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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:48:23 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes + Agosto a Setembro de 1877 + +Author: Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz + +Release Date: July 6, 2005 [EBook #16214] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS: CHRONICA MENSAL *** + + + + +Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia +Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed +Proofreading Team + + + + + +[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS] + +RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ + +AS FARPAS + +CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES + +NOVA SERIE TOMO X + +Agosto a Setembro 1877 + + + + + +Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, +da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das +sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da +politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande +universo, e da adoração de mim mesmo. + +P. J. Proudhon + + + + +SUMMARIO + +Alexandre Herculano. O escriptor e o solitario de Valle de Lobos. A +critica dos vivos e a critica dos mortos. A benevolencia e a justiça. A +influencia que teve e a que podia ter o grande escriptor. A missão dos +mestres O monumento da imprensa.--A recente viagem de suas magestades e +altezas. No Bussaco, em Vidago, no Porto. Algumas notas aos annaes +d'essa excursão.--Os attentados do sr. Barros e Cunha e a historia +d'este personagem. O poeta lyrico, o deputado, o leitor do _Times_, o +cortesão, o ministro. Diagnostico e prognostico.--Algumas producções +musicaes: _As cutiladas do Passeio Publico_, polka; _A Roma! a Roma!_ +valsa.--Algumas palavras aos srs. advogados.--Os exames das meninas no +Lyceu Nacional. Os fins da educação. Um programma de ensino para o sexo +feminino. Como se prepara a emancipação da mulher. Duas catastrophes: o +estado da litteratura feminina e o estado da cosinha nacional. Grito +afflictivo do paiz: Menos odes e mais caldo. + +O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano +pertence ao dominio da posteridade desde as 10 horas da noite de hontem, +14 de setembro de 1877. + +Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade terão +de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na +terra, succedendo-se um ao outro no individuo d'aquelle nome. + +Um d'esses cidadãos é o historiador da nacionalidade portugueza e da +inquisição em Portugal, o romancista do _Monasticon_, o poeta da _Harpa +do Crente_, o profundo pensador, o sabio archeologo, o paciente erudito, +o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o +inimitavel mestre. + +O segundo dos cidadãos que passaram no mundo sob o nome de Alexandre +Herculano é simplesmente o illustre solitario de Valle de Lobos. + + * * * * * + +Extranha evolução d'um mesmo ser! Aquelle que na primeira metade da +existencia representa todas as vivas energias por meio das quaes o +espirito póde actuar no impulso d'uma civilisação e no aperfeiçoamento +d'uma sociedade, não é no segundo periodo da sua vida senão o objecto +passivo e inerte d'uma designação ascetica, imposta pela banalidade +rhethorica dos noticiarios--o _solitario illustre!_ + + * * * * * + +Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre +Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais +importante collecção dos modernos trabalhos litterarios--o _Panorama_; +enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem +o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com +o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se +denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco +dos romanticos de 1830, que elle sabia traçar com o garbo marcial +d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o +admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a +nova geração que vem despontando atraz d'elle; chama á peleja o partido +ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as +hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases +do moderno movimento intellectual, suggere novas idéas, novas +aspirações, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua +época por meio das fecundas agitações do espirito que acceleram nas +sociedades vivas a elaboração do progresso. + + * * * * * + +Como _illustre solitario de Valle de Lobos_, Herculano rescinde a +sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o +genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como +sendo elle mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande +universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmações da +sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras á sombra +projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inacção +em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o +prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o +seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade. + +O dia do nosso grande lucto nacional não é aquelle em que expirou o +solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o +vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da +multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida, +traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e +sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas, +aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e +sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão +de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a +divina verdade. + + * * * * * + +A isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico, +comprometteu o destino mental d'uma geração inteira. Pelo intenso poder +das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela +auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela +reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem +naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu +tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi +uma catastrophe para a geração moderna. + +Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse +alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral. + +Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz +firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a +expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes +enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna +deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma +prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa. + +A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades +ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um +tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por +cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de +batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria +da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram +o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e +patifes, com os seus pés miseraveis. + +A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os +socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é +impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a +cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez +d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a +chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se, +depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e +recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É +este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que +constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza. + +A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional +que a devia prender estreitamente á grande alma popular. + +A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar +e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos. + +Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre +Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do +movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado +importantemente o nosso estado social. + +Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes, +poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos--o +partido conservador e o partido revolucionario,--de cuja controversia +depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade +portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional. + +Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da +instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão +propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela +convivencia e pela cultura da historia. + +Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e +tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um tão +inteiro prestigio e d'uma tão completa e absoluta auctoridade. + +Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á +fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do +sentimento nacional. + + * * * * * + +Exercer essa alta direcção dos espiritos é nas sociedades modernas a +missão dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este +seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na força da +intelligencia e da vida o posto de honra a que chegára pelo esforço do +seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o +dotára. + +Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos, +todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever +social, viveram combatendo até á ultima hora e morreram com a penna na +mão. + +Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno +combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde +muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a +tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua +longa vida fôra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas, +de triumphos, das mais violentas commoções que podem opprimir e +dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito +de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle +todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa +pertinacia d'um só homem, tão debil e tão caduco que qualquer mulher +poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a França deve a +sua reconstituição politica e social, e a democracia a affirmação mais +poderosa e mais energica d'uma republica no coração da Europa. + +Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel +decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma +lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais +d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades +na conclusão da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu +similhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais +peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua +invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais +profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o +admiravel livro em que depõe com a ultima palavra o ultimo suspiro. + +Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento +d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para +todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as multiplas aptidões +cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades +dirigentes, não tem esse direito. + +A benevolencia devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos actos de +cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém +devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o +dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as +condições que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa +linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade. + +E é só assim que as gerações aprendem o que têem de agradecer e o que +têem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero +sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têem de +submetter-se aquelles que estão vivos. + +A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano +a quebrar as suas relações mentaes com a sociedade, é um importante +estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na +confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau +de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a +isolação d'Herculano não é um simples episodio biographico, é um facto +social, é um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza. + +O exemplo do _solitario de Valle de Lobos_ será profundamente nocivo, se +não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica. + +Todos aquelles que trabalham com dedicação e com honra, que se +consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela conclusão do +trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que +vêem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da +humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e +desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada +instante, á grande lucta da consciencia com as suggestões do egoismo, +com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o +desdem. É perigoso para os que teem ainda, no meio da dissolução geral +dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa +dedicação do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que é a vida +de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente +sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa +indifferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o +arduo e penoso rumo do dever. + + + * * * * * + + +Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o +fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua +admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um +monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que não +está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto. + +Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa +como um de seus membros, eis o que proporiamos. + + * * * * * + +A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua +_Historia de Portugal_, é possivel que houvesse já sido lida, mas, com +quanto escripta ha muitos annos, não foi por emquanto estudada. + +Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, d'analyse, de +deducção, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico +portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do +philosopho e na obra do artista:--a negação do milagre d'Ourique e das +côrtes de Lamego. + +O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo d'um +aspecto,--o aspecto das nossas superstições. + +As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da familia, +da patria interessaram-nos d'um modo tão mediocre que nunca nos +suggeriram uma idéa clara sobre qualquer d'esses phenomenos. + +De tão multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da +nossa vida civil, um unico nos commoveu até as mais intimas +profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou não +tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha, +e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado d'uma operação +estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos +do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus. + +Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da _Historia de +Portugal_ passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o +qual não teve ainda, até hoje, occasião de publicar um artigo +scientificamente fundamentado ácerca do papel do nosso primeiro +historiador na direcção dos estudos historicos e na comprehensão das +leis fundamentaes da nossa evolução social. + +A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a +publicação d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas +perante um grande escriptor é mostrar que o leram. Com relação a +Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que +desempenhar-se d'ella com tanta mais promptidão, quanto é certo que o +seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador +dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste +mortalha em que desceu envolto para o tumulo--a mortalha do desprezo. +Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos. + + + * * * * * + + +Annaes da viagem de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo +os telagrammas publicados por toda a imprensa e da acção civilisadora da +mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os alludidos documentos. + +CAPITULO I + +Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta +secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo +passeou matta. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta +companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel. + +CAPITULO II + +Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo encontrou interessante menino na +serra e afagou. Commoção todos visitantes que presencearam acto Anjo +afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram pé Fonte Fria. +Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo +medio. Jubilo povo augmenta progressivamente. + +CAPITULO III + +Bussaco... agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinoes gorgeando +secular floresta. Chamados á pressa para gorgear na balseira bauda de +infanteria 14 e cysne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por +Quatorze e por Cysne innarravel. + +CAPITULO IV + +Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo recusa licença a _touristes_ +comerem saborosos peixes ria d'Aveiro em secular floresta. Preciosos +Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos. +Jubilo povo augmenta. + +CAPITULO V + +Bussaco... d'agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir _touristes_ +petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. N'este mesmo +momento secular floresta saborosos peixes estão sendo comidos +_touristes_ com approvação d'Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio +meia hora e 16 1/2 segundos. Jubilo povo toca raias. + +CAPITULO VI + +Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo e suas altezas Preciosos +Penhores acabam de partir Porto, comboyo expresso. Anjo e Preciosos +Penhores não mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo +povo. + +CAPITULO VII + +Vidago... d'agosto. Sua magestade Excelso Soberano, acompanhado duas +phylarmonicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta +maiores eguas, chegou sem novidade real saude. Indiscriptivel jubilo +povo. + +CAPITULO VIII + +Vidago... d'Agosto. Excelso Soberano foi tomar aguas 10 horas. Voltou +tomar aguas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam +acto Excelso Soberano tomar aguas. Grande ardor geral pelas instituições +monarchicas e pela dynastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possivel +fôr. + +CAPITULO IX + +Vidago... d'agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois +rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces +pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca +zenith. + +CAPITULO X + +Vidago... d'agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado +phylarmonicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausencia +excelso soberano e real sequito, convertidos triste ermo. Jubilo povo +impossivel descrever palavras humanas. + +CAPITULO XI + +Porto... d'agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triumphal n'este Baluarte +liberdade sua magestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas +Louras Creanças. Jubilo povo de Baluarte e concelhos ruraes adjacentes +delirante. + +CAPITULO XII + +Porto... d'agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade +que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenetico. + +CAPITULO XIII + +Porto... d'agosto. Louras creanças passear Palacio Crystal. Anjo não +passeiar Palacio Crystal. Jubilo povo febril. + +CAPITULO XIV + +Porto... d'agosto. Anjo e Louras Creanças foram photographar-se ao +atelier Fritz. Duas innocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo +da Caridade. Anjo afagou. Circumstantes lagrimas em fio pelas faces. +Anjo e Louras Creanças retrataram-se em cinco posições differentes, que +são todas as posições de que é susceptivel o corpo humano, a saber: em +pé, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo +vertiginoso. + +CAPITULO XV + +Porto... d'agosto. A este Baluarte liberdades patrias acaba chegar +augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse +Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos +defensores Baluarte ás janellas. Jubilo povo epileptico. + +CAPITULO XVI + +Porto... d'agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico +Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triumphal. Rapazes +precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo, +vendo rapazes exposição joelhos carruagem descoberta, inultrapassavel. + +CAPITULO XVII + +Porto... d'agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras +Creanças regressam hoje comboyo expresso a Lisboa. Governador civil, +bispo, senhoras, beijar mão Neto, Anjo, Louras Creanças. Derradeiro +adeus estação. Baluarte liberdade sem Louras Creanças, Anjo e Neto, +medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana. + + +NOTAS + + +AOS ANNAES DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS + +A + +_Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc._ +Informações subsequentes ministradas aos jornaes pelo _Banhista de Luso_ +explicam a materia do capitulo que principia pelas palavras acima +reproduzidas. + +Os _touristes_ a quem foi denegada licença para celebrarem um _pic-nic_ +dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua +magestade que se dignasse conferir-lhes a permissão de comerem os peixes +que tinham pescado para o _pic-nic_, não já dentro, mas sim fóra da +matta. + +Foi a este segundo requerimento, attendendo ás supplicas dos _touristes_ +e ao estado em que começavam a achar-se os peixes, que sua magestade se +dignou de deferir de um modo inteiramente amavel e munificente. + +O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porém +immersos na mais acerba incerteza ácerca dos pontos da superficie solida +do reino em que nos é licito comermos peixe sem invadirmos as +residencias de suas magestades. + +Porque, desde o momento em que não só as grandes serras mas tambem as +bacias dos valles adjacentes se consideram, pela jurisprudencia invocada +no Bussaco, como dependencias dos aposentos da real familia, ficamos +perplexos sobre se o safio que pescámos esta manhã no logar do Bico na +praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este +facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos +nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a +solução d'este problema: + +Dado um safio pescado á linha na ponta do Bico na praia da Cruz +Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependencia geologica do Paço de +Queluz pelo valle da ribeira do Jamor, e do Paço da Ajuda pelas +quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro +lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas +de cebola e tomate, com o competente fio d'azeite e o devido pimentão; +tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas +vezes sem se destapar o tacho; + +Pergunta-se: + +Se podemos passar a comer o safio, collocados na dita latitude da Cruz +Quebrada, entre os reaes paços de Queluz e da Ajuda, sem por esse acto +faltarmos ao respeito devido á inviolabilidade das montanhas, dos valles +e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir. + +Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas +reaes ordens, que o sr. Barros e Cunha, encarregado juntamente com o sr. +Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua magestade, +queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou não ao numero +d'aquelles que s. ex.ª se acha mobilando para recreio de suas magestades +em collaboração com o seu socio nas reformas do ministerio das obras +publicas o sr. estofador Alcobia. + +O melhor talvez--permittam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta +ideia--seria, para não estafar muito o ministerio de suas excellencias +com o despacho de repetidas petições do caracter da nossa, que suas +excellencias assignalem com marcos geodesicos as regiões que vão ser +forradas de papel para aposentos reaes, e que n'esses postes se +especifique com os devidos letreiros: _Aqui se pode comer o saboroso +peixe_ ou _Aqui o saboroso peixe se não pode comer_. + +E o paiz todo beijará reconhecido a mão energica dos srs. conselheiros +da coroa Alcobia e Barros e Cunha! + +B + +_Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte +liberdade em exposição triumphal._ Correspondencias minuciosas explicam +detidamente o episodio narrado n'este capitulo. + +El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios, +dois rapazes que se ajoelhavam por occasião da passagem de sua +magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulação tão +vigorosa manifestada em annos tão verdes, indagou-se uma tal affirmação +de subserviencia procedia de preleções previas dadas por algum aulico +ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois +adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais +pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de tão +honrosas informações, levar comsigo os dois esperançosos jovens e +encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram +em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e +precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. Não sabemos +se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como +deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos +referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo +asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago. + +Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei ácerca +dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagações, porque é +de saber que os rapazes de joelhos não apparecem unicamente a sua +magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e +de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se +encontrou com o commovente quadro, não deixando nunca de o saudar com +um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos +se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de enthusiasmo. +E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz: + +--Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum +de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o +lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola, +seus sicarios?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de +Jesus Christo?! _Nosso Senhor tambem pediu_!!... Em que escola +aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?... O que tu merecias é que +eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a +blasphemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses +tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua +confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de +trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser +homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio +como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande +obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a +fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem +e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas, +conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa +cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como +qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo +a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo, +dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com elle +fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela +mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da +mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se +reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem +pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus +te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a +pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do +trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por +sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu +és indigno da tua gerarchia d'homem e não passas de uma besta sordida e +immunda. + +Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos +rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes +praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho +cerrado e os bicos dos nossos sapatos--de tres solas repregados de +terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de +moscardos--concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos +rapazes onde era a escola. + +Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que +apparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola. + +Os paes não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade, +habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a +serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis, +rasteiros, malevolos, vingativos, mandriões e covardes. + +São elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de +ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento +successivo das cadeias e dos hospitaes. + +Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses +embriões do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus pés, outros +pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos, +uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a metter o pão ao +forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as +medas ou a debulhar o milho. + +Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos +dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos +chamar:--o premio Monthyon da malandrice. + + + * * * * * + + +Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo +acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro +da corôa, o sr. Barros e Cunha. + +Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas +respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como +phenomenos normaes em um regimen em dissolução destinado a acabar um +pouco mais tarde ou um pouco mais cedo. + +Quando porém a acção do poder exorbita da mancommunação ministerial, da +intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esphera +do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos +inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo +desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição +com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de +Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funccionario delinquente. + + * * * * * + +Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a physionomia do personagem +antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos. + +Antigo poeta lyrico de inspiração canalisada pelos jornaes poeticos e +pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando +a carreira poetica, foi enviado na idade madura á camara dos deputados +na qualidade de leitor do _Times_ por um circulo do reino em que se não +sabia inglez. + +Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi +declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da +camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde +tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em +a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um +determinado numero de sons articulados sem connexão logica, sem forma +litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes +sons reunidos constituem a collecção dos discursos parlamentares de s. +ex.ª. + +Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das ultimas +legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferença bocejante +da camara e da galeria, folhear os numeros do _Times_ collocados sobre a +sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as +palavras n'um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal, +como a de quem falla por um nariz de assucar. + +No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas +partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para +acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo +roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer +signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em +seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo +irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de duvida ou +incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar +os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos +passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de +beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó +do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha, +carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impellida adeante +das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por +todas as carroças, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto, +lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas +ripes e produzida em publico por s. ex.ª, n'uma exposição solemne, ao +fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra. + +Estas fallas eram acompanhadas por s. ex.ª com variados gestos +carinhosos e piegas: já de quem amamenta as methaphoras que tem ao +colo, já de quem acaricia e afaga buliçosos tropos adjacentes, já de +quem com o bico do lapis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar +no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa +adormecida. + +Elle no entanto sorria de quando em quando, ironico e triumphal, +circumgirando pela sala no fim de cada periodo um olhar destinado a +indicar ao auditorio que dentro do seu pequenino craneo a malicia de +Bertholdinho se achava alliada á finura de Polycarpo Banana. + +Uma vez pelo menos em cada um d'esses discursos, quando o orador +parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu lenço branco e batia +com os nós dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo d'agua, +vozes de deputados repentinamente extremunhados applaudiam-o. O que não +consta é que ninguem se lembrasse nunca de o contrariar. + + * * * * * + +Cahido o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquez d'Avila para formar +novo ministerio, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de +«caracter conciliador.» Deputado ás cortes em successivas legislaturas, +tendo a palavra em quasi todas as sessões, tão vigorosamente havia +servido a causa ecletica da banalidade que não conseguira crear um unico +adversario. Taes foram os titulos que levaram s. ex. aos conselhos da +corôa. + +Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do +commercio e da industria, s. ex.ª para quem a industria, o commercio, as +obras, eram outros tantos porticos inaccessiveis, envoltos nas trevas +mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse á +popularidade sem o intrometter na gerencia e na direcção dos negocios. + +Para esse fim s. ex.ª começou a passear as ruas de Lisboa montado na +imagem rhetorica em que Napoleão nos apparece nos discursos do sr. +Manuel da Assumpção. Aos sabbados s. ex.ª tomava o caminho de ferro e +dirigia-se em carruagem salão a todos os pontos da provincia em que +houvesse uma fabrica, uma officina, um monumento publico para que olhar, +e uma phylarmonica para o ir esperar á _gare_. + +No desempenho d'esta primeira parte do seu programma s. ex.ª foi de uma +actividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavallo, anoitecia +a cavallo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um +momento--tambem a cavallo. Estes exercicios de gineta amestraram o +cavallo de s. ex.ª até o ponto de poder elle proprio ser ministro--em +liberdade. + +Nas suas digressões pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o +zelo de s. ex.ª pelos principios do seu programma administrativo não +conhecia limites. Eis uma amostra do caracter d'essas viagens +hebdomadarias: + +S. ex.ª chega a Thomar pelo trem do correio ás 12 horas 45 m. da tarde. +Uma phylarmonica espera-o na estação de Payalvo e acompanha-o ao som do +hymno da carta até casa do sr. conde de Thomar. Ás duas horas da +madrugada s. ex.ª ceia e levanta tres brindes a Thomar, á real familia e +á carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex.ª nos aposentos que +lhe estavam reservados e leitura do _Times_ até ás 5 horas 30 minutos. +A's 5 horas 31 minutos s. ex.ª descalça metade das botas e repousa um +momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os eccos do +hymno da carta. A's 6 horas, convergencia das forças musculares de s. +ex.ª sobre os puchadores das suas botas e pedido d'agua morna para a +barba de s. ex.ª A's 7 horas, sabida de s. ex.ª dos aposentos que lhe +estavam reservados, presença de s. ex.ª no terraço da casa e aspersão +dos raios visuaes de s. ex.ª sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas +recepção da camara municipal e dos tres ou quatro maiores contribuintes. +A's 9 horas almoço com brindes de s. ex.ª á carta, a Thomar e á real +familia. A's 10 horas ida para a fabrica de fiação. As' 12 horas lunch +na fabrica e brindes de s. ex.ª á real familia, a Thomar e á carta. A' 1 +hora da tarde volta para Thomar, jantar e brindes de s. ex.ª á carta, á +real familia e a Thomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno +pela phylarmonica na estação de Payalvo e regresso de s. ex.ª á capital. + + * * * * * + +Uma vez por semana, ás quintas feiras, s. ex.ª acompanhava os seus +collegas ao Paço. Tendo mostrado sobre o chouto da allegoria do sr. +Manuel da Assumpção que possuia uns rins de bronze; tendo provado nas +digestões accumuladas das mayonaises do sr. conde de Thomar e dos +pudings da fabrica de fiação que era dotado de um estomago d'aço, s. +ex.ª aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a côrte, +de que reune a esses dotes anathomicos a feliz particularidade de uma +espinha de cebo. + +Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posição +vertical de s. ex.ª dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de +35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex.ª deprimia-se +progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma +concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava então para outra +parte a fim de que os tecidos democraticos do seu secretario de estado +não acabassem de derreter, deixando nos degraus do throno, como despojo +de quanto representara no Paço o departamento das obras publicas, um +fardamento, uma calva e uma nodoa. + +Impedido de fundir, s. ex.ª procura manifestar por outros actos o ardor +do seu zelo como novo aulico. + +Para esse fim atropela as disposições legislativas que regulavam o +arrendamento das casas do Bussaco entregues á administração geral das +mattas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatarios, +expulsa as familias que habitavam o convento, e offerece este a sua +magestade a rainha para ella passar a estação calmosa--nas casas dos +outros. + +Desde o tempo dos antigos aposentadores móres, que precediam os reis +absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas occupadas por seus +donos para n'ellas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer +reviver para lisongear os reis um dos mais oppressivos privilegios +monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os +mais atrevidos e insolentes mandões não ousaram jámais ultrajar por tal +modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr. +Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no paço tão +passivamente e tão irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana, +acocorado a um canto n'uma prostração burlesca, bolindo automaticamente +com a cabeça e deitando a lingua de fora ou mettendo-a para dentro, +segundo leva ou não leva da real mão um piparote na nuca. + +Para bajular el-rei como bajulára a rainha o mandarim sr. João Gualberto +determina que obras extraordinarias se façam na estrada de Vidago e +manda abonar por conta do ministerio das obras publicas salarios na +importancia exorbitante de 1$200 réis por dia aos operarios empregados +em um dos lanços da estrada alludida. + + * * * * * + +Estes factos porém, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de +cortezão, não o definiam sufficientemente pelo seu lado de ministro. Os +conselheiros de s. ex.ª tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora +algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria, +e s. ex.ª principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi então que +no _Diario do Governo_ appareceu o documento que nos propomos analysar e +começamos por transcrever: + +«Sua magestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao +contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo director das +obras da penitenciaria central de Lisboa com João Burnay, para +fornecimento de ferros para as obras d'aquelle estabelecimento, +considerando: + +«1.° Que esse contrato se encontra viciado; + +«2.° Que n'elle se não observou o que dispõe o artigo 10.° do +regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862; + +«3.° Que não se abriu praça nem se fez deposito algum, conforme dispõe +a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condições geraes de +empreitadas das obras publicas de 8 de março de 1861; + +«4.° Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu +adiantadamente na importancia de 88.889$312 réis, falta a approvação do +governo, segundo o disposto no artigo 2.° das mesmas clausulas e +condições geraes e da circular de 15 de maio de 1862: + +«Ha por bem ordenar que se dê por findo e terminado o dito contrato, +procedendo-se á liquidação dos artigos já fornecidos ou em deposito, +observando-se de futuro todas as prescripções em vigor n'este ministerio +para quaesquer contratos em que elle tenha de interferir. + +«O que, pela secretaria de estado dos negocios das obras publicas, +commercio e industria, se communica ao director das obras publicas do +districto de Lisboa, para os devidos effeitos, em referencia ao seu +officio datado de 26 de junho ultimo. + +«Paço, em 3 de julho de 1877.--_João Gualberto de Barros e Cunha._ + +«Para o director das obras publicas do districto de Lisboa». + + * * * * * + +Por esta portaria rescinde-se sem mais appellação nem aggravo um +contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o +governo. Ora o governo não é um poder pessoal, de caracter intermitente +ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e +Cunha. O governo é uma entidade impessoal e constante. + +O sr. Barros e Cunha é obrigado como ministro a manter todos os +contractos feitos pelo seu ministerio, porque em quanto ministro o sr. +Barros e Cunha não é um individuo, é o governo. O governo fez um +contracto com o sr. Burnay, esse contracto acha-se em execução, o +governo porem resolve por sua propria auctoridade rescindir o mesmo +contracto, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos +juridicos se annulla, sem mais formalidade que a publicação de uma +portaria, um contracto de similhante natureza: + +O sr. Barros e Cunha allega em primeiro logar: + +_Que o contracto se acha viciado_. A isto responde o engenheiro +constructor da Penitenciaria e signatario do contracto por parte do +governo que a viciação allegada consiste em se haver alterado a data em +que o sr. Burnay se compromette a concluir os seus trabalhos, mudando-se +os numeros 1877 em 1876. O resultado d'esta viciação era collocar o sr. +Burnay sob a acção de uma multa por não ter concluido a sua obra no +praso prefixo. É evidente que não podia ser o sr. Burnay que viciasse o +contracto raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por +outro que o prejudica. + +A viciação do contracto é por tanto um facto necessariamente alheio á +intervenção do sr. Burnay. + +A legislação invocada nos considerandos 2.° e 3.°, não tem cabimento, +porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem +os casos em que _a concorrencia possa prejudicar a rapidez ou a +perfeição do trabalho_ e em que o _deposito póde ser substituido por +fiança ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro_. E ambos +estes principios são reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual +contractou elle mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicação +d'esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito. + +As affirmações contidas no considerando n.° 4, são puramente falsas, +como já declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta +da approvação do governo é uma mentira e o adiantamento de 88:886$312 +réis é uma calumnia. + +Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante +deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de não haverem +sido satisfeitas essas clausulas póde caber ao fabricante, ao fornecedor +ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que +fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse elle quem a si +mesmo se obrigasse ao deposito? Se não se cumpriram as formalidades a +que a portaria se refere, a culpa é unicamente do governo. Como é pois +que o governo rescinde um contracto por um facto cuja culpa é d'elle e +não do individuo com quem elle contractou? + +Podem aquelles que tem negocios com o governo ficar sujeitos a +similhante arbitrio? + +Póde o governo annullar assim um contracto em que se acham envolvidos +interesses avultados d'aquelle com quem é feito unicamente porque o +governo diz reconhecer que não contractou nos termos em que devia ter +contractado? + +Foi approximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relação +ao contracto do Passeio Publico. A camara rescindiu o contracto, mas o +governo dissolveu a camara. Quem é que ha de dissolver o governo reu de +delicto egual ao da camara? + +Em vista de um tão flagrante attentado contra os seus interesses +industriaes, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a +portaria alludida é cheia de vagas insinuações insultantes e injuriosas +apesar de cobardemente rebuçadas, o sr. João Burnay representou ao +governo requerendo que se lhe dê vista do processo em que é ao mesmo +tempo accusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os +fiscaes da corôa e da fazenda. O sr. Barros e Cunha não despachou esta +petição e manteve os effeitos da sua portaria absurda, falsa, +calumniosa, e infamante. + +É a isto que nós chamamos o mais violento dos attentados perpetrado pelo +arbitrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos +cidadãos. + + * * * * * + +O sr. Barros e Cunha é um criminoso diante do codigo e diante da carta. + +A carta torna-o responsavel no artigo 103 por tres delictos que +commetteu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do +poder, por falta de observancia da lei, e pelo que obrou contra a +liberdade e contra a propriedade de um cidadão. + +Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil +reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,--contra o +direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359). + +A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle +não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que +elle não recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa +calumnia sob a acção do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte: + +«A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue +o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de +submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes são a reparação +do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil +consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da +omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de +satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.» + +Um só caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da +responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que +perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demencia. + + * * * * * + +Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal offensa +não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios +simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de +primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente +cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador +elle é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portugueza. +Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como elle em volta de si +pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão +preciosa actividade. É o proprietario e o chefe de uma grande officina +modelo do seu genero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os +elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns +centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisação se +lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e +mais benemeritos, porque é por meio da iniciativa de homens como elle +que os estados se moralisam e se enriquecem. + +Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é +impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas +aspirações--a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga +constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não +exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o +exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo +coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para +outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando +governa. + + * * * * * + +Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o +producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste +maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos +offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As +suas faculdades não lhe permittirão defender-se. + +D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e +deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um +trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto, +mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que +nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em +pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais +violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais +explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo +condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha +de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada +feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,--de jacaré. A +logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de +ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria +ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de +ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A +pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com +tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e +baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas +de zabumba em theatro de feira. + +E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se +destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr. +Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão +util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de +ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas, +commercio e industria. + +Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser +modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o +para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa. + +Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é +mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso +anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem +desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do +seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros +extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a +elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser, +por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido +sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de +s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como +um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir +precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista. + +A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para +ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão +preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda +tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos +coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a +piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento +das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as +forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos +mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas +satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria +querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem. + +Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o +desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a, +não fizeram senão prejudical-a. + +Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A +differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é +o mesmo. + + + * * * * * + + +O registo das producções musicaes portuguezas foi enriquecido durante o +periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas +mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a +attenção que lhe é devida. + + * * * * * + +_As Cutiladas do Passeio Publico_ é o titulo de uma polka refutativa dos +principios estheticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar +as fontes da inspiração artística. + +Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra d'arte, a +orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os +aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova força geradora:--a +força da pancadaria. + +Na occasião em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o +fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles +são os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido +passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão +juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a +policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas +respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas. + +Á saida do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que +acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes +que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres +policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta +conjunctura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o +quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por +onde é que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta +essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as +suas familias com o ardôr bellicoso de um exercito encarregado da +transformar o paiz n'uma almondega. + +Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem +clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles +regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com +vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força +publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas +com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de +cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca. +Finalmente alguns bons socos applicados com arte não deixariam de fazer +render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliação amigavel. + +As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem +insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos +canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a +suas casas pedindo ás furias punição para os algozes e arnica para as +victimas. + +Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforço +popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de +polka. + +Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja +propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos +e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que +o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão +legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo +o caso em musica e em dansa de roda! + +Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos +ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco +rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques, +simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio +soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus +actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas +pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no +presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e +tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado +uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa, +todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com +o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era +nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra! + +Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o +chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada +mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á +primeira! + +Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora, +cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram! + +Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que +não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos, +que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas +sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas +tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a +arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e +terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens +delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te +philarmonica. Substituiste a força da união pela _União e Capricho_. +Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase _levar para o +tabaco_ ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula--_levar para a +musica_. + +Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o +costume, despicaste-te com uma polka especial. + +As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam +indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos +santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração +de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da +Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas +que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a +expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões. +Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas +essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes +campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do +habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a +semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua +polka brilhante, _As cutiladas do Passeio Publico!_ + +O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te +appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os +instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a +vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros +democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de +clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da +tyrannia a vindicta dos povos. + +Emquanto á dignidade humana... lalarilolé... e emquanto á liberdade, +ao direito e á civilisação... lariléliló... que nos importa isso?... +Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é +panno adesivado...lólaró... e fios... trolarilolé! + +Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da +terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o _sol... e dó!_ + + * * * * * + +O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no theatro da Trindade uma +operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a +partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a +peça fóra da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir +ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo--_Vamos a +ellas_! + +Quem são _ellas? Ellas_, na bocca, no pensamento, na intenção do sr. +Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas. + +Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hypotheses que esse +perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem offensa do grave +caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que _ellas_ +não sejam as missas para serem qualquer outra coisa. + +Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para +as missas que nós somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica +interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua +Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao +seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu +spartito em punho, fosse directamente com a sua batina--para a sacristia +das Mercês. + + * * * * * + +_A Roma! a Roma!_ é o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo +periodico religioso _A Nação_, e destinada a servir os mesmos designios +piedosos que levaram o sr. Conceição Borges _a ellas! a ellas!_ + +Nada mais commodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da +penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada +comprehensão dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para +Deus não pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do +cotillon é um dos mais notaveis serviços que a arte podia prestar á +alliança da religião e do _chic_. + +Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vae revolucionar +completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno +inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos: + +--Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da +impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa? + +E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo +os olhos ao céu. + +--Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada. + +E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares +deslisando em gyros ondulantes sobre os _parquets_ polidos, cingindo com +o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na +mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que +chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença +exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas +pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados, +e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E +conversaremos: + +--Como a religião é boa! como é ineffavel!... Eu sinto a voz do meu +coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma! + +--E começa a ter crenças? + +--Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delirio!... +Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!... +Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu, +meu anjo da guarda!... + +--Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua +indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja +uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo +Pontifice, não acredita? + +--Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu +coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate! +Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os +seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos +Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o +mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na +disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro +perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que +blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes... + +--Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que +nos seguem... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa! + +--Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma +joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da +cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoço... + +--Deus do céu! + +--Entre a costelleta e a omelette... + +--Virgem Maria! + +--Misturada com vinho de Pauillac... + +--Santos e Santas da côrte celeste! + +--Em partes eguaes, metade vinho, metade agua... + +--Mas vae para o inferno essa alma! + +--Está claro que sim. E é bem feito! + +--Se não houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir. + +--Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por +todos os seculos dos seculos sem fim não é uma chimera. Hão-de +amargal-as, que ha de ser um consolo--para nós! + +--Amen! Amen, Jesus Maria José! + +Assim conversarão elles e ellas durante a piedosa valsa _A Roma! a +Roma_! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-hão +ao empyreo, e irão pela via lactea fóra, sempre valsando, a demandarem a +entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das +nossas soirées ao divino. + + + * * * * * + + +Aos srs. advogados + +Meus caros senhores.--Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para +onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte. +Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oiço-o +mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle +ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a +pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração d'elle é perfumada com o +aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os predios +da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e--coisa que lhe +perguntei antes de o vir habitar--não toca piano. + +De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no +cajado que nos está ouvindo áquelle canto, accendo um charuto e saio de +cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas. + +Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preço de meio alqueire +de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o +metter ao forno e de o trazer ás costas para casa, d'ahi a dez minutos, +embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no +meu varapau. + +Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas +velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas +adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha. + +Tenho tambem relações nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros +obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao +postiguinho, e conversam para baixo comigo ácerca do vento provavel +para o outro dia. + +É n'estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido +os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes +regras. + + * * * * * + +Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no +mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, não ha +familia que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos +srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do +machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo, +elle, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer +como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vae ao +advogado para que este o illucide. + +Os principios geraes da organisação social que nenhum cidadão devia +ignorar n'um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o +mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo, +especialmenie, não tem idéa alguma das attribuições dos poderes a que +elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se +chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambiguo o +que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão +da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho +do districto, a commissão do recenseamento, o delegado de saude, a +policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o +desgraçado se acha sob a acção de uma d'essas formas porque lhe apparece +o principio da auctoridade, recorre ao letrado. + +--Cá está comnosco a justiça! diz elle á mulher ao receber qualquer +papel official. + +--Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas +nos olhos, atando as mãos na cabeça. + +--Má raios partam a justiça e mais aquelle que a inventou, que se o +apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e +tinha alma de lhe beber o sangue! + +Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover +a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um +filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na +administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas +pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de +fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o pé de meia +com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo +para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são tambem os +mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais +pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco +tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e +custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para +as primeiras despesas, e custa vinte mil réis. + +Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu +emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o +letrado é para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o +medico. Com uma differença: Todos os medicos teem uma hora por dia em +que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não teem +egual caridade com os ignorantes pobres. Além do soccorro +desinteressado de todos os medicos, os doentes têem ainda o banco dos +hospitaes. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é +inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza não +ensina aos cidadãos quaes são os seus direitos nem quaes os meios de +defesa perante a violação d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito +maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doença. +O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com +dobrada rasão ter consultorios egualmente gratuitos para a justiça. Os +advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os medicos +para prestar á sociedade na maxima amplitude os serviço desinteressados +que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe, +por tantos outros titulos respeitavel, uma idéa bem triste. + +Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orphão e da viuva, o que +nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que opprimem a viuva e +os que tyrannisam o orphão. + +Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os +defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa +contraria. + +Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam +com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, são +conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço +que deseja pagar. + +Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a +punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a _commoção que +se apodera do proprio orador_, o desfallecimento, a syncope, etc. + +O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao +espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a +tabella dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga +mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se +esclarece senão á noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o +réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a +cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de +defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse +selvagem (apontando para o réu) estava bebado.» Assim se justificava o +crime de um homem que não tinha pago as circumstancias attenuantes ao +defensor. + + * * * * * + +Não será util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados +restrinjam o campo, que offereccem ás correrias do epigramma, +introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não +poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois +por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece +lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s. +ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio. + + + * * * * * + + +Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco +mais ou menos do teor seguinte: + + * * * * * + +«Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma, +directora do bem conhecido e acreditado collegio de _Nossa Senhora da +Santíssima Purificação,_ rua de tal, numero tal, quarto andar, lado +esquerdo. Foi hontem examinada em instrucção primaria e approvada com +dez valores, no lyceu nacional, a menina Elvira Fernandes, alumna do +referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da +jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos +carinhos dos examinadores de sua debil e tímida menina, a todos +consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.» + + * * * * * + +A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu +nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos +collegios de Lisboa. + +A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas +as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas +classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás +_réclames_ das suas distribuições de premios. + +Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para +o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá +egual exito com relação á lingua ingleza. + +O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo +dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e +recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita +professora _dá-a por prompta_ para entrar na sociedade mais escolhida. +Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D. +Jeronyma, _as prendas de mãos proprias do seu sexo_. Estas prendas +consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de +uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga, +com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre +um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a +data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de +bastardinho, egualmente a canotilho de ouro: + +_Elvira Fernandez me fecit._ + + * * * * * + +Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das +quaes aprendeu precisamente o indispensavel para _escapar_, caindo-lhe +um thema facil e um examinador _carinhoso_, como muito bem dizia +Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas +porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma +palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os +conhecimentos theoricos da formação das palavras. + +Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a _Prière d'une vierge_ ou +_Les cloches du village_, e de continuar a bordar em seda ou em casimira +os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas +almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das +poltronas. + +Polycarpo reconhecerá então--demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai +d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»--que D. Elvira possue, no +estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo +quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que +versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a +sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como +esposa, e finalmente como mãe. + + * * * * * + +De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem +absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de +vista pedagogico, são uma ostentação ridicula, offendem o bom gosto, +desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo, +incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ella é +chamada na familia. + + * * * * * + +Entendemos portanto que--desde o momento em que Fernandes é bastante +obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua +filha, e não só não protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma, +mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,--ao +Estado cumpre intervir; não se tornar solidario das illusões de +Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D. +Jeronyma o direito de a levarem a exame. + + * * * * * + +_Levar a exame_! Só a palavra é um ultrage +da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo +do direito paterno tudo quanto ha mais delicado, +mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se--o +espirito virginal de uma menina,--ao +interrogatorio official de um mestre que durante +vinte minutos vae exercer sobre aquella +alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um +tal inquerito, um tal julgamento, póde ser desculpavel +na educação de um rapaz, para quem +o exame é uma habilitação legal para a sua carreira +civil; na educação de uma menina portugueza +similhante prova é inadmissivel e equivale +a uma amputação do decoro. + +Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas +a uma creança para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma +mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a +tornar mais educada. + +Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrucção +primaria e de instrucção secundaria para todas as pessoas do sexo +feminino que não juntem ao requerimento de matricula attestado de +maioridade e de emancipação legal. + + * * * * * + +Em um exame de instrucção primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este +dialogo: + +_O examinador_--Que faz a menina quando se vae deitar? + +_A examinanda_--Quando me vou deitar... + +_O examinador_--Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga. + +_A examinanda_(córando até á raiz do cabello e baixando os +olhos)--Quando me vou deitar... dispo-me. + +_O examinador_--E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir +o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?... O que faz +depois de se despir? + +_A examinanda_--Tenho vergonha... + +_O examinador_--Não tenha vergonha. Responda para diante! + +_A examinanda_--Depois de me despir o que eu faço é... + +E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo, +com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco +annos, n'essa lingua que os homens só fallam ás suas mães na pureza da +innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que +as linguas mortas, traduziu a locução de Plinio: _urinam ex se +emittere_. + +O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo +presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos. + +É assim que nos exames de instrucção primaria se averigua se as alumnas +sabem ou não «civilidade». + + * * * * * + +Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação +de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar, +restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia. + +A reforma da instrucção das mulheres é em Portugal ainda mais urgente +que a da instrucção dos homens. + +As linguas não constituem instrucção, porque não ministram +conhecimentos, são apenas meios de os adquirir. + +Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na +educação elementar, dos seguintes ramos de ensino: + +1.° Curso de aceio e de arranjo; + +2.° Curso de cozinha (chimica culinaria). + +3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica. + + * * * * * + +No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia, +juntamente com as necessarias habilitações litterarias para adquirir +idéas, as seguintes noções praticas: + +Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa +branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as +esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso +domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os +melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de _toilette_; de +arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras; +de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos; +de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas. +Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de +escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles +se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a +bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os +inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de +mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os +pequenos jantares. + +Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos +differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas +mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças, +vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no +vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos. + +No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina +aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo. + +O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o +caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o +caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma +boa digestão. + +Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de +dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das +senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia +nacional. + +Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta +affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade +physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o +que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem +preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que +não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas +por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um +liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A +condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima +quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que +não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e +perfeitamente transparente. + +Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás +suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D. +Jeronyma acha mais util ensinar o que é o _substantivo_. Como se alguem +no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o +_substantivo_ é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos), +não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o +_substantivo_, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o +papão! + +Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D. +Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow, +demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe +no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da +civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe +entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um +povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação. +É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada +governa o mundo e determina o destino das sociedades. + +Em Londres os mais importantes jornaes, como a _Quaterly Review_, teem +chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da +iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da +regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das +cozinhas dos differentes póvos, etc. + +A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem +as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e +compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que +obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus +habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento +publico de educação feminina intitulado _Escola nacional de cozinha_. O +numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca +de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso +estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de +cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram +meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão +inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as +competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e +descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações, +ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto. + +Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na +economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão +divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias +teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os +meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia +que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por +semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não +obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é +inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um +conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas. + +O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado +praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico +das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço +ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo, +o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo +o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do +anno em que elles houverem de ser feitos. + + * * * * * + +No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas +deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da +familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os +mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o +balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos +os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos +differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os +reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as +despezas imprevistas, e o _fundo de reserva_--verba essencial, +indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa +sabiamente dirigida. + + * * * * * + +Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas, +a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua +verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado +mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços +equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher +invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella +seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com +que nos ameaça o proloquio vulgar: _uma casa é uma loba._ Não; a casa, +dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o +methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o +baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente +protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação +domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação +feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e +fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso +doce refugio. + +Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto +dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher +engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com +factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre +em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os +casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario +uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento, +portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno +esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a +economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve +dotar-se a mulher. + + * * * * * + +Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da +mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços +de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna +reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da +aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a +graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos +cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos +das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas +não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas +nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As +meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos +instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos +livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os +rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos. + +Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio +das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as +senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na +mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais +esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos +poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da +meteorologia nas obras dos arabes. + +Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para +desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social. + +Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira +das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para +ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora. +Toda a educação feminina tem de partir d'este principio. + + * * * * * + +A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma +na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas +escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida +por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só +póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as +noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores +estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção +previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção +primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica. + +O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel, +como algumas julgam, com a perfeita direcção do _ménage_, mas antes +depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção +impõe. + +Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente +ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes +são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica. + +Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico +de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a +posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas +contemporaneas. + +Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do _Almanach das +Senhoras_, que temos presente. Temos tambem presente a _Gazeta das +Salas_, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que +qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias +do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas +collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres--sentimos +dizel-o--não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando +conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De +tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade +contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos +pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só +foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e +publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem +versos--não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente +publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais +profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais +sedenta de verdade e de justiça,--mas sim trovas d'uma sentimentalidade +de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca. +Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos +personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um +dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente +garantida, não dizemos já n'um congresso de _gentlemen_, mas n'um +simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis +fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina +honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do +_ménage_, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para +acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera +creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego +na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios +permanentes. + +Compare-se o _Almanach das Senhoras_, com as collecções estrangeiras +collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a +educação pratica da _ménagère_, eleva o espirito, como a educação +litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta. + +O _Jornal das donas de casa da Allemanha_, tem aperfeiçoado +profundamente os costumes e os habitos da vida domestica. + +Na Inglaterra o texto da grande _Revista das mulheres inglezas_ consta +de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de +physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas +de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noções +praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma +réclame de modas. + +Taine cita no seu livro ácerca da Inglaterra varios artigos de mulheres +publicados nas _Transactions of international association for the +promotion of social sciences_. Os artigos intitulam-se: + +_Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra_, por Barbara Collett; + +_Applicação dos principios de educação ás escolas das classes +inferiores_, por Mary Carpenter; + +_Estado actual da colonia de Mettray_, por Florence Hill; + +_Estatistica dos hospitaes_, por Florence Nightingale; + +_A condição das mulheres operarias em Inglaterra e em França_, por +Bessie Parkes; + +_A escravatura na America e sua influencia na Grã-Bretanha,_ por Sarah +Remand; + +_Melhoramento das «nurses» nos districtos agricolas,_ por mistress +Wigins; _Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho ás +mulheres,_ por Jone Crowe, etc.. + +Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos +amigos que tinha na sociedade ingleza, eram mulheres de casa, passando +uma vida extremamente simples e retirada. + +Assim temos que na Inglaterra e na Allemanha a escola das _ménagères_ +produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a +educação literaria, segundo os programma dos lyceus, nem dá _ménagères_ +nem dá literatas. + +Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que désse alguma coisa?... + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da +Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS: CHRONICA MENSAL *** + +***** This file should be named 16214-8.txt or 16214-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/6/2/1/16214/ + +Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia +Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed +Proofreading Team + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes + Agosto a Setembro de 1877 + +Author: Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz + +Release Date: July 6, 2005 [EBook #16214] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS: CHRONICA MENSAL *** + + + + +Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia +Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed +Proofreading Team + + + + + + +</pre> + +<div class="centered"> + <img src="images/devil.png" width="570" height="755" + alt="Eça de Queiroz—Ramalho Ortigão—As Farpas" /> + <!--IMAGE END--> +</div> +<hr class="major" /> +<h1> + AS FARPAS +</h1> +<div class="centered"> + <p>RAMALHO ORTIGÃO—EÇA DE QUEIROZ</p> + <p>CRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p> + <p>NOVA SERIE TOMO X</p> + <p>Agosto a Setembro 1877</p> +</div> +<hr class="major" /><!--===================--> +<blockquote> +<p> + Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, + da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das + sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da + politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande + universo, e da adoração de mim mesmo. +</p> +</blockquote> +<p class="centered"> + P.J. PROUDHON +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> + +<p class="centered"> + <b>SUMMARIO</b> +</p> +<p> + Alexandre Herculano. O escriptor e o solitario de Valle de Lobos. A + critica dos vivos e a critica dos mortos. A benevolencia e a justiça. A + influencia que teve e a que podia ter o grande escriptor. A missão dos + mestres O monumento da imprensa.—A recente + <a href="#viagem">viagem</a> + de suas magestades e + altezas. No Bussaco, em Vidago, no Porto. Algumas notas aos annaes + d'essa excursão.—Os attentados do sr. + <a href="#Cunha">Barros e Cunha</a> + e a historia + d'este personagem. O poeta lyrico, o deputado, o leitor do + <a href="#Times"><i>Times</i></a>, o + cortesão, o ministro. Diagnostico e prognostico.—Algumas producções + musicaes: + <a href="#Cutiladas"><i>As cutiladas do Passeio Publico</i></a>, polka; + <a href="#Roma"><i>A Roma! a Roma!</i></a> + valsa.—Algumas palavras aos srs. + <a href="#advogados">advogados</a>.—Os exames das + <a href="#menina">meninas</a> no + Lyceu Nacional. Os fins da educação. Um programma de ensino para o sexo + feminino. Como se prepara a emancipação da mulher. Duas catastrophes: o + estado da litteratura feminina e o estado da cosinha nacional. Grito + afflictivo do paiz: Menos odes e mais caldo. +</p> +<p> + O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano + pertence ao dominio da posteridade desde as 10 horas da noite de hontem, + 14 de setembro de 1877. +</p> +<p> + Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade terão + de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na + terra, succedendo-se um ao outro no individuo d'aquelle nome. +</p> +<p> + Um d'esses cidadãos é o historiador da nacionalidade portugueza e da + inquisição em Portugal, o romancista do <i>Monasticon</i>, o poeta da <i>Harpa + do Crente</i>, o profundo pensador, o sabio archeologo, o paciente erudito, + o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o + inimitavel mestre. +</p> +<p> + O segundo dos cidadãos que passaram no mundo sob o nome de Alexandre + Herculano é simplesmente o illustre solitario de Valle de Lobos. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Extranha evolução d'um mesmo ser! Aquelle que na primeira metade da + existencia representa todas as vivas energias por meio das quaes o + espirito póde actuar no impulso d'uma civilisação e no aperfeiçoamento + d'uma sociedade, não é no segundo periodo da sua vida senão o objecto + passivo e inerte d'uma designação ascetica, imposta pela banalidade + rhethorica dos noticiarios—o <i>solitario illustre!</i> +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre + Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais + importante collecção dos modernos trabalhos litterarios—o <i>Panorama</i>; + enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem + o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com + o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se + denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco + dos romanticos de 1830, que elle sabia traçar com o garbo marcial + d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o + admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a + nova geração que vem despontando atraz d'elle; chama á peleja o partido + ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as + hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases + do moderno movimento intellectual, suggere novas idéas, novas + aspirações, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua + época por meio das fecundas agitações do espirito que acceleram nas + sociedades vivas a elaboração do progresso. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Como <i>illustre solitario de Valle de Lobos</i>, Herculano rescinde a + sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o + genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como + sendo elle mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande + universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmações da + sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras á sombra + projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inacção + em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o + prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o + seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade. +</p> +<p> + O dia do nosso grande lucto nacional não é aquelle em que expirou o + solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o + vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da + multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida, + traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e + sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas, + aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e + sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão + de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a + divina verdade. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + A isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico, + comprometteu o destino mental d'uma geração inteira. Pelo intenso poder + das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela + auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela + reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem + naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu + tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi + uma catastrophe para a geração moderna. +</p> +<p> + Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse + alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral. +</p> +<p> + Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz + firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a + expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes + enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna + deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma + prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa. +</p> +<p> + A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades + ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um + tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por + cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de + batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria + da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram + o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e + patifes, com os seus pés miseraveis. +</p> +<p> + A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os + socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é + impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a + cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez + d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a + chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se, + depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e + recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É + este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que + constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza. +</p> +<p> + A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional + que a devia prender estreitamente á grande alma popular. +</p> +<p> + A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar + e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos. +</p> +<p> + Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre + Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do + movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado + importantemente o nosso estado social. +</p> +<p> + Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes, + poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos—o + partido conservador e o partido revolucionario,—de cuja controversia + depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade + portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional. +</p> +<p> + Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da + instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão + propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela + convivencia e pela cultura da historia. +</p> +<p> + Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e + tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um tão + inteiro prestigio e d'uma tão completa e absoluta auctoridade. +</p> +<p> + Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á + fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do + sentimento nacional. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Exercer essa alta direcção dos espiritos é nas sociedades modernas a + missão dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este + seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na força da + intelligencia e da vida o posto de honra a que chegára pelo esforço do + seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o + dotára. +</p> +<p> + Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos, + todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever + social, viveram combatendo até á ultima hora e morreram com a penna na + mão. +</p> +<p> + Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno + combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde + muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a + tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua + longa vida fôra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas, + de triumphos, das mais violentas commoções que podem opprimir e + dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito + de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle + todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa + pertinacia d'um só homem, tão debil e tão caduco que qualquer mulher + poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a França deve a + sua reconstituição politica e social, e a democracia a affirmação mais + poderosa e mais energica d'uma republica no coração da Europa. +</p> +<p> + Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel + decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma + lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais + d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades + na conclusão da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu + similhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais + peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua + invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais + profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o + admiravel livro em que depõe com a ultima palavra o ultimo suspiro. +</p> +<p> + Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento + d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para + todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as multiplas aptidões + cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades + dirigentes, não tem esse direito. +</p> +<p> + A benevolencia devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos actos de + cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém + devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o + dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as + condições que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa + linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade. +</p> +<p> + E é só assim que as gerações aprendem o que têem de agradecer e o que + têem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero + sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têem de + submetter-se aquelles que estão vivos. +</p> +<p> + A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano + a quebrar as suas relações mentaes com a sociedade, é um importante + estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na + confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau + de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a + isolação d'Herculano não é um simples episodio biographico, é um facto + social, é um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza. +</p> +<p> + O exemplo do <i>solitario de Valle de Lobos</i> será profundamente nocivo, se + não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica. +</p> +<p> + Todos aquelles que trabalham com dedicação e com honra, que se + consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela conclusão do + trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que + vêem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da + humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e + desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada + instante, á grande lucta da consciencia com as suggestões do egoismo, + com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o + desdem. É perigoso para os que teem ainda, no meio da dissolução geral + dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa + dedicação do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que é a vida + de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente + sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa + indifferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o + arduo e penoso rumo do dever. +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> +<p> + Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o + fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua + admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um + monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que não + está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto. +</p> +<p> + Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa + como um de seus membros, eis o que proporiamos. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua + <i>Historia de Portugal</i>, é possivel que houvesse já sido lida, mas, com + quanto escripta ha muitos annos, não foi por emquanto estudada. +</p> +<p> + Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, d'analyse, de + deducção, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico + portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do + philosopho e na obra do artista:—a negação do milagre d'Ourique e das + côrtes de Lamego. +</p> +<p> + O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo d'um + aspecto,—o aspecto das nossas superstições. +</p> +<p> + As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da familia, + da patria interessaram-nos d'um modo tão mediocre que nunca nos + suggeriram uma idéa clara sobre qualquer d'esses phenomenos. +</p> +<p> + De tão multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da + nossa vida civil, um unico nos commoveu até as mais intimas + profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou não + tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha, + e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado d'uma operação + estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos + do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus. +</p> +<p> + Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da <i>Historia de + Portugal</i> passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o + qual não teve ainda, até hoje, occasião de publicar um artigo + scientificamente fundamentado ácerca do papel do nosso primeiro + historiador na direcção dos estudos historicos e na comprehensão das + leis fundamentaes da nossa evolução social. +</p> +<p> + A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a + publicação d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas + perante um grande escriptor é mostrar que o leram. Com relação a + Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que + desempenhar-se d'ella com tanta mais promptidão, quanto é certo que o + seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador + dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste + mortalha em que desceu envolto para o tumulo—a mortalha do desprezo. + Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos. +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> +<p> + Annaes da +<a id="viagem" name="viagem" >viagem</a> + de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo + os telagrammas publicados por toda a imprensa e da acção civilisadora da + mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os alludidos documentos. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO I +</b> +</p> +<p> + Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta + secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo + passeou matta. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta + companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO II +</b> +</p> +<p> + Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo encontrou interessante menino na + serra e afagou. Commoção todos visitantes que presencearam acto Anjo + afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram pé Fonte Fria. + Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo + medio. Jubilo povo augmenta progressivamente. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO III +</b> +</p> +<p> + Bussaco... agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinoes gorgeando + secular floresta. Chamados á pressa para gorgear na balseira bauda de + infanteria 14 e cysne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por + Quatorze e por Cysne innarravel. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO IV +</b> +</p> +<p> + Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo recusa licença a <i>touristes</i> + comerem saborosos peixes ria d'Aveiro em secular floresta. Preciosos + Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos. + Jubilo povo augmenta. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO V +</b> +</p> +<p> + Bussaco... d'agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir <i>touristes</i> + petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. N'este mesmo + momento secular floresta saborosos peixes estão sendo comidos + <i>touristes</i> com approvação d'Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio + meia hora e 16 '1/2 segundos. Jubilo povo toca raias. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO VI +</b> +</p> +<p> + Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo e suas altezas Preciosos + Penhores acabam de partir Porto, comboyo expresso. Anjo e Preciosos + Penhores não mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo + povo. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO VII +</b> +</p> +<p> + Vidago... d'agosto. Sua magestade Excelso Soberano, acompanhado duas + phylarmonicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta + maiores eguas, chegou sem novidade real saude. Indiscriptivel jubilo + povo. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO VIII +</b> +</p> +<p> + Vidago ... d'Agosto. Excelso Soberano foi tomar aguas 10 horas. Voltou + tomar aguas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam + acto Excelso Soberano tomar aguas. Grande ardor geral pelas instituições + monarchicas e pela dynastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possivel + fôr. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO IX +</b> +</p> +<p> + Vidago ... d'agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois + rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces + pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca + zenith. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO X +</b> +</p> +<p> + Vidago ... d'agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado + phylarmonicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausencia + excelso soberano e real sequito, convertidos triste ermo. Jubilo povo + impossivel descrever palavras humanas. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO XI +</b> +</p> +<p> + Porto ... d'agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triumphal n'este Baluarte + liberdade sua magestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas + Louras Creanças. Jubilo povo de Baluarte e concelhos ruraes adjacentes + delirante. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO XII +</b> +</p> +<p> + Porto ... d'agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade + que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenetico. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO XIII +</b> +</p> +<p> + Porto ... d'agosto. Louras creanças passear Palacio Crystal. Anjo não + passeiar Palacio Crystal. Jubilo povo febril. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO XIV +</b> +</p> +<p> + Porto ... d'agosto. Anjo e Louras Creanças foram photographar-se ao + atelier Fritz. Duas innocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo + da Caridade. Anjo afagou. Circumstantes lagrimas em fio pelas faces. + Anjo e Louras Creanças retrataram-se em cinco posições differentes, que + são todas as posições de que é susceptivel o corpo humano, a saber: em + pé, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo + vertiginoso. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO XV +</b> +</p> +<p> + Porto ... d'agosto. A este Baluarte liberdades patrias acaba chegar + augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse + Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos + defensores Baluarte ás janellas. Jubilo povo epileptico. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO XVI +</b> +</p> +<p> + Porto ... d'agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico + Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triumphal. Rapazes + precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo, + vendo rapazes exposição joelhos carruagem descoberta, inultrapassavel. +</p> +<p class="centered"> +<b> + CAPITULO XVII +</b> +</p> +<p> + Porto ... d'agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras + Creanças regressam hoje comboyo expresso a Lisboa. Governador civil, + bispo, senhoras, beijar mão Neto, Anjo, Louras Creanças. Derradeiro + adeus estação. Baluarte liberdade sem Louras Creanças, Anjo e Neto, + medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana. +</p> +<p> +<b> + NOTAS +</b> +</p> +<p class="centered"> + AOS ANNAES DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS +</p> +<p class="centered"> + A +</p> +<p> + <i>Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc.</i> + Informações subsequentes ministradas aos jornaes pelo <i>Banhista de Luso</i> + explicam a materia do capitulo que principia pelas palavras acima + reproduzidas. +</p> +<p> + Os <i>touristes</i> a quem foi denegada licença para celebrarem um <i>pic-nic</i> + dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua + magestade que se dignasse conferir-lhes a permissão de comerem os peixes + que tinham pescado para o <i>pic-nic</i>, não já dentro, mas sim fóra da + matta. +</p> +<p> + Foi a este segundo requerimento, attendendo ás supplicas dos <i>touristes</i> + e ao estado em que começavam a achar-se os peixes, que sua magestade se + dignou de deferir de um modo inteiramente amavel e munificente. +</p> +<p> + O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porém + immersos na mais acerba incerteza ácerca dos pontos da superficie solida + do reino em que nos é licito comermos peixe sem invadirmos as + residencias de suas magestades. +</p> +<p> + Porque, desde o momento em que não só as grandes serras mas tambem as + bacias dos valles adjacentes se consideram, pela jurisprudencia invocada + no Bussaco, como dependencias dos aposentos da real familia, ficamos + perplexos sobre se o safio que pescámos esta manhã no logar do Bico na + praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este + facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos + nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a + solução d'este problema: +</p> +<p> + Dado um safio pescado á linha na ponta do Bico na praia da Cruz + Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependencia geologica do Paço de + Queluz pelo valle da ribeira do Jamor, e do Paço da Ajuda pelas + quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro + lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas + de cebola e tomate, com o competente fio d'azeite e o devido pimentão; + tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas + vezes sem se destapar o tacho; +</p> +<p> + Pergunta-se: +</p> +<p> + Se podemos passar a comer o safio, collocados na dita latitude da Cruz + Quebrada, entre os reaes paços de Queluz e da Ajuda, sem por esse acto + faltarmos ao respeito devido á inviolabilidade das montanhas, dos valles + e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir. +</p> +<p> + Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas + reaes ordens, que o sr. + <a id="Cunha" name="Cunha" >Barros e Cunha,</a> + encarregado juntamente com o sr. + Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua magestade, + queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou não ao numero + d'aquelles que s. ex.ª se acha mobilando para recreio de suas magestades + em collaboração com o seu socio nas reformas do ministerio das obras + publicas o sr. estofador Alcobia. +</p> +<p> + O melhor talvez—permittam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta + ideia—seria, para não estafar muito o ministerio de suas excellencias + com o despacho de repetidas petições do caracter da nossa, que suas + excellencias assignalem com marcos geodesicos as regiões que vão ser + forradas de papel para aposentos reaes, e que n'esses postes se + especifique com os devidos letreiros: <i>Aqui se pode comer o saboroso + peixe</i> ou <i>Aqui o saboroso peixe se não pode comer</i>. +</p> +<p> + E o paiz todo beijará reconhecido a mão energica dos srs. conselheiros + da coroa Alcobia e Barros e Cunha! +</p> +<p class="centered"> + B +</p> +<p> + <i>Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte + liberdade em exposição triumphal.</i> Correspondencias minuciosas explicam + detidamente o episodio narrado n'este capitulo. +</p> +<p> + El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios, + dois rapazes que se ajoelhavam por occasião da passagem de sua + magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulação tão + vigorosa manifestada em annos tão verdes, indagou-se uma tal affirmação + de subserviencia procedia de preleções previas dadas por algum aulico + ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois + adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais + pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de tão + honrosas informações, levar comsigo os dois esperançosos jovens e + encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram + em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e + precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. Não sabemos + se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como + deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos + referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo + asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago. +</p> +<p> + Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei ácerca + dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagações, porque é + de saber que os rapazes de joelhos não apparecem unicamente a sua + magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e + de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se + encontrou com o commovente quadro, não deixando nunca de o saudar com + um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos + se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de enthusiasmo. + E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz: +</p> +<p> + —Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum + de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o + lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola, + seus sicarios?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de + Jesus Christo?! <i>Nosso Senhor tambem pediu</i>!!... Em que escola + aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?... O que tu merecias é que + eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a + blasphemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses + tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua + confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de + trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser + homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio + como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande + obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a + fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem + e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas, + conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa + cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como + qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo + a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo, + dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com elle + fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela + mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da + mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se + reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem + pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus + te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a + pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do + trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por + sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu + és indigno da tua gerarchia d'homem e não passas de uma besta sordida e + immunda. +</p> +<p> + Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos + rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes + praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho + cerrado e os bicos dos nossos sapatos—de tres solas repregados de + terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de + moscardos—concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos + rapazes onde era a escola. +</p> +<p> + Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que + apparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola. +</p> +<p> + Os paes não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade, + habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a + serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis, + rasteiros, malevolos, vingativos, mandriões e covardes. +</p> +<p> + São elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de + ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento + successivo das cadeias e dos hospitaes. +</p> +<p> + Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses + embriões do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus pés, outros + pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos, + uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a metter o pão ao + forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as + medas ou a debulhar o milho. +</p> +<p> + Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos + dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos + chamar:—o premio Monthyon da malandrice. +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> +<p> + Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo + acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro + da corôa, o sr. Barros e Cunha. +</p> +<p> + Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas + respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como + phenomenos normaes em um regimen em dissolução destinado a acabar um + pouco mais tarde ou um pouco mais cedo. +</p> +<p> + Quando porém a acção do poder exorbita da mancommunação ministerial, da + intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esphera + do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos + inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo + desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição + com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de + Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funccionario delinquente. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a physionomia do personagem + antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos. +</p> +<p> + Antigo poeta lyrico de inspiração canalisada pelos jornaes poeticos e + pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando + a carreira poetica, foi enviado na idade madura á camara dos deputados + na qualidade de leitor do + <a id="Times" name="Times" ><i>Times</i></a> + por um circulo do reino em que se não sabia inglez. +</p> +<p> + Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi + declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da + camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde + tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em + a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um + determinado numero de sons articulados sem connexão logica, sem forma + litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes + sons reunidos constituem a collecção dos discursos parlamentares de s. + ex.ª. +</p> +<p> + Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das ultimas + legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferença bocejante + da camara e da galeria, folhear os numeros do <i>Times</i> collocados sobre a + sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as + palavras n'um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal, + como a de quem falla por um nariz de assucar. +</p> +<p> + No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas + partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para + acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo + roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer + signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em + seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo + irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de duvida ou + incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar + os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos + passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de + beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó + do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha, + carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impellida adeante + das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por + todas as carroças, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto, + lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas + ripes e produzida em publico por s. ex.ª, n'uma exposição solemne, ao + fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra. +</p> +<p> + Estas fallas eram acompanhadas por s. ex.ª com variados gestos + carinhosos e piegas: já de quem amamenta as methaphoras que tem ao + colo, já de quem acaricia e afaga buliçosos tropos adjacentes, já de + quem com o bico do lapis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar + no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa + adormecida. +</p> +<p> + Elle no entanto sorria de quando em quando, ironico e triumphal, + circumgirando pela sala no fim de cada periodo um olhar destinado a + indicar ao auditorio que dentro do seu pequenino craneo a malicia de + Bertholdinho se achava alliada á finura de Polycarpo Banana. +</p> +<p> + Uma vez pelo menos em cada um d'esses discursos, quando o orador + parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu lenço branco e batia + com os nós dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo d'agua, + vozes de deputados repentinamente extremunhados applaudiam-o. O que não + consta é que ninguem se lembrasse nunca de o contrariar. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Cahido o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquez d'Avila para formar + novo ministerio, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de + «caracter conciliador.» Deputado ás cortes em successivas legislaturas, + tendo a palavra em quasi todas as sessões, tão vigorosamente havia + servido a causa ecletica da banalidade que não conseguira crear um unico + adversario. Taes foram os titulos que levaram s. ex. aos conselhos da + corôa. +</p> +<p> + Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do + commercio e da industria, s. ex.ª para quem a industria, o commercio, as + obras, eram outros tantos porticos inaccessiveis, envoltos nas trevas + mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse á + popularidade sem o intrometter na gerencia e na direcção dos negocios. +</p> +<p> + Para esse fim s. ex.ª começou a passear as ruas de Lisboa montado na + imagem rhetorica em que Napoleão nos apparece nos discursos do sr. + Manuel da Assumpção. Aos sabbados s. ex.ª tomava o caminho de ferro e + dirigia-se em carruagem salão a todos os pontos da provincia em que + houvesse uma fabrica, uma officina, um monumento publico para que olhar, + e uma phylarmonica para o ir esperar á <i>gare</i>. +</p> +<p> + No desempenho d'esta primeira parte do seu programma s. ex.ª foi de uma + actividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavallo, anoitecia + a cavallo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um + momento—tambem a cavallo. Estes exercicios de gineta amestraram o + cavallo de s. ex.ª até o ponto de poder elle proprio ser ministro—em + liberdade. +</p> +<p> + Nas suas digressões pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o + zelo de s. ex.ª pelos principios do seu programma administrativo não + conhecia limites. Eis uma amostra do caracter d'essas viagens + hebdomadarias: +</p> +<p> + S. ex.ª chega a Thomar pelo trem do correio ás 12 horas 45 m. da tarde. + Uma phylarmonica espera-o na estação de Payalvo e acompanha-o ao som do + hymno da carta até casa do sr. conde de Thomar. Ás duas horas da + madrugada s. ex.ª ceia e levanta tres brindes a Thomar, á real familia e + á carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex.ª nos aposentos que + lhe estavam reservados e leitura do <i>Times</i> até ás 5 horas 30 minutos. + A's 5 horas 31 minutos s. ex.ª descalça metade das botas e repousa um + momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os eccos do + hymno da carta. A's 6 horas, convergencia das forças musculares de s. + ex.ª sobre os puchadores das suas botas e pedido d'agua morna para a + barba de s. ex.ª A's 7 horas, sabida de s. ex.ª dos aposentos que lhe + estavam reservados, presença de s. ex.ª no terraço da casa e aspersão + dos raios visuaes de s. ex.ª sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas + recepção da camara municipal e dos tres ou quatro maiores contribuintes. + A's 9 horas almoço com brindes de s. ex.ª á carta, a Thomar e á real + familia. A's 10 horas ida para a fabrica de fiação. As' 12 horas lunch + na fabrica e brindes de s. ex.ª á real familia, a Thomar e á carta. A' 1 + hora da tarde volta para Thomar, jantar e brindes de s. ex.ª á carta, á + real familia e a Thomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno + pela phylarmonica na estação de Payalvo e regresso de s. ex.ª á capital. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Uma vez por semana, ás quintas feiras, s. ex.ª acompanhava os seus + collegas ao Paço. Tendo mostrado sobre o chouto da allegoria do sr. + Manuel da Assumpção que possuia uns rins de bronze; tendo provado nas + digestões accumuladas das mayonaises do sr. conde de Thomar e dos + pudings da fabrica de fiação que era dotado de um estomago d'aço, s. + ex.ª aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a côrte, + de que reune a esses dotes anathomicos a feliz particularidade de uma + espinha de cebo. +</p> +<p> + Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posição + vertical de s. ex.ª dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de + 35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex.ª deprimia-se + progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma + concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava então para outra + parte a fim de que os tecidos democraticos do seu secretario de estado + não acabassem de derreter, deixando nos degraus do throno, como despojo + de quanto representara no Paço o departamento das obras publicas, um + fardamento, uma calva e uma nodoa. +</p> +<p> + Impedido de fundir, s. ex.ª procura manifestar por outros actos o ardor + do seu zelo como novo aulico. +</p> +<p> + Para esse fim atropela as disposições legislativas que regulavam o + arrendamento das casas do Bussaco entregues á administração geral das + mattas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatarios, + expulsa as familias que habitavam o convento, e offerece este a sua + magestade a rainha para ella passar a estação calmosa—nas casas dos + outros. +</p> +<p> + Desde o tempo dos antigos aposentadores móres, que precediam os reis + absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas occupadas por seus + donos para n'ellas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer + reviver para lisongear os reis um dos mais oppressivos privilegios + monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os + mais atrevidos e insolentes mandões não ousaram jámais ultrajar por tal + modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr. + Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no paço tão + passivamente e tão irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana, + acocorado a um canto n'uma prostração burlesca, bolindo automaticamente + com a cabeça e deitando a lingua de fora ou mettendo-a para dentro, + segundo leva ou não leva da real mão um piparote na nuca. +</p> +<p> + Para bajular el-rei como bajulára a rainha o mandarim sr. João Gualberto + determina que obras extraordinarias se façam na estrada de Vidago e + manda abonar por conta do ministerio das obras publicas salarios na + importancia exorbitante de 1$200 réis por dia aos operarios empregados + em um dos lanços da estrada alludida. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Estes factos porém, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de + cortezão, não o definiam sufficientemente pelo seu lado de ministro. Os + conselheiros de s. ex.ª tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora + algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria, + e s. ex.ª principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi então que + no <i>Diario do Governo</i> appareceu o documento que nos propomos analysar e + começamos por transcrever: +</p> +<p> + «Sua magestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao + contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo director das + obras da penitenciaria central de Lisboa com João Burnay, para + fornecimento de ferros para as obras d'aquelle estabelecimento, + considerando: +</p> +<p> + «1.° Que esse contrato se encontra viciado; +</p> +<p> + «2.° Que n'elle se não observou o que dispõe o artigo 10.° do + regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862; +</p> +<p> + «3.° Que não se abriu praça nem se fez deposito algum, conforme dispõe + a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condições geraes de + empreitadas das obras publicas de 8 de março de 1861; +</p> +<p> + «4.° Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu + adiantadamente na importancia de 88.889$312 réis, falta a approvação do + governo, segundo o disposto no artigo 2.° das mesmas clausulas e + condições geraes e da circular de 15 de maio de 1862: +</p> +<p> + «Ha por bem ordenar que se dê por findo e terminado o dito contrato, + procedendo-se á liquidação dos artigos já fornecidos ou em deposito, + observando-se de futuro todas as prescripções em vigor n'este ministerio + para quaesquer contratos em que elle tenha de interferir. +</p> +<p> + «O que, pela secretaria de estado dos negocios das obras publicas, + commercio e industria, se communica ao director das obras publicas do + districto de Lisboa, para os devidos effeitos, em referencia ao seu + officio datado de 26 de junho ultimo. +</p> +<p> + «Paço, em 3 de julho de 1877.—<i>João Gualberto de Barros e Cunha.</i> +</p> +<p> + «Para o director das obras publicas do districto de Lisboa». +</p> +<p> + Por esta portaria rescinde-se sem mais appellação nem aggravo um + contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o + governo. Ora o governo não é um poder pessoal, de caracter intermitente + ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e + Cunha. O governo é uma entidade impessoal e constante. +</p> +<p> + O sr. Barros e Cunha é obrigado como ministro a manter todos os + contractos feitos pelo seu ministerio, porque em quanto ministro o sr. + Barros e Cunha não é um individuo, é o governo. O governo fez um + contracto com o sr. Burnay, esse contracto acha-se em execução, o + governo porem resolve por sua propria auctoridade rescindir o mesmo + contracto, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos + juridicos se annulla, sem mais formalidade que a publicação de uma + portaria, um contracto de similhante natureza: +</p> +<p> + O sr. Barros e Cunha allega em primeiro logar: +</p> +<p> + <i>Que o contracto se acha viciado</i>. A isto responde o engenheiro + constructor da Penitenciaria e signatario do contracto por parte do + governo que a viciação allegada consiste em se haver alterado a data em + que o sr. Burnay se compromette a concluir os seus trabalhos, mudando-se + os numeros 1877 em 1876. O resultado d'esta viciação era collocar o sr. + Burnay sob a acção de uma multa por não ter concluido a sua obra no + praso prefixo. É evidente que não podia ser o sr. Burnay que viciasse o + contracto raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por + outro que o prejudica. +</p> +<p> + A viciação do contracto é por tanto um facto necessariamente alheio á + intervenção do sr. Burnay. +</p> +<p> + A legislação invocada nos considerandos 2.° e 3.°, não tem cabimento, + porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem + os casos em que <i>a concorrencia possa prejudicar a rapidez ou a + perfeição do trabalho</i> e em que o <i>deposito póde ser substituido por + fiança ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro</i>. E ambos + estes principios são reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual + contractou elle mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicação + d'esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito. +</p> +<p> + As affirmações contidas no considerando n.° 4, são puramente falsas, + como já declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta + da approvação do governo é uma mentira e o adiantamento de 88:886$312 + réis é uma calumnia. +</p> +<p> + Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante + deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de não haverem + sido satisfeitas essas clausulas póde caber ao fabricante, ao fornecedor + ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que + fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse elle quem a si + mesmo se obrigasse ao deposito? Se não se cumpriram as formalidades a + que a portaria se refere, a culpa é unicamente do governo. Como é pois + que o governo rescinde um contracto por um facto cuja culpa é d'elle e + não do individuo com quem elle contractou? +</p> +<p> + Podem aquelles que tem negocios com o governo ficar sujeitos a + similhante arbitrio? +</p> +<p> + Póde o governo annullar assim um contracto em que se acham envolvidos + interesses avultados d'aquelle com quem é feito unicamente porque o + governo diz reconhecer que não contractou nos termos em que devia ter + contractado? +</p> +<p> + Foi approximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relação + ao contracto do Passeio Publico. A camara rescindiu o contracto, mas o + governo dissolveu a camara. Quem é que ha de dissolver o governo reu de + delicto egual ao da camara? +</p> +<p> + Em vista de um tão flagrante attentado contra os seus interesses + industriaes, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a + portaria alludida é cheia de vagas insinuações insultantes e injuriosas + apesar de cobardemente rebuçadas, o sr. João Burnay representou ao + governo requerendo que se lhe dê vista do processo em que é ao mesmo + tempo accusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os + fiscaes da corôa e da fazenda. O sr. Barros e Cunha não despachou esta + petição e manteve os effeitos da sua portaria absurda, falsa, + calumniosa, e infamante. +</p> +<p> + É a isto que nós chamamos o mais violento dos attentados perpetrado pelo + arbitrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos + cidadãos. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + O sr. Barros e Cunha é um criminoso diante do codigo e diante da carta. +</p> +<p> + A carta torna-o responsavel no artigo 103 por tres delictos que + commetteu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do + poder, por falta de observancia da lei, e pelo que obrou contra a + liberdade e contra a propriedade de um cidadão. +</p> +<p> + Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil + reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,—contra o + direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359). +</p> +<p> + A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle + não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que + elle não recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa + calumnia sob a acção do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte: +</p> +<p> + «A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue + o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de + submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes são a reparação + do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil + consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da + omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de + satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.» +</p> +<p> + Um só caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da + responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que + perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demencia. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal offensa + não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios + simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de + primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente + cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador + elle é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portugueza. + Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como elle em volta de si + pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão + preciosa actividade. É o proprietario e o chefe de uma grande officina + modelo do seu genero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os + elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns + centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisação se + lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e + mais benemeritos, porque é por meio da iniciativa de homens como elle + que os estados se moralisam e se enriquecem. +</p> +<p> + Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é + impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas + aspirações—a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga + constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não + exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o + exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo + coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para + outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando + governa. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o + producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste + maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos + offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As + suas faculdades não lhe permittirão defender-se. +</p> +<p> + D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e + deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um + trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto, + mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que + nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em + pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais + violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais + explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo + condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha + de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada + feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,—de jacaré. A + logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de + ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria + ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de + ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A + pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com + tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e + baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas + de zabumba em theatro de feira. +</p> +<p> + E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se + destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr. + Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão + util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de + ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas, + commercio e industria. +</p> +<p> + Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser + modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o + para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa. +</p> +<p> + Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é + mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso + anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem + desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do + seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros + extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a + elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser, + por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido + sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de + s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como + um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir + precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista. +</p> +<p> + A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para + ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão + preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda + tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos + coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a + piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento + das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as + forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos + mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas + satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria + querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem. +</p> +<p> + Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o + desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a, + não fizeram senão prejudical-a. +</p> +<p> + Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A + differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é + o mesmo. +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> +<p> + O registo das producções musicaes portuguezas foi enriquecido durante o + periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas + mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a + attenção que lhe é devida. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + <a id="Cutiladas" name="Cutiladas" ><i>As Cutiladas do Passeio Publico</i></a> + é o titulo de uma polka refutativa dos + principios estheticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar + as fontes da inspiração artística. +</p> +<p> + Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra d'arte, a + orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os + aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova força geradora:—a + força da pancadaria. +</p> +<p> + Na occasião em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o + fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles + são os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido + passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão + juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a + policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas + respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas. +</p> +<p> + Á saida do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que + acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes + que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres + policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta + conjunctura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o + quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por + onde é que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta + essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as + suas familias com o ardôr bellicoso de um exercito encarregado da + transformar o paiz n'uma almondega. +</p> +<p> + Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem + clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles + regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com + vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força + publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas + com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de + cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca. + Finalmente alguns bons socos applicados com arte não deixariam de fazer + render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliação amigavel. +</p> +<p> + As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem + insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos + canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a + suas casas pedindo ás furias punição para os algozes e arnica para as + victimas. +</p> +<p> + Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforço + popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de + polka. +</p> +<p> + Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja + propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos + e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que + o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão + legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo + o caso em musica e em dansa de roda! +</p> +<p> + Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos + ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco + rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques, + simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio + soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus + actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas + pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no + presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e + tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado + uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa, + todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com + o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era + nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra! +</p> +<p> + Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o + chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada + mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á + primeira! +</p> +<p> + Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora, + cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram! +</p> +<p> + Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que + não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos, + que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas + sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas + tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a + arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e + terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens + delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te + philarmonica. Substituiste a força da união pela <i>União e Capricho</i>. + Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase <i>levar para o + tabaco</i> ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula—<i>levar para a + musica</i>. +</p> +<p> + Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o + costume, despicaste-te com uma polka especial. +</p> +<p> + As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam + indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos + santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração + de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da + Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas + que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a + expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões. + Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas + essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes + campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do + habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a + semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua + polka brilhante, <i>As cutiladas do Passeio Publico!</i> +</p> +<p> + O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te + appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os + instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a + vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros + democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de + clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da + tyrannia a vindicta dos povos. +</p> +<p> + Emquanto á dignidade humana ... lalarilolé ... e emquanto á liberdade, + ao direito e á civilisação ... lariléliló ... que nos importa isso?... + Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é + panno adesivado ...lólaró ... e fios ... trolarilolé! +</p> +<p> + Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da + terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o <i>sol ... e dó!</i> +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no theatro da Trindade uma + operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a + partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a + peça fóra da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir + ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo—<i>Vamos a + ellas</i>! +</p> +<p> + Quem são <i>ellas? Ellas</i>, na bocca, no pensamento, na intenção do sr. + Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas. +</p> +<p> + Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hypotheses que esse + perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem offensa do grave + caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que <i>ellas</i> + não sejam as missas para serem qualquer outra coisa. +</p> +<p> + Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para + as missas que nós somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica + interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua + Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao + seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu + spartito em punho, fosse directamente com a sua batina—para a sacristia + das Mercês. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + <a id="Roma" name="Roma" ><i>A Roma! a Roma!</i></a> + é o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo + periodico religioso <i>A Nação</i>, e destinada a servir os mesmos designios + piedosos que levaram o sr. Conceição Borges <i>a ellas! a ellas!</i> +</p> +<p> + Nada mais commodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da + penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada + comprehensão dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para + Deus não pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do + cotillon é um dos mais notaveis serviços que a arte podia prestar á + alliança da religião e do <i>chic</i>. +</p> +<p> + Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vae revolucionar + completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno + inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos: +</p> +<p> + —Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da + impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa? +</p> +<p> + E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo + os olhos ao céu. +</p> +<p> + —Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada. +</p> +<p> + E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares + deslisando em gyros ondulantes sobre os <i>parquets</i> polidos, cingindo com + o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na + mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que + chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença + exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas + pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados, + e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E + conversaremos: +</p> +<p> + —Como a religião é boa! como é ineffavel!... Eu sinto a voz do meu + coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma! +</p> +<p> + —E começa a ter crenças? +</p> +<p> + —Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delirio!... + Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!... + Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu, + meu anjo da guarda!... +</p> +<p> + —Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua + indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja + uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo + Pontifice, não acredita? +</p> +<p> + —Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu + coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate! + Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os + seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos + Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o + mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na + disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro + perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que + blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes ... +</p> +<p> + —Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que + nos seguem ... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa! +</p> +<p> + —Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma + joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da + cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoço ... +</p> +<p> + —Deus do céu! +</p> +<p> + —Entre a costelleta e a omelette ... +</p> +<p> + —Virgem Maria! +</p> +<p> + —Misturada com vinho de Pauillac ... +</p> +<p> + —Santos e Santas da côrte celeste! +</p> +<p> + —Em partes eguaes, metade vinho, metade agua ... +</p> +<p> + —Mas vae para o inferno essa alma! +</p> +<p> + —Está claro que sim. E é bem feito! +</p> +<p> + —Se não houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir. +</p> +<p> + —Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por + todos os seculos dos seculos sem fim não é uma chimera. Hão-de + amargal-as, que ha de ser um consolo—para nós! +</p> +<p> + —Amen! Amen, Jesus Maria José! +</p> +<p> + Assim conversarão elles e ellas durante a piedosa valsa <i>A Roma! a + Roma</i>! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-hão + ao empyreo, e irão pela via lactea fóra, sempre valsando, a demandarem a + entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das + nossas soirées ao divino. +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> +<p> +<b> + <a id="advogados" name="advogados" >Aos srs. advogados</a> +</b> +</p> +<p> + Meus caros senhores.—Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para + onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte. + Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oiço-o + mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle + ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a + pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração d'elle é perfumada com o + aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os predios + da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e—coisa que lhe + perguntei antes de o vir habitar—não toca piano. +</p> +<p> + De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no + cajado que nos está ouvindo áquelle canto, accendo um charuto e saio de + cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas. +</p> +<p> + Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preço de meio alqueire + de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o + metter ao forno e de o trazer ás costas para casa, d'ahi a dez minutos, + embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no + meu varapau. +</p> +<p> + Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas + velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas + adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha. +</p> +<p> + Tenho tambem relações nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros + obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao + postiguinho, e conversam para baixo comigo ácerca do vento provavel + para o outro dia. +</p> +<p> + É n'estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido + os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes + regras. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no + mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, não ha + familia que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos + srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do + machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo, + elle, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer + como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vae ao + advogado para que este o illucide. +</p> +<p> + Os principios geraes da organisação social que nenhum cidadão devia + ignorar n'um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o + mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo, + especialmenie, não tem idéa alguma das attribuições dos poderes a que + elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se + chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambiguo o + que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão + da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho + do districto, a commissão do recenseamento, o delegado de saude, a + policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o + desgraçado se acha sob a acção de uma d'essas formas porque lhe apparece + o principio da auctoridade, recorre ao letrado. +</p> +<p> + —Cá está comnosco a justiça! diz elle á mulher ao receber qualquer + papel official. +</p> +<p> + —Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas + nos olhos, atando as mãos na cabeça. +</p> +<p> + —Má raios partam a justiça e mais aquelle que a inventou, que se o + apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e + tinha alma de lhe beber o sangue! +</p> +<p> + Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover + a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um + filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na + administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas + pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de + fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o pé de meia + com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo + para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são tambem os + mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais + pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco + tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e + custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para + as primeiras despesas, e custa vinte mil réis. +</p> +<p> + Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu + emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o + letrado é para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o + medico. Com uma differença: Todos os medicos teem uma hora por dia em + que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não teem + egual caridade com os ignorantes pobres. Além do soccorro + desinteressado de todos os medicos, os doentes têem ainda o banco dos + hospitaes. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é + inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza não + ensina aos cidadãos quaes são os seus direitos nem quaes os meios de + defesa perante a violação d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito + maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doença. + O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com + dobrada rasão ter consultorios egualmente gratuitos para a justiça. Os + advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os medicos + para prestar á sociedade na maxima amplitude os serviço desinteressados + que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe, + por tantos outros titulos respeitavel, uma idéa bem triste. +</p> +<p> + Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orphão e da viuva, o que + nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que opprimem a viuva e + os que tyrannisam o orphão. +</p> +<p> + Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os + defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa + contraria. +</p> +<p> + Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam + com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, são + conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço + que deseja pagar. +</p> +<p> + Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a + punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a <i>commoção que + se apodera do proprio orador</i>, o desfallecimento, a syncope, etc. +</p> +<p> + O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao + espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a + tabella dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga + mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se + esclarece senão á noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o + réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a + cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de + defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse + selvagem (apontando para o réu) estava bebado.» Assim se justificava o + crime de um homem que não tinha pago as circumstancias attenuantes ao + defensor. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Não será util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados + restrinjam o campo, que offereccem ás correrias do epigramma, + introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não + poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois + por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece + lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s. + ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio. +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> +<p> + Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco + mais ou menos do teor seguinte: +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + «Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma, + directora do bem conhecido e acreditado collegio de <i>Nossa Senhora da + Santíssima Purificação,</i> rua de tal, numero tal, quarto andar, lado + esquerdo. Foi hontem examinada em instrucção primaria e approvada com + dez valores, no lyceu nacional, a + <a id="menina" name="menina" >menina</a> + Elvira Fernandes, alumna do + referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da + jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos + carinhos dos examinadores de sua debil e tímida menina, a todos + consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.» +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu + nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos + collegios de Lisboa. +</p> +<p> + A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas + as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas + classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás + <i>réclames</i> das suas distribuições de premios. +</p> +<p> + Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para + o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá + egual exito com relação á lingua ingleza. +</p> +<p> + O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo + dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e + recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita + professora <i>dá-a por prompta</i> para entrar na sociedade mais escolhida. + Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D. + Jeronyma, <i>as prendas de mãos proprias do seu sexo</i>. Estas prendas + consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de + uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga, + com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre + um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a + data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de + bastardinho, egualmente a canotilho de ouro: +</p> +<p class="centered"> +<b> + <i>Elvira Fernandez me fecit.</i> +</b> +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das + quaes aprendeu precisamente o indispensavel para <i>escapar</i>, caindo-lhe + um thema facil e um examinador <i>carinhoso</i>, como muito bem dizia + Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas + porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma + palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os + conhecimentos theoricos da formação das palavras. +</p> +<p> + Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a <i>Prière d'une vierge</i> ou + <i>Les cloches du village</i>, e de continuar a bordar em seda ou em casimira + os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas + almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das + poltronas. +</p> +<p> + Polycarpo reconhecerá então—demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai + d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»—que D. Elvira possue, no + estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo + quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que + versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a + sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como + esposa, e finalmente como mãe. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem + absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de + vista pedagogico, são uma ostentação ridicula, offendem o bom gosto, + desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo, + incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ella é + chamada na familia. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> +Entendemos portanto que—desde o momento em que Fernandes é bastante +obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua +filha, e não só não protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma, +mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,—ao +Estado cumpre intervir; não se tornar solidario das illusões de +Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D. +Jeronyma o direito de a levarem a exame. +</p> + +<hr class="minor" /><!--===================--> + +<p> +<i>Levar a exame</i>! Só a palavra é um ultrage +da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo +do direito paterno tudo quanto ha mais delicado, +mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se—o +espirito virginal de uma menina,—ao +interrogatorio official de um mestre que durante +vinte minutos vae exercer sobre aquella +alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um +tal inquerito, um tal julgamento, póde ser desculpavel +na educação de um rapaz, para quem +o exame é uma habilitação legal para a sua carreira +civil; na educação de uma menina portugueza +similhante prova é inadmissivel e equivale +a uma amputação do decoro. +</p> +<p> + Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas + a uma creança para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma + mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a + tornar mais educada. +</p> +<p> + Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrucção + primaria e de instrucção secundaria para todas as pessoas do sexo + feminino que não juntem ao requerimento de matricula attestado de + maioridade e de emancipação legal. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Em um exame de instrucção primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este + dialogo: +</p> +<p> + <i>O examinador</i>—Que faz a menina quando se vae deitar? +</p> +<p> + <i>A examinanda</i>—Quando me vou deitar ... +</p> +<p> + <i>O examinador</i>—Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga. +</p> +<p> + <i>A examinanda</i>(córando até á raiz do cabello e baixando os + olhos)—Quando me vou deitar ... dispo-me. +</p> +<p> + <i>O examinador</i>—E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir + o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?!... O que faz + depois de se despir? +</p> +<p> + <i>A examinanda</i>—Tenho vergonha ... +</p> +<p> + <i>O examinador</i>—Não tenha vergonha. Responda para diante! +</p> +<p> + <i>A examinanda</i>—Depois de me despir o que eu faço é ... +</p> +<p> + E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo, + com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco + annos, n'essa lingua que os homens só fallam ás suas mães na pureza da + innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que + as linguas mortas, traduziu a locução de Plinio: <i>urinam ex se + emittere</i>. +</p> +<p> + O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo + presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos. +</p> +<p> + É assim que nos exames de instrucção primaria se averigua se as alumnas + sabem ou não «civilidade». +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação + de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar, + restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia. +</p> +<p> + A reforma da instrucção das mulheres é em Portugal ainda mais urgente + que a da instrucção dos homens. +</p> +<p> + As linguas não constituem instrucção, porque não ministram + conhecimentos, são apenas meios de os adquirir. +</p> +<p> + Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na + educação elementar, dos seguintes ramos de ensino: +</p> +<p> + 1.° Curso de aceio e de arranjo; +</p> +<p> + 2.° Curso de cozinha (chimica culinaria). +</p> +<p> + 3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia, + juntamente com as necessarias habilitações litterarias para adquirir + idéas, as seguintes noções praticas: +</p> +<p> + Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa + branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as + esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso + domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os + melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de <i>toilette</i>; de + arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras; + de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos; + de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas. + Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de + escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles + se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a + bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os + inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de + mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os + pequenos jantares. +</p> +<p> + Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos + differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas + mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças, + vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no + vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina + aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo. +</p> +<p> + O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o + caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o + caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma + boa digestão. +</p> +<p> + Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de + dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das + senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia + nacional. +</p> +<p> + Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta + affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade + physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o + que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem + preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que + não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas + por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um + liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A + condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima + quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que + não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e + perfeitamente transparente. +</p> +<p> + Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás + suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D. + Jeronyma acha mais util ensinar o que é o <i>substantivo</i>. Como se alguem + no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o + <i>substantivo</i> é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos), + não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o + <i>substantivo</i>, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o + papão! +</p> +<p> + Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D. + Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow, + demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe + no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da + civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe + entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um + povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação. + É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada + governa o mundo e determina o destino das sociedades. +</p> +<p> + Em Londres os mais importantes jornaes, como a <i>Quaterly Review</i>, teem + chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da + iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da + regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das + cozinhas dos differentes póvos, etc. +</p> +<p> + A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem + as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e + compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que + obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus + habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento + publico de educação feminina intitulado <i>Escola nacional de cozinha</i>. O + numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca + de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso + estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de + cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram + meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão + inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as + competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e + descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações, + ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto. +</p> +<p> + Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na + economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão + divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias + teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os + meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia + que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por + semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não + obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é + inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um + conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas. +</p> +<p> + O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado + praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico + das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço + ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo, + o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo + o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do + anno em que elles houverem de ser feitos. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas + deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da + familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os + mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o + balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos + os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos + differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os + reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as + despezas imprevistas, e o <i>fundo de reserva</i>—verba essencial, + indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa + sabiamente dirigida. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas, + a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua + verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado + mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços + equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher + invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella + seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com + que nos ameaça o proloquio vulgar: <i>uma casa é uma loba.</i> Não; a casa, + dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o + methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o + baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente + protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação + domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação + feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e + fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso + doce refugio. +</p> +<p> + Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto + dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher + engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com + factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre + em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os + casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario + uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento, + portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno + esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a + economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve + dotar-se a mulher. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da + mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços + de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna + reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da + aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a + graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos + cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos + das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas + não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas + nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As + meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos + instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos + livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os + rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos. +</p> +<p> + Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio + das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as + senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na + mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais + esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos + poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da + meteorologia nas obras dos arabes. +</p> +<p> + Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para + desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social. +</p> +<p> + Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira + das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para + ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora. + Toda a educação feminina tem de partir d'este principio. +</p> +<hr class="minor" /><!--===================--> +<p> + A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma + na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas + escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida + por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só + póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as + noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores + estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção + previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção + primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica. +</p> +<p> + O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel, + como algumas julgam, com a perfeita direcção do <i>ménage</i>, mas antes + depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção + impõe. +</p> +<p> + Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente + ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes + são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica. +</p> +<p> + Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico + de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a + posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas + contemporaneas. +</p> +<p> + Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do <i>Almanach das + Senhoras</i>, que temos presente. Temos tambem presente a <i>Gazeta das + Salas</i>, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que + qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias + do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas + collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres—sentimos + dizel-o—não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando + conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De + tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade + contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos + pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só + foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e + publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem + versos—não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente + publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais + profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais + sedenta de verdade e de justiça,—mas sim trovas d'uma sentimentalidade + de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca. + Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos + personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um + dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente + garantida, não dizemos já n'um congresso de <i>gentlemen</i>, mas n'um + simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis + fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina + honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do + <i>ménage</i>, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para + acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera + creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego + na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios + permanentes. +</p> +<p> + Compare-se o <i>Almanach das Senhoras</i>, com as collecções estrangeiras + collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a + educação pratica da <i>ménagère</i>, eleva o espirito, como a educação + litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta. +</p> +<p> + O <i>Jornal das donas de casa da Allemanha</i>, tem aperfeiçoado + profundamente os costumes e os habitos da vida domestica. +</p> +<p> + Na Inglaterra o texto da grande <i>Revista das mulheres inglezas</i> consta + de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de + physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas + de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noções + praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma + réclame de modas. +</p> +<p> + Taine cita no seu livro ácerca da Inglaterra varios artigos de mulheres + publicados nas <i>Transactions of international association for the + promotion of social sciences</i>. Os artigos intitulam-se: +</p> +<p> + <i>Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra</i>, por Barbara Collett; +</p> +<p> + <i>Applicação dos principios de educação ás escolas das classes + inferiores</i>, por Mary Carpenter; +</p> +<p> + <i>Estado actual da colonia de Mettray</i>, por Florence Hill; +</p> +<p> + <i>Estatistica dos hospitaes</i>, por Florence Nightingale; +</p> +<p> + <i>A condição das mulheres operarias em Inglaterra e em França</i>, por + Bessie Parkes; +</p> +<p> + <i>A escravatura na America e sua influencia na Grã-Bretanha,</i> por Sarah + Remand; +</p> +<p> + <i>Melhoramento das «nurses» nos districtos agricolas,</i> por mistress + Wigins; <i>Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho ás + mulheres,</i> por Jone Crowe, etc.. +</p> +<p> + Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos + amigos que tinha na sociedade ingleza, eram mulheres de casa, passando + uma vida extremamente simples e retirada. +</p> +<p> + Assim temos que na Inglaterra e na Allemanha a escola das <i>ménagères</i> + produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a + educação literaria, segundo os programma dos lyceus, nem dá <i>ménagères</i> + nem dá literatas. +</p> +<p> + Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que désse alguma coisa?... +</p> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da +Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS: CHRONICA MENSAL *** + +***** This file should be named 16214-h.htm or 16214-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/6/2/1/16214/ + +Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia +Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed +Proofreading Team + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + +*** END: FULL LICENSE *** + + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/16214-h/images/devil.png b/16214-h/images/devil.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..13a77a6 --- /dev/null +++ b/16214-h/images/devil.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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