br /> <br /> O porteiro córou. O + conde que estava á janella, disse-lhe:<br /> <br /> --Ó Bernabé, + responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.<br /> <br /> --Senhor, + replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui + eu que abri a porta aos seis ladrões.<br /> <br /> --Como é + então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?<br /> + <br /> Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o <span + class="pagenum">[59]</span> dinheiro roubado, pedindo-lhe unicamente que + nos dê de jantar e nos recolha esta noite, porque vimos cançados + do caminho.<br /> <br /> --Ficae certos que sereis bem tratados.<br /> <br /> + O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou + na cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés + á cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio + d'ouro, e disse-lhe:<br /> <br /> --Queres ficar comigo? És esperto e + honrado, serás o meu intendente.»<br /> <br /> João + acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé + de si. Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c19" id="c19"></a>O rabequista + </h3> + <br /> Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram + uma egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.<br /> <br /> As + rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O + vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro, + feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava + constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em + romaria um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada + tinha sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge + não havia pão nem dinheiro no bolso para o comprar.<br /> + <br /> Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca + com tal suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou + enternecida ao vel-o tão pobre e ao escutar aquella musica + deliciosa. Quando terminou, Santa Cecilia abaixou-se, descalçou um + dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o ao pobre musico, que tonto + d'alegria, dançando, cantando, chorando, correu á loja d'um + ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o sapato da santa, + prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do juiz. + <span class="pagenum">[61]</span> Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, + e foi condemnado á morte.<br /> <br /> Chegára o dia da execução. + Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo poz-se em marcha ao som dos + canticos dos frades, que ainda assim não chegavam a dominar os sons + da rabeca do condemnado, que pedira, como ultima graça, o + deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento. O cortejo + chegou defronte da capella da santa, e quando pararam supplicou o triste + desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua + derradeira melodia.<br /> <br /> Os padres e os chefes da escolta + consentiram, e o rabequista entrou, ajoelhou aos pés da santa, e + debulhado em lagrimas começou a tocar. Então o povo, + maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de novo, descalçar + o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á + vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o + rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente + prestar-lhe as mais honrosas homenagens.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c20" id="c20"></a>Os pecegos + </h3> + <br /> Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos + magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos, + extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. + Á noite o pae perguntou-lhes:<br /> <br /> --Então comeram os + pecegos?<br /> <br /> --Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! + Guardei o caroço, e hei de plantal-o para nascer uma arvore.»<br /> + <br /> --Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar + no futuro.»<br /> <br /> --Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o + logo, e a mamã ainda me deu metade do que lhe tocou a ella. Era + doce como mel.»<br /> <br /> --Ah! acudiu o pae, foste um pouco + guloso, mas na tua edade não admira; espero que quando fores maior + te has de corrigir.»<br /> <br /> --Pois eu cá, disse um + terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou fóra, + quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi o meu + pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á cidade.»<br /> + <br /> O pae meneou a cabeça:<br /> <br /> <span class="pagenum">[63]</span> + --Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo.<br /> <br /> + --E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?<br /> <br /> --Eu, meu pae, + respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho, ao Jorge, que está + coitadinho com febre. Elle não o queria, mas deixei-lh'o em cima da + cama, e vim-me embora.<br /> <br /> --Ora bem, perguntou o pae, qual de vós + é que empregou melhor o pecego que eu lhe dei?<br /> <br /> E os três + pequenos disseram á uma:<br /> <br /> --Foi o mano Eduardo.<br /> + <br /> Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o + com os olhos arrazados de lagrimas.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c21" id="c21"></a>A urna das lagrimas + </h3> + <br /> Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem + adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só + momento; mas um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu + e morreu. A desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, + sem repousar um momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de + magua e de saudades. Não comia, não fazia senão + chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava acabrunhada, chorando no + mesmo sitio em que a filha tinha morrido, abriu-se de repente a porta do + quarto e viu-a apparecer a ella, a sua querida filha, sorrindo com uma + expressão angelica e trazendo nas mãos uma urna, que vinha + cheia até ás bordas.<br /> <br /> --«Oh! minha querida mãe, + disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo das lagrimas recolheu + as tuas n'esta urna. Se chorares mais, transbordará, e as tuas + lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no tumulo e perturbando + a minha felicidade no paraiso.<br /> <br /> A pequenina desappareceu, e a mãe + não tornou a chorar para a não affligir.<br /> <br /> <br /> + <br /> + <h3> + <a name="c22" id="c22"></a>Reconhecimento e ingratidão + </h3> + <br /> Os vossos filhos serão para vós como vós + tiverdes sido para vossos paes. E é natural. As creanças + veem diariamente o que fazem seus paes, e imitam-n'os. Justifica-se d'esta + maneira o proverbio que diz,--que a benção ou a maldição + d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos, terminando sempre por + se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem ser meditados.<br /> + <br /> Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava + muito satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois + d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas + que trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O + principe, que para as suas despezas d'administração e + representação necessitava de quantias avultadas, custou-lhe + ao principio a perceber, como se vivia com doze vintens diarios, + andando-se ainda por cima satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, + que lhe respondeu:<br /> <br /> «Gasto diariamente comigo a terça + parte d'essa quantia; outro terço é para pagar as minhas + dividas; <span class="pagenum">[66]</span> e o resto é para ir + juntando algumas economias.»<br /> <br /> Era um novo enigma para o + principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o d'este modo.<br /> <br /> + «Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não + podem trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força + para isso. Aos primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na + minha infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando + os annos tiverem pesado sobre mim.»<br /> <br /> O principe, ouvindo + isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se da educação + de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos + paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando egualmente + a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.<br /> + <br /> Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu + d'uma maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que + este teve de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho + ingrato recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma + tarde foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade + fosse muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como + ultima esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe + servia de leito. O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e + disse ao seu pequeno, de dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse + velho rabujento_. Mas notou que a creança ao partir tinha escondido + um dos lençoes a um canto, atraz da porta.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[67]</span> Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque + fizera aquillo.<br /> <br /> «Foi, respondeu a creança + desabridamente, para me servir mais tarde d'este lençol, quando + pela minha vez te mandar tambem para o hospital.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c23" id="c23"></a>O fato novo do sultão + </h3> + <br /> Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu + rendimento.<br /> <br /> Quando passara revista ao exercito, quando ia aos + passeios ou ao theatro, não tinha outro fim senão mostrar os + seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como se diz d'um + rei: Está no conselho; dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A + capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças á + quantidade d'estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá um + dia dois larapios, que, dando-se por tecelões, disseram que sabiam + fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não só eram + extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além d'isso + os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade maravilhosa: + tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos aquelles que não + exercessem bem o seu emprego.<br /> <br /> --São vestuarios + impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles, saberei + distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade dos + ministros. Preciso d'esse estofo!»<br /> <br /> E mandou em seguida + adiantar aos dois charlatães <span class="pagenum">[69]</span> uma + quantia avultada, para que podessem começar os trabalhos + immediatamente.<br /> <br /> Os homens levantaram com effeito dois teares, e + fingiram que trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada + nas lançadeiras. Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; + mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando até + á meia noite com os teares vasios.<br /> <br /> --«Preciso + saber se a obra vae adiantada».<br /> <br /> Mas tremia de medo ao + lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos idiotas. E, + apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente em + todo o caso mandar alguem adiante.<br /> <br /> Todos os habitantes da + cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e ardiam em desejos + de verificar se seria exacto.<br /> <br /> --Vou mandar aos tecelões + o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um grande talento, e por + isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o estofo.<br /> <br /> O + honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam com + os teares vasios.<br /> <br /> --Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os + olhos, não vejo absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. + Os dois tecelões convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua + opinião sobre os desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o + velho ministro olhava, olhava, mas não via nada, pela rasão + simplicissima de nada lá existir.<br /> <br /> --Meu Deus! pensou + elle, serei realmente estupido? É necessario que ninguém o + saiba!... Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá confessar que + não vejo nada, isso é que eu não confesso.»<br /> + <br /> <span class="pagenum">[70]</span> --«Então que lhe + parece?» perguntou um dos tecelões:<br /> <br /> --«Encantador, + admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este desenho... estas + cores... magnifico!... Direi ao sultão que fiquei completamente + satisfeito.»<br /> <br /> --«Muito agradecido, muito agradecido», + disseram os tecelões; e mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, + fazendo-lhe d'elles uma descripção minuciosa. O ministro + ouviu attentamente, para ir depois repetir tudo ao sultão.<br /> + <br /> Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais + oiro; precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no + bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso + trabalhavam sempre.<br /> <br /> Passado algum tempo, mandou o sultão + um novo funccionario, homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando + estaria prompto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecido ao + ministro: olhava, olhava e não via nada.<br /> <br /> --Não + acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o + magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente de + não existir.<br /> <br /> --Mas que diabo! eu não sou tolo! + dizia o homem comsigo. Pois não serei eu capaz de desempenhar o meu + lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o deixo eu.»<br /> + <br /> Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração + pelo desenho e o bem combinado das cores.<br /> <br /> --É d'uma + magnificencia incomparavel, disse <span class="pagenum">[71]</span> elle + ao sultão. E toda a cidade começou a fallar d'esse tecido + extraordinario.<br /> <br /> Emfim o proprio sultão quiz vel-o + emquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de pessoas + distinctas, entre as quaes se contavam os dois honrados funccionarios, + dirigiu-se para as officinas, em que os dois velhacos teciam + continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de especie alguma.<br /> + <br /> --Não acha magnifico? disseram os dois honrados + funccionarios. O desenho e as cores são dignos de vossa alteza.»<br /> + <br /> E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali + estavam podessem ver alguma cousa.<br /> <br /> --Que é isto! disse + comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível! + serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça + que me acontece!» Depois de repente exclamou: «É + magnifico! Testemunho-vos a minha satisfação.»<br /> + <br /> E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, + sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito + olharam do mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e + no entanto repetiam como o sultão: «É magnifico!» + Até lhe aconselharam a que se apresentasse com o fato novo no dia + da grande procissão. «É magnifico! é + encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e + a satisfação era geral.<br /> <br /> Os dois impostores foram + condecorados e receberam o titulo de fidalgos tecelões.<br /> <br /> + Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro, + trabalhando à luz de dezeseis velas. <span class="pagenum">[72]</span> + Finalmente fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-o com umas grandes + tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio, e declararam, depois d'isto, + que estava o vestuario concluido.<br /> <br /> O sultão com os seus + ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores levantando um braço, + como para sustentar alguma cousa, disseram:<br /> <br /> «Eis as calças, + eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha; ó a + principal virtude d'este tecido.»<br /> <br /> --Decerto, respondiam + os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.<br /> <br /> --Se vossa alteza + se dignasse despir-se, disseram os larapios, provar-lhe-iamos o fato + deante do espelho.»<br /> <br /> O sultão despiu-se, e os + tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois a casaca, + depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do espelho.<br /> + <br /> --Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos. + Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!»<br /> + <br /> Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias.<br /> <br /> --Está + á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á + procissão, disse elle.»<br /> <br /> --Bom! estou prompto, + respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»<br /> + <br /> E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito + do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não + querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a.<br /> + <br /> E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um <span + class="pagenum">[73]</span> docel deslumbrante, toda a gente na rua e + ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que cauda tão + graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber, que não + via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo. Nunca os + fatos do sultão tinham sido tão admirados.<br /> <br /> --Mas + parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do pae.<br /> + <br /> --É a voz da innocencia, disse o pae.<br /> <br /> --Ha ali uma + creança que diz que o sultão vae em cuecas.<br /> <br /> + «Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente.<br /> + <br /> O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que + realmente era verdade. Entretanto tomou a energica resolução + de ir até ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com + respeito a cauda imaginaria.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c24" id="c24"></a>Boa sentença + </h3> + <br /> Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma + quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis + d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um + honrado camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e + disse:<br /> <br /> --Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a + quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu + amigo, que recebeste adiantados os cem mil réis d'alviçaras: + estamos pagos por conseguinte.»<br /> <br /> O bom camponez, que nem + por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia contentar-se + com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, vendo a má + fé do avarento, deu a seguinte sentença:<br /> <br /> --Um de + vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge + apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o + ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se + julga com direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que + encontraste, <span class="pagenum">[75]</span> e guarda-o até que + appareça o individuo que perdeu sómente setecentos mil réis. + E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que tenhas paciencia + até que appareça alguem que tenha achado os teus oitocentos + mil réis.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c25" id="c25"></a>Os animaes agradecidos + </h3> + <br /> Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a + quem perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este + respondeu:<br /> <br /> --«Senhor: eu sou um desgraçado, um + miseravel; nasci no vosso reino, e chamo-me <em>Ingratidão</em>.»<br /> + <br /> --«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, + tomava-te ao meu serviço.»<br /> <br /> O nosso homem prometteu + ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. Desde que chegaram a + palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se tão esperto e tão + solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que o nomeou seu + intendente, confiando-lhe a administração da sua casa. + Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então + não conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha + compaixão dos desventurados.<br /> <br /> Ora, na visinhança + do palacio havia uma floresta cheia d'animaes selvagens e perigosissimos. + O intendente mandou ahi fazer por toda a parte covas profundas, cobertas + com folhas, de modo que as feras, caindo dentro, podessem ser agarradas. + <span class="pagenum">[77]</span> Um dia que o intendente atravessava a + floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que + se precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.<br /> <br /> Passado um + instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um + lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O governador, + ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão + horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança + de salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por + mais que gritasse, ninguem o vinha soccorrer.<br /> <br /> Esqueceu-nos + dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre, chamado Antonio, + que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para ganhar o pão + necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem lá + foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da + cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção + não tardou a ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem + era que estava ali.<br /> <br /> --«Sou o governador do palacio do + rei, e, se me tirares d'aqui, prometto encher-te de riquezas; estou em + companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma enorme serpente.»<br /> + <br /> --«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não + tendo para sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; + bastava um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá + pois, se cumpres a tua promessa?<br /> <br /> O intendente continuou:<br /> + <br /> --«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso <span + class="pagenum">[78]</span> senhor, juro-te que cumprirei a minha palavra.»<br /> + <br /> Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou + com uma corda muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão + atirou-se a ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro + julgava que era o intendente.<br /> <br /> Quando chegou acima, o leão + agradeceu ao seu salvador com a maior amabilidade, e foi-se embora + à procura de jantar, porque tinha fome.<br /> <br /> Antonio deitou + outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o governador, + enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a serpente; foi + necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o governador. Este + não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr para o + palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o + que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as + brilhantes promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, + foi o pobre homem bater à porta do palacio. O porteiro + perguntou-lhe o que queria.<br /> <br /> --«Faça-me o favor, + respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente que o homem com + quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.»<br /> <br /> O + porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:<br /> + <br /> --«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na + floresta; que se ponha a andar, porque o não conheço.»<br /> + <br /> O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.<br /> + <br /> O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, <span + class="pagenum">[79]</span> e contou á mulher a odiosa perfidia de + que tinha sido victima.<br /> <br /> A mulher disse-lhe:<br /> <br /> --«Tem + paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e foi + talvez por isso que te não pôde receber.»<br /> <br /> + Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.<br /> + <br /> Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á + porta do palacio. Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que + não tornasse ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado + a empregar meios violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:<br /> + <br /> --«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez + Deus o inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não + penses mais n'isso.»<br /> <br /> No dia seguinte o bom do homem + voltou á carga; e tendo o porteiro consentido á força + de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este encolerisado + atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre homem d'uma + tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do chão. + A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um burro, + poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas levaram-lhe seis + mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se obrigado a contrair + dividas para pagar ao medico. Quando finalmente tinha recobrado algumas + forças, voltou ao bosque segundo o costume para fazer alguma lenha. + Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle tinha + ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de + si, e <span class="pagenum">[80]</span> este burro estava carregado de + saccos cheios de preciosidades. O leão, vendo Antonio, parou e + inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso agradecimento. Depois + d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal de que ficasse com o + jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal para casa, abriu os + saccos, e viu que estava rico.<br /> <br /> No dia seguinte, voltando de + novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que o ajudou no seu + trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto lhe era agradecido. + Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado o burro com a lenha, + viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha tirado do fôjo, e + que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em que brilhavam três + côres,--o branco, o preto e o vermelho. Quando a serpente chegou ao + pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto d'elle, e depois + dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio levantou a pedra, + examinou-a por todos os lados, para ver que propriedade ou virtude ella + teria. Para isto foi ter com um velho, afamado pela sua habilidade em + decifrar o que diziam os astros. Este, assim que viu a pedra, + offereceu-lhe por ella uma grande quantia. Antonio respondeu-lhe que a não + queria vender, mas simplesmente saber se seria boa.<br /> <br /> O velho + respondeu:<br /> <br /> --«São três as virtudes d'esta + pedra: abundancia continua, alegria imperturbavel e luz sem trevas. Se + alguém t'a comprar por menos dinheiro do que vale, tornará + immediatamente para a tua mão.»<br /> <br /> Antonio ficou + muito contente com esta resposta, <span class="pagenum">[81]</span> + agradeceu ao velho da sciencia maravilhosa, e correu a contar á + mulher a sua felicidade. Como se imagina, graças á virtude + da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em diante, nem honras nem + riquezas.<br /> <br /> Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas + prosperidades, mandou chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o + precioso talisman.<br /> <br /> Antonio, vendo que semelhante desejo era uma + ordem, respondeu:<br /> <br /> --«Devo prevenir a vossa magestade de + que, se esta pedra me não for paga pelo que vale, tornará + ella mesma para o meu poder.»<br /> <br /> --«Hei de pagar-t'a + bem, disse o rei.»<br /> <br /> E mandou-lhe dar trinta mil libras em + oiro. No dia seguinte de manhã, Antonio achou outra vez a pedra em + cima da mesa; e a mulher sabendo isto disse-lhe:<br /> <br /> --«Torna + a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se + que lh'a furtaste.»<br /> <br /> O nosso homem seguiu este conselho, + e, quando chegou á presença de sua magestade, pediu-lhe que + lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra preciosa.<br /> <br /> --«Mandei-a + metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro, fechado com sete + chaves, disse o rei.»<br /> <br /> Antonio mostrou-lhe então a + joia preciosa, e o rei ficou extraordinariamente espantado, e quiz saber + como elle tinha adquirido semelhante thesouro.<br /> <br /> Antonio + contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o + reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu + intendente, e disse-lhe:<br /> <br /> <span class="pagenum">[82]</span> --«Homem + preverso, com justo motivo te puzeram o nome de <em>Ingratidão</em>, + porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e + pagaste com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será + feita. Dou a Antonio as tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o + castigo de seres enforcado.»<br /> <br /> Admiraram todos a sentença + do rei, e Antonio desempenhou as suas altas funcções com + tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi escolhido para o + substituir, e reinou pacificamente durante longos annos gloriosos.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c26" id="c26"></a>O ermitão + </h3> + <br /> Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, + deliberou retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente + ao trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, + ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa + de Deus. Depois de ter assim vivido durante muitos annos, uma noite + lembrou-se de que já tinha merecido um logar glorioso no paraiso, e + podia ser contado entre os santos mais notaveis.<br /> <br /> Na noite + seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:<br /> <br /> --Ha no + mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola e + cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.<br /> <br /> + O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou + no seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:<br /> + <br /> --Irmão, dize-me que <span class="pagenum">[84]</span> boas + obras fizeste, e por meio de que orações e penitencias te + tornaste agradavel a Deus.<br /> <br /> --Ora, respondeu-lhe o musico, + abaixando a cabeça, santo padre, não zombes de mim. Nunca + fiz boas obras, e quanto a orações não as sei, pobre + de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em + casa a divertir os outros.»<br /> <br /> O austero ermitão + continuou a insistir:<br /> <br /> --Estou certo que, no meio da tua + existencia vagabunda, praticaste algum acto de virtude.»<br /> <br /> + --Em verdade não poderia citar nem um só.»<br /> <br /> + --Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido + loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste + frivolamente o teu patrimonio e o producto do teu officio?»<br /> + <br /> --Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo + marido e filhos tinham sido condemnados á escravidão para + pagar uma divida. Essa mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. + Recolhi-a em minha casa, protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que + possuia para resgatar a sua familia, e levei-a á cidade, onde ella + devia encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem não + teria feito outro tanto?»<br /> <br /> A estas palavras o ermitão + poz-se a chorar, e exclamou:<br /> <br /> --Nos meus setenta annos de solidão + nunca pratiquei uma obra tão meritoria, e apezar disso chamo-me o + homem de Deus, emquanto que tu não passas d'um pobre musico.»<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c27" id="c27"></a>Carlos Magno e o abade de S. Gall + </h3> + <br /> Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. + Gall, preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da + abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens + energicos e activos, e o abade era indolente. Além d'isso o + imperador tinha mais d'um motivo de queixa contra elle.<br /> <br /> --Bons + dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á + sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a + bondade de me responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão + solemne do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu + valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao + mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. + rev.<sup>ma</sup> vier á minha presença, pensamento que deve + ser um erro. Trate d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás + deixa de ser abade de S. Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um + burro com a cara voltada para o rabo.»<br /> <br /> O abade não + sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores + mais <span class="pagenum">[86]</span> famosos pela sua sciencia, não + lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época + fatal aproximava-se; já não faltava senão um mez, já + não faltavam senão semanas, e afinal só dias. O + abade, que n'outro tempo era gordo e anafado, estava magro como um + esqueleto. Perdèra o somno e o appetite. Andava errante nos bosques + lamentando a sua desgraça, quando se encontrou com o seu pastor.<br /> + <br /> --Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está + doente?»<br /> <br /> --Estou, meu caro Felix, estou muito doente.»<br /> + <br /> --Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»<br /> + <br /> --Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas + resposta ás minhas tres perguntas.»<br /> <br /> --É então + latim?»<br /> <br /> --Não, não é latim, senão + os doutores tinham-me arranjado tudo.»<br /> <br /> --Visto que não + é latim, queira v. rev.<sup>ma</sup> dizer-me o que é: minha + mãe era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.»<br /> + <br /> Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o + barrete ao ar, e disse-lhe:<br /> <br /> --Se é apenas isso, eu me + encarrego de responder por si, e v. rev.<sup>ma</sup> póde + continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu + habito.»<br /> <br /> Quando chegou o dia, o pastor disfarçado + com o habito do abade de S. Gall, foi introduzido na sala onde o imperador + presidia o conselho imperial.<br /> <br /> --Então, senhor abade, + parece que está mais magro, deu-lhe muito que pensar a chave do + <span class="pagenum">[87]</span> enigma? Vamos lá a ver a primeira + pergunta: Quanto valho eu em dinheiro?»<br /> <br /> --Senhor, o filho + de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por trinta dinheiros, sua + magestade vale á justa vinte e nove, só um dinheiro menos.»<br /> + <br /> --Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não + posso deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda + pergunta, não ha de ser tão facil dar a resposta. Vamos lá + a ver: quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?»<br /> <br /> + --Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir + constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro + horas.»<br /> <br /> --Decididamente, v. rev.<sup>ma</sup> é um + grande finorio, e d'esta vez, confesso-me vencido; mas a terceira, não + d'essas á que se responde com supposições. Quem lhe + ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha de provar que este + pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»<br /> <br /> + --Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está + enganado, porque eu sou o seu pastor.»<br /> <br /> --Mas então + tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas + sendo.»<br /> <br /> --Não sei latim, mas, se vossa magestade + quer fazer-me um favor, peco-lhe outra cousa.»<br /> <br /> --Não + tens mais que fallar.»<br /> <br /> --Peço a vossa magestade + que perdoe ao meu amigo.»<br /> <br /> Carlos Magno não era + homem que faltasse á sua palavra.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c28" id="c28"></a>A boneca + </h3> + <br /> Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia--a historia d'uma + boneca!<br /> <br /> Não ha muitos annos, mas ainda não era a + cordoaria do Porto o ameno jardim, onde a infancia folga por entre + macissos de flores e sob o sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o + espirito a vista dos dois monumentos, que a meu ver symbolisam as duas + mais horriveis calamidades, que podem aniquillar um homem--o hospital e a + cadeia!--ainda não ha muitos annos, repito, estava eu, uma noite, + encostado a uma barraca da feira, divertindo-me a meu modo.<br /> <br /> Cançado + das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella especie de + lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo, quando novos + personagens me chamaram a attenção.<br /> <br /> Eram os meus + visinhos <em>ricos</em>.<br /> <br /> Aqui é preciso uma rapida + explicação.<br /> <br /> Das famílias da minha visinhança, + só conheço tres.<br /> <br /> Qual d'estas tres familias será + mais feliz?...<br /> <br /> Pelo que tenho notado, não tem que + invejar umas ás outras.<br /> <br /> <span class="pagenum">[89]</span> + São todas felizes; cada qual a seu modo.<br /> <br /> Vi, pois, + chegar os meus visinhos <em>ricos</em>.<br /> <br /> Parou o carro, o creado + saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e dorso + ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou, tomou nos + braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em + seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se + com ella e com a menina para a barraca onde eu estava.<br /> <br /> Não + havia ali segredo a surprehender.<br /> <br /> Havia um homem, exemplar como + marido, rico, doido pela filha, e que parecia agradecer áquella + formosa criança a manifestação de qualquer desejo.<br /> + <br /> No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a + felicidade de dez crianças menos abastadas.<br /> <br /> Tinha o + necessario para montar completamente a casa d'uma boneca... <em>rica</em>.<br /> + <br /> Faltava apenas a dona da casa--a boneca.<br /> <br /> Todo risos e + attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor.<br /> + <br /> Depois de muita hesitação e de, já com os + olhos, já com a voz, consultar a mamã, a gentil creança + acabou por escolher uma magnifica boneca de dois palmos d'altura, com + cabello em <em>bandeaux</em> e olhos azues.<br /> <br /> Uma boneca como as + outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica recheada, braços + e pernas de páu.<br /> <br /> Uma vive na loja da casa, que habito. + É uma tribu de crianças, que fazem o martyrio e a alegria da + pobre mãe, e tem por chefe um honrado sapateiro.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[90]</span> Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam + encantadores; assim, parecem anjos, caidos do céo sobre um monte de + lama.<br /> <br /> São os meus visinhos <em>pobres</em>.<br /> <br /> A + segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa + immediata.<br /> <br /> É como se costuma dizer, gente <em>que vae + muito bem com a sua vida</em>.<br /> <br /> A filha que terá dez + annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas, cuja solidez a gente + gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à pressão.<br /> + <br /> São os meus visinhos <em>remediados</em>.<br /> <br /> A + terceira é a dos meus visinhos <em>ricos</em>.<br /> <br /> Casa + nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas + listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do + estado--nada falta áquella ditosa gente!<br /> <br /> Compõe-se + egualmente de marido, mulher e filha.<br /> <br /> Que formosa criança!... + Terá oito annos.<br /> <br /> Franzina e pallida, com os cabellos + negros, os olhos grandes e scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas + mãos de dedos compridos e esguios, terminados por unhas d'uma côr + de rosa transparente, que não sinta antecipada inveja do feliz + namorado--provavelmente ainda a crescer--que hade um dia ter o direito de + lh'as cobrir de beijos.<br /> <br /> Feita a compra, o pai pagou, chamou o + creado, e este mudou todas aquellas preciosidades de sobre o balcão + da barraca para dentro do carro.<br /> <br /> A boneca teve a honra de ser + transportada pela aristocratica criança.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[91]</span> Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui + fazendo até casa variadissimas considerações, + suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina recebèra + brinquedos, que representavam um par de moedas.<br /> <br /> Que contraste + com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da mesma idade + namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel + artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois + pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a + boca por outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã + preta!<br /> <br /> Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos + remediados não havia luz.<br /> <br /> Na dos meus visinhos <em>pobres</em>, + o pai batia a sola, cantando ao som de tres assobios e duas campainhas de + barro, com que os anjos, por lavar, provocavam os ralhos da mãe.<br /> + <br /> Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas + da manhã.<br /> <br /> Na rua agenciavam nova camada de immundicie os + filhos do sapateiro; na casa immediata não se via ninguem--estava a + pequena na mestra; no palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla + pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, + com auxilio d'uma linha, uma magnifica <em>caleche</em> descoberta, puxada + por cavallos brancos.<br /> <br /> Dentro da <em>caleche</em> pavoneava-se a + boneca opulentamente vestida.<br /> <br /> --«Ahi está a tua + caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim para mim. «Ensaias + <span class="pagenum">[92]</span> nas bonecas o que vês no mundo a + que pertences!... Estás a aprender a copiar... Sempre este + mundo!...»<br /> <br /> Retirei-me da janella.<br /> <br /> Durante uma + semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.<br /> <br /> A boneca + ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se vestia tres e + quatro vezes!<br /> <br /> Ao que eu, porém, achava mais graça, + era ao respeito com que a dona a tratava!<br /> <br /> Chamava-lhe sr.<sup>a</sup> + D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente com a boneca um + d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que se falla de tudo, + sem se dizer coisa alguma.<br /> <br /> Um dia,--estava eu de costas + voltadas para a janella dos meus visinhos <em>ricos</em>--ouvi um grito de + susto.<br /> <br /> Era devido a um accidente, a que está sujeito + quem anda de carro.<br /> <br /> Voltára-se este, e a boneca caíra, + ferindo a fronte na pedra da janella.<br /> <br /> O primeiro movimento da + pequena foi beijar e prantear a victima; vendo, porém, que a ferida + havia forçosamente de deixar cicatriz, e lembrando-se de que só + lhe bastava querer, para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos pés + e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais perto de mim bradou + voz timida e suplicante:<br /> <br /> «Não atire!... Dê-m'a.»<br /> + <br /> Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra + fé até então.<br /> <br /> Assim invocada, a menina <em>rica</em> + franziu levemente <span class="pagenum">[93]</span> as sobrancelhas e lançou + um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.<br /> <br /> Vendo + uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e, + encolhendo os hombros, respondeu:<br /> <br /> --«Já não + presta!... Está esmurrada!...»<br /> <br /> --É o + mesmo!... Dá-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de cubiça.<br /> + <br /> --«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os + hombros.<br /> <br /> E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a + boneca nas mãos da visinha, que tremia, receiosa de que aquelle + thesouro fosse despedaçar-se nas lages da rua.<br /> <br /> Fugiram + ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a outra, + para mostrar á mãe a que ella ainda não podia + acreditar, que fosse sua!<br /> <br /> Por espaço de mezes foi a + boneca a principal occupação da nova dona.<br /> <br /> A + pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro + vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excellencia! + Chamavam-lhe sr.<sup>a</sup> D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, + do desmazello da creada, da missa das almas, de coisas finalmente, + completamente estranhas para ella!<br /> <br /> E a desgraçada perdia + as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azues; mas o que + mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais + escura: parecia uma nodoa, um estygma!<br /> <br /> Nos primeiros tempos, + emquanto durou o vestido, <span class="pagenum">[94]</span> que trouxera + no corpo, ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.<br /> + <br /> Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto, + fitas velhas, rendas amarelladas, chapéos impossiveis, viessem + contrastar com a elegancia do vestido. Dava ares de se ter equipado ao + acaso, na loja d'uma adeleira.<br /> <br /> Mas o vestido foi-se tornando + velho; desappareceu o brilho, e com elle as ondulações do + _moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de + cassa---no inverno!--chaile e manta na cabeça.<br /> <br /> Muito mal + lhe ficava aquillo!... Áquella boneca custava-lhe de certo o vêr-se + tão mal arranjada.<br /> <br /> Eu retirei-me da janella soltando um + suspiro, e balbuciei:<br /> <br /> --É justo!... Cada qual segundo as + suas posses.»<br /> <br /> Por esse tempo, entrei em relações + com o meu visinho sapateiro.<br /> <br /> O honrado homem soubera, que eu me + queixara da bulha, que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra + a primeira occasião, para me pedir desculpa.<br /> <br /> Vendo-me + conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de + nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem grave + risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.<br /> + <br /> Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze + annos, com quem sympathisei logo á primeira vista.<br /> <br /> + Chama-se Maria.<br /> <br /> Por um d'estes acasos da Providencia, que + parece <span class="pagenum">[95]</span> ás vezes comprazer-se em + crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.<br /> + <br /> Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do + sapateiro, fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou.<br /> + <br /> E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança, + porque havia verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: + «Esta é a minha Maria!»<br /> <br /> E tinha razão!<br /> + <br /> Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo + era.<br /> <br /> --É quem vale á mãe!...--accrescentou + o velho.»--Ali, onde a vê, faz o serviço d'uma + mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve doente--bem pensei + que não arribasse!--a pequena era quem cosinhava e olhava pelos irmãos!... + E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella pequena esteve tres dias + sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi preciso eu + obrigal-a, que ella não a queria deixar!...»<br /> <br /> E o + desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que, havia + muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.<br /> <br /> + Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a + cabeça coberta por um lenço branco.<br /> <br /> Desde que o + pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca + mais passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias + á pequena.<br /> <br /> Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a + Mariquitas, com uma boneca deitada nos joelhos.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[96]</span> --Eu conheço aquella boneca!...--disse + eu de mim para mim.<br /> <br /> E, não podendo resistir á + curiosidade, bradei:<br /> <br /> --Ó Maricas!... Quem te deu a + boneca?...<br /> <br /> Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, + córando de prazer.<br /> <br /> Era escusado dizer-m'o.<br /> <br /> + Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não + podia duvidar... Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez + mais visivel na fronte.<br /> <br /> De tempos a tempos, nas raras horas de + descanço, Maria entretinha-se com ella.<br /> <br /> --Quem te viu e + quem te vê!...--pensava eu.<br /> <br /> Ás vezes, se Maria se + descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que tratos que sofria a + desgraçada!<br /> <br /> Roçada por aquellas mãos, de + que um carvoeiro se envergonharia, empregada como pella, submettida a + torturas, era, ainda assim, singularissimo o aspecto da triste!<br /> <br /> + Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a + fraternisar com o povo.<br /> <br /> A misera mudára mais uma vez de + nome!...<br /> <br /> De sr.<sup>a</sup> D. Anna passara a ser sr.<sup>a</sup> + Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê.<br /> <br /> Trajava vestido de + chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça.<br /> + <br /> Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava + com a boneca.<br /> <br /> Esta, umas vezes, representava o papel de mulher + casada, e Maria, encarregando-se de perguntar e responder por ella, + obrigava a pobre boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por + haver <span class="pagenum">[97]</span> falta de trabalho, por ter os + filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que mais familiares eram + á pequena.<br /> <br /> Outra vezes passava a boneca a ser creada de + servir. Reprehendiam-n'a, mandavam-n'a buscar agua á fonte, + pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a despedir.<br /> <br /> + Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára + de ser feliz.<br /> <br /> Iam longe os bons tempos em que ella, rica, + morava no palacio visinho!<br /> <br /> Desmaiada de côres, quasi + perdido o cabello, semi-apagados os olhos, desfeito o carmim dos labios, a + boneca não promettia longa duração.<br /> <br /> Foi + este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi, tentando em + vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera.<br /> + <br /> Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!<br /> <br /> Um + dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, + espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem + mil immundicies.<br /> <br /> Eu estava á porta de casa, esperando + que a chuva cessasse, e olhava melancolicamente para a agua negra, que + corria. Nisto ouvi um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei + machinalmente o rosto... Um objecto, arremessado de dentro da loja, + atravessou o espaço voando, e foi cair no leito do enxurro...<br /> + <br /> Olhei... Era a boneca!...<br /> <br /> A misera, arrastada pela agua, + vogou rua abaixo até esbarrar n'uma pedra; mas o redemoinho + envolveu-a, <span class="pagenum">[98]</span> e, depois de a fazer girar + tres ou quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado + entre a pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até + ir sumir-se nas profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na + passagem!<br /> <br /> Será pieguice, será o que o leitor + quizer; mas, confesso-lhe, que me impressionou o fim da pobre boneca.<br /> + <br /> Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á + vidraça do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:<br /> + <br /> --Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!?<br /> <br /> --Não + fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...<br /> + <br /> --E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?...<br /> <br /> + --Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e + feia!...<br /> <br /> Curvei a cabeça ante aquella razão, e + segui o meu caminho.<br /> <br /> Pobre boneca!<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c29" id="c29"></a>Inconveniente da riqueza + </h3> + <br /> Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi + surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado + para outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já + todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas, + tudo estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do + mangual com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. + Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma + quinta, e bateu á porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.<br /> + <br /> --Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta + noite? Não se havia de arrepender.»<br /> <br /> E + accrescentou:<br /> <br /> --Visto que já todos estão + deitados, para que é que você está ainda a trabalhar?»<br /> + <br /> --Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser + perseguido por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã + o que lhe devo, portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo + que colhi, para o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto + não nos fica nada, <span class="pagenum">[100]</span> e não + sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus quizer!»<br /> + <br /> Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão + pelos olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e + disse-lhe:<br /> <br /> --«Não desanimes. Quando te pedi + hospitalidade, disse-te que não te havias d'arrepender de m'a ter + dado. Vou provar-t'o.»<br /> <br /> Pegou na candeia, que estava + suspensa n'uma das traves do celleiro, e approximou-a do trigo.<br /> <br /> + --Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a + tudo!»<br /> <br /> Mas no mesmo instante, da palha, que elles + receiavam ver inflammar-se, de cada espiga, desceu uma chuva de grãos + prodigiosa. Á vista d'um tal milagre os camponezes maravilhados + cairam de joelhos.<br /> <br /> --Visto que foste caritativo, disse Jesus, + visto que recebeste na tua pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como + um pobre mendigo, serás recompensado. Foi Deus que entrou na tua + fazenda, é Deus que te enriquece.»<br /> <br /> Dito isto + desappareceu.<br /> <br /> E a chuva dos grãos não parou em + toda a noite, e fez um monte tão alto como a egreja.<br /> <br /> O + camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella + casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e seus + filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que se + arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, ninguem + os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera + enormemente, entrou <span class="pagenum">[101]</span> no celleiro, e, + recordando-se do milagre que o enriquecêra, imaginou que tambem elle + o poderia fazer. Agarrou na candeia, approximou-a d'um feixe de palha, + communicou-se o fogo, ardeu a casa e tudo o que lhe restava, e passado + tempo morreu na miseria mais absoluta.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c30" id="c30"></a>Querer é poder + </h3> + <br /> --Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver + por experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é + verdadeira.<br /> <br /> Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador + d'uma grande cidade.<br /> <br /> --Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos + que vivo tranquillo e solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo + disse-me muitas vezes--<em>Quem procura sempre encontra</em>, e <em>quem + porfia mata caça</em>. Tomei uma grande resolução. + Quero casar com a filha do rei.<br /> <br /> O governador mandou-o embora, + imaginando que era um doido.<br /> <br /> O rapaz voltou no dia seguinte, no + outro e no outro, e assim durante uma semana, sempre com a mesma vontade + inabalavel, até que o rei ouviu fallar o rapaz da sua louca pretensão. + Surprehendido com uma idéa tão extravagante, e, querendo + divertir-se, disse-lhe o rei:<br /> <br /> --Que um homem distincto pela + gerarchia, pela coragem, pela sciencia, pensasse em casar com uma + princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são os teus titulos? + Para seres o marido <span class="pagenum">[103]</span> de minha filha + é necessario que te distingas por alguma qualidade especial ou por + um acto de valor extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um + diamante d'um valor incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a + mão de minha filha.<br /> <br /> O rapaz, contente com esta promessa, + foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manhã começava + a tirar agua com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois de ter + assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a resar.<br /> <br /> Os + peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que + chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.<br /> <br /> --Que quer + este homem? perguntou o rei dos peixes.»<br /> <br /> --Encontrar um + diamante que caiu ao rio.»<br /> <br /> --Então, respondeu o + velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque vejo qual + é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar as + ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.»<br /> <br /> Os + peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha do + rei.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c31" id="c31"></a>Qual será rei? + </h3> + <br /> Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o + successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia + pertencer, não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais + digno.<br /> <br /> Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse + posto de pé contra um muro, e que o principe que acertasse melhor + com uma flecha n'aquelle alvo, seria o escolhido para successor.<br /> + <br /> Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou + durante muito tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do + defuncto. O principe soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos + atirariam peór, e que por conseguinte seria elle quem viria a + reinar.<br /> <br /> O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um + grito ainda mais alegre do que o outro principe.<br /> <br /> O terceiro + varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho + quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar + melhor.<br /> <br /> Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe + metter nas mãos as flechas e o arco: mas, <span class="pagenum">[105]</span> + desde que olhou para o alvo, arrojou as armas longe de si, e desatou a + chorar:<br /> <br /> --«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, + como poderei eu jámais consolar-me de ver o teu corpo crivado de + flechas pela mão de teus proprios filhos!»<br /> <br /> Os + grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais + digno.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c32" id="c32"></a>Os tres véos de Maria + </h3> + <br /> O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a + neve. Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma + grinalda de flores de seda tão bem imitadas, que as abelhas, + illudidas, vinham pousar-lhe em cima.<br /> <br /> Este véo branco só + o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão.<br /> <br /> O + segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo + dia em que sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha, + sem amparo, na casa triste e abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, + como as dos sepulchros de marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o + orvalhado com todas as suas lagrimas.<br /> <br /> O véo negro só + o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de Jesus no convento da + Ave-Maria.<br /> <br /> O terceiro véo era feito d'um retalho do azul + celeste, bordado d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.<br /> + <br /> Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella + entrou no paraizo.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c33" id="c33"></a>Os pequenos no bosque + </h3> + <br /> Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos + outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: + «Vamos para o bosque que encontremos lá toda a especie de + lindos bichinhos, que não fazem outra cousa senão brincar, e + nós brincaremos com elles.»<br /> <br /> Foram logo, e passaram + sem fazer caso ao pé da activa formiga e da abelha diligente. Mas o + besoiro, que elles convidaram a vir patuscar, disse-lhes:<br /> <br /> + --Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a + outra já não está solida.»<br /> <br /> --Eu, + disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.»<br /> + <br /> --Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu + ninho.»<br /> <br /> --Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir + divertir com vocês, mas ainda hoje não lavei o meu focinho. + Antes de mais nada, tenho que fazer a minha <em>toilette</em>.»<br /> + <br /> E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, <span + class="pagenum">[108]</span> que passas o tempo a saltar e a tagarellar, + tambem não queres brincar comnosco?»<br /> <br /> --Estes + pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então + imaginam que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não + descanço nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos + animaes, ás colinas, aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho + que apagar os incendios, tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as + serralherias. Nem hoje acabára, se lhes quizesse contar o que tenho + que fazer. Não posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou com + muita pressa.»<br /> <br /> Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a + olhar para o ar, e viram um pintasilgo, em cima d'um ramo.<br /> <br /> + --Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?»<br /> + <br /> --Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o + pintasilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além + d'isso que tomar parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o + operario com o meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com + uma outra cantiga, que á noite e de madrugada celebre a bondade do + Creador. Ide-vos embora, preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e + não tornem a vir incommodar os habitantes das florestas, que cada + um tem a sua tarefa a desempenhar.»<br /> <br /> Os pequenos + aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só + é ligitimo, quando é a recompensa do trabalho.<br /> <br /> + <br /> <br /> + <h3> + <a name="c34" id="c34"></a>O chapellinho encarnado + </h3> + <br /> Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem + sua mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, + que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, + deu-lhe um dia um chapéo de veludo vermelho. A pequenita andava tão + contente com o seu chapéo novo, que já não queria pôr + outro, e começaram a chamar-lhe a menina do chapellinho encarnado.<br /> + <br /> A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma + floresta de meia legua de comprido. Uma manhã a mãe disse + à pequenita:<br /> <br /> --Tua avó está doente, e não + pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae levar-lh os tu com + esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a garrafa, não + andes a correr, vae devagarinho e volta logo.»<br /> <br /> --Sim, mamã, + respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.»<br /> <br /> Atou o + seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se a + caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita, que + nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[110]</span> --Bons dias, chapellinho encarnado.»<br /> + <br /> --Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»<br /> + <br /> --Onde vaes tão cedo?»<br /> <br /> --A casa da minha avó + que está doente.»<br /> <br /> --E levas-lhe alguma cousa?»<br /> + <br /> --Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para + lhe dar forças.»<br /> <br /> Dize-me onde mora a tua, avó, + que tambem a quero ir ver.»<br /> <br /> --É perto, aqui no fim + da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito grandes, e no jardim ha + muitas nozes.»<br /> <br /> --Ah! tu é que és uma bella + noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava de te comer.» Depois + continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e que lindos + passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que + quantidade de plantas medicinaes que se encontram!»<br /> <br /> --O + senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita, + visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma + que fizesse bem a minha avó.»<br /> <br /> --Com certeza, minha + filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e aquella.» Mas + todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas venenosas. A pobre + creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.<br /> + <br /> --Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. + Com grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»<br /> + <br /> E poz-se a correr em direcção da casa da avó, + emquanto que a pequerrucha se entretinha em apanhar as plantas que elle + tinha indicado.<br /> <br /> <span class="pagenum">[111]</span> Quando o + lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a avó + não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?»<br /> + <br /> --É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz + da pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»<br /> + <br /> --Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás + a chave.»<br /> <br /> Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma + bocada a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ella costumava + usar, deitou-se na cama.<br /> <br /> Pouco depois entrou a pequenita, + assustada e admirada d'encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado + com que a avó a costumava ter fechada.<br /> <br /> O lobo tinha + posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do focinho, + mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.<br /> <br /> --Ai! avósinha, + disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»<br /> + <br /> --É para te ouvir melhor, minha filha.»<br /> <br /> --E + porque estás com uns olhos tão grandes?»<br /> <br /> --É + para te vêr melhor.»<br /> <br /> --E para que estás com + os braços tão grandes?»<br /> <br /> --É para te + poder abraçar melhor.»<br /> <br /> --E Jesus! para que tens + hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão agudos?»<br /> + <br /> --É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo + arremessou-se á pobre pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, + adormeceu, e começou a resonar muito alto. Um caçador que + passava por acaso, perto da casa, e que ouviu aquelle barulho, disse + comsigo: A pobre velha está com um pesadelo, <span class="pagenum">[112]</span> + está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, + e vê o lobo estendido na cama.<br /> <br /> --Olá, meu menino, + diz elle: ha muito tempo que te procuro.»<br /> <br /> Armou a sua + espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a + dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o animal + com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a + barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e saltou para o chão, + gritando:<br /> <br /> --Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!<br /> + <br /> A avó saiu também contentissima por ver outra vez a + luz do dia.<br /> <br /> O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador + metteu-lhe então duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e + escondeu-se com a avó e a neta para verem o que se ia passar.<br /> + <br /> Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, + levantou-se para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na + outra, e não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu + no lago, e affogou-se.<br /> <br /> O caçador tirou-lhe a pelle, + comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha e a sua neta. A velha + sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado prometteu não + tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o prohibisse.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c35" id="c35"></a>Os cinco sonhos + </h3> + <br /> Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva + numerosa, perseguiu um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma, + que, apesar da ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a + pista. Foi só então que viu que estava só, tendo a + sua côrte ficado muito para traz; sentindo-se fatigado, entrou ao + cair da noite n'uma choupana solitaria no meio da floresta. Em roda da + lareira estavam deitados quatro ladrões. Os salteadores + levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da entrada do viajante; + cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe quizeram logo contar.<br /> + <br /> O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:<br /> + <br /> --No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que + acaba de entrar aqui, e punha-o na minha cabeça.»<br /> <br /> + --Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»<br /> + <br /> --E eu que estava pondo o seu manto.»<br /> <br /> --E eu, disse + o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do meu pescoço + aquella <span class="pagenum">[114]</span> pesada cadeia d'ouro, da qual + está pendurada a sua trompa de caça.»<br /> <br /> + --Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar + tudo, e mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, + e que toda e qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço + senão uma cousa, é que me deixem tocar pela ultima vez na + minha trompa de caça.»<br /> <br /> Os salteadores responderam + que consentiam, visto que o ultimo pedido d'um moribundo deve ser + respeitado.<br /> <br /> Carlos Magno levou á boca a sua magnifica + trompa de marfim, e tirou d'ella sons tão fortes e sonoros, que em + menos d'alguns minutos todos os seus companheiros de caça e a sua + comitiva estavam ao pé d'elle.<br /> <br /> --Agora, disse o + imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem eu devo contar o + sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser enforcados diante + d'este casebre.»<br /> <br /> E o sonho realisou-se immediatamente.<br /> + <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c36" id="c36"></a>A egreja do rei + </h3> + <br /> Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra + da Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para + a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se + concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do + marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só + elle, e mais ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na + noite seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e + substituido por o d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte + tornou a mandar pôr o seu nome na inscripção, e de + novo foi substituido pelo da pobre mulher; á terceira vez succedeu + o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou então que lhe trouxessem a + mulher á sua presença:<br /> <br /> --Prohibi a todos os meus + vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem fosse com o que fosse para a + edificação d'esta egreja; vejo que não cumpriste as + minhas ordens.»<br /> <br /> --«Senhor, respondeu a velhinha + toda tremula, eu respeitei as vossas ordens, apesar da magua <span + class="pagenum">[116]</span> que sentia por não poder offerecer o + meu pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer + a vossa magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de + feno, que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras + destinadas à construcção da egreja.»<br /> <br /> + --«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras + d'ouro na inscripção do monumento, disse-lha o rei.»<br /> + <br /> Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na + lapide da egreja o nome do rei, que desde então lá se + conserva ainda.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c37" id="c37"></a>O valente soldado de chumbo + </h3> + <br /> Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, + por todos terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que + attitude marcial, d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes + azues e vermelhos! A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se + levantou a tampa da caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha + soldados de chumbo!» que soltou um rapazito, batendo as palmas + d'alegria. Tinham-lh'os dado de presente no dia dos annos, e o seu + divertimento era formal-os sobre a mesa, em linha de batalha. Todos os + soldados se pareciam maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que + tinha uma perna de menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo + lugar, e já não havia chumbo sufficiente. Apesar d'este + defeito, os outros não estavam mais firmes nas duas pernas do que + elle na sua unica, e é este o que precisamente nos interessa.<br /> + <br /> Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil + outros brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello + de papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe <span class="pagenum">[118]</span> + o interior dos salões. Á volta era circumdado d'uma floresta + em miniatura, que se reflectia poeticamente n'um pedaço d'espelho + que fingia um lago, onde nadavam pequeninos cysnes de cêra. Tudo + isto era encantador, mas não tanto como uma menina que estava + á porta, e que era tambem de papel, vestida com um lindo vestido de + cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina tinha os braços + arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha levantada a + tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e imaginou + que, como elle, não tinha senão uma perna.<br /> <br /> --Ali + está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma + grande fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e + quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No + entantanto preciso conhecel-a.»<br /> <br /> Deitou-se atraz d'uma + caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a elegante dançarina, + que estava sempre n'um pé só, sem perder o equilibrio.<br /> + <br /> Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e + as pessoas da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, + começaram a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. + Os soldados de chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque + queriam lá ir; mas como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes + começou a dar cabriolas e saltos mortaes, o lapis traçou mil + arabescos phantasticos n'uma louza, emfim o barulho tornou-se tal que o + canario accordou, e poz-se a cantar. Os unicos que <span class="pagenum">[119]</span> + estavam quietos eram o soldado de chumbo e a dançarinasinha. Ella + no bico do pé, e elle n'uma perna só, a espreital-a.<br /> + <br /> Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé + levanta-se, e em lugar de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era + um brinquedo de surpreza.<br /> <br /> --Soldado de chumbo, disse o + feiticeiro, trata de olhar para outro sitio.»<br /> <br /> Mas o + soldado fez que não ouvia.<br /> <br /> --Espera até ámanhã, + e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»<br /> + <br /> No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado + de chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro + ou por causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que + tombo! Ficou com a perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e + com a bayoneta enterrada entre duas lages.<br /> <br /> A creada e o + rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a + esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!» + tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A + chuva começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro + diluvio. Depois do aguaceiro passaram dois garotos.<br /> <br /> --Olà! + disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o navegar.»<br /> + <br /> Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado + de chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois + garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus! + Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco + jogava <span class="pagenum">[120]</span> d'uma maneira horrorosa, mas o + soldado de chumbo conservava-se impassivel, com os olhos fixos e a + espingarda ao hombro.<br /> <br /> De repente o barco foi levado para um + cano, onde era tão grande a escuridão como na caixa dos + soldados.<br /> <br /> --Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do + feiticeiro que me metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella + linda menina estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão + fosse duas vezes maior.»<br /> <br /> D'ali a pouco apresentou-se um + enorme rato d'agua; era um habitante do cano.<br /> <br /> --Venha o teu + passaporte.»<br /> <br /> Mas o soldado de chumbo não disse + nada, e agarrou com mais força na espingarda. O barco continuava o + seu caminho, e o rato perseguia-o, rangendo os dentes, e gritando ás + palhas, e aos cavacos:--Façam-n'o parar, façam-n'o parar! Não + pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»<br /> <br /> Mas a + corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e + sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente. + Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para + elle, como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella + cada vez mais, sem poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se + sobre a queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e + ninguem se atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o + susto.<br /> <br /> O barco, depois de ter andado á roda durante + muito tempo, encheu-se d'agua, e estava a ponto <span class="pagenum">[121]</span> + de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do soldado, e o + barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a agua passou por + cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo, pensou na + gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:<br /> + <br /> --Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»<br /> + <br /> O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento + foi devorado por um grande peixe.<br /> <br /> Lá é que era + escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que talas em + que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado estendeu-se ao + comprido com a espingarda ao hombro.<br /> <br /> O peixe mexia-se e + remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim parou, e + pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia, e alguem + exclamou:<br /> <br /> --Olha um soldado de chumbo!»<br /> <br /> O + peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para + a cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no + soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a gente + quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na barriga d'um + peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso. + Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto é verdade que + acontecem cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de + cuja janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que + estavam em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina + sempre <span class="pagenum">[122]</span> de perna no ar. O soldado de + chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria derramado + lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella, ella + olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro.<br /> + <br /> De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o + no fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.<br /> + <br /> O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um + clarão sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres + lhe tinham desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das + suas viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a + dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, + sempre intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se + uma porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão + para junto do soldado, que desappareceu no meio das lavaredas. O soldado + de chumbo, já não era mais que uma pequena massa informe.<br /> + <br /> No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um + objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e + tudo o que restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o + lume tinha ennegrecido.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c38" id="c38"></a>João Pateta + </h3> + <br /> João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco + simplorio. A gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João + Pateta. Um dia sua mãe mandou-o á feira comprar uma foice. + Á volta, começou a andar com a foice á roda, de + maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.<br /> <br /> + --Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr + a foice em um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.»<br /> + <br /> --Perdão, mãe, respondeu humildemente João, + para a outra vez serei mais esperto.»<br /> <br /> Na semana seguinte + mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que as não + perdesse.<br /> <br /> --Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.»<br /> + <br /> --Então, João, onde estão as agulhas?»<br /> + <br /> --Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as + comprei, ia a passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá + as agulhas, não podem estar em sitio melhor.»<br /> <br /> --De + certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de + as tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.»<br /> + <br /> <span class="pagenum">[124]</span> --Perdão, respondeu João, + para a outra vez, heide ser mais esperto.»<br /> <br /> Na outra + semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar uma + pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz + a manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. + Imagine-se o estado em que voltou para casa, com a cara a escorrer + manteiga derretida.<br /> <br /> A mãe já tinha medo de o + mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia resolveu-se a mandal-o + á feira vender duas gallinhas.<br /> <br /> --Ouve bem, não + vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam outro.»<br /> + <br /> --Está entendido, respondeu João.»<br /> <br /> + Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.<br /> <br /> --Queres seis + tostões por essas gallinhas?»<br /> <br /> --Ora adeus! minha mãe + recommendou-me, que não acceitasse o primeiro preço, mas que + esperasse o segundo.»<br /> <br /> --E tens muita rasão. Dou-te + um cruzado.»<br /> <br /> --Está bem. Parece-me que tinha feito + melhor em acceitar o primeiro, mas, como cumpro as ordens de minha mãe, + ella não tem que me ralhar.»<br /> <br /> Depois d'isto, João + foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que mangavam com + elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma experiencia, e + disse-lhe:<br /> <br /> --Vae vender este carneiro á feira. Mas não + te deixes enganar. Não o entregues senão a quem te der o preço + mais elevado.»<br /> <br /> --Está bem, agora entendo, e sei o + que hei de fazer.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[125]</span> + --Quanto queres por esse carneiro?<br /> <br /> --Minha mãe disse-me + que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.<br /> + <br /> --Quatro mil réis?»<br /> <br /> --É o preço + mais elevado?»<br /> <br /> --Pouco mais ou menos.»<br /> <br /> + --É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára + a uma escada.<br /> <br /> --Quanto?»<br /> <br /> --Dez tostões:»<br /> + <br /> --É menos, respondeu timidamente o João.»<br /> + <br /> --Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a + feira não ha um preço mais elevado.»<br /> <br /> --Tem + rasão. É seu o carneiro.»<br /> <br /> Desde esse dia o + João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou + comprar cousa alguma.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c39" id="c39"></a>Branca de Neve + </h3> + <br /> Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. + Um dia d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de + vez em quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão, + distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.<br /> <br /> + --Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão + vermelhos como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns + cabellos negros como este ébano.»<br /> <br /> Algum tempo + depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha, que + tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão + branco, que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe + não gozou muito tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a + casar com uma mulher d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos + extraordinario. Era tão formosa que se considerava a mulher mais + perfeita do universo. Algumas vezes fechava-se no seu quarto, e + collocando-se diante d'um espelho magico dizia-lhe:<br /> <br /> --Meu fiel + espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no mundo?»<br /> + <br /> --És tu, respondia o espelho.»<br /> <br /> <span + class="pagenum">[127]</span> No entanto Branca de Neve crescia, e de dia + para dia se tornava mais formosa. Tinha apenas sete annos, e já + ninguem a podia ver sem ficar maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, + sentando-se diante do seu espelho, disse-lhe:<br /> <br /> --Meu fiel + espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no mundo?»<br /> + <br /> --Não és tu, não és tu. Branca de Neve + é mais linda.»<br /> <br /> A estas palavras a orgulhosa rainha + sentiu no coração uma dôr aguda, como uma punhalada, e + ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela innocente Branca. Não + podia socegar nem de dia, nem de noite. Para satisfazer o seu odio, chamou + um creado, e disse-lhe:<br /> <br /> --Quero quo Branca desappareça. + Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me provar que as minhas + ordens foram executadas pontualmente, traze-me o coração.»<br /> + <br /> O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e + dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança + chorava e lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella + não tinha feito mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido + com aquellas lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, + pensando que se as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas + sim da rainha. Assim fez, e para mostrar o coração de Branca + á rainha, matou um cabrito, e tirou-lhe o coração. A + rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou contentissima, e disse + comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma mulher no mundo é tão + bella como eu.<br /> <br /> <span class="pagenum">[128]</span> A pobre + Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava cheia + de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e + andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez + tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, + o deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.<br /> + <br /> Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina. + Estava morta de fome e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito + arranjado e muito limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta + com uma toalha de brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete + garrafas pequenas, e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. + Branca comeu um pouco do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de + cada copo, deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.<br /> <br /> + Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros pequeninos, + cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo que tinham + gente em casa. Um d'elles disse:<br /> <br /> --Quem comeu o meu pão?»<br /> + <br /> E os outros successivamente:<br /> <br /> --Quem pegou no meu garfo?»<br /> + <br /> --Quem comeu o meu caldo?»<br /> <br /> --Quem bebeu o meu + vinho?»<br /> <br /> E emfim um d'elles:<br /> <br /> --Quem está + ahi deitado na minha cama?»<br /> <br /> Reuniram-se todos á + roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz das lanternas + viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente, <span + class="pagenum">[129]</span> e affastaram-se sem fazer bulha, para a não + accordar. Branca no dia seguinte de manhã ficou um pouco assustada, + quando viu perto de si aquelles sete anões das montanhas. Mas elles + disseram-lhe com brandura, que não tivesse medo, e perguntaram-lhe + d'onde vinha, e como se chamava. Branca contou a sua triste historia, e os + anões disseram-lhe:<br /> <br /> --Queres tu ficar comnosco, para + tomar conta da nossa casa?»<br /> <br /> --Da melhor vontade, + respondeu Branca, completamente socegada.»<br /> <br /> Começou + logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias. + Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as + minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.<br /> + <br /> Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já + não tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu + espelho, e disse-lhe:<br /> <br /> --Meu fiel espelho, não é + verdade que eu sou agora a mulher mais linda que ha no mundo?»<br /> + <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> --Sim, nos teus palacios e nos + teus castellos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca + é mais linda do que tu.»<br /> <br /> Ouvindo esta resposta a + orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, e determinou tornar a + fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que modo? Uma manhã + partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto cheio + d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu + á <span class="pagenum">[130]</span> porta da casinha, gritando: + «Quem quer comprar bonitas joias?»<br /> <br /> Os anões + tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras estranhas, + receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser prudente. + Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no cesto, + esqueceu-se das suas promessas.<br /> <br /> --Veja este rico collar, minha + menina, eu mesmo lh'o vou por ao pescoço.»<br /> <br /> Branca + consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os anões + voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente + inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas + gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si + pouco a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.<br /> + <br /> --Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira + não era outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma + cautella, não deixes entrar aqui ninguem, quando não + estivermos em casa.»<br /> <br /> Ao entrar no seu palacio toda + contente, collocou-se a rainha diante do espelho, e disse-lhe:<br /> <br /> + --Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no + mundo? Responde.<br /> <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> --És + tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está + nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»<br /> + <br /> A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a + infeliz Branca. Tornou-se <span class="pagenum">[131]</span> a disfarçar + em vendedeira. Chegou ás sete montanhas, e bateu á porta da + cabana.<br /> <br /> --Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á + janella, e respondeu:<br /> <br /> --Vá-se embora, aqui não + entra ninguem.»<br /> <br /> --Tanto peor para si, respondeu a + malvada, olhe este pente d'ouro. Já viu outro tão bonito?»<br /> + <br /> Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. + Abriu a porta.<br /> <br /> --Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o + na cabeça.»<br /> <br /> Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça + o pente, que estava envenenado, e Branca caiu morta.<br /> <br /> Á + noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria. + Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e + tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.<br /> <br /> No entanto a + cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio. Apenas chegou, foi + direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que o espelho respondeu + como antecedentemente.<br /> <br /> --Ah! é preciso que ella morra, + ainda que para isso eu tenha de me sacrificar.<br /> <br /> Vestiu-se de + camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que + estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.»<br /> + <br /> --Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?»<br /> <br /> + --Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar + ninguem, nem compro coisa alguma.»<br /> <br /> --Está bem, não + faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão + bonita, quero dar-lhe uma.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[132]</span> + --Obrigada, não posso acceitar.»<br /> <br /> --Imagina que está + envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa que é! + Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora mordia + no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca + deixou-se tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu + fulminada.<br /> <br /> --Ahi tens, para castigo da tua formosura.»<br /> + <br /> Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e + perguntou-lhe:<br /> <br /> --Meu fiel espelho, quem é agora a mulher + mais linda?»<br /> <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> --És + tu, és tu.»<br /> <br /> --Até que emfim!»<br /> + <br /> Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado + reanimal-a com o licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. + Branca continuava fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e + os passarinhos da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não + podiam acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão + tranquillo, as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. + Não quizeram enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de + cristal, e escreveram em cima. «Aqui jaz a filha d'um rei;» + puzeram o caixão n'uma das sete montanhas, e um d'elles devia estar + de guarda constantemente. Branca conservou-se assim durante muitos annos, + sem que se notasse no seu rosto a mais pequena alteração.<br /> + <br /> Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar + á caça, viu o caixão, e pediu aos anões que + lh'o cedessem, fosse por preço que fosse.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[133]</span> --Somos muito ricos, e por nada d'este mundo + venderemos este caixão, que é o nosso thesouro.»<br /> + <br /> --Então dêem-m'o, já não posso viver sem + contemplar este rosto de mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu + palacio. Peco-lhes que me façam isto.»<br /> <br /> Os anões, + commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para o + levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu + um balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, + que Branca não tinha engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo + os olhos, e resuscitou. O joven principe levou-a para o seu castello, e + casou com ella. O casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou + todos os reis e rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha + inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia + attrair todos os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:<br /> + <br /> --Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?»<br /> + <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> --Branca é mais formosa que + tu.<br /> <br /> A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que + os seus crimes fossem descobertos, que morreu de repente.<br /> <br /> + Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de princesa + não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus + bemfeitores.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c40" id="c40"></a>A rapariguinha e os phosphoros + </h3> + <br /> <br /> Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo + de dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão + passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e + os pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao + sair de casa, mas tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes + sapatos, que sua mãe já tinha usado, tão grandes, que + a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua a correr, entre duas carruagens. + Um dos sapatos perdeu-o realmente; quanto ao outro fugiu-lhe com elle um + garotito, com a intenção de fazer d'elle um terço + para o seu primeiro filho.<br /> <br /> A pequenita caminhava com os pésinhos + nús, arroxeados pelo frio; tinha no seu velho avental uma grande + quantidade de phosphoros, e levava na mão um masso d'elles. O dia + correra-lhe mal; não tinha havido compradores, e por isso não + apurára cinco réis.<br /> <br /> Pobre pequerrucha! que frio e + que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos longor cabellos loiros, + adoravelmente annelados em volta do pescoço; <span class="pagenum">[135]</span> + mas pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?<br /> <br /> As + luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos manjares; + era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.<br /> <br /> + Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada vez + mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia, + porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em + sua casa fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que + o vento atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As + suas mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como + um phosphorosinho acceso lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um + unico, e accendendo-o aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! + como estoirou! como ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena + lamparina. Que luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um + enorme brazeiro de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão + suavemente, que era um regalo.<br /> <br /> A pequerrucha ia já a + estender os pésitos para os aquecer tambem, quando a chamma se + apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma pontita + de phosphoro consumido.<br /> <br /> Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, + que brilhou, e o muro onde bateu a sua chamma tornou-se transparente como + vidro. Olhando atravez d'esse muro, a pequerrucha viu uma sala com uma + meza cobertta de uma toalha alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e + sobre a qual uma gallinha assada com recheio de ameixas e de batatas <span + class="pagenum">[136]</span> fumegava exhalando um perfume delicioso. Oh + surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do prato, e caíu + no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca espetada + no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de si a parede + fria e tenebrosa.<br /> <br /> Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se + immediatamente sentada debaixo de uma magnifica arvore do Natal; era ainda + mais rica e maior do que a que tinha visto no anno passado atravez dos + vidros de um armazem sumptuoso.<br /> <br /> Nos ramos verdes brilhavam + centenares de balões accesos, e as estampas coloridas, como as que + ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. Quando ia agarral-as + com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os balões da + arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que + se tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no + ceo um longo rasto de fogo.<br /> <br /> --É alguém que está + a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que lhe queria + tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando + cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.»<br /> <br /> Accendeu + ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe appareceu + sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo.<br /> <br /> + --Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te + vaes embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a + panella de ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.<br /> <br /> + Accendeu o rosto do masso, porque não queria <span class="pagenum">[137]</span> + que sua avó lhe fugisse, e os phosphoros espalharam um clarão + mais vivo que a luz do dia. Nunca sua avó tinha sido tão + formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas alegres, no meio d'este + deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que já + não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao + Paraiso.<br /> <br /> Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram + a pequerrucha, entre os dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o + sorriso nos labios... morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia + de Anno Bom veiu alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus + phosphoros, a que faltava um masso, que tinha ardido quasi + inteiramente.--Quiz aquecer-se, disse um homem que passou.» E + ninguem soube nunca as lindas coisas que ella tinha visto, e no meio de + que esplendor tinha entrado com a sua velha avó no dia do Anno + Novo.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c41" id="c41"></a>O primeiro peccado de Margarida + </h3> + <br /> <br /> Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, + porque Deus tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo + no mundo lhe póde acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um + d'estes dias para o paraiso.»<br /> <br /> Margarida era uma virgem + candida, matinal como a aurora, fresca como ella; todos os dias ao acordar + resava as orações, que sua mãe lhe tinha ensinado, e + vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha joias + preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.<br /> <br /> Depois + d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.<br /> <br /> E, ao + mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção + d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e + que podia sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.<br /> + <br /> N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de + casa fiando linho, á hora em que as estrellas começam a + apparecer, uma a uma no firmamento.<br /> <br /> Estava Margarida cantando a + sua canção, quando <span class="pagenum">[139]</span> passou + por alli uma das suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com + um vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus + brincos e o collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão + para que visse bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a + rir, toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o + que inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.<br /> <br /> O fio de linho já + não passava tão rapidamente entre os dedos de Margarida, a + roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das mãos.<br /> + <br /> Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de + si um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de + velludo preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro + saudou-a respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, + perguntou-lhe:<br /> <br /> --Qual é o caminho da cidade?»<br /> + <br /> Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro + inclinando-se tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava + como uma estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello + do que o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então + com um sorriso estranho e diabolico.<br /> <br /> N'isto passou por ali um + mendigo coberto de farrapos, parou diante de Margarida, e pediu-lhe uma + esmola.<br /> <br /> Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre + desgraçado.<br /> <br /> O cavalleiro então, soltando um grito + de colera, ia lançar-se sobre Margarida, mas o mendigo--que <span + class="pagenum">[141]</span> era o seu anjo da guarda disfarçado--cobriu-a + com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que tinha vindo + para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.<br /> <br /> + <br /> <br /> + <h3> + <a name="c42" id="c42"></a>Um nome inscripto no céo + </h3> + <br /> Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde + cabana a pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não + vendo, nem ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; + viu então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:<br /> + <br /> --«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»<br /> + <br /> E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater + á mesma porta.<br /> <br /> --Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já + te disse que não tenho nada que te dar.»<br /> <br /> --Foi por + isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.<br /> <br /> E, + aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em cima + da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, + que lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.<br /> + <br /> --Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, + indo-se embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»<br /> + <br /> Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos + escrevel-o-hão no Paraizo, e mais tarde nós o viremos a + saber.<br /> <br /> <br /> <br /> + <h3> + <a name="c43" id="c43"></a>O linho + </h3> + <br /> O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais + delicadas e transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus + raios sobre elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, + como o d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.<br /> + <br /> --Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito + crescido, e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me + feliz. Não ha ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho + saude e um bello futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e + refresca-me. Sim, sou feliz, feliz a mais não poder ser!»<br /> + <br /> --Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não + conheces o mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.»<br /> + <br /> E rangendo lastimosamente, cantaram:<br /> <br /> + <div class="poetry"> + --Cric, crac! cric, crac! crac! <br /> --Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + </div> + <br /> --Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o + linho; está uma bella manhã, o sol resplandece, <span + class="pagenum">[143]</span> e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e + florir. Sou muitissimo feliz.»<br /> <br /> Mas um bello dia vieram + uns homens que agarraram no linho pela cabelleira, arrancaram-n'o com + raizes e tudo, e deram-lhe tratos de polé. Primeiro mergulharam-n'o + em agua, como se o quizessem afogal-o, e depois metteram-n'o no lume para + o assar. Que crueldade!<br /> <br /> --Não se póde ser mais + feliz, pensou o linho de si para si; é necessario soffrer, o + soffrimento é a mãe da experiencia.»<br /> <br /> Mas as + coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o, cardaram-n'o, e + elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois, puzeram-n'o n'uma roca, e + então perdeu a cabeça inteiramente.<br /> <br /> --Era feliz + de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas torturas; + devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.»<br /> <br /> + E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a metter no tear e + a transformal-o n'uma peça de panno.<br /> <br /> --Isto é + extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que grandes + tolas aquellas silvas quando cantavam:<br /> <br /> + <div class="poetry"> + Cric, crac! cric, crac! crac! <br /> Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + </div> + <br /> Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é + verdade, mas por isso tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão + forte, tão alto, tão macio! Ah! isto é bem melhor do + que ser planta, mesmo florida, ninguem trata da gente, e <span + class="pagenum">[144]</span> não bebemos outra agua a não + ser a da chuva. Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas + estendem-me todas as manhãs, e á noite tomo o meu banho com + um regador. A creada do sr. cura fez um discurso a meu respeito, e provou + perfeitamente que era eu a melhor peça da parochia. Não + posso ser mais feliz.»<br /> <br /> Levaram o panno para casa, e + entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e picaram-n'o com uma + agulha. Não era lá muito agradavel, mas em compensação + fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.<br /> <br /> --Agora + decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é + abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para + se viver em paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é + verdade, mas formamos um só grupo, uma duzia. Que incomparavel + felicidade!<br /> <br /> O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.<br /> + <br /> --Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas + não se fazem impossiveis.»<br /> <br /> E as camisas foram + reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era finalmente a sua + morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem adivinharem o + que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel branco + magnifico.<br /> <br /> --Oh que agradável surpreza! exclamou o + papel, agora sou muito mais fino do que d'antes, e vão cobrir-me de + letras. O que não escreverão em cima de mim! Tenho uma + fortuna maravilhosa!»<br /> <br /> E escreveram n'elle as mais bellas + historias, que foram lidas deante de numeros ouvintes, e os tornaram mais + sabios e melhores.<br /> <br /> <span class="pagenum">[145]</span> --Ora + aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, + quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que + ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei + explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe + perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha + sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á + maior gloria. Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, + acabou-se» tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto + mais risonho. Vou viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me + possam ler e instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas + azues; agora as minhas flores são os mais elevados pensamentos. + Sinto-me feliz, immensamente feliz!»<br /> <br /> Mas o papel não + foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá estava + escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, que + recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de papel + não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta + á roda do mundo. A meio caminho já estaria gasto.<br /> <br /> + --É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em + casa, e vou ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as + letras, as palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu + logar, e os livros vão por esse mundo fóra. A sua missão + é realmente bella, e eu estou contente, e julgo-me feliz.<br /> + <br /> O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.<br /> + <br /> --Depois do trabalho é agradável o descanço, + <span class="pagenum">[146]</span> pensou elle. É n'este isolamento + que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que + eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a + verdadeira perfeição. Que me irá ainda acontecer? + Progredir, está claro.»<br /> <br /> Passados tempos, o papel + foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o que o não + queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as creanças + da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também, + depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir, e + se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel foi + atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande chamma, que + se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra + as suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho + semilhante.<br /> <br /> Todas as letras, durante um segundo, se tornaram + vermelhas: todas as palavras, todas as idèas desappareceram em + linguas de fogo.<br /> <br /> --«Vou subir até ao sol;» + dizia uma voz no meio da lavareda, que pareciam mil vozes reunidas n'uma só. + A chamma saiu pela chaminé, e no meio d'ella volteavam pequeninos + seres invisiveis para os olhos do homem. Eram tantos quantos tinham sido + as flores que o linho tinha dado. Mais leves que a chamma, de quem eram + filhos, quando ella se extinguiu, quando não restava do papel senão + a cinza negra, ainda elles dançavam sobre essa cinza, e formavam, + tocando-a, pequeninas scentelhas encarnadas.<br /> <br /> As creanças + cantavam á roda da cinza inanimada:<br /> <br /> <span class="pagenum">[147]</span> + <div class="poetry"> + Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + </div> + <br /> Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não + se acabou; agora é que é o melhor da festa. Sei-o, e + julgo-me feliz.»<br /> <br /> As creanças não poderam + ouvir, nem comprehender estas palavras; mas tambem não era + necessario, porque as creanças não devem saber tudo.<br /> + <br /> + <h4> + FIM. + </h4> + <br /> <br /> <br /> + <h2> + INDICE + </h2> + <br /> + <table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + <tbody> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align: right;"> + Pag. + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A mãe + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c1">3</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O ouro + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c2">12</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Doçura e bondade + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c3">13</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O malmequer + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c4">14</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Não quero + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c5">20</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Piloto + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c6">21</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O rico e o pobre + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c7">23</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Como um camponez aprendeu o Padre Nosso + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c8">26</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O talisman + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c9">28</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A alma + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c10">30</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Alberto + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c11">31</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A canção da cerejeira + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c12">33</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Os gigantes da montanha e os anões da planície + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c13">35</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A creança, o anjo e flôr + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c14">37</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Presente por presente + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c15">41</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O pinheiro ambicioso + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c16">44</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Perfeição das obras de Deus + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c17">46</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + João e os seus camaradas + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c18">52</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O rabequista + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c19">60</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Os pecegos + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c20">62</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A urna das lagrimas + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c21">64</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Reconhecimento e ingratidão + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c22">65</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O fato novo do sultão + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c23">68</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Boa sentença + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c24">74</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Os animaes agradecidos + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c25">76</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O ermitão + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c26">83</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Carlos Magno e o abade de S. Gall + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c27">85</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A boneca + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c28">88</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Inconveniente de riqueza + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c29">99</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Querer é poder + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c30">102</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Qual será rei? + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c31">104</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Os três véos de Maria + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c32">106</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Os pequenos no bosque + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c33">107</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O chapellinho encarnado + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c34">109</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Os cinco sonhos + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c35">113</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A egreja do rei + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c36">115</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O valente soldado de chumbo + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c37">117</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + João Pateta + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c38">123</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Branca de Neve + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c39">126</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + A rapariguinha e os phosphoros + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c40">134</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O primeiro peccado de Margarida + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c41">138</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + Um nome inscripto no céo + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c42">141</a> + </td> + </tr> + <tr> + <td> + O linho + </td> + <td style="text-align: right;"> + <a href="#c43">142</a> + </td> + </tr> + </tbody> + </table> + <br /> <br /> <br /> [A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. + Luiz d'Andrade, residente no Rio de Janeiro.] + </div> + <p> + <a name="contos" id="contos"> </a> + </p> +<p> + +Produced by / Produzido por Manuela Alves (Spelling modernization of the +original version, already available at Project Gutenberg. / Actualização +ortográfica da versão original, já disponível no Project Gutenberg.)<br /><br /><br /> +NOTA: Este texto tem duas versões em língua portuguesa de acordo com o +livro original, a que pode ser aceder clicando numa das seguintes opções: +</p> + <div> + <br /> <br /> + <h2> + CONTOS + </h2> + <h2> + PARA A + </h2> + <h3> + INFÂNCIA + </h3> + <h2> + ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUTORES + </h2> + <h2> + POR + </h2> + <h2> + GUERRA JUNQUEIRO + </h2> + <br /> <br /> <br /> <br /> + <h2> + LISBOA + </h2> + <h4> + TIPOGRAFIA UNIVERSAL DE THOMÁS QUINTINO ANTUNES,<br /> IMPRESSOR + DA CASA REAL + </h4> + <h2> + Rua dos Calafates, 110 + </h2> + <h2> + 1877 + </h2> + </div> + <p> + <br /> <br /> <br /> <br /> + </p> + <h2> + <a name="1"></a>A mãe + </h2> + <p> + <br /> <br /> Estava uma mãe muito aflita, sentada ao pé do + berço do seu filho, com medo que lhe morresse. A criancinha pálida + tinha os olhos fechados. Respirava com dificuldade, e às vezes tão + profundamente, que parecia gemer; mas a mãe causava ainda mais lástima + do que o pequenino moribundo.<br /> <br /> Nisto bateram à porta, e + entrou um pobre homem muito velho, embuçado numa manta de arrieiro. + Era no Inverno. Lá fora estava tudo coberto de neve e de gelo, e o + vento cortava como uma navalha.<br /> <br /> O pobre homem tremia de frio; a + criança adormecera por alguns instantes, e a mãe levantou-se + a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho começou a + embalar a criança, e a mãe, pegando numa cadeira, sentou-se + ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada vez + com mais dificuldade, pegou-lhe na mãozinha descarnada e disse para + o velho:<br /> <br /> Oh! Nosso Senhor não mo há-de levar! não + é verdade?―<br /> <br /> <span class="pagenum">[4]</span>E o + velho, que era a Morte, meneou a cabeça duma maneira estranha, em + ar de dúvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, + e as lágrimas corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada + com um grande peso de cabeça; estava sem dormir havia três + dias e três noites. Passou ligeiramente pelo sono, durante um + minuto, e despertou sobressaltada a tremer de frio.<br /> <br /> ―Que + é isto! exclamou, lançando à volta de si o olhar + alucinado. O berço estava vazio. O velho tinha-se ido embora, + roubando-lhe a criança.<br /> <br /> A pobre mãe saiu + precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma mulher sentada no + meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em casa, disse-lhe + ela. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais depressa que o vento, + e o que ela furta nunca o torna a entregar.»<br /> <br /> ―Por + onde foi ela? gritou a mãe. Diz-mo pelo amor de Deus!»<br /> + <br /> ―Sei o caminho por onde ela foi, respondeu a mulher vestida de + preto. Mas só to ensino, se me cantares primeiro todas as canções + que cantavas ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. + Eu sou a Noite e muitas vezes tas ouvi cantar, debulhada em lágrimas.<br /> + <br /> ―Cantar-tas-ei todas, todas, mas logo, disse a mãe. + Agora não me demores, porque quero encontrar o meu filho.―<br /> + <br /> A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lágrimas, + começou a cantar. Cantou muitas canções, mas as lágrimas + foram mais do que as palavras.<br /> <br /> <span class="pagenum">[5]</span>No + fim disse-lhe a Noite: «Toma à direita, pela floresta escura + de pinheiros. Foi por aí que a Morte fugiu com o teu filho.» + <br /> A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o + caminho, e não sabia que direcção havia de seguir. + Diante dela havia um matagal, cheio de silvas, sem folhas nem flores, de + cujos ramos pendia a neve cristalizada.<br /> <br /> + </p> + <div class="break"> + <hr /> + </div> + <p> + <br /> ―Não viste a Morte que levava o meu filho?» + perguntou-lhe a mãe.<br /> <br /> ―Vi, respondeu o matagal, mas + não te ensino o caminho, senão com a condição + de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»<br /> <br /> E a mãe + estreitou o matagal contra o coração; os espinhos + dilaceraram-lhe o peito, donde corria sangue. Mas o matagal vestiu-se de + folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores numa noite de Inverno + frigidíssima, tal é o calor febricitante do seio duma mãe + angustiosa.<br /> <br /> E o matagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. + Foi andando, andando, até que chegou à margem dum grande + lago, onde não havia nem barcos, nem navios. Não estava + suficientemente gelado para se andar por ele, e era demasiadamente + profundo para o passar a vau. Contudo, querendo encontrar o seu filho, era + necessário atravessá-lo. No delírio do seu amor, + atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a água do + lago. Era impossível, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, + faria talvez um milagre.<br /> <br /> <span class="pagenum">[6]</span>―Não! + não és capaz de me esgotar, disse o lago. Sossega, e + entendamo-nos amigavelmente. Gosto de ver pérolas no fundo das + minhas águas, e os teus olhos são dum brilho mais suave do + que as pérolas mais ricas que eu tenho possuído. Se queres, + arranca-os das órbitas à força de chorar, e + levar-te-ei à estufa grandiosa, que está do outro lado: essa + estufa é a habitação da Morte; e as flores e as + árvores que estão lá dentro, é ela quem as + cultiva; cada flor e cada árvore é a vida duma criatura + humana.»<br /> <br /> ―Oh! o que não darei eu, para + reaver o meu filho!» disse a mãe. E apesar de ter já + chorado tantas lágrimas, chorou com mais amargura do que nunca, e + os seus olhos destacaram-se das órbitas e caíram no fundo do + lago, transformando-se em duas pérolas, como ainda as não + teve no mundo uma rainha.<br /> <br /> O lago então ergueu-a, e com + um movimento de ondulação depositou-a na outra margem, aonde + havia um maravilhoso edifício, com mais de uma légua de + comprido. De longe não se sabia se era uma construção + artística ou uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe + não podia ver nada; tinha dado os seus olhos.<br /> <br /> ―Como + hei-de eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou ela + desesperada.<br /> <br /> ―A Morte ainda não chegou, + respondeu-lhe uma boa velha, que andava dum lado para o outro, + inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como vieste tu aqui parar? + Quem te ensinou o caminho?»<br /> <br /> ―Deus auxiliou-me, + respondeu ela. Deus é misericordioso. <span class="pagenum">[7]</span>Compadece-te + de mim, e diz-me onde está o meu filho.»<br /> <br /> ―Eu + não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Há + aqui muitas plantas e muitas árvores, que murcharam esta noite: a + Morte não tarda aí para as tirar da estufa. Deves saber, que + toda a criatura humana tem neste sítio uma árvore ou uma + flor, que representam a sua vida e que morrem com ela. Parecem plantas + como quaisquer outras, mas tocando-lhes, sente-se bater um coração. + Guia-te por isto, e talvez reconheças as pulsações do + coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o que + tens ainda de fazer?»<br /> <br /> ―Já não tenho + nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim do + mundo buscar o que tu quiseres.―«Fora daqui não preciso + de nada, respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabelos negros; tu + sabes que são belos, e agradam-me. Trocá-los-ei pelos meus + cabelos brancos.»―Não pedes mais nada do que isso? + disse a mãe. Aí os tens, dou-tos de boa vontade.»<br /> + <br /> E arrancou os seus magníficos cabelos, que tinham sido + outrora o seu orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabelos curtos e + inteiramente brancos da velha.<br /> <br /> Esta levou-a pela mão + à grande estufa, onde crescia exuberantemente uma vegetação + maravilhosa. Viam-se debaixo de campânulas de cristal jacintos mimosíssimos + ao lado de peónias inchadas e ordinárias. Havia também + plantas aquáticas, umas cheias de seiva, outras meio murchas, e em + cujas raízes se enovelavam cobras asquerosas.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[8]</span>Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, + carvalhos e plátanos frondosos; depois num outro sítio + isolado havia canteiros de salsa, tomilho, hortelã e outras plantas + humildes que representavam o género de utilidade das pessoas que + elas simbolizavam.<br /> <br /> Havia ainda grandes arbustos em vasos + demasiadamente estreitos, que pareciam rebentar; mas viam-se também + florzitas insignificantes, em vasos de porcelana, na melhor terra, + circundadas de musgo, tratadas com esmero delicadíssimo. Tudo isso + representava a vida dos homens, que a essa hora existiam no mundo, desde a + China até à Groenlândia.<br /> <br /> A velha queria + mostrar-lhe todas estas coisas misteriosas, mas a mãe impacientada + pediu-lhe que a levasse ao sítio onde estavam as plantas + pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do coração, + e, depois de ter tocado em milhares delas, reconheceu as pulsações + do coração do seu filho.<br /> <br /> ―É ele!» + exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, + pendido sobre a terra, parecia completamente estiolado.<br /> <br /> ―Não + lhe toques, disse a velha. Fica neste sítio; e quando a Morte vier, + que não tarda, proíbe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a + de arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá + medo, porque tem de dar conta delas a Deus. Nenhuma pode ser arrancada sem + o seu consentimento.»<br /> <br /> Nisto sentiu-se um vento glacial, e + a mãe adivinhou que era a Morte, que se aproximava.<br /> <br /> + <span class="pagenum">[9]</span>―Como é que deste com o + caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda primeiro do que eu! Como o + conseguiste?―«Sou mãe» respondeu ela. <br /> E a + Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.<br /> + <br /> Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, + tendo o cuidado de não ferir uma só das pequeninas pétalas. + Então a Morte soprou-lhe nas mãos, fazendo-lhas cair + inanimadas. O hálito da Morte era mais frio do que os ventos + enregelados do Inverno.<br /> <br /> ―Não podes nada comigo!» + disse a Morte.―Mas Deus tem mais força do que tu, respondeu a + mãe.»―«É verdade, mas eu não faço + senão aquilo que ele manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas + plantas, árvores e arbustos, quando começam a murchar, + transplanto-as para outros jardins, um dos quais é o grande jardim + do Paraíso. São regiões desconhecidas; ninguém + sabe o que se lá passa.»<br /> <br /> ―Misericórdia! + misericórdia! soluçou a mãe. Não me roubem o + meu filho, agora que acabo de o encontrar!» Suplicava e gemia. A + Morte conservava-se impassível; agarrou então + instantaneamente em duas flores lindíssimas e disse à Morte: + «Tu desprezas-me, mas olha, vou arrancar, despedaçar não + só esta, mas todas as flores que estão aqui!<br /> <br /> + ―Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes + que és desgraçada, e querias ir partir o coração + de outra mãe!―«Outra mãe!» disse a pobre + mulher, largando as flores imediatamente. <span class="pagenum">[10]</span>―Toma, + aqui tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente + que os tirei do lago. Não sabia que eram teus. Mete-os nas órbitas, + e olha para o fundo deste poço; vê o que ias destruir, se + arrancasses estas flores. Verás passar nos reflexos da água, + como numa miragem, a sorte destinada a cada uma dessas duas flores, e a + que teria tido o teu filho, se porventura vivesse.»<br /> <br /> Debruçou-se + no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria, quadros + risonhos e deliciosos, e logo depois cenas terríveis de miséria, + de angústias e de desolação.<br /> <br /> ―Nisto + que eu vejo, disse a mãe aflitíssima, não distingo + qual era a sorte que Deus destinava ao meu filho.»<br /> <br /> + ―Não posso dizer-to, respondeu a Morte. Mas repito-te, em + tudo isto que te apareceu viste o que no mundo havia de suceder ao teu + filho.»<br /> <br /> A mãe desvairada, lançou-se de + joelhos exclamando: Suplico-te, diz-me: era a sorte infeliz a que lhe + estava reservada? Não é verdade! Fala! Não me + respondes? Oh! na dúvida, leva-o, leva-o, não vá ele + sofrer desgraças tão horríveis. O meu querido filho! + Quero-lho mais que à minha vida. As angústias que sejam para + mim. Leva-o para o reino dos céus. Esquece as minhas lágrimas, + as minhas súplicas, esquece tudo o que fiz e tudo o que disse.»<br /> + <br /> ―Não te compreendo, respondeu a Morte: Queres que te + entregue o teu filho ou que o leve para a região desconhecida de + que não posso falar-te!» Então a mãe alucinada, + convulsa, torcendo os braços, deitou-se de joelhos e dirigindo-se + <span class="pagenum">[11]</span>a Deus exclamou: «Não me ouças, + Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua + vontade que é sempre justa! Não me atendas meu Deus!»<br /> + <br /> E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua + agonia dilacerante.<br /> <br /> E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, + e foi transplantá-lo no jardim do paraíso.<br /> <br /> <br /> + <br /> <br /> <span class="pagenum">[12]</span> + </p> + <h2> + <a name="2"></a>O ouro + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas + minas de ouro, empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas + minas; e o resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve + uma grande fome no país.<br /> <br /> Mas a rainha, que era prudente + e que amava o povo, mandou fabricar em segredo frangos, pombos, galinhas e + outras iguarias todas de ouro fino; e quando o rei quis jantar mandou-lhe + servir essas iguarias de ouro, com que ele ficou todo satisfeito, porque não + compreendeu ao princípio qual era o sentido da rainha; mas, vendo + que não lhe traziam mais nada de comer, começou a zangar-se. + Pediu-lhe então a rainha, que visse bem que o ouro não era + alimento, e que seria melhor empregar os seus vassalos em cultivar a + terra, que nunca se cansa de produzir, do que trazê-los nas minas + à busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e que não + tem outro valor além da estimação que lhe é + dada pelos homens, estimação que havia de converter-se em + desprezo, logo que ouro aparecesse em abundância.<br /> <br /> A + rainha tinha juízo.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[13]</span> + </p> + <h2> + <a name="3"></a>Doçura e bondade + </h2> + <p> + <br /> <br /> Há entre vós, meus filhos, índoles + violentas, que não sabem dominar-se, e que são arrastadas + pelas primeiras impressões. É uma péssima disposição, + que é necessário corrigir; dá lugar a disputas, e a + que se cometam acções, cujo arrependimento chega + demasiadamente tarde. Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.<br /> + <br /> Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha + diante dele, volta-se e dá-lhe uma bofetada.<br /> <br /> ―Oh! + senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num cego!»<br /> + <br /> Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns + camponeses grosseiros começaram a apupá-lo e a bater no + burro, para o fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, + mostrando-lhes a sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubésseis + que eu era coxo, não teríeis sido tão covardes.»<br /> + <br /> Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar + uma palavra.<br /> <br /> Que vos parece estas duas lições? + Estou convencido que aproveitaram a quem as recebeu.<br /> <br /> <br /> + <br /> <br /> <span class="pagenum">[14]</span> + </p> + <h2> + <a name="4"></a>O malmequer + </h2> + <p> + <br /> <br /> Ouvi com atenção esta pequenina história!<br /> + <br /> No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que + deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho com + flores, rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, + no meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a + olhos vistos, graças ao sol, que repartia igualmente a sua luz + tanto por ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela + manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e + brilhantes, parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco + se lhe dava que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele, + pobre florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente + o calor do sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.<br /> + <br /> Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira, + sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianças + sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, ele, + sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade + de Deus, e tudo o que <span class="pagenum">[15]</span>sentia + misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com admirável + nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso pôs-se + a olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa + avezinha feliz que cantava e voava.<br /> <br /> «Eu vejo e oiço, + pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento acaricia-me. Oh! não + tenho razão de me queixar.»<br /> <br /> Dentro da sebe havia + muitas flores altivas, aristocráticas; quanto menos aroma tinham, + mais orgulhosas se aprumavam. As dálias inchavam-se para parecerem + maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa. + As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se + pretensiosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o + pequeno malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: + «Como são ricas e bonitas! A cotovia irá certamente + visitá-las. Graças a Deus, poderei assistir a este belo + espectáculo.» E no mesmo instante a cotovia dirigiu o seu + voo, não para as dálias e tulipas, mas para a relva, junto + do pobre malmequer, que morto de alegria não sabia o que havia de + pensar.<br /> <br /> O passarinho pôs-se a saltitar à roda + dele, cantando: «Como a erva é macia! oh! que encantadora + florinha, com um coração de oiro, vestida de prata!»<br /> + <br /> Não se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave + acariciou-o com o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois + no azul do firmamento. Durante mais de um quarto de hora não pôde + o malmequer reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas + todo contente, olhou <span class="pagenum">[16]</span>para as outras + flores do jardim, que, como testemunhas da honra que acaba de receber, + deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as tulipas estavam + cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e pontiaguda manifestava o + despeito. As dálias tinham a cabeça toda inchada. Se elas + pudessem falar, teriam dito coisas bem desagradáveis ao pobre + malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.<br /> <br /> Passados alguns + momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e + brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as uma a uma.<br /> <br /> + «Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrível; + foram-se todas.»<br /> <br /> E enquanto a rapariguinha levava as + tulipas, o malmequer alegrara-se por ser simplesmente uma pequenina flor + no meio da erva. Apreciando reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair + da tarde as suas folhas, adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com + a cotovia.<br /> <br /> No dia seguinte de manhã, assim que o + malmequer abriu as suas folhas ao ar e à luz, reconheceu a voz do + passarinho, mas o seu canto era triste, muitíssimo triste. A pobre + cotovia tinha boas razões para se afligir: haviam-na agarrado e + metido numa gaiola, suspensa entre uma janela aberta. Cantava a alegria da + liberdade, a beleza dos campos e as suas antigas viagens através do + espaço ilimitado.<br /> <br /> O pequenino malmequer tinha boa + vontade de lhe acudir: mas como? Era difícil. A compaixão + pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe esquecer <span class="pagenum">[17]</span>inteiramente + as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e a alvura resplandecente + das suas próprias folhas.<br /> <br /> Nisto dois rapazinhos entraram + no jardim. O mais velho trazia na mão uma faca comprida e afiada + como a da pequerrucha, que tinha cortado as tulipas. Encaminharam-se para + o malmequer, que não podia compreender o que desejavam.<br /> <br /> + «Podemos arrancar daqui um pedaço de relva para a cotovia, + disse um dos rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo + à volta da florinha.<br /> <br /> ―«Arranca a flor, disse + o outro.»<br /> <br /> A estas palavras o malmequer estremeceu de + terror. Arrancarem-no era morrer; e nunca tinha abençoado tanto a + existência, como no momento em que esperava entrar com a relva na + gaiola da cotovia.<br /> <br /> «Não; deixemo-la, disse o mais + velho. Está aí muito bem.»<br /> <br /> Foi por + conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.<br /> <br /> O pobre + passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia com as asas + nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus + desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.<br /> <br /> + Passou-se assim toda a manhã.<br /> <br /> «Já não + tenho água, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me + deixarem ao menos uma gota de água. A garganta queima-me, tenho uma + febre terrível, sinto-me abafada! Ai! Não há remédio + senão morrer, longe do sol esplêndido, longe da fresca + verdura e de todas as magnificências da criação!»<br /> + <br /> <span class="pagenum">[18]</span>Depois enterrou o bico na relva húmida + para se refrescar um pouco. Viu então o malmequer; fez-lhe um sinal + de cabeça amigável, e disse-lhe, afagando-o: «Também + tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo inteiro, que eu + tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de + relva, e a ti só por única companhia. Cada pezinho de relva + substitui para mim uma árvore, e cada uma das tuas folhas brancas, + uma flor odorífera. Ah! como me fazes recordar de todas as coisas + que perdi!<br /> <br /> ―Se eu pudesse consolá-la! pensava o + malmequer, incapaz de fazer o mínimo movimento.<br /> <br /> Contudo + o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume; a cotovia + sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a erva, + teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na flor.<br /> + <br /> Caiu a noite; não estava ali ninguém, para trazer uma + gota de água à desditosa cotovia; Estendeu então as + suas belas asas, sacudindo-as convulsivamente, e pôs-se a cantar uma + cançãozinha melancólica; a sua cabecinha inclinou-se + para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e de angústias + cessou de bater. Vendo este triste espectáculo, o malmequer não + pôde como na véspera fechar as suas folhas para dormir; + curvou-se para o chão, doente de tristeza.<br /> <br /> Os rapazitos + só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto, + rebentaram-lhe as lágrimas e abriram uma cova. Meteram o cadáver + dentro de uma caixa vermelha, lindíssima, fizeram-lhe um enterro de + príncipe, e cobriram o túmulo com folhas de rosas.<br /> + <br /> <span class="pagenum">[19]</span>Pobre passarinho! Enquanto vivia e + cantava, esqueceram-se dele e deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois + de morto é que o choraram e lhe fizeram honrarias pomposíssimas.<br /> + <br /> A relva e o malmequer lançaram-nas para a poeira da estrada; + daquele que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguém se + lembrou.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[20]</span> + </p> + <h2> + <a name="5"></a>Não quero + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam + muito alto: «Não, dizia um com voz enérgica, não + quero.» Parei e perguntei-lhe:―O que é que tu não + queres, meu rapaz?―«Não quero dizer à mamã + que venho da escola, porque é mentira. Sei que me há-de + ralhar, mas antes quero que me ralhe do que mentir.»―E tens + razão, disse-lhe eu. És um rapaz como se quer.» + Apertei-lhe a mão, enquanto que o outro pequeno, que lhe + aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora todo envergonhado.<br /> + <br /> Daí a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de + falar com o professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os + meus dois pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que + o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre + sobre os dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um + magnífico estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre + pronto a confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a repará-las. + O outro pelo contrário, é mentiroso, covarde e incorrigível.»―Não + me espanto, disse eu, já tinha tirado o horóscopo destas + duas crianças; e contei-lhe o que tinha ouvido.<br /> <br /> <br /> + <br /> <br /> <span class="pagenum">[21]</span> + </p> + <h2> + <a name="6"></a>Piloto + </h2> + <p> + <br /> <br /> Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, + e o infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da + quinta.<br /> <br /> Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o + pau, que João lhe lançava o mais longe que podia; pegava + nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do + pequerrucho e da sua irmã Joaninha.<br /> <br /> Esta brincadeira + recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do + Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que + o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações: + partia então como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos + pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.<br /> <br /> Quando o + hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da + carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a + parede da quinta.<br /> <br /> Uma vez deu prova de uma extraordinária + sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de + trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.<br /> <br /> + Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração + de hostilidade em quanto o homem seguiu o <span class="pagenum">[22]</span>caminho + da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o guarda + vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.<br /> <br /> Era como se + dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu dono?»<br /> <br /> O + ladrão quis pôr então outra vez o saco donde o tinha + tirado; Piloto não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem + o ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil + posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o + caso para o não desonrar.<br /> <br /> Mas o homem ficou com ódio + ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do + quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem + desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até + à margem do ribeiro.<br /> <br /> Atou uma grande pedra à + outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o à + água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço, + caiu também.<br /> <br /> Como não sabia nadar, teria sido + despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo + ao seu instinto de salvador e desembaraçando-se da pedra mal atada, + não tivesse mergulhado duas vezes e trazido para terra o seu mortal + inimigo.<br /> <br /> Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando + voltou a si, que o cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a + vida.<br /> <br /> Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse + dia, violentou-se a si mesmo e combateu as suas más inclinações.<br /> + <br /> O exemplo do cão corrigiu o homem.<br /> <br /> <br /> <br /> + <br /> <span class="pagenum">[23]</span> + </p> + <h2> + <a name="7"></a>O rico e o pobre + </h2> + <p> + <br /> <br /> Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer + recados; um dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se + cansado e deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma + estalagem, junto da estrada. Estava comendo um bocado de pão que + tinha trazido para jantar, quando chegou uma bela carruagem em que vinha + um fidalguinho, com o seu preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente + e perguntou aos viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não + tinham tempo, e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma + garrafa de vinho.<br /> <br /> Martinho estava pasmado a olhar para eles; + olhou depois para a sua côdea de pão, para a sua velha + jaqueta, para o seu chapéu todo roto, e suspirando exclamou + baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino tão rico, em vez do desgraçado + Martinho! Que fortuna se ele estivesse aqui, e eu dentro daquela + carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia Martinho e + repetiu-o ao seu aluno, que, lançando a cabeça fora da + carruagem, chamou Martinho com a mão.<br /> <br /> ―Ficarias + muito contente, não é verdade, meu <span class="pagenum">[24]</span>rapaz, + podendo trocar a minha sorte pela tua?»―Peço que me + desculpe senhor, replicou Martinho corando, o que eu disse não foi + por mal.»―Não estou zangado contigo, replicou o + fidalguinho, pelo contrário, desejo fazer a troca.»<br /> + <br /> ―Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguém + quereria estar no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o + senhor. Ando muitas léguas por dia, como pão seco e batatas, + enquanto que o senhor anda numa carruagem, pode comer frangos e beber + vinho.»―Pois bem, volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo + aquilo que tens e que eu não tenho, dou-te em troca de boa vontade + tudo o que possuo.» Martinho ficou com os olhos espantados, sem + saber o que havia de dizer; mas o preceptor continuou: «Aceitas a + troca?»―Ora essa! exclamou Martinho, ainda mo pergunta! Oh! + como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada de me ver entrar nesta + bela carruagem!» E Martinho desatou a rir com a ideia da entrada + triunfante na sua aldeia.<br /> <br /> O fidalguinho chamou os criados, que + abriram a portinhola e o ajudaram a descer. Mas qual foi a surpresa de + Martinho, vendo que ele tinha uma perna de pau e que a outra era tão + fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas: depois, olhando para + ele de mais perto, Martinho observou que era muito pálido e que + tinha cara de doente.<br /> <br /> Sorriu para o rapazito com ar benévolo, + e disse-lhe:―Então sempre desejas trocar? Querias porventura, + se pudesses, deixar as tuas pernas valentes e as tuas faces coradas, pelo + prazer de ter <span class="pagenum">[25]</span>uma carruagem e andar bem + vestido?»―Oh! não, por coisa nenhuma! replicou + Martinho.―«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria + pobre, se tivesse saúde. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e + doente, sofro os meus males com paciência e faço por ser + alegre, dando graças a Deus pelos bens que me concedeu na sua + infinita misericórdia.<br /> <br /> «Faz o mesmo, meu + amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal, tens força + e saúde, coisas que valem mais que uma carruagem, e que não + podem comprar-se com dinheiro.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[26]</span> + </p> + <h2> + <a name="8"></a>Como um camponês aprendeu o Padre Nosso + </h2> + <p> + <br /> <br /> Tinha o coração duro, e não dava esmolas. + Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitência rezar + sete vezes o Padre Nosso.<br /> <br /> «Não o sei, e nunca o + pude aprender, respondeu o aldeão.» <br /> «Pois nesse + caso, tornou o confessor, imponho-te por penitência dar a crédito + um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da minha parte.»<br /> + <br /> No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.<br /> + <br /> «Como te chamas? perguntou-lhe o camponês.<br /> <br /> + «Padre―Nosso―Que―Estais―No―Céu, + respondeu o pobre.»<br /> <br /> «E o teu apelido?»<br /> + <br /> «Seja―Santificado―O―Vosso―Nome.»<br /> + <br /> E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.<br /> <br /> Ao + outro dia chega segundo pobre.<br /> <br /> «Como te chamas?<br /> + <br /> «Venha―A―Nós―O―Vosso―Reino.»<br /> + <br /> «E o teu apelido?»<br /> <br /> «Seja―Feita―A―Vossa―Vontade.»<br /> + <br /> <span class="pagenum">[27]</span>E partiu com o seu alqueire de + trigo.<br /> <br /> Veio terceiro pobre.<br /> <br /> «Como te chamas?»<br /> + <br /> «Assim―Na―Terra―Como―No―Céu.»<br /> + <br /> «E o teu apelido?»<br /> <br /> «Dai-nos―Hoje―O―Pão―Nosso―De―Cada―Dia.»<br /> + <br /> E levou o seu alqueire.<br /> <br /> Vieram ainda dois pobres + sucessivamente, e passou-se tudo da mesma forma até chegar ao <i>Amen</i>.<br /> + <br /> Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.<br /> <br /> + «Então já sabes o Padre Nosso?»<br /> <br /> + «Não, sr. cura, sei só os nomes e apelidos dos pobres + a quem emprestei o meu trigo.»<br /> <br /> «Quais são? + tornou o padre.»<br /> <br /> E o aldeão enumerou-lhos a + seguir, e pela ordem porque cada um se tinha apresentado.<br /> <br /> + «Já vês, disse o confessor, que não era muito + difícil aprender o Padre Nosso, porque já o sabes + perfeitamente.»<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[28]</span> + </p> + <h2> + <a name="9"></a>O talismã + </h2> + <p> + <br /> <br /> Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma indústria, + mas com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, + o que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negócios + com uma actividade infatigável, enquanto que o segundo, entregue + inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção + da sua casa.<br /> <br /> «Explica-me, disse um dia este último + ao seu colega, qual é a razão porque a sorte nos trata de um + modo tão diferente? Vendemos as mesmas mercadorias, a minha loja + está tão bem situada como a tua, e apesar disso, enquanto tu + ganhas, eu não faço senão perder. E não + é porque eu seja estroina; não bebo, nem jogo. Já + tenho pensado algumas vezes se não terás tu por acaso algum + precioso talismã.»<br /> <br /> «Efectivamente, respondeu + o outro, herdei de meu pai um talismã de uma virtude incomparável. + Trago-o ao pescoço, e ando assim com ele todo o dia por toda a + casa, do celeiro para a adega, e da adega para o celeiro. E o caso + é que tudo me corre perfeitamente.»<br /> <br /> <span + class="pagenum">[29]</span>«Olé meu querido colega, + empresta-me pelo amor de Deus essa relíquia preciosa de que tanto + necessito; podes ter a certeza de que ta restituo.»<br /> <br /> + «Pois vem buscá-la amanhã de manhã.»<br /> + <br /> Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, + apresentou-lhe este uma avelã, através da qual tinha passado + um fio de seda.<br /> <br /> O nosso homem pô-la imediatamente ao + pescoço, e começou a correr toda a casa com o talismã. + Observou então a completa desordem que por toda a parte ali havia. + Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na cozinha o pão, a + carne e os legumes; no celeiro, o milho, o trigo, o feijão; na + estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjedouras dos cavalos; viu, + finalmente, como os seus livros e registros estavam mal escriturados; viu + tudo isto, e que era necessário dar-lhe remédio, + compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substituído por + terceira pessoa na direcção dos seus negócios.<br /> + <br /> Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talismã, + agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em + segundo lugar, a maneira delicada porque lho tinha dado.<br /> <br /> <br /> + <br /> <br /> <span class="pagenum">[30]</span> + </p> + <h2> + <a name="10"></a>A alma + </h2> + <p> + <br /> <br /> «Mamã, nem todas as crianças que morrem vão + para o Paraíso. O outro dia vi levar para o cemitério um + menino que tinha morrido; o seu papá e as suas duas irmãzinhas + acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me fazia pena. Iam a + chorar porque aquele menino tinha sido mau, não é verdade?»<br /> + <br /> «Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, + enquanto choravam seus pais e suas irmãs, já estava vivendo + feliz no Paraíso.»<br /> <br /> «A alma? mamã; não + sei o que é; não compreendo bem.»<br /> <br /> «Maria, + acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas pequerruchas.»<br /> + <br /> «Tive sim, mamã, tive muita pena.»<br /> <br /> + «Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e + triste? eram os braços?»<br /> <br /> «Não, mamã.»<br /> + <br /> «Eram as orelhas?»<br /> <br /> «Oh! não mamã, + era <i>cá dentro</i>.»<br /> <br /> «Esse <i>lá + dentro</i>, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece, que + te repreende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando + praticas o bem.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[31]</span> + </p> + <h2> + <a name="11"></a>Alberto + </h2> + <p> + <br /> <br /> Alberto tinha seis anos. Era filho de um jardineiro. Via seu + pai e seus irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar árvores + e fazer sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fruto. Tinha visto um + único feijão produzir cem feijões e muitas vezes + mais, e de uma talhada de batata nascerem quarenta batatas magníficas; + sabia que a terra pagava com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um + dia achou uma libra no quarto do pai, e foi enterrá-la + imediatamente no seu jardinzinho. «Há-de nascer uma árvore, + dizia ele consigo, que dará libras como uma cerejeira dá + cerejas, e irei entregá-las ao papá, que ficará muito + contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, + mas não rebentava nada. Entretanto o pai procurava a libra por toda + a parte. Por fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.<br /> <br /> + «Vi papá; achei-a e fui semeá-la.»<br /> <br /> + «Como, semeá-la? doido! julgas talvez que vai nascer como uma + couve?»<br /> <br /> «Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se + encontrava na terra.»<br /> <br /> «É verdade, mas não + nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»<br /> <br /> + <span class="pagenum">[32]</span>Desenterrou-se a libra, e Alberto foi + castigado por dispor do que lhe não pertencia.<br /> <br /> Há + contudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe produzir + os mais belos frutos que existem no mundo. Quereis saber como é? + É dando-o aos pobres. Faz-se no Paraíso a colheita dessa + sementeira.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[33]</span> + </p> + <h2> + <a name="12"></a>A canção da cerejeira + </h2> + <p> + <br /> <br /> Disse Deus na Primavera: «Ponham a mesa às + lagartas!» E a cerejeira cobriu-se imediatamente de folhas, milhões + de folhas, fresquinhas e verdejantes.<br /> <br /> A lagarta, que estava + dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se, abriu a boca, + esfregou os olhos e pôs-se a comer tranquilamente as folhinhas + tenras, dizendo: «Não se pode a gente despegar delas. Quem + é que me arranjou este banquete?»<br /> <br /> Então + Deus disse de novo: «Ponham a mesa às abelhas!» E a + cerejeira cobriu-se imediatamente de flores, milhões de flores + delicadas e brancas.<br /> <br /> E a abelha matinal aos primeiros raios da + aurora pousou sobre elas, dizendo: «Vamos tomar o nosso café; + e que chávenas tão bonitas em que o deitaram!»<br /> + <br /> Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não + pouparam o açúcar!»<br /> <br /> No Verão disse + Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cerejeira cobriu-se + de mil frutos apetitosos e vermelhos.<br /> <br /> <span class="pagenum">[34]</span>«Ah! + ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa ocasião; temos apetite, e + isto dar-nos-á novas forças para podermos cantar uma nova + canção.» No Outono disse Deus: «Levantai a mesa, + já estão satisfeitos.» E o vento frio das montanhas + começou a soprar, e fez estremecer a árvore.<br /> <br /> As + folhas tornaram-se amarelas e avermelhadas, caíram uma a uma, e o + vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as + esvoaçar.<br /> <br /> Chegou o Inverno e disse Deus: «Cobri o + resto!» E os turbilhões dos ventos trouxeram a neve, sob cuja + mortalha tudo dorme e descansa.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[35]</span> + </p> + <h2> + <a name="13"></a>Os gigantes da montanha e os anões da planície + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez uma família de gigantes, que viviam num + castelo na montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da + altura dum álamo. Era curiosa e andava com vontade de descer + à planície a ver o que faziam lá em baixo os homens, + que de cima do monte lhe pareciam anões. Um belo dia, em que seu + pai o gigante tinha ido à caça e sua mãe estava + dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os + jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os + lavradores, coisas inteiramente novas para ela. «Oh! que lindos + brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, + que quase que cobriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os + cavalos, a charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no + castelo, onde seu pai estava a jantar.<br /> <br /> ―Que trazes aí, + minha filha?» perguntou ele.<br /> <br /> ―Olhe, disse ela, + abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os mais bonitos que + tenho visto.»<br /> <br /> E pô-los em cima da mesa, a um e um,―os + cavalos, a charrua e os trabalhadores, que estavam <span class="pagenum">[36]</span>todos + espantados, como formigas a quem tivessem transportado dum formigueiro + para um salão. A gigantinha pôs-se a bater as palmas e a rir + com uma alegria doida, mas o gigante fez-se sério e franziu o + sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe ele. Isso não são + brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e respeitar-se. Mete + tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-no imediatamente onde o + achaste; porque fica sabendo que os gigantes da montanha, morreriam de + fome, se os anões da planície deixassem de lavrar a terra e + de semear o trigo.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[37]</span> + </p> + <h2> + <a name="14"></a>A criança, a anjo e flor + </h2> + <p> + <br /> <br /> Quando morre uma criança, desce um anjo do céu, + toma-a nos braços, e desdobrando as asas imaculadas, voa por cima + de todos os sítios que ela amara durante a sua pequenina existência; + o anjo abaixa-se de quando em quando para colher flores, que leva a Deus, + para que floresçam no paraíso ainda mais belas do que tinham + sido na terra. Deus recebe todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com + os lábios, e a flor escolhida, adquirindo voz imediatamente, começa + a cantar os coros maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o + anjo a uma criança morta, que o estava ouvindo como num sonho. + Pairaram primeiro sobre a casa em que a criança brincara, e depois + sobre jardins deliciosos, cobertos de flores.<br /> <br /> «Qual + é a flor que desejas para plantar no paraíso?» + perguntou o anjo.<br /> <br /> Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido + direita, vigorosa, magnífica; mas quebraram-lhe o pé, e + todos os seus ramos cheios de botõezinhos lindíssimos + pendiam estiolados para o chão.<br /> <br /> «Pobre roseira! + disse a criança ao anjo; vamos buscá-la para que possa + reflorir no paraíso.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[38]</span>O + anjo foi buscá-la, e abraçou a criança. Colheram + muitas flores brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.<br /> + <br /> A colheita estava terminada, e contudo não voavam ainda para + Deus. Caiu a noite silenciosa, e a criança e o seu guia Divino + andavam ainda por cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais + estreitas, cheia de cacos de louça, de vidros partidos, de + farrapos, de toda a casta de imundície. Entre estes destroços + distinguiu o anjo um vaso de flores com a terra pelo chão, onde + pendiam as longas raízes duma flor dos campos, já murcha, e + que parecia não poder reverdecer: tinham-na atirado para a rua como + inútil e morta.<br /> <br /> «Vale a pena levantá-la + disse o anjo; levemo-la, e pelo caminho, voando, te contarei a história + da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquela rua estreita + e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criança miserável e + doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear + com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias + de Verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. + Então a criança sentada à janela, aquecida pelo sol, + sem o cansaço do andar, imaginava-se passeando; não conhecia + da floresta, da fresca verdura da primavera, senão o ramo de faia, + que uma vez o filho do vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima + da cabeça o ramo verdejante, e, supondo-se debaixo das árvores + abrigadas do sol, sonhava com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho + do vizinho trouxe-lhe flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma + que tinha ainda raízes; <span class="pagenum">[39]</span>o + pequerrucho plantou-a num vaso, e pô-lo à janela, junto da + cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se + grande, e todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu + único tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; + fazia-lhe aproveitar os raios do sol até ao último. A flor + aparecia-lhe em sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o + seu aroma e ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela + que se voltou.<br /> <br /> «Faz hoje um ano que esse pequerrucho + habita no paraíso; a sua querida flor, esquecida à janela + desde então, murchou, estiolou-se e atiraram-na à rua + finalmente. E contudo esta flor quase seca é o tesouro do nosso + ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os canteiros dum jardim + realengo.»<br /> <br /> «Como sabes tu isso?» perguntou a + criança, que o anjo levava para o céu.<br /> <br /> ―Sei-o, + respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava em muletas; + como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»<br /> + <br /> A criança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo + quando entravam no céu onde tudo era alegria e felicidade. Deus + pegou nas flores, levou-as ao coração, mas a que ele beijou + foi a florinha silvestre, desprezada e murcha: a flor adquiriu voz + imediatamente, pôs-se a cantar com as almas que rodeiam o Criador, + umas junto dele, outras ao longe, formando círculos que vão + aumentando sucessivamente, multiplicando-se até ao infinito, + povoados de <span class="pagenum">[40]</span>seres inteiramente felizes, + cantando todos harmoniosamente―desde a criança abençoada + até à humilde florinha do campo, levantada do lodo, dentre + os tristes despojos da rua sombria e tortuosa.<br /> <br /> <br /> <br /> + <br /> <span class="pagenum">[41]</span> + </p> + <h2> + <a name="15"></a>Presente por presente + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar + de noite à choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda não + tinha chegado, foi a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o + o melhor que pôde, desculpando-se da miserável hospitalidade + que lhe ia dar, porque eram batatas cozidas a única coisa que lhe + poderia oferecer; cama não a tinha, por conseguinte dormiria sobre + a palha. Mas o estrangeiro estava morto de fome e de fadiga; as batatas + souberam-lhe mais do que faisões, e dormiu melhor em cima da palha + do que num leito de príncipes. Ao outro dia pela manhã disse + isto mesmo à pobre mulher, gratificando-a ao despedir-se com uma + moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha dito que a guardasse + como uma pequena lembrança, a boa camponesa julgou que seria uma + medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a trazer ao + pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o que + lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro examinou + os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:<br /> <br /> + <span class="pagenum">[42]</span>«Esse forasteiro era nada mais nada + menos do que o nosso príncipe!<br /> <br /> E o bom do homem não + podia conter-se de alegria, por sua alteza ter achado as suas batatas + melhores do que faisões.<br /> <br /> «É necessário + confessar, disse ele com um ar triunfante, que não há talvez + no mundo um terreno mais favorável do que este para a cultura das + batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, já que as acha tão + boas.<br /> <br /> E partiu imediatamente para o palácio com uma + provisão de batatas escolhidas.<br /> <br /> Os lacaios e as + sentinelas ao princípio não o queriam deixar entrar; mas + insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que + pelo contrário vinha trazer alguma coisa.<br /> <br /> Foi, pois, + introduzido na sala da audiência.<br /> <br /> «Meu senhor, + disse ele ao príncipe: Vossa alteza dignou-se recentemente pedir + hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca + duma enxerga miserável e de um prato de batatas cosidas. Era pagar + demasiadamente, apesar de serdes um príncipe muito rico e poderoso. + Eis o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das + batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. + Dignai-vos aceitá-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser + nosso hospede, lá as encontrareis sempre ao vosso dispor.»<br /> + <br /> A honrada simplicidade do camponês agradou ao príncipe, + e, como estava num momento de bom humor, fez-lhe doação de + uma quinta com trinta jeiras de terra.<br /> <br /> <span class="pagenum">[43]</span>Ora + o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, + que, sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse consigo: «Porque + não me há de suceder a mim outro tanto? O príncipe + gosta do meu cavalo, pelo qual lhe pedi sessenta libras, que ele me + recusou. Vou-lhe fazer presente dele: se deu ao João uma quinta com + trinta jeiras de terra, simplesmente por um cesto de batatas, a mim com + certeza me há de recompensar ainda mais generosamente.»<br /> + <br /> Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do + palácio; recomendou ao criado que o segurasse, e, atravessando com + ar altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiência.<br /> + <br /> «Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo; + não tenho querido trocá-lo a dinheiro, mas dignai-vos + permitir-me que vo-lo ofereça.»<br /> <br /> O príncipe + viu imediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse consigo: + «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:<br /> + <br /> Depois dirigindo-se a ele:<br /> <br /> «Aceito a tua dádiva, + mas não sei como agradecer-ta condignamente. Oh! espera um pouco: + Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que faisões. + Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que é um bom preço + para um cavalo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»<br /> + <br /> E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.<br /> <br /> <br /> <br /> + <br /> <span class="pagenum">[44]</span> + </p> + <h2> + <a name="16"></a>O pinheiro ambicioso + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a + sua sorte. «Oh! dizia ele, como são horrorosas estas linhas + uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou + um pouco mais orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para + andar vestido de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»<br /> + <br /> O Génio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã + acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e + admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros + pinheiros, que, mais sensatos do que ele, não invejavam a sua rápida + fortuna. À noite passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as + folhas, meteu-as num saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos + pés à cabeça.<br /> <br /> «Oh! disse ele, que + doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça dos + homens. Fiquei completamente despido. Não há agora em toda a + floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de + oiro; o oiro atrai as ambições.<br /> <br /> Ah! se eu + arranjasse um vestuário de vidro! Era <span class="pagenum">[45]</span>deslumbrante, + e o judeu avarento não me teria despido.»<br /> <br /> No dia + seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao sol como + pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso, fitando + desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o céu cobriu-se de + nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as + folhas de cristal.<br /> <br /> «Enganei-me ainda, disse o jovem + pinheiro, vendo por terra todo feito em pedaços o seu manto + cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir as florestas. + Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria menos brilhante, + mas viveria descansado.»<br /> <br /> Cumpriu-se o seu último + desejo, e, apesar de ter renunciado às vaidades primitivas, + julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os outros pinheiros + seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as + folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas todas sem + deixar uma única.<br /> <br /> O pobre pinheiro, envergonhado e + arrependido, já queria voltar à sua forma natural. Conseguiu + ainda este favor, e nunca mais se queixou da sua sorte.<br /> <br /> <br /> + <br /> <br /> <span class="pagenum">[46]</span> + </p> + <h2> + <a name="17"></a>Perfeição das obras de Deus + </h2> + <p> + <br /> <br /> <i>A filha.</i>―Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.<br /> + <br /> <i>A mãe.</i>―Vou-te dar outra.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Como + se fazem as agulhas, mamã?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Vê + se adivinhas.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Não sei, mamã.<br /> + <br /> <i>A mãe.</i>―Conheces os metais?<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Conheço mamã; tenho lá dentro muitos + bocadinhos dentro de uma caixa.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Ora + muito bem, diz-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de mármore?<br /> + <br /> <i>A filha.</i>―Oh! não; são de metal; mas de + que metal?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Antes de perguntar + qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas primeiro.<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Ora espere!... uma agulha é de metal: não + é de prata, porque não é branca; não é + de oiro, porque não é de um lindo amarelo muito brilhante; não + é de cobre, porque não é de um amarelo muito feio, + que cheira mal... Então é de ferro, mamã?<br /> <br /> + <i>A mãe.</i>―Adivinhaste.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Mas, + mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.<br /> + <br /> <span class="pagenum">[47]</span><i>A mãe.</i>―É + que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já + se não chama ferro, é aço.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Bem, + as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é + que as fazem.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―É impossível, + não és capaz disso; mas hei de levar-te a uma fábrica + onde se fazem agulhas. Hás-de vê-las fazer, e hás-de + gostar muito.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Tinha vontade de saber como + se fazem todas as coisas de que nos servimos.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Tens + razão; é uma vergonha ignorá-lo.<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.<br /> <br /> <i>A + mãe.</i>―Olha, aí tens o meu estojo.<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São + tão fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade há-de + ser necessária para fazer uma coisinha tão delicada!<br /> + <br /> <i>A mãe.</i>―Lembras-te de ver na feira um carrinho de + marfim puxado por uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Lembro, mamã; era tão bonito!<br /> <br /> <i>A + mãe.</i>―Li num jornal alemão que um operário + chamado Nerlinger fez um copo de um grão de pimenta, e que dentro + deste copo havia mais doze...<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Que + pequeninos deviam ser os doze copos para caberem num grão de + pimenta!<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―E ainda não é + tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas doiradas, e sustentava-se no + pé.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Que vontade eu tinha de ver + isso!<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Tens razão de te + admirares da habilidade dos homens. É efectivamente espantoso, e + <span class="pagenum">[48]</span>deve saber-se, o modo porque se fabricam + certas coisas; contudo ainda há outras obras mais dignas de admiração.<br /> + <br /> <i>A filha.</i>―Quais, mamã?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Já + to digo. (<i>Levanta-se.</i>)<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Que quer, + mamã?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Quero que vejas o + microscópio de teu papá.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Pois + sim; eu gosto de olhar pelo microscópio.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Este + é magnífico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais ver + a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina, + lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?<br /> <br /> + <i>A filha.</i>―Meu Deus, que coisa tão feia! Que agulha tão + grosseira!<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Vês-lhe buracos, + riscos, asperezas, não é verdade?<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Parece + um prego muito grande e muito mal feito.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Pois + todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na + agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá + por elas.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―O operário que fez esta + agulha ficaria envergonhado, se a visse ao microscópio.<br /> <br /> + <i>A mãe.</i>―Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.<br /> + <br /> <i>A filha.</i>―O quê, mamã?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―O + aguilhãozinho de uma abelha.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Oh! + que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é + brilhante!... Mas já sei que visto ao microscópio há + de acontecer o mesmo que com a agulha.<br /> <br /> <span class="pagenum">[49]</span><i>A + mãe.</i>―Pronto: olha.<br /> <br /> <i>A filha</i> (olhando).―É + esquisito, mamã!<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Então?<br /> + <br /> <i>A filha.</i>―Aumentou, aumentou como a agulha, mas não + é áspero, pelo contrario, é perfeitamente liso... A + agulha parecia que não tinha ponta, e o ferrãozinho da + abelha tem uma ponta tão fina como um cabelo. Porque será + isto, mamã?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―É porque o + operário que fez este aguilhão é muito mais hábil + do que o que fez a agulha.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Quem é + esse operário tão hábil?<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―É + o mesmo que fez o céu, os astros, a terra, as plantas e as + criaturas.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―É Deus.<br /> <br /> <i>A + mãe.</i>―Exactamente. Pois não é Deus que fez + as abelhas e todos os animais?<br /> <br /> <i>A filha.</i>―De certo.<br /> + <br /> <i>A mãe.</i>―Foi ele por conseguinte que fez o aguilhão + desta abelha; e aí tens porque o aguilhão é superior + à agulha: é obra de Deus. Mas continuemos a olhar pelo + microscópio. Aqui está um pedacinho de musselina finíssima. + Olha pelo microscópio; o que é que vês?<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal feita.<br /> + <br /> <i>A mãe.</i>―Aqui tens agora um pedacinho de renda + delicadíssima.<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Essa estou bem + certa que há de ser linda, mesmo vista pelo microscópio.<br /> + <br /> <i>A mãe.</i>―Então?<br /> <br /> <i>A filha.</i>―É + horrorosa... Parece feita de pelos grosseiros com grandes buracos + desiguais.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―As obras do homem são + todas assim.<br /> <br /> <span class="pagenum">[50]</span><i>A filha.</i>―Oh! + mamã, vejamos agora as obras de Deus.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Sabes + o que é isto?<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Sei, mamã, + é um casulo de bicho de seda.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Os + fiozinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha + pelo microscópio a ver se te parecem desiguais.<br /> <br /> <i>A + filha</i> (olhando pelo microscópio).―Não, mamã; + os fios são todos iguais, e o casulo é sempre muito liso, + muito brilhante.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―É porque + é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que há sobre + este papel?<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Pontinhos feitos com tinta e + manchazinhas redondas feitas também com tinta.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Estes + pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente redondos?<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―Sim, mamã, perfeitamente redondos.<br /> <br /> <i>A + mãe.</i>―Vê-os agora ao microscópio.<br /> <br /> + <i>A filha.</i>―Oh! já não são redondos, são + todos desiguais.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―Tira o papel; + vejamos a obra de Deus. É uma asa de borboleta; vês que está + mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo microscópio; o + que é que vês?<br /> <br /> <i>A filha.</i>―Vejo a mesma + coisa que via sem o vidro, só com a diferença que agora + é maior. Que belas que são as obras de Deus!<br /> <br /> <i>A + mãe.</i>―Merece bem a pena estudá-las.<br /> <br /> <i>A + filha.</i>―De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as + obras dos homens.<br /> <br /> <i>A mãe.</i>―E sempre e em tudo + hás-de encontrar defeitos nas obras do homem, enquanto que <span + class="pagenum">[51]</span>as obras de Deus, quanto mais se observam, mais + perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a primeira + é que Deus merece tanto a nossa admiração como o + nosso amor; a segunda é que os homens orgulhosos são + insensatos, porque não podem fazer nada perfeitamente belo, + perfeitamente regular, e as suas obras mais primorosas são cheias + de imperfeições, se as compararmos com as obras do Criador.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[52]</span> + </p> + <h2> + <a name="18"></a>João e os seus camaradas + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez uma viúva com um filho único. Ao + cabo dum Inverno rigoroso, possuía apenas um galo, e meio alqueire + de farinha. João resolveu-se a correr mundo, à busca de + fortuna. A mãe cozeu o resto da farinha, matou o galo, e disse-lhe:<br /> + <br /> «O que é que preferes: metade desta merenda com a minha + bênção, ou toda com a minha maldição?»<br /> + <br /> «Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos tesouros há + no mundo eu quereria a tua maldição.»<br /> <br /> + «Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e + Deus te abençoe.»<br /> <br /> E partiu. Foi andando, andando, + até que encontrou um jumento, que tinha caído num atoleiro, + donde não podia sair.<br /> <br /> «Oh! João, exclamou o + burro, tira-me daqui, que estou quase a afogar-me.»<br /> <br /> + «Espera, respondeu João.»<br /> <br /> E, formando uma + ponte com pedras e ramos de árvores, conseguiu tirar o quadrúpede + do atoleiro.<br /> <br /> <span class="pagenum">[53]</span>«Obrigado, + disse-lhe ele, aproximando-se de João. Se te posso ser útil, + aqui me tens ao teu dispor. Aonde vais tu?»<br /> <br /> ―«Vou + por esse mundo fora, a ver se ganho a minha vida.»<br /> <br /> + «Queres tu que eu te acompanhe?<br /> <br /> «Anda daí.»<br /> + <br /> E puseram-se a caminho.<br /> <br /> Ao passarem por uma aldeia, viram + um cão perseguido pelos rapazes da escola, que lhe tinham atado ao + rabo uma chocolateira velha. O pobre animal correu para João que o + acariciou, e o jumento pôs-se a ornear de tal maneira, que os + rapazes com o medo deitaram todos a fugir.<br /> <br /> «Obrigado, + disse o rafeiro a João. Se para alguma coisa te for prestável, + aqui me tens às tuas ordens. Aonde vais tu?»<br /> <br /> + «Vou por esse mundo de Cristo, a ver se ganho a minha vida.»<br /> + <br /> «Queres que te acompanhe?»<br /> <br /> «Anda daí.»<br /> + <br /> Quando saíram da aldeia pararam junto duma fonte. O pequeno + tirou a merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou + alguma erva que por ali havia. Enquanto jantavam, apareceu um gato + esfaimado a miar lastimosamente.<br /> <br /> Coitado, exclamou João!» + E deu-lhe uma asa do frango.<br /> <br /> ―«Obrigado disse o + gato. Oxalá que um dia eu te possa ser útil. Aonde vais tu?<br /> + <br /> ―«Procurar trabalho. Se queres, anda connosco.»<br /> + <br /> ―De boa vontade.<br /> <br /> <span class="pagenum">[54]</span>Os + quatro viajantes puseram-se a caminho. Ao cair da tarde, ouviram um grito + dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um galo na + boca.<br /> <br /> «Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.<br /> + <br /> E no mesmo instante o cão atirou-se atrás da raposa, + que, vendo-se em perigo, largou o galo para correr melhor. O galo saltando + de contente disse a João:<br /> <br /> ―«Obrigado. + Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vais tu?»<br /> <br /> + ―Arranjar trabalho. Queres vir connosco?<br /> <br /> ―«De + boa vontade.»<br /> <br /> ―Então anda. Se te cansares, + empoleira-te no jumento.»<br /> <br /> Os viajantes continuaram a + jornada com o seu novo companheiro. Sentiram-se todos fatigados e não + avistavam à roda nem uma quinta, nem uma cabana.<br /> <br /> ―«Paciência, + disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos hoje a + dormir ao ar livre; além disso a noite está sossegada, e a + relva é macia.»<br /> <br /> Dito isto estendeu-se no chão; + o jumento deitou-se ao lado dele, o cão e o gato aninharam-se entre + as pernas do burro complacente, e o galo empoleirou-se numa árvore.<br /> + <br /> Dormiam todos um sono profundíssimo, quando de repente o galo + começou a cantar.<br /> <br /> ―«Que demónio! + disse o jumento acordando todo zangado. Porque é que estás a + gritar?»<br /> <br /> ―«Porque já é dia, + respondeu o galo. Não vês ao longe a luz da madrugada, que + vem rompendo?»<br /> <br /> <span class="pagenum">[55]</span>―«Vejo + uma luz, disse João, mas não é do sol, é duma + lanterna. Provavelmente há ali alguma casa, onde nos poderíamos + recolher o resto da noite.»<br /> <br /> Foi aceita a proposta. Partiu + a caravana; foi andando, andando, através dos campos, até + que parou junto da casa do guarda dum grande castelo, donde subiam + gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e blasfémias horríveis.<br /> + <br /> ―Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito + devagarinho, a ver quem é que está lá dentro.»<br /> + <br /> Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhais, que se + banqueteavam alegremente, sentados a uma mesa principesca.<br /> <br /> + ―«Que bom assalto acabámos de dar, disse um deles, ao + castelo do conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem + que é este porteiro. À sua saúde!»<br /> <br /> + ―«À saúde do nosso amigo!» repetiram em + coro todos os ladrões.<br /> <br /> E dum trago despejaram os copos.<br /> + <br /> João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz + baixa:<br /> <br /> ―«Uni-vos uns aos outros o melhor que + puderdes, e, assim que vos der sinal, rompei todos ao mesmo tempo numa + gritaria diabólica.»<br /> <br /> O burro, levantando-se nas + patas traseiras, lançou as mãos ao peitoril duma janela, o cão + trepou-lhe à cabeça, o gato à cabeça do cão + e o galo à cabeça do gato. João deu o sinal, e + estoirou à uma o ornear do jumento, os latidos do cão, o + miar do gato e os gritos estridentes do galo.<br /> <br /> <span + class="pagenum"><a name="p56" id="p56">[56]</a></span>―«Agora, + bradou João, fingindo que comandava um destacamento, carregar + armas! Dai-me cabo dos ladrões; fogo!»<br /> <br /> No mesmo + instante o jumento quebrou a janela com as patas, zurrando cada vez mais; + os ladrões atemorizados refugiaram-se no bosque, saindo + precipitadamente por uma porta falsa.<br /> <br /> João e os seus + companheiros penetraram na sala abandonada, comeram um excelente jantar, e + deitaram-se em seguida―João numa cama, o burro na cavalariça, + o cão numa esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão + e o galo num poleiro.<br /> <br /> Ao principio os ladrões ficaram + muito contentes, por se verem sãos e salvos na floresta. Mas + depois, começaram a reflectir.<br /> <br /> ―«Era bem + melhor a minha cama, do que esta erva tão húmida, disse um + deles.»<br /> <br /> ―«Tenho pena do frango que eu começava + a saborear, disse um outro.»<br /> <br /> ―«E que rico + vinho aquele! acrescentou o terceiro.»<br /> <br /> ―«E o + que é mais lamentável, exclamou um quarto, é + ficar-nos lá todo o dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, + tínhamos tirado das gavetas.»<br /> <br /> ―Vou ver se + torno lá a <a href="#e1">entrar!</a> disse o capitão.<br /> + <br /> ―Bravo! exclamaram os ladrões.<br /> <br /> E pôs-se + a caminho.<br /> <br /> Já não havia luz na casa; o capitão + entrou às apalpadelas, e dirigiu-se para o fogão; o gato + saltou-lhe à cara e esfarrapou-lha com as garras. <span + class="pagenum">[57]</span>Soltou um grito doloroso, correu para a porta, + mas infelizmente pisou o rabo do cão, que lhe deu uma grande + dentada. Gritou de novo, e conseguiu por fim transpor o limiar da porta. + Mas quando ia a sair, o galo atirou-se a ele, rasgando-o com o bico e com + as unhas.<br /> <br /> ―Anda o diabo nesta casa! exclamou o capitão, + como poderei eu sair!»<br /> <br /> Julgou encontrar refúgio na + estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma parelha de coices, que o deitou + quase morto ao meio do chão.<br /> <br /> Passado algum tempo veio a + si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem pernas nem braços + partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.<br /> <br /> ―Então? + então?―perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.<br /> + <br /> ―Nada feito, exclamou ele. Mas antes de tudo arranjem-me uma + cama para me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr neste + corpo, que o trago num feixe. Não podeis imaginar o que sofri. Na + cozinha fui assaltado por uma velha que estava a cardar lã, e + arrumou-me na cara com o sedeiro, deixando-me neste miserável + estado. Quando ia a sair a porta, um demónio dum remendão + atravessou-me as pernas com a sovela. Logo depois Satanás em pessoa + atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras. Na estrebaria + deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não + acreditam, vão lá, e experimentem.»<br /> <br /> ―Acreditamos, + disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo ensanguentado: Não + seremos nós que lá tornaremos.»<br /> <br /> Pela manhã, + João e os seus camaradas almoçaram <span class="pagenum"><a + name="p58" id="p58">[58]</a></span>ainda excelentemente, e partiram em + seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões lhe + tinham roubado. Meteram-no cuidadosamente dentro de dois sacos, com que + carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram + à porta do castelo. Diante dessa porta estava o malvado do + porteiro, com uma libré esplêndida, meias de seda, calções + escarlates e cabelo empoado.<br /> <br /> Olhou com ar de desprezo para a + pequenina caravana, e disse a <a href="#e2">João:</a><br /> <br /> + ―Que vindes aqui buscar? Não há lugar para os + recolher, vão-se <a href="#e3">embora.</a>»<br /> <br /> + ―Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do + castelo far-nos-á um bom acolhimento.<br /> <br /> ―Fora daqui + vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a andar + imediatamente, quando não atiro-lhes já às pernas os + meus cães de fila.»<br /> <br /> ―Perdão, só + um instante, replicou o galo empoleirado na cabeça do jumento; não + me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite + passada a porta do castelo?»<br /> <br /> O porteiro corou. O conde + que estava à janela, disse-lhe:<br /> <br /> ―Ó Bernabé, + responde ao que esse galo te acaba de perguntar.<br /> <br /> ―Senhor, + replicou Bernabé, este galo é um miserável. Não + fui eu que abri a porta aos seis ladrões.<br /> <br /> ―Como + é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram + seis?<br /> <br /> Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o + <span class="pagenum">[59]</span>dinheiro roubado, pedindo-lhe unicamente + que nos dê de jantar e nos recolha esta noite, porque vimos cansados + do caminho.<br /> <br /> ―Ficai certos que sereis bem tratados.<br /> + <br /> O burro, o cão e o galo, levaram-nos para a quinta. O gato + ficou na cozinha. E enquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o + dos pés à cabeça com um vestuário magnífico, + deu-lhe um relógio de ouro, e disse-lhe:<br /> ―Queres ficar + comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»<br /> + <br /> João aceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe + para o pé de si. Casou depois com uma linda rapariga, e viveu + sempre felicíssimo.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[60]</span> + </p> + <h2> + <a name="19"></a>O rabequista + </h2> + <p> + <br /> <br /> Em tempos muito remotos os habitantes duma grande cidade + levantaram uma igreja magnífica a Santa Cecília, padroeira + dos músicos.<br /> <br /> As rosas mais vermelhas e os lírios + mais cândidos enfeitavam o altar. O vestido da santa era de + filigrana de prata e os sapatinhos eram de oiro, feitos pelo melhor + ourives que havia na cidade. A capela estava constantemente cheia de + peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria um pobre + rabequista, pálido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha sido + muito longa, estava cansado, e já no seu alforge não havia pão + nem dinheiro no bolso para o comprar.<br /> <br /> Assim que entrou na + capela, começou a tocar na sua rabeca com tal suavidade, com tanta + expressão, que a santa ficou enternecida ao vê-lo tão + pobre e ao escutar aquela música deliciosa. Quando terminou, Santa + Cecília abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos de + ouro, e deu-o ao pobre músico, que tonto de alegria, dançando, + cantando, chorando, correu à loja dum ourives para lho vender. O + ourives, reconhecendo o sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e + levou-o à presença <span class="pagenum">[61]</span>do juiz. + Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado à morte.<br /> + <br /> Chegara o dia da execução. Os sinos dobravam + lastimosamente, e o cortejo pôs-se em marcha ao som dos cânticos + dos frades, que ainda assim não chegavam a dominar os sons da + rabeca do condenado, que pedira, como última graça, o + deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao último momento. O + cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam suplicou o + triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua + derradeira melodia.<br /> <br /> Os padres e os chefes da escolta + consentiram, e o rabequista entrou, ajoelhou aos pés da santa, e + debulhado em lágrimas começou a tocar. Então o povo, + maravilhado e aterrado, viu Santa Cecília curvar-se de novo, descalçar + o outro sapato e metê-lo nas mãos do infeliz músico. + À vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o + rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente + prestar-lhe as mais honrosas homenagens.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> + <span class="pagenum">[62]</span> + </p> + <h2> + <a name="20"></a>Os pêssegos + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pêssegos + magníficos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes frutos, + extasiaram-se diante das suas cores e da fina penugem que os cobria. + À noite o pai perguntou-lhes:<br /> <br /> ―Então + comeram os pêssegos?<br /> <br /> ―Eu comi, disse o mais velho. + Que bom que era! Guardei o caroço, e hei-de plantá-lo para + nascer uma árvore.»<br /> <br /> ―Fizeste bem, respondeu + o pai, é bom ser económico e pensar no futuro.»<br /> + <br /> ―Eu, disse o mais novo, o meu pêssego comi-o logo, e a + mamã ainda me deu metade do que lhe tocou a ela. Era doce como mel.»<br /> + <br /> ―Ah! acudiu o pai, foste um pouco guloso, mas na tua idade não + admira; espero que quando fores maior te hás-de corrigir.»<br /> + <br /> ―Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço + que o meu irmão deitou fora, quebrei-o, e comi o que estava dentro, + que era como uma noz. Vendi o meu pêssego, e com o dinheiro hei de + comprar coisas quando for à cidade.»<br /> <br /> O pai meneou + a cabeça:<br /> <br /> <span class="pagenum">[63]</span>―Foi + uma ideia engenhosa, mas eu preferia menos cálculo.<br /> <br /> + ―E tu, Eduardo, provaste o teu pêssego?<br /> <br /> ―Eu, + meu pai, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso vizinho, ao Jorge, + que está coitadinho com febre. Ele não o queria, mas + deixei-lho em cima da cama, e vim-me embora.<br /> <br /> ―Ora bem, + perguntou o pai, qual de vós é que empregou melhor o pêssego + que eu lhe dei?<br /> <br /> E os três pequenos disseram à uma:<br /> + <br /> ―Foi o mano Eduardo.<br /> <br /> Este no entanto não + dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos arrasados de lágrimas.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[64]</span> + </p> + <h2> + <a name="21"></a>A urna das lágrimas + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez uma viúva, que tinha uma filhinha muito + linda, a quem adorava sobre todas as coisas. Não se separava dela + um só momento; mas um dia a pobre pequerrucha começou a + sofrer, adoeceu e morreu. A desditosa mãe, que tinha passado as + noites e os dias, sem repousar um momento, à cabeceira da filha, + julgou endoidecer de mágoa e de saudades. Não comia, não + fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava + acabrunhada, chorando no mesmo sítio em que a filha tinha morrido, + abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua + querida filha, sorrindo com uma expressão angélica e + trazendo nas mãos uma urna, que vinha cheia até às + bordas.<br /> <br /> ―«Oh! minha querida mãe, disse-lhe + ela, não chores mais. Olha, o anjo das lágrimas recolheu as + tuas nesta urna. Se chorares mais, transbordará, e as tuas lágrimas + correrão sobre mim, inquietando-me no túmulo e perturbando a + minha felicidade no paraíso.<br /> <br /> A pequenina desapareceu, e + a mãe não tornou a chorar para a não afligir.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[65]</span> + </p> + <h2> + <a name="22"></a>Reconhecimento e ingratidão + </h2> + <p> + <br /> <br /> Os vossos filhos serão para vós como vós + tiverdes sido para vossos pais. E é natural. As crianças vêem + diariamente o que fazem seus pais, e imitam-nos. Justifica-se desta + maneira o provérbio que diz,―que a bênção + ou a maldição dum pai cai sobre a cabeça de seus + filhos, terminando sempre por se realizar. Citaremos dois exemplos, que + merecem ser meditados.<br /> <br /> Um príncipe, passeando no campo, + viu um pobre homem, que andava muito satisfeito, a lavrar a terra. Pôs-se + a conversar com ele. Depois de algumas perguntas, soube que o campo não + pertencia ao homem, mas que trabalhava nele mediante um salário de + doze vinténs por dia. O príncipe, que para as suas despesas + de administração e representação necessitava + de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber, como se vivia + com doze vinténs diários, andando-se ainda por cima + satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:<br /> + <br /> «Gasto diariamente comigo a terça parte dessa quantia; + outro terço é para pagar as minhas dividas; <span + class="pagenum">[66]</span>e o resto é para ir juntando algumas + economias.»<br /> <br /> Era um novo enigma para o príncipe. + Mas o alegre camponês explicou-lho deste modo.<br /> <br /> «Reparto + quanto ganho com os meus velhos pais, que já não podem + trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não têm força + para isso. Aos primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na + minha infância; e espero que os segundos não me abandonem, + quando os anos tiverem pesado sobre mim.»<br /> <br /> O príncipe, + ouvindo isto, quis premiar o honrado camponês; encarregou-se da + educação de seus filhos; e a bênção que + lhe deram os seus velhos pais, os seus filhos merecerem-na depois pela sua + vez, rodeando igualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais + terna dedicação.<br /> <br /> Mas posso desgraçadamente + citar-vos outro filho, que procedeu duma maneira tão indigna com + seu velho pai doente e aleijado, que este teve de pedir que o levassem + para o hospital da misericórdia. O filho ingrato recebeu com + alegria o desejo do infeliz velho, que nessa mesma tarde foi conduzido ao + hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse muito pobre, + decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como última esmola, + um par de lençóis, para cobrir a palha que lhe servia de + leito. O mau filho escolheu os lençóis mais usados, e disse + ao seu pequeno, de dez anos de idade, que os fosse levar <i>a esse velho + rabujento</i>. Mas notou que a criança ao partir tinha escondido um + dos lençóis a um canto, atrás da porta.<br /> <br /> + <span class="pagenum">[67]</span>Quando voltou perguntou-lhe o pai, porque + fizera aquilo.<br /> <br /> «Foi, respondeu a criança + desabridamente, para me servir mais tarde deste lençol, quando pela + minha vez te mandar também para o hospital.<br /> <br /> <br /> <br /> + <br /> <span class="pagenum">[68]</span> + </p> + <h2> + <a name="23"></a>O fato novo do sultão + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário + todo o seu rendimento.<br /> <br /> Quando passara revista ao exercito, + quando ia aos passeios ou ao teatro, não tinha outro fim senão + mostrar os seus fatos novos. Mudava de traje a todos os instantes, e como + se diz dum rei: Está no conselho; dizia-se dele: Está-se a + vestir. A capital do seu reino era uma cidade muito alegre, graças + à quantidade de estrangeiros que por ali passavam; mas chegaram lá + um dia dois larápios, que, dando-se por tecelões, disseram + que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não só + eram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas além + disso os vestuários feitos com esse estofo, possuíam uma + qualidade maravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e + para todos aqueles que não exercessem bem o seu emprego.<br /> <br /> + ―São vestuários impagáveis, disse consigo o + sultão; graças a eles, saberei distinguir os inteligentes + dos tolos, e reconhecer a capacidade dos ministros. Preciso desse estofo!»<br /> + <br /> E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães <span + class="pagenum">[69]</span>uma quantia avultada, para que pudessem começar + os trabalhos imediatamente.<br /> <br /> Os homens levantaram com efeito + dois teares, e fingiram que trabalhavam, apesar de não haver + absolutamente nada nas lançadeiras. Requisitavam seda e oiro fino a + todo o instante; mas guardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando + até à meia noite com os teares vazios.<br /> <br /> ―«Preciso + saber se a obra vai adiantada».<br /> <br /> Mas tremia de medo ao + lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos idiotas. E, + apesar de ter confiança na sua inteligência, achou prudente + em todo o caso mandar alguém adiante.<br /> <br /> Todos os + habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do estofo, e + ardiam em desejos de verificar se seria exacto.<br /> <br /> ―Vou + mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; + tem um grande talento, e por isso ninguém pode melhor do que ele + avaliar o estofo.<br /> <br /> O honrado ministro entrou na sala em que os + dois impostores trabalhavam com os teares vazios.<br /> <br /> ―Meu + Deus! disse ele consigo arregalando os olhos, não vejo + absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões + convidaram-no a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os + desenhos e as cores. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, + olhava, mas não via nada, pela razão simplicíssima de + nada lá existir.<br /> <br /> ―Meu Deus! pensou ele, serei + realmente estúpido? É necessário que ninguém o + saiba!... Ora esta! Pois serei tolo realmente! Mas lá confessar que + não vejo nada, isso é que eu não confesso.»<br /> + <br /> <span class="pagenum">[70]</span>«Então que lhe parece?» + perguntou um dos tecelões:<br /> <br /> ―«Encantador, + admirável! respondeu o ministro, pondo os óculos. Este + desenho... estas cores... magnífico!... Direi ao sultão que + fiquei completamente satisfeito.»<br /> <br /> ―«Muito + agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e + mostraram-lhe cores e desenhos imaginários, fazendo-lhe deles uma + descrição minuciosa. O ministro ouviu atentamente, para ir + depois repetir tudo ao sultão.<br /> <br /> Os impostores + requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro; precisavam-se + quantidades enormes para este tecido. Metiam tudo no bolso, é + claro; o tear continuava vazio, e apesar disso trabalhavam sempre.<br /> + <br /> Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funcionário, + homem honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria pronto. Aconteceu + a este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não + via nada.<br /> <br /> ―Não acha um tecido admirável?» + perguntaram os tratantes, mostrando o magnífico desenho e as belas + cores, que tinham apenas o inconveniente de não existir.<br /> <br /> + ―Mas que diabo! Eu não sou tolo! dizia o homem consigo. Pois + não serei eu capaz de desempenhar o meu lugar? É esquisito! + mas deixá-lo, não o deixo eu.»<br /> <br /> Em seguida + elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração + pelo desenho e o bem combinado das cores.<br /> <br /> ―É duma + magnificência incomparável, disse <span class="pagenum">[71]</span>ele + ao sultão. E toda a cidade começou a falar desse tecido + extraordinário.<br /> <br /> Enfim o próprio sultão + quis vê-lo enquanto estava no tear. Com um grande acompanhamento de + pessoas distintas, entre as quais se contavam os dois honrados funcionários, + dirigiu-se para as oficinas, em que os dois velhacos teciam continuamente, + mas sem fios de seda, nem de oiro, nem de espécie alguma.<br /> + <br /> ―Não acha magnífico? disseram os dois honrados + funcionários. O desenho e as cores são dignos de vossa + alteza.»<br /> <br /> E apontaram para o tear vazio, como se as outras + pessoas que ali estavam pudessem ver alguma coisa.<br /> <br /> ―Que + é isto! disse consigo mesmo o sultão, não vejo nada! + É horrível! serei eu tolo, incapaz de governar os meus + estados? Que desgraça que me acontece!» Depois de repente + exclamou: «É magnífico! Testemunho-vos a minha satisfação.»<br /> + <br /> E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, + sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu séquito + olharam do mesmo modo, uns atrás dos outros, mas sem ver coisa + alguma, e no entanto repetiam como o sultão: «É magnífico!» + Até lhe aconselharam a que se apresentasse com o fato novo no dia + da grande procissão. «É magnífico! é + encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e + a satisfação era geral.<br /> <br /> Os dois impostores foram + condecorados e receberam o titulo de fidalgos tecelões.<br /> <br /> + Na véspera do dia da procissão passaram a noite em claro, + trabalhando à luz de dezasseis velas. <span class="pagenum">[72]</span>Finalmente + fingiram tirar o estofo do tear, cortaram-no com umas grandes tesouras, + coseram-no com uma agulha sem fio, e declararam, depois disto, que estava + o vestuário concluído.<br /> <br /> O sultão com os + seus ajudantes de campo foi examiná-lo, e os impostores levantando + um braço, como para sustentar alguma coisa, disseram:<br /> <br /> + «Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia + de aranha; é a principal virtude deste tecido.»<br /> <br /> + ―Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.<br /> + <br /> ―Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larápios, + provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.»<br /> <br /> O sultão + despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças, depois + a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do + espelho.<br /> <br /> ―Como lhe fica bem! que talhe elegante! + exclamaram todos os cortesãos. Que desenho! que cores! que vestuário + incomparável!»<br /> <br /> Nisto entrou o grão-mestre + de cerimónias.<br /> <br /> ―Está à porta o + dossel sobre que vossa alteza deve assistir à procissão, + disse ele.»<br /> <br /> ―Bom! estou pronto, respondeu o sultão. + Parece-me que não vou mal.»<br /> <br /> E voltou-se ainda uma + vez diante do espelho, para ver bem o efeito do seu esplendor. Os + camaristas que deviam levar a cauda do manto, não querendo + confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçá-la.<br /> + <br /> E, enquanto o sultão caminhava altivo sob um <span + class="pagenum">[73]</span>dossel deslumbrante, toda a gente na rua e + às janelas exclamava: «Que vestuário magnífico! + Que cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguém + queria dar a perceber, que não via nada, porque isso equivalia a + confessar que se era tolo. Nunca os fatos do sultão tinham sido tão + admirados.<br /> <br /> ―Mas parece que vai em cuecas», observou + um pequerrucho, ao colo do pai.<br /> <br /> ―É a voz da inocência, + disse o pai.<br /> <br /> ―Há ali uma criança que diz + que o sultão vai em cuecas.<br /> <br /> «Vai em cuecas! vai em + cuecas!» exclamou o povo finalmente.<br /> <br /> O sultão + ficou muito aflito porque lhe pareceu que realmente era verdade. + Entretanto tomou a enérgica resolução de ir até + ao fim, e os camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda + imaginária.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[74]</span> + </p> + <h2> + <a name="24"></a>Boa sentença + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge + uma quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil réis + de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um + honrado camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, + e disse:<br /> <br /> ―Deviam ser oitocentos mil réis, que foi + a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu + amigo, que recebeste adiantados os cem mil réis de alvíssaras: + estamos pagos por conseguinte.»<br /> <br /> O bom camponês, que + nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia + contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, + vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:<br /> + <br /> ―Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro + encontrou um alforge apenas com setecentos: Resulta daí claramente + que o dinheiro que o último encontrou não pode ser o mesmo a + que o primeiro se julga com direito. Por consequência tu, meu bom + homem, leva o dinheiro que encontraste, <span class="pagenum">[75]</span>e + guarda-o até que apareça o indivíduo que perdeu + somente setecentos mil réis. E tu, o único conselho que + passo a dar-te, é que tenhas paciência até que apareça + alguém que tenha achado os teus oitocentos mil réis.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[76]</span> + </p> + <h2> + <a name="25"></a>Os animais agradecidos + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um + homem a quem perguntou como se chamava, de donde era, e que oficio tinha. + Este respondeu:<br /> <br /> ―«Senhor: eu sou um desgraçado, + um miserável; nasci no vosso reino, e chamo-me <i>Ingratidão</i>.»<br /> + <br /> ―«Se pudesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, + tomava-te ao meu serviço.»<br /> <br /> O nosso homem prometeu + ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse. Desde que chegaram a palácio, + deu tais provas de habilidade, mostrou-se tão esperto e tão + solícito, que o rei afeiçoou-se-lhe de tal modo, que o + nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua + casa. Deslumbrado por uma fortuna tão rápida, o seu orgulho + desde então não conheceu limites; maltratava os inferiores, + e não tinha compaixão dos desventurados.<br /> <br /> Ora, na + vizinhança do palácio havia uma floresta cheia de animais + selvagens e perigosíssimos. O intendente mandou aí fazer por + toda a parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, + caindo dentro, pudessem ser agarradas. <span class="pagenum">[77]</span>Um + dia que o intendente atravessava a floresta, ia tão absorvido pelos + seus pensamentos orgulhosos, que se precipitou ele mesmo dentro duma das + covas.<br /> <br /> Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo + poço; caiu depois um lobo e em seguida uma enorme serpente, de + aspecto horroroso. O governador, ao ver-se em tão extraordinária + companhia, ficou tão horrorizado, que lhe embranqueceram os + cabelos; e toda a esperança de salvação lhe parecia + inteiramente perdida, porque por mais que gritasse, ninguém o vinha + socorrer.<br /> <br /> Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem + extremamente pobre, chamado António, que todos os dias ia rachar + lenha à floresta, para ganhar o pão necessário + à sua mulher e aos seus filhos. António também lá + foi nesse dia, como de costume, e pôs-se a trabalhar não + longe da cova em que caíra o intendente, cujos gritos de aflição + não tardou a ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem + era que estava ali.<br /> <br /> ―«Sou o governador do palácio + do rei, e, se me tirares daqui, prometo encher-te de riquezas; estou em + companhia dum leão, dum lobo e duma enorme serpente.»<br /> + <br /> ―«Eu, respondeu o lenhador, sou um miserável + jornaleiro, não tendo para sustentar a minha família, mais + que o produto do meu trabalho; bastava um dia perdido para me causar um + grande desarranjo; vê lá pois, se cumpres a tua promessa?<br /> + <br /> O intendente continuou:<br /> <br /> ―«Pela fé que + devo a Deus e a el-rei nosso senhor, <span class="pagenum">[78]</span>juro-te + que cumprirei a minha palavra.»<br /> <br /> Confiado nisto o rachador + de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda muito comprida, que + deixou correr dentro do abismo. O leão atirou-se a ela, e + suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era o + intendente.<br /> <br /> Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu + salvador com a maior amabilidade, e foi-se embora à procura de + jantar, porque tinha fome.<br /> <br /> António deitou outra vez a + corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o governador, enganou-se, + porque era o lobo; à terceira vez subiu a serpente; foi necessário + fazer uma quarta tentativa, para sair o governador. Este não perdeu + tempo em agradecimentos, e partiu a correr para o palácio. O + jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o que se tinha + passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes + promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o + pobre homem bater à porta do palácio. O porteiro + perguntou-lhe o que queria.<br /> <br /> ―«Faça-me o + favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente que o + homem com quem ele esteve ontem na floresta lhe deseja falar.»<br /> + <br /> O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e + exclamou:<br /> <br /> ―«Vai dizer a esse homem, que eu não + vi ninguém na floresta; que se ponha a andar, porque o não + conheço.»<br /> <br /> O porteiro voltou, e repetiu o que o + governador lhe tinha dito.<br /> <br /> O pobre homem tornou para casa mui + descorçoado, <span class="pagenum">[79]</span>e contou à + mulher a odiosa perfídia de que tinha sido vitima.<br /> <br /> A + mulher disse-lhe:<br /> <br /> ―«Tem paciência; o sr. + intendente estava hoje decerto muito ocupado, e foi talvez por isso que te + não pôde receber.»<br /> <br /> Estas palavras sossegaram + o rachador que outra vez nutriu esperanças.<br /> <br /> Na manhã + seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo à porta do palácio. + Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos ásperos, que não + tornasse ali a aparecer, quando não ver-se-ia obrigado a empregar + meios violentos. A mulher ainda desta vez procurou consolá-lo:<br /> + <br /> ―«Experimenta terceira e última vez, disse-lhe + ela, talvez Deus o inspire melhor. E se assim não for, ainda que te + custe, não penses mais nisso.»<br /> <br /> No dia seguinte o + bom do homem voltou à carga; e tendo o porteiro consentido à + força de suplicas em anunciá-lo ainda ao governador, este + encolerizado atirou-se praguejando fora do quarto, e crivou o pobre homem + duma tal chuva de bengaladas, que o deixou quase morto no meio do chão. + A mulher dele, sabendo disto, correu imediatamente com um burro, pôs-lhe + em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas levaram-lhe seis meses a + curar, estando sempre de cama, vendo-se obrigado a contrair dividas para + pagar ao médico. Quando finalmente tinha recobrado algumas forças, + voltou ao bosque segundo o costume para fazer alguma lenha. Apenas lá + chegou, apareceu-lhe o leão, que ele tinha ajudado a sair do poço. + O leão conduzia um burro diante de si, e <span class="pagenum">[80]</span>este + burro estava carregado de sacos cheios de preciosidades. O leão, + vendo António, parou e inclinou-se diante dele com um ar de + respeitoso agradecimento. Depois disto continuou o seu caminho, + fazendo-lhe sinal de que ficasse com o jumento. António doido de + alegria levou o animal para casa, abriu os sacos, e viu que estava rico.<br /> + <br /> No dia seguinte, voltando de novo à floresta, apareceu-lhe o + lobo, que o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe desta maneira o + quanto lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluída, e + tinha carregado o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, + que ele tinha tirado do fôjo, e que trazia na ponta da língua + uma pedra preciosa, em que brilhavam três cores,―o branco, o + preto e o vermelho. Quando a serpente chegou ao pé do rachador de + lenha, deixou cair a pedra junto dele, e depois dando um salto desapareceu + no matagal. António levantou a pedra, examinou-a por todos os + lados, para ver que propriedade ou virtude ela teria. Para isto foi ter + com um velho, afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os + astros. Este, assim que viu a pedra, ofereceu-lhe por ela uma grande + quantia. António respondeu-lhe que a não queria vender, mas + simplesmente saber se seria boa.<br /> <br /> O velho respondeu:<br /> <br /> + ―«São três as virtudes desta pedra: abundância + contínua, alegria imperturbável e luz sem trevas. Se alguém + ta comprar por menos dinheiro do que vale, tornará imediatamente + para a tua mão.»<br /> <br /> António ficou muito + contente com esta resposta, <span class="pagenum">[81]</span>agradeceu ao + velho da ciência maravilhosa, e correu a contar à mulher a + sua felicidade. Como se imagina, graças à virtude da famosa + pedra, não lhe faltaram daí em diante, nem honras nem + riquezas.<br /> <br /> Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia destas + prosperidades, mandou chamar António, e mostrou-lhe desejos de + adquirir o precioso talismã.<br /> <br /> António, vendo que + semelhante desejo era uma ordem, respondeu:<br /> <br /> ―«Devo + prevenir a vossa majestade de que, se esta pedra me não for paga + pelo que vale, tornará ela mesma para o meu poder.»<br /> + <br /> ―«Hei de pagar-ta bem, disse o rei.»<br /> <br /> E + mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã, + António achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo + isto disse-lhe:<br /> <br /> ―«Torna a levá-la ao rei + imediatamente; não vá ele persuadir-se que lha furtaste.»<br /> + <br /> O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou à presença + de sua majestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra + preciosa.<br /> <br /> ―«Mandei-a meter com todo o cuidado + dentro dum cofre de ferro, fechado com sete chaves, disse o rei.»<br /> + <br /> António mostrou-lhe então a jóia preciosa, e o + rei ficou extraordinariamente espantado, e quis saber como ele tinha + adquirido semelhante tesouro.<br /> <br /> António contou-lhe tudo + que tinha havido, a ingratidão do governador e o reconhecimento dos + animais ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu intendente, e + disse-lhe:<br /> <br /> <span class="pagenum">[82]</span>―«Homem + perverso, com justo motivo te puseram o nome de <i>Ingratidão</i>, + porque és mais falso e mais pérfido que os animais ferozes, + e pagaste com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será + feita. Dou a António as tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje + mesmo, o castigo de seres enforcado.»<br /> <br /> Admiraram todos a + sentença do rei, e António desempenhou as suas altas funções + com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi escolhido + para o substituir, e reinou pacificamente durante longos anos gloriosos.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[83]</span> + </p> + <h2> + <a name="26"></a>O ermitão + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, + deliberou retirar-se a uma gruta solitária para se consagrar + inteiramente ao trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, + orando, ciliciando-se, os seus pensamentos não se desviavam nunca + da ideia de Deus. Depois de ter assim vivido durante muitos anos, uma + noite lembrou-se de que já tinha merecido um lugar glorioso no paraíso, + e podia ser contado entre os santos mais notáveis.<br /> <br /> Na + noite seguinte o anjo Gabriel apareceu-lhe, e disse-lhe:<br /> <br /> + ―Há no mundo um pobre músico, que anda de porta em + porta, tocando viola e cantando, e que mereceu mais do que tu as + recompensas eternas.<br /> <br /> O ermitão, atónito, ao ouvir + estas palavras, levantou-se, agarrou no seu bordão, foi em busca do + músico e mal o encontrou disse-lhe:<br /> <br /> ―Irmão, + diz-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e + penitências te tornaste agradável a Deus.<br /> <br /> ―Ora, + respondeu-lhe o músico, abaixando a cabeça, santo padre, não + zombes de mim. Nunca fiz <span class="pagenum">[84]</span>boas obras, e + quanto a orações não as sei, pobre de mim, que sou um + pecador. O que faço é andar de casa em casa a divertir os + outros.»<br /> <br /> O austero ermitão continuou a insistir:<br /> + <br /> ―Estou certo que, no meio da tua existência vagabunda, + praticaste algum acto de virtude.»<br /> <br /> ―Em verdade não + poderia citar nem um só.»<br /> <br /> ―Mas então + como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido loucamente como os que + exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente o teu património + e o produto do teu ofício?»<br /> <br /> ―Não; mas + um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e filhos tinham + sido condenados à escravidão para pagar uma dívida. + Essa mulher era nova e bela, e queriam seduzi-la. Recolhi-a em minha casa, + protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuía para + resgatar a sua família, e levei-a à cidade, onde ela devia + encontrar-se com seu marido e com seus filhos. Mas quem não teria + feito outro tanto?»<br /> <br /> A estas palavras o ermitão pôs-se + a chorar, e exclamou:<br /> <br /> ―Nos meus setenta anos de solidão + nunca pratiquei uma obra tão meritória, e apesar disso + chamo-me o homem de Deus, enquanto que tu não passas dum pobre músico.»<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[85]</span> + </p> + <h2> + <a name="27"></a>Carlos Magno e o abade de S. Gall + </h2> + <p> + <br /> <br /> Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de + S. Gall, preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta + da abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens enérgicos + e activos, e o abade era indolente. Além disso o imperador tinha + mais dum motivo de queixa contra ele.<br /> <br /> ―Bons dias, senhor + abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter à sua esclarecida + razão três perguntas, às quais terá a bondade + de me responder daqui a três meses, contados dia a dia, em sessão + solene do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu + valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao + mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v. + rev.<sup>ma</sup> vier à minha presença, pensamento que deve + ser um erro. Trate de arranjar resposta satisfatória a tudo, aliás + deixa de ser abade de S. Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num + burro com a cara voltada para o rabo.»<br /> <br /> O abade não + sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores + mais <span class="pagenum">[86]</span>famosos pela sua ciência, não + lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época + fatal aproximava-se; já não faltava senão um mês, + já não faltavam senão semanas, e afinal só + dias. O abade, que noutro tempo era gordo e anafado, estava magro como um + esqueleto. Perdera o sono e o apetite. Andava errante nos bosques + lamentando a sua desgraça, quando se encontrou com o seu pastor.<br /> + <br /> ―Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! + Está doente?»<br /> <br /> ―Estou, meu caro Félix, + estou muito doente.»<br /> <br /> ―Oh! meu rico amigo, eu lhe + darei alguma erva que o possa curar.»<br /> <br /> ―Infelizmente + não são ervas que eu preciso, mas resposta às minhas + três perguntas.»<br /> <br /> ―É então + latim?»<br /> <br /> ―Não, não é latim, senão + os doutores tinham-me arranjado tudo.»<br /> <br /> ―Visto que não + é latim, queira v. rev.<sup>ma</sup> dizer-me o que é: minha + mãe era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.»<br /> + <br /> Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor atirou + com o barrete ao ar, e disse-lhe:<br /> <br /> ―Se é apenas + isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.<sup>ma</sup> pode + continuar a engordar; mas para isso é necessário que eu + vista o seu hábito.»<br /> <br /> Quando chegou o dia, o pastor + disfarçado com o hábito do abade de S. Gall, foi introduzido + na sala onde o imperador presidia o conselho imperial.<br /> <br /> ―Então, + senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que pensar + a chave do <span class="pagenum">[87]</span>enigma? Vamos lá a ver + a primeira pergunta: Quanto valho eu em dinheiro?»<br /> <br /> + ―Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por + trinta dinheiros, sua majestade vale à justa vinte e nove, só + um dinheiro menos.»<br /> <br /> ―Bravo, senhor abade, a + resposta é hábil, e na realidade não posso deixar de + me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda pergunta, não há + de ser tão fácil dar a resposta. Vamos lá a ver: + quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?»<br /> <br /> ―Senhor, + se vossa majestade se levantar ao romper do dia e puder seguir + constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro + horas.»<br /> <br /> ―Decididamente, v. rev.<sup>ma</sup> + é um grande finório, e desta vez, confesso-me vencido; mas a + terceira, não dessas à que se responde com suposições. + Quem lhe há de dizer o que eu estou pensando, e como me há + de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor + abade.»<br /> <br /> ―Senhor: Vossa majestade imagina que eu sou + o abade de S. Gall; está enganado, porque eu sou o seu pastor.»<br /> + <br /> ―Mas então tu é que deves ser o abade de S. + Gall, e desde já o ficas sendo.»<br /> <br /> ―Não + sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor, peço-lhe + outra coisa.»<br /> <br /> ―Não tens mais que falar.»<br /> + <br /> ―Peço a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.»<br /> + <br /> Carlos Magno não era homem que faltasse à sua palavra.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[88]</span> + </p> + <h2> + <a name="28"></a>A boneca + </h2> + <p> + <br /> <br /> Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma história―a + história duma boneca!<br /> <br /> Não há muitos anos, + mas ainda não era a Cordoaria do Porto o ameno jardim, onde a infância + folga por entre maciços de flores e sob o sorriso do sol, sem que + lhe enegreça o espírito a vista dos dois monumentos, que a + meu ver simbolisam as duas mais horríveis calamidades, que podem + aniquilar um homem―o hospital e a cadeia!―ainda não há + muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da + feira, divertindo-me a meu modo.<br /> <br /> Cansado das inúmeras + figuras, que tinha visto passar por aquela espécie de lanterna mágica, + dispunha-me a dar por findo o espectáculo, quando novos personagens + me chamaram a atenção.<br /> <br /> Eram os meus vizinhos <i>ricos</i>. + <br /> Aqui é preciso uma rápida explicação.<br /> + <br /> Das famílias da minha vizinhança, só conheço + três.<br /> <br /> Qual destas três famílias será + mais feliz?...<br /> <br /> Pelo que tenho notado, não têm que + invejar umas às outras.<br /> <br /> <span class="pagenum">[89]</span>São + todas felizes; cada qual a seu modo.<br /> <br /> Vi, pois, chegar os meus + vizinhos <i>ricos</i>. <br /> Parou o carro, o criado saltou da almofada e + veio, de chapéu na mão e dorso ligeiramente curvado, abrir a + portinhola; o meu vizinho saltou, tomou nos braços a filhinha e depô-la + no chão, e oferecendo, em seguida, a mão à esposa, + para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e com a menina para a barraca + onde eu estava.<br /> <br /> Não havia ali segredo a surpreender.<br /> + <br /> Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que + parecia agradecer àquela formosa criança a manifestação + de qualquer desejo.<br /> <br /> No fim de meia hora possuía a minha + pequena vizinha com que fazer a felicidade de dez crianças menos + abastadas.<br /> <br /> Tinha o necessário para montar completamente + a casa duma boneca... <i>rica</i>.<br /> <br /> Faltava apenas a dona da + casa―a boneca.<br /> <br /> Todo risos e atenções, o + lojista apresentou o que tinha de melhor.<br /> <br /> Depois de muita + hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, + consultar a mamã, a gentil criança acabou por escolher uma + magnífica boneca de dois palmos de altura, com cabelo em <i>bandeaux</i> + e olhos azuis.<br /> <br /> Uma boneca como as outras: cabeça e colo + de massa, corpo de pelica recheada, braços e pernas de pau.<br /> + <br /> Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribo de crianças, + que fazem o martírio e a alegria da pobre mãe, e tem por + chefe um honrado sapateiro.<br /> <br /> <span class="pagenum">[90]</span>Alguns + deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem anjos, caídos + do céu sobre um monte de lama.<br /> <br /> São os meus + vizinhos <i>pobres</i>.<br /> <br /> A segunda compõe-se de marido, + mulher e filha, e ocupa a casa imediata.<br /> <br /> É como se + costuma dizer, gente <i>que vai muito bem com a sua vida</i>.<br /> <br /> A + filha que terá dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e + carnudas, cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que + resistem à pressão.<br /> <br /> São os meus vizinhos + <i>remediados</i>.<br /> <br /> A terceira é a dos meus vizinhos <i>ricos</i>.<br /> + <br /> Casa nobre, jardim espaçoso, cavalos, criados, nome inscrito + nas listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do + estado―nada falta àquela ditosa gente!<br /> <br /> Compõe-se + igualmente de marido, mulher e filha.<br /> <br /> Que formosa criança!... + Terá oito anos.<br /> <br /> Franzina e pálida, com os cabelos + negros, os olhos grandes e cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos + de dedos compridos e esguios, terminados por unhas duma cor de rosa + transparente, que não sinta antecipada inveja do feliz namorado―provavelmente + ainda a crescer―que há-de um dia ter o direito de lhas cobrir + de beijos.<br /> <br /> Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este + mudou todas aquelas preciosidades de sobre o balcão da barraca para + dentro do carro.<br /> <br /> A boneca teve a honra de ser transportada pela + aristocrática criança.<br /> <br /> <span class="pagenum">[91]</span>Saí + dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadíssimas + considerações, sugeridas pela quase indiferença, com + que aquela menina recebera brinquedos, que representavam um par de moedas.<br /> + <br /> Que contraste com os olhares de cobiça, com que outras + raparigas da mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabeça de + pano, horrível artefacto português, em que os olhos são + representados por dois pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de + retrós cor de rosa, a boca por outro de fio vermelho, e os cabelos + por flocos de lã preta!<br /> <br /> Quando cheguei a casa, já + na dos meus vizinhos remediados não havia luz.<br /> <br /> Na dos + meus vizinhos <i>pobres</i>, o pai batia a sola, cantando ao som de três + assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar, + provocavam os ralhos da mãe.<br /> <br /> Quando, no dia seguinte, + cheguei à janela, seriam onze horas da manhã.<br /> <br /> Na + rua agenciavam nova camada de imundície os filhos do sapateiro; na + casa imediata não se via ninguém―estava a pequena na + mestra; no palácio, sentada num tapete estendido sobre a ampla + pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milionária fazendo + rodar, com auxílio duma linha, uma magnífica <i>caleche</i> + descoberta, puxada por cavalos brancos.<br /> <br /> Dentro da <i>caleche</i> + pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.<br /> <br /> ―«Aí + está a tua caricatura, minha feiticeira!...»―disse eu + de mim para mim. «Ensaias <span class="pagenum">[92]</span>nas + bonecas o que vês no mundo a que pertences!... Estás a + aprender a copiar... Sempre este mundo!...»<br /> <br /> Retirei-me da + janela.<br /> <br /> Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma + cena.<br /> <br /> A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia + em que se vestia três e quatro vezes!<br /> <br /> Ao que eu, porém, + achava mais graça, era ao respeito com que a dona a tratava!<br /> + <br /> Chamava-lhe sr.<sup>a</sup> D. Luísa; dava-lhe excelência; + sustentava finalmente com a boneca um destes diálogos de senhoras + da alta sociedade, em que se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.<br /> + <br /> Um dia,―estava eu de costas voltadas para a janela dos meus + vizinhos <i>ricos</i>―ouvi um grito de susto.<br /> <br /> Era devido + a um acidente, a que está sujeito quem anda de carro.<br /> <br /> + Voltara-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da + janela.<br /> <br /> O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a + vítima; vendo, porém, que a ferida havia forçosamente + de deixar cicatriz, e lembrando-se de que só lhe bastava querer, + para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos pés e ia atirá-la + com despeito à rua, quando mais perto de mim bradou voz tímida + e suplicante:<br /> <br /> «Não atire!... Dê-ma.»<br /> + <br /> Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu não + dera fé até então.<br /> <br /> Assim invocada, a + menina <i>rica</i> franziu levemente <span class="pagenum">[93]</span>as + sobrancelhas e lançou um olhar de rainha para o sítio donde + vinha a súplica.<br /> <br /> Vendo uma criança, pouco mais ou + menos da sua idade, serenou e, encolhendo os ombros, respondeu:<br /> <br /> + ―«Já não presta!... Está esmurrada!...»<br /> + <br /> ―É o mesmo!... Dá-ma?...―bradou a outra, + cujos olhos brilhavam de cobiça.<br /> <br /> ―«Dou...»―volveu + a rica, encolhendo novamente os ombros.<br /> <br /> E, caminhando para o + canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da vizinha, que + tremia, receosa de que aquele tesouro fosse despedaçar-se nas lajes + da rua.<br /> <br /> Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para + exigir nova boneca; a outra, para mostrar à mãe a que ela + ainda não podia acreditar, que fosse sua!<br /> <br /> Por espaço + de meses foi a boneca a principal ocupação da nova dona.<br /> + <br /> A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em ela se vestia quatro + vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excelência! + Chamavam-lhe sr.<sup>a</sup> D. Ana; falavam-lhe de arranjos domésticos, + do desmazelo da criada, da missa das almas, de coisas finalmente, + completamente estranhas para ela!<br /> <br /> E a desgraçada perdia + as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azuis; mas o que mais a + desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais escura: + parecia uma nódoa, um estigma!<br /> <br /> Nos primeiros tempos, + enquanto durou o vestido, <span class="pagenum">[94]</span>que trouxera no + corpo, ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.<br /> + <br /> Não tardou, porém, que arrebiques de mau gosto, fitas + velhas, rendas amareladas, chapéus impossíveis, viessem + contrastar com a elegância do vestido. Dava ares de se ter equipado + ao acaso, na loja duma adeleira.<br /> <br /> Mas o vestido foi-se tornando + velho; desapareceu o brilho, e com ele as ondulações do <i>moiré</i>, + até que, um belo dia, vi a boneca vestida de cassa―-no + Inverno!―xaile e manta na cabeça.<br /> <br /> Muito mal lhe + ficava aquilo!... Àquela boneca custava-lhe de certo o ver-se tão + mal arranjada.<br /> <br /> Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e + balbuciei:<br /> <br /> ―É justo!... Cada qual segundo as suas + posses.»<br /> <br /> Por esse tempo, entrei em relações + com o meu vizinho sapateiro.<br /> <br /> O honrado homem soubera, que eu me + queixara da bulha, que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a + primeira ocasião, para me pedir desculpa.<br /> <br /> Vendo-me + conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de + nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem grave + risco de sofrer as consequências da sua travessa familiaridade.<br /> + <br /> Entre os filhos do sapateiro, porém, há uma pequenita + de onze anos, com quem simpatizei logo à primeira vista.<br /> <br /> + Chama-se Maria.<br /> <br /> Por um destes acasos da Providência, que + parece <span class="pagenum">[95]</span>às vezes comprazer-se em + criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.<br /> + <br /> Acostumado às travessuras e desalinho dos outros filhos do + sapateiro, fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.<br /> <br /> E + bem verdade que ele conhecia o valor daquela criança, porque havia + verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta + é a minha Maria!»<br /> <br /> E tinha razão!<br /> <br /> + Não podia ser mais discreta do que já nesse tempo era.<br /> + <br /> ―É quem vale à mãe!...―acrescentou + o velho.»―Ali, onde a vê, faz o serviço duma + mulher!... Há seis meses, quando a minha santa esteve doente―bem + pensei que não arribasse!―a pequena era quem cozinhava e + olhava pelos irmãos!... E caridade como ela tem!?... Olhe que + aquela pequena esteve três dias sem se deitar... ali... ao pé + da mãe! Foi preciso eu obrigá-la, que ela não a + queria deixar!...»<br /> <br /> E o desvanecido pai enxugou, com a + manga da camisa, uma lágrima, que, havia muito, hesitava sobre se + sim ou não se devia despenhar.<br /> <br /> Fazia gosto ver aquela + pequena com o seu vestidinho de chita escura e a cabeça coberta por + um lenço branco.<br /> <br /> Desde que o pai me deu tão boas + informações da rapariga, nunca mais passei por defronte da + porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias à pequena.<br /> + <br /> Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma + boneca deitada nos joelhos.<br /> <br /> <span class="pagenum">[96]</span>―Eu + conheço aquela boneca!...―disse eu de mim para mim.<br /> + <br /> E, não podendo resistir à curiosidade, bradei:<br /> + <br /> ―Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...<br /> <br /> Foi + ali a menina da vizinha!―respondeu a pequenita, corando de prazer.<br /> + <br /> Era escusado dizer-mo.<br /> <br /> Maria pegara na boneca e voltara-a + de face para mim. Não podia duvidar... Era ela; lá estava a + mancha, o estigma cada vez mais visível na fronte.<br /> <br /> De + tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha-se com ela.<br /> + <br /> ―Quem te viu e quem te vê!...―pensava eu.<br /> + <br /> Às vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lha + podiam apanhar, que tratos que sofria a desgraçada!<br /> <br /> Roçada + por aquelas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia, empregada + como péla, submetida a torturas, era, ainda assim, singularíssimo + o aspecto da triste!<br /> <br /> Dava ares duma duquesa que, por + necessidade, houve sido levada a fraternizar com o povo.<br /> <br /> A mísera + mudara mais uma vez de nome!...<br /> <br /> De sr.<sup>a</sup> D. Ana + passara a ser sr.<sup>a</sup> Rosinha e tratavam-na por vossemecê.<br /> + <br /> Trajava vestido de chita, capote velho de pano verde e lenço + na cabeça.<br /> <br /> Era um prazer para mim o escutar as + conversas, que Maria sustentava com a boneca.<br /> <br /> Esta, umas vezes, + representava o papel de mulher casada, e Maria, encarregando-se de + perguntar e responder por ela, obrigava a pobre boneca a lastimar-se por + estar tudo tão caro, por haver <span class="pagenum">[97]</span>falta + de trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que + mais familiares eram à pequena.<br /> <br /> Outra vezes passava a + boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na, mandavam-na buscar água + à fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a + despedir.<br /> <br /> Já o leitor vê que, apesar da bondade + Maria, deixara de ser feliz.<br /> <br /> Iam longe os bons tempos em que + ela, rica, morava no palácio vizinho!<br /> <br /> Desmaiada de + cores, quase perdido o cabelo, semi-apagados os olhos, desfeito o carmim + dos lábios, a boneca não prometia longa duração.<br /> + <br /> Foi este pelo menos, o prognóstico que fiz a última + vez que a vi, tentando em vão agradar à última dona + que o seu destino lhe dera.<br /> <br /> Coitada!... Bem longe estava de lhe + imaginar o fim!<br /> <br /> Um dia chovia a cântaros!―o + enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, espadanava em cachão para + cima dos passeios, arrastando na passagem mil imundícies.<br /> + <br /> Eu estava à porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e + olhava melancolicamente para a água negra, que corria. Nisto ouvi + um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... + Um objecto, arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço + voando, e foi cair no leito do enxurro...<br /> <br /> Olhei... Era a + boneca!...<br /> <br /> A mísera, arrastada pela água, vogou + rua abaixo até esbarrar numa pedra; mas o redemoinho envolveu-a, + <span class="pagenum">[98]</span>e, depois de a fazer girar três ou + quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a + pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir + sumir-se nas profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na + passagem!<br /> <br /> Será pieguice, será o que o leitor + quiser; mas, confesso-lhe, que me impressionou o fim da pobre boneca.<br /> + <br /> Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado à + vidraça do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:<br /> + <br /> ―Porque deitaste fora a boneca, Maricas!?<br /> <br /> ―Não + fui eu...―balbuciou a pequena, chorando.―Foi ali o Joaquim!...<br /> + <br /> ―E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...<br /> <br /> ―Ora!...―respondeu + o garoto com enfado.―Ora!... Estava velha... e feia!...<br /> <br /> + Curvei a cabeça ante aquela razão, e segui o meu caminho.<br /> + <br /> Pobre boneca!<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[99]</span> + </p> + <h2> + <a name="29"></a>Inconveniente da riqueza + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo, viajando na Alsácia, + foi surpreendido pela noite à entrada duma aldeia. Procurou dum + lado para outro uma casa, onde pudesse pedir pousada, mas as portas + estavam já todas fechadas, não se via nem um raio de luz + através das janelas, tudo estava adormecido. Apenas no fim dum beco + se ouvia o barulho do mangual com que se bate o trigo, e nesse sítio + havia uma pequena luz. Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé + do muro duma quinta, e bateu à porta. Foi um camponês que lha + veio abrir.<br /> <br /> ―Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me + dar agasalho por esta noite? Não se havia de arrepender.»<br /> + <br /> E acrescentou:<br /> <br /> ―Visto que já todos estão + deitados, para que é que você está ainda a trabalhar?»<br /> + <br /> ―Ora, respondeu o camponês, soube ontem à noite + que ia ser perseguido por um credor desapiedado, se lhe não pagasse + amanhã o que lhe devo, portanto eu e meus filhos estamos a bater o + pouco trigo que colhi, para o vender no mercado, e pagar a minha dívida. + Depois disto não nos fica nada, <span class="pagenum">[100]</span>e + não sei como havemos de atravessar o Inverno. Seja o que Deus + quiser!»<br /> <br /> Ao dizer isto o camponês limpava o suor da + testa, e passava a mão pelos olhos arrasados de lágrimas. O + Senhor teve dó dele, e disse-lhe:<br /> <br /> ―«Não + desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te havias + de arrepender de ma ter dado. Vou provar-to.»<br /> <br /> Pegou na + candeia, que estava suspensa numa das traves do celeiro, e aproximou-a do + trigo.<br /> <br /> ―Que vai fazer? disseram assustados os + trabalhadores, vai deitar fogo a tudo!»<br /> <br /> Mas no mesmo + instante, da palha, que eles receavam ver inflamar-se, de cada espiga, + desceu uma chuva de grãos prodigiosa. À vista dum tal + milagre os camponeses maravilhados caíram de joelhos.<br /> <br /> + ―Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua + pobreza o forasteiro que veio ter contigo como um pobre mendigo, serás + recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te + enriquece.»<br /> <br /> Dito isto desapareceu.<br /> <br /> E a chuva + dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão + alto como a igreja.<br /> <br /> O camponês pagou as suas dividas, + comprou terras, e construiu uma bela casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso + e altivo com os pobres. Ele e seus filhos adquiriram costumes perdulários, + tanto e tanto fizeram, que se arruinaram, e, como tinham sido maus nos + tempos em que eram ricos, ninguém os ajudou na sua miséria. + Uma noite o velho camponês, que bebera enormemente, entrou <span + class="pagenum">[101]</span>no celeiro, e, recordando-se do milagre que o + enriquecera, imaginou que também ele o poderia fazer. Agarrou na + candeia, aproximou-a dum feixe de palha, comunicou-se o fogo, ardeu a casa + e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miséria mais + absoluta.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[102]</span> + </p> + <h2> + <a name="30"></a>Querer é poder + </h2> + <p> + <br /> <br /> ―Quem procura sempre encontra, diz um velho provérbio; + quero ver por experiência, disse um dia um rapaz, se esta máxima + é verdadeira.<br /> <br /> Pôs-se a caminho, e foi + apresentar-se ao governador duma grande cidade.<br /> <br /> ―Senhor, + disse-lhe ele, há muitos anos que vivo tranquilo e solitariamente, + e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas vezes―<i>Quem + procura sempre encontra</i>, e <i>quem porfia mata caça</i>. Tomei + uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.<br /> + <br /> O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.<br /> + <br /> O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante + uma semana, sempre com a mesma vontade inabalável, até que o + rei ouviu falar o rapaz da sua louca pretensão. Surpreendido com + uma ideia tão extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o + rei:<br /> <br /> ―Que um homem distinto pela hierarquia, pela + coragem, pela ciência, pensasse em casar com uma princesa, nada mais + natural. Mas tu, quais são os teus títulos? Para seres o + marido <span class="pagenum">[103]</span>de minha filha é necessário + que te distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor + extraordinário. Ouve. Perdi há muito tempo no rio um + diamante dum valor incalculável. Aquele que o encontrar obterá + a mão de minha filha.<br /> <br /> O rapaz, contente com esta + promessa, foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manhã começava + a tirar água com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois + de ter assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a rezar.<br /> + <br /> Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e + receando que chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.<br /> <br /> + ―Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»<br /> <br /> + ―Encontrar um diamante que caiu ao rio.»<br /> <br /> ―Então, + respondeu o velho rei, sou de opinião que lho entreguem, porque + vejo qual é a têmpera da vontade deste rapaz; mais fácil + seria esgotar as últimas gotas do rio, do que desistir da sua + empresa.»<br /> <br /> Os peixes deitaram o diamante no balde do + rapaz, que casou com a filha do rei.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[104]</span> + </p> + <h2> + <a name="31"></a>Qual será rei? + </h2> + <p> + <br /> <br /> Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter + designado o sucessor. Reuniu-se a corte, e decidiu-se que a coroa devia + pertencer, não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais + digno.<br /> <br /> Resolveram além disso que o cadáver do rei + fosse posto de pé contra um muro, e que o príncipe que + acertasse melhor com uma flecha naquele alvo, seria o escolhido para + sucessor.<br /> <br /> Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, + apontou durante muito tempo, e a flecha foi atravessar a mão + esquerda do defunto. O príncipe soltou grito de alegria, cuidando + que seus irmãos atirariam pior, e que por conseguinte seria ele + quem viria a reinar.<br /> <br /> O segundo acertou em cheio na cara do rei, + soltando um grito ainda mais alegre do que o outro príncipe.<br /> + <br /> O terceiro varou o coração de seu pai, e os seus + gritos de triunfo quase que chegavam ao céu, porque lhe parecia + impossível acertar melhor.<br /> <br /> Quando chegou a vez do quarto + filho, tiveram de lhe meter nas mãos as flechas e o arco: mas, + <span class="pagenum">[105]</span>desde que olhou para o alvo, arrojou as + armas longe de si, e desatou a chorar:<br /> <br /> ―«Oh! meu + pai! meu querido pai! exclamou ele, como poderei eu jamais consolar-me de + ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus próprios + filhos!»<br /> <br /> Os grandes da corte ouvindo isto proclamaram-no + rei, como sendo o mais digno.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[106]</span> + </p> + <h2> + <a name="32"></a>Os três véus de Maria + </h2> + <p> + <br /> <br /> O primeiro véu de Maria era dum linho mais alvo do que + a neve. Bordara-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de + flores de seda tão bem imitadas, que as abelhas, iludidas, vinham + pousar-lhe em cima.<br /> <br /> Este véu branco só o trouxe + uma vez, no dia da sua primeira comunhão.<br /> <br /> O segundo véu + de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que sua mãe + lhe morrera, deixando-a sozinha, sem amparo, na casa triste e abandonada. + Era bordado de perpétuas roxas, como as dos sepulcros de mármore, + e os olhos de Maria tinham-no orvalhado com todas as suas lágrimas.<br /> + <br /> O véu negro só o trouxe uma vez,―no dia em que + se tornou esposa de Jesus no convento da Avé-Maria.<br /> <br /> O + terceiro véu era feito dum retalho do azul celeste, bordado de + estrelas, e perfumado com aromas suavíssimos.<br /> <br /> Foi o seu + anjo da guarda, que lho deu no mesmo dia em que ela entrou no paraíso.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum"><a name="p107" id="p107">[107]</a></span> + </p> + <h2> + <a name="33"></a>Os pequenos no bosque + </h2> + <p> + <br /> <br /> Um dia três pequenos iam juntos para a escola, e + disseram uns aos outros, que não havia nada no mundo mais + aborrecido que estudar: «Vamos para o bosque que <a href="#e4">encontraremos</a> + lá toda a espécie de lindos bichinhos, que não fazem + outra coisa senão brincar, e nós brincaremos com eles.»<br /> + <br /> Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga + e da abelha diligente. Mas o besoiro, que eles convidaram a vir patuscar, + disse-lhes:<br /> <br /> ―Brincar? Preciso construir com estas ervas + uma ponte nova, porque a outra já não está sólida.»<br /> + <br /> ―Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões + para o Inverno.»<br /> <br /> ―Eu, disse dali a pomba, tenho + muitas coisas que levar para o meu ninho.»<br /> <br /> ―Eu, + disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda + hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a + minha <i>toilette</i>.»<br /> <br /> E tu, lindo regato, disseram os + pequenos desertores, <span class="pagenum">[108]</span>que passas o tempo + a saltar e a tagarelar, também não queres brincar connosco?»<br /> + <br /> ―Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês + então imaginam que eu não tenho que fazer? De noite ou de + dia, não descanso nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens + e aos animais, às colinas, aos vales, aos campos e aos jardins. + Tenho que apagar os incêndios, tenho que fazer mover as forjas, os + moinhos, as serralharias. Nem hoje acabara, se lhes quisesse contar o que + tenho que fazer. Não posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou + com muita pressa.»<br /> <br /> Os pequenos, desconcertados, + puseram-se a olhar para o ar, e viram um pintassilgo, em cima dum ramo.<br /> + <br /> ―Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar + connosco?»<br /> <br /> ―Nada que fazer? vocês estão + a mangar comigo, disse o pintassilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas + para comer. Tenho além disso que tomar parte no concerto dos + passarinhos, tenho que alegrar o operário com o meu chilrear, e + tenho que adormecer as crianças com uma outra cantiga, que à + noite e de madrugada celebre a bondade do Criador. Ide-vos embora, preguiçosos, + ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incomodar os + habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»<br /> + <br /> Os pequenos aproveitaram a lição, e compreenderam que + o prazer só é legítimo, quando é a recompensa + do trabalho.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[109]</span> + </p> + <h2> + <a name="34"></a>O chapelinho encarnado + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, + a quem sua mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da + avozinha, que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar à + neta, deu-lhe um dia um chapéu de veludo vermelho. A pequenita + andava tão contente com o seu chapéu novo, que já não + queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do + chapelinho encarnado.<br /> <br /> A mãe e a avó moravam em + duas casas separadas por uma floresta de meia légua de comprido. + Uma manhã a mãe disse à pequenita:<br /> <br /> ―Tua + avó está doente, e não pôde vir ver-nos. Eu fiz + estes doces, vai levar-lhos tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não + quebres a garrafa, não andes a correr, vai devagarinho e volta + logo.»<br /> <br /> ―Sim, mamã, respondeu ela, hei-de + fazer tudo como deseja.»<br /> <br /> Atou o seu avental, meteu num + cestinho a garrafa e os doces, e pôs-se a caminho. No meio da + floresta um lobo aproximou-se dela. A pequenita, que nunca vira lobos, + olhou para ele sem medo algum.<br /> <br /> <span class="pagenum">[110]</span>―Bons + dias, chapelinho encarnado.»<br /> <br /> ―Bons dias, meu + senhor, respondeu delicadamente a pequena.»<br /> <br /> ―Onde + vais tão cedo?»<br /> <br /> ―A casa da minha avó + que está doente.»<br /> <br /> ―E levas-lhe alguma coisa?»<br /> + <br /> ―Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho + para lhe dar forças.»<br /> <br /> Diz-me onde mora a tua, avó, + que também a quero ir ver.»<br /> <br /> ―É perto, + aqui no fim da floresta. Há ao pé uns carvalhos muito + grandes, e no jardim há muitas nozes.»<br /> <br /> ―Ah! + tu é que és uma bela noz, disse consigo o lobo. Como eu + gostava de te comer.» Depois continuou em voz alta:―Olha, que + bonitas árvores e que lindos passarinhos. Como é bom passear + nas florestas, e então que quantidade de plantas medicinais que se + encontram!»<br /> <br /> ―O senhor, é com certeza um médico, + respondeu a inocente pequenita, visto que conhece as ervas medicinais. + Talvez me pudesse indicar alguma que fizesse bem a minha avó.»<br /> + <br /> ―Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta + também, e aquela.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, + eram plantas venenosas. A pobre criança, queria-as apanhar para as + levar a sua avó.<br /> <br /> ―Adeus, meu lindo chapelinho + encarnado, estimei muito conhecer-te. Com grande pena minha, tenho de te + deixar para ir ver um doente.»<br /> <br /> E pôs-se a correr em + direcção da casa da avó, enquanto que a pequerrucha + se entretinha em apanhar as plantas que ele tinha indicado.<br /> <br /> + <span class="pagenum">[111]</span>Quando o lobo chegou à porta da + velha, achou-a fechada e bateu, mas a avó não se podia + levantar da cama, e perguntou: Quem está aí?»<br /> + <br /> ―É o chapelinho encarnado, respondeu o lobo imitando a + voz da pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»<br /> + <br /> ―Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás + a chave.»<br /> <br /> Encontrou-a, abriu a porta, engoliu duma bocada + a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ela costumava usar, + deitou-se na cama.<br /> <br /> Pouco depois entrou a pequenita, assustada e + admirada de encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó + a costumava ter fechada.<br /> <br /> O lobo tinha posto uma touca na cabeça, + que lhe escondia uma parte do focinho, mas o que lhe ficava descoberto era + horrível.<br /> <br /> ―Ai! avozinha, disse a criança, + porque tens tu as orelhas tão grandes?»<br /> <br /> ―É + para te ouvir melhor, minha filha.»<br /> <br /> ―E porque estás + com uns olhos tão grandes?»<br /> <br /> ―É para + te ver melhor.»<br /> <br /> ―E para que estás com os braços + tão grandes?»<br /> <br /> ―É para te poder abraçar + melhor.»<br /> <br /> ―E Jesus! para que tens hoje uma boca tão + grande e uns dentes tão agudos?»<br /> <br /> ―É + para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se + à pobre pequena, e engoliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e + começou a ressonar muito alto. Um caçador que passava por + acaso, perto da casa, e que ouviu aquele barulho, disse consigo: A pobre + velha está com um pesadelo, <span class="pagenum">[112]</span>está + pior talvez, vou ver se precisa dalguma coisa.» Entra, e vê o + lobo estendido na cama.<br /> <br /> ―Olá, meu menino, diz ele: + há muito tempo que te procuro.»<br /> <br /> Armou a sua + espingarda, mas parando logo: Não, disse ele, não vejo a + dona da casa. Talvez o lobo a engolisse viva. E em lugar de matar o animal + com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a + barriga. Apareceu logo o chapelinho encarnado e saltou para o chão, + gritando:<br /> <br /> ―Ai! que sítio medonho onde eu estive + fechada!<br /> <br /> A avó saiu também contentíssima + por ver outra vez a luz do dia.<br /> <br /> O lobo continuava a dormir + profundamente, e o caçador meteu-lhe então duas grandes + pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a neta + para verem o que se ia passar.<br /> <br /> Decorrido um instante o lobo + acordou, e como tinha sede, levantou-se para ir beber ao lago. Ao andar + ouvia as pedras baterem uma na outra, e não podia compreender o que + aquilo era; com o peso, caiu no lago, e afogou-se.<br /> <br /> O caçador + tirou-lhe a pele, comeu os bolos e bebeu o vinho com a velha e a sua neta. + A velha sentia-se remoçar, e o chapelinho encarnado prometeu não + tornar a passar na floresta, quando sua mãe lho proibisse.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[113]</span> + </p> + <h2> + <a name="35"></a>Os cinco sonhos + </h2> + <p> + <br /> <br /> Andando um dia Carlos Magno à caça com uma + comitiva numerosa, perseguiu um veado, que dava tais saltos, e corria por + tal forma, que, apesar da ligeireza do seu cavalo, o rei perdeu-lhe + completamente a pista. Foi só então que viu que estava só, + tendo a sua corte ficado muito para traz; sentindo-se fatigado, entrou ao + cair da noite numa choupana solitária no meio da floresta. Em roda + da lareira estavam deitados quatro ladrões. Os salteadores + levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da entrada do viajante; + cada um deles tinha tido um sonho, que lhe quiseram logo contar.<br /> + <br /> O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se desta maneira:<br /> <br /> + ―No meu sonho, tirava eu o capacete de ouro à pessoa que + acaba de entrar aqui, e punha-o na minha cabeça.»<br /> <br /> + ―Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»<br /> + <br /> ―E eu que estava pondo o seu manto.»<br /> <br /> ―E + eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do + meu pescoço aquela <span class="pagenum">[114]</span>pesada cadeia + de ouro, da qual está pendurada a sua trompa de caça.»<br /> + <br /> ―Vejo bem, disse o imperador, que têm tenção + de me roubar tudo, e mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de + vocês, e que toda e qualquer resistência seria inútil. + Não lhes peço senão uma coisa, é que me deixem + tocar pela última vez na minha trompa de caça.»<br /> + <br /> Os salteadores responderam que consentiam, visto que o último + pedido dum moribundo deve ser respeitado.<br /> <br /> Carlos Magno levou + à boca a sua magnífica trompa de marfim, e tirou dela sons tão + fortes e sonoros, que em menos dalguns minutos todos os seus companheiros + de caça e a sua comitiva estavam ao pé dele.<br /> <br /> + ―Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora também + eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser + enforcados diante deste casebre.»<br /> <br /> E o sonho realizou-se + imediatamente.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[115]</span> + </p> + <h2> + <a name="36"></a>A igreja do rei + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez um rei, que quis levantar uma igreja magnífica + em honra da Virgem, decretando que ninguém nos seus estados pudesse + contribuir para a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o + edifício se concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei + gravar numa pedra do mármore uma inscrição em letras + de ouro, que dizia que só ele, e mais ninguém, tinha levado + a cabo aquela obra monumental. Mas na noite seguinte o nome do rei foi + apagado da inscrição, e substituído por o duma pobre + mulherzinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar pôr o seu + nome na inscrição, e de novo foi substituído pelo da + pobre mulher; à terceira vez sucedeu o mesmo. O rei, cheio de cólera, + ordenou então que lhe trouxessem a mulher à sua presença:<br /> + <br /> ―Proibi a todos os meus vassalos, disse-lhe ele, que contribuíssem + fosse com o que fosse para a edificação desta igreja; vejo + que não cumpriste as minhas ordens.»<br /> <br /> ―«Senhor, + respondeu a velhinha toda trémula, eu respeitei as vossas ordens, + apesar da mágoa <span class="pagenum">[116]</span>que sentia por não + poder oferecer o meu pequenino óbolo em honra da Virgem; mas + julguei não desobedecer a vossa majestade, deixando por vezes de + jantar para comprar um pouco de feno, que eu levava às escondidas + aos bois que conduziam as pedras destinadas à construção + da igreja.»<br /> <br /> ―«O teu nome é mais digno + do que o meu de figurar em letras de ouro na inscrição do + monumento, disse-lhe o rei.»<br /> <br /> Mas na noite seguinte uma mão + invisível restabeleceu na lápide da igreja o nome do rei, + que desde então lá se conserva ainda.<br /> <br /> <br /> <br /> + <br /> <span class="pagenum">[117]</span> + </p> + <h2> + <a name="37"></a>O valente soldado de chumbo + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, + por todos terem nascido da mesma colher de chumbo. Vede-os: que atitude + marcial, de espingarda ao ombro, olhar fixo, e ricos uniformes azuis e + vermelhos! A primeira coisa que ouviram neste mundo, quando se levantou a + tampa da caixa em que eles estavam, foi este grito: «Olha soldados + de chumbo!» que soltou um rapazito, batendo as palmas de alegria. + Tinham-lhos dado de presente no dia dos anos, e o seu divertimento era + formá-los sobre a mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se + pareciam maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma + perna de menos, porque o tinham deitado na forma em último lugar, e + já não havia chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os + outros não estavam mais firmes nas duas pernas do que ele na sua + única, e é este o que precisamente nos interessa.<br /> <br /> + Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros + brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindíssimo castelo + de papel. Pelas suas pequeninas janelas via-se-lhe <span class="pagenum">[118]</span>o + interior dos salões. À volta era circundado duma floresta em + miniatura, que se reflectia poeticamente num pedaço de espelho que + fingia um lago, onde nadavam pequeninos cisnes de cera. Tudo isto era + encantador, mas não tanto como uma menina que estava à + porta, e que era também de papel, vestida com um lindo vestido de + cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina tinha os braços + arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha levantada a + tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e imaginou + que, como ele, não tinha senão uma perna.<br /> <br /> ―Ali + está a mulher que me convém, pensou ele, mas é uma + grande fidalga. Mora num palácio, eu numa caixa em companhia de + vinte e quatro camaradas, e não haveria cá lugar para ela. + No entanto preciso conhecê-la.»<br /> <br /> Deitou-se atrás + duma caixa de tabaco, e dali podia ver à sua vontade a elegante dançarina, + que estava sempre num pé só, sem perder o equilíbrio.<br /> + <br /> À noite todos os outros soldados foram metidos na caixa, e as + pessoas da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, + começaram a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. + Os soldados de chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque + queriam lá ir; mas como haviam eles tirar a tampa? O quebra-nozes + começou a dar cabriolas e saltos mortais, o lápis traçou + mil arabescos fantásticos numa lousa, enfim o barulho tornou-se tal + que o canário acordou, e pôs-se a cantar. Os únicos + que <span class="pagenum">[119]</span>estavam quietos eram o soldado de + chumbo e a dançarinazinha. Ela no bico do pé, e ele numa + perna só, a espreitá-la.<br /> <br /> Deu meia noite, e zás, + a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar de rapé, + saiu um feiticeirozinho preto. Era um brinquedo de surpresa.<br /> <br /> + ―Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro sítio.»<br /> + <br /> Mas o soldado fez que não ouvia.<br /> <br /> ―Espera até + amanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»<br /> + <br /> No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado + de chumbo à janela, mas de repente ou por influência do + feiticeiro ou por causa do vento caiu à rua de cabeça para + baixo. Que tombo! Ficou com a perna no ar, o peso do corpo todo sobre a + barretina, e com a baioneta enterrada entre duas lajes.<br /> <br /> A + criada e o rapazito foram lá abaixo procurá-lo, mas + estiveram quase a esmagá-lo, sem darem por ele. Se o soldado + tivesse gritado: «Cautela!» te-lo-íam achado, mas ele + julgou que seria desonrar a farda. A chuva começou a cair em + torrentes, e tornou-se num verdadeiro dilúvio. Depois do aguaceiro + passaram dois garotos.<br /> <br /> ―Olá! disse um deles, um + soldado de chumbo por aqui! Vamos fazê-lo navegar.»<br /> <br /> + Construíram um barco dum bocado de jornal velho, meteram o soldado + de chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. Os dois + garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus! + Que força de corrente! Mas também tinha chovido tanto! O + barco jogava <span class="pagenum">[120]</span>duma maneira horrorosa, mas + o soldado de chumbo conservava-se impassível, com os olhos fixos e + a espingarda ao ombro.<br /> <br /> De repente o barco foi levado para um + cano, onde era tão grande a escuridão como na caixa dos + soldados.<br /> <br /> ―Onde irei eu parar? pensou ele. Foi o tratante + do feiticeiro que me meteu nestes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquela + linda menina estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão + fosse duas vezes maior.»<br /> <br /> Dali a pouco apresentou-se um + enorme rato de água; era um habitante do cano.<br /> <br /> ―Venha + o teu passaporte.»<br /> <br /> Mas o soldado de chumbo não + disse nada, e agarrou com mais força na espingarda. O barco + continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, rangendo os dentes, e + gritando às palhas, e aos cavacos:―Façam-no parar, façam-no + parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»<br /> + <br /> Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do + dia, e sentia ao mesmo tempo um barulho capaz de assustar o homem mais + valente. Havia na extremidade do cano uma queda de água tão + perigosa para ele, como é para nós uma catarata. + Aproximava-se dela cada vez mais, sem poder parar, com uma rapidez + vertiginosa. O barco lançou-se sobre a queda de água, e o + pobre soldado firmava-se o mais possível, e ninguém se + atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.<br /> + <br /> O barco, depois de ter andado à roda durante muito tempo, + encheu-se de água, e estava a ponto <span class="pagenum">[121]</span>de + naufragar. A água já chegava ao pescoço do soldado, e + o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a água + passou por cima da cabeça do nosso herói. Nesse momento + supremo, pensou na gentil dançarinazinha, e pareceu-lhe ouvir uma + voz que dizia:<br /> <br /> ―Soldado: o perigo é enorme, a + morte espera-te.»<br /> <br /> O papel rasgou-se, e o soldado passou + através dele. Nesse momento foi devorado por um grande peixe.<br /> + <br /> Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E + além disso, que talas em que ele estava metido! Mas, sempre intrépido, + o soldado estendeu-se ao comprido com a espingarda ao ombro.<br /> <br /> O + peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de meter medo, até que + enfim parou, e pareceu que o atravessava um relâmpago. Apareceu a + luz do dia, e alguém exclamou:<br /> <br /> ―Olha um soldado de + chumbo!»<br /> <br /> O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, + vendido, e levado para a cozinha, e a cozinheira tinha-o aberto com uma + enorme faca. Pegou no soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a + sala, onde toda a gente quis admirar esse homem extraordinário, que + tinha viajado na barriga dum peixe. No entretanto o soldado não se + sentia orgulhoso. Colocaram-no em cima da mesa, e ali―tanto é + verdade que acontecem coisas extraordinárias neste mundo―achou-se + na mesma sala, de cuja janela tinha caído. Reconheceu os pequenos e + os brinquedos que estavam em cima da mesa, o lindo palácio, e a + adorável dançarina sempre <span class="pagenum">[122]</span>de + perna no ar. O soldado de chumbo ficou tão comovido, que de boa + vontade teria derramado lágrimas de chumbo, mas não era + conveniente. Olhou para ela, ela olhou para ele, mas não disseram + uma palavra um ao outro.<br /> <br /> De repente um dos pequenos pegou nele, + e sem motivo algum deitou-o no fogão; eram obras do feiticeiro da + caixa do rapé.<br /> <br /> O soldado de chumbo lá estava + perfilado, alumiado por um clarão sinistro, e sofrendo um calor + terrível. Todas as cores lhe tinham desaparecido, sem que se + pudesse dizer, se era por causa das suas viagens, ou por causa dos seus + desgostos. Continuava a olhar para a dançarina, que também + olhava para ele. Sentia-se derreter, mas, sempre intrépido, + conservava a espingarda ao ombro. De repente abriu-se uma porta, o vento + arremessou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que + desapareceu no meio das labaredas. O soldado de chumbo, já não + era mais que uma pequena massa informe.<br /> <br /> No dia seguinte, quando + a criada veio tirar a cinza, encontrou um objecto que tinha o feitio dum + pequeno coração de chumbo, e tudo o que restava da dançarina + era a fivela do cinto azul que o lume tinha enegrecido.<br /> <br /> <br /> + <br /> <br /> <span class="pagenum">[123]</span> + </p> + <h2> + <a name="38"></a>João Pateta + </h2> + <p> + <br /> <br /> João era filho duma pobre viúva, bom rapaz, mas + um pouco simplório. A gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira + João Pateta. Um dia sua mãe mandou-o à feira comprar + uma foice. À volta, começou a andar com a foice à + roda, de maneira que a foice caiu em cima duma ovelha, e matou-a.<br /> + <br /> ―Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito + era pôr a foice em um dos carros de palha ou de feno dalgum dos + vizinhos.»<br /> <br /> ―Perdão, mãe, respondeu + humildemente João, para a outra vez serei mais esperto.»<br /> + <br /> Na semana seguinte mandaram-no comprar agulhas, recomendando-lhe que + as não perdesse.<br /> <br /> ―Fique descansada. E voltou todo + orgulhoso.»<br /> <br /> ―Então, João, onde estão + as agulhas?»<br /> <br /> ―Ah! estão em lugar seguro. + Quando saí da loja em que as comprei, ia a passar o carro do + vizinho carregado de palha; meti lá as agulhas, não podem + estar em sítio melhor.»<br /> <br /> ―De certo, estão + em lugar de tal modo seguro, que não há meio de as tornar a + ver. Devias tê-las espetado no chapéu.»<br /> <br /> + <span class="pagenum">[124]</span>―Perdão, respondeu João, + para a outra vez, hei-de ser mais esperto.»<br /> <br /> Na outra + semana, por um dia de calor, João foi dali uma légua comprar + uma pouca de manteiga. Lembrando-se do último conselho de sua mãe, + pôs a manteiga dentro do chapéu e o chapéu na cabeça. + Imagine-se o estado em que voltou para casa, com a cara a escorrer + manteiga derretida.<br /> <br /> A mãe já tinha medo de o + mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia resolveu-se a mandá-lo + à feira vender duas galinhas.<br /> <br /> ―Ouve bem, não + vendas pelo primeiro preço. Espera que te ofereçam outro.»<br /> + <br /> ―Está entendido, respondeu João.»<br /> + <br /> Foi para a feira. Um freguês chegou-se a ele.<br /> <br /> + ―Queres seis tostões por essas galinhas?»<br /> <br /> + ―Ora adeus! minha mãe recomendou-me, que não aceitasse + o primeiro preço, mas que esperasse o segundo.»<br /> <br /> + ―E tens muita razão. Dou-te um cruzado.»<br /> <br /> + ―Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em aceitar o + primeiro, mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ela não + tem que me ralhar.»<br /> <br /> Depois disto, João foi + condenado a ficar em casa. Sua mãe sabia que mangavam com ele, e se + riam dela. Uma manhã quis fazer uma experiência, e disse-lhe:<br /> + <br /> ―Vai vender este carneiro à feira. Mas não te + deixes enganar. Não o entregues senão a quem te der o preço + mais elevado.»<br /> <br /> ―Está bem, agora entendo, e + sei o que hei de fazer.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[125]</span>―Quanto + queres por esse carneiro?<br /> <br /> ―Minha mãe disse-me que + o não vendesse senão pelo preço mais elevado.<br /> + <br /> ―Quatro mil réis?»<br /> <br /> ―É o + preço mais elevado?»<br /> <br /> ―Pouco mais ou menos.»<br /> + <br /> ―É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que + trepara a uma escada.<br /> <br /> ―Quanto?»<br /> <br /> ―Dez + tostões:»<br /> <br /> ―É menos, respondeu + timidamente o João.»<br /> <br /> ―Sim, mas vês até + onde chega esta escada. Em toda a feira não há um preço + mais elevado.»<br /> <br /> ―Tem razão. É seu o + carneiro.»<br /> <br /> Desde esse dia o João Pateta não + tornou a ser encarregado de vender ou comprar coisa alguma.<br /> <br /> + <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[126]</span> + </p> + <h2> + <a name="39"></a>Branca de Neve + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter + filhos. Um dia de Inverno, enquanto bordava num bastidor de ébano + olhando de vez em quando pela janela, para ver cair os flocos de neve no + chão, distraída, picou-se num dedo e saiu uma gota de + sangue.<br /> <br /> ―Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns + beiços tão vermelhos como este sangue, uma pele branca como + esta neve, e uns cabelos negros como este ébano.»<br /> <br /> + Algum tempo depois os seus desejos realizaram-se, e deu à luz uma + filha, que tinha uma linda boca vermelha, cabelos negros e o corpo tão + branco, que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe + não gozou muito tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a + casar com uma mulher duma grande beleza, e dum orgulho não menos + extraordinário. Era tão formosa que se considerava a mulher + mais perfeita do universo. Algumas vezes fechava-se no seu quarto, e + colocando-se diante dum espelho mágico dizia-lhe:<br /> <br /> + ―Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda + que há no mundo?»<br /> <br /> ―És tu, respondia o + espelho.»<br /> <br /> <span class="pagenum">[127]</span>No entanto + Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais formosa. Tinha + apenas sete anos, e já ninguém a podia ver sem ficar + maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu espelho, + disse-lhe:<br /> <br /> ―Meu fiel espelho, responde-me: qual é + a mulher mais linda que há no mundo?»<br /> <br /> ―Não + és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»<br /> + <br /> A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração + uma dor aguda, como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um ódio + mortal pela inocente Branca. Não podia sossegar nem de dia, nem de + noite. Para satisfazer o seu ódio, chamou um criado, e disse-lhe:<br /> + <br /> ―Quero que Branca desapareça. Conduze-a à + floresta, mata-a, e, para me provar que as minhas ordens foram executadas + pontualmente, traz-me o coração.»<br /> <br /> O criado + levou Branca para o fundo da floresta, pegou numa faca, e dispunha-se a + executar a ordem que recebera. A pobre criança chorava e + lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ela não + tinha feito mal a ninguém, e queria viver. O criado, comovido com + aquelas lágrimas, não teve coragem, e abandonou-a na + floresta, pensando que se as feras a devorassem a culpa não era + dele, mas sim da rainha. Assim fez, e para mostrar o coração + de Branca à rainha, matou um cabrito, e tirou-lhe o coração. + A rainha ao ver aqueles despojos sangrentos ficou contentíssima, e + disse consigo: Enfim, morreu a minha rival, e nenhuma mulher no mundo + é tão bela como eu.<br /> <br /> <span class="pagenum">[128]</span>A + pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava + cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas + pedras, e andava pelo meio do mato que lhe rasgava o vestido, e pela + primeira vez também via animais ferozes. Mas as feras não + lhe faziam mal algum, o deixavam-na andar. No fim do dia tinha atravessado + sete montanhas.<br /> <br /> À noite chegou ao pé duma casinha + muito pequenina. Estava morta de fome e de sede. Entrou na casa, onde tudo + estava muito arranjado e muito limpo. Havia uma mesa pequena, e sobre a + mesa, coberta com uma toalha de brancura irrepreensível, sete + pratos pequenos, sete garrafas pequenas, e ao longo da parede sete camas + muito pequeninas. Branca comeu um pouco do que estava nos pratos, bebeu + uma gota de vinho de cada copo, deitou-se na cama, rezou, e adormeceu + profundamente.<br /> <br /> Momentos depois os donos da casa entraram. Eram + sete mineiros pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. + Viram logo que tinham gente em casa. Um deles disse:<br /> <br /> ―Quem + comeu o meu pão?»<br /> <br /> E os outros sucessivamente:<br /> + <br /> ―Quem pegou no meu garfo?»<br /> <br /> ―Quem comeu + o meu caldo?»<br /> <br /> ―Quem bebeu o meu vinho?»<br /> + <br /> E enfim um deles:<br /> <br /> ―Quem está aí + deitado na minha cama?»<br /> <br /> Reuniram-se todos à roda + do pequeno leito em que dormia Branca. À luz das lanternas viram o + doce rosto da criança, que dormia tranquilamente, <span + class="pagenum">[129]</span>e afastaram-se sem fazer bulha, para a não + acordar. Branca no dia seguinte de manhã ficou um pouco assustada, + quando viu perto de si aqueles sete anões das montanhas. Mas eles + disseram-lhe com brandura, que não tivesse medo, e perguntaram-lhe + donde vinha, e como se chamava. Branca contou a sua triste história, + e os anões disseram-lhe:<br /> <br /> ―Queres tu ficar + connosco, para tomar conta da nossa casa?»<br /> <br /> ―Da + melhor vontade, respondeu Branca, completamente sossegada.»<br /> + <br /> Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente + todos os dias. Limpava os móveis, e fazia o jantar. Os anões + iam trabalhar para as minas de ouro e de diamantes, e quando voltavam + achavam tudo em ordem.<br /> <br /> Durante esse tempo a rainha andava + satisfeita, quando pensava que já não tinha que recear uma + rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, e disse-lhe:<br /> <br /> + ―Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a + mulher mais linda que há no mundo?»<br /> <br /> E o espelho + respondeu:<br /> <br /> ―Sim, nos teus palácios e nos teus + castelos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é + mais linda do que tu.»<br /> <br /> Ouvindo esta resposta a orgulhosa + rainha, sentiu de novo um golpe cruel, e determinou tornar a fazer + desaparecer a inocente Branca. Mas de que modo? Uma manhã partiu + disfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto cheio de objectos + de fantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu à <span + class="pagenum">[130]</span>porta da casinha, gritando: «Quem quer + comprar bonitas jóias?»<br /> <br /> Os anões tinham + recomendado a Branca que desconfiasse das caras estranhas, receando os + emissários da rainha, e ela tinha prometido ser prudente. Mas, + quando viu as lindas coisas que a vendedeira tinha no cesto, esqueceu-se + das suas promessas.<br /> <br /> ―Veja este rico colar, minha menina, + eu mesmo lho vou pôr ao pescoço.»<br /> <br /> Branca + consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os anões + voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente + inanimada. Arrancaram-lhe o colar, e deitaram-lhe nos lábios + algumas gotas dum licor amarelo. Branca começou a respirar, voltou + a si pouco a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha + acontecido.<br /> <br /> ―Podes estar certa, disseram-lhe eles, que + essa vendedeira não era outra pessoa, senão a tua inimiga, a + rainha. Toma cautela, não deixes entrar aqui ninguém, quando + não estivermos em casa.»<br /> <br /> Ao entrar no seu palácio + toda contente, colocou-se a rainha diante do espelho, e disse-lhe:<br /> + <br /> ―Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que + há no mundo? Responde.<br /> <br /> E o espelho respondeu:<br /> <br /> + ―És tu nos teus grandes palácios e nos teus castelos, + mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é mais linda do + que tu.»<br /> <br /> A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez + tentar aniquilar a infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar <span + class="pagenum">[131]</span>em vendedeira. Chegou às sete + montanhas, e bateu à porta da cabana.<br /> <br /> ―Quem quer + comprar lindas jóias? Branca veio à janela, e respondeu:<br /> + <br /> ―Vá-se embora, aqui não entra ninguém.»<br /> + <br /> ―Tanto pior para si, respondeu a malvada, olhe este pente de + ouro. Já viu outro tão bonito?»<br /> <br /> Branca não + pôde resistir ao desejo de possuir aquela jóia. Abriu a + porta.<br /> <br /> ―Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lho na + cabeça.»<br /> <br /> Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça + o pente, que estava envenenado, e Branca caiu morta.<br /> <br /> À + noite quando regressaram os anões, acharam-na pálida e fria. + Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-na com a sua bebida, e tornaram + a recomendar-lhe que fosse prudente.<br /> <br /> No entanto a cruel rainha + voltava contentíssima para o seu palácio. Apenas chegou, foi + direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que o espelho respondeu + como antecedentemente.<br /> <br /> ―Ah! é preciso que ela + morra, ainda que para isso eu tenha de me sacrificar.<br /> <br /> Vestiu-se + de camponesa com um cesto de maçãs. Entre elas havia uma que + estava envenenada dum lado. Foi, e bateu à porta da cabana.»<br /> + <br /> ―Quem quer comprar fruta, quem quer comprar?»<br /> <br /> + ―Retire-se, disse Branca vendo-a pela janela, não deixo + entrar ninguém, nem compro coisa alguma.»<br /> <br /> ―Está + bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. + Mas por ser tão bonita, quero dar-lhe uma.»<br /> <br /> <span + class="pagenum">[132]</span>―Obrigada, não posso aceitar.»<br /> + <br /> ―Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um + pedaço. Ah! que boa que é! Nunca provei nada assim. Ao + pronunciar estas palavras, a traidora mordia no lado da maçã, + que não estava envenenado. Branca deixou-se tentar, levou à + boca o outro pedaço, e caiu fulminada.<br /> <br /> ―Aí + tens, para castigo da tua formosura.»<br /> <br /> Quando chegou ao + palácio a rainha foi direita ao espelho, e perguntou-lhe:<br /> + <br /> ―Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»<br /> + <br /> E o espelho respondeu: <br /> ―És tu, és tu.»<br /> + <br /> ―Até que enfim!»<br /> <br /> Os anões + estavam inconsoláveis. Debalde tinham tentado reanimá-la com + o licor de ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava + fria e inanimada. Choraram por ela durante três dias, e os + passarinhos da floresta choraram também. No entanto as boas + avezinhas não podiam acreditar que ela estivesse morta, e vendo o + seu rosto tão tranquilo, as suas faces tão frescas, parecia + que estava a dormir. Não quiseram enterrá-la. Meteram-na num + caixão de cristal, e escreveram em cima. «Aqui jaz a filha + dum rei;» puseram o caixão numa das sete montanhas, e um + deles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se assim + durante muitos anos, sem que se notasse no seu rosto a mais pequena alteração.<br /> + <br /> Um dia um formoso rapaz, filho dum rei, tendo-se perdido ao andar + à caça, viu o caixão, e pediu aos anões que + lho cedessem, fosse por preço que fosse.<br /> <br /> <span + class="pagenum">[133]</span>―Somos muito ricos, e por nada deste + mundo venderemos este caixão, que é o nosso tesouro.»<br /> + <br /> ―Então dêem-mo, já não posso viver + sem contemplar este rosto de mulher. Guardá-lo-ei na melhor sala do + meu palácio. Peço-lhes que me façam isto.»<br /> + <br /> Os anões, comovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no + caixão para o levarem. Um deles tropeçou numa raiz, e o caixão + sofreu um balanço, que fez cair o bocado da maçã + envenenada, que Branca não tinha engolido, e que lhe ficara na + boca. Abriu logo os olhos, e ressuscitou. O jovem príncipe levou-a + para o seu castelo, e casou com ela. O casamento fez-se com grande pompa. + O príncipe convidou todos os reis e rainhas dos diferentes países, + e entre elas a rainha inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico + vestido, que devia atrair todos os olhares, pôs-se diante do + espelho, e disse a rainha:<br /> <br /> ―Meu fiel espelho, qual a + mulher mais linda que há do mundo?»<br /> <br /> E o espelho + respondeu:<br /> <br /> ―Branca é mais formosa que tu.<br /> + <br /> A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus + crimes fossem descobertos, que morreu de repente.<br /> <br /> Branca viveu + muitos anos, adorada de todos, e no seu palácio de princesa não + se esqueceu dos anões que tinham sido os seus benfeitores.<br /> + <br /> <br /> <br /> <br /> <span class="pagenum">[134]</span> + </p> + <h2> + <a name="40"></a>A rapariguinha e os fósforos + </h2> + <p> + <br /> <br /> Que frio! a neve caía, e a noite aproximava-se; era o + último de Dezembro, véspera de Ano Bom. No meio deste frio e + desta escuridão passou na rua uma desgraçada pequerrucha, + com a cabeça descoberta e os pés descalços. É + verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas tinham-lhe servido pouco + tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já tinha usado, + tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua a + correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; quanto + ao outro fugiu-lhe com ele um garotito, com a intenção de + fazer dele um berço para o seu primeiro filho.<br /> <br /> A + pequenita caminhava com os pezinhos nus, arroxeados pelo frio; tinha no + seu velho avental uma grande quantidade de fósforos, e levava na mão + um maço deles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido + compradores, e por isso não apurara cinco réis.<br /> <br /> + Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos + longos cabelos loiros, adoravelmente anelados em volta do pescoço; + <span class="pagenum">[135]</span>mas pensava ela porventura nos seus + cabelos anelados?<br /> <br /> As luzes brilhavam nas janelas, e sentia-se + na rua o cheiro dos manjares; era a véspera de dia de Ano Bom: eis + no que ela pensava.<br /> <br /> Deixou-se cair a um canto, entre dois + muros. O frio enregelava-a cada vez mais, mas não se atrevia a + voltar para casa: o pai bater-lhe-ia, porque não tinha vendido os + seus fósforos. Além disso em sua casa fazia tanto frio como + na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento atravessava, apesar de + o terem calafetado com palha e farrapos. As suas mãozinhas já + quase que as não sentia. Ai! como um fosforozinho aceso lhe faria + bem! Se tirasse do maço apenas um, um único, e ascendendo-o + aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: <i>ritche</i>! como estoirou! + como ardeu! Era uma chama tépida e clara, como uma pequena + lamparina. Que luz esquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um + enorme braseiro de ferro, cujo lume magnífico aquecia tão + suavemente, que era um regalo.<br /> <br /> A pequerrucha ia já a + estender os pezitos para os aquecer também, quando a chama se + apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma pontita + de fósforo consumido.<br /> <br /> Acendeu segundo fósforo, + que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu a sua chama tornou-se + transparente como vidro. Olhando através desse muro, a pequerrucha + viu uma sala com uma mesa coberta de uma toalha alvíssima, + deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma galinha assada com + recheio de ameixas e de batatas <span class="pagenum">[136]</span>fumegava + exalando um perfume delicioso. Oh surpresa! oh felicidade! De repente a + galinha saltou do prato, e caiu no chão ao pé da + pequerrucha, com o garfo e a faca espetada no lombo. Nisto apagou-se o fósforo, + e viu apenas diante de si a parede fria e tenebrosa.<br /> <br /> Acendeu + terceiro fósforo, e achou-se imediatamente sentada debaixo de uma + magnífica árvore do Natal; era ainda mais rica e maior do + que a que tinha visto no ano passado através dos vidros de um armazém + sumptuoso.<br /> <br /> Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões + acesos, e as estampas coloridas, como as que há às portas + das lojas, pareciam sorrir-lhe. Quando ia agarrá-las com as duas mãos, + apagou-se o fósforo; todos os balões da árvore do + Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se tinha + enganado, porque eram estrelas. Caiu uma delas, deixando no céu um + longo rasto de fogo.<br /> <br /> ―É alguém que está + a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que lhe queria + tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando + cai uma estrela, sobe para Deus uma alma.»<br /> <br /> Acendeu ainda + outro fósforo: deu uma grande luz, no meio da qual lhe apareceu sua + avó, de pé, com um ar radioso e suavíssimo.<br /> + <br /> ―Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me contigo. Eu + sei que te vais embora quando se apagar o fósforo. Desaparecerás + como a panela de ferro, a galinha assada, e a bela árvore do Natal.<br /> + <br /> Acendeu o rosto do maço, porque não queria <span + class="pagenum">[137]</span>que sua avó lhe fugisse, e os fósforos + espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua avó + tinha sido tão formosa. Pôs ao colo a pequerruchinha, e ambas + alegres, no meio deste deslumbramento, voaram tão alto, tão + alto, que já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: + haviam chegado ao Paraíso.<br /> <br /> Mas quando rompeu a fria + madrugada, encontraram a pequerrucha, entre os dois muros, ao canto, com + as faces incendiadas, o sorriso nos lábios... morta, morta de frio + na última noite do ano. O dia de Ano Bom veio alumiar o pequenino + cadáver, sentado ali com os seus fósforos, a que faltava um + maço, que tinha ardido quase inteiramente.―Quis aquecer-se, + disse um homem que passou.» E ninguém soube nunca as lindas + coisas que ela tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a + sua velha avó no dia do Ano Novo.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> + <span class="pagenum">[138]</span> + </p> + <h2> + <a name="41"></a>O primeiro pecado de Margarida + </h2> + <p> + <br /> <br /> Chamava-se Margarida, e estavam à espera dela no céu, + porque Deus tinha dito:―É uma boa alma, e, como lá em + baixo no mundo lhe pode acontecer alguma desgraça, vou trazê-la + um destes dias para o paraíso.»<br /> <br /> Margarida era uma + virgem cândida, matinal como a aurora, fresca como ela; todos os + dias ao acordar rezava as orações, que sua mãe lhe + tinha ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não + tinha jóias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.<br /> + <br /> Depois disto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.<br /> + <br /> E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bela canção + de amor e de glória, que já embalara muitos berços, e + que podia sensibilizar uma alma inocente, sem lhe perturbar a limpidez.<br /> + <br /> Numa tarde de Verão, estava ela sentada à porta de + casa fiando linho, à hora em que as estrelas começam a + aparecer, uma a uma no firmamento.<br /> <br /> Estava Margarida cantando a + sua canção, quando <span class="pagenum">[139]</span>passou + por ali uma das suas vizinhas, que ia a uma romaria, muito asseada, com um + vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus + brincos e o colar de ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão + para que visse bem o anel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, + toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar de inveja, o que + inquietou no paraíso o seu anjo da guarda.<br /> <br /> O fio de + linho já não passava tão rapidamente entre os dedos + de Margarida, a roda cessara o seu barulho monótono, e o fuso caíra-lhe + das mãos.<br /> <br /> Ao cair o fuso despertou do êxtase, + abriu os olhos, e viu diante de si um cavaleiro magnificamente vestido, + tendo na mão um gorro de veludo preto, com uma pluma vermelha, da + cor do fogo. O cavaleiro saudou-a respeitosamente, e, com uma voz + harmoniosa e galanteadora, perguntou-lhe:<br /> <br /> ―Qual é + o caminho da cidade?»<br /> <br /> Margarida estendeu a mão + para lho indicar, e o forasteiro inclinando-se tirou do dedo um anel de + ouro com um diamante, que brilhava como uma estrela, e meteu-o no dedo de + Margarida, que o achou mais belo do que o anel da sua companheira. O rosto + do cavaleiro alumiou-se então com um sorriso estranho e diabólico.<br /> + <br /> Nisto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de + Margarida, e pediu-lhe uma esmola.<br /> <br /> Margarida tirou do dedo o + anel, e ofereceu-o ao pobre desgraçado.<br /> <br /> O cavaleiro então, + soltando um grito de cólera, ia lançar-se sobre Margarida, + mas o mendigo―<span class="pagenum">[140]</span>que era o seu anjo + da guarda disfarçado―cobriu-a com as asas. E o cavaleiro, + isto é Satanás, que tinha vindo para a tentar, recuou + aniquilado diante do espírito celeste.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> + <span class="pagenum">[141]</span> + </p> + <h2> + <a name="42"></a>Um nome inscrito no céu + </h2> + <p> + <br /> <br /> Era uma vez um pobre mendigo, que bateu à porta duma + humilde cabana a pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não + vendo, nem ouvindo ninguém, abriu a porta de mansinho e entrou no + casebre; viu então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:<br /> + <br /> ―«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»<br /> + <br /> E foi-se embora o mendigo, voltando dali a instantes, a bater + à mesma porta.<br /> <br /> ―Pelo amor de Deus! gritou a + velhinha, já te disse que não tenho nada que te dar.»<br /> + <br /> ―Foi por isso que eu voltei―disse em voz baixa o + mendigo.<br /> <br /> E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do + bolso, pondo-os em cima da mesa, muitos bocados de pão e algumas + moedas de dez réis, que lhe tinham dado depois de ter estado com a + velha a primeira vez.<br /> <br /> ―Aqui te fica isto, santinha―disse-lhe + ele afectuosamente, indo-se embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de + lhe agradecer.»<br /> <br /> Não sabemos qual era o nome do + mendigo; mas os anjos escrevê-lo-ão no Paraíso, e mais + tarde nós o viremos a saber.<br /> <br /> <br /> <br /> <br /> <span + class="pagenum">[142]</span> + </p> + <h2> + <a name="43"></a>O linho + </h2> + <p> + <br /> <br /> O linho estava coberto de flores admiravelmente belas, mais + delicadas e transparentes do que asas de moscas. O sol espalhava os seus + raios sobre ele, e as nuvens regavam-no, o que lhe causava tanto prazer, + como o dum filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.<br /> + <br /> ―Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito + crescido, e serei brevemente uma rica peça de pano. Sinto-me feliz. + Não há ninguém que seja mais feliz do que eu sou. + Tenho saúde e um belo futuro. A luz acaricia-me, e a chuva + encanta-me e refresca-me. Sim, sou feliz, feliz a mais não poder + ser!»<br /> <br /> ―Como és ingénuo! disseram as + silvas do valado; tu não conheces o mundo, de que nós outras + temos uma larga experiência.»<br /> <br /> E rangendo + lastimosamente, cantaram:<br /> <br /> + </p> + <div class="poetry"> + ―Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> ―Acabou-se! acabou-se! + acabou-se! + </div> + <p> + <br /> ―Não tão cedo como vocês imaginam, + respondeu o linho; está uma bela manhã, o sol resplandece, + <span class="pagenum">[143]</span>e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e + florir. Sou muitíssimo feliz.»<br /> <br /> Mas um belo dia + vieram uns homens que agarraram no linho pela cabeleira, arrancaram-no com + raízes e tudo, e deram-lhe tratos de polé. Primeiro + mergulharam-no em água, como se o quisessem afogá-lo, e + depois meteram-no no lume para o assar. Que crueldade!<br /> <br /> ―Não + se pode ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessário + sofrer, o sofrimento é a mãe da experiência.»<br /> + <br /> Mas as coisas iam de mal para pior. Partiram-no, assedaram-no, + cardaram-no, e ele sem compreender o que lhe queriam. Depois, puseram-no + numa roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.<br /> <br /> + ―Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio + daquelas torturas; devemo-nos regozijar, mesmo com as felicidades + perdidas.»<br /> <br /> E ainda estava dizendo―perdidas, e já + o estavam a meter no tear e a transformá-lo numa peça de + pano.<br /> <br /> ―Isto é extraordinário, nunca o + imaginei; que boa sorte a minha, e que grandes tolas aquelas silvas quando + cantavam:<br /> <br /> + </p> + <div class="poetry"> + Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + </div> + <p> + <br /> Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é + verdade, mas por isso também agora sou mais feliz do que nunca. + Sinto-me tão forte, tão alto, tão macio! Ah! isto + é bem melhor do que ser planta, mesmo florida, ninguém trata + da gente, e <span class="pagenum">[144]</span>não bebemos outra + água a não ser a da chuva. Agora é o contrário: + que cuidados! As raparigas estendem-me todas as manhãs, e à + noite tomo o meu banho com um regador. A criada do sr. cura fez um + discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a melhor peça + da paróquia. Não posso ser mais feliz.»<br /> <br /> + Levaram o pano para casa, e entregaram-no às tesouras. Cortaram-no + e picaram-no com uma agulha. Não era lá muito agradável, + mas em compensação fizeram dele uma dúzia de camisas + magníficas.<br /> <br /> ―Agora decididamente começo a + valer alguma coisa. O meu destino é abençoado, porque sou + útil neste mundo. É preciso isso para se viver em paz, e + ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas + formamos um só grupo, uma dúzia. Que incomparável + felicidade!<br /> <br /> O pano das camisas foi-se gastando com o tempo.<br /> + <br /> ―Tudo tem fim, murmurou ele. Eu estava disposto a durar ainda, + mas não se fazem impossíveis.»<br /> <br /> E as camisas + foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era finalmente a + sua morte, porque foram rasgados, amassados, fervidos, sem adivinharem o + que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel branco magnífico.<br /> + <br /> ―Oh que agradável surpresa! exclamou o papel, agora sou + muito mais fino do que dantes, e vão cobrir-me de letras. O que não + escreverão em cima de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»<br /> + <br /> E escreveram nele as mais belas histórias, que foram lidas + diante de inúmeros ouvintes, e os tornaram mais sábios e + melhores.<br /> <br /> <span class="pagenum">[145]</span>―Ora aqui está + uma coisa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, quando vivia na + terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que ainda havia de + servir para alegrar e instruir os homens! Não sei explicar o que me + está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe perfeitamente que + nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha sorte; foi Ele que + gradualmente me elevou, até chegar à maior glória. + Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se» + tudo pelo contrário se me apresenta debaixo do aspecto mais + risonho. Vou viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam + ler e instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azuis; + agora as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me + feliz, imensamente feliz!»<br /> <br /> Mas o papel não foi + viajar; entregaram-no ao tipógrafo, e tudo que lá estava + escrito, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, que + recrearam e instruíram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de + papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a + volta à roda do mundo. A meio caminho já estaria gasto.<br /> + <br /> ―É justo, disse o papel, não tinha pensado + nisso. Fico em casa, e vou ser considerado como um velho avô! fui eu + que recebi as letras, as palavras caíram directamente da pena sobre + mim, fico no meu lugar, e os livros vão por esse mundo fora. A sua + missão é realmente bela, e eu estou contente, e julgo-me + feliz.<br /> <br /> O papel foi empacotado, e lançado para uma + estante.<br /> <br /> ―Depois do trabalho é agradável o + descanso, <span class="pagenum">[146]</span>pensou ele. É neste + isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só de hoje em diante + é que eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo + é a verdadeira perfeição. Que me irá ainda + acontecer? Progredir, está claro.»<br /> <br /> Passados + tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o que + o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar açúcar. + E todas as crianças da casa se puseram à roda; queriam vê-lo + arder, e ver também, depois da labareda, as milhares de faíscas + vermelhas, que parecem fugir, e se apagam instantaneamente uma após + outra. O maço inteiro de papel foi atirado ao lume. Oh! como ele + ardia! Tornara-se numa grande chama, que se erguia tão alto, tão + alto como o linho nunca erguera as suas flores azuis; a peça de + pano nunca tinha tido um brilho semelhante.<br /> <br /> Todas as letras, + durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as palavras, todas as + ideias desapareceram em línguas de fogo.<br /> <br /> ―«Vou + subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da labareda, que + pareciam mil vozes reunidas numa só. A chama saiu pela chaminé, + e no meio dela volteavam pequeninos seres invisíveis para os olhos + do homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha + dado. Mais leves que a chama, de quem eram filhos, quando ela se + extinguiu, quando não restava do papel senão a cinza negra, + ainda eles dançavam sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, + pequeninas centelhas encarnadas.<br /> <br /> As crianças cantavam + à roda da cinza inanimada:<br /> <br /> <span class="pagenum">[147]</span> + </p> + <div class="poetry"> + Cric, crac! cric, crac! crac!<br /> Acabou-se! acabou-se! acabou-se! + </div> + <p> + <br /> Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não + se acabou; agora é que é o melhor da festa. Sei-o, e + julgo-me feliz.»<br /> <br /> As crianças não puderam + ouvir, nem compreender estas palavras; mas também não era + necessário, porque as crianças não devem saber tudo.<br /> + <br /> <br /> + </p> + <div style="text-align: center;"> + FIM.<br /> + </div> + <p> + <br /> <br /> <br /> <br /> + </p> + <h5> + ÍNDICE + </h5> + <p> + <br /> <br /> + </p> + <div> + <a href="#1">A mãe</a><br /> <a href="#2">O ouro</a><br /> <a + href="#3">Doçura e bondade</a><br /> <a href="#4">O malmequer</a><br /> + <a href="#5">Não quero</a><br /> <a href="#6">Piloto</a><br /> <a + href="#7">O rico e o pobre</a><br /> <a href="#8">Como um camponês + aprendeu o Padre Nosso</a><br /> <a href="#9">O talismã</a><br /> <a + href="#10">A alma</a><br /> <a href="#11">Alberto</a><br /> <a href="#12">A + canção da cerejeira</a><br /> <a href="#13">Os gigantes da + montanha e os anões da planície</a><br /> <a href="#14">A + criança, o anjo e flor</a><br /> <a href="#15">Presente por presente</a><br /> + <a href="#16">O pinheiro ambicioso</a><br /> <a href="#17">Perfeição + das obras de Deus</a><br /> <a href="#18">João e os seus camaradas</a><br /> + <a href="#19">O rabequista</a><br /> <a href="#20">Os pêssegos</a><br /> + <a href="#21">A urna das lágrimas</a><br /> <a href="#22">Reconhecimento + e ingratidão</a><br /> <a href="#23">O fato novo do sultão</a><br /> + <a href="#24">Boa sentença</a><br /> <a href="#25">Os animais + agradecidos</a><br /> <a href="#26">O ermitão</a><br /> <a href="#27">Carlos + Magno e o abade de S. Gall</a><br /> <a href="#28">A boneca</a><br /> <a + href="#29">Inconveniente da riqueza</a><br /> <a href="#30">Querer é + poder</a><br /> <a href="#31">Qual será rei?</a><br /> <a href="#32">Os + três véus de Maria</a><br /> <a href="#33">Os pequenos no + bosque</a><br /> <a href="#34">O chapelinho encarnado</a><br /> <a href="#35">Os + cinco sonhos</a><br /> <a href="#36">A igreja do rei</a><br /> <a href="#37">O + valente soldado de chumbo</a><br /> <a href="#38">João Pateta</a><br /> + <a href="#39">Branca de Neve</a><br /> <a href="#40">A rapariguinha e os fósforos</a><br /> + <a href="#41">O primeiro pecado de Margarida</a><br /> <a href="#42">Um + nome inscrito no céu</a><br /> <a href="#43">O linho</a><br /> + </div> + <p> + <br /> <br /> <br /> <br /> + </p> + <div class="fbox"> + <h2> + Lista de erros corrigidos + </h2> + <br /> <br /> + <table style="width: 449px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto; height: 210px;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + <tbody> + <tr align="right"> + <td style="width: 99px; height: 23px;"></td> + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 148px; height: 23px;"> + Original + </td> + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 23px;"></td> + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 158px; height: 23px;"> + Correcção + </td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"> + <a name="e1" id="e1"></a><a href="#p56">#pág. 56</a> + </td> + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;"> + entrar? + </td> + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;"> + ... + </td> + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;"> + entrar! + </td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"> + <a name="e2" id="e2"></a><a href="#p58">#pág. 58</a> + </td> + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;"> + João. + </td> + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;"> + ... + </td> + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;"> + João: + </td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"> + <a name="e3" id="e3"></a><a href="#p58">#pág. 58</a> + </td> + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;"> + embora? + </td> + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;"> + ... + </td> + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;"> + embora. + </td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align: right; width: 99px; height: 40px;"> + <a name="e4" id="e4"></a><a href="#p107">#pág. 107</a> + </td> + <td style="text-align: center; width: 148px; height: 40px;"> + encontremos + </td> + <td style="text-align: center; width: 0px; height: 40px;"> + ... + </td> + <td style="text-align: center; width: 158px; height: 40px;"> + encontraremos + </td> + </tr> + </tbody> + </table> + <br /> <br /> +</div> + <p> + <br /> <br /> <br /> <br /> A propriedade deste livro pertence no Brasil ao + sr. Luís de Andrade, residente no Rio de Janeiro.<br /> + </p> + +<div style='display:block;margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS PARA A INFÂNCIA ***</div> +<div style='display:block;margin:1em 0;'>This file should be named 16429-h.htm or 16429-h.zip</div> +<div style='display:block;margin:1em 0;'>This and all associated files of various formats will be found in https://www.gutenberg.org/1/6/4/2/16429/</div> +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Updated editions will replace the previous one—the old editions will +be renamed. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright +law means that no one owns a United States copyright in these works, +so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United +States without permission and without paying copyright +royalties. 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There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg™ electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg™ electronic works if you follow the terms of this +agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg™ +electronic works. See paragraph 1.E below. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (“the +Foundation” or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection +of Project Gutenberg™ electronic works. Nearly all the individual +works in the collection are in the public domain in the United +States. 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Contributions to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by +U.S. federal laws and your state’s laws. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, +Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up +to date contact information can be found at the Foundation’s website +and official page at www.gutenberg.org/contact +</div> + +<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread +public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine-readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. 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Thus, we do not +necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper +edition. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +Most people start at our website which has the main PG search +facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. +</div> + +<div style='display:block; margin:1em 0'> +This website includes information about Project Gutenberg™, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. +</div> + +</body> +</html> |
