summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:48:23 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:48:23 -0700
commit4d384284c611b0cdf8c250760e5b48a74bea29b9 (patch)
treeba9e86fb7419cbf1a76e72e8d21bb00380fdef99
initial commit of ebook 16214HEADmain
-rw-r--r--.gitattributes3
-rw-r--r--16214-8.txt2352
-rw-r--r--16214-8.zipbin0 -> 47842 bytes
-rw-r--r--16214-h.zipbin0 -> 89033 bytes
-rw-r--r--16214-h/16214-h.htm2723
-rw-r--r--16214-h/images/devil.pngbin0 -> 38908 bytes
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
8 files changed, 5091 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..6833f05
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,3 @@
+* text=auto
+*.txt text
+*.md text
diff --git a/16214-8.txt b/16214-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..6166f96
--- /dev/null
+++ b/16214-8.txt
@@ -0,0 +1,2352 @@
+The Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das
+Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes
+ Agosto a Setembro de 1877
+
+Author: Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz
+
+Release Date: July 6, 2005 [EBook #16214]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS: CHRONICA MENSAL ***
+
+
+
+
+Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
+Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
+Proofreading Team
+
+
+
+
+
+[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
+
+RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+NOVA SERIE TOMO X
+
+Agosto a Setembro 1877
+
+
+
+
+
+Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+universo, e da adoração de mim mesmo.
+
+P. J. Proudhon
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+Alexandre Herculano. O escriptor e o solitario de Valle de Lobos. A
+critica dos vivos e a critica dos mortos. A benevolencia e a justiça. A
+influencia que teve e a que podia ter o grande escriptor. A missão dos
+mestres O monumento da imprensa.--A recente viagem de suas magestades e
+altezas. No Bussaco, em Vidago, no Porto. Algumas notas aos annaes
+d'essa excursão.--Os attentados do sr. Barros e Cunha e a historia
+d'este personagem. O poeta lyrico, o deputado, o leitor do _Times_, o
+cortesão, o ministro. Diagnostico e prognostico.--Algumas producções
+musicaes: _As cutiladas do Passeio Publico_, polka; _A Roma! a Roma!_
+valsa.--Algumas palavras aos srs. advogados.--Os exames das meninas no
+Lyceu Nacional. Os fins da educação. Um programma de ensino para o sexo
+feminino. Como se prepara a emancipação da mulher. Duas catastrophes: o
+estado da litteratura feminina e o estado da cosinha nacional. Grito
+afflictivo do paiz: Menos odes e mais caldo.
+
+O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano
+pertence ao dominio da posteridade desde as 10 horas da noite de hontem,
+14 de setembro de 1877.
+
+Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade terão
+de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na
+terra, succedendo-se um ao outro no individuo d'aquelle nome.
+
+Um d'esses cidadãos é o historiador da nacionalidade portugueza e da
+inquisição em Portugal, o romancista do _Monasticon_, o poeta da _Harpa
+do Crente_, o profundo pensador, o sabio archeologo, o paciente erudito,
+o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o
+inimitavel mestre.
+
+O segundo dos cidadãos que passaram no mundo sob o nome de Alexandre
+Herculano é simplesmente o illustre solitario de Valle de Lobos.
+
+ * * * * *
+
+Extranha evolução d'um mesmo ser! Aquelle que na primeira metade da
+existencia representa todas as vivas energias por meio das quaes o
+espirito póde actuar no impulso d'uma civilisação e no aperfeiçoamento
+d'uma sociedade, não é no segundo periodo da sua vida senão o objecto
+passivo e inerte d'uma designação ascetica, imposta pela banalidade
+rhethorica dos noticiarios--o _solitario illustre!_
+
+ * * * * *
+
+Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre
+Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais
+importante collecção dos modernos trabalhos litterarios--o _Panorama_;
+enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem
+o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com
+o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se
+denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco
+dos romanticos de 1830, que elle sabia traçar com o garbo marcial
+d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o
+admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a
+nova geração que vem despontando atraz d'elle; chama á peleja o partido
+ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as
+hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases
+do moderno movimento intellectual, suggere novas idéas, novas
+aspirações, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua
+época por meio das fecundas agitações do espirito que acceleram nas
+sociedades vivas a elaboração do progresso.
+
+ * * * * *
+
+Como _illustre solitario de Valle de Lobos_, Herculano rescinde a
+sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o
+genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como
+sendo elle mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande
+universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmações da
+sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras á sombra
+projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inacção
+em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o
+prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o
+seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade.
+
+O dia do nosso grande lucto nacional não é aquelle em que expirou o
+solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o
+vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da
+multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida,
+traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e
+sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas,
+aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e
+sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão
+de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a
+divina verdade.
+
+ * * * * *
+
+A isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico,
+comprometteu o destino mental d'uma geração inteira. Pelo intenso poder
+das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela
+auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela
+reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem
+naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu
+tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi
+uma catastrophe para a geração moderna.
+
+Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse
+alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral.
+
+Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz
+firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a
+expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes
+enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna
+deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma
+prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa.
+
+A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades
+ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um
+tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por
+cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de
+batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria
+da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram
+o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e
+patifes, com os seus pés miseraveis.
+
+A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os
+socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é
+impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a
+cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez
+d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a
+chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se,
+depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e
+recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É
+este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que
+constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza.
+
+A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional
+que a devia prender estreitamente á grande alma popular.
+
+A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar
+e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos.
+
+Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre
+Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do
+movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado
+importantemente o nosso estado social.
+
+Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes,
+poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos--o
+partido conservador e o partido revolucionario,--de cuja controversia
+depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade
+portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional.
+
+Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da
+instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão
+propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela
+convivencia e pela cultura da historia.
+
+Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e
+tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um tão
+inteiro prestigio e d'uma tão completa e absoluta auctoridade.
+
+Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á
+fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do
+sentimento nacional.
+
+ * * * * *
+
+Exercer essa alta direcção dos espiritos é nas sociedades modernas a
+missão dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este
+seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na força da
+intelligencia e da vida o posto de honra a que chegára pelo esforço do
+seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o
+dotára.
+
+Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos,
+todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever
+social, viveram combatendo até á ultima hora e morreram com a penna na
+mão.
+
+Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno
+combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde
+muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a
+tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua
+longa vida fôra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas,
+de triumphos, das mais violentas commoções que podem opprimir e
+dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito
+de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle
+todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa
+pertinacia d'um só homem, tão debil e tão caduco que qualquer mulher
+poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a França deve a
+sua reconstituição politica e social, e a democracia a affirmação mais
+poderosa e mais energica d'uma republica no coração da Europa.
+
+Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel
+decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma
+lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais
+d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades
+na conclusão da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu
+similhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais
+peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua
+invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais
+profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o
+admiravel livro em que depõe com a ultima palavra o ultimo suspiro.
+
+Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento
+d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para
+todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as multiplas aptidões
+cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades
+dirigentes, não tem esse direito.
+
+A benevolencia devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos actos de
+cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém
+devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o
+dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as
+condições que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa
+linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade.
+
+E é só assim que as gerações aprendem o que têem de agradecer e o que
+têem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero
+sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têem de
+submetter-se aquelles que estão vivos.
+
+A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano
+a quebrar as suas relações mentaes com a sociedade, é um importante
+estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na
+confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau
+de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a
+isolação d'Herculano não é um simples episodio biographico, é um facto
+social, é um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza.
+
+O exemplo do _solitario de Valle de Lobos_ será profundamente nocivo, se
+não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica.
+
+Todos aquelles que trabalham com dedicação e com honra, que se
+consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela conclusão do
+trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que
+vêem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da
+humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e
+desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada
+instante, á grande lucta da consciencia com as suggestões do egoismo,
+com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o
+desdem. É perigoso para os que teem ainda, no meio da dissolução geral
+dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa
+dedicação do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que é a vida
+de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente
+sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa
+indifferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o
+arduo e penoso rumo do dever.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o
+fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua
+admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um
+monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que não
+está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto.
+
+Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa
+como um de seus membros, eis o que proporiamos.
+
+ * * * * *
+
+A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua
+_Historia de Portugal_, é possivel que houvesse já sido lida, mas, com
+quanto escripta ha muitos annos, não foi por emquanto estudada.
+
+Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, d'analyse, de
+deducção, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico
+portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do
+philosopho e na obra do artista:--a negação do milagre d'Ourique e das
+côrtes de Lamego.
+
+O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo d'um
+aspecto,--o aspecto das nossas superstições.
+
+As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da familia,
+da patria interessaram-nos d'um modo tão mediocre que nunca nos
+suggeriram uma idéa clara sobre qualquer d'esses phenomenos.
+
+De tão multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da
+nossa vida civil, um unico nos commoveu até as mais intimas
+profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou não
+tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha,
+e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado d'uma operação
+estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos
+do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus.
+
+Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da _Historia de
+Portugal_ passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o
+qual não teve ainda, até hoje, occasião de publicar um artigo
+scientificamente fundamentado ácerca do papel do nosso primeiro
+historiador na direcção dos estudos historicos e na comprehensão das
+leis fundamentaes da nossa evolução social.
+
+A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a
+publicação d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas
+perante um grande escriptor é mostrar que o leram. Com relação a
+Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que
+desempenhar-se d'ella com tanta mais promptidão, quanto é certo que o
+seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador
+dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste
+mortalha em que desceu envolto para o tumulo--a mortalha do desprezo.
+Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Annaes da viagem de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo
+os telagrammas publicados por toda a imprensa e da acção civilisadora da
+mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os alludidos documentos.
+
+CAPITULO I
+
+Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta
+secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo
+passeou matta. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta
+companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel.
+
+CAPITULO II
+
+Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo encontrou interessante menino na
+serra e afagou. Commoção todos visitantes que presencearam acto Anjo
+afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram pé Fonte Fria.
+Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo
+medio. Jubilo povo augmenta progressivamente.
+
+CAPITULO III
+
+Bussaco... agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinoes gorgeando
+secular floresta. Chamados á pressa para gorgear na balseira bauda de
+infanteria 14 e cysne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por
+Quatorze e por Cysne innarravel.
+
+CAPITULO IV
+
+Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo recusa licença a _touristes_
+comerem saborosos peixes ria d'Aveiro em secular floresta. Preciosos
+Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos.
+Jubilo povo augmenta.
+
+CAPITULO V
+
+Bussaco... d'agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir _touristes_
+petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. N'este mesmo
+momento secular floresta saborosos peixes estão sendo comidos
+_touristes_ com approvação d'Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio
+meia hora e 16 1/2 segundos. Jubilo povo toca raias.
+
+CAPITULO VI
+
+Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo e suas altezas Preciosos
+Penhores acabam de partir Porto, comboyo expresso. Anjo e Preciosos
+Penhores não mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo
+povo.
+
+CAPITULO VII
+
+Vidago... d'agosto. Sua magestade Excelso Soberano, acompanhado duas
+phylarmonicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta
+maiores eguas, chegou sem novidade real saude. Indiscriptivel jubilo
+povo.
+
+CAPITULO VIII
+
+Vidago... d'Agosto. Excelso Soberano foi tomar aguas 10 horas. Voltou
+tomar aguas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam
+acto Excelso Soberano tomar aguas. Grande ardor geral pelas instituições
+monarchicas e pela dynastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possivel
+fôr.
+
+CAPITULO IX
+
+Vidago... d'agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois
+rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces
+pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca
+zenith.
+
+CAPITULO X
+
+Vidago... d'agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado
+phylarmonicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausencia
+excelso soberano e real sequito, convertidos triste ermo. Jubilo povo
+impossivel descrever palavras humanas.
+
+CAPITULO XI
+
+Porto... d'agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triumphal n'este Baluarte
+liberdade sua magestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas
+Louras Creanças. Jubilo povo de Baluarte e concelhos ruraes adjacentes
+delirante.
+
+CAPITULO XII
+
+Porto... d'agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade
+que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenetico.
+
+CAPITULO XIII
+
+Porto... d'agosto. Louras creanças passear Palacio Crystal. Anjo não
+passeiar Palacio Crystal. Jubilo povo febril.
+
+CAPITULO XIV
+
+Porto... d'agosto. Anjo e Louras Creanças foram photographar-se ao
+atelier Fritz. Duas innocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo
+da Caridade. Anjo afagou. Circumstantes lagrimas em fio pelas faces.
+Anjo e Louras Creanças retrataram-se em cinco posições differentes, que
+são todas as posições de que é susceptivel o corpo humano, a saber: em
+pé, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo
+vertiginoso.
+
+CAPITULO XV
+
+Porto... d'agosto. A este Baluarte liberdades patrias acaba chegar
+augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse
+Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos
+defensores Baluarte ás janellas. Jubilo povo epileptico.
+
+CAPITULO XVI
+
+Porto... d'agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico
+Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triumphal. Rapazes
+precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo,
+vendo rapazes exposição joelhos carruagem descoberta, inultrapassavel.
+
+CAPITULO XVII
+
+Porto... d'agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras
+Creanças regressam hoje comboyo expresso a Lisboa. Governador civil,
+bispo, senhoras, beijar mão Neto, Anjo, Louras Creanças. Derradeiro
+adeus estação. Baluarte liberdade sem Louras Creanças, Anjo e Neto,
+medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana.
+
+
+NOTAS
+
+
+AOS ANNAES DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS
+
+A
+
+_Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc._
+Informações subsequentes ministradas aos jornaes pelo _Banhista de Luso_
+explicam a materia do capitulo que principia pelas palavras acima
+reproduzidas.
+
+Os _touristes_ a quem foi denegada licença para celebrarem um _pic-nic_
+dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua
+magestade que se dignasse conferir-lhes a permissão de comerem os peixes
+que tinham pescado para o _pic-nic_, não já dentro, mas sim fóra da
+matta.
+
+Foi a este segundo requerimento, attendendo ás supplicas dos _touristes_
+e ao estado em que começavam a achar-se os peixes, que sua magestade se
+dignou de deferir de um modo inteiramente amavel e munificente.
+
+O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porém
+immersos na mais acerba incerteza ácerca dos pontos da superficie solida
+do reino em que nos é licito comermos peixe sem invadirmos as
+residencias de suas magestades.
+
+Porque, desde o momento em que não só as grandes serras mas tambem as
+bacias dos valles adjacentes se consideram, pela jurisprudencia invocada
+no Bussaco, como dependencias dos aposentos da real familia, ficamos
+perplexos sobre se o safio que pescámos esta manhã no logar do Bico na
+praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este
+facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos
+nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a
+solução d'este problema:
+
+Dado um safio pescado á linha na ponta do Bico na praia da Cruz
+Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependencia geologica do Paço de
+Queluz pelo valle da ribeira do Jamor, e do Paço da Ajuda pelas
+quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro
+lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas
+de cebola e tomate, com o competente fio d'azeite e o devido pimentão;
+tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas
+vezes sem se destapar o tacho;
+
+Pergunta-se:
+
+Se podemos passar a comer o safio, collocados na dita latitude da Cruz
+Quebrada, entre os reaes paços de Queluz e da Ajuda, sem por esse acto
+faltarmos ao respeito devido á inviolabilidade das montanhas, dos valles
+e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir.
+
+Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas
+reaes ordens, que o sr. Barros e Cunha, encarregado juntamente com o sr.
+Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua magestade,
+queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou não ao numero
+d'aquelles que s. ex.ª se acha mobilando para recreio de suas magestades
+em collaboração com o seu socio nas reformas do ministerio das obras
+publicas o sr. estofador Alcobia.
+
+O melhor talvez--permittam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta
+ideia--seria, para não estafar muito o ministerio de suas excellencias
+com o despacho de repetidas petições do caracter da nossa, que suas
+excellencias assignalem com marcos geodesicos as regiões que vão ser
+forradas de papel para aposentos reaes, e que n'esses postes se
+especifique com os devidos letreiros: _Aqui se pode comer o saboroso
+peixe_ ou _Aqui o saboroso peixe se não pode comer_.
+
+E o paiz todo beijará reconhecido a mão energica dos srs. conselheiros
+da coroa Alcobia e Barros e Cunha!
+
+B
+
+_Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte
+liberdade em exposição triumphal._ Correspondencias minuciosas explicam
+detidamente o episodio narrado n'este capitulo.
+
+El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios,
+dois rapazes que se ajoelhavam por occasião da passagem de sua
+magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulação tão
+vigorosa manifestada em annos tão verdes, indagou-se uma tal affirmação
+de subserviencia procedia de preleções previas dadas por algum aulico
+ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois
+adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais
+pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de tão
+honrosas informações, levar comsigo os dois esperançosos jovens e
+encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram
+em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e
+precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. Não sabemos
+se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como
+deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos
+referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo
+asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago.
+
+Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei ácerca
+dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagações, porque é
+de saber que os rapazes de joelhos não apparecem unicamente a sua
+magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e
+de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se
+encontrou com o commovente quadro, não deixando nunca de o saudar com
+um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos
+se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de enthusiasmo.
+E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz:
+
+--Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum
+de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o
+lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola,
+seus sicarios?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de
+Jesus Christo?! _Nosso Senhor tambem pediu_!!... Em que escola
+aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?... O que tu merecias é que
+eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a
+blasphemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses
+tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua
+confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de
+trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser
+homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio
+como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande
+obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a
+fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem
+e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas,
+conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa
+cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como
+qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo
+a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo,
+dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com elle
+fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela
+mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da
+mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se
+reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem
+pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus
+te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a
+pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do
+trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por
+sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu
+és indigno da tua gerarchia d'homem e não passas de uma besta sordida e
+immunda.
+
+Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos
+rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes
+praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho
+cerrado e os bicos dos nossos sapatos--de tres solas repregados de
+terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de
+moscardos--concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos
+rapazes onde era a escola.
+
+Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que
+apparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola.
+
+Os paes não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade,
+habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a
+serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis,
+rasteiros, malevolos, vingativos, mandriões e covardes.
+
+São elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de
+ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento
+successivo das cadeias e dos hospitaes.
+
+Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses
+embriões do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus pés, outros
+pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos,
+uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a metter o pão ao
+forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as
+medas ou a debulhar o milho.
+
+Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos
+dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos
+chamar:--o premio Monthyon da malandrice.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo
+acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro
+da corôa, o sr. Barros e Cunha.
+
+Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas
+respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como
+phenomenos normaes em um regimen em dissolução destinado a acabar um
+pouco mais tarde ou um pouco mais cedo.
+
+Quando porém a acção do poder exorbita da mancommunação ministerial, da
+intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esphera
+do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos
+inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo
+desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição
+com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de
+Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funccionario delinquente.
+
+ * * * * *
+
+Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a physionomia do personagem
+antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos.
+
+Antigo poeta lyrico de inspiração canalisada pelos jornaes poeticos e
+pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando
+a carreira poetica, foi enviado na idade madura á camara dos deputados
+na qualidade de leitor do _Times_ por um circulo do reino em que se não
+sabia inglez.
+
+Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi
+declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da
+camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde
+tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em
+a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um
+determinado numero de sons articulados sem connexão logica, sem forma
+litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes
+sons reunidos constituem a collecção dos discursos parlamentares de s.
+ex.ª.
+
+Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das ultimas
+legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferença bocejante
+da camara e da galeria, folhear os numeros do _Times_ collocados sobre a
+sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as
+palavras n'um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal,
+como a de quem falla por um nariz de assucar.
+
+No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas
+partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para
+acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo
+roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer
+signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em
+seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo
+irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de duvida ou
+incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar
+os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos
+passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de
+beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó
+do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha,
+carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impellida adeante
+das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por
+todas as carroças, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto,
+lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas
+ripes e produzida em publico por s. ex.ª, n'uma exposição solemne, ao
+fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra.
+
+Estas fallas eram acompanhadas por s. ex.ª com variados gestos
+carinhosos e piegas: já de quem amamenta as methaphoras que tem ao
+colo, já de quem acaricia e afaga buliçosos tropos adjacentes, já de
+quem com o bico do lapis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar
+no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa
+adormecida.
+
+Elle no entanto sorria de quando em quando, ironico e triumphal,
+circumgirando pela sala no fim de cada periodo um olhar destinado a
+indicar ao auditorio que dentro do seu pequenino craneo a malicia de
+Bertholdinho se achava alliada á finura de Polycarpo Banana.
+
+Uma vez pelo menos em cada um d'esses discursos, quando o orador
+parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu lenço branco e batia
+com os nós dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo d'agua,
+vozes de deputados repentinamente extremunhados applaudiam-o. O que não
+consta é que ninguem se lembrasse nunca de o contrariar.
+
+ * * * * *
+
+Cahido o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquez d'Avila para formar
+novo ministerio, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de
+«caracter conciliador.» Deputado ás cortes em successivas legislaturas,
+tendo a palavra em quasi todas as sessões, tão vigorosamente havia
+servido a causa ecletica da banalidade que não conseguira crear um unico
+adversario. Taes foram os titulos que levaram s. ex. aos conselhos da
+corôa.
+
+Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do
+commercio e da industria, s. ex.ª para quem a industria, o commercio, as
+obras, eram outros tantos porticos inaccessiveis, envoltos nas trevas
+mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse á
+popularidade sem o intrometter na gerencia e na direcção dos negocios.
+
+Para esse fim s. ex.ª começou a passear as ruas de Lisboa montado na
+imagem rhetorica em que Napoleão nos apparece nos discursos do sr.
+Manuel da Assumpção. Aos sabbados s. ex.ª tomava o caminho de ferro e
+dirigia-se em carruagem salão a todos os pontos da provincia em que
+houvesse uma fabrica, uma officina, um monumento publico para que olhar,
+e uma phylarmonica para o ir esperar á _gare_.
+
+No desempenho d'esta primeira parte do seu programma s. ex.ª foi de uma
+actividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavallo, anoitecia
+a cavallo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um
+momento--tambem a cavallo. Estes exercicios de gineta amestraram o
+cavallo de s. ex.ª até o ponto de poder elle proprio ser ministro--em
+liberdade.
+
+Nas suas digressões pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o
+zelo de s. ex.ª pelos principios do seu programma administrativo não
+conhecia limites. Eis uma amostra do caracter d'essas viagens
+hebdomadarias:
+
+S. ex.ª chega a Thomar pelo trem do correio ás 12 horas 45 m. da tarde.
+Uma phylarmonica espera-o na estação de Payalvo e acompanha-o ao som do
+hymno da carta até casa do sr. conde de Thomar. Ás duas horas da
+madrugada s. ex.ª ceia e levanta tres brindes a Thomar, á real familia e
+á carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex.ª nos aposentos que
+lhe estavam reservados e leitura do _Times_ até ás 5 horas 30 minutos.
+A's 5 horas 31 minutos s. ex.ª descalça metade das botas e repousa um
+momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os eccos do
+hymno da carta. A's 6 horas, convergencia das forças musculares de s.
+ex.ª sobre os puchadores das suas botas e pedido d'agua morna para a
+barba de s. ex.ª A's 7 horas, sabida de s. ex.ª dos aposentos que lhe
+estavam reservados, presença de s. ex.ª no terraço da casa e aspersão
+dos raios visuaes de s. ex.ª sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas
+recepção da camara municipal e dos tres ou quatro maiores contribuintes.
+A's 9 horas almoço com brindes de s. ex.ª á carta, a Thomar e á real
+familia. A's 10 horas ida para a fabrica de fiação. As' 12 horas lunch
+na fabrica e brindes de s. ex.ª á real familia, a Thomar e á carta. A' 1
+hora da tarde volta para Thomar, jantar e brindes de s. ex.ª á carta, á
+real familia e a Thomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno
+pela phylarmonica na estação de Payalvo e regresso de s. ex.ª á capital.
+
+ * * * * *
+
+Uma vez por semana, ás quintas feiras, s. ex.ª acompanhava os seus
+collegas ao Paço. Tendo mostrado sobre o chouto da allegoria do sr.
+Manuel da Assumpção que possuia uns rins de bronze; tendo provado nas
+digestões accumuladas das mayonaises do sr. conde de Thomar e dos
+pudings da fabrica de fiação que era dotado de um estomago d'aço, s.
+ex.ª aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a côrte,
+de que reune a esses dotes anathomicos a feliz particularidade de uma
+espinha de cebo.
+
+Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posição
+vertical de s. ex.ª dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de
+35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex.ª deprimia-se
+progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma
+concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava então para outra
+parte a fim de que os tecidos democraticos do seu secretario de estado
+não acabassem de derreter, deixando nos degraus do throno, como despojo
+de quanto representara no Paço o departamento das obras publicas, um
+fardamento, uma calva e uma nodoa.
+
+Impedido de fundir, s. ex.ª procura manifestar por outros actos o ardor
+do seu zelo como novo aulico.
+
+Para esse fim atropela as disposições legislativas que regulavam o
+arrendamento das casas do Bussaco entregues á administração geral das
+mattas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatarios,
+expulsa as familias que habitavam o convento, e offerece este a sua
+magestade a rainha para ella passar a estação calmosa--nas casas dos
+outros.
+
+Desde o tempo dos antigos aposentadores móres, que precediam os reis
+absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas occupadas por seus
+donos para n'ellas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer
+reviver para lisongear os reis um dos mais oppressivos privilegios
+monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os
+mais atrevidos e insolentes mandões não ousaram jámais ultrajar por tal
+modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr.
+Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no paço tão
+passivamente e tão irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana,
+acocorado a um canto n'uma prostração burlesca, bolindo automaticamente
+com a cabeça e deitando a lingua de fora ou mettendo-a para dentro,
+segundo leva ou não leva da real mão um piparote na nuca.
+
+Para bajular el-rei como bajulára a rainha o mandarim sr. João Gualberto
+determina que obras extraordinarias se façam na estrada de Vidago e
+manda abonar por conta do ministerio das obras publicas salarios na
+importancia exorbitante de 1$200 réis por dia aos operarios empregados
+em um dos lanços da estrada alludida.
+
+ * * * * *
+
+Estes factos porém, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de
+cortezão, não o definiam sufficientemente pelo seu lado de ministro. Os
+conselheiros de s. ex.ª tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora
+algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria,
+e s. ex.ª principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi então que
+no _Diario do Governo_ appareceu o documento que nos propomos analysar e
+começamos por transcrever:
+
+«Sua magestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao
+contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo director das
+obras da penitenciaria central de Lisboa com João Burnay, para
+fornecimento de ferros para as obras d'aquelle estabelecimento,
+considerando:
+
+«1.° Que esse contrato se encontra viciado;
+
+«2.° Que n'elle se não observou o que dispõe o artigo 10.° do
+regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862;
+
+«3.° Que não se abriu praça nem se fez deposito algum, conforme dispõe
+a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condições geraes de
+empreitadas das obras publicas de 8 de março de 1861;
+
+«4.° Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu
+adiantadamente na importancia de 88.889$312 réis, falta a approvação do
+governo, segundo o disposto no artigo 2.° das mesmas clausulas e
+condições geraes e da circular de 15 de maio de 1862:
+
+«Ha por bem ordenar que se dê por findo e terminado o dito contrato,
+procedendo-se á liquidação dos artigos já fornecidos ou em deposito,
+observando-se de futuro todas as prescripções em vigor n'este ministerio
+para quaesquer contratos em que elle tenha de interferir.
+
+«O que, pela secretaria de estado dos negocios das obras publicas,
+commercio e industria, se communica ao director das obras publicas do
+districto de Lisboa, para os devidos effeitos, em referencia ao seu
+officio datado de 26 de junho ultimo.
+
+«Paço, em 3 de julho de 1877.--_João Gualberto de Barros e Cunha._
+
+«Para o director das obras publicas do districto de Lisboa».
+
+ * * * * *
+
+Por esta portaria rescinde-se sem mais appellação nem aggravo um
+contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o
+governo. Ora o governo não é um poder pessoal, de caracter intermitente
+ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e
+Cunha. O governo é uma entidade impessoal e constante.
+
+O sr. Barros e Cunha é obrigado como ministro a manter todos os
+contractos feitos pelo seu ministerio, porque em quanto ministro o sr.
+Barros e Cunha não é um individuo, é o governo. O governo fez um
+contracto com o sr. Burnay, esse contracto acha-se em execução, o
+governo porem resolve por sua propria auctoridade rescindir o mesmo
+contracto, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos
+juridicos se annulla, sem mais formalidade que a publicação de uma
+portaria, um contracto de similhante natureza:
+
+O sr. Barros e Cunha allega em primeiro logar:
+
+_Que o contracto se acha viciado_. A isto responde o engenheiro
+constructor da Penitenciaria e signatario do contracto por parte do
+governo que a viciação allegada consiste em se haver alterado a data em
+que o sr. Burnay se compromette a concluir os seus trabalhos, mudando-se
+os numeros 1877 em 1876. O resultado d'esta viciação era collocar o sr.
+Burnay sob a acção de uma multa por não ter concluido a sua obra no
+praso prefixo. É evidente que não podia ser o sr. Burnay que viciasse o
+contracto raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por
+outro que o prejudica.
+
+A viciação do contracto é por tanto um facto necessariamente alheio á
+intervenção do sr. Burnay.
+
+A legislação invocada nos considerandos 2.° e 3.°, não tem cabimento,
+porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem
+os casos em que _a concorrencia possa prejudicar a rapidez ou a
+perfeição do trabalho_ e em que o _deposito póde ser substituido por
+fiança ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro_. E ambos
+estes principios são reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual
+contractou elle mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicação
+d'esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito.
+
+As affirmações contidas no considerando n.° 4, são puramente falsas,
+como já declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta
+da approvação do governo é uma mentira e o adiantamento de 88:886$312
+réis é uma calumnia.
+
+Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante
+deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de não haverem
+sido satisfeitas essas clausulas póde caber ao fabricante, ao fornecedor
+ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que
+fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse elle quem a si
+mesmo se obrigasse ao deposito? Se não se cumpriram as formalidades a
+que a portaria se refere, a culpa é unicamente do governo. Como é pois
+que o governo rescinde um contracto por um facto cuja culpa é d'elle e
+não do individuo com quem elle contractou?
+
+Podem aquelles que tem negocios com o governo ficar sujeitos a
+similhante arbitrio?
+
+Póde o governo annullar assim um contracto em que se acham envolvidos
+interesses avultados d'aquelle com quem é feito unicamente porque o
+governo diz reconhecer que não contractou nos termos em que devia ter
+contractado?
+
+Foi approximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relação
+ao contracto do Passeio Publico. A camara rescindiu o contracto, mas o
+governo dissolveu a camara. Quem é que ha de dissolver o governo reu de
+delicto egual ao da camara?
+
+Em vista de um tão flagrante attentado contra os seus interesses
+industriaes, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a
+portaria alludida é cheia de vagas insinuações insultantes e injuriosas
+apesar de cobardemente rebuçadas, o sr. João Burnay representou ao
+governo requerendo que se lhe dê vista do processo em que é ao mesmo
+tempo accusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os
+fiscaes da corôa e da fazenda. O sr. Barros e Cunha não despachou esta
+petição e manteve os effeitos da sua portaria absurda, falsa,
+calumniosa, e infamante.
+
+É a isto que nós chamamos o mais violento dos attentados perpetrado pelo
+arbitrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos
+cidadãos.
+
+ * * * * *
+
+O sr. Barros e Cunha é um criminoso diante do codigo e diante da carta.
+
+A carta torna-o responsavel no artigo 103 por tres delictos que
+commetteu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do
+poder, por falta de observancia da lei, e pelo que obrou contra a
+liberdade e contra a propriedade de um cidadão.
+
+Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil
+reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,--contra o
+direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359).
+
+A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle
+não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que
+elle não recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa
+calumnia sob a acção do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte:
+
+«A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue
+o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de
+submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes são a reparação
+do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil
+consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da
+omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de
+satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.»
+
+Um só caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da
+responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que
+perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demencia.
+
+ * * * * *
+
+Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal offensa
+não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios
+simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de
+primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente
+cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador
+elle é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portugueza.
+Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como elle em volta de si
+pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão
+preciosa actividade. É o proprietario e o chefe de uma grande officina
+modelo do seu genero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os
+elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns
+centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisação se
+lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e
+mais benemeritos, porque é por meio da iniciativa de homens como elle
+que os estados se moralisam e se enriquecem.
+
+Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é
+impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas
+aspirações--a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga
+constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não
+exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o
+exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo
+coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para
+outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando
+governa.
+
+ * * * * *
+
+Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o
+producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste
+maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos
+offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As
+suas faculdades não lhe permittirão defender-se.
+
+D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e
+deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um
+trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto,
+mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que
+nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em
+pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais
+violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais
+explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo
+condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha
+de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada
+feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,--de jacaré. A
+logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de
+ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria
+ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de
+ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A
+pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com
+tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e
+baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas
+de zabumba em theatro de feira.
+
+E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se
+destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr.
+Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão
+util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de
+ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas,
+commercio e industria.
+
+Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser
+modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o
+para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa.
+
+Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é
+mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso
+anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem
+desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do
+seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros
+extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a
+elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser,
+por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido
+sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de
+s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como
+um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir
+precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista.
+
+A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para
+ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão
+preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda
+tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos
+coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a
+piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento
+das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as
+forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos
+mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas
+satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria
+querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem.
+
+Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o
+desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a,
+não fizeram senão prejudical-a.
+
+Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A
+differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é
+o mesmo.
+
+
+ * * * * *
+
+
+O registo das producções musicaes portuguezas foi enriquecido durante o
+periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas
+mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a
+attenção que lhe é devida.
+
+ * * * * *
+
+_As Cutiladas do Passeio Publico_ é o titulo de uma polka refutativa dos
+principios estheticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar
+as fontes da inspiração artística.
+
+Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra d'arte, a
+orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os
+aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova força geradora:--a
+força da pancadaria.
+
+Na occasião em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o
+fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles
+são os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido
+passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão
+juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a
+policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas
+respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas.
+
+Á saida do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que
+acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes
+que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres
+policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta
+conjunctura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o
+quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por
+onde é que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta
+essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as
+suas familias com o ardôr bellicoso de um exercito encarregado da
+transformar o paiz n'uma almondega.
+
+Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem
+clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles
+regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com
+vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força
+publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas
+com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de
+cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca.
+Finalmente alguns bons socos applicados com arte não deixariam de fazer
+render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliação amigavel.
+
+As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem
+insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos
+canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a
+suas casas pedindo ás furias punição para os algozes e arnica para as
+victimas.
+
+Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforço
+popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de
+polka.
+
+Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja
+propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos
+e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que
+o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão
+legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo
+o caso em musica e em dansa de roda!
+
+Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos
+ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco
+rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques,
+simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio
+soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus
+actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas
+pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no
+presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e
+tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado
+uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa,
+todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com
+o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era
+nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra!
+
+Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o
+chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada
+mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á
+primeira!
+
+Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora,
+cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram!
+
+Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que
+não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos,
+que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas
+sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas
+tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a
+arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e
+terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens
+delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te
+philarmonica. Substituiste a força da união pela _União e Capricho_.
+Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase _levar para o
+tabaco_ ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula--_levar para a
+musica_.
+
+Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o
+costume, despicaste-te com uma polka especial.
+
+As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam
+indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos
+santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração
+de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da
+Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas
+que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a
+expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões.
+Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas
+essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes
+campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do
+habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a
+semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua
+polka brilhante, _As cutiladas do Passeio Publico!_
+
+O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te
+appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os
+instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a
+vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros
+democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de
+clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da
+tyrannia a vindicta dos povos.
+
+Emquanto á dignidade humana... lalarilolé... e emquanto á liberdade,
+ao direito e á civilisação... lariléliló... que nos importa isso?...
+Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é
+panno adesivado...lólaró... e fios... trolarilolé!
+
+Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da
+terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o _sol... e dó!_
+
+ * * * * *
+
+O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no theatro da Trindade uma
+operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a
+partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a
+peça fóra da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir
+ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo--_Vamos a
+ellas_!
+
+Quem são _ellas? Ellas_, na bocca, no pensamento, na intenção do sr.
+Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas.
+
+Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hypotheses que esse
+perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem offensa do grave
+caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que _ellas_
+não sejam as missas para serem qualquer outra coisa.
+
+Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para
+as missas que nós somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica
+interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua
+Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao
+seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu
+spartito em punho, fosse directamente com a sua batina--para a sacristia
+das Mercês.
+
+ * * * * *
+
+_A Roma! a Roma!_ é o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo
+periodico religioso _A Nação_, e destinada a servir os mesmos designios
+piedosos que levaram o sr. Conceição Borges _a ellas! a ellas!_
+
+Nada mais commodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da
+penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada
+comprehensão dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para
+Deus não pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do
+cotillon é um dos mais notaveis serviços que a arte podia prestar á
+alliança da religião e do _chic_.
+
+Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vae revolucionar
+completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno
+inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos:
+
+--Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da
+impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa?
+
+E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo
+os olhos ao céu.
+
+--Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada.
+
+E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares
+deslisando em gyros ondulantes sobre os _parquets_ polidos, cingindo com
+o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na
+mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que
+chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença
+exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas
+pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados,
+e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E
+conversaremos:
+
+--Como a religião é boa! como é ineffavel!... Eu sinto a voz do meu
+coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!
+
+--E começa a ter crenças?
+
+--Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delirio!...
+Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!...
+Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu,
+meu anjo da guarda!...
+
+--Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua
+indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja
+uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo
+Pontifice, não acredita?
+
+--Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu
+coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate!
+Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os
+seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos
+Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o
+mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na
+disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro
+perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que
+blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes...
+
+--Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que
+nos seguem... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa!
+
+--Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma
+joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da
+cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoço...
+
+--Deus do céu!
+
+--Entre a costelleta e a omelette...
+
+--Virgem Maria!
+
+--Misturada com vinho de Pauillac...
+
+--Santos e Santas da côrte celeste!
+
+--Em partes eguaes, metade vinho, metade agua...
+
+--Mas vae para o inferno essa alma!
+
+--Está claro que sim. E é bem feito!
+
+--Se não houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir.
+
+--Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por
+todos os seculos dos seculos sem fim não é uma chimera. Hão-de
+amargal-as, que ha de ser um consolo--para nós!
+
+--Amen! Amen, Jesus Maria José!
+
+Assim conversarão elles e ellas durante a piedosa valsa _A Roma! a
+Roma_! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-hão
+ao empyreo, e irão pela via lactea fóra, sempre valsando, a demandarem a
+entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das
+nossas soirées ao divino.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Aos srs. advogados
+
+Meus caros senhores.--Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para
+onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte.
+Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oiço-o
+mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle
+ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a
+pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração d'elle é perfumada com o
+aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os predios
+da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e--coisa que lhe
+perguntei antes de o vir habitar--não toca piano.
+
+De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no
+cajado que nos está ouvindo áquelle canto, accendo um charuto e saio de
+cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas.
+
+Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preço de meio alqueire
+de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o
+metter ao forno e de o trazer ás costas para casa, d'ahi a dez minutos,
+embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no
+meu varapau.
+
+Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas
+velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas
+adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha.
+
+Tenho tambem relações nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros
+obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao
+postiguinho, e conversam para baixo comigo ácerca do vento provavel
+para o outro dia.
+
+É n'estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido
+os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes
+regras.
+
+ * * * * *
+
+Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no
+mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, não ha
+familia que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos
+srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do
+machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo,
+elle, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer
+como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vae ao
+advogado para que este o illucide.
+
+Os principios geraes da organisação social que nenhum cidadão devia
+ignorar n'um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o
+mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo,
+especialmenie, não tem idéa alguma das attribuições dos poderes a que
+elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se
+chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambiguo o
+que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão
+da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho
+do districto, a commissão do recenseamento, o delegado de saude, a
+policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o
+desgraçado se acha sob a acção de uma d'essas formas porque lhe apparece
+o principio da auctoridade, recorre ao letrado.
+
+--Cá está comnosco a justiça! diz elle á mulher ao receber qualquer
+papel official.
+
+--Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas
+nos olhos, atando as mãos na cabeça.
+
+--Má raios partam a justiça e mais aquelle que a inventou, que se o
+apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e
+tinha alma de lhe beber o sangue!
+
+Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover
+a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um
+filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na
+administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas
+pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de
+fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o pé de meia
+com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo
+para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são tambem os
+mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais
+pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco
+tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e
+custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para
+as primeiras despesas, e custa vinte mil réis.
+
+Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu
+emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o
+letrado é para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o
+medico. Com uma differença: Todos os medicos teem uma hora por dia em
+que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não teem
+egual caridade com os ignorantes pobres. Além do soccorro
+desinteressado de todos os medicos, os doentes têem ainda o banco dos
+hospitaes. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é
+inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza não
+ensina aos cidadãos quaes são os seus direitos nem quaes os meios de
+defesa perante a violação d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito
+maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doença.
+O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com
+dobrada rasão ter consultorios egualmente gratuitos para a justiça. Os
+advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os medicos
+para prestar á sociedade na maxima amplitude os serviço desinteressados
+que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe,
+por tantos outros titulos respeitavel, uma idéa bem triste.
+
+Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orphão e da viuva, o que
+nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que opprimem a viuva e
+os que tyrannisam o orphão.
+
+Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os
+defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa
+contraria.
+
+Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam
+com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, são
+conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço
+que deseja pagar.
+
+Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a
+punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a _commoção que
+se apodera do proprio orador_, o desfallecimento, a syncope, etc.
+
+O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao
+espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a
+tabella dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga
+mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se
+esclarece senão á noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o
+réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a
+cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de
+defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse
+selvagem (apontando para o réu) estava bebado.» Assim se justificava o
+crime de um homem que não tinha pago as circumstancias attenuantes ao
+defensor.
+
+ * * * * *
+
+Não será util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados
+restrinjam o campo, que offereccem ás correrias do epigramma,
+introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não
+poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois
+por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece
+lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s.
+ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco
+mais ou menos do teor seguinte:
+
+ * * * * *
+
+«Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma,
+directora do bem conhecido e acreditado collegio de _Nossa Senhora da
+Santíssima Purificação,_ rua de tal, numero tal, quarto andar, lado
+esquerdo. Foi hontem examinada em instrucção primaria e approvada com
+dez valores, no lyceu nacional, a menina Elvira Fernandes, alumna do
+referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da
+jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos
+carinhos dos examinadores de sua debil e tímida menina, a todos
+consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.»
+
+ * * * * *
+
+A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu
+nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos
+collegios de Lisboa.
+
+A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas
+as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas
+classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás
+_réclames_ das suas distribuições de premios.
+
+Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para
+o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá
+egual exito com relação á lingua ingleza.
+
+O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo
+dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e
+recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita
+professora _dá-a por prompta_ para entrar na sociedade mais escolhida.
+Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D.
+Jeronyma, _as prendas de mãos proprias do seu sexo_. Estas prendas
+consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de
+uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga,
+com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre
+um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a
+data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de
+bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:
+
+_Elvira Fernandez me fecit._
+
+ * * * * *
+
+Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das
+quaes aprendeu precisamente o indispensavel para _escapar_, caindo-lhe
+um thema facil e um examinador _carinhoso_, como muito bem dizia
+Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas
+porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma
+palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os
+conhecimentos theoricos da formação das palavras.
+
+Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a _Prière d'une vierge_ ou
+_Les cloches du village_, e de continuar a bordar em seda ou em casimira
+os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas
+almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das
+poltronas.
+
+Polycarpo reconhecerá então--demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai
+d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»--que D. Elvira possue, no
+estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo
+quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que
+versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a
+sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como
+esposa, e finalmente como mãe.
+
+ * * * * *
+
+De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem
+absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de
+vista pedagogico, são uma ostentação ridicula, offendem o bom gosto,
+desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo,
+incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ella é
+chamada na familia.
+
+ * * * * *
+
+Entendemos portanto que--desde o momento em que Fernandes é bastante
+obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua
+filha, e não só não protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma,
+mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,--ao
+Estado cumpre intervir; não se tornar solidario das illusões de
+Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D.
+Jeronyma o direito de a levarem a exame.
+
+ * * * * *
+
+_Levar a exame_! Só a palavra é um ultrage
+da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo
+do direito paterno tudo quanto ha mais delicado,
+mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se--o
+espirito virginal de uma menina,--ao
+interrogatorio official de um mestre que durante
+vinte minutos vae exercer sobre aquella
+alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um
+tal inquerito, um tal julgamento, póde ser desculpavel
+na educação de um rapaz, para quem
+o exame é uma habilitação legal para a sua carreira
+civil; na educação de uma menina portugueza
+similhante prova é inadmissivel e equivale
+a uma amputação do decoro.
+
+Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas
+a uma creança para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma
+mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a
+tornar mais educada.
+
+Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrucção
+primaria e de instrucção secundaria para todas as pessoas do sexo
+feminino que não juntem ao requerimento de matricula attestado de
+maioridade e de emancipação legal.
+
+ * * * * *
+
+Em um exame de instrucção primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este
+dialogo:
+
+_O examinador_--Que faz a menina quando se vae deitar?
+
+_A examinanda_--Quando me vou deitar...
+
+_O examinador_--Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga.
+
+_A examinanda_(córando até á raiz do cabello e baixando os
+olhos)--Quando me vou deitar... dispo-me.
+
+_O examinador_--E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir
+o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?... O que faz
+depois de se despir?
+
+_A examinanda_--Tenho vergonha...
+
+_O examinador_--Não tenha vergonha. Responda para diante!
+
+_A examinanda_--Depois de me despir o que eu faço é...
+
+E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo,
+com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco
+annos, n'essa lingua que os homens só fallam ás suas mães na pureza da
+innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que
+as linguas mortas, traduziu a locução de Plinio: _urinam ex se
+emittere_.
+
+O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo
+presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos.
+
+É assim que nos exames de instrucção primaria se averigua se as alumnas
+sabem ou não «civilidade».
+
+ * * * * *
+
+Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação
+de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar,
+restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia.
+
+A reforma da instrucção das mulheres é em Portugal ainda mais urgente
+que a da instrucção dos homens.
+
+As linguas não constituem instrucção, porque não ministram
+conhecimentos, são apenas meios de os adquirir.
+
+Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na
+educação elementar, dos seguintes ramos de ensino:
+
+1.° Curso de aceio e de arranjo;
+
+2.° Curso de cozinha (chimica culinaria).
+
+3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica.
+
+ * * * * *
+
+No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia,
+juntamente com as necessarias habilitações litterarias para adquirir
+idéas, as seguintes noções praticas:
+
+Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa
+branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as
+esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso
+domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os
+melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de _toilette_; de
+arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras;
+de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos;
+de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas.
+Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de
+escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles
+se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a
+bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os
+inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de
+mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os
+pequenos jantares.
+
+Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos
+differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas
+mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças,
+vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no
+vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos.
+
+No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina
+aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.
+
+O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o
+caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o
+caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma
+boa digestão.
+
+Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de
+dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das
+senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia
+nacional.
+
+Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta
+affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade
+physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o
+que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem
+preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que
+não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas
+por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um
+liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A
+condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima
+quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que
+não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e
+perfeitamente transparente.
+
+Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás
+suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D.
+Jeronyma acha mais util ensinar o que é o _substantivo_. Como se alguem
+no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o
+_substantivo_ é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos),
+não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o
+_substantivo_, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o
+papão!
+
+Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D.
+Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow,
+demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe
+no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da
+civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe
+entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um
+povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação.
+É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada
+governa o mundo e determina o destino das sociedades.
+
+Em Londres os mais importantes jornaes, como a _Quaterly Review_, teem
+chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da
+iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da
+regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das
+cozinhas dos differentes póvos, etc.
+
+A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem
+as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e
+compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que
+obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus
+habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento
+publico de educação feminina intitulado _Escola nacional de cozinha_. O
+numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca
+de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso
+estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de
+cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram
+meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão
+inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as
+competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e
+descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações,
+ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto.
+
+Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na
+economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão
+divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias
+teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os
+meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia
+que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por
+semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não
+obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é
+inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um
+conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas.
+
+O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado
+praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico
+das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço
+ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo,
+o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo
+o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do
+anno em que elles houverem de ser feitos.
+
+ * * * * *
+
+No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas
+deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da
+familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os
+mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o
+balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos
+os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos
+differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os
+reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as
+despezas imprevistas, e o _fundo de reserva_--verba essencial,
+indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa
+sabiamente dirigida.
+
+ * * * * *
+
+Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas,
+a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua
+verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado
+mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços
+equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher
+invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella
+seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com
+que nos ameaça o proloquio vulgar: _uma casa é uma loba._ Não; a casa,
+dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o
+methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o
+baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente
+protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação
+domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação
+feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e
+fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso
+doce refugio.
+
+Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto
+dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher
+engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com
+factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre
+em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os
+casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario
+uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento,
+portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno
+esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a
+economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve
+dotar-se a mulher.
+
+ * * * * *
+
+Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da
+mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços
+de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna
+reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da
+aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a
+graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos
+cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos
+das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas
+não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas
+nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As
+meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos
+instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos
+livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os
+rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.
+
+Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio
+das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as
+senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na
+mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais
+esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos
+poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da
+meteorologia nas obras dos arabes.
+
+Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para
+desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.
+
+Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira
+das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para
+ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora.
+Toda a educação feminina tem de partir d'este principio.
+
+ * * * * *
+
+A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma
+na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas
+escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida
+por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só
+póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as
+noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores
+estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção
+previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção
+primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.
+
+O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel,
+como algumas julgam, com a perfeita direcção do _ménage_, mas antes
+depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção
+impõe.
+
+Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente
+ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes
+são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica.
+
+Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico
+de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a
+posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas
+contemporaneas.
+
+Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do _Almanach das
+Senhoras_, que temos presente. Temos tambem presente a _Gazeta das
+Salas_, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que
+qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias
+do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas
+collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres--sentimos
+dizel-o--não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando
+conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De
+tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade
+contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos
+pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só
+foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e
+publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem
+versos--não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente
+publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais
+profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais
+sedenta de verdade e de justiça,--mas sim trovas d'uma sentimentalidade
+de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca.
+Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos
+personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um
+dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente
+garantida, não dizemos já n'um congresso de _gentlemen_, mas n'um
+simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis
+fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina
+honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do
+_ménage_, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para
+acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera
+creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego
+na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios
+permanentes.
+
+Compare-se o _Almanach das Senhoras_, com as collecções estrangeiras
+collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a
+educação pratica da _ménagère_, eleva o espirito, como a educação
+litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta.
+
+O _Jornal das donas de casa da Allemanha_, tem aperfeiçoado
+profundamente os costumes e os habitos da vida domestica.
+
+Na Inglaterra o texto da grande _Revista das mulheres inglezas_ consta
+de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de
+physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas
+de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noções
+praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma
+réclame de modas.
+
+Taine cita no seu livro ácerca da Inglaterra varios artigos de mulheres
+publicados nas _Transactions of international association for the
+promotion of social sciences_. Os artigos intitulam-se:
+
+_Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra_, por Barbara Collett;
+
+_Applicação dos principios de educação ás escolas das classes
+inferiores_, por Mary Carpenter;
+
+_Estado actual da colonia de Mettray_, por Florence Hill;
+
+_Estatistica dos hospitaes_, por Florence Nightingale;
+
+_A condição das mulheres operarias em Inglaterra e em França_, por
+Bessie Parkes;
+
+_A escravatura na America e sua influencia na Grã-Bretanha,_ por Sarah
+Remand;
+
+_Melhoramento das «nurses» nos districtos agricolas,_ por mistress
+Wigins; _Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho ás
+mulheres,_ por Jone Crowe, etc..
+
+Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos
+amigos que tinha na sociedade ingleza, eram mulheres de casa, passando
+uma vida extremamente simples e retirada.
+
+Assim temos que na Inglaterra e na Allemanha a escola das _ménagères_
+produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a
+educação literaria, segundo os programma dos lyceus, nem dá _ménagères_
+nem dá literatas.
+
+Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que désse alguma coisa?...
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da
+Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS: CHRONICA MENSAL ***
+
+***** This file should be named 16214-8.txt or 16214-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/1/6/2/1/16214/
+
+Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
+Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
+Proofreading Team
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+*** END: FULL LICENSE ***
+
diff --git a/16214-8.zip b/16214-8.zip
new file mode 100644
index 0000000..71e44e8
--- /dev/null
+++ b/16214-8.zip
Binary files differ
diff --git a/16214-h.zip b/16214-h.zip
new file mode 100644
index 0000000..d2c1738
--- /dev/null
+++ b/16214-h.zip
Binary files differ
diff --git a/16214-h/16214-h.htm b/16214-h/16214-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..288f109
--- /dev/null
+++ b/16214-h/16214-h.htm
@@ -0,0 +1,2723 @@
+<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN"
+ "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd">
+<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml">
+<head>
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" />
+ <meta content="pg2html (binary v0.16)" name="generator" />
+ <meta name="author" content="Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz" />
+ <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, Agosto a Setembro 1877
+by Ramalho Ortigão and Eça De Queiroz.</title>
+ <style type="text/css">
+ /*<![CDATA[*/
+ <!--
+ body { margin-left: 10%; margin-right: 10%; }
+ h1,h2,h3,h4,h5,h6 { text-align: center; }
+ hr.major { width: 30%;}
+ hr.minor { width: 10%;}
+ sup.small {font-size: 75%}
+ .centered {text-align: center}
+ .foot { margin-left: 10%; margin-right: 10%; text-align: justify; text-indent: -3em; font-size: 85%; }
+ .poem { margin-left: 10%; margin-right: 10%; margin-bottom: 1em; text-align: left; }
+ .poem .stanza { margin: 1em 0em 1em 0em; }
+ .poem p { margin: 0; padding-left: 3em; text-indent: -3em; }
+ .poem p.i2 { margin-left: 1em; }
+ .poem p.i4 { margin-left: 2em; }
+ .poem p.i6 { margin-left: 3em; }
+ .poem p.i8 { margin-left: 4em; }
+ .poem p.i10 { margin-left: 5em; }
+ /*]]>*/
+ // -->
+ </style>
+</head>
+<!--====================================================-->
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das
+Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes
+ Agosto a Setembro de 1877
+
+Author: Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz
+
+Release Date: July 6, 2005 [EBook #16214]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS: CHRONICA MENSAL ***
+
+
+
+
+Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
+Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
+Proofreading Team
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<div class="centered">
+ <img src="images/devil.png" width="570" height="755"
+ alt="Eça de Queiroz&mdash;Ramalho Ortigão&mdash;As Farpas" />
+ <!--IMAGE END-->
+</div>
+<hr class="major" />
+<h1>
+ AS FARPAS
+</h1>
+<div class="centered">
+ <p>RAMALHO ORTIGÃO&mdash;EÇA DE QUEIROZ</p>
+ <p>CRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p>
+ <p>NOVA SERIE TOMO X</p>
+ <p>Agosto a Setembro 1877</p>
+</div>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<blockquote>
+<p>
+ Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+ da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+ sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+ politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+ universo, e da adoração de mim mesmo.
+</p>
+</blockquote>
+<p class="centered">
+ P.J. PROUDHON
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+
+<p class="centered">
+ <b>SUMMARIO</b>
+</p>
+<p>
+ Alexandre Herculano. O escriptor e o solitario de Valle de Lobos. A
+ critica dos vivos e a critica dos mortos. A benevolencia e a justiça. A
+ influencia que teve e a que podia ter o grande escriptor. A missão dos
+ mestres O monumento da imprensa.&mdash;A recente
+ <a href="#viagem">viagem</a>
+ de suas magestades e
+ altezas. No Bussaco, em Vidago, no Porto. Algumas notas aos annaes
+ d'essa excursão.&mdash;Os attentados do sr.
+ <a href="#Cunha">Barros e Cunha</a>
+ e a historia
+ d'este personagem. O poeta lyrico, o deputado, o leitor do
+ <a href="#Times"><i>Times</i></a>, o
+ cortesão, o ministro. Diagnostico e prognostico.&mdash;Algumas producções
+ musicaes:
+ <a href="#Cutiladas"><i>As cutiladas do Passeio Publico</i></a>, polka;
+ <a href="#Roma"><i>A Roma! a Roma!</i></a>
+ valsa.&mdash;Algumas palavras aos srs.
+ <a href="#advogados">advogados</a>.&mdash;Os exames das
+ <a href="#menina">meninas</a> no
+ Lyceu Nacional. Os fins da educação. Um programma de ensino para o sexo
+ feminino. Como se prepara a emancipação da mulher. Duas catastrophes: o
+ estado da litteratura feminina e o estado da cosinha nacional. Grito
+ afflictivo do paiz: Menos odes e mais caldo.
+</p>
+<p>
+ O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano
+ pertence ao dominio da posteridade desde as 10 horas da noite de hontem,
+ 14 de setembro de 1877.
+</p>
+<p>
+ Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade terão
+ de considerar que dois cidadãos, inteiramente diversos, existiram na
+ terra, succedendo-se um ao outro no individuo d'aquelle nome.
+</p>
+<p>
+ Um d'esses cidadãos é o historiador da nacionalidade portugueza e da
+ inquisição em Portugal, o romancista do <i>Monasticon</i>, o poeta da <i>Harpa
+ do Crente</i>, o profundo pensador, o sabio archeologo, o paciente erudito,
+ o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o
+ inimitavel mestre.
+</p>
+<p>
+ O segundo dos cidadãos que passaram no mundo sob o nome de Alexandre
+ Herculano é simplesmente o illustre solitario de Valle de Lobos.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Extranha evolução d'um mesmo ser! Aquelle que na primeira metade da
+ existencia representa todas as vivas energias por meio das quaes o
+ espirito póde actuar no impulso d'uma civilisação e no aperfeiçoamento
+ d'uma sociedade, não é no segundo periodo da sua vida senão o objecto
+ passivo e inerte d'uma designação ascetica, imposta pela banalidade
+ rhethorica dos noticiarios&mdash;o <i>solitario illustre!</i>
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre
+ Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais
+ importante collecção dos modernos trabalhos litterarios&mdash;o <i>Panorama</i>;
+ enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem
+ o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com
+ o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se
+ denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco
+ dos romanticos de 1830, que elle sabia traçar com o garbo marcial
+ d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o
+ admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que põe em armas a
+ nova geração que vem despontando atraz d'elle; chama á peleja o partido
+ ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as
+ hostilidades da liberdade com o clericalismo; lança finalmente as bases
+ do moderno movimento intellectual, suggere novas idéas, novas
+ aspirações, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua
+ época por meio das fecundas agitações do espirito que acceleram nas
+ sociedades vivas a elaboração do progresso.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Como <i>illustre solitario de Valle de Lobos</i>, Herculano rescinde a
+ sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o
+ genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como
+ sendo elle mesmo a mais poderosa das forças de que dispõe o grande
+ universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmações da
+ sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras á sombra
+ projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inacção
+ em que caiu; desdá finalmente todos os laços de solidariedade que o
+ prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o
+ seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade.
+</p>
+<p>
+ O dia do nosso grande lucto nacional não é aquelle em que expirou o
+ solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o
+ vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da
+ multidão fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida,
+ traiçoeira, ingrata, lançava ás praças e ás ruas publicas, lamacentas e
+ sordidas, as suas idéas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas,
+ aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e
+ sobre as dejecções da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vão
+ de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a
+ divina verdade.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ A isolação de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico,
+ comprometteu o destino mental d'uma geração inteira. Pelo intenso poder
+ das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela
+ auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela
+ reputação nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem
+ naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu
+ tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi
+ uma catastrophe para a geração moderna.
+</p>
+<p>
+ Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse
+ alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral.
+</p>
+<p>
+ Á tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz
+ firme, sonora e vibrante levasse até os quatro cantos do paiz a
+ expressão viril das grandes convicções inflexiveis, dos altos e potentes
+ enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna
+ deserta degradou-se successivamente até não ser hoje mais do que uma
+ prateleira mal engonçada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa.
+</p>
+<p>
+ A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades
+ ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um
+ tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 réis por
+ cabeça, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de
+ batatas podres, á representação da desbocada comedia, declamada em giria
+ da matula por personagens sarapintados a vermelhão e a ocre, que mostram
+ o punho arregaçado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e
+ patifes, com os seus pés miseraveis.
+</p>
+<p>
+ A politica converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os
+ socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é
+ impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a
+ cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez
+ d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a
+ chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se,
+ depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e
+ recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É
+ este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que
+ constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza.
+</p>
+<p>
+ A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional
+ que a devia prender estreitamente á grande alma popular.
+</p>
+<p>
+ A opinião publica, marasmada pela indifferença, deshabitua-se de pensar
+ e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos.
+</p>
+<p>
+ Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre
+ Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos á frente do
+ movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado
+ importantemente o nosso estado social.
+</p>
+<p>
+ Na politica ninguem como elle, com as suas opiniões extremas e radicaes,
+ poderia originar a creação dos dois grandes e fortes partidos&mdash;o
+ partido conservador e o partido revolucionario,&mdash;de cuja controversia
+ depende essencialmente não só o progresso politico da sociedade
+ portugueza, mas a propria conservação do seu regimen constitucional.
+</p>
+<p>
+ Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da
+ instituição com a sua palavra tão scintillante, tão denodada, tão
+ propria para o debate, e com a sua experiencia tão esclarecida pela
+ convivencia e pela cultura da historia.
+</p>
+<p>
+ Na opinião e no espirito publico, ninguem teria uma acção tão segura e
+ tão decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um tão
+ inteiro prestigio e d'uma tão completa e absoluta auctoridade.
+</p>
+<p>
+ Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creação esthetica á
+ fonte nativa da inspiração, á tradição historica, á raiz da paixão e do
+ sentimento nacional.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Exercer essa alta direcção dos espiritos é nas sociedades modernas a
+ missão dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este
+ seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na força da
+ intelligencia e da vida o posto de honra a que chegára pelo esforço do
+ seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o
+ dotára.
+</p>
+<p>
+ Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos,
+ todos os que vieram depois de definido pela Revolução o dogma do dever
+ social, viveram combatendo até á ultima hora e morreram com a penna na
+ mão.
+</p>
+<p>
+ Ha poucos dias ainda a França viu cair Thiers na estacada, em pleno
+ combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde
+ muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a
+ tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua
+ longa vida fôra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas,
+ de triumphos, das mais violentas commoções que podem opprimir e
+ dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito
+ de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle
+ todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e é a essa
+ pertinacia d'um só homem, tão debil e tão caduco que qualquer mulher
+ poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a França deve a
+ sua reconstituição politica e social, e a democracia a affirmação mais
+ poderosa e mais energica d'uma republica no coração da Europa.
+</p>
+<p>
+ Na Inglaterra, não já um homem mas uma simples mulher, que teve um papel
+ decisivo no movimento das idéas modernas, Miss Martineau, ferida por uma
+ lesão do coração, desenganada pela medicina de que não pode ter mais
+ d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades
+ na conclusão da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu
+ similhante as suas derradeiras pulsações, e sob uma condemnação mais
+ peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua
+ invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais
+ profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o
+ admiravel livro em que depõe com a ultima palavra o ultimo suspiro.
+</p>
+<p>
+ Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento
+ d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para
+ todo o sempre; mas o cidadão em quem concorrem as multiplas aptidões
+ cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades
+ dirigentes, não tem esse direito.
+</p>
+<p>
+ A benevolencia devida aos vivos póde levar-nos a respeitar nos actos de
+ cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porém
+ devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o
+ dever de considerar, em nome da justiça e em nome da sociedade, todas as
+ condições que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa
+ linha ideal a que convergem as mais altas aspirações da humanidade.
+</p>
+<p>
+ E é só assim que as gerações aprendem o que têem de agradecer e o que
+ têem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero
+ sobre a missão dos que morreram, a regra moral a que têem de
+ submetter-se aquelles que estão vivos.
+</p>
+<p>
+ A elaboração psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano
+ a quebrar as suas relações mentaes com a sociedade, é um importante
+ estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na
+ confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau
+ de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a
+ isolação d'Herculano não é um simples episodio biographico, é um facto
+ social, é um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza.
+</p>
+<p>
+ O exemplo do <i>solitario de Valle de Lobos</i> será profundamente nocivo, se
+ não for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica.
+</p>
+<p>
+ Todos aquelles que trabalham com dedicação e com honra, que se
+ consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela conclusão do
+ trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam á sua missão, que
+ vêem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da
+ humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e
+ desinteressado, estão sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada
+ instante, á grande lucta da consciencia com as suggestões do egoismo,
+ com a ingratidão dos homens, com a calumnia, com a traição, com o
+ desdem. É perigoso para os que teem ainda, no meio da dissolução geral
+ dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa
+ dedicação do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que é a vida
+ de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente
+ sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa
+ indifferença o alto luminar destinado a indicar a uma geração inteira o
+ arduo e penoso rumo do dever.
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<p>
+ Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembléa para o
+ fim de pagar á memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua
+ admiração, resolvera abrir uma subscripção destinada a elevar um
+ monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que não
+ está ainda resolvido de que natureza será o monumento em projecto.
+</p>
+<p>
+ Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa
+ como um de seus membros, eis o que proporiamos.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua
+ <i>Historia de Portugal</i>, é possivel que houvesse já sido lida, mas, com
+ quanto escripta ha muitos annos, não foi por emquanto estudada.
+</p>
+<p>
+ Em todo o longo trabalho de investigação, de critica, d'analyse, de
+ deducção, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico
+ portuguez não viu senão dois factos extremamente subalternos na obra do
+ philosopho e na obra do artista:&mdash;a negação do milagre d'Ourique e das
+ côrtes de Lamego.
+</p>
+<p>
+ O historiador da nossa nacionalidade não foi olhado se não debaixo d'um
+ aspecto,&mdash;o aspecto das nossas superstições.
+</p>
+<p>
+ As origens do direito, da arte, da propriedade, da religião, da familia,
+ da patria interessaram-nos d'um modo tão mediocre que nunca nos
+ suggeriram uma idéa clara sobre qualquer d'esses phenomenos.
+</p>
+<p>
+ De tão multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da
+ nossa vida civil, um unico nos commoveu até as mais intimas
+ profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou não
+ tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha,
+ e se a derrota dos mouros fora ou não o resultado d'uma operação
+ estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos
+ do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus.
+</p>
+<p>
+ Todas as demais questões debatidas nos quatro volumes da <i>Historia de
+ Portugal</i> passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o
+ qual não teve ainda, até hoje, occasião de publicar um artigo
+ scientificamente fundamentado ácerca do papel do nosso primeiro
+ historiador na direcção dos estudos historicos e na comprehensão das
+ leis fundamentaes da nossa evolução social.
+</p>
+<p>
+ A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano é a
+ publicação d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas
+ perante um grande escriptor é mostrar que o leram. Com relação a
+ Herculano essa divida está por saldar, e a imprensa tem que
+ desempenhar-se d'ella com tanta mais promptidão, quanto é certo que o
+ seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador
+ dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste
+ mortalha em que desceu envolto para o tumulo&mdash;a mortalha do desprezo.
+ Não conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos.
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<p>
+ Annaes da
+<a id="viagem" name="viagem" >viagem</a>
+ de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo
+ os telagrammas publicados por toda a imprensa e da acção civilisadora da
+ mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os alludidos documentos.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO I
+</b>
+</p>
+<p>
+ Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta
+ secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo
+ passeou matta. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta
+ companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO II
+</b>
+</p>
+<p>
+ Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo encontrou interessante menino na
+ serra e afagou. Commoção todos visitantes que presencearam acto Anjo
+ afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram pé Fonte Fria.
+ Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo
+ medio. Jubilo povo augmenta progressivamente.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO III
+</b>
+</p>
+<p>
+ Bussaco... agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinoes gorgeando
+ secular floresta. Chamados á pressa para gorgear na balseira bauda de
+ infanteria 14 e cysne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por
+ Quatorze e por Cysne innarravel.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO IV
+</b>
+</p>
+<p>
+ Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo recusa licença a <i>touristes</i>
+ comerem saborosos peixes ria d'Aveiro em secular floresta. Preciosos
+ Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos.
+ Jubilo povo augmenta.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO V
+</b>
+</p>
+<p>
+ Bussaco... d'agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir <i>touristes</i>
+ petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. N'este mesmo
+ momento secular floresta saborosos peixes estão sendo comidos
+ <i>touristes</i> com approvação d'Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio
+ meia hora e 16 '1/2 segundos. Jubilo povo toca raias.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO VI
+</b>
+</p>
+<p>
+ Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo e suas altezas Preciosos
+ Penhores acabam de partir Porto, comboyo expresso. Anjo e Preciosos
+ Penhores não mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo
+ povo.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO VII
+</b>
+</p>
+<p>
+ Vidago... d'agosto. Sua magestade Excelso Soberano, acompanhado duas
+ phylarmonicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta
+ maiores eguas, chegou sem novidade real saude. Indiscriptivel jubilo
+ povo.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO VIII
+</b>
+</p>
+<p>
+ Vidago ... d'Agosto. Excelso Soberano foi tomar aguas 10 horas. Voltou
+ tomar aguas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam
+ acto Excelso Soberano tomar aguas. Grande ardor geral pelas instituições
+ monarchicas e pela dynastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possivel
+ fôr.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO IX
+</b>
+</p>
+<p>
+ Vidago ... d'agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois
+ rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces
+ pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca
+ zenith.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO X
+</b>
+</p>
+<p>
+ Vidago ... d'agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado
+ phylarmonicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausencia
+ excelso soberano e real sequito, convertidos triste ermo. Jubilo povo
+ impossivel descrever palavras humanas.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO XI
+</b>
+</p>
+<p>
+ Porto ... d'agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triumphal n'este Baluarte
+ liberdade sua magestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas
+ Louras Creanças. Jubilo povo de Baluarte e concelhos ruraes adjacentes
+ delirante.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO XII
+</b>
+</p>
+<p>
+ Porto ... d'agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade
+ que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenetico.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO XIII
+</b>
+</p>
+<p>
+ Porto ... d'agosto. Louras creanças passear Palacio Crystal. Anjo não
+ passeiar Palacio Crystal. Jubilo povo febril.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO XIV
+</b>
+</p>
+<p>
+ Porto ... d'agosto. Anjo e Louras Creanças foram photographar-se ao
+ atelier Fritz. Duas innocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo
+ da Caridade. Anjo afagou. Circumstantes lagrimas em fio pelas faces.
+ Anjo e Louras Creanças retrataram-se em cinco posições differentes, que
+ são todas as posições de que é susceptivel o corpo humano, a saber: em
+ pé, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo
+ vertiginoso.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO XV
+</b>
+</p>
+<p>
+ Porto ... d'agosto. A este Baluarte liberdades patrias acaba chegar
+ augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse
+ Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos
+ defensores Baluarte ás janellas. Jubilo povo epileptico.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO XVI
+</b>
+</p>
+<p>
+ Porto ... d'agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico
+ Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposição triumphal. Rapazes
+ precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo,
+ vendo rapazes exposição joelhos carruagem descoberta, inultrapassavel.
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ CAPITULO XVII
+</b>
+</p>
+<p>
+ Porto ... d'agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras
+ Creanças regressam hoje comboyo expresso a Lisboa. Governador civil,
+ bispo, senhoras, beijar mão Neto, Anjo, Louras Creanças. Derradeiro
+ adeus estação. Baluarte liberdade sem Louras Creanças, Anjo e Neto,
+ medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana.
+</p>
+<p>
+<b>
+ NOTAS
+</b>
+</p>
+<p class="centered">
+ AOS ANNAES DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS
+</p>
+<p class="centered">
+ A
+</p>
+<p>
+ <i>Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc.</i>
+ Informações subsequentes ministradas aos jornaes pelo <i>Banhista de Luso</i>
+ explicam a materia do capitulo que principia pelas palavras acima
+ reproduzidas.
+</p>
+<p>
+ Os <i>touristes</i> a quem foi denegada licença para celebrarem um <i>pic-nic</i>
+ dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua
+ magestade que se dignasse conferir-lhes a permissão de comerem os peixes
+ que tinham pescado para o <i>pic-nic</i>, não já dentro, mas sim fóra da
+ matta.
+</p>
+<p>
+ Foi a este segundo requerimento, attendendo ás supplicas dos <i>touristes</i>
+ e ao estado em que começavam a achar-se os peixes, que sua magestade se
+ dignou de deferir de um modo inteiramente amavel e munificente.
+</p>
+<p>
+ O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porém
+ immersos na mais acerba incerteza ácerca dos pontos da superficie solida
+ do reino em que nos é licito comermos peixe sem invadirmos as
+ residencias de suas magestades.
+</p>
+<p>
+ Porque, desde o momento em que não só as grandes serras mas tambem as
+ bacias dos valles adjacentes se consideram, pela jurisprudencia invocada
+ no Bussaco, como dependencias dos aposentos da real familia, ficamos
+ perplexos sobre se o safio que pescámos esta manhã no logar do Bico na
+ praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este
+ facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos
+ nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a
+ solução d'este problema:
+</p>
+<p>
+ Dado um safio pescado á linha na ponta do Bico na praia da Cruz
+ Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependencia geologica do Paço de
+ Queluz pelo valle da ribeira do Jamor, e do Paço da Ajuda pelas
+ quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro
+ lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas
+ de cebola e tomate, com o competente fio d'azeite e o devido pimentão;
+ tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas
+ vezes sem se destapar o tacho;
+</p>
+<p>
+ Pergunta-se:
+</p>
+<p>
+ Se podemos passar a comer o safio, collocados na dita latitude da Cruz
+ Quebrada, entre os reaes paços de Queluz e da Ajuda, sem por esse acto
+ faltarmos ao respeito devido á inviolabilidade das montanhas, dos valles
+ e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir.
+</p>
+<p>
+ Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas
+ reaes ordens, que o sr.
+ <a id="Cunha" name="Cunha" >Barros e Cunha,</a>
+ encarregado juntamente com o sr.
+ Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua magestade,
+ queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou não ao numero
+ d'aquelles que s. ex.ª se acha mobilando para recreio de suas magestades
+ em collaboração com o seu socio nas reformas do ministerio das obras
+ publicas o sr. estofador Alcobia.
+</p>
+<p>
+ O melhor talvez&mdash;permittam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta
+ ideia&mdash;seria, para não estafar muito o ministerio de suas excellencias
+ com o despacho de repetidas petições do caracter da nossa, que suas
+ excellencias assignalem com marcos geodesicos as regiões que vão ser
+ forradas de papel para aposentos reaes, e que n'esses postes se
+ especifique com os devidos letreiros: <i>Aqui se pode comer o saboroso
+ peixe</i> ou <i>Aqui o saboroso peixe se não pode comer</i>.
+</p>
+<p>
+ E o paiz todo beijará reconhecido a mão energica dos srs. conselheiros
+ da coroa Alcobia e Barros e Cunha!
+</p>
+<p class="centered">
+ B
+</p>
+<p>
+ <i>Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte
+ liberdade em exposição triumphal.</i> Correspondencias minuciosas explicam
+ detidamente o episodio narrado n'este capitulo.
+</p>
+<p>
+ El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios,
+ dois rapazes que se ajoelhavam por occasião da passagem de sua
+ magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulação tão
+ vigorosa manifestada em annos tão verdes, indagou-se uma tal affirmação
+ de subserviencia procedia de preleções previas dadas por algum aulico
+ ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois
+ adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais
+ pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de tão
+ honrosas informações, levar comsigo os dois esperançosos jovens e
+ encarregar-se da sua educação. Foram esses dois rapazes os que entraram
+ em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e
+ precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. Não sabemos
+ se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como
+ deviam, sempre de joelhos. O que é certo é que o quadro a que nos
+ referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo
+ asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago.
+</p>
+<p>
+ Folgamos de poder completar as informações colhidas por el-rei ácerca
+ dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagações, porque é
+ de saber que os rapazes de joelhos não apparecem unicamente a sua
+ magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e
+ de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se
+ encontrou com o commovente quadro, não deixando nunca de o saudar com
+ um expressivo meneio do seu bordão, perante o qual os rapazes em joelhos
+ se punham em pé com uma velocidade cheia de convicção e de enthusiasmo.
+ E nós, então, diziamos-lhes com a mais pesada voz:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Ah! poltrões! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum
+ de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o
+ lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola,
+ seus sicarios?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de
+ Jesus Christo?! <i>Nosso Senhor tambem pediu</i>!!... Em que escola
+ aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?... O que tu merecias é que
+ eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a
+ blasphemar! Jesus pediu esmola, mas não foi para que tu a pedisses
+ tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua
+ confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de
+ trazeres as orelhas sujas e de andares descalço, tens, pelo facto de ser
+ homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio
+ como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande
+ obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a
+ fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus, á imagem
+ e similhança de Deus, a tua obrigação é lavar a cara e as orelhas,
+ conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses pés e trazer-me essa
+ cabeça levantada e firme como quem tem a convicção de ser tanto como
+ qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo
+ a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo,
+ dando-te por esse modo a aspiração de te pareceres egualmente com elle
+ fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela
+ mesma razão que consentiu em ser crucificado, não para dar o exemplo da
+ mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se
+ reconstituisse no sentido de não tornar a haver quem enforcasse nem quem
+ pedisse. O pão nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus
+ te deu para trabalhares e não para te pôres de joelhos nos caminhos a
+ pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou senão debaixo do
+ trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por
+ sua mãe. De joelhos perante a minha força ou perante o meu dinheiro tu
+ és indigno da tua gerarchia d'homem e não passas de uma besta sordida e
+ immunda.
+</p>
+<p>
+ Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos
+ rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes
+ praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho
+ cerrado e os bicos dos nossos sapatos&mdash;de tres solas repregados de
+ terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de
+ moscardos&mdash;concluiamos por uma eloquente peroração perguntando aos
+ rapazes onde era a escola.
+</p>
+<p>
+ Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que
+ apparecem de joelhos pelas estradas não sabem nunca onde fica a escola.
+</p>
+<p>
+ Os paes não os ensinam a ler. Creados na abjecção da mendicidade,
+ habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a
+ serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis,
+ rasteiros, malevolos, vingativos, mandriões e covardes.
+</p>
+<p>
+ São elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de
+ ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento
+ successivo das cadeias e dos hospitaes.
+</p>
+<p>
+ Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguiça, esses
+ embriões do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus pés, outros
+ pequenos cidadãos uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos,
+ uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mães a metter o pão ao
+ forno, a deitar o feno ás vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as
+ medas ou a debulhar o milho.
+</p>
+<p>
+ Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos
+ dos laboriosos, deu um exemplo que influirá nos costumes e a que podémos
+ chamar:&mdash;o premio Monthyon da malandrice.
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<p>
+ Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo
+ acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro
+ da corôa, o sr. Barros e Cunha.
+</p>
+<p>
+ Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas
+ respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como
+ phenomenos normaes em um regimen em dissolução destinado a acabar um
+ pouco mais tarde ou um pouco mais cedo.
+</p>
+<p>
+ Quando porém a acção do poder exorbita da mancommunação ministerial, da
+ intriga parlamentar e da ficção administrativa, para invadir a esphera
+ do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos
+ inalienaveis dos cidadãos, a critica deixa então de proceder pelo
+ desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tição
+ com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de
+ Carlos Magno, e de barbear s. ex.ª o alto funccionario delinquente.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Precisamos de esboçar um pouco de mais alto a physionomia do personagem
+ antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos.
+</p>
+<p>
+ Antigo poeta lyrico de inspiração canalisada pelos jornaes poeticos e
+ pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando
+ a carreira poetica, foi enviado na idade madura á camara dos deputados
+ na qualidade de leitor do
+ <a id="Times" name="Times" ><i>Times</i></a>
+ por um circulo do reino em que se não sabia inglez.
+</p>
+<p>
+ Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi
+ declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da
+ camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde
+ tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em
+ a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um
+ determinado numero de sons articulados sem connexão logica, sem forma
+ litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes
+ sons reunidos constituem a collecção dos discursos parlamentares de s.
+ ex.ª.
+</p>
+<p>
+ Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sessões das ultimas
+ legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferença bocejante
+ da camara e da galeria, folhear os numeros do <i>Times</i> collocados sobre a
+ sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as
+ palavras n'um tom de melopêa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal,
+ como a de quem falla por um nariz de assucar.
+</p>
+<p>
+ No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas
+ partes da oração, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para
+ acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo
+ roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer
+ signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em
+ seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo
+ irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeição de duvida ou
+ incerteza. Até que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar
+ os membros do discurso, começando os adjectivos a sentarem-se pelos
+ passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de
+ beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no pó
+ do caminho, apontar o andôr com um simulacro de uma idéa velha,
+ carcomida, safada, sacudida á rua de todas as casas, impellida adeante
+ das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por
+ todas as carroças, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto,
+ lavada, grudada, repintada, retingida, posta em pé, especada entre duas
+ ripes e produzida em publico por s. ex.ª, n'uma exposição solemne, ao
+ fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra.
+</p>
+<p>
+ Estas fallas eram acompanhadas por s. ex.ª com variados gestos
+ carinhosos e piegas: já de quem amamenta as methaphoras que tem ao
+ colo, já de quem acaricia e afaga buliçosos tropos adjacentes, já de
+ quem com o bico do lapis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar
+ no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa
+ adormecida.
+</p>
+<p>
+ Elle no entanto sorria de quando em quando, ironico e triumphal,
+ circumgirando pela sala no fim de cada periodo um olhar destinado a
+ indicar ao auditorio que dentro do seu pequenino craneo a malicia de
+ Bertholdinho se achava alliada á finura de Polycarpo Banana.
+</p>
+<p>
+ Uma vez pelo menos em cada um d'esses discursos, quando o orador
+ parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu lenço branco e batia
+ com os nós dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo d'agua,
+ vozes de deputados repentinamente extremunhados applaudiam-o. O que não
+ consta é que ninguem se lembrasse nunca de o contrariar.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Cahido o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquez d'Avila para formar
+ novo ministerio, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de
+ «caracter conciliador.» Deputado ás cortes em successivas legislaturas,
+ tendo a palavra em quasi todas as sessões, tão vigorosamente havia
+ servido a causa ecletica da banalidade que não conseguira crear um unico
+ adversario. Taes foram os titulos que levaram s. ex. aos conselhos da
+ corôa.
+</p>
+<p>
+ Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do
+ commercio e da industria, s. ex.ª para quem a industria, o commercio, as
+ obras, eram outros tantos porticos inaccessiveis, envoltos nas trevas
+ mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse á
+ popularidade sem o intrometter na gerencia e na direcção dos negocios.
+</p>
+<p>
+ Para esse fim s. ex.ª começou a passear as ruas de Lisboa montado na
+ imagem rhetorica em que Napoleão nos apparece nos discursos do sr.
+ Manuel da Assumpção. Aos sabbados s. ex.ª tomava o caminho de ferro e
+ dirigia-se em carruagem salão a todos os pontos da provincia em que
+ houvesse uma fabrica, uma officina, um monumento publico para que olhar,
+ e uma phylarmonica para o ir esperar á <i>gare</i>.
+</p>
+<p>
+ No desempenho d'esta primeira parte do seu programma s. ex.ª foi de uma
+ actividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavallo, anoitecia
+ a cavallo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um
+ momento&mdash;tambem a cavallo. Estes exercicios de gineta amestraram o
+ cavallo de s. ex.ª até o ponto de poder elle proprio ser ministro&mdash;em
+ liberdade.
+</p>
+<p>
+ Nas suas digressões pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o
+ zelo de s. ex.ª pelos principios do seu programma administrativo não
+ conhecia limites. Eis uma amostra do caracter d'essas viagens
+ hebdomadarias:
+</p>
+<p>
+ S. ex.ª chega a Thomar pelo trem do correio ás 12 horas 45 m. da tarde.
+ Uma phylarmonica espera-o na estação de Payalvo e acompanha-o ao som do
+ hymno da carta até casa do sr. conde de Thomar. Ás duas horas da
+ madrugada s. ex.ª ceia e levanta tres brindes a Thomar, á real familia e
+ á carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex.ª nos aposentos que
+ lhe estavam reservados e leitura do <i>Times</i> até ás 5 horas 30 minutos.
+ A's 5 horas 31 minutos s. ex.ª descalça metade das botas e repousa um
+ momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os eccos do
+ hymno da carta. A's 6 horas, convergencia das forças musculares de s.
+ ex.ª sobre os puchadores das suas botas e pedido d'agua morna para a
+ barba de s. ex.ª A's 7 horas, sabida de s. ex.ª dos aposentos que lhe
+ estavam reservados, presença de s. ex.ª no terraço da casa e aspersão
+ dos raios visuaes de s. ex.ª sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas
+ recepção da camara municipal e dos tres ou quatro maiores contribuintes.
+ A's 9 horas almoço com brindes de s. ex.ª á carta, a Thomar e á real
+ familia. A's 10 horas ida para a fabrica de fiação. As' 12 horas lunch
+ na fabrica e brindes de s. ex.ª á real familia, a Thomar e á carta. A' 1
+ hora da tarde volta para Thomar, jantar e brindes de s. ex.ª á carta, á
+ real familia e a Thomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno
+ pela phylarmonica na estação de Payalvo e regresso de s. ex.ª á capital.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Uma vez por semana, ás quintas feiras, s. ex.ª acompanhava os seus
+ collegas ao Paço. Tendo mostrado sobre o chouto da allegoria do sr.
+ Manuel da Assumpção que possuia uns rins de bronze; tendo provado nas
+ digestões accumuladas das mayonaises do sr. conde de Thomar e dos
+ pudings da fabrica de fiação que era dotado de um estomago d'aço, s.
+ ex.ª aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a côrte,
+ de que reune a esses dotes anathomicos a feliz particularidade de uma
+ espinha de cebo.
+</p>
+<p>
+ Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posição
+ vertical de s. ex.ª dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de
+ 35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex.ª deprimia-se
+ progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma
+ concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava então para outra
+ parte a fim de que os tecidos democraticos do seu secretario de estado
+ não acabassem de derreter, deixando nos degraus do throno, como despojo
+ de quanto representara no Paço o departamento das obras publicas, um
+ fardamento, uma calva e uma nodoa.
+</p>
+<p>
+ Impedido de fundir, s. ex.ª procura manifestar por outros actos o ardor
+ do seu zelo como novo aulico.
+</p>
+<p>
+ Para esse fim atropela as disposições legislativas que regulavam o
+ arrendamento das casas do Bussaco entregues á administração geral das
+ mattas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatarios,
+ expulsa as familias que habitavam o convento, e offerece este a sua
+ magestade a rainha para ella passar a estação calmosa&mdash;nas casas dos
+ outros.
+</p>
+<p>
+ Desde o tempo dos antigos aposentadores móres, que precediam os reis
+ absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas occupadas por seus
+ donos para n'ellas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer
+ reviver para lisongear os reis um dos mais oppressivos privilegios
+ monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os
+ mais atrevidos e insolentes mandões não ousaram jámais ultrajar por tal
+ modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr.
+ Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no paço tão
+ passivamente e tão irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana,
+ acocorado a um canto n'uma prostração burlesca, bolindo automaticamente
+ com a cabeça e deitando a lingua de fora ou mettendo-a para dentro,
+ segundo leva ou não leva da real mão um piparote na nuca.
+</p>
+<p>
+ Para bajular el-rei como bajulára a rainha o mandarim sr. João Gualberto
+ determina que obras extraordinarias se façam na estrada de Vidago e
+ manda abonar por conta do ministerio das obras publicas salarios na
+ importancia exorbitante de 1$200 réis por dia aos operarios empregados
+ em um dos lanços da estrada alludida.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Estes factos porém, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de
+ cortezão, não o definiam sufficientemente pelo seu lado de ministro. Os
+ conselheiros de s. ex.ª tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora
+ algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria,
+ e s. ex.ª principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi então que
+ no <i>Diario do Governo</i> appareceu o documento que nos propomos analysar e
+ começamos por transcrever:
+</p>
+<p>
+ «Sua magestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao
+ contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo director das
+ obras da penitenciaria central de Lisboa com João Burnay, para
+ fornecimento de ferros para as obras d'aquelle estabelecimento,
+ considerando:
+</p>
+<p>
+ «1.° Que esse contrato se encontra viciado;
+</p>
+<p>
+ «2.° Que n'elle se não observou o que dispõe o artigo 10.° do
+ regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862;
+</p>
+<p>
+ «3.° Que não se abriu praça nem se fez deposito algum, conforme dispõe
+ a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condições geraes de
+ empreitadas das obras publicas de 8 de março de 1861;
+</p>
+<p>
+ «4.° Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu
+ adiantadamente na importancia de 88.889$312 réis, falta a approvação do
+ governo, segundo o disposto no artigo 2.° das mesmas clausulas e
+ condições geraes e da circular de 15 de maio de 1862:
+</p>
+<p>
+ «Ha por bem ordenar que se dê por findo e terminado o dito contrato,
+ procedendo-se á liquidação dos artigos já fornecidos ou em deposito,
+ observando-se de futuro todas as prescripções em vigor n'este ministerio
+ para quaesquer contratos em que elle tenha de interferir.
+</p>
+<p>
+ «O que, pela secretaria de estado dos negocios das obras publicas,
+ commercio e industria, se communica ao director das obras publicas do
+ districto de Lisboa, para os devidos effeitos, em referencia ao seu
+ officio datado de 26 de junho ultimo.
+</p>
+<p>
+ «Paço, em 3 de julho de 1877.&mdash;<i>João Gualberto de Barros e Cunha.</i>
+</p>
+<p>
+ «Para o director das obras publicas do districto de Lisboa».
+</p>
+<p>
+ Por esta portaria rescinde-se sem mais appellação nem aggravo um
+ contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o
+ governo. Ora o governo não é um poder pessoal, de caracter intermitente
+ ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e
+ Cunha. O governo é uma entidade impessoal e constante.
+</p>
+<p>
+ O sr. Barros e Cunha é obrigado como ministro a manter todos os
+ contractos feitos pelo seu ministerio, porque em quanto ministro o sr.
+ Barros e Cunha não é um individuo, é o governo. O governo fez um
+ contracto com o sr. Burnay, esse contracto acha-se em execução, o
+ governo porem resolve por sua propria auctoridade rescindir o mesmo
+ contracto, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos
+ juridicos se annulla, sem mais formalidade que a publicação de uma
+ portaria, um contracto de similhante natureza:
+</p>
+<p>
+ O sr. Barros e Cunha allega em primeiro logar:
+</p>
+<p>
+ <i>Que o contracto se acha viciado</i>. A isto responde o engenheiro
+ constructor da Penitenciaria e signatario do contracto por parte do
+ governo que a viciação allegada consiste em se haver alterado a data em
+ que o sr. Burnay se compromette a concluir os seus trabalhos, mudando-se
+ os numeros 1877 em 1876. O resultado d'esta viciação era collocar o sr.
+ Burnay sob a acção de uma multa por não ter concluido a sua obra no
+ praso prefixo. É evidente que não podia ser o sr. Burnay que viciasse o
+ contracto raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por
+ outro que o prejudica.
+</p>
+<p>
+ A viciação do contracto é por tanto um facto necessariamente alheio á
+ intervenção do sr. Burnay.
+</p>
+<p>
+ A legislação invocada nos considerandos 2.° e 3.°, não tem cabimento,
+ porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem
+ os casos em que <i>a concorrencia possa prejudicar a rapidez ou a
+ perfeição do trabalho</i> e em que o <i>deposito póde ser substituido por
+ fiança ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro</i>. E ambos
+ estes principios são reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual
+ contractou elle mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicação
+ d'esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito.
+</p>
+<p>
+ As affirmações contidas no considerando n.° 4, são puramente falsas,
+ como já declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta
+ da approvação do governo é uma mentira e o adiantamento de 88:886$312
+ réis é uma calumnia.
+</p>
+<p>
+ Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante
+ deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de não haverem
+ sido satisfeitas essas clausulas póde caber ao fabricante, ao fornecedor
+ ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que
+ fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse elle quem a si
+ mesmo se obrigasse ao deposito? Se não se cumpriram as formalidades a
+ que a portaria se refere, a culpa é unicamente do governo. Como é pois
+ que o governo rescinde um contracto por um facto cuja culpa é d'elle e
+ não do individuo com quem elle contractou?
+</p>
+<p>
+ Podem aquelles que tem negocios com o governo ficar sujeitos a
+ similhante arbitrio?
+</p>
+<p>
+ Póde o governo annullar assim um contracto em que se acham envolvidos
+ interesses avultados d'aquelle com quem é feito unicamente porque o
+ governo diz reconhecer que não contractou nos termos em que devia ter
+ contractado?
+</p>
+<p>
+ Foi approximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relação
+ ao contracto do Passeio Publico. A camara rescindiu o contracto, mas o
+ governo dissolveu a camara. Quem é que ha de dissolver o governo reu de
+ delicto egual ao da camara?
+</p>
+<p>
+ Em vista de um tão flagrante attentado contra os seus interesses
+ industriaes, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a
+ portaria alludida é cheia de vagas insinuações insultantes e injuriosas
+ apesar de cobardemente rebuçadas, o sr. João Burnay representou ao
+ governo requerendo que se lhe dê vista do processo em que é ao mesmo
+ tempo accusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os
+ fiscaes da corôa e da fazenda. O sr. Barros e Cunha não despachou esta
+ petição e manteve os effeitos da sua portaria absurda, falsa,
+ calumniosa, e infamante.
+</p>
+<p>
+ É a isto que nós chamamos o mais violento dos attentados perpetrado pelo
+ arbitrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos
+ cidadãos.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ O sr. Barros e Cunha é um criminoso diante do codigo e diante da carta.
+</p>
+<p>
+ A carta torna-o responsavel no artigo 103 por tres delictos que
+ commetteu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do
+ poder, por falta de observancia da lei, e pelo que obrou contra a
+ liberdade e contra a propriedade de um cidadão.
+</p>
+<p>
+ Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil
+ reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,&mdash;contra o
+ direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359).
+</p>
+<p>
+ A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle
+ não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que
+ elle não recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa
+ calumnia sob a acção do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte:
+</p>
+<p>
+ «A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue
+ o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de
+ submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes são a reparação
+ do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil
+ consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da
+ omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de
+ satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.»
+</p>
+<p>
+ Um só caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da
+ responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que
+ perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demencia.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal offensa
+ não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios
+ simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de
+ primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente
+ cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador
+ elle é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portugueza.
+ Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como elle em volta de si
+ pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão
+ preciosa actividade. É o proprietario e o chefe de uma grande officina
+ modelo do seu genero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os
+ elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns
+ centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisação se
+ lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e
+ mais benemeritos, porque é por meio da iniciativa de homens como elle
+ que os estados se moralisam e se enriquecem.
+</p>
+<p>
+ Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é
+ impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas
+ aspirações&mdash;a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga
+ constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não
+ exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o
+ exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo
+ coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para
+ outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando
+ governa.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o
+ producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste
+ maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos
+ offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As
+ suas faculdades não lhe permittirão defender-se.
+</p>
+<p>
+ D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e
+ deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um
+ trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto,
+ mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que
+ nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em
+ pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais
+ violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais
+ explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo
+ condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha
+ de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada
+ feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,&mdash;de jacaré. A
+ logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de
+ ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria
+ ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de
+ ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A
+ pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com
+ tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e
+ baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas
+ de zabumba em theatro de feira.
+</p>
+<p>
+ E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se
+ destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr.
+ Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão
+ util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de
+ ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas,
+ commercio e industria.
+</p>
+<p>
+ Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser
+ modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o
+ para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa.
+</p>
+<p>
+ Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é
+ mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso
+ anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem
+ desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do
+ seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros
+ extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a
+ elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser,
+ por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido
+ sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de
+ s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como
+ um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir
+ precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista.
+</p>
+<p>
+ A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para
+ ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão
+ preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda
+ tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos
+ coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a
+ piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento
+ das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as
+ forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos
+ mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas
+ satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria
+ querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem.
+</p>
+<p>
+ Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o
+ desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a,
+ não fizeram senão prejudical-a.
+</p>
+<p>
+ Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A
+ differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é
+ o mesmo.
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<p>
+ O registo das producções musicaes portuguezas foi enriquecido durante o
+ periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas
+ mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a
+ attenção que lhe é devida.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ <a id="Cutiladas" name="Cutiladas" ><i>As Cutiladas do Passeio Publico</i></a>
+ é o titulo de uma polka refutativa dos
+ principios estheticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar
+ as fontes da inspiração artística.
+</p>
+<p>
+ Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra d'arte, a
+ orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os
+ aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova força geradora:&mdash;a
+ força da pancadaria.
+</p>
+<p>
+ Na occasião em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o
+ fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles
+ são os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido
+ passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão
+ juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a
+ policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas
+ respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas.
+</p>
+<p>
+ Á saida do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que
+ acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes
+ que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres
+ policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta
+ conjunctura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o
+ quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por
+ onde é que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta
+ essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as
+ suas familias com o ardôr bellicoso de um exercito encarregado da
+ transformar o paiz n'uma almondega.
+</p>
+<p>
+ Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem
+ clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles
+ regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com
+ vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força
+ publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas
+ com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de
+ cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca.
+ Finalmente alguns bons socos applicados com arte não deixariam de fazer
+ render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliação amigavel.
+</p>
+<p>
+ As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem
+ insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos
+ canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a
+ suas casas pedindo ás furias punição para os algozes e arnica para as
+ victimas.
+</p>
+<p>
+ Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforço
+ popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de
+ polka.
+</p>
+<p>
+ Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja
+ propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos
+ e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que
+ o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão
+ legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo
+ o caso em musica e em dansa de roda!
+</p>
+<p>
+ Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos
+ ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco
+ rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques,
+ simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio
+ soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus
+ actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas
+ pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no
+ presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e
+ tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado
+ uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa,
+ todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com
+ o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era
+ nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra!
+</p>
+<p>
+ Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o
+ chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada
+ mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á
+ primeira!
+</p>
+<p>
+ Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora,
+ cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram!
+</p>
+<p>
+ Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que
+ não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos,
+ que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas
+ sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas
+ tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a
+ arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e
+ terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens
+ delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te
+ philarmonica. Substituiste a força da união pela <i>União e Capricho</i>.
+ Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase <i>levar para o
+ tabaco</i> ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula&mdash;<i>levar para a
+ musica</i>.
+</p>
+<p>
+ Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o
+ costume, despicaste-te com uma polka especial.
+</p>
+<p>
+ As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam
+ indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos
+ santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração
+ de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da
+ Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas
+ que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a
+ expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões.
+ Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas
+ essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes
+ campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do
+ habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a
+ semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua
+ polka brilhante, <i>As cutiladas do Passeio Publico!</i>
+</p>
+<p>
+ O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te
+ appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os
+ instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a
+ vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros
+ democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de
+ clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da
+ tyrannia a vindicta dos povos.
+</p>
+<p>
+ Emquanto á dignidade humana ... lalarilolé ... e emquanto á liberdade,
+ ao direito e á civilisação ... lariléliló ... que nos importa isso?...
+ Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é
+ panno adesivado ...lólaró ... e fios ... trolarilolé!
+</p>
+<p>
+ Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da
+ terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o <i>sol ... e dó!</i>
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no theatro da Trindade uma
+ operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a
+ partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a
+ peça fóra da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir
+ ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo&mdash;<i>Vamos a
+ ellas</i>!
+</p>
+<p>
+ Quem são <i>ellas? Ellas</i>, na bocca, no pensamento, na intenção do sr.
+ Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas.
+</p>
+<p>
+ Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hypotheses que esse
+ perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem offensa do grave
+ caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que <i>ellas</i>
+ não sejam as missas para serem qualquer outra coisa.
+</p>
+<p>
+ Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para
+ as missas que nós somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica
+ interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua
+ Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao
+ seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu
+ spartito em punho, fosse directamente com a sua batina&mdash;para a sacristia
+ das Mercês.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ <a id="Roma" name="Roma" ><i>A Roma! a Roma!</i></a>
+ é o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo
+ periodico religioso <i>A Nação</i>, e destinada a servir os mesmos designios
+ piedosos que levaram o sr. Conceição Borges <i>a ellas! a ellas!</i>
+</p>
+<p>
+ Nada mais commodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da
+ penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada
+ comprehensão dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para
+ Deus não pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do
+ cotillon é um dos mais notaveis serviços que a arte podia prestar á
+ alliança da religião e do <i>chic</i>.
+</p>
+<p>
+ Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vae revolucionar
+ completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno
+ inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da
+ impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa?
+</p>
+<p>
+ E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo
+ os olhos ao céu.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada.
+</p>
+<p>
+ E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares
+ deslisando em gyros ondulantes sobre os <i>parquets</i> polidos, cingindo com
+ o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na
+ mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que
+ chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença
+ exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas
+ pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados,
+ e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E
+ conversaremos:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Como a religião é boa! como é ineffavel!... Eu sinto a voz do meu
+ coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!
+</p>
+<p>
+ &mdash;E começa a ter crenças?
+</p>
+<p>
+ &mdash;Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delirio!...
+ Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!...
+ Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu,
+ meu anjo da guarda!...
+</p>
+<p>
+ &mdash;Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua
+ indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja
+ uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo
+ Pontifice, não acredita?
+</p>
+<p>
+ &mdash;Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu
+ coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate!
+ Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os
+ seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos
+ Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o
+ mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na
+ disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro
+ perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que
+ blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes ...
+</p>
+<p>
+ &mdash;Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que
+ nos seguem ... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma
+ joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da
+ cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoço ...
+</p>
+<p>
+ &mdash;Deus do céu!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Entre a costelleta e a omelette ...
+</p>
+<p>
+ &mdash;Virgem Maria!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Misturada com vinho de Pauillac ...
+</p>
+<p>
+ &mdash;Santos e Santas da côrte celeste!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Em partes eguaes, metade vinho, metade agua ...
+</p>
+<p>
+ &mdash;Mas vae para o inferno essa alma!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Está claro que sim. E é bem feito!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Se não houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por
+ todos os seculos dos seculos sem fim não é uma chimera. Hão-de
+ amargal-as, que ha de ser um consolo&mdash;para nós!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Amen! Amen, Jesus Maria José!
+</p>
+<p>
+ Assim conversarão elles e ellas durante a piedosa valsa <i>A Roma! a
+ Roma</i>! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-hão
+ ao empyreo, e irão pela via lactea fóra, sempre valsando, a demandarem a
+ entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das
+ nossas soirées ao divino.
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<p>
+<b>
+ <a id="advogados" name="advogados" >Aos srs. advogados</a>
+</b>
+</p>
+<p>
+ Meus caros senhores.&mdash;Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para
+ onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte.
+ Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oiço-o
+ mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle
+ ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a
+ pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração d'elle é perfumada com o
+ aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os predios
+ da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e&mdash;coisa que lhe
+ perguntei antes de o vir habitar&mdash;não toca piano.
+</p>
+<p>
+ De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no
+ cajado que nos está ouvindo áquelle canto, accendo um charuto e saio de
+ cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas.
+</p>
+<p>
+ Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preço de meio alqueire
+ de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o
+ metter ao forno e de o trazer ás costas para casa, d'ahi a dez minutos,
+ embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no
+ meu varapau.
+</p>
+<p>
+ Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas
+ velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas
+ adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha.
+</p>
+<p>
+ Tenho tambem relações nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros
+ obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao
+ postiguinho, e conversam para baixo comigo ácerca do vento provavel
+ para o outro dia.
+</p>
+<p>
+ É n'estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido
+ os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes
+ regras.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no
+ mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, não ha
+ familia que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos
+ srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do
+ machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo,
+ elle, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer
+ como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vae ao
+ advogado para que este o illucide.
+</p>
+<p>
+ Os principios geraes da organisação social que nenhum cidadão devia
+ ignorar n'um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o
+ mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo,
+ especialmenie, não tem idéa alguma das attribuições dos poderes a que
+ elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se
+ chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambiguo o
+ que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão
+ da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho
+ do districto, a commissão do recenseamento, o delegado de saude, a
+ policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o
+ desgraçado se acha sob a acção de uma d'essas formas porque lhe apparece
+ o principio da auctoridade, recorre ao letrado.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Cá está comnosco a justiça! diz elle á mulher ao receber qualquer
+ papel official.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas
+ nos olhos, atando as mãos na cabeça.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Má raios partam a justiça e mais aquelle que a inventou, que se o
+ apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e
+ tinha alma de lhe beber o sangue!
+</p>
+<p>
+ Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover
+ a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um
+ filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na
+ administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas
+ pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de
+ fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o pé de meia
+ com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo
+ para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são tambem os
+ mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais
+ pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco
+ tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e
+ custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para
+ as primeiras despesas, e custa vinte mil réis.
+</p>
+<p>
+ Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu
+ emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o
+ letrado é para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o
+ medico. Com uma differença: Todos os medicos teem uma hora por dia em
+ que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não teem
+ egual caridade com os ignorantes pobres. Além do soccorro
+ desinteressado de todos os medicos, os doentes têem ainda o banco dos
+ hospitaes. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é
+ inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza não
+ ensina aos cidadãos quaes são os seus direitos nem quaes os meios de
+ defesa perante a violação d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito
+ maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doença.
+ O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com
+ dobrada rasão ter consultorios egualmente gratuitos para a justiça. Os
+ advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os medicos
+ para prestar á sociedade na maxima amplitude os serviço desinteressados
+ que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe,
+ por tantos outros titulos respeitavel, uma idéa bem triste.
+</p>
+<p>
+ Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orphão e da viuva, o que
+ nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que opprimem a viuva e
+ os que tyrannisam o orphão.
+</p>
+<p>
+ Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os
+ defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa
+ contraria.
+</p>
+<p>
+ Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam
+ com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, são
+ conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço
+ que deseja pagar.
+</p>
+<p>
+ Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a
+ punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a <i>commoção que
+ se apodera do proprio orador</i>, o desfallecimento, a syncope, etc.
+</p>
+<p>
+ O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao
+ espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a
+ tabella dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga
+ mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se
+ esclarece senão á noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o
+ réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a
+ cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de
+ defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse
+ selvagem (apontando para o réu) estava bebado.» Assim se justificava o
+ crime de um homem que não tinha pago as circumstancias attenuantes ao
+ defensor.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Não será util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados
+ restrinjam o campo, que offereccem ás correrias do epigramma,
+ introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não
+ poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois
+ por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece
+ lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s.
+ ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio.
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<p>
+ Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco
+ mais ou menos do teor seguinte:
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ «Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma,
+ directora do bem conhecido e acreditado collegio de <i>Nossa Senhora da
+ Santíssima Purificação,</i> rua de tal, numero tal, quarto andar, lado
+ esquerdo. Foi hontem examinada em instrucção primaria e approvada com
+ dez valores, no lyceu nacional, a
+ <a id="menina" name="menina" >menina</a>
+ Elvira Fernandes, alumna do
+ referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da
+ jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos
+ carinhos dos examinadores de sua debil e tímida menina, a todos
+ consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.»
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu
+ nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos
+ collegios de Lisboa.
+</p>
+<p>
+ A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas
+ as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas
+ classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás
+ <i>réclames</i> das suas distribuições de premios.
+</p>
+<p>
+ Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para
+ o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá
+ egual exito com relação á lingua ingleza.
+</p>
+<p>
+ O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo
+ dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e
+ recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita
+ professora <i>dá-a por prompta</i> para entrar na sociedade mais escolhida.
+ Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D.
+ Jeronyma, <i>as prendas de mãos proprias do seu sexo</i>. Estas prendas
+ consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de
+ uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga,
+ com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre
+ um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a
+ data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de
+ bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:
+</p>
+<p class="centered">
+<b>
+ <i>Elvira Fernandez me fecit.</i>
+</b>
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das
+ quaes aprendeu precisamente o indispensavel para <i>escapar</i>, caindo-lhe
+ um thema facil e um examinador <i>carinhoso</i>, como muito bem dizia
+ Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas
+ porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma
+ palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os
+ conhecimentos theoricos da formação das palavras.
+</p>
+<p>
+ Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a <i>Prière d'une vierge</i> ou
+ <i>Les cloches du village</i>, e de continuar a bordar em seda ou em casimira
+ os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas
+ almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das
+ poltronas.
+</p>
+<p>
+ Polycarpo reconhecerá então&mdash;demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai
+ d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»&mdash;que D. Elvira possue, no
+ estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo
+ quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que
+ versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a
+ sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como
+ esposa, e finalmente como mãe.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem
+ absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de
+ vista pedagogico, são uma ostentação ridicula, offendem o bom gosto,
+ desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo,
+ incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ella é
+ chamada na familia.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+Entendemos portanto que&mdash;desde o momento em que Fernandes é bastante
+obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua
+filha, e não só não protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma,
+mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,&mdash;ao
+Estado cumpre intervir; não se tornar solidario das illusões de
+Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D.
+Jeronyma o direito de a levarem a exame.
+</p>
+
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+
+<p>
+<i>Levar a exame</i>! Só a palavra é um ultrage
+da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo
+do direito paterno tudo quanto ha mais delicado,
+mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se&mdash;o
+espirito virginal de uma menina,&mdash;ao
+interrogatorio official de um mestre que durante
+vinte minutos vae exercer sobre aquella
+alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um
+tal inquerito, um tal julgamento, póde ser desculpavel
+na educação de um rapaz, para quem
+o exame é uma habilitação legal para a sua carreira
+civil; na educação de uma menina portugueza
+similhante prova é inadmissivel e equivale
+a uma amputação do decoro.
+</p>
+<p>
+ Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas
+ a uma creança para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma
+ mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a
+ tornar mais educada.
+</p>
+<p>
+ Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrucção
+ primaria e de instrucção secundaria para todas as pessoas do sexo
+ feminino que não juntem ao requerimento de matricula attestado de
+ maioridade e de emancipação legal.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Em um exame de instrucção primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este
+ dialogo:
+</p>
+<p>
+ <i>O examinador</i>&mdash;Que faz a menina quando se vae deitar?
+</p>
+<p>
+ <i>A examinanda</i>&mdash;Quando me vou deitar ...
+</p>
+<p>
+ <i>O examinador</i>&mdash;Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga.
+</p>
+<p>
+ <i>A examinanda</i>(córando até á raiz do cabello e baixando os
+ olhos)&mdash;Quando me vou deitar ... dispo-me.
+</p>
+<p>
+ <i>O examinador</i>&mdash;E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir
+ o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?!... O que faz
+ depois de se despir?
+</p>
+<p>
+ <i>A examinanda</i>&mdash;Tenho vergonha ...
+</p>
+<p>
+ <i>O examinador</i>&mdash;Não tenha vergonha. Responda para diante!
+</p>
+<p>
+ <i>A examinanda</i>&mdash;Depois de me despir o que eu faço é ...
+</p>
+<p>
+ E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo,
+ com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco
+ annos, n'essa lingua que os homens só fallam ás suas mães na pureza da
+ innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que
+ as linguas mortas, traduziu a locução de Plinio: <i>urinam ex se
+ emittere</i>.
+</p>
+<p>
+ O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo
+ presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos.
+</p>
+<p>
+ É assim que nos exames de instrucção primaria se averigua se as alumnas
+ sabem ou não «civilidade».
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação
+ de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar,
+ restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia.
+</p>
+<p>
+ A reforma da instrucção das mulheres é em Portugal ainda mais urgente
+ que a da instrucção dos homens.
+</p>
+<p>
+ As linguas não constituem instrucção, porque não ministram
+ conhecimentos, são apenas meios de os adquirir.
+</p>
+<p>
+ Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na
+ educação elementar, dos seguintes ramos de ensino:
+</p>
+<p>
+ 1.° Curso de aceio e de arranjo;
+</p>
+<p>
+ 2.° Curso de cozinha (chimica culinaria).
+</p>
+<p>
+ 3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia,
+ juntamente com as necessarias habilitações litterarias para adquirir
+ idéas, as seguintes noções praticas:
+</p>
+<p>
+ Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa
+ branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as
+ esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso
+ domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os
+ melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de <i>toilette</i>; de
+ arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras;
+ de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos;
+ de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas.
+ Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de
+ escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles
+ se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a
+ bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os
+ inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de
+ mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os
+ pequenos jantares.
+</p>
+<p>
+ Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos
+ differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas
+ mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças,
+ vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no
+ vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina
+ aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.
+</p>
+<p>
+ O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o
+ caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o
+ caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma
+ boa digestão.
+</p>
+<p>
+ Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de
+ dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das
+ senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia
+ nacional.
+</p>
+<p>
+ Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta
+ affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade
+ physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o
+ que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem
+ preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que
+ não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas
+ por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um
+ liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A
+ condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima
+ quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que
+ não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e
+ perfeitamente transparente.
+</p>
+<p>
+ Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás
+ suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D.
+ Jeronyma acha mais util ensinar o que é o <i>substantivo</i>. Como se alguem
+ no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o
+ <i>substantivo</i> é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos),
+ não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o
+ <i>substantivo</i>, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o
+ papão!
+</p>
+<p>
+ Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D.
+ Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow,
+ demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe
+ no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da
+ civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe
+ entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um
+ povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação.
+ É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada
+ governa o mundo e determina o destino das sociedades.
+</p>
+<p>
+ Em Londres os mais importantes jornaes, como a <i>Quaterly Review</i>, teem
+ chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da
+ iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da
+ regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das
+ cozinhas dos differentes póvos, etc.
+</p>
+<p>
+ A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem
+ as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e
+ compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que
+ obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus
+ habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento
+ publico de educação feminina intitulado <i>Escola nacional de cozinha</i>. O
+ numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca
+ de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso
+ estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de
+ cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram
+ meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão
+ inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as
+ competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e
+ descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações,
+ ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto.
+</p>
+<p>
+ Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na
+ economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão
+ divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias
+ teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os
+ meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia
+ que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por
+ semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não
+ obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é
+ inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um
+ conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas.
+</p>
+<p>
+ O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado
+ praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico
+ das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço
+ ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo,
+ o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo
+ o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do
+ anno em que elles houverem de ser feitos.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas
+ deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da
+ familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os
+ mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o
+ balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos
+ os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos
+ differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os
+ reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as
+ despezas imprevistas, e o <i>fundo de reserva</i>&mdash;verba essencial,
+ indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa
+ sabiamente dirigida.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas,
+ a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua
+ verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado
+ mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços
+ equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher
+ invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella
+ seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com
+ que nos ameaça o proloquio vulgar: <i>uma casa é uma loba.</i> Não; a casa,
+ dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o
+ methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o
+ baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente
+ protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação
+ domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação
+ feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e
+ fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso
+ doce refugio.
+</p>
+<p>
+ Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto
+ dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher
+ engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com
+ factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre
+ em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os
+ casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario
+ uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento,
+ portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno
+ esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a
+ economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve
+ dotar-se a mulher.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da
+ mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços
+ de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna
+ reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da
+ aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a
+ graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos
+ cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos
+ das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas
+ não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas
+ nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As
+ meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos
+ instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos
+ livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os
+ rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.
+</p>
+<p>
+ Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio
+ das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as
+ senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na
+ mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais
+ esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos
+ poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da
+ meteorologia nas obras dos arabes.
+</p>
+<p>
+ Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para
+ desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.
+</p>
+<p>
+ Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira
+ das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para
+ ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora.
+ Toda a educação feminina tem de partir d'este principio.
+</p>
+<hr class="minor" /><!--===================-->
+<p>
+ A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma
+ na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas
+ escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida
+ por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só
+ póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as
+ noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores
+ estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção
+ previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção
+ primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.
+</p>
+<p>
+ O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel,
+ como algumas julgam, com a perfeita direcção do <i>ménage</i>, mas antes
+ depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção
+ impõe.
+</p>
+<p>
+ Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente
+ ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes
+ são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica.
+</p>
+<p>
+ Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico
+ de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a
+ posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas
+ contemporaneas.
+</p>
+<p>
+ Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do <i>Almanach das
+ Senhoras</i>, que temos presente. Temos tambem presente a <i>Gazeta das
+ Salas</i>, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que
+ qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias
+ do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas
+ collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres&mdash;sentimos
+ dizel-o&mdash;não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando
+ conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De
+ tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade
+ contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos
+ pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só
+ foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e
+ publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem
+ versos&mdash;não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente
+ publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais
+ profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais
+ sedenta de verdade e de justiça,&mdash;mas sim trovas d'uma sentimentalidade
+ de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca.
+ Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos
+ personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um
+ dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente
+ garantida, não dizemos já n'um congresso de <i>gentlemen</i>, mas n'um
+ simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis
+ fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina
+ honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do
+ <i>ménage</i>, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para
+ acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera
+ creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego
+ na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios
+ permanentes.
+</p>
+<p>
+ Compare-se o <i>Almanach das Senhoras</i>, com as collecções estrangeiras
+ collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a
+ educação pratica da <i>ménagère</i>, eleva o espirito, como a educação
+ litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta.
+</p>
+<p>
+ O <i>Jornal das donas de casa da Allemanha</i>, tem aperfeiçoado
+ profundamente os costumes e os habitos da vida domestica.
+</p>
+<p>
+ Na Inglaterra o texto da grande <i>Revista das mulheres inglezas</i> consta
+ de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de
+ physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas
+ de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noções
+ praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma
+ réclame de modas.
+</p>
+<p>
+ Taine cita no seu livro ácerca da Inglaterra varios artigos de mulheres
+ publicados nas <i>Transactions of international association for the
+ promotion of social sciences</i>. Os artigos intitulam-se:
+</p>
+<p>
+ <i>Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra</i>, por Barbara Collett;
+</p>
+<p>
+ <i>Applicação dos principios de educação ás escolas das classes
+ inferiores</i>, por Mary Carpenter;
+</p>
+<p>
+ <i>Estado actual da colonia de Mettray</i>, por Florence Hill;
+</p>
+<p>
+ <i>Estatistica dos hospitaes</i>, por Florence Nightingale;
+</p>
+<p>
+ <i>A condição das mulheres operarias em Inglaterra e em França</i>, por
+ Bessie Parkes;
+</p>
+<p>
+ <i>A escravatura na America e sua influencia na Grã-Bretanha,</i> por Sarah
+ Remand;
+</p>
+<p>
+ <i>Melhoramento das «nurses» nos districtos agricolas,</i> por mistress
+ Wigins; <i>Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho ás
+ mulheres,</i> por Jone Crowe, etc..
+</p>
+<p>
+ Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos
+ amigos que tinha na sociedade ingleza, eram mulheres de casa, passando
+ uma vida extremamente simples e retirada.
+</p>
+<p>
+ Assim temos que na Inglaterra e na Allemanha a escola das <i>ménagères</i>
+ produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a
+ educação literaria, segundo os programma dos lyceus, nem dá <i>ménagères</i>
+ nem dá literatas.
+</p>
+<p>
+ Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que désse alguma coisa?...
+</p>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da
+Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS: CHRONICA MENSAL ***
+
+***** This file should be named 16214-h.htm or 16214-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/1/6/2/1/16214/
+
+Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
+Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
+Proofreading Team
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+*** END: FULL LICENSE ***
+
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>
diff --git a/16214-h/images/devil.png b/16214-h/images/devil.png
new file mode 100644
index 0000000..13a77a6
--- /dev/null
+++ b/16214-h/images/devil.png
Binary files differ
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..782481e
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #16214 (https://www.gutenberg.org/ebooks/16214)