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+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14621 ***
+
+[Illustration: AS FARPAS--R. ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ]
+
+RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+2.º ANNO
+
+Março a Abril de 1873
+
+
+
+
+Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+universo, e da adoração de si mesmo.
+
+P.J. PROUDHON.
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+O sr. _Alexandre Herculano_, opusculista. Os semi-deuses e os rapazes.
+As armaduras e as flanellas. _A Voz do Propheta_, geremiada de salão. A
+biblia-cacete. Deus cartista. Reincidencia do milagre de Ourique. Os
+egressos e Pharaó. A censura dramatica. As conferencias democraticas. Os
+fins da arte e a bisca sueca. Em que o sr. Herculano se parece com
+Theodosio II. A tristeza chronica do grande homem e o pronto-alivio de
+Radway. A velhice e a arte. Os martyrios de vinheta. Spinosa,
+Campanella, Diderot e Proudhon. Victor Hugo, Michelet, Quinet, Raspail e
+Carl Marx. O sr. Herculano Salomão e nós o bôbo Marcullo.--João Felix
+Pereira, historiador. Os compendios da instrucção publica e as
+equarissages.--O sr. D. Fernando em Coimbra. Os rouxinoes do Mondego e
+seus principios politicos.--A casa de detenção nas Monicas. O edificio,
+as camaratas, o refeitorio, as officinas, a escola. A instrucção, a
+catechese, a hygiene, a moral. A direcção technica. A colonia
+penitenciaria de Meltray. Contrastes. Se é dado aos vadios rehabilitarem
+se fazendo-se dezembargadores ou coroneis--As curiosidades infantis da
+Republica Portugueza--_Duas palavras aos leitores das Farpas_, folheto
+brazileiro. O commercio, a instrucção e a industria no Brazil:
+testemunho insuspeito e juizo final. O sr. Mathias de Carvalho e a
+actriz Emilia Adelaide. A America e a rainha Fulvia, a lingua de Cicero
+e a nossa.--O alto dandysmo. As ultimas corridas no Campo Grande. O
+Sport e o Lagoia. Perfil do _high-life_. Os srs. De Lagrange, De Mouchy,
+Rothschild, Dudley Stuart. João Russo e Chico Perfeito. Hurrah! pelas
+tipoias vencedoras--Representação da comedia _Magdalena_. Os caracteres,
+os costumes, a peça. Conselhos amigaveis ás burguezas honestas.--Um anjo
+catholico e uma jovem deusa da Razão, typos da litteratura e da moda.--O
+leilão do espolio de sua magestade imperial.
+
+O sr. Alexandre Herculano acaba de publicar sob o titulo de _Opusculos_
+um livro em que, além de uma refutação erudictamente argumentada e
+inedita da portaria que suspendeu as conferencias democraticas do Casino
+Lisbonense, se encontram apenas reedições de algumas antigas obras do
+illustre escriptor.
+
+Reapparecendo assim na publicidade, reentrando na lucta das idéas novas
+com os velhos engenhos de guerra despendurados dos arsenaes de 1836 ou
+1843, sua excellencia lembra-nos demasiadamente o antiquario que sáe a
+combater forças vivas á frente das naturezas mortas do seu museu,
+formando em batalha contra os entes animados da creação os jacarés
+empalhados e os monstros em espirito de vinho da sua galeria curiosa.
+
+ * * * * *
+
+Os discursos d'estas paginas antigas, a que sobejam por um lado os
+accessorios artificiaes da rhetorica e a que faltam por outro lado, com
+as opportunidades do momento em que foram concebidas, as condições de
+uma existencia necessaria e real, fazem-nos o effeito de armaduras
+primorosamente cinzeladas, mas suspensas em ripes de pinho, finos
+capacetes de viseiras caladas sobre caraças de papelão com verniz de
+cera côr de rosa e olhos de vidro.
+
+E causa-nos pena isto: que tantos apparatos de força e tão solidos
+instrumentos de guerra se prestem a desabar, com o estampido ridiculo
+dos louceiros que se quebram nas velhas farças, aos golpes de _stick_ do
+primeiro irreverente que passe trazendo na cabeça as exaltações de dois
+dedos de Proudhon e de um copo de Champagne!
+
+Serão injustos depois os que bradarem contra a decadencia, contra a
+corrupção, contra a irreligiosidade do seculo com o fundamento de que,
+n'estes contactos das antigas armas consistentes e das novas modas
+futeis, é o espesso arnez de Carlos Magno o que rende e a fina _veste
+Bênoiton_ a que triumpha.
+
+Ai! perdoae-nos ... Nós preferimos ás impenetraveis armaduras dos vossos
+gigantes, que não servem hoje a ninguem e que não trazem ninguem dentro,
+a simples flanella vulgar, talhada por Pool para as fórmas exiguas dos
+macacos sabios da geração nova, dentro da qual flanella todavia se
+abotoam homens, pequenos e frageis, mas emfim mais ou menos vivos,
+graças ás capsulas ferruginosas e ao _Rob Lafecteur_, podendo
+impunemente, perante os minotauros de cartão, n'um rasgo de cancan,
+chegar-lhes com o bico do pé á ponta do nariz.
+
+Ao passo que, sobre estes fracos mortaes, que ainda não estoiraram de
+todo nos galopes da vida, as effigies dos antigos semi-deuses,
+inoffensivos e inuteis como estatuas de louça branca--na attitude
+classica dos Abrahões de jardim--suspendem os seus alphanges, como
+poleiros aereos, cuja immobilidade tem convidado ao somno quarenta
+gerações de pardaes!
+
+ * * * * *
+
+Aqui temos nós, por exemplo, _A voz do propheta_, cem paginas sybilinas,
+em estylo emphatico, allegorico, confuso, tremendo.
+
+É uma especie de _Dies irae_--de salão.
+
+Cada periodo ronca lugubremente como um estertor de moribundo, imitado
+n'um figle.
+
+Em cada phrase ha um vacuo premeditado que lembra a orbita sem olho da
+caveira de um cyclope.
+
+A locução, pintada como uma actriz vestida do branco, com os cabellos
+desgrenhados, que se predispoz ao espelho para uma scena de delírio, tem
+tons cadavericos, produzidos por grossos riscos pretos sobre gesso
+esverdinhado e branco: ella passa mysteriosa e terrivel; não se sabe do
+onde vem nem para onde vae, nem quem busca, nem o que pretende--ella,
+desvairada, tambem o não sabe!--mas pisa o tablado a largos compassos
+tectricos, brandindo um punhal, olhos fixos e dedo descarnado e livido
+apontando o espaço. A orchestra, a golpes taciturnos e tremidos de
+rebeção, imita os rumores das tempestades. E os espectadores
+angustiados, presentindo que alguma coisa pavorosamente tragica vae
+occorrer, desdobram os seus lenços nas mãos abertas, aprontando-se para
+acolher aquella porção de sensibilidade oppressa de que a imperfeita
+natureza humana se desencarrega--ai de nós!--pelo nariz....
+
+O monologo porém termina; está volvida a ultima pagina da prosa
+melodramatica do sr. Herculano; elle, o propheta, principiou estas
+palavras:
+
+«O espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vae, e faze
+resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade. E eu
+obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos ...»
+
+E conclue assim:
+
+«N'este momento a visão desappareceu, e achei-me banhado em suor frio e
+repassado de amargura. E por impossivel tinha que tão negro futuro
+houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que
+diziam:--Guerra á religião do Christo! Então cri na visão que o Senhor
+me enviava, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.»
+
+Ao terminarem a leitura, as turbas obscuras e humildes a quem o auctor
+se dirigira, e das quaes nós temos a honra de fazer parte, perguntam
+contristadas e attonitas:
+
+Mas, bom Deus, poder-se-ha saber por que altos motivos está s.ex.ª o
+propheta _banhado em suor frio_ e _repassado de amargura_?!
+
+Ser-nos-ha dado apreciar quaes as razões por que o digno socio de merito
+de Jeremias e da Academia Real das Sciencias, apagou dentro da sua alma
+o _ultimo clarão de esperança_?
+
+Sim! N'esta recente edição do seu opusculo, s.ex.ª o anjo, incumbido
+directamente por Deus de _fazer resoar palavras de terror_, explica
+satisfatoriamente o phenomeno pathologico da desesperança em sua alma e
+dos suores frios em seu corpo, por via de algumas laudas de introducção,
+destinadas a prehencher cabalmente os votos d'aquelles que tinham
+promettido aos deuses um propheta de cêra, se os deuses lhes
+consentissem penetrar o sentido da _Voz do propheta_.
+
+A explicação d'essa voz que diz ao povo «_que a sua hora extrema vae
+soar, que elle é maldito, que elle é empestado, que é pustulento e
+pôdre, vil e malvado, escoria, immundice e relé_»,--a explicação da voz
+que diz e rediz isto em 118 paginas de uma prophecia de exterminio e de
+morte para o povo e para o paiz, é que:
+
+A revolução de setembro triumphava com a democracia, o sr. Alexandre
+Herculano não acreditava na democracia, tinha-a pela «declamação
+interessada de engenhos superficiaes que pretendem jungir ao carro das
+proprias ambições _as turbas más, porque ignorantes, odientas, porque
+invejosas, espoliadoras, porque miseraveis_;» e Elle, o propheta, Elle,
+o anjo exterminador, Elle, o enviado de Deus ás gerações ... Elle
+era--cartista!
+
+ * * * * *
+
+Se o sr. Herculano escreveu isto, que parece uma blasphemia pavorosa «_O
+espirito de Deus passou pelo meu espirito e disse-me: vae, e faze,
+resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror_ ...»--é que
+naturalmente Deus era tambem--cartista.
+
+E assim rompe um livro, tendo por base a mancommunação de um Deus e de
+um propheta, conchavados para espancarem patuleas a cacetadas de biblia
+e de rhetorica!
+
+ * * * * *
+
+Permitta-se-nos dirigir uma pequena pergunta humilde ao grande
+historiador:
+
+Se s.ex.ª nos affirma que o espirito de Deus o tocou e lhe disse: _Vae_,
+o que acreditamos sob a palavra de s.ex.ª, como ousa s.ex.ª negar que o
+mesmo Deus tivesse egualmente apparecido a Affonso Henriques e lhe
+tivesse dito--_Vence_? Porque, em fim, a verdade é que o milagre que
+precedeu a victoria de Ourique é exactamente o mesmo que inspirou a _Voz
+do propheta_. Ao grande escriptor assim como ao grande rei Deus
+appareceu e fallou. Se um d'estes cavalheiros nega a visão de outro, não
+poderá a critica julgal-os suspeitos como officiaes do mesmo officio?
+Não será plausivel que cada um d'estes Joões Marias Farinas dos divinos
+cheiros queira para si o privilegio de ser o unico João Maria Farina,
+authentico e legitimo?
+
+ * * * * *
+
+Mais encerra o sobredito livro dos Opusculos:
+
+Primeiro--Uma «consulta apresentada á Academia Real das Sciencias ácerca
+do estado dos archivos ecclesiasticos do reino e do direito do governo
+em relação aos documentos ainda n'elles existentes»--questão que se acha
+resolvida desde 1857. Tem essa actualidade.
+
+Segundo--«Os egressos, petição humilissima a favor de uma classe
+desgraçada.» Mais: «As freiras de Lorvão», especie de petição em favor
+da parte feminina da sobredita classe, acto philantropico que declarado
+hoje, quarenta annos depois da extincção das ordens religiosas, nos
+obriga a meditar nas razões por que o auctor não aproveitaria este
+ensejo para peticionar egualmente em favor das familias dos companheiros
+de Pharaó, victimas da terrivel catastrophe da passagem do Mar Vermelho.
+
+Terceiro--«Theatro, moral, censura», discurso em que o auctor propõe que
+a censura dramatica não seja eliminada mas sim substituida por «uma lei
+para o theatro em harmonia com a lei politica da nação»--especie de
+carta constitucional da monarchia da rua dos Condes e do Salitre. O sr.
+Herculano quer _um jurado especial encarregado de defender a moralidade,
+punindo com multas pecuniarias e com cadeia todo o delicto dramatico em
+offensa da moral_,--o que nos parece ser, sem a minima duvida, o
+restabelecimento puro da santissima inquisição, ou a renovação dos jogos
+da eloquencia, de Caligula, em que o vencido era lançado no Rhodano,
+sempre que não preferia apagar o seu discurso com a lingua.
+
+Quarto e ultimo--Uma _advertencia preliminar_, na qual o autor explica
+que compoz a sua obra _com o fim de_--matar o tédio das longas noites
+de inverno na solidão da sua granja. D'onde somos levados a deduzir que
+os fins da arte para o illustre solitario de Valle de Lobos--no inverno
+pelo menos--são simples parceiros de jogo, questão de passar tempo: para
+s.ex.ª a antiga coisa sagrada de Platão substitue--a bisca sueca. O fim
+moral retira-se, havendo uma perna para o _voltarete_.
+
+E nada mais se contém no ultimo livro recentemente publicado por aquelle
+que justamente se considera o primeiro dos escriptores portuguezes!
+
+ * * * * *
+
+Esse livro que se não baseia em nenhuma das necessidades da sciencia, da
+razão ou do sentimento do mundo moderno, caminhando no ar como as
+pinturas chinezas em que não ha solo, é uma pessima obra. Vem de alto,
+firma-a um nome prestigioso, está escripta no estylo relimado a que
+Michelet chama a _indigente correcção de Malherbe_: tem portanto as
+condições da voga; é um exemplo funesto. Porque esse livro não instrue,
+nem ensina, nem esclarece, nem consola ninguem.
+
+Referindo-se ás conferencias do Casino repisa a velha questão catholica
+e esquiva-se á apreciação da theoria artistica, economica e scientifica
+da revolução, que essas conferencias propagavam.
+
+Na politica é auctoritario, conservador intransigente. Impõe-nos a
+carta, como Carlos IX impunha a missa a Henrique de Navarra e ao jovem
+Condé, depois da Saint-Barthelemy. Nega a revolução democratica com um
+desdem banal, como quem ignora ou finge ignorar que toda a revolução que
+se oppõe á corrupção e á miseria, filhas das instituições, não é uma
+theoria contingente mas sim uma lei fatal. Estava n'este ponto bem mais
+adiantado, do que s.exª nos quer mostrar que se acha, aquelle velho
+ministro francez que ha mais de cem annos exclamava: «_La légalité nous
+tue_».
+
+Na economia social, sem uma palavra para algum dos principios que
+constituem o systema de credito e a organisação industrial, preconisa as
+_caixas economicas_, escondendo que a questão de coarctar a miseria não
+é de estabelecer o _mealheiro_ mas sim de crear o trabalho.
+
+Na arte quer a manifestação do pensamento adstricta ás sentenças de um
+jury tirado da academia das sciencias, da escola polytechnica e de não
+sei que outros tribunaes regularisadores do direito da palavra,
+justificando assim aquella definição do sublime dada por Galiani: «a
+arte de dizer as coisas sem ir para a cadeia»; quando a verdade n'este
+ponto é que nada ha que mais avilte a intelligencia e o caracter do que
+o exercicio hypocrita, imposto pela legislação repressiva, de encobrir o
+pensamento ou de disfarçar a verdade.
+
+ * * * * *
+
+No momento actual, quando a Europa inteira, grande martyr, se agita na
+polemica e no sangue, procurando nobremente e santamente resolver para a
+justiça o problema do destino dos povos, reconhecendo com Proudhon que a
+negação da sociedade feita em 93 implíca uma affirmação subsequente que
+ainda não está feita, e que, depois de desorganisados os privilegios,
+nos é hoje preciso organisar sólidamente e firmemente o trabalho na paz,
+no bem estar e na virtude,--n'este momento supremo, um dos mais graves
+em que se tem achado a humanidade, quando mais do que nunca se precisa
+para a verdade do concurso de todos os espiritos elevados e rectos--, um
+philosopho, um pensador educado nos severos estudos historicos, o mais
+auctorisado dos nossos escriptores, entretendo-se no seu gabinete a
+reconstituir antigos opusculos banaes e extinctos para passar o inverno,
+lembra um pouco o imperador Theodosio entregue ás especulações
+theologicas, e compondo symbolos no gyneceu, quando Genserico estava em
+Cartago e Attila nas margens do Danubio.
+
+ * * * * *
+
+Diz-nos o sr. Alexandre Herculano que está velho, desilludido,
+desalentado ...
+
+D'onde lhe veiu tanta amargura e tão singular abatimento, que nem os
+annos nem os desgostos justificam?
+
+Comprehende-se a tristeza d'aquelles que, consagrando a sua vida a uma
+grande obra, absorvendo-se n'ella, pertencendo-lhe integralmente, se
+acham repentinamente desacompanhados e sós ao verem a obra terminada.
+Michelet consumiu quarenta annos a escrever a historia da sua patria.
+«Pois bem, minha grande França, exclama elle, se foi preciso para achar
+a tua vida que um homem se tivesse entregado e passasse e repassasse
+tantas vezes o rio dos mortos, esse homem consola-se, agradece-te ainda,
+e o seu maior pesar é ter emfim do deixar-te.» Gibbon, tão frio e tão
+secco, não larga o seu livro sem uma commoção profundamente melancolica:
+«Pensei que acabava de despedirme do antigo e agradavel companheiro da
+minha vida.» Oh! sim, comprehende-se bem essa magoa profunda que absorve
+o homem ao cabo da missão a que elle se dera no mundo! Comprehende-se
+Alexandre morrendo de tristesa depois de conquistar a Asia, e Alarico
+depois de tomar Roma; comprehende-se Godofredo de Bulhões, com a sua
+herculea natureza que resistiu inalteravel ás fomes, ás sedes, ás
+pestes, ás guerras, a todas as tragedias da cruzada, sossobrando
+finalmente ao ter de embainhar a espada, e morrendo--por ter chegado!
+
+Mas não se comprehende definhando de tristesa em Valle de Lobos o sr.
+Herculano, porque elle não venceu, não conquistou, não concluiu a sua
+obra: abandonou-a apenas, retirou-se, foi-se embora.
+
+Como antigo litterato, historiador, romancista e poeta, s.ex.ª não se
+póde contristar. Deve consolal-o a vida rural, que elegeu em
+substituição da vida artistica.
+
+Se o não satisfaz a solução que deu ao seu destino, se no remanso da sua
+granja, na abundancia, no saudavel exercicio da lavoura, na familia, na
+saude, na paz, na consideração e no respeito publico, s.ex.ª se sente
+effectivamente velho, desalentado e triste, creia s.ex.ª então que não é
+o litterato que ainda soffre, é o agricultor que já começa a padecer. A
+padecer o que? Esta molestia:--a nostalgia da arte.
+
+ * * * * *
+
+A tristeza não é nunca um estado de espirito normal no organismo de um
+homem são. A tristeza é um symptoma de enfermidade physica ou moral. A
+tristeza habitual quando se não cura com as pílulas de Radway e com as
+aguas mineraes, cura-se com uma acção boa. Se com isso não passa, é
+então uma lesão profunda e mortal.
+
+O homem que durante vinte annos viveu no trabalho intellectual, na
+applicação, no estudo, na poderosa contensão da arte, escrevendo,
+publicando, dilatando-se, repartindo-se pelos seus semelhantes,
+amassando e forneando para elles o divino pão da verdade, nunca mais
+póde sem perigo retirar-se d'esse meio.
+
+Nos serios trabalhos do espirito consagrados a uma idéa elevada ha uma
+luz vivificante e serena que não sómente allumia o operario, penetra-o
+tambem, alimenta-o, conforta-o. A sua obra não é inteiramente d'elle,
+elle pertence tambem á sua obra. Elle cria-a, torna-a viva, poderosa,
+immortal á força de amor, de verdade e de justiça; ella, generosa e
+grata, educa-o, aconselha-o, consola-o, fortifica-o. Os dias passam,
+tenebrosos ou limpidos, serenos ou revoltos no mundo externo; na
+immutavel região da arte ha a pacificação permanente. Embebido na doce
+mocidade eterna da sua obra, o verdadeiro artista, perfeitamente fiel ao
+trabalho, não sabe nunca se envelhece ou não.
+
+Veja o sr. Herculano aquelles que deixou nas lettras, ha alguns annos,
+muito mais edosos que elle! Como ainda hoje são novos!
+
+Quem guia, quem governa, quem encaminha hoje no mundo a grande marcha
+das idéas modernas a que o illustre agricultor de Santarem se oppõe, no
+seu recente livro de torna-viagem, com epigrammas cacheticos e vetustos?
+Veja-os s.ex.ª, escute-os, attenda-os: como teem os labios vermelhos, a
+voz clara e metallica, os cabellos loiros, os musculos fortes, o sangue
+vermelho, salgado e alegre! Reconhece-os?...
+
+São Victor Hugo, Michelet, Quinet, Thiers, Raspail e Karl Marx.
+
+Companheiros de infancia de s.ex.ª eil-os ahi ainda, na mais perfumada e
+viçosa flor da edade, entre os setenta e os noventa annos!
+
+ * * * * *
+
+Quando uma vez se habitou o paiz luminoso da sciencia e da arte é
+impossivel o expatriamento para os frigidos climas sombrios dos
+interesses praticos e positivos. A mão que por vinte annos manejou uma
+penna, não poderá jámais ageitar-se á rabiça de um arado. Sequestrar-se
+á sciencia é roubar a sociedade. Para onde quer que te recolhas com a
+porção de luz e de verdade que tinhas no teu cerebro e que subtrahiste
+do thesouro commum da humanidade, para onde quer que te escondas, ó
+triste foragido, irá sempre comtigo, pungindo-te na parte mais nobre do
+teu ser não contaminada pelo egoismo, o remorso de uma acção má. Debalde
+procurarás justificar o plano da tua deserção com os desgostos que
+atravessaram a tua carreira. Desgostos, tu! o filho mimoso da tua
+patria! a unica gloria official da litteratura do teu paiz! tu sempre
+lido, sempre gloriado, sempre retribuido! Oh! como se rirão dos teus
+pretendidos desgostos todos aquelles que tiveram no mundo uma idéa, que
+se lhe consagraram, que viveram e que morreram por ella!
+
+Pobre homem sem fé! que pensarão do teu martyriosinho de album, da tua
+pequenina cruz de berloque, aquelles que realmente tiveram um martyrio e
+uma cruz, onde padeceram e morreram, resignados e austeros?!... Spinoza,
+que muitas vezes comeu hervas por não ter pão; Campanella preso vinte e
+sete annos, sendo cinco vezes julgado e soffrendo sete vezes a tortura;
+João Jacques dormindo n'um fosso por não ter outro asylo; Diderot
+desmaiando de fome; Proudhon, vivendo com um tostão por dia, caminhando
+oitenta leguas a pé para ir ver o seu amigo, só, odeado, perseguido,
+caminhando sem meias, com os pés nús embrulhados em palha dentro dos
+tamancos das suas montanhas do Jura!
+
+ * * * * *
+
+Se o sr. Herculano, agricultor, está triste, volte a ser litterato,
+restitua-se á sua patria, á sua geração e ao seu tempo.
+
+Se definitivamente não quer ser mais um escriptor, poupe então a nossa
+sensibilidade ás repetições da historia dos seus desgostos. Como simples
+proprietario rural os jubilos ou as melancolias do sr. Herculano são
+absolutamente indifferentes á humanidade.
+
+Quando Quinet publicou a «Historia» das suas idéas, procurando dar sob
+uma fórma individual a historia moral da geração de que fez parte, á
+similhança do que parece ser intentado agora pelo sr. Herculano com a
+publicação dos seus opusculos, Quinet não obedecia ao desejo de servir
+um editor ou de entreter um inverno; Quinet, colligindo as suas idéas e
+recompondo o seu passado, arrancava da sua obra uma grande idéa, bella,
+radiante e fecunda: a coherencia, illuminando um caracter, e fazendo
+d'elle uma força moral.
+
+Quinet não vinha entristecer-nos com a sua melancolia nem contaminar-nos
+com o seu desalento.
+
+Se elle reconstituia e publicava os dispersos fragmentos obscuros de
+antigos trabalhos era exactamente porque d'esse agrupamento e d'essa
+reunião de idéas espalhadas pelas differentes edades e pelas diversas
+phases da sua vida sobresahia como um nobre exemplo o luminoso
+contentamento de uma alma perseverante e forte.
+
+Decepções, chimeras, enganos, o que vem a ser essas coisas? ignoro-o;
+ahi está a minha vida, dizia cele. O que uma vez amei, em cada dia me
+pareceu mais digno do amor; de dia para dia adiei a justiça mais santa,
+a liberdade mais bella, a palavra mais sagrada, a arte mais real, a
+realidade mais artista, a poesia mais verdadeira, a verdade mais
+poetica, a natureza mais divina, o divino mais natural. E se me sobrasse
+tempo para ir mais ao fundo d'aquillo que ignoro, sinto que as coisas
+que ainda me espantam acabariam por desapparecer. Onde a inquietação se
+apoderara de mim, o enygma se decifraria por si mesmo. Eu repousaria na
+luz.
+
+São os homens que podem extrahir do seu passado a lição que encerram
+essas formosas palavras os que teem direito de vir fallar-nos do seu
+passado. Os que não teem como lembrança dos seus dias decorridos senão o
+cansaço, o desalento, a indifferença o o desdem, podem fazer um serviço
+maior do que escrevel-o; é calal-o.
+
+ * * * * *
+
+Concluindo não pediremos ao sr. Herculano que nos perdôe a ousada
+franqueza com que lhe fallamos. S.ex.ª sabe que a unica irreverencia
+criminosa diante de urna verdade que se possue consiste unicamente em
+esconder essa verdade. Que ella provenha do mais obscuro dos miseraveis
+ou da mais alta e mais competente das actividades, que importa? É
+preciso abate-a ou deixal-a passar. S.ex.ª conhece o dialogo asiatico de
+Salomão e de Marculf. Salomão é o grande rei, dotado de todos os dons,
+bello, omnipotente e sabio; Marculf é um villão-ruim, um rustico
+insolente e bestial. No emtanto as subtilezas populares do bobo
+esfarrapado embaraçam e humilham no seu throno o poderoso e sabio rei.
+Isto prova que a magnanima auctoridade e a sacrosanta lei escripta podem
+não perder tudo em escutar um simples, roto e despresivel raciocinio
+plebeu.
+
+Bem sabemos que não somos nós que temos as finas subtilezas ironicas do
+bobo Marculf. Mas egualmente é certo que por outro lado o sr. Herculano
+tambem não é inteiramente o filho de David, rei de Israel, o que
+escreveu o _Cantico dos canticos_ e edificou o templo.
+
+ * * * * *
+
+Ao passo que o sr. Alexandre Herculano, historiador, publica opusculos, o
+sr. João Felix Pereira, opusculista, publica historia.--É a logica do
+absurdo.
+
+ * * * * *
+
+A recente obra de Felix é um resumo de historia romana traduzido do
+latim. As primeiras linhas d'esta versão bastam para dar aos leitores
+uma, idéa da obra.
+
+_O imperio romano, menor do que o qual em seo principio, ou maior por
+seo augmento em todo o mundo, de quase nenhum a memoria humana pode
+recordar-se, tem principio de Romulo; o qual filho de Rhea Silvia,
+virgem vestal, e, quanto se julgou, de Marte, foi dado á luz com seo
+ermão Remo, d'um só parto. Elle como andasse roubando entre pastores,
+chegando á edade de dezoito annos, fundou uma pequena cidade no monte
+Palatino_ ...
+
+Tal é Eutropio--traduzido para Felix. Não faltaria agora senão uma
+coisa: traduzil-o de Felix para Portuguez--se por ventura houvesse
+alguem no mundo que fosse capaz de advinhar perante a lingua de Felix,
+qual a grammatica com que se rege Felix, medico, engenheiro civil,
+agronomo, e auctor de opusculos para instrucção da mocidade!
+
+Não, francamente, ó Felix, vós, que tendes tantos officios--medico,
+engenheiro civil e agronomo--vós, que sois na sciencia o mesmo que são
+na musica os homens dos sete instrumentos, que fazem uma orchestra
+batendo com todas as partes do corpo, vós que egualmente sois medico com
+a bocca do estomago, engenheiro civil com os cotovellos, agronomo com o
+nariz e escriptor publico com os calcanhares, porque não deixaes vós de
+ser, pelo menos, um preceptor da infancia, um escriptor das escolas?!...
+
+Em primeiro logar isso descançaria um pouco o vosso corpo, ó habilidoso
+João, ó feliz Felix.
+
+Em segundo logar pouparieis á infancia o desgosto de desaprender a sua
+lingoa lendo nas aulas os vossos escriptos, os quaes a benemerita Junta
+Consultiva da Instrucção Publica não deixa nunca de approvar, servindo
+assim na primeira communhão dos que estudam, em vez das sagradas
+particulas da sciencia, os estercos nauseabundos e venenosos das vossas
+equarissages litterarias.
+
+A verdade, encyclopedico Felix, é que vós escreveis muito peior do que
+fallam os botucudos do rio Mucury e os Pelles Vermelhas, no interior dos
+sertões.
+
+A verdade é que ninguem vos entende.
+
+Se nós houvessemos de ir estudar os rudimentos da historia romana
+prefeririamos ao trabalho de interpretar o vosso compendio ir
+directamente estudar a geographia antiga, a ethnologia, a geologia, a
+linguistica, a archeologia, todas as primitivas fontes da historia;
+ser-nos-ia mais facil, mais rudimentar, do que analysar e reduzir á
+grammatica qualquer dos vossos periodos, ir á Asia Menor estudar as
+epigraphes funerarias sobre as ruinas do templo de Herodes Atticus,
+interpretar e comparar os textos da escripta hieroglyphica, hierotica e
+demotica, os documentos originaes bysantinos e orientaes, e as
+inscripções babylonicas e assyrias gravadas nas estatuas, nos
+baixo-relevos, nos cylindros e nos amuletos ... Tudo isso, ó João, antes,
+mil vezes antes, do que procurar entender-vos!
+
+ * * * * *
+
+Se porém o nosso conselho vos não apraz, se quereis absolutamente
+continuar a escrever compendios, em vez de seguirdes outro officio, não
+nos afflijaes pelo menos, continuando a declarar-nos em cada uma de
+vossas obras que continuaes sempre a ser medico, agronomo e engenheiro
+civil! Se tudo isso vos não serve para ganhardes honradamente a vossa
+vida sem vergonhas da grammatica dos vossos paes e do senso commum dos
+vossos avós, então ponde unicamente nos vossos livros:
+
+POR JOÃO FELIX BIMANE DA ORDEM DOS PRIMATAS SEGUNDO DARWIN E LAMARCK
+
+ * * * * *
+
+O _Tribuno Popular_, folha democratica de Coimbra, referindo-se em um
+notavel artigo á recente viagem áquella cidade do S.M. o sr. D.
+Fernando, escreve estas linhas:
+
+_«N'este intervallo a sr.ª condessa de Edlla, e o sr. infante duque de
+Coimbra, acompanhados pelo sr. visconde do Seiçal e João José de Mello,
+emprehendiam um passeio notavelmente pittoresco. Dirigiram-se ao caes,
+entraram n'um pequeno barco, e seguiram rio acima, admirando estas
+formosissimas margens, então realçadas pela luz do luar, e animadas pela
+orchestra de mil rouxinoes que de ambas as margens pareciam advinharem
+os espectadores nocturnos que os escutavam.»_
+
+Poderosos ceos! Que teriam feito os rouxinoes para que se entendesse que
+elles tinham advinhado «os espectadores nocturnos que os escutavam?!»
+
+Cantaram o hymno da carta? Deram vivas á real familia? Perguntaram por
+Melicio?...
+
+Por Deus! que o _Tribuno Popular_ nol-o diga! Queremos pedir para o
+peito d'esses passarinhos a commenda de S. Thiago.
+
+Emquanto aos srs. viscondes do Seiçal e João José de Mello, estamos
+certos de que não deixaram ficar a côrte endividada com a patriotica
+manifestação dos rouxinoes do Choupal. Sim, ss.ex.'as seguramente
+responderam aos rouxinoes, desentranhando-se por sua parte nos mais
+ternos pios, nos mais vigorosos gorgeios ... Oh! nós conhecemos a fidalga
+bizarria de ss.ex.'as, Pela parte que nos toca não podemos deixar tambem
+de mandar um garganteado reconhecido ás avesinhas do Mondego. Ora pois:
+_có, có ró, có!_ por Lisboa agradecida.
+
+ * * * * *
+
+Sempre que em cada anno se celebra na cadeia do Limoeiro a ceremonia da
+communhão aos presos, o senhor procurador regio convida a imprensa a
+assistir a essa solemnidade, e a imprensa publica no dia immediato que a
+cadeia está no maior aceio e que o senhor procurador regio é digno dos
+maiores elogios. Porque? Porque commungaram os presos.
+
+ * * * * *
+
+Ha dias lemos que a casa de detenção da comarca de Lisboa estabelecida
+no antigo convento das Monicas estava no dito «maior aceio» e que o
+mesmo procurador regio era digno dos referidos «maiores elogios.» Razão:
+Tinham commungado os presos.
+
+ * * * * *
+
+Ora é bom que o publico saiba de quando em quando o que são as prisões
+portuguezas--quando os presos não commungam.
+
+Nós visitámos a casa de detenção--antes da oitava da Paschoa. Eis o que
+vimos:
+
+ * * * * *
+
+Um predio frio, humido, abafado, sem ar e sem luz, espessas paredes e
+pequenas janellas, a clausura mais estreita, mais escura, mais humilde.
+Era no inverno. As paredes rebocadas de novo tinham grandes manchas
+humidas, esverdeadas. O sol não penetrava em parte alguma do edificio.
+Uma impressão de bolor e um ar em que se sentiam, resfriadas e fixas, as
+exhalações peculiares da miseria, a atmosphera das enxovias
+deshabitadas, as reminiscencias olphaticas dos cheiros emanados das
+vasilhas de lata em que houve caldo e dos vestidos quentes dos mendigos
+que apanharam chuva.
+
+Era um domingo. Os rapazes detidos no estabelecimento, na promiscuidade
+de todas as edades desde os seis annos até aos dezeseis, estavam juntos
+em um estreito pateo interior, na sombra--porque tambem ali não chegava
+o sol--frios, com as mãos nos bolsos, encostados aos muros, sentados ou
+deitados no chão. Ninguem os vigiava. Elles porém estavam quietos--como
+um rebanho no curral. Alguns tinham escrophulas. Outros tinham os olhos
+doentes e os cantos da bocca feridos. Eram todos magros, pallidos,
+anemicos, tristes.
+
+Perguntamos-lhes por que esperavam. Não esperavam nada. Estavam ali. Que
+faziam? Coisa nenhuma. Porque não cultivavam a quinta annexa ao
+edificio, metade da qual estava cheia de hervas inuteis? Porque os não
+deixavam: havia um hortelão. Porque não iam pelo menos passeiar na
+quinta? Porque era prohibido. Não havia uma gymnastica? Não a havia. Não
+havia de todos esses regimentos da guarnição de Lisboa um musico que aos
+domingos lhes ensinasse rudimentos de musica para que tivessem uma
+charanga? Não havia. Hão havia, pelo menos, um cabo de esquadra que os
+fizesse marchar ao som de um tambor e lhes ensinasse o exercicio
+militar? Não havia. Não havia, emfim, terra que remover, pedra que
+acarretar, lenha que partir, um pau sequer espetado no chão para
+treparem n'elle, uma escada de mão posta ali para subirem e descerem
+por ella, uma occasião, um motivo, um pretexto, uma desculpa qualquer
+para que esses infelizes pequenos se bolissem, se movessem, tivessem
+alguma distracção, fizessem algum exercicio? Nada, absolutamente nada.
+As lages do pateo interior da casa, pouco menos estreito que um saguão,
+coberto de sombra e de frio e sobre as lages os pequenos. Era assim que
+passavam os domingos.
+
+ * * * * *
+
+Nos dias de semana trabalham em officinas terreas, sem soalho,
+extremamente humidas, no mesmo pateo em que jazem nos domingos. Uns são
+alfaiates, outros sapateiros, outros esparteiros. Ha sobre isto uma
+escola de instrucção primaria. Não aprendem mais nada. Nada mais se lhes
+ensina.
+
+Este instituto tem uma missão especialmente moralisadora. Não ensina
+moral.
+
+Tem por fim punir e evitar as contravenções da lei. Não ensina a lei.
+
+Tem a obrigação restricta da catechese. Não ha na prisão um padre, um
+capellão, um perceptor.
+
+Aos domingos um sacerdote diz missa e retira-se. Por essa razão entre as
+attribuições dos chaveiros lemos esta disposição: «Obrigará os presos a
+benzerem-se.»
+
+Teem duas refeições por dia. Ao almoço arroz e feijões. Ao jantar
+feijões e arroz.
+
+Carne fresca ou salgada, de boi, de carneiro ou de porco nunca comem.
+Nunca bebem vinho.
+
+O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. Isto precisa de ser dito
+duas vezes. O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. É o _menu_ da
+enxovia. Se é mau na cadeia, imagine-se o que poderá ser na casa de
+correcção!
+
+ * * * * *
+
+Dormem, aos grupos de oito, em camaratas, onde ha, em cada uma, oito
+camas e uma latrina.
+
+Na camarata não ha luz. A porta é fechada por fora á chave.
+
+Não ha vigilancia alguma durante todo o espaço de tempo que decorre
+dentro d'aquellas podridões, desde que anoitece até que rompe o sol.
+Apenas, fora do corredor que dá passagem para os dormitorios, dorme um
+guarda no seu quarto. Este guarda teve a bondade de nos dizer que,
+sempre que havia desordens nas camaratas, elle intervinha com o rigor da
+sua auctoridade por isso que, concluiu elle, _quem dá o pão dá o
+ensino_.
+
+Cremos piamente que este guarda está convencido de que quem dá o pão em
+Portugal á infancia criminosa é elle. O ensino pelo menos é exclusivo de
+sua mercê.
+
+ * * * * *
+
+A direcção geral da prisão está confiada a um homem que não sabemos quem
+é, nem quem foi, nem quem poderá vir a ser. O que sabemos, e isso nos
+basta, é que esse director ganha--cinco tostões por dia!
+
+ * * * * *
+
+Eis a physionomia da casa de detenção da comarca de Lisboa, contornada a
+traços mathematicos, sem commentarios, sem emphase, sem exclamações
+doloridas ou sentimentaes, nenhum toque artificial de luz ou de sombra
+que possa alterar a exacção rectilinea do quadro!
+
+Para isto não ha pedir reorganisação ou reforma. Não se trata de uma
+velha instituição apodrecida pelos annos. É uma creação nova, que tem
+apenas alguns mezes de existencia. Dá a medida exacta das forças de
+sciencia, de civilisação e de moral que o paiz se acha officialmente
+habilitado para dispender, no dia de hoje, em favor do progresso. Não se
+póde por em quanto pedir mais nada ao paiz! Eis a sua mais recente prova
+de capacidade! Eis tudo quanto elle sabe do direito criminal, da hygiene
+physica e moral das prisões, das modernas colonias penitenciarias, da
+educação intellectual, da educação moral, da educação religiosa, dos
+deveres phylantropicos do Estado, da missão paternal do poder para com
+os orphãos, da organisação do trabalho infantil, de todas as questões
+finalmente ligadas á creação de um estabelecimento penal da ordem
+d'aquelle a que nos referimos.
+
+O povo, tranquillo e satisfeito, lê as folhas baratas cheias de elogios
+estolidos ás mais viciadas e perniciosas instituições do paiz, e
+julga-se fielmente levado para a mystica terra da promissão pelos homens
+que o governam e pelos homens que o instruem. De todo o tempo esteve na
+tendencia popular esta profunda fé na simplicidade ignorante. Os
+primeiros cruzados que foram á Terra Santa queriam ter por guias uma
+cabra e um pato; os Sabinos baixaram das suas montanhas conduzidos por
+um picanço; Cadmus foi á Beotia levado por uma vacca. Em Portugal João
+Felix, no livro; Melicio, no jornal; e o sr. procurador regio na casa
+das Monicas, dirigem os espiritos e guiam as consciencias para o ideal.
+A opinião obedece-lhes.
+
+ * * * * *
+
+Vemos em uma conta official que nas obras feitas no convento das Monicas
+para adaptar o edificio ao fim a que elle hoje se destina, se gastaram
+seis contos de réis. Junte-se esta quantia á de quinze contos, preço
+minimo porque poderia ser vendido o convento e quinta annexa e ter-se-ha
+mais que o sufficiente para fundar em qualquer baldio da Extremadura ou
+do Alemtejo uma exemplar colonia agricola penitenciaria.
+
+Seis contos de réis, só em obras n'um edificio torto, absolutamente
+impossivel de adaptação ás necessidades do trabalho, da educação e da
+hygiene!...
+
+Mas é um desperdicio, que revela a ignorancia mais crassa em similhantes
+assumptos. Na magnifica colonia agricola de Mettray, perto de Tours, em
+França, as creanças presas estão divididas por edades e repartidas por
+casas inteiramente separadas e independentes. Cada uma d'estas casas,
+de 12 metros sobre 6,66, consta de um pavimento terreo e de dois
+andares. Na sala do rez do chão está estabelecida a officina. Em cada um
+dos dois andares ha uma sala, que serve successivamente de dormitorio,
+de refeitorio, de sala de estudo, de sala de recreação nos dias de
+chuva, e em caso de necessidade de escola. Dois travessões presos ao
+muro por uma dobradiça em uma das suas extremidades estão levantados ao
+longo da parede dos dois lados da porta de entrada. Quer-se preparar o
+refeitorio, a classe, a sala de estudo? Descem-se estes dois travessões
+e suspendem-se no muro fronteiro, ficando assim firmes, na altura de uma
+mesa, aos dois lados da porta, e a todo o comprimento da sala; em
+seguida descem-se das paredes lateraes pranchas de madeira fixadas
+n'ellas por meio de dobradiças como os travessões; estas pranchas presas
+ao muro por um lado prendem-se pelo lado opposto ao travessão por meio
+de uma cavilha; e estão promptas as mesas. Os bancos levam-se da
+officina. Se se quer armar o dormitorio, em vez das pranchas com que se
+formam as mezas, descem-se dos muros as macas em que se fazem as camas.
+Ao fundo de cada um d'estes dormitorios ha um quarto aberto para a sala
+em que dorme o chefe da secção, secundado pelo contra-mestre. Os
+contra-mestres estão alternadamente de quarto no dormitorio, de modo que
+durante a noite passeia constantemente um guarda no espaço que medeia
+entre os dois travessões de que fallámos.
+
+Cada um d'estes pequenos predios contendo quarenta e tres pessoas,
+custou, incluida toda a mobilia, um relogio, toda a roupa de camas, e
+toda a loiça de lavatorio e limpeza, 8:300 francos, isto é: 1:494$000
+réis.
+
+Tres dos predios descriptos seriam muito mais que o sufficiente para
+recolher todos os presos actualmente existentes na casa de detenção das
+Monicas.
+
+Temos portanto que em Lisboa se gastam seis contos unicamente em reparos
+n'um velho edificio monstruoso, quando em Tours se funda para 120 presos
+um estabelecimento completo, se construe um edificio modelo, provido
+inteiramente de louça, de roupa e de mobilia, por menos de quatro contos
+e quinhentos mil réis!
+
+ * * * * *
+
+Em quanto ao regime e á organisação interna do estabelecimento
+portuguez quasi tudo o que existe é erro.
+
+Os presos não cultivam a quinta. Deviam cultival-a. Formar-se-hiam assim
+hortelões e jardineiros.
+
+Não cosinham, não tecem o estofo dos seus vestidos, não cozem o pão das
+suas rações, não fazem a mobilia das suas casas. Tudo isso deveriam
+aprender. Era facil, era economico, era moralisador, dava aos presos
+novas aptidões, ensinando-os a padeiros, a tec-lões e a cosinheiros,--as
+noções mais essenciaes á vida.
+
+Não aprendem musica. Deviam aprendel-a. Uma charanga á frente de cem
+rapazes em marcha faz d'elles cem homens.
+
+Não teem uma bomba de incendios. Deviam tel-a, deviam saber manobrar com
+ella. Devia-se conceder como um premio aos de melhor procedimento,
+levarem a bomba aos incendios, permittindo-se por este modo aos
+condemnados a faculdade de se rehabilitarem sacrificando a sua vida
+pelos seus similhantes.
+
+Não ha uma mulher dentro da prisão. É uma enorme falta para as
+desgraçadas creanças de oito a doze annos. A cozinha, a lavanderia, a
+enfermaria, a rouparia, coisas que alli não existem senão nominalmente,
+deveriam organisar-se de um modo effectivo com o trabalho dos presos e
+sob a direcção das irmãs da caridade portuguezas, que encontrariam assim
+um emprego elevado e digno do seu tempo.
+
+Só as mulheres sabem aconselhar as creanças, convencel-as da virtude; e
+cumprir esta missão é mais bello e é mais meritorio perante a sociedade
+e perante Deus do que mendigar por entre velhas fidalgas devotas,
+embiocadas e inuteis, o pão de cada dia.
+
+Os presos isolados no carcere celular estão na mais absoluta ociosidade
+fechados n'um quarto escuro. Não ha nada que mais desmoralise, que mais
+definhe e que mais corrompa. N'estes casos os rapazes deveriam ser
+obrigados a rachar lenha ou a britar pedra--os exercicios mais saudaveis
+para os musculos de quem está parado.
+
+Finalmente a casa de detenção das Monicas não é sómente a negação do que
+devia ser, é mais do que isso, é a affirmação contradictoria de todos os
+principios oppostos aos principios verdadeiros.
+
+Tal qual está constituido este estabelecimento, temol-o por um foco de
+apodrecimentos humanos, um seminario de vicios torpes e secretos, um
+curso accelerado de preparatorios infalliveis para o Limoeiro, para o
+hospital, ou para o cemiterio.
+
+ * * * * *
+
+Uma derradeira observação:
+
+A maior parte dos presos detidos na prisão correcional das Monicas são
+cumplices do crime de vadiagem.
+
+Ora sendo aquelles presos todos menores, não tendo uma familia, não
+tendo um officio, não sabendo ler nem escrever, com que direito os pune
+por não trabalharem o Estado, que lhes não dá trabalho?
+
+Que quer o estado que sejam esses pequenos para não serem vadios?
+
+Quer que sejam medicos, tenentes coroneis, conselheiros do tribunal de
+contas, escriptores publicos, capitalistas ou banqueiros?
+
+Vamos! respondam-nos! Estamos interrogando sob o caracter mais digno de
+attenção e de respeito de que se pode alguem revestir. Somos n'este
+momento os interpretes inviolaveis e sagrados da infancia orphã,
+desvalida e desamparada. Fallamos em nome de um pequeno que não quer ir
+para a prisão das Monicas comer os feijões frios do Limoeiro, no que
+está inteiramente no seu direito. É um innocente.
+
+Todavia ninguem o chama para fazer artigos nos jornaes, ninguem o quer
+para commandar a Municipal, ninguem o incumbe de tratar uma molestia, de
+deffender uma causa, de montar uma fabrica ou de construir um navio.
+Nenhuma viuva rica lhe offerece a sua mão de esposa. Os agiotas quando
+elle passa levantam as bengalas e rangem os dentes. Não tem uma ponta de
+trabalho nem um bocado de pão. Finalmente é um vadio. Agora o que elle
+deseja saber é o seguinte:
+
+O que é que o Estado lhe dá licença que seja desde o momento em que lhe
+prohibe ser o que é.
+
+Espera-se resposta.
+
+ * * * * *
+
+A _Republica Portugueza_, jornal de Coimbra, exproba-nos a indifferença
+que temos pela questão politica e pela forma do governo em Portugal, e
+dirige-nos as seguintes textuaes perguntas:
+
+1.ª «A redacção das _Farpas_ quer a resolução do problema economico,
+quer que se preoccupem os animos com a questão social; mas sempre
+quereriamos saber como isso se podia realisar, quando a formula politica
+é insufficiente para garantir o direito?»
+
+2.ª «O problema social em sua maior amplitude é a realisação pratica da
+justiça, e sendo a fórma do governo o meio adquado á sua realisação em
+uma dada epoca, como poderá haver quem imagine a resolução dos
+principios da justiça actual em uma fórma de governo de ha dois
+seculos?»
+
+ * * * * *
+
+Temos a honra de responder á _Republica Portugueza_:
+
+1.º Aquillo que a _Republica Portugueza_ chama a _formula politica_ não
+é insufficiente em Portugal para garantir o direito que cada um tem de
+estudar e resolver o problema social; essa questão póde-se tratar, com
+todas as garantias da liberdade, nos livros, nos jornaes, nas camaras,
+no governo; a unica razão que obsta a que isto se faça é apenas a
+incapacidade intellectual ou moral dos que tinham obrigação de fazel-o.
+Depois de estabelecida e firmada a liberdade politica aproximadamente
+perfeita como ella existe em Portugal, a sociedade nada mais tem que
+pedir ao principio politico; a sua obrigação é organisar as suas forças
+industriaes e economicas e o seu systema moral para conseguir, dentro da
+liberdade que tem, duas coisas de que carece: riqueza e virtude. Dada a
+liberdade, a questão politica nada mais tem que dar ao povo; se elle
+pede ainda á fórma de governo o remedio da sua corrupção e da sua
+miseria, isso não prova senão uma triste coisa: é que o povo não está na
+Revolução, está apenas na inepcia.
+
+2.º A resolução dos principios da justiça cabe em todas as formas de
+governo. Turgot, ministro de Luiz XVI, no tempo da monarchia feudal
+queria exactamente isso: a resolução dos principios da justiça. Sabe a
+_Republica Portugueza_ quem foi que impediu Turgot? Foi o povo. Não
+somos nós que o dizemos. Proudhon, cuja auctoridade suppomos que a
+_Republica Portugueza_ não terá por suspeita, exprime-se n'estes termos:
+
+«Esse reformador rigorista, traido pelo povo, queria todavia a
+_revolução_--tomada de alto, feita sem estrepito, consumada quasi sem
+revolucionarios.»
+
+Ora aqui tem a _Republica Portugueza_ como ha quem imagine, a solução
+dos actuaes principios revolucionarios em uma forma de governo de ha
+dois seculos. Quem teve a petulancia de imaginar isso, sem a previa
+licença da _Republica Portugueza_, foi Proudhon.
+
+ * * * * *
+
+Depois de nos fazer as suas perguntas, a _Republica_ tem a bondade de
+nos dar os seus conselhos. As perguntas satisfizemos-lh'as. Os conselhos
+não lh'os acceitamos. A ingenuidade pueril das interrogativas que a
+folha conimbricense nos dirige, annulla a competencia das admoestações
+que nos faz.
+
+ * * * * *
+
+O folheto brazileiro intitulado _Duas palavras aos leitores das Farpas_,
+ultimamente publicado e distribuido em Lisboa a milhares de exemplares,
+tem por objecto contestar por meio dos processos aliás mais urbanos e
+mais comedidos, a verdade dos factos que asseverámos ácerca da sociedade
+e da civilisação do Brazil em um artigo consagrado á emigração
+portugueza para aquelle imperio.
+
+Se o escriptor brazileiro a quem temos a honra de responder tivesse
+conseguido o poder alliar o alto espirito de amor patriotico, de que se
+diz dominado, com a prudencia de discutir simplesmente o criterio das
+nossas conclusões e não a verdade dos factos em que ellas se baseiam,
+nós não teriamos duvida em estender affectuosamente o nosso silencio aos
+pés triumphantes d'este sympathico patriota.
+
+Como, exactamente pelo contrario,
+
+São as nossas illações o que no dito libello se não contesta, e é a
+verdade dos factos citados o que se combate, denunciando-nos como
+fabricadores de aleives historicos phantasiados com o fim expresso de
+ridicularisar o grande imperio,--o que se parece demasiadamente a nossos
+olhos com a denegação da nossa probidade e com a suspeita de que
+mentimos,
+
+Soffrerá o auctor do folheto citado que nos permittamos fazer-lhe
+sentir, em algumas linhas rapidas, que as _Farpas_ não são inteiramente
+uma creação poetica e phantasista.
+
+Não, nós não temos o distincto prazer artistico de ser _As fabulas de
+Florian_, nem tão pouco os _Contos de Perrault_.
+
+ * * * * *
+
+Examinemos a qualidade dos argumentos com que o opusculo a que nos
+referimos tem a bonhomia de suppôr que nos desdiz. Tomemos tres dos
+pontos mais importantes para a civilisação do Brazil: _A producção e o
+commercio, a instrucção publica, o trabalho e a industria_.
+
+ * * * * *
+
+Emquanto á producção e ao commercio nega o auctor que o valor annual das
+substancias alimenticias importadas pelo Brazil seja, como nós
+affirmamos, equivalente ao da quarta parte da sua exportação. Para este
+fim dá-nos a estatistica da importação das substancias alimenticias
+durante os ultimos annos, attesta que ella é inferior e não equivalente
+á quarta parte do valor exportado; com tal fundamento accusa-nos de
+fabricarmos puras invenções; e depois de tres paginas de recriminações
+acerbas, conclue assim:
+
+«Não quererão decerto considerar como substancias alimenticias o vinho,
+o chá, o café, o azeite, as bebidas espirituosas e fermentadas etc.,
+porque essas sim talvez reunidas áquellas (peixes, carnes, farinhas,
+manteiga e sal) dessem essa tal quarta parte da exportação.»
+
+Quer isto dizer:
+
+O Brazil não tem duvida em nos convencer de tudo o que se pretenda a
+respeito do estado em que se acham as suas forças productivas, bem como
+a proporção existente entre a exportação e a importação no seu
+mercado--com uma simples condição--e é: que se lhe concedam alguns
+pontos de partido na arithmetica do seu calculo. Trata-se, por exemplo,
+da importação de substancias alimenticias no valor de trinta mil contos
+annuaes; deseja o Brazil, afim de nos convencer de que illudimos a
+verdade, que a dita importação seja apenas de dez mil contos ... Nada
+mais simples! O Brazil vae juntando successivamente as suas parcellas de
+substancias alimenticias importadas até chegar á prefixada somma dos dez
+mil contos. D'essa quantia para cima o Brazil começa a considerar as
+substancias alimenticias, como não sendo--substancias alimenticias.
+
+Registrou a importação do sal, da manteiga, da farinha, dos peixes e
+das carnes, e achou dez mil contos; faltava-lhe, é verdade, registrar
+ainda o vinho, o chá, o azeite, as bebidas fermentadas, o vinagre, as
+fructas, os legumes etc; o Brazil porém espera que nós consideremos
+estas coisas como não sendo generos alimenticios. Elle pede-nos isto,
+espera isto de nós, e, para nos convencer de que estamos no erro mais
+vil e mais torpe, elle não quer outras armas! não precisa senão d'isto:
+que se lhe admitta que o vinho não é senão, por exemplo, simples
+_producto de gutta-percha!_ o chá, o azeite, o vinagre, a cerveja ...
+puros _tecidos de algodão!_ os queijos, os alhos, as cebolas, os figos,
+as passas ... mera _perfumaria!_
+
+ * * * * *
+
+Pelo que respeita á instrucção publica, diz-nos que o numero dos que
+sabem ler não está, como nós dissemos, na proporção de 1 para 90
+habitantes, mas sim na de 1 para 68. Sómente na estatistica official de
+que se extráe esse dado, o governo brazileiro não conta, como homens que
+habitam o Brazil, os escravos, cujo numero pode todavia ser calculado em
+cerca de tres milhões, não diremos de habitantes, mas, emfim, de
+cabeças. O auctor accrescenta ainda, para nos convencer dos progressos
+da instrucção no Brazil que as escolas de instrucção primaria que ali
+existem são na proporção de--1 para 3:021 habitantes _livres_; além do
+que ha ainda no Rio de Janeiro varias corporações scientificas e
+sociedades sabias, entre as quaes _As duas palavras aos leitores das
+Farpas_ nos citam as seguintes: _associação commercial, sociedade
+musical de beneficencia, sociedade auxiliadora da industria, associação
+typographica, instituto pharmaceutico_, e finalmente a famosa
+_associação dos guardas livros, sociedade jockey-club, tendo por fim
+promover o melhoramento da raça cavallar_.
+
+É realmente indigno, em vista de similhantes factos, que alguem se
+tivesse lembrado, como nós, de deplorar a defficiencia da illustração no
+Brazil, onde ha uma escola para cada 3:021 habitantes _livres_, e vinte
+_sociedades sabias!_
+
+Que nos perdoem os grandes propagadores da sciencia, que nós
+desconheciamos antes da publicação d'este folheto! Que nos perdoem os
+senhores musicos, os senhores typographos, os senhores pharmaceuticos, e
+sobretudo suas senhorias os senhores guarda-livros do _jockey-club_,
+encarregados do melhoramento da raça cavalar!
+
+No tocante á industria, aos dados da estatistica official que nós
+publicamos e dos quaes se deduz que tal ramo da actividade humana é
+quasi nullo no Brazil, oppõe o nosso contendor as seguintes animadoras
+palavras extrahidas de um _Retrospecto commercial de 1872_, publicado no
+_Jornal do Commercio_:
+
+«Em quanto a emigração nos não trouxer levas sobre levas de operarios e
+de artistas, a industria manufactureira conservar-se ha como que
+apertada em um circulo estreito.»
+
+Logo: nós inventamos os factos para «achincalhar» o imperio. A
+estatistica official da qual copiamos que em 1859 o numero dos
+industriaes brazileiros era apenas o da quinta parte dos industriaes
+extrangeiros residentes no Brazil, é falsa. A verdade suprema ácerca da
+industria indigena na America brazileira é que: É enorme e poderosissima
+a força expansiva do seu desenvolvimento. E tanto que, segundo os seus
+mais enthusiastas apologistas, ella vive «como que apertada em um
+circulo estreito.»
+
+Do que tão clara e positivamente expuzemos ácerca da organisação
+viciosissima das differentes colonias agricolas no Brazil, das
+atrocidades pavorosas da feitoria do Mucury, dos textos tão expressivos
+que sobre este ponto reproduzimos dos relatorios enviados aos governos
+da Suissa e da Alemanha pelos seus delegados no Brazil os srs. Tschudi e
+Avé-Lallemant, acha bem o auctor das _Duas palavras aos leitores das
+Farpas_ não discutir nem contestar palavra nenhuma. Diz-nos apenas que
+pediu sobre esse assumpto, o mais importante do nosso artigo,
+informações officiaes, que publicará logo que lhe cheguem do Rio de
+Janeiro.
+
+Se espera esclarecimentos que desmintam os factos que nós referimos, não
+os terá nunca. A verdade é unicamente o que dissemos. As _Farpas_ não
+fizeram mais do que historiar realistamente, sem declamações e sem
+objurgatorias, as causas que levaram a Suissa e a Baviera a prohibirem a
+emigração para o Brazil, e a proclamarem officialmente como catastrophe
+a colonisação agricola do solo brazileiro por trabalhadores europeus.
+
+Em refutação do que affirmamos sobre a frequencia dos casos de alienação
+mental no Rio de Janeiro, diz-nos a obra que analysamos e estamos
+transcrevendo nas suas mais importantes partes, que apenas consta ao seu
+auctor um facto isolado em abono da nossa affirmativa, sendo certo por
+outro lado, segundo elle mesmo assevera, que no Rio de Janeiro existe um
+hospital de doudos sumptuosissimo e talvez no seu genero o primeiro
+estabelecimento do mundo.
+
+Ora, para aniquilar inteiramente a opinião de que é grandissimo o numero
+de alienados no Rio de Janeiro, não basta dizer-se-nos que um vastissimo
+e monumental hospicio de doudos existe n'aquella côrte; importaria
+certificar tambem que as pessoas que enchem esse edificio estão--em
+pleno uso das suas faculdades.
+
+O que no entanto se nos não põe em duvida é que esse hospital está
+muitas vezes cheio. Pois bem, n'esses casos, um nosso compatriota
+alienado,--como a colonia portugueza não possue estabelecimento especial
+para o receber--é recolhido na cadeia.
+
+Lembra-nos que, ha cêrca de um anno, lêmos em um jornal a noticia de um
+d'estes casos; o portuguez doudo, recolhido na cadeia por falta de outro
+asylo estava á disposição do nosso vice-consul na Praia Grande. Este
+facto basta para nos indicar qual é a praxe seguida com os portuguezes
+pobres atacados de alienação mental. É natural que existam mais casos da
+natureza do que citamos; nós desconhecemol-os, porque nunca tivemos a
+vantagem de visitar o Brazil, não recebemos informações nem suggestões
+de ninguem que ali esteja ou tivesse estado: os nossos conhecimentos a
+respeito do imperio americano são o resultado da leitura dos poucos
+documentos officiaes publicados em Portugal e dos escriptos de alguns
+viajantes suissos, allemães e francezes. Se não adoptamos, em vez do
+testemunho d'estes viajantes o que nos podessem ministrar escriptores
+brazileiros, a razão é unicamente que os publicistas do Brazil, tão
+sonoros na poesia, são inteiramente mudos na critica que nos instrua do
+estado da civilisação na sua patria.
+
+ * * * * *
+
+Tocaremos tambem o ponto em que o auctor do opusculo brazileiro
+contraria a nossa opinião ácerca da inanidade diplomatica do sr. Mathias
+de Carvalho, actual ministro portuguez junto de S.M. o imperador do
+Brazil, com o fundamento de que este funccionario tem sabido sempre no
+seu cargo captivar inteiramente os applausos da nossa colonia.
+
+Se um diplomata deve ser julgado pelos seus actos em serviço do paiz que
+representa e não pelos applausos que o seu publico lhe confere, o actual
+ministro portuguez no Brazil é uma pessoa extremamente sympathica, mas
+inutil. Conseguiu um tratado de extradicção, cuja historia se acha
+resumida nas seguintes datas que extrahimos do _Livro Branco_: Em 7 de
+junho de 1859--começa a negociação o encarregado de negocios interino no
+Rio de Janeiro. No fim do mesmo anno--prosegue o sr. Mathias de
+Carvalho. Em dezembro de 1871--principia negociações para um egual
+tratado o encarregado de negocios do governo hispanhol. Em abril de
+1872--terminam as negociações com a Hespanha. Em junho de 1872--é
+assignado o tratado com Portugal. O diplomata hispanhol consegue em
+quatro mezes o que o ministro de Portugal só pôde alcançar em tres
+annos! E ainda se não fez nem o tratado de commercio nem a convenção
+postal, nem a convenção litteraria!
+
+Se, pelo contrario, não são os actos do funccionario, mas sim os
+applausos do publico que determinam os merecimentos do diplomata, n'esse
+caso achamos preferivel ao sr. Mathias de Carvalho--a sr.ª Emilia
+Adelaide.
+
+ * * * * *
+
+Por ultimo declaramos ao auctor do folheto intitulado _Duas palavras aos
+leitores das Farpas_, aos leitores das _Farpas_, e ao mundo, o seguinte:
+
+1.º Nem um só, nem um unico facto asseveramos a respeito do Brazil, que
+antes de nós não tivesse sido clara e positivamente affirmado na
+imprensa da Alemanha, da Suissa e da França, por differentes viajantes,
+entre os quaes citamos especialmente como fonte de todas as nossas
+informações os srs. Adolphe Dacier, Waldemar Schultz, Elisée Reclus,
+Tschudi e Avé-Lallemant. Os leitores decidirão quaes affirmações merecem
+mais fé: se as que são feitas pelos viajantes citados, em livros
+propriamente scientificos devidamente assignados, e em relatorios
+especiaes apresentados pelos auctores aos governos dos seus respectivos
+paizes; se as que nos são propinadas no libello intitulado _Duas
+palavras aos leitores das Farpas_, por um patriota brazileiro ... e
+anonymo!
+
+2.º Não estamos resolvidos a subordinar a opinião de que nos acharmos
+convencidos, nem á vontade, nem aos conselhos, nem ás ameaças de
+ninguem. Se Deus não fosse a absoluta verdade, a verdade estaria acima
+de Deus. Como querem então que a prostremos debaixo dos _syllabus_ do
+Catete ou das _bulas_ da rua do Ouvidor?!
+
+ * * * * *
+
+Se porém, apezar de tudo isto, a joven America brazileira se parece
+tanto com a rainha Fulvia que lhe seja absolutamente preciso para a sua
+felicidade varar-nos a lingua com o seu prego de oiro, como fez a Cicero
+a mulher de Marco Antonio, que a America se não incommode a escrever
+para isso mais folhetos. Venha o prego. Aqui está a lingua.
+
+ * * * * *
+
+As «corridas» do Campo Grande--Extraordinario successo de dandysmo!
+
+Não assistimos, mas lemos que esteve o _high-life_, o famoso
+_high-life_, com o qual temos sempre o infortunio de nos desencontrar!
+
+Estamos todavia d'aqui a vêl-o, a imaginal-o, rico, elegante, bello, no
+Campo Grande, em volta do lago--o _high-life_ ...
+
+A aristocracia nos seus _landeaux_, com enormes cocheiros gordos, de
+barrigas de pernas phenomenaes e bizarras.
+
+A alta finança em carroagens de posta com os senhores na almofada, e os
+creados, recamados de galões de ouro, dentro da berlinda, immoveis,
+empoados, descobertos, com os tricornes na mão.
+
+Os diplomatas, nedios, sorrindo na doce bestialidade espirituosa de quem
+sente no paladar os succos perfumados de uma aza de codorniz _truffada,_
+repimpados em _daumonts,_ com uma _carvajal_ nos beiços e uma marta
+zibelina debaixo dos pés.
+
+A galanteria, com as suas representantes de cabellos côr de manteiga e a
+pelle especial dos estranhos climas do _cold-cream,_ da decocção indiana
+aromatica e tonica, e da balneação mucilaginosa do leite de morangos e
+de _ess-bouquet,_ dentro dos seus _broughams_ ou em pequeninos coupés de
+flecha e oito molas, levando ao lado no logar devoluto da carroagem um
+ramalhete de cem francos ou um microscopico _kings' charles,_
+descendente, aperfeiçoado em pequenez, da cadellinha que Henrique III
+trazia mettida na manga ...
+
+Depois os picadores, de librés verdes, os batedores de encarnado, os
+postilhões, as _victorias_, as _americanas_, os _poney-chaises_ ... os
+_grooms_ em finos cavallos inglezes, nervosos, descarnados, de olhos
+scintillantes e ventas altas, abertas, redondas, frementes. Os
+_sportmen_ em _breaks_ ou em _dog-cart_....
+
+Sente-se o fluxo e o refluxo do grande luxo, a maresia da elegancia.
+Respira-se entre as arvores um ar empregnado de fina perfumaria, como
+n'um salão. Vae-se a passo por causa da agglomeração das carroagens e
+dos cavallos. De quando em quando succede mesmo que os cocheiros se
+empinam de repente para traz, e que se é obrigado a parar.
+
+Ouve-se então o respirar dos cavallos, o ranger dos arreios e os finos
+ditos que partem do fundo dos _coupés_.
+
+De carroagem para carroagem trocam-se as palavras que fazem estremecer,
+e encontram-se os olhares que fazem scismar.
+
+Por baixo dos guardas-soes de seda branca mostram-se as cabeças loiras
+das mulheres, que estão de costas para nós, deixando vêr a nascença dos
+seus cabellos penteados para a nuca, tocados de sol, luminosos como fios
+de ambar. Cada mulher que passa traz comsigo a excitação particular do
+seu genero de belleza. Umas reveem as finuras do amor moderno,
+calculado, scientifico. Outras inclinadas para traz, dormentes,
+languidas, obrigam a phantasiar as caricias orientaes.
+
+As sedas, cingindo a curva do peito e caindo em pregas quebradas de
+reflexos, as sedas da moda, de tons verdes aquaticos, dão ás mulheres
+esveltas a côr das visões dos lagos, das heroinas das legendas druidicas
+e dos cantos de Ossian.
+
+Sob a palpitação dos leques sentem-se estremecer no espaço correntes
+aerias de volupluosidade indefinida.
+
+Pela estreitesa das testas, pela espessura dos beiços, pela carne
+polpuda das pequenas orelhas, pelas frias expressões do olhar indagador
+e critico, percebe-se porém que essas delicadas creaturas que passam,
+ondulantes e harmoniosas como sereias, teem o bom gosto pratico de
+preferirem aos suspiros de Fingal e de outros bardos os camarotes na
+opera, os fofos _coupés_, os quentes _cachemires_, e os finos jantares.
+
+Pela qual razão vae cada um pensando vagamente em se lançar nas
+finanças, no jogo doa fundos, nas grandes companhias, nos emprestimos ao
+governo, nos bancos, no dinheiro em fim, no vasto dinheiro, no profundo
+dinheiro illimitado ...
+
+E em quanto as carroagens esperam ou rodam em volta de nós, os
+cavalleiros passam, e as _toilettes_ scintillam, a pobre natureza ao
+longe, nas collinas, parece envergonhada na sombra das suas arvores, na
+humildade dos seus limos e dos seus musgos, porque ella é verdade que
+tem os altos montes e os fundos mares, tem o Niagara e o Etna, mas não
+tem os braceletes de Sampere, as luvas de oito botões, e as rendas de
+Malines!
+
+Tal é o perfil das «corridas»; tal é o _high-life_.
+
+Dizem as folhas que elle esteve no Campo Grande, e nós piamente o
+crêmos.--Pelo que, d'aqui enviamos os nossos parabens ao _Collete
+Encarnado_.
+
+Não se inscreveram no Derby lisbonense os Hamilton, nem os Lagrange, nem
+os Rothschild, nem os Mouchy, nem os Dudley Stuart. Inscreveram-se
+apenas, com os seus trens, o João Russo e o Chico Perfeito, cocheiros da
+praça.... _Alea jacta est!_
+
+Elles partem nos seus fiacres, ao trote.--_Montjoie et Saint-Denis!_
+
+O Russo venceu o Chico com a distancia do comprimento de uma pileca.
+_Hurrah!_
+
+ * * * * *
+
+Muito devemos esperar, para a civilisação e para o dandysmo, da boa
+estreia d'estes hyppicos torneios especialmente destinados a apurarem em
+Portugal a famosa, a incomparavel, a unica raça ... das tipoias!
+
+Parabéus a todo o _Sport_ europeu, e ao nosso defunto Lagoia!
+
+ * * * * *
+
+Hontem no theatro de D. Maria--primeira representação da _Magdalena_,
+especie de _Dalila_, de Octave Feuillet, localisada entre o Arco do
+Bandeira e o da Rua Augusta, como presente malicioso de Pinheiro Chagas
+ás curiosidades do _chic_, na Baixa.
+
+ * * * * *
+
+N'este drama ha tres typos principaes:
+
+_O amante_--Um Hamlet de aldeia, um Conrado, um cavalleiro negro--de
+Figueiró dos Vinhos. Dandy melancholico, como um Satanaz em uso de
+figados de bacalhau. Um Alcibiades quebrado. Um pallido cherubim
+portador de uma paixão e de uma tenia. Typo lamartiniano, o anjo caturra
+da velha ode, a personalisação do antigo amor lyrico--sob os symptomas
+lancinantes e urgentissimos da colica.
+
+_A noiva_--Menina educada no convento. Creada com doces de freiras e com
+livros de versos. Organisação de ovos de fio e de romances baratos. Amor
+e dispepsia. Pouco cerebro e muita cuia. Não faz saborosos coscorões,
+não deita alvas teias de linho nem gordas ninhadas de perus como sua
+mãe, casta e sabia Penelope. Ella corta a serena tradicção burgueza e
+rural da familia. Despresa com ascos as conservas do lombo de porco em
+vinho e alhos. Cultiva a orthographia e a arte poetica com mais
+disvello, mas menos proveito que aquelle que sua mãe tira do cultivo
+modesto das alfaces, das finas hervas, dos primores horticolas. Não ama
+finalmente senão uma coisa--o talento!... Pobre rapariga! desditosa
+burgueza! que esteril e que perigosa idolatria a tua! O _talento!... a
+divina inspiração!... o supremo encanto!.._ Coitada! se acreditas
+n'isso, estás perdida. A tua imaginação doente entregar-te-ha submissa,
+humilhada, ridicula, ao primeiro noticiarista de _soirées_ que te
+appareça, á primeira _bas-bleu_ que te escreva cartas, ou á primeira
+actriz que te beije e abrace. O talento!... Mas não ha nada
+verdadeiramente respeitavel senão o trabalho, a abnegação, a
+perseverança, o sacrificio e a virtude. O talento é uma simples
+fanfarronada. O talento é uma invenção dos bohemios para substituirem a
+_toilette_ e a roupa branca. O talento é um falso titulo clandestino de
+apresentação, fabricado por aquelles que não teem titulos legitimos para
+que a sociedade os receba. Fazer-se passar como «tendo talento» é um
+meio de cada um se eximir a que lhe perguntem se «tem caracter.» O
+talento finalmente é o seguinte typo d'esta peça:
+
+_A amante do noivo_--Uma actriz que foi educada no convento com a noiva
+o que, passados annos, a noiva recebe em sua casa com reconhecimento,
+com adoração, com enthusiasmo, apezar da actriz não ser senão uma
+_lorette_; uma artista _aux camelias_; grande genio de _petit-lieu_;
+celebridade baptisada com _Champagne_, entre rapazes, depois das ceias,
+em gabinetes reservados. Um martyrio, se quizerem, mas um martyrio que
+exige um bracelete e uma nota do banco para se estender na sua cruz. Uma
+paixão, se isso lhes apraz, mas uma paixão Rigolboche, que se concilia
+com o _cancan_, que adopta a arte para canalisar o vicio, que nunca
+chega ao fel do seu calix por que o tem sempre cheio de Malaga ou de
+_pale-ale;_ que pede uma mortalha, mas talhada por Worth, á Rabagas, com
+rendas de vinte libras o metro. Uma Magdalena emfim, mas uma Magdalena
+penetrada do peccado moderno, barato, para todo o mundo, cheirando aos
+sitios publicos, ao tabaco de fumo, á cerveja azeda e ao gaz
+extravasado.
+
+_O drama_. O noivo acha que _Tant-de-charmes_ é mil vezes mais
+interessante do que _La-vertu-même_. Por tanto o noivo abandona a noiva
+virtuosa e corre atraz da amante impudente. A burgueza abandonada vae
+então chorar aos pés da comica. Esta resolve devolver-lhe o noivo com
+tanto mais vontade quanto é certo que o noivo é a semsaboria toda d'este
+mundo na figura insignificante de um provinciano piegas, em primeira mão
+de conquista, que desmaia de puro amor ao declarar a sua chamma,--de
+sorte que é preciso gastar tanto com elle em sal ammoniaco para lhe
+restituir os sentidos quanto elle gasta em rhetorica para os fazer
+perder aos outros.
+
+O noivo pois regressa para a noiva. A actriz faz uma phrase. E o panno
+cáe.
+
+ * * * * *
+
+Ha n'esta peça uma personagem secundaria, sem acção nenhuma no enredo e
+no desenlace, para a qual nos parece um bom serviço á moral o chamarmos
+a attenção do publico. É uma burgueza que apparece no segundo acto em
+casa da noiva, onde está hospedada a actriz. Essa pessoa, de notavel
+juizo, que diz coisas justas a respeito das creadas e dos arranjos da
+casa, apenas sabe que ha na reunião para que a convidaram uma mulher
+cujos appelidos e cujos diamantes não se sabe d'onde procedem, toma sem
+mais cogitações o braço de seu marido, deseja á dona da casa o juizo que
+lhe falta, e retira-se em pleno escandalo.
+
+O publico ri, e tanto na scena como na sala é um pouco apupada esta
+_ménagére,_ que se declara abertamente incompativel, dentro do mesmo
+recinto e debaixo dos mesmos tectos, com uma actriz _cocodette_.
+
+Pois bem: é essa mulher que se vae embora--notae-o bem, minhas queridas
+burguezas!--é essa mulher que se vae embora, a que ahi, deante de vós,
+está dando o unico exemplo que deveis seguir. Todas as demais pessoas
+d'esta peça teem o lyrismo, a eloquencia, a convenção litteraria; só
+esta é que inteiramente possue a verdade e o juizo.
+
+O que todas vós tendes que fazer perante a concorrencia e o cotejo a que
+vos queiram sujeitar com as mulheres artistas, celebridades no mundo do
+theatro ou no _demi-monde_, é tomardes o braço dos vossos maridos e
+sairdes com elles.
+
+Os maridos portuguezes estão pessimamente educados; foram creados com
+as operas de Verdi, com os romances de Chateaubriand, com as poesias de
+Lamartine e de Musset; teem o systema nervoso exaltado, a imaginação
+plethorica, o temperamento irritado, e o juizo das coisas praticas
+derrancado ou extincto.
+
+As creaturas artificiaes, morbidas, irritantes pelos poderosos
+contrastes do desvergonhamento da alma e das finas delicadezas da pelle,
+serão sempre as que dominarão os homens corruptos e que os levarão
+comsigo. Ellas teem um prestigio de vicios triumphantes, de elegantes
+indolencias, de altos desdens, de serenas voluptuosidades perennes, com
+que vós, mulheres honestas, dignas, impeccaveis, não podereis nunca
+luctar.
+
+Vós tendes o sentimento real que ri em grossas gargalhadas ou que incha
+as palpebras e engrossa a pelle com o correr das lagrimas: ellas teem a
+sentimentalidade correcta dos pasteis de Latour ou das porcelanas de
+Saxe--inalteravel mimo de galeria ou de étagère.
+
+Vós tendes a forma das vossas mãos um poueo affastada do ideal de
+Praxiteles pelos habitos honestos da vida activa, do trabalho; algumas
+vezes a ponta do vosso dedo está picada pelo bico da agulha: ellas teem
+as mãos finas, afiladas, pallidas, transparentes, que obrigam a sonhar
+estranhas caricias e que são o resultado de quinze annos de ociosidade
+estupida de serralho, de chloroses e de massas de amendoas.
+
+Vós tendes uma passagem de miudos e pacientes pontos n'um dos vincos do
+setim dos vossos sapatos: ellas teem uns sapatos por noite e umas luvas
+por dia.
+
+Finalmente vós sois a probidade e o decoro. Ellas são a dissipação e o
+vicio.
+
+Ora os homens educados pela sociedade, por si proprios, e em grande
+parte por vós mesmas, minhas senhoras, nas corrupções litterarias e
+poeticas, nos falsos ideaes epidemicos do sentimentalismo, da
+melancolia, da paixão, dos amores fataes, os homens assim educados,
+quando lhes acorda o temperamento e a imaginação, começam--por enjoar a
+virtude.
+
+Não queiraes reagir. Vede bem. A lucta humilha-vos e deshonra-vos.
+Evitae-a. O espirituoso drama do nosso amigo Pinheiro Chagas é um grande
+aviso, maior talvez do que o auctor suppunha: As _Magdalenas_ não sobem
+as escadas das casas em que ha mulheres honestas.
+
+E então os direitos do talento? E as rehabilitações pelo amor?...
+
+Oh! meus senhores, mas desde 1830 que os romancistas e os dramaturgos
+pouco mais teem feito do que procurar convencer a sociedade d'esses
+direitos e d'essas rehabilitações, ao passo que a sociedade tem
+constantemente e invariavelmente refutado sempre os romancistas e os
+dramaturgos!
+
+Não lhes parece que vae sendo tempo de darmos a velha questão por
+discutida?...
+
+ * * * * *
+
+Não! não é para que nos tragam o premio da austeridade e da virtude! Não
+somos nós os que fugimos para a Thebaida, a flagellar o nosso pobre
+corpo, ao aspecto das peccadoras espirituosas a cujos pés passou a sua
+vida, em extase, a geração litteraria que nos precedeu. Sómente para que
+levemos a essas damas a visita da arte, achamos de bom gosto deixar
+arejar um pouco os tapetes em que estiveram por tanto tempo prostrados
+os nossos antecessores.
+
+ * * * * *
+
+Chegamos do palacio das Janellas Verdes. Vimos de assistir ao leilão do
+espolio de sua magestade a imperatriz, ultimamente fallecida.
+
+Grandes salões enormes, altos, quadrados, angulosos,--á marquez de
+Pombal.
+
+Nas salas de honra, estofos de damasco e moveis do primeiro imperio, no
+estylo chato, _parvennu_, pretencioso, mas rico, do seculo de Bonaparte,
+esse Luiz XIV de caserna.
+
+Mesas, sophás, tremós, de fórmas rectangulares, riscados pela regoa,
+guarnecidos de columnas parallelas, de capiteis de bronze.--O que quer
+que seja de fortaleza, de baluarte, de ariete, de escudo, e de templo do
+genio!
+
+As guarnições de chaminé, as taças, os candelabros, os lustres--tudo
+bronze, macisso, pesado.
+
+As pendulas doiradas são rematadas pela aguia imperial ou por assumptos
+de fria inspiração bucolica bebida com assucar e agua de flôr de laranja
+na contrafeita natureza dos parques de Versailles delineados a cordel.
+
+Uma multidão compacta, plebeia, suada, conservando os chapeus na cabeça
+e os cigarros nos beiços, cuspindo nas alcatifas, limpando com o dedo
+molhado em saliva o pó das tellas e das estatuetas, ou apoiando a sola
+da bota nas almofadas das poltronas para tomar notas sobre o joelho,
+enche os salões e vae deitando os lanços.
+
+O pregoeiro--_Uma mesa offerecida pelo imperador Napoleão I, o grande!_
+
+Um adelo--_Ponha lá uma libra por ter sido d'esse sujeito ... e, em fim,
+porque é de mosaico!_
+
+Os licitantes animavam-se, os preços subiam, os objectos em praça eram
+rapidamente adjudicados ao maior lanço, e tudo quanto enchia aquellas
+regias salas ia successivamente passando para o povo que as invadia.
+
+Não era sómente um leilão aquillo, era uma liquidação pronta e solemne
+dos ultimos restos de um imperio extincto, de um cesarismo arruinado e
+fallido, de um mundo inteiramente acabado e desfeito.--Extranho
+espectaculo, de tal modo significativo que era quasi doloroso!
+
+ * * * * *
+
+Passa-se aos aposentos particulares da imperatriz.
+
+Lá fóra, nos salões, revelava-se uma epoca poderosa.
+
+Aqui transparece apenas uma individualidade feminil, delicada e modesta.
+
+N'estes quartos em que a viuva de D. Pedro IV se conservou por tantos
+annos recolhida e occulta n'uma clausura inviolavel, sente-se
+perfeitamente a sua personalidade em todos os detalhes da existencia.
+Nenhum aspecto de luxo, de pretenção ou de apparato. O chão é coberto
+com simples esteiras; todos os cortinados são de cassa branca, e todos
+os estofos de chita em pequenos ramos de flôres sobre fundos pallidos.
+Os aposentos estão cheios de étagères de todas as fórmas, com todas as
+disposições. Pequenas bibliothecas e pequenos armarios, dispostos por
+toda a parte. Uma infinidade de mezinhas de escripta, de leitura, de
+costura ou de bordado. Cadeiras de todos os formatos e das mais diversas
+proporções, sem nenhum estylo, sem genero artistico, sem época, sem o
+minimo lavor, sem concessão alguma á elegancia ou á simetria--uma
+visivel exigencia da vida sedentaria e doente, a necessidade physica de
+mudar a todo o momento de posição, para deslocar a sua dôr, para
+motivar o seu pequeno exercicio e povoar por si mesma, com as suas
+diversas attitudes a sua solidão. Defronte das janellas ha pequenos
+biombos de chita franzida para impedir as correntes de ar, formando uma
+especie de kiosques, subdivisões minimas de abrigo e de recolhimento. Ha
+muitas estantes de leitura, mezas de desenho ao crayon ou á aquarella, e
+uma caixa cheia de lapis aparados, de diversas côres e de differentes
+numeros. Uma grande secretária, larga pesada, lisa, e defronte d'ella
+uma enorme poltrona ingleza, estofada de carneira escura, usada, tendo
+aos pés uma almofada esfarpada e gasta. Era a cadeira em que a
+imperatriz se sentava ordinariamente, e que se vê em todos os seus
+ultimos retratos. Sobre uma mesa apparece um Christo, antigo,
+marchetado, trazido de Jerusalem, deante do qual, por muitas vezes,
+decerto, se ajoelhou a imperatriz. Ao lado d'esta sagrada imagem e como
+diversão á gravidade do seu dolorido e pallido aspecto encontrámos
+dentro de uma caixa aberta um instrumento de uso demasiadamente intimo
+de Sua Magestade, o qual objecto suppunhamos que não era licito expôr em
+publico senão como accessorio da scena triumphal do ultimo acto do
+_Malade imaginaire_, ou como vinheta illustrativa nas obras de Avicena:
+ao lado do aphorismo, _Medicamen clister nobile est_.
+
+E aqui suscita-se-nos o meditar, diante d'esta caixa aberta, quaes serão
+os principios politicos de suas excellencias os executores
+testamentarios da fallecida soberana.
+
+Porque, realmente, não nos occorre como os possamos classificar....
+
+Se são republicanos, democratas, socialistas, suas excellencias deveriam
+saber que nunca se abrem as caixas reservadas da _toilette_ de uma
+senhora.
+
+Se são monarchicos, deveriam comprehender que n'estes tempos de
+discussão implacavel é perigoso para o prestigio das testas coroadas
+denunciar aos povos, por via de uma imprudencia de suas excellencias,
+que se os soberanos que os governam estão por um lado tanto acima
+d'elles pelo direito divino, não são por outro lado mais que seus
+simples eguaes pelo direito therapeutico, e que finalmente pode ser um
+novo e terrivel argumento inesperado em favor da egualdade dos homens--a
+constipação intestinal dos principes!
+
+ * * * * *
+
+O pregoeiro do leilão é acompanhado pelo sr. barão de S. George, consul
+da Suecia e representante de Sua Magestade a rainha, irmã da imperatriz
+fallecida.
+
+O sr. consul faz a historia de alguns objectos postos em praça, garante
+a sua authenticidade historica, e encarece com tocantes discursos o
+valor de cada coisa.
+
+S.ex.ª o sr. barão, delegado de sua magestade a rainha da Suecia, em
+beneficio da qual se faz a venda em hasta publica do espolio de sua
+irmã, attesta-nos que tal cama é a mesma em que dormia na sua tão breve
+mocidade sua alteza serenisssima a princeza do Brazil; tal chavena
+aquella por que Sua Magestade bebia os seus remedios; taes bonecos os
+mesmos com que a infeliz infanta D. Amelia brincava em pequenina, e que
+sua mãe conservava como um piedoso penhor de saudade!
+
+ * * * * *
+
+Graças a todos estes preciosos esclarecimentos, amavelmente dados por
+s.ex.ª o consul á multidão dos licítantes, dos adelos, dos ferro-velhos
+e dos cabeças de pau, Sua Magestade a rainha da Suecia terá a doce
+consolação--tão sensivel ás almas sublimes--de receber duzentas libras a
+maior da somma em que haviam sido avaliados os saudosos e queridos
+despojos d'aquella que duas vezes fôra na terra sua irmã--como mulher e
+como rainha!
+
+ * * * * *
+
+Oh! como deverá ser bom e suave, na ultima estação da vida, quando os
+rheumatismos rangem nas frias articulações da nossa velha ossada,
+embrulharmo-nos tremulos na purpura real, no alto do nosso
+throno,--tendo aos nossos pés os nossos vassallos inclinados e a nossa
+cova aberta,--fitar serenamente no espaço a branca apparição d'aquella
+que amamos no mundo e que nos espera entre as estrellas nas esfumadas
+sombras do crepusculo, e podermos então exclamar em nossa consciencia:
+
+«Sim, ella morreu ... mas abençoado sejas tu, nas alturas infinitas, ó
+Deus meu e dos meus exercitos, pois quizestes permittir que aquelle
+objecto que lhe pertenceu e que ella tinha occulto por detraz de uma
+cortina no seu quarto de lavatorio fosse venturosamente arrematado--por
+trez mil e seiscentos!»
+
+ * * * * *
+
+SCENAS DE RELIGIÃO.--Lemos no _Diario Illustrado_ o seguinte:
+
+«Em additamento á noticia que ontem démos da saida processional do
+Senhor aos entrevados da freguezia de Santa Justa e Rufina, somos hoje
+informados que a interessante filhinha do sr. Marcos Maria Fernandes e
+D. Maria Cecilia da Conceição Almeida Fernandes, proprietarios do
+acreditado estabelecimento de modista de chapeus e vestidos na travessa
+de Santa Justa n.º 81, vae tambem n'essa procissão, distribuindo esmolas
+aos enfermos pobres, que receberem o Viatico, sendo vestida a custa e
+por generoso e espontaneo offerecimento de seu pae, que é irmão do
+Santissimo d'aquella freguezia.
+
+«Leva a gentil menina, symbolo de caridade, vestido de faille azul
+claro, com outro de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras, e
+um manto branco preso na cabeça por um diadema do pedraria e semeado de
+estrellas de oiro de lindo effeito.
+
+«Esta devoção do sr. Fernandes, que ha quatro annos successivos tem
+levado a sua filhinha vestida de anjo n'aquelle acto religioso, offerece
+no presente anno uma novidade elegante, e que decerto será do mais
+apurado bom gosto, se attendermos ao extremo paternal do sr. Fernandes,
+e ao esmero e apuro de todos os trabalhos do seu estabelecimento, onde é
+variadissimo e primoroso o sortimento de tudo quanto respeita a enfeites
+de senhora.»
+
+ * * * * *
+
+Ó dôce Jesus, eterna bondade simples e infinita como o Céo! aqui tendes
+como elles a comprehendem, na freguezia de Santa Justa e Rufina, a
+caridade, a pobre e modesta caridade, que vós mandastes definir por S.
+Paulo com aquella palavra tão inspirada e tão bella.--O amor dos
+corações puros e das consciencias boas!
+
+Elles entendem-a agora assim: vestida de faille azul claro, com segundo
+vestido de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras e um manto
+branco preso na cabeça por um diadema de estrellas de oiro de lindo
+effeito!
+
+Comparae, ó Jesus, a descripção dos vossos antigos anjos feita por Santo
+Ignacio--_incorporeas mentes_--com esta descripção que o _Diario
+Illustrado_ nos apresenta dos vossos anjos modernos!
+
+Que dirão os cherubins, os seraphins e os archanjos, que dirão Miguel,
+Raphael e Gabriel, elles nus, sem mais _toilette_ que as suas longas
+azas candidas, ao verem junto de si nas chorêas sidereas o novo
+anjo--Almeida Fernandes?!
+
+Como ficarão vexados e humilhados no Céo--os outros--quando o cherubim
+Almeida lhes apparecer com as tranças torcidas a ferro, com vermelhão
+nos beiços, e o seu _vestido aventalado adiante_, e contar que foi o
+papá Fernandes quem o arranjou assim para elle representar diante dos
+homem a imagem da caridade!
+
+Oh! mas realmente, é um bom quinau dado pelo sr. Fernandes no Creador!
+Lição terrivel de elegancia e de _chic_ ministrada a todo o reino dos
+Céos pela Travessa de Santa Justa! Nem a Baixa calcula talvez a grande
+importancia que isto vae dar ao estabelecimento do sr. Fernandes--no
+Empireo!
+
+Pela nossa parte não nos maravilhará extraordinariamente que o sr.
+Fernandes, proseguindo nas suas conquistas sobre o territorio divino,
+acabe por ajuntar ao seu estabelecimento de modas uma succursal da
+côrte celeste, e que depois de converter a sua familia em anjos de
+tulle, elle mesmo acabe por apparecer aos seus freguezes transfigurado
+em Deus ... de filó!
+
+E então, para nos entendermos com s.s.ª sobre os objectos do seu
+commercio, teremos, ao entrar na sua loja, de nos ajoelharmos, de
+batermos no peito e de exclamarmos com attricção verdadeira:
+
+Eu peccador me confesso a Fernandes todo poderoso de que preciso de um
+par de ceroulas de linho de Irlanda, e por tanto lhe dirijo humildemente
+minhas fervorosas preces para que desça das alturas e venha a nós--para
+nos tomar medida. _Amen_!
+
+ * * * * *
+
+Acabamos de ver como os burguezes conservadores entendem a caridade no
+catholicismo. Vamos ver agora como é que os operarios socialistas
+entendem os principios do direito perante a revolução.
+
+Ao passo que o _Diario Illustrado_, folha monarchica e catholica, nos
+apresenta a religião na menina Almeida Fernandes, o _Pensamento Social_,
+periodico revolucionario, expõe-nos, na menina Palmira da Conceição, os
+direitos do povo.
+
+O _Pensamento Social_ diz assim:
+
+«Teve logar a annunciada sessão da propaganda na associação do trabalho
+nacional. Estiveram presentes cêrca de 60 companheiras, frequentando a
+sala durante a sessão proximamente 700 companheiros. Presidiu uma
+companheira, mantendo-se uma assembléa tão numerosa na melhor ordem.
+Deu-se n'esta sessão um facto que sensibilisou toda a assembléa; uma
+companheira, que tem apenas nove annos de edade, como que sensibilisada
+pelas aspirações da razão e da justiça, em plena assembléa pediu a
+palavra e pronunciou a seguinte oração, que leu:
+
+«Companheiros e companheiras.--Declaro-lhes que cada vez que tenho de
+entrar em assumptos de tal natureza, arrasam-se-me os olhos de agua e
+cobre-se-me o coração de uma nuvem negra; comtudo não posso deixar de
+levantar a minha debil voz para dirigir duas palavras ás nossas
+companheiras e companheiros da fabrica de fiação e tecidos lisbonenses.
+Companheiros e companheiras: dirijo-vos os meus sinceros sentimentos,
+porque tendo sido bem conhecedora das injustiças que se estão fazendo ás
+nossas companheiras, e com especialidade ás menores, porque não só são
+castigadas com o seu diminuto salario, como tambem as maltratam com
+pancada.
+
+«Ai companheiros e companheiras, não posso deixar de curvar o joelho e
+pedir ao meu Deus, se estamos em peccado mortal: perdoae-nos. Mas não,
+que já vou vendo raiar a aurora; continuemos sempre a empregar todos os
+nossos esforços para que um dia breve estejam reunidos nas nossas dignas
+associações todos os que vivem do trabalho. Conseguido isto, o que não é
+muito difficil, e empregando todos a nossa vontade, poderemos dizer que
+não estamos em peccado mortal, e tambem poderemos dizer que se acabaram
+os castigos embrutecedores. Peço pois a todos os companheiros e
+companheiras que empreguemos toda a nossa vontade, energia e dedicação
+para podermos alcançar o nosso triumpho, que é a emancipação de todos os
+trabalhadores, isto é, todos os direitos e deveres sociaes. Depois os
+nossos vindouros nos cobrirão de bençãos por lhes termos creado tão bom
+dote. Não querendo entreter-vos mais termino pedindo que vos não
+esqueçaes dos nossos companheiros grevistas.--_Palmira da Conceição_.»
+
+ * * * * *
+
+Esta creança de nove annos de edade que nos declara _que os olhos se lhe
+arrasam de agua e o coração se lhe cobre de uma nuvem negra sempre que
+lhe tem succedido ter de entrar em assumptos de tal natureza_, é uma
+verdadeira menina benta, um phenomeno! Diremos mesmo: é um milagre, é
+uma pequena nossa senhora apparecida--da fabrica lisbonense de fiação e
+tecidos!
+
+Ella é a destinada pelo povo a substituir, como futura deusa da razão, o
+actual anjo Almeida Fernandes--nas festividades populares.
+
+ * * * * *
+
+Ha pequenas differenças:
+
+O anjo Almeida traz-nos a religião e a caridade. A deusa Palmira é a
+portadora da _emancipação dos trabalhadores, dos direitos e deveres
+sociaes._
+
+O anjo adeja sobre as ruas pacatas da Baixa. A deusa surge no bairro
+inquieto de Alcantara.
+
+O anjo caminha gravemente--enfunado, crespo de folhos e de rendas, como
+um peru armado--a passos cadenciados pelas harmonias da phylarmonica
+_Alumnos de Minerva_, dando a mão a Fernandes, seu pae carinhoso,e
+espargindo petalas de rosas, de dentro de um cesto de casquinha, sobre o
+mundo velho.
+
+A deusa vem ao collo de um _companheiro_ membro da _Fraternidade
+Operaria_ e clarinete na mesma phylarmonica que bufou, talvez, o mais
+convicto e consciencioso _hymno da carta_, atraz da angelica vergontea
+de Fernandes. A deusa alliando em sua joven personalidade a innocencia
+da edade que tem com a aspiração philosophica da classe a que pertence,
+mette um dedo no nariz e aponta com o outro o destino do proletariado na
+futura organisação social.
+
+O anjo é a religião de barejes, de talagarças e de retalhos de bobinet.
+
+A deusa é a justiça de figuras de rhetorica, de discursos de associação
+e de erros de prosodia.
+
+O burguez, contente com o seu meio de reacção, distribue ao anjo
+confeitos e rebuçados de avenca. O operario, satisfeito com o seu plano
+de resistencia e de revolução, solicito, assôa a deusa.
+
+Ora, francamente, não nos parece que estes sejam os methodos mais
+efficazes que possam escolher os srs. burguezes e os srs. operarios.
+
+Não será com o seu anjo de vestido «ventalado», com veu branco e
+pedrarias de lindo effeito, que a burguezia impedirá a passagem á
+corrente das idéas novas que a assoberbam e intimidam.
+
+Não será tambem com a sua oradora de nove annos, _inspirada pela razão e
+pela justiça_, que o proletariado conseguirá convencer-nos da seriedade
+dos seus direitos ao predominio das sociedades futuras.
+
+O trabalho--bem o sabemos--é uma coisa augusta e sagrada. O
+commercio--desculpem-nos os senhores proletarios--é tão sagrado como o
+trabalho. O commerciante que compra a cada um dos que produzem as suas
+obras, levando-lhes, em troca dos objectos que fabricam os objectos que
+consomem, faz á sociedade, por meio do estabelecimento do mercado, um
+serviço tão relevante e tão legitimo como o da producção da mercadoria.
+
+O pae da menina Palmira que faz um chale quando ninguem quer chales e o
+pae da menina Fernandes que lh'o compra logo, para o vender depois
+quando lh'o pedirem, são dois cidadãos egualmente uteis e respeitaveis.
+Se o pae do anjo é puramente ridiculo vestindo a sua filha como uma
+boneca de _vitrine_ e encarregando o _Diario Illustrado_ de lh'a
+apregoar como um symbolo de caridade, o pae da deusa é injusto, é
+ignorante, é perigoso, e é egualmente ridiculo, ensinando á sua filha,
+para que ella as leia em publico, palavras ôcas de falsa razão e de mal
+entendida justiça, tão enthusiasticamente preconisadas pelo _Pensamento
+Social_, orgão das classes operarias.
+
+ * * * * *
+
+Já que fallamos no _Pensamento Social_ notemos que nem sempre nos parece
+perfeitamente logico este jornal.
+
+Succede que elle guerreia o burguez, o _infame burguez_, e não cessa
+nunca de glorificar o operario. É a sua missão. Tem o seu partido. Nada
+temos que objectar.
+
+Quando se deu, porém, a _grève_ dos surradores, succedeu o seguinte:
+
+Os operarios tinham escolhido para apresentarem as suas propostas a
+phase da curtição em que os coiros não poderiam ser abandonados sem que
+apodrecessem nos seus tanques. Por este modo os patrões ou tinham de
+ceder á _grève_ ou correr o risco eminente de um grande prejuizo. Que
+fizeram os patrões? Não acceitaram as propostas dos grevistas,
+associaram-se todos, despediram os operarios, e foram em seguida, elles
+mesmos, acompanhados de suas mulheres e de seus filhos, de fabrica em
+fabrica, levantar os cortumes.
+
+Ora é singular que fosse exactamente este momento solemne da existencia
+dos patrões curtidores o que o _Pensamento Social_ escolheu para os
+flagellar com as suas ironias e os seus sarcasmos! A verdade é que
+exactamente n'esse momento é que os burguezes curtidores deixavam de ser
+burguezes para serem operarios. Parecia-nos que n'esta conjunctura o
+_Pensamento Social_ não deveria fazer senão o que nós fariamos no seu
+caso: tirar o chapeu e inclinar-se respeitosamente perante a coragem
+trabalhadora e digna dos seus altivos e honrados inimigos.
+
+ * * * * *
+
+Os operarios na sua inquietação de candidatos á prosperidade baseada na
+justiça e na virtude, vão mal encarreirados dirigindo o seu movimento de
+revolução contra os pequenos burguezes que nunca lhes fizeram mal nenhum
+e que os srs. operarios injustamente odeiam ou desprezam. Os pequenos
+burguezes--deveriam lembrar-se d'isto os srs. operarios--são na actual
+organisação social, os alliados naturaes de todos os que trabalham e
+padecem. Os srs. operarios fariam bem se, em logar de encarregarem a
+menina Palmira de discretear nos seus congressos, traduzissem n'elles em
+voz alta esta pagina do seu amigo Proudhon:
+
+«Vós, burguezes, fostes em todo o tempo os mais intrepidos, os mais
+habeis dos revolucionarios. Sois vós que desde o terceiro seculo da era
+christã, por meio das vossas federações municipaes, estendestes a
+mortalha sobre o imperio dos romanos nas Gallias. Sem os barbaros que
+vieram mudar a face das coisas, a republica, constituida por vós, teria
+governado a edade media. Fostes vós que, mais tarde, oppondo a communa
+ao castello, o rei aos grandes vassallos, vencestes o feudalismo. Sois
+vós em fim que ha oitenta annos, tendes proclamado umas depois das
+outras todas as idéas revolucionarias, liberdade de cultos, liberdade de
+imprensa, liberdade de associação, liberdade de commercio e de
+industria; vós que pelas vossas sabias constituições fizestes justiça ao
+altar e ao throno; vós que estabelecestes sobre bases indestructiveis a
+egualdade perante a lei, a garantia legislativa, a publicidade das
+contas do estado, a subordinação do governo ao paiz, a soberania da
+opinião. Fostes vós, sós, que fundastes os principios e lançastes os
+fundamentos da revolução no seculo XIX. Nenhuma das coisas que se tentou
+sem vós, viveu; nenhuma d'aquellas que vós emprehendestes falhou. Diante
+da burguezia o despotismo tem curvado a cabeça: o soldado feliz, o
+ungido legitimo, o rei cidadão, desde que teem tido o infortunio de vos
+desagradar, teem desfilado diante de vós como phantasmas.»
+
+ * * * * *
+
+Lemos em alguns periodicos que o sr. prior da freguezia da Encarnação
+acaba de furar as orelhas de uma santa que tinha na sua egreja para lhe
+pôr brincos.
+
+Parece-nos que este senhor ecclesiastico abusa das suas relações com as
+santas a ponto de proceder com ellas de um modo como não desejaria
+talvez que ellas procedessem com s.ex.ª ...
+
+Como quer porém que seja, e admittindo-se mesmo que o sr. prior tenha o
+maior prazer d'este mundo em que lhe façam furos no corpo, entendemos
+que sua excellencia introduz no culto uma reforma arrojada, posto que
+extremamente simplificativa, substituindo as antigas manifestações de
+reverencia e de respeito devidas ás sagradas imagens--as genuflexões, o
+incenso, a missa cantada, a novena e o panegyrico--pela verruma!
+
+Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a
+lavrar entre elles o receio que o sr. prior, adoptando definitivamente o
+seu novo systema liturgico, resolva de repente, um bello dia--em vez de
+pregar-lhes sermões--principiar a pregar-lhes pregos!
+
+Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a
+lavrar entre elles o receio de que o sr. prior, adoptando
+definitivamente o seu novo systema liturgico, resolva de repente, um
+bello dia--em vez de pregar-lhes sermões--principiar a pregar-lhes
+pregos!
+
+Pede-se aos srs. assignantes das provincias o obsequio do mandarem
+satisfazer a importancia das suas assignaturas em divida, por meio de
+estampilhas ou do vales do correio. Correspondencia á calçada doa
+Caetanos, 30, Lisboa.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da
+Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14621 ***