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+The Project Gutenberg EBook of Os fidalgos da Casa Mourisca, by Júlio Dinis
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Os fidalgos da Casa Mourisca
+ Chronica da aldeia
+
+Author: Júlio Dinis
+
+Release Date: August 4, 2005 [EBook #16428]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA ***
+
+
+
+
+Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
+Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
+at https://www.pgdp.net
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+OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA
+
+
+
+
+OS FIDALGOS
+
+DA
+
+CASA MOURISCA
+
+CHRONICA DA ALDEIA
+
+POR
+
+
+*JULIO DINIZ*
+
+
+*VOLUME I*
+
+
+*PORTO*
+
+TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
+Rua Ferreira Borges, 31
+
+1871
+
+
+
+
+OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA
+
+
+
+
+I
+
+
+A tradição popular em Portugal, nos assumptos de historia patria, não se
+remonta além do periodo da dominação arabe nas Hespanhas.
+
+Pouco ou nada sabe o povo de celtiberos, de romanos e de wisigodos. É,
+porém, entre elle noção corrente que, em outros tempos, fôra este paiz
+habitado por mouros, e que só á força de cutiladas e de botes de lança
+os expulsaram os christãos para as terras da Mourama. Os vultos heroicos
+de reis e cavalleiros nossos, que se assignalaram nas luctas d'essa
+época, ainda não desappareceram das chronicas oraes, onde vivem
+illuminados por a mesma poetica luz das xacaras e dos romances
+nacionaes; e hoje ainda, nas dansas e jogos que se celebram nos logares
+publicos das villas e aldeias, por occasião das principaes solemnidades
+do anno, apraz-se a memoria do povo de recordar os feitos d'aquelles
+tempos historicos por meio de simulados combates de mouros e christãos.
+
+Nos contos narrados em volta da lareira, onde nas longas noites de serão
+se reune a familia rustica, ou ás rapidas horas d'uma noite de estio, na
+soleira da porta, ao auditorio attento que segue com os olhos a lua em
+silenciosa carreira por um céo sem estrellas, avulta uma creação
+extremamente sympathica, a das mouras encantadas, princezas
+formosissimas que ficaram d'esses remotos tempos na peninsula, em paços
+invisiveis, á espera de quem lhes venha quebrar o captiveiro, soltando a
+palavra magica.
+
+Falla-se em diversos pontos das nossas provincias, com a seriedade que é
+propria a uma arreigada crença, de thesouros enterrados, que os mouros
+por ahi deixaram, na esperança de voltarem um dia a resgatal-os, e já
+não tem sido poucas as escavações emprehendidas no ávido intuito de os
+descobrir.
+
+Esta mesma noção historica do povo é a que dá logar a um outro frequente
+facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palacio, um
+solar de familia, distincto dos edificios communs por uma qualquer
+particularidade architectonica mais saliente, ouvireis no sitio
+designal-o por o nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda ahi memoria
+da sua fundação, a chronica lhe assignará infallivelmente como data a
+lendaria e mysteriosa época dos mouros.
+
+Era o que succedia com o solar dos senhores Negrões de Villar de Corvos,
+que, em tres leguas em redondo, eram por isso conhecidos pelo nome dos
+Fidalgos da Casa Mourisca.
+
+Não se persuada o leitor de que possuia aquelle solar feição
+pronunciadamente arabe, que justificasse a denominação popular, ou que
+mãos agarenas houvessem de feito cimentado os alicerces da casa nobre
+denominada assim. Ás pequenas torres quadradas, que se erguiam, coroadas
+de ameias, nos quatro angulos do edificio, ao desenho ogival das portas
+e janellas, ás estreitas setteiras abertas nos muros, e finalmente a
+certo ar de castello feudal, que um dos antepassados d'esta fidalga
+familia tentou dar aos paços de sua residencia senhoril, devêra ella a
+qualificação de mourisca, que persistira, apesar dos protestos da arte.
+Nenhum estylo architectonico fôra na construcção escrupulosamente
+respeitado; o gosto e capricho do proprietario presidiram mais que tudo
+á traça e execução da obra; não ha pois exigencias artisticas que me
+imponham a obrigação de descrevel-a miudamente.
+
+Diga-se porém a verdade; fossem quaes fossem os defeitos de
+architectura, as incongruencias e absurdos d'aquella fabrica grandiosa,
+quem, ao dobrar a ultima curva da estrada irregular por onde se vinha á
+aldeia, via surgir de repente do seio de um arvoredo secular aquelle
+vulto escuro e sombrio, contrastando com os brancos e risonhos casaes
+disseminados por entre a verdura das collinas proximas, mal podia reter
+uma exclamação de surpreza e involuntariamente parava a contemplal-o.
+
+Ou o sol no poente lhe doirasse a fachada de granito, ou as ameias, que
+o coroavam, se desenhassem como negra dentadura no céo azul, alumiado
+pela claridade matinal, era sempre melancolico e triste o aspecto
+d'aquella residencia, sempre magestoso e severo.
+
+Reparando mais attentamente, outros motivos concorriam ainda para
+fortalecer esta primeira impressão. O tempo não se limitára a colorir o
+velho solar com as tintas negras da sua palheta; derrocára-lhe aqui e
+além uma ameia ou um balaustre do eirado, mutilára-lhe a cruz da
+capella, desconjunctára-lhe a cantaria em extensos lanços de muro,
+abrindo-lhe intersticios, d'onde irrompia uma inutil vegetação parasita:
+e esta permanencia de estragos, trahindo a incuria ou a insufficiencia
+de meios do proprietario actual, iniciava no espirito do observador uma
+serie de melancolicas reflexões.
+
+E se o movesse a curiosidade a indagar na visinhança informações sobre a
+familia que alli habitava, obtel-as-ia proprias a corroborar-lhe os seus
+primeiros e espontaneos juizos.
+
+Os chamados Fidalgos da Casa Mourisca eram actualmente tres. D. Luiz, o
+pae, velho sexagenario, grave, severo, e taciturno; Jorge e Mauricio, os
+seus dois filhos, robustos e esbeltos rapazes: o mais velho dos quaes,
+Jorge, ainda não completára vinte e tres annos.
+
+A historia d'aquella casa era a historia sabida dos ricos fidalgos da
+provincia, que, orgulhosos e imprevidentes, deixaram, a pouco e pouco,
+embaraçar as propriedades com hypothecas e contractos ruinosos,
+desfallecer a cultura nos campos, empobrecer os celleiros, despovoar os
+curraes, exhaurir a seiva da terra, transformar longas varzeas em
+charnecas, e desmoronarem-se as paredes das residencias e das granjas e
+os muros de circunscripção das quintas.
+
+Filho segundo de uma das mais nobres familias da provincia, D. Luiz fôra
+pelos paes destinado para a carreira diplomatica, na qual entrou
+apadrinhado e favorecido por os mais altos personagens da côrte.
+
+Nas primeiras capitaes da Europa, em cujas embaixadas serviu, obteve o
+fidalgo provinciano um grau de illustração e de tracto do mundo, um
+verniz social, que nunca adquiriria se, como tantos, de moço se creasse
+para morgado.
+
+Quando, por morte do primogenito, veio a succeder nos vinculos, D. Luiz
+podia considerar-se, graças á occupação dos seus primeiros annos de
+mocidade, como o mais instruido e civilisado proprietario da sua
+provincia; e como tal effectivamente foi sempre havido pelos outros, que
+o tractavam com uma deferencia excepcional.
+
+Ainda depois da morte do irmão, D. Luiz, costumado ao viver da grande
+sociedade e á esplendida elegancia das côrtes estrangeiras, não
+abandonou a carreira que encetára. Secretario de embaixada em Vienna,
+casou alli com a filha de um fidalgo portuguez, que então residia n'essa
+corte, encarregado de negocios politicos.
+
+Ao manifestarem-se em Portugal os primeiros symptomas da profunda
+revolução, que devia alterar a face social do paiz, D. Luiz mostrou-se
+logo hostil ao movimento nascente, e abandonando então o seu logar
+diplomatico, voltou ao reino para representar um papel importante nas
+scenas politicas d'essa época.
+
+Ahi tiveram origem grande parte dos desgostos domesticos, que lhe
+amarguraram o resto da vida.
+
+Os parentes de sua esposa abraçaram a causa liberal.
+
+D. Luiz, com toda a intolerancia partidaria, rompeu completamente as
+relações com elles, ferindo assim no intimo os affectos mais sanctos da
+pobre senhora, que sentia esmagar-se-lhe o coração entre as fortes e
+irreconciliaveis paixões dos que ella com igual affecto amava.
+
+O rancor faccioso foi ainda mais longe em D. Luiz. Impelliu-o á
+perseguição.
+
+O irmão mais novo da esposa, obedecendo ao enthusiasmo de rapaz e á
+vehemencia de uma convicção sincera, sustentára com a penna, e mais
+tarde com a espada, a causa da ideia nova, que tanto namorava os animos
+generosos e juvenis.
+
+Sobre a bella e arrojada cabeça d'aquelle adolescente pesaram as sombras
+das suspeitas e das vinganças politicas; e D. Luiz, cego pela paixão,
+não duvidou em fazer-se instrumento d'ellas.
+
+Este era o irmão querido da esposa, que o fidalgo estremecia; mas nem as
+supplicas, nem as lagrimas d'ella puderam abrandar a força d'aquelle
+rancor.
+
+O imprudente moço viu-se perseguido, prêso, processado e em quasi
+imminente risco de expiar, como tantos, no supplicio o crime de pensar
+livremente. Conseguindo, quasi por milagre, escapar á furia dos seus
+perseguidores, emigrou para voltar mais tarde n'essa memoranda
+expedição, que principiou em Portugal a heroica iliada da nossa
+emancipação politica.
+
+Guerreiro tão fogoso, como o fôra publicista, o pobre rapaz não assistiu
+porém á victoria da sua causa. Ao raiar da aurora liberal, por que tanto
+anhelava, cahiu em uma das ultimas e mais disputadas refregas d'aquella
+sanguinolenta lucta, crivado de balas inimigas, sendo a sua ultima voz
+um grito de enthusiasmo pela grande ideia, em cujo martyrologio se ia
+inscrever o seu nome.
+
+A morte d'este enthusiasta levou o lucto e a tristeza ao solar de D.
+Luiz. O coração amoravel e extremoso da infeliz senhora recebeu então um
+golpe decisivo; das consequencias d'aquella dôr nunca mais podia ella
+convalescer. A sua vida foi depois toda para luto e para lagrimas.
+
+Fez-se a paz, implantou-se no paiz a arvore da liberdade; D. Luiz deixou
+então a vida da côrte e veio encerrar no canto da provincia os seus
+despeitos, os seus odios e os seus desalentos. Trouxe comsigo um enxame
+de misanthropos, a quem o sol da liberdade igualmente incommodava, e que
+tinham resolvido pedir á natureza conforto contra os suppostos delictos
+da humanidade.
+
+O solar do fidalgo transformou-se pois em asylo de muitos
+correligionarios, como elle desgostosos e irreconciliaveis com a nova
+organisação social.
+
+Instituiu-se alli uma pequena côrte na aldeia, uma especie de assembleia
+ou conventiculo politico, que não poucas vezes attrahiu as vistas dos
+liberaes desconfiados e as ameaças dos mais insoffridos. Havia alli
+homens de todas as condições, e alguns de illustração e sciencia.
+
+A hospitalidade do fidalgo era magnifica. D. Luiz mostrava ignorar, ou
+não querer saber, qual o preço por que ella lhe ficava. Indifferente a
+tudo, dir-se-ia sêl-o tambem á ruina da sua propria casa, que apressava
+assim.
+
+A victoria da causa contraria; a morte, em curtos intervallos, de tres
+filhos, que parecia cahirem victimas de uma sentença fatal; o receio
+pela vida dos outros; a tristeza e doença progressivas da esposa, a quem
+aquelles odios e luctas tinham despedaçado o coração; ás vezes uma vaga
+consciencia da sua situação precaria, e por ventura ainda remorsos pelas
+violencias, a que os odios politicos o impelliram, quebrantaram o
+caracter, outr'ora varonil, d'aquelle homem, que desde então começou a
+mostrar-se taciturno e descoroçoado. A prova evidente de que alguns
+remorsos tambem lhe torturavam o espirito fôra a insolita generosidade,
+com que recebeu e gasalhou permanentemente em sua casa um pobre soldado
+do exercito liberal, meio mutilado pela guerra d'esses tempos, e que
+tinha sido o fiel camarada do infeliz mancebo, contra quem tanto se
+encarniçára o odio do implacavel realista.
+
+Viera o soldado entregar á esposa do fidalgo uma medalha, ultima
+lembrança do irmão que lh'a enviára, quando já agonisante no campo do
+combate. Havia-a confiado ao camarada para que a entregasse áquella, a
+quem tanto queria.
+
+D. Luiz não só permittiu que o soldado fizesse a entrega em mão propria
+da esposa, mas deixou-o com ella em larga conferencia, não querendo que
+a sua presença a reprimisse na ancia natural de saber as menores
+particularidades da vida e da morte do infeliz, de quem o emissario fôra
+companheiro inseparavel. Não se limitou a isso a tolerancia do fidalgo.
+Viu, sem a menor reflexão, que o mensageiro se demorava alguns dias na
+Casa Mourisca, e não oppôz resistencia alguma ao pedido, que a esposa
+mais tarde lhe fez para que o deixasse ficar alli, no logar do hortelão
+que fallecêra.
+
+Este facto insignificante foi de não pequena influencia nos destinos
+d'aquella familia.
+
+Os filhos de D. Luiz, creados no meio d'essa côrte de provincia,
+cresciam sob influencias que actuavam d'uma maneira contradictoria sobre
+os seus caracteres infantis.
+
+Não lhes faltavam mestres que os instruissem, que muitos eram os
+habilitados para isso nas salas do fidalgo, refugio de tantos illustres
+descontentes. Graças a estas especiaes condições, puderam os dois
+rapazes receber uma educação, difficil de conseguir em um canto tão
+retirado da provincia, como aquelle era.
+
+Mas, ao lado da lição dos mestres, que, juntamente com a sciencia, se
+esforçavam por imbuir-lhes os seus principios politicos, aos quaes se
+atinham como a artigos de fé, havia uma outra lição mais obscura, mas
+por ventura mais efficaz. Era a lição da mãe e a do veterano.
+
+A esposa de D. Luiz era uma senhora de esmeradissima educação e de um
+profundo bom senso. Amava o marido, mas via com pezar os excessos, a que
+o impelliam as suas opiniões politicas. Educada no seio de uma familia
+liberal, possuia sentimentos favoraveis ás ideias novas; mas sabia
+guardal-os no coração, para não despertar conflictos na familia.
+
+Porém, no tracto intimo entre mãe e filhos, trahia-se muita vez essa
+prudente discrição, e as fidalgas crianças iam recebendo a doutrina, de
+que os outros lhes blasphemavam como de heresias, e naturalmente,
+seduzidas pela origem d'onde ella lhes vinha, abriam-lhe de melhor
+vontade o coração, do que aos preceitos austeros e um pouco pedantescos
+dos mestres.
+
+Demais, ouviam tantas vezes a mãe fallar-lhes do irmão que perdêra, dos
+seus sentimentos generosos, do seu nobre caracter e da sua dedicação
+heroica a bem da causa liberal, que elles, e o mais velho sobre tudo,
+costumaram-se a venerar a memoria do tio, como a de um heroe e a de um
+martyr e a vêl-o aureolado de um verdadeiro prestigio lendario.
+
+Para isto porém concorreu mais que outrem o hortelão.
+
+O velho soldado era uma chronica viva das batalhas e façanhas d'aquelles
+tempos historicos e um panegyrista ardente do seu pobre official, cujo
+ultimo suspiro recolhêra.
+
+As crianças sentiam-se instinctivamente attrahidas para a companhia do
+velho, em cujas narrações pintorescas e vivamente coloridas achavam um
+encanto irresistivel. Feria-lhes fundo a curiosidade a maneira por que
+elle fallava dos trabalhos da emigração, dos episodios do cerco do
+Porto, da fome, da peste e da guerra, triplice calamidade que conhecêra
+de perto, das batalhas em que havia entrado, da bravura do seu amo, e
+finalmente do Imperador, por quem o mutilado veterano professava um
+enthusiasmo quasi supersticioso, e a cujo vulto a sua narrativa
+imaginosa dava um aspecto epico e sobrenatural.
+
+As crianças não se fartavam de interrogar aquella testemunha presencial
+de tantos feitos heroicos.
+
+E assim eram neutralisadas as doutrinas dos pedagogos eruditos,
+encarregados da educação dos filhos de D. Luiz, e estes iam crescendo
+affeiçoados aos principios liberaes, que amavam de instincto, antes de
+os amarem de reflexão.
+
+Mas dias de maior provação estavam reservados para esta familia.
+
+A munificencia que o senhor da Casa Mourisca mantivera no voluntario
+desterro, a que se condemnou, obrigára-o a enormes e perigosos
+sacrificios.
+
+D. Luiz nunca propriamente se occupára da gerencia dos seus bens. Fiel
+aos habitos aristocraticos dos seus maiores, deixára desde muito a
+procuradores todos os cuidados de administração, e de quando em quando
+recebia d'elles a noticia de que a sua casa se estava perdendo, sem que
+se lembrasse de perguntar a si proprio se não seria possivel oppôr um
+obstaculo áquella ruina.
+
+O padre Januario, ou frei Januario dos Anjos, velho egresso, homem de
+letras gordas, que se estabelecêra commodamente n'aquella acastellada
+residencia, como em casa sua, era um d'esses procuradores.
+
+Faça-se justiça ao padre, que não era de má fé, nem em proveito proprio,
+que elle apressava, com mão poderosa, a decadencia de D. Luiz. Mas,
+homem de curtas faculdades e de nenhum expediente financeiro, se obtinha
+capitaes para o seu constituinte, nas crises mais apertadas, era sempre
+sob condições de tal natureza, que deixava de cada vez mais onerada a
+propriedade e mais irremediavel o triste futuro d'ella. Succedeu pois o
+que era de esperar. Dispersou-se a côrte de D. Luiz. Por muito que
+fizessem os administradores da casa para a manter no costumado
+esplendor, cêdo principiaram a transparecer os signaes da declinação.
+Foi o aviso para a debandada. Uns porque delicadamente comprehenderam
+que a sua permanencia concorreria para augmentar as difficuldades, com
+que o fidalgo já luctava; outros, porque aspiravam melhores auras, longe
+d'alli, em solares menos estremecidos pelo vaivem da adversidade; é
+certo que todos se foram retirando, a um por um, e deixaram a familia
+só.
+
+Augmentou com este isolamento a taciturnidade do fidalgo.
+
+Depois veio a doença e a morte da esposa, d'aquella que lhe tinha sido
+tão fiel amiga, que, para lhe poupar desgostos, até escondia as
+lagrimas, que elle lhe fazia verter; veio essa nova dôr atribular-lhe
+ainda mais a existencia. E ainda não haviam acabado as provações! No
+fundo do calice estavam ainda depositadas as gotas mais amargas.
+
+D. Luiz tinha por esses tempos uma filha, mimoso legado da esposa, cuja
+missão consoladora continuava no mundo. Queria-lhe muito o pae! Se não
+havia de querer! O coração árido d'aquelle velho e o tenro coração
+d'aquella criança procuravam-se, como para um pelo outro se completarem.
+
+O velho fidalgo, concentrado e quasi rispido para com os outros filhos,
+se alguma vez teve nos labios sorrisos desanuviados e sinceros, foi na
+presença da sua Beatriz. Aquelle desgraçado coração, vazio de affectos,
+queimado de odios e de paixões esterilisadoras, sentia um grato
+refrigerio em deixar-se penetrar do suave influxo das caricias da
+criança, que beijava as faces rugosas do pae e lhe brincava com os
+cabellos prateados; e muitas vezes, n'esses momentos, lagrimas de
+desafogo dissipavam a cerração que ia na alma d'aquelle homem, que com
+tanta força sabia odiar.
+
+E não era só o pae que experimentava essa influencia.
+
+Jorge, que de pequeno fôra pensativo e serio, sentia-se tomar por a
+bondade e ternura de Beatriz. Criança ainda, tinha ella, quando a sós
+com o irmão, um olhar penetrante e um gesto grave como o d'elle, um
+espirito para communicar á vontade com o seu. Ella parecia comprehender
+o alcance do auxilio que poderia receber um dia d'aquelle rapaz sisudo,
+que a fitava, e elle sentia-se engrandecer aos proprios olhos,
+lembrando-se de que seria sua missão na vida proteger aquelle anjo.
+
+Mauricio, genio mais impetuoso e impaciente, dobrava tambem a vontade a
+um aceno da fragil e delicada creatura, em quem um estouvamento seu
+desafiava lagrimas. E estas lagrimas eram a unica repressão que o
+continham nos desvarios.
+
+Pois até n'esta filha feriu o Senhor o pobre ancião.
+
+Criança mimosa, colheu-a um sopro da morte, ainda com o sorriso nos
+labios, e prostrou-a exanime no tumulo.
+
+Fez-se então devéras escuro no espirito do pae.
+
+Quando aquella pequena fada domestica desappareceu, como uma visão
+vaporosa em contos de magia, foi como que se todos ficassem em trevas. A
+vida era tão outra! O ente que absorvia os instantes d'aquelles tres
+homens, a quem todos tres tributavam os seus mais puros affectos e os
+seus pensamentos mais constantes, desapparecêra, e elles olhavam-se
+assustados, meio loucos, como se de subito se lhes tivesse apagado a luz
+que os alumiava; sentiam a indecisão do homem, a quem no meio da estrada
+fulmina inesperada cegueira.
+
+Passada a violencia da primeira dôr, em todos ficou a saudade, negra e
+concentrada em D. Luiz, melancolica em Jorge, expansiva e vehemente em
+Mauricio; e para todos o nome de Beatriz, a recordação dos seus gestos,
+das suas palavras, era um talisman, cuja efficacia nunca se desmentia. A
+alma d'aquelle anjo assistia ainda á familia, que o chorava, e á sua
+mysteriosa direcção obedeciam todos, sem o perceberem.
+
+Morta aos dezeseis annos, Beatriz vivia ainda nos logares que habitava.
+
+Ha entes assim, cuja influencia posthuma lhes dá uma quasi
+immortalidade, á maneira da luz sideral, que continua a scintillar para
+nós, depois de aniquilado o fóco que a emittia.
+
+O padre Januario tornou-se desde então a creatura indispensavel, e a
+companhia exclusiva de D. Luiz, que via n'elle o unico representante da
+sua antiga côrte.
+
+Acerrimo partidario do regimen absoluto, apesar de lhe não ser possivel
+enfeixar dois argumentos serios em defeza d'elle, o padre Januario
+passava a vida aproveitando os mais ridiculos ensejos para premissas dos
+seus corollarios anti-liberaes, artificio com que lisongeava as paixões
+do seu illustre amo e patrono, e mantinha n'elle o fogo sagrado.
+
+O padre achava-se bem n'aquella vida monotona, que exercia sobre si os
+mais notaveis effeitos analepticos. Podia dizer-se que elle dividia alli
+o tempo entre duas occupações exclusivas: comer e esperar com
+impaciencia as horas da comida.
+
+Uma unica circumstancia assombrava os dias do padre. Era a presença na
+Casa Mourisca do hortelão, em quem fallamos, e que mantinha com elle uma
+aberta hostilidade. Frei Januario exasperava-se sempre que o ouvia
+fallar no Imperador e no Cerco e nos Voluntarios da Rainha e na Carta,
+com o enthusiasmo e a emphase de um soldado d'aquelles tempos. Por vezes
+rompiam ambos em scenas violentas; por vezes o capellão ia aconselhar ao
+fidalgo a demissão d'aquelle homem, que ameaçava infectar de liberalismo
+a familia inteira.
+
+D. Luiz porém, apesar de nunca fallar com o hortelão, não attendia
+n'estas reclamações o padre. Conservando no seu serviço o veterano,
+satisfazia a um pedido da esposa, e não teria coragem para fazer o
+contrario. Assim perpetuavam-se os conflictos entre os dois, porque nem
+o procurador supportava as rudes franquezas do soldado, nem este os
+remoques encapotados do procurador.
+
+Tal era a situação da familia da Casa Mourisca na época em que vae
+procural-a a nossa narração.
+
+Já se vê quão mal assegurado andava o futuro dos dois jovens filhos de
+D. Luiz. A educação que elles haviam recebido não tendêra a fim algum
+prático.
+
+D. Luiz não podia soffrer a ideia de dar a seus filhos uma profissão. A
+nobre carreira das armas, que mais lhes conviria, estava-lhes fechada
+pelas ultimas evoluções politicas. Os descendentes dos ultra-monarchicos
+Negrões de Villar de Corvos não eram para se assalariarem em defeza dos
+principios e das instituições que abalaram os velhos thronos, firmados
+no direito divino. Nobre era tambem a carreira ecclesiastica, que muitos
+dos seus antepassados haviam trilhado, apoiados no baculo episcopal; mas
+se D. Luiz estava persuadido de que já não havia religião n'este
+territorio de antigos crentes? e se frei Januario teimava, ensinado pelo
+mallogro de longas pretenções ás honras de umas meias vermelhas, que só
+se adiantava nas phalanges do clero quem fosse pedreiro livre!
+
+Assim pois os jovens descendentes do velho realista passavam o tempo
+cavalgando e caçando nas immediações, e fruindo em sancto ocio uma vida,
+cujos espinhos todos procuravam occultar-lhes. Caminhavam por estrada de
+rosas para um fundo precipicio, d'onde lhes desviavam as vistas.
+
+Deve porém dizer-se que não caminhavam ambos igualmente desprevenidos;
+porque de criança era diverso o caracter dos dois, e de dia para dia
+mais a differença se pronunciava.
+
+Jorge, na infancia como na juventude, fôra sempre grave e reflectido.
+Nos brinquedos tomava para si o desempenho de um papel serio. Era o pae,
+o mestre, o commandante, o medico, o padre, tudo aquillo que o obrigasse
+a um porte sisudo e a uma gravidade de homem. Adolescente, nunca as
+raparigas do logar lhe ouviram uma phrase atrevida; era sempre uma
+saudação affectuosa, casta e quasi paternal a que lhes dirigia, ainda
+quando as encontrasse a sós nas veredas mais solitarias das devezas ou
+pinheiraes. Ellas habituaram-se áquella juvenil seriedade, saudavam-n'o
+como a um velho, fallavam d'elle com acatamento, certas de encontrarem
+n'aquelle silencioso rapaz um protector na occasião precisa, mas nunca
+um namorado. E comtudo a figura esbelta de Jorge, a varonil e
+intelligente expressão d'aquelle rosto bem desenhado e um certo fulgor
+no olhar, que denunciava energia de caracter, obrigavam a desviar-se
+para o vêr mais de um olhar feminino, quando elle passava com um livro
+debaixo do braço ou a cavallo pelos caminhos do campo.
+
+As pessoas da indole de Jorge impoem uma especie de estranho temor ás
+mulheres, que se afastam d'ellas como de um ser mysterioso, d'onde lhes
+podem vir perigos desconhecidos.
+
+Mauricio, pelo contrario, mal podia dizer de que idade encetára o seu
+primeiro amor. Com os brinquedos pueris misturára já uns arremedos de
+galanteio e mais o competente cortejo de arrufos e de ciumes. Desde
+então nunca lhe andou o coração devoluto, ainda que tambem nunca tão
+tomado e absorvido por amores, que o fizesse passar por qualquer belleza
+feminina, sem uma lisonja e sem um sorriso.
+
+Era popularissimo entre as raparigas da aldeia; todas o conheciam, e
+elle a todas designava por os nomes. A todas não, que para as feias
+tinha uma memoria ingrata.
+
+Além d'isso Jorge gastava muito do seu tempo na leitura. Era bem provida
+a livraria da casa. A educação esmerada da mãe e bom gosto litterario
+tinham enriquecido a bibliotheca dos melhores modelos da litteratura
+nacional e da estrangeira. Ahi encontraram os dois rapazes farto
+alimento para a sua curiosidade. Jorge lia tambem furtivamente os poucos
+livros, espolio do tio fallecido, os quaes o hortelão guardára como
+reliquia, furtando-os ao auto de fé a que os condemnaria inevitavelmente
+a indignação do fidalgo e do padre. N'esses livros aprendeu Jorge a
+pensar, a comprehender o alcance de certas ideias e de certas
+instituições, e a fazer a justiça devida a muitos preconceitos, que lhe
+haviam imposto como dogmas.
+
+A um espirito d'estes, educado em observar e reflectir, não podiam
+passar por muito tempo desapercebidos os numerosos symptomas da
+decadencia que apresentava a Casa Mourisca. Assim, por vezes vinha-lhe
+ao espirito uma secreta apprehensão pelo seu precario futuro.
+
+Mauricio, imaginação mais forte, natureza mais ardente, caracter mais
+frivolo e voluvel, vivia a sua vida de joven fidalgo de provincia;
+deixava-se ir na corrente dos seus amores faceis, dos seus prazeres e
+das suas dissipações, allucinado por os sonhos e chimeras de uma fertil
+fantasia, e não profundava os olhos até o seio obscuro das realidades. A
+sua leitura era exclusiva de romancistas e poetas. Imaginação nimiamente
+inquieta, razão por indolencia inactiva, não via, nem quereria vêr, o
+espectro, que ás vezes apparecia aos olhos do irmão.
+
+Uma circumstancia havia, a que mais que a outras devia Jorge a apparição
+d'esse espectro, que, á semelhança da sombra do rei da Dinamarca, em
+Hamlet, ia exercendo uma funda influencia no animo do adolescente.
+
+Esta circumstancia não era só para elle manifesta. Ao viajante, que já
+suppozemos parado a contemplar o vulto denegrido da Casa Mourisca, não
+passaria ella tambem desapercebida.
+
+Na raiz da collina fronteira áquella, onde o solar dos fidalgos erguia
+as suas torres ameiadas, assentava o mais risonho e prospero casal dos
+arredores. Era uma completa casa rustica, conhecida por aquelles sitios
+pelo nome, que por excellencia se lhe dera, da Herdade.
+
+O contraste entre a Herdade e o velho solar era perfeito.
+
+Ella graciosa e alvejante, elle severo e sombrio; de um lado todos os
+signaes de actualidade, de vida, de trabalho, da industria que tudo
+aproveita, que não dorme, que não descança; a economia, a previdencia, o
+futuro: do outro, o passado, a tradição esteril, o silencio, a incuria,
+o desperdicio, a ruina: a cada pedra que o tempo derrubava do palacio,
+correspondia uma que se assentava na Herdade para alicerces de novas
+construcções; aqui desmoronava-se um pavilhão, alli levantava-se um
+celleiro, uma azenha, um lagar; aos velhos carvalhos, ás heras
+vigorosas, aos avelludados musgos, aos lichens multicores, severas
+galas, com que se adornava a casa nobre, oppunha a Herdade os pomares
+productivos, as ondulantes searas, os prados verdes, as vinhas ferteis e
+proximo de casa, os canteiros de rosas e balsaminas, onde volteavam
+incessantes as abelhas das colmeias proximas. Nas amplas cavallariças do
+palacio, onde outr'ora relinchavam duzias de cavallos das mais apuradas
+raças, ainda batiam com impaciencia no lagedo dois velhos exemplares de
+bom sangue, cujo sacrificio a economia não exigira ainda; nas mais
+modestas cavallariças do casal, duas eguas robustas, promptas para o
+serviço, e domaveis por uma criança, preparavam-se em fartas mangedouras
+para frequentes e longas excursões; e ao entardecer abriam-se os curraes
+a numerosas cabeças de gado, cujos mugidos chegavam até o alto da Casa
+Mourisca, onde o velho fidalgo muita vez os escutava, pensativo e
+melancolico.
+
+Este contraste, que apontamos, era a circumstancia que evocava no
+espirito de Jorge o espectro que o entristecia.
+
+O dono da Herdade fôra pobre, servira como criado na casa dos fidalgos,
+passára depois a rendeiro de um pequeno casal, mais tarde arrendára uma
+fazenda maior; chegando emfim a ser proprietario, tornára-se em pouco
+tempo possuidor de extensos bens, e era já o chefe d'uma familia
+numerosa e talvez o primeiro agricultor d'aquelle circulo.
+
+Porque prosperava a Herdade, e porque declinava o palacio? Se de tão
+pouco se chegára a tanto, como se podia cahir de tanto em tão pouco?
+
+Taes eram, em summa, as vagas reflexões que se assenhoreavam do espirito
+de Jorge, quando das janellas do seu quarto, em uma das torres do
+palacio, ou do alto de alguma eminencia, observava a animação, a vida da
+propriedade do seu antigo criado, e voltava depois os olhos para o vulto
+silencioso e como adormecido do velho paço dos seus maiores.
+
+
+
+
+II
+
+
+Por uma manhã de setembro, limpida e serena, como ás vezes são na nossa
+terra as manhãs do outomno, Jorge sahiu a pé, a passear pelos campos.
+Errou ao acaso por bouças e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo
+cedida ao transito pela sôfrega cultura nas terras marginaes do pequeno
+rio da aldeia. Depois, subindo a uma eminencia, parou a contemplar do
+alto o aspecto do feracissimo valle, que suavemente se lhe abatia aos
+pés, e no fundo do qual se erguia, d'entre veigas e pomares, a Herdade,
+de que já fallamos.
+
+Jorge sentou-se sobre uma d'essas enormes moles de granito, que se
+encontram com frequencia em certos logares da provincia, soltas pelos
+montes, como se fossem roladas para alli em remotas eras por mãos de
+fundibularios gigantes, empenhados em encarniçada lucta. Os olhos
+dirigiram-se-lhe instinctivamente para a Herdade, onde se fixaram, como
+se com força irresistivel os attrahisse o espectaculo que via.
+
+Era a época de mais intensa vida nas granjas. Os cereaes, cobrindo as
+eiras, lourejavam aos raios desanuviados do sol; carros, a vergarem sob
+o fardo das colheitas, transpunham lentos as portas patentes do
+quinteiro, chiando estridorosamente; apinhavam-se além em montes as
+cannas e o folhelho de milho, restos de recentes descamisadas; longas
+series de mêdas elevavam-se mais longe, á maneira de tendas em um
+arraial de campanha; juntas de bois, já livres do jugo, repousavam das
+fadigas d'aquelles dias de azafama, ruminando em socego; os moços da
+lavoura iam e vinham, atarefados em diversos misteres; e de tudo isto
+erguia-se um clamor de trabalho, que o socego dos campos e a serenidade
+do dia deixavam chegar distincto até o alto da collina.
+
+O dono da Herdade, o antigo criado da Casa Mourisca, presidia áquellas
+tarefas, e em volta d'elle moviam-se, saltavam e riam duas ou tres
+robustas crianças, com quem brincava um formidavel rafeiro.
+
+E era esta a scena que Jorge contemplava, e que em tão profundas
+meditações parecia absorvêl-o. De repente distrahiu-o o som dos passos
+de alguem que se aproximava d'aquelle mesmo logar, em que tão
+desapercebidamente lhe ia correndo a manhã.
+
+Voltando-se, viu seu irmão Mauricio, que em traje rigoroso e competentes
+petrechos de caça, e com a esmerada elegancia e apuro, que lhe eram
+habituaes, subia a collina, precedido de dois ou tres cães de boa raça,
+que de longe descobriram Jorge e correram para elle, afagando-o, com
+latidos e cabriolas.
+
+Mauricio, assim avisado e conduzido pelos cães, veio ter com o irmão,
+exclamando jovialmente á distancia de alguns passos:
+
+--Em flagrante delicto de meditação poetica, o snr. Jorge! Bravo! Já não
+desespero de te vêr um dia fazer versos.
+
+Jorge respondeu, encolhendo os hombros:
+
+--Quem se senta no alto de um monte, depois de subir toda a encosta
+d'elle sem parar, póde fazêl-o simplesmente com o prosaico intento de
+tomar fôlego. Se isto fosse symptoma de poesia, então...
+
+--Pois sim, mas já isso de subir o monte com as mãos vazias, como estás,
+sem uma espingarda que revele um razoavel fim no passeio, é um symptoma
+importante. Quem é que se dá ao incommodo de uma ascensão d'essas,
+quando o gozo da perspectiva que espera encontrar lhe não compensa as
+fadigas? E quem tem d'essas compensações senão os poetas, que são os
+unicos que sabem _ce qu'on entend sur la montagne_?
+
+ Avez vous quelque fois, calme et silencieux,
+ Monté sur la montagne en presence des cieux?
+
+E, a recitar os primeiros versos da poesia alludida, sentava-se ao lado
+do irmão, pousava a espingarda, e descobrindo a cabeça, sacudia aos
+ventos os formosos e bastos cabellos castanhos, objecto de muitos
+cuidados seus.
+
+Os cães andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras do
+monte.
+
+Interrompendo de subito a recitação, Mauricio proseguiu:
+
+--Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias!
+Que escrupulos póde haver em declarar isto tudo admiravel? Repara como é
+bem talhado aquelle córte além, no monte; parece feito de proposito para
+deixar vêr no plano posterior aquella povoação distante, que não sei que
+nome tem. E alli o campanario, com a sua alameda? Quem teria a feliz
+inspiração de o assentar tão bem? Onde é que elle ficaria melhor? Parece
+que andou um gosto de artista a dirigir estas coisas.
+
+E acrescentou, suspirando:
+
+--Ai, na aldeia o scenario bem está, pouco tem que se lhe diga; mas os
+actores e a comedia que aqui se representa é que são de uma insipidez!
+
+Os instinctos urbanos de Mauricio, cuja indole mal se accommodava á
+simplicidade campesina, e o fazia suspirar pela vida das capitaes,
+arrancavam-lhe frequentemente d'estas exclamações.
+
+Jorge, que escutára o irmão sob uma meia distracção e sem desviar os
+olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo:
+
+--Ha quasi uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que não tinha
+notado uma só d'essas particularidades da paisagem que descreves.
+
+--Gostas mais da contemplação em globo. Até isso é de poeta. Analysar
+minuciosamente as impressões recebidas não é o seu forte.
+
+--Enganas-te ainda; não era tambem o conjuncto da paisagem que eu
+observava; mas um ponto limitado d'ella, muito limitado.
+
+--Qual era então?
+
+--Olha alli para baixo; a Herdade de Thomé, aquella azafama, aquella
+gente toda a trabalhar, a vida que alli vae!
+
+--Ora adeus!--exclamou Mauricio--é justamente o que me não roubaria um
+momento de attenção. Não te estou a dizer que para mim o que ha de
+insupportavel no campo é a gente que o habita, a vida que n'elle se
+passa? Faz pena vêr que especie de contempladores tem a natureza para
+estas maravilhas. A indifferença com que estes selvagens encaram tudo
+isto! Repara, vê aquelle labrego passar lá em baixo na ponte; olha lá se
+elle desvia a cabeça para algum dos lados, ou se pára um momento para
+gozar do bello espectaculo que d'alli observa. Olha para aquillo!
+Selvagem! Pergunta ao Thomé ou a toda essa gente que lá anda em baixo a
+trabalhar quantas vezes admiraram as bellezas de uma noite de luar,
+vista do alto do oiteiro pequeno, ou se o pôr do sol lhes produz alguma
+sensação na alma, a não ser a lembrança de que vão sendo horas da ceia.
+
+Jorge sorria ao ouvir o irmão, e tornou placidamente:
+
+--Que homem este! A poesia precisa de ter quem a entenda e quem a faça;
+e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a
+entendem. Esta pobre gente do campo é uma parte integrante d'elle; não o
+contemplam, completam-n'o. Que querias tu? Gostavas talvez mais de que
+em vez d'essa gente indifferente, que trabalha, estivessem por ahi os
+montes, os valles e as ribeiras povoados de poetas contempladores como
+tu? Deves confessar que seria um campo bem ridiculo esse. Se eu até,
+para que te diga a verdade, estou persuadido de que não encontraria
+encantos nos logares muito visitados, que ha por as quatro partes do
+mundo, onde, a cada momento, apreciadores inglezes, francezes, russos e
+allemães passeiam, soltando exclamações polyglotas, e onde o nosso
+enthusiasmo nos é prescripto a paginas tantas do GUIA DO VIAJANTE. O que
+torna os lavradores poeticos é a inconsciencia com que elles o são.
+
+--Vistos de longe. Pelo menos concorda n'isto; vistos de longe, e de
+muito longe.
+
+--Vistos de longe, sim, que duvida? como tudo o mais. Ao perto tambem
+muitos d'esses prados são pantanos mal cheirosos, que infectam, e
+mexe-se uma miryada de insectos repugnantes n'essa verdura que tanto
+admiras. Dize-me uma coisa, Mauricio, parece-te que o nosso velho solar
+prejudica a belleza d'esta paisagem?
+
+--Se prejudica? Ora essa! Adorna-a. Olha que bem que elle sahe d'aquelle
+fundo que lhe fazem os castanheiros!
+
+--Muito bem, e comtudo, visto de perto, ha lá tristes e prosaicas
+realidades--observou Jorge, suspirando.
+
+Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir-lhe estas palavras, o irmão o
+fitou, Jorge correspondeu, dizendo:
+
+--Sim, Mauricio, triste e prosaica realidade para quem o olhar de perto.
+Ha nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas, que
+nós lá temos, do que aquelles pomares mal tractados, e aquelles
+celleiros em ruinas? Quererás encontrar poesia na nossa pobreza,
+Mauricio?
+
+--Pobreza?!
+
+--Pobreza, sim; pois que nome lhe queres dar? Olha, compara o aspecto
+d'essa casa branca de um andar, que ahi fica em baixo, com o do nosso
+paço acastellado, a actividade d'aquelles homens com a somnolencia
+chronica do nosso capellão; compara ainda, Mauricio, compara a
+desafogada alegria de Thomé com a tristeza sem conforto do nosso pae.
+
+Mauricio curvou a cabeça, e uma como sombra de tristeza parou-lhe algum
+tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir-se-ia que pela primeira
+vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, até
+então fascinados pelo fulgor de lisongeiras illusões.
+
+Mas, depois de breves instantes de silencio, respondeu ao irmão:
+
+--Pois bem, será como dizes. Creio até que seja essa a verdade. A
+riqueza está alli, a pobreza do nosso lado; porém a poesia... oh! essa
+deixa-nol-a ficar, que bem sabes que não é ella a habitual companheira
+da opulencia.
+
+--Da opulencia ociosa, egoista e inutil, de certo que não; mas da
+opulencia activa, benefica, que semeia, que transmitte a vida em volta
+de si, da opulencia que fomenta o trabalho, que cultiva os terrenos
+maninhos, que fertilisa a terra esteril, que sustenta, que educa e
+civilisa o povo, oh! d'essa é a poesia companheira tambem. Se o castello
+arruinado tem poesia bastante para fazer correr lagrimas de saudade; a
+granja, activa e prospera, tem-n'a de sobra para as provocar de
+enthusiasmo e de fé no futuro.
+
+Mauricio ficou outra vez silencioso; depois, como se pretendesse sacudir
+de si as ideias negras evocadas pelas palavras do irmão, exclamou
+erguendo-se e com affectado estouvamento:
+
+--Estás enganado, Jorge, o que reina alli em baixo não é a poesia, é...
+é... é a economia. A poesia não assiste ao edificio que se levanta, mas
+ao que se arruina; gosta mais dos musgos, do que da cal; do lado do
+passado é que a encontras, melancolica, que é o ar que lhe convém. E
+ella tem razão; o futuro tem muita vida para precisar do prestigio
+poetico. A poesia dos utilitarios! Com o que tu me vens! Não sei quem
+foi que ha tempos me disse ter lido uma noticia curiosa a respeito da
+Inglaterra. Parece que o espirito industrial e economico d'aquella gente
+vae por lá destruindo as florestas, as matas, as sebes vivas, o que
+emmudecerá dentro em pouco os córos das aves; os rebanhos, que d'antes
+pastavam pelas campinas verdes, hoje já prosaicamente se vão engordando
+nos estabulos! Que mais falta? A voz dos camponezes, as cantigas e as
+musicas ruraes hão de calar-se ao ruido do ranger das machinas e do
+silvo do vapor. Admiravel! Em vez do fumo alvo e tenue das choças ficará
+o céo coberto de fumo negro e espesso do carvão de pedra. Que modelo de
+aldeia o que nos vem da Inglaterra! Na verdade! que poesia!
+
+--No que tu me vens fallar! Na Inglaterra agricola!--acudiu Jorge--Mas
+antes lá é que bem se comprehende a poesia da vida rural, que até a
+nobreza a não despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores das terras e
+os rendeiros fraternisam e auxiliam-se mutuamente, e que os trabalhos do
+anno succedem-se entre festas e solemnidades populares, lucrando todos,
+trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar
+que ha mais poesia nos dominios senhoris dos lords de Inglaterra, que
+dirigem por si mesmos as suas vastas emprezas agricolas, do que nos
+pardieiros em ruinas dos nossos morgados, em cujas velhas salas dormem
+os proprietarios o somno da ignorancia, da inutilidade e da devassidão.
+
+--Não o nego, mas... na nossa casa, naquella triste Casa Mourisca, ha um
+quê de poesia, de poesia elegiaca, se assim quizeres. Essa de que fallas
+será a poesia das georgicas; mas a da elegia deixa-m'a ficar.
+
+--O peior, Mauricio, é que um dia virá talvez em que o tremendo
+prosaismo da completa miseria dissipará esse tenue perfume que dizes.
+
+--Safa! Estás hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa lá;
+lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades ha um thesouro
+escondido desde o tempo dos mouros, e que um dia alguem de nossa familia
+o achará, ficando fabulosamente rico. Que essa esperança dissipe o humor
+negro que tens. Vamos, vem d'ahi. Pega n'esta espingarda e vae caçar. É
+bom para dissipar visões.
+
+--Não estou hoje para caçar.
+
+--Então vaes reatar aqui o fio das tuas cogitações?
+
+--Não, vou reatal-o acolá.
+
+--Vaes á Herdade?!
+
+--Vou.
+
+--Fazer o quê?
+
+--Vêr de mais perto aquella poesia, ou aquella prosa, como quizeres.
+
+--Sabes que o pae não gosta que lidemos muito de perto com o Thomé?
+
+--Sei. É um preconceito. Elle não o saberá.
+
+--Um preconceito! Bom! Estás hoje muito philosopho. Adeus, Jorge; espero
+vêr-te ao jantar de melhor aspecto.
+
+--Adeus, Mauricio.
+
+E os dois irmãos separaram-se. Mauricio, precedido pelos cães, seguiu em
+direcção dos montes, cantando. Jorge desceu a collina e caminhou para a
+Herdade.
+
+
+
+
+III
+
+
+Thomé da Povoa era o typo mais completo de fazendeiro, que póde
+desejar-se.
+
+«Alma sã em corpo são»: esta phrase do poeta é a que descreve melhor o
+homem; no physico, a força e a saude em pessoa; no moral, a honradez e a
+alegria.
+
+Emquanto houvesse alguem que trabalhasse em casa, não descançava elle.
+Delicias do somno de madrugada, attractivos das sestas, a tudo resistia
+com nunca desmentida coragem. Na abastança conservava os costumes
+laboriosos de tempos mais arduos. Tudo lhe corria pelas mãos, a tudo
+superintendia. Antes de almoçar já elle havia passado revista á Herdade
+toda. No decurso do dia montava a cavallo e lá ia inspeccionar uma ou
+outra propriedade mais distante, que não deixava entregue á discrição
+dos caseiros. Uma ou duas vezes no mez estendia as suas excursões até o
+Porto, chamado por negocios relativos á lavoura.
+
+Franco, lizo de contas, pontual nos pagamentos, cavalheiro nos
+contractos, não se lhe limitava o credito á circumscripção da sua
+aldeia, estendia-se até á cidade, onde o seu nome era melhor garantia em
+certas transacções, do que o de muitos faustosos negociantes. Em
+familia, perfeitamente patriarchal, estremecia a mulher e os filhos; e a
+lembrança de que para elles trabalhava, illudia-lhe as fadigas e os
+desalentos.
+
+Quando Jorge se dirigiu á Herdade, presidia ainda Thomé aos diversos
+trabalhos, em que a sua gente andava occupada n'aquella manhã.
+
+Não havia alli braços quietos, nem movimentos inuteis. N'aquellas casas
+o trabalho não distingue sexo nem idade. Todos desde a infancia se
+familiarisam com elle. Dá-se o mesmo que se dá com o tracto dos bois;
+sómente na cidade é que estes possantes e bondosos animaes mettem medo
+ás mulheres e ás crianças; na aldeia umas e outras os afagam e dirigem.
+
+Assim pois trabalhava-se, fallava-se, ria-se e cantava-se com alma nas
+eiras e quinteiros da Herdade.
+
+E Thomé, centro d'aquelle movimento, lançando os olhos a tudo, dirigindo
+a todos a palavra e a todos prestando o auxilio do seu braço robusto; e
+da porta da casa, assistindo tambem áquella scena rural, a boa e sancta
+mulher do fazendeiro, a socia fiel nos seus prazeres e penas,
+sustentando ao collo o ultimo dos seus filhos, emquanto que os mais
+crescidos jogavam as escondidas por entre aquella gente azafamada.
+
+--Olha lá esse carro que não está bem seguro, ó Manoel. Vê lá se me
+arranjas ainda hoje por aqui alguma desgraça... Ó meu maluco, não
+reparas que me vaes semeando as espigas pelo chão? Salta, apanha-me tudo
+isso, que eu não quero nada desperdiçado... Está quieto, João, vae para
+casa, agora não se brinca no quinteiro. Sahe-me de ao pé dos bois,
+menino! Ai que tu... Ó Luiza, olha se mandas dar uma pinga áquelles
+homens.... Que quer você, tio? Cubra-se, ponha o seu chapéo. Ai, vem por
+causa de muro que cahiu? Olhe, tenha paciencia, volte cá ámanhã. Hoje
+não posso olhar por isso... Ó Chico Engeitado, que diabo estás tu
+fazendo, pateta? Deixa-me estar essas pipas. Vae-me recolher aquelle
+milho que eu te disse; corre... O moleiro já veio? Pois as azenhas já
+moem, e o homem não tem desculpas que dê pela demora... Ó Manoel, arreda
+esse carro mais para o meio, senão não póde entrar o outro, homem de
+Deus! Disseram ao Luiz que visse como estava o milho da baixa do rio?
+Que m'o não vá cortar antes do tempo. Eu sempre quero lá ir primeiro;
+elle não apodrece na terra. Ó mulher, chama para lá esses pequenos, que
+podem aleijar-se por aqui. Vae, Joãosinho, vae para casa e leva o mano.
+Olha, queres uma espiga assada? Ó Chico, escolhe ahi duas espigas para
+os pequenos. Que demonio anda aquelle cão a fazer atraz das gallinhas?
+Aqui já, atrevido! Vá, vá, rapazes! Vocês n'esse andar não acabam hoje.
+Dá cá um ensinho, que eu vou arredando este folhelho.
+
+No meio d'este fogo cerrado de ordens, de conselhos e de observações foi
+Thomé da Povoa interrompido pela voz da mulher, que exclamou:
+
+--Ai, ó Thomé, olha quem alli está!
+
+O fazendeiro voltou-se e deu com os olhos em Jorge, que do portão do
+quinteiro viera, cumprindo o que tinha dito ao irmão, contemplar o mesmo
+espectaculo, que tanto o havia attrahido ao observal-o da collina.
+
+Era raro que os filhos de D. Luiz visitassem a Herdade. O velho fidalgo
+ainda se não costumára á prosperidade do homem que fôra seu criado. A
+granja era como que uma censura pungente á sua imprevidencia; era uma
+lição muda que elle recebia a todos os momentos, que o humilhava no seu
+orgulho e pungia-lhe o coração de remorsos.
+
+Thomé não se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava por a
+familia da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luiz, certa deferencia
+e respeito, que se ressentiam ainda da passada posição do fazendeiro em
+casa do fidalgo.
+
+Este porém procurára o primeiro pretexto para interromper as relações
+com Thomé. Uma questão de aguas, occasionada por a abertura de uma mina
+em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luiz, sempre
+indifferente a litigios d'essa ordem, mostrou-se então muito cioso de
+seus hypotheticos direitos, e, não obstante a nenhuma animosidade que
+houve da parte do lavrador, desde essa época nunca mais conviveu com
+elle.
+
+Jorge e Mauricio, que costumavam frequentar a casa do homem que os
+trouxera ao collo e que lhes queria devéras, receberam ordem para não
+voltarem lá.
+
+Thomé da Povoa sentiu-se com este proceder, que não tinha merecido; mas
+possuia bastante finura para perceber a verdadeira causa da irritação do
+fidalgo; por isso limitou-se a encolher os hombros, dizendo para a
+mulher:
+
+--Então que queres tu que eu lhe faça? assim nasceu, e assim ha de
+morrer.
+
+Eis a razão porque a presença de Jorge o surprendeu; mas, sem dar
+signaes de estranheza, caminhou para elle com as mãos estendidas e o
+rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade.
+
+--Entre, snr. Jorge, entre. Isto por aqui está tudo uma desordem, mas
+emfim é casa de lavrador, e em setembro não ha maneira de a ter asseada.
+Ó Luiza, manda para aqui uma cadeira... ou deixa estar, é melhor entrar
+lá para dentro.
+
+--Não, Thomé, eu prefiro ficar aqui. E não se incommode. Olhe, já estou
+sentado.
+
+--Ora! n'um carro! Isso é que não. Nada, não tem geito. Luiza, manda
+então a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa, snr. Jorge?
+
+--Agradecido, Thomé; não tenho sêde. Appeteceu-me vir vêr de perto esta
+lida, que por aqui vae, e que estive observando, perto de uma hora, alli
+de cima: por isso desci.
+
+--Ora essa! Pois bem vindo seja, que sempre me dá alegria ver aquelles
+meninos, que conheci tão pequerruchos como estes.
+
+E apontava para as crianças que, agarradas ás pernas do pae, olhavam com
+grandes olhos para Jorge.
+
+--São todos seus?--perguntou Jorge, afagando-as e sentando uma nos
+joelhos.
+
+--E aquelle que a mãe traz ao collo e a pequena que está na cidade.
+
+--Ai, sim, a Bertha. Deve estar uma senhora?
+
+--Está crescidita, está. Mas vamos, tome alguma coisa. Olhe que o meu
+vinho é puro e não faz mal de qualidade alguma. Aquillo é sumo de uva e
+nada mais.
+
+--Obrigado, obrigado; mas não bebo agora. Peço-lhe que continue com o
+seu trabalho, sem se importar commigo. Para isso é que vim.
+
+--Ai, isto está a acabar. Vae no meio dia--acrescentou olhando para o
+sol--d'aqui a nada vae esta gente jantar e... Para onde levas tu esse
+carro, ó desalmado? Perdoe-me, snr. Jorge, mas estes diabos... Eu
+attendo-o já.
+
+E, sem poder conter-se, collocou-se elle proprio á frente dos bois, e
+encaminhou o carro na direcção conveniente.
+
+--Vocês juraram dar-me cabo dos limoeiros. Olhe que tenho tido limões
+este anno, que é uma coisa por maior, snr. Jorge--disse elle,
+regressando ao seu posto com um enorme limão, que mostrava com orgulho.
+
+Luiza voltou com uma cadeira para offerecer a Jorge.
+
+--Como está crescido e fero--dizia ella, olhando-o com curiosidade e
+complacencia--e o mano como vae? Vi-o ha dias passar a cavallo alli na
+ponte do Giestal. Pareceu-me bom.
+
+--E como está seu pae, snr. Jorge?--perguntou Thomé gravemente.
+
+Jorge ia respondendo a estas perguntas e seguindo o movimento dos
+criados da lavoura, a quem de quando em quando Thomé dava ordens e fazia
+recommendações, que entremeiava na conversa, sem perder o fio d'esta.
+
+Luiza, com o filho ao collo, não abandonou tambem a scena, senão quando
+o sino da igreja parochial bateu as tres badaladas que recordam aos
+fieis a oração do meio dia. O trabalho na eira e no quinteiro
+suspendeu-se como por encanto. Os homens descobriram-se a fazer uma
+curta reza, no fim da qual a mulher de Thomé, depois de dar aos
+presentes as boas tardes, disse, seguindo o caminho de casa:
+
+--Venham jantar.
+
+Todos obedeceram immediatamente á agradavel ordem, e em pouco tempo
+ficou só e silenciosa a scena, havia pouco tão ruidosa e animada.
+
+--São horas do seu jantar, Thomé--disse Jorge, levantando-se para sahir.
+
+--Depois d'esta gente acabar, é que eu principio. A Luiza não póde
+attender a todos a um tempo. Deixe-se o menino estar. Eu não lhe
+offereço do meu jantar, porque não é feito para si; mas se quizer dar
+uma volta por os campos emquanto elles jantam...
+
+--Se lhe não causar incommodo...
+
+--Nenhum; até preciso de ir vêr o que elles hoje trabalharam no poço que
+mandei abrir lá em baixo.
+
+E empurrando a porta, que dava para as outras partes do casal, Thomé
+obrigou Jorge a passar adiante e seguiu-o logo depois.
+
+E de caminho ia-lhe commentando tudo que viam; narrou como alporcára uns
+pecegueiros, o resultado que tirára do enxoframento das vinhas, a
+quantidade de fructa que o laranjal lhe produzira, quanto despendêra na
+construcção do lagar, as difficuldades que encontrou na abertura da
+nora, o que fizera pouco productiva aquelle anno a cultura do trigo, os
+cuidados que lhe mereceram os meloaes, e mil outras coisas relativas ao
+amanho das suas terras, das quaes nem um só palmo se poderia encontrar,
+onde as plantas nocivas usurpassem o logar das proveitosas.
+
+Jorge escutou-o com uma attenção e interesse, que estavam causando
+grande estranheza a Thomé, pouco acostumado a vêr as pessoas da
+categoria de Jorge, e da idade d'elle ainda menos, interrogarem-n'o com
+tanta curiosidade e ouvirem-n'o com tanta sisudez sobre objectos de
+lavoura.
+
+E as perguntas do joven fidalgo não eram vagas e ociosas, como essas que
+por condescendencia se fazem, para lisongear a vaidade natural de um
+proprietario. Havia n'ellas uma precisão, uma minuciosidade;
+acompanhavam-n'as reflexões tão acertadas, duvidas tão racionaes, que
+Thomé não podia illudir-se, e via bem que o descendente dos nobres
+Negrões de Villar de Corvos o interrogava com desejo de saber.
+
+Esta convicção enthusiasmava Thomé, que proseguia com ardor as suas
+informações.
+
+Jorge quiz saber aproximadamente o custeio necessario para manter uma
+propriedade como aquella no ponto de cultura em que estava, e o capital
+exigido para a elevar a esse grau de florescencia.
+
+Thomé era forte na especialidade dos orçamentos; por isso deu com a
+melhor vontade a Jorge as informações que este lhe pedia.
+
+A final Jorge, depois de um mais longo intervallo de silencio, que
+terminou com um suspiro, disse, como a medo, e desviando a cabeça, a
+fingir-se entretido no exame da roda hydraulica de uma nora:
+
+--E porque será que só os campos que nos pertencem estão cheios de
+ortigas e saramagos, Thomé?
+
+Thomé da Povoa voltou-se de repente para Jorge, e fitou n'elle um olhar
+penetrante. Porque o fazendeiro tinha ás vezes um certo olhar, que ia
+até o fundo do pensamento de uma pessoa.
+
+--Quer que lhe diga porque é, snr. Jorge?--perguntou elle logo depois,
+com um tom de voz serio e quasi triste.
+
+--Quero, sim.
+
+--É porque o dono d'elles é o snr. D. Luiz Negrão de Villar de Corvos, o
+fidalgo da Casa Mourisca, como por aqui lhe chamamos todos.
+
+Jorge olhou interrogadoramente para Thomé, que continuou:
+
+--É pela mesma razão porque chove nas salas do morgado do Penedo e
+porque seus primos do Cruzeiro perderam o anno passado todo o Casal de
+Mattoso. Se eu tivesse agora vagar para contar-lhe a minha vida, desde
+que sahi aos vinte e dois annos de sua casa, snr. Jorge, até hoje, o
+menino não me perguntava depois porque os seus campos estão cheios de
+serralha e de saramagos. Trabalhei muito, snr. Jorge, não é só com agua
+que se regam estas terras para as ter no ponto em que as vê; é com o
+suor do rosto de um homem. É preciso que o dono vigie por ellas, sem
+confiar em ninguem, como um pae vigia pela educação dos filhos. Ora ahi
+está. As bençãos de um padre capellão não dão adubo ás
+terras--acrescentou Thomé com um sorriso epigrammatico a commentar a
+allusão, que não escapára a Jorge.
+
+--Mas como se explica isto, Thomé?--continuou Jorge com a docilidade de
+um discipulo--os meus avós nunca se occuparam muito com a lavoura;
+passaram a vida quasi toda na côrte e nas embaixadas, e raras vezes
+visitaram as suas terras, onde só vinham para caçar, e comtudo a nossa
+casa era então uma das mais ricas da provincia, e hoje...
+
+--Isso lá... Olhe, snr. Jorge, se elles se não occuparam dos seus bens e
+não sentiram o mal, é porque tinham ainda muito que perder. Quem hoje o
+está pagando é seu pae e amanhã serão os meninos. Isto é como uma pessoa
+robusta que leva vida extravagante. Emquanto é nova e tem muitas forças,
+não dá por as que perde e julga que nada lhe faz mal, mas chega lá a um
+certo ponto e de repente acha-se fraca e então é que considera o damno
+que fez a si mesma e aos filhos que gerou. Entende o que eu digo?
+
+--Entendo, Thomé, entendo, e creio que é essa a verdade. Além de
+que--proseguiu Jorge pensativo--n'aquelles tempos, as classes
+privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incuria e de
+dissipação, porque os privilegios velavam por ellas e remediavam-lhes os
+desvarios; adormeceram n'essa confiança e não sentiram que tinham mudado
+as condições sociaes, e agora ao acordarem...
+
+Jorge, que dissera estas palavras mais para si do que para o seu
+interlocutor, interrompeu-as subitamente, e apontando para a Casa
+Mourisca, que d'alli se avistava, exclamou quasi com desespero:
+
+--E não será ainda possivel sustentar aquella casa na sua quéda?
+
+Thomé da Povoa sorriu com uma expressão de intelligencia.
+
+--Entregue-a ás mãos de um lavrador, de um homem de trabalho, que possa
+dispôr d'alguns capitaes para os primeiros tempos, e verá.
+
+--Principiaria por deitar abaixo aquellas paredes velhas e aquellas
+arvores--observou Jorge, olhando com tristeza para o seu meio arruinado
+solar e para os bosques seculares que o rodeavam.
+
+--Talvez deitasse--disse Thomé--póde bem ser que o fizesse, porque lá
+amor a essas coisas não teem elles, não. Mas não seria necessario. Eu,
+que tambem lhes tenho affeição, áquelle arvoredo e áquellas paredes
+negras, porque alli passei um tempo... mau era elle de certo... mas
+emfim... sempre tinha vinte annos..., eu, que me não atreveria a
+deitar-lhe o machado... ainda me aventurava a pôr aquillo no pé em que
+esteve.
+
+Jorge não pôde tirar ás suas palavras um ligeiro tom de amargura e quasi
+de ironia, quando, depois d'esta resposta de Thomé, exclamou voltando-se
+para a Casa Mourisca:
+
+--Espera pois, casa de meus paes, que a nossa miseria nos expulse dos
+teus tectos e te abra as portas á familia de um lavrador abastado, para
+vêres reparados os teus muros, e cultivados esses campos maninhos; assim
+Deus dê a esse homem um pouco de amor ás coisas velhas, para te não
+destruir na reforma.
+
+Thomé, que percebeu a occulta expressão d'estas palavras, replicou com
+dignidade:
+
+--Porque não ha de antes dizer, snr. Jorge: Espera, casa de meus paes,
+que Deus inspire um dos teus donos, para que olhe por seus proprios
+olhos para os teus achaques e os cure por suas mãos?
+
+--Os remedios são caros na botica, Thomé. Os pobres vêem ás vezes morrer
+um doente, porque não podem comprar a droga que o salvaria.
+
+--Senhor Jorge--acudiu Thomé com um ar quasi solemne--resolva-se devéras
+a ser homem, deixe-se de viver como vivem e teem vivido os seus, queira
+do coração fazer-se economico, trabalhador e vigilante, livre-se da
+praga dos seus mordomos e procuradores, deixe o padre dizer missas, mal
+ou bem, conforme puder, porque isso é lá com Deus e elle, faça tudo isto
+e os capitaes não lhe faltarão. O homem que principiou a ganhal-os
+n'aquella casa será um dos que não porá duvida em empregal-os, até onde
+chegarem, para a sustentar e não deixar cahir; e onde não chegarem os
+capitaes, chegará o credito.
+
+--É uma esmola que me offerece, Thomé?--perguntou Jorge, mas sem o menor
+signal de irritação.
+
+--Não, snr. Jorge, não é. Nem o menino m'a aceitava, nem eu poderia
+fazêl-a, sem prejudicar meus filhos. Não é uma esmola, é um emprestimo,
+menos perigoso do que os arranjados pelo padre capellão. Não é vergonha
+um emprestimo, quando se faz em condições de poder por elle alliviar-se
+um homem de dividas mais pesadas e de credores mal intencionados, e
+resgatar e melhorar a propriedade. Ha muito que a sua casa vive d'isso,
+mas a taes portas tem ido bater e tão mau uso tem feito do pouco e caro
+que obtinha que, em vez de se salvar, cada vez se perdia mais. Não fica
+mal um emprestimo, snr. Jorge, quando se procura satisfazer com lealdade
+os compromissos que se ajustaram. Então não vê que até os governos pedem
+emprestado?
+
+--Mas quando, como no meu caso, não ha garantias a offerecer, o
+emprestimo é bem parecido com a esmola, deve confessar.
+
+--Não ha garantias? Quem foi que lhe disse isso? E a sua probidade?...
+Sabe que mais? Eu sempre lhe vou contar a minha historia e verá depois
+se tenho razão no que digo.
+
+E Thomé da Povoa, conduzindo Jorge para a sombra da ramada que toldava a
+nora, na roda da qual se sentaram ambos, principiou:
+
+--Quando sahi da casa de seu pae, por esta vontade, ás vezes bem doida,
+que a gente tem de trabalhar por sua conta, empreguei algum dinheirito,
+que juntára, em arrendar um casebre e uma horta, da qual, lidando do
+romper do dia até á noite, tirava quando muito o preciso para não morrer
+de fome. O menino sabe aquella nesga de campo, que eu tenho ao pé dos
+açudes e o palheirito que fica ao lado?
+
+--Bem sei.
+
+--Pois foi essa a minha primeira casa. A Luiza, com quem por esse tempo
+casei, trabalhava tanto como eu, e assim iamos vivendo, sabe Deus como,
+mas pagando pontualmente o nosso aluguel e sem ficar a dever nada na
+tenda. O meu senhorio era um homem muito rico e muito de bem. Deus lhe
+falle n'alma! O menino ha de ter ouvido fallar d'elle: era o doutor
+Menezes, pessoa de muito saber e que tinha sido da relação do Porto.
+
+--Ainda tenho uma ideia de o vêr.
+
+--Não havia melhor senhorio; nada exigente com os caseiros e até sempre
+prompto a ajudal-os. Um anno veio uma sequeira, que matou toda a
+novidade. Foi uma coisa de fazer dó. Nem gota de agua, as fontes sêcas,
+as levadas enxutas, os moinhos parados, e os lavradores a agarrarem as
+mãos na cabeça e a pedir a Deus misericordia! A coisa foi de maneira
+que, chegado o tempo de pagar a renda, poucos tinham com que a pagar.
+
+--Succedeu-lhe o mesmo a si? Está visto.
+
+--A mim?! eu nada colhi n'esse anno; mas de maneira nenhuma queria
+faltar ao ajustado com o senhorio. Fui-me ao escaninho da caixa, tirei
+para fóra uns cruzados novos que, a muito custo, puzera de lado para o
+caso de uma doença; mas não era coisa que chegasse. Como ha de ser, como
+não ha de ser, eis que a minha Luiza, que sempre foi boa companheira, me
+diz: «Não te afflijas, homem; ahi vão as minhas arrecadas, pega», e
+atirou-m'as para cima dos cruzados. Lá me custava o servir-me das
+arrecadas da rapariga, que era a unica riqueza que ella tinha; mas não
+houve outro remedio. Pul-as em penhor, e com o dinheiro que me deram
+completei o aluguer, e no dia marcado apresentei-me em casa do doutor
+Menezes.
+
+--E elle?
+
+--Parece-me que ainda o estou a vêr no seu quarto de estudo, com as
+pernas embrulhadas em uma manta e olhando-me por cima dos oculos: «Então
+o que o traz por cá, Thomé?» «Eu, snr. doutor, venho para o que v. s.ª
+sabe.» «Ah! sim, estamos no S. Miguel. O anno pelos modos foi mau.» «Ora
+se foi! mas emfim vamo-nos conformando com a vontade do Senhor. Outro
+virá melhor.» E fui-me chegando para a banca e tirei do bolso o
+dinheiro, que me puz a contar e a encastellar. O homem estava calado a
+vêr aquillo. Quando cheguei ao fim olhou para mim d'uma certa maneira e
+disse-me: «Então está ahi tudo?» Está, sim senhor, v. s.ª não viu? «E
+você quer-me dar tanta coisa?» D'esta vez fui eu que me puz a olhar para
+elle admirado. «Então não é este o preço ajustado no arrendamento?» «É
+celebre, disse o snr. doutor abanando a cabeça, é o primeiro rendeiro
+que me paga tão prompto este anno e sem pedir que lhe perdoe alguma
+coisa, vista a escassez da estação. Onde foi você buscar esse dinheiro,
+ó Thomé? Você é o mais pobre dos meus caseiros e eu lá vi o estado do
+seu campo.» Eu não tive remedio senão contar-lhe tudo. Elle nem me
+deixou acabar. «Leve isso d'aqui, homem, e desempenhe as arrecadas da
+sua mulher. Eu não sou nenhum vampiro para sugar o sangue do meu
+proximo.»
+
+--Bella alma!--exclamou Jorge commovido pela narração.
+
+Thomé continuou:
+
+--«Em todo o caso--disse-me d'ahi a pouco o snr. doutor--você fez hoje
+um grande negocio sem o saber. Você é trabalhador, que isso tenho eu
+visto por a maneira porque me traz bem aproveitado o campito que lhe
+aluguei. Mas, para tirar partido dos seus bons desejos, faltava-lhe o
+capital e hoje arranjou-o.
+
+--Que queria elle dizer n'isso?
+
+--Foi o que eu lhe perguntei. «Arranjou-o sim, senhor, respondeu elle,
+porque arranjou credito, que vale por um capital enorme. O que você fez,
+mostra-me o de que é capaz. Appareça ámanhã por aqui, porque temos que
+tractar.»
+
+--E que lhe queria elle?--perguntou Jorge, cada vez mais attento.
+
+--No dia seguinte fui procural-o, sem imaginar o que fosse que elle
+tinha para dizer-me. Mal me viu, exclamou logo: «Ora venha cá, Thomé,
+sente-se aqui, porque temos um contracto a fazer.» E, obrigando-me a
+sentar ao lado d'elle, continuou: «Vocemecê vae assignar-me um escripto
+de arrendamento da minha propriedade das Barrocas.» Ora faça ideia o
+menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta das
+Barrocas? aquillo é um condado, se póde dizer. Como havia eu de
+arrendal-a, Sancto Deus! Elle, conhecendo o meu espanto, acudiu logo:
+«Não lhe pareça isso uma coisa por ahi além. Nós ajustamos a renda e
+você vae tomar conta d'aquillo. A quinta está bem educada e nutrida, e
+estou certo de que não o deixará ficar mal no fim do anno.» «Mas,
+disse-lhe eu, v. s.ª bem vê que uma peça d'aquellas precisa de braços
+para ser bem trabalhada, de braços e de certas despezas.» Mas, homem,
+torna-me elle, quem lhe diz menos d'isso? Olhe lá que eu a deixe ao
+desamparo, para você m'a entregar no estado em que por ahi em geral os
+caseiros as entregam aos senhorios. Mas é bem feito, que elles tambem
+fazem uns arrendamentos taes, que os caseiros morreriam esfomeados, se
+não esfomeassem a terra.
+
+--Mas esse homem era um grande philosopho!--observou Jorge.
+
+--«Vá você para lá--continuou elle--tracte-me bem d'aquillo, e os
+capitaes precisos para instrumentos, gado, adubos, jornaleiros e algumas
+obras, eu lh'os adiantarei. Você é trabalhador, a terra é boa, ia
+apostar que ambos havemos de lucrar.
+
+--E o Thomé foi?
+
+--Fui, e foi o principio da minha felicidade. A terra era abençoada! e
+depois, alli nada faltava para a fazer produzir. Creia o snr. Jorge que
+o dinheiro tambem nasce como a semente. O dinheiro, enterrado assim na
+terra, produz dinheiro, senhor. Eu lá o vi, que quanto mais se gastava
+com a terra, mais ella produzia. Foi lá que eu aprendi a ser lavrador.
+Muito devi aos conselhos d'aquelle homem. «Anda para diante Thomé,
+dizia-me elle. Se queres que o cavallo te não deite a terra e te leve a
+longa jornada, dá-lhe bem de comer; a ração de aveia que lhe furtares da
+mangedoura é a que mais cara te sahe.» Mais tarde, quando eu, com a
+ajuda de Deus, já ia, além de pagar as minhas dividas a pouco e pouco,
+juntando algum peculio no canto da caixa, foi elle que me disse: «Não
+abafes o dinheiro, Thomé. Põe-n'o ao ar para elle se não estragar; tudo
+quer ar n'este mundo.» E ahi me animei eu, ao principio com mêdo, que
+fui perdendo depois, a dar emprego ás minhas economias; e era um gosto
+vêr como ellas augmentavam. Passados annos eram taes, que já eu pensava
+em comprar umas terras, que era cá o meu sonho. Foi elle ainda quem me
+tirou isso da cabeça. «Não tenhas pressa de ser proprietario, prégava-me
+elle, olha que os lucros que vaes ter, gastando todo o teu dinheiro em
+comprar qualquer leira de terra, não correspondem ao gostinho de te
+chamares dono d'ella. Não te afogues em pouca agua. Se comprares um
+cavallo e ficares sem cinco reis para o sustento d'elle, vê lá que
+negociarrão; pois as terras tambem comem e tu bem o deves saber.» E o
+caso é que me convenceu e nem pensei mais n'isso.
+
+--Mas a final sempre comprou?
+
+--Quando elle mesmo m'o disse. Foi á praça esta granja, que não era
+ainda o que é hoje. «Vê agora se ficas com aquillo», disse-me o snr.
+doutor. A propriedade era de valor e eu não queria empregar na compra
+todo o meu capital. O snr. doutor ajudou-me mais uma vez, e a
+propriedade passou para as minhas mãos. Então trabalhei mais do que
+nunca. Todo o meu empenho era remir depressa a minha divida, porque,
+emquanto o não fizesse, parecia-me que não podia chamar ainda meu a
+isto. Deus ajudou-me com annos felizes e com boas colheitas, e como
+continuava com o arrendamento das Barrocas e depois com este negocio de
+gado, pude, mais cêdo do que esperava, pagar a minha ultima prestação e
+remir a divida.
+
+Chegando a este ponto da sua narrativa, animou-se a physionomia de Thomé
+da Povoa de um clarão de enthusiasmo e com as faces córadas e os olhos
+radiantes proseguiu, suspirando com desafogo.
+
+--Que dia aquelle, snr. Jorge! Eu nem lhe sei dizer o que sentia em mim!
+Eu sei lá?! Quando voltei da casa do doutor, com o escripto da quitação
+no bolso, vinha a tremer, pulava-me no peito o coração como o de uma
+criança; abri surrateiramente aquella porta da quinta, e sósinho, como
+um ladrão, sem que ninguem me visse, entrei aqui. Digo-lhe que estava
+quasi louco. Até fallei alto; lembra-me bem de que disse ao vêr-me cá
+dentro: Isto é meu! E depois que sabia que era meu, parecia-me outra
+coisa tudo isto. Meu! eu não me fartava de repetir esta palavra! Meu!
+Estas arvores eram minhas, estas fontes eram minhas, até estes passaros,
+que por ahi cantavam, eram meus, porque emfim vinham fazer ninho e
+cantar no que me pertencia. Vae rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu
+abracei estas arvores, eu bati palmadas n'estes muros, lavei-me n'esses
+tanques todos, bebi agua d'essas fontes, deitei-me á sombra d'essas
+arvores, eu cantei, eu saltei, eu chorei, e a final.... quer que lhe
+diga? Não tive mão em mim que não ajoelhasse para beijar esta terra!
+beijei, sim, beijei esta terra, que eu ganhára á custa de muito
+trabalho, de muito suor e de nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o,
+em me lembrar de que tudo isto me viera de eu ser honrado e amigo de
+cumprir a minha palavra. Eu não me recordo de ter um contentamento assim
+na minha vida, a não ser no dia em que estreitei nos braços a Luiza, e
+que tambem pela primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quasi a mesma
+coisa; este era o meu segundo casamento. D'ahi em diante foi que eu
+soube o que é ter amor á terra. Desde a sementeira á colheita era um
+cuidado incessante com o campo. Ver crescer as plantas, para mim
+causava-me tanto prazer como vêr o crescer dos filhos; cada novo rebento
+era como que um nascimento em casa. Media o quanto iam crescendo as
+arvores que plantava e trazia contados os fructos dos pomares. Aquillo
+nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem a minha vida. Deus
+ajudou-me, e d'ahi por diante tudo me tem corrido bem. Já vê, snr.
+Jorge, que quem deve o que é a ter sido honesto, não póde recusar o seu
+pouco auxilio a um rapaz de brios e de probidade como é o menino.
+
+Jorge estendeu a mão a Thomé, dizendo-lhe sensibilisado:
+
+--Fez-me bem ouvil-o, Thomé. A sua vida é um exemplo, é uma lição, e
+n'ella procurarei aprender. Eu tambem sinto os mesmos desejos de remir a
+rninha ultima divida para depois chamar meu ao que me pertence. E n'esse
+dia eu tambem abraçaria com enthusiasmo aquellas velhas arvores, e
+ajoelharia para beijar a terra, que os meus antepassados me deixaram.
+Mas não sei se a empreza estará ao alcance das minhas forças.
+
+--Está. Eu lhe digo. Ha aqui só uma difficuldade a vencer. Empregue toda
+a sua força para esse fim, porque se tracta do bem de sua casa, do seu
+futuro e da sua dignidade. É preciso que o pae lhe dê licença para o
+menino administrar a casa e que o padre capellão se contente com dizer
+missas, porque depois...
+
+--Ainda quando vencesse essa difficuldade, que é grande, Thomé, porque
+meu pae ainda vê em mim uma criança, surgiria outra. De si nunca meu
+pae...
+
+Thomé da Povoa não o deixou concluir.
+
+--Eu sei, mas o snr. D. Luiz não se mette por miudo nos negocios da
+casa, desde que tem um procurador encarregado d'elles. Consiga que elle
+ponha em si a confiança que tão mal emprega no padre, e eu lhe prometto
+que o mais se fará. Eu não exijo mais garantias para o meu dinheiro, do
+que um escripto seu, snr. Jorge. Demais, como a sua experiencia é pouca,
+eu, se m'o permittir, guial-o-hei nos primeiros tempos. Como seu pae não
+gosta de que o menino venha por aqui, virá sem que elle o saiba. Os
+serões de inverno são longos, nós conversaremos algumas noites.
+
+Jorge disse finalmente com resolução:
+
+--Aceito, Thomé. Fallarei a meu pae. O dever de salvar a minha casa da
+ruina me dará coragem. Aceito, porque tenho fé em que me não será
+impossivel pagar-lhe mais tarde a divida que contrahir.
+
+--E eu tenho fé em que ha de ainda haver dias alegres e de festa
+n'aquella triste casa. Não é verdade que se diz que ha lá um thesouro
+escondido? Pois cave na terra, que o ha de encontrar.
+
+A voz de Luiza, ao longe, annunciou n'este momento ao marido que o
+jantar esperava por elle.
+
+Jorge sahiu d'alli com o coração palpitando de esperanças e de commoção,
+que lhe estava já causando a ideia da entrevista que precisava de ter
+com o pae.
+
+Thomé jantou com o appetite de quem tinha feito uma boa acção e
+realisado uma ideia, com que havia muito tempo lhe lidava o cerebro.
+
+A mulher achou-o mais fallador do que de costume; e depois de jantar
+voltou para a eira, cantando.
+
+Era feliz n'aquelle momento a sua alma generosa.
+
+
+
+
+IV
+
+
+Em uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por tres rasgadas
+janellas ogivaes e mobilada ainda com certa opulencia, vestigios do
+esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu
+capellão-procurador frei Januario dos Anjos.
+
+Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da ultima oração.
+
+Frei Januario era quem esperava, porque essa era tambem a principal
+occupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as
+amarguras d'estas longas expectações. Eram ellas talvez que não o
+deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei
+Januario era magro. O mysterio physiologico d'esta magreza ainda não era
+para se devassar de prompto.
+
+D. Luiz lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do
+Porto, e dava assim em alimento ao seu odio contra as instituições
+liberaes um dos fructos mais saborosos d'ellas--a liberdade de
+imprensa--; fructo, em que os seus correligionarios mordem com demasiada
+complacencia, apesar de ser para elles fructo prohibido.
+
+De quando em quando D. Luiz interrompia a leitura com uma phrase de
+approvação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida
+pelo governo, que nunca tinha razão.
+
+Frei Januario secundava, com toda a força do seu obscuro credo politico,
+as reflexões de s. exc.ª, e requintava na intensidade dos anathemas, com
+que eram fulminados os homens da época.
+
+Mas, solta a phrase que o caso pedia, e as competentes exclamações,
+voltava o padre a consultar o relogio, a abrir a bôca, a suspirar; dava
+dois ou tres passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a cozinha.
+Os intervallos das refeições eram para elle seculos!
+
+--Humh!--disse D. Luiz n'aquella manhã, poisando a folha, como enojado
+com o que lêra--Lá foi concedido um subsidio para a construcção do lanço
+de estrada de Valle-escuro!
+
+--Fartos sejam elles de estradas!--acudiu logo frei Januario--Para esta
+gente a moralidade e a ventura de um paiz consiste em ter estradas e
+diligencias, e acabou-se. Olhem lá se elles levantam sequer uma igreja?
+Isso sim! O dinheiro do clero sabem elles roubar! E que pena não terão
+por não deitarem a baixo os templos que por ahi ainda ha! Mas atraz do
+tempo tempo vem. Vontade não lhes falta.
+
+Não sei se foi esta ultima phrase que recordou ao padre que tambem a
+elle não faltava vontade... de comer. O certo é que, mudando de tom,
+acrescentou:
+
+--Querem vêr que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto são quasi
+duas horas, e eu não ouço tugir nem mugir na cozinha! Nada, aqui anda
+coisa. Com licença, eu vou vêr e volto já.
+
+E frei Januario sahiu da sala para ir pela vigesima vez á cozinha, que
+elle suspeitava abandonada pela incuria do cozinheiro, estando pois a
+familia toda ameaçada com a tremenda catastrophe d'uma retardação do
+jantar.
+
+D. Luiz pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo até á volta do
+padre, que entrou indignado.
+
+--Eu que dizia?! Posto á taramela com o hortelão, sem se lembrar do
+jantar? Olhem se eu lá não ia! Não que dizem que uma pessoa póde
+descançar nos criados. Ha de poder! São uma corja! E, v. exc.ª não quer
+crêr, aquelle excommungado d'aquelle hortelão ha de ser a ruina d'esta
+casa. Foi uma imprudencia da parte do snr. D. Luiz metter em casa um
+libertino d'aquelles, mação nos ossos e no sangue. Foi um passo muito
+errado... Aquillo é um pessimo exemplo para os outros. Sabe v. exc.ª em
+que elle estava fallando? Na cantiga do costume. No desembarque do
+Mindello. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e
+quinhentos bravos que vieram pôr fóra da cidade os oitenta mil lobos que
+andavam lá, e coisas assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leitão
+a queimar-se e a sôpa a pegar-se no fundo da panella, que logo me
+cheirou a esturro. É preciso que v. ex.ª dê as providencias, quando
+não...
+
+D. Luiz, tomando menos a peito do que o capellão os destinos do jantar e
+da sôpa, e fiel ao habito de nunca fallar, nem em mal nem em bem, do
+hortelão, não respondeu e proseguiu a leitura das folhas.
+
+D'ahi a pouco referiu ao padre a noticia que tinha lido do desastre
+succedido a uma diligencia ao passar em uma ponte que na occasião
+abatêra, resultando muitas victimas.
+
+A indignação do padre exaltou-se.
+
+--Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um
+abandono d'esses! Vejam que tempos os nossos! e que governos que não se
+importam com as vidas dos cidadãos! Em que paiz do mundo se vêem
+estradas assim arruinadas como as nossas? São os bens que nos trouxeram
+os homens da Carta! Isto é bonito!
+
+E o padre Januario continuou ainda por algum tempo a condemnar, pelo
+crime de desleixo e de falta de protecção á viação publica, os mesmos
+governos que, momentos antes, accusára de conceder para esse fim
+subsidios e de lhe dar importancia demasiada.
+
+A politica de frei Januario é vulgar na nossa terra.
+
+D. Luiz, tendo concluido a leitura da folha, pôl-a de lado e resumiu a
+serie de pensamentos que essa leitura lhe suggerira, na seguinte e
+contrahida synthese:
+
+--Isto vae cada vez melhor, frei Januario.
+
+--Isto vae bonito, não tem duvida nenhuma--secundou o padre.
+
+--O peior é o futuro--tornou o fidalgo, assombrado.
+
+--Ai, o futuro ha de ser fresco!--repetiu o procurador, fungando uma
+pitada.
+
+--Emfim, quem viver verá aonde isto vae parar, onde nos leva esta
+torrente.
+
+--E não é preciso viver muito. Mais dia menos dia temos ahi os
+hespanhoes, ou então passamos a ser inglezes. Não ha que vêr; da maneira
+por que vão as coisas...
+
+--Ai, pobre Portugal!--exclamou melancolicamente D. Luiz.
+
+--Que vaes á vela--concluiu o padre.--Desde que puzeram a cabeça á roda
+a esta gente com liberalismos... ficou tudo transtornado. Agora todos
+mandam, todos fallam, e não ha quem governe. Isto de não haver um que
+governe... Estes patetas não se desenganam de que um paiz é como uma
+casa. Ora deixem á vontade os criados em uma cozinha, sem ninguem que os
+vigie, e verão o que vae! esperem por o jantar, que hão de achar-se
+servidos!
+
+O simile fôra suggerido a frei Januario pela sua constante preoccupação.
+
+--O que me custa é lembrar-me de que meus filhos teem de viver n'esta
+sociedade assim organisada. Quem sabe a sorte que lhes está reservada,
+aos pobres rapazes!--disse o fidalgo, suspirando com escuras
+apprehensões sobre a posição precaria da familia.
+
+--Os filhos de v. exc.ª não devem transigir em caso algum com estes
+homens!--exclamou com vehemencia o padre--É não fazer como a sobrinha de
+v. exc.ª, a snr.ª D. Gabriella, que já é baroneza das feitas por elles.
+Quando se é fidalgo é preciso ser fidalgo.
+
+--É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se
+em parte preparado por nós--insistia o fidalgo.--Tambem peccamos.
+
+--Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que
+nasceram n'essas casas se abaixem diante dos que nem sabem aonde
+nasceram. Deixe v. exc.ª medrar quanto quizer o Thomé da Herdade, que no
+fim de tudo sempre ha de mostrar que andou descalço em criança e que foi
+levar a beber o gado d'esta casa. Ha certas coisas que não dá o
+dinheiro.
+
+--O Thomé da Herdade!--repetiu D. Luiz com amargura--Esse é que
+prospéra, os tempos estão para elle. Quem viu e quem vê aquillo!
+
+--Então que quer? Inda mais havemos de ver. E então não sabe v. ex.ª que
+o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de
+alguem?
+
+--A Bertha?
+
+--Sim, a que é afilhada de v. exc.ª Com que fim faz aquelle toleirão uma
+coisa d'essas? Veja a parlapatice d'aquelle homem. Não repara na posição
+falsa em que colloca a rapariga. Metteu-se-lhe talvez na cabeça que
+ainda a casava com algum fidalgo! Póde ser. Veja v. exc.ª se ella serve
+para algum dos seus filhos.
+
+D. Luiz sorriu, encolhendo os hombros.
+
+--Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que é a final o que ella
+tem de ser, das prendas e da educação que o pae lhe mandou dar? Não me
+dirá v. exc.ª?
+
+--Todos hoje teem aspirações a subir--reflectiu D. Luiz com ironia.--A
+maré sóbe.
+
+--Eu bem sei o que é que dá causa a estas tolerias. Tudo isto vem da
+barulhada que estes liberalões fizeram na sociedade. Tudo está remexido
+e ninguem se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas
+parece um visconde. Onde isso é bonito, segundo dizem, é em Lisboa. Hoje
+todos por lá tem excellencia!
+
+N'estes sediços commentarios sobre o estado do seculo deixaram-se ficar
+os dois por muito tempo, desafogando assim a sua má vontade contra as
+instituições modernas. O padre Januario porém não perdia com isto a
+ideia do jantar, e de quando em quando voltava os olhos para o relogio,
+cujos lentos ponteiros não correspondiam nunca á impaciencia dos seus
+desejos. Emfim deu uma hora e frei Januario ergueu-se instinctivamente
+para ir vêr se o jantar estava servido.
+
+Passado pouco tempo tocava a sineta, tão grata aos ouvidos do reverendo.
+Vibraram pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca
+aquelles sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e
+esplendida côrte, que os ventos da adversidade tinham dispersado.
+
+D. Luiz entrou na sala do jantar, onde com impaciencia o aguardava já o
+capellão.
+
+Aquella grande sala vazia, aquella extensa mesa, apenas servida com
+quatro talheres, fallava tanto do esplendor passado e da decadencia
+presente, que poucos logares havia na casa que deixassem no fidalgo mais
+melancolicas impressões. Nunca se lhe anuviava tanto o coração como ao
+sentar-se á cabeceira da mesa, em torno da qual outr'ora vira rostos
+conhecidos e amigos, hoje tão solitaria e abandonada.
+
+D. Luiz, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou,
+apontando para os logares dos filhos, que ainda estavam de vago.
+
+--Então os senhores não ouviram a sineta?
+
+--Os senhores ainda não vieram.
+
+--Nem Jorge?--perguntou D. Luiz, como se estranhasse menos a ausencia de
+Mauricio.
+
+--Nem um, nem outro.
+
+--O snr. D. Mauricio--observou o padre, que temia um adiamento do
+jantar--sahiu para a caça; quando virá elle agora?
+
+E dizendo isto, fazia signal ao criado para que servisse o fidalgo.
+
+--E Jorge?--insistiu o pae.
+
+--O snr. D. Jorge... esse não sei... talvez esteja ahi por alguma parte.
+
+O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausencia dos filhos, que
+ainda mais augmentava a solidão d'aquella sala, resignou-se a principiar
+a jantar sem elles.
+
+O jantar correu em silencio.
+
+O humor negro de um dos commensaes e o appetite do outro não davam azo
+ao dialogo.
+
+Estava o padre deliciando-se com uma farta posta de assado e o
+competente accessorio de massas, quando Jorge entrou na sala.
+
+D. Luiz não lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar.
+
+Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pae interrompeu com um gesto a
+mandal-o sentar; e, passados momentos, levantou-se elle e sahiu
+silencioso.
+
+Frei Januario, tendo já satisfeito as primeiras e mais urgentes
+exigencias do seu estomago, achou-se disposto a continuar o dialogo. Por
+isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge:
+
+--Com que vem do seu passeio, hein? A manhã estava bem bonita. E então o
+que viu por esses campos?
+
+--Muito trabalho, snr. frei Januario, muita vida rural--respondeu Jorge.
+
+--Sim, agora é o tempo das colheitas. Anda por ahi tudo azafamado.
+
+--Mas porque é, snr. frei Januario, que nos campos da nossa casa não
+vejo o movimento dos outros?
+
+A imprevista interpellação do adolescente ia entalando o padre.
+
+--Causou-me sensação isto hoje--proseguiu Jorge.--Quem subir ao alto do
+outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o
+valle, póde marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo
+quasi maninho, um muro a cahir, umas paredes negras, um aspecto de
+cemiterio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.
+
+--Não é tanto assim... É verdade que... meu rico filho, que quer? depois
+que os homens do liberalismo tomaram conta d'este paiz, as coisas
+mudaram. Quem não está por o que elles querem...
+
+--Não vejo em que elles influam para isto, snr. frei Januario. Quem nos
+impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de
+pôr homens a trabalhar n'essas terras incultas?
+
+--O que os outros fazem, diz elle! Os outros... os outros... e quem são
+os outros? Uns miseraveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os
+cavallos e a cavar nos campos d'esta casa.
+
+--Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou d'essa
+posição humilde e os elevou áquella, que hoje occupam.
+
+--Olhem que grande milagre! Homens que não devem respeito a si mesmos,
+para quem todo o trabalho está bem, como não hão de enriquecer? Ora essa
+é muito boa!
+
+--E os que devem respeito a si mesmos estão pois condemnados á miseria?
+
+--Á miseria... á miseria!... Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje!
+Foi febre que se lhe pegou? Se ella anda por ahi tão accêsa! O menino
+ainda é muito criança para pensar n'estas coisas. Coma e beba e...
+
+As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso, e redarguiu com
+energia e irritação:
+
+--Não sou criança, frei Januario; acredite que o não sou. Tenho mais de
+vinte annos e estou resolvido a ser homem. Córo da minha ociosidade,
+quando vejo que sómente as nossas terras fazem vergonha á actividade
+d'este povo. Tenho annos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome
+para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os
+gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda
+responsabilidade de ser na minha familia talvez o primeiro a faltar um
+dia aos seus compromissos. É por isso que fallei e que desejo que me
+responda, snr. frei Januario.
+
+--Ai, menino, menino; isso não é seu! Ahi anda doutrina liberal. Eu
+cheiro-a a distancia de legoas. Então quando o senhor seu pae me honra
+com a sua confiança, é acaso justo, é acaso bonito que eu seja
+suspeitado e interrogado por uma criança, que ainda nada sabe do mundo?
+
+--E quando hei de aprender? Querem-me estupido, como esses morgados que
+por ahi se arruinam?
+
+--Mas que quer o snr. Jorge a final? Então não sabe que desde que os
+lavradores se fizeram fidalgos, ninguem lucta com elles? O dinheiro está
+de lá; para lá vão os trabalhadores, senhor. Ora é boa! Eu acho graça a
+certa gente!
+
+--O dinheiro está de lá! Mas como conseguiram elles enriquecer? Pois não
+diz que eram uns miseraveis?
+
+--Ah! então quer principiar como elles principiaram, cavando com uma
+enxada todo o dia e furtando á bôca para juntar ao canto da caixa com o
+fim de comprar uns bois? etc. etc. Veja se quer.
+
+--Não principiavamos de tão longe como elles, escusavamos de tantos
+sacrificios. Bastava que olhassemos com attenção para o muito que temos
+ainda, e que tentassemos desenredar, a pouco e pouco, esta meiada, que
+nos enleia e que nos ha de afogar a todos.
+
+--Ora é boa! E então o que é que eu faço, o que é que estou fazendo ha
+quasi trinta e oito annos em que o snr. D. Luiz me distingue com a sua
+confiança? Mas a coisa não é tão facil, como lhe parece. É boa!
+
+--Mas quaes são os seus planos, padre Januario, qual é o seu systema de
+administração?
+
+--Os meus planos?!... Ora essa!... Então que planos quer que sejam os
+meus? Systema de administração!... isso é phrase de côrtes... Humh!
+tenho entendido... É o que eu digo... Ó snr. Jorge, ora falle-me a
+verdade, ahi andam ideias de liberalismo. Com quem fallou esta manhã?
+ora diga.
+
+--Venham d'onde vierem as ideias. A origem pouco importa, a questão é
+que ellas sejam boas. Eu não tracto de liberaes nem de absolutistas
+agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo cahirem os muros e nunca se
+repararem; vejo campos e campos sem a menor cultura, encontro em tudo
+quanto nos pertence profundos signaes de decadencia, e quero saber a
+grandeza do mal que nos opprime.
+
+--E se fôr grande o mal, o que quer que se lhe faça?
+
+--Quero que se trabalhe para remedial-o; que se façam sacrificios uteis,
+que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos faz viver
+hoje ainda uma vida que não é d'estes tempos. Desenganemo-nos; a época
+não é de privilegios nem de isenções nobiliarias, é de trabalho e de
+actividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna util
+pelo trabalho honrado.
+
+--Jesus! O que ahi vae! O que ahi vae! Eu bem o digo! Ha liberal na
+costa! Isso é tão certo como dois e dois serem quatro. Se o pae o ouvia!
+
+--Ha de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo fallar-lhe.
+
+--Que vae fazer, snr. Jorge?
+
+--O meu dever. Eu e meu irmão seremos um dia os representantes da nossa
+familia. Para que nos orgulhemos do nome que herdamos, é necessario que
+esse nome não tenha manchas e que nós lh'as não lancemos.
+
+--Mas quem lhe diz, quem lhe falla em manchas? Ora... ora... ora... ora
+esta não está má!
+
+--Frei Januario, eu não sou criança, repito-o. Sel-o-ia hontem, hoje não
+o sou já. Faça de conta que o sol d'esta manhã me amadureceu. Por isso
+não me illudo emquanto á natureza dos meios com que se sustenta ainda
+n'esta casa um resto do esplendor de antigos tempos. Pois mais valeria
+comer em louça nacional e vender as matilhas e os dois cavallos de luxo,
+que ainda temos, para comprar dois bois.
+
+--Mas...
+
+--Até logo, frei Januario, conversaremos mais de espaço sobre isto.
+
+--Mas...
+
+Jorge, sem o attender, dispunha-se a sahir, quando o padre, quasi
+assustado, o chamou.
+
+--Mas venha cá. Ouça-me, valha-me Deus! Olhem que homem este! Tem muita
+razão no que diz. Sim, senhor. As coisas não vão bem. Hoje não é hontem;
+e esta casa já viu melhores tempos do que os que correm. Mas de quem é a
+culpa? É de mim ou do senhor seu pae? Pois não foste! Para remediar o
+mal trabalhamos nós ha muito. A culpa é d'esta gente que nos governa,
+d'estes homens que juraram perder tudo quanto era nobreza para poderem á
+vontade fazer das suas, sem ter quem lhe vá á mão. Percebe agora? Desde
+que os liberaes...
+
+--Por quem é, frei Januario, não me venha outra vez com os liberaes. Eu
+tenho a razão bastante clara para vêr as coisas como ellas são, e não me
+deixar levar por essa cantiga do costume. Os liberaes!... Os liberaes o
+que fizeram foi alliviar a agricultura dos enormes encargos que d'antes
+pesavam sobre ella e que não a deixavam prosperar, foi crear leis e
+instituições que facilitassem os esforços dos laboriosos e castigassem
+severamente a incuria e a ociosidade. Quando ao desopprimir-se o
+lavrador de tributos pesados e iniquos e dos odiosos vexames do fisco,
+ao tornarem-se-lhe mais faceis os contractos e as transmissões da
+propriedade, ao crearem-se-lhe recursos para elle tirar do seu trabalho
+e da sua intelligencia dez vezes mais do que d'antes podia obter, quando
+na época em que tudo isto se realisa, uma casa como a nossa, em vez de
+prosperar como tantas, vê apressada a sua decadencia, é porque tem em si
+um velho e incuravel cancro a roêl-a. E é esse cancro que eu quero
+conhecer, para extirpal-o, se ainda fôr possivel.
+
+--Eu estou pasmado! Pelo que ouço, acha o menino que todas essas
+fornadas de leis, que esta gente tem feito, são muito boas e que a sua
+casa devia ser muito bem servida com ellas?
+
+--Essas leis de que se queixa, são racionaes; uma casa racionalmente
+administrada não póde pois perder com ellas.
+
+--Sim, senhor! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos,
+ficou sendo o filho mais velho da familia, gostou talvez muito de vêr
+acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas são tão boas, havia
+de gostar--argumentou o procurador, com ares de finura, como de quem
+apanhava em falso o seu adversario.
+
+Jorge respondeu serenamente:
+
+--E porque não? A abolição dos morgados acho eu que foi um grande acto
+de justiça e de moralidade; além de ser uma medida de longo alcance
+politico.
+
+--Ai... ai... ai... O que mais terei de ouvir! O menino está perdido!...
+Pois já me applaude a maldita lei, que ha de dar cabo das familias mais
+illustres do reino... Ai, como elle está!...
+
+--Deixe-se d'isso. A abolição dos vinculos só trouxe a morte ás casas
+que deviam morrer. O que ella fez foi proclamar a necessidade do
+trabalho indistinctamente para quem quizer prosperar. O esplendor das
+familias deve ficar sómente ao cuidado dos membros d'ellas e não da lei.
+Quando esses não tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo é que
+elle se apague, e que o nome dos antepassados não continue a ser
+deshonrado pelos vicios e ociosidade dos descendentes. Mas deixemo-nos
+d'estas discussões, frei Januario. O meu partido está tomado. Mais tarde
+saberá das consequencias d'elle.
+
+E Jorge sahiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira.
+
+--Que anda aqui liberalismo, isso para mim é de fé. Mas que mosca o
+morderia? Querem vêr que já fizeram do rapaz mação? Pois olhem que não é
+outra coisa. Eu quando os ouço fallar muito do trabalho... já estou de
+pé atraz. Tem graça! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho é um
+prazer. Ora adeus! O trabalho é uma necessidade, o trabalho é um
+castigo. Para ahi vou eu. Que trabalho tinha Adão no paraizo? E não lhe
+chamam os livros sagrados um logar de delicias? Amassar o pão com o suor
+do rosto, olhem que titulo de nobreza! Estes modernismos! Mas é a
+cantiga da moda. O trabalho ennobrece, o trabalho consola, o trabalho é
+uma coisa muito appetitosa... Será, será, mas eu, por mim, se pudesse
+deixar de trabalhar... Ah! ah! ah.
+
+Aqui bocejava o egresso.
+
+--Mas que alli anda liberalismo, isso é tão certo como eu estar onde
+estou. Como elle fallou nos morgados!... Provará que é tão pateta que,
+sendo elle morgado, diz d'aquillo. E que vae declarar ao pae... Não
+declara nada. Um criançola que não sabe senão passear. Tomára elle que o
+deixem... O ocioso é que é o plebeu, o nobre é o que trabalha. Sim, sim,
+contem-me d'essas. Aquillo é musica de anjos. Diga-se o que é verdade,
+quem puder deixar de trabalhar...
+
+Frei Januario, n'estas graves ponderações, deixou-se a pouco e pouco
+invadir pelo somno, e acabou por adormecer á mesa, sonhando-se em uma
+especie de paraizo, como o tal logar de delicias de Adão, cuja
+ociosidade sempre fôra objecto muito dos seus enlevos.
+
+Deixemol-o adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados
+angulos da Casa Mourisca.
+
+
+
+
+V
+
+
+Jorge continuou no seu quarto a serie de meditações com que trouxera
+occupado o espirito toda a manhã. Abria alguns livros, consultava-os com
+attenção, afastava-os depois com impaciencia, porque raros pareciam
+responder cabalmente ás mudas interrogações que elle lhes dirigia.
+
+A bibliotheca da Casa Mourisca era na maior parte composta de livros
+proprios para a cultura do espirito, mas sem definida tendencia para uma
+applicação pratica qualquer.
+
+Jorge tinha o gosto bem educado e não era indifferente ás obras de pura
+arte; mas d'esta vez dominava-o uma ideia fixa, um ardente desejo de se
+instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos
+necessarios para a realisação da grande obra em que meditava. Algumas
+arithmeticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos numeros
+soltos de jornaes estrangeiros, foi tudo quanto pôde encontrar e que
+consultou, sem que o satisfizessem as noções rudimentares que n'elles
+lia. A pequena livraria do tio, á qual devêra grande parte dos seus
+avançados principios sociaes, estava já esgotada por elle; além de que
+não abundava em livros de indole verdadeiramente didactica.
+
+Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge
+fechou os olhos, como para concentrar o espirito, e resolver só por elle
+os problemas, cuja solução em vão procurára na leitura. E a razão de
+Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho; colheu d'ella mais
+fructos do que das paginas dos livros elementares, que anciosamente
+consultava.
+
+A estas cogitações veio emfim arrancal-o a chegada de Mauricio, já quasi
+ao fechar da tarde.
+
+Mauricio, logo que transpôz a porta, arremessou o chapéo sobre a mesa
+com certa vivacidade de movimentos, que trahia uma profunda agitação.
+Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados, sentou-se ou
+antes deixou-se cahir sobre uma cadeira, e correu a mão por a fronte,
+sacudindo para traz os cabellos com um movimento febril.
+
+Jorge, que percebeu em todos estes signaes um dos costumados frenesis do
+irmão, interrogou-o:
+
+--Que é isso, Mauricio? Que é o que tens? Que te succedeu lá por fóra?
+
+--Deixa-me, Jorge--respondeu Mauricio, levantando-se outra vez e
+pondo-se a passear no quarto.--Se soubesses como eu venho suffocado de
+raiva?
+
+--Contra quem?
+
+--Contra esta canalha d'esta gente do campo. Uns miseraveis insolentes
+que lançam a lama suja, onde nasceram e vivem, á face da gente com o
+mais intoleravel arrojo! Mas eu esmago-os com a sola da bota!
+
+--Bom! Temos bravatas de fidalguia! Esses arreganhos de senhor feudal
+hoje são de mau gosto, Mauricio. Olha que já passou o tempo d'elles.
+
+--É sempre tempo de castigar um insolente. O essencial é que se tenha
+sangue nas veias e pundonor no coração.
+
+--E sangue tambem no coração--emendou Jorge, sorrindo.--Olha que tambem
+é lá preciso.
+
+--Não rias, Jorge! Por quem és!--tornou o irmão despeitado.--Bem vês que
+fallo seriamente.
+
+--Então conta-me tudo. Receio que haja ahi alguma das tuas exagerações.
+
+--Não exagero. Esta manhã fui caçar, como sabes. Corri o monte com pouca
+felicidade; os cães pareciam ter perdido o faro. Voltava já para casa
+sem esperança, quando, alli pela Quebrada do Moinho, levantaram-se-me
+quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri. Ellas seguem na direcção
+das azenhas, atravessam os campos que estão em baixo e vão poisar no
+pinhal que fica para lá da prêsa do Queimado. Sabes? Eu desço com os
+cães, e, para não dar a volta do portello, galguei o murito da fazenda
+do Luiz da Azinhaga e ia para atravessar o campo, quando aquelle
+grosseirão do matto, aquelle villão infame sahe da casa da eira, aonde
+andava com os criados, e berra-me: «Olá, ó fidalguinho, isto aqui não é
+terra baldia, nem roupa de francezes.» Eu olhei para elle, mas não lhe
+respondi e continuei andando; elle tornou de lá, e já caminhando para
+mim: «Menino, não ouviu? Eu não quero os meus campos trilhados.» «O que
+estragar, pagarei», respondi-lhe já azedado. O estupido soltou uma
+risada insolente, e disse-me: «Com o que? Pergunte primeiro em casa se o
+que lá tem chega para pagar o que devem já.» Ouvindo isto, perdi a
+cabeça e corri para o homem, exclamando: «Para que não duvides da minha
+palavra, eu te vou já pagar uma divida, canalha.» Elle estava desarmado,
+mas recuou para pegar em uma enxada; os homens que trabalhavam na eira
+correram para mim com malhos e mangoaes; armei a espingarda logo; o
+primeiro que me ameaçasse estendia-o, palavra d'honra! N'isto ouvi uns
+gritos por detraz de mim. Era o Thomé da Povoa que passava e que correu
+a separar-nos. Fez-nos um sermão e trouxe-me quasi á força d'alli. Ahi
+tens como está esta gentalha. Já não podemos sahir sem nos arriscarmos a
+ser insultados e assassinados. Quem deu a esses miseraveis o atrevimento
+de fallar nas dividas da nossa casa?
+
+--Quem as contrahiu e não procura pagal-as--respondeu, triste mas
+placidamente, Jorge.
+
+E logo depois acrescentou:
+
+--Mas dizes bem, Mauricio, foi uma desagradavel occorrencia. Já vês
+agora que eu tinha razão no que te dizia esta manhã.
+
+--O que foi?
+
+--Isto não póde continuar assim, Mauricio. Nem tu nem eu temos animo
+para soffrer humilhações, e ellas são inevitaveis.
+
+--Inevitaveis?! Eu te juro...
+
+--Não jures; não é pela violencia que os obrigaremos a calar. Ou, se se
+calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o pensamento
+que lhes despertarmos, serão para nós igualmente humilhantes. Ha muito
+que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam. E foi isso
+que me fez pensar.
+
+--Mas que intentas fazer então? Qual é o teu plano?
+
+--Fazer-me respeitado; mostrar que não sou inferior a elles.
+
+--Sim, mas de que maneira?
+
+--Resgatando a nossa casa, calando com a paga a bôca d'esses credores
+insolentes, e collocando-nos, pela prosperidade das nossas terras, ao
+lado d'elles todos, e acima, pela nobreza dos nossos sentimentos.
+
+--Queres então fazer-te lavrador?
+
+--Quero trabalhar. Olha, Mauricio, tenho pensado muito estes ultimos
+dias, e hoje mais do que nos outros. A nossa regeneração depende de nos
+despirmos dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa
+perda é uma inevitavel e justa consequencia do nosso louco modo de
+pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos habitos viciosos.
+Pois que quer dizer este infatuamento com que fallamos dos nossos avós?
+Qual foi a acção nobre, magnanima, que deu tal esplendor a nossa
+familia, que se não possa apagar esse esplendor com a vida de
+ociosidade, de desleixo e de dissipação ingloria que levamos? A chronica
+não é clara a esse respeito. Tivemos guerreiros que morreram pela
+patria, é nobreza, de certo; mas quantos soldados obscuros não existiram
+entre os ascendentes d'esses pobres homens que por ahi ha, tão heroes
+como os nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos; elles, algum
+pobre sacerdote, modesto e humilde, que fez por ventura mais serviços á
+religião do que o nosso parente mitrado; mas não lhes deu isso nobreza.
+O que lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse serviços
+particulares a algum rei benevolente, que em compensação o fez nobre por
+toda a eternidade; porque tambem ha d'estas raizes em muitas arvores
+genealogicas; desengana-te.
+
+--Estás eivado de uma philosophia democratica e revolucionaria, que não
+sei onde te levará, Jorge. E em vista d'isso que resolves?
+
+--Resolvo não continuar a merecer essas humilhações, que não posso
+deixar de reconhecer que são justas. Elles teem mais direito de nos
+desprezar do que nós a elles.
+
+--Desprezar-nos!--repetiu indignado Mauricio.
+
+--Sim, sim; desprezar-nos. E senão repara. A nossa casa deve muito.
+Grande parte dos nossos bens estão hypothecados. O nome da nossa familia
+não é já segura garantia nos contractos, e os emprestimos, que todos os
+dias os nossos procuradores contrahem, são obtidos por um preço que em
+pouco tempo nos levará á miseria. Na aldeia todos sabem isto. Não queres
+pois que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte annos, robustos,
+e com energia e intelligencia, gastar ociosamente a vida e a juventude
+em passeios e em caçadas, olhando por cima do hombro para esses homens
+que talvez ámanhã, authorisados por a lei, nos virão pôr fóra de nossas
+casas e tomar posse d'ellas? É acaso nobre este nosso proceder,
+Mauricio? Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao
+precipicio, não merece pelo menos um sorriso de compaixão?
+
+--Tu exageras, Jorge. Acaso teremos já chegado a taes extremos, que...
+
+--Nem tu imaginas a que extremos temos chegado; mas ainda nos poderemos
+salvar, se quizermos ser homens.
+
+--E como?
+
+--Mudando de vida, applicando-nos devéras á restauração d'esta casa.
+
+--Mas...
+
+--D'aqui a pouco tenciono procurar o pae e fallar-lhe desenganadamente,
+pedir-lhe que me deixe olhar por mim proprio para a administração das
+nossas propriedades, que nas mãos de fr. Januario caminham a uma perda
+certa.
+
+--Mas que entendes tu de administração?
+
+--Aprenderei. O interesse é um grande mestre. Não tiveram outro esses
+rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer.
+
+Mauricio ficou pensativo.
+
+A ideia do irmão parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe
+achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, não tendo
+o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da
+vida guiado mais pela imaginação do que pela razão. Se uma causa o
+seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se á
+primeira intuição lhe desagradasse. Era tão facil de se enthusiasmar por
+o que ao principio repellira, que não se podia ter muita confiança
+n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa
+duração.
+
+Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com
+uma impetuosidade juvenil:
+
+--Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio
+e de inutilidade. É assim. É preciso que sejamos homens. Temos uma
+missão a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo
+a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita
+a alma do que trabalha, porque vê que cumpre um dever. O que se nos
+figura fadiga é prazer. Pois não te parece que um escriptor, por
+exemplo, deve ser feliz nas horas de composição? e que o artista curvado
+sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem
+sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razão, trabalhemos,
+a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e não nos deixará
+sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo.
+
+Jorge escutava o irmão com um sorriso triste e innocentemente malicioso,
+e commentava com um movimento de cabeça uma e outra d'estas estrophes em
+honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua
+habitual serenidade:
+
+--Valha-te Deus, Mauricio, que estás tu ahi a dizer? Não sonhes nem
+adoptes uma resolução séria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas
+illusões. Vê as coisas como ellas são. O trabalho é nobre por certo, mas
+a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as
+fadigas. Não vás seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te
+desanimaria um cruel desengano. É preciso entrar n'isto guiado pela
+razão, e não por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de
+composição, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu
+mister, não teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas
+vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do
+que a poesia, é o dever. Recompensas ha, não nego que as haja, além das
+materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma
+ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que
+trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: «Tambem tenho direito a
+viver.» Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das
+fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra, é á maneira
+d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes
+que protegiam. Estarás sob a influencia d'elle, mas não o verás. Se a
+contemplação d'essa divindade é a recompensa que esperas, deixa-te antes
+ficar a montear por estas aldeias.
+
+Mauricio sorriu, objectando ao irmão:
+
+--És suspeito, Jorge. Tu duvidas encontrar a poesia ao teu lado, quando
+trabalhares, porque ainda a não viste, aonde todos a vêem, ahi por essas
+devezas, valles e ribeiras.
+
+--Vi-a ainda hoje em casa de um lavrador, aonde se trabalhava; tu é que
+não a vias lá.
+
+--Ah! então já confessas que ella está com os que trabalham?
+
+--Mas não a vêem esses. Não a viu Thomé, nem nenhum dos seus criados;
+vi-a eu que estava de fóra.
+
+--E quem deu a Thomé sentidos para a vêr?
+
+--A ninguem faltam, creio-o. Mas quando se trabalha com verdadeiro
+ardor, a visão encobre-se prudentemente, como se soubesse que quem a tem
+presente, tão namorado está d'ella, que o assaltam as distracções dos
+namorados. E o trabalho é exigente e severo; ha uns cuidados pequeninos,
+impertinentes, prosaicos, de que elle não prescinde. Ás vezes é util até
+certa irritação provocada pelas difficuldades fastidiosas que elle
+suscita; instigam, estimulam brios para vencêl-o.
+
+Continuaram os dois irmãos este dialogo e assentaram emfim na resolução
+de mudar de vida, cada um com o grau de firmeza propria do seu caracter,
+e portanto com firmeza desigual. Decidiram fallar n'aquelle mesmo
+momento a D. Luiz.
+
+A occasião era propicia. Frei Januario dormia ainda a sesta, e portanto
+o fidalgo devia estar só no seu quarto.
+
+Era já noite. O luar coloria com tintas magicas a paisagem fronteira á
+Casa Mourisca. Esta desenhava o seu vulto negro sobre o fundo azul
+pallido do céo sem estrellas. A ramaria dos carvalhos e a queda da agua
+nas fontes levantavam vozes melancolicas do meio das indistinctas
+sombras da quinta.
+
+Em noites assim conservava-se D. Luiz longo tempo á janella do quarto. A
+fronte encostada á mão, os olhos fitos nos pontos illuminados da
+perspectiva, e o pensamento... ai, quem sabe porque melancolicas
+paragens andava o pensamento do pobre velho?! Passadas magnificencias,
+festas, alegrias e triumphos de tempos mais felizes, memorias de vida
+n'esta habitação hoje silenciosa, e por toda a parte, e sempre, a
+pallida imagem da filha morta, o enlevo de toda a sua vida, que ao
+desapparecer lh'a deixou escura e desencantada... que outras podiam ser
+as visões presentes áquelle espirito sombrio?
+
+Pobre velho!
+
+Foi para este quarto escuro que se dirigiram os dois irmãos.
+
+
+
+
+VI
+
+
+Ao chegar á porta dos aposentos do pae experimentou Jorge uma primeira
+hesitação.
+
+D. Luiz tractava sempre os filhos de uma maneira tão austera,
+abria-se-lhes tão pouco em confidencias, mostrava tão má vontade ao ter
+com elles longas e sérias conversações, que Jorge precisava de exercer
+um grande esforço sobre si mesmo para dar aquelle passo tão fóra dos
+seus habitos.
+
+Pela primeira vez os filhos procuravam assim o pae no proprio quarto
+d'elle; a estranheza do facto seria pois já uma razão bastante para os
+perturbar, ainda quando não concorresse para o mesmo effeito a natureza
+do assumpto da conferencia, que não podia ser mais solemne.
+
+A resolução de Jorge era porém muito forte, e o enthusiasmo de Mauricio
+muito inconsiderado, para que se deixassem dominar por aquella quasi
+instinctiva timidez.
+
+Jorge bateu á porta com intimo sobresalto.
+
+Respondeu immediatamente a voz de D. Luiz, mandando entrar quem batia.
+
+Os dois irmãos impelliram diante de si a porta, e afastando o
+reposteiro, entraram.
+
+Os raios do luar tinham já principiado a penetrar na sala, desenhando no
+pavimento as projecções das janellas ogivaes, que a pouco e pouco
+cresciam para o interior.
+
+Do lado da porta eram porém ainda espessas as sombras, e D. Luiz não
+podia pois conhecer quem entrava.
+
+A sala era extensa, e por isso alguns momentos decorreram, longos para a
+impaciencia do fidalgo, antes que os dois rapazes chegassem ao logar
+onde elle os esperava, escutando com estranheza aquelles passos, sem
+poder conjecturar de quem fossem.
+
+A final proximos da cadeira do pae, pararam e guardaram por instantes
+silencio.
+
+A fronte descoberta ficava-lhes alumiada pelo luar, e recebia d'aquella
+mysteriosa luz uma singular expressão de gravidade.
+
+D. Luiz, reconhecendo os filhos, olhou fixamente para elles e
+perguntou-lhes admirado:
+
+--O que é que pretendem?
+
+Jorge foi o que respondeu.
+
+--Se v. exc.ª nos quizer ouvir, meu pae, desejavamos fallar-lhe.
+
+--Fallar-me?!--repetiu D. Luiz, em tom de espanto e quasi irritado.
+
+--Sim, senhor.
+
+--É singular! E a proposito de quê?
+
+--Do nosso futuro.
+
+--Ah!--exclamou o fidalgo, procurando encobrir em ironia a sua
+crescente irritação.--Deram-lhe para pensar n'elle agora pelo luar.
+
+--Penso n'elle ha muitos dias, meu pae. Ha muitos dias que elle me
+inquieta.
+
+D. Luiz fez um movimento, que immediatamente reprimiu, e passou a
+interrogar Mauricio, no mesmo tom de affectada ironia:
+
+--Tambem te atacaram as mesmas inquietações pelo futuro?
+
+--Ha menos tempo, mas com maior fundamento talvez--respondeu-lhe com
+firmeza o filho interrogado.
+
+D. Luiz calou-se por alguns instantes, depois tornou para Jorge:
+
+--Então vejamos a causa dos teus receios, saibamos o que te trouxe aqui.
+
+E principiou a tocar nervosamente com os dedos nos braços da cadeira.
+
+--Meu pae--principiou Jorge--perdoe-me a liberdade que tomo de fallar
+n'isto a v. exc.ª; mas é o empenho que faço em que o nome e o credito de
+nossa familia se conserve sem mancha... que...
+
+O fidalgo interrompeu-o, batendo com violencia no peitoril da janella.
+
+--E quem o manchou?--rugiu elle, quasi meio erguido, e fitando o filho
+com um olhar, cujo fulgor até á claridade tibia da lua se percebia.
+
+--Até hoje ninguem; manchal-o-hei eu talvez ámanhã, quando não puder
+satisfazer os compromissos da nossa casa; manchal-o-hei, quando me bater
+á porta a miseria e me encontrar com habitos de ociosidade e sem a
+sciencia do trabalho--respondeu placidamente Jorge á violenta
+interpellação do pae.
+
+--Então já sabes que te baterá á porta a miseria?--inquiriu o fidalgo
+amargamente.
+
+D'esta vez foi Mauricio quem respondeu:
+
+--Ha quem se encarregue de nol-o ensinar. Em cada homem do campo temos
+um mestre, e as crianças por ahi já sabem dizer que os fidalgos da Casa
+Mourisca estão empenhados.
+
+D. Luiz a estas palavras estremeceu, como ao contacto de um ferro
+candente; virou-se irritado para Jorge, fallando quasi a custo:
+
+--No meu tempo pagavam-se essas lições bem caras! Para isso serviam
+então, pelo menos, os rapazes das nossas familias.
+
+--Tambem nós as pagariamos, senhor; mas, voltando a casa, dir-nos-ia a
+consciencia que não ficavam assim saldadas todas as dividas. O orgulho e
+a vingança estariam satisfeitos; mas a razão e o dever,
+não--contestou-lhe Jorge.
+
+--Então queiram dizer-me o que lhes manda a razão, e... e o que mais?...
+Ah, sim... e mais o dever.
+
+Jorge, sem se perturbar, acudiu:
+
+--Mandam-nos trabalhar para remir essas dividas; luctar pela integridade
+d'estes bens, que são nossa herança, augmental-os antes se fôr possivel;
+mandam-nos manter em respeito essa gente, que nos olha com atrevimento,
+destruindo para isso os fundamentos da sua insolencia. A razão, meu pae,
+diz-nos que é uma vergonha e um crime para os nossos vinte annos a vida
+ociosa e inutil que passamos aqui.
+
+--Muito bem; querem então meus filhos que eu lhes dê um modo de vida;
+veem aqui no proposito de arguir-me por me ter descuidado de os...
+arrumar?
+
+O fidalgo empregou no verbo final, de um sabor burguez, toda a emphase
+sarcastica, que lhe inspirava a sua irritação e orgulho aristocratico.
+
+--Não, meu pae--insistiu Jorge--vimos apenas lembrar a v. exc.ª que
+chegamos a uma idade em que já nos não satisfazem os gozos da vida de
+rapaz, de que o muito amor de v. exc.ª nos tem permittido saciar. Vimos
+pedir-lhe que nos conceda agora licença de nos occuparmos de outra ordem
+de ideias e de mudarmos de vida. Sentimos despontar em nós desejos
+novos, vimos respeitosamente annuncial-o a v. exc.ª e rogar-lhe a
+permissão para realisal-os.
+
+D. Luiz sorriu ironico, porque não podia ainda tomar a serio a resolução
+dos filhos, em quem só via duas crianças; e continuou zombando:
+
+--Está bem. Então tu o que queres ser?
+
+Jorge respondeu promptamente:
+
+--Procurador de v. exc.ª na administração da nossa casa.
+
+D. Luiz olhou d'esta vez para o filho mais seriamente, porque lhe
+causára impressão a firmeza e promptidão da resposta, em vez das
+titubeações que esperava. Convenceu-se de que Jorge não procedia
+levianamente de todo, e que n'elle havia uma tenção formada. Voltando-se
+para Mauricio, interrogou-o, ainda no mesmo tom em que principiára:
+
+--E tu? Queres ir para o Brazil?
+
+Mauricio não tinha, como Jorge, uma resposta prompta, porque n'elle o
+projecto era apenas uma resolução vaga e mal definida, e não um plano
+fixo e meditado como o do irmão. Era n'essas fórmas vagas que elle mais
+o namorava, e talvez ao pretender fixal-o, principiasse a experimentar
+as primeiras repugnancias e desillusões.
+
+D. Luiz esperou alguns instantes pela resposta do filho mais novo, mas,
+como o visse hesitar, continuou, encolhendo os hombros:
+
+--Ainda não pensaste n'isso. Bom. Ouçamos então primeiro teu irmão.
+Visto isso achas tu que, sob a tua gerencia, a administração de nossa
+casa prosperaria?
+
+--Creio que não iria peor conduzida do que vae. V. exc.ª conhece
+perfeitamente que não será grande façanha ir tão longe como frei
+Januario.
+
+--É um homem experiente.
+
+--Triste resultado o da experiencia. O pae deve, melhor do que nós,
+saber o estado dos negocios d'esta casa; mas quer-me parecer que não me
+enganarei muito, conjecturando a maneira por que elles vão. Pedir
+emprestado sob encargos e hypothecas pesadissimas, não para melhorar o
+que ainda possuimos, mas para consumir o pouco que se obtem em gastos
+improductivos, lavrar arrendamentos com que o senhorio nada lucra e com
+que a propriedade se empobrece, deixar ao desprezo terras não
+arrendadas, é a pratica até hoje seguida, tão facil como funesta.
+
+--E quem te disse que é possivel fazer outra coisa?--objectou já sem
+ironia o pae.--Os tempos actuaes são de prova para familias como as
+nossas, a maré que sobe traz á flôr da agua o que era lôdo em outros
+tempos.
+
+--Deixe-me tentar, meu pae.
+
+--Tentar o que? criança. Queres ser enganado e escarnecido por esses
+manhosos proprietarios e rendeiros, com quem infelizmente temos de
+lidar? Que sabes tu da administração dos bens ruraes?
+
+--Aprenderei. A sciencia, patente ás faculdades de frei Januario, não é
+defeza a ninguem.
+
+--Nem tu sabes o que pedes. Não córarias de vergonha no tracto familiar
+a que esses negocios obrigam, com homens grosseiros, insolentes,
+miseraveis de hontem, e que hoje nos atiram á cara com a sua riqueza?
+
+--Procuraria d'entre esses os de mais educação.
+
+O velho encolheu os hombros com impaciencia, murmurando:
+
+--Educação! Elles!
+
+--Porém, meu pae--argumentou Jorge com mais vehemencia--é uma triste
+necessidade esta. Pense bem. Se é vergonha, como diz, procural-os para
+tractar negocios, maior vergonha será que elles nos procurem para nos
+expulsar d'esta casa; se a um homem da nossa familia fica mal velar por
+ella, peor e menos decoroso lhe será ter de deixar esta terra, onde já
+não possua um palmo de seu, sem poder attribuir essa desgraça senão á
+sua propria incuria. A memoria dos nossos antepassados soffrerá menos se
+um dia se disser dos seus descendentes que trabalharam, para livrar da
+destruição e de mãos alheias o solar que lhes pertencia; do que se se
+contar, apontando para as ruinas d'esta casa, que elles a deixaram cahir
+e invadir por estranhos, sem respeito por as gloriosas tradições que a
+illustravam. É pouco para ambicionar-se esta fama.
+
+--E depois, meu pae--acudiu Mauricio--que dôr não seria o vêr devassado
+por invasores o quarto em que morreu minha mãe, esta sala, o salão onde
+brincavamos em criança, e até os aposentos de nossa irmã, da sua querida
+Beatriz?
+
+A memoria da filha morta commovia sempre o coração d'aquelle velho, que
+ella ainda povoava de saudades; por isso curvou desalentado a cabeça
+assim que lhe ouviu o nome, e murmurou:
+
+--Não; a nossa miseria não irá tão longe. Creio que Deus não me
+reservará esse tremendo castigo. Morrerei primeiro.
+
+--E nós, se lhe sobrevivermos, senhor, não soffreremos tambem? Quererá
+legar a seus filhos uma herança d'essas?--interpellou-o Jorge.
+
+O pae escondeu a cabeça entre as mãos, já sem signaes da rispidez com
+que principiara a scena, e não pôde responder a esta interrogação de
+Jorge.
+
+Mauricio sentiu-se commovido ante aquella sincera manifestação de dôr,
+que observava no pae, na presença d'elles de ordinario tão reservado.
+
+--Não--acudiu elle impellido por aquelle sentimento--o interior da nossa
+casa não será devassado por estranhos, nem na sua vida, meu pae, nem
+depois da sua morte. Dê-nos apenas permissão para trabalharmos, e nós
+juramos evitar essa humilhação.
+
+D. Luiz ergueu finalmente a cabeça e pela primeira vez fez signal aos
+filhos para que se sentassem junto de si.
+
+Depois, dirigindo-se ao mais velho, já em tom menos severo:
+
+--Jorge--ponderou elle--a tarefa que queres emprehender não é facil. É
+verdade que não teem corrido pelas minhas mãos esses negocios, mas sei
+d'elles o bastante para prever os espinhos que n'elles encontrarias.
+Frei Januario não é um homem de talento, bem o sei, mas tem experiencia
+e boa vontade de nos servir, e ainda assim não prospéra esta casa, que
+foi das melhores da provincia. Como queres tu pois, ha poucos dias uma
+criança que em nada d'isto pensavas, tomar de repente sobre ti o encargo
+d'esta gerencia, e como imaginas que darias boa conta d'ella? Os teus
+planos são vagos. Fallas-me mais nos defeitos dos seguidos até hoje, dos
+que nas excellencias dos teus.
+
+--Perdão, meu pae, mas não são tão vagos como os suppõe. Pensei já muito
+n'isso. As difficuldades que ainda tenho, com tempo e meditação espero
+resolvêl-as; além d'isso... auxiliado... quando necessario fôr... dos
+conselhos de frei Januario, espero que me será possivel realisar o meu
+intento. Se me permitte exponho-lhe esses planos em poucas palavras.
+
+Tomando o silencio do pae por signal de aquiescencia, Jorge encetou a
+exposição dos seus projectos economicos.
+
+Não o seguiremos no longo relatorio, que pae e irmão escutaram admirados
+de tão inesperada sciencia. De facto, as informações de Thomé, os
+fructos da propria reflexão, as ideias adquiridas na leitura meditada
+dos poucos livros da sua bibliotheca, foram os elementos com que o
+espirito essencialmente methodico e organisador de Jorge construira um
+completo systema de administração, que, se tinha defeitos, não eram para
+ser apreciados pelo velho fidalgo, que nunca fôra dado a esses exames. A
+exposição clara, o tom de convicção, o calor do quasi enthusiasmo com
+que o filho fallava, enthusiasmo contagioso, exerceram no velho uma
+profunda influencia. Ao concluir, Jorge tinha vencido a causa.
+
+D. Luiz estava do fundo d'alma convicto de que este filho fôra destinado
+pela Providencia para ser o restaurador da sua casa.
+
+E comtudo havia um ponto essencial no plano de Jorge, que elle não
+mencionára. Para realisar a maior parte das medidas economicas, cujos
+maravilhosos effeitos com tanta eloquencia exposera, era indispensavel
+um capital inicial não pouco avultado, e Jorge não dissera como havia de
+obtêl-o. Esta era a parte secreta do seu plano; aquella, cuja menção
+bastaria para desvanecer toda a boa impressão produzida no animo de D.
+Luiz.
+
+O capital inicial devia vir do emprestimo razoavel, offerecido por Thomé
+da Povoa, ou obtido sob a garantia do credito d'elle. Esta operação era
+indispensavel, era a unica talvez salvadora; por quanto os outros
+capitalistas tinham sempre em vista apoderar-se dos bens do fidalgo, e
+por isso sómente emprestavam sob condições onerosissimas e perigosas.
+
+Mas o orgulho de D. Luiz não lhe deixaria aceitar favores de Thomé;
+nunca elle consentiria na menor transacção com o que fôra seu criado.
+
+Por isso Jorge guardou para si sómente esta parte das suas projectadas
+operações, e com D. Luiz felizmente era facil passar por alto certos
+pontos de questões d'esta natureza, que elle mal examinava. Assim pois o
+pae acabou por dar o consentimento pedido.
+
+--Seja; não me opponho a que te occupes da gerencia da casa, que dentro
+em pouco tempo será vossa. Vejo que tens reflectido n'isso mais do que
+eu julgava; comtudo marco duas condições; a primeira é que nunca faças
+contractos que sejam vergonhosos para o nome de nossa familia.
+
+--Prometto-lhe que não o envergonharei.
+
+--A segunda é que não desprezes os conselhos de frei Januario.
+
+--Por certo que não prescindirei das suas informações.
+
+--Eu lhe darei parte do que resolvi. E agora...--acrescentou D.
+Luiz--vamos ao resto... E Mauricio?
+
+Mauricio, interpellado pela segunda vez, achar-se-ia nas mesmas
+difficuldades para responder á interpellação, se Jorge não respondesse
+por elle:
+
+--Tambem pensei em Mauricio.
+
+--Ah! tambem?--disse o pae, não podendo occultar a quasi admiração, que
+lhe estava impondo Jorge.
+
+Mauricio interrogou tambem com a vista o irmão.
+
+--Se Mauricio confia em mim, é inutil a sua permanencia aqui na aldeia,
+onde não tem em que se occupe.
+
+--Tens a minha plena confiança, Jorge. E a não me quereres para teu
+guarda-livros...
+
+--Lembrou-me que Mauricio devia partir para Lisboa. Lá poderá ser mais
+util a si e a nossa casa. É verdade que não é essa por ora uma medida
+economica; antes obrigará a alguns sacrificios. Far-se-hão porém, se
+precisos forem, e Mauricio tem brios bastantes para não os deixar ficar
+improductivos.
+
+D. Luiz fez um gesto de duvida.
+
+--Humh!--objectou elle--que carreira póde n'estes tempos seguir na
+capital um filho meu? Queres acaso que elle vá renegar da causa, que a
+nossa familia sempre abraçou, e fazer pacto com essa gente que hoje
+governa?
+
+--Confesso que mal pensei ainda na carreira que lhe convirá seguir; mas
+sómente lá é que é possivel a escolha. Parece-me que sem deshonra se
+poderá trabalhar e ser util á patria, que é sempre a mesma, qualquer que
+seja o partido que a governe. Mas o caso não urge. V. exc.ª poderia
+escrever n'esse sentido a nossa prima Gabriella, que melhor que ninguem
+poderá fornecer-nos valiosas indicações.
+
+--Gabriella?! A senhora baroneza do Souto Real!--accentuou
+sarcasticamente o fidalgo.--Ora adeus! Uma doida...
+
+--Tem-se mostrado sempre nossa amiga--corrigiu Jorge--e ainda por
+occasião do fallecimento de Beatriz...
+
+--Sim, bom coração tem ella. Mas a sociedade em que vive, desde que
+casou e depois que viuvou, tem-lhe feito adquirir as qualidades da
+época. Não se lembra de que seu pae foi um militar, que morreu com as
+armas na mão a favor da causa legitimista. Hoje conta os seus amigos
+entre a gente, que a fez orphã.
+
+--Deve perdoar-se a uma mulher essa fraqueza. Ella não tem coração para
+odios. Bem o sabe. Parece-me comtudo que, apesar das suas apparencias
+frivolas, tem um fundo de bom senso d'onde póde sahir um aproveitavel
+conselho. Falle-lhe v. exc.ª com franqueza, diga-lhe quaes as condições
+sob que entende poder Mauricio entrar na sociedade, onde vivem sem
+apostasia muitos adeptos da antiga causa, e eu creio que ella o
+comprehenderá e lhe dará as informações pedidas.
+
+Ainda n'isto se deixou convencer D. Luiz pela eloquencia do filho. Jorge
+sabia que a prima era uma mulher de influencia no mundo politico e
+elegante, e esperava que a reconhecida diplomacia d'ella conseguisse
+aplanar as difficuldades, em que naturalmente se embaraçariam o orgulho
+e a paixão partidaria do fidalgo. E para assegurar melhor o resultado
+que esperava, resolveu elle proprio escrever-lhe confidencialmente.
+
+Quando o pae e os filhos se separaram, achava-se em todos os seus
+artigos sanccionado o projecto de Jorge.
+
+
+
+
+VII
+
+
+Frei Januario, dormida a sua regalada sésta, dispoz-se a fazer horas
+para a ceia, indo communicar ao fidalgo a grande nova das disposições de
+espirito, suspeitas e subversivas, em que encontrou o filho mais velho.
+
+Ainda D. Luiz meditava nas mudanças que ia soffrer o regimen economico
+da casa e nas mais ou menos provaveis consequencias d'ellas, quando a
+voz fanhosa do padre procurador se fez ouvir á porta, articulando o
+costumado--_licet_?--E sem esperar resposta o padre frei Januario foi
+entrando.
+
+--Ainda ás escuras, snr. D. Luiz?!
+
+--Nem sempre temos para nos alumiar luzes tão bellas como esta;
+respondeu o fidalgo, designando o luar que já lhe inundava o quarto.
+
+--Quer não; isto de luar não é lá das melhores coisas e depois o ar da
+noite...
+
+--A noite está que parece de maio.
+
+--Sim? mas sempre os vapores dos campos... Eu acho mais prudente
+accender luz e fechar as janellas.
+
+--Não me opponho, frei Januario, até porque temos que fallar.
+
+--Sim? Tambem tenho que communicar a v. exc.ª
+
+--Pois, muito bem. Vamos a isso.
+
+Fecharam-se as janellas, vieram as luzes e dispoz-se tudo para a
+conferencia.
+
+D. Luiz exigiu que frei Januario fallasse primeiro.
+
+--Visto isso, principiarei, e o que sinto é que seja para dar a v. exc.ª
+noticias assustadoras--preludiou o egresso.
+
+--Assustadoras! Que é a final? Alguma insolente exigencia de credor.
+
+--Nada, nada; a coisa é outra. Tracta-se do filho de v. exc.ª
+
+--De Mauricio? Que fez elle?
+
+--Não, senhor; não é do snr. D. Mauricio, que eu fallo.
+
+--Então? É de Jorge?
+
+--Justamente. Eu conto a v. exc.ª
+
+E frei Januario principiou a expôr ao fidalgo os pormenores da discussão
+que tivera com Jorge ao jantar e a commental-a com reflexões proprias.
+Horas antes, esta communicação teria talvez produzido o effeito
+estupendo, que o egresso calculára; mas a prévia entrevista de D. Luiz
+com os filhos tirára toda a importancia á revelação. D. Luiz apenas
+franziu o sobrolho á parte mais demagogica das doutrinas do filho, mas
+esse mesmo signal de desgosto foi passageiro, e quando o procurador
+acabou a sua estirada confidencia, em vez da indignação e do espanto,
+com que esperava vêl-a acolhida, apenas escutou estas simples palavras,
+pronunciadas com a maior fleugma:
+
+--E então que pensa d'isso, frei Januario?
+
+Lá de si para si o padre replicou á pergunta com a sua expressão
+favorita de desapontamento--Lérias!--mas em voz alta não foi tão
+expressivo, e respondeu em phrase mais parlamentar:
+
+--O que penso? Que hei de eu pensar? E v. exc.ª o que pensa? Eu por mim
+penso que anda aqui febre liberal; o veneno já está no sangue. Tão
+certo! Aquillo dá logo signal de si. Em elles principiando a cantar-me
+ladainhas a S. Trabalho, eu digo logo com os meus botões: «Pois sim,
+sim, estás arranjadinho.» O snr. D. Jorge conversou por ahi com algum
+mação. Quem sabe? Alguns d'esses engenheiros que estão na estalagem do
+Manco. Isto de engenheiros é gente que se não confessa; ou então são
+coisas do hortelão, que eu não seja quem sou se ainda não ha de dar que
+fallar n'esta casa; mas o certo é que lhe metteram na cabeça essas
+caraminholas e se v. exc.ª não olha por isso, eu lhe protesto que dão
+com o rapaz mação, o que é uma pena, porque é um bom rapazinho. Mas
+quando elles me vem com as nobrezas do trabalho aos contos, torço-lhe
+logo o nariz.
+
+--Parece-me que d'esta vez são sem fundamento os seus receios, frei
+Januario. A final, pondo de parte alguma expressão menos sensata, e que
+o verdor dos annos desculpa, as ideias do rapaz são razoaveis.
+
+--Razoaveis?
+
+--Pois porque não? Que quer elle? Occupar em alguma coisa o tempo, que
+perde na ociosidade. Está cançado da vida de rapaz. É natural e é
+louvavel. E em que quer elle empregal-o? No que ámanhã será constrangido
+a fazer, com peior resultado; no que eu devêra ter feito na idade
+d'elle; em trabalhar, em gerir os bens da sua casa. Mais vale então que
+principie já, frei Januario, sob a guia dos seus conselhos, do que
+tarde, ás cegas e sem uma pessoa de confiança a encaminhal-o.
+
+--Pois é verdade, mas...
+
+--Elle fallou-me n'isso ha pouco.
+
+--Ah! pois sempre fez o que disse?!
+
+--Fez, sim, e fez bem. Achei que o rapaz tinha pensado maduramente no
+caso e dei-lhe a permissão que elle pediu. Era até o que eu tinha para
+dizer-lhe.
+
+--Então, visto isso, de hoje em diante?...
+
+--De hoje em diante, Jorge se entenderá comsigo. O frei Januario precisa
+de descançar tambem.
+
+--Eu ainda não estou cançado--resmungou o padre.
+
+--Espero que dará a meu filho todos os esclarecimentos de que elle
+precise e todos os conselhos da sua muita experiencia.
+
+--Não seja essa a duvida; mas, na verdade...
+
+O relogio do corredor, batendo nove horas, cortou inesperadamente a
+phrase ao egresso.
+
+Pelos modos a ceia ia tardando.
+
+--Com licença--disse elle, levantando-se--eu vou vêr como correm as
+coisas na cozinha.
+
+Mas nos corredores murmurava comsigo, em tom aforismatico:
+
+--Não tem que vêr. Filho mação, pae idiota... casa perdida.
+
+Como frei Januario suspeitasse que ia encontrar o cozinheiro menos
+attento no desempenho dos seus gravissimos deveres, dirigiu-se, pé ante
+pé, á cozinha, a fim de surprendêl-o em flagrante.
+
+Ao avisinhar-se deu-lhe maior rebate ás suspeitas um acalorado travar de
+vozes, que de lá vinha.
+
+Espreitou. A criadagem estava em congresso; orava o hortelão, o inimigo
+irreconciliavel do padre; escutavam-n'o os outros boquiabertos, e mais
+attento do que nenhum, o cozinheiro, que sentado em um banco baixo, com
+uma perna atravessada sobre a outra e as mãos a segurarem o joelho, nem
+ouvia o chiar das caçarolas, nem se lembrava da ceia.
+
+O padre fumou com a descoberta.
+
+O hortelão dizia:
+
+--Foi então que o imperador... oh aquillo é que era um homem!... foi
+então que elle fez aquella falla que lá está toda na memoria do
+Mindello, que foi onde nós desembarcamos, no dia 8 de julho de 1832,
+alli pela tardinha.
+
+E o hortelão, tomando uns ares solemnes e endireitando o corpo, começou
+recitando oratoriamente:
+
+--«Soldados! Aquellas praias são as do malfadado Portugal; alli, vossos
+paes, mães, filhos, esposas, parentes e amigos, suspiram pela vossa
+vinda e confiam...
+
+Era demais para a magnanimidade de frei Januario. A proclamação de D.
+Pedro desafinava-lhe os nervos, sempre que a ouvia; o que não era poucas
+vezes, graças ao enthusiasmo do hortelão. Cedendo pois ao seu animo
+indignado, o padre rompeu pela cozinha dentro, exclamando:
+
+--Então que pouca vergonha é esta? O fidalgo á espera da ceia, e esta
+sucia de mandriões aqui postos a ouvir as patranhas d'aquelle senhor!
+
+Os criados surprendidos ergueram-se em alvoroço e tomaram os seus
+postos. O hortelão reagiu, como era seu costume.
+
+--Patranhas? Isso lá mais de vagar. Isto vi e ouvi eu, como o vejo e
+ouço a vocemecê, e muito me honro em dizêl-o. Patranhas! Quem quizer,
+póde lêr tudo isso nas gazêtas e muitas coisas mais. Eu fui soldado do
+imperador e...
+
+--Está bom, está bom: pouco fallatorio. Você o que é, é hortelão; e o
+logar dos hortelões não é na cozinha.
+
+--Lá se vamos a isso, tambem o do capellão não é ao pé das panellas, e
+comtudo vocemecê póde dizer-se que não tem outro posto, onde esteja mais
+firme.
+
+--Tenha cuidado com a lingua; olhe que um dia a paciencia esgota-se e
+depois não se queixe.
+
+--Não se metta o snr. padre commigo, se não quer ouvir. Olhe que eu fui
+soldado, e não é um frade que me leva a melhor. A vontade que elles nos
+teem sei eu, que ainda me lembra de ver arder por os quatro cantos o
+convento de S. Francisco, na noite de 24 para 25 de julho, e por pouco
+que não morriam queimados todos os meus camaradas de caçadores 5. Hein?
+que diz vocemecê áquella caridade?
+
+--Você não se quer calar? Eu direi ao snr. D. Luiz as conversas que você
+tem aqui na cozinha e a maneira por que falla da religião e da igreja.
+
+--Quem fallou em tal? Eu em quem fallo é nos frades, que é coisa
+differente.
+
+A desavença terminou com a subita sahida do padre, que perdia as
+estribeiras n'estas luctas. A criadagem ficou rindo d'elle pelas costas,
+e o hortelão passou a contar por miudo como tinha sido o caso do
+incendio do convento dos Franciscanos.
+
+O padre, na presença do fidalgo, encetou a sua millionesima queixa
+contra o jardineiro, e acabou por dar o millionesimo conselho da sua
+immediata demissão. O fidalgo ouviu-o pela millionesima vez com o
+silencio do costume.
+
+D'ahi a momentos estava o procurador aplacado..., porque ceiava.
+
+Á ceia assistia o fidalgo e os seus dois filhos.
+
+Ninguem fallou durante a refeição nocturna. O padre estava amuado, D.
+Luiz pensativo, Jorge e Mauricio trocando olhares de intelligencia sobre
+o aspecto carrancudo do padre.
+
+Ao erguer-se da mesa, D. Luiz disse para o filho mais velho:
+
+--O snr. frei Januario já está informado do que hoje se combinou. Ámanhã
+elle que tenha a bondade de te dar os conselhos precisos.
+
+E depois de uma sêca «boa noite», D. Luiz sahiu da sala.
+
+Os filhos levantaram-se para tambem se retirarem.
+
+Jorge interrogou o padre:
+
+--A que horas quer que o procure ámanhã, snr. frei Januario?
+
+--A que horas?... Ah!... sim... isso... eu sei?... A coisa não é de
+pressa... Se não fôr ámanhã...
+
+--Ha de ser ámanhã--atalhou Jorge.
+
+--Ha de ser! Essa é boa! Sabe lá da minha vida? Ha de ser! Tem graça.
+
+--Não lhe tirarei muito tempo. Socegue. Quero só que me passe os livros
+e os papeis.
+
+--Os livros!... e os papeis... Mas para que?
+
+--Porque d'ámanhã em diante tomo conta d'elles.
+
+--Eu não me entendo com criancices. Na verdade o snr. D. Luiz fez-me o
+que eu nunca esperei d'elle. É bem custoso receber tal paga no fim de
+tantos annos de serviço! E então que patetices! Attender aos caprichos
+de uma criança em coisas tão sérias como estas! E sabe que mais, snr.
+Jorge? Eu não tenho vagar nem paciencia para me pôr agora a ensinar
+meninos.
+
+Mauricio ia a responder, talvez com aspereza, mas Jorge atalhou-o,
+dizendo:
+
+--Mas quem lhe falla em ensinar? Quem lhe pede lição ou conselho?
+
+--Então para que me procura ámanhã?
+
+--Para que me dê os livros e mais documentos relativos á gerencia da
+casa, e me preste os esclarecimentos que eu lhe pedir. Não são perguntas
+de discipulo...
+
+--Percebo o que quer dizer na sua, são de juiz.
+
+--Não. Quem o suppõe réo? Não, senhor. É apenas uma curta conferencia,
+como o trocar da senha entre a guarda que se rende.
+
+--Então o snr. Jorge está seriamente resolvido a tomar conta d'isto?
+
+--Muito sériamente.
+
+--Sim, senhores. Ha de ser bonito! Mas isto é até um caso de
+consciencia, e eu não sei se devo...
+
+--Aplaque os seus escrupulos, frei Januario. A responsabilidade de um
+procurador expira no dia em que a procuração lhe é retirada pelo
+constituinte. Até ámanhã. Não se esqueça de me apresentar todos os
+livros da sua escripturação.
+
+--E elle ahi torna! Ora que scisma! Eu sei lá de livros e de
+escripturação, homem? É boa! Isto não é nenhum armazem.
+
+--Então geria de cabeça, frei Januario?--perguntou Mauricio, rindo.
+
+--Geria, como entendia. Tomo os apontamentos precisos, mas lá de
+parlapatices e espalhafatos é que nunca fui.
+
+--Bem; ámanhã examinaremos esses apontamentos; boa noite, frei
+Januario--concluiu Jorge.
+
+--Snr. frei Januario, muito boa noite--secundou zombeteiramente
+Mauricio.
+
+--Ide com nossa Senhora--murmurou o padre irritado.
+
+Os dois rapazes sahiram, rindo dos amuos do egresso.
+
+Este ficou só, e encetando um habitual complemento da sua substanciosa
+ceia, ia resmungando:
+
+--Forte pancada a d'esta gente! Olhem agora o criançola... E como elle
+falla?! Parece já um senhor que _todo lo manda_! Os livros! Era o que me
+faltava! era ter livros para assentar contas com rendeiros e dividas da
+casa. Bem digo eu! Mas deixa estar que eu curo-o da mania de metter o
+nariz n'estas coisas. Dou-lhe uma esfrega ámanhã. Em elle vendo como a
+casa está embrulhada, perde logo o furor com que está de a administrar.
+Sempre lhe hei de fazer uma tal barafunda de papelada, que o rapazinho
+ha de ir dizer ao papá que não quer saber de contas. Ora deixa estar!
+Muito me hei de rir. Quando elle principiar a vêr o sarilho, em que isto
+tudo está mettido, que nem eu sei já como sahir d'elle, então é que ha
+de dar vivas, e gritar «aqui d'el-rei.» Ora deixa estar.
+
+E o padre ria, ria de boa feição, ao pensar no logro que havia de pregar
+a Jorge, ria e comia o bom do homem, que era um gosto vêl-o.
+
+Depois foi deitar-se, e o somno de uma certa classe de bemaventurados
+baixou-lhe sobre as palpebras, suave e restaurador.
+
+Jorge não dormiu, como o padre; velou até alta noite, lendo, calculando,
+combinando planos economicos. Mauricio tambem dormiu pouco; pensou
+igualmente no futuro, na revolução que ia operar-se na sua vida, mas de
+um modo vago, sem ter ainda um plano formado, nem trabalhar para isso.
+As mais variadas e brilhantes imagens passavam-lhe pela phantasia, sem
+que se fixasse uma só d'ellas. Era um succeder de ideias tão rapido, que
+parecia estonteal-o, como o illusorio movimento das margens perturba o
+viajante novel arrebatado no convez velocissimo d'um barco a vapor.
+
+No dia seguinte teve logar a solemne conferencia do padre e de Jorge.
+
+Frei Januario tentou realisar a traça que com applauso proprio delineára
+na vespera. Desdobrou em cima da mesa toda a papelada, amontuou, sem
+classificação nem escolha, procurações, recibos, contas, contractos de
+arrendamento, titulos de propriedades, escriptos de quitação com a
+fazenda, e outros varios documentos, com intuito de assoberbar a
+inexperiencia de Jorge e castigar-lhe as aspirações ambiciosas.
+
+Depois de ter assim patenteado aquelle cahos aos olhos do seu proposto
+successor, o padre, encostando os braços á banca, apoiou o queixo entre
+as mãos, posição em que a bôca repuxada lhe tomava um geito de
+caricatura eminentemente comico, e ficou á espera do resultado das suas
+manhas com um sorriso de malicia e triumpho.
+
+Jorge porém não desanimou. Com um rapido lançar de olhos julgava da
+importancia dos papeis, que successivamente examinava, e assim os punha
+de lado para segundo exame ou os guardava como vistos.
+
+Dentro em pouco tempo entrou a ordem no cahos, e Jorge passou a mais
+minuciosa revista.
+
+Frei Januario já se sentia um tanto incommodado com o andamento que ia
+vendo ás coisas, e insensivelmente foi tomando uma posição mais discreta
+e fugiu-lhe do rosto o ar malicioso com que até alli observára Jorge.
+
+O peior não tinha principiado ainda.
+
+Jorge acompanhou o segundo exame, a que procedeu sobre os papeis de
+importancia, de uma serie de perguntas, que embaraçaram sobre maneira o
+padre. Reconheceu então que o filho de D. Luiz não era a criança que
+elle suppozera, que via mais claro n'aquelles negocios do que elle
+proprio, com toda a sua experiencia, e que a conferencia, na qual
+esperava dar uma memoranda lição ao impertinente discipulo, podia muito
+bem terminar com notavel desvantagem do mestre.
+
+Ao principio do fogo cerrado de questões e objecções, o padre tentou
+entrincheirar-se atraz de evasivas, tractando o caso jovialmente, mas
+teve de abandonar essa tactica, diante do tom e aspecto de seriedade
+varonil, com que Jorge lhe insinuou:
+
+--Snr. frei Januario, eu não vim aqui para brincar, nem o assumpto da
+nossa conversação é digno d'essas jovialidades. Sou um dos futuros
+herdeiros d'esta casa e quero saber como ella tem sido administrada até
+agora.
+
+O padre experimentou a arma da dignidade offendida.
+
+--Então quer dizer que desconfia de mim?... e instaura-me um processo?
+
+--Peço-lhe por favor que não venha com isso outra vez. Ninguem o accusa,
+já lh'o disse. Peco-lhe só esclarecimentos sobre o passado, para poder
+caminhar para diante.
+
+Frei Januario acabou por se convencer de que não havia fugir á
+sabbatina. Não lhe foi suave tarefa aquella.
+
+Jorge pela primeira vez lhe fazia vêr os erros de officio que elle
+commettêra, a imprudencia com que dirigira certos negocios, o desleixo
+em que deixára outros, a illegalidade de certos actos, os riscos em que
+puzera parte dos bens da casa. O padre suava, torcia-se, esfregava a
+testa, entrava em explicações confusas d'onde com muito custo sahia,
+titubiava, gemia, protestava, limpava os oculos, chamava em seu auxilio
+céos e terra; mas tudo era inutil poeira de encontro á paciencia e
+fleugma com que Jorge o interrogava ou lhe fazia qualquer observação
+que, sem ser formulada como censura, feria no vivo a susceptibilidade do
+padre. Em uma palavra, o resultado da conferencia foi exactamente o
+opposto ao que frei Januario prognosticára. Quem d'elle sahiu atordoado,
+desgostoso e disposto devéras a não querer saber mais da administração
+da casa, foi o padre e não o rapaz.
+
+Frei Januario viu com espanto esboroar-se o edificio da sua experiencia,
+em cuja solidez elle proprio tinha a ingenuidade de acreditar, ao
+simples sôpro de uma criança. A impressão que lhe ficou d'este apertado
+inquerito foi tal, que o pobre homem passou a sentir um entranhado mêdo
+de Jorge, e a empallidecer só com a lembrança de uma scena como aquella.
+
+Sempre que Jorge lhe dirigia a palavra d'ahi por diante, já o padre
+previa com terror uma interpellação e ficava nervoso! Muito mais se D.
+Luiz estivesse presente.
+
+Assim pois, graças a estes mêdos, frei Januario em vez de tornar-se
+vigilante em relação aos actos de Jorge, tractou de evital-o tanto,
+quanto podia.
+
+O desgraçado persuadira-se de que tinha commettido tantas faltas na sua
+administração, que o seu desejo era vêr passar já sobre ellas muitos
+annos para desvanecer-lhes os vestigios.
+
+Jorge ficou pois completamente á vontade. D. Luiz, interrogando o
+capellão, ouvira d'elle que Jorge estava habilitadissimo para
+administrar a sua casa. Foi quanto bastou ao fidalgo para confiar
+cegamente no filho e para annuir sem exame a todos os seus projectos,
+como por tantos annos fizera aos do padre.
+
+Portanto, sem desconfiança de pessoa alguma, pôde Jorge combinar com
+Thomé, em entrevistas nocturnas na Herdade, o seu plano de
+administração. Thomé era n'estas coisas um prudente e avisado
+conselheiro. Estudaram ambos a maneira de remediar muitas faltas
+commettidas, entraram em correspondencia com o advogado do fazendeiro,
+por causa de uma velha e importante demanda da casa; Jorge visitou todas
+as suas terras, celebrou novos e mais vantajosos arrendamentos sempre
+que pôde, e para estes primeiros actos levantou em segredo parte do
+emprestimo agenciado por meio do capital e do credito de Thomé da Povoa.
+
+Causou espanto na terra a revolução administrativa da Casa Mourisca. Os
+que mantinham vistas interesseiras sobre os bens do fidalgo e que,
+movidos por ellas entravam em transacções com a casa, conceberam ao
+principio lisongeiras esperanças, vendo que tinham a tractar com um moço
+inexperiente. Cêdo porém se desenganaram, encontrando-o sempre cauteloso
+e perspicaz, graças á intelligencia propria e aos conselhos do
+previdente Thomé, que entrava em tudo sem ser visto nem suspeitado
+sequer.
+
+As entrevistas de Jorge e do fazendeiro tinham sempre logar de noite,
+como já dissemos.
+
+Jorge sahia de casa quando já todos dormiam menos Mauricio, unico que se
+recolhia ainda mais tarde e que nem sequer sabia das sortidas do irmão.
+
+Thomé da Povoa esperava-o na Herdade, onde o rapaz entrava com o mesmo
+mysterio, e ás vezes prolongavam-se até altas horas estes conciliabulos
+economicos.
+
+N'elles, ambos aprendiam. Thomé abria a Jorge os thesoiros da sua muita
+experiencia, e esclarecia-o com os conselhos dictados por um são juizo e
+uma natural lucidez. Jorge, que já enriquecêra a sua bibliotheca de
+novos livros e de periodicos de agricultura e de economia rural, fallava
+a Thomé dos progressos e melhoramentos agricolas dos paizes
+estrangeiros, e eram para vêr a attenção e o enthusiasmo com que o
+lavrador o escutava. Com o animo arrojado e despido do cego e
+supersticioso amor pelas praticas velhas, Thomé tomava nota de muitas
+d'essas innovações, para as experimentar, praticando-as nas suas
+proprias terras. Que bellos e grandiosos projectos de futura realisação
+não planeavam elles, inspirados das maravilhas obtidas pela agricultura
+nos paizes mais adiantados, onde é exercida por homens intelligentes e
+instruidos!
+
+Passado pouco tempo Jorge gozava já na aldeia de uma fama de fino
+administrador, que lhe grangeou os respeitos de todos os habitantes.
+
+Para esta boa fama concorreu uma circumstancia preparada ainda pelos
+ressentimentos de frei Januario.
+
+Depois de destituido, e ainda para mais derrotado pelo estreito
+inquerito de Jorge, e antes que conseguisse dominar completamente o seu
+despeito, tentára o padre levantar ao rapaz uma nova difficuldade.
+
+Com esse intento convocou um dia todos os criados da casa e da lavoura,
+que viviam das soldadas do fidalgo, ou melhor na esperança d'ellas, e
+depois de os ter juntos, deu-lhes velhacamente a noticia de que, tendo
+sido dispensado pelo snr. D. Luiz de continuar a gerir os negocios da
+casa, não era d'ahi por diante responsavel pelo pagamento das soldadas
+atrazadas nem das futuras; que esses negocios estavam agora ao cargo do
+snr. D. Jorge e que se entendessem com elle, por quanto da sua parte
+lavava as mãos de tudo.
+
+A estas palavras, levantou-se murmuração entre alguns criados, que não
+tinham grande confiança no novo gerente e que reclamavam do padre o
+pagamento das soldadas vencidas, dizendo que era elle o responsavel por
+esses pagamentos, visto serem do tempo da sua administração.
+
+--Não quero saber de contos--insistia o padre.--Por feliz me dou eu em
+me terem tirado dos hombros esta canceira. Os outros que se avenham como
+puderem.
+
+A celeuma continuava, apesar da contrariedade do hortelão, que declarou
+que pela sua parte estava satisfeito com a mudança, porque o snr. Jorge
+era um rapaz de juizo e de brios, e, melhor do que ninguem, homem para
+cumprir a sua palavra.
+
+Estavam as coisas n'estes termos, quando um facto imprevisto as
+modificou.
+
+Foi o apparecimento de Jorge.
+
+A scena passára-se em uma sala contigua á do cartorio da casa, onde
+desde pela manhã Jorge se encerrára a examinar uns papeis de
+importancia. O padre suppunha-o fóra, e por isso promovêra aquella
+reunião, prestes a tornar-se tumultuosa. Assim pôde Jorge ouvir tudo.
+
+Percebeu a necessidade de fazer cessar aquella scena escandalosa, e
+terminal-a airosamente, embora á custa de algum sacrificio. N'esta
+resolução levantou-se e abriu de par em par a porta pela qual
+communicavam as duas salas.
+
+Assim que o viram, os criados emmudeceram. O padre julgou-se perdido.
+
+Jorge dirigiu-se placidamente áquelles.
+
+--Quando o snr. frei Januario lhes disse que me procurassem para serem
+pagos do que se lhes deve, era melhor que o fizessem logo, e não
+levantassem esse clamôr proprio de uma feira. Entrem, que eu aqui estou
+para lhes fazer contas.
+
+E a um gesto imperioso de Jorge, os criados entraram timidos no
+gabinete, occultando-se uns com os outros.
+
+--Entre tambem, frei Januario--disse Jorge ao padre, que procurava
+retirar-se sorrateiramente da sala.
+
+O padre teve de obedecer, a seu pesar.
+
+Jorge sentou-se á mesa e principiou a interrogar os criados, um por um,
+sobre a quantia que se lhes devia, e pagando-lh'a integralmente, depois
+de obtida a informação.
+
+Assim os correu e satisfez a todos, á excepção do hortelão, que o estava
+a observar calado e com os olhos humidos.
+
+Jorge voltou-se para elle e disse-lhe:
+
+--Estou que te fazia offensa, se te pagasse ao mesmo tempo que a estes
+desconfiados. Tu és dos que esperam com esta garantia.
+
+E estendeu-lhe a mão francamente aberta.
+
+O hortelão quasi se precipitou para ella e apertou-a commovido nas suas.
+
+--Ó snr. Jorge! A maior paga que me póde dar é... não me pagar nunca.
+
+Movidos por esta scena, os outros criados vieram depositar na mesa outra
+vez o dinheiro recebido.
+
+--Lá por isso... nós tambem esperamos...
+
+Jorge restituiu-lhes o dinheiro.
+
+--Não é necessario... Levem-n'o.
+
+E depois acrescentou:
+
+--As circumstancias actuaes da nossa casa obrigam-nos a fazer mudanças
+no serviço. Temos de reduzir o numero dos criados de dentro e augmentar
+os de lavoura. Por isso, vossês quatro, Francisco, Lourenço, Pedro e
+Romão, podem procurar outra casa. Para nos servir bastam os outros dois.
+Vossês, os de lavoura, ficam, se quizerem, e se tiverem parentes que
+pretendam empregar-se aqui no mesmo serviço, mandem-nos ter commigo. E
+agora podem ir.
+
+O tom em que foram ditas estas palavras excluia qualquer observação.
+Sahiram todos.
+
+--Frei Januario--acrescentou Jorge, dirigindo-se ao padre, que estava
+meio aparvalhado--podia fazer-me saber mais delicadamente esta divida de
+casa. Apesar d'isso agradeço-lhe o ensejo que me deu de a pagar!
+
+O padre resmungou não sei o quê, e sahiu cada vez com mais medo de
+Jorge.
+
+--Onde foi o diabo buscar já tanto dinheiro?--pensava elle.--Não póde
+deixar de ser da maçonaria.
+
+O hortelão ficou só com Jorge.
+
+O pobre homem estava enthusiasmado com a honrosa distincção que
+recebêra, e para manifestar o seu enthusiasmo passou a contar a Jorge
+como é que se tinha dado o ataque do monte das Antas.
+
+Esta scena, divulgada em pouco tempo, concorreu, como dissemos, para
+augmentar os creditos de Jorge em toda a aldeia.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Succederam muitos dias sem que na vida dos differentes personagens, que
+já temos apresentado ao leitor, occorressem incidentes dignos de menção.
+
+Mauricio permanecia na aldeia, e vivia n'ella a mesma vida que até alli,
+porque não se obtivera ainda da prima baroneza a resposta á carta de D.
+Luiz.
+
+Apesar da energia com que vimos aquelle rapaz abraçar os nobres
+projectos do irmão, exige a verdade que se diga que elle soffria com
+demasiada resignação as delongas da empreza, na parte que lhe dizia
+respeito, e continuava a distrahir-se como d'antes em passeios, caçadas
+e aventuras galantes. Estava-lhe isto no caracter.
+
+Jorge, esse deitára-se de corpo e alma ao trabalho. Estudava no
+gabinete, discutia nas conferencias com Thomé, e principiára já a
+realisar reformas e melhoramentos, promettedores de vantagens futuras.
+
+Os capitaes agenciados pelo fazendeiro haviam já permittido libertar a
+casa de muita usura e encetar em uma das melhores propriedades do antigo
+morgado trabalhos agricolas mais activos e methodicos; viam-se já por lá
+as enxadas e os arados revolverem a terra e desarreigarem as hervas
+estereis; já se podava e enxertava nas vinhas e pomares quasi bravios,
+aproveitavam-se as aguas, fertilisava-se o solo, sentia-se renascer
+aquella natureza amortecida, como se entrasse na convalescença de uma
+longa enfermidade.
+
+Frei Januario presenciava aquelles prodigios com espanto e despeito,
+murmurando dos gastos loucos, em que o rapaz se mettia.
+
+--Muito havemos de rir a final--dizia elle.--Entradas de leão; agora as
+sahidas...
+
+Não communicava porém as suas reflexões ao fidalgo, porque tinha mêdo de
+Jorge.
+
+D. Luiz, que em um dos passeios que costumava dar a cavallo, acompanhado
+de escudeiro, á distancia marcada pela velha pragmatica, teve occasião
+de observar esses melhoramentos, sentiu um intimo prazer, sabendo que
+aquella fazenda era agricultada por conta da casa. O fidalgo não
+procurou informar-se dos meios pelos quaes Jorge chegára a realisar o
+milagre. Cresceu a confiança no filho e de olhos fechados entregou-se a
+ella.
+
+Não pararam aqui os trabalhos de Jorge. A casa, como já dissemos,
+luctava, havia muito tempo, com um importante litigio, que podia decidir
+do destino de quasi metade dos seus bens. Esta demanda, complicada e de
+uma marcha morosissima, tomára ultimamente uma feição pouco favoravel
+aos fidalgos da Casa Mourisca.
+
+Frei Januario já prevenira D. Luiz de que a considerasse perdida.
+
+Jorge, na revista a que procedeu nos archivos de familia, encontrou
+documentos, a seu vêr importantes e até alli não aproveitados, por
+incuria do padre-capellão. Mostrou-os a Thomé, que experiente n'estes
+negocios como um verdadeiro lavrador do Minho, confirmou a valia do
+achado, e ambos resolveram remettêl-os a um novo advogado, a quem se
+entregou a direcção do litigio.
+
+Haviam pois sido bem encetados os trabalhos de Jorge. Longe ia ainda o
+seu pensamento da realisação completa. O que havia por fazer era muito
+mais do que o que estava feito, mas os principios animavam.
+
+Por este tempo porém sobreveio um acontecimento, que algum tanto
+transtornou a face d'estes negocios.
+
+Recebeu-se na Herdade uma carta de Bertha.
+
+Preciso é porém dizermos algumas palavras a respeito de Bertha, antes de
+a introduzirmos em scena; porque a leitora suspeita já que vae chegar a
+final a heroina da historia; e a ausencia d'ella em sete capitulos
+inteiros talvez não tenha já sido pouco estranhada.
+
+Bertha, segundo atraz fica dito, era a filha mais velha de Thomé.
+
+Nascida na época em que o fazendeiro não era ainda o homem abastado em
+que depois se tornou, procuraram-lhe os paes bons padrinhos, para
+assegurarem o futuro da pequena.
+
+Thomé obteve do fidalgo da Casa Mourisca a condescendencia de acompanhar
+a criança á pia baptismal; Luiza, pela sua parte, solicitou e conseguiu
+identico favor de uma senhora do Porto, para casa de quem ella por muito
+tempo lavára, quando n'esse mister occupava a sua robusta juventude.
+
+A roda da fortuna, por uma das suas muito sabidas revoluções, alterou a
+posição relativa de toda esta gente, durante o decurso dos primeiros
+annos de Bertha.
+
+Já sabemos como, em virtude d'esta revolução, Thomé subiu gradual e
+incessantemente, emquanto D. Luiz descia. O mesmo que a este ultimo
+succedeu á tal senhora, cuja indole bondosa e timida não soube oppôr
+estorvos ás prodigalidades de um irmão perdulario; vendo-se em
+consequencia d'isso obrigada a sahir do Porto, onde vendeu tudo o que
+tinha, para ir para Lisboa educar meninas.
+
+A primeira discipula que teve foi Bertha. Os paes sentiam ambições por a
+filha e queriam dar-lhe a educação de uma senhora, aproveitando e
+cultivando n'ella as boas disposições que já adquirira na convivencia
+com os pequenos da Casa Mourisca, onde era recebida com affecto. Além
+d'isso, outra e mais generosa intenção levou-os a darem aquelle passo.
+Queriam concorrer para alliviar o infortunio da infeliz senhora, que
+sempre na opulencia os auxiliára e estimára. Possuiam porém bastante
+delicadeza para lhe offerecerem soccorros, sem um pretexto a coloril-os.
+Pediram-lhe pois que tomasse conta da educação de Bertha, e assim, além
+da mezada do costume, tinham o ensejo de fazerem valiosos presentes á
+mestra, que percebia e apreciava com lagrimas a generosidade d'aquelle
+proceder.
+
+Foi assim Bertha mandada educar para Lisboa, o que não provocou escassos
+commentarios na aldeia, onde se disse que o Thomé da Herdade se
+afidalgava, e que já não queria ter filhos lavradores.
+
+O senhor da Casa Mourisca não viu tambem com bons olhos aquelle passo de
+Thomé, cujo engrandecimento havia já muito tempo que principiára a
+incommodal-o.
+
+Bertha, que fôra até então a companheira de brinquedos dos meninos da
+Casa Mourisca e de Beatriz, a pallida e meiga criança, que temos visto
+viver ainda na memoria de quantos a amaram, deixou a aldeia uma
+madrugada com lagrimas e soluços.
+
+Desde então conservou-se em Lisboa, onde só o pae a foi vêr, por duas
+vezes, deixando-a inteiramente entregue aos cuidados da senhora, que lhe
+ganhára affeição, cada vez mais funda.
+
+Bertha crescêra; as graças infantis foram a pouco e pouco perdendo
+n'ella aquellas illuminadas cores com que nos alegram e, diluindo-se nas
+mysteriosas sombras de uma juventude de mulher, sombras que não empanam
+a belleza, antes lhe dão mais e mais seductor relêvo. Bertha não era já
+a criança que sahira da aldeia, sem um pensamento que retivesse, sem um
+sorriso que encobrisse, sem um olhar que se desviasse pensativo ou
+timido, sem uma dôr que se não manifestasse em lagrimas; era já a virgem
+de dezoito annos, sob a influencia da vida nascente do coração, e
+portanto sujeita a todas as subtis impressões, dominada por todos os
+impulsos contradictorios e por todas as indefinidas aspirações d'aquella
+quadra magica.
+
+A vida das cidades, sem lhe dar a morbida languidez, que tão sem razão
+anda confundida com a elegancia, apurára-lhe a delicadeza feminina,
+desenvolvêra-lhe a sensibilidade para os affectos e a intelligencia para
+os prazeres do espirito.
+
+Mas o que em Bertha sobre tudo havia mais digno de referir-se aqui, por
+ser menos commum phenomeno do que esses que descrevemos, era a
+permanencia de uma razão clara no meio dos attractivos e seducções, com
+que a phantasia tantas vezes, em circumstancias taes, a offusca. Gozava,
+mas sem embriaguez; sentia, mas sem arroubamentos; e, apreciando as
+prendas de educação que ia adquirindo, nunca perdia de vista a modestia
+do seu nascimento e a modestia do futuro que naturalmente devia ser o
+seu. Se tinha sonhos de juventude... e quem os não tem n'aquella idade?
+sabia que sonhava e não se distrahia a procurar no mundo real as visões,
+que n'elles lhe appareciam.
+
+A lembrança da sua origem modesta não a fazia melancolica, mas prudente.
+Não era aquella ideia uma sombra negra, que não lhe deixava vêr a luz;
+simplesmente um como crystal córado, que lhe permittia fital-a, sem mêdo
+de offuscação e cegueira.
+
+Assim, no meio das suas effusões, das suas melancolias e até dos seus
+pequenos caprichos de rapariga, Bertha nunca deixava de ser uma rapariga
+de juizo.
+
+A educação de collegio não produzira n'ella a adocicada pedantaria de
+algumas meninas da moda. Nas cartas, que escrevia aos paes, nunca se lia
+uma phrase que elles não entendessem, uma palavra que os embaraçasse e
+lhes fizesse sentir a inferioridade da sua educação. Revelava-se n'isto
+um natural instincto de delicadeza, que Thomé, por um instincto analogo,
+sabia apreciar.
+
+Sentia que Bertha nunca se envergonharia de chamar a elle pae e mãe á
+boa Luiza, e esta convicção não o deixava arrepender de a haver educado
+com esmero. Pobre do homem se esses cuidados lhe tivessem alienado os
+affectos da rapariga!
+
+As cartas de Bertha eram escriptas de fórma, que não sómente aos paes
+agradavam, mas a quantos as liam.
+
+Thomé mostrara-as a Jorge, e este não pôde deixar de apreciar a redacção
+singela e despretenciosa em que parecia reflectir-se a candura e pureza
+d'aquelle caracter de mulher. Havia n'ellas uma maneira de pensar tão
+acertada, vistas tão despidas de preconceitos, tanto sentimento revelado
+com tanta sobriedade de phrases sentimentaes, que são o maior achaque
+nas cartas de mulher; transpareciam tão distinctamente os suaves e
+generosos instinctos da sua alma feminina, que o espirito de Jorge
+sympathisou naturalmente com aquelle outro espirito que, n'essas
+ligeiras manifestações, se revelava tão irmão seu.
+
+A pouco e pouco uma d'estas sympathias, que ás vezes se originam no
+coração, lentas, brandas, ignoradas, sem a agudeza das paixões,
+despertadas por um ente, de quem apenas se conhece o nome, ou quando
+muito uma feição, um acto da vida, um pensamento, insinuou-se no coração
+de Jorge. Era um sentimento, que não o inquietava ao principio, nem lhe
+perturbava o espirito, por isso não se acautelou d'elle; deixou-se
+repassar d'aquelle grato influxo, sem se lembrar sequer de lhe estudar a
+natureza, e muito menos de suspeitar-lhe os perigos.
+
+Um dia mostrou-lhe Thomé o retrato da filha. Jorge encontrou n'elle as
+feições que conhecêra infantis, animadas agora pela vida da
+adolescencia. Pareceu-lhe não haver contradicção entre aquella
+physionomia e o caracter que suppozera a Bertha; e a imagem da rapariga
+começou a apparecer-lhe com insistencia nos seus devaneios de rapaz.
+
+Jorge então assustou-se. Sentia pela primeira vez alguma coisa em si, de
+que a razão lhe não dava boas contas. Pareceu-lhe ser aquillo uma
+fraqueza, indigna do seu caracter serio, e resolveu pois vencêl-a.
+
+Desde esse momento principiou uma estranha lucta n'aquella alma, sem que
+apparecessem fóra vestigios que a denunciassem. Sentia um inexprimivel
+prazer ao ouvir fallar de Bertha; e por isso mesmo fugia aos ensejos de
+experimental-o. Esta contenção forçada acabou por produzir no espirito
+de Jorge um effeito singular; foi um grau de irritação, revelado em uma
+especie de hostilidade para com Bertha, cuja imagem viera perturbar-lhe
+a limpidez de coração, que tivera até alli, e fazer-lhe pela primeira
+vez vacillar a razão, que todos n'elle admiravam. Era o caso de poder
+dizer-se, em estylo de conceitos: «queria-lhe mal por lhe querer bem.»
+Receiava-se d'ella, e fazia o possivel para desvanecer a impressão por
+que se sentia dominado.
+
+Taes são as indicações que julgamos dever dar a respeito de Bertha,
+antes de narrarmos o effeito da carta, que d'ella se recebeu na Herdade.
+
+Esta não era uma simples carta de cumprimentos ou d'aquellas, em que a
+filha se estendia em longas conversas com o pae, contando-lhe por miudo
+os singelos episodios da sua vida de rapariga. D'esta vez havia n'ella
+uma nova importante e que ia modificar o plano de vida da familia.
+
+A senhora, em casa de quem Bertha se educava, havia repentinamente
+fallecido.
+
+Bertha escrevia assim ao pae:
+
+
+ «Meu querido pae.
+
+ «Escrevo-lhe a chorar e com o coração a partir-se-me de dôr. A minha
+ madrinha falleceu esta madrugada. Ainda hontem à noite esteve a
+ conversar e a rir comnosco, e tinhamos até combinado para hoje um
+ passeio a Cintra! De madrugada foram acordar-me a toda a pressa para
+ ir ter com a senhora, que estava mal. Cheguei para a vêr expirar;
+ custou-lhe já a dar-me um beijo e a despedir-se de mim. Imagine como
+ estou! Nós todas ficamos como loucas! Ainda isto me parece um sonho!
+ Veja que malfadada senhora! Agora que principiava a viver outra vez
+ mais feliz!... Peço-lhe que me diga o que devo fazer n'este caso. Eu
+ sei que o pae já uma vez fallou em mandar-me para outro colegio, se
+ por acaso me faltasse a minha madrinha. Deixe-me porém lembrar-lhe
+ algumas coisas, e depois decida. Eu não quero dizer que tenha uma
+ educação perfeita; mas, como não conto, nem desejo, viver nas salas
+ d'aqui, posso bem passar sem esses apuros, que para isso me seriam
+ precisos. Muito tem já o pae feito por mim; é preciso agora olhar
+ por meus irmãos, e alguns estão em idade em que ainda podem
+ agradecer-me alguns serviços, que eu ahi consiga fazer-lhes.
+ Mande-me ir. A mãe deve ter muito trabalho em olhar por tudo em
+ casa. É tempo que eu a ajude em alguma coisa. Aos dezoito annos é
+ uma vergonha não o fazer. É uma parte da minha educação que posso
+ concluir ahi e que me será bem necessaria. Demais confesso-lhe que,
+ depois da morte de minha madrinha, havia de custar-me a continuar em
+ Lisboa. Peço-lhe pois que me deixe ir viver comsigo e matar as
+ saudades, que já tenho de todos e de tudo.
+
+ Muitas lembranças á mãe, muitos beijos aos pequenos.
+
+ Sua filha, que espera muito cêdo abraçal-o,
+
+ _Bertha_.
+
+ P.S. Que não esqueça dar muitos recados á Joanna, ao Manoel da Costa
+ e á filha, assim como á tia Euzebia e ás mais pessoas amigas.»
+
+Thomé leu á mulher a carta da filha, e entre ambos discutiram o partido
+que conviria adoptar.
+
+Saudades maternas e paternas, desejos de vêr de perto e abraçar a filha
+dilecta e primogenita, que havia tanto tempo lhes andava longe das
+vistas, o sonhado prazer de a sentir, animando a casa com todo o calor
+de vida que em torno de si diffunde uma rapariga de dezoito annos,
+resolveram a questão no sentido indicado por Bertha; e para assim a
+resolver, quasi bastava que ella o indicasse.
+
+Decidiu-se pois que Bertha voltasse para a Herdade.
+
+D'ahi os necessarios preparativos para a accommodação da filha, cujos
+habitos, modificados pela vida da cidade, deviam ter exigencias, a que
+era justo attender.
+
+O instincto materno adivinhava melhor do que era d'esperar essas miudas
+necessidades, e a liberalidade paterna provia a ellas. E tudo isto
+preoccupava o feliz casal, cujo contentamento se reflectia em criados e
+jornaleiros.
+
+Jorge encontrou uma noite Thomé ainda empenhado n'esta labutação
+caseira, e soube d'elle a causa de tanto alvoroço.
+
+O filho mais velho de D. Luiz ouviu com sobresalto a noticia.
+
+Parecia prever a aproximação d'um perigo, que mal ousava definir.
+
+Dissimulou comtudo o que sentia, e deu a Thomé e a Luiza os parabens
+pela proxima chegada da filha, e até os auxiliou com o seu alvitre na
+resolução de algumas difficuldades, relativas ao arranjo do gabinete
+destinado a Bertha.
+
+Sahiu porém da Herdade debaixo de estranhas impressões moraes.
+Experimentava um mixto de mal definido prazer e ao mesmo tempo de
+desgosto.
+
+Thomé resolvêra ir elle proprio a Lisboa buscar a filha.
+
+Interromperam-se pois, durante alguns dias, as conferencias economicas
+da Herdade.
+
+A demora de Thomé não foi longa.
+
+Pouco mais de oito dias passados, era elle de volta com a Bertha.
+
+Uma tarde vinha Mauricio a cavallo de uma excursão pelos campos, quando,
+ao descer por entre os pinheiros de uma bouça cerrada, viu passar, em um
+curto lanço de estrada, que as entreabertas do arvoredo deixavam
+patentes, o vulto de dois cavalleiros.
+
+Attrahiram-lhe naturalmente a attenção e esperou, para melhor os
+reconhecer, que chegassem a outro lanço mais proximo e mais descoberto
+da estrada que seguiam.
+
+De facto, pouco depois viu que eram um homem e uma senhora, que
+cavalgavam a par.
+
+No homem reconheceu Thomé; a senhora pareceu-lhe nova e elegante.
+
+Em resultado d'esta dupla descoberta dirigiu o cavallo immediatamente
+para elles.
+
+Perto principiou a divisar na dama, que Thomé acompanhava, feições
+conhecidas.
+
+Antes porém que esclarecesse a vaga ideia que aquellas feições lhe iam
+suscitando, o fazendeiro exclamou, saudando-o com a mão:
+
+--Venha dar-me aqui os parabens, snr. Mauricio; venha cá, que me volta
+ao pombal uma pomba que deixei sahir d'elle ha muito tempo.
+
+Mauricio acabou por corroborar a suspeita que já tivera.
+
+Era Bertha a amazona.
+
+Bertha, a pequena aldeã com quem brincára em criança no pateo e na
+quinta da Casa Mourisca, a companheira de sua irmã Beatriz, a afilhada
+de seu pae e a pequenina dama, a quem dedicava já então os seus
+galanteios infantis; era ella, mas com todas as surprendentes e rapidas
+transformações que opéra o sangue da juventude na formosura de criança,
+com todo o realce e prestigio que dá á belleza a educação.
+
+Bertha era uma rapariga de olhos negros e de bôca graciosa, onde
+fluctuava um sorriso expressivo ao mesmo tempo de alegria e de bondade.
+Havia nos movimentos, nos olhares e nos modos d'ella um mixto da candura
+de uma criança e dos delicados instinctos da mulher; reconhecia-se a
+falta de dissimulação, que é propria dos caracteres generosos, e ao
+mesmo tempo uma natural dignidade, que impõe respeito aos menos
+reverentes.
+
+Mauricio sentia-se maravilhado diante da filha de Thomé.
+
+--Bertha!--exclamou elle, sem disfarçar a sua surpreza, nem desviar os
+olhos da rapariga, que o saudára córando.--E é certo que é Bertha!
+Conheço ainda o sorriso, que é o mesmo de outros tempos. Mas que
+differença em tudo o mais!
+
+Bertha desviou os olhos sob a insistencia e expressão dos de Mauricio, e
+dominando a custo a commoção conseguiu dizer:
+
+--Fiz-me mais velha, não é verdade?
+
+--Não, Bertha, fez-se um anjo--acudiu Mauricio.
+
+--Isso é que não--atalhou Thomé--anjo era d'antes. Hoje já não
+repicariam os sinos, se ella morresse.
+
+--A terra teria bem razão para lamentar-se. Ao céo é que competiriam as
+festas--atalhou, galanteando, Mauricio.
+
+--Tambem eu encontro mudança em si, snr. Mauricio--observou
+Bertha.--Quando o deixei, não dizia ainda d'essas coisas.
+
+E a mesma intima turbação tirava-lhe ainda a firmeza á voz e ao olhar.
+
+--Porque não as sentia, Bertha--redarguiu Mauricio.
+
+Bertha abanou a cabeça com ar de duvida e quasi de tristeza, e tornou
+sobresaltada:
+
+--Parece-me que os que melhor dizem d'essas coisas são os que menos
+sentem.
+
+--Tambem lhe ensinaram a desconfiar, Bertha?
+
+--É tão facil ensino! Cada um aprende por si.
+
+--Vamos--interrompeu Thomé--nada de estar parados no meio da estrada.
+Lembra-te, Bertha, de que tua mãe a estas horas não faz outra coisa mais
+do que espreitar da janella a vêr se te vê chegar.
+
+--Vamos lá.
+
+Mauricio dirigiu o cavallo para o lado do de Bertha, que cavalgava assim
+entre o fidalgo e o pae.
+
+--Que saudades me estão fazendo estes sitios!--dizia Bertha, suspirando
+e emquanto corria a vista pelo horisonte, que a rodeava.--Tudo me é tão
+conhecido ainda!
+
+--Lembra-se d'aquelles freixos, lá em baixo, ao descer para os Palheiros
+Queimados?--perguntou Mauricio, apontando para o logar que designava.
+
+--Bem sei. É onde está a fonte da Moira.
+
+--E aonde nós um dia fomos com a Anna do Védor colher agriões. Está
+certa?
+
+--É verdade. E por signal que nos sahiu da quinta do Emigrado um cão
+grande que lá havia, e que se atirou a mim com uma furia!
+
+--E não se lembra de quem lhe acudiu?
+
+--Sim, foi o snr. Mauricio, mas tambem lhe valeu a Anna do Védor, que se
+não fosse ella, vamos, não sei o que seria.
+
+--Ainda assim não impediu que o endiabrado me mordesse no pulso; ainda
+conservo a cicatriz. Olhe.
+
+E Mauricio mostrou o pulso a Bertha, que se curvou para observar o
+vestigio d'aquelle episodio de infancia.
+
+--É verdade--proseguiu Bertha, já mais á vontade--e a boa ti'Anna do
+Védor? que tanto lhes queria, a si e ao snr. Jorge? Sei que vive; mas
+ainda é o que era d'antes? alegre, robusta, franca?...
+
+--Quem? a ti'Anna?!--acudiu Thomé--verás, Bertha, que ainda te parece
+mais nova. Aquillo é que é mulher de casa! É um gosto vêl-a, no meio dos
+campos, de mangas arregaçadas e chapéo de palha na cabeça e de enxada ou
+mangoal na mão. O seu trabalho vale por o de dois homens. Pois n'uma
+eira?
+
+N'este ponto Thomé deu um assobio, que exprimia a grande conta em que
+tinha o trabalho de Anna do Védor.
+
+--O filho está regedor.
+
+--É uma boa e generosa alma--tornou Mauricio, com uma expressão de
+sincera sympatia.--E quer-nos como a filhos.
+
+--Isso quer--confirmou Thomé--quando falla nos seus meninos que trouxe
+ao collo e que sustentou com o seu leite, luzem-lhe os olhos.
+
+--E tambem me ralha com uma severidade!
+
+--Vamos, que ella bem sabe porque o faz. Então pensa que não lhe merece
+ainda mais?
+
+--Não digo que não. Só me queixo de certa parcialidade que manifesta por
+Jorge.
+
+--E como vae o snr. Jorge?--perguntou Bertha.
+
+--Muito bem. Fez-se caixeiro. Não sabe? Atirou-se aos livros e á
+papelada da casa, como um homem, e já não ha de tirar-lhe palavra que
+não seja de contas e de negocios.
+
+--E é um homem ás direitas--disse Thomé, com gravidade.
+
+--Pois sim, mas podia distrahir-se mais um bocado. Mas então? Deu-lhe
+Deus aquelle genio frio como gêlo!...
+
+--Eu não sei lá se é frio ou se é quente. O que sei é que é um rapaz de
+juizo e que, se continuar assim, ha de remediar muita doudice, antiga e
+moderna, que ha lá por casa.
+
+--A moderna é commigo, aposto. Não tem razão. Eu tambem estou decidido a
+trabalhar. Se ainda aqui me vê, a culpa não é minha.
+
+--Então vae partir?--perguntou Bertha.
+
+--Que remedio, Bertha? Cumpro uma dura lei. Deixo o coração por aqui,
+acredite; por esses valles, por essas devezas, por essas ribeiras... Mas
+que lhe hei de fazer?
+
+--E para onde vae?
+
+--Eu sei? Para onde me levar o destino. Mas o Thomé ri-se! Seu pae
+ri-se, Bertha!
+
+--Rio-me da lamuria. Quem o ouvir, ha de acreditar que elle parte
+devéras e que lhe custa immenso a partida.
+
+--E então?
+
+--A mim já me custa a crêr que o snr. Mauricio nos deixe; mas, a isso
+succeder, não ha de ser a chorar que arranjará as malas.
+
+--É injusto com o meu coração. É o que se segue.
+
+--Não, senhor; não sou; mas sei o que é ter vinte annos, e sei o que é
+essa cabeça. E agora o nosso caminho é por aqui. O snr. Mauricio, se
+quizer dar-nos o prazer da sua companhia, tem no fim d'esta rua uma casa
+para o receber, senão...
+
+--Agradecido, Thomé. Outro dia será. Não quero perturbar com a minha
+presença as alegrias de familia. Adeus, Bertha, continuaremos a ser os
+amigos que eramos d'antes, não é verdade?
+
+--Porque não, Mauricio... snr. Mauricio?
+
+E Bertha, com um sorriso de generosa confiança, estendeu a pequena e
+delicada mão á que Mauricio lhe offerecia.
+
+Este, com uma galanteria, que o seculo actual traz quasi esquecida,
+levou-a cavalheirosamente aos labios, movimento que augmentou as côres
+nas faces de Bertha; depois, cortejando-a com perfeita elegancia, partiu
+a galope.
+
+Bertha seguiu-o por muito tempo com os olhos e ficou pensativa, depois
+que o perdeu de vista.
+
+Thomé, que notára tudo isto, não deixou passar muito tempo que não
+admoestasse a filha.
+
+--Olha cá, Bertha, tem cautela com o teu coração, que não vá elle por
+ahi deixar-se prender. Eu não sei como é costume viver-se hoje lá na
+cidade, mas aqui sei o que vae. Eu te digo, não ponhas muita confiança
+n'estas amizades de Mauricio. Não digo que elle seja mau rapaz, mas a
+cabeça é que é assim não sei como. E n'isso mesmo é que está o perigo.
+Aqui ha poucos rapazes que agradem mais do que elle; é bem feito, vivo,
+esperto, generoso... Na tua idade, e com a educação que tens, não era
+para admirar que te agradasses de um rapaz assim. Mas, pensa emquanto é
+tempo, filha, no mal que a ti propria fazias, se estouvadamente te
+deixavas enfeitiçar. Elles são os fidalgos que sabes, e mais fidalgos
+ainda se julgam do que são. Tu, rapariga, és minha filha, e eu sou um
+lavrador, que já servi n'aquella casa. Entendes? Ó Bertha, por quem és,
+não me faças arrepender da educação que te dei. Porque eu, ás vezes,
+tenho minhas duvidas. Digo eu commigo: «Faria eu bem em educar minha
+filha assim? Se a tivesse deixado viver na aldeia e a creasse como filha
+de lavrador, dava-lhe um marido lavrador, e ella havia de estimal-o e de
+ser feliz com elle, e de olhar com amor pelos filhos descalços, que lhe
+andassem pelos campos e apegados á saia de baêta; mas assim... Quem
+poderá costumal-a a isso? Mas que outro marido póde ella escolher?»
+
+Bertha escutou o pae com um sorriso nos labios, mas sorriso que não
+annullava a expressão melancolica e pensativa, que conservavam o resto
+das feições. Mais de uma vez se perturbou ao ouvil-o, mas cêdo adquiriu
+a serenidade habitual.
+
+N'este ponto atalhou-o, dizendo:
+
+--São prudentes os conselhos que me dá. Farei por não os esquecer. Mas
+não se inquiete pela minha sorte. Nunca me deixei illudir pelos bens que
+a sua bondade me teem permittido gozar na vida; não perdi de vista o que
+sou. Sei ao que devo aspirar, e farei por não collocar a felicidade
+muito acima do alcance de meu braço. Na amizade de Mauricio creio que
+não haverá perigos para mim; mas se os houver, hei de saber fugir-lhes.
+Foram meus companheiros, quando brincavamos todos n'aquella casa;
+quero-lhes por isso, mas sei o que d'elles me separa.
+
+--Lá de Jorge nada temas. É um caracter serio aquelle. Se disser que é
+teu amigo, é teu amigo devéras; senão, não t'o diria; mas este...
+
+--Jorge é ainda o que sempre foi. Já em criança era o mesmo. Sempre tão
+serio!
+
+--Agora ainda mais. Elle hoje não pensa senão nos negocios da casa, que
+tomou a seu cuidado e que levará a bom fim. Creio-o. Vem quasi todas as
+noites a nossa casa; vem de noite por causa do pae, porque o velho não
+tem cura, a querer-me mal.
+
+--Sim?! Mas que pena!
+
+--Deixal-o lá, que eu em vingança hei de fazer-lhe o bem que puder.
+
+Poucos momentos depois chegavam a casa o pae e a filha; esta foi
+recebida nos braços da boa Luiza, que a devorou com beijos e a banhou de
+lagrimas generosas; os irmãos pequenos olhavam espantados para Bertha
+que não conheciam, e cujas maneiras de senhora estranhavam. Os criados
+felicitavam-n'a tirando o chapéo e murmurando phrases incompletas.
+
+Bertha no meio d'aquella effusão, d'aquelle cordial acolhimento,
+d'aquelle renascer dos dias passados e despertar de memorias queridas,
+sentia-se feliz.
+
+Debalde Thomé, um dos mais folgados corações alli presentes, bradava que
+era tempo de pôr termo á festa, que cada um tinha a sua vida a tractar,
+e que Bertha precisava de descanço; os abraços succediam-se, os beijos
+estalavam, as perguntas cruzavam-se e interrompiam as respostas em meio.
+
+Prolongou-se por muito tempo aquelle grato alvoroço, que produz a
+chegada de uma pessoa querida. A ordem, a etiqueta, os costumes, tudo
+esquece; a manifestação é ruidosa, irresistivel, desordenada, anarchica.
+Sómente quando principia a acalmar-se este agradavel delirio de alma, é
+que se repara nas irregularidades da scena, e que se remedeiam.
+
+Succedeu d'esta vez que só passada meia hora Luiza notou que tinham
+estado tanto tempo no quinteiro, quando os esperava a sala que ella de
+proposito e tão anticipadamente preparára para a recepção.
+
+A familia recolheu-se então, principiou mais regular e ordenada conversa
+entre mãe e filha, e prolongou-se até tarde.
+
+Thomé foi n'esse dia pouco vigilante nos campos e mais caseiro do que
+era seu costume.
+
+Foram momentos festivos para a Herdade, d'estes que é inutil descrever,
+porque não ha expressões que bem traduzam o que se sente então.
+Suppram-n'as as recordações do leitor; e muito sem conforto deve ter
+sido o seu passado, se não lhe dá elementos para conceber alegrias
+d'estas.
+
+
+
+
+IX
+
+
+Duram pouco as effusões, dissipa-se em breve o enthusiasmo dos primeiros
+instantes, em que tornamos a vêr scenas e pessoas conhecidas, de que por
+muito tempo vivemos separados. A alma, de subito agitada, readquire
+gradualmente a serenidade do costume; e o coração, que julgava saciar
+emfim a ancia de mal definidos gozos em que continuamente vive, conhece
+que ainda não chegou essa hora; porque o invadem de novo as mesmas vagas
+e inquietadoras aspirações que sentia.
+
+É grande a alegria do regresso, mas rapidos os momentos, em que se
+experimenta na sua intensidade. Chegou-se de longe a phantasiar um
+prazer perduravel, sem fim e, apoz as primeiras e irreprimiveis
+expansões, desvanece-se a illusão em que se vinha; como sempre, como em
+toda a parte, o vazio sente-se no coração, que nenhum gozo enche, e ahi
+se volta a aspirar sem saber a quê, e a aguardar uma nova aurora sem
+saber d'onde.
+
+Quando, á noite, Bertha se retirou emfim ao seu antigo quarto, havia já
+satisfeito a sêde de affectos e de saudades, que a devorava, ao chegar.
+
+O coração batia-lhe com o rithmo normal, habituára-se de novo a sua
+sensibilidade aos objectos que lhe foram familiares na infancia; da
+impressão que o primeiro olhar que lançou sobre elles lhe produzira, já
+nem indicios restavam.
+
+O passado, resuscitando, perdêra já o prestigio e a poesia, que só como
+passado tem.
+
+Ó feiticeiras fadas, que nos acompanhaes quando por longe andamos,
+devorados de saudades, a lembrar-nos da terra em que nascemos, porque
+tão depressa nos abandonaes á chegada? Porque dissipaes os vapores
+inebriantes de que rodeaveis aquellas imagens aos nossos olhos
+fascinados, e nos fazeis vêr a realidade como a viamos d'antes?
+
+Bertha, só no remanso e solidão do seu quarto, sentiu uma profunda
+melancolia tomar-lhe o coração. Os cuidados e disvelos de Thomé e de
+Luiza não tinham sido sufficientes para transformar completamente
+aquelle aposento em um d'esses recintos, perfumados e graciosos, em que
+respira, como em atmosphera propria, uma mulher delicada.
+
+A este desconforto relativo não podia ser de todo insensivel a
+organisação feminil de Bertha.
+
+Sem que ella propria tivesse consciencia do que lhe produzia esse
+effeito, sentia-se com uma disposição para lagrimas, que a surprendia.
+
+O socego da hora, o silencio do campo, apenas cortado por uns
+indistinctos murmurios, que são o mysterio das noites campestres,
+conspiravam para augmentar-lhe esta melancolia.
+
+Ha horas assim, em que parece que sentimos confranger-se dentro de nós o
+coração, e o futuro escurecer e contrahir-se o circulo que nos abrange a
+existencia, como um horizonte, que as nuvens pesadas da tempestade
+estreitam cada vez mais a suffocar-nos.
+
+Não accusem Bertha por esta inexplicavel tristeza que lhe invadiu o
+coração na propria noite, em que voltára á casa paterna. Não duvidem por
+isso dos affectos d'aquella amoravel indole de mulher.
+
+Nem todas as almas nascem dotadas da commoda flexibilidade com que
+algumas a tudo se amoldam. Ha-as tão delicadas, que a menor mudança
+resentem.
+
+Os corações que se prendem depressa com raizes onde se demoram, são os
+que mais soffrem nos primeiros momentos de uma transplantação.
+
+Não era isto em Bertha pezar por ser tão modesta a casa dos seus paes; a
+sua tristeza era mais de instincto que de razão. E pelas impressões que
+vem do instincto, ninguem é responsavel; só á razão ha direito de pedir
+contas, e a de Bertha não recearia prestal-as.
+
+Como para fugir á estranha melancolia que a dominava, Bertha chegou á
+janella do quarto, que deitava para os campos.
+
+Ha uma mysteriosa solemnidade no espectaculo que de noite, e noite de
+pouca luz, se goza assim de uma janella aberta, no campo. Ha fóra um
+silencio que amedronta, uma escura vastidão que apavora, silencio que ás
+vezes interrompe o rastejar furtivo de um reptil, o cahir de uma folha,
+e não sei que outros ruidos vagos; escuridão, onde parece distinguir-se
+o movimento de umas fórmas estranhas e monstruosas.
+
+Se vos demoraes silenciosos n'essa contemplação por algum tempo, já não
+a interrompereis por uma palavra, por um movimento, sem que essa
+interrupção vos sobresalte ou intimide quasi. Estremecereis ao ouvir-vos
+no meio d'aquelle silencio. Instinctivamente falla-se baixo. Parece que
+aquella paz, que aquella quietação, que aquella treva nos absorve, que
+nos domina, que nos attrahe e que de alguma maneira nos faz parte
+integrante de si mesma.
+
+Opera-se em nós uma quasi magnetisação. Adormece a sensibilidade que nos
+revela o mundo exterior; exalta-se o espirito; e o ruido, que nos acorda
+d'este sonho, faz-nos estremecer. E o que se pensa calado n'esses
+momentos, Sancto Deus! Como a imaginação vagueia, como parece que
+d'aquellas confusas sombras, que temos diante de nós, nos surjem as
+memorias do passado e veem, em silencioso vôo, adejar sobre as nossas
+cabeças e estontear-nos com as suas rapidas e vertiginosas voltas.
+
+O passado de Bertha era uma singela historia dos mais innocentes
+affectos. Não havia n'ella a intensa luz dos amores, apenas o debil
+clarão da aurora que os precede, essa mysteriosa vibração de alma, que
+sente nascer em si faculdades novas.
+
+Eram pois imagens apraziveis as que n'aquelle momento lhe appareciam.
+
+Entre ellas a mais persistente era a da sua pobre amiga Beatriz, a
+delicada criança, que parecia ter vivido sómente para semear de saudades
+o coração de quantos a conheceram.
+
+Reviviam para Bertha n'aquella hora todas as scenas da infancia passadas
+com ella; os jogos, os folgares e até as lagrimas, choradas em commum.
+
+Que tempos!
+
+E ao lado da meiga e pallida figura de Beatriz surgiam as das outras
+duas crianças, seus irmãos. Via o rosto infantil de Jorge, no qual já
+então havia uns assomos da seriedade do seu caracter futuro; lembrava-se
+Bertha das vezes em que elle tomava um ar grave para admoestar ou
+reprehender os seus mais turbulentos companheiros, e do respeito que
+todos lhe tinham, e do muito em que estimavam a sua opinião; e a
+contrastar com esta serena imagem, esboçava-se a do inquieto, vivo e
+estouvado Mauricio, criança prompta nos risos e no chôro, violenta nas
+expansões, tão amoravel como colerica, e em cujo coração infantil
+ferviam já nascentes as paixões de homem. Era esta talvez de todas a
+imagem que avultava mais distincta nas recordações de Bertha. Que de
+episodios em que ella recebia a luz principal do quadro! Dos dois irmãos
+fôra este o predilecto; o seu coração de criança abrira-se mais á
+franqueza de Mauricio, do que á seriedade de Jorge; havia no olhar
+d'este uma expressão grave que a intimidava. Depois a differença da
+idade concorria para augmentar esse effeito.
+
+E Bertha, pensando n'isto tudo, erguia os olhos para o vulto da Casa
+Mourisca, onde se tinham passado aquellas alegres scenas.
+
+Era escuro todo elle, e parecia alli posto, como um d'estes monstros
+enormes, que guardavam os jardins encantados.
+
+De repente o monstro abriu um olho.
+
+Appareceu uma luz em uma das torres do palacio.
+
+Era a unica que divisava em toda aquella escuridão.
+
+Bertha não pôde mais desviar os olhos d'ella.
+
+De quando em quando, desapparecia momentaneamente a luz, como se alguem
+passeiasse diante. Depois fixou-se, e sómente mais de espaço a espaço se
+eclipsava, para surgir mais viva.
+
+Tudo parecia indicar que se velava alli dentro.
+
+--Será o snr. D. Luiz?--perguntava a si mesmo Bertha, observando a
+luz.--Em que pensará elle a estas horas? Pobre velho, alli só, n'aquella
+casa deserta!... É em Beatriz de certo que pensa como eu... Ou, quem
+sabe? talvez não seja o fidalgo, mas algum dos filhos; Mauricio,
+provavelmente... Sim, alli deve ser o quarto d'elles...
+
+E a imagem do mais novo dos filhos de D. Luiz entrava outra vez no campo
+da visão de Bertha.
+
+As palavras que trocára com elle aquella tarde, a maneira como a olhára,
+e o que o pae depois lhe dissera a respeito do rapaz, tudo a fazia
+reflectir.
+
+Adivinharia Thomé com o seu bom instincto de homem do campo?
+
+Haveria para o coração de Bertha perigos na presença de Mauricio?
+
+Era tão natural! Em uma alma, preparada para o amor, e que, á similhança
+da noiva nos livros sagrados, espera ha muito, perfumada de mirrha e de
+puros aromas, o noivo que tarda; encontra tão facil asylo a imagem de um
+adolescente, como Mauricio, sobre tudo se o rodeia o prestigio das
+saudades de um passado ridente e o vago reflexo que sempre deixam de si
+umas pueris paixões, com que se illudiu a infancia, que razão tinha
+Thomé para receios e razão tinha Bertha para, pensando n'elles, sondar
+com inquieta apprehensão o sanctuario dos seus mais intimos affectos.
+
+Prolongou-se esta contemplação em Bertha, e succederam-se-lhe no
+espirito os mais diversos pensamentos, emquanto os olhos se fixaram na
+luz da Casa Mourisca. Só muito tarde desappareceu subitamente essa luz.
+Bertha, como acordando de um sonho, voltou-se então para o interior do
+quarto, do qual lhe parecia haver andado longe em todo aquelle tempo.
+
+A vela, quasi gasta, que tinha ao lado do leito, mostrava-lhe o muito
+que, sem o sentir, se prolongou aquella sua abstracção.
+
+A vista dos objectos do quarto evocou-a á realidade. Passou as mãos pelo
+rosto, como para desviar de si a sombra dos graves pensamentos que a
+opprimiam, sacudiu a cabeça suspirando, e procurou serenar o espirito,
+para dormir.
+
+--É necessario ter juizo--murmurava ella, soltando as tranças--e soprar
+quanto antes estes nevoeiros que me rodeiam, para vêr, como elle é, o
+sol da realidade. É tempo de me deixar de loucuras, e de aceitar a vida
+que tenho a viver, como ella deve ser aceita por uma mulher como eu. Os
+annos de criança passaram.
+
+E adormeceu n'esta prudente e ajuizada resolução.
+
+Assim como a luz, que, por entre as trevas da noite, rompia de uma das
+janellas da Casa Mourisca, tivera quem a observasse e prendesse a ella
+uma longa serie de pensamentos; tambem a do quarto de Bertha não se
+perdêra no espaço, sem encontrar uns olhos que lhe recolhessem alguns
+raios na passagem.
+
+Jorge era quem velava no unico aposento alumiado do velho solar do
+fidalgo.
+
+Costumava prolongar a sua leitura e os seus estudos por altas horas da
+noite, interrompendo-os de quando em quando por demorados passeios no
+quarto, ou melhor diremos, continuando-os assim.
+
+Era d'elle o vulto que Bertha via passar por diante da luz, occultando-a
+momentaneamente.
+
+Esta noite havia porém mais agitação em Jorge do que lhe era habitual;
+os seus movimentos tinham o que quer que era nervoso e quasi febril;
+concentrava menos o espirito na leitura, e interrompia-a mais
+frequentemente.
+
+As vigilias de Mauricio não eram mais curtas do que as de Jorge, mas
+consagravam-se a differente mister; gastavam-se em aventurosas
+digressões pelos montados e valles da aldeia, em visitas aos solares das
+circumvisinhanças, onde houvesse uma mesa de _wist_ ou um canto de
+fogão, animado pelo sorriso das damas.
+
+Quando voltava a casa, vinha ainda encontrar o irmão estudando, e era de
+costume d'elles passarem alguns momentos a conversar.
+
+N'aquella noite, Mauricio recolheu-se muito tarde. Ao sentil-o, Jorge,
+que passeiava no quarto, sentou-se depressa á banca, e inclinou a cabeça
+sobre um livro que tinha aberto diante de si.
+
+Á entrada de Mauricio, Jorge apenas lhe acenou com a mão, e proseguiu ou
+fingiu que proseguia na leitura que encetára, até terminar a pagina.
+
+--Boas noites, nigromante--saudou-o Mauricio.--A estas horas, n'esta
+torre, á luz mortiça d'um candieiro e com um livro aberto diante de ti,
+representas admiravelmente um astrologo.
+
+Jorge apenas lhe respondeu com um sorriso e continuou a folhear o livro.
+
+Mauricio chegou-se á janella:
+
+--Mas é preciso, de quando em quando, examinar as estrellas tambem. E
+ellas hoje que estão tão scintillantes! Ah! grande novidade no nosso
+firmamento! Graças a Deus que, além de nós, ha já mais alguem na aldeia
+que não dorme a estas horas!
+
+Jorge fechou o livro, e foi ter com o irmão á janella.
+
+--Que queres dizer?--perguntou aproximando-se.
+
+--Que descobri um planeta novo! mais uma luz na aldeia!
+
+--Uma luz?!
+
+--Sim, e é em casa de Thomé.
+
+Jorge fitou a luz com certa curiosidade e conservou-se algum tempo
+calado; depois murmurou:
+
+--Thomé ainda de vela a estas horas! É singular!
+
+--Faz-lhe mais justiça--tornou Mauricio.--Thomé dorme ha boas quatro
+horas. A gente do campo é incapaz do extravagante delicto de
+escandalisar com luz as trevas da noite. N'aquillo percebem-se vestigios
+de habitos cidadãos. Quem vela é a filha, com certeza.
+
+--Ah! sim... Bertha... esquecia-me de que tinha voltado--acudiu Jorge,
+esforçando-se por dizer isto em tom natural e indifferente.
+
+--Voltou, e bem outra do que foi!--advertiu Mauricio.
+
+--Em quê?--perguntou Jorge, olhando para o irmão.
+
+--Foi d'aqui uma criança agradavel, e veio uma encantadora mulher!
+
+--Ah! ah; já notaste?--disse Jorge, com um sorriso contrafeito.
+
+--Digo-te a verdade, Jorge. Parecia-me impossivel, ao vêl-a, que fosse a
+filha do Thomé. Um ar tão delicado, umas maneiras tão distinctas, tão de
+cidade!...
+
+--Olha se te deixas apaixonar por ella; anda lá!--continuou Jorge, ainda
+no mesmo tom.
+
+--Não seria prova de mau gosto, afianço-te. Que superioridade, comparada
+a todas as nossas primas d'estes arredores! O que é a educação!
+
+Jorge encolheu os hombros, dizendo com certo modo irritado:
+
+--Provavelmente não produzirá em mim os mesmos effeitos. Tenho a certeza
+de que hei de sentir saudades, ao vêl-a, da Bertha, que conheci pequena.
+
+--Não duvido, porque és bastante philosopho para isso. Eu por mim
+confesso-te que, na idade em que estou e, apesar de toda a sympathia que
+tenho por crianças, não me sinto com disposições para repetir as
+palavras de Christo, a respeito d'ellas. Eu prefiro que se cheguem para
+mim... as grandes...
+
+--Em vez da criança alegre e innocente--proseguiu Jorge com
+acrimonia--da criança que brincava comnosco e com a nossa pobre Beatriz,
+preferes encontrar a collegial, com o espirito voltado todo para a moda,
+com um pouco de geographia e de historia na cabeça e deixando cahir da
+bôca, quando falla, palavras francezas, como deitava perolas preciosas a
+heroina d'aquelles contos que nos ensinavam em pequenos. E é isto o que
+te encanta?... Pois olha, eu até já não gosto de vêr aberta aquella
+janella a estas horas. Sabe-me aquillo a romanticismo, e é nas raparigas
+uma doença impertinente, insupportavel.
+
+E Jorge retirou-se da janella com um mau humor difficil de explicar.
+
+--Ora! se o facto de uma janella aberta de noite fosse indicio do crime
+que dizes, até tu, o homem menos capaz de commettêl-o que eu conheço,
+poderias ser tambem accusado. Enganas-te; Bertha é realmente adoravel.
+Verás. As mulheres, Jorge, teem isso comsigo. Amoldam-se muito mais
+depressa aos habitos de elegancia do que os homens. Com certeza ninguem
+suspeitará, ao vêr Bertha, a origem aldeã que ella teve. A mim
+parecia-me impossivel que aquella gentil rapariga, que tão airosamente
+cavalgava ao meu lado, fosse a filha de Thomé da Povoa e d'aquella
+excellente Luiza.
+
+--Ah! pois cavalgaste ao lado d'ella? Já?!--notou Jorge, em um tom de
+acerba ironia, que era novo n'elle.
+
+--Sim; encontrei-os na estrada quando chegavam. Não a conheci ao
+principio. Aproximei-me, conversei com ella, achei-a encantadora. E
+depois tinha no olhar tantas promessas!
+
+Jorge deu em passeiar, evidentemente agitado.
+
+--É o que eu digo--murmurava elle com um sorriso nervoso, e continuou:
+
+--Mauricio, Mauricio; cautela! Cuidado com esse galanteio! Póde ser de
+mais sérias consequencias do que as duzias de paixões que tens tido por
+as nossas primas d'estes sitios. Essas o peior resultado a que poderiam
+conduzir-te era a casar com alguma d'ellas e a enxertar assim no tronco
+illustre da nossa arvore genealogica alguma illustrissima vergontea de
+uma sêpa igualmente ante-diluviana.
+
+--Ahi estás tu de novo zombando da nossa aristocracia. Desconheço-te,
+Jorge. Realmente não sei d'onde te veio essa febre democratica e
+philosophica, com que andas ha tempos. Picou-te a mosca revolucionaria.
+
+Jorge acudiu com uma vivacidade, que provavelmente não lhe era inspirada
+pelo assumpto:
+
+--Não sabes d'onde me vem? Vem-me de meia hora de reflexão por dia. É o
+que basta para me rir da fidalguia de toda esta nossa parentela, que se
+deixa devorar por dividas, imaginando que ha em si alguma coisa que
+resista á sua inutil ociosidade; e que hão de ficar muito admirados
+quando, ao receberem um dia esmola da mulher do seu rendeiro, esta os
+não tractar por fidalgos, nem lhes agradecer a honraria de aceital-a.
+
+Outro menos despreoccupado do que Mauricio desconfiaria que na
+vehemencia com que Jorge fulminava a incuria aristocratica, havia muito
+de facticio; como se procurasse desviar a attenção do verdadeiro motivo
+do seu estado nervoso.
+
+--Não estou disposto a discutir a legitimidade das pretenções
+aristocraticas. Deixemos isso. Dizias tu que fugisse de me apaixonar por
+Bertha. Reconheço a prudencia do conselho. Porque é certo que ha
+n'aquella rapariga um não sei quê tão superior ao que por ahi vejo que,
+se eu não tivesse de deixar dentro em pouco tempo estes sitios, para...
+arranjar um modo de vida... não juro que pudesse ser indifferente
+áquelles encantos. Demais ha entre nós recordações de infancia e quer
+parecer-me que ella ainda as não esqueceu.
+
+Jorge, sem responder, continuava a passeiar no quarto.
+
+--Mas aquella luz não me sahe do pensamento--proseguiu Mauricio.--Que
+estará fazendo a pobre rapariga a estas horas da noite? Não te parece
+que está alguem á janella?
+
+--Mal se póde divisar atravez das folhas d'esses castanheiros; mas julgo
+que sim.
+
+--Pobre pequena! Alli, só, n'esta aldeia. Está scismando em como poderão
+ter realidade as vagas aspirações do seu coração.
+
+Jorge sorriu, e acrescentou com sarcasmo:
+
+--Ou de que maneira ha de corresponder-se com algum Romeu collegial, que
+deixou suspirando em Lisboa.
+
+--Estás insupportavel, Jorge.
+
+--Uma experiencia!--exclamou, passados alguns momentos de silencio,
+Jorge, voltando á janella, onde permanecia ainda Mauricio.--Tu estás
+dando tractos á imaginação para adivinhares qual será o pensamento de
+Bertha. Eu aventuro uma supposição. Assim como nós vimos aquella luz,
+ella vê esta, e talvez a nossa sombra na janella. É natural que supponha
+que para alli dirigimos as vistas, e muito provavel que adivinhe que
+fallamos d'ella. Sabendo-se observada, não ousa apagar a luz, por querer
+mostrar que tambem prolonga as suas _rêveries_ por noite alta.
+
+--Ora! deixa-me com as tuas observações!
+
+--Queres verificar? Apaguemos a luz e veremos o resultado.
+
+Mauricio condescendeu.
+
+A unica janella alumiada da Casa Mourisca envolveu-se nas trevas da
+noite.
+
+Como o leitor já sabe, Bertha, por um motivo differente do insinuado por
+Jorge, apagou tambem pouco depois a luz do seu quarto.
+
+--Eu que dizia?--exclamou Jorge, rindo triumphantemente, mas como se
+aquelle rir lhe fizesse mal.
+
+--Pois bem; se adivinhaste, tanto melhor--disse Mauricio, despeitado.
+
+--Tanto melhor?!
+
+--Sim. Porque não hei de eu vêr, n'este proposito de acompanhar a nossa
+vigilia, uma prova de sympathia pelo companheiro de infancia que hoje
+tornou a vêr?
+
+--Ah! ah! Pensas n'isso?
+
+--Porque não? Olha, Jorge, a mulher sem as fraquezas do coração proprias
+do sexo não é uma mulher perfeita. Eu, se visse anjos cá por este mundo,
+anjos puros, correctos, impeccaveis; tirava-lhes reverente o chapéo,
+benzia-me diante d'elles, rezava-lhes uma oração, mas afianço-te que não
+os amava.
+
+--Boa noite, Mauricio. Olha que são duas horas.
+
+--Adeus, Jorge.
+
+--Não sonhes com Bertha.
+
+--Não sonhes tu com a arithmetica, que é peior pesadêlo.
+
+E os dois irmãos separaram-se, rindo.
+
+A ambos dominou por muito tempo a imagem de Bertha.
+
+Jorge passou uma noite febril. Tentava desfavorecer Bertha, quanto
+podia, no proprio conceito, esforçando-se por convencer-se de tudo
+quanto a respeito d'ella dissera ao irmão, para diminuir assim a
+impressão, que, a seu pesar, conservava ainda da imagem da rapariga.
+
+Mauricio dera-lhe a entender que Bertha fôra sensivel ao seu galanteio,
+e esta ideia torturava o espirito de Jorge.
+
+Pela sua parte, Mauricio tanto lidou com a supposição de que a vigilia
+de Bertha lhe fôra consagrada, que adormeceu firmemente convencido disso
+e sonhou... sonhou... Oh! quem póde exprimir o longo romance dos sonhos
+de um rapaz aos vinte annos e quando possue uma imaginação como a de
+Mauricio!
+
+
+
+
+X
+
+
+Bertha acordou firme no proposito que formára na vespera, de aceitar com
+coragem de mulher as suas novas condições de vida, e de entregar-se de
+alma e vontade ao cumprimento dos deveres domesticos, soffreando para
+isso a indocil imaginação de rapariga.
+
+Mauricio, pelo contrario, estreiou os seus pensamentos d'aquelle dia,
+avivando tudo quanto pudesse fazer-lhe lembrar de Bertha, e formando a
+resolução de vêl-a e de fallar-lhe.
+
+Jorge levantou-se cêdo, um tanto fatigado pelo inquieto somno d'aquella
+noite, e procurou distrahir-se, estudando uma questão agronomica, em que
+meditava havia muitos dias.
+
+Veremos o que as diversas disposições de animo d'estes tres personagens
+deram de si no decurso do dia.
+
+O aspecto risonho da manhã dissipou as nuvens, que de noite se haviam
+accumulado sobre o espirito de Bertha. Já lhe parecia, áquella suave e
+vivificadora luz, mais risonha a sua sorte, e não podia perdoar a si
+mesma a vaga tristeza que sentira. Auxiliando a mãe nas occupações
+domesticas, encontrava n'isso uma distracção poderosa e quasi um intimo
+prazer. As caricias dos irmãos commoviam-n'a, e foi já com desassombrada
+alegria que, tomando um d'elles ao collo e dando a mão ao outro,
+atravessou os campos cultivados, os vinhedos e os lameiros da Herdade, e
+foi sentar-se no limite d'ella, junto a uma fonte rustica meia occulta
+entre a sebe de rozeiras e estevas, que separava do caminho aquella
+parte do casal. E como lhe causava prazer sentir-se humedecida pelo
+orvalho, que ainda poisava nos trevos e nas fumarias do chão, e cahia em
+gotas limpidas dos cumes das arvores sacudidas na passagem!
+
+Os irmãos corriam a trazer-lhe as rozas e as mais flôres campestres que
+iam colher, saltando por entre as searas e nos caminhos de passagem, e
+ella entretinha-se a ajuntal-as em pequenos ramos, com que os
+presenteava depois.
+
+Entregue toda a esta tarefa, sentia-se tão do intimo contente, que se
+pôz a cantar a meia voz a musica de uma cantiga em voga no sitio.
+
+Pareceu-lhe por mais de uma vez ouvir rumor nas balseiras visinhas, mas
+julgou-o produzido por algum passaro, agitando-se no ninho occulto nos
+silvados, e não lhe deu maior attenção.
+
+D'uma vez porém, em que os irmãos corriam para ella com uma regaçada de
+flôres, viu-os de repente pararem enleiados e olharem para a sebe que a
+separava da rua proxima. Bertha voltou-se na direcção d'aquelle olhar, e
+descobriu Mauricio, que, por uma entreaberta das silvas, a estava
+observando.
+
+A filha de Thomé da Povoa levantou-se sobresaltada; e sem poder occultar
+de todo a confusão que experimentava com o inesperado encontro,
+interrogou sorrindo:
+
+--Estava ahi ha muito?
+
+--Ha alguns momentos, ao que me parece.
+
+--A fazer o quê?
+
+--A vêl-a e a ouvil-a.
+
+--Com tão pouco se entretem!
+
+--Então parece-lhe que não será novo para mim o espectaculo?
+
+--Novo?! Um campo, uma fonte e umas crianças? Ora essa!
+
+--Enumerou os accessorios, e esqueceu-lhe a figura principal, e n'essa é
+que está a novidade. Se a Bertha soubesse que genero de figuras
+femininas por ahi se me deparam, n'essas bonitas paisagens d'este nosso
+bello paiz?
+
+--É muito injusto com as suas patricias.
+
+--Oh! não as lisongeie.
+
+--N'isso interesso eu tambem, bem vê.
+
+--Poupe-lhes a humilhação de comparar-se com ellas, Bertha. Creia que,
+indo educar-se a Lisboa, foi para onde a chamavam os instinctos de sua
+natureza superior. Seu pae, julgando tomar uma resolução espontanea, ao
+mandal-a para a capital, obedeceu, sem o saber, a uma força occulta que
+assim o exigia. O seu espirito estava voando para as cidades, onde
+sómente encontrava ambiente apropriado.
+
+--Engana-se; vê? Achava-me desterrada alli até, e, desde que voltei,
+sinto um bem-estar, que me prova que é esta a minha verdadeira patria,
+que estes são os ares, em que respiro á vontade.
+
+--Esse bem-estar não tardará que se transforme em fastio.
+
+--Não, não, não creio.
+
+--Eu é que não creio que possa dar-se bem aqui, privada de satisfazer as
+aspirações naturaes a um espirito como o seu.
+
+--Mas, ó meu Deus, que qualidade de espirito me suppõe então? Que
+aspirações são essas que diz?
+
+--Ora para que finge ignoral-as? Acaso, diga, a satisfaria a vida da
+immensa maioria das tres ou quatro mil pessoas d'este concelho?
+
+--E espero que ha de satisfazer-me.
+
+--E que ha de fazer da sua imaginação? Sim, que ha de fazer d'isto que
+se sente na nossa idade, quando se não nasceu Manoel do Portello, ou
+Maria da Azenha?
+
+--Perdão, será por eu ter nascido simplesmente Bertha da Povoa, que não
+me incommódo com isso.
+
+--Não me entendeu, Bertha. Não havia nas minhas palavras a menor
+baforada aristocratica; d'essa ridicula mania não padeço eu, graças a
+Deus. D'entre os preclaros membros das casas fidalgas d'estes arredores,
+posso assegurar que, apesar dos sete ou oito nomes, com que cada um se
+assigna, nenhum experimenta isto que eu dizia. Mas Bertha...
+
+--Olhe, snr. Mauricio. Fallo-lhe com franqueza. Não me supponha o que eu
+não sou, ou então não diga o que não sente. Acredite; as minhas
+aspirações são tão leves, tão realisaveis! Satisfazem-se com estes
+cuidados caseiros; e fóra d'isto, não me sinto bem. Para fazer a vontade
+a meu pae, segui a educação que elle desejou que seguisse; mas nunca
+senti prazer n'isso; nunca morreram em mim as saudades do campo e dos
+trabalhos aldeãos...
+
+--Acredito que hoje aprecie melhor a aldeia, porque tem já sentidos
+educados para a poesia que ella rescende.
+
+--A poesia!--repetiu Bertha, com um forçado gesto de desdem, encolhendo
+os hombros.
+
+Mauricio percebeu-o.
+
+--Ri-se?--interrogou elle.
+
+--É que ouço fallar ha tanto n'isso, e se quer que lhe falle a verdade,
+ainda não pude saber bem o que seja.
+
+--Não sabe o que é a poesia?!
+
+--A que se escreve nos livros sei, mas fóra d'ahi...--disse Bertha,
+simulando um tom de completa ingenuidade.
+
+A chegada das crianças, pedindo á irmã que as conduzisse a casa,
+interrompeu n'este ponto o dialogo. Bertha despediu-se amigavelmente de
+Mauricio, que por muito tempo a seguiu com a vista.
+
+--Será possivel que eu me engane?--pensava elle.--Será a final de contas
+uma mulher vulgar, capaz de continuar as prosaicas tradições da familia?
+Não creio. Antes é astuciosa e dissimulada. N'esta apparente singeleza
+de gostos ha muito espirito escondido. E, ou eu me engano muito, ou não
+é indifferença o que ella sente, quando me falla.
+
+E sahiu d'alli, trabalhando n'estes pensamentos.
+
+Bertha, rindo e brincando com os irmãos, pensava tambem:
+
+--Parece-me que alguma coisa conseguiria. É preciso desvial-o d'este
+proposito; é preciso que elle se enfastie d'este galanteio; que me
+aborreça. Hei de fazer-me bem vulgar, bem ignorante, incapaz de sentir e
+de entendêl-o. Que eu não posso ficar pelo meu coração, que ainda não
+experimentei. Antes quero evitar o ensejo, antes quero não luctar.
+Chamam-me uma rapariga de juizo. Não sei, não sei se o sou, não o posso
+saber nem quero. Ás vezes... desconfio de mim... receio... assusto-me.
+Sentia-me mais animosa d'antes. Parecia-me tão facil dominar-me!...
+Hoje... Não quero, não quero tentar; não quero expôr a tranquillidade do
+meu coração. Eu não me sinto senhora de mim mesma, quando elle me falla.
+É preciso acabar com isto, antes que augmente.
+
+O dia passou sem outro episodio para Bertha, além da visita de algumas
+relações da familia, que vinham festejar a chegada da primogenita do
+venturoso casal.
+
+Bertha conseguiu ser amavel com todos, apesar das impertinencias com que
+a interrogavam sobre as particularidades da sua vida na cidade.
+
+Luiza não se fartava de admirar as maneiras e a eloquencia da filha, e
+não fazia senão alternar a vista entre o rosto de Bertha, que tão grata
+perspectiva era para o seu amor de mãe, e o dos seus interlocutores,
+onde espiava o reflexo da admiração, de que ella propria se sentia
+possuida.
+
+Assim correu o dia.
+
+O principio da noite foi consagrado á familia. Então é que chegou a vez
+a Thomé de perguntar, de querer saber, de fazer reflexões sobre o que
+ouvia; e Luiza, a sancta mulher, muitas vezes a responder por a filha,
+como quem já se achava mais adiantada em conhecimentos do que o marido.
+
+Era já um pouco tarde e Thomé admirava-se da demora de Jorge, a quem
+mandára aviso para que viesse aquella noite, porque tinha que
+communicar-lhe a respeito de negocios que tractára no Porto e Lisboa.
+Ouviu-se porém o ladrar dos cães no quinteiro, o som da aldraba no
+portão e em seguida passos no lagedo das escadas, que conduziam ao
+patamar.
+
+--Ahi vem o snr. Jorge--disse Luiza para o homem.--Conheço-o já pelo
+andar.
+
+--É elle, é; e temos hoje bastante que fallar.
+
+--Eu vou accender o candieiro no quarto--acrescentou Luiza, que sahiu a
+preparar a sala das conferencias.
+
+Pouco depois Jorge apparecia na sala, em que ficára Thomé com a filha.
+
+Jorge não era superior a uma occulta commoção, ao entrar alli. Ia
+encontrar-se com Bertha. O momento, de que vagamente se temia, chegára
+emfim. Achava-se em frente do perigo desconhecido, de que sentia intimas
+apprehensões. Era tão forte a sua turbação, que lhe tremiam as pernas ao
+transpôr a porta da sala.
+
+Na presença de Bertha, Jorge lançou para ella um olhar rapido, mas
+penetrante, e desviou-o logo. O espirito não serenou com o resultado
+d'esse primeiro exame.
+
+Jorge reconheceu que o perigo, que tanto temia, era real.
+
+Bertha, prevenida como estava a respeito do genio de Jorge, tão
+differente do do irmão, acolheu-o com mais franqueza e menos precauções
+do que tivera com Mauricio. Contra Jorge não precisava de acautelar o
+coração.
+
+O cumprimento de Jorge foi serio e quasi frio, sem um vislumbre de
+galanteio, que se parecesse com as finezas de Mauricio. Apenas disse,
+quasi sem olhar para Bertha:
+
+--Bem vinda, Bertha; estimo vêl-a restituida aos seus. Espero que ainda
+se lembre de um antigo conhecido.
+
+--Não costumo esquecer-me, snr. Jorge--respondeu Bertha, sem poder
+deixar de examinal-o com curiosidade.
+
+Jorge proseguiu no mesmo tom:
+
+--Dizem que se aprende depressa a esquecer nas cidades. Mas quero
+acreditar que a sua memoria desmentirá o dito. E que lhe parece agora
+esta terra?
+
+E Jorge, fazendo a pergunta, quiz fitar os olhos em Bertha, mas
+desviou-os ao encontrar os d'ella.
+
+--A mesma que deixei--respondeu Bertha--a aldeia guarda melhor as
+memorias do passado, do que a cidade. Vivem-se annos longe d'ella, e na
+volta parece que as mesmas arvores e as mesmas flôres, que nos
+despediram, nos dão as boas vindas outra vez. Se alguma mudança ha é nas
+pessoas.
+
+--Encontrou mudança n'essas?
+
+E Jorge tentou de novo, mas sem melhor resultado, fitar os olhos em
+Bertha.
+
+--Nem podia deixar de ser--tornou esta--para nós não ha estações; as
+folhas que vão cahindo, não vem primavera renoval-as.
+
+Jorge pôz-se a folhear, com apparente distracção, um livro que encontrou
+sobre a mesa; e a fronte contrahiu-se-lhe levemente, como se tivesse
+ouvido alguma coisa que lhe desagradasse.
+
+Bertha continuou fallando-lhe sem constrangimento e olhando-o com a
+curiosidade que despertava naturalmente no seu espirito de rapariga
+aquelle caracter serio de rapaz.
+
+Thomé propôz a Jorge principiarem os seus trabalhos.
+
+Bertha despediu-se d'elles, e foi ter com a mãe.
+
+--Então que lhe parece a minha rapariga, snr. Jorge?--perguntou o
+enlevado Thomé.
+
+Jorge articulou uma pouco intelligivel phrase de louvor.
+
+--Olhe o que é a educação--insistiu Thomé.--Quem ha de dizer que foi
+nascida e creada aqui, n'este palheiro e no tempo em que elle era ainda
+um pouco peior do que hoje?!
+
+--Ah! sim... a educação... vale muito, mas é preciso que os dotes
+naturaes a auxiliem--murmurou Jorge, como se lhe causasse repugnancia o
+assumpto da conversa.
+
+--Sim; tambem me parece que se a pequena não tivesse quéda... Mas o que
+ella sabe! o que ella leu! o que ella aprendeu! É d'uma pessoa ficar a
+ouvil-a uma noite e um dia inteiros, sem querer saber de mais nada!
+
+Um ligeiro sorriso, não de todo despido de ironia, encrespou os labios a
+Jorge, que nada respondeu d'esta vez.
+
+Thomé interpretou o silencio do rapaz como uma manifestação dos seus
+desejos de entrar no exame das contas e documentos, que tinham para vêr
+aquella noite, e por isso abriu a sessão.
+
+Antes porém teve de ir em procura de uns papeis necessarios.
+
+Jorge ficou só por um instante, e deu alguns passeios no quarto.
+Aproximando-se de uma mesa que estava proxima da janella, pegou
+machinalmente na obra de costura, ahi deixada por Bertha, mas logo a
+arrojou de si com impaciencia; depois abriu um livro, que, pelo aspecto
+elegante da encadernação, conhecia-se pertencer tambem á filha de Thomé.
+
+Era um exemplar do poetico idyllio de Saint-Pierre, da historia dos
+amores de Paulo e Virginia.
+
+Jorge pousou-o sobre a mesa, e voltou-lhe aos labios o mesmo estranho
+sorriso, que mais d'uma vez lh'os contrahira n'aquella noite.
+
+--Lê romances--murmurava elle.--A estas horas phantasia-se a heroina de
+algum. Está apaixonada por o typo que mais lhe agradou, e busca pelo
+mundo a realisação d'esse ideal. A final é o que eu digo. É como as
+outras. É uma rapariga da moda, pretenciosa, romantica e um pouco
+pedante... É o resultado do systema de Thomé... Fazer viver estas
+mulheres em um mundo de phantasia, e trazêl-as depois para a realidade,
+que lhes ha de parecer insupportavel!... Triste methodo de formar
+esposas e mães!
+
+E ao pensar isto, sentia uma amargura, uma irritação, que elle proprio
+não podia justificar.
+
+Depois proseguiu, com crescente malignidade:
+
+--E quem sabe?... Este livro deixado aqui? Seria esquecimento ou
+proposito? É natural o desejo de ostentar a sciencia e cultura de
+espirito adquiridas no collegio, e ha tão pouca gente no caso de as
+apreciar n'esta aldeia, que não admiro que seja eu um dos eleitos.
+Emfim, são vaidades de rapariga; e peccado venial para que se deve ser
+indulgente. E demais que tenho eu com isso?... Mauricio que averigue, se
+quizer. Está no gosto d'elle...
+
+Thomé voltou, e minutos depois estavam ambos em plena conferencia. Notou
+comtudo o lavrador aquella noite, que Jorge mostrava-se muito mais
+desattento do que de costume.
+
+No meio dos seus exames, distrahiu-os uma voz melodiosa que, em outro
+aposento da casa, cantava em tom de acalentar crianças:
+
+ Quando uma criança dorme,
+ Veem os anjos a sorrir
+ Abrir as portas do céo,
+ Para Deus as vêr dormir.
+
+--Escute--disse Thomé, apurando o ouvido--é a minha Bertha a adormecer o
+irmão.
+
+E Thomé pôz-se a escutar, com fervor paternal.
+
+Jorge, a seu pesar, experimentava um suave encanto ao ouvir aquella voz
+juvenil, que continuava cantando:
+
+E um d'elles á terra desce Junto do berço a velar Para longe do menino
+Os sonhos maus afastar.
+
+--Então? Não tem uma linda voz a rapariga?--continuava Thomé, olhando
+para Jorge, que não respondeu.
+
+A voz continuou:
+
+ Dorme, dorme, meu menino,
+ Que é alegre o somno teu.
+ E emquanto na terra dormes
+ Folgam os anjos do céo.
+
+Jorge escutava com mais prazer, do que a si mesmo quereria confessar, o
+canto que lhe chegava aos ouvidos n'aquella monotona e melancolica
+melopêa de todas as musicas destinadas a acalentar o somno das crianças.
+
+Thomé, esse estava verdadeiramente extasiado. A voz da filha parecia
+encontrar um caminho direito para o coração d'aquelle pae extremoso, e
+commovêl-o quasi a ponto de lhe ennevoar os olhos com lagrimas
+consoladoras.
+
+Quando expiraram as ultimas notas do canto, Jorge levantou-se.
+
+Era tarde já e mais que tempo de dar por concluida a conferencia; mas
+n'este movimento de Jorge actuára uma outra ideia.
+
+Elle proprio estranhava o que ia na sua alma n'aquelle momento.
+Revoltava-se contra si mesmo, porque se sentia fraco perante os
+artificios de uma mulher, contra a qual devia estar precavido; Jorge
+suppunha-se persuadido de que Bertha aproveitára de proposito o ensejo
+de fazer-se ouvir e de mostrar os encantos da sua voz agradavel e
+sonora; tactica vaidosa que muito escandalisava o caracter sisudo do
+rapaz. Mas o peior era dizer-lhe a consciencia que, mau grado seu, a
+tactica tivera effeito. A prevenção hostil, de que á força queria
+armar-se, não era talisman bastante forte para o livrar de encantamento.
+
+Isto principalmente o indignava, sem a si proprio o confessar. Sentia-se
+sob o influxo de uma magia, que pensava funesta, mas, como succede
+quando em sonhos procuramos fugir a um perigo que nos persegue,
+annullava-se o esforço que fazia para quebral-o, e a seu pezar
+permanecia no perigo.
+
+Desconhecia-se, sentia uma turbação indefinivel, parecia-lhe que o ar
+livre lhe seria salutar. Por isso levantou-se e sahiu. Ao passarem em um
+corredor, que conduzia para o exterior da casa, abriu-se a porta de um
+quarto, meio alumiado por a froixa luz de uma lamparina, que ardia junto
+do berço de uma criança, e por o espaço entreaberto appareceu a figura
+de Bertha, com o cabello já meio despenteado e solto, e tendo nos labios
+o mais suave e affectuoso sorriso.
+
+--Boa noite, snr. Jorge--disse ella, estendendo-lhe a mão, com uma
+expressão de voz cheia de cordial franqueza.
+
+Jorge estremeceu áquella vista inesperada, mas, dominando-se,
+correspondeu ao cumprimento, apertando-lhe a mão:
+
+--Adeus; boa noite, Bertha.
+
+--Então o pequeno já dorme?--perguntou Thomé da Povoa, procurando sondar
+com a vista a meia claridade do quarto.
+
+--Psiu!--disse a filha, pondo um dedo nos labios--socegou por fim.
+Trouxe-o para o meu quarto, porque não deixava dormir a mãe. Boa noite,
+meu pae.
+
+E tomando a mão do lavrador, beijou-a com affecto.
+
+--Deus te faça feliz, minha filha--tornou-lhe este, exultando com
+aquella simples acção.
+
+E os dois seguiram, cerrando-se logo atraz d'elles a porta dos aposentos
+de Bertha e ouvindo-se correr docemente a chave na fechadura.
+
+Jorge, ao vêr-se na rua, aspirou com violencia o ar fresco da noite,
+como para libertar-se de uma oppressão que o angustiava. Descobriu a
+fronte e seguiu agitado pelos difficeis caminhos que iam d'alli até á
+Casa Mourisca.
+
+--Eu estou doido!--murmurou elle--que tenho eu com esta rapariga? Era o
+que me faltava! que me entrasse na cabeça uma doidice d'estas! Estou
+vendo que não é tão facil ter juizo, como suppunha. Se isto fosse com
+Mauricio não admirava! E então uma criança de collegio... provavelmente
+estouvada... Ora adeus! Veremos se isto me passa dormindo.
+
+Mas, era singular! aquella rapida vista, insinuada por entre a porta
+meia aberta do gabinete castissimo, em que dormia uma criança á meia luz
+da lamparina, e aquella gentil figura de mulher, collocada á entrada,
+com um dedo nos labios e no rosto um ar de solicitude quasi maternal,
+não se lhe tiravam da ideia. Era como a visão de um paraizo que sonhára.
+
+Quando Mauricio, voltando de um baile dado por um proprietario visinho,
+entrou no quarto de Jorge, encontrou este, contra o seu costume, sentado
+proximo da janella, com a cabeça sobre o braço dobrado, que repoisava no
+peitoril, e tão absorto, que quasi não deu pela aproximação do irmão.
+
+Mauricio parou diante d'elle admirado, e interpellou-o:
+
+--Que fazes ahi?
+
+Jorge sobresaltou-se, e respondeu sorrindo:
+
+--Julgo que dormia.
+
+--N'esse caso farei outra pergunta--que vieste para ahi fazer?
+
+--Tinha calor... cancei-me de lêr... vim tomar ar. Ha um instante.
+
+--Ha um instante? Não diz isso aquella luz, que parece de casa
+mortuaria. Nada haveria mais natural do que tudo isso, se fosse com
+outro; porém em ti é para estranhar a menor irregularidade de habitos.
+
+--Tambem eu me estranho. É certo porém que esta noite não me sinto
+disposto para estudar.
+
+--Pois aproveita essas felizes disposições, e descança, descança. Que
+diabo! Parece-me que dás á administração da nossa casa mais importancia
+do que ella merece. A final de contas sempre é tarefa que o frei
+Januario fez durante annos. Se soubesses como a noite está agradavel!
+Não esteve de todo má a partida em casa dos Curujães.
+
+--Ah! vens de lá?--inquiriu Jorge, com indifferença.
+
+--Venho, sim. Bastante gente. Venancio cada vez mais parvo. A D. Anna
+cantando a _Norma_ da maneira que sabemos. A Ermelinda do Nogueiral, com
+a cabeça cheia de fitas, parecia um navio embandeirado; os pequenos do
+Antonio Rodrigo estavam perdidos de riso. Quem não está feia é a Dôres,
+a pequenita do João Tavares; dois mezes que passem mais por aquella
+infancia e estará alli uma bella mulher. Mas que noite tão sombria! Nem
+a luz de hontem em casa do Thomé! Hoje nem Bertha nos faz companhia.
+Sirva-lhe isto para desconto dos grandes peccados de que a accusas. Está
+provado que a vigilia de hontem foi consagrada á prosaica tarefa de
+arrumar as suas coisas pelas gavetas e bahus. É verdade, já a viste?...
+
+--Não... Já.
+
+--Não? Já? Que diabo de distracção é essa? E que te pareceu?
+
+Jorge esteve algum tempo antes de responder:
+
+--Bem.
+
+--Tão sêcamente bem? Devéras?!
+
+--Então que queres que te diga? Sabes que não tenho o teu genio, para
+esgotar a minha eloquencia diante da primeira figura de mulher que me
+appareça.
+
+--E a respeito das tuas prevenções?
+
+--Nada pude decidir.
+
+--Pois eu já decidi. Acho-a cada vez mais adoravel.
+
+--Ah!
+
+--Sabes que estive com ella esta manhã?
+
+--Sim?! Hum!--disse Jorge com evidente constrangimento.
+
+--É verdade. Fallei-lhe e, já se sabe, não me descuidei de advogar a
+minha causa.
+
+--Ah! sim? E então?...
+
+--E então..., apesar de uma certa esquivança nas respostas que obtive,
+quer-me parecer que não tenho razão de queixa.
+
+--Bem, bem.
+
+--Emfim, certas recordações de infancia... como sabes...
+
+--Ah! ella recorda-se da infancia?
+
+--Ora, como queres que ella se não recorde?
+
+--Sim, é natural--concordou Jorge, fingindo bocejar, mas com suspeitas
+contracções nervosas.
+
+E estendendo subitamente a mão ao irmão, acrescentou:
+
+--Boa noite, Mauricio. É tarde e eu tenho somno. Adeus.
+
+E de facto Jorge deitou-se, deixando em paz os livros, mais cedo do que
+costumava. Se dormiu é que não sabemos.
+
+Mauricio dormiu com certeza melhor do que elle.
+
+Embalava-o a vaidosa persuasão de que havia impressionado Bertha. Tinha
+Mauricio este defeito de suppôr que eram promptas e profundas as
+impressões que produzia no animo das mulheres. Defeito este vulgar, e
+que ainda não é dos que dão de si mais serias consequencias.
+
+
+
+
+XI
+
+
+Pela manhã do dia seguinte recebeu Jorge um recado do pae, para ir
+fallar-lhe.
+
+Apressou-se em obedecer. Foi encontrar D. Luiz a passeiar no quarto, e
+manifestamente irritado. Vendo entrar o filho, mostrou-lhe uma carta
+aberta, que estava em cima da mesa.
+
+--Ah! É da prima?--exclamou Jorge, depois de examinar a
+assignatura.--Finalmente escreveu!
+
+--Podia dispensar-se de o fazer--resmungou o fidalgo e proseguiu:
+
+--Parece-me que não foste muito feliz na lembrança de bater a essa
+porta.
+
+--Então?!
+
+--Lê e verás.
+
+Jorge leu, a meia voz, a carta que era concebida n'estes termos:
+
+ «Meu bom tio.
+
+ Tive, ao voltar a Lisboa de uma visita á Hespanha, a mais agradavel
+ surpreza. Recebi, emfim, uma carta sua! A singularidade do facto não
+ me inhabilitou para sentir no maior grau uma salutar alegria.
+ Cuidava que me tinham esquecido. Convenci-me agora de que felizmente
+ me enganára. Lisongeou-me ainda o vêr que o meu bom tio se dirigia a
+ mim, para me pedir conselho! Claro estava que já não era no seu
+ conceito aquella doidivanas de outros tempos. Ainda bem que me faz
+ um poucochinho de justiça. Não se arrependa; effectivamente hoje
+ estou mais ajuizada. O meu caracter de viuva dá-me um ar de
+ respeitabilidade, que vae muito bem com os meus vestidos escuros,
+ nos quaes a garridice não ultrapassa ainda os limites do roixo. Mas
+ devo confessar-lhe que me incumbe de uma espinhosa tarefa! Descobrir
+ a carreira mais adequada ao nosso caro Mauricio, que deve ser a
+ estas horas um bonito e elegante rapaz, mas com tanto que,
+ acrescenta o meu querido tio, «elle não seja obrigado a _transigir_
+ com as ideias do seculo», é devéras uma missão difficil e para
+ melhor engenho do que o meu. Principio por não saber bem quaes são
+ as taes ideias do seculo, com que o priminho Mauricio não deve
+ transigir. Eu, que sou a pessoa mais transigente d'este mundo, não
+ posso assim de repente saber quaes são aquelles principios, com que
+ os meus primos são incompativeis, ou que são incompativeis com os
+ meus primos. Depois ha tantas ideias remoçadas, que passam por
+ novas, que já não é facil distinguir quaes são as do seculo e quaes
+ não são. E deixe-me dizer-lhe, meu bom tio, que ha uma certa ordem
+ de coisas, com que provavelmente, na sua opinião, Mauricio não deve
+ transigir, mas sem transigir com as quaes não se dá hoje n'este
+ mundo um passo que tenha geito. Creia que nos nossos dias é pouca a
+ gente que não está convencida disso, e raros os que ainda se
+ contentam com ficarem sendo immoveis columnas do throno e do altar,
+ emquanto os outros vão andando.
+
+ Ahi está que me lembrava a mim arranjarmos, com tempo, para Mauricio
+ um d'estes commodos circulos eleitoraes, por onde uma pessoa sahe
+ deputado sem o sentir. A carreira é das melhores para rapazes de
+ intelligencia e de aspirações; mas a urna popular, provavelmente,
+ figura no rol das coisas, com que Mauricio não deve transigir.
+ Emfim, meu intransigente tio, apesar de todos os meus bons desejos,
+ sinto-me devéras com os braços atados, e tropeço a cada momento em
+ uma incompatibilidade! Julgo preferivel conferenciarmos de viva voz.
+ Tenciono visital-o brevemente. Preciso de revistar a minha quinta
+ dos Bacellos, da qual já tenho saudade. Ahi irei pois, e de sua bôca
+ ouvirei aquillo com que pudemos, e aquillo com que não devemos
+ transigir. Até então creia-me sempre sua muito transigente, mas
+ affectuosa sobrinha
+
+ _Gabriella_.
+
+ P.S. Se um abraço cordial e bem intencionado de uma prima viuva é
+ coisa com que Mauricio possa transigir, peço o favor de lh'o dar em
+ meu nome e outro a Jorge, que, pelo que vejo, tem juizo aos vinte
+ annos, facto que, seja dito entre nós, não tem sido frequente em
+ nossa familia.»
+
+Esta carta, escripta á vontade e no tom familiar de uma mulher
+caprichosa, costumada a não se constranger com pessoa alguma, e a vêr
+admittirem-lhe, como naturaes, todos os caprichos, não podia ser menos
+accommodada ao genio sisudo e respeitador de etiquetas, que era uma das
+pronunciadas feições do velho fidalgo.
+
+A maneira por que a sobrinha lhe escrevia, a sem-ceremonia com que
+parecia rir-se dos seus delicados escrupulos politicos, era tão
+subversiva da ordem estabelecida e respeitada nos usos tradicionaes da
+familia, que D. Luiz escandalisou-se.
+
+Jorge comprehendeu, á primeira leitura, qual o effeito que esta carta
+deveria ter produzido no animo do pae, mas procurou dissimular.
+
+--Uma vez que ella vem, esperemos--disse em tom indifferente.--De viva
+voz tracta-se melhor d'estes negocios.
+
+--Que hei de eu tractar com uma doida d'estas? Tomára que ella me
+deixasse socegado!
+
+--São maneiras de Gabriella, mas nem por isso deixará de olhar com
+seriedade por este assumpto.
+
+--São maneiras?... Tudo tem limites. Isto não é carta que uma rapariga
+escreva a um velho, que é seu tio.
+
+E D. Luiz, ao dizer isto, pegava na carta por uma ponta e arremessava-a
+sobre a mesa, como se fôra um objecto que lhe inspirasse repulsão.
+
+--Costumes do tempo--aventurou timidamente Jorge.
+
+--Bons costumes! Pois, embora ella o diga zombando, não transijo com
+elles, não senhora; nem filho meu, emquanto quizer que eu por filho o
+tenha, ha de transigir tambem.
+
+--Esperemos, até que ella venha.
+
+--Já sei que de nada servirá a conferencia. Essa porta podes
+consideral-a fechada.
+
+Jorge, depois de mais algumas tentativas para acalmar a irritação
+paterna, voltou para o quarto, intimamente satisfeito com a carta da
+baroneza, em cujo auxilio confiava para vencer as reluctancias do velho.
+
+Augmentaram-lhe ainda mais as esperanças, quando leu um laconico
+bilhete, em que a prima lhe respondia tambem, assegurando-lhe que viria
+breve, e que trabalharia com empenho no sentido que elle lhe indicára.
+
+Meia hora depois, dava Jorge a novidade a Mauricio, que encontrou
+descendo as escadas com elegante e caprichoso traje de cavalgar e
+cantarolando despreoccupado:
+
+ Dae-me uma casa na aldeia,
+ Casa rustica, isolada,
+ Que mostre por entre verdes
+ A sua frente caiada.
+
+--Esse desejo vem fóra de proposito--disse Jorge, sorrindo--porque
+justamente hoje chegou a carta que esperavamos de Gabriella.
+
+--Ah! chegou! E então?--interrogou Mauricio um pouco sobresaltado.
+
+--Promette vir aqui. Pede uma conferencia para breve, na qual se
+discutirão as bases da reforma.
+
+--Ai, ella vem cá? Visto isso adiada toda e qualquer resolução a meu
+respeito?
+
+--Até que ella chegue.
+
+--Ora ainda bem!
+
+--Estimas?
+
+--É que hoje qualquer ordem de partida encontrava-me pouco de animo para
+deixar a aldeia.
+
+E continuou a cantar:
+
+ D'onde se eleve ás trindades
+ Um fumosinho cinzento
+ Que se dissipe nos ares,
+ Ao menor sôpro do vento.
+
+--Olá! Como se desenvolveu assim em ti esse apêgo ás coisas
+rusticas?--perguntou Jorge com ironia.
+
+--Que queres tu? Caprichos!
+
+--Caprichos!! mas é que não estamos no caso de os ter. Ai, Mauricio,
+receio que dês em mau homem de negocios, se a conferencia decidir que o
+deves ser--continuou Jorge no mesmo tom.
+
+--A Gabriella terá o bom senso necessario para propôr outra solução ao
+problema da minha vida. Creio...
+
+E Mauricio desceu as escadas, exclamando alegremente:
+
+--Adeus, adeus que vou vêr quem tu sabes.
+
+Jorge contrahiu a fronte ao escutar-lhe as palavras com que se despediu,
+e conservou-se immovel ainda depois que o perdeu de vista, e já quando o
+não ouvia, nem o bater das patas do cavallo no lagedo do pateo; a final
+sacudiu a cabeça, como para livrar-se de uma ideia importuna e murmurou:
+
+--Ora! Tudo isto é natural... Vamos trabalhar!
+
+E foi encerrar-se no quarto.
+
+Mauricio sahiu a cavallo, mas não estendeu por muito longe o seu passeio
+matutino. Parecia errar ao acaso, mas acaso era esse que por duas vezes
+o conduzia na via da casa de Thomé.
+
+E de ambas as vezes uma cabeça de mulher apparecia á janella, ao ruido
+que faziam no caminho as patas do cavallo, o qual Mauricio obrigava a
+evoluções ao chegar áquelle sitio.
+
+Essa cabeça era a de Bertha. Mauricio saudou-a com um sorriso e
+dirigiu-lhe algumas palavras de galanteio. Bertha retirou-se para
+dentro, depois de elle ter passado, dizendo comsigo:
+
+--É uma imprudencia o que estou fazendo. Vamos; é preciso cautela.
+
+E a terceira vez que o sentiu já não appareceu para o vêr.
+
+Mauricio porém estava contente com a manhã; continuando no seu passeio,
+dirigiu o cavallo por uma azinhaga cavada em barrancos pelas enxurradas,
+e depois de difficil e precipitosa descida por entre pinheiraes, veio
+sahir a outra rua mais larga, ao fim da qual havia uma residencia
+campestre de menos má apparencia.
+
+Era uma casa branca, de um só andar e ao correr da rua, mas de solida
+construcção; bem caiada, bem pintada e bem esfregada. Entrava-se para
+ella por um pateo coberto de ramada, cercado de um muro baixo e fechado
+por uma meia cancella de castanho ennegrecido. Dentro d'este pateo pouco
+espaço havia desobstruido; aqui um monte de rama de pinheiro, além duas
+ou tres rimas de achas, acolá um tronco de larangeira partido, uma mó de
+moinho, dois carros desapparelhados, dornas, arados, pipas, canastras,
+escadas de mão, e varios outros utensilios de lavoura e de uso
+domestico.
+
+Mauricio prendeu o cavallo ao muro e entrou para o pateo.
+
+Abria-se para este a porta da cozinha; vinha de lá um grande rumor de
+vozes, de risadas e de cantares; via-se brilhar no fundo um clarão
+avermelhado e ouvia-se um estalar de lenha, devorada pela chamma.
+Chegando-se mais perto, Mauricio contemplou por alguns momentos, sem ser
+visto, o quadro que se lhe offerecia á observação. Era uma cozinha
+aldeã, vasta, desafogada; immenso lar, compridos preguiceiros ao longo
+das paredes, no alto prateleiros pejados de louça nacional, de panellas
+e alguidares; nas traves os cabos de cebola, no fumeiro a bem curada pá
+de presunto; o amplo fôrno vomitava lavaredas pela bôca escancarada e a
+cada instante engolia as novas e enormes dóses de lenha que lhe
+ministravam; na masseira fumegava já a farinha ainda não levedada para a
+fornada da semana; e n'ella os braços valentes e roliços de duas frescas
+moças do campo enterravam-se até os cotovêlos; a um signal d'estas,
+outras traziam da lareira grandes panellas de agua fervendo, com que
+acrescentavam a massa, levantando ao ar nuvens de densos vapores. Uma
+peneirava a um canto a farinha para o bolo, outra arrumava o cinzeiro do
+fôrno com a vara meia carbonisada; limpava esta a pá grande para a
+introducção das borôas e aquella empunhava a pequena pá de ferro de
+rapar a masseira. No meio d'esta legião feminina assim atarefada, a
+patrôa da casa, que, como Calypso sobre as nymphas que a serviam, ou,
+segundo a comparação classica, como o elegante cypreste sobre as vinhas
+rasteiras, olhava sobranceira para todas, superintendia no trabalho de
+cada uma e distribuia as tarefas com methodo e intelligencia.
+
+Era esta a ti'Anna do Védor, em quem já ouvimos fallar, a que havia
+creado aos seus válidos e sadios peitos os dois meninos da Casa
+Mourisca. Era ella enfarinhada, arregaçada, afogueada, com os cabellos
+escondidos debaixo do lenço vermelho que atava sobre o occipital, com a
+voz potente, o olhar fino e os movimentos faceis, apesar dos cincoenta
+annos já contados.
+
+Á sua vista perspicaz não escapou por muito tempo a presença de
+Mauricio; e logo que o viu, correu para elle com os braços abertos,
+exclamando:
+
+--Ai, o meu rico filho!
+
+--Cautela, cautela, Anna, olha que me enfarinhas!--advertiu Mauricio,
+tentando fugir-lhe.
+
+--E que tem que te enfarinhe! Olh'agora? A farinha é pão, e o pão vem de
+Deus.
+
+E sem precauções nem reparos apertou o corpo delgado de Mauricio nos
+seus robustos braços, deixando-lhe na roupa vestigios evidentes d'este
+cordial amplexo.
+
+--Vês, vês?--dizia Mauricio, sacudindo-se--olha em que preparo me
+puzeste, ama! Estou asseiado!
+
+--Sim? Pois melhor para ti, que já tens que fazer, e não me andas por
+ahi a vadiar e a fazeres-me doidas as moças cá da terra com as tuas
+bregeirices. Sahiste-me boa rez! não tem duvida nenhuma!
+
+E pronunciava isto com um modo, acompanhava-o com um olhar tal, que
+fazia temer a imminencia de um outro beijo e de um outro abraço.
+
+Mauricio continuava sacudindo-se.
+
+--O mal que tenho, vem do leite que bebi--dizia elle no entretanto.
+
+--Hum!--acudiu a ti'Anna com um gesto de soberba.--Conta-me d'essas! O
+que vos valeu, meus fidalguinhos de torrão de assucar, foi trazer-vos eu
+a estes peitos, senão o que seria feito do vosso corpinho de vime?
+Olh'agora! ieis como foram indo vossos irmãos mais velhos, e aquelle
+anjo de vossa irmã, que ainda hoje me resta a pena de não ter creado
+tambem. Mas quem adivinha vae para as casinhas.
+
+--Aos preparativos que estou vendo--observou Mauricio--ha grande fornada
+para hoje.
+
+--É como vês. E não minguam bôcas que a comam. Senhor nos não falte com
+estas côdeas.
+
+--E o bolo que não esqueça.
+
+--Eram bons tempos aquelles em que vocês ambos o comiam como se fosse
+maná! Esquecer! Olh'agora! Não ha de esquecer, não, se Deus quizer, que
+não falta por ahi gente necessitada, com quem se reparta. Vá, vá,
+raparigada! não se me ponham agora paradas a olhar para as moscas, que o
+serviço não espera! Olh'agora! Deita-me o centeio n'aquella massa,
+pasmada, avia-te! Parece que nunca viram um rapaz! Bem tirado das
+canelas é elle, salvo seja; mas isso não basta! Olh'agora! Mas que
+milagre foi este que te trouxe por aqui a estas horas?
+
+--Um passeio...
+
+--Um passeio!... Hum! ahi anda moiro na costa. Olha lá se me
+desinquietas coisa que me pertença, que tens de te haver depois
+commigo... Eu ainda tenho um par de sobrinhas que são moças de mão
+cheia. Ora olha lá. Quem te désse o juizo de Jorge! Aquillo é outro
+estôfo! É verdade--continuou ella, dando emphase á interrogação com o
+poisar das mãos nos quadris--dizem-me que elle é quem dirige agora os
+negocios lá em casa.
+
+--Ha muito tempo já.
+
+--Pois foi bem pensado! Sim, senhores. Porque olha que eu nunca gostei
+do frade, Deus me perdoe; e emquanto ao fidalgo, com ser boa pessoa, não
+serve lá muito para governar casa. E tu que fazes?
+
+--Eu..., eu...
+
+--Passeias; ora pois pudera! Se este senhor havia de fazer outra coisa.
+Pois não fazes bem, que pelos modos isso lá por casa não está para
+graças.
+
+--Que é do Clemente, Anna?--inquiriu Mauricio, mudando de conversa.
+
+--O meu Clemente? ó filho, nem eu sei. Se queres que te diga, o rapaz,
+desde que o metteram na regedoria, não faz outra coisa. Isto é, eu devo
+dizer o que é verdade; o serviço apparece feito, isso lá apparece; mas a
+gente nem sabe quando nem como. Mas, agora me lembro, elle pelos modos
+está hoje para casa do Thomé da Herdade. Chegou-lhe a filha da cidade,
+sabes? A Bertha, a que brincava com vocês na Casa Mourisca, e que tu
+dizias que era a tua namorada? garoto foste tu sempre desde criança. Diz
+que vem uma senhora. Tolices do pae. Olh'agora! Mas o caso é que a
+rapariga é geitosa e diz que muitas nadas e creadas na cidade dariam uma
+orelha para apparecerem tão bem como ella. Estou morta por a vêr, mas
+esta minha vida não é para vagares. Então disse ao meu Clemente: «Vae tu
+a casa de Thomé, rapaz, e faze-lhe lá os meus cumprimentos.» O caso é
+que elle foi e... Ó raparigas, então esse pão ainda não está amassado?
+
+E não lhe soffrendo a impaciencia de animo a inacção, aproximou-se da
+masseira, e afastando as moças que lhe cederam o logar com deferencia,
+remexeu, com o vigor de seus desenvolvidos musculos, a massa que, sob
+tão poderoso motor, cedo adquiriu a consistencia precisa.
+
+Depois amontoou-a, alisou-a, traçou-lhe em cima com a mão uma cruz e
+murmurou:
+
+ S. Vicente te acrescente
+ S. Mamede te levede.
+
+Cobriu-a com a baeta e depois acrescentou, voltando-se para a sua gente:
+
+--Ora ahi o tem; agora olhem-me por esse fôrno, que são horas.
+
+E tornando a Mauricio, continuou, como se não tivesse havido
+interrupção:
+
+--Pois é verdade, elle foi e ainda não veio. Sabes tu que era esta a
+mulher que ficava a matar para o meu Clemente?
+
+Mauricio estremeceu, como se ouvira uma heresia.
+
+--Quem? Ella? Bertha?
+
+--Sim; então que achas? Pois com quem queres tu que ella case cá na
+terra? Fidalgos não a querem; os rapazes por ahi são uns labrêgos que
+Deus nos acuda. O meu Clemente..., não é agora por ser meu filho, mas
+não se lhe faz favor nenhum confessando que é mais geitoso do que elles.
+E sobre tudo, depois d'isto da regedoria. Elle falla com o snr.
+administrador e até com o governador civil, quando vae ao Porto, e a
+cada passo está a escrever-lhes e a receber cartas d'elles, e é tudo:
+Deus guarde a v. s.ª para aqui, Deus guarde a v. exc.ª para acolá. Ora a
+filha do Thomé vem costumada a estas coisas lá da cidade e emfim, sendo
+de costume, já se não gosta de passar sem isso.
+
+Mauricio não podia seguir placidamente as conjecturas da ama,
+parecia-lhe uma profanação o que ouvia.
+
+--Não, não, Anna. Clemente não é marido que convenha a Bertha. De modo
+nenhum. Desengana-te.
+
+--E porque não? Ora essa é boa! Quem é então que lhe convem? Olh'agora!
+
+--Bertha tem... teve... ha de ter...
+
+--Tem, teve e ha de ter, o quê?...
+
+--Uma educação... gostos...
+
+--Ora viva! Já fazes a filha do Thomé fidalga de mais para o meu rapaz!
+Ora quem alli está. Olha que eu sou da creação de Thomé, e conheci-o
+rapazinho de pé descalço, a guardar o gado... Olh'agora!
+
+--Não duvido, Anna, mas... Bertha já viu a cidade e...
+
+--Toma! E o meu Clemente? Ora deixa-te de historias. Sabes que mais?...
+Não me andes tu já por ahi com o olho na pequena, que é o que me parece;
+olha que não é nenhuma tola como as outras.
+
+--Ó Anna, que ella não é como as outras sei eu. Nunca esta terra soube o
+que era um anjo assim.
+
+--Olhem, olhem! É o que eu digo. Temol-a travada! Eu logo vi. Ó filho,
+que não sei a quem me sahes. Eu logo vi. Tu que te espinhavas todo por
+eu querer a rapariga para o meu Clemente!... Mas, olá, snr. Mauricio,
+veja o que faz. Lembre-se de quem ella é filha. É um homem serio e que
+não gosta de quem não o tractar como homem serio... Mas ahi vem o meu
+Clemente; elle é que me vae dizer da rapariga.
+
+
+
+
+XII
+
+
+Clemente, o filho unico da vigorosa matrona que tão desenganadamente
+fallava a Mauricio, era um sincero rapaz aldeão, de espirito pouco
+desenvolvido, mas de excellente indole.
+
+Tinha uma physionomia vulgar, d'estas que fogem da memoria, porque nem
+as fixa um vislumbre de intelligencia que accentue alguma feição
+predominante d'ellas, nem o cunho de estupidez, que as assemelha a
+caricaturas.
+
+Só na bôca e nos olhos é que havia um geito revelador da natural bondade
+d'aquelle caracter; o mais nada exprimia.
+
+Clemente aceitára com certo desvanecimento o cargo de regedor, e
+exercia-o com a imparcial inteireza que deve ter o magistrado.
+
+Não obstante o genio brando, de que era dotado, ousava arcar, no
+desempenho de seus deveres, com os privilegiados da terra, que ainda não
+haviam perdido de todo os habitos de sobranceria e de desprezo ás leis,
+adquiridos por seus ascendentes nos tempos das regalias feudaes.
+
+Clemente era supersticiosamente acatador do codigo administrativo, e
+este fervor de funccionario dava-lhe coragem para a lucta, aliás muito
+contraria á sua indole pacifica e consiliadora.
+
+Por vezes soffreu pelo seu muito amor de justiça. Julgou elle, com
+sympathica ingenuidade, que os superiores o conceituariam tanto melhor,
+quanto mais exacto e imparcial elle fosse no cumprimento dos seus
+deveres; com funda e amarga dôr de coração viu pois, que tendo arrostado
+com as sanhas de alguns fidalgos, cujas illegaes franquias procurára
+fazer cessar, o administrador, que sabia theorisar muito melhor do que
+elle sob o thema de emancipação do povo, dos direitos do homem e da
+igualdade perante a lei, mas que tambem sabia quebrar na pratica as
+quinas e os angulos agudos ás suas theorias, tomava o partido dos
+fidalgos, e censurava asperamente em officios o procedimento do regedor.
+
+Estas injustiças sociaes principiavam já a inocular no animo leal e
+sincero de Clemente o scepticismo a respeito dos homens e a preparal-o
+talvez para vir a ser uma authoridade menos intractavel e de mais
+condescendente consciencia; e por consequencia mais ao agrado dos
+homens, não sei se diga praticos ou corruptos, que clamam contra a
+absoluta inflexibilidade dos principios.
+
+Achava-se o bom Clemente n'aquella desconsoladora phase de transição, em
+que o funccionario novel principia a sentir que o deixa o ideal que
+concebêra da sua entidade civil, e que vae descendo pelo escorregadio
+pendor das condescendencias mundanas para o nivel, onde redemoinham as
+turbas, que ao principio fitára sobranceiro, de toda a altura da sua
+dignidade moral.
+
+Triste época de desillusão e de desencantamento essa!
+
+Clemente votava sincera affeição aos rapazes da Casa Mourisca, e sobre
+tudo a Jorge, a quem cedêra o seio de sua mãe.
+
+Jorge nunca lhe dava motivo de collisão entre os seus deveres de regedor
+e os impulsos do seu coração.
+
+Já não assim Mauricio, que não era de todo innocente de certas
+infracções de lei e de desprezo pelo codigo administrativo, com que não
+poucos somnos tinha afugentado ao honrado rapaz.
+
+Clemente desculpava Mauricio, dizendo que eram as más companhias que o
+levavam áquillo, mas promettia não ceder a considerações, se o
+encontrasse em flagrante.
+
+Fosse porém acaso, fosse quasi insciente proposito de amizade em não
+querer vêr, é certo que nunca tal contingencia se deu. Apenas por vagas
+denuncias lhe constava ter Mauricio uma ou outra vez quebrado o defezo
+da caça, tomado parte em alguma rixa nocturna, quasi sempre em companhia
+de seus primos, os fidalgos do Cruzeiro.
+
+Estes sim, estes eram os mais rebellões d'aquelles arredores. Com elles
+era que as mais das vezes tinham logar serios conflictos, em que os
+cabos de Clemente nem sempre eram tractados com o respeito que para
+elles a farda pedia.
+
+Os fidalgos do Cruzeiro viviam ainda á moda antiga, como senhores
+feudaes da terra, desconhecendo direitos de propriedade e calcando aos
+pés dos seus cavallos todos os codigos, com que tentassem conter-lhes os
+impetos nobiliarios.
+
+Eram tres estes nobres senhores.
+
+Um morgado e... morgado ás direitas; outro doutor... por ter andado dez
+annos em Coimbra para deixar incompleto um curso de cinco; o terceiro
+abbade, escorraçado pelo povo de uma freguezia que fôra mandado
+parochiar; ligavam-se todos tres, em temivel triumvirato, para invadirem
+as propriedades, esgotarem as tavernas, insultarem as mulheres e
+espancarem os homens d'aquelles sitios.
+
+O povo ou por habito legado de submissão os deixava á vontade,
+contentando-se com praguejal-os pela calada, desforço dos opprimidos em
+todas as épocas da historia da humanidade, ou exasperado e descrendo da
+efficacia da lei, recorria á defeza propria, e procurava manter em
+respeito esses turbulentos vadios, que mais de uma vez sahiram mal
+feridos da refrega.
+
+Jorge afastára-se cada vez mais da companhia dos primos, cujos
+asselvajados habitos lhe repugnavam; Mauricio frequentava-os ainda e era
+de facto a companhia d'elles, que ás vezes o impellia a passos
+reprehensiveis.
+
+Clemente vinha agitado quando entrou em casa aquella manhã. Era evidente
+que o regedor se tinha encontrado em uma das collisões, a que a vida
+publica o sujeitava.
+
+A mãe, logo que lhe lançou os olhos ao rosto contrahido e levemente
+purpureado, conheceu que tinha havido novidade e interpellou-o:
+
+--Que tiveste tu lá por fóra, Clemente? Essa cara não é de quem vem
+satisfeito com a sua vida.
+
+--Deixe-me, minha mãe, deixe-me--rompeu o irritado rapaz.--Com'assim
+emquanto não largar esta coisa da regedoria, não tenho um momento de
+socego.
+
+--Então que foi?
+
+--Que foi? Que havia de ser? O que foi hontem e que ha de ser ámanhã, e
+que ha de ser sempre, emquanto... Emquanto se não fechar os olhos e se
+der para baixo, seja em quem fôr. Parece impossivel que gente de
+educação, gente que devia ter vergonha, e ser a primeira a mostrar o
+exemplo, seja a que anda por ahi dando escandalo, sem fazer caso da
+authoridade, nem da lei, nem de coisa alguma! E um padre então! e um
+doutor!...
+
+--Pelo que vejo temos os do Cruzeiro fazendo das suas?
+
+--Pois quem senão elles? Essa sucia de libertinos, de...
+
+--Olha que está alli um primo d'elles, Clemente--admoestou a mãe,
+sorrindo.
+
+Clemente reparou pela primeira vez em Mauricio.
+
+--Ah! desculpe, snr. Mauricio, que ainda agora o vejo. Mas isto é assim.
+Aquelles senhores cuidam... Eu sei lá o que elles cuidam? Cuidam talvez
+que isto hoje é como d'antes, e que elles hão fazer a sua vontade...
+
+--Mas a final de que se tracta?--inquiriu Mauricio.
+
+--D'esta vez deram-lhe para metter em casa um refractario do serviço
+militar, contra quem ha um mandado de captura, e com o maior
+descaramento o declaram por ahi. Temos outra como quando esconderam em
+casa o assassino do reitor de Fieiras, e lhe deram escapula para o
+Brazil. Mas eu não quero saber, a lei lá está que diz bem claro o que
+deve fazer-se, e o snr. administrador não é para graças.
+
+--Fia-te n'elle! Olh'agora!--atalhou a mãe--É fresco! Vendo-te mettido
+em talas, só se não puder deitar a mão á caravelha para te atenazar inda
+mais. Não te lembras do que elle fez quando foi da prisão do morgado dos
+Codeços, por causa das pancadas na feira? Ora bem me fio eu n'elle! Todo
+collaço com o Lourenço do Cruzeiro, e companheiro de sucias d'elles
+todos. Sabes que mais, meu filho? deixa-os lá e não te consumas com
+isso. Olh'agora!
+
+Estas eram as maximas que o scepticismo inspirava já a Anna do Védor.
+
+Clemente encolheu os hombros.
+
+--Ou hei de ser regedor, ou não hei de ser. Por isso é que eu digo que
+vou pedir a demissão. Para injustiças é que eu não sirvo. Não quero que
+se diga que quando um pobre homem faz alguma coisa já tudo são pressas
+para o prender e castigar, e lá porque uns senhores... Senhores? Melhor
+tratassem de pagar o que devem a meio mundo, e não andassem por ahi a
+fazer o que fazem.
+
+--Vamos, Clemente, perdoa-lhes as rapaziadas, por que a final elles são
+teus amigos--interveio Mauricio.
+
+--Amigos elles?! Muito agradecido; mas nem acredito na tal amizade, nem
+tambem a desejo; isto é para dizer o que é verdade.
+
+Interromperam-n'o n'este ponto duas vigorosas vozes masculinas, que
+bradavam da rua:
+
+--Mauricio! Ó Mauricio! que diabo fazes tu ahi dentro, com o cavallo
+prêso á porta? Eh!
+
+--Tu tambem pões mão na fornada?
+
+--Parece-me mais certo que ponha mão nas forneiras.
+
+A ti'Anna foi a primeira que tomou a palavra:
+
+--Fallae no ruim... São os do Cruzeiro.
+
+E chegando ao limiar da porta, exclamou com os seus modos desempenados:
+
+--Que é lá, que é, meus fidalguinhos? Que temos nós que dizer das
+forneiras? Em minha casa não ha monte para caçadas de galgos, como
+vocemecês. Entendem? Deixem socegado o Mauricio, que já não pouco mal
+lhe teem feito com os seus conselhos e companhia.
+
+Mauricio appareceu aos primos, rindo do sermão da ama.
+
+Clemente permanecia carrancudo no fundo da cozinha.
+
+Os primos do Cruzeiro, o doutor e o abbade, vestiam á maneira do campo,
+de jaqueta de alamares, faxa vermelha á cinta, chapéo de abas largas, de
+espingarda ao hombro, cães em redor, e as victimas das suas façanhas
+venatorias pendentes ao tiracolo, como tropheus de combate.
+
+O padre respondeu á Anna do Védor:
+
+--Ó mulher, guarde lá a sua lingua que não nos tira a sêde que trazemos,
+e dê-nos antes uma pinga do verde, porque o nosso pichel vae vazio de
+todo.
+
+E com a maior sem-cerimonia entraram para o pateo, poisando as
+espingardas e os apparelhos de caça.
+
+O doutor sentou-se nos degraus da porta da cozinha, o padre na pilha de
+lenha que havia no quinteiro.
+
+A Anna do Védor, com as mãos na cinta, observava-os e proseguiu na
+objurgatoria:
+
+--Com que então o snr. abbade, e o snr. doutor, e o snr. seu mano
+entendem que as leis d'estes reinos não foram feitas para vocemecês?
+
+--A que vem agora essa cantilena, ó mulher? Dê-nos vinho--insistiu o
+padre.
+
+--A que vem?--tornou a ti'Anna--ahi está o meu Clemente que melhor o
+póde dizer.
+
+Os dois voltaram-se e viram Clmente que, pela sua vez, appareceu á
+porta.
+
+--Ah! ah! snr. regedor!
+
+--Pelos modos o homem está zangado comnosco por lhe escondermos o filho
+do soqueiro, queres tu vêr?
+
+Mauricio tomou o partido de Clemente.
+
+--Bem sabem que é da responsabilidade d'elle.
+
+--Ora deixa-te de contos--atalhou o doutor.
+
+--O peior é que, vistos os autos, não temos vinho--fez notar o padre.
+
+--Está enganado, snr. abbade--veio-lhe á mão Clemente--fosse um
+criminoso que me pedisse de comer e de beber, quando passasse á minha
+porta, eu, com ser regedor, não lh'o recusaria. O que a minha casa não
+ha de ser, isso não, é escondrijo de ladrões, de malvados e de
+refractarios, nem sei que grande gloria venha d'ahi a quem tanto mal faz
+á sociedade, não deixando que se cumpram as leis. O vinho ahi está.
+
+Effectivamente appareceram dois rapazes, empunhando cada qual uma caneca
+a trasbordar de purissimo vinho verde, que os dois caçadores esvaziaram
+de um fôlego.
+
+--Ah!--disse o doutor, no fim da libação--Não te arrenegues, Clemente,
+que não és mau rapaz a final. Estás muito soberbo com a tua regedoria,
+mas isso ha de passar-te. Ora agora fica sabendo que na quinta do
+Cruzeiro, desde tempos immemoriaes, encontra asylo quem ahi se acolher.
+
+--Mas o senhor sabe que a lei pune a quem der escondrijo a um
+refractario. Parece-me que um doutor não póde deixar de saber estas
+coisas.
+
+--A lei diz muita coisa, que todos nós sabemos; mas deixa lá a lei, que
+está quieta.
+
+--Mas se o snr. administrador ordenar uma busca na casa...
+
+--Que veja se se mette n'isso--acudiu o abbade,
+sorrindo ameaçadoramente.
+
+--Tem direito para o fazer--questionou Clemente.
+
+--Pois que se contente com o direito.
+
+Clemente ia-se irritando.
+
+--Mas é preciso pôr côbro a isto, meus senhores. Não se póde soffrer que
+em tempos de leis e de authoridades, haja uma casa onde nem lei, nem
+authoridade entram.
+
+--Pois tenta, ó Clemente; quando te sentires de pachorra, manda-nos lá o
+exercito dos teus cabos e commanda o assalto. Ah! ah! ah! Havia de ter
+graça!
+
+--Pelos modos por que vejo irem as coisas, não direi que se não chegue
+um dia a isso.
+
+--Hei de gostar de vêr.
+
+--Pois eu não. Os meus desejos eram que todos vivessem em paz e socego.
+E o que me custa é que partam os maus exemplos d'onde deviam vir os
+bons.
+
+--Ora sabes que mais, Clemente?--ponderou o padre.--Dou-te de conselho
+que não puxes de mais pelo fiado. O mundo é assim em toda a parte,
+rapaz; e é preciso fazer a vista grossa para certas coisas. As leis são
+boas, mas não ha remedio senão soffrer de quando em quando que as não
+cumpra, quem está no caso de ter vontade.
+
+--Mas a vontade tira-se, se as authoridades forem o que devem ser.
+
+--Viva, snr. regedor!
+
+--Digo isto, snr. abbade, e...
+
+--Um seu criado, snr. regedor!
+
+--E um dia...
+
+--Ás suas ordens, snr. regedor.
+
+--Snr. regedor, sim! e honro-me d'isso muito. E emquanto fôr regedor,
+hão de me respeitar como tal. Já disse. O seu tempo já lá vae, snr.
+abbade, e hoje a justiça quando tem de entrar em uma casa, não repara no
+brazão que está á porta... ou não deve reparar. Ninguem tem direito de
+não respeitar a lei, e eu prometto-lhes, que já que assim o querem...
+
+--Bem, bem--acudiu Mauricio, que receiou que a scena se tornasse mais
+azeda--não prosigamos n'esta contenda. Venham vocês d'ahi, que temos que
+conversar. Clemente, socega, que tudo se ha de arranjar. Adeus, Anna.
+
+--Vamos lá, vamos lá--concordaram os dois primos, empunhando outra vez
+as espingardas--deixemos o snr. regedor que está hoje muito zangado.
+
+E ao atravessarem o quinteiro o doutor e o abbade abraçaram, cada um por
+sua vez, uma das moças de Anna do Védor, que voltava da fonte com o
+cantaro de agua.
+
+--Olá, olá, fidalguinhos!--bradou da porta da cozinha a patroa--já disse
+que isto aqui não é terras do Cruzeiro. Olhem se querem que eu os enxote
+como a rapozas do gallinheiro?
+
+E quando a criada chegou ao pé d'ella, disse-lhes com aspereza:
+
+--Tu não sabias chimpar-lhes o cantaro pela cabeça abaixo, minha maluca?
+Sempre vocês não sei para que querem a esperteza.
+
+Os rapazes retiraram-se rindo.
+
+Anna voltou a ouvir e a mitigar as queixas do filho.
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Mauricio mandou para casa o cavallo, no proposito de seguir os primos a
+pé. Estes enviaram tambem para o Cruzeiro os cães, as espingardas e os
+mais petrechos de caça.
+
+Os dois manos riram por muito tempo da prosapia do regedor e não se
+deram por satisfeitos, senão depois de terem conseguido fazer tambem rir
+Mauricio que, ao principio, tentou admoestal-os.
+
+--Deixemos o assumpto--disse a final o padre--que destino levas?
+
+--Nenhum.
+
+--N'esse caso vem por nossa casa, que não te has de arrepender.
+
+--Que ha lá?
+
+--Vem e saberás.
+
+--O José recebeu hontem do Douro uns cascos promettedores--explicou o
+doutor.
+
+--Adeus, adeus; ahi estás tu a desfazer a surpreza. Deixa-o vir.
+
+--Vou--respondeu Mauricio--mas havemos de seguir o caminho que eu
+disser.
+
+--Mas por onde diabo queres tu ir?
+
+--Temos empreitada?
+
+--Tambem vos prometto que se não arrependerão--insistiu Mauricio.
+
+--Ó rapaz, se são olhos pretos e cabellos fartos, dize, e vamos lá vêr
+isso--alvitrou o padre.
+
+--Olhos, cabellos, dentes, gesto, riso, figura, tudo uma
+perfeição--ampliou Mauricio.
+
+--Onde desenterraste essa maravilha?
+
+--Chegou aqui ha poucos dias.
+
+--Não ponhas mais na carta.
+
+--Já sei--interveio o doutor--fallaram-me n'ella. É a filha do Thomé da
+Herdade.
+
+--Exactamente.
+
+--E então ella sempre é essas coisas?
+
+--Só te digo que eu ando cada vez mais doido por a rapariga. Isto cá
+dentro está em imminente perigo de explosão. Que admira, se nunca até
+hoje vi uma belleza assim?
+
+--Estás bem bom. Ó rapaz, o mais que posso fazer é casar-vos. _Conjungo
+vós_--disse o padre, cantarolando.
+
+--Em uma palavra, para vocês imaginarem o estado d'isto, basta que vos
+diga, que me custou a conter a indignação quando ouvi ha pouco a Anna do
+Védor dizer-me que a Bertha era um bom casamento para o filho.
+
+--Ai, para o snr. regedor!
+
+--É verdade.
+
+--Então s. exc.ª tenciona tomar estado?
+
+--E vamos lá a saber--informou-se o doutor--a rapariga é arisca ou
+accessivel?
+
+--Por ora parece-me desconfiada apenas, mas...
+
+--Como disseste que se chama? Bertha?
+
+--Sim.
+
+O padre cantarolou:
+
+ Bertha, Bertha, meus amores,
+ Bertha do meu coração.
+ És a rainha das flores,
+ Trai lari lari larão.
+
+E, cantando, trepava o muro de um pomar para colher laranjas que de lá o
+estavam seduzindo.
+
+--Deixa lá as laranjas; anda d'ahi--dizia o mano doutor, que seguia á
+frente do rancho.
+
+--A casa do cidadão é inviolavel--acrescentou Mauricio.
+
+--Sim, senhor--tornou o padre, já a cavallo no muro--mas se me faz
+favor, nem isto é casa, nem um homem que móra na aldeia é cidadão.
+
+E sahiu outra vez do muro com a sua colheita, e pôz-se a caminho,
+comendo as laranjas que roubára.
+
+--Então dá cá uma--disse o doutor, voltando-se para traz.
+
+--Ah! ah! já cubiças?
+
+E o padre arremessou duas laranjas, que o mano destramente aparou nas
+mãos.
+
+A companhia foi seguindo pelos accidentados caminhos da aldeia,
+cantando, saltando, pondo em confusão as lavadeiras moças que ensaboavam
+nas prêsas, abraçando á força na estrada as raparigas que, vergadas sob
+mólhos de herva ou de milho cortado, mal lhes podiam fugir; visitando
+todas as tavernas, fazendo correrias a gallinhas, porcos ou vaccas se se
+lhes deparavam na pastagem, calcando campos e escalando muros com o
+desassombro de senhores.
+
+Mauricio imitava-os meio constrangido, mas imitava-os. Se ás vezes os
+seus melhores instinctos ou a influencia do tracto com Jorge o faziam
+conter, a reflexão maliciosa de qualquer dos primos, que ironicamente
+lhe celebrava a candura, impellia-o a vencer a primeira hesitação, e a
+final dava o passo que lhe repugnára.
+
+Mauricio possuia um d'estes caracteres faceis de dominar; moveis, que
+cedem ao bem e ao mal e que tanto habilitam o homem a realisar heroicos
+feitos, como a perder-se. Tudo está na influencia que os rege.
+
+Se teem faculdades para apreciar o gozo, que de uma acção grande e
+generosa resulta; se são capazes de a conceber e dão estimulos para a
+executar; tambem as seducções do vicio os enlevam, tambem a vertigem do
+abysmo os attrahe, e aproximam-se fascinados do precipicio, sem que a
+razão acorde para os suspender no progresso fatal.
+
+Caracteres assim são instrumento poderoso do bem ou do mal, conforme a
+mão que d'elles usa, e a intenção que os dirige. São os que sentem a
+influencia das boas ou más companhias.
+
+Dentro em pouco chegavam os tres rapazes á Herdade.
+
+--Então a rapariga?--perguntou o padre, examinando as janellas vazias.
+
+--Nem sempre apparece á janella--informou Mauricio.
+
+--E de que meio te serves para chamal-a? tosses, cantas,
+assobias?--perguntou o doutor.--Qual é o teu systema?
+
+--Eu não tenho systema.
+
+--Então para que nos trouxe por aqui este innocente, não me dirão?
+
+--Tu não tens entrada em casa?
+
+--Meu pae não gosta que nós visitemos o Thomé.
+
+--Ah! lá se o papá ralha...
+
+--Este Mauricio tem coisas!
+
+--Isto é mesmo uma menina innocente!
+
+--Aqui não ha malicia alguma!
+
+Estas observações dos manos estavam causando a Mauricio vergonha da sua
+propria candura.
+
+--E então d'aqui?--interpellou o doutor.
+
+--Então...--titubeou Mauricio.
+
+--Segue-se dar meia volta á direita, e retirarmo-nos com caras de asnos,
+não é assim?
+
+--Façam vocês o que quizerem--exclamou o padre--eu por mim, já que aqui
+estou, não me retiro sem vêr a pequena.
+
+--Mas como?--interrogou Mauricio.
+
+--Eu te digo já. A coisa é simples.
+
+E dizendo, dirigiu-se a uma pequena porta que havia no muro da quinta e,
+sem a menor hesitação, impelliu-a com força e ella cedeu sem grande
+resistencia. O padre entrou primeiro, seguiu-o o mano doutor, e
+Mauricio, ainda que mais a mêdo, imitou-os.
+
+Os do Cruzeiro caminhavam com a sem-ceremonia, que caracterisava todos
+os seus actos n'aquella terra, assobiando, cortando flores e fructas, e
+encurtando caminho por cima dos campos semeados.
+
+De repente o padre, que ia adiante, parou, e voltando-se, disse em tom
+mais baixo:
+
+--E ainda dirão que não sou bom caçador?
+
+E, afastando-se para o lado, deixou-os vêr o objecto que elle designava,
+apontando para a extremidade da rua em que iam entrar.
+
+Era Bertha.
+
+A filha de Thomé da Povoa acabára de ajudar a pôr á cabeça de uma
+rapariguita aldeã o ultimo feixe de cannas de milho que os segadores
+haviam deixado no campo e ficára-a seguindo com a vista, tão attenta que
+nem deu pelos recem-chegados.
+
+--Vejam que figura de fada--murmurou Mauricio para os primos.--É a Ruth
+da escriptura.
+
+--Sim, a figura temos visto, agora quero vêr-lhe a cara--disse o padre;
+e acompanhado pelo mano bacharel, dirigiu-se para Bertha.
+
+Mauricio, surprendido por este passo, que não esperára, seguiu-os para
+conter-lhes a brutal galanteria.
+
+Bertha, ouvindo passos, voltou-se, e ao reconhecer os tres rapazes, não
+reprimiu um movimento de assustada surpreza, o qual porém se desvaneceu,
+reparando que Mauricio era um d'elles.
+
+Todos se descobriram, cortejando Bertha.
+
+O padre, fitando impertinentemente os olhos n'ella, principiou:
+
+--Minha senhora, não repare n'esta invasão de territorio. Mas quem teve
+a culpa foi aqui o primo Mauricio. Fallou-nos com tal enthusiasmo da
+gentil filha do nosso velho amigo Thomé, que nós tomamos a resolução de
+vir admiral-a e cumprimental-a. E aqui estamos.
+
+Bertha córou intensamente perante a grosseira sem-ceremonia do padre, e
+dirigiu a Mauricio um olhar, em que se fazia uma interrogação e se
+formulava uma censura.
+
+Mauricio respondeu a este olhar, dizendo em tom de irritado:
+
+--Desculpe, minha senhora, as maneiras pouco delicadas de meu primo. É
+um javali silvestre que não sabe amaciar as sêdas.
+
+O mano bacharel soltou uma gargalhada, quasi tão grosseira como a
+apresentação do padre, e apimentou-a com a expressão de igual
+delicadeza:
+
+--Ora toma! apara lá esse peão á unha! Ah! ah! ah!
+
+O padre olhou espinhado para Mauricio, e redarguiu:
+
+--Ora não querem vêr este senhor de salão, que se offende com as minhas
+sem-ceremonias! Javali! Tem graça! Quem o ouvir, ha de suppôl-o um
+cãosinho de regaço. Meu lindo priminho, esta menina não é nenhuma tola e
+sabe o que é o mundo; e escusas, para lhe agradar, de te apresentares
+como um galã choramigas. Ora é boa!
+
+--Adeus, adeus, padre Lourenço, isso previa eu!
+
+--Previas o quê? Então eu offendi alguem?
+
+--De offender a ser menos delicado vae alguma distancia, mas...
+
+--Dize tu que o que eu não sou é impostor e hypocrita, apesar de me
+terem feito padre. Eu disse o que era verdade. Nós, se estamos aqui, é
+por tua causa. Não é assim, Chico?
+
+O mano Chico affirmou.
+
+Bertha assistia a toda esta scena com visivel desgosto, mas sem
+interrompêl-a com uma palavra.
+
+--Bertha, affirmo-lhe...--ia a dizer Mauricio para justificar-se da
+tacita arguição, que lia no olhar d'ella.
+
+--Com licença--cortou-lhe o padre a palavra--se sou grosseiro e javali,
+hei de sêl-o até o fim. A coisa passou-se d'esta maneira. O Chico que o
+diga. Aqui o primo Mauricio parece que está perdido por a menina, e por
+tal modo nos fallou de si, tanto nos matou o bicho do ouvido para que
+lhe passassemos por a porta, que nós viemos. E como não estava á
+janella, nem elle tinha ainda combinado signal para a fazer apparecer,
+eu, para não perder o tempo e as passadas, abri brecha no reducto e
+entramos. Ora aqui está. Se isto é offensa...
+
+Bertha respondeu, já serenamente:
+
+--Creio que não é, porque não póde de certo haver intenção de
+offender-me, em quem entra em minha casa na companhia do snr. Mauricio.
+Elle bem se lembra de que eu fui em pequena a companheira de sua irmã
+Beatriz, de que sou a afilhada de seu pae, e n'aquella casa, a que elle
+pertence, julgo que ainda ha, como d'antes, muito respeito por este
+laços de familia e de amizade...
+
+--Ha, Bertha, ha e tão sancto como em outros tempos. E ha mais, ha a
+firme resolução de os fazer respeitar aos outros, como lá se respeitam.
+
+--Abranda-te, leão! Não estou disposto a luctar comtigo, apesar d'esses
+olhares ferozes. Esta menina far-me-ha mais justiça, reconhecendo que eu
+não a offendi...
+
+--Não fallemos mais n'isso--acudiu Bertha friamente.
+
+--Mas é um caso de consciencia--insistiu o abbade.
+
+--Então ninguem tão habilitado para o decidir como um
+sacerdote--tornou-lhe Bertha, com desdem.
+
+Gargalhada do mano bacharel.
+
+--Chucha! Ora mette-te com ella, anda.
+
+--Em coisas do coração--redarguiu o padre galanteadoramente--são
+melhores juizes do que os sacerdotes, as _madamas_.
+
+Bertha contrahiu a fronte com desgosto e respondeu-lhe com maior
+severidade:
+
+--Quando ellas teem um pae, podem elles tambem ser juizes. E o meu ahi
+vem.
+
+Effectivamente chegava Thomé da Povoa.
+
+O honrado fazendeiro, que tinha a sua opinião formada a respeito dos
+fidalgos do Cruzeiro, franziu o sobrolho, assim que os avistou com a
+filha.
+
+Nem a presença de Mauricio bastou para tranquillisal-o.
+
+Thomé conhecia de pequenos os rapazes da Casa Mourisca e sabia até que
+ponto se podia contar com o que em Mauricio havia de bom, e receiar do
+que n'elle havia de mau.
+
+Depois a physionomia de Bertha denunciava que a conversação dos fidalgos
+não tinha sido demasiadamente apropositada.
+
+Nem convinha á boa fama de uma casa, em que houvesse raparigas, a
+assiduidade de qualquer dos tres manos do Cruzeiro.
+
+Tudo isto actuava no espirito de Thomé durante os instantes que
+precederam a sua introducção na scena.
+
+--Olá! v. exc.as por aqui! Grande honra! grande honra!
+
+--É verdade, Thomé--começou o padre a dizer--entramos, como rapazes de
+escóla, sem pedir licença ao dono da casa; mas confiamos que não se nos
+leve a mal...
+
+--Ora essa! Levar a mal porquê? V. exc.as quizeram talvez vêr por seus
+proprios olhos como esta abençoada terra, que d'antes se definhava nas
+mãos de um fidalgo, medra agora nas mãos de um lavrador?
+
+--Justamente. E depois tivemos a felicidade de encontrar a menina
+Bertha, que é a maravilha d'estes sitios.
+
+--Ah!--disse Thomé, com um meio sorriso, e voltando-se para a filha, que
+instinctivamente se aproximou d'elle:
+
+--É verdade. Agora me lembra! Olha que tua mãe recebeu já aquellas
+meiadas. Se queres ir vêl-as.
+
+--Vou, vou já--respondeu Bertha.
+
+E cortejando levemente os tres rapazes, afastou-se d'alli.
+
+--Até outra vez, Bertha--disse Mauricio, com voz affectuosa.
+
+--Snr. Mauricio--correspondeu-lhe Bertha, e desappareceu por uma rua da
+quinta.
+
+E pensava comsigo mesma:
+
+--Agora... agora... já não sinto mêdo d'elle... nem de mim.
+
+--Na verdade, Thomé, a sua casa está um perfeito paraizo e nem os anjos
+lhe faltam--disse o mano bacharel, depois que Bertha se retirou.
+
+--O que eu posso affirmar--insinuou o abbade--é que não faltarão tambem
+em volta d'estes muros enxames de namorados. Que te parece, Mauricio?
+
+--Bertha é digna de todos os respeitos--murmurou Mauricio, confuso.
+
+--Bem, bem, quem diz menos d'isso? mas...
+
+Thomé interrompeu o padre.
+
+--Eu lhes digo, meus senhores, Bertha é filha de uma familia, em que
+todos trabalham, e pouco tempo póde ter para apparecer a namorados.
+Quando algum homem de bem se me affeiçoar á filha, não serei eu que lh'a
+recuse, se o coração d'ella estiver para esse lado; pois para freira a
+não quero. Emquanto aos enfeitados, que andam por ahi a zunir aos
+ouvidos das raparigas e a fazel-as doidas, Bertha sabe bem o que elles
+valem... mas, se por acaso a importunarem muito... eu sei como se dá
+cabo de um vespeiro.
+
+E fallando Thomé da Povoa não ficára immovel, mas pozera-se naturalmente
+em caminho da porta, e os tres seguiam-n'o, sem fazer observação alguma.
+
+Só quando o viram parar no portão é que perceberam que o lavrador como
+que tacitamente os convidava para sahirem.
+
+O padre não pôde deixar sem uma reflexão este procedimento.
+
+--Agradecemos, Thomé, o incommodo que teve a ensinar-nos o caminho da
+porta para sahirmos.
+
+--Os lavradores da nossa terra teem estes excessos de
+hospitalidade--secundou o doutor.
+
+Thomé córou e respondeu com certa confusão:
+
+--A minha cabeça!... Desculpem. Isto em mim foi distracção. Quando a
+gente não está bem em si, faz, sem reparar, coisas que muitas vezes lhe
+podem estar na vontade, mas que por delicadeza não faria, se pensasse
+melhor. Queiram desculpar.
+
+--Está desculpado. Nós tambem não tinhamos mais que fazer aqui. O fim da
+nossa visita estava preenchido.
+
+--Sim, tambem me quiz parecer isso.
+
+--Adeus, Thomé--bradou o doutor--Deixamol-o entregue á sua vida
+patriarchal.
+
+--E está um verdadeiro patriarcha, este bonacheirão do Thomé--disse o
+padre, batendo familiarmente no hombro do lavrador.
+
+--Bonacheirão?--repetiu Thomé, encolhendo os hombros e com um meio
+sorriso--Isso é conforme. Ás vezes... Ahi está que, sendo eu amigo do
+mestre-escóla, como sou e ha tantos annos, estive ha mezes para o
+esmagar. E sabem porquê? Porque passava eu por a escóla e ouvi chorar
+uma criança, e pareceu-me que era o meu pequeno; não me socegou o
+coração sem que me affirmasse se era elle ou não. Entrei e vi o
+desalmado do Zé Domingues que m'o desancava sem dó nem piedade.
+Escureceu-se-me a vista, entrei furioso por alli dentro, e por um triz
+que não deixava o homem a pernear.
+
+Os rapazes estavam já fóra da porta quando Thomé acabou de contar o
+caso, e acrescentou:
+
+--Não que se tractava de meu filho, e isto de amor de pae e de mãe... É
+como nos animaes. Sabem aquella vacca malhada que eu tenho? Um borrego,
+com que uma criança brinca; pois haviam de vêl-a uma vez em que lhe
+tiraram a cria! Estava furiosa e arremettia como um toiro bravo. É
+preciso cuidado com isto de paes e de mães!--concluiu o fazendeiro, em
+tom sentencioso e emphatico.
+
+E dando as boas tardes aos tres rapazes, fechou a porta, murmurando:
+
+--O padre ainda não aprendeu com a corrida que levou da abbadia. E este
+Mauricio a acompanhar com elles! Valha-o Deus!
+
+--Então que vos parece o snr. Thomé?--perguntou o bacharel cá fóra.
+
+--Não está mau com a historia da vacca--disse o abbade, rindo.
+
+Mauricio conservou-se silencioso.
+
+--Tu a modo que vaes assim embaçado, ó Mauricio?--observou o bacharel.
+
+--Estou arrependido de vos ter trazido commigo aqui--confessou Mauricio.
+
+--Ora não sejas parvo! querias talvez que fizessemos muito gasto de
+excellencias com a filha do Thomé da Povoa?
+
+--É uma rapariga de educação, e o pae...--ia a dizer Mauricio.
+
+--E o pae--atalhou o padre--anda-me chiando muito alto, mas bom será que
+tenha mais cuidadinho comsigo.
+
+--As ultimas palavras d'elle cheiraram-me a uma ameaça--observou o
+doutor.
+
+--Eu nem dei por isso--respondeu o mano.
+
+E os tres retiraram-se de mau humor.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Jorge, que ultimamente era menos assiduo em Casa de Thomé, sem que este
+pudesse atinar com a razão do facto, recebeu, na tarde d'aquelle mesmo
+dia, um bilhete do fazendeiro, pedindo-lhe que o procurasse na Herdade
+ás horas do costume. Jorge não faltou.
+
+Thomé da Povoa recebeu-o com modos menos desenleiados do que os que lhe
+eram habituaes, e com ares de mysteriosa preoccupação conduziu-o a um
+gabinete mais retirado da casa, serrando a porta depois que entraram,
+com excepcional cuidado.
+
+Jorge seguia-lhe com estranheza os movimentos.
+
+Thomé, com um gesto denunciador do esforço que n'aquelle movimento fazia
+sobre si proprio, entrou no assumpto com visivel repugnancia:
+
+--Snr. Jorge--principiou elle--sei que é meu amigo, e que tem o juizo e
+a prudencia de um homem feito, apesar de novo como é; por isso vou
+fallar-lhe com a franqueza de um homem de bem e de um amigo.
+
+--Nem o Thomé sabe conversar de outra maneira. Diga.
+
+--Pois bem. A coisa é esta... Eu antes queria não fallar n'isto, mas...
+emfim... se o negocio ha de ir a mais... e succeder por ahi alguma
+desgraça... emfim... a tempo é que é evitar o mal; quanto ao depois...
+
+--Mas de que se tracta?
+
+--Snr. Jorge. É um pae que lhe falla. Tenho uma filha e emfim preciso de
+vigiar por ella, emquanto não tem marido que a zele e proteja... não é
+verdade?
+
+Jorge não pôde ouvir sem se perturbar estas palavras e, interiormente
+inquieto, sem bem saber porque, murmurou:
+
+--De certo, mas...
+
+--Ora bem. O snr. Jorge é rapaz sisudo e pacato, mas emfim sempre ha de
+saber o que são dezoito, dezenove ou vinte annos, hein? Pode-se ter o
+juizo muito claro, vêr as coisas como ellas são, mas... isto de sangue
+novo... parece que ferve e depois é como uma doença, e como uma febre, a
+cabeça desarranja-se e não ha conselhos que a concertem. Pois não é
+assim?
+
+Jorge córou ouvindo estas considerações de Thomé, que lhe pareciam
+dirigidas, olhou para elle com desconfiança e respondeu confusamente:
+
+--Talvez seja; porém...
+
+--Ora então segue-se que o melhor é livrar-se a gente de trabalhos e
+fugir das occasiões, para que depois se não diga: «Ai, porque se eu
+soubesse; ai, porque o que eu devia ter feito era...» Entende-me?
+
+--Entendo, Thomé, mas, a final a que quer chegar?--interrogou Jorge,
+cada vez mais sobresaltado.
+
+--Ora eu lhe digo. A minha Bertha é uma rapariga de juizo.
+
+A confusão de Jorge redobrou. O rosto tingiu-se-lhe de rubor, em que
+Thomé não reparou.
+
+--É--proseguiu o fazendeiro--tenho a certeza d'isso, mas é rapariga, e
+emfim teve uma educação bem bonitinha; e Deus me perdoe se fiz mal em
+lh'a dar; ora eu, com quanto seja um rustico, sei o valor que teem
+certas coisas, e que quem se costumar a ellas com ellas sonha. Isso é
+que é verdade! E nem eu me admirava de que a pequena tivesse sua
+inclinação para rapazes da cidade. Era natural, já digo. Mas aqui não
+veem elles, os da terra são assim meios... meios... emfim rapazes de
+lavoura, como eu fui; muito bons para raparigas como era a minha Luiza.
+Ora agora o que por ahi ha, são, e perdoe-me dizer-lhe isto, uns
+fidalguinhos que não teem que fazer, e que passam o seu tempo a
+inquietar as raparigas da terra. D'esses é que eu tenho mêdo! E se quer
+que lhe falle a verdade, cá em relação á minha pequena, ha um sobre
+todos de que eu muito me receio.
+
+--Quem é?--perguntou Jorge, ainda não senhor de si.
+
+Thomé hesitou por algum tempo, mas a final, como tomando uma resolução,
+respondeu:
+
+--É seu irmão Mauricio.
+
+--Mauricio!--repetiu Jorge, contrahindo a fronte.--Pois acaso tem elle
+dado já motivos para suspeitar?...
+
+--Poucos; isto em mim é mais mêdo do que outra coisa. Hoje porém já me
+não agradou o que elle fez.
+
+E Thomé narrou a Jorge a scena da manhã, acrescentando:
+
+--Ora dos do Cruzeiro não tenho eu mêdo. Bertha conhece-os e é o que
+basta para ficar livre de perigo; mas com o snr. Mauricio já não é
+assim. Apesar das suas doidices, não se póde deixar de se gostar do
+rapaz, porque o fundo é bom e generoso, e depois... conhecem-se ha
+muito... e elle é estouvado e um rapaz bonito... e ella... ella tem
+dezoito annos... Emfim, snr. Jorge, isto anda-me cá a pezar, e por isso
+pedia-lhe que visse se obrigava seu irmão a deixar-me em paz a rapariga,
+porque nada de bom póde resultar d'aqui.
+
+Jorge sentia apertar-se-lhe o coração ao ouvir aquella confidencia. Era
+pois certo que Bertha amava já Mauricio!
+
+--Thomé--respondeu elle, sem trahir a sua agitação--socegue. Eu fallarei
+a Mauricio. Não creio que elle fizesse com intenção o que me diz; mas em
+todo o caso concordo em que é preciso evitar a tempo peores
+occorrencias. Faço justiça a Bertha; mas quero que meu irmão seja o
+primeiro a respeital-a. Eu lhe fallarei, creia.
+
+--Muito bem--respondeu Thomé, apertando-lhe a mão.--Eu estava certo de
+que me daria essa mesma resposta.
+
+Jorge acrescentou:
+
+--Demais, Mauricio pouco se demorará aqui. Espero que em breve parta
+para Lisboa.
+
+--Bom será. Talento tem elle para o poder aproveitar na vida, e aqui o
+que ha de elle fazer? Depois a companhia d'aquelles primos!...
+
+Jorge separou-se de Thomé, sem que se occupasse n'aquella noite do
+assumpto habitual das suas conferencias.
+
+Ao sahir, mais cêdo do que o costume, atravessou uma sala aonde Bertha
+costurava á luz de um candieiro.
+
+Ao vêl-o passar, Bertha estendeu-lhe familiarmente a mão, dizendo com um
+sorriso affectuoso:
+
+--Retira-se muito cêdo hoje; durou pouco a lição.
+
+--Ás vezes é quando mais se aprende--respondeu-lhe Jorge, com mal
+disfarçada ironia.
+
+--E até quando?--proseguiu Bertha, parecendo não attentar no sentido da
+resposta.--Ha já bastante tempo que não o viamos.
+
+--Até... até cêdo.
+
+--O snr. Mauricio vejo-o mais vezes... ainda hontem ahi passou.
+
+--Sim--disse Jorge com um malicioso sorriso--Mauricio tem essa
+habilidade, de ser visto todos os dias por as mulheres bonitas da terra.
+
+Bertha olhou admirada para Jorge; feriam-n'a aquellas respostas sêcas e
+sarcasticas, que não esperava ouvir-lhe.
+
+--Então dá-se ao trabalho de se mostrar a todas?--perguntou ella sem
+desviar os olhos.
+
+--Sim, provavelmente--tornou Jorge no mesmo tom--e parece que todas se
+dão ao trabalho de lhe apparecer.
+
+--Ah!
+
+E Bertha calou-se; fixou os olhos na costura e pareceu até esquecer-se
+da presença de Jorge na sala.
+
+Este finalmente despediu-se, estendendo a mão a Bertha.
+
+--Boa noite, Bertha.
+
+Sem levantar os olhos da costura e portanto sem lhe corresponder ao
+gesto de despedida, Bertha respondeu:
+
+--Boa noite, snr. Jorge.
+
+--Offendeu-se--pensava Jorge ao retirar-se--então ha fundamentos para as
+apprehensões de Thomé. Juizo de rapariga a final! Cabeça doida, que não
+espera que o coração se declare e alimenta paixões com reminiscencias de
+romances. Pobre Thomé! É o que elle a final colhe dos seus sacrificios
+para a educar. Eu logo o suppuz...
+
+As reflexões de Jorge succederam-se e encadearam-se n'este teor. Crescia
+n'elle mais do que nunca a sua irritação contra Bertha.
+
+--Mas que tenho eu com Bertha?--reconsiderava elle--para me importar com
+isto? A final são pequenas fraquezas de rapariga e... Mas a amizade que
+consagro ao pae obriga-me a intervir. Mauricio é um louco, e ella já
+vejo que não tem mais prudencia do que outra qualquer rapariga da sua
+idade.
+
+E esta ideia de Bertha ser sensivel aos galanteios de Mauricio era o que
+mais que tudo o incommodava.
+
+E Bertha? Que ficou pensando, com a cabeça inclinada sobre a costura,
+mas com a mão parada e o olhar pensativamente fixo?
+
+--Porque é esta severidade de Jorge para commigo?--pensava ella--Não
+posso já duvidar. Ha n'elle não sei que prevenção contra mim. Ou não me
+falla, ou falla-me d'este modo. Um motivo leve não póde ser, porque
+Jorge é, ao que dizem, um rapaz de tão bom senso, que de certo por uma
+insignificancia não me tractaria assim. Mas que faria eu? Nada; se em
+mim ha loucuras, ficam-me no pensamento e ahi quem as vae devassar?... E
+que fossem?... E que as achassem?... Eu podia dizer-lhes: Sim, estão
+ahi, mas eu bem sei que estão, e ahi mesmo as suffoco e venço. Não sou
+responsavel perante ninguem do que se passa em mim só. Entre mim e Deus
+é que essas coisas se julgam. Quando me revelar, quando me trahir, que
+me peçam contas então. A que vem estas severidades? Que fiz eu a este
+generoso rapaz? Imaginará elle que o galanteio de Mauricio me terá
+fascinado? É um caracter tão serio, que talvez por isso me condemne.
+Fascinar-me! Mauricio!!... Ao principio talvez; agora porém vejo que se
+vão desvanecendo essas phantasias de criança, nascidas e robustecidas
+nas minhas horas de solidão no collegio, e que senti alvoroçarem-se ao
+chegar aqui, e ao vêl-o. Mauricio não é o caracter de que eu me posso
+receiar. E ainda bem. Mas Jorge por que me quererá mal? Lembra-me que
+meu pae me disse que, se elle não fosse meu amigo, não me dizia que o
+era... E elle ainda m'o não disse.
+
+Estas reflexões foram interrompidas pela entrada de Thomé, que,
+satisfeito pela promessa de Jorge, já não sentia nuvens a escurecer-lhe
+o pensamento.
+
+Jorge chegou a casa antes do irmão.
+
+Era noite de luar, tepida noite de outomno, languida e serena, como a
+podem desejar os mais exaltados devaneiadores. Havia uma limpidez no
+céo, uma quietação nos bosques tão completa, que parecia que a natureza
+toda parára em suspensão a contemplar o solemne progresso da lua pelo
+firmamento, que inundava de luz.
+
+Era uma d'estas noites em que só a custo se troca o ar livre dos campos
+pelo ar confinado do gabinete, em que se hesita ao cerrar as janellas
+aos raios da lua que invadem a sala, para os substituir pela luz
+vacillante da lampada, que alumia as vigilias do estudo.
+
+O proprio Jorge, habituado como estava ao trabalho, cedeu ás seducções
+d'aquella noite e deixou-se ficar sob as arvores da quinta. O peito
+precisava de ar livre que o desopprimisse.
+
+Os carvalhos e castanheiros seculares temperavam a claridade da lua,
+coando-a atravez da folhagem, de que o inverno os não despira ainda. Uma
+luz mysteriosamente discreta penetrava no bosque; raros sons
+interrompiam aquelle silencio, além do rumor longinquo e monotono das
+fontes e cascatas.
+
+O pensamento de Jorge perdêra a placidez habitual; como que despertavam
+n'elle os instinctos de juventude, povoando-lhe de visões o campo da
+phantasia, de ordinario occupado por mais severas imagens.
+
+Os seus calculos, os seus projectos de futuro, os problemas de
+administração, que lhe absorviam o pensamento, cederam agora o logar a
+ideias menos positivas, a meditações vagas, a quasi devaneios, em que
+raras vezes a sua razão se deixava arrebatar. Primeiro dominou-o a magia
+do passado; evocou do silencio dos tumulos aquelles dos seus
+antepassados, que trouxeram com todo o esplendor o nome que hoje era
+seu, os que mais alto elevaram o ennegrecido brazão que honrava ainda a
+frontaria d'aquelle solar em ruinas. Depois, saudades mais pungentes,
+d'essas que ainda trazem vestigios de lagrimas, como restos da sua
+natureza de dôr, de que só o tempo as vae privando, occuparam-lhe o
+coração e o pensamento. A sombra da pallida e estremecida irmã, que a
+morte arrebatára quando mais seduzia com sorrisos e afagos, a sombra de
+Beatriz, que era a mais querida e mais dolorosa recordação d'aquelles
+rapazes e d'aquelle velho, parecia surgir ao mysterioso apello da noite,
+e vaguear, como uma apparição phantastica, por entre essas arvores que
+menina a viram e menina a protegeram do sol abrazador dos campos.
+
+Jorge ainda não esgotára as lagrimas consagradas á memoria da irmã.
+Tinha-as nos olhos, quando a tinha no pensamento a ella.
+
+Pouco e pouco, por uma insensivel transição, a imagem de Bertha
+substituiu a de Beatriz.
+
+Differentes eram as impressões que esta nova imagem lhe produzia,
+differentes e indecifraveis quasi.
+
+Já vimos que antagonismo de sentimentos havia no coração de Jorge em
+relação á filha de Thomé da Povoa.
+
+Como luctavam a involuntaria attracção que por ella sentia, com a
+reflectida resistencia que lhe oppunha. Lidava por levantar obstaculos
+ao progresso do violento affecto que lhe ia tomando o coração, e a seu
+pezar via que esses obstaculos eram inuteis. Inventava defeitos que lhe
+desprestigiassem o caracter de Bertha, accusava-a de vicios de educação
+que ainda lhe não reconhecêra, fingia-se convencido da leviandade
+d'aquella pobre rapariga, e com toda a austeridade do seu caracter
+sisudo lavrava contra ella a sentença condemnatoria; mas no fim de tudo
+isto achava-se cada vez mais subjugado; revoltava-se-lhe debalde a
+consciencia contra esta fraqueza, em vão revelava com maneiras rudes e
+quasi hostis para com Bertha este desgosto de si mesmo que estava
+experimentando... o effeito era cada vez mais pronunciado.
+
+O que tinha acabado de ouvir a Thomé augmentára-lhe aquella inquieta
+lucta de espirito.
+
+A ideia de inclinação reciproca de Bertha e de Mauricio irritava-o e
+affligia-o.
+
+Não eram as consequencias do facto que o assustavam. Jorge não
+acreditava na sinceridade das affeições de Mauricio; sabia quanto ellas
+eram fugazes e estava convencido de que a proxima partida do irmão
+bastaria para desvanecer essa paixão nascente.
+
+E comtudo não lhe sahia do pensamento aquillo. Torturava-o aquella
+ideia, não lhe permittia repouso.
+
+A consciencia de Jorge aventurava, muito a mêdo, a vaga explicação
+d'este enigma psychologico que se estava passando n'elle, mas Jorge
+recusava dar attenção áquella voz.
+
+Ha casos assim, em que nem comnosco somos sinceros, em que se faz mais
+evidente do que nunca esta especie de dualidade unificada em todo o
+individuo, porque guardamos discretamente de nós um segredo nosso, e
+luctamos comnosco em opposição declarada.
+
+A dominios tão intimos da consciencia seria porém irreverente levar a
+luz da analyse; aguardemos que a ulterior evolução de affectos melhor
+nos revele o segredo que ia no coração de Jorge.
+
+Era já noite avançada quando chegou aos ouvidos do pensativo rapaz o
+ruido de uma porta que se abria; pouco depois passava Mauricio pela
+extrema do bosque, cantando distrahidamente:
+
+ Além, n'aquella avenida
+ De platanos e salgueiros,
+ Foi que em teus beijos primeiros
+ Bebi a primeira vida.
+
+A luz do luar batia-lhe em cheio na figura e não o deixou passar
+incognito.
+
+Jorge, reconhecendo-o, chamou-o em alta voz.
+
+Mauricio parou surprendido.
+
+--Quem me chama?
+
+--Sou eu.
+
+--Tu?! Jorge!
+
+--Sim, pois quem havia de ser?
+
+Mauricio caminhou ao encontro do irmão.
+
+--Transportas-me de surpreza em surpreza! uns dias a seguir da janella
+do teu quarto o caminhar das nuvens, outros a errar á meia noite por
+entre as sombras dos bosques! Em que havia de dar a arithmetica!
+
+--Cheguei ha pouco. Abafava lá dentro. Vim para aqui esperar-te, porque
+desejava conversar comtigo.
+
+--O tom é grave e serio; é de crer que o assumpto corresponda.
+
+--Não te enganas. É bastante serio o que tenho para dizer-te.
+
+--Penetremos então na sombra druidica d'este bosque, para augmentar a
+solemnidade da scena.
+
+--Peço-te que deixes para outra occasião as tuas observações joviaes;
+repito-te que é serio o que tenho a dizer-te.
+
+--Pois aqui me tens serio como o assumpto. Falla.
+
+Jorge guardou ainda por instantes silencio. Sob os passos dos dois
+irmãos ouvia-se estalar as folhas sêcas que alastravam o chão.
+
+--Mauricio--principiou Jorge a final--Thomé procurou-me hoje para
+fazer-me um pedido.
+
+--Hum!--atalhou Mauricio com meio riso--não me enganei, previ logo que
+se tractava d'isso.
+
+--De quê?
+
+--Fizeram-te queixa de mim, não é verdade? Pintaram-me como um lobo
+voraz rondando e assaltando o curral da tenra ovelhinha, creada com
+tanto mimo e recato? e tu, na tua inexperiente imaginação de rapaz
+serio, viste logo um drama pavoroso em tudo isso e distribuiste-me
+n'elle o papel de tyranno. Confessa que tudo isto é verdade.
+
+--E estimaria bem que não fosse.
+
+--É o que eu digo. Olha, Jorge, eu sou mais novo do que tu, mas, vivendo
+mais da vida commum da sociedade, não estou tão sujeito a vêr as coisas
+sob o colorido particular do prisma, atravez do qual as vêem os que,
+como tu, trazem quasi sempre o pensamento tomado por altas e abstractas
+especulações. Com a maior franqueza te confesso que Bertha me agrada,
+que todos os dias procuro vêl-a, que, se lhe fallo, não perco tempo a
+dizer-lhe que o anno vae bom para as colheitas ou que hontem esteve mais
+calor do que hoje; não tenho razões para suppôr que as minhas visitas a
+importunem. Esta é que é a verdade; mas d'aqui a realisar o typo de
+Lovelace ou D. Juan Tenorio, incumbindo a ella a parte de Clarisse ou de
+Elvira, vae muita distancia. Estas coisas, se tu não andasses tão
+alheado dos negocios terrenos, devias saber que são da pratica commum,
+em qualquer parte, onde se encontra uma rapariga bonita e um rapaz que
+se preza de saber apreciar o bello. Ora agora vê lá se ha motivo para o
+terror tragico que te infundiram.
+
+--Não é terror tragico, é desgosto. Eu bem sei que são usuaes esses
+galanteios que dizes, essas falsas ostentações de amor, com as quaes se
+profana e desprestigia tudo quanto ha de mais sancto e respeitavel no
+coração do homem. Ás vezes succede, é verdade, que uma das partes
+interessadas, talvez por andar alheada dos negocios terrenos, como
+dizes, entra com a alma n'essas comedias sociaes, e quando a scena
+finda, muito a bel-prazer do outro actor e sob os applausos dos
+espectadores que riem, essa alma sente-se ferida de um golpe mortal. As
+illusões da mocidade, o suave perfume de um affecto virginal, as
+primicias de um amor casto, tudo se desvanece n'estas profanações, e não
+sei que haja espirito tão leviano que ouse tentar a representação
+d'estas comedias ridiculas e ao mesmo tempo perversas com uma pessoa a
+quem se devem affeições leaes e respeitos.
+
+--Mas...
+
+--Em uma palavra, Bertha é a filha de um homem honrado; Bertha era a
+amiga e a companheira de Beatriz e muitas vezes se sentou comnosco á
+mesa, a que presidia nossa mãe, que a abençoava, quando nos abençoava a
+nós. Não te lembras d'isso?
+
+--Lembro, e por isso mesmo a amo. Não te disse que havia entre nós
+recordações de infancia?
+
+--Amas!--exclamou Jorge com uma impaciencia, a que era pouco
+sujeito.--Que amor! Um amor de que fazes confidentes os primos do
+Cruzeiro, que sabes tractarem irreverentemente todos os amores, um amor
+que ostentas sem recato, chegando a sujeitar á apreciação cynica d'esses
+doidos a mulher que dizes objecto d'elle, um amor que não procuras
+occultar com aquelle casto e natural pudor de uma alma devéras
+apaixonada. Que amor esse que apregoas sem escrupulos nem reservas
+diante de quem quer que seja!
+
+--Mas... como imaginas tu então que se ama, quando se ama devéras? O
+systema da publicidade applicado ás paixões não será antes uma garantia
+da boa natureza d'ellas?
+
+Como se nem tivesse escutado estas palavras, Jorge, acelerando um tanto
+a rapidez dos seus passos, proseguiu com exaltação crescente:
+
+--Nunca amei, nunca senti por uma mulher uma d'estas paixões unicas,
+dominadoras, exclusivas, a que se sacrifica tudo; mas ás vezes tenho
+pensado n'isto e julgo haver concebido o que seria para mim o amor, se o
+sentisse. Se eu um dia amasse, parece-me que procuraria esconder de
+todos os olhos essa paixão; desejaria que ninguem m'a suspeitasse nem
+por uma palavra, nem por um gesto, nem por um olhar. Ouvir estranhos
+fallar sequer na mulher que eu amasse, ferir-me-ia como uma profanação.
+Não escolheria confidentes, a ninguem revelaria esse segredo da minha
+alma. A mais alta, a mais casta voluptuosidade, que me produziria este
+amor seria o poder dizer, quando estivesse só, ninguem no mundo sabe,
+ninguem suspeita este mysterio do meu coração, senão ella. Para ella só,
+para essa mulher que eu amasse quereria reservar todas as manifestações
+dos meus sentimentos, as mais serias e as mais pueris, pertenciam-lhe; e
+permittir que outros as percebessem era profanar o culto. Só com ella,
+sim, todas as reservas acabavam; então no gesto, na palavra, no olhar
+revelaria inteira a minha alma, sem mysterio nem discrição. Aspiraria
+assim n'esses instantes todo o suave e delicado perfume do amor. Que o
+mundo, ao vêr-me frio e concentrado, pensasse: «Ahi está um homem de
+gêlo, este não sabe amar», e que ella só pudesse dizer: «Oh! eu é que
+sei de que extremos é capaz aquelle amor que ninguem suspeita.»
+
+Mauricio estava maravilhado de ouvir Jorge, que parecia dominado por uma
+excitação nervosa, ao fallar assim, mais para si do que para o irmão.
+
+Taes expansões eram raras em Jorge e esta era a mais vehemente e
+completa que o irmão presenciára.
+
+--É singular!--notou Mauricio--N'esta vida tropeça-se a cada passo em
+uma maravilha. Quem te ouvisse agora não acreditaria que és aquelle
+rapaz serio, para quem as raparigas nem se atrevem a lançar um olhar
+furtivo, porque nunca uma phrase de galanteio ou um sorriso as animou a
+tanto. Estou admirado! e quasi me convenço de que a final sou apenas um
+simples curioso na arte de amar, cuja metaphysica transcendente tu
+professas como verdadeiro mestre. A minha sensibilidade é menos
+exigente, mas por essa mesma razão admiro a suprema delicadeza da tua!
+
+Jorge como que voltou a si e estranhou a exaltação de que se deixára
+possuir. Rindo e fallando já em tom natural tentou attenuar a impressão
+produzida, e disse para o irmão:
+
+--A lua tem decididamente uma influencia poderosa até nos animos mais
+fleugmaticos. Ahi está que querendo eu fallar-te de coisas serias,
+esqueci-me em uma divagação sentimental, que Deus sabe até onde me
+levaria. Deixemos isto. Vaes prometter-me, Mauricio, que desestirás de
+inquietar Bertha e tranquillisarás o espirito a Thomé!
+
+--Ora que ridicula promessa exiges tu de mim! Deixa-me vêr de quando em
+quando aquella rapariga, que eu te afianço que não corre perigo algum
+com isso. Quanto mais que eu não posso assegurar que ella de facto me
+corresponda.
+
+--Não anticipes juizos sobre o effeito incalculavel que póde produzir no
+espirito d'aquella rapariga a assiduidade das tuas attenções. Bertha é
+muito nova, tem habitos e gostos de cidade, e não é de crêr que possas
+ter na aldeia concorrentes que te offusquem. Por isso o melhor é acabar
+com esse galanteio perigoso para ella. Lembra-te das consequencias que
+póde ter um tal capricho da tua parte. Além do que parece que já te
+esqueceste da gravidade da nossa posição e das resoluções que ha dias
+tomamos.
+
+--Não, não me esqueci; estou prompto para a primeira voz; mas, emquanto
+espero, desejo dar um adeus á vida de rapaz.
+
+--Mas evita sahir d'ella, semeando remorsos que fructifiquem na tua vida
+de homem.
+
+--Mas...
+
+--Terminemos. Peço-te, em nome de Beatriz, que não continues galanteando
+Bertha. Promettes?
+
+Mauricio acabou por prometter.
+
+E horas depois voltavam a casa os dois irmãos.
+
+A lua declinava já no arco esplendido que descrevia no céo.
+
+
+
+
+XV
+
+
+Em uma das seguintes madrugadas foi Jorge sobresaltadamente acordado
+pelo velho jardineiro, que depois das ultimas reformas estava empregado
+no serviço interno da casa. O homem tinha uns ares de espantado, como se
+viera a communicar a noticia de um incendio.
+
+--Que temos?--perguntou Jorge, sentando-se inquieto no leito.
+
+--É que não tarda ahi a snr.ª baroneza. Já estão lá em baixo umas
+bagagens e uns criados, e... não está nada preparado.
+
+--Cuidei que era outra coisa. E o que querias tu que estivesse
+preparado?
+
+--Ora pois então? Sempre é uma pessoa... Lá o padre já deu ordem para se
+ir pedir a baixella aos...
+
+--Não se pede coisa alguma. Ahi principia o frei Januario a fazer das
+suas. Dize-lhe que deixe tudo ao meu cuidado. Que se não estafe, nem
+afflija, que não é necessario.
+
+--Mas... olhe lá, snr. Jorge! O fidalgo mesmo não ha de gostar...
+
+--Faze o que eu te digo. Isso em ti, a fallar a verdade, até me admira.
+Não parece franqueza de soldado. Para occultar aos olhos de minha prima
+a nossa pobreza, que não é vergonha nenhuma, querias que fosse descobrir
+ás familias que teem baixellas, a nossa vaidade, que essa, sim, seria
+uma vergonha? Não estou resolvido a fazel-o.
+
+O velho meneou a cabeça por algum tempo, e acabou por dizer:
+
+--Parece-me que tem razão, snr. Jorge, como sempre. Ai, se n'esta casa
+todos tivessem tido o seu juizo, ella não chegaria ao estado a que
+chegou. Lembro-me agora de que quando o imperador...
+
+--Deixa o caso para outra occasião. Vae arranjar, como puderes, essa
+gente e essas coisas todas; emquanto eu me visto e preparo para ir
+receber a prima...
+
+O velho criado obedeceu com presteza militar.
+
+Meia hora depois ouviam-se tilintar as campainhas dos machos da liteira,
+em que vinha a baroneza.
+
+Gabriella, a baronezinha viuva de Souto-Real, ainda não tinha trinta
+annos, e mais nova parecia do que era. Alva, loira e delicadamente
+formosa, realisava o typo da mulher elegante, creada na atmosphera dos
+bailes e dos theatros, e mais á luz artificial que á luz do sol.
+Apaixonada por perfumes e rendas, observadora fiel da moda, sujeitava-se
+aos mais extravagantes caprichos d'ella, sabendo-os porém corrigir pela
+influencia do seu gosto apuradissimo. Tinha a languidez e a particular
+côr pallida das formosas de Lisboa, que não recebem do sol da provincia
+a vigorosa encarnação de saude. Indole verdadeiramente feminina, exercia
+mais imperio sobre as suas paixões, do que sobre os seus caprichos. Com
+difficuldade sacrificaria o mais ligeiro d'estes; aquellas, porém,
+subjugava-as com fortaleza varonil. Possuia um genio alegre e ás vezes
+um tanto satyrico, mas sem malignidade. Não professava os principios
+d'aquella moral intractavel, que se arma da severidade puritana contra
+as paixões e defeitos dos outros; pelo contrario era tolerante e
+latitudinaria, não se esquivando a apertar a mão aos maiores peccadores,
+com quem se encontrava no mundo, sem que, sob essas apparencias de
+leviana indifferença, deixasse de manter um descernimento seguro do bem
+e do mal, e um grande fundo de moralidade e de justiça.
+
+Além d'isto possuia um bom coração e uma alma generosa.
+
+No tracto de mais illustrada sociedade lisbonense e nas viagens em que
+acompanhára o barão, seu fallecido marido, adquirira uma variada cópia
+de conhecimentos, de que o seu natural bom senso sabia usar, sem abuso.
+Passava por uma das mais espirituosas damas de Lisboa, sem que se lhe
+notasse a ostentação pedantesca, que é o escolho em que tanta vez
+naufragam as que a tal nome aspiram. As primeiras capacidades
+artisticas, litterarias e politicas frequentavam as salas da baroneza e
+apreciavam a sua conversação.
+
+Gabriella casára por conveniencia, que não por inclinação, com um homem
+mais velho do que ella, sem fóros de nobreza, mas pertencendo á classe
+argentaria, que é a verdadeira aristocracia moderna.
+
+Apesar d'isso soube ser esposa fiel e dedicada d'aquelle homem que a
+livrára da precaria condição em que a decadencia da sua casa a
+collocára. Viuvando, Gabriella não deu indicios de se alistar nas
+diminutas phalanges das viuvas inconsolaveis, mas não se precipitou na
+escolha de esposo. A sua belleza, o seu espirito e os rendimentos que
+herdára attrahiram uma nuvem de adoradores, que ella ia deixando viver
+de illusões, sem se dar para isso ao trabalho de fabricar, á imitação de
+Penelope, uma interminavel teia. Esta vida e estes galanteios
+enfadavam-n'a, e, para distrahir-se, emprehendia pequenas viagens. Foi
+ao voltar de uma que fizera pela Hespanha, que recebeu a carta do tio, e
+resolveu desenfadar-se por algum tempo da vida das capitaes, visitando a
+sua provincia e os logares onde passára a infancia.
+
+Tal era a baronezinha de Souto-Real, que acabára de apeiar-se no pateo
+lageado da Casa Mourisca.
+
+Jorge ajudou-a cortezãmente a descer.
+
+--Agradecida, Jorge--disse ella, apertando-lhe a mão.--Fazes as honras
+do teu castello com a galhardia de um perfeito cavalleiro.
+
+--A prima não repare na modestia com que a recebemos, mas pareceu-me que
+seria mais digno da nossa amizade e do seu caracter apresentarmo-nos
+taes quaes somos, do que encher o pateo de criados e jornaleiros a quem
+vestissemos á pressa fardas...
+
+E completou a meia voz:
+
+--... Emprestadas.
+
+--Oh! por certo; e eu reconheço melhor a tua fidalguia, Jorge, na
+franqueza d'esta recepção, do que na libré dos teus criados e nos
+brazões dos reposteiros.
+
+E conversando familiarmente com o primo, a quem tomára o braço, a
+baroneza subiu os degraus da escadaria, que subia para a sala nobre.
+
+Á porta encontraram-se com frei Januario, que voltava azafamado da
+cozinha, aonde tinha ido dar ordens accommodadas á solemnidade do caso e
+ás impaciencias e appetite do proprio estomago.
+
+O padre limpava ainda os labios ao lenço, para fazer desapparecer os
+vestigios de uma libação extra-official que de passagem fizera.
+
+--Queira v. exc.ª perdoar, snr.ª baroneza, o apparecer-lhe ainda agora,
+mas as obrigações do meu cargo...
+
+--Ó snr. frei Januario, por quem é, lembre-se de que somos conhecidos
+antigos, e que até por vezes lhe dei motivos para me abjurar como
+jacobina. Tinha que vêr se me preparava a honra de uma felicitação em
+fórma. Onde está meu tio?
+
+--O fidalgo não estava prevenido de que v. exc.ª chegava tão cedo, e por
+isso ainda está recolhido no seu quarto, mas eu vou...
+
+--Ai, não, não; por amor de Deus não o acorde!
+
+--Não; elle está já a pé; mas emfim fazer a barba e tal... sempre leva
+alguns minutos.
+
+--Que se não apresse por minha causa. Eu illudirei a grande vontade que
+tenho de lhe beijar a mão, conversando com o primo Jorge.
+
+--Então, se v. exc.ª me dá licença...
+
+--Até logo, frei Januario.
+
+E quando este ia longe, acrescentou:
+
+--Ó snr. frei Januario, aquelle grande dia que estava já para chegar na
+ultima vez que nos vimos, aquelle dia de redempção, ao que parece não
+chegou ainda?
+
+O ex-frade encolheu os hombros, e respondeu com ar de mysterio:
+
+--Ainda não é tarde, minha senhora. Pouco viverá quem não o vir.
+
+Gabriella entrou rindo com Jorge para a sala.
+
+--E Mauricio--inquiriu ella--tambem já tem barba para fazer?
+
+--Parece-me que sahiu, ainda com estrellas, para uma partida de caça.
+
+--Bom; esse, pelo que vejo, conserva puros os tradicionaes habitos de
+familia.
+
+Jorge sorriu.
+
+--Tu é que degeneraste. Deu-me que scismar a novidade. Estou tão
+costumada a vêr a deterioração progressiva na linha dos representantes
+das familias que tomam a peito não caldearem o sangue de primeira
+qualidade que lhes corre nas veias, que ao vêr sahir d'esta velha casa
+um rapaz de juizo, fiquei espantada.
+
+--É pouco lisongeiro para a nobreza, mas muito lisongeira para mim a sua
+opinião.
+
+--Digo-t'o com franqueza; e já agora deixa-me aproveitar este tempo, em
+que estamos sós, para fallar n'isto e assentar as bases do meu proceder.
+Vamos direitos á questão. As finanças não correm bem cá por casa, ao que
+entendi.
+
+--Correm muito mal.
+
+--Não admira; é doença da época. E tu tomas a peito endireital-as?
+
+--Tentei-o.
+
+--E conseguel-o. Consegues, porque o teu genio é o de uns certos homens
+que eu tenho conhecido, que conseguem tudo quanto querem, só a querer e
+sem fazer barulho. Ai, Jorge, lá por Lisboa ouço dizer que ha tanta
+falta de financeiros, que estou tentada a exportar-te. E Mauricio?
+
+--Mauricio...
+
+--Percebo; é mais difficil de accommodar esse. Era facil, se não fossem
+as pieguices de teu pae, que ha de morrer assim. Dize-me uma coisa, ó
+Jorge, tu és absolutista tambem?
+
+--Eu quasi que não tenho ideias fixas em politica.
+
+--Bom, bom, já entendo. Não queres declarar-te por contemplação para com
+as tradições de familia. Estás como eu; eu sou, sem duvida alguma,
+liberal; porque emfim deves concordar que para se ficar toda a vida a
+ser absolutista é preciso viver, assim como teu pae, em uma aldeia como
+esta e com um padre procurador a dizer-nos ha vinte annos a mesma coisa;
+porém, como meu pae foi militar no exercito realista, não tenho remedio
+senão obrigar a guardar certas conveniencias ao meu liberalismo. Ora tu
+estás no mesmo caso.
+
+--Talvez. É certo que do que está feito, acho muita coisa boa.
+
+--Então estás como eu. Mas como dizia, Mauricio podia encontrar muita
+carreira aberta, mas era necessario que o papá o deixasse partir sem
+levar o topete vermelho e azul muito á vista, ou a vera effigie ao
+pescoço; salvar as apparencias, porque das ideias ninguem quer saber. Á
+sombra da Carta engorda muito absolutista encapotado.
+
+--Meu pae está hoje em um estado de tão facil irritação, que duvido que
+chegue a consentir.
+
+--Então o remedio é procurar por ahi alguma descendente de Egas Moniz ou
+de Martim de Freitas, que por milagre não tenha a casa ainda em ruinas,
+e enxertar esse garfo illustre na vossa arvore genealogica.
+
+--Mau remedio para finanças. Deu o arejo nas arvores genealogicas,
+Gabriella; estão por aqui todas muito enfesadas.
+
+--Então, então...
+
+N'este momento ouviram-se passos ligeiros nas escadas, como de quem as
+subia duas a duas.
+
+--Ahi vem Mauricio--disse Jorge, escutando-os.
+
+Foi de facto Mauricio que appareceu á porta da sala.
+
+A baroneza correu-lhe ao encontro, estendendo-lhe as mãos, que Mauricio
+galanteadoramente levou aos labios, curvando-se.
+
+--Bravo! Já vejo que observas irreprehensivelmente as tradições dos bons
+tempos em que se era cortez com as damas. A provincia mantem-se mais
+delicada do que a côrte. Se soubesses como a moda hoje capricha por lá
+em um á vontade com senhoras, que até ás vezes chega a ser grosseria!
+
+--Devéras, prima? Felizmente com certas bellezas femininas sente-se a
+necessidade de ser delicado, independente de proposito ou dos preceitos
+da moda.
+
+--E se eu te deixasse completar a phrase, far-me-ias o favor de me
+incluir no numero das taes. Que requinte de lisonja! E isto a perder-se
+nas selvas!
+
+--Não zombe da minha sinceridade provinciana.
+
+--Não calumnies tu a provincia, dando esse epitheto á tua sinceridade.
+Nada, nada, o tio que tenha paciencia. Conservar em casa um cortezão
+d'esta força é quasi uma usurpação feita aos direitos da corôa.
+
+--Bem; deixe-me fallar-lhe com seriedade. Como se sente da jornada?
+
+--Hei de sentir-me cansada, quando tiver satisfeito toda a minha
+curiosidade, que por emquanto não me deixa sentir coisa alguma. Por
+exemplo, quaes são os teus projectos, os teus calculos sobre o futuro?
+
+--Ó prima Gabriella, sempre cuidei que só na provincia se perdia tempo a
+calcular futuros. Uma pessoa de bom senso não calcula o futuro, que em
+um momento se transtorna.
+
+--Bem, entendo o subterfugio. O priminho Mauricio ainda não tem planos
+definidos sobre a sua carreira na vida. Mas é preciso que saibas que vim
+aqui principalmente por tua causa. Tracta-se de te arranjar uma
+collocação qualquer, um assento nas camaras, um emprego na alfandega,
+seja o que fôr, com que tu possas transigir; foi a condição unica
+imposta por teu pae. Por isso vê lá.
+
+--Olhe, prima, já que a sorte me levou á dura impertinencia de me vêr
+obrigado a adoptar um modo de vida, não quero tornar a impertinencia
+dupla, encarregando-me eu proprio de o escolher. Subscrevo ao accordo a
+que chegarem; decidam por mim, que ou me façam general ou tabellião, a
+tudo me resignarei.
+
+--Desconfio de tanta condescendencia. Quer-me parecer que havemos de
+encontrar difficuldades mais serias do que as intransigencias sonhadas
+por o tio Luiz. Dar-se-ha que haja aqui por estes bosques scenas de
+Romeu e de Julieta?
+
+--Ai, não falle n'isso a Mauricio--disse Jorge com um sorriso não de
+todo despido de ironia--por quem é, prima! É a sua corda sensivel, e tem
+de o aturar por muitas horas!
+
+--Ah! então existe a Julieta?
+
+--As Julietas, as Desdemonas, as Ophelias e todos os typos imaginaveis.
+É um enxame que elle traz constantemente poisado no coração.
+
+--Ah! ah! pois tu és dos que declinam o amor sempre no plural? Não
+sabia!
+
+--Deixe-o fallar, prima Gabriella. O Jorge bem sabe que n'esta mesma
+occasião tão absorvido ando por uma só imagem, que é sem fundamento a
+accusação de inconstante que me dirige.
+
+Jorge contrahiu a fronte, ao perceber a allusão, e disse sêcamente:
+
+--Julguei que havias resolvido devéras ter juizo.
+
+--Não é tempo agora de examinar esta questão--acudiu Gabriella--porque
+me parece que vem ahi o tio Luiz.
+
+De facto o fidalgo apparecia á porta da sala e um pouco atraz d'elle o
+padre procurador.
+
+O velho D. Luiz vestira-se quasi elegantemente para receber a sobrinha.
+Elegancia severa, accommodada á sua grave figura de ancião, mas
+elegancia inquestionavel. D. Luiz tinha uma presença magestosa e um todo
+de diplomata que impunha respeito.
+
+O vestuario preto de que usava, sobre o qual sobresahia a gravata
+cuidadosamente lavada e engommada, augmentava o effeito natural dos seus
+dotes physicos.
+
+O procurador formava inteiro contraste com o fidalgo. Curvado, olhando
+por cima dos oculos, com o lenço constantemente empunhado para acudir ás
+instantes reclamações de um defluxo chronico, parecia dominado por uma
+infantil timidez, mas não perdia um só gesto dos outros, que
+manhosamente observava.
+
+A baroneza inclinou-se para beijar a mão do tio, que a acolheu nos
+braços.
+
+--O tio Luiz!--dizia a gentil viuva, olhando-o--sempre o mesmo! Não o
+acho mudado.
+
+--Não?!--disse o fidalgo com leve ironia na intonação e no sorriso.
+
+--Olhe que não. E é natural. Bem vê que se golpes dolorosos o teem feito
+padecer, tambem lhe servem de conforto o socego d'estes sitios, a pureza
+d'estes ares, a tranquillidade d'esta vida e o affecto dos filhos que
+ainda lhe restam.
+
+D. Luiz abanou a cabeça, mais triste e sombrio do que antes.
+
+--Na sua idade, Gabriella, cicatrizam depressa as feridas. Quando se
+chega aos meus annos, golpe que se receba, é ferida com que se morre.
+
+--Diga o snr. D. Luiz--interveio o padre--que o que tem é muita
+resignação christã, que n'estes tempos que vão correndo não é coisa
+vulgar.
+
+E assuou-se.
+
+--Mas para isso vale a meu tio o seu exemplo, snr. frei Januario--acudiu
+Gabriella.--Resignação ahi! Eu sou testemunha da heroicidade com que
+arrosta as vigilias e os jejuns.
+
+Os presentes, incluindo o proprio D. Luiz, não puderam ouvir sem um
+sorriso a allusão da baroneza.
+
+O padre córou, assuou-se com mais força e resmoneou com azedume:
+
+--Bem sei que não é quanta Deus manda, nem quanta a alma precisa... e
+por peccador me tenho.
+
+--Deve vir cansada, Gabriella--lembrou D. Luiz--Eu julgo que terão tido
+o cuidado de...
+
+--Tudo está prompto. Logo que a prima queira descançar...--respondeu
+Jorge.
+
+--Não sinto grande necessidade de descanço. Descançarei depois do
+almoço, se me fizerem o favor de dar alguma bebida quente, porque tenho
+frio.
+
+Em virtude d'esta reclamação, sahiram successivamente da sala Jorge, o
+procurador e Mauricio, ficando Gabriella só com o fidalgo.
+
+Este parecia hesitar em alludir ao principal motivo da visita da
+baroneza.
+
+Foi ella quem rompeu o gelo da entrevista.
+
+--Recebeu a minha carta, tio?
+
+--Recebi, sim, e agradeço.
+
+--Diga que perdoa. Se quer que lhe falle a verdade, julgo que não lhe
+escrevi em estylo muito apropriado, mas tão desacostumada ando de
+escrever-lhe, e a gente com quem de costume me correspondo permitte-me
+tal familiaridade, que me descuidei.
+
+--A carta nada tinha de censuravel. O que por ella vi foi que deveremos
+renunciar aos projectos que formei a respeito de Mauricio.
+
+--Perdão; mas como viu por ella isso?
+
+--Desde o principio ao fim. Não me diz que para que Mauricio abra
+carreira no mundo, é necessario condescender com certas coisas?...
+
+--Ai, sim, mas quem é que não tem de condescender n'esta vida?
+
+--Gabriella--tornou D. Luiz com certa aspereza--já ha pouco lh'o disse;
+as nossas idades differem. Quando se possue a sua juventude ha
+movimentos faceis, a que se não prestam as fibras inflexiveis dos meus
+sessenta annos.
+
+--Sim, mas quando se é joven como Mauricio e se está nas circumstancias
+d'elle, das quaes estou informada pela sua obsequiosa confidencia, é
+menos prudente não ceder um pouco no tempo em que se póde ainda ceder
+com dignidade; porque depois... a vida para elle é longa, e quem sabe a
+que provações e sacrificios o sujeitará? O tio está em uma idade
+avançada, não espera numerosos annos de vida, não ama demasiadamente o
+mundo, e para a lucta conta com a inflexibilidade das suas fibras de
+sessenta annos. Mas elles, seus filhos, são novos, teem futuro, amor á
+vida e não possuem ainda a tal inflexibilidade para sustentarem o pêso
+de uma instituição morta sem vergar ou quebrar debaixo d'ella. Veja bem.
+
+--De uma instituição morta!--repetiu o fidalgo, accentuando as syllabas
+e levantando os olhos para o tecto.
+
+--Morta, sim, meu tio, desengane-se. Deus me livre de fallar agora em
+politica com o tio. Mas a verdade é que quem vive em certa sociedade, e
+ouve certas coisas, e estuda certos homens, acaba por convencer-se,
+mesmo sem pensar muito n'isso, de que um sonho como o de meu tio é...
+é... é um sonho.
+
+--Seu pae morreu por um sonho assim, Gabriella.
+
+--E eu venero a memoria de meu pae, não o duvide; assim como venero o
+caracter e as opiniões de meu tio; porque venero todas as convicções
+sinceras. Mas o que eu não queria é que se sacrificasse mais do que
+deve. A sua vida, a sua felicidade tem o direito de dar esse sacrificio.
+Mas a vida, o futuro, a honra e a felicidade de seus filhos, isso não.
+
+--A honra?! A honra é que eu quero salvar-lhes.
+
+--E quem lhe diz que elles teem as suas convicções?
+
+Os olhos de D. Luiz fuzilaram ao ouvir esta insinuação.
+
+--Se meus filhos...
+
+--Sei o que vae dizer--atalhou Gabriella--mas não diga, porque contradiz
+os seus proprios actos. Esmerou-se em dar educação a seus filhos, em
+desenvolver-lhes a intelligencia, e agora quer que elles não usem d'esse
+instrumento que possuem, e que para pensar lhe venham pedir licença? Não
+valia ensinar-lhes a raciocinar n'esse caso.
+
+--A razão deve-lhes ter mostrado a verdade.
+
+--A verdade... a verdade... Ora valha-nos Deus, meu tio; e quem sabe
+onde ella está? Pois todas estas mudanças que succedem no mundo de que
+procedem, senão de se julgar a cada passo ter-se descoberto que a
+verdade não está onde se suppunha?
+
+--Vejo que a convivencia social lhe tem dado uma boa dóse de philosophia
+para bem viver no mundo. Mas que quer? Eu regulo-me ainda por as
+cartilhas velhas.
+
+--E o que lhe ensinam a fazer as cartilhas velhas a favor de seus
+filhos? O que é que, em harmonia com ellas, tem tentado e tenciona
+executar?
+
+--Dar-lhes o exemplo de como se soffre a adversidade, quando se tem
+brios, e um nome que respeitar.
+
+--A nobreza não está em soffrer de braços cruzados a adversidade, quando
+elles se podem empregar nobremente em repellil-a; Jorge bem o
+comprehendeu. Esse illustrará devéras o seu nome da unica maneira por
+que n'estas circumstancias elle póde ser illustrado. O que é preciso é
+que a ociosidade de Mauricio lhe não annulle os esforços.
+
+D. Luiz ia a replicar quando o padre procurador entrou a annunciar que o
+almoço estava na mesa.
+
+O fidalgo aproveitou de boa vontade o ensejo para cortar o dialogo que
+evidentemente o incommodou.
+
+Cedo estava a familia da Casa Mourisca reunida á mesa na sala do almoço,
+da qual d'esta vez a voz alegre e a jovial presença da baroneza parecia
+afugentar parte das sombras que de ordinario pesavam sobre ella.
+
+E na noite d'esse dia Gabriella escreveu uma longa carta a uma das
+amigas da capital, em que lhe narrava por miudo os episodios da sua
+jornada, a sua recepção na Casa Mourisca e as impressões que recebera.
+
+Esta carta terminava por as seguintes palavras:
+
+ «Do que te tenho dito parece-me que podes concluir que se
+ desvaneceram aquelles projectos de sacrificio que trouxe d'ahi e com
+ os quaes não te conformavas. O meu primo Jorge é um rapaz mais serio
+ ainda do que eu o suppunha. Não fazes ideia. Affirmo-te que é
+ incapaz de casar por interesse, e como o espirito d'elle anda muito
+ occupado por calculos e combinações economicas, não é tambem
+ provavel que se deixe tomar por o amor, e portanto não casa. Assim
+ fico dispensada de sacrificar os meus queridos habitos de vida de
+ Lisboa, ao que vinha devéras decidida para salvar esta familia com
+ os meus capitaes, que mal sei gerir. Este rapaz se amar, o que não é
+ provavel, ha de ser de alguma maneira extravagante, inesperada.
+
+ O outro é uma criança, que não se póde tomar a serio por marido.»
+
+Por aqui se vê quaes eram as generosas tenções de Gabriella ao chegar á
+Casa Mourisca, e quaes as modificações que no decurso d'aquelle dia os
+seus projectos haviam soffrido.
+
+
+
+
+XV
+
+
+Ao outro dia pela manhã, estava Mauricio apparelhando por as proprias
+mãos o cavallo favorito, quando Jorge foi ter com elle.
+
+--Tencionas ir hoje ao Cruzeiro?--perguntou Jorge.
+
+--Talvez passe por lá. Porquê?
+
+--Porque n'esse caso podias poupar-me o trabalho de lhes mandar convite
+especial para o jantar d'ámanhã.
+
+--O jantar de ámanhã!?
+
+--Sim; o pae insiste em celebrar com um jantar a chegada de Gabriella, e
+bem vês que não é possivel deixar de convidar os do Cruzeiro, ainda que,
+por minha vontade, os deixaria quietos no seu antro.
+
+--Eu os convidarei. D'esses me incumbo. E a outra parentela?
+
+--Mandar-se-hão cartas.
+
+--Um jantar na Casa Mourisca! Ó sombras dos nossos antepassados, folgae!
+
+--Estremecei, dize antes, que mais razão teem para isso.
+
+--Estes velhacos não deitaram hontem de comer a este pobre
+animal--observou Mauricio, afagando o cavallo.
+
+--Seria uma prova de affeição que lhe dariamos se lhe proporcionassemos
+occasião para mudar de dono--murmurou Jorge, sorrindo.
+
+Pouco depois, Mauricio montava e partia a trote para o Cruzeiro.
+
+A casa do Cruzeiro, solar dos asselvajados primos de Mauricio, ficava no
+extremo da povoação, exhibindo nos campos que a cercavam uma agricultura
+preguiçosa e mesquinha, e dominando um vasto tracto de mal cuidadas
+bouças, onde os senhores da propriedade perseguiam implacaveis as lebres
+e perdizes, que alli se acoutavam.
+
+Causava lastima o estado de decadencia a que a má administração e a vida
+dissipada dos senhores do Cruzeiro tinham levado aquella casa, de cuja
+passada grandeza já nem se descobriam vestigios.
+
+Na actualidade não era mais do que um velho casarão ennegrecido, mal
+vedado aos ventos e ás chuvas, onde cada dia realisava um novo estrago,
+que nunca mais era reparado. Por fóra e por dentro a mesma absoluta
+carencia de confortos; porque não sentia a necessidade d'elles a robusta
+organisação de qualquer dos proprietarios; afeitos á vida dos montes, ás
+longas caçadas e ás luctas com os rigores do tempo. O solo árido, os
+celleiros vazios, a abegoaria deteriorada, os curraes desertos, a
+cultura perdida... era desolador o aspecto do solar do Cruzeiro! Parecia
+havel-o fulminado um d'aquelles tremendos anathemas de que rezam os
+livros sanctos, os quaes feriam de esterilidade igual as entranhas da
+mulher e as entranhas da terra. Os pinhaes, cortados sem methodo nem
+prudencia, cahiam sacrificados ás penurias monetarias do morgado, que ia
+a pouco e pouco transmutando em vinho toda a propriedade. As aguas
+vendidas para acudir a iguaes urgencias abandonavam as terras á sêde que
+as fazia infecundas. Umas apparencias de movimento agricola, que ainda
+se divisavam na quinta, eram-lhe mais fataes do que beneficas, e podiam
+comparar-se ao fervedouro das larvas nas carnes em decomposição.
+N'aquelle vasto corpo, que se decompunha, tambem se agitavam seres que
+viviam dos seus detritos.
+
+Trabalhava-se alli para destruir e não para semear ou edificar. O
+desbarato com que os proprietarios sacrificavam os seus bens, attrahia
+os ávidos visinhos, como córvos sinistros em volta do cadaver exposto na
+estrada.
+
+Era meio dia, quando Mauricio se apeiou no espaçoso pateo da casa, onde
+reinava o silencio das ruinas. Apenas se ouvia o latir de uma matilha
+encerrada nas lojas e impaciente por ir bater as mattas e bouças. O
+aspecto que feria a vista de quem entrava era de uma propriedade
+inteiramente abandonada; alli apodrecia um arado inutil; além
+oxydavam-se os metaes de inactivos instrumentos de lavoura; a agua
+empoçada das ultimas chuvas estancava, cobrindo-se de uma crusta
+esverdeada; as ortigas e parietarias vegetavam em plena liberdade, nas
+junturas das lageas e nos buracos das paredes. Nos telhados cresciam em
+verdadeira floresta as hervas parasitas; fragmentos de louça, de
+garrafas, velhos arcos de pipa, farrapos, montões de caliça pejavam,
+desde tempos immemoriaes, a superficie do pateo. Manchas verdes de
+musgos e de lichens, que a humidade desenvolvera, cobriam a fachada do
+edificio, por onde havia muitos annos não passára a brocha do caiador.
+
+Mauricio subiu as escadas d'esta casa humida e entrou nos corredores que
+estavam tão desertos como o pateo. Passeavam por elles imperturbadas as
+gallinhas e as pombas como em terreno familiar, e occasiões havia em que
+pela porta meia aberta dos aposentos se insinuava curiosa uma cabeça
+suina. Só os criados não appareciam; a ociosidade dos amos era
+contagiosa. Conhecedor da topographia da casa, Mauricio foi ter direito
+ao quarto dos primos que procurava.
+
+Dormiam ainda os dois mais novos, emquanto o morgado andava labutando
+com alguns lavradores visinhos no destroço do que ainda lhe restava.
+
+O somno do padre e do doutor não era para ceder á primeira chamada.
+Ainda depois de lhes bater á porta, Mauricio continuou a ouvil-os
+ressonar em um duo assustador.
+
+A final respondeu a voz rouca de um d'elles com um som inarticulado, que
+claramente expressava o mau humor que lhe assistia ao despertar.
+
+--Sou eu, abram--disse Mauricio, continuando a bater.
+
+Respondeu-lhe uma praga, e depois outra voz acrescentou:
+
+--A porta está aberta. Levanta a tranqueta e entra.
+
+Mauricio assim fez e entrou para a sala, que servia de aposento commum
+dos dois manos.
+
+Havia dentro uma atmosphera quente, abafadiça e viciada de fumo de
+cigarro que suffocava.
+
+A sala era ampla, mas de um desarranjo e desconforto indescriptivel.
+
+Dois catres de ferro ao lado um do outro, uma cadeira sem fundo,
+sustentando a bacia e jarro mutilados, servia de lavatorio, a roupa
+pendurada em cabides fixos na parede mal caiada e salitrosa, ou cahida
+pelo chão, o espelho pendente dos caixilhos da janella, velas de sebo
+meio gastas mettidas em garrafas, cuja superficie era adornada de
+gordurentas stalactites, e em palmatorias de metal pintado de lagrimas
+verdes pela oxydação; a um canto o deposito da roupa suja, em outro o
+arsenal, composto de espingardas, rewolvers, paus ferrados, chicotes e
+cassetetes; além os arreios de cavalgadura; na mesa, ao pé da cama, os
+restos das grosseiras iguarias da ceia da vespera, alguns usados
+baralhos de cartas, de mistura com umas insignias pobres e desprezadas
+da vestimenta do padre, tudo ennodoado de azeite e de vinho, e pontas de
+cigarro por toda a parte.
+
+Os dois achavam delicias n'este viver, que chamavam escolastico, e que
+diziam avivar-lhes recordações dos seus tempos de estudante.
+
+Bem poderia comtudo o aposento ter mais um grau de limpeza, sem que
+n'isso tivesse de despir a feição de desordem, caracteristica a um
+quarto de rapaz solteiro.
+
+Quando Mauricio abriu para traz as portas das janellas, os dois primos
+saudaram com uma jura a luz do dia, que foi incommodar-lhes com os seus
+raios a retina preguiçosa. Depois de um ruidoso e prolongado bocejo, o
+doutor sentou-se na cama com os olhos mal abertos e os cabellos
+cahindo-lhe em desordem sobre a testa; e o padre, meio amuado, voltou-se
+para a parede, no intento de encetar outro somno.
+
+--Que vida de inuteis vadios esta!--exclamou Mauricio, puxando para o
+meio da sala a mais desoccupada e limpa cadeira que encontrou, e
+pondo-se ás cavalleiras n'ella.--Ao meio-dia!
+
+--Isso! Vem para cá fallar da vida de vadios. Olha se me convences de
+que te afadigas muito a trabalhar.
+
+--Em todo o caso já vim de minha casa até aqui e tu, ao que parece, ias
+no meio de um somno e lá o padre então... esse vae, pelo que estou
+vendo, no principio d'outro.
+
+--Mas como diabo te deu para vires por aqui tão cêdo?
+
+--Cêdo? Olha que é meio-dia! Mas... vim encarregado de uma missão.
+
+--De quem?
+
+--De meu pae.
+
+--De teu pae?! Para nós?!
+
+--É verdade. Estou incumbido de vos convidar a todos tres para jantar
+ámanhã.
+
+O padre deu uma volta na cama, ao ouvir este convite e fitando Mauricio
+com olhos espantados, ainda que mal abertos, exclamou com voz rouca de
+somno:
+
+--O tio Luiz dá ámanhã um jantar?!
+
+--Sim, senhor. Em obsequio á Gabriella, a baronezinha de Souto-Real, que
+lá está desde hontem de manhã.
+
+--Ora essa!--acrescentou o padre, e tornou a voltar-se para a parede.
+
+--Bravo!--applaudiu o doutor--isso já me cheira melhor do que a tal
+historia do Jorge feito guarda-livros. Aquelle Jorge com'assim ha de ser
+sempre d'essas ratices. E dize-me cá: que tal está agora a Gabriella?
+
+--Não me pareceu mal; ainda que, para te fallar a verdade, não lhe dei
+muita attenção.
+
+--Sim, tu andas agora distrahido com a...
+
+N'este ponto interrompeu-se subitamente, e dando uma palmada no
+travesseiro, a qual lhe fez cahir na cama a cinza inflammada do cigarro
+que principiou nos lençoes uma centesima combustão, exclamou:
+
+--É verdade! que me ia esquecendo? fizemos uma grande descoberta esta
+noite, homem!
+
+--Qual foi?
+
+O padre, ao ouvir as palavras do irmão, deu um salto para sentar-se na
+cama, e preparando tambem um cigarro, disse, fitando Mauricio com um
+sorriso alvar:
+
+--Olha lá, ó Chico. Vê como contas a coisa, porque o Mauricio é nervoso;
+não sei se sabes.
+
+--Mas de que se tracta?
+
+--De um caso muito engraçado. Rimos a perder. Mas ainda havemos de rir
+mais, porque a historia promette dar de si.
+
+O padre, meio estendido pela cama fóra para pedir lume ao irmão,
+confirmou o dito d'este com um gesto e um grunhido.
+
+--Mas digam lá o que foi--insistia Mauricio.
+
+--Hontem á noite--principiou o doutor--fui eu aqui com o Lourenço á
+espadelada do Martinho. Aquillo não esteve de todo mau. Bem boas
+raparigas, e a luz conveniente. Mas, alli pelas onze horas, appareceram
+uns apaixonados armados de varapaus, e com uns certos modos, que
+principiaram a fazer ferver-me o sangue.
+
+--Eram os mesmos da feira do mez passado--acudiu o padre--mal fiz eu em
+não ter quebrado os ossos ao Gaudencio, quando o deixei atordoado na
+estrada.
+
+--O certo é--proseguiu o mano doutor--que os homens começaram a fazer-se
+finos, e eu que vi o Lourenço já a fumegar, previ logo o caldo entornado
+e fui procurar o marmeleiro que deixára atraz da porta, para o que desse
+e viesse.
+
+--Não era preciso. Para aquelles basto eu só--annotou o padre, sugando
+com força o cigarro, que teimava em não arder.
+
+--Meu dito, meu feito--continuou o outro--nós a sahirmos e elles
+comnosco. O Lourenço pôz logo dois fóra do combate; eu arquei com o
+terceiro, que me derreou o braço esquerdo, mas a quem escangalhei a
+cabeça; o ultimo fugiu-nos. Era o João do Pinhão.
+
+O padre interveio:
+
+--Eu, que lhe ando com sêde, disse logo para o Chico: «Vamos d'aqui
+cortar-lhe o caminho e dar-lhe uma lição.» E tomamos pela quelha do
+regedor.
+
+--E viemos sahir mesmo defronte da porta do Thomé! por traz da prêsa.
+Sabes?
+
+--Sei muito bem.
+
+--Ora o homem não appareceu.
+
+--Mas appareceu cousa melhor--acudiu o padre.
+
+--Havia de andar peia meia noite e nós sem fazer bulha ainda escondidos
+na sombra. Percebes?
+
+--Mesmo defronte da casa do Thomé--insistiu o padre.
+
+--E depois?--interrogou Mauricio impaciente.
+
+--Depois...
+
+ A mulher é um catavento,
+ Que com os ventos varia;
+ Seu amor dura um momento,
+ Tolo é quem n'ellas se fia.
+
+Cantarolou o doutor.
+
+Mauricio olhou interrogadoramente para o padre.
+
+--Meu caro priminho--disse-lhe este--põe as tuas crenças de môlho e
+prepara-te para arrancares um punhado de cabellos; um ou dois.
+
+--Mas que queres dizer com isso?
+
+--Quero dizer que a porta do Thomé abriu-se sorrateiramente e sahiu de
+lá um patusco... Trai la rai lai lai.
+
+--É impossivel!--exclamou Mauricio com indignação, comprehendendo as
+malignas allusões do primo.
+
+--Qual impossivel?--confirmou o padre--Não ha impossiveis n'este mundo.
+Desengana-te, menino.
+
+--Mas teem a certeza de que se não illudiram?
+
+--Ora se temos. Era um homem em corpo e alma.
+
+--E viram quem era? Conheceram-n'o?
+
+Os dois irmãos, a esta pergunta, trocaram entre si um olhar e um sorriso
+de velhacaria.
+
+--Com certeza, não; mas suspeitamos--respondeu o doutor.
+
+--Quem é?
+
+--Alto lá! Nada de ferver em pouca agua. Isso fica para segunda
+observação. Por ora não possuimos ainda a certeza. Porém já mais de uma
+noite temos encontrado o tal ratão, de quem suspeitamos, não muito longe
+do sitio, e já andavamos com a pedra no sapato.
+
+--Ó Chico, olha que o Mauricio não está bom. Estes golpes repentinos...
+
+--Qual! Se eu não acredito uma unica palavra do que vocês estão para ahi
+a dizer--tornou-lhe Mauricio, erguendo-se e passeiando na sala agitado.
+
+--Não que a cousa é muito para se não crer--disse o doutor, principiando
+a vestir-se--uma rapariga de dezoito annos, que vem do collegio, ter um
+apaixonado?... Sim, o caso é tão raro!
+
+--Vocês não conhecem Bertha.
+
+--Tu, sim, que a conheces. Papalvo de olhinhos fechados que ainda anda a
+sonhar por este mundo com princezas encantadas--observou o padre,
+tirando de entre a roupa da cama um volume de Paulo de Koch, com que
+adormecêra na vespera.
+
+--Então lá por que um homem sahe de noite de casa do Thomé, já não póde
+ser senão por amor de Bertha. É boa!--insistia Mauricio, contra a sua
+propria convicção.
+
+--Sim, meu menino, sim; isso tudo e o mais que tu
+quizeres--respondeu-lhe o padre, apertando outro cigarro.
+
+--Veremos o que tu pensas, assim que vires o tal homem--tornou o doutor.
+
+--Ora mas digam-me: Pois não ha tanta gente em casa?
+
+--Pois ha, ha.
+
+--Então...
+
+--Então tem vocemecê razão--concluiu impertinentemente o padre.
+
+--Muito bem--propôz o doutor.--Para sahir de duvidas queres tu vir
+comnosco bater a mata esta noite para conhecer o coelho?
+
+--Quero, sim.
+
+--Muito me hei de rir esta noite!--exultou o padre, saltando abaixo da
+cama.
+
+--Mas promettes não assassinares a pequena na furia do teu ciume?
+
+--Não creio verdadeira a vossa supposição, mas se o fosse...
+
+--Que farias? Ora dize lá--perguntou o padre, piscando um olho emquanto
+esperava a resposta.
+
+--Achava essa mulher tão desprezivel que...
+
+--Pumba! Ora ahi temos outra. Na verdade ha nada tão desprezivel como
+uma mulher que abre a porta a qualquer pessoa de preferencia ao menino
+Mauricio, a joia dos namorados!--ponderou zombeteiramente o padre.
+
+--Não quero dizer isso, mas...
+
+--Pois, meu menino, prepara-te para o desengano, e volta ás priminhas
+dos Barrocaes, que essas são fieis.
+
+--Ora, mas digam-me vocês uma coisa--insistia Mauricio--quem querem que
+seja o homem que possa estar já com Bertha n'esse tom de familiaridade?
+
+--Não entremos n'essa questão. A seu tempo cahirão as cataratas.
+
+--Já digo, eu não acredito.
+
+--Pois nosso Senhor te dê sempre essa commoda incredulidade; antes de
+casar e depois de casar.
+
+E entre os tres ficou pactuada para aquella noite uma espionagem cerrada
+á casa de Thomé, com o fim de reconhecerem a mysteriosa visita.
+
+Mauricio passou o dia todo pensativo e preoccupado com a revelação que
+os primos lhe fizeram.
+
+Ainda quando Bertha não tivesse adquirido grande preponderancia sobre os
+pensamentos de Mauricio, bastaria a ideia de que outro o preterira no
+coração de uma mulher, a quem elle havia dedicado um olhar de galanteio,
+para devéras o irritar.
+
+Mas, de justiça é que se diga, o amor, a paixão, a inclinação, o
+capricho, ou como mais rigoroso nome tenha, o sentimento de Mauricio
+para Bertha attingira a maxima intensidade, a que podiam subir os
+affectos d'aquelle caracter voluvel. Se não amava ainda devéras, é certo
+tambem que nunca amára melhor. Bertha demais possuia sobre as outras
+mulheres, que nas épocas successivas haviam reinado na imaginação d'este
+rapaz, o prestigio das recordações de infancia, a distincção de tracto
+adquirida na educação da cidade, e até a desaffectada reserva com que
+lhe tinha acolhido o galanteio.
+
+As reflexões de Jorge contra aquelles amores, a perspectiva das
+repugnancias de familia, dos obstaculos a vencer, dos preconceitos e
+paixões com que luctar, longe de extinguirem a chamma em que elle
+procurava abrazar-se, antes mais a activavam.
+
+A ideia de um amor entre dois corações jovens, amor constante em
+despeito do antagonismo, das animadversões e dos odios das familias;
+esse eterno e poetico thema de tantas obras de arte, era sympathico á
+phantasia de Mauricio, que, seduzido por ella, chegou a convencer-se de
+que estava destinado a ser mais um exemplo do caso; estimulo este
+sufficiente para o apaixonar.
+
+Jorge estranhou-lhe o ar pensativo, mas não o interrogou.
+
+A baroneza, usando dos privilegios de mulher nova e elegante, costumada
+a não refrear a sua curiosidade feminina, interpellou-o directamente:
+
+--Não voltaste muito amavel do teu passeio matinal, Mauricio. Que foi
+isso?
+
+--Perdoe-me, prima. Isto é uma das muitas mudanças de colorido que, sem
+que se saiba porque, se opéra no humor de uma pessoa.
+
+--Hum! Não andará ahi influencia do coração?
+
+Mauricio soltou um meio riso de descrente, respondendo:
+
+--O coração! O meu coração é modesto. Não aspira a dominar. Nunca lhe
+conheci essas tendencias.
+
+--N'isso mesmo que dizes d'elle se está a perceber que ha espinho lá
+dentro.
+
+--A prima ha de perdoar-me a franqueza; mas já vejo que tem o defeito do
+seu sexo, que é não poder imaginar que haja sobre o caracter e a boa ou
+má disposição de um homem outra influencia que não seja a de uma mulher.
+
+--E quando os homens se occupam tão pouco de coisas graves, como...
+certos que nós conhecemos, a lei não deixa de ser verdadeira.
+
+--Engana-se; vê? Os homens da minha indole são exactamente aquelles que
+estão menos sujeitos á influencia que diz. Aceitamos a infidelidade e a
+inconstancia feminina como um facto natural e com que já contavamos,
+porque em nós nunca se desenvolvem aquellas illusões que levam muitos
+espiritos a endeusar a mulher. Estamos prevenidos para todas as
+occorrencias, porque nunca nos esquecemos da fragilidade d'esses
+delicados objectos, que amamos só por que são frageis e delicados. As
+grandes desillusões e os profundos desespêros são para os que fazem do
+amor um culto e sonham a mulher de uma essencia superior. Persuadem-se
+de que é de crystal a bola de sabão matizada que os seduz, e portanto
+ficam muito desconsolados quando ella se lhes desfaz no ar.
+
+--Cada vez confirmo mais a minha supposição. Eras bastante delicado para
+me poupares a essa theoria de mau gosto sobre a mulher, se não estivesse
+fallando em ti o despeito por uma causa recente.
+
+A exactidão da observação da baroneza feriu Mauricio no riso e fêl-o
+balbuciar, córando:
+
+--Peço perdão se a minha franqueza a offendeu, porém...
+
+--Não te canses a desculpar-te. Eu até achei graça a essa profissão de
+scepticismo, já muito meu conhecido, mas que não sabia que tambem nascia
+nos bosques, onde julguei que se haviam refugiado as boas crenças desde
+que emigraram das cidades. Ámanhã espero que estarás mais senhor de ti.
+
+--Estou a sangue frio, creia.
+
+--Veremos com mais vagar esse coração. É-me isso preciso para os meus
+planos.
+
+--Os seus planos?!
+
+--Então já te esqueceste de que eu estou aqui principalmente por tua
+causa?
+
+--Ah! sim, agradeço-lhe o cuidado; mas estou receiando ter de dar-lhe
+muito que fazer.
+
+--Veremos.
+
+A noite chegou e bem vagarosa para a impaciencia de Mauricio.
+
+Pouco mais seria de Ave-Marias, já elle instava com os primos do
+Cruzeiro para que fossem pôr-se de vigia.
+
+--Isso não vae assim!--diziam elles--Pois que cuidas tu? Não sabes que o
+passaro é dos que só voam de noite? Falla-nos lá para as onze horas.
+
+Mauricio illudiu em todo este tempo a sua impaciencia, tentando provar
+aos primos com argumentos novos, que lhe tinham occorrido em casa, a
+impossibilidade de ser para Bertha a visita nocturna da Herdade.
+
+Os primos respondiam rindo só com phrases equivocas, que Mauricio não
+comprehendia.
+
+--Olha cá, ó Mauricio--perguntou o mano doutor--em tua casa sabe-se do
+teu namoro com a filha do Thomé?
+
+--Ahi vens tu com o namoro!...
+
+--Pois seja o que quizeres; da tua affeição, se achas mais bonito; mas
+sabem?
+
+--Apenas o Jorge me fez a esse respeito algumas reflexões.
+
+--Ah! o Jorge fallou-te n'isso?
+
+--Ha dias. Pelos modos o Thomé queixou-se-lhe...
+
+--Ai, o Thomé queixou-se ao Jorge? Sim senhor, tem graça. Que te parece,
+ó Lourenço?
+
+--É bem bom! e então o Jorge deu-te conselhos, hein?
+
+--Sim, disse-me alguma coisa; que era preciso cautela, que não era
+prudente o meu proceder...
+
+--Ah!
+
+--E quasi me fez prometter que desistiria.
+
+--Ah! fez-te prometter isso?
+
+--Quasi.
+
+Os dois não podiam suster o riso.
+
+--É impagavel aquelle Jorge!--repetia de quando em quando o padre.
+
+--Vocês bem sabem o genio d'elle.
+
+--Ai, sabemos. Pois nós bem sabemos... o genio d'elle. Ah! ah!...
+
+E os risos redobravam.
+
+Mas a noite chegára emfim e cerraram-se cada vez mais as sombras sobre
+os caminhos do campo. Mauricio pôde finalmente acompanhar os primos ao
+logar da espia.
+
+Dirigiram-se alli por os sitios menos frequentados, e sem soltarem uma
+palavra.
+
+Mauricio, a seu pezar, sentia-se dominado por uma commoção profunda. Não
+era só despeito, era já uma nascente repugnancia pelo acto que
+praticava. Envergonhava-se d'aquelle furtivo mister de espião.
+
+Chegados ao local, o padre escolheu a posição de maneira que podessem
+vêr, sem serem vistos.
+
+Por muito tempo nada descobriram; nem ouviram mais algum som além do
+melancolico gemer dos sapos, a distancia.
+
+Mauricio, entre impaciente e satisfeito por o resultado nullo da
+espionagem, principiava a dirigir aos primos alguns ditos
+epigrammaticos, quando a mão do doutor lhe tapou a bôca, ao mesmo tempo
+que o padre se voltava para lhe recommendar silencio.
+
+Effectivamente encostado ao muro da Herdade caminhava um homem, que a
+sombra da noite não deixava conhecer.
+
+Chegando á porta, que devia estar apenas cerrada, empurrou-a e entrou, e
+fechou-a de novo sem fazer ruido.
+
+Mauricio quiz correr atraz d'aquelle homem. Retiveram-n'o os primos.
+
+--Espera, pateta! Deixa-o sahir, que eu te prometto que havemos de
+conhecêl-o.
+
+--Que diabo queres tu fazer, maluco? Não vês que espantas a caça?
+
+--Hei de vêr quem elle é!
+
+--Pois sim, mas para isso é preciso prudencia.
+
+--A porta ficou aberta. Eu vou...
+
+--Vaes aonde? Ora tem juizo. Á sahida pilhamol-o.
+
+Mauricio porém insistiu e os primos condescenderam em passar um
+cauteloso exame á entrada por onde o vulto desapparecêra.
+
+Reprimindo a custo os impetos de Mauricio, o padre dirigiu a exploração,
+e mui de mansinho entreabriu a porta e entraram no pateo da casa; perto
+ficava a escada, por onde se subia para as salas.
+
+Mauricio ia a transpôl-a, mas os primos impediram-n'o. D'aqui
+originou-se uma pequena altercação que, ainda que em voz baixa, foi
+percebida pelos cães que latiram furiosos.
+
+De uma das janellas da casa partiu uma voz, perguntando:
+
+--Quem está ahi?
+
+Era a voz de Bertha.
+
+Mauricio ia a responder-lhe, cheio de indignação, mas o padre tapou-lhe
+a bôca e obrigou-o a retirar-se.
+
+Esta retirada foi feita com tal pericia, que não excitou mais attenção
+da gente da casa.
+
+Tudo recahiu em socego.
+
+A presença de Bertha foi para Mauricio a confirmação das suspeitas dos
+primos.
+
+Por isso mais excitado e impaciente do que até alli, aguardava a sahida
+do mysterioso incognito.
+
+O padre collocou-se em sitio apropriado para poder tolher a passagem ao
+visitador nocturno.
+
+Perto de hora e meia aguardaram os tres. A final ouviu-se ruido na
+porta, e depois de algumas palavras ditas para dentro a meia voz, o
+homem espiado sahiu.
+
+Ouviu-se atraz d'elle correr a chave na fechadura cautelosamente.
+
+A vinte passos, pouco mais ou menos, de distancia da casa de Thomé, o
+personagem que tanta curiosidade excitava, viu o vulto de tres homens
+immoveis, que lhe estorvavam a passagem.
+
+Mais perto d'elles, parou a perguntar-lhes:
+
+--Tenho o caminho livre?
+
+--Apenas depois de satisfeita a simples formalidade de se dar a
+conhecer--respondeu o padre.
+
+--Á ordem de quem?
+
+--De tres contra um.
+
+--É direito que não reconheço.
+
+E o individuo, desembaraçando um pouco os braços, que levava envolvidos
+em uma manta, parecia disposto a fazer face a uma d'essas aggressões,
+que não são raras em algumas das nossas freguezias ruraes.
+
+N'este tempo porém Mauricio, a quem a voz d'este homem havia ferido
+desde as primeiras palavras que lhe ouvira, adiantou-se para elle, e ao
+vêl-o desembaraçado, exclamou:
+
+--Mas... elle é Jorge!
+
+Os primos soltaram uma risada.
+
+Jorge, que o leitor já tinha reconhecido, vendo emfim quem eram os seus
+suppostos aggressores, deixou outra vez cahir a manta sobre os hombros e
+perguntou em tom de leve despeito:
+
+--Então que brincadeira é esta?
+
+--Não é nada, primo Jorge--respondeu o doutor--quizemos apenas verificar
+uma suspeita.
+
+--Uma suspeita?!
+
+--Vamos, perdoa-nos a indiscrição, mas bem vês que ha poucos prazeres
+para uns peccadoraços como nós, iguaes ao que nos causa o vêr cahir um
+sancto nas mesmas fraquezas de que nos accusam.
+
+Isto disse o padre, o doutor acrescentou:
+
+--O que te pedimos de hoje em diante é menos severidade nos teus juizos
+e mais indulgencia para as miserias dos humanos.
+
+Jorge principiou a irritar-se com as palavras dos primos; voltando-se
+para Mauricio disse-lhe com certa rispidez e quasi tremendo de
+indignação:
+
+--Tu, que estás mais habituado do que eu a lidar com estes senhores, não
+me saberás explicar estes ditos, que não percebo, e ao mesmo tempo a
+significação da tua presença aqui, a tolher-me os passos, como um ladrão
+nocturno?
+
+O silencio de Mauricio significava tambem muita indignação e cólera
+concentrada.
+
+A presença de Jorge n'aquelle legar sómente a podia explicar aceitando a
+hypothese maligna dos do Cruzeiro; e na recordação da conversa que
+tivera com o irmão, a respeito da filha de Thomé, via agora um excesso
+de dissimulação e hypocrisia, que o revoltavam tanto mais
+vehementemente, quanto maior era o respeito que até alli lhe mereceu o
+caracter de Jorge.
+
+Por isso a sevéra interpellação d'este fez rebentar em explosão aquella
+cólera mal reprimida.
+
+--Escusas de te armares com os teus costumados ares de juiz e de censor,
+Jorge--exclamou Mauricio indignado--bem vês que, desde este momento,
+perdeste para mim todo o prestigio e toda a authoridade moral. Tive até
+hoje candura bastante para tomar a serio o teu caracter de prudencia e a
+tua lealdade, mas desde que vejo a hypocrisia, que havia em tudo isso,
+sou eu que domino e que tenho o direito de interrogar e de censurar.
+
+--Enlouqueceste, Mauricio?--perguntou Jorge em tom quasi de piedade, que
+mais irritou o irmão.
+
+--Que indigna e ridicula comedia andas tu a representar n'este
+mundo?--tornou este quasi allucinado--Na tua idade tens já coragem para
+tanto! Armares-te de severidades pedantes contra as minhas loucuras de
+rapaz, loucuras leaes a final de contas e a descoberto, loucuras, mas
+não vilezas, e occultares na sombra actos, que a mim, ao estouvado e
+perdido, fariam córar de vergonha. Oh! não te invejo o talento de
+comediante, Jorge.
+
+--Mauricio, repara que não estás em ti.
+
+--Sim, eu tenho esse defeito. Não sei medir as minhas palavras, não sei
+encobrir, nem disfarçar; tudo o que penso me vem aos labios. Hontem
+dizia que te estimava e respeitava, e era verdade; hoje digo-te que te
+desprézo e te lastimo, e é verdade tambem. Cuidas que não me recordo das
+tuas palavras e dos teus conselhos ha poucos dias? Invocaste o nome
+sagrado de nossa mãe, a memoria venerada de Beatriz, para quê? para
+exigires de mim uma promessa; dizias tu, que era a de respeitar a paz de
+coração de uma rapariga, que uma abençoára e a quem a outra quizera como
+a irmã; mas sob a capa d'essa promessa ia a de te deixar em paz no gozo
+das tuas aventuras nocturnas e dos teus amores traiçoeiros e
+escandalosos.
+
+--Silencio!--exclamou Jorge, com um tom intimativo que cortou em meio as
+palavras do irmão.
+
+--Podia perdoar-te todos os insultos feitos ao meu caracter; não posso
+consentir que calumnies quem não está aqui para se defender, e quem
+tinha direito a esperar encontrar em ti um defensor e não um
+calumniador. Ordeno-te silencio em nome de alguns restos de honra, que
+ainda te deixassem intacta as companhias devassas que frequentas.
+
+--Que é lá isso, priminho, que é lá isso?--acudiram immediatamente os
+dois manos.
+
+Jorge não se intimidou.
+
+--Não me assustam as suas ameaças. Sei agora o que significa esta
+espionagem e aquellas gargalhadas cynicas e alvares de ha pouco.
+Cabe-lhes bem o papel degradante que desempenham aqui, e nem é de
+estranhar o conceito que formam das intenções dos outros de que julgam
+pelas suas. O que lamento é vêr-te associado a esta empreza, Mauricio,
+porque, faço justiça ao teu caracter, deve repugnar-te intimamente o
+passo que déste.
+
+--Em vez de sermões, priminho, não acha que seria melhor explicar-nos o
+que veio fazer a horas mortas a esta casa?
+
+--Não sinto a necessidade de explicar as minhas acções diante de taes
+juizes. Pouco me importa a estima em que teem a minha reputação os
+senhores do Cruzeiro. Resignar-se-hão portanto a prescindirem das
+explicações que pedem.
+
+Os dois riram-se maliciosamente. Jorge proseguiu:
+
+--Entendo esse riso. Conheço-os. Sei que depois da espionagem se segue a
+calumnia; mas o meu desprezo é muito grande para transigir. Calumniem.
+
+--Ora essa! Nós sabemos guardar um segredo. Socega.
+
+--Sei qual é o alimento com que se nutre a sua ociosidade. Não importa.
+Á vontade, meus senhores, teem a estrada livre e contem que não serei eu
+que os estorvo n'aquella que costumam seguir, porque não a frequento.
+
+Dizendo isto, deu alguns passos para se afastar; depois, voltando-se
+para Mauricio:
+
+--Repara que já desceste o primeiro degrau da infamia; espiaste; agora
+vê se desces o segundo, calumniando. Ha n'aquella casa uma familia
+tranquilla e respeitada, ajuda agora esta gente a manchal-a de lama,
+ajuda; o insulto é facil para quem não precisa de se abaixar muito para
+a apanhar.
+
+Os primos, ainda que valentes e atrevidos, ouviram com excepcional
+prudencia a correcção que lhes infligira as palavras de Jorge e
+limitaram-se a acompanhal-o de risadas quando elle se retirou.
+
+Mauricio estava já sentindo remorsos do que dissera ao irmão. Este
+adquirira sobre elle o seu antigo ascendente.
+
+--Parece-me que foi bem infame o que fizemos aqui--disse Mauricio,
+arrependido.
+
+--Sim? Parece-te isso? Pois vae pedir perdão ao mano--tornou-lhe o
+padre, rindo com desdem.
+
+--Parvo!--exclamou o doutor--Querem vêr que engoliu a arara?!
+
+--Deixa lá, então que queres? a innocencia tem d'estas canduras.
+
+--Mas vocês ainda acreditam?...
+
+--Ora adeus, adeus! Vae-te deitar e vê se nos arranjas umas indulgencias
+do mano Jorge.
+
+E os primos deixaram Mauricio, e partiram zombando da candura d'elle.
+
+Mauricio voltou a casa desgostoso de si e com o espirito fluctuando
+entre o remorso e a suspeita.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Amanheceu alvoroçada e ruidosa a Casa Mourisca no dia destinado para o
+jantar, em homenagem a Gabriella.
+
+N'aquelle tranquillo e silencioso edificio, que parecia constantemente
+absorvido nas recordações dos seus tempos de gloria, notava-se um
+movimento excepcional.
+
+O velho fidalgo não quizera faltar ás tradições de hospitalidade que a
+familia lhe legára.
+
+Ordenou que, embora á custa de qualquer sacrificio, se celebrasse a
+chegada da sobrinha, segundo o velho estylo, convidando-se para jantar
+os representantes da mais preclara nobreza dos arredores.
+
+Ainda que a tristeza e misanthropia, de que era victima, o trouxessem,
+havia muito tempo, arredado dos parentes e dos amigos de outras épocas,
+o senhor da Casa Mourisca preferiu sujeitar-se á impertinencia de lhes
+abrir mais outra vez as suas salas, a deixar de cumprir uma pratica que
+lhe impunham os brios de fidalgo creado nos habitos de grandeza e
+liberalidade de um solar de provincia.
+
+Jorge tentára ainda oppôr algumas sensatas reflexões a esta dispendiosa
+exhibição de uma opulencia mentida; mas encontrou o pae inflexivel.
+
+Frei Januario, que antevia a perspectiva d'um d'aquelles regalados
+jantares, que se tinham ido com os dizimos, com os foraes, com as
+luctuosas, com os conventos, com as milicias e com muitas outras coisas
+igualmente despertadoras das suas clericaes saudades, frei Januario,
+dizemos, sentia em si uns jubilos de criança, que nem podia nem
+procurava disfarçar.
+
+Eloquente como nunca, corroborou a opinião do fidalgo, fazendo-lhe bem
+sentir o deslustro que soffreria o brazão da casa se não se observassem
+essas praticas senhoris dos tempos passados, e dando como faceis de
+aplanar todas as difficuldades que, á primeira vista, apresentava o
+projecto.
+
+A Jorge, que lhe suscitava algumas objecções, o egresso sómente
+respondia:
+
+--Tenha paciencia, snr. Jorge, a nobreza obriga!
+
+--Obriga a ser nobre, que é ser leal, sincero, honrado, sem affectação,
+sem prodigalidade, e sem sumptuosidades que se sustentem á custa alheia.
+
+--Á custa alheia?!
+
+--Emquanto esta casa tiver uma divida é á custa alheia que vive, gere
+dinheiro de outros e não lhe é airoso gastar em festas e banquetes o que
+precisa para remir-se primeiro e para prosperar depois.
+
+--Uma casa de fidalgos não é uma casa de commerciantes. Que estes, que
+não teem um nome a respeitar, se não mettam em cavallarias altas,
+entende-se. E é até muito para sentir vêr por ahi fazer o contrario,
+como se vê! Mas agora quem tem brazão na porta e retratos nas paredes...
+
+--Quem tem brazão e retratos, e vive como n'esta casa se tem vivido,
+arrisca-se muito a ter de vender um dia brazões e avós, por preço
+modico, ao commerciante que teima em metter-se em cavallarias altas, e
+que tem a felicidade de não cahir do cavallo abaixo.
+
+--Adeus, elle ahi vem com as suas! Eu já lhe disse, não percebo que
+ideias são essas com que o menino me anda ha tempos. Ora para o que lhe
+havia de dar! O filho mais velho de uma casa como esta, aparentado com
+as primeiras familias do reino, com marquezes e duques da melhor
+linhagem, tudo nobreza antiga e da que não admitte duvida a fallar como
+qualquer d'esses bacharelitos que veem de Coimbra, mações nos ossos e
+republicanos na alma! Uma coisa assim!
+
+Apesar da repugnancia que sentia pela festa ordenada por o pae, Jorge
+julgou prudente superintender nos aprestes d'ella, para obstar a que
+fossem dirigidos pelos alvitres do padre procurador.
+
+Um d'estes alvitres fôra o de se pedir emprestadas ás proprias familias
+convidadas diversas peças de baixella, de que estava desprevenida a cópa
+da Casa Mourisca.
+
+Este ridiculo expediente era pelo padre tido na conta de engenhosa
+tactica, porque, explicava elle: cada familia, conhecendo apenas a prata
+que lhe pertencia, havia de suppôr que toda a mais era da casa, que em
+tempo fôra das mais bem providas n'esta especie. Por tal fórma, não se
+tornaria notada a falta, e cada qual se daria até por lisongeado em
+haver merecido do proprietario esta prova de confiança.
+
+Jorge não se deixou convencer, apesar do persuasivo da logica; e em
+despeito de vehementes protestos do padre, exigiu que o serviço se
+fizesse sómente com o pouco ou muito que houvesse em casa.
+
+O padre appellou para o fidalgo, que nisto porém decidiu a favor do
+filho.
+
+Os convidados para o jantar eram todos da mais genuina fidalguia da
+provincia. Por muitas d'aquellas veias andava globulo de sangue, que já
+pertencêra a Fuas Roupinho ou a Egas Moniz e que por um mysterio
+physiologico, que só se dá n'aquella esmerilhada casta, conseguira
+transmittir-se inteiro de veias para veias, atravez de vinte gerações,
+com o fim providencial de manter inabalaveis os brios da raça.
+
+Era um gosto seguir pelos seculos fóra a linha, pela qual alguns dos
+presentes procediam muito direitamente de qualquer notavel heroe das
+origens da monarchia. Havia tal que tinha tirado a limpo o numero de
+ordem que lhe competia n'aquella illustre enfiada de morgados, e que
+deixava evidente, por um _autem genuit_ nobiliario, ser o vigesimo ou o
+decimo-setimo rebentão de sua preclarissima cêpa. Bom fôra que elle se
+tivesse entregado a esses calculos, por não ser provavel que
+apparecesse, no succeder dos tempos, outro espirito de igual alcance,
+que ousasse mergulhar em tão transcendentes e uteis computações; e assim
+ficaria a humanidade privada de uma noção valiosissima.
+
+Embora estivessem um tanto enfesadas e pêcas quasi todas aquellas
+vergonteas, sempre derivavam de uma profunda cêpa; e quem não havia de
+preferil-as a ramos embora cheios de viço, cujas raizes estivessem á
+flôr da terra?
+
+Os dotes physicos tinham, é verdade, soffrido um pouco com os extremos e
+cuidados empregados para conservar a crase aristocratica d'aquelle
+sangue livre de toda a mistura que o derrancasse; os dotes
+intellectuaes, em geral, resentiam-se do cordão sanitario, de que os
+chefes d'aquellas familias as haviam cingido para precavêl-as da
+infecção de ideias novas, propagadas pelos livros e jornaes da
+actualidade. Mas lá estava o fermento da fidalguia, que era o essencial,
+e que suppria bem a saude e a illustração.
+
+Algumas familias, que cedendo um pouco ás exigencias da época, não
+tinham trancado de todo os portões dos seus solares a certas innovações,
+eram por esse facto olhadas com desconfiança por os puros, que as
+accusavam de eivadas pela lepra do seculo.
+
+Emquanto se esperava pelo jantar, formavam os convidados na sala nobre
+da Casa Mourisca grupos variados e caracteristicos. As senhoras de idade
+madura, tias e mães, sentadas em semi-circulo em um dos angulos da sala,
+narravam pausadamente umas ás outras as occorrencias domesticas
+relativas ao intervallo de tempo em que se não tinham visto; exaltavam
+os dotes pessoaes do filho primogenito e as prendas da menina da casa.
+
+Finalmente combinavam enlaces matrimoniaes entre os seus filhos e
+sobrinhos, de maneira que o sangue dos descendentes sahisse ainda mais
+rico em essencia aristocratica, se é que era susceptivel de maior apuro.
+
+Os chefes de familia, passeando na sala, ou formando grupos nos vãos das
+janellas, lidavam na sua tarefa de vinte annos: a de demonstrar que o
+que perdêra a causa realista fôra a traição e o suborno; e, arvorados em
+prophetas, entoavam trenuos sob a imminente dissolução social,
+periphraseando os artigos de fundo da _Nação_ e do _Direito_.
+
+A abolição dos morgados e vinculos, definitivamente decretada poucos
+annos antes, fornecia forte alimento para aquellas jeremiades; os
+dissipadores fidalgos, que tinham arriscado o futuro e bem-estar dos
+filhos, desbaratando-lhes a legitima com a sua imprevidencia e
+prodigalidade, lançavam agora á conta da lei o que era a consequencia
+logica da sua má administração.
+
+As raparigas fallavam umas com as outras, de vestidos e de enfeites, e
+dispunham de quando em quando de algum olhar mais terno para qualquer
+dos primos presentes, em cujo numero se continham os namorados de cada
+uma ou de mais do que uma. Estas representantes das poeticas e vaporosas
+castellãs, que na meia idade premiavam os campeadores na liça, os
+guerreiros na volta dos combates, e os menestreis e pagens que lhes
+endereçavam conceituosos galanteios nos estrados das salas, tinham
+perdido muito da poesia do typo primitivo. Vivendo em uma época em que
+não havia campeões, guerreiros, nem trovadores para premiar,
+limitavam-se as meninas a acceitar a côrte dos primos, tambem muito
+pouco parecidos com os seus cavalleirosos avós, e com a maior candura,
+que póde medrar na provincia, roubavam umas ás outras os noivos e os
+namorados.
+
+Algumas havia alli mais revolucionarias, que tinham conseguido
+introduzir o piano em casa e com elle as musicas da moda, obtendo uma ou
+outra vez dos paes a concessão de dar uma partida, onde a nata da
+nobreza provinciana dançava os _Lanceiros_ como qualquer sociedade de
+artistas.
+
+Os rapazes reunidos no terraço fumavam e atiravam a rewolver aos troncos
+das arvores ou ás avesitas que poisavam nos ramos.
+
+A maioria, ou morgados ou filhos segundos, era de ignorantes e vadios;
+se alguns haviam descido até ao ponto de irem a Coimbra fazerem á
+sciencia a honra de a estudar, poucos d'esses mostravam as habilitações
+adquiridas, exercendo qualquer mester social. Seria dobrar o desdouro.
+Commettida a fraqueza de sentar-se nos bancos das aulas ao lado dos
+filhos dos commerciantes e lavradores, devia-se pelo menos seguir o
+exemplo do mano bacharel do Cruzeiro, o qual evitára a circumstancia
+aggravante de servir depois para alguma coisa.
+
+Formava grupo á parte frei Januario em animado colloquio com outros dois
+padres, tambem appensos a casas fidalgas, e igualmente fervorosos na
+defeza dos legitimos direitos da nobreza e abominadores dos pedreiros
+livres.
+
+Mauricio, na companhia dos rapazes no terraço, entre os quaes se achavam
+os dois primos do Cruzeiro, tomava parte nas suas diversões, mas sem
+perder certo ar de melancolia, que lhe ficára das scenas da vespera.
+
+Jorge attendia a todos, mas n'elle era ainda mais evidente do que em
+Mauricio a preoccupação de espirito.
+
+Desde a vespera os dois irmãos não haviam trocado uma palavra. Gabriella
+notára-o, e desconfiava de que alguma coisa se tivesse passado entre
+elles.
+
+Não deixava porém a baroneza de desempenhar pela sua parte, com superior
+sciencia, o papel que lhe cumpria, como a pessoa em honra de quem tinha
+logar a festa de familia. Ia de grupo a grupo, tendo uma amabilidade
+certeira para cada individuo, e conseguindo desvanecer com as
+inebriantes inhalações de lisonja a superciliosa desconfiança que os
+seus ares de côrte da actualidade despertavam n'aquelles espiritos,
+escrupulosos respeitadores da côrte velha.
+
+Houve uma circumstancia que excitou a curiosidade da baroneza. Notára
+ella que a maior parte dos rapazes, com quem os manos do Cruzeiro haviam
+conversado e rido, seguiam Jorge com olhares maliciosos, e que sempre
+que este lhes voltava costas, trocavam uns com outros risos mal
+suffocados. Da roda dos rapazes communicára-se o mesmo effeito á das
+raparigas, por intermedio dos colloquios de alguns namorados, e dentro
+em pouco viu-as olharem tambem para Jorge com certa estranheza, e
+cochicharem e rirem umas com as outras, quando livres da observação
+d'elle.
+
+A mysteriosa confidencia passava de labios para ouvidos com rapidez tal,
+que momentos depois estava nas visinhanças de Gabriella.
+
+Não pôde a curiosidade d'esta tardar mais tempo em informar-se do que
+assim agitava a sociedade moça, e que até já havia deixado estupefacta
+mais de uma respeitavel matrona, que por acaso fôra partícipe do
+segredo.
+
+--O que é que se diz por ahi, priminha?--perguntou a baroneza á rapariga
+mais proxima--corre de certo alguma noticia estranha, porque as vejo
+todas em alvoroço.
+
+--E com razão. Então não sabe? O primo Jorge tem um namoro!
+
+--E o caso é para taes espantos?
+
+--Pudera não! Então não conhece o primo Jorge, já vejo. Ainda não houve
+quem lhe merecesse um comprimento, que não fosse de simples ceremonia.
+Todos iriam jurar que era impossivel que elle gostasse de alguem. E
+vejam lá.
+
+--É porque pertence á especie rara dos que amam só uma vez, e dos que
+amam de maneira tal que não podem sem remorsos amar por passatempo.
+
+--Pois será. Mas vejam aonde foi elle cahir!
+
+--Então quem é ella?
+
+--A Bertha. A filha do Thomé!
+
+--Fico na mesma, priminha.
+
+--Não conhece o Thomé? O Thomé da Herdade. Um lavrador que foi criado do
+tio Luiz e que está hoje rico.
+
+--Ah! bem sei, então é uma rapariga do campo.
+
+--Envernizada na cidade, onde o pateta do pae a mandou educar. Chegou ha
+dias a casa.
+
+--E Jorge conhecia-a?
+
+--Em criança, sim. Depois julgo que se não viram senão agora.
+
+--E quem descobriu essa paixão?
+
+--Viram-n'o sahir umas poucas de noites de casa d'ella.
+
+--Jorge?!
+
+--É verdade. Os primos do Cruzeiro viram-n'o, e parece até que o primo
+Mauricio.
+
+--Ah! Mauricio?!
+
+--Sim, e o mais bonito é que esse tambem pelos modos tinha suas
+pretenções, por passatempo já se sabe, olha o outro! a esse então tudo
+lhe serve. De maneira que hoje estão que nem palavra dizem um ao outro.
+
+--Isso já eu notei; mas custa-me a crêr que Jorge...
+
+--E a todos. Pois aquelle sonsinha...
+
+--Não é isso o que eu dizia. O que eu acredito é que, sendo o que me diz
+verdade, Jorge ama devéras essa rapariga, e elle não tem caracter para
+abusar de alguem. Deus sabe o que de tudo isso póde resultar.
+
+--Quer dizer a prima que é capaz de casar com ella?
+
+--Sim, estou convencida de que se elle a ama, formou já essa tenção e ha
+de cumpril-a.
+
+--Tinha que vêr a prima Bertha da Povoa!
+
+--Eu lhe digo, para a menina talvez tivesse que vêr, para mim, que já
+estou costumada a esses espectaculos, seria a coisa mais natural do
+mundo.
+
+Assim informada do que se passava na sala, Gabriella observou com mais
+attenção Mauricio e Jorge, e estudou nas physionomias de ambos os
+vestigios d'aquelle mysterio.
+
+Era manifesta a frieza que os separava n'aquella manhã. Evitavam-se
+tanto, quanto podiam. As frontes d'um e d'outro estavam contrahidas, e
+os sorrisos gelavam-se-lhes nos labios, sempre que queriam forçal-os a
+apparecerem.
+
+--Será verdade que Jorge ame essa rapariga? N'esse caso deve ser uma
+paixão bem séria a d'elle--pensava Gabriella.
+
+N'este tempo a porta da sala abriu-se e D. Luiz appareceu aos seus
+hospedes vestido com aquelle esmero e gravidade, que sabia guardar em
+todos os actos da vida.
+
+O fidalgo não tivera pressa em apresentar-se na sala.
+
+Fizera-se substituir por Jorge na solemnidade da recepção e na da
+apresentação de Gabriella a todos os primos, que ainda não a
+conhecessem.
+
+Frei Januario explicára a ausencia do fidalgo, attribuindo-a a
+incommodos habituaes, que sómente mais tarde lhe permittiam sahir dos
+aposentos.
+
+A verdade, porém, era que D. Luiz desejava encurtar, quanto lhe fosse
+possivel, o tempo em que tinha de conviver com os seus parentes
+n'aquelle dia dedicado aos deveres de hospitalidade.
+
+Produziu alvoroço na sala a entrada de D. Luiz.
+
+Todos correram a comprimental-o com aquella deferencia, que a indole
+séria e melancolica do fidalgo e a evidente superioridade da sua
+intelligencia e educação a todos impunha.
+
+--Como vaes tu, D. Luiz?--disse, apertando-lhe a mão um ex-coronel de
+milicias, que havia acabado, pouco tempo antes, de ameaçar com a espada
+que tinha em casa na gaveta todas as constituições do mundo.
+
+--Graças a Deus que déste signal de vida, homem!
+
+--O primo D. Luiz devia procurar mais distracções--acudiu a vigesima
+descendente de um dos guerreiros de Ourique.
+
+--Ainda bem que a priminha Gabriella o veio tirar do seu
+lethargo--acrescentou outra, ramo infructifero de arvore igualmente
+illustre.
+
+O titulo de baroneza raros o concediam a Gabriella, porque era de origem
+suspeita para aquelles pechosos aristocratas.
+
+D. Luiz respondeu com um forçado sorriso aos comprimentos, dizendo:
+
+--Devem procurar-se as distracções, quando o espirito não se dá bem com
+as ideias tristes. Mas isso não succede commigo. Já não posso viver sem
+esta escura companhia dos meus pensamentos. O esforço para fugir-lhe
+mais me afflige.
+
+--Ora essa! Sentir-se um homem bem com a tristeza! Ora essa!--estranhou
+o ex-miliciano.
+
+--São contradicções apparentes--disse Gabriella para o tio.--As saudades
+teem d'isso. Por isso lhes chamaram «gosto amargo e pungir delicioso.»
+
+--Quem é que lhes chama isso?--perguntou uma fidalga de oculos, um pouco
+sentimental e litterata, que estava ao pé de Gabriella.
+
+--Foi Almeida Garrett--respondeu esta, sorrindo, como quem suspeitava
+que não ficaria satisfeita a curiosidade da interrogante.
+
+Effectivamente a historia litteraria de Portugal parára para ella em
+José Agostinho de Macedo.
+
+--Almeida Garrett!!--repetiu um dos mais intractaveis realistas
+presentes que ouvira a resposta--eu conheci um d'esse nome, que era
+secretario ou coisa assim do duque de Palmella n'aquelles bons governos
+do Porto em 1834, isso era um liberalengo dos quatro costados.
+
+Na linguagem pittoresca d'este sujeito, a palavra liberalengo era a mais
+eloquente expressão com que s. exc.ª conseguia traduzir todo o desprezo
+que lhe mereciam as ideias e os homens de 1820 e 1832.
+
+--E perdeu-o de vista depois?--inquiriu Gabriella com leve ironia.
+
+--Sim, perdi. Eu conheci-o por acaso.
+
+--Então não o conheceu orador no parlamento, ministro, poeta, prosador e
+chefe de uma revolução litteraria?
+
+O fidalgo abriu os olhos, prolongou os labios e sacudiu a cabeça,
+dizendo:
+
+--Olhe, prima; eu, a respeito de parlamento.... Temos conversado; não
+sei se me entende. De ministros tambem não quero saber, porque tenho
+receio de que me digam que nos governa o filho do meu sapateiro. Agora a
+respeito de poetas... se quer tambem que lhe diga, eu nunca tive quéda
+para sonetos. Lá chefe de revolução estou convencido de que elle seria,
+porque para guerrilheiro estava talhado.
+
+A baroneza deu muita razão a este seu primo e foi para um grupo de
+raparigas, que passaram a interrogal-a sobre a ultima moda do talho dos
+vestidos.
+
+Annunciou-se emfim o jantar. Houve geral reboliço na sala, e a companhia
+seguiu mais ou menos anarchicamente para o banquete.
+
+Frei Januario tinha meditado maduramente a ordem de collocação dos
+diversos convivas, segundo as regras da etiqueta em que elle era mestre.
+E como n'este ponto ninguem lhe contrariasse os planos, havia-se sahido
+muito á sua vontade da tarefa.
+
+Assumindo pois as funcções de mestre de ceremonias, começou a designar a
+cada convidado o logar que lhe competia.
+
+Infelizmente, porém, nem todos foram doceis ás indicações do padre, e
+sobre tudo os rapazes que, sem lhe darem attenção, iam sentar-se onde
+muito bem queriam, e ao pé quasi sempre de alguma prima, que não
+desgostava da visinhança.
+
+Isto transtornou completamente os estudos do padre, que tivera mais que
+tudo era vista a separação dos sexos e das idades; mas debalde protestou
+contra a anarchia que invadira a mesa.
+
+Quem, porém, acabou por o perturbar foi D. Luiz, quando do alto da mesa
+e com a hospitaleira cordialidade, que conseguiu affectar, exclamou:
+
+--Queiram sentar-se á vontade. É bom que os velhos se misturem com os
+moços para temperar os ardores da juventude com a prudencia dos annos.
+Outras desigualdades não ha aqui a attender.
+
+Esta ultima parte fez torcer o nariz a um ou outro fidalgo que tinha
+motivos para se suppôr mais preclaro do que os primos, mas não houve
+protesto formulado, e todos obedeceram ao convite do dono da casa.
+
+O padre esteve em risco de perder o appetite.
+
+Valeu-lhe porém a judiciosa reflexão que lhe fez ao ouvido o collega,
+dizendo:
+
+--Sentemo-nos, que bom logar é todo aquelle onde se come bem.
+
+Jorge ficou aos pés da mesa e portanto fronteiro ao pae.
+
+Os primos do Cruzeiro, um de cada lado da mesa e perto da cabeceira,
+continuavam a sorrir provocadoramente e a fazer rir os outros.
+
+Ao passar perto de Jorge, para tomar logar, a baroneza murmurou-lhe:
+
+--Falla-se muito de ti, Jorge.
+
+Jorge fez um signal de quem estava informado do facto, e respondeu
+sorrindo de uma maneira especial:
+
+--Talvez se falle mais e mais alto d'aqui a pouco.
+
+O jantar não desdizia do puritanismo d'aquella sociedade.
+
+Era um jantar á portugueza e digno de portuguezes, que não querem:
+_nostrum regnum ire fore de Portucalensibus_.
+
+A Casa Mourisca, bem explorada, ainda deu para ostentar um esplendor,
+que se nada era em comparação com o dos magnificos festins, que em
+tempos passados a animaram, não envergonhava o seu brazão perante os
+fidalgos presentes que, pela maior parte, o tinham tanto ou mais
+deteriorado.
+
+Os criados suppriram com diligencia o numero, de modo que o serviço
+correu regular.
+
+Emquanto se servia a sôpa e não se havia encetado as libações, reinou na
+sala aquelle silencio momentaneo, proprio da occasião.
+
+Só se ouve o tocar das colheres nos pratos, e o sôrvo mais ruidoso de
+alguns convivas, que se não constrangem. O appetite satisfaz-se, dão-se
+tregoas ás conversas. Depois retiram-se os primeiros pratos, enchem-se
+os copos, repousam os commensaes, e de visinho para visinho trava-se a
+meia voz um dialogo cortado, sobre assumptos insignificantes. Depois o
+tinir das louças e dos crystaes, o vapor oloroso das iguarias, os
+effeitos excitantes dos vinhos animam o espirito; o tom das conversas
+eleva-se, o visinho fronteiro intervem, cresce a confusão, os risos
+misturam-se com as palavras, a timidez dissipa-se, cada qual sente-se
+com um arrojo que desconhece, vencem-se reservas e resistencias que
+pareciam insuperaveis, reina a vida na sala do banquete.
+
+Por estas diversas e successivas phases passou o jantar em casa de D.
+Luiz. No meio d'elle, berrava-se politica alli, jogavam-se epigrammas
+acolá, segredavam-se requebros em outro ponto, e dava-se largas á
+maledicencia em quasi todos.
+
+Jorge conservava-se serio e reservado, como estivera toda a manhã.
+
+Mauricio fazia esforços para mostrar-se despreoccupado, porém mal o
+conseguia.
+
+Para o fim do jantar percebia-se pelo tom de algumas risadas e pelo
+theor de algumas conversas, que os restos da garrafeira da Casa Mourisca
+não tinham desmentido os seus antigos creditos, firmados em tantas
+façanhas.
+
+Os primos do Cruzeiro sobre todos fallavam em um tom de voz, que mais do
+que uma vez attrahira as geraes attenções e fizera contrahir o sobr'olho
+a D. Luiz.
+
+A cada momento as allusões a Jorge, que elles entremeiavam nos seus
+informes discursos, tinham obrigado a maioria dos olhares a convergirem
+para o filho mais velho de D. Luiz, que os arrostava com uma serenidade
+desprezadora.
+
+Encetaram-se os brindes. Brindou-se a baroneza, brindaram-se na pessoa
+dos seus chefes as familias illustres alli presentes, brindaram-se os
+caudilhos do partido realista, brindou-se em honra da sancta causa, em
+honra da imprensa fiel, em honra das velhas instituições, em honra do
+throno e do altar e de muitas outras coisas.
+
+Frei Januario, para mostrar o seu fervor, esgotava o calix a cada
+brinde, e aproveitava os intervallos para fazer com os collegas, a meia
+voz, os seus brindes particulares.
+
+Já quando os animos estavam um pouco excitados por estas successivas
+libações, o primo padre levantou-se, e com os olhos injectados e o gesto
+um tanto transtornado, disse:
+
+--Meus senhores, tenho notado que o primo Jorge está com um ataque de
+melancolia, de que não póde livrar-se. Os brindes que aqui se teem feito
+ainda o não desanuviaram. É verdade que se brindaram familias antigas e
+coisas velhas, e o passado não é lá das ideias mais alegres. Eu por isso
+vou propôr um brinde menos soturno, a vêr se o distraio. Bebo á saude do
+Thomé da Herdade e da sua familia, com particular menção da menina
+Bertha, a quem Deus faça muito feliz, assim como a todos quantos lhe
+querem bem.
+
+Este inesperado brinde produziu grande sensação. A parte moça da
+companhia, prevenida como estava, principiou a suffocar os risos e a
+fallar ao ouvido dos visinhos; os velhos abriam os olhos espantados ou
+indignavam-se com o desconchavo de brindar uma familia plebeia depois de
+outras de tão apurada raça. A consequencia foi que ninguem correspondeu
+ao brinde e os calices ficaram na mesa intactos. Seguiu-se um silencio
+profundo na sala.
+
+O primo do Cruzeiro, sem se intimidar, perguntou:
+
+--Então que é isto?! Ninguem me secunda?
+
+E corria a vista em redor da mesa com expressão ironica, que, a seu
+pezar, se desvaneceu ao encontrar a vista de Jorge, que, pallido de
+intima commoção, tambem se erguêra e levantára o calice para responder:
+
+--Secundo eu, primo--disse elle, corn um leve tremor na voz--e creia que
+da melhor vontade o faço. Brinda-se uma familia honrada, laboriosa e
+justa. A ninguem deve repugnar o brinde, e muito menos a mim, a quem
+motivos particulares obrigam a veneral-a.
+
+--Ah!--murmurou provocadoramente o padre, sentando-se com ares de
+victoria.
+
+Um meio sorriso passou por os labios de alguns dos espectadores d'esta
+scena.
+
+--Levante-se!--ordenou Jorge ao padre com intimativa--ouça-me de pé, que
+eu também estou de pé para secundar o seu brinde.
+
+É singular! O padre ergueu-se, como se não pudesse resistir ao olhar
+indignado e imperioso de Jorge.
+
+--Repito--continuou este--brindo aquella familia honrada, porque é
+honrada e porque motivos particulares me levam a veneral-a. E para lhes
+não dar occasião de sorrirem outra vez, ou de afagarem a vibora
+venenosa, que ahi soltaram, eu lhes explico as minhas palavras. Se
+ouvirem verdades que lhes firam o orgulho de fidalgos, lancem a culpa da
+vexação a quem m'as provocou. Meus senhores, eu acordei um dia com a
+firme resolução de luctar contra esta torrente que nos arrasta e afoga a
+todos, apesar dos nossos brazões, dos nossos solares, dos nossos
+pergaminhos e das nossas galerias de retratos. Todos quantos aqui estão
+podem contar das glorias passadas e da decadencia e das humilhações
+presentes. E nós como todos. Eu era novo, tinha diante de mim a
+perspectiva de uma longa vida, pensava no futuro e não podia resignar-me
+á ideia de morrer assim cobarde e ingloriamente. Reagi, encontrei
+felizmente em meu pae o auxilio preciso, e, authorisado por elle, tomei
+sobre meus hombros a tarefa de sustentar as ruinas vacillantes d'esta
+casa. A empreza porém era mais difficil do que a suppozera. Tolhia-me os
+movimentos a rede complicada, em que a errada gerencia de muitos annos
+embaraçára a administração. Cada passo dado para salvar-nos era mais um
+para a total ruina. Devem comprehender bem isto os que me escutam,
+porque a sorte das nossas casas é quasi a mesma. De todos os lados, para
+onde nos viramos, surge-nos a usura, o dolo e a má fé. N'estas
+circumstancias só me podia valer a experiencia dos negocios, e essa
+faltava-me, o credito, e quem m'o reconheceria e aceitaria? o capital, e
+por que preço poderia obtel-o? Perguntem ao nosso antigo administrador,
+aqui presente, o preço por que elle o encontrava. Pois bem, senhores, um
+homem chegou-se a mim n'estas condições e pôz á minha disposição, leal e
+desinteressadamente, a sua experiencia, o seu credito e o seu capital.
+Graças a este homem, era-me possivel libertar-me, sem baixeza, da usura
+que havia tantos annos nos devorava, applicar vantajosamente os capitaes
+obtidos e encetar um systema, lento mas seguro, de administração que
+preparasse o caminho para um futuro resgate d'esta casa. Graças a este
+homem, sorriam-me as esperanças de poder dizer um dia ás cinzas dos
+nossos antepassados, que eu tambem respeito, que repousassem em paz na
+sepultura, pois não viriam estranhos disseminal-as; e á memoria querida
+de minha mãe e de minha irmã que os que ellas amaram não desertariam
+cobardemente dos logares que lhes eram caros e que as viram morrer. Mas
+contra o generoso auxilio d'este homem havia velhos preconceitos de
+familia, mais apaixonados do que justos; era-me pois impossível recorrer
+a elle abertamente. Entre as prevenções e a gloria da minha casa não
+hesitei porém. A consciencia dizia-me que não devia hesitar. Resolvi
+acolher o offerecimento leal, mas tive de occultar na sombra da noite
+actos que não se envergonhariam da mais clara luz do dia. Quando
+precisava do conselho experiente d'esse homem, procurava-o de noite e
+clandestinamente. Os diffamadores, que correm nas trevas á procura de
+alimento para a calumnia, surprenderam-me. Medindo as acções dos outros
+pela sua capacidade moral, suppõe-lhes sempre um motivo infame. O homem
+de quem lhes fallei tem uma filha. No que ha de mais puro e mais
+sensivel nas familias, é ahi que a calumnia gosta de ferir. Essa pobre
+menina foi pois a victima escolhida. Agora se querem saber o nome do
+homem honrado, a quem devo experiencia, credito e capital, dir-lhes-ei
+que se chama Thomé da Povoa, a filha é Bertha, a afilhada de meu pae; os
+calumniadores são esses que propõem o brinde, lançando no calice a
+peçonha de sua natureza de vibora; mas brinde que eu de novo secundo sem
+receio nem hesitação.
+
+--E eu--exclamou a baroneza, imitando-o; mas por ninguem mais foi
+seguida, porque uma nova occorrencia veio absorver as attenções.
+
+D. Luiz, que revelára a mais profunda estranheza desde o principio da
+scena, provocada pelo fidalgo do Cruzeiro, crescêra em agitação á medida
+que as palavras de Jorge iam tendo para elle um sentido mais claro.
+
+As ultimas fizeram-lhe passar o rosto por uma serie de mudanças, cada
+uma d'ellas denunciadora de uma paixão violenta.
+
+Ao nome de Thomé da Povoa, á ingenua e leal declaração de Jorge, os
+olhos do irritado fidalgo faiscaram e um rubor fugaz e intenso
+correu-lhe nas faces, succedendo-lhe uma pallidez profunda.
+
+Quando o filho terminou de fallar, foi elle quem, por sua vez, se ergueu
+na cabeceira da mesa.
+
+A commoção que o dominava não lhe permittiu desde logo o uso da palavra.
+
+Todos os olhares se desviaram para aquelle velho, pallido, vestido de
+negro, severo e mudo, que, com as mãos apoiadas sobre a mesa e o olhar
+fulgurante, seguia com a vista por todos os espectadores d'esta scena.
+
+A final com a voz tremula e meia abafada, mas que a pouco e pouco se foi
+animando, o velho fidalgo começou, dizendo:
+
+--Meus senhores, quando ha dias os convidei para virem a esta casa
+solemnisar a honra que eu recebia da hospedagem da minha sobrinha,
+estava persuadido de que esta casa ainda era minha. Não sabia que,
+abusando da confiança que eu depositára n'elle, um filho meu, o mais
+velho, o primeiro representante, no futuro, do nome e das glorias da sua
+familia, havia empenhado a um dos criados d'ella o solar em que nascêra.
+Soube-o agora. Peço-lhes humildemente perdão de os haver, pela minha
+ignorancia, sujeitado a esta baixeza. Desde este momento estamos todos
+aqui em situações iguaes, todos somos hospedes do Thomé da Herdade. Em
+outros tempos, nos festins e saraus das nossas casas, os criados subiam
+disfarçadamente as escadas, para virem das ante-camaras e corredores
+espreitar para as salas, fascinados pelo esplendor que n'ellas viam;
+permittia-se-lhes isso. Hoje porém, senhores, se aqui nos demorassemos,
+vêl-os-iamos subir com outro intento, para vigiar que nas expansões do
+nosso jubilo não deteriorassemos as alfaias, a mobilia, a baixella e a
+casa, que já lhes pertence. A esta espionagem não me sujeito eu. Meus
+senhores, as minhas obrigações de dono da casa terminaram. Hospede como
+os outros, tomo a liberdade de seguir o caminho que a dignidade me
+impõe. Cada um consulte o mesmo conselheiro.
+
+E D. Luiz, curvando-se diante de todos que o escutaram espantados, sahiu
+da sala sem dar tempo a que o interrogassem ou detivessem.
+
+Frei Januario foi o primeiro que pressurosamente o seguiu.
+
+O resto da companhia parecia immobilisado nos seus logares.
+
+Jorge, com os cotovêlos apoiados na borda da mesa, conservava o rosto
+escondido entre as mãos.
+
+Gabriella foi quem se subtrahiu primeiro áquella influencia
+paralysadora.
+
+--Parece-me que, depois do que se passou, dá-se a triste necessidade de
+nos separarmos. O tio Luiz está muito agitado, e preciso dar-lhe tempo
+para serenar e vêr as coisas sob um aspecto mais racional do que aquelle
+em que a paixão lh'as apresenta agora. Por isso...
+
+A reticencia foi seguida de um arrastar de cadeiras, prova de todos
+haverem comprehendido a conveniencia da retirada.
+
+Formaram-se ainda na sala alguns grupos, conversando sobre o facto.
+
+Os primos do Cruzeiro foram os primeiros a retirar-se. O padre ainda
+manifestou desejos de pedir a Jorge uma satisfação pelos insultos que
+elle lhe dirigira, mas intervieram terceiros que o dissuadiram.
+
+Os fidalgos velhos tentaram procurar D. Luiz para o acalmarem; mas
+foi-lhe dito por frei Januario que o fidalgo não podia recebel-os.
+
+Pouco e pouco foram os convidados abandonando a Casa Mourisca, e os
+caminhos que d'ella partiam eram momentos depois cobertos de cavalgadas,
+liteiras e carroções, em que aquellas nobres familias regressavam aos
+seus solares.
+
+As occorrencias singulares do jantar foram entre ellas assumpto de
+conversa em toda a jornada. Todos, com quanto criticassem a esquisitice
+do velho D. Luiz, que tão pouco urbano se mostrou com os seus hospedes,
+eram accordes em attribuir a principal culpa a Jorge.
+
+
+
+
+XVII
+
+
+Ficaram apenas na sala Jorge, Mauricio e a baroneza.
+
+A indignação de D. Luiz parecia haver desvanecido a energia de Jorge; a
+consciencia do pobre rapaz, como que vacillando ao embate das violentas
+paixões paternas, quasi lhe censurára a precipitação do passo que déra.
+
+Igualmente abatido, Mauricio sentia remorsos ainda mais vivos. Não
+podendo já duvidar da innocencia do irmão; como perdoaria a si proprio
+as suspeitas e insultos com que o ferira?
+
+Do vão da janella a baroneza observava-os immovel e silenciosa.
+
+Mauricio ergueu emfim a cabeça, e tendo nos olhos ainda vestigios de
+lagrimas; hesitou alguns instantes; depois, por um d'esses movimentos
+promptos e irresistiveis, a que a violencia dos affectos o provocava,
+caminhou agitado para Jorge.
+
+--Jorge--disse elle, intima e sinceramente commovido--se ainda se não
+esgotou a generosidade da tua nobre alma, não me retires a affeição, que
+por tanto tempo te mereci.
+
+Jorge apertou-lhe a mão com affecto.
+
+--Nunca t'a retirei, Mauricio. Podes crêl-o. Affligem-me alguns dos teus
+desvarios, principalmente porque sei que elles estão em contradicção com
+os nobres sentimentos da tua alma. Mas para te perder a affeição não é
+isso motivo. Para mim és n'esses momentos, como uma criança que se vê a
+dormir á beira de um precipicio. Inspiras-me, como ella, apenas sustos,
+e não cólera nem aversão.
+
+E os dois rapazes abraçaram-se com effusão.
+
+--Vamos--disse a baroneza, intervindo--a situação precisa de que se
+pense n'ella seriamente. As pazes estão feitas, em boa hora; pensemos
+agora como gente de juizo.
+
+--Antes de mais nada, Jorge, o que ha de verdade em tudo isto?
+
+--O que eu disse.
+
+--Vê bem; falla-me com franqueza. Eu não acreditei no que de ti se
+espalhou. Concederia que Jorge podésse praticar uma loucura, mas uma
+acção indigna, um abuso de confiança, sabia que não. Porém não ha em
+toda esta historia alguma coisa que não disseste ainda? Bertha é para ti
+completamente indifferente? Esta é que é a questão.
+
+Só a muito custo Jorge pôde disfarçar a turbação em que a pergunta de
+Gabriella o lançou, mas respondeu com apparente serenidade:
+
+--Bertha é uma rapariga, que por todos os motivos respeito.
+
+E com mais custo ainda, acrescentou:
+
+--E nada mais.
+
+--E para Mauricio o que é Bertha?--continuou a baroneza, sorrindo ao
+voltar-se para o primo mais novo.
+
+Não obteve logo resposta.
+
+--Bem vêem--insistiu ella--que ha uma coisa que eu não posso ainda
+explicar. Assisti á vossa reconciliação, signal de que tinha havido uma
+desintelligencia. Qual foi pois o motivo d'ella?
+
+--Uma das minhas loucuras--respondeu Mauricio a final--cedi a um
+movimento de paixão, encontrando-me com Jorge hontem, quando elle sahia
+da casa de Thomé da Povoa, e soltei expressões, que parece que ainda me
+estão queimando os labios.
+
+--Então, visto isso, achavas-te com direito de sentir ciumes. Segue-se
+que amas Bertha. E é devéras esse amor?
+
+A fronte de Jorge contrahiu-se levemente ao ouvir a pergunta, e emquanto
+aguardava a resposta do irmão.
+
+--Se responder pelo que penso d'elle--disse Mauricio--juro que é.
+
+D'esta vez um ligeiro sorriso deslizou nos labios de Jorge.
+
+--Isso quer dizer--tornou a baroneza--que respondendo pelo que pensas de
+ti, receias muito que não. Pois, meu caro priminho, a occasião exige que
+se ponham de lado caprichos e brinquedos de criança, e que se siga com
+sisudeza e tenacidade de homem um caminho qualquer. Não estámos em tempo
+de brincar. Dá-se uma grave crise, em que todos os bons planos de Jorge
+podem ser destruidos de encontro á resistencia do tio Luiz. Eu nem posso
+calcular o que resultará de tudo isto. E portanto....
+
+Interrompeu-a n'este ponto a entrada de um criado, pedindo-lhe para
+chegar ao quarto de D. Luiz, que desejava fallar-lhe.
+
+--N'este caso esperemos o resultado d'esta entrevista para adoptar um
+partido--dizia ella, apressando-se em satisfazer os desejos do tio.
+
+Em caminho para o quarto de D. Luiz, a baroneza notou nos corredores e
+nas salas intermedias um movimento extraordinario, que não sabia a que
+attribuir.
+
+Os criados iam e vinham apressurados, communicavam ordens uns aos
+outros, abriam e fechavam portas, desciam a duas e duas as escadas, e
+transportavam differentes objectos, como se se tractasse dos
+preparativos de uma jornada.
+
+Nos aposentos de D. Luiz achou Gabriella o fidalgo em pé no meio da
+sala, emquanto frei Januario, de joelhos junto de uma arca, introduzia
+n'ella algumas peças de roupa, que aquelle lhe ia indicando.
+
+--Eu não sei o que v. exc.ª vae fazer, snr. D. Luiz--murmurava no
+entretanto o egresso, que parecia cumprir a tarefa de má vontade, suando
+em bagas--isto não tem pés nem cabeça. Olhem agora, sem commodos
+nenhuns... assim de um momento para outro....
+
+D. Luiz, sem responder ás reflexões do procurador, continuava a
+indicar-lhe os objectos que devia arrecadar.
+
+Gabriella dirigiu-se a elle:
+
+--Mandou chamar-me, meu tio?
+
+--Ah! mandei, sim, Gabriella. Desculpe importunal-a. Mas tenho que lhe
+pedir um favor--respondeu D. Luiz com forçada placidez.
+
+--Mil que sejam.
+
+--Depois do que se passou, não quero demorar-me n'esta casa uma só
+noite. Peco-lhe por isso hospitalidade na sua. Se me não engano,
+tencionava partir ámanhã para lá. Não é verdade? Pois bem, faça o
+sacrifício de partir hoje e permitta-me que a acompanhe. Um quarto e uma
+enxerga bastam-me. Preciso de me ir costumando a tudo.
+
+A baroneza ficou por alguns momentos muda de surpreza.
+
+--Mas... Por quem é, meu tio... Grande prazer me dará a sua visita...
+porém em outras circumstancias e por outros motivos. Não tome resolução
+alguma emquanto assim está dominado pela paixão. Veja o que vae fazer! O
+que se dirá? O que se fallará por toda a parte!
+
+--Já de sobra teem em que fallar. A vergonha não é maior--tornou o velho
+mais agitado.
+
+--Pois sim--acudiu o padre--mas reunir a vergonha ao incommodo... a
+fallar a verdade... é... é...
+
+--A vergonha... a vergonha... Mas tem a certeza, tio, de que julga bem e
+despreoccupado de paixões, os actos de seu filho? Quem lhe diz que
+outros não chamarão virtude áquillo a que chama baixeza?
+
+A cólera relampagueou de novo nos olhos do velho:
+
+--Gabriella, por quem é, desista de contrariar-me. Asseguro-lhe que me
+não demove da resolução em que estou e que sómente me afflige. Se não
+quer conceder-me o abrigo dos seus tectos, irei bater a outra porta.
+
+Gabriella não insistiu.
+
+--A minha casa é sua sempre, meu querido tio. Vou dar as ordens para
+partirmos.
+
+--Não esperem por mim--recommendou ainda o fidalgo--eu irei com frei
+Januario mais tarde, porque tenho que fazer antes. Sinto o incommodo que
+isto lhe vae causar, Gabriella. Mas os criados ficarão na estalagem da
+Encruzilhada.
+
+--Todos cabem; visto que tambem os quer levar, escusam de ficar a meio
+caminho. Então fecha-se a Casa Mourisca, ao que estou vendo? Muito bem.
+A casa de meu pae é bastante espaçosa, e com os arranjos que eu mandei
+fazer-lhe ultimamente, deve bem servir para nós todos. Agora um pedido.
+
+--Qual é?
+
+--Jorge está consternado, pelas suas asperas palavras ao jantar. Não ha
+de reconciliar-se com elle?
+
+--Gabriella, se é amiga de Jorge, não procure trazêl-o á minha presença,
+e se quer que isto que sinto cá dentro contra meu filho não cresça ou
+degenere em paixão peior, não pronuncie diante de mim por ora o nome
+d'elle.
+
+Gabriella tinha certo dom para conhecer quando convinha luctar e quando
+era preferivel ceder. D'esta vez percebeu que o animo de D. Luiz não
+estava para acalmar de prompto.
+
+Sahiu sem aventurar mais uma palavra a tal respeito e foi ordenar os
+preparativos da partida.
+
+Ao passar na sala onde ainda estavam Jorge e Mauricio, apenas lhes
+disse:
+
+--Tracta-se de partir já.
+
+--Para onde?
+
+--Para a minha casa, nos Bacellos.
+
+--E meu pae?
+
+--Tudo parte. É uma emigração completa.
+
+--E a Casa Mourisca?...
+
+--Fechada, ao que parece, até... acabar o interdicto.
+
+--Mas isso não póde ser!
+
+--Mas é, e eu vou já dar ordens precisas para a mudança.
+
+--E eu vou fallar com meu pae--exclamou Jorge, erguendo-se.
+
+A baroneza reteve-o.
+
+--Não vás. É inutil e perigoso. Deixa que os factos succedam
+naturalmente. Eu já estou convencida de que esse é o melhor expediente.
+É preciso que teu pae desafogue a paixão que lá tem dentro. Entende que
+deve sahir d'aqui, deixemol-o sahir. Estas exterioridades acalmam-n'o.
+Depois lhe apparecerás.
+
+--Então agora recusa vêr-me?
+
+--Recusa. O que não tira que não possas estar muito á tua vontade na
+minha casa dos Bacellos. Ha lá um pavilhão na quinta, ao talhar para um
+refugiado como tu.
+
+Passados poucos minutos os moradores da Casa Mourisca punham-se em
+movimento para a quinta dos Bacellos.
+
+Os preparativos não occuparam muito tempo, porque o fidalgo mandára
+apenas levar o que fosse estrictamente necessario.
+
+A baroneza veio despedir-se do tio, que insistiu em querer ser o ultimo
+a sahir de casa.
+
+Jorge e Mauricio partiram em companhia de Gabriella.
+
+O fidalgo ficou só com frei Januario, que continuava a protestar por
+todas as fórmas contra a resolução da mudança de quartel a horas
+improprias.
+
+D. Luiz nem lhe respondia.
+
+Quando o procurador, a fim de suavisar as agruras do desterro, pretendia
+fazer transportar algum objecto que podia ser de utilidade para melhor
+accommodação da familia, o fidalgo ordenava-lhe sêcamente que o deixasse
+ficar, o que cada vez mais exasperava o padre.
+
+Vendo que tudo estava prompto, D. Luiz deixou por alguns instantes o
+procurador na sala e subiu vagarosamente as escadas que conduziam aos
+antigos aposentos da filha que perdêra.
+
+Ao penetrar alli, que doloroso estremecer o do coração do velho! Ia
+desamparar tambem aquelle quarto! Esta ideia só poderia fazer
+vacillar-lhe a inabalavel coragem! Era um logar de reconhecimento
+aquelle para o desconfortado ancião. Tudo alli dentro se conservava como
+no fatal dia em que ella morrêra. Todos os objectos que haviam
+pertencido á infeliz criança alli se guardavam religiosamente. E ia
+deixal-os! O leito, o genuflexorio, o toucador, a harpa, parecia
+possuirem uma voz para fallar-lhe d'ella. E havia de fugir-lhes! A
+coragem porém não sossobrou na lucta. D. Luiz fechou discretamente a
+porta para si; depois com fervorosa commoção beijou quasi um por um
+esses differentes objectos, e ao chegar junto do leito, o mesmo em que a
+vira adormecer do ultimo somno, ajoelhou soluçando, e cobriu de beijos e
+de lagrimas as almofadas onde tantas vezes se encostára a pallida cabeça
+da sua Beatriz.
+
+Mais tranquillo depois d'esta effusão de dôr, ergueu-se, enxugou os
+olhos e desceu com a mesma lentidão as escadas até o portal, onde o
+padre o esperava já com impaciencia e inquieto pelo adiantado da hora.
+
+Um criado segurava pela redea os cavallos, que deviam transportal-os.
+
+--Vamos, vamos, snr. D. Luiz, olhe que nos apanha a noite na estrada e
+os caminhos não são lá essas coisas--exclamou o padre afflicto.
+
+D. Luiz, em vez de responder-lhe, disse para o criado que segurava os
+cavallos:
+
+--Vae esperar-nos na baixa do Paul. Nós já lá vamos ter.
+
+--Então v. exc.ª quer ir a pé até á baixa do Paul?!--perguntou o padre
+assustado.
+
+--Vou?
+
+--Mas... é um estirão e....
+
+--Então que fazes? Parte--disse D. Luiz com impaciencia para o criado, e
+este obedeceu-lhe promptamente.
+
+O padre ficou a resmonear:
+
+--Eu cada vez ando mais ás aranhas com a gente d'esta casa. Sempre tenho
+visto e ouvido coisas ha tempos a esta parte! Olhem que preparos estes!
+Havemos de ceiar a boas horas, não tem duvida nenhuma!
+
+--Agora feche a porta, frei Januario--ordenou D. Luiz.
+
+O padre tomou com ambas as mãos a enorme chave do portão, e fêl-a girar
+na fechadura.
+
+Este movimento produziu um som agudo, similhante ao gemido de uma ave, o
+qual resoou tristemente pelo interior d'aquella casa deserta.
+
+O padre tirou a chave, que juntou ao mólho que trazia, deu um encontrão
+á porta, para verificar se ella estaria bem fechada, e depois olhou para
+D. Luiz.
+
+--Vamos--disse este.
+
+O padre ia pôr-se a caminho, mas parou vendo o fidalgo seguir a direcção
+opposta á da quinta dos Bacellos.
+
+--V. exc.ª por onde vae?
+
+--Por aqui--respondeu sêcamente o fidalgo, continuando a andar.
+
+--Mas... v. exc.ª está enganado. Esse não é o caminho.
+
+--Bem sei.
+
+O padre seguiu-o, murmurando contra as venêtas do fidalgo:
+
+--Esta cabeça já não regula direita. Onde diabo quer ir este homem?
+
+O caminho que D. Luiz continuava a seguir, ia tão divergente do que o
+padre esperava, que outra vez o interpellou:
+
+--Mas v. exc.ª onde quer ir?
+
+--A casa do Thomé da Povoa--respondeu D. Luiz e acrescentou:--E
+advirto-lhe, frei Januario, que não me sinto com disposições para
+conversar.
+
+O padre sabia que sempre que D. Luiz fazia certas observações em certo
+tom e com certa inflexão de voz, era inutil e imprudente contrarial-o.
+Por isso calou-se, o que augmentou o mau humor que já trazia accumulado.
+
+--A casa do Thomé da Povoa!--resmungava elle--O homem está doido! Ora
+isto! E eu a atural-o! O que me estava reservado!
+
+A intenção com que o fidalgo demandava a casa do fazendeiro era um
+mysterio indecifravel para o espirito do procurador.
+
+Tinham descido a encosta, a meio da qual se erguia a Casa Mourisca.
+Aproximavam-se da ponte que atravessava o valle. A tarde ia no fim. Era
+já a claridade do crepusculo que illuminava a paisagem. A azafama do
+trabalho acalmára. Nos marcos dos campos, á soleira das portas e nos
+parapeitos das pontes repoisavam finalmente os lavradores das fadigas do
+dia. O gado caminhava para as prêsas, conduzido por crianças de seis e
+sete annos. Nos arvoredos ouvia-se um cantar de aves, timido como elle
+é, ao aproximar do outomno e ao aproximar da noite. Era tal a serenidade
+da tarde, que se percebia o sino de uma freguezia distante, dobrando a
+finados.
+
+A suave melancolia d'aquella hora influiu no animo de D. Luiz. Que
+densidade de tristeza a que poisou n'aquelle coração! Saudades, mas
+saudades escuras de velhice, saudades de quem não tem futuro, era o que
+havia n'aquella alma. Com o passado lhe tinham ido todos os objectos das
+suas crenças, do seu amor, das suas affeições. Já não era capaz de
+enthusiasmo, e os olhos em que o enthusiasmo não influe, vêem
+tristemente coloridas todas as scenas da vida. Ao desencantamento do
+presente juntavam-se as apprehensões pelo futuro a entenebrecer-lhe o
+espirito. Era devéras infeliz aquelle velho!
+
+Depois da ponte seguia-se a collina, onde prosperava a Herdade de Thomé.
+
+D. Luiz reuniu alento para subil-a.
+
+O padre aventurou outra observação:
+
+--Snr. D. Luiz, eu não atino com as razões que trazem v. exc.ª aqui, mas
+não vejo que possa resultar bem algum de similhante visita. Veja o que
+faz! A prudencia...
+
+--Socegue, frei Januario--atalhou D. Luiz com um sorriso amargo.--Não
+imagine que venho praticar alguma violencia. Já lá vae o tempo em que
+nós resolvíamos á força de braço os nossos pleitos. A nossa vez passou,
+bem vê.
+
+O padre conheceu pelo tom da resposta que o fidalgo estava já mais
+quebrado, mas ainda pouco disposto para explicar-se.
+
+Para se chegar á casa de Thomé da Povoa por o lado por onde D. Luiz
+seguia, tinha-se de tomar por uma avenida de olmeiros, orlada por sebes
+naturaes formadas de madresilvas e de rozeiras. No fim d'esta avenida
+ficava uma das entradas da quinta do fazendeiro, era a parte que elle
+cedêra ás predilecções da filha e da mulher, e onde as balsaminas, os
+limonetes e hortensias cresciam vigorosas, e a relva rescendia com as
+violetas e malvas que a entremeiavam.
+
+D. Luiz desceu lentamente a avenida, com os olhos fitos no portão da
+quinta.
+
+--É aquella uma das entradas da propriedade, não é?--perguntou elle ao
+padre.
+
+--É, sim, senhor. Repare v. exc.ª que é um portão de quinta nobre.
+Falta-lhe o brazão.
+
+O fidalgo calou-se e não tirou os olhos do portão da quinta, da qual se
+ia avisinhando. Passados alguns instantes respondeu á observação do
+procurador, dizendo:
+
+--Dentro de alguns annos mais póde comprar barato o da Casa Mourisca. Os
+meus filhos não serão exigentes no preço.
+
+O padre não soube bem o que devia dizer n'este caso. Limitou-se por isso
+a expellir um simples «Oh!» sem entonação que o definisse.
+
+Chegaram emfim ao portão. D. Luiz ordenou ao padre que tocasse a sineta.
+
+Este ia a fazêl-o, quando se voltou dizendo:
+
+--Anda gente cá dentro.
+
+D. Luiz não foi superior a certo sobresalto ao ouvir a noticia;
+vencendo-se, porém, caminhou resoluto e com a fronte contrahida para
+diante. De repente estremeceu, parou, e comprimindo o peito como se fora
+ferido alli, murmurou:
+
+--Ó Sancto Deus!
+
+--Que tem v. exc.ª?--interrogou inquieto o padre, que reparára no gesto
+de D. Luiz--Foi pontada?! Estes passeios violentos e fóra d'horas...
+
+O fidalgo não respondeu e continuou com os olhos fitos em não sei que
+ponto do interior da quinta.
+
+Frei Januario desviou para alli a vista, a fim de elucidar-se na
+explicação do mysterio.
+
+Chegava n'este momento ao portão uma rapariga, singelamente vestida de
+branco, que correu ao encontro d'elles.
+
+Era Bertha.
+
+--O meu padrinho!--exclamava ella dirigindo-se ao fidalgo--O snr. D.
+Luiz! Até que emfim o vejo! Julguei que não chegava este dia!
+
+E pegando-lhe na mão, beijou-a com respeito e affecto.
+
+E D. Luiz não lh'a retirou, nem teve uma palavra que lhe dissesse.
+Continuava a olhal-a, como esquecido de tudo e profundamente perturbado.
+
+O padre observava a scena boquiaberto.
+
+--Ha que tempos o não via!--proseguiu Bertha com uma carinhosa
+volubilidade de criança--Pois tinha bem saudades! Quantas vezes olhava
+para aquellas janellas, a vêr se por acaso o descobria em alguma? Mas
+nunca, nunca! Que vontade que tinha de lá ir, mas... Disseram-nae que o
+padrinho nunca sahia, e que vivia quasi sempre só no seu quarto. Para
+que é que vive assim? Isso faz-lhe mal. Mas... que tem, snr. D. Luiz?
+Meu Deus... está a chorar!
+
+O padre deu um passo á frente, como duvidando do que ouvira.
+
+D. Luiz afastou-o com a mão.
+
+--É verdade--disse elle a final, profundamente commovido.--É singular
+isto em mim! Mas que quer, Bertha? Quando aqui cheguei e a vi...
+
+--Não me tracta já por tu?--interrompeu-o Bertha, sorrindo tristemente.
+
+O fidalgo, depois de uma curta hesitação, repetiu:
+
+--Quando aqui cheguei e te vi, lembrei-me da minha pobre Beatriz.
+Parecias-me ella. Ella era mais moça quando morreu, mas ultimamente
+tinha deitado corpo e... depois trazia ás vezes um vestido d'essa côr, e
+emfim... ha tanto tempo que não via uma rapariga que se lhe
+assimilhasse... Sim, porque ha muitas por ahi, mas nenhuma ainda m'a
+recordou como tu. É notável! a mesma côr de cabello, a mesma estatura,
+certas maneiras e até o metal de voz... Não é verdade, frei Januario? É
+notavel! A minha pobre filha! Como tu m'a recordas, Bertha, ai, como tu
+m'a recordas!
+
+--Não se afflija.
+
+--«Não se afflija» era mesmo assim que ella me dizia; não que era mesmo
+assim. Pois não era, frei Januario? «Não se afflija.» Se tu soubesses o
+que eu estou sentindo, Bertha? se tu soubesses o que vão de saudades
+aqui dentro?
+
+--Então não sei? Não era eu amiga de Beatriz tambem? O tempo mais feliz
+da minha vida não foi aquelle em que a conheci? Inda hontem chorei ao
+reler as cartas que ella me escrevia.
+
+--E ella escrevia-te?
+
+--A ultima que tenho d'ella é datada de oito dias antes da sua morte.
+
+--Pobre criança! E... e dizia-te que sabia o estado em que estava?
+
+--Dizia; mas que fingia illudir-se para não affligir os seus.
+
+--E era assim, era. Nunca se ouviu uma queixa d'aquella bôca. Morreu a
+sorrir o pobre anjo.
+
+E o saudoso pae quasi soluçava ao avivar aquella permanente chaga do seu
+coração.
+
+--Snr. D. Luiz--acudiu frei Januario--olhe que lhe faz mal estar a
+recordar essas coisas. O passado, passado. A noite está comnosco e...
+
+--É verdade!--atalhou Bertha--e eu a demoral-o aqui! Faça favor de
+entrar, meu padrinho, a mãe anda lá para a quinta. Meu pae está para a
+cidade e julgo que só ámanhã virá, mas....
+
+Estas palavras recordaram a D. Luiz o motivo que o trouxera alli.
+Chamaram-n'o á realidade de sua presente situação, afugentando as
+memorias do passado, melancolicas, mas suaves para o seu espirito.
+
+Mudou immediatamente de expressão, as lagrimas como que se lhe secaram
+aos estos da paixão que crescia n'elle. Ergueu a cabeça que a tristeza
+curvára. Assumiu aquella apparencia magestosa que costumava apresentar
+aos olhos dos estranhos, e em tom não rispido, porém menos cordial do
+que até alli, disse para Bertha, que era agora para elle a filha de
+Thomé da Povoa e já não a companheira de Beatriz:
+
+--Bertha, ia-me esquecendo o que me trouxe aqui. O coração domina-me
+ainda ás vezes. Mas a crise passou. Vinha procurar teu pae. Visto que
+não o encontro, peço-te que lhe transmitias o meu recado. Soube hoje que
+um de meus filhos havia recebido d'elle adiantamentos de dinheiro a
+titulo de emprestimo para melhorar a nossa propriedade, e isto sem
+garantia alguma. Não sei a quanto monta a somma recebida, mas em todo o
+caso não posso aceitar o emprestimo... ou a esmola. A divida ha de ser
+paga em breve tempo; mas, emquanto não o fôr, deixo em penhor de minha
+palavra aquella casa, que hoje mesmo abandono, e tudo que n'ella se
+contém. As chaves aqui ficam. Virei a seu tempo buscal-as.
+
+E, fazendo signal ao procurador, tomou as chaves das mãos d'este, que
+continuava a estar abysmado, e entregou-as a Bertha.
+
+A estupefacção da rapariga era tal, que machinalmente as recebeu, sem
+bem saber o que fazia.
+
+--Parece-me que será bastante garantia--acrescentou D. Luiz.--Se eu não
+sou victima de uma perseguição do céo, espero resgatal-as ainda.
+Senão... Adeus, Bertha.
+
+--Mas--pôde emfim dizer a filha de Thomé, sahindo da sua
+abstracção--isto não póde ser! Eu... nem sei o que estou fazendo. Por
+quem é, padrinho, meu pae não póde querer....
+
+--Não te pertence julgar d'estes negocios, Bertha. Faze o que te digo.
+
+--Deixar a Casa Mourisca! a casa em que tem vivido sempre, onde nasceu e
+morreu Beatriz! E porque?... Que somos nós para si então, padrinho?
+
+O fidalgo tornou-se de novo sombrio ao responder:
+
+--Bertha, quando a minha consciencia me impõe um acto na vida, é inutil
+tentar demover-me.
+
+--A consciencia!--repetiu Bertha, timidamente, como exprimindo uma
+duvida.
+
+--Se queres tambem chamar a isto um preconceito de classe, como já lhe
+chamou um de meus filhos, chama-lh'o embora. Em todo o caso obedeço-lhe
+e de obedecer-lhe me orgulho.
+
+E o fidalgo ia para retirar-se, quando Bertha lhe disse, hesitando:
+
+--E não me consente que lhe beije outra vez a mão?
+
+O animo irritado do senhor da Casa Mourisca abrandou outra vez ao som
+d'aquellas palavras meigas. D. Luiz estendeu a mão a Bertha, que lh'a
+beijou chorando.
+
+Ao sentir-lhe as lagrimas o fidalgo ergueu-lhe amigavelmente a cabeça,
+perguntando-lhe:
+
+--Porque choras, Bertha?
+
+--Porque sinto que já não me tem a amizade que d'antes me tinha.
+
+--Criança--disse o fidalgo com uma brandura que havia muito tempo
+ninguem conhecêra n'elle--que tens tu com as paixões áridas das nossas
+almas de homens? Os entes como tu e como aquelle que eu perdi, nasceram
+para as dissipar e não para soffrel-as.
+
+E cedendo á commoção que de novo a dominava, o severo e implacavel D.
+Luiz, com admiração crescente de frei Januario, apertou a afilhada nos
+braços e poisou-lhe na fronte um beijo, como os que dava em Beatriz.
+
+E ao separar-se d'aquelle logar ia outra vez com as lagrimas nos olhos.
+
+Ao fim da avenida, d'onde se avistava o portão, voltou-se. Bertha
+permanecia no mesmo sitio, a seguil-o com a vista.
+
+--Repare, frei Januario, repare; a quem vê d'aqui, a distancia, não
+parece mesmo a minha Beatriz, quando nos esperava á porta da Casa
+Mourisca?
+
+--Sim, as raparigas ao longe todas se parecem; mas olhe que é noite
+fechada, snr. D. Luiz.
+
+--Jesus! e agora a dizer-me adeus!--continuava D. Luiz, dizendo adeus
+tambem--é mesmo aquelle anjo que eu perdi. Fujamos, fujamos d'estes
+sitios, que tenho medo de enlouquecer.
+
+--E até porque é noite fechada--acrescentou o padre.--Valha-nos Deus!
+
+Depois de longo tracto de caminho andado em silencio, D. Luiz parou, e
+levantando os olhos ao céo, exclamou com paixão:
+
+--Que tremendas culpas estou eu expiando, meu Deus! Porque me roubas
+tudo, para tudo dares áquelle homem?! Até a filha! até a suave
+consolação d'aquelle amor de filha, que eu perdi, até esse elle possue!
+Que tremendo castigo, Senhor!
+
+D'ahi até o termo da jornada, na quinta dos Bacellos, não tornou a
+pronunciar uma só palavra.
+
+Quando lá chegaram ia a noite adiantada; e já havia desassocego pela
+demora dos dois.
+
+O padre procurador estava furioso. Dizia elle completamente
+desconcertado:
+
+--Uma estafa assim depois de um jantar lauto! Esta gente não tem
+consciencia! Deus queira que não me venha por ahi alguma apoplexia! Os
+filhos são doidos, o pae está pateta, e eu que os ature!
+
+E correu á cozinha a vêr se havia alguma coisa quente que o confortasse.
+
+
+
+
+XVIII
+
+
+O antigo solar da familia da baroneza, chamado a Casa dos Bacellos, como
+que ao despertar de um somno de muitos annos, abrira á luz do dia as
+suas amplas janellas, reacendêra o fogo nos lares apagados, e restaurára
+o movimento e a vida nos aposentos vazios.
+
+Era a primeira vez, depois do seu casamento, que a baroneza voltava aos
+sitios onde lhe corrêra a infancia, cujas suaves memorias ainda os
+povoavam. Ao vêr de novo aquellas velhas paredes e aquellas arvores
+frondosas, ao seguir pelos extensos corredores, ao penetrar nas
+espaçosas salas e nos mais retirados gabinetes da casa, Gabriella, ainda
+que pouco propensa a melancolias, não pôde subtrahir o espirito a uma
+impressão de saudade.
+
+Vestigios mal apagados d'aquelle tempo longinquo a cada passo lh'o
+relembravam; alli fôra o theatro dos seus brinquedos e jogos, além
+estava um objecto ao qual se prendia a reminiscencia de uma provação
+infantil, aquelle era o logar favorito de seu pae, acolá desenhava-lhe
+vagamente a sua recordação a imagem da mãe, que perdêra em criança, e
+dominada por esta influencia, Gabriella suspirava e conhecia que ainda
+não morrêra de todo em si o coração provinciano.
+
+Mas uma tal disposição de espirito não podia durar muito. A baroneza era
+uma mulher de acção, e não se esquecia de que tinha muito em que pensar
+e que fazer em virtude dos acontecimentos ultimos da Casa Mourisca.
+
+Não eram sómente as canceiras de dona de casa, que deseja accommodar
+convenientemente os seus hospedes, que a preoccupavam, mas tambem, e
+mais ainda, o desejo de restituir áquella familia a harmonia tão
+inesperadamente interrompida e de reconciliar o irritado fidalgo com o
+filho, que pelo seu nobre proceder incorrêra no desagrado do velho.
+Gabriella tomava devéras a peito esta pacificadora empreza; mas para
+isso era ainda cêdo. A paixão ensurdecia ainda muito D. Luiz, para que
+lhe fosse possivel escutar conselhos.
+
+Na manhã immediata á noite da installação solemne da familia de D. Luiz
+na casa dos Bacellos, Gabriella foi procurar Jorge ao pavilhão no fundo
+da quinta, onde elle desde a vespera se alojára, longe dos olhares
+paternos.
+
+A baroneza tinha sabido de frei Januario tudo o que se passára entre D.
+Luiz e Bertha á porta da quinta de Thomé, e desejava fallar n'isto ao
+primo.
+
+Jorge recebeu-a com umas apparencias de serenidade, que não eram de todo
+sinceras.
+
+--E meu pae?--foi a primeira pergunta de Jorge, depois das palavras de
+comprimento.
+
+--Um pouco menos affrontado, depois que realisou uma ideia cavalheirosa
+e vindicou, como entendeu, a sua dignidade aristocratica.
+
+--Pois que fez elle?
+
+--Foi entregar pessoalmente as chaves da Casa Mourisca nas mãos do Thomé
+da Povoa. O frei Januario contou-me tudo. A aristocracia é assim em toda
+a parte. Tem a cabeça cheia de tradições da idade media e por ellas se
+regula. Procura sempre dar ás suas acções uma feição dramatica, e sempre
+que o consegue, sahe desopprimida de qualquer situação apertada.
+
+--E Thomé aceitou-as?
+
+--O Thomé não estava em casa. A entrevista teve logar á porta da Herdade
+entre o tio Luiz e Bertha, a heroina de toda esta historia, e a
+proposito....
+
+--Perdão, mas... o que se passou n'essa entrevista?
+
+--Pelo que me disse o padre, correu muito sentimental ao principio. A
+vista de Bertha recordou ao tio a imagem de Beatriz e commoveu-o a ponto
+de chorar. A rapariga parece que lhe disse algumas coisas ternas, que
+acabaram de o sensibilisar; abençoou-a, beijou-a e quasi se ia
+esquecendo do que o levára alli, mas de repente recordou-se e fez a
+entrega das chaves com uma gravidade igual á de Martim de Freitas, cuja
+vaga recordação foi o que provavelmente lhe suggeriu a ideia da scena.
+Tu sorris? Olha que é o que te digo. Eu conheço os achaques d'estes
+nobres. Os mais serios e ajuizados são perdidos por umas coisas assim.
+Se em uma occasião de crise tiverem um dito sentencioso, uma acção, um
+gesto dramatico d'estes que se tornam proverbiaes, ficam muito
+satisfeitos e resignam-se ás consequencias da crise. O certo é que as
+chaves lá ficaram.
+
+--Thomé por certo lh'as restitue.
+
+--Póde ser, mas é peior. Teu pae socegará, sabendo que as chaves estão
+nas mãos de Thomé. Então que queres? É uma puerilidade que se deve
+respeitar. O acto em si, olhado á luz da actualidade, não tem o minimo
+valor. Bem sabemos. Mas visto como o tio Luiz o vê, illuminado pelo
+crepusculo dos bons tempos passados, é um desforço e uma acção fidalga,
+capaz de o desaffrontar perante os seculos passados e futuros. Mas vamos
+ao que importa. Em toda esta historia figura o nome de uma mulher. Ora é
+sabido que nos attribuem sempre as primeiras honras no travar e
+complicar da acção dos differentes dramas e comedias da vida; por isso,
+com quanto o papel de Bertha se nos tenha apresentado até aqui como
+secundario, ninguem me tira da ideia de que ella é a figura principal da
+historia. Que te parece, Jorge?
+
+Jorge, evidentemente enleiado pela reflexão da baroneza, respondeu:
+
+--Bem vê que não é. A prima está já ao corrente de tudo, póde portanto
+julgar da parte da acção que cabe a essa rapariga.
+
+--Estou ao corrente de tudo? Isso é que eu não sei. Mauricio tem por
+ella uma grande paixão, ao que parece.
+
+--Não creio--acudiu Jorge vivamente.
+
+--Como se explica então que, sendo elle tão teu amigo, se irritasse por
+uma errada interpretação dos teus actos, a ponto de estar imminente uma
+acção tragica, de que nem quero lembrar-me?
+
+--Ora essa! Então não conhece o genio de Mauricio?--tornou Jorge quasi
+impaciente--Os primeiros movimentos são n'elle sempre impetuosos.
+Aquelle rapaz não se conhece. A cada instante se engana comsigo proprio.
+Anda persuadido ha certo tempo de que ama Bertha, e essa persuasão é tal
+que dá logar a scenas como essa que sabe.
+
+--E porque dizes que não a ama?
+
+--Porque o conheço e porque o tenho visto amar assim muitas mulheres.
+
+--Uma serie de amores verdadeiros, é o que se conclue d'ahi;
+verdadeiros, mas curtos.
+
+Jorge sorriu.
+
+--Parece-me que não acreditas que sejam verdadeiros os que são curtos?
+Tu amarias sempre, se amasses?
+
+--Creio que sim. Ou pelo menos, quando visse acabar um amor, dizia
+commigo: enganei-me, não era amor ainda.
+
+--Sympathica theoria, mas não sei se muito aceitavel. Porém quem te diz
+que Mauricio não se fixaria d'esta vez? E olha que não seria uma má
+resolução da vossa crise. O Thomé julgo que está em condições de ser um
+sogro salvador, assim não houvesse a prevenção do tio Luiz.
+
+--D'essa maneira não quereria eu nunca regenerar a nossa casa--replicou
+Jorge gravemente.
+
+--Ah! tambem tens d'esses escrupulos? Pois olha, filho, é o processo
+hoje mais seguido.
+
+--Bem sei, mas em um homem acho-o ignobil.
+
+--Não havendo amor, concordo; mas quando o amor absolve a alma...
+
+--Mais honra haveria em vencêl-o.
+
+--Esta provincia é um terreno onde as velhas plantas duram eternamente.
+Não ha vento revolucionario, nem corrente de ideias novas que as
+derrubem.
+
+--Mas deve confessar que são bellas e boas arvores essas!
+
+--Algumas; outras são inuteis e damninhas, e fariam muito bem se
+cedessem o logar a melhor e mais productiva cultura. Agora outra
+pergunta: e Bertha ama a Mauricio?
+
+Jorge córou a esta pergunta e evidentemente contrariado respondeu
+apenas:
+
+--Talvez.
+
+A baroneza ia a insistir, quando o colloquio foi interrompido pela voz
+do padre procurador pedindo licença para entrar.
+
+Frei Januario entrou tossindo e assuando-se de uma maneira particular,
+que para quem o conhecesse era indicio claro de uma grave preoccupação
+de espirito.
+
+--Então, snr. frei Januario, como se tem dado n'estas
+ruinas?--perguntou-lhe a baroneza com a amabilidade de dona de casa.
+
+--Excellentemente, minha senhora. Então até direi a v. exc.ª que ha
+muito tempo não dei com um cozinheiro que melhor atinasse com o meu
+paladar.
+
+--Sim? O Gavião merece-lhe esse conceito? Se o rapaz o sabe! É capaz de
+se me estragar de vaidade. Não o gabe na presença. Recommendo-lhe toda a
+discrição, snr. frei Januario. Olhe lá.
+
+--Mas é que é verdade o que eu digo. Que lhe pareceu a v. exc.ª aquelles
+bifes hoje ao almoço? Olhe que aquelles bifes!... Não lhe digo nada! O
+rapaz é geitoso. Mas deixemos isso. Tracta-se de uma coisa que me dá
+cuidado.
+
+--Então que é?--perguntou a baroneza, recostando-se--Não quer sentar-se,
+snr. frei Januario?
+
+O padre puxou uma cadeira, sentou-se e tornou a tossir e a assuar-se.
+
+--O snr. D. Luiz--disse elle, interrompendo-se a cada momento--emfim...
+eu ha tempos a esta parte ando assim a modo de doido....
+
+--Vamos, snr. frei Januario, solte a grande novidade que nos traz
+debaixo do capote. Depois fará os commentarios, que entenderemos e
+apreciaremos melhor.
+
+--O snr. D. Luiz chamou-me ha poucos momentos ao seu quarto para me
+dizer... para me ordenar....
+
+--O quê?
+
+--Para me confiar de novo a procuração que me retirára, e ordenar-me que
+participasse isto mesmo ao snr. Jorge para seu governo. Emfim....
+
+--Cumpra-se a vontade de meu pae--disse Jorge--e Deus permitia que elle
+tenha motivos para se applaudir por ella.
+
+--Eu fazia melhor conceito do bom senso do tio Luiz--observou
+francamente a baroneza--confesso que fazia. E o snr. frei Januario
+acha-se com forças de desenredar esta meiada, embaraçada como está?
+
+--Pois ahi é que bate o ponto--acudiu o egresso.--Eu... é verdade que
+por mais de vinte annos dirigi estas coisas e, se mais não fiz, foi
+porque os tempos eram o que nós todos sabemos. Mas, depois que o snr.
+Jorge tomou conta disto, perdi o fio da meiada, entende v. exc.ª? Eu
+tinha cá o meu systema e por elle me guiava. Agora porém venho encontrar
+as coisas todas mudadas e... emfim, póde ser que estejam muito bem, não
+digo menos d'isso, mas eu é que não as entendo. Para pôr tudo outra vez
+no pé de d'antes, isso leva um tempo dos meus peccados; para continuar
+no caminho em que isto vae, era preciso ter muito trabalho e a fallar a
+verdade, já não estou na idade d'isso.
+
+--E então que tenciona fazer?
+
+--Eu sei? O fidalgo não ha quem o convença. Credo! Vão lá hoje
+contrarial-o na mais pequena coisa! Vae tudo pelos ares! Por isso, a mim
+lembrava-me....
+
+--O que lhe lembra, snr. frei Januário?--perguntou Gabriella, fitando-o
+com olhar penetrante.
+
+--Lembrava-me dizer ao fidalgo que sim senhor, que tudo se havia de
+fazer como elle mandava, que eu me encarregaria da direcção da casa,
+mas, por baixo de mão, continuar o snr. Jorge a levar as coisas lá pelo
+seu systema.
+
+--E quer tomar sobre si a responsabilidade dos meus actos, snr. frei
+Januario? Repare bem. Já sabe a que portas costumo ir bater, quando
+preciso de capital, e quaes os meios que adopto. As suas crenças e
+opiniões devem soffrer com isso.
+
+--E a mim que me importa?--tornou o padre impaciente--A final de contas,
+a casa é sua e não minha. O mal que fizer mais o ha de sentir do que eu.
+
+--Não depõe muito a favor da sinceridade do seu affecto á minha família
+esse dizer. Eu queria antes vêl-o oppondo-se energicamente á
+administração viciosa que principiei.
+
+O padre não tinha coragem para tomar conta da gerencia da casa sob a
+inspecção de Jorge, a quem tomára um mêdo excessivo; tentava porém
+colorir airosamente a proposta que alli viera fazer.
+
+A baroneza interpellou-o muito terminantemente.
+
+--A sua posição n'esta casa, snr. frei Januario, e as exigencias moraes
+do seu caracter e da sua missão traçam-lhe distinctamente o caminho que
+deve seguir. Ou entende na sua consciencia que póde fazer mais e melhor
+do que Jorge, e n'esse caso deve obedecer ao tio Luiz, ou tem a
+convicção contraria e só então é admissivel a sua proposta, mas depois
+de confessar com franqueza e lealdade o motivo d'ella.
+
+O padre torceu-se, balbuciando:
+
+--Eu não digo... isto é... quero dizer... no estado em que as coisas
+estão... no pé em que as puzeram.... Sim... cada qual tem lá o seu
+systema... e eu... sim, v. exc.ª bem sabe....
+
+--Deixemo-nos d'isso. Claro, claro. Notou alguns defeitos na
+administração do primo?
+
+--Defeitos... defeitos... não digo defeitos....
+
+--Mereceu-lhe alguns reparos? Seja franco. Não se admittem palavras
+ambiguas.
+
+--Não, minha senhora, eu não tenho reparos a fazer... quero dizer....
+
+--Achou-a boa?
+
+--Sim... achei... isto é....
+
+--Parece-lhe que não é capaz de fazer melhor?
+
+--Não tenho vaidades....
+
+--Tem medo de estragar o bem que está feito?
+
+--Todos podem errar... emfim....
+
+--Temos entendido. Parece-me que Jorge, em vista d'isso, não discordará
+do seu parecer. Não é verdade, Jorge?
+
+--Custa-me continuar a trabalhar clandestinamente; mas não me eximo a
+esforço algum para salvar a minha casa.
+
+--Muito bem; agora o snr. frei Januario póde dizer ao tio Luiz que se
+cumprirão as suas ordens, e o mais que terá a fazer é assignar, sem lêr,
+alguns papeis que por ventura sejam necessarios, isto nos primeiros
+dias, porque eu confio ainda na boa razão do tio. E agora côma, beba e
+durma, e deixe correr o mundo, que ha de correr para bom lado.
+
+O padre retirou-se mais desafogado, mas pouco satisfeito com os modos da
+baroneza, que o obrigaram a despir-se de toda a diplomacia e a confessar
+a sua inaptidão administrativa.
+
+
+
+*FIM DO PRIMEIRO VOLUME*
+
+
+
+
+OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA
+
+
+
+
+OS FIDALGOS
+
+DA
+
+CASA MOURISCA
+
+
+CHRONICA DA ALDEIA
+
+POR
+
+*JÚLIO DINIZ*
+
+
+VOLUME II
+
+*PORTO*
+TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
+Rua Ferreira Borges, 31
+
+1871
+
+
+
+
+XIX
+
+
+Emquanto frei Januario conferenciava com Jorge e com a baroneza sobre a
+maneira de melhor harmonisar a vontade e as ordens expressas do fidalgo
+com os interesses da casa e com a commodidade pessoal de sua
+reverendissima, D. Luiz, a quem desde a vespera uma impaciencia nervosa
+não deixava repousar ainda, e que não podéra conformar-se aos seus novos
+habitos de vida, sahiu do quarto e veio passeiar agitado e meditativo na
+vasta sala da entrada, de cujas paredes o contemplavam sisudos os velhos
+retratos da familia.
+
+Não vergava sob uma ideia unica e exclusiva o espirito do velho fidalgo,
+perdia-se no redemoinhar de ideias diversas e antagonistas, que umas ás
+outras o disputavam. Saudades, terrores, despeitos, desalentos e até
+remorsos dos seus passados odios e vinganças, eram os demonios
+perseguidores e implacaveis, cujo voltear phantastico, rapido como o de
+um circulo de feiticeiras, quasi lhe alienava a razão, ferindo-a de
+vertigem.
+
+D. Luiz envelhecêra ultimamente de uma maneira rapida. De encontro á sua
+organisação robusta, quebrára-se por muito tempo a força da corrente dos
+annos e amortecera a violencia dos embates da adversidade, sem que elle
+experimentasse a leve vacillação que preludia a queda. Porém desde o
+momento em que se manifestaram os primeiros signaes de fraqueza, o
+progresso na declinação foi rapido, e de dia para dia sentia-se
+desfallecer aquelle corpo vigoroso e aquelle espirito energico.
+
+A manhã estava sombria, o céo carregado e a chuva miúda, continua,
+persistente, sem vento que a agitasse, e ainda mais desesperadora por
+isso; porque um dia de inverno sem vento é como a tristeza sem a
+explosão das paixões, perde-se a esperança de o vêr terminar.
+
+A sala em que D. Luiz passeiava era a menos confortavelmente mobilada de
+toda a casa; o alto fogão, que occupava o espaço das duas janellas,
+jazia apagado, frio, e conservando apenas, como memoria da vida que já o
+animára, as cinzas sem calor. O aspecto de um fogão apagado é triste;
+tem o que quer que seja de um cadaver. A tristeza da manhã e a tristeza
+da sala augmentavam evidentemente com a presença d'esse fogão. Por muito
+tempo apenas o som dos passos do fidalgo despertava os eccos d'aquellas
+altas e despidas paredes e tectos elevados.
+
+De repente porém ouviu-se rumor á porta da entrada.
+
+D. Luiz voltou para alli instinctivamente os olhos, sentindo que alguem
+a abria; e estremeceu, como se de improviso fosse ferido, ao vêr surgir
+detraz do reposteiro a figura de Thomé da Herdade.
+
+O pae de Bertha vinha todo molhado, e parecia chegar de longa jornada.
+Trazia as faces mais afogueadas do que o costume, e os olhos mais
+brilhantes. Em cada gesto e em cada movimento denunciava uma funda
+agitação, que lhe não era habitual. Ao avistar D. Luiz, não pôde reter
+uma exclamação, como quem déra com o objecto que anciosamente procurava.
+
+Vencida a turbação dos primeiros instantes, o senhor da Casa Mourisca
+fez uma cortezia muito grave ao recem-chegado, e dispôz-se para sahir da
+sala.
+
+Thomé da Povoa não lh'o permittiu.
+
+--Não, não, tenha paciencia, snr. D. Luiz, não se retira assim. Eu vim
+para lhe fallar e não me vou embora sem o fazer.
+
+D. Luiz parou e respondeu friamente:
+
+--Os negocios da minha casa tractam-se com o meu procurador. Eu não
+posso...
+
+--Deixemo-nos d'isso, fidalgo. Eu nada tenho, nem quero ter com o
+procurador de v. exc.ª. Não foi elle quem me offendeu; não é a elle que
+devo dirigir-me.
+
+--Ah! então vem aqui pedir-me satisfações?!
+
+--Venho, sim, senhor.
+
+--Tem graça!--observou o fidalgo, com um sorriso cheio de aristocratico
+sarcasmo.
+
+--Então v. exc.ª acha que um homem que é insultado, não tem o direito de
+vir perguntar á pessoa que o insultou a razão por que o fez?
+
+--E suppõe que eu já alguma vez me occupei a insultal-o?
+
+--Supponho, sim, senhor; e supponho mais, supponho que v. exc.ª bem sabe
+quando e de que maneira me insultou. Porque era preciso não ter brios
+para imaginar que um homem de bem não se offenderia com acções, como as
+de v. exc.ª para commigo.
+
+--Ora essa! commentou D. Luiz, voltando-lhe as costas e caminhando
+desdenhosamente para a janella.
+
+Thomé da Povoa, a quem este movimento augmentou a excitação de que já
+estava possuido, deu alguns passos mais agitados para o seu orgulhoso
+interlocutor.
+
+O fidalgo, sentindo-o, voltou-se subitamente e encarou-o fixo.
+
+--Vem aqui decidido a alguma violencia, ao que parece.
+
+A irritação de Thomé desvaneceu-se. O olhar de D. Luiz parecia
+avivar-lhe memorias do tempo, em que elle se costumára a obedecer-lhe e
+a temêl-o quasi.
+
+A reflexão venceu esta timidez de instincto, comtudo foi menos
+aggressivo do que até ahi que elle respondeu:
+
+--Não, snr. D. Luiz; venho aqui decidido a explicar-me. É preciso que
+fiquemos ambos sabendo o que um e outro somos. Não posso por mais tempo
+soffrer calado os desprezes e as desfeitas de v. exc.ª, sem perguntar
+qual o motivo que dei para ellas. Palavra de honra, snr. D. Luiz, que,
+por mais que me mate, não posso vêr em toda a minha vida uma só acção,
+uma unica, que me merecesse da parte de v. exc.ª este procedimento para
+commigo; não posso.
+
+--Está sonhando, Thomé? Cuida que eu não tenho mais em que pensar do que
+em desfeiteal-o? Que mania se lhe metteu na cabeça!
+
+--E que foi senão uma desfeita o que v. exc.ª me fez no outro dia, indo
+á porta da minha casa entregar nas mãos da minha propria filha as chaves
+do seu palacio, que deixou só por que eu havia adiantado ao snr. Jorge
+um pouco de dinheiro por um contracto honesto e leal? Que foi aquillo
+senão uma desfeita?
+
+--Se não comprehende os motivos que me levaram áquelle passo, não sei
+que lhe faça. Nas familias, como a minha, ha certas regras tradicionaes
+de conducta que talvez pareçam estranhas a outras, educadas em habitos
+differentes, no que eu não tenho culpa....
+
+--Entendo o que quer dizer, snr. D. Luiz. Foi acção de fidalgo a sua, e,
+por ser tal, eu, que nasci em palhas, não posso entendêl-a bem. Mas
+porque é que só commigo usa v. exc.ª das taes acções? Por acaso fui eu o
+primeiro que emprestei dinheiro aos senhores da Casa Mourisca? Quando o
+padre procurador de v. exc.ª andava por ahi batendo de porta em porta a
+levantar dinheiro, não para o empregar em melhoramentos que, mais anno
+menos anno, podéssem remir a divida, mas para o desperdiçar sem tom nem
+som, e obtinha esses capitaes a 10, 12 e 15 por cento; quando elle
+lavrava hypothecas e arrendamentos vergonhosos e a gente de má fé, que
+faziam d'elle o que queriam, o orgulho de v. exc.ª nunca o obrigou a
+sahir de sua casa, que se perdia n'esse andar, e a ir pôr as chaves
+d'ella nas mãos d'esses usurarios, que viviam á custa das tolices e dos
+desperdicios do padre; e agora então todo se espinhou por que eu,
+honestamente e sem má tenção, antes pelo muito amor que ainda tenho a
+esta familia e a estes meninos que trouxe ao collo, puz á disposição de
+um d'elles, que é hoje um rapaz de juizo, o dinheiro de que precisava
+para se ir livrando da usura, que o roía até os ossos, e emendar os
+erros da administração do padre! Só agora é que v. exc.ª se sente ferido
+na sua fidalguia e sahe da casa, em que vive ha tantos annos, clamando
+que já não é sua. Isto é collocar-me abaixo d'esses miseraveis, a quem
+me pejo de apertar a mão. O contracto feito entre mim e o filho de v.
+exc.ª é um contracto que não envergonha nem a mim nem a elle. Póde
+apparecer á luz do dia, e tenha a certeza de que não ha de haver muitos,
+mais de cavalheiros do que elle. Não dei dinheiro sem garantias, nem
+também o dei com usura. Nenhum de nós aceitou favor do outro. Então qual
+é a razão dos escrupulos de v. exc.ª?
+
+--Vejo que está mais informado dos negocios de minha casa, do que eu
+proprio. Póde ser que eu devesse ha mais tempo fazer o que fiz. A culpa
+é da minha ignorancia. Quando porém tão publica foi a confissão da nossa
+baixeza, a minha dignidade obrigava-me a proceder como procedi.
+
+--A dignidade... a dignidade... Perdoe-me o fidalgo, mas se quer que lhe
+falle a verdade, eu já não sei bem o que seja dignidade, quando vejo o
+que por ahi se faz á conta d'ella. Dignidade acho eu que a tem tido seu
+filho, trabalhando como um homem de bem, para desempenhar a sua casa, e
+confessando diante de todos os seus actos, que não o envergonham;
+dignidade teve elle, quando defendeu uma pobre rapariga das calumnias de
+uns miseraveis, que tambem se dizem fidalgos, e que tambem fallam muito
+na sua dignidade.
+
+--Creio que é melhor não discutirmos. Os nossos principios são diversos,
+não podemos entender-nos.
+
+--Não ha tal. Os nossos principios, aquelles que me levam a fallar, são
+os mesmos, são os de qualquer homem de bem. E eu prézo-me de o ser e v.
+exc.ª tambem o é. Havemos de entender-nos por força. N'isto até o homem
+e Deus se entendem, não é muito que v. exc.ª, por mais fidalgo que seja,
+se entenda commigo.
+
+--Mas que quer a final? Não terei eu a liberdade de deixar a minha casa
+quando entender que me convem fazêl-o? Não serei o mais competente juiz
+das minhas acções?
+
+--V. exc.ª sahiu de sua casa, declarando a todos porque era que o fazia;
+e já ahi o meu nome e a minha pessoa andaram envolvidos. Depois foi
+affligir a minha pobre Bertha, que nada sabe d'estas coisas, obrigando-a
+a aceitar as chaves da Casa Mourisca para m'as entregar, como se eu
+fosse um miseravel que tivesse sequer sonhado um dia em especular com a
+confiança que seu filho pôz em mim! As novidades correm depressa na
+aldeia e não falta gente para denegrir o caracter de um homem. Depois do
+passo que v. exc.ª deu, o que se não terá dito? Que eu andava sugando os
+ultimos restos de sangue da sua familia e abusando da boa fé e da pouca
+experiencia do seu filho, mas que o fidalgo me desmascarou a tempo! E se
+se disser isto, não sentirá v. exc.ª remorsos por ter dado azo a uma
+calumnia? Falle-me francamente, fidalgo, aqui diante de mim e de Deus
+que nos ouve, em sua consciencia e sob a sua palavra de honra, que
+sempre honrou, falle-me franco, snr. D. Luiz; em toda a minha vida,
+desde os tempos em que servi a sua casa até hoje, no meio dos meus
+trabalhos, das minhas felicidades e dos meus revezes, pratiquei já
+alguma acção que obrigue v. exc.ª a desconfiar de mim? Falle-me franco,
+snr. D. Luiz. Hoje mesmo, agora, n'este momento em que me vê e me
+escuta, crê, na sua consciencia, que está na presença de um miseravel?
+
+D. Luiz respondeu sem hesitar e em tom grave e digno:
+
+--Não, nunca o accusei, Thomé, e creio que é um homem trabalhador e
+honrado.
+
+--Então para que ha de ter sómente para mim essa má vontade? Para que me
+ha de desprezar como se eu fosse um vil? a mim, que o servi fielmente,
+emquanto o servi, que então ganhei e conservei até hoje á sua familia um
+amor cá de dentro, como se ella me pertencesse, que chorei a sua pobre
+menina, aquelle anjo que Deus lhe levou, como choraria morta uma filha
+minha? Para que ha de ter só para este homem, que apenas bens deseja á
+sua casa, esses desprezes e essas afrontas? para este homem, que tem uma
+filha que lhe chama padrinho? E não quer que eu me sinta? Pois julga que
+não ha aqui dentro um coração? Ah! fidalgo, fidalgo, creia o que lhe
+digo, em cada um d'esses jornaleiros que passam o dia vergados a
+trabalhar nas propriedades de v. exc.ª, ha um coração de carne como o
+dos nobres; e emquanto elles trabalham, elle não pára de bater.
+
+--Está inventando aggravos para se dar por aggravado. Nunca tive tenção
+de offendêl-o. N'estes ultimos tempos azedou-se-me um tanto o genio, e
+confesso que não me é demasiado agradavel a convivencia dos homens. Eis
+o motivo por que vivo retirado.
+
+--Snr. D. Luiz, v. exc.ª não é franco. Não ha por essa aldeia quem não
+saiba que os filhos de v. exc.ª, se alguma vez se atrevem a procurar a
+Herdade em que eu vivo, correm o risco do desagrado do pae. Não sei quem
+é que em minha casa os póde corromper. V. exc.ª porém acha menos
+perigosa para elles a companhia dos fidalgos do Cruzeiro do que a minha.
+O snr. Jorge fez mal em arriscar-se a entrar n'aquella casa
+excommungada; mais seguro andou o snr. Mauricio frequentando a dos
+primos, apesar de..., perdoe-me a sua fidalguia, apesar de não serem
+mais do que uns bebedos, uns devassos e uns calumniadores.
+
+--Está fora de si, Thomé--observou o fidalgo, que córou ao ouvir estas
+affrontas a uns parentes tão proximos, mas a quem não se sentia com
+animo de desaggravar.--Terminemos esta desagradavel conferencia. Que
+quer a final de mim?
+
+--Restituir-lhe as chaves da sua casa, que me não servem para
+nada--respondeu Thomé, tirando do bolso o molho de chaves, que Bertha
+recebêra do fidalgo.
+
+D. Luiz com um gesto desviou de si as chaves que o fazendeiro lhe
+offerecia.
+
+--É inutil insistir. A minha resolução está formada.
+
+--Mas é uma resolução disparatada; perdoe-me dizer-lh'o, fidalgo, uma
+resolução sem valor algum, sem significação perante a lei, sem effeito
+senão o de affrontar-me.
+
+--Eu já lhe disse que nós temos umas leis especiaes por que nos
+regulamos.
+
+--Então se v. exc.ª entende que deve pôr nas mãos dos seus credores as
+chaves de sua casa, é preciso saber quem tem mais direito a ellas. Na
+lista não está só escripto o meu nome. Deite v. exc.ª pregão para saber
+quem deve ser o depositario d'isso, que eu por mim sou o menos
+habilitado.
+
+E Thomé da Povoa arrojou sobre a mesa as chaves, com irritação
+crescente.
+
+D. Luiz fitou-o por momentos com um olhar de cólera, que aquelle
+movimento desafiára, mas conseguiu dominar-se, e respondeu com firmeza:
+
+--Leve comsigo as chaves, Thomé! A minha dignidade não me consente ficar
+com ellas. Fiz um protesto, hei de cumpril-o. Se os meus credores são
+muitos, seja o representante d'elles todos. Em poucos posso depositar
+mais confiança.
+
+--Muito agradecido pela confiança que mostra.... Olhe, fidalgo, quer que
+lhe diga o que tudo isto significa? quer que lhe diga o que penso d'este
+maior rigor commigo? Pois ouça. Cada qual tem os seus defeitos; o meu é
+o da franqueza. A razão de tudo isto está no grande orgulho de v. exc.ª.
+É o que eu lhe digo.
+
+--Póde ser; o orgulho é o defeito de certa classe....
+
+--Pois não lh'o invejo, nem lh'o gabo. Orgulho entendo eu que se deve
+ter de certa maneira; d'essa não, que não é nobre. V. exc.ª préza muito
+o nome de sua familia, deve então trabalhar honestamente para o
+conservar illustre. Mas não receie que lhe possa fazer sombra a casa do
+seu antigo criado, ainda que em cada anno elle levante um sobrado e
+metta mais um campo dentro dos muros da quinta. O valle que nos separa é
+muito largo, fidalgo; e ainda quando o sol se esconde, a sombra da minha
+chaminé não chega nem sequer ao principio dos dominios de v. exc.ª.
+Deixe-me pois crescer, snr. D. Luiz, e não me leve a mal o trabalhar
+para ganhar para meus filhos pão, que não lhes falte para o futuro.
+
+D. Luiz, ao ouvir estas palavras, estremeceu, como se ellas o ferissem
+no vivo; as faces tingiram-se-lhe de um intenso rubor, e foi tal a sua
+perturbação que, sem tirar os olhos do fazendeiro, não pôde articular
+uma palavra que lhe respondesse.
+
+Thomé proseguiu mais exaltado:
+
+--Deixe-me crescer e medrar, fidalgo, que as minhas plantações para
+terem viço, não vão roubar o succo das suas terras. Não é por isso que
+ellas estão maninhas, não. E se quizer offuscar-me, deixe seu filho
+Jorge empregar o talento, a honestidade e o amor ao trabalho que deve a
+Deus, em tornar a sua casa no que ella foi em outros tempos. Então sim,
+então terá razão o orgulho de v. exc.ª, porque ninguem será mais para
+louvar e admirar do que o moço que der um tal exemplo, a criança que se
+fez homem para trabalhar, e o fidalgo que se fez lavrador para salvar a
+sua casa, e que por isso não deixou de ser fidalgo, antes mais do que
+nunca mostrou que o era. Este orgulho entende-se; mas ha um de má casta,
+que se parece muito com a inveja.
+
+A esta ultima palavra D. Luiz não conteve um movimento de violencia.
+
+--Basta. Desde que principia a ser insolente, não devo escutal-o. Talvez
+tenha feito mal em ouvil-o tanto tempo. Do motivo das minhas acções só
+tenho a dar contas a Deus. A si, basta que lhe diga que não recebo essas
+chaves, nem volto para a Casa Mourisca, emquanto não estiverem saldadas
+as minhas contas comsigo.
+
+--Commigo! E sempre commigo? Pois bem; teima em offender-me?... aceito
+as chaves, levo-as para casa. Mas faço-lhe aqui, eu tambem, um protesto,
+fidalgo. Juro que hei de, a seu pezar, fazer-lhe o bem que podér. Se os
+meus soccorros o humilham e envergonham, ha de ter a paciencia de se
+humilhar e envergonhar por muito tempo, porque de hoje em diante vou
+trabalhar como nunca na restauração da sua casa. Ah! cuida que é só
+desfeitear-me e eu calar-me envergonhado? Enganou-se. Enganou-se.
+Enganou-se. Apre! Eu também tenho vontade. Ha de vêr com quem se metteu.
+Ainda que o fidalgo quizesse agora dar cabo do que lhe resta, eu lhe
+juro que não o conseguiria. Fica por minha conta a empreza de pôr no pé
+em que esteve a sua casa e a sua propriedade. Ora aqui está. Agora
+queixe-se, insulte-me, desfeiteie-me á vontade; ande, não tenha
+escrupulos. A minha tenção está formada. Não quero saber se o seu
+orgulho se offende, ou se se não offende. Se se offender, tanto melhor,
+que d'elle tambem é que eu recebi offensa. Apre! Cuidam que nós não
+temos brio nem pundonor? É só affrontar-nos como se não fossemos capazes
+de sentir? Sim? Elle é isso? Pois nós veremos. Ora deixa estar que eu
+lhes direi como as coisas correm. Quer que eu lhe fique com as chaves,
+não quer? Pois não, com muito gosto. Olhe, cá as levo. Vê? Passe muito
+bem v. exc.ª, passe muito bem. Eu lhe prometto que ha de ter noticias
+minhas. Ora é boa! A paciencia esgota-se. A gente tambem tem cá uma
+medida de soffrer; cheia ella, acabou-se, vae tudo por ahi fóra. Adeus,
+fidalgo, eu lhe protesto de novo que lhe hei de fazer todo o bem que
+podér.
+
+E Thomé da Povoa, inflammado n'aquelle ardente desejo de sancta e
+honrada vingança, sahiu da sala, resmoneando ainda:
+
+--Estes fidalgos que cuidam que a outra gente não sente! Ora deixa que
+já que elle tanto se espinha com o bem que lhe faço, eu o flagellarei.
+Vou tomar mais a peito a casa d'elle do que a minha, e se eu não
+conseguir o que quero... Ora deixa estar! Apre! Que é demais!
+
+D. Luiz ficou ainda mais triste e pensativo depois que Thomé se retirou.
+
+A seu pezar a entrevista com o fazendeiro impressionára-o profundamente.
+
+O honesto caracter do pae de Bertha transparecia tão claro sob a franca
+rudeza da sua linguagem!
+
+A unica vingança concebida por aquelle velho, no auge de indignação
+contra a humilhadora aristocracia do seu nobre visinho, era mais uma
+prova da sua generosa indole.
+
+Vingava-se a fazer bem! E o mais é que se vingaria, se o conseguisse
+fazer. O beneficio recebido das mãos d'elle seria peior castigo para D.
+Luiz, do que a perseguição mais cruel.
+
+O fidalgo sentia-o no intimo da consciencia, e um pensamento, que nem as
+palavras ousaram formular, atravessou-lhe-o espirito como a luz rapida
+do relampago.
+
+--Terá razão este homem? Será inveja isto?!... Inveja!...
+
+Passados momentos pensava ainda:
+
+--O que é certo é que é um homem honrado. Porque me irrito pois com o
+auxilio que vem d'elle?... Inveja!
+
+E, perseguido por este grito da consciencia, D. Luiz correu a
+encerrar-se no seu gabinete, onde passou o resto do dia.
+
+
+
+
+XX
+
+
+A violencia das impressões que deixára em Thomé da Povoa a entrevista
+com o fidalgo da Casa Mourisca não era para se desvanecer com o inquieto
+somno de uma só noite.
+
+No dia seguinte, pela manhã, o fazendeiro acordou ainda indignado e
+firme na resolução que abraçára, de se vingar a seu modo. Nem o animo
+impaciente lhe soffria grande demora na execução.
+
+Logo de madrugada principiou a dispôr as coisas para n'aquelle mesmo dia
+inaugurar a empreza. Deu contra-ordens a criados que tinham serviço
+talhado de vespera, foi mais expedito na visita quotidiana ás diversas
+repartições do casal, afagou mais distrahido a egoa fiel, que lhe
+cheirava os bolsos, habituaes portadores de uma lambarice matutina, deu
+um beijo nas crianças, sem se demorar a fazêl-as saltar nos joelhos,
+mandou que lhe fizessem o almoço mais cedo, depois de almoçar calado,
+contra o seu costume, ergueu-se da mesa, ordenou que tres criados se
+preparassem para sahir com elle, levando alguns instrumentos de lavoura,
+e a final acabou por pedir á mulher as chaves da Casa Mourisca.
+
+Luiza, a boa, a prudente Luiza, que desde a vespera observava, sem
+reflexões, os signaes de desassocego de espirito que manifestava o
+marido, não pôde, ao ouvir a ultima ordem, reprimir um movimento de
+estranheza, e violentando um pouco o seu respeito conjugal, disse,
+olhando fixamente Thomé:
+
+--As chaves da Casa Mourisca?! Para que queres tu as chaves da Casa
+Mourisca?
+
+--Provavelmente para abrir as portas.
+
+--E tu vaes lá?
+
+--Vou, e olha que já ha mais tempo lá me queria.
+
+--E que vaes tu fazer á Casa Mourisca, Thomé?
+
+--O que vou fazer? Vou trabalhar.
+
+--Trabalhar?! Pois tu tomaste-a de renda?!
+
+--Tomal-a de renda? Para quê? Então o fidalgo não me deu as chaves?
+Então não embirrou em que eu havia de ficar com ellas? Pois para
+espantalho não me servem cá em casa. As chaves são para abrir as portas,
+e quem as tem entra quando quer.
+
+--Sim, mas que tens lá que fazer?
+
+--Oh! não me falta tarefa. Aquillo não viu enxada ha bom tempo. Os canos
+estão entupidos, as minas por limpar, os tanques rôtos, as ruas cobertas
+de herva, os muros no chão, e tudo o mais por este gosto.
+
+--E então tu é que vaes pôr isso tudo em ordem?
+
+--Vou, sim senhora. É assim que hei de ensinar aquelle soberbo, que se
+julga deshonrado, só por que eu lhe fiz um serviço insignificante. Pois
+agora veremos como roe estes que lhe vou fazer. Olha, mulher, vês
+aquelle casarão negro, coroado de dentes, muitos dos quaes já lhe
+cahiram de velhos? Pois se eu não lhe puzer dentadura nova e lhe lavar
+aquelle cara, de maneira que pareça que está a rir e perca o ar
+carrancudo com que d'alli nos olha, não seja eu quem sou.
+
+--Tu não estás em ti, Thomé. Vê lá no que te vaes metter. São despezas
+grandes, e nem tu tens direito para similhante coisa.
+
+--Não sei de historias. O homem não quer tomar conta da casa emquanto
+não pagar as suas dividas; pôz-m'a ao meu cuidado e eu do que está ao
+meu cuidado cuido assim.
+
+--Ih! Jesus, que homem este! Não faças as coisas no ar, Thomé.
+
+--Qual no ar; prometti que hei de trabalhar para pôr aquella casa em
+cima, só para fazer uma pirraça ao fidalgo; e ainda que tenha de
+hypothecar todos os meus bens e de arriscar o futuro dos meus filhos,
+hei de fazêl-o.
+
+--Mas, já fallaste com o snr. Jorge a esse respeito?
+
+--Não, nem preciso.
+
+--Pois devias fallar. É um rapaz ajuizado e que põe as coisas no seu
+logar.
+
+--O que elle me vinha dizer sei eu, e por isso é que não desejo
+fallar-lhe, porque não quero que me tire isto da cabeça, nem quero
+brigar com elle. Mas os rapazes já estão á minha espera. Vamos lá. Dá cá
+as chaves, ouviste?
+
+--Thomé, Thomé! Olha lá o que fazes! Eu não sei...
+
+--Pois por isso; se não sabes, deixa-me cá. Basta-me a chave grande. Eu
+hoje não passo da quinta.
+
+E pegando na chave que a mulher lhe deu a medo, o lavrador sahiu á
+frente dos tres criados, em direcção da Casa Mourisca.
+
+Luiza, a cujo bom senso não agradava a resolução do marido, veio
+desabafar com a filha.
+
+O que sobre tudo levava a mal a bondosa Luiza era o não haver o marido
+consultado Jorge. Para Luiza Jorge era um conselheiro infallivel. A
+sympathia que sempre lhe inspirára aquella criança, «que se não mettia
+com ninguem» como a boa mulher tantas vezes dizia, crescêra e
+misturára-se á admiração, ao respeito e á absoluta confiança, assim que
+o viu, adolescente, tomar aos hombros o pesado encargo da direcção e
+reforma da sua casa, e que ouviu os louvores em que o enthusiasmo de
+Thomé se desafogava, fallando d'elle. Luiza afez-se a suppôl-o um ente
+privilegiado, incapaz de errar, com faculdades creadas para levar ao fim
+qualquer empreza e realisar todas as suas tenções, por menos exequiveis
+que parecessem.
+
+O dogma da infallibilidade de Jorge fôra por ella definido.
+
+Transpirára além d'isso cá fóra o grande successo do dia do jantar na
+Casa Mourisca, e por ventura a versão mais seguida sahira colorida por
+aquellas tintas maravilhosas, com que o povo illumina as suas
+narrativas. O que é certo é que este facto acabou de divinisar Jorge no
+conceito de Luiza, e agora menos do que nunca ella estava disposta a
+perdoar ao marido o haver prescindido dos conselhos de um rapaz tão
+brioso e prudente.
+
+Bertha escutou o arrazoado materno com ar pensativo e triste. Ouviu, sem
+a interromper, a longa exposição das excellentes qualidades do filho
+mais velho do fidalgo e os artigos de benevola accusação, acremente
+formulados contra Thomé por quem aliás menos do que ninguem estava
+disposta a condemnal-o.
+
+De quando em quando a vista de Bertha erguia-se para o vulto escuro da
+Casa Mourisca, e parecia que o aspecto d'ella lhe augmentava a
+melancolia.
+
+Luiza sahiu emfim da sala, chamada por as exigencias do serviço
+domestico.
+
+Bertha ficou só. Reclinando a cabeça á mão e apoiada no peitoril da
+janella, conservou por muito tempo a immobilidade e a fixidez do olhar,
+que denunciava uma grande abstracção.
+
+Em que pensaria Bertha?
+
+Que nuvem cruzaria o seu firmamento, para assim lhe projectar sobre a
+fronte aquellas sombras de tristeza?
+
+Operava-se uma revolução moral n'aquelle espirito. Bertha sahira criança
+da aldeia, levando entre as mais agradaveis memorias da infancia, a dos
+momentos passados na Casa Mourisca e a das pessoas a quem alli déra
+então os seus primeiros affectos.
+
+Crescêra, e essas imagens modificaram-se pela influencia do amor na
+phantasia, pela influencia de solidão e dos devaneios de juventude; a de
+Beatriz, como que sanctificada pela morte, cercára-se de um resplendor
+angelico, claro e suave como os raios do luar em luminosas noites de
+estio; a de Jorge apparecia-lhe como a de um amigo leal e seguro, a quem
+se não confiam puerilidades do coração, mas de que se póde esperar
+auxilio e conselho nas provações da vida; a de Mauricio, porém, fôra a
+que a imaginação que despertava, colorira de mais seductores reflexos. O
+seu campeão da infancia assumira as fórmas nobres e prestigiosas dos
+heroes de todos os poemas de amor. Belleza propria de uma juventude
+varonil, coragem, generosidade, tudo quanto exalta e ennobrece a alma, a
+phantasia d'aquella rapariga, entregue a si, elaborando a sós sobre as
+memorias do passado, associára ao nome de Mauricio. Fôra isto que Bertha
+trouxera no coração para a sua aldeia. Era o seu romance. Tinha ella a
+razão bastante clara para não o tomar por outra coisa mais real do que
+um verdadeiro romance, e bastante poder de reflexão para não se deixar
+dominar por elle.
+
+Percebendo que em Mauricio não estavam ainda extinctas tambem as
+memorias do passado, e que ainda os seus sentimentos presentes recebiam
+d'elle luz e calor, Bertha assustou-se, desconfiou de si, e mais do que
+nunca procurou precaver-se, fugindo á influencia de que se temia, mas
+cedendo a ella sem querer.
+
+Seguiram-se porém as scenas que sabemos; e o iris que rodeava Mauricio
+aos olhos de Bertha, dissipou-se como um verdadeiro iris em tardes
+humidas de inverno.
+
+O ideal de Bertha não era sómente bello, era generoso e impeccavel, e
+Mauricio não attingia tão alto. O instincto do coração denunciou a
+Bertha o segredo do caracter de Mauricio; não havia depravação n'elle,
+sómente leviandade e insconstancia; mas já era bastante para o
+desprestigiar. Nem leviano, nem inconstante era o Mauricio que sonhára.
+Pelo contrario, de dia para dia lhe apparecia mais na sua verdadeira luz
+o caracter de Jorge, d'esse rapaz honesto, generoso, grave, respeitado
+por todos. As suas qualidades moraes attrahiram emfim a attenção de
+Bertha, e muita vez, emquanto conversava com Thomé, absorvido em uns
+vastos e generosos projectos, ou quando seguia pensativo pelos
+irregulares caminhos dos campos, era elle, sem o suspeitar, o objecto da
+contemplação de Bertha, em quem só então parecia terem feito impressão a
+nobreza e intelligencia, que nos gestos, na physionomia e nas palavras
+d'aquelle adolescente se revelavam.
+
+A scena do jantar na Casa Mourisca augmentou a intensidade d'estas
+nascentes impressões. Nem podia deixar de ser assim.
+
+É natural suppôr que a imagem de Jorge, d'esse rapaz corajoso e leal,
+que perante uma desdenhosa companhia do fidalgo, se erguêra a
+reivindicar a boa fama da familia plebeia, perfidamente calumniada por
+um d'elles, occupasse o pensamento da que mais soffrêra da calumnia, e
+offuscasse a do outro, leviano e estouvado, que concorrêra para levantar
+o aleive.
+
+Poderia deixar de insinuar-se em um coração aberto a sentimentos
+generosos, como era o de Bertha, esse rapaz de vinte annos, diante de
+quem os velhos se descobriam, cheios de respeito pelas suas nobres
+qualidades de alma e pela superioridade da sua intelligencia?
+
+Uma outra causa influira porém, além d'estas, no espirito de Bertha e no
+mesmo sentido que ellas; ainda que á primeira vista se podésse julgar
+que diversa deveria ter sido a sua acção.
+
+Esta causa fôra a frieza, a quasi hostilidade delicada com que Jorge a
+tractava. Bertha não se illudia. Via bem claro que Jorge lhe fallava
+sempre constrangido, e como se tivesse pressa de interromper um dialogo,
+que o impacientava. Ás vezes havia nas palavras que d'elle obtinha, um
+leve tom de ironia, que ella não sabia a que attribuisse. Este proceder
+de Jorge deu que pensar a Bertha. Formando um conceito elevado do são
+juizo e da seriedade do joven amigo de seu pae, convencia-se de que
+aquellas maneiras frias com que era tractada por elle, não podiam deixar
+de ter um fundamento. E este fundamento occulto procurava-o Bertha com
+ancia em si mesma, estudava profundamente o seu proprio caracter, na
+esperança de descobrir a solução d'este enigma que a affligia; e ao
+mesmo tempo estudava em Jorge o effeito dos esforços com que fazia por
+vencer aquella prevenção, qualquer que fosse.
+
+Succedeu o que era natural que succedesse. Não é sem perigo que a
+imaginação de uma rapariga como Bertha se entrega ao estudo de um
+caracter de rapaz, como o de Jorge, que lucra sempre em ser estudado e
+conhecido. Á medida que caracteres como este melhor se observam, mais
+virtudes se lhes descobrem, ao inverso de outros, cujos vicios latentes
+vão a pouco e pouco transparecendo no decurso de uma attenta observação,
+e destruindo a impressão favoravel que ao principio produziram.
+
+Bertha reconheceu um dia que não obrigára impunemente o espirito a
+pensar a todo o instante em Jorge.
+
+Assustou-a a descoberta, mas o effeito já não podia evital-o. Inquieta
+com os novos sentimentos que lhe invadiam o coração e a levavam a estas
+vagas apprehensões, áquellas tristezas que tão frequentes lhe estavam
+sendo, não era outro o motivo da distracção com que escutára a mãe e da
+melancolia em que se deixou ficar á janella, depois que ella sahiu.
+
+De repente estremeceu.
+
+Jorge, que já não procurava occultar-se nas visitas que fazia a Thomé, e
+dava aos seus actos uma publicidade mais conforme com o seu caracter,
+acabára de entrar no pateo da Herdade, e desmontando-se, prendia o
+cavallo, em que viera, ao esteio da ramada.
+
+Alguns criados que andavam por alli, occupados em diversos serviços de
+lavoura, descobriram-se ao vêl-o entrar. Jorge cortejou-os com
+affabilidade e passou a interrogal-os sobre promenores de trabalho em
+que elles se entretinham. Os homens davam-lhe as informações pedidas com
+os maiores signaes de deferencia.
+
+Depois Jorge subiu lentamente as escadas que conduziam á sala onde
+estava Bertha. Ao vêl-o subir o primeiro degrau, ella tentou retirar-se;
+mas susteve-a uma inexplicavel hesitação, e quando Jorge abriu a porta,
+ainda a encontrou na sala.
+
+O olhar de Jorge desviou-se de Bertha, como se contrariado com a sua
+presença.
+
+--Vim talvez importunal-a? Perdoe. Ignorava que a acharia aqui--disse
+Jorge com apparente placidez.
+
+Bertha não estava menos constrangida, ao responder-lhe:
+
+--Importunar-me? De maneira alguma.... Eu é que sinto que meu pae não
+esteja em casa, que é de certo quem o snr. Jorge procurava.
+
+--Ah! seu pae não está em casa?
+
+--Não; sahiu agora mesmo.
+
+Bertha não ousou dizer para onde.
+
+O nome da Casa Mourisca recordaria a scena do jantar, e Bertha tremia de
+recordal-a diante de Jorge.
+
+Este caminhou para a janella, distrahidamente. E passeiando a vista por
+os campos, perguntou, sem ainda olhar para Bertha:
+
+--Não sabe se o pae tardará muito?
+
+--Eu... julgo que sim... Mas talvez minha mãe o possa informar melhor.
+
+A proposito chegava Luiza para dar as informações precisas e para fazer
+cessar o constrangimento d'aquelle dialogo, cuja prolongação seria um
+martyrio para ambos.
+
+--Ah! snr. Jorge, snr. Jorge--exclamou Luiza logo que o viu--ainda bem
+que veio, e pena é que não viesse meia hora mais cedo.
+
+--Então era cá tão necessaria a minha presença?
+
+--Ora se era! Eu ponho as mãos n'umas horas se estando cá o snr. Jorge,
+se mettia aquella scisma na cabeça do meu Thomé.
+
+--Que scisma é essa de que falla?
+
+--Pois então não sabe para o que havia de dar áquelle homem de Christo?
+
+--Não sei, não.
+
+--Ó Bertha, então tu não disseste ao snr. Jorge para onde teu pae foi?
+
+--Eu... eu ignorava...
+
+--Ora adeus! Se eu não tenho fallado de outra coisa, desde que elle
+sahiu! Ignorava! Vocês sempre teem coisas! Pois o meu Thomé está a estas
+horas na Casa Mourisca.
+
+--A fazer o quê?
+
+--Isso só elle sabe e Deus. Mal almoçou foi para lá com tres criados.
+Diz elle que já que o fidalgo teima em lhe pôr as chaves em casa e que
+todo se espinhou por elle lhe querer ser prestavel, vae fazer o bem que
+podér a sua familia, e melhorar a quinta e a Casa Mourisca, e que ainda
+que tenha de empenhar os seus teres e os dos filhos, se ha de vingar do
+fidalgo, fazendo-lhe todo o bem que estiver na sua mão. E tirem-lhe lá
+isso da cabeça!
+
+--É uma alma generosa a de Thomé, mas eu o dissuadirei d'essa vingança,
+que viria transtornar os meus planos e tirar-me a gloria, a que aspiro,
+de trabalhar por minhas proprias mãos n'essa obra de restauração.
+
+--Eu não o disse? «Thomé tu não faças nada sem fallares com o snr.
+Jorge.» Mas qual! Bem lhe importava elle com o que eu prégava! É um
+bom-serás o meu Thomé. Em vinte annos de casada, nunca me deu um
+desgosto. Póde haver maridos tão bons como elle, melhores não posso crêr
+que haja. Devo dizer o que é verdade. Mas, lá de quando em quando, em se
+lhe mettendo umas scismas na cabeça! adeus, minhas encommendas! já se
+lhe não dá volta. Só o snr. Jorge. Elle lá ao snr. Jorge ainda cede. E o
+que elle lhe não fizer escusam ahi de vir os poderes do mundo, que nada
+fazem. Lá o snr. Jorge! credo! Isso basta ouvil-o fallar em si. Ora, não
+é agora por estar presente, mas razão tem elle para fazer o que faz.
+
+--Obrigado, snr.ª Luiza.
+
+--Obrigado por quê? Ó filho, não, a minha bôca não é para gabar quem não
+o merece. Mas, diga-me cá, que rapaz ha ahi que faça o que o menino faz?
+Que na sua idade, em que emfim todos sabemos que o que se quer é
+brincar, olha como um homem por a sua casa, como nem muitos velhos
+sabem. E depois, ó snr. Jorge, sempre lhe digo que ainda ha bem poucos
+dias estes olhos choraram bastantes lagrimas por sua causa.
+
+--Por minha causa?! Pois eu fil-a chorar, snr.ª Luiza?
+
+--Oh! não foi por mal que me fizesse, foi porque emfim ... ha certas
+acções, que bolem cá dentro com uma pessoa e... quando me contaram o que
+se passou em sua casa, com aquelles vadios de seus primos, e em que o
+menino...
+
+--Oh! não fallemos n'isso, snr.ª Luiza, que não vale a pena.
+
+--Se não vale!... Olhe que não fui eu só que chorei. E Bertha?
+
+--Ah! sinto devéras ter sido motivo de um desgosto para Bertha--disse
+Jorge no tom de que habitualmente usava fallando d'ella.
+
+Bertha não pôde responder.
+
+--Desgosto?--acudiu Luiza--Ora essa! Antes ella deve agradecer-lhe; e
+querem vêr que ainda o não fizeste, Bertha?
+
+A confusão de Bertha augmentou com esta arguição da mãe.
+
+Jorge atalhou:
+
+--Eu é que me esqueci de pedir a Bertha perdão por haver dado ensejo,
+com os meus actos, a que o seu nome andasse por bôcas de pessoas a todos
+os respeitos indignas de pronuncial-o. Coisas minhas; ando tão alheio ao
+tracto do mundo, que a cada passo caio n'estas imprudencias, e sacrifico
+os outros, sem o querer. Bertha tem razão para estranhar este caracter
+bravio; mas espero que me perdoará.
+
+Bertha ia a responder, mas era tal a sua commoção, augmentada pelo modo
+por que Jorge dissera estas palavras, que sentiu não lhe ser possivel
+formular uma resposta; os olhos inundaram-se-lhe de lagrimas e o rosto
+trahiu-a.
+
+Levantando-se agitada, sahiu da sala em silencio, como se precisasse de
+estar só para desafogar em lagrimas a oppressão que a angustiava.
+
+Luiza viu-a sahir e ficou admirada. Olhou para Jorge com estranheza,
+olhou para a porta, como se não soubesse explicar a scena a que
+assistira.
+
+--Estas raparigas teem uns modos! Já viram uma coisa assim?!--murmurou
+ella, passada a primeira surpreza.--Queira perdoar, snr. Jorge.
+
+Igualmente enleiado, Jorge procurou mudar o sentido da conversa,
+fallando outra vez de Thomé, em procura do qual sahiu poucos minutos
+depois.
+
+Assim que o viu deixar a sala, Luiza ficou pensativa por algum tempo e
+no fim disse em voz alta, como era costume seu:
+
+--Deixal-os. Se assim fosse, tanto melhor. Coisas mais incríveis se teem
+visto. Seja o que Deus quizer!
+
+Ao passar no patamar das escadas que davam para o quinteiro, Jorge
+encontrou alli Bertha, que parecia esperal-o. Cortejando-a, procurou nos
+olhos d'ella o vestigio de lagrimas.
+
+--Snr. Jorge--disse-lhe Bertha, com voz triste e levemente
+tremula--perdoe-me a minha perturbação de ha pouco. Fui obrigada a sahir
+da sala sem lhe dizer nem uma simples palavra de agradecimento por o
+muito que lhe devia; mas creia que não é porque o desconheça.
+
+--O que me deve! Então quer que lhe repita o que já lá dentro lhe disse?
+Eu sou que tenho a pedir perdão.
+
+--Basta, snr. Jorge--atalhou Bertha, tentando sorrir, mas raiando-lhe o
+sorriso por entre mal contidas lagrimas, como o sol no meio da chuva do
+inverno.--Hoje não... mas... em outro dia... ha de dizer-me por que não
+é meu amigo.
+
+Jorge estremeceu, e olhando para ella repetiu:
+
+--Por que não sou seu amigo?! Que quer dizer, Bertha?
+
+--Oh! creia que ha signaes, que não enganam. Seja o que fôr, mas no seu
+pensamento ha alguma coisa contra mim, snr. Jorge. É pouco dissimulado,
+bem vê, não o póde disfarçar.
+
+--Bertha! mas que criancice! Pois que ha de haver contra si no meu
+pensamento?
+
+--Não sei. Um dia m'o dirá; não é verdade? É muito leal e muito generoso
+para não m'o dizer. Bem vê que preciso sabêl-o para me emendar;
+porque... eu desejava que fosse meu amigo, snr. Jorge. Todos o
+respeitam, todos fallam na sua generosidade; espero que não a desmentirá
+commigo.
+
+--Porém...--ia Jorge a objectar, quando Bertha o interrompeu, dizendo:
+
+--Agora não, agora não. Lembre-se só de que eu fico acreditando que será
+sincero commigo, no dia em que eu o interrogar, e que de certo não se
+recusará então a fallar-me com franqueza. Adeus, snr. Jorge. Creia que
+desejava devéras que fosse tão meu amigo, como é de meu pae.
+
+E retirou-se depois de pronunciar estas palavras.
+
+Jorge desceu vagarosamente as escadas, montou distrahido o cavallo que o
+aguardava no quinteiro e deixou-lhe a redea livre, de maneira que o
+animal seguiu a passo o caminho da casa, que por tanto tempo lhe déra
+abrigo, o caminho da Casa Mourisca.
+
+Desapercebidamente ia passando Jorge por todos os logares intermedios.
+As palavras de Bertha, animadas por aquella sentida commoção, que a
+dominava ao fallar-lhe, estavam-lhe ainda nos ouvidos, e nos olhos a
+imagem da gentil rapariga, em quem uma grave expressão de dôr mais
+realçava a belleza.
+
+--E se voltar a interrogar-me--pensava Jorge--que posso eu dizer-lhe?
+que devo confessar-lhe? Nada. Pois que tenho eu contra ella? Pobre
+rapariga! Mas é certo que me parece que tenho sido um tanto rude, um
+tanto desabrido... E porquê?
+
+Jorge parecia n'este momento estar sondando o fundo do seu proprio
+coração, para investigar a verdade. De repente fez um movimento com a
+cabeça, como tentando regeitar uma ideia pertinaz.
+
+--Mas isto não póde ser, Senhor. Isto é uma loucura que não tem razão de
+existir. Pois não hei de ter força de a abafar á nascença? Acaso o
+sangue de minha idade tambem me ha de fazer doidejar como aos outros? Eu
+felizmente não possuo o temperamento de Mauricio e hei de vencer na
+lucta, hei de. Mas em todo o caso é uma puerilidade a maneira por que
+estou procedendo com Bertha. Porque é certo que o modo por que a tracto
+não é natural. É medo de me trahir? Mais me traio ainda por esta fórma.
+É despeito por as attenções que a vejo dar a outro?... a meu irmão?! Mas
+é uma vileza da minha parte... A meu irmão!... É verdade que se elle a
+amasse devéras... mas eu que o conheço... É uma loucura a final, é o que
+é. E fiem-se no juizo de um rapaz de vinte annos?! Ahi estou eu tão
+doido como qualquer d'esses estouvados. E o mais é que a mim é que se
+não perdoaria a loucura. A loucura em um rapaz de juizo é um delicto
+imperdoavel. Se soubessem por ahi... se descobrissem... «E quem havia de
+dizer! Ora vejam, um rapaz que parecia tão ajuizado!» É como elles
+principiam logo. Ai, tem pesadas responsabilidades o que na minha idade
+mereceu que lhe chamassem «um rapaz de juizo.» É preciso a cada momento
+suffocar a revolta do temperamento e da idade, luctar incessantemente
+com a imaginação... E hei de luctar! É forçoso que não deixe sahir cá de
+dentro os meus desvarios de rapaz. Doideje o coração á sua vontade,
+comtanto que só eu o saiba... Mas a meta é commigo e não com ella...
+Bertha tem razão em perguntar-me o motivo da minha hostilidade. A minha
+hostilidade! Ah que se ella tivesse um olhar mais penetrante... D'isso é
+que me receio... Não ha que vêr, hei de preoccupar tanto, tanto, tanto a
+minha cabeça com algarismos e negocios, que hei de por força perder a
+consciencia dos affectos, e é assim que hei de matal-os.
+
+N'este momento vencia Jorge o declive que levava á porta principal da
+Casa Mourisca. O caminho desaffrontado n'aquella altura de arvores e de
+sebes altas subia á vista do casal de Thomé e permittia descobrir na
+encosta fronteira as veredas que para lá conduziam.
+
+Jorge desviou naturalmente a vista para aquelle sitio.
+
+Na varanda de entrada divisava-se ainda o vulto de Bertha, na mesma
+posição em que a deixára.
+
+Alvoroçou-se o coração do rapaz com isso; ao mesmo tempo porém ia
+subindo na direcção da Herdade, um cavalleiro que elle reconheceu ser
+Mauricio.
+
+Esta nova descoberta desagradou-lhe manifestamente. Purpurearam-se-lhe
+as faces por momentos, e a fronte contrahiu-se-lhe com uma expressão de
+desgosto. Pela primeira vez fustigou o cavallo, que até alli deixára
+entregue ao capricho.
+
+Mauricio, que tambem da outra margem avistára o irmão, fez-lhe um acêno
+com a mão, ao qual Jorge respondeu apontando-lhe para a Casa Mourisca,
+como a designar-lhe o destino do seu passeio. Mauricio replicou-lhe com
+um movimento de braço, exprimindo que o seu giro era mais extenso e para
+o outro lado. E na direcção que seguia era inevitavel a passagem por
+casa de Thomé da Povoa.
+
+--Por isso ella se demorou na varanda--murmurou Jorge com amargura--e
+proseguiu olhando para Mauricio:
+
+--Aquelle póde ser louco á sua vontade; ninguem lh'o estranhará, ninguém
+lhe fará d'isso um crime. E a final talvez que de nós dois não seja elle
+o mais louco. A loucura é inseparavel do homem; umas vezes toma-lhe a
+cabeça e deixa-lhe em paz o coração, que nunca se empenha nos desvarios
+a que ella é arrastada; é o caso de Mauricio; outras vezes ha na cabeça
+a frieza da razão e ao coração desce a loucura para o perturbar com
+affectos; quer-me parecer que é o que succede commigo.
+
+O cavallo parou espontaneamente á porta da Casa Mourisca e arrancou
+Jorge á corrente de vagas cogitações em que lhe fluctuava o espirito.
+
+--Vamos, Jorge--dizia elle a si mesmo, ao desmontar--já agora é
+necessario ser rapaz de juizo até ao fim. Tu não tens direito de
+condescender com a tua mocidade, homem. Ninguém te relevaria os ardores
+da juventude, porque todos te suppõem o sangue de gêlo.
+
+E serenando outra vez a physionomia, até alli um pouco alterada sob a
+influencia de encontrados pensamentos, entrou para a quinta em procura
+de Thomé, que o precedêra ahi. Quando, depois de algumas pesquizas,
+Jorge, guiado por o som de vozes e por um ruido de sachos e de enxadas,
+conseguiu avistar o fazendeiro, não pôde reter um sorriso de estranheza
+e de sympathia, que o espectaculo que via lhe provocava.
+
+E tão grato effeito parecia produzir-lhe esse espectaculo, que, sem ter
+querido interrompêl-o com a sua presença, continuou por algum tempo,
+observando-o.
+
+Effectivamente para quem soubesse a verdadeira significação dos actos em
+que Thomé estava empenhado n'aquelle momento, não seria para estranhar o
+sorriso de Jorge, nem a sua expressão duplice de sympathia e de espanto.
+
+Thomé não havia meditado no plano para a vingança que jurára contra o
+fidalgo. Anciava por principiar a pôl-a em pratica, e encetou-a sem
+methodo nem systema. Intimou os criados para que o acompanhassem, sem
+que tivesse ainda pensado no que lhes mandaria fazer.
+
+Chegados que foram á quinta, fixou-se na primeira avenida á entrada e
+ahi principiou a azafama, arrancando as hervas inuteis, decepando os
+ramos mortos, varrendo as folhas cahidas, amparando os arbustos
+derrubados sobre o caminho, desassombrando as plantas affrontadas e á
+mingua de sol, enxugando e nivellando os passeios alagados, e
+desobstruindo os encanamentos de rega. A rua ficou que era um primor.
+
+No momento em que Jorge o avistou, limpavam os criados o limo depositado
+em um tanque, emquanto Thomé, suando, tentava erguer sobre o pedestal a
+estatua de pedra de não sei que divindade pagã, que havia muitos annos
+repoisava em leito de malvas e ortigas, coberta de lichens esverdeados.
+
+--É dia de festa por cá, á balburdia que estou vendo!--disse Jorge,
+adiantando-se emfim, e apparecendo aos olhos do fazendeiro, que se
+voltou precipitado ao ouvir-lhe a voz.--Quem visse dizia que passa por
+aqui procissão, em que nós somos mordomos.
+
+Thomé, readquirindo a sua presença de espirito, respondeu:
+
+--Procissão não digo, mas festa em que eu sou mordomo, ha de haver aqui,
+se Deus me der saude.
+
+--Bem, visto que o Thomé é o juiz da festa, póde dispôr do seu tempo sem
+pedir licença a ninguem. Por isso ha de conceder-me um momento de
+conversa.
+
+--Não, não, snr. Jorge, tenha paciencia; mas eu tenho grande empenho em
+dar andamento a isto.
+
+--E eu absoluta necessidade de fallar-lhe.
+
+--Ora valha-me Deus! E eu então que estou quasi a adivinhar o que me vae
+dizer!
+
+--Talvez que não.
+
+--O que lhe affirmo é que se me quer tirar da cabeça isto que se me
+metteu cá dentro, é tempo perdido.
+
+--Não faça conjecturas anticipadas, Thomé. E sente-se primeiro.
+
+--Pois vá lá. Vocês sigam por ahi adiante--disse o lavrador, voltando-se
+para os criados--e além n'aquella nora....
+
+--Póde mandal-os embora, Thomé--atalhou Jorge.
+
+--Embora? Adeus! É o que eu digo! Olhe que se é com o fim de me
+dissuadir que...
+
+--Mande-os embora, que está a cahir meio-dia e pouco serviço podem fazer
+até lá. De tarde ou ámanhã continuarão, se o Thomé achar conveniente.
+
+--Não, não, hei de achar. Emfim vão lá á sua vida, mas em sendo duas
+horas...
+
+--Ora adeus; deixe as ordens para lh'as dar em casa, que tem
+tempo--atalhou pela segunda vez Jorge.
+
+--Pois tenho, tenho, mas emfim... Ide lá com Deus.
+
+E ficando só com o joven fidalgo, Thomé da Povoa cruzou os braços, e
+interrogou em tom de amigavel enfado:
+
+--Aqui me tem. Então o que é que me quer?
+
+Jorge enfiou o braço no d'elle e encaminhando-o para o tanque de pedra,
+limpo e esfregado de pouco pelos criados da Herdade, disse-lhe:
+
+--Vamos sentar-nos alli, que o que eu tenho a dizer-lhe é serio e
+precisa de ser tractado com socego e descanço.
+
+E sentando-se ambos na borda do tanque, voltados na direcção da Casa
+Mourisca, cuja fachada se descobria por entre uma das arvores, Jorge
+proseguiu:
+
+--Agora que estamos sós, Thomé, vae dizer-me o que significa toda esta
+brincadeira.
+
+Á palavra «brincadeira», o fazendeiro deu um salto.
+
+--Eu não o disse?! Elle ahi vem com as suas reflexões! Por essa esperava
+eu. Mas não tem duvida, eu estou prompto para explicar-lhe a
+brincadeira. Se o snr. Jorge visse, como eu vi, olharem as minhas acções
+como insultos, não serviços, que bem sei que não os fiz, mas pelo menos
+bons desejos, como são os que tenho de lhe ser util e aos seus, tambem
+não havia de soffrer com tanta paciencia a injustiça, que não procurasse
+tirar desforra.
+
+E Thomé, levantando-se, pôz-se a passeiar agitado.
+
+--Mas venha cá, Thomé, quem lhe diz que não tem razão em se offender e
+até em se vingar nobremente, como emprehendeu fazêl-o?
+
+--Sim, mas então não chame brincadeira ao que faço--tornou o fazendeiro
+amuado.
+
+--Chamo, por vêr que não realisa a sua vingança por essa fórma. O Thomé,
+se pensar a sangue frio, ha de ser o primeiro a concordar commigo. Ora
+diga, pois acha que a obra mais difficil de levar a effeito em nossa
+casa é a limpeza d'estas ruas e d'estes tanques? Acha que vale a pena
+principiar por aqui a exercer a sua actividade? Se um dia entrando em
+bom caminho a administração dos nossos bens, nos restituir, como espero,
+o pleno gozo d'elles, livre das demandas, dos onus e da usura que os
+definham, não lhe parece que os nossos criados farão em dois ou tres
+dias obra correspondente ao valor da sua vingança?
+
+--Lá iremos. Da quinta subirei os degraus e entrarei em casa, que
+remoçarei do portal até aos telhados.
+
+--E que é tudo isso para o muito que ainda haveria por fazer, e onde os
+seus auxilios poderiam ser-nos mais vantajosos? Não vale muito mais tudo
+o que já tem feito? O Thomé bem sabe que o nosso grande mal não está
+n'aquellas pedras cahidas, isso é apenas o symptoma da doença, que é
+preciso combater primeiro.
+
+--Pois sim, mas...--titubeou o lavrador já abalado.
+
+--Sabe o que consegue com isso, Thomé? consegue uma vingança apparente,
+que falla mais aos olhos, isso é verdade; mas não a vingança real,
+generosa e nobre, representada pelo seu empenho em auxiliar-me devéras
+na obra que emprehendi. Consegue contrastar as minhas ambições; sou eu
+quem mais soffro da sua vingança. Esta casa, como sabe, é apenas uma
+pequena parte da nossa propriedade, mas é a que, por assim dizer, a
+representa. O povo, emquanto não vir renovar aquellas ameias cahidas,
+aclarar aquellas paredes negras, restaurar aquella capella abandonada,
+nunca se persuadirá de que a nossa casa conseguiu escapar do naufragio
+em que esteve para perder-se. Quando eu tivesse assentado em bases
+solidas esta propriedade que encontrei vacillante, quando podésse
+desafogadamente chamar meu ao mesmo que meus avós chamaram d'elles,
+havia então de renovar esta velha habitação, que só então teria o
+direito de sorrir defronte da sua Herdade, Thomé, e d'essas alegres
+casas que ahi se estendem por a collina abaixo. N'esse dia ficaria o
+povo sabendo que eu tinha cumprido um dever e havia de respeitar-me por
+força. Mas o Thomé quer privar-me d'essa gloria. Vae fazer sorrir esse
+fiel confidente dos nossos infortunios, quando ainda o sorriso é uma
+mentira e uma ironia aos seus proprietarios. Depois, embora eu lucte e
+obre prodigios, e consiga vencer, o povo dirá: Os fidalgos da Casa
+Mourisca estão hoje melhor do que já estiveram. Houve um homem, o dono
+do casal alli defronte, que teve compaixão d'elles e lhes restaurou por
+esmola a casa que cahia em ruinas. Não fallarão nos seus outros valiosos
+serviços, que não os conhecem, nem apreciam; não fallarão d'aquelles de
+que me não envergonho, antes me orgulho de confessar. Fallarão apenas do
+unico que me humilha, do unico que tem effectivamente um caracter de
+esmola, do menos importante de todos, do que se realisaria com o
+rendimento da nossa menor tapada, depois de remidos. Agora veja lá,
+Thomé; se o seu intento é realmente o de humilhar-me, prosiga na sua
+obra, que eu prometto não a embaraçar com os meios legaes que não
+desconhece; mas se a sua vingança é, como supponho, mais nobre, rnais
+digna de si, se ousa a fazer-nos bem, apesar do orgulho que lh'o
+rejeita, sem se lhe importar que um bem seja apparente para que os
+outros nos vejam humilhados, então deixo ao seu juizo resolver se este é
+o melhor caminho que tem a seguir.
+
+Thomé da Povoa ouviu tudo isto com os olhos no chão, apertando o labio
+inferior entre o polex e o index e balanceando lentamente com o corpo.
+
+Depois que Jorge acabou de fallar, permaneceu assim ainda por algum
+tempo, e acabou por dizer:
+
+--Bem; visto isso desisto. Engulirei os meus protestos, conforme podér.
+Não digo que não tem razão, acho até que a tem. Quando me resolvi a
+isto, pensava só no fidalgo, não pensava no snr. Jorge... Agora vejo que
+fui muito apressado. Muito bem, farei por me resignar. Lá me custa,
+mas...
+
+--Não lhe peço que desista da sua vingança. Quero tambem que um dia a
+verdade obrigue meu pae a reconhecer que a nobreza não está só nos
+pergaminhos e que a alliança com um homem honrado honra sempre quem a
+contrahe.
+
+Thomé já tinha lagrimas nos olhos, ao apertar a mão a Jorge.
+
+--Peco-lhe até que continue o seu auxilio, sem o qual eu nada faria, e
+até vou indicar-lhe um genero de serviços, que espero dever-lhe.
+
+--Falle, falle, snr. Jorge, o que o senhor de mim não conseguir, ninguem
+consegue.
+
+--Ha muito que eu desejo ir ao Porto. A especie de exilio, a que meu pae
+me condemnou, facilita-me agora essa empreza. Queria conversar
+directamente com os nossos advogados na demanda do Casal do Reguengo.
+Parece-me que ha circumstancias de valor que no processo não se tem
+feito sentir devidamente. Depois aquelle documento que lhe mostrei não
+me sahe da ideia. Emfim, póde ser uma illusão minha, mas tenho com tanto
+afinco estudado a questão, que me parece que vejo claro n'ella. E como
+sabe, Thomé, se ella se nos resolvesse favoravelmente era meia victoria
+ganha.
+
+--Isso era.
+
+--Portanto quando o Thomé podér dispôr de si, desejava que me
+acompanhasse á cidade, para me apresentar aos juizes e letrados, que
+conhece. Depois, tenho ainda outro fim em vista; desenredadas estas
+teias que me embaraçam, preciso de um grande capital para encorporar á
+terra, para tirar d'ella os recursos, que d'outra maneira não póde dar.
+A sua generosidade e os seus sacrificios não podem ir tão longe; graças
+a elles, já a usura me deixa respirar mais livremente; e já a equidade
+substituiu o dolo de muitos dos contractos de nossa casa. Mais tarde a
+escala do emprestimo tem de subir forçosamente para realisar em grande
+os aperfeiçoamentos agricolas que em pequeno vou ensaiando. O capital
+particular não me bastará para esse intento. Lembrei-me da nova
+companhia de Credito Predial, que se installou agora no paiz. Preciso
+pois informar-me dos negocios attinentes a estas operações e da
+regularidade de alguns titulos que possuimos. Póde auxiliar-me no que
+lhe peço?
+
+--Amanhã partiremos, se quizer.
+
+--Pois seja amanhã. E não acha que encaminho melhor a sua vingança por
+este lado, Thomé?
+
+--Acho que quem tem o juizo do snr. Jorge póde muito bem passar sem o
+auxilio de pessoa alguma. Mas emfim cá estou ás ordens.
+
+Passada meia hora, entrou Thomé em casa e participou á mulher que ia no
+dia seguinte ao Porto, na companhia de Jorge, e que talvez ahi se
+demorassem alguns dias.
+
+Luiza ficou comprehendendo que os projectos de restauração da Casa
+Mourisca haviam sido pelo menos adiados, e com isto cresceu n'ella a
+admiração pelo caracter de Jorge.
+
+Mas Luiza tinha durante aquella manhã recebido impressões, que não se
+atrevia a revelar totalmente ao marido, mas que a não deixavam estar
+socegada, emquanto não transpirassem em vagas insinuações.
+
+Estavam á janella os dois esposos, conversando placidamente de Jorge e
+de D. Luiz, e da proxima jornada á cidade, quando Luiza, depois de uma
+pausa na conversa, disse _ex-abrupto_ para o marido:
+
+--Ó Thomé, e que dirias tu, se um dia a tua filha morasse n'aquella
+casa?
+
+E, ao dizer isto, designava com a cabeça a Casa Mourisca.
+
+Thomé olhou para a mulher, como se aquellas palavras lhe fizessem
+duvidar da firmeza do juizo d'ella.
+
+--Que queres tu dizer com isso?
+
+--Ora! isto de rapazes e raparigas... quando se vêem a miudo...
+
+Thomé córou, exclamando com mau modo:
+
+--Tu estás doida, Luiza?
+
+--Ora adeus! Quem sabe lá?
+
+--Ó mulher, não queiras que eu perca a confiança que sempre tive no teu
+bom juizo.
+
+--Eu não digo... mas emfim...
+
+--Ora adeus, adeus!--atalhou Thomé, quasi agastado--ha certas coisas que
+nem a brincar se dizem.
+
+--Pois que mal havia?...
+
+--Mau! Ó Luiza, peço-te por favor que te não ponhas com essas graças.
+Ora para o que te havia de dar!
+
+--Então, porquê?...
+
+--Ora, porque não. Ha certas lembranças que até me envergonho de pensar
+n'ellas.
+
+Luiza, em vista da repugnancia do marido, não ousou insistir. Mas a
+pobre mulher, com as ambições de mãe, já não podia deixar de olhar a
+Casa Mourisca e imaginar o effeito que produziria a sua Bertha em uma
+das balaustradas ou das ogivas d'aquelle antigo edificio.
+
+
+
+
+XXI
+
+
+Jorge apenas a Gabriella deu parte do seu projecto de jornada.
+
+No dia seguinte partiu effectivamente para o Porto na companhia de Thomé
+da Povoa.
+
+D. Luiz, ainda firme no proposito de não querer vêr o filho, nem ouvir
+fallar d'elle, nada soube d'esta excursão.
+
+Mauricio estranhou a ausencia do irmão; mas, desde que a baroneza lh'a
+explicou, dizendo-lhe a verdade, não pensou mais em tal.
+
+O padre, quando soube que Jorge tinha ido ao Porto, cidade que, no
+conceito do egresso, era um fóco de corrupção, e onde mais risco havia
+para a juventude de infeccionar-se com a peste da maçonaria e outros
+males correlativos, abanou tres vezes a cabeça, em signal de mau
+prognostico; mas não ousou fallar das suas apprehensões ao fidalgo,
+porque andava desconfiado, havia algum tempo, com os humores em que o
+via.
+
+De facto D. Luiz, depois de algumas das sevéras palavras que ouvira a
+Thomé da Povoa, não podia vencer um tal ou qual resentimento contra o
+padre, cuja imprevidente gerencia tinha talvez concorrido para o estado
+precario da sua casa e as humilhações que soffria.
+
+Apenas attenuava este resentimento a ideia fatalista de que a decadencia
+das casas nobres era inevitavel, e que baldado era tentar reagir.
+
+Para elle o padre não podia ser mais que o instrumento cego da sua
+desgraça irrevogavelmente decretada.
+
+Toda a energia moral de D. Luiz exercia-se pois em encarar com rosto
+firme a adversidade, e cahir sem perder na quéda a fidalga compostura do
+porte.
+
+D'estas successivas impressões que recebêra nos ultimos tempos resultava
+para o animo, já de indole irritavel de D. Luiz, uma impaciencia, uma
+quasi permanente exaltação nervosa, que augmentava á medida que se lhe
+depauperavam as forças e o vigor corporeo. Quem melhor sabia agora lidar
+com elle era a baroneza. O instincto feminino é o mais proprio para
+descobrir o lado accessivel d'estes caracteres azedados e para movêl-os
+sem os magoar.
+
+Frei Januario, que percebia isto, afastava-se cada vez mais do quarto do
+fidalgo e cada vez mais se aproximava da dispensa e da cozinha.
+
+Em casa de Thomé proseguiam os trabalhos agricolas sob a activa
+vigilancia de Luiza, que, na ausencia do marido, tomava a seu cargo
+aquella provincia do governo domestico.
+
+Bertha olhava então pelos irmãos e pelo arranjo da casa.
+
+Havia porém alguns dias que uma ideia fixa não deixava tranquillo o
+espirito de Bertha.
+
+Quando, ao cahir da tarde, os ultimos raios do sol parecia encandecerem
+as vidraças da Casa Mourisca, e á sua luz se tingiam de um leve doirado
+as frondes dos carvalhos seculares da quinta, ainda não despidos pelo
+outomno, apoderava-se de Bertha uma saudade intima, profunda, que lhe
+desafiava as lagrimas. Toda a infancia era evocada então. Resurgiam-lhe
+as recordações dos jogos, dos risos, das alegrias que havia gozado
+n'aquelles sitios onde os olhares se lhe fixavam com insistencia, e a
+pouco e pouco cresceu n'ella um natural e vehemente desejo de
+visital-os, de tornar a vêr de perto aquellas arvores, fontes e salas,
+cada uma das quaes lhe guardava uma memoria do passado.
+
+As chaves d'esse como relicario das suas mais gratas recordações,
+tinha-as ao alcance da mão; a distancia não era grande, as tardes
+corriam amenas e no campo ninguem estranharia a uma rapariga um passeio
+d'aquelles.
+
+A ideia ganhou vulto e Bertha resolveu realisal-a.
+
+Tomou a chave que abria uma das pequenas portas da quinta, e uma tarde
+sahiu e dirigiu-se lentamente à Casa Mourisca. Em pouco tempo chegou á
+ponte que reunia as duas margens do ribeiro do valle. Ao transpol-a,
+porém, reteve-a um vago rumor que soava nos ares. Eram as surdas
+detonações de uma trovoada longinqua.
+
+Bertha olhou em roda um tanto inquieta.
+
+O colorido do céo e o dos campos era bello, mas pouco tranquillisador.
+
+O firmamento estava esplendidamente pintado, não com o azul uniforme dos
+dias serenos, mas com as variadas tintas que recebia da influencia
+electrica de uma tempestade imminente. Grandes nuvens isoladas
+illuminavam-se, ao sol poente, de reflexos doirados. O campo, em que
+ellas se desenhavam, ostentava todas as gradações do azul, desde o anil
+carregado até um quasi verde esvaecido que interrompiam leves e longos
+stractus tingidos de roixo e violeta. Ao nascente, no seio de um denso
+cumulo de vapores amarellados, desenhava-se vagamente o magestoso iris.
+O verde das arvores e dos prados recebia d'esta luz uma cambiante mais
+viva. Principiava a soprar a viração quente e rasteira, que levantava em
+redemoinhos as folhas cahidas no chão.
+
+Tudo annunciava uma tempestade proxima.
+
+Bertha não ousou ir mais adiante.
+
+A visinhança da noite e da tempestade obrigou-a a retroceder.
+
+N'este momento porém entrava na ponte um cavalleiro, que assim que
+avistou a filha do Thomé, desmontou com ligeireza e dirigiu-se para ella
+a pé.
+
+Era Mauricio.
+
+Bem desejaria Bertha evital-o, mas já não o podia fazer sem uma
+affectação mais indiscreta do que a propria entrevista.
+
+Em poucos momentos Mauricio estava a seu lado.
+
+--Até que finalmente a encontro, Bertha. Quasi me tinha chegado a
+convencer de que uma fatalidade ou um proposito nos separava. Ha tanto
+tempo que não conseguia vêl-a!
+
+--E procurava-me, snr. Maurício?
+
+--Todos os dias o tenho feito.
+
+--O mais natural era procurar-me em casa; ahi é que passo a maior parte
+do meu tempo, auxiliando minha mãe, que bem precisa de quem a ajude.
+
+--Em casa? E seria eu bem recebido lá?
+
+--Já alguma vez meu pae deixaria de receber, como merecem ser recebidos,
+os filhos do snr. D. Luiz?
+
+--Como merecem--ahi é que está a dificuldade. E se a consciencia me
+dissesse que eu não merecia esse bom acolhimento?
+
+--Muito grandes deviam ser as suas culpas, para que meu pae se
+esquecesse da amizade que lhes deve, a si e aos seus, snr. Mauricio.
+Creio bem que a consciencia não lhe diz isso.
+
+--Não, Bertha. Eu julgo-me com imparcialidade. Sei o que ha de
+reprehensivel no meu proceder inconsiderado; ainda que nada me peza na
+consciencia, emquanto ás minhas intenções.
+
+--É o essencial.
+
+--Não é para os outros. Por os actos me julgam e esses ás vezes
+condemnam-me.
+
+--Nem todos os seus actos hão de ser maus. Os bons desfarão os effeitos
+dos outros--tornou-lhe Bertha, sorrindo.
+
+--Succederá isso comsigo, Bertha? Não estarei ainda condemnado no seu
+conceito?
+
+--Se principio por ignorar as culpas de que é accusado!
+
+Maurício calou-se por algum tempo, como concentrando alentos para mais
+difficil resolução, e rompeu depois com maior vivacidade:
+
+--Pois bem; escute-me e julgue depois; condemne ou absolva, conforme a
+consciencia lh'o dictar. Não lhe vou fazer uma geral confissão da minha
+vida, apenas dos ultimos tempos d'ella. As acções boas ou más, os actos
+irreflectidos, a que me impelle este temperamento estranho com que
+nasci, tenho-os ultimamente executado sob o influxo de uma paixão forte,
+irresistivel, que nasceu e assoberbou rapidamente todo o meu coração,
+Bertha, desde que a vi, quando voltou de Lisboa. Com a franqueza propria
+do meu caracter, com a lealdade que lhe devo, Bertha, confesso-lhe que a
+amo. Deve têl-o percebido. Eu não sei dissimular. É este amor que me
+perturba, que me faz ser injusto, desconfiado, louco, que me arrasta a
+extremos, d'onde não volto sem remorsos.
+
+--Devia pois fazer por destruil-o, vendo a maligna natureza que
+tem--respondeu Bertha, sorrindo.
+
+--Não zombe, Bertha.
+
+--Não zombo, pois não diz que o arrasta a acções que lhe causam
+remorsos?
+
+--Mas é por esta incerteza em que estou. Assegure-me porém, Bertha, de
+que o seu coração é ainda o que em outro tempo conheci...
+
+--Snr. Maurício--tornou-lhe Bertha, d'esta vez sem a menor inflexão de
+gracejo--seria faltar á amizade que lhe devo, se o deixasse continuar.
+Quero suppôr que não zomba de mim ao fallar-me d'essa maneira; quero
+convencer-me de que é sincero, ou de que julga sêl-o, pelo menos, n'essa
+declaração que me faz, e vou responder-lhe como se assim fosse. Peco-lhe
+que faça por esquecer isso que diz sentir por mim e que não póde ter
+futuro.
+
+--Para me dar esse conselho, para ter direito de dar-m'o, é necessario
+que me faça uma confissão, é necessario que me diga: Eu não posso
+amal-o.
+
+--Direi: Eu não posso amal-o, snr. Mauricio.
+
+--E será sincera no que diz? Veja bem. Interrogue sómente o coração. Não
+a amedrontem as difficuldades e as resistencias que possam
+offerecer-nos. Eu as vencerei, arrostarei eu só com todas.
+
+--Eu disse: eu não _posso_ amal-o, e não: eu não _devo_ amal-o, como
+n'esse caso diria.
+
+--E porque não póde? Que ha na sua alma contra mim, Bertha, que nem as
+recordações da infancia me valem? E comtudo eu tinha n'esse tempo
+adquirido direitos á sua affeição.
+
+--Que valor que dá aos brinquedos da infancia!
+
+--É porque em mim a juventude do coração principiou cêdo. Eu já então
+sabia amar.
+
+--Mau é que não ache differenca entre o amor de que é capaz agora e o de
+então; é pois claro que ama como uma criança.
+
+--Com a ingenuidade d'ellas.
+
+--E com a inconstancia tambem.
+
+--Bertha, não me falle assim. Nas suas palavras sinto um tom de duvida
+que me afflige. Responda-me: porque é que não póde amar-me? Ha já no seu
+coração outro amor?
+
+Bertha córou e não foi superior a certa confusão, que se esforçou por
+vencer, dizendo:
+
+--Ainda que não haja, não é isso motivo para o abrir ao primeiro que
+appareça. Com toda a sinceridade da minha alma lhe fallo, snr. Mauricio.
+Creia que para todas as pessoas que teem o nome da sua familia ha no meu
+coração muito respeito, muita estima e muita gratidão. De todos estes
+sentimentos se póde dar razão. Mas o amor não é assim. Ninguem sabe
+porque ama ou porque não póde amar. Julgo eu. É uma coisa que se sente,
+mas que se não explica. Pois não concorda? E agora peço-lhe que me não
+acompanhe mais longe. Repare que a tempestade está para breve. Espero,
+snr. Mauricio, que será sempre nosso amigo.
+
+E dizendo isto, estendia-lhe a mão, que Mauricio apertou
+silenciosamente.
+
+E separaram-se, seguindo direcções oppostas.
+
+Mauricio murmurava:
+
+--E comtudo creio que me amas. Não é essa frieza que me ha de illudir.
+
+Pela sua parte, pensava Bertha:
+
+--D'aqui não vem perigo para o meu coração. Acabei de convencer-me
+agora. Basta vêr a tranquillidade que sinto. Assim podésse dizer o mesmo
+do outro.
+
+Mas a Casa Mourisca continuava a attrahil-a. De noite á claridade vaga
+do luar, ás tardes quando os ultimos e desmaiados raios do sol lhe
+tremiam na fachada ennegrecida, de madrugada, no meio das neblinas do
+rio, que phantasticamente o envolviam, a todo o momento emfim, as
+encantadas memorias da infancia de Bertha adejavam sobre o deserto
+solar, e as saudades, evocadas por ella, como que se lhe levantavam do
+coração a encontral-as.
+
+Ás mesmas horas da tarde, repetiu Bertha no dia seguinte ao do seu
+encontro com Mauricio, a tentativa para visitar o solitario palacio.
+D'esta vez passou além da ponte, subiu a ladeira da collina opposta, e
+chegou a tocar com a mão na porta da quinta. Faltou-lhe porém ainda a
+resolução para a abrir e entrar. Apoderou-se d'ella uma especie de pavor
+sagrado no momento de penetrar alli. Parecia imporem-lhe respeito
+aquellas arvores seculares, aquellas heras vigorosas que forravam os
+muros da quinta e o silencio que pairava n'aquella habitação abandonada.
+As sombras melancolicas da tarde cresciam, e Bertha retirou-se no fim de
+alguns momentos, quasi tomada de entranhado terror.
+
+No dia seguinte voltou ainda á Casa Mourisca. Armára-se, ao partir, de
+maior resolução. Promettêra a si propria não hesitar um só momento ao
+abrir a porta, para não dar tempo a possuir-se da mesma fraqueza.
+
+Assim fez; ao chegar á porta pequena da quinta, introduziu resolutamente
+a chave e abriu-a. Estava emfim dentro dos muros da Casa Mourisca.
+Cobria-a o denso tolde de ramos entrelaçados dos carvalhos, dos freixos
+e dos cedros, estalavam-lhe sob os pés as folhas crestadas, de que os
+ventos do outomno haviam alastrado o chão; prendiam-se-lhe aos vestidos
+as silvas espinhosas, que cresciam á vontade de mistura com os fetos e
+as ortigas; á sua chegada houve um subito rumor de aves esvoaçando
+surprendidas, e de reptís escondendo-se por entre a folhagem sêca do
+chão. O bosque tinha um aspecto de braveza selvagem, adquirida durante
+longos annos de independencia de cultura. Era esplendida a anarchia
+d'aquella vegetação.
+
+Bertha parou affectada de inexplicavel susto.
+
+Tudo recahiu em silencio; apenas se ouvia um leve ramalhar das arvores,
+denunciando a passagem d'uma briza ligeira, a quéda de algum ramo sêco
+desprendendo-se da arvore, o pio timido de algum passaro escondido, e,
+um pouco mais distante, o rumor monotono e confuso das fontes e
+cascatas.
+
+Dissipadas as primeiras impressões, o sagrado terror que infunde no
+espirito o aspecto de um bosque secular áquella adiantada hora da tarde,
+Bertha aventurou alguns passos e pôde percorrer os sitios da quinta que
+lhe eram mais conhecidos.
+
+Quem póde referir as saudades que lhe pullulavam do coração, ao voltar,
+depois de tantos annos decorridos, áquelles logares saudosos?
+
+Quem não tenha ainda experimentado na vida sensações d'aquellas, nunca
+chorou as mais sentidas e ao mesmo tempo as mais consoladoras lagrimas
+que os olhos podem verter.
+
+Voltar com os pensamentos da juventude ou da virilidade, com a
+experiencia adquirida no tracto do mundo, com a memoria dos dolorosos
+embates soffridos no meio das luctas da vida, e a impressão das paixões
+gravada fundo na alma; voltar assim ao logar dos nossos jogos de
+infancia, dos nossos risos e chóros pueris, uns e outros tão sem razão
+nem vestigios, olharmo-nos outra vez, depois de longa ausencia, em
+frente dos objectos que nos assistiram aos brinquedos, e que parece
+saudarem-nos ainda como se nos vissem crianças, sentirmos em um momento
+dissipar-se-nos da memoria todos os tempos intermedios e como que
+resuscitarem as ideias, os gestos, os pensamentos d'aquella época, como
+se apenas tivessem adormecido para acordarem mais vivos, é uma das mais
+violentas e ao mesmo tempo mais gratas commocões que póde experimentar
+uma alma humana; e a que não ceder e se não abrandar sob essa influencia
+é uma alma perdida para os affectos e para a regeneração.
+
+Poderia a de Bertha estar n'este caso, a d'ella, alma sensivel e
+amoravel, para a qual o passado era objecto de um fervoroso culto?
+Poderia olhar sem lagrimas para aquelles logares onde lia como que
+pagina por pagina a sua vida de então?
+
+Chorou, chorou sentada no banco musgoso, junto de uma fonte, onde ella e
+Beatriz tantas vezes vinham sentar-se, e onde Jorge e Mauricio corriam a
+ter com ellas, logo que terminavam as suas horas de estudo.
+
+Era tarde quando voltou a si o pensamento d'aquella digressão pelo
+passado. Não tinha já tempo d'esta vez de visitar a Casa Mourisca.
+Procurou de novo a porta da quinta, por onde entrára, e sahiu com
+saudades d'aquelles logares.
+
+No momento em que Bertha se afastava, dois caçadores, que desciam una
+pinhal visinho, d'onde se descobria a entrada da Casa Mourisca,
+viram-n'a e reconheceram-n'a.
+
+--Ó Chico, olha lá, aquella não é a Bertha do Thomé?--disse um d'elles
+para o outro.
+
+--Nem póde ser outra coisa.
+
+--Só! a estas horas... e próximo da Casa Mourisca! Que quer dizer isto?
+
+--É que vem de lá.
+
+--Mas... a casa não está vazia?
+
+--Tanto melhor. Se lá estivesse o velho, a coisa mudava de figura.
+
+--Mas, falla serio, ó Chico, que conjecturas tu de toda esta historia?
+
+--Que ou o Mauricio ou o Jorge fazem tambem as suas visitas á capoeira.
+
+--O Mauricio foi hoje para a caçada dos Monteiros do Rio-baixo, e o
+Jorge, segundo ouvi dizer, está no Porto.
+
+--_Quod probandum_--redarguiu o outro, recorrendo ás suas reminiscencias
+escolasticas; e, como se receiasse que o companheiro o não
+comprehendesse, traduziu:
+
+--Isso é o que resta provar.
+
+--Foi o mesmo Mauricio que o disse.
+
+--E tu a dares muita importancia ao que diz o Mauricio! Então não sabes
+que se o Jorge lhe disser que está Papa, o toleirão é capaz de lhe
+beijar o pé?
+
+--Mas lá em casa, pelos modos, todos o fazem no Porto.
+
+--Pois ahi é que está a finura. E se elle, pilhando fóra do ninho a
+rapoza velha, se veio alli estabelecer muito á sua vontade?
+
+--Se eu o acreditasse....
+
+--Que farias?
+
+--Era bem feito dar-lhe uma assaltada.
+
+--Já me lembrou isso, mas é melhor outra coisa. Vigiamos isto a vêr
+quando a pequena cá volta, temos o Mauricio debaixo de mão e trazemol-o
+então comnosco. O caso deve ser interessante!
+
+--Apoiado!
+
+--Emquanto a mim, ninguem me tira de que aquelle velhaco do Jorge anda a
+comer-nos a todos com os seus ares de sancto. Vou ainda jurar que as
+taes visitas a casa do Thomé levavam agua no bico. Se agora o
+pilhavamos!
+
+--Era soberbo! Mas o Mauricio anda esquisito comnosco, depois da
+historia do jantar.
+
+--Deixa que eu o amansarei; era bom que elle estivesse um pouco _picado_
+n'esse dia; tudo se arranja, deixa estar.
+
+E os dois caçadores seguiram, combinando e commentando o plano que
+tinham traçado.
+
+O leitor, que já os conheceu pelos primos do Cruzeiro, fica sabendo que
+estes esperançosos jovens proseguiam nos seus habitos de vida fidalga,
+em cata e preparação de escandalos, e cada vez mais implacaveis contra
+Jorge, cuja desdenhosa frieza para com elles ha muito tempo os irritava,
+antes mesmo que o acontecimento do dia do jantar viesse augmentar essa
+irritação.
+
+
+
+
+XXII
+
+
+A impaciencia de D. Luiz tocára o extremo. Em vão procurava apparentar
+resignação e conformidade á sua nova vida nos Bacellos. Os laços que o
+prendiam ás velhas paredes da Casa Mourisca eram mais fortes do que
+julgára, ao separar-se d'ellas. Estava-o sentindo pelo mal-estar que
+experimentava agora.
+
+Todos os objectos da antiga residencia, que tão precipitadamente
+abandonára, pareciam occupar um logar no seu coração; e o vasio em que o
+deixaram era terrivel para uma velhice já sem esperanças.
+
+A corrente d'aquella vida, ainda que turvada pelas paixões, seguia desde
+muitos annos regular e silenciosa pelo alveo e margens invariaveis. De
+repente, porém, como succede ás aguas de subito constrangidas a mudar de
+leito, perdeu a serenidade melancolica, a calmante monotonia, tão
+salutar a um espirito atribulado; e atravez de novas perspectivas e de
+novas scenas precipitava-se inquieta e turva.
+
+Recrudesceram violentamente as torturas d'aquella alma exagitada, como
+despertam as dôres d'um membro enfermo ao arrancar-se da quietação e
+repouso em que adormeceram.
+
+Em certa idade as diversões não distrahem, affligem. Vive-se do passado,
+e para que o pensamento o retracte, é mister que o remanso lhe dê a
+limpidez do lago tranquillo.
+
+Só o orgulho e o pundonor de fidalgo é que impediam D. Luiz de voltar de
+novo aos lares abandonados.
+
+Esta disposição de espirito era insustentavel.
+
+Uma manhã viram-n'o, mais nervoso de que nunca, medir a passos largos o
+comprimento da maior sala do solar dos Bacellos, parando ás vezes junto
+das janellas a olhar abstracto, atravez dos caixilhos das vidraças, para
+as franças das arvores mais distantes que d'alli se descobriam, entre as
+quaes avultavam as do parque da Casa Mourisca. De subito interrompeu uma
+d'estas mudas contemplações, manifestando que lhe apparelhassem o
+cavallo para de tarde.
+
+O procurador, a quem fôra dada a ordem, perguntou timidamente se s.
+exc.ª sahia a cavallo.
+
+Com o sêco laconismo de que, havia certo tempo, usava nas respostas ao
+padre, o fidalgo limitou-se a dizer:
+
+--Parece que sim.
+
+O padre tocou a campainha a chamar por um criado, a quem transmittiu a
+ordem recebida, acrescentando a de que fosse avisado o escudeiro para
+acompanhar s. exc.ª.
+
+D. Luiz acudiu com vivacidade:
+
+--Quem lhe disse isso? Eu não preciso de acompanhamento. Que me tenham
+apparelhado o cavallo para de tarde.
+
+--Então v. exc.ª sahe só?!--perguntou o padre, em quem esta quebra de
+pragmatica causava grande confusão.
+
+--Vou--respondeu D. Luiz, continuando o seu passeio na sala.
+
+O padre sahiu d'alli estupefacto para a cozinha, onde foi assistir á
+ultima demão de uma empada, e n'esse exame conseguiu felizmente
+desvanecer a violencia da impressão, que a ordem do fidalgo lhe havia
+produzido.
+
+Effectivamente, pouco depois do jantar, ao qual Mauricio não assistira,
+D. Luiz montou a cavallo, e cortejando garbosamente a baroneza, que veio
+despedir-se d'elle á janella, partiu a meio trote pelos caminhos dos
+campos.
+
+Era um ultimo lampejo da sua elegancia passada.
+
+Na maneira por que dirigia o eavallo não se notava, porém, a indecisão
+propria de quem vae ao acaso. Percebia-se que o fidalgo havia marcado
+destino áquelle passeio.
+
+Tomou por atalhos de montes, evitando o centro da povoação rural, rodeou
+quasi toda a freguezia, e, seguindo pelas raias das contiguas e por
+desvios ermos de casas e de cultura, por chapadas maninhas e pinhaes,
+onde apenas se entrevia a choça do guardador, foi dar ao extremo opposto
+da aldeia, nas proximidades da Casa Mourisca.
+
+E quanto mais perto se achava do abandonado solar, mais crescia o
+cuidado que o cavalleiro parecia ter em não ser observado e em dirigir
+por veredas pouco frequentadas a sua cautelosa carreira.
+
+Entrou por fim em uma bouça pertencente á casa, collocada, porém, fóra
+dos muros da quinta e separada d'elles por uma especie de valia, que
+servia de caminho publico.
+
+D'alli avistavam-se as arvores, os telhados, as torres, e as mais
+elevadas janellas da Casa Mourisca.
+
+D. Luiz fez parar o eavallo e fixou melancolicamente os olhos no velho
+solar onde nascêra e onde apprehendia não poder morrer, como haviam
+morrido os seus avós.
+
+Ia adiantada a tarde, e á luz desmaiada do sol, que declinava, crescia a
+tristeza do velho. Os olhos tinham um fulgor que denunciava lagrimas.
+
+Era solemnemente triste aquelle quadro. A nobre figura do ancião, assim
+immovel, extatico, no ermo alpestre de um pinhal, a que os ventos da
+tarde arrancavam um gemer monotono e triste, com os olhos fitos nas
+ameias do seu palacio acastellado, d'onde as paixões o expulsaram, com o
+rosto illuminado pelos tremulos raios do sol, que desenhava
+distinctamente o rendilhado da rama dos carvalhos longinquos, atraz dos
+quaes se escondia, era uma personificação vigorosa do desalento e da
+saudade sob o colorido de desesperança que a velhice lhe dava.
+
+A immobilidade do cavalleiro contrastava com a impaciencia do fogoso
+animal, que escarvava insoffrido o solo, sem que podésse satisfazer a
+ancia do movimento que o devorava. De subito o cavalleiro fez um
+movimento, como de quem adopta uma resolução, a que por muito tempo
+repugnára.
+
+Pôz-se de novo a caminho, seguindo sempre a direcção do muro da quinta,
+e sem abandonar o pinhal.
+
+Pouco adiante encontrou as ruinas de uma antiga casa de guarda, já quasi
+destelhada, e em cujo recinto cresciam á vontade as giestas e as
+tojeiras, por entre os montões de telha e de caliça cahida, e onde
+encontravam tranquillo abrigo reptís de toda a especie.
+
+D. Luiz levou para alli o cavallo, que prendeu ao varão oxydado e
+torcido de um caixilho de janella, e sahiu outra vez, continuando a
+rodear a quinta.
+
+Havia um logar onde o muro era parte derrubado e facilitava extremamente
+o ingresso. Sabiam-n'o bem uns certos rondadores noctivagos, que tantas
+vezes por alli effectuavam as suas explorações depredatorias no mal
+vigiado terreno da Casa Mourisca.
+
+Foi por o mesmo caminho d'esses visitadores suspeitos, que o
+proprietario d'aquelle nobre solar ahi entrou furtivamente, e córando do
+passo a que a violencia de uma entranhada saudade o impellia.
+
+Dentro em pouco achava-se na quinta.
+
+Caminhou inteiramente agitado pelas ruas solitarias, atravessou as
+devezas, onde áquella hora não penetrava um só raio de sol, e sem
+vacillar seguiu na direcção da casa. Ao chegar ao pateo, viu aberta uma
+pequena porta por onde habitualmente se fazia o serviço do palacio.
+
+Occorreu-lhe-só então que poderia estar alguem lá dentro, áquella hora.
+
+Se se encontrasse alli com Thomé, como conseguiria arrostar com a
+vergonha de ser por elle descoberto n'aquella visita furtiva? Ia a
+recuar, mas o impulso interior a obrigal-o a progredir era mais forte.
+Venceu. Aproximou-se cautelosamente da porta e ficou-se a escutar por
+alguns instantes. No interior havia o mais completo silencio. Não se
+divisavam vestigios que denunciassem presença de alguem estranho. D.
+Luiz deu a medo alguns passos no limiar, subiu os primeiros degraus da
+escada, hesitando e escutando a cada passo que dava e a cada degrau que
+subia.
+
+Sempre o mesmo silencio.
+
+Pensou então o fidalgo que bem poderia ser que na precipitação da sahida
+tivesse ficado aberta aquella porta; e animado por esta hypothese
+adiantou-se mais resoluto.
+
+Havia nas largas escadas uma luz froixa e quasi mysteriosa; esta luz e
+aquelle silencio eram dos que infundem no animo um sentimento quasi de
+pavor.
+
+N'esses corredores e escadas vazias e obscuras, elle, o senhor e
+proprietario do solar, movendo-se, com o receio de ser descoberto! Que
+situação a sua! Que humilhadora situação para o seu orgulho!
+
+As correntes de ar sibillavam melancolicamente ao enfiarem-se pelas
+fechaduras das portas e frestas, que deitavam para a escadaria; os
+passos do fidalgo tinham sob aquellas abobadas uma resonancia estranha.
+
+Eram sem numero os objectos que lhe recordavam os amargos momentos da
+sua alvoroçada sahida da Casa Mourisca; caixões vazios, sacos, bocêtas,
+papeis de empacotar, tudo jazia ainda em confusão nos corredores, como,
+na pressa dos preparativos, frei Januario os deixara. Signaes eram estes
+que parecia indicarem que desde aquelle dia ainda ninguem entrára na
+Casa Mourisca.
+
+Mais seguro já na persuasão de que não seria surprendido n'esta
+clandestina visita, D. Luiz subiu sem o menor receio as escadas que
+levavam ao _Sancta Sanctorum_ das suas affeições, á torre onde haviam
+sido os aposentos de Beatriz, aonde ella tinha vivido e expirado. Era
+esta a peregrinação que emprehendêra aquelle desconfortado velho; para
+alli era que as suas intensas saudades o chamavam. Tinha já subido mais
+de meio lanço da escadaria, quando subitamente estremeceu, parando a
+escutar um mal distincto som que lhe chegára aos ouvidos. Correu-lhe no
+rosto uma pallidez mortal e a fronte principiou a cobrir-se-lhe de um
+suor, como de agonia.
+
+A turbação que sentia, foi tão intensa, que teve de apoiar-se á parede
+para não cahir.
+
+Eram os sons longinquos de um instrumento de musica, que partiam do
+logar para onde elle se dirigia. Vagos, confusos ainda, mas melodiosos
+como de harpa que, pendurada dos ramos dos carvalhos, vibra ao perpassar
+das brizas da tarde.
+
+Na triste solidão d'aquella casa abandonada, á hora mysteriosa do
+escurecer do dia, aquelles sons resoando pelos longos corredores e pela
+vastidão das salas desertas, tinham de facto não sei quê de
+sobrenatural; dir-se-ia musica de fadas em um d'esses paços encantados,
+que ergue no meio das florestas a imaginação popular.
+
+Mas não era sómente o inesperado e a estranheza do facto que feriam de
+espanto o senhor da Casa Mourisca. Aquelles sons exerciam sobre elle
+outra e superior influencia.
+
+Conhecia-os; não eram vozes estranhas aos ouvidos do ancião ralado de
+saudades, e que se achava alli attrahido por ellas.
+
+Conhecia-os; em outras épocas tinham já resoado entre aquellas tristes
+paredes e sob os altos tectos dos aposentos hoje deshabitados. N'esses
+tempos, havia alli dentro corações que pulsavam de sympathia ao
+escutal-os. Eram o signal de que o anjo da familia velava; de que a
+meiga criança, sobre cuja cabeça se condensavam todos os castos affectos
+d'aquella alma de homem, praticava com os anjos, seus irmãos, na
+mysteriosa linguagem da musica.
+
+Aquelles sons... podia elle desconhecêl-os?... eram os da harpa de
+Beatriz.
+
+Mas que mysterio revelavam elles agora? Que magia os faria renascer,
+quando, havia tanto, cahira gelada a mão que os desferia?
+
+As sombras dos mortos teriam vindo povoar a casa abandonada pelos vivos?
+A alma querida de Beatriz viera por ventura chorar e lamentar-se da
+solidão em que os seus haviam deixado os logares que ainda conservavam
+tão vivas as memorias d'ella?
+
+Quem póde analysar o confuso turbilhão de ideias que atravessou
+n'aquelle momento o espirito do fidalgo?
+
+Piedosas crenças da infancia, superstições que a razão subjugara,
+chimericos productos d'um cerebro febril, tudo se levantou em enxame
+alvoroçado e revolto a obscurecer a intelligencia do ancião, que tremia
+sob um inexplicavel terror.
+
+--É uma allucinação--pensava elle, esforçando-se por dominar aquella
+fraqueza--é uma quasi loucura produzida por esta ideia fixa, que nunca
+me abandona.
+
+E continuava a subir com passos ainda mal seguros as escadas da torre.
+
+Mas os sons, que elle julgava effeito dos sentidos allucinados, longe de
+se desvanecerem, cada vez se ouviam mais distinctos. Sem duvida alguma
+partiam dos aposentos de Beatriz.
+
+Estava terrivelmente pallido o fidalgo. A vista vagueava-lhe com a
+mobilidade que produz o delirio. Ha situações na vida em que a razão
+mais segura vacilla e sente-se vergar sob a influição das mais
+supersticiosas crenças.
+
+D. Luiz n'aquelle momento acreditava sinceramente na realidade das
+apparições.
+
+A distancia permittia-lhe já distinguir a melodia que executava a harpa.
+Tambem lhe era conhecida; era a de uma canção predilecta de Beatriz, uma
+musica cheia de recordações para o pobre pae. O presente desapparecia
+n'aquelle momento; o passado resurgia com toda a luz, que desde muito se
+lhe apagára na carreira da vida. Chegára quasi á porta do quarto d'onde
+partiam os sons. Restava entrar... Mas o que o esperava alli? Talvez se
+desvanecesse o encanto e a vazia realidade o aguardasse para o punir!
+
+A razão de D. Luiz não podia formar juízos sobre o que se estava
+passando. A mão tremula, que se estendeu para abrir a porta do quarto
+mysterioso, pendeu desfalecida, e o velho permanecia immovel no patamar,
+subjugado pela força d'aquelle encantamento.
+
+N'este tempo juntára-se aos sons da harpa a voz de uma mulher; baixinho,
+quasi a medo, como a ave a ensaiar o canto ao renascer da estação,
+cantava a letra da mesma canção que Beatriz preferia. Era um timbre
+juvenil, sonoro, agradavel, o d'aquella voz, e na meia altura a que se
+elevava, havia um não sei quê de mystico e sobrenatural, que veio
+completar a allucinação do velho.
+
+--Meu Deus! meu Deus! tende misericordia de mim!--murmurava elle,
+passando a mão na fronte pallida.--Se isto é um sonho, deixae-me morrer
+a sonhal-o!
+
+E vergaram-se-lhe os joelhos diante d'aquella porta mysteriosa, e,
+soluçando e rebentando-lhe emfim impetuosas as lagrimas dos olhos, cahiu
+dizendo em uma desvairada exclamação:
+
+--Ó minha filha! minha filha! Se és tu que assim me arrebatas d'este
+mundo, tem compaixão de teu velho pae, e não partas sem que lhe
+appareças um instante que seja!
+
+Calaram-se de subito os sons da harpa e da voz feminina. E, pouco
+depois, a porta abria-se e Bertha apparecia no limiar.
+
+Ao vêr o fidalgo de joelhos, com a cabeça escondida entre as mãos e
+soluçando, a filha de Thomé da Povoa correu para elle commovida:
+
+--O snr. D. Luiz! O meu padrinho! Ó perdão, perdão!--exclamava ella.
+
+E o susto que a voz do velho lhe havia causado, ao interromper-lhe
+inesperadamente o canto, cedeu o passo á mais sentida afflicção.
+
+Á voz de Bertha, D. Luiz ergueu a cabeça e fitou a afilhada com um olhar
+espantado e interrogador.
+
+As lagrimas desciam-lhe ainda a duas e duas pelas faces emmagrecidas.
+
+--Perdão, perdão, meu bom padrinho--proseguia Bertha, tentando
+erguêl-o--fiz mal, bem o vejo, bem o sinto agora... mas havia tanto
+tempo que eu desejava visitar estes sitios! mas não chore, snr. D. Luiz,
+por amor de Deus perdoe-me!
+
+O fidalgo, quasi ainda alheio ao que se passava, deixou-se erguer e
+conduzir por Bertha para dentro do quarto, e sentou-se, sem consciencia
+dos seus actos, na cadeira junto da harpa, cujas ultimas notas parecia
+ainda vibrarem no espaço.
+
+A commoção violenta quebrára-lhe as forças.
+
+Os braços e a fronte pendiam-lhe em um desfallecimento profundo.
+
+Bertha ajoelhou-se-lhe aos pés, tomando-me as mãos, beijando-as, e
+cobrindo-as de lagrimas.
+
+--Se eu imaginasse que podia causar-lhe esta pena, não teria vindo. Foi
+uma loucura minha; agora é que vejo; mas trazia isto na ideia havia
+tantos dias!... Só hoje me atrevi a subir aqui... Se soubesse como
+chorei ao tornar a vêr este quarto e estes objectos, que todos conhecia.
+Todos! Oh não se afflija, snr. D. Luiz, e perdoe-me, perdoe-me por quem
+é, perdoe-me por amor d'ella. Fiz mal, bem conheço, mas, como tambem lhe
+queria muito... Depois, assim que vi esta harpa... Ó meu Deus, que
+saudades! Como me lembrei d'ella, da musica que tantas vezes lhe ouvi,
+da canção que ella preferia... Quiz avivar essas recordações e... Mal
+sabia eu o que estava fazendo! Como era cruel sem o suspeitar! Quem me
+ha de perdoar o mal que lhe fiz? Imagino o que soffreu, o que está
+soffrendo ainda... E ser eu quem lhe avivou essas feridas!... Não me
+queira mal por isso. Foi a saudade que me trouxe até aqui, a saudade
+d'aquelle anjo que eu conheci no mundo. Por amor d'elle lhe peço que me
+perdoe a dôr que lhe causei.
+
+E a voz de Bertha tremia ao fallar assim. D. Luiz não a interrompêra,
+porque a agitação era ainda n'elle muito forte para o deixar fallar.
+
+Poisando porém as mãos na cabeça de Bertha e afastando-lhe os cabellos
+da fronte com um gesto de paternal carinho, fitou-a com os olhos ainda
+ennevoados de lagrimas e disse-lhe, suspendendo-se a cada palavra, em
+lucta com a commoção que o suffocava:
+
+--De que me pedes perdão, Bertha? D'estas lagrimas? Oh! deixa-as correr,
+que ha muito não chóro lagrimas que me dêem um allivio assim. Eu sou que
+te digo: Obrigado, Bertha, obrigado, que me fizeste entrever a
+felicidade que o céo me póde ainda dar; n'estes curtos instantes da
+minha illusão luziram-me uns lampejos de alegria celeste. Tu só podias
+resuscitar-me a filha e eu quasi a senti ao ouvir-te, ao escutar essa
+abençoada musica e a voz, que julguei que só me chegaria outra vez aos
+ouvidos, se um dia me fosse dado escutar a dos anjos no céo. Agradecido,
+Bertha. A este meu coração são mais conhecidas as dôres que o despedaçam
+e queimam, do que estas que o desafogam em lagrimas. Agradecido, filha.
+
+E o severo fidalgo da Casa Mourisca, sensibilisado, sem o menor vestigio
+da sua habitual rigidez, aproximou dos labios a fronte de Bertha e
+beijou-a com a doce affabilidade de um pae.
+
+Bertha beijava-lhe as mãos, chorando com elle.
+
+Por muito tempo assim se entenderam mudos aquelle velho e aquella
+rapariga, trazidos alli por uma mesma saudade, consagrando lagrimas a
+uma mesma recordação. D. Luiz estava cada vez mais fascinado. Nem por a
+ideia lhe corria que fosse a filha de Thomé da Povoa, quem tinha na sua
+presença, e quem abençoára e beijara.
+
+Era a companheira de Beatriz, a encarregada pela alma d'aquelle anjo de
+conservar no mundo a sua memoria, de avivar as sympathias que ella
+inspirára na alma dos que a choravam ainda, e que a choral-a morreriam.
+
+As mãos de Bertha não tinham profanado a harpa de Beatriz, tocando-a;
+nem ultrajára a sua memoria a voz que cantava a ballada favorita da
+infeliz menina.
+
+D. Luiz cedia á influencia d'aquelle brando caracter feminino, e adorava
+em Bertha a imagem da filha que perdêra.
+
+Ambos se esqueciam do presente, fallando d'ella. D. Luiz mostrou a
+Bertha todos os objectos, que haviam pertencido á filha e que elle alli
+conservava ainda como reliquias sagradas.
+
+A poucos olhos os revelaria assim, como fazia aos de Bertha. Mas a quem
+conservava tão bem a memoria de Beatriz não era sacrilegio o
+devassal-os.
+
+--Ai, Bertha, Bertha, para que me quiz mostrar Deus aquella alma na
+vida, se havia assim de roubar-m'a?--exclamava D. Luiz no decurso d'este
+melancolico exame.
+
+--Para lhe dar um anjo que o veja do céo e vele pelo destino d'esta
+familia, que ella tanto estremecia na terra.
+
+--O destino d'esta familia!--repetiu o fidalgo, assombrando-se-lhe o
+semblante.--Triste destino!
+
+--Confio nas orações d'aquelle anjo.
+
+--Quando uma familia cumpre no mundo uma dolorosa expiação, nem as
+orações dos anjos podem allivial-a d'ella. Deus afastou do mundo a
+innocente e fraca, para me deixar só a mim o pêso do meu infortunio e o
+das longas culpas dos nossos. Elle bem sabia que emquanto a tivesse ao
+meu lado para arrimo, nem sentiria o castigo. Aceito a sentença de Deus,
+procurarei cumpril-a com firmeza, e oxalá que meus filhos, recebendo o
+sinistro legado, não desfalleçam como covardes.
+
+--Não pense n'essas coisas, meu padrinho. Tenho fé que ainda voltarão
+dias felizes para esta casa.
+
+--Sim; quando a comprar em hasta publica qualquer proprietario
+endinheirado, que faça depois resoar por estas salas os sons dos bailes
+e dos festins. A casa verá então dias alegres, verá. E quem se lembrará
+dos velhos senhores d'ella, cujos descendentes talvez aceitem um logar
+de conviva á mesa do novo proprietario? Porque vamos para uma época de
+faceis condescendencias.
+
+Bertha calou-se, baixando os olhos, porque pressentia perigos na
+direcção que levava a conversa.
+
+D. Luiz tinha delicadeza para comprehender a discrição de Bertha, e
+mudando de tom, continuou:
+
+--Mas perdoa-me, Bertha, estas ideias tristes da velhice não são para a
+tua idade. É uma crueldade da minha parte não guardar para mim estes
+pensamentos.
+
+--Se eu podésse desvanecel-os!
+
+O fidalgo limitou-se a fazer um gesto de negação.
+
+N'este momento ouviu-se nas escadas um rumor de passos e de vozes, que a
+ambos fez estremecer.
+
+--É teu pae, Bertha?--perguntou D. Luiz, erguendo-se e olhando em redor
+com inquietação.
+
+--Meu pae não está na terra. Ha tres dias que partiu e não o esperamos
+ainda hoje--respondeu Bertha, sobresaltada tambem.
+
+Calaram-se como para melhor escutarem o rumor que parecia já mais
+proximo.
+
+Ouviu-se uma voz dizer:
+
+--Vejamos comtudo d'este lado; a torre póde muito bem servir para
+pombal.
+
+D. Luiz estremeceu ao som d'aquella voz.
+
+Outra respondeu em tom mais baixo:
+
+--Parece-me que entrevejo uma porta aberta. De vagar, de vagar.
+
+--Animo, Mauricio; olha se deixas perder as vantagens da tua bella
+posição.
+
+--Mauricio!--exclamaram ao mesmo tempo D. Luiz e Bertha, e uma intensa
+pallidez cobriu o rosto d'esta.
+
+D. Luiz desviou para ella um olhar, em que havia um fulgor de
+desconfiança.
+
+--Ouviste?
+
+Bertha fez-lhe signal affirmativo.
+
+--Sabes o que significa isto?
+
+--Não--respondeu Bertha com firmeza, levantando a vista para o fidalgo
+que a observava.
+
+Na firmeza e limpidez d'aquelles meigos olhos, que não fugiam dos seus,
+elle conheceu a verdade da resposta.
+
+--Não, juro-lhe que não--repetiu Bertha com energia.
+
+--Bem--tornou o velho, carregando o sobrolho e apertando a mão de Bertha
+em signal de protecção--esperemos então.
+
+Os que subiam estavam já na proximidade da porta.
+
+D. Luiz recuou alguns passos e ficou occulto pelo cortinado do leito da
+filha; Bertha permaneceu immovel com a mão apoiada á harpa.
+
+Depois de alguns instantes de demora, a porta moveu-se vagarosamente
+sobre os gonzos, e no vão deixou apparecer a figura de Mauricio, e mais
+atraz, meio encobertos pelas sombras do corredor, os dois malignos
+semblantes dos manos do Cruzeiro.
+
+Mauricio trazia o olhar desvairado e certa desordem de feições
+denunciadoras da orgia, com que os primos traiçoeiramente o tinham
+preparado para o escandalo que meditavam.
+
+Ao reparar em Bertha, Mauricio fitou-a com uma expressão de quasi cynica
+ironia.
+
+--Boas tardes, Bertha--disse elle, curvando-se com gesto de
+escarneo--não sei se a minha presença interrompeu alguma doce meditação,
+que esta luz amortecida da tarde lhe estivesse inspirando. Mas tão longe
+estava de esperar encontral-a aqui!
+
+Bertha tremia e baixava os olhos sem atinar o que dissesse. A
+consciencia de que o fidalgo estava escutando Mauricio não era o menor
+motivo para a sua confusão. Se se achasse só encontraria coragem para
+arrostar com o insulto. No olhar, nas palavras, no gesto de Mauricio
+percebêra o desarranjo de razão em que elle estava. Temia pois mais por
+elle do que por si.
+
+Mauricio proseguiu:
+
+--Julgavamos encontrar outra pessoa n'esta velha casa abandonada, porque
+vimos um cavallo guardado furtivamente, ahi perto, em uns pardieiros
+arruinados. Isto indicava a presença do cavalleiro. Saber-me-ha dar
+noticias d'elle, Bertha?
+
+Bertha não respondeu.
+
+--Então não falla! Parece perturbada. É inexplicavel a sua confusão
+diante de mim, Bertha. Conhecidos ha tanto tempo! companheiros de
+infancia!... Não se lembra de que brincamos n'esta sala eu, minha irmã,
+Bertha e... e Jorge?
+
+Um dos primos tossiu ao ouvir o ultimo nome.
+
+Mauricio voltou-se:
+
+--Que é? Que reflexões vos despertou este nome? Parece que tambem Bertha
+não o ouve a sangue frio.
+
+Bertha tremia cada vez mais.
+
+--Aqui ha um mysterio. Bertha está dominada por alguma influencia má.
+Desconheço-a. Dar-se-ha que o mau espirito se occulte de nós, tres bons
+rapazes inoffensivos, que respeitam todas as entrevistas secretas, todas
+as doces affeições da alma, e que só querem que se seja franco e leal
+com elles nas palavras e nas obras, e se ponha de parte a falsa
+moralidade dos hypocritas?
+
+Depois, deixando o tom de sarcasmo pelo da vehemencia, bradou:
+
+--Se alguém me ouve e ainda tem uns restos de brio e de vergonha, que se
+não esconda, que appareça. É tempo de acabar a comedia. Appareça, ou eu
+prometto tentar a sua covardia, obrigando-o pela honra a acudir á mulher
+que furtivamente corteja, se a quizer livrar do galanteio que ella
+desdenhosamente rejeita.
+
+Estavam mal acabadas estas palavras e D. Luiz achava-se já em frente do
+filho, fitando-o em silencio e com um olhar de severa e expressa
+interrogação.
+
+Mauricio recuou, como se aquella apparição o ferisse em pleno peito. Os
+do Cruzeiro envolveram-se a mais e mais nas sombras dos corredores.
+
+Seguiram-se alguns momentos de silencio; D. Luiz foi o primeiro a
+interrompêl-o.
+
+--Aqui estou prompto para responder ao interrogatorio de meu filho e
+d'esses senhores que se escondem... por modestia na sombra do corredor.
+Interroguem.
+
+--Meu pae...--balbuciou Maurício, baixando os olhos.
+
+--Então deu n'isso a bravata da atrevida provocação que me fez
+apparecer? E os senhores não serão mais ousados? Muito bem; se é a
+consciencia que os abaixa ao logar de reus, eu tomo o meu logar de juiz.
+Que significa toda esta scena de orgia? Que infamia, que vileza os fez
+subir estas escadas e empurrar aquella porta? Julguei perceber que se
+tractava de insultar uma senhora. Boa diversão para fidalgos!
+
+E voltando-se para Mauricio, proseguiu:
+
+--D'antes aquelles que traziam o nome de que usas, baixavam cortezmente
+os olhos diante das damas e erguiam-n'os para cruzar a vista de homem,
+quem quer que elle fosse, que procurasse a sua. Tu hoje deshonras esse
+nome, fazendo o contrario. És insultante e provocador com a fraqueza, e
+baixas a vista ignobilmente sob o peso da tua covardia. Envergonho-me de
+te ter por filho.
+
+--Senhor!
+
+--Basta. Não quero augmentar a minha vergonha, devassando o intimo das
+tuas intenções vindo aqui, em companhia dos teus camaradas das devassas
+orgias. Bertha, bem vê. Quando movida por um sentimento generoso, subiu
+os degraus d'estas escadas no intento de se entreter com a alma de
+Beatriz, que melhor do que ninguem conheceu, confiava de mais na boa fé
+dos outros, julgando-a pela sua. Devia lembrar-se de que n'esta casa em
+ruinas, d'onde voou para o céo aquelle anjo, crearam-se os hospedes das
+ruinas, os reptis e as viboras, que se arrastam até aqui para a ferirem
+com o insulto e com a calumnia, aqui mesmo, n'este logar que devia ser
+sagrado para meus filhos, se a fatal influencia que pesa sobre esta
+familia não tivesse já apagado n'elles todos os instinctos de dignidade
+e de nobreza. Deus, porém, trouxe-me aqui para protegêl-a do insulto e
+espero que apesar de tremulo, ainda o meu braço lhe servirá de seguro
+apoio. Talvez que a depravação n'estes homens perdidos não tenha chegado
+ainda ao ponto de ousarem ameaçar-me; uns restos de respeito filial lhe
+servirão de salvaguarda.
+
+E D. Luiz, dando o braço a Bertha, que machinalmente lhe obedecia, sahiu
+do aposento com a cabeça erguida e o gesto severo.
+
+Mauricio e os primos do Cruzeiro afastaram-se timidamente para os deixar
+passar.
+
+Mauricio deixou-se cahir em uma cadeira e escondeu o rosto entre as
+mãos, exclamando:
+
+--Eu sou um miseravel!
+
+Os primos olharam-se com o gesto comico de dois collegiaes encontrados
+em flagrante delicto de insubordinação.
+
+
+
+
+XXIII
+
+
+No dia seguinte pela manhã, D. Luiz mandou pedir á baroneza authorisação
+para fazer-lhe uma visita, reclamada por motivos urgentes.
+
+Gabriella respondeu que o ficava aguardando com impaciencia.
+
+E não foi por mero comprimento que o disse; os negocios d'aquella
+familia achavam-se em um estado tal, que era de esperar de momento para
+momento uma crise importante, e o menor successo podia provocal-a.
+
+Gabriella sabia-o e aguardava-a.
+
+Meia hora depois entrou D. Luiz sombrio e grave no gabinete da sobrinha.
+
+Esta acolheu-o com a maior deferencia, procurando lêr-lhe no semblante o
+pensamento que o trouxera alli, mas empregando no exame toda a
+dissimulação.
+
+--Para que se incommodou, tio Luiz? Se quizesse ter a bondade de esperar
+eu iria receber as suas ordens.
+
+--Ergui-me cedo. E ergui-me sem ter dormido. Por isso fui tão matinal.
+
+--Meu Deus! achou-se então incommodado?
+
+--De espirito, muito; muito.
+
+E D. Luiz passou a mão pela fronte, suspirando.
+
+--E posso proporcionar-lhe algum allivio, meu tio?--perguntou Gabriella,
+conduzindo-o para um sofá, onde se sentou ao lado d'elle, olhando-o com
+ar de interrogação e de interesse.
+
+--Gabriella, a sorte de minha familia está jogada. É uma família
+perdida--rompeu vehementemente o fidalgo.
+
+--Não diga isso, tio Luiz.
+
+--Digo-o e sinto-o--continuou elle mais exaltado.--Quando uma casa como
+a nossa, que não póde já conservar o antigo esplendor e o estado que em
+melhores tempos sustentou, não sabe de mais a mais manter o prestigio
+que teve por as praticas tradicionaes de nobreza, por acções de
+fidalguia, emfim por estes actos de superioridade que fazem dobrar a
+cabeça aos mais insolentes e intimidar a vista dos invejosos, quando uma
+casa chegue a um tal estado de decadencia, nenhum apoio solido tem a
+sustental-a e em pouco tempo cahirá em ruina total. A minha está
+perdida!
+
+--Seus filhos...
+
+D. Luiz estremeceu de irritação a estas palavras.
+
+--Meus filhos! Que me quer dizer d'elles? D'elles me queixo eu. Jorge
+fez-me córar pela pouca dignidade dos seus sentimentos; Mauricio pela
+vileza dos seus actos.
+
+--Mauricio?! Sancto Deus! Pois que succedeu mais?
+
+D. Luiz, ainda tremulo de indignação, contou á baroneza a scena da
+vespera. A cólera do velho contra o filho era violenta e contrastava com
+a brandura e quasi respeito que o dominava ao fallar de Bertha.
+
+A baroneza ia notando estes phenomenos todos.
+
+Assim que D. Luiz concluiu, Gabrieila, encolhendo os hombros, formulou a
+emenda:
+
+--Loucuras de rapaz.
+
+--Loucuras! Loucuras de rapaz! Que diz, Gabrieila? Nem tudo se póde
+permittir ou desculpar ao verdor dos annos. E quando nas acções de um
+rapaz se nota, já não apenas o estouvamento e a inconsideração que é
+propria dos annos, mas os signaes de uma profunda depravação moral, esse
+rapaz, aos vinte annos, tem já a alma corrompida.
+
+--Mas o que vê mais do que estouvamento nos actos de Mauricio?
+
+--Que ia elle fazer embriagado, e na companhia de devassos, á Casa
+Mourisca?
+
+--Saiba então, meu tio, que o primo Mauricio tem o fraco de se julgar
+apaixonado por todas as raparigas bonitas que vê. É o seu defeito.
+Portanto julga-se tambem apaixonado por Bertha, que me dizem ser gentil.
+Parece porém que não tem sido feliz por esse lado. D'ahi os seus
+desafogos. Depois os planos de Jorge, mal interpretados, e as malevolas
+instigações d'aquellas sanctas creaturas dos nossos primos do Cruzeiro
+fizeram-lhe já por mais de uma vez vêr no irmão innocente um rival
+preferido, e ahi está. Acrescentando a isto a influencia do estado
+anormal em que diz que elle hontem se achava, tudo se explica. Loucuras
+de uma cabeça estouvada; que por o coração fico eu.
+
+--Perde-se, perde-se--insistia D. Luiz.--Não respeitar os sentimentos
+mais puros! nem pelo menos lhe merecer respeito aquella pobre rapariga,
+que tem as mais sanctas tradições de nossa familia a protegêl-a! Nem
+ella! É uma infamia!
+
+--Sabe o que tudo isto está pedindo, meu tio?
+
+--O que é?
+
+--É que se tire Mauricio d'aqui. Esta ociosidade perde-o. Este viver
+apertado no pequeno circulo da aldeia ha de acabar por suffocar n'elle
+as melhores aptidões e desenvolver-lhe as más. Creia. O tio deve vencer
+os seus escrupulos em deixar Mauricio partir.
+
+--Lembrei-me já d'isso. E n'esse intuito a procurei. Mas pense bem,
+Gabriella. Engolfal-o na grande sociedade, onde os vicios e as tentações
+se conspiram para embriagar e seduzir a juventude, e elle em quem
+germinam já tão maus instinctos...
+
+--Tem dotes de alma que lá se desenvolverão e neutralisarão os vicios e
+as tentações.
+
+D. Luiz curvou a cabeça pensativo. Os seus preconceitos politicos eram
+muito vivazes, não cediam sem resistencia.
+
+--Para que me deu o Senhor filhos!--exclamou elle, revoltando-se contra
+a sua perplexidade, e acrescentou:
+
+--Mas a final que carreira póde elle seguir?
+
+--Não fixemos d'antemão planos. Em geral os acontecimentos
+annullam-n'os. Decida-se a partida. Eu o recommendarei de maneira que
+elle proprio possa dentro em pouco escolher a carreira que lhe convenha.
+
+--Mas, se tiver de ceder...
+
+--Meu tio, permitta-me uma reflexão. Se quizermos prevenir todos os
+fortuitos inconvenientes de uma resolução qualquer, antes de a tomarmos,
+nehuma abraçaremos. Deixemos as objecções e os reparos para o momento
+apropriado. Quer que Mauricio parta?
+
+--Se elle ha de perturbar a paz d'essa família e obrigar-me mais uma vez
+a humilhar-me diante d'ella... Porque meus filhos teem tido a rara
+habilidade de deixar a humilhação por o unico expediente ao meu
+pundonor! Collocaram a razão e a justiça da parte dos meus inimigos,
+forçoso era, para poder ter a cabeça erguida, curval-a primeiro e
+implorar perdão.
+
+Gabrieila fingiu não attender á primeira parte das reflexões do tio.
+
+--Muito bem. Vou fallar ao Mauricio. Tudo se ha de decidir em pouco
+tempo. Tenha fé em que se não perde uma familia, cujos futuros
+representantes teem, um o caracter honrado e a razão clara de Jorge,
+outro os bons instinctos e as brilhantes qualidades de Mauricio. Pelo
+contrario, creio que ella está destinada a dar um salutar exemplo
+áquelles, cuja estrella tambem declina, ensinando-lhes a unica maneira
+de continuar, nos tempos que correm, as nobres tradições dos seus
+antepassados.
+
+--E qual é essa maneira unica?--interrogou o fidalgo, quasi ironico,
+como se já esperasse a resposta.
+
+--Entrar nobremente no caminho da actividade e do trabalho;
+distinguir-se ahi, como se distinguiram outr'ora nas guerras de Africa e
+nas navegações os que tinham o mesmo nome para ennobrecer. Ser ocioso,
+por não poder ser guerreiro, é fraco titulo para a veneração dos
+contemporaneos. Cada seculo tem a sua tarefa, meu tio; a de hoje não se
+cumpre ás lançadas, nem ás cutiladas. O bom senso do tio Luiz ha de
+dar-me razão. Sabe além d'isso muito bem o que se faz lá por fóra, o que
+se faz na Inglaterra, por exemplo, onde tambem ha nobreza e orgulhos
+nobiliarchicos, como por cá, e mais talvez ainda.
+
+--Bem vê que não desprezei a educação de meus filhos, nem impedi que
+Jorge trabalhasse, quando me pediu para o fazer. Pelo contrario, n'esse
+dia julguei receber uma lição d'aquella criança, e cheguei a córar dos
+meus setenta annos de incuria e de ociosidade. A minha velhice achou-se
+menos veneranda do que aquella juventude. Mas repare, Gabriella, que
+disse: entrar _nobremente_ no caminho do trabalho. E nobremente não é
+andar a estender a mão á esmola dos antigos servos da nossa casa.
+
+--Não houve esmola. Foi um honrado contracto aquelle, feito entre dois
+homens igualmente honrados. Se faltaram n'elle todas as seguranças do
+costume, tanto melhor; foi porque ambos se conheciam e confiavam um no
+outro. As garantias mais poderosas são a final essas. Contractos d'estes
+só se dão entre homens de bem. Olhe, tio Luiz, longe de mim discutir
+agora o proceder de Jorge; mas, se quer que lhe diga, tenho a intima
+convicção de que ahi dentro, bem no fundo da sua consciencia, não se
+conserva já grande resentirnento contra seu filho mais velho. Ha
+forçosamente uma voz interior que lhe clama que Jorge é um nobre e
+generoso caracter.
+
+--Não disse ainda que Jorge fosse vil e infame. Mas diz bem, Gabriella,
+não discutamos agora isto. Peço-lhe então que decida Mauricio a sahir
+para evitar novas imprudencias e indignidades; não tanto por nós, como
+por essa boa rapariga, que é digna devéras de toda a sympathia. Que
+parta e que não me appareça.
+
+E D. Luiz sahiu do quarto, repetindo esta ultima recommendação.
+
+A baroneza ficou pensando:
+
+--Decididamente é preciso pôr Mauricio d'aqui para fóra. Este caracter
+em uma cidade grande é uma coisa insignificante; a agitação que causa
+perdia-se na grande agitação d'aquelle mundo. Aqui é um terrível
+elemento de desordem e talvez de sérias catastrophes. Agora quem me
+agrada mais e muito mais é o tio Luiz. Sim, senhores. Acho-o menos
+bravo, apesar dos seus furores. Como elle fallava da filha do Thomé! Do
+Thomé, que é a final a pedra de escandalo d'isto tudo! Quem o domaria a
+este ponto? A rapariga, ao que parece, tem condão para se insinuar. O
+tio Luiz tem um grande fraco por ella, conhece-se. Já o que o padre me
+contou de quando foi a historia de entrega das chaves, e agora esta
+entrevista... Preciso de conhecer Bertha; está dito. É uma influencia
+que é bom cultivar. Digam o que quizerem; não ha nada melhor para
+amansar um velho bravio como este. É vêr a falta que fez aquella pobre
+Beatriz. Ao pé de um velho quer-se sempre uma rapariga para não os
+deixar azedar e tomar estes ares selvagens e opiniões avinagradas, que o
+tio Luiz já ia adquirindo. Nada; o padre procurador o mais distante
+d'elle possivel, que prégue a outros os seus soporiferos sermões sobre o
+direito divino e sobre a corrupção da época; no logar d'elle colloquemos
+Bertha, e quero saber se o leão não ha de amansar. Agora vamos lá vêr
+Mauricio. Para fallar a verdade, ainda não sei bem o que se ha de fazer
+d'elle; mas em todo o caso, mandemol-o para Lisboa, porque nos está
+causando muito embaraço aqui.
+
+E Gabriella dirigiu-se para a sala do almoço, onde Mauricio todas as
+manhãs a precedia.
+
+Encontrou-o na varanda, que deitava para uma ribanceira, como absorvido
+na contemplação do abundante jorro de agua que d'alli se despenhava por
+entre fetos vigorosos, cuja rama encobria o fundo do precipicio. Os
+raios do sol da manhã irisavam a humida poeira, que a a agua, ao
+quebrar-se, levantava do abysmo.
+
+Gabriella aproximou-se de Mauricio sem ser percebida, e depois de o
+observar alguns momentos, poisou-lhe a mão no hombro.
+
+Mauricio voltou-se quasi sobresaltado. Ao vêr a prima sorriu.
+
+--Não a senti chegar.
+
+--Isso vi eu. Que profunda meditação era essa? Queira Deus que não
+estivesses sentindo a attracção do abysmo. Dizem-me que é irresistivel;
+sobre tudo para certas organisações.
+
+--Não, os abysmos physicos não são os que me attrahem.
+
+--O que é o mesmo que dizer que os moraes alguma attracção exercem sobre
+ti.
+
+--Estou quasi a persuadir-me disso.
+
+--De quê?
+
+--De que me impelle uma força irresistivel por um caminho, no fim do
+qual a minha quéda é inevitavel.
+
+--É um presentimento tragico.
+
+--É uma opinião dictada pela experiencia.
+
+--Experiencia! Essa palavra na tua bôca, Mauricio! O eterno mote dos
+velhos, glosado por um rapaz de dezoito annos, e estouvado como todos
+sabemos!...
+
+--E porque não ha de ser esse mesmo estouvamento o que me perde? Os
+estouvados são os homens que não teem na razão força bastante para
+conterem os impulsos das paixões, e que por isso obedecem a estas, sem
+que os façam parar os preconceitos do mundo e os conselhos dos juizos
+frios.
+
+--Se me faz favor, esses são os apaixonados. Os estouvados não chegam
+nunca a ir muito longe sob o impulso de uma paixão, porque mudam de
+soberana a cada momento, d'onde resulta um mover indeciso, um fluctuar
+sem rumo, um jogar entre ventos encontrados, que não lhes permitte
+vencer longo caminho.
+
+--N'esse caso rejeito o epitheto de estouvado.
+
+--Achas então que ha já o governo constituido e definitivo no teu
+coração?
+
+--Estou convencido de que se fixou o meu destino.
+
+--Pelo lado do amor?
+
+--Sim; pelo lado do amor.
+
+--A noticia contraria grandemente os meus planos.
+
+--Os seus planos?
+
+--Sim; não sabes o que me trouxe aqui? Vim para declarar-te que o tio
+Luiz exige terminantemente que o Mauricio parta quanto antes para
+Lisboa, por se ter a final convencido de que, apesar de todos os perigos
+da vida da capital, é esse um passo preferivel a deixal-o permanecer
+aqui, no seio da ociosidade que, como sabes, é a mãe dos vicios todos.
+
+--N'esse caso principia hoje a lucta. Eu declaro que não parto.
+
+--Devéras?
+
+--Devéras. A minha sorte está decidida, prima. E qualquer que seja o
+resultado d'esta resolução...
+
+--Mas, vamos a saber, primo Mauricio, e Bertha?... (porque me parece que
+se tracta de Bertha) e Bertha corresponde-te?
+
+--Creio que sim. Por timidez procura fugir-me, ou por desconfiança
+talvez. Por isso mesmo hei de provar-lhe que sou sincero, e que atravez
+de todos os preconceitos...
+
+--Está a tentar-te o papel de Romeu, é o que estou vendo. Desconfio da
+sinceridade d'essa exaltação.
+
+--Pois verá.
+
+--Ora ponhamos as coisas no seu logar. Não principies tu a phantasiar
+escaramuças de Montechi e Capuletti, que provavelmente não terão logar,
+com grande damno das feições romanticas do caso. A coisa ha de passar-se
+mais prosaicamente, como hoje se passa tudo. O primo Mauricio, depois de
+uns arrufos do tio Luiz, havia de, mais anno menos anno, vêr sanccionado
+por elle o seu casamento. Muito bem. Ahi o tinhamos patriarcha rural,
+burguezamente installado na lareira da Herdade, com os filhos a
+treparem-lhe aos joelhos, e conversando em sancta paz com o papá Thomé e
+com a mamá Luiza, ouvindo o estalar das pinhas, e abrindo a bôca de
+somno, quando a ceia se demorasse alguns minutos além das nove horas.
+Por este mesmo tempo, outros rapazes da sua idade, e talvez com menos
+aptidão do que elle, caminhariam por entre os fulgores da moda, da
+elegancia e da gloria, conhecidos e apreciados nos circulos onde radia a
+intelligencia e onde as brilhantes qualidades do espirito encontram
+sempre em que se exercerem. Não chegariam a este solitario Mauricio ás
+vezes umas invejasinhas d'esses taes, mesmo ao suave calor da fogueira
+patriarchal?
+
+--E quem me impediria de os seguir tambem?--disse Mauricio
+contrariado.--N'esses caminhos que diz não é força progredir solitario.
+O apoio de um coração...
+
+A baroneza abanou a cabeça em signal de duvida, dizendo:
+
+--Desengana-te, Mauricio, se ainda te sorri a vida da grande sociedade,
+não procures a companhia de corações como o de Bertha.
+
+--Porque não?
+
+--Os corações como o de Bertha precisam do calor suave da vida de
+familia para rescenderem o grato perfume do seu amor. Para um homem a
+quem ainda attrahem as luctas da vida e as lides da gloria, não é das
+mais adequadas companhias a d'estas mulheres extremosas e modestas, que
+sómente se satisfazem com affectos, e cujo amor não se nutre da gloria
+do objecto que amam, mas exclusivamente do amor que d'elle exigem. Almas
+que o ciume desalenta, que a ausencia definha, não são para companheiras
+d'aquelles homens. Se um dos taes mais imprudente liga um d'estes
+corações ao seu destino, ou o martyrisa, cedendo aos proprios instinctos
+de gloria, ou sacrificando-lh'os, tortura-se, e a tortura reflecte-se
+sobre essas almas amoraveis, que a adivinham.
+
+--E poderá ser verdadeiro um amor que não tenha essas qualidades que
+diz?
+
+--Póde. Pois não póde! É preciso que evites, Mauricio, o preconceito que
+tem muita gente de que tudo é falso e mau nos brilhantes circulos
+sociaes. Não é. Lá ha tambem amores e affeições verdadeiras, podes
+crêl-o, mas, nascidas e creadas em condições diversas, vivem e resistem
+a ventos que definham as outras. Uma mulher d'aquelle mundo, sem que
+deixe de amar seu marido, não aspira a monopolisal-o para o seu amor.
+Pelo contrario, deseja que elle desempenhe a sua missão na sociedade.
+Com a gloria que ahi adquirir, se illumina ella tambem, e em vez de o
+reter na obscuridade do lar domestico, impelle-o para a luz e sente que
+o seu amor por elle cresce na proporção em que os outros o admiram. É
+uma vaidade que se converte em estimulo. Estas mulheres assim servem de
+incentivo ás aspirações, e são as que convem aos artistas, aos
+politicos, em uma palavra, aos ambiciosos.
+
+--Mas quem lhe disse que eu era ambicioso?--perguntou Mauricio, já em
+tom differente, e demorando na baroneza um olhar analysador, como de
+quem pela primeira vez descobria n'ella qualidades dignas de attenção.
+
+--E podes negar que o és?--proseguiu Gabriella--Ora falla-me com
+franqueza. Resignar-te-ias sem pesar á ideia de passar o resto da tua
+vida esquecido e obscuro n'este canto da provinda, tendo por unica
+diversão uma caçada de lebre? Conformar-te-ias com as modestas
+aspirações de Jorge, que se satisfaz com dirigir em bom caminho a
+administração d'esta casa? Não sonhas muita vez com a brilhante
+sociedade dos salões da capital, onde todas as aristocracias se
+confrontam, onde se tracta com tudo quanto ha de elegante, de nobre, de
+distincto nas sciencias, nas letras e nas artes? Não tens já sentido a
+anciedade de viajar, de te engolfares nos focos da civilisação moderna;
+finalmente de viver em um mundo, onde os teus talentos, as tuas
+qualidades possam ser devidamente apreciadas?
+
+--É muito lisonjeira, prima Gabriella. Mas, quando eu sonhasse com tudo
+isso... E não negarei que mais de que uma vez essas phantasias me tenham
+enlevado, mas de que me serviria? Acaso o mundo está á minha espera para
+me patentear todas as portas d'esses logares de fascinação?
+
+--Para os rapazes de vinte annos, de talento e de vontade não ha
+barreiras no mundo. Querer é poder. O mundo é menos feroz do que parece.
+Quando alguem se aproxima d'elle com a intrepidez e o arrojo do domador,
+esta terrivel fera abaixa a cabeça e não ataca.
+
+--E qual póde ser a minha carreira n'esse mundo?
+
+--Não se escolhe de longe. Na presença dos caminhos escuta-se uma voz
+interior, que nos diz: «Por aqui?»
+
+--Mas creia que eu sou um inexperiente. Fóra d'estes ares sentir-me-ia
+embaraçado.
+
+--Eu prometto acompanhar-te nos primeiros passos.
+
+--Sómente nos primeiros?
+
+Maurício fez a pergunta com uma entonação de voz e com um olhar, que
+causaram estranheza a Gabriella.
+
+Fitou-o, como para perscrutal-o, e depois com um sorriso malicioso nos
+labios, tornou-lhe:
+
+--Pareceu-me perceber uma musica de galanteio n'essa pergunta? Vê lá.
+Pois nem eu te merecerei indulgencia e contemplação?
+
+--Demasiada contemplação me tem merecido até, e Deus sabe se por meu
+mal.
+
+--Um _calembourg_ ao que percebo. Bonito. Onde está aquelle fiel Romeu
+de ainda agora? Se eu insistisse, era capaz de te arrancar uma
+declaração formal, estou vendo.
+
+--Tem razão para zombar, prima, porém...
+
+--Previno-te, Mauricio, de que não vale a pena perder o tempo commigo.
+Eu tenho uma maneira prompta e rasgada de tractar as coisas, que se não
+compadece com as longuras e alternativas de um galanteio a teu modo. Bem
+vês que já não sou criança de quinze annos, e que perdi a paciencia
+d'essa idade. Mas vamos almoçar, que nos estão chamando.
+
+Durante o almoço, ao qual não assistiu D. Luiz, a conversa resumiu-se em
+observações de critica e analyse culinaria de frei Januario e nas glosas
+laconicas de Gabriella, que pôz final á prelecção, levantando-se da mesa
+e ordenando que lhe apparelhassem a egoa para um passeio.
+
+Quando, momentos depois, descia ao pateo, apanhando a longa cauda do seu
+vestido de amazona, encontrou Mauricio, que parecia esperal-a para a
+ajudar a montar e por ventura para lhe servir de _jockey_.
+
+--Então que quer dizer isto? Encarregaste-te agora das funcções de
+monteiro-mór?--perguntou-lhe Gabriella.
+
+--Se me permitte que desempenhe estas funcções, muito me honrarei com
+ellas.
+
+--Quem póde recusar um offerecimento tão amavel? Mas que me encontras tu
+de novo para me olhares com esses olhos?
+
+--É porque effectivamente ainda a não tinha visto assim.
+
+--Assim, como?
+
+--Tão...
+
+--Tão?...
+
+--Com esses vestidos.
+
+--Ai, ainda não? É verdade que ainda me não tinha dado para isso aqui.
+Então tambem ainda me não viste cavalgar?
+
+--Ainda não.
+
+--Olhem que descuido o meu!--disse Gabriella, saltando agilmente sobre o
+sellim, auxiliando-se da mão de Mauricio; e emquanto ageitava as dobras
+do vestido, preparava as redeas e acabava de apertar as luvas,
+proseguiu:
+
+--Pois n'esse caso vaes ver o que são primores na arte. Ao que parece
+vens tambem?
+
+--Se me permitte?--disse Mauricio, parando junto do cavallo, que ia já a
+montar.
+
+--Com uma condição.
+
+--Qual é?
+
+--Quando eu te disser que nos separemos, hás de condescender.
+
+--Obedecerei, embora me custe.
+
+--É indispensavel. Tenho hoje uns projectos, que não posso realisar
+senão sósinha.
+
+--Acompanhal-a-hei até onde me permittir.
+
+--Está dito. A cavallo!
+
+E, instigando de subito a egoa, partiu a galope, fazendo signal a
+Mauricio para que a seguisse.
+
+Apesar de toda a diligencia d'este em montar, e da desfilada em que
+lançou o cavallo, não lhe foi facil attingil-a. Sendo emfim alcançada, a
+baroneza afroixou a rapidez da egoa, e os dois cavalgaram a passo, um ao
+lado do outro.
+
+A violencia do exercicio avivara o carmim nas faces da baroneza e
+dera-lhe ao olhar uma animação maior do que a que lhe era habitual.
+
+O sorriso que lhe entreabria os labios, e o arfar do seio, agitado pelo
+impeto da carreira, realçavam os dotes naturaes d'aquelle typo feminino,
+no qual se já se desvanecêra o frescor da primeira juventude,
+sobreviviam ainda os traços permanentes de uma belleza correcta.
+
+Mauricio não se fartava de a admirar aquella manhã. Fôra para elle uma
+imprevista revelação. Dir-se-ia que até alli uma nuvem lhe occultára as
+perfeições da prima e que, de repente, essa nuvem se rasgára para o
+surprender.
+
+O prestigio da elegancia, da moda, dos distinctos habitos sociaes, do
+espirito cultivado na frequencia da mais selecta sociedade, estava
+actuando no coração de Mauricio, predisposto como o de poucos para
+aquelle influxo.
+
+A belleza e a intelligencia de Gabriella, aprimoradas ambas por uma
+arte, que sabia occultar-se para não prejudicar os effeitos que obtinha,
+attrahiam Mauricio de uma maneira irresistivel.
+
+A baroneza tinha a perspicacia necessaria para o perceber. O seu amor
+proprio feminino era naturalmente afagado pela descoberta; mas, além
+d'esta desculpavel fraqueza, outras razões havia mais poderosas para que
+essa observação a lisonjeasse.
+
+Gabriella, como já dissemos, ficára viuva muito joven, do barão de Souto
+Real. Tendo ainda instinctos de juventude a satisfazer, promettêra a si
+propria consultar o coração antes de prender-se segunda vez.
+
+Quando recebeu a carta de D. Luiz e veio ter com elle á Casa Mourisca,
+sabedora das difficuldades financeiras com que luctava o fidalgo e dos
+nobres esforços de Jorge para remedial-os, occorrêra-lhe o pensamento
+generoso de favorecer o empenho do primo, offerecendo-lhe com a sua mão
+os recursos de que elle precisava para realisal-o. A admiração e o
+respeito que lhe inspirava o caracter sisudo de Jorge permittiam-lhe dar
+esse passo com o coração folgado.
+
+Custava-lhe apenas ter de renunciar aos fulgores da capital, a que se
+habituára e que amava com toda a paixão de uma mulher da moda; mas
+confiava em que o seu bom senso e os subsequentes cuidados de familia
+lhe suavisariam o sacrificio. Tractando porém mais de perto com o primo,
+comprehendeu que devia desistir do seu projecto.
+
+Jorge pareceu-lhe incapaz de se apaixonar; e com certeza, não a amando,
+não se resolveria a aceitar a mão que ella lhe offerecesse, mórmente por
+levar comsigo os recursos que o poderiam auxiliar na sua nobre empreza.
+
+Gabriella abandonou pois a ideia que tivera. Em Mauricio não pensára ao
+principio. Achava-o tão leviano, que, como ella dizia, não podia
+lembrar-se seriamente de fazer d'elle um marido. Agora porém, notando a
+subita impressão que occasionalmente lhe produzira, e cujos effeitos
+duravam e progrediam, a baroneza principiou a encarar o caso debaixo de
+differente luz.
+
+Se Mauricio se apaixonasse por ella, ser-lhe-ia facil fazêl-o partir
+para Lisboa e vencer a repugnancia que elle parecia oppôr a abandonar a
+aldeia justamente na occasião em que a resistencia do pae havia cedido.
+
+Se, depois de deixar tomar maior incremento a este novo capricho de
+Mauricio, ella subitamente partisse para Lisboa, sem duvida que o
+arrastaria atraz de si. O resto fal-o-iam as seducções da capital.
+
+Para conseguir este resultado, julgou pois Gabriella que não devia
+apagar aquelle fogo que principiava a atear-se no inflammavel coração do
+primo; lavareda rapida e fugaz, que importava? com tanto que durasse até
+extinguir a outra que lá ardia.
+
+E se durasse mais? Quem sabe? Talvez que o primeiro pensamento de
+Gabriella se podésse realisar com uma variante. Mauricio não era Jorge.
+O caracter voluvel e inconstante do filho mais novo de D. Luiz não o
+garantia como um modêlo de maridos. Mas a baroneza, segundo elle proprio
+dissera ao primo, não era d'estas mulheres exigentes que zelam a posse
+de todos os pensamentos e de todos os instantes do homem que amam. A
+vida da alta sociedade ensinára-a a ser condescendente. Se encontrasse
+no marido verdadeira estima e delicadeza, não seria uma ou outra
+infidelidade que a obrigaria ao papel lacrimoso de esposa abandonada.
+
+Depois, Mauricio tinha pelo menos sobre Jorge uma vantagem.
+
+Não exigiria d'ella o sacrificio dos seus queridos habitos, nem a
+desterraria dos luzidos circulos que ella amava tanto. Antes lhe abriria
+ampla carreira de gozos, quando soltasse os vôos ás ambições, que lhe
+adivinhára.
+
+Assim pois Gabriella deixava-se galantear por o primo e ensaiava n'elle
+a sua tactica admiravel, que o encontrou mais inexperiente do que era de
+suppôr em quem de tanta fama de experimentado gozava.
+
+Mauricio porém achava-se pela primeira vez diante de uma mulher educada
+na alta escóla d'esta especial esgrima. A arte era demasiadamente subtil
+para elle a descobrir. Todo o artificio estava em simular a mais
+completa ausencia de affectação. Parecia tudo espontaneidade,
+irreflexão, imprudencia até, e julgando conquistar um coração indefezo e
+sem arte, o novel combatente era victima de um gladiador previdente,
+armado de vizeira e coiraça e jogando magistralmente com armas de melhor
+tempera.
+
+A baroneza estava a acabar de convencer-se de que a supposta paixão de
+Mauricio por Bertha não passava de uma illusão ou de um capricho.
+
+Mas não haveria em Bertha algum sentimento menos ephemero e que podésse
+ameaçar-lhe o coração?
+
+Era esse o problema que restava resolver. E para esse fim sahira a
+baroneza. A presença de Mauricio impedia-a de proceder n'essa
+investigação, por isso exigira d'elle a promessa de a deixar, quando
+lh'o pedisse.
+
+Cavalgaram por muito tempo juntos, antes que fosse reclamado o
+cumprimento d'essa promessa. Mauricio ia cada vez mais enlevado. Sómente
+proximo da estrada, que conduzia á Herdade, foi que a baroneza lhe pediu
+para se separarem.
+
+Mauricio quiz romper o contracto, Gabriella porém insistiu.
+
+Ao despedirem-se a baroneza disse para o primo, com uma inflexão de voz
+que alvoroçou o coração do pobre rapaz:
+
+--Agora provavelmente vaes procurar vêr a menina Bertha?
+
+Mauricio respondeu expansivamente:
+
+--Conceda-me que lhe beije a mão, prima, e correrei a encerrar-me em
+casa com as impressões d'esta memoravel manhã.
+
+Gabriella concedeu-lhe o pedido e recompensou-lhe com um sorriso o
+galanteio.
+
+E Mauricio foi effectivamente para os Bacellos, com o pensamento
+occupado pela imagem da prima.
+
+No meio dos seus enlevos pungia-o uma ideia.
+
+«E Bertha?» pensava elle.
+
+A pobre Bertha, que a vaidosa imaginação do rapaz teimava em representar
+perdida de amores, não soffreria muito se outra lhe disputasse com
+vantagem a posse do coração d'elle. E não estava esse perigo imminente?
+
+É porém de notar que esta contrariedade era um dos maiores incentivos
+para augmentar a chamma da sua nascente paixão por Gabriella.
+
+Havia uma perspectiva de lagrimas e de dôres a servir-lhe de fundo do
+quadro, e Mauricio, sem ser cruel e compadecendo-se até de antemão do
+mal que suppunha ir causar ao coração de Bertha, sentia-se seduzido por
+a situação que creára.
+
+Expliquem como podérem estas contradicções de caracter, na certeza de
+que o facto não é excepcional, antes muito da regra commum.
+
+
+
+
+XXIV
+
+
+Depois de separar-se de Mauricio, a baroneza guiou a egoa na direcção da
+Herdade. Decidida a vêr e a estudar Bertha, para saber até que ponto
+estava o coração da rapariga empenhado nos conflictos domesticos dos
+senhores da Casa Mourisca, Gabriella adoptou a resolução de procural-a
+sem simular pretexto algum. Os costumes singelos do campo authorisavam
+esta suppressão de ceremonias; demais, como parenta que era de Jorge e
+de Mauricio, tinha a certeza de ser bem recebida lá.
+
+Desviando-se da estrada para seguir por um atalho que ladeava a collina,
+avistou uma pequena capella rustica, com a sua galilé e o seu pequeno
+bosque de sovereiros a rodeal-a, e tão pittorescamente situada em uma
+das eminencias proximas, que não pôde resistir ao desejo de subir até
+alli.
+
+A capellinha, erigida sob a invocação de Sancta Luzia, um dos nomes de
+mais devoção entre os do florilegio christão, poisava sobre a collina em
+uma d'essas situações que o povo, com seus instinctos poeticos, costuma
+escolher para assentar esses modestos monumentos da sua fé e piedade.
+
+O valle feracissimo, por onde se estendiam os vergeis, as searas, as
+quintas e os lameiros de duas ou tres freguezias, descobria-se todo
+d'alli. A vista seguia nos seus successivos meandros o pequeno rio que
+se estirava em chão de areia, por entre moitas de azevinhos, de
+laurentins e de salgueiros, cujos ramos aqui e além se abraçavam de
+margem para margem. O campanario da igreja parochial, a ponte de dois
+arcos, os açudes, as azenhas, as prêsas onde cantavam, lavando, as
+raparigas do campo, os estendaes onde a roupa de linho branqueava sob os
+raios do sol, as noras toldadas de parreiraes completavam a feição
+campestre da paisagem.
+
+Prendendo a egoa ao ramo vigoroso de um d'estes carvalhos decepados, a
+que na provincia chamam tocas, Gabriella caminhou a pé para a galilé da
+ermida.
+
+Ao chegar alli descobriu no muro sobranceiro ao lado menos accessivel da
+collina, uma rapariga sentada costurando.
+
+A baroneza adivinhou logo que era Bertha e applaudiu-se do palpite que a
+fizera desviar do caminho para subir alli.
+
+Bertha saudou-a affavelmente, como quem tambem a reconhecêra.
+
+A baroneza dirigiu-se-lhe sem rodeios.
+
+--Não é verdade que é a menina Bertha da Povoa que tenho a felicidade de
+encontrar aqui?
+
+--Sou, sim, senhora baroneza... porque me parece que estou fallando
+com....
+
+--Justamente. Achamo-nos pois conhecidas. Tanto melhor, para não
+perdermos tempo com apresentações. Agora permitte-me que a abrace, como
+a uma pessoa a quem estimo?
+
+--Oh minha senhora!
+
+E as duas mulheres abraçaram-se, saudando-se affectuosamente, como se
+uma subita sympathia as aproximasse.
+
+--Sabe--proseguiu a baroneza, sentando-se ao lado de Bertha--que ia
+procural-a?
+
+--A mim?!
+
+--É verdade. Veja que feliz acaso o que me fez subir a esta capella,
+para gozar do panoramma que se descobre d'aqui.
+
+--É um dos passeios mais bonitos d'estes sitios.
+
+--Pelo que vejo costuma fazer d'aqui a sua casa de lavor?
+
+--Ai, não; raras vezes; hoje vim para esperar meu pae, que chega do
+Porto. D'aqui avista-se quasi meia legua de estrada. Vê?
+
+--Ai, volta hoje o pae? Visto isso tambem o meu primo Jorge.
+
+--Tambem... julgo que tambem.
+
+Bertha não foi superior a uma leve turbação, ao ouvir o nome de Jorge e
+ao responder á baroneza. Quem tem no coração um segredo que de todos
+quer recatar, trahe-o muitas vezes, á força de disfarçal-o. Em cada
+olhar suspeita uma espionagem, em cada palavra uma allusão, e se a
+conversa se aproxima do assumpto, segue-a tremulo, como se segue o
+caminho que se abeira de um precipicio.
+
+A baroneza, que tinha ainda os olhos fitos em Bertha com a curiosidade
+propria de uma mulher ao observar outra que sabe causar impressão nos
+animos masculinos, notou aquelle indicio de confusão, e não o desprezou.
+
+--É um generoso rapaz o meu primo Jorge, não acha?--interrogou ella,
+demorando o olhar no rosto de Bertha.
+
+Esta sentiu o perigo em que estava de trahir-se, e concentrando por isso
+toda a sua coragem, conseguiu levantar os olhos para fitar a baroneza e
+responder com apparente serenidade.
+
+--É um nobre caracter, um rapaz a quem se deve respeitar como a um velho
+honrado.
+
+--Respeitar como a um velho honrado, diz bem; amar como a um rapaz é que
+não é possível.
+
+Bertha córou d'esta vez, respondendo:
+
+--Não queria dizer isso.
+
+--Bem sei que não. Mas digo-o eu. Jorge é um escravo do dever, e tão
+absorvido anda nos seus grandes e generosos projectos, que não ha para
+sonhos de amor logar n'aquella cabeça. As raparigas não podem amar um
+homem assim, em quem os olhares da mais affectuosa sympathia não
+insinuam calor no coração. Tem umas maneiras para todas uniformemente
+polidas e affaveis, que excluem a ideia da menor preferencia. Pois não
+lhe parece?
+
+--Os nobres sentimentos da alma tambem podem exercer algum prestigio...
+
+--Mas valha-me Deus, Bertha, esse prestigio revela-se em taes casos por
+uma veneração, que não é amor. É como a que temos pelos sanctos. De
+virtuosos e justos que nol-os pintam, fogem do nosso nivel e temos de
+elevar a vista para contemplal-os; e d'esta maneira, com os olhos no
+céo, adora-se, mas não se ama.
+
+Bertha, com os olhos fitos em não sei que ponto da perspectiva, não
+respondia e parecia engolfada na corrente de profundos pensamentos.
+
+A baroneza, sem interromper a sua observação, continuou:
+
+--Já assim não é Mauricio.
+
+A abstracção de Bertha não lhe deixou reprimir um movimento que estas
+palavras lhe provocaram. Dir-se-ia que lhe custava a aceitar a
+comparação.
+
+Gabriella, observando-a sempre, proseguiu:
+
+--Mauricio não tem o juízo de Jorge, é verdade; porém é mais amavel. Os
+seus mesmos defeitos fazem com que seja possivel fital-o mais
+directamente, sem que o esplendor dos seus meritos nos offusgue. É um
+rapaz, que sem deixar de ser generoso, permanece no nivel commum, em que
+todos vivemos, e ahi é bem mais facil amal-o.
+
+Bertha escutava quasi distrahida; só passados instantes, depois das
+ultimas palavras da baroneza, foi que rompeu o silencio, dizendo
+vagamente:
+
+--São ambos duas almas generosas e merecedoras de estima.
+
+--De certo--insistiu a baroneza.--Mas, minha querida Bertha, eu não sei
+se lhe succede o mesmo... mas em geral estes rapazes serios e de juizo,
+como Jorge, intimidam-nos a nós outras, mulheres; não ousamos fital-os
+com um olhar de sympathia, com medo de que só por esse olhar elles nos
+accusem, mentalmente pelo menos, de estouvadas, e o resultado d'isto é
+que não olhamos para elles.
+
+Bertha sorria, sem responder.
+
+--Conhece ha muito esta familia?--perguntou a baroneza.
+
+--De pequena. Brincamos muitas vezes, eu, Beatriz e todos elles na Casa
+Mourisca.
+
+--E Jorge era então já assim sisudo?
+
+--Foi sempre mais ajuizado do que as crianças da sua idade.
+
+--É um rapaz singular. Já tenho pensado em que era preciso casal-o,
+porque dará um excellente chefe de familia. O essencial é passar em
+claro os tramites de um galanteio, porque para isso é que elle não é.
+
+Bertha nada disse ainda.
+
+A baroneza proseguiu:
+
+--Por isso é necessario que os estranhos tractem d'isso e escolham por
+elle.
+
+Bertha aventurou timidamente algumas palavras.
+
+--E aceitará elle a intervenção em um acto tão essencial da sua vida?
+Elle que está costumado a olhar em pessoa por os negocios que lhe dizem
+respeito?
+
+--Isso é verdade, mas contentar-se-ha em fallar directamente com a noiva
+que lhe propozerem e dizer-lhe com aquella natural franqueza todo o seu
+pensamento, e feito isto póde a escolhida ter a certeza de que terá
+n'elle um marido leal e affeiçoado, talvez sem grandes requebros de
+amante, mas com a verdadeira estima de um amigo.
+
+--De certo que a pessoa a quem o snr. Jorge estender a mão póde confiar
+n'ella como na de um pae.
+
+Bertha, julgando dizer estas palavras naturalmente, não pôde tirar-lhes
+um tremor de commoção, que a baroneza notou.
+
+Bertha foi quem primeiro rompeu o silencio, que se seguiu a estas
+palavras:
+
+--Mas dizia a snr.ª baroneza que viera procurar-me?
+
+--É verdade. Andava anciosa por conhecêl-a. Adivinhava-a pela impressão
+que via causar em quantos se aproximavam de si. O tio Luiz fallava-me de
+Bertha com uma ternura a que já é pouco sujeito; Mauricio com um
+enthusiasmo de apaixonado; e Jorge....
+
+Gabriella fez aqui intencionalmente uma pausa, durante a qual estudou a
+physionomia de Bertha.
+
+Esta baixára-se, como para cortar uma malva do chão, mas nas faces
+estendia-se-lhe um rubor fugaz, que denunciava um intimo alvoroço.
+
+--E Jorge--concluiu a baroneza--com aquelle modo apparentemente frio que
+tem para dizer todas as coisas, mas em termos que exprimiam bem a sua
+estima por a pessoa de quem fallava; d'aqui o meu desejo de conhecêl-a;
+não me admiro agora de todo aquelle effeito, porque eu mesma o estou
+sentindo já.
+
+Bertha sorriu, agradecendo-lhe o comprimento.
+
+--Creia-me, Bertha. Conhecemo-nos de pouco, mas olhe que sou já sua
+amiga e talvez possa ainda mostrar-lh'o um dia.
+
+--Agradecida, snr.ª baroneza.
+
+--Não tome esse tom de ceremonia para me fallar. O que eu digo não é um
+comprimento. Sabe que mais, Bertha? Talvez que pouca gente esteja tão
+adiantada no conhecimento do seu coração como eu, depois d'esta nossa
+primeira e curta entrevista.
+
+Bertha córou d'esta vez intensamente, e olhando para Gabriella com um
+olhar assustado, balbuciou quasi tremula:
+
+--Do meu coração?... Por ventura...
+
+--Não se assuste. Não quero fallar mais nisto emquanto não me conhecer
+melhor. Só lhe digo que eu não passo de uma pobre mulher com bastante
+coração e com o grau de loucura preciso para me enthusiasmar pelo
+partido dos sentimentos generosos e sinceros, quando luctam com as
+convenções e os preconceitos sociaes. E agora deixe-me mostrar-lhe um
+grupo de cavalleiros que estou d'aqui vendo, e que talvez o seu olhar
+melhor possa distinguir do que o meu.
+
+Bertha, seguindo com os olhos a direcção que a baroneza lhe indicava,
+exclamou:
+
+--São elles, são! É meu pae e Jorge... e o snr. Jorge.
+
+E aproximando-se do angulo do adro, d'onde melhor poderia ser vista,
+pôz-se a acenar com o lenço para os recem-chegados.
+
+Thomé não respondeu logo, mas passado algum tempo tremulava na ponta da
+vara do cavalleiro, como flammula em mastaréo de navio, o lenço de
+quadros, que o vento desenrolava.
+
+Gabriella, seguindo com os olhos os movimentos de Bertha, pensava:
+
+--O mysterio d'esta já eu descobri. Pobre criança! tem muito pouca
+astucia para occultal-o. Ha n'ella uma transparencia que deixa vêr até
+ao coração. E aquelle?--proseguiu, dirigindo os olhares para Jorge, que
+ainda vinha longe--Enganar-me-ia eu? Não será aquillo sómente frieza,
+será reserva? Póde ser, póde. Estes homens assim morrem ás vezes com uma
+paixão no peito, e morrem por esforços que fazem para occultal-a. Se o
+facto se dér com Jorge, é uma coisa gravissima; quem póde calcular o que
+se seguiria? Emquanto a Mauricio, já vejo que está tudo bem; parece-me
+que por este lado não deixará muitas lagrimas por vestigio da sua
+passagem, nem terei de sentir remorsos se o arrebatar para longe d'estas
+paragens. Mas observemos.
+
+Bertha, que corrêra a esperar os cavalleiros, estava nos braços do pae,
+que a beijava com effusão. A baroneza, meio occulta por um tronco de
+sovereiro, notou um rapido olhar de Jorge para Bertha, quando a rapariga
+ainda o não podia vêr, porque Thomé lh'o encobria; notou mais que assim
+que Bertha o procurou, estendendo-lhe a mão, Jorge correspondeu com
+ceremoniosa deferencia, e nunca mais dirigiu para ella a vista.
+
+A baroneza foi emfim ao encontro dos viajantes.
+
+Recebeu de Jorge um acolhimento sem comparação muito mais expansivo, do
+que o que Bertha lhe merecêra. O penetrante espirito de Gabriella
+interpretou esta differença a seu modo.
+
+A companhia desfez-se passado pouco tempo.
+
+Thomé tinha pressa de chegar a casa; segurando a egoa pela arriata,
+despediu-se da baroneza e de Jorge, e partiu, em companhia da filha,
+caminho da Herdade.
+
+A despedida de Jorge e Bertha teve a mesma apparencia de reserva e de
+constrangimento, que caracterisára o primeiro encontro.
+
+Observou porém Gabriella que, proximo a dobrar uma curva do caminho,
+além da qual se perdia de vista Thomé da Povoa e a filha, que seguiam em
+direcção opposta, Jorge se voltou para traz com apparente naturalidade.
+
+--Então que resultados colheste da tua excursão?--inquiriu a baroneza,
+não demonstrando as descobertas que ia fazendo, emquanto cavalgava ao
+lado do primo.
+
+--Excellentes--respondeu Jorge, em tom de verdadeira satisfação.--Estes
+dias foram preciosos. O nosso pleito entrou em muito melhor caminho
+depois da minha conferencia com os advogados. Não me havia illudido
+sobre a importancia do tal documento que a incuria de frei Januario
+deixára encher de môfo nas gavetas.
+
+Os advogados quasi me asseguraram o exito da causa. Se assim fôr, posso
+dizer meio vencida a tarefa que emprehendi. As informações que colhi
+sobre a nova instituição de Credito Predial animaram-me. Legalisados
+alguns titulos menos regulares, e alienando uma parte da nossa
+propriedade, que é apenas um estorvo ao melhoramento da outra, poderei
+habilitar-me a usar prudentemente do credito, recorrendo á nova
+instituição; resgatar a nossa casa, e dentro de alguns annos remir a
+divida, graças á eficacia dos melhoramentos que espero realisar. E dizem
+ainda mal das instituições modernas! Ellas apenas sacrificam os que a
+ellas recorrem com uma intenção má. O dissipador que julga illudir o
+credito sob falsas promessas de melhoramentos, é um dia por elle
+severamente castigado. E justo é que o seja. Mas quem o procurar com boa
+fé, com lizura, com intelligencia e com o animo decidido para trabalhar,
+encontrará n'elle auxilios milagrosos.
+
+Jorge faltava com tanto enthusiasmo, que a baroneza, ao ouvil-o, ia
+sentindo dissiparem-se as suspeitas que ao principio concebêra.
+
+--Este enthusiasmo enche completamente todo aquelle coração--pensava
+ella--não póde haver lá dentro vazio que o atormente.
+
+Jorge proseguiu informando minuciosamente a prima do estado dos seus
+negocios, dos seus planos de reformas, das suas esperanças no futuro, e
+quasi lhe não poupou o calculo de annuidades, pelo qual chegava a
+determinar a época em que poderia amortisar totalmente a divida
+contrahida, segundo as bases da legislação hypothecaria.
+
+Só próximo á quinta dos Bacellos foi que a baroneza conseguiu dar á
+conversa a direcção que havia muito lhe desejava vêr tomar.
+
+Discutindo com o primo o valor dos meios a que se poderia lançar mão
+para trabalhar na empreza em que elle se empenhara, Gabriella
+lembrou-lhe o de um casamento com mulher abastada.
+
+Jorge sacudiu a cabeça em signal de repugnancia.
+
+--E aconselha-me isso?--exclamou elle--Não seria regenerar-me, seria
+vender-me, e venda mais vergonhosa do que aquella aonde nos conduziria o
+systema de administração seguido até agora n'esta casa; porque n'esse
+apenas se punha em venda a propriedade, e n'este vendia-se o
+proprietario.
+
+--Isso é conforme a maneira de vêr as coisas; além de que eu a ti já
+faço a concessão de não suppôr um casamento exclusivamente por
+interesse, mas quero que um pouco de amor authorisasse o contracto, que
+sem tal sancção te repugnaria. Tudo se póde combinar.
+
+--Eu não tenho tempo para amar--respondeu Jorge sacudidamente.
+
+--Ora; o amor não espera occasião opportuna. E eu não posso acreditar
+que uma alma como a tua não esteja conformada para uma affeição
+verdadeira.
+
+--Não digo que não; mas quero fugir de pôr em pratica essa aptidão, se a
+tenho, porque talvez que depois não sentisse bastante contemplação para
+com o mundo, para aceitar a restricção que elle costuma impôr á
+satisfação das paixões.
+
+--Mas quem te diz que se estabeleceria esse conflicto entre ti e o
+mundo?
+
+--Era o mais provavel.
+
+--Queres dizer que mais depressa te apaixonarias por alguma rapariga do
+povo, pobre, costumada á vida do trabalho e da economia, do que por
+qualquer das tuas ociosas e fidalgas primas d'estes arredores.
+
+--Com certeza que não me seduzirão essas.
+
+--Mas vamos; se apesar das tuas precauções o facto se désse--porque
+emfim... estas coisas nem sempre é possível evital-as--romperias
+abertamente com o mundo?
+
+--Nem quero pensar no que faria. Talvez me resignasse a deixar-me
+sacrificar aos preconceitos dos outros. Sabe de quem. Resignava de
+certo, se o sacrificio fosse sómente meu. Mas, se amasse devéras e fosse
+amado, e a mulher, a quem dedicasse este amor, não tivesse igual coragem
+para o mesmo sacrificio... não me julgaria com o direito de fazel-a
+soffrer por uma ideia, que nem para ella nem para os seus tivera o
+prestigio de uma crença. Mas fallemos em outra coisa, porque este
+pensamento incommoda-me até.
+
+--Dir-se-ia que não é sómente como pura abstracção, que elle te
+apparece, Jorge. Fallemos porém d'outra coisa, fallemos.
+
+E a baroneza mudou effectivamente de conversa.
+
+Mas, ao entrar em casa, julgava ella ter obtido as informações que
+desejára possuir.
+
+
+
+
+XXVI
+
+
+Clemente, o filho da Anna do Védor, que nos tem andado longe da vista
+desde a primeira vez que o encontramos, estava destinado a influir na
+sorte dos principaes personagens d'esta historia; convem portanto que
+outra vez o chamemos mais para a luz.
+
+Sabemos já que a vida publica d'este bem intencionado rapaz não era
+isenta de espinhos. As resistencias e estorvos que se oppunham á
+carreira direita, que o seu vivo sentimento de justiça lhe traçára,
+deixavam-lhe intimos desgostos e turbavam-lhe a bucolica serenidade dos
+seus dias.
+
+Embora ás iniquidades que observava fosse estranha a sua vontade e a sua
+cooperação; embora a consciencia lhe não exprobrasse uma unica infracção
+voluntaria das leis, que religiosamente acatava, ainda assim, como todas
+as almas bem formadas, Clemente tinha motivos de sobra para lhe
+amargurarem o coração generoso e leal, vendo de perto a parcialidade e
+as paixões más, que presidiam á distribuição da justiça pelas mãos dos
+seus superiores e os privilegios que faziam desviar a balança da
+horisontalidade com que elle sonhára.
+
+Todos os caracteres nobres não adquirem, sem doloroso aprendisado, a
+desconsoladora sciencia, que se chama scepticismo. Cada illusão que se
+desvanece é um golpe fundo no mais sensivel da alma, e os conflictos da
+vida social deixam feridas que só lentamente cicatrizam.
+
+Clemente estava n'este caso. Modestas como eram, as suas funcções civis
+tinham-lhe aberto os olhos para muitas coisas obscuras e desenvolvido no
+espirito um fermento de descrença.
+
+Assustado com o que sentia, temendo saber mais e ser obrigado a operar
+como instrumento passivo em iniquidades que lhe repugnavam, Clemente
+sentiu o desejo de se acolher á vida privada, onde não lhe chegasse aos
+ouvidos o rumor das injustiças humanas.
+
+Um novo incidente, em que tomaram parte os fidalgos do Cruzeiro,
+principaes fautores de todos os attentados no concelho, acabou de
+decidil-o.
+
+Vimos em um dos capitulos precedentes, que elles protegiam muito ás
+escancaras a fuga de um refractario ao serviço militar, facto que
+sobremaneira irritára Clemente, o qual chegou a tentar pôr em prática as
+medidas extremas, que a lei lhe permittia. Encontrou, porém, na
+authoridade administrativa, que afagou a influencia eleitoral dos
+fidalgos, froixo apoio, e o refractario conseguiu escapúla.
+
+Logo depois de realisada a fuga, Clemente, que a attribuia sobre tudo á
+falta de energia do seu chefe, recebeu d'este um officio censurando-o
+asperamente pela debil vigilancia que tivera no caso e admoestando-o
+para ser de futuro mais activo e diligente.
+
+Esta duplicidade indignou o ingenuo rapaz, que resistiu a custo á
+tentação de ir dizer ao administrador algumas amargas verdades.
+
+Dias depois houve um serão em casa de um lavrador da freguezia, e
+Clemente recebeu aviso de que os manos do Cruzeiro premeditavam para
+essa noite umas vinganças contra uns serandeiros com quem mantinham uma
+rixa antiga.
+
+O regedor, não só por dever do cargo, como pelo desculpavel desejo de
+dar uma severa lição a esses incorrigiveis, causa principal dos seus
+desgostos, tomou providencias, reuniu os cabos e rondou as proximidades
+da casa do serão.
+
+A precaução policial foi util, porque evitou alguma desgraça séria. Pela
+meia noite os dois irmãos do Cruzeiro sahiram ao caminho a um camponez,
+que recolhia do serão, e atacaram-n'o com impeto, que não denunciava um
+proposito innocente.
+
+O regedor cahiu porém sobre elles, e a muito custo conseguiu
+captural-os, jurando que sómente os soltaria á ordem expressa da
+authoridade superior.
+
+A ordem veio e redigida em termos severos para o honesto rapaz, a quem
+se recommendava mais tino e cordura no desempenho das suas obrigações.
+
+Os apaniguados dos fidalgos, parasitas que ainda se nutriam da seiva
+quasi exhausta d'aquella carcomida arvore genealogica, clamaram contra o
+attentado do regedor e chegaram a ameaçar-lhe a existencia, fazendo-lhe
+esperas nocturnas. Mas, o que mais é ainda, o povo, os pobres, os
+opprimidos, os esmagados de hontem, esses mesmos, quasi levaram a mal ao
+regedor a falta de attenção que tivera para com os fidalgos. Transtornar
+uma regra social estabelecida, embora seja para bem, escandalisa sempre
+os fanaticos da ordem; e ha-os tão fervorosos, que a adoram, ainda
+quando ella revista a feição moscovita.
+
+A taça trasbordou para Clemente. Pediu terminantemente a sua demissão e
+foi-lhe concedida, com muita facilidade por as eleições estarem
+proximas, e serem em regra incommodos impecilhos estes caracteres amigos
+do justo para o andamento da machina administrativa, quando empregada na
+grande tarefa de cunhar deputados com a effigie governamental.
+
+Com grande jubilo celebrou Anna do Védor a resolução do filho. Havia
+muito tempo que ella lhe aconselhava aquelle passo.
+
+--Que precisão tens tu, Clemente, de te metteres n'estas barafundas? Se
+não precisas d'isso para comer, para que has de perder o socego com
+coisas que te não dão interesse?--pregava ella, inoculando no filho a
+sua philosophia um tanto egoista.--Olha, rapaz, a tua casa já dá bem que
+fazer a um homem. E quem quizer que prenda os ladrões e ande adiante dos
+cabos em serviço do rei, que tu, graças a Deus, não ficas mais honrado
+com isso. Inda se essa gente do governo fizesse caso de quem os serve
+bem, mas tu estás vendo como elles são. Por isso deixa-os; elles que se
+avenham, que lá se entendem.
+
+Assim que o filho efectivamente declinou o encargo da regedoria,
+disse-lhe a ajuizada matrona:
+
+--Agora para a dares em cheio, sabes tu o que deves fazer? É casar-te.
+Isso é que era ouro sobre azul. Porque emfim, rapaz, só assim é que se
+ganham raizes em casa e que um homem é devéras homem de familia.
+Emquanto solteiros, ora adeus, por melhores que vossês sejam, lá vem um
+serão, lá vem uma caçada, lá vem uma doida de uma rapariga que vos faz
+andar a cabeça á roda. Não ha como é isto de ouvir gemer as crianças em
+casa e cantar a mulher a arrolal-as. Tu riste? É o que te digo. Quando
+eu me casei com teu pae, que Deus haja, todos me diziam: «Ó filha, não
+levas homem que te gaste muito os trastes da casa.» Porque, emquanto
+solteiro, elle tinha sido d'aquelles de se lhes tirar o chapéo, dos taes
+que Deus mandou fazer. Pois era vêl-o depois. Logo que podia, elle ahi
+estava ao pé de mim a brincar com as crianças. Até muitas vezes eu lhe
+cheguei a dizer: «Ó homem, sahe-me d'aqui para fóra; eu não gósto de vêr
+homens tão caseiros.» Por isso, rapaz, faze o que te digo, casa-te, que
+estás em boa idade.
+
+--Não vou longe d'isso, minha mãe, mas bem vê que não é coisa que se
+faça assim do pé para a mão.
+
+--Não, olha, tu tambem para andares muito tempo a arrastar a aza á
+rapariga é que não és, que isso sei eu. Pois então é tractar da coisa
+como de negocio serio e casar.
+
+--Mas... e a noiva? Ahi está já a primeira dificuldade.
+
+Anna do Védor olhou muito direita para o filho, e depois de um instante
+de silencio interpellou-o:
+
+--E então tu, na tua verdade, ainda não lançaste as tuas vistas?
+
+Clemente encolheu os hombros como quem não podia dizer que não, nem
+queria dizer que sim.
+
+--Ora para mim é que tu vens com isso. Lançaste, sim, e nem podia deixar
+de ser, que não tinhas muito onde escolher. Queres que te diga quem é?
+Olha que tambem eu nunca tive outra na ideia.
+
+--Mas eu não pensei ainda a serio....
+
+--Adeus; e que tens tu que pensar? Porque é que te não havia de convir a
+pequena do Thomé?
+
+Clemente respondeu um pouco sobresaltado:
+
+--A mim de certo convinha; agora eu é que talvez lhe não convenha. A
+Bertha está educada tanto á cidade...
+
+--E com quem queres tu que ella case, não me dirás? Com algum dos
+pequenos do fidalgo, hein? Que elles estão mesmo alli á espera d'ella.
+Deixa-te de tolices. A rapariga deve erguer as mãos ao céo se agarrar um
+marido, que não é nenhum labrego, que é homem de bem e capaz de
+estimal-a.
+
+--Mas o pae, que a educou assim e que em tanta conta tem as prendas da
+filha, ha de aspirar a mais.
+
+--O quê? O Thomé é um homem de juizo. E então digo-te mais, eu já lhe
+toquei n'esse negocio, e o homem não se deitou de fóra d'isso, antes
+mostrou que lhe agradava bem o projecto.
+
+--Devéras fallaram n'isso?
+
+--Então não t'o estou a dizer? E o Thomé da Povoa lembra-me bem que me
+disse: «A minha Bertha o que deve esperar é um marido honrado,
+trabalhador e que a saiba estimar, e o seu Clemente é a nata dos
+rapazes.» Depois, aqui para nós, o Thomé sabe as circumstancias em que
+tu estás, e, vamos lá, isso tambem influe. E faz elle muito bem, lá isso
+ninguém lhe póde levar a mal.
+
+--Porém Bertha...
+
+--Deixa-te de acanhamentos, rapaz. Sabes o que mais? O que eu estou
+vendo é que tu com'assim não dás conta do recado. Por isso vae ter com o
+Jorge. Elle é alli tudo em casa do Thomé, é quem dá lá os dias sanctos.
+O que elle diz é o que se faz, nem se mexe um pé em casa sem consultar o
+pequeno. E juizo tem elle para aconselhar bem, que aquillo foi mesmo um
+milagre do céo, o nascer aquelle rapaz na família. Pois vae tu ter com
+elle, vae e dize-lhe as tuas tenções, e elle gue se encarregue do mais.
+Vae por ahi, que vaes bem. Digo-t'o eu. O Thomé tens tu de teu lado, e
+Luiza diz sempre com o marido; emquanto á rapariga, ella ha de
+reconhecer que tu não és noivo que se engeite.
+
+Horas depois, Clemente, a quem a mãe acabára de convencer, procurava
+Jorge no seu gabinete de trabalho na propriedade dos Bacellos.
+
+Clemente encontrou Jorge sentado á banca, tendo diante de si massos de
+papeis e de livros, que consultava com attenção.
+
+A entrada do filho de Anna do Védor não obrigou Jorge a interromper a
+sua tarefa; saudou-o com a affectuosa familiaridade que de pequeno usava
+para o seu irmão de leite, e continuou trabalhando.
+
+--Bons dias, snr. Jorge. Pelo que vejo trabalha-se?
+
+--Que remedio, meu bom Clemente, que remedio? Estes negocios de minha
+casa estão de tal maneira enredados, que não fazes ideia.
+
+--N'esse caso fiz mal em entrar; vim distrahil-o.
+
+--Não, não, Clemente, não. Deixa-te ficar, que me não estorvas. O que
+estou fazendo não é de tal transcendencia, que não me deixe fallar com
+os amigos. Estou aqui a ver se descubro n'esta papelada um documento de
+que preciso. Aquelle frei Januario sempre tinha isto em uma desordem! Eu
+bem sei o que elle merecia. E que me dás tu de novo, Clemente?
+Disseram-me que te demittiste do logar de regedor?
+
+--E ha mais tempo que o devia ter feito, que nunca recebi senão
+desgostos no officio.
+
+--Sim, cá por este mundo, quem andar por caminho direito póde contar com
+encontrões, que magoam--observou Jorge, sem erguer os olhos dos papeis.
+
+--E não foram poucos os que me deram. Perdoe dizer-lh'o, snr. Jorge, mas
+aquelles seus primos do Cruzeiro...
+
+Jorge encolheu os hombros, fazendo um gesto de desprezo.
+
+--Que queres tu, homem? Se elles nem para si mesmos são bons! Aquillo
+nos Cruzeiros é uma cama de tres javalis, qual d'elles mais selvagem.
+Que se póde esperar d'aquella gente?
+
+--Mas teem quem os attenda, que é o que me faz zangar. Uma authoridade
+descer áquellas baixezas e andar ahi a receber o beija-mão d'aquelles
+senhores! Isto, isto, a fallar a verdade, parece-me... nem eu sei o que
+me parece.
+
+Jorge esteve algum tempo sem retorquir, absorvido pelo exame de um papel
+que encontrára no masso. Depois, tomando á margem uma nota a lapis, e
+pondo o papel de lado, ponderou vagamente:
+
+--Coisas d'este mundo, Clemente; que remedio senão aceital-o assim?
+
+--Isso é que é verdade.
+
+--E lá por casa como vão? Tua mãe?
+
+--Bem; foi ella quem me aconselhou esta visita.
+
+--Sim? Então já não t'a agradeço.
+
+--Eu, a fallar a verdade, como sei que tem o tempo muito occupado,
+receio...
+
+--Ora deixa-te de tolices. Se por acaso estivesse tão occupado que me
+não fosse possivel receber-te, com a maior franqueza t'o diria. Bem
+sabes que entre nós não ha etiquetas.
+
+--Pois eu vinha para pedir-lhe um favor.
+
+--Terei muito prazer em te servir--respondeu Jorge, levantando-se para
+procurar novos papeis na secretaria e voltando a sentar-se á banca,
+sempre entretido no seu trabalho.
+
+--Como sabe, pedi a minha demissão e estou agora resolvido a viver em
+minha casa, e a occupar-me sómente dos meus negocios.
+
+--É justo. E quem bem trabalha no que é seu, tambem trabalha no que é de
+todos--ponderou Jorge emquanto executava uns calculos arithmeticos.
+
+--Ora, para fazer a vontade a minha mãe e tambem por me sentir com
+inclinação para isso, estou meio decidido a...
+
+--A casar-te, hein?--concluiu Jorge, sem manifestar surpreza, e
+notavelmente embebido na execução dos seus calculos.
+
+--Justamente.
+
+--É uma boa resolução. Os homens como tu dão excellentes chefes de
+familia. Podes fazer a tua felicidade e a da mulher com quem casares.
+
+--Isso são favores seus, snr. Jorge.
+
+--Ora! Mas a final o que queres tu? Vens ouvir-me de conselho n'esse
+negocio? A mim, um rapaz solteiro?...
+
+--Não, senhor, a coisa é outra.
+
+--Então?
+
+--Eu já lancei as minhas vistas...
+
+--Sim, é natural.
+
+--Mas não sei ainda se serei bem acolhido e, para lhe fallar a verdade,
+não me sinto com animo de... de tractar disso em pessoa.
+
+--Não? Ora essa! E então?
+
+--E então lembrei-me do snr. Jorge para lhe pedir este favor.
+
+--De mim?! Tem graça. Queres obrigar-me a representar o papel de
+casamenteiro. Com todo o gosto. Mas sempre tenho curiosidade de saber a
+razão por que te lembraste de mim--disse Jorge que, havendo concluido o
+calculo, poisára a penna e esfregava vivamente as mãos para aquecêl-as.
+Olhando d'esta vez directamente para o seu interlocutor, perguntou-lhe:
+
+--E quem é a noiva?
+
+--É a filha do Thomé da Povoa.
+
+Estas palavras dissiparam instantaneamente toda a meia indifferença com
+que Jorge escutára até alli as communicações de Clemente. O
+estremecimento que não pôde reprimir ao ouvil-as, a subita transformação
+que se lhe operou na physionomia, bastariam para revelar a verdade a
+Clemente, se este bom rapaz não tivesse uma d'aquellas almas, onde nunca
+entram de subito as suspeitas, mas sómente depois de muitos e porfiados
+embates.
+
+--A filha do Thomé da Povoa!--repetiu Jorge estupefacto.
+
+--Sim--tornou Clemente, interpretando erradamente aquelle espanto--a
+filha do Thorné da Povoa, do Thomé da Herdade... Bertha, a que foi
+educada em Lisboa e que voltou ha tempos...
+
+--Bem sei--atalhou Jorge com impaciencia--mas... Bertha...
+
+E acrescentou quasi sem consciencia do que dizia:
+
+--Bertha da Povoa... mas... mas como te lembraste agora de Bertha sem
+mais nem menos? É singular!
+
+--Como me lembrei agora? Mas não foi agora que me lembrei. Eu já tinha
+penâado n'isso. É a noiva que eu proprio...
+
+--Pois sim, mas... Como te deu logo para pensar em Bertha da Povoa? É o
+que pergunto.
+
+--Ora essa! Em alguma havia eu de pensar. Se não fosse n'ella, seria em
+outra. Succedeu ser em Bertha. Coisas do coração...
+
+--Ahi vens tu já com o coração--acudiu Jorge com mal reprimido
+despeito.--Vossês fallam no coração a proposito de tudo. E até agora
+então, que andavas todo influido com a tua regedoria, não te importaste
+com o coração, nem elle te dizia nada... Ora adeus! O coração!...
+
+E erguendo-se da banca com certa agitação, que estava espantando
+Clemente, pôz-se a passeiar no quarto, e tão convulso que não conseguia
+preparar um cigarro, que mal sustinha nas mãos.
+
+Clemente allegou:
+
+--Eu não digo que isto seja uma paixão muito forte, uma paixão por ahi
+além; mas, resolvido a tomar estado, pensei na noiva que me conviria e
+lembrei-me de Bertha. É uma boa rapariga, bem educada e de alguns
+haveres...
+
+Jorge cortou-lhe a palavra:
+
+--Ah! então dize-me d'isso. Agora já entendo por que te lembraste de
+Bertha. Devias principiar logo por ahi. De alguns haveres! Ahi é que
+está a questão. Vossês são todos os mesmos a final. O interesse, o
+maldito interesse! Pois fazia melhor conceito de ti, Clemente; digo-te
+francamente que fazia de ti melhor conceito. Lá porque uma rapariga tem
+meia duzia de centos de mil reis, já a perseguem com proposito de
+casamento, já...
+
+--Ó snr. Jorge--interrompeu Clemente, tão surprendido como vexado com o
+que ouvia--por quem é faça melhor opinião de mim. Não só me não lembrei
+de Bertha apenas pelo dinheiro, mas nem a quero perseguir. Olha quem?
+Eu! Se a rapariga disser que não, ou o pae, paciencia. Mas parece-me que
+a minha proposta não a deshonra.
+
+Jorge principiava já a conhecer a sem-razão com que fallava, mas não
+podia ainda ceder totalmente ao bom senso que despertava em si. Não
+tinha previsto o caso, que se lhe offerecia, e sentia-se por isso
+irritado contra a hypothese que tão imprevistamente lhe surgira no
+caminho.
+
+--Pois sim... mas...--murmurava elle, sem saber o que dissesse--mas...
+Bertha... Olha, se queres que te falle a verdade... Bertha não te
+convem.
+
+--E porque acha?
+
+--Porque... Ora, porquê?... Eu não posso bem dizer porquê... porque...
+porque não.
+
+--Parece-lhe talvez que tem uma educação muita fina para mim?
+
+--Não, não digo bem isso... mas...
+
+--Eu tambem concordo. Mas attenda o snr. Jorge que aqui na terra as
+pessoas melhor educadas do que eu não a querem para mulher. Eu sei de
+fidalgos que não se lhes daria de inquietal-a, e já o teem mostrado. Mas
+creia que menos a honram os olhares d'esses taes, do que a minha
+proposta. Eu não apreciarei, como conviria, os talentos de Bertha, mas
+talvez os respeite melhor. E em todo o caso julgo que se poderá fazer de
+mim um bom marido.
+
+--Ninguem te diz menos d'isso... mas... bem vês que... Eu não sei quaes
+são as tenções de Thomé, porém parece-me que...
+
+--De Thomé sei eu que approvaria o casamento, porque já o disse a minha
+mãe.
+
+A estas palavras cresceu outra vez a irritação de Jorge.
+
+--Então já é negocio tractado? Os paes fallaram-se. Está dito tudo. É o
+absurdo costume cá da terra. Provavelmente vão exercer pressão sobre a
+pobre rapariga, que se sacrifica para fazer a vontade á familia. Olha,
+sabes que mais, Clemente, isso não é bonito. Para que hei de estar a
+dizer o contrario? Não é bonito. Nem eu te quero dizer tudo o que penso
+d'isso.
+
+--Mas, valha-me Deus, eu estou devéras admirado de vêr o juizo que o
+snr. Jorge faz de mim! Pois imagina que eu consentiria em casar com
+alguma mulher contra vontade d'ella?
+
+--Tu é que disseste que tua mãe e Thomé já se entenderam--observou
+Jorge, continuando a passeiar no quarto.
+
+--Disse que fallaram n'isso e que elle não desapprovára. Mas o snr.
+Jorge conhece o Thomé e por isso sabe que elle não é homem capaz de
+obrigar a filha. Deus me livre de imaginar tal! Mas emfim vejo que o
+snr. Jorge não approva a minha escolha; eu respeito-o muito e não quero
+ir contra o seu parecer. Direi a minha mãe...
+
+Jorge acudiu com vivacidade:
+
+--Não, não. Eu não desapprovo. Essa é boa! Que tenho eu com isso? Segue
+lá o teu destino. E se fores feliz... tanto melhor. Eu sou teu amigo,
+desejo a tua felicidade. Anda... tenta... nada perdes em tentar.
+Emfim... eu não tenho objecções a pôr... só me parecia que... Mas emfim,
+anda para diante.
+
+--Pois sim, mas... eu desejava que o snr. Jorge fosse quem fallasse.
+
+Cresceu a impaciencia a Jorge.
+
+--Não, não, isso é que não. Perde isso da ideia. Que lembrança! Eu
+fallar! E porque hei de ser eu? Que tenho eu com isso? Conheço o Thomé,
+não conheço a filha. Que me importa a mim saber se a Bertha te quer para
+marido, ou se não quer? Era até ridiculo. Mas como te lembraste de mim
+para esse emprego?
+
+--Foi minha mãe quem me aconselhou.
+
+--E porque não vae ella? Assim como tractou com o pae, que tracte com a
+filha. Quem quer negociar casamentos para os filhos não incumbe a
+estranhos parte da missão.
+
+--É porque minha mãe julgava que o snr. Jorge não era para nós de todo
+em todo um estranho--murmurou tristemente o collaço de Jorge, a quem a
+imprevista maneira por que fôra acolhido por este tinha deixado em
+profundo desconsôlo.
+
+Estas palavras de timida censura e a maneira branda e resignada com que
+foram ditas, commoveram Jorge e abateram a tempestade que lhe perturbára
+a habitual serenidade do seu espirito. Fazendo um esforço para dominar
+os despeitos que ainda sentia revoltos no coração, disse com maior
+placidez, apertando a mão de Clemente:
+
+--E julgava bem tua mãe. Eu não posso ser para vós um estranho, nem vós
+para mim o sois. Farei o que desejas. Não faças caso das minhas
+palavras. Tenho andado um pouco impertinente estes dias por causa de
+certos negocios, e por isso fallei ha pouco mais vivamente. Desculpa. O
+teu projecto é razoavel, eu fallarei n'elle a Thomé. Que duvida? O que
+não prometto é servir-me de qualquer influencia que tenha sobre elle,
+porque... porque emfim... tenho escrupulos.
+
+--Nem eu quereria que o fizesse. Basta que lhe exponha o caso; que lhe
+diga que estou resolvido a casar, e sentindo amor...
+
+--Será melhor não fallarmos em amor--atalhou Jorge com renascente
+impaciencia--porque afinal, Clemente, vendo as coisas como ellas são, tu
+não amas Bertha.
+
+Ao olhar espantado com que foram acolhidas estas palavras, Jorge
+respondeu já com mais força:
+
+--Não amas, homem, não amas. Talvez estejas persuadido de que a amas,
+mas não ha tal amor. Desengana-te. Isso em ti é um projecto frio,
+pensado, no qual só achaste vantagens e portanto resolveste adoptal-o.
+Tens considerações por Bertha, entendes que podes estimal-a; mas amor é
+outra coisa. Deixemos porém isto. Fica decidido, eu fallarei a Thomé e
+dar-te-hei a resposta.
+
+--Agradeço-lhe, snr. Jorge. Mas veja lá, se lhe custa...
+
+--Porque ha de custar? Ora essa! Se fallo quasi todos os dias com o
+Thomé. Em logar de conversarmos no tempo que faz, ou no estado das
+terras, conversaremos n'isso. Sim, porque para mim é um assumpto como
+outro qualquer, O casamento de Bertha é um assumpto em que eu posso
+conversar com Thomé, naturalmente. Pois que tinha eu com o casamento de
+Bertha? Eu não sou irmão d'ella. Estimo-a, é verdade, mas... o que é
+certo é que... é que me não compete importar-me com o casamento de
+Bertha. Já vês então que não me póde ser custoso fallar n'isto ao pae...
+Pois porque te parecia que me havia de custar?
+
+E Jorge dizia tudo isto com uma volubilidade e com uma inquietação que
+admirava Clemente.
+
+--A mim? Por nada--respondeu este.--Eu dizia que no caso de não querer.
+
+--Mas porque não? Fallo. Não tenho a menor duvida. Ámanhã dar-te-hei a
+resposta. Adeus. Agora peço-te licença para examinar umas contas.
+
+--Eu retiro-me.
+
+--Então adeus. E vae descançado; hoje mesmo tractarei d'isso. É uma
+coisa tão simples! Pois não te parece que é uma coisa simples? Sim,
+porque bem vês que eu nisso não tomo parte activa. Por acaso tinhas
+algum motivo para suppôr...
+
+--Nenhum.
+
+--Mas parecia que julgavas que eu tinha algum motivo... talvez...
+
+--Eu não julgava tal--respondia Clemente cada vez mais espantado com a
+insistencia de Jorge, tão singular pelo menos como a sua primeira
+irritação.
+
+Jorge conduziu o seu amigo até á porta do gabinete, onde se despediu
+d'elle, apertando-lhe affectuosamente a mão.
+
+Depois de Clemente sahir, Jorge voltou a sentar-se á banca, e, como quem
+se dispunha a proseguir no trabalho interrompido, pôz-se com affectada
+tranquillidade a aparar um lapis, e trauteando a meia voz; mas tal era o
+estado nervoso em que ficáa e a sua distracção tão completa, que o lapis
+desfazia-se-lhe nas mãos, em vez de se apromptar para serviço. De
+repente arremessou de si o lapis, o canivete e varios livros e papeis
+que encontrou diante, e erguendo-se exclamou com accentuada amargura:
+
+--Está pois decidido que eu vá pedir a Thomé da Povoa, e para Clemente,
+a mão de sua filha! Tem graça! Sempre se me preparam casos n'esta vida!
+
+Principiou a passeiar na sala, com os braços cruzados, a cabeça pendida
+e o pensamento disputado por as mais contrarias paixões.
+
+--Ahi está uma solução que eu não previa--continuou elle.--Sim, senhor;
+é a maneira mais simples e mais natural de cortar as dificuldades de que
+tanto me receiava. Assim tudo se resolve. Fixa-se o meu futuro, cessam
+as minhas hesitações, acalma-se a minha febre; applicarei o pensamento
+exclusivamente aos meus negocios... E ella... será feliz. Serão
+felizes... O casamento é natural... O Clemente é bom rapaz e Bertha...
+
+Esta ideia provocou um movimento de reacção.
+
+--Bertha e Clemente! Clemente marido de Bertha! Bertha casada com
+Clemente! Não me posso conformar com esta ideia. Não posso costumar-me a
+reunir estes dois nomes. É monstruoso, é impossivel!
+
+E ficou por algum tempo abatido com os olhos fitos no chão, como
+subjugado por aquelle pensamento. Depois tornava, com nova energia:
+
+--Mas quem tem a culpa? Sou eu, eu, que não tenho coragem para passar
+por cima de preconceitos ridiculos, que me prendo com teias de aranha e
+fico perpetuamente aguardando não sei o quê. Pois que podia eu esperar?
+Ou este sentimento em mim é real e poderoso ou não é. Se não é, com que
+direito me estou incommodando com o casamento de Bertha? Se é, porque
+não lhe obedeço? porque não me declaro, porque hesito...
+
+Vinha depois a reflexão acalmar este momentaneo paroxismo.
+
+--Sim, e havia de descarregar mais esse golpe sobre aquelle velho, que
+não tem culpa em acatar esses preconceitos no valor de um credo
+religioso! O primeiro golpe, por doloroso que elle o sentisse, foi-lhe
+salutar e evitou-lh'os mais crueis. Este porém só teria compensação para
+mim, e elle não lhe sentiria o beneficio. Vamos, deixemo-nos de
+loucuras. Resolvi ter coragem. Hei-de têl-a. Fallarei a Thomé.
+
+Vinha-lhe em seguida um pensamento diverso.
+
+--E qual será a resposta de Bertha? Ella não póde aceitar Clemente. A
+educação que recebeu... E porque não ha de aceitar? Clemente é um rapaz
+honrado, trabalhador, capaz de estimar e proteger a sua mulher. Que mais
+póde ella desejar? Este é o marido que lhe convem. Talvez lhe preferisse
+Mauricio, que se ri d'ella, que não pensará n'ella ámanhã, mas que é um
+rapaz da moda, elegante e que lhe sabe dizer bonitas palavras. A
+phantasia d'estas collegiaes...
+
+Tornou a razão a fazer-se ouvir.
+
+--Mas ahi estou eu com a minha loucura, accusando aquella pobre rapariga
+de defeitos, que nunca lhe pude descobrir. Mas se esta ideia faz-me
+perder o juizo! Pelo contrario, a Bertha tem muito bom senso, ha de
+comprehender o caracter do Clemente, apreciar as qualidades d'aquella
+excellente alma e aceitar a proposta... e até sem a menor hesitação. É
+um marido a final. As mulheres o que querem é um marido. Talvez até o
+Clemente agrade a Bertha... Hão de ser felizes. Porque não?... Bertha
+não tem aspirações mais solidas... Não póde ter... Aquillo com Mauricio
+é um capricho. Todos se hão de dar bem, e Bertha com a Anna do Védor...
+Que paz domestica! Tudo isto a final é naturalissimo. Eu sou que lhe
+estou dando mais importancia do que merece... Tracta-se de dizer a uma
+rapariga: «ahi está um homem que te pretende para mulher.» A rapariga,
+que não tem maiores aspirações, responde que aceita. E o casamento
+faz-se, e tudo entra no caminho ordinario, e eu mesmo me hei de
+habituar...
+
+A explosão foi maior d'esta vez, que mais prolongado havia sido o
+periodo de repressão.
+
+--Não, não me hei de habituar--exclamou elle agitadissimo--porque...
+porque eu amo-a! Escuso de mentir a mim mesmo. Amo-a! É uma fatalidade,
+mas amo-a. Foi o meu primeiro amor e ha de ser o ultimo. Amo-a e hei de
+padecer horrivelmente, vendo-a casada com outro. Mas, não importa,
+vencerei as minhas paixões. Se continuar a amal-a, ninguem o saberá; se
+odiar Clemente, suffocarei esse odio no coração; e se elle se despedaçar
+n'esse esforço, morrerei sem deixar no mundo o segredo de minha morte. O
+meu destino está definido; é este, o de vencer-me. Principia hoje a
+lucta, vou procurar Thomé da Povoa.
+
+Depois de muitos d'estes combates intimos, Jorge tomou effectivamente o
+caminho da Herdade.
+
+
+
+
+XXVII
+
+
+Entrando na Herdade para cumprir a promessa feita a Clemente, Jorge
+encontrou o fazendeiro, que havia pouco tempo voltára de visitar os
+campos, sentado á modesta banca do seu escriptorio, examinando com
+attenção os livros de assento e algumas cartas que recebêra.
+
+Usando da familiaridade, com que era recebido n'aquella casa, Jorge
+entrára sem se mandar annunciar.
+
+--Olá! viva o snr. Jorge--exclamou o lavrador, voltando-se ao rumor de
+passos que ouvira--venha cá, venha, que temos novidade.
+
+--Então que ha?--perguntou Jorge, sentando-se defronte d'elle.
+
+--Vamos a saber. Teve cartas do Porto?
+
+--Não.
+
+--Hum! É o que eu digo. Se está á espera de que os advogados lhe
+escrevam, bem tem que esperar. Aquelles senhores, sahindo do
+escriptorio, não pensam mais nas demandas nem nos clientes. Olha quem.
+Eu cá entendo-me com os procuradores e não me dou peior. Ora leia.
+
+E passou para as mãos de Jorge uma carta, na qual de facto o procurador
+lhe dava lisonjeiras informações relativamente ao pleito que a Casa
+Mourisca sustentava. A questão tomára uma face nova, depois da juncção
+ao processo de certos documentos de importancia, e o parecer dos juizes
+era favoravel, segundo o que podia conjecturar o procurador, forte
+n'estes prognosticos.
+
+A noticia não podia ser indifferente a Jorge. A boa solução d'esta
+demanda facilitaria consideravelmente os seus projectos economicos; e
+poderia depois tentar mais desembaraçado e com mais efficacia os
+expedientes que a sua meditação e a experiencia de Thomé lhe suggeriam.
+
+--Então que diz a isso?--interrogou o fazendeiro.
+
+--É devéras uma feliz nova.
+
+--Diga-me agora se ha de ou não vir tempo em que aquella casa negra
+tornará a ser o que foi.
+
+--Espero que Deus me conceda essa ventura.
+
+--Agora é necessário escrever para Lisboa para apressar o negocio, e com
+relação áquelles titulos, que parece não estarem muito na ordem,
+recommendo-lhe este procurador, que é homem diligente e seguro.
+
+--Era já minha tenção fallar-lhe n'elle. Deixemos porém agora esta
+materia, porque outro grave motivo me trouxe aqui e tenho pressa de me
+desempenhar da missão.
+
+--Olá! Motivo grave! Pelo modo de dizer parece que se tracta de coisa de
+polpa.
+
+--Não é de pequena gravidade, não--insistiu Jorge--e se quer que lhe
+falle a verdade, Thomé, não me é agradavel a incumbencia.
+
+--Vá lá. Estou d'aqui a adivinhar o que é. Temos algum recado do pae. O
+snr. D. Luiz sabe invental-as de bom feitio. Ás vezes tem lembranças!
+Mas eu já estou prevenido para tudo, venha mais essa. Diga lá.
+
+--Não, Thomé, não se tracta de meu pae. E não cance mais a cabeça, que
+por certo não adivinha, e eu, em duas palavras, ponho-o ao corrente de
+tudo. O Clemente, o filho da Anna do Védor, procurou-me ha poucas horas
+para me pedir que me encarregasse de ser o seu mediador em uma pretenção
+que elle tem dependente de Thomé.
+
+--De mim?! Deve ser bem exquisita para que o rapaz não venha em pessoa
+fallar-me. Então não somos nós amigos?
+
+--Ha delicadeza da parte d'elle n'isto, porque a pretenção de que se
+tracta é de certo melindre. Em uma palavra, estou encarregado de pedir
+para Clemente a mão de Bertha.
+
+Jorge não pronunciou estas palavras com a mesma forçada placidez com que
+até alli sustentára o dialogo. Parecia que os labios as repelliam, como
+se os escaldassem ao passar.
+
+Thomé recebeu sem estranheza a communicação. Mostrou bem que a ideia
+d'essa alliança não era nova para elle, e que não carecia de tempo para
+a examinar, porque todas as faces d'elle lhe eram já conhecidas.
+
+--Ah! pois era isso?--disse elle naturalmente--Escusava de tantas
+ceremonias o rapaz, porque já deve saber por a mãe o que eu penso do
+caso. Pela minha parte não ponho duvida alguma. O Clemente é um rapaz de
+bons sentimentos, honrado como poucos, trabalhador, e tendo já de seu
+alguns haveres, que não são maus principios de vida. É um rapaz de
+lavoura, como não podia deixar de ser o marido de Bertha, que filha de
+lavrador nasceu tambem; mas sempre tem mais um bocadinho de educação do
+que esses machacazes que por ahi conheço, a quem não entregaria a filha,
+nem que m'a pesassem a oiro. O Clemente não, o Clemente é um homem que
+sabe dar valor ás coisas, e ha de conhecer que a minha Bertha sempre se
+creou por a cidade, e que por isso exige outro tractamento que não o
+d'essa raparigada por ahi, que de qualquer maneira está bem. Pois não
+acha que tenho razão, snr. Jorge?
+
+--Sim--respondeu Jorge, levantando-se e encaminhando-se para a janella,
+como para dissipar o despeito, que lhe causava a maneira por que Thomé
+fallava d'aquella alliança--sim, Clemente tem maneiras mais polidas e,
+como diz a mãe d'elle, sabe muito bem fazer uso da senhoria e da
+excellencia pela pratica da correspondencia official.
+
+--Isso lá historias--tornou Thomé, sem perceber a meia ironia das
+palavras de Jorge--que para nada lhe serve a senhoria e a excellencia
+para o casamento. Entre marido e mulher não ficam bem essas ceremonias,
+e não ha como o «tu» entre quem se quer bem.
+
+Estas palavras incommodaram tanto Jorge, que principiou a tocar
+ruidosamente nos vidros como para não as ouvir. «Tu» entre Clemente e
+Bertha!
+
+Thomé continuou:
+
+--Mas eu não queria dizer isso. Quando fallava nas maneiras do Clemente
+queria dizer que elle tem isto, que não sei bem como se chama, isto de
+um homem saber tractar com uma pessoa delicada sem a offender. Porque,
+vê o snr. Jorge? eu conheço homens que tiveram grande educação, muitos
+mestres, e muitos estudos, sim senhores, e que estão sempre a dizer
+coisas que offendem os outros. Emquanto que muitos, que não foram tão
+bem olhados em pequenos, teem lá não sei que dom de conhecer as pessoas
+e sabem viver com ellas sem nunca as escandalisar. Isto é assim como que
+uma delicadeza que se não aprende, que nasce com as pessoas. Ora o
+Clemente é dos taes.
+
+--Em vista do que ouço, reputo-me feliz por ter sido o portador de tão
+fausta nova, e de concorrer, ainda que secundariamente, para obter-lhe
+um genro tão precioso--disse Jorge, cujo despeito se exacerbava.
+
+--Devagar, devagar, esta é cá a minha opinião, mas não sou eu que me
+caso e portanto Bertha é que ha de decidir. Eu não duvido dar conselhos
+a minha filha e dizer-lhe o que penso d'este ou d'aquelle rapaz de quem
+ella se lembre para noivo; mas constrangêl-a, isso é que eu não faço.
+
+--De certo; mas creio que Bertha não será tão cega, que não veja as
+excellencias que concorrem na pessoa de Clemente, e que se não lisonjeie
+da preferencia que lhe mereceu.
+
+--Pois eu tambem quero crêr que o não engeitará. Mas emfim, a gente vê
+as coisas com uns olhos e ellas com outros. Por muito ajuizadas que
+sejam, as raparigas a final teem olhos de raparigas e ás vezes lá
+descobrem em um homem umas coisas, que as captivam ou que as desgostam,
+e ninguem póde saber o que lhes agradará mais. Em todo o caso eu vou
+consultal-a.
+
+--Muito bem. Consulte-a e se, como é de esperar do juizo d'ella,
+Clemente fôr bem acolhido, dê-me parte para o participar ao meu
+constituinte.
+
+Jorge não podia despojar as suas palavras de todo o tom de ironia, ao
+referir-se a Clemente.
+
+--Mas...--disse com certa hesitação Thomé--então retira-se já?
+
+--Pois não diz que vae consultar Bertha?
+
+--Mas, se se demorasse, podia já saber...
+
+--A urgencia não é tanta que se torne necessario esperar. Mas emfim
+esperarei. Vou dar uma volta pelo campo, emquanto lhe falla.
+
+--E tinha duvida em ficar?
+
+--Ficar onde?
+
+--Aqui.
+
+--A fazer o quê?
+
+--A ouvir a resposta de Bertha.
+
+--Eu?!--exclamou Jorge, com uma vivacidade que para Thomé não tinha
+explicação.
+
+--Então que tem? Não se tracta de segredo algum. É uma proposta que vou
+fazer a minha filha e á qual ella responderá sim ou não, e está acabado.
+A presença do snr. Jorge nada estorva. Antes poderia dar á pequena
+informações a respeito do Clemente, que ella conhece mal...
+
+--O quê?! Thomé!--acudiu Jorge irritado--pois cuida que eu me encarrego
+de similhante papel? Eu? Que interesse tenho eu em que Bertha aceite a
+proposta de Clemente? Que certeza posso dar-lhe de que fará bem
+aceitando-a? Eu sei lá? Clemente é um rapaz de quem sou amigo, mas não
+sei nem quero saber se d'elle se fará um bom marido. A respeito de
+casamentos não dou conselhos. Não quero que me lancem depois as culpas.
+N'esse assumpto cada um escolha por si, porque para si escolhe.
+Informações a respeito do Clemente! Eu?! Mas que informações quer que eu
+dê?
+
+--Pois não diz que é seu amigo?--tornou Thomé, um pouco admirado com as
+maneiras impertinentes que notava em Jorge--Não é essa já pequena
+garantia para a minha Bertha, que sabe o valor que teem os homens, a
+quem o snr. Jorge dá esse nome.
+
+--Ah! não sabia que eu era a pedra de toque no conceito de Bertha para
+julgar dos caracteres dos homens. Mais um motivo para ser reservado.
+
+--Diga-me uma coisa, snr. Jorge--insistiu Thomé, e em tom mais
+decidido--se soubesse que o Clemente era um miseravel, um vicioso, um
+extravagante, de más qualidades, e estivesse persuadido de que seria um
+mau marido, ter-se-ia encarregado de pedir-me, em nome d'elle, a mão de
+minha filha?
+
+--Por certo que não--respondeu Jorge promptamente e com toda a lealdade.
+
+--Muito bem; pois é isso mesmo que eu desejava que minha filha soubesse.
+O snr. Jorge não lhe daria conselhos, dir-lhe-ia sómente: encarreguei-me
+de dar este passo, porque este homem é um homem honrado. Agora o mais é
+com ella. Mas isso poria as coisas no seu logar. Porém uma vez que não
+quer...
+
+Passava-se n'aquelle momento na alma de Jorge uma lucta de resoluções
+antagonistas. Se por um lado lhe repugnava a proposta de Thomé,
+tentava-o por outro a curiosidade dolorosa de saber como Bertha
+acolheria o pedido de Clemente e a resposta que lhe daria. Receiava que
+a intima commoção, que procurava suffocar, se trahisse na presença de
+Bertha em tão solemne momento, e ao mesmo tempo custava-lhe renunciar a
+observal-a quando ouvisse a proposta do pae. A curiosidade venceu.
+Esforçando-se por desvanecer todos os vestigios da sua perturbação,
+Jorge respondeu a Thomé no tom da maior indiferença, que, visto que elle
+julgava conveniente a sua presença durante a entrevista que ia ter com a
+filha, pela sua parte não oppunba objecção.
+
+E sentando-se outra vez á banca, abriu ao acaso um livro, que fingiu
+examinar attento, mal podendo reprimir o tremor da mão com que o
+segurava.
+
+Thomé da Povoa chamou a filha ao escriptorio.
+
+Jorge ouviu os passos de Bertha, descendo as escadas; sentiu-a abrir a
+porta e entrar na sala; levantou timidamente os olhos para responder ao
+comprimento que ella lhe dirigiu e baixou-os novamente sobre o livro que
+abrira.
+
+Bertha olhou interrogadoramente para o pae, que permanecia silencioso,
+como quem estudava a maneira de principiar.
+
+A final entrou assim no assumpto:
+
+--Mandei chamar-te, Bertha, porque se tracta d'um negocio serio, que te
+diz respeito.
+
+--A mim?--perguntou Bertha admirada, alternando os olhares entre o pae e
+Jorge, que não erguia os seus.
+
+--Sim, filha, a ti. O caso não é de espantar. Ha um rapaz n'esta terra,
+um moço honrado e trabalhador, a quem tu agradaste e que te pede para
+mulher.
+
+Jorge aventurou um olhar furtivo para o rosto de Bertha. Viu-o mudar
+rapidamente de côr; córou primeiro, empallideceu depois.
+
+--Este rapaz--proseguiu Thomé--é já teu conhecido. É o Clemente, o filho
+da ti'Anna do Védor, de quem és amiga. Agora decide lá.
+
+Bertha permanecia silenciosa, como se a inesperada noticia lhe tivesse
+tirado o uso das faculdades, a ponto de não comprehender o que ouvira.
+
+Notando o silencio da filha, Thomé acrescentou:
+
+--O snr. Jorge foi quem teve a bondade de se encarregar do pedido de
+Clemente, porque o rapaz não teve coragem para o fazer em pessoa.
+
+Jorge franziu ligeiramente o sobrolho, a estas palavras, que não quizera
+ouvir.
+
+Bertha estremeceu e desviou para Jorge um olhar expressivo de profunda
+amargura, que elle não observou. Voltando-se depois para o pae,
+perguntou-lhe com a voz tremula e prêsa pela commoção:
+
+--E que respondeu o pae ao pedido que lhe fez, em nome de Clemente, o
+snr. Jorge?
+
+--Eu, filha?--respondeu Thomé--Pela minha parte disse e digo que não
+ponho estorvos. Conheço o rapaz, sei as qualidades que elle tem e para
+genro agrada-me. Mas isso não tira. Tu é que deves dizer se elle te
+agrada para marido.
+
+Bertha baixou, durante alguns momentos, os olhos e não respondeu. Depois
+ergueu-os e fitou-os em Jorge, como a procurar-lhe penetrar no
+pensamento; a final com voz já mais firme, mas commovida ainda, disse:
+
+--Visto que foi o snr. Jorge quem se encarregou d'essa proposta,
+parece-me ter direito a pedir tambem a sua opinião a respeito d'ella.
+
+Jorge estremeceu e olhou para Bertha de uma maneira que denunciava um
+intimo sobresalto.
+
+--A minha opinião?--repetiu elle, sem saber o que dizia.
+
+--Sim, o snr. Jorge é amigo de meu pae, e julgo que meu amigo tambem.
+Não ha de querer vêr-me infeliz. Encarregando-se de dar o passo que deu,
+é de certo porque julga que eu poderei encontrar a felicidade, seguindo
+o caminho que me facilita assim. A sua lealdade obriga-o a dizel-o
+francamente, se assim o pensa. E eu atrevo-me a exigil-o da sua
+lealdade.
+
+--Eu apenas cumpri a missão de que me encarregaram, mas não
+aconselho--balbuciou Jorge.
+
+--O snr. Jorge é demasiado sincero na sua amizade a meu pae para aceitar
+essa missão de um homem de quem receiasse que me podia vir a
+infelicidade. Quero acredital-o.
+
+Jorge irritou-se; irritou-se contra si por a turbação que sentia, e
+contra Bertha, por suspeitar que era o amor a Mauricio que lhe estava
+dictando aquellas palavras; por isso respondeu com o tom ironico do
+costume:
+
+--Não duvido affirmar que o Clemente é um excellente rapaz, que póde
+fazer feliz qualquer mulher que não aspira a mais do que á estima leal e
+sincera de um homem de bem. Vejo em Clemente garantias de que dará a uma
+esposa de ideias razoaveis aquella felicidade que consiste na paz
+domestica e no amor da familia. Mas eu não sei se isto satisfará a toda
+a gente. Ahi está que as educações modernas fazem ás vezes o espirito
+das mulheres mais exigente e habituam-nas a sonhar com umas certas
+poesias na vida, que um homem como o Clemente sem duvida não póde
+realisar. A essas agrada ás vezes mais qualquer estouvado, com a cabeça
+cheia de loucuras e o coração vazio, mas que tenha a brilhante qualidade
+de saber dizer falsidades em bonitas palavras.
+
+Depois, reprimindo esta excepcional vivacidade, que estava espantando
+Thomé, acrescentou:
+
+--Se, como creio, Bertha não está n'este caso, parece-me que encontrará
+em Clemente um marido leal.
+
+Estas palavras pronunciou-as Jorge em tom sumido e baixando de novo o
+olhar para o livro que não lia.
+
+Thomé voltou á falla:
+
+--Sabes que mais, Bertha, estas coisas querem-se pensadas. Tu darás a
+resposta quando quizeres, que a pressa não é muita.
+
+Bertha atalhou:
+
+--Não é necessário, meu pae. A minha resolução está formada. Póde mandar
+dizer a Clemente que aceito.
+
+Jorge sentiu ennevoarem-se as letras do livro, como se lhe passasse por
+diante uma nuvem escura.
+
+Thomé insistiu:
+
+--Não, filha; para que has de ser tão apressada? Valha-te Deus. Pensa e
+depois resolverás.
+
+--Já resolvi, meu pae--repetiu Bertha com firmeza.--Clemente é um homem
+honrado, eu não posso aspirar a mais. Dizem que é uma alma generosa, ha
+de estimar-me, eu não procuro outras delicadezas além d'aquellas que
+sabem poupar-nos uma offensa immerecida. E é tão facil evitar offender
+uma rapariga como eu!
+
+E dizendo isto desviava na direcção de Jorge um olhar intencional.
+
+
+--Póde mandar dizer a Clemente que aceito, meu pae--repetiu ella,
+concluindo.
+
+--Vê lá! Olha que eu não quero que te constranjas! E agora deixa-me
+tambem fallar a tua mãe, que sem a ouvir não é bom decidir nada.
+Espera-me aqui um pouco, que eu vou chamal-a.
+
+E sem aguardar reflexões, Thomé, intimamente satisfeito com a prompta
+condescendencia da filha, sahiu da sala em procura de Luiza.
+
+Jorge não desejaria conservar-se mais tempo alli, só, na presença de
+Bertha, mas faltou-lhe o animo para levantar-se. Ambos se conservaram
+calados por algum tempo.
+
+Jorge nem levantára os olhos do livro.
+
+Bertha foi quem primeiro rompeu aquelle glacial silencio.
+
+--Devo-lhe agradecer, snr. Jorge, o muito cuidado que lhe merece a minha
+felicidade.
+
+Jorge ergueu a cabeça e fitou os olhos no semblante de Bertha.
+
+A violencia que ella fazia para reprimir a sua profunda commoção era bem
+manifesta.
+
+--Espero que Bertha se não decidisse pelo partido que adoptou, senão por
+sua livre vontade--disse Jorge com mais brandura do que até alli--e que
+a minha ingerencia em tudo isto não influisse de maneira alguma para
+obrigal-a a sacrificar a sua felicidade...
+
+--Oh! por certo que não--atalhou Bertha, cada vez mais agitada--eu sou.
+.. hei de ser muito feliz...
+
+E não podendo reter mais tempo as lagrimas que lhe subiam impetuosas aos
+olhos, occultou o rosto entre as mãos e poz-se a chorar.
+
+Jorge aproximou-se d'ella com compassiva solicitude.
+
+--Porque chora, Bertha?--perguntou elle com affabilidade.--Se por acaso
+foi contra sua vontade que deu aquella resposta, ainda está em tempo.
+Ninguem lhe pede um sacrificio, repare. Porque chora assim, Bertha?
+
+Em vez de responder, Bertha elevando para Jorge os olhos banhados de
+lagrimas, perguntou com a voz tremula ainda:
+
+--Ficará pelo menos extincta de uma vez com este sacrificio a aversão
+que me tem, snr. Jorge?
+
+Jorge estremeceu.
+
+--A aversão que lhe tenho?! Que diz, Bertha?! Pois imagina?...
+
+--E quer ainda negal-a? Não sei em que lh'a tenho merecido, mas existe e
+bem clara se manifestou agora.
+
+--Bertha!...
+
+--Não lh'o disse eu já no outro dia? E agora o que o moveu a
+encarregar-se d'essa proposta? e porque o fez com aquellas palavras
+crueis? Eu bem as percebi. Meu Deus, em que foi que o offendi, snr.
+Jorge, para ser tão severo commigo, quando para com todos é tão
+indulgente? A minha educação... Deus sabe se me deixei fascinar por
+ella, Deus sabe se não luctei sempre contra a imaginação, quando ella me
+fazia conceber loucuras, como a todas as raparigas da minha idade. Quem
+póde condemnar-me por ellas, se eu sou a primeira que as condemno? Em
+que tenho mostrado esses defeitos de educação, que tão severamente me
+censura? Se soubesse, snr. Jorge, como, percebendo o seu desdem, tenho
+sido escrupulosa em procurar em todos os meus actos o motivo d'elle...
+Deus é testemunha de que nada descobri. Falle, já agora que está
+consummado o sacrificio, já agora que deve julgar satisfeita a expiação
+que me impoz, tenho direito a exigir de si o cumprimento da promessa,
+que ha poucos dias não ousou recusar-me. Bem vê, se descobriu em mim
+culpas, para remir as quaes me marcou esta penitencia, bem vê com que
+resignação eu a aceito e a cumpro. Valha-me pelo menos este pouco merito
+para obter da sua parte uma declaração franca, já que não póde
+valer-me... a sua amizade. Falle, snr. Jorge, diga-me porque me quer
+mal, o que fiz eu, que más qualidades descobriu em mim para me tractar
+como tracta? Falle.
+
+E a commoção cortava-lhe em meio as palavras ao dizer isto. Jorge não
+estava menos commovido.
+
+Bertha deixára-se cahir soluçando em uma cadeira, e escondia o rosto
+entre as mãos; Jorge, cujo semblante já não conservava vestigios da sua
+fria e habitual reserva, veio sentar-se junto d'ella, tornou-lhe
+afectuosamente as mãos, e dirigindo-se-lhe com brandura, disse-lhe:
+
+--Vou satisfazêl-a, Bertha; vou ser sincero e leal comsigo, já que assim
+o quer. Escute-me e saberá a causa occulta de todo o meu estranho
+procedimento. Olhe bem para mim, Bertha, para lêr no meu semblante a
+sinceridade da minha confissão.
+
+Bertha ergueu para elle os olhos humidos de pranto.
+
+Jorge proseguiu, apertando-lhe com mais fervor as mãos que conservava
+nas suas.
+
+--A causa intima, a causa occulta das minhas acções para comsigo,
+Bertha, essa causa mysteriosa que eu procurava esconder da vista de
+todos e suffocar no meu coração... quer sabêl-a, Bertha? Essa causa é o
+muito amor que lhe tenho.
+
+Bertha estremeceu e, retirando as mãos das de Jorge, levou-as ao rosto
+como para reprimir um grito.
+
+Jorge proseguiu:
+
+--Agora ha de escutar-me, Bertha. Os corações reservados, como o meu,
+quando chegam a soltar a primeira confidencia precisam de se revelar
+inteiros; escute-me. Amo-a; amava-a antes mesmo de a ver depois do seu
+regresso á aldeia. Insinuou-se-me na alma este amor no meio das minhas
+preoccupações e dos meus cuidados, sem eu bem saber como. Ouvia fallar
+de si a seu pae, lia as suas cartas, pensava em si e... e amei-a. Foi o
+meu primeiro amor. Nunca tinha sentido outro, nunca sentira até a
+necessidade de amar. Nenhuma mulher me havia escutado uma só palavra de
+galanteio. Persuadira-me eu proprio de que o meu coração era superior á
+violencia dos affectos, a que os outros cediam. Quando, pelo que senti,
+me vi forçado a abandonar esta crença, quando comecei a duvidar da minha
+immunidade, assustei-me e irritei-me contra mim mesmo por me achar
+fraco. Quiz luctar e vencer essa paixão que, a despeito da minha
+vontade, sentia occupar cada vez mais espaço no meu coração. Ai, Bertha,
+começou para mim uma lucta extenuadora; quanto mais resistia, tanto mais
+me sentia subjugado. Revoltei-me contra a fatalidade d'este affecto,
+revoltei-me contra si, Bertha, a quem desejava querer mal por o muito
+que a amava já. D'ahi a rudeza das minhas palavras, a quasi hostilidade
+do meu proceder para comsigo. Para apagar o prestigio que o seu nome,
+que a sua imagem tinham adquirido no meu coração, suppunha-lhe defeitos
+imaginarios, inventava-lhe vicios de educação, procurava assim alienar
+de si os meus affectos, antes que chegasse o temido momento de vêl-a; em
+vão, cada vez a amava mais, e no dia em que finalmente a tornei a ver,
+conheci que era irremediavel aquella fatalidade; amava-a e muito e
+tanto, que até ciumes sentia já.
+
+Bertha, a estas palavras, levantou os olhos para elle.
+
+Jorge proseguiu respondendo áquelle gesto:
+
+--Ciumes, sim, Bertha; ciumes que ralavam, ciumes que me enchiam de
+remorsos, e que envenenavam quasi o afecto que me ligava a meu irmão.
+Porque era d'elle que os sentia. Veja que má loucura a minha! É a
+Mauricio que Bertha ama, pensava eu, seduzem-n'a as qualidades
+brilhantes de meu irmão, e comtudo elle não a ama como eu. Então
+indignava-me contra si, Bertha, e contra mim proprio, porque a amava
+tanto.
+
+A uma pequena pausa que Jorge fez na sua apaixonada exposição, Bertha
+ergueu outra vez os olhos para elle, e n'esse olhar ia a condemnação
+d'aquelles ciumes.
+
+Jorge continuou:
+
+--E porque me assustava tanto este amor? Porque tentava resistir-lhe
+assim? Ao principio foi pela estranheza que me causou este sentimento
+novo e desconhecido. Depois, o receio de que fosse descoberto este amor
+em um homem que todos suppunham incapaz de amar; um quasi pudor de
+coração. Finalmente veio a reflexão augmentar estes receios. Se este
+affecto crescesse e me dominasse como paixão violenta e exclusiva, que
+obstaculos não teria a vencer! que preconceitos não teria de calcar!
+Desprezando arreigados prejuizos de meu pae, incorrêra eu já nas suas
+iras, mas d'essa vez desattendi-os, menos pela minha felicidade, do que
+pela d'elle; para salvar o nome e a honra da nossa familia, a cuja
+aviltação meu pae não sobreviveria. Tive por isso coragem para luctar e
+tenho-a para proseguir. Mas agora tractava-se sómente da minha
+felicidade; era só a elle que eu teria de sacrificar os preconceitos, o
+orgulho, as radicadas opiniões d'aquelle honrado velho. Faltava-me o
+alento para tental-o. Preferia dar-lhe em holocausto o meu coração. E o
+sacrificio devia ser definitivo, porque a memoria de meu pae o exigiria
+de mim, impôr-m'o-ia tão fortemente como elle proprio. Mas, se este amor
+fosse correspondido, faltar-me-ia o animo e até o direito de o
+sacrificar assim. Por isso fugi de me revelar, Bertha, por isso tentei
+antes fazer-me aborrecido do que estimado de si, de quem eu apreciaria o
+amor como um dom do céo. Creia. Por isso aceitei com o coração a
+despedaçar-se-me, mas com certo doloroso prazer, a missão de que me
+encarregou Clemente. Deus sabe o que eu soffria ha pouco. A sua
+condescendencia torturava-me, nas suas hesitações julgava descobrir
+vestigios de uma affeição... por Mauricio. D'ahi vieram todas as
+loucuras que eu disse. Eis o segredo do meu coração, Bertha, eis o
+mysterio das minhas acções. Agora julgue-me e perdoe-me. Bem vê que
+tambem soffro.
+
+E, terminando estas palavras, Jorge inclinou a fronte sobre a mão, como
+se o esforço que fizera o tivesse extenuado.
+
+Bertha foi d'esta vez a que primeiro interrompeu aquelle silencio
+eloquente de paixão; com a voz ainda sobresaltada, mas com o olhar
+seguro, ella respondeu apertando a mão de Jorge:
+
+--A sua confidencia leal e a sua generosidade deu-me coragem de ser
+tambem sincera. Jorge, repare; sem o menor receio nem hesitação, com o
+olhar erguido diante do seu, vencida por a confiança que se sente em uma
+alma tão nobremente generosa, tambem lhe faço a minha confidencia.
+Jorge... eu também o amava...
+
+Jorge ergueu a cabeça ao ouvir a inesperada declaração, e por momentos
+brilhou-lhe no rosto um clarão de alegria.
+
+Bertha, baixando timidamente os olhos, continuou:
+
+--Sim, tambem o amava; mas tambem tinha comprehendido a necessidade do
+sacrificio de que falla, e não serei de certo eu quem lhe tire o animo
+de realisal-o. É antes para lhe dar coragem que lhe fallo assim; para
+que a certeza de que alguem soffre comsigo lhe dê allivio no
+soffrimento. Venero e estimo seu pae, como se fosse o meu, Jorge, e para
+lhe evitar uma dôr, não acho grande o sacrificio do meu coração e dos
+meus affectos. E agora muito menos; deu-me a certeza de que me não
+despreza. Era essa suspeita que me torturava. Agora sou feliz, e
+sinto-me corajosa. Encaro sem desalento o meu dever e o meu futuro. Não
+serão obstaculo os sentimentos da minha alma; porque n'elles sinto eu
+antes auxilio. É d'esta natureza o amor que lhe tenho, Jorge. Amando-o,
+aceitarei sem remorsos a proposta de Clemente. Vê? É porque este affecto
+ennobrece, e emquanto o sentir não receio de me tornar indigna d'elle.
+Apenas fallarei com lealdade a meu noivo, para dizer-lhe que não posso
+prometter-lhe amor, porque o não sinto por elle.
+
+--Não, Bertha, não; não aceite a proposta de Clemente. Se é verdade que
+me ama, não aceite...
+
+--Porque não, Jorge? Creia-me. É a mais segura maneira de vencermos este
+sentimento, que a nosso pezar nos dominou. Ambos nós respeitamos muito o
+dever. Elle nos dará coragem.
+
+--Bertha; diga outra vez que me ama; diga-me que me illudi sempre em
+relação aos seus sentimentos, e eu vencerei as resistencias que se
+oppozerem a este amor, como tenho vencido as que luctavam contra os
+projectos que formei de salvar a minha casa de ruina.
+
+--Que diz, Jorge? Nunca me poderá vir a felicidade da discordia da sua
+familia e bem vê que era inevitavel. Eu sou a filha de Thomé da Povoa,
+lembro-me d'isso, Jorge; de Thomé da Povoa, o antigo criado da Casa
+Mourisca; o homem de quem o snr. D. Luiz recebe os serviços como
+humilhações e insultos. Seu pae estima-me; ainda ha bem pouco me
+abençoou, como se eu fosse sua filha. Não queira obrigar-me a perder
+essa estima, que tanto prézo. Não seria feliz depois; não podia sêl-o.
+Assim conservarei a amizade de todos... porque o snr. Jorge ha de
+estimar-me sempre, não é verdade?
+
+--Hei de adoral-a, Bertha--murmurou Jorge, submettido.
+
+--Vamos; procedamos agora como se nada se passasse entre nós. Ganhemos
+coragem para cada um cumprir o seu dever e separemo-nos como bons
+amigos.
+
+E commovida ainda, estendeu a mão a Jorge, que a levou apaixonadamente
+aos labios, cobrindo-a de beijos.
+
+--Bertha, Bertha, não será quasi um crime o que fazemos? Despedirmo-nos
+assim quando pela primeira vez nos revelamos?
+
+--Não, Jorge, não é. É um dever... doloroso, mas é um dever.
+
+Ouviram-se as vozes de Thomé e de Luiza, que voltavam.
+
+Jorge ergueu-se sobresaltado:
+
+--Não posso simular a placidez necessaria para fallar-lhes e ouvil-os
+fallar n'este casamento, Bertha; como hei de ter animo para o
+presenciar? Adeus e... se lhe faltar a coragem... tudo se remediará
+ainda.
+
+--Adeus, Jorge. Havemos de ser dignos um do outro. Não fraquearemos.
+
+E Jorge sahiu da sala para não se encontrar com Thomé.
+
+Bertha recebeu os paes já com os olhos enxutos, ainda que agitada pela
+violencia da ultima scena.
+
+Luiza parecia mediocremente encantada com a perspectiva do casamento que
+tanto satisfazia Thomé.
+
+--Então é verdade, Bertha? E tu querel-o?--perguntou ella em tom de quem
+duvidava.
+
+--Sim, minha mãe, julgo que devo aceitar.
+
+--E... e o snr. Jorge... tambem te aconselhou?
+
+--Sim--respondeu Bertha mais enleiada--o snr. Jorge é de parecer que
+sim.
+
+--Já se retirou?--perguntou Thomé da Povoa, procurando-o com a vista.
+
+--Já. Disse que não podia demorar-se. E eu peço licença para me retirar
+tambem.
+
+E Bertha apressou-se a sahir da sala para se esconder no seu quarto e
+chorar.
+
+--Emfim!--concluiu Luiza, suspirando e depois de seguir a filha com a
+vista--Vossês lá o lêem, lá o entendem. Mas não era isto o que eu
+esperava.
+
+--Então que esperavas tu?--perguntou Thomé, levemente
+despeitado.--Julgavas talvez que viria por ahi algum principe pedir-te a
+filha para casar?
+
+--Eu cá me entendo.
+
+--E eu tambem te entendo. Que ainda ninguem te pôde tirar da cabeça umas
+teias de aranha que lá se metteram. Agora pelo menos deves estar
+desenganada.
+
+Luiza suspirou e não deu resposta. Mas pensava comsigo:
+
+--Bertha já eu vi, e a cara não é de noiva contente. Tenho pena de não
+vêr a d'elle. Mas emfim, seja o que Deus quizer!
+
+
+
+
+XXVIII
+
+
+Tinham decorrido alguns dias desde que a baroneza principiára a receber
+de Mauricio signaes inequivocos de um galanteio, que ella com as mais
+louvaveis intenções favorecia.
+
+Durante todo este tempo o leviano rapaz consagrára à sua nova paixão
+todos os instantes, sujeitava-lhe todos os pensamentos. Não perdia a
+menor occasião de se encontrar com a prima e de renovar as scenas, que a
+agudeza de genio e a vivacidade de espirito de Gabriella sabiam rodear
+de attractivos inteiramente novos para a inexperiencia do apaixonado
+moço.
+
+Em época alguma tinham os criados conhecido Mauricio tão caseiro como
+então; cessaram as suas correrias pelos arredores, e os cavallos só eram
+por elle tirados da ociosidade quando Gabriella se lembrava de passeiar
+pelos campos. Mauricio era então certo a acompanhal-a.
+
+Este estado de coisas inquietava porém a baroneza.
+
+Caracteres, como o de Mauricio, por muito os vêr na roda da sociedade em
+que vivia, já para ella não tinham segredos não estudados. Não confiava
+tanto no prestigio que actualmente exercia no animo de seu joven e
+voluvel primo, que não temesse a influencia que poderia exercer sobre
+elle a monotonia das impressões da vida que elle passava nos Bacellos.
+
+A baroneza tinha, é verdade, immensos recursos para varial-as. Estava
+ainda longe de os dar por esgotados. Quando Mauricio julgava ter
+conhecido a verdadeira feição moral de Gabriella, ella desilludia-o,
+impressionando-o sob uma feição nova.
+
+Umas vezes fallava-lhe com uma seriedade maternal; outras parecia
+abrir-se-lhe na mais fraternal expansão; mostrava-se-lhe mais tarde
+reservada e discreta; depois satyrica e espirituosa, e sempre cheia de
+encantos, que com perfeitissimo conhecimento e uso da arte sabia fazer
+realçar.
+
+Apesar d'isso, porém, a baroneza antevia perigos na prolongação
+d'aquella vida monotona, e sentia a necessidade de dar um golpe
+decisivo.
+
+Era preciso partir para Lisboa e obrigar Mauricio a seguil-a.
+
+A demora d'este projecto poderia mallogral-o. Resolveu portanto apressar
+a sua partida.
+
+Uma circumstancia, porém, a tornára difficil.
+
+Os successivos desgostos que tinham ferido o coração de D. Luiz, a
+resignação que elle fizera dos seus antigos habitos, a homisiação a que
+condemnou successivamente ambos os filhos, as saudades avivadas de
+Beatriz, o desconforto do seu viver actual, sem esperanças de melhor
+futuro, e por ventura com remorsos do passado, todas estas influencias
+acabaram por prostrar de desalento o velho fidalgo, e por acabrunhal-o e
+envelhecêl-o em poucos dias, como se estes se contassem por annos.
+
+Nada o distrahia. As gazetas, em cuja leitura alimentava outr'ora a
+chamma legitimista, que lhe abrazava o coração, enfastiavam-n'o, e
+tinham sido intencionalmente desviadas pela baroneza; a companhia e a
+conversação de frei Januario não as podia já aturar sem impaciencia;
+perdeu o gosto para tudo, e principiou a adquirir habitos
+progressivamente sedentarios.
+
+Interrompeu os seus passeios, deixou de apparecer á mesa, jantava e
+almoçava no quarto, e acabou por passar quasi todo o dia na cama,
+debilitando-se n'esta inacção a olhos vistos.
+
+Gabriella via com cuidado os symptomas d'este crescente abatimento
+physico e moral, e procurava combatel-o por todos os meios.
+
+Ia para o quarto do tio, e variando a conversa e temperando-a com todas
+as graças que o espirito e o estudo lhe suggeriam, conseguia distrahil-o
+e chegava até a fazêl-o sorrir.
+
+Outras vezes entretinha-o, lendo-lhe em voz alta, e escolhia livros que,
+no dizer della podassem adoçar as cruezas do genio do fidalgo e
+amaciar-lhe as aspereza das suas escamas aristocraticas. Quantas
+occasiões D. Luiz escutava attento e commovido os episodios de certos
+livros, mansamente revolucionarios, e abria desprevenido o coração a
+doutrinas subversivas dos seus velhos preconceitos, tão occultas ellas
+se lhe ensinuavam entre os artificios da concepção e da linguagem!
+
+A baroneza tinha muita fé n'esta vaccina litteraria.
+
+O resultado porém de tudo isto foi que assim que ella tentou partir para
+Lisboa, encontrou no tio uma reluctancia com que não havia contado.
+
+O pobre velho, fraco, triste e doente, havia-se costumado á companhia
+d'aquella mulher cheia de vida, de intelligencia e de alegria, e
+queria-lhe com o apêgo que, n'essas idades, a alma contrahe a todas as
+imagens que lhe recordam o tempo em que se conheceu joven e vigorosa.
+
+D. Luiz experimentava quasi um secreto terror ao lembrar-se de que a
+baroneza o havia de deixar. Quem viria sentar-se ao lado do seu
+melancolico leito, assim que ella partisse? Os filhos afastára-os para
+longe de si, em castigo dos delictos com que tanto o haviam offendido.
+Frei Januario era-lhe insupportavel.
+
+Mas ficar só, viver só, pensar só, alli n'aquella casa que nem era sua,
+só nas suas longas e melancolicas vigilias, com as escuras memorias do
+seu passado, com as sombrias apprehensões pelo futuro... esta ideia
+aterrava-o. Quando Gabriella alludia á sua próxima partida, elle
+desviava o sentido da conversa e claramente lhe pedia que não fallasse
+n'isso.
+
+A baroneza via-se pois obrigada a transferir indefinidamente o seu
+projecto de deixar a aldeia.
+
+Comtudo cada dia que se demorava nos Bacellos contava-o ella como uma
+probabilidade menos a favor dos seus planos!
+
+Esta difficil situação em que se via, obrigou-a a pensar seriamente no
+partido que devia adoptar.
+
+Era preciso descobrir um meio de abandonar a aldeia e voltar a Lisboa,
+sem causar a D. Luiz o desgosto e a pena que, no estado de saude e de
+espirito em que o via, ella receiava que lhe podésse ser fatal.
+
+Uma manhã foi ella procurar o seu primo Jorge, muito convencida de que
+tinha emfim descoberto o expediente que procurava.
+
+Jorge trabalhava com uma actividade febril, depois que se ajustára o
+casamento de Bertha. Parecia querer procurar no trabalho uma embriaguez
+que lhe amortecesse as dôres do coração, que aquelle facto lhe
+produzira. Mas a violencia do esforço cançava-o, e bem claro o revelava
+na pallidez e depressão da physionomia.
+
+Gabriella não pôde deixar de fazer uma observação mal o viu aquella
+manhã:
+
+--É preciso cautela, primo Jorge. Nada de trabalho immoderado! Lembra-te
+de que a tua constituição não é para taes fadigas.
+
+--Porque me diz isso?
+
+--Porque te estou lendo no rosto a necessidade de ar livre, de sol, de
+exercicio e de distracção do pensamento.
+
+--Effeitos de uma noite mal passada. Eu não me sinto cançado.
+
+--Embora. Sê prudente. Olha que o bom exito dos teus planos depende da
+tua perseverança, e a perseverança está mais na continuação dos esforços
+do que na violencia d'elles.
+
+--Creia que me sei poupar.
+
+--Muito bem. Agora farás o favor de fechar esses livros e de me escutar,
+porque tenho que te dizer.
+
+--Ás suas ordens--respondeu Jorge obedecendo-lhe.
+
+--Entrarei sem demora no assumpto. Sabes que formei o plano de partir
+ámanhã pela madrugada para Lisboa?
+
+--Então que urgencias são essas?
+
+--É que se não tomo uma resolução assim, não acabo de partir. Vou de
+adiamento em adiamento até ao fim do anno. E é indispensavel que parta.
+
+--Indispensavel!--repetiu Jorge com ar de duvida.
+
+--Com certeza que é. Além do que é necessario arranjarmos Mauricio. Has
+de concordar commigo, que esta vida perde-o. Cada dia que se passa para
+elle n'esta ociosidade campestre, exerce uma funesta influencia sobre
+aquelle caracter, aliás de muito aproveitaveis qualidades.
+
+--Isso é assim. Porém Maurício que parta só.
+
+--Não partirá.
+
+--Porquê?
+
+Gabriella hesitou em dar a razão que Jorge lhe pedia, e respondeu
+evasivamente.
+
+--Sei que não partirá. Demais é conveniente que eu lhe prepare o caminho
+em Lisboa e por isso preciso de lá ir.
+
+--Porém meu pae?
+
+--Pois ahi é que está a dificuldade, e por causa d'isso é que eu
+reclamei esta conferencia.
+
+--Então?
+
+--O tio Luiz está bastante doente. Do corpo e do espirito. Chega a
+dar-me cuidados. N'aquelle estado não póde prescindir de certos carinhos
+e desvelos, proprios só de uma mulher. São-lhe já tão indispensaveis,
+que elle, coitado, aterra-se sómente com a ideia de ter de viver sem
+elles. Por isso não quer ouvir fallar na minha partida. A mim mesma me
+custa deixal-o, porque sei que lhe hei de fazer falta.
+
+--E contudo diz que parte ámanhã!
+
+--É verdade, porque julgo ter descoberto uma combinação que remediará
+tudo.
+
+--Qual é?
+
+--É preciso substituir-me. É preciso sentar uma mulher á cabeceira do
+tio Luiz, mas uma mulher que o estime, que olhe por elle, que o distraia
+e a quem elle consagre uma affeição que o faça esquecer de mim, e que
+lhe torne essa enfermeira ainda mais necessaria do que eu hoje lhe sou,
+e ninguem mais está n'este caso do que a afilhada d'elle, essa rapariga
+por quem o tio parece haver já manifestado uma particular sympathia, e
+que melhor do que ninguem póde vir a exercer sobre elle uma influencia
+salutar; n'uma palavra, Bertha da Povoa, a filha do Thomé.
+
+Jorge não pôde reprimir um movimento de contrariedade ao escutar o
+projecto da baroneza.
+
+Ergueu-se da mesa, junto da qual estivera sentado, e disse com certo
+modo sacudido, como exprimindo uma opinião irrevogavel:
+
+--Não póde ser.
+
+--Porquê?--perguntou Gabriella.
+
+--Porque... porque não.
+
+--Quererás dar-te ao incommodo de procurar outra razão mais logica,
+primo Jorge?
+
+--Meu pae não aceitaria os cuidados da filha do Thomé da Povoa.
+
+--Primeiro que tudo é preciso que consideres que o doente que eu deixo
+lá dentro não é já aquelle D. Luiz que nós ambos conhecemos na Casa
+Mourisca; depois Bertha para elle é raras vezes a filha do Thomé, é a
+amiga de Beatriz, é a imagem viva d'aquelle anjo, que elle ainda hoje
+chora. Teu pae não terá coragem para afugentar Bertha de junto do seu
+leito, e difficil será tiral-a de lá.
+
+--Thomé não consentiria...
+
+--O Thomé é um homem generoso e que, apesar de tudo, tem uma sincera
+affeição ao tio Luiz. O Jorge bem o sabe.
+
+--Mas...
+
+--Mas, a final de contas, a principal objecção está em que o primo Jorge
+não quer. E porque não quer?
+
+--Não é isso, mas... Demais a mais Bertha não viria de certo n'esta
+occasião, em que lhe não falta que fazer em casa.
+
+--Pois que ha por lá?
+
+--Os preparativos do casamento d'ella.
+
+--Do casamento de... quem?!
+
+--De Bertha.
+
+A baroneza ficou d'esta vez verdadeiramente surprendida.
+
+--De Bertha?! Pois Bertha casa-se?!
+
+--E em pouco tempo.
+
+--Com quem?
+
+--Com o Clemente, o filho da minha ama, da Anna do Védor.
+
+Gabriella permaneceu algum tempo calada, sem poder desviar os olhos de
+Jorge, como se quizesse devassar o que se passava no espirito do primo,
+ao dar-lhe em tom de indifferença aquella noticia.
+
+--Bertha casa-se!--repetiu ella--E por sua vontade?
+
+--Por certo. Quem a obrigaria?
+
+--Parece-me incrivel. E que pensa o primo Jorge d'esse casamento?
+
+--Acho-o tão natural, que fui eu proprio que fiz a proposta.
+
+--A proposta do casamento?!
+
+--Sim, a proposta do casamento.
+
+--A Bertha?!
+
+--Ao pae e a ella.
+
+--E como te lembraste d'isso?
+
+--Porque o Clemente me pediu.
+
+--Ah! E condescendeste sem dificuldades?
+
+--Porque não?
+
+--E Bertha tambem aceitou sem objecções?
+
+--Sim, sem grande hesitação.
+
+Jorge respondia a esta serie de perguntas d'uma maneira constrangida,
+como quem anciava por libertar-se depressa do inquerito. Nunca olhára
+directamente para a baroneza, que pelo contrario não tirava d'elle os
+olhos, nem perdia os signaes de turbação com que elle lhe respondia.
+
+A final Gabriella dirigiu-se ao primo no tom de resolução de quem se
+decide por um partido manifesto.
+
+--Jorge, olha bem para mim.
+
+Jorge fitou na prima os olhos admirado.
+
+--E' com indifferença que vês realisar-se o casamento de Bertha e que me
+estás fallando n'elle?
+
+Jorge córou intensamente á inesperada interpellação, e tentou responder
+ladeando:
+
+--Com indifferença não, de certo. Sou amigo do Thomé e Bertha é...
+
+--A filha d'elle, bem sei. Deixemos esses parentescos. E já que desejas
+que falle mais claro, pergunto-te: É ou não é verdade que amas Bertha?
+
+--Eu?!
+
+--Sim, tu. E repara no que me vão responder os labios, porque o rosto já
+me respondeu.
+
+Jorge conheceu que não lhe era possivel dissimular, abraçou portanto o
+partido da franqueza, que lhe era mais congenial.
+
+--N'esse caso era desnecessaria outra resposta. Porém não duvidarei em
+dar-lh'a. É verdade que a amo.
+
+--N'esse caso que quer dizer toda esta comedia?
+
+--Quer dizer que eu e Bertha estamos decididos a cumprir corajosamente o
+nosso dever. Ella fazendo a felicidade de um homem honrado que a estima,
+e realisando o papel de providencia de uma familia, que é a mais
+gloriosa missão da mulher; eu votando-me todo á obra que emprehendi, e
+procurando tornar tranquillos os ultimos dias de meu pae n'este mundo,
+sem lhe ir exacerbar as paixões do seu coração irritado, para satisfazer
+as minhas.
+
+--A poesia dos meus sentimentos está muito atrazada, ao que vejo.
+D'antes os amantes sinceros e generosos punham acima de tudo os direitos
+dos seus puros affectos. Eu sou dos que lêem por a cartilha d'esses
+tempos.
+
+--Os affectos generosos estendem a sua generosidade aos sentimentos dos
+outros corações, ainda quando lhes são oppostos. Respeitam-nos.
+
+--É muito sublime; não entendo bem. Vamos a saber, primo Jorge,
+dar-se-ha que ainda haja por ahi uns fumosinhos de vaidade
+aristocratica?
+
+--Em mim não a conheço; mas respeito-a n'aquelle velho, em quem
+descarregaria o ultimo golpe se a não respeitasse.
+
+--É esse o obstaculo? Não vejo ahi senão a necessidade de uma
+contemporisação.
+
+--Não digo isso, prima. As contemplações que tenho com meu pae,
+têl-as-hei com a sua memoria.
+
+--Mas não é muito de christão suppôr que o sacrificio feito á vaidade do
+vivo póde ser agradável á alma, que deixou no sepulchro todos os
+prejuizos do barro em que se envolvia. Os preconceitos aristocraticos
+não sobem ao céo; quero crêl-o; ficam nos sarcophagos da familia, de
+mistura com as cinzas mortuarias.
+
+--Embora; mas seriam criminosos todos os projectos de felicidade, que se
+baseassem em um facto tão funesto como esse a que allude. Em taes
+fundamentos não serei eu quem os edifique.
+
+--Mas, se bem me recordo, o primo Jorge disse-me ha dias que não se
+julgava com direito de sacrificar outra felicidade que não fosse a sua.
+
+--É verdade. Mas não sou eu só que tenho coragem.
+
+--Ah! Ella tambem?! Visto isso concertaram ambos esse plano? É generoso,
+não ha duvida. Eu cada vez adoro mais a provincia, onde se dão umas
+raras plantas, em cuja existencia quasi não acreditava. Agora já
+comprehendo a opposição que encontra em ti o meu projecto. Depois da
+vossa heroica resolução, é claro que devia contrariar-te a presença de
+Bertha n'esta casa.
+
+--Confesso que sim.
+
+--Concebe-se. Pois é pena, porque me agrada o projecto, e assim tem de
+ficar só o tio Luiz.
+
+--Mas não parta.
+
+--Alto lá. Por muito estranhos que me pareçam os teus planos, viste que
+não lhes oppuz obstaculos. Reclamo a mesma condescendencia para com os
+meus.
+
+--Porém meu pae?...
+
+--Não sei o que lhe faça, primo. Pensa n'isso a vêr se até á hora da
+partida me lembras alguma solução. Eu não acho.
+
+A baroneza retirou-se poucos momentos depois apparentemente dissuadida
+da sua primeira ideia.
+
+Chegando porém ao seu quarto, sentou-se á secretária, e preparando uma
+folha de papel escreveu com a sua miuda calligraphia o seguinte:
+
+
+ «Meu caro snr. Thomé da Povoa.
+
+ Sou obrigada a partir hoje para Lisboa. Deixo meu tio muito doente e
+ muito sentido pela minha falta. Na idade em que elle está e nas suas
+ tristes disposições de espirito dá-se muito apreço aos cuidados de
+ uma mulher. A minha ausencia deixa-o tão só e tão sem conforto, que
+ receio dos effeitos d'ella. Sei quaes os ardentes desejos de
+ vingança que o snr. Thomé tem contra meu tio e a indole dos actos
+ com que os satisfaz, e por isso julguei dever dar-lhe estas
+ informações, para que se vingue a seu modo.
+
+ Sua muito respeitadora
+
+ _Gabriella_.»
+
+
+E depois de lêr o que escrevêra, principiou a dobrar cuidadosamente a
+carta, murmurando:
+
+--A bom entendedor meia palavra basta.
+
+E ao lacrar e ao escrever o sobrescripto, dizia sorrindo:
+
+--O primo Jorge que tenha paciencia e tome contra si proprio as
+precauções que quizer.
+
+Depois tocou a campainha e mandou expedir quanto antes a carta a Thomé
+da Povoa. E na sequencia dos seus pensamentos murmurava:
+
+--E se o acaso lhe der para fazer das suas, lá se avenham. Eu lavo d'ahi
+as mãos.
+
+E foi proceder aos preparativos da sua jornada nas mais joviaes
+disposições de espirito.
+
+
+
+
+XXIX
+
+
+A baroneza a ninguem participou, além de Jorge a sua partida para
+Lisboa. Havia muito tempo que os principaes preparativos estavam feitos,
+e por isso o movimento dos criados, que lhe executaram as ultimas
+ordens, não se tornou notado.
+
+Na vespera, á noite, Gabriella demorou-se mais tempo no quarto do tio e
+deu-lhe a entender que brevemente teria de deixal-o por alguns dias,
+porque a sua presença era necessaria em Lisboa, mas que voltaria e que
+seria então para demorar-se mais tempo.
+
+D. Luiz mostrou a mesma opposição a este projecto que já por vezes
+manifestara; mas a baroneza d'esta vez insistiu mais e obrigou-o a
+conformar-se com a ideia de uma proxima separação.
+
+Na manhã seguinte, ás horas a que o velho fidalgo costumava receber a
+primeira visita matinal da sobrinha estava elle já impaciente, porque
+ella lhe tardava.
+
+Já mais do que uma vez erguêra os olhos para o mostrador do relogio
+fronteiro, e espreitára atravez das cortinas para a altura do sol, e de
+cada vez que fizera esta observação, acabára-a suspirando.
+
+O pobre doente tinha tanta necessidade de fallar com Gabriella! Havia
+nada menos do que um longo e complicado sonho a contar-lhe. E ella sem
+apparecer!
+
+Depois de muito esperar, D. Luiz ouviu emfim mexer na chave da porta e
+voltou-se com ar de satisfação.
+
+Mas a este vislumbre de esperança succedeu um movimento de impaciencia.
+Era frei Januario quem entrára.
+
+O padre vinha com uns modos de embasbacado, virando e revirando urna
+carta que trazia na mão.
+
+--Que é? O que quer, frei Januario?--perguntou D. Luiz com impaciencia
+não disfarçada--Onde está Gabriella? Tenha a bondade de ir pedir-lhe o
+favor de vir fallar-me.
+
+--A snr.ª baroneza?... Ahi tem v. exc.ª as noticias que posso dar-lhe a
+respeito d'ella.
+
+E estendeu para o fidalgo a carta que trouxera.
+
+--O quê?! Que quer dizer?! Noticias d'ella? Então Gabriella?...
+
+--Partiu esta madrugada quasi sem dizer «Deus te salve» a ninguem. Esta
+gente de hoje sempre tem umas maneiras exquisitas...
+
+--Partiu! Gabriella partiu! Sem se despedir de mim?
+
+--Então que quer v. exc.ª? Costumes d'agora. Tudo está mudado.
+Maçonarias. Mas ahi tem v. exc.ª uma carta, que ella lhe deixou.
+
+D. Luiz pegou na carta meio tremulo e abriu-a.
+
+Era concebida n'estes termos:
+
+ «Perdoe-me, meu querido tio, a maneira subita por que o deixo.
+ Julguei preferivel isto, porque me faltava o animo para despedidas
+ que talvez o affligissem mais. Espero não prolongar por muito tempo
+ a minha ausencia. Seria conveniente que Mauricio viesse emquanto
+ estou em Lisboa. Escrevo-lhe n'este sentido e confio em que v. exc.ª
+ lhe dará permissão para elle vir ter commigo. Peco-lhe que me espere
+ nos Bacellos, onde em breve conto vêl-o mais feliz e contente. Até
+ lá tenho um presentimento de que Deus ha de providenciar para que
+ não sinta muito a falta que eu lhe possa fazer. Conceda-me sempre a
+ sua amizade e creia-me
+
+ Sua affectuosa e reconhecida sobrinha
+
+ _Gabriella_.»
+
+
+O fidalgo leu e releu a carta em silencio, suspirou, e voltando-se para
+o padre, disse-lhe simplesmente:
+
+--Tem a bondade de me deixar só por um pouco, snr. frei Januario?
+
+O padre sahiu do quarto, encolhendo os hombros.
+
+D. Luiz tornou a lêr a carta, carregando-se-lhe de mais sombria tristeza
+o semblante, e deixou-se cahir desalentado nos travesseiros.
+
+E ninguem lhe ouvia aquella manhã tocar a campainha a chamar um criado
+para que lhe prestasse qualquer serviço que o seu estado de saude
+exigia, e se um ou outro, mais cuidadoso, espontaneamente se apresentava
+a receber-lhe as ordens, era despedido com rudeza, recahindo elle na
+especie de somnolencia em que depois da leitura da carta havia ficado.
+
+Ao meio dia, porém, hora em que a baroneza costumava por suas proprias
+mãos servir-lhe algumas colhéres de gelêa e um calix de vinho do Porto,
+sentiu que lhe abriam mansamente a porta do quarto, com a mesma cautela,
+com o mesmo cuidado com que o fazia Gabriella.
+
+Deu-lhe rebate o coração, e no meio dos tristes pensamentos que o
+acabrunhavam, fez-se um clarão de esperanças. Voltado com as costas para
+a porta, D. Luiz não pôde conhecer logo a pessoa que entrava, por isso
+perguntou com uma voz, era que se denunciava o intimo sobresalto que
+estava sentindo:
+
+--Quem vem ahi?
+
+Ninguem lhe respondeu; mas percebeu claramente o som de uns passos
+leves, que não podiam deixar de ser de mulher.
+
+--Quem está ahi?--repetiu D. Luiz, fazendo um esforço para voltar-se.
+
+Mas n'este momento parava defronte d'elle Bertha, com um sorriso nos
+labios, e segurando nas mãos a bandeja com o calix de vinho e a gelêa,
+que a baroneza costumava servir-lhe.
+
+D. Luiz olhou para a afilhada com a expressão da maior surpreza e
+espanto.
+
+--Bertha!--exclamou elle, solevantando o corpo--Bertha aqui?!
+
+--E ha mais tempo seria este o meu logar, se não soubesse que até hoje
+lhe não faltavam os cuidados de que a sua doença precisa.
+
+--E vens... vens para ficar?--perguntou o doente com uma inflexão de
+alegria quasi infantil.
+
+--Se me der licença que fique...
+
+--Se te der licença, filha!...
+
+De subito reprimiu a sua expansão de alegria, e emendou em tom mais
+grave:
+
+--Não, Bertha; não é aqui o teu logar. Eu não sou teu pae.
+
+--Mas é meu padrinho e está doente. E á cabeceira de um doente uma
+mulher está sempre no seu logar. É o nosso posto de honra--respondeu
+Bertha, com aquella entonação carinhosa com que as raparigas sabem
+enfeitiçar o coração e enleiar a vontade dos seus velhos paes e avós.
+
+O fidalgo sorriu com brandura e, passando a mão tremula pelos fartos
+cabellos de Bertha, disse-lhe, olhando-a com sympathia:
+
+--Mas que dirá teu pae?
+
+A estas palavras Bertha dirigiu para a porta do quarto um olhar
+indiscreto, olhar que despertou suspeitas no espirito de D. Luiz e o
+obrigou a seguir com a vista a mesma direcção.
+
+Atravez da porta meio aberta descobriu a figura de Thomé, que ficára no
+corredor. Uma rapida contracção atravessou como o effeito de um choque
+electrico a fronte de D. Luiz; em breve porém dissipou-se este signal de
+desgosto, e com voz serena e sem aspereza interrogou:
+
+--Estava ahi, Thomé da Povoa?
+
+O fazendeiro deu alguns passos no quarto, ainda timidamente, e respondeu
+volteando o chapéo entre as mãos:
+
+--Estava, sim, fidalgo; fui eu mesmo que acompanhei a rapariga, e se v.
+exc.ª me quizer fazer o favor de aceitar a companhia d'ella, com muito
+gosto lh'a deixo ficar. Porque emfim, snr. D. Luiz, isto de mulheres
+sempre é outra coisa para lidar comnosco. Teem lá umas maneiras de
+enfeitiçar um homem, que quem uma vez foi tractado por ellas em doença,
+já se não entende com outros enfermeiros. Lá sabem temperar os remedios,
+arrefecer os caldos, ageitar a roupa da cama e os travesseiros, que
+parece que uma pessoa come, bebe e dorme ainda que não tenha vontade,
+desde que ellas queiram. Por isso, como a rapariga é afilhada de v.
+exc.ª e a snr.ª baroneza foi para Lisboa e v. exc.ª ficou só, e ella não
+nos faz falta, porque, graças a Deus, a minha Luiza ainda basta só para
+o trafego da casa, lembrou-me trazêl-a, por me parecer que podia prestar
+alguns serviços a v. exc.ª.
+
+--Então sabe agora, meu padrinho, o que dirá meu pae?--perguntou Bertha,
+occupada já a accommodar a cama que o doente tinha desordenada.
+
+--Mas... Thomé--dizia D. Luiz descontente por ter de aceitar um favor do
+fazendeiro, porém sem coragem de recusal-o. Eu não quero prival-o da
+companhia de Bertha... Sei quanto se quer a uma filha e não posso
+aceitar o sacrificio.
+
+--Ora adeus, fidalgo! Eu quero bem á rapariga, isso lá é verdade; mas
+não me faltam por casa filhos com que me entretenha. E depois isto de
+filhas, mais tarde ou mais cedo é contar que batem as azas para fugirem
+do ninho. É bom costumarmo-nos a passar sem ellas. Por isso, se v. exc.ª
+não tem duvida em aceitar a companhia da pequena... é fazer de conta que
+ella nada tem commigo...
+
+D. Luiz sentiu que ia ser vencido pela generosidade de Thomé. Resistir
+por mais tempo era revelar inutilmente repugnancia em aceitar o
+beneficio, e tornar evidente a sua fraqueza quando finalmente o
+aceitasse.
+
+Cedeu pois a tempo, e emquanto o podia fazer, salvando a dignidade
+aristocratica, que sobre tudo prezava.
+
+--Dividas d'essa natureza não hesito em contrahil-as, apesar de saber
+que as deixarei em aberto. Aceito, Thomé, aceito a companhia d'esta
+menina, que me fallará de minha filha e m'a recordará. Não é verdade,
+Bertha?
+
+--De certo que havemos de fallar muito de Beatriz.
+
+--Muito bem--exclamou Thomé da Povoa--pois então ahi lh'a deixo,
+fidalgo, e vou á minha vida.
+
+Gomprehendeu D. Luiz que não devia ficar inferior em generosidade ao seu
+antigo criado.
+
+Assim que Thomé, fazendo-lhe uma cortezia, se dispunha a transpôr a
+porta para sahir, o fidalgo reteve-o estendendo-lhe-a mão, e disse-lhe
+n'aquelle tom solemne que lhe era habitual:
+
+--Thomé da Povoa, não se retire sem que eu lhe aperte a mão. Bem vê que
+é a maneira que tenho de remir dividas d'estas.
+
+--Com todo o gosto, fidalgo.
+
+E o honrado lavrador aproximou-se do leito e apertou nas suas mãos
+robustas a mão magra e aristocratica do senhor da Casa Mourisca,
+dizendo, com a expansão de enthusiastica sympathia que tinha em excesso
+na alma:
+
+--Póde acreditar, fidalgo, que aperta a mão de um amigo.
+
+D. Luiz fez um gesto silencioso de acquiescencia.
+
+Thomé da Povoa, quando sahiu da sala, levava nos olhos um brilho
+denunciador de commoção.
+
+Todas as scenas e acções generosas exerciam n'elle este effeito.
+
+Bertha ficou só com o padrinho. Com aquelle instincto de actividade e de
+ordem natural á indole feminina entrou immediatamente no exercicio de
+suas funcções, dispondo os preparativos para a leve refeição do doente,
+da qual ella se encarregára ao encontrar no corredor um criado com a
+bandeja na mão.
+
+Trabalhando e conversando, Bertha tinha já aquelles ares de
+familiaridade, que naturalmente assumem as mulheres no tracto da casa
+que dirigem.
+
+Tomára posse d'aquelle terreno como de dominio seu, e dentro em pouco a
+influencia dos seus cuidados fazia-se já sentir na apparencia de ordem e
+de methodo que alli dentro vestira tudo.
+
+D. Luiz seguia-a com olhos de satisfação. Parecia-lhe que ella só
+povoava o quarto.
+
+Com que indizivel prazer a via tirar dos hombros o chale que trouxera,
+dobral-o e poisal-o, junto com o chapéo, no sofá proximo do leito, como
+se estivesse em sua casa!
+
+A presença d'aquella joven e gentil rapariga, occupada na lida
+domestica, fallando-lhe com meiguice e alegria, adivinhando-lhe e
+prevenindo-lhe os menores desejos, satisfazia uma tão ardente e tão
+antiga necessidade do coração d'aquelle homem, que esquecido quasi de
+seus infortunios, reputava-se feliz.
+
+Animado por Bertha, comeu com mais appetite e fallou com uma animação
+que lhe não era habitual.
+
+--Mas, agora me lembra, Bertha--disse D. Luiz, como se de repente lhe
+occorresse uma ideia--preciso de dar ordens para a tua accommodação.
+Talvez o quarto de Gabriella...
+
+--Não se incommode--atalhou Bertha.--A snr.ª baroneza parece que tinha
+tudo prevenido, porque me receberam como quem me esperava já.
+
+--Mas como sabia Gabriella?...
+
+--Pois se foi ella quem me mandou dizer que partia e que me fez sentir a
+necessidade de vir occupar o seu logar.
+
+--Ah! agora entendo a carta d'ella. É uma boa rapariga a final.
+
+E D. Luiz tinha nos labios, ao dizer isto, um sorriso de sympathia, que
+lhe suavisava a dureza habitual das feições.
+
+A agradavel doçura que o fidalgo da Casa Mourisca estava saboreando com
+a presença e o conversar de Bertha foi interrompida por umas pancadas
+timidas na porta do quarto, que elle escutou de má vontade.
+
+--Quem está ahi?--perguntou quasi irritado.
+
+--_Licet_?--murmurou a voz do padre fóra da porta.
+
+--Entre quem é--respondeu D. Luiz, ainda mais irritado depois de
+conhecer a voz.
+
+O padre entrou subitamente, cortejou Bertha com olhos desconfiados e
+avançou com passos vagarosos.
+
+--Que é o que quer, frei Januario?--perguntou D. Luiz desabridamente.
+
+O padre continuou a aproximar-se do leito e respondeu melifluamente:
+
+--Os filhos de v. exc.ª, os snrs. D. Jorge e D. Mauricio, pedem licença
+para lhe fallarem.
+
+D. Luiz fez um movimento de impaciencia.
+
+--Que me querem elles?
+
+O padre encolheu os hombros.
+
+--Não posso dizer a v. exc.ª, porque eu mesmo não o sei.
+
+--Que lhes não fallo agora--respondeu em tom sacudido o fidalgo. Mas ao
+voltar-se deu com os olhos no rosto de Bertha, que insensivelmente
+revelou n'elle o desprazer com que ouvira aquella resposta.
+
+O padre ia a retirar-se com o recado, quando ouviu D. Luiz dizer:
+
+--Mas não poderei saber o que é que me querem os senhores meus filhos?
+
+O padre parou, esperando uma ordem definitiva.
+
+Bertha, que estava alizando uma das travesseiras em que o padrinho se
+encostava, murmurou, como a gracejar:
+
+--A melhor maneira de ficar sabendo é ouvil-os.
+
+D. Luiz encolheu os hombros, como a exprimir o pouco valor que suppunha
+á conferencia pedida, mas disse ao padre:
+
+--Diga-lhes que entrem.
+
+Estava finalmente revogada a sentença que votára ao ostracismo os dois
+filhos do fidalgo. O coração do velho sentia-se muito brando n'aquelle
+momento para conservar rancores. A influencia de Bertha principiava a
+actuar.
+
+A negrura dos delictos de que até alli accusára os filhos, dir-se-ia que
+a dissipára um sorriso da afilhada.
+
+Jorge e Mauricio entraram pouco tempo depois no quarto, descobertos
+ambos, e com aquelle ar de respeito que sempre lhes impunha a presença
+do pae.
+
+Bertha sentiu que se lhe sobresaltava o coração, ao tornar a vêr Jorge
+depois da scena que tivera logar na Herdade.
+
+Não pôde porém deixar de fital-o com interesse. Achou-o pallido e
+abatido.
+
+Dominando as suas violentas impressões saudou os dois irmãos com um
+sorriso afectuoso e sereno.
+
+Jorge e Mauricio corresponderam-lhe com um gesto de deferencia e
+sympathia.
+
+Ambos estavam prevenidos da presença d'ella.
+
+Jorge comprehendeu que a baroneza insistira em realisar os seus
+projectos, apesar das objecções com que elle os combatêra. E não
+desestimou que ella o tivesse feito. Incommodava-o a ideia de isolamento
+em que ia ficar seu pae. Os carinhos de Bertha deviam ser-lhe preciosos.
+Depois a vinda d'ella para os Bacellos não retardaria o fatal casamento,
+com que não podéra ainda conformar o espirito? De pouco serviria a
+demora, vista a irrevogavel resolução que ambos haviam adoptado; mas
+fazer recuar a consummação de um facto funesto é sempre um allivio.
+
+Aceitou pois de boa vontade a vinda de Bertha para junto de seu pae, mas
+resolveu precaver o coração dos perigos que correria, se permanecesse
+junto d'ella.
+
+Mauricio, que dias antes não receberia tambem com sangue frio a noticia
+da presença de Bertha, estava n'aquella manha muito preoccupado, para se
+alterar ao recebêl-a.
+
+A subita partida de Gabriella surprendêra-o e exacerbara a paixão
+nascente que por ella sentia.
+
+A baroneza calculára bem o alcance da medida e assegurára-lhe ainda mais
+o effeito, deixando a Mauricio um bilhete concebido n'estes termos:
+
+ «Meu caro primo.
+
+ Parto para Lisboa. Não preveni pessoa alguma. Levo muitas saudades
+ commigo. Não sei se as deixo tambem. Se acreditasse na constancia de
+ certos sentimentos, consolar-me-ia a ideia de te vêr dentro de
+ poucos dias em Lisboa. Mas infelizmente duvido tanto! Por isso
+ limita-se a deixar-te ficar um longo e desconsolado adeus a
+
+ Tua prima e muito affeiçoada
+
+ _Gabriella_.»
+
+
+Esta carta veio a tempo para atalhar os primeiros symptomas manifestados
+já em Mauricio de uma nova crise, que podia ser fatal aos planos da
+baroneza.
+
+Como dissemos, Mauricio, imaginando que á sua nova paixão pela baroneza
+não seria indifferente o coração de Bertha, recebia d'essa ideia, que
+aliás o mortificava, um estimulo que atiçava aquella paixão. Subita e
+inesperadamente porém veio uma noticia desvanecer-lhe estas illusões.
+Foi a do proximo casamento de Bertha, que a Anna do Védor lhe deu,
+respondendo assim com ar triumphante ás duvidas que elle em tempo
+antepozera contra tal união. Anna assegurou-lhe que Bertha e toda a
+familia haviam acolhido com favor a ideia, e que o mesmo Jorge a
+apoiára.
+
+Esta revelação impressionou Mauricio. Seria possivel que Bertha não
+sentisse por elle affecto algum? Ter-se-ia elle illudido, imaginando
+havel-a impressionado? Haveria antes em tudo isso um plano de Jorge?
+
+Estas suspeitas despertaram-lhe uma leve irritação de vaidade e avivaram
+as quasi apagadas impressões, que lhe restavam no coração da imagem de
+Bertha. N'esse dia passou duas vezes pela Herdade.
+
+Estava pois em imminente risco a paixão por Gabriella, quando a
+repentina partida d'esta e a sua carta de despedida lhe fizeram outra
+vez pender o coração para aquelle lado.
+
+Todos os despeitos gerados com a noticia de Anna do Védor dissiparam-se
+perante os despeites novos.
+
+Acabando de lêr o bilhete de Gabriella, Mauricio pensou em montar logo a
+cavallo e seguir no encalço da baroneza, até attingil-a. Custou a
+persuadil-o da conveniencia de moderar a precipitação dos seus
+projectos. Decidiu porém apressar quanto podésse os preparativos da
+jornada e partir n'aquelle mesmo dia para Lisboa. A permanencia no campo
+era-lhe já insupportavel.
+
+Foi sob estas impressões que, em companhia de Jorge, elle entrou no
+quarto de D. Luiz.
+
+O pae revestiu-se outra vez do seu aspecto de severidade ao dirigir aos
+filhos um olhar interrogador.
+
+Mauricio fallou primeiro:
+
+--Ha muito que está projectada a minha partida para Lisboa. A prima
+Gabriella sahiu esta manhã para lá, e escrevendo-me, deixou-me dito que
+me ficava esperando. Venho pedir a v. exc.ª authorisação para partir
+hoje mesmo.
+
+D. Luiz respondeu sêcamente:
+
+--Póde ir. Falle a frei Januario para lhe dar o dinheiro de que precisa.
+
+Em seguida voltou o olhar para Jorge, como convidando-o a expôr o motivo
+da sua visita.
+
+Jorge aproximou-se e, abrindo uma pasta, apresentou ao pae um masso de
+papeis.
+
+--Desejava que v. exc.ª examinasse esses documentos e titulos, que dizem
+respeito a propriedades nossas e a contractos antigos, e que eu puz em
+ordem com o fim de facilitar o exame.
+
+--Mas para quê? Eu não quero estar com isso. Que necessidade ha de
+incommodar-me com essa papelada?
+
+--É porque depois desejava expôr a v. exc.ª os planos que concebi, e no
+caso de merecerem a sua approvação, pedir-lhe licença para proceder em
+harmonia com elles.
+
+--Eu não tenho cabeça para entrar n'essas investigações. Tive sempre por
+costume deixar os negocios confiados a procuradores.
+
+--Se v. exc.ª me authorisa ainda como tal eu não o incommodarei.
+
+D. Luiz sentia que depois das ordens terminantes que dera ao padre
+Januario, em um momento de despeito contra o filho, tinha motivo para
+irritar-se ao vêr Jorge em flagrante desobediencia, occupando-se ainda
+da administração da casa. Mas a violencia do despeito abrandára, e
+interiormente o fidalgo estimava ter sido desobedecido.
+
+--Façam o que quizerem--respondeu elle--o futuro que prepararem não será
+para mim que o preparam.
+
+--Então se v. exc. não duvida assignar estes papeis....
+
+E Jorge apresentou ao pae uma serie de documentos, que requisitavam a
+assignatura do chefe e representante actual da familia.
+
+D. Luiz fez um gesto de enfado, mas correu com a vista o quarto a
+procurar alguma coisa.
+
+Bertha, comprehendendo-o, trouxe-lhe ao leito os preparativos para
+escrever.
+
+E o fidalgo, com a mais aristocratica indifferença, assignou sem lêr os
+papeis que Jorge successivamente lhe apresentava, authorisando assim as
+medidas que por ventura deviam regenerar a sua casa com a mesma
+facilidade e imprevidencia com que tantas vezes authorisára as que a
+haviam perdido.
+
+--Agora precisava tambem da authorisação de v. exc.ª--proseguiu
+Jorge.--para ausentar-me por alguns dias, porque necessito de visitar as
+nossas propriedades mais distantes.
+
+D. Luiz repetiu com o mesrno tom de voz a phrase que já dissera a
+Mauricio:
+
+--Póde ir.
+
+Os dois rapazes curvaram-se respeitosamente diante do velho e
+aproximaram-se para receber-lhe as bênçãos.
+
+D. Luiz estendeu a mão, que um apoz outro beijou, e saudando-o outra vez
+iam a sahir do quarto.
+
+O coração do pae sentiu porém a necessidade de urna despedida mais
+affectuosa n'aquelle instante em que ambos os filhos o iam deixar.
+
+--Mauricio--disse elle quando os viu já proximos da porta--repare que
+vae entrar em uma sociedade nova para si, cheia de seducções e perigos.
+Seja homem e digno do nome que tem, e... dê-me o gosto de o vêr feliz e
+honrado.
+
+--Terei sempre em vista o seu nobre exemplo, meu pae, e espero que assim
+nunca me desviarei do caminho da honra.
+
+--Talvez o não conduza pelo da felicidade--murmurou o velho; e depois,
+dirigindo-se a Jorge:
+
+--Jorge, espero do seu juizo que seja prudente no uso d'essas
+authorisações que lhe dou. Repare que nos esforços que faz para
+restaurar a sua casa não sacrifique o nome que a torna illustre. Seja
+sempre tão brioso como é activo.
+
+--Espero que nunca os meus actos deslustrarão o nome com que me honro.
+
+E os dois irmãos retiraram-se emfim.
+
+Vendo-os sahir, D. Luiz voltou-se para Bertha, suspirando, e disse com
+desconforto:
+
+--E ficamos sós, Bertha!
+
+--Elles voltarão cedo, e com elles mais alegria para esta casa.
+
+D. Luiz fez um signal de quem não tinha fé no futuro.
+
+--Tem paciencia, Bertha--disse d'ahi a pouco--mas se podésses ir vêr que
+lhes não falte nada.... O padre é capaz de se descuidar das malas, e
+Mauricio não repara.
+
+Bertha apressou-se a satisfazer o desejo do velho.
+
+Encontrou Jorge e Mauricio na casa do jantar, fazendo os preparativos
+para a jornada.
+
+Bertha coadjuvou-os com vantagem.
+
+--Bertha--disse Mauricio--n'este reconhecimento de despedida, será
+bastante generosa para perdoar-me algumas loucuras que talvez não fossem
+de todo innocentes?
+
+--Antes de perdoar é preciso condemnar, e eu nem sequer accusei!
+
+Mauricio apertou-lhe a mão com verdadeira e d'esta vez insuspeita
+sympathia.
+
+--Sabe, Bertha, que vendo-a aqui, a ajudar-nos assim n'esta tarefa
+caseira, custa-me a acreditar que não seja nossa irmã!?
+
+--E como é que se desengana? Interrogando o coração?
+
+--Não, que esse persuade-me do mesmo.
+
+--Então deixe-se persuadir, snr. Mauricio, que vae n'isso tão pouco mal!
+
+Mauricio trocou algumas palavras com ella, mas sem alludir ao casamento.
+
+Jorge fallava menos do que o irmão. Em um momento em que este sahiu da
+sala, Bertha perguntou:
+
+--Parte para muito longe, snr. Jorge?
+
+--Não, Bertha. Vou viver para a Casa Mourisca; mas bem vê que não podia
+dizêl-o a meu pae; era ainda cedo talvez para elle o consentir.
+
+--E parte... por eu chegar?...
+
+--Parto, sim, Berlha, e não acha que deva fazêl-o?
+
+--Talvez tenha razão.... Tem por certo. Mas perdoa-me obrigal-o a isso?
+
+--Agradeço-lh'o. A sua vinda ha de salvar meu pae.
+
+--Então separamo-nos amigos?
+
+--Como sempre, Bertha.
+
+Bertha estendeu-lhe a mão commovida, e Jorge levou-a aos labios com mais
+ardor do que convinha a quem formára o proposito de suffocar no peito o
+amor que n'elle crescia.
+
+E n'essa tarde deixaram a quinta dos Bacellos os filhos de D. Luiz.
+
+Este ficou só com Bertha e com o padre, que via um plano maçonico em
+todas estas mudanças.
+
+
+
+
+XXX
+
+
+Augmentava de dia para dia a influencia de Bertha sobre o animo de D.
+Luiz. Todas as manhãs desafiava as primeiras alegrias do enfermo o
+sorriso com que Bertha lhe entrava no quarto, sorriso que parecia
+illuminal-o mais do que os matutinos raios do sol.
+
+Sob a benefica acção d'aquelles desvelos femininos, sentia o
+desconfortado doente um renascer de vida; voltava-lhe o appetite
+perdido, revigoravam-se-lhe os membros extenuados, corria-lhe nas veias
+mais vivificado o sangue que o desalento empobrecêra, e aquella mesma
+negrura de pensamentos, que o assombrava, parecia clarear-se
+progressivamente.
+
+Bertha fizera-lhe já esquecer Gabriella. Era mais assidua á cabeceira do
+seu leito, mais exclusivamente devotada áquella obra de consolação, mais
+perspicaz em adivinhar-lhe os desejos, mais carinhosa na maneira de
+satisfazêl-os, e a ingenuidade quasi infantil das suas conversas tinha
+mais seducções para o fidalgo do que todas as galas de espirito com que
+a baroneza sabia temperar as suas.
+
+As horas, que tão longas e fastidiosas se succedem na vida do doente,
+passavam para elle rapidas e desapercebidas, preenchidas pela companhia
+de Bertha.
+
+A vêl-a trabalhar a seu lado, a ouvil-a fallar de Beatriz ou a conversar
+no mais trivial assumpto, a seguir-lhe com a vista os movimentos faceis
+que lhe recordavam a filha, a escutar pela voz d'ella a leitura dos
+livros de imaginação a que a baroneza o habituára, D. Luiz esquecia o
+tempo e os ponderosos motivos da sua usual melancolia. Um dia manifestou
+desejos de ouvir Bertha tocar.
+
+Na manhã seguinte a harpa de Beatriz era transportada para junto do
+leito do doente, e sob os dedos de Bertha o magico instrumento, que
+serenava as furiosas allucinações de Saul, provou mais uma vez a sua
+efficaz influencia moral.
+
+D. Luiz escutava-a commovido, e quasi sempre corriam-lhe as lagrimas ao
+expirarem as vibrações das ultimas notas.
+
+Bertha fez-lhe ouvir, uma por uma, todas as musicas que Beatriz tocava.
+Resuscitou-lhe o passado. Sob tão profundas impressões quasi se
+confundiam no espirito do ancião a imagem da filha que perdêra com a da
+affectuosa rapariga, que tanto lhe amenisava a existencia.
+
+Foi cedendo á affavel violencia de Bertha e apoiado no braço d'ella, que
+trocou o leito pela poltrona ao lado da janella do quarto; que sahiu
+depois do quarto para a varanda do terraço, e que finalmente desceu as
+escadas que do terraço conduziam á quinta, á sombra de cujas arvores se
+costumára a passar as melhores horas do dia.
+
+Era ahi que tinham logar as leituras quotidianas, que já tão necessarias
+lhe eram. Bertha interrompia-as apenas, para lhe fazer escutar o cantico
+dos passaros na espessura das arvores, ou para lhe ir colher uma ou
+outra flôr, com que bizarramente enfeitava a lapela do casaco do
+fidalgo. A influencia de Bertha sobre elle era já por todos conhecida, o
+que valia á gentil rapariga os mais expressivos signaes de deferencia de
+todos quantos a tractavam.
+
+Frei Januario era o mais desconfiado, mas ainda assim não se mostrava de
+todo insensivel ás attenções que Bertha lhe dispensava e que muito o
+lisongeavam.
+
+Bertha era feliz n'aquelles dias.
+
+Para a sua alma generosa era motivo de jubilo a ideia de que alguem lhe
+devia a felicidade.
+
+Ao sentir voltar a vida ao rosto de D. Luiz e a serenidade ao seu
+espirito atribulado, quasi esquecia, no enlevo em que esta observação a
+arrebatava, a grandeza do sacrifício, que pouco tempo antes realisára e
+a dolorosa violencia com que esmagava ainda no coração o affecto mais
+vivaz que lá nascêra.
+
+Era grata a D. Luiz pelo bem que ella propria lhe fazia.
+
+Um dia Bertha erguêra-se, como costumava, muito cedo para correr a
+quinta a fim de colher o ramo com que adornava a mesa do almoço de D.
+Luiz.
+
+Todos os dias se renovava este ramo e todos os dias o fidalgo consagrava
+alguns momentos ao exame e á analyse das diversas flôres que o
+compunham.
+
+Bertha esmerava-se muito n'esta tarefa para obter sempre effeitos novos,
+que merecessem as attenções e applausos do padrinho.
+
+N'esta exploração attingia ella sempre os terminos da quinta. Chegára
+aquella manhã ao portão de ferro da entrada opposta á casa e trazia já
+na mão uma variada cópia de flores, quando lhe pareceu que alguem parava
+de fóra das grades a observal-a.
+
+Voltou-se e reconheceu Clemente.
+
+Bertha estremeceu e sentiu sobresaltar-se-lhe pouco agradavelmente o
+coração, á vista do seu noivo. Tão longe tinha n'aquelle instante o
+pensamento do futuro que a vista de Clemente lhe recordava, que a
+surpreza da transição foi cruel.
+
+Demais era a primeira vez que se achava na presença de Clemente, depois
+do ajuste do casamento, o que sobremaneira augmentára a sua confusão.
+
+Concentrando porém toda a sua coragem, saudou-o affectuosamente.
+
+Mais confuso ainda do que ella, retribuiu-lhe Clemente a saudação.
+
+--Quer entrar?--perguntou Bertha, caminhando para a portaria.
+
+--Não, menina; passei aqui por acaso... É verdade, que desejava
+fallar-lhe... mas outra vez será.
+
+--E porque não ha de ser já?--tornou Bertha, abrindo a porta.--Depois do
+que se passou é indispensavel que conversemos, não é verdade? Eu tambem
+tenho precisão de fallar-lhe, snr. Clemente.
+
+--N'esse caso aqui estou para ouvil-a, Bertha.
+
+--Olhe, sentemo-nos mesmo aqui. Não acha?--disse Bertha, preparando
+logar em um monticulo de relva que as folhas cahidas tapetavam.--Está-se
+aqui tão bem como dentro de uma sala.
+
+Clemente tomou timidamente logar ao lado d'ella.
+
+Bertha soltou no regaço as flores que colhêra, e fallando occupava-se a
+dispôl-as em ramo, como se facilitasse d'aquella maneira o desempenho da
+missão que se propunha.
+
+Clemente escutava-a.
+
+--Está já informado, snr. Clemente, do que respondi á proposta que, em
+seu nome, me fez... o filho do snr. D. Luiz?
+
+--Sim, Bertha, deram-me essa resposta, que muito me alegrou; mas
+desejava saber da sua bôca se foi de livre vontade e por que lh'o
+dictava o coração que a deu assim.
+
+--Por minha vontade foi. Ninguem me obrigou a responder como respondi.
+Agora se foi do coração... Era sobre isso mesmo que desejava fallar-lhe,
+snr. Clemente.
+
+Clemente respondeu um pouco inquieto:
+
+--Falle, Bertha, que eu escuto-a com attenção.
+
+--Snr. Clemente, devo ser franca e leal comsigo, e fazer-lhe uma
+confissão completa dos meus sentimentos, para que pense bem antes de se
+resolver a dispôr assim do seu futuro. Não posso dizer que fosse o
+coração que me dictasse a resposta que dei. Se o dissesse, nem o snr.
+Clemente me acreditaria; não é verdade? Bem vê, eu mal o conhecia, quasi
+que nem tinhamos fallado ainda, eu vivi até agora longe de si e nenhum
+de nós costumava pensar no outro. Pois não é assim? Quando ouvi a sua
+proposta, surprendeu-me por inesperada; respondi como sabe; mas é claro
+que não podia ser do coração a resposta.
+
+Clemente fez um gesto de assentimento, mas tornou-se melancolico.
+
+--Mas, perguntará o senhor, porque respondi eu então assim, tão prompta,
+sem hesitar? Vou dizer-lh'o, snr. Clemente, vou dizer-lhe toda a
+verdade, e resolva depois o que deve fazer. Eu não podia esperar que o
+coração respondesse, porque sabia que elle já não podia dizer que sim a
+uma proposta d'aquellas.
+
+Clemente, que julgava comprehender o enleio crescente e as palavras
+hesitantes de Bertha, iníerrompeu-a dizendo:
+
+--Já? disse que já não podia? Já? Bertha teria acaso alguma inclinação a
+que o meu pedido viesse causar mal?
+
+Bertha, córando, replicou firmemente:
+
+--Havia no meu coração um outro affecto, havia, o primeiro e unico
+d'essa natureza que n'elle tinha de nascer; mas não lhe causou mal o seu
+pedido, Clemente. Esse affecto, de que me não envergonho, nasceu, mas
+não podia viver. Era preciso suffocal-o. Oppunham-se-lhe tantos
+obstaculos, que não podia haver futuro para elle. Era como uma arvore de
+grandes raizes que nascesse em um vaso apertado. Nunca eu mesma me
+illudi com elle. Esta era a confissão que devia e queria fazer-lhe,
+Clemente. Julguei que poderia, sem indignidade, aceitar a sua proposta,
+dado que lhe fallasse lealmente, como lhe estou fallando; desde que lhe
+dissesse: não ha amor no meu coração para lhe offerecer, não o podia
+haver; estimo-o como um homem honrado e aceito para mim o destino de lhe
+servir de companheira na vida. É a missão de uma mulher, e eu tenho
+coragem de cumprir no mundo a minha missão. Amizade leal, respeito,
+dedicação, posso prometter-lhe, mais não, que não tenho para dar.
+
+--Mas....--balbuciou Clemente, que não podia disfarçar a sua
+perturbação--mas esse homem existe?
+
+Bertha córou instantaneamente ao ouvir a pergunta.
+
+--Existe--respondeu, porém sem hesitar--e ama-me. Mas elle tambem sente,
+como eu, a necessidade de vencer este affecto. E ha de vencêl-o ou pelo
+menos occultal-o no coração, porque é forte. A consciencia do dever
+ajudar-nos-ha a ambos a vencer esta loucura. Bem vê que lhe chamo
+loucura. Mas deixe-me dizer-lhe, Clemente, se, depois da confissão que
+lhe fiz, se abriu no seu espirito uma entrada para a desconfiança,
+peço-lhe por piedade que desista da sua proposta, emquanto é tempo.
+
+--Não me entendeu, Bertha. Creia que eu sei ter na devida conta a
+lealdade com que me está fallando, e que mais do que nunca sinto por si
+a maior consideração e estima. Se a escolhesse para esposa, juro-lhe
+que, apesar da sua confissão--não digo bem--por causa até da sua
+confissão, teria em si tanta confiança, Bertha, como em mim mesmo. O que
+me faz pensar é outra coisa. Se esse homem existe, porque é que a menina
+perdeu já as esperanças e quer assim tornar impossivel o que ainda o não
+é?
+
+--É impossivel, é, Clemente.
+
+--Ora é! Quem sabe? Eu não queria ser um dia o obstaculo da sua
+felicidade. Nem de tal me quero lembrar!
+
+--Clemente, supponha que em vez da confissão que lhe fiz, eu lhe tinha
+dito apenas: Sonhei um dia com um noivo, que não se parecia comsigo,
+Clemente. E tão louca sou, que me ficou ainda d'aquelle sonho uma vaga
+saudade no coração. Por isso não m'o occupa inteiro o affecto que tenho
+para lhe consagrar. É assim que posso offerecer-lh'o. E agora resolva
+como se assim lhe tivesse fallado. Bem vê que nunca se arriscará a ser
+estorvo a uma felicidade... que se sonhou.
+
+--Mas, valha-me Deus, Bertha, os sonhos que nunca sahem certos são os
+que se sonham a dormir... e até esses ás vezes...
+
+--Ha-os que se sonham em vigilia menos realisaveis ainda.
+
+--Mas em todo o caso... Não me leva a mal se eu pedir tempo para
+reflectir?
+
+--De certo que não. Para isso mesmo foi que lhe fallei assim.
+
+--É um anjo, Bertha, e creia que se tenho duvidas, é porque não queria
+ser nunca estorvo á sua felicidade. A tempo lhe darei a resposta.
+
+E Clemente sahiu d'alli pensativo e indeciso sobre a resolução que
+deveria adoptar.
+
+Pensava o pobre rapaz:
+
+--A final de contas ella gosta do outro. É o que isto tudo quer dizer.
+Então que faço eu em metter-me de permeio n'estes amores? Mas... são
+amores impossiveis, diz ella, até lhes chamou loucuras; e espera que os
+cuidados da familia lhe ajudem a esquecêl-os. Mas se não esquecer?...
+Não receio d'ella, isso não. Aquillo é alma que se não perde nem
+atraiçoa. Mas, se por acaso os taes obstaculos desappareciam e ficasse
+eu só no logar d'elles? Ah! Sancta Virgem! Era para um homem pôr fim á
+vida! Porém ao mesmo tempo a rapariga falla com uma segurança, como se
+este caso fosse impossivel. Impossivel! E porquê? Quem será elle, o tal?
+Amores que ella trouxe da cidade.... Alguem que já a esqueceu e que
+talvez nunca lhe quizesse devéras. Se eu adivinhasse que era isso,
+aceitava. Porque emfim aquillo esquecia, e... e eu creio que haviamos de
+dar-nos bem. Veremos o que pensa minha mãe. Mas que póde ella pensar?
+Que sabe ella mais do que eu? Aqui o que era preciso era quem me
+informasse dos taes amores. Se eu procurasse o snr. Jorge? Elle é tanto
+de casa do Thomé, que talvez... Elle está agora na Casa Mourisca. Pois
+vou lá.
+
+E, em harmonia com esta resolução, tomou o caminho do antigo solar do
+fidalgo.
+
+Jorge encerrara-se nos ermos aposentos d'aquelle sombrio palacio, não só
+para trabalhar, como para procurar allivio aos dolorosos golpes de
+coração, que lhe sangravam ainda.
+
+Fizera-lhe companhia o jardineiro, que não quiz ficar nos Bacellos
+quando soube que Jorge partia. Era a unica pessoa que tinha ao seu
+serviço.
+
+Jorge entregara-se ao trabalho com mais assiduidade e ardor do que
+nunca. Erguia-se cedo, prolongava por noite alta as suas vigilias; mas
+se conseguia com estes esforços adiantar o serviço, não obtinha d'elles
+a realisação do seu principal empenho: acalmar as torturas moraes com
+que viera para aquella solidão.
+
+As poucas horas de somno eram-lhe agitadas por sonhos fatigadores, e
+sempre uma ideia fixa e amarga lhe occupava o pensamento, ainda quando
+mais absorvido pelo estudo.
+
+Atravéz das mais fortes distracções sentia como que a sombria projecção
+de uma nuvem negra.
+
+Quando um poderoso motivo de desgosto nos amargura o coração, não é de
+todo impossivel afastal-o do pensamento por um esforço de distracção,
+mas a impressão dolorosa que elle produziu não se desvanece
+completamente; persiste um vago sentimento de mágoa, um indefinido
+mal-estar, que ainda n'esses raros instantes nos afflige, sem que o
+expliquemos.
+
+Estava-se dando com Jorge este phenomeno.
+
+Conseguia fixar a attenção no estudo, vencer as difficuldades de um
+problema, profundar as questões mais obscuras, mas o espirito
+mantinha-se doente; estas victorias da intelligencia não lhe provocavam
+aquelle prazer, que de ordinario as acompanha. Parecia que o coração
+perdêra a elasticidade necessaria para vibrar d'essa maneira.
+
+Quando se trabalha em taes disposições de animo, o esforço extenua a
+actividade do espirito, toma o caracter de uma febre consumptiva, de uma
+chamma que se alimenta gastando as forças e a vida.
+
+Depois havia momentos em que os instinctos se revoltavam contra a
+tyrannia da razão, em que os gelos do temperamento de Jorge como que se
+fundiam no calor do seu sangue de adolescente; e então com um frenesi de
+desespero concebia os mais arrojados projectos. Resolvia romper com
+todos os preconceitos, com todas as considerações sociaes, e obedecer
+sómente aos impulsos do coração, que elle julgava n'esses momentos os
+unicos authorisados motores das acções do homem. A estes paroxismos
+succedia um desalento mais profundo e uma sombria tristeza.
+
+E o resultado d'esta lucta moral, d'este isolamento, d'este excesso de
+trabalho, revelava-se-lhe no semblante alterado e na pallidez, que
+augmentava de dia para dia.
+
+A amargura d'aquelles dias passados nas salas desertas e nas devezas
+melancolicas da Casa Mourisca, havia-o abatido a um ponto, que ao chegar
+á presença d'elle, Clemente encarou-o com gesto de espanto.
+
+Jorge interrogou-o, sorrindo:
+
+--O que me achas tu, para me fitares com esses olhos?
+
+--O snr. Jorge tem estado doente?!
+
+--Não; vou passando bem. Parece-te que tenho cara de doente?
+
+--Sim; acho-o descórado e abatido--disse Clemente, procurando disfarçar
+as apprehensões que sentia ao vêl-o.--Não trabalhe tanto, snr. Jorge.
+
+--Isto não é de trabalhar. Uma noite de bom somno far-me-ha voltar ao
+que fui. Então o que te traz por aqui?...
+
+--Venho consultal-o.
+
+--Ha tempos a esta parte obrigas-me a funccionar como conselheiro, sem
+que eu saiba bem em que mereci a honra da nomeação. Ora dize lá o que me
+queres.
+
+--Tracta-se ainda do mesmo negocio do outro dia.
+
+Jorge fez um gesto de impaciencia e desagrado.
+
+--Pois não está já tudo decidido? Que mais queres? A respeito de enxoval
+não dou conselhos.
+
+--Nem tudo está decidido, não senhor.
+
+--Então?
+
+--Eu lhe digo o que se passa.
+
+E Clemente narrou a Jorge a substancia da entrevista que tivera com a
+sua noiva.
+
+Custou a Jorge occultar a perturbação que lhe causava a narrativa. No
+fim conseguiu perguntar com apparente frieza:
+
+--E que queres tu que eu te diga?
+
+--Queria que me dissesse se por acaso sabia alguma coisa d'estes amores.
+
+Jorge saltou na cadeira e olhou para Clemente, fazendo-se excessivamente
+córado.
+
+--Eu?! E porque é que hei de saber d'esses amores?
+
+Clemente, admirado do effeito das suas palavras, disse com hesitação:
+
+--Lembrava-me... como é amigo do Thomé da Povoa... talvez soubesse...
+
+--As relações que possa ter com o pae não me habilitam a devassar o
+coração da filha; mas que desejavas tu saber d'esses amores? Não te
+disse ella que era como se não existissem? que nasceram sem faculdades
+para viver? O que te resta é julgar por ti se nas condições em que
+Bertha aceita a tua proposta, ainda podes insistir em fazêl-a.
+
+--Pois é isso mesmo. E depois de a ouvir hesito.
+
+--Duvídas de Bertha, não é verdade? Receias que esses amores não lhe
+morram no coração e que um dia revivam como a lavareda quando se desfaz
+o monte de cinzas que a suffocava? Se assim é, se não tens no caracter
+de Bertha a precisa confiança que devemos ter na mulher que escolhemos
+para companheira na vida, se não repousas cegamente n'ella, na sua
+lealdade, nas suas virtudes, então desiste, porque irias envenenar a tua
+vida com ciumes e a d'ella com suspeitas injuriosas.
+
+--Não desconfio de Bertha; mas queria saber porque julga ella impossivel
+esse amor que sente, para vêr se a mim me pareceria tambem que o era.
+Quem sabe lá se o é? E se deixar de sêl-o por o motivo de hoje e o fôr
+por Bertha ser minha mulher? Quem me podia curar d'este desgosto?
+
+--Socega, Clemente, os motivos que hoje se dão, dar-se-hão sempre--disse
+imprudentemente Jorge.
+
+--Pois sabe quaes são?!--perguntou Clemente admirado.
+
+Jorge conheceu a indiscrição em que tinha cahido, e procurou emendal-a,
+dizendo:
+
+--Não; mas se Bertha t'o assegurou... Ella não costuma ser
+irreflectida... E motivos ha na vida tão poderosos e permanentes, que
+póde bem predizer-se na presença d'elles a impossibilidade de um facto.
+
+--Eu sempre os queria conhecer, para julgar por mim.
+
+Jorge replicou com impaciencia:
+
+--Julgar por ti! E quem te diz que saberias aprecial-os? Talvez os
+julgasses faceis de vencer, não obstante elles serem insuperaveis.
+Acredita o que te digo, Clemente. Um homem só póde ser perfeito juiz das
+acções de um outro, quando entre ambos se dão absolutamente as mesmas
+condições de existencia. Desde que estas variam, varía com ellas a
+maneira de vêr as coisas. O que para ti é um acto natural e facil, é
+para mim um impossivel, porque se lhe oppõe opiniões, sentimentos,
+crenças que me são proprias, que fazem parte de mim mesmo, de minha
+entidade moral, e que tu não possues e de que por ventura te ris. Por
+isso escusado seria talvez saber do segredo de Bertha mais do que o que
+ella te revelou. Crê sob a garantia da sua palavra que esses amores
+foram apenas uma phantasia da mocidade, que os rudes deveres da vida
+extinguirão, e resolve.
+
+Clemente permaneceu ainda por muito tempo silencioso.
+
+Jorge pôz-se a passeiar no quarto.
+
+A final o noivo de Bertha ergueu-se e disse suspirando:
+
+--Bem; veremos o que pensa minha mãe.
+
+--E que direito tens tu de ires fallar a tua mãe nas confidencias de
+Bertha?--interpellou-o Jorge, com uma vehemencia que sobresaltou
+Clemente.
+
+--Devo confiar em minha mãe, pelo menos tanto quanto confiei no snr.
+Jorge. Bertha não m'o levará a mal.
+
+Jorge reprimiu-se ao responder:
+
+--De certo que não acho mais justificado o escolheres-me para
+confidente. Emfim, faze o que quizeres, mas... segue principalmente o
+que te dictar a consciencia.
+
+Clemente sahiu mais pensativo do que viera.
+
+O desconsolado noivo estranhára Jorge. A maneira por que elle lhe fallou
+fôra tão fria e desabrida e de tão difficil explicação, que não podia
+Clemente atinar com o motivo d'aquillo. A ultima reflexão, sobre tudo,
+deixou-o muito sentido. Jorge pozera em duvida o direito que elle tinha
+de consultar sua mãe n'este negocio! Pois não era ella a mais natural
+conselheira que elle tinha no mundo? E não pedia o caso o conselho de
+pessoa experiente?! Poderia Bertha levar-lhe a mal a precaução que
+tomava principalmente em vista da felicidade d'ella?
+
+Mas emfim Jorge dissera-o e Clemente, a seu pesar, começou a sentir
+escrupulos.
+
+De feito aquelle segredo não era seu, e Bertha não o tinha authorisado a
+revelal-o. Já em communical-o a Jorge exorbitára.
+
+E no meio d'estas alternativas de resoluções entrou cabisbaixo e
+assombrado em casa, e não fallou em coisa alguma a sua mãe.
+
+Esta ao vêl-o assim, attribuiu o facto a impaciencias do amor. A ida de
+Bertha para a companhia do fidalgo prorogára o prazo para a fixação do
+casamento, e Anna do Védor conjecturou que era isso que contrariava o
+filho.
+
+Resolveu pois fallar a Thomé para apressar quanto podésse a festa,
+porque ella sabia que D. Luiz estava melhor, e que até já andava a pé, e
+portanto era justo que prescindisse de Bertha, que não se destinava a
+fazer-lhe eternamente companhia.
+
+
+
+
+XXXI
+
+
+Chegaram cartas da baroneza e de Mauricio, datadas de Lisboa. As
+noticias que davam eram satisfactorias. Mauricio fôra hospedado em casa
+de um primo remoto de D. Luiz e por elle introduzido nos primeiros
+circulos da cidade, onde recebeu um lisongeiro acolhimento.
+
+Mauricio achava-se n'aquelle mundo, novo para si, como se n'elle tivesse
+sido educado. Sentia-se bem alli, agradavam-lhe aquelles habitos de
+elegancia e de distincção, que não conhecêra no canto de sua provincia,
+mas cuja necessidade vagamente experimentava havia muito tempo. Era para
+aquelle viver que os seus instinctos o inclinavam.
+
+Quando se viu alli respirou com o desafogo de quem sahe de um ambiente
+que o asphyxiava. Não necessitou de longo tirocinio para conhecer os
+usos d'aquella sociedade e adoptar-lhe os costumes. Em poucos dias não
+restavam n'elle vestigios sequer do seu provincianismo. Uma forte
+vocação substitue um lento noviciado. Os homens acharam-n'o espirituoso;
+as mulheres, amavel; e para com todos soube ser tão insinuante, que os
+influentes politicos, a quem a baroneza o recommendára, tomaram por elle
+o mais vivo e promettedor interesse.
+
+Escusado é dizer que Mauricio não foi muito escrupuloso na observancia
+dos artigos de fé politicos com que D. Luiz doutrinára os filhos. Para
+genios como o de Mauricio, um dos maiores achaques que póde ter uma
+ideia é o estar fóra da moda.
+
+Jorge sentia que não lhe era possivel abraçar a crença do pae, porque a
+razão a condemnava; e estas convicções para toda a parte o
+acompanhariam, porque procediam de um juizo claro e de uma aturada
+reflexão.
+
+Mauricio, apesar de nunca ter adherido manifestamente ao credo paterno,
+só agora parecia havêl-o devéras renegado, porque o desgostavam os ares
+de sédiço e desusado, com que elle lhe apparecia á esplendida claridade
+dos salões da moda.
+
+Tudo quanto havia de eminente no jornalismo politico, na litteratura, no
+parlamento, no fôro, constituia agora o circulo habitual das relações de
+Mauricio, e nas conversas animadas, cheias de vivacidade, brilhantes de
+eloquencia e de espirito, em que elle tambem tomava parte, jogavam, como
+principios assentes, certas proposições que elle fôra educado a
+considerar como abominaveis heresias.
+
+Isto era o bastante para que elle abjurasse o credo velho com que o
+haviam catechizado na provincia e professasse a doutrina nova.
+
+A baroneza, que revelava tudo isto muito extensamente a Jorge, colorira
+e occultára parte da verdade a D. Luiz, para não o assustar.
+
+Ella porém via com prazer o exito do seu protegido, que excedia a sua
+espectativa.
+
+ «Em pouco tempo--escrevia ella a Jorge--teu irmão tornou-se um homem
+ da moda, e é para ver o bem que elle sabe sustentar a posição que
+ tomou de assalto. Nas frisas de S. Carlos, nos primeiros salões de
+ Lisboa, Mauricio está como em terreno conhecido, e muitos nados e
+ creados n'estes ares invejam-lhe o seu _aplomb_ e o seu _savoir
+ faire_ inimitaveis. O ministro dos negocios estrangeiros, a quem
+ muito especialmente o recommendei, dá-me as melhores esperanças de
+ elle ser despachado como addido para o corpo diplomatico, carreira
+ que sobre todas me parece a mais talhada para as predilecções e
+ talentos do nosso protegido.»
+
+Estas noticias foram recebidas com prazer por Jorge e por D. Luiz. Este
+recordou-se, ao lêl-as, do tempo da sua juventude, em que tambem
+trilhára a carreira da diplomacia. Jorge conhecia a fundo o caracter do
+irmão e sentia que elle tinha de facto entrado no caminho para onde o
+chamavam os seus talentos e as suas disposições moraes.
+
+A imaginação de Mauricio era muito poderosa e exigente, as tarefas
+proveitosas, mas modestas, o trabalho na obscuridade da provincia, a
+consagração de uma vida inteira ao cumprimento de um dever, não lhe
+bastavam.
+
+Uma impaciencia insuperavel desviava-o d'esse caminho.
+
+As brilhantes apparencias, a vida agitada, a variedade de impressões, as
+luctas incessantes, alimento da febril anciedade que devora certos
+espiritos, eram-lhe indispensaveis. Sob a influencia de taes estimulos,
+as suas faculdades entravam em acção. Não se contentava com os applausos
+da consciencia propria, precisava dos applausos do mundo. Para os
+conquistar tentaria esforços sobrehumanos.
+
+Jorge era uma alma formada para o dever; Mauricio uma alma formada para
+a gloria.
+
+D. Luiz não pôde deixar de sentir-se lisongeado com o bom exito do
+filho, não obstante as vagas apprehensões que sentia de que a intima
+convivencia com a corrupta mocidade da côrte o contaminasse. Felizmente
+o velho realista não tinha já a seu lado o padre procurador, com a sua
+incessante prégação contra os costumes do seculo, que era d'antes o
+thema obrigado das conversações diarias. E desde então as prevenções do
+fidalgo haviam perdido muito das côres carregadas que as tingiam.
+
+Ás primeiras cartas seguiram-se outras, confirmando as noticias dadas
+n'aquellas.
+
+As auras continuavam a soprar favoraveis a Mauricio nos mares insidiosos
+da côrte. A baroneza dava quasi como certo o proximo despacho d'elle
+para addido a uma embaixada de Vienna ou de Berlim.
+
+Mauricio relacionara-se intimamente com os primeiros personagens da
+situação politica dominante, que se interessavam por elle. As sympathias
+femininas, poderoso elemento de prosperidade n'aqueilas altas regiões,
+como em geral em todas, conspiravam tambem a seu favor.
+
+ «Com mais um pequeno esforço talvez fosse possivel fazêl-o ministro,
+ (escrevia a baroneza a Jorge) que não é em Portugal dos postos de
+ mais difficil accesso. Ministro da marinha pelo menos, que é a pasta
+ dos principiantes e a mais adequada para os homens de imaginação
+ como elle, onde teem muito com que a alimentar, porque é a pasta
+ symbolica das nossas glorias passadas e pouco mais.»
+
+N'esta mesma carta de Gabriella havia alguns periodos em que, usando de
+uma linguagem mais grave, ella fallava da probabilidade do seu casamento
+com Mauricio.
+
+ «Não attribuas este projecto a um mero capricho de mulher. Não é.
+ Resolvi-me a dar este passo depois de ter reflectido o mais
+ friamente possivel nas vantagens e consequencias d'elle. Mais tarde
+ ou mais cedo eu tinha de contrahir segundas nupcias; a posição em
+ que me acho e as impertinencias dos innumeros aspirantes á minha
+ mão, ou antes aos bens que herdei de meu marido, assim o exigiam.
+ Era difficil deixar de ceder. A minha sympathia por Mauricio é um
+ motivo de preferencia muito justificado. Nenhum candidato me
+ agradava mais, o que não quer dizer que me sinta apaixonada. Mas
+ muito teria que esperar se aguardasse por uma paixão para me
+ decidir. Já não estou em tempo d'isso. Mauricio é um rapaz amavel e
+ delicado bastante para não me dar motivos de arrepender-me. É quanto
+ exijo. Sou tolerante por indole e por habito, não terão portanto
+ effeito sobre mim os costumados motivos de desolação de todas as
+ esposas extremosas, motivos que muito provavelmente Mauricio não
+ deixará de dar á sua. Isto pelo que me diz respeito. Quanto a elle,
+ entendo que lhe convém este casamento. Primeiro, porque realisará
+ uma operação financeira um tanto vantajosa; depois porque, graças á
+ minha longanimidade, não peiará demasiadamente os seus movimentos de
+ rapaz com os laços matrimoniaes, sem que por isso corra os precalços
+ dos maridos pouco fieis aos lares domesticos. O Jorge faz-me a
+ justiça de assim o acreditar, não é verdade? E finalmente porque
+ d'esta maneira precavê-se contra alguma tentação, a que são sujeitas
+ as cabeças como a d'elle, que em um momento de enthusiasmo
+ transtornam todo o seu futuro. Casando commigo, fica livre de
+ desposar a primeira dançarina de S. Carlos, que o fascinar. Em
+ conclusão, creio que poucas mulheres poderiam como eu aceitar
+ Mauricio para marido, com tanta probabilidade de não o fazerem
+ infeliz nem de o serem. O que é preciso é aproveitar o ensejo em que
+ Mauricio me faça a honra de uma preferencia. Por isso talvez
+ qualquer dia surprendamos o tio Luiz pedindo-lhe a authorisação
+ necessaria. Espero que o Jorge advogará a nossa causa. Perdoa-me se
+ alguma leviandade descobrires ainda n'esta minha resolução. Acredita
+ porém que nunca pude ser mais séria do que o estou sendo, ao
+ escrever-te esta carta.»
+
+
+Havia ainda um _post-scriptum_, em que ella acrescentava:
+
+
+ «Bertha ainda está nos Bacellos? Será bom que se demore. Nunca é
+ tarde de mais para o tal casamento, com o qual por emquanto me não
+ pude conformar.»
+
+
+A communicação que lhe fazia Gabriella surprendeu em extremo Jorge, que
+muito longe estava de prevêl-a. Reflectindo porém, acabou por achar que
+a prima tinha razão e por convencer-se de que, não obstante o tom
+ligeiro da carta que lêra, expunham-se n'ella razões de pêso para
+justificar o facto annunciado.
+
+Casando com a baroneza, Mauricio precavia-se contra si proprio e
+ligava-se a uma mulher, que por as especiaes disposições de sua indole,
+saberia respeitar o nome do marido, sem que a fizessem desgraçada os
+provaveis desvarios d'elle.
+
+Effectivamente, conforme o que a baroneza predissera, semanas depois era
+D. Luiz surprendido por uma carta d'ella e outra de Mauricio,
+pedindo-lhe o beneplacito para o referido casamento.
+
+O fidalgo recebeu com prazer a inesperada nova.
+
+Gabriella era por muitos motivos uma esposa que para qualquer dos seus
+filhos elle ambicionava. Joven, rica, de sangue igual ao seu, e de
+sentimentos elevados sob a frivola apparencia de que os revestia, a
+baroneza augurava um auspicioso futuro ao homem a quem désse o titulo de
+marido. Para Mauricio seria demais uma prudente conselheira e um
+obstaculo a muitas loucuras que, entregue a si ou a peior vigilancia, o
+rapaz não deixaria de commetter.
+
+Por isso D. Luiz, com animo folgado e um sorriso expansivo a alizar-lhe
+na fronte e nos labios a contracção habitual, apressou-se a responder ao
+pedido nas mais benevolas e lisongeiras phrases que lhe inspirava o seu
+bom humor.
+
+Bertha veio dar com elle sentado á secretária a escrever. A filha de
+Thomé da Povoa quiz retirar-se para não o interromper.
+
+D. Luiz, conhecendo-lhe os passos, disse sem desviar os olhos do papel
+em que escrevia:
+
+--Entra, Bertha, entra, que não me incommodas.
+
+E, sentindo-a mais perto, acrescentou:
+
+--Sabes o que estou fazendo?
+
+--A escrever; bem vejo.
+
+--Sim; mas a quem?
+
+--A seu filho Mauricio talvez.
+
+--A Mauricio e a Gabriella tambem. E sabes a respeito de quê?
+
+--Eu, não.
+
+O fidalgo terminava n'aquelle momento a assignatura no extremo inferior
+da pagina, e só depois de concluil-a foi que, voltando-se para Bertha,
+continuou:
+
+--Authoriso um casamento.
+
+--Um casamento?!
+
+--É verdade. Havia alguem de suppôr que o Mauricio se casava?!
+
+--Casa-se! Com quem?
+
+--A vêr se adivinhas.
+
+Bertha reflectiu alguns instantes.
+
+--E eu conheço a noiva?
+
+--Conheces perfeitamente.
+
+--Então não póde deixar de ser a snr.ª baroneza.
+
+--Justamente. É Gabriella.
+
+--É uma felicidade para elle.
+
+--Assim tambem o julgo. Se alguem se aventura n'este casamento é a
+noiva.
+
+--O snr. Mauricio tem uma boa alma, não dará motivos de arrependimento a
+quem depositar confiança n'elle.
+
+--Hum! É muito rapaz--murmurou o fidalgo, fingindo sentir contra o filho
+maiores prevenções do que effectivamente sentia.
+
+Bertha julgou que era occasião opportuna de pôr em pratica um projecto,
+que desde madrugada meditava.
+
+Thomé da Povoa tinha-a na vespera procurado para lhe fallar na visita
+que recebêra da mãe de Clemente, e no que ella lhe dissera sobre o
+desgosto em que andava o filho com a demora do projectado casamento.
+Thomé não queria apressar a sahida de Bertha dos Bacellos, mas,
+lembrando-se de que o fidalgo ia melhor e de que, por certo, não seria
+elle o primeiro a dizer a Bertha que prescindia dos seus cuidados,
+pensava que seria bom que ella lhe insinuasse a necessidade de separação
+e para isso bastava pedir-lhe, como a padrinho que era, licença para o
+casamento que se ajustára.
+
+Bertha perguntou ao pae se tinha já a certeza de que Clemente estivesse
+ainda resolvido a insistir na sua proposta. Thomé admirou-se da
+pergunta, porque nada sabia da conferencia da filha com o noivo, e
+assegurou-a de que a resolução de Clemente era ainda a mesma, visto que
+a mãe n'aquelle mesmo dia lhe viera recordar o ajuste.
+
+Em vista d'esta declaração, Bertha prometteu fallar n'aquelle objecto a
+D. Luiz no dia seguinte, e era esse o ensejo que ella desde pela manhã
+procurava.
+
+O assumpto a que a coincidencia das cartas de Mauricio e da baroneza
+chamava a conversa, preparára excellentemente o caminho para o pedido de
+Bertha.
+
+Aproximando-se da cadeira em que estava sentado o padrinho, disse-lhe
+com o tom de affabilidade com que aprendêra a dominal-o:
+
+--Já que está em maré de condescender com os pedidos que lhe fazem, não
+quero perder a occasião de lhe fazer um tambem.
+
+--Ah! tens um pedido a fazer-me?
+
+--Tenho. E tão parecido com esse!
+
+--Com esse... qual?
+
+--Com o que lhe fez seu filho.
+
+--Com o pedido de Mauricio? mas... então tracta-se de casamento?
+
+--Sim, meu padrinho. É de um casamento que se tracta.
+
+--De quem?--interrogou o fidalgo, fitando os olhos em Bertha.
+
+--De quem ha de ser, se sou eu a que peço?--respondeu esta, baixando os
+seus, e não podendo disfarçar a melancolia que ainda lhe causava aquella
+ideia.
+
+--Tu?!--exclamou D. Luiz sobresaltado, e voltando-se rapidamente--Tu
+queres... tu vaes casar-te?!
+
+--Sim, snr. D. Luiz, está decidido que isso se faça e eu peço-lhe
+licença para o fazer.
+
+--Tu casares-te, Bertha!--repetia o velho como se lhe fosse difficil
+conformar-se com essa ideia--mas... com quem?
+
+--Com o filho da Anna do Védor, com Clemente.
+
+D. Luiz deu um salto na cadeira, ao ouvir a resposta, e bateu com a mão
+na banca que tinha diante de si.
+
+--O quê?!... Ora adeus! Tu estás a brincar commigo.
+
+--Não, meu padrinho, fallo-lhe sériamente.
+
+--Com o Clemente?! Tu casares com o Clemente? Tu, uma rapariga delicada,
+de educação, de gosto, de sentimentos elevados, casares-te com um
+rustico, com um rapaz que quando muito saberá escrever o seu nome! com o
+filho da Anna, com o snr. regedor! Isso não tem geito nenhum. Isso é um
+disparate de tal ordem!... Quem foi que se lembrou de tal?!
+
+--Clemente pediu-me a meu pae...
+
+--E teu pae concedeu? Coisas do Thomé a final. Mas tu? tu, Bertha, tu
+consentiste!?
+
+--Clemente é um bom rapaz, honrado, amigo do trabalho...
+
+--Ora adeus, amigo do trabalho, honrado, e é isso bastante para que uma
+rapariga como tu vá sacrificar o seu futuro e ligar a sua existencia á
+de um homem que não póde servir-lhe de boa companhia?!
+
+--E porque não póde, meu padrinho? Elle é bom e delicado, dizem.
+
+--Oh! que grandes delicadezas as de Clemente! Nem tu sabes o que vaes
+fazer, Bertha. Pois devéras o coração approva essa escolha?
+
+--Não, snr. D. Luiz, não é que o coração m'a peça, porém...
+
+--Então quem te obriga? Por acaso teu pae violenta-te?
+
+--Tambem não; mas o padrinho sabe que nem sempre o coração é bom
+conselheiro. Mais vale ás vezes não esperar que elle escolha. Oh! se
+mais vale! Podendo-se decidir a sangue frio e antes que o coração
+decida, mais vale.
+
+--O Clemente não póde ser teu marido. Tu, Bertha, tu a quem Deus
+concedeu qualidades tão distinctas, que melhor estarias n'essas casas
+nobres que por ahi ha do que algumas raparigas atoleimadas que por lá
+tenho encontrado, tu, que me recordas a minha pobre Beatriz, que pareces
+ter herdado os modos, os gostos, os sentimentos d'ella, tu has de ir
+casar com o Clemente! Nem quero ouvir fallar mais n'isso.
+
+--A sua muita bondade para commigo, padrinho, é que o cega. Pois diga a
+que posso eu a final aspirar?
+
+--A que podes aspirar?!--exclamou o fidalgo, a quem a exaltação de
+espirito, que o pedido de Bertha produzira, quasi fazia esquecer os seus
+principios mais radicados--aqui, n'esta terra de selvagens, não podes
+aspirar a mais, porque não ha quem te mereça até. Aqui nem sequer por
+sonhos se sabe o que é delicadeza de sentimentos, nem sequer de longe se
+aprecia essas nobres qualidades de coração e de espirito de que Deus te
+dotou, e que tu queres perder na convivencia com um homem grosseiro, e
+que nem póde conhecer o thesouro que deseja possuir.
+
+--Mas, snr. D. Luiz, que outra póde ser a minha sorte? Ora diga.
+
+D. Luiz, fazendo um gesto de despeito, respondeu com vehemencia:
+
+--Pois bem, queres ser mulher de Clemente, não é assim? queres ir
+sacrificar os teus merecimentos a esse homem? queres dedicar-lhe todo o
+teu futuro, consagrar todos os teus pensamentos, todas as tuas aptidões
+aos arranjos da casa da Anna do Védor? Pois bem, faze a tua vontade. Mas
+escusas de vir pedir o meu consentimento. Eu não quero ficar com
+remorsos de ter sanccionado um disparate d'essa marca. Tu mulher de
+Clemente! Vossês, as raparigas, a final são todas assim, as mais
+ajuizadas, ou tarde ou cedo, cahem em uma loucura, como para mostrarem
+que são mulheres. Para que vens pedir-me conselho, se formaste o
+proposito de não o escutares? Anda lá, faze a tua vontade, e Deus queira
+que te não arrependas, quando já não fôr tempo. Tu não necessitas do meu
+consentimento, faze lá o que quizeres.
+
+E D. Luiz encostou-se á mesa com gesto e movimentos de amuado.
+
+--Porém, meu padrinho--insistiu Bertha, poisando-lhe as mãos no hombro
+com a doce familiaridade de filha--não era esse consentimento de má
+vontade que eu lhe pedia; esse não me trará felicidade, bem vê.
+
+--Queres talvez forçar-me a dizer que approvo um casamento, contra o
+qual se revolta a consciencia? É boa!
+
+--Mas pense bem e talvez que a sua consciencia não ache motivos para
+revoltar-se.
+
+--Sabes que mais? Dize que amas esse homem, que sentes por elle uma
+inclinação irresistivel, e então eu entenderei a tua insistencia.
+
+--Não digo, porque não diria a verdade.
+
+--Mas então onde está essa necessidade de casamento?
+
+Bertha sentiu que devia fallar com toda a gravidade ao padrinho para
+convencêl-o.
+
+--Olhe, snr. D. Luiz--disse ella--eu vou informal-o de todo o meu
+pensamento, e dirá depois se tenho razão. A educação que meu pae me deu
+não me cegou a ponto de illudir-me a respeito do meu futuro e do destino
+que me está reservado. O exemplo de minha mãe, que tem sabido em toda a
+sua vida ser a companheira fiel de um homem de trabalho e tem
+comprehendido que a sua missão era aquella, a de fazer-lhe esquecer em
+casa os desgostos de fóra e dar-lhe forças para continuar a sua tarefa,
+este exemplo nunca o perdi de vista; entendi sempre que terá de ser esse
+o meu papel n'este mundo, e nem me envergonhei nem me temi nunca d'elle.
+Sentia em mim forças para aceital-o e para cumpril-o.
+
+--Mas nem só os homens do trabalho material e grosseiro são os que
+precisam d'esse conforto da casa e da familia. As lidas de intelligencia
+tambem cansam, Bertha, e á cabeça desfallecida á força de estudo tambem
+é grato encontrar um seio amigo aonde se encoste a descançar--redarguiu
+o fidalgo com uma animação excepcional.
+
+Bertha tornou-lhe, sorrindo:
+
+--E qual seria a cabeça cansada de muito pensar que viria procurar a
+esta aldeia o seio em que repoisasse? De longe é de crêr que não
+viessem, e as d'aqui... ha tão poucas que se sintam cansadas d'isso!
+Creia, snr. D. Luiz, só um lavrador como Clemente procuraria a filha do
+lavrador Thomé da Povoa, e Clemente é um homem digno de ser estimado.
+
+--Só um lavrador! Que estás tu ahi a dizer?! E porquê? Tomaram-te para
+esposa esses doutores que por ahi estão ociosos, comendo e bebendo á
+custa dos paes, e esquecendo o pouco que aproveitaram em Coimbra na vida
+inutil que levam; olha que não te haviam de engeitar esses morgados
+vadios e perdularios, que passam a vida em caçadas e que arrastam o nome
+que herdaram pelas tavernas e por todos os logares de devassidão.
+
+--Esses engeital-os-ia eu. Pois julga que lhes não devo preferir
+Clemente?
+
+--Pois não digo esses, mas... emfim... ainda por ahi ha gente... bem
+educada...
+
+--Se não fosse a sua muita bondade para commigo, o meu padrinho mesmo
+acharia natural este casamento, e pelo contrario estranharia se algum
+dos filhos d'essas familias que diz fosse procurar noiva á casa de meu
+pae.
+
+O sentido epigrammatico d'esta resposta, dictado a Bertha por a nobre e
+justa indignação do coração, que depois de se haver sacrificado aos
+preconceitos de um homem, via o proprio por quem fizera o sacrificio
+negar a necessidade d'elle, feriu certeiro o fidalgo, que se sentiu
+vencido.
+
+Mudou pois de tactica, e com a eloquencia que lhe inspirava o receio de
+perder a companhia de Bertha, tornou:
+
+--Muito bem, dizes que não amas esse homem, que não cedes a inclinação
+alguma do coração, aceitando-o por marido; que se o fazes é por julgares
+que é essa a tua missão de mulher, a de suavizar a vida de um homem, e
+de tornar-lhe mais facil o seu caminho no mundo. E para cumprires essa
+missão vaes deixar-me só, velho, doente, abandonado dos filhos, sem
+conforto algum na vida; só com as lembranças pungentes do meu passado, e
+isto depois de me habituares á tua companhia, depois de me haveres
+recordado as doçuras d'este viver ao lado de uma filha, doçura que o
+amargor das saudades me tirava dos labios havia muito tempo. Para que
+vieste então? Quem te chamou? Se eu tivesse ficado só, estaria morto
+talvez e seria feliz. Vieste para me obrigares a sentir agora esta
+separação; para me fazeres morrer de paixão no dia em que celebrares
+esse casamento. Que queres? Estava habituado a considerar-te quasi como
+uma segunda Beatriz que Deus me concedêra, e podes julgar se eu daria a
+Clemente uma filha minha.
+
+--Meu padrinho!--exclamou Bertha, inquietando-se com a exaltação do
+fidalgo.
+
+D. Luiz proseguiu sem a escutar:
+
+--Mas que te importas commigo? Eu estou velho; as cabeças na minha idade
+vergam muito para a terra, pesam demasiado, não se póde exigir de umas
+mãos jovens a tarefa de as sustentarem. Ainda se fossem as de uma filha!
+Mas para que vieste? Julgas que me deixas forte? Estás enganada. Esta
+vida em mim é ficticia. É da tua presença que a recebo. Ámanhã que me
+deixes vêr-me-has mais prostrado do que me encontraste. Emquanto viveu a
+minha Beatriz, ninguem me viu fraquear. Dois mezes consecutivos, dois
+mezes, passei junto do leito onde ella agonisava, quasi sem dormir,
+quasi sem comer, e nunca me faltaram as forças, e desde o momento em que
+m'a tiraram dos braços para m'a encerrarem no tumulo, abandonou-me toda
+a minha energia, e cahi no leito quasi exhausto de vida. Mas vae, não
+quero sacrificar o teu futuro. A companhia de um velho cansa. Os
+corações na tua idade precisam de ar e de alegrias. Eu bem conheço isso;
+mas não me digas que é sómente a consciencia da missão que te compete na
+vida a que te impelle; essa bem a desempenharias tu aqui, e generosa e
+abençoada como nenhuma, porque nenhum coração receberá de ti consolação
+igual áquella que me dás; podes crêl-o, porque tambem poucos ha mais
+apertados de angustias e que ha tanto tempo abafassem como este meu. Mas
+queres deixar-me... Vae... vae, que eu não devo, nem quero impedir-te.
+
+Havia tão sensivel commoção na voz com que D. Luiz pronunciára estas
+palavras, que Bertha sentiu o contagio d'ella, e pegando nas mãos do
+padrinho para as levar aos labios, disse-lhe sensibilisada:
+
+--Ó meu padrinho, se é verdade o que diz, se a minha companhia lhe faz
+tão bem, ordene-me que fique, e ninguem me tirará de junto de si, e
+nenhuma sorte me será mais querida do que esta. Concorrendo para
+alliviar-lhe os seus soffrimentos, parece-me que estou cumprindo um
+encargo que Beatriz me deixou, e que ella do céo me sorri e agradece.
+Quer que não saia de ao pé de si? quer que lhe consagre todos os meus
+cuidados? fal-o-hei e fal-o-hei com prazer.
+
+O velho cingiu a formosa cabeça d'aquella rapariga, que se lhe ajoelhava
+aos pés, e aproximando-lhe dos labios a fronte e as faces beijou-as a
+chorar.
+
+--Obrigado, Bertha, obrigado por essas palavras que me entram pelo
+coração como um balsamo salutar. A minha vida não póde ser muito longa,
+filha, o teu sacrificio não duraria muito tempo... mas nem eu quero que
+faças promessas de cumpril-o. Só te peço que me dês algum tempo para
+responder á tua petição, e que até lá me não falles mais n'esse
+casamento. Eu pensarei e talvez... talvez me conforme com essa ideia,
+contra a qual ainda me revolto. Póde ser isto? Podes esperar na minha
+companhia alguns dias mais?
+
+--Esperarei o tempo que quizer. E não pense por ora em tal casamento, se
+esse pensamento o afflige. Se soubesse nem lhe tinha fallado n'isto.
+
+--Melhor foi que fallasses; é preciso pensar com vagar n'isso.
+
+--Mas agora não, agora vamos até á quinta, que a manhã está bonita.
+
+Em resultado d'esta conferencia nada ficou determinado emquanto á época
+do casamento. Thomé teve de dizer a Anna do Védor que o fidalgo ainda
+não podia prescindir da companhia de Bertha.
+
+Anna não ouviu a noticia sem fazer-lhe commentarios, nos quaes havia
+algumas azedas allusões ao egoismo do fidalgo, que depois de offender o
+pae, assim se sabia apropriar dos serviços que lhe prestava a filha.
+
+Cumpre porém notar que a boa Anna seria a primeira a aconselhar a Bertha
+que ficasse, porque sentia verdadeira pena do estado a que chegára D.
+Luiz.
+
+
+
+
+XXXII
+
+
+Não podia passar da ideia a Clemente a maneira insolita e quasi
+desabrida com que Jorge por duas vezes recebêra as suas consultas
+relativamente ao assumpto do casamento de Bertha.
+
+Clemente conhecêra sempre em Jorge uma tal placidez de espirito, uma tal
+impassibilidade em presença dos casos mais estranhos, que não sabia como
+explicar aquella subita transformação.
+
+Esta mudança em Jorge e a revelação que ouvira da bôca de Bertha tão
+preoccupado traziam o pobre rapaz, que não podia dispôr da attenção para
+outro objecto. Distrahiam-n'o estas ideias das suas tarefas diarias e
+agitavam-lhe o somno das suas noites.
+
+Jogava-lhe alternadamente o pensamento com estes dois assumptos, como se
+joga com duas espheras em uma só mão; emquanto se arroja uma ao espaço,
+cahe a outra a occupar o logar que fica vazio. Ora succede que muitas
+vezes as espheras encontram-se e batem uma na outra; e que muito será
+para admirar se d'este choque resultar uma faisca? Pois com o jogo do
+pensamento póde succeder o mesmo. De duas ideias que se encontram, á
+força de se cruzarem muitas vezes no cerebro, póde sahir um clarão. Este
+phenomeno succedeu com Clemente.
+
+Pensava elle uma noite no seu leito:
+
+--Mas quem poderá ser o tal rapaz que Bertha diz que amou e que ainda
+ama? Porque será impossivel o casamento com elle? E Jorge tambem diz que
+o é. Elle parece que sabe a este respeito alguma coisa mais do que
+disse. Até quando lhe fallam n'isso se enraivece. Quando me lembro!
+Nunca o vi assim! Nem elle era d'aquellas coisas. Como está
+impertinente! Mas o tal rapaz, o tal rapaz? É claro que é conhecimento
+da cidade. Sim, porque da terra não póde ser... a rapariga já ha muito
+que d'aqui sahiu... e sahiu criança... Desde que chegou com ninguem tem
+convivido... a não ser com os fidalgos da Casa Mourisca, mas esses... É
+verdade que pelos modos Mauricio lhe arrastou a aza, como faz a todas,
+mas ella não lhe deu confiança; emquanto a Jorge... Jorge... Jorge...
+
+De repente o filho da Anna do Védor sentou-se de um salto na cama e
+murmurára já audivelmente:
+
+--Jorge! Querem vêr que...
+
+E sem bem saber o que fazia, accendeu luz. Este movimento de instincto,
+pelo qual parece que queremos desfazer com a luz de fóra as meias
+sombras que dentro de nós escurecem ainda uma ideia, é frequente n'estas
+circumstancias. Clemente permaneceu sentado no leito com a vista fixa e
+o queixo apoiado na mão.
+
+E continuava murmurando:
+
+--E porque não? E a mim que não me tinha occorrido! É até o mais
+provavel. E assim explica-se tudo... A maneira por que elle fallou a
+primeira vez e hontem... Aquillo de sahir da casa dos Bacellos, quando
+ella foi para lá... E a tristeza em que anda... Mas então... E porque é
+impossivel? Ai, sim, o velho. Isso lá é verdade, quem fallasse ao velho
+em tal, o que ahi não iria!... Porém... morrendo o pae... já não havia
+tropeço... E ahi ficava eu... É o que eu digo... É verdade que o rapaz
+tem lá uns modos de pensar!
+
+Aqui bateu Clemente uma palmada no travesseiro, exclamando quasi:
+
+--E não é outra coisa! Agora é que eu explico tudo o que elle me
+disse... e ella tambem. É certo. Coitados! Se assim fôr... Mas é com
+certeza. Vou jural-o. Pois se não fosse... Ora se não é, é sem a menor
+duvida. Elles gostam um do outro. Bertha gosta de Jorge e o rapaz tambem
+gosta d'ella.
+
+E formulando esta conclusão, Clemente, com abstracção igual á do
+philosopho que, excitado pela alegria de uma descoberta, sahiu como
+estava do banho a proclamal-a por toda a cidade, saltou da cama e
+começou a vestir-se com presteza sem reflectir no que fazia.
+
+Já meio vestido foi que reparou que eram duas horas da noite e que
+portanto era aquelle acto extemporaneo. Com instinctiva repugnancia
+deitou-se outra vez.
+
+Quando no decurso de uma noite nos luz assim de subito uma ideia, em
+busca da qual andavamos havia muito, quando nos occorre a solução de um
+problema em que meditavamos, impacienta-nos o imperturbavel silencio e
+quietação que nos rodeia, formando tão completo contraste com o tumulto
+que nos vae no pensamento. Anciamos pelo dia para ter a quem communicar
+a descoberta, e para a examinar á luz bem clara, e desenganamo-nos de
+que não fomos victimas de uma illusão nocturna.
+
+Emquanto o dia não rompe, o cerebro é irritado por aquella sua creação,
+como o seio materno pelo ser desenvolvido; acabado o periodo da gestação
+mental é necessario que a ideia venha á luz, e qualquer demora é
+afflictiva.
+
+Este phenomeno psychologico passava-se em Clemente. Custou-lhe a
+respeitar o somno da mãe, esperando a luz do dia para lhe transmittir a
+descoberta que fizera.
+
+O resto da noite passou-o volvendo-se e revolvendo-se na cama sem poder
+dormir. Era quasi um estado febril o seu.
+
+Incommodára-o a ideia de que a sua pretenção á alliança com Bertha era o
+motivo da tristeza de Jorge, e que, sem o saber, fôra elle o importuno
+despertador d'aquelle sonho em que se embalavam ambos, deixando-se amar,
+sem pensarem no futuro do amor a que cediam. Sonho irrealisavel embora,
+porém Clemente não quereria ter sido quem os acordou.
+
+Antemanhã, quando ainda a estrella d'alva despedia proxima do horizonte
+as suas ultimas scintillações, Clemente deixou finalmente o leito, onde
+não encontrára repouso, e foi passeiar para o campo contiguo á casa,
+aguardando o despertar da mãe.
+
+Anna do Védor era matinal e por isso Clemente não esperou muito.
+
+Effectivamente a vidraça do quarto em que dormia a robusta matrona
+abriu-se e ella bradou da janella para o filho:
+
+--Que força de serviço foi essa que te estremunhou, rapaz?! Sume-te! Mal
+luzia o buraco e tu já a sarilhares por essa casa!
+
+--Levantei-me um bocadito mais cedo e vim espairecer até aqui.
+
+--Qual historia! Então cuidas tu que te não senti toda a sancta noite? Ó
+rapaz, olha que isto não me vae agradando. Aquelle maldito empate do
+casamento...
+
+--Ora adeus, bem se tracta agora d'isso.
+
+--Pois que outra coisa ha de ser?
+
+--Quer que lh'o diga? Faça vossemecê favor de chegar aqui abaixo e
+conversaremos.
+
+--Olá! A coisa é séria! Temos historia. É o que eu digo.
+
+E sahindo da janella e descendo as escadas para ir ter com o filho ao
+quintal, a boa Anna ia a dizer para si:
+
+--O rapaz anda exquisito! Que me quererá elle? É coisa que lhe dá
+freima. Na cara se vê. Queira Deus que não tenhamos por ahi alguma
+alhada. O diacho do casamento!
+
+E chegando ao quintal, onde a aguardava o filho, exclamou:
+
+--Ora aqui me tens. Vamos lá a ouvir isso que tens para me contar.
+Desabafa lá, que isto de guardar cada um as coisas comsigo não é bom.
+Vá.
+
+--Ora venha para aqui, minha mãe--disse Clemente chamando-a para um
+banco de madeira, por baixo de um parreiral.
+
+--Mas avia-te, filho, que eu tenho que fazer lá dentro. Já sei que me
+vaes fallar no casamento.
+
+--É verdade, vou fallar-lhe no casamento que se não faz.
+
+--Que se não faz?!--repetiu Anna, dando um salto e fitando no filho os
+olhos espantados.--Tu que dizes?
+
+--Isso mesmo que entendeu. Que se não faz.
+
+--E então porque é que se não ha de fazer?
+
+--Porque pensei melhor.
+
+--Ora vae pensar para os quintos. Olha agora! Viu-se já um disparate
+assim? Pensaste melhor em quê e porquê?
+
+--Olhe, minha mãe, vossemecê bem sabe que eu não sou nenhuma criança
+capaz de fazer as coisas no ar. E por isso eu que lhe digo que o tal
+casamento não deve fazer-se é porque...
+
+--E então criança sou eu, para tu nem sequer me dares a importancia de
+me dizer o porquê? Olha que teu pae até bem velho se aconselhou commigo,
+apesar de ser homem ajuizado, e não tenho lembrança de o haver feito
+nunca arrepender por isso. Olha agora!
+
+--Pois tambem eu lhe direi tudo, mas é se vir a mãe mais bem disposta a
+ouvir-me com socego.
+
+--E parece-te que eu estou desassocegada? Ora valha-te não sei que diga.
+Em peiores talas me tenho visto na minha vida, sem perder a cabeça. Boa
+mulher estava eu se me estonteava assim á primeira! Olha agora! Anda,
+dize lá.
+
+--Pois, minha mãe, este casamento não tem logar, porque Bertha...
+emfim...
+
+Anna do Védor franziu o sobrolho.
+
+--Bertha o quê? Que disse ella? Disse que não? Olha a presumida! Então
+quem acha ella que é? Sempre se vêem coisas no mundo! Olha agora! Então
+ella disse que... Ó senhores, não estar eu lá! sempre queria
+perguntar-lhe...
+
+--Valha-me Deus, minha mãe, é essa a paciencia que me prometteu? Nem me
+deixa concluir, nem espera por saber o que vou dizer.
+
+--É porque eu cuidei que ella... sim, porque isso então...
+
+--Ouça, Bertha aceita, mas não tem verdadeira inclinação para mim.
+
+--E porque não?
+
+Clemente sorriu ao ouvir a pergunta.
+
+--Ora essa!--tornou elle brandamente--então n'estas coisas precisa-se de
+se dar razões? Gosta-se, porque se gosta; não se gosta, porque se não
+gosta, e acabou-se.
+
+--Mas emfim uma pessoa sempre diz: Não gosto d'aquelle, porque é feio,
+d'aquelle, porque é torto, ou porque é aleijado, ou porque tem mau
+genio, por isto ou por aquillo, eu sei lá! Mas tu...
+
+--Sim, eu não tenho defeito que me faça engeitar, hein? Se todos me
+vissem com os seus olhos, minha mãe!
+
+--Ora, mas vem cá, mas então dize-me...
+
+--Perdão, ouça-me vossemecê primeiro. Bertha não sente inclinação por
+mim, porque a sentia já por outro. Está satisfeita?
+
+--Olha a pateta da rapariga! Então já a sonsinha... tinha tambem o seu
+namorado! Que mundo este!
+
+--Ó minha mãe, então se ella se agradasse de mim não era pateta, e lá
+porque se inclina para outro, já vossemecê faz um espanto d'esses! Que
+sou eu mais do que elles?
+
+--Não é isso--disse a mãe um pouco embaraçada com o argumento--eu o que
+queria dizer era... emfim... se fosse um homem capaz... mas qual!...
+algum menino bonito, algum peralvilhito de Lisboa. Então disse-te assim
+mesmo na cara que não gostava de ti. E tu...
+
+--Bertha disse-me que tinha tido uma paixão, mas que fazia por vencêl-a,
+porque não podia casar com o homem de quem gostava; e que se eu, sabendo
+isso, ainda a quizesse para mulher, ella não duvidava em dizer que sim,
+e que jurava que me seria fiel companheira na vida.
+
+--Muito obrigada aos seus favores, mas não são cá precisos. Olha agora!
+Nem que tu morresses sem os seus bonitos olhos. Se deu o coração a
+outro, que lhe preste, e que passe por lá muito bem sem elle. Olha
+agora! Como quem diz: emfim eu não gosto de ti, mas vejo-te tão
+embeiçado, que me mettes pena. Graças a Deus, não faltam por ahi
+mulheres com quem cases, e se faltassem, tambem vivias bem sem ellas,
+que, Deus louvado, não te falta que comer, que é o essencial. Olha
+agora! Não que eu nunca vi umas delambidas como agora ha! Aquelle Thomé
+é quem tem a culpa.
+
+--Ó minha mãe, já estou arrependido de lhe ter fallado n'isto. Olhem o
+escarceu que ahi está levantando!
+
+--Ó filho, isto é um modo de fallar. A gente faz cá os seus votos de
+razão. Mas vamos ao caso. Tu disseste-lhe logo que passavas
+regaladamente sem os seus obsequios? está entendido. Fizeste muito bem,
+e está acabado.
+
+--Não disse, não senhora, não lhe disse isso logo.
+
+--Não? Pois isso é que eu não esperava de ti.
+
+--Pedi-lhe tempo para pensar. Eu o que queria era saber quem era o tal,
+para vêr se de facto o casamento seria impossivel, porque se visse que o
+era, casava eu, isso casava. O que não queria era vir a ser tropeço
+algum dia.
+
+--E d'ahi?
+
+--E d'ahi tanto pensei, tanto parafusei, que esta noite dei com a
+historia.
+
+--Então? Algum janotinha da cidade?
+
+--Sabe o que lhe digo, minha mãe, é que o caso é bastante serio; e agora
+o que me dá cuidado não é o meu casamento, que esse já eu sei que se não
+faz; o que me dá cuidado são elles.
+
+--Elles quem?
+
+--A Bertha e o rapaz de quem ella gosta e que é... Sabe quem? O filho
+mais velho do fidalgo, Jorge.
+
+A Anna do Védor empurrou o hombro do filho, e fez um gesto que,
+combinado áquelle movimento, exprimia a mais radicada duvida.
+
+--Vae-te d'ahi! Olha agora o disparate! Ora, ora...
+
+--Creia que é verdade.
+
+--Pois a tola da rapariga... metter-se-lhe-ia em cabeça?...
+
+--Não se lhe metteu em cabeça coisa nenhuma. Gosta d'elle, mas sem
+esperança, e tanto que não hesita em casar com outro. Mas o peior é que
+Jorge ainda gosta mais d'ella talvez. E Deus queira que isto não venha a
+dar cabo d'elle!
+
+--O quê? A dar cabo d'elle!
+
+--Pois se vossemecê o visse! É olhar-lhe para a cara e diz-se logo: este
+rapaz tem coisa que o roe lá por dentro. Eu não suspeitava o que fosse,
+mas agora que pensei...
+
+--Mas como é que tu vieste a saber isso?
+
+Clemente contou á mãe as entrevistas que tivera com Jorge, e a maneira
+estranha por que elle o recebêra, a irritação com que o ouvira fallar em
+Bertha, a singularidade das reflexões que lhe fez e dos conselhos que
+lhe deu, e a Anna do Védor acabou por convencer-se de que o filho
+acertára.
+
+Tinha um compassivo coração a boa mulher e, como dissemos, era perdida
+por Jorge, a quem amava quasi tanto como ao filho. Por isso tomou logo o
+partido d'elle, e exclamou:
+
+--Mas então porque não ha de esse rapaz casar com a pequena, se gosta
+assim d'ella?
+
+--E o pae?
+
+--O velho? Isso lá é verdade. O fidalgo é pêrro, mas adeus, primeiro
+está o gosto de cada um, e quando o amor é de raiz, tolice é querer
+arrancal-o.
+
+E depois de curta meditação, acrescentava:
+
+--Mas vejam como o demonio as arma! aquelle rapaz, que parecia nem
+sequer pensar em que havia raparigas n'este mundo, deixar-se logo
+embeiçar por aquella! por a filha do Thomé da Herdade, que se o fidalgo
+o via por sogro de um filho seu, era para estoirar de paixão! Sempre é
+uma! Ó Clemente, pois devéras isso será assim?
+
+--Quasi que ia jural-o, minha mãe.
+
+--Quem me déra encontrar o rapaz, que logo lh'o pergunto.
+
+--Não diga isso, minha mãe. Ia fazel-a boa! Não conhece ainda o Jorge?
+
+--Ora vem tu ensinar-me a conhecêl-o, a mim, que o trouxe a estes
+peitos, que o ensinei a fallar e a andar; vem cá dizer-me o que elle é.
+Então que achas tu? que elle se zanga commigo? E a mim que me ha de
+importar muito que elle se zangue. Mais me zango eu e veremos quem
+vence. Olha agora!
+
+--Mas para que ha de ir fallar-lhe nisso?
+
+--Para quê? Pois então tu dizes-me que o rapaz anda a consumir-se e a
+moer lá comsigo essa paixão, e queres que eu o deixe assim rebentar? Ha
+lá nada peior do que uma pessoa calar comsigo estas coisas que roem lá
+por dentro? Nada, a bôca fez-se para fallar e para a gente desabafar as
+suas melancolias.
+
+--Mas se a mãe lhe podésse dar remedio...
+
+--E que cuidas tu? Pois parece-te que se eu visse que o rapaz se me
+definhava por causa disto, que não tinha alma para ir ter com o fidalgo
+e dizer-lhe as coisas como ellas são? Então já vejo que tu estás muito
+enganado com tua mãe. Nada, não, era melhor deixar morrer aquelle rapaz,
+que é a perola dos rapazes, aquelle rapaz que eu criei e que ha de ser,
+e já é, a honra da familia. Pois sim, não que eu sou mesmo mulher para o
+deixar morrer assim.
+
+--Havia de valer-lhe bem. O fidalgo está mesmo agora á espera dos seus
+conselhos.
+
+--Não estará, mas olha que, duro como é, já não era a primeira vez que
+eu me avinha com elle e sem elle levar a melhor. No tempo da senhora,
+que era um anjo, Deus a chame lá, ainda mais força de genio tinha elle e
+fazia-a chorar sangue e agua pelo muito que lhe perseguia o irmão. A
+pobre creatura doente e elle sem querer que ella recebesse as cartas que
+o irmão lhe escrevia, nem lhe deixar saber noticias d'elle. Eu, um dia,
+dei com o fidalgo no corredor e disse-lhe: «Ó snr. D. Luiz, olhe que v.
+exc.ª anda a fazer com que se rale de remorsos toda a sua vida, por
+deixar morrer a senhora assim a estalar de saudades e afflicções. Veja
+bem v. exc.ª que estas coisas pagam-se.» Foi mesmo assim. E cuidas lá
+que elle se enfureceu? Qual! Calou-se muito caladinho, e d'ahi por
+diante a senhora teve noticias amiudadas, e até o jardineiro mais tarde
+foi para casa e ainda lá está. Então já vês...
+
+--Pois sim, mas o caso agora é mais difficil.
+
+--Deixa-o ser; mas tambem o homem está mais quebrado.
+
+--Tenha cuidado, minha mãe. Olhe lá não vá fazer alguma das suas.
+
+--Alguma das minhas! Eu lá vejo quem é que te dá melhores conselhos do
+que eu. Alguma das minhas! Olha agora! Sabes tu que mais? Vou já d'aqui
+fallar com o Thomé.
+
+--Não lhe diga nada d'isto.
+
+--Ora não querem vêr a bonita cabeça que tem este rapaz? Está o
+casamento tractado, resolve agora não casar e nada de fallar n'isto ao
+pae da rapariga. Sim, que o Thomé é mesmo homem com quem se brinque e
+que se contente com meias razões.
+
+--O que eu quero dizer é que não ponha a bôca em Jorge.
+
+--Deixa-me cá. Sabes o que te digo? É que eu não sou mulher de planos.
+Ao sahir de casa para procurar alguem não penso no que lhe hei de dizer
+e no que hei de calar. Quando as palavras me veem á bôca, deixo-as sahir
+e não quero saber de contos. Mas vamos ao almoço, que são horas. Ora o
+Jorge! o Jorge! para o que lhe havia de dar! E o diacho da rapariga se
+apanha aquillo! Olha, eu não duvido, porque já ha muito tenho para mim
+que o Thomé nasceu n'um folle. Ora o diacho! Boa pequena é ella,
+coitadita, ainda que não andou muito bem comtigo, não, mas...
+
+A mãe e o filho almoçaram, conversando sempre sobre o assumpto, e
+Clemente tentando combater a resolução que percebia na mãe de cumprir o
+que annunciára.
+
+Anna do Védor, depois do almoço, deu as suas ordens e sahiu.
+
+Ella fallára verdade, ao sahir não formára plano de conducta, mas
+instinctivamente dirigiu-se para a Herdade.
+
+O caso de Jorge não lhe sahia da ideia.
+
+
+
+
+XXXIII
+
+
+A meio caminho da Herdade, a Anna do Védor, ao abrir uma cancella, para
+tomar por o atalho de um campo, deu de rosto inesperadamente com a
+pessoa que tanto lhe estava occupando o pensamento.
+
+Jorge vinha em direcção opposta e preparava-se tambem para transpôr o
+portello.
+
+Em um relance de olhos, a boa mulher verificou, na mudança de aspecto em
+Jorge, a exactidão das informações que lhe dera o filho, e com isso
+cresceram ainda mais as suas apprehensões, obrigando-a a exclamar
+consternada:
+
+--Ó Virgem Mãe dos homens! que maus olhados te deitaram, meu filho, que
+parece mesmo que sahiste agora do cemiterio? Bem m'o tinham dito, mas
+tanto não esperava eu vêr!
+
+--Então que lhe tinham dito, ama? Que me haviam desenterrado?
+
+--O que me tinham dito? Queres sabêl-o? Pois olha que não ponho nenhuma
+duvida em t'o dizer. Tinham-me dito que tu não eras o rapaz de juizo que
+eu suppunha, que a final eras tão bom como os outros, e que por doidices
+de rapaz andavas mais morto que vivo, amarello e chupado, como quem tem
+já um pé na cova.
+
+--E parece-lhe então que a informaram bem?
+
+--De menos que não de mais. Que cara é essa com que tu me appareces? Tu
+queres ir atraz de tua irmã? Olha se queres. A coisa é facil se
+continuares n'esse andar.
+
+--E então que lhe hei de eu fazer, ama? Uma pessoa não tem na sua mão o
+engordar e emmagrecer.
+
+--É teres juizo, é não pensares em tolices, ou então, quando já não ha
+remedio, é andares para diante com a cara e não soffreres até
+rebentares.
+
+--Agora é que não a entendo, ama.
+
+--Entendes, entendes; mas, se queres que eu falle mais claro, sempre te
+perguntarei se era coisa que se fizesse dar por noiva ao meu Clemente,
+que se criou aos mesmos peitos que tu, a menina que o senhor fidalguinho
+da Casa Mourisca engeitou?
+
+A impetuosidade do movimento com que Jorge respondeu a estas palavras da
+ama, a subita e intensa vermelhidão que lhe cobriu o rosto pallido, e o
+olhar indignado que fitou na boa velha, assustaram profundamente esta,
+que quasi se arrependeu do que dissera.
+
+--Ama--disse-lhe Jorge commovido e com voz severa--quero acreditar que
+não pensou nas palavras que disse, nem sabe bem o que ellas significam.
+Vejo porém que conhece a meu respeito um segredo que eu desejaria que
+fosse ignorado. Não quero saber como lhe chegou ao conhecimento. Não
+negarei a verdade. Deixe-me porém dizer-lhe que mal sabe Clemente, mal
+imagina sequer a grandeza do sacrificio que eu fiz, facilitando-lhe o
+casamento em que elle me fallou.
+
+Anna recuperou a sua presença de espirito.
+
+--E quem foi que lhe pediu que fizesse esse sacrificio? O meu Clemente
+sabia lá o que vossemecê tinha no coração? Julgas tu que elle era homem
+que aceitasse de ti favores d'esses? Olha o outro, que assim que soube
+tudo, immediatamente deu o dito por não dito.
+
+--O quê? Soube tudo... o quê? O que sabe Clemente?
+
+--Sabe que o snr. Jorge da Casa Mourisca gosta da menina do Thomé da
+Herdade, e que a menina do Thomé da Herdade gosta do snr. Jorge, e o
+senhor meu filho, que é um rapaz de brio, não está resolvido a ser o
+trambolho que separe esses dois corações que morrem um pelo outro.
+
+--Não sabe Clemente que essa affeição, que por infelicidade é
+verdadeira, está condemnada á morte e que não será a recusa d'elle que a
+salvará? Não estava seu filho resolvido a aceitar a amizade leal, que
+lhe offerecia Bertha, sentimento que mais tarde as affeições communs de
+familia por certo transformariam em verdadeiro amor conjugal? não me
+disse elle a mim que estava decidido a aceitar, se se convencesse de que
+a illusão de Bertha não podia ser nunca realidade? Pois essa certeza
+póde têl-a agora, se sabe tudo. E então porque hesita? Se não tem
+confiança em Bertha...
+
+--Hesita e deve hesitar, sim senhor. Pois que vem cá a ser esses
+impossiveis? Olha agora a coisa do outro mundo que o snr. Jorge case com
+a Bertha da Povoa!
+
+Jorge encolheu os hombros, sorrindo melancolicamente.
+
+A Anna do Védor, interpretando mal aquelle sorriso, insistiu com mais
+acrimonia:
+
+--É como eu digo. Ai, os escrupulos então são só para quando muito bem
+lhes parece? Os impossiveis vem só ao atar das feridas? Não que elle não
+ha mais. Tem um pobre homem uma filha, para quem deseja encontrar um
+marido trabalhador e honesto, que lhe sirva de arrimo; e vae senão
+quando apparece um fidalguinho que principia a olhar para a rapariga e a
+fazer-lhe gaifonas e a metter-lhe teias de aranha na cabeça, e ella,
+coitadinha, deixa-se ir e prende as azas na rede; e é então que o menino
+bonito se lembra dos impossiveis e a deixa, e por muito favor cede-a a
+um rapaz honrado que a estima com lizura e com as melhores intenções de
+fazer d'ella sua mulher, mas a quem ella já não póde dar o coração,
+porque o outro lh'o roubou. E diga-me uma coisa, ficava bem a este rapaz
+aceitar para mulher a rapariga que lhe diz que deu a outro o coração?
+Para que quer um homem em casa uma mulher sem coração, não me dirá
+vossemecê?
+
+Jorge ouvia cada vez mais triste e pensativo as recriminações da ama.
+Dir-se-ia que algumas d'aquellas palavras lhe feriam o coração de
+remorsos, como se n'ellas sentisse o que quer que fosse verdadeiro; ao
+mesmo tempo protestava-lhe tambem contra a accusação a consciencia que
+não o havia accusado tão severamente.
+
+Olhando com gesto melancolico para a mãe de Clemente, que levada pelo
+impulso da sua eloquencia, ia augmentando de severidade, Jorge disse-lhe
+com placidez:
+
+--Tem razão em parte no que diz, ama, porém creia que trabalhei devéras
+para vencer isto em mim. Nem eu sei como me adivinharam; como ella o
+adivinhou. Ah! sim... lembro-me já... Disse-lh'o eu; mas não foi, como
+julga, no intento de illudil-a; disse-lh'o em um momento de desespero,
+quando ella com lagrimas me perguntava porque eu lhe queria mal. Eu
+querer-lhe mal! Disse-lhe então tudo. Ella soube de mim pela primeira
+vez este segredo e eu d'ella um segredo igual. Pedi-lhe então que me
+indicasse o que devia fazer. Da sua propria vontade nasceu a minha
+resolução, a nossa... Bem vê, ama, que não sou tão criminoso como
+suppôz. Acredita que eu fosse capaz da vileza que disse? O que fiz por
+Clemente não podia deshonral-o. Bertha sabel-o-ia fazer feliz, porque
+comprehende bem os seus deveres. Eu conheço a tempera d'aquella alma.
+Mas emfim, se me illudi, se nos meus actos ia offensa para Clemente,
+elle que me perdoe, que não houve n'isso intenção.
+
+Anna do Védor sentiu que lhe vibrava a corda da sensibilidade no
+coração, ao escutar aquellas palavras sérias e tristes que lhe dizia
+Jorge.
+
+--Vae-te d'ahi!--exclamou ella, disfarçando a sua commoção.--Quem falla
+aqui de offensas? Então acreditas que tudo isto que eu disse foi a
+sério? Era o que me faltava! Sim, que eu não te conheço, sim, que eu não
+te trouxe n'estes braços e te fiz saltar no meu collo e te vi brincar
+com os mais rapazes e sempre com mais juizo do que elles todos? Pateta
+de rapaz que me não entendeu! O que me faz enraivar é o vêr-te assim
+consumido por uma coisa d'estas. Logo te deu o diacho tambem para
+gostares da filha do Thomé, quando não faltavam raparigas que boa conta
+te fizessem. Que ella é boa pequena e poucas d'essa fidalgaria que por
+ahi ha merecem servir-lhe de criada, mas emfim... é filha do Thomé e teu
+pae era capaz de estoirar se... Mas adeus, minha vida, o tempo d'elle já
+passou e tu é que não has de definhar-te e entisicar só para fazer-lhe a
+vontade. Vê lá, se achas que isso em ti é do coração...
+
+--Não, ama, não. A resolução está tomada. Hei de acabar com isto em mim,
+succeda o que succeder. Jurei.
+
+A ama tornou com maior vehemencia:
+
+--E a mim é que se me importa com os teus juramentos! Ora veja eu o caso
+mal parado, e veremos o que por ahi vae. Vou-me ter com o fidalgo... Na,
+na, na, na, escusas lá de bulir com a cabeça, que isso para mim não vale
+nada. Eu bem sei o que me pediu tua mãe á hora da morte. Deus a chame
+lá. Coitadinha! levou-vos atravessados no coração para a sepultura.
+Sabia o genio do pae e via-vos tão criancinhas!... «Ó ama--disse-me
+ella, e parece-me que ainda a estou a ouvir--o que me não deixa morrer
+em socego são estes tres meninos.» Vossês brincavam na outra sala:
+«Olhe-me por elles, ama, lembre-se de que ficam sem mãe.» Ai! E eu que
+tanto gostava d'aquella senhora, havia agora de te vêr assim consumido e
+ficar-me de braços cruzados? Pois sim, espera que logo.
+
+--Ama, peço-lhe que não dê passo algum junto de meu pae sem me
+consultar.
+
+--Ai, estava bem aviada se esperava pelo teu conselho. Olha agora!
+
+--Veja que póde causar-me um grande mal, ama!
+
+--Olha, eu só te digo uma coisa. Queres que eu me deixe ficar socegada?
+tracta de me apparecer com outra cara. Senão, não te queixes.
+
+Jorge, que conhecia por experiencia os repentes da ama, ainda insistiu
+por muito tempo. Ella porém, respondendo-lhe com evasivas, conseguiu
+separar-se sem haver promettido coisa alguma.
+
+A Anna do Védor seguiu por muito tempo com olhos tristes Jorge que se
+afastava lentamente. Depois que o perdeu de vista na volta de um
+caminho, suspirou e foi murmurando:
+
+--Nada, isto assim não vae bem. O rapaz está que faz pena vêl-o. Ainda
+se fosse com o irmão, era coisa que passava, mas com este!... Lembra-me
+que, já em pequenino, se a mãe ou o pae lhe ralhavam, ficava aquella
+criança entalada e sem chorar, mas era sabido que o tinham doente por
+uma semana. Foi sempre assim. Brioso como uma pessoa de juizo. Agora é
+capaz de estalar de paixão e deixar-se morrer por ahi sem se queixar.
+Pois, ao poder que eu possa, tal não ha de succeder. Isso lhe prometto
+eu.
+
+N'este soliloquio foi vencendo a boa mulher a distancia que a separava
+da Herdade, onde chegou na occasião em que Thomé e a sua companheira
+examinavam e discutiam juntos na sala de jantar as vantagens da
+acquisição de um campo, que o lavrador trazia em vista.
+
+A Anna do Védor foi recebida como quasi parenta que era da familia.
+
+--Viva a ti'Anna!--exclamou folgadamente Thomé--a mais guapa das
+raparigas do meu tempo, sem querer fazer desfeita á Luiza.
+
+--Lá se viu qual das duas elle escolheu--acudiu com igual humor a mãe de
+Clemente.
+
+--Então que quer? Tudo n'este mundo é sorte. Além de que a ti'Anna já
+estava tentada com aquella alma lavada do João Védor, e não se lhe dava
+volta.
+
+--Foi o que te valeu, Luiza, senão bem perdias esta boa joia.
+
+Luiza sorriu bonacheironamente como sempre fazia quando o marido
+gracejava.
+
+--Mas que sancta a trouxe a esta sua casa?--perguntou Thomé--Olá, vamos
+cá a saber, quer tomar alguma coisa?
+
+--Qual historia! De almoçar venho eu, e isso mesmo sabe Deus o que me
+custou.
+
+--Então andas doente, Anna?--informou-se Luiza com bondosa solicitude.
+
+--Eu doente? Ora essa! Eu sou lá creatura que adoeça?!
+
+--E como vae o Clemente? o nosso Clemente?--perguntou Thomé--porque eu e
+Luiza tambem já o podemos chamar nosso.
+
+--Devagar, devagar, o melhor é não se costumarem a isso, para não lhes
+custar depois a perder o costume.
+
+--A perder o costume? E porque o havemos nós de perder?
+
+--Porque já lá vae o afilhado de quem eramos padrinhos.
+
+--Não a entendo, ti'Anna.
+
+--Ora a coisa é simples. E vossês o que devem é erguer os olhos mais
+para o alto.
+
+--Ó ti'Anna, se quer que a entenda, falle-me claro, e cá á nossa moda;
+pão pão, queijo queijo.
+
+--Prompto. Para ahi vou eu. Pois ahi tem: o casamento da sua rapariga
+com o meu rapaz foi caso fallado e acabou-se.
+
+--Acabou-se? Como acabou-se? Porquê?
+
+--Porque Bertha não tem para ahi o sentido.
+
+--Ora essa! Então ella não disse...
+
+--Disse, sim senhor, disse que casava, e tambem o disse a meu filho, mas
+acrescentou que não lhe levaria o coração comsigo.
+
+--Bertha disse isso? Quando? A quem? A Clemente? Não póde ser!... Mas
+não leva o coração... Porquê?
+
+--Porque já não o tem.
+
+--Como já não o tem?
+
+--Porque já fez presente d'elle.
+
+--Que está a dizer, ti'Anna? Já fez presente do coração! Bertha? A quem?
+
+--Ora diga a verdade, Thomé, não suspeita mesmo, mesmo de ninguem?
+
+--Na minha salvação, que não.
+
+--Pois olhe que é verdade.
+
+--Mas a quem?
+
+--A uma pessoa que vinha por aqui.
+
+--A uma pessoa que vinha...
+
+--Ai, Thomé, que bem o suspeitava eu--exclamou Luiza, juntando as mãos.
+
+--Cala-te, mulher; ahi voltas tu com as tuas tolices; mas diga,
+ti'Anna...
+
+--Que suspeitavas tu, Luiza?--perguntou Anna do Védor.
+
+--Que elles tinham alguma inclinação um para o outro.
+
+--Elles quem?
+
+--Ninguem, ninguem. Esta minha mulher de vez em quando tem visões.
+
+--Elles quem?--insistia a Anna do Védor.
+
+--A nossa rapariga e...
+
+--Cala-te, Luiza, tu não tens vergonha?--atalhou o marido.
+
+--E quem mais? acaba--repetiu Anna.
+
+--E o fidalgo--completou timidamente Luiza.
+
+--Jorge? Pois adivinhaste.
+
+--Ah!--exclamou Luiza, com natural satisfação.
+
+--O quê?--bradou Thomé, erguendo-se com impeto e córando--adivinhaste?
+adivinhou? Quem?... Luiza? Então... Bertha... a ti'Anna diz que
+Bertha... Não disse que Bertha...?
+
+--Ó Thomé, escusa de fazer tanto espanto. Eu disse que Bertha gosta do
+fidalgo e que elle gosta da rapariga.
+
+--Tão doida está a ti'Anna, como está a minha mulher.
+
+--O seu juizo, Thomé, é que não me parece muito seguro. Olhem o grande
+milagre que a sua filha goste do rapaz, que não tem por ahi outro que se
+lhe ponha ao pé, e que o rapaz, emfim, que o rapaz tambem tenha a sua
+inclinação por a pequena, que não é para engeitar. Olhem a grande
+admiração!
+
+--Eu bem prégava a este homem, mas coisa que lhe diga, é o mesmo que
+nada--observou Luiza.
+
+--Mas quem lhe metteu essas patranhas na cabeça?--perguntou o lavrador
+com um riso contrafeito, já interiormente inquieto, e tentando resistir
+á convicção que se lhe estava formando no espirito.
+
+--Ora quem havia de ser? Uma pessoa que me parece que tem obrigação de
+estar bem informada. Foi o mesmo Jorge.
+
+--Jorge?! Jorge disse-lhe...
+
+--Agora mesmo o deixei na Corredoura, onde lhe estive fallando bem bem
+um quarto de hora talvez.
+
+--Ti'Anna, eu não quero offendêl-a, mas ha coisas tão incriveis! Ora
+diga-me, não sabe quem me fallou na pretenção do seu filho?
+
+--Sei, sei muito bem que foi Jorge, e vae d'ahi? E sei que Bertha tambem
+disse que sim. Então que mais quer? Mas sei tambem que o rapaz, quando
+Clemente lhe fallou n'isso, ia rompendo com elle; sei que depois do
+casamento ajustado, emmagreceu e anda como desenterrado; sei que a sua
+pequena disse aquillo, que eu já contei, ao meu Clemente, e que o rapaz
+teve as suas suspeitas, e que eu fallei claro ao Jorge, que não teve
+cara para negar. Ora aqui tem.
+
+Thomé da Povoa ficou assombrado com a revelação. Nunca o lavrador dera
+importancia ás suspeitas da mulher, cujos instinctos tinham visto melhor
+do que a razão clara do marido.
+
+--Pois se isso é verdade--disse Thomé, medindo a sala a passos largos--é
+uma grande desgraça!
+
+--Oh! Ahi vem o outro!--respondeu-lhe a Anna do Védor com o seu animo
+intemerato--Credo! Parece-me um sino a tocar a defuncto. Então que
+grande desgraça vem a ser essa?
+
+--Nem vossê pensa o que d'ahi póde resultar, ti'Anna. Mas sempre se
+lembre de que n'essa historia entro eu, o fidalgo velho, o rapaz e a
+minha pequena. Se nos conhece bem a todos, supponha o que d'ahi póde
+sahir de bom.
+
+--Quer vossê dizer na sua: «Nós os velhos somos dois caturras e os novos
+são capazes de morrer de paixão.» Mas se os novos tiverem juizo, não se
+lhes importa com as caturrices dos velhos, e estes o mais que podem
+fazer é irem um anno mais cedo para a sepultura, o que é bem feito para
+não serem teimosos. Olha agora!
+
+--Eu bem o suspeitava--repetia de quando em quando a boa Luiza.
+
+--Nem eu quero pensar n'isso para não me arrepender pelo pouco que tenho
+feito por aquella familia--tornava Thomé.--Se o fidalgo soubesse que o
+filho mais velho se agradára da minha pequena, o que havia de pensar? O
+que eu no seu logar pensaria. Que isto em mim fôra tudo um calculo, que
+procurei trazer o rapaz a minha casa, depois de mandar buscar a filha á
+cidade, que lh'a metti á cara, que levei a rapariga para o pé do velho
+com o fim de o dispôr para a approvação dos meus planos... Ó que
+vergonha! que vergonha! Então é que elle teria razão de me olhar com
+desconfiança, e quem lh'a não daria? Mas que cegueira a minha! Cegueira!
+Mas se elles mal se fallavam, se Jorge parecia tão occupado nos seus
+negocios, que a nada mais dava attenção!
+
+--Ai, eu cá bem o suspeitava--repetiu Luiza.
+
+--Isso não póde ser! Cada vez mais me convenço de que isso é impossivel.
+
+--Pois digo-lhe eu que é verdade, como dois e dois serem quatro. Ora
+agora elles dizem que decidiram acabar a todo o custo com aquillo por
+causa do velho, e d'ahi veio a historia toda do casamento; mas no andar
+em que vão as coisas, parece-me que elles acabam mas é comsigo.
+
+--É uma desgraça! mas que remedio? Ainda que eu cuidasse de vêr
+morrer-me a filha, havia de oppôr-me a esses amores. E mais depressa a
+recolheria em um convento...
+
+--O que ahi vae! o que ahi vae! Ó homem de Deus, ia-lhe talvez muito mal
+se a filha lhe casasse com o rapaz.
+
+--Era uma desgraça, repito. E eu nunca mais poderia olhar de frente para
+o fidalgo, como o fiz até agora, graças a Deus! porque então teria elle
+razão de me suspeitar de intriguista.
+
+--Se a sua consciencia o não accusa, não lhe dê canceira o que os outros
+pensam.
+
+--Eu bem t'o dizia, Thomé, não que tu não querias crêr!--insistia Luiza,
+entre pezarosa e satisfeita.
+
+--Já me tarda vêr a rapariga para fóra dos Bacellos. Mal sabia eu quando
+a levei para lá, que um dia podiam vir a julgar que eu o fizesse por
+calculo!
+
+--Deixe estar a rapariga onde está; Deus que conduziu as coisas assim,
+lá sabe para que o fez.
+
+--A ti'Anna não sabe o que o fidalgo velho tem sido para commigo? Não
+sabe que elle mal me póde perdoar o eu ter levantado a casa defronte do
+seu palacio? e melhorado de anno para anno a minha, ao passo que a
+d'elle ia cahindo por terra? Não viu o que elle fez só porque soube que
+o filho tinha vindo ter commigo para o ajudar a livrar-se da usura e das
+dividas, que lhe deitavam a perder a casa? E agora então julga que eu
+hei de soffrer que elle suspeite sequer que as minhas tenções eram ou
+são as de engrandecer á custa dos seus a minha familia? A ti'Anna
+soffria isto?
+
+--Mas não se está a vêr como o velho gosta da sua pequena, que nem de ao
+pé de si a deixa sahir? Quem sabe? Ás vezes...
+
+Luiza suspirou, entrevendo a risonha perspectiva que a Anna do Védor
+assim em confusas tintas lhe pintára.
+
+--Não sou eu que me illudo com essas coisas, ti'Anna--proseguiu
+Thomé.--O meu plano está feito. Hoje mesmo Bertha ha de dormir na
+Herdade. Se o seu Clemente a não quizer, paciencia. Nem eu quero
+obrigal-o, nem á rapariga, a casar contra vontade. Apesar de tudo confio
+no juizo de Bertha, que ha de vêr as coisas como ellas são, e por isso
+não me dá cuidado. Que se assim não fosse, eu lhe affirmo que a levaria
+outra vez para Lisboa. O Jorge é tambem um rapaz honrado. Tudo se ha de
+remediar ainda, querendo Deus.
+
+--Olhem que homem este! Escusa de tomar essas cautelas todas se o que
+quer é separal-os. O perigo não está aonde pensa. Elles mesmos
+resolveram esquecerem-se um do outro e não precisam que vossê os separe.
+Olha agora! O perigo está em que Jorge já anda doente, e que
+provavelmente a rapariga não ha de ficar com muita saude se elle lhe
+morre. Veja lá se isso não é bem peior do que o casamento.
+
+--Deus nosso Senhor nos acuda!--exclamou Luiza assustada.
+
+--Não falle em casamento, ti'Anna, que até me envergonha essa palavra!
+
+--Pois então não se envergonhe e prepare o enterro de sua filha, que o
+do rapaz não tardará muito. Olha agora! Este homem parece que não tem
+coração de pae! Eu não sei que diacho de coração é o d'elle! Deixe que
+quando lhe quizer acudir, já não ha de ser tempo. Ha de vêr a filha
+morrer-lhe e então é que hão de ser os arrependimentos.
+
+--E que quer que eu faça, mulher?--exclamou Thomé já exasperado.--O meu
+dever é este. Deus que determine depois o que fôr da sua vontade. E
+julga que se eu pensasse como pensa a ti'Anna, que isso me serviria de
+alguma coisa? Parece que não conhece o fidalgo! Pois tantos annos que
+conviveu com aquella familia ainda lhe não fizeram conhecer o genio
+d'elle?
+
+--Mas que me importa a mim o genio do velho? Ora essa é que está muito
+boa! O velho tem um ou dois annos de vida, e lá para o não zangar, não
+hão de um rapaz e uma rapariga fazer a sua infelicidade. Olha agora!
+
+--Pois sim, pois sim, vossemecê falla bem; mas o que lhe digo é que não
+tardo nos Bacellos, e que já de lá não venho sem a rapariga.
+
+E sahindo da sala devéras preoccupado, Thomé ia murmurando:
+
+--Foi uma desgraça! uma verdadeira desgraça, meu Deus!...
+
+A Anna do Védor viu-o sahir e meneou a cabeça com certo ar de benevola
+ameaça.
+
+--Sim? Elle é isso? Pois já que tu és teimoso, eu te prometto que me has
+de vêr pela frente. Vae, vae aos Bacellos, que quando lá chegares já has
+de encontrar novidades. Olha agora! Adeus, Luiza, adeus.
+
+Luiza ergueu-se, e abraçando-se na amiga, desatou a chorar.
+
+--Ó mulher, vossê porque chora? Olha agora! Tenha juizo, mulher. Deixe
+lá que ha de viver para vêr a sua filha bem casada e feliz. E deixe-me
+que preciso de ir adiante do Thomé para elle não fazer tolices.
+
+--Ai, eu sempre suspeitei isto, elle é que não queria acreditar.
+
+--Pois agora já acredita. E o mais confie em Deus e deixe-me sahir.
+
+E a Anna do Védor sahiu apressada, e murmurando de instante a instante:
+
+--Olha agora!
+
+
+
+
+XXXIV
+
+
+Desde o dia em que Bertha fallára no seu casamento ao fidalgo da Casa
+Mourisca nunca mais correram as horas nos Bacellos para o velho e para a
+rapariga tão alegres como até ahi.
+
+Nem uma palavra se trocou mais entre elles sobre o assumpto, mas facil
+era de perceber que elle ainda dominava o pensamento de ambos.
+
+Tanto os sorrisos de Bertha como aquelles com que D. Luiz lhes
+correspondia empanava-os uma nuvem de tristeza.
+
+O fidalgo a cada momento pensava na separação imminente, na necessidade
+de dar á afilhada o consentimento promettido, e cada vez menos coragem
+sentia para fazêl-o.
+
+Bertha recebia como que a projecção da tristeza do velho; demais a sua
+propria crescia á medida que se aproximava o momento em que tinha de
+realisar-se o sacrificio do seu coração, sacrificio cuja grandeza de dia
+para dia mais avultava no seu espirito.
+
+Actuou esta influencia no estado do enfermo, que ia perdendo o alento
+adquirido sob a benefica vigilancia da rapariga.
+
+Por isso no dia em que se passaram as scenas narradas no ultimo capitulo
+e nas quaes a intrepida Anna do Védor desempenhou tão importante papel,
+D. Luiz achava-se em um estado de abatimento pouco animador.
+
+Não sahira esse dia do quarto, como era seu costume quando ia sentar-se
+com Bertha á sombra das arvores. Queixou-se de fraqueza e de frio e
+ficou na poltrona ao lado da janella a espreitar por dentro das vidraças
+para as avenidas da quinta.
+
+Bertha havia por instantes deixado o padrinho para temperar-lhe um
+remedio; e o doente ficando só, cahira em uma profunda meditação,
+seguindo machinalmente com a vista os movimentos de uma avesita que
+saltava nos ramos d'uma arvore distante.
+
+De repente chamou-lhe a attenção o rumor dos passos de alguem, que se
+aproximava no corredor e que parou á porta do quarto, como se hesitasse
+ao entrar.
+
+--Quem está ahi?--perguntou o fidalgo, não vendo apparecer ninguem.
+
+A esta pergunta a porta entreabriu-se e a figura da Anna do Védor,
+offegante pela carreira que trouxera de casa do Thomé até alli,
+desenhou-se no limiar.
+
+--Sou eu; o fidalgo dá licença?--respondeu a Anna.
+
+D. Luiz teve um negro presentimento assim que viu a figura da mãe de
+Clemente, o pretendido noivo de Bertha.
+
+Com mal disfarçado azedume disse-lhe:
+
+--É vossê, Anna? Entre.
+
+Anna entrou com o desembaraço com que entrava em toda a parte.
+
+--Então como vae o fidalgo? Fraquinho, hein? Emfim, snr. D. Luiz, tudo
+se guarda para a velhice.
+
+--É assim, é--disse sêcamente o fidalgo.--Então a que vem aqui, Anna?
+
+Anna do Védor percebeu a debil cordialidade com que estava sendo
+recebida e por isso respondeu menos affavel:
+
+--Primeiro que tudo, vim vêl-o, como era da minha obrigação, pois não me
+esqueço de que já comi do pão de sua casa. Ha mais tempo teria vindo, se
+a minha vida me deixasse; mas sou eu só em casa, como v. exc.ª sabe, a
+fazer o serviço, e a idade já me vae pesando. E agora por isso vem a
+pêllo dizer a outra coisa que me trouxe cá. Venho saber de v. exc.ª
+quando é que póde dispensar a Bertha para se fazer o casamento que está
+justo entre ella e o meu filho.
+
+O rosto de D. Luiz passou por differentes cambiantes de côr, e mais do
+que uma paixão lhe desenhou successivamente no semblante em traços
+fugitivos o aspecto physionomico.
+
+--Então vem para a buscar?--perguntou elle com voz alterada.
+
+--Não, senhor, não venho para a buscar, venho para saber de v. exc.ª
+quando ella póde ir.
+
+--Ella não é minha filha. Quando quizer, que vá.
+
+--Mau! O fidalgo não quer entender-me.
+
+--Eu o que não quero é occupar-me d'esse casamento--replicou D. Luiz
+mais agastado.--Quando quizerem fazer esse disparate, façam-n'o. Levem
+d'ahi a rapariga, sacrifiquem-n'a á sua vontade, mas não me peçam o
+consentimento, porque eu estou com os pés na cova e não quero levar para
+a sepultura mais remorsos.
+
+A mãe de Clemente não estranhou esta resposta azeda do fidalgo, que de
+proposito provocára.
+
+Picada porém no seu orgulho materno por algumas phrases que ouvira,
+acudiu logo:
+
+--Que está o fidalgo a dizer? Disparate... remorsos... Que disparate
+acha o fidalgo no casamento de Bertha com o meu Clemente? Remorsos! Ora
+essa está boa! Nem que se tractasse de enforcar alguem! Ora esta! Olha
+agora!
+
+--Anna, eu não quero offender o seu filho, que sei que é bom rapaz, mas
+o que elle não é, é homem para Bertha.
+
+--E onde é que v. exc.ª vae buscar marido para Bertha? O meu Clemente
+não serve? Pois bem, como a rapariga não está para freira, diga-me v.
+exc.ª que faz tenção de a casar na sua familia, e eu calo já a bôca e
+sou a primeira a dizer: «Tem razão o fidalgo, a pequena encontrou marido
+muito melhor do que o meu filho.» Ah! eu já estou vendo a cara que v.
+exc.ª faz. Pois então, snr. D. Luiz, se v. exc.ª ainda se tem lá nas
+suas tamancas, como d'antes, deixe casar a rapariga com um homem honrado
+e não lhe ande a metter loucuras na cabeça, que isso até é uma
+consciencia! Olha agora!
+
+D. Luiz sentiu que lhe fugia o terreno n'este campo e tentou uma
+evasiva.
+
+--Não teria que dizer a esse casamento, se Bertha sentisse inclinação
+para o seu filho, mas...
+
+--Mas o quê? Pois não foi ella que por sua livre vontade disse que sim?
+Quem a obrigou? Ora essa!
+
+--Por comprazer, por condescendencia, mas não porque lh'o pedisse o
+coração!
+
+--Ora, e v. exc.ª a importar-se com o que pede o coração de uma
+rapariga, ora, ora...
+
+--E porque não? Desgraçada d'ella se der um passo tal sem que lh'o
+approve o coração.
+
+--Então acha o fidalgo que n'isto de casamentos o coração tambem tem
+voto?
+
+--Por certo.
+
+--O coração de uma rapariga e de um rapaz. Olhem que conselheiros!
+
+--Um coração como o de Bertha, é um bom conselheiro; não se engana, nem
+engana.
+
+--Até que te pilhei!--exclamou a Anna do Védor, batendo as mãos, e
+esquecendo-se, no impeto da exclamação, de manter o mesmo tom e
+tractamento, que até alli estivera usando com o fidalgo.--Muito bem,
+pois saiba o fidalgo, que para mim já não é novidade o não ter Bertha
+inclinação para o meu filho, nem de tal casamento se falla já, porque o
+meu Clemente, por emquanto, não aceita mulheres que não entrem para casa
+d'elle com o coração. Isso já estava decidido. Mas eu o que quiz foi
+ouvir o que ouvi ao fidalgo, porque quero vêr agora como se ha de sahir
+das talas em que se metteu. Porque, sabe porque a Berthasinha não gosta
+do meu Clemente? É porque já gostava de outro... E sabe v. exc.ª quem é
+esse outro? Olhe que foi o coração de Bertha que o escolheu, o tal
+coração que não se engana; esse outro é o filho de v. exc.ª, o snr.
+Jorge. Ora ahi tem; agora então veja se está por o que disse.
+
+D. Luiz ficou por muito tempo a olhar para a Anna do Védor com a vista
+espantada e sem articular palavra.
+
+--Jorge!--murmurou elle a final e quasi inaudivelmente.
+
+--Sim senhor, Jorge. E que me diz v. exc.ª a isto?
+
+--Jorge, Bertha...--repetia o velho, assombrado com a
+revelação.--Mulher, quem lhe disse isso?
+
+--Seu filho, entre outros.
+
+--Jorge! Terei por acaso eu sido a victima de uma intriga
+infame?--exclamou o fidalgo tremulo de raiva.--Isto é de enlouquecer.
+
+--Qual intriga nem meia intriga? Isto tudo foi a coisa mais innocente e
+natural do mundo inteiro. O rapaz gostou da pequena, a pequena gostou do
+rapaz, o costume desde o tempo de Adão e Eva, e ninguem soube d'isso
+senão agora.
+
+--Jorge! Ó meu Deus; porque havias de me dar filhos só para me
+affligirem e envergonharem!
+
+--Ora ahi está! Até agora nem o meu Clemente lhe servia para a Bertha,
+em taes alturas a punha. Agora então já o filho o deshonra só por gostar
+da rapariga. Entendam-n'o lá. Que tal é o amor que o padrinho tem á
+afilhada?! Eu cá de mim não entendo estas amizades de tarraxa.
+
+D. Luiz não dava attenção ás reflexões da Anna. Luctavam-lhe no coração
+paixões encontradas e violentas: sob a influencia de umas sentia-se
+cahir em profundo desalento, outras incitavam-n'o, pelo contrario, a uma
+reacção desesperada.
+
+Thomé não se enganára nas suas previsões. As suspeitas e preconceitos
+mal abafados no coração do fidalgo contra o lavrador alvoroçaram-se com
+a revelação que acabava de ouvir.
+
+A intimidade de Jorge com Thomé, os serviços prestados por este á casa,
+a vinda de Bertha para os Bacellos por espontanea deliberação do pae,
+tudo explicava o seu espirito preoccupado por uma trama infernal
+combinada por o fazendeiro.
+
+--Era a isto que elle queria chegar!--bradava irritado o
+fidalgo.--Descobriu-se finalmente o hypocrita! A audacia d'esta gente
+não tem limites! Gabem-me os brios e a nobreza de alma d'estes
+miseraveis! Rodou em volta de minha casa o lobo, espiou a prêsa,
+attrahiu-a a si e feriu-a! Que ambição! Ahi está no que deu o
+desinteresse dos seus actos, a lealdade das suas intenções! Até da filha
+se servia, o infame, como instrumento dos seus planos e machinações! Ha
+nada mais vil? Trouxe-m'a para casa, como a vibora que me havia de
+inocular o veneno. E eu, fraco e tonto pela velhice e pela doença,
+deixei-me illudir! Oh! mas elles mal sabem com quem se mettem e no que
+se mettem! Deviam lembrar-se de que, nos homens como eu, ainda quando a
+vida se lhes está a apagar, a vontade póde reunir em um instante toda a
+energia de que precisa para esmagal-os, antes de morrer!
+
+E D. Luiz, no auge da indignação, ergueu-se da cadeira em que estava
+sentado, e com o rosto afogueado pela ira, os punhos cerrados e os
+braços estendidos, bradou:
+
+--E eu esmago-os! esmago-os a todos, se se atreverem a vir insultar-me
+n'estes ultimos dias de minha vida!
+
+Anna tentou acalmar a furia do fidalgo, mas elle nem já a ouvia.
+
+Fraqueando-lhe já a voz, tremulo, anciado, banhado em suor frio,
+continuava em tom cavernoso:
+
+--Eu lhes juro que não me hão de vencer na lucta que provocaram. Quando
+me tiverem já usurpado a casa, seduzido os filhos e insultado o nome de
+minha familia, hão de ainda vergar sob o pêso das minhas maldições,
+porque eu acredito que ha um Deus no céo e que as pragas de um velho
+ludibriado teem ainda poder para attrahir as desgraças sobre a cabeça
+dos miseraveis que me insultam.
+
+--Fidalgo, fidalgo, volte a si!--bradava Anna do Védor devéras
+consternada.
+
+O velho, arredando-a com um movimento impetuoso, exclamou com energia
+crescente:
+
+--Deixem-me! Deixem-me! Quero viver só, de hoje em diante! Só! Não quero
+vêr ninguem, nem filhos, nem familia! Ninguem! Cada pessoa que se
+aproxima de mim vem com o intento de me atormentar; cada affecto a que
+abro o coração transforma-se cá dentro em um veneno corrosivo! Oh! É de
+mais! Deixem-me! deixem-me morrer para aqui só, ninguem me appareça,
+ninguem me falle, deixem-me!
+
+N'este momento a porta abriu-se e Bertha appareceu attrahida pela
+altercação que lhe parecêra ouvir no quarto do padrinho e perguntou
+assustada:
+
+--Que é o que tem, snr. D. Luiz, o que lhe succedeu?
+
+O fidalgo, exasperado, voltou-se com vivacidade ao ouvir-lhe a voz, e
+injectando-se-lhe ainda mais o rosto, bradou:
+
+--És tu? Que queres? Vens continuar a obra que te incumbiram?! Sahe
+d'ahi! Sahe! Não me appareças! Não me falles! Não me faças descrêr de
+Deus! Não quero vêr ninguem, já disse! Deixem-me!
+
+Bertha parou, surprendida e intimidada por aquella subita transformação
+nas maneiras do padrinho para com ella, e ao sahir do quarto,
+saltavam-lhe de sentida as lagrimas dos olhos.
+
+--Ó fidalgo!--acudiu a Anna do Védor cada vez mais assustada pelo estado
+em que o via--ó fidalgo! olhe que está fóra de si! Isso que é? A pobre
+rapariga vae a chorar por a maneira por que a tractou. Que culpa tem
+ella? Coitada da pobre!
+
+--É o que lucra quem se aproxima de um homem maldito de Deus como eu
+sou--respondeu o velho, deixando-se cahir na cadeira já desalentado.
+
+--Não diga essas coisas, que até é peccado! Que motivos tem para essas
+furias? Olha agora! O que eu lhe disse não é para tanto. Além de que,
+socegue, tanto a rapariga como o seu filho Jorge teem juizo, mais até do
+que lhes convinha para serem felizes. Digo-lhe eu que mais depressa
+elles se deixarão morrer, e até parece que estão n'essa resolução, do
+que lhe darão o desgosto de que tanto se receia, não sei porquê. E olhe
+que o rapaz já não está longe de fazer a tal viagem. A não lhe agradar
+mais vêl-o morrer, o que o fidalgo deve fazer é...
+
+D. Luiz mostrava não dar a menor attenção ao que a mulher dizia. O
+accesso de desespero passára. Com gesto e voz de abatimento
+interrompeu-a, perguntando:
+
+--A pequena ia devéras a chorar?
+
+--Podéra não. Ao rompante com que v. ex.ª lhe fallou! E sem razão
+alguma, porque, como eu disse a v. exc.ª, elles...
+
+O fidalgo suspirou:
+
+--É uma fatalidade!--disse elle a meia voz.--Pobre rapariga! De certo
+que não é ella culpada n'isto. Instrumento innocente nas mãos dos
+outros, nem ella sabe o que faz! Anna, eu preciso de estar só, peço-lhe
+que me deixe só.
+
+--Pois fique-se com Deus.
+
+--Olhe, Anna, olhe, se vir ahi fóra a pequena, diga-lhe que venha cá; se
+ahi não estiver... mande chamal-a, sim? Eu quero fallar-lhe.
+
+--Olhe lá o que vae dizer-lhe, fidalgo! Não afflija a pobre rapariga,
+que bem lhe basta...
+
+--Faça-me o que lhe peço, Anna, faça, e vá descançada.
+
+--Sempre me deixe dizer-lhe, fidalgo, que se não quer perder o filho,
+ande com cautela n'este negocio.
+
+A Anna do Védor, que não obteve resposta a esta ultima advertencia,
+sahiu duvidando de que tivesse tirado alguma utilidade do passo que deu
+junto do fidalgo, e quasi arrependida por o haver dado.
+
+D. Luiz ficou só por algum tempo, com a cabeça escondida entre as mãos e
+os cotovêlos apoiados nos braços da poltrona.
+
+--Até que ponto levareis esta provação, meu Deus?!--murmurava elle quasi
+soluçando.
+
+Passados momentos entrava no quarto e avançava timidamente com hesitação
+ao encontro do velho, Bertha com os olhos ainda chorosos e o gesto
+commovido.
+
+Ao rumor dos passos leves de Bertha, o fidalgo elevou a cabeça e fitou a
+afilhada com expressão de melancolia e affecto.
+
+--Anda cá, Bertha; vem cá, minha filha. Então não vês como eu pago os
+cuidados que tens tido commigo? Que queres tu? Isto em mim é já loucura!
+
+Ao tom affectuoso e triste d'estas palavras dissipou-se a hesitação de
+Bertha, que correu a ajoelhar-se junto do velho, pegando-lhe nas mãos
+enternecida:
+
+--Não diga isso, snr. D. Luiz. Eu bem sei que eram impaciencias de
+doente.
+
+D. Luiz segurou-lhe a cabeça entre as mãos e, olhando-a fixamente,
+murmurou:
+
+--Pobre criança! Fiz-te chorar! Nem que te não bastassem os teus
+soffrimentos. Perdoa-me, minha filha. Tu não tens culpa no que os outros
+fazem. Não é possivel que tenhas culpa.
+
+E beijava-lhe os olhos, onde de novo queriam apparecer as lagrimas.
+
+--Perdoar-lhe? O que lhe hei de eu perdoar? A affeição que me tem? Só se
+fôr isso.
+
+--Ahi vem outra vez as lagrimas! Enxuga-as. Não quero fazer-te chorar
+mais. Não faças caso do que eu digo, Bertha, que sou um tonto. É uma
+ingratidão de minha parte, uma feia ingratidão.
+
+--O que me faz pena é vêl-o afflicto. Cuidei que estava peior.
+
+--Não; é que essa mulher que d'ahi sahiu disse-me coisas...
+
+E olhando outra vez fixamente para Bertha, acrescentou depois de alguma
+hesitação:
+
+--Bertha, tu és sinceramente minha amiga?
+
+--Ó meu padrinho. Que pergunta!
+
+--Nem tu eras capaz de fingir um affecto que não sentisses. Creio bem.
+
+--Porém, meu Deus, o que quer dizer com isso?
+
+--Nada. Olha cá, Bertha... Quando tu vieste para os Bacellos... quando
+vieste para ao pé de mim... foi teu pae que te disse que viesses, não
+foi?
+
+--Meu pae leu-me a carta da snr.ª baroneza, em que lhe participava que
+ia partir para Lisboa e que o snr. D. Luiz ficava sem ter quem o
+tractasse... e eu então lembrei-me do mesmo que meu pae já tinha tambem
+no pensamento e pedi-lhe para me deixar vir.
+
+--E elle disse logo que sim, já se sabe?
+
+--Se era essa mesma a sua ideia.
+
+--Ah! era essa a sua ideia? E... e Jorge não foi ouvido n'essa occasião?
+Porque Jorge ia muito por vossa casa, não ia?
+
+Bertha principiava a sentir-se inquieta com esta inquirição.
+
+--O snr. Jorge--respondeu ella um pouco a medo--ia ás vezes procurar meu
+pae para fallar de negocios com elle; mas n'isto não foi consultado, que
+eu saiba.
+
+--Algumas vezes. Parece que ia todos os dias e que usava em vossa casa
+de toda a familiaridade.
+
+--Era raro que se demorasse a conversar com outra pessoa que não fosse
+meu pae.
+
+--Pois nem comtigo?
+
+--Commigo?--repetiu Bertha perturbada--Commigo menos do que com os
+outros.
+
+D. Luiz contrahiu as sobrancelhas como se esta resposta lhe fizesse
+suspeitar uma dissimulação.
+
+--Pois então Jorge nunca fallaria comtigo?
+
+--Muito de passagem, quando por acaso me encontrava e sempre com umas
+maneiras taes, que cheguei a acreditar que me queria mal por algum
+motivo desconhecido para mim.
+
+D. Luiz fez um gesto de desgosto e de novo lhe assomaram ao semblante os
+vestigios da desvanecida irritação.
+
+--Não esperava isso de ti, Bertha. Tu não és sincera commigo.
+
+--Eu?
+
+--Tu illudes-me como os outros a final, tu conspiras com elles contra a
+tranquillidade dos meus dias, contra o socego d'este coração atribulado.
+Deus te perdoe o mal que me fazes, tu, mais do que ninguem, porque te
+queria devéras.
+
+--Jesus, snr. D. Luiz, meu padrinho, que quer dizer? Em que lhe fiz eu
+mal? Por amor de Deus, diga, falle-me claro.
+
+--Bertha, é preciso que me digas a verdade, se queres que não suspeite
+de ti, como suspeito dos outros, como suspeito de todos; é preciso que
+não dissimules, como elles fazem, para me illudirem.
+
+--Mas que quer que lhe diga, snr. D. Luiz? Prometto dizer-lhe a verdade,
+nem eu lhe sei mentir.
+
+--Então para que me dizes que Jorge te queria mal?
+
+Bertha sentia-se cada vez mais sobresaltada pelas perguntas do fidalgo,
+que pareciam dirigir-se ao segredo recatado, que ella conservava no
+coração.
+
+--Eu disse--respondeu ella--que cheguei a pensar que o snr. Jorge me
+queria mal, porém...
+
+A confusão que sentia não a deixou continuar.
+
+O fidalgo notou aquella perturbação e abrandou mais a voz, tomou um tom
+carinhoso e disse pegando-lhe affectuosamente na mão:
+
+--Vamos, Bertha, socega. Acredita que tens em mim um amigo, e abre-me
+francamente o coração sem receio. Dize-me, é verdade que Jorge te disse
+alguma vez que te amava? É verdade que entre vós ambos ha alguma
+affeição, alguma promessa?
+
+A pergunta, ainda que não já de todo inesperada, sobresaltou Bertha, que
+não atinou com o que respondesse.
+
+--Socega, minha filha--proseguiu o fidalgo, animando-a.--Bem vês que eu
+não quero reprehender-te. Sómente queria que me dissesses a verdade a
+este respeito.
+
+--Meu padrinho--disse Bertha perturbada ainda--pois não se lembra do
+pedido que lhe fiz ainda ha poucos dias?
+
+--Do pedido?... Ah! sim... Fallas do casamento?... Mas se elle já se não
+faz? Se foi a propria mãe de Clemente que me contou d'esses amores entre
+ti e meu filho?
+
+--Oh! não póde ser!--exclamou Bertha, consternada.
+
+--Como havia ella de saber?... Como podia ella dizer isso?
+
+--O mesmo Jorge lh'o revelou.
+
+--Jorge!... o snr. Jorge!... É impossivel!
+
+--Mas porque não respondes á minha pergunta? O que ha de verdade em tudo
+isso?
+
+Bertha conservou-se ainda algum tempo silenciosa e irresoluta. Depois,
+como se abraçasse um partido decisivo, tornou com maior vivacidade:
+
+--Tem razão, meu padrinho, devo dizer-lhe a verdade. Nem ella tem em que
+me envergonhar.
+
+--Então é certo?
+
+Bertha com os olhos fitos no chão e a voz mal firme, mas exprimindo
+resolução, principiou:
+
+--Um dia o snr. Jorge apresentou-se em casa de meu pae, a pedir-lhe, em
+nome de Clemente, licença para o casamento que sabe....
+
+--Como?! Foi Jorge que pediu esse consentimento? E antes d'isso não
+tinha elle já dado a conhecer-te....
+
+Bertha não o deixou continuar.
+
+--Escute, snr. D. Luiz, que eu prometto dizer-lhe toda a verdade. Meu
+pae chamou-me para consultar-me a esse proposito.
+
+--Ah! teu pae consultou-te?! E esperava que tu recusasses, não é
+verdade?
+
+--Eu nunca pensára em casar-me, nunca pensára até no futuro, por isso
+aquella proposta sobresaltou-me.
+
+--E respondeste....
+
+--Depois o ter sido feita pelo snr. Jorge mais me perturbava ainda.
+
+--Sim, porque elle havia-te jurado talvez....
+
+--Não havia jurado coisa alguma; quasi nem me fallára detidamente desde
+que eu voltára á aldeia. Parecia fugir de mim, parecia que a minha
+presença lhe desagradava, que as minhas palavras o irritavam. Não era
+possivel illudir-me a esse respeito. Affligia-me vêr a pouca sympathia
+que eu merecêra, sem saber porquê, a um rapaz que todos diziam tão
+generoso, tão indulgente e de tanto juizo; e isto era causa para eu
+muito pensar no que poderia dar motivo áquelle proceder d'elle para
+commigo. Tinha isto sempre na ideia, observava-o, estudava-o... e foi
+mau isto, bem sinto que foi mau.
+
+--Porquê?
+
+--Porque quanto mais o observava--continuou Bertha, com ingenua
+sinceridade--mais de perto lhe conhecia as nobres qualidades, e senti a
+pouco e pouco em mim uma admiração por elle, uma sympathia, um respeito,
+um....
+
+--Um amor--concluiu D. Luiz, vendo a hesitação de Bertha.
+
+--Uma loucura--emendou esta--que eu tractei logo de abafar em mim,
+porque desde o principio a vi tal como ella era.
+
+--És um anjo--disse D. Luiz, afagando-a.
+
+Bertha proseguiu:
+
+--Mas a proposta d'aquelle casamento, feita pelo snr. Jorge, foi para
+mim mais uma prova da antipathia, que eu julgava merecer-lhe. Pareceu-me
+quasi uma perseguição; despeitada com ella, disse a meu pae que aceitava
+a proposta de Clemente.
+
+--E elle... e elles que disseram?
+
+--Ficando momentos depois só com o snr. Jorge e sem que podésse já reter
+as lagrimas que me afogavam, perguntei-lhe quaes eram as razões que o
+tinham levado a dar aquelle passo, a encarregar-se d'aquella proposta,
+porque motivo eu lhe era tão odiosa, o que é que o levára a fazer-me
+mal, a mim que nunca lh'o fizera nem desejára.
+
+--E elle?
+
+--Foi então--proseguiu Bertha, mas enleiada--que imprevistamente elle me
+confessou que o unico motivo de todo o seu proceder, da sua apparente má
+vontade, da dureza das suas palavras era... a affeição que me tinha e
+que, desde que a sentira, se esforçára por occultar e vencer, como eu
+tambem fizera; que estava decidido a sacrifical-a aos seus deveres de
+familia, mas que não queria que o sacrificio ferisse a mais alguem senão
+a elle, e para isso procurava sempre desviar de si pelo seu proceder as
+minhas attenções e sympathias. Não o conseguiu; mas que importava? Eu
+não tinha menos coragem do que elle, e comprehendia tão bem como elle
+quaes eram os meus deveres, que em mim eram mais fortes ainda.
+
+--Pobre rapariga!--murmurou D. Luiz commovido.
+
+--Assim posso dizer que foi aquelle o primeiro e o ultimo dia d'esses...
+amores de que lhe vieram fallar não sei para quê. No mesmo dia em que
+nos declaramos, no mesmo dia promettemos abafar em nós mesmos essa
+loucura que nascêra sem que o sentissemos. E tanto que dias depois eu
+vinha pedir-lhe o consentimento para me casar com Clemente.
+
+--E teu pae nada soube de tudo isso?--perguntou o desconfiado fidalgo.
+
+--Se nós mesmos o não sabiamos!--respondeu Bertha com ingenuidade.
+
+Depois de um intervallo de muda reflexão, D. Luiz segurou outra vez nas
+mãos a graciosa cabeça da afilhada, e poisou-lhe na fronte um beijo,
+verdadeiramente paternal.
+
+--Era bem digna de ter nascido entre a nobreza--disse elle
+suspirando--quem tão nobremente pensa e procede. Quantas raparigas
+creadas em palacios deviam ouvir e aprender de ti, Bertha! Pobre
+pequena! O teu sacrificio é grande e custoso, porque tu com esse coração
+que tens, se amas, deves amar devéras; mas bem vês e tu mesma o
+reconheces, é um sacrificio inevitavel! Nas familias como as nossas ha
+certas exigencias tradicionaes....
+
+--Snr. D. Luiz--disse Bertha interrompendo-o--repare que ha dias que eu
+lhe pedi o seu consentimento....
+
+--Bem sei, Bertha; bem vejo que o teu juizo dominou a tua phantasia de
+rapariga. Por isso te admiro, filha. Mas para que levavas tambem tão
+longe o sacrificio, indo casar-te com um homem que não amavas?
+
+--Era um homem honrado, que me pedia para companheira da sua vida. O
+destino de uma mulher como eu é esse. É a nossa missão. Porque não havia
+de cumpril-a?
+
+--Illudindo, porque não podias amar.
+
+--Disse-o a Clemente. Não lhe prometti o que não podia dar-lhe.
+
+--E elle aceitou?!
+
+--Pediu tempo para pensar. Agora vejo que não....
+
+Calaram-se por algum tempo. Bertha, sem erguer os olhos, dobrava e
+desdobrava distrahida o pequeno avental de sêda. D. Luiz observava-a com
+ar pensativo.
+
+Foi elle quem renovou o dialogo.
+
+--Custa-te muito o sacrificio que fazes, não é verdade?
+
+--Para que hei de dizer que não? Custa-me como quando ao acordar de
+sonhar um sonho agradavel, me convenço de que foi um sonho tudo. Sabe
+porém o que me anima? É o pensar que mais me custaria se o sonho se
+realisasse.
+
+--Porquê?
+
+--Porque teria remorsos de pagar d'essa maneira o affecto que encontrei
+sempre n'esta casa; porque teria vergonha de que pensassem que, da minha
+parte, esses affectos eram calculados e interesseiros. Nós tambem temos
+o nosso orgulho, snr. D. Luiz--acrescentou ella, sorrindo.
+
+--E nobre que elle é--acudiu o fidalgo, cada vez mais fascinado.
+
+N'este momento a porta abriu-se, e frei Januario metteu a cabeça pela
+abertura.
+
+--Que é?--perguntou D. Luiz, irritado.
+
+--É o Thomé da Povoa ... é o pae d'essa menina que a procura.
+
+--A mim?--disse Bertha, levantando-se.
+
+--Sim, menina--tornou o padre--e parece-me que procura a v. exc.ª
+tambem.
+
+--Pois que entre--respondeu D. Luiz asperamente.
+
+Passados momentos Thomé da Povoa entrava para o quarto de D. Luiz, com
+as maneiras respeitosas mas rasgadas que lhe eram peculiares.
+
+
+
+
+XXXV
+
+
+Como homem a quem pesava a commissão que se propunha a desempenhar alli,
+Thomé da Povoa, depois de comprimentar o fidalgo e de abençoar a filha,
+foi direito ao fim da sua visita.
+
+--Pois, snr. D. Luiz, eu venho aqui para buscar a rapariga, se v. exc.ª
+der licença.
+
+Bertha desviou para o fidalgo um olhar inquieto e investigador.
+
+D. Luiz não respondeu, mas correu-lhe pelos labios um rapido sorriso,
+entre amargo e ironico.
+
+Thomé, em vista do silencio do fidalgo, sentiu que não podia deixar de
+dizer mais algumas palavras de explicação, e por isso, enleiado a forjar
+um pretexto que não lhe occorria, acrescentou:
+
+--Ella está sendo lá precisa... porque... sim, a minha Luiza, pelos
+modos... anda assim adoentada...
+
+--Minha mãe está doente?--perguntou Bertha com inquietação.
+
+--Doente, doente... o que se chama doente, não digo, mas... E depois ha
+lá uns milhos a arrecadar e os pequenos... E emfim, n'esta época do
+anno, a casa de um lavrador... Os jornaleiros são muitos...
+
+E a cada pretexto que mal apontava, Thomé erguia a vista para D. Luiz a
+estudar-lhe na physionomia o effeito da desculpa.
+
+Mas de todas as vezes a achava cerrada na mesma expressão de reserva e
+de mysterio.
+
+De repente, porém, D. Luiz fez um movimento, como se uma subita
+resolução lhe acudisse, estendeu a mão para Bertha, que se demorára
+ainda ao lado d'elle e como que a impelliu de si e na direcção de Thomé,
+dizendo com affectada placidez:
+
+--Ahi a tem. Póde leval-a.
+
+Á estranheza com que Thomé o encarou, vendo-o fazer aquelle gesto,
+correspondeu o fidalgo, acrescentando em tom de amargura e sarcasmo:
+
+--Não calculou bem o tempo. Antecipou-se. A occasião não era ainda esta;
+por ora não estou enfeitiçado, bem vê.
+
+Thomé julgou perceber vagamente o sentido d'estas palavras e córou,
+dizendo:
+
+--Ou eu entendo mal o fidalgo, ou quer dizer...
+
+--Que póde levar sua filha. A presença d'ella aqui não adianta os seus
+projectos. Meus filhos não estão nos Bacellos, como vê, e eu... eu já
+não tenho coração sujeito a feitiços.
+
+--A illusão não era possivel para Thomé. As palavras de D. Luiz
+confirmavam as previsões que elle tivera antes de lh'as ouvir.
+
+O rosto do lavrador tomou a expressão que os fortes golpes e as paixões
+violentas lhe costumavam dar.
+
+Ficou-se por algum tempo a olhar para o fidalgo sem soltar uma palavra,
+mordendo os beiços e abanando significativamente com a cabeça. Depois
+tomou a filha pela mão, e encaminhando-a para a porta do quarto,
+disse-lhe:
+
+--Bertha, vae apromptar as tuas coisas, que eu espero por ti... e no
+entretanto conversarei com o fidalgo.
+
+Bertha sentia que entre aquelles dois homens havia imminente uma lucta
+de paixões, que não estava já na sua mão dissipar. Mais valia pois
+deixal-os chegar a uma explicação decisiva, que definisse a posição de
+cada um.
+
+Obedeceu portanto á indicação do pae, dirigindo-lhe apenas em um olhar
+uma supplica que não passou desapercebida de Thomé.
+
+Depois que Bertha sahiu, o lavrador voltou para defronte do fidalgo, e
+cruzando os braços disse-lhe com um modo decidido:
+
+--Agora que estamos sós, snr. D. Luiz, faça v. exc.ª o favor de me
+accusar abertamente e de uma maneira clara e franca.
+
+D. Luiz respondeu com frieza e sobranceria:
+
+--Se nas minhas palavras viu coisa que lhe parecesse uma accusação é
+porque de certo a consciencia lh'as interpretou assim.
+
+Thomé da Povoa não pôde reter um movimento de impaciencia.
+
+--Por quem é, fidalgo, não me principie v. exc.ª com esses discursos
+enredados, com que não me entendo. Jogo franco! Ou se não, começo eu, e
+será talvez melhor.
+
+D. Luiz encolheu os hombros, exprimindo a mais aristocratica
+indifferença.
+
+--Não me custou a entender as suas palavras de ha pouco, fidalgo, porque
+depois do que eu soube esta manhã, esta manhã apenas, repare bem, snr.
+D. Luiz, depois do que soube esta manhã e conhecendo como conheço o
+genio de v. exc.ª, já esperava ouvir alguma coisa parecida com o que
+ouvi. Mas nem por serem esperadas me feriram menos as taes palavras. É
+preciso que v. exc.ª saiba. Porque um homem que não tem a pesar-lhe na
+consciencia nenhuma deslealdade, um homem que tem brios, não póde a
+sangue frio ser suspeitado como eu o estou sendo por v. exc.ª
+
+--Bem; pois se a consciencia lhe não exprobra nada, é o essencial. Vá em
+paz com ella e deixe-me em socego, homem, deixe-me, que bem preciso eu
+d'elle.
+
+--Perdão, fidalgo. Isso é que eu não posso fazer. Deus me livre de ser
+accusado pela minha consciencia, mas Deus me livre tambem de o ser pela
+dos homens que respeito e estimo. E v. exc.ª, ainda que não o creia, é
+um d'esses.
+
+--Muito obrigado.
+
+--Permitta-me que vá direito ao caso. Minha filha não tarda ahi, e eu
+não quero fallar diante d'ella. Esta manhã foram a minha casa,
+(provavelmente quem veio a esta) porque vejo que vieram tambem aqui com
+a mesma nova... Foram a minha casa e disseram-me...
+
+--Perdão, eu não preciso de saber o que se diz nas casas alheias.
+
+--Pois bem--acudiu Thomé já irritado--eu lhe conto então o que se disse
+na sua. Vieram aqui, a casa de v. exc.ª, e disseram-lhe: «O seu filho
+Jorge está namorado da filha do Thomé e a rapariga também gosta d'elle.»
+Disseram-lhe isto com certeza, e disseram-m'o a mim tambem. Ora agora,
+eu lhe conto mais, eu lhe conto o que v. exc.ª pensou e o que eu logo
+previ que v. exc.ª pensava. Pensou v. exc.ª: Aquelle insolente Thomé foi
+quem machinou tudo isto. Atreveu-se a sonhar em apanhar o meu filho para
+marido da filha d'elle, em alliar a sua familia á minha, em dar por
+aposento áquella rapariga as salas do meu palacio. Para isso principiou
+a amimar-me o filho, para isso prestou-lhe serviços com signaes de
+desinteresse, para isso o levou por sua casa e lhe metteu á cara a
+filha, e emfim, para assegurar ainda melhor os seus projectos, sabendo
+da predilecção que eu mostrava pela rapariga, trouxe-m'a para casa,
+porque, velho e doente como me via, conjecturou que bem podia ser
+deixar-me de tal maneira prender por ella, que não oppozesse obstaculos
+aos seus projectos. Ora aqui está o que v. exc.ª pensou. Negue-o, se é
+capaz.
+
+D. Luiz não ousou negar.
+
+--Muito bem, fidalgo. O tempo é pouco, como disse, e por isso eu vou já
+direito ao meu fim. Eu logo vi que deviam ser estes os pensamentos de v.
+exc.ª, porque ainda quando as apparencias eram menos contra mim do que
+d'esta vez, v. exc.ª costumava sempre fazer a meu respeito supposições
+tão boas como esta. Por isso não pude soffrer a ideia de conservar nem
+mais uma hora minha filha n'esta casa. Vim e vim á carreira para a levar
+commigo. Procurava dar um pretexto qualquer a esta retirada, mas foi
+desnecessario, porque logo vi ás primeiras palavras de v. exc.ª que já
+chegára tarde para remediar o mal que previra. Muito bem, n'esse caso
+resta-me pouco a fazer para descargo da minha consciencia e depois
+retiro-me.
+
+Thomé passou a mão pela fronte, que tinha inundada de suor. Na voz como
+no semblante eram evidentes os signaes da sua excessiva commoção.
+
+D. Luiz, que o ouvira conservando os olhos fitos no tapete do pavimento,
+sentiu-se involuntariamente obrigado a levantal-os n'aquelle momento
+para os fitar na physionomia do homem que tinha diante de si e que a seu
+pezar o impressionava.
+
+--Fidalgo--proseguiu Thomé, depois d'esta breve pausa--juro-lhe que
+nunca percebi estas affeições entre minha filha e o snr. Jorge, juro-lhe
+que nunca pensei em que ellas podessem dar-se. Quando o soube estalou-me
+o coração de dôr e córaram-me as faces de vergonha. Cheguei a
+arrepender-me, pela primeira vez, de alguns serviços que em boa fé
+prestei ao snr. Jorge, pequenos mas feitos da melhor vontade. Mas uma
+vez que o caso se deu, sem culpa minha, só tenho a dizer-lhe isto,
+fidalgo; ouça-me bem. Quero do coração a seu filho, de pequeno o estimo,
+e respeito-o agora como um homem de bem que é; quero devéras, se quero!
+a minha filha, é a primeira que eu tive, é a única rapariga, é a que
+trago mais chegada ao coração, fraquezas de pae, como sabe; pois bem,
+quero-lhes a ambos e muito, mas ainda que a affeição que elles tivessem
+um pelo outro fosse tal que eu os visse morrer, e que a salvação d'elles
+só dependesse do meu consentimento para se casarem, deixal-os-ia morrer,
+deixava; morreria com elles, mas não daria esse consentimento.
+Juro-lh'o, fidalgo, juro-lh'o! que para tanto tenho coragem; porque o
+meu orgulho não é menos forte do que o de v. exc.ª! Para eu consentir
+que um filho meu entrasse na sua familia, fidalgo, era necessario... Eu
+sei lá o que era necessario?... Era necessario que v. exc.ª primeiro me
+pedisse por favor para assim o consentir. Agora veja lá se isso é
+possivel.
+
+Ao terminar, Thomé tinha a respiração cortada, offegante, como de quem
+realisou um esforço enorme. Cahiam-lhe bagadas de suor pela fronte
+afogueada e as mãos contrahiam-se-lhe em crispações nervosas.
+
+D. Luiz ia a responder-lhe quando Bertha entrou no quarto preparada para
+a partida.
+
+A sua chegada cortou n'este ponto a scena.
+
+Bertha relanceou um olhar para os dois velhos e adivinhou que a scena
+que ella previra tivera logar.
+
+--Quer que vamos?--perguntou ella ao pae timidamente.
+
+--Vamos--respondeu este com um modo sacudido, dirigindo-se para a porta.
+
+Bertha aproxiraou-se do fidalgo, olhando-o com timidez.
+
+--Quer dar-me a sua benção de despedida, meu padrinho?--perguntou Bertha
+a meia voz, como receiosa de uma recusa.
+
+D. Luiz, sem voltar o rosto, estendeu-lhe silenciosamente a mão.
+
+Bertha apoderou-se d'ella e beijou-a, banhando-a de lagrimas de saudade.
+
+D. Luiz estremeceu ao sentir aquelles beijos e aquellas lagrimas, mas
+fez por se reprimir na presença de Thomé.
+
+Emfim, Bertha separou-se d'elle, e encaminhou-se para a porta, onde o
+pae a esperava.
+
+Poucos passos andados ouviu que a chamava uma voz suffocada.
+
+Voltou-se. D. Luiz seguia-a com a vista nublada de pranto e estendia-lhe
+os braços para um ultimo adeus.
+
+Ella correu para o velho e abraçaram-se soluçando.
+
+Thomé sensibilizado escondeu-se discretamente nas dobras do reposteiro.
+
+Por algum tempo durou ainda aquella tocante scena de despedida, que
+despedaçou o coração do velho fidalgo.
+
+A final afastando brandamente de si a rapariga e beijando-lhe a fronte,
+enternecido, murmurou:
+
+--Vae, minha filha; é melhor que vás. O teu sacrificio é grande, mas crê
+que não é maior do que o meu. Dize a teu pae....
+
+Mas percebendo Thomé meio escondido na porta, dirigiu-se a elle:
+
+--Thomé, ha pouco fui injusto comsigo. Desculpe-me; a velhice e a doença
+fizeram-me assim. Creio na sua boa fé e espero que todos nós saberemos
+proceder como o dever nos manda. Adeus, entrego-lhe a sua filha. Tem
+razão em a querer junto de si.
+
+E pela segunda vez na sua vida o fidalgo da Casa Mourisca estendeu a mão
+ao seu antigo criado.
+
+Thomé aceitou-lh'a com a effusão com que sempre acolhia a mão que
+lealmente se estendia para a sua.
+
+--Fidalgo, se v. exc.ª... Mas não; é melhor que Bertha venha commigo. É
+melhor para socego de todos. Custa ao principio, mas...
+
+--Sim; é melhor, é; Bertha que vá--assentiu D. Luiz.
+
+E depois de uma ultima despedida tão terna como a primeira, o pobre
+doente viu desapparecer para não voltar, a doce figura da sua carinhosa
+enfermeira.
+
+Assim que deixou de ouvir-lhe os passos no corredor, o desalentado velho
+escondeu a cabeça entre as mãos já trémulas, e com a voz cortada pelos
+soluços exclamou com desespero:
+
+--Agora morre! morre! morre para ahi só, velho desgraçado, sem filhos,
+sem familia, sem amigos; morre só com os teus rancores, com as tuas
+paixões, com o teu orgulho, já que assim o queres. Quando acabará de se
+despedaçar este coração, para me deixar descançar?
+
+Frei Januario veio surprendêl-o n'este apaixonado monologo e recuou
+assustado ante a vehemencia d'aquella dor.
+
+D. Luiz nem deu pela chegada do padre. Cahindo em um profundo
+abatimento, assim permaneceu sem que as perguntas e supplicas do padre
+conseguissem arrancar-lhe uma palavra dos labios contrahidos.
+
+Sómente ao fim da tarde, D. Luiz disse que queria deitar-se;
+ajudaram-n'o a despir-se e a mettêl-o na cama, onde elle ficou como
+cabido em uma somnolencia morbida.
+
+O padre receioso do resultado d'aquella subita depressão de forças,
+pensou em avisar Jorge.
+
+O bom do padre, apesar dos seus defeitos, não era um coração insensivel,
+e por D. Luiz tinha uma affeição sincera. Aquella noite, reagindo contra
+o seu amor pelas commodidades, velou, ou melhor, permaneceu á cabeceira
+do doente. Teve porém o desgosto de perceber que este não sentia grande
+refrigerio em vêl-o alli, porque sempre que no intervallo dos seus
+somnos agitados dava com os olhos n'elle, desviava-os logo com despeito.
+
+Não obstante, o padre conservou-se fiel ao seu posto.
+
+
+
+
+XXXVI
+
+
+O estado do doente no dia seguinte não era mais animador. O abatimento,
+em que tão de subito cahira, mostrava geitos de prolongar-se e por
+ventura de terminar por uma solução funesta.
+
+O padre mandou á pressa aviso a Jorge para que viesse aos Bacellos.
+
+A carta de frei Januario chegou ás mãos de Jorge juntamente com outras
+de mais felizes novas. Umas eram do Porto, noticiando-lhe a decisão
+favoravel da importante demanda que elle sustentava, outras da baroneza
+e de Mauricio, participando-lhe o seu casamento e promettendo uma
+proxima visita á aldeia. Todas estas noticias de tão diversa indole
+impressionaram extraordinariamente Jorge.
+
+Por esse lado illuminava-se-lhe o horizonte do caminho, que seguia com a
+constancia e a tenacidade de um animo varonil; por outro assombrava-o o
+estado perigoso de seu velho pae, a quem elle desejaria dar ainda a
+consolação de vêr como que erguida das ruinas a casa de seus
+antepassados.
+
+As novas, quasi funebres, que lhe vinham dos Bacellos, enlutavam-lhe as
+alegrias nupciaes das cartas do irmão e de Gabriella.
+
+Debaixo da influencia d'estas impressões oppostas, Jorge, depois de
+escrever um pequeno bilhete a Thomé, em resposta a outro que d'elle
+recebeu, communicando-lhe também o resultado da demanda, montou a
+cavallo e partiu a toda a pressa para os Bacellos.
+
+O procurador recebeu-o com ar consternado, e abanando sinistramente a
+cabeça, conduziu-o ao quarto de D. Luiz.
+
+Jorge sentia comprimir-se-lhe dolorosamente o coração ao aproximar-se do
+leito do pae.
+
+--Elle já nem falla--dissera-lhe a meia voz o padre, que de facto ainda
+não conseguira obter uma só palavra do fidalgo.
+
+Jorge afastou quasi tremendo as cortinas do leito.
+
+D. Luiz, que jazia com os olhos fechados e n'aquella immobilidade quasi
+morbida em que desde a partida de Bertha cahira, não deu signal de ter
+percebido a chegada do filho.
+
+Jorge, assustado com aquella impassibilidade, pegou-lhe na mão que tinha
+estendida por fóra da roupa, como para procurar n'ella o calor da vida.
+
+Ao contacto da mão do filho, o fidalgo estremeceu e abriu os olhos;
+vendo Jorge, passou-lhe nos labios um desvanecido sorriso de affecto.
+
+--Ah! és tu, Jorge?--disse elle com a voz ainda fraca--não te tinha
+visto entrar.
+
+Frei Januario ficou estupefacto, ouvindo fallar o doente, que elle já
+suppunha em estado de não poder fazêl-o.
+
+--Acha-se melhor?--perguntou Jorge, vergando-se sobre o leito.
+
+O velho só respondeu encolhendo os hombros como exprimindo indifferença
+pela sua sorte, e depois fitando outra vez os olhos no filho,
+interrogou-o por sua vez:
+
+--E tu?
+
+Jorge estranhou esta solicitude no pae, tão fóra dos seus habitos, e
+sentiu-se commovido.
+
+--Eu?... eu estou bom.
+
+--Estás pallido e doente--proseguiu o pae, fitando-o.
+
+E sem desviar os olhos, recahiu no silencio, que manteve por alguns
+segundos.
+
+Depois, procurando a mão do filho e apertando-a na sua, murmurou com uma
+commoção a que só ultimamente era sujeito.
+
+--És um homem, Jorge! És digno do nome que tens e da familia que
+representas.
+
+Estas palavras surprenderam extraordinariamente Jorge e não menos frei
+Januario, que as attribuiu ao delirio produzido pela doença.
+
+D. Luiz acrescentou no mesmo tom:
+
+--Saber sacrificar tudo a um dever é a principal e a mais difficil
+sciencia que nós temos a aprender na vida, e tu... mostras que estás bem
+senhor d'ella.
+
+Julgando perceber o sentido d'estas palavras, Jorge fitou no pae um
+olhar perscrutador.
+
+Elle porém fechou novamente os olhos e por muito tempo permaneceu como
+cahido em um somno profundo.
+
+O filho e o padre conservaram-se ao lado do leito.
+
+--Como vão os negocios de nossa casa?--perguntou d'ahi a pouco elle sem
+abrir os olhos.
+
+Jorge communicou-lhe a boa nova que recebêra de se haver vencido a mais
+antiga e a mais importante demanda que sustentavam.
+
+Na pallidez das faces do doente passou um instantaneo rubor. Os labios
+agitaram-se-lhe, e baixo, muito baixo, que mal o pôde ouvir o filho,
+murmurou:
+
+--Será chegado o termo d'esta longa provação?!
+
+Depois recahiu no torpor em que passára a noite e não disse mais palavra
+alguma.
+
+Jorge, vendo-o a dormir, correu-lhe as cortinas do leito, diminuiu a
+claridade do aposento, e entregando-o á vigilancia do padre, retirou-se
+ao escriptorio para trabalhar nos negocios da casa.
+
+Todo esse dia e a noite que se lhe seguiu passaram sem novidade.
+
+Pela madrugada do dia immediato despertou a gente nos Bacellos á chegada
+de um numeroso cortejo de criados e portadores de bagagens, acompanhando
+a baroneza e Mauricio, noivos de pouco, e que vinham cumprir a promessa
+da sua visita.
+
+Jorge correu a recebêl-os e cingiu nos braços commovido o irmão e a
+cunhada.
+
+Passados os primeiros momentos absorvidos pelos transportes de alegria,
+a baroneza e Mauricio, reparando mais attentamente para o ar abatido e a
+pallidez de Jorge, fizeram-lh'o notar com apprehensão.
+
+--Pelo que vejo, as tuas imprudencias continuam, Jorge?--disse a
+baroneza.--Ajuizado como és, não vês que pelo caminho que segues não
+podes realisar os teus grandes projectos?
+
+Jorge sorriu, encolhendo os hombros.
+
+--Que quer que lhe faça, Gabriella? A vontade do homem não rege os
+processos intimos da sua vida organica. Não está na minha mão modificar
+o andamento dos meus actos nutritivos.
+
+--Mas podes desviar muito bem as causas que os perturbam. O excesso de
+trabalho...
+
+--Não é isso, Gabriella--acudiu Mauricio--eu sempre conheci em Jorge o
+habito de estudar e de trabalhar sem estes effeitos. O que o mata é a
+louca presumpção de ser superior ás paixões, e a tentativa que faz para
+sacrifical-as a não sei que imaginarios deveres.
+
+Jorge sorriu.
+
+--Já vejo que se estabeleceu entre os noivos o communismo de segredos.
+Esse soubeste-o só depois de casares.
+
+--Suspeitei-o muito antes, bem o sabes.
+
+--Isso é verdade, suspeitaste-o muito antes de eu proprio me convencer
+d'elle.
+
+--Mas--tornou a baroneza--é preciso sahir d'isto. O Jorge suppõe-se mais
+forte do que é.
+
+--Creia, Gabriella, o melhor é deixar ao tempo o cuidado de resolver as
+crises. Hoje o que me preoccupa é a solução dos meus negocios, que
+felizmente vão tomando uma face animadora.
+
+--É verdade, disseram-me em Lisboa que se decidiu em bem a demanda que
+tanto te preoccupava. O que tu não sabes é que ao valimento de Mauricio
+com um dos desembargadores, em cujas mãos parava o processo, se deve
+essa prompta solução.
+
+--Devéras?
+
+--Não ouso crêl-o--disse Maurício--ainda que é verdade ter-lhe fallado e
+haver recebido d'elle a promessa de aviar depressa o processo.
+
+--Hoje quasi posso assegurar-lhe que é certa a nossa regeneração--tornou
+Jorge.--Esta primeira victoria prepara-me o terreno para outras e
+solta-me os movimentos que tinha peiados. E os teus projectos, Mauricio?
+
+--Vão em bom caminho. Tenho quasi certo um logar na embaixada de Londres
+ou de Berlim.
+
+--Eu ainda não desespero de envelhecer embaixatriz--disse a baroneza,
+sorrindo, e acrescentou:--Mas que é de Bertha? Já cá não está?
+
+--Retirou-se ha dias. Desde então recrudesceu a doença do pae.
+
+--E para que se retirou?
+
+--O Thomé veio buscal-a.
+
+--Com que fim?
+
+--Não sei... Ainda que... por algumas coisas que ouvi... quer-me parecer
+que fizeram conceber a Thomé certos receios. Emfim eu proprio não quiz
+profundar os motivos da retirada por temer que não me fosse agradavel
+ouvil-os.
+
+--E querem vêr que o tio Luiz também soube? É impossivel que tudo isto
+não lhe tenha feito muito mal! Eu nunca vi! Esta gente toda entregue a
+si parece que porfia em complicar a situação. Mauricio, vamos vêr teu
+pae. Eeus queira que ainda seja possivel remediar o mal feito. Vens,
+Jorge?
+
+Passados momentos entravam todos tres no quarto de D. Luiz, onde
+penetrava apenas a discreta claridade coada pelas cortinas corridas e
+pelas janellas meio abertas.
+
+Frei Januario, que dormitava ao lado do leito, com o lenço vermelho em
+uma mão e o breviario na outra, ergueu-se ao ver a baroneza, e depois de
+comprimental-a dispunha-se a avisar o fidalgo.
+
+Gabriella susteve-o, e avisinhando-se do leito, correu ella propria os
+pannos do cortinado e contemplou o rosto do ancião, que dormia
+profundamente.
+
+Mauricio e Jorge acercaram-se tambem.
+
+A nobre physionomia de D. Luiz, abatida pelo soffrimento physico e
+moral, e sobre a qual o somno parecia derramar uma serenidade, como de
+resignação, impressionou-os a todos.
+
+A baroneza ajoelhou ao lado do velho, e pegando-lhe na mão beijou-a com
+affecto e respeito. Mauricio ajoelhou tambem ao lado de sua esposa.
+
+D. Luiz acordou um tanto sobresaltado. Deu primeiro com a vista em Jorge
+e depois, desviando-a, reconheceu a sobrinha e o filho mais novo, e
+raiou-lhe no semblante, ao vêl-os, um clarão de alegria.
+
+--Ó meus filhos!--exclamou elle, solevantando-se no leito e apoiando-se
+no braço tremulo.
+
+Depois, passando a mão por sobre a cabeça dos noivos, acrescentou:
+
+--Deus vos abençoe, como eu vos abençôo.
+
+E deixou-se cahir extenuado sobre o travesseiro.
+
+Gabriella levantou-se para amparal-o.
+
+--Ai, Gabriella--disse elle, suspirando--finalmente parece que chegou a
+hora da liberdade.
+
+--Diga que chegou a hora da resurreição. Verá como de hoje em diante
+tudo vae ser ventura n'esta casa. Ha de trazer-lh'a Jorge e Mauricio e
+eu, até eu e... e mais alguem. Quem sabe?
+
+D. Luiz voltou os olhos para o filho mais novo.
+
+--Mauricio--disse com a voz cançada e interrompida--és ainda muito rapaz
+e vaes viver em um mundo perigoso, não desprezes a conselheira que Deus
+collocou a teu lado.
+
+--Como hei de desprezal-a, se a adoro?--disse Mauricio com o galanteio
+de um noivo ainda namorado.
+
+A baroneza correspondeu-lhe com um sorriso, e observou:
+
+--Nem receio o desprezo, nem creio na adoração. Deixemos as coisas nos
+termos ajustados. Estimemo-nos e seremos felizes.
+
+--Nem todos podem ter a frieza do teu animo, filha--disse Mauricio a
+meia voz.
+
+--Não é tempo agora de discutirmos isso. Sabes? O pae não póde por
+emquanto ouvir longas conversas. Acordou ha pouco e precisa de poupar a
+attenção. Se tu fosses com Jorge dar ordem a essas coisas que os criados
+trouxeram... Eu ficaria no entretanto aqui.
+
+Jorge e Mauricio perceberam que a baroneza tinha desejos de que a
+deixassem só com D. Luiz, e sahiram por isso da sala.
+
+Frei Januario, meio adormecido, não deu pela sahida dos rapazes e
+permaneceu entre o leito e a parede, encoberto pelo cortinado e
+desapercebido de Gabriella.
+
+Esta sentou-se á cabeceira do leito e com feminil carinho começou a
+ageitar a travesseira do doente e a desviar-lhe da fronte as cãs
+desordenadas.
+
+--Eu não esperava vir encontral-o sem enfermeira--dizia Gabriella o mais
+naturalmente possivel.
+
+D. Luiz suspirou.
+
+Ella insistiu:
+
+--É uma coisa tão necessária! Porque ha certo cuidado que só uma mulher
+póde ter. É a nossa especialidade.
+
+D. Luiz abanou a cabeça.
+
+--Tem razão, Gabriella. É uma desconsoladora solidão a de um doente sem
+esses cuidados de que falla.
+
+--Mas... porque se retirou Bertha?
+
+D. Luiz não respondeu logo a esta pergunta, que parecia contrarial-o,
+porque lhe chamou á fronte uma contracção de desgosto.
+
+--Ai, raparigas!--tornou a baroneza--ferve-lhes o sangue a final.
+
+--Não diga isso, Gabriella, que é injusta. Bertha é um anjo de
+abnegação.
+
+--Mas para que havia o anjo de abandonar o seu posto?
+
+--Vieram buscal-a.
+
+--Quem?
+
+--O pae.
+
+--Pois o Thomé da Povoa seria capaz de leval-a d'aqui contra vontade
+d'ella e do padrinho?
+
+--O Thomé teve razão para o fazer. Eu mesmo lhe disse que devia leval-a.
+
+--Ah! então não entendo.
+
+--Ha sacrificios tão dolorosos, que não é justo exigil-os, nem
+permittil-os.
+
+--E o que Bertha fazia, ficando aqui a seu lado, era d'essa natureza?
+
+--Talvez fosse.
+
+--Não posso conceber de que maneira.
+
+D. Luiz cançado do esforço que fazia para fallar ou hesitando no que
+dissesse, não respondeu logo.
+
+Depois murmurou:
+
+--Aquella pobre rapariga tem uma alma nobre e heroica. Não seria ella
+que se trahiria por um signal de dôr, ainda quando sentisse
+despedaçar-se-lhe o coração.
+
+--E corria esses riscos aqui?--perguntou a baroneza com affectada
+candura.
+
+--Gabriella--continuou D. Luiz--Bertha sahiu victoriosa de uma grande
+lucta. O coração, porém, ainda lhe devia sangrar, e não era aqui que se
+lhe consolidariam as cicatrizes.
+
+--São tão vagos esses dizeres! Ora vamos; diga-me o que houve; falle-me
+claro.
+
+--Que havia de ser? Bertha é um anjo, mas sob a encarnação de mulher,
+tem um coração... e esse, sujeito a apaixonar-se como os outros.
+
+Gabriella fez um gesto de quem tivera uma ideia subita.
+
+--Ah! Já sei! Percebo agora! Era a isso que alludia? Cuidei que seria
+outra coisa mais grave.
+
+D. Luiz fixou na sobrinha um olhar admirado.
+
+--A Gabriella por certo não sabe ao que me refiro.
+
+--Sei, sei, pois não sei! Havia muito que eu tinha descoberto esse
+segredo de Bertha, de Bertha e de Jorge.
+
+--E deu-lhe tão pouca importancia?
+
+--Apenas a que merece. Mas devéras, foi esse o motivo da retirada de
+Bertha? Parece-me impossivel!
+
+--Já não pouco imprudente havia sido a demora d'ella n'esta casa. Elles
+ambos são fortes, mas não devem abusar das suas forças com risco de
+aggravar o mal e leval-o a extremos irremediaveis.
+
+--O mal... extremos irremediaveis... Que linguagem tão carregada para
+uma coisa tão simples! Pois diga-me, considera um grande mal o facto de
+elles gostarem um do outro?
+
+D. Luiz encarou Gabriella devéras admirado da pergunta.
+
+--Está a zombar, Gabriella?
+
+--Não estou. Fallo-lhe com toda a minha seriedade. Sabe quando eu receio
+mal da inclinação reciproca de duas pessoas? É quando nos caracteres
+d'ellas ha taes contradicções que o futuro promette ser uma continuada
+lucta. Agora todas as mais desigualdades, desigualdades de riqueza, de
+posição social e de jerarchia, são facilmente niveladas por um amor
+verdadeiro e serio. E esta é de certo a indole do amor d'elles.
+
+--Visto isso, achava a Gabriella muito natural que meu filho casasse com
+a filha de Thomé da Povoa?
+
+A pergunta era feita com certa acrimonia, que não passou desapercebida
+da baroneza. Ella porém estava resolvida a atacar de frente os
+preconceitos do tio e não titubeou ao responder-lhe:
+
+--Se quer que lhe diga, achava até muito conveniente.
+
+D. Luiz moveu com certa impaciencia a cabeça.
+
+Gabriella insistiu:
+
+--Queria antes que eu votasse pela continuação d'este estado de coisas,
+que o ha de matar, que infallivelmente o mata, porque--diga o tio o que
+disser--a companhia de Bertha é-lhe já tão necessaria como lhe foi a de
+Beatriz? Queria antes que eu votasse por esta ordem de coisas, que traz
+definhado seu filho e que irremediavelmente o sacrificará e com elle as
+esperanças de regeneração d'esta casa e d'esta familia? Desengane-se,
+meu tio, o futuro de sua familia está indissoluvelmente ligado a Bertha.
+
+--Póde ser.
+
+--Está, digo-lh'o eu, que bem conheço Jorge. Elle renunciou
+espontaneamente ao mais violento desejo do seu coração, julgando que
+seria empreza ao alcance das suas forças. O resultado está-se vendo. De
+dia para dia cresce n'elle o abatimento e as consequencias não é
+difficil prevêl-as. E diga-me se vale a pena sacrificar vidas tão
+preciosas e tão nobres e brilhantes projectos a um capricho
+aristocratico?
+
+--Capricho?!
+
+--Capricho, sim. Se invocar toda a sua philosophia, o tio Luiz ha de
+reconhecer que não merece outro nome esse escrupulo.
+
+--Não será dever?
+
+--Em que codigo lhe é imposto?
+
+--No da nobreza.
+
+--O dever de quem é nobre de origem é conservar-se pelas suas acções
+digno d'ella. Ora hoje, meu tio, que o mundo está quasi todo descoberto
+e em que já passaram de moda as conquistas dos mouros e as guerras com
+os castelhanos, que melhor póde cumprir-se esse dever do que o faz
+Jorge, luctando nobremente para resgatar a sua casa e dando um grande e
+salutar exemplo, que oxalá que fosse seguido? Elle sim, é quem continua
+as gloriosas tradições dos seus avós, e olhe que não será menos util á
+pátria do que elles foram. Mas ha um estimulo necessario para manter
+n'elle aquella actividade. Elle proprio illude-se, julgando que póde
+prescindir d'esse estimulo. Não póde. Esse esforço ha de sacrifical-o.
+Agora veja o tio, em respeito a quem é sómente feito o sacrificio, se
+não sentirá remorsos um dia por havêl-o consentido.
+
+D. Luiz parecia pouco satisfeito com a discussão, que o collocava entre
+duas forças que igualmente o opprimiam.
+
+--A minha vida é de sacrificios; é destino. Devo estar preparado para
+aceital-os com resignação.
+
+--Resignação nada christã; porque Deus não quer que nos resignemos com
+os males que podemos evitar, e muito menos quando é uma paixão ruim que
+os prepara.
+
+--Uma paixão ruim!--exclamou o fidalgo mais exaltado--até que ponto a
+traz cega a corrente das ideias modernas, que já chama paixão ruim ao
+respeito que devemos ao esplendor das nossas casas?
+
+--E que perderia esse esplendor com a alliança de Bertha? Não é ella uma
+rapariga de sentimentos nobres, cheia de virtudes e de excellentes
+qualidades? N'essas familias que manteem o esplendor que diz, conta
+muitas noivas mais dignas de seus filhos? E depois, meu tio, deixe-me
+dizer-lhe: nós precisamos de misturar sangue novo ao nosso, senão
+morremos asphyxiados n'estes ares modernos. É verdade isto, as famílias
+que escrupulisam em não caldearem o sangue antigo que trazem nas veias,
+dão de si uns descendentes quasi sempre parvos e pêcos, por isso mesmo
+que sahem organisados para viverem ern uma sociedade talhada por moldes
+que já se não usam, e não sabem viver na actual.
+
+D. Luiz não podia ainda habituar-se a ouvir taes doutrinas
+irreverentemente expostas por uma das representantes d'essas vetustas
+familias.
+
+Era provavel que as phrases incisivas da baroneza lhe provocassem uma
+resposta apaixonada, se uma inesperada occorrencia o não viesse
+distrahir.
+
+Frei Januario, que ficára, como dissemos, occulto pelo cortinado do
+leito e desapercebido tanto da baroneza como de D. Luiz, ouvira com
+surpreza crescente o dialogo que temos descripto. Para elle eram ainda
+novidade os amores de Jorge e Bertha, porque D. Luiz já não fazia do
+padre o confidente dos seus segredos.
+
+Admirado com a descoberta, mais admirado ficou ainda ao ouvir os
+commentarios de Gabriella a tal respeito, e as ideias revolucionarias e
+subversivas que sustentára contra o fidalgo.
+
+Frei Januario, mais respeitador dos foros da fidalguia do que o mais
+esmerilhado aristocrata, sentiu-se provocado a protestar contra aquellas
+doutrinas e a vir em auxilio do fidalgo com inesperado soccorro, que por
+certo o faria de novo entrar nas suas boas graças.
+
+Portanto, n'estas alturas da discussão, levantou-se do canto em que
+estivera occulto, e acabando de sorver os restos de uma pitada, que
+conservára entre os dedos, afastou a cortina e surgindo do outro lado do
+leito, defronte da baroneza, disse escandalizado:
+
+--Perdoe-me v. exc.ª, snr.ª D. Gabrielia, mas eu não posso deixar de
+manifestar o meu espanto pelo que acabo de ouvir.
+
+--Ah! Pois estava ahi, snr. frei Januario? Confesso que nem de tal me
+lembrava--disse Gabriella sorrindo.
+
+D. Luiz franziu o sobrolho, como quem não agradecia ao padre a
+intervenção.
+
+--Aqui tenho estado de noite e de dia, minha senhora--respondeu o padre
+em tom de censura--e fiquei, porque ninguem me mandou sahir. Além de que
+eu já estou costumado a ouvir e a guardar os segredos d'esta familia.
+
+--Quem lhe diz menos disso, snr. frei Januario? Eu apenas observei que
+me não lembrava da sua presença ahi. Mas pelo que vejo as minhas ideias
+não merecem a sua approvação.
+
+--De certo que não--tornou o padre.--O snr. D. Luiz tem razão. A nobreza
+è a nobreza; e mal de nós se ella se esquecia dos seus deveres e assim
+se misturava ás classes infimas.
+
+--Então que mal succedia com isso ao snr. frei Januario?--perguntou a
+baroneza, rindo.
+
+--A mim?
+
+--Então não disse: «mal de nós?»
+
+--Sim, mal de nós todos, porque a sociedade precisa d'estas distincções;
+senão, não ha ordem, não ha governo, tudo é anarchia e republica.
+
+--Leu isso no evangelho?
+
+--É o que a experiencia me tem mostrado.
+
+--Ah! a experiencia! Muitos obsequios deve á experiencia o snr. frei
+Januario!
+
+--Porém devéras, minha senhora, v. exc.ª podia aconselhar seriamente ao
+snr. D. Luiz o casamento do snr. Jorge, do morgado, morgado não, que até
+já com isso acabaram para acabarem com todas as familias illustres, mas
+emfim do representante, o filho mais velho de s. exc.ª ... o casamento
+d'elle com quem? Com a filha do Thomé da Povoa! Um homem, senhores, que
+eu conheci criado d'esta casa! v. exc.ª não fallava a serio ha pouco. É
+impossivel.
+
+--Olhe que fallava, snr. frei Januario, fallava, fallava.
+
+--Ó minha senhora, por quem é! Lembre-se v. exc.ª da familia a que
+pertence, do nome que tem e verá que se ha de envergonhar da lembrança.
+Bertha da Povoa! Bertha da Povoa! a filha do Thomé! Era o que me faltava
+vêr n'este mundo! Bertha, que o pae enfeitou com vestidos de senhora,
+mas que a final sempre ha de mostrar a origem d'onde sahiu! Eu sempre
+ouvi dizer que o que o berço dá a tumba leva, e que o pé de tamanca foge
+sempre para a tamanca. Havia de ter graça ouvir o snr. D. Luiz chamar
+filha á rapariga! e ella feita senhora na Casa Mourisca! Ora essa! Em
+tal não podia consentir o snr. D. Luiz ainda mesmo que quizesse. Bem vê
+v. exc.ª que uma pessoa da nobreza do snr. D. Luiz não tem só a
+consultar a sua vontade. Lá está a mais familia. Que diriam os snrs.
+Mellos de Ribeira-formosa? os snrs. Cunhas do Choupello? os snrs.
+Sotto-maiores da Fonte das Urzes, os snrs. do Cruzeiro, e toda a nobreza
+por essa provincia adiante? Com que olhos veriam esse casamento
+monstruoso as damas de todas essas familias, e em uma palavra a
+fidalguia do reino! V. exc.ª de certo não pensou nisto. Demais...
+
+O padre não pôde proseguir na sua animada refutação.
+
+Interrompeu-o D. Luiz.
+
+Dera-se com o fidalgo um phenomeno não calculado pela experiencia do
+padre, ainda que natural ao espirito humano.
+
+Sentindo-se apoiado na defeza das suas ideias por um alliado
+antipathico--porque o era para o fidalgo desde certo tempo, o seu
+ex-procurador--teve logo um desejo vehemente de recusar o auxilio e
+quasi o de esposar a causa opposta só para o castigar da impertinencia.
+
+Além d'isso frei Januario levou a defeza mais longe do que devia. A
+maneira por que fallou de Bertha e da dependencia em que estava o
+fidalgo da opinião da sua parentela, irritaram o orgulhoso D. Luiz, que
+por isso tudo com extrema vivacidade o interrompeu dizendo:
+
+--Cale-se, frei Januario, cale-se! Que está para ahi a dizer? Cuida que
+eu, querendo fazer a minha vontade, me dou ao trabalho de consultar os
+de Ribeira-formosa, os do Choupello ou os do Cruzeiro, ou de qualquer
+d'essa parentela que tenho por essa provincia adiante? Era o que me
+faltava! Do que convem ou não convem á dignidade do meu nome, sou eu o
+juiz, e não admitto ingerencias alheias. Actos que deslustram e
+envergonham tem-n'os elles feito que farte, e eu nunca lhes fui pedir
+satisfações por isso.
+
+--Eu queria dizer...--acudiu o padre, intimidado pela irritação em que
+via o fidalgo.
+
+Este interrompeu-o outra vez:
+
+--Ora não diga nada, que é melhor. Com que olhos veriam as damas este
+casamento! É boa! Com os mesmos olhos com que tem visto muita miseria e
+muita vergonha que vae por casa dos seus. Os olhos deviam ellas
+empregal-os em Bertha, mas era para aprender d'ella o que é dignidade,
+nobreza de sentimentos e verdadeira educação. Como está ahi a dizer o
+frei Januario que Bertha ha de mostrar a final a origem d'onde vem?
+Bertha ha de mostrar que é filha de um homem honrado e de uma mulher
+virtuosa. Se é isso que quer dizer, tem razão. E oxalá que todas as
+nossas damas podessem dizer o mesmo de si. Fique sabendo que não seria
+ella que occupasse mal o seu logar na Casa Mourisca. Fique sabendo isto.
+O quarto de minha filha a poucas o franquearia eu com melhor vontade do
+que a ella, que parece resuscitar-m'a. Para ser nobre não basta ser do
+Cruzeiro ou de Ribeira-formosa. O Cruzeiro é um ninho de bebedos e a
+Ribeira-formosa uma gaiola de parvos. A ter de escolher entre essa gente
+sem dignidade e aquella que de origem obscura lhe dá todos os dias
+lições de deveres, de certo que não hesitaria, nem iria entre a primeira
+procurar noiva para meu filho. Como se formaram as familias nobres? São
+todas da mesma época? É claro que não. Houve tempo em que umas já eram
+nobres e outras não o eram; mas por um feito illustre e verdadeiramente
+nobre um homem obscuro d'estas ultimas mereceu que as primeiras o
+chamassem a seu gremio, partilhando com elle o dom que já possuiam. Pois
+bem, tambem nós hoje podemos fazer o mesmo que n'esses antigos tempos se
+fazia, e chamar a nós os espiritos fidalgos, que os ha fóra do nosso
+gremio; e assim podessemos também expulsar d'elle os espiritos plebeus
+que por cá temos!
+
+D. Luiz, levado pela força da reacção, ia mais longe do que quizera. Por
+pouco estava advogando ideias manifestamente democraticas. O padre
+estava estupefacto, como se assistisse a um cataclismo. A propria
+Gabriella não esperava ouvir expender taes ideias a seu tio. Ainda que
+percebesse que a irritação que dominava o doente fosse a principal causa
+inspiradora n'aquella defeza acalorada, ainda assim lhe dava
+importancia. As ultimas palavras de D. Luiz, e especie de raciocinio com
+que pretendêra justificar a possibilidade de allianças desiguaes,
+realisadas certas circumstandas, davam-lhe a entender que elle já
+comsigo proprio previra a eventualidade e procurára argumentos que por
+ventura a justificassem.
+
+Gabriella viu n'esta descoberta um optimo indicio e percebeu a
+conveniencia de deixar o espirito do tio sob aquella ordem de impressões
+e entregue ao movimento proprio que a intervenção do padre iniciára.
+
+Por isso, sob o pretexto de que a discussão fatigára em extremo o doente
+e que os excessos lhe podiam ser funestos, cortou no principio a réplica
+do padre e obrigou-o a retirar-se da sala para deixar dormir o doente.
+
+Ao sahir dizia ella, tomando o braço do capellão:
+
+--Depois de se lançar o crescente na massa, cobre-se esta e deixa-se em
+repouso levedar. Quando era criança via fazer isto em minha casa, sempre
+que se cozia o pão.
+
+O padre não entendeu o alcance da parabola. Sahiu d'alli desnorteado com
+o que via n'aquella casa, que elle suppunha eivada do veneno da
+maçonaria, unica maneira por que explicava as irregularidades que via.
+
+Gabriella sahiu no intento de encaminhar a crise em um sentido
+favoravel.
+
+
+
+
+XXXVII
+
+
+Mauricio veio ao encontro da baroneza assim que esta sahiu do quarto de
+D. Luiz.
+
+--Como deixaste meu pae?--perguntou elle.
+
+--Mal e bem.
+
+--Que queres dizer com isso?
+
+--Mal, porque me inquieta o abatimento em que o vejo. N'aquella
+idade!... Bem, porque o acho em excellentes disposições de se lhe
+applicar um remedio heroico.
+
+--Qual?
+
+--Queres principiar hoje a tua carreira diplomatica?
+
+--De que maneira?
+
+--Vaes já d'aqui a casa do Thomé da Povoa.
+
+--Sim, e depois?
+
+--É uma visita que lhe deves, visto que não te lembraste de lhe dar
+parte do nosso casamento.
+
+--É verdade que não.
+
+--Vae pois visitar Thòmé. Repara que nem sequer me lembro de ter ciumes
+de Bertha.
+
+--É uma prova de confiança, que te mereço.
+
+--Sim? Mereces? Diz-te isso a consciencia? Bom será. Vamos adiante. Em
+casa de Thomé contas qual o estado de teu pae. Fazes sentir a
+necessidade de que Bertha volte para aqui, ou para o reanimar, do que só
+ella é capaz n'este mundo, ou pelo menos para suavizar-lhe os ultimos
+momentos e despedir-se d'elle. É provavel que encontres objecções em
+Thomé, mas insiste; dize que teu pae se mostra magoado com a ausencia de
+Bertha, e que é um peccado imperdoavel prolongar-lhe essa dôr tão facil
+de remediar. Finalmente não voltes sem ter resolvido Bertha a vir hoje
+mesmo para aqui.
+
+--E quaes são os teus projectos?
+
+--Ora quaes hão de ser? São casar Bertha com Jorge. Está claro.
+
+--Has de encontrar dificuldades.
+
+--Já me pareceram maiores. O padre fez nos, sem querer, um grande
+serviço. Metteu-se a advogar com tanto calor a aristocracia, que por
+pouco fazia de teu pae um democrata.
+
+--Devéras?
+
+--É verdade. Agora quatro caricias de Bertha devem consummar a victoria.
+Vossês os homens levam-se por isso.
+
+--Parece-te?
+
+--Veremos se me engano.
+
+Mauricio encarregou-se da mensagem que lhe incumbia a mulher e partiu
+para casa de Thomé, onde foi recebido com caloroso affecto.
+
+Expondo o principal fim da sua visita, não encontrou grande opposição em
+Thomé contra o regresso da filha para os Bacellos. Elle proprio
+prometteu leval-a.
+
+Efectivamente horas depois, Bertha era de novo conduzida pela baroneza
+para junto da cabeceira do enfermo, que em todo aquelle tempo continuára
+a manifestar signaes da mais profunda depressão de forças.
+
+D. Luiz dormitava quando Bertha se lhe aproximou do leito. A rapariga
+correu cautelosamente o cortinado para contemplar a figura do ancião.
+Commoveu-a o aspecto de abatimento que crescêra n'elle desde que Bertha
+o deixára. D. Luiz tinha o somno agitado por sonhos febricitantes, e
+sonhando, soltava gemidos surdos, palavras mal articuladas, estremecia e
+suava como sob a influencia de uma afflictiva impressão.
+
+Bertha veio encontral-o em um d'estes estados e curvou-se compadecida
+para enxugar o suor que lhe orvalhava a fronte.
+
+O doente acordou então e fitou os olhos n'ella.
+
+Immediatamente lhe distendeu as feições contrahidas um sorriso de
+alegria.
+
+Por algum tempo não fallou, como se estivesse duvidando da realidade do
+que via e suspeitando-a de ser a continuação de um sonho.
+
+Foi Bertha a primeira que fallou.
+
+--Está melhor?--interrogou ella, sorrindo.
+
+O tom d'aquella voz e a particular inflexão da pergunta, com que já
+estavam familiarisados os ouvidos do doente, parece que o convenceram de
+que não dormia.
+
+Estendendo para a afilhada a mão magra e ardente, murmurou profundamente
+commovido:
+
+--Então sempre voltaste?
+
+--Como me disseram que tinha passado mais inquieto estes ultimos dias...
+
+--Fizeste bem. Havia de custar-me a morrer sem me despedir de ti.
+
+--Quem falla aqui em morrer? Agora que o inverno passou e que este tempo
+está a dar vida a tudo é que o padrinho se lembra d'isso? Pois veremos.
+Dentro de poucos dias é preciso continuarmos aquelles nossos passeios na
+quinta.
+
+D. Luiz sorriu tristemente e fechou os olhos como para reter uma
+lagrima, que, apesar d'isso, lhe passou por entre as palpebras e lhe
+rolou vagarosa pelas faces descarnadas.
+
+Bertha murmurou ao ouvido do velho:
+
+--Chore á vontade, que estou eu só aqui. Chore, que lhe faz bem.
+
+Como se a densa tristeza que pesava sobre o coração d'aquelle homem só
+esperasse aquellas palavras para se fundir em lagrimas, o pranto
+inundou-lhe o rosto, que elle quasi escondeu no seio de Bertha.
+
+Aquella expansão foi-lhe salutar. O somno seguinte foi mais tranquillo e
+menos cortado por sonhos fatigadores. Comtudo o estado do doente era
+ainda muito grave, e na aldeia e immediações corria já voz do proximo
+fallecimento do fidalgo da Casa Mourisca.
+
+A parentela das visinhanças a cada momento vinha ou mandava aos Bacellos
+saber novas do fidalgo. Thomé da Povoa passava alli a maior parte do seu
+tempo; a propria Anna do Védor viera offerecer os seus serviços á
+familia, e raras vezes se desviava da casa.
+
+Bertha continuava assiduamente junto do leito do enfermo, sem perder a
+esperança de o vêr sahir victorioso d'aquella tremenda crise.
+
+Ninguem a desviava d'alli. Retinha-a a vontade propria assim como a do
+doente, a quem a menor contrariedade podia ser fatal.
+
+A baroneza não só não insistia para que Bertha cedesse a outrem o campo,
+mas nem deixava que alguem insistisse. Dizia ella que a juventude de
+Bertha podia bem com aquelle sacrificio, e que era provavel que Deus não
+deixasse sem recompensa a caridade.
+
+Durante tres dias a familia reunida nos Bacellos passava o tempo, por
+assim dizer, na espectativa do triste acontecimento que se preparava.
+
+Jorge interrompeu os seus trabalhos, Mauricio nunca sahia de casa, e a
+baroneza passeiava constantemente entre a sala, onde quasi sempre
+permaneciam os dois irmãos, ás vezes na companhia de Thomé, e o quarto
+do enfermo, que mal consentia junto de si outra pessoa além de Bertha.
+
+Uma noite, D. Luiz, depois d'aquelles tres dias de febre e quasi de
+delirio, conseguira adormecer de um somno mais tranquillo e reparador.
+Não foram os sonhos incoherentes, absurdos e fatigadores que o
+atormentaram d'esta vez; mas um sonhar grato, sem visões febris, e
+durante o qual a imagem da filha por vezes lhe appareceu sorrindo-lhe e
+fallando-lhe com o carinho de que elle ainda se recordava com a mais
+pungente saudade do seu coração. Esta imagem transformava-se-lhe ás
+vezes por insensivel transição na imagem de Bertha, e tão similhantes,
+tão confundidas lhe appareciam, que elle nem sabia ao acordar com qual
+das duas sonhára. Umas vezes era a filha que lhe fallava com a voz e sob
+a figura de Bertha; outras Bertha revestindo a imagem de Beatriz.
+
+Despertou d'este somno por alta e calada noite. No aposento era completo
+o silencio. Interrompia-o sómente o bater cadenciado da pendula do
+corredor. A tenue claridade de uma pequena lampada alumiava a scena.
+
+D. Luiz depois de acordado tentou avivar as gratas impressões que lhe
+deixára o sonho.
+
+Pensou na filha e no passado; nas tristezas presentes, nas venturas
+perdidas e nas desgraças por vir.
+
+Áquella hora da noite, na solidão e repouso da camara de um doente o
+espirito ergue-se superior á habitual esphera onde ordinariamente pára e
+contempla com a vista de aguia as suas paixões e preconceitos; vê-os
+fluctuar como nuvens nas regiões inferiores. É n'esses momentos que a
+consciencia nos julga; a parte mais etherea do nosso ser parece então
+erguer-se lucida como nunca e contemplar compadecida os maus instinctos,
+as prevenções arreigadas, os falsos preconceitos que no tracto commum da
+vida em tão viciosas direcções nos solicitam.
+
+Emquanto o mundo dorme, dormem com elle no nosso coração as paixões que
+o mundo alimenta.
+
+N'aquelle momento D. Luiz não era o mesmo homem moral que conhecemos.
+Luzia-lhe a verdade resplandecente á sua imaginação fascinada.
+
+No meio da corrente dos seus pensamentos distrahiu-o um quasi
+imperceptivel respirar que ouviu a seu lado. Voltou-se.
+
+Era Bertha que, cedendo ás fadigas de tão continuadas vigilias,
+adormecêra junto do leito do doente.
+
+D. Luiz ficou a contemplal-a assim.
+
+A luz do velador dava-lhe no rosto, em que se desenhava a mais doce
+expressão da serenidade de espirito.
+
+Pendia-lhe a cabeça sobre as travesseiras do leito e uma madeixa de
+cabello soltando-se-lhe, viera afagar-lhe a fronte, abrindo caminho por
+entre os dedos que a sustinham.
+
+D. Luiz ergueu-se a pouco e pouco no leito para melhor observar aquella
+figura angelica de mulher, adormecida ao seu lado.
+
+Traduziam as feições do velho o extasi, em que o arrebatára aquella
+contemplação. Parecia-lhe uma visão sobrenatural. Com movimentos
+cautelosos para não a acordar, encostou os braços ás almofadas da cama e
+apoiando a cabeça entre as mãos, assim permaneceu immovel, abstracto,
+com os olhos fitos em Bertha e o espirito subindo ás regiões mais limpas
+dos espessos nevoeiros do mundo.
+
+Era um expressivo grupo o d'aquella rapariga adormecida e o d'aquelle
+velho pallido, descarnado, meio erguido no leito, contemplando-a em um
+quasi rapto de adoração. Áquella hora, no meio d'aquelle silencio,
+alumiado por aquella luz, a scena era mysteriosamente solemne e
+imponente.
+
+Horas talvez durou aquella contemplação silenciosa.
+
+De repente accentuou-se no rosto do fidalgo uma expressão de energia e
+firmeza que a doença e a preoccupação de espirito havia muito lhe tinham
+dissipado.
+
+Curvando-se mais sobre o rosto de Bertha, desviou com extrema delicadeza
+a madeixa que lhe cahia sobre a fronte e murmurava como para si:
+
+--Por que és tu que vélas a meu lado? Que laços te prendem a mim? Porque
+dedicas a este velho a tua juventude?... E não se recompensa esta
+abnegação? Pagam-te sacrificando-te aos seus... preconceitos.
+
+E continuava a contemplal-a em silencio; depois voltava a murmurar:
+
+--Beatriz, se fosse viva, chamar-te-ia irmã; havia de querer-te junto de
+si, no seu quarto. E eu... porque não hei de chamar-te filha?...
+
+Não disse mais o velho, mas curvando-se ainda mais, poisou na fronte da
+rapariga um beijo expressivo de paternal affecto.
+
+Pela madrugada o doente mostrou-se algum tanto inquieto a ponto de
+sobresaltar Bertha, que o espiava com solicitude.
+
+Á interrogação que ella lhe dirigiu para saber a causa da agitação em
+que o via, D. Luiz não respondeu logo; porém, momentos depois, olhou
+para a afilhada com uma expressão singular, pegou-lhe nas mãos,
+apertou-as com affecto, e disse-lhe com manifesta commoção:
+
+--Bertha, vae chamar Jorge. Que me venha fallar. Preciso de conversar
+com elle quanto antes.
+
+Bertha sahiu do quarto com os olhos arrasados de agua.
+
+Aquellas palavras tinham para ella uma dolorosa significação.
+
+D. Luiz que mandava chamar o filho mais velho, o directo successor do
+seu nome e da sua casa, era por que um d'aquelles presentimentos, que
+nos advertem da proximidade da nossa hora final, indicava-lhe ter
+chegado a occasião de despedir-se do filho e de dar-lhe os derradeiros
+conselhos de pae.
+
+Todos nos Bacellos formaram a mesma conjectura. Jorge ergueu-se
+precipitadamente do leito, assim que soube que o pae lhe queria fallar.
+
+A nova espalhou-se em toda a casa e pôz todos em alvoroço. Em breve
+transpirou fóra que o fidalgo da Casa Mourisca já se despedira dos
+filhos, e que em poucas horas seria com Deus.
+
+Á casa de Thomé e da Anna do Védor chegou a noticia e trouxe até os
+Bacellos esses antigos commensaes da familia, cujo representante actual
+chegava á hora mais solemne da vida. A boa Luiza acompanhou o marido no
+intento de oferecer os seus serviços n'aquelles momentos de dôr e
+confusão.
+
+Jorge entrou commovido e pallido no quarto do pae, onde ninguem mais o
+seguiu.
+
+O pobre rapaz ia preparado para uma scena dilacerante; esperava assistir
+á agonia do velho.
+
+Tremiam-lhe as pernas ao aproximar-se do leito.
+
+D. Luiz percebendo-o chegar, dirigiu-se-lhe com voz debil mas firme:
+
+--És tu, Jorge?
+
+--Sou eu, meu pae.
+
+--Chega-te mais para aqui. Assim.
+
+E fitando o filho com o olhar ainda cheio de expressão e vida, continuou
+depois de um demorado silencio:
+
+--Jorge, tu não és feliz.
+
+Jorge olhou para o pae, espantado pela inesperada observação que lhe
+ouvia.
+
+--Tens uma nobre alma, tomaste sobre os hombros uma pesada tarefa,
+dedicaste ao cumprimento d'ella a tua vida inteira, e como se isso não
+fosse bastante, sacrificaste-lhe ainda os teus mais ardentes affectos.
+Jorge, não será o sacrificio superior ás tuas forças?
+
+Jorge baixou a cabeça sem responder.
+
+A estranheza causada pelas palavras do pae, tão differentes das que
+esperava, perturbara-o a ponto de não saber o que dissesse.
+
+--Falla, Jorge--proseguiu o velho.--Vá, nunca viste em mim um
+confidente, porque o meu caracter serio e reservado afugentava as tuas
+expansões de criança; mas a doença quebrou-me e hoje posso escutar-te.
+Tu soffres, Jorge, e soffres por minha causa, não é verdade?
+
+--Meu pae--dizia Jorge cada vez mais embaraçado.
+
+--Eu sei tudo. Sei do amor que se te formou no coração e que disputou o
+teu pensamento aos projectos de rehabilitação que emprehendeste para
+salvar esta casa da ruina que os nossos e eu lhe preparamos; sei da
+tenacidade com que combateste esse amor, da coragem com que o
+sacrificavas aos meus principios aristocraticos, apesar de vêres apenas
+n'elles meros preconceitos de classe.
+
+--Creia, meu pae, que respeito as suas opiniões e que...
+
+--Ouve-me. Orgulho-me com o teu caracter; vi n'elle a nobre tempera de
+um verdadeiro fidalgo e desde então creio devéras que a regeneração da
+nossa casa, emprehendida por um homem como tu, não póde deixar de
+realisar-se. Vou sem este pêso para a sepultura. Os meus erros
+ser-me-hão relevados por o facto de te ter por filho. Tu rehabilitarás a
+minha memoria. Jorge, o meu coração não tem já a dureza de outros
+tempos, males de toda a especie acabaram de vencêl-o; agora é um coração
+de homem. Por isso me é intoleravel a ideia do teu sacrificio. Se tu
+participasses dos meus... preconceitos, era justo que lhes sacrificasses
+todos os affectos; sentirias na satisfação interior a compensação do
+sacrificio. Mas sacrificares-te só por meu respeito, sem teres a mesma
+fé no objecto a que te sacrificas... n'isso não posso eu consentir.
+Reunirei as minhas forças para subjugar alguns restos de vaidade que se
+revoltem, e antes de morrer desviarei o unico obstaculo da tua
+felicidade, dizendo-te: «Podes ser feliz, Jorge.» Além de que, tu és
+nobre bastante para ennobreceres aquella que cingires ao coração e
+ficares nobre ainda.
+
+Jorge percebeu o sentido das palavras do pae. Em extremo surprendido
+pela inesperada condescendencia do homem que elie julgava incapaz de
+transigir com taes ideias, era vez de deixar-se penetrar da alegria que
+este successo parecia dever inspirar-lhe, disse com mal sustentada
+serenidade:
+
+--Por muito doloroso que seja para mim o sacrificio de que falla, meu
+pae, talvez seja mais ainda para si o que emprehende, querendo
+dispensar-me d'elle. Creia, senhor, que eu não discuto a legitimidade
+das suas opiniões, respeito-as; e a satisfação intima que me virá da
+consciencia de as ter respeitado, será tambem para mim uma poderosa
+compensação.
+
+--E a ella? Quem a compensará?--perguntou D. Luiz, com inflexão de dor.
+
+--A ella? É de Bertha que falla? Se eu não soubesse que aquella alma
+nobre e forte está á altura do sacrificio, talvez me fallecesse a
+coragem para tental-o.
+
+--É uma nobre alma devéras--tornou D. Luiz, como fallando para si.--E
+quem a apreciará? A que destino a condemnaremos se a expulsarmos das
+regiões para onde os seus nobres instinctos a chamam? Pobre d'ella! E
+tu, tu que a amas, tens a certeza de poderes levar ao fim o sacrificio?
+Não é certo que a tua saude já se tem resentido do esforço que fazes? Vê
+bem, Jorge! Na tua idade os affectos são mais violentos do que na minha.
+E comtudo eu proprio quero já tanto a essa rapariga, que sinto que estes
+restos de vida que ainda possuo devo-os á sua presença. O que não será
+comtigo?
+
+Jorge nunca previra a situação em que se achava. Havia imaginado a
+possibilidade de ser levado pela força da sua paixão a uma lucta aberta
+com os preconceitos paternos, e esforçara-se por evitar essa temerosa
+crise.
+
+Esta era a menos provavel hypothese que antevira. Mas que fosse o pae
+quem advogasse a causa do seu coração de rapaz contra as inflexiveis
+exigencias da orgulhosa classe a que pertencia, nunca o podéra suppôr,
+pois que não tinha seguido passo a passo as transformações que haviam
+operado no caracter varonil d'aquelle velho a acção combinada da doença
+e dos carinhos de Bertha.
+
+Por isso sentia-se agora irresoluto, sem saber se devia ceder ao coração
+e ás insinuações do pae, se resistir em nome do dever, que elle chegára
+a convencer-se oppôr-se á satisfação dos seus ardentes votos.
+
+Na hesitação do filho, D. Luiz julgou perceber que o orgulho
+aristocratico penetrára já n'aquelle coração de vinte annos, e elle que
+sabia por si as resistencias que esse orgulho gerava, assustou-se com a
+apprehensão de ficar vencido pela obstinação do filho.
+
+Assustou-se, dizemos, porque o espirito do fidalgo estava completamente
+subjugado. O egoismo da sua idade não podia já passar sem os carinhos de
+filha. Não queria revelar-se inteiro e desejava que fosse a paixão do
+filho que apparentemente explicasse a transigencia.
+
+Era ainda custoso ao seu orgulho ceder, mas já não tinha fortaleza para
+resistir. Anciava por isso que Jorge lhe fornecesse o pretexto. Vendo-o
+vacillar, tremeu já de encontrar um obstaculo insuperavel.
+
+Jorge pela sua parte era victima de um quasi estonteamento, que não lhe
+deixava ainda vêr claro. Tão costumado estava a acreditar que
+invenciveis resistencias se erguiam contra a mais ardente aspiração de
+sua alma, que ao vêl-as removidas de subito, olhava em volta de si como
+aguardando que surgissem outras em seu logar, e sem poder crêr que a
+felicidade viesse collocar-se-lhe ao alcance da mão.
+
+D. Luiz insistiu:
+
+--Não, Jorge, não aceito o teu sacrificio. Estou para despir as vaidades
+do mundo. Na outra vida, onde os primeiros são os ultimos, não me
+perseguirão estas paixões mundanas.
+
+--A ter um de nós de luctar com uma paixão, para condescender com a do
+outro, compete-me fazêl-o. Na minha idade é mais fácil tentar estas
+luctas com exito.
+
+D. Luiz a custo reprimiu a sua impaciencia.
+
+--E ella? Jorge, lembra-te de que essa menina ama-te, e talvez não tenha
+a força de alma que tu tens.
+
+--Seria para Bertha peior tormento magoal-o, meu pae. Sei-o da bôca
+d'ella. Nunca aceitaria o seu sacrificio.
+
+D. Luiz fechou por momentos os olhos, como para concentrar o espirito;
+depois disse quasi a medo:
+
+--Sacrificio! Maior sacrificio seria o meu se renunciasse a têl-a junto
+de mim e a chamar-lhe filha. Não sei mesmo se para tanto me restam ainda
+forças. Eu já não sou o homem forte que fui, Jorge. Quasi mereço
+compaixão.
+
+Jorge estremeceu ao ouvir estas palavras. Como que raiou uma subita
+claridade no seu espirito.
+
+--Que quer dizer, meu pae? Pois não é por meu respeito que insiste...
+
+--Queres obrigar-me a confessar toda a minha fraqueza, Jorge? Pois bem,
+confessarei. Fazendo a tua felicidade, farás também a minha. O logar de
+tua irmã só póde ser occupado por Bertha. Outra qualquer profanal-o-ia.
+
+Jorge d'esta vez não o deixou concluir. Cedendo á paixão que emfim se
+expandia, pegou nas mãos descarnadas do pae e levando-as calorosamente
+aos labios, exclamou:
+
+--Oh! obrigado, meu pae. É Deus que o inspira; é o espirito de minha
+irmã que o aconselha. Obrigado. Agora sim, desanuvia-se-me o horizonte e
+creio, creio deveras na felicidade. Triumpho! Obrigado, obrigado.
+
+E beijando-lhe mais uma vez a mão, correu para a porta chamando Bertha.
+
+Toda a familia e os amigos que tinham vindo para os Bacellos, ao saberem
+do estado do velho fidalgo, achavam-se na sala immediata, aguardando
+anciosos o termo da conferencia entre o pae e o filho e por ventura o
+triste desenlace que havia muito se esperava.
+
+Quando se ouviu a voz de Jorge, todos julgaram que se havia realisado
+emfim o acontecimento que se receiava, e correram para a porta.
+
+Jorge, quasi desorientado, foi ao encontro de Bertha, e conduzindo-a á
+cabeceira do leito do doente, disse suffocado de contentamento:
+
+--Bertha, o nosso sacrificio é inutil. Meu pae não o aceita, e prefere
+vêr-nos felizes. Ajoelha ao lado d'elle e beija a mão de teu pae.
+
+Bertha obedeceu banhada em lagrimas de commoção.
+
+A baroneza não reprimiu uma exclamação de alegria e de triumpho.
+
+Mauricio correu a abraçar Jorge.
+
+A Anna do Védor quasi levantou ao ar a boa Luiza, que temia acreditar no
+que julgára entender nas palavras de Jorge.
+
+Sómente Thomé da Povoa ficou immovel e calado. Ao ouvir Jorge, ao ver a
+filha ajoelhada junto do fidalgo e acariciada por elle, um clarão de
+alegria passou no rosto do honrado lavrador e brilharam-lhe nos olhos as
+lagrimas. Mas este relampago dissipou-se cedo e carregou-se-lhe o
+semblante de tristeza.
+
+Assim que Jorge, procurando-o com os olhos, se dirigiu para elle,
+estendendo-lhe os braços, Thomé afastou-o brandamente de si,
+dizendo-lhe:
+
+--Custa-me desfazer essa alegria, senhor, essa alegria que me faz quasi
+chorar, que é sincera da sua parte. Mas quanto mais cedo, melhor será.
+Isto não póde ser.
+
+Todos fitaram estupefactos o fazendeiro. Ninguem esperára que a
+resistencia se levantasse d'alli. Anna do Védor resmungou:
+
+--Temol-a travada!
+
+--Valha-nos Deus!--gemeu Luiza.
+
+Bertha fitou no pae os olhos ainda lacrimosos.
+
+A fronte de D. Luiz contrahiu-se de novo.
+
+--Que quer dizer com essas palavras, Thomé?--perguntou Jorge, emquanto
+que Mauricio e a baroneza secundaram a pergunta com um olhar
+interrogador.
+
+--Ha brios a que se não póde faltar--insistiu Thomé--ainda quando se nos
+despedace o coração e o dos filhos. Que se diria de mim? Como
+explicariam por ahi o meu proceder n'esta casa? Que pensaria alli o snr.
+D. Luiz, que já uma vez me suspeitou de forjar intrigas infames e de ter
+ambições indignas de um homem de bem? Creia no que lhe digo, snr. Jorge,
+mais vale que sacrifiquemos todos um pouco das nossas affeições para não
+termos desgostos maiores.
+
+--Que desgostos póde receiar, Thomé, quando eu lhe peço que me conceda a
+mão de Bertha?
+
+--O snr. Jorge falla cego pela affeição que sente e é ella que não o
+deixa vêr o que eu vejo.
+
+--Não seja obstinado, Thomé--disse a baroneza.--Bem vê que d'onde era
+mais de esperar a resistencia, já ella cahiu.
+
+--V. exc.ª não fallaria assim se soubesse tudo. Ha dias, snr.ª baroneza,
+n'esta mesma sala, vendo-me offendido no meu caracter, suspeitado de
+tenções que nunca tive, e desesperado por não poder justificar-me,
+porque de facto tudo se levantava contra mim, fiz um protesto que não
+posso deixar de cumprir. Se lhe faltasse, eu proprio daria razão a quem
+me chamasse, frente a frente, intriguista, falso, miseravel...
+
+D. Luiz atalhou, dizendo:
+
+--Protestou o Thomé da Povoa que se o casamento de sua filha com Jorge
+dependesse do seu consentimento, elle o recusaria, ainda mesmo quando da
+recusa se seguisse a morte para ambos; e que para o não recusar seria
+necessario que eu, o pae de Jorge, o senhor da Casa Mourisca, o unico,
+segundo o pensar do mundo, de quem deveria partir opposição a essa
+alliança, pedisse a elle, Thomé da Povoa, como favor, esse
+consentimento.
+
+Thomé fez um signal affirmativo, olhando para a baroneza, para Mauricio
+e para Jorge como perguntando-lhes se a tão solemne protesto era
+possivel faltar.
+
+--Pois bem--continuou o fidalgo, depois de uma curta pausa, e fechando
+os olhos á imitação de quem se prepara a vencer um precipicio, cuja
+vista o faz recuar.--Pois bem, sou eu quem peço a Thomé da Povoa... como
+favor... que permitta que Bertha seja a esposa de meu filho.
+
+E ao acabar de dizer estas palavras tingiram-se-lhe as faces de uma
+vermelhidão intensa.
+
+Thomé fixou os olhos no rosto do fidalgo e leu n'aquelles signaes a
+revelação do esforço gigante que elle fizera para conseguir pronunciar
+tão nobres e generosas palavras.
+
+Não estava no animo de Thomé resistir mais tempo.
+
+Correu para o leito, ajoelhou ao lado do doente, e pegando-lhe na mão,
+exclamou, cortada a voz pelos soluços:
+
+--Snr. D. Luiz, v. exc.ª venceu. Digam o que quizerem. O meu orgulho não
+dá para mais. Bertha, sê feliz...
+
+O pranto não o deixou concluir, a phrase perdeu-a soluçando sobre as
+mãos do fidalgo.
+
+Não faltaram lagrimas e sorrisos aos que presenciavam a scena.
+
+Passada esta explosão de sentimento, Jorge, tomando a mão de Bertha,
+disse para Thomé:
+
+--Aceito a felicidade que me offerece, Thomé, e prometto ser digno da
+esposa que me confia. Mas á minha propria felicidade sou obrigado a
+impôr condições, para que no futuro nenhuma nuvem a perturbe. A nossa
+casa não está ainda, como sabe, livre dos encargos que por tanto tempo
+pesaram sobre ella. As dificuldades principiam a aplanar-se e a
+administração entrou no verdadeiro caminho. E ao seu auxilio e conselho
+devo principalmente este resultado. O meu orgulho porém, visto que todos
+aqui attendem a orgulhos, o meu orgulho exige que eu só por mim realise
+esta obra que emprehendi, que á força do meu trabalho satisfaça os
+compromissos contrahidos. Quando receber Bertha, quero recebêl-a em
+minha casa, e que se não diga que foi ella quem me abriu as portas
+fechadas pela miseria. Por isso esperarei até então para realisar a
+minha felicidade.
+
+--Muito bem, Jorge!--exclamou o fidalgo, fulgurando-lhe o olhar de
+alegria.
+
+--É justo--concordou Thomé.--Comprehendo esse desejo da sua parte, e
+nada tenho a dizer contra.
+
+--Mais ainda--proseguiu Jorge--posso aceitar a esposa que me oferece, e
+orgulhar-me d'ella e da alliança com a sua familia, que é honrada e
+generosa, mas uma coisa ha que não posso aceitar sem humilhação. É a
+parte que pertencer a Bertna da herança paterna. Não quero que se diga
+que eu restaurei a minha casa á custa da sua. Até aqui ainda chegam os
+meus preconceitos aristocraticos, devo confessal-o.
+
+--Bem, Jorge, muito bem!--bradou o fidalgo--quem pensa d'essa maneira e
+assim procede, póde transmittir a sua nobreza, mas não a perde.
+
+--Eu porém é que não posso desherdar minha filha. Essa condição é
+impossível--disse Thomé friamente.
+
+--A parte a que tiver direito cedo-a em favor de meus irmãos--disse
+timidamente Bertha.
+
+--Teus irmãos não precisam da tua desistencia, Bertha.
+
+--Thomé--insistiu Jorge--sabe que o meu constante pensamento é manter ao
+nome de minha familia o prestigio e o respeito que sempre teve na
+provincia; não queira annullar os esforços que emprego para o conseguir.
+
+--E quer que eu lhe sacrifique a minha reputação? Que se dirá de mim?
+
+A baroneza, prevendo que as dificuldades cresciam, e que esta lucta de
+sentimentos generosos poderia fazer surgir novos obstaculos, entreveio
+dizendo:
+
+--As clausulas do contracto são uma circumstancia secundaria e que só na
+presença de um tabellião se regulam. Eu por mim não posso aturar taes
+discussões, sobre tudo se o noivo toma parte n'ellas. Olhem que frieza
+de namorado! Deixemos isso tudo para depois.
+
+--Diz bem v. exc.ª--apoiou a Anna do Védor--o tudo é que elles casem, e
+depois os homens que deslindem lá esse negocio do dinheiro como
+quizerem. Mas sempre lhes digo que oiçam um advogado para não fazerem
+tolices. Mas o fidalgo! O fidalgo é que sempre a deu em cheio! Sim
+senhor! Nunca o esperei! Quem d'antes lhe fosse dizer... Mas bom foi e
+verá como até nosso Senhor lhe ha de dar saude. E vossemecê, Luiza, que
+diz a isto? Ande lá, que teve um sancto a pedir por si. Eu bem lhe
+disse, mulher: cara alegre e confiança n'aquelle que está lá em cima. E
+aqui para nós, talvez que a mim deva alguma coisa. E tu, rapariga?
+Apesar de me engeitares o Clemente, olha que não te quero mal. Não
+quero, porque eu se estivesse no teu logar, faria o mesmo. E o Thomé
+ainda com o nariz torcido! Ó homem de Deus, vossê que mais quer? Sempre
+a gente! louvado seja Deus!
+
+Mauricio aproximou-se de Anna sorrindo:
+
+--Já que vae correndo a roda, venha lá a minha ração.
+
+--Que queres que eu te diga? Cuidas que por estares casado me mereces
+mais aquella? Olha agora! O que me admira é que houvesse quem te
+quizesse. Perdoe-me a senhora, mas não lhe gabo o gosto. A seu tempo
+conhecerá a joia. Lá aquillo é outro barro.
+
+E apontava para Jorge.
+
+Todos riram das francas observações da desenganada matrona.
+
+E emquanto D. Luiz conversava com Bertha, Jorge com Thomé, e Mauricio e
+a baroneza com Luiza e Anna do Védor, assomou á porta a cabeça de frei
+Januario, que ficou espantado de achar tanta gente reunida no quarto do
+fidalgo.
+
+--Ha alguma novidade?--perguntou elle inquieto.
+
+Foi a Anna do Védor quem lhe respondeu:
+
+--Ha, sim senhor. E póde já preparar-se, porque não lhe faltará que
+fazer qualquer dia. Case-me bem estes noivos, ouviu?
+
+O padre olhou espantado para os circumstantes.
+
+--Quê? Pois então?...
+
+--Estão vencidos os obstaculos--respondeu a baroneza á incompleta
+pergunta.
+
+--Ah!--observou apenas o padre.
+
+E pensava comsigo:
+
+--Digam lá que não anda n'isto a maçonaria!
+
+O resto do dia passou-se pacificamente. D. Luiz dormiu com socego e deu
+mais algumas esperanças aos que o rodeavam.
+
+Não havia alli coração que não encerrasse um fermento de felicidade.
+
+
+
+
+CONCLUSÃO
+
+
+Não se fez esperar muito o casamento ajustado á cabeceira do leito do
+fidalgo da Casa Mourisca.
+
+Depois de vencida a importante demanda, que havia tanto tempo pesava
+sobre a sua propriedade, Jorge achou-se mais desembaraçado na empreza a
+que dedicara a juventude.
+
+Alienando algumas fazendas distantes, que serviam apenas de estorvo á
+administração das outras, sem compensarem os sacrificios que exigiam,
+acabando de desonerar de oppressivas hypothecas as que ainda definhavam
+sob ellas, e entrando em uma via methodica e segura de melhoramentos,
+habilitou-se em breve tempo a contrahir um emprestimo valioso no credito
+predial, amortisavel em poucos annos; e com o capital obtido em tão
+favoraveis condições e prudentemente administrado tinha quasi certa para
+não longinquo futuro a completa realisação do seu constante e generoso
+pensamento.
+
+O ennegrecido e triste solar da Casa Mourisca remoçou no dia em que o
+moço proprietario d'elle pôde remir a sua ultima divida a particulares.
+Esta foi a de Thomé da Povoa.
+
+O povo da aldeia viu de novo abrirem-se de par em par as janellas da
+velha Casa Mourisca, limparem-se das hervas parasitas as longas avenidas
+da quinta, erguerem-se do chão as estatuas derrubadas, jorrarem como em
+outros tempos as aguas dos encanamentos desobstruidos, coroarem-se de
+ameias as torres mutiladas, dourarem-se as columnas de talha da capella
+do palacio, e ao vêr isto, o povo acreditou que iam voltar dias felizes
+para aquella familia, sobre a qual pesara o jugo do infortunio.
+
+Espalhou-se voz e fama do muito que fizera Jorge para conseguir esta
+restauração.
+
+Admirava-se e applaudia-se a energia e a sensatez do moço, que emendára
+o desvario dos seus antecessores, commentavam-se os actos da sua vida de
+rapaz, exaltavam-se as virtudes do seu caracter varonil, e a pouco e
+pouco o espirito da lenda tomou posse d'esta individualidade e deu-lhe o
+prestigioso colorido que assegura a immortalidade na tradição popular.
+
+Restaurada a Casa Mourisca e satisfeita a divida do Thomé, D. Luiz, a
+quem os assiduos cuidados de Bertha tinham feito vencer a molestia que o
+prostrára, voltou ao seu solar com solemnidade correspondente áquella
+com que o deixára. Os instinctos dramaticos do seu caracter de fidalgo
+assim o exigiam.
+
+Ao regressar á casa, que outra vez podia chamar sua, e encontrando-a sob
+o aspecto de vida e festa havia tanto tempo perdido, D. Luiz commoveu-se
+profundamente.
+
+A numerosa cohorte de criados e jornaleiros que vieram recebêl-o á porta
+e saudal-o com enthusiasmo, fez-lhe recordar tempos passados e as
+tradições feudaes de épocas volvidas, saudosas sempre para seu coração.
+
+Dias depois celebrava-se na capella da casa o casamento de Jorge e de
+Bertha, com mais alegria do que pompa, com mais galas de sentimento do
+que de festa.
+
+A baroneza e Mauricio vieram á aldeia para assistirem á solemnidade e
+demoraram-se ainda algumas semanas n'ella.
+
+A boa Luiza desfazia-se em lagrimas de jubilo. Thomé da Povoa a custo
+podia reprimir o contentamento que lhe trasbordava do coração. Os
+esforços de Gabriella haviam conseguido que o contracto do casamento se
+redigisse de modo que o pae e o noivo, fazendo cada um de seu lado meias
+concessões, não ficassem humilhados por elle.
+
+A fidalguia da provincia torceu o nariz á alliança, e absteve-se de
+tomar conhecimento do facto, que tambem lhe não foi participado.
+
+Com a tacita censura d'essa parentela augmentou a irritação e despeito
+de D. Luiz, e impellido a reagir, deu mais um passo no terreno dos
+principios democraticos.
+
+Os proprietarios, collegas de Thomé, fizeram entre si algumas reflexões
+a respeito da finura d'este, convencidos de que elle desde muito visára
+a este resultado, e prophetisando-lhe um baronato futuro. Mas nem o
+retrahimento da nobreza, nem as murmurações dos lavradores perturbaram a
+alegria das nupcias.
+
+D. Luiz recebia ainda uma impressão desagradavel ao vêr tão perto de si
+Thomé e a boa Luiza; procurava porém minorar este desgosto contemplando
+Bertha, que exercia sobre elle uma completa fascinação. Insistia sobre
+tudo o fidalgo em que Bertha era uma rapariga de excepção, e que se
+davam n'ella as qualidades que valeram em outros tempos a tantos plebeus
+a honra de serem agremiados no seio da nobreza.
+
+Frei Januario, vendo bem provida a dispensa e a cozinha da Casa
+Mourisca, julgou dever transigir com a nova ordem de coisas e
+installou-se de novo no seu quarto, decidido a respeitar, conforme com
+os modernos principios de diplomacia, os factos consummados.
+
+E annos de paz preparavam-se para aquella casa.
+
+Mauricio seguiu differente destino, em harmonia com as suas aspirações e
+instinctos.
+
+Não se sentindo com tendencias para agricultor, vendeu a Jorge a parte
+dos bens ruraes que lhe pertencia e voltou para Lisboa com a mulher.
+
+Decorrido pouco tempo encetava a sua carreira diplomatica, como addido á
+embaixada de Vienna, e sob os melhores auspicios do futuro progresso.
+
+Gabriella não teve de arrepender-se do seu casamento. Se Mauricio não
+era um modelo de maridos fieis, ella tinha a precisa philosophia para
+desculpar-lhe as leviandades, e Mauricio intelligencia para apreciar a
+generosidade e delicadeza da sua mulher, e adoral-a por isso e apesar de
+tudo.
+
+A vida agitada e as successivas commoções das capitaes a ambos
+agradaram; por isso ambos eram felizes.
+
+O contraste entre este viver e o de Jorge era completo.
+
+Jorge era o verdadeiro proprietario rural, repartindo os seus cuidados
+entre a cultura e administração dos seus bens, e os affectos e direcção
+de sua familia. Abandonára pouco e pouco os habitos de fidalguia, em que
+fôra educado, e contrahiu outros puramente burguezes.
+
+A sua iniciativa, esclarecida pela intelligencia e mantida por uma forte
+energia de caracter, apontava um exemplo salutar aos proprietarios
+visinhos, que já se animavam a seguil-o. Graças a este exemplo,
+terminavam muitos prejuizos, esqueciam praticas rotineiras, que ainda
+hoje tolhem o progresso á nossa agricultura, aventuravam-se innovações
+já abonadas pela experiencia de paizes mais cultos, e a que se oppõem
+entre nós a ignorancia e a timidez que nasce d'ella.
+
+A vida inteira de Jorge era uma eloquente e severa lição para os
+proprietarios ruraes, que, vivendo longe dos seus bens, consomem nos
+desperdicios da côrte as magras rendas que elles, longe da solicitude do
+dono, lhes concedem; deixam assim a pouco e pouco extenuar a terra e
+definhar-se a propriedade nas mãos de caseiros ávidos, que não tendo o
+futuro ligado a ella, a sacrificam ao bem do presente, que é o unico com
+que podem contar.
+
+Assim aprendessem n'essa lição tantos que deveriam seguil-a, e talvez
+que a riqueza do paiz se desentranhasse do sólo, onde ainda está
+enclausurada, surgindo á luz para nos apresentar aos olhos de outras
+nações dignas da nossa época e do tracto de terra que occupamos na
+Europa.
+
+Pela sua parte, Jorge realisando na propriedade a encorporação do
+capital, do trabalho e da intelligencia, e mostrando até que ponto essa
+alliança é fecunda, podia bem dizer que havia cumprido a lenda da Casa
+Mourisca. Fôra elle quem desenterrára do solo o thesouro escondido.
+
+Thomé era o primeiro a seguir Jorge nos seus melhoramentos e reformas.
+
+Nada mais temos a dizer.
+
+Fechamos aqui o quadro, acrescentando apenas que a energia da Anna do
+Védor ainda não vergou ao pêso dos annos; que o filho d'esta mulher, o
+bondoso Clemente, casou com uma válida e laboriosa rapariga do campo,
+que promette continuar o exemplo da sogra. Emquanto aos senhores do
+Cruzeiro, continuam a ser cada vez mais viciosos, e a achar-se mais
+embaraçados em dividas e mais desprezados do povo.
+
+Os fidalgos da Casa Mourisca são, pelo contrario, hoje respeitados,
+graças á energia e á honestidade do caracter de Jorge.
+
+O nome d'esta familia é dos que fica honrado na tradição pupular.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Os fidalgos da Casa Mourisca, by Júlio Dinis
+
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+*** END: FULL LICENSE ***
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