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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:44:57 -0700 |
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diff --git a/14621-h/14621-h.htm b/14621-h/14621-h.htm new file mode 100644 index 0000000..8c31d0f --- /dev/null +++ b/14621-h/14621-h.htm @@ -0,0 +1,2197 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=UTF-8" /> + <meta content="pg2html (binary v0.16)" name="generator" /> + <meta name="author" content="Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz" /> + <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, Março a Abril de 1873 +by Ramalho Ortigão and Eça De Queiroz.</title> +<style type="text/css"> +/*<![CDATA[*/ + <!-- + body { margin-left: 10%; margin-right: 10%; } + h1,h2,h3,h4,h5,h6 { text-align: center; } + hr.major { width: 30%;} + hr.minor { width: 10%;} + .centered {text-align: center} + .poem { margin-left: 10%; margin-right: 10%; margin-bottom: 1em; text-align: left; } + .poem .stanza { margin: 1em 0em 1em 0em; } + .poem p { margin: 0; padding-left: 3em; text-indent: -3em; } + .poem p.i2 { margin-left: 1em; } + .poem p.i4 { margin-left: 2em; } + .poem p.i6 { margin-left: 3em; } + .poem p.i8 { margin-left: 4em; } + .poem p.i10 { margin-left: 5em; } +/*]]>*/ + // --> +</style> +</head> +<!--====================================================--> +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14621 ***</div> + +<div class="centered"> + <img src="images/devil73.png" width="500" height="750" + alt="As Farpas—R. Ortigão—Eça de Queiroz" /> + <!--IMAGE END--> +</div> +<hr class="major" /> +<h1> + AS FARPAS +</h1> +<div class="centered"> + <p>RAMALHO ORTIGÃO—EÇA DE QUEIROZ</p> + <p>CRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p> + <p>2.º ANNO</p> + <p>Março a Abril de 1873</p> +</div> +<hr class="major" /><!--===================--> +<blockquote> +<p> + Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, + da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das + sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da + politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande + universo, e da adoração de si mesmo. +</p> +</blockquote> +<p class="centered"> + P.J. PROUDHON +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> + +<p class="centered"> + <b>SUMMARIO</b> +</p> +<p> + O sr. +<a href="#herculano"><b>Alexandre Herculano</b></a>, + opusculista. Os semi-deuses e os rapazes. + As armaduras e as flanellas. <i>A Voz do Propheta</i>, geremiada de salão. A + biblia-cacete. Deus cartista. Reincidencia do milagre de Ourique. Os + egressos e Pharaó. A censura dramatica. As conferencias democraticas. Os + fins da arte e a bisca sueca. Em que o sr. Herculano se parece com + Theodosio II. A tristeza chronica do grande homem e o pronto-alivio de +<a href="#radway">Radway</a>. A velhice e a arte. Os martyrios de vinheta. Spinosa, + Campanella, Diderot e Proudhon. Victor Hugo, Michelet, Quinet, Raspail e + Carl Marx. O sr. Herculano +<a href="#salomao">Salomão</a> e nós o bôbo Marcullo.—João Felix +<a href="#pereira">Pereira</a>, historiador. Os compendios da instrucção publica e as + equarissages.—O +<a href="#fernando">sr. D. Fernando</a> em Coimbra. Os rouxinoes do Mondego e + seus principios politicos.—A +<a href="#monicas">casa de detenção nas Monicas</a>. O edificio, + as camaratas, o refeitorio, as officinas, a escola. A instrucção, a + catechese, a hygiene, a moral. A direcção technica. A colonia + penitenciaria de Meltray. Contrastes. Se é dado aos vadios rehabilitarem + se fazendo-se dezembargadores ou coroneis—As curiosidades infantis da +<a href="#republicaportugueza">Republica Portugueza</a>—Duas palavras +<a href="#duaspalavras"><i>aos leitores das Farpas</i></a>, folheto + brazileiro. O commercio, a instrucção e a industria no Brazil: + testemunho insuspeito e juizo final. O +<a href="#carvalho">sr. Mathias de Carvalho</a> e a + actriz Emilia Adelaide. A America e a rainha Fulvia, a lingua de Cicero + e a nossa.—O alto dandysmo. As ultimas corridas no Campo Grande. O + Sport e o Lagoia. Perfil do +<a href="#highlife"><i>high-life</i></a>. Os srs. De Lagrange, De Mouchy, + Rothschild, Dudley Stuart. João Russo e Chico Perfeito. Hurrah! pelas + tipoias vencedoras—Representação da comedia +<a href="#magdalena"><i>Magdalena</i></a>. + Os caracteres, os costumes, a peça. Conselhos amigaveis ás burguezas + honestas.—Um anjo catholico e uma jovem +<a href="#deusa">deusa da Razão</a>, typos da litteratura e da moda.—O + leilão do +<a href="#espolio">espolio de sua magestade imperial</a>. +</p> +<hr id="herculano" /> +<p> + O sr. Alexandre Herculano acaba de publicar sob o titulo de <i>Opusculos</i> + um livro em que, além de uma refutação erudictamente argumentada e + inedita da portaria que suspendeu as conferencias democraticas do Casino + Lisbonense, se encontram apenas reedições de algumas antigas obras do + illustre escriptor. +</p> +<p> + Reapparecendo assim na publicidade, reentrando na lucta das idéas novas + com os velhos engenhos de guerra despendurados dos arsenaes de 1836 ou + 1843, sua excellencia lembra-nos demasiadamente o antiquario que sáe a + combater forças vivas á frente das naturezas mortas do seu museu, + formando em batalha contra os entes animados da creação os jacarés + empalhados e os monstros em espirito de vinho da sua galeria curiosa. +</p> +<hr /> +<p> + Os discursos d'estas paginas antigas, a que sobejam por um lado os + accessorios artificiaes da rhetorica e a que faltam por outro lado, com + as opportunidades do momento em que foram concebidas, as condições de + uma existencia necessaria e real, fazem-nos o effeito de armaduras + primorosamente cinzeladas, mas suspensas em ripes de pinho, finos + capacetes de viseiras caladas sobre caraças de papelão com verniz de + cera côr de rosa e olhos de vidro. +</p> +<p> + E causa-nos pena isto: que tantos apparatos de força e tão solidos + instrumentos de guerra se prestem a desabar, com o estampido ridiculo + dos louceiros que se quebram nas velhas farças, aos golpes de <i>stick</i> do + primeiro irreverente que passe trazendo na cabeça as exaltações de dois + dedos de Proudhon e de um copo de Champagne! +</p> +<p> + Serão injustos depois os que bradarem contra a decadencia, contra a + corrupção, contra a irreligiosidade do seculo com o fundamento de que, + n'estes contactos das antigas armas consistentes e das novas modas + futeis, é o espesso arnez de Carlos Magno o que rende e a fina <i>veste + Bênoiton</i> a que triumpha. +</p> +<p> + Ai! perdoae-nos ... Nós preferimos ás impenetraveis armaduras dos vossos + gigantes, que não servem hoje a ninguem e que não trazem ninguem dentro, + a simples flanella vulgar, talhada por Pool para as fórmas exiguas dos + macacos sabios da geração nova, dentro da qual flanella todavia se + abotoam homens, pequenos e frageis, mas emfim mais ou menos vivos, + graças ás capsulas ferruginosas e ao <i>Rob Lafecteur</i>, podendo + impunemente, perante os minotauros de cartão, n'um rasgo de cancan, + chegar-lhes com o bico do pé á ponta do nariz. +</p> +<p> + Ao passo que, sobre estes fracos mortaes, que ainda não estoiraram de + todo nos galopes da vida, as effigies dos antigos semi-deuses, + inoffensivos e inuteis como estatuas de louça branca—na attitude + classica dos Abrahões de jardim—suspendem os seus alphanges, como + poleiros aereos, cuja immobilidade tem convidado ao somno quarenta + gerações de pardaes! +</p> +<hr /> +<p> + Aqui temos nós, por exemplo, <i>A voz do propheta</i>, cem paginas sybilinas, + em estylo emphatico, allegorico, confuso, tremendo. +</p> +<p> + É uma especie de <i>Dies irae</i>—de salão. +</p> +<p> + Cada periodo ronca lugubremente como um estertor de moribundo, imitado + n'um figle. +</p> +<p> + Em cada phrase ha um vacuo premeditado que lembra a orbita sem olho da + caveira de um cyclope. +</p> +<p> + A locução, pintada como uma actriz vestida do branco, com os cabellos + desgrenhados, que se predispoz ao espelho para uma scena de delírio, tem + tons cadavericos, produzidos por grossos riscos pretos sobre gesso + esverdinhado e branco: ella passa mysteriosa e terrivel; não se sabe do + onde vem nem para onde vae, nem quem busca, nem o que pretende—ella, + desvairada, tambem o não sabe!—mas pisa o tablado a largos compassos + tectricos, brandindo um punhal, olhos fixos e dedo descarnado e livido + apontando o espaço. A orchestra, a golpes taciturnos e tremidos de + rebeção, imita os rumores das tempestades. E os espectadores + angustiados, presentindo que alguma coisa pavorosamente tragica vae + occorrer, desdobram os seus lenços nas mãos abertas, aprontando-se para + acolher aquella porção de sensibilidade oppressa de que a imperfeita + natureza humana se desencarrega—ai de nós!—pelo nariz.... +</p> +<p> + O monologo porém termina; está volvida a ultima pagina da prosa + melodramatica do sr. Herculano; elle, o propheta, principiou estas + palavras: +</p> +<p> + «O espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vae, e faze + resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade. E eu + obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos ...» +</p> +<p> + E conclue assim: +</p> +<p> + «N'este momento a visão desappareceu, e achei-me banhado em suor frio e + repassado de amargura. E por impossivel tinha que tão negro futuro + houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que + diziam:—Guerra á religião do Christo! Então cri na visão que o Senhor + me enviava, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.» +</p> +<p> + Ao terminarem a leitura, as turbas obscuras e humildes a quem o auctor + se dirigira, e das quaes nós temos a honra de fazer parte, perguntam + contristadas e attonitas: +</p> +<p> + Mas, bom Deus, poder-se-ha saber por que altos motivos está s.ex.ª o + propheta <i>banhado em suor frio</i> e <i>repassado de amargura</i>?! +</p> +<p> + Ser-nos-ha dado apreciar quaes as razões por que o digno socio de merito + de Jeremias e da Academia Real das Sciencias, apagou dentro da sua alma + o <i>ultimo clarão de esperança</i>? +</p> +<p> + Sim! N'esta recente edição do seu opusculo, s.ex.ª o anjo, incumbido + directamente por Deus de <i>fazer resoar palavras de terror</i>, explica + satisfatoriamente o phenomeno pathologico da desesperança em sua alma e + dos suores frios em seu corpo, por via de algumas laudas de introducção, + destinadas a prehencher cabalmente os votos d'aquelles que tinham + promettido aos deuses um propheta de cêra, se os deuses lhes + consentissem penetrar o sentido da <i>Voz do propheta</i>. +</p> +<p> + A explicação d'essa voz que diz ao povo «<i>que a sua hora extrema vae + soar, que elle é maldito, que elle é empestado, que é pustulento e + pôdre, vil e malvado, escoria, immundice e relé</i>»,—a explicação da voz + que diz e rediz isto em 118 paginas de uma prophecia de exterminio e de + morte para o povo e para o paiz, é que: +</p> +<p> + A revolução de setembro triumphava com a democracia, o sr. Alexandre + Herculano não acreditava na democracia, tinha-a pela «declamação + interessada de engenhos superficiaes que pretendem jungir ao carro das + proprias ambições <i>as turbas más, porque ignorantes, odientas, porque + invejosas, espoliadoras, porque miseraveis</i>;» e Elle, o propheta, Elle, + o anjo exterminador, Elle, o enviado de Deus ás gerações ... Elle + era—cartista! +</p> +<hr /> +<p> + Se o sr. Herculano escreveu isto, que parece uma blasphemia pavorosa «<i>O + espirito de Deus passou pelo meu espirito e disse-me: vae, e faze, + resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror</i> ...»—é que + naturalmente Deus era tambem—cartista. +</p> +<p> + E assim rompe um livro, tendo por base a mancommunação de um Deus e de + um propheta, conchavados para espancarem patuleas a cacetadas de biblia + e de rhetorica! +</p> +<hr /> +<p> + Permitta-se-nos dirigir uma pequena pergunta humilde ao grande + historiador: +</p> +<p> + Se s.ex.ª nos affirma que o espirito de Deus o tocou e lhe disse: <i>Vae</i>, + o que acreditamos sob a palavra de s.ex.ª, como ousa s.ex.ª negar que o + mesmo Deus tivesse egualmente apparecido a Affonso Henriques e lhe + tivesse dito—<i>Vence</i>? Porque, em fim, a verdade é que o milagre que + precedeu a victoria de Ourique é exactamente o mesmo que inspirou a <i>Voz + do propheta</i>. Ao grande escriptor assim como ao grande rei Deus + appareceu e fallou. Se um d'estes cavalheiros nega a visão de outro, não + poderá a critica julgal-os suspeitos como officiaes do mesmo officio? + Não será plausivel que cada um d'estes Joões Marias Farinas dos divinos + cheiros queira para si o privilegio de ser o unico João Maria Farina, + authentico e legitimo? +</p> +<hr /> +<p> + Mais encerra o sobredito livro dos Opusculos: +</p> +<p> + Primeiro—Uma «consulta apresentada á Academia Real das Sciencias ácerca + do estado dos archivos ecclesiasticos do reino e do direito do governo + em relação aos documentos ainda n'elles existentes»—questão que se acha + resolvida desde 1857. Tem essa actualidade. +</p> +<p> + Segundo—«Os egressos, petição humilissima a favor de uma classe + desgraçada.» Mais: «As freiras de Lorvão», especie de petição em favor + da parte feminina da sobredita classe, acto philantropico que declarado + hoje, quarenta annos depois da extincção das ordens religiosas, nos + obriga a meditar nas razões por que o auctor não aproveitaria este + ensejo para peticionar egualmente em favor das familias dos companheiros + de Pharaó, victimas da terrivel catastrophe da passagem do Mar Vermelho. +</p> +<p> + Terceiro—«Theatro, moral, censura», discurso em que o auctor propõe que + a censura dramatica não seja eliminada mas sim substituida por «uma lei + para o theatro em harmonia com a lei politica da nação»—especie de + carta constitucional da monarchia da rua dos Condes e do Salitre. O sr. + Herculano quer <i>um jurado especial encarregado de defender a moralidade, + punindo com multas pecuniarias e com cadeia todo o delicto dramatico em + offensa da moral</i>,—o que nos parece ser, sem a minima duvida, o + restabelecimento puro da santissima inquisição, ou a renovação dos jogos + da eloquencia, de Caligula, em que o vencido era lançado no Rhodano, + sempre que não preferia apagar o seu discurso com a lingua. +</p> +<p> + Quarto e ultimo—Uma <i>advertencia preliminar</i>, na qual o autor explica + que compoz a sua obra <i>com o fim de</i>—matar o tédio das longas noites + de inverno na solidão da sua granja. D'onde somos levados a deduzir que + os fins da arte para o illustre solitario de Valle de Lobos—no inverno + pelo menos—são simples parceiros de jogo, questão de passar tempo: para + s.ex.ª a antiga coisa sagrada de Platão substitue—a bisca sueca. O fim + moral retira-se, havendo uma perna para o <i>voltarete</i>. +</p> +<p> + E nada mais se contém no ultimo livro recentemente publicado por aquelle + que justamente se considera o primeiro dos escriptores portuguezes! +</p> +<hr /> +<p> + Esse livro que se não baseia em nenhuma das necessidades da sciencia, da + razão ou do sentimento do mundo moderno, caminhando no ar como as + pinturas chinezas em que não ha solo, é uma pessima obra. Vem de alto, + firma-a um nome prestigioso, está escripta no estylo relimado a que + Michelet chama a <i>indigente correcção de Malherbe</i>: tem portanto as + condições da voga; é um exemplo funesto. Porque esse livro não instrue, + nem ensina, nem esclarece, nem consola ninguem. +</p> +<p> + Referindo-se ás conferencias do Casino repisa a velha questão catholica + e esquiva-se á apreciação da theoria artistica, economica e scientifica + da revolução, que essas conferencias propagavam. +</p> +<p> + Na politica é auctoritario, conservador intransigente. Impõe-nos a + carta, como Carlos IX impunha a missa a Henrique de Navarra e ao jovem + Condé, depois da Saint-Barthelemy. Nega a revolução democratica com um + desdem banal, como quem ignora ou finge ignorar que toda a revolução que + se oppõe á corrupção e á miseria, filhas das instituições, não é uma + theoria contingente mas sim uma lei fatal. Estava n'este ponto bem mais + adiantado, do que s.exª nos quer mostrar que se acha, aquelle velho + ministro francez que ha mais de cem annos exclamava: «<i>La légalité nous + tue</i>». +</p> +<p> + Na economia social, sem uma palavra para algum dos principios que + constituem o systema de credito e a organisação industrial, preconisa as + <i>caixas economicas</i>, escondendo que a questão de coarctar a miseria não + é de estabelecer o <i>mealheiro</i> mas sim de crear o trabalho. +</p> +<p> + Na arte quer a manifestação do pensamento adstricta ás sentenças de um + jury tirado da academia das sciencias, da escola polytechnica e de não + sei que outros tribunaes regularisadores do direito da palavra, + justificando assim aquella definição do sublime dada por Galiani: «a + arte de dizer as coisas sem ir para a cadeia»; quando a verdade n'este + ponto é que nada ha que mais avilte a intelligencia e o caracter do que + o exercicio hypocrita, imposto pela legislação repressiva, de encobrir o + pensamento ou de disfarçar a verdade. +</p> +<hr /> +<p> + No momento actual, quando a Europa inteira, grande martyr, se agita na + polemica e no sangue, procurando nobremente e santamente resolver para a + justiça o problema do destino dos povos, reconhecendo com Proudhon que a + negação da sociedade feita em 93 implíca uma affirmação subsequente que + ainda não está feita, e que, depois de desorganisados os privilegios, + nos é hoje preciso organisar sólidamente e firmemente o trabalho na paz, + no bem estar e na virtude,—n'este momento supremo, um dos mais graves + em que se tem achado a humanidade, quando mais do que nunca se precisa + para a verdade do concurso de todos os espiritos elevados e rectos—, um + philosopho, um pensador educado nos severos estudos historicos, o mais + auctorisado dos nossos escriptores, entretendo-se no seu gabinete a + reconstituir antigos opusculos banaes e extinctos para passar o inverno, + lembra um pouco o imperador Theodosio entregue ás especulações + theologicas, e compondo symbolos no gyneceu, quando Genserico estava em + Cartago e Attila nas margens do Danubio. +</p> +<hr /> +<p> + Diz-nos o sr. Alexandre Herculano que está velho, desilludido, + desalentado ... +</p> +<p> + D'onde lhe veiu tanta amargura e tão singular abatimento, que nem os + annos nem os desgostos justificam? +</p> +<p> + Comprehende-se a tristeza d'aquelles que, consagrando a sua vida a uma + grande obra, absorvendo-se n'ella, pertencendo-lhe integralmente, se + acham repentinamente desacompanhados e sós ao verem a obra terminada. + Michelet consumiu quarenta annos a escrever a historia da sua patria. + «Pois bem, minha grande França, exclama elle, se foi preciso para achar + a tua vida que um homem se tivesse entregado e passasse e repassasse + tantas vezes o rio dos mortos, esse homem consola-se, agradece-te ainda, + e o seu maior pesar é ter emfim do deixar-te.» Gibbon, tão frio e tão + secco, não larga o seu livro sem uma commoção profundamente melancolica: + «Pensei que acabava de despedirme do antigo e agradavel companheiro da + minha vida.» Oh! sim, comprehende-se bem essa magoa profunda que absorve + o homem ao cabo da missão a que elle se dera no mundo! Comprehende-se + Alexandre morrendo de tristesa depois de conquistar a Asia, e Alarico + depois de tomar Roma; comprehende-se Godofredo de Bulhões, com a sua + herculea natureza que resistiu inalteravel ás fomes, ás sedes, ás + pestes, ás guerras, a todas as tragedias da cruzada, sossobrando + finalmente ao ter de embainhar a espada, e morrendo—por ter chegado! +</p> +<p> + Mas não se comprehende definhando de tristesa em Valle de Lobos o sr. + Herculano, porque elle não venceu, não conquistou, não concluiu a sua + obra: abandonou-a apenas, retirou-se, foi-se embora. +</p> +<p> + Como antigo litterato, historiador, romancista e poeta, s.ex.ª não se + póde contristar. Deve consolal-o a vida rural, que elegeu em + substituição da vida artistica. +</p> +<p> + Se o não satisfaz a solução que deu ao seu destino, se no remanso da sua + granja, na abundancia, no saudavel exercicio da lavoura, na familia, na + saude, na paz, na consideração e no respeito publico, s.ex.ª se sente + effectivamente velho, desalentado e triste, creia s.ex.ª então que não é + o litterato que ainda soffre, é o agricultor que já começa a padecer. A + padecer o que? Esta molestia:—a nostalgia da arte. +</p> +<hr id="radway"/> +<p> + A tristeza não é nunca um estado de espirito normal no organismo de um + homem são. A tristeza é um symptoma de enfermidade physica ou moral. A + tristeza habitual quando se não cura com as pílulas de Radway e com as + aguas mineraes, cura-se com uma acção boa. Se com isso não passa, é + então uma lesão profunda e mortal. +</p> +<p> + O homem que durante vinte annos viveu no trabalho intellectual, na + applicação, no estudo, na poderosa contensão da arte, escrevendo, + publicando, dilatando-se, repartindo-se pelos seus semelhantes, + amassando e forneando para elles o divino pão da verdade, nunca mais + póde sem perigo retirar-se d'esse meio. +</p> +<p> + Nos serios trabalhos do espirito consagrados a uma idéa elevada ha uma + luz vivificante e serena que não sómente allumia o operario, penetra-o + tambem, alimenta-o, conforta-o. A sua obra não é inteiramente d'elle, + elle pertence tambem á sua obra. Elle cria-a, torna-a viva, poderosa, + immortal á força de amor, de verdade e de justiça; ella, generosa e + grata, educa-o, aconselha-o, consola-o, fortifica-o. Os dias passam, + tenebrosos ou limpidos, serenos ou revoltos no mundo externo; na + immutavel região da arte ha a pacificação permanente. Embebido na doce + mocidade eterna da sua obra, o verdadeiro artista, perfeitamente fiel ao + trabalho, não sabe nunca se envelhece ou não. +</p> +<p> + Veja o sr. Herculano aquelles que deixou nas lettras, ha alguns annos, + muito mais edosos que elle! Como ainda hoje são novos! +</p> +<p> + Quem guia, quem governa, quem encaminha hoje no mundo a grande marcha + das idéas modernas a que o illustre agricultor de Santarem se oppõe, no + seu recente livro de torna-viagem, com epigrammas cacheticos e vetustos? + Veja-os s.ex.ª, escute-os, attenda-os: como teem os labios vermelhos, a + voz clara e metallica, os cabellos loiros, os musculos fortes, o sangue + vermelho, salgado e alegre! Reconhece-os?... +</p> +<p> + São Victor Hugo, Michelet, Quinet, Thiers, Raspail e Karl Marx. +</p> +<p> + Companheiros de infancia de s.ex.ª eil-os ahi ainda, na mais perfumada e + viçosa flor da edade, entre os setenta e os noventa annos! +</p> +<hr /> +<p> + Quando uma vez se habitou o paiz luminoso da sciencia e da arte é + impossivel o expatriamento para os frigidos climas sombrios dos + interesses praticos e positivos. A mão que por vinte annos manejou uma + penna, não poderá jámais ageitar-se á rabiça de um arado. Sequestrar-se + á sciencia é roubar a sociedade. Para onde quer que te recolhas com a + porção de luz e de verdade que tinhas no teu cerebro e que subtrahiste + do thesouro commum da humanidade, para onde quer que te escondas, ó + triste foragido, irá sempre comtigo, pungindo-te na parte mais nobre do + teu ser não contaminada pelo egoismo, o remorso de uma acção má. Debalde + procurarás justificar o plano da tua deserção com os desgostos que + atravessaram a tua carreira. Desgostos, tu! o filho mimoso da tua + patria! a unica gloria official da litteratura do teu paiz! tu sempre + lido, sempre gloriado, sempre retribuido! Oh! como se rirão dos teus + pretendidos desgostos todos aquelles que tiveram no mundo uma idéa, que + se lhe consagraram, que viveram e que morreram por ella! +</p> +<p> + Pobre homem sem fé! que pensarão do teu martyriosinho de album, da tua + pequenina cruz de berloque, aquelles que realmente tiveram um martyrio e + uma cruz, onde padeceram e morreram, resignados e austeros?!... Spinoza, + que muitas vezes comeu hervas por não ter pão; Campanella preso vinte e + sete annos, sendo cinco vezes julgado e soffrendo sete vezes a tortura; + João Jacques dormindo n'um fosso por não ter outro asylo; Diderot + desmaiando de fome; Proudhon, vivendo com um tostão por dia, caminhando + oitenta leguas a pé para ir ver o seu amigo, só, odeado, perseguido, + caminhando sem meias, com os pés nús embrulhados em palha dentro dos + tamancos das suas montanhas do Jura! +</p> +<hr /> +<p> + Se o sr. Herculano, agricultor, está triste, volte a ser litterato, + restitua-se á sua patria, á sua geração e ao seu tempo. +</p> +<p> + Se definitivamente não quer ser mais um escriptor, poupe então a nossa + sensibilidade ás repetições da historia dos seus desgostos. Como simples + proprietario rural os jubilos ou as melancolias do sr. Herculano são + absolutamente indifferentes á humanidade. +</p> +<p> + Quando Quinet publicou a «Historia» das suas idéas, procurando dar sob + uma fórma individual a historia moral da geração de que fez parte, á + similhança do que parece ser intentado agora pelo sr. Herculano com a + publicação dos seus opusculos, Quinet não obedecia ao desejo de servir + um editor ou de entreter um inverno; Quinet, colligindo as suas idéas e + recompondo o seu passado, arrancava da sua obra uma grande idéa, bella, + radiante e fecunda: a coherencia, illuminando um caracter, e fazendo + d'elle uma força moral. +</p> +<p> + Quinet não vinha entristecer-nos com a sua melancolia nem contaminar-nos + com o seu desalento. +</p> +<p> + Se elle reconstituia e publicava os dispersos fragmentos obscuros de + antigos trabalhos era exactamente porque d'esse agrupamento e d'essa + reunião de idéas espalhadas pelas differentes edades e pelas diversas + phases da sua vida sobresahia como um nobre exemplo o luminoso + contentamento de uma alma perseverante e forte. +</p> +<p> + Decepções, chimeras, enganos, o que vem a ser essas coisas? ignoro-o; + ahi está a minha vida, dizia cele. O que uma vez amei, em cada dia me + pareceu mais digno do amor; de dia para dia adiei a justiça mais santa, + a liberdade mais bella, a palavra mais sagrada, a arte mais real, a + realidade mais artista, a poesia mais verdadeira, a verdade mais + poetica, a natureza mais divina, o divino mais natural. E se me sobrasse + tempo para ir mais ao fundo d'aquillo que ignoro, sinto que as coisas + que ainda me espantam acabariam por desapparecer. Onde a inquietação se + apoderara de mim, o enygma se decifraria por si mesmo. Eu repousaria na + luz. +</p> +<p> + São os homens que podem extrahir do seu passado a lição que encerram + essas formosas palavras os que teem direito de vir fallar-nos do seu + passado. Os que não teem como lembrança dos seus dias decorridos senão o + cansaço, o desalento, a indifferença o o desdem, podem fazer um serviço + maior do que escrevel-o; é calal-o. +</p> +<hr id="salomao"/> +<p> + Concluindo não pediremos ao sr. Herculano que nos perdôe a ousada + franqueza com que lhe fallamos. S.ex.ª sabe que a unica irreverencia + criminosa diante de urna verdade que se possue consiste unicamente em + esconder essa verdade. Que ella provenha do mais obscuro dos miseraveis + ou da mais alta e mais competente das actividades, que importa? É + preciso abate-a ou deixal-a passar. S.ex.ª conhece o dialogo asiatico de + Salomão e de Marculf. Salomão é o grande rei, dotado de todos os dons, + bello, omnipotente e sabio; Marculf é um villão-ruim, um rustico + insolente e bestial. No emtanto as subtilezas populares do bobo + esfarrapado embaraçam e humilham no seu throno o poderoso e sabio rei. + Isto prova que a magnanima auctoridade e a sacrosanta lei escripta podem + não perder tudo em escutar um simples, roto e despresivel raciocinio + plebeu. +</p> +<p> + Bem sabemos que não somos nós que temos as finas subtilezas ironicas do + bobo Marculf. Mas egualmente é certo que por outro lado o sr. Herculano + tambem não é inteiramente o filho de David, rei de Israel, o que + escreveu o <i>Cantico dos canticos</i> e edificou o templo. +</p> +<hr id="pereira"/> +<p> + Ao passo que o sr. Alexandre Herculano, historiador, publica opusculos, o + sr. João Felix Pereira, opusculista, publica historia.—É a logica do + absurdo. +</p> +<hr /> +<p> + A recente obra de Felix é um resumo de historia romana traduzido do + latim. As primeiras linhas d'esta versão bastam para dar aos leitores + uma, idéa da obra. +</p> +<p> + <i>O imperio romano, menor do que o qual em seo principio, ou maior por + seo augmento em todo o mundo, de quase nenhum a memoria humana pode + recordar-se, tem principio de Romulo; o qual filho de Rhea Silvia, + virgem vestal, e, quanto se julgou, de Marte, foi dado á luz com seo + ermão Remo, d'um só parto. Elle como andasse roubando entre pastores, + chegando á edade de dezoito annos, fundou uma pequena cidade no monte + Palatino</i> ... +</p> +<p> + Tal é Eutropio—traduzido para Felix. Não faltaria agora senão uma + coisa: traduzil-o de Felix para Portuguez—se por ventura houvesse + alguem no mundo que fosse capaz de advinhar perante a lingua de Felix, + qual a grammatica com que se rege Felix, medico, engenheiro civil, + agronomo, e auctor de opusculos para instrucção da mocidade! +</p> +<p> + Não, francamente, ó Felix, vós, que tendes tantos officios—medico, + engenheiro civil e agronomo—vós, que sois na sciencia o mesmo que são + na musica os homens dos sete instrumentos, que fazem uma orchestra + batendo com todas as partes do corpo, vós que egualmente sois medico com + a bocca do estomago, engenheiro civil com os cotovellos, agronomo com o + nariz e escriptor publico com os calcanhares, porque não deixaes vós de + ser, pelo menos, um preceptor da infancia, um escriptor das escolas?!... +</p> +<p> + Em primeiro logar isso descançaria um pouco o vosso corpo, ó habilidoso + João, ó feliz Felix. +</p> +<p> + Em segundo logar pouparieis á infancia o desgosto de desaprender a sua + lingoa lendo nas aulas os vossos escriptos, os quaes a benemerita Junta + Consultiva da Instrucção Publica não deixa nunca de approvar, servindo + assim na primeira communhão dos que estudam, em vez das sagradas + particulas da sciencia, os estercos nauseabundos e venenosos das vossas + equarissages litterarias. +</p> +<p> + A verdade, encyclopedico Felix, é que vós escreveis muito peior do que + fallam os botucudos do rio Mucury e os Pelles Vermelhas, no interior dos + sertões. +</p> +<p> + A verdade é que ninguem vos entende. +</p> +<p> + Se nós houvessemos de ir estudar os rudimentos da historia romana + prefeririamos ao trabalho de interpretar o vosso compendio ir + directamente estudar a geographia antiga, a ethnologia, a geologia, a + linguistica, a archeologia, todas as primitivas fontes da historia; + ser-nos-ia mais facil, mais rudimentar, do que analysar e reduzir á + grammatica qualquer dos vossos periodos, ir á Asia Menor estudar as + epigraphes funerarias sobre as ruinas do templo de Herodes Atticus, + interpretar e comparar os textos da escripta hieroglyphica, hierotica e + demotica, os documentos originaes bysantinos e orientaes, e as + inscripções babylonicas e assyrias gravadas nas estatuas, nos + baixo-relevos, nos cylindros e nos amuletos ... Tudo isso, ó João, antes, + mil vezes antes, do que procurar entender-vos! +</p> +<hr /> +<p> + Se porém o nosso conselho vos não apraz, se quereis absolutamente + continuar a escrever compendios, em vez de seguirdes outro officio, não + nos afflijaes pelo menos, continuando a declarar-nos em cada uma de + vossas obras que continuaes sempre a ser medico, agronomo e engenheiro + civil! Se tudo isso vos não serve para ganhardes honradamente a vossa + vida sem vergonhas da grammatica dos vossos paes e do senso commum dos + vossos avós, então ponde unicamente nos vossos livros: +</p> +<div class="centered"> +<p>POR</p> +<p>JOÃO FELIX</p> +<p>BIMANE DA ORDEM DOS PRIMATAS</p> +<p>SEGUNDO DARWIN E LAMARCK</p> +</div> +<hr id="fernando" /> +<p> + O <i>Tribuno Popular</i>, folha democratica de Coimbra, referindo-se em um + notavel artigo á recente viagem áquella cidade do S.M. o sr. D. + Fernando, escreve estas linhas: +</p> +<p> + <i>«N'este intervallo a sr.ª condessa de Edlla, e o sr. infante duque de + Coimbra, acompanhados pelo sr. visconde do Seiçal e João José de Mello, + emprehendiam um passeio notavelmente pittoresco. Dirigiram-se ao caes, + entraram n'um pequeno barco, e seguiram rio acima, admirando estas + formosissimas margens, então realçadas pela luz do luar, e animadas pela + orchestra de mil rouxinoes que de ambas as margens pareciam advinharem + os espectadores nocturnos que os escutavam.»</i> +</p> +<p> + Poderosos ceos! Que teriam feito os rouxinoes para que se entendesse que + elles tinham advinhado «os espectadores nocturnos que os escutavam?!» +</p> +<p> + Cantaram o hymno da carta? Deram vivas á real familia? Perguntaram por + Melicio?... +</p> +<p> + Por Deus! que o <i>Tribuno Popular</i> nol-o diga! Queremos pedir para o + peito d'esses passarinhos a commenda de S. Thiago. +</p> +<p> + Emquanto aos srs. viscondes do Seiçal e João José de Mello, estamos + certos de que não deixaram ficar a côrte endividada com a patriotica + manifestação dos rouxinoes do Choupal. Sim, ss.ex.'as seguramente + responderam aos rouxinoes, desentranhando-se por sua parte nos mais + ternos pios, nos mais vigorosos gorgeios ... Oh! nós conhecemos a fidalga + bizarria de ss.ex.'as, Pela parte que nos toca não podemos deixar tambem + de mandar um garganteado reconhecido ás avesinhas do Mondego. Ora pois: + <i>có, có ró, có!</i> por Lisboa agradecida. +</p> +<hr /> +<p> + Sempre que em cada anno se celebra na cadeia do Limoeiro a ceremonia da + communhão aos presos, o senhor procurador regio convida a imprensa a + assistir a essa solemnidade, e a imprensa publica no dia immediato que a + cadeia está no maior aceio e que o senhor procurador regio é digno dos + maiores elogios. Porque? Porque commungaram os presos. +</p> +<hr id="monicas" /> +<p> + Ha dias lemos que a casa de detenção da comarca de Lisboa estabelecida + no antigo convento das Monicas estava no dito «maior aceio» e que o + mesmo procurador regio era digno dos referidos «maiores elogios.» Razão: + Tinham commungado os presos. +</p> +<hr /> +<p> + Ora é bom que o publico saiba de quando em quando o que são as prisões + portuguezas—quando os presos não commungam. +</p> +<p> + Nós visitámos a casa de detenção—antes da oitava da Paschoa. Eis o que + vimos: +</p> +<hr /> +<p> + Um predio frio, humido, abafado, sem ar e sem luz, espessas paredes e + pequenas janellas, a clausura mais estreita, mais escura, mais humilde. + Era no inverno. As paredes rebocadas de novo tinham grandes manchas + humidas, esverdeadas. O sol não penetrava em parte alguma do edificio. + Uma impressão de bolor e um ar em que se sentiam, resfriadas e fixas, as + exhalações peculiares da miseria, a atmosphera das enxovias + deshabitadas, as reminiscencias olphaticas dos cheiros emanados das + vasilhas de lata em que houve caldo e dos vestidos quentes dos mendigos + que apanharam chuva. +</p> +<p> + Era um domingo. Os rapazes detidos no estabelecimento, na promiscuidade + de todas as edades desde os seis annos até aos dezeseis, estavam juntos + em um estreito pateo interior, na sombra—porque tambem ali não chegava + o sol—frios, com as mãos nos bolsos, encostados aos muros, sentados ou + deitados no chão. Ninguem os vigiava. Elles porém estavam quietos—como + um rebanho no curral. Alguns tinham escrophulas. Outros tinham os olhos + doentes e os cantos da bocca feridos. Eram todos magros, pallidos, + anemicos, tristes. +</p> +<p> + Perguntamos-lhes por que esperavam. Não esperavam nada. Estavam ali. Que + faziam? Coisa nenhuma. Porque não cultivavam a quinta annexa ao + edificio, metade da qual estava cheia de hervas inuteis? Porque os não + deixavam: havia um hortelão. Porque não iam pelo menos passeiar na + quinta? Porque era prohibido. Não havia uma gymnastica? Não a havia. Não + havia de todos esses regimentos da guarnição de Lisboa um musico que aos + domingos lhes ensinasse rudimentos de musica para que tivessem uma + charanga? Não havia. Hão havia, pelo menos, um cabo de esquadra que os + fizesse marchar ao som de um tambor e lhes ensinasse o exercicio + militar? Não havia. Não havia, emfim, terra que remover, pedra que + acarretar, lenha que partir, um pau sequer espetado no chão para + treparem n'elle, uma escada de mão posta ali para subirem e descerem + por ella, uma occasião, um motivo, um pretexto, uma desculpa qualquer + para que esses infelizes pequenos se bolissem, se movessem, tivessem + alguma distracção, fizessem algum exercicio? Nada, absolutamente nada. + As lages do pateo interior da casa, pouco menos estreito que um saguão, + coberto de sombra e de frio e sobre as lages os pequenos. Era assim que + passavam os domingos. +</p> +<hr /> +<p> + Nos dias de semana trabalham em officinas terreas, sem soalho, + extremamente humidas, no mesmo pateo em que jazem nos domingos. Uns são + alfaiates, outros sapateiros, outros esparteiros. Ha sobre isto uma + escola de instrucção primaria. Não aprendem mais nada. Nada mais se lhes + ensina. +</p> +<p> + Este instituto tem uma missão especialmente moralisadora. Não ensina + moral. +</p> +<p> + Tem por fim punir e evitar as contravenções da lei. Não ensina a lei. +</p> +<p> + Tem a obrigação restricta da catechese. Não ha na prisão um padre, um + capellão, um perceptor. +</p> +<p> + Aos domingos um sacerdote diz missa e retira-se. Por essa razão entre as + attribuições dos chaveiros lemos esta disposição: «Obrigará os presos a + benzerem-se.» +</p> +<p> + Teem duas refeições por dia. Ao almoço arroz e feijões. Ao jantar + feijões e arroz. +</p> +<p> + Carne fresca ou salgada, de boi, de carneiro ou de porco nunca comem. + Nunca bebem vinho. +</p> +<p> + O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. Isto precisa de ser dito + duas vezes. O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. É o <i>menu</i> da + enxovia. Se é mau na cadeia, imagine-se o que poderá ser na casa de + correcção! +</p> +<hr /> +<p> + Dormem, aos grupos de oito, em camaratas, onde ha, em cada uma, oito + camas e uma latrina. +</p> +<p> + Na camarata não ha luz. A porta é fechada por fora á chave. +</p> +<p> + Não ha vigilancia alguma durante todo o espaço de tempo que decorre + dentro d'aquellas podridões, desde que anoitece até que rompe o sol. + Apenas, fora do corredor que dá passagem para os dormitorios, dorme um + guarda no seu quarto. Este guarda teve a bondade de nos dizer que, + sempre que havia desordens nas camaratas, elle intervinha com o rigor da + sua auctoridade por isso que, concluiu elle, <i>quem dá o pão dá o + ensino</i>. +</p> +<p> + Cremos piamente que este guarda está convencido de que quem dá o pão em + Portugal á infancia criminosa é elle. O ensino pelo menos é exclusivo de + sua mercê. +</p> +<hr /> +<p> + A direcção geral da prisão está confiada a um homem que não sabemos quem + é, nem quem foi, nem quem poderá vir a ser. O que sabemos, e isso nos + basta, é que esse director ganha—cinco tostões por dia! +</p> +<hr /> +<p> + Eis a physionomia da casa de detenção da comarca de Lisboa, contornada a + traços mathematicos, sem commentarios, sem emphase, sem exclamações + doloridas ou sentimentaes, nenhum toque artificial de luz ou de sombra + que possa alterar a exacção rectilinea do quadro! +</p> +<p> + Para isto não ha pedir reorganisação ou reforma. Não se trata de uma + velha instituição apodrecida pelos annos. É uma creação nova, que tem + apenas alguns mezes de existencia. Dá a medida exacta das forças de + sciencia, de civilisação e de moral que o paiz se acha officialmente + habilitado para dispender, no dia de hoje, em favor do progresso. Não se + póde por em quanto pedir mais nada ao paiz! Eis a sua mais recente prova + de capacidade! Eis tudo quanto elle sabe do direito criminal, da hygiene + physica e moral das prisões, das modernas colonias penitenciarias, da + educação intellectual, da educação moral, da educação religiosa, dos + deveres phylantropicos do Estado, da missão paternal do poder para com + os orphãos, da organisação do trabalho infantil, de todas as questões + finalmente ligadas á creação de um estabelecimento penal da ordem + d'aquelle a que nos referimos. +</p> +<p> + O povo, tranquillo e satisfeito, lê as folhas baratas cheias de elogios + estolidos ás mais viciadas e perniciosas instituições do paiz, e + julga-se fielmente levado para a mystica terra da promissão pelos homens + que o governam e pelos homens que o instruem. De todo o tempo esteve na + tendencia popular esta profunda fé na simplicidade ignorante. Os + primeiros cruzados que foram á Terra Santa queriam ter por guias uma + cabra e um pato; os Sabinos baixaram das suas montanhas conduzidos por + um picanço; Cadmus foi á Beotia levado por uma vacca. Em Portugal João + Felix, no livro; Melicio, no jornal; e o sr. procurador regio na casa + das Monicas, dirigem os espiritos e guiam as consciencias para o ideal. + A opinião obedece-lhes. +</p> +<hr /> +<p> + Vemos em uma conta official que nas obras feitas no convento das Monicas + para adaptar o edificio ao fim a que elle hoje se destina, se gastaram + seis contos de réis. Junte-se esta quantia á de quinze contos, preço + minimo porque poderia ser vendido o convento e quinta annexa e ter-se-ha + mais que o sufficiente para fundar em qualquer baldio da Extremadura ou + do Alemtejo uma exemplar colonia agricola penitenciaria. +</p> +<p> + Seis contos de réis, só em obras n'um edificio torto, absolutamente + impossivel de adaptação ás necessidades do trabalho, da educação e da + hygiene!... +</p> +<p> + Mas é um desperdicio, que revela a ignorancia mais crassa em similhantes + assumptos. Na magnifica colonia agricola de Mettray, perto de Tours, em + França, as creanças presas estão divididas por edades e repartidas por + casas inteiramente separadas e independentes. Cada uma d'estas casas, + de 12 metros sobre 6,66, consta de um pavimento terreo e de dois + andares. Na sala do rez do chão está estabelecida a officina. Em cada um + dos dois andares ha uma sala, que serve successivamente de dormitorio, + de refeitorio, de sala de estudo, de sala de recreação nos dias de + chuva, e em caso de necessidade de escola. Dois travessões presos ao + muro por uma dobradiça em uma das suas extremidades estão levantados ao + longo da parede dos dois lados da porta de entrada. Quer-se preparar o + refeitorio, a classe, a sala de estudo? Descem-se estes dois travessões + e suspendem-se no muro fronteiro, ficando assim firmes, na altura de uma + mesa, aos dois lados da porta, e a todo o comprimento da sala; em + seguida descem-se das paredes lateraes pranchas de madeira fixadas + n'ellas por meio de dobradiças como os travessões; estas pranchas presas + ao muro por um lado prendem-se pelo lado opposto ao travessão por meio + de uma cavilha; e estão promptas as mesas. Os bancos levam-se da + officina. Se se quer armar o dormitorio, em vez das pranchas com que se + formam as mezas, descem-se dos muros as macas em que se fazem as camas. + Ao fundo de cada um d'estes dormitorios ha um quarto aberto para a sala + em que dorme o chefe da secção, secundado pelo contra-mestre. Os + contra-mestres estão alternadamente de quarto no dormitorio, de modo que + durante a noite passeia constantemente um guarda no espaço que medeia + entre os dois travessões de que fallámos. +</p> +<p> + Cada um d'estes pequenos predios contendo quarenta e tres pessoas, + custou, incluida toda a mobilia, um relogio, toda a roupa de camas, e + toda a loiça de lavatorio e limpeza, 8:300 francos, isto é: 1:494$000 + réis. +</p> +<p> + Tres dos predios descriptos seriam muito mais que o sufficiente para + recolher todos os presos actualmente existentes na casa de detenção das + Monicas. +</p> +<p> + Temos portanto que em Lisboa se gastam seis contos unicamente em reparos + n'um velho edificio monstruoso, quando em Tours se funda para 120 presos + um estabelecimento completo, se construe um edificio modelo, provido + inteiramente de louça, de roupa e de mobilia, por menos de quatro contos + e quinhentos mil réis! +</p> +<hr /> +<p> + Em quanto ao regime e á organisação interna do estabelecimento + portuguez quasi tudo o que existe é erro. +</p> +<p> + Os presos não cultivam a quinta. Deviam cultival-a. Formar-se-hiam assim + hortelões e jardineiros. +</p> +<p> + Não cosinham, não tecem o estofo dos seus vestidos, não cozem o pão das + suas rações, não fazem a mobilia das suas casas. Tudo isso deveriam + aprender. Era facil, era economico, era moralisador, dava aos presos + novas aptidões, ensinando-os a padeiros, a tec-lões e a cosinheiros,—as + noções mais essenciaes á vida. +</p> +<p> + Não aprendem musica. Deviam aprendel-a. Uma charanga á frente de cem + rapazes em marcha faz d'elles cem homens. +</p> +<p> + Não teem uma bomba de incendios. Deviam tel-a, deviam saber manobrar com + ella. Devia-se conceder como um premio aos de melhor procedimento, + levarem a bomba aos incendios, permittindo-se por este modo aos + condemnados a faculdade de se rehabilitarem sacrificando a sua vida + pelos seus similhantes. +</p> +<p> + Não ha uma mulher dentro da prisão. É uma enorme falta para as + desgraçadas creanças de oito a doze annos. A cozinha, a lavanderia, a + enfermaria, a rouparia, coisas que alli não existem senão nominalmente, + deveriam organisar-se de um modo effectivo com o trabalho dos presos e + sob a direcção das irmãs da caridade portuguezas, que encontrariam assim + um emprego elevado e digno do seu tempo. +</p> +<p> + Só as mulheres sabem aconselhar as creanças, convencel-as da virtude; e + cumprir esta missão é mais bello e é mais meritorio perante a sociedade + e perante Deus do que mendigar por entre velhas fidalgas devotas, + embiocadas e inuteis, o pão de cada dia. +</p> +<p> + Os presos isolados no carcere celular estão na mais absoluta ociosidade + fechados n'um quarto escuro. Não ha nada que mais desmoralise, que mais + definhe e que mais corrompa. N'estes casos os rapazes deveriam ser + obrigados a rachar lenha ou a britar pedra—os exercicios mais saudaveis + para os musculos de quem está parado. +</p> +<p> + Finalmente a casa de detenção das Monicas não é sómente a negação do que + devia ser, é mais do que isso, é a affirmação contradictoria de todos os + principios oppostos aos principios verdadeiros. +</p> +<p> + Tal qual está constituido este estabelecimento, temol-o por um foco de + apodrecimentos humanos, um seminario de vicios torpes e secretos, um + curso accelerado de preparatorios infalliveis para o Limoeiro, para o + hospital, ou para o cemiterio. +</p> +<hr /> +<p> + Uma derradeira observação: +</p> +<p> + A maior parte dos presos detidos na prisão correcional das Monicas são + cumplices do crime de vadiagem. +</p> +<p> + Ora sendo aquelles presos todos menores, não tendo uma familia, não + tendo um officio, não sabendo ler nem escrever, com que direito os pune + por não trabalharem o Estado, que lhes não dá trabalho? +</p> +<p> + Que quer o estado que sejam esses pequenos para não serem vadios? +</p> +<p> + Quer que sejam medicos, tenentes coroneis, conselheiros do tribunal de + contas, escriptores publicos, capitalistas ou banqueiros? +</p> +<p> + Vamos! respondam-nos! Estamos interrogando sob o caracter mais digno de + attenção e de respeito de que se pode alguem revestir. Somos n'este + momento os interpretes inviolaveis e sagrados da infancia orphã, + desvalida e desamparada. Fallamos em nome de um pequeno que não quer ir + para a prisão das Monicas comer os feijões frios do Limoeiro, no que + está inteiramente no seu direito. É um innocente. +</p> +<p> + Todavia ninguem o chama para fazer artigos nos jornaes, ninguem o quer + para commandar a Municipal, ninguem o incumbe de tratar uma molestia, de + deffender uma causa, de montar uma fabrica ou de construir um navio. + Nenhuma viuva rica lhe offerece a sua mão de esposa. Os agiotas quando + elle passa levantam as bengalas e rangem os dentes. Não tem uma ponta de + trabalho nem um bocado de pão. Finalmente é um vadio. Agora o que elle + deseja saber é o seguinte: +</p> +<p> + O que é que o Estado lhe dá licença que seja desde o momento em que lhe + prohibe ser o que é. +</p> +<p> + Espera-se resposta. +</p> +<hr id="republicaportugueza"/> +<p> + A <i>Republica Portugueza</i>, jornal de Coimbra, exproba-nos a indifferença + que temos pela questão politica e pela forma do governo em Portugal, e + dirige-nos as seguintes textuaes perguntas: +</p> +<p> + 1.ª «A redacção das <i>Farpas</i> quer a resolução do problema economico, + quer que se preoccupem os animos com a questão social; mas sempre + quereriamos saber como isso se podia realisar, quando a formula politica + é insufficiente para garantir o direito?» +</p> +<p> + 2.ª «O problema social em sua maior amplitude é a realisação pratica da + justiça, e sendo a fórma do governo o meio adquado á sua realisação em + uma dada epoca, como poderá haver quem imagine a resolução dos + principios da justiça actual em uma fórma de governo de ha dois + seculos?» +</p> +<hr /> +<p> + Temos a honra de responder á <i>Republica Portugueza</i>: +</p> +<p> + 1.º Aquillo que a <i>Republica Portugueza</i> chama a <i>formula politica</i> não + é insufficiente em Portugal para garantir o direito que cada um tem de + estudar e resolver o problema social; essa questão póde-se tratar, com + todas as garantias da liberdade, nos livros, nos jornaes, nas camaras, + no governo; a unica razão que obsta a que isto se faça é apenas a + incapacidade intellectual ou moral dos que tinham obrigação de fazel-o. + Depois de estabelecida e firmada a liberdade politica aproximadamente + perfeita como ella existe em Portugal, a sociedade nada mais tem que + pedir ao principio politico; a sua obrigação é organisar as suas forças + industriaes e economicas e o seu systema moral para conseguir, dentro da + liberdade que tem, duas coisas de que carece: riqueza e virtude. Dada a + liberdade, a questão politica nada mais tem que dar ao povo; se elle + pede ainda á fórma de governo o remedio da sua corrupção e da sua + miseria, isso não prova senão uma triste coisa: é que o povo não está na + Revolução, está apenas na inepcia. +</p> +<p> + 2.º A resolução dos principios da justiça cabe em todas as formas de + governo. Turgot, ministro de Luiz XVI, no tempo da monarchia feudal + queria exactamente isso: a resolução dos principios da justiça. Sabe a + <i>Republica Portugueza</i> quem foi que impediu Turgot? Foi o povo. Não + somos nós que o dizemos. Proudhon, cuja auctoridade suppomos que a + <i>Republica Portugueza</i> não terá por suspeita, exprime-se n'estes termos: +</p> +<p> + «Esse reformador rigorista, traido pelo povo, queria todavia a + <i>revolução</i>—tomada de alto, feita sem estrepito, consumada quasi sem + revolucionarios.» +</p> +<p> + Ora aqui tem a <i>Republica Portugueza</i> como ha quem imagine, a solução + dos actuaes principios revolucionarios em uma forma de governo de ha + dois seculos. Quem teve a petulancia de imaginar isso, sem a previa + licença da <i>Republica Portugueza</i>, foi Proudhon. +</p> +<hr /> +<p> + Depois de nos fazer as suas perguntas, a <i>Republica</i> tem a bondade de + nos dar os seus conselhos. As perguntas satisfizemos-lh'as. Os conselhos + não lh'os acceitamos. A ingenuidade pueril das interrogativas que a + folha conimbricense nos dirige, annulla a competencia das admoestações + que nos faz. +</p> +<hr id="duaspalavras"/> +<p> + O folheto brazileiro intitulado <i>Duas palavras aos leitores das Farpas</i>, + ultimamente publicado e distribuido em Lisboa a milhares de exemplares, + tem por objecto contestar por meio dos processos aliás mais urbanos e + mais comedidos, a verdade dos factos que asseverámos ácerca da sociedade + e da civilisação do Brazil em um artigo consagrado á emigração + portugueza para aquelle imperio. +</p> +<p> + Se o escriptor brazileiro a quem temos a honra de responder tivesse + conseguido o poder alliar o alto espirito de amor patriotico, de que se + diz dominado, com a prudencia de discutir simplesmente o criterio das + nossas conclusões e não a verdade dos factos em que ellas se baseiam, + nós não teriamos duvida em estender affectuosamente o nosso silencio aos + pés triumphantes d'este sympathico patriota. +</p> +<p> + Como, exactamente pelo contrario, +</p> +<p> + São as nossas illações o que no dito libello se não contesta, e é a + verdade dos factos citados o que se combate, denunciando-nos como + fabricadores de aleives historicos phantasiados com o fim expresso de + ridicularisar o grande imperio,—o que se parece demasiadamente a nossos + olhos com a denegação da nossa probidade e com a suspeita de que + mentimos, +</p> +<p> + Soffrerá o auctor do folheto citado que nos permittamos fazer-lhe + sentir, em algumas linhas rapidas, que as <i>Farpas</i> não são inteiramente + uma creação poetica e phantasista. +</p> +<p> + Não, nós não temos o distincto prazer artistico de ser <i>As fabulas de + Florian</i>, nem tão pouco os <i>Contos de Perrault</i>. +</p> +<hr /> +<p> + Examinemos a qualidade dos argumentos com que o opusculo a que nos + referimos tem a bonhomia de suppôr que nos desdiz. Tomemos tres dos + pontos mais importantes para a civilisação do Brazil: <i>A producção e o + commercio, a instrucção publica, o trabalho e a industria</i>. +</p> +<hr /> +<p> + Emquanto á producção e ao commercio nega o auctor que o valor annual das + substancias alimenticias importadas pelo Brazil seja, como nós + affirmamos, equivalente ao da quarta parte da sua exportação. Para este + fim dá-nos a estatistica da importação das substancias alimenticias + durante os ultimos annos, attesta que ella é inferior e não equivalente + á quarta parte do valor exportado; com tal fundamento accusa-nos de + fabricarmos puras invenções; e depois de tres paginas de recriminações + acerbas, conclue assim: +</p> +<p> + «Não quererão decerto considerar como substancias alimenticias o vinho, + o chá, o café, o azeite, as bebidas espirituosas e fermentadas etc., + porque essas sim talvez reunidas áquellas (peixes, carnes, farinhas, + manteiga e sal) dessem essa tal quarta parte da exportação.» +</p> +<p> + Quer isto dizer: +</p> +<p> + O Brazil não tem duvida em nos convencer de tudo o que se pretenda a + respeito do estado em que se acham as suas forças productivas, bem como + a proporção existente entre a exportação e a importação no seu + mercado—com uma simples condição—e é: que se lhe concedam alguns + pontos de partido na arithmetica do seu calculo. Trata-se, por exemplo, + da importação de substancias alimenticias no valor de trinta mil contos + annuaes; deseja o Brazil, afim de nos convencer de que illudimos a + verdade, que a dita importação seja apenas de dez mil contos ... Nada + mais simples! O Brazil vae juntando successivamente as suas parcellas de + substancias alimenticias importadas até chegar á prefixada somma dos dez + mil contos. D'essa quantia para cima o Brazil começa a considerar as + substancias alimenticias, como não sendo—substancias alimenticias. +</p> +<p> + Registrou a importação do sal, da manteiga, da farinha, dos peixes e + das carnes, e achou dez mil contos; faltava-lhe, é verdade, registrar + ainda o vinho, o chá, o azeite, as bebidas fermentadas, o vinagre, as + fructas, os legumes etc; o Brazil porém espera que nós consideremos + estas coisas como não sendo generos alimenticios. Elle pede-nos isto, + espera isto de nós, e, para nos convencer de que estamos no erro mais + vil e mais torpe, elle não quer outras armas! não precisa senão d'isto: + que se lhe admitta que o vinho não é senão, por exemplo, simples + <i>producto de gutta-percha!</i> o chá, o azeite, o vinagre, a cerveja ... + puros <i>tecidos de algodão!</i> os queijos, os alhos, as cebolas, os figos, + as passas ... mera <i>perfumaria!</i> +</p> +<hr /> +<p> + Pelo que respeita á instrucção publica, diz-nos que o numero dos que + sabem ler não está, como nós dissemos, na proporção de 1 para 90 + habitantes, mas sim na de 1 para 68. Sómente na estatistica official de + que se extráe esse dado, o governo brazileiro não conta, como homens que + habitam o Brazil, os escravos, cujo numero pode todavia ser calculado em + cerca de tres milhões, não diremos de habitantes, mas, emfim, de + cabeças. O auctor accrescenta ainda, para nos convencer dos progressos + da instrucção no Brazil que as escolas de instrucção primaria que ali + existem são na proporção de—1 para 3:021 habitantes <i>livres</i>; além do + que ha ainda no Rio de Janeiro varias corporações scientificas e + sociedades sabias, entre as quaes <i>As duas palavras aos leitores das + Farpas</i> nos citam as seguintes: <i>associação commercial, sociedade + musical de beneficencia, sociedade auxiliadora da industria, associação + typographica, instituto pharmaceutico</i>, e finalmente a famosa + <i>associação dos guardas livros, sociedade jockey-club, tendo por fim + promover o melhoramento da raça cavallar</i>. +</p> +<p> + É realmente indigno, em vista de similhantes factos, que alguem se + tivesse lembrado, como nós, de deplorar a defficiencia da illustração no + Brazil, onde ha uma escola para cada 3:021 habitantes <i>livres</i>, e vinte + <i>sociedades sabias!</i> +</p> +<p> + Que nos perdoem os grandes propagadores da sciencia, que nós + desconheciamos antes da publicação d'este folheto! Que nos perdoem os + senhores musicos, os senhores typographos, os senhores pharmaceuticos, e + sobretudo suas senhorias os senhores guarda-livros do <i>jockey-club</i>, + encarregados do melhoramento da raça cavalar! +</p> +<p> + No tocante á industria, aos dados da estatistica official que nós + publicamos e dos quaes se deduz que tal ramo da actividade humana é + quasi nullo no Brazil, oppõe o nosso contendor as seguintes animadoras + palavras extrahidas de um <i>Retrospecto commercial de 1872</i>, publicado no + <i>Jornal do Commercio</i>: +</p> +<p> + «Em quanto a emigração nos não trouxer levas sobre levas de operarios e + de artistas, a industria manufactureira conservar-se ha como que + apertada em um circulo estreito.» +</p> +<p> + Logo: nós inventamos os factos para «achincalhar» o imperio. A + estatistica official da qual copiamos que em 1859 o numero dos + industriaes brazileiros era apenas o da quinta parte dos industriaes + extrangeiros residentes no Brazil, é falsa. A verdade suprema ácerca da + industria indigena na America brazileira é que: É enorme e poderosissima + a força expansiva do seu desenvolvimento. E tanto que, segundo os seus + mais enthusiastas apologistas, ella vive «como que apertada em um + circulo estreito.» +</p> +<p> + Do que tão clara e positivamente expuzemos ácerca da organisação + viciosissima das differentes colonias agricolas no Brazil, das + atrocidades pavorosas da feitoria do Mucury, dos textos tão expressivos + que sobre este ponto reproduzimos dos relatorios enviados aos governos + da Suissa e da Alemanha pelos seus delegados no Brazil os srs. Tschudi e + Avé-Lallemant, acha bem o auctor das <i>Duas palavras aos leitores das + Farpas</i> não discutir nem contestar palavra nenhuma. Diz-nos apenas que + pediu sobre esse assumpto, o mais importante do nosso artigo, + informações officiaes, que publicará logo que lhe cheguem do Rio de + Janeiro. +</p> +<p> + Se espera esclarecimentos que desmintam os factos que nós referimos, não + os terá nunca. A verdade é unicamente o que dissemos. As <i>Farpas</i> não + fizeram mais do que historiar realistamente, sem declamações e sem + objurgatorias, as causas que levaram a Suissa e a Baviera a prohibirem a + emigração para o Brazil, e a proclamarem officialmente como catastrophe + a colonisação agricola do solo brazileiro por trabalhadores europeus. +</p> +<p> + Em refutação do que affirmamos sobre a frequencia dos casos de alienação + mental no Rio de Janeiro, diz-nos a obra que analysamos e estamos + transcrevendo nas suas mais importantes partes, que apenas consta ao seu + auctor um facto isolado em abono da nossa affirmativa, sendo certo por + outro lado, segundo elle mesmo assevera, que no Rio de Janeiro existe um + hospital de doudos sumptuosissimo e talvez no seu genero o primeiro + estabelecimento do mundo. +</p> +<p> + Ora, para aniquilar inteiramente a opinião de que é grandissimo o numero + de alienados no Rio de Janeiro, não basta dizer-se-nos que um vastissimo + e monumental hospicio de doudos existe n'aquella côrte; importaria + certificar tambem que as pessoas que enchem esse edificio estão—em + pleno uso das suas faculdades. +</p> +<p> + O que no entanto se nos não põe em duvida é que esse hospital está + muitas vezes cheio. Pois bem, n'esses casos, um nosso compatriota + alienado,—como a colonia portugueza não possue estabelecimento especial + para o receber—é recolhido na cadeia. +</p> +<p> + Lembra-nos que, ha cêrca de um anno, lêmos em um jornal a noticia de um + d'estes casos; o portuguez doudo, recolhido na cadeia por falta de outro + asylo estava á disposição do nosso vice-consul na Praia Grande. Este + facto basta para nos indicar qual é a praxe seguida com os portuguezes + pobres atacados de alienação mental. É natural que existam mais casos da + natureza do que citamos; nós desconhecemol-os, porque nunca tivemos a + vantagem de visitar o Brazil, não recebemos informações nem suggestões + de ninguem que ali esteja ou tivesse estado: os nossos conhecimentos a + respeito do imperio americano são o resultado da leitura dos poucos + documentos officiaes publicados em Portugal e dos escriptos de alguns + viajantes suissos, allemães e francezes. Se não adoptamos, em vez do + testemunho d'estes viajantes o que nos podessem ministrar escriptores + brazileiros, a razão é unicamente que os publicistas do Brazil, tão + sonoros na poesia, são inteiramente mudos na critica que nos instrua do + estado da civilisação na sua patria. +</p> +<hr id="carvalho"/> +<p> + Tocaremos tambem o ponto em que o auctor do opusculo brazileiro + contraria a nossa opinião ácerca da inanidade diplomatica do sr. Mathias + de Carvalho, actual ministro portuguez junto de S.M. o imperador do + Brazil, com o fundamento de que este funccionario tem sabido sempre no + seu cargo captivar inteiramente os applausos da nossa colonia. +</p> +<p> + Se um diplomata deve ser julgado pelos seus actos em serviço do paiz que + representa e não pelos applausos que o seu publico lhe confere, o actual + ministro portuguez no Brazil é uma pessoa extremamente sympathica, mas + inutil. Conseguiu um tratado de extradicção, cuja historia se acha + resumida nas seguintes datas que extrahimos do <i>Livro Branco</i>: Em 7 de + junho de 1859—começa a negociação o encarregado de negocios interino no + Rio de Janeiro. No fim do mesmo anno—prosegue o sr. Mathias de + Carvalho. Em dezembro de 1871—principia negociações para um egual + tratado o encarregado de negocios do governo hispanhol. Em abril de + 1872—terminam as negociações com a Hespanha. Em junho de 1872—é + assignado o tratado com Portugal. O diplomata hispanhol consegue em + quatro mezes o que o ministro de Portugal só pôde alcançar em tres + annos! E ainda se não fez nem o tratado de commercio nem a convenção + postal, nem a convenção litteraria! +</p> +<p> + Se, pelo contrario, não são os actos do funccionario, mas sim os + applausos do publico que determinam os merecimentos do diplomata, n'esse + caso achamos preferivel ao sr. Mathias de Carvalho—a sr.ª Emilia + Adelaide. +</p> +<hr /> +<p> + Por ultimo declaramos ao auctor do folheto intitulado <i>Duas palavras aos + leitores das Farpas</i>, aos leitores das <i>Farpas</i>, e ao mundo, o seguinte: +</p> +<p> + 1.º Nem um só, nem um unico facto asseveramos a respeito do Brazil, que + antes de nós não tivesse sido clara e positivamente affirmado na + imprensa da Alemanha, da Suissa e da França, por differentes viajantes, + entre os quaes citamos especialmente como fonte de todas as nossas + informações os srs. Adolphe Dacier, Waldemar Schultz, Elisée Reclus, + Tschudi e Avé-Lalemant. Os leitores decidirão quaes affirmações merecem + mais fé: se as que são feitas pelos viajantes citados, em livros + propriamente scientificos devidamente assignados, e em relatorios + especiaes apresentados pelos auctores aos governos dos seus respectivos + paizes; se as que nos são propinadas no libello intitulado <i>Duas + palavras aos leitores das Farpas</i>, por um patriota brazileiro ... e + anonymo! +</p> +<p> + 2.º Não estamos resolvidos a subordinar a opinião de que nos acharmos + convencidos, nem á vontade, nem aos conselhos, nem ás ameaças de + ninguem. Se Deus não fosse a absoluta verdade, a verdade estaria acima + de Deus. Como querem então que a prostremos debaixo dos <i>syllabus</i> do + Catete ou das <i>bulas</i> da rua do Ouvidor?! +</p> +<hr /> +<p> + Se porém, apezar de tudo isto, a joven America brazileira se parece + tanto com a rainha Fulvia que lhe seja absolutamente preciso para a sua + felicidade varar-nos a lingua com o seu prego de oiro, como fez a Cicero + a mulher de Marco Antonio, que a America se não incommode a escrever + para isso mais folhetos. Venha o prego. Aqui está a lingua. +</p> +<hr id="highlife" /> +<p> + As «corridas» do Campo Grande—Extraordinario successo de dandysmo! +</p> +<p> + Não assistimos, mas lemos que esteve o <i>high-life</i>, o famoso + <i>high-life</i>, com o qual temos sempre o infortunio de nos desencontrar! +</p> +<p> + Estamos todavia d'aqui a vêl-o, a imaginal-o, rico, elegante, bello, no + Campo Grande, em volta do lago—o <i>high-life</i> ... +</p> +<p> + A aristocracia nos seus <i>landeaux</i>, com enormes cocheiros gordos, de + barrigas de pernas phenomenaes e bizarras. +</p> +<p> + A alta finança em carroagens de posta com os senhores na almofada, e os + creados, recamados de galões de ouro, dentro da berlinda, immoveis, + empoados, descobertos, com os tricornes na mão. +</p> +<p> + Os diplomatas, nedios, sorrindo na doce bestialidade espirituosa de quem + sente no paladar os succos perfumados de uma aza de codorniz <i>truffada,</i> + repimpados em <i>daumonts,</i> com uma <i>carvajal</i> nos beiços e uma marta + zibelina debaixo dos pés. +</p> +<p> + A galanteria, com as suas representantes de cabellos côr de manteiga e a + pelle especial dos estranhos climas do <i>cold-cream,</i> da decocção indiana + aromatica e tonica, e da balneação mucilaginosa do leite de morangos e + de <i>ess-bouquet,</i> dentro dos seus <i>broughams</i> ou em pequeninos coupés de + flecha e oito molas, levando ao lado no logar devoluto da carroagem um + ramalhete de cem francos ou um microscopico <i>kings' charles,</i> + descendente, aperfeiçoado em pequenez, da cadellinha que Henrique III + trazia mettida na manga ... +</p> +<p> + Depois os picadores, de librés verdes, os batedores de encarnado, os + postilhões, as <i>victorias</i>, as <i>americanas</i>, os <i>poney-chaises</i> ... os + <i>grooms</i> em finos cavallos inglezes, nervosos, descarnados, de olhos + scintillantes e ventas altas, abertas, redondas, frementes. Os + <i>sportmen</i> em <i>breaks</i> ou em <i>dog-cart</i>.... +</p> +<p> + Sente-se o fluxo e o refluxo do grande luxo, a maresia da elegancia. + Respira-se entre as arvores um ar empregnado de fina perfumaria, como + n'um salão. Vae-se a passo por causa da agglomeração das carroagens e + dos cavallos. De quando em quando succede mesmo que os cocheiros se + empinam de repente para traz, e que se é obrigado a parar. +</p> +<p> + Ouve-se então o respirar dos cavallos, o ranger dos arreios e os finos + ditos que partem do fundo dos <i>coupés</i>. +</p> +<p> + De carroagem para carroagem trocam-se as palavras que fazem estremecer, + e encontram-se os olhares que fazem scismar. +</p> +<p> + Por baixo dos guardas-soes de seda branca mostram-se as cabeças loiras + das mulheres, que estão de costas para nós, deixando vêr a nascença dos + seus cabellos penteados para a nuca, tocados de sol, luminosos como fios + de ambar. Cada mulher que passa traz comsigo a excitação particular do + seu genero de belleza. Umas reveem as finuras do amor moderno, + calculado, scientifico. Outras inclinadas para traz, dormentes, + languidas, obrigam a phantasiar as caricias orientaes. +</p> +<p> + As sedas, cingindo a curva do peito e caindo em pregas quebradas de + reflexos, as sedas da moda, de tons verdes aquaticos, dão ás mulheres + esveltas a côr das visões dos lagos, das heroinas das legendas druidicas + e dos cantos de Ossian. +</p> +<p> + Sob a palpitação dos leques sentem-se estremecer no espaço correntes + aerias de volupluosidade indefinida. +</p> +<p> + Pela estreitesa das testas, pela espessura dos beiços, pela carne + polpuda das pequenas orelhas, pelas frias expressões do olhar indagador + e critico, percebe-se porém que essas delicadas creaturas que passam, + ondulantes e harmoniosas como sereias, teem o bom gosto pratico de + preferirem aos suspiros de Fingal e de outros bardos os camarotes na + opera, os fofos <i>coupés</i>, os quentes <i>cachemires</i>, e os finos jantares. +</p> +<p> + Pela qual razão vae cada um pensando vagamente em se lançar nas + finanças, no jogo doa fundos, nas grandes companhias, nos emprestimos ao + governo, nos bancos, no dinheiro em fim, no vasto dinheiro, no profundo + dinheiro illimitado ... +</p> +<p> + E em quanto as carroagens esperam ou rodam em volta de nós, os + cavalleiros passam, e as <i>toilettes</i> scintillam, a pobre natureza ao + longe, nas collinas, parece envergonhada na sombra das suas arvores, na + humildade dos seus limos e dos seus musgos, porque ella é verdade que + tem os altos montes e os fundos mares, tem o Niagara e o Etna, mas não + tem os braceletes de Sampere, as luvas de oito botões, e as rendas de + Malines! +</p> +<p> + Tal é o perfil das «corridas»; tal é o <i>high-life</i>. +</p> +<p> + Dizem as folhas que elle esteve no Campo Grande, e nós piamente o + crêmos.—Pelo que, d'aqui enviamos os nossos parabens ao <i>Collete + Encarnado</i>. +</p> +<p> + Não se inscreveram no Derby lisbonense os Hamilton, nem os Lagrange, nem + os Rothschild, nem os Mouchy, nem os Dudley Stuart. Inscreveram-se + apenas, com os seus trens, o João Russo e o Chico Perfeito, cocheiros da + praça.... <i>Alea jacta est!</i> +</p> +<p> + Elles partem nos seus fiacres, ao trote.—<i>Montjoie et Saint-Denis!</i> +</p> +<p> + O Russo venceu o Chico com a distancia do comprimento de uma pileca. + <i>Hurrah!</i> +</p> +<hr /> +<p> + Muito devemos esperar, para a civilisação e para o dandysmo, da boa + estreia d'estes hyppicos torneios especialmente destinados a apurarem em + Portugal a famosa, a incomparavel, a unica raça ... das tipoias! +</p> +<p> + Parabéus a todo o <i>Sport</i> europeu, e ao nosso defunto Lagoia! +</p> +<hr id="magdalena"/> +<p> + Hontem no theatro de D. Maria—primeira representação da <i>Magdalena</i>, + especie de <i>Dalila</i>, de Octave Feuillet, localisada entre o Arco do + Bandeira e o da Rua Augusta, como presente malicioso de Pinheiro Chagas + ás curiosidades do <i>chic</i>, na Baixa. +</p> +<hr /> +<p> + N'este drama ha tres typos principaes: +</p> +<p> + <i>O amante</i>—Um Hamlet de aldeia, um Conrado, um cavalleiro negro—de + Figueiró dos Vinhos. Dandy melancholico, como um Satanaz em uso de + figados de bacalhau. Um Alcibiades quebrado. Um pallido cherubim + portador de uma paixão e de uma tenia. Typo lamartiniano, o anjo caturra + da velha ode, a personalisação do antigo amor lyrico—sob os symptomas + lancinantes e urgentissimos da colica. +</p> +<p> + <i>A noiva</i>—Menina educada no convento. Creada com doces de freiras e com + livros de versos. Organisação de ovos de fio e de romances baratos. Amor + e dispepsia. Pouco cerebro e muita cuia. Não faz saborosos coscorões, + não deita alvas teias de linho nem gordas ninhadas de perus como sua + mãe, casta e sabia Penelope. Ella corta a serena tradicção burgueza e + rural da familia. Despresa com ascos as conservas do lombo de porco em + vinho e alhos. Cultiva a orthographia e a arte poetica com mais + disvello, mas menos proveito que aquelle que sua mãe tira do cultivo + modesto das alfaces, das finas hervas, dos primores horticolas. Não ama + finalmente senão uma coisa—o talento!... Pobre rapariga! desditosa + burgueza! que esteril e que perigosa idolatria a tua! O <i>talento!... a + divina inspiração!... o supremo encanto!..</i> Coitada! se acreditas + n'isso, estás perdida. A tua imaginação doente entregar-te-ha submissa, + humilhada, ridicula, ao primeiro noticiarista de <i>soirées</i> que te + appareça, á primeira <i>bas-bleu</i> que te escreva cartas, ou á primeira + actriz que te beije e abrace. O talento!... Mas não ha nada + verdadeiramente respeitavel senão o trabalho, a abnegação, a + perseverança, o sacrificio e a virtude. O talento é uma simples + fanfarronada. O talento é uma invenção dos bohemios para substituirem a + <i>toilette</i> e a roupa branca. O talento é um falso titulo clandestino de + apresentação, fabricado por aquelles que não teem titulos legitimos para + que a sociedade os receba. Fazer-se passar como «tendo talento» é um + meio de cada um se eximir a que lhe perguntem se «tem caracter.» O + talento finalmente é o seguinte typo d'esta peça: +</p> +<p> + <i>A amante do noivo</i>—Uma actriz que foi educada no convento com a noiva + o que, passados annos, a noiva recebe em sua casa com reconhecimento, + com adoração, com enthusiasmo, apezar da actriz não ser senão uma + <i>lorette</i>; uma artista <i>aux camelias</i>; grande genio de <i>petit-lieu</i>; + celebridade baptisada com <i>Champagne</i>, entre rapazes, depois das ceias, + em gabinetes reservados. Um martyrio, se quizerem, mas um martyrio que + exige um bracelete e uma nota do banco para se estender na sua cruz. Uma + paixão, se isso lhes apraz, mas uma paixão Rigolboche, que se concilia + com o <i>cancan</i>, que adopta a arte para canalisar o vicio, que nunca + chega ao fel do seu calix por que o tem sempre cheio de Malaga ou de + <i>pale-ale;</i> que pede uma mortalha, mas talhada por Worth, á Rabagas, com + rendas de vinte libras o metro. Uma Magdalena emfim, mas uma Magdalena + penetrada do peccado moderno, barato, para todo o mundo, cheirando aos + sitios publicos, ao tabaco de fumo, á cerveja azeda e ao gaz + extravasado. +</p> +<p> + <i>O drama</i>. O noivo acha que <i>Tant-de-charmes</i> é mil vezes mais + interessante do que <i>La-vertu-même</i>. Por tanto o noivo abandona a noiva + virtuosa e corre atraz da amante impudente. A burgueza abandonada vae + então chorar aos pés da comica. Esta resolve devolver-lhe o noivo com + tanto mais vontade quanto é certo que o noivo é a semsaboria toda d'este + mundo na figura insignificante de um provinciano piegas, em primeira mão + de conquista, que desmaia de puro amor ao declarar a sua chamma,—de + sorte que é preciso gastar tanto com elle em sal ammoniaco para lhe + restituir os sentidos quanto elle gasta em rhetorica para os fazer + perder aos outros. +</p> +<p> + O noivo pois regressa para a noiva. A actriz faz uma phrase. E o panno + cáe. +</p> +<hr /> +<p> + Ha n'esta peça uma personagem secundaria, sem acção nenhuma no enredo e + no desenlace, para a qual nos parece um bom serviço á moral o chamarmos + a attenção do publico. É uma burgueza que apparece no segundo acto em + casa da noiva, onde está hospedada a actriz. Essa pessoa, de notavel + juizo, que diz coisas justas a respeito das creadas e dos arranjos da + casa, apenas sabe que ha na reunião para que a convidaram uma mulher + cujos appelidos e cujos diamantes não se sabe d'onde procedem, toma sem + mais cogitações o braço de seu marido, deseja á dona da casa o juizo que + lhe falta, e retira-se em pleno escandalo. +</p> +<p> + O publico ri, e tanto na scena como na sala é um pouco apupada esta + <i>ménagére,</i> que se declara abertamente incompativel, dentro do mesmo + recinto e debaixo dos mesmos tectos, com uma actriz <i>cocodette</i>. +</p> +<p> + Pois bem: é essa mulher que se vae embora—notae-o bem, minhas queridas + burguezas!—é essa mulher que se vae embora, a que ahi, deante de vós, + está dando o unico exemplo que deveis seguir. Todas as demais pessoas + d'esta peça teem o lyrismo, a eloquencia, a convenção litteraria; só + esta é que inteiramente possue a verdade e o juizo. +</p> +<p> + O que todas vós tendes que fazer perante a concorrencia e o cotejo a que + vos queiram sujeitar com as mulheres artistas, celebridades no mundo do + theatro ou no <i>demi-monde</i>, é tomardes o braço dos vossos maridos e + sairdes com elles. +</p> +<p> + Os maridos portuguezes estão pessimamente educados; foram creados com + as operas de Verdi, com os romances de Chateaubriand, com as poesias de + Lamartine e de Musset; teem o systema nervoso exaltado, a imaginação + plethorica, o temperamento irritado, e o juizo das coisas praticas + derrancado ou extincto. +</p> +<p> + As creaturas artificiaes, morbidas, irritantes pelos poderosos + contrastes do desvergonhamento da alma e das finas delicadezas da pelle, + serão sempre as que dominarão os homens corruptos e que os levarão + comsigo. Ellas teem um prestigio de vicios triumphantes, de elegantes + indolencias, de altos desdens, de serenas voluptuosidades perennes, com + que vós, mulheres honestas, dignas, impeccaveis, não podereis nunca + luctar. +</p> +<p> + Vós tendes o sentimento real que ri em grossas gargalhadas ou que incha + as palpebras e engrossa a pelle com o correr das lagrimas: ellas teem a + sentimentalidade correcta dos pasteis de Latour ou das porcelanas de + Saxe—inalteravel mimo de galeria ou de étagère. +</p> +<p> + Vós tendes a forma das vossas mãos um poueo affastada do ideal de + Praxiteles pelos habitos honestos da vida activa, do trabalho; algumas + vezes a ponta do vosso dedo está picada pelo bico da agulha: ellas teem + as mãos finas, afiladas, pallidas, transparentes, que obrigam a sonhar + estranhas caricias e que são o resultado de quinze annos de ociosidade + estupida de serralho, de chloroses e de massas de amendoas. +</p> +<p> + Vós tendes uma passagem de miudos e pacientes pontos n'um dos vincos do + setim dos vossos sapatos: ellas teem uns sapatos por noite e umas luvas + por dia. +</p> +<p> + Finalmente vós sois a probidade e o decoro. Ellas são a dissipação e o + vicio. +</p> +<p> + Ora os homens educados pela sociedade, por si proprios, e em grande + parte por vós mesmas, minhas senhoras, nas corrupções litterarias e + poeticas, nos falsos ideaes epidemicos do sentimentalismo, da + melancolia, da paixão, dos amores fataes, os homens assim educados, + quando lhes acorda o temperamento e a imaginação, começam—por enjoar a + virtude. +</p> +<p> + Não queiraes reagir. Vede bem. A lucta humilha-vos e deshonra-vos. + Evitae-a. O espirituoso drama do nosso amigo Pinheiro Chagas é um grande + aviso, maior talvez do que o auctor suppunha: As <i>Magdalenas</i> não sobem + as escadas das casas em que ha mulheres honestas. +</p> +<p> + E então os direitos do talento? E as rehabilitações pelo amor?... +</p> +<p> + Oh! meus senhores, mas desde 1830 que os romancistas e os dramaturgos + pouco mais teem feito do que procurar convencer a sociedade d'esses + direitos e d'essas rehabilitações, ao passo que a sociedade tem + constantemente e invariavelmente refutado sempre os romancistas e os + dramaturgos! +</p> +<p> + Não lhes parece que vae sendo tempo de darmos a velha questão por + discutida?... +</p> +<hr /> +<p> + Não! não é para que nos tragam o premio da austeridade e da virtude! Não + somos nós os que fugimos para a Thebaida, a flagellar o nosso pobre + corpo, ao aspecto das peccadoras espirituosas a cujos pés passou a sua + vida, em extase, a geração litteraria que nos precedeu. Sómente para que + levemos a essas damas a visita da arte, achamos de bom gosto deixar + arejar um pouco os tapetes em que estiveram por tanto tempo prostrados + os nossos antecessores. +</p> +<hr id="espolio" /> +<p> + Chegamos do palacio das Janellas Verdes. Vimos de assistir ao leilão do + espolio de sua magestade a imperatriz, ultimamente fallecida. +</p> +<p> + Grandes salões enormes, altos, quadrados, angulosos,—á marquez de + Pombal. +</p> +<p> + Nas salas de honra, estofos de damasco e moveis do primeiro imperio, no + estylo chato, <i>parvennu</i>, pretencioso, mas rico, do seculo de Bonaparte, + esse Luiz XIV de caserna. +</p> +<p> + Mesas, sophás, tremós, de fórmas rectangulares, riscados pela regoa, + guarnecidos de columnas parallelas, de capiteis de bronze.—O que quer + que seja de fortaleza, de baluarte, de ariete, de escudo, e de templo do + genio! +</p> +<p> + As guarnições de chaminé, as taças, os candelabros, os lustres—tudo + bronze, macisso, pesado. +</p> +<p> + As pendulas doiradas são rematadas pela aguia imperial ou por assumptos + de fria inspiração bucolica bebida com assucar e agua de flôr de laranja + na contrafeita natureza dos parques de Versailles delineados a cordel. +</p> +<p> + Uma multidão compacta, plebeia, suada, conservando os chapeus na cabeça + e os cigarros nos beiços, cuspindo nas alcatifas, limpando com o dedo + molhado em saliva o pó das tellas e das estatuetas, ou apoiando a sola + da bota nas almofadas das poltronas para tomar notas sobre o joelho, + enche os salões e vae deitando os lanços. +</p> +<p> + O pregoeiro—<i>Uma mesa offerecida pelo imperador Napoleão I, o grande!</i> +</p> +<p> + Um adelo—<i>Ponha lá uma libra por ter sido d'esse sujeito ... e, em fim, + porque é de mosaico!</i> +</p> +<p> + Os licitantes animavam-se, os preços subiam, os objectos em praça eram + rapidamente adjudicados ao maior lanço, e tudo quanto enchia aquellas + regias salas ia successivamente passando para o povo que as invadia. +</p> +<p> + Não era sómente um leilão aquillo, era uma liquidação pronta e solemne + dos ultimos restos de um imperio extincto, de um cesarismo arruinado e + fallido, de um mundo inteiramente acabado e desfeito.—Extranho + espectaculo, de tal modo significativo que era quasi doloroso! +</p> +<hr /> +<p> + Passa-se aos aposentos particulares da imperatriz. +</p> +<p> + Lá fóra, nos salões, revelava-se uma epoca poderosa. +</p> +<p> + Aqui transparece apenas uma individualidade feminil, delicada e modesta. +</p> +<p> + N'estes quartos em que a viuva de D. Pedro IV se conservou por tantos + annos recolhida e occulta n'uma clausura inviolavel, sente-se + perfeitamente a sua personalidade em todos os detalhes da existencia. + Nenhum aspecto de luxo, de pretenção ou de apparato. O chão é coberto + com simples esteiras; todos os cortinados são de cassa branca, e todos + os estofos de chita em pequenos ramos de flôres sobre fundos pallidos. + Os aposentos estão cheios de étagères de todas as fórmas, com todas as + disposições. Pequenas bibliothecas e pequenos armarios, dispostos por + toda a parte. Uma infinidade de mezinhas de escripta, de leitura, de + costura ou de bordado. Cadeiras de todos os formatos e das mais diversas + proporções, sem nenhum estylo, sem genero artistico, sem época, sem o + minimo lavor, sem concessão alguma á elegancia ou á simetria—uma + visivel exigencia da vida sedentaria e doente, a necessidade physica de + mudar a todo o momento de posição, para deslocar a sua dôr, para + motivar o seu pequeno exercicio e povoar por si mesma, com as suas + diversas attitudes a sua solidão. Defronte das janellas ha pequenos + biombos de chita franzida para impedir as correntes de ar, formando uma + especie de kiosques, subdivisões minimas de abrigo e de recolhimento. Ha + muitas estantes de leitura, mezas de desenho ao crayon ou á aquarella, e + uma caixa cheia de lapis aparados, de diversas côres e de differentes + numeros. Uma grande secretária, larga pesada, lisa, e defronte d'ella + uma enorme poltrona ingleza, estofada de carneira escura, usada, tendo + aos pés uma almofada esfarpada e gasta. Era a cadeira em que a + imperatriz se sentava ordinariamente, e que se vê em todos os seus + ultimos retratos. Sobre uma mesa apparece um Christo, antigo, + marchetado, trazido de Jerusalem, deante do qual, por muitas vezes, + decerto, se ajoelhou a imperatriz. Ao lado d'esta sagrada imagem e como + diversão á gravidade do seu dolorido e pallido aspecto encontrámos + dentro de uma caixa aberta um instrumento de uso demasiadamente intimo + de Sua Magestade, o qual objecto suppunhamos que não era licito expôr em + publico senão como accessorio da scena triumphal do ultimo acto do + <i>Malade imaginaire</i>, ou como vinheta illustrativa nas obras de Avicena: + ao lado do aphorismo, <i>Medicamen clister nobile est</i>. +</p> +<p> + E aqui suscita-se-nos o meditar, diante d'esta caixa aberta, quaes serão + os principios politicos de suas excellencias os executores + testamentarios da fallecida soberana. +</p> +<p> + Porque, realmente, não nos occorre como os possamos classificar.... +</p> +<p> + Se são republicanos, democratas, socialistas, suas excellencias deveriam + saber que nunca se abrem as caixas reservadas da <i>toilette</i> de uma + senhora. +</p> +<p> + Se são monarchicos, deveriam comprehender que n'estes tempos de + discussão implacavel é perigoso para o prestigio das testas coroadas + denunciar aos povos, por via de uma imprudencia de suas excellencias, + que se os soberanos que os governam estão por um lado tanto acima + d'elles pelo direito divino, não são por outro lado mais que seus + simples eguaes pelo direito therapeutico, e que finalmente pode ser um + novo e terrivel argumento inesperado em favor da egualdade dos homens—a + constipação intestinal dos principes! +</p> +<hr /> +<p> + O pregoeiro do leilão é acompanhado pelo sr. barão de S. George, consul + da Suecia e representante de Sua Magestade a rainha, irmã da imperatriz + fallecida. +</p> +<p> + O sr. consul faz a historia de alguns objectos postos em praça, garante + a sua authenticidade historica, e encarece com tocantes discursos o + valor de cada coisa. +</p> +<p> + S.ex.ª o sr. barão, delegado de sua magestade a rainha da Suecia, em + beneficio da qual se faz a venda em hasta publica do espolio de sua + irmã, attesta-nos que tal cama é a mesma em que dormia na sua tão breve + mocidade sua alteza serenisssima a princeza do Brazil; tal chavena + aquella por que Sua Magestade bebia os seus remedios; taes bonecos os + mesmos com que a infeliz infanta D. Amelia brincava em pequenina, e que + sua mãe conservava como um piedoso penhor de saudade! +</p> +<hr /> +<p> + Graças a todos estes preciosos esclarecimentos, amavelmente dados por + s.ex.ª o consul á multidão dos licítantes, dos adelos, dos ferro-velhos + e dos cabeças de pau, Sua Magestade a rainha da Suecia terá a doce + consolação—tão sensivel ás almas sublimes—de receber duzentas libras a + maior da somma em que haviam sido avaliados os saudosos e queridos + despojos d'aquella que duas vezes fôra na terra sua irmã—como mulher e + como rainha! +</p> +<hr /> +<p> + Oh! como deverá ser bom e suave, na ultima estação da vida, quando os + rheumatismos rangem nas frias articulações da nossa velha ossada, + embrulharmo-nos tremulos na purpura real, no alto do nosso + throno,—tendo aos nossos pés os nossos vassallos inclinados e a nossa + cova aberta,—fitar serenamente no espaço a branca apparição d'aquella + que amamos no mundo e que nos espera entre as estrellas nas esfumadas + sombras do crepusculo, e podermos então exclamar em nossa consciencia: +</p> +<p> + «Sim, ella morreu ... mas abençoado sejas tu, nas alturas infinitas, ó + Deus meu e dos meus exercitos, pois quizestes permittir que aquelle + objecto que lhe pertenceu e que ella tinha occulto por detraz de uma + cortina no seu quarto de lavatorio fosse venturosamente arrematado—por + trez mil e seiscentos!» +</p> +<hr /> +<p> + SCENAS DE RELIGIÃO.—Lemos no <i>Diario Illustrado</i> o seguinte: +</p> +<p> + «Em additamento á noticia que ontem démos da saida processional do + Senhor aos entrevados da freguezia de Santa Justa e Rufina, somos hoje + informados que a interessante filhinha do sr. Marcos Maria Fernandes e + D. Maria Cecilia da Conceição Almeida Fernandes, proprietarios do + acreditado estabelecimento de modista de chapeus e vestidos na travessa + de Santa Justa n.º 81, vae tambem n'essa procissão, distribuindo esmolas + aos enfermos pobres, que receberem o Viatico, sendo vestida a custa e + por generoso e espontaneo offerecimento de seu pae, que é irmão do + Santissimo d'aquella freguezia. +</p> +<p> + «Leva a gentil menina, symbolo de caridade, vestido de faille azul + claro, com outro de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras, e + um manto branco preso na cabeça por um diadema do pedraria e semeado de + estrellas de oiro de lindo effeito. +</p> +<p> + «Esta devoção do sr. Fernandes, que ha quatro annos successivos tem + levado a sua filhinha vestida de anjo n'aquelle acto religioso, offerece + no presente anno uma novidade elegante, e que decerto será do mais + apurado bom gosto, se attendermos ao extremo paternal do sr. Fernandes, + e ao esmero e apuro de todos os trabalhos do seu estabelecimento, onde é + variadissimo e primoroso o sortimento de tudo quanto respeita a enfeites + de senhora.» +</p> +<hr /> +<p> + Ó dôce Jesus, eterna bondade simples e infinita como o Céo! aqui tendes + como elles a comprehendem, na freguezia de Santa Justa e Rufina, a + caridade, a pobre e modesta caridade, que vós mandastes definir por S. + Paulo com aquella palavra tão inspirada e tão bella.—O amor dos + corações puros e das consciencias boas! +</p> +<p> + Elles entendem-a agora assim: vestida de faille azul claro, com segundo + vestido de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras e um manto + branco preso na cabeça por um diadema de estrellas de oiro de lindo + effeito! +</p> +<p> + Comparae, ó Jesus, a descripção dos vossos antigos anjos feita por Santo + Ignacio—<i>incorporeas mentes</i>—com esta descripção que o <i>Diario + Illustrado</i> nos apresenta dos vossos anjos modernos! +</p> +<p> + Que dirão os cherubins, os seraphins e os archanjos, que dirão Miguel, + Raphael e Gabriel, elles nus, sem mais <i>toilette</i> que as suas longas + azas candidas, ao verem junto de si nas chorêas sidereas o novo + anjo—Almeida Fernandes?! +</p> +<p> + Como ficarão vexados e humilhados no Céo—os outros—quando o cherubim + Almeida lhes apparecer com as tranças torcidas a ferro, com vermelhão + nos beiços, e o seu <i>vestido aventalado adiante</i>, e contar que foi o + papá Fernandes quem o arranjou assim para elle representar diante dos + homem a imagem da caridade! +</p> +<p> + Oh! mas realmente, é um bom quinau dado pelo sr. Fernandes no Creador! + Lição terrivel de elegancia e de <i>chic</i> ministrada a todo o reino dos + Céos pela Travessa de Santa Justa! Nem a Baixa calcula talvez a grande + importancia que isto vae dar ao estabelecimento do sr. Fernandes—no + Empireo! +</p> +<p> + Pela nossa parte não nos maravilhará extraordinariamente que o sr. + Fernandes, proseguindo nas suas conquistas sobre o territorio divino, + acabe por ajuntar ao seu estabelecimento de modas uma succursal da + côrte celeste, e que depois de converter a sua familia em anjos de + tulle, elle mesmo acabe por apparecer aos seus freguezes transfigurado + em Deus ... de filó! +</p> +<p> + E então, para nos entendermos com s.s.ª sobre os objectos do seu + commercio, teremos, ao entrar na sua loja, de nos ajoelharmos, de + batermos no peito e de exclamarmos com attricção verdadeira: +</p> +<p> + Eu peccador me confesso a Fernandes todo poderoso de que preciso de um + par de ceroulas de linho de Irlanda, e por tanto lhe dirijo humildemente + minhas fervorosas preces para que desça das alturas e venha a nós—para + nos tomar medida. <i>Amen</i>! +</p> +<hr /> +<p> + Acabamos de ver como os burguezes conservadores entendem a caridade no + catholicismo. Vamos ver agora como é que os operarios socialistas + entendem os principios do direito perante a revolução. +</p> +<p> + Ao passo que o <i>Diario Illustrado</i>, folha monarchica e catholica, nos + apresenta a religião na menina Almeida Fernandes, o <i>Pensamento Social</i>, + periodico revolucionario, expõe-nos, na menina Palmira da Conceição, os + direitos do povo. +</p> +<p> + O <i>Pensamento Social</i> diz assim: +</p> +<p> + «Teve logar a annunciada sessão da propaganda na associação do trabalho + nacional. Estiveram presentes cêrca de 60 companheiras, frequentando a + sala durante a sessão proximamente 700 companheiros. Presidiu uma + companheira, mantendo-se uma assembléa tão numerosa na melhor ordem. + Deu-se n'esta sessão um facto que sensibilisou toda a assembléa; uma + companheira, que tem apenas nove annos de edade, como que sensibilisada + pelas aspirações da razão e da justiça, em plena assembléa pediu a + palavra e pronunciou a seguinte oração, que leu: +</p> +<p> + «Companheiros e companheiras.—Declaro-lhes que cada vez que tenho de + entrar em assumptos de tal natureza, arrasam-se-me os olhos de agua e + cobre-se-me o coração de uma nuvem negra; comtudo não posso deixar de + levantar a minha debil voz para dirigir duas palavras ás nossas + companheiras e companheiros da fabrica de fiação e tecidos lisbonenses. + Companheiros e companheiras: dirijo-vos os meus sinceros sentimentos, + porque tendo sido bem conhecedora das injustiças que se estão fazendo ás + nossas companheiras, e com especialidade ás menores, porque não só são + castigadas com o seu diminuto salario, como tambem as maltratam com + pancada. +</p> +<p> + «Ai companheiros e companheiras, não posso deixar de curvar o joelho e + pedir ao meu Deus, se estamos em peccado mortal: perdoae-nos. Mas não, + que já vou vendo raiar a aurora; continuemos sempre a empregar todos os + nossos esforços para que um dia breve estejam reunidos nas nossas dignas + associações todos os que vivem do trabalho. Conseguido isto, o que não é + muito difficil, e empregando todos a nossa vontade, poderemos dizer que + não estamos em peccado mortal, e tambem poderemos dizer que se acabaram + os castigos embrutecedores. Peço pois a todos os companheiros e + companheiras que empreguemos toda a nossa vontade, energia e dedicação + para podermos alcançar o nosso triumpho, que é a emancipação de todos os + trabalhadores, isto é, todos os direitos e deveres sociaes. Depois os + nossos vindouros nos cobrirão de bençãos por lhes termos creado tão bom + dote. Não querendo entreter-vos mais termino pedindo que vos não + esqueçaes dos nossos companheiros grevistas.—<i>Palmira da Conceição</i>.» +</p> +<hr id="deusa" /> +<p> + Esta creança de nove annos de edade que nos declara <i>que os olhos se lhe + arrasam de agua e o coração se lhe cobre de uma nuvem negra sempre que + lhe tem succedido ter de entrar em assumptos de tal natureza</i>, é uma + verdadeira menina benta, um phenomeno! Diremos mesmo: é um milagre, é + uma pequena nossa senhora apparecida—da fabrica lisbonense de fiação e + tecidos! +</p> +<p> + Ella é a destinada pelo povo a substituir, como futura deusa da razão, o + actual anjo Almeida Fernandes—nas festividades populares. +</p> +<hr /> +<p> + Ha pequenas differenças: +</p> +<p> + O anjo Almeida traz-nos a religião e a caridade. A deusa Palmira é a + portadora da <i>emancipação dos trabalhadores, dos direitos e deveres + sociaes.</i> +</p> +<p> + O anjo adeja sobre as ruas pacatas da Baixa. A deusa surge no bairro + inquieto de Alcantara. +</p> +<p> + O anjo caminha gravemente—enfunado, crespo de folhos e de rendas, como + um peru armado—a passos cadenciados pelas harmonias da phylarmonica + <i>Alumnos de Minerva</i>, dando a mão a Fernandes, seu pae carinhoso,e + espargindo petalas de rosas, de dentro de um cesto de casquinha, sobre o + mundo velho. +</p> +<p> + A deusa vem ao collo de um <i>companheiro</i> membro da <i>Fraternidade + Operaria</i> e clarinete na mesma phylarmonica que bufou, talvez, o mais + convicto e consciencioso <i>hymno da carta</i>, atraz da angelica vergontea + de Fernandes. A deusa alliando em sua joven personalidade a innocencia + da edade que tem com a aspiração philosophica da classe a que pertence, + mette um dedo no nariz e aponta com o outro o destino do proletariado na + futura organisação social. +</p> +<p> + O anjo é a religião de barejes, de talagarças e de retalhos de bobinet. +</p> +<p> + A deusa é a justiça de figuras de rhetorica, de discursos de associação + e de erros de prosodia. +</p> +<p> + O burguez, contente com o seu meio de reacção, distribue ao anjo + confeitos e rebuçados de avenca. O operario, satisfeito com o seu plano + de resistencia e de revolução, solicito, assôa a deusa. +</p> +<p> + Ora, francamente, não nos parece que estes sejam os methodos mais + efficazes que possam escolher os srs. burguezes e os srs. operarios. +</p> +<p> + Não será com o seu anjo de vestido «ventalado», com veu branco e + pedrarias de lindo effeito, que a burguezia impedirá a passagem á + corrente das idéas novas que a assoberbam e intimidam. +</p> +<p> + Não será tambem com a sua oradora de nove annos, <i>inspirada pela razão e + pela justiça</i>, que o proletariado conseguirá convencer-nos da seriedade + dos seus direitos ao predominio das sociedades futuras. +</p> +<p> + O trabalho—bem o sabemos—é uma coisa augusta e sagrada. O + commercio—desculpem-nos os senhores proletarios—é tão sagrado como o + trabalho. O commerciante que compra a cada um dos que produzem as suas + obras, levando-lhes, em troca dos objectos que fabricam os objectos que + consomem, faz á sociedade, por meio do estabelecimento do mercado, um + serviço tão relevante e tão legitimo como o da producção da mercadoria. +</p> +<p> + O pae da menina Palmira que faz um chale quando ninguem quer chales e o + pae da menina Fernandes que lh'o compra logo, para o vender depois + quando lh'o pedirem, são dois cidadãos egualmente uteis e respeitaveis. + Se o pae do anjo é puramente ridiculo vestindo a sua filha como uma + boneca de <i>vitrine</i> e encarregando o <i>Diario Illustrado</i> de lh'a + apregoar como um symbolo de caridade, o pae da deusa é injusto, é + ignorante, é perigoso, e é egualmente ridiculo, ensinando á sua filha, + para que ella as leia em publico, palavras ôcas de falsa razão e de mal + entendida justiça, tão enthusiasticamente preconisadas pelo <i>Pensamento + Social</i>, orgão das classes operarias. +</p> +<hr /> +<p> + Já que fallamos no <i>Pensamento Social</i> notemos que nem sempre nos parece + perfeitamente logico este jornal. +</p> +<p> + Succede que elle guerreia o burguez, o <i>infame burguez</i>, e não cessa + nunca de glorificar o operario. É a sua missão. Tem o seu partido. Nada + temos que objectar. +</p> +<p> + Quando se deu, porém, a <i>grève</i> dos surradores, succedeu o seguinte: +</p> +<p> + Os operarios tinham escolhido para apresentarem as suas propostas a + phase da curtição em que os coiros não poderiam ser abandonados sem que + apodrecessem nos seus tanques. Por este modo os patrões ou tinham de + ceder á <i>grève</i> ou correr o risco eminente de um grande prejuizo. Que + fizeram os patrões? Não acceitaram as propostas dos grevistas, + associaram-se todos, despediram os operarios, e foram em seguida, elles + mesmos, acompanhados de suas mulheres e de seus filhos, de fabrica em + fabrica, levantar os cortumes. +</p> +<p> + Ora é singular que fosse exactamente este momento solemne da existencia + dos patrões curtidores o que o <i>Pensamento Social</i> escolheu para os + flagellar com as suas ironias e os seus sarcasmos! A verdade é que + exactamente n'esse momento é que os burguezes curtidores deixavam de ser + burguezes para serem operarios. Parecia-nos que n'esta conjunctura o + <i>Pensamento Social</i> não deveria fazer senão o que nós fariamos no seu + caso: tirar o chapeu e inclinar-se respeitosamente perante a coragem + trabalhadora e digna dos seus altivos e honrados inimigos. +</p> +<hr /> +<p> + Os operarios na sua inquietação de candidatos á prosperidade baseada na + justiça e na virtude, vão mal encarreirados dirigindo o seu movimento de + revolução contra os pequenos burguezes que nunca lhes fizeram mal nenhum + e que os srs. operarios injustamente odeiam ou desprezam. Os pequenos + burguezes—deveriam lembrar-se d'isto os srs. operarios—são na actual + organisação social, os alliados naturaes de todos os que trabalham e + padecem. Os srs. operarios fariam bem se, em logar de encarregarem a + menina Palmira de discretear nos seus congressos, traduzissem n'elles em + voz alta esta pagina do seu amigo Proudhon: +</p> +<p> + «Vós, burguezes, fostes em todo o tempo os mais intrepidos, os mais + habeis dos revolucionarios. Sois vós que desde o terceiro seculo da era + christã, por meio das vossas federações municipaes, estendestes a + mortalha sobre o imperio dos romanos nas Gallias. Sem os barbaros que + vieram mudar a face das coisas, a republica, constituida por vós, teria + governado a edade media. Fostes vós que, mais tarde, oppondo a communa + ao castello, o rei aos grandes vassallos, vencestes o feudalismo. Sois + vós em fim que ha oitenta annos, tendes proclamado umas depois das + outras todas as idéas revolucionarias, liberdade de cultos, liberdade de + imprensa, liberdade de associação, liberdade de commercio e de + industria; vós que pelas vossas sabias constituições fizestes justiça ao + altar e ao throno; vós que estabelecestes sobre bases indestructiveis a + egualdade perante a lei, a garantia legislativa, a publicidade das + contas do estado, a subordinação do governo ao paiz, a soberania da + opinião. Fostes vós, sós, que fundastes os principios e lançastes os + fundamentos da revolução no seculo XIX. Nenhuma das coisas que se tentou + sem vós, viveu; nenhuma d'aquellas que vós emprehendestes falhou. Diante + da burguezia o despotismo tem curvado a cabeça: o soldado feliz, o + ungido legitimo, o rei cidadão, desde que teem tido o infortunio de vos + desagradar, teem desfilado diante de vós como phantasmas.» +</p> +<hr /> +<p> + Lemos em alguns periodicos que o sr. prior da freguezia da Encarnação + acaba de furar as orelhas de uma santa que tinha na sua egreja para lhe + pôr brincos. +</p> +<p> + Parece-nos que este senhor ecclesiastico abusa das suas relações com as + santas a ponto de proceder com ellas de um modo como não desejaria + talvez que ellas procedessem com s.ex.ª ... +</p> +<p> + Como quer porém que seja, e admittindo-se mesmo que o sr. prior tenha o + maior prazer d'este mundo em que lhe façam furos no corpo, entendemos + que sua excellencia introduz no culto uma reforma arrojada, posto que + extremamente simplificativa, substituindo as antigas manifestações de + reverencia e de respeito devidas ás sagradas imagens—as genuflexões, o + incenso, a missa cantada, a novena e o panegyrico—pela verruma! +</p> +<p> + Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a + lavrar entre elles o receio que o sr. prior, adoptando definitivamente o + seu novo systema liturgico, resolva de repente, um bello dia—em vez de + pregar-lhes sermões—principiar a pregar-lhes pregos! +</p> +<p> + Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a + lavrar entre elles o receio de que o sr. prior, adoptando + definitivamente o seu novo systema liturgico, resolva de repente, um + bello dia—em vez de pregar-lhes sermões—principiar a pregar-lhes + pregos! +</p> +<hr /> +<blockquote> +<p> + Pede-se aos srs. assignantes das provincias o obsequio do mandarem + satisfazer a importancia das suas assignaturas em divida, por meio de + estampilhas ou do vales do correio. Correspondencia á calçada doa + Caetanos, 30, Lisboa.Caetanos, 30, Lisboa. +</p> +</blockquote> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14621 ***</div> +</body> +</html> diff --git a/14621-h/images/devil73.png b/14621-h/images/devil73.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..1cbe70b --- /dev/null +++ b/14621-h/images/devil73.png |
