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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:44:57 -0700
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+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=UTF-8" />
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+ <meta name="author" content="Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz" />
+ <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, Março a Abril de 1873
+by Ramalho Ortigão and Eça De Queiroz.</title>
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+/*<![CDATA[*/
+ <!--
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+<body>
+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14621 ***</div>
+
+<div class="centered">
+ <img src="images/devil73.png" width="500" height="750"
+ alt="As Farpas&mdash;R. Ortigão&mdash;Eça de Queiroz" />
+ <!--IMAGE END-->
+</div>
+<hr class="major" />
+<h1>
+ AS FARPAS
+</h1>
+<div class="centered">
+ <p>RAMALHO ORTIGÃO&mdash;EÇA DE QUEIROZ</p>
+ <p>CRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p>
+ <p>2.º ANNO</p>
+ <p>Março a Abril de 1873</p>
+</div>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<blockquote>
+<p>
+ Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+ da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+ sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+ politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+ universo, e da adoração de si mesmo.
+</p>
+</blockquote>
+<p class="centered">
+ P.J. PROUDHON
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+
+<p class="centered">
+ <b>SUMMARIO</b>
+</p>
+<p>
+ O sr.
+<a href="#herculano"><b>Alexandre Herculano</b></a>,
+ opusculista. Os semi-deuses e os rapazes.
+ As armaduras e as flanellas. <i>A Voz do Propheta</i>, geremiada de salão. A
+ biblia-cacete. Deus cartista. Reincidencia do milagre de Ourique. Os
+ egressos e Pharaó. A censura dramatica. As conferencias democraticas. Os
+ fins da arte e a bisca sueca. Em que o sr. Herculano se parece com
+ Theodosio II. A tristeza chronica do grande homem e o pronto-alivio de
+<a href="#radway">Radway</a>. A velhice e a arte. Os martyrios de vinheta. Spinosa,
+ Campanella, Diderot e Proudhon. Victor Hugo, Michelet, Quinet, Raspail e
+ Carl Marx. O sr. Herculano
+<a href="#salomao">Salomão</a> e nós o bôbo Marcullo.&mdash;João Felix
+<a href="#pereira">Pereira</a>, historiador. Os compendios da instrucção publica e as
+ equarissages.&mdash;O
+<a href="#fernando">sr. D. Fernando</a> em Coimbra. Os rouxinoes do Mondego e
+ seus principios politicos.&mdash;A
+<a href="#monicas">casa de detenção nas Monicas</a>. O edificio,
+ as camaratas, o refeitorio, as officinas, a escola. A instrucção, a
+ catechese, a hygiene, a moral. A direcção technica. A colonia
+ penitenciaria de Meltray. Contrastes. Se é dado aos vadios rehabilitarem
+ se fazendo-se dezembargadores ou coroneis&mdash;As curiosidades infantis da
+<a href="#republicaportugueza">Republica Portugueza</a>&mdash;Duas palavras
+<a href="#duaspalavras"><i>aos leitores das Farpas</i></a>, folheto
+ brazileiro. O commercio, a instrucção e a industria no Brazil:
+ testemunho insuspeito e juizo final. O
+<a href="#carvalho">sr. Mathias de Carvalho</a> e a
+ actriz Emilia Adelaide. A America e a rainha Fulvia, a lingua de Cicero
+ e a nossa.&mdash;O alto dandysmo. As ultimas corridas no Campo Grande. O
+ Sport e o Lagoia. Perfil do
+<a href="#highlife"><i>high-life</i></a>. Os srs. De Lagrange, De Mouchy,
+ Rothschild, Dudley Stuart. João Russo e Chico Perfeito. Hurrah! pelas
+ tipoias vencedoras&mdash;Representação da comedia
+<a href="#magdalena"><i>Magdalena</i></a>.
+ Os caracteres, os costumes, a peça. Conselhos amigaveis ás burguezas
+ honestas.&mdash;Um anjo catholico e uma jovem
+<a href="#deusa">deusa da Razão</a>, typos da litteratura e da moda.&mdash;O
+ leilão do
+<a href="#espolio">espolio de sua magestade imperial</a>.
+</p>
+<hr id="herculano" />
+<p>
+ O sr. Alexandre Herculano acaba de publicar sob o titulo de <i>Opusculos</i>
+ um livro em que, além de uma refutação erudictamente argumentada e
+ inedita da portaria que suspendeu as conferencias democraticas do Casino
+ Lisbonense, se encontram apenas reedições de algumas antigas obras do
+ illustre escriptor.
+</p>
+<p>
+ Reapparecendo assim na publicidade, reentrando na lucta das idéas novas
+ com os velhos engenhos de guerra despendurados dos arsenaes de 1836 ou
+ 1843, sua excellencia lembra-nos demasiadamente o antiquario que sáe a
+ combater forças vivas á frente das naturezas mortas do seu museu,
+ formando em batalha contra os entes animados da creação os jacarés
+ empalhados e os monstros em espirito de vinho da sua galeria curiosa.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Os discursos d'estas paginas antigas, a que sobejam por um lado os
+ accessorios artificiaes da rhetorica e a que faltam por outro lado, com
+ as opportunidades do momento em que foram concebidas, as condições de
+ uma existencia necessaria e real, fazem-nos o effeito de armaduras
+ primorosamente cinzeladas, mas suspensas em ripes de pinho, finos
+ capacetes de viseiras caladas sobre caraças de papelão com verniz de
+ cera côr de rosa e olhos de vidro.
+</p>
+<p>
+ E causa-nos pena isto: que tantos apparatos de força e tão solidos
+ instrumentos de guerra se prestem a desabar, com o estampido ridiculo
+ dos louceiros que se quebram nas velhas farças, aos golpes de <i>stick</i> do
+ primeiro irreverente que passe trazendo na cabeça as exaltações de dois
+ dedos de Proudhon e de um copo de Champagne!
+</p>
+<p>
+ Serão injustos depois os que bradarem contra a decadencia, contra a
+ corrupção, contra a irreligiosidade do seculo com o fundamento de que,
+ n'estes contactos das antigas armas consistentes e das novas modas
+ futeis, é o espesso arnez de Carlos Magno o que rende e a fina <i>veste
+ Bênoiton</i> a que triumpha.
+</p>
+<p>
+ Ai! perdoae-nos ... Nós preferimos ás impenetraveis armaduras dos vossos
+ gigantes, que não servem hoje a ninguem e que não trazem ninguem dentro,
+ a simples flanella vulgar, talhada por Pool para as fórmas exiguas dos
+ macacos sabios da geração nova, dentro da qual flanella todavia se
+ abotoam homens, pequenos e frageis, mas emfim mais ou menos vivos,
+ graças ás capsulas ferruginosas e ao <i>Rob Lafecteur</i>, podendo
+ impunemente, perante os minotauros de cartão, n'um rasgo de cancan,
+ chegar-lhes com o bico do pé á ponta do nariz.
+</p>
+<p>
+ Ao passo que, sobre estes fracos mortaes, que ainda não estoiraram de
+ todo nos galopes da vida, as effigies dos antigos semi-deuses,
+ inoffensivos e inuteis como estatuas de louça branca&mdash;na attitude
+ classica dos Abrahões de jardim&mdash;suspendem os seus alphanges, como
+ poleiros aereos, cuja immobilidade tem convidado ao somno quarenta
+ gerações de pardaes!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Aqui temos nós, por exemplo, <i>A voz do propheta</i>, cem paginas sybilinas,
+ em estylo emphatico, allegorico, confuso, tremendo.
+</p>
+<p>
+ É uma especie de <i>Dies irae</i>&mdash;de salão.
+</p>
+<p>
+ Cada periodo ronca lugubremente como um estertor de moribundo, imitado
+ n'um figle.
+</p>
+<p>
+ Em cada phrase ha um vacuo premeditado que lembra a orbita sem olho da
+ caveira de um cyclope.
+</p>
+<p>
+ A locução, pintada como uma actriz vestida do branco, com os cabellos
+ desgrenhados, que se predispoz ao espelho para uma scena de delírio, tem
+ tons cadavericos, produzidos por grossos riscos pretos sobre gesso
+ esverdinhado e branco: ella passa mysteriosa e terrivel; não se sabe do
+ onde vem nem para onde vae, nem quem busca, nem o que pretende&mdash;ella,
+ desvairada, tambem o não sabe!&mdash;mas pisa o tablado a largos compassos
+ tectricos, brandindo um punhal, olhos fixos e dedo descarnado e livido
+ apontando o espaço. A orchestra, a golpes taciturnos e tremidos de
+ rebeção, imita os rumores das tempestades. E os espectadores
+ angustiados, presentindo que alguma coisa pavorosamente tragica vae
+ occorrer, desdobram os seus lenços nas mãos abertas, aprontando-se para
+ acolher aquella porção de sensibilidade oppressa de que a imperfeita
+ natureza humana se desencarrega&mdash;ai de nós!&mdash;pelo nariz....
+</p>
+<p>
+ O monologo porém termina; está volvida a ultima pagina da prosa
+ melodramatica do sr. Herculano; elle, o propheta, principiou estas
+ palavras:
+</p>
+<p>
+ «O espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vae, e faze
+ resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade. E eu
+ obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos ...»
+</p>
+<p>
+ E conclue assim:
+</p>
+<p>
+ «N'este momento a visão desappareceu, e achei-me banhado em suor frio e
+ repassado de amargura. E por impossivel tinha que tão negro futuro
+ houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que
+ diziam:&mdash;Guerra á religião do Christo! Então cri na visão que o Senhor
+ me enviava, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.»
+</p>
+<p>
+ Ao terminarem a leitura, as turbas obscuras e humildes a quem o auctor
+ se dirigira, e das quaes nós temos a honra de fazer parte, perguntam
+ contristadas e attonitas:
+</p>
+<p>
+ Mas, bom Deus, poder-se-ha saber por que altos motivos está s.ex.ª o
+ propheta <i>banhado em suor frio</i> e <i>repassado de amargura</i>?!
+</p>
+<p>
+ Ser-nos-ha dado apreciar quaes as razões por que o digno socio de merito
+ de Jeremias e da Academia Real das Sciencias, apagou dentro da sua alma
+ o <i>ultimo clarão de esperança</i>?
+</p>
+<p>
+ Sim! N'esta recente edição do seu opusculo, s.ex.ª o anjo, incumbido
+ directamente por Deus de <i>fazer resoar palavras de terror</i>, explica
+ satisfatoriamente o phenomeno pathologico da desesperança em sua alma e
+ dos suores frios em seu corpo, por via de algumas laudas de introducção,
+ destinadas a prehencher cabalmente os votos d'aquelles que tinham
+ promettido aos deuses um propheta de cêra, se os deuses lhes
+ consentissem penetrar o sentido da <i>Voz do propheta</i>.
+</p>
+<p>
+ A explicação d'essa voz que diz ao povo «<i>que a sua hora extrema vae
+ soar, que elle é maldito, que elle é empestado, que é pustulento e
+ pôdre, vil e malvado, escoria, immundice e relé</i>»,&mdash;a explicação da voz
+ que diz e rediz isto em 118 paginas de uma prophecia de exterminio e de
+ morte para o povo e para o paiz, é que:
+</p>
+<p>
+ A revolução de setembro triumphava com a democracia, o sr. Alexandre
+ Herculano não acreditava na democracia, tinha-a pela «declamação
+ interessada de engenhos superficiaes que pretendem jungir ao carro das
+ proprias ambições <i>as turbas más, porque ignorantes, odientas, porque
+ invejosas, espoliadoras, porque miseraveis</i>;» e Elle, o propheta, Elle,
+ o anjo exterminador, Elle, o enviado de Deus ás gerações ... Elle
+ era&mdash;cartista!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Se o sr. Herculano escreveu isto, que parece uma blasphemia pavorosa «<i>O
+ espirito de Deus passou pelo meu espirito e disse-me: vae, e faze,
+ resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror</i> ...»&mdash;é que
+ naturalmente Deus era tambem&mdash;cartista.
+</p>
+<p>
+ E assim rompe um livro, tendo por base a mancommunação de um Deus e de
+ um propheta, conchavados para espancarem patuleas a cacetadas de biblia
+ e de rhetorica!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Permitta-se-nos dirigir uma pequena pergunta humilde ao grande
+ historiador:
+</p>
+<p>
+ Se s.ex.ª nos affirma que o espirito de Deus o tocou e lhe disse: <i>Vae</i>,
+ o que acreditamos sob a palavra de s.ex.ª, como ousa s.ex.ª negar que o
+ mesmo Deus tivesse egualmente apparecido a Affonso Henriques e lhe
+ tivesse dito&mdash;<i>Vence</i>? Porque, em fim, a verdade é que o milagre que
+ precedeu a victoria de Ourique é exactamente o mesmo que inspirou a <i>Voz
+ do propheta</i>. Ao grande escriptor assim como ao grande rei Deus
+ appareceu e fallou. Se um d'estes cavalheiros nega a visão de outro, não
+ poderá a critica julgal-os suspeitos como officiaes do mesmo officio?
+ Não será plausivel que cada um d'estes Joões Marias Farinas dos divinos
+ cheiros queira para si o privilegio de ser o unico João Maria Farina,
+ authentico e legitimo?
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Mais encerra o sobredito livro dos Opusculos:
+</p>
+<p>
+ Primeiro&mdash;Uma «consulta apresentada á Academia Real das Sciencias ácerca
+ do estado dos archivos ecclesiasticos do reino e do direito do governo
+ em relação aos documentos ainda n'elles existentes»&mdash;questão que se acha
+ resolvida desde 1857. Tem essa actualidade.
+</p>
+<p>
+ Segundo&mdash;«Os egressos, petição humilissima a favor de uma classe
+ desgraçada.» Mais: «As freiras de Lorvão», especie de petição em favor
+ da parte feminina da sobredita classe, acto philantropico que declarado
+ hoje, quarenta annos depois da extincção das ordens religiosas, nos
+ obriga a meditar nas razões por que o auctor não aproveitaria este
+ ensejo para peticionar egualmente em favor das familias dos companheiros
+ de Pharaó, victimas da terrivel catastrophe da passagem do Mar Vermelho.
+</p>
+<p>
+ Terceiro&mdash;«Theatro, moral, censura», discurso em que o auctor propõe que
+ a censura dramatica não seja eliminada mas sim substituida por «uma lei
+ para o theatro em harmonia com a lei politica da nação»&mdash;especie de
+ carta constitucional da monarchia da rua dos Condes e do Salitre. O sr.
+ Herculano quer <i>um jurado especial encarregado de defender a moralidade,
+ punindo com multas pecuniarias e com cadeia todo o delicto dramatico em
+ offensa da moral</i>,&mdash;o que nos parece ser, sem a minima duvida, o
+ restabelecimento puro da santissima inquisição, ou a renovação dos jogos
+ da eloquencia, de Caligula, em que o vencido era lançado no Rhodano,
+ sempre que não preferia apagar o seu discurso com a lingua.
+</p>
+<p>
+ Quarto e ultimo&mdash;Uma <i>advertencia preliminar</i>, na qual o autor explica
+ que compoz a sua obra <i>com o fim de</i>&mdash;matar o tédio das longas noites
+ de inverno na solidão da sua granja. D'onde somos levados a deduzir que
+ os fins da arte para o illustre solitario de Valle de Lobos&mdash;no inverno
+ pelo menos&mdash;são simples parceiros de jogo, questão de passar tempo: para
+ s.ex.ª a antiga coisa sagrada de Platão substitue&mdash;a bisca sueca. O fim
+ moral retira-se, havendo uma perna para o <i>voltarete</i>.
+</p>
+<p>
+ E nada mais se contém no ultimo livro recentemente publicado por aquelle
+ que justamente se considera o primeiro dos escriptores portuguezes!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Esse livro que se não baseia em nenhuma das necessidades da sciencia, da
+ razão ou do sentimento do mundo moderno, caminhando no ar como as
+ pinturas chinezas em que não ha solo, é uma pessima obra. Vem de alto,
+ firma-a um nome prestigioso, está escripta no estylo relimado a que
+ Michelet chama a <i>indigente correcção de Malherbe</i>: tem portanto as
+ condições da voga; é um exemplo funesto. Porque esse livro não instrue,
+ nem ensina, nem esclarece, nem consola ninguem.
+</p>
+<p>
+ Referindo-se ás conferencias do Casino repisa a velha questão catholica
+ e esquiva-se á apreciação da theoria artistica, economica e scientifica
+ da revolução, que essas conferencias propagavam.
+</p>
+<p>
+ Na politica é auctoritario, conservador intransigente. Impõe-nos a
+ carta, como Carlos IX impunha a missa a Henrique de Navarra e ao jovem
+ Condé, depois da Saint-Barthelemy. Nega a revolução democratica com um
+ desdem banal, como quem ignora ou finge ignorar que toda a revolução que
+ se oppõe á corrupção e á miseria, filhas das instituições, não é uma
+ theoria contingente mas sim uma lei fatal. Estava n'este ponto bem mais
+ adiantado, do que s.exª nos quer mostrar que se acha, aquelle velho
+ ministro francez que ha mais de cem annos exclamava: «<i>La légalité nous
+ tue</i>».
+</p>
+<p>
+ Na economia social, sem uma palavra para algum dos principios que
+ constituem o systema de credito e a organisação industrial, preconisa as
+ <i>caixas economicas</i>, escondendo que a questão de coarctar a miseria não
+ é de estabelecer o <i>mealheiro</i> mas sim de crear o trabalho.
+</p>
+<p>
+ Na arte quer a manifestação do pensamento adstricta ás sentenças de um
+ jury tirado da academia das sciencias, da escola polytechnica e de não
+ sei que outros tribunaes regularisadores do direito da palavra,
+ justificando assim aquella definição do sublime dada por Galiani: «a
+ arte de dizer as coisas sem ir para a cadeia»; quando a verdade n'este
+ ponto é que nada ha que mais avilte a intelligencia e o caracter do que
+ o exercicio hypocrita, imposto pela legislação repressiva, de encobrir o
+ pensamento ou de disfarçar a verdade.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ No momento actual, quando a Europa inteira, grande martyr, se agita na
+ polemica e no sangue, procurando nobremente e santamente resolver para a
+ justiça o problema do destino dos povos, reconhecendo com Proudhon que a
+ negação da sociedade feita em 93 implíca uma affirmação subsequente que
+ ainda não está feita, e que, depois de desorganisados os privilegios,
+ nos é hoje preciso organisar sólidamente e firmemente o trabalho na paz,
+ no bem estar e na virtude,&mdash;n'este momento supremo, um dos mais graves
+ em que se tem achado a humanidade, quando mais do que nunca se precisa
+ para a verdade do concurso de todos os espiritos elevados e rectos&mdash;, um
+ philosopho, um pensador educado nos severos estudos historicos, o mais
+ auctorisado dos nossos escriptores, entretendo-se no seu gabinete a
+ reconstituir antigos opusculos banaes e extinctos para passar o inverno,
+ lembra um pouco o imperador Theodosio entregue ás especulações
+ theologicas, e compondo symbolos no gyneceu, quando Genserico estava em
+ Cartago e Attila nas margens do Danubio.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Diz-nos o sr. Alexandre Herculano que está velho, desilludido,
+ desalentado ...
+</p>
+<p>
+ D'onde lhe veiu tanta amargura e tão singular abatimento, que nem os
+ annos nem os desgostos justificam?
+</p>
+<p>
+ Comprehende-se a tristeza d'aquelles que, consagrando a sua vida a uma
+ grande obra, absorvendo-se n'ella, pertencendo-lhe integralmente, se
+ acham repentinamente desacompanhados e sós ao verem a obra terminada.
+ Michelet consumiu quarenta annos a escrever a historia da sua patria.
+ «Pois bem, minha grande França, exclama elle, se foi preciso para achar
+ a tua vida que um homem se tivesse entregado e passasse e repassasse
+ tantas vezes o rio dos mortos, esse homem consola-se, agradece-te ainda,
+ e o seu maior pesar é ter emfim do deixar-te.» Gibbon, tão frio e tão
+ secco, não larga o seu livro sem uma commoção profundamente melancolica:
+ «Pensei que acabava de despedirme do antigo e agradavel companheiro da
+ minha vida.» Oh! sim, comprehende-se bem essa magoa profunda que absorve
+ o homem ao cabo da missão a que elle se dera no mundo! Comprehende-se
+ Alexandre morrendo de tristesa depois de conquistar a Asia, e Alarico
+ depois de tomar Roma; comprehende-se Godofredo de Bulhões, com a sua
+ herculea natureza que resistiu inalteravel ás fomes, ás sedes, ás
+ pestes, ás guerras, a todas as tragedias da cruzada, sossobrando
+ finalmente ao ter de embainhar a espada, e morrendo&mdash;por ter chegado!
+</p>
+<p>
+ Mas não se comprehende definhando de tristesa em Valle de Lobos o sr.
+ Herculano, porque elle não venceu, não conquistou, não concluiu a sua
+ obra: abandonou-a apenas, retirou-se, foi-se embora.
+</p>
+<p>
+ Como antigo litterato, historiador, romancista e poeta, s.ex.ª não se
+ póde contristar. Deve consolal-o a vida rural, que elegeu em
+ substituição da vida artistica.
+</p>
+<p>
+ Se o não satisfaz a solução que deu ao seu destino, se no remanso da sua
+ granja, na abundancia, no saudavel exercicio da lavoura, na familia, na
+ saude, na paz, na consideração e no respeito publico, s.ex.ª se sente
+ effectivamente velho, desalentado e triste, creia s.ex.ª então que não é
+ o litterato que ainda soffre, é o agricultor que já começa a padecer. A
+ padecer o que? Esta molestia:&mdash;a nostalgia da arte.
+</p>
+<hr id="radway"/>
+<p>
+ A tristeza não é nunca um estado de espirito normal no organismo de um
+ homem são. A tristeza é um symptoma de enfermidade physica ou moral. A
+ tristeza habitual quando se não cura com as pílulas de Radway e com as
+ aguas mineraes, cura-se com uma acção boa. Se com isso não passa, é
+ então uma lesão profunda e mortal.
+</p>
+<p>
+ O homem que durante vinte annos viveu no trabalho intellectual, na
+ applicação, no estudo, na poderosa contensão da arte, escrevendo,
+ publicando, dilatando-se, repartindo-se pelos seus semelhantes,
+ amassando e forneando para elles o divino pão da verdade, nunca mais
+ póde sem perigo retirar-se d'esse meio.
+</p>
+<p>
+ Nos serios trabalhos do espirito consagrados a uma idéa elevada ha uma
+ luz vivificante e serena que não sómente allumia o operario, penetra-o
+ tambem, alimenta-o, conforta-o. A sua obra não é inteiramente d'elle,
+ elle pertence tambem á sua obra. Elle cria-a, torna-a viva, poderosa,
+ immortal á força de amor, de verdade e de justiça; ella, generosa e
+ grata, educa-o, aconselha-o, consola-o, fortifica-o. Os dias passam,
+ tenebrosos ou limpidos, serenos ou revoltos no mundo externo; na
+ immutavel região da arte ha a pacificação permanente. Embebido na doce
+ mocidade eterna da sua obra, o verdadeiro artista, perfeitamente fiel ao
+ trabalho, não sabe nunca se envelhece ou não.
+</p>
+<p>
+ Veja o sr. Herculano aquelles que deixou nas lettras, ha alguns annos,
+ muito mais edosos que elle! Como ainda hoje são novos!
+</p>
+<p>
+ Quem guia, quem governa, quem encaminha hoje no mundo a grande marcha
+ das idéas modernas a que o illustre agricultor de Santarem se oppõe, no
+ seu recente livro de torna-viagem, com epigrammas cacheticos e vetustos?
+ Veja-os s.ex.ª, escute-os, attenda-os: como teem os labios vermelhos, a
+ voz clara e metallica, os cabellos loiros, os musculos fortes, o sangue
+ vermelho, salgado e alegre! Reconhece-os?...
+</p>
+<p>
+ São Victor Hugo, Michelet, Quinet, Thiers, Raspail e Karl Marx.
+</p>
+<p>
+ Companheiros de infancia de s.ex.ª eil-os ahi ainda, na mais perfumada e
+ viçosa flor da edade, entre os setenta e os noventa annos!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Quando uma vez se habitou o paiz luminoso da sciencia e da arte é
+ impossivel o expatriamento para os frigidos climas sombrios dos
+ interesses praticos e positivos. A mão que por vinte annos manejou uma
+ penna, não poderá jámais ageitar-se á rabiça de um arado. Sequestrar-se
+ á sciencia é roubar a sociedade. Para onde quer que te recolhas com a
+ porção de luz e de verdade que tinhas no teu cerebro e que subtrahiste
+ do thesouro commum da humanidade, para onde quer que te escondas, ó
+ triste foragido, irá sempre comtigo, pungindo-te na parte mais nobre do
+ teu ser não contaminada pelo egoismo, o remorso de uma acção má. Debalde
+ procurarás justificar o plano da tua deserção com os desgostos que
+ atravessaram a tua carreira. Desgostos, tu! o filho mimoso da tua
+ patria! a unica gloria official da litteratura do teu paiz! tu sempre
+ lido, sempre gloriado, sempre retribuido! Oh! como se rirão dos teus
+ pretendidos desgostos todos aquelles que tiveram no mundo uma idéa, que
+ se lhe consagraram, que viveram e que morreram por ella!
+</p>
+<p>
+ Pobre homem sem fé! que pensarão do teu martyriosinho de album, da tua
+ pequenina cruz de berloque, aquelles que realmente tiveram um martyrio e
+ uma cruz, onde padeceram e morreram, resignados e austeros?!... Spinoza,
+ que muitas vezes comeu hervas por não ter pão; Campanella preso vinte e
+ sete annos, sendo cinco vezes julgado e soffrendo sete vezes a tortura;
+ João Jacques dormindo n'um fosso por não ter outro asylo; Diderot
+ desmaiando de fome; Proudhon, vivendo com um tostão por dia, caminhando
+ oitenta leguas a pé para ir ver o seu amigo, só, odeado, perseguido,
+ caminhando sem meias, com os pés nús embrulhados em palha dentro dos
+ tamancos das suas montanhas do Jura!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Se o sr. Herculano, agricultor, está triste, volte a ser litterato,
+ restitua-se á sua patria, á sua geração e ao seu tempo.
+</p>
+<p>
+ Se definitivamente não quer ser mais um escriptor, poupe então a nossa
+ sensibilidade ás repetições da historia dos seus desgostos. Como simples
+ proprietario rural os jubilos ou as melancolias do sr. Herculano são
+ absolutamente indifferentes á humanidade.
+</p>
+<p>
+ Quando Quinet publicou a «Historia» das suas idéas, procurando dar sob
+ uma fórma individual a historia moral da geração de que fez parte, á
+ similhança do que parece ser intentado agora pelo sr. Herculano com a
+ publicação dos seus opusculos, Quinet não obedecia ao desejo de servir
+ um editor ou de entreter um inverno; Quinet, colligindo as suas idéas e
+ recompondo o seu passado, arrancava da sua obra uma grande idéa, bella,
+ radiante e fecunda: a coherencia, illuminando um caracter, e fazendo
+ d'elle uma força moral.
+</p>
+<p>
+ Quinet não vinha entristecer-nos com a sua melancolia nem contaminar-nos
+ com o seu desalento.
+</p>
+<p>
+ Se elle reconstituia e publicava os dispersos fragmentos obscuros de
+ antigos trabalhos era exactamente porque d'esse agrupamento e d'essa
+ reunião de idéas espalhadas pelas differentes edades e pelas diversas
+ phases da sua vida sobresahia como um nobre exemplo o luminoso
+ contentamento de uma alma perseverante e forte.
+</p>
+<p>
+ Decepções, chimeras, enganos, o que vem a ser essas coisas? ignoro-o;
+ ahi está a minha vida, dizia cele. O que uma vez amei, em cada dia me
+ pareceu mais digno do amor; de dia para dia adiei a justiça mais santa,
+ a liberdade mais bella, a palavra mais sagrada, a arte mais real, a
+ realidade mais artista, a poesia mais verdadeira, a verdade mais
+ poetica, a natureza mais divina, o divino mais natural. E se me sobrasse
+ tempo para ir mais ao fundo d'aquillo que ignoro, sinto que as coisas
+ que ainda me espantam acabariam por desapparecer. Onde a inquietação se
+ apoderara de mim, o enygma se decifraria por si mesmo. Eu repousaria na
+ luz.
+</p>
+<p>
+ São os homens que podem extrahir do seu passado a lição que encerram
+ essas formosas palavras os que teem direito de vir fallar-nos do seu
+ passado. Os que não teem como lembrança dos seus dias decorridos senão o
+ cansaço, o desalento, a indifferença o o desdem, podem fazer um serviço
+ maior do que escrevel-o; é calal-o.
+</p>
+<hr id="salomao"/>
+<p>
+ Concluindo não pediremos ao sr. Herculano que nos perdôe a ousada
+ franqueza com que lhe fallamos. S.ex.ª sabe que a unica irreverencia
+ criminosa diante de urna verdade que se possue consiste unicamente em
+ esconder essa verdade. Que ella provenha do mais obscuro dos miseraveis
+ ou da mais alta e mais competente das actividades, que importa? É
+ preciso abate-a ou deixal-a passar. S.ex.ª conhece o dialogo asiatico de
+ Salomão e de Marculf. Salomão é o grande rei, dotado de todos os dons,
+ bello, omnipotente e sabio; Marculf é um villão-ruim, um rustico
+ insolente e bestial. No emtanto as subtilezas populares do bobo
+ esfarrapado embaraçam e humilham no seu throno o poderoso e sabio rei.
+ Isto prova que a magnanima auctoridade e a sacrosanta lei escripta podem
+ não perder tudo em escutar um simples, roto e despresivel raciocinio
+ plebeu.
+</p>
+<p>
+ Bem sabemos que não somos nós que temos as finas subtilezas ironicas do
+ bobo Marculf. Mas egualmente é certo que por outro lado o sr. Herculano
+ tambem não é inteiramente o filho de David, rei de Israel, o que
+ escreveu o <i>Cantico dos canticos</i> e edificou o templo.
+</p>
+<hr id="pereira"/>
+<p>
+ Ao passo que o sr. Alexandre Herculano, historiador, publica opusculos, o
+ sr. João Felix Pereira, opusculista, publica historia.&mdash;É a logica do
+ absurdo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A recente obra de Felix é um resumo de historia romana traduzido do
+ latim. As primeiras linhas d'esta versão bastam para dar aos leitores
+ uma, idéa da obra.
+</p>
+<p>
+ <i>O imperio romano, menor do que o qual em seo principio, ou maior por
+ seo augmento em todo o mundo, de quase nenhum a memoria humana pode
+ recordar-se, tem principio de Romulo; o qual filho de Rhea Silvia,
+ virgem vestal, e, quanto se julgou, de Marte, foi dado á luz com seo
+ ermão Remo, d'um só parto. Elle como andasse roubando entre pastores,
+ chegando á edade de dezoito annos, fundou uma pequena cidade no monte
+ Palatino</i> ...
+</p>
+<p>
+ Tal é Eutropio&mdash;traduzido para Felix. Não faltaria agora senão uma
+ coisa: traduzil-o de Felix para Portuguez&mdash;se por ventura houvesse
+ alguem no mundo que fosse capaz de advinhar perante a lingua de Felix,
+ qual a grammatica com que se rege Felix, medico, engenheiro civil,
+ agronomo, e auctor de opusculos para instrucção da mocidade!
+</p>
+<p>
+ Não, francamente, ó Felix, vós, que tendes tantos officios&mdash;medico,
+ engenheiro civil e agronomo&mdash;vós, que sois na sciencia o mesmo que são
+ na musica os homens dos sete instrumentos, que fazem uma orchestra
+ batendo com todas as partes do corpo, vós que egualmente sois medico com
+ a bocca do estomago, engenheiro civil com os cotovellos, agronomo com o
+ nariz e escriptor publico com os calcanhares, porque não deixaes vós de
+ ser, pelo menos, um preceptor da infancia, um escriptor das escolas?!...
+</p>
+<p>
+ Em primeiro logar isso descançaria um pouco o vosso corpo, ó habilidoso
+ João, ó feliz Felix.
+</p>
+<p>
+ Em segundo logar pouparieis á infancia o desgosto de desaprender a sua
+ lingoa lendo nas aulas os vossos escriptos, os quaes a benemerita Junta
+ Consultiva da Instrucção Publica não deixa nunca de approvar, servindo
+ assim na primeira communhão dos que estudam, em vez das sagradas
+ particulas da sciencia, os estercos nauseabundos e venenosos das vossas
+ equarissages litterarias.
+</p>
+<p>
+ A verdade, encyclopedico Felix, é que vós escreveis muito peior do que
+ fallam os botucudos do rio Mucury e os Pelles Vermelhas, no interior dos
+ sertões.
+</p>
+<p>
+ A verdade é que ninguem vos entende.
+</p>
+<p>
+ Se nós houvessemos de ir estudar os rudimentos da historia romana
+ prefeririamos ao trabalho de interpretar o vosso compendio ir
+ directamente estudar a geographia antiga, a ethnologia, a geologia, a
+ linguistica, a archeologia, todas as primitivas fontes da historia;
+ ser-nos-ia mais facil, mais rudimentar, do que analysar e reduzir á
+ grammatica qualquer dos vossos periodos, ir á Asia Menor estudar as
+ epigraphes funerarias sobre as ruinas do templo de Herodes Atticus,
+ interpretar e comparar os textos da escripta hieroglyphica, hierotica e
+ demotica, os documentos originaes bysantinos e orientaes, e as
+ inscripções babylonicas e assyrias gravadas nas estatuas, nos
+ baixo-relevos, nos cylindros e nos amuletos ... Tudo isso, ó João, antes,
+ mil vezes antes, do que procurar entender-vos!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Se porém o nosso conselho vos não apraz, se quereis absolutamente
+ continuar a escrever compendios, em vez de seguirdes outro officio, não
+ nos afflijaes pelo menos, continuando a declarar-nos em cada uma de
+ vossas obras que continuaes sempre a ser medico, agronomo e engenheiro
+ civil! Se tudo isso vos não serve para ganhardes honradamente a vossa
+ vida sem vergonhas da grammatica dos vossos paes e do senso commum dos
+ vossos avós, então ponde unicamente nos vossos livros:
+</p>
+<div class="centered">
+<p>POR</p>
+<p>JOÃO FELIX</p>
+<p>BIMANE DA ORDEM DOS PRIMATAS</p>
+<p>SEGUNDO DARWIN E LAMARCK</p>
+</div>
+<hr id="fernando" />
+<p>
+ O <i>Tribuno Popular</i>, folha democratica de Coimbra, referindo-se em um
+ notavel artigo á recente viagem áquella cidade do S.M. o sr. D.
+ Fernando, escreve estas linhas:
+</p>
+<p>
+ <i>«N'este intervallo a sr.ª condessa de Edlla, e o sr. infante duque de
+ Coimbra, acompanhados pelo sr. visconde do Seiçal e João José de Mello,
+ emprehendiam um passeio notavelmente pittoresco. Dirigiram-se ao caes,
+ entraram n'um pequeno barco, e seguiram rio acima, admirando estas
+ formosissimas margens, então realçadas pela luz do luar, e animadas pela
+ orchestra de mil rouxinoes que de ambas as margens pareciam advinharem
+ os espectadores nocturnos que os escutavam.»</i>
+</p>
+<p>
+ Poderosos ceos! Que teriam feito os rouxinoes para que se entendesse que
+ elles tinham advinhado «os espectadores nocturnos que os escutavam?!»
+</p>
+<p>
+ Cantaram o hymno da carta? Deram vivas á real familia? Perguntaram por
+ Melicio?...
+</p>
+<p>
+ Por Deus! que o <i>Tribuno Popular</i> nol-o diga! Queremos pedir para o
+ peito d'esses passarinhos a commenda de S. Thiago.
+</p>
+<p>
+ Emquanto aos srs. viscondes do Seiçal e João José de Mello, estamos
+ certos de que não deixaram ficar a côrte endividada com a patriotica
+ manifestação dos rouxinoes do Choupal. Sim, ss.ex.'as seguramente
+ responderam aos rouxinoes, desentranhando-se por sua parte nos mais
+ ternos pios, nos mais vigorosos gorgeios ... Oh! nós conhecemos a fidalga
+ bizarria de ss.ex.'as, Pela parte que nos toca não podemos deixar tambem
+ de mandar um garganteado reconhecido ás avesinhas do Mondego. Ora pois:
+ <i>có, có ró, có!</i> por Lisboa agradecida.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Sempre que em cada anno se celebra na cadeia do Limoeiro a ceremonia da
+ communhão aos presos, o senhor procurador regio convida a imprensa a
+ assistir a essa solemnidade, e a imprensa publica no dia immediato que a
+ cadeia está no maior aceio e que o senhor procurador regio é digno dos
+ maiores elogios. Porque? Porque commungaram os presos.
+</p>
+<hr id="monicas" />
+<p>
+ Ha dias lemos que a casa de detenção da comarca de Lisboa estabelecida
+ no antigo convento das Monicas estava no dito «maior aceio» e que o
+ mesmo procurador regio era digno dos referidos «maiores elogios.» Razão:
+ Tinham commungado os presos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ora é bom que o publico saiba de quando em quando o que são as prisões
+ portuguezas&mdash;quando os presos não commungam.
+</p>
+<p>
+ Nós visitámos a casa de detenção&mdash;antes da oitava da Paschoa. Eis o que
+ vimos:
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Um predio frio, humido, abafado, sem ar e sem luz, espessas paredes e
+ pequenas janellas, a clausura mais estreita, mais escura, mais humilde.
+ Era no inverno. As paredes rebocadas de novo tinham grandes manchas
+ humidas, esverdeadas. O sol não penetrava em parte alguma do edificio.
+ Uma impressão de bolor e um ar em que se sentiam, resfriadas e fixas, as
+ exhalações peculiares da miseria, a atmosphera das enxovias
+ deshabitadas, as reminiscencias olphaticas dos cheiros emanados das
+ vasilhas de lata em que houve caldo e dos vestidos quentes dos mendigos
+ que apanharam chuva.
+</p>
+<p>
+ Era um domingo. Os rapazes detidos no estabelecimento, na promiscuidade
+ de todas as edades desde os seis annos até aos dezeseis, estavam juntos
+ em um estreito pateo interior, na sombra&mdash;porque tambem ali não chegava
+ o sol&mdash;frios, com as mãos nos bolsos, encostados aos muros, sentados ou
+ deitados no chão. Ninguem os vigiava. Elles porém estavam quietos&mdash;como
+ um rebanho no curral. Alguns tinham escrophulas. Outros tinham os olhos
+ doentes e os cantos da bocca feridos. Eram todos magros, pallidos,
+ anemicos, tristes.
+</p>
+<p>
+ Perguntamos-lhes por que esperavam. Não esperavam nada. Estavam ali. Que
+ faziam? Coisa nenhuma. Porque não cultivavam a quinta annexa ao
+ edificio, metade da qual estava cheia de hervas inuteis? Porque os não
+ deixavam: havia um hortelão. Porque não iam pelo menos passeiar na
+ quinta? Porque era prohibido. Não havia uma gymnastica? Não a havia. Não
+ havia de todos esses regimentos da guarnição de Lisboa um musico que aos
+ domingos lhes ensinasse rudimentos de musica para que tivessem uma
+ charanga? Não havia. Hão havia, pelo menos, um cabo de esquadra que os
+ fizesse marchar ao som de um tambor e lhes ensinasse o exercicio
+ militar? Não havia. Não havia, emfim, terra que remover, pedra que
+ acarretar, lenha que partir, um pau sequer espetado no chão para
+ treparem n'elle, uma escada de mão posta ali para subirem e descerem
+ por ella, uma occasião, um motivo, um pretexto, uma desculpa qualquer
+ para que esses infelizes pequenos se bolissem, se movessem, tivessem
+ alguma distracção, fizessem algum exercicio? Nada, absolutamente nada.
+ As lages do pateo interior da casa, pouco menos estreito que um saguão,
+ coberto de sombra e de frio e sobre as lages os pequenos. Era assim que
+ passavam os domingos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Nos dias de semana trabalham em officinas terreas, sem soalho,
+ extremamente humidas, no mesmo pateo em que jazem nos domingos. Uns são
+ alfaiates, outros sapateiros, outros esparteiros. Ha sobre isto uma
+ escola de instrucção primaria. Não aprendem mais nada. Nada mais se lhes
+ ensina.
+</p>
+<p>
+ Este instituto tem uma missão especialmente moralisadora. Não ensina
+ moral.
+</p>
+<p>
+ Tem por fim punir e evitar as contravenções da lei. Não ensina a lei.
+</p>
+<p>
+ Tem a obrigação restricta da catechese. Não ha na prisão um padre, um
+ capellão, um perceptor.
+</p>
+<p>
+ Aos domingos um sacerdote diz missa e retira-se. Por essa razão entre as
+ attribuições dos chaveiros lemos esta disposição: «Obrigará os presos a
+ benzerem-se.»
+</p>
+<p>
+ Teem duas refeições por dia. Ao almoço arroz e feijões. Ao jantar
+ feijões e arroz.
+</p>
+<p>
+ Carne fresca ou salgada, de boi, de carneiro ou de porco nunca comem.
+ Nunca bebem vinho.
+</p>
+<p>
+ O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. Isto precisa de ser dito
+ duas vezes. O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. É o <i>menu</i> da
+ enxovia. Se é mau na cadeia, imagine-se o que poderá ser na casa de
+ correcção!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Dormem, aos grupos de oito, em camaratas, onde ha, em cada uma, oito
+ camas e uma latrina.
+</p>
+<p>
+ Na camarata não ha luz. A porta é fechada por fora á chave.
+</p>
+<p>
+ Não ha vigilancia alguma durante todo o espaço de tempo que decorre
+ dentro d'aquellas podridões, desde que anoitece até que rompe o sol.
+ Apenas, fora do corredor que dá passagem para os dormitorios, dorme um
+ guarda no seu quarto. Este guarda teve a bondade de nos dizer que,
+ sempre que havia desordens nas camaratas, elle intervinha com o rigor da
+ sua auctoridade por isso que, concluiu elle, <i>quem dá o pão dá o
+ ensino</i>.
+</p>
+<p>
+ Cremos piamente que este guarda está convencido de que quem dá o pão em
+ Portugal á infancia criminosa é elle. O ensino pelo menos é exclusivo de
+ sua mercê.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A direcção geral da prisão está confiada a um homem que não sabemos quem
+ é, nem quem foi, nem quem poderá vir a ser. O que sabemos, e isso nos
+ basta, é que esse director ganha&mdash;cinco tostões por dia!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Eis a physionomia da casa de detenção da comarca de Lisboa, contornada a
+ traços mathematicos, sem commentarios, sem emphase, sem exclamações
+ doloridas ou sentimentaes, nenhum toque artificial de luz ou de sombra
+ que possa alterar a exacção rectilinea do quadro!
+</p>
+<p>
+ Para isto não ha pedir reorganisação ou reforma. Não se trata de uma
+ velha instituição apodrecida pelos annos. É uma creação nova, que tem
+ apenas alguns mezes de existencia. Dá a medida exacta das forças de
+ sciencia, de civilisação e de moral que o paiz se acha officialmente
+ habilitado para dispender, no dia de hoje, em favor do progresso. Não se
+ póde por em quanto pedir mais nada ao paiz! Eis a sua mais recente prova
+ de capacidade! Eis tudo quanto elle sabe do direito criminal, da hygiene
+ physica e moral das prisões, das modernas colonias penitenciarias, da
+ educação intellectual, da educação moral, da educação religiosa, dos
+ deveres phylantropicos do Estado, da missão paternal do poder para com
+ os orphãos, da organisação do trabalho infantil, de todas as questões
+ finalmente ligadas á creação de um estabelecimento penal da ordem
+ d'aquelle a que nos referimos.
+</p>
+<p>
+ O povo, tranquillo e satisfeito, lê as folhas baratas cheias de elogios
+ estolidos ás mais viciadas e perniciosas instituições do paiz, e
+ julga-se fielmente levado para a mystica terra da promissão pelos homens
+ que o governam e pelos homens que o instruem. De todo o tempo esteve na
+ tendencia popular esta profunda fé na simplicidade ignorante. Os
+ primeiros cruzados que foram á Terra Santa queriam ter por guias uma
+ cabra e um pato; os Sabinos baixaram das suas montanhas conduzidos por
+ um picanço; Cadmus foi á Beotia levado por uma vacca. Em Portugal João
+ Felix, no livro; Melicio, no jornal; e o sr. procurador regio na casa
+ das Monicas, dirigem os espiritos e guiam as consciencias para o ideal.
+ A opinião obedece-lhes.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Vemos em uma conta official que nas obras feitas no convento das Monicas
+ para adaptar o edificio ao fim a que elle hoje se destina, se gastaram
+ seis contos de réis. Junte-se esta quantia á de quinze contos, preço
+ minimo porque poderia ser vendido o convento e quinta annexa e ter-se-ha
+ mais que o sufficiente para fundar em qualquer baldio da Extremadura ou
+ do Alemtejo uma exemplar colonia agricola penitenciaria.
+</p>
+<p>
+ Seis contos de réis, só em obras n'um edificio torto, absolutamente
+ impossivel de adaptação ás necessidades do trabalho, da educação e da
+ hygiene!...
+</p>
+<p>
+ Mas é um desperdicio, que revela a ignorancia mais crassa em similhantes
+ assumptos. Na magnifica colonia agricola de Mettray, perto de Tours, em
+ França, as creanças presas estão divididas por edades e repartidas por
+ casas inteiramente separadas e independentes. Cada uma d'estas casas,
+ de 12 metros sobre 6,66, consta de um pavimento terreo e de dois
+ andares. Na sala do rez do chão está estabelecida a officina. Em cada um
+ dos dois andares ha uma sala, que serve successivamente de dormitorio,
+ de refeitorio, de sala de estudo, de sala de recreação nos dias de
+ chuva, e em caso de necessidade de escola. Dois travessões presos ao
+ muro por uma dobradiça em uma das suas extremidades estão levantados ao
+ longo da parede dos dois lados da porta de entrada. Quer-se preparar o
+ refeitorio, a classe, a sala de estudo? Descem-se estes dois travessões
+ e suspendem-se no muro fronteiro, ficando assim firmes, na altura de uma
+ mesa, aos dois lados da porta, e a todo o comprimento da sala; em
+ seguida descem-se das paredes lateraes pranchas de madeira fixadas
+ n'ellas por meio de dobradiças como os travessões; estas pranchas presas
+ ao muro por um lado prendem-se pelo lado opposto ao travessão por meio
+ de uma cavilha; e estão promptas as mesas. Os bancos levam-se da
+ officina. Se se quer armar o dormitorio, em vez das pranchas com que se
+ formam as mezas, descem-se dos muros as macas em que se fazem as camas.
+ Ao fundo de cada um d'estes dormitorios ha um quarto aberto para a sala
+ em que dorme o chefe da secção, secundado pelo contra-mestre. Os
+ contra-mestres estão alternadamente de quarto no dormitorio, de modo que
+ durante a noite passeia constantemente um guarda no espaço que medeia
+ entre os dois travessões de que fallámos.
+</p>
+<p>
+ Cada um d'estes pequenos predios contendo quarenta e tres pessoas,
+ custou, incluida toda a mobilia, um relogio, toda a roupa de camas, e
+ toda a loiça de lavatorio e limpeza, 8:300 francos, isto é: 1:494$000
+ réis.
+</p>
+<p>
+ Tres dos predios descriptos seriam muito mais que o sufficiente para
+ recolher todos os presos actualmente existentes na casa de detenção das
+ Monicas.
+</p>
+<p>
+ Temos portanto que em Lisboa se gastam seis contos unicamente em reparos
+ n'um velho edificio monstruoso, quando em Tours se funda para 120 presos
+ um estabelecimento completo, se construe um edificio modelo, provido
+ inteiramente de louça, de roupa e de mobilia, por menos de quatro contos
+ e quinhentos mil réis!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Em quanto ao regime e á organisação interna do estabelecimento
+ portuguez quasi tudo o que existe é erro.
+</p>
+<p>
+ Os presos não cultivam a quinta. Deviam cultival-a. Formar-se-hiam assim
+ hortelões e jardineiros.
+</p>
+<p>
+ Não cosinham, não tecem o estofo dos seus vestidos, não cozem o pão das
+ suas rações, não fazem a mobilia das suas casas. Tudo isso deveriam
+ aprender. Era facil, era economico, era moralisador, dava aos presos
+ novas aptidões, ensinando-os a padeiros, a tec-lões e a cosinheiros,&mdash;as
+ noções mais essenciaes á vida.
+</p>
+<p>
+ Não aprendem musica. Deviam aprendel-a. Uma charanga á frente de cem
+ rapazes em marcha faz d'elles cem homens.
+</p>
+<p>
+ Não teem uma bomba de incendios. Deviam tel-a, deviam saber manobrar com
+ ella. Devia-se conceder como um premio aos de melhor procedimento,
+ levarem a bomba aos incendios, permittindo-se por este modo aos
+ condemnados a faculdade de se rehabilitarem sacrificando a sua vida
+ pelos seus similhantes.
+</p>
+<p>
+ Não ha uma mulher dentro da prisão. É uma enorme falta para as
+ desgraçadas creanças de oito a doze annos. A cozinha, a lavanderia, a
+ enfermaria, a rouparia, coisas que alli não existem senão nominalmente,
+ deveriam organisar-se de um modo effectivo com o trabalho dos presos e
+ sob a direcção das irmãs da caridade portuguezas, que encontrariam assim
+ um emprego elevado e digno do seu tempo.
+</p>
+<p>
+ Só as mulheres sabem aconselhar as creanças, convencel-as da virtude; e
+ cumprir esta missão é mais bello e é mais meritorio perante a sociedade
+ e perante Deus do que mendigar por entre velhas fidalgas devotas,
+ embiocadas e inuteis, o pão de cada dia.
+</p>
+<p>
+ Os presos isolados no carcere celular estão na mais absoluta ociosidade
+ fechados n'um quarto escuro. Não ha nada que mais desmoralise, que mais
+ definhe e que mais corrompa. N'estes casos os rapazes deveriam ser
+ obrigados a rachar lenha ou a britar pedra&mdash;os exercicios mais saudaveis
+ para os musculos de quem está parado.
+</p>
+<p>
+ Finalmente a casa de detenção das Monicas não é sómente a negação do que
+ devia ser, é mais do que isso, é a affirmação contradictoria de todos os
+ principios oppostos aos principios verdadeiros.
+</p>
+<p>
+ Tal qual está constituido este estabelecimento, temol-o por um foco de
+ apodrecimentos humanos, um seminario de vicios torpes e secretos, um
+ curso accelerado de preparatorios infalliveis para o Limoeiro, para o
+ hospital, ou para o cemiterio.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Uma derradeira observação:
+</p>
+<p>
+ A maior parte dos presos detidos na prisão correcional das Monicas são
+ cumplices do crime de vadiagem.
+</p>
+<p>
+ Ora sendo aquelles presos todos menores, não tendo uma familia, não
+ tendo um officio, não sabendo ler nem escrever, com que direito os pune
+ por não trabalharem o Estado, que lhes não dá trabalho?
+</p>
+<p>
+ Que quer o estado que sejam esses pequenos para não serem vadios?
+</p>
+<p>
+ Quer que sejam medicos, tenentes coroneis, conselheiros do tribunal de
+ contas, escriptores publicos, capitalistas ou banqueiros?
+</p>
+<p>
+ Vamos! respondam-nos! Estamos interrogando sob o caracter mais digno de
+ attenção e de respeito de que se pode alguem revestir. Somos n'este
+ momento os interpretes inviolaveis e sagrados da infancia orphã,
+ desvalida e desamparada. Fallamos em nome de um pequeno que não quer ir
+ para a prisão das Monicas comer os feijões frios do Limoeiro, no que
+ está inteiramente no seu direito. É um innocente.
+</p>
+<p>
+ Todavia ninguem o chama para fazer artigos nos jornaes, ninguem o quer
+ para commandar a Municipal, ninguem o incumbe de tratar uma molestia, de
+ deffender uma causa, de montar uma fabrica ou de construir um navio.
+ Nenhuma viuva rica lhe offerece a sua mão de esposa. Os agiotas quando
+ elle passa levantam as bengalas e rangem os dentes. Não tem uma ponta de
+ trabalho nem um bocado de pão. Finalmente é um vadio. Agora o que elle
+ deseja saber é o seguinte:
+</p>
+<p>
+ O que é que o Estado lhe dá licença que seja desde o momento em que lhe
+ prohibe ser o que é.
+</p>
+<p>
+ Espera-se resposta.
+</p>
+<hr id="republicaportugueza"/>
+<p>
+ A <i>Republica Portugueza</i>, jornal de Coimbra, exproba-nos a indifferença
+ que temos pela questão politica e pela forma do governo em Portugal, e
+ dirige-nos as seguintes textuaes perguntas:
+</p>
+<p>
+ 1.ª «A redacção das <i>Farpas</i> quer a resolução do problema economico,
+ quer que se preoccupem os animos com a questão social; mas sempre
+ quereriamos saber como isso se podia realisar, quando a formula politica
+ é insufficiente para garantir o direito?»
+</p>
+<p>
+ 2.ª «O problema social em sua maior amplitude é a realisação pratica da
+ justiça, e sendo a fórma do governo o meio adquado á sua realisação em
+ uma dada epoca, como poderá haver quem imagine a resolução dos
+ principios da justiça actual em uma fórma de governo de ha dois
+ seculos?»
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Temos a honra de responder á <i>Republica Portugueza</i>:
+</p>
+<p>
+ 1.º Aquillo que a <i>Republica Portugueza</i> chama a <i>formula politica</i> não
+ é insufficiente em Portugal para garantir o direito que cada um tem de
+ estudar e resolver o problema social; essa questão póde-se tratar, com
+ todas as garantias da liberdade, nos livros, nos jornaes, nas camaras,
+ no governo; a unica razão que obsta a que isto se faça é apenas a
+ incapacidade intellectual ou moral dos que tinham obrigação de fazel-o.
+ Depois de estabelecida e firmada a liberdade politica aproximadamente
+ perfeita como ella existe em Portugal, a sociedade nada mais tem que
+ pedir ao principio politico; a sua obrigação é organisar as suas forças
+ industriaes e economicas e o seu systema moral para conseguir, dentro da
+ liberdade que tem, duas coisas de que carece: riqueza e virtude. Dada a
+ liberdade, a questão politica nada mais tem que dar ao povo; se elle
+ pede ainda á fórma de governo o remedio da sua corrupção e da sua
+ miseria, isso não prova senão uma triste coisa: é que o povo não está na
+ Revolução, está apenas na inepcia.
+</p>
+<p>
+ 2.º A resolução dos principios da justiça cabe em todas as formas de
+ governo. Turgot, ministro de Luiz XVI, no tempo da monarchia feudal
+ queria exactamente isso: a resolução dos principios da justiça. Sabe a
+ <i>Republica Portugueza</i> quem foi que impediu Turgot? Foi o povo. Não
+ somos nós que o dizemos. Proudhon, cuja auctoridade suppomos que a
+ <i>Republica Portugueza</i> não terá por suspeita, exprime-se n'estes termos:
+</p>
+<p>
+ «Esse reformador rigorista, traido pelo povo, queria todavia a
+ <i>revolução</i>&mdash;tomada de alto, feita sem estrepito, consumada quasi sem
+ revolucionarios.»
+</p>
+<p>
+ Ora aqui tem a <i>Republica Portugueza</i> como ha quem imagine, a solução
+ dos actuaes principios revolucionarios em uma forma de governo de ha
+ dois seculos. Quem teve a petulancia de imaginar isso, sem a previa
+ licença da <i>Republica Portugueza</i>, foi Proudhon.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Depois de nos fazer as suas perguntas, a <i>Republica</i> tem a bondade de
+ nos dar os seus conselhos. As perguntas satisfizemos-lh'as. Os conselhos
+ não lh'os acceitamos. A ingenuidade pueril das interrogativas que a
+ folha conimbricense nos dirige, annulla a competencia das admoestações
+ que nos faz.
+</p>
+<hr id="duaspalavras"/>
+<p>
+ O folheto brazileiro intitulado <i>Duas palavras aos leitores das Farpas</i>,
+ ultimamente publicado e distribuido em Lisboa a milhares de exemplares,
+ tem por objecto contestar por meio dos processos aliás mais urbanos e
+ mais comedidos, a verdade dos factos que asseverámos ácerca da sociedade
+ e da civilisação do Brazil em um artigo consagrado á emigração
+ portugueza para aquelle imperio.
+</p>
+<p>
+ Se o escriptor brazileiro a quem temos a honra de responder tivesse
+ conseguido o poder alliar o alto espirito de amor patriotico, de que se
+ diz dominado, com a prudencia de discutir simplesmente o criterio das
+ nossas conclusões e não a verdade dos factos em que ellas se baseiam,
+ nós não teriamos duvida em estender affectuosamente o nosso silencio aos
+ pés triumphantes d'este sympathico patriota.
+</p>
+<p>
+ Como, exactamente pelo contrario,
+</p>
+<p>
+ São as nossas illações o que no dito libello se não contesta, e é a
+ verdade dos factos citados o que se combate, denunciando-nos como
+ fabricadores de aleives historicos phantasiados com o fim expresso de
+ ridicularisar o grande imperio,&mdash;o que se parece demasiadamente a nossos
+ olhos com a denegação da nossa probidade e com a suspeita de que
+ mentimos,
+</p>
+<p>
+ Soffrerá o auctor do folheto citado que nos permittamos fazer-lhe
+ sentir, em algumas linhas rapidas, que as <i>Farpas</i> não são inteiramente
+ uma creação poetica e phantasista.
+</p>
+<p>
+ Não, nós não temos o distincto prazer artistico de ser <i>As fabulas de
+ Florian</i>, nem tão pouco os <i>Contos de Perrault</i>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Examinemos a qualidade dos argumentos com que o opusculo a que nos
+ referimos tem a bonhomia de suppôr que nos desdiz. Tomemos tres dos
+ pontos mais importantes para a civilisação do Brazil: <i>A producção e o
+ commercio, a instrucção publica, o trabalho e a industria</i>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Emquanto á producção e ao commercio nega o auctor que o valor annual das
+ substancias alimenticias importadas pelo Brazil seja, como nós
+ affirmamos, equivalente ao da quarta parte da sua exportação. Para este
+ fim dá-nos a estatistica da importação das substancias alimenticias
+ durante os ultimos annos, attesta que ella é inferior e não equivalente
+ á quarta parte do valor exportado; com tal fundamento accusa-nos de
+ fabricarmos puras invenções; e depois de tres paginas de recriminações
+ acerbas, conclue assim:
+</p>
+<p>
+ «Não quererão decerto considerar como substancias alimenticias o vinho,
+ o chá, o café, o azeite, as bebidas espirituosas e fermentadas etc.,
+ porque essas sim talvez reunidas áquellas (peixes, carnes, farinhas,
+ manteiga e sal) dessem essa tal quarta parte da exportação.»
+</p>
+<p>
+ Quer isto dizer:
+</p>
+<p>
+ O Brazil não tem duvida em nos convencer de tudo o que se pretenda a
+ respeito do estado em que se acham as suas forças productivas, bem como
+ a proporção existente entre a exportação e a importação no seu
+ mercado&mdash;com uma simples condição&mdash;e é: que se lhe concedam alguns
+ pontos de partido na arithmetica do seu calculo. Trata-se, por exemplo,
+ da importação de substancias alimenticias no valor de trinta mil contos
+ annuaes; deseja o Brazil, afim de nos convencer de que illudimos a
+ verdade, que a dita importação seja apenas de dez mil contos ... Nada
+ mais simples! O Brazil vae juntando successivamente as suas parcellas de
+ substancias alimenticias importadas até chegar á prefixada somma dos dez
+ mil contos. D'essa quantia para cima o Brazil começa a considerar as
+ substancias alimenticias, como não sendo&mdash;substancias alimenticias.
+</p>
+<p>
+ Registrou a importação do sal, da manteiga, da farinha, dos peixes e
+ das carnes, e achou dez mil contos; faltava-lhe, é verdade, registrar
+ ainda o vinho, o chá, o azeite, as bebidas fermentadas, o vinagre, as
+ fructas, os legumes etc; o Brazil porém espera que nós consideremos
+ estas coisas como não sendo generos alimenticios. Elle pede-nos isto,
+ espera isto de nós, e, para nos convencer de que estamos no erro mais
+ vil e mais torpe, elle não quer outras armas! não precisa senão d'isto:
+ que se lhe admitta que o vinho não é senão, por exemplo, simples
+ <i>producto de gutta-percha!</i> o chá, o azeite, o vinagre, a cerveja ...
+ puros <i>tecidos de algodão!</i> os queijos, os alhos, as cebolas, os figos,
+ as passas ... mera <i>perfumaria!</i>
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Pelo que respeita á instrucção publica, diz-nos que o numero dos que
+ sabem ler não está, como nós dissemos, na proporção de 1 para 90
+ habitantes, mas sim na de 1 para 68. Sómente na estatistica official de
+ que se extráe esse dado, o governo brazileiro não conta, como homens que
+ habitam o Brazil, os escravos, cujo numero pode todavia ser calculado em
+ cerca de tres milhões, não diremos de habitantes, mas, emfim, de
+ cabeças. O auctor accrescenta ainda, para nos convencer dos progressos
+ da instrucção no Brazil que as escolas de instrucção primaria que ali
+ existem são na proporção de&mdash;1 para 3:021 habitantes <i>livres</i>; além do
+ que ha ainda no Rio de Janeiro varias corporações scientificas e
+ sociedades sabias, entre as quaes <i>As duas palavras aos leitores das
+ Farpas</i> nos citam as seguintes: <i>associação commercial, sociedade
+ musical de beneficencia, sociedade auxiliadora da industria, associação
+ typographica, instituto pharmaceutico</i>, e finalmente a famosa
+ <i>associação dos guardas livros, sociedade jockey-club, tendo por fim
+ promover o melhoramento da raça cavallar</i>.
+</p>
+<p>
+ É realmente indigno, em vista de similhantes factos, que alguem se
+ tivesse lembrado, como nós, de deplorar a defficiencia da illustração no
+ Brazil, onde ha uma escola para cada 3:021 habitantes <i>livres</i>, e vinte
+ <i>sociedades sabias!</i>
+</p>
+<p>
+ Que nos perdoem os grandes propagadores da sciencia, que nós
+ desconheciamos antes da publicação d'este folheto! Que nos perdoem os
+ senhores musicos, os senhores typographos, os senhores pharmaceuticos, e
+ sobretudo suas senhorias os senhores guarda-livros do <i>jockey-club</i>,
+ encarregados do melhoramento da raça cavalar!
+</p>
+<p>
+ No tocante á industria, aos dados da estatistica official que nós
+ publicamos e dos quaes se deduz que tal ramo da actividade humana é
+ quasi nullo no Brazil, oppõe o nosso contendor as seguintes animadoras
+ palavras extrahidas de um <i>Retrospecto commercial de 1872</i>, publicado no
+ <i>Jornal do Commercio</i>:
+</p>
+<p>
+ «Em quanto a emigração nos não trouxer levas sobre levas de operarios e
+ de artistas, a industria manufactureira conservar-se ha como que
+ apertada em um circulo estreito.»
+</p>
+<p>
+ Logo: nós inventamos os factos para «achincalhar» o imperio. A
+ estatistica official da qual copiamos que em 1859 o numero dos
+ industriaes brazileiros era apenas o da quinta parte dos industriaes
+ extrangeiros residentes no Brazil, é falsa. A verdade suprema ácerca da
+ industria indigena na America brazileira é que: É enorme e poderosissima
+ a força expansiva do seu desenvolvimento. E tanto que, segundo os seus
+ mais enthusiastas apologistas, ella vive «como que apertada em um
+ circulo estreito.»
+</p>
+<p>
+ Do que tão clara e positivamente expuzemos ácerca da organisação
+ viciosissima das differentes colonias agricolas no Brazil, das
+ atrocidades pavorosas da feitoria do Mucury, dos textos tão expressivos
+ que sobre este ponto reproduzimos dos relatorios enviados aos governos
+ da Suissa e da Alemanha pelos seus delegados no Brazil os srs. Tschudi e
+ Avé-Lallemant, acha bem o auctor das <i>Duas palavras aos leitores das
+ Farpas</i> não discutir nem contestar palavra nenhuma. Diz-nos apenas que
+ pediu sobre esse assumpto, o mais importante do nosso artigo,
+ informações officiaes, que publicará logo que lhe cheguem do Rio de
+ Janeiro.
+</p>
+<p>
+ Se espera esclarecimentos que desmintam os factos que nós referimos, não
+ os terá nunca. A verdade é unicamente o que dissemos. As <i>Farpas</i> não
+ fizeram mais do que historiar realistamente, sem declamações e sem
+ objurgatorias, as causas que levaram a Suissa e a Baviera a prohibirem a
+ emigração para o Brazil, e a proclamarem officialmente como catastrophe
+ a colonisação agricola do solo brazileiro por trabalhadores europeus.
+</p>
+<p>
+ Em refutação do que affirmamos sobre a frequencia dos casos de alienação
+ mental no Rio de Janeiro, diz-nos a obra que analysamos e estamos
+ transcrevendo nas suas mais importantes partes, que apenas consta ao seu
+ auctor um facto isolado em abono da nossa affirmativa, sendo certo por
+ outro lado, segundo elle mesmo assevera, que no Rio de Janeiro existe um
+ hospital de doudos sumptuosissimo e talvez no seu genero o primeiro
+ estabelecimento do mundo.
+</p>
+<p>
+ Ora, para aniquilar inteiramente a opinião de que é grandissimo o numero
+ de alienados no Rio de Janeiro, não basta dizer-se-nos que um vastissimo
+ e monumental hospicio de doudos existe n'aquella côrte; importaria
+ certificar tambem que as pessoas que enchem esse edificio estão&mdash;em
+ pleno uso das suas faculdades.
+</p>
+<p>
+ O que no entanto se nos não põe em duvida é que esse hospital está
+ muitas vezes cheio. Pois bem, n'esses casos, um nosso compatriota
+ alienado,&mdash;como a colonia portugueza não possue estabelecimento especial
+ para o receber&mdash;é recolhido na cadeia.
+</p>
+<p>
+ Lembra-nos que, ha cêrca de um anno, lêmos em um jornal a noticia de um
+ d'estes casos; o portuguez doudo, recolhido na cadeia por falta de outro
+ asylo estava á disposição do nosso vice-consul na Praia Grande. Este
+ facto basta para nos indicar qual é a praxe seguida com os portuguezes
+ pobres atacados de alienação mental. É natural que existam mais casos da
+ natureza do que citamos; nós desconhecemol-os, porque nunca tivemos a
+ vantagem de visitar o Brazil, não recebemos informações nem suggestões
+ de ninguem que ali esteja ou tivesse estado: os nossos conhecimentos a
+ respeito do imperio americano são o resultado da leitura dos poucos
+ documentos officiaes publicados em Portugal e dos escriptos de alguns
+ viajantes suissos, allemães e francezes. Se não adoptamos, em vez do
+ testemunho d'estes viajantes o que nos podessem ministrar escriptores
+ brazileiros, a razão é unicamente que os publicistas do Brazil, tão
+ sonoros na poesia, são inteiramente mudos na critica que nos instrua do
+ estado da civilisação na sua patria.
+</p>
+<hr id="carvalho"/>
+<p>
+ Tocaremos tambem o ponto em que o auctor do opusculo brazileiro
+ contraria a nossa opinião ácerca da inanidade diplomatica do sr. Mathias
+ de Carvalho, actual ministro portuguez junto de S.M. o imperador do
+ Brazil, com o fundamento de que este funccionario tem sabido sempre no
+ seu cargo captivar inteiramente os applausos da nossa colonia.
+</p>
+<p>
+ Se um diplomata deve ser julgado pelos seus actos em serviço do paiz que
+ representa e não pelos applausos que o seu publico lhe confere, o actual
+ ministro portuguez no Brazil é uma pessoa extremamente sympathica, mas
+ inutil. Conseguiu um tratado de extradicção, cuja historia se acha
+ resumida nas seguintes datas que extrahimos do <i>Livro Branco</i>: Em 7 de
+ junho de 1859&mdash;começa a negociação o encarregado de negocios interino no
+ Rio de Janeiro. No fim do mesmo anno&mdash;prosegue o sr. Mathias de
+ Carvalho. Em dezembro de 1871&mdash;principia negociações para um egual
+ tratado o encarregado de negocios do governo hispanhol. Em abril de
+ 1872&mdash;terminam as negociações com a Hespanha. Em junho de 1872&mdash;é
+ assignado o tratado com Portugal. O diplomata hispanhol consegue em
+ quatro mezes o que o ministro de Portugal só pôde alcançar em tres
+ annos! E ainda se não fez nem o tratado de commercio nem a convenção
+ postal, nem a convenção litteraria!
+</p>
+<p>
+ Se, pelo contrario, não são os actos do funccionario, mas sim os
+ applausos do publico que determinam os merecimentos do diplomata, n'esse
+ caso achamos preferivel ao sr. Mathias de Carvalho&mdash;a sr.ª Emilia
+ Adelaide.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Por ultimo declaramos ao auctor do folheto intitulado <i>Duas palavras aos
+ leitores das Farpas</i>, aos leitores das <i>Farpas</i>, e ao mundo, o seguinte:
+</p>
+<p>
+ 1.º Nem um só, nem um unico facto asseveramos a respeito do Brazil, que
+ antes de nós não tivesse sido clara e positivamente affirmado na
+ imprensa da Alemanha, da Suissa e da França, por differentes viajantes,
+ entre os quaes citamos especialmente como fonte de todas as nossas
+ informações os srs. Adolphe Dacier, Waldemar Schultz, Elisée Reclus,
+ Tschudi e Avé-Lalemant. Os leitores decidirão quaes affirmações merecem
+ mais fé: se as que são feitas pelos viajantes citados, em livros
+ propriamente scientificos devidamente assignados, e em relatorios
+ especiaes apresentados pelos auctores aos governos dos seus respectivos
+ paizes; se as que nos são propinadas no libello intitulado <i>Duas
+ palavras aos leitores das Farpas</i>, por um patriota brazileiro ... e
+ anonymo!
+</p>
+<p>
+ 2.º Não estamos resolvidos a subordinar a opinião de que nos acharmos
+ convencidos, nem á vontade, nem aos conselhos, nem ás ameaças de
+ ninguem. Se Deus não fosse a absoluta verdade, a verdade estaria acima
+ de Deus. Como querem então que a prostremos debaixo dos <i>syllabus</i> do
+ Catete ou das <i>bulas</i> da rua do Ouvidor?!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Se porém, apezar de tudo isto, a joven America brazileira se parece
+ tanto com a rainha Fulvia que lhe seja absolutamente preciso para a sua
+ felicidade varar-nos a lingua com o seu prego de oiro, como fez a Cicero
+ a mulher de Marco Antonio, que a America se não incommode a escrever
+ para isso mais folhetos. Venha o prego. Aqui está a lingua.
+</p>
+<hr id="highlife" />
+<p>
+ As «corridas» do Campo Grande&mdash;Extraordinario successo de dandysmo!
+</p>
+<p>
+ Não assistimos, mas lemos que esteve o <i>high-life</i>, o famoso
+ <i>high-life</i>, com o qual temos sempre o infortunio de nos desencontrar!
+</p>
+<p>
+ Estamos todavia d'aqui a vêl-o, a imaginal-o, rico, elegante, bello, no
+ Campo Grande, em volta do lago&mdash;o <i>high-life</i> ...
+</p>
+<p>
+ A aristocracia nos seus <i>landeaux</i>, com enormes cocheiros gordos, de
+ barrigas de pernas phenomenaes e bizarras.
+</p>
+<p>
+ A alta finança em carroagens de posta com os senhores na almofada, e os
+ creados, recamados de galões de ouro, dentro da berlinda, immoveis,
+ empoados, descobertos, com os tricornes na mão.
+</p>
+<p>
+ Os diplomatas, nedios, sorrindo na doce bestialidade espirituosa de quem
+ sente no paladar os succos perfumados de uma aza de codorniz <i>truffada,</i>
+ repimpados em <i>daumonts,</i> com uma <i>carvajal</i> nos beiços e uma marta
+ zibelina debaixo dos pés.
+</p>
+<p>
+ A galanteria, com as suas representantes de cabellos côr de manteiga e a
+ pelle especial dos estranhos climas do <i>cold-cream,</i> da decocção indiana
+ aromatica e tonica, e da balneação mucilaginosa do leite de morangos e
+ de <i>ess-bouquet,</i> dentro dos seus <i>broughams</i> ou em pequeninos coupés de
+ flecha e oito molas, levando ao lado no logar devoluto da carroagem um
+ ramalhete de cem francos ou um microscopico <i>kings' charles,</i>
+ descendente, aperfeiçoado em pequenez, da cadellinha que Henrique III
+ trazia mettida na manga ...
+</p>
+<p>
+ Depois os picadores, de librés verdes, os batedores de encarnado, os
+ postilhões, as <i>victorias</i>, as <i>americanas</i>, os <i>poney-chaises</i> ... os
+ <i>grooms</i> em finos cavallos inglezes, nervosos, descarnados, de olhos
+ scintillantes e ventas altas, abertas, redondas, frementes. Os
+ <i>sportmen</i> em <i>breaks</i> ou em <i>dog-cart</i>....
+</p>
+<p>
+ Sente-se o fluxo e o refluxo do grande luxo, a maresia da elegancia.
+ Respira-se entre as arvores um ar empregnado de fina perfumaria, como
+ n'um salão. Vae-se a passo por causa da agglomeração das carroagens e
+ dos cavallos. De quando em quando succede mesmo que os cocheiros se
+ empinam de repente para traz, e que se é obrigado a parar.
+</p>
+<p>
+ Ouve-se então o respirar dos cavallos, o ranger dos arreios e os finos
+ ditos que partem do fundo dos <i>coupés</i>.
+</p>
+<p>
+ De carroagem para carroagem trocam-se as palavras que fazem estremecer,
+ e encontram-se os olhares que fazem scismar.
+</p>
+<p>
+ Por baixo dos guardas-soes de seda branca mostram-se as cabeças loiras
+ das mulheres, que estão de costas para nós, deixando vêr a nascença dos
+ seus cabellos penteados para a nuca, tocados de sol, luminosos como fios
+ de ambar. Cada mulher que passa traz comsigo a excitação particular do
+ seu genero de belleza. Umas reveem as finuras do amor moderno,
+ calculado, scientifico. Outras inclinadas para traz, dormentes,
+ languidas, obrigam a phantasiar as caricias orientaes.
+</p>
+<p>
+ As sedas, cingindo a curva do peito e caindo em pregas quebradas de
+ reflexos, as sedas da moda, de tons verdes aquaticos, dão ás mulheres
+ esveltas a côr das visões dos lagos, das heroinas das legendas druidicas
+ e dos cantos de Ossian.
+</p>
+<p>
+ Sob a palpitação dos leques sentem-se estremecer no espaço correntes
+ aerias de volupluosidade indefinida.
+</p>
+<p>
+ Pela estreitesa das testas, pela espessura dos beiços, pela carne
+ polpuda das pequenas orelhas, pelas frias expressões do olhar indagador
+ e critico, percebe-se porém que essas delicadas creaturas que passam,
+ ondulantes e harmoniosas como sereias, teem o bom gosto pratico de
+ preferirem aos suspiros de Fingal e de outros bardos os camarotes na
+ opera, os fofos <i>coupés</i>, os quentes <i>cachemires</i>, e os finos jantares.
+</p>
+<p>
+ Pela qual razão vae cada um pensando vagamente em se lançar nas
+ finanças, no jogo doa fundos, nas grandes companhias, nos emprestimos ao
+ governo, nos bancos, no dinheiro em fim, no vasto dinheiro, no profundo
+ dinheiro illimitado ...
+</p>
+<p>
+ E em quanto as carroagens esperam ou rodam em volta de nós, os
+ cavalleiros passam, e as <i>toilettes</i> scintillam, a pobre natureza ao
+ longe, nas collinas, parece envergonhada na sombra das suas arvores, na
+ humildade dos seus limos e dos seus musgos, porque ella é verdade que
+ tem os altos montes e os fundos mares, tem o Niagara e o Etna, mas não
+ tem os braceletes de Sampere, as luvas de oito botões, e as rendas de
+ Malines!
+</p>
+<p>
+ Tal é o perfil das «corridas»; tal é o <i>high-life</i>.
+</p>
+<p>
+ Dizem as folhas que elle esteve no Campo Grande, e nós piamente o
+ crêmos.&mdash;Pelo que, d'aqui enviamos os nossos parabens ao <i>Collete
+ Encarnado</i>.
+</p>
+<p>
+ Não se inscreveram no Derby lisbonense os Hamilton, nem os Lagrange, nem
+ os Rothschild, nem os Mouchy, nem os Dudley Stuart. Inscreveram-se
+ apenas, com os seus trens, o João Russo e o Chico Perfeito, cocheiros da
+ praça.... <i>Alea jacta est!</i>
+</p>
+<p>
+ Elles partem nos seus fiacres, ao trote.&mdash;<i>Montjoie et Saint-Denis!</i>
+</p>
+<p>
+ O Russo venceu o Chico com a distancia do comprimento de uma pileca.
+ <i>Hurrah!</i>
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Muito devemos esperar, para a civilisação e para o dandysmo, da boa
+ estreia d'estes hyppicos torneios especialmente destinados a apurarem em
+ Portugal a famosa, a incomparavel, a unica raça ... das tipoias!
+</p>
+<p>
+ Parabéus a todo o <i>Sport</i> europeu, e ao nosso defunto Lagoia!
+</p>
+<hr id="magdalena"/>
+<p>
+ Hontem no theatro de D. Maria&mdash;primeira representação da <i>Magdalena</i>,
+ especie de <i>Dalila</i>, de Octave Feuillet, localisada entre o Arco do
+ Bandeira e o da Rua Augusta, como presente malicioso de Pinheiro Chagas
+ ás curiosidades do <i>chic</i>, na Baixa.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ N'este drama ha tres typos principaes:
+</p>
+<p>
+ <i>O amante</i>&mdash;Um Hamlet de aldeia, um Conrado, um cavalleiro negro&mdash;de
+ Figueiró dos Vinhos. Dandy melancholico, como um Satanaz em uso de
+ figados de bacalhau. Um Alcibiades quebrado. Um pallido cherubim
+ portador de uma paixão e de uma tenia. Typo lamartiniano, o anjo caturra
+ da velha ode, a personalisação do antigo amor lyrico&mdash;sob os symptomas
+ lancinantes e urgentissimos da colica.
+</p>
+<p>
+ <i>A noiva</i>&mdash;Menina educada no convento. Creada com doces de freiras e com
+ livros de versos. Organisação de ovos de fio e de romances baratos. Amor
+ e dispepsia. Pouco cerebro e muita cuia. Não faz saborosos coscorões,
+ não deita alvas teias de linho nem gordas ninhadas de perus como sua
+ mãe, casta e sabia Penelope. Ella corta a serena tradicção burgueza e
+ rural da familia. Despresa com ascos as conservas do lombo de porco em
+ vinho e alhos. Cultiva a orthographia e a arte poetica com mais
+ disvello, mas menos proveito que aquelle que sua mãe tira do cultivo
+ modesto das alfaces, das finas hervas, dos primores horticolas. Não ama
+ finalmente senão uma coisa&mdash;o talento!... Pobre rapariga! desditosa
+ burgueza! que esteril e que perigosa idolatria a tua! O <i>talento!... a
+ divina inspiração!... o supremo encanto!..</i> Coitada! se acreditas
+ n'isso, estás perdida. A tua imaginação doente entregar-te-ha submissa,
+ humilhada, ridicula, ao primeiro noticiarista de <i>soirées</i> que te
+ appareça, á primeira <i>bas-bleu</i> que te escreva cartas, ou á primeira
+ actriz que te beije e abrace. O talento!... Mas não ha nada
+ verdadeiramente respeitavel senão o trabalho, a abnegação, a
+ perseverança, o sacrificio e a virtude. O talento é uma simples
+ fanfarronada. O talento é uma invenção dos bohemios para substituirem a
+ <i>toilette</i> e a roupa branca. O talento é um falso titulo clandestino de
+ apresentação, fabricado por aquelles que não teem titulos legitimos para
+ que a sociedade os receba. Fazer-se passar como «tendo talento» é um
+ meio de cada um se eximir a que lhe perguntem se «tem caracter.» O
+ talento finalmente é o seguinte typo d'esta peça:
+</p>
+<p>
+ <i>A amante do noivo</i>&mdash;Uma actriz que foi educada no convento com a noiva
+ o que, passados annos, a noiva recebe em sua casa com reconhecimento,
+ com adoração, com enthusiasmo, apezar da actriz não ser senão uma
+ <i>lorette</i>; uma artista <i>aux camelias</i>; grande genio de <i>petit-lieu</i>;
+ celebridade baptisada com <i>Champagne</i>, entre rapazes, depois das ceias,
+ em gabinetes reservados. Um martyrio, se quizerem, mas um martyrio que
+ exige um bracelete e uma nota do banco para se estender na sua cruz. Uma
+ paixão, se isso lhes apraz, mas uma paixão Rigolboche, que se concilia
+ com o <i>cancan</i>, que adopta a arte para canalisar o vicio, que nunca
+ chega ao fel do seu calix por que o tem sempre cheio de Malaga ou de
+ <i>pale-ale;</i> que pede uma mortalha, mas talhada por Worth, á Rabagas, com
+ rendas de vinte libras o metro. Uma Magdalena emfim, mas uma Magdalena
+ penetrada do peccado moderno, barato, para todo o mundo, cheirando aos
+ sitios publicos, ao tabaco de fumo, á cerveja azeda e ao gaz
+ extravasado.
+</p>
+<p>
+ <i>O drama</i>. O noivo acha que <i>Tant-de-charmes</i> é mil vezes mais
+ interessante do que <i>La-vertu-même</i>. Por tanto o noivo abandona a noiva
+ virtuosa e corre atraz da amante impudente. A burgueza abandonada vae
+ então chorar aos pés da comica. Esta resolve devolver-lhe o noivo com
+ tanto mais vontade quanto é certo que o noivo é a semsaboria toda d'este
+ mundo na figura insignificante de um provinciano piegas, em primeira mão
+ de conquista, que desmaia de puro amor ao declarar a sua chamma,&mdash;de
+ sorte que é preciso gastar tanto com elle em sal ammoniaco para lhe
+ restituir os sentidos quanto elle gasta em rhetorica para os fazer
+ perder aos outros.
+</p>
+<p>
+ O noivo pois regressa para a noiva. A actriz faz uma phrase. E o panno
+ cáe.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ha n'esta peça uma personagem secundaria, sem acção nenhuma no enredo e
+ no desenlace, para a qual nos parece um bom serviço á moral o chamarmos
+ a attenção do publico. É uma burgueza que apparece no segundo acto em
+ casa da noiva, onde está hospedada a actriz. Essa pessoa, de notavel
+ juizo, que diz coisas justas a respeito das creadas e dos arranjos da
+ casa, apenas sabe que ha na reunião para que a convidaram uma mulher
+ cujos appelidos e cujos diamantes não se sabe d'onde procedem, toma sem
+ mais cogitações o braço de seu marido, deseja á dona da casa o juizo que
+ lhe falta, e retira-se em pleno escandalo.
+</p>
+<p>
+ O publico ri, e tanto na scena como na sala é um pouco apupada esta
+ <i>ménagére,</i> que se declara abertamente incompativel, dentro do mesmo
+ recinto e debaixo dos mesmos tectos, com uma actriz <i>cocodette</i>.
+</p>
+<p>
+ Pois bem: é essa mulher que se vae embora&mdash;notae-o bem, minhas queridas
+ burguezas!&mdash;é essa mulher que se vae embora, a que ahi, deante de vós,
+ está dando o unico exemplo que deveis seguir. Todas as demais pessoas
+ d'esta peça teem o lyrismo, a eloquencia, a convenção litteraria; só
+ esta é que inteiramente possue a verdade e o juizo.
+</p>
+<p>
+ O que todas vós tendes que fazer perante a concorrencia e o cotejo a que
+ vos queiram sujeitar com as mulheres artistas, celebridades no mundo do
+ theatro ou no <i>demi-monde</i>, é tomardes o braço dos vossos maridos e
+ sairdes com elles.
+</p>
+<p>
+ Os maridos portuguezes estão pessimamente educados; foram creados com
+ as operas de Verdi, com os romances de Chateaubriand, com as poesias de
+ Lamartine e de Musset; teem o systema nervoso exaltado, a imaginação
+ plethorica, o temperamento irritado, e o juizo das coisas praticas
+ derrancado ou extincto.
+</p>
+<p>
+ As creaturas artificiaes, morbidas, irritantes pelos poderosos
+ contrastes do desvergonhamento da alma e das finas delicadezas da pelle,
+ serão sempre as que dominarão os homens corruptos e que os levarão
+ comsigo. Ellas teem um prestigio de vicios triumphantes, de elegantes
+ indolencias, de altos desdens, de serenas voluptuosidades perennes, com
+ que vós, mulheres honestas, dignas, impeccaveis, não podereis nunca
+ luctar.
+</p>
+<p>
+ Vós tendes o sentimento real que ri em grossas gargalhadas ou que incha
+ as palpebras e engrossa a pelle com o correr das lagrimas: ellas teem a
+ sentimentalidade correcta dos pasteis de Latour ou das porcelanas de
+ Saxe&mdash;inalteravel mimo de galeria ou de étagère.
+</p>
+<p>
+ Vós tendes a forma das vossas mãos um poueo affastada do ideal de
+ Praxiteles pelos habitos honestos da vida activa, do trabalho; algumas
+ vezes a ponta do vosso dedo está picada pelo bico da agulha: ellas teem
+ as mãos finas, afiladas, pallidas, transparentes, que obrigam a sonhar
+ estranhas caricias e que são o resultado de quinze annos de ociosidade
+ estupida de serralho, de chloroses e de massas de amendoas.
+</p>
+<p>
+ Vós tendes uma passagem de miudos e pacientes pontos n'um dos vincos do
+ setim dos vossos sapatos: ellas teem uns sapatos por noite e umas luvas
+ por dia.
+</p>
+<p>
+ Finalmente vós sois a probidade e o decoro. Ellas são a dissipação e o
+ vicio.
+</p>
+<p>
+ Ora os homens educados pela sociedade, por si proprios, e em grande
+ parte por vós mesmas, minhas senhoras, nas corrupções litterarias e
+ poeticas, nos falsos ideaes epidemicos do sentimentalismo, da
+ melancolia, da paixão, dos amores fataes, os homens assim educados,
+ quando lhes acorda o temperamento e a imaginação, começam&mdash;por enjoar a
+ virtude.
+</p>
+<p>
+ Não queiraes reagir. Vede bem. A lucta humilha-vos e deshonra-vos.
+ Evitae-a. O espirituoso drama do nosso amigo Pinheiro Chagas é um grande
+ aviso, maior talvez do que o auctor suppunha: As <i>Magdalenas</i> não sobem
+ as escadas das casas em que ha mulheres honestas.
+</p>
+<p>
+ E então os direitos do talento? E as rehabilitações pelo amor?...
+</p>
+<p>
+ Oh! meus senhores, mas desde 1830 que os romancistas e os dramaturgos
+ pouco mais teem feito do que procurar convencer a sociedade d'esses
+ direitos e d'essas rehabilitações, ao passo que a sociedade tem
+ constantemente e invariavelmente refutado sempre os romancistas e os
+ dramaturgos!
+</p>
+<p>
+ Não lhes parece que vae sendo tempo de darmos a velha questão por
+ discutida?...
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Não! não é para que nos tragam o premio da austeridade e da virtude! Não
+ somos nós os que fugimos para a Thebaida, a flagellar o nosso pobre
+ corpo, ao aspecto das peccadoras espirituosas a cujos pés passou a sua
+ vida, em extase, a geração litteraria que nos precedeu. Sómente para que
+ levemos a essas damas a visita da arte, achamos de bom gosto deixar
+ arejar um pouco os tapetes em que estiveram por tanto tempo prostrados
+ os nossos antecessores.
+</p>
+<hr id="espolio" />
+<p>
+ Chegamos do palacio das Janellas Verdes. Vimos de assistir ao leilão do
+ espolio de sua magestade a imperatriz, ultimamente fallecida.
+</p>
+<p>
+ Grandes salões enormes, altos, quadrados, angulosos,&mdash;á marquez de
+ Pombal.
+</p>
+<p>
+ Nas salas de honra, estofos de damasco e moveis do primeiro imperio, no
+ estylo chato, <i>parvennu</i>, pretencioso, mas rico, do seculo de Bonaparte,
+ esse Luiz XIV de caserna.
+</p>
+<p>
+ Mesas, sophás, tremós, de fórmas rectangulares, riscados pela regoa,
+ guarnecidos de columnas parallelas, de capiteis de bronze.&mdash;O que quer
+ que seja de fortaleza, de baluarte, de ariete, de escudo, e de templo do
+ genio!
+</p>
+<p>
+ As guarnições de chaminé, as taças, os candelabros, os lustres&mdash;tudo
+ bronze, macisso, pesado.
+</p>
+<p>
+ As pendulas doiradas são rematadas pela aguia imperial ou por assumptos
+ de fria inspiração bucolica bebida com assucar e agua de flôr de laranja
+ na contrafeita natureza dos parques de Versailles delineados a cordel.
+</p>
+<p>
+ Uma multidão compacta, plebeia, suada, conservando os chapeus na cabeça
+ e os cigarros nos beiços, cuspindo nas alcatifas, limpando com o dedo
+ molhado em saliva o pó das tellas e das estatuetas, ou apoiando a sola
+ da bota nas almofadas das poltronas para tomar notas sobre o joelho,
+ enche os salões e vae deitando os lanços.
+</p>
+<p>
+ O pregoeiro&mdash;<i>Uma mesa offerecida pelo imperador Napoleão I, o grande!</i>
+</p>
+<p>
+ Um adelo&mdash;<i>Ponha lá uma libra por ter sido d'esse sujeito ... e, em fim,
+ porque é de mosaico!</i>
+</p>
+<p>
+ Os licitantes animavam-se, os preços subiam, os objectos em praça eram
+ rapidamente adjudicados ao maior lanço, e tudo quanto enchia aquellas
+ regias salas ia successivamente passando para o povo que as invadia.
+</p>
+<p>
+ Não era sómente um leilão aquillo, era uma liquidação pronta e solemne
+ dos ultimos restos de um imperio extincto, de um cesarismo arruinado e
+ fallido, de um mundo inteiramente acabado e desfeito.&mdash;Extranho
+ espectaculo, de tal modo significativo que era quasi doloroso!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Passa-se aos aposentos particulares da imperatriz.
+</p>
+<p>
+ Lá fóra, nos salões, revelava-se uma epoca poderosa.
+</p>
+<p>
+ Aqui transparece apenas uma individualidade feminil, delicada e modesta.
+</p>
+<p>
+ N'estes quartos em que a viuva de D. Pedro IV se conservou por tantos
+ annos recolhida e occulta n'uma clausura inviolavel, sente-se
+ perfeitamente a sua personalidade em todos os detalhes da existencia.
+ Nenhum aspecto de luxo, de pretenção ou de apparato. O chão é coberto
+ com simples esteiras; todos os cortinados são de cassa branca, e todos
+ os estofos de chita em pequenos ramos de flôres sobre fundos pallidos.
+ Os aposentos estão cheios de étagères de todas as fórmas, com todas as
+ disposições. Pequenas bibliothecas e pequenos armarios, dispostos por
+ toda a parte. Uma infinidade de mezinhas de escripta, de leitura, de
+ costura ou de bordado. Cadeiras de todos os formatos e das mais diversas
+ proporções, sem nenhum estylo, sem genero artistico, sem época, sem o
+ minimo lavor, sem concessão alguma á elegancia ou á simetria&mdash;uma
+ visivel exigencia da vida sedentaria e doente, a necessidade physica de
+ mudar a todo o momento de posição, para deslocar a sua dôr, para
+ motivar o seu pequeno exercicio e povoar por si mesma, com as suas
+ diversas attitudes a sua solidão. Defronte das janellas ha pequenos
+ biombos de chita franzida para impedir as correntes de ar, formando uma
+ especie de kiosques, subdivisões minimas de abrigo e de recolhimento. Ha
+ muitas estantes de leitura, mezas de desenho ao crayon ou á aquarella, e
+ uma caixa cheia de lapis aparados, de diversas côres e de differentes
+ numeros. Uma grande secretária, larga pesada, lisa, e defronte d'ella
+ uma enorme poltrona ingleza, estofada de carneira escura, usada, tendo
+ aos pés uma almofada esfarpada e gasta. Era a cadeira em que a
+ imperatriz se sentava ordinariamente, e que se vê em todos os seus
+ ultimos retratos. Sobre uma mesa apparece um Christo, antigo,
+ marchetado, trazido de Jerusalem, deante do qual, por muitas vezes,
+ decerto, se ajoelhou a imperatriz. Ao lado d'esta sagrada imagem e como
+ diversão á gravidade do seu dolorido e pallido aspecto encontrámos
+ dentro de uma caixa aberta um instrumento de uso demasiadamente intimo
+ de Sua Magestade, o qual objecto suppunhamos que não era licito expôr em
+ publico senão como accessorio da scena triumphal do ultimo acto do
+ <i>Malade imaginaire</i>, ou como vinheta illustrativa nas obras de Avicena:
+ ao lado do aphorismo, <i>Medicamen clister nobile est</i>.
+</p>
+<p>
+ E aqui suscita-se-nos o meditar, diante d'esta caixa aberta, quaes serão
+ os principios politicos de suas excellencias os executores
+ testamentarios da fallecida soberana.
+</p>
+<p>
+ Porque, realmente, não nos occorre como os possamos classificar....
+</p>
+<p>
+ Se são republicanos, democratas, socialistas, suas excellencias deveriam
+ saber que nunca se abrem as caixas reservadas da <i>toilette</i> de uma
+ senhora.
+</p>
+<p>
+ Se são monarchicos, deveriam comprehender que n'estes tempos de
+ discussão implacavel é perigoso para o prestigio das testas coroadas
+ denunciar aos povos, por via de uma imprudencia de suas excellencias,
+ que se os soberanos que os governam estão por um lado tanto acima
+ d'elles pelo direito divino, não são por outro lado mais que seus
+ simples eguaes pelo direito therapeutico, e que finalmente pode ser um
+ novo e terrivel argumento inesperado em favor da egualdade dos homens&mdash;a
+ constipação intestinal dos principes!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O pregoeiro do leilão é acompanhado pelo sr. barão de S. George, consul
+ da Suecia e representante de Sua Magestade a rainha, irmã da imperatriz
+ fallecida.
+</p>
+<p>
+ O sr. consul faz a historia de alguns objectos postos em praça, garante
+ a sua authenticidade historica, e encarece com tocantes discursos o
+ valor de cada coisa.
+</p>
+<p>
+ S.ex.ª o sr. barão, delegado de sua magestade a rainha da Suecia, em
+ beneficio da qual se faz a venda em hasta publica do espolio de sua
+ irmã, attesta-nos que tal cama é a mesma em que dormia na sua tão breve
+ mocidade sua alteza serenisssima a princeza do Brazil; tal chavena
+ aquella por que Sua Magestade bebia os seus remedios; taes bonecos os
+ mesmos com que a infeliz infanta D. Amelia brincava em pequenina, e que
+ sua mãe conservava como um piedoso penhor de saudade!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Graças a todos estes preciosos esclarecimentos, amavelmente dados por
+ s.ex.ª o consul á multidão dos licítantes, dos adelos, dos ferro-velhos
+ e dos cabeças de pau, Sua Magestade a rainha da Suecia terá a doce
+ consolação&mdash;tão sensivel ás almas sublimes&mdash;de receber duzentas libras a
+ maior da somma em que haviam sido avaliados os saudosos e queridos
+ despojos d'aquella que duas vezes fôra na terra sua irmã&mdash;como mulher e
+ como rainha!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Oh! como deverá ser bom e suave, na ultima estação da vida, quando os
+ rheumatismos rangem nas frias articulações da nossa velha ossada,
+ embrulharmo-nos tremulos na purpura real, no alto do nosso
+ throno,&mdash;tendo aos nossos pés os nossos vassallos inclinados e a nossa
+ cova aberta,&mdash;fitar serenamente no espaço a branca apparição d'aquella
+ que amamos no mundo e que nos espera entre as estrellas nas esfumadas
+ sombras do crepusculo, e podermos então exclamar em nossa consciencia:
+</p>
+<p>
+ «Sim, ella morreu ... mas abençoado sejas tu, nas alturas infinitas, ó
+ Deus meu e dos meus exercitos, pois quizestes permittir que aquelle
+ objecto que lhe pertenceu e que ella tinha occulto por detraz de uma
+ cortina no seu quarto de lavatorio fosse venturosamente arrematado&mdash;por
+ trez mil e seiscentos!»
+</p>
+<hr />
+<p>
+ SCENAS DE RELIGIÃO.&mdash;Lemos no <i>Diario Illustrado</i> o seguinte:
+</p>
+<p>
+ «Em additamento á noticia que ontem démos da saida processional do
+ Senhor aos entrevados da freguezia de Santa Justa e Rufina, somos hoje
+ informados que a interessante filhinha do sr. Marcos Maria Fernandes e
+ D. Maria Cecilia da Conceição Almeida Fernandes, proprietarios do
+ acreditado estabelecimento de modista de chapeus e vestidos na travessa
+ de Santa Justa n.º 81, vae tambem n'essa procissão, distribuindo esmolas
+ aos enfermos pobres, que receberem o Viatico, sendo vestida a custa e
+ por generoso e espontaneo offerecimento de seu pae, que é irmão do
+ Santissimo d'aquella freguezia.
+</p>
+<p>
+ «Leva a gentil menina, symbolo de caridade, vestido de faille azul
+ claro, com outro de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras, e
+ um manto branco preso na cabeça por um diadema do pedraria e semeado de
+ estrellas de oiro de lindo effeito.
+</p>
+<p>
+ «Esta devoção do sr. Fernandes, que ha quatro annos successivos tem
+ levado a sua filhinha vestida de anjo n'aquelle acto religioso, offerece
+ no presente anno uma novidade elegante, e que decerto será do mais
+ apurado bom gosto, se attendermos ao extremo paternal do sr. Fernandes,
+ e ao esmero e apuro de todos os trabalhos do seu estabelecimento, onde é
+ variadissimo e primoroso o sortimento de tudo quanto respeita a enfeites
+ de senhora.»
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ó dôce Jesus, eterna bondade simples e infinita como o Céo! aqui tendes
+ como elles a comprehendem, na freguezia de Santa Justa e Rufina, a
+ caridade, a pobre e modesta caridade, que vós mandastes definir por S.
+ Paulo com aquella palavra tão inspirada e tão bella.&mdash;O amor dos
+ corações puros e das consciencias boas!
+</p>
+<p>
+ Elles entendem-a agora assim: vestida de faille azul claro, com segundo
+ vestido de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras e um manto
+ branco preso na cabeça por um diadema de estrellas de oiro de lindo
+ effeito!
+</p>
+<p>
+ Comparae, ó Jesus, a descripção dos vossos antigos anjos feita por Santo
+ Ignacio&mdash;<i>incorporeas mentes</i>&mdash;com esta descripção que o <i>Diario
+ Illustrado</i> nos apresenta dos vossos anjos modernos!
+</p>
+<p>
+ Que dirão os cherubins, os seraphins e os archanjos, que dirão Miguel,
+ Raphael e Gabriel, elles nus, sem mais <i>toilette</i> que as suas longas
+ azas candidas, ao verem junto de si nas chorêas sidereas o novo
+ anjo&mdash;Almeida Fernandes?!
+</p>
+<p>
+ Como ficarão vexados e humilhados no Céo&mdash;os outros&mdash;quando o cherubim
+ Almeida lhes apparecer com as tranças torcidas a ferro, com vermelhão
+ nos beiços, e o seu <i>vestido aventalado adiante</i>, e contar que foi o
+ papá Fernandes quem o arranjou assim para elle representar diante dos
+ homem a imagem da caridade!
+</p>
+<p>
+ Oh! mas realmente, é um bom quinau dado pelo sr. Fernandes no Creador!
+ Lição terrivel de elegancia e de <i>chic</i> ministrada a todo o reino dos
+ Céos pela Travessa de Santa Justa! Nem a Baixa calcula talvez a grande
+ importancia que isto vae dar ao estabelecimento do sr. Fernandes&mdash;no
+ Empireo!
+</p>
+<p>
+ Pela nossa parte não nos maravilhará extraordinariamente que o sr.
+ Fernandes, proseguindo nas suas conquistas sobre o territorio divino,
+ acabe por ajuntar ao seu estabelecimento de modas uma succursal da
+ côrte celeste, e que depois de converter a sua familia em anjos de
+ tulle, elle mesmo acabe por apparecer aos seus freguezes transfigurado
+ em Deus ... de filó!
+</p>
+<p>
+ E então, para nos entendermos com s.s.ª sobre os objectos do seu
+ commercio, teremos, ao entrar na sua loja, de nos ajoelharmos, de
+ batermos no peito e de exclamarmos com attricção verdadeira:
+</p>
+<p>
+ Eu peccador me confesso a Fernandes todo poderoso de que preciso de um
+ par de ceroulas de linho de Irlanda, e por tanto lhe dirijo humildemente
+ minhas fervorosas preces para que desça das alturas e venha a nós&mdash;para
+ nos tomar medida. <i>Amen</i>!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Acabamos de ver como os burguezes conservadores entendem a caridade no
+ catholicismo. Vamos ver agora como é que os operarios socialistas
+ entendem os principios do direito perante a revolução.
+</p>
+<p>
+ Ao passo que o <i>Diario Illustrado</i>, folha monarchica e catholica, nos
+ apresenta a religião na menina Almeida Fernandes, o <i>Pensamento Social</i>,
+ periodico revolucionario, expõe-nos, na menina Palmira da Conceição, os
+ direitos do povo.
+</p>
+<p>
+ O <i>Pensamento Social</i> diz assim:
+</p>
+<p>
+ «Teve logar a annunciada sessão da propaganda na associação do trabalho
+ nacional. Estiveram presentes cêrca de 60 companheiras, frequentando a
+ sala durante a sessão proximamente 700 companheiros. Presidiu uma
+ companheira, mantendo-se uma assembléa tão numerosa na melhor ordem.
+ Deu-se n'esta sessão um facto que sensibilisou toda a assembléa; uma
+ companheira, que tem apenas nove annos de edade, como que sensibilisada
+ pelas aspirações da razão e da justiça, em plena assembléa pediu a
+ palavra e pronunciou a seguinte oração, que leu:
+</p>
+<p>
+ «Companheiros e companheiras.&mdash;Declaro-lhes que cada vez que tenho de
+ entrar em assumptos de tal natureza, arrasam-se-me os olhos de agua e
+ cobre-se-me o coração de uma nuvem negra; comtudo não posso deixar de
+ levantar a minha debil voz para dirigir duas palavras ás nossas
+ companheiras e companheiros da fabrica de fiação e tecidos lisbonenses.
+ Companheiros e companheiras: dirijo-vos os meus sinceros sentimentos,
+ porque tendo sido bem conhecedora das injustiças que se estão fazendo ás
+ nossas companheiras, e com especialidade ás menores, porque não só são
+ castigadas com o seu diminuto salario, como tambem as maltratam com
+ pancada.
+</p>
+<p>
+ «Ai companheiros e companheiras, não posso deixar de curvar o joelho e
+ pedir ao meu Deus, se estamos em peccado mortal: perdoae-nos. Mas não,
+ que já vou vendo raiar a aurora; continuemos sempre a empregar todos os
+ nossos esforços para que um dia breve estejam reunidos nas nossas dignas
+ associações todos os que vivem do trabalho. Conseguido isto, o que não é
+ muito difficil, e empregando todos a nossa vontade, poderemos dizer que
+ não estamos em peccado mortal, e tambem poderemos dizer que se acabaram
+ os castigos embrutecedores. Peço pois a todos os companheiros e
+ companheiras que empreguemos toda a nossa vontade, energia e dedicação
+ para podermos alcançar o nosso triumpho, que é a emancipação de todos os
+ trabalhadores, isto é, todos os direitos e deveres sociaes. Depois os
+ nossos vindouros nos cobrirão de bençãos por lhes termos creado tão bom
+ dote. Não querendo entreter-vos mais termino pedindo que vos não
+ esqueçaes dos nossos companheiros grevistas.&mdash;<i>Palmira da Conceição</i>.»
+</p>
+<hr id="deusa" />
+<p>
+ Esta creança de nove annos de edade que nos declara <i>que os olhos se lhe
+ arrasam de agua e o coração se lhe cobre de uma nuvem negra sempre que
+ lhe tem succedido ter de entrar em assumptos de tal natureza</i>, é uma
+ verdadeira menina benta, um phenomeno! Diremos mesmo: é um milagre, é
+ uma pequena nossa senhora apparecida&mdash;da fabrica lisbonense de fiação e
+ tecidos!
+</p>
+<p>
+ Ella é a destinada pelo povo a substituir, como futura deusa da razão, o
+ actual anjo Almeida Fernandes&mdash;nas festividades populares.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ha pequenas differenças:
+</p>
+<p>
+ O anjo Almeida traz-nos a religião e a caridade. A deusa Palmira é a
+ portadora da <i>emancipação dos trabalhadores, dos direitos e deveres
+ sociaes.</i>
+</p>
+<p>
+ O anjo adeja sobre as ruas pacatas da Baixa. A deusa surge no bairro
+ inquieto de Alcantara.
+</p>
+<p>
+ O anjo caminha gravemente&mdash;enfunado, crespo de folhos e de rendas, como
+ um peru armado&mdash;a passos cadenciados pelas harmonias da phylarmonica
+ <i>Alumnos de Minerva</i>, dando a mão a Fernandes, seu pae carinhoso,e
+ espargindo petalas de rosas, de dentro de um cesto de casquinha, sobre o
+ mundo velho.
+</p>
+<p>
+ A deusa vem ao collo de um <i>companheiro</i> membro da <i>Fraternidade
+ Operaria</i> e clarinete na mesma phylarmonica que bufou, talvez, o mais
+ convicto e consciencioso <i>hymno da carta</i>, atraz da angelica vergontea
+ de Fernandes. A deusa alliando em sua joven personalidade a innocencia
+ da edade que tem com a aspiração philosophica da classe a que pertence,
+ mette um dedo no nariz e aponta com o outro o destino do proletariado na
+ futura organisação social.
+</p>
+<p>
+ O anjo é a religião de barejes, de talagarças e de retalhos de bobinet.
+</p>
+<p>
+ A deusa é a justiça de figuras de rhetorica, de discursos de associação
+ e de erros de prosodia.
+</p>
+<p>
+ O burguez, contente com o seu meio de reacção, distribue ao anjo
+ confeitos e rebuçados de avenca. O operario, satisfeito com o seu plano
+ de resistencia e de revolução, solicito, assôa a deusa.
+</p>
+<p>
+ Ora, francamente, não nos parece que estes sejam os methodos mais
+ efficazes que possam escolher os srs. burguezes e os srs. operarios.
+</p>
+<p>
+ Não será com o seu anjo de vestido «ventalado», com veu branco e
+ pedrarias de lindo effeito, que a burguezia impedirá a passagem á
+ corrente das idéas novas que a assoberbam e intimidam.
+</p>
+<p>
+ Não será tambem com a sua oradora de nove annos, <i>inspirada pela razão e
+ pela justiça</i>, que o proletariado conseguirá convencer-nos da seriedade
+ dos seus direitos ao predominio das sociedades futuras.
+</p>
+<p>
+ O trabalho&mdash;bem o sabemos&mdash;é uma coisa augusta e sagrada. O
+ commercio&mdash;desculpem-nos os senhores proletarios&mdash;é tão sagrado como o
+ trabalho. O commerciante que compra a cada um dos que produzem as suas
+ obras, levando-lhes, em troca dos objectos que fabricam os objectos que
+ consomem, faz á sociedade, por meio do estabelecimento do mercado, um
+ serviço tão relevante e tão legitimo como o da producção da mercadoria.
+</p>
+<p>
+ O pae da menina Palmira que faz um chale quando ninguem quer chales e o
+ pae da menina Fernandes que lh'o compra logo, para o vender depois
+ quando lh'o pedirem, são dois cidadãos egualmente uteis e respeitaveis.
+ Se o pae do anjo é puramente ridiculo vestindo a sua filha como uma
+ boneca de <i>vitrine</i> e encarregando o <i>Diario Illustrado</i> de lh'a
+ apregoar como um symbolo de caridade, o pae da deusa é injusto, é
+ ignorante, é perigoso, e é egualmente ridiculo, ensinando á sua filha,
+ para que ella as leia em publico, palavras ôcas de falsa razão e de mal
+ entendida justiça, tão enthusiasticamente preconisadas pelo <i>Pensamento
+ Social</i>, orgão das classes operarias.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Já que fallamos no <i>Pensamento Social</i> notemos que nem sempre nos parece
+ perfeitamente logico este jornal.
+</p>
+<p>
+ Succede que elle guerreia o burguez, o <i>infame burguez</i>, e não cessa
+ nunca de glorificar o operario. É a sua missão. Tem o seu partido. Nada
+ temos que objectar.
+</p>
+<p>
+ Quando se deu, porém, a <i>grève</i> dos surradores, succedeu o seguinte:
+</p>
+<p>
+ Os operarios tinham escolhido para apresentarem as suas propostas a
+ phase da curtição em que os coiros não poderiam ser abandonados sem que
+ apodrecessem nos seus tanques. Por este modo os patrões ou tinham de
+ ceder á <i>grève</i> ou correr o risco eminente de um grande prejuizo. Que
+ fizeram os patrões? Não acceitaram as propostas dos grevistas,
+ associaram-se todos, despediram os operarios, e foram em seguida, elles
+ mesmos, acompanhados de suas mulheres e de seus filhos, de fabrica em
+ fabrica, levantar os cortumes.
+</p>
+<p>
+ Ora é singular que fosse exactamente este momento solemne da existencia
+ dos patrões curtidores o que o <i>Pensamento Social</i> escolheu para os
+ flagellar com as suas ironias e os seus sarcasmos! A verdade é que
+ exactamente n'esse momento é que os burguezes curtidores deixavam de ser
+ burguezes para serem operarios. Parecia-nos que n'esta conjunctura o
+ <i>Pensamento Social</i> não deveria fazer senão o que nós fariamos no seu
+ caso: tirar o chapeu e inclinar-se respeitosamente perante a coragem
+ trabalhadora e digna dos seus altivos e honrados inimigos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Os operarios na sua inquietação de candidatos á prosperidade baseada na
+ justiça e na virtude, vão mal encarreirados dirigindo o seu movimento de
+ revolução contra os pequenos burguezes que nunca lhes fizeram mal nenhum
+ e que os srs. operarios injustamente odeiam ou desprezam. Os pequenos
+ burguezes&mdash;deveriam lembrar-se d'isto os srs. operarios&mdash;são na actual
+ organisação social, os alliados naturaes de todos os que trabalham e
+ padecem. Os srs. operarios fariam bem se, em logar de encarregarem a
+ menina Palmira de discretear nos seus congressos, traduzissem n'elles em
+ voz alta esta pagina do seu amigo Proudhon:
+</p>
+<p>
+ «Vós, burguezes, fostes em todo o tempo os mais intrepidos, os mais
+ habeis dos revolucionarios. Sois vós que desde o terceiro seculo da era
+ christã, por meio das vossas federações municipaes, estendestes a
+ mortalha sobre o imperio dos romanos nas Gallias. Sem os barbaros que
+ vieram mudar a face das coisas, a republica, constituida por vós, teria
+ governado a edade media. Fostes vós que, mais tarde, oppondo a communa
+ ao castello, o rei aos grandes vassallos, vencestes o feudalismo. Sois
+ vós em fim que ha oitenta annos, tendes proclamado umas depois das
+ outras todas as idéas revolucionarias, liberdade de cultos, liberdade de
+ imprensa, liberdade de associação, liberdade de commercio e de
+ industria; vós que pelas vossas sabias constituições fizestes justiça ao
+ altar e ao throno; vós que estabelecestes sobre bases indestructiveis a
+ egualdade perante a lei, a garantia legislativa, a publicidade das
+ contas do estado, a subordinação do governo ao paiz, a soberania da
+ opinião. Fostes vós, sós, que fundastes os principios e lançastes os
+ fundamentos da revolução no seculo XIX. Nenhuma das coisas que se tentou
+ sem vós, viveu; nenhuma d'aquellas que vós emprehendestes falhou. Diante
+ da burguezia o despotismo tem curvado a cabeça: o soldado feliz, o
+ ungido legitimo, o rei cidadão, desde que teem tido o infortunio de vos
+ desagradar, teem desfilado diante de vós como phantasmas.»
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Lemos em alguns periodicos que o sr. prior da freguezia da Encarnação
+ acaba de furar as orelhas de uma santa que tinha na sua egreja para lhe
+ pôr brincos.
+</p>
+<p>
+ Parece-nos que este senhor ecclesiastico abusa das suas relações com as
+ santas a ponto de proceder com ellas de um modo como não desejaria
+ talvez que ellas procedessem com s.ex.ª ...
+</p>
+<p>
+ Como quer porém que seja, e admittindo-se mesmo que o sr. prior tenha o
+ maior prazer d'este mundo em que lhe façam furos no corpo, entendemos
+ que sua excellencia introduz no culto uma reforma arrojada, posto que
+ extremamente simplificativa, substituindo as antigas manifestações de
+ reverencia e de respeito devidas ás sagradas imagens&mdash;as genuflexões, o
+ incenso, a missa cantada, a novena e o panegyrico&mdash;pela verruma!
+</p>
+<p>
+ Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a
+ lavrar entre elles o receio que o sr. prior, adoptando definitivamente o
+ seu novo systema liturgico, resolva de repente, um bello dia&mdash;em vez de
+ pregar-lhes sermões&mdash;principiar a pregar-lhes pregos!
+</p>
+<p>
+ Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a
+ lavrar entre elles o receio de que o sr. prior, adoptando
+ definitivamente o seu novo systema liturgico, resolva de repente, um
+ bello dia&mdash;em vez de pregar-lhes sermões&mdash;principiar a pregar-lhes
+ pregos!
+</p>
+<hr />
+<blockquote>
+<p>
+ Pede-se aos srs. assignantes das provincias o obsequio do mandarem
+ satisfazer a importancia das suas assignaturas em divida, por meio de
+ estampilhas ou do vales do correio. Correspondencia á calçada doa
+ Caetanos, 30, Lisboa.Caetanos, 30, Lisboa.
+</p>
+</blockquote>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14621 ***</div>
+</body>
+</html>
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