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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:44:56 -0700
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+ <meta name="author" content="Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz" />
+ <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, Janeiro a Fevereiro de 1873
+by Ramalho Ortigão and Eça De Queiroz.</title>
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+/*<![CDATA[*/
+ <!--
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+<body>
+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14620 ***</div>
+
+<div class="centered">
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+ alt="As Farpas&mdash;R. Ortigão&mdash;Eça de Queiroz" />
+ <!--IMAGE END-->
+</div>
+<hr class="major" />
+<h1>
+ AS FARPAS
+</h1>
+<div class="centered">
+ <p>RAMALHO ORTIGÃO&mdash;EÇA DE QUEIROZ</p>
+ <p>CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p>
+ <p>2.º ANNO</p>
+ <p>Janeiro a Fevereiro de 1873</p>
+</div>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<blockquote>
+<p>
+Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+universo, e da adoração de mim mesmo.
+</p>
+</blockquote>
+<p class="centered">
+ P.J. PROUDHON
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+
+<p class="centered">
+ <b>SUMMARIO</b>
+</p>
+<p>
+ As idéas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da corôa. Os
+ partidos. As fórmas do governo. Governo livre e governo despotico.
+ Republica ou monarchia? A nossa questão, e o nosso voto. Qual é o
+ governo que nos espera. As maiorias e as opposições. Perfil da sociedade
+ portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa
+ virtude, o nosso direito á liberdade&mdash;Reforma do exercito e dos
+<a href="#estribos">estribos</a>&mdash;As
+<a href="#conspiracoes">conspirações, as revoltas e as opiniões do parlamento</a>&mdash;O
+ enterro da senhora
+<a href="#braganca">duqueza de Bragança</a>.&mdash;Um conselho á força
+ armada.&mdash;Prova-se que a camara dos deputados não tem amolecimento
+ cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei
+<a href="#amadeu">Amadeu</a> e varios outros
+ personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra
+ sobre as botas de s.ex.ª&mdash;Resposta áquelle que jurou
+<a href="#assassinar">assassinar-me.</a>&mdash;Os srs
+<a href="#ultramar">bispos do ultramar</a>&mdash;O
+<a href="#espectro">redactor do <i>Espectro</i></a> e o ministro do reino.
+ A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade&mdash;
+<a href="#pickuick">Joseph Prudhome e Pickuick</a>.
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<p>
+ Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente
+ se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa.
+ Esta discussão partindo de um ponto&mdash;a approvação do projecto&mdash;, para
+ findar exactamente no mesmo ponto de que partiu&mdash;a approvação do dito
+ projecto&mdash;, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos
+ egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da
+ immobilidade oriental.
+</p>
+<p>
+ Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido,
+ tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se
+ assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o
+ paiz tem de responder aos cumprimentos do rei!
+</p>
+<p>
+ Como se, não havendo principios nenhuns de politica interna que
+ affirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o
+ que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei
+ podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas,
+ alargar-se d'estes termos.
+</p>
+<p>
+ <i>Discurso da corôa</i>: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!»
+</p>
+<p>
+ <i>Resposta ao discurso da corôa</i>: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!»
+</p>
+<p>
+ Tudo mais é emphatico, é ôco, é ridiculo&mdash;e é immoral.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na
+ collocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a
+ confecção de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se
+ reciprocamente <i>desordeiros, calumniadores e ineptos</i>; e documentam e
+ provam entre uns e outros, de partido para partido, que são
+ effectivamente <i>desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos</i>.
+</p>
+<p>
+ As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desoccupada e ociosa,
+ que não vae á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos
+ interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se
+ d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e&mdash;o que é peior que
+ tudo&mdash;preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a
+ maledicencia dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos
+ dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do
+ decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas
+ luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.
+</p>
+<p>
+ Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias,
+ segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que
+ desertaram as suas repartições, litteratos ambiciosos que abandonaram os
+ seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho,
+ operarios em <i>grève</i> que foram aprender a discursar nos seus comicios,
+ pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pôdres por
+ onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que
+ precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade,
+ assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira,
+ sem elevação moral, sem correcção artistica, cheia de arrebatamentos
+ estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras
+ sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da
+ lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas
+ distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as
+ suas pobres mãos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis,
+ surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fóra,
+ riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos
+ rabulas amaveis e cynicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam
+ descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia.
+</p>
+<p>
+ E eis ahi no mais alto das instituições a escola publica em que o povo
+ tem de aprender a ser digno e honrado!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e
+ negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da
+ administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas
+ correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que
+ todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.
+</p>
+<p>
+ Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus
+ cavallos á rédea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os
+ nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali
+ para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam
+ constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de
+ quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um <i>coupé</i>
+ da Companhia.
+</p>
+<p>
+ Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos
+ erros de grammatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando
+ definitivamente á companhia das carroagens este simples recado:
+</p>
+<p>
+ «Os partidos são cinco&mdash;regeneradores, historicos, reformistas,
+ avilistas e constituintes: que os <i>coupés</i> do ministerio parem
+ revesadamente de tres em tres mezes ás portas de cada um d'esses
+ senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem são os individuos
+ que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador
+ se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.»
+</p>
+<p>
+ Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os
+ srs. deputados votariam calados.
+</p>
+<p>
+ Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do
+ que a força de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em
+ Portugal ha egual superstição com as successões do governo: a camara é
+ sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que
+ propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discordias.
+</p>
+<p>
+ Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lançar-se ao debate e
+ discutir-se a palavra Republica. Vimos que a fórma do governo
+ republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo
+ todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e
+ é: que o povo portuguez não está por emquanto nem bastante educado nem
+ bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica.
+</p>
+<p>
+ Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma
+ constituitiva do poder não nos importa. O problema politico
+ interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso
+ tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preoccupa os
+ povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de
+ distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a
+ parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e
+ fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os
+ symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do
+ trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o
+ problema economico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a
+ parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa
+ em que elles se deixem ficar ou em que elles se vão embora. Voltaire
+ defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que
+ tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua
+ especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico,
+ em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No
+ constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão
+ é uma pacifica féra embalsamada, inoffensivo ornato de <i>ètagére</i>, que os
+ ratos trazem comsigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de
+ pretexto para elles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos
+ declararem que lhes appetece roer:&mdash;«Meus senhores, o leão pede
+ viveres.»
+</p>
+<p>
+ Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não
+ obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como
+ fundamentalmente autonomas, isto é, independentes de todo o dominio, o
+ governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se
+ aproximasse d'aquelle que até hoje tem dirigido os destinos da egreja
+ catholica. O poder supremo nas mãos de um papa infallivel, arbitro
+ absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado;
+ o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos
+ e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a
+ esphera da iniciativa humana desde os actos até os pensamentos; tendo
+ por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos
+ quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infracções da lei,
+ tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e não
+ depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no
+ fundo mais recondito da alma é possivel um esconderijo para a anarchia!
+ Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do
+ socego e da ordem.
+</p>
+<p>
+ Hoje porém:
+</p>
+<p>
+ Como os governos não podem já ser considerados debaixo d'esse ponto de
+ vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores;
+</p>
+<p>
+ Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si
+ mesmas;
+</p>
+<p>
+ Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se
+ transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados
+ a maior parte dos poderes delegados nos governantes;
+</p>
+<p>
+ Como dentro em pouco tempo, precisamente, <i>fatalmente</i>, todos os povos
+ impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aquelles que por
+ via da eleição representem a vontade popular:
+</p>
+<p>
+ Segue-se que a differença essencial das fórmas actuaes de governo não
+ póde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy,
+ considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte
+ de poder que ellas asseguram ao povo.
+</p>
+<p>
+ Vejamos pois agora qual é a differença que existe entre uma republica e
+ uma monarchia parlamentar.
+</p>
+<p>
+ A republica é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo
+ por chefe do poder executivo&mdash;um presidente eleito.
+</p>
+<p>
+ A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal, é o governo do
+ povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder
+ executivo&mdash;um rei hereditario.
+</p>
+<p>
+ O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da
+ republica conservadora que actualmente existe em França, diz que uma
+ monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros
+ responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma
+ dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á
+ liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos,
+ para o estabelecimento da monarchia é preciso a dynastia, isto é: a
+ tradição. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a
+ tradição como em França e em Hespanha, nada mais perigoso do que
+ suscitar ruins ambições, chamando um principe para cabide de uma corôa.
+ N'este caso o unico systema que não offerece gravíssimos perigos e
+ grandes complicações intestinas e internacionaes é a republica. Ter a
+ monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo
+ de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar
+ reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e
+ de juizo para governar.
+</p>
+<p>
+ Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e á indagação
+ das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade,
+ nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill,
+ Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha differença entre republica e
+ monarchia representativa.
+</p>
+<p>
+ A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram
+ de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a
+ politica. A fórma do governo na egreja&mdash;o mais despotico governo de
+ quantos se possam imaginar&mdash;é a fórma republicana. O papa é um
+ presidente eleito.
+</p>
+<p>
+ O poder popular não periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio
+ funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas
+ affirmam-se despedaçando as resistencias dos senhores feudaes. Os
+ soberanos procuram sempre na alliança do povo o appoio do mais forte.
+ Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia
+ ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar
+ d'olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro
+ que fôra sempre socialista. A <i>Internacional</i> tem origem em uma
+ expedição de operarios mandados a Londres á custa do segundo imperio
+ para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a
+ França poderia introduzir na organisação do trabalho.
+</p>
+<p>
+ A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa
+ vantagem&mdash;a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior
+ defeito:&mdash;a republica suscita as grandes ambições, que o
+ constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente
+ nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades.
+</p>
+<p>
+ Isto porém são caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros
+ que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a
+ escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com
+ relação á liberdade os dois systemas não soffrem evidentemente
+ distincção: um e outro affirmam um governo livre.
+</p>
+<p>
+ A differença que existe entre governos livres e governos que o não são,
+ é:
+</p>
+<p>
+ Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos é em
+ verdade a do soberano; n'outros paizes é a da nação.
+</p>
+<p>
+ Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias nós nos achamos.
+</p>
+<p>
+ Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem
+ a minima ingerencia na direcção dos negocios. O unico acto de iniciativa
+ pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em
+ dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores
+ guardam d'estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança.
+ Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara
+ a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer
+ reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios
+ physicos. Um habito de Christo que se dá, uma photographia com
+ pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia.
+ Ninguem dirá que por tão innocentes commercios de affeição el-rei
+ manifeste o intuito partidario&mdash;de lançar-se nos braços de um valido. Os
+ unicos convivas extra-officiaes do principe&mdash;os tenores e os baritonos
+ de <i>primo-cartello</i>&mdash;estão fóra de toda e qualquer suspeita malevola que
+ não seja&mdash;a de desafinarem.
+</p>
+<p>
+ Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia
+ de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e
+ livre sob a monarchia portugueza.
+</p>
+<p>
+ Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus
+ correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos
+ dizem que a republica&mdash;com ser o mais perfeito dos governos segundo uns,
+ ou ser um imperfeito governo segundo outros&mdash;não póde por emquanto
+ existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrucção precisa
+ para tomar o governo de si mesmo, hão de permittir os illustres
+ deputados que nós tiremos d'esse seu argumento todas as conclusões que
+ elle encerra....
+</p>
+<p>
+ E que digamos a suas excellencias:
+</p>
+<p>
+ Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, é
+ egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a
+ verdade, que ninguem nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo
+ governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes
+ eleitos.
+</p>
+<p>
+ Ora, se o povo não póde exercer suffragio para a eleição do governo sob
+ o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o
+ governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o
+ mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na
+ constituição dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os
+ mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade
+ eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na republica e na
+ monarchia parlamentar.
+</p>
+<p>
+ Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da
+ republica?! Quem é então que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no
+ regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do systema
+ monarchico para o systema republicano, nos desapparece ámanhã perante o
+ exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo
+ exercicio? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo
+ portuguez?
+</p>
+<p>
+ Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a
+ republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa
+ por suas excellencias e pelo povo que os elegeu é sua magestade el-rei!
+ Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano não é o poder
+ moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes
+ tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a
+ representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel
+ da força e da lei, assim o declara! Ella só é digna, só é autonoma, só é
+ independente e pensante&mdash;emquanto houver um rei. No momento em que o
+ monarcha descer do throno, ella será inepta. Animaes do Apocalypse, os
+ srs. deputados só fallam agora pela sugestão divina imposta pelo
+ sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi está, se um dia o rei lhe
+ voltar as costas, recusará com pudor o copo d'agua oratorio, e
+ pedirá&mdash;herva.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs.
+ deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? Não é. Se a
+ camara que ahi temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do
+ suffragio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Sómente
+ as consequencias que esse argumento encerra não ferem sómente o direito
+ á republica, ferem tambem o direito á liberdade. A logica não póde parar
+ onde á casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir até
+ onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa
+ fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva
+ que acaba de occupar-se da discussão d'estes principios dá
+ effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da
+ capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma
+ republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questão é mais
+ complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas
+ excellencias, teem ou não teem a capacidade precisa para serem os
+ representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de
+ não eleição; é de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos
+ representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos
+ dois governos livres&mdash;republica democratica ou monarchia parlamentar. Se
+ os legitimos representantes do povo não prestam, teremos&mdash;a anarchia na
+ republica, e teremos&mdash;a escravidão na monarchia.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal
+ uma farça ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o
+ patriotismo. A camara é de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta,
+ e não se esclarece nem se desaffronta,&mdash;o que prova que não tem sciencia
+ e que parece não ter caracter.
+</p>
+<p>
+ Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates
+ parlamentares a verdade d'essa asserção, que poderá ser tida por
+ arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque
+ elles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos duvida em deixar
+ cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar
+ sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos até ahi,
+ tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridiculo lava-se
+ na rehabilitação com que nos retemperam os actos sérios, a vergonha
+ quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As
+ <i>Farpas</i> ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por
+ essa razão preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal.
+</p>
+<p>
+ Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os principios moraes.
+ D'aqui resulta uma perturbação insanavel, um mal sem cura. É a
+ corrupção, é a gangrena, é a paralysação senil affectando o jogo de todo
+ o machinismo constitucional.
+</p>
+<p>
+ Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da
+ liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz
+ todo ha um surdo descontentamento geral.
+</p>
+<p>
+ Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que
+ prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal
+ como já hoje fóra de Portugal, que está eminente sobre nós uma d'essas
+ grandes transformações politicas que apparecem nos paizes livres sempre
+ que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos
+ differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira
+ a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos.
+</p>
+<p>
+ Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. Não existem
+ divergencias de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o
+ paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica
+ entregue ao arbitrio da auctoridade, e os círculos eleitoraes
+ convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia
+ elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os
+ seus amigos votam as opposições. A vontade popular é muda e passiva, o
+ que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou
+ seccas.
+</p>
+<p>
+ Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposição
+ perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa
+ na Inglaterra os <i>tories</i> e os <i>whigs</i>, não podem tambem contar com uma
+ maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o
+ governo acode submissamente ás exigencias dos pequenos corrilhos,
+ promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae
+ de fadiga, apupado e corrido.
+</p>
+<p>
+ Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros
+ constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente ávidos do
+ poder. Estes pretendentes quando não teem forças necessarias para
+ alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia
+ burocratica, o partido que não teem na camara, e distribuem pelos seus
+ amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com
+ crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da
+ satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.
+</p>
+<p>
+ O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a
+ altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem
+ estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação
+ militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e
+ da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico
+ que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos
+ paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!
+</p>
+<p>
+ A classe operaria faz <i>grèves</i>, no que está inteiramente no seu
+ direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria
+ sentimental,&mdash;o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do
+ direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os
+ obreiros&mdash;jornalistas e oradores&mdash;a pedirem mais descanços para
+ discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.
+</p>
+<p>
+ O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está
+ hypothecada.
+</p>
+<p>
+ Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as
+ instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!
+</p>
+<p>
+ Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e
+ ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior
+ riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo,
+ dando dinheiro e recebendo papeis.
+</p>
+<p>
+ A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do
+ seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são
+ agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem
+ bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da
+ qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam
+ muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes
+ laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro
+ dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é
+ elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as
+ suas necessidades, <i>descentralisar-se</i>, trabalhar só, viver de si, que é
+ o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se
+ finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica
+ dignidade verdadeira e segura&mdash;o trabalho pessoal e livre. A mocidade
+ tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da
+ justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a
+ sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão
+ ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas
+ necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das
+ simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da
+ nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a
+ sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem
+ tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como
+ typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho
+ e como critico as consciencias dos outros pela justiça.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo
+ despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos,
+ pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos
+ ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A
+ religião&mdash;mais clerical que divina&mdash;penetrando-nos completamente,
+ dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar,
+ assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento,
+ lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles,
+ lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos
+ mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio
+ e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com
+ similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A
+ consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente
+ religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que
+ se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim
+ delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a
+ eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o
+ que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de
+ responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo
+ o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da
+ sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua
+ liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.
+</p>
+<p>
+ Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do
+ interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a
+ noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira
+ elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque
+ conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a
+ rebaixa.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não
+ bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito
+ tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra
+ servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos&mdash;sermos victimas;
+ faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada,
+ e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos
+ proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e
+ passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que
+ então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os
+ interesses pessoaes e a ambição dos individuos.
+</p>
+<p>
+ Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos
+ apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás
+ mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á
+ baixeza. Temos do constitucionalismo&mdash;esgotado&mdash;tudo o que elle tinha da
+ mau na lia: a nobilitação dos <i>parvenus</i>, a falsa aristocracia, a falsa
+ grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante,
+ a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a
+ sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto,
+ a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario,
+ para o reles, para o chinfrim ... Vêde a camara dos deputados: não é só a
+ precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que
+ a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as
+ maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus
+ discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o
+ <i>mauvais lieu</i> no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.
+</p>
+<p>
+ Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão
+ regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na
+ Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel,
+ na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por
+ sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um
+ novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda
+ se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém
+ a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso
+ saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão
+ perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a
+ republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um
+ nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma
+ norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação
+ necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é
+ que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer
+ não seja para nós um irremediavel perigo.
+</p>
+<p>
+ Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem
+ immediatamente de manter os abusos.
+</p>
+<p>
+ Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a
+ melhor politica.
+</p>
+<p>
+ Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só
+ longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça
+ é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem
+ reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.
+</p>
+<p>
+ Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador
+ politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser
+ inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se
+ como se é homem de bem.
+</p>
+<p>
+ Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara
+ e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além
+ d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o
+ partido,&mdash;isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de
+ governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é
+ possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa
+ opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião
+ oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela
+ falta da virtude.
+</p>
+<p>
+ Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.
+</p>
+<p>
+ Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais
+ probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem
+ publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia
+ que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos
+ homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia
+ poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de
+ corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de
+ que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram&mdash;Cesar e Bonaparte
+ pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror.
+</p>
+<p>
+ Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no
+ desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a
+ gangrena e a dissolução latente do estado.
+</p>
+<p>
+ Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a
+ virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado
+ popular, e que consiste resumidamente em preferir&mdash;o dever á
+ conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.
+</p>
+<p>
+ De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse
+ de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa
+ comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a
+ liberdade.
+</p>
+<p>
+ Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos
+ nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma,
+ acreditava em Deus e acreditava na justiça&mdash;a imagem immortal da
+ perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu
+ entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores
+ actos que a homem algum foi ainda permittido commetter&mdash;dar a liberdade
+ aos negros e dar a paz á America.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para
+ fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua
+ influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella
+ mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não
+ se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê
+ prudente e justo.
+</p>
+<p>
+ No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado
+ conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo
+ livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios
+ despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que
+ nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação
+ geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo
+ sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por
+ mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a
+ condição essencial&mdash;intrinseca&mdash;da vida, a garantia do trabalho e a
+ segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós
+ sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a
+ facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao
+ jantar?... É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia
+ social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no
+ demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa,
+ Theagenes em Megara.
+</p>
+<p>
+ O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que
+ ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando
+ Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam
+ que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram.
+</p>
+<p>
+ Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes
+ constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o
+ desfallecimento e a morte.
+</p>
+<p>
+ Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua
+ forma politica&mdash;no governo&mdash;, a primeira obrigação do povo é manter esse
+ principio sob a sua forma philosophica&mdash;na razão.
+</p>
+<hr id="estribos" />
+<p>
+ O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o
+ colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais
+ intelligentemente armadas e equipadas da Europa....
+</p>
+<p>
+ A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de
+ ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros
+ gabinetes de repouso suspensos de uns loros&mdash;coisa tão confortavel que
+ as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e
+ depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler
+ o jornal e tomar o café&mdash;para os estribos.
+</p>
+<p>
+ O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu
+ acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os
+ desde hoje e para todo sempre invenciveis.
+</p>
+<p>
+ Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos
+ dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes
+ soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a
+ artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando,
+ com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam
+ freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas,
+ scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos
+ nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa&mdash;molhavam os
+ pés!
+</p>
+<p>
+ De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira
+ branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva
+ abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca
+ saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós
+ pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria&mdash;mudasse
+ de piugas.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de
+ que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e
+ do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este
+ infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida&mdash;ter os
+ pés quentes!
+</p>
+<p>
+ Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de
+ sola, a infanteria seja egualmente dotada&mdash;com galochas de borracha.
+</p>
+<p>
+ Depois do que,&mdash;adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e
+ estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do
+ sapato de ourello e do cobertor de papa&mdash;tendo o exercito os seus pés
+ quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições&mdash;elle será feroz!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção
+ de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao
+ qual no passado numero das <i>Farpas</i> chamámos erradamente <i>deputado por
+ Tavira</i>.
+</p>
+<p>
+ Que nos perdôe s.ex.ª&mdash;e Tavira!
+</p>
+<p>
+ Eis a moção:
+</p>
+<p>
+ «A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os
+ sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á
+ dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para
+ manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam
+ ameaçal-a, e passa á ordem do dia.»
+</p>
+<p>
+ Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram <i>approvo</i> todos
+ os srs. deputados.
+</p>
+<hr id="conspiracoes"/>
+<p>
+ O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase:
+</p>
+<p>
+ «Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a
+ noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua
+ independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional
+ está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia
+ constitucional.»
+</p>
+<p>
+ Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples
+ juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta
+ qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para
+ garantir nos differentes <i>pontos da Europa</i> a incumplicidade de suas
+ ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr.
+ Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que
+ apparecer.
+</p>
+<p>
+ E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente
+ illibados.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos
+ referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha
+ desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu
+ destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa
+ ha dois annos.»
+</p>
+<p>
+ Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não
+ tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao
+ queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito
+ da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª
+ illucidar os <i>pontos da Europa</i> sob a sua innocencia e a dos seus
+ collegas, mandando para a mesa a seguinte moção:
+</p>
+<p>
+ «A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do
+ criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos
+ espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á
+ independencia, e passa á ordem do dia.»
+</p>
+<p>
+ Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:
+</p>
+<p>
+ Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da
+ Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de
+ Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de
+ Palhés e a villa de Mangualde.»
+</p>
+<p>
+ Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha:
+</p>
+<p>
+ «A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se
+ desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde,
+ passa á ordem do dia&mdash;e a abotoar-se.»
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou
+ ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua
+ ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a
+ crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por
+ tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a
+ crimes, cujos cumplices estão processados&mdash;d'aqui, inutil&mdash;e affirma o
+ que não é&mdash;pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e
+ Cunha e a camara asseguram que <i>são inabalaveis no povo portuguez os
+ sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia</i>.
+</p>
+<p>
+ No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam
+ que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado&mdash;não
+ certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante.
+</p>
+<p>
+ O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua
+ moção:
+</p>
+<p>
+ «Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em
+ tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as
+ instituições e contra a dynastia ... Esses perigos não posso occultar á
+ camara que existem ... Extranho que o poder moderador não convocasse a
+ camara ... pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e
+ as instituições.»
+</p>
+<p>
+ Ora é este paiz, em que <i>a dynastia, a liberdade e as instituições
+ correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a
+ independencia, contra as instituições e contra a monarchia</i>, que a
+ camara assegura ser <i>inabalavel nos seus sentimentos de amor ás
+ instituições, de respeito e affeição á dynastia</i>!
+</p>
+<p>
+ O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra
+ conspirações continuadas.
+</p>
+<p>
+ O partido historico caiu victima de uma conspiração.
+</p>
+<p>
+ O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de
+ Vasconcellos disse ha dias: «<i>N'este ponto</i> (as conspirações) <i>chegou-se
+ ao mais a que se podia chegar</i>.»
+</p>
+<p>
+ Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os
+ partidos se reunirem e votarem unanimemente&mdash;que ninguem conspira!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino
+ luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te
+ espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr.
+ Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os
+ artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr.
+ Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a
+ pombinha branca, de assucar&mdash;tão casta!&mdash;das lampreias d'ovos.
+</p>
+<hr id="braganca" />
+<p>
+ Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo
+ funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras.
+ Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se,
+ faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de
+ conversação, de interesse e de <i>verve</i>. Os officiaes cumprimentavam as
+ senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o
+ povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro,
+ trocavam-se ponderações alegres, chistosas, <i>grivoises</i>, entre os que
+ estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em
+ funeral.
+</p>
+<p>
+ Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um
+ longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa
+ imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada,
+ entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das
+ multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.
+</p>
+<p>
+ Dizia-se fallando-se d'ella:
+</p>
+<p>
+ «Deixou pouco.»
+</p>
+<p>
+ «Que fez ella ao que tinha?»
+</p>
+<p>
+ «Que miseravel! que mesquinha!»
+</p>
+<p>
+ E um jornal catholico escreveu:
+</p>
+<p>
+ «O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em
+ cautellas de vinte e cinco.»
+</p>
+<p>
+ Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os
+ homens deseguaes.
+</p>
+<p>
+ Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós
+ acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um
+ pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos
+ deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.
+</p>
+<p>
+ Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos,
+ levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando
+ silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as
+ flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que
+ passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo,
+ suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou
+ o descanço eterno.
+</p>
+<p>
+ E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos
+ que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por
+ nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas
+ encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos.
+</p>
+<p>
+ As imperatrizes&mdash;coitadas!&mdash;teem de resignar-se á sua triste condição de
+ imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria,
+ interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas
+ ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade
+ de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher
+ escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as
+ ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao
+ soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas
+ lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro
+ ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu
+ triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em
+ similhantes condições e com eguaes amarguras!
+</p>
+<p>
+ Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o
+ suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que
+ descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova
+ gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que
+ devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de
+ considerar-se menos que quaesquer outros.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ É certo que o <i>Diario do Governo</i> ordenou que tomassemos luto de dois
+ mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de
+ sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a
+ circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise
+ alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós
+ proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de
+ Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa
+ illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito
+ pela mulher digna e virtuosa que morreu.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos
+ perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a
+ reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão
+ insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes
+ feridos e dois mortos.
+</p>
+<p>
+ Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo
+ programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que
+ ninguem era ferido.
+</p>
+<p>
+ Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas,
+ levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo
+ algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes
+ de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas
+ illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa
+ acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,
+ satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa <i>idra da anarchia</i> era
+ recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos
+ sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes
+ jardins balsamicos, das alegres partidas da <i>croquet</i> e do bom chá
+ preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as
+ multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando
+ a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido
+ para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição&mdash;ao piano.
+</p>
+<p>
+ Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo
+ usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico
+ perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que
+ desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.
+ delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que
+ delicto? <i>«Por abuso de defesa»</i>.
+</p>
+<p>
+ Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é
+ caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo
+ atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico&mdash;por <i>abuso de
+ defeza</i>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas
+ clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez
+ armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas <i>não abuse</i>.
+ Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem
+ desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o
+ pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:
+ contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.
+ Quantas vezes a gente se revolta por <i>spleen</i>, por tedio, por vapores,
+ por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã,
+ espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu
+ Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao
+ rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente
+ barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes
+ momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque
+ musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe
+ diga assim:&mdash;«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos
+ uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem
+ d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»
+</p>
+<p>
+ E se o povo ainda assim resistir&mdash;diacho ... então, que o exercito fuja!
+</p>
+<p>
+ Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...
+</p>
+<p>
+ Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ...
+</p>
+<p>
+ Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação
+ energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento
+ nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.
+ Melicio vela!
+</p>
+<hr id="amadeu" />
+<p>
+ A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão
+ politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um
+ gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a
+ vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira
+ para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos
+ de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por
+ meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo&mdash;uma figura de
+ rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio
+ de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara&mdash;uma funda.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação
+ patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o
+ governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de
+ entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel
+ provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este
+ phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios
+ alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa
+ verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,
+ ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.
+ Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.
+ Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da
+ rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.
+</p>
+<p>
+ O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias
+ encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava
+ sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a
+ barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.
+ deputado, com voz pausada e firme disse:
+</p>
+<p>
+ «Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter
+ espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle
+ a quem verdadeiramente podemos chamar ...»
+</p>
+<p>
+ Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,
+ bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na
+ bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um
+ momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A
+ multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os
+ tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por
+ um raio de enthusiasmo fecundo e creador!
+</p>
+<p>
+ O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo&mdash;«Aquelle a quem
+ verdadeiramente podemos chamar»&mdash;<i>O sol no occaso!</i> (Prolongados
+ apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.
+ Vozes: Muito bem! muito bem!)
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na
+ presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos
+ quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha
+ das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da
+ eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.
+</p>
+<p>
+ Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de
+ provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente
+ arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso
+ commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e
+ vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma
+ espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com
+ que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos
+ vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,
+ á beira dos golphos innundados de azul ...
+</p>
+<p>
+ Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,
+ a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das
+ monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu?
+ Escuta-o, ó principe! Tu és&mdash;<i>o sol no occaso</i>. Teu augusto avô, que
+ tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é <i>Sol no
+ occaso</i> I; tu és <i>Sol no occaso</i> II; teu filho primogenito é sua alteza
+ <i>Sol no occaso</i> presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os
+ deuses immortaes, os deuses&mdash;guarda-soes! Que tão augusta dynastia se
+ prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa
+ ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso <i>Sol no occaso</i> XIX,
+ por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos <i>O entre nuvens
+ com brisa fresca!</i>
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão
+ vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a
+ camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima
+ evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome
+ que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida
+ phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres
+ proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que
+ nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente
+ modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras
+ seguintes:
+</p>
+<p>
+ Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e
+ inspirada voz!
+</p>
+<p>
+ Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta
+ assembléa, labio tão selecto como attico!
+</p>
+<p>
+ Sol no occaso ... só me é licito empregar a phrase penetrante que não
+ ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre
+ amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).
+</p>
+<p>
+ Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito
+ por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu
+ immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!
+</p>
+<p>
+ (O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e
+ estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado
+ monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).
+</p>
+<p>
+ Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que
+ comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já ...
+</p>
+<p>
+ (Muitas vozes: <i>Repita-se! repita-se!</i> O sr. presidente: <i>Deu a hora</i>.
+ Vozes: <i>Muito bem! muito bem!</i> Todos os oradores se cumprimentam uns aos
+ outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns
+ d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje
+ são o andar de s.ex.ª, tira o <i>Times</i> do bolso e vão fallar, uma idéa
+ porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma
+ interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se
+ malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,
+ emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma
+ badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham
+ luminosamente&mdash;uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a
+ mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito
+ commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre
+ amigo fiel, Melicio&mdash;o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida
+ desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de
+ um desconhecido).
+</p>
+<hr id="assassinar" />
+<p>
+ <b>Áquelle que jurou assassinar-me</b>
+</p>
+<p>
+ Meu senhor&mdash;Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua
+ obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir
+ a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com
+ prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não
+ posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,
+ consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas
+ regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:
+</p>
+<p>
+ «Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas <i>Farpas</i> o monarcha
+ sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz?
+ Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de
+ ...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da
+ manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não
+ fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais
+ cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»
+</p>
+<p>
+ Omitto n'este extracto o dia e o mez&mdash;os quaes o meu amigo fixa com a
+ mais amavel pontualidade&mdash;porque, sendo um negocio inteiramente
+ particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo
+ indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um
+ desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem
+ de occupar-se do caso.
+</p>
+<p>
+ Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro
+ que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ...
+ Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia
+ de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta
+ pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino
+ o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um
+ momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão
+ atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.
+</p>
+<p>
+ Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não
+ poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me
+ assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para
+ viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.
+</p>
+<p>
+ Meu amigo&mdash;Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,
+ sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha
+ opinião:
+</p>
+<p>
+ Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e
+ obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de
+ uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma
+ concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as
+ convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que
+ me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu
+ empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como
+ o meu amigo denota ser, a <i>consumir a sua fortuna toda</i> á espera do
+ momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de
+ conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no
+ Brazil&mdash;onde custa tudo tão caro!&mdash;o barato que ha de sair ao meu amigo
+ o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de
+ barateza que nem costumo levar nada&mdash;por me achar em casa!
+</p>
+<p>
+ Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me
+ apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a
+ vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem
+ ordinariamente comsigo.
+</p>
+<p>
+ Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal
+ da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final
+ fecha o discurso.
+</p>
+<p>
+ Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos
+ assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com
+ que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles
+ que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,
+ violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln
+ e o jornalista Courrier.
+</p>
+<p>
+ Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,
+ dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo
+ de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam
+ obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos
+ trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!
+</p>
+<p>
+ Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao
+ coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos
+ mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos
+ pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,&mdash;tão
+ correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem
+ felizes,&mdash;irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e
+ implacaveis da desgraça!
+</p>
+<p>
+ No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que
+ inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que
+ o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como
+ uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!
+</p>
+<p>
+ Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia
+ completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,
+ affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso,
+ sentia a displicencia, a melancholia.
+</p>
+<p>
+ Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...
+</p>
+<p>
+ Vermes!
+</p>
+<p>
+ O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua
+ existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu
+ começava a nutrir&mdash;de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria
+ com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios
+ aziaticos, que o que eu tenho é&mdash;o meu amigo. Considero-o já como uma
+ parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo
+ como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é
+ a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos
+ mezes, e todavia&mdash;como é commodo isto!&mdash;o meu amigo não me obriga a
+ tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois
+ golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo
+ é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem
+ vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!
+</p>
+<p>
+ Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o <i>pronto
+ allivio</i> nem lhe ministro aguas de Vidago!
+</p>
+<p>
+ E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo
+ o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito
+ de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por
+ ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes&mdash;bastante
+ para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,
+ que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da
+ terra, que me não expulsarão nunca&mdash;elles!&mdash;da sua convivencia gulosa,
+ mas discreta.
+</p>
+<p>
+ A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será&mdash;que
+ elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades
+ mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,
+ um scirrho no estomago; eu terei apenas tido&mdash;o meu amigo! o meu amigo
+ que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o
+ caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:&mdash;ausente!
+</p>
+<p>
+ Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos
+ zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Sabem ... era aquelle com quem nós embirravamos ...
+</p>
+<p>
+ &mdash;O que trazia o bigode assim?...
+</p>
+<p>
+ &mdash;Esse mesmo!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume ...
+</p>
+<p>
+ E algumas outras coisas doces e impereciveis.
+</p>
+<p>
+ E do meu amigo dirão apenas:
+</p>
+<p>
+ «A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»
+</p>
+<p>
+ Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o
+ agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo
+ tão eloquentemente chama <i>a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz</i>,
+ isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade
+ Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me
+ consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado
+ designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora
+ directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com
+ os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete&mdash;com feijão
+ branco.
+</p>
+<hr id="ultramar" />
+<p>
+ Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com
+ encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar,
+ promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os
+ soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e
+ civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.
+</p>
+<p>
+ Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim
+ de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão,
+ perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos
+ sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que
+ os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar
+ nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e
+ redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,
+ emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho
+ mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque
+ na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas
+ figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros
+ selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,
+ encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os
+ instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do
+ ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia
+ de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos&mdash;com
+ o vate:
+</p>
+<p>
+ <i>Aos infieis, senhores, aos infieis!</i>
+</p>
+<hr id="espectro" />
+<p>
+ D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares
+ resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes
+ individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do
+ ministro do reino.
+</p>
+<p>
+ O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de
+ ministro da corôa um volume do <i>Espectro</i>, disse «que se honrava mais de
+ ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a
+ camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua
+ pasta para ir adoptar o seu livro.»
+</p>
+<p>
+ O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais
+ aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e
+ pela sua <i>verve</i> de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos
+ de membro do actual gabinete.
+</p>
+<p>
+ É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que
+ elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as
+ represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo
+ para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de
+ poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade
+ colloca-se assim na logica que leva a consideral-a&mdash;pelos effeitos
+ passivos da sua inanidade&mdash;como uma especie de virtude.
+</p>
+<p>
+ O processo d'aquelle que por uma causa qualquer&mdash;boa ou má, justa ou
+ iniqua&mdash;arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia
+ ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no
+ fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer
+ o chão.
+</p>
+<p>
+ Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando
+ ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem
+ guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um
+ papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas
+ que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa,
+ era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.
+</p>
+<p>
+ Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão ... Quantas
+ mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias
+ amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos
+ sorrisos, com a malevolencia das allusões?
+</p>
+<p>
+ Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos
+ de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre
+ amigos, fumando um <i>carrajal</i>, no Aterro ou no Chiado, cuspiram
+ desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!
+</p>
+<p>
+ Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade
+ que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e
+ covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e
+ respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de
+ salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada
+ de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da
+ contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das
+ bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é
+ que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra
+ domestica.
+</p>
+<p>
+ A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que
+ fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de
+ <i>virtuosa</i>, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão
+ publica da sua virtude.
+</p>
+<p>
+ Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a
+ reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como
+ a victima do <i>Espectro</i>, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!
+ As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que
+ ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.
+</p>
+<p>
+ Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da
+ paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de
+ ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.
+ Porque em verdade ser apenas um ministro&mdash;unico estado social que nos
+ dispensa de sermos alguma outra coisa&mdash;não é propriamente um destino.
+ Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e
+ marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme
+ eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte&mdash;pela coragem,
+ pelo sacrificio ou pelo talento&mdash;que são as tres maximas constellações
+ do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.
+</p>
+<p>
+ Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os
+ interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,
+ inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que
+ viveu.
+</p>
+<p>
+ Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter
+ passado no mundo.
+</p>
+<p>
+ O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades
+ venturosas&mdash;com um ganso,&mdash;o sr. Jayme Moniz.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á
+ luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a <i>Regeneração</i>, a
+ <i>Patria</i> e a <i>Republica</i>. Estes tres jornaes, como a maior parte dos
+ periodicos portuguezes são&mdash;anonymos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por
+ que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:&mdash;que possa
+ alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que
+ escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico
+ que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é
+ este:&mdash;não assignar.
+</p>
+<p>
+ Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é
+ assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o <i>Diario da
+ Tarde</i>, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas
+ declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a
+ responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os
+ effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas
+ as antipathias que tenha podido suscitar.
+</p>
+<p>
+ Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores
+ portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem
+ mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um
+ tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A primeira razão por que se não assigna é esta:
+</p>
+<p>
+ A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,
+ convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios
+ de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua
+ machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como
+ lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se
+ eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das
+ muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.
+ N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da
+ dignidade e da razão.
+</p>
+<p>
+ Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,
+ perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a
+ firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por
+ transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as
+ necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é
+ <i>responsavel</i>, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor
+ resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na
+ imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma
+ opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma
+ catastrophe para a justiça.
+</p>
+<p>
+ Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo
+ apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde
+ sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da
+ entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se
+ naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos <i>troisièmes
+ dessous</i> da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia
+ que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:
+ quanto mais se lê peor se escreve.
+</p>
+<p>
+ Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para
+ assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa
+ immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.
+</p>
+<p>
+ Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da
+ publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.
+ Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê
+ durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias
+ que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus
+ dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do
+ jornal rouba-o o jornal á educação do povo.
+</p>
+<p>
+ Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso
+ que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra
+ apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber
+ quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas
+ que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que
+ me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de
+ <i>galantine</i>, suspeito de uma e da outra se me disserem que a <i>galantine</i>
+ foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,
+ salchicheiro.
+</p>
+<p>
+ Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas
+ respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito
+ socialistas ou muito auctoritarios&mdash;tudo isto com a expressa condição de
+ que nunca hei de saber quem elles são&mdash;dão-me exactamente aquelle
+ receio:&mdash;medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de
+ magnezia.
+</p>
+<hr id="pickuick" />
+<p>
+ Tinhamos já Melicio, o <i>José Prudhomme</i> constitucionalismo portuguez.
+ Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o <i>Pickuick</i> do systema
+ representativo nacional.
+</p>
+<p>
+ Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,
+ abalisam uma época, enquadram um seculo.
+</p>
+<p>
+ Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:
+</p>
+<p>
+ «Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram
+ sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes
+ determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua
+ respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu
+ para o seculo attonito uma torcida,&mdash;e a luz foi feita. Os homens, os
+ principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma
+ geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na
+ frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não
+ isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes&mdash;ai de
+ nós!&mdash;o empanaram e entenebreceram, é porque elles&mdash;o discreto Pickuick
+ e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem
+ mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se
+ detinham,&mdash;geniaes, assombrosos e tremendos&mdash;para se espevitarem.»
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,
+ teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação
+ historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A
+ posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de
+ fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de
+ Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos
+ contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as
+ guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o
+ historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo
+ actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois
+ varões extraordinarios!
+</p>
+<p>
+ No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que
+ vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos
+ pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha
+ scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:&mdash;Barros
+ ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o
+ estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o
+ barrete de algodão branco&mdash;casto symbolo dos sonhos immaculados&mdash;e a
+ nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião
+ publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!
+</p>
+<p>
+ Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os
+ espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram
+ as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos&mdash;outrora tão puros!&mdash;quando
+ se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos
+ destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que
+ esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma
+ correspondencia que o <i>Commercio do Porto</i> se resignou a publicar nas
+ suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas
+ ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de
+ nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do
+ solo e dizia-se em um documento hispanhol&mdash;a <i>Peninsula Iberica</i>, ao que
+ Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não!
+ nunca!»
+</p>
+<p>
+ Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á
+ geographia&mdash;e á canalha!
+</p>
+<p>
+ Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo
+ cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas
+ unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a
+ Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos
+ isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de
+ pecego. Mas peninsula!.. Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha
+ tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó
+ perra vil!
+</p>
+<p>
+ E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica,
+ os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que
+ devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!
+</p>
+<p>
+ Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na
+ benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as
+ peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos
+ congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama,
+ a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com
+ cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais
+ tarde a virtuosa mãe de seus filhos!
+</p>
+<p>
+ Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita
+ de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada
+ botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte&mdash;de
+ ôlho de perdiz!
+</p>
+<p>
+ Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio&mdash;o
+ extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria&mdash;e das
+ peninsulas!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Agora&mdash;Barros.
+</p>
+<p>
+ Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o
+ Brazil&mdash;grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos
+ consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica
+ o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido
+ phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.
+</p>
+<p>
+ Como o explica, como o justifica elle?
+</p>
+<p>
+ Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera
+ occorrido a ninguem ...&mdash;Pelo precedente das andorinhas!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com
+ attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem,
+ sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,
+ magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia&mdash;por
+ dentro,&mdash;nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:
+</p>
+<p>
+ «Elle tem alguma coisa na cabeça!»
+</p>
+<p>
+ Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais
+ excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o
+ celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria
+ parisiense de Champfleury!
+</p>
+<p>
+ Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter
+ um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio
+ é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos
+ trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no
+ intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!
+</p>
+<p>
+ Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando
+ simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades
+ o povo&mdash;e o passarinho!
+</p>
+<p>
+ Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle
+ conhece de certo <i>Ginx's Baby</i>, o monstruoso producto humano das falsas
+ civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe
+ arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do
+ pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de
+ Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a
+ que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!
+</p>
+<p>
+ Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos,
+ como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e
+ sacrosanto em que a idéa lhe veiu!...
+</p>
+<p>
+ Estamos em que não poderia deixar de ter sido&mdash;no campo! O sabio no
+ bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de
+ lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao
+ toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro
+ portuguez em <i>grève</i>. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos
+ laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com
+ suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o
+ tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do
+ corucheu da velha ermida em ruinas&mdash;- ellas, as duas, as mysticas
+ amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar&mdash;a andorinha e a
+ questão social&mdash;batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as
+ amplidões do azul em phantasticos arabescos....
+</p>
+<p>
+ E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do
+ magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso
+ que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a
+ andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que
+ evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um
+ carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do
+ que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou
+ paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!
+</p>
+<p>
+ Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e
+ Cunha! Como é bem <i>Paulo e Virgínia</i>! bem <i>Menino da mata e seu cão
+ Piloto</i>! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande
+ homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.
+</p>
+<p>
+ Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance
+ profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento
+ e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a
+ manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se
+ comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!
+</p>
+<p>
+ O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo
+ recebia successivamente em tres botes tres visitas&mdash;a do porto, a da
+ saude e da alfandega&mdash;cogitou um momento e teve esta idéa enorme:
+</p>
+<p>
+ Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres
+ visitas n'um só bote!
+</p>
+<p>
+ E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um
+ discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo
+ menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos
+ homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão
+ portentoso que pretendeu economisar á patria&mdash;dois botes!
+</p>
+<p>
+ Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o
+ Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e
+ simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a
+ extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que
+ elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir
+ pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço
+ para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por
+ elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus
+ maiores!
+</p>
+<p>
+ O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este
+ heroe&mdash;sr. Barros e Cunha&mdash;com este outro&mdash;sr. Barros e Sá. Porque&mdash;ó
+ ilusão!&mdash;elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se
+ parecem&mdash;dois coelhos,&mdash;dois porta-machados&mdash;ou dois pretos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto&mdash;um
+ caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.
+</p>
+<p>
+ Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme
+ fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de
+ um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um
+ charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos
+ algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais
+ extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,
+ novos ceus, novas floras e novas faunas.
+</p>
+<p>
+ Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.
+</p>
+<p>
+ Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de
+ oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil
+ pessoas.
+</p>
+<p>
+ Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se
+ nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e
+ com a Russia européa.
+</p>
+<p>
+ Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos
+ felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar
+ deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!
+</p>
+<p>
+ Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o
+ thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão
+ gelados nove mezes por anno.
+</p>
+<p>
+ Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os
+ Strelitz.
+</p>
+<p>
+ Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em
+ Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as
+ caravanas do chá....
+</p>
+<p>
+ E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada,
+ comeremos ninhos de andorinhas&mdash;uma especie de letria insipida, cara
+ como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!&mdash;mas se
+ soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785
+ letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e
+ litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos
+ no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais
+ subditos do grande Filho do Ceu.
+</p>
+<p>
+ E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no
+ espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma
+ caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o <i>Trem
+ expresso</i>&mdash;o heroe do poeta Campoamor&mdash;, que devora o espaço e o tempo,
+ fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle
+ galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por
+ baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!
+</p>
+<p>
+ E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos
+ Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como
+ atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um
+ barril immundo para um fino cristal facetado!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A camara dos srs. deputados....
+</p>
+<p>
+ Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.
+ deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso
+ encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que
+ se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim&mdash;nós estamos
+ como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro
+ cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o
+ freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza
+ apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e
+ permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr
+ desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle
+ aceno&mdash;tão profundamente triste para os que partem&mdash;de um lenço branco
+ que palpita, ao longe!
+</p>
+<p>
+ E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça,
+ abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do
+ estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna....
+</p>
+<p>
+ A camara pois&mdash;diziamos&mdash;querendo collocar-se ao par do que a
+ civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de
+ leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha
+ realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar
+ um phenomeno&mdash;mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:
+</p>
+<p>
+ Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um
+ barril, uma pipa ou um tonel!
+</p>
+<p>
+ E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este
+ problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a
+ camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e
+ revista, a celebre e immortal lei&mdash;<i>do engarrafamento das vasilhas</i>, na
+ qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:
+</p>
+<p>
+ «Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo
+ antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer
+ vasilhas.»
+</p>
+<p>
+ Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que
+ a camara&mdash;intemerata e altiva&mdash;se acha habilitada para proceder á face
+ da Europa a este milagre:
+</p>
+<p>
+ <i>Engarrafar vasilhas</i>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena
+ parlamentar&mdash;onde boiaste por algum tempo,impertinente e inutil, como
+ uma mosca caida sobre uma taça de creme&mdash;para o refugio inviolavel da
+ vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples
+ das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,
+ aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus
+ bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente
+ perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã
+ camoeza!
+</p>
+<p>
+ Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!
+</p>
+<p>
+ Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre
+ coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma
+ d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se
+ seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,
+ um capitalista ou um sabio.
+</p>
+<p>
+ Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.
+</p>
+<p>
+ Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.
+</p>
+<p>
+ Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer
+ leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente
+ habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,&mdash;é não as fazer.
+</p>
+<p>
+ Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás
+ grande.
+</p>
+<p>
+ Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma
+ grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem,
+ no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um
+ meio de não ser ridiculo:&mdash;é ficar em casa.
+</p>
+<p>
+ Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser
+ trinchado por ella.... Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no
+ teu voltarete.
+</p>
+<p>
+ Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que
+ se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões
+ um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a
+ si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a
+ outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das
+ suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de
+ narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as
+ barejes.... Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e
+ cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua
+ triste representação&mdash;de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não
+ veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres
+ verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos
+ das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso&mdash;porque
+ elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem <i>toilette</i>, nem
+ orthographia, nem mão de redea!
+</p>
+<p>
+ O que estes são&mdash;na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o,
+ como o foste&mdash;na politica! Não tornes cá.
+</p>
+<p>
+ Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um
+ beijo, desculpa.... É que nós temos razões para desconfiar,&mdash;pelas tuas
+ moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus
+ discursos,&mdash;que tu usas <i>patchouly</i> e comes alho.discursos,&mdash;que tu usas <i>patchouly</i> e comes alho.
+</p>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14620 ***</div>
+</body>
+</html>
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