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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/16428-8.txt b/16428-8.txt new file mode 100644 index 0000000..9957b82 --- /dev/null +++ b/16428-8.txt @@ -0,0 +1,20020 @@ +The Project Gutenberg EBook of Os fidalgos da Casa Mourisca, by Júlio Dinis + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os fidalgos da Casa Mourisca + Chronica da aldeia + +Author: Júlio Dinis + +Release Date: August 4, 2005 [EBook #16428] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA *** + + + + +Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), +Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + + + + + + +OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA + + + + +OS FIDALGOS + +DA + +CASA MOURISCA + +CHRONICA DA ALDEIA + +POR + + +*JULIO DINIZ* + + +*VOLUME I* + + +*PORTO* + +TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO +Rua Ferreira Borges, 31 + +1871 + + + + +OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA + + + + +I + + +A tradição popular em Portugal, nos assumptos de historia patria, não se +remonta além do periodo da dominação arabe nas Hespanhas. + +Pouco ou nada sabe o povo de celtiberos, de romanos e de wisigodos. É, +porém, entre elle noção corrente que, em outros tempos, fôra este paiz +habitado por mouros, e que só á força de cutiladas e de botes de lança +os expulsaram os christãos para as terras da Mourama. Os vultos heroicos +de reis e cavalleiros nossos, que se assignalaram nas luctas d'essa +época, ainda não desappareceram das chronicas oraes, onde vivem +illuminados por a mesma poetica luz das xacaras e dos romances +nacionaes; e hoje ainda, nas dansas e jogos que se celebram nos logares +publicos das villas e aldeias, por occasião das principaes solemnidades +do anno, apraz-se a memoria do povo de recordar os feitos d'aquelles +tempos historicos por meio de simulados combates de mouros e christãos. + +Nos contos narrados em volta da lareira, onde nas longas noites de serão +se reune a familia rustica, ou ás rapidas horas d'uma noite de estio, na +soleira da porta, ao auditorio attento que segue com os olhos a lua em +silenciosa carreira por um céo sem estrellas, avulta uma creação +extremamente sympathica, a das mouras encantadas, princezas +formosissimas que ficaram d'esses remotos tempos na peninsula, em paços +invisiveis, á espera de quem lhes venha quebrar o captiveiro, soltando a +palavra magica. + +Falla-se em diversos pontos das nossas provincias, com a seriedade que é +propria a uma arreigada crença, de thesouros enterrados, que os mouros +por ahi deixaram, na esperança de voltarem um dia a resgatal-os, e já +não tem sido poucas as escavações emprehendidas no ávido intuito de os +descobrir. + +Esta mesma noção historica do povo é a que dá logar a um outro frequente +facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palacio, um +solar de familia, distincto dos edificios communs por uma qualquer +particularidade architectonica mais saliente, ouvireis no sitio +designal-o por o nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda ahi memoria +da sua fundação, a chronica lhe assignará infallivelmente como data a +lendaria e mysteriosa época dos mouros. + +Era o que succedia com o solar dos senhores Negrões de Villar de Corvos, +que, em tres leguas em redondo, eram por isso conhecidos pelo nome dos +Fidalgos da Casa Mourisca. + +Não se persuada o leitor de que possuia aquelle solar feição +pronunciadamente arabe, que justificasse a denominação popular, ou que +mãos agarenas houvessem de feito cimentado os alicerces da casa nobre +denominada assim. Ás pequenas torres quadradas, que se erguiam, coroadas +de ameias, nos quatro angulos do edificio, ao desenho ogival das portas +e janellas, ás estreitas setteiras abertas nos muros, e finalmente a +certo ar de castello feudal, que um dos antepassados d'esta fidalga +familia tentou dar aos paços de sua residencia senhoril, devêra ella a +qualificação de mourisca, que persistira, apesar dos protestos da arte. +Nenhum estylo architectonico fôra na construcção escrupulosamente +respeitado; o gosto e capricho do proprietario presidiram mais que tudo +á traça e execução da obra; não ha pois exigencias artisticas que me +imponham a obrigação de descrevel-a miudamente. + +Diga-se porém a verdade; fossem quaes fossem os defeitos de +architectura, as incongruencias e absurdos d'aquella fabrica grandiosa, +quem, ao dobrar a ultima curva da estrada irregular por onde se vinha á +aldeia, via surgir de repente do seio de um arvoredo secular aquelle +vulto escuro e sombrio, contrastando com os brancos e risonhos casaes +disseminados por entre a verdura das collinas proximas, mal podia reter +uma exclamação de surpreza e involuntariamente parava a contemplal-o. + +Ou o sol no poente lhe doirasse a fachada de granito, ou as ameias, que +o coroavam, se desenhassem como negra dentadura no céo azul, alumiado +pela claridade matinal, era sempre melancolico e triste o aspecto +d'aquella residencia, sempre magestoso e severo. + +Reparando mais attentamente, outros motivos concorriam ainda para +fortalecer esta primeira impressão. O tempo não se limitára a colorir o +velho solar com as tintas negras da sua palheta; derrocára-lhe aqui e +além uma ameia ou um balaustre do eirado, mutilára-lhe a cruz da +capella, desconjunctára-lhe a cantaria em extensos lanços de muro, +abrindo-lhe intersticios, d'onde irrompia uma inutil vegetação parasita: +e esta permanencia de estragos, trahindo a incuria ou a insufficiencia +de meios do proprietario actual, iniciava no espirito do observador uma +serie de melancolicas reflexões. + +E se o movesse a curiosidade a indagar na visinhança informações sobre a +familia que alli habitava, obtel-as-ia proprias a corroborar-lhe os seus +primeiros e espontaneos juizos. + +Os chamados Fidalgos da Casa Mourisca eram actualmente tres. D. Luiz, o +pae, velho sexagenario, grave, severo, e taciturno; Jorge e Mauricio, os +seus dois filhos, robustos e esbeltos rapazes: o mais velho dos quaes, +Jorge, ainda não completára vinte e tres annos. + +A historia d'aquella casa era a historia sabida dos ricos fidalgos da +provincia, que, orgulhosos e imprevidentes, deixaram, a pouco e pouco, +embaraçar as propriedades com hypothecas e contractos ruinosos, +desfallecer a cultura nos campos, empobrecer os celleiros, despovoar os +curraes, exhaurir a seiva da terra, transformar longas varzeas em +charnecas, e desmoronarem-se as paredes das residencias e das granjas e +os muros de circunscripção das quintas. + +Filho segundo de uma das mais nobres familias da provincia, D. Luiz fôra +pelos paes destinado para a carreira diplomatica, na qual entrou +apadrinhado e favorecido por os mais altos personagens da côrte. + +Nas primeiras capitaes da Europa, em cujas embaixadas serviu, obteve o +fidalgo provinciano um grau de illustração e de tracto do mundo, um +verniz social, que nunca adquiriria se, como tantos, de moço se creasse +para morgado. + +Quando, por morte do primogenito, veio a succeder nos vinculos, D. Luiz +podia considerar-se, graças á occupação dos seus primeiros annos de +mocidade, como o mais instruido e civilisado proprietario da sua +provincia; e como tal effectivamente foi sempre havido pelos outros, que +o tractavam com uma deferencia excepcional. + +Ainda depois da morte do irmão, D. Luiz, costumado ao viver da grande +sociedade e á esplendida elegancia das côrtes estrangeiras, não +abandonou a carreira que encetára. Secretario de embaixada em Vienna, +casou alli com a filha de um fidalgo portuguez, que então residia n'essa +corte, encarregado de negocios politicos. + +Ao manifestarem-se em Portugal os primeiros symptomas da profunda +revolução, que devia alterar a face social do paiz, D. Luiz mostrou-se +logo hostil ao movimento nascente, e abandonando então o seu logar +diplomatico, voltou ao reino para representar um papel importante nas +scenas politicas d'essa época. + +Ahi tiveram origem grande parte dos desgostos domesticos, que lhe +amarguraram o resto da vida. + +Os parentes de sua esposa abraçaram a causa liberal. + +D. Luiz, com toda a intolerancia partidaria, rompeu completamente as +relações com elles, ferindo assim no intimo os affectos mais sanctos da +pobre senhora, que sentia esmagar-se-lhe o coração entre as fortes e +irreconciliaveis paixões dos que ella com igual affecto amava. + +O rancor faccioso foi ainda mais longe em D. Luiz. Impelliu-o á +perseguição. + +O irmão mais novo da esposa, obedecendo ao enthusiasmo de rapaz e á +vehemencia de uma convicção sincera, sustentára com a penna, e mais +tarde com a espada, a causa da ideia nova, que tanto namorava os animos +generosos e juvenis. + +Sobre a bella e arrojada cabeça d'aquelle adolescente pesaram as sombras +das suspeitas e das vinganças politicas; e D. Luiz, cego pela paixão, +não duvidou em fazer-se instrumento d'ellas. + +Este era o irmão querido da esposa, que o fidalgo estremecia; mas nem as +supplicas, nem as lagrimas d'ella puderam abrandar a força d'aquelle +rancor. + +O imprudente moço viu-se perseguido, prêso, processado e em quasi +imminente risco de expiar, como tantos, no supplicio o crime de pensar +livremente. Conseguindo, quasi por milagre, escapar á furia dos seus +perseguidores, emigrou para voltar mais tarde n'essa memoranda +expedição, que principiou em Portugal a heroica iliada da nossa +emancipação politica. + +Guerreiro tão fogoso, como o fôra publicista, o pobre rapaz não assistiu +porém á victoria da sua causa. Ao raiar da aurora liberal, por que tanto +anhelava, cahiu em uma das ultimas e mais disputadas refregas d'aquella +sanguinolenta lucta, crivado de balas inimigas, sendo a sua ultima voz +um grito de enthusiasmo pela grande ideia, em cujo martyrologio se ia +inscrever o seu nome. + +A morte d'este enthusiasta levou o lucto e a tristeza ao solar de D. +Luiz. O coração amoravel e extremoso da infeliz senhora recebeu então um +golpe decisivo; das consequencias d'aquella dôr nunca mais podia ella +convalescer. A sua vida foi depois toda para luto e para lagrimas. + +Fez-se a paz, implantou-se no paiz a arvore da liberdade; D. Luiz deixou +então a vida da côrte e veio encerrar no canto da provincia os seus +despeitos, os seus odios e os seus desalentos. Trouxe comsigo um enxame +de misanthropos, a quem o sol da liberdade igualmente incommodava, e que +tinham resolvido pedir á natureza conforto contra os suppostos delictos +da humanidade. + +O solar do fidalgo transformou-se pois em asylo de muitos +correligionarios, como elle desgostosos e irreconciliaveis com a nova +organisação social. + +Instituiu-se alli uma pequena côrte na aldeia, uma especie de assembleia +ou conventiculo politico, que não poucas vezes attrahiu as vistas dos +liberaes desconfiados e as ameaças dos mais insoffridos. Havia alli +homens de todas as condições, e alguns de illustração e sciencia. + +A hospitalidade do fidalgo era magnifica. D. Luiz mostrava ignorar, ou +não querer saber, qual o preço por que ella lhe ficava. Indifferente a +tudo, dir-se-ia sêl-o tambem á ruina da sua propria casa, que apressava +assim. + +A victoria da causa contraria; a morte, em curtos intervallos, de tres +filhos, que parecia cahirem victimas de uma sentença fatal; o receio +pela vida dos outros; a tristeza e doença progressivas da esposa, a quem +aquelles odios e luctas tinham despedaçado o coração; ás vezes uma vaga +consciencia da sua situação precaria, e por ventura ainda remorsos pelas +violencias, a que os odios politicos o impelliram, quebrantaram o +caracter, outr'ora varonil, d'aquelle homem, que desde então começou a +mostrar-se taciturno e descoroçoado. A prova evidente de que alguns +remorsos tambem lhe torturavam o espirito fôra a insolita generosidade, +com que recebeu e gasalhou permanentemente em sua casa um pobre soldado +do exercito liberal, meio mutilado pela guerra d'esses tempos, e que +tinha sido o fiel camarada do infeliz mancebo, contra quem tanto se +encarniçára o odio do implacavel realista. + +Viera o soldado entregar á esposa do fidalgo uma medalha, ultima +lembrança do irmão que lh'a enviára, quando já agonisante no campo do +combate. Havia-a confiado ao camarada para que a entregasse áquella, a +quem tanto queria. + +D. Luiz não só permittiu que o soldado fizesse a entrega em mão propria +da esposa, mas deixou-o com ella em larga conferencia, não querendo que +a sua presença a reprimisse na ancia natural de saber as menores +particularidades da vida e da morte do infeliz, de quem o emissario fôra +companheiro inseparavel. Não se limitou a isso a tolerancia do fidalgo. +Viu, sem a menor reflexão, que o mensageiro se demorava alguns dias na +Casa Mourisca, e não oppôz resistencia alguma ao pedido, que a esposa +mais tarde lhe fez para que o deixasse ficar alli, no logar do hortelão +que fallecêra. + +Este facto insignificante foi de não pequena influencia nos destinos +d'aquella familia. + +Os filhos de D. Luiz, creados no meio d'essa côrte de provincia, +cresciam sob influencias que actuavam d'uma maneira contradictoria sobre +os seus caracteres infantis. + +Não lhes faltavam mestres que os instruissem, que muitos eram os +habilitados para isso nas salas do fidalgo, refugio de tantos illustres +descontentes. Graças a estas especiaes condições, puderam os dois +rapazes receber uma educação, difficil de conseguir em um canto tão +retirado da provincia, como aquelle era. + +Mas, ao lado da lição dos mestres, que, juntamente com a sciencia, se +esforçavam por imbuir-lhes os seus principios politicos, aos quaes se +atinham como a artigos de fé, havia uma outra lição mais obscura, mas +por ventura mais efficaz. Era a lição da mãe e a do veterano. + +A esposa de D. Luiz era uma senhora de esmeradissima educação e de um +profundo bom senso. Amava o marido, mas via com pezar os excessos, a que +o impelliam as suas opiniões politicas. Educada no seio de uma familia +liberal, possuia sentimentos favoraveis ás ideias novas; mas sabia +guardal-os no coração, para não despertar conflictos na familia. + +Porém, no tracto intimo entre mãe e filhos, trahia-se muita vez essa +prudente discrição, e as fidalgas crianças iam recebendo a doutrina, de +que os outros lhes blasphemavam como de heresias, e naturalmente, +seduzidas pela origem d'onde ella lhes vinha, abriam-lhe de melhor +vontade o coração, do que aos preceitos austeros e um pouco pedantescos +dos mestres. + +Demais, ouviam tantas vezes a mãe fallar-lhes do irmão que perdêra, dos +seus sentimentos generosos, do seu nobre caracter e da sua dedicação +heroica a bem da causa liberal, que elles, e o mais velho sobre tudo, +costumaram-se a venerar a memoria do tio, como a de um heroe e a de um +martyr e a vêl-o aureolado de um verdadeiro prestigio lendario. + +Para isto porém concorreu mais que outrem o hortelão. + +O velho soldado era uma chronica viva das batalhas e façanhas d'aquelles +tempos historicos e um panegyrista ardente do seu pobre official, cujo +ultimo suspiro recolhêra. + +As crianças sentiam-se instinctivamente attrahidas para a companhia do +velho, em cujas narrações pintorescas e vivamente coloridas achavam um +encanto irresistivel. Feria-lhes fundo a curiosidade a maneira por que +elle fallava dos trabalhos da emigração, dos episodios do cerco do +Porto, da fome, da peste e da guerra, triplice calamidade que conhecêra +de perto, das batalhas em que havia entrado, da bravura do seu amo, e +finalmente do Imperador, por quem o mutilado veterano professava um +enthusiasmo quasi supersticioso, e a cujo vulto a sua narrativa +imaginosa dava um aspecto epico e sobrenatural. + +As crianças não se fartavam de interrogar aquella testemunha presencial +de tantos feitos heroicos. + +E assim eram neutralisadas as doutrinas dos pedagogos eruditos, +encarregados da educação dos filhos de D. Luiz, e estes iam crescendo +affeiçoados aos principios liberaes, que amavam de instincto, antes de +os amarem de reflexão. + +Mas dias de maior provação estavam reservados para esta familia. + +A munificencia que o senhor da Casa Mourisca mantivera no voluntario +desterro, a que se condemnou, obrigára-o a enormes e perigosos +sacrificios. + +D. Luiz nunca propriamente se occupára da gerencia dos seus bens. Fiel +aos habitos aristocraticos dos seus maiores, deixára desde muito a +procuradores todos os cuidados de administração, e de quando em quando +recebia d'elles a noticia de que a sua casa se estava perdendo, sem que +se lembrasse de perguntar a si proprio se não seria possivel oppôr um +obstaculo áquella ruina. + +O padre Januario, ou frei Januario dos Anjos, velho egresso, homem de +letras gordas, que se estabelecêra commodamente n'aquella acastellada +residencia, como em casa sua, era um d'esses procuradores. + +Faça-se justiça ao padre, que não era de má fé, nem em proveito proprio, +que elle apressava, com mão poderosa, a decadencia de D. Luiz. Mas, +homem de curtas faculdades e de nenhum expediente financeiro, se obtinha +capitaes para o seu constituinte, nas crises mais apertadas, era sempre +sob condições de tal natureza, que deixava de cada vez mais onerada a +propriedade e mais irremediavel o triste futuro d'ella. Succedeu pois o +que era de esperar. Dispersou-se a côrte de D. Luiz. Por muito que +fizessem os administradores da casa para a manter no costumado +esplendor, cêdo principiaram a transparecer os signaes da declinação. +Foi o aviso para a debandada. Uns porque delicadamente comprehenderam +que a sua permanencia concorreria para augmentar as difficuldades, com +que o fidalgo já luctava; outros, porque aspiravam melhores auras, longe +d'alli, em solares menos estremecidos pelo vaivem da adversidade; é +certo que todos se foram retirando, a um por um, e deixaram a familia +só. + +Augmentou com este isolamento a taciturnidade do fidalgo. + +Depois veio a doença e a morte da esposa, d'aquella que lhe tinha sido +tão fiel amiga, que, para lhe poupar desgostos, até escondia as +lagrimas, que elle lhe fazia verter; veio essa nova dôr atribular-lhe +ainda mais a existencia. E ainda não haviam acabado as provações! No +fundo do calice estavam ainda depositadas as gotas mais amargas. + +D. Luiz tinha por esses tempos uma filha, mimoso legado da esposa, cuja +missão consoladora continuava no mundo. Queria-lhe muito o pae! Se não +havia de querer! O coração árido d'aquelle velho e o tenro coração +d'aquella criança procuravam-se, como para um pelo outro se completarem. + +O velho fidalgo, concentrado e quasi rispido para com os outros filhos, +se alguma vez teve nos labios sorrisos desanuviados e sinceros, foi na +presença da sua Beatriz. Aquelle desgraçado coração, vazio de affectos, +queimado de odios e de paixões esterilisadoras, sentia um grato +refrigerio em deixar-se penetrar do suave influxo das caricias da +criança, que beijava as faces rugosas do pae e lhe brincava com os +cabellos prateados; e muitas vezes, n'esses momentos, lagrimas de +desafogo dissipavam a cerração que ia na alma d'aquelle homem, que com +tanta força sabia odiar. + +E não era só o pae que experimentava essa influencia. + +Jorge, que de pequeno fôra pensativo e serio, sentia-se tomar por a +bondade e ternura de Beatriz. Criança ainda, tinha ella, quando a sós +com o irmão, um olhar penetrante e um gesto grave como o d'elle, um +espirito para communicar á vontade com o seu. Ella parecia comprehender +o alcance do auxilio que poderia receber um dia d'aquelle rapaz sisudo, +que a fitava, e elle sentia-se engrandecer aos proprios olhos, +lembrando-se de que seria sua missão na vida proteger aquelle anjo. + +Mauricio, genio mais impetuoso e impaciente, dobrava tambem a vontade a +um aceno da fragil e delicada creatura, em quem um estouvamento seu +desafiava lagrimas. E estas lagrimas eram a unica repressão que o +continham nos desvarios. + +Pois até n'esta filha feriu o Senhor o pobre ancião. + +Criança mimosa, colheu-a um sopro da morte, ainda com o sorriso nos +labios, e prostrou-a exanime no tumulo. + +Fez-se então devéras escuro no espirito do pae. + +Quando aquella pequena fada domestica desappareceu, como uma visão +vaporosa em contos de magia, foi como que se todos ficassem em trevas. A +vida era tão outra! O ente que absorvia os instantes d'aquelles tres +homens, a quem todos tres tributavam os seus mais puros affectos e os +seus pensamentos mais constantes, desapparecêra, e elles olhavam-se +assustados, meio loucos, como se de subito se lhes tivesse apagado a luz +que os alumiava; sentiam a indecisão do homem, a quem no meio da estrada +fulmina inesperada cegueira. + +Passada a violencia da primeira dôr, em todos ficou a saudade, negra e +concentrada em D. Luiz, melancolica em Jorge, expansiva e vehemente em +Mauricio; e para todos o nome de Beatriz, a recordação dos seus gestos, +das suas palavras, era um talisman, cuja efficacia nunca se desmentia. A +alma d'aquelle anjo assistia ainda á familia, que o chorava, e á sua +mysteriosa direcção obedeciam todos, sem o perceberem. + +Morta aos dezeseis annos, Beatriz vivia ainda nos logares que habitava. + +Ha entes assim, cuja influencia posthuma lhes dá uma quasi +immortalidade, á maneira da luz sideral, que continua a scintillar para +nós, depois de aniquilado o fóco que a emittia. + +O padre Januario tornou-se desde então a creatura indispensavel, e a +companhia exclusiva de D. Luiz, que via n'elle o unico representante da +sua antiga côrte. + +Acerrimo partidario do regimen absoluto, apesar de lhe não ser possivel +enfeixar dois argumentos serios em defeza d'elle, o padre Januario +passava a vida aproveitando os mais ridiculos ensejos para premissas dos +seus corollarios anti-liberaes, artificio com que lisongeava as paixões +do seu illustre amo e patrono, e mantinha n'elle o fogo sagrado. + +O padre achava-se bem n'aquella vida monotona, que exercia sobre si os +mais notaveis effeitos analepticos. Podia dizer-se que elle dividia alli +o tempo entre duas occupações exclusivas: comer e esperar com +impaciencia as horas da comida. + +Uma unica circumstancia assombrava os dias do padre. Era a presença na +Casa Mourisca do hortelão, em quem fallamos, e que mantinha com elle uma +aberta hostilidade. Frei Januario exasperava-se sempre que o ouvia +fallar no Imperador e no Cerco e nos Voluntarios da Rainha e na Carta, +com o enthusiasmo e a emphase de um soldado d'aquelles tempos. Por vezes +rompiam ambos em scenas violentas; por vezes o capellão ia aconselhar ao +fidalgo a demissão d'aquelle homem, que ameaçava infectar de liberalismo +a familia inteira. + +D. Luiz porém, apesar de nunca fallar com o hortelão, não attendia +n'estas reclamações o padre. Conservando no seu serviço o veterano, +satisfazia a um pedido da esposa, e não teria coragem para fazer o +contrario. Assim perpetuavam-se os conflictos entre os dois, porque nem +o procurador supportava as rudes franquezas do soldado, nem este os +remoques encapotados do procurador. + +Tal era a situação da familia da Casa Mourisca na época em que vae +procural-a a nossa narração. + +Já se vê quão mal assegurado andava o futuro dos dois jovens filhos de +D. Luiz. A educação que elles haviam recebido não tendêra a fim algum +prático. + +D. Luiz não podia soffrer a ideia de dar a seus filhos uma profissão. A +nobre carreira das armas, que mais lhes conviria, estava-lhes fechada +pelas ultimas evoluções politicas. Os descendentes dos ultra-monarchicos +Negrões de Villar de Corvos não eram para se assalariarem em defeza dos +principios e das instituições que abalaram os velhos thronos, firmados +no direito divino. Nobre era tambem a carreira ecclesiastica, que muitos +dos seus antepassados haviam trilhado, apoiados no baculo episcopal; mas +se D. Luiz estava persuadido de que já não havia religião n'este +territorio de antigos crentes? e se frei Januario teimava, ensinado pelo +mallogro de longas pretenções ás honras de umas meias vermelhas, que só +se adiantava nas phalanges do clero quem fosse pedreiro livre! + +Assim pois os jovens descendentes do velho realista passavam o tempo +cavalgando e caçando nas immediações, e fruindo em sancto ocio uma vida, +cujos espinhos todos procuravam occultar-lhes. Caminhavam por estrada de +rosas para um fundo precipicio, d'onde lhes desviavam as vistas. + +Deve porém dizer-se que não caminhavam ambos igualmente desprevenidos; +porque de criança era diverso o caracter dos dois, e de dia para dia +mais a differença se pronunciava. + +Jorge, na infancia como na juventude, fôra sempre grave e reflectido. +Nos brinquedos tomava para si o desempenho de um papel serio. Era o pae, +o mestre, o commandante, o medico, o padre, tudo aquillo que o obrigasse +a um porte sisudo e a uma gravidade de homem. Adolescente, nunca as +raparigas do logar lhe ouviram uma phrase atrevida; era sempre uma +saudação affectuosa, casta e quasi paternal a que lhes dirigia, ainda +quando as encontrasse a sós nas veredas mais solitarias das devezas ou +pinheiraes. Ellas habituaram-se áquella juvenil seriedade, saudavam-n'o +como a um velho, fallavam d'elle com acatamento, certas de encontrarem +n'aquelle silencioso rapaz um protector na occasião precisa, mas nunca +um namorado. E comtudo a figura esbelta de Jorge, a varonil e +intelligente expressão d'aquelle rosto bem desenhado e um certo fulgor +no olhar, que denunciava energia de caracter, obrigavam a desviar-se +para o vêr mais de um olhar feminino, quando elle passava com um livro +debaixo do braço ou a cavallo pelos caminhos do campo. + +As pessoas da indole de Jorge impoem uma especie de estranho temor ás +mulheres, que se afastam d'ellas como de um ser mysterioso, d'onde lhes +podem vir perigos desconhecidos. + +Mauricio, pelo contrario, mal podia dizer de que idade encetára o seu +primeiro amor. Com os brinquedos pueris misturára já uns arremedos de +galanteio e mais o competente cortejo de arrufos e de ciumes. Desde +então nunca lhe andou o coração devoluto, ainda que tambem nunca tão +tomado e absorvido por amores, que o fizesse passar por qualquer belleza +feminina, sem uma lisonja e sem um sorriso. + +Era popularissimo entre as raparigas da aldeia; todas o conheciam, e +elle a todas designava por os nomes. A todas não, que para as feias +tinha uma memoria ingrata. + +Além d'isso Jorge gastava muito do seu tempo na leitura. Era bem provida +a livraria da casa. A educação esmerada da mãe e bom gosto litterario +tinham enriquecido a bibliotheca dos melhores modelos da litteratura +nacional e da estrangeira. Ahi encontraram os dois rapazes farto +alimento para a sua curiosidade. Jorge lia tambem furtivamente os poucos +livros, espolio do tio fallecido, os quaes o hortelão guardára como +reliquia, furtando-os ao auto de fé a que os condemnaria inevitavelmente +a indignação do fidalgo e do padre. N'esses livros aprendeu Jorge a +pensar, a comprehender o alcance de certas ideias e de certas +instituições, e a fazer a justiça devida a muitos preconceitos, que lhe +haviam imposto como dogmas. + +A um espirito d'estes, educado em observar e reflectir, não podiam +passar por muito tempo desapercebidos os numerosos symptomas da +decadencia que apresentava a Casa Mourisca. Assim, por vezes vinha-lhe +ao espirito uma secreta apprehensão pelo seu precario futuro. + +Mauricio, imaginação mais forte, natureza mais ardente, caracter mais +frivolo e voluvel, vivia a sua vida de joven fidalgo de provincia; +deixava-se ir na corrente dos seus amores faceis, dos seus prazeres e +das suas dissipações, allucinado por os sonhos e chimeras de uma fertil +fantasia, e não profundava os olhos até o seio obscuro das realidades. A +sua leitura era exclusiva de romancistas e poetas. Imaginação nimiamente +inquieta, razão por indolencia inactiva, não via, nem quereria vêr, o +espectro, que ás vezes apparecia aos olhos do irmão. + +Uma circumstancia havia, a que mais que a outras devia Jorge a apparição +d'esse espectro, que, á semelhança da sombra do rei da Dinamarca, em +Hamlet, ia exercendo uma funda influencia no animo do adolescente. + +Esta circumstancia não era só para elle manifesta. Ao viajante, que já +suppozemos parado a contemplar o vulto denegrido da Casa Mourisca, não +passaria ella tambem desapercebida. + +Na raiz da collina fronteira áquella, onde o solar dos fidalgos erguia +as suas torres ameiadas, assentava o mais risonho e prospero casal dos +arredores. Era uma completa casa rustica, conhecida por aquelles sitios +pelo nome, que por excellencia se lhe dera, da Herdade. + +O contraste entre a Herdade e o velho solar era perfeito. + +Ella graciosa e alvejante, elle severo e sombrio; de um lado todos os +signaes de actualidade, de vida, de trabalho, da industria que tudo +aproveita, que não dorme, que não descança; a economia, a previdencia, o +futuro: do outro, o passado, a tradição esteril, o silencio, a incuria, +o desperdicio, a ruina: a cada pedra que o tempo derrubava do palacio, +correspondia uma que se assentava na Herdade para alicerces de novas +construcções; aqui desmoronava-se um pavilhão, alli levantava-se um +celleiro, uma azenha, um lagar; aos velhos carvalhos, ás heras +vigorosas, aos avelludados musgos, aos lichens multicores, severas +galas, com que se adornava a casa nobre, oppunha a Herdade os pomares +productivos, as ondulantes searas, os prados verdes, as vinhas ferteis e +proximo de casa, os canteiros de rosas e balsaminas, onde volteavam +incessantes as abelhas das colmeias proximas. Nas amplas cavallariças do +palacio, onde outr'ora relinchavam duzias de cavallos das mais apuradas +raças, ainda batiam com impaciencia no lagedo dois velhos exemplares de +bom sangue, cujo sacrificio a economia não exigira ainda; nas mais +modestas cavallariças do casal, duas eguas robustas, promptas para o +serviço, e domaveis por uma criança, preparavam-se em fartas mangedouras +para frequentes e longas excursões; e ao entardecer abriam-se os curraes +a numerosas cabeças de gado, cujos mugidos chegavam até o alto da Casa +Mourisca, onde o velho fidalgo muita vez os escutava, pensativo e +melancolico. + +Este contraste, que apontamos, era a circumstancia que evocava no +espirito de Jorge o espectro que o entristecia. + +O dono da Herdade fôra pobre, servira como criado na casa dos fidalgos, +passára depois a rendeiro de um pequeno casal, mais tarde arrendára uma +fazenda maior; chegando emfim a ser proprietario, tornára-se em pouco +tempo possuidor de extensos bens, e era já o chefe d'uma familia +numerosa e talvez o primeiro agricultor d'aquelle circulo. + +Porque prosperava a Herdade, e porque declinava o palacio? Se de tão +pouco se chegára a tanto, como se podia cahir de tanto em tão pouco? + +Taes eram, em summa, as vagas reflexões que se assenhoreavam do espirito +de Jorge, quando das janellas do seu quarto, em uma das torres do +palacio, ou do alto de alguma eminencia, observava a animação, a vida da +propriedade do seu antigo criado, e voltava depois os olhos para o vulto +silencioso e como adormecido do velho paço dos seus maiores. + + + + +II + + +Por uma manhã de setembro, limpida e serena, como ás vezes são na nossa +terra as manhãs do outomno, Jorge sahiu a pé, a passear pelos campos. +Errou ao acaso por bouças e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo +cedida ao transito pela sôfrega cultura nas terras marginaes do pequeno +rio da aldeia. Depois, subindo a uma eminencia, parou a contemplar do +alto o aspecto do feracissimo valle, que suavemente se lhe abatia aos +pés, e no fundo do qual se erguia, d'entre veigas e pomares, a Herdade, +de que já fallamos. + +Jorge sentou-se sobre uma d'essas enormes moles de granito, que se +encontram com frequencia em certos logares da provincia, soltas pelos +montes, como se fossem roladas para alli em remotas eras por mãos de +fundibularios gigantes, empenhados em encarniçada lucta. Os olhos +dirigiram-se-lhe instinctivamente para a Herdade, onde se fixaram, como +se com força irresistivel os attrahisse o espectaculo que via. + +Era a época de mais intensa vida nas granjas. Os cereaes, cobrindo as +eiras, lourejavam aos raios desanuviados do sol; carros, a vergarem sob +o fardo das colheitas, transpunham lentos as portas patentes do +quinteiro, chiando estridorosamente; apinhavam-se além em montes as +cannas e o folhelho de milho, restos de recentes descamisadas; longas +series de mêdas elevavam-se mais longe, á maneira de tendas em um +arraial de campanha; juntas de bois, já livres do jugo, repousavam das +fadigas d'aquelles dias de azafama, ruminando em socego; os moços da +lavoura iam e vinham, atarefados em diversos misteres; e de tudo isto +erguia-se um clamor de trabalho, que o socego dos campos e a serenidade +do dia deixavam chegar distincto até o alto da collina. + +O dono da Herdade, o antigo criado da Casa Mourisca, presidia áquellas +tarefas, e em volta d'elle moviam-se, saltavam e riam duas ou tres +robustas crianças, com quem brincava um formidavel rafeiro. + +E era esta a scena que Jorge contemplava, e que em tão profundas +meditações parecia absorvêl-o. De repente distrahiu-o o som dos passos +de alguem que se aproximava d'aquelle mesmo logar, em que tão +desapercebidamente lhe ia correndo a manhã. + +Voltando-se, viu seu irmão Mauricio, que em traje rigoroso e competentes +petrechos de caça, e com a esmerada elegancia e apuro, que lhe eram +habituaes, subia a collina, precedido de dois ou tres cães de boa raça, +que de longe descobriram Jorge e correram para elle, afagando-o, com +latidos e cabriolas. + +Mauricio, assim avisado e conduzido pelos cães, veio ter com o irmão, +exclamando jovialmente á distancia de alguns passos: + +--Em flagrante delicto de meditação poetica, o snr. Jorge! Bravo! Já não +desespero de te vêr um dia fazer versos. + +Jorge respondeu, encolhendo os hombros: + +--Quem se senta no alto de um monte, depois de subir toda a encosta +d'elle sem parar, póde fazêl-o simplesmente com o prosaico intento de +tomar fôlego. Se isto fosse symptoma de poesia, então... + +--Pois sim, mas já isso de subir o monte com as mãos vazias, como estás, +sem uma espingarda que revele um razoavel fim no passeio, é um symptoma +importante. Quem é que se dá ao incommodo de uma ascensão d'essas, +quando o gozo da perspectiva que espera encontrar lhe não compensa as +fadigas? E quem tem d'essas compensações senão os poetas, que são os +unicos que sabem _ce qu'on entend sur la montagne_? + + Avez vous quelque fois, calme et silencieux, + Monté sur la montagne en presence des cieux? + +E, a recitar os primeiros versos da poesia alludida, sentava-se ao lado +do irmão, pousava a espingarda, e descobrindo a cabeça, sacudia aos +ventos os formosos e bastos cabellos castanhos, objecto de muitos +cuidados seus. + +Os cães andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras do +monte. + +Interrompendo de subito a recitação, Mauricio proseguiu: + +--Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias! +Que escrupulos póde haver em declarar isto tudo admiravel? Repara como é +bem talhado aquelle córte além, no monte; parece feito de proposito para +deixar vêr no plano posterior aquella povoação distante, que não sei que +nome tem. E alli o campanario, com a sua alameda? Quem teria a feliz +inspiração de o assentar tão bem? Onde é que elle ficaria melhor? Parece +que andou um gosto de artista a dirigir estas coisas. + +E acrescentou, suspirando: + +--Ai, na aldeia o scenario bem está, pouco tem que se lhe diga; mas os +actores e a comedia que aqui se representa é que são de uma insipidez! + +Os instinctos urbanos de Mauricio, cuja indole mal se accommodava á +simplicidade campesina, e o fazia suspirar pela vida das capitaes, +arrancavam-lhe frequentemente d'estas exclamações. + +Jorge, que escutára o irmão sob uma meia distracção e sem desviar os +olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo: + +--Ha quasi uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que não tinha +notado uma só d'essas particularidades da paisagem que descreves. + +--Gostas mais da contemplação em globo. Até isso é de poeta. Analysar +minuciosamente as impressões recebidas não é o seu forte. + +--Enganas-te ainda; não era tambem o conjuncto da paisagem que eu +observava; mas um ponto limitado d'ella, muito limitado. + +--Qual era então? + +--Olha alli para baixo; a Herdade de Thomé, aquella azafama, aquella +gente toda a trabalhar, a vida que alli vae! + +--Ora adeus!--exclamou Mauricio--é justamente o que me não roubaria um +momento de attenção. Não te estou a dizer que para mim o que ha de +insupportavel no campo é a gente que o habita, a vida que n'elle se +passa? Faz pena vêr que especie de contempladores tem a natureza para +estas maravilhas. A indifferença com que estes selvagens encaram tudo +isto! Repara, vê aquelle labrego passar lá em baixo na ponte; olha lá se +elle desvia a cabeça para algum dos lados, ou se pára um momento para +gozar do bello espectaculo que d'alli observa. Olha para aquillo! +Selvagem! Pergunta ao Thomé ou a toda essa gente que lá anda em baixo a +trabalhar quantas vezes admiraram as bellezas de uma noite de luar, +vista do alto do oiteiro pequeno, ou se o pôr do sol lhes produz alguma +sensação na alma, a não ser a lembrança de que vão sendo horas da ceia. + +Jorge sorria ao ouvir o irmão, e tornou placidamente: + +--Que homem este! A poesia precisa de ter quem a entenda e quem a faça; +e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a +entendem. Esta pobre gente do campo é uma parte integrante d'elle; não o +contemplam, completam-n'o. Que querias tu? Gostavas talvez mais de que +em vez d'essa gente indifferente, que trabalha, estivessem por ahi os +montes, os valles e as ribeiras povoados de poetas contempladores como +tu? Deves confessar que seria um campo bem ridiculo esse. Se eu até, +para que te diga a verdade, estou persuadido de que não encontraria +encantos nos logares muito visitados, que ha por as quatro partes do +mundo, onde, a cada momento, apreciadores inglezes, francezes, russos e +allemães passeiam, soltando exclamações polyglotas, e onde o nosso +enthusiasmo nos é prescripto a paginas tantas do GUIA DO VIAJANTE. O que +torna os lavradores poeticos é a inconsciencia com que elles o são. + +--Vistos de longe. Pelo menos concorda n'isto; vistos de longe, e de +muito longe. + +--Vistos de longe, sim, que duvida? como tudo o mais. Ao perto tambem +muitos d'esses prados são pantanos mal cheirosos, que infectam, e +mexe-se uma miryada de insectos repugnantes n'essa verdura que tanto +admiras. Dize-me uma coisa, Mauricio, parece-te que o nosso velho solar +prejudica a belleza d'esta paisagem? + +--Se prejudica? Ora essa! Adorna-a. Olha que bem que elle sahe d'aquelle +fundo que lhe fazem os castanheiros! + +--Muito bem, e comtudo, visto de perto, ha lá tristes e prosaicas +realidades--observou Jorge, suspirando. + +Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir-lhe estas palavras, o irmão o +fitou, Jorge correspondeu, dizendo: + +--Sim, Mauricio, triste e prosaica realidade para quem o olhar de perto. +Ha nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas, que +nós lá temos, do que aquelles pomares mal tractados, e aquelles +celleiros em ruinas? Quererás encontrar poesia na nossa pobreza, +Mauricio? + +--Pobreza?! + +--Pobreza, sim; pois que nome lhe queres dar? Olha, compara o aspecto +d'essa casa branca de um andar, que ahi fica em baixo, com o do nosso +paço acastellado, a actividade d'aquelles homens com a somnolencia +chronica do nosso capellão; compara ainda, Mauricio, compara a +desafogada alegria de Thomé com a tristeza sem conforto do nosso pae. + +Mauricio curvou a cabeça, e uma como sombra de tristeza parou-lhe algum +tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir-se-ia que pela primeira +vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, até +então fascinados pelo fulgor de lisongeiras illusões. + +Mas, depois de breves instantes de silencio, respondeu ao irmão: + +--Pois bem, será como dizes. Creio até que seja essa a verdade. A +riqueza está alli, a pobreza do nosso lado; porém a poesia... oh! essa +deixa-nol-a ficar, que bem sabes que não é ella a habitual companheira +da opulencia. + +--Da opulencia ociosa, egoista e inutil, de certo que não; mas da +opulencia activa, benefica, que semeia, que transmitte a vida em volta +de si, da opulencia que fomenta o trabalho, que cultiva os terrenos +maninhos, que fertilisa a terra esteril, que sustenta, que educa e +civilisa o povo, oh! d'essa é a poesia companheira tambem. Se o castello +arruinado tem poesia bastante para fazer correr lagrimas de saudade; a +granja, activa e prospera, tem-n'a de sobra para as provocar de +enthusiasmo e de fé no futuro. + +Mauricio ficou outra vez silencioso; depois, como se pretendesse sacudir +de si as ideias negras evocadas pelas palavras do irmão, exclamou +erguendo-se e com affectado estouvamento: + +--Estás enganado, Jorge, o que reina alli em baixo não é a poesia, é... +é... é a economia. A poesia não assiste ao edificio que se levanta, mas +ao que se arruina; gosta mais dos musgos, do que da cal; do lado do +passado é que a encontras, melancolica, que é o ar que lhe convém. E +ella tem razão; o futuro tem muita vida para precisar do prestigio +poetico. A poesia dos utilitarios! Com o que tu me vens! Não sei quem +foi que ha tempos me disse ter lido uma noticia curiosa a respeito da +Inglaterra. Parece que o espirito industrial e economico d'aquella gente +vae por lá destruindo as florestas, as matas, as sebes vivas, o que +emmudecerá dentro em pouco os córos das aves; os rebanhos, que d'antes +pastavam pelas campinas verdes, hoje já prosaicamente se vão engordando +nos estabulos! Que mais falta? A voz dos camponezes, as cantigas e as +musicas ruraes hão de calar-se ao ruido do ranger das machinas e do +silvo do vapor. Admiravel! Em vez do fumo alvo e tenue das choças ficará +o céo coberto de fumo negro e espesso do carvão de pedra. Que modelo de +aldeia o que nos vem da Inglaterra! Na verdade! que poesia! + +--No que tu me vens fallar! Na Inglaterra agricola!--acudiu Jorge--Mas +antes lá é que bem se comprehende a poesia da vida rural, que até a +nobreza a não despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores das terras e +os rendeiros fraternisam e auxiliam-se mutuamente, e que os trabalhos do +anno succedem-se entre festas e solemnidades populares, lucrando todos, +trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar +que ha mais poesia nos dominios senhoris dos lords de Inglaterra, que +dirigem por si mesmos as suas vastas emprezas agricolas, do que nos +pardieiros em ruinas dos nossos morgados, em cujas velhas salas dormem +os proprietarios o somno da ignorancia, da inutilidade e da devassidão. + +--Não o nego, mas... na nossa casa, naquella triste Casa Mourisca, ha um +quê de poesia, de poesia elegiaca, se assim quizeres. Essa de que fallas +será a poesia das georgicas; mas a da elegia deixa-m'a ficar. + +--O peior, Mauricio, é que um dia virá talvez em que o tremendo +prosaismo da completa miseria dissipará esse tenue perfume que dizes. + +--Safa! Estás hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa lá; +lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades ha um thesouro +escondido desde o tempo dos mouros, e que um dia alguem de nossa familia +o achará, ficando fabulosamente rico. Que essa esperança dissipe o humor +negro que tens. Vamos, vem d'ahi. Pega n'esta espingarda e vae caçar. É +bom para dissipar visões. + +--Não estou hoje para caçar. + +--Então vaes reatar aqui o fio das tuas cogitações? + +--Não, vou reatal-o acolá. + +--Vaes á Herdade?! + +--Vou. + +--Fazer o quê? + +--Vêr de mais perto aquella poesia, ou aquella prosa, como quizeres. + +--Sabes que o pae não gosta que lidemos muito de perto com o Thomé? + +--Sei. É um preconceito. Elle não o saberá. + +--Um preconceito! Bom! Estás hoje muito philosopho. Adeus, Jorge; espero +vêr-te ao jantar de melhor aspecto. + +--Adeus, Mauricio. + +E os dois irmãos separaram-se. Mauricio, precedido pelos cães, seguiu em +direcção dos montes, cantando. Jorge desceu a collina e caminhou para a +Herdade. + + + + +III + + +Thomé da Povoa era o typo mais completo de fazendeiro, que póde +desejar-se. + +«Alma sã em corpo são»: esta phrase do poeta é a que descreve melhor o +homem; no physico, a força e a saude em pessoa; no moral, a honradez e a +alegria. + +Emquanto houvesse alguem que trabalhasse em casa, não descançava elle. +Delicias do somno de madrugada, attractivos das sestas, a tudo resistia +com nunca desmentida coragem. Na abastança conservava os costumes +laboriosos de tempos mais arduos. Tudo lhe corria pelas mãos, a tudo +superintendia. Antes de almoçar já elle havia passado revista á Herdade +toda. No decurso do dia montava a cavallo e lá ia inspeccionar uma ou +outra propriedade mais distante, que não deixava entregue á discrição +dos caseiros. Uma ou duas vezes no mez estendia as suas excursões até o +Porto, chamado por negocios relativos á lavoura. + +Franco, lizo de contas, pontual nos pagamentos, cavalheiro nos +contractos, não se lhe limitava o credito á circumscripção da sua +aldeia, estendia-se até á cidade, onde o seu nome era melhor garantia em +certas transacções, do que o de muitos faustosos negociantes. Em +familia, perfeitamente patriarchal, estremecia a mulher e os filhos; e a +lembrança de que para elles trabalhava, illudia-lhe as fadigas e os +desalentos. + +Quando Jorge se dirigiu á Herdade, presidia ainda Thomé aos diversos +trabalhos, em que a sua gente andava occupada n'aquella manhã. + +Não havia alli braços quietos, nem movimentos inuteis. N'aquellas casas +o trabalho não distingue sexo nem idade. Todos desde a infancia se +familiarisam com elle. Dá-se o mesmo que se dá com o tracto dos bois; +sómente na cidade é que estes possantes e bondosos animaes mettem medo +ás mulheres e ás crianças; na aldeia umas e outras os afagam e dirigem. + +Assim pois trabalhava-se, fallava-se, ria-se e cantava-se com alma nas +eiras e quinteiros da Herdade. + +E Thomé, centro d'aquelle movimento, lançando os olhos a tudo, dirigindo +a todos a palavra e a todos prestando o auxilio do seu braço robusto; e +da porta da casa, assistindo tambem áquella scena rural, a boa e sancta +mulher do fazendeiro, a socia fiel nos seus prazeres e penas, +sustentando ao collo o ultimo dos seus filhos, emquanto que os mais +crescidos jogavam as escondidas por entre aquella gente azafamada. + +--Olha lá esse carro que não está bem seguro, ó Manoel. Vê lá se me +arranjas ainda hoje por aqui alguma desgraça... Ó meu maluco, não +reparas que me vaes semeando as espigas pelo chão? Salta, apanha-me tudo +isso, que eu não quero nada desperdiçado... Está quieto, João, vae para +casa, agora não se brinca no quinteiro. Sahe-me de ao pé dos bois, +menino! Ai que tu... Ó Luiza, olha se mandas dar uma pinga áquelles +homens.... Que quer você, tio? Cubra-se, ponha o seu chapéo. Ai, vem por +causa de muro que cahiu? Olhe, tenha paciencia, volte cá ámanhã. Hoje +não posso olhar por isso... Ó Chico Engeitado, que diabo estás tu +fazendo, pateta? Deixa-me estar essas pipas. Vae-me recolher aquelle +milho que eu te disse; corre... O moleiro já veio? Pois as azenhas já +moem, e o homem não tem desculpas que dê pela demora... Ó Manoel, arreda +esse carro mais para o meio, senão não póde entrar o outro, homem de +Deus! Disseram ao Luiz que visse como estava o milho da baixa do rio? +Que m'o não vá cortar antes do tempo. Eu sempre quero lá ir primeiro; +elle não apodrece na terra. Ó mulher, chama para lá esses pequenos, que +podem aleijar-se por aqui. Vae, Joãosinho, vae para casa e leva o mano. +Olha, queres uma espiga assada? Ó Chico, escolhe ahi duas espigas para +os pequenos. Que demonio anda aquelle cão a fazer atraz das gallinhas? +Aqui já, atrevido! Vá, vá, rapazes! Vocês n'esse andar não acabam hoje. +Dá cá um ensinho, que eu vou arredando este folhelho. + +No meio d'este fogo cerrado de ordens, de conselhos e de observações foi +Thomé da Povoa interrompido pela voz da mulher, que exclamou: + +--Ai, ó Thomé, olha quem alli está! + +O fazendeiro voltou-se e deu com os olhos em Jorge, que do portão do +quinteiro viera, cumprindo o que tinha dito ao irmão, contemplar o mesmo +espectaculo, que tanto o havia attrahido ao observal-o da collina. + +Era raro que os filhos de D. Luiz visitassem a Herdade. O velho fidalgo +ainda se não costumára á prosperidade do homem que fôra seu criado. A +granja era como que uma censura pungente á sua imprevidencia; era uma +lição muda que elle recebia a todos os momentos, que o humilhava no seu +orgulho e pungia-lhe o coração de remorsos. + +Thomé não se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava por a +familia da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luiz, certa deferencia +e respeito, que se ressentiam ainda da passada posição do fazendeiro em +casa do fidalgo. + +Este porém procurára o primeiro pretexto para interromper as relações +com Thomé. Uma questão de aguas, occasionada por a abertura de uma mina +em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luiz, sempre +indifferente a litigios d'essa ordem, mostrou-se então muito cioso de +seus hypotheticos direitos, e, não obstante a nenhuma animosidade que +houve da parte do lavrador, desde essa época nunca mais conviveu com +elle. + +Jorge e Mauricio, que costumavam frequentar a casa do homem que os +trouxera ao collo e que lhes queria devéras, receberam ordem para não +voltarem lá. + +Thomé da Povoa sentiu-se com este proceder, que não tinha merecido; mas +possuia bastante finura para perceber a verdadeira causa da irritação do +fidalgo; por isso limitou-se a encolher os hombros, dizendo para a +mulher: + +--Então que queres tu que eu lhe faça? assim nasceu, e assim ha de +morrer. + +Eis a razão porque a presença de Jorge o surprendeu; mas, sem dar +signaes de estranheza, caminhou para elle com as mãos estendidas e o +rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade. + +--Entre, snr. Jorge, entre. Isto por aqui está tudo uma desordem, mas +emfim é casa de lavrador, e em setembro não ha maneira de a ter asseada. +Ó Luiza, manda para aqui uma cadeira... ou deixa estar, é melhor entrar +lá para dentro. + +--Não, Thomé, eu prefiro ficar aqui. E não se incommode. Olhe, já estou +sentado. + +--Ora! n'um carro! Isso é que não. Nada, não tem geito. Luiza, manda +então a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa, snr. Jorge? + +--Agradecido, Thomé; não tenho sêde. Appeteceu-me vir vêr de perto esta +lida, que por aqui vae, e que estive observando, perto de uma hora, alli +de cima: por isso desci. + +--Ora essa! Pois bem vindo seja, que sempre me dá alegria ver aquelles +meninos, que conheci tão pequerruchos como estes. + +E apontava para as crianças que, agarradas ás pernas do pae, olhavam com +grandes olhos para Jorge. + +--São todos seus?--perguntou Jorge, afagando-as e sentando uma nos +joelhos. + +--E aquelle que a mãe traz ao collo e a pequena que está na cidade. + +--Ai, sim, a Bertha. Deve estar uma senhora? + +--Está crescidita, está. Mas vamos, tome alguma coisa. Olhe que o meu +vinho é puro e não faz mal de qualidade alguma. Aquillo é sumo de uva e +nada mais. + +--Obrigado, obrigado; mas não bebo agora. Peço-lhe que continue com o +seu trabalho, sem se importar commigo. Para isso é que vim. + +--Ai, isto está a acabar. Vae no meio dia--acrescentou olhando para o +sol--d'aqui a nada vae esta gente jantar e... Para onde levas tu esse +carro, ó desalmado? Perdoe-me, snr. Jorge, mas estes diabos... Eu +attendo-o já. + +E, sem poder conter-se, collocou-se elle proprio á frente dos bois, e +encaminhou o carro na direcção conveniente. + +--Vocês juraram dar-me cabo dos limoeiros. Olhe que tenho tido limões +este anno, que é uma coisa por maior, snr. Jorge--disse elle, +regressando ao seu posto com um enorme limão, que mostrava com orgulho. + +Luiza voltou com uma cadeira para offerecer a Jorge. + +--Como está crescido e fero--dizia ella, olhando-o com curiosidade e +complacencia--e o mano como vae? Vi-o ha dias passar a cavallo alli na +ponte do Giestal. Pareceu-me bom. + +--E como está seu pae, snr. Jorge?--perguntou Thomé gravemente. + +Jorge ia respondendo a estas perguntas e seguindo o movimento dos +criados da lavoura, a quem de quando em quando Thomé dava ordens e fazia +recommendações, que entremeiava na conversa, sem perder o fio d'esta. + +Luiza, com o filho ao collo, não abandonou tambem a scena, senão quando +o sino da igreja parochial bateu as tres badaladas que recordam aos +fieis a oração do meio dia. O trabalho na eira e no quinteiro +suspendeu-se como por encanto. Os homens descobriram-se a fazer uma +curta reza, no fim da qual a mulher de Thomé, depois de dar aos +presentes as boas tardes, disse, seguindo o caminho de casa: + +--Venham jantar. + +Todos obedeceram immediatamente á agradavel ordem, e em pouco tempo +ficou só e silenciosa a scena, havia pouco tão ruidosa e animada. + +--São horas do seu jantar, Thomé--disse Jorge, levantando-se para sahir. + +--Depois d'esta gente acabar, é que eu principio. A Luiza não póde +attender a todos a um tempo. Deixe-se o menino estar. Eu não lhe +offereço do meu jantar, porque não é feito para si; mas se quizer dar +uma volta por os campos emquanto elles jantam... + +--Se lhe não causar incommodo... + +--Nenhum; até preciso de ir vêr o que elles hoje trabalharam no poço que +mandei abrir lá em baixo. + +E empurrando a porta, que dava para as outras partes do casal, Thomé +obrigou Jorge a passar adiante e seguiu-o logo depois. + +E de caminho ia-lhe commentando tudo que viam; narrou como alporcára uns +pecegueiros, o resultado que tirára do enxoframento das vinhas, a +quantidade de fructa que o laranjal lhe produzira, quanto despendêra na +construcção do lagar, as difficuldades que encontrou na abertura da +nora, o que fizera pouco productiva aquelle anno a cultura do trigo, os +cuidados que lhe mereceram os meloaes, e mil outras coisas relativas ao +amanho das suas terras, das quaes nem um só palmo se poderia encontrar, +onde as plantas nocivas usurpassem o logar das proveitosas. + +Jorge escutou-o com uma attenção e interesse, que estavam causando +grande estranheza a Thomé, pouco acostumado a vêr as pessoas da +categoria de Jorge, e da idade d'elle ainda menos, interrogarem-n'o com +tanta curiosidade e ouvirem-n'o com tanta sisudez sobre objectos de +lavoura. + +E as perguntas do joven fidalgo não eram vagas e ociosas, como essas que +por condescendencia se fazem, para lisongear a vaidade natural de um +proprietario. Havia n'ellas uma precisão, uma minuciosidade; +acompanhavam-n'as reflexões tão acertadas, duvidas tão racionaes, que +Thomé não podia illudir-se, e via bem que o descendente dos nobres +Negrões de Villar de Corvos o interrogava com desejo de saber. + +Esta convicção enthusiasmava Thomé, que proseguia com ardor as suas +informações. + +Jorge quiz saber aproximadamente o custeio necessario para manter uma +propriedade como aquella no ponto de cultura em que estava, e o capital +exigido para a elevar a esse grau de florescencia. + +Thomé era forte na especialidade dos orçamentos; por isso deu com a +melhor vontade a Jorge as informações que este lhe pedia. + +A final Jorge, depois de um mais longo intervallo de silencio, que +terminou com um suspiro, disse, como a medo, e desviando a cabeça, a +fingir-se entretido no exame da roda hydraulica de uma nora: + +--E porque será que só os campos que nos pertencem estão cheios de +ortigas e saramagos, Thomé? + +Thomé da Povoa voltou-se de repente para Jorge, e fitou n'elle um olhar +penetrante. Porque o fazendeiro tinha ás vezes um certo olhar, que ia +até o fundo do pensamento de uma pessoa. + +--Quer que lhe diga porque é, snr. Jorge?--perguntou elle logo depois, +com um tom de voz serio e quasi triste. + +--Quero, sim. + +--É porque o dono d'elles é o snr. D. Luiz Negrão de Villar de Corvos, o +fidalgo da Casa Mourisca, como por aqui lhe chamamos todos. + +Jorge olhou interrogadoramente para Thomé, que continuou: + +--É pela mesma razão porque chove nas salas do morgado do Penedo e +porque seus primos do Cruzeiro perderam o anno passado todo o Casal de +Mattoso. Se eu tivesse agora vagar para contar-lhe a minha vida, desde +que sahi aos vinte e dois annos de sua casa, snr. Jorge, até hoje, o +menino não me perguntava depois porque os seus campos estão cheios de +serralha e de saramagos. Trabalhei muito, snr. Jorge, não é só com agua +que se regam estas terras para as ter no ponto em que as vê; é com o +suor do rosto de um homem. É preciso que o dono vigie por ellas, sem +confiar em ninguem, como um pae vigia pela educação dos filhos. Ora ahi +está. As bençãos de um padre capellão não dão adubo ás +terras--acrescentou Thomé com um sorriso epigrammatico a commentar a +allusão, que não escapára a Jorge. + +--Mas como se explica isto, Thomé?--continuou Jorge com a docilidade de +um discipulo--os meus avós nunca se occuparam muito com a lavoura; +passaram a vida quasi toda na côrte e nas embaixadas, e raras vezes +visitaram as suas terras, onde só vinham para caçar, e comtudo a nossa +casa era então uma das mais ricas da provincia, e hoje... + +--Isso lá... Olhe, snr. Jorge, se elles se não occuparam dos seus bens e +não sentiram o mal, é porque tinham ainda muito que perder. Quem hoje o +está pagando é seu pae e amanhã serão os meninos. Isto é como uma pessoa +robusta que leva vida extravagante. Emquanto é nova e tem muitas forças, +não dá por as que perde e julga que nada lhe faz mal, mas chega lá a um +certo ponto e de repente acha-se fraca e então é que considera o damno +que fez a si mesma e aos filhos que gerou. Entende o que eu digo? + +--Entendo, Thomé, entendo, e creio que é essa a verdade. Além de +que--proseguiu Jorge pensativo--n'aquelles tempos, as classes +privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incuria e de +dissipação, porque os privilegios velavam por ellas e remediavam-lhes os +desvarios; adormeceram n'essa confiança e não sentiram que tinham mudado +as condições sociaes, e agora ao acordarem... + +Jorge, que dissera estas palavras mais para si do que para o seu +interlocutor, interrompeu-as subitamente, e apontando para a Casa +Mourisca, que d'alli se avistava, exclamou quasi com desespero: + +--E não será ainda possivel sustentar aquella casa na sua quéda? + +Thomé da Povoa sorriu com uma expressão de intelligencia. + +--Entregue-a ás mãos de um lavrador, de um homem de trabalho, que possa +dispôr d'alguns capitaes para os primeiros tempos, e verá. + +--Principiaria por deitar abaixo aquellas paredes velhas e aquellas +arvores--observou Jorge, olhando com tristeza para o seu meio arruinado +solar e para os bosques seculares que o rodeavam. + +--Talvez deitasse--disse Thomé--póde bem ser que o fizesse, porque lá +amor a essas coisas não teem elles, não. Mas não seria necessario. Eu, +que tambem lhes tenho affeição, áquelle arvoredo e áquellas paredes +negras, porque alli passei um tempo... mau era elle de certo... mas +emfim... sempre tinha vinte annos..., eu, que me não atreveria a +deitar-lhe o machado... ainda me aventurava a pôr aquillo no pé em que +esteve. + +Jorge não pôde tirar ás suas palavras um ligeiro tom de amargura e quasi +de ironia, quando, depois d'esta resposta de Thomé, exclamou voltando-se +para a Casa Mourisca: + +--Espera pois, casa de meus paes, que a nossa miseria nos expulse dos +teus tectos e te abra as portas á familia de um lavrador abastado, para +vêres reparados os teus muros, e cultivados esses campos maninhos; assim +Deus dê a esse homem um pouco de amor ás coisas velhas, para te não +destruir na reforma. + +Thomé, que percebeu a occulta expressão d'estas palavras, replicou com +dignidade: + +--Porque não ha de antes dizer, snr. Jorge: Espera, casa de meus paes, +que Deus inspire um dos teus donos, para que olhe por seus proprios +olhos para os teus achaques e os cure por suas mãos? + +--Os remedios são caros na botica, Thomé. Os pobres vêem ás vezes morrer +um doente, porque não podem comprar a droga que o salvaria. + +--Senhor Jorge--acudiu Thomé com um ar quasi solemne--resolva-se devéras +a ser homem, deixe-se de viver como vivem e teem vivido os seus, queira +do coração fazer-se economico, trabalhador e vigilante, livre-se da +praga dos seus mordomos e procuradores, deixe o padre dizer missas, mal +ou bem, conforme puder, porque isso é lá com Deus e elle, faça tudo isto +e os capitaes não lhe faltarão. O homem que principiou a ganhal-os +n'aquella casa será um dos que não porá duvida em empregal-os, até onde +chegarem, para a sustentar e não deixar cahir; e onde não chegarem os +capitaes, chegará o credito. + +--É uma esmola que me offerece, Thomé?--perguntou Jorge, mas sem o menor +signal de irritação. + +--Não, snr. Jorge, não é. Nem o menino m'a aceitava, nem eu poderia +fazêl-a, sem prejudicar meus filhos. Não é uma esmola, é um emprestimo, +menos perigoso do que os arranjados pelo padre capellão. Não é vergonha +um emprestimo, quando se faz em condições de poder por elle alliviar-se +um homem de dividas mais pesadas e de credores mal intencionados, e +resgatar e melhorar a propriedade. Ha muito que a sua casa vive d'isso, +mas a taes portas tem ido bater e tão mau uso tem feito do pouco e caro +que obtinha que, em vez de se salvar, cada vez se perdia mais. Não fica +mal um emprestimo, snr. Jorge, quando se procura satisfazer com lealdade +os compromissos que se ajustaram. Então não vê que até os governos pedem +emprestado? + +--Mas quando, como no meu caso, não ha garantias a offerecer, o +emprestimo é bem parecido com a esmola, deve confessar. + +--Não ha garantias? Quem foi que lhe disse isso? E a sua probidade?... +Sabe que mais? Eu sempre lhe vou contar a minha historia e verá depois +se tenho razão no que digo. + +E Thomé da Povoa, conduzindo Jorge para a sombra da ramada que toldava a +nora, na roda da qual se sentaram ambos, principiou: + +--Quando sahi da casa de seu pae, por esta vontade, ás vezes bem doida, +que a gente tem de trabalhar por sua conta, empreguei algum dinheirito, +que juntára, em arrendar um casebre e uma horta, da qual, lidando do +romper do dia até á noite, tirava quando muito o preciso para não morrer +de fome. O menino sabe aquella nesga de campo, que eu tenho ao pé dos +açudes e o palheirito que fica ao lado? + +--Bem sei. + +--Pois foi essa a minha primeira casa. A Luiza, com quem por esse tempo +casei, trabalhava tanto como eu, e assim iamos vivendo, sabe Deus como, +mas pagando pontualmente o nosso aluguel e sem ficar a dever nada na +tenda. O meu senhorio era um homem muito rico e muito de bem. Deus lhe +falle n'alma! O menino ha de ter ouvido fallar d'elle: era o doutor +Menezes, pessoa de muito saber e que tinha sido da relação do Porto. + +--Ainda tenho uma ideia de o vêr. + +--Não havia melhor senhorio; nada exigente com os caseiros e até sempre +prompto a ajudal-os. Um anno veio uma sequeira, que matou toda a +novidade. Foi uma coisa de fazer dó. Nem gota de agua, as fontes sêcas, +as levadas enxutas, os moinhos parados, e os lavradores a agarrarem as +mãos na cabeça e a pedir a Deus misericordia! A coisa foi de maneira +que, chegado o tempo de pagar a renda, poucos tinham com que a pagar. + +--Succedeu-lhe o mesmo a si? Está visto. + +--A mim?! eu nada colhi n'esse anno; mas de maneira nenhuma queria +faltar ao ajustado com o senhorio. Fui-me ao escaninho da caixa, tirei +para fóra uns cruzados novos que, a muito custo, puzera de lado para o +caso de uma doença; mas não era coisa que chegasse. Como ha de ser, como +não ha de ser, eis que a minha Luiza, que sempre foi boa companheira, me +diz: «Não te afflijas, homem; ahi vão as minhas arrecadas, pega», e +atirou-m'as para cima dos cruzados. Lá me custava o servir-me das +arrecadas da rapariga, que era a unica riqueza que ella tinha; mas não +houve outro remedio. Pul-as em penhor, e com o dinheiro que me deram +completei o aluguer, e no dia marcado apresentei-me em casa do doutor +Menezes. + +--E elle? + +--Parece-me que ainda o estou a vêr no seu quarto de estudo, com as +pernas embrulhadas em uma manta e olhando-me por cima dos oculos: «Então +o que o traz por cá, Thomé?» «Eu, snr. doutor, venho para o que v. s.ª +sabe.» «Ah! sim, estamos no S. Miguel. O anno pelos modos foi mau.» «Ora +se foi! mas emfim vamo-nos conformando com a vontade do Senhor. Outro +virá melhor.» E fui-me chegando para a banca e tirei do bolso o +dinheiro, que me puz a contar e a encastellar. O homem estava calado a +vêr aquillo. Quando cheguei ao fim olhou para mim d'uma certa maneira e +disse-me: «Então está ahi tudo?» Está, sim senhor, v. s.ª não viu? «E +você quer-me dar tanta coisa?» D'esta vez fui eu que me puz a olhar para +elle admirado. «Então não é este o preço ajustado no arrendamento?» «É +celebre, disse o snr. doutor abanando a cabeça, é o primeiro rendeiro +que me paga tão prompto este anno e sem pedir que lhe perdoe alguma +coisa, vista a escassez da estação. Onde foi você buscar esse dinheiro, +ó Thomé? Você é o mais pobre dos meus caseiros e eu lá vi o estado do +seu campo.» Eu não tive remedio senão contar-lhe tudo. Elle nem me +deixou acabar. «Leve isso d'aqui, homem, e desempenhe as arrecadas da +sua mulher. Eu não sou nenhum vampiro para sugar o sangue do meu +proximo.» + +--Bella alma!--exclamou Jorge commovido pela narração. + +Thomé continuou: + +--«Em todo o caso--disse-me d'ahi a pouco o snr. doutor--você fez hoje +um grande negocio sem o saber. Você é trabalhador, que isso tenho eu +visto por a maneira porque me traz bem aproveitado o campito que lhe +aluguei. Mas, para tirar partido dos seus bons desejos, faltava-lhe o +capital e hoje arranjou-o. + +--Que queria elle dizer n'isso? + +--Foi o que eu lhe perguntei. «Arranjou-o sim, senhor, respondeu elle, +porque arranjou credito, que vale por um capital enorme. O que você fez, +mostra-me o de que é capaz. Appareça ámanhã por aqui, porque temos que +tractar.» + +--E que lhe queria elle?--perguntou Jorge, cada vez mais attento. + +--No dia seguinte fui procural-o, sem imaginar o que fosse que elle +tinha para dizer-me. Mal me viu, exclamou logo: «Ora venha cá, Thomé, +sente-se aqui, porque temos um contracto a fazer.» E, obrigando-me a +sentar ao lado d'elle, continuou: «Vocemecê vae assignar-me um escripto +de arrendamento da minha propriedade das Barrocas.» Ora faça ideia o +menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta das +Barrocas? aquillo é um condado, se póde dizer. Como havia eu de +arrendal-a, Sancto Deus! Elle, conhecendo o meu espanto, acudiu logo: +«Não lhe pareça isso uma coisa por ahi além. Nós ajustamos a renda e +você vae tomar conta d'aquillo. A quinta está bem educada e nutrida, e +estou certo de que não o deixará ficar mal no fim do anno.» «Mas, +disse-lhe eu, v. s.ª bem vê que uma peça d'aquellas precisa de braços +para ser bem trabalhada, de braços e de certas despezas.» Mas, homem, +torna-me elle, quem lhe diz menos d'isso? Olhe lá que eu a deixe ao +desamparo, para você m'a entregar no estado em que por ahi em geral os +caseiros as entregam aos senhorios. Mas é bem feito, que elles tambem +fazem uns arrendamentos taes, que os caseiros morreriam esfomeados, se +não esfomeassem a terra. + +--Mas esse homem era um grande philosopho!--observou Jorge. + +--«Vá você para lá--continuou elle--tracte-me bem d'aquillo, e os +capitaes precisos para instrumentos, gado, adubos, jornaleiros e algumas +obras, eu lh'os adiantarei. Você é trabalhador, a terra é boa, ia +apostar que ambos havemos de lucrar. + +--E o Thomé foi? + +--Fui, e foi o principio da minha felicidade. A terra era abençoada! e +depois, alli nada faltava para a fazer produzir. Creia o snr. Jorge que +o dinheiro tambem nasce como a semente. O dinheiro, enterrado assim na +terra, produz dinheiro, senhor. Eu lá o vi, que quanto mais se gastava +com a terra, mais ella produzia. Foi lá que eu aprendi a ser lavrador. +Muito devi aos conselhos d'aquelle homem. «Anda para diante Thomé, +dizia-me elle. Se queres que o cavallo te não deite a terra e te leve a +longa jornada, dá-lhe bem de comer; a ração de aveia que lhe furtares da +mangedoura é a que mais cara te sahe.» Mais tarde, quando eu, com a +ajuda de Deus, já ia, além de pagar as minhas dividas a pouco e pouco, +juntando algum peculio no canto da caixa, foi elle que me disse: «Não +abafes o dinheiro, Thomé. Põe-n'o ao ar para elle se não estragar; tudo +quer ar n'este mundo.» E ahi me animei eu, ao principio com mêdo, que +fui perdendo depois, a dar emprego ás minhas economias; e era um gosto +vêr como ellas augmentavam. Passados annos eram taes, que já eu pensava +em comprar umas terras, que era cá o meu sonho. Foi elle ainda quem me +tirou isso da cabeça. «Não tenhas pressa de ser proprietario, prégava-me +elle, olha que os lucros que vaes ter, gastando todo o teu dinheiro em +comprar qualquer leira de terra, não correspondem ao gostinho de te +chamares dono d'ella. Não te afogues em pouca agua. Se comprares um +cavallo e ficares sem cinco reis para o sustento d'elle, vê lá que +negociarrão; pois as terras tambem comem e tu bem o deves saber.» E o +caso é que me convenceu e nem pensei mais n'isso. + +--Mas a final sempre comprou? + +--Quando elle mesmo m'o disse. Foi á praça esta granja, que não era +ainda o que é hoje. «Vê agora se ficas com aquillo», disse-me o snr. +doutor. A propriedade era de valor e eu não queria empregar na compra +todo o meu capital. O snr. doutor ajudou-me mais uma vez, e a +propriedade passou para as minhas mãos. Então trabalhei mais do que +nunca. Todo o meu empenho era remir depressa a minha divida, porque, +emquanto o não fizesse, parecia-me que não podia chamar ainda meu a +isto. Deus ajudou-me com annos felizes e com boas colheitas, e como +continuava com o arrendamento das Barrocas e depois com este negocio de +gado, pude, mais cêdo do que esperava, pagar a minha ultima prestação e +remir a divida. + +Chegando a este ponto da sua narrativa, animou-se a physionomia de Thomé +da Povoa de um clarão de enthusiasmo e com as faces córadas e os olhos +radiantes proseguiu, suspirando com desafogo. + +--Que dia aquelle, snr. Jorge! Eu nem lhe sei dizer o que sentia em mim! +Eu sei lá?! Quando voltei da casa do doutor, com o escripto da quitação +no bolso, vinha a tremer, pulava-me no peito o coração como o de uma +criança; abri surrateiramente aquella porta da quinta, e sósinho, como +um ladrão, sem que ninguem me visse, entrei aqui. Digo-lhe que estava +quasi louco. Até fallei alto; lembra-me bem de que disse ao vêr-me cá +dentro: Isto é meu! E depois que sabia que era meu, parecia-me outra +coisa tudo isto. Meu! eu não me fartava de repetir esta palavra! Meu! +Estas arvores eram minhas, estas fontes eram minhas, até estes passaros, +que por ahi cantavam, eram meus, porque emfim vinham fazer ninho e +cantar no que me pertencia. Vae rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu +abracei estas arvores, eu bati palmadas n'estes muros, lavei-me n'esses +tanques todos, bebi agua d'essas fontes, deitei-me á sombra d'essas +arvores, eu cantei, eu saltei, eu chorei, e a final.... quer que lhe +diga? Não tive mão em mim que não ajoelhasse para beijar esta terra! +beijei, sim, beijei esta terra, que eu ganhára á custa de muito +trabalho, de muito suor e de nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o, +em me lembrar de que tudo isto me viera de eu ser honrado e amigo de +cumprir a minha palavra. Eu não me recordo de ter um contentamento assim +na minha vida, a não ser no dia em que estreitei nos braços a Luiza, e +que tambem pela primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quasi a mesma +coisa; este era o meu segundo casamento. D'ahi em diante foi que eu +soube o que é ter amor á terra. Desde a sementeira á colheita era um +cuidado incessante com o campo. Ver crescer as plantas, para mim +causava-me tanto prazer como vêr o crescer dos filhos; cada novo rebento +era como que um nascimento em casa. Media o quanto iam crescendo as +arvores que plantava e trazia contados os fructos dos pomares. Aquillo +nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem a minha vida. Deus +ajudou-me, e d'ahi por diante tudo me tem corrido bem. Já vê, snr. +Jorge, que quem deve o que é a ter sido honesto, não póde recusar o seu +pouco auxilio a um rapaz de brios e de probidade como é o menino. + +Jorge estendeu a mão a Thomé, dizendo-lhe sensibilisado: + +--Fez-me bem ouvil-o, Thomé. A sua vida é um exemplo, é uma lição, e +n'ella procurarei aprender. Eu tambem sinto os mesmos desejos de remir a +rninha ultima divida para depois chamar meu ao que me pertence. E n'esse +dia eu tambem abraçaria com enthusiasmo aquellas velhas arvores, e +ajoelharia para beijar a terra, que os meus antepassados me deixaram. +Mas não sei se a empreza estará ao alcance das minhas forças. + +--Está. Eu lhe digo. Ha aqui só uma difficuldade a vencer. Empregue toda +a sua força para esse fim, porque se tracta do bem de sua casa, do seu +futuro e da sua dignidade. É preciso que o pae lhe dê licença para o +menino administrar a casa e que o padre capellão se contente com dizer +missas, porque depois... + +--Ainda quando vencesse essa difficuldade, que é grande, Thomé, porque +meu pae ainda vê em mim uma criança, surgiria outra. De si nunca meu +pae... + +Thomé da Povoa não o deixou concluir. + +--Eu sei, mas o snr. D. Luiz não se mette por miudo nos negocios da +casa, desde que tem um procurador encarregado d'elles. Consiga que elle +ponha em si a confiança que tão mal emprega no padre, e eu lhe prometto +que o mais se fará. Eu não exijo mais garantias para o meu dinheiro, do +que um escripto seu, snr. Jorge. Demais, como a sua experiencia é pouca, +eu, se m'o permittir, guial-o-hei nos primeiros tempos. Como seu pae não +gosta de que o menino venha por aqui, virá sem que elle o saiba. Os +serões de inverno são longos, nós conversaremos algumas noites. + +Jorge disse finalmente com resolução: + +--Aceito, Thomé. Fallarei a meu pae. O dever de salvar a minha casa da +ruina me dará coragem. Aceito, porque tenho fé em que me não será +impossivel pagar-lhe mais tarde a divida que contrahir. + +--E eu tenho fé em que ha de ainda haver dias alegres e de festa +n'aquella triste casa. Não é verdade que se diz que ha lá um thesouro +escondido? Pois cave na terra, que o ha de encontrar. + +A voz de Luiza, ao longe, annunciou n'este momento ao marido que o +jantar esperava por elle. + +Jorge sahiu d'alli com o coração palpitando de esperanças e de commoção, +que lhe estava já causando a ideia da entrevista que precisava de ter +com o pae. + +Thomé jantou com o appetite de quem tinha feito uma boa acção e +realisado uma ideia, com que havia muito tempo lhe lidava o cerebro. + +A mulher achou-o mais fallador do que de costume; e depois de jantar +voltou para a eira, cantando. + +Era feliz n'aquelle momento a sua alma generosa. + + + + +IV + + +Em uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por tres rasgadas +janellas ogivaes e mobilada ainda com certa opulencia, vestigios do +esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu +capellão-procurador frei Januario dos Anjos. + +Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da ultima oração. + +Frei Januario era quem esperava, porque essa era tambem a principal +occupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as +amarguras d'estas longas expectações. Eram ellas talvez que não o +deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei +Januario era magro. O mysterio physiologico d'esta magreza ainda não era +para se devassar de prompto. + +D. Luiz lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do +Porto, e dava assim em alimento ao seu odio contra as instituições +liberaes um dos fructos mais saborosos d'ellas--a liberdade de +imprensa--; fructo, em que os seus correligionarios mordem com demasiada +complacencia, apesar de ser para elles fructo prohibido. + +De quando em quando D. Luiz interrompia a leitura com uma phrase de +approvação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida +pelo governo, que nunca tinha razão. + +Frei Januario secundava, com toda a força do seu obscuro credo politico, +as reflexões de s. exc.ª, e requintava na intensidade dos anathemas, com +que eram fulminados os homens da época. + +Mas, solta a phrase que o caso pedia, e as competentes exclamações, +voltava o padre a consultar o relogio, a abrir a bôca, a suspirar; dava +dois ou tres passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a cozinha. +Os intervallos das refeições eram para elle seculos! + +--Humh!--disse D. Luiz n'aquella manhã, poisando a folha, como enojado +com o que lêra--Lá foi concedido um subsidio para a construcção do lanço +de estrada de Valle-escuro! + +--Fartos sejam elles de estradas!--acudiu logo frei Januario--Para esta +gente a moralidade e a ventura de um paiz consiste em ter estradas e +diligencias, e acabou-se. Olhem lá se elles levantam sequer uma igreja? +Isso sim! O dinheiro do clero sabem elles roubar! E que pena não terão +por não deitarem a baixo os templos que por ahi ainda ha! Mas atraz do +tempo tempo vem. Vontade não lhes falta. + +Não sei se foi esta ultima phrase que recordou ao padre que tambem a +elle não faltava vontade... de comer. O certo é que, mudando de tom, +acrescentou: + +--Querem vêr que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto são quasi +duas horas, e eu não ouço tugir nem mugir na cozinha! Nada, aqui anda +coisa. Com licença, eu vou vêr e volto já. + +E frei Januario sahiu da sala para ir pela vigesima vez á cozinha, que +elle suspeitava abandonada pela incuria do cozinheiro, estando pois a +familia toda ameaçada com a tremenda catastrophe d'uma retardação do +jantar. + +D. Luiz pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo até á volta do +padre, que entrou indignado. + +--Eu que dizia?! Posto á taramela com o hortelão, sem se lembrar do +jantar? Olhem se eu lá não ia! Não que dizem que uma pessoa póde +descançar nos criados. Ha de poder! São uma corja! E, v. exc.ª não quer +crêr, aquelle excommungado d'aquelle hortelão ha de ser a ruina d'esta +casa. Foi uma imprudencia da parte do snr. D. Luiz metter em casa um +libertino d'aquelles, mação nos ossos e no sangue. Foi um passo muito +errado... Aquillo é um pessimo exemplo para os outros. Sabe v. exc.ª em +que elle estava fallando? Na cantiga do costume. No desembarque do +Mindello. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e +quinhentos bravos que vieram pôr fóra da cidade os oitenta mil lobos que +andavam lá, e coisas assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leitão +a queimar-se e a sôpa a pegar-se no fundo da panella, que logo me +cheirou a esturro. É preciso que v. ex.ª dê as providencias, quando +não... + +D. Luiz, tomando menos a peito do que o capellão os destinos do jantar e +da sôpa, e fiel ao habito de nunca fallar, nem em mal nem em bem, do +hortelão, não respondeu e proseguiu a leitura das folhas. + +D'ahi a pouco referiu ao padre a noticia que tinha lido do desastre +succedido a uma diligencia ao passar em uma ponte que na occasião +abatêra, resultando muitas victimas. + +A indignação do padre exaltou-se. + +--Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um +abandono d'esses! Vejam que tempos os nossos! e que governos que não se +importam com as vidas dos cidadãos! Em que paiz do mundo se vêem +estradas assim arruinadas como as nossas? São os bens que nos trouxeram +os homens da Carta! Isto é bonito! + +E o padre Januario continuou ainda por algum tempo a condemnar, pelo +crime de desleixo e de falta de protecção á viação publica, os mesmos +governos que, momentos antes, accusára de conceder para esse fim +subsidios e de lhe dar importancia demasiada. + +A politica de frei Januario é vulgar na nossa terra. + +D. Luiz, tendo concluido a leitura da folha, pôl-a de lado e resumiu a +serie de pensamentos que essa leitura lhe suggerira, na seguinte e +contrahida synthese: + +--Isto vae cada vez melhor, frei Januario. + +--Isto vae bonito, não tem duvida nenhuma--secundou o padre. + +--O peior é o futuro--tornou o fidalgo, assombrado. + +--Ai, o futuro ha de ser fresco!--repetiu o procurador, fungando uma +pitada. + +--Emfim, quem viver verá aonde isto vae parar, onde nos leva esta +torrente. + +--E não é preciso viver muito. Mais dia menos dia temos ahi os +hespanhoes, ou então passamos a ser inglezes. Não ha que vêr; da maneira +por que vão as coisas... + +--Ai, pobre Portugal!--exclamou melancolicamente D. Luiz. + +--Que vaes á vela--concluiu o padre.--Desde que puzeram a cabeça á roda +a esta gente com liberalismos... ficou tudo transtornado. Agora todos +mandam, todos fallam, e não ha quem governe. Isto de não haver um que +governe... Estes patetas não se desenganam de que um paiz é como uma +casa. Ora deixem á vontade os criados em uma cozinha, sem ninguem que os +vigie, e verão o que vae! esperem por o jantar, que hão de achar-se +servidos! + +O simile fôra suggerido a frei Januario pela sua constante preoccupação. + +--O que me custa é lembrar-me de que meus filhos teem de viver n'esta +sociedade assim organisada. Quem sabe a sorte que lhes está reservada, +aos pobres rapazes!--disse o fidalgo, suspirando com escuras +apprehensões sobre a posição precaria da familia. + +--Os filhos de v. exc.ª não devem transigir em caso algum com estes +homens!--exclamou com vehemencia o padre--É não fazer como a sobrinha de +v. exc.ª, a snr.ª D. Gabriella, que já é baroneza das feitas por elles. +Quando se é fidalgo é preciso ser fidalgo. + +--É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se +em parte preparado por nós--insistia o fidalgo.--Tambem peccamos. + +--Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que +nasceram n'essas casas se abaixem diante dos que nem sabem aonde +nasceram. Deixe v. exc.ª medrar quanto quizer o Thomé da Herdade, que no +fim de tudo sempre ha de mostrar que andou descalço em criança e que foi +levar a beber o gado d'esta casa. Ha certas coisas que não dá o +dinheiro. + +--O Thomé da Herdade!--repetiu D. Luiz com amargura--Esse é que +prospéra, os tempos estão para elle. Quem viu e quem vê aquillo! + +--Então que quer? Inda mais havemos de ver. E então não sabe v. ex.ª que +o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de +alguem? + +--A Bertha? + +--Sim, a que é afilhada de v. exc.ª Com que fim faz aquelle toleirão uma +coisa d'essas? Veja a parlapatice d'aquelle homem. Não repara na posição +falsa em que colloca a rapariga. Metteu-se-lhe talvez na cabeça que +ainda a casava com algum fidalgo! Póde ser. Veja v. exc.ª se ella serve +para algum dos seus filhos. + +D. Luiz sorriu, encolhendo os hombros. + +--Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que é a final o que ella +tem de ser, das prendas e da educação que o pae lhe mandou dar? Não me +dirá v. exc.ª? + +--Todos hoje teem aspirações a subir--reflectiu D. Luiz com ironia.--A +maré sóbe. + +--Eu bem sei o que é que dá causa a estas tolerias. Tudo isto vem da +barulhada que estes liberalões fizeram na sociedade. Tudo está remexido +e ninguem se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas +parece um visconde. Onde isso é bonito, segundo dizem, é em Lisboa. Hoje +todos por lá tem excellencia! + +N'estes sediços commentarios sobre o estado do seculo deixaram-se ficar +os dois por muito tempo, desafogando assim a sua má vontade contra as +instituições modernas. O padre Januario porém não perdia com isto a +ideia do jantar, e de quando em quando voltava os olhos para o relogio, +cujos lentos ponteiros não correspondiam nunca á impaciencia dos seus +desejos. Emfim deu uma hora e frei Januario ergueu-se instinctivamente +para ir vêr se o jantar estava servido. + +Passado pouco tempo tocava a sineta, tão grata aos ouvidos do reverendo. +Vibraram pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca +aquelles sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e +esplendida côrte, que os ventos da adversidade tinham dispersado. + +D. Luiz entrou na sala do jantar, onde com impaciencia o aguardava já o +capellão. + +Aquella grande sala vazia, aquella extensa mesa, apenas servida com +quatro talheres, fallava tanto do esplendor passado e da decadencia +presente, que poucos logares havia na casa que deixassem no fidalgo mais +melancolicas impressões. Nunca se lhe anuviava tanto o coração como ao +sentar-se á cabeceira da mesa, em torno da qual outr'ora vira rostos +conhecidos e amigos, hoje tão solitaria e abandonada. + +D. Luiz, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou, +apontando para os logares dos filhos, que ainda estavam de vago. + +--Então os senhores não ouviram a sineta? + +--Os senhores ainda não vieram. + +--Nem Jorge?--perguntou D. Luiz, como se estranhasse menos a ausencia de +Mauricio. + +--Nem um, nem outro. + +--O snr. D. Mauricio--observou o padre, que temia um adiamento do +jantar--sahiu para a caça; quando virá elle agora? + +E dizendo isto, fazia signal ao criado para que servisse o fidalgo. + +--E Jorge?--insistiu o pae. + +--O snr. D. Jorge... esse não sei... talvez esteja ahi por alguma parte. + +O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausencia dos filhos, que +ainda mais augmentava a solidão d'aquella sala, resignou-se a principiar +a jantar sem elles. + +O jantar correu em silencio. + +O humor negro de um dos commensaes e o appetite do outro não davam azo +ao dialogo. + +Estava o padre deliciando-se com uma farta posta de assado e o +competente accessorio de massas, quando Jorge entrou na sala. + +D. Luiz não lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar. + +Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pae interrompeu com um gesto a +mandal-o sentar; e, passados momentos, levantou-se elle e sahiu +silencioso. + +Frei Januario, tendo já satisfeito as primeiras e mais urgentes +exigencias do seu estomago, achou-se disposto a continuar o dialogo. Por +isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge: + +--Com que vem do seu passeio, hein? A manhã estava bem bonita. E então o +que viu por esses campos? + +--Muito trabalho, snr. frei Januario, muita vida rural--respondeu Jorge. + +--Sim, agora é o tempo das colheitas. Anda por ahi tudo azafamado. + +--Mas porque é, snr. frei Januario, que nos campos da nossa casa não +vejo o movimento dos outros? + +A imprevista interpellação do adolescente ia entalando o padre. + +--Causou-me sensação isto hoje--proseguiu Jorge.--Quem subir ao alto do +outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o +valle, póde marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo +quasi maninho, um muro a cahir, umas paredes negras, um aspecto de +cemiterio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens. + +--Não é tanto assim... É verdade que... meu rico filho, que quer? depois +que os homens do liberalismo tomaram conta d'este paiz, as coisas +mudaram. Quem não está por o que elles querem... + +--Não vejo em que elles influam para isto, snr. frei Januario. Quem nos +impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de +pôr homens a trabalhar n'essas terras incultas? + +--O que os outros fazem, diz elle! Os outros... os outros... e quem são +os outros? Uns miseraveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os +cavallos e a cavar nos campos d'esta casa. + +--Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou d'essa +posição humilde e os elevou áquella, que hoje occupam. + +--Olhem que grande milagre! Homens que não devem respeito a si mesmos, +para quem todo o trabalho está bem, como não hão de enriquecer? Ora essa +é muito boa! + +--E os que devem respeito a si mesmos estão pois condemnados á miseria? + +--Á miseria... á miseria!... Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje! +Foi febre que se lhe pegou? Se ella anda por ahi tão accêsa! O menino +ainda é muito criança para pensar n'estas coisas. Coma e beba e... + +As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso, e redarguiu com +energia e irritação: + +--Não sou criança, frei Januario; acredite que o não sou. Tenho mais de +vinte annos e estou resolvido a ser homem. Córo da minha ociosidade, +quando vejo que sómente as nossas terras fazem vergonha á actividade +d'este povo. Tenho annos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome +para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os +gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda +responsabilidade de ser na minha familia talvez o primeiro a faltar um +dia aos seus compromissos. É por isso que fallei e que desejo que me +responda, snr. frei Januario. + +--Ai, menino, menino; isso não é seu! Ahi anda doutrina liberal. Eu +cheiro-a a distancia de legoas. Então quando o senhor seu pae me honra +com a sua confiança, é acaso justo, é acaso bonito que eu seja +suspeitado e interrogado por uma criança, que ainda nada sabe do mundo? + +--E quando hei de aprender? Querem-me estupido, como esses morgados que +por ahi se arruinam? + +--Mas que quer o snr. Jorge a final? Então não sabe que desde que os +lavradores se fizeram fidalgos, ninguem lucta com elles? O dinheiro está +de lá; para lá vão os trabalhadores, senhor. Ora é boa! Eu acho graça a +certa gente! + +--O dinheiro está de lá! Mas como conseguiram elles enriquecer? Pois não +diz que eram uns miseraveis? + +--Ah! então quer principiar como elles principiaram, cavando com uma +enxada todo o dia e furtando á bôca para juntar ao canto da caixa com o +fim de comprar uns bois? etc. etc. Veja se quer. + +--Não principiavamos de tão longe como elles, escusavamos de tantos +sacrificios. Bastava que olhassemos com attenção para o muito que temos +ainda, e que tentassemos desenredar, a pouco e pouco, esta meiada, que +nos enleia e que nos ha de afogar a todos. + +--Ora é boa! E então o que é que eu faço, o que é que estou fazendo ha +quasi trinta e oito annos em que o snr. D. Luiz me distingue com a sua +confiança? Mas a coisa não é tão facil, como lhe parece. É boa! + +--Mas quaes são os seus planos, padre Januario, qual é o seu systema de +administração? + +--Os meus planos?!... Ora essa!... Então que planos quer que sejam os +meus? Systema de administração!... isso é phrase de côrtes... Humh! +tenho entendido... É o que eu digo... Ó snr. Jorge, ora falle-me a +verdade, ahi andam ideias de liberalismo. Com quem fallou esta manhã? +ora diga. + +--Venham d'onde vierem as ideias. A origem pouco importa, a questão é +que ellas sejam boas. Eu não tracto de liberaes nem de absolutistas +agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo cahirem os muros e nunca se +repararem; vejo campos e campos sem a menor cultura, encontro em tudo +quanto nos pertence profundos signaes de decadencia, e quero saber a +grandeza do mal que nos opprime. + +--E se fôr grande o mal, o que quer que se lhe faça? + +--Quero que se trabalhe para remedial-o; que se façam sacrificios uteis, +que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos faz viver +hoje ainda uma vida que não é d'estes tempos. Desenganemo-nos; a época +não é de privilegios nem de isenções nobiliarias, é de trabalho e de +actividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna util +pelo trabalho honrado. + +--Jesus! O que ahi vae! O que ahi vae! Eu bem o digo! Ha liberal na +costa! Isso é tão certo como dois e dois serem quatro. Se o pae o ouvia! + +--Ha de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo fallar-lhe. + +--Que vae fazer, snr. Jorge? + +--O meu dever. Eu e meu irmão seremos um dia os representantes da nossa +familia. Para que nos orgulhemos do nome que herdamos, é necessario que +esse nome não tenha manchas e que nós lh'as não lancemos. + +--Mas quem lhe diz, quem lhe falla em manchas? Ora... ora... ora... ora +esta não está má! + +--Frei Januario, eu não sou criança, repito-o. Sel-o-ia hontem, hoje não +o sou já. Faça de conta que o sol d'esta manhã me amadureceu. Por isso +não me illudo emquanto á natureza dos meios com que se sustenta ainda +n'esta casa um resto do esplendor de antigos tempos. Pois mais valeria +comer em louça nacional e vender as matilhas e os dois cavallos de luxo, +que ainda temos, para comprar dois bois. + +--Mas... + +--Até logo, frei Januario, conversaremos mais de espaço sobre isto. + +--Mas... + +Jorge, sem o attender, dispunha-se a sahir, quando o padre, quasi +assustado, o chamou. + +--Mas venha cá. Ouça-me, valha-me Deus! Olhem que homem este! Tem muita +razão no que diz. Sim, senhor. As coisas não vão bem. Hoje não é hontem; +e esta casa já viu melhores tempos do que os que correm. Mas de quem é a +culpa? É de mim ou do senhor seu pae? Pois não foste! Para remediar o +mal trabalhamos nós ha muito. A culpa é d'esta gente que nos governa, +d'estes homens que juraram perder tudo quanto era nobreza para poderem á +vontade fazer das suas, sem ter quem lhe vá á mão. Percebe agora? Desde +que os liberaes... + +--Por quem é, frei Januario, não me venha outra vez com os liberaes. Eu +tenho a razão bastante clara para vêr as coisas como ellas são, e não me +deixar levar por essa cantiga do costume. Os liberaes!... Os liberaes o +que fizeram foi alliviar a agricultura dos enormes encargos que d'antes +pesavam sobre ella e que não a deixavam prosperar, foi crear leis e +instituições que facilitassem os esforços dos laboriosos e castigassem +severamente a incuria e a ociosidade. Quando ao desopprimir-se o +lavrador de tributos pesados e iniquos e dos odiosos vexames do fisco, +ao tornarem-se-lhe mais faceis os contractos e as transmissões da +propriedade, ao crearem-se-lhe recursos para elle tirar do seu trabalho +e da sua intelligencia dez vezes mais do que d'antes podia obter, quando +na época em que tudo isto se realisa, uma casa como a nossa, em vez de +prosperar como tantas, vê apressada a sua decadencia, é porque tem em si +um velho e incuravel cancro a roêl-a. E é esse cancro que eu quero +conhecer, para extirpal-o, se ainda fôr possivel. + +--Eu estou pasmado! Pelo que ouço, acha o menino que todas essas +fornadas de leis, que esta gente tem feito, são muito boas e que a sua +casa devia ser muito bem servida com ellas? + +--Essas leis de que se queixa, são racionaes; uma casa racionalmente +administrada não póde pois perder com ellas. + +--Sim, senhor! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos, +ficou sendo o filho mais velho da familia, gostou talvez muito de vêr +acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas são tão boas, havia +de gostar--argumentou o procurador, com ares de finura, como de quem +apanhava em falso o seu adversario. + +Jorge respondeu serenamente: + +--E porque não? A abolição dos morgados acho eu que foi um grande acto +de justiça e de moralidade; além de ser uma medida de longo alcance +politico. + +--Ai... ai... ai... O que mais terei de ouvir! O menino está perdido!... +Pois já me applaude a maldita lei, que ha de dar cabo das familias mais +illustres do reino... Ai, como elle está!... + +--Deixe-se d'isso. A abolição dos vinculos só trouxe a morte ás casas +que deviam morrer. O que ella fez foi proclamar a necessidade do +trabalho indistinctamente para quem quizer prosperar. O esplendor das +familias deve ficar sómente ao cuidado dos membros d'ellas e não da lei. +Quando esses não tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo é que +elle se apague, e que o nome dos antepassados não continue a ser +deshonrado pelos vicios e ociosidade dos descendentes. Mas deixemo-nos +d'estas discussões, frei Januario. O meu partido está tomado. Mais tarde +saberá das consequencias d'elle. + +E Jorge sahiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira. + +--Que anda aqui liberalismo, isso para mim é de fé. Mas que mosca o +morderia? Querem vêr que já fizeram do rapaz mação? Pois olhem que não é +outra coisa. Eu quando os ouço fallar muito do trabalho... já estou de +pé atraz. Tem graça! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho é um +prazer. Ora adeus! O trabalho é uma necessidade, o trabalho é um +castigo. Para ahi vou eu. Que trabalho tinha Adão no paraizo? E não lhe +chamam os livros sagrados um logar de delicias? Amassar o pão com o suor +do rosto, olhem que titulo de nobreza! Estes modernismos! Mas é a +cantiga da moda. O trabalho ennobrece, o trabalho consola, o trabalho é +uma coisa muito appetitosa... Será, será, mas eu, por mim, se pudesse +deixar de trabalhar... Ah! ah! ah. + +Aqui bocejava o egresso. + +--Mas que alli anda liberalismo, isso é tão certo como eu estar onde +estou. Como elle fallou nos morgados!... Provará que é tão pateta que, +sendo elle morgado, diz d'aquillo. E que vae declarar ao pae... Não +declara nada. Um criançola que não sabe senão passear. Tomára elle que o +deixem... O ocioso é que é o plebeu, o nobre é o que trabalha. Sim, sim, +contem-me d'essas. Aquillo é musica de anjos. Diga-se o que é verdade, +quem puder deixar de trabalhar... + +Frei Januario, n'estas graves ponderações, deixou-se a pouco e pouco +invadir pelo somno, e acabou por adormecer á mesa, sonhando-se em uma +especie de paraizo, como o tal logar de delicias de Adão, cuja +ociosidade sempre fôra objecto muito dos seus enlevos. + +Deixemol-o adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados +angulos da Casa Mourisca. + + + + +V + + +Jorge continuou no seu quarto a serie de meditações com que trouxera +occupado o espirito toda a manhã. Abria alguns livros, consultava-os com +attenção, afastava-os depois com impaciencia, porque raros pareciam +responder cabalmente ás mudas interrogações que elle lhes dirigia. + +A bibliotheca da Casa Mourisca era na maior parte composta de livros +proprios para a cultura do espirito, mas sem definida tendencia para uma +applicação pratica qualquer. + +Jorge tinha o gosto bem educado e não era indifferente ás obras de pura +arte; mas d'esta vez dominava-o uma ideia fixa, um ardente desejo de se +instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos +necessarios para a realisação da grande obra em que meditava. Algumas +arithmeticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos numeros +soltos de jornaes estrangeiros, foi tudo quanto pôde encontrar e que +consultou, sem que o satisfizessem as noções rudimentares que n'elles +lia. A pequena livraria do tio, á qual devêra grande parte dos seus +avançados principios sociaes, estava já esgotada por elle; além de que +não abundava em livros de indole verdadeiramente didactica. + +Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge +fechou os olhos, como para concentrar o espirito, e resolver só por elle +os problemas, cuja solução em vão procurára na leitura. E a razão de +Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho; colheu d'ella mais +fructos do que das paginas dos livros elementares, que anciosamente +consultava. + +A estas cogitações veio emfim arrancal-o a chegada de Mauricio, já quasi +ao fechar da tarde. + +Mauricio, logo que transpôz a porta, arremessou o chapéo sobre a mesa +com certa vivacidade de movimentos, que trahia uma profunda agitação. +Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados, sentou-se ou +antes deixou-se cahir sobre uma cadeira, e correu a mão por a fronte, +sacudindo para traz os cabellos com um movimento febril. + +Jorge, que percebeu em todos estes signaes um dos costumados frenesis do +irmão, interrogou-o: + +--Que é isso, Mauricio? Que é o que tens? Que te succedeu lá por fóra? + +--Deixa-me, Jorge--respondeu Mauricio, levantando-se outra vez e +pondo-se a passear no quarto.--Se soubesses como eu venho suffocado de +raiva? + +--Contra quem? + +--Contra esta canalha d'esta gente do campo. Uns miseraveis insolentes +que lançam a lama suja, onde nasceram e vivem, á face da gente com o +mais intoleravel arrojo! Mas eu esmago-os com a sola da bota! + +--Bom! Temos bravatas de fidalguia! Esses arreganhos de senhor feudal +hoje são de mau gosto, Mauricio. Olha que já passou o tempo d'elles. + +--É sempre tempo de castigar um insolente. O essencial é que se tenha +sangue nas veias e pundonor no coração. + +--E sangue tambem no coração--emendou Jorge, sorrindo.--Olha que tambem +é lá preciso. + +--Não rias, Jorge! Por quem és!--tornou o irmão despeitado.--Bem vês que +fallo seriamente. + +--Então conta-me tudo. Receio que haja ahi alguma das tuas exagerações. + +--Não exagero. Esta manhã fui caçar, como sabes. Corri o monte com pouca +felicidade; os cães pareciam ter perdido o faro. Voltava já para casa +sem esperança, quando, alli pela Quebrada do Moinho, levantaram-se-me +quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri. Ellas seguem na direcção +das azenhas, atravessam os campos que estão em baixo e vão poisar no +pinhal que fica para lá da prêsa do Queimado. Sabes? Eu desço com os +cães, e, para não dar a volta do portello, galguei o murito da fazenda +do Luiz da Azinhaga e ia para atravessar o campo, quando aquelle +grosseirão do matto, aquelle villão infame sahe da casa da eira, aonde +andava com os criados, e berra-me: «Olá, ó fidalguinho, isto aqui não é +terra baldia, nem roupa de francezes.» Eu olhei para elle, mas não lhe +respondi e continuei andando; elle tornou de lá, e já caminhando para +mim: «Menino, não ouviu? Eu não quero os meus campos trilhados.» «O que +estragar, pagarei», respondi-lhe já azedado. O estupido soltou uma +risada insolente, e disse-me: «Com o que? Pergunte primeiro em casa se o +que lá tem chega para pagar o que devem já.» Ouvindo isto, perdi a +cabeça e corri para o homem, exclamando: «Para que não duvides da minha +palavra, eu te vou já pagar uma divida, canalha.» Elle estava desarmado, +mas recuou para pegar em uma enxada; os homens que trabalhavam na eira +correram para mim com malhos e mangoaes; armei a espingarda logo; o +primeiro que me ameaçasse estendia-o, palavra d'honra! N'isto ouvi uns +gritos por detraz de mim. Era o Thomé da Povoa que passava e que correu +a separar-nos. Fez-nos um sermão e trouxe-me quasi á força d'alli. Ahi +tens como está esta gentalha. Já não podemos sahir sem nos arriscarmos a +ser insultados e assassinados. Quem deu a esses miseraveis o atrevimento +de fallar nas dividas da nossa casa? + +--Quem as contrahiu e não procura pagal-as--respondeu, triste mas +placidamente, Jorge. + +E logo depois acrescentou: + +--Mas dizes bem, Mauricio, foi uma desagradavel occorrencia. Já vês +agora que eu tinha razão no que te dizia esta manhã. + +--O que foi? + +--Isto não póde continuar assim, Mauricio. Nem tu nem eu temos animo +para soffrer humilhações, e ellas são inevitaveis. + +--Inevitaveis?! Eu te juro... + +--Não jures; não é pela violencia que os obrigaremos a calar. Ou, se se +calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o pensamento +que lhes despertarmos, serão para nós igualmente humilhantes. Ha muito +que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam. E foi isso +que me fez pensar. + +--Mas que intentas fazer então? Qual é o teu plano? + +--Fazer-me respeitado; mostrar que não sou inferior a elles. + +--Sim, mas de que maneira? + +--Resgatando a nossa casa, calando com a paga a bôca d'esses credores +insolentes, e collocando-nos, pela prosperidade das nossas terras, ao +lado d'elles todos, e acima, pela nobreza dos nossos sentimentos. + +--Queres então fazer-te lavrador? + +--Quero trabalhar. Olha, Mauricio, tenho pensado muito estes ultimos +dias, e hoje mais do que nos outros. A nossa regeneração depende de nos +despirmos dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa +perda é uma inevitavel e justa consequencia do nosso louco modo de +pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos habitos viciosos. +Pois que quer dizer este infatuamento com que fallamos dos nossos avós? +Qual foi a acção nobre, magnanima, que deu tal esplendor a nossa +familia, que se não possa apagar esse esplendor com a vida de +ociosidade, de desleixo e de dissipação ingloria que levamos? A chronica +não é clara a esse respeito. Tivemos guerreiros que morreram pela +patria, é nobreza, de certo; mas quantos soldados obscuros não existiram +entre os ascendentes d'esses pobres homens que por ahi ha, tão heroes +como os nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos; elles, algum +pobre sacerdote, modesto e humilde, que fez por ventura mais serviços á +religião do que o nosso parente mitrado; mas não lhes deu isso nobreza. +O que lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse serviços +particulares a algum rei benevolente, que em compensação o fez nobre por +toda a eternidade; porque tambem ha d'estas raizes em muitas arvores +genealogicas; desengana-te. + +--Estás eivado de uma philosophia democratica e revolucionaria, que não +sei onde te levará, Jorge. E em vista d'isso que resolves? + +--Resolvo não continuar a merecer essas humilhações, que não posso +deixar de reconhecer que são justas. Elles teem mais direito de nos +desprezar do que nós a elles. + +--Desprezar-nos!--repetiu indignado Mauricio. + +--Sim, sim; desprezar-nos. E senão repara. A nossa casa deve muito. +Grande parte dos nossos bens estão hypothecados. O nome da nossa familia +não é já segura garantia nos contractos, e os emprestimos, que todos os +dias os nossos procuradores contrahem, são obtidos por um preço que em +pouco tempo nos levará á miseria. Na aldeia todos sabem isto. Não queres +pois que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte annos, robustos, +e com energia e intelligencia, gastar ociosamente a vida e a juventude +em passeios e em caçadas, olhando por cima do hombro para esses homens +que talvez ámanhã, authorisados por a lei, nos virão pôr fóra de nossas +casas e tomar posse d'ellas? É acaso nobre este nosso proceder, +Mauricio? Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao +precipicio, não merece pelo menos um sorriso de compaixão? + +--Tu exageras, Jorge. Acaso teremos já chegado a taes extremos, que... + +--Nem tu imaginas a que extremos temos chegado; mas ainda nos poderemos +salvar, se quizermos ser homens. + +--E como? + +--Mudando de vida, applicando-nos devéras á restauração d'esta casa. + +--Mas... + +--D'aqui a pouco tenciono procurar o pae e fallar-lhe desenganadamente, +pedir-lhe que me deixe olhar por mim proprio para a administração das +nossas propriedades, que nas mãos de fr. Januario caminham a uma perda +certa. + +--Mas que entendes tu de administração? + +--Aprenderei. O interesse é um grande mestre. Não tiveram outro esses +rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer. + +Mauricio ficou pensativo. + +A ideia do irmão parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe +achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, não tendo +o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da +vida guiado mais pela imaginação do que pela razão. Se uma causa o +seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se á +primeira intuição lhe desagradasse. Era tão facil de se enthusiasmar por +o que ao principio repellira, que não se podia ter muita confiança +n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa +duração. + +Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com +uma impetuosidade juvenil: + +--Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio +e de inutilidade. É assim. É preciso que sejamos homens. Temos uma +missão a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo +a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita +a alma do que trabalha, porque vê que cumpre um dever. O que se nos +figura fadiga é prazer. Pois não te parece que um escriptor, por +exemplo, deve ser feliz nas horas de composição? e que o artista curvado +sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem +sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razão, trabalhemos, +a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e não nos deixará +sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo. + +Jorge escutava o irmão com um sorriso triste e innocentemente malicioso, +e commentava com um movimento de cabeça uma e outra d'estas estrophes em +honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua +habitual serenidade: + +--Valha-te Deus, Mauricio, que estás tu ahi a dizer? Não sonhes nem +adoptes uma resolução séria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas +illusões. Vê as coisas como ellas são. O trabalho é nobre por certo, mas +a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as +fadigas. Não vás seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te +desanimaria um cruel desengano. É preciso entrar n'isto guiado pela +razão, e não por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de +composição, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu +mister, não teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas +vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do +que a poesia, é o dever. Recompensas ha, não nego que as haja, além das +materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma +ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que +trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: «Tambem tenho direito a +viver.» Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das +fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra, é á maneira +d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes +que protegiam. Estarás sob a influencia d'elle, mas não o verás. Se a +contemplação d'essa divindade é a recompensa que esperas, deixa-te antes +ficar a montear por estas aldeias. + +Mauricio sorriu, objectando ao irmão: + +--És suspeito, Jorge. Tu duvidas encontrar a poesia ao teu lado, quando +trabalhares, porque ainda a não viste, aonde todos a vêem, ahi por essas +devezas, valles e ribeiras. + +--Vi-a ainda hoje em casa de um lavrador, aonde se trabalhava; tu é que +não a vias lá. + +--Ah! então já confessas que ella está com os que trabalham? + +--Mas não a vêem esses. Não a viu Thomé, nem nenhum dos seus criados; +vi-a eu que estava de fóra. + +--E quem deu a Thomé sentidos para a vêr? + +--A ninguem faltam, creio-o. Mas quando se trabalha com verdadeiro +ardor, a visão encobre-se prudentemente, como se soubesse que quem a tem +presente, tão namorado está d'ella, que o assaltam as distracções dos +namorados. E o trabalho é exigente e severo; ha uns cuidados pequeninos, +impertinentes, prosaicos, de que elle não prescinde. Ás vezes é util até +certa irritação provocada pelas difficuldades fastidiosas que elle +suscita; instigam, estimulam brios para vencêl-o. + +Continuaram os dois irmãos este dialogo e assentaram emfim na resolução +de mudar de vida, cada um com o grau de firmeza propria do seu caracter, +e portanto com firmeza desigual. Decidiram fallar n'aquelle mesmo +momento a D. Luiz. + +A occasião era propicia. Frei Januario dormia ainda a sesta, e portanto +o fidalgo devia estar só no seu quarto. + +Era já noite. O luar coloria com tintas magicas a paisagem fronteira á +Casa Mourisca. Esta desenhava o seu vulto negro sobre o fundo azul +pallido do céo sem estrellas. A ramaria dos carvalhos e a queda da agua +nas fontes levantavam vozes melancolicas do meio das indistinctas +sombras da quinta. + +Em noites assim conservava-se D. Luiz longo tempo á janella do quarto. A +fronte encostada á mão, os olhos fitos nos pontos illuminados da +perspectiva, e o pensamento... ai, quem sabe porque melancolicas +paragens andava o pensamento do pobre velho?! Passadas magnificencias, +festas, alegrias e triumphos de tempos mais felizes, memorias de vida +n'esta habitação hoje silenciosa, e por toda a parte, e sempre, a +pallida imagem da filha morta, o enlevo de toda a sua vida, que ao +desapparecer lh'a deixou escura e desencantada... que outras podiam ser +as visões presentes áquelle espirito sombrio? + +Pobre velho! + +Foi para este quarto escuro que se dirigiram os dois irmãos. + + + + +VI + + +Ao chegar á porta dos aposentos do pae experimentou Jorge uma primeira +hesitação. + +D. Luiz tractava sempre os filhos de uma maneira tão austera, +abria-se-lhes tão pouco em confidencias, mostrava tão má vontade ao ter +com elles longas e sérias conversações, que Jorge precisava de exercer +um grande esforço sobre si mesmo para dar aquelle passo tão fóra dos +seus habitos. + +Pela primeira vez os filhos procuravam assim o pae no proprio quarto +d'elle; a estranheza do facto seria pois já uma razão bastante para os +perturbar, ainda quando não concorresse para o mesmo effeito a natureza +do assumpto da conferencia, que não podia ser mais solemne. + +A resolução de Jorge era porém muito forte, e o enthusiasmo de Mauricio +muito inconsiderado, para que se deixassem dominar por aquella quasi +instinctiva timidez. + +Jorge bateu á porta com intimo sobresalto. + +Respondeu immediatamente a voz de D. Luiz, mandando entrar quem batia. + +Os dois irmãos impelliram diante de si a porta, e afastando o +reposteiro, entraram. + +Os raios do luar tinham já principiado a penetrar na sala, desenhando no +pavimento as projecções das janellas ogivaes, que a pouco e pouco +cresciam para o interior. + +Do lado da porta eram porém ainda espessas as sombras, e D. Luiz não +podia pois conhecer quem entrava. + +A sala era extensa, e por isso alguns momentos decorreram, longos para a +impaciencia do fidalgo, antes que os dois rapazes chegassem ao logar +onde elle os esperava, escutando com estranheza aquelles passos, sem +poder conjecturar de quem fossem. + +A final proximos da cadeira do pae, pararam e guardaram por instantes +silencio. + +A fronte descoberta ficava-lhes alumiada pelo luar, e recebia d'aquella +mysteriosa luz uma singular expressão de gravidade. + +D. Luiz, reconhecendo os filhos, olhou fixamente para elles e +perguntou-lhes admirado: + +--O que é que pretendem? + +Jorge foi o que respondeu. + +--Se v. exc.ª nos quizer ouvir, meu pae, desejavamos fallar-lhe. + +--Fallar-me?!--repetiu D. Luiz, em tom de espanto e quasi irritado. + +--Sim, senhor. + +--É singular! E a proposito de quê? + +--Do nosso futuro. + +--Ah!--exclamou o fidalgo, procurando encobrir em ironia a sua +crescente irritação.--Deram-lhe para pensar n'elle agora pelo luar. + +--Penso n'elle ha muitos dias, meu pae. Ha muitos dias que elle me +inquieta. + +D. Luiz fez um movimento, que immediatamente reprimiu, e passou a +interrogar Mauricio, no mesmo tom de affectada ironia: + +--Tambem te atacaram as mesmas inquietações pelo futuro? + +--Ha menos tempo, mas com maior fundamento talvez--respondeu-lhe com +firmeza o filho interrogado. + +D. Luiz calou-se por alguns instantes, depois tornou para Jorge: + +--Então vejamos a causa dos teus receios, saibamos o que te trouxe aqui. + +E principiou a tocar nervosamente com os dedos nos braços da cadeira. + +--Meu pae--principiou Jorge--perdoe-me a liberdade que tomo de fallar +n'isto a v. exc.ª; mas é o empenho que faço em que o nome e o credito de +nossa familia se conserve sem mancha... que... + +O fidalgo interrompeu-o, batendo com violencia no peitoril da janella. + +--E quem o manchou?--rugiu elle, quasi meio erguido, e fitando o filho +com um olhar, cujo fulgor até á claridade tibia da lua se percebia. + +--Até hoje ninguem; manchal-o-hei eu talvez ámanhã, quando não puder +satisfazer os compromissos da nossa casa; manchal-o-hei, quando me bater +á porta a miseria e me encontrar com habitos de ociosidade e sem a +sciencia do trabalho--respondeu placidamente Jorge á violenta +interpellação do pae. + +--Então já sabes que te baterá á porta a miseria?--inquiriu o fidalgo +amargamente. + +D'esta vez foi Mauricio quem respondeu: + +--Ha quem se encarregue de nol-o ensinar. Em cada homem do campo temos +um mestre, e as crianças por ahi já sabem dizer que os fidalgos da Casa +Mourisca estão empenhados. + +D. Luiz a estas palavras estremeceu, como ao contacto de um ferro +candente; virou-se irritado para Jorge, fallando quasi a custo: + +--No meu tempo pagavam-se essas lições bem caras! Para isso serviam +então, pelo menos, os rapazes das nossas familias. + +--Tambem nós as pagariamos, senhor; mas, voltando a casa, dir-nos-ia a +consciencia que não ficavam assim saldadas todas as dividas. O orgulho e +a vingança estariam satisfeitos; mas a razão e o dever, +não--contestou-lhe Jorge. + +--Então queiram dizer-me o que lhes manda a razão, e... e o que mais?... +Ah, sim... e mais o dever. + +Jorge, sem se perturbar, acudiu: + +--Mandam-nos trabalhar para remir essas dividas; luctar pela integridade +d'estes bens, que são nossa herança, augmental-os antes se fôr possivel; +mandam-nos manter em respeito essa gente, que nos olha com atrevimento, +destruindo para isso os fundamentos da sua insolencia. A razão, meu pae, +diz-nos que é uma vergonha e um crime para os nossos vinte annos a vida +ociosa e inutil que passamos aqui. + +--Muito bem; querem então meus filhos que eu lhes dê um modo de vida; +veem aqui no proposito de arguir-me por me ter descuidado de os... +arrumar? + +O fidalgo empregou no verbo final, de um sabor burguez, toda a emphase +sarcastica, que lhe inspirava a sua irritação e orgulho aristocratico. + +--Não, meu pae--insistiu Jorge--vimos apenas lembrar a v. exc.ª que +chegamos a uma idade em que já nos não satisfazem os gozos da vida de +rapaz, de que o muito amor de v. exc.ª nos tem permittido saciar. Vimos +pedir-lhe que nos conceda agora licença de nos occuparmos de outra ordem +de ideias e de mudarmos de vida. Sentimos despontar em nós desejos +novos, vimos respeitosamente annuncial-o a v. exc.ª e rogar-lhe a +permissão para realisal-os. + +D. Luiz sorriu ironico, porque não podia ainda tomar a serio a resolução +dos filhos, em quem só via duas crianças; e continuou zombando: + +--Está bem. Então tu o que queres ser? + +Jorge respondeu promptamente: + +--Procurador de v. exc.ª na administração da nossa casa. + +D. Luiz olhou d'esta vez para o filho mais seriamente, porque lhe +causára impressão a firmeza e promptidão da resposta, em vez das +titubeações que esperava. Convenceu-se de que Jorge não procedia +levianamente de todo, e que n'elle havia uma tenção formada. Voltando-se +para Mauricio, interrogou-o, ainda no mesmo tom em que principiára: + +--E tu? Queres ir para o Brazil? + +Mauricio não tinha, como Jorge, uma resposta prompta, porque n'elle o +projecto era apenas uma resolução vaga e mal definida, e não um plano +fixo e meditado como o do irmão. Era n'essas fórmas vagas que elle mais +o namorava, e talvez ao pretender fixal-o, principiasse a experimentar +as primeiras repugnancias e desillusões. + +D. Luiz esperou alguns instantes pela resposta do filho mais novo, mas, +como o visse hesitar, continuou, encolhendo os hombros: + +--Ainda não pensaste n'isso. Bom. Ouçamos então primeiro teu irmão. +Visto isso achas tu que, sob a tua gerencia, a administração de nossa +casa prosperaria? + +--Creio que não iria peor conduzida do que vae. V. exc.ª conhece +perfeitamente que não será grande façanha ir tão longe como frei +Januario. + +--É um homem experiente. + +--Triste resultado o da experiencia. O pae deve, melhor do que nós, +saber o estado dos negocios d'esta casa; mas quer-me parecer que não me +enganarei muito, conjecturando a maneira por que elles vão. Pedir +emprestado sob encargos e hypothecas pesadissimas, não para melhorar o +que ainda possuimos, mas para consumir o pouco que se obtem em gastos +improductivos, lavrar arrendamentos com que o senhorio nada lucra e com +que a propriedade se empobrece, deixar ao desprezo terras não +arrendadas, é a pratica até hoje seguida, tão facil como funesta. + +--E quem te disse que é possivel fazer outra coisa?--objectou já sem +ironia o pae.--Os tempos actuaes são de prova para familias como as +nossas, a maré que sobe traz á flôr da agua o que era lôdo em outros +tempos. + +--Deixe-me tentar, meu pae. + +--Tentar o que? criança. Queres ser enganado e escarnecido por esses +manhosos proprietarios e rendeiros, com quem infelizmente temos de +lidar? Que sabes tu da administração dos bens ruraes? + +--Aprenderei. A sciencia, patente ás faculdades de frei Januario, não é +defeza a ninguem. + +--Nem tu sabes o que pedes. Não córarias de vergonha no tracto familiar +a que esses negocios obrigam, com homens grosseiros, insolentes, +miseraveis de hontem, e que hoje nos atiram á cara com a sua riqueza? + +--Procuraria d'entre esses os de mais educação. + +O velho encolheu os hombros com impaciencia, murmurando: + +--Educação! Elles! + +--Porém, meu pae--argumentou Jorge com mais vehemencia--é uma triste +necessidade esta. Pense bem. Se é vergonha, como diz, procural-os para +tractar negocios, maior vergonha será que elles nos procurem para nos +expulsar d'esta casa; se a um homem da nossa familia fica mal velar por +ella, peor e menos decoroso lhe será ter de deixar esta terra, onde já +não possua um palmo de seu, sem poder attribuir essa desgraça senão á +sua propria incuria. A memoria dos nossos antepassados soffrerá menos se +um dia se disser dos seus descendentes que trabalharam, para livrar da +destruição e de mãos alheias o solar que lhes pertencia; do que se se +contar, apontando para as ruinas d'esta casa, que elles a deixaram cahir +e invadir por estranhos, sem respeito por as gloriosas tradições que a +illustravam. É pouco para ambicionar-se esta fama. + +--E depois, meu pae--acudiu Mauricio--que dôr não seria o vêr devassado +por invasores o quarto em que morreu minha mãe, esta sala, o salão onde +brincavamos em criança, e até os aposentos de nossa irmã, da sua querida +Beatriz? + +A memoria da filha morta commovia sempre o coração d'aquelle velho, que +ella ainda povoava de saudades; por isso curvou desalentado a cabeça +assim que lhe ouviu o nome, e murmurou: + +--Não; a nossa miseria não irá tão longe. Creio que Deus não me +reservará esse tremendo castigo. Morrerei primeiro. + +--E nós, se lhe sobrevivermos, senhor, não soffreremos tambem? Quererá +legar a seus filhos uma herança d'essas?--interpellou-o Jorge. + +O pae escondeu a cabeça entre as mãos, já sem signaes da rispidez com +que principiara a scena, e não pôde responder a esta interrogação de +Jorge. + +Mauricio sentiu-se commovido ante aquella sincera manifestação de dôr, +que observava no pae, na presença d'elles de ordinario tão reservado. + +--Não--acudiu elle impellido por aquelle sentimento--o interior da nossa +casa não será devassado por estranhos, nem na sua vida, meu pae, nem +depois da sua morte. Dê-nos apenas permissão para trabalharmos, e nós +juramos evitar essa humilhação. + +D. Luiz ergueu finalmente a cabeça e pela primeira vez fez signal aos +filhos para que se sentassem junto de si. + +Depois, dirigindo-se ao mais velho, já em tom menos severo: + +--Jorge--ponderou elle--a tarefa que queres emprehender não é facil. É +verdade que não teem corrido pelas minhas mãos esses negocios, mas sei +d'elles o bastante para prever os espinhos que n'elles encontrarias. +Frei Januario não é um homem de talento, bem o sei, mas tem experiencia +e boa vontade de nos servir, e ainda assim não prospéra esta casa, que +foi das melhores da provincia. Como queres tu pois, ha poucos dias uma +criança que em nada d'isto pensavas, tomar de repente sobre ti o encargo +d'esta gerencia, e como imaginas que darias boa conta d'ella? Os teus +planos são vagos. Fallas-me mais nos defeitos dos seguidos até hoje, dos +que nas excellencias dos teus. + +--Perdão, meu pae, mas não são tão vagos como os suppõe. Pensei já muito +n'isso. As difficuldades que ainda tenho, com tempo e meditação espero +resolvêl-as; além d'isso... auxiliado... quando necessario fôr... dos +conselhos de frei Januario, espero que me será possivel realisar o meu +intento. Se me permitte exponho-lhe esses planos em poucas palavras. + +Tomando o silencio do pae por signal de aquiescencia, Jorge encetou a +exposição dos seus projectos economicos. + +Não o seguiremos no longo relatorio, que pae e irmão escutaram admirados +de tão inesperada sciencia. De facto, as informações de Thomé, os +fructos da propria reflexão, as ideias adquiridas na leitura meditada +dos poucos livros da sua bibliotheca, foram os elementos com que o +espirito essencialmente methodico e organisador de Jorge construira um +completo systema de administração, que, se tinha defeitos, não eram para +ser apreciados pelo velho fidalgo, que nunca fôra dado a esses exames. A +exposição clara, o tom de convicção, o calor do quasi enthusiasmo com +que o filho fallava, enthusiasmo contagioso, exerceram no velho uma +profunda influencia. Ao concluir, Jorge tinha vencido a causa. + +D. Luiz estava do fundo d'alma convicto de que este filho fôra destinado +pela Providencia para ser o restaurador da sua casa. + +E comtudo havia um ponto essencial no plano de Jorge, que elle não +mencionára. Para realisar a maior parte das medidas economicas, cujos +maravilhosos effeitos com tanta eloquencia exposera, era indispensavel +um capital inicial não pouco avultado, e Jorge não dissera como havia de +obtêl-o. Esta era a parte secreta do seu plano; aquella, cuja menção +bastaria para desvanecer toda a boa impressão produzida no animo de D. +Luiz. + +O capital inicial devia vir do emprestimo razoavel, offerecido por Thomé +da Povoa, ou obtido sob a garantia do credito d'elle. Esta operação era +indispensavel, era a unica talvez salvadora; por quanto os outros +capitalistas tinham sempre em vista apoderar-se dos bens do fidalgo, e +por isso sómente emprestavam sob condições onerosissimas e perigosas. + +Mas o orgulho de D. Luiz não lhe deixaria aceitar favores de Thomé; +nunca elle consentiria na menor transacção com o que fôra seu criado. + +Por isso Jorge guardou para si sómente esta parte das suas projectadas +operações, e com D. Luiz felizmente era facil passar por alto certos +pontos de questões d'esta natureza, que elle mal examinava. Assim pois o +pae acabou por dar o consentimento pedido. + +--Seja; não me opponho a que te occupes da gerencia da casa, que dentro +em pouco tempo será vossa. Vejo que tens reflectido n'isso mais do que +eu julgava; comtudo marco duas condições; a primeira é que nunca faças +contractos que sejam vergonhosos para o nome de nossa familia. + +--Prometto-lhe que não o envergonharei. + +--A segunda é que não desprezes os conselhos de frei Januario. + +--Por certo que não prescindirei das suas informações. + +--Eu lhe darei parte do que resolvi. E agora...--acrescentou D. +Luiz--vamos ao resto... E Mauricio? + +Mauricio, interpellado pela segunda vez, achar-se-ia nas mesmas +difficuldades para responder á interpellação, se Jorge não respondesse +por elle: + +--Tambem pensei em Mauricio. + +--Ah! tambem?--disse o pae, não podendo occultar a quasi admiração, que +lhe estava impondo Jorge. + +Mauricio interrogou tambem com a vista o irmão. + +--Se Mauricio confia em mim, é inutil a sua permanencia aqui na aldeia, +onde não tem em que se occupe. + +--Tens a minha plena confiança, Jorge. E a não me quereres para teu +guarda-livros... + +--Lembrou-me que Mauricio devia partir para Lisboa. Lá poderá ser mais +util a si e a nossa casa. É verdade que não é essa por ora uma medida +economica; antes obrigará a alguns sacrificios. Far-se-hão porém, se +precisos forem, e Mauricio tem brios bastantes para não os deixar ficar +improductivos. + +D. Luiz fez um gesto de duvida. + +--Humh!--objectou elle--que carreira póde n'estes tempos seguir na +capital um filho meu? Queres acaso que elle vá renegar da causa, que a +nossa familia sempre abraçou, e fazer pacto com essa gente que hoje +governa? + +--Confesso que mal pensei ainda na carreira que lhe convirá seguir; mas +sómente lá é que é possivel a escolha. Parece-me que sem deshonra se +poderá trabalhar e ser util á patria, que é sempre a mesma, qualquer que +seja o partido que a governe. Mas o caso não urge. V. exc.ª poderia +escrever n'esse sentido a nossa prima Gabriella, que melhor que ninguem +poderá fornecer-nos valiosas indicações. + +--Gabriella?! A senhora baroneza do Souto Real!--accentuou +sarcasticamente o fidalgo.--Ora adeus! Uma doida... + +--Tem-se mostrado sempre nossa amiga--corrigiu Jorge--e ainda por +occasião do fallecimento de Beatriz... + +--Sim, bom coração tem ella. Mas a sociedade em que vive, desde que +casou e depois que viuvou, tem-lhe feito adquirir as qualidades da +época. Não se lembra de que seu pae foi um militar, que morreu com as +armas na mão a favor da causa legitimista. Hoje conta os seus amigos +entre a gente, que a fez orphã. + +--Deve perdoar-se a uma mulher essa fraqueza. Ella não tem coração para +odios. Bem o sabe. Parece-me comtudo que, apesar das suas apparencias +frivolas, tem um fundo de bom senso d'onde póde sahir um aproveitavel +conselho. Falle-lhe v. exc.ª com franqueza, diga-lhe quaes as condições +sob que entende poder Mauricio entrar na sociedade, onde vivem sem +apostasia muitos adeptos da antiga causa, e eu creio que ella o +comprehenderá e lhe dará as informações pedidas. + +Ainda n'isto se deixou convencer D. Luiz pela eloquencia do filho. Jorge +sabia que a prima era uma mulher de influencia no mundo politico e +elegante, e esperava que a reconhecida diplomacia d'ella conseguisse +aplanar as difficuldades, em que naturalmente se embaraçariam o orgulho +e a paixão partidaria do fidalgo. E para assegurar melhor o resultado +que esperava, resolveu elle proprio escrever-lhe confidencialmente. + +Quando o pae e os filhos se separaram, achava-se em todos os seus +artigos sanccionado o projecto de Jorge. + + + + +VII + + +Frei Januario, dormida a sua regalada sésta, dispoz-se a fazer horas +para a ceia, indo communicar ao fidalgo a grande nova das disposições de +espirito, suspeitas e subversivas, em que encontrou o filho mais velho. + +Ainda D. Luiz meditava nas mudanças que ia soffrer o regimen economico +da casa e nas mais ou menos provaveis consequencias d'ellas, quando a +voz fanhosa do padre procurador se fez ouvir á porta, articulando o +costumado--_licet_?--E sem esperar resposta o padre frei Januario foi +entrando. + +--Ainda ás escuras, snr. D. Luiz?! + +--Nem sempre temos para nos alumiar luzes tão bellas como esta; +respondeu o fidalgo, designando o luar que já lhe inundava o quarto. + +--Quer não; isto de luar não é lá das melhores coisas e depois o ar da +noite... + +--A noite está que parece de maio. + +--Sim? mas sempre os vapores dos campos... Eu acho mais prudente +accender luz e fechar as janellas. + +--Não me opponho, frei Januario, até porque temos que fallar. + +--Sim? Tambem tenho que communicar a v. exc.ª + +--Pois, muito bem. Vamos a isso. + +Fecharam-se as janellas, vieram as luzes e dispoz-se tudo para a +conferencia. + +D. Luiz exigiu que frei Januario fallasse primeiro. + +--Visto isso, principiarei, e o que sinto é que seja para dar a v. exc.ª +noticias assustadoras--preludiou o egresso. + +--Assustadoras! Que é a final? Alguma insolente exigencia de credor. + +--Nada, nada; a coisa é outra. Tracta-se do filho de v. exc.ª + +--De Mauricio? Que fez elle? + +--Não, senhor; não é do snr. D. Mauricio, que eu fallo. + +--Então? É de Jorge? + +--Justamente. Eu conto a v. exc.ª + +E frei Januario principiou a expôr ao fidalgo os pormenores da discussão +que tivera com Jorge ao jantar e a commental-a com reflexões proprias. +Horas antes, esta communicação teria talvez produzido o effeito +estupendo, que o egresso calculára; mas a prévia entrevista de D. Luiz +com os filhos tirára toda a importancia á revelação. D. Luiz apenas +franziu o sobrolho á parte mais demagogica das doutrinas do filho, mas +esse mesmo signal de desgosto foi passageiro, e quando o procurador +acabou a sua estirada confidencia, em vez da indignação e do espanto, +com que esperava vêl-a acolhida, apenas escutou estas simples palavras, +pronunciadas com a maior fleugma: + +--E então que pensa d'isso, frei Januario? + +Lá de si para si o padre replicou á pergunta com a sua expressão +favorita de desapontamento--Lérias!--mas em voz alta não foi tão +expressivo, e respondeu em phrase mais parlamentar: + +--O que penso? Que hei de eu pensar? E v. exc.ª o que pensa? Eu por mim +penso que anda aqui febre liberal; o veneno já está no sangue. Tão +certo! Aquillo dá logo signal de si. Em elles principiando a cantar-me +ladainhas a S. Trabalho, eu digo logo com os meus botões: «Pois sim, +sim, estás arranjadinho.» O snr. D. Jorge conversou por ahi com algum +mação. Quem sabe? Alguns d'esses engenheiros que estão na estalagem do +Manco. Isto de engenheiros é gente que se não confessa; ou então são +coisas do hortelão, que eu não seja quem sou se ainda não ha de dar que +fallar n'esta casa; mas o certo é que lhe metteram na cabeça essas +caraminholas e se v. exc.ª não olha por isso, eu lhe protesto que dão +com o rapaz mação, o que é uma pena, porque é um bom rapazinho. Mas +quando elles me vem com as nobrezas do trabalho aos contos, torço-lhe +logo o nariz. + +--Parece-me que d'esta vez são sem fundamento os seus receios, frei +Januario. A final, pondo de parte alguma expressão menos sensata, e que +o verdor dos annos desculpa, as ideias do rapaz são razoaveis. + +--Razoaveis? + +--Pois porque não? Que quer elle? Occupar em alguma coisa o tempo, que +perde na ociosidade. Está cançado da vida de rapaz. É natural e é +louvavel. E em que quer elle empregal-o? No que ámanhã será constrangido +a fazer, com peior resultado; no que eu devêra ter feito na idade +d'elle; em trabalhar, em gerir os bens da sua casa. Mais vale então que +principie já, frei Januario, sob a guia dos seus conselhos, do que +tarde, ás cegas e sem uma pessoa de confiança a encaminhal-o. + +--Pois é verdade, mas... + +--Elle fallou-me n'isso ha pouco. + +--Ah! pois sempre fez o que disse?! + +--Fez, sim, e fez bem. Achei que o rapaz tinha pensado maduramente no +caso e dei-lhe a permissão que elle pediu. Era até o que eu tinha para +dizer-lhe. + +--Então, visto isso, de hoje em diante?... + +--De hoje em diante, Jorge se entenderá comsigo. O frei Januario precisa +de descançar tambem. + +--Eu ainda não estou cançado--resmungou o padre. + +--Espero que dará a meu filho todos os esclarecimentos de que elle +precise e todos os conselhos da sua muita experiencia. + +--Não seja essa a duvida; mas, na verdade... + +O relogio do corredor, batendo nove horas, cortou inesperadamente a +phrase ao egresso. + +Pelos modos a ceia ia tardando. + +--Com licença--disse elle, levantando-se--eu vou vêr como correm as +coisas na cozinha. + +Mas nos corredores murmurava comsigo, em tom aforismatico: + +--Não tem que vêr. Filho mação, pae idiota... casa perdida. + +Como frei Januario suspeitasse que ia encontrar o cozinheiro menos +attento no desempenho dos seus gravissimos deveres, dirigiu-se, pé ante +pé, á cozinha, a fim de surprendêl-o em flagrante. + +Ao avisinhar-se deu-lhe maior rebate ás suspeitas um acalorado travar de +vozes, que de lá vinha. + +Espreitou. A criadagem estava em congresso; orava o hortelão, o inimigo +irreconciliavel do padre; escutavam-n'o os outros boquiabertos, e mais +attento do que nenhum, o cozinheiro, que sentado em um banco baixo, com +uma perna atravessada sobre a outra e as mãos a segurarem o joelho, nem +ouvia o chiar das caçarolas, nem se lembrava da ceia. + +O padre fumou com a descoberta. + +O hortelão dizia: + +--Foi então que o imperador... oh aquillo é que era um homem!... foi +então que elle fez aquella falla que lá está toda na memoria do +Mindello, que foi onde nós desembarcamos, no dia 8 de julho de 1832, +alli pela tardinha. + +E o hortelão, tomando uns ares solemnes e endireitando o corpo, começou +recitando oratoriamente: + +--«Soldados! Aquellas praias são as do malfadado Portugal; alli, vossos +paes, mães, filhos, esposas, parentes e amigos, suspiram pela vossa +vinda e confiam... + +Era demais para a magnanimidade de frei Januario. A proclamação de D. +Pedro desafinava-lhe os nervos, sempre que a ouvia; o que não era poucas +vezes, graças ao enthusiasmo do hortelão. Cedendo pois ao seu animo +indignado, o padre rompeu pela cozinha dentro, exclamando: + +--Então que pouca vergonha é esta? O fidalgo á espera da ceia, e esta +sucia de mandriões aqui postos a ouvir as patranhas d'aquelle senhor! + +Os criados surprendidos ergueram-se em alvoroço e tomaram os seus +postos. O hortelão reagiu, como era seu costume. + +--Patranhas? Isso lá mais de vagar. Isto vi e ouvi eu, como o vejo e +ouço a vocemecê, e muito me honro em dizêl-o. Patranhas! Quem quizer, +póde lêr tudo isso nas gazêtas e muitas coisas mais. Eu fui soldado do +imperador e... + +--Está bom, está bom: pouco fallatorio. Você o que é, é hortelão; e o +logar dos hortelões não é na cozinha. + +--Lá se vamos a isso, tambem o do capellão não é ao pé das panellas, e +comtudo vocemecê póde dizer-se que não tem outro posto, onde esteja mais +firme. + +--Tenha cuidado com a lingua; olhe que um dia a paciencia esgota-se e +depois não se queixe. + +--Não se metta o snr. padre commigo, se não quer ouvir. Olhe que eu fui +soldado, e não é um frade que me leva a melhor. A vontade que elles nos +teem sei eu, que ainda me lembra de ver arder por os quatro cantos o +convento de S. Francisco, na noite de 24 para 25 de julho, e por pouco +que não morriam queimados todos os meus camaradas de caçadores 5. Hein? +que diz vocemecê áquella caridade? + +--Você não se quer calar? Eu direi ao snr. D. Luiz as conversas que você +tem aqui na cozinha e a maneira por que falla da religião e da igreja. + +--Quem fallou em tal? Eu em quem fallo é nos frades, que é coisa +differente. + +A desavença terminou com a subita sahida do padre, que perdia as +estribeiras n'estas luctas. A criadagem ficou rindo d'elle pelas costas, +e o hortelão passou a contar por miudo como tinha sido o caso do +incendio do convento dos Franciscanos. + +O padre, na presença do fidalgo, encetou a sua millionesima queixa +contra o jardineiro, e acabou por dar o millionesimo conselho da sua +immediata demissão. O fidalgo ouviu-o pela millionesima vez com o +silencio do costume. + +D'ahi a momentos estava o procurador aplacado..., porque ceiava. + +Á ceia assistia o fidalgo e os seus dois filhos. + +Ninguem fallou durante a refeição nocturna. O padre estava amuado, D. +Luiz pensativo, Jorge e Mauricio trocando olhares de intelligencia sobre +o aspecto carrancudo do padre. + +Ao erguer-se da mesa, D. Luiz disse para o filho mais velho: + +--O snr. frei Januario já está informado do que hoje se combinou. Ámanhã +elle que tenha a bondade de te dar os conselhos precisos. + +E depois de uma sêca «boa noite», D. Luiz sahiu da sala. + +Os filhos levantaram-se para tambem se retirarem. + +Jorge interrogou o padre: + +--A que horas quer que o procure ámanhã, snr. frei Januario? + +--A que horas?... Ah!... sim... isso... eu sei?... A coisa não é de +pressa... Se não fôr ámanhã... + +--Ha de ser ámanhã--atalhou Jorge. + +--Ha de ser! Essa é boa! Sabe lá da minha vida? Ha de ser! Tem graça. + +--Não lhe tirarei muito tempo. Socegue. Quero só que me passe os livros +e os papeis. + +--Os livros!... e os papeis... Mas para que? + +--Porque d'ámanhã em diante tomo conta d'elles. + +--Eu não me entendo com criancices. Na verdade o snr. D. Luiz fez-me o +que eu nunca esperei d'elle. É bem custoso receber tal paga no fim de +tantos annos de serviço! E então que patetices! Attender aos caprichos +de uma criança em coisas tão sérias como estas! E sabe que mais, snr. +Jorge? Eu não tenho vagar nem paciencia para me pôr agora a ensinar +meninos. + +Mauricio ia a responder, talvez com aspereza, mas Jorge atalhou-o, +dizendo: + +--Mas quem lhe falla em ensinar? Quem lhe pede lição ou conselho? + +--Então para que me procura ámanhã? + +--Para que me dê os livros e mais documentos relativos á gerencia da +casa, e me preste os esclarecimentos que eu lhe pedir. Não são perguntas +de discipulo... + +--Percebo o que quer dizer na sua, são de juiz. + +--Não. Quem o suppõe réo? Não, senhor. É apenas uma curta conferencia, +como o trocar da senha entre a guarda que se rende. + +--Então o snr. Jorge está seriamente resolvido a tomar conta d'isto? + +--Muito sériamente. + +--Sim, senhores. Ha de ser bonito! Mas isto é até um caso de +consciencia, e eu não sei se devo... + +--Aplaque os seus escrupulos, frei Januario. A responsabilidade de um +procurador expira no dia em que a procuração lhe é retirada pelo +constituinte. Até ámanhã. Não se esqueça de me apresentar todos os +livros da sua escripturação. + +--E elle ahi torna! Ora que scisma! Eu sei lá de livros e de +escripturação, homem? É boa! Isto não é nenhum armazem. + +--Então geria de cabeça, frei Januario?--perguntou Mauricio, rindo. + +--Geria, como entendia. Tomo os apontamentos precisos, mas lá de +parlapatices e espalhafatos é que nunca fui. + +--Bem; ámanhã examinaremos esses apontamentos; boa noite, frei +Januario--concluiu Jorge. + +--Snr. frei Januario, muito boa noite--secundou zombeteiramente +Mauricio. + +--Ide com nossa Senhora--murmurou o padre irritado. + +Os dois rapazes sahiram, rindo dos amuos do egresso. + +Este ficou só, e encetando um habitual complemento da sua substanciosa +ceia, ia resmungando: + +--Forte pancada a d'esta gente! Olhem agora o criançola... E como elle +falla?! Parece já um senhor que _todo lo manda_! Os livros! Era o que me +faltava! era ter livros para assentar contas com rendeiros e dividas da +casa. Bem digo eu! Mas deixa estar que eu curo-o da mania de metter o +nariz n'estas coisas. Dou-lhe uma esfrega ámanhã. Em elle vendo como a +casa está embrulhada, perde logo o furor com que está de a administrar. +Sempre lhe hei de fazer uma tal barafunda de papelada, que o rapazinho +ha de ir dizer ao papá que não quer saber de contas. Ora deixa estar! +Muito me hei de rir. Quando elle principiar a vêr o sarilho, em que isto +tudo está mettido, que nem eu sei já como sahir d'elle, então é que ha +de dar vivas, e gritar «aqui d'el-rei.» Ora deixa estar. + +E o padre ria, ria de boa feição, ao pensar no logro que havia de pregar +a Jorge, ria e comia o bom do homem, que era um gosto vêl-o. + +Depois foi deitar-se, e o somno de uma certa classe de bemaventurados +baixou-lhe sobre as palpebras, suave e restaurador. + +Jorge não dormiu, como o padre; velou até alta noite, lendo, calculando, +combinando planos economicos. Mauricio tambem dormiu pouco; pensou +igualmente no futuro, na revolução que ia operar-se na sua vida, mas de +um modo vago, sem ter ainda um plano formado, nem trabalhar para isso. +As mais variadas e brilhantes imagens passavam-lhe pela phantasia, sem +que se fixasse uma só d'ellas. Era um succeder de ideias tão rapido, que +parecia estonteal-o, como o illusorio movimento das margens perturba o +viajante novel arrebatado no convez velocissimo d'um barco a vapor. + +No dia seguinte teve logar a solemne conferencia do padre e de Jorge. + +Frei Januario tentou realisar a traça que com applauso proprio delineára +na vespera. Desdobrou em cima da mesa toda a papelada, amontuou, sem +classificação nem escolha, procurações, recibos, contas, contractos de +arrendamento, titulos de propriedades, escriptos de quitação com a +fazenda, e outros varios documentos, com intuito de assoberbar a +inexperiencia de Jorge e castigar-lhe as aspirações ambiciosas. + +Depois de ter assim patenteado aquelle cahos aos olhos do seu proposto +successor, o padre, encostando os braços á banca, apoiou o queixo entre +as mãos, posição em que a bôca repuxada lhe tomava um geito de +caricatura eminentemente comico, e ficou á espera do resultado das suas +manhas com um sorriso de malicia e triumpho. + +Jorge porém não desanimou. Com um rapido lançar de olhos julgava da +importancia dos papeis, que successivamente examinava, e assim os punha +de lado para segundo exame ou os guardava como vistos. + +Dentro em pouco tempo entrou a ordem no cahos, e Jorge passou a mais +minuciosa revista. + +Frei Januario já se sentia um tanto incommodado com o andamento que ia +vendo ás coisas, e insensivelmente foi tomando uma posição mais discreta +e fugiu-lhe do rosto o ar malicioso com que até alli observára Jorge. + +O peior não tinha principiado ainda. + +Jorge acompanhou o segundo exame, a que procedeu sobre os papeis de +importancia, de uma serie de perguntas, que embaraçaram sobre maneira o +padre. Reconheceu então que o filho de D. Luiz não era a criança que +elle suppozera, que via mais claro n'aquelles negocios do que elle +proprio, com toda a sua experiencia, e que a conferencia, na qual +esperava dar uma memoranda lição ao impertinente discipulo, podia muito +bem terminar com notavel desvantagem do mestre. + +Ao principio do fogo cerrado de questões e objecções, o padre tentou +entrincheirar-se atraz de evasivas, tractando o caso jovialmente, mas +teve de abandonar essa tactica, diante do tom e aspecto de seriedade +varonil, com que Jorge lhe insinuou: + +--Snr. frei Januario, eu não vim aqui para brincar, nem o assumpto da +nossa conversação é digno d'essas jovialidades. Sou um dos futuros +herdeiros d'esta casa e quero saber como ella tem sido administrada até +agora. + +O padre experimentou a arma da dignidade offendida. + +--Então quer dizer que desconfia de mim?... e instaura-me um processo? + +--Peço-lhe por favor que não venha com isso outra vez. Ninguem o accusa, +já lh'o disse. Peco-lhe só esclarecimentos sobre o passado, para poder +caminhar para diante. + +Frei Januario acabou por se convencer de que não havia fugir á +sabbatina. Não lhe foi suave tarefa aquella. + +Jorge pela primeira vez lhe fazia vêr os erros de officio que elle +commettêra, a imprudencia com que dirigira certos negocios, o desleixo +em que deixára outros, a illegalidade de certos actos, os riscos em que +puzera parte dos bens da casa. O padre suava, torcia-se, esfregava a +testa, entrava em explicações confusas d'onde com muito custo sahia, +titubiava, gemia, protestava, limpava os oculos, chamava em seu auxilio +céos e terra; mas tudo era inutil poeira de encontro á paciencia e +fleugma com que Jorge o interrogava ou lhe fazia qualquer observação +que, sem ser formulada como censura, feria no vivo a susceptibilidade do +padre. Em uma palavra, o resultado da conferencia foi exactamente o +opposto ao que frei Januario prognosticára. Quem d'elle sahiu atordoado, +desgostoso e disposto devéras a não querer saber mais da administração +da casa, foi o padre e não o rapaz. + +Frei Januario viu com espanto esboroar-se o edificio da sua experiencia, +em cuja solidez elle proprio tinha a ingenuidade de acreditar, ao +simples sôpro de uma criança. A impressão que lhe ficou d'este apertado +inquerito foi tal, que o pobre homem passou a sentir um entranhado mêdo +de Jorge, e a empallidecer só com a lembrança de uma scena como aquella. + +Sempre que Jorge lhe dirigia a palavra d'ahi por diante, já o padre +previa com terror uma interpellação e ficava nervoso! Muito mais se D. +Luiz estivesse presente. + +Assim pois, graças a estes mêdos, frei Januario em vez de tornar-se +vigilante em relação aos actos de Jorge, tractou de evital-o tanto, +quanto podia. + +O desgraçado persuadira-se de que tinha commettido tantas faltas na sua +administração, que o seu desejo era vêr passar já sobre ellas muitos +annos para desvanecer-lhes os vestigios. + +Jorge ficou pois completamente á vontade. D. Luiz, interrogando o +capellão, ouvira d'elle que Jorge estava habilitadissimo para +administrar a sua casa. Foi quanto bastou ao fidalgo para confiar +cegamente no filho e para annuir sem exame a todos os seus projectos, +como por tantos annos fizera aos do padre. + +Portanto, sem desconfiança de pessoa alguma, pôde Jorge combinar com +Thomé, em entrevistas nocturnas na Herdade, o seu plano de +administração. Thomé era n'estas coisas um prudente e avisado +conselheiro. Estudaram ambos a maneira de remediar muitas faltas +commettidas, entraram em correspondencia com o advogado do fazendeiro, +por causa de uma velha e importante demanda da casa; Jorge visitou todas +as suas terras, celebrou novos e mais vantajosos arrendamentos sempre +que pôde, e para estes primeiros actos levantou em segredo parte do +emprestimo agenciado por meio do capital e do credito de Thomé da Povoa. + +Causou espanto na terra a revolução administrativa da Casa Mourisca. Os +que mantinham vistas interesseiras sobre os bens do fidalgo e que, +movidos por ellas entravam em transacções com a casa, conceberam ao +principio lisongeiras esperanças, vendo que tinham a tractar com um moço +inexperiente. Cêdo porém se desenganaram, encontrando-o sempre cauteloso +e perspicaz, graças á intelligencia propria e aos conselhos do +previdente Thomé, que entrava em tudo sem ser visto nem suspeitado +sequer. + +As entrevistas de Jorge e do fazendeiro tinham sempre logar de noite, +como já dissemos. + +Jorge sahia de casa quando já todos dormiam menos Mauricio, unico que se +recolhia ainda mais tarde e que nem sequer sabia das sortidas do irmão. + +Thomé da Povoa esperava-o na Herdade, onde o rapaz entrava com o mesmo +mysterio, e ás vezes prolongavam-se até altas horas estes conciliabulos +economicos. + +N'elles, ambos aprendiam. Thomé abria a Jorge os thesoiros da sua muita +experiencia, e esclarecia-o com os conselhos dictados por um são juizo e +uma natural lucidez. Jorge, que já enriquecêra a sua bibliotheca de +novos livros e de periodicos de agricultura e de economia rural, fallava +a Thomé dos progressos e melhoramentos agricolas dos paizes +estrangeiros, e eram para vêr a attenção e o enthusiasmo com que o +lavrador o escutava. Com o animo arrojado e despido do cego e +supersticioso amor pelas praticas velhas, Thomé tomava nota de muitas +d'essas innovações, para as experimentar, praticando-as nas suas +proprias terras. Que bellos e grandiosos projectos de futura realisação +não planeavam elles, inspirados das maravilhas obtidas pela agricultura +nos paizes mais adiantados, onde é exercida por homens intelligentes e +instruidos! + +Passado pouco tempo Jorge gozava já na aldeia de uma fama de fino +administrador, que lhe grangeou os respeitos de todos os habitantes. + +Para esta boa fama concorreu uma circumstancia preparada ainda pelos +ressentimentos de frei Januario. + +Depois de destituido, e ainda para mais derrotado pelo estreito +inquerito de Jorge, e antes que conseguisse dominar completamente o seu +despeito, tentára o padre levantar ao rapaz uma nova difficuldade. + +Com esse intento convocou um dia todos os criados da casa e da lavoura, +que viviam das soldadas do fidalgo, ou melhor na esperança d'ellas, e +depois de os ter juntos, deu-lhes velhacamente a noticia de que, tendo +sido dispensado pelo snr. D. Luiz de continuar a gerir os negocios da +casa, não era d'ahi por diante responsavel pelo pagamento das soldadas +atrazadas nem das futuras; que esses negocios estavam agora ao cargo do +snr. D. Jorge e que se entendessem com elle, por quanto da sua parte +lavava as mãos de tudo. + +A estas palavras, levantou-se murmuração entre alguns criados, que não +tinham grande confiança no novo gerente e que reclamavam do padre o +pagamento das soldadas vencidas, dizendo que era elle o responsavel por +esses pagamentos, visto serem do tempo da sua administração. + +--Não quero saber de contos--insistia o padre.--Por feliz me dou eu em +me terem tirado dos hombros esta canceira. Os outros que se avenham como +puderem. + +A celeuma continuava, apesar da contrariedade do hortelão, que declarou +que pela sua parte estava satisfeito com a mudança, porque o snr. Jorge +era um rapaz de juizo e de brios, e, melhor do que ninguem, homem para +cumprir a sua palavra. + +Estavam as coisas n'estes termos, quando um facto imprevisto as +modificou. + +Foi o apparecimento de Jorge. + +A scena passára-se em uma sala contigua á do cartorio da casa, onde +desde pela manhã Jorge se encerrára a examinar uns papeis de +importancia. O padre suppunha-o fóra, e por isso promovêra aquella +reunião, prestes a tornar-se tumultuosa. Assim pôde Jorge ouvir tudo. + +Percebeu a necessidade de fazer cessar aquella scena escandalosa, e +terminal-a airosamente, embora á custa de algum sacrificio. N'esta +resolução levantou-se e abriu de par em par a porta pela qual +communicavam as duas salas. + +Assim que o viram, os criados emmudeceram. O padre julgou-se perdido. + +Jorge dirigiu-se placidamente áquelles. + +--Quando o snr. frei Januario lhes disse que me procurassem para serem +pagos do que se lhes deve, era melhor que o fizessem logo, e não +levantassem esse clamôr proprio de uma feira. Entrem, que eu aqui estou +para lhes fazer contas. + +E a um gesto imperioso de Jorge, os criados entraram timidos no +gabinete, occultando-se uns com os outros. + +--Entre tambem, frei Januario--disse Jorge ao padre, que procurava +retirar-se sorrateiramente da sala. + +O padre teve de obedecer, a seu pesar. + +Jorge sentou-se á mesa e principiou a interrogar os criados, um por um, +sobre a quantia que se lhes devia, e pagando-lh'a integralmente, depois +de obtida a informação. + +Assim os correu e satisfez a todos, á excepção do hortelão, que o estava +a observar calado e com os olhos humidos. + +Jorge voltou-se para elle e disse-lhe: + +--Estou que te fazia offensa, se te pagasse ao mesmo tempo que a estes +desconfiados. Tu és dos que esperam com esta garantia. + +E estendeu-lhe a mão francamente aberta. + +O hortelão quasi se precipitou para ella e apertou-a commovido nas suas. + +--Ó snr. Jorge! A maior paga que me póde dar é... não me pagar nunca. + +Movidos por esta scena, os outros criados vieram depositar na mesa outra +vez o dinheiro recebido. + +--Lá por isso... nós tambem esperamos... + +Jorge restituiu-lhes o dinheiro. + +--Não é necessario... Levem-n'o. + +E depois acrescentou: + +--As circumstancias actuaes da nossa casa obrigam-nos a fazer mudanças +no serviço. Temos de reduzir o numero dos criados de dentro e augmentar +os de lavoura. Por isso, vossês quatro, Francisco, Lourenço, Pedro e +Romão, podem procurar outra casa. Para nos servir bastam os outros dois. +Vossês, os de lavoura, ficam, se quizerem, e se tiverem parentes que +pretendam empregar-se aqui no mesmo serviço, mandem-nos ter commigo. E +agora podem ir. + +O tom em que foram ditas estas palavras excluia qualquer observação. +Sahiram todos. + +--Frei Januario--acrescentou Jorge, dirigindo-se ao padre, que estava +meio aparvalhado--podia fazer-me saber mais delicadamente esta divida de +casa. Apesar d'isso agradeço-lhe o ensejo que me deu de a pagar! + +O padre resmungou não sei o quê, e sahiu cada vez com mais medo de +Jorge. + +--Onde foi o diabo buscar já tanto dinheiro?--pensava elle.--Não póde +deixar de ser da maçonaria. + +O hortelão ficou só com Jorge. + +O pobre homem estava enthusiasmado com a honrosa distincção que +recebêra, e para manifestar o seu enthusiasmo passou a contar a Jorge +como é que se tinha dado o ataque do monte das Antas. + +Esta scena, divulgada em pouco tempo, concorreu, como dissemos, para +augmentar os creditos de Jorge em toda a aldeia. + + + + +VIII + + +Succederam muitos dias sem que na vida dos differentes personagens, que +já temos apresentado ao leitor, occorressem incidentes dignos de menção. + +Mauricio permanecia na aldeia, e vivia n'ella a mesma vida que até alli, +porque não se obtivera ainda da prima baroneza a resposta á carta de D. +Luiz. + +Apesar da energia com que vimos aquelle rapaz abraçar os nobres +projectos do irmão, exige a verdade que se diga que elle soffria com +demasiada resignação as delongas da empreza, na parte que lhe dizia +respeito, e continuava a distrahir-se como d'antes em passeios, caçadas +e aventuras galantes. Estava-lhe isto no caracter. + +Jorge, esse deitára-se de corpo e alma ao trabalho. Estudava no +gabinete, discutia nas conferencias com Thomé, e principiára já a +realisar reformas e melhoramentos, promettedores de vantagens futuras. + +Os capitaes agenciados pelo fazendeiro haviam já permittido libertar a +casa de muita usura e encetar em uma das melhores propriedades do antigo +morgado trabalhos agricolas mais activos e methodicos; viam-se já por lá +as enxadas e os arados revolverem a terra e desarreigarem as hervas +estereis; já se podava e enxertava nas vinhas e pomares quasi bravios, +aproveitavam-se as aguas, fertilisava-se o solo, sentia-se renascer +aquella natureza amortecida, como se entrasse na convalescença de uma +longa enfermidade. + +Frei Januario presenciava aquelles prodigios com espanto e despeito, +murmurando dos gastos loucos, em que o rapaz se mettia. + +--Muito havemos de rir a final--dizia elle.--Entradas de leão; agora as +sahidas... + +Não communicava porém as suas reflexões ao fidalgo, porque tinha mêdo de +Jorge. + +D. Luiz, que em um dos passeios que costumava dar a cavallo, acompanhado +de escudeiro, á distancia marcada pela velha pragmatica, teve occasião +de observar esses melhoramentos, sentiu um intimo prazer, sabendo que +aquella fazenda era agricultada por conta da casa. O fidalgo não +procurou informar-se dos meios pelos quaes Jorge chegára a realisar o +milagre. Cresceu a confiança no filho e de olhos fechados entregou-se a +ella. + +Não pararam aqui os trabalhos de Jorge. A casa, como já dissemos, +luctava, havia muito tempo, com um importante litigio, que podia decidir +do destino de quasi metade dos seus bens. Esta demanda, complicada e de +uma marcha morosissima, tomára ultimamente uma feição pouco favoravel +aos fidalgos da Casa Mourisca. + +Frei Januario já prevenira D. Luiz de que a considerasse perdida. + +Jorge, na revista a que procedeu nos archivos de familia, encontrou +documentos, a seu vêr importantes e até alli não aproveitados, por +incuria do padre-capellão. Mostrou-os a Thomé, que experiente n'estes +negocios como um verdadeiro lavrador do Minho, confirmou a valia do +achado, e ambos resolveram remettêl-os a um novo advogado, a quem se +entregou a direcção do litigio. + +Haviam pois sido bem encetados os trabalhos de Jorge. Longe ia ainda o +seu pensamento da realisação completa. O que havia por fazer era muito +mais do que o que estava feito, mas os principios animavam. + +Por este tempo porém sobreveio um acontecimento, que algum tanto +transtornou a face d'estes negocios. + +Recebeu-se na Herdade uma carta de Bertha. + +Preciso é porém dizermos algumas palavras a respeito de Bertha, antes de +a introduzirmos em scena; porque a leitora suspeita já que vae chegar a +final a heroina da historia; e a ausencia d'ella em sete capitulos +inteiros talvez não tenha já sido pouco estranhada. + +Bertha, segundo atraz fica dito, era a filha mais velha de Thomé. + +Nascida na época em que o fazendeiro não era ainda o homem abastado em +que depois se tornou, procuraram-lhe os paes bons padrinhos, para +assegurarem o futuro da pequena. + +Thomé obteve do fidalgo da Casa Mourisca a condescendencia de acompanhar +a criança á pia baptismal; Luiza, pela sua parte, solicitou e conseguiu +identico favor de uma senhora do Porto, para casa de quem ella por muito +tempo lavára, quando n'esse mister occupava a sua robusta juventude. + +A roda da fortuna, por uma das suas muito sabidas revoluções, alterou a +posição relativa de toda esta gente, durante o decurso dos primeiros +annos de Bertha. + +Já sabemos como, em virtude d'esta revolução, Thomé subiu gradual e +incessantemente, emquanto D. Luiz descia. O mesmo que a este ultimo +succedeu á tal senhora, cuja indole bondosa e timida não soube oppôr +estorvos ás prodigalidades de um irmão perdulario; vendo-se em +consequencia d'isso obrigada a sahir do Porto, onde vendeu tudo o que +tinha, para ir para Lisboa educar meninas. + +A primeira discipula que teve foi Bertha. Os paes sentiam ambições por a +filha e queriam dar-lhe a educação de uma senhora, aproveitando e +cultivando n'ella as boas disposições que já adquirira na convivencia +com os pequenos da Casa Mourisca, onde era recebida com affecto. Além +d'isso, outra e mais generosa intenção levou-os a darem aquelle passo. +Queriam concorrer para alliviar o infortunio da infeliz senhora, que +sempre na opulencia os auxiliára e estimára. Possuiam porém bastante +delicadeza para lhe offerecerem soccorros, sem um pretexto a coloril-os. +Pediram-lhe pois que tomasse conta da educação de Bertha, e assim, além +da mezada do costume, tinham o ensejo de fazerem valiosos presentes á +mestra, que percebia e apreciava com lagrimas a generosidade d'aquelle +proceder. + +Foi assim Bertha mandada educar para Lisboa, o que não provocou escassos +commentarios na aldeia, onde se disse que o Thomé da Herdade se +afidalgava, e que já não queria ter filhos lavradores. + +O senhor da Casa Mourisca não viu tambem com bons olhos aquelle passo de +Thomé, cujo engrandecimento havia já muito tempo que principiára a +incommodal-o. + +Bertha, que fôra até então a companheira de brinquedos dos meninos da +Casa Mourisca e de Beatriz, a pallida e meiga criança, que temos visto +viver ainda na memoria de quantos a amaram, deixou a aldeia uma +madrugada com lagrimas e soluços. + +Desde então conservou-se em Lisboa, onde só o pae a foi vêr, por duas +vezes, deixando-a inteiramente entregue aos cuidados da senhora, que lhe +ganhára affeição, cada vez mais funda. + +Bertha crescêra; as graças infantis foram a pouco e pouco perdendo +n'ella aquellas illuminadas cores com que nos alegram e, diluindo-se nas +mysteriosas sombras de uma juventude de mulher, sombras que não empanam +a belleza, antes lhe dão mais e mais seductor relêvo. Bertha não era já +a criança que sahira da aldeia, sem um pensamento que retivesse, sem um +sorriso que encobrisse, sem um olhar que se desviasse pensativo ou +timido, sem uma dôr que se não manifestasse em lagrimas; era já a virgem +de dezoito annos, sob a influencia da vida nascente do coração, e +portanto sujeita a todas as subtis impressões, dominada por todos os +impulsos contradictorios e por todas as indefinidas aspirações d'aquella +quadra magica. + +A vida das cidades, sem lhe dar a morbida languidez, que tão sem razão +anda confundida com a elegancia, apurára-lhe a delicadeza feminina, +desenvolvêra-lhe a sensibilidade para os affectos e a intelligencia para +os prazeres do espirito. + +Mas o que em Bertha sobre tudo havia mais digno de referir-se aqui, por +ser menos commum phenomeno do que esses que descrevemos, era a +permanencia de uma razão clara no meio dos attractivos e seducções, com +que a phantasia tantas vezes, em circumstancias taes, a offusca. Gozava, +mas sem embriaguez; sentia, mas sem arroubamentos; e, apreciando as +prendas de educação que ia adquirindo, nunca perdia de vista a modestia +do seu nascimento e a modestia do futuro que naturalmente devia ser o +seu. Se tinha sonhos de juventude... e quem os não tem n'aquella idade? +sabia que sonhava e não se distrahia a procurar no mundo real as visões, +que n'elles lhe appareciam. + +A lembrança da sua origem modesta não a fazia melancolica, mas prudente. +Não era aquella ideia uma sombra negra, que não lhe deixava vêr a luz; +simplesmente um como crystal córado, que lhe permittia fital-a, sem mêdo +de offuscação e cegueira. + +Assim, no meio das suas effusões, das suas melancolias e até dos seus +pequenos caprichos de rapariga, Bertha nunca deixava de ser uma rapariga +de juizo. + +A educação de collegio não produzira n'ella a adocicada pedantaria de +algumas meninas da moda. Nas cartas, que escrevia aos paes, nunca se lia +uma phrase que elles não entendessem, uma palavra que os embaraçasse e +lhes fizesse sentir a inferioridade da sua educação. Revelava-se n'isto +um natural instincto de delicadeza, que Thomé, por um instincto analogo, +sabia apreciar. + +Sentia que Bertha nunca se envergonharia de chamar a elle pae e mãe á +boa Luiza, e esta convicção não o deixava arrepender de a haver educado +com esmero. Pobre do homem se esses cuidados lhe tivessem alienado os +affectos da rapariga! + +As cartas de Bertha eram escriptas de fórma, que não sómente aos paes +agradavam, mas a quantos as liam. + +Thomé mostrara-as a Jorge, e este não pôde deixar de apreciar a redacção +singela e despretenciosa em que parecia reflectir-se a candura e pureza +d'aquelle caracter de mulher. Havia n'ellas uma maneira de pensar tão +acertada, vistas tão despidas de preconceitos, tanto sentimento revelado +com tanta sobriedade de phrases sentimentaes, que são o maior achaque +nas cartas de mulher; transpareciam tão distinctamente os suaves e +generosos instinctos da sua alma feminina, que o espirito de Jorge +sympathisou naturalmente com aquelle outro espirito que, n'essas +ligeiras manifestações, se revelava tão irmão seu. + +A pouco e pouco uma d'estas sympathias, que ás vezes se originam no +coração, lentas, brandas, ignoradas, sem a agudeza das paixões, +despertadas por um ente, de quem apenas se conhece o nome, ou quando +muito uma feição, um acto da vida, um pensamento, insinuou-se no coração +de Jorge. Era um sentimento, que não o inquietava ao principio, nem lhe +perturbava o espirito, por isso não se acautelou d'elle; deixou-se +repassar d'aquelle grato influxo, sem se lembrar sequer de lhe estudar a +natureza, e muito menos de suspeitar-lhe os perigos. + +Um dia mostrou-lhe Thomé o retrato da filha. Jorge encontrou n'elle as +feições que conhecêra infantis, animadas agora pela vida da +adolescencia. Pareceu-lhe não haver contradicção entre aquella +physionomia e o caracter que suppozera a Bertha; e a imagem da rapariga +começou a apparecer-lhe com insistencia nos seus devaneios de rapaz. + +Jorge então assustou-se. Sentia pela primeira vez alguma coisa em si, de +que a razão lhe não dava boas contas. Pareceu-lhe ser aquillo uma +fraqueza, indigna do seu caracter serio, e resolveu pois vencêl-a. + +Desde esse momento principiou uma estranha lucta n'aquella alma, sem que +apparecessem fóra vestigios que a denunciassem. Sentia um inexprimivel +prazer ao ouvir fallar de Bertha; e por isso mesmo fugia aos ensejos de +experimental-o. Esta contenção forçada acabou por produzir no espirito +de Jorge um effeito singular; foi um grau de irritação, revelado em uma +especie de hostilidade para com Bertha, cuja imagem viera perturbar-lhe +a limpidez de coração, que tivera até alli, e fazer-lhe pela primeira +vez vacillar a razão, que todos n'elle admiravam. Era o caso de poder +dizer-se, em estylo de conceitos: «queria-lhe mal por lhe querer bem.» +Receiava-se d'ella, e fazia o possivel para desvanecer a impressão por +que se sentia dominado. + +Taes são as indicações que julgamos dever dar a respeito de Bertha, +antes de narrarmos o effeito da carta, que d'ella se recebeu na Herdade. + +Esta não era uma simples carta de cumprimentos ou d'aquellas, em que a +filha se estendia em longas conversas com o pae, contando-lhe por miudo +os singelos episodios da sua vida de rapariga. D'esta vez havia n'ella +uma nova importante e que ia modificar o plano de vida da familia. + +A senhora, em casa de quem Bertha se educava, havia repentinamente +fallecido. + +Bertha escrevia assim ao pae: + + + «Meu querido pae. + + «Escrevo-lhe a chorar e com o coração a partir-se-me de dôr. A minha + madrinha falleceu esta madrugada. Ainda hontem à noite esteve a + conversar e a rir comnosco, e tinhamos até combinado para hoje um + passeio a Cintra! De madrugada foram acordar-me a toda a pressa para + ir ter com a senhora, que estava mal. Cheguei para a vêr expirar; + custou-lhe já a dar-me um beijo e a despedir-se de mim. Imagine como + estou! Nós todas ficamos como loucas! Ainda isto me parece um sonho! + Veja que malfadada senhora! Agora que principiava a viver outra vez + mais feliz!... Peço-lhe que me diga o que devo fazer n'este caso. Eu + sei que o pae já uma vez fallou em mandar-me para outro colegio, se + por acaso me faltasse a minha madrinha. Deixe-me porém lembrar-lhe + algumas coisas, e depois decida. Eu não quero dizer que tenha uma + educação perfeita; mas, como não conto, nem desejo, viver nas salas + d'aqui, posso bem passar sem esses apuros, que para isso me seriam + precisos. Muito tem já o pae feito por mim; é preciso agora olhar + por meus irmãos, e alguns estão em idade em que ainda podem + agradecer-me alguns serviços, que eu ahi consiga fazer-lhes. + Mande-me ir. A mãe deve ter muito trabalho em olhar por tudo em + casa. É tempo que eu a ajude em alguma coisa. Aos dezoito annos é + uma vergonha não o fazer. É uma parte da minha educação que posso + concluir ahi e que me será bem necessaria. Demais confesso-lhe que, + depois da morte de minha madrinha, havia de custar-me a continuar em + Lisboa. Peço-lhe pois que me deixe ir viver comsigo e matar as + saudades, que já tenho de todos e de tudo. + + Muitas lembranças á mãe, muitos beijos aos pequenos. + + Sua filha, que espera muito cêdo abraçal-o, + + _Bertha_. + + P.S. Que não esqueça dar muitos recados á Joanna, ao Manoel da Costa + e á filha, assim como á tia Euzebia e ás mais pessoas amigas.» + +Thomé leu á mulher a carta da filha, e entre ambos discutiram o partido +que conviria adoptar. + +Saudades maternas e paternas, desejos de vêr de perto e abraçar a filha +dilecta e primogenita, que havia tanto tempo lhes andava longe das +vistas, o sonhado prazer de a sentir, animando a casa com todo o calor +de vida que em torno de si diffunde uma rapariga de dezoito annos, +resolveram a questão no sentido indicado por Bertha; e para assim a +resolver, quasi bastava que ella o indicasse. + +Decidiu-se pois que Bertha voltasse para a Herdade. + +D'ahi os necessarios preparativos para a accommodação da filha, cujos +habitos, modificados pela vida da cidade, deviam ter exigencias, a que +era justo attender. + +O instincto materno adivinhava melhor do que era d'esperar essas miudas +necessidades, e a liberalidade paterna provia a ellas. E tudo isto +preoccupava o feliz casal, cujo contentamento se reflectia em criados e +jornaleiros. + +Jorge encontrou uma noite Thomé ainda empenhado n'esta labutação +caseira, e soube d'elle a causa de tanto alvoroço. + +O filho mais velho de D. Luiz ouviu com sobresalto a noticia. + +Parecia prever a aproximação d'um perigo, que mal ousava definir. + +Dissimulou comtudo o que sentia, e deu a Thomé e a Luiza os parabens +pela proxima chegada da filha, e até os auxiliou com o seu alvitre na +resolução de algumas difficuldades, relativas ao arranjo do gabinete +destinado a Bertha. + +Sahiu porém da Herdade debaixo de estranhas impressões moraes. +Experimentava um mixto de mal definido prazer e ao mesmo tempo de +desgosto. + +Thomé resolvêra ir elle proprio a Lisboa buscar a filha. + +Interromperam-se pois, durante alguns dias, as conferencias economicas +da Herdade. + +A demora de Thomé não foi longa. + +Pouco mais de oito dias passados, era elle de volta com a Bertha. + +Uma tarde vinha Mauricio a cavallo de uma excursão pelos campos, quando, +ao descer por entre os pinheiros de uma bouça cerrada, viu passar, em um +curto lanço de estrada, que as entreabertas do arvoredo deixavam +patentes, o vulto de dois cavalleiros. + +Attrahiram-lhe naturalmente a attenção e esperou, para melhor os +reconhecer, que chegassem a outro lanço mais proximo e mais descoberto +da estrada que seguiam. + +De facto, pouco depois viu que eram um homem e uma senhora, que +cavalgavam a par. + +No homem reconheceu Thomé; a senhora pareceu-lhe nova e elegante. + +Em resultado d'esta dupla descoberta dirigiu o cavallo immediatamente +para elles. + +Perto principiou a divisar na dama, que Thomé acompanhava, feições +conhecidas. + +Antes porém que esclarecesse a vaga ideia que aquellas feições lhe iam +suscitando, o fazendeiro exclamou, saudando-o com a mão: + +--Venha dar-me aqui os parabens, snr. Mauricio; venha cá, que me volta +ao pombal uma pomba que deixei sahir d'elle ha muito tempo. + +Mauricio acabou por corroborar a suspeita que já tivera. + +Era Bertha a amazona. + +Bertha, a pequena aldeã com quem brincára em criança no pateo e na +quinta da Casa Mourisca, a companheira de sua irmã Beatriz, a afilhada +de seu pae e a pequenina dama, a quem dedicava já então os seus +galanteios infantis; era ella, mas com todas as surprendentes e rapidas +transformações que opéra o sangue da juventude na formosura de criança, +com todo o realce e prestigio que dá á belleza a educação. + +Bertha era uma rapariga de olhos negros e de bôca graciosa, onde +fluctuava um sorriso expressivo ao mesmo tempo de alegria e de bondade. +Havia nos movimentos, nos olhares e nos modos d'ella um mixto da candura +de uma criança e dos delicados instinctos da mulher; reconhecia-se a +falta de dissimulação, que é propria dos caracteres generosos, e ao +mesmo tempo uma natural dignidade, que impõe respeito aos menos +reverentes. + +Mauricio sentia-se maravilhado diante da filha de Thomé. + +--Bertha!--exclamou elle, sem disfarçar a sua surpreza, nem desviar os +olhos da rapariga, que o saudára córando.--E é certo que é Bertha! +Conheço ainda o sorriso, que é o mesmo de outros tempos. Mas que +differença em tudo o mais! + +Bertha desviou os olhos sob a insistencia e expressão dos de Mauricio, e +dominando a custo a commoção conseguiu dizer: + +--Fiz-me mais velha, não é verdade? + +--Não, Bertha, fez-se um anjo--acudiu Mauricio. + +--Isso é que não--atalhou Thomé--anjo era d'antes. Hoje já não +repicariam os sinos, se ella morresse. + +--A terra teria bem razão para lamentar-se. Ao céo é que competiriam as +festas--atalhou, galanteando, Mauricio. + +--Tambem eu encontro mudança em si, snr. Mauricio--observou +Bertha.--Quando o deixei, não dizia ainda d'essas coisas. + +E a mesma intima turbação tirava-lhe ainda a firmeza á voz e ao olhar. + +--Porque não as sentia, Bertha--redarguiu Mauricio. + +Bertha abanou a cabeça com ar de duvida e quasi de tristeza, e tornou +sobresaltada: + +--Parece-me que os que melhor dizem d'essas coisas são os que menos +sentem. + +--Tambem lhe ensinaram a desconfiar, Bertha? + +--É tão facil ensino! Cada um aprende por si. + +--Vamos--interrompeu Thomé--nada de estar parados no meio da estrada. +Lembra-te, Bertha, de que tua mãe a estas horas não faz outra coisa mais +do que espreitar da janella a vêr se te vê chegar. + +--Vamos lá. + +Mauricio dirigiu o cavallo para o lado do de Bertha, que cavalgava assim +entre o fidalgo e o pae. + +--Que saudades me estão fazendo estes sitios!--dizia Bertha, suspirando +e emquanto corria a vista pelo horisonte, que a rodeava.--Tudo me é tão +conhecido ainda! + +--Lembra-se d'aquelles freixos, lá em baixo, ao descer para os Palheiros +Queimados?--perguntou Mauricio, apontando para o logar que designava. + +--Bem sei. É onde está a fonte da Moira. + +--E aonde nós um dia fomos com a Anna do Védor colher agriões. Está +certa? + +--É verdade. E por signal que nos sahiu da quinta do Emigrado um cão +grande que lá havia, e que se atirou a mim com uma furia! + +--E não se lembra de quem lhe acudiu? + +--Sim, foi o snr. Mauricio, mas tambem lhe valeu a Anna do Védor, que se +não fosse ella, vamos, não sei o que seria. + +--Ainda assim não impediu que o endiabrado me mordesse no pulso; ainda +conservo a cicatriz. Olhe. + +E Mauricio mostrou o pulso a Bertha, que se curvou para observar o +vestigio d'aquelle episodio de infancia. + +--É verdade--proseguiu Bertha, já mais á vontade--e a boa ti'Anna do +Védor? que tanto lhes queria, a si e ao snr. Jorge? Sei que vive; mas +ainda é o que era d'antes? alegre, robusta, franca?... + +--Quem? a ti'Anna?!--acudiu Thomé--verás, Bertha, que ainda te parece +mais nova. Aquillo é que é mulher de casa! É um gosto vêl-a, no meio dos +campos, de mangas arregaçadas e chapéo de palha na cabeça e de enxada ou +mangoal na mão. O seu trabalho vale por o de dois homens. Pois n'uma +eira? + +N'este ponto Thomé deu um assobio, que exprimia a grande conta em que +tinha o trabalho de Anna do Védor. + +--O filho está regedor. + +--É uma boa e generosa alma--tornou Mauricio, com uma expressão de +sincera sympatia.--E quer-nos como a filhos. + +--Isso quer--confirmou Thomé--quando falla nos seus meninos que trouxe +ao collo e que sustentou com o seu leite, luzem-lhe os olhos. + +--E tambem me ralha com uma severidade! + +--Vamos, que ella bem sabe porque o faz. Então pensa que não lhe merece +ainda mais? + +--Não digo que não. Só me queixo de certa parcialidade que manifesta por +Jorge. + +--E como vae o snr. Jorge?--perguntou Bertha. + +--Muito bem. Fez-se caixeiro. Não sabe? Atirou-se aos livros e á +papelada da casa, como um homem, e já não ha de tirar-lhe palavra que +não seja de contas e de negocios. + +--E é um homem ás direitas--disse Thomé, com gravidade. + +--Pois sim, mas podia distrahir-se mais um bocado. Mas então? Deu-lhe +Deus aquelle genio frio como gêlo!... + +--Eu não sei lá se é frio ou se é quente. O que sei é que é um rapaz de +juizo e que, se continuar assim, ha de remediar muita doudice, antiga e +moderna, que ha lá por casa. + +--A moderna é commigo, aposto. Não tem razão. Eu tambem estou decidido a +trabalhar. Se ainda aqui me vê, a culpa não é minha. + +--Então vae partir?--perguntou Bertha. + +--Que remedio, Bertha? Cumpro uma dura lei. Deixo o coração por aqui, +acredite; por esses valles, por essas devezas, por essas ribeiras... Mas +que lhe hei de fazer? + +--E para onde vae? + +--Eu sei? Para onde me levar o destino. Mas o Thomé ri-se! Seu pae +ri-se, Bertha! + +--Rio-me da lamuria. Quem o ouvir, ha de acreditar que elle parte +devéras e que lhe custa immenso a partida. + +--E então? + +--A mim já me custa a crêr que o snr. Mauricio nos deixe; mas, a isso +succeder, não ha de ser a chorar que arranjará as malas. + +--É injusto com o meu coração. É o que se segue. + +--Não, senhor; não sou; mas sei o que é ter vinte annos, e sei o que é +essa cabeça. E agora o nosso caminho é por aqui. O snr. Mauricio, se +quizer dar-nos o prazer da sua companhia, tem no fim d'esta rua uma casa +para o receber, senão... + +--Agradecido, Thomé. Outro dia será. Não quero perturbar com a minha +presença as alegrias de familia. Adeus, Bertha, continuaremos a ser os +amigos que eramos d'antes, não é verdade? + +--Porque não, Mauricio... snr. Mauricio? + +E Bertha, com um sorriso de generosa confiança, estendeu a pequena e +delicada mão á que Mauricio lhe offerecia. + +Este, com uma galanteria, que o seculo actual traz quasi esquecida, +levou-a cavalheirosamente aos labios, movimento que augmentou as côres +nas faces de Bertha; depois, cortejando-a com perfeita elegancia, partiu +a galope. + +Bertha seguiu-o por muito tempo com os olhos e ficou pensativa, depois +que o perdeu de vista. + +Thomé, que notára tudo isto, não deixou passar muito tempo que não +admoestasse a filha. + +--Olha cá, Bertha, tem cautela com o teu coração, que não vá elle por +ahi deixar-se prender. Eu não sei como é costume viver-se hoje lá na +cidade, mas aqui sei o que vae. Eu te digo, não ponhas muita confiança +n'estas amizades de Mauricio. Não digo que elle seja mau rapaz, mas a +cabeça é que é assim não sei como. E n'isso mesmo é que está o perigo. +Aqui ha poucos rapazes que agradem mais do que elle; é bem feito, vivo, +esperto, generoso... Na tua idade, e com a educação que tens, não era +para admirar que te agradasses de um rapaz assim. Mas, pensa emquanto é +tempo, filha, no mal que a ti propria fazias, se estouvadamente te +deixavas enfeitiçar. Elles são os fidalgos que sabes, e mais fidalgos +ainda se julgam do que são. Tu, rapariga, és minha filha, e eu sou um +lavrador, que já servi n'aquella casa. Entendes? Ó Bertha, por quem és, +não me faças arrepender da educação que te dei. Porque eu, ás vezes, +tenho minhas duvidas. Digo eu commigo: «Faria eu bem em educar minha +filha assim? Se a tivesse deixado viver na aldeia e a creasse como filha +de lavrador, dava-lhe um marido lavrador, e ella havia de estimal-o e de +ser feliz com elle, e de olhar com amor pelos filhos descalços, que lhe +andassem pelos campos e apegados á saia de baêta; mas assim... Quem +poderá costumal-a a isso? Mas que outro marido póde ella escolher?» + +Bertha escutou o pae com um sorriso nos labios, mas sorriso que não +annullava a expressão melancolica e pensativa, que conservavam o resto +das feições. Mais de uma vez se perturbou ao ouvil-o, mas cêdo adquiriu +a serenidade habitual. + +N'este ponto atalhou-o, dizendo: + +--São prudentes os conselhos que me dá. Farei por não os esquecer. Mas +não se inquiete pela minha sorte. Nunca me deixei illudir pelos bens que +a sua bondade me teem permittido gozar na vida; não perdi de vista o que +sou. Sei ao que devo aspirar, e farei por não collocar a felicidade +muito acima do alcance de meu braço. Na amizade de Mauricio creio que +não haverá perigos para mim; mas se os houver, hei de saber fugir-lhes. +Foram meus companheiros, quando brincavamos todos n'aquella casa; +quero-lhes por isso, mas sei o que d'elles me separa. + +--Lá de Jorge nada temas. É um caracter serio aquelle. Se disser que é +teu amigo, é teu amigo devéras; senão, não t'o diria; mas este... + +--Jorge é ainda o que sempre foi. Já em criança era o mesmo. Sempre tão +serio! + +--Agora ainda mais. Elle hoje não pensa senão nos negocios da casa, que +tomou a seu cuidado e que levará a bom fim. Creio-o. Vem quasi todas as +noites a nossa casa; vem de noite por causa do pae, porque o velho não +tem cura, a querer-me mal. + +--Sim?! Mas que pena! + +--Deixal-o lá, que eu em vingança hei de fazer-lhe o bem que puder. + +Poucos momentos depois chegavam a casa o pae e a filha; esta foi +recebida nos braços da boa Luiza, que a devorou com beijos e a banhou de +lagrimas generosas; os irmãos pequenos olhavam espantados para Bertha +que não conheciam, e cujas maneiras de senhora estranhavam. Os criados +felicitavam-n'a tirando o chapéo e murmurando phrases incompletas. + +Bertha no meio d'aquella effusão, d'aquelle cordial acolhimento, +d'aquelle renascer dos dias passados e despertar de memorias queridas, +sentia-se feliz. + +Debalde Thomé, um dos mais folgados corações alli presentes, bradava que +era tempo de pôr termo á festa, que cada um tinha a sua vida a tractar, +e que Bertha precisava de descanço; os abraços succediam-se, os beijos +estalavam, as perguntas cruzavam-se e interrompiam as respostas em meio. + +Prolongou-se por muito tempo aquelle grato alvoroço, que produz a +chegada de uma pessoa querida. A ordem, a etiqueta, os costumes, tudo +esquece; a manifestação é ruidosa, irresistivel, desordenada, anarchica. +Sómente quando principia a acalmar-se este agradavel delirio de alma, é +que se repara nas irregularidades da scena, e que se remedeiam. + +Succedeu d'esta vez que só passada meia hora Luiza notou que tinham +estado tanto tempo no quinteiro, quando os esperava a sala que ella de +proposito e tão anticipadamente preparára para a recepção. + +A familia recolheu-se então, principiou mais regular e ordenada conversa +entre mãe e filha, e prolongou-se até tarde. + +Thomé foi n'esse dia pouco vigilante nos campos e mais caseiro do que +era seu costume. + +Foram momentos festivos para a Herdade, d'estes que é inutil descrever, +porque não ha expressões que bem traduzam o que se sente então. +Suppram-n'as as recordações do leitor; e muito sem conforto deve ter +sido o seu passado, se não lhe dá elementos para conceber alegrias +d'estas. + + + + +IX + + +Duram pouco as effusões, dissipa-se em breve o enthusiasmo dos primeiros +instantes, em que tornamos a vêr scenas e pessoas conhecidas, de que por +muito tempo vivemos separados. A alma, de subito agitada, readquire +gradualmente a serenidade do costume; e o coração, que julgava saciar +emfim a ancia de mal definidos gozos em que continuamente vive, conhece +que ainda não chegou essa hora; porque o invadem de novo as mesmas vagas +e inquietadoras aspirações que sentia. + +É grande a alegria do regresso, mas rapidos os momentos, em que se +experimenta na sua intensidade. Chegou-se de longe a phantasiar um +prazer perduravel, sem fim e, apoz as primeiras e irreprimiveis +expansões, desvanece-se a illusão em que se vinha; como sempre, como em +toda a parte, o vazio sente-se no coração, que nenhum gozo enche, e ahi +se volta a aspirar sem saber a quê, e a aguardar uma nova aurora sem +saber d'onde. + +Quando, á noite, Bertha se retirou emfim ao seu antigo quarto, havia já +satisfeito a sêde de affectos e de saudades, que a devorava, ao chegar. + +O coração batia-lhe com o rithmo normal, habituára-se de novo a sua +sensibilidade aos objectos que lhe foram familiares na infancia; da +impressão que o primeiro olhar que lançou sobre elles lhe produzira, já +nem indicios restavam. + +O passado, resuscitando, perdêra já o prestigio e a poesia, que só como +passado tem. + +Ó feiticeiras fadas, que nos acompanhaes quando por longe andamos, +devorados de saudades, a lembrar-nos da terra em que nascemos, porque +tão depressa nos abandonaes á chegada? Porque dissipaes os vapores +inebriantes de que rodeaveis aquellas imagens aos nossos olhos +fascinados, e nos fazeis vêr a realidade como a viamos d'antes? + +Bertha, só no remanso e solidão do seu quarto, sentiu uma profunda +melancolia tomar-lhe o coração. Os cuidados e disvelos de Thomé e de +Luiza não tinham sido sufficientes para transformar completamente +aquelle aposento em um d'esses recintos, perfumados e graciosos, em que +respira, como em atmosphera propria, uma mulher delicada. + +A este desconforto relativo não podia ser de todo insensivel a +organisação feminil de Bertha. + +Sem que ella propria tivesse consciencia do que lhe produzia esse +effeito, sentia-se com uma disposição para lagrimas, que a surprendia. + +O socego da hora, o silencio do campo, apenas cortado por uns +indistinctos murmurios, que são o mysterio das noites campestres, +conspiravam para augmentar-lhe esta melancolia. + +Ha horas assim, em que parece que sentimos confranger-se dentro de nós o +coração, e o futuro escurecer e contrahir-se o circulo que nos abrange a +existencia, como um horizonte, que as nuvens pesadas da tempestade +estreitam cada vez mais a suffocar-nos. + +Não accusem Bertha por esta inexplicavel tristeza que lhe invadiu o +coração na propria noite, em que voltára á casa paterna. Não duvidem por +isso dos affectos d'aquella amoravel indole de mulher. + +Nem todas as almas nascem dotadas da commoda flexibilidade com que +algumas a tudo se amoldam. Ha-as tão delicadas, que a menor mudança +resentem. + +Os corações que se prendem depressa com raizes onde se demoram, são os +que mais soffrem nos primeiros momentos de uma transplantação. + +Não era isto em Bertha pezar por ser tão modesta a casa dos seus paes; a +sua tristeza era mais de instincto que de razão. E pelas impressões que +vem do instincto, ninguem é responsavel; só á razão ha direito de pedir +contas, e a de Bertha não recearia prestal-as. + +Como para fugir á estranha melancolia que a dominava, Bertha chegou á +janella do quarto, que deitava para os campos. + +Ha uma mysteriosa solemnidade no espectaculo que de noite, e noite de +pouca luz, se goza assim de uma janella aberta, no campo. Ha fóra um +silencio que amedronta, uma escura vastidão que apavora, silencio que ás +vezes interrompe o rastejar furtivo de um reptil, o cahir de uma folha, +e não sei que outros ruidos vagos; escuridão, onde parece distinguir-se +o movimento de umas fórmas estranhas e monstruosas. + +Se vos demoraes silenciosos n'essa contemplação por algum tempo, já não +a interrompereis por uma palavra, por um movimento, sem que essa +interrupção vos sobresalte ou intimide quasi. Estremecereis ao ouvir-vos +no meio d'aquelle silencio. Instinctivamente falla-se baixo. Parece que +aquella paz, que aquella quietação, que aquella treva nos absorve, que +nos domina, que nos attrahe e que de alguma maneira nos faz parte +integrante de si mesma. + +Opera-se em nós uma quasi magnetisação. Adormece a sensibilidade que nos +revela o mundo exterior; exalta-se o espirito; e o ruido, que nos acorda +d'este sonho, faz-nos estremecer. E o que se pensa calado n'esses +momentos, Sancto Deus! Como a imaginação vagueia, como parece que +d'aquellas confusas sombras, que temos diante de nós, nos surjem as +memorias do passado e veem, em silencioso vôo, adejar sobre as nossas +cabeças e estontear-nos com as suas rapidas e vertiginosas voltas. + +O passado de Bertha era uma singela historia dos mais innocentes +affectos. Não havia n'ella a intensa luz dos amores, apenas o debil +clarão da aurora que os precede, essa mysteriosa vibração de alma, que +sente nascer em si faculdades novas. + +Eram pois imagens apraziveis as que n'aquelle momento lhe appareciam. + +Entre ellas a mais persistente era a da sua pobre amiga Beatriz, a +delicada criança, que parecia ter vivido sómente para semear de saudades +o coração de quantos a conheceram. + +Reviviam para Bertha n'aquella hora todas as scenas da infancia passadas +com ella; os jogos, os folgares e até as lagrimas, choradas em commum. + +Que tempos! + +E ao lado da meiga e pallida figura de Beatriz surgiam as das outras +duas crianças, seus irmãos. Via o rosto infantil de Jorge, no qual já +então havia uns assomos da seriedade do seu caracter futuro; lembrava-se +Bertha das vezes em que elle tomava um ar grave para admoestar ou +reprehender os seus mais turbulentos companheiros, e do respeito que +todos lhe tinham, e do muito em que estimavam a sua opinião; e a +contrastar com esta serena imagem, esboçava-se a do inquieto, vivo e +estouvado Mauricio, criança prompta nos risos e no chôro, violenta nas +expansões, tão amoravel como colerica, e em cujo coração infantil +ferviam já nascentes as paixões de homem. Era esta talvez de todas a +imagem que avultava mais distincta nas recordações de Bertha. Que de +episodios em que ella recebia a luz principal do quadro! Dos dois irmãos +fôra este o predilecto; o seu coração de criança abrira-se mais á +franqueza de Mauricio, do que á seriedade de Jorge; havia no olhar +d'este uma expressão grave que a intimidava. Depois a differença da +idade concorria para augmentar esse effeito. + +E Bertha, pensando n'isto tudo, erguia os olhos para o vulto da Casa +Mourisca, onde se tinham passado aquellas alegres scenas. + +Era escuro todo elle, e parecia alli posto, como um d'estes monstros +enormes, que guardavam os jardins encantados. + +De repente o monstro abriu um olho. + +Appareceu uma luz em uma das torres do palacio. + +Era a unica que divisava em toda aquella escuridão. + +Bertha não pôde mais desviar os olhos d'ella. + +De quando em quando, desapparecia momentaneamente a luz, como se alguem +passeiasse diante. Depois fixou-se, e sómente mais de espaço a espaço se +eclipsava, para surgir mais viva. + +Tudo parecia indicar que se velava alli dentro. + +--Será o snr. D. Luiz?--perguntava a si mesmo Bertha, observando a +luz.--Em que pensará elle a estas horas? Pobre velho, alli só, n'aquella +casa deserta!... É em Beatriz de certo que pensa como eu... Ou, quem +sabe? talvez não seja o fidalgo, mas algum dos filhos; Mauricio, +provavelmente... Sim, alli deve ser o quarto d'elles... + +E a imagem do mais novo dos filhos de D. Luiz entrava outra vez no campo +da visão de Bertha. + +As palavras que trocára com elle aquella tarde, a maneira como a olhára, +e o que o pae depois lhe dissera a respeito do rapaz, tudo a fazia +reflectir. + +Adivinharia Thomé com o seu bom instincto de homem do campo? + +Haveria para o coração de Bertha perigos na presença de Mauricio? + +Era tão natural! Em uma alma, preparada para o amor, e que, á similhança +da noiva nos livros sagrados, espera ha muito, perfumada de mirrha e de +puros aromas, o noivo que tarda; encontra tão facil asylo a imagem de um +adolescente, como Mauricio, sobre tudo se o rodeia o prestigio das +saudades de um passado ridente e o vago reflexo que sempre deixam de si +umas pueris paixões, com que se illudiu a infancia, que razão tinha +Thomé para receios e razão tinha Bertha para, pensando n'elles, sondar +com inquieta apprehensão o sanctuario dos seus mais intimos affectos. + +Prolongou-se esta contemplação em Bertha, e succederam-se-lhe no +espirito os mais diversos pensamentos, emquanto os olhos se fixaram na +luz da Casa Mourisca. Só muito tarde desappareceu subitamente essa luz. +Bertha, como acordando de um sonho, voltou-se então para o interior do +quarto, do qual lhe parecia haver andado longe em todo aquelle tempo. + +A vela, quasi gasta, que tinha ao lado do leito, mostrava-lhe o muito +que, sem o sentir, se prolongou aquella sua abstracção. + +A vista dos objectos do quarto evocou-a á realidade. Passou as mãos pelo +rosto, como para desviar de si a sombra dos graves pensamentos que a +opprimiam, sacudiu a cabeça suspirando, e procurou serenar o espirito, +para dormir. + +--É necessario ter juizo--murmurava ella, soltando as tranças--e soprar +quanto antes estes nevoeiros que me rodeiam, para vêr, como elle é, o +sol da realidade. É tempo de me deixar de loucuras, e de aceitar a vida +que tenho a viver, como ella deve ser aceita por uma mulher como eu. Os +annos de criança passaram. + +E adormeceu n'esta prudente e ajuizada resolução. + +Assim como a luz, que, por entre as trevas da noite, rompia de uma das +janellas da Casa Mourisca, tivera quem a observasse e prendesse a ella +uma longa serie de pensamentos; tambem a do quarto de Bertha não se +perdêra no espaço, sem encontrar uns olhos que lhe recolhessem alguns +raios na passagem. + +Jorge era quem velava no unico aposento alumiado do velho solar do +fidalgo. + +Costumava prolongar a sua leitura e os seus estudos por altas horas da +noite, interrompendo-os de quando em quando por demorados passeios no +quarto, ou melhor diremos, continuando-os assim. + +Era d'elle o vulto que Bertha via passar por diante da luz, occultando-a +momentaneamente. + +Esta noite havia porém mais agitação em Jorge do que lhe era habitual; +os seus movimentos tinham o que quer que era nervoso e quasi febril; +concentrava menos o espirito na leitura, e interrompia-a mais +frequentemente. + +As vigilias de Mauricio não eram mais curtas do que as de Jorge, mas +consagravam-se a differente mister; gastavam-se em aventurosas +digressões pelos montados e valles da aldeia, em visitas aos solares das +circumvisinhanças, onde houvesse uma mesa de _wist_ ou um canto de +fogão, animado pelo sorriso das damas. + +Quando voltava a casa, vinha ainda encontrar o irmão estudando, e era de +costume d'elles passarem alguns momentos a conversar. + +N'aquella noite, Mauricio recolheu-se muito tarde. Ao sentil-o, Jorge, +que passeiava no quarto, sentou-se depressa á banca, e inclinou a cabeça +sobre um livro que tinha aberto diante de si. + +Á entrada de Mauricio, Jorge apenas lhe acenou com a mão, e proseguiu ou +fingiu que proseguia na leitura que encetára, até terminar a pagina. + +--Boas noites, nigromante--saudou-o Mauricio.--A estas horas, n'esta +torre, á luz mortiça d'um candieiro e com um livro aberto diante de ti, +representas admiravelmente um astrologo. + +Jorge apenas lhe respondeu com um sorriso e continuou a folhear o livro. + +Mauricio chegou-se á janella: + +--Mas é preciso, de quando em quando, examinar as estrellas tambem. E +ellas hoje que estão tão scintillantes! Ah! grande novidade no nosso +firmamento! Graças a Deus que, além de nós, ha já mais alguem na aldeia +que não dorme a estas horas! + +Jorge fechou o livro, e foi ter com o irmão á janella. + +--Que queres dizer?--perguntou aproximando-se. + +--Que descobri um planeta novo! mais uma luz na aldeia! + +--Uma luz?! + +--Sim, e é em casa de Thomé. + +Jorge fitou a luz com certa curiosidade e conservou-se algum tempo +calado; depois murmurou: + +--Thomé ainda de vela a estas horas! É singular! + +--Faz-lhe mais justiça--tornou Mauricio.--Thomé dorme ha boas quatro +horas. A gente do campo é incapaz do extravagante delicto de +escandalisar com luz as trevas da noite. N'aquillo percebem-se vestigios +de habitos cidadãos. Quem vela é a filha, com certeza. + +--Ah! sim... Bertha... esquecia-me de que tinha voltado--acudiu Jorge, +esforçando-se por dizer isto em tom natural e indifferente. + +--Voltou, e bem outra do que foi!--advertiu Mauricio. + +--Em quê?--perguntou Jorge, olhando para o irmão. + +--Foi d'aqui uma criança agradavel, e veio uma encantadora mulher! + +--Ah! ah; já notaste?--disse Jorge, com um sorriso contrafeito. + +--Digo-te a verdade, Jorge. Parecia-me impossivel, ao vêl-a, que fosse a +filha do Thomé. Um ar tão delicado, umas maneiras tão distinctas, tão de +cidade!... + +--Olha se te deixas apaixonar por ella; anda lá!--continuou Jorge, ainda +no mesmo tom. + +--Não seria prova de mau gosto, afianço-te. Que superioridade, comparada +a todas as nossas primas d'estes arredores! O que é a educação! + +Jorge encolheu os hombros, dizendo com certo modo irritado: + +--Provavelmente não produzirá em mim os mesmos effeitos. Tenho a certeza +de que hei de sentir saudades, ao vêl-a, da Bertha, que conheci pequena. + +--Não duvido, porque és bastante philosopho para isso. Eu por mim +confesso-te que, na idade em que estou e, apesar de toda a sympathia que +tenho por crianças, não me sinto com disposições para repetir as +palavras de Christo, a respeito d'ellas. Eu prefiro que se cheguem para +mim... as grandes... + +--Em vez da criança alegre e innocente--proseguiu Jorge com +acrimonia--da criança que brincava comnosco e com a nossa pobre Beatriz, +preferes encontrar a collegial, com o espirito voltado todo para a moda, +com um pouco de geographia e de historia na cabeça e deixando cahir da +bôca, quando falla, palavras francezas, como deitava perolas preciosas a +heroina d'aquelles contos que nos ensinavam em pequenos. E é isto o que +te encanta?... Pois olha, eu até já não gosto de vêr aberta aquella +janella a estas horas. Sabe-me aquillo a romanticismo, e é nas raparigas +uma doença impertinente, insupportavel. + +E Jorge retirou-se da janella com um mau humor difficil de explicar. + +--Ora! se o facto de uma janella aberta de noite fosse indicio do crime +que dizes, até tu, o homem menos capaz de commettêl-o que eu conheço, +poderias ser tambem accusado. Enganas-te; Bertha é realmente adoravel. +Verás. As mulheres, Jorge, teem isso comsigo. Amoldam-se muito mais +depressa aos habitos de elegancia do que os homens. Com certeza ninguem +suspeitará, ao vêr Bertha, a origem aldeã que ella teve. A mim +parecia-me impossivel que aquella gentil rapariga, que tão airosamente +cavalgava ao meu lado, fosse a filha de Thomé da Povoa e d'aquella +excellente Luiza. + +--Ah! pois cavalgaste ao lado d'ella? Já?!--notou Jorge, em um tom de +acerba ironia, que era novo n'elle. + +--Sim; encontrei-os na estrada quando chegavam. Não a conheci ao +principio. Aproximei-me, conversei com ella, achei-a encantadora. E +depois tinha no olhar tantas promessas! + +Jorge deu em passeiar, evidentemente agitado. + +--É o que eu digo--murmurava elle com um sorriso nervoso, e continuou: + +--Mauricio, Mauricio; cautela! Cuidado com esse galanteio! Póde ser de +mais sérias consequencias do que as duzias de paixões que tens tido por +as nossas primas d'estes sitios. Essas o peior resultado a que poderiam +conduzir-te era a casar com alguma d'ellas e a enxertar assim no tronco +illustre da nossa arvore genealogica alguma illustrissima vergontea de +uma sêpa igualmente ante-diluviana. + +--Ahi estás tu de novo zombando da nossa aristocracia. Desconheço-te, +Jorge. Realmente não sei d'onde te veio essa febre democratica e +philosophica, com que andas ha tempos. Picou-te a mosca revolucionaria. + +Jorge acudiu com uma vivacidade, que provavelmente não lhe era inspirada +pelo assumpto: + +--Não sabes d'onde me vem? Vem-me de meia hora de reflexão por dia. É o +que basta para me rir da fidalguia de toda esta nossa parentela, que se +deixa devorar por dividas, imaginando que ha em si alguma coisa que +resista á sua inutil ociosidade; e que hão de ficar muito admirados +quando, ao receberem um dia esmola da mulher do seu rendeiro, esta os +não tractar por fidalgos, nem lhes agradecer a honraria de aceital-a. + +Outro menos despreoccupado do que Mauricio desconfiaria que na +vehemencia com que Jorge fulminava a incuria aristocratica, havia muito +de facticio; como se procurasse desviar a attenção do verdadeiro motivo +do seu estado nervoso. + +--Não estou disposto a discutir a legitimidade das pretenções +aristocraticas. Deixemos isso. Dizias tu que fugisse de me apaixonar por +Bertha. Reconheço a prudencia do conselho. Porque é certo que ha +n'aquella rapariga um não sei quê tão superior ao que por ahi vejo que, +se eu não tivesse de deixar dentro em pouco tempo estes sitios, para... +arranjar um modo de vida... não juro que pudesse ser indifferente +áquelles encantos. Demais ha entre nós recordações de infancia e quer +parecer-me que ella ainda as não esqueceu. + +Jorge, sem responder, continuava a passeiar no quarto. + +--Mas aquella luz não me sahe do pensamento--proseguiu Mauricio.--Que +estará fazendo a pobre rapariga a estas horas da noite? Não te parece +que está alguem á janella? + +--Mal se póde divisar atravez das folhas d'esses castanheiros; mas julgo +que sim. + +--Pobre pequena! Alli, só, n'esta aldeia. Está scismando em como poderão +ter realidade as vagas aspirações do seu coração. + +Jorge sorriu, e acrescentou com sarcasmo: + +--Ou de que maneira ha de corresponder-se com algum Romeu collegial, que +deixou suspirando em Lisboa. + +--Estás insupportavel, Jorge. + +--Uma experiencia!--exclamou, passados alguns momentos de silencio, +Jorge, voltando á janella, onde permanecia ainda Mauricio.--Tu estás +dando tractos á imaginação para adivinhares qual será o pensamento de +Bertha. Eu aventuro uma supposição. Assim como nós vimos aquella luz, +ella vê esta, e talvez a nossa sombra na janella. É natural que supponha +que para alli dirigimos as vistas, e muito provavel que adivinhe que +fallamos d'ella. Sabendo-se observada, não ousa apagar a luz, por querer +mostrar que tambem prolonga as suas _rêveries_ por noite alta. + +--Ora! deixa-me com as tuas observações! + +--Queres verificar? Apaguemos a luz e veremos o resultado. + +Mauricio condescendeu. + +A unica janella alumiada da Casa Mourisca envolveu-se nas trevas da +noite. + +Como o leitor já sabe, Bertha, por um motivo differente do insinuado por +Jorge, apagou tambem pouco depois a luz do seu quarto. + +--Eu que dizia?--exclamou Jorge, rindo triumphantemente, mas como se +aquelle rir lhe fizesse mal. + +--Pois bem; se adivinhaste, tanto melhor--disse Mauricio, despeitado. + +--Tanto melhor?! + +--Sim. Porque não hei de eu vêr, n'este proposito de acompanhar a nossa +vigilia, uma prova de sympathia pelo companheiro de infancia que hoje +tornou a vêr? + +--Ah! ah! Pensas n'isso? + +--Porque não? Olha, Jorge, a mulher sem as fraquezas do coração proprias +do sexo não é uma mulher perfeita. Eu, se visse anjos cá por este mundo, +anjos puros, correctos, impeccaveis; tirava-lhes reverente o chapéo, +benzia-me diante d'elles, rezava-lhes uma oração, mas afianço-te que não +os amava. + +--Boa noite, Mauricio. Olha que são duas horas. + +--Adeus, Jorge. + +--Não sonhes com Bertha. + +--Não sonhes tu com a arithmetica, que é peior pesadêlo. + +E os dois irmãos separaram-se, rindo. + +A ambos dominou por muito tempo a imagem de Bertha. + +Jorge passou uma noite febril. Tentava desfavorecer Bertha, quanto +podia, no proprio conceito, esforçando-se por convencer-se de tudo +quanto a respeito d'ella dissera ao irmão, para diminuir assim a +impressão, que, a seu pesar, conservava ainda da imagem da rapariga. + +Mauricio dera-lhe a entender que Bertha fôra sensivel ao seu galanteio, +e esta ideia torturava o espirito de Jorge. + +Pela sua parte, Mauricio tanto lidou com a supposição de que a vigilia +de Bertha lhe fôra consagrada, que adormeceu firmemente convencido disso +e sonhou... sonhou... Oh! quem póde exprimir o longo romance dos sonhos +de um rapaz aos vinte annos e quando possue uma imaginação como a de +Mauricio! + + + + +X + + +Bertha acordou firme no proposito que formára na vespera, de aceitar com +coragem de mulher as suas novas condições de vida, e de entregar-se de +alma e vontade ao cumprimento dos deveres domesticos, soffreando para +isso a indocil imaginação de rapariga. + +Mauricio, pelo contrario, estreiou os seus pensamentos d'aquelle dia, +avivando tudo quanto pudesse fazer-lhe lembrar de Bertha, e formando a +resolução de vêl-a e de fallar-lhe. + +Jorge levantou-se cêdo, um tanto fatigado pelo inquieto somno d'aquella +noite, e procurou distrahir-se, estudando uma questão agronomica, em que +meditava havia muitos dias. + +Veremos o que as diversas disposições de animo d'estes tres personagens +deram de si no decurso do dia. + +O aspecto risonho da manhã dissipou as nuvens, que de noite se haviam +accumulado sobre o espirito de Bertha. Já lhe parecia, áquella suave e +vivificadora luz, mais risonha a sua sorte, e não podia perdoar a si +mesma a vaga tristeza que sentira. Auxiliando a mãe nas occupações +domesticas, encontrava n'isso uma distracção poderosa e quasi um intimo +prazer. As caricias dos irmãos commoviam-n'a, e foi já com desassombrada +alegria que, tomando um d'elles ao collo e dando a mão ao outro, +atravessou os campos cultivados, os vinhedos e os lameiros da Herdade, e +foi sentar-se no limite d'ella, junto a uma fonte rustica meia occulta +entre a sebe de rozeiras e estevas, que separava do caminho aquella +parte do casal. E como lhe causava prazer sentir-se humedecida pelo +orvalho, que ainda poisava nos trevos e nas fumarias do chão, e cahia em +gotas limpidas dos cumes das arvores sacudidas na passagem! + +Os irmãos corriam a trazer-lhe as rozas e as mais flôres campestres que +iam colher, saltando por entre as searas e nos caminhos de passagem, e +ella entretinha-se a ajuntal-as em pequenos ramos, com que os +presenteava depois. + +Entregue toda a esta tarefa, sentia-se tão do intimo contente, que se +pôz a cantar a meia voz a musica de uma cantiga em voga no sitio. + +Pareceu-lhe por mais de uma vez ouvir rumor nas balseiras visinhas, mas +julgou-o produzido por algum passaro, agitando-se no ninho occulto nos +silvados, e não lhe deu maior attenção. + +D'uma vez porém, em que os irmãos corriam para ella com uma regaçada de +flôres, viu-os de repente pararem enleiados e olharem para a sebe que a +separava da rua proxima. Bertha voltou-se na direcção d'aquelle olhar, e +descobriu Mauricio, que, por uma entreaberta das silvas, a estava +observando. + +A filha de Thomé da Povoa levantou-se sobresaltada; e sem poder occultar +de todo a confusão que experimentava com o inesperado encontro, +interrogou sorrindo: + +--Estava ahi ha muito? + +--Ha alguns momentos, ao que me parece. + +--A fazer o quê? + +--A vêl-a e a ouvil-a. + +--Com tão pouco se entretem! + +--Então parece-lhe que não será novo para mim o espectaculo? + +--Novo?! Um campo, uma fonte e umas crianças? Ora essa! + +--Enumerou os accessorios, e esqueceu-lhe a figura principal, e n'essa é +que está a novidade. Se a Bertha soubesse que genero de figuras +femininas por ahi se me deparam, n'essas bonitas paisagens d'este nosso +bello paiz? + +--É muito injusto com as suas patricias. + +--Oh! não as lisongeie. + +--N'isso interesso eu tambem, bem vê. + +--Poupe-lhes a humilhação de comparar-se com ellas, Bertha. Creia que, +indo educar-se a Lisboa, foi para onde a chamavam os instinctos de sua +natureza superior. Seu pae, julgando tomar uma resolução espontanea, ao +mandal-a para a capital, obedeceu, sem o saber, a uma força occulta que +assim o exigia. O seu espirito estava voando para as cidades, onde +sómente encontrava ambiente apropriado. + +--Engana-se; vê? Achava-me desterrada alli até, e, desde que voltei, +sinto um bem-estar, que me prova que é esta a minha verdadeira patria, +que estes são os ares, em que respiro á vontade. + +--Esse bem-estar não tardará que se transforme em fastio. + +--Não, não, não creio. + +--Eu é que não creio que possa dar-se bem aqui, privada de satisfazer as +aspirações naturaes a um espirito como o seu. + +--Mas, ó meu Deus, que qualidade de espirito me suppõe então? Que +aspirações são essas que diz? + +--Ora para que finge ignoral-as? Acaso, diga, a satisfaria a vida da +immensa maioria das tres ou quatro mil pessoas d'este concelho? + +--E espero que ha de satisfazer-me. + +--E que ha de fazer da sua imaginação? Sim, que ha de fazer d'isto que +se sente na nossa idade, quando se não nasceu Manoel do Portello, ou +Maria da Azenha? + +--Perdão, será por eu ter nascido simplesmente Bertha da Povoa, que não +me incommódo com isso. + +--Não me entendeu, Bertha. Não havia nas minhas palavras a menor +baforada aristocratica; d'essa ridicula mania não padeço eu, graças a +Deus. D'entre os preclaros membros das casas fidalgas d'estes arredores, +posso assegurar que, apesar dos sete ou oito nomes, com que cada um se +assigna, nenhum experimenta isto que eu dizia. Mas Bertha... + +--Olhe, snr. Mauricio. Fallo-lhe com franqueza. Não me supponha o que eu +não sou, ou então não diga o que não sente. Acredite; as minhas +aspirações são tão leves, tão realisaveis! Satisfazem-se com estes +cuidados caseiros; e fóra d'isto, não me sinto bem. Para fazer a vontade +a meu pae, segui a educação que elle desejou que seguisse; mas nunca +senti prazer n'isso; nunca morreram em mim as saudades do campo e dos +trabalhos aldeãos... + +--Acredito que hoje aprecie melhor a aldeia, porque tem já sentidos +educados para a poesia que ella rescende. + +--A poesia!--repetiu Bertha, com um forçado gesto de desdem, encolhendo +os hombros. + +Mauricio percebeu-o. + +--Ri-se?--interrogou elle. + +--É que ouço fallar ha tanto n'isso, e se quer que lhe falle a verdade, +ainda não pude saber bem o que seja. + +--Não sabe o que é a poesia?! + +--A que se escreve nos livros sei, mas fóra d'ahi...--disse Bertha, +simulando um tom de completa ingenuidade. + +A chegada das crianças, pedindo á irmã que as conduzisse a casa, +interrompeu n'este ponto o dialogo. Bertha despediu-se amigavelmente de +Mauricio, que por muito tempo a seguiu com a vista. + +--Será possivel que eu me engane?--pensava elle.--Será a final de contas +uma mulher vulgar, capaz de continuar as prosaicas tradições da familia? +Não creio. Antes é astuciosa e dissimulada. N'esta apparente singeleza +de gostos ha muito espirito escondido. E, ou eu me engano muito, ou não +é indifferença o que ella sente, quando me falla. + +E sahiu d'alli, trabalhando n'estes pensamentos. + +Bertha, rindo e brincando com os irmãos, pensava tambem: + +--Parece-me que alguma coisa conseguiria. É preciso desvial-o d'este +proposito; é preciso que elle se enfastie d'este galanteio; que me +aborreça. Hei de fazer-me bem vulgar, bem ignorante, incapaz de sentir e +de entendêl-o. Que eu não posso ficar pelo meu coração, que ainda não +experimentei. Antes quero evitar o ensejo, antes quero não luctar. +Chamam-me uma rapariga de juizo. Não sei, não sei se o sou, não o posso +saber nem quero. Ás vezes... desconfio de mim... receio... assusto-me. +Sentia-me mais animosa d'antes. Parecia-me tão facil dominar-me!... +Hoje... Não quero, não quero tentar; não quero expôr a tranquillidade do +meu coração. Eu não me sinto senhora de mim mesma, quando elle me falla. +É preciso acabar com isto, antes que augmente. + +O dia passou sem outro episodio para Bertha, além da visita de algumas +relações da familia, que vinham festejar a chegada da primogenita do +venturoso casal. + +Bertha conseguiu ser amavel com todos, apesar das impertinencias com que +a interrogavam sobre as particularidades da sua vida na cidade. + +Luiza não se fartava de admirar as maneiras e a eloquencia da filha, e +não fazia senão alternar a vista entre o rosto de Bertha, que tão grata +perspectiva era para o seu amor de mãe, e o dos seus interlocutores, +onde espiava o reflexo da admiração, de que ella propria se sentia +possuida. + +Assim correu o dia. + +O principio da noite foi consagrado á familia. Então é que chegou a vez +a Thomé de perguntar, de querer saber, de fazer reflexões sobre o que +ouvia; e Luiza, a sancta mulher, muitas vezes a responder por a filha, +como quem já se achava mais adiantada em conhecimentos do que o marido. + +Era já um pouco tarde e Thomé admirava-se da demora de Jorge, a quem +mandára aviso para que viesse aquella noite, porque tinha que +communicar-lhe a respeito de negocios que tractára no Porto e Lisboa. +Ouviu-se porém o ladrar dos cães no quinteiro, o som da aldraba no +portão e em seguida passos no lagedo das escadas, que conduziam ao +patamar. + +--Ahi vem o snr. Jorge--disse Luiza para o homem.--Conheço-o já pelo +andar. + +--É elle, é; e temos hoje bastante que fallar. + +--Eu vou accender o candieiro no quarto--acrescentou Luiza, que sahiu a +preparar a sala das conferencias. + +Pouco depois Jorge apparecia na sala, em que ficára Thomé com a filha. + +Jorge não era superior a uma occulta commoção, ao entrar alli. Ia +encontrar-se com Bertha. O momento, de que vagamente se temia, chegára +emfim. Achava-se em frente do perigo desconhecido, de que sentia intimas +apprehensões. Era tão forte a sua turbação, que lhe tremiam as pernas ao +transpôr a porta da sala. + +Na presença de Bertha, Jorge lançou para ella um olhar rapido, mas +penetrante, e desviou-o logo. O espirito não serenou com o resultado +d'esse primeiro exame. + +Jorge reconheceu que o perigo, que tanto temia, era real. + +Bertha, prevenida como estava a respeito do genio de Jorge, tão +differente do do irmão, acolheu-o com mais franqueza e menos precauções +do que tivera com Mauricio. Contra Jorge não precisava de acautelar o +coração. + +O cumprimento de Jorge foi serio e quasi frio, sem um vislumbre de +galanteio, que se parecesse com as finezas de Mauricio. Apenas disse, +quasi sem olhar para Bertha: + +--Bem vinda, Bertha; estimo vêl-a restituida aos seus. Espero que ainda +se lembre de um antigo conhecido. + +--Não costumo esquecer-me, snr. Jorge--respondeu Bertha, sem poder +deixar de examinal-o com curiosidade. + +Jorge proseguiu no mesmo tom: + +--Dizem que se aprende depressa a esquecer nas cidades. Mas quero +acreditar que a sua memoria desmentirá o dito. E que lhe parece agora +esta terra? + +E Jorge, fazendo a pergunta, quiz fitar os olhos em Bertha, mas +desviou-os ao encontrar os d'ella. + +--A mesma que deixei--respondeu Bertha--a aldeia guarda melhor as +memorias do passado, do que a cidade. Vivem-se annos longe d'ella, e na +volta parece que as mesmas arvores e as mesmas flôres, que nos +despediram, nos dão as boas vindas outra vez. Se alguma mudança ha é nas +pessoas. + +--Encontrou mudança n'essas? + +E Jorge tentou de novo, mas sem melhor resultado, fitar os olhos em +Bertha. + +--Nem podia deixar de ser--tornou esta--para nós não ha estações; as +folhas que vão cahindo, não vem primavera renoval-as. + +Jorge pôz-se a folhear, com apparente distracção, um livro que encontrou +sobre a mesa; e a fronte contrahiu-se-lhe levemente, como se tivesse +ouvido alguma coisa que lhe desagradasse. + +Bertha continuou fallando-lhe sem constrangimento e olhando-o com a +curiosidade que despertava naturalmente no seu espirito de rapariga +aquelle caracter serio de rapaz. + +Thomé propôz a Jorge principiarem os seus trabalhos. + +Bertha despediu-se d'elles, e foi ter com a mãe. + +--Então que lhe parece a minha rapariga, snr. Jorge?--perguntou o +enlevado Thomé. + +Jorge articulou uma pouco intelligivel phrase de louvor. + +--Olhe o que é a educação--insistiu Thomé.--Quem ha de dizer que foi +nascida e creada aqui, n'este palheiro e no tempo em que elle era ainda +um pouco peior do que hoje?! + +--Ah! sim... a educação... vale muito, mas é preciso que os dotes +naturaes a auxiliem--murmurou Jorge, como se lhe causasse repugnancia o +assumpto da conversa. + +--Sim; tambem me parece que se a pequena não tivesse quéda... Mas o que +ella sabe! o que ella leu! o que ella aprendeu! É d'uma pessoa ficar a +ouvil-a uma noite e um dia inteiros, sem querer saber de mais nada! + +Um ligeiro sorriso, não de todo despido de ironia, encrespou os labios a +Jorge, que nada respondeu d'esta vez. + +Thomé interpretou o silencio do rapaz como uma manifestação dos seus +desejos de entrar no exame das contas e documentos, que tinham para vêr +aquella noite, e por isso abriu a sessão. + +Antes porém teve de ir em procura de uns papeis necessarios. + +Jorge ficou só por um instante, e deu alguns passeios no quarto. +Aproximando-se de uma mesa que estava proxima da janella, pegou +machinalmente na obra de costura, ahi deixada por Bertha, mas logo a +arrojou de si com impaciencia; depois abriu um livro, que, pelo aspecto +elegante da encadernação, conhecia-se pertencer tambem á filha de Thomé. + +Era um exemplar do poetico idyllio de Saint-Pierre, da historia dos +amores de Paulo e Virginia. + +Jorge pousou-o sobre a mesa, e voltou-lhe aos labios o mesmo estranho +sorriso, que mais d'uma vez lh'os contrahira n'aquella noite. + +--Lê romances--murmurava elle.--A estas horas phantasia-se a heroina de +algum. Está apaixonada por o typo que mais lhe agradou, e busca pelo +mundo a realisação d'esse ideal. A final é o que eu digo. É como as +outras. É uma rapariga da moda, pretenciosa, romantica e um pouco +pedante... É o resultado do systema de Thomé... Fazer viver estas +mulheres em um mundo de phantasia, e trazêl-as depois para a realidade, +que lhes ha de parecer insupportavel!... Triste methodo de formar +esposas e mães! + +E ao pensar isto, sentia uma amargura, uma irritação, que elle proprio +não podia justificar. + +Depois proseguiu, com crescente malignidade: + +--E quem sabe?... Este livro deixado aqui? Seria esquecimento ou +proposito? É natural o desejo de ostentar a sciencia e cultura de +espirito adquiridas no collegio, e ha tão pouca gente no caso de as +apreciar n'esta aldeia, que não admiro que seja eu um dos eleitos. +Emfim, são vaidades de rapariga; e peccado venial para que se deve ser +indulgente. E demais que tenho eu com isso?... Mauricio que averigue, se +quizer. Está no gosto d'elle... + +Thomé voltou, e minutos depois estavam ambos em plena conferencia. Notou +comtudo o lavrador aquella noite, que Jorge mostrava-se muito mais +desattento do que de costume. + +No meio dos seus exames, distrahiu-os uma voz melodiosa que, em outro +aposento da casa, cantava em tom de acalentar crianças: + + Quando uma criança dorme, + Veem os anjos a sorrir + Abrir as portas do céo, + Para Deus as vêr dormir. + +--Escute--disse Thomé, apurando o ouvido--é a minha Bertha a adormecer o +irmão. + +E Thomé pôz-se a escutar, com fervor paternal. + +Jorge, a seu pesar, experimentava um suave encanto ao ouvir aquella voz +juvenil, que continuava cantando: + +E um d'elles á terra desce Junto do berço a velar Para longe do menino +Os sonhos maus afastar. + +--Então? Não tem uma linda voz a rapariga?--continuava Thomé, olhando +para Jorge, que não respondeu. + +A voz continuou: + + Dorme, dorme, meu menino, + Que é alegre o somno teu. + E emquanto na terra dormes + Folgam os anjos do céo. + +Jorge escutava com mais prazer, do que a si mesmo quereria confessar, o +canto que lhe chegava aos ouvidos n'aquella monotona e melancolica +melopêa de todas as musicas destinadas a acalentar o somno das crianças. + +Thomé, esse estava verdadeiramente extasiado. A voz da filha parecia +encontrar um caminho direito para o coração d'aquelle pae extremoso, e +commovêl-o quasi a ponto de lhe ennevoar os olhos com lagrimas +consoladoras. + +Quando expiraram as ultimas notas do canto, Jorge levantou-se. + +Era tarde já e mais que tempo de dar por concluida a conferencia; mas +n'este movimento de Jorge actuára uma outra ideia. + +Elle proprio estranhava o que ia na sua alma n'aquelle momento. +Revoltava-se contra si mesmo, porque se sentia fraco perante os +artificios de uma mulher, contra a qual devia estar precavido; Jorge +suppunha-se persuadido de que Bertha aproveitára de proposito o ensejo +de fazer-se ouvir e de mostrar os encantos da sua voz agradavel e +sonora; tactica vaidosa que muito escandalisava o caracter sisudo do +rapaz. Mas o peior era dizer-lhe a consciencia que, mau grado seu, a +tactica tivera effeito. A prevenção hostil, de que á força queria +armar-se, não era talisman bastante forte para o livrar de encantamento. + +Isto principalmente o indignava, sem a si proprio o confessar. Sentia-se +sob o influxo de uma magia, que pensava funesta, mas, como succede +quando em sonhos procuramos fugir a um perigo que nos persegue, +annullava-se o esforço que fazia para quebral-o, e a seu pezar +permanecia no perigo. + +Desconhecia-se, sentia uma turbação indefinivel, parecia-lhe que o ar +livre lhe seria salutar. Por isso levantou-se e sahiu. Ao passarem em um +corredor, que conduzia para o exterior da casa, abriu-se a porta de um +quarto, meio alumiado por a froixa luz de uma lamparina, que ardia junto +do berço de uma criança, e por o espaço entreaberto appareceu a figura +de Bertha, com o cabello já meio despenteado e solto, e tendo nos labios +o mais suave e affectuoso sorriso. + +--Boa noite, snr. Jorge--disse ella, estendendo-lhe a mão, com uma +expressão de voz cheia de cordial franqueza. + +Jorge estremeceu áquella vista inesperada, mas, dominando-se, +correspondeu ao cumprimento, apertando-lhe a mão: + +--Adeus; boa noite, Bertha. + +--Então o pequeno já dorme?--perguntou Thomé da Povoa, procurando sondar +com a vista a meia claridade do quarto. + +--Psiu!--disse a filha, pondo um dedo nos labios--socegou por fim. +Trouxe-o para o meu quarto, porque não deixava dormir a mãe. Boa noite, +meu pae. + +E tomando a mão do lavrador, beijou-a com affecto. + +--Deus te faça feliz, minha filha--tornou-lhe este, exultando com +aquella simples acção. + +E os dois seguiram, cerrando-se logo atraz d'elles a porta dos aposentos +de Bertha e ouvindo-se correr docemente a chave na fechadura. + +Jorge, ao vêr-se na rua, aspirou com violencia o ar fresco da noite, +como para libertar-se de uma oppressão que o angustiava. Descobriu a +fronte e seguiu agitado pelos difficeis caminhos que iam d'alli até á +Casa Mourisca. + +--Eu estou doido!--murmurou elle--que tenho eu com esta rapariga? Era o +que me faltava! que me entrasse na cabeça uma doidice d'estas! Estou +vendo que não é tão facil ter juizo, como suppunha. Se isto fosse com +Mauricio não admirava! E então uma criança de collegio... provavelmente +estouvada... Ora adeus! Veremos se isto me passa dormindo. + +Mas, era singular! aquella rapida vista, insinuada por entre a porta +meia aberta do gabinete castissimo, em que dormia uma criança á meia luz +da lamparina, e aquella gentil figura de mulher, collocada á entrada, +com um dedo nos labios e no rosto um ar de solicitude quasi maternal, +não se lhe tiravam da ideia. Era como a visão de um paraizo que sonhára. + +Quando Mauricio, voltando de um baile dado por um proprietario visinho, +entrou no quarto de Jorge, encontrou este, contra o seu costume, sentado +proximo da janella, com a cabeça sobre o braço dobrado, que repoisava no +peitoril, e tão absorto, que quasi não deu pela aproximação do irmão. + +Mauricio parou diante d'elle admirado, e interpellou-o: + +--Que fazes ahi? + +Jorge sobresaltou-se, e respondeu sorrindo: + +--Julgo que dormia. + +--N'esse caso farei outra pergunta--que vieste para ahi fazer? + +--Tinha calor... cancei-me de lêr... vim tomar ar. Ha um instante. + +--Ha um instante? Não diz isso aquella luz, que parece de casa +mortuaria. Nada haveria mais natural do que tudo isso, se fosse com +outro; porém em ti é para estranhar a menor irregularidade de habitos. + +--Tambem eu me estranho. É certo porém que esta noite não me sinto +disposto para estudar. + +--Pois aproveita essas felizes disposições, e descança, descança. Que +diabo! Parece-me que dás á administração da nossa casa mais importancia +do que ella merece. A final de contas sempre é tarefa que o frei +Januario fez durante annos. Se soubesses como a noite está agradavel! +Não esteve de todo má a partida em casa dos Curujães. + +--Ah! vens de lá?--inquiriu Jorge, com indifferença. + +--Venho, sim. Bastante gente. Venancio cada vez mais parvo. A D. Anna +cantando a _Norma_ da maneira que sabemos. A Ermelinda do Nogueiral, com +a cabeça cheia de fitas, parecia um navio embandeirado; os pequenos do +Antonio Rodrigo estavam perdidos de riso. Quem não está feia é a Dôres, +a pequenita do João Tavares; dois mezes que passem mais por aquella +infancia e estará alli uma bella mulher. Mas que noite tão sombria! Nem +a luz de hontem em casa do Thomé! Hoje nem Bertha nos faz companhia. +Sirva-lhe isto para desconto dos grandes peccados de que a accusas. Está +provado que a vigilia de hontem foi consagrada á prosaica tarefa de +arrumar as suas coisas pelas gavetas e bahus. É verdade, já a viste?... + +--Não... Já. + +--Não? Já? Que diabo de distracção é essa? E que te pareceu? + +Jorge esteve algum tempo antes de responder: + +--Bem. + +--Tão sêcamente bem? Devéras?! + +--Então que queres que te diga? Sabes que não tenho o teu genio, para +esgotar a minha eloquencia diante da primeira figura de mulher que me +appareça. + +--E a respeito das tuas prevenções? + +--Nada pude decidir. + +--Pois eu já decidi. Acho-a cada vez mais adoravel. + +--Ah! + +--Sabes que estive com ella esta manhã? + +--Sim?! Hum!--disse Jorge com evidente constrangimento. + +--É verdade. Fallei-lhe e, já se sabe, não me descuidei de advogar a +minha causa. + +--Ah! sim? E então?... + +--E então..., apesar de uma certa esquivança nas respostas que obtive, +quer-me parecer que não tenho razão de queixa. + +--Bem, bem. + +--Emfim, certas recordações de infancia... como sabes... + +--Ah! ella recorda-se da infancia? + +--Ora, como queres que ella se não recorde? + +--Sim, é natural--concordou Jorge, fingindo bocejar, mas com suspeitas +contracções nervosas. + +E estendendo subitamente a mão ao irmão, acrescentou: + +--Boa noite, Mauricio. É tarde e eu tenho somno. Adeus. + +E de facto Jorge deitou-se, deixando em paz os livros, mais cedo do que +costumava. Se dormiu é que não sabemos. + +Mauricio dormiu com certeza melhor do que elle. + +Embalava-o a vaidosa persuasão de que havia impressionado Bertha. Tinha +Mauricio este defeito de suppôr que eram promptas e profundas as +impressões que produzia no animo das mulheres. Defeito este vulgar, e +que ainda não é dos que dão de si mais serias consequencias. + + + + +XI + + +Pela manhã do dia seguinte recebeu Jorge um recado do pae, para ir +fallar-lhe. + +Apressou-se em obedecer. Foi encontrar D. Luiz a passeiar no quarto, e +manifestamente irritado. Vendo entrar o filho, mostrou-lhe uma carta +aberta, que estava em cima da mesa. + +--Ah! É da prima?--exclamou Jorge, depois de examinar a +assignatura.--Finalmente escreveu! + +--Podia dispensar-se de o fazer--resmungou o fidalgo e proseguiu: + +--Parece-me que não foste muito feliz na lembrança de bater a essa +porta. + +--Então?! + +--Lê e verás. + +Jorge leu, a meia voz, a carta que era concebida n'estes termos: + + «Meu bom tio. + + Tive, ao voltar a Lisboa de uma visita á Hespanha, a mais agradavel + surpreza. Recebi, emfim, uma carta sua! A singularidade do facto não + me inhabilitou para sentir no maior grau uma salutar alegria. + Cuidava que me tinham esquecido. Convenci-me agora de que felizmente + me enganára. Lisongeou-me ainda o vêr que o meu bom tio se dirigia a + mim, para me pedir conselho! Claro estava que já não era no seu + conceito aquella doidivanas de outros tempos. Ainda bem que me faz + um poucochinho de justiça. Não se arrependa; effectivamente hoje + estou mais ajuizada. O meu caracter de viuva dá-me um ar de + respeitabilidade, que vae muito bem com os meus vestidos escuros, + nos quaes a garridice não ultrapassa ainda os limites do roixo. Mas + devo confessar-lhe que me incumbe de uma espinhosa tarefa! Descobrir + a carreira mais adequada ao nosso caro Mauricio, que deve ser a + estas horas um bonito e elegante rapaz, mas com tanto que, + acrescenta o meu querido tio, «elle não seja obrigado a _transigir_ + com as ideias do seculo», é devéras uma missão difficil e para + melhor engenho do que o meu. Principio por não saber bem quaes são + as taes ideias do seculo, com que o priminho Mauricio não deve + transigir. Eu, que sou a pessoa mais transigente d'este mundo, não + posso assim de repente saber quaes são aquelles principios, com que + os meus primos são incompativeis, ou que são incompativeis com os + meus primos. Depois ha tantas ideias remoçadas, que passam por + novas, que já não é facil distinguir quaes são as do seculo e quaes + não são. E deixe-me dizer-lhe, meu bom tio, que ha uma certa ordem + de coisas, com que provavelmente, na sua opinião, Mauricio não deve + transigir, mas sem transigir com as quaes não se dá hoje n'este + mundo um passo que tenha geito. Creia que nos nossos dias é pouca a + gente que não está convencida disso, e raros os que ainda se + contentam com ficarem sendo immoveis columnas do throno e do altar, + emquanto os outros vão andando. + + Ahi está que me lembrava a mim arranjarmos, com tempo, para Mauricio + um d'estes commodos circulos eleitoraes, por onde uma pessoa sahe + deputado sem o sentir. A carreira é das melhores para rapazes de + intelligencia e de aspirações; mas a urna popular, provavelmente, + figura no rol das coisas, com que Mauricio não deve transigir. + Emfim, meu intransigente tio, apesar de todos os meus bons desejos, + sinto-me devéras com os braços atados, e tropeço a cada momento em + uma incompatibilidade! Julgo preferivel conferenciarmos de viva voz. + Tenciono visital-o brevemente. Preciso de revistar a minha quinta + dos Bacellos, da qual já tenho saudade. Ahi irei pois, e de sua bôca + ouvirei aquillo com que pudemos, e aquillo com que não devemos + transigir. Até então creia-me sempre sua muito transigente, mas + affectuosa sobrinha + + _Gabriella_. + + P.S. Se um abraço cordial e bem intencionado de uma prima viuva é + coisa com que Mauricio possa transigir, peço o favor de lh'o dar em + meu nome e outro a Jorge, que, pelo que vejo, tem juizo aos vinte + annos, facto que, seja dito entre nós, não tem sido frequente em + nossa familia.» + +Esta carta, escripta á vontade e no tom familiar de uma mulher +caprichosa, costumada a não se constranger com pessoa alguma, e a vêr +admittirem-lhe, como naturaes, todos os caprichos, não podia ser menos +accommodada ao genio sisudo e respeitador de etiquetas, que era uma das +pronunciadas feições do velho fidalgo. + +A maneira por que a sobrinha lhe escrevia, a sem-ceremonia com que +parecia rir-se dos seus delicados escrupulos politicos, era tão +subversiva da ordem estabelecida e respeitada nos usos tradicionaes da +familia, que D. Luiz escandalisou-se. + +Jorge comprehendeu, á primeira leitura, qual o effeito que esta carta +deveria ter produzido no animo do pae, mas procurou dissimular. + +--Uma vez que ella vem, esperemos--disse em tom indifferente.--De viva +voz tracta-se melhor d'estes negocios. + +--Que hei de eu tractar com uma doida d'estas? Tomára que ella me +deixasse socegado! + +--São maneiras de Gabriella, mas nem por isso deixará de olhar com +seriedade por este assumpto. + +--São maneiras?... Tudo tem limites. Isto não é carta que uma rapariga +escreva a um velho, que é seu tio. + +E D. Luiz, ao dizer isto, pegava na carta por uma ponta e arremessava-a +sobre a mesa, como se fôra um objecto que lhe inspirasse repulsão. + +--Costumes do tempo--aventurou timidamente Jorge. + +--Bons costumes! Pois, embora ella o diga zombando, não transijo com +elles, não senhora; nem filho meu, emquanto quizer que eu por filho o +tenha, ha de transigir tambem. + +--Esperemos, até que ella venha. + +--Já sei que de nada servirá a conferencia. Essa porta podes +consideral-a fechada. + +Jorge, depois de mais algumas tentativas para acalmar a irritação +paterna, voltou para o quarto, intimamente satisfeito com a carta da +baroneza, em cujo auxilio confiava para vencer as reluctancias do velho. + +Augmentaram-lhe ainda mais as esperanças, quando leu um laconico +bilhete, em que a prima lhe respondia tambem, assegurando-lhe que viria +breve, e que trabalharia com empenho no sentido que elle lhe indicára. + +Meia hora depois, dava Jorge a novidade a Mauricio, que encontrou +descendo as escadas com elegante e caprichoso traje de cavalgar e +cantarolando despreoccupado: + + Dae-me uma casa na aldeia, + Casa rustica, isolada, + Que mostre por entre verdes + A sua frente caiada. + +--Esse desejo vem fóra de proposito--disse Jorge, sorrindo--porque +justamente hoje chegou a carta que esperavamos de Gabriella. + +--Ah! chegou! E então?--interrogou Mauricio um pouco sobresaltado. + +--Promette vir aqui. Pede uma conferencia para breve, na qual se +discutirão as bases da reforma. + +--Ai, ella vem cá? Visto isso adiada toda e qualquer resolução a meu +respeito? + +--Até que ella chegue. + +--Ora ainda bem! + +--Estimas? + +--É que hoje qualquer ordem de partida encontrava-me pouco de animo para +deixar a aldeia. + +E continuou a cantar: + + D'onde se eleve ás trindades + Um fumosinho cinzento + Que se dissipe nos ares, + Ao menor sôpro do vento. + +--Olá! Como se desenvolveu assim em ti esse apêgo ás coisas +rusticas?--perguntou Jorge com ironia. + +--Que queres tu? Caprichos! + +--Caprichos!! mas é que não estamos no caso de os ter. Ai, Mauricio, +receio que dês em mau homem de negocios, se a conferencia decidir que o +deves ser--continuou Jorge no mesmo tom. + +--A Gabriella terá o bom senso necessario para propôr outra solução ao +problema da minha vida. Creio... + +E Mauricio desceu as escadas, exclamando alegremente: + +--Adeus, adeus que vou vêr quem tu sabes. + +Jorge contrahiu a fronte ao escutar-lhe as palavras com que se despediu, +e conservou-se immovel ainda depois que o perdeu de vista, e já quando o +não ouvia, nem o bater das patas do cavallo no lagedo do pateo; a final +sacudiu a cabeça, como para livrar-se de uma ideia importuna e murmurou: + +--Ora! Tudo isto é natural... Vamos trabalhar! + +E foi encerrar-se no quarto. + +Mauricio sahiu a cavallo, mas não estendeu por muito longe o seu passeio +matutino. Parecia errar ao acaso, mas acaso era esse que por duas vezes +o conduzia na via da casa de Thomé. + +E de ambas as vezes uma cabeça de mulher apparecia á janella, ao ruido +que faziam no caminho as patas do cavallo, o qual Mauricio obrigava a +evoluções ao chegar áquelle sitio. + +Essa cabeça era a de Bertha. Mauricio saudou-a com um sorriso e +dirigiu-lhe algumas palavras de galanteio. Bertha retirou-se para +dentro, depois de elle ter passado, dizendo comsigo: + +--É uma imprudencia o que estou fazendo. Vamos; é preciso cautela. + +E a terceira vez que o sentiu já não appareceu para o vêr. + +Mauricio porém estava contente com a manhã; continuando no seu passeio, +dirigiu o cavallo por uma azinhaga cavada em barrancos pelas enxurradas, +e depois de difficil e precipitosa descida por entre pinheiraes, veio +sahir a outra rua mais larga, ao fim da qual havia uma residencia +campestre de menos má apparencia. + +Era uma casa branca, de um só andar e ao correr da rua, mas de solida +construcção; bem caiada, bem pintada e bem esfregada. Entrava-se para +ella por um pateo coberto de ramada, cercado de um muro baixo e fechado +por uma meia cancella de castanho ennegrecido. Dentro d'este pateo pouco +espaço havia desobstruido; aqui um monte de rama de pinheiro, além duas +ou tres rimas de achas, acolá um tronco de larangeira partido, uma mó de +moinho, dois carros desapparelhados, dornas, arados, pipas, canastras, +escadas de mão, e varios outros utensilios de lavoura e de uso +domestico. + +Mauricio prendeu o cavallo ao muro e entrou para o pateo. + +Abria-se para este a porta da cozinha; vinha de lá um grande rumor de +vozes, de risadas e de cantares; via-se brilhar no fundo um clarão +avermelhado e ouvia-se um estalar de lenha, devorada pela chamma. +Chegando-se mais perto, Mauricio contemplou por alguns momentos, sem ser +visto, o quadro que se lhe offerecia á observação. Era uma cozinha +aldeã, vasta, desafogada; immenso lar, compridos preguiceiros ao longo +das paredes, no alto prateleiros pejados de louça nacional, de panellas +e alguidares; nas traves os cabos de cebola, no fumeiro a bem curada pá +de presunto; o amplo fôrno vomitava lavaredas pela bôca escancarada e a +cada instante engolia as novas e enormes dóses de lenha que lhe +ministravam; na masseira fumegava já a farinha ainda não levedada para a +fornada da semana; e n'ella os braços valentes e roliços de duas frescas +moças do campo enterravam-se até os cotovêlos; a um signal d'estas, +outras traziam da lareira grandes panellas de agua fervendo, com que +acrescentavam a massa, levantando ao ar nuvens de densos vapores. Uma +peneirava a um canto a farinha para o bolo, outra arrumava o cinzeiro do +fôrno com a vara meia carbonisada; limpava esta a pá grande para a +introducção das borôas e aquella empunhava a pequena pá de ferro de +rapar a masseira. No meio d'esta legião feminina assim atarefada, a +patrôa da casa, que, como Calypso sobre as nymphas que a serviam, ou, +segundo a comparação classica, como o elegante cypreste sobre as vinhas +rasteiras, olhava sobranceira para todas, superintendia no trabalho de +cada uma e distribuia as tarefas com methodo e intelligencia. + +Era esta a ti'Anna do Védor, em quem já ouvimos fallar, a que havia +creado aos seus válidos e sadios peitos os dois meninos da Casa +Mourisca. Era ella enfarinhada, arregaçada, afogueada, com os cabellos +escondidos debaixo do lenço vermelho que atava sobre o occipital, com a +voz potente, o olhar fino e os movimentos faceis, apesar dos cincoenta +annos já contados. + +Á sua vista perspicaz não escapou por muito tempo a presença de +Mauricio; e logo que o viu, correu para elle com os braços abertos, +exclamando: + +--Ai, o meu rico filho! + +--Cautela, cautela, Anna, olha que me enfarinhas!--advertiu Mauricio, +tentando fugir-lhe. + +--E que tem que te enfarinhe! Olh'agora? A farinha é pão, e o pão vem de +Deus. + +E sem precauções nem reparos apertou o corpo delgado de Mauricio nos +seus robustos braços, deixando-lhe na roupa vestigios evidentes d'este +cordial amplexo. + +--Vês, vês?--dizia Mauricio, sacudindo-se--olha em que preparo me +puzeste, ama! Estou asseiado! + +--Sim? Pois melhor para ti, que já tens que fazer, e não me andas por +ahi a vadiar e a fazeres-me doidas as moças cá da terra com as tuas +bregeirices. Sahiste-me boa rez! não tem duvida nenhuma! + +E pronunciava isto com um modo, acompanhava-o com um olhar tal, que +fazia temer a imminencia de um outro beijo e de um outro abraço. + +Mauricio continuava sacudindo-se. + +--O mal que tenho, vem do leite que bebi--dizia elle no entretanto. + +--Hum!--acudiu a ti'Anna com um gesto de soberba.--Conta-me d'essas! O +que vos valeu, meus fidalguinhos de torrão de assucar, foi trazer-vos eu +a estes peitos, senão o que seria feito do vosso corpinho de vime? +Olh'agora! ieis como foram indo vossos irmãos mais velhos, e aquelle +anjo de vossa irmã, que ainda hoje me resta a pena de não ter creado +tambem. Mas quem adivinha vae para as casinhas. + +--Aos preparativos que estou vendo--observou Mauricio--ha grande fornada +para hoje. + +--É como vês. E não minguam bôcas que a comam. Senhor nos não falte com +estas côdeas. + +--E o bolo que não esqueça. + +--Eram bons tempos aquelles em que vocês ambos o comiam como se fosse +maná! Esquecer! Olh'agora! Não ha de esquecer, não, se Deus quizer, que +não falta por ahi gente necessitada, com quem se reparta. Vá, vá, +raparigada! não se me ponham agora paradas a olhar para as moscas, que o +serviço não espera! Olh'agora! Deita-me o centeio n'aquella massa, +pasmada, avia-te! Parece que nunca viram um rapaz! Bem tirado das +canelas é elle, salvo seja; mas isso não basta! Olh'agora! Mas que +milagre foi este que te trouxe por aqui a estas horas? + +--Um passeio... + +--Um passeio!... Hum! ahi anda moiro na costa. Olha lá se me +desinquietas coisa que me pertença, que tens de te haver depois +commigo... Eu ainda tenho um par de sobrinhas que são moças de mão +cheia. Ora olha lá. Quem te désse o juizo de Jorge! Aquillo é outro +estôfo! É verdade--continuou ella, dando emphase á interrogação com o +poisar das mãos nos quadris--dizem-me que elle é quem dirige agora os +negocios lá em casa. + +--Ha muito tempo já. + +--Pois foi bem pensado! Sim, senhores. Porque olha que eu nunca gostei +do frade, Deus me perdoe; e emquanto ao fidalgo, com ser boa pessoa, não +serve lá muito para governar casa. E tu que fazes? + +--Eu..., eu... + +--Passeias; ora pois pudera! Se este senhor havia de fazer outra coisa. +Pois não fazes bem, que pelos modos isso lá por casa não está para +graças. + +--Que é do Clemente, Anna?--inquiriu Mauricio, mudando de conversa. + +--O meu Clemente? ó filho, nem eu sei. Se queres que te diga, o rapaz, +desde que o metteram na regedoria, não faz outra coisa. Isto é, eu devo +dizer o que é verdade; o serviço apparece feito, isso lá apparece; mas a +gente nem sabe quando nem como. Mas, agora me lembro, elle pelos modos +está hoje para casa do Thomé da Herdade. Chegou-lhe a filha da cidade, +sabes? A Bertha, a que brincava com vocês na Casa Mourisca, e que tu +dizias que era a tua namorada? garoto foste tu sempre desde criança. Diz +que vem uma senhora. Tolices do pae. Olh'agora! Mas o caso é que a +rapariga é geitosa e diz que muitas nadas e creadas na cidade dariam uma +orelha para apparecerem tão bem como ella. Estou morta por a vêr, mas +esta minha vida não é para vagares. Então disse ao meu Clemente: «Vae tu +a casa de Thomé, rapaz, e faze-lhe lá os meus cumprimentos.» O caso é +que elle foi e... Ó raparigas, então esse pão ainda não está amassado? + +E não lhe soffrendo a impaciencia de animo a inacção, aproximou-se da +masseira, e afastando as moças que lhe cederam o logar com deferencia, +remexeu, com o vigor de seus desenvolvidos musculos, a massa que, sob +tão poderoso motor, cedo adquiriu a consistencia precisa. + +Depois amontoou-a, alisou-a, traçou-lhe em cima com a mão uma cruz e +murmurou: + + S. Vicente te acrescente + S. Mamede te levede. + +Cobriu-a com a baeta e depois acrescentou, voltando-se para a sua gente: + +--Ora ahi o tem; agora olhem-me por esse fôrno, que são horas. + +E tornando a Mauricio, continuou, como se não tivesse havido +interrupção: + +--Pois é verdade, elle foi e ainda não veio. Sabes tu que era esta a +mulher que ficava a matar para o meu Clemente? + +Mauricio estremeceu, como se ouvira uma heresia. + +--Quem? Ella? Bertha? + +--Sim; então que achas? Pois com quem queres tu que ella case cá na +terra? Fidalgos não a querem; os rapazes por ahi são uns labrêgos que +Deus nos acuda. O meu Clemente..., não é agora por ser meu filho, mas +não se lhe faz favor nenhum confessando que é mais geitoso do que elles. +E sobre tudo, depois d'isto da regedoria. Elle falla com o snr. +administrador e até com o governador civil, quando vae ao Porto, e a +cada passo está a escrever-lhes e a receber cartas d'elles, e é tudo: +Deus guarde a v. s.ª para aqui, Deus guarde a v. exc.ª para acolá. Ora a +filha do Thomé vem costumada a estas coisas lá da cidade e emfim, sendo +de costume, já se não gosta de passar sem isso. + +Mauricio não podia seguir placidamente as conjecturas da ama, +parecia-lhe uma profanação o que ouvia. + +--Não, não, Anna. Clemente não é marido que convenha a Bertha. De modo +nenhum. Desengana-te. + +--E porque não? Ora essa é boa! Quem é então que lhe convem? Olh'agora! + +--Bertha tem... teve... ha de ter... + +--Tem, teve e ha de ter, o quê?... + +--Uma educação... gostos... + +--Ora viva! Já fazes a filha do Thomé fidalga de mais para o meu rapaz! +Ora quem alli está. Olha que eu sou da creação de Thomé, e conheci-o +rapazinho de pé descalço, a guardar o gado... Olh'agora! + +--Não duvido, Anna, mas... Bertha já viu a cidade e... + +--Toma! E o meu Clemente? Ora deixa-te de historias. Sabes que mais?... +Não me andes tu já por ahi com o olho na pequena, que é o que me parece; +olha que não é nenhuma tola como as outras. + +--Ó Anna, que ella não é como as outras sei eu. Nunca esta terra soube o +que era um anjo assim. + +--Olhem, olhem! É o que eu digo. Temol-a travada! Eu logo vi. Ó filho, +que não sei a quem me sahes. Eu logo vi. Tu que te espinhavas todo por +eu querer a rapariga para o meu Clemente!... Mas, olá, snr. Mauricio, +veja o que faz. Lembre-se de quem ella é filha. É um homem serio e que +não gosta de quem não o tractar como homem serio... Mas ahi vem o meu +Clemente; elle é que me vae dizer da rapariga. + + + + +XII + + +Clemente, o filho unico da vigorosa matrona que tão desenganadamente +fallava a Mauricio, era um sincero rapaz aldeão, de espirito pouco +desenvolvido, mas de excellente indole. + +Tinha uma physionomia vulgar, d'estas que fogem da memoria, porque nem +as fixa um vislumbre de intelligencia que accentue alguma feição +predominante d'ellas, nem o cunho de estupidez, que as assemelha a +caricaturas. + +Só na bôca e nos olhos é que havia um geito revelador da natural bondade +d'aquelle caracter; o mais nada exprimia. + +Clemente aceitára com certo desvanecimento o cargo de regedor, e +exercia-o com a imparcial inteireza que deve ter o magistrado. + +Não obstante o genio brando, de que era dotado, ousava arcar, no +desempenho de seus deveres, com os privilegiados da terra, que ainda não +haviam perdido de todo os habitos de sobranceria e de desprezo ás leis, +adquiridos por seus ascendentes nos tempos das regalias feudaes. + +Clemente era supersticiosamente acatador do codigo administrativo, e +este fervor de funccionario dava-lhe coragem para a lucta, aliás muito +contraria á sua indole pacifica e consiliadora. + +Por vezes soffreu pelo seu muito amor de justiça. Julgou elle, com +sympathica ingenuidade, que os superiores o conceituariam tanto melhor, +quanto mais exacto e imparcial elle fosse no cumprimento dos seus +deveres; com funda e amarga dôr de coração viu pois, que tendo arrostado +com as sanhas de alguns fidalgos, cujas illegaes franquias procurára +fazer cessar, o administrador, que sabia theorisar muito melhor do que +elle sob o thema de emancipação do povo, dos direitos do homem e da +igualdade perante a lei, mas que tambem sabia quebrar na pratica as +quinas e os angulos agudos ás suas theorias, tomava o partido dos +fidalgos, e censurava asperamente em officios o procedimento do regedor. + +Estas injustiças sociaes principiavam já a inocular no animo leal e +sincero de Clemente o scepticismo a respeito dos homens e a preparal-o +talvez para vir a ser uma authoridade menos intractavel e de mais +condescendente consciencia; e por consequencia mais ao agrado dos +homens, não sei se diga praticos ou corruptos, que clamam contra a +absoluta inflexibilidade dos principios. + +Achava-se o bom Clemente n'aquella desconsoladora phase de transição, em +que o funccionario novel principia a sentir que o deixa o ideal que +concebêra da sua entidade civil, e que vae descendo pelo escorregadio +pendor das condescendencias mundanas para o nivel, onde redemoinham as +turbas, que ao principio fitára sobranceiro, de toda a altura da sua +dignidade moral. + +Triste época de desillusão e de desencantamento essa! + +Clemente votava sincera affeição aos rapazes da Casa Mourisca, e sobre +tudo a Jorge, a quem cedêra o seio de sua mãe. + +Jorge nunca lhe dava motivo de collisão entre os seus deveres de regedor +e os impulsos do seu coração. + +Já não assim Mauricio, que não era de todo innocente de certas +infracções de lei e de desprezo pelo codigo administrativo, com que não +poucos somnos tinha afugentado ao honrado rapaz. + +Clemente desculpava Mauricio, dizendo que eram as más companhias que o +levavam áquillo, mas promettia não ceder a considerações, se o +encontrasse em flagrante. + +Fosse porém acaso, fosse quasi insciente proposito de amizade em não +querer vêr, é certo que nunca tal contingencia se deu. Apenas por vagas +denuncias lhe constava ter Mauricio uma ou outra vez quebrado o defezo +da caça, tomado parte em alguma rixa nocturna, quasi sempre em companhia +de seus primos, os fidalgos do Cruzeiro. + +Estes sim, estes eram os mais rebellões d'aquelles arredores. Com elles +era que as mais das vezes tinham logar serios conflictos, em que os +cabos de Clemente nem sempre eram tractados com o respeito que para +elles a farda pedia. + +Os fidalgos do Cruzeiro viviam ainda á moda antiga, como senhores +feudaes da terra, desconhecendo direitos de propriedade e calcando aos +pés dos seus cavallos todos os codigos, com que tentassem conter-lhes os +impetos nobiliarios. + +Eram tres estes nobres senhores. + +Um morgado e... morgado ás direitas; outro doutor... por ter andado dez +annos em Coimbra para deixar incompleto um curso de cinco; o terceiro +abbade, escorraçado pelo povo de uma freguezia que fôra mandado +parochiar; ligavam-se todos tres, em temivel triumvirato, para invadirem +as propriedades, esgotarem as tavernas, insultarem as mulheres e +espancarem os homens d'aquelles sitios. + +O povo ou por habito legado de submissão os deixava á vontade, +contentando-se com praguejal-os pela calada, desforço dos opprimidos em +todas as épocas da historia da humanidade, ou exasperado e descrendo da +efficacia da lei, recorria á defeza propria, e procurava manter em +respeito esses turbulentos vadios, que mais de uma vez sahiram mal +feridos da refrega. + +Jorge afastára-se cada vez mais da companhia dos primos, cujos +asselvajados habitos lhe repugnavam; Mauricio frequentava-os ainda e era +de facto a companhia d'elles, que ás vezes o impellia a passos +reprehensiveis. + +Clemente vinha agitado quando entrou em casa aquella manhã. Era evidente +que o regedor se tinha encontrado em uma das collisões, a que a vida +publica o sujeitava. + +A mãe, logo que lhe lançou os olhos ao rosto contrahido e levemente +purpureado, conheceu que tinha havido novidade e interpellou-o: + +--Que tiveste tu lá por fóra, Clemente? Essa cara não é de quem vem +satisfeito com a sua vida. + +--Deixe-me, minha mãe, deixe-me--rompeu o irritado rapaz.--Com'assim +emquanto não largar esta coisa da regedoria, não tenho um momento de +socego. + +--Então que foi? + +--Que foi? Que havia de ser? O que foi hontem e que ha de ser ámanhã, e +que ha de ser sempre, emquanto... Emquanto se não fechar os olhos e se +der para baixo, seja em quem fôr. Parece impossivel que gente de +educação, gente que devia ter vergonha, e ser a primeira a mostrar o +exemplo, seja a que anda por ahi dando escandalo, sem fazer caso da +authoridade, nem da lei, nem de coisa alguma! E um padre então! e um +doutor!... + +--Pelo que vejo temos os do Cruzeiro fazendo das suas? + +--Pois quem senão elles? Essa sucia de libertinos, de... + +--Olha que está alli um primo d'elles, Clemente--admoestou a mãe, +sorrindo. + +Clemente reparou pela primeira vez em Mauricio. + +--Ah! desculpe, snr. Mauricio, que ainda agora o vejo. Mas isto é assim. +Aquelles senhores cuidam... Eu sei lá o que elles cuidam? Cuidam talvez +que isto hoje é como d'antes, e que elles hão fazer a sua vontade... + +--Mas a final de que se tracta?--inquiriu Mauricio. + +--D'esta vez deram-lhe para metter em casa um refractario do serviço +militar, contra quem ha um mandado de captura, e com o maior +descaramento o declaram por ahi. Temos outra como quando esconderam em +casa o assassino do reitor de Fieiras, e lhe deram escapula para o +Brazil. Mas eu não quero saber, a lei lá está que diz bem claro o que +deve fazer-se, e o snr. administrador não é para graças. + +--Fia-te n'elle! Olh'agora!--atalhou a mãe--É fresco! Vendo-te mettido +em talas, só se não puder deitar a mão á caravelha para te atenazar inda +mais. Não te lembras do que elle fez quando foi da prisão do morgado dos +Codeços, por causa das pancadas na feira? Ora bem me fio eu n'elle! Todo +collaço com o Lourenço do Cruzeiro, e companheiro de sucias d'elles +todos. Sabes que mais, meu filho? deixa-os lá e não te consumas com +isso. Olh'agora! + +Estas eram as maximas que o scepticismo inspirava já a Anna do Védor. + +Clemente encolheu os hombros. + +--Ou hei de ser regedor, ou não hei de ser. Por isso é que eu digo que +vou pedir a demissão. Para injustiças é que eu não sirvo. Não quero que +se diga que quando um pobre homem faz alguma coisa já tudo são pressas +para o prender e castigar, e lá porque uns senhores... Senhores? Melhor +tratassem de pagar o que devem a meio mundo, e não andassem por ahi a +fazer o que fazem. + +--Vamos, Clemente, perdoa-lhes as rapaziadas, por que a final elles são +teus amigos--interveio Mauricio. + +--Amigos elles?! Muito agradecido; mas nem acredito na tal amizade, nem +tambem a desejo; isto é para dizer o que é verdade. + +Interromperam-n'o n'este ponto duas vigorosas vozes masculinas, que +bradavam da rua: + +--Mauricio! Ó Mauricio! que diabo fazes tu ahi dentro, com o cavallo +prêso á porta? Eh! + +--Tu tambem pões mão na fornada? + +--Parece-me mais certo que ponha mão nas forneiras. + +A ti'Anna foi a primeira que tomou a palavra: + +--Fallae no ruim... São os do Cruzeiro. + +E chegando ao limiar da porta, exclamou com os seus modos desempenados: + +--Que é lá, que é, meus fidalguinhos? Que temos nós que dizer das +forneiras? Em minha casa não ha monte para caçadas de galgos, como +vocemecês. Entendem? Deixem socegado o Mauricio, que já não pouco mal +lhe teem feito com os seus conselhos e companhia. + +Mauricio appareceu aos primos, rindo do sermão da ama. + +Clemente permanecia carrancudo no fundo da cozinha. + +Os primos do Cruzeiro, o doutor e o abbade, vestiam á maneira do campo, +de jaqueta de alamares, faxa vermelha á cinta, chapéo de abas largas, de +espingarda ao hombro, cães em redor, e as victimas das suas façanhas +venatorias pendentes ao tiracolo, como tropheus de combate. + +O padre respondeu á Anna do Védor: + +--Ó mulher, guarde lá a sua lingua que não nos tira a sêde que trazemos, +e dê-nos antes uma pinga do verde, porque o nosso pichel vae vazio de +todo. + +E com a maior sem-cerimonia entraram para o pateo, poisando as +espingardas e os apparelhos de caça. + +O doutor sentou-se nos degraus da porta da cozinha, o padre na pilha de +lenha que havia no quinteiro. + +A Anna do Védor, com as mãos na cinta, observava-os e proseguiu na +objurgatoria: + +--Com que então o snr. abbade, e o snr. doutor, e o snr. seu mano +entendem que as leis d'estes reinos não foram feitas para vocemecês? + +--A que vem agora essa cantilena, ó mulher? Dê-nos vinho--insistiu o +padre. + +--A que vem?--tornou a ti'Anna--ahi está o meu Clemente que melhor o +póde dizer. + +Os dois voltaram-se e viram Clmente que, pela sua vez, appareceu á +porta. + +--Ah! ah! snr. regedor! + +--Pelos modos o homem está zangado comnosco por lhe escondermos o filho +do soqueiro, queres tu vêr? + +Mauricio tomou o partido de Clemente. + +--Bem sabem que é da responsabilidade d'elle. + +--Ora deixa-te de contos--atalhou o doutor. + +--O peior é que, vistos os autos, não temos vinho--fez notar o padre. + +--Está enganado, snr. abbade--veio-lhe á mão Clemente--fosse um +criminoso que me pedisse de comer e de beber, quando passasse á minha +porta, eu, com ser regedor, não lh'o recusaria. O que a minha casa não +ha de ser, isso não, é escondrijo de ladrões, de malvados e de +refractarios, nem sei que grande gloria venha d'ahi a quem tanto mal faz +á sociedade, não deixando que se cumpram as leis. O vinho ahi está. + +Effectivamente appareceram dois rapazes, empunhando cada qual uma caneca +a trasbordar de purissimo vinho verde, que os dois caçadores esvaziaram +de um fôlego. + +--Ah!--disse o doutor, no fim da libação--Não te arrenegues, Clemente, +que não és mau rapaz a final. Estás muito soberbo com a tua regedoria, +mas isso ha de passar-te. Ora agora fica sabendo que na quinta do +Cruzeiro, desde tempos immemoriaes, encontra asylo quem ahi se acolher. + +--Mas o senhor sabe que a lei pune a quem der escondrijo a um +refractario. Parece-me que um doutor não póde deixar de saber estas +coisas. + +--A lei diz muita coisa, que todos nós sabemos; mas deixa lá a lei, que +está quieta. + +--Mas se o snr. administrador ordenar uma busca na casa... + +--Que veja se se mette n'isso--acudiu o abbade, +sorrindo ameaçadoramente. + +--Tem direito para o fazer--questionou Clemente. + +--Pois que se contente com o direito. + +Clemente ia-se irritando. + +--Mas é preciso pôr côbro a isto, meus senhores. Não se póde soffrer que +em tempos de leis e de authoridades, haja uma casa onde nem lei, nem +authoridade entram. + +--Pois tenta, ó Clemente; quando te sentires de pachorra, manda-nos lá o +exercito dos teus cabos e commanda o assalto. Ah! ah! ah! Havia de ter +graça! + +--Pelos modos por que vejo irem as coisas, não direi que se não chegue +um dia a isso. + +--Hei de gostar de vêr. + +--Pois eu não. Os meus desejos eram que todos vivessem em paz e socego. +E o que me custa é que partam os maus exemplos d'onde deviam vir os +bons. + +--Ora sabes que mais, Clemente?--ponderou o padre.--Dou-te de conselho +que não puxes de mais pelo fiado. O mundo é assim em toda a parte, +rapaz; e é preciso fazer a vista grossa para certas coisas. As leis são +boas, mas não ha remedio senão soffrer de quando em quando que as não +cumpra, quem está no caso de ter vontade. + +--Mas a vontade tira-se, se as authoridades forem o que devem ser. + +--Viva, snr. regedor! + +--Digo isto, snr. abbade, e... + +--Um seu criado, snr. regedor! + +--E um dia... + +--Ás suas ordens, snr. regedor. + +--Snr. regedor, sim! e honro-me d'isso muito. E emquanto fôr regedor, +hão de me respeitar como tal. Já disse. O seu tempo já lá vae, snr. +abbade, e hoje a justiça quando tem de entrar em uma casa, não repara no +brazão que está á porta... ou não deve reparar. Ninguem tem direito de +não respeitar a lei, e eu prometto-lhes, que já que assim o querem... + +--Bem, bem--acudiu Mauricio, que receiou que a scena se tornasse mais +azeda--não prosigamos n'esta contenda. Venham vocês d'ahi, que temos que +conversar. Clemente, socega, que tudo se ha de arranjar. Adeus, Anna. + +--Vamos lá, vamos lá--concordaram os dois primos, empunhando outra vez +as espingardas--deixemos o snr. regedor que está hoje muito zangado. + +E ao atravessarem o quinteiro o doutor e o abbade abraçaram, cada um por +sua vez, uma das moças de Anna do Védor, que voltava da fonte com o +cantaro de agua. + +--Olá, olá, fidalguinhos!--bradou da porta da cozinha a patroa--já disse +que isto aqui não é terras do Cruzeiro. Olhem se querem que eu os enxote +como a rapozas do gallinheiro? + +E quando a criada chegou ao pé d'ella, disse-lhes com aspereza: + +--Tu não sabias chimpar-lhes o cantaro pela cabeça abaixo, minha maluca? +Sempre vocês não sei para que querem a esperteza. + +Os rapazes retiraram-se rindo. + +Anna voltou a ouvir e a mitigar as queixas do filho. + + + + +XIII + + +Mauricio mandou para casa o cavallo, no proposito de seguir os primos a +pé. Estes enviaram tambem para o Cruzeiro os cães, as espingardas e os +mais petrechos de caça. + +Os dois manos riram por muito tempo da prosapia do regedor e não se +deram por satisfeitos, senão depois de terem conseguido fazer tambem rir +Mauricio que, ao principio, tentou admoestal-os. + +--Deixemos o assumpto--disse a final o padre--que destino levas? + +--Nenhum. + +--N'esse caso vem por nossa casa, que não te has de arrepender. + +--Que ha lá? + +--Vem e saberás. + +--O José recebeu hontem do Douro uns cascos promettedores--explicou o +doutor. + +--Adeus, adeus; ahi estás tu a desfazer a surpreza. Deixa-o vir. + +--Vou--respondeu Mauricio--mas havemos de seguir o caminho que eu +disser. + +--Mas por onde diabo queres tu ir? + +--Temos empreitada? + +--Tambem vos prometto que se não arrependerão--insistiu Mauricio. + +--Ó rapaz, se são olhos pretos e cabellos fartos, dize, e vamos lá vêr +isso--alvitrou o padre. + +--Olhos, cabellos, dentes, gesto, riso, figura, tudo uma +perfeição--ampliou Mauricio. + +--Onde desenterraste essa maravilha? + +--Chegou aqui ha poucos dias. + +--Não ponhas mais na carta. + +--Já sei--interveio o doutor--fallaram-me n'ella. É a filha do Thomé da +Herdade. + +--Exactamente. + +--E então ella sempre é essas coisas? + +--Só te digo que eu ando cada vez mais doido por a rapariga. Isto cá +dentro está em imminente perigo de explosão. Que admira, se nunca até +hoje vi uma belleza assim? + +--Estás bem bom. Ó rapaz, o mais que posso fazer é casar-vos. _Conjungo +vós_--disse o padre, cantarolando. + +--Em uma palavra, para vocês imaginarem o estado d'isto, basta que vos +diga, que me custou a conter a indignação quando ouvi ha pouco a Anna do +Védor dizer-me que a Bertha era um bom casamento para o filho. + +--Ai, para o snr. regedor! + +--É verdade. + +--Então s. exc.ª tenciona tomar estado? + +--E vamos lá a saber--informou-se o doutor--a rapariga é arisca ou +accessivel? + +--Por ora parece-me desconfiada apenas, mas... + +--Como disseste que se chama? Bertha? + +--Sim. + +O padre cantarolou: + + Bertha, Bertha, meus amores, + Bertha do meu coração. + És a rainha das flores, + Trai lari lari larão. + +E, cantando, trepava o muro de um pomar para colher laranjas que de lá o +estavam seduzindo. + +--Deixa lá as laranjas; anda d'ahi--dizia o mano doutor, que seguia á +frente do rancho. + +--A casa do cidadão é inviolavel--acrescentou Mauricio. + +--Sim, senhor--tornou o padre, já a cavallo no muro--mas se me faz +favor, nem isto é casa, nem um homem que móra na aldeia é cidadão. + +E sahiu outra vez do muro com a sua colheita, e pôz-se a caminho, +comendo as laranjas que roubára. + +--Então dá cá uma--disse o doutor, voltando-se para traz. + +--Ah! ah! já cubiças? + +E o padre arremessou duas laranjas, que o mano destramente aparou nas +mãos. + +A companhia foi seguindo pelos accidentados caminhos da aldeia, +cantando, saltando, pondo em confusão as lavadeiras moças que ensaboavam +nas prêsas, abraçando á força na estrada as raparigas que, vergadas sob +mólhos de herva ou de milho cortado, mal lhes podiam fugir; visitando +todas as tavernas, fazendo correrias a gallinhas, porcos ou vaccas se se +lhes deparavam na pastagem, calcando campos e escalando muros com o +desassombro de senhores. + +Mauricio imitava-os meio constrangido, mas imitava-os. Se ás vezes os +seus melhores instinctos ou a influencia do tracto com Jorge o faziam +conter, a reflexão maliciosa de qualquer dos primos, que ironicamente +lhe celebrava a candura, impellia-o a vencer a primeira hesitação, e a +final dava o passo que lhe repugnára. + +Mauricio possuia um d'estes caracteres faceis de dominar; moveis, que +cedem ao bem e ao mal e que tanto habilitam o homem a realisar heroicos +feitos, como a perder-se. Tudo está na influencia que os rege. + +Se teem faculdades para apreciar o gozo, que de uma acção grande e +generosa resulta; se são capazes de a conceber e dão estimulos para a +executar; tambem as seducções do vicio os enlevam, tambem a vertigem do +abysmo os attrahe, e aproximam-se fascinados do precipicio, sem que a +razão acorde para os suspender no progresso fatal. + +Caracteres assim são instrumento poderoso do bem ou do mal, conforme a +mão que d'elles usa, e a intenção que os dirige. São os que sentem a +influencia das boas ou más companhias. + +Dentro em pouco chegavam os tres rapazes á Herdade. + +--Então a rapariga?--perguntou o padre, examinando as janellas vazias. + +--Nem sempre apparece á janella--informou Mauricio. + +--E de que meio te serves para chamal-a? tosses, cantas, +assobias?--perguntou o doutor.--Qual é o teu systema? + +--Eu não tenho systema. + +--Então para que nos trouxe por aqui este innocente, não me dirão? + +--Tu não tens entrada em casa? + +--Meu pae não gosta que nós visitemos o Thomé. + +--Ah! lá se o papá ralha... + +--Este Mauricio tem coisas! + +--Isto é mesmo uma menina innocente! + +--Aqui não ha malicia alguma! + +Estas observações dos manos estavam causando a Mauricio vergonha da sua +propria candura. + +--E então d'aqui?--interpellou o doutor. + +--Então...--titubeou Mauricio. + +--Segue-se dar meia volta á direita, e retirarmo-nos com caras de asnos, +não é assim? + +--Façam vocês o que quizerem--exclamou o padre--eu por mim, já que aqui +estou, não me retiro sem vêr a pequena. + +--Mas como?--interrogou Mauricio. + +--Eu te digo já. A coisa é simples. + +E dizendo, dirigiu-se a uma pequena porta que havia no muro da quinta e, +sem a menor hesitação, impelliu-a com força e ella cedeu sem grande +resistencia. O padre entrou primeiro, seguiu-o o mano doutor, e +Mauricio, ainda que mais a mêdo, imitou-os. + +Os do Cruzeiro caminhavam com a sem-ceremonia, que caracterisava todos +os seus actos n'aquella terra, assobiando, cortando flores e fructas, e +encurtando caminho por cima dos campos semeados. + +De repente o padre, que ia adiante, parou, e voltando-se, disse em tom +mais baixo: + +--E ainda dirão que não sou bom caçador? + +E, afastando-se para o lado, deixou-os vêr o objecto que elle designava, +apontando para a extremidade da rua em que iam entrar. + +Era Bertha. + +A filha de Thomé da Povoa acabára de ajudar a pôr á cabeça de uma +rapariguita aldeã o ultimo feixe de cannas de milho que os segadores +haviam deixado no campo e ficára-a seguindo com a vista, tão attenta que +nem deu pelos recem-chegados. + +--Vejam que figura de fada--murmurou Mauricio para os primos.--É a Ruth +da escriptura. + +--Sim, a figura temos visto, agora quero vêr-lhe a cara--disse o padre; +e acompanhado pelo mano bacharel, dirigiu-se para Bertha. + +Mauricio, surprendido por este passo, que não esperára, seguiu-os para +conter-lhes a brutal galanteria. + +Bertha, ouvindo passos, voltou-se, e ao reconhecer os tres rapazes, não +reprimiu um movimento de assustada surpreza, o qual porém se desvaneceu, +reparando que Mauricio era um d'elles. + +Todos se descobriram, cortejando Bertha. + +O padre, fitando impertinentemente os olhos n'ella, principiou: + +--Minha senhora, não repare n'esta invasão de territorio. Mas quem teve +a culpa foi aqui o primo Mauricio. Fallou-nos com tal enthusiasmo da +gentil filha do nosso velho amigo Thomé, que nós tomamos a resolução de +vir admiral-a e cumprimental-a. E aqui estamos. + +Bertha córou intensamente perante a grosseira sem-ceremonia do padre, e +dirigiu a Mauricio um olhar, em que se fazia uma interrogação e se +formulava uma censura. + +Mauricio respondeu a este olhar, dizendo em tom de irritado: + +--Desculpe, minha senhora, as maneiras pouco delicadas de meu primo. É +um javali silvestre que não sabe amaciar as sêdas. + +O mano bacharel soltou uma gargalhada, quasi tão grosseira como a +apresentação do padre, e apimentou-a com a expressão de igual +delicadeza: + +--Ora toma! apara lá esse peão á unha! Ah! ah! ah! + +O padre olhou espinhado para Mauricio, e redarguiu: + +--Ora não querem vêr este senhor de salão, que se offende com as minhas +sem-ceremonias! Javali! Tem graça! Quem o ouvir, ha de suppôl-o um +cãosinho de regaço. Meu lindo priminho, esta menina não é nenhuma tola e +sabe o que é o mundo; e escusas, para lhe agradar, de te apresentares +como um galã choramigas. Ora é boa! + +--Adeus, adeus, padre Lourenço, isso previa eu! + +--Previas o quê? Então eu offendi alguem? + +--De offender a ser menos delicado vae alguma distancia, mas... + +--Dize tu que o que eu não sou é impostor e hypocrita, apesar de me +terem feito padre. Eu disse o que era verdade. Nós, se estamos aqui, é +por tua causa. Não é assim, Chico? + +O mano Chico affirmou. + +Bertha assistia a toda esta scena com visivel desgosto, mas sem +interrompêl-a com uma palavra. + +--Bertha, affirmo-lhe...--ia a dizer Mauricio para justificar-se da +tacita arguição, que lia no olhar d'ella. + +--Com licença--cortou-lhe o padre a palavra--se sou grosseiro e javali, +hei de sêl-o até o fim. A coisa passou-se d'esta maneira. O Chico que o +diga. Aqui o primo Mauricio parece que está perdido por a menina, e por +tal modo nos fallou de si, tanto nos matou o bicho do ouvido para que +lhe passassemos por a porta, que nós viemos. E como não estava á +janella, nem elle tinha ainda combinado signal para a fazer apparecer, +eu, para não perder o tempo e as passadas, abri brecha no reducto e +entramos. Ora aqui está. Se isto é offensa... + +Bertha respondeu, já serenamente: + +--Creio que não é, porque não póde de certo haver intenção de +offender-me, em quem entra em minha casa na companhia do snr. Mauricio. +Elle bem se lembra de que eu fui em pequena a companheira de sua irmã +Beatriz, de que sou a afilhada de seu pae, e n'aquella casa, a que elle +pertence, julgo que ainda ha, como d'antes, muito respeito por este +laços de familia e de amizade... + +--Ha, Bertha, ha e tão sancto como em outros tempos. E ha mais, ha a +firme resolução de os fazer respeitar aos outros, como lá se respeitam. + +--Abranda-te, leão! Não estou disposto a luctar comtigo, apesar d'esses +olhares ferozes. Esta menina far-me-ha mais justiça, reconhecendo que eu +não a offendi... + +--Não fallemos mais n'isso--acudiu Bertha friamente. + +--Mas é um caso de consciencia--insistiu o abbade. + +--Então ninguem tão habilitado para o decidir como um +sacerdote--tornou-lhe Bertha, com desdem. + +Gargalhada do mano bacharel. + +--Chucha! Ora mette-te com ella, anda. + +--Em coisas do coração--redarguiu o padre galanteadoramente--são +melhores juizes do que os sacerdotes, as _madamas_. + +Bertha contrahiu a fronte com desgosto e respondeu-lhe com maior +severidade: + +--Quando ellas teem um pae, podem elles tambem ser juizes. E o meu ahi +vem. + +Effectivamente chegava Thomé da Povoa. + +O honrado fazendeiro, que tinha a sua opinião formada a respeito dos +fidalgos do Cruzeiro, franziu o sobrolho, assim que os avistou com a +filha. + +Nem a presença de Mauricio bastou para tranquillisal-o. + +Thomé conhecia de pequenos os rapazes da Casa Mourisca e sabia até que +ponto se podia contar com o que em Mauricio havia de bom, e receiar do +que n'elle havia de mau. + +Depois a physionomia de Bertha denunciava que a conversação dos fidalgos +não tinha sido demasiadamente apropositada. + +Nem convinha á boa fama de uma casa, em que houvesse raparigas, a +assiduidade de qualquer dos tres manos do Cruzeiro. + +Tudo isto actuava no espirito de Thomé durante os instantes que +precederam a sua introducção na scena. + +--Olá! v. exc.as por aqui! Grande honra! grande honra! + +--É verdade, Thomé--começou o padre a dizer--entramos, como rapazes de +escóla, sem pedir licença ao dono da casa; mas confiamos que não se nos +leve a mal... + +--Ora essa! Levar a mal porquê? V. exc.as quizeram talvez vêr por seus +proprios olhos como esta abençoada terra, que d'antes se definhava nas +mãos de um fidalgo, medra agora nas mãos de um lavrador? + +--Justamente. E depois tivemos a felicidade de encontrar a menina +Bertha, que é a maravilha d'estes sitios. + +--Ah!--disse Thomé, com um meio sorriso, e voltando-se para a filha, que +instinctivamente se aproximou d'elle: + +--É verdade. Agora me lembra! Olha que tua mãe recebeu já aquellas +meiadas. Se queres ir vêl-as. + +--Vou, vou já--respondeu Bertha. + +E cortejando levemente os tres rapazes, afastou-se d'alli. + +--Até outra vez, Bertha--disse Mauricio, com voz affectuosa. + +--Snr. Mauricio--correspondeu-lhe Bertha, e desappareceu por uma rua da +quinta. + +E pensava comsigo mesma: + +--Agora... agora... já não sinto mêdo d'elle... nem de mim. + +--Na verdade, Thomé, a sua casa está um perfeito paraizo e nem os anjos +lhe faltam--disse o mano bacharel, depois que Bertha se retirou. + +--O que eu posso affirmar--insinuou o abbade--é que não faltarão tambem +em volta d'estes muros enxames de namorados. Que te parece, Mauricio? + +--Bertha é digna de todos os respeitos--murmurou Mauricio, confuso. + +--Bem, bem, quem diz menos d'isso? mas... + +Thomé interrompeu o padre. + +--Eu lhes digo, meus senhores, Bertha é filha de uma familia, em que +todos trabalham, e pouco tempo póde ter para apparecer a namorados. +Quando algum homem de bem se me affeiçoar á filha, não serei eu que lh'a +recuse, se o coração d'ella estiver para esse lado; pois para freira a +não quero. Emquanto aos enfeitados, que andam por ahi a zunir aos +ouvidos das raparigas e a fazel-as doidas, Bertha sabe bem o que elles +valem... mas, se por acaso a importunarem muito... eu sei como se dá +cabo de um vespeiro. + +E fallando Thomé da Povoa não ficára immovel, mas pozera-se naturalmente +em caminho da porta, e os tres seguiam-n'o, sem fazer observação alguma. + +Só quando o viram parar no portão é que perceberam que o lavrador como +que tacitamente os convidava para sahirem. + +O padre não pôde deixar sem uma reflexão este procedimento. + +--Agradecemos, Thomé, o incommodo que teve a ensinar-nos o caminho da +porta para sahirmos. + +--Os lavradores da nossa terra teem estes excessos de +hospitalidade--secundou o doutor. + +Thomé córou e respondeu com certa confusão: + +--A minha cabeça!... Desculpem. Isto em mim foi distracção. Quando a +gente não está bem em si, faz, sem reparar, coisas que muitas vezes lhe +podem estar na vontade, mas que por delicadeza não faria, se pensasse +melhor. Queiram desculpar. + +--Está desculpado. Nós tambem não tinhamos mais que fazer aqui. O fim da +nossa visita estava preenchido. + +--Sim, tambem me quiz parecer isso. + +--Adeus, Thomé--bradou o doutor--Deixamol-o entregue á sua vida +patriarchal. + +--E está um verdadeiro patriarcha, este bonacheirão do Thomé--disse o +padre, batendo familiarmente no hombro do lavrador. + +--Bonacheirão?--repetiu Thomé, encolhendo os hombros e com um meio +sorriso--Isso é conforme. Ás vezes... Ahi está que, sendo eu amigo do +mestre-escóla, como sou e ha tantos annos, estive ha mezes para o +esmagar. E sabem porquê? Porque passava eu por a escóla e ouvi chorar +uma criança, e pareceu-me que era o meu pequeno; não me socegou o +coração sem que me affirmasse se era elle ou não. Entrei e vi o +desalmado do Zé Domingues que m'o desancava sem dó nem piedade. +Escureceu-se-me a vista, entrei furioso por alli dentro, e por um triz +que não deixava o homem a pernear. + +Os rapazes estavam já fóra da porta quando Thomé acabou de contar o +caso, e acrescentou: + +--Não que se tractava de meu filho, e isto de amor de pae e de mãe... É +como nos animaes. Sabem aquella vacca malhada que eu tenho? Um borrego, +com que uma criança brinca; pois haviam de vêl-a uma vez em que lhe +tiraram a cria! Estava furiosa e arremettia como um toiro bravo. É +preciso cuidado com isto de paes e de mães!--concluiu o fazendeiro, em +tom sentencioso e emphatico. + +E dando as boas tardes aos tres rapazes, fechou a porta, murmurando: + +--O padre ainda não aprendeu com a corrida que levou da abbadia. E este +Mauricio a acompanhar com elles! Valha-o Deus! + +--Então que vos parece o snr. Thomé?--perguntou o bacharel cá fóra. + +--Não está mau com a historia da vacca--disse o abbade, rindo. + +Mauricio conservou-se silencioso. + +--Tu a modo que vaes assim embaçado, ó Mauricio?--observou o bacharel. + +--Estou arrependido de vos ter trazido commigo aqui--confessou Mauricio. + +--Ora não sejas parvo! querias talvez que fizessemos muito gasto de +excellencias com a filha do Thomé da Povoa? + +--É uma rapariga de educação, e o pae...--ia a dizer Mauricio. + +--E o pae--atalhou o padre--anda-me chiando muito alto, mas bom será que +tenha mais cuidadinho comsigo. + +--As ultimas palavras d'elle cheiraram-me a uma ameaça--observou o +doutor. + +--Eu nem dei por isso--respondeu o mano. + +E os tres retiraram-se de mau humor. + + + + +XIV + + +Jorge, que ultimamente era menos assiduo em Casa de Thomé, sem que este +pudesse atinar com a razão do facto, recebeu, na tarde d'aquelle mesmo +dia, um bilhete do fazendeiro, pedindo-lhe que o procurasse na Herdade +ás horas do costume. Jorge não faltou. + +Thomé da Povoa recebeu-o com modos menos desenleiados do que os que lhe +eram habituaes, e com ares de mysteriosa preoccupação conduziu-o a um +gabinete mais retirado da casa, serrando a porta depois que entraram, +com excepcional cuidado. + +Jorge seguia-lhe com estranheza os movimentos. + +Thomé, com um gesto denunciador do esforço que n'aquelle movimento fazia +sobre si proprio, entrou no assumpto com visivel repugnancia: + +--Snr. Jorge--principiou elle--sei que é meu amigo, e que tem o juizo e +a prudencia de um homem feito, apesar de novo como é; por isso vou +fallar-lhe com a franqueza de um homem de bem e de um amigo. + +--Nem o Thomé sabe conversar de outra maneira. Diga. + +--Pois bem. A coisa é esta... Eu antes queria não fallar n'isto, mas... +emfim... se o negocio ha de ir a mais... e succeder por ahi alguma +desgraça... emfim... a tempo é que é evitar o mal; quanto ao depois... + +--Mas de que se tracta? + +--Snr. Jorge. É um pae que lhe falla. Tenho uma filha e emfim preciso de +vigiar por ella, emquanto não tem marido que a zele e proteja... não é +verdade? + +Jorge não pôde ouvir sem se perturbar estas palavras e, interiormente +inquieto, sem bem saber porque, murmurou: + +--De certo, mas... + +--Ora bem. O snr. Jorge é rapaz sisudo e pacato, mas emfim sempre ha de +saber o que são dezoito, dezenove ou vinte annos, hein? Pode-se ter o +juizo muito claro, vêr as coisas como ellas são, mas... isto de sangue +novo... parece que ferve e depois é como uma doença, e como uma febre, a +cabeça desarranja-se e não ha conselhos que a concertem. Pois não é +assim? + +Jorge córou ouvindo estas considerações de Thomé, que lhe pareciam +dirigidas, olhou para elle com desconfiança e respondeu confusamente: + +--Talvez seja; porém... + +--Ora então segue-se que o melhor é livrar-se a gente de trabalhos e +fugir das occasiões, para que depois se não diga: «Ai, porque se eu +soubesse; ai, porque o que eu devia ter feito era...» Entende-me? + +--Entendo, Thomé, mas, a final a que quer chegar?--interrogou Jorge, +cada vez mais sobresaltado. + +--Ora eu lhe digo. A minha Bertha é uma rapariga de juizo. + +A confusão de Jorge redobrou. O rosto tingiu-se-lhe de rubor, em que +Thomé não reparou. + +--É--proseguiu o fazendeiro--tenho a certeza d'isso, mas é rapariga, e +emfim teve uma educação bem bonitinha; e Deus me perdoe se fiz mal em +lh'a dar; ora eu, com quanto seja um rustico, sei o valor que teem +certas coisas, e que quem se costumar a ellas com ellas sonha. Isso é +que é verdade! E nem eu me admirava de que a pequena tivesse sua +inclinação para rapazes da cidade. Era natural, já digo. Mas aqui não +veem elles, os da terra são assim meios... meios... emfim rapazes de +lavoura, como eu fui; muito bons para raparigas como era a minha Luiza. +Ora agora o que por ahi ha, são, e perdoe-me dizer-lhe isto, uns +fidalguinhos que não teem que fazer, e que passam o seu tempo a +inquietar as raparigas da terra. D'esses é que eu tenho mêdo! E se quer +que lhe falle a verdade, cá em relação á minha pequena, ha um sobre +todos de que eu muito me receio. + +--Quem é?--perguntou Jorge, ainda não senhor de si. + +Thomé hesitou por algum tempo, mas a final, como tomando uma resolução, +respondeu: + +--É seu irmão Mauricio. + +--Mauricio!--repetiu Jorge, contrahindo a fronte.--Pois acaso tem elle +dado já motivos para suspeitar?... + +--Poucos; isto em mim é mais mêdo do que outra coisa. Hoje porém já me +não agradou o que elle fez. + +E Thomé narrou a Jorge a scena da manhã, acrescentando: + +--Ora dos do Cruzeiro não tenho eu mêdo. Bertha conhece-os e é o que +basta para ficar livre de perigo; mas com o snr. Mauricio já não é +assim. Apesar das suas doidices, não se póde deixar de se gostar do +rapaz, porque o fundo é bom e generoso, e depois... conhecem-se ha +muito... e elle é estouvado e um rapaz bonito... e ella... ella tem +dezoito annos... Emfim, snr. Jorge, isto anda-me cá a pezar, e por isso +pedia-lhe que visse se obrigava seu irmão a deixar-me em paz a rapariga, +porque nada de bom póde resultar d'aqui. + +Jorge sentia apertar-se-lhe o coração ao ouvir aquella confidencia. Era +pois certo que Bertha amava já Mauricio! + +--Thomé--respondeu elle, sem trahir a sua agitação--socegue. Eu fallarei +a Mauricio. Não creio que elle fizesse com intenção o que me diz; mas em +todo o caso concordo em que é preciso evitar a tempo peores +occorrencias. Faço justiça a Bertha; mas quero que meu irmão seja o +primeiro a respeital-a. Eu lhe fallarei, creia. + +--Muito bem--respondeu Thomé, apertando-lhe a mão.--Eu estava certo de +que me daria essa mesma resposta. + +Jorge acrescentou: + +--Demais, Mauricio pouco se demorará aqui. Espero que em breve parta +para Lisboa. + +--Bom será. Talento tem elle para o poder aproveitar na vida, e aqui o +que ha de elle fazer? Depois a companhia d'aquelles primos!... + +Jorge separou-se de Thomé, sem que se occupasse n'aquella noite do +assumpto habitual das suas conferencias. + +Ao sahir, mais cêdo do que o costume, atravessou uma sala aonde Bertha +costurava á luz de um candieiro. + +Ao vêl-o passar, Bertha estendeu-lhe familiarmente a mão, dizendo com um +sorriso affectuoso: + +--Retira-se muito cêdo hoje; durou pouco a lição. + +--Ás vezes é quando mais se aprende--respondeu-lhe Jorge, com mal +disfarçada ironia. + +--E até quando?--proseguiu Bertha, parecendo não attentar no sentido da +resposta.--Ha já bastante tempo que não o viamos. + +--Até... até cêdo. + +--O snr. Mauricio vejo-o mais vezes... ainda hontem ahi passou. + +--Sim--disse Jorge com um malicioso sorriso--Mauricio tem essa +habilidade, de ser visto todos os dias por as mulheres bonitas da terra. + +Bertha olhou admirada para Jorge; feriam-n'a aquellas respostas sêcas e +sarcasticas, que não esperava ouvir-lhe. + +--Então dá-se ao trabalho de se mostrar a todas?--perguntou ella sem +desviar os olhos. + +--Sim, provavelmente--tornou Jorge no mesmo tom--e parece que todas se +dão ao trabalho de lhe apparecer. + +--Ah! + +E Bertha calou-se; fixou os olhos na costura e pareceu até esquecer-se +da presença de Jorge na sala. + +Este finalmente despediu-se, estendendo a mão a Bertha. + +--Boa noite, Bertha. + +Sem levantar os olhos da costura e portanto sem lhe corresponder ao +gesto de despedida, Bertha respondeu: + +--Boa noite, snr. Jorge. + +--Offendeu-se--pensava Jorge ao retirar-se--então ha fundamentos para as +apprehensões de Thomé. Juizo de rapariga a final! Cabeça doida, que não +espera que o coração se declare e alimenta paixões com reminiscencias de +romances. Pobre Thomé! É o que elle a final colhe dos seus sacrificios +para a educar. Eu logo o suppuz... + +As reflexões de Jorge succederam-se e encadearam-se n'este teor. Crescia +n'elle mais do que nunca a sua irritação contra Bertha. + +--Mas que tenho eu com Bertha?--reconsiderava elle--para me importar com +isto? A final são pequenas fraquezas de rapariga e... Mas a amizade que +consagro ao pae obriga-me a intervir. Mauricio é um louco, e ella já +vejo que não tem mais prudencia do que outra qualquer rapariga da sua +idade. + +E esta ideia de Bertha ser sensivel aos galanteios de Mauricio era o que +mais que tudo o incommodava. + +E Bertha? Que ficou pensando, com a cabeça inclinada sobre a costura, +mas com a mão parada e o olhar pensativamente fixo? + +--Porque é esta severidade de Jorge para commigo?--pensava ella--Não +posso já duvidar. Ha n'elle não sei que prevenção contra mim. Ou não me +falla, ou falla-me d'este modo. Um motivo leve não póde ser, porque +Jorge é, ao que dizem, um rapaz de tão bom senso, que de certo por uma +insignificancia não me tractaria assim. Mas que faria eu? Nada; se em +mim ha loucuras, ficam-me no pensamento e ahi quem as vae devassar?... E +que fossem?... E que as achassem?... Eu podia dizer-lhes: Sim, estão +ahi, mas eu bem sei que estão, e ahi mesmo as suffoco e venço. Não sou +responsavel perante ninguem do que se passa em mim só. Entre mim e Deus +é que essas coisas se julgam. Quando me revelar, quando me trahir, que +me peçam contas então. A que vem estas severidades? Que fiz eu a este +generoso rapaz? Imaginará elle que o galanteio de Mauricio me terá +fascinado? É um caracter tão serio, que talvez por isso me condemne. +Fascinar-me! Mauricio!!... Ao principio talvez; agora porém vejo que se +vão desvanecendo essas phantasias de criança, nascidas e robustecidas +nas minhas horas de solidão no collegio, e que senti alvoroçarem-se ao +chegar aqui, e ao vêl-o. Mauricio não é o caracter de que eu me posso +receiar. E ainda bem. Mas Jorge por que me quererá mal? Lembra-me que +meu pae me disse que, se elle não fosse meu amigo, não me dizia que o +era... E elle ainda m'o não disse. + +Estas reflexões foram interrompidas pela entrada de Thomé, que, +satisfeito pela promessa de Jorge, já não sentia nuvens a escurecer-lhe +o pensamento. + +Jorge chegou a casa antes do irmão. + +Era noite de luar, tepida noite de outomno, languida e serena, como a +podem desejar os mais exaltados devaneiadores. Havia uma limpidez no +céo, uma quietação nos bosques tão completa, que parecia que a natureza +toda parára em suspensão a contemplar o solemne progresso da lua pelo +firmamento, que inundava de luz. + +Era uma d'estas noites em que só a custo se troca o ar livre dos campos +pelo ar confinado do gabinete, em que se hesita ao cerrar as janellas +aos raios da lua que invadem a sala, para os substituir pela luz +vacillante da lampada, que alumia as vigilias do estudo. + +O proprio Jorge, habituado como estava ao trabalho, cedeu ás seducções +d'aquella noite e deixou-se ficar sob as arvores da quinta. O peito +precisava de ar livre que o desopprimisse. + +Os carvalhos e castanheiros seculares temperavam a claridade da lua, +coando-a atravez da folhagem, de que o inverno os não despira ainda. Uma +luz mysteriosamente discreta penetrava no bosque; raros sons +interrompiam aquelle silencio, além do rumor longinquo e monotono das +fontes e cascatas. + +O pensamento de Jorge perdêra a placidez habitual; como que despertavam +n'elle os instinctos de juventude, povoando-lhe de visões o campo da +phantasia, de ordinario occupado por mais severas imagens. + +Os seus calculos, os seus projectos de futuro, os problemas de +administração, que lhe absorviam o pensamento, cederam agora o logar a +ideias menos positivas, a meditações vagas, a quasi devaneios, em que +raras vezes a sua razão se deixava arrebatar. Primeiro dominou-o a magia +do passado; evocou do silencio dos tumulos aquelles dos seus +antepassados, que trouxeram com todo o esplendor o nome que hoje era +seu, os que mais alto elevaram o ennegrecido brazão que honrava ainda a +frontaria d'aquelle solar em ruinas. Depois, saudades mais pungentes, +d'essas que ainda trazem vestigios de lagrimas, como restos da sua +natureza de dôr, de que só o tempo as vae privando, occuparam-lhe o +coração e o pensamento. A sombra da pallida e estremecida irmã, que a +morte arrebatára quando mais seduzia com sorrisos e afagos, a sombra de +Beatriz, que era a mais querida e mais dolorosa recordação d'aquelles +rapazes e d'aquelle velho, parecia surgir ao mysterioso apello da noite, +e vaguear, como uma apparição phantastica, por entre essas arvores que +menina a viram e menina a protegeram do sol abrazador dos campos. + +Jorge ainda não esgotára as lagrimas consagradas á memoria da irmã. +Tinha-as nos olhos, quando a tinha no pensamento a ella. + +Pouco e pouco, por uma insensivel transição, a imagem de Bertha +substituiu a de Beatriz. + +Differentes eram as impressões que esta nova imagem lhe produzia, +differentes e indecifraveis quasi. + +Já vimos que antagonismo de sentimentos havia no coração de Jorge em +relação á filha de Thomé da Povoa. + +Como luctavam a involuntaria attracção que por ella sentia, com a +reflectida resistencia que lhe oppunha. Lidava por levantar obstaculos +ao progresso do violento affecto que lhe ia tomando o coração, e a seu +pezar via que esses obstaculos eram inuteis. Inventava defeitos que lhe +desprestigiassem o caracter de Bertha, accusava-a de vicios de educação +que ainda lhe não reconhecêra, fingia-se convencido da leviandade +d'aquella pobre rapariga, e com toda a austeridade do seu caracter +sisudo lavrava contra ella a sentença condemnatoria; mas no fim de tudo +isto achava-se cada vez mais subjugado; revoltava-se-lhe debalde a +consciencia contra esta fraqueza, em vão revelava com maneiras rudes e +quasi hostis para com Bertha este desgosto de si mesmo que estava +experimentando... o effeito era cada vez mais pronunciado. + +O que tinha acabado de ouvir a Thomé augmentára-lhe aquella inquieta +lucta de espirito. + +A ideia de inclinação reciproca de Bertha e de Mauricio irritava-o e +affligia-o. + +Não eram as consequencias do facto que o assustavam. Jorge não +acreditava na sinceridade das affeições de Mauricio; sabia quanto ellas +eram fugazes e estava convencido de que a proxima partida do irmão +bastaria para desvanecer essa paixão nascente. + +E comtudo não lhe sahia do pensamento aquillo. Torturava-o aquella +ideia, não lhe permittia repouso. + +A consciencia de Jorge aventurava, muito a mêdo, a vaga explicação +d'este enigma psychologico que se estava passando n'elle, mas Jorge +recusava dar attenção áquella voz. + +Ha casos assim, em que nem comnosco somos sinceros, em que se faz mais +evidente do que nunca esta especie de dualidade unificada em todo o +individuo, porque guardamos discretamente de nós um segredo nosso, e +luctamos comnosco em opposição declarada. + +A dominios tão intimos da consciencia seria porém irreverente levar a +luz da analyse; aguardemos que a ulterior evolução de affectos melhor +nos revele o segredo que ia no coração de Jorge. + +Era já noite avançada quando chegou aos ouvidos do pensativo rapaz o +ruido de uma porta que se abria; pouco depois passava Mauricio pela +extrema do bosque, cantando distrahidamente: + + Além, n'aquella avenida + De platanos e salgueiros, + Foi que em teus beijos primeiros + Bebi a primeira vida. + +A luz do luar batia-lhe em cheio na figura e não o deixou passar +incognito. + +Jorge, reconhecendo-o, chamou-o em alta voz. + +Mauricio parou surprendido. + +--Quem me chama? + +--Sou eu. + +--Tu?! Jorge! + +--Sim, pois quem havia de ser? + +Mauricio caminhou ao encontro do irmão. + +--Transportas-me de surpreza em surpreza! uns dias a seguir da janella +do teu quarto o caminhar das nuvens, outros a errar á meia noite por +entre as sombras dos bosques! Em que havia de dar a arithmetica! + +--Cheguei ha pouco. Abafava lá dentro. Vim para aqui esperar-te, porque +desejava conversar comtigo. + +--O tom é grave e serio; é de crer que o assumpto corresponda. + +--Não te enganas. É bastante serio o que tenho para dizer-te. + +--Penetremos então na sombra druidica d'este bosque, para augmentar a +solemnidade da scena. + +--Peço-te que deixes para outra occasião as tuas observações joviaes; +repito-te que é serio o que tenho a dizer-te. + +--Pois aqui me tens serio como o assumpto. Falla. + +Jorge guardou ainda por instantes silencio. Sob os passos dos dois +irmãos ouvia-se estalar as folhas sêcas que alastravam o chão. + +--Mauricio--principiou Jorge a final--Thomé procurou-me hoje para +fazer-me um pedido. + +--Hum!--atalhou Mauricio com meio riso--não me enganei, previ logo que +se tractava d'isso. + +--De quê? + +--Fizeram-te queixa de mim, não é verdade? Pintaram-me como um lobo +voraz rondando e assaltando o curral da tenra ovelhinha, creada com +tanto mimo e recato? e tu, na tua inexperiente imaginação de rapaz +serio, viste logo um drama pavoroso em tudo isso e distribuiste-me +n'elle o papel de tyranno. Confessa que tudo isto é verdade. + +--E estimaria bem que não fosse. + +--É o que eu digo. Olha, Jorge, eu sou mais novo do que tu, mas, vivendo +mais da vida commum da sociedade, não estou tão sujeito a vêr as coisas +sob o colorido particular do prisma, atravez do qual as vêem os que, +como tu, trazem quasi sempre o pensamento tomado por altas e abstractas +especulações. Com a maior franqueza te confesso que Bertha me agrada, +que todos os dias procuro vêl-a, que, se lhe fallo, não perco tempo a +dizer-lhe que o anno vae bom para as colheitas ou que hontem esteve mais +calor do que hoje; não tenho razões para suppôr que as minhas visitas a +importunem. Esta é que é a verdade; mas d'aqui a realisar o typo de +Lovelace ou D. Juan Tenorio, incumbindo a ella a parte de Clarisse ou de +Elvira, vae muita distancia. Estas coisas, se tu não andasses tão +alheado dos negocios terrenos, devias saber que são da pratica commum, +em qualquer parte, onde se encontra uma rapariga bonita e um rapaz que +se preza de saber apreciar o bello. Ora agora vê lá se ha motivo para o +terror tragico que te infundiram. + +--Não é terror tragico, é desgosto. Eu bem sei que são usuaes esses +galanteios que dizes, essas falsas ostentações de amor, com as quaes se +profana e desprestigia tudo quanto ha de mais sancto e respeitavel no +coração do homem. Ás vezes succede, é verdade, que uma das partes +interessadas, talvez por andar alheada dos negocios terrenos, como +dizes, entra com a alma n'essas comedias sociaes, e quando a scena +finda, muito a bel-prazer do outro actor e sob os applausos dos +espectadores que riem, essa alma sente-se ferida de um golpe mortal. As +illusões da mocidade, o suave perfume de um affecto virginal, as +primicias de um amor casto, tudo se desvanece n'estas profanações, e não +sei que haja espirito tão leviano que ouse tentar a representação +d'estas comedias ridiculas e ao mesmo tempo perversas com uma pessoa a +quem se devem affeições leaes e respeitos. + +--Mas... + +--Em uma palavra, Bertha é a filha de um homem honrado; Bertha era a +amiga e a companheira de Beatriz e muitas vezes se sentou comnosco á +mesa, a que presidia nossa mãe, que a abençoava, quando nos abençoava a +nós. Não te lembras d'isso? + +--Lembro, e por isso mesmo a amo. Não te disse que havia entre nós +recordações de infancia? + +--Amas!--exclamou Jorge com uma impaciencia, a que era pouco +sujeito.--Que amor! Um amor de que fazes confidentes os primos do +Cruzeiro, que sabes tractarem irreverentemente todos os amores, um amor +que ostentas sem recato, chegando a sujeitar á apreciação cynica d'esses +doidos a mulher que dizes objecto d'elle, um amor que não procuras +occultar com aquelle casto e natural pudor de uma alma devéras +apaixonada. Que amor esse que apregoas sem escrupulos nem reservas +diante de quem quer que seja! + +--Mas... como imaginas tu então que se ama, quando se ama devéras? O +systema da publicidade applicado ás paixões não será antes uma garantia +da boa natureza d'ellas? + +Como se nem tivesse escutado estas palavras, Jorge, acelerando um tanto +a rapidez dos seus passos, proseguiu com exaltação crescente: + +--Nunca amei, nunca senti por uma mulher uma d'estas paixões unicas, +dominadoras, exclusivas, a que se sacrifica tudo; mas ás vezes tenho +pensado n'isto e julgo haver concebido o que seria para mim o amor, se o +sentisse. Se eu um dia amasse, parece-me que procuraria esconder de +todos os olhos essa paixão; desejaria que ninguem m'a suspeitasse nem +por uma palavra, nem por um gesto, nem por um olhar. Ouvir estranhos +fallar sequer na mulher que eu amasse, ferir-me-ia como uma profanação. +Não escolheria confidentes, a ninguem revelaria esse segredo da minha +alma. A mais alta, a mais casta voluptuosidade, que me produziria este +amor seria o poder dizer, quando estivesse só, ninguem no mundo sabe, +ninguem suspeita este mysterio do meu coração, senão ella. Para ella só, +para essa mulher que eu amasse quereria reservar todas as manifestações +dos meus sentimentos, as mais serias e as mais pueris, pertenciam-lhe; e +permittir que outros as percebessem era profanar o culto. Só com ella, +sim, todas as reservas acabavam; então no gesto, na palavra, no olhar +revelaria inteira a minha alma, sem mysterio nem discrição. Aspiraria +assim n'esses instantes todo o suave e delicado perfume do amor. Que o +mundo, ao vêr-me frio e concentrado, pensasse: «Ahi está um homem de +gêlo, este não sabe amar», e que ella só pudesse dizer: «Oh! eu é que +sei de que extremos é capaz aquelle amor que ninguem suspeita.» + +Mauricio estava maravilhado de ouvir Jorge, que parecia dominado por uma +excitação nervosa, ao fallar assim, mais para si do que para o irmão. + +Taes expansões eram raras em Jorge e esta era a mais vehemente e +completa que o irmão presenciára. + +--É singular!--notou Mauricio--N'esta vida tropeça-se a cada passo em +uma maravilha. Quem te ouvisse agora não acreditaria que és aquelle +rapaz serio, para quem as raparigas nem se atrevem a lançar um olhar +furtivo, porque nunca uma phrase de galanteio ou um sorriso as animou a +tanto. Estou admirado! e quasi me convenço de que a final sou apenas um +simples curioso na arte de amar, cuja metaphysica transcendente tu +professas como verdadeiro mestre. A minha sensibilidade é menos +exigente, mas por essa mesma razão admiro a suprema delicadeza da tua! + +Jorge como que voltou a si e estranhou a exaltação de que se deixára +possuir. Rindo e fallando já em tom natural tentou attenuar a impressão +produzida, e disse para o irmão: + +--A lua tem decididamente uma influencia poderosa até nos animos mais +fleugmaticos. Ahi está que querendo eu fallar-te de coisas serias, +esqueci-me em uma divagação sentimental, que Deus sabe até onde me +levaria. Deixemos isto. Vaes prometter-me, Mauricio, que desestirás de +inquietar Bertha e tranquillisarás o espirito a Thomé! + +--Ora que ridicula promessa exiges tu de mim! Deixa-me vêr de quando em +quando aquella rapariga, que eu te afianço que não corre perigo algum +com isso. Quanto mais que eu não posso assegurar que ella de facto me +corresponda. + +--Não anticipes juizos sobre o effeito incalculavel que póde produzir no +espirito d'aquella rapariga a assiduidade das tuas attenções. Bertha é +muito nova, tem habitos e gostos de cidade, e não é de crêr que possas +ter na aldeia concorrentes que te offusquem. Por isso o melhor é acabar +com esse galanteio perigoso para ella. Lembra-te das consequencias que +póde ter um tal capricho da tua parte. Além do que parece que já te +esqueceste da gravidade da nossa posição e das resoluções que ha dias +tomamos. + +--Não, não me esqueci; estou prompto para a primeira voz; mas, emquanto +espero, desejo dar um adeus á vida de rapaz. + +--Mas evita sahir d'ella, semeando remorsos que fructifiquem na tua vida +de homem. + +--Mas... + +--Terminemos. Peço-te, em nome de Beatriz, que não continues galanteando +Bertha. Promettes? + +Mauricio acabou por prometter. + +E horas depois voltavam a casa os dois irmãos. + +A lua declinava já no arco esplendido que descrevia no céo. + + + + +XV + + +Em uma das seguintes madrugadas foi Jorge sobresaltadamente acordado +pelo velho jardineiro, que depois das ultimas reformas estava empregado +no serviço interno da casa. O homem tinha uns ares de espantado, como se +viera a communicar a noticia de um incendio. + +--Que temos?--perguntou Jorge, sentando-se inquieto no leito. + +--É que não tarda ahi a snr.ª baroneza. Já estão lá em baixo umas +bagagens e uns criados, e... não está nada preparado. + +--Cuidei que era outra coisa. E o que querias tu que estivesse +preparado? + +--Ora pois então? Sempre é uma pessoa... Lá o padre já deu ordem para se +ir pedir a baixella aos... + +--Não se pede coisa alguma. Ahi principia o frei Januario a fazer das +suas. Dize-lhe que deixe tudo ao meu cuidado. Que se não estafe, nem +afflija, que não é necessario. + +--Mas... olhe lá, snr. Jorge! O fidalgo mesmo não ha de gostar... + +--Faze o que eu te digo. Isso em ti, a fallar a verdade, até me admira. +Não parece franqueza de soldado. Para occultar aos olhos de minha prima +a nossa pobreza, que não é vergonha nenhuma, querias que fosse descobrir +ás familias que teem baixellas, a nossa vaidade, que essa, sim, seria +uma vergonha? Não estou resolvido a fazel-o. + +O velho meneou a cabeça por algum tempo, e acabou por dizer: + +--Parece-me que tem razão, snr. Jorge, como sempre. Ai, se n'esta casa +todos tivessem tido o seu juizo, ella não chegaria ao estado a que +chegou. Lembro-me agora de que quando o imperador... + +--Deixa o caso para outra occasião. Vae arranjar, como puderes, essa +gente e essas coisas todas; emquanto eu me visto e preparo para ir +receber a prima... + +O velho criado obedeceu com presteza militar. + +Meia hora depois ouviam-se tilintar as campainhas dos machos da liteira, +em que vinha a baroneza. + +Gabriella, a baronezinha viuva de Souto-Real, ainda não tinha trinta +annos, e mais nova parecia do que era. Alva, loira e delicadamente +formosa, realisava o typo da mulher elegante, creada na atmosphera dos +bailes e dos theatros, e mais á luz artificial que á luz do sol. +Apaixonada por perfumes e rendas, observadora fiel da moda, sujeitava-se +aos mais extravagantes caprichos d'ella, sabendo-os porém corrigir pela +influencia do seu gosto apuradissimo. Tinha a languidez e a particular +côr pallida das formosas de Lisboa, que não recebem do sol da provincia +a vigorosa encarnação de saude. Indole verdadeiramente feminina, exercia +mais imperio sobre as suas paixões, do que sobre os seus caprichos. Com +difficuldade sacrificaria o mais ligeiro d'estes; aquellas, porém, +subjugava-as com fortaleza varonil. Possuia um genio alegre e ás vezes +um tanto satyrico, mas sem malignidade. Não professava os principios +d'aquella moral intractavel, que se arma da severidade puritana contra +as paixões e defeitos dos outros; pelo contrario era tolerante e +latitudinaria, não se esquivando a apertar a mão aos maiores peccadores, +com quem se encontrava no mundo, sem que, sob essas apparencias de +leviana indifferença, deixasse de manter um descernimento seguro do bem +e do mal, e um grande fundo de moralidade e de justiça. + +Além d'isto possuia um bom coração e uma alma generosa. + +No tracto de mais illustrada sociedade lisbonense e nas viagens em que +acompanhára o barão, seu fallecido marido, adquirira uma variada cópia +de conhecimentos, de que o seu natural bom senso sabia usar, sem abuso. +Passava por uma das mais espirituosas damas de Lisboa, sem que se lhe +notasse a ostentação pedantesca, que é o escolho em que tanta vez +naufragam as que a tal nome aspiram. As primeiras capacidades +artisticas, litterarias e politicas frequentavam as salas da baroneza e +apreciavam a sua conversação. + +Gabriella casára por conveniencia, que não por inclinação, com um homem +mais velho do que ella, sem fóros de nobreza, mas pertencendo á classe +argentaria, que é a verdadeira aristocracia moderna. + +Apesar d'isso soube ser esposa fiel e dedicada d'aquelle homem que a +livrára da precaria condição em que a decadencia da sua casa a +collocára. Viuvando, Gabriella não deu indicios de se alistar nas +diminutas phalanges das viuvas inconsolaveis, mas não se precipitou na +escolha de esposo. A sua belleza, o seu espirito e os rendimentos que +herdára attrahiram uma nuvem de adoradores, que ella ia deixando viver +de illusões, sem se dar para isso ao trabalho de fabricar, á imitação de +Penelope, uma interminavel teia. Esta vida e estes galanteios +enfadavam-n'a, e, para distrahir-se, emprehendia pequenas viagens. Foi +ao voltar de uma que fizera pela Hespanha, que recebeu a carta do tio, e +resolveu desenfadar-se por algum tempo da vida das capitaes, visitando a +sua provincia e os logares onde passára a infancia. + +Tal era a baronezinha de Souto-Real, que acabára de apeiar-se no pateo +lageado da Casa Mourisca. + +Jorge ajudou-a cortezãmente a descer. + +--Agradecida, Jorge--disse ella, apertando-lhe a mão.--Fazes as honras +do teu castello com a galhardia de um perfeito cavalleiro. + +--A prima não repare na modestia com que a recebemos, mas pareceu-me que +seria mais digno da nossa amizade e do seu caracter apresentarmo-nos +taes quaes somos, do que encher o pateo de criados e jornaleiros a quem +vestissemos á pressa fardas... + +E completou a meia voz: + +--... Emprestadas. + +--Oh! por certo; e eu reconheço melhor a tua fidalguia, Jorge, na +franqueza d'esta recepção, do que na libré dos teus criados e nos +brazões dos reposteiros. + +E conversando familiarmente com o primo, a quem tomára o braço, a +baroneza subiu os degraus da escadaria, que subia para a sala nobre. + +Á porta encontraram-se com frei Januario, que voltava azafamado da +cozinha, aonde tinha ido dar ordens accommodadas á solemnidade do caso e +ás impaciencias e appetite do proprio estomago. + +O padre limpava ainda os labios ao lenço, para fazer desapparecer os +vestigios de uma libação extra-official que de passagem fizera. + +--Queira v. exc.ª perdoar, snr.ª baroneza, o apparecer-lhe ainda agora, +mas as obrigações do meu cargo... + +--Ó snr. frei Januario, por quem é, lembre-se de que somos conhecidos +antigos, e que até por vezes lhe dei motivos para me abjurar como +jacobina. Tinha que vêr se me preparava a honra de uma felicitação em +fórma. Onde está meu tio? + +--O fidalgo não estava prevenido de que v. exc.ª chegava tão cedo, e por +isso ainda está recolhido no seu quarto, mas eu vou... + +--Ai, não, não; por amor de Deus não o acorde! + +--Não; elle está já a pé; mas emfim fazer a barba e tal... sempre leva +alguns minutos. + +--Que se não apresse por minha causa. Eu illudirei a grande vontade que +tenho de lhe beijar a mão, conversando com o primo Jorge. + +--Então, se v. exc.ª me dá licença... + +--Até logo, frei Januario. + +E quando este ia longe, acrescentou: + +--Ó snr. frei Januario, aquelle grande dia que estava já para chegar na +ultima vez que nos vimos, aquelle dia de redempção, ao que parece não +chegou ainda? + +O ex-frade encolheu os hombros, e respondeu com ar de mysterio: + +--Ainda não é tarde, minha senhora. Pouco viverá quem não o vir. + +Gabriella entrou rindo com Jorge para a sala. + +--E Mauricio--inquiriu ella--tambem já tem barba para fazer? + +--Parece-me que sahiu, ainda com estrellas, para uma partida de caça. + +--Bom; esse, pelo que vejo, conserva puros os tradicionaes habitos de +familia. + +Jorge sorriu. + +--Tu é que degeneraste. Deu-me que scismar a novidade. Estou tão +costumada a vêr a deterioração progressiva na linha dos representantes +das familias que tomam a peito não caldearem o sangue de primeira +qualidade que lhes corre nas veias, que ao vêr sahir d'esta velha casa +um rapaz de juizo, fiquei espantada. + +--É pouco lisongeiro para a nobreza, mas muito lisongeira para mim a sua +opinião. + +--Digo-t'o com franqueza; e já agora deixa-me aproveitar este tempo, em +que estamos sós, para fallar n'isto e assentar as bases do meu proceder. +Vamos direitos á questão. As finanças não correm bem cá por casa, ao que +entendi. + +--Correm muito mal. + +--Não admira; é doença da época. E tu tomas a peito endireital-as? + +--Tentei-o. + +--E conseguel-o. Consegues, porque o teu genio é o de uns certos homens +que eu tenho conhecido, que conseguem tudo quanto querem, só a querer e +sem fazer barulho. Ai, Jorge, lá por Lisboa ouço dizer que ha tanta +falta de financeiros, que estou tentada a exportar-te. E Mauricio? + +--Mauricio... + +--Percebo; é mais difficil de accommodar esse. Era facil, se não fossem +as pieguices de teu pae, que ha de morrer assim. Dize-me uma coisa, ó +Jorge, tu és absolutista tambem? + +--Eu quasi que não tenho ideias fixas em politica. + +--Bom, bom, já entendo. Não queres declarar-te por contemplação para com +as tradições de familia. Estás como eu; eu sou, sem duvida alguma, +liberal; porque emfim deves concordar que para se ficar toda a vida a +ser absolutista é preciso viver, assim como teu pae, em uma aldeia como +esta e com um padre procurador a dizer-nos ha vinte annos a mesma coisa; +porém, como meu pae foi militar no exercito realista, não tenho remedio +senão obrigar a guardar certas conveniencias ao meu liberalismo. Ora tu +estás no mesmo caso. + +--Talvez. É certo que do que está feito, acho muita coisa boa. + +--Então estás como eu. Mas como dizia, Mauricio podia encontrar muita +carreira aberta, mas era necessario que o papá o deixasse partir sem +levar o topete vermelho e azul muito á vista, ou a vera effigie ao +pescoço; salvar as apparencias, porque das ideias ninguem quer saber. Á +sombra da Carta engorda muito absolutista encapotado. + +--Meu pae está hoje em um estado de tão facil irritação, que duvido que +chegue a consentir. + +--Então o remedio é procurar por ahi alguma descendente de Egas Moniz ou +de Martim de Freitas, que por milagre não tenha a casa ainda em ruinas, +e enxertar esse garfo illustre na vossa arvore genealogica. + +--Mau remedio para finanças. Deu o arejo nas arvores genealogicas, +Gabriella; estão por aqui todas muito enfesadas. + +--Então, então... + +N'este momento ouviram-se passos ligeiros nas escadas, como de quem as +subia duas a duas. + +--Ahi vem Mauricio--disse Jorge, escutando-os. + +Foi de facto Mauricio que appareceu á porta da sala. + +A baroneza correu-lhe ao encontro, estendendo-lhe as mãos, que Mauricio +galanteadoramente levou aos labios, curvando-se. + +--Bravo! Já vejo que observas irreprehensivelmente as tradições dos bons +tempos em que se era cortez com as damas. A provincia mantem-se mais +delicada do que a côrte. Se soubesses como a moda hoje capricha por lá +em um á vontade com senhoras, que até ás vezes chega a ser grosseria! + +--Devéras, prima? Felizmente com certas bellezas femininas sente-se a +necessidade de ser delicado, independente de proposito ou dos preceitos +da moda. + +--E se eu te deixasse completar a phrase, far-me-ias o favor de me +incluir no numero das taes. Que requinte de lisonja! E isto a perder-se +nas selvas! + +--Não zombe da minha sinceridade provinciana. + +--Não calumnies tu a provincia, dando esse epitheto á tua sinceridade. +Nada, nada, o tio que tenha paciencia. Conservar em casa um cortezão +d'esta força é quasi uma usurpação feita aos direitos da corôa. + +--Bem; deixe-me fallar-lhe com seriedade. Como se sente da jornada? + +--Hei de sentir-me cansada, quando tiver satisfeito toda a minha +curiosidade, que por emquanto não me deixa sentir coisa alguma. Por +exemplo, quaes são os teus projectos, os teus calculos sobre o futuro? + +--Ó prima Gabriella, sempre cuidei que só na provincia se perdia tempo a +calcular futuros. Uma pessoa de bom senso não calcula o futuro, que em +um momento se transtorna. + +--Bem, entendo o subterfugio. O priminho Mauricio ainda não tem planos +definidos sobre a sua carreira na vida. Mas é preciso que saibas que vim +aqui principalmente por tua causa. Tracta-se de te arranjar uma +collocação qualquer, um assento nas camaras, um emprego na alfandega, +seja o que fôr, com que tu possas transigir; foi a condição unica +imposta por teu pae. Por isso vê lá. + +--Olhe, prima, já que a sorte me levou á dura impertinencia de me vêr +obrigado a adoptar um modo de vida, não quero tornar a impertinencia +dupla, encarregando-me eu proprio de o escolher. Subscrevo ao accordo a +que chegarem; decidam por mim, que ou me façam general ou tabellião, a +tudo me resignarei. + +--Desconfio de tanta condescendencia. Quer-me parecer que havemos de +encontrar difficuldades mais serias do que as intransigencias sonhadas +por o tio Luiz. Dar-se-ha que haja aqui por estes bosques scenas de +Romeu e de Julieta? + +--Ai, não falle n'isso a Mauricio--disse Jorge com um sorriso não de +todo despido de ironia--por quem é, prima! É a sua corda sensivel, e tem +de o aturar por muitas horas! + +--Ah! então existe a Julieta? + +--As Julietas, as Desdemonas, as Ophelias e todos os typos imaginaveis. +É um enxame que elle traz constantemente poisado no coração. + +--Ah! ah! pois tu és dos que declinam o amor sempre no plural? Não +sabia! + +--Deixe-o fallar, prima Gabriella. O Jorge bem sabe que n'esta mesma +occasião tão absorvido ando por uma só imagem, que é sem fundamento a +accusação de inconstante que me dirige. + +Jorge contrahiu a fronte, ao perceber a allusão, e disse sêcamente: + +--Julguei que havias resolvido devéras ter juizo. + +--Não é tempo agora de examinar esta questão--acudiu Gabriella--porque +me parece que vem ahi o tio Luiz. + +De facto o fidalgo apparecia á porta da sala e um pouco atraz d'elle o +padre procurador. + +O velho D. Luiz vestira-se quasi elegantemente para receber a sobrinha. +Elegancia severa, accommodada á sua grave figura de ancião, mas +elegancia inquestionavel. D. Luiz tinha uma presença magestosa e um todo +de diplomata que impunha respeito. + +O vestuario preto de que usava, sobre o qual sobresahia a gravata +cuidadosamente lavada e engommada, augmentava o effeito natural dos seus +dotes physicos. + +O procurador formava inteiro contraste com o fidalgo. Curvado, olhando +por cima dos oculos, com o lenço constantemente empunhado para acudir ás +instantes reclamações de um defluxo chronico, parecia dominado por uma +infantil timidez, mas não perdia um só gesto dos outros, que +manhosamente observava. + +A baroneza inclinou-se para beijar a mão do tio, que a acolheu nos +braços. + +--O tio Luiz!--dizia a gentil viuva, olhando-o--sempre o mesmo! Não o +acho mudado. + +--Não?!--disse o fidalgo com leve ironia na intonação e no sorriso. + +--Olhe que não. E é natural. Bem vê que se golpes dolorosos o teem feito +padecer, tambem lhe servem de conforto o socego d'estes sitios, a pureza +d'estes ares, a tranquillidade d'esta vida e o affecto dos filhos que +ainda lhe restam. + +D. Luiz abanou a cabeça, mais triste e sombrio do que antes. + +--Na sua idade, Gabriella, cicatrizam depressa as feridas. Quando se +chega aos meus annos, golpe que se receba, é ferida com que se morre. + +--Diga o snr. D. Luiz--interveio o padre--que o que tem é muita +resignação christã, que n'estes tempos que vão correndo não é coisa +vulgar. + +E assuou-se. + +--Mas para isso vale a meu tio o seu exemplo, snr. frei Januario--acudiu +Gabriella.--Resignação ahi! Eu sou testemunha da heroicidade com que +arrosta as vigilias e os jejuns. + +Os presentes, incluindo o proprio D. Luiz, não puderam ouvir sem um +sorriso a allusão da baroneza. + +O padre córou, assuou-se com mais força e resmoneou com azedume: + +--Bem sei que não é quanta Deus manda, nem quanta a alma precisa... e +por peccador me tenho. + +--Deve vir cansada, Gabriella--lembrou D. Luiz--Eu julgo que terão tido +o cuidado de... + +--Tudo está prompto. Logo que a prima queira descançar...--respondeu +Jorge. + +--Não sinto grande necessidade de descanço. Descançarei depois do +almoço, se me fizerem o favor de dar alguma bebida quente, porque tenho +frio. + +Em virtude d'esta reclamação, sahiram successivamente da sala Jorge, o +procurador e Mauricio, ficando Gabriella só com o fidalgo. + +Este parecia hesitar em alludir ao principal motivo da visita da +baroneza. + +Foi ella quem rompeu o gelo da entrevista. + +--Recebeu a minha carta, tio? + +--Recebi, sim, e agradeço. + +--Diga que perdoa. Se quer que lhe falle a verdade, julgo que não lhe +escrevi em estylo muito apropriado, mas tão desacostumada ando de +escrever-lhe, e a gente com quem de costume me correspondo permitte-me +tal familiaridade, que me descuidei. + +--A carta nada tinha de censuravel. O que por ella vi foi que deveremos +renunciar aos projectos que formei a respeito de Mauricio. + +--Perdão; mas como viu por ella isso? + +--Desde o principio ao fim. Não me diz que para que Mauricio abra +carreira no mundo, é necessario condescender com certas coisas?... + +--Ai, sim, mas quem é que não tem de condescender n'esta vida? + +--Gabriella--tornou D. Luiz com certa aspereza--já ha pouco lh'o disse; +as nossas idades differem. Quando se possue a sua juventude ha +movimentos faceis, a que se não prestam as fibras inflexiveis dos meus +sessenta annos. + +--Sim, mas quando se é joven como Mauricio e se está nas circumstancias +d'elle, das quaes estou informada pela sua obsequiosa confidencia, é +menos prudente não ceder um pouco no tempo em que se póde ainda ceder +com dignidade; porque depois... a vida para elle é longa, e quem sabe a +que provações e sacrificios o sujeitará? O tio está em uma idade +avançada, não espera numerosos annos de vida, não ama demasiadamente o +mundo, e para a lucta conta com a inflexibilidade das suas fibras de +sessenta annos. Mas elles, seus filhos, são novos, teem futuro, amor á +vida e não possuem ainda a tal inflexibilidade para sustentarem o pêso +de uma instituição morta sem vergar ou quebrar debaixo d'ella. Veja bem. + +--De uma instituição morta!--repetiu o fidalgo, accentuando as syllabas +e levantando os olhos para o tecto. + +--Morta, sim, meu tio, desengane-se. Deus me livre de fallar agora em +politica com o tio. Mas a verdade é que quem vive em certa sociedade, e +ouve certas coisas, e estuda certos homens, acaba por convencer-se, +mesmo sem pensar muito n'isso, de que um sonho como o de meu tio é... +é... é um sonho. + +--Seu pae morreu por um sonho assim, Gabriella. + +--E eu venero a memoria de meu pae, não o duvide; assim como venero o +caracter e as opiniões de meu tio; porque venero todas as convicções +sinceras. Mas o que eu não queria é que se sacrificasse mais do que +deve. A sua vida, a sua felicidade tem o direito de dar esse sacrificio. +Mas a vida, o futuro, a honra e a felicidade de seus filhos, isso não. + +--A honra?! A honra é que eu quero salvar-lhes. + +--E quem lhe diz que elles teem as suas convicções? + +Os olhos de D. Luiz fuzilaram ao ouvir esta insinuação. + +--Se meus filhos... + +--Sei o que vae dizer--atalhou Gabriella--mas não diga, porque contradiz +os seus proprios actos. Esmerou-se em dar educação a seus filhos, em +desenvolver-lhes a intelligencia, e agora quer que elles não usem d'esse +instrumento que possuem, e que para pensar lhe venham pedir licença? Não +valia ensinar-lhes a raciocinar n'esse caso. + +--A razão deve-lhes ter mostrado a verdade. + +--A verdade... a verdade... Ora valha-nos Deus, meu tio; e quem sabe +onde ella está? Pois todas estas mudanças que succedem no mundo de que +procedem, senão de se julgar a cada passo ter-se descoberto que a +verdade não está onde se suppunha? + +--Vejo que a convivencia social lhe tem dado uma boa dóse de philosophia +para bem viver no mundo. Mas que quer? Eu regulo-me ainda por as +cartilhas velhas. + +--E o que lhe ensinam a fazer as cartilhas velhas a favor de seus +filhos? O que é que, em harmonia com ellas, tem tentado e tenciona +executar? + +--Dar-lhes o exemplo de como se soffre a adversidade, quando se tem +brios, e um nome que respeitar. + +--A nobreza não está em soffrer de braços cruzados a adversidade, quando +elles se podem empregar nobremente em repellil-a; Jorge bem o +comprehendeu. Esse illustrará devéras o seu nome da unica maneira por +que n'estas circumstancias elle póde ser illustrado. O que é preciso é +que a ociosidade de Mauricio lhe não annulle os esforços. + +D. Luiz ia a replicar quando o padre procurador entrou a annunciar que o +almoço estava na mesa. + +O fidalgo aproveitou de boa vontade o ensejo para cortar o dialogo que +evidentemente o incommodou. + +Cedo estava a familia da Casa Mourisca reunida á mesa na sala do almoço, +da qual d'esta vez a voz alegre e a jovial presença da baroneza parecia +afugentar parte das sombras que de ordinario pesavam sobre ella. + +E na noite d'esse dia Gabriella escreveu uma longa carta a uma das +amigas da capital, em que lhe narrava por miudo os episodios da sua +jornada, a sua recepção na Casa Mourisca e as impressões que recebera. + +Esta carta terminava por as seguintes palavras: + + «Do que te tenho dito parece-me que podes concluir que se + desvaneceram aquelles projectos de sacrificio que trouxe d'ahi e com + os quaes não te conformavas. O meu primo Jorge é um rapaz mais serio + ainda do que eu o suppunha. Não fazes ideia. Affirmo-te que é + incapaz de casar por interesse, e como o espirito d'elle anda muito + occupado por calculos e combinações economicas, não é tambem + provavel que se deixe tomar por o amor, e portanto não casa. Assim + fico dispensada de sacrificar os meus queridos habitos de vida de + Lisboa, ao que vinha devéras decidida para salvar esta familia com + os meus capitaes, que mal sei gerir. Este rapaz se amar, o que não é + provavel, ha de ser de alguma maneira extravagante, inesperada. + + O outro é uma criança, que não se póde tomar a serio por marido.» + +Por aqui se vê quaes eram as generosas tenções de Gabriella ao chegar á +Casa Mourisca, e quaes as modificações que no decurso d'aquelle dia os +seus projectos haviam soffrido. + + + + +XV + + +Ao outro dia pela manhã, estava Mauricio apparelhando por as proprias +mãos o cavallo favorito, quando Jorge foi ter com elle. + +--Tencionas ir hoje ao Cruzeiro?--perguntou Jorge. + +--Talvez passe por lá. Porquê? + +--Porque n'esse caso podias poupar-me o trabalho de lhes mandar convite +especial para o jantar d'ámanhã. + +--O jantar de ámanhã!? + +--Sim; o pae insiste em celebrar com um jantar a chegada de Gabriella, e +bem vês que não é possivel deixar de convidar os do Cruzeiro, ainda que, +por minha vontade, os deixaria quietos no seu antro. + +--Eu os convidarei. D'esses me incumbo. E a outra parentela? + +--Mandar-se-hão cartas. + +--Um jantar na Casa Mourisca! Ó sombras dos nossos antepassados, folgae! + +--Estremecei, dize antes, que mais razão teem para isso. + +--Estes velhacos não deitaram hontem de comer a este pobre +animal--observou Mauricio, afagando o cavallo. + +--Seria uma prova de affeição que lhe dariamos se lhe proporcionassemos +occasião para mudar de dono--murmurou Jorge, sorrindo. + +Pouco depois, Mauricio montava e partia a trote para o Cruzeiro. + +A casa do Cruzeiro, solar dos asselvajados primos de Mauricio, ficava no +extremo da povoação, exhibindo nos campos que a cercavam uma agricultura +preguiçosa e mesquinha, e dominando um vasto tracto de mal cuidadas +bouças, onde os senhores da propriedade perseguiam implacaveis as lebres +e perdizes, que alli se acoutavam. + +Causava lastima o estado de decadencia a que a má administração e a vida +dissipada dos senhores do Cruzeiro tinham levado aquella casa, de cuja +passada grandeza já nem se descobriam vestigios. + +Na actualidade não era mais do que um velho casarão ennegrecido, mal +vedado aos ventos e ás chuvas, onde cada dia realisava um novo estrago, +que nunca mais era reparado. Por fóra e por dentro a mesma absoluta +carencia de confortos; porque não sentia a necessidade d'elles a robusta +organisação de qualquer dos proprietarios; afeitos á vida dos montes, ás +longas caçadas e ás luctas com os rigores do tempo. O solo árido, os +celleiros vazios, a abegoaria deteriorada, os curraes desertos, a +cultura perdida... era desolador o aspecto do solar do Cruzeiro! Parecia +havel-o fulminado um d'aquelles tremendos anathemas de que rezam os +livros sanctos, os quaes feriam de esterilidade igual as entranhas da +mulher e as entranhas da terra. Os pinhaes, cortados sem methodo nem +prudencia, cahiam sacrificados ás penurias monetarias do morgado, que ia +a pouco e pouco transmutando em vinho toda a propriedade. As aguas +vendidas para acudir a iguaes urgencias abandonavam as terras á sêde que +as fazia infecundas. Umas apparencias de movimento agricola, que ainda +se divisavam na quinta, eram-lhe mais fataes do que beneficas, e podiam +comparar-se ao fervedouro das larvas nas carnes em decomposição. +N'aquelle vasto corpo, que se decompunha, tambem se agitavam seres que +viviam dos seus detritos. + +Trabalhava-se alli para destruir e não para semear ou edificar. O +desbarato com que os proprietarios sacrificavam os seus bens, attrahia +os ávidos visinhos, como córvos sinistros em volta do cadaver exposto na +estrada. + +Era meio dia, quando Mauricio se apeiou no espaçoso pateo da casa, onde +reinava o silencio das ruinas. Apenas se ouvia o latir de uma matilha +encerrada nas lojas e impaciente por ir bater as mattas e bouças. O +aspecto que feria a vista de quem entrava era de uma propriedade +inteiramente abandonada; alli apodrecia um arado inutil; além +oxydavam-se os metaes de inactivos instrumentos de lavoura; a agua +empoçada das ultimas chuvas estancava, cobrindo-se de uma crusta +esverdeada; as ortigas e parietarias vegetavam em plena liberdade, nas +junturas das lageas e nos buracos das paredes. Nos telhados cresciam em +verdadeira floresta as hervas parasitas; fragmentos de louça, de +garrafas, velhos arcos de pipa, farrapos, montões de caliça pejavam, +desde tempos immemoriaes, a superficie do pateo. Manchas verdes de +musgos e de lichens, que a humidade desenvolvera, cobriam a fachada do +edificio, por onde havia muitos annos não passára a brocha do caiador. + +Mauricio subiu as escadas d'esta casa humida e entrou nos corredores que +estavam tão desertos como o pateo. Passeavam por elles imperturbadas as +gallinhas e as pombas como em terreno familiar, e occasiões havia em que +pela porta meia aberta dos aposentos se insinuava curiosa uma cabeça +suina. Só os criados não appareciam; a ociosidade dos amos era +contagiosa. Conhecedor da topographia da casa, Mauricio foi ter direito +ao quarto dos primos que procurava. + +Dormiam ainda os dois mais novos, emquanto o morgado andava labutando +com alguns lavradores visinhos no destroço do que ainda lhe restava. + +O somno do padre e do doutor não era para ceder á primeira chamada. +Ainda depois de lhes bater á porta, Mauricio continuou a ouvil-os +ressonar em um duo assustador. + +A final respondeu a voz rouca de um d'elles com um som inarticulado, que +claramente expressava o mau humor que lhe assistia ao despertar. + +--Sou eu, abram--disse Mauricio, continuando a bater. + +Respondeu-lhe uma praga, e depois outra voz acrescentou: + +--A porta está aberta. Levanta a tranqueta e entra. + +Mauricio assim fez e entrou para a sala, que servia de aposento commum +dos dois manos. + +Havia dentro uma atmosphera quente, abafadiça e viciada de fumo de +cigarro que suffocava. + +A sala era ampla, mas de um desarranjo e desconforto indescriptivel. + +Dois catres de ferro ao lado um do outro, uma cadeira sem fundo, +sustentando a bacia e jarro mutilados, servia de lavatorio, a roupa +pendurada em cabides fixos na parede mal caiada e salitrosa, ou cahida +pelo chão, o espelho pendente dos caixilhos da janella, velas de sebo +meio gastas mettidas em garrafas, cuja superficie era adornada de +gordurentas stalactites, e em palmatorias de metal pintado de lagrimas +verdes pela oxydação; a um canto o deposito da roupa suja, em outro o +arsenal, composto de espingardas, rewolvers, paus ferrados, chicotes e +cassetetes; além os arreios de cavalgadura; na mesa, ao pé da cama, os +restos das grosseiras iguarias da ceia da vespera, alguns usados +baralhos de cartas, de mistura com umas insignias pobres e desprezadas +da vestimenta do padre, tudo ennodoado de azeite e de vinho, e pontas de +cigarro por toda a parte. + +Os dois achavam delicias n'este viver, que chamavam escolastico, e que +diziam avivar-lhes recordações dos seus tempos de estudante. + +Bem poderia comtudo o aposento ter mais um grau de limpeza, sem que +n'isso tivesse de despir a feição de desordem, caracteristica a um +quarto de rapaz solteiro. + +Quando Mauricio abriu para traz as portas das janellas, os dois primos +saudaram com uma jura a luz do dia, que foi incommodar-lhes com os seus +raios a retina preguiçosa. Depois de um ruidoso e prolongado bocejo, o +doutor sentou-se na cama com os olhos mal abertos e os cabellos +cahindo-lhe em desordem sobre a testa; e o padre, meio amuado, voltou-se +para a parede, no intento de encetar outro somno. + +--Que vida de inuteis vadios esta!--exclamou Mauricio, puxando para o +meio da sala a mais desoccupada e limpa cadeira que encontrou, e +pondo-se ás cavalleiras n'ella.--Ao meio-dia! + +--Isso! Vem para cá fallar da vida de vadios. Olha se me convences de +que te afadigas muito a trabalhar. + +--Em todo o caso já vim de minha casa até aqui e tu, ao que parece, ias +no meio de um somno e lá o padre então... esse vae, pelo que estou +vendo, no principio d'outro. + +--Mas como diabo te deu para vires por aqui tão cêdo? + +--Cêdo? Olha que é meio-dia! Mas... vim encarregado de uma missão. + +--De quem? + +--De meu pae. + +--De teu pae?! Para nós?! + +--É verdade. Estou incumbido de vos convidar a todos tres para jantar +ámanhã. + +O padre deu uma volta na cama, ao ouvir este convite e fitando Mauricio +com olhos espantados, ainda que mal abertos, exclamou com voz rouca de +somno: + +--O tio Luiz dá ámanhã um jantar?! + +--Sim, senhor. Em obsequio á Gabriella, a baronezinha de Souto-Real, que +lá está desde hontem de manhã. + +--Ora essa!--acrescentou o padre, e tornou a voltar-se para a parede. + +--Bravo!--applaudiu o doutor--isso já me cheira melhor do que a tal +historia do Jorge feito guarda-livros. Aquelle Jorge com'assim ha de ser +sempre d'essas ratices. E dize-me cá: que tal está agora a Gabriella? + +--Não me pareceu mal; ainda que, para te fallar a verdade, não lhe dei +muita attenção. + +--Sim, tu andas agora distrahido com a... + +N'este ponto interrompeu-se subitamente, e dando uma palmada no +travesseiro, a qual lhe fez cahir na cama a cinza inflammada do cigarro +que principiou nos lençoes uma centesima combustão, exclamou: + +--É verdade! que me ia esquecendo? fizemos uma grande descoberta esta +noite, homem! + +--Qual foi? + +O padre, ao ouvir as palavras do irmão, deu um salto para sentar-se na +cama, e preparando tambem um cigarro, disse, fitando Mauricio com um +sorriso alvar: + +--Olha lá, ó Chico. Vê como contas a coisa, porque o Mauricio é nervoso; +não sei se sabes. + +--Mas de que se tracta? + +--De um caso muito engraçado. Rimos a perder. Mas ainda havemos de rir +mais, porque a historia promette dar de si. + +O padre, meio estendido pela cama fóra para pedir lume ao irmão, +confirmou o dito d'este com um gesto e um grunhido. + +--Mas digam lá o que foi--insistia Mauricio. + +--Hontem á noite--principiou o doutor--fui eu aqui com o Lourenço á +espadelada do Martinho. Aquillo não esteve de todo mau. Bem boas +raparigas, e a luz conveniente. Mas, alli pelas onze horas, appareceram +uns apaixonados armados de varapaus, e com uns certos modos, que +principiaram a fazer ferver-me o sangue. + +--Eram os mesmos da feira do mez passado--acudiu o padre--mal fiz eu em +não ter quebrado os ossos ao Gaudencio, quando o deixei atordoado na +estrada. + +--O certo é--proseguiu o mano doutor--que os homens começaram a fazer-se +finos, e eu que vi o Lourenço já a fumegar, previ logo o caldo entornado +e fui procurar o marmeleiro que deixára atraz da porta, para o que desse +e viesse. + +--Não era preciso. Para aquelles basto eu só--annotou o padre, sugando +com força o cigarro, que teimava em não arder. + +--Meu dito, meu feito--continuou o outro--nós a sahirmos e elles +comnosco. O Lourenço pôz logo dois fóra do combate; eu arquei com o +terceiro, que me derreou o braço esquerdo, mas a quem escangalhei a +cabeça; o ultimo fugiu-nos. Era o João do Pinhão. + +O padre interveio: + +--Eu, que lhe ando com sêde, disse logo para o Chico: «Vamos d'aqui +cortar-lhe o caminho e dar-lhe uma lição.» E tomamos pela quelha do +regedor. + +--E viemos sahir mesmo defronte da porta do Thomé! por traz da prêsa. +Sabes? + +--Sei muito bem. + +--Ora o homem não appareceu. + +--Mas appareceu cousa melhor--acudiu o padre. + +--Havia de andar peia meia noite e nós sem fazer bulha ainda escondidos +na sombra. Percebes? + +--Mesmo defronte da casa do Thomé--insistiu o padre. + +--E depois?--interrogou Mauricio impaciente. + +--Depois... + + A mulher é um catavento, + Que com os ventos varia; + Seu amor dura um momento, + Tolo é quem n'ellas se fia. + +Cantarolou o doutor. + +Mauricio olhou interrogadoramente para o padre. + +--Meu caro priminho--disse-lhe este--põe as tuas crenças de môlho e +prepara-te para arrancares um punhado de cabellos; um ou dois. + +--Mas que queres dizer com isso? + +--Quero dizer que a porta do Thomé abriu-se sorrateiramente e sahiu de +lá um patusco... Trai la rai lai lai. + +--É impossivel!--exclamou Mauricio com indignação, comprehendendo as +malignas allusões do primo. + +--Qual impossivel?--confirmou o padre--Não ha impossiveis n'este mundo. +Desengana-te, menino. + +--Mas teem a certeza de que se não illudiram? + +--Ora se temos. Era um homem em corpo e alma. + +--E viram quem era? Conheceram-n'o? + +Os dois irmãos, a esta pergunta, trocaram entre si um olhar e um sorriso +de velhacaria. + +--Com certeza, não; mas suspeitamos--respondeu o doutor. + +--Quem é? + +--Alto lá! Nada de ferver em pouca agua. Isso fica para segunda +observação. Por ora não possuimos ainda a certeza. Porém já mais de uma +noite temos encontrado o tal ratão, de quem suspeitamos, não muito longe +do sitio, e já andavamos com a pedra no sapato. + +--Ó Chico, olha que o Mauricio não está bom. Estes golpes repentinos... + +--Qual! Se eu não acredito uma unica palavra do que vocês estão para ahi +a dizer--tornou-lhe Mauricio, erguendo-se e passeiando na sala agitado. + +--Não que a cousa é muito para se não crer--disse o doutor, principiando +a vestir-se--uma rapariga de dezoito annos, que vem do collegio, ter um +apaixonado?... Sim, o caso é tão raro! + +--Vocês não conhecem Bertha. + +--Tu, sim, que a conheces. Papalvo de olhinhos fechados que ainda anda a +sonhar por este mundo com princezas encantadas--observou o padre, +tirando de entre a roupa da cama um volume de Paulo de Koch, com que +adormecêra na vespera. + +--Então lá por que um homem sahe de noite de casa do Thomé, já não póde +ser senão por amor de Bertha. É boa!--insistia Mauricio, contra a sua +propria convicção. + +--Sim, meu menino, sim; isso tudo e o mais que tu +quizeres--respondeu-lhe o padre, apertando outro cigarro. + +--Veremos o que tu pensas, assim que vires o tal homem--tornou o doutor. + +--Ora mas digam-me: Pois não ha tanta gente em casa? + +--Pois ha, ha. + +--Então... + +--Então tem vocemecê razão--concluiu impertinentemente o padre. + +--Muito bem--propôz o doutor.--Para sahir de duvidas queres tu vir +comnosco bater a mata esta noite para conhecer o coelho? + +--Quero, sim. + +--Muito me hei de rir esta noite!--exultou o padre, saltando abaixo da +cama. + +--Mas promettes não assassinares a pequena na furia do teu ciume? + +--Não creio verdadeira a vossa supposição, mas se o fosse... + +--Que farias? Ora dize lá--perguntou o padre, piscando um olho emquanto +esperava a resposta. + +--Achava essa mulher tão desprezivel que... + +--Pumba! Ora ahi temos outra. Na verdade ha nada tão desprezivel como +uma mulher que abre a porta a qualquer pessoa de preferencia ao menino +Mauricio, a joia dos namorados!--ponderou zombeteiramente o padre. + +--Não quero dizer isso, mas... + +--Pois, meu menino, prepara-te para o desengano, e volta ás priminhas +dos Barrocaes, que essas são fieis. + +--Ora, mas digam-me vocês uma coisa--insistia Mauricio--quem querem que +seja o homem que possa estar já com Bertha n'esse tom de familiaridade? + +--Não entremos n'essa questão. A seu tempo cahirão as cataratas. + +--Já digo, eu não acredito. + +--Pois nosso Senhor te dê sempre essa commoda incredulidade; antes de +casar e depois de casar. + +E entre os tres ficou pactuada para aquella noite uma espionagem cerrada +á casa de Thomé, com o fim de reconhecerem a mysteriosa visita. + +Mauricio passou o dia todo pensativo e preoccupado com a revelação que +os primos lhe fizeram. + +Ainda quando Bertha não tivesse adquirido grande preponderancia sobre os +pensamentos de Mauricio, bastaria a ideia de que outro o preterira no +coração de uma mulher, a quem elle havia dedicado um olhar de galanteio, +para devéras o irritar. + +Mas, de justiça é que se diga, o amor, a paixão, a inclinação, o +capricho, ou como mais rigoroso nome tenha, o sentimento de Mauricio +para Bertha attingira a maxima intensidade, a que podiam subir os +affectos d'aquelle caracter voluvel. Se não amava ainda devéras, é certo +tambem que nunca amára melhor. Bertha demais possuia sobre as outras +mulheres, que nas épocas successivas haviam reinado na imaginação d'este +rapaz, o prestigio das recordações de infancia, a distincção de tracto +adquirida na educação da cidade, e até a desaffectada reserva com que +lhe tinha acolhido o galanteio. + +As reflexões de Jorge contra aquelles amores, a perspectiva das +repugnancias de familia, dos obstaculos a vencer, dos preconceitos e +paixões com que luctar, longe de extinguirem a chamma em que elle +procurava abrazar-se, antes mais a activavam. + +A ideia de um amor entre dois corações jovens, amor constante em +despeito do antagonismo, das animadversões e dos odios das familias; +esse eterno e poetico thema de tantas obras de arte, era sympathico á +phantasia de Mauricio, que, seduzido por ella, chegou a convencer-se de +que estava destinado a ser mais um exemplo do caso; estimulo este +sufficiente para o apaixonar. + +Jorge estranhou-lhe o ar pensativo, mas não o interrogou. + +A baroneza, usando dos privilegios de mulher nova e elegante, costumada +a não refrear a sua curiosidade feminina, interpellou-o directamente: + +--Não voltaste muito amavel do teu passeio matinal, Mauricio. Que foi +isso? + +--Perdoe-me, prima. Isto é uma das muitas mudanças de colorido que, sem +que se saiba porque, se opéra no humor de uma pessoa. + +--Hum! Não andará ahi influencia do coração? + +Mauricio soltou um meio riso de descrente, respondendo: + +--O coração! O meu coração é modesto. Não aspira a dominar. Nunca lhe +conheci essas tendencias. + +--N'isso mesmo que dizes d'elle se está a perceber que ha espinho lá +dentro. + +--A prima ha de perdoar-me a franqueza; mas já vejo que tem o defeito do +seu sexo, que é não poder imaginar que haja sobre o caracter e a boa ou +má disposição de um homem outra influencia que não seja a de uma mulher. + +--E quando os homens se occupam tão pouco de coisas graves, como... +certos que nós conhecemos, a lei não deixa de ser verdadeira. + +--Engana-se; vê? Os homens da minha indole são exactamente aquelles que +estão menos sujeitos á influencia que diz. Aceitamos a infidelidade e a +inconstancia feminina como um facto natural e com que já contavamos, +porque em nós nunca se desenvolvem aquellas illusões que levam muitos +espiritos a endeusar a mulher. Estamos prevenidos para todas as +occorrencias, porque nunca nos esquecemos da fragilidade d'esses +delicados objectos, que amamos só por que são frageis e delicados. As +grandes desillusões e os profundos desespêros são para os que fazem do +amor um culto e sonham a mulher de uma essencia superior. Persuadem-se +de que é de crystal a bola de sabão matizada que os seduz, e portanto +ficam muito desconsolados quando ella se lhes desfaz no ar. + +--Cada vez confirmo mais a minha supposição. Eras bastante delicado para +me poupares a essa theoria de mau gosto sobre a mulher, se não estivesse +fallando em ti o despeito por uma causa recente. + +A exactidão da observação da baroneza feriu Mauricio no riso e fêl-o +balbuciar, córando: + +--Peço perdão se a minha franqueza a offendeu, porém... + +--Não te canses a desculpar-te. Eu até achei graça a essa profissão de +scepticismo, já muito meu conhecido, mas que não sabia que tambem nascia +nos bosques, onde julguei que se haviam refugiado as boas crenças desde +que emigraram das cidades. Ámanhã espero que estarás mais senhor de ti. + +--Estou a sangue frio, creia. + +--Veremos com mais vagar esse coração. É-me isso preciso para os meus +planos. + +--Os seus planos?! + +--Então já te esqueceste de que eu estou aqui principalmente por tua +causa? + +--Ah! sim, agradeço-lhe o cuidado; mas estou receiando ter de dar-lhe +muito que fazer. + +--Veremos. + +A noite chegou e bem vagarosa para a impaciencia de Mauricio. + +Pouco mais seria de Ave-Marias, já elle instava com os primos do +Cruzeiro para que fossem pôr-se de vigia. + +--Isso não vae assim!--diziam elles--Pois que cuidas tu? Não sabes que o +passaro é dos que só voam de noite? Falla-nos lá para as onze horas. + +Mauricio illudiu em todo este tempo a sua impaciencia, tentando provar +aos primos com argumentos novos, que lhe tinham occorrido em casa, a +impossibilidade de ser para Bertha a visita nocturna da Herdade. + +Os primos respondiam rindo só com phrases equivocas, que Mauricio não +comprehendia. + +--Olha cá, ó Mauricio--perguntou o mano doutor--em tua casa sabe-se do +teu namoro com a filha do Thomé? + +--Ahi vens tu com o namoro!... + +--Pois seja o que quizeres; da tua affeição, se achas mais bonito; mas +sabem? + +--Apenas o Jorge me fez a esse respeito algumas reflexões. + +--Ah! o Jorge fallou-te n'isso? + +--Ha dias. Pelos modos o Thomé queixou-se-lhe... + +--Ai, o Thomé queixou-se ao Jorge? Sim senhor, tem graça. Que te parece, +ó Lourenço? + +--É bem bom! e então o Jorge deu-te conselhos, hein? + +--Sim, disse-me alguma coisa; que era preciso cautela, que não era +prudente o meu proceder... + +--Ah! + +--E quasi me fez prometter que desistiria. + +--Ah! fez-te prometter isso? + +--Quasi. + +Os dois não podiam suster o riso. + +--É impagavel aquelle Jorge!--repetia de quando em quando o padre. + +--Vocês bem sabem o genio d'elle. + +--Ai, sabemos. Pois nós bem sabemos... o genio d'elle. Ah! ah!... + +E os risos redobravam. + +Mas a noite chegára emfim e cerraram-se cada vez mais as sombras sobre +os caminhos do campo. Mauricio pôde finalmente acompanhar os primos ao +logar da espia. + +Dirigiram-se alli por os sitios menos frequentados, e sem soltarem uma +palavra. + +Mauricio, a seu pezar, sentia-se dominado por uma commoção profunda. Não +era só despeito, era já uma nascente repugnancia pelo acto que +praticava. Envergonhava-se d'aquelle furtivo mister de espião. + +Chegados ao local, o padre escolheu a posição de maneira que podessem +vêr, sem serem vistos. + +Por muito tempo nada descobriram; nem ouviram mais algum som além do +melancolico gemer dos sapos, a distancia. + +Mauricio, entre impaciente e satisfeito por o resultado nullo da +espionagem, principiava a dirigir aos primos alguns ditos +epigrammaticos, quando a mão do doutor lhe tapou a bôca, ao mesmo tempo +que o padre se voltava para lhe recommendar silencio. + +Effectivamente encostado ao muro da Herdade caminhava um homem, que a +sombra da noite não deixava conhecer. + +Chegando á porta, que devia estar apenas cerrada, empurrou-a e entrou, e +fechou-a de novo sem fazer ruido. + +Mauricio quiz correr atraz d'aquelle homem. Retiveram-n'o os primos. + +--Espera, pateta! Deixa-o sahir, que eu te prometto que havemos de +conhecêl-o. + +--Que diabo queres tu fazer, maluco? Não vês que espantas a caça? + +--Hei de vêr quem elle é! + +--Pois sim, mas para isso é preciso prudencia. + +--A porta ficou aberta. Eu vou... + +--Vaes aonde? Ora tem juizo. Á sahida pilhamol-o. + +Mauricio porém insistiu e os primos condescenderam em passar um +cauteloso exame á entrada por onde o vulto desapparecêra. + +Reprimindo a custo os impetos de Mauricio, o padre dirigiu a exploração, +e mui de mansinho entreabriu a porta e entraram no pateo da casa; perto +ficava a escada, por onde se subia para as salas. + +Mauricio ia a transpôl-a, mas os primos impediram-n'o. D'aqui +originou-se uma pequena altercação que, ainda que em voz baixa, foi +percebida pelos cães que latiram furiosos. + +De uma das janellas da casa partiu uma voz, perguntando: + +--Quem está ahi? + +Era a voz de Bertha. + +Mauricio ia a responder-lhe, cheio de indignação, mas o padre tapou-lhe +a bôca e obrigou-o a retirar-se. + +Esta retirada foi feita com tal pericia, que não excitou mais attenção +da gente da casa. + +Tudo recahiu em socego. + +A presença de Bertha foi para Mauricio a confirmação das suspeitas dos +primos. + +Por isso mais excitado e impaciente do que até alli, aguardava a sahida +do mysterioso incognito. + +O padre collocou-se em sitio apropriado para poder tolher a passagem ao +visitador nocturno. + +Perto de hora e meia aguardaram os tres. A final ouviu-se ruido na +porta, e depois de algumas palavras ditas para dentro a meia voz, o +homem espiado sahiu. + +Ouviu-se atraz d'elle correr a chave na fechadura cautelosamente. + +A vinte passos, pouco mais ou menos, de distancia da casa de Thomé, o +personagem que tanta curiosidade excitava, viu o vulto de tres homens +immoveis, que lhe estorvavam a passagem. + +Mais perto d'elles, parou a perguntar-lhes: + +--Tenho o caminho livre? + +--Apenas depois de satisfeita a simples formalidade de se dar a +conhecer--respondeu o padre. + +--Á ordem de quem? + +--De tres contra um. + +--É direito que não reconheço. + +E o individuo, desembaraçando um pouco os braços, que levava envolvidos +em uma manta, parecia disposto a fazer face a uma d'essas aggressões, +que não são raras em algumas das nossas freguezias ruraes. + +N'este tempo porém Mauricio, a quem a voz d'este homem havia ferido +desde as primeiras palavras que lhe ouvira, adiantou-se para elle, e ao +vêl-o desembaraçado, exclamou: + +--Mas... elle é Jorge! + +Os primos soltaram uma risada. + +Jorge, que o leitor já tinha reconhecido, vendo emfim quem eram os seus +suppostos aggressores, deixou outra vez cahir a manta sobre os hombros e +perguntou em tom de leve despeito: + +--Então que brincadeira é esta? + +--Não é nada, primo Jorge--respondeu o doutor--quizemos apenas verificar +uma suspeita. + +--Uma suspeita?! + +--Vamos, perdoa-nos a indiscrição, mas bem vês que ha poucos prazeres +para uns peccadoraços como nós, iguaes ao que nos causa o vêr cahir um +sancto nas mesmas fraquezas de que nos accusam. + +Isto disse o padre, o doutor acrescentou: + +--O que te pedimos de hoje em diante é menos severidade nos teus juizos +e mais indulgencia para as miserias dos humanos. + +Jorge principiou a irritar-se com as palavras dos primos; voltando-se +para Mauricio disse-lhe com certa rispidez e quasi tremendo de +indignação: + +--Tu, que estás mais habituado do que eu a lidar com estes senhores, não +me saberás explicar estes ditos, que não percebo, e ao mesmo tempo a +significação da tua presença aqui, a tolher-me os passos, como um ladrão +nocturno? + +O silencio de Mauricio significava tambem muita indignação e cólera +concentrada. + +A presença de Jorge n'aquelle legar sómente a podia explicar aceitando a +hypothese maligna dos do Cruzeiro; e na recordação da conversa que +tivera com o irmão, a respeito da filha de Thomé, via agora um excesso +de dissimulação e hypocrisia, que o revoltavam tanto mais +vehementemente, quanto maior era o respeito que até alli lhe mereceu o +caracter de Jorge. + +Por isso a sevéra interpellação d'este fez rebentar em explosão aquella +cólera mal reprimida. + +--Escusas de te armares com os teus costumados ares de juiz e de censor, +Jorge--exclamou Mauricio indignado--bem vês que, desde este momento, +perdeste para mim todo o prestigio e toda a authoridade moral. Tive até +hoje candura bastante para tomar a serio o teu caracter de prudencia e a +tua lealdade, mas desde que vejo a hypocrisia, que havia em tudo isso, +sou eu que domino e que tenho o direito de interrogar e de censurar. + +--Enlouqueceste, Mauricio?--perguntou Jorge em tom quasi de piedade, que +mais irritou o irmão. + +--Que indigna e ridicula comedia andas tu a representar n'este +mundo?--tornou este quasi allucinado--Na tua idade tens já coragem para +tanto! Armares-te de severidades pedantes contra as minhas loucuras de +rapaz, loucuras leaes a final de contas e a descoberto, loucuras, mas +não vilezas, e occultares na sombra actos, que a mim, ao estouvado e +perdido, fariam córar de vergonha. Oh! não te invejo o talento de +comediante, Jorge. + +--Mauricio, repara que não estás em ti. + +--Sim, eu tenho esse defeito. Não sei medir as minhas palavras, não sei +encobrir, nem disfarçar; tudo o que penso me vem aos labios. Hontem +dizia que te estimava e respeitava, e era verdade; hoje digo-te que te +desprézo e te lastimo, e é verdade tambem. Cuidas que não me recordo das +tuas palavras e dos teus conselhos ha poucos dias? Invocaste o nome +sagrado de nossa mãe, a memoria venerada de Beatriz, para quê? para +exigires de mim uma promessa; dizias tu, que era a de respeitar a paz de +coração de uma rapariga, que uma abençoára e a quem a outra quizera como +a irmã; mas sob a capa d'essa promessa ia a de te deixar em paz no gozo +das tuas aventuras nocturnas e dos teus amores traiçoeiros e +escandalosos. + +--Silencio!--exclamou Jorge, com um tom intimativo que cortou em meio as +palavras do irmão. + +--Podia perdoar-te todos os insultos feitos ao meu caracter; não posso +consentir que calumnies quem não está aqui para se defender, e quem +tinha direito a esperar encontrar em ti um defensor e não um +calumniador. Ordeno-te silencio em nome de alguns restos de honra, que +ainda te deixassem intacta as companhias devassas que frequentas. + +--Que é lá isso, priminho, que é lá isso?--acudiram immediatamente os +dois manos. + +Jorge não se intimidou. + +--Não me assustam as suas ameaças. Sei agora o que significa esta +espionagem e aquellas gargalhadas cynicas e alvares de ha pouco. +Cabe-lhes bem o papel degradante que desempenham aqui, e nem é de +estranhar o conceito que formam das intenções dos outros de que julgam +pelas suas. O que lamento é vêr-te associado a esta empreza, Mauricio, +porque, faço justiça ao teu caracter, deve repugnar-te intimamente o +passo que déste. + +--Em vez de sermões, priminho, não acha que seria melhor explicar-nos o +que veio fazer a horas mortas a esta casa? + +--Não sinto a necessidade de explicar as minhas acções diante de taes +juizes. Pouco me importa a estima em que teem a minha reputação os +senhores do Cruzeiro. Resignar-se-hão portanto a prescindirem das +explicações que pedem. + +Os dois riram-se maliciosamente. Jorge proseguiu: + +--Entendo esse riso. Conheço-os. Sei que depois da espionagem se segue a +calumnia; mas o meu desprezo é muito grande para transigir. Calumniem. + +--Ora essa! Nós sabemos guardar um segredo. Socega. + +--Sei qual é o alimento com que se nutre a sua ociosidade. Não importa. +Á vontade, meus senhores, teem a estrada livre e contem que não serei eu +que os estorvo n'aquella que costumam seguir, porque não a frequento. + +Dizendo isto, deu alguns passos para se afastar; depois, voltando-se +para Mauricio: + +--Repara que já desceste o primeiro degrau da infamia; espiaste; agora +vê se desces o segundo, calumniando. Ha n'aquella casa uma familia +tranquilla e respeitada, ajuda agora esta gente a manchal-a de lama, +ajuda; o insulto é facil para quem não precisa de se abaixar muito para +a apanhar. + +Os primos, ainda que valentes e atrevidos, ouviram com excepcional +prudencia a correcção que lhes infligira as palavras de Jorge e +limitaram-se a acompanhal-o de risadas quando elle se retirou. + +Mauricio estava já sentindo remorsos do que dissera ao irmão. Este +adquirira sobre elle o seu antigo ascendente. + +--Parece-me que foi bem infame o que fizemos aqui--disse Mauricio, +arrependido. + +--Sim? Parece-te isso? Pois vae pedir perdão ao mano--tornou-lhe o +padre, rindo com desdem. + +--Parvo!--exclamou o doutor--Querem vêr que engoliu a arara?! + +--Deixa lá, então que queres? a innocencia tem d'estas canduras. + +--Mas vocês ainda acreditam?... + +--Ora adeus, adeus! Vae-te deitar e vê se nos arranjas umas indulgencias +do mano Jorge. + +E os primos deixaram Mauricio, e partiram zombando da candura d'elle. + +Mauricio voltou a casa desgostoso de si e com o espirito fluctuando +entre o remorso e a suspeita. + + + + +XVI + + +Amanheceu alvoroçada e ruidosa a Casa Mourisca no dia destinado para o +jantar, em homenagem a Gabriella. + +N'aquelle tranquillo e silencioso edificio, que parecia constantemente +absorvido nas recordações dos seus tempos de gloria, notava-se um +movimento excepcional. + +O velho fidalgo não quizera faltar ás tradições de hospitalidade que a +familia lhe legára. + +Ordenou que, embora á custa de qualquer sacrificio, se celebrasse a +chegada da sobrinha, segundo o velho estylo, convidando-se para jantar +os representantes da mais preclara nobreza dos arredores. + +Ainda que a tristeza e misanthropia, de que era victima, o trouxessem, +havia muito tempo, arredado dos parentes e dos amigos de outras épocas, +o senhor da Casa Mourisca preferiu sujeitar-se á impertinencia de lhes +abrir mais outra vez as suas salas, a deixar de cumprir uma pratica que +lhe impunham os brios de fidalgo creado nos habitos de grandeza e +liberalidade de um solar de provincia. + +Jorge tentára ainda oppôr algumas sensatas reflexões a esta dispendiosa +exhibição de uma opulencia mentida; mas encontrou o pae inflexivel. + +Frei Januario, que antevia a perspectiva d'um d'aquelles regalados +jantares, que se tinham ido com os dizimos, com os foraes, com as +luctuosas, com os conventos, com as milicias e com muitas outras coisas +igualmente despertadoras das suas clericaes saudades, frei Januario, +dizemos, sentia em si uns jubilos de criança, que nem podia nem +procurava disfarçar. + +Eloquente como nunca, corroborou a opinião do fidalgo, fazendo-lhe bem +sentir o deslustro que soffreria o brazão da casa se não se observassem +essas praticas senhoris dos tempos passados, e dando como faceis de +aplanar todas as difficuldades que, á primeira vista, apresentava o +projecto. + +A Jorge, que lhe suscitava algumas objecções, o egresso sómente +respondia: + +--Tenha paciencia, snr. Jorge, a nobreza obriga! + +--Obriga a ser nobre, que é ser leal, sincero, honrado, sem affectação, +sem prodigalidade, e sem sumptuosidades que se sustentem á custa alheia. + +--Á custa alheia?! + +--Emquanto esta casa tiver uma divida é á custa alheia que vive, gere +dinheiro de outros e não lhe é airoso gastar em festas e banquetes o que +precisa para remir-se primeiro e para prosperar depois. + +--Uma casa de fidalgos não é uma casa de commerciantes. Que estes, que +não teem um nome a respeitar, se não mettam em cavallarias altas, +entende-se. E é até muito para sentir vêr por ahi fazer o contrario, +como se vê! Mas agora quem tem brazão na porta e retratos nas paredes... + +--Quem tem brazão e retratos, e vive como n'esta casa se tem vivido, +arrisca-se muito a ter de vender um dia brazões e avós, por preço +modico, ao commerciante que teima em metter-se em cavallarias altas, e +que tem a felicidade de não cahir do cavallo abaixo. + +--Adeus, elle ahi vem com as suas! Eu já lhe disse, não percebo que +ideias são essas com que o menino me anda ha tempos. Ora para o que lhe +havia de dar! O filho mais velho de uma casa como esta, aparentado com +as primeiras familias do reino, com marquezes e duques da melhor +linhagem, tudo nobreza antiga e da que não admitte duvida a fallar como +qualquer d'esses bacharelitos que veem de Coimbra, mações nos ossos e +republicanos na alma! Uma coisa assim! + +Apesar da repugnancia que sentia pela festa ordenada por o pae, Jorge +julgou prudente superintender nos aprestes d'ella, para obstar a que +fossem dirigidos pelos alvitres do padre procurador. + +Um d'estes alvitres fôra o de se pedir emprestadas ás proprias familias +convidadas diversas peças de baixella, de que estava desprevenida a cópa +da Casa Mourisca. + +Este ridiculo expediente era pelo padre tido na conta de engenhosa +tactica, porque, explicava elle: cada familia, conhecendo apenas a prata +que lhe pertencia, havia de suppôr que toda a mais era da casa, que em +tempo fôra das mais bem providas n'esta especie. Por tal fórma, não se +tornaria notada a falta, e cada qual se daria até por lisongeado em +haver merecido do proprietario esta prova de confiança. + +Jorge não se deixou convencer, apesar do persuasivo da logica; e em +despeito de vehementes protestos do padre, exigiu que o serviço se +fizesse sómente com o pouco ou muito que houvesse em casa. + +O padre appellou para o fidalgo, que nisto porém decidiu a favor do +filho. + +Os convidados para o jantar eram todos da mais genuina fidalguia da +provincia. Por muitas d'aquellas veias andava globulo de sangue, que já +pertencêra a Fuas Roupinho ou a Egas Moniz e que por um mysterio +physiologico, que só se dá n'aquella esmerilhada casta, conseguira +transmittir-se inteiro de veias para veias, atravez de vinte gerações, +com o fim providencial de manter inabalaveis os brios da raça. + +Era um gosto seguir pelos seculos fóra a linha, pela qual alguns dos +presentes procediam muito direitamente de qualquer notavel heroe das +origens da monarchia. Havia tal que tinha tirado a limpo o numero de +ordem que lhe competia n'aquella illustre enfiada de morgados, e que +deixava evidente, por um _autem genuit_ nobiliario, ser o vigesimo ou o +decimo-setimo rebentão de sua preclarissima cêpa. Bom fôra que elle se +tivesse entregado a esses calculos, por não ser provavel que +apparecesse, no succeder dos tempos, outro espirito de igual alcance, +que ousasse mergulhar em tão transcendentes e uteis computações; e assim +ficaria a humanidade privada de uma noção valiosissima. + +Embora estivessem um tanto enfesadas e pêcas quasi todas aquellas +vergonteas, sempre derivavam de uma profunda cêpa; e quem não havia de +preferil-as a ramos embora cheios de viço, cujas raizes estivessem á +flôr da terra? + +Os dotes physicos tinham, é verdade, soffrido um pouco com os extremos e +cuidados empregados para conservar a crase aristocratica d'aquelle +sangue livre de toda a mistura que o derrancasse; os dotes +intellectuaes, em geral, resentiam-se do cordão sanitario, de que os +chefes d'aquellas familias as haviam cingido para precavêl-as da +infecção de ideias novas, propagadas pelos livros e jornaes da +actualidade. Mas lá estava o fermento da fidalguia, que era o essencial, +e que suppria bem a saude e a illustração. + +Algumas familias, que cedendo um pouco ás exigencias da época, não +tinham trancado de todo os portões dos seus solares a certas innovações, +eram por esse facto olhadas com desconfiança por os puros, que as +accusavam de eivadas pela lepra do seculo. + +Emquanto se esperava pelo jantar, formavam os convidados na sala nobre +da Casa Mourisca grupos variados e caracteristicos. As senhoras de idade +madura, tias e mães, sentadas em semi-circulo em um dos angulos da sala, +narravam pausadamente umas ás outras as occorrencias domesticas +relativas ao intervallo de tempo em que se não tinham visto; exaltavam +os dotes pessoaes do filho primogenito e as prendas da menina da casa. + +Finalmente combinavam enlaces matrimoniaes entre os seus filhos e +sobrinhos, de maneira que o sangue dos descendentes sahisse ainda mais +rico em essencia aristocratica, se é que era susceptivel de maior apuro. + +Os chefes de familia, passeando na sala, ou formando grupos nos vãos das +janellas, lidavam na sua tarefa de vinte annos: a de demonstrar que o +que perdêra a causa realista fôra a traição e o suborno; e, arvorados em +prophetas, entoavam trenuos sob a imminente dissolução social, +periphraseando os artigos de fundo da _Nação_ e do _Direito_. + +A abolição dos morgados e vinculos, definitivamente decretada poucos +annos antes, fornecia forte alimento para aquellas jeremiades; os +dissipadores fidalgos, que tinham arriscado o futuro e bem-estar dos +filhos, desbaratando-lhes a legitima com a sua imprevidencia e +prodigalidade, lançavam agora á conta da lei o que era a consequencia +logica da sua má administração. + +As raparigas fallavam umas com as outras, de vestidos e de enfeites, e +dispunham de quando em quando de algum olhar mais terno para qualquer +dos primos presentes, em cujo numero se continham os namorados de cada +uma ou de mais do que uma. Estas representantes das poeticas e vaporosas +castellãs, que na meia idade premiavam os campeadores na liça, os +guerreiros na volta dos combates, e os menestreis e pagens que lhes +endereçavam conceituosos galanteios nos estrados das salas, tinham +perdido muito da poesia do typo primitivo. Vivendo em uma época em que +não havia campeões, guerreiros, nem trovadores para premiar, +limitavam-se as meninas a acceitar a côrte dos primos, tambem muito +pouco parecidos com os seus cavalleirosos avós, e com a maior candura, +que póde medrar na provincia, roubavam umas ás outras os noivos e os +namorados. + +Algumas havia alli mais revolucionarias, que tinham conseguido +introduzir o piano em casa e com elle as musicas da moda, obtendo uma ou +outra vez dos paes a concessão de dar uma partida, onde a nata da +nobreza provinciana dançava os _Lanceiros_ como qualquer sociedade de +artistas. + +Os rapazes reunidos no terraço fumavam e atiravam a rewolver aos troncos +das arvores ou ás avesitas que poisavam nos ramos. + +A maioria, ou morgados ou filhos segundos, era de ignorantes e vadios; +se alguns haviam descido até ao ponto de irem a Coimbra fazerem á +sciencia a honra de a estudar, poucos d'esses mostravam as habilitações +adquiridas, exercendo qualquer mester social. Seria dobrar o desdouro. +Commettida a fraqueza de sentar-se nos bancos das aulas ao lado dos +filhos dos commerciantes e lavradores, devia-se pelo menos seguir o +exemplo do mano bacharel do Cruzeiro, o qual evitára a circumstancia +aggravante de servir depois para alguma coisa. + +Formava grupo á parte frei Januario em animado colloquio com outros dois +padres, tambem appensos a casas fidalgas, e igualmente fervorosos na +defeza dos legitimos direitos da nobreza e abominadores dos pedreiros +livres. + +Mauricio, na companhia dos rapazes no terraço, entre os quaes se achavam +os dois primos do Cruzeiro, tomava parte nas suas diversões, mas sem +perder certo ar de melancolia, que lhe ficára das scenas da vespera. + +Jorge attendia a todos, mas n'elle era ainda mais evidente do que em +Mauricio a preoccupação de espirito. + +Desde a vespera os dois irmãos não haviam trocado uma palavra. Gabriella +notára-o, e desconfiava de que alguma coisa se tivesse passado entre +elles. + +Não deixava porém a baroneza de desempenhar pela sua parte, com superior +sciencia, o papel que lhe cumpria, como a pessoa em honra de quem tinha +logar a festa de familia. Ia de grupo a grupo, tendo uma amabilidade +certeira para cada individuo, e conseguindo desvanecer com as +inebriantes inhalações de lisonja a superciliosa desconfiança que os +seus ares de côrte da actualidade despertavam n'aquelles espiritos, +escrupulosos respeitadores da côrte velha. + +Houve uma circumstancia que excitou a curiosidade da baroneza. Notára +ella que a maior parte dos rapazes, com quem os manos do Cruzeiro haviam +conversado e rido, seguiam Jorge com olhares maliciosos, e que sempre +que este lhes voltava costas, trocavam uns com outros risos mal +suffocados. Da roda dos rapazes communicára-se o mesmo effeito á das +raparigas, por intermedio dos colloquios de alguns namorados, e dentro +em pouco viu-as olharem tambem para Jorge com certa estranheza, e +cochicharem e rirem umas com as outras, quando livres da observação +d'elle. + +A mysteriosa confidencia passava de labios para ouvidos com rapidez tal, +que momentos depois estava nas visinhanças de Gabriella. + +Não pôde a curiosidade d'esta tardar mais tempo em informar-se do que +assim agitava a sociedade moça, e que até já havia deixado estupefacta +mais de uma respeitavel matrona, que por acaso fôra partícipe do +segredo. + +--O que é que se diz por ahi, priminha?--perguntou a baroneza á rapariga +mais proxima--corre de certo alguma noticia estranha, porque as vejo +todas em alvoroço. + +--E com razão. Então não sabe? O primo Jorge tem um namoro! + +--E o caso é para taes espantos? + +--Pudera não! Então não conhece o primo Jorge, já vejo. Ainda não houve +quem lhe merecesse um comprimento, que não fosse de simples ceremonia. +Todos iriam jurar que era impossivel que elle gostasse de alguem. E +vejam lá. + +--É porque pertence á especie rara dos que amam só uma vez, e dos que +amam de maneira tal que não podem sem remorsos amar por passatempo. + +--Pois será. Mas vejam aonde foi elle cahir! + +--Então quem é ella? + +--A Bertha. A filha do Thomé! + +--Fico na mesma, priminha. + +--Não conhece o Thomé? O Thomé da Herdade. Um lavrador que foi criado do +tio Luiz e que está hoje rico. + +--Ah! bem sei, então é uma rapariga do campo. + +--Envernizada na cidade, onde o pateta do pae a mandou educar. Chegou ha +dias a casa. + +--E Jorge conhecia-a? + +--Em criança, sim. Depois julgo que se não viram senão agora. + +--E quem descobriu essa paixão? + +--Viram-n'o sahir umas poucas de noites de casa d'ella. + +--Jorge?! + +--É verdade. Os primos do Cruzeiro viram-n'o, e parece até que o primo +Mauricio. + +--Ah! Mauricio?! + +--Sim, e o mais bonito é que esse tambem pelos modos tinha suas +pretenções, por passatempo já se sabe, olha o outro! a esse então tudo +lhe serve. De maneira que hoje estão que nem palavra dizem um ao outro. + +--Isso já eu notei; mas custa-me a crêr que Jorge... + +--E a todos. Pois aquelle sonsinha... + +--Não é isso o que eu dizia. O que eu acredito é que, sendo o que me diz +verdade, Jorge ama devéras essa rapariga, e elle não tem caracter para +abusar de alguem. Deus sabe o que de tudo isso póde resultar. + +--Quer dizer a prima que é capaz de casar com ella? + +--Sim, estou convencida de que se elle a ama, formou já essa tenção e ha +de cumpril-a. + +--Tinha que vêr a prima Bertha da Povoa! + +--Eu lhe digo, para a menina talvez tivesse que vêr, para mim, que já +estou costumada a esses espectaculos, seria a coisa mais natural do +mundo. + +Assim informada do que se passava na sala, Gabriella observou com mais +attenção Mauricio e Jorge, e estudou nas physionomias de ambos os +vestigios d'aquelle mysterio. + +Era manifesta a frieza que os separava n'aquella manhã. Evitavam-se +tanto, quanto podiam. As frontes d'um e d'outro estavam contrahidas, e +os sorrisos gelavam-se-lhes nos labios, sempre que queriam forçal-os a +apparecerem. + +--Será verdade que Jorge ame essa rapariga? N'esse caso deve ser uma +paixão bem séria a d'elle--pensava Gabriella. + +N'este tempo a porta da sala abriu-se e D. Luiz appareceu aos seus +hospedes vestido com aquelle esmero e gravidade, que sabia guardar em +todos os actos da vida. + +O fidalgo não tivera pressa em apresentar-se na sala. + +Fizera-se substituir por Jorge na solemnidade da recepção e na da +apresentação de Gabriella a todos os primos, que ainda não a +conhecessem. + +Frei Januario explicára a ausencia do fidalgo, attribuindo-a a +incommodos habituaes, que sómente mais tarde lhe permittiam sahir dos +aposentos. + +A verdade, porém, era que D. Luiz desejava encurtar, quanto lhe fosse +possivel, o tempo em que tinha de conviver com os seus parentes +n'aquelle dia dedicado aos deveres de hospitalidade. + +Produziu alvoroço na sala a entrada de D. Luiz. + +Todos correram a comprimental-o com aquella deferencia, que a indole +séria e melancolica do fidalgo e a evidente superioridade da sua +intelligencia e educação a todos impunha. + +--Como vaes tu, D. Luiz?--disse, apertando-lhe a mão um ex-coronel de +milicias, que havia acabado, pouco tempo antes, de ameaçar com a espada +que tinha em casa na gaveta todas as constituições do mundo. + +--Graças a Deus que déste signal de vida, homem! + +--O primo D. Luiz devia procurar mais distracções--acudiu a vigesima +descendente de um dos guerreiros de Ourique. + +--Ainda bem que a priminha Gabriella o veio tirar do seu +lethargo--acrescentou outra, ramo infructifero de arvore igualmente +illustre. + +O titulo de baroneza raros o concediam a Gabriella, porque era de origem +suspeita para aquelles pechosos aristocratas. + +D. Luiz respondeu com um forçado sorriso aos comprimentos, dizendo: + +--Devem procurar-se as distracções, quando o espirito não se dá bem com +as ideias tristes. Mas isso não succede commigo. Já não posso viver sem +esta escura companhia dos meus pensamentos. O esforço para fugir-lhe +mais me afflige. + +--Ora essa! Sentir-se um homem bem com a tristeza! Ora essa!--estranhou +o ex-miliciano. + +--São contradicções apparentes--disse Gabriella para o tio.--As saudades +teem d'isso. Por isso lhes chamaram «gosto amargo e pungir delicioso.» + +--Quem é que lhes chama isso?--perguntou uma fidalga de oculos, um pouco +sentimental e litterata, que estava ao pé de Gabriella. + +--Foi Almeida Garrett--respondeu esta, sorrindo, como quem suspeitava +que não ficaria satisfeita a curiosidade da interrogante. + +Effectivamente a historia litteraria de Portugal parára para ella em +José Agostinho de Macedo. + +--Almeida Garrett!!--repetiu um dos mais intractaveis realistas +presentes que ouvira a resposta--eu conheci um d'esse nome, que era +secretario ou coisa assim do duque de Palmella n'aquelles bons governos +do Porto em 1834, isso era um liberalengo dos quatro costados. + +Na linguagem pittoresca d'este sujeito, a palavra liberalengo era a mais +eloquente expressão com que s. exc.ª conseguia traduzir todo o desprezo +que lhe mereciam as ideias e os homens de 1820 e 1832. + +--E perdeu-o de vista depois?--inquiriu Gabriella com leve ironia. + +--Sim, perdi. Eu conheci-o por acaso. + +--Então não o conheceu orador no parlamento, ministro, poeta, prosador e +chefe de uma revolução litteraria? + +O fidalgo abriu os olhos, prolongou os labios e sacudiu a cabeça, +dizendo: + +--Olhe, prima; eu, a respeito de parlamento.... Temos conversado; não +sei se me entende. De ministros tambem não quero saber, porque tenho +receio de que me digam que nos governa o filho do meu sapateiro. Agora a +respeito de poetas... se quer tambem que lhe diga, eu nunca tive quéda +para sonetos. Lá chefe de revolução estou convencido de que elle seria, +porque para guerrilheiro estava talhado. + +A baroneza deu muita razão a este seu primo e foi para um grupo de +raparigas, que passaram a interrogal-a sobre a ultima moda do talho dos +vestidos. + +Annunciou-se emfim o jantar. Houve geral reboliço na sala, e a companhia +seguiu mais ou menos anarchicamente para o banquete. + +Frei Januario tinha meditado maduramente a ordem de collocação dos +diversos convivas, segundo as regras da etiqueta em que elle era mestre. +E como n'este ponto ninguem lhe contrariasse os planos, havia-se sahido +muito á sua vontade da tarefa. + +Assumindo pois as funcções de mestre de ceremonias, começou a designar a +cada convidado o logar que lhe competia. + +Infelizmente, porém, nem todos foram doceis ás indicações do padre, e +sobre tudo os rapazes que, sem lhe darem attenção, iam sentar-se onde +muito bem queriam, e ao pé quasi sempre de alguma prima, que não +desgostava da visinhança. + +Isto transtornou completamente os estudos do padre, que tivera mais que +tudo era vista a separação dos sexos e das idades; mas debalde protestou +contra a anarchia que invadira a mesa. + +Quem, porém, acabou por o perturbar foi D. Luiz, quando do alto da mesa +e com a hospitaleira cordialidade, que conseguiu affectar, exclamou: + +--Queiram sentar-se á vontade. É bom que os velhos se misturem com os +moços para temperar os ardores da juventude com a prudencia dos annos. +Outras desigualdades não ha aqui a attender. + +Esta ultima parte fez torcer o nariz a um ou outro fidalgo que tinha +motivos para se suppôr mais preclaro do que os primos, mas não houve +protesto formulado, e todos obedeceram ao convite do dono da casa. + +O padre esteve em risco de perder o appetite. + +Valeu-lhe porém a judiciosa reflexão que lhe fez ao ouvido o collega, +dizendo: + +--Sentemo-nos, que bom logar é todo aquelle onde se come bem. + +Jorge ficou aos pés da mesa e portanto fronteiro ao pae. + +Os primos do Cruzeiro, um de cada lado da mesa e perto da cabeceira, +continuavam a sorrir provocadoramente e a fazer rir os outros. + +Ao passar perto de Jorge, para tomar logar, a baroneza murmurou-lhe: + +--Falla-se muito de ti, Jorge. + +Jorge fez um signal de quem estava informado do facto, e respondeu +sorrindo de uma maneira especial: + +--Talvez se falle mais e mais alto d'aqui a pouco. + +O jantar não desdizia do puritanismo d'aquella sociedade. + +Era um jantar á portugueza e digno de portuguezes, que não querem: +_nostrum regnum ire fore de Portucalensibus_. + +A Casa Mourisca, bem explorada, ainda deu para ostentar um esplendor, +que se nada era em comparação com o dos magnificos festins, que em +tempos passados a animaram, não envergonhava o seu brazão perante os +fidalgos presentes que, pela maior parte, o tinham tanto ou mais +deteriorado. + +Os criados suppriram com diligencia o numero, de modo que o serviço +correu regular. + +Emquanto se servia a sôpa e não se havia encetado as libações, reinou na +sala aquelle silencio momentaneo, proprio da occasião. + +Só se ouve o tocar das colheres nos pratos, e o sôrvo mais ruidoso de +alguns convivas, que se não constrangem. O appetite satisfaz-se, dão-se +tregoas ás conversas. Depois retiram-se os primeiros pratos, enchem-se +os copos, repousam os commensaes, e de visinho para visinho trava-se a +meia voz um dialogo cortado, sobre assumptos insignificantes. Depois o +tinir das louças e dos crystaes, o vapor oloroso das iguarias, os +effeitos excitantes dos vinhos animam o espirito; o tom das conversas +eleva-se, o visinho fronteiro intervem, cresce a confusão, os risos +misturam-se com as palavras, a timidez dissipa-se, cada qual sente-se +com um arrojo que desconhece, vencem-se reservas e resistencias que +pareciam insuperaveis, reina a vida na sala do banquete. + +Por estas diversas e successivas phases passou o jantar em casa de D. +Luiz. No meio d'elle, berrava-se politica alli, jogavam-se epigrammas +acolá, segredavam-se requebros em outro ponto, e dava-se largas á +maledicencia em quasi todos. + +Jorge conservava-se serio e reservado, como estivera toda a manhã. + +Mauricio fazia esforços para mostrar-se despreoccupado, porém mal o +conseguia. + +Para o fim do jantar percebia-se pelo tom de algumas risadas e pelo +theor de algumas conversas, que os restos da garrafeira da Casa Mourisca +não tinham desmentido os seus antigos creditos, firmados em tantas +façanhas. + +Os primos do Cruzeiro sobre todos fallavam em um tom de voz, que mais do +que uma vez attrahira as geraes attenções e fizera contrahir o sobr'olho +a D. Luiz. + +A cada momento as allusões a Jorge, que elles entremeiavam nos seus +informes discursos, tinham obrigado a maioria dos olhares a convergirem +para o filho mais velho de D. Luiz, que os arrostava com uma serenidade +desprezadora. + +Encetaram-se os brindes. Brindou-se a baroneza, brindaram-se na pessoa +dos seus chefes as familias illustres alli presentes, brindaram-se os +caudilhos do partido realista, brindou-se em honra da sancta causa, em +honra da imprensa fiel, em honra das velhas instituições, em honra do +throno e do altar e de muitas outras coisas. + +Frei Januario, para mostrar o seu fervor, esgotava o calix a cada +brinde, e aproveitava os intervallos para fazer com os collegas, a meia +voz, os seus brindes particulares. + +Já quando os animos estavam um pouco excitados por estas successivas +libações, o primo padre levantou-se, e com os olhos injectados e o gesto +um tanto transtornado, disse: + +--Meus senhores, tenho notado que o primo Jorge está com um ataque de +melancolia, de que não póde livrar-se. Os brindes que aqui se teem feito +ainda o não desanuviaram. É verdade que se brindaram familias antigas e +coisas velhas, e o passado não é lá das ideias mais alegres. Eu por isso +vou propôr um brinde menos soturno, a vêr se o distraio. Bebo á saude do +Thomé da Herdade e da sua familia, com particular menção da menina +Bertha, a quem Deus faça muito feliz, assim como a todos quantos lhe +querem bem. + +Este inesperado brinde produziu grande sensação. A parte moça da +companhia, prevenida como estava, principiou a suffocar os risos e a +fallar ao ouvido dos visinhos; os velhos abriam os olhos espantados ou +indignavam-se com o desconchavo de brindar uma familia plebeia depois de +outras de tão apurada raça. A consequencia foi que ninguem correspondeu +ao brinde e os calices ficaram na mesa intactos. Seguiu-se um silencio +profundo na sala. + +O primo do Cruzeiro, sem se intimidar, perguntou: + +--Então que é isto?! Ninguem me secunda? + +E corria a vista em redor da mesa com expressão ironica, que, a seu +pezar, se desvaneceu ao encontrar a vista de Jorge, que, pallido de +intima commoção, tambem se erguêra e levantára o calice para responder: + +--Secundo eu, primo--disse elle, corn um leve tremor na voz--e creia que +da melhor vontade o faço. Brinda-se uma familia honrada, laboriosa e +justa. A ninguem deve repugnar o brinde, e muito menos a mim, a quem +motivos particulares obrigam a veneral-a. + +--Ah!--murmurou provocadoramente o padre, sentando-se com ares de +victoria. + +Um meio sorriso passou por os labios de alguns dos espectadores d'esta +scena. + +--Levante-se!--ordenou Jorge ao padre com intimativa--ouça-me de pé, que +eu também estou de pé para secundar o seu brinde. + +É singular! O padre ergueu-se, como se não pudesse resistir ao olhar +indignado e imperioso de Jorge. + +--Repito--continuou este--brindo aquella familia honrada, porque é +honrada e porque motivos particulares me levam a veneral-a. E para lhes +não dar occasião de sorrirem outra vez, ou de afagarem a vibora +venenosa, que ahi soltaram, eu lhes explico as minhas palavras. Se +ouvirem verdades que lhes firam o orgulho de fidalgos, lancem a culpa da +vexação a quem m'as provocou. Meus senhores, eu acordei um dia com a +firme resolução de luctar contra esta torrente que nos arrasta e afoga a +todos, apesar dos nossos brazões, dos nossos solares, dos nossos +pergaminhos e das nossas galerias de retratos. Todos quantos aqui estão +podem contar das glorias passadas e da decadencia e das humilhações +presentes. E nós como todos. Eu era novo, tinha diante de mim a +perspectiva de uma longa vida, pensava no futuro e não podia resignar-me +á ideia de morrer assim cobarde e ingloriamente. Reagi, encontrei +felizmente em meu pae o auxilio preciso, e, authorisado por elle, tomei +sobre meus hombros a tarefa de sustentar as ruinas vacillantes d'esta +casa. A empreza porém era mais difficil do que a suppozera. Tolhia-me os +movimentos a rede complicada, em que a errada gerencia de muitos annos +embaraçára a administração. Cada passo dado para salvar-nos era mais um +para a total ruina. Devem comprehender bem isto os que me escutam, +porque a sorte das nossas casas é quasi a mesma. De todos os lados, para +onde nos viramos, surge-nos a usura, o dolo e a má fé. N'estas +circumstancias só me podia valer a experiencia dos negocios, e essa +faltava-me, o credito, e quem m'o reconheceria e aceitaria? o capital, e +por que preço poderia obtel-o? Perguntem ao nosso antigo administrador, +aqui presente, o preço por que elle o encontrava. Pois bem, senhores, um +homem chegou-se a mim n'estas condições e pôz á minha disposição, leal e +desinteressadamente, a sua experiencia, o seu credito e o seu capital. +Graças a este homem, era-me possivel libertar-me, sem baixeza, da usura +que havia tantos annos nos devorava, applicar vantajosamente os capitaes +obtidos e encetar um systema, lento mas seguro, de administração que +preparasse o caminho para um futuro resgate d'esta casa. Graças a este +homem, sorriam-me as esperanças de poder dizer um dia ás cinzas dos +nossos antepassados, que eu tambem respeito, que repousassem em paz na +sepultura, pois não viriam estranhos disseminal-as; e á memoria querida +de minha mãe e de minha irmã que os que ellas amaram não desertariam +cobardemente dos logares que lhes eram caros e que as viram morrer. Mas +contra o generoso auxilio d'este homem havia velhos preconceitos de +familia, mais apaixonados do que justos; era-me pois impossível recorrer +a elle abertamente. Entre as prevenções e a gloria da minha casa não +hesitei porém. A consciencia dizia-me que não devia hesitar. Resolvi +acolher o offerecimento leal, mas tive de occultar na sombra da noite +actos que não se envergonhariam da mais clara luz do dia. Quando +precisava do conselho experiente d'esse homem, procurava-o de noite e +clandestinamente. Os diffamadores, que correm nas trevas á procura de +alimento para a calumnia, surprenderam-me. Medindo as acções dos outros +pela sua capacidade moral, suppõe-lhes sempre um motivo infame. O homem +de quem lhes fallei tem uma filha. No que ha de mais puro e mais +sensivel nas familias, é ahi que a calumnia gosta de ferir. Essa pobre +menina foi pois a victima escolhida. Agora se querem saber o nome do +homem honrado, a quem devo experiencia, credito e capital, dir-lhes-ei +que se chama Thomé da Povoa, a filha é Bertha, a afilhada de meu pae; os +calumniadores são esses que propõem o brinde, lançando no calice a +peçonha de sua natureza de vibora; mas brinde que eu de novo secundo sem +receio nem hesitação. + +--E eu--exclamou a baroneza, imitando-o; mas por ninguem mais foi +seguida, porque uma nova occorrencia veio absorver as attenções. + +D. Luiz, que revelára a mais profunda estranheza desde o principio da +scena, provocada pelo fidalgo do Cruzeiro, crescêra em agitação á medida +que as palavras de Jorge iam tendo para elle um sentido mais claro. + +As ultimas fizeram-lhe passar o rosto por uma serie de mudanças, cada +uma d'ellas denunciadora de uma paixão violenta. + +Ao nome de Thomé da Povoa, á ingenua e leal declaração de Jorge, os +olhos do irritado fidalgo faiscaram e um rubor fugaz e intenso +correu-lhe nas faces, succedendo-lhe uma pallidez profunda. + +Quando o filho terminou de fallar, foi elle quem, por sua vez, se ergueu +na cabeceira da mesa. + +A commoção que o dominava não lhe permittiu desde logo o uso da palavra. + +Todos os olhares se desviaram para aquelle velho, pallido, vestido de +negro, severo e mudo, que, com as mãos apoiadas sobre a mesa e o olhar +fulgurante, seguia com a vista por todos os espectadores d'esta scena. + +A final com a voz tremula e meia abafada, mas que a pouco e pouco se foi +animando, o velho fidalgo começou, dizendo: + +--Meus senhores, quando ha dias os convidei para virem a esta casa +solemnisar a honra que eu recebia da hospedagem da minha sobrinha, +estava persuadido de que esta casa ainda era minha. Não sabia que, +abusando da confiança que eu depositára n'elle, um filho meu, o mais +velho, o primeiro representante, no futuro, do nome e das glorias da sua +familia, havia empenhado a um dos criados d'ella o solar em que nascêra. +Soube-o agora. Peço-lhes humildemente perdão de os haver, pela minha +ignorancia, sujeitado a esta baixeza. Desde este momento estamos todos +aqui em situações iguaes, todos somos hospedes do Thomé da Herdade. Em +outros tempos, nos festins e saraus das nossas casas, os criados subiam +disfarçadamente as escadas, para virem das ante-camaras e corredores +espreitar para as salas, fascinados pelo esplendor que n'ellas viam; +permittia-se-lhes isso. Hoje porém, senhores, se aqui nos demorassemos, +vêl-os-iamos subir com outro intento, para vigiar que nas expansões do +nosso jubilo não deteriorassemos as alfaias, a mobilia, a baixella e a +casa, que já lhes pertence. A esta espionagem não me sujeito eu. Meus +senhores, as minhas obrigações de dono da casa terminaram. Hospede como +os outros, tomo a liberdade de seguir o caminho que a dignidade me +impõe. Cada um consulte o mesmo conselheiro. + +E D. Luiz, curvando-se diante de todos que o escutaram espantados, sahiu +da sala sem dar tempo a que o interrogassem ou detivessem. + +Frei Januario foi o primeiro que pressurosamente o seguiu. + +O resto da companhia parecia immobilisado nos seus logares. + +Jorge, com os cotovêlos apoiados na borda da mesa, conservava o rosto +escondido entre as mãos. + +Gabriella foi quem se subtrahiu primeiro áquella influencia +paralysadora. + +--Parece-me que, depois do que se passou, dá-se a triste necessidade de +nos separarmos. O tio Luiz está muito agitado, e preciso dar-lhe tempo +para serenar e vêr as coisas sob um aspecto mais racional do que aquelle +em que a paixão lh'as apresenta agora. Por isso... + +A reticencia foi seguida de um arrastar de cadeiras, prova de todos +haverem comprehendido a conveniencia da retirada. + +Formaram-se ainda na sala alguns grupos, conversando sobre o facto. + +Os primos do Cruzeiro foram os primeiros a retirar-se. O padre ainda +manifestou desejos de pedir a Jorge uma satisfação pelos insultos que +elle lhe dirigira, mas intervieram terceiros que o dissuadiram. + +Os fidalgos velhos tentaram procurar D. Luiz para o acalmarem; mas +foi-lhe dito por frei Januario que o fidalgo não podia recebel-os. + +Pouco e pouco foram os convidados abandonando a Casa Mourisca, e os +caminhos que d'ella partiam eram momentos depois cobertos de cavalgadas, +liteiras e carroções, em que aquellas nobres familias regressavam aos +seus solares. + +As occorrencias singulares do jantar foram entre ellas assumpto de +conversa em toda a jornada. Todos, com quanto criticassem a esquisitice +do velho D. Luiz, que tão pouco urbano se mostrou com os seus hospedes, +eram accordes em attribuir a principal culpa a Jorge. + + + + +XVII + + +Ficaram apenas na sala Jorge, Mauricio e a baroneza. + +A indignação de D. Luiz parecia haver desvanecido a energia de Jorge; a +consciencia do pobre rapaz, como que vacillando ao embate das violentas +paixões paternas, quasi lhe censurára a precipitação do passo que déra. + +Igualmente abatido, Mauricio sentia remorsos ainda mais vivos. Não +podendo já duvidar da innocencia do irmão; como perdoaria a si proprio +as suspeitas e insultos com que o ferira? + +Do vão da janella a baroneza observava-os immovel e silenciosa. + +Mauricio ergueu emfim a cabeça, e tendo nos olhos ainda vestigios de +lagrimas; hesitou alguns instantes; depois, por um d'esses movimentos +promptos e irresistiveis, a que a violencia dos affectos o provocava, +caminhou agitado para Jorge. + +--Jorge--disse elle, intima e sinceramente commovido--se ainda se não +esgotou a generosidade da tua nobre alma, não me retires a affeição, que +por tanto tempo te mereci. + +Jorge apertou-lhe a mão com affecto. + +--Nunca t'a retirei, Mauricio. Podes crêl-o. Affligem-me alguns dos teus +desvarios, principalmente porque sei que elles estão em contradicção com +os nobres sentimentos da tua alma. Mas para te perder a affeição não é +isso motivo. Para mim és n'esses momentos, como uma criança que se vê a +dormir á beira de um precipicio. Inspiras-me, como ella, apenas sustos, +e não cólera nem aversão. + +E os dois rapazes abraçaram-se com effusão. + +--Vamos--disse a baroneza, intervindo--a situação precisa de que se +pense n'ella seriamente. As pazes estão feitas, em boa hora; pensemos +agora como gente de juizo. + +--Antes de mais nada, Jorge, o que ha de verdade em tudo isto? + +--O que eu disse. + +--Vê bem; falla-me com franqueza. Eu não acreditei no que de ti se +espalhou. Concederia que Jorge podésse praticar uma loucura, mas uma +acção indigna, um abuso de confiança, sabia que não. Porém não ha em +toda esta historia alguma coisa que não disseste ainda? Bertha é para ti +completamente indifferente? Esta é que é a questão. + +Só a muito custo Jorge pôde disfarçar a turbação em que a pergunta de +Gabriella o lançou, mas respondeu com apparente serenidade: + +--Bertha é uma rapariga, que por todos os motivos respeito. + +E com mais custo ainda, acrescentou: + +--E nada mais. + +--E para Mauricio o que é Bertha?--continuou a baroneza, sorrindo ao +voltar-se para o primo mais novo. + +Não obteve logo resposta. + +--Bem vêem--insistiu ella--que ha uma coisa que eu não posso ainda +explicar. Assisti á vossa reconciliação, signal de que tinha havido uma +desintelligencia. Qual foi pois o motivo d'ella? + +--Uma das minhas loucuras--respondeu Mauricio a final--cedi a um +movimento de paixão, encontrando-me com Jorge hontem, quando elle sahia +da casa de Thomé da Povoa, e soltei expressões, que parece que ainda me +estão queimando os labios. + +--Então, visto isso, achavas-te com direito de sentir ciumes. Segue-se +que amas Bertha. E é devéras esse amor? + +A fronte de Jorge contrahiu-se levemente ao ouvir a pergunta, e emquanto +aguardava a resposta do irmão. + +--Se responder pelo que penso d'elle--disse Mauricio--juro que é. + +D'esta vez um ligeiro sorriso deslizou nos labios de Jorge. + +--Isso quer dizer--tornou a baroneza--que respondendo pelo que pensas de +ti, receias muito que não. Pois, meu caro priminho, a occasião exige que +se ponham de lado caprichos e brinquedos de criança, e que se siga com +sisudeza e tenacidade de homem um caminho qualquer. Não estámos em tempo +de brincar. Dá-se uma grave crise, em que todos os bons planos de Jorge +podem ser destruidos de encontro á resistencia do tio Luiz. Eu nem posso +calcular o que resultará de tudo isto. E portanto.... + +Interrompeu-a n'este ponto a entrada de um criado, pedindo-lhe para +chegar ao quarto de D. Luiz, que desejava fallar-lhe. + +--N'este caso esperemos o resultado d'esta entrevista para adoptar um +partido--dizia ella, apressando-se em satisfazer os desejos do tio. + +Em caminho para o quarto de D. Luiz, a baroneza notou nos corredores e +nas salas intermedias um movimento extraordinario, que não sabia a que +attribuir. + +Os criados iam e vinham apressurados, communicavam ordens uns aos +outros, abriam e fechavam portas, desciam a duas e duas as escadas, e +transportavam differentes objectos, como se se tractasse dos +preparativos de uma jornada. + +Nos aposentos de D. Luiz achou Gabriella o fidalgo em pé no meio da +sala, emquanto frei Januario, de joelhos junto de uma arca, introduzia +n'ella algumas peças de roupa, que aquelle lhe ia indicando. + +--Eu não sei o que v. exc.ª vae fazer, snr. D. Luiz--murmurava no +entretanto o egresso, que parecia cumprir a tarefa de má vontade, suando +em bagas--isto não tem pés nem cabeça. Olhem agora, sem commodos +nenhuns... assim de um momento para outro.... + +D. Luiz, sem responder ás reflexões do procurador, continuava a +indicar-lhe os objectos que devia arrecadar. + +Gabriella dirigiu-se a elle: + +--Mandou chamar-me, meu tio? + +--Ah! mandei, sim, Gabriella. Desculpe importunal-a. Mas tenho que lhe +pedir um favor--respondeu D. Luiz com forçada placidez. + +--Mil que sejam. + +--Depois do que se passou, não quero demorar-me n'esta casa uma só +noite. Peco-lhe por isso hospitalidade na sua. Se me não engano, +tencionava partir ámanhã para lá. Não é verdade? Pois bem, faça o +sacrifício de partir hoje e permitta-me que a acompanhe. Um quarto e uma +enxerga bastam-me. Preciso de me ir costumando a tudo. + +A baroneza ficou por alguns momentos muda de surpreza. + +--Mas... Por quem é, meu tio... Grande prazer me dará a sua visita... +porém em outras circumstancias e por outros motivos. Não tome resolução +alguma emquanto assim está dominado pela paixão. Veja o que vae fazer! O +que se dirá? O que se fallará por toda a parte! + +--Já de sobra teem em que fallar. A vergonha não é maior--tornou o velho +mais agitado. + +--Pois sim--acudiu o padre--mas reunir a vergonha ao incommodo... a +fallar a verdade... é... é... + +--A vergonha... a vergonha... Mas tem a certeza, tio, de que julga bem e +despreoccupado de paixões, os actos de seu filho? Quem lhe diz que +outros não chamarão virtude áquillo a que chama baixeza? + +A cólera relampagueou de novo nos olhos do velho: + +--Gabriella, por quem é, desista de contrariar-me. Asseguro-lhe que me +não demove da resolução em que estou e que sómente me afflige. Se não +quer conceder-me o abrigo dos seus tectos, irei bater a outra porta. + +Gabriella não insistiu. + +--A minha casa é sua sempre, meu querido tio. Vou dar as ordens para +partirmos. + +--Não esperem por mim--recommendou ainda o fidalgo--eu irei com frei +Januario mais tarde, porque tenho que fazer antes. Sinto o incommodo que +isto lhe vae causar, Gabriella. Mas os criados ficarão na estalagem da +Encruzilhada. + +--Todos cabem; visto que tambem os quer levar, escusam de ficar a meio +caminho. Então fecha-se a Casa Mourisca, ao que estou vendo? Muito bem. +A casa de meu pae é bastante espaçosa, e com os arranjos que eu mandei +fazer-lhe ultimamente, deve bem servir para nós todos. Agora um pedido. + +--Qual é? + +--Jorge está consternado, pelas suas asperas palavras ao jantar. Não ha +de reconciliar-se com elle? + +--Gabriella, se é amiga de Jorge, não procure trazêl-o á minha presença, +e se quer que isto que sinto cá dentro contra meu filho não cresça ou +degenere em paixão peior, não pronuncie diante de mim por ora o nome +d'elle. + +Gabriella tinha certo dom para conhecer quando convinha luctar e quando +era preferivel ceder. D'esta vez percebeu que o animo de D. Luiz não +estava para acalmar de prompto. + +Sahiu sem aventurar mais uma palavra a tal respeito e foi ordenar os +preparativos da partida. + +Ao passar na sala onde ainda estavam Jorge e Mauricio, apenas lhes +disse: + +--Tracta-se de partir já. + +--Para onde? + +--Para a minha casa, nos Bacellos. + +--E meu pae? + +--Tudo parte. É uma emigração completa. + +--E a Casa Mourisca?... + +--Fechada, ao que parece, até... acabar o interdicto. + +--Mas isso não póde ser! + +--Mas é, e eu vou já dar ordens precisas para a mudança. + +--E eu vou fallar com meu pae--exclamou Jorge, erguendo-se. + +A baroneza reteve-o. + +--Não vás. É inutil e perigoso. Deixa que os factos succedam +naturalmente. Eu já estou convencida de que esse é o melhor expediente. +É preciso que teu pae desafogue a paixão que lá tem dentro. Entende que +deve sahir d'aqui, deixemol-o sahir. Estas exterioridades acalmam-n'o. +Depois lhe apparecerás. + +--Então agora recusa vêr-me? + +--Recusa. O que não tira que não possas estar muito á tua vontade na +minha casa dos Bacellos. Ha lá um pavilhão na quinta, ao talhar para um +refugiado como tu. + +Passados poucos minutos os moradores da Casa Mourisca punham-se em +movimento para a quinta dos Bacellos. + +Os preparativos não occuparam muito tempo, porque o fidalgo mandára +apenas levar o que fosse estrictamente necessario. + +A baroneza veio despedir-se do tio, que insistiu em querer ser o ultimo +a sahir de casa. + +Jorge e Mauricio partiram em companhia de Gabriella. + +O fidalgo ficou só com frei Januario, que continuava a protestar por +todas as fórmas contra a resolução da mudança de quartel a horas +improprias. + +D. Luiz nem lhe respondia. + +Quando o procurador, a fim de suavisar as agruras do desterro, pretendia +fazer transportar algum objecto que podia ser de utilidade para melhor +accommodação da familia, o fidalgo ordenava-lhe sêcamente que o deixasse +ficar, o que cada vez mais exasperava o padre. + +Vendo que tudo estava prompto, D. Luiz deixou por alguns instantes o +procurador na sala e subiu vagarosamente as escadas que conduziam aos +antigos aposentos da filha que perdêra. + +Ao penetrar alli, que doloroso estremecer o do coração do velho! Ia +desamparar tambem aquelle quarto! Esta ideia só poderia fazer +vacillar-lhe a inabalavel coragem! Era um logar de reconhecimento +aquelle para o desconfortado ancião. Tudo alli dentro se conservava como +no fatal dia em que ella morrêra. Todos os objectos que haviam +pertencido á infeliz criança alli se guardavam religiosamente. E ia +deixal-os! O leito, o genuflexorio, o toucador, a harpa, parecia +possuirem uma voz para fallar-lhe d'ella. E havia de fugir-lhes! A +coragem porém não sossobrou na lucta. D. Luiz fechou discretamente a +porta para si; depois com fervorosa commoção beijou quasi um por um +esses differentes objectos, e ao chegar junto do leito, o mesmo em que a +vira adormecer do ultimo somno, ajoelhou soluçando, e cobriu de beijos e +de lagrimas as almofadas onde tantas vezes se encostára a pallida cabeça +da sua Beatriz. + +Mais tranquillo depois d'esta effusão de dôr, ergueu-se, enxugou os +olhos e desceu com a mesma lentidão as escadas até o portal, onde o +padre o esperava já com impaciencia e inquieto pelo adiantado da hora. + +Um criado segurava pela redea os cavallos, que deviam transportal-os. + +--Vamos, vamos, snr. D. Luiz, olhe que nos apanha a noite na estrada e +os caminhos não são lá essas coisas--exclamou o padre afflicto. + +D. Luiz, em vez de responder-lhe, disse para o criado que segurava os +cavallos: + +--Vae esperar-nos na baixa do Paul. Nós já lá vamos ter. + +--Então v. exc.ª quer ir a pé até á baixa do Paul?!--perguntou o padre +assustado. + +--Vou? + +--Mas... é um estirão e.... + +--Então que fazes? Parte--disse D. Luiz com impaciencia para o criado, e +este obedeceu-lhe promptamente. + +O padre ficou a resmonear: + +--Eu cada vez ando mais ás aranhas com a gente d'esta casa. Sempre tenho +visto e ouvido coisas ha tempos a esta parte! Olhem que preparos estes! +Havemos de ceiar a boas horas, não tem duvida nenhuma! + +--Agora feche a porta, frei Januario--ordenou D. Luiz. + +O padre tomou com ambas as mãos a enorme chave do portão, e fêl-a girar +na fechadura. + +Este movimento produziu um som agudo, similhante ao gemido de uma ave, o +qual resoou tristemente pelo interior d'aquella casa deserta. + +O padre tirou a chave, que juntou ao mólho que trazia, deu um encontrão +á porta, para verificar se ella estaria bem fechada, e depois olhou para +D. Luiz. + +--Vamos--disse este. + +O padre ia pôr-se a caminho, mas parou vendo o fidalgo seguir a direcção +opposta á da quinta dos Bacellos. + +--V. exc.ª por onde vae? + +--Por aqui--respondeu sêcamente o fidalgo, continuando a andar. + +--Mas... v. exc.ª está enganado. Esse não é o caminho. + +--Bem sei. + +O padre seguiu-o, murmurando contra as venêtas do fidalgo: + +--Esta cabeça já não regula direita. Onde diabo quer ir este homem? + +O caminho que D. Luiz continuava a seguir, ia tão divergente do que o +padre esperava, que outra vez o interpellou: + +--Mas v. exc.ª onde quer ir? + +--A casa do Thomé da Povoa--respondeu D. Luiz e acrescentou:--E +advirto-lhe, frei Januario, que não me sinto com disposições para +conversar. + +O padre sabia que sempre que D. Luiz fazia certas observações em certo +tom e com certa inflexão de voz, era inutil e imprudente contrarial-o. +Por isso calou-se, o que augmentou o mau humor que já trazia accumulado. + +--A casa do Thomé da Povoa!--resmungava elle--O homem está doido! Ora +isto! E eu a atural-o! O que me estava reservado! + +A intenção com que o fidalgo demandava a casa do fazendeiro era um +mysterio indecifravel para o espirito do procurador. + +Tinham descido a encosta, a meio da qual se erguia a Casa Mourisca. +Aproximavam-se da ponte que atravessava o valle. A tarde ia no fim. Era +já a claridade do crepusculo que illuminava a paisagem. A azafama do +trabalho acalmára. Nos marcos dos campos, á soleira das portas e nos +parapeitos das pontes repoisavam finalmente os lavradores das fadigas do +dia. O gado caminhava para as prêsas, conduzido por crianças de seis e +sete annos. Nos arvoredos ouvia-se um cantar de aves, timido como elle +é, ao aproximar do outomno e ao aproximar da noite. Era tal a serenidade +da tarde, que se percebia o sino de uma freguezia distante, dobrando a +finados. + +A suave melancolia d'aquella hora influiu no animo de D. Luiz. Que +densidade de tristeza a que poisou n'aquelle coração! Saudades, mas +saudades escuras de velhice, saudades de quem não tem futuro, era o que +havia n'aquella alma. Com o passado lhe tinham ido todos os objectos das +suas crenças, do seu amor, das suas affeições. Já não era capaz de +enthusiasmo, e os olhos em que o enthusiasmo não influe, vêem +tristemente coloridas todas as scenas da vida. Ao desencantamento do +presente juntavam-se as apprehensões pelo futuro a entenebrecer-lhe o +espirito. Era devéras infeliz aquelle velho! + +Depois da ponte seguia-se a collina, onde prosperava a Herdade de Thomé. + +D. Luiz reuniu alento para subil-a. + +O padre aventurou outra observação: + +--Snr. D. Luiz, eu não atino com as razões que trazem v. exc.ª aqui, mas +não vejo que possa resultar bem algum de similhante visita. Veja o que +faz! A prudencia... + +--Socegue, frei Januario--atalhou D. Luiz com um sorriso amargo.--Não +imagine que venho praticar alguma violencia. Já lá vae o tempo em que +nós resolvíamos á força de braço os nossos pleitos. A nossa vez passou, +bem vê. + +O padre conheceu pelo tom da resposta que o fidalgo estava já mais +quebrado, mas ainda pouco disposto para explicar-se. + +Para se chegar á casa de Thomé da Povoa por o lado por onde D. Luiz +seguia, tinha-se de tomar por uma avenida de olmeiros, orlada por sebes +naturaes formadas de madresilvas e de rozeiras. No fim d'esta avenida +ficava uma das entradas da quinta do fazendeiro, era a parte que elle +cedêra ás predilecções da filha e da mulher, e onde as balsaminas, os +limonetes e hortensias cresciam vigorosas, e a relva rescendia com as +violetas e malvas que a entremeiavam. + +D. Luiz desceu lentamente a avenida, com os olhos fitos no portão da +quinta. + +--É aquella uma das entradas da propriedade, não é?--perguntou elle ao +padre. + +--É, sim, senhor. Repare v. exc.ª que é um portão de quinta nobre. +Falta-lhe o brazão. + +O fidalgo calou-se e não tirou os olhos do portão da quinta, da qual se +ia avisinhando. Passados alguns instantes respondeu á observação do +procurador, dizendo: + +--Dentro de alguns annos mais póde comprar barato o da Casa Mourisca. Os +meus filhos não serão exigentes no preço. + +O padre não soube bem o que devia dizer n'este caso. Limitou-se por isso +a expellir um simples «Oh!» sem entonação que o definisse. + +Chegaram emfim ao portão. D. Luiz ordenou ao padre que tocasse a sineta. + +Este ia a fazêl-o, quando se voltou dizendo: + +--Anda gente cá dentro. + +D. Luiz não foi superior a certo sobresalto ao ouvir a noticia; +vencendo-se, porém, caminhou resoluto e com a fronte contrahida para +diante. De repente estremeceu, parou, e comprimindo o peito como se fora +ferido alli, murmurou: + +--Ó Sancto Deus! + +--Que tem v. exc.ª?--interrogou inquieto o padre, que reparára no gesto +de D. Luiz--Foi pontada?! Estes passeios violentos e fóra d'horas... + +O fidalgo não respondeu e continuou com os olhos fitos em não sei que +ponto do interior da quinta. + +Frei Januario desviou para alli a vista, a fim de elucidar-se na +explicação do mysterio. + +Chegava n'este momento ao portão uma rapariga, singelamente vestida de +branco, que correu ao encontro d'elles. + +Era Bertha. + +--O meu padrinho!--exclamava ella dirigindo-se ao fidalgo--O snr. D. +Luiz! Até que emfim o vejo! Julguei que não chegava este dia! + +E pegando-lhe na mão, beijou-a com respeito e affecto. + +E D. Luiz não lh'a retirou, nem teve uma palavra que lhe dissesse. +Continuava a olhal-a, como esquecido de tudo e profundamente perturbado. + +O padre observava a scena boquiaberto. + +--Ha que tempos o não via!--proseguiu Bertha com uma carinhosa +volubilidade de criança--Pois tinha bem saudades! Quantas vezes olhava +para aquellas janellas, a vêr se por acaso o descobria em alguma? Mas +nunca, nunca! Que vontade que tinha de lá ir, mas... Disseram-nae que o +padrinho nunca sahia, e que vivia quasi sempre só no seu quarto. Para +que é que vive assim? Isso faz-lhe mal. Mas... que tem, snr. D. Luiz? +Meu Deus... está a chorar! + +O padre deu um passo á frente, como duvidando do que ouvira. + +D. Luiz afastou-o com a mão. + +--É verdade--disse elle a final, profundamente commovido.--É singular +isto em mim! Mas que quer, Bertha? Quando aqui cheguei e a vi... + +--Não me tracta já por tu?--interrompeu-o Bertha, sorrindo tristemente. + +O fidalgo, depois de uma curta hesitação, repetiu: + +--Quando aqui cheguei e te vi, lembrei-me da minha pobre Beatriz. +Parecias-me ella. Ella era mais moça quando morreu, mas ultimamente +tinha deitado corpo e... depois trazia ás vezes um vestido d'essa côr, e +emfim... ha tanto tempo que não via uma rapariga que se lhe +assimilhasse... Sim, porque ha muitas por ahi, mas nenhuma ainda m'a +recordou como tu. É notável! a mesma côr de cabello, a mesma estatura, +certas maneiras e até o metal de voz... Não é verdade, frei Januario? É +notavel! A minha pobre filha! Como tu m'a recordas, Bertha, ai, como tu +m'a recordas! + +--Não se afflija. + +--«Não se afflija» era mesmo assim que ella me dizia; não que era mesmo +assim. Pois não era, frei Januario? «Não se afflija.» Se tu soubesses o +que eu estou sentindo, Bertha? se tu soubesses o que vão de saudades +aqui dentro? + +--Então não sei? Não era eu amiga de Beatriz tambem? O tempo mais feliz +da minha vida não foi aquelle em que a conheci? Inda hontem chorei ao +reler as cartas que ella me escrevia. + +--E ella escrevia-te? + +--A ultima que tenho d'ella é datada de oito dias antes da sua morte. + +--Pobre criança! E... e dizia-te que sabia o estado em que estava? + +--Dizia; mas que fingia illudir-se para não affligir os seus. + +--E era assim, era. Nunca se ouviu uma queixa d'aquella bôca. Morreu a +sorrir o pobre anjo. + +E o saudoso pae quasi soluçava ao avivar aquella permanente chaga do seu +coração. + +--Snr. D. Luiz--acudiu frei Januario--olhe que lhe faz mal estar a +recordar essas coisas. O passado, passado. A noite está comnosco e... + +--É verdade!--atalhou Bertha--e eu a demoral-o aqui! Faça favor de +entrar, meu padrinho, a mãe anda lá para a quinta. Meu pae está para a +cidade e julgo que só ámanhã virá, mas.... + +Estas palavras recordaram a D. Luiz o motivo que o trouxera alli. +Chamaram-n'o á realidade de sua presente situação, afugentando as +memorias do passado, melancolicas, mas suaves para o seu espirito. + +Mudou immediatamente de expressão, as lagrimas como que se lhe secaram +aos estos da paixão que crescia n'elle. Ergueu a cabeça que a tristeza +curvára. Assumiu aquella apparencia magestosa que costumava apresentar +aos olhos dos estranhos, e em tom não rispido, porém menos cordial do +que até alli, disse para Bertha, que era agora para elle a filha de +Thomé da Povoa e já não a companheira de Beatriz: + +--Bertha, ia-me esquecendo o que me trouxe aqui. O coração domina-me +ainda ás vezes. Mas a crise passou. Vinha procurar teu pae. Visto que +não o encontro, peço-te que lhe transmitias o meu recado. Soube hoje que +um de meus filhos havia recebido d'elle adiantamentos de dinheiro a +titulo de emprestimo para melhorar a nossa propriedade, e isto sem +garantia alguma. Não sei a quanto monta a somma recebida, mas em todo o +caso não posso aceitar o emprestimo... ou a esmola. A divida ha de ser +paga em breve tempo; mas, emquanto não o fôr, deixo em penhor de minha +palavra aquella casa, que hoje mesmo abandono, e tudo que n'ella se +contém. As chaves aqui ficam. Virei a seu tempo buscal-as. + +E, fazendo signal ao procurador, tomou as chaves das mãos d'este, que +continuava a estar abysmado, e entregou-as a Bertha. + +A estupefacção da rapariga era tal, que machinalmente as recebeu, sem +bem saber o que fazia. + +--Parece-me que será bastante garantia--acrescentou D. Luiz.--Se eu não +sou victima de uma perseguição do céo, espero resgatal-as ainda. +Senão... Adeus, Bertha. + +--Mas--pôde emfim dizer a filha de Thomé, sahindo da sua +abstracção--isto não póde ser! Eu... nem sei o que estou fazendo. Por +quem é, padrinho, meu pae não póde querer.... + +--Não te pertence julgar d'estes negocios, Bertha. Faze o que te digo. + +--Deixar a Casa Mourisca! a casa em que tem vivido sempre, onde nasceu e +morreu Beatriz! E porque?... Que somos nós para si então, padrinho? + +O fidalgo tornou-se de novo sombrio ao responder: + +--Bertha, quando a minha consciencia me impõe um acto na vida, é inutil +tentar demover-me. + +--A consciencia!--repetiu Bertha, timidamente, como exprimindo uma +duvida. + +--Se queres tambem chamar a isto um preconceito de classe, como já lhe +chamou um de meus filhos, chama-lh'o embora. Em todo o caso obedeço-lhe +e de obedecer-lhe me orgulho. + +E o fidalgo ia para retirar-se, quando Bertha lhe disse, hesitando: + +--E não me consente que lhe beije outra vez a mão? + +O animo irritado do senhor da Casa Mourisca abrandou outra vez ao som +d'aquellas palavras meigas. D. Luiz estendeu a mão a Bertha, que lh'a +beijou chorando. + +Ao sentir-lhe as lagrimas o fidalgo ergueu-lhe amigavelmente a cabeça, +perguntando-lhe: + +--Porque choras, Bertha? + +--Porque sinto que já não me tem a amizade que d'antes me tinha. + +--Criança--disse o fidalgo com uma brandura que havia muito tempo +ninguem conhecêra n'elle--que tens tu com as paixões áridas das nossas +almas de homens? Os entes como tu e como aquelle que eu perdi, nasceram +para as dissipar e não para soffrel-as. + +E cedendo á commoção que de novo a dominava, o severo e implacavel D. +Luiz, com admiração crescente de frei Januario, apertou a afilhada nos +braços e poisou-lhe na fronte um beijo, como os que dava em Beatriz. + +E ao separar-se d'aquelle logar ia outra vez com as lagrimas nos olhos. + +Ao fim da avenida, d'onde se avistava o portão, voltou-se. Bertha +permanecia no mesmo sitio, a seguil-o com a vista. + +--Repare, frei Januario, repare; a quem vê d'aqui, a distancia, não +parece mesmo a minha Beatriz, quando nos esperava á porta da Casa +Mourisca? + +--Sim, as raparigas ao longe todas se parecem; mas olhe que é noite +fechada, snr. D. Luiz. + +--Jesus! e agora a dizer-me adeus!--continuava D. Luiz, dizendo adeus +tambem--é mesmo aquelle anjo que eu perdi. Fujamos, fujamos d'estes +sitios, que tenho medo de enlouquecer. + +--E até porque é noite fechada--acrescentou o padre.--Valha-nos Deus! + +Depois de longo tracto de caminho andado em silencio, D. Luiz parou, e +levantando os olhos ao céo, exclamou com paixão: + +--Que tremendas culpas estou eu expiando, meu Deus! Porque me roubas +tudo, para tudo dares áquelle homem?! Até a filha! até a suave +consolação d'aquelle amor de filha, que eu perdi, até esse elle possue! +Que tremendo castigo, Senhor! + +D'ahi até o termo da jornada, na quinta dos Bacellos, não tornou a +pronunciar uma só palavra. + +Quando lá chegaram ia a noite adiantada; e já havia desassocego pela +demora dos dois. + +O padre procurador estava furioso. Dizia elle completamente +desconcertado: + +--Uma estafa assim depois de um jantar lauto! Esta gente não tem +consciencia! Deus queira que não me venha por ahi alguma apoplexia! Os +filhos são doidos, o pae está pateta, e eu que os ature! + +E correu á cozinha a vêr se havia alguma coisa quente que o confortasse. + + + + +XVIII + + +O antigo solar da familia da baroneza, chamado a Casa dos Bacellos, como +que ao despertar de um somno de muitos annos, abrira á luz do dia as +suas amplas janellas, reacendêra o fogo nos lares apagados, e restaurára +o movimento e a vida nos aposentos vazios. + +Era a primeira vez, depois do seu casamento, que a baroneza voltava aos +sitios onde lhe corrêra a infancia, cujas suaves memorias ainda os +povoavam. Ao vêr de novo aquellas velhas paredes e aquellas arvores +frondosas, ao seguir pelos extensos corredores, ao penetrar nas +espaçosas salas e nos mais retirados gabinetes da casa, Gabriella, ainda +que pouco propensa a melancolias, não pôde subtrahir o espirito a uma +impressão de saudade. + +Vestigios mal apagados d'aquelle tempo longinquo a cada passo lh'o +relembravam; alli fôra o theatro dos seus brinquedos e jogos, além +estava um objecto ao qual se prendia a reminiscencia de uma provação +infantil, aquelle era o logar favorito de seu pae, acolá desenhava-lhe +vagamente a sua recordação a imagem da mãe, que perdêra em criança, e +dominada por esta influencia, Gabriella suspirava e conhecia que ainda +não morrêra de todo em si o coração provinciano. + +Mas uma tal disposição de espirito não podia durar muito. A baroneza era +uma mulher de acção, e não se esquecia de que tinha muito em que pensar +e que fazer em virtude dos acontecimentos ultimos da Casa Mourisca. + +Não eram sómente as canceiras de dona de casa, que deseja accommodar +convenientemente os seus hospedes, que a preoccupavam, mas tambem, e +mais ainda, o desejo de restituir áquella familia a harmonia tão +inesperadamente interrompida e de reconciliar o irritado fidalgo com o +filho, que pelo seu nobre proceder incorrêra no desagrado do velho. +Gabriella tomava devéras a peito esta pacificadora empreza; mas para +isso era ainda cêdo. A paixão ensurdecia ainda muito D. Luiz, para que +lhe fosse possivel escutar conselhos. + +Na manhã immediata á noite da installação solemne da familia de D. Luiz +na casa dos Bacellos, Gabriella foi procurar Jorge ao pavilhão no fundo +da quinta, onde elle desde a vespera se alojára, longe dos olhares +paternos. + +A baroneza tinha sabido de frei Januario tudo o que se passára entre D. +Luiz e Bertha á porta da quinta de Thomé, e desejava fallar n'isto ao +primo. + +Jorge recebeu-a com umas apparencias de serenidade, que não eram de todo +sinceras. + +--E meu pae?--foi a primeira pergunta de Jorge, depois das palavras de +comprimento. + +--Um pouco menos affrontado, depois que realisou uma ideia cavalheirosa +e vindicou, como entendeu, a sua dignidade aristocratica. + +--Pois que fez elle? + +--Foi entregar pessoalmente as chaves da Casa Mourisca nas mãos do Thomé +da Povoa. O frei Januario contou-me tudo. A aristocracia é assim em toda +a parte. Tem a cabeça cheia de tradições da idade media e por ellas se +regula. Procura sempre dar ás suas acções uma feição dramatica, e sempre +que o consegue, sahe desopprimida de qualquer situação apertada. + +--E Thomé aceitou-as? + +--O Thomé não estava em casa. A entrevista teve logar á porta da Herdade +entre o tio Luiz e Bertha, a heroina de toda esta historia, e a +proposito.... + +--Perdão, mas... o que se passou n'essa entrevista? + +--Pelo que me disse o padre, correu muito sentimental ao principio. A +vista de Bertha recordou ao tio a imagem de Beatriz e commoveu-o a ponto +de chorar. A rapariga parece que lhe disse algumas coisas ternas, que +acabaram de o sensibilisar; abençoou-a, beijou-a e quasi se ia +esquecendo do que o levára alli, mas de repente recordou-se e fez a +entrega das chaves com uma gravidade igual á de Martim de Freitas, cuja +vaga recordação foi o que provavelmente lhe suggeriu a ideia da scena. +Tu sorris? Olha que é o que te digo. Eu conheço os achaques d'estes +nobres. Os mais serios e ajuizados são perdidos por umas coisas assim. +Se em uma occasião de crise tiverem um dito sentencioso, uma acção, um +gesto dramatico d'estes que se tornam proverbiaes, ficam muito +satisfeitos e resignam-se ás consequencias da crise. O certo é que as +chaves lá ficaram. + +--Thomé por certo lh'as restitue. + +--Póde ser, mas é peior. Teu pae socegará, sabendo que as chaves estão +nas mãos de Thomé. Então que queres? É uma puerilidade que se deve +respeitar. O acto em si, olhado á luz da actualidade, não tem o minimo +valor. Bem sabemos. Mas visto como o tio Luiz o vê, illuminado pelo +crepusculo dos bons tempos passados, é um desforço e uma acção fidalga, +capaz de o desaffrontar perante os seculos passados e futuros. Mas vamos +ao que importa. Em toda esta historia figura o nome de uma mulher. Ora é +sabido que nos attribuem sempre as primeiras honras no travar e +complicar da acção dos differentes dramas e comedias da vida; por isso, +com quanto o papel de Bertha se nos tenha apresentado até aqui como +secundario, ninguem me tira da ideia de que ella é a figura principal da +historia. Que te parece, Jorge? + +Jorge, evidentemente enleiado pela reflexão da baroneza, respondeu: + +--Bem vê que não é. A prima está já ao corrente de tudo, póde portanto +julgar da parte da acção que cabe a essa rapariga. + +--Estou ao corrente de tudo? Isso é que eu não sei. Mauricio tem por +ella uma grande paixão, ao que parece. + +--Não creio--acudiu Jorge vivamente. + +--Como se explica então que, sendo elle tão teu amigo, se irritasse por +uma errada interpretação dos teus actos, a ponto de estar imminente uma +acção tragica, de que nem quero lembrar-me? + +--Ora essa! Então não conhece o genio de Mauricio?--tornou Jorge quasi +impaciente--Os primeiros movimentos são n'elle sempre impetuosos. +Aquelle rapaz não se conhece. A cada instante se engana comsigo proprio. +Anda persuadido ha certo tempo de que ama Bertha, e essa persuasão é tal +que dá logar a scenas como essa que sabe. + +--E porque dizes que não a ama? + +--Porque o conheço e porque o tenho visto amar assim muitas mulheres. + +--Uma serie de amores verdadeiros, é o que se conclue d'ahi; +verdadeiros, mas curtos. + +Jorge sorriu. + +--Parece-me que não acreditas que sejam verdadeiros os que são curtos? +Tu amarias sempre, se amasses? + +--Creio que sim. Ou pelo menos, quando visse acabar um amor, dizia +commigo: enganei-me, não era amor ainda. + +--Sympathica theoria, mas não sei se muito aceitavel. Porém quem te diz +que Mauricio não se fixaria d'esta vez? E olha que não seria uma má +resolução da vossa crise. O Thomé julgo que está em condições de ser um +sogro salvador, assim não houvesse a prevenção do tio Luiz. + +--D'essa maneira não quereria eu nunca regenerar a nossa casa--replicou +Jorge gravemente. + +--Ah! tambem tens d'esses escrupulos? Pois olha, filho, é o processo +hoje mais seguido. + +--Bem sei, mas em um homem acho-o ignobil. + +--Não havendo amor, concordo; mas quando o amor absolve a alma... + +--Mais honra haveria em vencêl-o. + +--Esta provincia é um terreno onde as velhas plantas duram eternamente. +Não ha vento revolucionario, nem corrente de ideias novas que as +derrubem. + +--Mas deve confessar que são bellas e boas arvores essas! + +--Algumas; outras são inuteis e damninhas, e fariam muito bem se +cedessem o logar a melhor e mais productiva cultura. Agora outra +pergunta: e Bertha ama a Mauricio? + +Jorge córou a esta pergunta e evidentemente contrariado respondeu +apenas: + +--Talvez. + +A baroneza ia a insistir, quando o colloquio foi interrompido pela voz +do padre procurador pedindo licença para entrar. + +Frei Januario entrou tossindo e assuando-se de uma maneira particular, +que para quem o conhecesse era indicio claro de uma grave preoccupação +de espirito. + +--Então, snr. frei Januario, como se tem dado n'estas +ruinas?--perguntou-lhe a baroneza com a amabilidade de dona de casa. + +--Excellentemente, minha senhora. Então até direi a v. exc.ª que ha +muito tempo não dei com um cozinheiro que melhor atinasse com o meu +paladar. + +--Sim? O Gavião merece-lhe esse conceito? Se o rapaz o sabe! É capaz de +se me estragar de vaidade. Não o gabe na presença. Recommendo-lhe toda a +discrição, snr. frei Januario. Olhe lá. + +--Mas é que é verdade o que eu digo. Que lhe pareceu a v. exc.ª aquelles +bifes hoje ao almoço? Olhe que aquelles bifes!... Não lhe digo nada! O +rapaz é geitoso. Mas deixemos isso. Tracta-se de uma coisa que me dá +cuidado. + +--Então que é?--perguntou a baroneza, recostando-se--Não quer sentar-se, +snr. frei Januario? + +O padre puxou uma cadeira, sentou-se e tornou a tossir e a assuar-se. + +--O snr. D. Luiz--disse elle, interrompendo-se a cada momento--emfim... +eu ha tempos a esta parte ando assim a modo de doido.... + +--Vamos, snr. frei Januario, solte a grande novidade que nos traz +debaixo do capote. Depois fará os commentarios, que entenderemos e +apreciaremos melhor. + +--O snr. D. Luiz chamou-me ha poucos momentos ao seu quarto para me +dizer... para me ordenar.... + +--O quê? + +--Para me confiar de novo a procuração que me retirára, e ordenar-me que +participasse isto mesmo ao snr. Jorge para seu governo. Emfim.... + +--Cumpra-se a vontade de meu pae--disse Jorge--e Deus permitia que elle +tenha motivos para se applaudir por ella. + +--Eu fazia melhor conceito do bom senso do tio Luiz--observou +francamente a baroneza--confesso que fazia. E o snr. frei Januario +acha-se com forças de desenredar esta meiada, embaraçada como está? + +--Pois ahi é que bate o ponto--acudiu o egresso.--Eu... é verdade que +por mais de vinte annos dirigi estas coisas e, se mais não fiz, foi +porque os tempos eram o que nós todos sabemos. Mas, depois que o snr. +Jorge tomou conta disto, perdi o fio da meiada, entende v. exc.ª? Eu +tinha cá o meu systema e por elle me guiava. Agora porém venho encontrar +as coisas todas mudadas e... emfim, póde ser que estejam muito bem, não +digo menos d'isso, mas eu é que não as entendo. Para pôr tudo outra vez +no pé de d'antes, isso leva um tempo dos meus peccados; para continuar +no caminho em que isto vae, era preciso ter muito trabalho e a fallar a +verdade, já não estou na idade d'isso. + +--E então que tenciona fazer? + +--Eu sei? O fidalgo não ha quem o convença. Credo! Vão lá hoje +contrarial-o na mais pequena coisa! Vae tudo pelos ares! Por isso, a mim +lembrava-me.... + +--O que lhe lembra, snr. frei Januário?--perguntou Gabriella, fitando-o +com olhar penetrante. + +--Lembrava-me dizer ao fidalgo que sim senhor, que tudo se havia de +fazer como elle mandava, que eu me encarregaria da direcção da casa, +mas, por baixo de mão, continuar o snr. Jorge a levar as coisas lá pelo +seu systema. + +--E quer tomar sobre si a responsabilidade dos meus actos, snr. frei +Januario? Repare bem. Já sabe a que portas costumo ir bater, quando +preciso de capital, e quaes os meios que adopto. As suas crenças e +opiniões devem soffrer com isso. + +--E a mim que me importa?--tornou o padre impaciente--A final de contas, +a casa é sua e não minha. O mal que fizer mais o ha de sentir do que eu. + +--Não depõe muito a favor da sinceridade do seu affecto á minha família +esse dizer. Eu queria antes vêl-o oppondo-se energicamente á +administração viciosa que principiei. + +O padre não tinha coragem para tomar conta da gerencia da casa sob a +inspecção de Jorge, a quem tomára um mêdo excessivo; tentava porém +colorir airosamente a proposta que alli viera fazer. + +A baroneza interpellou-o muito terminantemente. + +--A sua posição n'esta casa, snr. frei Januario, e as exigencias moraes +do seu caracter e da sua missão traçam-lhe distinctamente o caminho que +deve seguir. Ou entende na sua consciencia que póde fazer mais e melhor +do que Jorge, e n'esse caso deve obedecer ao tio Luiz, ou tem a +convicção contraria e só então é admissivel a sua proposta, mas depois +de confessar com franqueza e lealdade o motivo d'ella. + +O padre torceu-se, balbuciando: + +--Eu não digo... isto é... quero dizer... no estado em que as coisas +estão... no pé em que as puzeram.... Sim... cada qual tem lá o seu +systema... e eu... sim, v. exc.ª bem sabe.... + +--Deixemo-nos d'isso. Claro, claro. Notou alguns defeitos na +administração do primo? + +--Defeitos... defeitos... não digo defeitos.... + +--Mereceu-lhe alguns reparos? Seja franco. Não se admittem palavras +ambiguas. + +--Não, minha senhora, eu não tenho reparos a fazer... quero dizer.... + +--Achou-a boa? + +--Sim... achei... isto é.... + +--Parece-lhe que não é capaz de fazer melhor? + +--Não tenho vaidades.... + +--Tem medo de estragar o bem que está feito? + +--Todos podem errar... emfim.... + +--Temos entendido. Parece-me que Jorge, em vista d'isso, não discordará +do seu parecer. Não é verdade, Jorge? + +--Custa-me continuar a trabalhar clandestinamente; mas não me eximo a +esforço algum para salvar a minha casa. + +--Muito bem; agora o snr. frei Januario póde dizer ao tio Luiz que se +cumprirão as suas ordens, e o mais que terá a fazer é assignar, sem lêr, +alguns papeis que por ventura sejam necessarios, isto nos primeiros +dias, porque eu confio ainda na boa razão do tio. E agora côma, beba e +durma, e deixe correr o mundo, que ha de correr para bom lado. + +O padre retirou-se mais desafogado, mas pouco satisfeito com os modos da +baroneza, que o obrigaram a despir-se de toda a diplomacia e a confessar +a sua inaptidão administrativa. + + + +*FIM DO PRIMEIRO VOLUME* + + + + +OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA + + + + +OS FIDALGOS + +DA + +CASA MOURISCA + + +CHRONICA DA ALDEIA + +POR + +*JÚLIO DINIZ* + + +VOLUME II + +*PORTO* +TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO +Rua Ferreira Borges, 31 + +1871 + + + + +XIX + + +Emquanto frei Januario conferenciava com Jorge e com a baroneza sobre a +maneira de melhor harmonisar a vontade e as ordens expressas do fidalgo +com os interesses da casa e com a commodidade pessoal de sua +reverendissima, D. Luiz, a quem desde a vespera uma impaciencia nervosa +não deixava repousar ainda, e que não podéra conformar-se aos seus novos +habitos de vida, sahiu do quarto e veio passeiar agitado e meditativo na +vasta sala da entrada, de cujas paredes o contemplavam sisudos os velhos +retratos da familia. + +Não vergava sob uma ideia unica e exclusiva o espirito do velho fidalgo, +perdia-se no redemoinhar de ideias diversas e antagonistas, que umas ás +outras o disputavam. Saudades, terrores, despeitos, desalentos e até +remorsos dos seus passados odios e vinganças, eram os demonios +perseguidores e implacaveis, cujo voltear phantastico, rapido como o de +um circulo de feiticeiras, quasi lhe alienava a razão, ferindo-a de +vertigem. + +D. Luiz envelhecêra ultimamente de uma maneira rapida. De encontro á sua +organisação robusta, quebrára-se por muito tempo a força da corrente dos +annos e amortecera a violencia dos embates da adversidade, sem que elle +experimentasse a leve vacillação que preludia a queda. Porém desde o +momento em que se manifestaram os primeiros signaes de fraqueza, o +progresso na declinação foi rapido, e de dia para dia sentia-se +desfallecer aquelle corpo vigoroso e aquelle espirito energico. + +A manhã estava sombria, o céo carregado e a chuva miúda, continua, +persistente, sem vento que a agitasse, e ainda mais desesperadora por +isso; porque um dia de inverno sem vento é como a tristeza sem a +explosão das paixões, perde-se a esperança de o vêr terminar. + +A sala em que D. Luiz passeiava era a menos confortavelmente mobilada de +toda a casa; o alto fogão, que occupava o espaço das duas janellas, +jazia apagado, frio, e conservando apenas, como memoria da vida que já o +animára, as cinzas sem calor. O aspecto de um fogão apagado é triste; +tem o que quer que seja de um cadaver. A tristeza da manhã e a tristeza +da sala augmentavam evidentemente com a presença d'esse fogão. Por muito +tempo apenas o som dos passos do fidalgo despertava os eccos d'aquellas +altas e despidas paredes e tectos elevados. + +De repente porém ouviu-se rumor á porta da entrada. + +D. Luiz voltou para alli instinctivamente os olhos, sentindo que alguem +a abria; e estremeceu, como se de improviso fosse ferido, ao vêr surgir +detraz do reposteiro a figura de Thomé da Herdade. + +O pae de Bertha vinha todo molhado, e parecia chegar de longa jornada. +Trazia as faces mais afogueadas do que o costume, e os olhos mais +brilhantes. Em cada gesto e em cada movimento denunciava uma funda +agitação, que lhe não era habitual. Ao avistar D. Luiz, não pôde reter +uma exclamação, como quem déra com o objecto que anciosamente procurava. + +Vencida a turbação dos primeiros instantes, o senhor da Casa Mourisca +fez uma cortezia muito grave ao recem-chegado, e dispôz-se para sahir da +sala. + +Thomé da Povoa não lh'o permittiu. + +--Não, não, tenha paciencia, snr. D. Luiz, não se retira assim. Eu vim +para lhe fallar e não me vou embora sem o fazer. + +D. Luiz parou e respondeu friamente: + +--Os negocios da minha casa tractam-se com o meu procurador. Eu não +posso... + +--Deixemo-nos d'isso, fidalgo. Eu nada tenho, nem quero ter com o +procurador de v. exc.ª. Não foi elle quem me offendeu; não é a elle que +devo dirigir-me. + +--Ah! então vem aqui pedir-me satisfações?! + +--Venho, sim, senhor. + +--Tem graça!--observou o fidalgo, com um sorriso cheio de aristocratico +sarcasmo. + +--Então v. exc.ª acha que um homem que é insultado, não tem o direito de +vir perguntar á pessoa que o insultou a razão por que o fez? + +--E suppõe que eu já alguma vez me occupei a insultal-o? + +--Supponho, sim, senhor; e supponho mais, supponho que v. exc.ª bem sabe +quando e de que maneira me insultou. Porque era preciso não ter brios +para imaginar que um homem de bem não se offenderia com acções, como as +de v. exc.ª para commigo. + +--Ora essa! commentou D. Luiz, voltando-lhe as costas e caminhando +desdenhosamente para a janella. + +Thomé da Povoa, a quem este movimento augmentou a excitação de que já +estava possuido, deu alguns passos mais agitados para o seu orgulhoso +interlocutor. + +O fidalgo, sentindo-o, voltou-se subitamente e encarou-o fixo. + +--Vem aqui decidido a alguma violencia, ao que parece. + +A irritação de Thomé desvaneceu-se. O olhar de D. Luiz parecia +avivar-lhe memorias do tempo, em que elle se costumára a obedecer-lhe e +a temêl-o quasi. + +A reflexão venceu esta timidez de instincto, comtudo foi menos +aggressivo do que até ahi que elle respondeu: + +--Não, snr. D. Luiz; venho aqui decidido a explicar-me. É preciso que +fiquemos ambos sabendo o que um e outro somos. Não posso por mais tempo +soffrer calado os desprezes e as desfeitas de v. exc.ª, sem perguntar +qual o motivo que dei para ellas. Palavra de honra, snr. D. Luiz, que, +por mais que me mate, não posso vêr em toda a minha vida uma só acção, +uma unica, que me merecesse da parte de v. exc.ª este procedimento para +commigo; não posso. + +--Está sonhando, Thomé? Cuida que eu não tenho mais em que pensar do que +em desfeiteal-o? Que mania se lhe metteu na cabeça! + +--E que foi senão uma desfeita o que v. exc.ª me fez no outro dia, indo +á porta da minha casa entregar nas mãos da minha propria filha as chaves +do seu palacio, que deixou só por que eu havia adiantado ao snr. Jorge +um pouco de dinheiro por um contracto honesto e leal? Que foi aquillo +senão uma desfeita? + +--Se não comprehende os motivos que me levaram áquelle passo, não sei +que lhe faça. Nas familias, como a minha, ha certas regras tradicionaes +de conducta que talvez pareçam estranhas a outras, educadas em habitos +differentes, no que eu não tenho culpa.... + +--Entendo o que quer dizer, snr. D. Luiz. Foi acção de fidalgo a sua, e, +por ser tal, eu, que nasci em palhas, não posso entendêl-a bem. Mas +porque é que só commigo usa v. exc.ª das taes acções? Por acaso fui eu o +primeiro que emprestei dinheiro aos senhores da Casa Mourisca? Quando o +padre procurador de v. exc.ª andava por ahi batendo de porta em porta a +levantar dinheiro, não para o empregar em melhoramentos que, mais anno +menos anno, podéssem remir a divida, mas para o desperdiçar sem tom nem +som, e obtinha esses capitaes a 10, 12 e 15 por cento; quando elle +lavrava hypothecas e arrendamentos vergonhosos e a gente de má fé, que +faziam d'elle o que queriam, o orgulho de v. exc.ª nunca o obrigou a +sahir de sua casa, que se perdia n'esse andar, e a ir pôr as chaves +d'ella nas mãos d'esses usurarios, que viviam á custa das tolices e dos +desperdicios do padre; e agora então todo se espinhou por que eu, +honestamente e sem má tenção, antes pelo muito amor que ainda tenho a +esta familia e a estes meninos que trouxe ao collo, puz á disposição de +um d'elles, que é hoje um rapaz de juizo, o dinheiro de que precisava +para se ir livrando da usura, que o roía até os ossos, e emendar os +erros da administração do padre! Só agora é que v. exc.ª se sente ferido +na sua fidalguia e sahe da casa, em que vive ha tantos annos, clamando +que já não é sua. Isto é collocar-me abaixo d'esses miseraveis, a quem +me pejo de apertar a mão. O contracto feito entre mim e o filho de v. +exc.ª é um contracto que não envergonha nem a mim nem a elle. Póde +apparecer á luz do dia, e tenha a certeza de que não ha de haver muitos, +mais de cavalheiros do que elle. Não dei dinheiro sem garantias, nem +também o dei com usura. Nenhum de nós aceitou favor do outro. Então qual +é a razão dos escrupulos de v. exc.ª? + +--Vejo que está mais informado dos negocios de minha casa, do que eu +proprio. Póde ser que eu devesse ha mais tempo fazer o que fiz. A culpa +é da minha ignorancia. Quando porém tão publica foi a confissão da nossa +baixeza, a minha dignidade obrigava-me a proceder como procedi. + +--A dignidade... a dignidade... Perdoe-me o fidalgo, mas se quer que lhe +falle a verdade, eu já não sei bem o que seja dignidade, quando vejo o +que por ahi se faz á conta d'ella. Dignidade acho eu que a tem tido seu +filho, trabalhando como um homem de bem, para desempenhar a sua casa, e +confessando diante de todos os seus actos, que não o envergonham; +dignidade teve elle, quando defendeu uma pobre rapariga das calumnias de +uns miseraveis, que tambem se dizem fidalgos, e que tambem fallam muito +na sua dignidade. + +--Creio que é melhor não discutirmos. Os nossos principios são diversos, +não podemos entender-nos. + +--Não ha tal. Os nossos principios, aquelles que me levam a fallar, são +os mesmos, são os de qualquer homem de bem. E eu prézo-me de o ser e v. +exc.ª tambem o é. Havemos de entender-nos por força. N'isto até o homem +e Deus se entendem, não é muito que v. exc.ª, por mais fidalgo que seja, +se entenda commigo. + +--Mas que quer a final? Não terei eu a liberdade de deixar a minha casa +quando entender que me convem fazêl-o? Não serei o mais competente juiz +das minhas acções? + +--V. exc.ª sahiu de sua casa, declarando a todos porque era que o fazia; +e já ahi o meu nome e a minha pessoa andaram envolvidos. Depois foi +affligir a minha pobre Bertha, que nada sabe d'estas coisas, obrigando-a +a aceitar as chaves da Casa Mourisca para m'as entregar, como se eu +fosse um miseravel que tivesse sequer sonhado um dia em especular com a +confiança que seu filho pôz em mim! As novidades correm depressa na +aldeia e não falta gente para denegrir o caracter de um homem. Depois do +passo que v. exc.ª deu, o que se não terá dito? Que eu andava sugando os +ultimos restos de sangue da sua familia e abusando da boa fé e da pouca +experiencia do seu filho, mas que o fidalgo me desmascarou a tempo! E se +se disser isto, não sentirá v. exc.ª remorsos por ter dado azo a uma +calumnia? Falle-me francamente, fidalgo, aqui diante de mim e de Deus +que nos ouve, em sua consciencia e sob a sua palavra de honra, que +sempre honrou, falle-me franco, snr. D. Luiz; em toda a minha vida, +desde os tempos em que servi a sua casa até hoje, no meio dos meus +trabalhos, das minhas felicidades e dos meus revezes, pratiquei já +alguma acção que obrigue v. exc.ª a desconfiar de mim? Falle-me franco, +snr. D. Luiz. Hoje mesmo, agora, n'este momento em que me vê e me +escuta, crê, na sua consciencia, que está na presença de um miseravel? + +D. Luiz respondeu sem hesitar e em tom grave e digno: + +--Não, nunca o accusei, Thomé, e creio que é um homem trabalhador e +honrado. + +--Então para que ha de ter sómente para mim essa má vontade? Para que me +ha de desprezar como se eu fosse um vil? a mim, que o servi fielmente, +emquanto o servi, que então ganhei e conservei até hoje á sua familia um +amor cá de dentro, como se ella me pertencesse, que chorei a sua pobre +menina, aquelle anjo que Deus lhe levou, como choraria morta uma filha +minha? Para que ha de ter só para este homem, que apenas bens deseja á +sua casa, esses desprezes e essas afrontas? para este homem, que tem uma +filha que lhe chama padrinho? E não quer que eu me sinta? Pois julga que +não ha aqui dentro um coração? Ah! fidalgo, fidalgo, creia o que lhe +digo, em cada um d'esses jornaleiros que passam o dia vergados a +trabalhar nas propriedades de v. exc.ª, ha um coração de carne como o +dos nobres; e emquanto elles trabalham, elle não pára de bater. + +--Está inventando aggravos para se dar por aggravado. Nunca tive tenção +de offendêl-o. N'estes ultimos tempos azedou-se-me um tanto o genio, e +confesso que não me é demasiado agradavel a convivencia dos homens. Eis +o motivo por que vivo retirado. + +--Snr. D. Luiz, v. exc.ª não é franco. Não ha por essa aldeia quem não +saiba que os filhos de v. exc.ª, se alguma vez se atrevem a procurar a +Herdade em que eu vivo, correm o risco do desagrado do pae. Não sei quem +é que em minha casa os póde corromper. V. exc.ª porém acha menos +perigosa para elles a companhia dos fidalgos do Cruzeiro do que a minha. +O snr. Jorge fez mal em arriscar-se a entrar n'aquella casa +excommungada; mais seguro andou o snr. Mauricio frequentando a dos +primos, apesar de..., perdoe-me a sua fidalguia, apesar de não serem +mais do que uns bebedos, uns devassos e uns calumniadores. + +--Está fora de si, Thomé--observou o fidalgo, que córou ao ouvir estas +affrontas a uns parentes tão proximos, mas a quem não se sentia com +animo de desaggravar.--Terminemos esta desagradavel conferencia. Que +quer a final de mim? + +--Restituir-lhe as chaves da sua casa, que me não servem para +nada--respondeu Thomé, tirando do bolso o molho de chaves, que Bertha +recebêra do fidalgo. + +D. Luiz com um gesto desviou de si as chaves que o fazendeiro lhe +offerecia. + +--É inutil insistir. A minha resolução está formada. + +--Mas é uma resolução disparatada; perdoe-me dizer-lh'o, fidalgo, uma +resolução sem valor algum, sem significação perante a lei, sem effeito +senão o de affrontar-me. + +--Eu já lhe disse que nós temos umas leis especiaes por que nos +regulamos. + +--Então se v. exc.ª entende que deve pôr nas mãos dos seus credores as +chaves de sua casa, é preciso saber quem tem mais direito a ellas. Na +lista não está só escripto o meu nome. Deite v. exc.ª pregão para saber +quem deve ser o depositario d'isso, que eu por mim sou o menos +habilitado. + +E Thomé da Povoa arrojou sobre a mesa as chaves, com irritação +crescente. + +D. Luiz fitou-o por momentos com um olhar de cólera, que aquelle +movimento desafiára, mas conseguiu dominar-se, e respondeu com firmeza: + +--Leve comsigo as chaves, Thomé! A minha dignidade não me consente ficar +com ellas. Fiz um protesto, hei de cumpril-o. Se os meus credores são +muitos, seja o representante d'elles todos. Em poucos posso depositar +mais confiança. + +--Muito agradecido pela confiança que mostra.... Olhe, fidalgo, quer que +lhe diga o que tudo isto significa? quer que lhe diga o que penso d'este +maior rigor commigo? Pois ouça. Cada qual tem os seus defeitos; o meu é +o da franqueza. A razão de tudo isto está no grande orgulho de v. exc.ª. +É o que eu lhe digo. + +--Póde ser; o orgulho é o defeito de certa classe.... + +--Pois não lh'o invejo, nem lh'o gabo. Orgulho entendo eu que se deve +ter de certa maneira; d'essa não, que não é nobre. V. exc.ª préza muito +o nome de sua familia, deve então trabalhar honestamente para o +conservar illustre. Mas não receie que lhe possa fazer sombra a casa do +seu antigo criado, ainda que em cada anno elle levante um sobrado e +metta mais um campo dentro dos muros da quinta. O valle que nos separa é +muito largo, fidalgo; e ainda quando o sol se esconde, a sombra da minha +chaminé não chega nem sequer ao principio dos dominios de v. exc.ª. +Deixe-me pois crescer, snr. D. Luiz, e não me leve a mal o trabalhar +para ganhar para meus filhos pão, que não lhes falte para o futuro. + +D. Luiz, ao ouvir estas palavras, estremeceu, como se ellas o ferissem +no vivo; as faces tingiram-se-lhe de um intenso rubor, e foi tal a sua +perturbação que, sem tirar os olhos do fazendeiro, não pôde articular +uma palavra que lhe respondesse. + +Thomé proseguiu mais exaltado: + +--Deixe-me crescer e medrar, fidalgo, que as minhas plantações para +terem viço, não vão roubar o succo das suas terras. Não é por isso que +ellas estão maninhas, não. E se quizer offuscar-me, deixe seu filho +Jorge empregar o talento, a honestidade e o amor ao trabalho que deve a +Deus, em tornar a sua casa no que ella foi em outros tempos. Então sim, +então terá razão o orgulho de v. exc.ª, porque ninguem será mais para +louvar e admirar do que o moço que der um tal exemplo, a criança que se +fez homem para trabalhar, e o fidalgo que se fez lavrador para salvar a +sua casa, e que por isso não deixou de ser fidalgo, antes mais do que +nunca mostrou que o era. Este orgulho entende-se; mas ha um de má casta, +que se parece muito com a inveja. + +A esta ultima palavra D. Luiz não conteve um movimento de violencia. + +--Basta. Desde que principia a ser insolente, não devo escutal-o. Talvez +tenha feito mal em ouvil-o tanto tempo. Do motivo das minhas acções só +tenho a dar contas a Deus. A si, basta que lhe diga que não recebo essas +chaves, nem volto para a Casa Mourisca, emquanto não estiverem saldadas +as minhas contas comsigo. + +--Commigo! E sempre commigo? Pois bem; teima em offender-me?... aceito +as chaves, levo-as para casa. Mas faço-lhe aqui, eu tambem, um protesto, +fidalgo. Juro que hei de, a seu pezar, fazer-lhe o bem que podér. Se os +meus soccorros o humilham e envergonham, ha de ter a paciencia de se +humilhar e envergonhar por muito tempo, porque de hoje em diante vou +trabalhar como nunca na restauração da sua casa. Ah! cuida que é só +desfeitear-me e eu calar-me envergonhado? Enganou-se. Enganou-se. +Enganou-se. Apre! Eu também tenho vontade. Ha de vêr com quem se metteu. +Ainda que o fidalgo quizesse agora dar cabo do que lhe resta, eu lhe +juro que não o conseguiria. Fica por minha conta a empreza de pôr no pé +em que esteve a sua casa e a sua propriedade. Ora aqui está. Agora +queixe-se, insulte-me, desfeiteie-me á vontade; ande, não tenha +escrupulos. A minha tenção está formada. Não quero saber se o seu +orgulho se offende, ou se se não offende. Se se offender, tanto melhor, +que d'elle tambem é que eu recebi offensa. Apre! Cuidam que nós não +temos brio nem pundonor? É só affrontar-nos como se não fossemos capazes +de sentir? Sim? Elle é isso? Pois nós veremos. Ora deixa estar que eu +lhes direi como as coisas correm. Quer que eu lhe fique com as chaves, +não quer? Pois não, com muito gosto. Olhe, cá as levo. Vê? Passe muito +bem v. exc.ª, passe muito bem. Eu lhe prometto que ha de ter noticias +minhas. Ora é boa! A paciencia esgota-se. A gente tambem tem cá uma +medida de soffrer; cheia ella, acabou-se, vae tudo por ahi fóra. Adeus, +fidalgo, eu lhe protesto de novo que lhe hei de fazer todo o bem que +podér. + +E Thomé da Povoa, inflammado n'aquelle ardente desejo de sancta e +honrada vingança, sahiu da sala, resmoneando ainda: + +--Estes fidalgos que cuidam que a outra gente não sente! Ora deixa que +já que elle tanto se espinha com o bem que lhe faço, eu o flagellarei. +Vou tomar mais a peito a casa d'elle do que a minha, e se eu não +conseguir o que quero... Ora deixa estar! Apre! Que é demais! + +D. Luiz ficou ainda mais triste e pensativo depois que Thomé se retirou. + +A seu pezar a entrevista com o fazendeiro impressionára-o profundamente. + +O honesto caracter do pae de Bertha transparecia tão claro sob a franca +rudeza da sua linguagem! + +A unica vingança concebida por aquelle velho, no auge de indignação +contra a humilhadora aristocracia do seu nobre visinho, era mais uma +prova da sua generosa indole. + +Vingava-se a fazer bem! E o mais é que se vingaria, se o conseguisse +fazer. O beneficio recebido das mãos d'elle seria peior castigo para D. +Luiz, do que a perseguição mais cruel. + +O fidalgo sentia-o no intimo da consciencia, e um pensamento, que nem as +palavras ousaram formular, atravessou-lhe-o espirito como a luz rapida +do relampago. + +--Terá razão este homem? Será inveja isto?!... Inveja!... + +Passados momentos pensava ainda: + +--O que é certo é que é um homem honrado. Porque me irrito pois com o +auxilio que vem d'elle?... Inveja! + +E, perseguido por este grito da consciencia, D. Luiz correu a +encerrar-se no seu gabinete, onde passou o resto do dia. + + + + +XX + + +A violencia das impressões que deixára em Thomé da Povoa a entrevista +com o fidalgo da Casa Mourisca não era para se desvanecer com o inquieto +somno de uma só noite. + +No dia seguinte, pela manhã, o fazendeiro acordou ainda indignado e +firme na resolução que abraçára, de se vingar a seu modo. Nem o animo +impaciente lhe soffria grande demora na execução. + +Logo de madrugada principiou a dispôr as coisas para n'aquelle mesmo dia +inaugurar a empreza. Deu contra-ordens a criados que tinham serviço +talhado de vespera, foi mais expedito na visita quotidiana ás diversas +repartições do casal, afagou mais distrahido a egoa fiel, que lhe +cheirava os bolsos, habituaes portadores de uma lambarice matutina, deu +um beijo nas crianças, sem se demorar a fazêl-as saltar nos joelhos, +mandou que lhe fizessem o almoço mais cedo, depois de almoçar calado, +contra o seu costume, ergueu-se da mesa, ordenou que tres criados se +preparassem para sahir com elle, levando alguns instrumentos de lavoura, +e a final acabou por pedir á mulher as chaves da Casa Mourisca. + +Luiza, a boa, a prudente Luiza, que desde a vespera observava, sem +reflexões, os signaes de desassocego de espirito que manifestava o +marido, não pôde, ao ouvir a ultima ordem, reprimir um movimento de +estranheza, e violentando um pouco o seu respeito conjugal, disse, +olhando fixamente Thomé: + +--As chaves da Casa Mourisca?! Para que queres tu as chaves da Casa +Mourisca? + +--Provavelmente para abrir as portas. + +--E tu vaes lá? + +--Vou, e olha que já ha mais tempo lá me queria. + +--E que vaes tu fazer á Casa Mourisca, Thomé? + +--O que vou fazer? Vou trabalhar. + +--Trabalhar?! Pois tu tomaste-a de renda?! + +--Tomal-a de renda? Para quê? Então o fidalgo não me deu as chaves? +Então não embirrou em que eu havia de ficar com ellas? Pois para +espantalho não me servem cá em casa. As chaves são para abrir as portas, +e quem as tem entra quando quer. + +--Sim, mas que tens lá que fazer? + +--Oh! não me falta tarefa. Aquillo não viu enxada ha bom tempo. Os canos +estão entupidos, as minas por limpar, os tanques rôtos, as ruas cobertas +de herva, os muros no chão, e tudo o mais por este gosto. + +--E então tu é que vaes pôr isso tudo em ordem? + +--Vou, sim senhora. É assim que hei de ensinar aquelle soberbo, que se +julga deshonrado, só por que eu lhe fiz um serviço insignificante. Pois +agora veremos como roe estes que lhe vou fazer. Olha, mulher, vês +aquelle casarão negro, coroado de dentes, muitos dos quaes já lhe +cahiram de velhos? Pois se eu não lhe puzer dentadura nova e lhe lavar +aquelle cara, de maneira que pareça que está a rir e perca o ar +carrancudo com que d'alli nos olha, não seja eu quem sou. + +--Tu não estás em ti, Thomé. Vê lá no que te vaes metter. São despezas +grandes, e nem tu tens direito para similhante coisa. + +--Não sei de historias. O homem não quer tomar conta da casa emquanto +não pagar as suas dividas; pôz-m'a ao meu cuidado e eu do que está ao +meu cuidado cuido assim. + +--Ih! Jesus, que homem este! Não faças as coisas no ar, Thomé. + +--Qual no ar; prometti que hei de trabalhar para pôr aquella casa em +cima, só para fazer uma pirraça ao fidalgo; e ainda que tenha de +hypothecar todos os meus bens e de arriscar o futuro dos meus filhos, +hei de fazêl-o. + +--Mas, já fallaste com o snr. Jorge a esse respeito? + +--Não, nem preciso. + +--Pois devias fallar. É um rapaz ajuizado e que põe as coisas no seu +logar. + +--O que elle me vinha dizer sei eu, e por isso é que não desejo +fallar-lhe, porque não quero que me tire isto da cabeça, nem quero +brigar com elle. Mas os rapazes já estão á minha espera. Vamos lá. Dá cá +as chaves, ouviste? + +--Thomé, Thomé! Olha lá o que fazes! Eu não sei... + +--Pois por isso; se não sabes, deixa-me cá. Basta-me a chave grande. Eu +hoje não passo da quinta. + +E pegando na chave que a mulher lhe deu a medo, o lavrador sahiu á +frente dos tres criados, em direcção da Casa Mourisca. + +Luiza, a cujo bom senso não agradava a resolução do marido, veio +desabafar com a filha. + +O que sobre tudo levava a mal a bondosa Luiza era o não haver o marido +consultado Jorge. Para Luiza Jorge era um conselheiro infallivel. A +sympathia que sempre lhe inspirára aquella criança, «que se não mettia +com ninguem» como a boa mulher tantas vezes dizia, crescêra e +misturára-se á admiração, ao respeito e á absoluta confiança, assim que +o viu, adolescente, tomar aos hombros o pesado encargo da direcção e +reforma da sua casa, e que ouviu os louvores em que o enthusiasmo de +Thomé se desafogava, fallando d'elle. Luiza afez-se a suppôl-o um ente +privilegiado, incapaz de errar, com faculdades creadas para levar ao fim +qualquer empreza e realisar todas as suas tenções, por menos exequiveis +que parecessem. + +O dogma da infallibilidade de Jorge fôra por ella definido. + +Transpirára além d'isso cá fóra o grande successo do dia do jantar na +Casa Mourisca, e por ventura a versão mais seguida sahira colorida por +aquellas tintas maravilhosas, com que o povo illumina as suas +narrativas. O que é certo é que este facto acabou de divinisar Jorge no +conceito de Luiza, e agora menos do que nunca ella estava disposta a +perdoar ao marido o haver prescindido dos conselhos de um rapaz tão +brioso e prudente. + +Bertha escutou o arrazoado materno com ar pensativo e triste. Ouviu, sem +a interromper, a longa exposição das excellentes qualidades do filho +mais velho do fidalgo e os artigos de benevola accusação, acremente +formulados contra Thomé por quem aliás menos do que ninguem estava +disposta a condemnal-o. + +De quando em quando a vista de Bertha erguia-se para o vulto escuro da +Casa Mourisca, e parecia que o aspecto d'ella lhe augmentava a +melancolia. + +Luiza sahiu emfim da sala, chamada por as exigencias do serviço +domestico. + +Bertha ficou só. Reclinando a cabeça á mão e apoiada no peitoril da +janella, conservou por muito tempo a immobilidade e a fixidez do olhar, +que denunciava uma grande abstracção. + +Em que pensaria Bertha? + +Que nuvem cruzaria o seu firmamento, para assim lhe projectar sobre a +fronte aquellas sombras de tristeza? + +Operava-se uma revolução moral n'aquelle espirito. Bertha sahira criança +da aldeia, levando entre as mais agradaveis memorias da infancia, a dos +momentos passados na Casa Mourisca e a das pessoas a quem alli déra +então os seus primeiros affectos. + +Crescêra, e essas imagens modificaram-se pela influencia do amor na +phantasia, pela influencia de solidão e dos devaneios de juventude; a de +Beatriz, como que sanctificada pela morte, cercára-se de um resplendor +angelico, claro e suave como os raios do luar em luminosas noites de +estio; a de Jorge apparecia-lhe como a de um amigo leal e seguro, a quem +se não confiam puerilidades do coração, mas de que se póde esperar +auxilio e conselho nas provações da vida; a de Mauricio, porém, fôra a +que a imaginação que despertava, colorira de mais seductores reflexos. O +seu campeão da infancia assumira as fórmas nobres e prestigiosas dos +heroes de todos os poemas de amor. Belleza propria de uma juventude +varonil, coragem, generosidade, tudo quanto exalta e ennobrece a alma, a +phantasia d'aquella rapariga, entregue a si, elaborando a sós sobre as +memorias do passado, associára ao nome de Mauricio. Fôra isto que Bertha +trouxera no coração para a sua aldeia. Era o seu romance. Tinha ella a +razão bastante clara para não o tomar por outra coisa mais real do que +um verdadeiro romance, e bastante poder de reflexão para não se deixar +dominar por elle. + +Percebendo que em Mauricio não estavam ainda extinctas tambem as +memorias do passado, e que ainda os seus sentimentos presentes recebiam +d'elle luz e calor, Bertha assustou-se, desconfiou de si, e mais do que +nunca procurou precaver-se, fugindo á influencia de que se temia, mas +cedendo a ella sem querer. + +Seguiram-se porém as scenas que sabemos; e o iris que rodeava Mauricio +aos olhos de Bertha, dissipou-se como um verdadeiro iris em tardes +humidas de inverno. + +O ideal de Bertha não era sómente bello, era generoso e impeccavel, e +Mauricio não attingia tão alto. O instincto do coração denunciou a +Bertha o segredo do caracter de Mauricio; não havia depravação n'elle, +sómente leviandade e insconstancia; mas já era bastante para o +desprestigiar. Nem leviano, nem inconstante era o Mauricio que sonhára. +Pelo contrario, de dia para dia lhe apparecia mais na sua verdadeira luz +o caracter de Jorge, d'esse rapaz honesto, generoso, grave, respeitado +por todos. As suas qualidades moraes attrahiram emfim a attenção de +Bertha, e muita vez, emquanto conversava com Thomé, absorvido em uns +vastos e generosos projectos, ou quando seguia pensativo pelos +irregulares caminhos dos campos, era elle, sem o suspeitar, o objecto da +contemplação de Bertha, em quem só então parecia terem feito impressão a +nobreza e intelligencia, que nos gestos, na physionomia e nas palavras +d'aquelle adolescente se revelavam. + +A scena do jantar na Casa Mourisca augmentou a intensidade d'estas +nascentes impressões. Nem podia deixar de ser assim. + +É natural suppôr que a imagem de Jorge, d'esse rapaz corajoso e leal, +que perante uma desdenhosa companhia do fidalgo, se erguêra a +reivindicar a boa fama da familia plebeia, perfidamente calumniada por +um d'elles, occupasse o pensamento da que mais soffrêra da calumnia, e +offuscasse a do outro, leviano e estouvado, que concorrêra para levantar +o aleive. + +Poderia deixar de insinuar-se em um coração aberto a sentimentos +generosos, como era o de Bertha, esse rapaz de vinte annos, diante de +quem os velhos se descobriam, cheios de respeito pelas suas nobres +qualidades de alma e pela superioridade da sua intelligencia? + +Uma outra causa influira porém, além d'estas, no espirito de Bertha e no +mesmo sentido que ellas; ainda que á primeira vista se podésse julgar +que diversa deveria ter sido a sua acção. + +Esta causa fôra a frieza, a quasi hostilidade delicada com que Jorge a +tractava. Bertha não se illudia. Via bem claro que Jorge lhe fallava +sempre constrangido, e como se tivesse pressa de interromper um dialogo, +que o impacientava. Ás vezes havia nas palavras que d'elle obtinha, um +leve tom de ironia, que ella não sabia a que attribuisse. Este proceder +de Jorge deu que pensar a Bertha. Formando um conceito elevado do são +juizo e da seriedade do joven amigo de seu pae, convencia-se de que +aquellas maneiras frias com que era tractada por elle, não podiam deixar +de ter um fundamento. E este fundamento occulto procurava-o Bertha com +ancia em si mesma, estudava profundamente o seu proprio caracter, na +esperança de descobrir a solução d'este enigma que a affligia; e ao +mesmo tempo estudava em Jorge o effeito dos esforços com que fazia por +vencer aquella prevenção, qualquer que fosse. + +Succedeu o que era natural que succedesse. Não é sem perigo que a +imaginação de uma rapariga como Bertha se entrega ao estudo de um +caracter de rapaz, como o de Jorge, que lucra sempre em ser estudado e +conhecido. Á medida que caracteres como este melhor se observam, mais +virtudes se lhes descobrem, ao inverso de outros, cujos vicios latentes +vão a pouco e pouco transparecendo no decurso de uma attenta observação, +e destruindo a impressão favoravel que ao principio produziram. + +Bertha reconheceu um dia que não obrigára impunemente o espirito a +pensar a todo o instante em Jorge. + +Assustou-a a descoberta, mas o effeito já não podia evital-o. Inquieta +com os novos sentimentos que lhe invadiam o coração e a levavam a estas +vagas apprehensões, áquellas tristezas que tão frequentes lhe estavam +sendo, não era outro o motivo da distracção com que escutára a mãe e da +melancolia em que se deixou ficar á janella, depois que ella sahiu. + +De repente estremeceu. + +Jorge, que já não procurava occultar-se nas visitas que fazia a Thomé, e +dava aos seus actos uma publicidade mais conforme com o seu caracter, +acabára de entrar no pateo da Herdade, e desmontando-se, prendia o +cavallo, em que viera, ao esteio da ramada. + +Alguns criados que andavam por alli, occupados em diversos serviços de +lavoura, descobriram-se ao vêl-o entrar. Jorge cortejou-os com +affabilidade e passou a interrogal-os sobre promenores de trabalho em +que elles se entretinham. Os homens davam-lhe as informações pedidas com +os maiores signaes de deferencia. + +Depois Jorge subiu lentamente as escadas que conduziam á sala onde +estava Bertha. Ao vêl-o subir o primeiro degrau, ella tentou retirar-se; +mas susteve-a uma inexplicavel hesitação, e quando Jorge abriu a porta, +ainda a encontrou na sala. + +O olhar de Jorge desviou-se de Bertha, como se contrariado com a sua +presença. + +--Vim talvez importunal-a? Perdoe. Ignorava que a acharia aqui--disse +Jorge com apparente placidez. + +Bertha não estava menos constrangida, ao responder-lhe: + +--Importunar-me? De maneira alguma.... Eu é que sinto que meu pae não +esteja em casa, que é de certo quem o snr. Jorge procurava. + +--Ah! seu pae não está em casa? + +--Não; sahiu agora mesmo. + +Bertha não ousou dizer para onde. + +O nome da Casa Mourisca recordaria a scena do jantar, e Bertha tremia de +recordal-a diante de Jorge. + +Este caminhou para a janella, distrahidamente. E passeiando a vista por +os campos, perguntou, sem ainda olhar para Bertha: + +--Não sabe se o pae tardará muito? + +--Eu... julgo que sim... Mas talvez minha mãe o possa informar melhor. + +A proposito chegava Luiza para dar as informações precisas e para fazer +cessar o constrangimento d'aquelle dialogo, cuja prolongação seria um +martyrio para ambos. + +--Ah! snr. Jorge, snr. Jorge--exclamou Luiza logo que o viu--ainda bem +que veio, e pena é que não viesse meia hora mais cedo. + +--Então era cá tão necessaria a minha presença? + +--Ora se era! Eu ponho as mãos n'umas horas se estando cá o snr. Jorge, +se mettia aquella scisma na cabeça do meu Thomé. + +--Que scisma é essa de que falla? + +--Pois então não sabe para o que havia de dar áquelle homem de Christo? + +--Não sei, não. + +--Ó Bertha, então tu não disseste ao snr. Jorge para onde teu pae foi? + +--Eu... eu ignorava... + +--Ora adeus! Se eu não tenho fallado de outra coisa, desde que elle +sahiu! Ignorava! Vocês sempre teem coisas! Pois o meu Thomé está a estas +horas na Casa Mourisca. + +--A fazer o quê? + +--Isso só elle sabe e Deus. Mal almoçou foi para lá com tres criados. +Diz elle que já que o fidalgo teima em lhe pôr as chaves em casa e que +todo se espinhou por elle lhe querer ser prestavel, vae fazer o bem que +podér a sua familia, e melhorar a quinta e a Casa Mourisca, e que ainda +que tenha de empenhar os seus teres e os dos filhos, se ha de vingar do +fidalgo, fazendo-lhe todo o bem que estiver na sua mão. E tirem-lhe lá +isso da cabeça! + +--É uma alma generosa a de Thomé, mas eu o dissuadirei d'essa vingança, +que viria transtornar os meus planos e tirar-me a gloria, a que aspiro, +de trabalhar por minhas proprias mãos n'essa obra de restauração. + +--Eu não o disse? «Thomé tu não faças nada sem fallares com o snr. +Jorge.» Mas qual! Bem lhe importava elle com o que eu prégava! É um +bom-serás o meu Thomé. Em vinte annos de casada, nunca me deu um +desgosto. Póde haver maridos tão bons como elle, melhores não posso crêr +que haja. Devo dizer o que é verdade. Mas, lá de quando em quando, em se +lhe mettendo umas scismas na cabeça! adeus, minhas encommendas! já se +lhe não dá volta. Só o snr. Jorge. Elle lá ao snr. Jorge ainda cede. E o +que elle lhe não fizer escusam ahi de vir os poderes do mundo, que nada +fazem. Lá o snr. Jorge! credo! Isso basta ouvil-o fallar em si. Ora, não +é agora por estar presente, mas razão tem elle para fazer o que faz. + +--Obrigado, snr.ª Luiza. + +--Obrigado por quê? Ó filho, não, a minha bôca não é para gabar quem não +o merece. Mas, diga-me cá, que rapaz ha ahi que faça o que o menino faz? +Que na sua idade, em que emfim todos sabemos que o que se quer é +brincar, olha como um homem por a sua casa, como nem muitos velhos +sabem. E depois, ó snr. Jorge, sempre lhe digo que ainda ha bem poucos +dias estes olhos choraram bastantes lagrimas por sua causa. + +--Por minha causa?! Pois eu fil-a chorar, snr.ª Luiza? + +--Oh! não foi por mal que me fizesse, foi porque emfim ... ha certas +acções, que bolem cá dentro com uma pessoa e... quando me contaram o que +se passou em sua casa, com aquelles vadios de seus primos, e em que o +menino... + +--Oh! não fallemos n'isso, snr.ª Luiza, que não vale a pena. + +--Se não vale!... Olhe que não fui eu só que chorei. E Bertha? + +--Ah! sinto devéras ter sido motivo de um desgosto para Bertha--disse +Jorge no tom de que habitualmente usava fallando d'ella. + +Bertha não pôde responder. + +--Desgosto?--acudiu Luiza--Ora essa! Antes ella deve agradecer-lhe; e +querem vêr que ainda o não fizeste, Bertha? + +A confusão de Bertha augmentou com esta arguição da mãe. + +Jorge atalhou: + +--Eu é que me esqueci de pedir a Bertha perdão por haver dado ensejo, +com os meus actos, a que o seu nome andasse por bôcas de pessoas a todos +os respeitos indignas de pronuncial-o. Coisas minhas; ando tão alheio ao +tracto do mundo, que a cada passo caio n'estas imprudencias, e sacrifico +os outros, sem o querer. Bertha tem razão para estranhar este caracter +bravio; mas espero que me perdoará. + +Bertha ia a responder, mas era tal a sua commoção, augmentada pelo modo +por que Jorge dissera estas palavras, que sentiu não lhe ser possivel +formular uma resposta; os olhos inundaram-se-lhe de lagrimas e o rosto +trahiu-a. + +Levantando-se agitada, sahiu da sala em silencio, como se precisasse de +estar só para desafogar em lagrimas a oppressão que a angustiava. + +Luiza viu-a sahir e ficou admirada. Olhou para Jorge com estranheza, +olhou para a porta, como se não soubesse explicar a scena a que +assistira. + +--Estas raparigas teem uns modos! Já viram uma coisa assim?!--murmurou +ella, passada a primeira surpreza.--Queira perdoar, snr. Jorge. + +Igualmente enleiado, Jorge procurou mudar o sentido da conversa, +fallando outra vez de Thomé, em procura do qual sahiu poucos minutos +depois. + +Assim que o viu deixar a sala, Luiza ficou pensativa por algum tempo e +no fim disse em voz alta, como era costume seu: + +--Deixal-os. Se assim fosse, tanto melhor. Coisas mais incríveis se teem +visto. Seja o que Deus quizer! + +Ao passar no patamar das escadas que davam para o quinteiro, Jorge +encontrou alli Bertha, que parecia esperal-o. Cortejando-a, procurou nos +olhos d'ella o vestigio de lagrimas. + +--Snr. Jorge--disse-lhe Bertha, com voz triste e levemente +tremula--perdoe-me a minha perturbação de ha pouco. Fui obrigada a sahir +da sala sem lhe dizer nem uma simples palavra de agradecimento por o +muito que lhe devia; mas creia que não é porque o desconheça. + +--O que me deve! Então quer que lhe repita o que já lá dentro lhe disse? +Eu sou que tenho a pedir perdão. + +--Basta, snr. Jorge--atalhou Bertha, tentando sorrir, mas raiando-lhe o +sorriso por entre mal contidas lagrimas, como o sol no meio da chuva do +inverno.--Hoje não... mas... em outro dia... ha de dizer-me por que não +é meu amigo. + +Jorge estremeceu, e olhando para ella repetiu: + +--Por que não sou seu amigo?! Que quer dizer, Bertha? + +--Oh! creia que ha signaes, que não enganam. Seja o que fôr, mas no seu +pensamento ha alguma coisa contra mim, snr. Jorge. É pouco dissimulado, +bem vê, não o póde disfarçar. + +--Bertha! mas que criancice! Pois que ha de haver contra si no meu +pensamento? + +--Não sei. Um dia m'o dirá; não é verdade? É muito leal e muito generoso +para não m'o dizer. Bem vê que preciso sabêl-o para me emendar; +porque... eu desejava que fosse meu amigo, snr. Jorge. Todos o +respeitam, todos fallam na sua generosidade; espero que não a desmentirá +commigo. + +--Porém...--ia Jorge a objectar, quando Bertha o interrompeu, dizendo: + +--Agora não, agora não. Lembre-se só de que eu fico acreditando que será +sincero commigo, no dia em que eu o interrogar, e que de certo não se +recusará então a fallar-me com franqueza. Adeus, snr. Jorge. Creia que +desejava devéras que fosse tão meu amigo, como é de meu pae. + +E retirou-se depois de pronunciar estas palavras. + +Jorge desceu vagarosamente as escadas, montou distrahido o cavallo que o +aguardava no quinteiro e deixou-lhe a redea livre, de maneira que o +animal seguiu a passo o caminho da casa, que por tanto tempo lhe déra +abrigo, o caminho da Casa Mourisca. + +Desapercebidamente ia passando Jorge por todos os logares intermedios. +As palavras de Bertha, animadas por aquella sentida commoção, que a +dominava ao fallar-lhe, estavam-lhe ainda nos ouvidos, e nos olhos a +imagem da gentil rapariga, em quem uma grave expressão de dôr mais +realçava a belleza. + +--E se voltar a interrogar-me--pensava Jorge--que posso eu dizer-lhe? +que devo confessar-lhe? Nada. Pois que tenho eu contra ella? Pobre +rapariga! Mas é certo que me parece que tenho sido um tanto rude, um +tanto desabrido... E porquê? + +Jorge parecia n'este momento estar sondando o fundo do seu proprio +coração, para investigar a verdade. De repente fez um movimento com a +cabeça, como tentando regeitar uma ideia pertinaz. + +--Mas isto não póde ser, Senhor. Isto é uma loucura que não tem razão de +existir. Pois não hei de ter força de a abafar á nascença? Acaso o +sangue de minha idade tambem me ha de fazer doidejar como aos outros? Eu +felizmente não possuo o temperamento de Mauricio e hei de vencer na +lucta, hei de. Mas em todo o caso é uma puerilidade a maneira por que +estou procedendo com Bertha. Porque é certo que o modo por que a tracto +não é natural. É medo de me trahir? Mais me traio ainda por esta fórma. +É despeito por as attenções que a vejo dar a outro?... a meu irmão?! Mas +é uma vileza da minha parte... A meu irmão!... É verdade que se elle a +amasse devéras... mas eu que o conheço... É uma loucura a final, é o que +é. E fiem-se no juizo de um rapaz de vinte annos?! Ahi estou eu tão +doido como qualquer d'esses estouvados. E o mais é que a mim é que se +não perdoaria a loucura. A loucura em um rapaz de juizo é um delicto +imperdoavel. Se soubessem por ahi... se descobrissem... «E quem havia de +dizer! Ora vejam, um rapaz que parecia tão ajuizado!» É como elles +principiam logo. Ai, tem pesadas responsabilidades o que na minha idade +mereceu que lhe chamassem «um rapaz de juizo.» É preciso a cada momento +suffocar a revolta do temperamento e da idade, luctar incessantemente +com a imaginação... E hei de luctar! É forçoso que não deixe sahir cá de +dentro os meus desvarios de rapaz. Doideje o coração á sua vontade, +comtanto que só eu o saiba... Mas a meta é commigo e não com ella... +Bertha tem razão em perguntar-me o motivo da minha hostilidade. A minha +hostilidade! Ah que se ella tivesse um olhar mais penetrante... D'isso é +que me receio... Não ha que vêr, hei de preoccupar tanto, tanto, tanto a +minha cabeça com algarismos e negocios, que hei de por força perder a +consciencia dos affectos, e é assim que hei de matal-os. + +N'este momento vencia Jorge o declive que levava á porta principal da +Casa Mourisca. O caminho desaffrontado n'aquella altura de arvores e de +sebes altas subia á vista do casal de Thomé e permittia descobrir na +encosta fronteira as veredas que para lá conduziam. + +Jorge desviou naturalmente a vista para aquelle sitio. + +Na varanda de entrada divisava-se ainda o vulto de Bertha, na mesma +posição em que a deixára. + +Alvoroçou-se o coração do rapaz com isso; ao mesmo tempo porém ia +subindo na direcção da Herdade, um cavalleiro que elle reconheceu ser +Mauricio. + +Esta nova descoberta desagradou-lhe manifestamente. Purpurearam-se-lhe +as faces por momentos, e a fronte contrahiu-se-lhe com uma expressão de +desgosto. Pela primeira vez fustigou o cavallo, que até alli deixára +entregue ao capricho. + +Mauricio, que tambem da outra margem avistára o irmão, fez-lhe um acêno +com a mão, ao qual Jorge respondeu apontando-lhe para a Casa Mourisca, +como a designar-lhe o destino do seu passeio. Mauricio replicou-lhe com +um movimento de braço, exprimindo que o seu giro era mais extenso e para +o outro lado. E na direcção que seguia era inevitavel a passagem por +casa de Thomé da Povoa. + +--Por isso ella se demorou na varanda--murmurou Jorge com amargura--e +proseguiu olhando para Mauricio: + +--Aquelle póde ser louco á sua vontade; ninguem lh'o estranhará, ninguém +lhe fará d'isso um crime. E a final talvez que de nós dois não seja elle +o mais louco. A loucura é inseparavel do homem; umas vezes toma-lhe a +cabeça e deixa-lhe em paz o coração, que nunca se empenha nos desvarios +a que ella é arrastada; é o caso de Mauricio; outras vezes ha na cabeça +a frieza da razão e ao coração desce a loucura para o perturbar com +affectos; quer-me parecer que é o que succede commigo. + +O cavallo parou espontaneamente á porta da Casa Mourisca e arrancou +Jorge á corrente de vagas cogitações em que lhe fluctuava o espirito. + +--Vamos, Jorge--dizia elle a si mesmo, ao desmontar--já agora é +necessario ser rapaz de juizo até ao fim. Tu não tens direito de +condescender com a tua mocidade, homem. Ninguém te relevaria os ardores +da juventude, porque todos te suppõem o sangue de gêlo. + +E serenando outra vez a physionomia, até alli um pouco alterada sob a +influencia de encontrados pensamentos, entrou para a quinta em procura +de Thomé, que o precedêra ahi. Quando, depois de algumas pesquizas, +Jorge, guiado por o som de vozes e por um ruido de sachos e de enxadas, +conseguiu avistar o fazendeiro, não pôde reter um sorriso de estranheza +e de sympathia, que o espectaculo que via lhe provocava. + +E tão grato effeito parecia produzir-lhe esse espectaculo, que, sem ter +querido interrompêl-o com a sua presença, continuou por algum tempo, +observando-o. + +Effectivamente para quem soubesse a verdadeira significação dos actos em +que Thomé estava empenhado n'aquelle momento, não seria para estranhar o +sorriso de Jorge, nem a sua expressão duplice de sympathia e de espanto. + +Thomé não havia meditado no plano para a vingança que jurára contra o +fidalgo. Anciava por principiar a pôl-a em pratica, e encetou-a sem +methodo nem systema. Intimou os criados para que o acompanhassem, sem +que tivesse ainda pensado no que lhes mandaria fazer. + +Chegados que foram á quinta, fixou-se na primeira avenida á entrada e +ahi principiou a azafama, arrancando as hervas inuteis, decepando os +ramos mortos, varrendo as folhas cahidas, amparando os arbustos +derrubados sobre o caminho, desassombrando as plantas affrontadas e á +mingua de sol, enxugando e nivellando os passeios alagados, e +desobstruindo os encanamentos de rega. A rua ficou que era um primor. + +No momento em que Jorge o avistou, limpavam os criados o limo depositado +em um tanque, emquanto Thomé, suando, tentava erguer sobre o pedestal a +estatua de pedra de não sei que divindade pagã, que havia muitos annos +repoisava em leito de malvas e ortigas, coberta de lichens esverdeados. + +--É dia de festa por cá, á balburdia que estou vendo!--disse Jorge, +adiantando-se emfim, e apparecendo aos olhos do fazendeiro, que se +voltou precipitado ao ouvir-lhe a voz.--Quem visse dizia que passa por +aqui procissão, em que nós somos mordomos. + +Thomé, readquirindo a sua presença de espirito, respondeu: + +--Procissão não digo, mas festa em que eu sou mordomo, ha de haver aqui, +se Deus me der saude. + +--Bem, visto que o Thomé é o juiz da festa, póde dispôr do seu tempo sem +pedir licença a ninguem. Por isso ha de conceder-me um momento de +conversa. + +--Não, não, snr. Jorge, tenha paciencia; mas eu tenho grande empenho em +dar andamento a isto. + +--E eu absoluta necessidade de fallar-lhe. + +--Ora valha-me Deus! E eu então que estou quasi a adivinhar o que me vae +dizer! + +--Talvez que não. + +--O que lhe affirmo é que se me quer tirar da cabeça isto que se me +metteu cá dentro, é tempo perdido. + +--Não faça conjecturas anticipadas, Thomé. E sente-se primeiro. + +--Pois vá lá. Vocês sigam por ahi adiante--disse o lavrador, voltando-se +para os criados--e além n'aquella nora.... + +--Póde mandal-os embora, Thomé--atalhou Jorge. + +--Embora? Adeus! É o que eu digo! Olhe que se é com o fim de me +dissuadir que... + +--Mande-os embora, que está a cahir meio-dia e pouco serviço podem fazer +até lá. De tarde ou ámanhã continuarão, se o Thomé achar conveniente. + +--Não, não, hei de achar. Emfim vão lá á sua vida, mas em sendo duas +horas... + +--Ora adeus; deixe as ordens para lh'as dar em casa, que tem +tempo--atalhou pela segunda vez Jorge. + +--Pois tenho, tenho, mas emfim... Ide lá com Deus. + +E ficando só com o joven fidalgo, Thomé da Povoa cruzou os braços, e +interrogou em tom de amigavel enfado: + +--Aqui me tem. Então o que é que me quer? + +Jorge enfiou o braço no d'elle e encaminhando-o para o tanque de pedra, +limpo e esfregado de pouco pelos criados da Herdade, disse-lhe: + +--Vamos sentar-nos alli, que o que eu tenho a dizer-lhe é serio e +precisa de ser tractado com socego e descanço. + +E sentando-se ambos na borda do tanque, voltados na direcção da Casa +Mourisca, cuja fachada se descobria por entre uma das arvores, Jorge +proseguiu: + +--Agora que estamos sós, Thomé, vae dizer-me o que significa toda esta +brincadeira. + +Á palavra «brincadeira», o fazendeiro deu um salto. + +--Eu não o disse?! Elle ahi vem com as suas reflexões! Por essa esperava +eu. Mas não tem duvida, eu estou prompto para explicar-lhe a +brincadeira. Se o snr. Jorge visse, como eu vi, olharem as minhas acções +como insultos, não serviços, que bem sei que não os fiz, mas pelo menos +bons desejos, como são os que tenho de lhe ser util e aos seus, tambem +não havia de soffrer com tanta paciencia a injustiça, que não procurasse +tirar desforra. + +E Thomé, levantando-se, pôz-se a passeiar agitado. + +--Mas venha cá, Thomé, quem lhe diz que não tem razão em se offender e +até em se vingar nobremente, como emprehendeu fazêl-o? + +--Sim, mas então não chame brincadeira ao que faço--tornou o fazendeiro +amuado. + +--Chamo, por vêr que não realisa a sua vingança por essa fórma. O Thomé, +se pensar a sangue frio, ha de ser o primeiro a concordar commigo. Ora +diga, pois acha que a obra mais difficil de levar a effeito em nossa +casa é a limpeza d'estas ruas e d'estes tanques? Acha que vale a pena +principiar por aqui a exercer a sua actividade? Se um dia entrando em +bom caminho a administração dos nossos bens, nos restituir, como espero, +o pleno gozo d'elles, livre das demandas, dos onus e da usura que os +definham, não lhe parece que os nossos criados farão em dois ou tres +dias obra correspondente ao valor da sua vingança? + +--Lá iremos. Da quinta subirei os degraus e entrarei em casa, que +remoçarei do portal até aos telhados. + +--E que é tudo isso para o muito que ainda haveria por fazer, e onde os +seus auxilios poderiam ser-nos mais vantajosos? Não vale muito mais tudo +o que já tem feito? O Thomé bem sabe que o nosso grande mal não está +n'aquellas pedras cahidas, isso é apenas o symptoma da doença, que é +preciso combater primeiro. + +--Pois sim, mas...--titubeou o lavrador já abalado. + +--Sabe o que consegue com isso, Thomé? consegue uma vingança apparente, +que falla mais aos olhos, isso é verdade; mas não a vingança real, +generosa e nobre, representada pelo seu empenho em auxiliar-me devéras +na obra que emprehendi. Consegue contrastar as minhas ambições; sou eu +quem mais soffro da sua vingança. Esta casa, como sabe, é apenas uma +pequena parte da nossa propriedade, mas é a que, por assim dizer, a +representa. O povo, emquanto não vir renovar aquellas ameias cahidas, +aclarar aquellas paredes negras, restaurar aquella capella abandonada, +nunca se persuadirá de que a nossa casa conseguiu escapar do naufragio +em que esteve para perder-se. Quando eu tivesse assentado em bases +solidas esta propriedade que encontrei vacillante, quando podésse +desafogadamente chamar meu ao mesmo que meus avós chamaram d'elles, +havia então de renovar esta velha habitação, que só então teria o +direito de sorrir defronte da sua Herdade, Thomé, e d'essas alegres +casas que ahi se estendem por a collina abaixo. N'esse dia ficaria o +povo sabendo que eu tinha cumprido um dever e havia de respeitar-me por +força. Mas o Thomé quer privar-me d'essa gloria. Vae fazer sorrir esse +fiel confidente dos nossos infortunios, quando ainda o sorriso é uma +mentira e uma ironia aos seus proprietarios. Depois, embora eu lucte e +obre prodigios, e consiga vencer, o povo dirá: Os fidalgos da Casa +Mourisca estão hoje melhor do que já estiveram. Houve um homem, o dono +do casal alli defronte, que teve compaixão d'elles e lhes restaurou por +esmola a casa que cahia em ruinas. Não fallarão nos seus outros valiosos +serviços, que não os conhecem, nem apreciam; não fallarão d'aquelles de +que me não envergonho, antes me orgulho de confessar. Fallarão apenas do +unico que me humilha, do unico que tem effectivamente um caracter de +esmola, do menos importante de todos, do que se realisaria com o +rendimento da nossa menor tapada, depois de remidos. Agora veja lá, +Thomé; se o seu intento é realmente o de humilhar-me, prosiga na sua +obra, que eu prometto não a embaraçar com os meios legaes que não +desconhece; mas se a sua vingança é, como supponho, mais nobre, rnais +digna de si, se ousa a fazer-nos bem, apesar do orgulho que lh'o +rejeita, sem se lhe importar que um bem seja apparente para que os +outros nos vejam humilhados, então deixo ao seu juizo resolver se este é +o melhor caminho que tem a seguir. + +Thomé da Povoa ouviu tudo isto com os olhos no chão, apertando o labio +inferior entre o polex e o index e balanceando lentamente com o corpo. + +Depois que Jorge acabou de fallar, permaneceu assim ainda por algum +tempo, e acabou por dizer: + +--Bem; visto isso desisto. Engulirei os meus protestos, conforme podér. +Não digo que não tem razão, acho até que a tem. Quando me resolvi a +isto, pensava só no fidalgo, não pensava no snr. Jorge... Agora vejo que +fui muito apressado. Muito bem, farei por me resignar. Lá me custa, +mas... + +--Não lhe peço que desista da sua vingança. Quero tambem que um dia a +verdade obrigue meu pae a reconhecer que a nobreza não está só nos +pergaminhos e que a alliança com um homem honrado honra sempre quem a +contrahe. + +Thomé já tinha lagrimas nos olhos, ao apertar a mão a Jorge. + +--Peco-lhe até que continue o seu auxilio, sem o qual eu nada faria, e +até vou indicar-lhe um genero de serviços, que espero dever-lhe. + +--Falle, falle, snr. Jorge, o que o senhor de mim não conseguir, ninguem +consegue. + +--Ha muito que eu desejo ir ao Porto. A especie de exilio, a que meu pae +me condemnou, facilita-me agora essa empreza. Queria conversar +directamente com os nossos advogados na demanda do Casal do Reguengo. +Parece-me que ha circumstancias de valor que no processo não se tem +feito sentir devidamente. Depois aquelle documento que lhe mostrei não +me sahe da ideia. Emfim, póde ser uma illusão minha, mas tenho com tanto +afinco estudado a questão, que me parece que vejo claro n'ella. E como +sabe, Thomé, se ella se nos resolvesse favoravelmente era meia victoria +ganha. + +--Isso era. + +--Portanto quando o Thomé podér dispôr de si, desejava que me +acompanhasse á cidade, para me apresentar aos juizes e letrados, que +conhece. Depois, tenho ainda outro fim em vista; desenredadas estas +teias que me embaraçam, preciso de um grande capital para encorporar á +terra, para tirar d'ella os recursos, que d'outra maneira não póde dar. +A sua generosidade e os seus sacrificios não podem ir tão longe; graças +a elles, já a usura me deixa respirar mais livremente; e já a equidade +substituiu o dolo de muitos dos contractos de nossa casa. Mais tarde a +escala do emprestimo tem de subir forçosamente para realisar em grande +os aperfeiçoamentos agricolas que em pequeno vou ensaiando. O capital +particular não me bastará para esse intento. Lembrei-me da nova +companhia de Credito Predial, que se installou agora no paiz. Preciso +pois informar-me dos negocios attinentes a estas operações e da +regularidade de alguns titulos que possuimos. Póde auxiliar-me no que +lhe peço? + +--Amanhã partiremos, se quizer. + +--Pois seja amanhã. E não acha que encaminho melhor a sua vingança por +este lado, Thomé? + +--Acho que quem tem o juizo do snr. Jorge póde muito bem passar sem o +auxilio de pessoa alguma. Mas emfim cá estou ás ordens. + +Passada meia hora, entrou Thomé em casa e participou á mulher que ia no +dia seguinte ao Porto, na companhia de Jorge, e que talvez ahi se +demorassem alguns dias. + +Luiza ficou comprehendendo que os projectos de restauração da Casa +Mourisca haviam sido pelo menos adiados, e com isto cresceu n'ella a +admiração pelo caracter de Jorge. + +Mas Luiza tinha durante aquella manhã recebido impressões, que não se +atrevia a revelar totalmente ao marido, mas que a não deixavam estar +socegada, emquanto não transpirassem em vagas insinuações. + +Estavam á janella os dois esposos, conversando placidamente de Jorge e +de D. Luiz, e da proxima jornada á cidade, quando Luiza, depois de uma +pausa na conversa, disse _ex-abrupto_ para o marido: + +--Ó Thomé, e que dirias tu, se um dia a tua filha morasse n'aquella +casa? + +E, ao dizer isto, designava com a cabeça a Casa Mourisca. + +Thomé olhou para a mulher, como se aquellas palavras lhe fizessem +duvidar da firmeza do juizo d'ella. + +--Que queres tu dizer com isso? + +--Ora! isto de rapazes e raparigas... quando se vêem a miudo... + +Thomé córou, exclamando com mau modo: + +--Tu estás doida, Luiza? + +--Ora adeus! Quem sabe lá? + +--Ó mulher, não queiras que eu perca a confiança que sempre tive no teu +bom juizo. + +--Eu não digo... mas emfim... + +--Ora adeus, adeus!--atalhou Thomé, quasi agastado--ha certas coisas que +nem a brincar se dizem. + +--Pois que mal havia?... + +--Mau! Ó Luiza, peço-te por favor que te não ponhas com essas graças. +Ora para o que te havia de dar! + +--Então, porquê?... + +--Ora, porque não. Ha certas lembranças que até me envergonho de pensar +n'ellas. + +Luiza, em vista da repugnancia do marido, não ousou insistir. Mas a +pobre mulher, com as ambições de mãe, já não podia deixar de olhar a +Casa Mourisca e imaginar o effeito que produziria a sua Bertha em uma +das balaustradas ou das ogivas d'aquelle antigo edificio. + + + + +XXI + + +Jorge apenas a Gabriella deu parte do seu projecto de jornada. + +No dia seguinte partiu effectivamente para o Porto na companhia de Thomé +da Povoa. + +D. Luiz, ainda firme no proposito de não querer vêr o filho, nem ouvir +fallar d'elle, nada soube d'esta excursão. + +Mauricio estranhou a ausencia do irmão; mas, desde que a baroneza lh'a +explicou, dizendo-lhe a verdade, não pensou mais em tal. + +O padre, quando soube que Jorge tinha ido ao Porto, cidade que, no +conceito do egresso, era um fóco de corrupção, e onde mais risco havia +para a juventude de infeccionar-se com a peste da maçonaria e outros +males correlativos, abanou tres vezes a cabeça, em signal de mau +prognostico; mas não ousou fallar das suas apprehensões ao fidalgo, +porque andava desconfiado, havia algum tempo, com os humores em que o +via. + +De facto D. Luiz, depois de algumas das sevéras palavras que ouvira a +Thomé da Povoa, não podia vencer um tal ou qual resentimento contra o +padre, cuja imprevidente gerencia tinha talvez concorrido para o estado +precario da sua casa e as humilhações que soffria. + +Apenas attenuava este resentimento a ideia fatalista de que a decadencia +das casas nobres era inevitavel, e que baldado era tentar reagir. + +Para elle o padre não podia ser mais que o instrumento cego da sua +desgraça irrevogavelmente decretada. + +Toda a energia moral de D. Luiz exercia-se pois em encarar com rosto +firme a adversidade, e cahir sem perder na quéda a fidalga compostura do +porte. + +D'estas successivas impressões que recebêra nos ultimos tempos resultava +para o animo, já de indole irritavel de D. Luiz, uma impaciencia, uma +quasi permanente exaltação nervosa, que augmentava á medida que se lhe +depauperavam as forças e o vigor corporeo. Quem melhor sabia agora lidar +com elle era a baroneza. O instincto feminino é o mais proprio para +descobrir o lado accessivel d'estes caracteres azedados e para movêl-os +sem os magoar. + +Frei Januario, que percebia isto, afastava-se cada vez mais do quarto do +fidalgo e cada vez mais se aproximava da dispensa e da cozinha. + +Em casa de Thomé proseguiam os trabalhos agricolas sob a activa +vigilancia de Luiza, que, na ausencia do marido, tomava a seu cargo +aquella provincia do governo domestico. + +Bertha olhava então pelos irmãos e pelo arranjo da casa. + +Havia porém alguns dias que uma ideia fixa não deixava tranquillo o +espirito de Bertha. + +Quando, ao cahir da tarde, os ultimos raios do sol parecia encandecerem +as vidraças da Casa Mourisca, e á sua luz se tingiam de um leve doirado +as frondes dos carvalhos seculares da quinta, ainda não despidos pelo +outomno, apoderava-se de Bertha uma saudade intima, profunda, que lhe +desafiava as lagrimas. Toda a infancia era evocada então. Resurgiam-lhe +as recordações dos jogos, dos risos, das alegrias que havia gozado +n'aquelles sitios onde os olhares se lhe fixavam com insistencia, e a +pouco e pouco cresceu n'ella um natural e vehemente desejo de +visital-os, de tornar a vêr de perto aquellas arvores, fontes e salas, +cada uma das quaes lhe guardava uma memoria do passado. + +As chaves d'esse como relicario das suas mais gratas recordações, +tinha-as ao alcance da mão; a distancia não era grande, as tardes +corriam amenas e no campo ninguem estranharia a uma rapariga um passeio +d'aquelles. + +A ideia ganhou vulto e Bertha resolveu realisal-a. + +Tomou a chave que abria uma das pequenas portas da quinta, e uma tarde +sahiu e dirigiu-se lentamente à Casa Mourisca. Em pouco tempo chegou á +ponte que reunia as duas margens do ribeiro do valle. Ao transpol-a, +porém, reteve-a um vago rumor que soava nos ares. Eram as surdas +detonações de uma trovoada longinqua. + +Bertha olhou em roda um tanto inquieta. + +O colorido do céo e o dos campos era bello, mas pouco tranquillisador. + +O firmamento estava esplendidamente pintado, não com o azul uniforme dos +dias serenos, mas com as variadas tintas que recebia da influencia +electrica de uma tempestade imminente. Grandes nuvens isoladas +illuminavam-se, ao sol poente, de reflexos doirados. O campo, em que +ellas se desenhavam, ostentava todas as gradações do azul, desde o anil +carregado até um quasi verde esvaecido que interrompiam leves e longos +stractus tingidos de roixo e violeta. Ao nascente, no seio de um denso +cumulo de vapores amarellados, desenhava-se vagamente o magestoso iris. +O verde das arvores e dos prados recebia d'esta luz uma cambiante mais +viva. Principiava a soprar a viração quente e rasteira, que levantava em +redemoinhos as folhas cahidas no chão. + +Tudo annunciava uma tempestade proxima. + +Bertha não ousou ir mais adiante. + +A visinhança da noite e da tempestade obrigou-a a retroceder. + +N'este momento porém entrava na ponte um cavalleiro, que assim que +avistou a filha do Thomé, desmontou com ligeireza e dirigiu-se para ella +a pé. + +Era Mauricio. + +Bem desejaria Bertha evital-o, mas já não o podia fazer sem uma +affectação mais indiscreta do que a propria entrevista. + +Em poucos momentos Mauricio estava a seu lado. + +--Até que finalmente a encontro, Bertha. Quasi me tinha chegado a +convencer de que uma fatalidade ou um proposito nos separava. Ha tanto +tempo que não conseguia vêl-a! + +--E procurava-me, snr. Maurício? + +--Todos os dias o tenho feito. + +--O mais natural era procurar-me em casa; ahi é que passo a maior parte +do meu tempo, auxiliando minha mãe, que bem precisa de quem a ajude. + +--Em casa? E seria eu bem recebido lá? + +--Já alguma vez meu pae deixaria de receber, como merecem ser recebidos, +os filhos do snr. D. Luiz? + +--Como merecem--ahi é que está a dificuldade. E se a consciencia me +dissesse que eu não merecia esse bom acolhimento? + +--Muito grandes deviam ser as suas culpas, para que meu pae se +esquecesse da amizade que lhes deve, a si e aos seus, snr. Mauricio. +Creio bem que a consciencia não lhe diz isso. + +--Não, Bertha. Eu julgo-me com imparcialidade. Sei o que ha de +reprehensivel no meu proceder inconsiderado; ainda que nada me peza na +consciencia, emquanto ás minhas intenções. + +--É o essencial. + +--Não é para os outros. Por os actos me julgam e esses ás vezes +condemnam-me. + +--Nem todos os seus actos hão de ser maus. Os bons desfarão os effeitos +dos outros--tornou-lhe Bertha, sorrindo. + +--Succederá isso comsigo, Bertha? Não estarei ainda condemnado no seu +conceito? + +--Se principio por ignorar as culpas de que é accusado! + +Maurício calou-se por algum tempo, como concentrando alentos para mais +difficil resolução, e rompeu depois com maior vivacidade: + +--Pois bem; escute-me e julgue depois; condemne ou absolva, conforme a +consciencia lh'o dictar. Não lhe vou fazer uma geral confissão da minha +vida, apenas dos ultimos tempos d'ella. As acções boas ou más, os actos +irreflectidos, a que me impelle este temperamento estranho com que +nasci, tenho-os ultimamente executado sob o influxo de uma paixão forte, +irresistivel, que nasceu e assoberbou rapidamente todo o meu coração, +Bertha, desde que a vi, quando voltou de Lisboa. Com a franqueza propria +do meu caracter, com a lealdade que lhe devo, Bertha, confesso-lhe que a +amo. Deve têl-o percebido. Eu não sei dissimular. É este amor que me +perturba, que me faz ser injusto, desconfiado, louco, que me arrasta a +extremos, d'onde não volto sem remorsos. + +--Devia pois fazer por destruil-o, vendo a maligna natureza que +tem--respondeu Bertha, sorrindo. + +--Não zombe, Bertha. + +--Não zombo, pois não diz que o arrasta a acções que lhe causam +remorsos? + +--Mas é por esta incerteza em que estou. Assegure-me porém, Bertha, de +que o seu coração é ainda o que em outro tempo conheci... + +--Snr. Maurício--tornou-lhe Bertha, d'esta vez sem a menor inflexão de +gracejo--seria faltar á amizade que lhe devo, se o deixasse continuar. +Quero suppôr que não zomba de mim ao fallar-me d'essa maneira; quero +convencer-me de que é sincero, ou de que julga sêl-o, pelo menos, n'essa +declaração que me faz, e vou responder-lhe como se assim fosse. Peco-lhe +que faça por esquecer isso que diz sentir por mim e que não póde ter +futuro. + +--Para me dar esse conselho, para ter direito de dar-m'o, é necessario +que me faça uma confissão, é necessario que me diga: Eu não posso +amal-o. + +--Direi: Eu não posso amal-o, snr. Mauricio. + +--E será sincera no que diz? Veja bem. Interrogue sómente o coração. Não +a amedrontem as difficuldades e as resistencias que possam +offerecer-nos. Eu as vencerei, arrostarei eu só com todas. + +--Eu disse: eu não _posso_ amal-o, e não: eu não _devo_ amal-o, como +n'esse caso diria. + +--E porque não póde? Que ha na sua alma contra mim, Bertha, que nem as +recordações da infancia me valem? E comtudo eu tinha n'esse tempo +adquirido direitos á sua affeição. + +--Que valor que dá aos brinquedos da infancia! + +--É porque em mim a juventude do coração principiou cêdo. Eu já então +sabia amar. + +--Mau é que não ache differenca entre o amor de que é capaz agora e o de +então; é pois claro que ama como uma criança. + +--Com a ingenuidade d'ellas. + +--E com a inconstancia tambem. + +--Bertha, não me falle assim. Nas suas palavras sinto um tom de duvida +que me afflige. Responda-me: porque é que não póde amar-me? Ha já no seu +coração outro amor? + +Bertha córou e não foi superior a certa confusão, que se esforçou por +vencer, dizendo: + +--Ainda que não haja, não é isso motivo para o abrir ao primeiro que +appareça. Com toda a sinceridade da minha alma lhe fallo, snr. Mauricio. +Creia que para todas as pessoas que teem o nome da sua familia ha no meu +coração muito respeito, muita estima e muita gratidão. De todos estes +sentimentos se póde dar razão. Mas o amor não é assim. Ninguem sabe +porque ama ou porque não póde amar. Julgo eu. É uma coisa que se sente, +mas que se não explica. Pois não concorda? E agora peço-lhe que me não +acompanhe mais longe. Repare que a tempestade está para breve. Espero, +snr. Mauricio, que será sempre nosso amigo. + +E dizendo isto, estendia-lhe a mão, que Mauricio apertou +silenciosamente. + +E separaram-se, seguindo direcções oppostas. + +Mauricio murmurava: + +--E comtudo creio que me amas. Não é essa frieza que me ha de illudir. + +Pela sua parte, pensava Bertha: + +--D'aqui não vem perigo para o meu coração. Acabei de convencer-me +agora. Basta vêr a tranquillidade que sinto. Assim podésse dizer o mesmo +do outro. + +Mas a Casa Mourisca continuava a attrahil-a. De noite á claridade vaga +do luar, ás tardes quando os ultimos e desmaiados raios do sol lhe +tremiam na fachada ennegrecida, de madrugada, no meio das neblinas do +rio, que phantasticamente o envolviam, a todo o momento emfim, as +encantadas memorias da infancia de Bertha adejavam sobre o deserto +solar, e as saudades, evocadas por ella, como que se lhe levantavam do +coração a encontral-as. + +Ás mesmas horas da tarde, repetiu Bertha no dia seguinte ao do seu +encontro com Mauricio, a tentativa para visitar o solitario palacio. +D'esta vez passou além da ponte, subiu a ladeira da collina opposta, e +chegou a tocar com a mão na porta da quinta. Faltou-lhe porém ainda a +resolução para a abrir e entrar. Apoderou-se d'ella uma especie de pavor +sagrado no momento de penetrar alli. Parecia imporem-lhe respeito +aquellas arvores seculares, aquellas heras vigorosas que forravam os +muros da quinta e o silencio que pairava n'aquella habitação abandonada. +As sombras melancolicas da tarde cresciam, e Bertha retirou-se no fim de +alguns momentos, quasi tomada de entranhado terror. + +No dia seguinte voltou ainda á Casa Mourisca. Armára-se, ao partir, de +maior resolução. Promettêra a si propria não hesitar um só momento ao +abrir a porta, para não dar tempo a possuir-se da mesma fraqueza. + +Assim fez; ao chegar á porta pequena da quinta, introduziu resolutamente +a chave e abriu-a. Estava emfim dentro dos muros da Casa Mourisca. +Cobria-a o denso tolde de ramos entrelaçados dos carvalhos, dos freixos +e dos cedros, estalavam-lhe sob os pés as folhas crestadas, de que os +ventos do outomno haviam alastrado o chão; prendiam-se-lhe aos vestidos +as silvas espinhosas, que cresciam á vontade de mistura com os fetos e +as ortigas; á sua chegada houve um subito rumor de aves esvoaçando +surprendidas, e de reptís escondendo-se por entre a folhagem sêca do +chão. O bosque tinha um aspecto de braveza selvagem, adquirida durante +longos annos de independencia de cultura. Era esplendida a anarchia +d'aquella vegetação. + +Bertha parou affectada de inexplicavel susto. + +Tudo recahiu em silencio; apenas se ouvia um leve ramalhar das arvores, +denunciando a passagem d'uma briza ligeira, a quéda de algum ramo sêco +desprendendo-se da arvore, o pio timido de algum passaro escondido, e, +um pouco mais distante, o rumor monotono e confuso das fontes e +cascatas. + +Dissipadas as primeiras impressões, o sagrado terror que infunde no +espirito o aspecto de um bosque secular áquella adiantada hora da tarde, +Bertha aventurou alguns passos e pôde percorrer os sitios da quinta que +lhe eram mais conhecidos. + +Quem póde referir as saudades que lhe pullulavam do coração, ao voltar, +depois de tantos annos decorridos, áquelles logares saudosos? + +Quem não tenha ainda experimentado na vida sensações d'aquellas, nunca +chorou as mais sentidas e ao mesmo tempo as mais consoladoras lagrimas +que os olhos podem verter. + +Voltar com os pensamentos da juventude ou da virilidade, com a +experiencia adquirida no tracto do mundo, com a memoria dos dolorosos +embates soffridos no meio das luctas da vida, e a impressão das paixões +gravada fundo na alma; voltar assim ao logar dos nossos jogos de +infancia, dos nossos risos e chóros pueris, uns e outros tão sem razão +nem vestigios, olharmo-nos outra vez, depois de longa ausencia, em +frente dos objectos que nos assistiram aos brinquedos, e que parece +saudarem-nos ainda como se nos vissem crianças, sentirmos em um momento +dissipar-se-nos da memoria todos os tempos intermedios e como que +resuscitarem as ideias, os gestos, os pensamentos d'aquella época, como +se apenas tivessem adormecido para acordarem mais vivos, é uma das mais +violentas e ao mesmo tempo mais gratas commocões que póde experimentar +uma alma humana; e a que não ceder e se não abrandar sob essa influencia +é uma alma perdida para os affectos e para a regeneração. + +Poderia a de Bertha estar n'este caso, a d'ella, alma sensivel e +amoravel, para a qual o passado era objecto de um fervoroso culto? +Poderia olhar sem lagrimas para aquelles logares onde lia como que +pagina por pagina a sua vida de então? + +Chorou, chorou sentada no banco musgoso, junto de uma fonte, onde ella e +Beatriz tantas vezes vinham sentar-se, e onde Jorge e Mauricio corriam a +ter com ellas, logo que terminavam as suas horas de estudo. + +Era tarde quando voltou a si o pensamento d'aquella digressão pelo +passado. Não tinha já tempo d'esta vez de visitar a Casa Mourisca. +Procurou de novo a porta da quinta, por onde entrára, e sahiu com +saudades d'aquelles logares. + +No momento em que Bertha se afastava, dois caçadores, que desciam una +pinhal visinho, d'onde se descobria a entrada da Casa Mourisca, +viram-n'a e reconheceram-n'a. + +--Ó Chico, olha lá, aquella não é a Bertha do Thomé?--disse um d'elles +para o outro. + +--Nem póde ser outra coisa. + +--Só! a estas horas... e próximo da Casa Mourisca! Que quer dizer isto? + +--É que vem de lá. + +--Mas... a casa não está vazia? + +--Tanto melhor. Se lá estivesse o velho, a coisa mudava de figura. + +--Mas, falla serio, ó Chico, que conjecturas tu de toda esta historia? + +--Que ou o Mauricio ou o Jorge fazem tambem as suas visitas á capoeira. + +--O Mauricio foi hoje para a caçada dos Monteiros do Rio-baixo, e o +Jorge, segundo ouvi dizer, está no Porto. + +--_Quod probandum_--redarguiu o outro, recorrendo ás suas reminiscencias +escolasticas; e, como se receiasse que o companheiro o não +comprehendesse, traduziu: + +--Isso é o que resta provar. + +--Foi o mesmo Mauricio que o disse. + +--E tu a dares muita importancia ao que diz o Mauricio! Então não sabes +que se o Jorge lhe disser que está Papa, o toleirão é capaz de lhe +beijar o pé? + +--Mas lá em casa, pelos modos, todos o fazem no Porto. + +--Pois ahi é que está a finura. E se elle, pilhando fóra do ninho a +rapoza velha, se veio alli estabelecer muito á sua vontade? + +--Se eu o acreditasse.... + +--Que farias? + +--Era bem feito dar-lhe uma assaltada. + +--Já me lembrou isso, mas é melhor outra coisa. Vigiamos isto a vêr +quando a pequena cá volta, temos o Mauricio debaixo de mão e trazemol-o +então comnosco. O caso deve ser interessante! + +--Apoiado! + +--Emquanto a mim, ninguem me tira de que aquelle velhaco do Jorge anda a +comer-nos a todos com os seus ares de sancto. Vou ainda jurar que as +taes visitas a casa do Thomé levavam agua no bico. Se agora o +pilhavamos! + +--Era soberbo! Mas o Mauricio anda esquisito comnosco, depois da +historia do jantar. + +--Deixa que eu o amansarei; era bom que elle estivesse um pouco _picado_ +n'esse dia; tudo se arranja, deixa estar. + +E os dois caçadores seguiram, combinando e commentando o plano que +tinham traçado. + +O leitor, que já os conheceu pelos primos do Cruzeiro, fica sabendo que +estes esperançosos jovens proseguiam nos seus habitos de vida fidalga, +em cata e preparação de escandalos, e cada vez mais implacaveis contra +Jorge, cuja desdenhosa frieza para com elles ha muito tempo os irritava, +antes mesmo que o acontecimento do dia do jantar viesse augmentar essa +irritação. + + + + +XXII + + +A impaciencia de D. Luiz tocára o extremo. Em vão procurava apparentar +resignação e conformidade á sua nova vida nos Bacellos. Os laços que o +prendiam ás velhas paredes da Casa Mourisca eram mais fortes do que +julgára, ao separar-se d'ellas. Estava-o sentindo pelo mal-estar que +experimentava agora. + +Todos os objectos da antiga residencia, que tão precipitadamente +abandonára, pareciam occupar um logar no seu coração; e o vasio em que o +deixaram era terrivel para uma velhice já sem esperanças. + +A corrente d'aquella vida, ainda que turvada pelas paixões, seguia desde +muitos annos regular e silenciosa pelo alveo e margens invariaveis. De +repente, porém, como succede ás aguas de subito constrangidas a mudar de +leito, perdeu a serenidade melancolica, a calmante monotonia, tão +salutar a um espirito atribulado; e atravez de novas perspectivas e de +novas scenas precipitava-se inquieta e turva. + +Recrudesceram violentamente as torturas d'aquella alma exagitada, como +despertam as dôres d'um membro enfermo ao arrancar-se da quietação e +repouso em que adormeceram. + +Em certa idade as diversões não distrahem, affligem. Vive-se do passado, +e para que o pensamento o retracte, é mister que o remanso lhe dê a +limpidez do lago tranquillo. + +Só o orgulho e o pundonor de fidalgo é que impediam D. Luiz de voltar de +novo aos lares abandonados. + +Esta disposição de espirito era insustentavel. + +Uma manhã viram-n'o, mais nervoso de que nunca, medir a passos largos o +comprimento da maior sala do solar dos Bacellos, parando ás vezes junto +das janellas a olhar abstracto, atravez dos caixilhos das vidraças, para +as franças das arvores mais distantes que d'alli se descobriam, entre as +quaes avultavam as do parque da Casa Mourisca. De subito interrompeu uma +d'estas mudas contemplações, manifestando que lhe apparelhassem o +cavallo para de tarde. + +O procurador, a quem fôra dada a ordem, perguntou timidamente se s. +exc.ª sahia a cavallo. + +Com o sêco laconismo de que, havia certo tempo, usava nas respostas ao +padre, o fidalgo limitou-se a dizer: + +--Parece que sim. + +O padre tocou a campainha a chamar por um criado, a quem transmittiu a +ordem recebida, acrescentando a de que fosse avisado o escudeiro para +acompanhar s. exc.ª. + +D. Luiz acudiu com vivacidade: + +--Quem lhe disse isso? Eu não preciso de acompanhamento. Que me tenham +apparelhado o cavallo para de tarde. + +--Então v. exc.ª sahe só?!--perguntou o padre, em quem esta quebra de +pragmatica causava grande confusão. + +--Vou--respondeu D. Luiz, continuando o seu passeio na sala. + +O padre sahiu d'alli estupefacto para a cozinha, onde foi assistir á +ultima demão de uma empada, e n'esse exame conseguiu felizmente +desvanecer a violencia da impressão, que a ordem do fidalgo lhe havia +produzido. + +Effectivamente, pouco depois do jantar, ao qual Mauricio não assistira, +D. Luiz montou a cavallo, e cortejando garbosamente a baroneza, que veio +despedir-se d'elle á janella, partiu a meio trote pelos caminhos dos +campos. + +Era um ultimo lampejo da sua elegancia passada. + +Na maneira por que dirigia o eavallo não se notava, porém, a indecisão +propria de quem vae ao acaso. Percebia-se que o fidalgo havia marcado +destino áquelle passeio. + +Tomou por atalhos de montes, evitando o centro da povoação rural, rodeou +quasi toda a freguezia, e, seguindo pelas raias das contiguas e por +desvios ermos de casas e de cultura, por chapadas maninhas e pinhaes, +onde apenas se entrevia a choça do guardador, foi dar ao extremo opposto +da aldeia, nas proximidades da Casa Mourisca. + +E quanto mais perto se achava do abandonado solar, mais crescia o +cuidado que o cavalleiro parecia ter em não ser observado e em dirigir +por veredas pouco frequentadas a sua cautelosa carreira. + +Entrou por fim em uma bouça pertencente á casa, collocada, porém, fóra +dos muros da quinta e separada d'elles por uma especie de valia, que +servia de caminho publico. + +D'alli avistavam-se as arvores, os telhados, as torres, e as mais +elevadas janellas da Casa Mourisca. + +D. Luiz fez parar o eavallo e fixou melancolicamente os olhos no velho +solar onde nascêra e onde apprehendia não poder morrer, como haviam +morrido os seus avós. + +Ia adiantada a tarde, e á luz desmaiada do sol, que declinava, crescia a +tristeza do velho. Os olhos tinham um fulgor que denunciava lagrimas. + +Era solemnemente triste aquelle quadro. A nobre figura do ancião, assim +immovel, extatico, no ermo alpestre de um pinhal, a que os ventos da +tarde arrancavam um gemer monotono e triste, com os olhos fitos nas +ameias do seu palacio acastellado, d'onde as paixões o expulsaram, com o +rosto illuminado pelos tremulos raios do sol, que desenhava +distinctamente o rendilhado da rama dos carvalhos longinquos, atraz dos +quaes se escondia, era uma personificação vigorosa do desalento e da +saudade sob o colorido de desesperança que a velhice lhe dava. + +A immobilidade do cavalleiro contrastava com a impaciencia do fogoso +animal, que escarvava insoffrido o solo, sem que podésse satisfazer a +ancia do movimento que o devorava. De subito o cavalleiro fez um +movimento, como de quem adopta uma resolução, a que por muito tempo +repugnára. + +Pôz-se de novo a caminho, seguindo sempre a direcção do muro da quinta, +e sem abandonar o pinhal. + +Pouco adiante encontrou as ruinas de uma antiga casa de guarda, já quasi +destelhada, e em cujo recinto cresciam á vontade as giestas e as +tojeiras, por entre os montões de telha e de caliça cahida, e onde +encontravam tranquillo abrigo reptís de toda a especie. + +D. Luiz levou para alli o cavallo, que prendeu ao varão oxydado e +torcido de um caixilho de janella, e sahiu outra vez, continuando a +rodear a quinta. + +Havia um logar onde o muro era parte derrubado e facilitava extremamente +o ingresso. Sabiam-n'o bem uns certos rondadores noctivagos, que tantas +vezes por alli effectuavam as suas explorações depredatorias no mal +vigiado terreno da Casa Mourisca. + +Foi por o mesmo caminho d'esses visitadores suspeitos, que o +proprietario d'aquelle nobre solar ahi entrou furtivamente, e córando do +passo a que a violencia de uma entranhada saudade o impellia. + +Dentro em pouco achava-se na quinta. + +Caminhou inteiramente agitado pelas ruas solitarias, atravessou as +devezas, onde áquella hora não penetrava um só raio de sol, e sem +vacillar seguiu na direcção da casa. Ao chegar ao pateo, viu aberta uma +pequena porta por onde habitualmente se fazia o serviço do palacio. + +Occorreu-lhe-só então que poderia estar alguem lá dentro, áquella hora. + +Se se encontrasse alli com Thomé, como conseguiria arrostar com a +vergonha de ser por elle descoberto n'aquella visita furtiva? Ia a +recuar, mas o impulso interior a obrigal-o a progredir era mais forte. +Venceu. Aproximou-se cautelosamente da porta e ficou-se a escutar por +alguns instantes. No interior havia o mais completo silencio. Não se +divisavam vestigios que denunciassem presença de alguem estranho. D. +Luiz deu a medo alguns passos no limiar, subiu os primeiros degraus da +escada, hesitando e escutando a cada passo que dava e a cada degrau que +subia. + +Sempre o mesmo silencio. + +Pensou então o fidalgo que bem poderia ser que na precipitação da sahida +tivesse ficado aberta aquella porta; e animado por esta hypothese +adiantou-se mais resoluto. + +Havia nas largas escadas uma luz froixa e quasi mysteriosa; esta luz e +aquelle silencio eram dos que infundem no animo um sentimento quasi de +pavor. + +N'esses corredores e escadas vazias e obscuras, elle, o senhor e +proprietario do solar, movendo-se, com o receio de ser descoberto! Que +situação a sua! Que humilhadora situação para o seu orgulho! + +As correntes de ar sibillavam melancolicamente ao enfiarem-se pelas +fechaduras das portas e frestas, que deitavam para a escadaria; os +passos do fidalgo tinham sob aquellas abobadas uma resonancia estranha. + +Eram sem numero os objectos que lhe recordavam os amargos momentos da +sua alvoroçada sahida da Casa Mourisca; caixões vazios, sacos, bocêtas, +papeis de empacotar, tudo jazia ainda em confusão nos corredores, como, +na pressa dos preparativos, frei Januario os deixara. Signaes eram estes +que parecia indicarem que desde aquelle dia ainda ninguem entrára na +Casa Mourisca. + +Mais seguro já na persuasão de que não seria surprendido n'esta +clandestina visita, D. Luiz subiu sem o menor receio as escadas que +levavam ao _Sancta Sanctorum_ das suas affeições, á torre onde haviam +sido os aposentos de Beatriz, aonde ella tinha vivido e expirado. Era +esta a peregrinação que emprehendêra aquelle desconfortado velho; para +alli era que as suas intensas saudades o chamavam. Tinha já subido mais +de meio lanço da escadaria, quando subitamente estremeceu, parando a +escutar um mal distincto som que lhe chegára aos ouvidos. Correu-lhe no +rosto uma pallidez mortal e a fronte principiou a cobrir-se-lhe de um +suor, como de agonia. + +A turbação que sentia, foi tão intensa, que teve de apoiar-se á parede +para não cahir. + +Eram os sons longinquos de um instrumento de musica, que partiam do +logar para onde elle se dirigia. Vagos, confusos ainda, mas melodiosos +como de harpa que, pendurada dos ramos dos carvalhos, vibra ao perpassar +das brizas da tarde. + +Na triste solidão d'aquella casa abandonada, á hora mysteriosa do +escurecer do dia, aquelles sons resoando pelos longos corredores e pela +vastidão das salas desertas, tinham de facto não sei quê de +sobrenatural; dir-se-ia musica de fadas em um d'esses paços encantados, +que ergue no meio das florestas a imaginação popular. + +Mas não era sómente o inesperado e a estranheza do facto que feriam de +espanto o senhor da Casa Mourisca. Aquelles sons exerciam sobre elle +outra e superior influencia. + +Conhecia-os; não eram vozes estranhas aos ouvidos do ancião ralado de +saudades, e que se achava alli attrahido por ellas. + +Conhecia-os; em outras épocas tinham já resoado entre aquellas tristes +paredes e sob os altos tectos dos aposentos hoje deshabitados. N'esses +tempos, havia alli dentro corações que pulsavam de sympathia ao +escutal-os. Eram o signal de que o anjo da familia velava; de que a +meiga criança, sobre cuja cabeça se condensavam todos os castos affectos +d'aquella alma de homem, praticava com os anjos, seus irmãos, na +mysteriosa linguagem da musica. + +Aquelles sons... podia elle desconhecêl-os?... eram os da harpa de +Beatriz. + +Mas que mysterio revelavam elles agora? Que magia os faria renascer, +quando, havia tanto, cahira gelada a mão que os desferia? + +As sombras dos mortos teriam vindo povoar a casa abandonada pelos vivos? +A alma querida de Beatriz viera por ventura chorar e lamentar-se da +solidão em que os seus haviam deixado os logares que ainda conservavam +tão vivas as memorias d'ella? + +Quem póde analysar o confuso turbilhão de ideias que atravessou +n'aquelle momento o espirito do fidalgo? + +Piedosas crenças da infancia, superstições que a razão subjugara, +chimericos productos d'um cerebro febril, tudo se levantou em enxame +alvoroçado e revolto a obscurecer a intelligencia do ancião, que tremia +sob um inexplicavel terror. + +--É uma allucinação--pensava elle, esforçando-se por dominar aquella +fraqueza--é uma quasi loucura produzida por esta ideia fixa, que nunca +me abandona. + +E continuava a subir com passos ainda mal seguros as escadas da torre. + +Mas os sons, que elle julgava effeito dos sentidos allucinados, longe de +se desvanecerem, cada vez se ouviam mais distinctos. Sem duvida alguma +partiam dos aposentos de Beatriz. + +Estava terrivelmente pallido o fidalgo. A vista vagueava-lhe com a +mobilidade que produz o delirio. Ha situações na vida em que a razão +mais segura vacilla e sente-se vergar sob a influição das mais +supersticiosas crenças. + +D. Luiz n'aquelle momento acreditava sinceramente na realidade das +apparições. + +A distancia permittia-lhe já distinguir a melodia que executava a harpa. +Tambem lhe era conhecida; era a de uma canção predilecta de Beatriz, uma +musica cheia de recordações para o pobre pae. O presente desapparecia +n'aquelle momento; o passado resurgia com toda a luz, que desde muito se +lhe apagára na carreira da vida. Chegára quasi á porta do quarto d'onde +partiam os sons. Restava entrar... Mas o que o esperava alli? Talvez se +desvanecesse o encanto e a vazia realidade o aguardasse para o punir! + +A razão de D. Luiz não podia formar juízos sobre o que se estava +passando. A mão tremula, que se estendeu para abrir a porta do quarto +mysterioso, pendeu desfalecida, e o velho permanecia immovel no patamar, +subjugado pela força d'aquelle encantamento. + +N'este tempo juntára-se aos sons da harpa a voz de uma mulher; baixinho, +quasi a medo, como a ave a ensaiar o canto ao renascer da estação, +cantava a letra da mesma canção que Beatriz preferia. Era um timbre +juvenil, sonoro, agradavel, o d'aquella voz, e na meia altura a que se +elevava, havia um não sei quê de mystico e sobrenatural, que veio +completar a allucinação do velho. + +--Meu Deus! meu Deus! tende misericordia de mim!--murmurava elle, +passando a mão na fronte pallida.--Se isto é um sonho, deixae-me morrer +a sonhal-o! + +E vergaram-se-lhe os joelhos diante d'aquella porta mysteriosa, e, +soluçando e rebentando-lhe emfim impetuosas as lagrimas dos olhos, cahiu +dizendo em uma desvairada exclamação: + +--Ó minha filha! minha filha! Se és tu que assim me arrebatas d'este +mundo, tem compaixão de teu velho pae, e não partas sem que lhe +appareças um instante que seja! + +Calaram-se de subito os sons da harpa e da voz feminina. E, pouco +depois, a porta abria-se e Bertha apparecia no limiar. + +Ao vêr o fidalgo de joelhos, com a cabeça escondida entre as mãos e +soluçando, a filha de Thomé da Povoa correu para elle commovida: + +--O snr. D. Luiz! O meu padrinho! Ó perdão, perdão!--exclamava ella. + +E o susto que a voz do velho lhe havia causado, ao interromper-lhe +inesperadamente o canto, cedeu o passo á mais sentida afflicção. + +Á voz de Bertha, D. Luiz ergueu a cabeça e fitou a afilhada com um olhar +espantado e interrogador. + +As lagrimas desciam-lhe ainda a duas e duas pelas faces emmagrecidas. + +--Perdão, perdão, meu bom padrinho--proseguia Bertha, tentando +erguêl-o--fiz mal, bem o vejo, bem o sinto agora... mas havia tanto +tempo que eu desejava visitar estes sitios! mas não chore, snr. D. Luiz, +por amor de Deus perdoe-me! + +O fidalgo, quasi ainda alheio ao que se passava, deixou-se erguer e +conduzir por Bertha para dentro do quarto, e sentou-se, sem consciencia +dos seus actos, na cadeira junto da harpa, cujas ultimas notas parecia +ainda vibrarem no espaço. + +A commoção violenta quebrára-lhe as forças. + +Os braços e a fronte pendiam-lhe em um desfallecimento profundo. + +Bertha ajoelhou-se-lhe aos pés, tomando-me as mãos, beijando-as, e +cobrindo-as de lagrimas. + +--Se eu imaginasse que podia causar-lhe esta pena, não teria vindo. Foi +uma loucura minha; agora é que vejo; mas trazia isto na ideia havia +tantos dias!... Só hoje me atrevi a subir aqui... Se soubesse como +chorei ao tornar a vêr este quarto e estes objectos, que todos conhecia. +Todos! Oh não se afflija, snr. D. Luiz, e perdoe-me, perdoe-me por quem +é, perdoe-me por amor d'ella. Fiz mal, bem conheço, mas, como tambem lhe +queria muito... Depois, assim que vi esta harpa... Ó meu Deus, que +saudades! Como me lembrei d'ella, da musica que tantas vezes lhe ouvi, +da canção que ella preferia... Quiz avivar essas recordações e... Mal +sabia eu o que estava fazendo! Como era cruel sem o suspeitar! Quem me +ha de perdoar o mal que lhe fiz? Imagino o que soffreu, o que está +soffrendo ainda... E ser eu quem lhe avivou essas feridas!... Não me +queira mal por isso. Foi a saudade que me trouxe até aqui, a saudade +d'aquelle anjo que eu conheci no mundo. Por amor d'elle lhe peço que me +perdoe a dôr que lhe causei. + +E a voz de Bertha tremia ao fallar assim. D. Luiz não a interrompêra, +porque a agitação era ainda n'elle muito forte para o deixar fallar. + +Poisando porém as mãos na cabeça de Bertha e afastando-lhe os cabellos +da fronte com um gesto de paternal carinho, fitou-a com os olhos ainda +ennevoados de lagrimas e disse-lhe, suspendendo-se a cada palavra, em +lucta com a commoção que o suffocava: + +--De que me pedes perdão, Bertha? D'estas lagrimas? Oh! deixa-as correr, +que ha muito não chóro lagrimas que me dêem um allivio assim. Eu sou que +te digo: Obrigado, Bertha, obrigado, que me fizeste entrever a +felicidade que o céo me póde ainda dar; n'estes curtos instantes da +minha illusão luziram-me uns lampejos de alegria celeste. Tu só podias +resuscitar-me a filha e eu quasi a senti ao ouvir-te, ao escutar essa +abençoada musica e a voz, que julguei que só me chegaria outra vez aos +ouvidos, se um dia me fosse dado escutar a dos anjos no céo. Agradecido, +Bertha. A este meu coração são mais conhecidas as dôres que o despedaçam +e queimam, do que estas que o desafogam em lagrimas. Agradecido, filha. + +E o severo fidalgo da Casa Mourisca, sensibilisado, sem o menor vestigio +da sua habitual rigidez, aproximou dos labios a fronte de Bertha e +beijou-a com a doce affabilidade de um pae. + +Bertha beijava-lhe as mãos, chorando com elle. + +Por muito tempo assim se entenderam mudos aquelle velho e aquella +rapariga, trazidos alli por uma mesma saudade, consagrando lagrimas a +uma mesma recordação. D. Luiz estava cada vez mais fascinado. Nem por a +ideia lhe corria que fosse a filha de Thomé da Povoa, quem tinha na sua +presença, e quem abençoára e beijara. + +Era a companheira de Beatriz, a encarregada pela alma d'aquelle anjo de +conservar no mundo a sua memoria, de avivar as sympathias que ella +inspirára na alma dos que a choravam ainda, e que a choral-a morreriam. + +As mãos de Bertha não tinham profanado a harpa de Beatriz, tocando-a; +nem ultrajára a sua memoria a voz que cantava a ballada favorita da +infeliz menina. + +D. Luiz cedia á influencia d'aquelle brando caracter feminino, e adorava +em Bertha a imagem da filha que perdêra. + +Ambos se esqueciam do presente, fallando d'ella. D. Luiz mostrou a +Bertha todos os objectos, que haviam pertencido á filha e que elle alli +conservava ainda como reliquias sagradas. + +A poucos olhos os revelaria assim, como fazia aos de Bertha. Mas a quem +conservava tão bem a memoria de Beatriz não era sacrilegio o +devassal-os. + +--Ai, Bertha, Bertha, para que me quiz mostrar Deus aquella alma na +vida, se havia assim de roubar-m'a?--exclamava D. Luiz no decurso d'este +melancolico exame. + +--Para lhe dar um anjo que o veja do céo e vele pelo destino d'esta +familia, que ella tanto estremecia na terra. + +--O destino d'esta familia!--repetiu o fidalgo, assombrando-se-lhe o +semblante.--Triste destino! + +--Confio nas orações d'aquelle anjo. + +--Quando uma familia cumpre no mundo uma dolorosa expiação, nem as +orações dos anjos podem allivial-a d'ella. Deus afastou do mundo a +innocente e fraca, para me deixar só a mim o pêso do meu infortunio e o +das longas culpas dos nossos. Elle bem sabia que emquanto a tivesse ao +meu lado para arrimo, nem sentiria o castigo. Aceito a sentença de Deus, +procurarei cumpril-a com firmeza, e oxalá que meus filhos, recebendo o +sinistro legado, não desfalleçam como covardes. + +--Não pense n'essas coisas, meu padrinho. Tenho fé que ainda voltarão +dias felizes para esta casa. + +--Sim; quando a comprar em hasta publica qualquer proprietario +endinheirado, que faça depois resoar por estas salas os sons dos bailes +e dos festins. A casa verá então dias alegres, verá. E quem se lembrará +dos velhos senhores d'ella, cujos descendentes talvez aceitem um logar +de conviva á mesa do novo proprietario? Porque vamos para uma época de +faceis condescendencias. + +Bertha calou-se, baixando os olhos, porque pressentia perigos na +direcção que levava a conversa. + +D. Luiz tinha delicadeza para comprehender a discrição de Bertha, e +mudando de tom, continuou: + +--Mas perdoa-me, Bertha, estas ideias tristes da velhice não são para a +tua idade. É uma crueldade da minha parte não guardar para mim estes +pensamentos. + +--Se eu podésse desvanecel-os! + +O fidalgo limitou-se a fazer um gesto de negação. + +N'este momento ouviu-se nas escadas um rumor de passos e de vozes, que a +ambos fez estremecer. + +--É teu pae, Bertha?--perguntou D. Luiz, erguendo-se e olhando em redor +com inquietação. + +--Meu pae não está na terra. Ha tres dias que partiu e não o esperamos +ainda hoje--respondeu Bertha, sobresaltada tambem. + +Calaram-se como para melhor escutarem o rumor que parecia já mais +proximo. + +Ouviu-se uma voz dizer: + +--Vejamos comtudo d'este lado; a torre póde muito bem servir para +pombal. + +D. Luiz estremeceu ao som d'aquella voz. + +Outra respondeu em tom mais baixo: + +--Parece-me que entrevejo uma porta aberta. De vagar, de vagar. + +--Animo, Mauricio; olha se deixas perder as vantagens da tua bella +posição. + +--Mauricio!--exclamaram ao mesmo tempo D. Luiz e Bertha, e uma intensa +pallidez cobriu o rosto d'esta. + +D. Luiz desviou para ella um olhar, em que havia um fulgor de +desconfiança. + +--Ouviste? + +Bertha fez-lhe signal affirmativo. + +--Sabes o que significa isto? + +--Não--respondeu Bertha com firmeza, levantando a vista para o fidalgo +que a observava. + +Na firmeza e limpidez d'aquelles meigos olhos, que não fugiam dos seus, +elle conheceu a verdade da resposta. + +--Não, juro-lhe que não--repetiu Bertha com energia. + +--Bem--tornou o velho, carregando o sobrolho e apertando a mão de Bertha +em signal de protecção--esperemos então. + +Os que subiam estavam já na proximidade da porta. + +D. Luiz recuou alguns passos e ficou occulto pelo cortinado do leito da +filha; Bertha permaneceu immovel com a mão apoiada á harpa. + +Depois de alguns instantes de demora, a porta moveu-se vagarosamente +sobre os gonzos, e no vão deixou apparecer a figura de Mauricio, e mais +atraz, meio encobertos pelas sombras do corredor, os dois malignos +semblantes dos manos do Cruzeiro. + +Mauricio trazia o olhar desvairado e certa desordem de feições +denunciadoras da orgia, com que os primos traiçoeiramente o tinham +preparado para o escandalo que meditavam. + +Ao reparar em Bertha, Mauricio fitou-a com uma expressão de quasi cynica +ironia. + +--Boas tardes, Bertha--disse elle, curvando-se com gesto de +escarneo--não sei se a minha presença interrompeu alguma doce meditação, +que esta luz amortecida da tarde lhe estivesse inspirando. Mas tão longe +estava de esperar encontral-a aqui! + +Bertha tremia e baixava os olhos sem atinar o que dissesse. A +consciencia de que o fidalgo estava escutando Mauricio não era o menor +motivo para a sua confusão. Se se achasse só encontraria coragem para +arrostar com o insulto. No olhar, nas palavras, no gesto de Mauricio +percebêra o desarranjo de razão em que elle estava. Temia pois mais por +elle do que por si. + +Mauricio proseguiu: + +--Julgavamos encontrar outra pessoa n'esta velha casa abandonada, porque +vimos um cavallo guardado furtivamente, ahi perto, em uns pardieiros +arruinados. Isto indicava a presença do cavalleiro. Saber-me-ha dar +noticias d'elle, Bertha? + +Bertha não respondeu. + +--Então não falla! Parece perturbada. É inexplicavel a sua confusão +diante de mim, Bertha. Conhecidos ha tanto tempo! companheiros de +infancia!... Não se lembra de que brincamos n'esta sala eu, minha irmã, +Bertha e... e Jorge? + +Um dos primos tossiu ao ouvir o ultimo nome. + +Mauricio voltou-se: + +--Que é? Que reflexões vos despertou este nome? Parece que tambem Bertha +não o ouve a sangue frio. + +Bertha tremia cada vez mais. + +--Aqui ha um mysterio. Bertha está dominada por alguma influencia má. +Desconheço-a. Dar-se-ha que o mau espirito se occulte de nós, tres bons +rapazes inoffensivos, que respeitam todas as entrevistas secretas, todas +as doces affeições da alma, e que só querem que se seja franco e leal +com elles nas palavras e nas obras, e se ponha de parte a falsa +moralidade dos hypocritas? + +Depois, deixando o tom de sarcasmo pelo da vehemencia, bradou: + +--Se alguém me ouve e ainda tem uns restos de brio e de vergonha, que se +não esconda, que appareça. É tempo de acabar a comedia. Appareça, ou eu +prometto tentar a sua covardia, obrigando-o pela honra a acudir á mulher +que furtivamente corteja, se a quizer livrar do galanteio que ella +desdenhosamente rejeita. + +Estavam mal acabadas estas palavras e D. Luiz achava-se já em frente do +filho, fitando-o em silencio e com um olhar de severa e expressa +interrogação. + +Mauricio recuou, como se aquella apparição o ferisse em pleno peito. Os +do Cruzeiro envolveram-se a mais e mais nas sombras dos corredores. + +Seguiram-se alguns momentos de silencio; D. Luiz foi o primeiro a +interrompêl-o. + +--Aqui estou prompto para responder ao interrogatorio de meu filho e +d'esses senhores que se escondem... por modestia na sombra do corredor. +Interroguem. + +--Meu pae...--balbuciou Maurício, baixando os olhos. + +--Então deu n'isso a bravata da atrevida provocação que me fez +apparecer? E os senhores não serão mais ousados? Muito bem; se é a +consciencia que os abaixa ao logar de reus, eu tomo o meu logar de juiz. +Que significa toda esta scena de orgia? Que infamia, que vileza os fez +subir estas escadas e empurrar aquella porta? Julguei perceber que se +tractava de insultar uma senhora. Boa diversão para fidalgos! + +E voltando-se para Mauricio, proseguiu: + +--D'antes aquelles que traziam o nome de que usas, baixavam cortezmente +os olhos diante das damas e erguiam-n'os para cruzar a vista de homem, +quem quer que elle fosse, que procurasse a sua. Tu hoje deshonras esse +nome, fazendo o contrario. És insultante e provocador com a fraqueza, e +baixas a vista ignobilmente sob o peso da tua covardia. Envergonho-me de +te ter por filho. + +--Senhor! + +--Basta. Não quero augmentar a minha vergonha, devassando o intimo das +tuas intenções vindo aqui, em companhia dos teus camaradas das devassas +orgias. Bertha, bem vê. Quando movida por um sentimento generoso, subiu +os degraus d'estas escadas no intento de se entreter com a alma de +Beatriz, que melhor do que ninguem conheceu, confiava de mais na boa fé +dos outros, julgando-a pela sua. Devia lembrar-se de que n'esta casa em +ruinas, d'onde voou para o céo aquelle anjo, crearam-se os hospedes das +ruinas, os reptis e as viboras, que se arrastam até aqui para a ferirem +com o insulto e com a calumnia, aqui mesmo, n'este logar que devia ser +sagrado para meus filhos, se a fatal influencia que pesa sobre esta +familia não tivesse já apagado n'elles todos os instinctos de dignidade +e de nobreza. Deus, porém, trouxe-me aqui para protegêl-a do insulto e +espero que apesar de tremulo, ainda o meu braço lhe servirá de seguro +apoio. Talvez que a depravação n'estes homens perdidos não tenha chegado +ainda ao ponto de ousarem ameaçar-me; uns restos de respeito filial lhe +servirão de salvaguarda. + +E D. Luiz, dando o braço a Bertha, que machinalmente lhe obedecia, sahiu +do aposento com a cabeça erguida e o gesto severo. + +Mauricio e os primos do Cruzeiro afastaram-se timidamente para os deixar +passar. + +Mauricio deixou-se cahir em uma cadeira e escondeu o rosto entre as +mãos, exclamando: + +--Eu sou um miseravel! + +Os primos olharam-se com o gesto comico de dois collegiaes encontrados +em flagrante delicto de insubordinação. + + + + +XXIII + + +No dia seguinte pela manhã, D. Luiz mandou pedir á baroneza authorisação +para fazer-lhe uma visita, reclamada por motivos urgentes. + +Gabriella respondeu que o ficava aguardando com impaciencia. + +E não foi por mero comprimento que o disse; os negocios d'aquella +familia achavam-se em um estado tal, que era de esperar de momento para +momento uma crise importante, e o menor successo podia provocal-a. + +Gabriella sabia-o e aguardava-a. + +Meia hora depois entrou D. Luiz sombrio e grave no gabinete da sobrinha. + +Esta acolheu-o com a maior deferencia, procurando lêr-lhe no semblante o +pensamento que o trouxera alli, mas empregando no exame toda a +dissimulação. + +--Para que se incommodou, tio Luiz? Se quizesse ter a bondade de esperar +eu iria receber as suas ordens. + +--Ergui-me cedo. E ergui-me sem ter dormido. Por isso fui tão matinal. + +--Meu Deus! achou-se então incommodado? + +--De espirito, muito; muito. + +E D. Luiz passou a mão pela fronte, suspirando. + +--E posso proporcionar-lhe algum allivio, meu tio?--perguntou Gabriella, +conduzindo-o para um sofá, onde se sentou ao lado d'elle, olhando-o com +ar de interrogação e de interesse. + +--Gabriella, a sorte de minha familia está jogada. É uma família +perdida--rompeu vehementemente o fidalgo. + +--Não diga isso, tio Luiz. + +--Digo-o e sinto-o--continuou elle mais exaltado.--Quando uma casa como +a nossa, que não póde já conservar o antigo esplendor e o estado que em +melhores tempos sustentou, não sabe de mais a mais manter o prestigio +que teve por as praticas tradicionaes de nobreza, por acções de +fidalguia, emfim por estes actos de superioridade que fazem dobrar a +cabeça aos mais insolentes e intimidar a vista dos invejosos, quando uma +casa chegue a um tal estado de decadencia, nenhum apoio solido tem a +sustental-a e em pouco tempo cahirá em ruina total. A minha está +perdida! + +--Seus filhos... + +D. Luiz estremeceu de irritação a estas palavras. + +--Meus filhos! Que me quer dizer d'elles? D'elles me queixo eu. Jorge +fez-me córar pela pouca dignidade dos seus sentimentos; Mauricio pela +vileza dos seus actos. + +--Mauricio?! Sancto Deus! Pois que succedeu mais? + +D. Luiz, ainda tremulo de indignação, contou á baroneza a scena da +vespera. A cólera do velho contra o filho era violenta e contrastava com +a brandura e quasi respeito que o dominava ao fallar de Bertha. + +A baroneza ia notando estes phenomenos todos. + +Assim que D. Luiz concluiu, Gabrieila, encolhendo os hombros, formulou a +emenda: + +--Loucuras de rapaz. + +--Loucuras! Loucuras de rapaz! Que diz, Gabrieila? Nem tudo se póde +permittir ou desculpar ao verdor dos annos. E quando nas acções de um +rapaz se nota, já não apenas o estouvamento e a inconsideração que é +propria dos annos, mas os signaes de uma profunda depravação moral, esse +rapaz, aos vinte annos, tem já a alma corrompida. + +--Mas o que vê mais do que estouvamento nos actos de Mauricio? + +--Que ia elle fazer embriagado, e na companhia de devassos, á Casa +Mourisca? + +--Saiba então, meu tio, que o primo Mauricio tem o fraco de se julgar +apaixonado por todas as raparigas bonitas que vê. É o seu defeito. +Portanto julga-se tambem apaixonado por Bertha, que me dizem ser gentil. +Parece porém que não tem sido feliz por esse lado. D'ahi os seus +desafogos. Depois os planos de Jorge, mal interpretados, e as malevolas +instigações d'aquellas sanctas creaturas dos nossos primos do Cruzeiro +fizeram-lhe já por mais de uma vez vêr no irmão innocente um rival +preferido, e ahi está. Acrescentando a isto a influencia do estado +anormal em que diz que elle hontem se achava, tudo se explica. Loucuras +de uma cabeça estouvada; que por o coração fico eu. + +--Perde-se, perde-se--insistia D. Luiz.--Não respeitar os sentimentos +mais puros! nem pelo menos lhe merecer respeito aquella pobre rapariga, +que tem as mais sanctas tradições de nossa familia a protegêl-a! Nem +ella! É uma infamia! + +--Sabe o que tudo isto está pedindo, meu tio? + +--O que é? + +--É que se tire Mauricio d'aqui. Esta ociosidade perde-o. Este viver +apertado no pequeno circulo da aldeia ha de acabar por suffocar n'elle +as melhores aptidões e desenvolver-lhe as más. Creia. O tio deve vencer +os seus escrupulos em deixar Mauricio partir. + +--Lembrei-me já d'isso. E n'esse intuito a procurei. Mas pense bem, +Gabriella. Engolfal-o na grande sociedade, onde os vicios e as tentações +se conspiram para embriagar e seduzir a juventude, e elle em quem +germinam já tão maus instinctos... + +--Tem dotes de alma que lá se desenvolverão e neutralisarão os vicios e +as tentações. + +D. Luiz curvou a cabeça pensativo. Os seus preconceitos politicos eram +muito vivazes, não cediam sem resistencia. + +--Para que me deu o Senhor filhos!--exclamou elle, revoltando-se contra +a sua perplexidade, e acrescentou: + +--Mas a final que carreira póde elle seguir? + +--Não fixemos d'antemão planos. Em geral os acontecimentos +annullam-n'os. Decida-se a partida. Eu o recommendarei de maneira que +elle proprio possa dentro em pouco escolher a carreira que lhe convenha. + +--Mas, se tiver de ceder... + +--Meu tio, permitta-me uma reflexão. Se quizermos prevenir todos os +fortuitos inconvenientes de uma resolução qualquer, antes de a tomarmos, +nehuma abraçaremos. Deixemos as objecções e os reparos para o momento +apropriado. Quer que Mauricio parta? + +--Se elle ha de perturbar a paz d'essa família e obrigar-me mais uma vez +a humilhar-me diante d'ella... Porque meus filhos teem tido a rara +habilidade de deixar a humilhação por o unico expediente ao meu +pundonor! Collocaram a razão e a justiça da parte dos meus inimigos, +forçoso era, para poder ter a cabeça erguida, curval-a primeiro e +implorar perdão. + +Gabrieila fingiu não attender á primeira parte das reflexões do tio. + +--Muito bem. Vou fallar ao Mauricio. Tudo se ha de decidir em pouco +tempo. Tenha fé em que se não perde uma familia, cujos futuros +representantes teem, um o caracter honrado e a razão clara de Jorge, +outro os bons instinctos e as brilhantes qualidades de Mauricio. Pelo +contrario, creio que ella está destinada a dar um salutar exemplo +áquelles, cuja estrella tambem declina, ensinando-lhes a unica maneira +de continuar, nos tempos que correm, as nobres tradições dos seus +antepassados. + +--E qual é essa maneira unica?--interrogou o fidalgo, quasi ironico, +como se já esperasse a resposta. + +--Entrar nobremente no caminho da actividade e do trabalho; +distinguir-se ahi, como se distinguiram outr'ora nas guerras de Africa e +nas navegações os que tinham o mesmo nome para ennobrecer. Ser ocioso, +por não poder ser guerreiro, é fraco titulo para a veneração dos +contemporaneos. Cada seculo tem a sua tarefa, meu tio; a de hoje não se +cumpre ás lançadas, nem ás cutiladas. O bom senso do tio Luiz ha de +dar-me razão. Sabe além d'isso muito bem o que se faz lá por fóra, o que +se faz na Inglaterra, por exemplo, onde tambem ha nobreza e orgulhos +nobiliarchicos, como por cá, e mais talvez ainda. + +--Bem vê que não desprezei a educação de meus filhos, nem impedi que +Jorge trabalhasse, quando me pediu para o fazer. Pelo contrario, n'esse +dia julguei receber uma lição d'aquella criança, e cheguei a córar dos +meus setenta annos de incuria e de ociosidade. A minha velhice achou-se +menos veneranda do que aquella juventude. Mas repare, Gabriella, que +disse: entrar _nobremente_ no caminho do trabalho. E nobremente não é +andar a estender a mão á esmola dos antigos servos da nossa casa. + +--Não houve esmola. Foi um honrado contracto aquelle, feito entre dois +homens igualmente honrados. Se faltaram n'elle todas as seguranças do +costume, tanto melhor; foi porque ambos se conheciam e confiavam um no +outro. As garantias mais poderosas são a final essas. Contractos d'estes +só se dão entre homens de bem. Olhe, tio Luiz, longe de mim discutir +agora o proceder de Jorge; mas, se quer que lhe diga, tenho a intima +convicção de que ahi dentro, bem no fundo da sua consciencia, não se +conserva já grande resentirnento contra seu filho mais velho. Ha +forçosamente uma voz interior que lhe clama que Jorge é um nobre e +generoso caracter. + +--Não disse ainda que Jorge fosse vil e infame. Mas diz bem, Gabriella, +não discutamos agora isto. Peço-lhe então que decida Mauricio a sahir +para evitar novas imprudencias e indignidades; não tanto por nós, como +por essa boa rapariga, que é digna devéras de toda a sympathia. Que +parta e que não me appareça. + +E D. Luiz sahiu do quarto, repetindo esta ultima recommendação. + +A baroneza ficou pensando: + +--Decididamente é preciso pôr Mauricio d'aqui para fóra. Este caracter +em uma cidade grande é uma coisa insignificante; a agitação que causa +perdia-se na grande agitação d'aquelle mundo. Aqui é um terrível +elemento de desordem e talvez de sérias catastrophes. Agora quem me +agrada mais e muito mais é o tio Luiz. Sim, senhores. Acho-o menos +bravo, apesar dos seus furores. Como elle fallava da filha do Thomé! Do +Thomé, que é a final a pedra de escandalo d'isto tudo! Quem o domaria a +este ponto? A rapariga, ao que parece, tem condão para se insinuar. O +tio Luiz tem um grande fraco por ella, conhece-se. Já o que o padre me +contou de quando foi a historia de entrega das chaves, e agora esta +entrevista... Preciso de conhecer Bertha; está dito. É uma influencia +que é bom cultivar. Digam o que quizerem; não ha nada melhor para +amansar um velho bravio como este. É vêr a falta que fez aquella pobre +Beatriz. Ao pé de um velho quer-se sempre uma rapariga para não os +deixar azedar e tomar estes ares selvagens e opiniões avinagradas, que o +tio Luiz já ia adquirindo. Nada; o padre procurador o mais distante +d'elle possivel, que prégue a outros os seus soporiferos sermões sobre o +direito divino e sobre a corrupção da época; no logar d'elle colloquemos +Bertha, e quero saber se o leão não ha de amansar. Agora vamos lá vêr +Mauricio. Para fallar a verdade, ainda não sei bem o que se ha de fazer +d'elle; mas em todo o caso, mandemol-o para Lisboa, porque nos está +causando muito embaraço aqui. + +E Gabriella dirigiu-se para a sala do almoço, onde Mauricio todas as +manhãs a precedia. + +Encontrou-o na varanda, que deitava para uma ribanceira, como absorvido +na contemplação do abundante jorro de agua que d'alli se despenhava por +entre fetos vigorosos, cuja rama encobria o fundo do precipicio. Os +raios do sol da manhã irisavam a humida poeira, que a a agua, ao +quebrar-se, levantava do abysmo. + +Gabriella aproximou-se de Mauricio sem ser percebida, e depois de o +observar alguns momentos, poisou-lhe a mão no hombro. + +Mauricio voltou-se quasi sobresaltado. Ao vêr a prima sorriu. + +--Não a senti chegar. + +--Isso vi eu. Que profunda meditação era essa? Queira Deus que não +estivesses sentindo a attracção do abysmo. Dizem-me que é irresistivel; +sobre tudo para certas organisações. + +--Não, os abysmos physicos não são os que me attrahem. + +--O que é o mesmo que dizer que os moraes alguma attracção exercem sobre +ti. + +--Estou quasi a persuadir-me disso. + +--De quê? + +--De que me impelle uma força irresistivel por um caminho, no fim do +qual a minha quéda é inevitavel. + +--É um presentimento tragico. + +--É uma opinião dictada pela experiencia. + +--Experiencia! Essa palavra na tua bôca, Mauricio! O eterno mote dos +velhos, glosado por um rapaz de dezoito annos, e estouvado como todos +sabemos!... + +--E porque não ha de ser esse mesmo estouvamento o que me perde? Os +estouvados são os homens que não teem na razão força bastante para +conterem os impulsos das paixões, e que por isso obedecem a estas, sem +que os façam parar os preconceitos do mundo e os conselhos dos juizos +frios. + +--Se me faz favor, esses são os apaixonados. Os estouvados não chegam +nunca a ir muito longe sob o impulso de uma paixão, porque mudam de +soberana a cada momento, d'onde resulta um mover indeciso, um fluctuar +sem rumo, um jogar entre ventos encontrados, que não lhes permitte +vencer longo caminho. + +--N'esse caso rejeito o epitheto de estouvado. + +--Achas então que ha já o governo constituido e definitivo no teu +coração? + +--Estou convencido de que se fixou o meu destino. + +--Pelo lado do amor? + +--Sim; pelo lado do amor. + +--A noticia contraria grandemente os meus planos. + +--Os seus planos? + +--Sim; não sabes o que me trouxe aqui? Vim para declarar-te que o tio +Luiz exige terminantemente que o Mauricio parta quanto antes para +Lisboa, por se ter a final convencido de que, apesar de todos os perigos +da vida da capital, é esse um passo preferivel a deixal-o permanecer +aqui, no seio da ociosidade que, como sabes, é a mãe dos vicios todos. + +--N'esse caso principia hoje a lucta. Eu declaro que não parto. + +--Devéras? + +--Devéras. A minha sorte está decidida, prima. E qualquer que seja o +resultado d'esta resolução... + +--Mas, vamos a saber, primo Mauricio, e Bertha?... (porque me parece que +se tracta de Bertha) e Bertha corresponde-te? + +--Creio que sim. Por timidez procura fugir-me, ou por desconfiança +talvez. Por isso mesmo hei de provar-lhe que sou sincero, e que atravez +de todos os preconceitos... + +--Está a tentar-te o papel de Romeu, é o que estou vendo. Desconfio da +sinceridade d'essa exaltação. + +--Pois verá. + +--Ora ponhamos as coisas no seu logar. Não principies tu a phantasiar +escaramuças de Montechi e Capuletti, que provavelmente não terão logar, +com grande damno das feições romanticas do caso. A coisa ha de passar-se +mais prosaicamente, como hoje se passa tudo. O primo Mauricio, depois de +uns arrufos do tio Luiz, havia de, mais anno menos anno, vêr sanccionado +por elle o seu casamento. Muito bem. Ahi o tinhamos patriarcha rural, +burguezamente installado na lareira da Herdade, com os filhos a +treparem-lhe aos joelhos, e conversando em sancta paz com o papá Thomé e +com a mamá Luiza, ouvindo o estalar das pinhas, e abrindo a bôca de +somno, quando a ceia se demorasse alguns minutos além das nove horas. +Por este mesmo tempo, outros rapazes da sua idade, e talvez com menos +aptidão do que elle, caminhariam por entre os fulgores da moda, da +elegancia e da gloria, conhecidos e apreciados nos circulos onde radia a +intelligencia e onde as brilhantes qualidades do espirito encontram +sempre em que se exercerem. Não chegariam a este solitario Mauricio ás +vezes umas invejasinhas d'esses taes, mesmo ao suave calor da fogueira +patriarchal? + +--E quem me impediria de os seguir tambem?--disse Mauricio +contrariado.--N'esses caminhos que diz não é força progredir solitario. +O apoio de um coração... + +A baroneza abanou a cabeça em signal de duvida, dizendo: + +--Desengana-te, Mauricio, se ainda te sorri a vida da grande sociedade, +não procures a companhia de corações como o de Bertha. + +--Porque não? + +--Os corações como o de Bertha precisam do calor suave da vida de +familia para rescenderem o grato perfume do seu amor. Para um homem a +quem ainda attrahem as luctas da vida e as lides da gloria, não é das +mais adequadas companhias a d'estas mulheres extremosas e modestas, que +sómente se satisfazem com affectos, e cujo amor não se nutre da gloria +do objecto que amam, mas exclusivamente do amor que d'elle exigem. Almas +que o ciume desalenta, que a ausencia definha, não são para companheiras +d'aquelles homens. Se um dos taes mais imprudente liga um d'estes +corações ao seu destino, ou o martyrisa, cedendo aos proprios instinctos +de gloria, ou sacrificando-lh'os, tortura-se, e a tortura reflecte-se +sobre essas almas amoraveis, que a adivinham. + +--E poderá ser verdadeiro um amor que não tenha essas qualidades que +diz? + +--Póde. Pois não póde! É preciso que evites, Mauricio, o preconceito que +tem muita gente de que tudo é falso e mau nos brilhantes circulos +sociaes. Não é. Lá ha tambem amores e affeições verdadeiras, podes +crêl-o, mas, nascidas e creadas em condições diversas, vivem e resistem +a ventos que definham as outras. Uma mulher d'aquelle mundo, sem que +deixe de amar seu marido, não aspira a monopolisal-o para o seu amor. +Pelo contrario, deseja que elle desempenhe a sua missão na sociedade. +Com a gloria que ahi adquirir, se illumina ella tambem, e em vez de o +reter na obscuridade do lar domestico, impelle-o para a luz e sente que +o seu amor por elle cresce na proporção em que os outros o admiram. É +uma vaidade que se converte em estimulo. Estas mulheres assim servem de +incentivo ás aspirações, e são as que convem aos artistas, aos +politicos, em uma palavra, aos ambiciosos. + +--Mas quem lhe disse que eu era ambicioso?--perguntou Mauricio, já em +tom differente, e demorando na baroneza um olhar analysador, como de +quem pela primeira vez descobria n'ella qualidades dignas de attenção. + +--E podes negar que o és?--proseguiu Gabriella--Ora falla-me com +franqueza. Resignar-te-ias sem pesar á ideia de passar o resto da tua +vida esquecido e obscuro n'este canto da provinda, tendo por unica +diversão uma caçada de lebre? Conformar-te-ias com as modestas +aspirações de Jorge, que se satisfaz com dirigir em bom caminho a +administração d'esta casa? Não sonhas muita vez com a brilhante +sociedade dos salões da capital, onde todas as aristocracias se +confrontam, onde se tracta com tudo quanto ha de elegante, de nobre, de +distincto nas sciencias, nas letras e nas artes? Não tens já sentido a +anciedade de viajar, de te engolfares nos focos da civilisação moderna; +finalmente de viver em um mundo, onde os teus talentos, as tuas +qualidades possam ser devidamente apreciadas? + +--É muito lisonjeira, prima Gabriella. Mas, quando eu sonhasse com tudo +isso... E não negarei que mais de que uma vez essas phantasias me tenham +enlevado, mas de que me serviria? Acaso o mundo está á minha espera para +me patentear todas as portas d'esses logares de fascinação? + +--Para os rapazes de vinte annos, de talento e de vontade não ha +barreiras no mundo. Querer é poder. O mundo é menos feroz do que parece. +Quando alguem se aproxima d'elle com a intrepidez e o arrojo do domador, +esta terrivel fera abaixa a cabeça e não ataca. + +--E qual póde ser a minha carreira n'esse mundo? + +--Não se escolhe de longe. Na presença dos caminhos escuta-se uma voz +interior, que nos diz: «Por aqui?» + +--Mas creia que eu sou um inexperiente. Fóra d'estes ares sentir-me-ia +embaraçado. + +--Eu prometto acompanhar-te nos primeiros passos. + +--Sómente nos primeiros? + +Maurício fez a pergunta com uma entonação de voz e com um olhar, que +causaram estranheza a Gabriella. + +Fitou-o, como para perscrutal-o, e depois com um sorriso malicioso nos +labios, tornou-lhe: + +--Pareceu-me perceber uma musica de galanteio n'essa pergunta? Vê lá. +Pois nem eu te merecerei indulgencia e contemplação? + +--Demasiada contemplação me tem merecido até, e Deus sabe se por meu +mal. + +--Um _calembourg_ ao que percebo. Bonito. Onde está aquelle fiel Romeu +de ainda agora? Se eu insistisse, era capaz de te arrancar uma +declaração formal, estou vendo. + +--Tem razão para zombar, prima, porém... + +--Previno-te, Mauricio, de que não vale a pena perder o tempo commigo. +Eu tenho uma maneira prompta e rasgada de tractar as coisas, que se não +compadece com as longuras e alternativas de um galanteio a teu modo. Bem +vês que já não sou criança de quinze annos, e que perdi a paciencia +d'essa idade. Mas vamos almoçar, que nos estão chamando. + +Durante o almoço, ao qual não assistiu D. Luiz, a conversa resumiu-se em +observações de critica e analyse culinaria de frei Januario e nas glosas +laconicas de Gabriella, que pôz final á prelecção, levantando-se da mesa +e ordenando que lhe apparelhassem a egoa para um passeio. + +Quando, momentos depois, descia ao pateo, apanhando a longa cauda do seu +vestido de amazona, encontrou Mauricio, que parecia esperal-a para a +ajudar a montar e por ventura para lhe servir de _jockey_. + +--Então que quer dizer isto? Encarregaste-te agora das funcções de +monteiro-mór?--perguntou-lhe Gabriella. + +--Se me permitte que desempenhe estas funcções, muito me honrarei com +ellas. + +--Quem póde recusar um offerecimento tão amavel? Mas que me encontras tu +de novo para me olhares com esses olhos? + +--É porque effectivamente ainda a não tinha visto assim. + +--Assim, como? + +--Tão... + +--Tão?... + +--Com esses vestidos. + +--Ai, ainda não? É verdade que ainda me não tinha dado para isso aqui. +Então tambem ainda me não viste cavalgar? + +--Ainda não. + +--Olhem que descuido o meu!--disse Gabriella, saltando agilmente sobre o +sellim, auxiliando-se da mão de Mauricio; e emquanto ageitava as dobras +do vestido, preparava as redeas e acabava de apertar as luvas, +proseguiu: + +--Pois n'esse caso vaes ver o que são primores na arte. Ao que parece +vens tambem? + +--Se me permitte?--disse Mauricio, parando junto do cavallo, que ia já a +montar. + +--Com uma condição. + +--Qual é? + +--Quando eu te disser que nos separemos, hás de condescender. + +--Obedecerei, embora me custe. + +--É indispensavel. Tenho hoje uns projectos, que não posso realisar +senão sósinha. + +--Acompanhal-a-hei até onde me permittir. + +--Está dito. A cavallo! + +E, instigando de subito a egoa, partiu a galope, fazendo signal a +Mauricio para que a seguisse. + +Apesar de toda a diligencia d'este em montar, e da desfilada em que +lançou o cavallo, não lhe foi facil attingil-a. Sendo emfim alcançada, a +baroneza afroixou a rapidez da egoa, e os dois cavalgaram a passo, um ao +lado do outro. + +A violencia do exercicio avivara o carmim nas faces da baroneza e +dera-lhe ao olhar uma animação maior do que a que lhe era habitual. + +O sorriso que lhe entreabria os labios, e o arfar do seio, agitado pelo +impeto da carreira, realçavam os dotes naturaes d'aquelle typo feminino, +no qual se já se desvanecêra o frescor da primeira juventude, +sobreviviam ainda os traços permanentes de uma belleza correcta. + +Mauricio não se fartava de a admirar aquella manhã. Fôra para elle uma +imprevista revelação. Dir-se-ia que até alli uma nuvem lhe occultára as +perfeições da prima e que, de repente, essa nuvem se rasgára para o +surprender. + +O prestigio da elegancia, da moda, dos distinctos habitos sociaes, do +espirito cultivado na frequencia da mais selecta sociedade, estava +actuando no coração de Mauricio, predisposto como o de poucos para +aquelle influxo. + +A belleza e a intelligencia de Gabriella, aprimoradas ambas por uma +arte, que sabia occultar-se para não prejudicar os effeitos que obtinha, +attrahiam Mauricio de uma maneira irresistivel. + +A baroneza tinha a perspicacia necessaria para o perceber. O seu amor +proprio feminino era naturalmente afagado pela descoberta; mas, além +d'esta desculpavel fraqueza, outras razões havia mais poderosas para que +essa observação a lisonjeasse. + +Gabriella, como já dissemos, ficára viuva muito joven, do barão de Souto +Real. Tendo ainda instinctos de juventude a satisfazer, promettêra a si +propria consultar o coração antes de prender-se segunda vez. + +Quando recebeu a carta de D. Luiz e veio ter com elle á Casa Mourisca, +sabedora das difficuldades financeiras com que luctava o fidalgo e dos +nobres esforços de Jorge para remedial-os, occorrêra-lhe o pensamento +generoso de favorecer o empenho do primo, offerecendo-lhe com a sua mão +os recursos de que elle precisava para realisal-o. A admiração e o +respeito que lhe inspirava o caracter sisudo de Jorge permittiam-lhe dar +esse passo com o coração folgado. + +Custava-lhe apenas ter de renunciar aos fulgores da capital, a que se +habituára e que amava com toda a paixão de uma mulher da moda; mas +confiava em que o seu bom senso e os subsequentes cuidados de familia +lhe suavisariam o sacrificio. Tractando porém mais de perto com o primo, +comprehendeu que devia desistir do seu projecto. + +Jorge pareceu-lhe incapaz de se apaixonar; e com certeza, não a amando, +não se resolveria a aceitar a mão que ella lhe offerecesse, mórmente por +levar comsigo os recursos que o poderiam auxiliar na sua nobre empreza. + +Gabriella abandonou pois a ideia que tivera. Em Mauricio não pensára ao +principio. Achava-o tão leviano, que, como ella dizia, não podia +lembrar-se seriamente de fazer d'elle um marido. Agora porém, notando a +subita impressão que occasionalmente lhe produzira, e cujos effeitos +duravam e progrediam, a baroneza principiou a encarar o caso debaixo de +differente luz. + +Se Mauricio se apaixonasse por ella, ser-lhe-ia facil fazêl-o partir +para Lisboa e vencer a repugnancia que elle parecia oppôr a abandonar a +aldeia justamente na occasião em que a resistencia do pae havia cedido. + +Se, depois de deixar tomar maior incremento a este novo capricho de +Mauricio, ella subitamente partisse para Lisboa, sem duvida que o +arrastaria atraz de si. O resto fal-o-iam as seducções da capital. + +Para conseguir este resultado, julgou pois Gabriella que não devia +apagar aquelle fogo que principiava a atear-se no inflammavel coração do +primo; lavareda rapida e fugaz, que importava? com tanto que durasse até +extinguir a outra que lá ardia. + +E se durasse mais? Quem sabe? Talvez que o primeiro pensamento de +Gabriella se podésse realisar com uma variante. Mauricio não era Jorge. +O caracter voluvel e inconstante do filho mais novo de D. Luiz não o +garantia como um modêlo de maridos. Mas a baroneza, segundo elle proprio +dissera ao primo, não era d'estas mulheres exigentes que zelam a posse +de todos os pensamentos e de todos os instantes do homem que amam. A +vida da alta sociedade ensinára-a a ser condescendente. Se encontrasse +no marido verdadeira estima e delicadeza, não seria uma ou outra +infidelidade que a obrigaria ao papel lacrimoso de esposa abandonada. + +Depois, Mauricio tinha pelo menos sobre Jorge uma vantagem. + +Não exigiria d'ella o sacrificio dos seus queridos habitos, nem a +desterraria dos luzidos circulos que ella amava tanto. Antes lhe abriria +ampla carreira de gozos, quando soltasse os vôos ás ambições, que lhe +adivinhára. + +Assim pois Gabriella deixava-se galantear por o primo e ensaiava n'elle +a sua tactica admiravel, que o encontrou mais inexperiente do que era de +suppôr em quem de tanta fama de experimentado gozava. + +Mauricio porém achava-se pela primeira vez diante de uma mulher educada +na alta escóla d'esta especial esgrima. A arte era demasiadamente subtil +para elle a descobrir. Todo o artificio estava em simular a mais +completa ausencia de affectação. Parecia tudo espontaneidade, +irreflexão, imprudencia até, e julgando conquistar um coração indefezo e +sem arte, o novel combatente era victima de um gladiador previdente, +armado de vizeira e coiraça e jogando magistralmente com armas de melhor +tempera. + +A baroneza estava a acabar de convencer-se de que a supposta paixão de +Mauricio por Bertha não passava de uma illusão ou de um capricho. + +Mas não haveria em Bertha algum sentimento menos ephemero e que podésse +ameaçar-lhe o coração? + +Era esse o problema que restava resolver. E para esse fim sahira a +baroneza. A presença de Mauricio impedia-a de proceder n'essa +investigação, por isso exigira d'elle a promessa de a deixar, quando +lh'o pedisse. + +Cavalgaram por muito tempo juntos, antes que fosse reclamado o +cumprimento d'essa promessa. Mauricio ia cada vez mais enlevado. Sómente +proximo da estrada, que conduzia á Herdade, foi que a baroneza lhe pediu +para se separarem. + +Mauricio quiz romper o contracto, Gabriella porém insistiu. + +Ao despedirem-se a baroneza disse para o primo, com uma inflexão de voz +que alvoroçou o coração do pobre rapaz: + +--Agora provavelmente vaes procurar vêr a menina Bertha? + +Mauricio respondeu expansivamente: + +--Conceda-me que lhe beije a mão, prima, e correrei a encerrar-me em +casa com as impressões d'esta memoravel manhã. + +Gabriella concedeu-lhe o pedido e recompensou-lhe com um sorriso o +galanteio. + +E Mauricio foi effectivamente para os Bacellos, com o pensamento +occupado pela imagem da prima. + +No meio dos seus enlevos pungia-o uma ideia. + +«E Bertha?» pensava elle. + +A pobre Bertha, que a vaidosa imaginação do rapaz teimava em representar +perdida de amores, não soffreria muito se outra lhe disputasse com +vantagem a posse do coração d'elle. E não estava esse perigo imminente? + +É porém de notar que esta contrariedade era um dos maiores incentivos +para augmentar a chamma da sua nascente paixão por Gabriella. + +Havia uma perspectiva de lagrimas e de dôres a servir-lhe de fundo do +quadro, e Mauricio, sem ser cruel e compadecendo-se até de antemão do +mal que suppunha ir causar ao coração de Bertha, sentia-se seduzido por +a situação que creára. + +Expliquem como podérem estas contradicções de caracter, na certeza de +que o facto não é excepcional, antes muito da regra commum. + + + + +XXIV + + +Depois de separar-se de Mauricio, a baroneza guiou a egoa na direcção da +Herdade. Decidida a vêr e a estudar Bertha, para saber até que ponto +estava o coração da rapariga empenhado nos conflictos domesticos dos +senhores da Casa Mourisca, Gabriella adoptou a resolução de procural-a +sem simular pretexto algum. Os costumes singelos do campo authorisavam +esta suppressão de ceremonias; demais, como parenta que era de Jorge e +de Mauricio, tinha a certeza de ser bem recebida lá. + +Desviando-se da estrada para seguir por um atalho que ladeava a collina, +avistou uma pequena capella rustica, com a sua galilé e o seu pequeno +bosque de sovereiros a rodeal-a, e tão pittorescamente situada em uma +das eminencias proximas, que não pôde resistir ao desejo de subir até +alli. + +A capellinha, erigida sob a invocação de Sancta Luzia, um dos nomes de +mais devoção entre os do florilegio christão, poisava sobre a collina em +uma d'essas situações que o povo, com seus instinctos poeticos, costuma +escolher para assentar esses modestos monumentos da sua fé e piedade. + +O valle feracissimo, por onde se estendiam os vergeis, as searas, as +quintas e os lameiros de duas ou tres freguezias, descobria-se todo +d'alli. A vista seguia nos seus successivos meandros o pequeno rio que +se estirava em chão de areia, por entre moitas de azevinhos, de +laurentins e de salgueiros, cujos ramos aqui e além se abraçavam de +margem para margem. O campanario da igreja parochial, a ponte de dois +arcos, os açudes, as azenhas, as prêsas onde cantavam, lavando, as +raparigas do campo, os estendaes onde a roupa de linho branqueava sob os +raios do sol, as noras toldadas de parreiraes completavam a feição +campestre da paisagem. + +Prendendo a egoa ao ramo vigoroso de um d'estes carvalhos decepados, a +que na provincia chamam tocas, Gabriella caminhou a pé para a galilé da +ermida. + +Ao chegar alli descobriu no muro sobranceiro ao lado menos accessivel da +collina, uma rapariga sentada costurando. + +A baroneza adivinhou logo que era Bertha e applaudiu-se do palpite que a +fizera desviar do caminho para subir alli. + +Bertha saudou-a affavelmente, como quem tambem a reconhecêra. + +A baroneza dirigiu-se-lhe sem rodeios. + +--Não é verdade que é a menina Bertha da Povoa que tenho a felicidade de +encontrar aqui? + +--Sou, sim, senhora baroneza... porque me parece que estou fallando +com.... + +--Justamente. Achamo-nos pois conhecidas. Tanto melhor, para não +perdermos tempo com apresentações. Agora permitte-me que a abrace, como +a uma pessoa a quem estimo? + +--Oh minha senhora! + +E as duas mulheres abraçaram-se, saudando-se affectuosamente, como se +uma subita sympathia as aproximasse. + +--Sabe--proseguiu a baroneza, sentando-se ao lado de Bertha--que ia +procural-a? + +--A mim?! + +--É verdade. Veja que feliz acaso o que me fez subir a esta capella, +para gozar do panoramma que se descobre d'aqui. + +--É um dos passeios mais bonitos d'estes sitios. + +--Pelo que vejo costuma fazer d'aqui a sua casa de lavor? + +--Ai, não; raras vezes; hoje vim para esperar meu pae, que chega do +Porto. D'aqui avista-se quasi meia legua de estrada. Vê? + +--Ai, volta hoje o pae? Visto isso tambem o meu primo Jorge. + +--Tambem... julgo que tambem. + +Bertha não foi superior a uma leve turbação, ao ouvir o nome de Jorge e +ao responder á baroneza. Quem tem no coração um segredo que de todos +quer recatar, trahe-o muitas vezes, á força de disfarçal-o. Em cada +olhar suspeita uma espionagem, em cada palavra uma allusão, e se a +conversa se aproxima do assumpto, segue-a tremulo, como se segue o +caminho que se abeira de um precipicio. + +A baroneza, que tinha ainda os olhos fitos em Bertha com a curiosidade +propria de uma mulher ao observar outra que sabe causar impressão nos +animos masculinos, notou aquelle indicio de confusão, e não o desprezou. + +--É um generoso rapaz o meu primo Jorge, não acha?--interrogou ella, +demorando o olhar no rosto de Bertha. + +Esta sentiu o perigo em que estava de trahir-se, e concentrando por isso +toda a sua coragem, conseguiu levantar os olhos para fitar a baroneza e +responder com apparente serenidade. + +--É um nobre caracter, um rapaz a quem se deve respeitar como a um velho +honrado. + +--Respeitar como a um velho honrado, diz bem; amar como a um rapaz é que +não é possível. + +Bertha córou d'esta vez, respondendo: + +--Não queria dizer isso. + +--Bem sei que não. Mas digo-o eu. Jorge é um escravo do dever, e tão +absorvido anda nos seus grandes e generosos projectos, que não ha para +sonhos de amor logar n'aquella cabeça. As raparigas não podem amar um +homem assim, em quem os olhares da mais affectuosa sympathia não +insinuam calor no coração. Tem umas maneiras para todas uniformemente +polidas e affaveis, que excluem a ideia da menor preferencia. Pois não +lhe parece? + +--Os nobres sentimentos da alma tambem podem exercer algum prestigio... + +--Mas valha-me Deus, Bertha, esse prestigio revela-se em taes casos por +uma veneração, que não é amor. É como a que temos pelos sanctos. De +virtuosos e justos que nol-os pintam, fogem do nosso nivel e temos de +elevar a vista para contemplal-os; e d'esta maneira, com os olhos no +céo, adora-se, mas não se ama. + +Bertha, com os olhos fitos em não sei que ponto da perspectiva, não +respondia e parecia engolfada na corrente de profundos pensamentos. + +A baroneza, sem interromper a sua observação, continuou: + +--Já assim não é Mauricio. + +A abstracção de Bertha não lhe deixou reprimir um movimento que estas +palavras lhe provocaram. Dir-se-ia que lhe custava a aceitar a +comparação. + +Gabriella, observando-a sempre, proseguiu: + +--Mauricio não tem o juízo de Jorge, é verdade; porém é mais amavel. Os +seus mesmos defeitos fazem com que seja possivel fital-o mais +directamente, sem que o esplendor dos seus meritos nos offusgue. É um +rapaz, que sem deixar de ser generoso, permanece no nivel commum, em que +todos vivemos, e ahi é bem mais facil amal-o. + +Bertha escutava quasi distrahida; só passados instantes, depois das +ultimas palavras da baroneza, foi que rompeu o silencio, dizendo +vagamente: + +--São ambos duas almas generosas e merecedoras de estima. + +--De certo--insistiu a baroneza.--Mas, minha querida Bertha, eu não sei +se lhe succede o mesmo... mas em geral estes rapazes serios e de juizo, +como Jorge, intimidam-nos a nós outras, mulheres; não ousamos fital-os +com um olhar de sympathia, com medo de que só por esse olhar elles nos +accusem, mentalmente pelo menos, de estouvadas, e o resultado d'isto é +que não olhamos para elles. + +Bertha sorria, sem responder. + +--Conhece ha muito esta familia?--perguntou a baroneza. + +--De pequena. Brincamos muitas vezes, eu, Beatriz e todos elles na Casa +Mourisca. + +--E Jorge era então já assim sisudo? + +--Foi sempre mais ajuizado do que as crianças da sua idade. + +--É um rapaz singular. Já tenho pensado em que era preciso casal-o, +porque dará um excellente chefe de familia. O essencial é passar em +claro os tramites de um galanteio, porque para isso é que elle não é. + +Bertha nada disse ainda. + +A baroneza proseguiu: + +--Por isso é necessario que os estranhos tractem d'isso e escolham por +elle. + +Bertha aventurou timidamente algumas palavras. + +--E aceitará elle a intervenção em um acto tão essencial da sua vida? +Elle que está costumado a olhar em pessoa por os negocios que lhe dizem +respeito? + +--Isso é verdade, mas contentar-se-ha em fallar directamente com a noiva +que lhe propozerem e dizer-lhe com aquella natural franqueza todo o seu +pensamento, e feito isto póde a escolhida ter a certeza de que terá +n'elle um marido leal e affeiçoado, talvez sem grandes requebros de +amante, mas com a verdadeira estima de um amigo. + +--De certo que a pessoa a quem o snr. Jorge estender a mão póde confiar +n'ella como na de um pae. + +Bertha, julgando dizer estas palavras naturalmente, não pôde tirar-lhes +um tremor de commoção, que a baroneza notou. + +Bertha foi quem primeiro rompeu o silencio, que se seguiu a estas +palavras: + +--Mas dizia a snr.ª baroneza que viera procurar-me? + +--É verdade. Andava anciosa por conhecêl-a. Adivinhava-a pela impressão +que via causar em quantos se aproximavam de si. O tio Luiz fallava-me de +Bertha com uma ternura a que já é pouco sujeito; Mauricio com um +enthusiasmo de apaixonado; e Jorge.... + +Gabriella fez aqui intencionalmente uma pausa, durante a qual estudou a +physionomia de Bertha. + +Esta baixára-se, como para cortar uma malva do chão, mas nas faces +estendia-se-lhe um rubor fugaz, que denunciava um intimo alvoroço. + +--E Jorge--concluiu a baroneza--com aquelle modo apparentemente frio que +tem para dizer todas as coisas, mas em termos que exprimiam bem a sua +estima por a pessoa de quem fallava; d'aqui o meu desejo de conhecêl-a; +não me admiro agora de todo aquelle effeito, porque eu mesma o estou +sentindo já. + +Bertha sorriu, agradecendo-lhe o comprimento. + +--Creia-me, Bertha. Conhecemo-nos de pouco, mas olhe que sou já sua +amiga e talvez possa ainda mostrar-lh'o um dia. + +--Agradecida, snr.ª baroneza. + +--Não tome esse tom de ceremonia para me fallar. O que eu digo não é um +comprimento. Sabe que mais, Bertha? Talvez que pouca gente esteja tão +adiantada no conhecimento do seu coração como eu, depois d'esta nossa +primeira e curta entrevista. + +Bertha córou d'esta vez intensamente, e olhando para Gabriella com um +olhar assustado, balbuciou quasi tremula: + +--Do meu coração?... Por ventura... + +--Não se assuste. Não quero fallar mais nisto emquanto não me conhecer +melhor. Só lhe digo que eu não passo de uma pobre mulher com bastante +coração e com o grau de loucura preciso para me enthusiasmar pelo +partido dos sentimentos generosos e sinceros, quando luctam com as +convenções e os preconceitos sociaes. E agora deixe-me mostrar-lhe um +grupo de cavalleiros que estou d'aqui vendo, e que talvez o seu olhar +melhor possa distinguir do que o meu. + +Bertha, seguindo com os olhos a direcção que a baroneza lhe indicava, +exclamou: + +--São elles, são! É meu pae e Jorge... e o snr. Jorge. + +E aproximando-se do angulo do adro, d'onde melhor poderia ser vista, +pôz-se a acenar com o lenço para os recem-chegados. + +Thomé não respondeu logo, mas passado algum tempo tremulava na ponta da +vara do cavalleiro, como flammula em mastaréo de navio, o lenço de +quadros, que o vento desenrolava. + +Gabriella, seguindo com os olhos os movimentos de Bertha, pensava: + +--O mysterio d'esta já eu descobri. Pobre criança! tem muito pouca +astucia para occultal-o. Ha n'ella uma transparencia que deixa vêr até +ao coração. E aquelle?--proseguiu, dirigindo os olhares para Jorge, que +ainda vinha longe--Enganar-me-ia eu? Não será aquillo sómente frieza, +será reserva? Póde ser, póde. Estes homens assim morrem ás vezes com uma +paixão no peito, e morrem por esforços que fazem para occultal-a. Se o +facto se dér com Jorge, é uma coisa gravissima; quem póde calcular o que +se seguiria? Emquanto a Mauricio, já vejo que está tudo bem; parece-me +que por este lado não deixará muitas lagrimas por vestigio da sua +passagem, nem terei de sentir remorsos se o arrebatar para longe d'estas +paragens. Mas observemos. + +Bertha, que corrêra a esperar os cavalleiros, estava nos braços do pae, +que a beijava com effusão. A baroneza, meio occulta por um tronco de +sovereiro, notou um rapido olhar de Jorge para Bertha, quando a rapariga +ainda o não podia vêr, porque Thomé lh'o encobria; notou mais que assim +que Bertha o procurou, estendendo-lhe a mão, Jorge correspondeu com +ceremoniosa deferencia, e nunca mais dirigiu para ella a vista. + +A baroneza foi emfim ao encontro dos viajantes. + +Recebeu de Jorge um acolhimento sem comparação muito mais expansivo, do +que o que Bertha lhe merecêra. O penetrante espirito de Gabriella +interpretou esta differença a seu modo. + +A companhia desfez-se passado pouco tempo. + +Thomé tinha pressa de chegar a casa; segurando a egoa pela arriata, +despediu-se da baroneza e de Jorge, e partiu, em companhia da filha, +caminho da Herdade. + +A despedida de Jorge e Bertha teve a mesma apparencia de reserva e de +constrangimento, que caracterisára o primeiro encontro. + +Observou porém Gabriella que, proximo a dobrar uma curva do caminho, +além da qual se perdia de vista Thomé da Povoa e a filha, que seguiam em +direcção opposta, Jorge se voltou para traz com apparente naturalidade. + +--Então que resultados colheste da tua excursão?--inquiriu a baroneza, +não demonstrando as descobertas que ia fazendo, emquanto cavalgava ao +lado do primo. + +--Excellentes--respondeu Jorge, em tom de verdadeira satisfação.--Estes +dias foram preciosos. O nosso pleito entrou em muito melhor caminho +depois da minha conferencia com os advogados. Não me havia illudido +sobre a importancia do tal documento que a incuria de frei Januario +deixára encher de môfo nas gavetas. + +Os advogados quasi me asseguraram o exito da causa. Se assim fôr, posso +dizer meio vencida a tarefa que emprehendi. As informações que colhi +sobre a nova instituição de Credito Predial animaram-me. Legalisados +alguns titulos menos regulares, e alienando uma parte da nossa +propriedade, que é apenas um estorvo ao melhoramento da outra, poderei +habilitar-me a usar prudentemente do credito, recorrendo á nova +instituição; resgatar a nossa casa, e dentro de alguns annos remir a +divida, graças á eficacia dos melhoramentos que espero realisar. E dizem +ainda mal das instituições modernas! Ellas apenas sacrificam os que a +ellas recorrem com uma intenção má. O dissipador que julga illudir o +credito sob falsas promessas de melhoramentos, é um dia por elle +severamente castigado. E justo é que o seja. Mas quem o procurar com boa +fé, com lizura, com intelligencia e com o animo decidido para trabalhar, +encontrará n'elle auxilios milagrosos. + +Jorge faltava com tanto enthusiasmo, que a baroneza, ao ouvil-o, ia +sentindo dissiparem-se as suspeitas que ao principio concebêra. + +--Este enthusiasmo enche completamente todo aquelle coração--pensava +ella--não póde haver lá dentro vazio que o atormente. + +Jorge proseguiu informando minuciosamente a prima do estado dos seus +negocios, dos seus planos de reformas, das suas esperanças no futuro, e +quasi lhe não poupou o calculo de annuidades, pelo qual chegava a +determinar a época em que poderia amortisar totalmente a divida +contrahida, segundo as bases da legislação hypothecaria. + +Só próximo á quinta dos Bacellos foi que a baroneza conseguiu dar á +conversa a direcção que havia muito lhe desejava vêr tomar. + +Discutindo com o primo o valor dos meios a que se poderia lançar mão +para trabalhar na empreza em que elle se empenhara, Gabriella +lembrou-lhe o de um casamento com mulher abastada. + +Jorge sacudiu a cabeça em signal de repugnancia. + +--E aconselha-me isso?--exclamou elle--Não seria regenerar-me, seria +vender-me, e venda mais vergonhosa do que aquella aonde nos conduziria o +systema de administração seguido até agora n'esta casa; porque n'esse +apenas se punha em venda a propriedade, e n'este vendia-se o +proprietario. + +--Isso é conforme a maneira de vêr as coisas; além de que eu a ti já +faço a concessão de não suppôr um casamento exclusivamente por +interesse, mas quero que um pouco de amor authorisasse o contracto, que +sem tal sancção te repugnaria. Tudo se póde combinar. + +--Eu não tenho tempo para amar--respondeu Jorge sacudidamente. + +--Ora; o amor não espera occasião opportuna. E eu não posso acreditar +que uma alma como a tua não esteja conformada para uma affeição +verdadeira. + +--Não digo que não; mas quero fugir de pôr em pratica essa aptidão, se a +tenho, porque talvez que depois não sentisse bastante contemplação para +com o mundo, para aceitar a restricção que elle costuma impôr á +satisfação das paixões. + +--Mas quem te diz que se estabeleceria esse conflicto entre ti e o +mundo? + +--Era o mais provavel. + +--Queres dizer que mais depressa te apaixonarias por alguma rapariga do +povo, pobre, costumada á vida do trabalho e da economia, do que por +qualquer das tuas ociosas e fidalgas primas d'estes arredores. + +--Com certeza que não me seduzirão essas. + +--Mas vamos; se apesar das tuas precauções o facto se désse--porque +emfim... estas coisas nem sempre é possível evital-as--romperias +abertamente com o mundo? + +--Nem quero pensar no que faria. Talvez me resignasse a deixar-me +sacrificar aos preconceitos dos outros. Sabe de quem. Resignava de +certo, se o sacrificio fosse sómente meu. Mas, se amasse devéras e fosse +amado, e a mulher, a quem dedicasse este amor, não tivesse igual coragem +para o mesmo sacrificio... não me julgaria com o direito de fazel-a +soffrer por uma ideia, que nem para ella nem para os seus tivera o +prestigio de uma crença. Mas fallemos em outra coisa, porque este +pensamento incommoda-me até. + +--Dir-se-ia que não é sómente como pura abstracção, que elle te +apparece, Jorge. Fallemos porém d'outra coisa, fallemos. + +E a baroneza mudou effectivamente de conversa. + +Mas, ao entrar em casa, julgava ella ter obtido as informações que +desejára possuir. + + + + +XXVI + + +Clemente, o filho da Anna do Védor, que nos tem andado longe da vista +desde a primeira vez que o encontramos, estava destinado a influir na +sorte dos principaes personagens d'esta historia; convem portanto que +outra vez o chamemos mais para a luz. + +Sabemos já que a vida publica d'este bem intencionado rapaz não era +isenta de espinhos. As resistencias e estorvos que se oppunham á +carreira direita, que o seu vivo sentimento de justiça lhe traçára, +deixavam-lhe intimos desgostos e turbavam-lhe a bucolica serenidade dos +seus dias. + +Embora ás iniquidades que observava fosse estranha a sua vontade e a sua +cooperação; embora a consciencia lhe não exprobrasse uma unica infracção +voluntaria das leis, que religiosamente acatava, ainda assim, como todas +as almas bem formadas, Clemente tinha motivos de sobra para lhe +amargurarem o coração generoso e leal, vendo de perto a parcialidade e +as paixões más, que presidiam á distribuição da justiça pelas mãos dos +seus superiores e os privilegios que faziam desviar a balança da +horisontalidade com que elle sonhára. + +Todos os caracteres nobres não adquirem, sem doloroso aprendisado, a +desconsoladora sciencia, que se chama scepticismo. Cada illusão que se +desvanece é um golpe fundo no mais sensivel da alma, e os conflictos da +vida social deixam feridas que só lentamente cicatrizam. + +Clemente estava n'este caso. Modestas como eram, as suas funcções civis +tinham-lhe aberto os olhos para muitas coisas obscuras e desenvolvido no +espirito um fermento de descrença. + +Assustado com o que sentia, temendo saber mais e ser obrigado a operar +como instrumento passivo em iniquidades que lhe repugnavam, Clemente +sentiu o desejo de se acolher á vida privada, onde não lhe chegasse aos +ouvidos o rumor das injustiças humanas. + +Um novo incidente, em que tomaram parte os fidalgos do Cruzeiro, +principaes fautores de todos os attentados no concelho, acabou de +decidil-o. + +Vimos em um dos capitulos precedentes, que elles protegiam muito ás +escancaras a fuga de um refractario ao serviço militar, facto que +sobremaneira irritára Clemente, o qual chegou a tentar pôr em prática as +medidas extremas, que a lei lhe permittia. Encontrou, porém, na +authoridade administrativa, que afagou a influencia eleitoral dos +fidalgos, froixo apoio, e o refractario conseguiu escapúla. + +Logo depois de realisada a fuga, Clemente, que a attribuia sobre tudo á +falta de energia do seu chefe, recebeu d'este um officio censurando-o +asperamente pela debil vigilancia que tivera no caso e admoestando-o +para ser de futuro mais activo e diligente. + +Esta duplicidade indignou o ingenuo rapaz, que resistiu a custo á +tentação de ir dizer ao administrador algumas amargas verdades. + +Dias depois houve um serão em casa de um lavrador da freguezia, e +Clemente recebeu aviso de que os manos do Cruzeiro premeditavam para +essa noite umas vinganças contra uns serandeiros com quem mantinham uma +rixa antiga. + +O regedor, não só por dever do cargo, como pelo desculpavel desejo de +dar uma severa lição a esses incorrigiveis, causa principal dos seus +desgostos, tomou providencias, reuniu os cabos e rondou as proximidades +da casa do serão. + +A precaução policial foi util, porque evitou alguma desgraça séria. Pela +meia noite os dois irmãos do Cruzeiro sahiram ao caminho a um camponez, +que recolhia do serão, e atacaram-n'o com impeto, que não denunciava um +proposito innocente. + +O regedor cahiu porém sobre elles, e a muito custo conseguiu +captural-os, jurando que sómente os soltaria á ordem expressa da +authoridade superior. + +A ordem veio e redigida em termos severos para o honesto rapaz, a quem +se recommendava mais tino e cordura no desempenho das suas obrigações. + +Os apaniguados dos fidalgos, parasitas que ainda se nutriam da seiva +quasi exhausta d'aquella carcomida arvore genealogica, clamaram contra o +attentado do regedor e chegaram a ameaçar-lhe a existencia, fazendo-lhe +esperas nocturnas. Mas, o que mais é ainda, o povo, os pobres, os +opprimidos, os esmagados de hontem, esses mesmos, quasi levaram a mal ao +regedor a falta de attenção que tivera para com os fidalgos. Transtornar +uma regra social estabelecida, embora seja para bem, escandalisa sempre +os fanaticos da ordem; e ha-os tão fervorosos, que a adoram, ainda +quando ella revista a feição moscovita. + +A taça trasbordou para Clemente. Pediu terminantemente a sua demissão e +foi-lhe concedida, com muita facilidade por as eleições estarem +proximas, e serem em regra incommodos impecilhos estes caracteres amigos +do justo para o andamento da machina administrativa, quando empregada na +grande tarefa de cunhar deputados com a effigie governamental. + +Com grande jubilo celebrou Anna do Védor a resolução do filho. Havia +muito tempo que ella lhe aconselhava aquelle passo. + +--Que precisão tens tu, Clemente, de te metteres n'estas barafundas? Se +não precisas d'isso para comer, para que has de perder o socego com +coisas que te não dão interesse?--pregava ella, inoculando no filho a +sua philosophia um tanto egoista.--Olha, rapaz, a tua casa já dá bem que +fazer a um homem. E quem quizer que prenda os ladrões e ande adiante dos +cabos em serviço do rei, que tu, graças a Deus, não ficas mais honrado +com isso. Inda se essa gente do governo fizesse caso de quem os serve +bem, mas tu estás vendo como elles são. Por isso deixa-os; elles que se +avenham, que lá se entendem. + +Assim que o filho efectivamente declinou o encargo da regedoria, +disse-lhe a ajuizada matrona: + +--Agora para a dares em cheio, sabes tu o que deves fazer? É casar-te. +Isso é que era ouro sobre azul. Porque emfim, rapaz, só assim é que se +ganham raizes em casa e que um homem é devéras homem de familia. +Emquanto solteiros, ora adeus, por melhores que vossês sejam, lá vem um +serão, lá vem uma caçada, lá vem uma doida de uma rapariga que vos faz +andar a cabeça á roda. Não ha como é isto de ouvir gemer as crianças em +casa e cantar a mulher a arrolal-as. Tu riste? É o que te digo. Quando +eu me casei com teu pae, que Deus haja, todos me diziam: «Ó filha, não +levas homem que te gaste muito os trastes da casa.» Porque, emquanto +solteiro, elle tinha sido d'aquelles de se lhes tirar o chapéo, dos taes +que Deus mandou fazer. Pois era vêl-o depois. Logo que podia, elle ahi +estava ao pé de mim a brincar com as crianças. Até muitas vezes eu lhe +cheguei a dizer: «Ó homem, sahe-me d'aqui para fóra; eu não gósto de vêr +homens tão caseiros.» Por isso, rapaz, faze o que te digo, casa-te, que +estás em boa idade. + +--Não vou longe d'isso, minha mãe, mas bem vê que não é coisa que se +faça assim do pé para a mão. + +--Não, olha, tu tambem para andares muito tempo a arrastar a aza á +rapariga é que não és, que isso sei eu. Pois então é tractar da coisa +como de negocio serio e casar. + +--Mas... e a noiva? Ahi está já a primeira dificuldade. + +Anna do Védor olhou muito direita para o filho, e depois de um instante +de silencio interpellou-o: + +--E então tu, na tua verdade, ainda não lançaste as tuas vistas? + +Clemente encolheu os hombros como quem não podia dizer que não, nem +queria dizer que sim. + +--Ora para mim é que tu vens com isso. Lançaste, sim, e nem podia deixar +de ser, que não tinhas muito onde escolher. Queres que te diga quem é? +Olha que tambem eu nunca tive outra na ideia. + +--Mas eu não pensei ainda a serio.... + +--Adeus; e que tens tu que pensar? Porque é que te não havia de convir a +pequena do Thomé? + +Clemente respondeu um pouco sobresaltado: + +--A mim de certo convinha; agora eu é que talvez lhe não convenha. A +Bertha está educada tanto á cidade... + +--E com quem queres tu que ella case, não me dirás? Com algum dos +pequenos do fidalgo, hein? Que elles estão mesmo alli á espera d'ella. +Deixa-te de tolices. A rapariga deve erguer as mãos ao céo se agarrar um +marido, que não é nenhum labrego, que é homem de bem e capaz de +estimal-a. + +--Mas o pae, que a educou assim e que em tanta conta tem as prendas da +filha, ha de aspirar a mais. + +--O quê? O Thomé é um homem de juizo. E então digo-te mais, eu já lhe +toquei n'esse negocio, e o homem não se deitou de fóra d'isso, antes +mostrou que lhe agradava bem o projecto. + +--Devéras fallaram n'isso? + +--Então não t'o estou a dizer? E o Thomé da Povoa lembra-me bem que me +disse: «A minha Bertha o que deve esperar é um marido honrado, +trabalhador e que a saiba estimar, e o seu Clemente é a nata dos +rapazes.» Depois, aqui para nós, o Thomé sabe as circumstancias em que +tu estás, e, vamos lá, isso tambem influe. E faz elle muito bem, lá isso +ninguém lhe póde levar a mal. + +--Porém Bertha... + +--Deixa-te de acanhamentos, rapaz. Sabes o que mais? O que eu estou +vendo é que tu com'assim não dás conta do recado. Por isso vae ter com o +Jorge. Elle é alli tudo em casa do Thomé, é quem dá lá os dias sanctos. +O que elle diz é o que se faz, nem se mexe um pé em casa sem consultar o +pequeno. E juizo tem elle para aconselhar bem, que aquillo foi mesmo um +milagre do céo, o nascer aquelle rapaz na família. Pois vae tu ter com +elle, vae e dize-lhe as tuas tenções, e elle gue se encarregue do mais. +Vae por ahi, que vaes bem. Digo-t'o eu. O Thomé tens tu de teu lado, e +Luiza diz sempre com o marido; emquanto á rapariga, ella ha de +reconhecer que tu não és noivo que se engeite. + +Horas depois, Clemente, a quem a mãe acabára de convencer, procurava +Jorge no seu gabinete de trabalho na propriedade dos Bacellos. + +Clemente encontrou Jorge sentado á banca, tendo diante de si massos de +papeis e de livros, que consultava com attenção. + +A entrada do filho de Anna do Védor não obrigou Jorge a interromper a +sua tarefa; saudou-o com a affectuosa familiaridade que de pequeno usava +para o seu irmão de leite, e continuou trabalhando. + +--Bons dias, snr. Jorge. Pelo que vejo trabalha-se? + +--Que remedio, meu bom Clemente, que remedio? Estes negocios de minha +casa estão de tal maneira enredados, que não fazes ideia. + +--N'esse caso fiz mal em entrar; vim distrahil-o. + +--Não, não, Clemente, não. Deixa-te ficar, que me não estorvas. O que +estou fazendo não é de tal transcendencia, que não me deixe fallar com +os amigos. Estou aqui a ver se descubro n'esta papelada um documento de +que preciso. Aquelle frei Januario sempre tinha isto em uma desordem! Eu +bem sei o que elle merecia. E que me dás tu de novo, Clemente? +Disseram-me que te demittiste do logar de regedor? + +--E ha mais tempo que o devia ter feito, que nunca recebi senão +desgostos no officio. + +--Sim, cá por este mundo, quem andar por caminho direito póde contar com +encontrões, que magoam--observou Jorge, sem erguer os olhos dos papeis. + +--E não foram poucos os que me deram. Perdoe dizer-lh'o, snr. Jorge, mas +aquelles seus primos do Cruzeiro... + +Jorge encolheu os hombros, fazendo um gesto de desprezo. + +--Que queres tu, homem? Se elles nem para si mesmos são bons! Aquillo +nos Cruzeiros é uma cama de tres javalis, qual d'elles mais selvagem. +Que se póde esperar d'aquella gente? + +--Mas teem quem os attenda, que é o que me faz zangar. Uma authoridade +descer áquellas baixezas e andar ahi a receber o beija-mão d'aquelles +senhores! Isto, isto, a fallar a verdade, parece-me... nem eu sei o que +me parece. + +Jorge esteve algum tempo sem retorquir, absorvido pelo exame de um papel +que encontrára no masso. Depois, tomando á margem uma nota a lapis, e +pondo o papel de lado, ponderou vagamente: + +--Coisas d'este mundo, Clemente; que remedio senão aceital-o assim? + +--Isso é que é verdade. + +--E lá por casa como vão? Tua mãe? + +--Bem; foi ella quem me aconselhou esta visita. + +--Sim? Então já não t'a agradeço. + +--Eu, a fallar a verdade, como sei que tem o tempo muito occupado, +receio... + +--Ora deixa-te de tolices. Se por acaso estivesse tão occupado que me +não fosse possivel receber-te, com a maior franqueza t'o diria. Bem +sabes que entre nós não ha etiquetas. + +--Pois eu vinha para pedir-lhe um favor. + +--Terei muito prazer em te servir--respondeu Jorge, levantando-se para +procurar novos papeis na secretaria e voltando a sentar-se á banca, +sempre entretido no seu trabalho. + +--Como sabe, pedi a minha demissão e estou agora resolvido a viver em +minha casa, e a occupar-me sómente dos meus negocios. + +--É justo. E quem bem trabalha no que é seu, tambem trabalha no que é de +todos--ponderou Jorge emquanto executava uns calculos arithmeticos. + +--Ora, para fazer a vontade a minha mãe e tambem por me sentir com +inclinação para isso, estou meio decidido a... + +--A casar-te, hein?--concluiu Jorge, sem manifestar surpreza, e +notavelmente embebido na execução dos seus calculos. + +--Justamente. + +--É uma boa resolução. Os homens como tu dão excellentes chefes de +familia. Podes fazer a tua felicidade e a da mulher com quem casares. + +--Isso são favores seus, snr. Jorge. + +--Ora! Mas a final o que queres tu? Vens ouvir-me de conselho n'esse +negocio? A mim, um rapaz solteiro?... + +--Não, senhor, a coisa é outra. + +--Então? + +--Eu já lancei as minhas vistas... + +--Sim, é natural. + +--Mas não sei ainda se serei bem acolhido e, para lhe fallar a verdade, +não me sinto com animo de... de tractar disso em pessoa. + +--Não? Ora essa! E então? + +--E então lembrei-me do snr. Jorge para lhe pedir este favor. + +--De mim?! Tem graça. Queres obrigar-me a representar o papel de +casamenteiro. Com todo o gosto. Mas sempre tenho curiosidade de saber a +razão por que te lembraste de mim--disse Jorge que, havendo concluido o +calculo, poisára a penna e esfregava vivamente as mãos para aquecêl-as. +Olhando d'esta vez directamente para o seu interlocutor, perguntou-lhe: + +--E quem é a noiva? + +--É a filha do Thomé da Povoa. + +Estas palavras dissiparam instantaneamente toda a meia indifferença com +que Jorge escutára até alli as communicações de Clemente. O +estremecimento que não pôde reprimir ao ouvil-as, a subita transformação +que se lhe operou na physionomia, bastariam para revelar a verdade a +Clemente, se este bom rapaz não tivesse uma d'aquellas almas, onde nunca +entram de subito as suspeitas, mas sómente depois de muitos e porfiados +embates. + +--A filha do Thomé da Povoa!--repetiu Jorge estupefacto. + +--Sim--tornou Clemente, interpretando erradamente aquelle espanto--a +filha do Thorné da Povoa, do Thomé da Herdade... Bertha, a que foi +educada em Lisboa e que voltou ha tempos... + +--Bem sei--atalhou Jorge com impaciencia--mas... Bertha... + +E acrescentou quasi sem consciencia do que dizia: + +--Bertha da Povoa... mas... mas como te lembraste agora de Bertha sem +mais nem menos? É singular! + +--Como me lembrei agora? Mas não foi agora que me lembrei. Eu já tinha +penâado n'isso. É a noiva que eu proprio... + +--Pois sim, mas... Como te deu logo para pensar em Bertha da Povoa? É o +que pergunto. + +--Ora essa! Em alguma havia eu de pensar. Se não fosse n'ella, seria em +outra. Succedeu ser em Bertha. Coisas do coração... + +--Ahi vens tu já com o coração--acudiu Jorge com mal reprimido +despeito.--Vossês fallam no coração a proposito de tudo. E até agora +então, que andavas todo influido com a tua regedoria, não te importaste +com o coração, nem elle te dizia nada... Ora adeus! O coração!... + +E erguendo-se da banca com certa agitação, que estava espantando +Clemente, pôz-se a passeiar no quarto, e tão convulso que não conseguia +preparar um cigarro, que mal sustinha nas mãos. + +Clemente allegou: + +--Eu não digo que isto seja uma paixão muito forte, uma paixão por ahi +além; mas, resolvido a tomar estado, pensei na noiva que me conviria e +lembrei-me de Bertha. É uma boa rapariga, bem educada e de alguns +haveres... + +Jorge cortou-lhe a palavra: + +--Ah! então dize-me d'isso. Agora já entendo por que te lembraste de +Bertha. Devias principiar logo por ahi. De alguns haveres! Ahi é que +está a questão. Vossês são todos os mesmos a final. O interesse, o +maldito interesse! Pois fazia melhor conceito de ti, Clemente; digo-te +francamente que fazia de ti melhor conceito. Lá porque uma rapariga tem +meia duzia de centos de mil reis, já a perseguem com proposito de +casamento, já... + +--Ó snr. Jorge--interrompeu Clemente, tão surprendido como vexado com o +que ouvia--por quem é faça melhor opinião de mim. Não só me não lembrei +de Bertha apenas pelo dinheiro, mas nem a quero perseguir. Olha quem? +Eu! Se a rapariga disser que não, ou o pae, paciencia. Mas parece-me que +a minha proposta não a deshonra. + +Jorge principiava já a conhecer a sem-razão com que fallava, mas não +podia ainda ceder totalmente ao bom senso que despertava em si. Não +tinha previsto o caso, que se lhe offerecia, e sentia-se por isso +irritado contra a hypothese que tão imprevistamente lhe surgira no +caminho. + +--Pois sim... mas...--murmurava elle, sem saber o que dissesse--mas... +Bertha... Olha, se queres que te falle a verdade... Bertha não te +convem. + +--E porque acha? + +--Porque... Ora, porquê?... Eu não posso bem dizer porquê... porque... +porque não. + +--Parece-lhe talvez que tem uma educação muita fina para mim? + +--Não, não digo bem isso... mas... + +--Eu tambem concordo. Mas attenda o snr. Jorge que aqui na terra as +pessoas melhor educadas do que eu não a querem para mulher. Eu sei de +fidalgos que não se lhes daria de inquietal-a, e já o teem mostrado. Mas +creia que menos a honram os olhares d'esses taes, do que a minha +proposta. Eu não apreciarei, como conviria, os talentos de Bertha, mas +talvez os respeite melhor. E em todo o caso julgo que se poderá fazer de +mim um bom marido. + +--Ninguem te diz menos d'isso... mas... bem vês que... Eu não sei quaes +são as tenções de Thomé, porém parece-me que... + +--De Thomé sei eu que approvaria o casamento, porque já o disse a minha +mãe. + +A estas palavras cresceu outra vez a irritação de Jorge. + +--Então já é negocio tractado? Os paes fallaram-se. Está dito tudo. É o +absurdo costume cá da terra. Provavelmente vão exercer pressão sobre a +pobre rapariga, que se sacrifica para fazer a vontade á familia. Olha, +sabes que mais, Clemente, isso não é bonito. Para que hei de estar a +dizer o contrario? Não é bonito. Nem eu te quero dizer tudo o que penso +d'isso. + +--Mas, valha-me Deus, eu estou devéras admirado de vêr o juizo que o +snr. Jorge faz de mim! Pois imagina que eu consentiria em casar com +alguma mulher contra vontade d'ella? + +--Tu é que disseste que tua mãe e Thomé já se entenderam--observou +Jorge, continuando a passeiar no quarto. + +--Disse que fallaram n'isso e que elle não desapprovára. Mas o snr. +Jorge conhece o Thomé e por isso sabe que elle não é homem capaz de +obrigar a filha. Deus me livre de imaginar tal! Mas emfim vejo que o +snr. Jorge não approva a minha escolha; eu respeito-o muito e não quero +ir contra o seu parecer. Direi a minha mãe... + +Jorge acudiu com vivacidade: + +--Não, não. Eu não desapprovo. Essa é boa! Que tenho eu com isso? Segue +lá o teu destino. E se fores feliz... tanto melhor. Eu sou teu amigo, +desejo a tua felicidade. Anda... tenta... nada perdes em tentar. +Emfim... eu não tenho objecções a pôr... só me parecia que... Mas emfim, +anda para diante. + +--Pois sim, mas... eu desejava que o snr. Jorge fosse quem fallasse. + +Cresceu a impaciencia a Jorge. + +--Não, não, isso é que não. Perde isso da ideia. Que lembrança! Eu +fallar! E porque hei de ser eu? Que tenho eu com isso? Conheço o Thomé, +não conheço a filha. Que me importa a mim saber se a Bertha te quer para +marido, ou se não quer? Era até ridiculo. Mas como te lembraste de mim +para esse emprego? + +--Foi minha mãe quem me aconselhou. + +--E porque não vae ella? Assim como tractou com o pae, que tracte com a +filha. Quem quer negociar casamentos para os filhos não incumbe a +estranhos parte da missão. + +--É porque minha mãe julgava que o snr. Jorge não era para nós de todo +em todo um estranho--murmurou tristemente o collaço de Jorge, a quem a +imprevista maneira por que fôra acolhido por este tinha deixado em +profundo desconsôlo. + +Estas palavras de timida censura e a maneira branda e resignada com que +foram ditas, commoveram Jorge e abateram a tempestade que lhe perturbára +a habitual serenidade do seu espirito. Fazendo um esforço para dominar +os despeitos que ainda sentia revoltos no coração, disse com maior +placidez, apertando a mão de Clemente: + +--E julgava bem tua mãe. Eu não posso ser para vós um estranho, nem vós +para mim o sois. Farei o que desejas. Não faças caso das minhas +palavras. Tenho andado um pouco impertinente estes dias por causa de +certos negocios, e por isso fallei ha pouco mais vivamente. Desculpa. O +teu projecto é razoavel, eu fallarei n'elle a Thomé. Que duvida? O que +não prometto é servir-me de qualquer influencia que tenha sobre elle, +porque... porque emfim... tenho escrupulos. + +--Nem eu quereria que o fizesse. Basta que lhe exponha o caso; que lhe +diga que estou resolvido a casar, e sentindo amor... + +--Será melhor não fallarmos em amor--atalhou Jorge com renascente +impaciencia--porque afinal, Clemente, vendo as coisas como ellas são, tu +não amas Bertha. + +Ao olhar espantado com que foram acolhidas estas palavras, Jorge +respondeu já com mais força: + +--Não amas, homem, não amas. Talvez estejas persuadido de que a amas, +mas não ha tal amor. Desengana-te. Isso em ti é um projecto frio, +pensado, no qual só achaste vantagens e portanto resolveste adoptal-o. +Tens considerações por Bertha, entendes que podes estimal-a; mas amor é +outra coisa. Deixemos porém isto. Fica decidido, eu fallarei a Thomé e +dar-te-hei a resposta. + +--Agradeço-lhe, snr. Jorge. Mas veja lá, se lhe custa... + +--Porque ha de custar? Ora essa! Se fallo quasi todos os dias com o +Thomé. Em logar de conversarmos no tempo que faz, ou no estado das +terras, conversaremos n'isso. Sim, porque para mim é um assumpto como +outro qualquer, O casamento de Bertha é um assumpto em que eu posso +conversar com Thomé, naturalmente. Pois que tinha eu com o casamento de +Bertha? Eu não sou irmão d'ella. Estimo-a, é verdade, mas... o que é +certo é que... é que me não compete importar-me com o casamento de +Bertha. Já vês então que não me póde ser custoso fallar n'isto ao pae... +Pois porque te parecia que me havia de custar? + +E Jorge dizia tudo isto com uma volubilidade e com uma inquietação que +admirava Clemente. + +--A mim? Por nada--respondeu este.--Eu dizia que no caso de não querer. + +--Mas porque não? Fallo. Não tenho a menor duvida. Ámanhã dar-te-hei a +resposta. Adeus. Agora peço-te licença para examinar umas contas. + +--Eu retiro-me. + +--Então adeus. E vae descançado; hoje mesmo tractarei d'isso. É uma +coisa tão simples! Pois não te parece que é uma coisa simples? Sim, +porque bem vês que eu nisso não tomo parte activa. Por acaso tinhas +algum motivo para suppôr... + +--Nenhum. + +--Mas parecia que julgavas que eu tinha algum motivo... talvez... + +--Eu não julgava tal--respondia Clemente cada vez mais espantado com a +insistencia de Jorge, tão singular pelo menos como a sua primeira +irritação. + +Jorge conduziu o seu amigo até á porta do gabinete, onde se despediu +d'elle, apertando-lhe affectuosamente a mão. + +Depois de Clemente sahir, Jorge voltou a sentar-se á banca, e, como quem +se dispunha a proseguir no trabalho interrompido, pôz-se com affectada +tranquillidade a aparar um lapis, e trauteando a meia voz; mas tal era o +estado nervoso em que ficáa e a sua distracção tão completa, que o lapis +desfazia-se-lhe nas mãos, em vez de se apromptar para serviço. De +repente arremessou de si o lapis, o canivete e varios livros e papeis +que encontrou diante, e erguendo-se exclamou com accentuada amargura: + +--Está pois decidido que eu vá pedir a Thomé da Povoa, e para Clemente, +a mão de sua filha! Tem graça! Sempre se me preparam casos n'esta vida! + +Principiou a passeiar na sala, com os braços cruzados, a cabeça pendida +e o pensamento disputado por as mais contrarias paixões. + +--Ahi está uma solução que eu não previa--continuou elle.--Sim, senhor; +é a maneira mais simples e mais natural de cortar as dificuldades de que +tanto me receiava. Assim tudo se resolve. Fixa-se o meu futuro, cessam +as minhas hesitações, acalma-se a minha febre; applicarei o pensamento +exclusivamente aos meus negocios... E ella... será feliz. Serão +felizes... O casamento é natural... O Clemente é bom rapaz e Bertha... + +Esta ideia provocou um movimento de reacção. + +--Bertha e Clemente! Clemente marido de Bertha! Bertha casada com +Clemente! Não me posso conformar com esta ideia. Não posso costumar-me a +reunir estes dois nomes. É monstruoso, é impossivel! + +E ficou por algum tempo abatido com os olhos fitos no chão, como +subjugado por aquelle pensamento. Depois tornava, com nova energia: + +--Mas quem tem a culpa? Sou eu, eu, que não tenho coragem para passar +por cima de preconceitos ridiculos, que me prendo com teias de aranha e +fico perpetuamente aguardando não sei o quê. Pois que podia eu esperar? +Ou este sentimento em mim é real e poderoso ou não é. Se não é, com que +direito me estou incommodando com o casamento de Bertha? Se é, porque +não lhe obedeço? porque não me declaro, porque hesito... + +Vinha depois a reflexão acalmar este momentaneo paroxismo. + +--Sim, e havia de descarregar mais esse golpe sobre aquelle velho, que +não tem culpa em acatar esses preconceitos no valor de um credo +religioso! O primeiro golpe, por doloroso que elle o sentisse, foi-lhe +salutar e evitou-lh'os mais crueis. Este porém só teria compensação para +mim, e elle não lhe sentiria o beneficio. Vamos, deixemo-nos de +loucuras. Resolvi ter coragem. Hei-de têl-a. Fallarei a Thomé. + +Vinha-lhe em seguida um pensamento diverso. + +--E qual será a resposta de Bertha? Ella não póde aceitar Clemente. A +educação que recebeu... E porque não ha de aceitar? Clemente é um rapaz +honrado, trabalhador, capaz de estimar e proteger a sua mulher. Que mais +póde ella desejar? Este é o marido que lhe convem. Talvez lhe preferisse +Mauricio, que se ri d'ella, que não pensará n'ella ámanhã, mas que é um +rapaz da moda, elegante e que lhe sabe dizer bonitas palavras. A +phantasia d'estas collegiaes... + +Tornou a razão a fazer-se ouvir. + +--Mas ahi estou eu com a minha loucura, accusando aquella pobre rapariga +de defeitos, que nunca lhe pude descobrir. Mas se esta ideia faz-me +perder o juizo! Pelo contrario, a Bertha tem muito bom senso, ha de +comprehender o caracter do Clemente, apreciar as qualidades d'aquella +excellente alma e aceitar a proposta... e até sem a menor hesitação. É +um marido a final. As mulheres o que querem é um marido. Talvez até o +Clemente agrade a Bertha... Hão de ser felizes. Porque não?... Bertha +não tem aspirações mais solidas... Não póde ter... Aquillo com Mauricio +é um capricho. Todos se hão de dar bem, e Bertha com a Anna do Védor... +Que paz domestica! Tudo isto a final é naturalissimo. Eu sou que lhe +estou dando mais importancia do que merece... Tracta-se de dizer a uma +rapariga: «ahi está um homem que te pretende para mulher.» A rapariga, +que não tem maiores aspirações, responde que aceita. E o casamento +faz-se, e tudo entra no caminho ordinario, e eu mesmo me hei de +habituar... + +A explosão foi maior d'esta vez, que mais prolongado havia sido o +periodo de repressão. + +--Não, não me hei de habituar--exclamou elle agitadissimo--porque... +porque eu amo-a! Escuso de mentir a mim mesmo. Amo-a! É uma fatalidade, +mas amo-a. Foi o meu primeiro amor e ha de ser o ultimo. Amo-a e hei de +padecer horrivelmente, vendo-a casada com outro. Mas, não importa, +vencerei as minhas paixões. Se continuar a amal-a, ninguem o saberá; se +odiar Clemente, suffocarei esse odio no coração; e se elle se despedaçar +n'esse esforço, morrerei sem deixar no mundo o segredo de minha morte. O +meu destino está definido; é este, o de vencer-me. Principia hoje a +lucta, vou procurar Thomé da Povoa. + +Depois de muitos d'estes combates intimos, Jorge tomou effectivamente o +caminho da Herdade. + + + + +XXVII + + +Entrando na Herdade para cumprir a promessa feita a Clemente, Jorge +encontrou o fazendeiro, que havia pouco tempo voltára de visitar os +campos, sentado á modesta banca do seu escriptorio, examinando com +attenção os livros de assento e algumas cartas que recebêra. + +Usando da familiaridade, com que era recebido n'aquella casa, Jorge +entrára sem se mandar annunciar. + +--Olá! viva o snr. Jorge--exclamou o lavrador, voltando-se ao rumor de +passos que ouvira--venha cá, venha, que temos novidade. + +--Então que ha?--perguntou Jorge, sentando-se defronte d'elle. + +--Vamos a saber. Teve cartas do Porto? + +--Não. + +--Hum! É o que eu digo. Se está á espera de que os advogados lhe +escrevam, bem tem que esperar. Aquelles senhores, sahindo do +escriptorio, não pensam mais nas demandas nem nos clientes. Olha quem. +Eu cá entendo-me com os procuradores e não me dou peior. Ora leia. + +E passou para as mãos de Jorge uma carta, na qual de facto o procurador +lhe dava lisonjeiras informações relativamente ao pleito que a Casa +Mourisca sustentava. A questão tomára uma face nova, depois da juncção +ao processo de certos documentos de importancia, e o parecer dos juizes +era favoravel, segundo o que podia conjecturar o procurador, forte +n'estes prognosticos. + +A noticia não podia ser indifferente a Jorge. A boa solução d'esta +demanda facilitaria consideravelmente os seus projectos economicos; e +poderia depois tentar mais desembaraçado e com mais efficacia os +expedientes que a sua meditação e a experiencia de Thomé lhe suggeriam. + +--Então que diz a isso?--interrogou o fazendeiro. + +--É devéras uma feliz nova. + +--Diga-me agora se ha de ou não vir tempo em que aquella casa negra +tornará a ser o que foi. + +--Espero que Deus me conceda essa ventura. + +--Agora é necessário escrever para Lisboa para apressar o negocio, e com +relação áquelles titulos, que parece não estarem muito na ordem, +recommendo-lhe este procurador, que é homem diligente e seguro. + +--Era já minha tenção fallar-lhe n'elle. Deixemos porém agora esta +materia, porque outro grave motivo me trouxe aqui e tenho pressa de me +desempenhar da missão. + +--Olá! Motivo grave! Pelo modo de dizer parece que se tracta de coisa de +polpa. + +--Não é de pequena gravidade, não--insistiu Jorge--e se quer que lhe +falle a verdade, Thomé, não me é agradavel a incumbencia. + +--Vá lá. Estou d'aqui a adivinhar o que é. Temos algum recado do pae. O +snr. D. Luiz sabe invental-as de bom feitio. Ás vezes tem lembranças! +Mas eu já estou prevenido para tudo, venha mais essa. Diga lá. + +--Não, Thomé, não se tracta de meu pae. E não cance mais a cabeça, que +por certo não adivinha, e eu, em duas palavras, ponho-o ao corrente de +tudo. O Clemente, o filho da Anna do Védor, procurou-me ha poucas horas +para me pedir que me encarregasse de ser o seu mediador em uma pretenção +que elle tem dependente de Thomé. + +--De mim?! Deve ser bem exquisita para que o rapaz não venha em pessoa +fallar-me. Então não somos nós amigos? + +--Ha delicadeza da parte d'elle n'isto, porque a pretenção de que se +tracta é de certo melindre. Em uma palavra, estou encarregado de pedir +para Clemente a mão de Bertha. + +Jorge não pronunciou estas palavras com a mesma forçada placidez com que +até alli sustentára o dialogo. Parecia que os labios as repelliam, como +se os escaldassem ao passar. + +Thomé recebeu sem estranheza a communicação. Mostrou bem que a ideia +d'essa alliança não era nova para elle, e que não carecia de tempo para +a examinar, porque todas as faces d'elle lhe eram já conhecidas. + +--Ah! pois era isso?--disse elle naturalmente--Escusava de tantas +ceremonias o rapaz, porque já deve saber por a mãe o que eu penso do +caso. Pela minha parte não ponho duvida alguma. O Clemente é um rapaz de +bons sentimentos, honrado como poucos, trabalhador, e tendo já de seu +alguns haveres, que não são maus principios de vida. É um rapaz de +lavoura, como não podia deixar de ser o marido de Bertha, que filha de +lavrador nasceu tambem; mas sempre tem mais um bocadinho de educação do +que esses machacazes que por ahi conheço, a quem não entregaria a filha, +nem que m'a pesassem a oiro. O Clemente não, o Clemente é um homem que +sabe dar valor ás coisas, e ha de conhecer que a minha Bertha sempre se +creou por a cidade, e que por isso exige outro tractamento que não o +d'essa raparigada por ahi, que de qualquer maneira está bem. Pois não +acha que tenho razão, snr. Jorge? + +--Sim--respondeu Jorge, levantando-se e encaminhando-se para a janella, +como para dissipar o despeito, que lhe causava a maneira por que Thomé +fallava d'aquella alliança--sim, Clemente tem maneiras mais polidas e, +como diz a mãe d'elle, sabe muito bem fazer uso da senhoria e da +excellencia pela pratica da correspondencia official. + +--Isso lá historias--tornou Thomé, sem perceber a meia ironia das +palavras de Jorge--que para nada lhe serve a senhoria e a excellencia +para o casamento. Entre marido e mulher não ficam bem essas ceremonias, +e não ha como o «tu» entre quem se quer bem. + +Estas palavras incommodaram tanto Jorge, que principiou a tocar +ruidosamente nos vidros como para não as ouvir. «Tu» entre Clemente e +Bertha! + +Thomé continuou: + +--Mas eu não queria dizer isso. Quando fallava nas maneiras do Clemente +queria dizer que elle tem isto, que não sei bem como se chama, isto de +um homem saber tractar com uma pessoa delicada sem a offender. Porque, +vê o snr. Jorge? eu conheço homens que tiveram grande educação, muitos +mestres, e muitos estudos, sim senhores, e que estão sempre a dizer +coisas que offendem os outros. Emquanto que muitos, que não foram tão +bem olhados em pequenos, teem lá não sei que dom de conhecer as pessoas +e sabem viver com ellas sem nunca as escandalisar. Isto é assim como que +uma delicadeza que se não aprende, que nasce com as pessoas. Ora o +Clemente é dos taes. + +--Em vista do que ouço, reputo-me feliz por ter sido o portador de tão +fausta nova, e de concorrer, ainda que secundariamente, para obter-lhe +um genro tão precioso--disse Jorge, cujo despeito se exacerbava. + +--Devagar, devagar, esta é cá a minha opinião, mas não sou eu que me +caso e portanto Bertha é que ha de decidir. Eu não duvido dar conselhos +a minha filha e dizer-lhe o que penso d'este ou d'aquelle rapaz de quem +ella se lembre para noivo; mas constrangêl-a, isso é que eu não faço. + +--De certo; mas creio que Bertha não será tão cega, que não veja as +excellencias que concorrem na pessoa de Clemente, e que se não lisonjeie +da preferencia que lhe mereceu. + +--Pois eu tambem quero crêr que o não engeitará. Mas emfim, a gente vê +as coisas com uns olhos e ellas com outros. Por muito ajuizadas que +sejam, as raparigas a final teem olhos de raparigas e ás vezes lá +descobrem em um homem umas coisas, que as captivam ou que as desgostam, +e ninguem póde saber o que lhes agradará mais. Em todo o caso eu vou +consultal-a. + +--Muito bem. Consulte-a e se, como é de esperar do juizo d'ella, +Clemente fôr bem acolhido, dê-me parte para o participar ao meu +constituinte. + +Jorge não podia despojar as suas palavras de todo o tom de ironia, ao +referir-se a Clemente. + +--Mas...--disse com certa hesitação Thomé--então retira-se já? + +--Pois não diz que vae consultar Bertha? + +--Mas, se se demorasse, podia já saber... + +--A urgencia não é tanta que se torne necessario esperar. Mas emfim +esperarei. Vou dar uma volta pelo campo, emquanto lhe falla. + +--E tinha duvida em ficar? + +--Ficar onde? + +--Aqui. + +--A fazer o quê? + +--A ouvir a resposta de Bertha. + +--Eu?!--exclamou Jorge, com uma vivacidade que para Thomé não tinha +explicação. + +--Então que tem? Não se tracta de segredo algum. É uma proposta que vou +fazer a minha filha e á qual ella responderá sim ou não, e está acabado. +A presença do snr. Jorge nada estorva. Antes poderia dar á pequena +informações a respeito do Clemente, que ella conhece mal... + +--O quê?! Thomé!--acudiu Jorge irritado--pois cuida que eu me encarrego +de similhante papel? Eu? Que interesse tenho eu em que Bertha aceite a +proposta de Clemente? Que certeza posso dar-lhe de que fará bem +aceitando-a? Eu sei lá? Clemente é um rapaz de quem sou amigo, mas não +sei nem quero saber se d'elle se fará um bom marido. A respeito de +casamentos não dou conselhos. Não quero que me lancem depois as culpas. +N'esse assumpto cada um escolha por si, porque para si escolhe. +Informações a respeito do Clemente! Eu?! Mas que informações quer que eu +dê? + +--Pois não diz que é seu amigo?--tornou Thomé, um pouco admirado com as +maneiras impertinentes que notava em Jorge--Não é essa já pequena +garantia para a minha Bertha, que sabe o valor que teem os homens, a +quem o snr. Jorge dá esse nome. + +--Ah! não sabia que eu era a pedra de toque no conceito de Bertha para +julgar dos caracteres dos homens. Mais um motivo para ser reservado. + +--Diga-me uma coisa, snr. Jorge--insistiu Thomé, e em tom mais +decidido--se soubesse que o Clemente era um miseravel, um vicioso, um +extravagante, de más qualidades, e estivesse persuadido de que seria um +mau marido, ter-se-ia encarregado de pedir-me, em nome d'elle, a mão de +minha filha? + +--Por certo que não--respondeu Jorge promptamente e com toda a lealdade. + +--Muito bem; pois é isso mesmo que eu desejava que minha filha soubesse. +O snr. Jorge não lhe daria conselhos, dir-lhe-ia sómente: encarreguei-me +de dar este passo, porque este homem é um homem honrado. Agora o mais é +com ella. Mas isso poria as coisas no seu logar. Porém uma vez que não +quer... + +Passava-se n'aquelle momento na alma de Jorge uma lucta de resoluções +antagonistas. Se por um lado lhe repugnava a proposta de Thomé, +tentava-o por outro a curiosidade dolorosa de saber como Bertha +acolheria o pedido de Clemente e a resposta que lhe daria. Receiava que +a intima commoção, que procurava suffocar, se trahisse na presença de +Bertha em tão solemne momento, e ao mesmo tempo custava-lhe renunciar a +observal-a quando ouvisse a proposta do pae. A curiosidade venceu. +Esforçando-se por desvanecer todos os vestigios da sua perturbação, +Jorge respondeu a Thomé no tom da maior indiferença, que, visto que elle +julgava conveniente a sua presença durante a entrevista que ia ter com a +filha, pela sua parte não oppunba objecção. + +E sentando-se outra vez á banca, abriu ao acaso um livro, que fingiu +examinar attento, mal podendo reprimir o tremor da mão com que o +segurava. + +Thomé da Povoa chamou a filha ao escriptorio. + +Jorge ouviu os passos de Bertha, descendo as escadas; sentiu-a abrir a +porta e entrar na sala; levantou timidamente os olhos para responder ao +comprimento que ella lhe dirigiu e baixou-os novamente sobre o livro que +abrira. + +Bertha olhou interrogadoramente para o pae, que permanecia silencioso, +como quem estudava a maneira de principiar. + +A final entrou assim no assumpto: + +--Mandei chamar-te, Bertha, porque se tracta d'um negocio serio, que te +diz respeito. + +--A mim?--perguntou Bertha admirada, alternando os olhares entre o pae e +Jorge, que não erguia os seus. + +--Sim, filha, a ti. O caso não é de espantar. Ha um rapaz n'esta terra, +um moço honrado e trabalhador, a quem tu agradaste e que te pede para +mulher. + +Jorge aventurou um olhar furtivo para o rosto de Bertha. Viu-o mudar +rapidamente de côr; córou primeiro, empallideceu depois. + +--Este rapaz--proseguiu Thomé--é já teu conhecido. É o Clemente, o filho +da ti'Anna do Védor, de quem és amiga. Agora decide lá. + +Bertha permanecia silenciosa, como se a inesperada noticia lhe tivesse +tirado o uso das faculdades, a ponto de não comprehender o que ouvira. + +Notando o silencio da filha, Thomé acrescentou: + +--O snr. Jorge foi quem teve a bondade de se encarregar do pedido de +Clemente, porque o rapaz não teve coragem para o fazer em pessoa. + +Jorge franziu ligeiramente o sobrolho, a estas palavras, que não quizera +ouvir. + +Bertha estremeceu e desviou para Jorge um olhar expressivo de profunda +amargura, que elle não observou. Voltando-se depois para o pae, +perguntou-lhe com a voz tremula e prêsa pela commoção: + +--E que respondeu o pae ao pedido que lhe fez, em nome de Clemente, o +snr. Jorge? + +--Eu, filha?--respondeu Thomé--Pela minha parte disse e digo que não +ponho estorvos. Conheço o rapaz, sei as qualidades que elle tem e para +genro agrada-me. Mas isso não tira. Tu é que deves dizer se elle te +agrada para marido. + +Bertha baixou, durante alguns momentos, os olhos e não respondeu. Depois +ergueu-os e fitou-os em Jorge, como a procurar-lhe penetrar no +pensamento; a final com voz já mais firme, mas commovida ainda, disse: + +--Visto que foi o snr. Jorge quem se encarregou d'essa proposta, +parece-me ter direito a pedir tambem a sua opinião a respeito d'ella. + +Jorge estremeceu e olhou para Bertha de uma maneira que denunciava um +intimo sobresalto. + +--A minha opinião?--repetiu elle, sem saber o que dizia. + +--Sim, o snr. Jorge é amigo de meu pae, e julgo que meu amigo tambem. +Não ha de querer vêr-me infeliz. Encarregando-se de dar o passo que deu, +é de certo porque julga que eu poderei encontrar a felicidade, seguindo +o caminho que me facilita assim. A sua lealdade obriga-o a dizel-o +francamente, se assim o pensa. E eu atrevo-me a exigil-o da sua +lealdade. + +--Eu apenas cumpri a missão de que me encarregaram, mas não +aconselho--balbuciou Jorge. + +--O snr. Jorge é demasiado sincero na sua amizade a meu pae para aceitar +essa missão de um homem de quem receiasse que me podia vir a +infelicidade. Quero acredital-o. + +Jorge irritou-se; irritou-se contra si por a turbação que sentia, e +contra Bertha, por suspeitar que era o amor a Mauricio que lhe estava +dictando aquellas palavras; por isso respondeu com o tom ironico do +costume: + +--Não duvido affirmar que o Clemente é um excellente rapaz, que póde +fazer feliz qualquer mulher que não aspira a mais do que á estima leal e +sincera de um homem de bem. Vejo em Clemente garantias de que dará a uma +esposa de ideias razoaveis aquella felicidade que consiste na paz +domestica e no amor da familia. Mas eu não sei se isto satisfará a toda +a gente. Ahi está que as educações modernas fazem ás vezes o espirito +das mulheres mais exigente e habituam-nas a sonhar com umas certas +poesias na vida, que um homem como o Clemente sem duvida não póde +realisar. A essas agrada ás vezes mais qualquer estouvado, com a cabeça +cheia de loucuras e o coração vazio, mas que tenha a brilhante qualidade +de saber dizer falsidades em bonitas palavras. + +Depois, reprimindo esta excepcional vivacidade, que estava espantando +Thomé, acrescentou: + +--Se, como creio, Bertha não está n'este caso, parece-me que encontrará +em Clemente um marido leal. + +Estas palavras pronunciou-as Jorge em tom sumido e baixando de novo o +olhar para o livro que não lia. + +Thomé voltou á falla: + +--Sabes que mais, Bertha, estas coisas querem-se pensadas. Tu darás a +resposta quando quizeres, que a pressa não é muita. + +Bertha atalhou: + +--Não é necessário, meu pae. A minha resolução está formada. Póde mandar +dizer a Clemente que aceito. + +Jorge sentiu ennevoarem-se as letras do livro, como se lhe passasse por +diante uma nuvem escura. + +Thomé insistiu: + +--Não, filha; para que has de ser tão apressada? Valha-te Deus. Pensa e +depois resolverás. + +--Já resolvi, meu pae--repetiu Bertha com firmeza.--Clemente é um homem +honrado, eu não posso aspirar a mais. Dizem que é uma alma generosa, ha +de estimar-me, eu não procuro outras delicadezas além d'aquellas que +sabem poupar-nos uma offensa immerecida. E é tão facil evitar offender +uma rapariga como eu! + +E dizendo isto desviava na direcção de Jorge um olhar intencional. + + +--Póde mandar dizer a Clemente que aceito, meu pae--repetiu ella, +concluindo. + +--Vê lá! Olha que eu não quero que te constranjas! E agora deixa-me +tambem fallar a tua mãe, que sem a ouvir não é bom decidir nada. +Espera-me aqui um pouco, que eu vou chamal-a. + +E sem aguardar reflexões, Thomé, intimamente satisfeito com a prompta +condescendencia da filha, sahiu da sala em procura de Luiza. + +Jorge não desejaria conservar-se mais tempo alli, só, na presença de +Bertha, mas faltou-lhe o animo para levantar-se. Ambos se conservaram +calados por algum tempo. + +Jorge nem levantára os olhos do livro. + +Bertha foi quem primeiro rompeu aquelle glacial silencio. + +--Devo-lhe agradecer, snr. Jorge, o muito cuidado que lhe merece a minha +felicidade. + +Jorge ergueu a cabeça e fitou os olhos no semblante de Bertha. + +A violencia que ella fazia para reprimir a sua profunda commoção era bem +manifesta. + +--Espero que Bertha se não decidisse pelo partido que adoptou, senão por +sua livre vontade--disse Jorge com mais brandura do que até alli--e que +a minha ingerencia em tudo isto não influisse de maneira alguma para +obrigal-a a sacrificar a sua felicidade... + +--Oh! por certo que não--atalhou Bertha, cada vez mais agitada--eu sou. +.. hei de ser muito feliz... + +E não podendo reter mais tempo as lagrimas que lhe subiam impetuosas aos +olhos, occultou o rosto entre as mãos e poz-se a chorar. + +Jorge aproximou-se d'ella com compassiva solicitude. + +--Porque chora, Bertha?--perguntou elle com affabilidade.--Se por acaso +foi contra sua vontade que deu aquella resposta, ainda está em tempo. +Ninguem lhe pede um sacrificio, repare. Porque chora assim, Bertha? + +Em vez de responder, Bertha elevando para Jorge os olhos banhados de +lagrimas, perguntou com a voz tremula ainda: + +--Ficará pelo menos extincta de uma vez com este sacrificio a aversão +que me tem, snr. Jorge? + +Jorge estremeceu. + +--A aversão que lhe tenho?! Que diz, Bertha?! Pois imagina?... + +--E quer ainda negal-a? Não sei em que lh'a tenho merecido, mas existe e +bem clara se manifestou agora. + +--Bertha!... + +--Não lh'o disse eu já no outro dia? E agora o que o moveu a +encarregar-se d'essa proposta? e porque o fez com aquellas palavras +crueis? Eu bem as percebi. Meu Deus, em que foi que o offendi, snr. +Jorge, para ser tão severo commigo, quando para com todos é tão +indulgente? A minha educação... Deus sabe se me deixei fascinar por +ella, Deus sabe se não luctei sempre contra a imaginação, quando ella me +fazia conceber loucuras, como a todas as raparigas da minha idade. Quem +póde condemnar-me por ellas, se eu sou a primeira que as condemno? Em +que tenho mostrado esses defeitos de educação, que tão severamente me +censura? Se soubesse, snr. Jorge, como, percebendo o seu desdem, tenho +sido escrupulosa em procurar em todos os meus actos o motivo d'elle... +Deus é testemunha de que nada descobri. Falle, já agora que está +consummado o sacrificio, já agora que deve julgar satisfeita a expiação +que me impoz, tenho direito a exigir de si o cumprimento da promessa, +que ha poucos dias não ousou recusar-me. Bem vê, se descobriu em mim +culpas, para remir as quaes me marcou esta penitencia, bem vê com que +resignação eu a aceito e a cumpro. Valha-me pelo menos este pouco merito +para obter da sua parte uma declaração franca, já que não póde +valer-me... a sua amizade. Falle, snr. Jorge, diga-me porque me quer +mal, o que fiz eu, que más qualidades descobriu em mim para me tractar +como tracta? Falle. + +E a commoção cortava-lhe em meio as palavras ao dizer isto. Jorge não +estava menos commovido. + +Bertha deixára-se cahir soluçando em uma cadeira, e escondia o rosto +entre as mãos; Jorge, cujo semblante já não conservava vestigios da sua +fria e habitual reserva, veio sentar-se junto d'ella, tornou-lhe +afectuosamente as mãos, e dirigindo-se-lhe com brandura, disse-lhe: + +--Vou satisfazêl-a, Bertha; vou ser sincero e leal comsigo, já que assim +o quer. Escute-me e saberá a causa occulta de todo o meu estranho +procedimento. Olhe bem para mim, Bertha, para lêr no meu semblante a +sinceridade da minha confissão. + +Bertha ergueu para elle os olhos humidos de pranto. + +Jorge proseguiu, apertando-lhe com mais fervor as mãos que conservava +nas suas. + +--A causa intima, a causa occulta das minhas acções para comsigo, +Bertha, essa causa mysteriosa que eu procurava esconder da vista de +todos e suffocar no meu coração... quer sabêl-a, Bertha? Essa causa é o +muito amor que lhe tenho. + +Bertha estremeceu e, retirando as mãos das de Jorge, levou-as ao rosto +como para reprimir um grito. + +Jorge proseguiu: + +--Agora ha de escutar-me, Bertha. Os corações reservados, como o meu, +quando chegam a soltar a primeira confidencia precisam de se revelar +inteiros; escute-me. Amo-a; amava-a antes mesmo de a ver depois do seu +regresso á aldeia. Insinuou-se-me na alma este amor no meio das minhas +preoccupações e dos meus cuidados, sem eu bem saber como. Ouvia fallar +de si a seu pae, lia as suas cartas, pensava em si e... e amei-a. Foi o +meu primeiro amor. Nunca tinha sentido outro, nunca sentira até a +necessidade de amar. Nenhuma mulher me havia escutado uma só palavra de +galanteio. Persuadira-me eu proprio de que o meu coração era superior á +violencia dos affectos, a que os outros cediam. Quando, pelo que senti, +me vi forçado a abandonar esta crença, quando comecei a duvidar da minha +immunidade, assustei-me e irritei-me contra mim mesmo por me achar +fraco. Quiz luctar e vencer essa paixão que, a despeito da minha +vontade, sentia occupar cada vez mais espaço no meu coração. Ai, Bertha, +começou para mim uma lucta extenuadora; quanto mais resistia, tanto mais +me sentia subjugado. Revoltei-me contra a fatalidade d'este affecto, +revoltei-me contra si, Bertha, a quem desejava querer mal por o muito +que a amava já. D'ahi a rudeza das minhas palavras, a quasi hostilidade +do meu proceder para comsigo. Para apagar o prestigio que o seu nome, +que a sua imagem tinham adquirido no meu coração, suppunha-lhe defeitos +imaginarios, inventava-lhe vicios de educação, procurava assim alienar +de si os meus affectos, antes que chegasse o temido momento de vêl-a; em +vão, cada vez a amava mais, e no dia em que finalmente a tornei a ver, +conheci que era irremediavel aquella fatalidade; amava-a e muito e +tanto, que até ciumes sentia já. + +Bertha, a estas palavras, levantou os olhos para elle. + +Jorge proseguiu respondendo áquelle gesto: + +--Ciumes, sim, Bertha; ciumes que ralavam, ciumes que me enchiam de +remorsos, e que envenenavam quasi o afecto que me ligava a meu irmão. +Porque era d'elle que os sentia. Veja que má loucura a minha! É a +Mauricio que Bertha ama, pensava eu, seduzem-n'a as qualidades +brilhantes de meu irmão, e comtudo elle não a ama como eu. Então +indignava-me contra si, Bertha, e contra mim proprio, porque a amava +tanto. + +A uma pequena pausa que Jorge fez na sua apaixonada exposição, Bertha +ergueu outra vez os olhos para elle, e n'esse olhar ia a condemnação +d'aquelles ciumes. + +Jorge continuou: + +--E porque me assustava tanto este amor? Porque tentava resistir-lhe +assim? Ao principio foi pela estranheza que me causou este sentimento +novo e desconhecido. Depois, o receio de que fosse descoberto este amor +em um homem que todos suppunham incapaz de amar; um quasi pudor de +coração. Finalmente veio a reflexão augmentar estes receios. Se este +affecto crescesse e me dominasse como paixão violenta e exclusiva, que +obstaculos não teria a vencer! que preconceitos não teria de calcar! +Desprezando arreigados prejuizos de meu pae, incorrêra eu já nas suas +iras, mas d'essa vez desattendi-os, menos pela minha felicidade, do que +pela d'elle; para salvar o nome e a honra da nossa familia, a cuja +aviltação meu pae não sobreviveria. Tive por isso coragem para luctar e +tenho-a para proseguir. Mas agora tractava-se sómente da minha +felicidade; era só a elle que eu teria de sacrificar os preconceitos, o +orgulho, as radicadas opiniões d'aquelle honrado velho. Faltava-me o +alento para tental-o. Preferia dar-lhe em holocausto o meu coração. E o +sacrificio devia ser definitivo, porque a memoria de meu pae o exigiria +de mim, impôr-m'o-ia tão fortemente como elle proprio. Mas, se este amor +fosse correspondido, faltar-me-ia o animo e até o direito de o +sacrificar assim. Por isso fugi de me revelar, Bertha, por isso tentei +antes fazer-me aborrecido do que estimado de si, de quem eu apreciaria o +amor como um dom do céo. Creia. Por isso aceitei com o coração a +despedaçar-se-me, mas com certo doloroso prazer, a missão de que me +encarregou Clemente. Deus sabe o que eu soffria ha pouco. A sua +condescendencia torturava-me, nas suas hesitações julgava descobrir +vestigios de uma affeição... por Mauricio. D'ahi vieram todas as +loucuras que eu disse. Eis o segredo do meu coração, Bertha, eis o +mysterio das minhas acções. Agora julgue-me e perdoe-me. Bem vê que +tambem soffro. + +E, terminando estas palavras, Jorge inclinou a fronte sobre a mão, como +se o esforço que fizera o tivesse extenuado. + +Bertha foi d'esta vez a que primeiro interrompeu aquelle silencio +eloquente de paixão; com a voz ainda sobresaltada, mas com o olhar +seguro, ella respondeu apertando a mão de Jorge: + +--A sua confidencia leal e a sua generosidade deu-me coragem de ser +tambem sincera. Jorge, repare; sem o menor receio nem hesitação, com o +olhar erguido diante do seu, vencida por a confiança que se sente em uma +alma tão nobremente generosa, tambem lhe faço a minha confidencia. +Jorge... eu também o amava... + +Jorge ergueu a cabeça ao ouvir a inesperada declaração, e por momentos +brilhou-lhe no rosto um clarão de alegria. + +Bertha, baixando timidamente os olhos, continuou: + +--Sim, tambem o amava; mas tambem tinha comprehendido a necessidade do +sacrificio de que falla, e não serei de certo eu quem lhe tire o animo +de realisal-o. É antes para lhe dar coragem que lhe fallo assim; para +que a certeza de que alguem soffre comsigo lhe dê allivio no +soffrimento. Venero e estimo seu pae, como se fosse o meu, Jorge, e para +lhe evitar uma dôr, não acho grande o sacrificio do meu coração e dos +meus affectos. E agora muito menos; deu-me a certeza de que me não +despreza. Era essa suspeita que me torturava. Agora sou feliz, e +sinto-me corajosa. Encaro sem desalento o meu dever e o meu futuro. Não +serão obstaculo os sentimentos da minha alma; porque n'elles sinto eu +antes auxilio. É d'esta natureza o amor que lhe tenho, Jorge. Amando-o, +aceitarei sem remorsos a proposta de Clemente. Vê? É porque este affecto +ennobrece, e emquanto o sentir não receio de me tornar indigna d'elle. +Apenas fallarei com lealdade a meu noivo, para dizer-lhe que não posso +prometter-lhe amor, porque o não sinto por elle. + +--Não, Bertha, não; não aceite a proposta de Clemente. Se é verdade que +me ama, não aceite... + +--Porque não, Jorge? Creia-me. É a mais segura maneira de vencermos este +sentimento, que a nosso pezar nos dominou. Ambos nós respeitamos muito o +dever. Elle nos dará coragem. + +--Bertha; diga outra vez que me ama; diga-me que me illudi sempre em +relação aos seus sentimentos, e eu vencerei as resistencias que se +oppozerem a este amor, como tenho vencido as que luctavam contra os +projectos que formei de salvar a minha casa de ruina. + +--Que diz, Jorge? Nunca me poderá vir a felicidade da discordia da sua +familia e bem vê que era inevitavel. Eu sou a filha de Thomé da Povoa, +lembro-me d'isso, Jorge; de Thomé da Povoa, o antigo criado da Casa +Mourisca; o homem de quem o snr. D. Luiz recebe os serviços como +humilhações e insultos. Seu pae estima-me; ainda ha bem pouco me +abençoou, como se eu fosse sua filha. Não queira obrigar-me a perder +essa estima, que tanto prézo. Não seria feliz depois; não podia sêl-o. +Assim conservarei a amizade de todos... porque o snr. Jorge ha de +estimar-me sempre, não é verdade? + +--Hei de adoral-a, Bertha--murmurou Jorge, submettido. + +--Vamos; procedamos agora como se nada se passasse entre nós. Ganhemos +coragem para cada um cumprir o seu dever e separemo-nos como bons +amigos. + +E commovida ainda, estendeu a mão a Jorge, que a levou apaixonadamente +aos labios, cobrindo-a de beijos. + +--Bertha, Bertha, não será quasi um crime o que fazemos? Despedirmo-nos +assim quando pela primeira vez nos revelamos? + +--Não, Jorge, não é. É um dever... doloroso, mas é um dever. + +Ouviram-se as vozes de Thomé e de Luiza, que voltavam. + +Jorge ergueu-se sobresaltado: + +--Não posso simular a placidez necessaria para fallar-lhes e ouvil-os +fallar n'este casamento, Bertha; como hei de ter animo para o +presenciar? Adeus e... se lhe faltar a coragem... tudo se remediará +ainda. + +--Adeus, Jorge. Havemos de ser dignos um do outro. Não fraquearemos. + +E Jorge sahiu da sala para não se encontrar com Thomé. + +Bertha recebeu os paes já com os olhos enxutos, ainda que agitada pela +violencia da ultima scena. + +Luiza parecia mediocremente encantada com a perspectiva do casamento que +tanto satisfazia Thomé. + +--Então é verdade, Bertha? E tu querel-o?--perguntou ella em tom de quem +duvidava. + +--Sim, minha mãe, julgo que devo aceitar. + +--E... e o snr. Jorge... tambem te aconselhou? + +--Sim--respondeu Bertha mais enleiada--o snr. Jorge é de parecer que +sim. + +--Já se retirou?--perguntou Thomé da Povoa, procurando-o com a vista. + +--Já. Disse que não podia demorar-se. E eu peço licença para me retirar +tambem. + +E Bertha apressou-se a sahir da sala para se esconder no seu quarto e +chorar. + +--Emfim!--concluiu Luiza, suspirando e depois de seguir a filha com a +vista--Vossês lá o lêem, lá o entendem. Mas não era isto o que eu +esperava. + +--Então que esperavas tu?--perguntou Thomé, levemente +despeitado.--Julgavas talvez que viria por ahi algum principe pedir-te a +filha para casar? + +--Eu cá me entendo. + +--E eu tambem te entendo. Que ainda ninguem te pôde tirar da cabeça umas +teias de aranha que lá se metteram. Agora pelo menos deves estar +desenganada. + +Luiza suspirou e não deu resposta. Mas pensava comsigo: + +--Bertha já eu vi, e a cara não é de noiva contente. Tenho pena de não +vêr a d'elle. Mas emfim, seja o que Deus quizer! + + + + +XXVIII + + +Tinham decorrido alguns dias desde que a baroneza principiára a receber +de Mauricio signaes inequivocos de um galanteio, que ella com as mais +louvaveis intenções favorecia. + +Durante todo este tempo o leviano rapaz consagrára à sua nova paixão +todos os instantes, sujeitava-lhe todos os pensamentos. Não perdia a +menor occasião de se encontrar com a prima e de renovar as scenas, que a +agudeza de genio e a vivacidade de espirito de Gabriella sabiam rodear +de attractivos inteiramente novos para a inexperiencia do apaixonado +moço. + +Em época alguma tinham os criados conhecido Mauricio tão caseiro como +então; cessaram as suas correrias pelos arredores, e os cavallos só eram +por elle tirados da ociosidade quando Gabriella se lembrava de passeiar +pelos campos. Mauricio era então certo a acompanhal-a. + +Este estado de coisas inquietava porém a baroneza. + +Caracteres, como o de Mauricio, por muito os vêr na roda da sociedade em +que vivia, já para ella não tinham segredos não estudados. Não confiava +tanto no prestigio que actualmente exercia no animo de seu joven e +voluvel primo, que não temesse a influencia que poderia exercer sobre +elle a monotonia das impressões da vida que elle passava nos Bacellos. + +A baroneza tinha, é verdade, immensos recursos para varial-as. Estava +ainda longe de os dar por esgotados. Quando Mauricio julgava ter +conhecido a verdadeira feição moral de Gabriella, ella desilludia-o, +impressionando-o sob uma feição nova. + +Umas vezes fallava-lhe com uma seriedade maternal; outras parecia +abrir-se-lhe na mais fraternal expansão; mostrava-se-lhe mais tarde +reservada e discreta; depois satyrica e espirituosa, e sempre cheia de +encantos, que com perfeitissimo conhecimento e uso da arte sabia fazer +realçar. + +Apesar d'isso, porém, a baroneza antevia perigos na prolongação +d'aquella vida monotona, e sentia a necessidade de dar um golpe +decisivo. + +Era preciso partir para Lisboa e obrigar Mauricio a seguil-a. + +A demora d'este projecto poderia mallogral-o. Resolveu portanto apressar +a sua partida. + +Uma circumstancia, porém, a tornára difficil. + +Os successivos desgostos que tinham ferido o coração de D. Luiz, a +resignação que elle fizera dos seus antigos habitos, a homisiação a que +condemnou successivamente ambos os filhos, as saudades avivadas de +Beatriz, o desconforto do seu viver actual, sem esperanças de melhor +futuro, e por ventura com remorsos do passado, todas estas influencias +acabaram por prostrar de desalento o velho fidalgo, e por acabrunhal-o e +envelhecêl-o em poucos dias, como se estes se contassem por annos. + +Nada o distrahia. As gazetas, em cuja leitura alimentava outr'ora a +chamma legitimista, que lhe abrazava o coração, enfastiavam-n'o, e +tinham sido intencionalmente desviadas pela baroneza; a companhia e a +conversação de frei Januario não as podia já aturar sem impaciencia; +perdeu o gosto para tudo, e principiou a adquirir habitos +progressivamente sedentarios. + +Interrompeu os seus passeios, deixou de apparecer á mesa, jantava e +almoçava no quarto, e acabou por passar quasi todo o dia na cama, +debilitando-se n'esta inacção a olhos vistos. + +Gabriella via com cuidado os symptomas d'este crescente abatimento +physico e moral, e procurava combatel-o por todos os meios. + +Ia para o quarto do tio, e variando a conversa e temperando-a com todas +as graças que o espirito e o estudo lhe suggeriam, conseguia distrahil-o +e chegava até a fazêl-o sorrir. + +Outras vezes entretinha-o, lendo-lhe em voz alta, e escolhia livros que, +no dizer della podassem adoçar as cruezas do genio do fidalgo e +amaciar-lhe as aspereza das suas escamas aristocraticas. Quantas +occasiões D. Luiz escutava attento e commovido os episodios de certos +livros, mansamente revolucionarios, e abria desprevenido o coração a +doutrinas subversivas dos seus velhos preconceitos, tão occultas ellas +se lhe ensinuavam entre os artificios da concepção e da linguagem! + +A baroneza tinha muita fé n'esta vaccina litteraria. + +O resultado porém de tudo isto foi que assim que ella tentou partir para +Lisboa, encontrou no tio uma reluctancia com que não havia contado. + +O pobre velho, fraco, triste e doente, havia-se costumado á companhia +d'aquella mulher cheia de vida, de intelligencia e de alegria, e +queria-lhe com o apêgo que, n'essas idades, a alma contrahe a todas as +imagens que lhe recordam o tempo em que se conheceu joven e vigorosa. + +D. Luiz experimentava quasi um secreto terror ao lembrar-se de que a +baroneza o havia de deixar. Quem viria sentar-se ao lado do seu +melancolico leito, assim que ella partisse? Os filhos afastára-os para +longe de si, em castigo dos delictos com que tanto o haviam offendido. +Frei Januario era-lhe insupportavel. + +Mas ficar só, viver só, pensar só, alli n'aquella casa que nem era sua, +só nas suas longas e melancolicas vigilias, com as escuras memorias do +seu passado, com as sombrias apprehensões pelo futuro... esta ideia +aterrava-o. Quando Gabriella alludia á sua próxima partida, elle +desviava o sentido da conversa e claramente lhe pedia que não fallasse +n'isso. + +A baroneza via-se pois obrigada a transferir indefinidamente o seu +projecto de deixar a aldeia. + +Comtudo cada dia que se demorava nos Bacellos contava-o ella como uma +probabilidade menos a favor dos seus planos! + +Esta difficil situação em que se via, obrigou-a a pensar seriamente no +partido que devia adoptar. + +Era preciso descobrir um meio de abandonar a aldeia e voltar a Lisboa, +sem causar a D. Luiz o desgosto e a pena que, no estado de saude e de +espirito em que o via, ella receiava que lhe podésse ser fatal. + +Uma manhã foi ella procurar o seu primo Jorge, muito convencida de que +tinha emfim descoberto o expediente que procurava. + +Jorge trabalhava com uma actividade febril, depois que se ajustára o +casamento de Bertha. Parecia querer procurar no trabalho uma embriaguez +que lhe amortecesse as dôres do coração, que aquelle facto lhe +produzira. Mas a violencia do esforço cançava-o, e bem claro o revelava +na pallidez e depressão da physionomia. + +Gabriella não pôde deixar de fazer uma observação mal o viu aquella +manhã: + +--É preciso cautela, primo Jorge. Nada de trabalho immoderado! Lembra-te +de que a tua constituição não é para taes fadigas. + +--Porque me diz isso? + +--Porque te estou lendo no rosto a necessidade de ar livre, de sol, de +exercicio e de distracção do pensamento. + +--Effeitos de uma noite mal passada. Eu não me sinto cançado. + +--Embora. Sê prudente. Olha que o bom exito dos teus planos depende da +tua perseverança, e a perseverança está mais na continuação dos esforços +do que na violencia d'elles. + +--Creia que me sei poupar. + +--Muito bem. Agora farás o favor de fechar esses livros e de me escutar, +porque tenho que te dizer. + +--Ás suas ordens--respondeu Jorge obedecendo-lhe. + +--Entrarei sem demora no assumpto. Sabes que formei o plano de partir +ámanhã pela madrugada para Lisboa? + +--Então que urgencias são essas? + +--É que se não tomo uma resolução assim, não acabo de partir. Vou de +adiamento em adiamento até ao fim do anno. E é indispensavel que parta. + +--Indispensavel!--repetiu Jorge com ar de duvida. + +--Com certeza que é. Além do que é necessario arranjarmos Mauricio. Has +de concordar commigo, que esta vida perde-o. Cada dia que se passa para +elle n'esta ociosidade campestre, exerce uma funesta influencia sobre +aquelle caracter, aliás de muito aproveitaveis qualidades. + +--Isso é assim. Porém Maurício que parta só. + +--Não partirá. + +--Porquê? + +Gabriella hesitou em dar a razão que Jorge lhe pedia, e respondeu +evasivamente. + +--Sei que não partirá. Demais é conveniente que eu lhe prepare o caminho +em Lisboa e por isso preciso de lá ir. + +--Porém meu pae? + +--Pois ahi é que está a dificuldade, e por causa d'isso é que eu +reclamei esta conferencia. + +--Então? + +--O tio Luiz está bastante doente. Do corpo e do espirito. Chega a +dar-me cuidados. N'aquelle estado não póde prescindir de certos carinhos +e desvelos, proprios só de uma mulher. São-lhe já tão indispensaveis, +que elle, coitado, aterra-se sómente com a ideia de ter de viver sem +elles. Por isso não quer ouvir fallar na minha partida. A mim mesma me +custa deixal-o, porque sei que lhe hei de fazer falta. + +--E contudo diz que parte ámanhã! + +--É verdade, porque julgo ter descoberto uma combinação que remediará +tudo. + +--Qual é? + +--É preciso substituir-me. É preciso sentar uma mulher á cabeceira do +tio Luiz, mas uma mulher que o estime, que olhe por elle, que o distraia +e a quem elle consagre uma affeição que o faça esquecer de mim, e que +lhe torne essa enfermeira ainda mais necessaria do que eu hoje lhe sou, +e ninguem mais está n'este caso do que a afilhada d'elle, essa rapariga +por quem o tio parece haver já manifestado uma particular sympathia, e +que melhor do que ninguem póde vir a exercer sobre elle uma influencia +salutar; n'uma palavra, Bertha da Povoa, a filha do Thomé. + +Jorge não pôde reprimir um movimento de contrariedade ao escutar o +projecto da baroneza. + +Ergueu-se da mesa, junto da qual estivera sentado, e disse com certo +modo sacudido, como exprimindo uma opinião irrevogavel: + +--Não póde ser. + +--Porquê?--perguntou Gabriella. + +--Porque... porque não. + +--Quererás dar-te ao incommodo de procurar outra razão mais logica, +primo Jorge? + +--Meu pae não aceitaria os cuidados da filha do Thomé da Povoa. + +--Primeiro que tudo é preciso que consideres que o doente que eu deixo +lá dentro não é já aquelle D. Luiz que nós ambos conhecemos na Casa +Mourisca; depois Bertha para elle é raras vezes a filha do Thomé, é a +amiga de Beatriz, é a imagem viva d'aquelle anjo, que elle ainda hoje +chora. Teu pae não terá coragem para afugentar Bertha de junto do seu +leito, e difficil será tiral-a de lá. + +--Thomé não consentiria... + +--O Thomé é um homem generoso e que, apesar de tudo, tem uma sincera +affeição ao tio Luiz. O Jorge bem o sabe. + +--Mas... + +--Mas, a final de contas, a principal objecção está em que o primo Jorge +não quer. E porque não quer? + +--Não é isso, mas... Demais a mais Bertha não viria de certo n'esta +occasião, em que lhe não falta que fazer em casa. + +--Pois que ha por lá? + +--Os preparativos do casamento d'ella. + +--Do casamento de... quem?! + +--De Bertha. + +A baroneza ficou d'esta vez verdadeiramente surprendida. + +--De Bertha?! Pois Bertha casa-se?! + +--E em pouco tempo. + +--Com quem? + +--Com o Clemente, o filho da minha ama, da Anna do Védor. + +Gabriella permaneceu algum tempo calada, sem poder desviar os olhos de +Jorge, como se quizesse devassar o que se passava no espirito do primo, +ao dar-lhe em tom de indifferença aquella noticia. + +--Bertha casa-se!--repetiu ella--E por sua vontade? + +--Por certo. Quem a obrigaria? + +--Parece-me incrivel. E que pensa o primo Jorge d'esse casamento? + +--Acho-o tão natural, que fui eu proprio que fiz a proposta. + +--A proposta do casamento?! + +--Sim, a proposta do casamento. + +--A Bertha?! + +--Ao pae e a ella. + +--E como te lembraste d'isso? + +--Porque o Clemente me pediu. + +--Ah! E condescendeste sem dificuldades? + +--Porque não? + +--E Bertha tambem aceitou sem objecções? + +--Sim, sem grande hesitação. + +Jorge respondia a esta serie de perguntas d'uma maneira constrangida, +como quem anciava por libertar-se depressa do inquerito. Nunca olhára +directamente para a baroneza, que pelo contrario não tirava d'elle os +olhos, nem perdia os signaes de turbação com que elle lhe respondia. + +A final Gabriella dirigiu-se ao primo no tom de resolução de quem se +decide por um partido manifesto. + +--Jorge, olha bem para mim. + +Jorge fitou na prima os olhos admirado. + +--E' com indifferença que vês realisar-se o casamento de Bertha e que me +estás fallando n'elle? + +Jorge córou intensamente á inesperada interpellação, e tentou responder +ladeando: + +--Com indifferença não, de certo. Sou amigo do Thomé e Bertha é... + +--A filha d'elle, bem sei. Deixemos esses parentescos. E já que desejas +que falle mais claro, pergunto-te: É ou não é verdade que amas Bertha? + +--Eu?! + +--Sim, tu. E repara no que me vão responder os labios, porque o rosto já +me respondeu. + +Jorge conheceu que não lhe era possivel dissimular, abraçou portanto o +partido da franqueza, que lhe era mais congenial. + +--N'esse caso era desnecessaria outra resposta. Porém não duvidarei em +dar-lh'a. É verdade que a amo. + +--N'esse caso que quer dizer toda esta comedia? + +--Quer dizer que eu e Bertha estamos decididos a cumprir corajosamente o +nosso dever. Ella fazendo a felicidade de um homem honrado que a estima, +e realisando o papel de providencia de uma familia, que é a mais +gloriosa missão da mulher; eu votando-me todo á obra que emprehendi, e +procurando tornar tranquillos os ultimos dias de meu pae n'este mundo, +sem lhe ir exacerbar as paixões do seu coração irritado, para satisfazer +as minhas. + +--A poesia dos meus sentimentos está muito atrazada, ao que vejo. +D'antes os amantes sinceros e generosos punham acima de tudo os direitos +dos seus puros affectos. Eu sou dos que lêem por a cartilha d'esses +tempos. + +--Os affectos generosos estendem a sua generosidade aos sentimentos dos +outros corações, ainda quando lhes são oppostos. Respeitam-nos. + +--É muito sublime; não entendo bem. Vamos a saber, primo Jorge, +dar-se-ha que ainda haja por ahi uns fumosinhos de vaidade +aristocratica? + +--Em mim não a conheço; mas respeito-a n'aquelle velho, em quem +descarregaria o ultimo golpe se a não respeitasse. + +--É esse o obstaculo? Não vejo ahi senão a necessidade de uma +contemporisação. + +--Não digo isso, prima. As contemplações que tenho com meu pae, +têl-as-hei com a sua memoria. + +--Mas não é muito de christão suppôr que o sacrificio feito á vaidade do +vivo póde ser agradável á alma, que deixou no sepulchro todos os +prejuizos do barro em que se envolvia. Os preconceitos aristocraticos +não sobem ao céo; quero crêl-o; ficam nos sarcophagos da familia, de +mistura com as cinzas mortuarias. + +--Embora; mas seriam criminosos todos os projectos de felicidade, que se +baseassem em um facto tão funesto como esse a que allude. Em taes +fundamentos não serei eu quem os edifique. + +--Mas, se bem me recordo, o primo Jorge disse-me ha dias que não se +julgava com direito de sacrificar outra felicidade que não fosse a sua. + +--É verdade. Mas não sou eu só que tenho coragem. + +--Ah! Ella tambem?! Visto isso concertaram ambos esse plano? É generoso, +não ha duvida. Eu cada vez adoro mais a provincia, onde se dão umas +raras plantas, em cuja existencia quasi não acreditava. Agora já +comprehendo a opposição que encontra em ti o meu projecto. Depois da +vossa heroica resolução, é claro que devia contrariar-te a presença de +Bertha n'esta casa. + +--Confesso que sim. + +--Concebe-se. Pois é pena, porque me agrada o projecto, e assim tem de +ficar só o tio Luiz. + +--Mas não parta. + +--Alto lá. Por muito estranhos que me pareçam os teus planos, viste que +não lhes oppuz obstaculos. Reclamo a mesma condescendencia para com os +meus. + +--Porém meu pae?... + +--Não sei o que lhe faça, primo. Pensa n'isso a vêr se até á hora da +partida me lembras alguma solução. Eu não acho. + +A baroneza retirou-se poucos momentos depois apparentemente dissuadida +da sua primeira ideia. + +Chegando porém ao seu quarto, sentou-se á secretária, e preparando uma +folha de papel escreveu com a sua miuda calligraphia o seguinte: + + + «Meu caro snr. Thomé da Povoa. + + Sou obrigada a partir hoje para Lisboa. Deixo meu tio muito doente e + muito sentido pela minha falta. Na idade em que elle está e nas suas + tristes disposições de espirito dá-se muito apreço aos cuidados de + uma mulher. A minha ausencia deixa-o tão só e tão sem conforto, que + receio dos effeitos d'ella. Sei quaes os ardentes desejos de + vingança que o snr. Thomé tem contra meu tio e a indole dos actos + com que os satisfaz, e por isso julguei dever dar-lhe estas + informações, para que se vingue a seu modo. + + Sua muito respeitadora + + _Gabriella_.» + + +E depois de lêr o que escrevêra, principiou a dobrar cuidadosamente a +carta, murmurando: + +--A bom entendedor meia palavra basta. + +E ao lacrar e ao escrever o sobrescripto, dizia sorrindo: + +--O primo Jorge que tenha paciencia e tome contra si proprio as +precauções que quizer. + +Depois tocou a campainha e mandou expedir quanto antes a carta a Thomé +da Povoa. E na sequencia dos seus pensamentos murmurava: + +--E se o acaso lhe der para fazer das suas, lá se avenham. Eu lavo d'ahi +as mãos. + +E foi proceder aos preparativos da sua jornada nas mais joviaes +disposições de espirito. + + + + +XXIX + + +A baroneza a ninguem participou, além de Jorge a sua partida para +Lisboa. Havia muito tempo que os principaes preparativos estavam feitos, +e por isso o movimento dos criados, que lhe executaram as ultimas +ordens, não se tornou notado. + +Na vespera, á noite, Gabriella demorou-se mais tempo no quarto do tio e +deu-lhe a entender que brevemente teria de deixal-o por alguns dias, +porque a sua presença era necessaria em Lisboa, mas que voltaria e que +seria então para demorar-se mais tempo. + +D. Luiz mostrou a mesma opposição a este projecto que já por vezes +manifestara; mas a baroneza d'esta vez insistiu mais e obrigou-o a +conformar-se com a ideia de uma proxima separação. + +Na manhã seguinte, ás horas a que o velho fidalgo costumava receber a +primeira visita matinal da sobrinha estava elle já impaciente, porque +ella lhe tardava. + +Já mais do que uma vez erguêra os olhos para o mostrador do relogio +fronteiro, e espreitára atravez das cortinas para a altura do sol, e de +cada vez que fizera esta observação, acabára-a suspirando. + +O pobre doente tinha tanta necessidade de fallar com Gabriella! Havia +nada menos do que um longo e complicado sonho a contar-lhe. E ella sem +apparecer! + +Depois de muito esperar, D. Luiz ouviu emfim mexer na chave da porta e +voltou-se com ar de satisfação. + +Mas a este vislumbre de esperança succedeu um movimento de impaciencia. +Era frei Januario quem entrára. + +O padre vinha com uns modos de embasbacado, virando e revirando urna +carta que trazia na mão. + +--Que é? O que quer, frei Januario?--perguntou D. Luiz com impaciencia +não disfarçada--Onde está Gabriella? Tenha a bondade de ir pedir-lhe o +favor de vir fallar-me. + +--A snr.ª baroneza?... Ahi tem v. exc.ª as noticias que posso dar-lhe a +respeito d'ella. + +E estendeu para o fidalgo a carta que trouxera. + +--O quê?! Que quer dizer?! Noticias d'ella? Então Gabriella?... + +--Partiu esta madrugada quasi sem dizer «Deus te salve» a ninguem. Esta +gente de hoje sempre tem umas maneiras exquisitas... + +--Partiu! Gabriella partiu! Sem se despedir de mim? + +--Então que quer v. exc.ª? Costumes d'agora. Tudo está mudado. +Maçonarias. Mas ahi tem v. exc.ª uma carta, que ella lhe deixou. + +D. Luiz pegou na carta meio tremulo e abriu-a. + +Era concebida n'estes termos: + + «Perdoe-me, meu querido tio, a maneira subita por que o deixo. + Julguei preferivel isto, porque me faltava o animo para despedidas + que talvez o affligissem mais. Espero não prolongar por muito tempo + a minha ausencia. Seria conveniente que Mauricio viesse emquanto + estou em Lisboa. Escrevo-lhe n'este sentido e confio em que v. exc.ª + lhe dará permissão para elle vir ter commigo. Peco-lhe que me espere + nos Bacellos, onde em breve conto vêl-o mais feliz e contente. Até + lá tenho um presentimento de que Deus ha de providenciar para que + não sinta muito a falta que eu lhe possa fazer. Conceda-me sempre a + sua amizade e creia-me + + Sua affectuosa e reconhecida sobrinha + + _Gabriella_.» + + +O fidalgo leu e releu a carta em silencio, suspirou, e voltando-se para +o padre, disse-lhe simplesmente: + +--Tem a bondade de me deixar só por um pouco, snr. frei Januario? + +O padre sahiu do quarto, encolhendo os hombros. + +D. Luiz tornou a lêr a carta, carregando-se-lhe de mais sombria tristeza +o semblante, e deixou-se cahir desalentado nos travesseiros. + +E ninguem lhe ouvia aquella manhã tocar a campainha a chamar um criado +para que lhe prestasse qualquer serviço que o seu estado de saude +exigia, e se um ou outro, mais cuidadoso, espontaneamente se apresentava +a receber-lhe as ordens, era despedido com rudeza, recahindo elle na +especie de somnolencia em que depois da leitura da carta havia ficado. + +Ao meio dia, porém, hora em que a baroneza costumava por suas proprias +mãos servir-lhe algumas colhéres de gelêa e um calix de vinho do Porto, +sentiu que lhe abriam mansamente a porta do quarto, com a mesma cautela, +com o mesmo cuidado com que o fazia Gabriella. + +Deu-lhe rebate o coração, e no meio dos tristes pensamentos que o +acabrunhavam, fez-se um clarão de esperanças. Voltado com as costas para +a porta, D. Luiz não pôde conhecer logo a pessoa que entrava, por isso +perguntou com uma voz, era que se denunciava o intimo sobresalto que +estava sentindo: + +--Quem vem ahi? + +Ninguem lhe respondeu; mas percebeu claramente o som de uns passos +leves, que não podiam deixar de ser de mulher. + +--Quem está ahi?--repetiu D. Luiz, fazendo um esforço para voltar-se. + +Mas n'este momento parava defronte d'elle Bertha, com um sorriso nos +labios, e segurando nas mãos a bandeja com o calix de vinho e a gelêa, +que a baroneza costumava servir-lhe. + +D. Luiz olhou para a afilhada com a expressão da maior surpreza e +espanto. + +--Bertha!--exclamou elle, solevantando o corpo--Bertha aqui?! + +--E ha mais tempo seria este o meu logar, se não soubesse que até hoje +lhe não faltavam os cuidados de que a sua doença precisa. + +--E vens... vens para ficar?--perguntou o doente com uma inflexão de +alegria quasi infantil. + +--Se me der licença que fique... + +--Se te der licença, filha!... + +De subito reprimiu a sua expansão de alegria, e emendou em tom mais +grave: + +--Não, Bertha; não é aqui o teu logar. Eu não sou teu pae. + +--Mas é meu padrinho e está doente. E á cabeceira de um doente uma +mulher está sempre no seu logar. É o nosso posto de honra--respondeu +Bertha, com aquella entonação carinhosa com que as raparigas sabem +enfeitiçar o coração e enleiar a vontade dos seus velhos paes e avós. + +O fidalgo sorriu com brandura e, passando a mão tremula pelos fartos +cabellos de Bertha, disse-lhe, olhando-a com sympathia: + +--Mas que dirá teu pae? + +A estas palavras Bertha dirigiu para a porta do quarto um olhar +indiscreto, olhar que despertou suspeitas no espirito de D. Luiz e o +obrigou a seguir com a vista a mesma direcção. + +Atravez da porta meio aberta descobriu a figura de Thomé, que ficára no +corredor. Uma rapida contracção atravessou como o effeito de um choque +electrico a fronte de D. Luiz; em breve porém dissipou-se este signal de +desgosto, e com voz serena e sem aspereza interrogou: + +--Estava ahi, Thomé da Povoa? + +O fazendeiro deu alguns passos no quarto, ainda timidamente, e respondeu +volteando o chapéo entre as mãos: + +--Estava, sim, fidalgo; fui eu mesmo que acompanhei a rapariga, e se v. +exc.ª me quizer fazer o favor de aceitar a companhia d'ella, com muito +gosto lh'a deixo ficar. Porque emfim, snr. D. Luiz, isto de mulheres +sempre é outra coisa para lidar comnosco. Teem lá umas maneiras de +enfeitiçar um homem, que quem uma vez foi tractado por ellas em doença, +já se não entende com outros enfermeiros. Lá sabem temperar os remedios, +arrefecer os caldos, ageitar a roupa da cama e os travesseiros, que +parece que uma pessoa come, bebe e dorme ainda que não tenha vontade, +desde que ellas queiram. Por isso, como a rapariga é afilhada de v. +exc.ª e a snr.ª baroneza foi para Lisboa e v. exc.ª ficou só, e ella não +nos faz falta, porque, graças a Deus, a minha Luiza ainda basta só para +o trafego da casa, lembrou-me trazêl-a, por me parecer que podia prestar +alguns serviços a v. exc.ª. + +--Então sabe agora, meu padrinho, o que dirá meu pae?--perguntou Bertha, +occupada já a accommodar a cama que o doente tinha desordenada. + +--Mas... Thomé--dizia D. Luiz descontente por ter de aceitar um favor do +fazendeiro, porém sem coragem de recusal-o. Eu não quero prival-o da +companhia de Bertha... Sei quanto se quer a uma filha e não posso +aceitar o sacrificio. + +--Ora adeus, fidalgo! Eu quero bem á rapariga, isso lá é verdade; mas +não me faltam por casa filhos com que me entretenha. E depois isto de +filhas, mais tarde ou mais cedo é contar que batem as azas para fugirem +do ninho. É bom costumarmo-nos a passar sem ellas. Por isso, se v. exc.ª +não tem duvida em aceitar a companhia da pequena... é fazer de conta que +ella nada tem commigo... + +D. Luiz sentiu que ia ser vencido pela generosidade de Thomé. Resistir +por mais tempo era revelar inutilmente repugnancia em aceitar o +beneficio, e tornar evidente a sua fraqueza quando finalmente o +aceitasse. + +Cedeu pois a tempo, e emquanto o podia fazer, salvando a dignidade +aristocratica, que sobre tudo prezava. + +--Dividas d'essa natureza não hesito em contrahil-as, apesar de saber +que as deixarei em aberto. Aceito, Thomé, aceito a companhia d'esta +menina, que me fallará de minha filha e m'a recordará. Não é verdade, +Bertha? + +--De certo que havemos de fallar muito de Beatriz. + +--Muito bem--exclamou Thomé da Povoa--pois então ahi lh'a deixo, +fidalgo, e vou á minha vida. + +Gomprehendeu D. Luiz que não devia ficar inferior em generosidade ao seu +antigo criado. + +Assim que Thomé, fazendo-lhe uma cortezia, se dispunha a transpôr a +porta para sahir, o fidalgo reteve-o estendendo-lhe-a mão, e disse-lhe +n'aquelle tom solemne que lhe era habitual: + +--Thomé da Povoa, não se retire sem que eu lhe aperte a mão. Bem vê que +é a maneira que tenho de remir dividas d'estas. + +--Com todo o gosto, fidalgo. + +E o honrado lavrador aproximou-se do leito e apertou nas suas mãos +robustas a mão magra e aristocratica do senhor da Casa Mourisca, +dizendo, com a expansão de enthusiastica sympathia que tinha em excesso +na alma: + +--Póde acreditar, fidalgo, que aperta a mão de um amigo. + +D. Luiz fez um gesto silencioso de acquiescencia. + +Thomé da Povoa, quando sahiu da sala, levava nos olhos um brilho +denunciador de commoção. + +Todas as scenas e acções generosas exerciam n'elle este effeito. + +Bertha ficou só com o padrinho. Com aquelle instincto de actividade e de +ordem natural á indole feminina entrou immediatamente no exercicio de +suas funcções, dispondo os preparativos para a leve refeição do doente, +da qual ella se encarregára ao encontrar no corredor um criado com a +bandeja na mão. + +Trabalhando e conversando, Bertha tinha já aquelles ares de +familiaridade, que naturalmente assumem as mulheres no tracto da casa +que dirigem. + +Tomára posse d'aquelle terreno como de dominio seu, e dentro em pouco a +influencia dos seus cuidados fazia-se já sentir na apparencia de ordem e +de methodo que alli dentro vestira tudo. + +D. Luiz seguia-a com olhos de satisfação. Parecia-lhe que ella só +povoava o quarto. + +Com que indizivel prazer a via tirar dos hombros o chale que trouxera, +dobral-o e poisal-o, junto com o chapéo, no sofá proximo do leito, como +se estivesse em sua casa! + +A presença d'aquella joven e gentil rapariga, occupada na lida +domestica, fallando-lhe com meiguice e alegria, adivinhando-lhe e +prevenindo-lhe os menores desejos, satisfazia uma tão ardente e tão +antiga necessidade do coração d'aquelle homem, que esquecido quasi de +seus infortunios, reputava-se feliz. + +Animado por Bertha, comeu com mais appetite e fallou com uma animação +que lhe não era habitual. + +--Mas, agora me lembra, Bertha--disse D. Luiz, como se de repente lhe +occorresse uma ideia--preciso de dar ordens para a tua accommodação. +Talvez o quarto de Gabriella... + +--Não se incommode--atalhou Bertha.--A snr.ª baroneza parece que tinha +tudo prevenido, porque me receberam como quem me esperava já. + +--Mas como sabia Gabriella?... + +--Pois se foi ella quem me mandou dizer que partia e que me fez sentir a +necessidade de vir occupar o seu logar. + +--Ah! agora entendo a carta d'ella. É uma boa rapariga a final. + +E D. Luiz tinha nos labios, ao dizer isto, um sorriso de sympathia, que +lhe suavisava a dureza habitual das feições. + +A agradavel doçura que o fidalgo da Casa Mourisca estava saboreando com +a presença e o conversar de Bertha foi interrompida por umas pancadas +timidas na porta do quarto, que elle escutou de má vontade. + +--Quem está ahi?--perguntou quasi irritado. + +--_Licet_?--murmurou a voz do padre fóra da porta. + +--Entre quem é--respondeu D. Luiz, ainda mais irritado depois de +conhecer a voz. + +O padre entrou subitamente, cortejou Bertha com olhos desconfiados e +avançou com passos vagarosos. + +--Que é o que quer, frei Januario?--perguntou D. Luiz desabridamente. + +O padre continuou a aproximar-se do leito e respondeu melifluamente: + +--Os filhos de v. exc.ª, os snrs. D. Jorge e D. Mauricio, pedem licença +para lhe fallarem. + +D. Luiz fez um movimento de impaciencia. + +--Que me querem elles? + +O padre encolheu os hombros. + +--Não posso dizer a v. exc.ª, porque eu mesmo não o sei. + +--Que lhes não fallo agora--respondeu em tom sacudido o fidalgo. Mas ao +voltar-se deu com os olhos no rosto de Bertha, que insensivelmente +revelou n'elle o desprazer com que ouvira aquella resposta. + +O padre ia a retirar-se com o recado, quando ouviu D. Luiz dizer: + +--Mas não poderei saber o que é que me querem os senhores meus filhos? + +O padre parou, esperando uma ordem definitiva. + +Bertha, que estava alizando uma das travesseiras em que o padrinho se +encostava, murmurou, como a gracejar: + +--A melhor maneira de ficar sabendo é ouvil-os. + +D. Luiz encolheu os hombros, como a exprimir o pouco valor que suppunha +á conferencia pedida, mas disse ao padre: + +--Diga-lhes que entrem. + +Estava finalmente revogada a sentença que votára ao ostracismo os dois +filhos do fidalgo. O coração do velho sentia-se muito brando n'aquelle +momento para conservar rancores. A influencia de Bertha principiava a +actuar. + +A negrura dos delictos de que até alli accusára os filhos, dir-se-ia que +a dissipára um sorriso da afilhada. + +Jorge e Mauricio entraram pouco tempo depois no quarto, descobertos +ambos, e com aquelle ar de respeito que sempre lhes impunha a presença +do pae. + +Bertha sentiu que se lhe sobresaltava o coração, ao tornar a vêr Jorge +depois da scena que tivera logar na Herdade. + +Não pôde porém deixar de fital-o com interesse. Achou-o pallido e +abatido. + +Dominando as suas violentas impressões saudou os dois irmãos com um +sorriso afectuoso e sereno. + +Jorge e Mauricio corresponderam-lhe com um gesto de deferencia e +sympathia. + +Ambos estavam prevenidos da presença d'ella. + +Jorge comprehendeu que a baroneza insistira em realisar os seus +projectos, apesar das objecções com que elle os combatêra. E não +desestimou que ella o tivesse feito. Incommodava-o a ideia de isolamento +em que ia ficar seu pae. Os carinhos de Bertha deviam ser-lhe preciosos. +Depois a vinda d'ella para os Bacellos não retardaria o fatal casamento, +com que não podéra ainda conformar o espirito? De pouco serviria a +demora, vista a irrevogavel resolução que ambos haviam adoptado; mas +fazer recuar a consummação de um facto funesto é sempre um allivio. + +Aceitou pois de boa vontade a vinda de Bertha para junto de seu pae, mas +resolveu precaver o coração dos perigos que correria, se permanecesse +junto d'ella. + +Mauricio, que dias antes não receberia tambem com sangue frio a noticia +da presença de Bertha, estava n'aquella manha muito preoccupado, para se +alterar ao recebêl-a. + +A subita partida de Gabriella surprendêra-o e exacerbara a paixão +nascente que por ella sentia. + +A baroneza calculára bem o alcance da medida e assegurára-lhe ainda mais +o effeito, deixando a Mauricio um bilhete concebido n'estes termos: + + «Meu caro primo. + + Parto para Lisboa. Não preveni pessoa alguma. Levo muitas saudades + commigo. Não sei se as deixo tambem. Se acreditasse na constancia de + certos sentimentos, consolar-me-ia a ideia de te vêr dentro de + poucos dias em Lisboa. Mas infelizmente duvido tanto! Por isso + limita-se a deixar-te ficar um longo e desconsolado adeus a + + Tua prima e muito affeiçoada + + _Gabriella_.» + + +Esta carta veio a tempo para atalhar os primeiros symptomas manifestados +já em Mauricio de uma nova crise, que podia ser fatal aos planos da +baroneza. + +Como dissemos, Mauricio, imaginando que á sua nova paixão pela baroneza +não seria indifferente o coração de Bertha, recebia d'essa ideia, que +aliás o mortificava, um estimulo que atiçava aquella paixão. Subita e +inesperadamente porém veio uma noticia desvanecer-lhe estas illusões. +Foi a do proximo casamento de Bertha, que a Anna do Védor lhe deu, +respondendo assim com ar triumphante ás duvidas que elle em tempo +antepozera contra tal união. Anna assegurou-lhe que Bertha e toda a +familia haviam acolhido com favor a ideia, e que o mesmo Jorge a +apoiára. + +Esta revelação impressionou Mauricio. Seria possivel que Bertha não +sentisse por elle affecto algum? Ter-se-ia elle illudido, imaginando +havel-a impressionado? Haveria antes em tudo isso um plano de Jorge? + +Estas suspeitas despertaram-lhe uma leve irritação de vaidade e avivaram +as quasi apagadas impressões, que lhe restavam no coração da imagem de +Bertha. N'esse dia passou duas vezes pela Herdade. + +Estava pois em imminente risco a paixão por Gabriella, quando a +repentina partida d'esta e a sua carta de despedida lhe fizeram outra +vez pender o coração para aquelle lado. + +Todos os despeitos gerados com a noticia de Anna do Védor dissiparam-se +perante os despeites novos. + +Acabando de lêr o bilhete de Gabriella, Mauricio pensou em montar logo a +cavallo e seguir no encalço da baroneza, até attingil-a. Custou a +persuadil-o da conveniencia de moderar a precipitação dos seus +projectos. Decidiu porém apressar quanto podésse os preparativos da +jornada e partir n'aquelle mesmo dia para Lisboa. A permanencia no campo +era-lhe já insupportavel. + +Foi sob estas impressões que, em companhia de Jorge, elle entrou no +quarto de D. Luiz. + +O pae revestiu-se outra vez do seu aspecto de severidade ao dirigir aos +filhos um olhar interrogador. + +Mauricio fallou primeiro: + +--Ha muito que está projectada a minha partida para Lisboa. A prima +Gabriella sahiu esta manhã para lá, e escrevendo-me, deixou-me dito que +me ficava esperando. Venho pedir a v. exc.ª authorisação para partir +hoje mesmo. + +D. Luiz respondeu sêcamente: + +--Póde ir. Falle a frei Januario para lhe dar o dinheiro de que precisa. + +Em seguida voltou o olhar para Jorge, como convidando-o a expôr o motivo +da sua visita. + +Jorge aproximou-se e, abrindo uma pasta, apresentou ao pae um masso de +papeis. + +--Desejava que v. exc.ª examinasse esses documentos e titulos, que dizem +respeito a propriedades nossas e a contractos antigos, e que eu puz em +ordem com o fim de facilitar o exame. + +--Mas para quê? Eu não quero estar com isso. Que necessidade ha de +incommodar-me com essa papelada? + +--É porque depois desejava expôr a v. exc.ª os planos que concebi, e no +caso de merecerem a sua approvação, pedir-lhe licença para proceder em +harmonia com elles. + +--Eu não tenho cabeça para entrar n'essas investigações. Tive sempre por +costume deixar os negocios confiados a procuradores. + +--Se v. exc.ª me authorisa ainda como tal eu não o incommodarei. + +D. Luiz sentia que depois das ordens terminantes que dera ao padre +Januario, em um momento de despeito contra o filho, tinha motivo para +irritar-se ao vêr Jorge em flagrante desobediencia, occupando-se ainda +da administração da casa. Mas a violencia do despeito abrandára, e +interiormente o fidalgo estimava ter sido desobedecido. + +--Façam o que quizerem--respondeu elle--o futuro que prepararem não será +para mim que o preparam. + +--Então se v. exc. não duvida assignar estes papeis.... + +E Jorge apresentou ao pae uma serie de documentos, que requisitavam a +assignatura do chefe e representante actual da familia. + +D. Luiz fez um gesto de enfado, mas correu com a vista o quarto a +procurar alguma coisa. + +Bertha, comprehendendo-o, trouxe-lhe ao leito os preparativos para +escrever. + +E o fidalgo, com a mais aristocratica indifferença, assignou sem lêr os +papeis que Jorge successivamente lhe apresentava, authorisando assim as +medidas que por ventura deviam regenerar a sua casa com a mesma +facilidade e imprevidencia com que tantas vezes authorisára as que a +haviam perdido. + +--Agora precisava tambem da authorisação de v. exc.ª--proseguiu +Jorge.--para ausentar-me por alguns dias, porque necessito de visitar as +nossas propriedades mais distantes. + +D. Luiz repetiu com o mesrno tom de voz a phrase que já dissera a +Mauricio: + +--Póde ir. + +Os dois rapazes curvaram-se respeitosamente diante do velho e +aproximaram-se para receber-lhe as bênçãos. + +D. Luiz estendeu a mão, que um apoz outro beijou, e saudando-o outra vez +iam a sahir do quarto. + +O coração do pae sentiu porém a necessidade de urna despedida mais +affectuosa n'aquelle instante em que ambos os filhos o iam deixar. + +--Mauricio--disse elle quando os viu já proximos da porta--repare que +vae entrar em uma sociedade nova para si, cheia de seducções e perigos. +Seja homem e digno do nome que tem, e... dê-me o gosto de o vêr feliz e +honrado. + +--Terei sempre em vista o seu nobre exemplo, meu pae, e espero que assim +nunca me desviarei do caminho da honra. + +--Talvez o não conduza pelo da felicidade--murmurou o velho; e depois, +dirigindo-se a Jorge: + +--Jorge, espero do seu juizo que seja prudente no uso d'essas +authorisações que lhe dou. Repare que nos esforços que faz para +restaurar a sua casa não sacrifique o nome que a torna illustre. Seja +sempre tão brioso como é activo. + +--Espero que nunca os meus actos deslustrarão o nome com que me honro. + +E os dois irmãos retiraram-se emfim. + +Vendo-os sahir, D. Luiz voltou-se para Bertha, suspirando, e disse com +desconforto: + +--E ficamos sós, Bertha! + +--Elles voltarão cedo, e com elles mais alegria para esta casa. + +D. Luiz fez um signal de quem não tinha fé no futuro. + +--Tem paciencia, Bertha--disse d'ahi a pouco--mas se podésses ir vêr que +lhes não falte nada.... O padre é capaz de se descuidar das malas, e +Mauricio não repara. + +Bertha apressou-se a satisfazer o desejo do velho. + +Encontrou Jorge e Mauricio na casa do jantar, fazendo os preparativos +para a jornada. + +Bertha coadjuvou-os com vantagem. + +--Bertha--disse Mauricio--n'este reconhecimento de despedida, será +bastante generosa para perdoar-me algumas loucuras que talvez não fossem +de todo innocentes? + +--Antes de perdoar é preciso condemnar, e eu nem sequer accusei! + +Mauricio apertou-lhe a mão com verdadeira e d'esta vez insuspeita +sympathia. + +--Sabe, Bertha, que vendo-a aqui, a ajudar-nos assim n'esta tarefa +caseira, custa-me a acreditar que não seja nossa irmã!? + +--E como é que se desengana? Interrogando o coração? + +--Não, que esse persuade-me do mesmo. + +--Então deixe-se persuadir, snr. Mauricio, que vae n'isso tão pouco mal! + +Mauricio trocou algumas palavras com ella, mas sem alludir ao casamento. + +Jorge fallava menos do que o irmão. Em um momento em que este sahiu da +sala, Bertha perguntou: + +--Parte para muito longe, snr. Jorge? + +--Não, Bertha. Vou viver para a Casa Mourisca; mas bem vê que não podia +dizêl-o a meu pae; era ainda cedo talvez para elle o consentir. + +--E parte... por eu chegar?... + +--Parto, sim, Berlha, e não acha que deva fazêl-o? + +--Talvez tenha razão.... Tem por certo. Mas perdoa-me obrigal-o a isso? + +--Agradeço-lh'o. A sua vinda ha de salvar meu pae. + +--Então separamo-nos amigos? + +--Como sempre, Bertha. + +Bertha estendeu-lhe a mão commovida, e Jorge levou-a aos labios com mais +ardor do que convinha a quem formára o proposito de suffocar no peito o +amor que n'elle crescia. + +E n'essa tarde deixaram a quinta dos Bacellos os filhos de D. Luiz. + +Este ficou só com Bertha e com o padre, que via um plano maçonico em +todas estas mudanças. + + + + +XXX + + +Augmentava de dia para dia a influencia de Bertha sobre o animo de D. +Luiz. Todas as manhãs desafiava as primeiras alegrias do enfermo o +sorriso com que Bertha lhe entrava no quarto, sorriso que parecia +illuminal-o mais do que os matutinos raios do sol. + +Sob a benefica acção d'aquelles desvelos femininos, sentia o +desconfortado doente um renascer de vida; voltava-lhe o appetite +perdido, revigoravam-se-lhe os membros extenuados, corria-lhe nas veias +mais vivificado o sangue que o desalento empobrecêra, e aquella mesma +negrura de pensamentos, que o assombrava, parecia clarear-se +progressivamente. + +Bertha fizera-lhe já esquecer Gabriella. Era mais assidua á cabeceira do +seu leito, mais exclusivamente devotada áquella obra de consolação, mais +perspicaz em adivinhar-lhe os desejos, mais carinhosa na maneira de +satisfazêl-os, e a ingenuidade quasi infantil das suas conversas tinha +mais seducções para o fidalgo do que todas as galas de espirito com que +a baroneza sabia temperar as suas. + +As horas, que tão longas e fastidiosas se succedem na vida do doente, +passavam para elle rapidas e desapercebidas, preenchidas pela companhia +de Bertha. + +A vêl-a trabalhar a seu lado, a ouvil-a fallar de Beatriz ou a conversar +no mais trivial assumpto, a seguir-lhe com a vista os movimentos faceis +que lhe recordavam a filha, a escutar pela voz d'ella a leitura dos +livros de imaginação a que a baroneza o habituára, D. Luiz esquecia o +tempo e os ponderosos motivos da sua usual melancolia. Um dia manifestou +desejos de ouvir Bertha tocar. + +Na manhã seguinte a harpa de Beatriz era transportada para junto do +leito do doente, e sob os dedos de Bertha o magico instrumento, que +serenava as furiosas allucinações de Saul, provou mais uma vez a sua +efficaz influencia moral. + +D. Luiz escutava-a commovido, e quasi sempre corriam-lhe as lagrimas ao +expirarem as vibrações das ultimas notas. + +Bertha fez-lhe ouvir, uma por uma, todas as musicas que Beatriz tocava. +Resuscitou-lhe o passado. Sob tão profundas impressões quasi se +confundiam no espirito do ancião a imagem da filha que perdêra com a da +affectuosa rapariga, que tanto lhe amenisava a existencia. + +Foi cedendo á affavel violencia de Bertha e apoiado no braço d'ella, que +trocou o leito pela poltrona ao lado da janella do quarto; que sahiu +depois do quarto para a varanda do terraço, e que finalmente desceu as +escadas que do terraço conduziam á quinta, á sombra de cujas arvores se +costumára a passar as melhores horas do dia. + +Era ahi que tinham logar as leituras quotidianas, que já tão necessarias +lhe eram. Bertha interrompia-as apenas, para lhe fazer escutar o cantico +dos passaros na espessura das arvores, ou para lhe ir colher uma ou +outra flôr, com que bizarramente enfeitava a lapela do casaco do +fidalgo. A influencia de Bertha sobre elle era já por todos conhecida, o +que valia á gentil rapariga os mais expressivos signaes de deferencia de +todos quantos a tractavam. + +Frei Januario era o mais desconfiado, mas ainda assim não se mostrava de +todo insensivel ás attenções que Bertha lhe dispensava e que muito o +lisongeavam. + +Bertha era feliz n'aquelles dias. + +Para a sua alma generosa era motivo de jubilo a ideia de que alguem lhe +devia a felicidade. + +Ao sentir voltar a vida ao rosto de D. Luiz e a serenidade ao seu +espirito atribulado, quasi esquecia, no enlevo em que esta observação a +arrebatava, a grandeza do sacrifício, que pouco tempo antes realisára e +a dolorosa violencia com que esmagava ainda no coração o affecto mais +vivaz que lá nascêra. + +Era grata a D. Luiz pelo bem que ella propria lhe fazia. + +Um dia Bertha erguêra-se, como costumava, muito cedo para correr a +quinta a fim de colher o ramo com que adornava a mesa do almoço de D. +Luiz. + +Todos os dias se renovava este ramo e todos os dias o fidalgo consagrava +alguns momentos ao exame e á analyse das diversas flôres que o +compunham. + +Bertha esmerava-se muito n'esta tarefa para obter sempre effeitos novos, +que merecessem as attenções e applausos do padrinho. + +N'esta exploração attingia ella sempre os terminos da quinta. Chegára +aquella manhã ao portão de ferro da entrada opposta á casa e trazia já +na mão uma variada cópia de flores, quando lhe pareceu que alguem parava +de fóra das grades a observal-a. + +Voltou-se e reconheceu Clemente. + +Bertha estremeceu e sentiu sobresaltar-se-lhe pouco agradavelmente o +coração, á vista do seu noivo. Tão longe tinha n'aquelle instante o +pensamento do futuro que a vista de Clemente lhe recordava, que a +surpreza da transição foi cruel. + +Demais era a primeira vez que se achava na presença de Clemente, depois +do ajuste do casamento, o que sobremaneira augmentára a sua confusão. + +Concentrando porém toda a sua coragem, saudou-o affectuosamente. + +Mais confuso ainda do que ella, retribuiu-lhe Clemente a saudação. + +--Quer entrar?--perguntou Bertha, caminhando para a portaria. + +--Não, menina; passei aqui por acaso... É verdade, que desejava +fallar-lhe... mas outra vez será. + +--E porque não ha de ser já?--tornou Bertha, abrindo a porta.--Depois do +que se passou é indispensavel que conversemos, não é verdade? Eu tambem +tenho precisão de fallar-lhe, snr. Clemente. + +--N'esse caso aqui estou para ouvil-a, Bertha. + +--Olhe, sentemo-nos mesmo aqui. Não acha?--disse Bertha, preparando +logar em um monticulo de relva que as folhas cahidas tapetavam.--Está-se +aqui tão bem como dentro de uma sala. + +Clemente tomou timidamente logar ao lado d'ella. + +Bertha soltou no regaço as flores que colhêra, e fallando occupava-se a +dispôl-as em ramo, como se facilitasse d'aquella maneira o desempenho da +missão que se propunha. + +Clemente escutava-a. + +--Está já informado, snr. Clemente, do que respondi á proposta que, em +seu nome, me fez... o filho do snr. D. Luiz? + +--Sim, Bertha, deram-me essa resposta, que muito me alegrou; mas +desejava saber da sua bôca se foi de livre vontade e por que lh'o +dictava o coração que a deu assim. + +--Por minha vontade foi. Ninguem me obrigou a responder como respondi. +Agora se foi do coração... Era sobre isso mesmo que desejava fallar-lhe, +snr. Clemente. + +Clemente respondeu um pouco inquieto: + +--Falle, Bertha, que eu escuto-a com attenção. + +--Snr. Clemente, devo ser franca e leal comsigo, e fazer-lhe uma +confissão completa dos meus sentimentos, para que pense bem antes de se +resolver a dispôr assim do seu futuro. Não posso dizer que fosse o +coração que me dictasse a resposta que dei. Se o dissesse, nem o snr. +Clemente me acreditaria; não é verdade? Bem vê, eu mal o conhecia, quasi +que nem tinhamos fallado ainda, eu vivi até agora longe de si e nenhum +de nós costumava pensar no outro. Pois não é assim? Quando ouvi a sua +proposta, surprendeu-me por inesperada; respondi como sabe; mas é claro +que não podia ser do coração a resposta. + +Clemente fez um gesto de assentimento, mas tornou-se melancolico. + +--Mas, perguntará o senhor, porque respondi eu então assim, tão prompta, +sem hesitar? Vou dizer-lh'o, snr. Clemente, vou dizer-lhe toda a +verdade, e resolva depois o que deve fazer. Eu não podia esperar que o +coração respondesse, porque sabia que elle já não podia dizer que sim a +uma proposta d'aquellas. + +Clemente, que julgava comprehender o enleio crescente e as palavras +hesitantes de Bertha, iníerrompeu-a dizendo: + +--Já? disse que já não podia? Já? Bertha teria acaso alguma inclinação a +que o meu pedido viesse causar mal? + +Bertha, córando, replicou firmemente: + +--Havia no meu coração um outro affecto, havia, o primeiro e unico +d'essa natureza que n'elle tinha de nascer; mas não lhe causou mal o seu +pedido, Clemente. Esse affecto, de que me não envergonho, nasceu, mas +não podia viver. Era preciso suffocal-o. Oppunham-se-lhe tantos +obstaculos, que não podia haver futuro para elle. Era como uma arvore de +grandes raizes que nascesse em um vaso apertado. Nunca eu mesma me +illudi com elle. Esta era a confissão que devia e queria fazer-lhe, +Clemente. Julguei que poderia, sem indignidade, aceitar a sua proposta, +dado que lhe fallasse lealmente, como lhe estou fallando; desde que lhe +dissesse: não ha amor no meu coração para lhe offerecer, não o podia +haver; estimo-o como um homem honrado e aceito para mim o destino de lhe +servir de companheira na vida. É a missão de uma mulher, e eu tenho +coragem de cumprir no mundo a minha missão. Amizade leal, respeito, +dedicação, posso prometter-lhe, mais não, que não tenho para dar. + +--Mas....--balbuciou Clemente, que não podia disfarçar a sua +perturbação--mas esse homem existe? + +Bertha córou instantaneamente ao ouvir a pergunta. + +--Existe--respondeu, porém sem hesitar--e ama-me. Mas elle tambem sente, +como eu, a necessidade de vencer este affecto. E ha de vencêl-o ou pelo +menos occultal-o no coração, porque é forte. A consciencia do dever +ajudar-nos-ha a ambos a vencer esta loucura. Bem vê que lhe chamo +loucura. Mas deixe-me dizer-lhe, Clemente, se, depois da confissão que +lhe fiz, se abriu no seu espirito uma entrada para a desconfiança, +peço-lhe por piedade que desista da sua proposta, emquanto é tempo. + +--Não me entendeu, Bertha. Creia que eu sei ter na devida conta a +lealdade com que me está fallando, e que mais do que nunca sinto por si +a maior consideração e estima. Se a escolhesse para esposa, juro-lhe +que, apesar da sua confissão--não digo bem--por causa até da sua +confissão, teria em si tanta confiança, Bertha, como em mim mesmo. O que +me faz pensar é outra coisa. Se esse homem existe, porque é que a menina +perdeu já as esperanças e quer assim tornar impossivel o que ainda o não +é? + +--É impossivel, é, Clemente. + +--Ora é! Quem sabe? Eu não queria ser um dia o obstaculo da sua +felicidade. Nem de tal me quero lembrar! + +--Clemente, supponha que em vez da confissão que lhe fiz, eu lhe tinha +dito apenas: Sonhei um dia com um noivo, que não se parecia comsigo, +Clemente. E tão louca sou, que me ficou ainda d'aquelle sonho uma vaga +saudade no coração. Por isso não m'o occupa inteiro o affecto que tenho +para lhe consagrar. É assim que posso offerecer-lh'o. E agora resolva +como se assim lhe tivesse fallado. Bem vê que nunca se arriscará a ser +estorvo a uma felicidade... que se sonhou. + +--Mas, valha-me Deus, Bertha, os sonhos que nunca sahem certos são os +que se sonham a dormir... e até esses ás vezes... + +--Ha-os que se sonham em vigilia menos realisaveis ainda. + +--Mas em todo o caso... Não me leva a mal se eu pedir tempo para +reflectir? + +--De certo que não. Para isso mesmo foi que lhe fallei assim. + +--É um anjo, Bertha, e creia que se tenho duvidas, é porque não queria +ser nunca estorvo á sua felicidade. A tempo lhe darei a resposta. + +E Clemente sahiu d'alli pensativo e indeciso sobre a resolução que +deveria adoptar. + +Pensava o pobre rapaz: + +--A final de contas ella gosta do outro. É o que isto tudo quer dizer. +Então que faço eu em metter-me de permeio n'estes amores? Mas... são +amores impossiveis, diz ella, até lhes chamou loucuras; e espera que os +cuidados da familia lhe ajudem a esquecêl-os. Mas se não esquecer?... +Não receio d'ella, isso não. Aquillo é alma que se não perde nem +atraiçoa. Mas, se por acaso os taes obstaculos desappareciam e ficasse +eu só no logar d'elles? Ah! Sancta Virgem! Era para um homem pôr fim á +vida! Porém ao mesmo tempo a rapariga falla com uma segurança, como se +este caso fosse impossivel. Impossivel! E porquê? Quem será elle, o tal? +Amores que ella trouxe da cidade.... Alguem que já a esqueceu e que +talvez nunca lhe quizesse devéras. Se eu adivinhasse que era isso, +aceitava. Porque emfim aquillo esquecia, e... e eu creio que haviamos de +dar-nos bem. Veremos o que pensa minha mãe. Mas que póde ella pensar? +Que sabe ella mais do que eu? Aqui o que era preciso era quem me +informasse dos taes amores. Se eu procurasse o snr. Jorge? Elle é tanto +de casa do Thomé, que talvez... Elle está agora na Casa Mourisca. Pois +vou lá. + +E, em harmonia com esta resolução, tomou o caminho do antigo solar do +fidalgo. + +Jorge encerrara-se nos ermos aposentos d'aquelle sombrio palacio, não só +para trabalhar, como para procurar allivio aos dolorosos golpes de +coração, que lhe sangravam ainda. + +Fizera-lhe companhia o jardineiro, que não quiz ficar nos Bacellos +quando soube que Jorge partia. Era a unica pessoa que tinha ao seu +serviço. + +Jorge entregara-se ao trabalho com mais assiduidade e ardor do que +nunca. Erguia-se cedo, prolongava por noite alta as suas vigilias; mas +se conseguia com estes esforços adiantar o serviço, não obtinha d'elles +a realisação do seu principal empenho: acalmar as torturas moraes com +que viera para aquella solidão. + +As poucas horas de somno eram-lhe agitadas por sonhos fatigadores, e +sempre uma ideia fixa e amarga lhe occupava o pensamento, ainda quando +mais absorvido pelo estudo. + +Atravéz das mais fortes distracções sentia como que a sombria projecção +de uma nuvem negra. + +Quando um poderoso motivo de desgosto nos amargura o coração, não é de +todo impossivel afastal-o do pensamento por um esforço de distracção, +mas a impressão dolorosa que elle produziu não se desvanece +completamente; persiste um vago sentimento de mágoa, um indefinido +mal-estar, que ainda n'esses raros instantes nos afflige, sem que o +expliquemos. + +Estava-se dando com Jorge este phenomeno. + +Conseguia fixar a attenção no estudo, vencer as difficuldades de um +problema, profundar as questões mais obscuras, mas o espirito +mantinha-se doente; estas victorias da intelligencia não lhe provocavam +aquelle prazer, que de ordinario as acompanha. Parecia que o coração +perdêra a elasticidade necessaria para vibrar d'essa maneira. + +Quando se trabalha em taes disposições de animo, o esforço extenua a +actividade do espirito, toma o caracter de uma febre consumptiva, de uma +chamma que se alimenta gastando as forças e a vida. + +Depois havia momentos em que os instinctos se revoltavam contra a +tyrannia da razão, em que os gelos do temperamento de Jorge como que se +fundiam no calor do seu sangue de adolescente; e então com um frenesi de +desespero concebia os mais arrojados projectos. Resolvia romper com +todos os preconceitos, com todas as considerações sociaes, e obedecer +sómente aos impulsos do coração, que elle julgava n'esses momentos os +unicos authorisados motores das acções do homem. A estes paroxismos +succedia um desalento mais profundo e uma sombria tristeza. + +E o resultado d'esta lucta moral, d'este isolamento, d'este excesso de +trabalho, revelava-se-lhe no semblante alterado e na pallidez, que +augmentava de dia para dia. + +A amargura d'aquelles dias passados nas salas desertas e nas devezas +melancolicas da Casa Mourisca, havia-o abatido a um ponto, que ao chegar +á presença d'elle, Clemente encarou-o com gesto de espanto. + +Jorge interrogou-o, sorrindo: + +--O que me achas tu, para me fitares com esses olhos? + +--O snr. Jorge tem estado doente?! + +--Não; vou passando bem. Parece-te que tenho cara de doente? + +--Sim; acho-o descórado e abatido--disse Clemente, procurando disfarçar +as apprehensões que sentia ao vêl-o.--Não trabalhe tanto, snr. Jorge. + +--Isto não é de trabalhar. Uma noite de bom somno far-me-ha voltar ao +que fui. Então o que te traz por aqui?... + +--Venho consultal-o. + +--Ha tempos a esta parte obrigas-me a funccionar como conselheiro, sem +que eu saiba bem em que mereci a honra da nomeação. Ora dize lá o que me +queres. + +--Tracta-se ainda do mesmo negocio do outro dia. + +Jorge fez um gesto de impaciencia e desagrado. + +--Pois não está já tudo decidido? Que mais queres? A respeito de enxoval +não dou conselhos. + +--Nem tudo está decidido, não senhor. + +--Então? + +--Eu lhe digo o que se passa. + +E Clemente narrou a Jorge a substancia da entrevista que tivera com a +sua noiva. + +Custou a Jorge occultar a perturbação que lhe causava a narrativa. No +fim conseguiu perguntar com apparente frieza: + +--E que queres tu que eu te diga? + +--Queria que me dissesse se por acaso sabia alguma coisa d'estes amores. + +Jorge saltou na cadeira e olhou para Clemente, fazendo-se excessivamente +córado. + +--Eu?! E porque é que hei de saber d'esses amores? + +Clemente, admirado do effeito das suas palavras, disse com hesitação: + +--Lembrava-me... como é amigo do Thomé da Povoa... talvez soubesse... + +--As relações que possa ter com o pae não me habilitam a devassar o +coração da filha; mas que desejavas tu saber d'esses amores? Não te +disse ella que era como se não existissem? que nasceram sem faculdades +para viver? O que te resta é julgar por ti se nas condições em que +Bertha aceita a tua proposta, ainda podes insistir em fazêl-a. + +--Pois é isso mesmo. E depois de a ouvir hesito. + +--Duvídas de Bertha, não é verdade? Receias que esses amores não lhe +morram no coração e que um dia revivam como a lavareda quando se desfaz +o monte de cinzas que a suffocava? Se assim é, se não tens no caracter +de Bertha a precisa confiança que devemos ter na mulher que escolhemos +para companheira na vida, se não repousas cegamente n'ella, na sua +lealdade, nas suas virtudes, então desiste, porque irias envenenar a tua +vida com ciumes e a d'ella com suspeitas injuriosas. + +--Não desconfio de Bertha; mas queria saber porque julga ella impossivel +esse amor que sente, para vêr se a mim me pareceria tambem que o era. +Quem sabe lá se o é? E se deixar de sêl-o por o motivo de hoje e o fôr +por Bertha ser minha mulher? Quem me podia curar d'este desgosto? + +--Socega, Clemente, os motivos que hoje se dão, dar-se-hão sempre--disse +imprudentemente Jorge. + +--Pois sabe quaes são?!--perguntou Clemente admirado. + +Jorge conheceu a indiscrição em que tinha cahido, e procurou emendal-a, +dizendo: + +--Não; mas se Bertha t'o assegurou... Ella não costuma ser +irreflectida... E motivos ha na vida tão poderosos e permanentes, que +póde bem predizer-se na presença d'elles a impossibilidade de um facto. + +--Eu sempre os queria conhecer, para julgar por mim. + +Jorge replicou com impaciencia: + +--Julgar por ti! E quem te diz que saberias aprecial-os? Talvez os +julgasses faceis de vencer, não obstante elles serem insuperaveis. +Acredita o que te digo, Clemente. Um homem só póde ser perfeito juiz das +acções de um outro, quando entre ambos se dão absolutamente as mesmas +condições de existencia. Desde que estas variam, varía com ellas a +maneira de vêr as coisas. O que para ti é um acto natural e facil, é +para mim um impossivel, porque se lhe oppõe opiniões, sentimentos, +crenças que me são proprias, que fazem parte de mim mesmo, de minha +entidade moral, e que tu não possues e de que por ventura te ris. Por +isso escusado seria talvez saber do segredo de Bertha mais do que o que +ella te revelou. Crê sob a garantia da sua palavra que esses amores +foram apenas uma phantasia da mocidade, que os rudes deveres da vida +extinguirão, e resolve. + +Clemente permaneceu ainda por muito tempo silencioso. + +Jorge pôz-se a passeiar no quarto. + +A final o noivo de Bertha ergueu-se e disse suspirando: + +--Bem; veremos o que pensa minha mãe. + +--E que direito tens tu de ires fallar a tua mãe nas confidencias de +Bertha?--interpellou-o Jorge, com uma vehemencia que sobresaltou +Clemente. + +--Devo confiar em minha mãe, pelo menos tanto quanto confiei no snr. +Jorge. Bertha não m'o levará a mal. + +Jorge reprimiu-se ao responder: + +--De certo que não acho mais justificado o escolheres-me para +confidente. Emfim, faze o que quizeres, mas... segue principalmente o +que te dictar a consciencia. + +Clemente sahiu mais pensativo do que viera. + +O desconsolado noivo estranhára Jorge. A maneira por que elle lhe fallou +fôra tão fria e desabrida e de tão difficil explicação, que não podia +Clemente atinar com o motivo d'aquillo. A ultima reflexão, sobre tudo, +deixou-o muito sentido. Jorge pozera em duvida o direito que elle tinha +de consultar sua mãe n'este negocio! Pois não era ella a mais natural +conselheira que elle tinha no mundo? E não pedia o caso o conselho de +pessoa experiente?! Poderia Bertha levar-lhe a mal a precaução que +tomava principalmente em vista da felicidade d'ella? + +Mas emfim Jorge dissera-o e Clemente, a seu pesar, começou a sentir +escrupulos. + +De feito aquelle segredo não era seu, e Bertha não o tinha authorisado a +revelal-o. Já em communical-o a Jorge exorbitára. + +E no meio d'estas alternativas de resoluções entrou cabisbaixo e +assombrado em casa, e não fallou em coisa alguma a sua mãe. + +Esta ao vêl-o assim, attribuiu o facto a impaciencias do amor. A ida de +Bertha para a companhia do fidalgo prorogára o prazo para a fixação do +casamento, e Anna do Védor conjecturou que era isso que contrariava o +filho. + +Resolveu pois fallar a Thomé para apressar quanto podésse a festa, +porque ella sabia que D. Luiz estava melhor, e que até já andava a pé, e +portanto era justo que prescindisse de Bertha, que não se destinava a +fazer-lhe eternamente companhia. + + + + +XXXI + + +Chegaram cartas da baroneza e de Mauricio, datadas de Lisboa. As +noticias que davam eram satisfactorias. Mauricio fôra hospedado em casa +de um primo remoto de D. Luiz e por elle introduzido nos primeiros +circulos da cidade, onde recebeu um lisongeiro acolhimento. + +Mauricio achava-se n'aquelle mundo, novo para si, como se n'elle tivesse +sido educado. Sentia-se bem alli, agradavam-lhe aquelles habitos de +elegancia e de distincção, que não conhecêra no canto de sua provincia, +mas cuja necessidade vagamente experimentava havia muito tempo. Era para +aquelle viver que os seus instinctos o inclinavam. + +Quando se viu alli respirou com o desafogo de quem sahe de um ambiente +que o asphyxiava. Não necessitou de longo tirocinio para conhecer os +usos d'aquella sociedade e adoptar-lhe os costumes. Em poucos dias não +restavam n'elle vestigios sequer do seu provincianismo. Uma forte +vocação substitue um lento noviciado. Os homens acharam-n'o espirituoso; +as mulheres, amavel; e para com todos soube ser tão insinuante, que os +influentes politicos, a quem a baroneza o recommendára, tomaram por elle +o mais vivo e promettedor interesse. + +Escusado é dizer que Mauricio não foi muito escrupuloso na observancia +dos artigos de fé politicos com que D. Luiz doutrinára os filhos. Para +genios como o de Mauricio, um dos maiores achaques que póde ter uma +ideia é o estar fóra da moda. + +Jorge sentia que não lhe era possivel abraçar a crença do pae, porque a +razão a condemnava; e estas convicções para toda a parte o +acompanhariam, porque procediam de um juizo claro e de uma aturada +reflexão. + +Mauricio, apesar de nunca ter adherido manifestamente ao credo paterno, +só agora parecia havêl-o devéras renegado, porque o desgostavam os ares +de sédiço e desusado, com que elle lhe apparecia á esplendida claridade +dos salões da moda. + +Tudo quanto havia de eminente no jornalismo politico, na litteratura, no +parlamento, no fôro, constituia agora o circulo habitual das relações de +Mauricio, e nas conversas animadas, cheias de vivacidade, brilhantes de +eloquencia e de espirito, em que elle tambem tomava parte, jogavam, como +principios assentes, certas proposições que elle fôra educado a +considerar como abominaveis heresias. + +Isto era o bastante para que elle abjurasse o credo velho com que o +haviam catechizado na provincia e professasse a doutrina nova. + +A baroneza, que revelava tudo isto muito extensamente a Jorge, colorira +e occultára parte da verdade a D. Luiz, para não o assustar. + +Ella porém via com prazer o exito do seu protegido, que excedia a sua +espectativa. + + «Em pouco tempo--escrevia ella a Jorge--teu irmão tornou-se um homem + da moda, e é para ver o bem que elle sabe sustentar a posição que + tomou de assalto. Nas frisas de S. Carlos, nos primeiros salões de + Lisboa, Mauricio está como em terreno conhecido, e muitos nados e + creados n'estes ares invejam-lhe o seu _aplomb_ e o seu _savoir + faire_ inimitaveis. O ministro dos negocios estrangeiros, a quem + muito especialmente o recommendei, dá-me as melhores esperanças de + elle ser despachado como addido para o corpo diplomatico, carreira + que sobre todas me parece a mais talhada para as predilecções e + talentos do nosso protegido.» + +Estas noticias foram recebidas com prazer por Jorge e por D. Luiz. Este +recordou-se, ao lêl-as, do tempo da sua juventude, em que tambem +trilhára a carreira da diplomacia. Jorge conhecia a fundo o caracter do +irmão e sentia que elle tinha de facto entrado no caminho para onde o +chamavam os seus talentos e as suas disposições moraes. + +A imaginação de Mauricio era muito poderosa e exigente, as tarefas +proveitosas, mas modestas, o trabalho na obscuridade da provincia, a +consagração de uma vida inteira ao cumprimento de um dever, não lhe +bastavam. + +Uma impaciencia insuperavel desviava-o d'esse caminho. + +As brilhantes apparencias, a vida agitada, a variedade de impressões, as +luctas incessantes, alimento da febril anciedade que devora certos +espiritos, eram-lhe indispensaveis. Sob a influencia de taes estimulos, +as suas faculdades entravam em acção. Não se contentava com os applausos +da consciencia propria, precisava dos applausos do mundo. Para os +conquistar tentaria esforços sobrehumanos. + +Jorge era uma alma formada para o dever; Mauricio uma alma formada para +a gloria. + +D. Luiz não pôde deixar de sentir-se lisongeado com o bom exito do +filho, não obstante as vagas apprehensões que sentia de que a intima +convivencia com a corrupta mocidade da côrte o contaminasse. Felizmente +o velho realista não tinha já a seu lado o padre procurador, com a sua +incessante prégação contra os costumes do seculo, que era d'antes o +thema obrigado das conversações diarias. E desde então as prevenções do +fidalgo haviam perdido muito das côres carregadas que as tingiam. + +Ás primeiras cartas seguiram-se outras, confirmando as noticias dadas +n'aquellas. + +As auras continuavam a soprar favoraveis a Mauricio nos mares insidiosos +da côrte. A baroneza dava quasi como certo o proximo despacho d'elle +para addido a uma embaixada de Vienna ou de Berlim. + +Mauricio relacionara-se intimamente com os primeiros personagens da +situação politica dominante, que se interessavam por elle. As sympathias +femininas, poderoso elemento de prosperidade n'aqueilas altas regiões, +como em geral em todas, conspiravam tambem a seu favor. + + «Com mais um pequeno esforço talvez fosse possivel fazêl-o ministro, + (escrevia a baroneza a Jorge) que não é em Portugal dos postos de + mais difficil accesso. Ministro da marinha pelo menos, que é a pasta + dos principiantes e a mais adequada para os homens de imaginação + como elle, onde teem muito com que a alimentar, porque é a pasta + symbolica das nossas glorias passadas e pouco mais.» + +N'esta mesma carta de Gabriella havia alguns periodos em que, usando de +uma linguagem mais grave, ella fallava da probabilidade do seu casamento +com Mauricio. + + «Não attribuas este projecto a um mero capricho de mulher. Não é. + Resolvi-me a dar este passo depois de ter reflectido o mais + friamente possivel nas vantagens e consequencias d'elle. Mais tarde + ou mais cedo eu tinha de contrahir segundas nupcias; a posição em + que me acho e as impertinencias dos innumeros aspirantes á minha + mão, ou antes aos bens que herdei de meu marido, assim o exigiam. + Era difficil deixar de ceder. A minha sympathia por Mauricio é um + motivo de preferencia muito justificado. Nenhum candidato me + agradava mais, o que não quer dizer que me sinta apaixonada. Mas + muito teria que esperar se aguardasse por uma paixão para me + decidir. Já não estou em tempo d'isso. Mauricio é um rapaz amavel e + delicado bastante para não me dar motivos de arrepender-me. É quanto + exijo. Sou tolerante por indole e por habito, não terão portanto + effeito sobre mim os costumados motivos de desolação de todas as + esposas extremosas, motivos que muito provavelmente Mauricio não + deixará de dar á sua. Isto pelo que me diz respeito. Quanto a elle, + entendo que lhe convém este casamento. Primeiro, porque realisará + uma operação financeira um tanto vantajosa; depois porque, graças á + minha longanimidade, não peiará demasiadamente os seus movimentos de + rapaz com os laços matrimoniaes, sem que por isso corra os precalços + dos maridos pouco fieis aos lares domesticos. O Jorge faz-me a + justiça de assim o acreditar, não é verdade? E finalmente porque + d'esta maneira precavê-se contra alguma tentação, a que são sujeitas + as cabeças como a d'elle, que em um momento de enthusiasmo + transtornam todo o seu futuro. Casando commigo, fica livre de + desposar a primeira dançarina de S. Carlos, que o fascinar. Em + conclusão, creio que poucas mulheres poderiam como eu aceitar + Mauricio para marido, com tanta probabilidade de não o fazerem + infeliz nem de o serem. O que é preciso é aproveitar o ensejo em que + Mauricio me faça a honra de uma preferencia. Por isso talvez + qualquer dia surprendamos o tio Luiz pedindo-lhe a authorisação + necessaria. Espero que o Jorge advogará a nossa causa. Perdoa-me se + alguma leviandade descobrires ainda n'esta minha resolução. Acredita + porém que nunca pude ser mais séria do que o estou sendo, ao + escrever-te esta carta.» + + +Havia ainda um _post-scriptum_, em que ella acrescentava: + + + «Bertha ainda está nos Bacellos? Será bom que se demore. Nunca é + tarde de mais para o tal casamento, com o qual por emquanto me não + pude conformar.» + + +A communicação que lhe fazia Gabriella surprendeu em extremo Jorge, que +muito longe estava de prevêl-a. Reflectindo porém, acabou por achar que +a prima tinha razão e por convencer-se de que, não obstante o tom +ligeiro da carta que lêra, expunham-se n'ella razões de pêso para +justificar o facto annunciado. + +Casando com a baroneza, Mauricio precavia-se contra si proprio e +ligava-se a uma mulher, que por as especiaes disposições de sua indole, +saberia respeitar o nome do marido, sem que a fizessem desgraçada os +provaveis desvarios d'elle. + +Effectivamente, conforme o que a baroneza predissera, semanas depois era +D. Luiz surprendido por uma carta d'ella e outra de Mauricio, +pedindo-lhe o beneplacito para o referido casamento. + +O fidalgo recebeu com prazer a inesperada nova. + +Gabriella era por muitos motivos uma esposa que para qualquer dos seus +filhos elle ambicionava. Joven, rica, de sangue igual ao seu, e de +sentimentos elevados sob a frivola apparencia de que os revestia, a +baroneza augurava um auspicioso futuro ao homem a quem désse o titulo de +marido. Para Mauricio seria demais uma prudente conselheira e um +obstaculo a muitas loucuras que, entregue a si ou a peior vigilancia, o +rapaz não deixaria de commetter. + +Por isso D. Luiz, com animo folgado e um sorriso expansivo a alizar-lhe +na fronte e nos labios a contracção habitual, apressou-se a responder ao +pedido nas mais benevolas e lisongeiras phrases que lhe inspirava o seu +bom humor. + +Bertha veio dar com elle sentado á secretária a escrever. A filha de +Thomé da Povoa quiz retirar-se para não o interromper. + +D. Luiz, conhecendo-lhe os passos, disse sem desviar os olhos do papel +em que escrevia: + +--Entra, Bertha, entra, que não me incommodas. + +E, sentindo-a mais perto, acrescentou: + +--Sabes o que estou fazendo? + +--A escrever; bem vejo. + +--Sim; mas a quem? + +--A seu filho Mauricio talvez. + +--A Mauricio e a Gabriella tambem. E sabes a respeito de quê? + +--Eu, não. + +O fidalgo terminava n'aquelle momento a assignatura no extremo inferior +da pagina, e só depois de concluil-a foi que, voltando-se para Bertha, +continuou: + +--Authoriso um casamento. + +--Um casamento?! + +--É verdade. Havia alguem de suppôr que o Mauricio se casava?! + +--Casa-se! Com quem? + +--A vêr se adivinhas. + +Bertha reflectiu alguns instantes. + +--E eu conheço a noiva? + +--Conheces perfeitamente. + +--Então não póde deixar de ser a snr.ª baroneza. + +--Justamente. É Gabriella. + +--É uma felicidade para elle. + +--Assim tambem o julgo. Se alguem se aventura n'este casamento é a +noiva. + +--O snr. Mauricio tem uma boa alma, não dará motivos de arrependimento a +quem depositar confiança n'elle. + +--Hum! É muito rapaz--murmurou o fidalgo, fingindo sentir contra o filho +maiores prevenções do que effectivamente sentia. + +Bertha julgou que era occasião opportuna de pôr em pratica um projecto, +que desde madrugada meditava. + +Thomé da Povoa tinha-a na vespera procurado para lhe fallar na visita +que recebêra da mãe de Clemente, e no que ella lhe dissera sobre o +desgosto em que andava o filho com a demora do projectado casamento. +Thomé não queria apressar a sahida de Bertha dos Bacellos, mas, +lembrando-se de que o fidalgo ia melhor e de que, por certo, não seria +elle o primeiro a dizer a Bertha que prescindia dos seus cuidados, +pensava que seria bom que ella lhe insinuasse a necessidade de separação +e para isso bastava pedir-lhe, como a padrinho que era, licença para o +casamento que se ajustára. + +Bertha perguntou ao pae se tinha já a certeza de que Clemente estivesse +ainda resolvido a insistir na sua proposta. Thomé admirou-se da +pergunta, porque nada sabia da conferencia da filha com o noivo, e +assegurou-a de que a resolução de Clemente era ainda a mesma, visto que +a mãe n'aquelle mesmo dia lhe viera recordar o ajuste. + +Em vista d'esta declaração, Bertha prometteu fallar n'aquelle objecto a +D. Luiz no dia seguinte, e era esse o ensejo que ella desde pela manhã +procurava. + +O assumpto a que a coincidencia das cartas de Mauricio e da baroneza +chamava a conversa, preparára excellentemente o caminho para o pedido de +Bertha. + +Aproximando-se da cadeira em que estava sentado o padrinho, disse-lhe +com o tom de affabilidade com que aprendêra a dominal-o: + +--Já que está em maré de condescender com os pedidos que lhe fazem, não +quero perder a occasião de lhe fazer um tambem. + +--Ah! tens um pedido a fazer-me? + +--Tenho. E tão parecido com esse! + +--Com esse... qual? + +--Com o que lhe fez seu filho. + +--Com o pedido de Mauricio? mas... então tracta-se de casamento? + +--Sim, meu padrinho. É de um casamento que se tracta. + +--De quem?--interrogou o fidalgo, fitando os olhos em Bertha. + +--De quem ha de ser, se sou eu a que peço?--respondeu esta, baixando os +seus, e não podendo disfarçar a melancolia que ainda lhe causava aquella +ideia. + +--Tu?!--exclamou D. Luiz sobresaltado, e voltando-se rapidamente--Tu +queres... tu vaes casar-te?! + +--Sim, snr. D. Luiz, está decidido que isso se faça e eu peço-lhe +licença para o fazer. + +--Tu casares-te, Bertha!--repetia o velho como se lhe fosse difficil +conformar-se com essa ideia--mas... com quem? + +--Com o filho da Anna do Védor, com Clemente. + +D. Luiz deu um salto na cadeira, ao ouvir a resposta, e bateu com a mão +na banca que tinha diante de si. + +--O quê?!... Ora adeus! Tu estás a brincar commigo. + +--Não, meu padrinho, fallo-lhe sériamente. + +--Com o Clemente?! Tu casares com o Clemente? Tu, uma rapariga delicada, +de educação, de gosto, de sentimentos elevados, casares-te com um +rustico, com um rapaz que quando muito saberá escrever o seu nome! com o +filho da Anna, com o snr. regedor! Isso não tem geito nenhum. Isso é um +disparate de tal ordem!... Quem foi que se lembrou de tal?! + +--Clemente pediu-me a meu pae... + +--E teu pae concedeu? Coisas do Thomé a final. Mas tu? tu, Bertha, tu +consentiste!? + +--Clemente é um bom rapaz, honrado, amigo do trabalho... + +--Ora adeus, amigo do trabalho, honrado, e é isso bastante para que uma +rapariga como tu vá sacrificar o seu futuro e ligar a sua existencia á +de um homem que não póde servir-lhe de boa companhia?! + +--E porque não póde, meu padrinho? Elle é bom e delicado, dizem. + +--Oh! que grandes delicadezas as de Clemente! Nem tu sabes o que vaes +fazer, Bertha. Pois devéras o coração approva essa escolha? + +--Não, snr. D. Luiz, não é que o coração m'a peça, porém... + +--Então quem te obriga? Por acaso teu pae violenta-te? + +--Tambem não; mas o padrinho sabe que nem sempre o coração é bom +conselheiro. Mais vale ás vezes não esperar que elle escolha. Oh! se +mais vale! Podendo-se decidir a sangue frio e antes que o coração +decida, mais vale. + +--O Clemente não póde ser teu marido. Tu, Bertha, tu a quem Deus +concedeu qualidades tão distinctas, que melhor estarias n'essas casas +nobres que por ahi ha do que algumas raparigas atoleimadas que por lá +tenho encontrado, tu, que me recordas a minha pobre Beatriz, que pareces +ter herdado os modos, os gostos, os sentimentos d'ella, tu has de ir +casar com o Clemente! Nem quero ouvir fallar mais n'isso. + +--A sua muita bondade para commigo, padrinho, é que o cega. Pois diga a +que posso eu a final aspirar? + +--A que podes aspirar?!--exclamou o fidalgo, a quem a exaltação de +espirito, que o pedido de Bertha produzira, quasi fazia esquecer os seus +principios mais radicados--aqui, n'esta terra de selvagens, não podes +aspirar a mais, porque não ha quem te mereça até. Aqui nem sequer por +sonhos se sabe o que é delicadeza de sentimentos, nem sequer de longe se +aprecia essas nobres qualidades de coração e de espirito de que Deus te +dotou, e que tu queres perder na convivencia com um homem grosseiro, e +que nem póde conhecer o thesouro que deseja possuir. + +--Mas, snr. D. Luiz, que outra póde ser a minha sorte? Ora diga. + +D. Luiz, fazendo um gesto de despeito, respondeu com vehemencia: + +--Pois bem, queres ser mulher de Clemente, não é assim? queres ir +sacrificar os teus merecimentos a esse homem? queres dedicar-lhe todo o +teu futuro, consagrar todos os teus pensamentos, todas as tuas aptidões +aos arranjos da casa da Anna do Védor? Pois bem, faze a tua vontade. Mas +escusas de vir pedir o meu consentimento. Eu não quero ficar com +remorsos de ter sanccionado um disparate d'essa marca. Tu mulher de +Clemente! Vossês, as raparigas, a final são todas assim, as mais +ajuizadas, ou tarde ou cedo, cahem em uma loucura, como para mostrarem +que são mulheres. Para que vens pedir-me conselho, se formaste o +proposito de não o escutares? Anda lá, faze a tua vontade, e Deus queira +que te não arrependas, quando já não fôr tempo. Tu não necessitas do meu +consentimento, faze lá o que quizeres. + +E D. Luiz encostou-se á mesa com gesto e movimentos de amuado. + +--Porém, meu padrinho--insistiu Bertha, poisando-lhe as mãos no hombro +com a doce familiaridade de filha--não era esse consentimento de má +vontade que eu lhe pedia; esse não me trará felicidade, bem vê. + +--Queres talvez forçar-me a dizer que approvo um casamento, contra o +qual se revolta a consciencia? É boa! + +--Mas pense bem e talvez que a sua consciencia não ache motivos para +revoltar-se. + +--Sabes que mais? Dize que amas esse homem, que sentes por elle uma +inclinação irresistivel, e então eu entenderei a tua insistencia. + +--Não digo, porque não diria a verdade. + +--Mas então onde está essa necessidade de casamento? + +Bertha sentiu que devia fallar com toda a gravidade ao padrinho para +convencêl-o. + +--Olhe, snr. D. Luiz--disse ella--eu vou informal-o de todo o meu +pensamento, e dirá depois se tenho razão. A educação que meu pae me deu +não me cegou a ponto de illudir-me a respeito do meu futuro e do destino +que me está reservado. O exemplo de minha mãe, que tem sabido em toda a +sua vida ser a companheira fiel de um homem de trabalho e tem +comprehendido que a sua missão era aquella, a de fazer-lhe esquecer em +casa os desgostos de fóra e dar-lhe forças para continuar a sua tarefa, +este exemplo nunca o perdi de vista; entendi sempre que terá de ser esse +o meu papel n'este mundo, e nem me envergonhei nem me temi nunca d'elle. +Sentia em mim forças para aceital-o e para cumpril-o. + +--Mas nem só os homens do trabalho material e grosseiro são os que +precisam d'esse conforto da casa e da familia. As lidas de intelligencia +tambem cansam, Bertha, e á cabeça desfallecida á força de estudo tambem +é grato encontrar um seio amigo aonde se encoste a descançar--redarguiu +o fidalgo com uma animação excepcional. + +Bertha tornou-lhe, sorrindo: + +--E qual seria a cabeça cansada de muito pensar que viria procurar a +esta aldeia o seio em que repoisasse? De longe é de crêr que não +viessem, e as d'aqui... ha tão poucas que se sintam cansadas d'isso! +Creia, snr. D. Luiz, só um lavrador como Clemente procuraria a filha do +lavrador Thomé da Povoa, e Clemente é um homem digno de ser estimado. + +--Só um lavrador! Que estás tu ahi a dizer?! E porquê? Tomaram-te para +esposa esses doutores que por ahi estão ociosos, comendo e bebendo á +custa dos paes, e esquecendo o pouco que aproveitaram em Coimbra na vida +inutil que levam; olha que não te haviam de engeitar esses morgados +vadios e perdularios, que passam a vida em caçadas e que arrastam o nome +que herdaram pelas tavernas e por todos os logares de devassidão. + +--Esses engeital-os-ia eu. Pois julga que lhes não devo preferir +Clemente? + +--Pois não digo esses, mas... emfim... ainda por ahi ha gente... bem +educada... + +--Se não fosse a sua muita bondade para commigo, o meu padrinho mesmo +acharia natural este casamento, e pelo contrario estranharia se algum +dos filhos d'essas familias que diz fosse procurar noiva á casa de meu +pae. + +O sentido epigrammatico d'esta resposta, dictado a Bertha por a nobre e +justa indignação do coração, que depois de se haver sacrificado aos +preconceitos de um homem, via o proprio por quem fizera o sacrificio +negar a necessidade d'elle, feriu certeiro o fidalgo, que se sentiu +vencido. + +Mudou pois de tactica, e com a eloquencia que lhe inspirava o receio de +perder a companhia de Bertha, tornou: + +--Muito bem, dizes que não amas esse homem, que não cedes a inclinação +alguma do coração, aceitando-o por marido; que se o fazes é por julgares +que é essa a tua missão de mulher, a de suavizar a vida de um homem, e +de tornar-lhe mais facil o seu caminho no mundo. E para cumprires essa +missão vaes deixar-me só, velho, doente, abandonado dos filhos, sem +conforto algum na vida; só com as lembranças pungentes do meu passado, e +isto depois de me habituares á tua companhia, depois de me haveres +recordado as doçuras d'este viver ao lado de uma filha, doçura que o +amargor das saudades me tirava dos labios havia muito tempo. Para que +vieste então? Quem te chamou? Se eu tivesse ficado só, estaria morto +talvez e seria feliz. Vieste para me obrigares a sentir agora esta +separação; para me fazeres morrer de paixão no dia em que celebrares +esse casamento. Que queres? Estava habituado a considerar-te quasi como +uma segunda Beatriz que Deus me concedêra, e podes julgar se eu daria a +Clemente uma filha minha. + +--Meu padrinho!--exclamou Bertha, inquietando-se com a exaltação do +fidalgo. + +D. Luiz proseguiu sem a escutar: + +--Mas que te importas commigo? Eu estou velho; as cabeças na minha idade +vergam muito para a terra, pesam demasiado, não se póde exigir de umas +mãos jovens a tarefa de as sustentarem. Ainda se fossem as de uma filha! +Mas para que vieste? Julgas que me deixas forte? Estás enganada. Esta +vida em mim é ficticia. É da tua presença que a recebo. Ámanhã que me +deixes vêr-me-has mais prostrado do que me encontraste. Emquanto viveu a +minha Beatriz, ninguem me viu fraquear. Dois mezes consecutivos, dois +mezes, passei junto do leito onde ella agonisava, quasi sem dormir, +quasi sem comer, e nunca me faltaram as forças, e desde o momento em que +m'a tiraram dos braços para m'a encerrarem no tumulo, abandonou-me toda +a minha energia, e cahi no leito quasi exhausto de vida. Mas vae, não +quero sacrificar o teu futuro. A companhia de um velho cansa. Os +corações na tua idade precisam de ar e de alegrias. Eu bem conheço isso; +mas não me digas que é sómente a consciencia da missão que te compete na +vida a que te impelle; essa bem a desempenharias tu aqui, e generosa e +abençoada como nenhuma, porque nenhum coração receberá de ti consolação +igual áquella que me dás; podes crêl-o, porque tambem poucos ha mais +apertados de angustias e que ha tanto tempo abafassem como este meu. Mas +queres deixar-me... Vae... vae, que eu não devo, nem quero impedir-te. + +Havia tão sensivel commoção na voz com que D. Luiz pronunciára estas +palavras, que Bertha sentiu o contagio d'ella, e pegando nas mãos do +padrinho para as levar aos labios, disse-lhe sensibilisada: + +--Ó meu padrinho, se é verdade o que diz, se a minha companhia lhe faz +tão bem, ordene-me que fique, e ninguem me tirará de junto de si, e +nenhuma sorte me será mais querida do que esta. Concorrendo para +alliviar-lhe os seus soffrimentos, parece-me que estou cumprindo um +encargo que Beatriz me deixou, e que ella do céo me sorri e agradece. +Quer que não saia de ao pé de si? quer que lhe consagre todos os meus +cuidados? fal-o-hei e fal-o-hei com prazer. + +O velho cingiu a formosa cabeça d'aquella rapariga, que se lhe ajoelhava +aos pés, e aproximando-lhe dos labios a fronte e as faces beijou-as a +chorar. + +--Obrigado, Bertha, obrigado por essas palavras que me entram pelo +coração como um balsamo salutar. A minha vida não póde ser muito longa, +filha, o teu sacrificio não duraria muito tempo... mas nem eu quero que +faças promessas de cumpril-o. Só te peço que me dês algum tempo para +responder á tua petição, e que até lá me não falles mais n'esse +casamento. Eu pensarei e talvez... talvez me conforme com essa ideia, +contra a qual ainda me revolto. Póde ser isto? Podes esperar na minha +companhia alguns dias mais? + +--Esperarei o tempo que quizer. E não pense por ora em tal casamento, se +esse pensamento o afflige. Se soubesse nem lhe tinha fallado n'isto. + +--Melhor foi que fallasses; é preciso pensar com vagar n'isso. + +--Mas agora não, agora vamos até á quinta, que a manhã está bonita. + +Em resultado d'esta conferencia nada ficou determinado emquanto á época +do casamento. Thomé teve de dizer a Anna do Védor que o fidalgo ainda +não podia prescindir da companhia de Bertha. + +Anna não ouviu a noticia sem fazer-lhe commentarios, nos quaes havia +algumas azedas allusões ao egoismo do fidalgo, que depois de offender o +pae, assim se sabia apropriar dos serviços que lhe prestava a filha. + +Cumpre porém notar que a boa Anna seria a primeira a aconselhar a Bertha +que ficasse, porque sentia verdadeira pena do estado a que chegára D. +Luiz. + + + + +XXXII + + +Não podia passar da ideia a Clemente a maneira insolita e quasi +desabrida com que Jorge por duas vezes recebêra as suas consultas +relativamente ao assumpto do casamento de Bertha. + +Clemente conhecêra sempre em Jorge uma tal placidez de espirito, uma tal +impassibilidade em presença dos casos mais estranhos, que não sabia como +explicar aquella subita transformação. + +Esta mudança em Jorge e a revelação que ouvira da bôca de Bertha tão +preoccupado traziam o pobre rapaz, que não podia dispôr da attenção para +outro objecto. Distrahiam-n'o estas ideias das suas tarefas diarias e +agitavam-lhe o somno das suas noites. + +Jogava-lhe alternadamente o pensamento com estes dois assumptos, como se +joga com duas espheras em uma só mão; emquanto se arroja uma ao espaço, +cahe a outra a occupar o logar que fica vazio. Ora succede que muitas +vezes as espheras encontram-se e batem uma na outra; e que muito será +para admirar se d'este choque resultar uma faisca? Pois com o jogo do +pensamento póde succeder o mesmo. De duas ideias que se encontram, á +força de se cruzarem muitas vezes no cerebro, póde sahir um clarão. Este +phenomeno succedeu com Clemente. + +Pensava elle uma noite no seu leito: + +--Mas quem poderá ser o tal rapaz que Bertha diz que amou e que ainda +ama? Porque será impossivel o casamento com elle? E Jorge tambem diz que +o é. Elle parece que sabe a este respeito alguma coisa mais do que +disse. Até quando lhe fallam n'isso se enraivece. Quando me lembro! +Nunca o vi assim! Nem elle era d'aquellas coisas. Como está +impertinente! Mas o tal rapaz, o tal rapaz? É claro que é conhecimento +da cidade. Sim, porque da terra não póde ser... a rapariga já ha muito +que d'aqui sahiu... e sahiu criança... Desde que chegou com ninguem tem +convivido... a não ser com os fidalgos da Casa Mourisca, mas esses... É +verdade que pelos modos Mauricio lhe arrastou a aza, como faz a todas, +mas ella não lhe deu confiança; emquanto a Jorge... Jorge... Jorge... + +De repente o filho da Anna do Védor sentou-se de um salto na cama e +murmurára já audivelmente: + +--Jorge! Querem vêr que... + +E sem bem saber o que fazia, accendeu luz. Este movimento de instincto, +pelo qual parece que queremos desfazer com a luz de fóra as meias +sombras que dentro de nós escurecem ainda uma ideia, é frequente n'estas +circumstancias. Clemente permaneceu sentado no leito com a vista fixa e +o queixo apoiado na mão. + +E continuava murmurando: + +--E porque não? E a mim que não me tinha occorrido! É até o mais +provavel. E assim explica-se tudo... A maneira por que elle fallou a +primeira vez e hontem... Aquillo de sahir da casa dos Bacellos, quando +ella foi para lá... E a tristeza em que anda... Mas então... E porque é +impossivel? Ai, sim, o velho. Isso lá é verdade, quem fallasse ao velho +em tal, o que ahi não iria!... Porém... morrendo o pae... já não havia +tropeço... E ahi ficava eu... É o que eu digo... É verdade que o rapaz +tem lá uns modos de pensar! + +Aqui bateu Clemente uma palmada no travesseiro, exclamando quasi: + +--E não é outra coisa! Agora é que eu explico tudo o que elle me +disse... e ella tambem. É certo. Coitados! Se assim fôr... Mas é com +certeza. Vou jural-o. Pois se não fosse... Ora se não é, é sem a menor +duvida. Elles gostam um do outro. Bertha gosta de Jorge e o rapaz tambem +gosta d'ella. + +E formulando esta conclusão, Clemente, com abstracção igual á do +philosopho que, excitado pela alegria de uma descoberta, sahiu como +estava do banho a proclamal-a por toda a cidade, saltou da cama e +começou a vestir-se com presteza sem reflectir no que fazia. + +Já meio vestido foi que reparou que eram duas horas da noite e que +portanto era aquelle acto extemporaneo. Com instinctiva repugnancia +deitou-se outra vez. + +Quando no decurso de uma noite nos luz assim de subito uma ideia, em +busca da qual andavamos havia muito, quando nos occorre a solução de um +problema em que meditavamos, impacienta-nos o imperturbavel silencio e +quietação que nos rodeia, formando tão completo contraste com o tumulto +que nos vae no pensamento. Anciamos pelo dia para ter a quem communicar +a descoberta, e para a examinar á luz bem clara, e desenganamo-nos de +que não fomos victimas de uma illusão nocturna. + +Emquanto o dia não rompe, o cerebro é irritado por aquella sua creação, +como o seio materno pelo ser desenvolvido; acabado o periodo da gestação +mental é necessario que a ideia venha á luz, e qualquer demora é +afflictiva. + +Este phenomeno psychologico passava-se em Clemente. Custou-lhe a +respeitar o somno da mãe, esperando a luz do dia para lhe transmittir a +descoberta que fizera. + +O resto da noite passou-o volvendo-se e revolvendo-se na cama sem poder +dormir. Era quasi um estado febril o seu. + +Incommodára-o a ideia de que a sua pretenção á alliança com Bertha era o +motivo da tristeza de Jorge, e que, sem o saber, fôra elle o importuno +despertador d'aquelle sonho em que se embalavam ambos, deixando-se amar, +sem pensarem no futuro do amor a que cediam. Sonho irrealisavel embora, +porém Clemente não quereria ter sido quem os acordou. + +Antemanhã, quando ainda a estrella d'alva despedia proxima do horizonte +as suas ultimas scintillações, Clemente deixou finalmente o leito, onde +não encontrára repouso, e foi passeiar para o campo contiguo á casa, +aguardando o despertar da mãe. + +Anna do Védor era matinal e por isso Clemente não esperou muito. + +Effectivamente a vidraça do quarto em que dormia a robusta matrona +abriu-se e ella bradou da janella para o filho: + +--Que força de serviço foi essa que te estremunhou, rapaz?! Sume-te! Mal +luzia o buraco e tu já a sarilhares por essa casa! + +--Levantei-me um bocadito mais cedo e vim espairecer até aqui. + +--Qual historia! Então cuidas tu que te não senti toda a sancta noite? Ó +rapaz, olha que isto não me vae agradando. Aquelle maldito empate do +casamento... + +--Ora adeus, bem se tracta agora d'isso. + +--Pois que outra coisa ha de ser? + +--Quer que lh'o diga? Faça vossemecê favor de chegar aqui abaixo e +conversaremos. + +--Olá! A coisa é séria! Temos historia. É o que eu digo. + +E sahindo da janella e descendo as escadas para ir ter com o filho ao +quintal, a boa Anna ia a dizer para si: + +--O rapaz anda exquisito! Que me quererá elle? É coisa que lhe dá +freima. Na cara se vê. Queira Deus que não tenhamos por ahi alguma +alhada. O diacho do casamento! + +E chegando ao quintal, onde a aguardava o filho, exclamou: + +--Ora aqui me tens. Vamos lá a ouvir isso que tens para me contar. +Desabafa lá, que isto de guardar cada um as coisas comsigo não é bom. +Vá. + +--Ora venha para aqui, minha mãe--disse Clemente chamando-a para um +banco de madeira, por baixo de um parreiral. + +--Mas avia-te, filho, que eu tenho que fazer lá dentro. Já sei que me +vaes fallar no casamento. + +--É verdade, vou fallar-lhe no casamento que se não faz. + +--Que se não faz?!--repetiu Anna, dando um salto e fitando no filho os +olhos espantados.--Tu que dizes? + +--Isso mesmo que entendeu. Que se não faz. + +--E então porque é que se não ha de fazer? + +--Porque pensei melhor. + +--Ora vae pensar para os quintos. Olha agora! Viu-se já um disparate +assim? Pensaste melhor em quê e porquê? + +--Olhe, minha mãe, vossemecê bem sabe que eu não sou nenhuma criança +capaz de fazer as coisas no ar. E por isso eu que lhe digo que o tal +casamento não deve fazer-se é porque... + +--E então criança sou eu, para tu nem sequer me dares a importancia de +me dizer o porquê? Olha que teu pae até bem velho se aconselhou commigo, +apesar de ser homem ajuizado, e não tenho lembrança de o haver feito +nunca arrepender por isso. Olha agora! + +--Pois tambem eu lhe direi tudo, mas é se vir a mãe mais bem disposta a +ouvir-me com socego. + +--E parece-te que eu estou desassocegada? Ora valha-te não sei que diga. +Em peiores talas me tenho visto na minha vida, sem perder a cabeça. Boa +mulher estava eu se me estonteava assim á primeira! Olha agora! Anda, +dize lá. + +--Pois, minha mãe, este casamento não tem logar, porque Bertha... +emfim... + +Anna do Védor franziu o sobrolho. + +--Bertha o quê? Que disse ella? Disse que não? Olha a presumida! Então +quem acha ella que é? Sempre se vêem coisas no mundo! Olha agora! Então +ella disse que... Ó senhores, não estar eu lá! sempre queria +perguntar-lhe... + +--Valha-me Deus, minha mãe, é essa a paciencia que me prometteu? Nem me +deixa concluir, nem espera por saber o que vou dizer. + +--É porque eu cuidei que ella... sim, porque isso então... + +--Ouça, Bertha aceita, mas não tem verdadeira inclinação para mim. + +--E porque não? + +Clemente sorriu ao ouvir a pergunta. + +--Ora essa!--tornou elle brandamente--então n'estas coisas precisa-se de +se dar razões? Gosta-se, porque se gosta; não se gosta, porque se não +gosta, e acabou-se. + +--Mas emfim uma pessoa sempre diz: Não gosto d'aquelle, porque é feio, +d'aquelle, porque é torto, ou porque é aleijado, ou porque tem mau +genio, por isto ou por aquillo, eu sei lá! Mas tu... + +--Sim, eu não tenho defeito que me faça engeitar, hein? Se todos me +vissem com os seus olhos, minha mãe! + +--Ora, mas vem cá, mas então dize-me... + +--Perdão, ouça-me vossemecê primeiro. Bertha não sente inclinação por +mim, porque a sentia já por outro. Está satisfeita? + +--Olha a pateta da rapariga! Então já a sonsinha... tinha tambem o seu +namorado! Que mundo este! + +--Ó minha mãe, então se ella se agradasse de mim não era pateta, e lá +porque se inclina para outro, já vossemecê faz um espanto d'esses! Que +sou eu mais do que elles? + +--Não é isso--disse a mãe um pouco embaraçada com o argumento--eu o que +queria dizer era... emfim... se fosse um homem capaz... mas qual!... +algum menino bonito, algum peralvilhito de Lisboa. Então disse-te assim +mesmo na cara que não gostava de ti. E tu... + +--Bertha disse-me que tinha tido uma paixão, mas que fazia por vencêl-a, +porque não podia casar com o homem de quem gostava; e que se eu, sabendo +isso, ainda a quizesse para mulher, ella não duvidava em dizer que sim, +e que jurava que me seria fiel companheira na vida. + +--Muito obrigada aos seus favores, mas não são cá precisos. Olha agora! +Nem que tu morresses sem os seus bonitos olhos. Se deu o coração a +outro, que lhe preste, e que passe por lá muito bem sem elle. Olha +agora! Como quem diz: emfim eu não gosto de ti, mas vejo-te tão +embeiçado, que me mettes pena. Graças a Deus, não faltam por ahi +mulheres com quem cases, e se faltassem, tambem vivias bem sem ellas, +que, Deus louvado, não te falta que comer, que é o essencial. Olha +agora! Não que eu nunca vi umas delambidas como agora ha! Aquelle Thomé +é quem tem a culpa. + +--Ó minha mãe, já estou arrependido de lhe ter fallado n'isto. Olhem o +escarceu que ahi está levantando! + +--Ó filho, isto é um modo de fallar. A gente faz cá os seus votos de +razão. Mas vamos ao caso. Tu disseste-lhe logo que passavas +regaladamente sem os seus obsequios? está entendido. Fizeste muito bem, +e está acabado. + +--Não disse, não senhora, não lhe disse isso logo. + +--Não? Pois isso é que eu não esperava de ti. + +--Pedi-lhe tempo para pensar. Eu o que queria era saber quem era o tal, +para vêr se de facto o casamento seria impossivel, porque se visse que o +era, casava eu, isso casava. O que não queria era vir a ser tropeço +algum dia. + +--E d'ahi? + +--E d'ahi tanto pensei, tanto parafusei, que esta noite dei com a +historia. + +--Então? Algum janotinha da cidade? + +--Sabe o que lhe digo, minha mãe, é que o caso é bastante serio; e agora +o que me dá cuidado não é o meu casamento, que esse já eu sei que se não +faz; o que me dá cuidado são elles. + +--Elles quem? + +--A Bertha e o rapaz de quem ella gosta e que é... Sabe quem? O filho +mais velho do fidalgo, Jorge. + +A Anna do Védor empurrou o hombro do filho, e fez um gesto que, +combinado áquelle movimento, exprimia a mais radicada duvida. + +--Vae-te d'ahi! Olha agora o disparate! Ora, ora... + +--Creia que é verdade. + +--Pois a tola da rapariga... metter-se-lhe-ia em cabeça?... + +--Não se lhe metteu em cabeça coisa nenhuma. Gosta d'elle, mas sem +esperança, e tanto que não hesita em casar com outro. Mas o peior é que +Jorge ainda gosta mais d'ella talvez. E Deus queira que isto não venha a +dar cabo d'elle! + +--O quê? A dar cabo d'elle! + +--Pois se vossemecê o visse! É olhar-lhe para a cara e diz-se logo: este +rapaz tem coisa que o roe lá por dentro. Eu não suspeitava o que fosse, +mas agora que pensei... + +--Mas como é que tu vieste a saber isso? + +Clemente contou á mãe as entrevistas que tivera com Jorge, e a maneira +estranha por que elle o recebêra, a irritação com que o ouvira fallar em +Bertha, a singularidade das reflexões que lhe fez e dos conselhos que +lhe deu, e a Anna do Védor acabou por convencer-se de que o filho +acertára. + +Tinha um compassivo coração a boa mulher e, como dissemos, era perdida +por Jorge, a quem amava quasi tanto como ao filho. Por isso tomou logo o +partido d'elle, e exclamou: + +--Mas então porque não ha de esse rapaz casar com a pequena, se gosta +assim d'ella? + +--E o pae? + +--O velho? Isso lá é verdade. O fidalgo é pêrro, mas adeus, primeiro +está o gosto de cada um, e quando o amor é de raiz, tolice é querer +arrancal-o. + +E depois de curta meditação, acrescentava: + +--Mas vejam como o demonio as arma! aquelle rapaz, que parecia nem +sequer pensar em que havia raparigas n'este mundo, deixar-se logo +embeiçar por aquella! por a filha do Thomé da Herdade, que se o fidalgo +o via por sogro de um filho seu, era para estoirar de paixão! Sempre é +uma! Ó Clemente, pois devéras isso será assim? + +--Quasi que ia jural-o, minha mãe. + +--Quem me déra encontrar o rapaz, que logo lh'o pergunto. + +--Não diga isso, minha mãe. Ia fazel-a boa! Não conhece ainda o Jorge? + +--Ora vem tu ensinar-me a conhecêl-o, a mim, que o trouxe a estes +peitos, que o ensinei a fallar e a andar; vem cá dizer-me o que elle é. +Então que achas tu? que elle se zanga commigo? E a mim que me ha de +importar muito que elle se zangue. Mais me zango eu e veremos quem +vence. Olha agora! + +--Mas para que ha de ir fallar-lhe nisso? + +--Para quê? Pois então tu dizes-me que o rapaz anda a consumir-se e a +moer lá comsigo essa paixão, e queres que eu o deixe assim rebentar? Ha +lá nada peior do que uma pessoa calar comsigo estas coisas que roem lá +por dentro? Nada, a bôca fez-se para fallar e para a gente desabafar as +suas melancolias. + +--Mas se a mãe lhe podésse dar remedio... + +--E que cuidas tu? Pois parece-te que se eu visse que o rapaz se me +definhava por causa disto, que não tinha alma para ir ter com o fidalgo +e dizer-lhe as coisas como ellas são? Então já vejo que tu estás muito +enganado com tua mãe. Nada, não, era melhor deixar morrer aquelle rapaz, +que é a perola dos rapazes, aquelle rapaz que eu criei e que ha de ser, +e já é, a honra da familia. Pois sim, não que eu sou mesmo mulher para o +deixar morrer assim. + +--Havia de valer-lhe bem. O fidalgo está mesmo agora á espera dos seus +conselhos. + +--Não estará, mas olha que, duro como é, já não era a primeira vez que +eu me avinha com elle e sem elle levar a melhor. No tempo da senhora, +que era um anjo, Deus a chame lá, ainda mais força de genio tinha elle e +fazia-a chorar sangue e agua pelo muito que lhe perseguia o irmão. A +pobre creatura doente e elle sem querer que ella recebesse as cartas que +o irmão lhe escrevia, nem lhe deixar saber noticias d'elle. Eu, um dia, +dei com o fidalgo no corredor e disse-lhe: «Ó snr. D. Luiz, olhe que v. +exc.ª anda a fazer com que se rale de remorsos toda a sua vida, por +deixar morrer a senhora assim a estalar de saudades e afflicções. Veja +bem v. exc.ª que estas coisas pagam-se.» Foi mesmo assim. E cuidas lá +que elle se enfureceu? Qual! Calou-se muito caladinho, e d'ahi por +diante a senhora teve noticias amiudadas, e até o jardineiro mais tarde +foi para casa e ainda lá está. Então já vês... + +--Pois sim, mas o caso agora é mais difficil. + +--Deixa-o ser; mas tambem o homem está mais quebrado. + +--Tenha cuidado, minha mãe. Olhe lá não vá fazer alguma das suas. + +--Alguma das minhas! Eu lá vejo quem é que te dá melhores conselhos do +que eu. Alguma das minhas! Olha agora! Sabes tu que mais? Vou já d'aqui +fallar com o Thomé. + +--Não lhe diga nada d'isto. + +--Ora não querem vêr a bonita cabeça que tem este rapaz? Está o +casamento tractado, resolve agora não casar e nada de fallar n'isto ao +pae da rapariga. Sim, que o Thomé é mesmo homem com quem se brinque e +que se contente com meias razões. + +--O que eu quero dizer é que não ponha a bôca em Jorge. + +--Deixa-me cá. Sabes o que te digo? É que eu não sou mulher de planos. +Ao sahir de casa para procurar alguem não penso no que lhe hei de dizer +e no que hei de calar. Quando as palavras me veem á bôca, deixo-as sahir +e não quero saber de contos. Mas vamos ao almoço, que são horas. Ora o +Jorge! o Jorge! para o que lhe havia de dar! E o diacho da rapariga se +apanha aquillo! Olha, eu não duvido, porque já ha muito tenho para mim +que o Thomé nasceu n'um folle. Ora o diacho! Boa pequena é ella, +coitadita, ainda que não andou muito bem comtigo, não, mas... + +A mãe e o filho almoçaram, conversando sempre sobre o assumpto, e +Clemente tentando combater a resolução que percebia na mãe de cumprir o +que annunciára. + +Anna do Védor, depois do almoço, deu as suas ordens e sahiu. + +Ella fallára verdade, ao sahir não formára plano de conducta, mas +instinctivamente dirigiu-se para a Herdade. + +O caso de Jorge não lhe sahia da ideia. + + + + +XXXIII + + +A meio caminho da Herdade, a Anna do Védor, ao abrir uma cancella, para +tomar por o atalho de um campo, deu de rosto inesperadamente com a +pessoa que tanto lhe estava occupando o pensamento. + +Jorge vinha em direcção opposta e preparava-se tambem para transpôr o +portello. + +Em um relance de olhos, a boa mulher verificou, na mudança de aspecto em +Jorge, a exactidão das informações que lhe dera o filho, e com isso +cresceram ainda mais as suas apprehensões, obrigando-a a exclamar +consternada: + +--Ó Virgem Mãe dos homens! que maus olhados te deitaram, meu filho, que +parece mesmo que sahiste agora do cemiterio? Bem m'o tinham dito, mas +tanto não esperava eu vêr! + +--Então que lhe tinham dito, ama? Que me haviam desenterrado? + +--O que me tinham dito? Queres sabêl-o? Pois olha que não ponho nenhuma +duvida em t'o dizer. Tinham-me dito que tu não eras o rapaz de juizo que +eu suppunha, que a final eras tão bom como os outros, e que por doidices +de rapaz andavas mais morto que vivo, amarello e chupado, como quem tem +já um pé na cova. + +--E parece-lhe então que a informaram bem? + +--De menos que não de mais. Que cara é essa com que tu me appareces? Tu +queres ir atraz de tua irmã? Olha se queres. A coisa é facil se +continuares n'esse andar. + +--E então que lhe hei de eu fazer, ama? Uma pessoa não tem na sua mão o +engordar e emmagrecer. + +--É teres juizo, é não pensares em tolices, ou então, quando já não ha +remedio, é andares para diante com a cara e não soffreres até +rebentares. + +--Agora é que não a entendo, ama. + +--Entendes, entendes; mas, se queres que eu falle mais claro, sempre te +perguntarei se era coisa que se fizesse dar por noiva ao meu Clemente, +que se criou aos mesmos peitos que tu, a menina que o senhor fidalguinho +da Casa Mourisca engeitou? + +A impetuosidade do movimento com que Jorge respondeu a estas palavras da +ama, a subita e intensa vermelhidão que lhe cobriu o rosto pallido, e o +olhar indignado que fitou na boa velha, assustaram profundamente esta, +que quasi se arrependeu do que dissera. + +--Ama--disse-lhe Jorge commovido e com voz severa--quero acreditar que +não pensou nas palavras que disse, nem sabe bem o que ellas significam. +Vejo porém que conhece a meu respeito um segredo que eu desejaria que +fosse ignorado. Não quero saber como lhe chegou ao conhecimento. Não +negarei a verdade. Deixe-me porém dizer-lhe que mal sabe Clemente, mal +imagina sequer a grandeza do sacrificio que eu fiz, facilitando-lhe o +casamento em que elle me fallou. + +Anna recuperou a sua presença de espirito. + +--E quem foi que lhe pediu que fizesse esse sacrificio? O meu Clemente +sabia lá o que vossemecê tinha no coração? Julgas tu que elle era homem +que aceitasse de ti favores d'esses? Olha o outro, que assim que soube +tudo, immediatamente deu o dito por não dito. + +--O quê? Soube tudo... o quê? O que sabe Clemente? + +--Sabe que o snr. Jorge da Casa Mourisca gosta da menina do Thomé da +Herdade, e que a menina do Thomé da Herdade gosta do snr. Jorge, e o +senhor meu filho, que é um rapaz de brio, não está resolvido a ser o +trambolho que separe esses dois corações que morrem um pelo outro. + +--Não sabe Clemente que essa affeição, que por infelicidade é +verdadeira, está condemnada á morte e que não será a recusa d'elle que a +salvará? Não estava seu filho resolvido a aceitar a amizade leal, que +lhe offerecia Bertha, sentimento que mais tarde as affeições communs de +familia por certo transformariam em verdadeiro amor conjugal? não me +disse elle a mim que estava decidido a aceitar, se se convencesse de que +a illusão de Bertha não podia ser nunca realidade? Pois essa certeza +póde têl-a agora, se sabe tudo. E então porque hesita? Se não tem +confiança em Bertha... + +--Hesita e deve hesitar, sim senhor. Pois que vem cá a ser esses +impossiveis? Olha agora a coisa do outro mundo que o snr. Jorge case com +a Bertha da Povoa! + +Jorge encolheu os hombros, sorrindo melancolicamente. + +A Anna do Védor, interpretando mal aquelle sorriso, insistiu com mais +acrimonia: + +--É como eu digo. Ai, os escrupulos então são só para quando muito bem +lhes parece? Os impossiveis vem só ao atar das feridas? Não que elle não +ha mais. Tem um pobre homem uma filha, para quem deseja encontrar um +marido trabalhador e honesto, que lhe sirva de arrimo; e vae senão +quando apparece um fidalguinho que principia a olhar para a rapariga e a +fazer-lhe gaifonas e a metter-lhe teias de aranha na cabeça, e ella, +coitadinha, deixa-se ir e prende as azas na rede; e é então que o menino +bonito se lembra dos impossiveis e a deixa, e por muito favor cede-a a +um rapaz honrado que a estima com lizura e com as melhores intenções de +fazer d'ella sua mulher, mas a quem ella já não póde dar o coração, +porque o outro lh'o roubou. E diga-me uma coisa, ficava bem a este rapaz +aceitar para mulher a rapariga que lhe diz que deu a outro o coração? +Para que quer um homem em casa uma mulher sem coração, não me dirá +vossemecê? + +Jorge ouvia cada vez mais triste e pensativo as recriminações da ama. +Dir-se-ia que algumas d'aquellas palavras lhe feriam o coração de +remorsos, como se n'ellas sentisse o que quer que fosse verdadeiro; ao +mesmo tempo protestava-lhe tambem contra a accusação a consciencia que +não o havia accusado tão severamente. + +Olhando com gesto melancolico para a mãe de Clemente, que levada pelo +impulso da sua eloquencia, ia augmentando de severidade, Jorge disse-lhe +com placidez: + +--Tem razão em parte no que diz, ama, porém creia que trabalhei devéras +para vencer isto em mim. Nem eu sei como me adivinharam; como ella o +adivinhou. Ah! sim... lembro-me já... Disse-lh'o eu; mas não foi, como +julga, no intento de illudil-a; disse-lh'o em um momento de desespero, +quando ella com lagrimas me perguntava porque eu lhe queria mal. Eu +querer-lhe mal! Disse-lhe então tudo. Ella soube de mim pela primeira +vez este segredo e eu d'ella um segredo igual. Pedi-lhe então que me +indicasse o que devia fazer. Da sua propria vontade nasceu a minha +resolução, a nossa... Bem vê, ama, que não sou tão criminoso como +suppôz. Acredita que eu fosse capaz da vileza que disse? O que fiz por +Clemente não podia deshonral-o. Bertha sabel-o-ia fazer feliz, porque +comprehende bem os seus deveres. Eu conheço a tempera d'aquella alma. +Mas emfim, se me illudi, se nos meus actos ia offensa para Clemente, +elle que me perdoe, que não houve n'isso intenção. + +Anna do Védor sentiu que lhe vibrava a corda da sensibilidade no +coração, ao escutar aquellas palavras sérias e tristes que lhe dizia +Jorge. + +--Vae-te d'ahi!--exclamou ella, disfarçando a sua commoção.--Quem falla +aqui de offensas? Então acreditas que tudo isto que eu disse foi a +sério? Era o que me faltava! Sim, que eu não te conheço, sim, que eu não +te trouxe n'estes braços e te fiz saltar no meu collo e te vi brincar +com os mais rapazes e sempre com mais juizo do que elles todos? Pateta +de rapaz que me não entendeu! O que me faz enraivar é o vêr-te assim +consumido por uma coisa d'estas. Logo te deu o diacho tambem para +gostares da filha do Thomé, quando não faltavam raparigas que boa conta +te fizessem. Que ella é boa pequena e poucas d'essa fidalgaria que por +ahi ha merecem servir-lhe de criada, mas emfim... é filha do Thomé e teu +pae era capaz de estoirar se... Mas adeus, minha vida, o tempo d'elle já +passou e tu é que não has de definhar-te e entisicar só para fazer-lhe a +vontade. Vê lá, se achas que isso em ti é do coração... + +--Não, ama, não. A resolução está tomada. Hei de acabar com isto em mim, +succeda o que succeder. Jurei. + +A ama tornou com maior vehemencia: + +--E a mim é que se me importa com os teus juramentos! Ora veja eu o caso +mal parado, e veremos o que por ahi vae. Vou-me ter com o fidalgo... Na, +na, na, na, escusas lá de bulir com a cabeça, que isso para mim não vale +nada. Eu bem sei o que me pediu tua mãe á hora da morte. Deus a chame +lá. Coitadinha! levou-vos atravessados no coração para a sepultura. +Sabia o genio do pae e via-vos tão criancinhas!... «Ó ama--disse-me +ella, e parece-me que ainda a estou a ouvir--o que me não deixa morrer +em socego são estes tres meninos.» Vossês brincavam na outra sala: +«Olhe-me por elles, ama, lembre-se de que ficam sem mãe.» Ai! E eu que +tanto gostava d'aquella senhora, havia agora de te vêr assim consumido e +ficar-me de braços cruzados? Pois sim, espera que logo. + +--Ama, peço-lhe que não dê passo algum junto de meu pae sem me +consultar. + +--Ai, estava bem aviada se esperava pelo teu conselho. Olha agora! + +--Veja que póde causar-me um grande mal, ama! + +--Olha, eu só te digo uma coisa. Queres que eu me deixe ficar socegada? +tracta de me apparecer com outra cara. Senão, não te queixes. + +Jorge, que conhecia por experiencia os repentes da ama, ainda insistiu +por muito tempo. Ella porém, respondendo-lhe com evasivas, conseguiu +separar-se sem haver promettido coisa alguma. + +A Anna do Védor seguiu por muito tempo com olhos tristes Jorge que se +afastava lentamente. Depois que o perdeu de vista na volta de um +caminho, suspirou e foi murmurando: + +--Nada, isto assim não vae bem. O rapaz está que faz pena vêl-o. Ainda +se fosse com o irmão, era coisa que passava, mas com este!... Lembra-me +que, já em pequenino, se a mãe ou o pae lhe ralhavam, ficava aquella +criança entalada e sem chorar, mas era sabido que o tinham doente por +uma semana. Foi sempre assim. Brioso como uma pessoa de juizo. Agora é +capaz de estalar de paixão e deixar-se morrer por ahi sem se queixar. +Pois, ao poder que eu possa, tal não ha de succeder. Isso lhe prometto +eu. + +N'este soliloquio foi vencendo a boa mulher a distancia que a separava +da Herdade, onde chegou na occasião em que Thomé e a sua companheira +examinavam e discutiam juntos na sala de jantar as vantagens da +acquisição de um campo, que o lavrador trazia em vista. + +A Anna do Védor foi recebida como quasi parenta que era da familia. + +--Viva a ti'Anna!--exclamou folgadamente Thomé--a mais guapa das +raparigas do meu tempo, sem querer fazer desfeita á Luiza. + +--Lá se viu qual das duas elle escolheu--acudiu com igual humor a mãe de +Clemente. + +--Então que quer? Tudo n'este mundo é sorte. Além de que a ti'Anna já +estava tentada com aquella alma lavada do João Védor, e não se lhe dava +volta. + +--Foi o que te valeu, Luiza, senão bem perdias esta boa joia. + +Luiza sorriu bonacheironamente como sempre fazia quando o marido +gracejava. + +--Mas que sancta a trouxe a esta sua casa?--perguntou Thomé--Olá, vamos +cá a saber, quer tomar alguma coisa? + +--Qual historia! De almoçar venho eu, e isso mesmo sabe Deus o que me +custou. + +--Então andas doente, Anna?--informou-se Luiza com bondosa solicitude. + +--Eu doente? Ora essa! Eu sou lá creatura que adoeça?! + +--E como vae o Clemente? o nosso Clemente?--perguntou Thomé--porque eu e +Luiza tambem já o podemos chamar nosso. + +--Devagar, devagar, o melhor é não se costumarem a isso, para não lhes +custar depois a perder o costume. + +--A perder o costume? E porque o havemos nós de perder? + +--Porque já lá vae o afilhado de quem eramos padrinhos. + +--Não a entendo, ti'Anna. + +--Ora a coisa é simples. E vossês o que devem é erguer os olhos mais +para o alto. + +--Ó ti'Anna, se quer que a entenda, falle-me claro, e cá á nossa moda; +pão pão, queijo queijo. + +--Prompto. Para ahi vou eu. Pois ahi tem: o casamento da sua rapariga +com o meu rapaz foi caso fallado e acabou-se. + +--Acabou-se? Como acabou-se? Porquê? + +--Porque Bertha não tem para ahi o sentido. + +--Ora essa! Então ella não disse... + +--Disse, sim senhor, disse que casava, e tambem o disse a meu filho, mas +acrescentou que não lhe levaria o coração comsigo. + +--Bertha disse isso? Quando? A quem? A Clemente? Não póde ser!... Mas +não leva o coração... Porquê? + +--Porque já não o tem. + +--Como já não o tem? + +--Porque já fez presente d'elle. + +--Que está a dizer, ti'Anna? Já fez presente do coração! Bertha? A quem? + +--Ora diga a verdade, Thomé, não suspeita mesmo, mesmo de ninguem? + +--Na minha salvação, que não. + +--Pois olhe que é verdade. + +--Mas a quem? + +--A uma pessoa que vinha por aqui. + +--A uma pessoa que vinha... + +--Ai, Thomé, que bem o suspeitava eu--exclamou Luiza, juntando as mãos. + +--Cala-te, mulher; ahi voltas tu com as tuas tolices; mas diga, +ti'Anna... + +--Que suspeitavas tu, Luiza?--perguntou Anna do Védor. + +--Que elles tinham alguma inclinação um para o outro. + +--Elles quem? + +--Ninguem, ninguem. Esta minha mulher de vez em quando tem visões. + +--Elles quem?--insistia a Anna do Védor. + +--A nossa rapariga e... + +--Cala-te, Luiza, tu não tens vergonha?--atalhou o marido. + +--E quem mais? acaba--repetiu Anna. + +--E o fidalgo--completou timidamente Luiza. + +--Jorge? Pois adivinhaste. + +--Ah!--exclamou Luiza, com natural satisfação. + +--O quê?--bradou Thomé, erguendo-se com impeto e córando--adivinhaste? +adivinhou? Quem?... Luiza? Então... Bertha... a ti'Anna diz que +Bertha... Não disse que Bertha...? + +--Ó Thomé, escusa de fazer tanto espanto. Eu disse que Bertha gosta do +fidalgo e que elle gosta da rapariga. + +--Tão doida está a ti'Anna, como está a minha mulher. + +--O seu juizo, Thomé, é que não me parece muito seguro. Olhem o grande +milagre que a sua filha goste do rapaz, que não tem por ahi outro que se +lhe ponha ao pé, e que o rapaz, emfim, que o rapaz tambem tenha a sua +inclinação por a pequena, que não é para engeitar. Olhem a grande +admiração! + +--Eu bem prégava a este homem, mas coisa que lhe diga, é o mesmo que +nada--observou Luiza. + +--Mas quem lhe metteu essas patranhas na cabeça?--perguntou o lavrador +com um riso contrafeito, já interiormente inquieto, e tentando resistir +á convicção que se lhe estava formando no espirito. + +--Ora quem havia de ser? Uma pessoa que me parece que tem obrigação de +estar bem informada. Foi o mesmo Jorge. + +--Jorge?! Jorge disse-lhe... + +--Agora mesmo o deixei na Corredoura, onde lhe estive fallando bem bem +um quarto de hora talvez. + +--Ti'Anna, eu não quero offendêl-a, mas ha coisas tão incriveis! Ora +diga-me, não sabe quem me fallou na pretenção do seu filho? + +--Sei, sei muito bem que foi Jorge, e vae d'ahi? E sei que Bertha tambem +disse que sim. Então que mais quer? Mas sei tambem que o rapaz, quando +Clemente lhe fallou n'isso, ia rompendo com elle; sei que depois do +casamento ajustado, emmagreceu e anda como desenterrado; sei que a sua +pequena disse aquillo, que eu já contei, ao meu Clemente, e que o rapaz +teve as suas suspeitas, e que eu fallei claro ao Jorge, que não teve +cara para negar. Ora aqui tem. + +Thomé da Povoa ficou assombrado com a revelação. Nunca o lavrador dera +importancia ás suspeitas da mulher, cujos instinctos tinham visto melhor +do que a razão clara do marido. + +--Pois se isso é verdade--disse Thomé, medindo a sala a passos largos--é +uma grande desgraça! + +--Oh! Ahi vem o outro!--respondeu-lhe a Anna do Védor com o seu animo +intemerato--Credo! Parece-me um sino a tocar a defuncto. Então que +grande desgraça vem a ser essa? + +--Nem vossê pensa o que d'ahi póde resultar, ti'Anna. Mas sempre se +lembre de que n'essa historia entro eu, o fidalgo velho, o rapaz e a +minha pequena. Se nos conhece bem a todos, supponha o que d'ahi póde +sahir de bom. + +--Quer vossê dizer na sua: «Nós os velhos somos dois caturras e os novos +são capazes de morrer de paixão.» Mas se os novos tiverem juizo, não se +lhes importa com as caturrices dos velhos, e estes o mais que podem +fazer é irem um anno mais cedo para a sepultura, o que é bem feito para +não serem teimosos. Olha agora! + +--Eu bem o suspeitava--repetia de quando em quando a boa Luiza. + +--Nem eu quero pensar n'isso para não me arrepender pelo pouco que tenho +feito por aquella familia--tornava Thomé.--Se o fidalgo soubesse que o +filho mais velho se agradára da minha pequena, o que havia de pensar? O +que eu no seu logar pensaria. Que isto em mim fôra tudo um calculo, que +procurei trazer o rapaz a minha casa, depois de mandar buscar a filha á +cidade, que lh'a metti á cara, que levei a rapariga para o pé do velho +com o fim de o dispôr para a approvação dos meus planos... Ó que +vergonha! que vergonha! Então é que elle teria razão de me olhar com +desconfiança, e quem lh'a não daria? Mas que cegueira a minha! Cegueira! +Mas se elles mal se fallavam, se Jorge parecia tão occupado nos seus +negocios, que a nada mais dava attenção! + +--Ai, eu cá bem o suspeitava--repetiu Luiza. + +--Isso não póde ser! Cada vez mais me convenço de que isso é impossivel. + +--Pois digo-lhe eu que é verdade, como dois e dois serem quatro. Ora +agora elles dizem que decidiram acabar a todo o custo com aquillo por +causa do velho, e d'ahi veio a historia toda do casamento; mas no andar +em que vão as coisas, parece-me que elles acabam mas é comsigo. + +--É uma desgraça! mas que remedio? Ainda que eu cuidasse de vêr +morrer-me a filha, havia de oppôr-me a esses amores. E mais depressa a +recolheria em um convento... + +--O que ahi vae! o que ahi vae! Ó homem de Deus, ia-lhe talvez muito mal +se a filha lhe casasse com o rapaz. + +--Era uma desgraça, repito. E eu nunca mais poderia olhar de frente para +o fidalgo, como o fiz até agora, graças a Deus! porque então teria elle +razão de me suspeitar de intriguista. + +--Se a sua consciencia o não accusa, não lhe dê canceira o que os outros +pensam. + +--Eu bem t'o dizia, Thomé, não que tu não querias crêr!--insistia Luiza, +entre pezarosa e satisfeita. + +--Já me tarda vêr a rapariga para fóra dos Bacellos. Mal sabia eu quando +a levei para lá, que um dia podiam vir a julgar que eu o fizesse por +calculo! + +--Deixe estar a rapariga onde está; Deus que conduziu as coisas assim, +lá sabe para que o fez. + +--A ti'Anna não sabe o que o fidalgo velho tem sido para commigo? Não +sabe que elle mal me póde perdoar o eu ter levantado a casa defronte do +seu palacio? e melhorado de anno para anno a minha, ao passo que a +d'elle ia cahindo por terra? Não viu o que elle fez só porque soube que +o filho tinha vindo ter commigo para o ajudar a livrar-se da usura e das +dividas, que lhe deitavam a perder a casa? E agora então julga que eu +hei de soffrer que elle suspeite sequer que as minhas tenções eram ou +são as de engrandecer á custa dos seus a minha familia? A ti'Anna +soffria isto? + +--Mas não se está a vêr como o velho gosta da sua pequena, que nem de ao +pé de si a deixa sahir? Quem sabe? Ás vezes... + +Luiza suspirou, entrevendo a risonha perspectiva que a Anna do Védor +assim em confusas tintas lhe pintára. + +--Não sou eu que me illudo com essas coisas, ti'Anna--proseguiu +Thomé.--O meu plano está feito. Hoje mesmo Bertha ha de dormir na +Herdade. Se o seu Clemente a não quizer, paciencia. Nem eu quero +obrigal-o, nem á rapariga, a casar contra vontade. Apesar de tudo confio +no juizo de Bertha, que ha de vêr as coisas como ellas são, e por isso +não me dá cuidado. Que se assim não fosse, eu lhe affirmo que a levaria +outra vez para Lisboa. O Jorge é tambem um rapaz honrado. Tudo se ha de +remediar ainda, querendo Deus. + +--Olhem que homem este! Escusa de tomar essas cautelas todas se o que +quer é separal-os. O perigo não está aonde pensa. Elles mesmos +resolveram esquecerem-se um do outro e não precisam que vossê os separe. +Olha agora! O perigo está em que Jorge já anda doente, e que +provavelmente a rapariga não ha de ficar com muita saude se elle lhe +morre. Veja lá se isso não é bem peior do que o casamento. + +--Deus nosso Senhor nos acuda!--exclamou Luiza assustada. + +--Não falle em casamento, ti'Anna, que até me envergonha essa palavra! + +--Pois então não se envergonhe e prepare o enterro de sua filha, que o +do rapaz não tardará muito. Olha agora! Este homem parece que não tem +coração de pae! Eu não sei que diacho de coração é o d'elle! Deixe que +quando lhe quizer acudir, já não ha de ser tempo. Ha de vêr a filha +morrer-lhe e então é que hão de ser os arrependimentos. + +--E que quer que eu faça, mulher?--exclamou Thomé já exasperado.--O meu +dever é este. Deus que determine depois o que fôr da sua vontade. E +julga que se eu pensasse como pensa a ti'Anna, que isso me serviria de +alguma coisa? Parece que não conhece o fidalgo! Pois tantos annos que +conviveu com aquella familia ainda lhe não fizeram conhecer o genio +d'elle? + +--Mas que me importa a mim o genio do velho? Ora essa é que está muito +boa! O velho tem um ou dois annos de vida, e lá para o não zangar, não +hão de um rapaz e uma rapariga fazer a sua infelicidade. Olha agora! + +--Pois sim, pois sim, vossemecê falla bem; mas o que lhe digo é que não +tardo nos Bacellos, e que já de lá não venho sem a rapariga. + +E sahindo da sala devéras preoccupado, Thomé ia murmurando: + +--Foi uma desgraça! uma verdadeira desgraça, meu Deus!... + +A Anna do Védor viu-o sahir e meneou a cabeça com certo ar de benevola +ameaça. + +--Sim? Elle é isso? Pois já que tu és teimoso, eu te prometto que me has +de vêr pela frente. Vae, vae aos Bacellos, que quando lá chegares já has +de encontrar novidades. Olha agora! Adeus, Luiza, adeus. + +Luiza ergueu-se, e abraçando-se na amiga, desatou a chorar. + +--Ó mulher, vossê porque chora? Olha agora! Tenha juizo, mulher. Deixe +lá que ha de viver para vêr a sua filha bem casada e feliz. E deixe-me +que preciso de ir adiante do Thomé para elle não fazer tolices. + +--Ai, eu sempre suspeitei isto, elle é que não queria acreditar. + +--Pois agora já acredita. E o mais confie em Deus e deixe-me sahir. + +E a Anna do Védor sahiu apressada, e murmurando de instante a instante: + +--Olha agora! + + + + +XXXIV + + +Desde o dia em que Bertha fallára no seu casamento ao fidalgo da Casa +Mourisca nunca mais correram as horas nos Bacellos para o velho e para a +rapariga tão alegres como até ahi. + +Nem uma palavra se trocou mais entre elles sobre o assumpto, mas facil +era de perceber que elle ainda dominava o pensamento de ambos. + +Tanto os sorrisos de Bertha como aquelles com que D. Luiz lhes +correspondia empanava-os uma nuvem de tristeza. + +O fidalgo a cada momento pensava na separação imminente, na necessidade +de dar á afilhada o consentimento promettido, e cada vez menos coragem +sentia para fazêl-o. + +Bertha recebia como que a projecção da tristeza do velho; demais a sua +propria crescia á medida que se aproximava o momento em que tinha de +realisar-se o sacrificio do seu coração, sacrificio cuja grandeza de dia +para dia mais avultava no seu espirito. + +Actuou esta influencia no estado do enfermo, que ia perdendo o alento +adquirido sob a benefica vigilancia da rapariga. + +Por isso no dia em que se passaram as scenas narradas no ultimo capitulo +e nas quaes a intrepida Anna do Védor desempenhou tão importante papel, +D. Luiz achava-se em um estado de abatimento pouco animador. + +Não sahira esse dia do quarto, como era seu costume quando ia sentar-se +com Bertha á sombra das arvores. Queixou-se de fraqueza e de frio e +ficou na poltrona ao lado da janella a espreitar por dentro das vidraças +para as avenidas da quinta. + +Bertha havia por instantes deixado o padrinho para temperar-lhe um +remedio; e o doente ficando só, cahira em uma profunda meditação, +seguindo machinalmente com a vista os movimentos de uma avesita que +saltava nos ramos d'uma arvore distante. + +De repente chamou-lhe a attenção o rumor dos passos de alguem, que se +aproximava no corredor e que parou á porta do quarto, como se hesitasse +ao entrar. + +--Quem está ahi?--perguntou o fidalgo, não vendo apparecer ninguem. + +A esta pergunta a porta entreabriu-se e a figura da Anna do Védor, +offegante pela carreira que trouxera de casa do Thomé até alli, +desenhou-se no limiar. + +--Sou eu; o fidalgo dá licença?--respondeu a Anna. + +D. Luiz teve um negro presentimento assim que viu a figura da mãe de +Clemente, o pretendido noivo de Bertha. + +Com mal disfarçado azedume disse-lhe: + +--É vossê, Anna? Entre. + +Anna entrou com o desembaraço com que entrava em toda a parte. + +--Então como vae o fidalgo? Fraquinho, hein? Emfim, snr. D. Luiz, tudo +se guarda para a velhice. + +--É assim, é--disse sêcamente o fidalgo.--Então a que vem aqui, Anna? + +Anna do Védor percebeu a debil cordialidade com que estava sendo +recebida e por isso respondeu menos affavel: + +--Primeiro que tudo, vim vêl-o, como era da minha obrigação, pois não me +esqueço de que já comi do pão de sua casa. Ha mais tempo teria vindo, se +a minha vida me deixasse; mas sou eu só em casa, como v. exc.ª sabe, a +fazer o serviço, e a idade já me vae pesando. E agora por isso vem a +pêllo dizer a outra coisa que me trouxe cá. Venho saber de v. exc.ª +quando é que póde dispensar a Bertha para se fazer o casamento que está +justo entre ella e o meu filho. + +O rosto de D. Luiz passou por differentes cambiantes de côr, e mais do +que uma paixão lhe desenhou successivamente no semblante em traços +fugitivos o aspecto physionomico. + +--Então vem para a buscar?--perguntou elle com voz alterada. + +--Não, senhor, não venho para a buscar, venho para saber de v. exc.ª +quando ella póde ir. + +--Ella não é minha filha. Quando quizer, que vá. + +--Mau! O fidalgo não quer entender-me. + +--Eu o que não quero é occupar-me d'esse casamento--replicou D. Luiz +mais agastado.--Quando quizerem fazer esse disparate, façam-n'o. Levem +d'ahi a rapariga, sacrifiquem-n'a á sua vontade, mas não me peçam o +consentimento, porque eu estou com os pés na cova e não quero levar para +a sepultura mais remorsos. + +A mãe de Clemente não estranhou esta resposta azeda do fidalgo, que de +proposito provocára. + +Picada porém no seu orgulho materno por algumas phrases que ouvira, +acudiu logo: + +--Que está o fidalgo a dizer? Disparate... remorsos... Que disparate +acha o fidalgo no casamento de Bertha com o meu Clemente? Remorsos! Ora +essa está boa! Nem que se tractasse de enforcar alguem! Ora esta! Olha +agora! + +--Anna, eu não quero offender o seu filho, que sei que é bom rapaz, mas +o que elle não é, é homem para Bertha. + +--E onde é que v. exc.ª vae buscar marido para Bertha? O meu Clemente +não serve? Pois bem, como a rapariga não está para freira, diga-me v. +exc.ª que faz tenção de a casar na sua familia, e eu calo já a bôca e +sou a primeira a dizer: «Tem razão o fidalgo, a pequena encontrou marido +muito melhor do que o meu filho.» Ah! eu já estou vendo a cara que v. +exc.ª faz. Pois então, snr. D. Luiz, se v. exc.ª ainda se tem lá nas +suas tamancas, como d'antes, deixe casar a rapariga com um homem honrado +e não lhe ande a metter loucuras na cabeça, que isso até é uma +consciencia! Olha agora! + +D. Luiz sentiu que lhe fugia o terreno n'este campo e tentou uma +evasiva. + +--Não teria que dizer a esse casamento, se Bertha sentisse inclinação +para o seu filho, mas... + +--Mas o quê? Pois não foi ella que por sua livre vontade disse que sim? +Quem a obrigou? Ora essa! + +--Por comprazer, por condescendencia, mas não porque lh'o pedisse o +coração! + +--Ora, e v. exc.ª a importar-se com o que pede o coração de uma +rapariga, ora, ora... + +--E porque não? Desgraçada d'ella se der um passo tal sem que lh'o +approve o coração. + +--Então acha o fidalgo que n'isto de casamentos o coração tambem tem +voto? + +--Por certo. + +--O coração de uma rapariga e de um rapaz. Olhem que conselheiros! + +--Um coração como o de Bertha, é um bom conselheiro; não se engana, nem +engana. + +--Até que te pilhei!--exclamou a Anna do Védor, batendo as mãos, e +esquecendo-se, no impeto da exclamação, de manter o mesmo tom e +tractamento, que até alli estivera usando com o fidalgo.--Muito bem, +pois saiba o fidalgo, que para mim já não é novidade o não ter Bertha +inclinação para o meu filho, nem de tal casamento se falla já, porque o +meu Clemente, por emquanto, não aceita mulheres que não entrem para casa +d'elle com o coração. Isso já estava decidido. Mas eu o que quiz foi +ouvir o que ouvi ao fidalgo, porque quero vêr agora como se ha de sahir +das talas em que se metteu. Porque, sabe porque a Berthasinha não gosta +do meu Clemente? É porque já gostava de outro... E sabe v. exc.ª quem é +esse outro? Olhe que foi o coração de Bertha que o escolheu, o tal +coração que não se engana; esse outro é o filho de v. exc.ª, o snr. +Jorge. Ora ahi tem; agora então veja se está por o que disse. + +D. Luiz ficou por muito tempo a olhar para a Anna do Védor com a vista +espantada e sem articular palavra. + +--Jorge!--murmurou elle a final e quasi inaudivelmente. + +--Sim senhor, Jorge. E que me diz v. exc.ª a isto? + +--Jorge, Bertha...--repetia o velho, assombrado com a +revelação.--Mulher, quem lhe disse isso? + +--Seu filho, entre outros. + +--Jorge! Terei por acaso eu sido a victima de uma intriga +infame?--exclamou o fidalgo tremulo de raiva.--Isto é de enlouquecer. + +--Qual intriga nem meia intriga? Isto tudo foi a coisa mais innocente e +natural do mundo inteiro. O rapaz gostou da pequena, a pequena gostou do +rapaz, o costume desde o tempo de Adão e Eva, e ninguem soube d'isso +senão agora. + +--Jorge! Ó meu Deus; porque havias de me dar filhos só para me +affligirem e envergonharem! + +--Ora ahi está! Até agora nem o meu Clemente lhe servia para a Bertha, +em taes alturas a punha. Agora então já o filho o deshonra só por gostar +da rapariga. Entendam-n'o lá. Que tal é o amor que o padrinho tem á +afilhada?! Eu cá de mim não entendo estas amizades de tarraxa. + +D. Luiz não dava attenção ás reflexões da Anna. Luctavam-lhe no coração +paixões encontradas e violentas: sob a influencia de umas sentia-se +cahir em profundo desalento, outras incitavam-n'o, pelo contrario, a uma +reacção desesperada. + +Thomé não se enganára nas suas previsões. As suspeitas e preconceitos +mal abafados no coração do fidalgo contra o lavrador alvoroçaram-se com +a revelação que acabava de ouvir. + +A intimidade de Jorge com Thomé, os serviços prestados por este á casa, +a vinda de Bertha para os Bacellos por espontanea deliberação do pae, +tudo explicava o seu espirito preoccupado por uma trama infernal +combinada por o fazendeiro. + +--Era a isto que elle queria chegar!--bradava irritado o +fidalgo.--Descobriu-se finalmente o hypocrita! A audacia d'esta gente +não tem limites! Gabem-me os brios e a nobreza de alma d'estes +miseraveis! Rodou em volta de minha casa o lobo, espiou a prêsa, +attrahiu-a a si e feriu-a! Que ambição! Ahi está no que deu o +desinteresse dos seus actos, a lealdade das suas intenções! Até da filha +se servia, o infame, como instrumento dos seus planos e machinações! Ha +nada mais vil? Trouxe-m'a para casa, como a vibora que me havia de +inocular o veneno. E eu, fraco e tonto pela velhice e pela doença, +deixei-me illudir! Oh! mas elles mal sabem com quem se mettem e no que +se mettem! Deviam lembrar-se de que, nos homens como eu, ainda quando a +vida se lhes está a apagar, a vontade póde reunir em um instante toda a +energia de que precisa para esmagal-os, antes de morrer! + +E D. Luiz, no auge da indignação, ergueu-se da cadeira em que estava +sentado, e com o rosto afogueado pela ira, os punhos cerrados e os +braços estendidos, bradou: + +--E eu esmago-os! esmago-os a todos, se se atreverem a vir insultar-me +n'estes ultimos dias de minha vida! + +Anna tentou acalmar a furia do fidalgo, mas elle nem já a ouvia. + +Fraqueando-lhe já a voz, tremulo, anciado, banhado em suor frio, +continuava em tom cavernoso: + +--Eu lhes juro que não me hão de vencer na lucta que provocaram. Quando +me tiverem já usurpado a casa, seduzido os filhos e insultado o nome de +minha familia, hão de ainda vergar sob o pêso das minhas maldições, +porque eu acredito que ha um Deus no céo e que as pragas de um velho +ludibriado teem ainda poder para attrahir as desgraças sobre a cabeça +dos miseraveis que me insultam. + +--Fidalgo, fidalgo, volte a si!--bradava Anna do Védor devéras +consternada. + +O velho, arredando-a com um movimento impetuoso, exclamou com energia +crescente: + +--Deixem-me! Deixem-me! Quero viver só, de hoje em diante! Só! Não quero +vêr ninguem, nem filhos, nem familia! Ninguem! Cada pessoa que se +aproxima de mim vem com o intento de me atormentar; cada affecto a que +abro o coração transforma-se cá dentro em um veneno corrosivo! Oh! É de +mais! Deixem-me! deixem-me morrer para aqui só, ninguem me appareça, +ninguem me falle, deixem-me! + +N'este momento a porta abriu-se e Bertha appareceu attrahida pela +altercação que lhe parecêra ouvir no quarto do padrinho e perguntou +assustada: + +--Que é o que tem, snr. D. Luiz, o que lhe succedeu? + +O fidalgo, exasperado, voltou-se com vivacidade ao ouvir-lhe a voz, e +injectando-se-lhe ainda mais o rosto, bradou: + +--És tu? Que queres? Vens continuar a obra que te incumbiram?! Sahe +d'ahi! Sahe! Não me appareças! Não me falles! Não me faças descrêr de +Deus! Não quero vêr ninguem, já disse! Deixem-me! + +Bertha parou, surprendida e intimidada por aquella subita transformação +nas maneiras do padrinho para com ella, e ao sahir do quarto, +saltavam-lhe de sentida as lagrimas dos olhos. + +--Ó fidalgo!--acudiu a Anna do Védor cada vez mais assustada pelo estado +em que o via--ó fidalgo! olhe que está fóra de si! Isso que é? A pobre +rapariga vae a chorar por a maneira por que a tractou. Que culpa tem +ella? Coitada da pobre! + +--É o que lucra quem se aproxima de um homem maldito de Deus como eu +sou--respondeu o velho, deixando-se cahir na cadeira já desalentado. + +--Não diga essas coisas, que até é peccado! Que motivos tem para essas +furias? Olha agora! O que eu lhe disse não é para tanto. Além de que, +socegue, tanto a rapariga como o seu filho Jorge teem juizo, mais até do +que lhes convinha para serem felizes. Digo-lhe eu que mais depressa +elles se deixarão morrer, e até parece que estão n'essa resolução, do +que lhe darão o desgosto de que tanto se receia, não sei porquê. E olhe +que o rapaz já não está longe de fazer a tal viagem. A não lhe agradar +mais vêl-o morrer, o que o fidalgo deve fazer é... + +D. Luiz mostrava não dar a menor attenção ao que a mulher dizia. O +accesso de desespero passára. Com gesto e voz de abatimento +interrompeu-a, perguntando: + +--A pequena ia devéras a chorar? + +--Podéra não. Ao rompante com que v. ex.ª lhe fallou! E sem razão +alguma, porque, como eu disse a v. exc.ª, elles... + +O fidalgo suspirou: + +--É uma fatalidade!--disse elle a meia voz.--Pobre rapariga! De certo +que não é ella culpada n'isto. Instrumento innocente nas mãos dos +outros, nem ella sabe o que faz! Anna, eu preciso de estar só, peço-lhe +que me deixe só. + +--Pois fique-se com Deus. + +--Olhe, Anna, olhe, se vir ahi fóra a pequena, diga-lhe que venha cá; se +ahi não estiver... mande chamal-a, sim? Eu quero fallar-lhe. + +--Olhe lá o que vae dizer-lhe, fidalgo! Não afflija a pobre rapariga, +que bem lhe basta... + +--Faça-me o que lhe peço, Anna, faça, e vá descançada. + +--Sempre me deixe dizer-lhe, fidalgo, que se não quer perder o filho, +ande com cautela n'este negocio. + +A Anna do Védor, que não obteve resposta a esta ultima advertencia, +sahiu duvidando de que tivesse tirado alguma utilidade do passo que deu +junto do fidalgo, e quasi arrependida por o haver dado. + +D. Luiz ficou só por algum tempo, com a cabeça escondida entre as mãos e +os cotovêlos apoiados nos braços da poltrona. + +--Até que ponto levareis esta provação, meu Deus?!--murmurava elle quasi +soluçando. + +Passados momentos entrava no quarto e avançava timidamente com hesitação +ao encontro do velho, Bertha com os olhos ainda chorosos e o gesto +commovido. + +Ao rumor dos passos leves de Bertha, o fidalgo elevou a cabeça e fitou a +afilhada com expressão de melancolia e affecto. + +--Anda cá, Bertha; vem cá, minha filha. Então não vês como eu pago os +cuidados que tens tido commigo? Que queres tu? Isto em mim é já loucura! + +Ao tom affectuoso e triste d'estas palavras dissipou-se a hesitação de +Bertha, que correu a ajoelhar-se junto do velho, pegando-lhe nas mãos +enternecida: + +--Não diga isso, snr. D. Luiz. Eu bem sei que eram impaciencias de +doente. + +D. Luiz segurou-lhe a cabeça entre as mãos e, olhando-a fixamente, +murmurou: + +--Pobre criança! Fiz-te chorar! Nem que te não bastassem os teus +soffrimentos. Perdoa-me, minha filha. Tu não tens culpa no que os outros +fazem. Não é possivel que tenhas culpa. + +E beijava-lhe os olhos, onde de novo queriam apparecer as lagrimas. + +--Perdoar-lhe? O que lhe hei de eu perdoar? A affeição que me tem? Só se +fôr isso. + +--Ahi vem outra vez as lagrimas! Enxuga-as. Não quero fazer-te chorar +mais. Não faças caso do que eu digo, Bertha, que sou um tonto. É uma +ingratidão de minha parte, uma feia ingratidão. + +--O que me faz pena é vêl-o afflicto. Cuidei que estava peior. + +--Não; é que essa mulher que d'ahi sahiu disse-me coisas... + +E olhando outra vez fixamente para Bertha, acrescentou depois de alguma +hesitação: + +--Bertha, tu és sinceramente minha amiga? + +--Ó meu padrinho. Que pergunta! + +--Nem tu eras capaz de fingir um affecto que não sentisses. Creio bem. + +--Porém, meu Deus, o que quer dizer com isso? + +--Nada. Olha cá, Bertha... Quando tu vieste para os Bacellos... quando +vieste para ao pé de mim... foi teu pae que te disse que viesses, não +foi? + +--Meu pae leu-me a carta da snr.ª baroneza, em que lhe participava que +ia partir para Lisboa e que o snr. D. Luiz ficava sem ter quem o +tractasse... e eu então lembrei-me do mesmo que meu pae já tinha tambem +no pensamento e pedi-lhe para me deixar vir. + +--E elle disse logo que sim, já se sabe? + +--Se era essa mesma a sua ideia. + +--Ah! era essa a sua ideia? E... e Jorge não foi ouvido n'essa occasião? +Porque Jorge ia muito por vossa casa, não ia? + +Bertha principiava a sentir-se inquieta com esta inquirição. + +--O snr. Jorge--respondeu ella um pouco a medo--ia ás vezes procurar meu +pae para fallar de negocios com elle; mas n'isto não foi consultado, que +eu saiba. + +--Algumas vezes. Parece que ia todos os dias e que usava em vossa casa +de toda a familiaridade. + +--Era raro que se demorasse a conversar com outra pessoa que não fosse +meu pae. + +--Pois nem comtigo? + +--Commigo?--repetiu Bertha perturbada--Commigo menos do que com os +outros. + +D. Luiz contrahiu as sobrancelhas como se esta resposta lhe fizesse +suspeitar uma dissimulação. + +--Pois então Jorge nunca fallaria comtigo? + +--Muito de passagem, quando por acaso me encontrava e sempre com umas +maneiras taes, que cheguei a acreditar que me queria mal por algum +motivo desconhecido para mim. + +D. Luiz fez um gesto de desgosto e de novo lhe assomaram ao semblante os +vestigios da desvanecida irritação. + +--Não esperava isso de ti, Bertha. Tu não és sincera commigo. + +--Eu? + +--Tu illudes-me como os outros a final, tu conspiras com elles contra a +tranquillidade dos meus dias, contra o socego d'este coração atribulado. +Deus te perdoe o mal que me fazes, tu, mais do que ninguem, porque te +queria devéras. + +--Jesus, snr. D. Luiz, meu padrinho, que quer dizer? Em que lhe fiz eu +mal? Por amor de Deus, diga, falle-me claro. + +--Bertha, é preciso que me digas a verdade, se queres que não suspeite +de ti, como suspeito dos outros, como suspeito de todos; é preciso que +não dissimules, como elles fazem, para me illudirem. + +--Mas que quer que lhe diga, snr. D. Luiz? Prometto dizer-lhe a verdade, +nem eu lhe sei mentir. + +--Então para que me dizes que Jorge te queria mal? + +Bertha sentia-se cada vez mais sobresaltada pelas perguntas do fidalgo, +que pareciam dirigir-se ao segredo recatado, que ella conservava no +coração. + +--Eu disse--respondeu ella--que cheguei a pensar que o snr. Jorge me +queria mal, porém... + +A confusão que sentia não a deixou continuar. + +O fidalgo notou aquella perturbação e abrandou mais a voz, tomou um tom +carinhoso e disse pegando-lhe affectuosamente na mão: + +--Vamos, Bertha, socega. Acredita que tens em mim um amigo, e abre-me +francamente o coração sem receio. Dize-me, é verdade que Jorge te disse +alguma vez que te amava? É verdade que entre vós ambos ha alguma +affeição, alguma promessa? + +A pergunta, ainda que não já de todo inesperada, sobresaltou Bertha, que +não atinou com o que respondesse. + +--Socega, minha filha--proseguiu o fidalgo, animando-a.--Bem vês que eu +não quero reprehender-te. Sómente queria que me dissesses a verdade a +este respeito. + +--Meu padrinho--disse Bertha perturbada ainda--pois não se lembra do +pedido que lhe fiz ainda ha poucos dias? + +--Do pedido?... Ah! sim... Fallas do casamento?... Mas se elle já se não +faz? Se foi a propria mãe de Clemente que me contou d'esses amores entre +ti e meu filho? + +--Oh! não póde ser!--exclamou Bertha, consternada. + +--Como havia ella de saber?... Como podia ella dizer isso? + +--O mesmo Jorge lh'o revelou. + +--Jorge!... o snr. Jorge!... É impossivel! + +--Mas porque não respondes á minha pergunta? O que ha de verdade em tudo +isso? + +Bertha conservou-se ainda algum tempo silenciosa e irresoluta. Depois, +como se abraçasse um partido decisivo, tornou com maior vivacidade: + +--Tem razão, meu padrinho, devo dizer-lhe a verdade. Nem ella tem em que +me envergonhar. + +--Então é certo? + +Bertha com os olhos fitos no chão e a voz mal firme, mas exprimindo +resolução, principiou: + +--Um dia o snr. Jorge apresentou-se em casa de meu pae, a pedir-lhe, em +nome de Clemente, licença para o casamento que sabe.... + +--Como?! Foi Jorge que pediu esse consentimento? E antes d'isso não +tinha elle já dado a conhecer-te.... + +Bertha não o deixou continuar. + +--Escute, snr. D. Luiz, que eu prometto dizer-lhe toda a verdade. Meu +pae chamou-me para consultar-me a esse proposito. + +--Ah! teu pae consultou-te?! E esperava que tu recusasses, não é +verdade? + +--Eu nunca pensára em casar-me, nunca pensára até no futuro, por isso +aquella proposta sobresaltou-me. + +--E respondeste.... + +--Depois o ter sido feita pelo snr. Jorge mais me perturbava ainda. + +--Sim, porque elle havia-te jurado talvez.... + +--Não havia jurado coisa alguma; quasi nem me fallára detidamente desde +que eu voltára á aldeia. Parecia fugir de mim, parecia que a minha +presença lhe desagradava, que as minhas palavras o irritavam. Não era +possivel illudir-me a esse respeito. Affligia-me vêr a pouca sympathia +que eu merecêra, sem saber porquê, a um rapaz que todos diziam tão +generoso, tão indulgente e de tanto juizo; e isto era causa para eu +muito pensar no que poderia dar motivo áquelle proceder d'elle para +commigo. Tinha isto sempre na ideia, observava-o, estudava-o... e foi +mau isto, bem sinto que foi mau. + +--Porquê? + +--Porque quanto mais o observava--continuou Bertha, com ingenua +sinceridade--mais de perto lhe conhecia as nobres qualidades, e senti a +pouco e pouco em mim uma admiração por elle, uma sympathia, um respeito, +um.... + +--Um amor--concluiu D. Luiz, vendo a hesitação de Bertha. + +--Uma loucura--emendou esta--que eu tractei logo de abafar em mim, +porque desde o principio a vi tal como ella era. + +--És um anjo--disse D. Luiz, afagando-a. + +Bertha proseguiu: + +--Mas a proposta d'aquelle casamento, feita pelo snr. Jorge, foi para +mim mais uma prova da antipathia, que eu julgava merecer-lhe. Pareceu-me +quasi uma perseguição; despeitada com ella, disse a meu pae que aceitava +a proposta de Clemente. + +--E elle... e elles que disseram? + +--Ficando momentos depois só com o snr. Jorge e sem que podésse já reter +as lagrimas que me afogavam, perguntei-lhe quaes eram as razões que o +tinham levado a dar aquelle passo, a encarregar-se d'aquella proposta, +porque motivo eu lhe era tão odiosa, o que é que o levára a fazer-me +mal, a mim que nunca lh'o fizera nem desejára. + +--E elle? + +--Foi então--proseguiu Bertha, mas enleiada--que imprevistamente elle me +confessou que o unico motivo de todo o seu proceder, da sua apparente má +vontade, da dureza das suas palavras era... a affeição que me tinha e +que, desde que a sentira, se esforçára por occultar e vencer, como eu +tambem fizera; que estava decidido a sacrifical-a aos seus deveres de +familia, mas que não queria que o sacrificio ferisse a mais alguem senão +a elle, e para isso procurava sempre desviar de si pelo seu proceder as +minhas attenções e sympathias. Não o conseguiu; mas que importava? Eu +não tinha menos coragem do que elle, e comprehendia tão bem como elle +quaes eram os meus deveres, que em mim eram mais fortes ainda. + +--Pobre rapariga!--murmurou D. Luiz commovido. + +--Assim posso dizer que foi aquelle o primeiro e o ultimo dia d'esses... +amores de que lhe vieram fallar não sei para quê. No mesmo dia em que +nos declaramos, no mesmo dia promettemos abafar em nós mesmos essa +loucura que nascêra sem que o sentissemos. E tanto que dias depois eu +vinha pedir-lhe o consentimento para me casar com Clemente. + +--E teu pae nada soube de tudo isso?--perguntou o desconfiado fidalgo. + +--Se nós mesmos o não sabiamos!--respondeu Bertha com ingenuidade. + +Depois de um intervallo de muda reflexão, D. Luiz segurou outra vez nas +mãos a graciosa cabeça da afilhada, e poisou-lhe na fronte um beijo, +verdadeiramente paternal. + +--Era bem digna de ter nascido entre a nobreza--disse elle +suspirando--quem tão nobremente pensa e procede. Quantas raparigas +creadas em palacios deviam ouvir e aprender de ti, Bertha! Pobre +pequena! O teu sacrificio é grande e custoso, porque tu com esse coração +que tens, se amas, deves amar devéras; mas bem vês e tu mesma o +reconheces, é um sacrificio inevitavel! Nas familias como as nossas ha +certas exigencias tradicionaes.... + +--Snr. D. Luiz--disse Bertha interrompendo-o--repare que ha dias que eu +lhe pedi o seu consentimento.... + +--Bem sei, Bertha; bem vejo que o teu juizo dominou a tua phantasia de +rapariga. Por isso te admiro, filha. Mas para que levavas tambem tão +longe o sacrificio, indo casar-te com um homem que não amavas? + +--Era um homem honrado, que me pedia para companheira da sua vida. O +destino de uma mulher como eu é esse. É a nossa missão. Porque não havia +de cumpril-a? + +--Illudindo, porque não podias amar. + +--Disse-o a Clemente. Não lhe prometti o que não podia dar-lhe. + +--E elle aceitou?! + +--Pediu tempo para pensar. Agora vejo que não.... + +Calaram-se por algum tempo. Bertha, sem erguer os olhos, dobrava e +desdobrava distrahida o pequeno avental de sêda. D. Luiz observava-a com +ar pensativo. + +Foi elle quem renovou o dialogo. + +--Custa-te muito o sacrificio que fazes, não é verdade? + +--Para que hei de dizer que não? Custa-me como quando ao acordar de +sonhar um sonho agradavel, me convenço de que foi um sonho tudo. Sabe +porém o que me anima? É o pensar que mais me custaria se o sonho se +realisasse. + +--Porquê? + +--Porque teria remorsos de pagar d'essa maneira o affecto que encontrei +sempre n'esta casa; porque teria vergonha de que pensassem que, da minha +parte, esses affectos eram calculados e interesseiros. Nós tambem temos +o nosso orgulho, snr. D. Luiz--acrescentou ella, sorrindo. + +--E nobre que elle é--acudiu o fidalgo, cada vez mais fascinado. + +N'este momento a porta abriu-se, e frei Januario metteu a cabeça pela +abertura. + +--Que é?--perguntou D. Luiz, irritado. + +--É o Thomé da Povoa ... é o pae d'essa menina que a procura. + +--A mim?--disse Bertha, levantando-se. + +--Sim, menina--tornou o padre--e parece-me que procura a v. exc.ª +tambem. + +--Pois que entre--respondeu D. Luiz asperamente. + +Passados momentos Thomé da Povoa entrava para o quarto de D. Luiz, com +as maneiras respeitosas mas rasgadas que lhe eram peculiares. + + + + +XXXV + + +Como homem a quem pesava a commissão que se propunha a desempenhar alli, +Thomé da Povoa, depois de comprimentar o fidalgo e de abençoar a filha, +foi direito ao fim da sua visita. + +--Pois, snr. D. Luiz, eu venho aqui para buscar a rapariga, se v. exc.ª +der licença. + +Bertha desviou para o fidalgo um olhar inquieto e investigador. + +D. Luiz não respondeu, mas correu-lhe pelos labios um rapido sorriso, +entre amargo e ironico. + +Thomé, em vista do silencio do fidalgo, sentiu que não podia deixar de +dizer mais algumas palavras de explicação, e por isso, enleiado a forjar +um pretexto que não lhe occorria, acrescentou: + +--Ella está sendo lá precisa... porque... sim, a minha Luiza, pelos +modos... anda assim adoentada... + +--Minha mãe está doente?--perguntou Bertha com inquietação. + +--Doente, doente... o que se chama doente, não digo, mas... E depois ha +lá uns milhos a arrecadar e os pequenos... E emfim, n'esta época do +anno, a casa de um lavrador... Os jornaleiros são muitos... + +E a cada pretexto que mal apontava, Thomé erguia a vista para D. Luiz a +estudar-lhe na physionomia o effeito da desculpa. + +Mas de todas as vezes a achava cerrada na mesma expressão de reserva e +de mysterio. + +De repente, porém, D. Luiz fez um movimento, como se uma subita +resolução lhe acudisse, estendeu a mão para Bertha, que se demorára +ainda ao lado d'elle e como que a impelliu de si e na direcção de Thomé, +dizendo com affectada placidez: + +--Ahi a tem. Póde leval-a. + +Á estranheza com que Thomé o encarou, vendo-o fazer aquelle gesto, +correspondeu o fidalgo, acrescentando em tom de amargura e sarcasmo: + +--Não calculou bem o tempo. Antecipou-se. A occasião não era ainda esta; +por ora não estou enfeitiçado, bem vê. + +Thomé julgou perceber vagamente o sentido d'estas palavras e córou, +dizendo: + +--Ou eu entendo mal o fidalgo, ou quer dizer... + +--Que póde levar sua filha. A presença d'ella aqui não adianta os seus +projectos. Meus filhos não estão nos Bacellos, como vê, e eu... eu já +não tenho coração sujeito a feitiços. + +--A illusão não era possivel para Thomé. As palavras de D. Luiz +confirmavam as previsões que elle tivera antes de lh'as ouvir. + +O rosto do lavrador tomou a expressão que os fortes golpes e as paixões +violentas lhe costumavam dar. + +Ficou-se por algum tempo a olhar para o fidalgo sem soltar uma palavra, +mordendo os beiços e abanando significativamente com a cabeça. Depois +tomou a filha pela mão, e encaminhando-a para a porta do quarto, +disse-lhe: + +--Bertha, vae apromptar as tuas coisas, que eu espero por ti... e no +entretanto conversarei com o fidalgo. + +Bertha sentia que entre aquelles dois homens havia imminente uma lucta +de paixões, que não estava já na sua mão dissipar. Mais valia pois +deixal-os chegar a uma explicação decisiva, que definisse a posição de +cada um. + +Obedeceu portanto á indicação do pae, dirigindo-lhe apenas em um olhar +uma supplica que não passou desapercebida de Thomé. + +Depois que Bertha sahiu, o lavrador voltou para defronte do fidalgo, e +cruzando os braços disse-lhe com um modo decidido: + +--Agora que estamos sós, snr. D. Luiz, faça v. exc.ª o favor de me +accusar abertamente e de uma maneira clara e franca. + +D. Luiz respondeu com frieza e sobranceria: + +--Se nas minhas palavras viu coisa que lhe parecesse uma accusação é +porque de certo a consciencia lh'as interpretou assim. + +Thomé da Povoa não pôde reter um movimento de impaciencia. + +--Por quem é, fidalgo, não me principie v. exc.ª com esses discursos +enredados, com que não me entendo. Jogo franco! Ou se não, começo eu, e +será talvez melhor. + +D. Luiz encolheu os hombros, exprimindo a mais aristocratica +indifferença. + +--Não me custou a entender as suas palavras de ha pouco, fidalgo, porque +depois do que eu soube esta manhã, esta manhã apenas, repare bem, snr. +D. Luiz, depois do que soube esta manhã e conhecendo como conheço o +genio de v. exc.ª, já esperava ouvir alguma coisa parecida com o que +ouvi. Mas nem por serem esperadas me feriram menos as taes palavras. É +preciso que v. exc.ª saiba. Porque um homem que não tem a pesar-lhe na +consciencia nenhuma deslealdade, um homem que tem brios, não póde a +sangue frio ser suspeitado como eu o estou sendo por v. exc.ª + +--Bem; pois se a consciencia lhe não exprobra nada, é o essencial. Vá em +paz com ella e deixe-me em socego, homem, deixe-me, que bem preciso eu +d'elle. + +--Perdão, fidalgo. Isso é que eu não posso fazer. Deus me livre de ser +accusado pela minha consciencia, mas Deus me livre tambem de o ser pela +dos homens que respeito e estimo. E v. exc.ª, ainda que não o creia, é +um d'esses. + +--Muito obrigado. + +--Permitta-me que vá direito ao caso. Minha filha não tarda ahi, e eu +não quero fallar diante d'ella. Esta manhã foram a minha casa, +(provavelmente quem veio a esta) porque vejo que vieram tambem aqui com +a mesma nova... Foram a minha casa e disseram-me... + +--Perdão, eu não preciso de saber o que se diz nas casas alheias. + +--Pois bem--acudiu Thomé já irritado--eu lhe conto então o que se disse +na sua. Vieram aqui, a casa de v. exc.ª, e disseram-lhe: «O seu filho +Jorge está namorado da filha do Thomé e a rapariga também gosta d'elle.» +Disseram-lhe isto com certeza, e disseram-m'o a mim tambem. Ora agora, +eu lhe conto mais, eu lhe conto o que v. exc.ª pensou e o que eu logo +previ que v. exc.ª pensava. Pensou v. exc.ª: Aquelle insolente Thomé foi +quem machinou tudo isto. Atreveu-se a sonhar em apanhar o meu filho para +marido da filha d'elle, em alliar a sua familia á minha, em dar por +aposento áquella rapariga as salas do meu palacio. Para isso principiou +a amimar-me o filho, para isso prestou-lhe serviços com signaes de +desinteresse, para isso o levou por sua casa e lhe metteu á cara a +filha, e emfim, para assegurar ainda melhor os seus projectos, sabendo +da predilecção que eu mostrava pela rapariga, trouxe-m'a para casa, +porque, velho e doente como me via, conjecturou que bem podia ser +deixar-me de tal maneira prender por ella, que não oppozesse obstaculos +aos seus projectos. Ora aqui está o que v. exc.ª pensou. Negue-o, se é +capaz. + +D. Luiz não ousou negar. + +--Muito bem, fidalgo. O tempo é pouco, como disse, e por isso eu vou já +direito ao meu fim. Eu logo vi que deviam ser estes os pensamentos de v. +exc.ª, porque ainda quando as apparencias eram menos contra mim do que +d'esta vez, v. exc.ª costumava sempre fazer a meu respeito supposições +tão boas como esta. Por isso não pude soffrer a ideia de conservar nem +mais uma hora minha filha n'esta casa. Vim e vim á carreira para a levar +commigo. Procurava dar um pretexto qualquer a esta retirada, mas foi +desnecessario, porque logo vi ás primeiras palavras de v. exc.ª que já +chegára tarde para remediar o mal que previra. Muito bem, n'esse caso +resta-me pouco a fazer para descargo da minha consciencia e depois +retiro-me. + +Thomé passou a mão pela fronte, que tinha inundada de suor. Na voz como +no semblante eram evidentes os signaes da sua excessiva commoção. + +D. Luiz, que o ouvira conservando os olhos fitos no tapete do pavimento, +sentiu-se involuntariamente obrigado a levantal-os n'aquelle momento +para os fitar na physionomia do homem que tinha diante de si e que a seu +pezar o impressionava. + +--Fidalgo--proseguiu Thomé, depois d'esta breve pausa--juro-lhe que +nunca percebi estas affeições entre minha filha e o snr. Jorge, juro-lhe +que nunca pensei em que ellas podessem dar-se. Quando o soube estalou-me +o coração de dôr e córaram-me as faces de vergonha. Cheguei a +arrepender-me, pela primeira vez, de alguns serviços que em boa fé +prestei ao snr. Jorge, pequenos mas feitos da melhor vontade. Mas uma +vez que o caso se deu, sem culpa minha, só tenho a dizer-lhe isto, +fidalgo; ouça-me bem. Quero do coração a seu filho, de pequeno o estimo, +e respeito-o agora como um homem de bem que é; quero devéras, se quero! +a minha filha, é a primeira que eu tive, é a única rapariga, é a que +trago mais chegada ao coração, fraquezas de pae, como sabe; pois bem, +quero-lhes a ambos e muito, mas ainda que a affeição que elles tivessem +um pelo outro fosse tal que eu os visse morrer, e que a salvação d'elles +só dependesse do meu consentimento para se casarem, deixal-os-ia morrer, +deixava; morreria com elles, mas não daria esse consentimento. +Juro-lh'o, fidalgo, juro-lh'o! que para tanto tenho coragem; porque o +meu orgulho não é menos forte do que o de v. exc.ª! Para eu consentir +que um filho meu entrasse na sua familia, fidalgo, era necessario... Eu +sei lá o que era necessario?... Era necessario que v. exc.ª primeiro me +pedisse por favor para assim o consentir. Agora veja lá se isso é +possivel. + +Ao terminar, Thomé tinha a respiração cortada, offegante, como de quem +realisou um esforço enorme. Cahiam-lhe bagadas de suor pela fronte +afogueada e as mãos contrahiam-se-lhe em crispações nervosas. + +D. Luiz ia a responder-lhe quando Bertha entrou no quarto preparada para +a partida. + +A sua chegada cortou n'este ponto a scena. + +Bertha relanceou um olhar para os dois velhos e adivinhou que a scena +que ella previra tivera logar. + +--Quer que vamos?--perguntou ella ao pae timidamente. + +--Vamos--respondeu este com um modo sacudido, dirigindo-se para a porta. + +Bertha aproxiraou-se do fidalgo, olhando-o com timidez. + +--Quer dar-me a sua benção de despedida, meu padrinho?--perguntou Bertha +a meia voz, como receiosa de uma recusa. + +D. Luiz, sem voltar o rosto, estendeu-lhe silenciosamente a mão. + +Bertha apoderou-se d'ella e beijou-a, banhando-a de lagrimas de saudade. + +D. Luiz estremeceu ao sentir aquelles beijos e aquellas lagrimas, mas +fez por se reprimir na presença de Thomé. + +Emfim, Bertha separou-se d'elle, e encaminhou-se para a porta, onde o +pae a esperava. + +Poucos passos andados ouviu que a chamava uma voz suffocada. + +Voltou-se. D. Luiz seguia-a com a vista nublada de pranto e estendia-lhe +os braços para um ultimo adeus. + +Ella correu para o velho e abraçaram-se soluçando. + +Thomé sensibilizado escondeu-se discretamente nas dobras do reposteiro. + +Por algum tempo durou ainda aquella tocante scena de despedida, que +despedaçou o coração do velho fidalgo. + +A final afastando brandamente de si a rapariga e beijando-lhe a fronte, +enternecido, murmurou: + +--Vae, minha filha; é melhor que vás. O teu sacrificio é grande, mas crê +que não é maior do que o meu. Dize a teu pae.... + +Mas percebendo Thomé meio escondido na porta, dirigiu-se a elle: + +--Thomé, ha pouco fui injusto comsigo. Desculpe-me; a velhice e a doença +fizeram-me assim. Creio na sua boa fé e espero que todos nós saberemos +proceder como o dever nos manda. Adeus, entrego-lhe a sua filha. Tem +razão em a querer junto de si. + +E pela segunda vez na sua vida o fidalgo da Casa Mourisca estendeu a mão +ao seu antigo criado. + +Thomé aceitou-lh'a com a effusão com que sempre acolhia a mão que +lealmente se estendia para a sua. + +--Fidalgo, se v. exc.ª... Mas não; é melhor que Bertha venha commigo. É +melhor para socego de todos. Custa ao principio, mas... + +--Sim; é melhor, é; Bertha que vá--assentiu D. Luiz. + +E depois de uma ultima despedida tão terna como a primeira, o pobre +doente viu desapparecer para não voltar, a doce figura da sua carinhosa +enfermeira. + +Assim que deixou de ouvir-lhe os passos no corredor, o desalentado velho +escondeu a cabeça entre as mãos já trémulas, e com a voz cortada pelos +soluços exclamou com desespero: + +--Agora morre! morre! morre para ahi só, velho desgraçado, sem filhos, +sem familia, sem amigos; morre só com os teus rancores, com as tuas +paixões, com o teu orgulho, já que assim o queres. Quando acabará de se +despedaçar este coração, para me deixar descançar? + +Frei Januario veio surprendêl-o n'este apaixonado monologo e recuou +assustado ante a vehemencia d'aquella dor. + +D. Luiz nem deu pela chegada do padre. Cahindo em um profundo +abatimento, assim permaneceu sem que as perguntas e supplicas do padre +conseguissem arrancar-lhe uma palavra dos labios contrahidos. + +Sómente ao fim da tarde, D. Luiz disse que queria deitar-se; +ajudaram-n'o a despir-se e a mettêl-o na cama, onde elle ficou como +cabido em uma somnolencia morbida. + +O padre receioso do resultado d'aquella subita depressão de forças, +pensou em avisar Jorge. + +O bom do padre, apesar dos seus defeitos, não era um coração insensivel, +e por D. Luiz tinha uma affeição sincera. Aquella noite, reagindo contra +o seu amor pelas commodidades, velou, ou melhor, permaneceu á cabeceira +do doente. Teve porém o desgosto de perceber que este não sentia grande +refrigerio em vêl-o alli, porque sempre que no intervallo dos seus +somnos agitados dava com os olhos n'elle, desviava-os logo com despeito. + +Não obstante, o padre conservou-se fiel ao seu posto. + + + + +XXXVI + + +O estado do doente no dia seguinte não era mais animador. O abatimento, +em que tão de subito cahira, mostrava geitos de prolongar-se e por +ventura de terminar por uma solução funesta. + +O padre mandou á pressa aviso a Jorge para que viesse aos Bacellos. + +A carta de frei Januario chegou ás mãos de Jorge juntamente com outras +de mais felizes novas. Umas eram do Porto, noticiando-lhe a decisão +favoravel da importante demanda que elle sustentava, outras da baroneza +e de Mauricio, participando-lhe o seu casamento e promettendo uma +proxima visita á aldeia. Todas estas noticias de tão diversa indole +impressionaram extraordinariamente Jorge. + +Por esse lado illuminava-se-lhe o horizonte do caminho, que seguia com a +constancia e a tenacidade de um animo varonil; por outro assombrava-o o +estado perigoso de seu velho pae, a quem elle desejaria dar ainda a +consolação de vêr como que erguida das ruinas a casa de seus +antepassados. + +As novas, quasi funebres, que lhe vinham dos Bacellos, enlutavam-lhe as +alegrias nupciaes das cartas do irmão e de Gabriella. + +Debaixo da influencia d'estas impressões oppostas, Jorge, depois de +escrever um pequeno bilhete a Thomé, em resposta a outro que d'elle +recebeu, communicando-lhe também o resultado da demanda, montou a +cavallo e partiu a toda a pressa para os Bacellos. + +O procurador recebeu-o com ar consternado, e abanando sinistramente a +cabeça, conduziu-o ao quarto de D. Luiz. + +Jorge sentia comprimir-se-lhe dolorosamente o coração ao aproximar-se do +leito do pae. + +--Elle já nem falla--dissera-lhe a meia voz o padre, que de facto ainda +não conseguira obter uma só palavra do fidalgo. + +Jorge afastou quasi tremendo as cortinas do leito. + +D. Luiz, que jazia com os olhos fechados e n'aquella immobilidade quasi +morbida em que desde a partida de Bertha cahira, não deu signal de ter +percebido a chegada do filho. + +Jorge, assustado com aquella impassibilidade, pegou-lhe na mão que tinha +estendida por fóra da roupa, como para procurar n'ella o calor da vida. + +Ao contacto da mão do filho, o fidalgo estremeceu e abriu os olhos; +vendo Jorge, passou-lhe nos labios um desvanecido sorriso de affecto. + +--Ah! és tu, Jorge?--disse elle com a voz ainda fraca--não te tinha +visto entrar. + +Frei Januario ficou estupefacto, ouvindo fallar o doente, que elle já +suppunha em estado de não poder fazêl-o. + +--Acha-se melhor?--perguntou Jorge, vergando-se sobre o leito. + +O velho só respondeu encolhendo os hombros como exprimindo indifferença +pela sua sorte, e depois fitando outra vez os olhos no filho, +interrogou-o por sua vez: + +--E tu? + +Jorge estranhou esta solicitude no pae, tão fóra dos seus habitos, e +sentiu-se commovido. + +--Eu?... eu estou bom. + +--Estás pallido e doente--proseguiu o pae, fitando-o. + +E sem desviar os olhos, recahiu no silencio, que manteve por alguns +segundos. + +Depois, procurando a mão do filho e apertando-a na sua, murmurou com uma +commoção a que só ultimamente era sujeito. + +--És um homem, Jorge! És digno do nome que tens e da familia que +representas. + +Estas palavras surprenderam extraordinariamente Jorge e não menos frei +Januario, que as attribuiu ao delirio produzido pela doença. + +D. Luiz acrescentou no mesmo tom: + +--Saber sacrificar tudo a um dever é a principal e a mais difficil +sciencia que nós temos a aprender na vida, e tu... mostras que estás bem +senhor d'ella. + +Julgando perceber o sentido d'estas palavras, Jorge fitou no pae um +olhar perscrutador. + +Elle porém fechou novamente os olhos e por muito tempo permaneceu como +cahido em um somno profundo. + +O filho e o padre conservaram-se ao lado do leito. + +--Como vão os negocios de nossa casa?--perguntou d'ahi a pouco elle sem +abrir os olhos. + +Jorge communicou-lhe a boa nova que recebêra de se haver vencido a mais +antiga e a mais importante demanda que sustentavam. + +Na pallidez das faces do doente passou um instantaneo rubor. Os labios +agitaram-se-lhe, e baixo, muito baixo, que mal o pôde ouvir o filho, +murmurou: + +--Será chegado o termo d'esta longa provação?! + +Depois recahiu no torpor em que passára a noite e não disse mais palavra +alguma. + +Jorge, vendo-o a dormir, correu-lhe as cortinas do leito, diminuiu a +claridade do aposento, e entregando-o á vigilancia do padre, retirou-se +ao escriptorio para trabalhar nos negocios da casa. + +Todo esse dia e a noite que se lhe seguiu passaram sem novidade. + +Pela madrugada do dia immediato despertou a gente nos Bacellos á chegada +de um numeroso cortejo de criados e portadores de bagagens, acompanhando +a baroneza e Mauricio, noivos de pouco, e que vinham cumprir a promessa +da sua visita. + +Jorge correu a recebêl-os e cingiu nos braços commovido o irmão e a +cunhada. + +Passados os primeiros momentos absorvidos pelos transportes de alegria, +a baroneza e Mauricio, reparando mais attentamente para o ar abatido e a +pallidez de Jorge, fizeram-lh'o notar com apprehensão. + +--Pelo que vejo, as tuas imprudencias continuam, Jorge?--disse a +baroneza.--Ajuizado como és, não vês que pelo caminho que segues não +podes realisar os teus grandes projectos? + +Jorge sorriu, encolhendo os hombros. + +--Que quer que lhe faça, Gabriella? A vontade do homem não rege os +processos intimos da sua vida organica. Não está na minha mão modificar +o andamento dos meus actos nutritivos. + +--Mas podes desviar muito bem as causas que os perturbam. O excesso de +trabalho... + +--Não é isso, Gabriella--acudiu Mauricio--eu sempre conheci em Jorge o +habito de estudar e de trabalhar sem estes effeitos. O que o mata é a +louca presumpção de ser superior ás paixões, e a tentativa que faz para +sacrifical-as a não sei que imaginarios deveres. + +Jorge sorriu. + +--Já vejo que se estabeleceu entre os noivos o communismo de segredos. +Esse soubeste-o só depois de casares. + +--Suspeitei-o muito antes, bem o sabes. + +--Isso é verdade, suspeitaste-o muito antes de eu proprio me convencer +d'elle. + +--Mas--tornou a baroneza--é preciso sahir d'isto. O Jorge suppõe-se mais +forte do que é. + +--Creia, Gabriella, o melhor é deixar ao tempo o cuidado de resolver as +crises. Hoje o que me preoccupa é a solução dos meus negocios, que +felizmente vão tomando uma face animadora. + +--É verdade, disseram-me em Lisboa que se decidiu em bem a demanda que +tanto te preoccupava. O que tu não sabes é que ao valimento de Mauricio +com um dos desembargadores, em cujas mãos parava o processo, se deve +essa prompta solução. + +--Devéras? + +--Não ouso crêl-o--disse Maurício--ainda que é verdade ter-lhe fallado e +haver recebido d'elle a promessa de aviar depressa o processo. + +--Hoje quasi posso assegurar-lhe que é certa a nossa regeneração--tornou +Jorge.--Esta primeira victoria prepara-me o terreno para outras e +solta-me os movimentos que tinha peiados. E os teus projectos, Mauricio? + +--Vão em bom caminho. Tenho quasi certo um logar na embaixada de Londres +ou de Berlim. + +--Eu ainda não desespero de envelhecer embaixatriz--disse a baroneza, +sorrindo, e acrescentou:--Mas que é de Bertha? Já cá não está? + +--Retirou-se ha dias. Desde então recrudesceu a doença do pae. + +--E para que se retirou? + +--O Thomé veio buscal-a. + +--Com que fim? + +--Não sei... Ainda que... por algumas coisas que ouvi... quer-me parecer +que fizeram conceber a Thomé certos receios. Emfim eu proprio não quiz +profundar os motivos da retirada por temer que não me fosse agradavel +ouvil-os. + +--E querem vêr que o tio Luiz também soube? É impossivel que tudo isto +não lhe tenha feito muito mal! Eu nunca vi! Esta gente toda entregue a +si parece que porfia em complicar a situação. Mauricio, vamos vêr teu +pae. Eeus queira que ainda seja possivel remediar o mal feito. Vens, +Jorge? + +Passados momentos entravam todos tres no quarto de D. Luiz, onde +penetrava apenas a discreta claridade coada pelas cortinas corridas e +pelas janellas meio abertas. + +Frei Januario, que dormitava ao lado do leito, com o lenço vermelho em +uma mão e o breviario na outra, ergueu-se ao ver a baroneza, e depois de +comprimental-a dispunha-se a avisar o fidalgo. + +Gabriella susteve-o, e avisinhando-se do leito, correu ella propria os +pannos do cortinado e contemplou o rosto do ancião, que dormia +profundamente. + +Mauricio e Jorge acercaram-se tambem. + +A nobre physionomia de D. Luiz, abatida pelo soffrimento physico e +moral, e sobre a qual o somno parecia derramar uma serenidade, como de +resignação, impressionou-os a todos. + +A baroneza ajoelhou ao lado do velho, e pegando-lhe na mão beijou-a com +affecto e respeito. Mauricio ajoelhou tambem ao lado de sua esposa. + +D. Luiz acordou um tanto sobresaltado. Deu primeiro com a vista em Jorge +e depois, desviando-a, reconheceu a sobrinha e o filho mais novo, e +raiou-lhe no semblante, ao vêl-os, um clarão de alegria. + +--Ó meus filhos!--exclamou elle, solevantando-se no leito e apoiando-se +no braço tremulo. + +Depois, passando a mão por sobre a cabeça dos noivos, acrescentou: + +--Deus vos abençoe, como eu vos abençôo. + +E deixou-se cahir extenuado sobre o travesseiro. + +Gabriella levantou-se para amparal-o. + +--Ai, Gabriella--disse elle, suspirando--finalmente parece que chegou a +hora da liberdade. + +--Diga que chegou a hora da resurreição. Verá como de hoje em diante +tudo vae ser ventura n'esta casa. Ha de trazer-lh'a Jorge e Mauricio e +eu, até eu e... e mais alguem. Quem sabe? + +D. Luiz voltou os olhos para o filho mais novo. + +--Mauricio--disse com a voz cançada e interrompida--és ainda muito rapaz +e vaes viver em um mundo perigoso, não desprezes a conselheira que Deus +collocou a teu lado. + +--Como hei de desprezal-a, se a adoro?--disse Mauricio com o galanteio +de um noivo ainda namorado. + +A baroneza correspondeu-lhe com um sorriso, e observou: + +--Nem receio o desprezo, nem creio na adoração. Deixemos as coisas nos +termos ajustados. Estimemo-nos e seremos felizes. + +--Nem todos podem ter a frieza do teu animo, filha--disse Mauricio a +meia voz. + +--Não é tempo agora de discutirmos isso. Sabes? O pae não póde por +emquanto ouvir longas conversas. Acordou ha pouco e precisa de poupar a +attenção. Se tu fosses com Jorge dar ordem a essas coisas que os criados +trouxeram... Eu ficaria no entretanto aqui. + +Jorge e Mauricio perceberam que a baroneza tinha desejos de que a +deixassem só com D. Luiz, e sahiram por isso da sala. + +Frei Januario, meio adormecido, não deu pela sahida dos rapazes e +permaneceu entre o leito e a parede, encoberto pelo cortinado e +desapercebido de Gabriella. + +Esta sentou-se á cabeceira do leito e com feminil carinho começou a +ageitar a travesseira do doente e a desviar-lhe da fronte as cãs +desordenadas. + +--Eu não esperava vir encontral-o sem enfermeira--dizia Gabriella o mais +naturalmente possivel. + +D. Luiz suspirou. + +Ella insistiu: + +--É uma coisa tão necessária! Porque ha certo cuidado que só uma mulher +póde ter. É a nossa especialidade. + +D. Luiz abanou a cabeça. + +--Tem razão, Gabriella. É uma desconsoladora solidão a de um doente sem +esses cuidados de que falla. + +--Mas... porque se retirou Bertha? + +D. Luiz não respondeu logo a esta pergunta, que parecia contrarial-o, +porque lhe chamou á fronte uma contracção de desgosto. + +--Ai, raparigas!--tornou a baroneza--ferve-lhes o sangue a final. + +--Não diga isso, Gabriella, que é injusta. Bertha é um anjo de +abnegação. + +--Mas para que havia o anjo de abandonar o seu posto? + +--Vieram buscal-a. + +--Quem? + +--O pae. + +--Pois o Thomé da Povoa seria capaz de leval-a d'aqui contra vontade +d'ella e do padrinho? + +--O Thomé teve razão para o fazer. Eu mesmo lhe disse que devia leval-a. + +--Ah! então não entendo. + +--Ha sacrificios tão dolorosos, que não é justo exigil-os, nem +permittil-os. + +--E o que Bertha fazia, ficando aqui a seu lado, era d'essa natureza? + +--Talvez fosse. + +--Não posso conceber de que maneira. + +D. Luiz cançado do esforço que fazia para fallar ou hesitando no que +dissesse, não respondeu logo. + +Depois murmurou: + +--Aquella pobre rapariga tem uma alma nobre e heroica. Não seria ella +que se trahiria por um signal de dôr, ainda quando sentisse +despedaçar-se-lhe o coração. + +--E corria esses riscos aqui?--perguntou a baroneza com affectada +candura. + +--Gabriella--continuou D. Luiz--Bertha sahiu victoriosa de uma grande +lucta. O coração, porém, ainda lhe devia sangrar, e não era aqui que se +lhe consolidariam as cicatrizes. + +--São tão vagos esses dizeres! Ora vamos; diga-me o que houve; falle-me +claro. + +--Que havia de ser? Bertha é um anjo, mas sob a encarnação de mulher, +tem um coração... e esse, sujeito a apaixonar-se como os outros. + +Gabriella fez um gesto de quem tivera uma ideia subita. + +--Ah! Já sei! Percebo agora! Era a isso que alludia? Cuidei que seria +outra coisa mais grave. + +D. Luiz fixou na sobrinha um olhar admirado. + +--A Gabriella por certo não sabe ao que me refiro. + +--Sei, sei, pois não sei! Havia muito que eu tinha descoberto esse +segredo de Bertha, de Bertha e de Jorge. + +--E deu-lhe tão pouca importancia? + +--Apenas a que merece. Mas devéras, foi esse o motivo da retirada de +Bertha? Parece-me impossivel! + +--Já não pouco imprudente havia sido a demora d'ella n'esta casa. Elles +ambos são fortes, mas não devem abusar das suas forças com risco de +aggravar o mal e leval-o a extremos irremediaveis. + +--O mal... extremos irremediaveis... Que linguagem tão carregada para +uma coisa tão simples! Pois diga-me, considera um grande mal o facto de +elles gostarem um do outro? + +D. Luiz encarou Gabriella devéras admirado da pergunta. + +--Está a zombar, Gabriella? + +--Não estou. Fallo-lhe com toda a minha seriedade. Sabe quando eu receio +mal da inclinação reciproca de duas pessoas? É quando nos caracteres +d'ellas ha taes contradicções que o futuro promette ser uma continuada +lucta. Agora todas as mais desigualdades, desigualdades de riqueza, de +posição social e de jerarchia, são facilmente niveladas por um amor +verdadeiro e serio. E esta é de certo a indole do amor d'elles. + +--Visto isso, achava a Gabriella muito natural que meu filho casasse com +a filha de Thomé da Povoa? + +A pergunta era feita com certa acrimonia, que não passou desapercebida +da baroneza. Ella porém estava resolvida a atacar de frente os +preconceitos do tio e não titubeou ao responder-lhe: + +--Se quer que lhe diga, achava até muito conveniente. + +D. Luiz moveu com certa impaciencia a cabeça. + +Gabriella insistiu: + +--Queria antes que eu votasse pela continuação d'este estado de coisas, +que o ha de matar, que infallivelmente o mata, porque--diga o tio o que +disser--a companhia de Bertha é-lhe já tão necessaria como lhe foi a de +Beatriz? Queria antes que eu votasse por esta ordem de coisas, que traz +definhado seu filho e que irremediavelmente o sacrificará e com elle as +esperanças de regeneração d'esta casa e d'esta familia? Desengane-se, +meu tio, o futuro de sua familia está indissoluvelmente ligado a Bertha. + +--Póde ser. + +--Está, digo-lh'o eu, que bem conheço Jorge. Elle renunciou +espontaneamente ao mais violento desejo do seu coração, julgando que +seria empreza ao alcance das suas forças. O resultado está-se vendo. De +dia para dia cresce n'elle o abatimento e as consequencias não é +difficil prevêl-as. E diga-me se vale a pena sacrificar vidas tão +preciosas e tão nobres e brilhantes projectos a um capricho +aristocratico? + +--Capricho?! + +--Capricho, sim. Se invocar toda a sua philosophia, o tio Luiz ha de +reconhecer que não merece outro nome esse escrupulo. + +--Não será dever? + +--Em que codigo lhe é imposto? + +--No da nobreza. + +--O dever de quem é nobre de origem é conservar-se pelas suas acções +digno d'ella. Ora hoje, meu tio, que o mundo está quasi todo descoberto +e em que já passaram de moda as conquistas dos mouros e as guerras com +os castelhanos, que melhor póde cumprir-se esse dever do que o faz +Jorge, luctando nobremente para resgatar a sua casa e dando um grande e +salutar exemplo, que oxalá que fosse seguido? Elle sim, é quem continua +as gloriosas tradições dos seus avós, e olhe que não será menos util á +pátria do que elles foram. Mas ha um estimulo necessario para manter +n'elle aquella actividade. Elle proprio illude-se, julgando que póde +prescindir d'esse estimulo. Não póde. Esse esforço ha de sacrifical-o. +Agora veja o tio, em respeito a quem é sómente feito o sacrificio, se +não sentirá remorsos um dia por havêl-o consentido. + +D. Luiz parecia pouco satisfeito com a discussão, que o collocava entre +duas forças que igualmente o opprimiam. + +--A minha vida é de sacrificios; é destino. Devo estar preparado para +aceital-os com resignação. + +--Resignação nada christã; porque Deus não quer que nos resignemos com +os males que podemos evitar, e muito menos quando é uma paixão ruim que +os prepara. + +--Uma paixão ruim!--exclamou o fidalgo mais exaltado--até que ponto a +traz cega a corrente das ideias modernas, que já chama paixão ruim ao +respeito que devemos ao esplendor das nossas casas? + +--E que perderia esse esplendor com a alliança de Bertha? Não é ella uma +rapariga de sentimentos nobres, cheia de virtudes e de excellentes +qualidades? N'essas familias que manteem o esplendor que diz, conta +muitas noivas mais dignas de seus filhos? E depois, meu tio, deixe-me +dizer-lhe: nós precisamos de misturar sangue novo ao nosso, senão +morremos asphyxiados n'estes ares modernos. É verdade isto, as famílias +que escrupulisam em não caldearem o sangue antigo que trazem nas veias, +dão de si uns descendentes quasi sempre parvos e pêcos, por isso mesmo +que sahem organisados para viverem ern uma sociedade talhada por moldes +que já se não usam, e não sabem viver na actual. + +D. Luiz não podia ainda habituar-se a ouvir taes doutrinas +irreverentemente expostas por uma das representantes d'essas vetustas +familias. + +Era provavel que as phrases incisivas da baroneza lhe provocassem uma +resposta apaixonada, se uma inesperada occorrencia o não viesse +distrahir. + +Frei Januario, que ficára, como dissemos, occulto pelo cortinado do +leito e desapercebido tanto da baroneza como de D. Luiz, ouvira com +surpreza crescente o dialogo que temos descripto. Para elle eram ainda +novidade os amores de Jorge e Bertha, porque D. Luiz já não fazia do +padre o confidente dos seus segredos. + +Admirado com a descoberta, mais admirado ficou ainda ao ouvir os +commentarios de Gabriella a tal respeito, e as ideias revolucionarias e +subversivas que sustentára contra o fidalgo. + +Frei Januario, mais respeitador dos foros da fidalguia do que o mais +esmerilhado aristocrata, sentiu-se provocado a protestar contra aquellas +doutrinas e a vir em auxilio do fidalgo com inesperado soccorro, que por +certo o faria de novo entrar nas suas boas graças. + +Portanto, n'estas alturas da discussão, levantou-se do canto em que +estivera occulto, e acabando de sorver os restos de uma pitada, que +conservára entre os dedos, afastou a cortina e surgindo do outro lado do +leito, defronte da baroneza, disse escandalizado: + +--Perdoe-me v. exc.ª, snr.ª D. Gabrielia, mas eu não posso deixar de +manifestar o meu espanto pelo que acabo de ouvir. + +--Ah! Pois estava ahi, snr. frei Januario? Confesso que nem de tal me +lembrava--disse Gabriella sorrindo. + +D. Luiz franziu o sobrolho, como quem não agradecia ao padre a +intervenção. + +--Aqui tenho estado de noite e de dia, minha senhora--respondeu o padre +em tom de censura--e fiquei, porque ninguem me mandou sahir. Além de que +eu já estou costumado a ouvir e a guardar os segredos d'esta familia. + +--Quem lhe diz menos disso, snr. frei Januario? Eu apenas observei que +me não lembrava da sua presença ahi. Mas pelo que vejo as minhas ideias +não merecem a sua approvação. + +--De certo que não--tornou o padre.--O snr. D. Luiz tem razão. A nobreza +è a nobreza; e mal de nós se ella se esquecia dos seus deveres e assim +se misturava ás classes infimas. + +--Então que mal succedia com isso ao snr. frei Januario?--perguntou a +baroneza, rindo. + +--A mim? + +--Então não disse: «mal de nós?» + +--Sim, mal de nós todos, porque a sociedade precisa d'estas distincções; +senão, não ha ordem, não ha governo, tudo é anarchia e republica. + +--Leu isso no evangelho? + +--É o que a experiencia me tem mostrado. + +--Ah! a experiencia! Muitos obsequios deve á experiencia o snr. frei +Januario! + +--Porém devéras, minha senhora, v. exc.ª podia aconselhar seriamente ao +snr. D. Luiz o casamento do snr. Jorge, do morgado, morgado não, que até +já com isso acabaram para acabarem com todas as familias illustres, mas +emfim do representante, o filho mais velho de s. exc.ª ... o casamento +d'elle com quem? Com a filha do Thomé da Povoa! Um homem, senhores, que +eu conheci criado d'esta casa! v. exc.ª não fallava a serio ha pouco. É +impossivel. + +--Olhe que fallava, snr. frei Januario, fallava, fallava. + +--Ó minha senhora, por quem é! Lembre-se v. exc.ª da familia a que +pertence, do nome que tem e verá que se ha de envergonhar da lembrança. +Bertha da Povoa! Bertha da Povoa! a filha do Thomé! Era o que me faltava +vêr n'este mundo! Bertha, que o pae enfeitou com vestidos de senhora, +mas que a final sempre ha de mostrar a origem d'onde sahiu! Eu sempre +ouvi dizer que o que o berço dá a tumba leva, e que o pé de tamanca foge +sempre para a tamanca. Havia de ter graça ouvir o snr. D. Luiz chamar +filha á rapariga! e ella feita senhora na Casa Mourisca! Ora essa! Em +tal não podia consentir o snr. D. Luiz ainda mesmo que quizesse. Bem vê +v. exc.ª que uma pessoa da nobreza do snr. D. Luiz não tem só a +consultar a sua vontade. Lá está a mais familia. Que diriam os snrs. +Mellos de Ribeira-formosa? os snrs. Cunhas do Choupello? os snrs. +Sotto-maiores da Fonte das Urzes, os snrs. do Cruzeiro, e toda a nobreza +por essa provincia adiante? Com que olhos veriam esse casamento +monstruoso as damas de todas essas familias, e em uma palavra a +fidalguia do reino! V. exc.ª de certo não pensou nisto. Demais... + +O padre não pôde proseguir na sua animada refutação. + +Interrompeu-o D. Luiz. + +Dera-se com o fidalgo um phenomeno não calculado pela experiencia do +padre, ainda que natural ao espirito humano. + +Sentindo-se apoiado na defeza das suas ideias por um alliado +antipathico--porque o era para o fidalgo desde certo tempo, o seu +ex-procurador--teve logo um desejo vehemente de recusar o auxilio e +quasi o de esposar a causa opposta só para o castigar da impertinencia. + +Além d'isso frei Januario levou a defeza mais longe do que devia. A +maneira por que fallou de Bertha e da dependencia em que estava o +fidalgo da opinião da sua parentela, irritaram o orgulhoso D. Luiz, que +por isso tudo com extrema vivacidade o interrompeu dizendo: + +--Cale-se, frei Januario, cale-se! Que está para ahi a dizer? Cuida que +eu, querendo fazer a minha vontade, me dou ao trabalho de consultar os +de Ribeira-formosa, os do Choupello ou os do Cruzeiro, ou de qualquer +d'essa parentela que tenho por essa provincia adiante? Era o que me +faltava! Do que convem ou não convem á dignidade do meu nome, sou eu o +juiz, e não admitto ingerencias alheias. Actos que deslustram e +envergonham tem-n'os elles feito que farte, e eu nunca lhes fui pedir +satisfações por isso. + +--Eu queria dizer...--acudiu o padre, intimidado pela irritação em que +via o fidalgo. + +Este interrompeu-o outra vez: + +--Ora não diga nada, que é melhor. Com que olhos veriam as damas este +casamento! É boa! Com os mesmos olhos com que tem visto muita miseria e +muita vergonha que vae por casa dos seus. Os olhos deviam ellas +empregal-os em Bertha, mas era para aprender d'ella o que é dignidade, +nobreza de sentimentos e verdadeira educação. Como está ahi a dizer o +frei Januario que Bertha ha de mostrar a final a origem d'onde vem? +Bertha ha de mostrar que é filha de um homem honrado e de uma mulher +virtuosa. Se é isso que quer dizer, tem razão. E oxalá que todas as +nossas damas podessem dizer o mesmo de si. Fique sabendo que não seria +ella que occupasse mal o seu logar na Casa Mourisca. Fique sabendo isto. +O quarto de minha filha a poucas o franquearia eu com melhor vontade do +que a ella, que parece resuscitar-m'a. Para ser nobre não basta ser do +Cruzeiro ou de Ribeira-formosa. O Cruzeiro é um ninho de bebedos e a +Ribeira-formosa uma gaiola de parvos. A ter de escolher entre essa gente +sem dignidade e aquella que de origem obscura lhe dá todos os dias +lições de deveres, de certo que não hesitaria, nem iria entre a primeira +procurar noiva para meu filho. Como se formaram as familias nobres? São +todas da mesma época? É claro que não. Houve tempo em que umas já eram +nobres e outras não o eram; mas por um feito illustre e verdadeiramente +nobre um homem obscuro d'estas ultimas mereceu que as primeiras o +chamassem a seu gremio, partilhando com elle o dom que já possuiam. Pois +bem, tambem nós hoje podemos fazer o mesmo que n'esses antigos tempos se +fazia, e chamar a nós os espiritos fidalgos, que os ha fóra do nosso +gremio; e assim podessemos também expulsar d'elle os espiritos plebeus +que por cá temos! + +D. Luiz, levado pela força da reacção, ia mais longe do que quizera. Por +pouco estava advogando ideias manifestamente democraticas. O padre +estava estupefacto, como se assistisse a um cataclismo. A propria +Gabriella não esperava ouvir expender taes ideias a seu tio. Ainda que +percebesse que a irritação que dominava o doente fosse a principal causa +inspiradora n'aquella defeza acalorada, ainda assim lhe dava +importancia. As ultimas palavras de D. Luiz, e especie de raciocinio com +que pretendêra justificar a possibilidade de allianças desiguaes, +realisadas certas circumstandas, davam-lhe a entender que elle já +comsigo proprio previra a eventualidade e procurára argumentos que por +ventura a justificassem. + +Gabriella viu n'esta descoberta um optimo indicio e percebeu a +conveniencia de deixar o espirito do tio sob aquella ordem de impressões +e entregue ao movimento proprio que a intervenção do padre iniciára. + +Por isso, sob o pretexto de que a discussão fatigára em extremo o doente +e que os excessos lhe podiam ser funestos, cortou no principio a réplica +do padre e obrigou-o a retirar-se da sala para deixar dormir o doente. + +Ao sahir dizia ella, tomando o braço do capellão: + +--Depois de se lançar o crescente na massa, cobre-se esta e deixa-se em +repouso levedar. Quando era criança via fazer isto em minha casa, sempre +que se cozia o pão. + +O padre não entendeu o alcance da parabola. Sahiu d'alli desnorteado com +o que via n'aquella casa, que elle suppunha eivada do veneno da +maçonaria, unica maneira por que explicava as irregularidades que via. + +Gabriella sahiu no intento de encaminhar a crise em um sentido +favoravel. + + + + +XXXVII + + +Mauricio veio ao encontro da baroneza assim que esta sahiu do quarto de +D. Luiz. + +--Como deixaste meu pae?--perguntou elle. + +--Mal e bem. + +--Que queres dizer com isso? + +--Mal, porque me inquieta o abatimento em que o vejo. N'aquella +idade!... Bem, porque o acho em excellentes disposições de se lhe +applicar um remedio heroico. + +--Qual? + +--Queres principiar hoje a tua carreira diplomatica? + +--De que maneira? + +--Vaes já d'aqui a casa do Thomé da Povoa. + +--Sim, e depois? + +--É uma visita que lhe deves, visto que não te lembraste de lhe dar +parte do nosso casamento. + +--É verdade que não. + +--Vae pois visitar Thòmé. Repara que nem sequer me lembro de ter ciumes +de Bertha. + +--É uma prova de confiança, que te mereço. + +--Sim? Mereces? Diz-te isso a consciencia? Bom será. Vamos adiante. Em +casa de Thomé contas qual o estado de teu pae. Fazes sentir a +necessidade de que Bertha volte para aqui, ou para o reanimar, do que só +ella é capaz n'este mundo, ou pelo menos para suavizar-lhe os ultimos +momentos e despedir-se d'elle. É provavel que encontres objecções em +Thomé, mas insiste; dize que teu pae se mostra magoado com a ausencia de +Bertha, e que é um peccado imperdoavel prolongar-lhe essa dôr tão facil +de remediar. Finalmente não voltes sem ter resolvido Bertha a vir hoje +mesmo para aqui. + +--E quaes são os teus projectos? + +--Ora quaes hão de ser? São casar Bertha com Jorge. Está claro. + +--Has de encontrar dificuldades. + +--Já me pareceram maiores. O padre fez nos, sem querer, um grande +serviço. Metteu-se a advogar com tanto calor a aristocracia, que por +pouco fazia de teu pae um democrata. + +--Devéras? + +--É verdade. Agora quatro caricias de Bertha devem consummar a victoria. +Vossês os homens levam-se por isso. + +--Parece-te? + +--Veremos se me engano. + +Mauricio encarregou-se da mensagem que lhe incumbia a mulher e partiu +para casa de Thomé, onde foi recebido com caloroso affecto. + +Expondo o principal fim da sua visita, não encontrou grande opposição em +Thomé contra o regresso da filha para os Bacellos. Elle proprio +prometteu leval-a. + +Efectivamente horas depois, Bertha era de novo conduzida pela baroneza +para junto da cabeceira do enfermo, que em todo aquelle tempo continuára +a manifestar signaes da mais profunda depressão de forças. + +D. Luiz dormitava quando Bertha se lhe aproximou do leito. A rapariga +correu cautelosamente o cortinado para contemplar a figura do ancião. +Commoveu-a o aspecto de abatimento que crescêra n'elle desde que Bertha +o deixára. D. Luiz tinha o somno agitado por sonhos febricitantes, e +sonhando, soltava gemidos surdos, palavras mal articuladas, estremecia e +suava como sob a influencia de uma afflictiva impressão. + +Bertha veio encontral-o em um d'estes estados e curvou-se compadecida +para enxugar o suor que lhe orvalhava a fronte. + +O doente acordou então e fitou os olhos n'ella. + +Immediatamente lhe distendeu as feições contrahidas um sorriso de +alegria. + +Por algum tempo não fallou, como se estivesse duvidando da realidade do +que via e suspeitando-a de ser a continuação de um sonho. + +Foi Bertha a primeira que fallou. + +--Está melhor?--interrogou ella, sorrindo. + +O tom d'aquella voz e a particular inflexão da pergunta, com que já +estavam familiarisados os ouvidos do doente, parece que o convenceram de +que não dormia. + +Estendendo para a afilhada a mão magra e ardente, murmurou profundamente +commovido: + +--Então sempre voltaste? + +--Como me disseram que tinha passado mais inquieto estes ultimos dias... + +--Fizeste bem. Havia de custar-me a morrer sem me despedir de ti. + +--Quem falla aqui em morrer? Agora que o inverno passou e que este tempo +está a dar vida a tudo é que o padrinho se lembra d'isso? Pois veremos. +Dentro de poucos dias é preciso continuarmos aquelles nossos passeios na +quinta. + +D. Luiz sorriu tristemente e fechou os olhos como para reter uma +lagrima, que, apesar d'isso, lhe passou por entre as palpebras e lhe +rolou vagarosa pelas faces descarnadas. + +Bertha murmurou ao ouvido do velho: + +--Chore á vontade, que estou eu só aqui. Chore, que lhe faz bem. + +Como se a densa tristeza que pesava sobre o coração d'aquelle homem só +esperasse aquellas palavras para se fundir em lagrimas, o pranto +inundou-lhe o rosto, que elle quasi escondeu no seio de Bertha. + +Aquella expansão foi-lhe salutar. O somno seguinte foi mais tranquillo e +menos cortado por sonhos fatigadores. Comtudo o estado do doente era +ainda muito grave, e na aldeia e immediações corria já voz do proximo +fallecimento do fidalgo da Casa Mourisca. + +A parentela das visinhanças a cada momento vinha ou mandava aos Bacellos +saber novas do fidalgo. Thomé da Povoa passava alli a maior parte do seu +tempo; a propria Anna do Védor viera offerecer os seus serviços á +familia, e raras vezes se desviava da casa. + +Bertha continuava assiduamente junto do leito do enfermo, sem perder a +esperança de o vêr sahir victorioso d'aquella tremenda crise. + +Ninguem a desviava d'alli. Retinha-a a vontade propria assim como a do +doente, a quem a menor contrariedade podia ser fatal. + +A baroneza não só não insistia para que Bertha cedesse a outrem o campo, +mas nem deixava que alguem insistisse. Dizia ella que a juventude de +Bertha podia bem com aquelle sacrificio, e que era provavel que Deus não +deixasse sem recompensa a caridade. + +Durante tres dias a familia reunida nos Bacellos passava o tempo, por +assim dizer, na espectativa do triste acontecimento que se preparava. + +Jorge interrompeu os seus trabalhos, Mauricio nunca sahia de casa, e a +baroneza passeiava constantemente entre a sala, onde quasi sempre +permaneciam os dois irmãos, ás vezes na companhia de Thomé, e o quarto +do enfermo, que mal consentia junto de si outra pessoa além de Bertha. + +Uma noite, D. Luiz, depois d'aquelles tres dias de febre e quasi de +delirio, conseguira adormecer de um somno mais tranquillo e reparador. +Não foram os sonhos incoherentes, absurdos e fatigadores que o +atormentaram d'esta vez; mas um sonhar grato, sem visões febris, e +durante o qual a imagem da filha por vezes lhe appareceu sorrindo-lhe e +fallando-lhe com o carinho de que elle ainda se recordava com a mais +pungente saudade do seu coração. Esta imagem transformava-se-lhe ás +vezes por insensivel transição na imagem de Bertha, e tão similhantes, +tão confundidas lhe appareciam, que elle nem sabia ao acordar com qual +das duas sonhára. Umas vezes era a filha que lhe fallava com a voz e sob +a figura de Bertha; outras Bertha revestindo a imagem de Beatriz. + +Despertou d'este somno por alta e calada noite. No aposento era completo +o silencio. Interrompia-o sómente o bater cadenciado da pendula do +corredor. A tenue claridade de uma pequena lampada alumiava a scena. + +D. Luiz depois de acordado tentou avivar as gratas impressões que lhe +deixára o sonho. + +Pensou na filha e no passado; nas tristezas presentes, nas venturas +perdidas e nas desgraças por vir. + +Áquella hora da noite, na solidão e repouso da camara de um doente o +espirito ergue-se superior á habitual esphera onde ordinariamente pára e +contempla com a vista de aguia as suas paixões e preconceitos; vê-os +fluctuar como nuvens nas regiões inferiores. É n'esses momentos que a +consciencia nos julga; a parte mais etherea do nosso ser parece então +erguer-se lucida como nunca e contemplar compadecida os maus instinctos, +as prevenções arreigadas, os falsos preconceitos que no tracto commum da +vida em tão viciosas direcções nos solicitam. + +Emquanto o mundo dorme, dormem com elle no nosso coração as paixões que +o mundo alimenta. + +N'aquelle momento D. Luiz não era o mesmo homem moral que conhecemos. +Luzia-lhe a verdade resplandecente á sua imaginação fascinada. + +No meio da corrente dos seus pensamentos distrahiu-o um quasi +imperceptivel respirar que ouviu a seu lado. Voltou-se. + +Era Bertha que, cedendo ás fadigas de tão continuadas vigilias, +adormecêra junto do leito do doente. + +D. Luiz ficou a contemplal-a assim. + +A luz do velador dava-lhe no rosto, em que se desenhava a mais doce +expressão da serenidade de espirito. + +Pendia-lhe a cabeça sobre as travesseiras do leito e uma madeixa de +cabello soltando-se-lhe, viera afagar-lhe a fronte, abrindo caminho por +entre os dedos que a sustinham. + +D. Luiz ergueu-se a pouco e pouco no leito para melhor observar aquella +figura angelica de mulher, adormecida ao seu lado. + +Traduziam as feições do velho o extasi, em que o arrebatára aquella +contemplação. Parecia-lhe uma visão sobrenatural. Com movimentos +cautelosos para não a acordar, encostou os braços ás almofadas da cama e +apoiando a cabeça entre as mãos, assim permaneceu immovel, abstracto, +com os olhos fitos em Bertha e o espirito subindo ás regiões mais limpas +dos espessos nevoeiros do mundo. + +Era um expressivo grupo o d'aquella rapariga adormecida e o d'aquelle +velho pallido, descarnado, meio erguido no leito, contemplando-a em um +quasi rapto de adoração. Áquella hora, no meio d'aquelle silencio, +alumiado por aquella luz, a scena era mysteriosamente solemne e +imponente. + +Horas talvez durou aquella contemplação silenciosa. + +De repente accentuou-se no rosto do fidalgo uma expressão de energia e +firmeza que a doença e a preoccupação de espirito havia muito lhe tinham +dissipado. + +Curvando-se mais sobre o rosto de Bertha, desviou com extrema delicadeza +a madeixa que lhe cahia sobre a fronte e murmurava como para si: + +--Por que és tu que vélas a meu lado? Que laços te prendem a mim? Porque +dedicas a este velho a tua juventude?... E não se recompensa esta +abnegação? Pagam-te sacrificando-te aos seus... preconceitos. + +E continuava a contemplal-a em silencio; depois voltava a murmurar: + +--Beatriz, se fosse viva, chamar-te-ia irmã; havia de querer-te junto de +si, no seu quarto. E eu... porque não hei de chamar-te filha?... + +Não disse mais o velho, mas curvando-se ainda mais, poisou na fronte da +rapariga um beijo expressivo de paternal affecto. + +Pela madrugada o doente mostrou-se algum tanto inquieto a ponto de +sobresaltar Bertha, que o espiava com solicitude. + +Á interrogação que ella lhe dirigiu para saber a causa da agitação em +que o via, D. Luiz não respondeu logo; porém, momentos depois, olhou +para a afilhada com uma expressão singular, pegou-lhe nas mãos, +apertou-as com affecto, e disse-lhe com manifesta commoção: + +--Bertha, vae chamar Jorge. Que me venha fallar. Preciso de conversar +com elle quanto antes. + +Bertha sahiu do quarto com os olhos arrasados de agua. + +Aquellas palavras tinham para ella uma dolorosa significação. + +D. Luiz que mandava chamar o filho mais velho, o directo successor do +seu nome e da sua casa, era por que um d'aquelles presentimentos, que +nos advertem da proximidade da nossa hora final, indicava-lhe ter +chegado a occasião de despedir-se do filho e de dar-lhe os derradeiros +conselhos de pae. + +Todos nos Bacellos formaram a mesma conjectura. Jorge ergueu-se +precipitadamente do leito, assim que soube que o pae lhe queria fallar. + +A nova espalhou-se em toda a casa e pôz todos em alvoroço. Em breve +transpirou fóra que o fidalgo da Casa Mourisca já se despedira dos +filhos, e que em poucas horas seria com Deus. + +Á casa de Thomé e da Anna do Védor chegou a noticia e trouxe até os +Bacellos esses antigos commensaes da familia, cujo representante actual +chegava á hora mais solemne da vida. A boa Luiza acompanhou o marido no +intento de oferecer os seus serviços n'aquelles momentos de dôr e +confusão. + +Jorge entrou commovido e pallido no quarto do pae, onde ninguem mais o +seguiu. + +O pobre rapaz ia preparado para uma scena dilacerante; esperava assistir +á agonia do velho. + +Tremiam-lhe as pernas ao aproximar-se do leito. + +D. Luiz percebendo-o chegar, dirigiu-se-lhe com voz debil mas firme: + +--És tu, Jorge? + +--Sou eu, meu pae. + +--Chega-te mais para aqui. Assim. + +E fitando o filho com o olhar ainda cheio de expressão e vida, continuou +depois de um demorado silencio: + +--Jorge, tu não és feliz. + +Jorge olhou para o pae, espantado pela inesperada observação que lhe +ouvia. + +--Tens uma nobre alma, tomaste sobre os hombros uma pesada tarefa, +dedicaste ao cumprimento d'ella a tua vida inteira, e como se isso não +fosse bastante, sacrificaste-lhe ainda os teus mais ardentes affectos. +Jorge, não será o sacrificio superior ás tuas forças? + +Jorge baixou a cabeça sem responder. + +A estranheza causada pelas palavras do pae, tão differentes das que +esperava, perturbara-o a ponto de não saber o que dissesse. + +--Falla, Jorge--proseguiu o velho.--Vá, nunca viste em mim um +confidente, porque o meu caracter serio e reservado afugentava as tuas +expansões de criança; mas a doença quebrou-me e hoje posso escutar-te. +Tu soffres, Jorge, e soffres por minha causa, não é verdade? + +--Meu pae--dizia Jorge cada vez mais embaraçado. + +--Eu sei tudo. Sei do amor que se te formou no coração e que disputou o +teu pensamento aos projectos de rehabilitação que emprehendeste para +salvar esta casa da ruina que os nossos e eu lhe preparamos; sei da +tenacidade com que combateste esse amor, da coragem com que o +sacrificavas aos meus principios aristocraticos, apesar de vêres apenas +n'elles meros preconceitos de classe. + +--Creia, meu pae, que respeito as suas opiniões e que... + +--Ouve-me. Orgulho-me com o teu caracter; vi n'elle a nobre tempera de +um verdadeiro fidalgo e desde então creio devéras que a regeneração da +nossa casa, emprehendida por um homem como tu, não póde deixar de +realisar-se. Vou sem este pêso para a sepultura. Os meus erros +ser-me-hão relevados por o facto de te ter por filho. Tu rehabilitarás a +minha memoria. Jorge, o meu coração não tem já a dureza de outros +tempos, males de toda a especie acabaram de vencêl-o; agora é um coração +de homem. Por isso me é intoleravel a ideia do teu sacrificio. Se tu +participasses dos meus... preconceitos, era justo que lhes sacrificasses +todos os affectos; sentirias na satisfação interior a compensação do +sacrificio. Mas sacrificares-te só por meu respeito, sem teres a mesma +fé no objecto a que te sacrificas... n'isso não posso eu consentir. +Reunirei as minhas forças para subjugar alguns restos de vaidade que se +revoltem, e antes de morrer desviarei o unico obstaculo da tua +felicidade, dizendo-te: «Podes ser feliz, Jorge.» Além de que, tu és +nobre bastante para ennobreceres aquella que cingires ao coração e +ficares nobre ainda. + +Jorge percebeu o sentido das palavras do pae. Em extremo surprendido +pela inesperada condescendencia do homem que elie julgava incapaz de +transigir com taes ideias, era vez de deixar-se penetrar da alegria que +este successo parecia dever inspirar-lhe, disse com mal sustentada +serenidade: + +--Por muito doloroso que seja para mim o sacrificio de que falla, meu +pae, talvez seja mais ainda para si o que emprehende, querendo +dispensar-me d'elle. Creia, senhor, que eu não discuto a legitimidade +das suas opiniões, respeito-as; e a satisfação intima que me virá da +consciencia de as ter respeitado, será tambem para mim uma poderosa +compensação. + +--E a ella? Quem a compensará?--perguntou D. Luiz, com inflexão de dor. + +--A ella? É de Bertha que falla? Se eu não soubesse que aquella alma +nobre e forte está á altura do sacrificio, talvez me fallecesse a +coragem para tental-o. + +--É uma nobre alma devéras--tornou D. Luiz, como fallando para si.--E +quem a apreciará? A que destino a condemnaremos se a expulsarmos das +regiões para onde os seus nobres instinctos a chamam? Pobre d'ella! E +tu, tu que a amas, tens a certeza de poderes levar ao fim o sacrificio? +Não é certo que a tua saude já se tem resentido do esforço que fazes? Vê +bem, Jorge! Na tua idade os affectos são mais violentos do que na minha. +E comtudo eu proprio quero já tanto a essa rapariga, que sinto que estes +restos de vida que ainda possuo devo-os á sua presença. O que não será +comtigo? + +Jorge nunca previra a situação em que se achava. Havia imaginado a +possibilidade de ser levado pela força da sua paixão a uma lucta aberta +com os preconceitos paternos, e esforçara-se por evitar essa temerosa +crise. + +Esta era a menos provavel hypothese que antevira. Mas que fosse o pae +quem advogasse a causa do seu coração de rapaz contra as inflexiveis +exigencias da orgulhosa classe a que pertencia, nunca o podéra suppôr, +pois que não tinha seguido passo a passo as transformações que haviam +operado no caracter varonil d'aquelle velho a acção combinada da doença +e dos carinhos de Bertha. + +Por isso sentia-se agora irresoluto, sem saber se devia ceder ao coração +e ás insinuações do pae, se resistir em nome do dever, que elle chegára +a convencer-se oppôr-se á satisfação dos seus ardentes votos. + +Na hesitação do filho, D. Luiz julgou perceber que o orgulho +aristocratico penetrára já n'aquelle coração de vinte annos, e elle que +sabia por si as resistencias que esse orgulho gerava, assustou-se com a +apprehensão de ficar vencido pela obstinação do filho. + +Assustou-se, dizemos, porque o espirito do fidalgo estava completamente +subjugado. O egoismo da sua idade não podia já passar sem os carinhos de +filha. Não queria revelar-se inteiro e desejava que fosse a paixão do +filho que apparentemente explicasse a transigencia. + +Era ainda custoso ao seu orgulho ceder, mas já não tinha fortaleza para +resistir. Anciava por isso que Jorge lhe fornecesse o pretexto. Vendo-o +vacillar, tremeu já de encontrar um obstaculo insuperavel. + +Jorge pela sua parte era victima de um quasi estonteamento, que não lhe +deixava ainda vêr claro. Tão costumado estava a acreditar que +invenciveis resistencias se erguiam contra a mais ardente aspiração de +sua alma, que ao vêl-as removidas de subito, olhava em volta de si como +aguardando que surgissem outras em seu logar, e sem poder crêr que a +felicidade viesse collocar-se-lhe ao alcance da mão. + +D. Luiz insistiu: + +--Não, Jorge, não aceito o teu sacrificio. Estou para despir as vaidades +do mundo. Na outra vida, onde os primeiros são os ultimos, não me +perseguirão estas paixões mundanas. + +--A ter um de nós de luctar com uma paixão, para condescender com a do +outro, compete-me fazêl-o. Na minha idade é mais fácil tentar estas +luctas com exito. + +D. Luiz a custo reprimiu a sua impaciencia. + +--E ella? Jorge, lembra-te de que essa menina ama-te, e talvez não tenha +a força de alma que tu tens. + +--Seria para Bertha peior tormento magoal-o, meu pae. Sei-o da bôca +d'ella. Nunca aceitaria o seu sacrificio. + +D. Luiz fechou por momentos os olhos, como para concentrar o espirito; +depois disse quasi a medo: + +--Sacrificio! Maior sacrificio seria o meu se renunciasse a têl-a junto +de mim e a chamar-lhe filha. Não sei mesmo se para tanto me restam ainda +forças. Eu já não sou o homem forte que fui, Jorge. Quasi mereço +compaixão. + +Jorge estremeceu ao ouvir estas palavras. Como que raiou uma subita +claridade no seu espirito. + +--Que quer dizer, meu pae? Pois não é por meu respeito que insiste... + +--Queres obrigar-me a confessar toda a minha fraqueza, Jorge? Pois bem, +confessarei. Fazendo a tua felicidade, farás também a minha. O logar de +tua irmã só póde ser occupado por Bertha. Outra qualquer profanal-o-ia. + +Jorge d'esta vez não o deixou concluir. Cedendo á paixão que emfim se +expandia, pegou nas mãos descarnadas do pae e levando-as calorosamente +aos labios, exclamou: + +--Oh! obrigado, meu pae. É Deus que o inspira; é o espirito de minha +irmã que o aconselha. Obrigado. Agora sim, desanuvia-se-me o horizonte e +creio, creio deveras na felicidade. Triumpho! Obrigado, obrigado. + +E beijando-lhe mais uma vez a mão, correu para a porta chamando Bertha. + +Toda a familia e os amigos que tinham vindo para os Bacellos, ao saberem +do estado do velho fidalgo, achavam-se na sala immediata, aguardando +anciosos o termo da conferencia entre o pae e o filho e por ventura o +triste desenlace que havia muito se esperava. + +Quando se ouviu a voz de Jorge, todos julgaram que se havia realisado +emfim o acontecimento que se receiava, e correram para a porta. + +Jorge, quasi desorientado, foi ao encontro de Bertha, e conduzindo-a á +cabeceira do leito do doente, disse suffocado de contentamento: + +--Bertha, o nosso sacrificio é inutil. Meu pae não o aceita, e prefere +vêr-nos felizes. Ajoelha ao lado d'elle e beija a mão de teu pae. + +Bertha obedeceu banhada em lagrimas de commoção. + +A baroneza não reprimiu uma exclamação de alegria e de triumpho. + +Mauricio correu a abraçar Jorge. + +A Anna do Védor quasi levantou ao ar a boa Luiza, que temia acreditar no +que julgára entender nas palavras de Jorge. + +Sómente Thomé da Povoa ficou immovel e calado. Ao ouvir Jorge, ao ver a +filha ajoelhada junto do fidalgo e acariciada por elle, um clarão de +alegria passou no rosto do honrado lavrador e brilharam-lhe nos olhos as +lagrimas. Mas este relampago dissipou-se cedo e carregou-se-lhe o +semblante de tristeza. + +Assim que Jorge, procurando-o com os olhos, se dirigiu para elle, +estendendo-lhe os braços, Thomé afastou-o brandamente de si, +dizendo-lhe: + +--Custa-me desfazer essa alegria, senhor, essa alegria que me faz quasi +chorar, que é sincera da sua parte. Mas quanto mais cedo, melhor será. +Isto não póde ser. + +Todos fitaram estupefactos o fazendeiro. Ninguem esperára que a +resistencia se levantasse d'alli. Anna do Védor resmungou: + +--Temol-a travada! + +--Valha-nos Deus!--gemeu Luiza. + +Bertha fitou no pae os olhos ainda lacrimosos. + +A fronte de D. Luiz contrahiu-se de novo. + +--Que quer dizer com essas palavras, Thomé?--perguntou Jorge, emquanto +que Mauricio e a baroneza secundaram a pergunta com um olhar +interrogador. + +--Ha brios a que se não póde faltar--insistiu Thomé--ainda quando se nos +despedace o coração e o dos filhos. Que se diria de mim? Como +explicariam por ahi o meu proceder n'esta casa? Que pensaria alli o snr. +D. Luiz, que já uma vez me suspeitou de forjar intrigas infames e de ter +ambições indignas de um homem de bem? Creia no que lhe digo, snr. Jorge, +mais vale que sacrifiquemos todos um pouco das nossas affeições para não +termos desgostos maiores. + +--Que desgostos póde receiar, Thomé, quando eu lhe peço que me conceda a +mão de Bertha? + +--O snr. Jorge falla cego pela affeição que sente e é ella que não o +deixa vêr o que eu vejo. + +--Não seja obstinado, Thomé--disse a baroneza.--Bem vê que d'onde era +mais de esperar a resistencia, já ella cahiu. + +--V. exc.ª não fallaria assim se soubesse tudo. Ha dias, snr.ª baroneza, +n'esta mesma sala, vendo-me offendido no meu caracter, suspeitado de +tenções que nunca tive, e desesperado por não poder justificar-me, +porque de facto tudo se levantava contra mim, fiz um protesto que não +posso deixar de cumprir. Se lhe faltasse, eu proprio daria razão a quem +me chamasse, frente a frente, intriguista, falso, miseravel... + +D. Luiz atalhou, dizendo: + +--Protestou o Thomé da Povoa que se o casamento de sua filha com Jorge +dependesse do seu consentimento, elle o recusaria, ainda mesmo quando da +recusa se seguisse a morte para ambos; e que para o não recusar seria +necessario que eu, o pae de Jorge, o senhor da Casa Mourisca, o unico, +segundo o pensar do mundo, de quem deveria partir opposição a essa +alliança, pedisse a elle, Thomé da Povoa, como favor, esse +consentimento. + +Thomé fez um signal affirmativo, olhando para a baroneza, para Mauricio +e para Jorge como perguntando-lhes se a tão solemne protesto era +possivel faltar. + +--Pois bem--continuou o fidalgo, depois de uma curta pausa, e fechando +os olhos á imitação de quem se prepara a vencer um precipicio, cuja +vista o faz recuar.--Pois bem, sou eu quem peço a Thomé da Povoa... como +favor... que permitta que Bertha seja a esposa de meu filho. + +E ao acabar de dizer estas palavras tingiram-se-lhe as faces de uma +vermelhidão intensa. + +Thomé fixou os olhos no rosto do fidalgo e leu n'aquelles signaes a +revelação do esforço gigante que elle fizera para conseguir pronunciar +tão nobres e generosas palavras. + +Não estava no animo de Thomé resistir mais tempo. + +Correu para o leito, ajoelhou ao lado do doente, e pegando-lhe na mão, +exclamou, cortada a voz pelos soluços: + +--Snr. D. Luiz, v. exc.ª venceu. Digam o que quizerem. O meu orgulho não +dá para mais. Bertha, sê feliz... + +O pranto não o deixou concluir, a phrase perdeu-a soluçando sobre as +mãos do fidalgo. + +Não faltaram lagrimas e sorrisos aos que presenciavam a scena. + +Passada esta explosão de sentimento, Jorge, tomando a mão de Bertha, +disse para Thomé: + +--Aceito a felicidade que me offerece, Thomé, e prometto ser digno da +esposa que me confia. Mas á minha propria felicidade sou obrigado a +impôr condições, para que no futuro nenhuma nuvem a perturbe. A nossa +casa não está ainda, como sabe, livre dos encargos que por tanto tempo +pesaram sobre ella. As dificuldades principiam a aplanar-se e a +administração entrou no verdadeiro caminho. E ao seu auxilio e conselho +devo principalmente este resultado. O meu orgulho porém, visto que todos +aqui attendem a orgulhos, o meu orgulho exige que eu só por mim realise +esta obra que emprehendi, que á força do meu trabalho satisfaça os +compromissos contrahidos. Quando receber Bertha, quero recebêl-a em +minha casa, e que se não diga que foi ella quem me abriu as portas +fechadas pela miseria. Por isso esperarei até então para realisar a +minha felicidade. + +--Muito bem, Jorge!--exclamou o fidalgo, fulgurando-lhe o olhar de +alegria. + +--É justo--concordou Thomé.--Comprehendo esse desejo da sua parte, e +nada tenho a dizer contra. + +--Mais ainda--proseguiu Jorge--posso aceitar a esposa que me oferece, e +orgulhar-me d'ella e da alliança com a sua familia, que é honrada e +generosa, mas uma coisa ha que não posso aceitar sem humilhação. É a +parte que pertencer a Bertna da herança paterna. Não quero que se diga +que eu restaurei a minha casa á custa da sua. Até aqui ainda chegam os +meus preconceitos aristocraticos, devo confessal-o. + +--Bem, Jorge, muito bem!--bradou o fidalgo--quem pensa d'essa maneira e +assim procede, póde transmittir a sua nobreza, mas não a perde. + +--Eu porém é que não posso desherdar minha filha. Essa condição é +impossível--disse Thomé friamente. + +--A parte a que tiver direito cedo-a em favor de meus irmãos--disse +timidamente Bertha. + +--Teus irmãos não precisam da tua desistencia, Bertha. + +--Thomé--insistiu Jorge--sabe que o meu constante pensamento é manter ao +nome de minha familia o prestigio e o respeito que sempre teve na +provincia; não queira annullar os esforços que emprego para o conseguir. + +--E quer que eu lhe sacrifique a minha reputação? Que se dirá de mim? + +A baroneza, prevendo que as dificuldades cresciam, e que esta lucta de +sentimentos generosos poderia fazer surgir novos obstaculos, entreveio +dizendo: + +--As clausulas do contracto são uma circumstancia secundaria e que só na +presença de um tabellião se regulam. Eu por mim não posso aturar taes +discussões, sobre tudo se o noivo toma parte n'ellas. Olhem que frieza +de namorado! Deixemos isso tudo para depois. + +--Diz bem v. exc.ª--apoiou a Anna do Védor--o tudo é que elles casem, e +depois os homens que deslindem lá esse negocio do dinheiro como +quizerem. Mas sempre lhes digo que oiçam um advogado para não fazerem +tolices. Mas o fidalgo! O fidalgo é que sempre a deu em cheio! Sim +senhor! Nunca o esperei! Quem d'antes lhe fosse dizer... Mas bom foi e +verá como até nosso Senhor lhe ha de dar saude. E vossemecê, Luiza, que +diz a isto? Ande lá, que teve um sancto a pedir por si. Eu bem lhe +disse, mulher: cara alegre e confiança n'aquelle que está lá em cima. E +aqui para nós, talvez que a mim deva alguma coisa. E tu, rapariga? +Apesar de me engeitares o Clemente, olha que não te quero mal. Não +quero, porque eu se estivesse no teu logar, faria o mesmo. E o Thomé +ainda com o nariz torcido! Ó homem de Deus, vossê que mais quer? Sempre +a gente! louvado seja Deus! + +Mauricio aproximou-se de Anna sorrindo: + +--Já que vae correndo a roda, venha lá a minha ração. + +--Que queres que eu te diga? Cuidas que por estares casado me mereces +mais aquella? Olha agora! O que me admira é que houvesse quem te +quizesse. Perdoe-me a senhora, mas não lhe gabo o gosto. A seu tempo +conhecerá a joia. Lá aquillo é outro barro. + +E apontava para Jorge. + +Todos riram das francas observações da desenganada matrona. + +E emquanto D. Luiz conversava com Bertha, Jorge com Thomé, e Mauricio e +a baroneza com Luiza e Anna do Védor, assomou á porta a cabeça de frei +Januario, que ficou espantado de achar tanta gente reunida no quarto do +fidalgo. + +--Ha alguma novidade?--perguntou elle inquieto. + +Foi a Anna do Védor quem lhe respondeu: + +--Ha, sim senhor. E póde já preparar-se, porque não lhe faltará que +fazer qualquer dia. Case-me bem estes noivos, ouviu? + +O padre olhou espantado para os circumstantes. + +--Quê? Pois então?... + +--Estão vencidos os obstaculos--respondeu a baroneza á incompleta +pergunta. + +--Ah!--observou apenas o padre. + +E pensava comsigo: + +--Digam lá que não anda n'isto a maçonaria! + +O resto do dia passou-se pacificamente. D. Luiz dormiu com socego e deu +mais algumas esperanças aos que o rodeavam. + +Não havia alli coração que não encerrasse um fermento de felicidade. + + + + +CONCLUSÃO + + +Não se fez esperar muito o casamento ajustado á cabeceira do leito do +fidalgo da Casa Mourisca. + +Depois de vencida a importante demanda, que havia tanto tempo pesava +sobre a sua propriedade, Jorge achou-se mais desembaraçado na empreza a +que dedicara a juventude. + +Alienando algumas fazendas distantes, que serviam apenas de estorvo á +administração das outras, sem compensarem os sacrificios que exigiam, +acabando de desonerar de oppressivas hypothecas as que ainda definhavam +sob ellas, e entrando em uma via methodica e segura de melhoramentos, +habilitou-se em breve tempo a contrahir um emprestimo valioso no credito +predial, amortisavel em poucos annos; e com o capital obtido em tão +favoraveis condições e prudentemente administrado tinha quasi certa para +não longinquo futuro a completa realisação do seu constante e generoso +pensamento. + +O ennegrecido e triste solar da Casa Mourisca remoçou no dia em que o +moço proprietario d'elle pôde remir a sua ultima divida a particulares. +Esta foi a de Thomé da Povoa. + +O povo da aldeia viu de novo abrirem-se de par em par as janellas da +velha Casa Mourisca, limparem-se das hervas parasitas as longas avenidas +da quinta, erguerem-se do chão as estatuas derrubadas, jorrarem como em +outros tempos as aguas dos encanamentos desobstruidos, coroarem-se de +ameias as torres mutiladas, dourarem-se as columnas de talha da capella +do palacio, e ao vêr isto, o povo acreditou que iam voltar dias felizes +para aquella familia, sobre a qual pesara o jugo do infortunio. + +Espalhou-se voz e fama do muito que fizera Jorge para conseguir esta +restauração. + +Admirava-se e applaudia-se a energia e a sensatez do moço, que emendára +o desvario dos seus antecessores, commentavam-se os actos da sua vida de +rapaz, exaltavam-se as virtudes do seu caracter varonil, e a pouco e +pouco o espirito da lenda tomou posse d'esta individualidade e deu-lhe o +prestigioso colorido que assegura a immortalidade na tradição popular. + +Restaurada a Casa Mourisca e satisfeita a divida do Thomé, D. Luiz, a +quem os assiduos cuidados de Bertha tinham feito vencer a molestia que o +prostrára, voltou ao seu solar com solemnidade correspondente áquella +com que o deixára. Os instinctos dramaticos do seu caracter de fidalgo +assim o exigiam. + +Ao regressar á casa, que outra vez podia chamar sua, e encontrando-a sob +o aspecto de vida e festa havia tanto tempo perdido, D. Luiz commoveu-se +profundamente. + +A numerosa cohorte de criados e jornaleiros que vieram recebêl-o á porta +e saudal-o com enthusiasmo, fez-lhe recordar tempos passados e as +tradições feudaes de épocas volvidas, saudosas sempre para seu coração. + +Dias depois celebrava-se na capella da casa o casamento de Jorge e de +Bertha, com mais alegria do que pompa, com mais galas de sentimento do +que de festa. + +A baroneza e Mauricio vieram á aldeia para assistirem á solemnidade e +demoraram-se ainda algumas semanas n'ella. + +A boa Luiza desfazia-se em lagrimas de jubilo. Thomé da Povoa a custo +podia reprimir o contentamento que lhe trasbordava do coração. Os +esforços de Gabriella haviam conseguido que o contracto do casamento se +redigisse de modo que o pae e o noivo, fazendo cada um de seu lado meias +concessões, não ficassem humilhados por elle. + +A fidalguia da provincia torceu o nariz á alliança, e absteve-se de +tomar conhecimento do facto, que tambem lhe não foi participado. + +Com a tacita censura d'essa parentela augmentou a irritação e despeito +de D. Luiz, e impellido a reagir, deu mais um passo no terreno dos +principios democraticos. + +Os proprietarios, collegas de Thomé, fizeram entre si algumas reflexões +a respeito da finura d'este, convencidos de que elle desde muito visára +a este resultado, e prophetisando-lhe um baronato futuro. Mas nem o +retrahimento da nobreza, nem as murmurações dos lavradores perturbaram a +alegria das nupcias. + +D. Luiz recebia ainda uma impressão desagradavel ao vêr tão perto de si +Thomé e a boa Luiza; procurava porém minorar este desgosto contemplando +Bertha, que exercia sobre elle uma completa fascinação. Insistia sobre +tudo o fidalgo em que Bertha era uma rapariga de excepção, e que se +davam n'ella as qualidades que valeram em outros tempos a tantos plebeus +a honra de serem agremiados no seio da nobreza. + +Frei Januario, vendo bem provida a dispensa e a cozinha da Casa +Mourisca, julgou dever transigir com a nova ordem de coisas e +installou-se de novo no seu quarto, decidido a respeitar, conforme com +os modernos principios de diplomacia, os factos consummados. + +E annos de paz preparavam-se para aquella casa. + +Mauricio seguiu differente destino, em harmonia com as suas aspirações e +instinctos. + +Não se sentindo com tendencias para agricultor, vendeu a Jorge a parte +dos bens ruraes que lhe pertencia e voltou para Lisboa com a mulher. + +Decorrido pouco tempo encetava a sua carreira diplomatica, como addido á +embaixada de Vienna, e sob os melhores auspicios do futuro progresso. + +Gabriella não teve de arrepender-se do seu casamento. Se Mauricio não +era um modelo de maridos fieis, ella tinha a precisa philosophia para +desculpar-lhe as leviandades, e Mauricio intelligencia para apreciar a +generosidade e delicadeza da sua mulher, e adoral-a por isso e apesar de +tudo. + +A vida agitada e as successivas commoções das capitaes a ambos +agradaram; por isso ambos eram felizes. + +O contraste entre este viver e o de Jorge era completo. + +Jorge era o verdadeiro proprietario rural, repartindo os seus cuidados +entre a cultura e administração dos seus bens, e os affectos e direcção +de sua familia. Abandonára pouco e pouco os habitos de fidalguia, em que +fôra educado, e contrahiu outros puramente burguezes. + +A sua iniciativa, esclarecida pela intelligencia e mantida por uma forte +energia de caracter, apontava um exemplo salutar aos proprietarios +visinhos, que já se animavam a seguil-o. Graças a este exemplo, +terminavam muitos prejuizos, esqueciam praticas rotineiras, que ainda +hoje tolhem o progresso á nossa agricultura, aventuravam-se innovações +já abonadas pela experiencia de paizes mais cultos, e a que se oppõem +entre nós a ignorancia e a timidez que nasce d'ella. + +A vida inteira de Jorge era uma eloquente e severa lição para os +proprietarios ruraes, que, vivendo longe dos seus bens, consomem nos +desperdicios da côrte as magras rendas que elles, longe da solicitude do +dono, lhes concedem; deixam assim a pouco e pouco extenuar a terra e +definhar-se a propriedade nas mãos de caseiros ávidos, que não tendo o +futuro ligado a ella, a sacrificam ao bem do presente, que é o unico com +que podem contar. + +Assim aprendessem n'essa lição tantos que deveriam seguil-a, e talvez +que a riqueza do paiz se desentranhasse do sólo, onde ainda está +enclausurada, surgindo á luz para nos apresentar aos olhos de outras +nações dignas da nossa época e do tracto de terra que occupamos na +Europa. + +Pela sua parte, Jorge realisando na propriedade a encorporação do +capital, do trabalho e da intelligencia, e mostrando até que ponto essa +alliança é fecunda, podia bem dizer que havia cumprido a lenda da Casa +Mourisca. Fôra elle quem desenterrára do solo o thesouro escondido. + +Thomé era o primeiro a seguir Jorge nos seus melhoramentos e reformas. + +Nada mais temos a dizer. + +Fechamos aqui o quadro, acrescentando apenas que a energia da Anna do +Védor ainda não vergou ao pêso dos annos; que o filho d'esta mulher, o +bondoso Clemente, casou com uma válida e laboriosa rapariga do campo, +que promette continuar o exemplo da sogra. Emquanto aos senhores do +Cruzeiro, continuam a ser cada vez mais viciosos, e a achar-se mais +embaraçados em dividas e mais desprezados do povo. + +Os fidalgos da Casa Mourisca são, pelo contrario, hoje respeitados, +graças á energia e á honestidade do caracter de Jorge. + +O nome d'esta familia é dos que fica honrado na tradição pupular. + + +FIM + + + + + + +End of Project Gutenberg's Os fidalgos da Casa Mourisca, by Júlio Dinis + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA *** + +***** This file should be named 16428-8.txt or 16428-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/6/4/2/16428/ + +Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), +Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team +at https://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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