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+The Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das
+Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes
+ Janeiro a Fevereiro de 1873
+
+Author: Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz
+
+Release Date: January 6, 2005 [EBook #14620]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+
+
+
+Produced by Cláudia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
+Proofreading Team. This file was produced from images generously
+made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal.
+
+
+
+
+
+[Illustration: AS FARPAS--R. ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ]
+
+RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+2.º ANNO
+
+Janeiro a Fevereiro de 1873
+
+
+
+
+Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+universo, e da adoração de mim mesmo.
+
+P.J. PROUDHON
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+As idéas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da corôa. Os
+partidos. As fórmas do governo. Governo livre e governo despotico.
+Republica ou monarchia? A nossa questão, e o nosso voto. Qual é o
+governo que nos espera. As maiorias e as opposições. Perfil da sociedade
+portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa
+virtude, o nosso direito á liberdade--Reforma do exercito e dos
+estribos--As conspirações, as revoltas e as opiniões do parlamento--O
+enterro da senhora duqueza de Bragança.--Um conselho á força
+armada.--Prova-se que a camara dos deputados não tem amolecimento
+cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei Amadeu e varios outros
+personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra
+sobre as botas de s.ex.ª--Resposta áquelle que jurou assassinar-me.--Os
+srs bispos do ultramar--O redactor do _Espectro_ e o ministro do reino.
+A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade--Joseph Prudhome
+e Pickuick.
+
+Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente
+se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa.
+Esta discussão partindo de um ponto--a approvação do projecto--, para
+findar exactamente no mesmo ponto de que partiu--a approvação do dito
+projecto--, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos
+egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da
+immobilidade oriental.
+
+Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido,
+tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se
+assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o
+paiz tem de responder aos cumprimentos do rei!
+
+Como se, não havendo principios nenhuns de politica interna que
+affirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o
+que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei
+podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas,
+alargar-se d'estes termos.
+
+_Discurso da corôa_: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!»
+
+_Resposta ao discurso da corôa_: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!»
+
+Tudo mais é emphatico, é ôco, é ridiculo--e é immoral.
+
+ * * * * *
+
+Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na
+collocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a
+confecção de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se
+reciprocamente _desordeiros, calumniadores e ineptos_; e documentam e
+provam entre uns e outros, de partido para partido, que são
+effectivamente _desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos_.
+
+As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desoccupada e ociosa,
+que não vae á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos
+interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se
+d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e--o que é peior que
+tudo--preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a
+maledicencia dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos
+dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do
+decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas
+luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.
+
+Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias,
+segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que
+desertaram as suas repartições, litteratos ambiciosos que abandonaram os
+seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho,
+operarios em _grève_ que foram aprender a discursar nos seus comicios,
+pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pôdres por
+onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que
+precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade,
+assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira,
+sem elevação moral, sem correcção artistica, cheia de arrebatamentos
+estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras
+sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da
+lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas
+distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as
+suas pobres mãos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis,
+surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fóra,
+riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos
+rabulas amaveis e cynicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam
+descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia.
+
+E eis ahi no mais alto das instituições a escola publica em que o povo
+tem de aprender a ser digno e honrado!
+
+ * * * * *
+
+Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e
+negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da
+administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas
+correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que
+todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.
+
+Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus
+cavallos á rédea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os
+nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali
+para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam
+constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de
+quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um _coupé_
+da Companhia.
+
+Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos
+erros de grammatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando
+definitivamente á companhia das carroagens este simples recado:
+
+«Os partidos são cinco--regeneradores, historicos, reformistas,
+avilistas e constituintes: que os _coupés_ do ministerio parem
+revesadamente de tres em tres mezes ás portas de cada um d'esses
+senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem são os individuos
+que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador
+se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.»
+
+Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os
+srs. deputados votariam calados.
+
+Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do
+que a força de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em
+Portugal ha egual superstição com as successões do governo: a camara é
+sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que
+propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discordias.
+
+Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lançar-se ao debate e
+discutir-se a palavra Republica. Vimos que a fórma do governo
+republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo
+todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e
+é: que o povo portuguez não está por emquanto nem bastante educado nem
+bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica.
+
+
+Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma
+constituitiva do poder não nos importa. O problema politico
+interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso
+tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preoccupa os
+povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de
+distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a
+parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e
+fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os
+symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do
+trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o
+problema economico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a
+parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa
+em que elles se deixem ficar ou em que elles se vão embora. Voltaire
+defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que
+tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua
+especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico,
+em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No
+constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão
+é uma pacifica féra embalsamada, inoffensivo ornato de _ètagére_, que os
+ratos trazem comsigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de
+pretexto para elles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos
+declararem que lhes appetece roer:--«Meus senhores, o leão pede
+viveres.»
+
+Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não
+obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como
+fundamentalmente autonomas, isto é, independentes de todo o dominio, o
+governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se
+aproximasse d'aquelle que até hoje tem dirigido os destinos da egreja
+catholica. O poder supremo nas mãos de um papa infallivel, arbitro
+absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado;
+o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos
+e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a
+esphera da iniciativa humana desde os actos até os pensamentos; tendo
+por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos
+quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infracções da lei,
+tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e não
+depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no
+fundo mais recondito da alma é possivel um esconderijo para a anarchia!
+Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do
+socego e da ordem.
+
+Hoje porém:
+
+Como os governos não podem já ser considerados debaixo d'esse ponto de
+vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores;
+
+Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si
+mesmas;
+
+Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se
+transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados
+a maior parte dos poderes delegados nos governantes;
+
+Como dentro em pouco tempo, precisamente, _fatalmente_, todos os povos
+impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aquelles que por
+via da eleição representem a vontade popular:
+
+Segue-se que a differença essencial das fórmas actuaes de governo não
+póde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy,
+considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte
+de poder que ellas asseguram ao povo.
+
+Vejamos pois agora qual é a differença que existe entre uma republica e
+uma monarchia parlamentar.
+
+A republica é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo
+por chefe do poder executivo--um presidente eleito.
+
+A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal, é o governo do
+povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder
+executivo--um rei hereditario.
+
+O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da
+republica conservadora que actualmente existe em França, diz que uma
+monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros
+responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma
+dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á
+liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos,
+para o estabelecimento da monarchia é preciso a dynastia, isto é: a
+tradição. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a
+tradição como em França e em Hespanha, nada mais perigoso do que
+suscitar ruins ambições, chamando um principe para cabide de uma corôa.
+N'este caso o unico systema que não offerece gravíssimos perigos e
+grandes complicações intestinas e internacionaes é a republica. Ter a
+monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo
+de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar
+reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e
+de juizo para governar.
+
+Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e á indagação
+das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade,
+nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill,
+Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha differença entre republica e
+monarchia representativa.
+
+A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram
+de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a
+politica. A fórma do governo na egreja--o mais despotico governo de
+quantos se possam imaginar--é a fórma republicana. O papa é um
+presidente eleito.
+
+O poder popular não periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio
+funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas
+affirmam-se despedaçando as resistencias dos senhores feudaes. Os
+soberanos procuram sempre na alliança do povo o appoio do mais forte.
+Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia
+ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar
+d'olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro
+que fôra sempre socialista. A _Internacional_ tem origem em uma
+expedição de operarios mandados a Londres á custa do segundo imperio
+para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a
+França poderia introduzir na organisação do trabalho.
+
+A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa
+vantagem--a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior
+defeito:--a republica suscita as grandes ambições, que o
+constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente
+nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades.
+
+Isto porém são caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros
+que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a
+escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com
+relação á liberdade os dois systemas não soffrem evidentemente
+distincção: um e outro affirmam um governo livre.
+
+A differença que existe entre governos livres e governos que o não são,
+é:
+
+Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos é em
+verdade a do soberano; n'outros paizes é a da nação.
+
+Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias nós nos achamos.
+
+Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem
+a minima ingerencia na direcção dos negocios. O unico acto de iniciativa
+pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em
+dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores
+guardam d'estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança.
+Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara
+a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer
+reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios
+physicos. Um habito de Christo que se dá, uma photographia com
+pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia.
+Ninguem dirá que por tão innocentes commercios de affeição el-rei
+manifeste o intuito partidario--de lançar-se nos braços de um valido. Os
+unicos convivas extra-officiaes do principe--os tenores e os baritonos
+de _primo-cartello_--estão fóra de toda e qualquer suspeita malevola que
+não seja--a de desafinarem.
+
+Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia
+de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e
+livre sob a monarchia portugueza.
+
+Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus
+correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos
+dizem que a republica--com ser o mais perfeito dos governos segundo uns,
+ou ser um imperfeito governo segundo outros--não póde por emquanto
+existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrucção precisa
+para tomar o governo de si mesmo, hão de permittir os illustres
+deputados que nós tiremos d'esse seu argumento todas as conclusões que
+elle encerra....
+
+E que digamos a suas excellencias:
+
+Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, é
+egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a
+verdade, que ninguem nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo
+governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes
+eleitos.
+
+Ora, se o povo não póde exercer suffragio para a eleição do governo sob
+o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o
+governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o
+mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na
+constituição dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os
+mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade
+eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na republica e na
+monarchia parlamentar.
+
+Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da
+republica?! Quem é então que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no
+regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do systema
+monarchico para o systema republicano, nos desapparece ámanhã perante o
+exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo
+exercicio? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo
+portuguez?
+
+Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a
+republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa
+por suas excellencias e pelo povo que os elegeu é sua magestade el-rei!
+Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano não é o poder
+moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes
+tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a
+representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel
+da força e da lei, assim o declara! Ella só é digna, só é autonoma, só é
+independente e pensante--emquanto houver um rei. No momento em que o
+monarcha descer do throno, ella será inepta. Animaes do Apocalypse, os
+srs. deputados só fallam agora pela sugestão divina imposta pelo
+sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi está, se um dia o rei lhe
+voltar as costas, recusará com pudor o copo d'agua oratorio, e
+pedirá--herva.
+
+ * * * * *
+
+Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs.
+deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? Não é. Se a
+camara que ahi temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do
+suffragio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Sómente
+as consequencias que esse argumento encerra não ferem sómente o direito
+á republica, ferem tambem o direito á liberdade. A logica não póde parar
+onde á casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir até
+onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa
+fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva
+que acaba de occupar-se da discussão d'estes principios dá
+effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da
+capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma
+republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questão é mais
+complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas
+excellencias, teem ou não teem a capacidade precisa para serem os
+representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de
+não eleição; é de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos
+representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos
+dois governos livres--republica democratica ou monarchia parlamentar. Se
+os legitimos representantes do povo não prestam, teremos--a anarchia na
+republica, e teremos--a escravidão na monarchia.
+
+ * * * * *
+
+Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal
+uma farça ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o
+patriotismo. A camara é de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta,
+e não se esclarece nem se desaffronta,--o que prova que não tem sciencia
+e que parece não ter caracter.
+
+Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates
+parlamentares a verdade d'essa asserção, que poderá ser tida por
+arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque
+elles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos duvida em deixar
+cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar
+sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos até ahi,
+tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridiculo lava-se
+na rehabilitação com que nos retemperam os actos sérios, a vergonha
+quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As
+_Farpas_ ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por
+essa razão preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal.
+
+Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os principios moraes.
+D'aqui resulta uma perturbação insanavel, um mal sem cura. É a
+corrupção, é a gangrena, é a paralysação senil affectando o jogo de todo
+o machinismo constitucional.
+
+Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da
+liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz
+todo ha um surdo descontentamento geral.
+
+Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que
+prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal
+como já hoje fóra de Portugal, que está eminente sobre nós uma d'essas
+grandes transformações politicas que apparecem nos paizes livres sempre
+que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos
+differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira
+a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos.
+
+Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. Não existem
+divergencias de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o
+paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica
+entregue ao arbitrio da auctoridade, e os círculos eleitoraes
+convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia
+elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os
+seus amigos votam as opposições. A vontade popular é muda e passiva, o
+que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou
+seccas.
+
+Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposição
+perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa
+na Inglaterra os _tories_ e os _whigs_, não podem tambem contar com uma
+maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o
+governo acode submissamente ás exigencias dos pequenos corrilhos,
+promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae
+de fadiga, apupado e corrido.
+
+Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros
+constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente ávidos do
+poder. Estes pretendentes quando não teem forças necessarias para
+alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia
+burocratica, o partido que não teem na camara, e distribuem pelos seus
+amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com
+crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da
+satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.
+
+O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a
+altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem
+estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação
+militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e
+da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico
+que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos
+paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!
+
+A classe operaria faz _grèves_, no que está inteiramente no seu
+direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria
+sentimental,--o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do
+direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os
+obreiros--jornalistas e oradores--a pedirem mais descanços para
+discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.
+
+O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está
+hypothecada.
+
+Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as
+instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!
+
+Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e
+ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior
+riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo,
+dando dinheiro e recebendo papeis.
+
+A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do
+seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são
+agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem
+bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da
+qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam
+muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes
+laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro
+dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é
+elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as
+suas necessidades, _descentralisar-se_, trabalhar só, viver de si, que é
+o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se
+finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica
+dignidade verdadeira e segura--o trabalho pessoal e livre. A mocidade
+tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da
+justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a
+sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão
+ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas
+necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das
+simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da
+nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a
+sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem
+tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como
+typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho
+e como critico as consciencias dos outros pela justiça.
+
+ * * * * *
+
+A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo
+despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos,
+pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos
+ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A
+religião--mais clerical que divina--penetrando-nos completamente,
+dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar,
+assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento,
+lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles,
+lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos
+mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio
+e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com
+similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A
+consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente
+religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que
+se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim
+delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a
+eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o
+que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de
+responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo
+o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da
+sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua
+liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.
+
+Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do
+interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a
+noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira
+elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque
+conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a
+rebaixa.
+
+ * * * * *
+
+Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não
+bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito
+tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra
+servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos--sermos victimas;
+faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada,
+e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos
+proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e
+passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que
+então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os
+interesses pessoaes e a ambição dos individuos.
+
+Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos
+apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás
+mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á
+baixeza. Temos do constitucionalismo--esgotado--tudo o que elle tinha da
+mau na lia: a nobilitação dos _parvenus_, a falsa aristocracia, a falsa
+grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante,
+a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a
+sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto,
+a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario,
+para o reles, para o chinfrim ... Vêde a camara dos deputados: não é só a
+precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que
+a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as
+maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus
+discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o
+_mauvais lieu_ no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.
+
+Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão
+regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na
+Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel,
+na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por
+sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um
+novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda
+se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém
+a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso
+saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão
+perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.
+
+ * * * * *
+
+O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a
+republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um
+nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma
+norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação
+necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é
+que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer
+não seja para nós um irremediavel perigo.
+
+Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem
+immediatamente de manter os abusos.
+
+Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a
+melhor politica.
+
+Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só
+longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça
+é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem
+reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.
+
+Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador
+politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser
+inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se
+como se é homem de bem.
+
+Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara
+e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além
+d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o
+partido,--isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de
+governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é
+possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa
+opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião
+oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela
+falta da virtude.
+
+Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.
+
+Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais
+probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem
+publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia
+que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos
+homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia
+poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de
+corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de
+que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram--Cesar e Bonaparte
+pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror.
+
+Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no
+desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a
+gangrena e a dissolução latente do estado.
+
+Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a
+virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado
+popular, e que consiste resumidamente em preferir--o dever á
+conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.
+
+De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse
+de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa
+comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a
+liberdade.
+
+Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos
+nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma,
+acreditava em Deus e acreditava na justiça--a imagem immortal da
+perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu
+entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores
+actos que a homem algum foi ainda permittido commetter--dar a liberdade
+aos negros e dar a paz á America.
+
+ * * * * *
+
+Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para
+fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua
+influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella
+mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não
+se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê
+prudente e justo.
+
+No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado
+conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo
+livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios
+despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que
+nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação
+geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo
+sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por
+mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a
+condição essencial--intrinseca--da vida, a garantia do trabalho e a
+segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós
+sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a
+facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao
+jantar?... É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia
+social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no
+demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa,
+Theagenes em Megara.
+
+O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que
+ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando
+Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam
+que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram.
+
+Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes
+constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o
+desfallecimento e a morte.
+
+Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua
+forma politica--no governo--, a primeira obrigação do povo é manter esse
+principio sob a sua forma philosophica--na razão.
+
+ * * * * *
+
+O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o
+colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais
+intelligentemente armadas e equipadas da Europa....
+
+A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de
+ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros
+gabinetes de repouso suspensos de uns loros--coisa tão confortavel que
+as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e
+depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler
+o jornal e tomar o café--para os estribos.
+
+O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu
+acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os
+desde hoje e para todo sempre invenciveis.
+
+Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos
+dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes
+soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a
+artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando,
+com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam
+freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas,
+scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos
+nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa--molhavam os
+pés!
+
+De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira
+branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva
+abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca
+saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós
+pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria--mudasse
+de piugas.
+
+ * * * * *
+
+Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de
+que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e
+do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este
+infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida--ter os
+pés quentes!
+
+Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de
+sola, a infanteria seja egualmente dotada--com galochas de borracha.
+
+Depois do que,--adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e
+estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do
+sapato de ourello e do cobertor de papa--tendo o exercito os seus pés
+quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições--elle será feroz!
+
+ * * * * *
+
+Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção
+de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao
+qual no passado numero das _Farpas_ chamámos erradamente _deputado por
+Tavira_.
+
+Que nos perdôe s.ex.ª--e Tavira!
+
+Eis a moção:
+
+«A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os
+sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á
+dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para
+manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam
+ameaçal-a, e passa á ordem do dia.»
+
+Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram _approvo_ todos
+os srs. deputados.
+
+ * * * * *
+
+O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase:
+
+«Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a
+noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua
+independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional
+está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia
+constitucional.»
+
+Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples
+juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta
+qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para
+garantir nos differentes _pontos da Europa_ a incumplicidade de suas
+ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr.
+Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que
+apparecer.
+
+E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente
+illibados.
+
+ * * * * *
+
+Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos
+referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha
+desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu
+destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa
+ha dois annos.»
+
+Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não
+tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao
+queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito
+da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª
+illucidar os _pontos da Europa_ sob a sua innocencia e a dos seus
+collegas, mandando para a mesa a seguinte moção:
+
+«A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do
+criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos
+espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á
+independencia, e passa á ordem do dia.»
+
+Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:
+
+Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da
+Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.
+
+ * * * * *
+
+Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de
+Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de
+Palhés e a villa de Mangualde.»
+
+Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha:
+
+«A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se
+desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde,
+passa á ordem do dia--e a abotoar-se.»
+
+ * * * * *
+
+Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou
+ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua
+ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a
+crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por
+tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a
+crimes, cujos cumplices estão processados--d'aqui, inutil--e affirma o
+que não é--pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.
+
+ * * * * *
+
+Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e
+Cunha e a camara asseguram que _são inabalaveis no povo portuguez os
+sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_.
+
+No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam
+que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado--não
+certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante.
+
+O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua
+moção:
+
+«Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em
+tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as
+instituições e contra a dynastia ... Esses perigos não posso occultar á
+camara que existem ... Extranho que o poder moderador não convocasse a
+camara ... pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e
+as instituições.»
+
+Ora é este paiz, em que _a dynastia, a liberdade e as instituições
+correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a
+independencia, contra as instituições e contra a monarchia_, que a
+camara assegura ser _inabalavel nos seus sentimentos de amor ás
+instituições, de respeito e affeição á dynastia_!
+
+O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra
+conspirações continuadas.
+
+O partido historico caiu victima de uma conspiração.
+
+O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de
+Vasconcellos disse ha dias: «_N'este ponto_ (as conspirações) _chegou-se
+ao mais a que se podia chegar_.»
+
+Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os
+partidos se reunirem e votarem unanimemente--que ninguem conspira!
+
+ * * * * *
+
+Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino
+luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te
+espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr.
+Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os
+artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr.
+Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a
+pombinha branca, de assucar--tão casta!--das lampreias d'ovos.
+
+ * * * * *
+
+Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo
+funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras.
+Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se,
+faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de
+conversação, de interesse e de _verve_. Os officiaes cumprimentavam as
+senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o
+povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro,
+trocavam-se ponderações alegres, chistosas, _grivoises_, entre os que
+estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em
+funeral.
+
+Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um
+longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa
+imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada,
+entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das
+multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.
+
+Dizia-se fallando-se d'ella:
+
+«Deixou pouco.»
+
+«Que fez ella ao que tinha?»
+
+«Que miseravel! que mesquinha!»
+
+E um jornal catholico escreveu:
+
+«O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em
+cautellas de vinte e cinco.»
+
+Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os
+homens deseguaes.
+
+Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós
+acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um
+pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos
+deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.
+
+Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos,
+levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando
+silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as
+flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que
+passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo,
+suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou
+o descanço eterno.
+
+E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos
+que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por
+nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas
+encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos.
+
+As imperatrizes--coitadas!--teem de resignar-se á sua triste condição de
+imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria,
+interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas
+ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade
+de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher
+escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as
+ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao
+soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas
+lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro
+ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu
+triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em
+similhantes condições e com eguaes amarguras!
+
+Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o
+suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que
+descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova
+gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que
+devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de
+considerar-se menos que quaesquer outros.
+
+ * * * * *
+
+É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois
+mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de
+sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a
+circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise
+alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós
+proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de
+Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa
+illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito
+pela mulher digna e virtuosa que morreu.
+
+ * * * * *
+
+Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos
+perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a
+reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão
+insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes
+feridos e dois mortos.
+
+Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo
+programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que
+ninguem era ferido.
+
+Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas,
+levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo
+algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes
+de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas
+illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa
+acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,
+satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era
+recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos
+sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes
+jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá
+preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as
+multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando
+a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido
+para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição--ao piano.
+
+Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo
+usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico
+perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que
+desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.
+delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que
+delicto? _«Por abuso de defesa»_.
+
+Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é
+caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo
+atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico--por _abuso de
+defeza_.
+
+ * * * * *
+
+Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas
+clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez
+armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_.
+Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem
+desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o
+pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:
+contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.
+Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores,
+por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã,
+espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu
+Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao
+rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente
+barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes
+momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque
+musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe
+diga assim:--«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos
+uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem
+d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»
+
+E se o povo ainda assim resistir--diacho ... então, que o exercito fuja!
+
+Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...
+
+Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ...
+
+Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação
+energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento
+nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.
+Melicio vela!
+
+ * * * * *
+
+A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão
+politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um
+gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a
+vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira
+para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos
+de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por
+meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo--uma figura de
+rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio
+de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara--uma funda.
+
+ * * * * *
+
+Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação
+patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o
+governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de
+entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel
+provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este
+phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios
+alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa
+verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,
+ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.
+Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.
+Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da
+rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.
+
+O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias
+encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava
+sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a
+barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.
+deputado, com voz pausada e firme disse:
+
+«Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter
+espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle
+a quem verdadeiramente podemos chamar ...»
+
+Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,
+bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na
+bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um
+momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A
+multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os
+tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por
+um raio de enthusiasmo fecundo e creador!
+
+O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo--«Aquelle a quem
+verdadeiramente podemos chamar»--_O sol no occaso!_ (Prolongados
+apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.
+Vozes: Muito bem! muito bem!)
+
+ * * * * *
+
+Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na
+presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos
+quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha
+das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da
+eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.
+
+Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de
+provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente
+arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso
+commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e
+vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma
+espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com
+que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos
+vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,
+á beira dos golphos innundados de azul ...
+
+Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,
+a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das
+monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu?
+Escuta-o, ó principe! Tu és--_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que
+tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no
+occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza
+_Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os
+deuses immortaes, os deuses--guarda-soes! Que tão augusta dynastia se
+prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa
+ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX,
+por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens
+com brisa fresca!_
+
+ * * * * *
+
+Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão
+vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a
+camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima
+evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome
+que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida
+phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres
+proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que
+nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente
+modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras
+seguintes:
+
+Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e
+inspirada voz!
+
+Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta
+assembléa, labio tão selecto como attico!
+
+Sol no occaso ... só me é licito empregar a phrase penetrante que não
+ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre
+amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).
+
+Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito
+por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu
+immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!
+
+(O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e
+estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado
+monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).
+
+Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que
+comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já ...
+
+(Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.
+Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos
+outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns
+d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje
+são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa
+porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma
+interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se
+malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,
+emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma
+badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham
+luminosamente--uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a
+mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito
+commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre
+amigo fiel, Melicio--o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida
+desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de
+um desconhecido).
+
+ * * * * *
+
+_Áquelle que jurou assassinar-me_
+
+Meu senhor--Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua
+obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir
+a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com
+prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não
+posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,
+consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas
+regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:
+
+«Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha
+sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz?
+Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de
+...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da
+manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não
+fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais
+cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»
+
+Omitto n'este extracto o dia e o mez--os quaes o meu amigo fixa com a
+mais amavel pontualidade--porque, sendo um negocio inteiramente
+particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo
+indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um
+desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem
+de occupar-se do caso.
+
+Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro
+que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ...
+Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia
+de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta
+pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino
+o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um
+momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão
+atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.
+
+Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não
+poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me
+assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para
+viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.
+
+Meu amigo--Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,
+sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha
+opinião:
+
+Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e
+obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de
+uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma
+concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as
+convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que
+me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu
+empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como
+o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do
+momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de
+conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no
+Brazil--onde custa tudo tão caro!--o barato que ha de sair ao meu amigo
+o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de
+barateza que nem costumo levar nada--por me achar em casa!
+
+Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me
+apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a
+vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem
+ordinariamente comsigo.
+
+Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal
+da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final
+fecha o discurso.
+
+Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos
+assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com
+que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles
+que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,
+violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln
+e o jornalista Courrier.
+
+Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,
+dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo
+de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam
+obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos
+trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!
+
+Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao
+coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos
+mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos
+pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,--tão
+correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem
+felizes,--irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e
+implacaveis da desgraça!
+
+No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que
+inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que
+o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como
+uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!
+
+Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia
+completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,
+affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso,
+sentia a displicencia, a melancholia.
+
+Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...
+
+Vermes!
+
+O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua
+existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu
+começava a nutrir--de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria
+com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios
+aziaticos, que o que eu tenho é--o meu amigo. Considero-o já como uma
+parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo
+como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é
+a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos
+mezes, e todavia--como é commodo isto!--o meu amigo não me obriga a
+tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois
+golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo
+é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem
+vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!
+
+Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto
+allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!
+
+E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo
+o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito
+de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por
+ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes--bastante
+para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,
+que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da
+terra, que me não expulsarão nunca--elles!--da sua convivencia gulosa,
+mas discreta.
+
+A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será--que
+elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades
+mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,
+um scirrho no estomago; eu terei apenas tido--o meu amigo! o meu amigo
+que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o
+caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:--ausente!
+
+Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos
+zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.
+
+--Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!
+
+--Sabem ... era aquelle com quem nós embirravamos ...
+
+--O que trazia o bigode assim?...
+
+--Esse mesmo!
+
+--Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume ...
+
+E algumas outras coisas doces e impereciveis.
+
+E do meu amigo dirão apenas:
+
+«A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»
+
+Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o
+agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo
+tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_,
+isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade
+Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me
+consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado
+designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora
+directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com
+os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete--com feijão
+branco.
+
+ * * * * *
+
+Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com
+encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar,
+promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os
+soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e
+civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.
+
+Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim
+de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão,
+perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos
+sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que
+os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar
+nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e
+redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,
+emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho
+mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque
+na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas
+figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros
+selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,
+encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os
+instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do
+ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia
+de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos--com
+o vate:
+
+_Aos infieis, senhores, aos infieis!_
+
+ * * * * *
+
+D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares
+resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes
+individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do
+ministro do reino.
+
+O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de
+ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de
+ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a
+camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua
+pasta para ir adoptar o seu livro.»
+
+O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais
+aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e
+pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos
+de membro do actual gabinete.
+
+É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que
+elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as
+represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo
+para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de
+poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade
+colloca-se assim na logica que leva a consideral-a--pelos effeitos
+passivos da sua inanidade--como uma especie de virtude.
+
+O processo d'aquelle que por uma causa qualquer--boa ou má, justa ou
+iniqua--arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia
+ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no
+fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer
+o chão.
+
+Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando
+ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem
+guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um
+papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas
+que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa,
+era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.
+
+Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão ... Quantas
+mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias
+amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos
+sorrisos, com a malevolencia das allusões?
+
+Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos
+de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre
+amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram
+desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!
+
+Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade
+que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e
+covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e
+respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de
+salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada
+de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da
+contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das
+bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é
+que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra
+domestica.
+
+A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que
+fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de
+_virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão
+publica da sua virtude.
+
+Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a
+reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como
+a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!
+As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que
+ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.
+
+Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da
+paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de
+ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.
+Porque em verdade ser apenas um ministro--unico estado social que nos
+dispensa de sermos alguma outra coisa--não é propriamente um destino.
+Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e
+marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme
+eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte--pela coragem,
+pelo sacrificio ou pelo talento--que são as tres maximas constellações
+do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.
+
+Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os
+interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,
+inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que
+viveu.
+
+Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter
+passado no mundo.
+
+O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades
+venturosas--com um ganso,--o sr. Jayme Moniz.
+
+ * * * * *
+
+Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á
+luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a
+_Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos
+periodicos portuguezes são--anonymos.
+
+ * * * * *
+
+Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por
+que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:--que possa
+alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que
+escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico
+que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é
+este:--não assignar.
+
+Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é
+assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da
+Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas
+declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a
+responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os
+effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas
+as antipathias que tenha podido suscitar.
+
+Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores
+portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem
+mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um
+tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.
+
+ * * * * *
+
+A primeira razão por que se não assigna é esta:
+
+A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,
+convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios
+de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua
+machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como
+lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se
+eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das
+muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.
+N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da
+dignidade e da razão.
+
+Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,
+perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a
+firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por
+transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as
+necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é
+_responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor
+resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na
+imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma
+opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma
+catastrophe para a justiça.
+
+Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo
+apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde
+sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da
+entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se
+naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes
+dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia
+que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:
+quanto mais se lê peor se escreve.
+
+Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para
+assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa
+immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.
+
+Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da
+publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.
+Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê
+durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias
+que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus
+dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do
+jornal rouba-o o jornal á educação do povo.
+
+Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso
+que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra
+apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber
+quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas
+que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que
+me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de
+_galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_
+foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,
+salchicheiro.
+
+Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas
+respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito
+socialistas ou muito auctoritarios--tudo isto com a expressa condição de
+que nunca hei de saber quem elles são--dão-me exactamente aquelle
+receio:--medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de
+magnezia.
+
+ * * * * *
+
+Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.
+Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema
+representativo nacional.
+
+Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,
+abalisam uma época, enquadram um seculo.
+
+Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:
+
+«Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram
+sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes
+determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua
+respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu
+para o seculo attonito uma torcida,--e a luz foi feita. Os homens, os
+principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma
+geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na
+frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não
+isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes--ai de
+nós!--o empanaram e entenebreceram, é porque elles--o discreto Pickuick
+e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem
+mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se
+detinham,--geniaes, assombrosos e tremendos--para se espevitarem.»
+
+ * * * * *
+
+O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,
+teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação
+historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A
+posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de
+fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de
+Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos
+contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as
+guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o
+historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo
+actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois
+varões extraordinarios!
+
+No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que
+vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos
+pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha
+scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:--Barros
+ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o
+estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o
+barrete de algodão branco--casto symbolo dos sonhos immaculados--e a
+nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião
+publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!
+
+Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os
+espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram
+as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos--outrora tão puros!--quando
+se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos
+destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que
+esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma
+correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas
+suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas
+ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de
+nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do
+solo e dizia-se em um documento hispanhol--a _Peninsula Iberica_, ao que
+Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não!
+nunca!»
+
+Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á
+geographia--e á canalha!
+
+Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo
+cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas
+unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a
+Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos
+isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de
+pecego. Mas peninsula!... Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha
+tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó
+perra vil!
+
+E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica,
+os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que
+devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!
+
+Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na
+benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as
+peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos
+congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama,
+a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com
+cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais
+tarde a virtuosa mãe de seus filhos!
+
+Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita
+de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada
+botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte--de
+ôlho de perdiz!
+
+Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio--o
+extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria--e das
+peninsulas!
+
+ * * * * *
+
+Agora--Barros.
+
+Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o
+Brazil--grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos
+consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica
+o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido
+phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.
+
+Como o explica, como o justifica elle?
+
+Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera
+occorrido a ninguem ...--Pelo precedente das andorinhas!
+
+ * * * * *
+
+Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com
+attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem,
+sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,
+magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia--por
+dentro,--nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:
+
+«Elle tem alguma coisa na cabeça!»
+
+Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais
+excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o
+celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria
+parisiense de Champfleury!
+
+Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter
+um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio
+é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos
+trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no
+intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!
+
+Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando
+simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades
+o povo--e o passarinho!
+
+Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle
+conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas
+civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe
+arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do
+pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de
+Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a
+que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!
+
+Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos,
+como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e
+sacrosanto em que a idéa lhe veiu!...
+
+Estamos em que não poderia deixar de ter sido--no campo! O sabio no
+bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de
+lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao
+toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro
+portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos
+laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com
+suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o
+tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do
+corucheu da velha ermida em ruinas--- ellas, as duas, as mysticas
+amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar--a andorinha e a
+questão social--batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as
+amplidões do azul em phantasticos arabescos....
+
+E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do
+magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso
+que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a
+andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que
+evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um
+carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do
+que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou
+paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!
+
+Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e
+Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão
+Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!
+
+ * * * * *
+
+Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande
+homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.
+
+Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance
+profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento
+e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a
+manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se
+comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!
+
+O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo
+recebia successivamente em tres botes tres visitas--a do porto, a da
+saude e da alfandega--cogitou um momento e teve esta idéa enorme:
+
+Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres
+visitas n'um só bote!
+
+E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um
+discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.
+
+ * * * * *
+
+Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo
+menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos
+homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão
+portentoso que pretendeu economisar á patria--dois botes!
+
+Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o
+Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e
+simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a
+extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que
+elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir
+pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço
+para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por
+elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus
+maiores!
+
+O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este
+heroe--sr. Barros e Cunha--com este outro--sr. Barros e Sá. Porque--ó
+ilusão!--elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se
+parecem--dois coelhos,--dois porta-machados--ou dois pretos.
+
+ * * * * *
+
+No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto--um
+caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.
+
+Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme
+fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de
+um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um
+charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos
+algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais
+extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,
+novos ceus, novas floras e novas faunas.
+
+Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.
+
+Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de
+oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil
+pessoas.
+
+Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se
+nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e
+com a Russia européa.
+
+Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos
+felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar
+deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!
+
+Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o
+thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão
+gelados nove mezes por anno.
+
+Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os
+Strelitz.
+
+Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em
+Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as
+caravanas do chá....
+
+E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada,
+comeremos ninhos de andorinhas--uma especie de letria insipida, cara
+como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!--mas se
+soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785
+letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e
+litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos
+no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais
+subditos do grande Filho do Ceu.
+
+E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no
+espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma
+caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem
+expresso_--o heroe do poeta Campoamor--, que devora o espaço e o tempo,
+fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle
+galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por
+baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!
+
+E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos
+Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como
+atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um
+barril immundo para um fino cristal facetado!
+
+ * * * * *
+
+A camara dos srs. deputados....
+
+Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.
+deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso
+encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que
+se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim--nós estamos
+como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro
+cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o
+freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza
+apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e
+permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr
+desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle
+aceno--tão profundamente triste para os que partem--de um lenço branco
+que palpita, ao longe!
+
+E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça,
+abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do
+estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna....
+
+A camara pois--diziamos--querendo collocar-se ao par do que a
+civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de
+leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha
+realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar
+um phenomeno--mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:
+
+Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um
+barril, uma pipa ou um tonel!
+
+E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este
+problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a
+camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e
+revista, a celebre e immortal lei--_do engarrafamento das vasilhas_, na
+qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:
+
+«Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo
+antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer
+vasilhas.»
+
+Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que
+a camara--intemerata e altiva--se acha habilitada para proceder á face
+da Europa a este milagre:
+
+_Engarrafar vasilhas_.
+
+ * * * * *
+
+E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena
+parlamentar--onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como
+uma mosca caida sobre uma taça de creme--para o refugio inviolavel da
+vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples
+das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,
+aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus
+bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente
+perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã
+camoeza!
+
+Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!
+
+Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre
+coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma
+d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se
+seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,
+um capitalista ou um sabio.
+
+Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.
+
+Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.
+
+Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer
+leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente
+habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,--é não as fazer.
+
+Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás
+grande.
+
+Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma
+grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem,
+no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um
+meio de não ser ridiculo:--é ficar em casa.
+
+Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser
+trinchado por ella.... Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no
+teu voltarete.
+
+Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que
+se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões
+um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a
+si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a
+outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das
+suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de
+narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as
+barejes.... Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e
+cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua
+triste representação--de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não
+veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres
+verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos
+das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso--porque
+elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem _toilette_, nem
+orthographia, nem mão de redea!
+
+O que estes são--na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o,
+como o foste--na politica! Não tornes cá.
+
+Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um
+beijo, desculpa.... É que nós temos razões para desconfiar,--pelas tuas
+moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus
+discursos,--que tu usas _patchouly_ e comes alho.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da
+Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
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+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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