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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:44:56 -0700 |
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diff --git a/14620-h/14620-h.htm b/14620-h/14620-h.htm new file mode 100644 index 0000000..eaad0fe --- /dev/null +++ b/14620-h/14620-h.htm @@ -0,0 +1,2215 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=UTF-8" /> + <meta content="pg2html (binary v0.16)" name="generator" /> + <meta name="author" content="Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz" /> + <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, Janeiro a Fevereiro de 1873 +by Ramalho Ortigão and Eça De Queiroz.</title> +<style type="text/css"> +/*<![CDATA[*/ + <!-- + body { margin-left: 10%; margin-right: 10%; } + h1,h2,h3,h4,h5,h6 { text-align: center; } + hr.major { width: 30%;} + hr.minor { width: 10%;} + .centered {text-align: center} + .poem { margin-left: 10%; margin-right: 10%; margin-bottom: 1em; text-align: left; } + .poem .stanza { margin: 1em 0em 1em 0em; } + .poem p { margin: 0; padding-left: 3em; text-indent: -3em; } + .poem p.i2 { margin-left: 1em; } + .poem p.i4 { margin-left: 2em; } + .poem p.i6 { margin-left: 3em; } + .poem p.i8 { margin-left: 4em; } + .poem p.i10 { margin-left: 5em; } +/*]]>*/ + // --> +</style> +</head> +<!--====================================================--> +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14620 ***</div> + +<div class="centered"> + <img src="images/devil73.png" width="500" height="750" + alt="As Farpas—R. Ortigão—Eça de Queiroz" /> + <!--IMAGE END--> +</div> +<hr class="major" /> +<h1> + AS FARPAS +</h1> +<div class="centered"> + <p>RAMALHO ORTIGÃO—EÇA DE QUEIROZ</p> + <p>CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p> + <p>2.º ANNO</p> + <p>Janeiro a Fevereiro de 1873</p> +</div> +<hr class="major" /><!--===================--> +<blockquote> +<p> +Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, +da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das +sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da +politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande +universo, e da adoração de mim mesmo. +</p> +</blockquote> +<p class="centered"> + P.J. PROUDHON +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> + +<p class="centered"> + <b>SUMMARIO</b> +</p> +<p> + As idéas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da corôa. Os + partidos. As fórmas do governo. Governo livre e governo despotico. + Republica ou monarchia? A nossa questão, e o nosso voto. Qual é o + governo que nos espera. As maiorias e as opposições. Perfil da sociedade + portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa + virtude, o nosso direito á liberdade—Reforma do exercito e dos +<a href="#estribos">estribos</a>—As +<a href="#conspiracoes">conspirações, as revoltas e as opiniões do parlamento</a>—O + enterro da senhora +<a href="#braganca">duqueza de Bragança</a>.—Um conselho á força + armada.—Prova-se que a camara dos deputados não tem amolecimento + cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei +<a href="#amadeu">Amadeu</a> e varios outros + personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra + sobre as botas de s.ex.ª—Resposta áquelle que jurou +<a href="#assassinar">assassinar-me.</a>—Os srs +<a href="#ultramar">bispos do ultramar</a>—O +<a href="#espectro">redactor do <i>Espectro</i></a> e o ministro do reino. + A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade— +<a href="#pickuick">Joseph Prudhome e Pickuick</a>. +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> +<p> + Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente + se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa. + Esta discussão partindo de um ponto—a approvação do projecto—, para + findar exactamente no mesmo ponto de que partiu—a approvação do dito + projecto—, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos + egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da + immobilidade oriental. +</p> +<p> + Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido, + tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se + assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o + paiz tem de responder aos cumprimentos do rei! +</p> +<p> + Como se, não havendo principios nenhuns de politica interna que + affirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o + que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei + podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas, + alargar-se d'estes termos. +</p> +<p> + <i>Discurso da corôa</i>: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!» +</p> +<p> + <i>Resposta ao discurso da corôa</i>: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!» +</p> +<p> + Tudo mais é emphatico, é ôco, é ridiculo—e é immoral. +</p> +<hr /> +<p> + Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na + collocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a + confecção de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se + reciprocamente <i>desordeiros, calumniadores e ineptos</i>; e documentam e + provam entre uns e outros, de partido para partido, que são + effectivamente <i>desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos</i>. +</p> +<p> + As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desoccupada e ociosa, + que não vae á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos + interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se + d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e—o que é peior que + tudo—preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a + maledicencia dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos + dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do + decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas + luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja. +</p> +<p> + Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias, + segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que + desertaram as suas repartições, litteratos ambiciosos que abandonaram os + seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho, + operarios em <i>grève</i> que foram aprender a discursar nos seus comicios, + pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pôdres por + onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que + precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade, + assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira, + sem elevação moral, sem correcção artistica, cheia de arrebatamentos + estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras + sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da + lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas + distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as + suas pobres mãos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis, + surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fóra, + riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos + rabulas amaveis e cynicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam + descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia. +</p> +<p> + E eis ahi no mais alto das instituições a escola publica em que o povo + tem de aprender a ser digno e honrado! +</p> +<hr /> +<p> + Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e + negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da + administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas + correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que + todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas. +</p> +<p> + Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus + cavallos á rédea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os + nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali + para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam + constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de + quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um <i>coupé</i> + da Companhia. +</p> +<p> + Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos + erros de grammatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando + definitivamente á companhia das carroagens este simples recado: +</p> +<p> + «Os partidos são cinco—regeneradores, historicos, reformistas, + avilistas e constituintes: que os <i>coupés</i> do ministerio parem + revesadamente de tres em tres mezes ás portas de cada um d'esses + senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem são os individuos + que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador + se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.» +</p> +<p> + Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os + srs. deputados votariam calados. +</p> +<p> + Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do + que a força de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em + Portugal ha egual superstição com as successões do governo: a camara é + sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que + propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discordias. +</p> +<p> + Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lançar-se ao debate e + discutir-se a palavra Republica. Vimos que a fórma do governo + republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo + todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e + é: que o povo portuguez não está por emquanto nem bastante educado nem + bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica. +</p> +<p> + Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma + constituitiva do poder não nos importa. O problema politico + interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso + tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preoccupa os + povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de + distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a + parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e + fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os + symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do + trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o + problema economico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a + parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa + em que elles se deixem ficar ou em que elles se vão embora. Voltaire + defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que + tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua + especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico, + em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No + constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão + é uma pacifica féra embalsamada, inoffensivo ornato de <i>ètagére</i>, que os + ratos trazem comsigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de + pretexto para elles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos + declararem que lhes appetece roer:—«Meus senhores, o leão pede + viveres.» +</p> +<p> + Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não + obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como + fundamentalmente autonomas, isto é, independentes de todo o dominio, o + governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se + aproximasse d'aquelle que até hoje tem dirigido os destinos da egreja + catholica. O poder supremo nas mãos de um papa infallivel, arbitro + absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado; + o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos + e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a + esphera da iniciativa humana desde os actos até os pensamentos; tendo + por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos + quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infracções da lei, + tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e não + depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no + fundo mais recondito da alma é possivel um esconderijo para a anarchia! + Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do + socego e da ordem. +</p> +<p> + Hoje porém: +</p> +<p> + Como os governos não podem já ser considerados debaixo d'esse ponto de + vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores; +</p> +<p> + Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si + mesmas; +</p> +<p> + Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se + transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados + a maior parte dos poderes delegados nos governantes; +</p> +<p> + Como dentro em pouco tempo, precisamente, <i>fatalmente</i>, todos os povos + impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aquelles que por + via da eleição representem a vontade popular: +</p> +<p> + Segue-se que a differença essencial das fórmas actuaes de governo não + póde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy, + considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte + de poder que ellas asseguram ao povo. +</p> +<p> + Vejamos pois agora qual é a differença que existe entre uma republica e + uma monarchia parlamentar. +</p> +<p> + A republica é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo + por chefe do poder executivo—um presidente eleito. +</p> +<p> + A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal, é o governo do + povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder + executivo—um rei hereditario. +</p> +<p> + O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da + republica conservadora que actualmente existe em França, diz que uma + monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros + responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma + dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á + liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos, + para o estabelecimento da monarchia é preciso a dynastia, isto é: a + tradição. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a + tradição como em França e em Hespanha, nada mais perigoso do que + suscitar ruins ambições, chamando um principe para cabide de uma corôa. + N'este caso o unico systema que não offerece gravíssimos perigos e + grandes complicações intestinas e internacionaes é a republica. Ter a + monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo + de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar + reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e + de juizo para governar. +</p> +<p> + Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e á indagação + das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade, + nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill, + Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha differença entre republica e + monarchia representativa. +</p> +<p> + A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram + de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a + politica. A fórma do governo na egreja—o mais despotico governo de + quantos se possam imaginar—é a fórma republicana. O papa é um + presidente eleito. +</p> +<p> + O poder popular não periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio + funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas + affirmam-se despedaçando as resistencias dos senhores feudaes. Os + soberanos procuram sempre na alliança do povo o appoio do mais forte. + Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia + ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar + d'olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro + que fôra sempre socialista. A <i>Internacional</i> tem origem em uma + expedição de operarios mandados a Londres á custa do segundo imperio + para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a + França poderia introduzir na organisação do trabalho. +</p> +<p> + A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa + vantagem—a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior + defeito:—a republica suscita as grandes ambições, que o + constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente + nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades. +</p> +<p> + Isto porém são caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros + que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a + escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com + relação á liberdade os dois systemas não soffrem evidentemente + distincção: um e outro affirmam um governo livre. +</p> +<p> + A differença que existe entre governos livres e governos que o não são, + é: +</p> +<p> + Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos é em + verdade a do soberano; n'outros paizes é a da nação. +</p> +<p> + Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias nós nos achamos. +</p> +<p> + Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem + a minima ingerencia na direcção dos negocios. O unico acto de iniciativa + pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em + dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores + guardam d'estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança. + Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara + a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer + reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios + physicos. Um habito de Christo que se dá, uma photographia com + pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia. + Ninguem dirá que por tão innocentes commercios de affeição el-rei + manifeste o intuito partidario—de lançar-se nos braços de um valido. Os + unicos convivas extra-officiaes do principe—os tenores e os baritonos + de <i>primo-cartello</i>—estão fóra de toda e qualquer suspeita malevola que + não seja—a de desafinarem. +</p> +<p> + Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia + de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e + livre sob a monarchia portugueza. +</p> +<p> + Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus + correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos + dizem que a republica—com ser o mais perfeito dos governos segundo uns, + ou ser um imperfeito governo segundo outros—não póde por emquanto + existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrucção precisa + para tomar o governo de si mesmo, hão de permittir os illustres + deputados que nós tiremos d'esse seu argumento todas as conclusões que + elle encerra.... +</p> +<p> + E que digamos a suas excellencias: +</p> +<p> + Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, é + egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a + verdade, que ninguem nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo + governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes + eleitos. +</p> +<p> + Ora, se o povo não póde exercer suffragio para a eleição do governo sob + o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o + governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o + mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na + constituição dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os + mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade + eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na republica e na + monarchia parlamentar. +</p> +<p> + Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da + republica?! Quem é então que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no + regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do systema + monarchico para o systema republicano, nos desapparece ámanhã perante o + exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo + exercicio? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo + portuguez? +</p> +<p> + Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a + republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa + por suas excellencias e pelo povo que os elegeu é sua magestade el-rei! + Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano não é o poder + moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes + tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a + representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel + da força e da lei, assim o declara! Ella só é digna, só é autonoma, só é + independente e pensante—emquanto houver um rei. No momento em que o + monarcha descer do throno, ella será inepta. Animaes do Apocalypse, os + srs. deputados só fallam agora pela sugestão divina imposta pelo + sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi está, se um dia o rei lhe + voltar as costas, recusará com pudor o copo d'agua oratorio, e + pedirá—herva. +</p> +<hr /> +<p> + Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs. + deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? Não é. Se a + camara que ahi temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do + suffragio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Sómente + as consequencias que esse argumento encerra não ferem sómente o direito + á republica, ferem tambem o direito á liberdade. A logica não póde parar + onde á casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir até + onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa + fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva + que acaba de occupar-se da discussão d'estes principios dá + effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da + capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma + republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questão é mais + complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas + excellencias, teem ou não teem a capacidade precisa para serem os + representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de + não eleição; é de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos + representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos + dois governos livres—republica democratica ou monarchia parlamentar. Se + os legitimos representantes do povo não prestam, teremos—a anarchia na + republica, e teremos—a escravidão na monarchia. +</p> +<hr /> +<p> + Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal + uma farça ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o + patriotismo. A camara é de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta, + e não se esclarece nem se desaffronta,—o que prova que não tem sciencia + e que parece não ter caracter. +</p> +<p> + Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates + parlamentares a verdade d'essa asserção, que poderá ser tida por + arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque + elles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos duvida em deixar + cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar + sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos até ahi, + tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridiculo lava-se + na rehabilitação com que nos retemperam os actos sérios, a vergonha + quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As + <i>Farpas</i> ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por + essa razão preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal. +</p> +<p> + Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os principios moraes. + D'aqui resulta uma perturbação insanavel, um mal sem cura. É a + corrupção, é a gangrena, é a paralysação senil affectando o jogo de todo + o machinismo constitucional. +</p> +<p> + Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da + liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz + todo ha um surdo descontentamento geral. +</p> +<p> + Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que + prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal + como já hoje fóra de Portugal, que está eminente sobre nós uma d'essas + grandes transformações politicas que apparecem nos paizes livres sempre + que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos + differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira + a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos. +</p> +<p> + Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. Não existem + divergencias de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o + paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica + entregue ao arbitrio da auctoridade, e os círculos eleitoraes + convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia + elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os + seus amigos votam as opposições. A vontade popular é muda e passiva, o + que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou + seccas. +</p> +<p> + Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposição + perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa + na Inglaterra os <i>tories</i> e os <i>whigs</i>, não podem tambem contar com uma + maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o + governo acode submissamente ás exigencias dos pequenos corrilhos, + promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae + de fadiga, apupado e corrido. +</p> +<p> + Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros + constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente ávidos do + poder. Estes pretendentes quando não teem forças necessarias para + alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia + burocratica, o partido que não teem na camara, e distribuem pelos seus + amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com + crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da + satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos. +</p> +<p> + O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a + altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem + estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação + militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e + da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico + que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos + paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade! +</p> +<p> + A classe operaria faz <i>grèves</i>, no que está inteiramente no seu + direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria + sentimental,—o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do + direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os + obreiros—jornalistas e oradores—a pedirem mais descanços para + discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem. +</p> +<p> + O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está + hypothecada. +</p> +<p> + Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as + instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos! +</p> +<p> + Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e + ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior + riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo, + dando dinheiro e recebendo papeis. +</p> +<p> + A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do + seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são + agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem + bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da + qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam + muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes + laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro + dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é + elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as + suas necessidades, <i>descentralisar-se</i>, trabalhar só, viver de si, que é + o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se + finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica + dignidade verdadeira e segura—o trabalho pessoal e livre. A mocidade + tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da + justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a + sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão + ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas + necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das + simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da + nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a + sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem + tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como + typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho + e como critico as consciencias dos outros pela justiça. +</p> +<hr /> +<p> + A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo + despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos, + pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos + ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A + religião—mais clerical que divina—penetrando-nos completamente, + dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar, + assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento, + lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles, + lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos + mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio + e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com + similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A + consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente + religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que + se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim + delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a + eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o + que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de + responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo + o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da + sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua + liberdade aos despotas. O fanatismo prostra. +</p> +<p> + Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do + interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a + noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira + elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque + conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a + rebaixa. +</p> +<hr /> +<p> + Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não + bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito + tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra + servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos—sermos victimas; + faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada, + e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos + proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e + passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que + então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os + interesses pessoaes e a ambição dos individuos. +</p> +<p> + Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos + apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás + mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á + baixeza. Temos do constitucionalismo—esgotado—tudo o que elle tinha da + mau na lia: a nobilitação dos <i>parvenus</i>, a falsa aristocracia, a falsa + grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante, + a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a + sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto, + a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario, + para o reles, para o chinfrim ... Vêde a camara dos deputados: não é só a + precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que + a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as + maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus + discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o + <i>mauvais lieu</i> no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões. +</p> +<p> + Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão + regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na + Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel, + na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por + sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um + novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda + se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém + a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso + saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão + perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar. +</p> +<hr /> +<p> + O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a + republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um + nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma + norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação + necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é + que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer + não seja para nós um irremediavel perigo. +</p> +<p> + Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem + immediatamente de manter os abusos. +</p> +<p> + Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a + melhor politica. +</p> +<p> + Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só + longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça + é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem + reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma. +</p> +<p> + Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador + politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser + inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se + como se é homem de bem. +</p> +<p> + Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara + e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além + d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o + partido,—isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de + governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é + possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa + opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião + oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela + falta da virtude. +</p> +<p> + Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia. +</p> +<p> + Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais + probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem + publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia + que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos + homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia + poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de + corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de + que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram—Cesar e Bonaparte + pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror. +</p> +<p> + Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no + desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a + gangrena e a dissolução latente do estado. +</p> +<p> + Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a + virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado + popular, e que consiste resumidamente em preferir—o dever á + conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito. +</p> +<p> + De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse + de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa + comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a + liberdade. +</p> +<p> + Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos + nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma, + acreditava em Deus e acreditava na justiça—a imagem immortal da + perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu + entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores + actos que a homem algum foi ainda permittido commetter—dar a liberdade + aos negros e dar a paz á America. +</p> +<hr /> +<p> + Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para + fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua + influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella + mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não + se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê + prudente e justo. +</p> +<p> + No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado + conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo + livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios + despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que + nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação + geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo + sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por + mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a + condição essencial—intrinseca—da vida, a garantia do trabalho e a + segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós + sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a + facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao + jantar?... É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia + social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no + demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa, + Theagenes em Megara. +</p> +<p> + O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que + ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando + Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam + que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram. +</p> +<p> + Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes + constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o + desfallecimento e a morte. +</p> +<p> + Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua + forma politica—no governo—, a primeira obrigação do povo é manter esse + principio sob a sua forma philosophica—na razão. +</p> +<hr id="estribos" /> +<p> + O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o + colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais + intelligentemente armadas e equipadas da Europa.... +</p> +<p> + A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de + ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros + gabinetes de repouso suspensos de uns loros—coisa tão confortavel que + as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e + depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler + o jornal e tomar o café—para os estribos. +</p> +<p> + O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu + acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os + desde hoje e para todo sempre invenciveis. +</p> +<p> + Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos + dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes + soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a + artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando, + com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam + freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas, + scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos + nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa—molhavam os + pés! +</p> +<p> + De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira + branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva + abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca + saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós + pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria—mudasse + de piugas. +</p> +<hr /> +<p> + Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de + que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e + do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este + infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida—ter os + pés quentes! +</p> +<p> + Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de + sola, a infanteria seja egualmente dotada—com galochas de borracha. +</p> +<p> + Depois do que,—adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e + estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do + sapato de ourello e do cobertor de papa—tendo o exercito os seus pés + quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições—elle será feroz! +</p> +<hr /> +<p> + Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção + de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao + qual no passado numero das <i>Farpas</i> chamámos erradamente <i>deputado por + Tavira</i>. +</p> +<p> + Que nos perdôe s.ex.ª—e Tavira! +</p> +<p> + Eis a moção: +</p> +<p> + «A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os + sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á + dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para + manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam + ameaçal-a, e passa á ordem do dia.» +</p> +<p> + Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram <i>approvo</i> todos + os srs. deputados. +</p> +<hr id="conspiracoes"/> +<p> + O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase: +</p> +<p> + «Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a + noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua + independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional + está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia + constitucional.» +</p> +<p> + Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples + juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta + qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para + garantir nos differentes <i>pontos da Europa</i> a incumplicidade de suas + ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr. + Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que + apparecer. +</p> +<p> + E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente + illibados. +</p> +<hr /> +<p> + Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos + referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha + desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu + destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa + ha dois annos.» +</p> +<p> + Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não + tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao + queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito + da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª + illucidar os <i>pontos da Europa</i> sob a sua innocencia e a dos seus + collegas, mandando para a mesa a seguinte moção: +</p> +<p> + «A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do + criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos + espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á + independencia, e passa á ordem do dia.» +</p> +<p> + Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente: +</p> +<p> + Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da + Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia. +</p> +<hr /> +<p> + Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de + Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de + Palhés e a villa de Mangualde.» +</p> +<p> + Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha: +</p> +<p> + «A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se + desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde, + passa á ordem do dia—e a abotoar-se.» +</p> +<hr /> +<p> + Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou + ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua + ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a + crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por + tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a + crimes, cujos cumplices estão processados—d'aqui, inutil—e affirma o + que não é—pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda. +</p> +<hr /> +<p> + Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e + Cunha e a camara asseguram que <i>são inabalaveis no povo portuguez os + sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia</i>. +</p> +<p> + No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam + que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado—não + certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante. +</p> +<p> + O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua + moção: +</p> +<p> + «Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em + tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as + instituições e contra a dynastia ... Esses perigos não posso occultar á + camara que existem ... Extranho que o poder moderador não convocasse a + camara ... pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e + as instituições.» +</p> +<p> + Ora é este paiz, em que <i>a dynastia, a liberdade e as instituições + correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a + independencia, contra as instituições e contra a monarchia</i>, que a + camara assegura ser <i>inabalavel nos seus sentimentos de amor ás + instituições, de respeito e affeição á dynastia</i>! +</p> +<p> + O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra + conspirações continuadas. +</p> +<p> + O partido historico caiu victima de uma conspiração. +</p> +<p> + O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de + Vasconcellos disse ha dias: «<i>N'este ponto</i> (as conspirações) <i>chegou-se + ao mais a que se podia chegar</i>.» +</p> +<p> + Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os + partidos se reunirem e votarem unanimemente—que ninguem conspira! +</p> +<hr /> +<p> + Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino + luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te + espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr. + Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os + artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr. + Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a + pombinha branca, de assucar—tão casta!—das lampreias d'ovos. +</p> +<hr id="braganca" /> +<p> + Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo + funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras. + Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se, + faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de + conversação, de interesse e de <i>verve</i>. Os officiaes cumprimentavam as + senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o + povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro, + trocavam-se ponderações alegres, chistosas, <i>grivoises</i>, entre os que + estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em + funeral. +</p> +<p> + Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um + longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa + imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada, + entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das + multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança. +</p> +<p> + Dizia-se fallando-se d'ella: +</p> +<p> + «Deixou pouco.» +</p> +<p> + «Que fez ella ao que tinha?» +</p> +<p> + «Que miseravel! que mesquinha!» +</p> +<p> + E um jornal catholico escreveu: +</p> +<p> + «O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em + cautellas de vinte e cinco.» +</p> +<p> + Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os + homens deseguaes. +</p> +<p> + Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós + acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um + pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos + deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos. +</p> +<p> + Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos, + levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando + silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as + flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que + passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo, + suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou + o descanço eterno. +</p> +<p> + E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos + que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por + nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas + encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos. +</p> +<p> + As imperatrizes—coitadas!—teem de resignar-se á sua triste condição de + imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria, + interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas + ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade + de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher + escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as + ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao + soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas + lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro + ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu + triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em + similhantes condições e com eguaes amarguras! +</p> +<p> + Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o + suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que + descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova + gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que + devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de + considerar-se menos que quaesquer outros. +</p> +<hr /> +<p> + É certo que o <i>Diario do Governo</i> ordenou que tomassemos luto de dois + mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de + sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a + circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise + alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós + proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de + Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa + illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito + pela mulher digna e virtuosa que morreu. +</p> +<hr /> +<p> + Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos + perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a + reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão + insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes + feridos e dois mortos. +</p> +<p> + Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo + programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que + ninguem era ferido. +</p> +<p> + Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas, + levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo + algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes + de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas + illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa + acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento, + satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa <i>idra da anarchia</i> era + recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos + sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes + jardins balsamicos, das alegres partidas da <i>croquet</i> e do bom chá + preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as + multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando + a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido + para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição—ao piano. +</p> +<p> + Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo + usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico + perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que + desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr. + delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que + delicto? <i>«Por abuso de defesa»</i>. +</p> +<p> + Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é + caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo + atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico—por <i>abuso de + defeza</i>. +</p> +<hr /> +<p> + Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas + clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez + armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas <i>não abuse</i>. + Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem + desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o + pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar: + contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos. + Quantas vezes a gente se revolta por <i>spleen</i>, por tedio, por vapores, + por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã, + espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu + Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao + rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente + barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes + momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque + musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe + diga assim:—«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos + uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem + d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!» +</p> +<p> + E se o povo ainda assim resistir—diacho ... então, que o exercito fuja! +</p> +<p> + Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ... +</p> +<p> + Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ... +</p> +<p> + Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação + energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento + nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite. + Melicio vela! +</p> +<hr id="amadeu" /> +<p> + A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão + politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um + gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a + vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira + para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos + de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por + meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo—uma figura de + rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio + de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara—uma funda. +</p> +<hr /> +<p> + Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação + patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o + governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de + entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel + provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este + phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios + alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa + verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo, + ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr. + Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada. + Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da + rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura. +</p> +<p> + O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias + encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava + sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a + barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr. + deputado, com voz pausada e firme disse: +</p> +<p> + «Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter + espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle + a quem verdadeiramente podemos chamar ...» +</p> +<p> + Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante, + bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na + bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um + momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A + multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os + tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por + um raio de enthusiasmo fecundo e creador! +</p> +<p> + O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo—«Aquelle a quem + verdadeiramente podemos chamar»—<i>O sol no occaso!</i> (Prolongados + apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros. + Vozes: Muito bem! muito bem!) +</p> +<hr /> +<p> + Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na + presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos + quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha + das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da + eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos. +</p> +<p> + Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de + provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente + arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso + commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e + vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma + espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com + que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos + vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi, + á beira dos golphos innundados de azul ... +</p> +<p> + Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia, + a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das + monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu? + Escuta-o, ó principe! Tu és—<i>o sol no occaso</i>. Teu augusto avô, que + tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é <i>Sol no + occaso</i> I; tu és <i>Sol no occaso</i> II; teu filho primogenito é sua alteza + <i>Sol no occaso</i> presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os + deuses immortaes, os deuses—guarda-soes! Que tão augusta dynastia se + prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa + ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso <i>Sol no occaso</i> XIX, + por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos <i>O entre nuvens + com brisa fresca!</i> +</p> +<hr /> +<p> + Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão + vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a + camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima + evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome + que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida + phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres + proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que + nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente + modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras + seguintes: +</p> +<p> + Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e + inspirada voz! +</p> +<p> + Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta + assembléa, labio tão selecto como attico! +</p> +<p> + Sol no occaso ... só me é licito empregar a phrase penetrante que não + ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre + amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha). +</p> +<p> + Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito + por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu + immortal amigo, o sr. Jayme Moniz! +</p> +<p> + (O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e + estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado + monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos). +</p> +<p> + Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que + comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já ... +</p> +<p> + (Muitas vozes: <i>Repita-se! repita-se!</i> O sr. presidente: <i>Deu a hora</i>. + Vozes: <i>Muito bem! muito bem!</i> Todos os oradores se cumprimentam uns aos + outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns + d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje + são o andar de s.ex.ª, tira o <i>Times</i> do bolso e vão fallar, uma idéa + porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma + interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se + malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros, + emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma + badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham + luminosamente—uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a + mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito + commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre + amigo fiel, Melicio—o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida + desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de + um desconhecido). +</p> +<hr id="assassinar" /> +<p> + <b>Áquelle que jurou assassinar-me</b> +</p> +<p> + Meu senhor—Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua + obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir + a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com + prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não + posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir, + consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas + regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto: +</p> +<p> + «Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas <i>Farpas</i> o monarcha + sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz? + Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de + ...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da + manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não + fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais + cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.» +</p> +<p> + Omitto n'este extracto o dia e o mez—os quaes o meu amigo fixa com a + mais amavel pontualidade—porque, sendo um negocio inteiramente + particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo + indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um + desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem + de occupar-se do caso. +</p> +<p> + Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro + que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ... + Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia + de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta + pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino + o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um + momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão + atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua. +</p> +<p> + Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não + poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me + assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para + viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar. +</p> +<p> + Meu amigo—Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente, + sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha + opinião: +</p> +<p> + Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e + obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de + uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma + concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as + convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que + me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu + empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como + o meu amigo denota ser, a <i>consumir a sua fortuna toda</i> á espera do + momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de + conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no + Brazil—onde custa tudo tão caro!—o barato que ha de sair ao meu amigo + o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de + barateza que nem costumo levar nada—por me achar em casa! +</p> +<p> + Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me + apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a + vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem + ordinariamente comsigo. +</p> +<p> + Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal + da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final + fecha o discurso. +</p> +<p> + Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos + assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com + que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles + que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram, + violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln + e o jornalista Courrier. +</p> +<p> + Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que, + dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo + de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam + obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos + trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia! +</p> +<p> + Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao + coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos + mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos + pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,—tão + correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem + felizes,—irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e + implacaveis da desgraça! +</p> +<p> + No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que + inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que + o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como + uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?! +</p> +<p> + Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia + completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia, + affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso, + sentia a displicencia, a melancholia. +</p> +<p> + Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?... +</p> +<p> + Vermes! +</p> +<p> + O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua + existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu + começava a nutrir—de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria + com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios + aziaticos, que o que eu tenho é—o meu amigo. Considero-o já como uma + parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo + como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é + a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos + mezes, e todavia—como é commodo isto!—o meu amigo não me obriga a + tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois + golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo + é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem + vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre! +</p> +<p> + Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o <i>pronto + allivio</i> nem lhe ministro aguas de Vidago! +</p> +<p> + E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo + o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito + de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por + ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes—bastante + para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens, + que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da + terra, que me não expulsarão nunca—elles!—da sua convivencia gulosa, + mas discreta. +</p> +<p> + A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será—que + elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades + mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha, + um scirrho no estomago; eu terei apenas tido—o meu amigo! o meu amigo + que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o + caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:—ausente! +</p> +<p> + Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos + zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria. +</p> +<p> + —Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas! +</p> +<p> + —Sabem ... era aquelle com quem nós embirravamos ... +</p> +<p> + —O que trazia o bigode assim?... +</p> +<p> + —Esse mesmo! +</p> +<p> + —Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume ... +</p> +<p> + E algumas outras coisas doces e impereciveis. +</p> +<p> + E do meu amigo dirão apenas: +</p> +<p> + «A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.» +</p> +<p> + Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o + agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo + tão eloquentemente chama <i>a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz</i>, + isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade + Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me + consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado + designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora + directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com + os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete—com feijão + branco. +</p> +<hr id="ultramar" /> +<p> + Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com + encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar, + promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os + soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e + civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra. +</p> +<p> + Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim + de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão, + perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos + sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que + os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar + nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e + redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque, + emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho + mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque + na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas + figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros + selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas, + encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os + instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do + ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia + de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos—com + o vate: +</p> +<p> + <i>Aos infieis, senhores, aos infieis!</i> +</p> +<hr id="espectro" /> +<p> + D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares + resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes + individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do + ministro do reino. +</p> +<p> + O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de + ministro da corôa um volume do <i>Espectro</i>, disse «que se honrava mais de + ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a + camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua + pasta para ir adoptar o seu livro.» +</p> +<p> + O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais + aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e + pela sua <i>verve</i> de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos + de membro do actual gabinete. +</p> +<p> + É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que + elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as + represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo + para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de + poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade + colloca-se assim na logica que leva a consideral-a—pelos effeitos + passivos da sua inanidade—como uma especie de virtude. +</p> +<p> + O processo d'aquelle que por uma causa qualquer—boa ou má, justa ou + iniqua—arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia + ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no + fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer + o chão. +</p> +<p> + Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando + ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem + guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um + papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas + que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa, + era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio. +</p> +<p> + Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão ... Quantas + mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias + amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos + sorrisos, com a malevolencia das allusões? +</p> +<p> + Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos + de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre + amigos, fumando um <i>carrajal</i>, no Aterro ou no Chiado, cuspiram + desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?! +</p> +<p> + Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade + que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e + covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e + respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de + salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada + de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da + contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das + bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é + que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra + domestica. +</p> +<p> + A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que + fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de + <i>virtuosa</i>, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão + publica da sua virtude. +</p> +<p> + Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a + reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como + a victima do <i>Espectro</i>, sair gloriosamente da galeria das calumniadas! + As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que + ficam para sempre na suspeita ou na ignominia. +</p> +<p> + Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da + paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de + ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo. + Porque em verdade ser apenas um ministro—unico estado social que nos + dispensa de sermos alguma outra coisa—não é propriamente um destino. + Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e + marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme + eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte—pela coragem, + pelo sacrificio ou pelo talento—que são as tres maximas constellações + do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate. +</p> +<p> + Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os + interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos, + inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que + viveu. +</p> +<p> + Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter + passado no mundo. +</p> +<p> + O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades + venturosas—com um ganso,—o sr. Jayme Moniz. +</p> +<hr /> +<p> + Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á + luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a <i>Regeneração</i>, a + <i>Patria</i> e a <i>Republica</i>. Estes tres jornaes, como a maior parte dos + periodicos portuguezes são—anonymos. +</p> +<hr /> +<p> + Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por + que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:—que possa + alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que + escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico + que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é + este:—não assignar. +</p> +<p> + Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é + assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o <i>Diario da + Tarde</i>, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas + declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a + responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os + effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas + as antipathias que tenha podido suscitar. +</p> +<p> + Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores + portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem + mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um + tem de emittir pela publicidade o seu pensamento. +</p> +<hr /> +<p> + A primeira razão por que se não assigna é esta: +</p> +<p> + A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja, + convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios + de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua + machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como + lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se + eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das + muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro. + N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da + dignidade e da razão. +</p> +<p> + Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo, + perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a + firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por + transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as + necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é + <i>responsavel</i>, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor + resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na + imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma + opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma + catastrophe para a justiça. +</p> +<p> + Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo + apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde + sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da + entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se + naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos <i>troisièmes + dessous</i> da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia + que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado: + quanto mais se lê peor se escreve. +</p> +<p> + Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para + assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa + immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede. +</p> +<p> + Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da + publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva. + Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê + durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias + que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus + dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do + jornal rouba-o o jornal á educação do povo. +</p> +<p> + Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso + que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra + apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber + quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas + que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que + me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de + <i>galantine</i>, suspeito de uma e da outra se me disserem que a <i>galantine</i> + foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe, + salchicheiro. +</p> +<p> + Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas + respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito + socialistas ou muito auctoritarios—tudo isto com a expressa condição de + que nunca hei de saber quem elles são—dão-me exactamente aquelle + receio:—medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de + magnezia. +</p> +<hr id="pickuick" /> +<p> + Tinhamos já Melicio, o <i>José Prudhomme</i> constitucionalismo portuguez. + Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o <i>Pickuick</i> do systema + representativo nacional. +</p> +<p> + Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico, + abalisam uma época, enquadram um seculo. +</p> +<p> + Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual: +</p> +<p> + «Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram + sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes + determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua + respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu + para o seculo attonito uma torcida,—e a luz foi feita. Os homens, os + principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma + geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na + frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não + isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes—ai de + nós!—o empanaram e entenebreceram, é porque elles—o discreto Pickuick + e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem + mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se + detinham,—geniaes, assombrosos e tremendos—para se espevitarem.» +</p> +<hr /> +<p> + O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos, + teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação + historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A + posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de + fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de + Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos + contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as + guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o + historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo + actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois + varões extraordinarios! +</p> +<p> + No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que + vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos + pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha + scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:—Barros + ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o + estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o + barrete de algodão branco—casto symbolo dos sonhos immaculados—e a + nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião + publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia! +</p> +<p> + Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os + espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram + as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos—outrora tão puros!—quando + se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos + destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que + esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma + correspondencia que o <i>Commercio do Porto</i> se resignou a publicar nas + suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas + ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de + nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do + solo e dizia-se em um documento hispanhol—a <i>Peninsula Iberica</i>, ao que + Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não! + nunca!» +</p> +<p> + Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á + geographia—e á canalha! +</p> +<p> + Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo + cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas + unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a + Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos + isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de + pecego. Mas peninsula!.. Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha + tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó + perra vil! +</p> +<p> + E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica, + os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que + devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões! +</p> +<p> + Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na + benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as + peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos + congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama, + a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com + cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais + tarde a virtuosa mãe de seus filhos! +</p> +<p> + Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita + de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada + botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte—de + ôlho de perdiz! +</p> +<p> + Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio—o + extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria—e das + peninsulas! +</p> +<hr /> +<p> + Agora—Barros. +</p> +<p> + Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o + Brazil—grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos + consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica + o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido + phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão. +</p> +<p> + Como o explica, como o justifica elle? +</p> +<p> + Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera + occorrido a ninguem ...—Pelo precedente das andorinhas! +</p> +<hr /> +<p> + Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com + attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem, + sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo, + magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia—por + dentro,—nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo: +</p> +<p> + «Elle tem alguma coisa na cabeça!» +</p> +<p> + Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais + excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o + celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria + parisiense de Champfleury! +</p> +<p> + Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter + um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio + é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos + trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no + intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal! +</p> +<p> + Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando + simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades + o povo—e o passarinho! +</p> +<p> + Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle + conhece de certo <i>Ginx's Baby</i>, o monstruoso producto humano das falsas + civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe + arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do + pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de + Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a + que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos! +</p> +<p> + Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos, + como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e + sacrosanto em que a idéa lhe veiu!... +</p> +<p> + Estamos em que não poderia deixar de ter sido—no campo! O sabio no + bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de + lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao + toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro + portuguez em <i>grève</i>. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos + laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com + suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o + tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do + corucheu da velha ermida em ruinas—- ellas, as duas, as mysticas + amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar—a andorinha e a + questão social—batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as + amplidões do azul em phantasticos arabescos.... +</p> +<p> + E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do + magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso + que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a + andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que + evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um + carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do + que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou + paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa! +</p> +<p> + Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e + Cunha! Como é bem <i>Paulo e Virgínia</i>! bem <i>Menino da mata e seu cão + Piloto</i>! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima! +</p> +<hr /> +<p> + Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande + homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere. +</p> +<p> + Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance + profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento + e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a + manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se + comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava! +</p> +<p> + O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo + recebia successivamente em tres botes tres visitas—a do porto, a da + saude e da alfandega—cogitou um momento e teve esta idéa enorme: +</p> +<p> + Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres + visitas n'um só bote! +</p> +<p> + E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um + discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade. +</p> +<hr /> +<p> + Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo + menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos + homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão + portentoso que pretendeu economisar á patria—dois botes! +</p> +<p> + Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o + Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e + simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a + extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que + elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir + pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço + para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por + elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus + maiores! +</p> +<p> + O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este + heroe—sr. Barros e Cunha—com este outro—sr. Barros e Sá. Porque—ó + ilusão!—elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se + parecem—dois coelhos,—dois porta-machados—ou dois pretos. +</p> +<hr /> +<p> + No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto—um + caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin. +</p> +<p> + Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme + fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de + um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um + charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos + algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais + extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens, + novos ceus, novas floras e novas faunas. +</p> +<p> + Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow. +</p> +<p> + Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de + oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil + pessoas. +</p> +<p> + Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se + nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e + com a Russia européa. +</p> +<p> + Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos + felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar + deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos! +</p> +<p> + Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o + thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão + gelados nove mezes por anno. +</p> +<p> + Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os + Strelitz. +</p> +<p> + Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em + Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as + caravanas do chá.... +</p> +<p> + E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada, + comeremos ninhos de andorinhas—uma especie de letria insipida, cara + como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!—mas se + soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785 + letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e + litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos + no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais + subditos do grande Filho do Ceu. +</p> +<p> + E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no + espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma + caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o <i>Trem + expresso</i>—o heroe do poeta Campoamor—, que devora o espaço e o tempo, + fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle + galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por + baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo! +</p> +<p> + E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos + Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como + atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um + barril immundo para um fino cristal facetado! +</p> +<hr /> +<p> + A camara dos srs. deputados.... +</p> +<p> + Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs. + deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso + encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que + se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim—nós estamos + como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro + cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o + freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza + apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e + permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr + desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle + aceno—tão profundamente triste para os que partem—de um lenço branco + que palpita, ao longe! +</p> +<p> + E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça, + abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do + estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna.... +</p> +<p> + A camara pois—diziamos—querendo collocar-se ao par do que a + civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de + leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha + realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar + um phenomeno—mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso: +</p> +<p> + Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um + barril, uma pipa ou um tonel! +</p> +<p> + E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este + problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a + camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e + revista, a celebre e immortal lei—<i>do engarrafamento das vasilhas</i>, na + qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte: +</p> +<p> + «Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo + antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer + vasilhas.» +</p> +<p> + Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que + a camara—intemerata e altiva—se acha habilitada para proceder á face + da Europa a este milagre: +</p> +<p> + <i>Engarrafar vasilhas</i>. +</p> +<hr /> +<p> + E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena + parlamentar—onde boiaste por algum tempo,impertinente e inutil, como + uma mosca caida sobre uma taça de creme—para o refugio inviolavel da + vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples + das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro, + aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus + bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente + perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã + camoeza! +</p> +<p> + Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá! +</p> +<p> + Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre + coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma + d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se + seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario, + um capitalista ou um sabio. +</p> +<p> + Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és. +</p> +<p> + Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura. +</p> +<p> + Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer + leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente + habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,—é não as fazer. +</p> +<p> + Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás + grande. +</p> +<p> + Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma + grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem, + no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um + meio de não ser ridiculo:—é ficar em casa. +</p> +<p> + Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser + trinchado por ella.... Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no + teu voltarete. +</p> +<p> + Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que + se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões + um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a + si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a + outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das + suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de + narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as + barejes.... Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e + cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua + triste representação—de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não + veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres + verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos + das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso—porque + elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem <i>toilette</i>, nem + orthographia, nem mão de redea! +</p> +<p> + O que estes são—na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o, + como o foste—na politica! Não tornes cá. +</p> +<p> + Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um + beijo, desculpa.... É que nós temos razões para desconfiar,—pelas tuas + moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus + discursos,—que tu usas <i>patchouly</i> e comes alho.discursos,—que tu usas <i>patchouly</i> e comes alho. +</p> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14620 ***</div> +</body> +</html> diff --git a/14620-h/images/devil73.png b/14620-h/images/devil73.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..1cbe70b --- /dev/null +++ b/14620-h/images/devil73.png |
