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+The Project Gutenberg eBook, A Paranoia, by Julio de Mattos
+
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+
+
+
+Title: A Paranoia
+
+Author: Julio de Mattos
+
+Release Date: December 28, 2004 [eBook #14503]
+
+Language: Portugese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+
+***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A PARANOIA***
+
+
+E-text prepared by Miranda van de Heijning, Larry Bergey, and the Project
+Gutenberg Online Distributed Proofreading Team from images generously made
+available by the Bibliothèque nationale de France (BnF/Gallica) at
+http://gallica.bnf.fr
+
+
+
+A PARANOIA
+
+Julio de Mattos
+
+ENSAIO PATHOGENICO SOBRE OS DELIRIOS SYSTEMATISADOS
+
+ _...Ci iroviamo proprio faccia a faccia col nudo
+ querito della pura pazzia._
+
+EUGENIO TANZI
+
+Lisboa
+Livraria Editora
+Tavares Cardoso & Irmão
+5, Largo de Camões, 6
+
+1898
+
+
+
+
+
+
+
+A MEMORIA AMIGA DO PROFESSOR SOUSA MARTINS
+
+
+
+
+PREFACIO
+
+
+Ao passo que na sua maioria as doenças hoje estudadas pelos alienistas
+pertencem no fundo á pathologia interna, e só pelo predominio, mais
+apparente ás vezes do que real, dos seus symptomas psychicos se
+apropriaram a designação de _mentaes_, os delirios systematisados,
+esses, pela ausencia de caracteristicas lesões, pela falta de privativas
+causas determinantes e pela carencia de symptomas funccionaes
+objectivamente apreciaveis, constituem a verdadeira loucura, a psychose
+por excellencia, n'uma palavra, o proprio e irreductivel dominio da
+psychiatria.
+
+Isto é dizer que a observação clinica não póde, ella só, determinar a
+génese d'estes delirios, pois que o confronto dos dados psychicos com os
+somaticos e etiologicos é, no caso sujeito, impraticavel.
+
+Foi, todavia, pelo exclusivo exame do hypocondriaco, do perseguido, do
+ambicioso, que os alienistas buscaram até ha pouco surprehender a
+pathogenia dos delirios essenciaes. D'aqui o natural insuccesso dos seus
+trabalhos, melhor do que nunca evidenciado nos ultimos debates das
+sociedades psychiatricas de Paris e de Berlim, em que se não fez, por
+confissão dos proprios oradores, mais do que obscurecer e confundir o
+problema posto.
+
+Por outro caminho,--introduzindo no controvertido thema a criterio da
+evolução, seguiram, felizmente, na Italia contemporanea eminentes
+pshychiatras.
+
+Inquiridos clinicamente os delirios essenciaes nos seus symptomas e na
+sua marcha, uma coisa resta ainda fazer para os interpretar: o estudo do
+delirante, considerado, não em si mesmo, como individuo, ou nos seus
+ascendentes immediatos, como membro de uma certa familia, mas
+anthropologicamente na sua vasta ancestralidade, como representante de
+uma especie em plena evolução.
+
+Na sua marcha normal não segue o Espirito ao acaso, mas
+_progressivamente_ por linhas de ideação desde muito entrevistas, senão
+inteiramente definidas; quem nos affirma que na sua marcha anormal elle
+não segue _regressivamente_ pelas mesmas prefixas e inflexiveis linhas
+ideativas?
+
+Se a dissolução da memoria se apagam primeiro os factos recentes e só
+depois os remotos, primeiro os nomes e só por ultimo os adjectivos e os
+verbos; se na dissociação da motricidade se perdem em primeiro logar os
+actos conscientes e só por fim os habituaes e instinctivos; se na
+desaggregação affectiva são os primeiros a fazer naufragio os
+sentimentos altruistas e só em derradeiro logar se extinguem os
+egoistas, é possivel e provavel mesmo que na esphera propriamente
+conceptiva a marcha pathologica se realise, ao menos em certos casos,
+n'um sentido tambem regressivo. Ora, segundo a escóla italiana, isto se
+dá, com effeito, nos delirios systematisados essenciaes, manifestação.
+
+
+
+
+PRIMEIRA PARTE
+
+Historia dos delirios systematisados
+
+
+
+I--PHASE INICIAL
+
+De Areteu a Esquirol--Confusão dos delirios systematisados com a
+melancolia--A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e
+expansiva.
+
+
+Se conheceram os delirios systematisados, não deixaram d'isso documento
+os escriptores que precederam a nossa era. É sómente a datar do primeiro
+seculo, em Areteu e Celio Aureliano, que encontramos incontestaveis e
+inequivocas referencias aos perseguidos.
+
+Occupando-se dos melancolicos, escrevia, com effeito, o primeiro d'estes
+medicos: «Muitos receiam que lhes propinem venenos; os seus sentidos
+adquirem um redobramento de finura e de penetração que os torna
+suspeitosos e de uma habilidade extrema em verem por toda a parte
+disposições hostis»[1]. Pelo seu lado, Celio Aureliano, fallando dos
+mesmos doentes, affirmava que muitos «experimentam uma desconfiança
+continua, um permanente receio de imaginarias armadilhas»[2].
+
+ [1] Areteu,_De Melancholia_, apud Trelat, _Recherches historiques sur la
+ folie,_ pag. 10
+
+ [2] Vid. Trelat, _Obr. cit._, pag. 38.
+
+A confusão que n'estas passagens se nota entre perseguidos e
+melancolicos, subsistirá, como veremos, até muito perto de nós e merece
+explicar-se desde já.
+
+Definindo a melancolia «animi angor in una cogitatione defixus», Areteu
+caracterisava esta doença por duas ordens diversas de factos a que dava
+igual valor: de um lado, o phenomeno emotivo, consistindo n'um estado de
+angustia _animi angor_, do outro, o facto intellectual de uma concepção,
+delirante absorvendo e fixando o espirito (_in una cogitatione
+defixus_). Pouco a pouco, porém, a consideração de um delirio limitado
+foi, talvez por mais apparente, predominando sobre a de um estado mental
+depressivo na caracterisação da melancolia, como se vê nos auctores que
+succederam a Areteu. Procurando, com effeito, differenciar a melancolia
+da mania, elles não o faziam pondo em contraste os estados emotivos que
+acompanham estas vesanias, mas proclamando que na primeira o delirio é
+limitado, unico e absorvente, ao passo que na segunda elle é multiplo,
+geral e dispersivo.
+
+Repetindo-se atravez dos tempos, esta doutrina que faz prevalecer o
+elemento intellectual sobre o emotivo, conquista de tal modo as opiniões
+que no seculo XVII melancolia e delirio parcial tornam-se termos
+equivalentes. Assim Sennert a definia: «Uma concentração da alma sobre a
+mesma idéa ou um delirio que se exerce sobre um pensamento, falso quasi
+exclusivo».[1]
+
+ [1] Vid. Morel,_Traité des maladies mentales_, pag. 54.
+
+Nenhuma idéa de emoção depressiva e dolorosa se encontra n'esta e
+analogas definições, em que, pelo contrario, a unidade do delirio figura
+como elemento exclusivo. O _angor animi_ de Areteu desapparecera,
+restando apenas da antiga definição o conceito de um espirito absorvido
+_in una cogitatione_. Logicamente, pois, incluiram os medicos do seculo
+XVII o delirio de grandezas no quadro clinico da melancolia. Sob o seu
+ponto de vista, com effeito, tanto valem os perseguidos como os
+megalomanos, porque uns e outros são, no dizer de Sennert, doentes «cuja
+razão se acha pouco alterada ou apenas alterada em relação a um
+objecto», isto é, por definição, melancolicos. Entre estes collocava o
+auctor que acabamos de citar, um doente julgando-se monarcha do Universo
+e cuja razão, _só parcialmente lesada_, lhe permittia «dissertar
+perfeitamente sobre as mais graves questões». Plater, ao lado dos
+melancolicos sitiophobos «receiando envenenamentos e accusando de
+hostilidade e perfidia os seus mais intimos amigos», collocava doentes
+«possuidos das idéas de opulencia e de realeza».
+
+A unidade do delirio e não a natureza d'elle ou das emoções que o
+acompanham, constituia no seculo XVII, como se vê, a caracteristica dos
+estados melancolicos. De resto, Sennert explicitamente affirmava que «na
+melancolia o delirio é muitas vezes alegre».
+
+Os medicos do seculo XVIII acceitaram unanimemente a doutrina que no
+quadro clinico da melancolia fazia entrar a titulo de variedades os
+delirios de perseguições e de grandezas. Para Sauvages, por exemplo, o
+delirio exclusivo caracterisava a melancolia; mais explicito, Lorry
+descreveu como fórma d'esta vesania «um delirio parcial exaltado com
+paixão excitante».
+
+A primeira metade do nosso seculo não trouxe modificação sensivel a
+estas idéas. Rusch descrevia em 1812 duas variedades melancolicas, uma
+triste, _tristimania_, outra alegre, _aménomania_. Pinel admittia
+igualmente duas fórmas de melancolia: uma depressiva e outra ambiciosa,
+caracterisadas por um delirio parcial. «Nada mais inexplicavel, diz
+elle, e, todavia, nada mais verificado que a existencia de duas fórmas
+oppostas da melancolia. É algumas vezes uma explosão de orgulho e a
+idéa chimerica de possuir immensas riquezas e um poder sem limites,
+outras vezes o abatimento mais pusilanime, uma consternação profunda e
+mesmo o desespero»[1].
+
+ [1] Pinel, _Traité médico-philosóphique sur l'aliénation mentale_, pag.
+ 165.
+
+Sob diversa nomenclatura, Esquirol propagou, sem as alterar no fundo, as
+idéas dos seus antecessores. Designando pelo termo infeliz de
+_monomania_ o grupo dos delirios parciaes, acceita duas variedades ou
+especies: uma, depressiva, a _lypemania_, outra, expansiva, a _monomania
+propriamente dita_. A _lypemania_, que não é senão a _tristimania_ de
+Rusch ou a melancolia de fórma depressiva de Pinel, comprehende entre
+outras variedades o delirio de perseguições, ainda então innominado; _a
+monomania propriamente dita_, que equivale á _aménomania_ de Rusch e á
+melancolia de fórma expansiva de Pinel, é por elle definida «um delirio
+parcial ou monomania alegre», e comprehende os delirios de grandezas,
+não só o idiopatico, mas, como se vê nos casos que aponta, o
+symptomatico da paralysia geral, ao tempo ainda não descripta.
+
+Recebendo a influencia tradicional dos seus predecessores, Esquirol
+transmittiu-a, reforçada pela sua grande auctoridade, aos alienistas que
+lhe succederam na primeira metade d'este seculo. É documento d'isso o
+extraordinario successo da doutrina das monomanias, aliás
+psychologicamente erronea, clinicamente infecunda e juridicamente
+perigosa.
+
+No seu _Tratado das Doenças Mentaes_ affirma Esquirol que o termo
+_monomania_ adquiriu direitos de cidade pela, introducção no diccionario
+da Academia Franceza, e felicita-se por isso. E, todavia, esse termo é
+confuso, porque no proprio livro do mestre nos apparece com
+significações diversas, ora designando, como vimos, delirios parciaes,
+ora obsessões e impulsos, isto é, um conjuncto de factos heterogeneos e
+de significação clinica diferente. Primitivamente creada para designar o
+mesmo que a melancolia dos antigos--uma affecção parcial do
+entendimento, acompanhada quer de tristeza, quer de expansão, a palavra
+_monomania_ foi insensivelmente generalisada pelo proprio Esquirol no
+sentido de exprimir uma doença, ou desvio parcial de qualquer faculdade:
+ao lado de uma _monomania intellectual_, tem logar uma _monomania
+affectiva_ e uma _monomania impulsiva_. Delirios systematisados, emoções
+procedentes de idéas obsediantes, impulsos cegos e irresistiveis, tudo
+entra no quadro da monomania--o mais amplo, diz Esquirol, de toda a
+classificação.
+
+De sorte que, se os antigos, desviando a palavra _melancolia_ do
+significado que Areteu lhe dera, chamaram a um só grupo delirios do
+caracter diverso e lançaram assim na sciencia uma grande confusão,
+Esquirol não fez senão augmental-a pela creação das monomanias.
+
+Como quer que seja, o immenso e, por innumeros titulos, justificado
+prestigio d'este observador fez correr a palavra e a doutrina. Sem
+duvida, objecções foram bem cedo erguidas contra ambas por Falret,
+Delasiauve e outros, que negaram a existencia de delirios circumscriptos
+a uma só idéa, affirmados na palavra, ou pozeram em relevo a
+solidariedade das funcções mentaes, contradictada pela doutrina. «Todas
+as faculdades, escrevia Falret em 1819, participam em maior ou menor
+grau das desordens intellectuaes; de resto, sempre que uma idéa falsa
+invade a intelligencia, o seu poder contagioso exerce-se sobre as
+outras, de sorte que sob um delirio preponderante véem-se estabelecer
+delirios secundarios e derivados que não tardam a invadir todo o
+intendimento»[1]. Pelo seu lado, Delasiauve escrevia em 1829: «Póde
+acaso limitar-se o circulo d'acção em que uma idéa dominante deve
+exercer ou realmente exerce a sua influencia?» E mais tarde ainda: «O
+delirio dos monomanos não é nunca tão circumscripto como se pretendeu; a
+verdadeira monomania é rarissima!»[2] Todavia, a criticas d'esta ordem
+redarguiam Esquirol e os seus discipulos que nem a palavra _monomania_
+significava unidade de delirio, nem a doutrina necessariamente implicava
+que a lesão de uma faculdade não podesse fazer-se sentir sobre as
+outras; para elles, a monomania designava uma lesão parcial e
+preponderante, mas não unica e independente, das faculdades.
+
+ [1] Falret, _Des maladies mentales_
+
+ [2] Delasiauve, _Les Pseudomonomanies_
+
+«Tem-se negado, escrevia Esquirol, a existencia dos monomaniacos,
+dizendo-se que os alienados não deliram nunca sobre um só objecto, mas
+que sempre n'elles há perturbações da sensibilidade e da vontade. Mas,
+se assim não fosse, os monomaniacos não seriam loucos.»[1] Pelo seu
+lado, Marcé escrevia: «Nunca os que crêem na existencia das monomanias
+pensaram em negar a solidariedade das faculdades intellectuaes no
+monomaniaco. Reconhecendo que o delirio é raras vezes limitado a um só
+ponto, crêem, no emtanto, dever conservar as monomanias a titulo de
+grupo distincto.»[2]
+
+ [1] Esquirol,_Des maladies mentales,_ tom. II, pag. 4.
+
+ [2] Marcé, _Traité pratique des maladies mentales,_pag. 351.
+
+Voltemos, porém, ao nosso restricto assumpto.
+
+A _monomania intellectual_ de Esquirol, caracterisada por um delirio
+limitado de natureza alegre ou triste, não é senão a _melancolia_ dos
+antigos medicos. Para aquelle, como para estes, era a extensão dos
+conceitos falsos o criterio para classificar as loucuras em que ha
+compromisso da intelligencia: de um lado, a mania, manifestando-se por
+um delirio geral e dispersivo, do outro, a monomania, symptomatisada por
+um delirio parcial e fixo.
+
+Se a estas duas especies accrescentarmos a _idiotia_ e a _demencia,_
+entrevistas por Pinel, mas só definidas por Esquirol, a _estupidez_
+descripta por Georget, e a _paralysia geral,_ estudada por Calmeil,
+encontramo-nos em face da classificação das psychoses que até ao meiado
+do nosso seculo a França inteira adoptou. Ora, dentro d'esta
+classificação, não teem logar distincto e proprio, como se vê, os
+delirios systematisados: o de perseguições é descripto como uma
+variedade lypemaniaca, e o de grandezas é confundido com as
+manifestações symptomaticas de outras doenças mentaes.
+
+
+
+II--PHASE ANALYTICA
+
+De Lasègue a J Falret e de Griesinger a Snell e Sander--O delirio de
+perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit
+secundaria; a Verrücktheit originaria--Começo de interpretação
+pathogenica.
+
+
+Foi Lasègue em 1852 quem primeiro destacou do cahos da melancolia o
+delirio de perseguições para eleval-o á dignidade de «especie
+pathologica entre as alienações mentaes».
+
+No seu memoravel trabalho sobre este assumpto, o eminente alienista
+começa por notar que as idéas de perseguição apparecem como episodio
+symptomatico e a titulo de phenomeno incidente no _alcoolismo_, nas
+_loucuras provocadas por certas substancias narcoticas_ e em muitos
+_delirios parciaes_; na doença, porém, que elle descreve pela primeira
+vez essas idéas não são um syndroma fortuito, mas um facto constante e
+essencial, um phenomeno preponderante e fixo. A nova psychose tem, de
+resto, como titulos á autonomia nosographica, symptomas especiaes e uma
+evolução caracteristica.
+
+Estudando a marcha do delirio de perseguições, Lasègue reconhece-lhe
+dois periodos: um, _de incubação,_ consistindo n'um mal-estar indefinido
+e vago, mas absorvente e inquietante, em que o doente se suspeita
+victima de hostilidades cuja origem não sabe ainda determinar; outro,
+_de estado_, em que o delirio definitivamente se installa e systematisa.
+Ao principio o doente não exprime a idéa de uma perseguição senão com
+uma _certa reserva_, hesitantemente, tentando ainda provar a si mesmo
+que ella é _absurda_; mais tarde, porém, a duvida esbate-se e o systema
+delirante apparece definitivamente formado. A duração do primeiro
+d'estes periodos é essencialmente variavel: tão rapida em alguns doentes
+_que a custo se lhe surprehende o primeiro grau_, prolonga-se e
+arrasta-se em outros, que só _muito gradualmente_ e por uma _progressão
+bem sensivel_ e bem apreciavel attingem a construcção do seu romance
+delirante.
+
+Do mal-estar caracteristico do primeiro periodo diz Lasègue que elle _se
+não parece em nada com a inquietação ainda a mais viva do homem normal_;
+é indefinivel, accrescenta, como _os symptomas que annunciam e fazem
+presentir a invasão das doenças graves_. O periodo de estado, esse, é
+como a _floração_ da psychose: o _romance systematico_ desenvolve-se
+pelo reconhecimento dos perseguidores--a policia, o jesuitismo, os
+magnetisadores, a maçonaria, os physicos, etc.
+
+Passando ao estudo dos symptomas, Lasègue põe em relevo o papel que
+desempenham na doença as falsas sensações auditivas. «O orgão do
+ouvido, escreve o eminente professor, fornece as primeiras sensações
+sobre que se exerce a intelligencia pervertida. O doente ouve retalhos
+de conversas que interpreta e se applica; os mesmos ruidos que
+naturalmente se produzem,--a passagem de um trem, os passos de uma
+pessoa que sobe ou desce uma escada, uma porta que se abre ou fecha, são
+objecto dos seus commentarios».[1] Fallando, em seguida, das
+allucinações auditivas, declara-as _as unicas compativeis com o delirio
+de perseguições;_ e accrescenta: «Basta que um doente accuse visões para
+que eu não hesite em affirmar que elle pertence a outra cathegoria de
+delirantes»[2]. Na mesma ordem de idéas escreve ainda: «Qualquer que
+seja a epocha em que ellas se declarem, as allucinações pertencem sempre
+ao quadro das auditivas; não é demais a minha insistencia sobre este
+caracter, que considero pathognomonico»[3]. Todavia as allucinações do
+ouvido, tão importantes e de tão vasto papel, não são para Lasègue um
+phenomeno constante na psychose que descreve: «A allucinação do ouvido,
+diz elle, não é nem a consequencia obrigada, nem o antecedente
+necessario do delirio de perseguições»[4]. Os perseguidos podem, segundo
+elle, não experimentar nunca allucinações; limitando-se a _fundar
+inducções delirantes sobre sensações anditivas reaes_, alguns ha que
+percorrem _todos os periodos da doença_.
+
+ [1] Lasègue, _Le délire des persécutions_ in _Ètudes médicales_, tom.
+ 1., pag. 554.
+
+ [2] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.
+
+ [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.
+
+ [4] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.
+
+Lasègue não refere allucinações além das auditivas: «As outras sensações
+de que os perseguidos se queixam, diz elle, reduzem-se a impressões
+nervosas»[3]. De resto, estas mesmas impressões devem antes lançar-se á
+conta do hysterismo que á do delirio de perseguições: «As mulheres, diz
+elle, offerecem os exemplos mais frequentes--sopros internos, subitos
+calores, entorpecimentos, dores atrozes e passageiras e os outros
+accidentes tão moveis da hysteria»[4].
+
+ [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 556.
+
+ [4] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 557.
+
+Como a symptomatologia e a marcha da doença, a pathogenia d'ella mereceu
+tambem as attenções de Lasègue. Segundo elle, o delirio procederia
+sempre da necessidade que o alienado sente de explicar as sensações
+anormaes do periodo inicial, e resultaria, portanto, de uma consciente
+elaboração logica. «A crença n'uma perseguição, diz elle, não é senão
+secundaria; provoca-a a necessidade de dar uma explicação a impressões
+morbidas provavelmente communs a todos os doentes e que todos referem á
+mesma causa»[1]. Por um raciocinio, pois, passaria o perseguido do vago
+mal-estar do periodo prodromico ao delirio systematisado e quasi
+invariavel que caracterisa a doença em plena floração. O facto inicial
+seria um phenomeno confuso da sensibilidade, uma perturbação emotiva, o
+phenomeno intellectual, o delirio, seria ulterior e nascido do primeiro.
+«É, diz Lasègue, depois de um certo tempo de preoccupação e de
+resistencia que o alienado procura remontar á causa dos seus
+soffrimentos, e passa assim do primeiro ao segundo periodo. A transição
+faz-se então por este invariavel raciocinio: os males que soffro são
+extraordinarios; tenho experimentado bem mais duros golpes, mas
+concebia-os, descobria-lhes mais ou menos o motivo; agora encontro-me em
+condições extranhas que não dependem nem da minha saude, nem da minha
+posição, nem do meio em que vivo: é preciso que alguma coisa de
+exterior, de independente de mim intervenha; ora eu soffro e sou
+desgraçado: só inimigos podem ter interesse em me magoar; devo, pois,
+crêr que intenções hostis são a causa das impressões que
+experimento»[2].
+
+ [1] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 552.
+
+ [2] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 552.
+
+Decorrido o periodo prodromico e attingida a systematisação delirante,
+a doença deixaria, segundo Lasègue, de acompanhar-se de _grandes
+perturbações de sentimentos_. Ha perseguidos que, _mudando
+constantemente de casa, fatigando incessantemente magistrados e
+auctoridades com interminaveis queixas, conservam_, todavia, _uma certa
+egualdade de humor_ «Nunca vi nenhum, diz o auctor, cahir em melancolia
+continua, reagir por odios violentos ou meditar vinganças»[3].
+
+ [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 551.
+
+Occupando-se da etiologia, Lasègue nota que o maximo de frequencia do
+delirio de perseguições se realisa entre os 35 e os 50 annos e que esta
+psychose ataca de preferencia as mulheres: segundo a sua estatistica,
+25% das alienadas, comprehendidas as idiotas e imbecis, seriam
+perseguidas. As causas proximas seriam, em regra, _de uma completa
+insignificancia:_ uma insomnia, uma phrase inoffensiva, uma refeição de
+sabôr desagradavel, etc. Emfim, estudando o delirio em relação ao
+caracter anterior do doente, Lasègue nota que «os espiritos mais timidos
+não são os mais predispostos»; no delirio de perseguições vê o eminente
+clinico, não o exaggero de uma prévia tendencia natural, mas um
+_elemento pathologico novo introduzido no organismo moral e sem
+equivalente no estado de saude._
+
+Procurando apenas «estabelecer um typo clinico e determinar os
+caracteres que devem entrar na sua definição», o notavel alienista
+declara abster-se de estudar «a marcha decrescente da doença e as suas
+indicações therapeuticas».
+
+Tal é nos seus traços capitaes e na sua mesma essencia a extraordinaria
+memoria de Lasègue.
+
+Sem nada accrescentar a este quadro clinico, Morel fez, todavia, desde
+1853 umas importantes observações sobre a historia dos perseguidos,
+affirmando que muitos d'elles principiam por ser hypocondriacos e acabam
+por delirar n'um sentido ambicioso.
+
+Exposta pela primeira vez d'uma maneira dogmatica e n'um certo grau de
+generalidade nos seus _Estudos Clinicos,_ a observação de Morel tinha,
+contudo, precedentes na sciencia. Pinel, com effeito, illustrando o que
+elle chamava a transição da _melancolia depressiva_ á _melancolia
+ambiciosa_, expozera em 1809 alguns casos de doentes que, tendo-se
+julgado por mais ou menos tempo victimas de hostilidades e de manejos
+criminosos, acabaram por crêr-se grandes personagens; pelo seu lado,
+Esquirol notára tambem desde 1838 que da hypocondria póde passar-se á
+_lypemania_ e d'esta á _monomania da vaidade_, apresentando como
+exemplos alguns interessantes vesanicos primeiro hypocondriacos, depois
+perseguidos e por ultimo ambiciosos. Entre os casos de Pinel ha o de um
+alienado que durante oito annos delirou como perseguido, crendo-se em
+constante imminencia de morte por envenenamento, não ingerindo senão
+alimentos que furtava na cosinha do asylo, e que acabou por crêr-se
+igual ao Creador e soberano do mundo; entre as observações de Esquirol
+figura a de um doente que, excessivamente inquieto sobre o seu estado de
+saude durante mais de dois annos, entra em seguida no caminho das
+perseguições, imaginando-se objecto de tentativas de envenenamento por
+parte da familia, e termina, decorrido um anno, por crêr-se filho de
+Luiz XVI. Mas, por valiosas e instructivas que sejam em si mesmas, estas
+observações não desempenham nos livros de Pinel e de Esquirol mais que
+um papel episodico e sem alcance. Morel foi indiscutivelmente o primeiro
+a vêr n'uma tal successão de delirios, não apenas um curioso accidente,
+mas uma verdadeira lei de evolução vesanica, segundo a qual a passagem
+regular da hypocondria ao delirio de perseguições e d'este ao delirio
+ambicioso seria um facto constante nos alienados hereditarios. D'aqui a
+affirmar a existencia de uma psychose degenerativa de que os delirios
+hypocondriaco, persecutorio e ambicioso, succedendo-se, não
+constituiriam senão _étapes_ ou phases evolutivas, vae uma pequena
+distancia que Morel percorreu, como veremos, desde a publicação dos
+_Estudos Clinicos_ em 1853 até á do _Tratado das Doenças Mentaes_ em
+1860.
+
+Outros auctores franceses, entre os quaes Renaudin, Broc e Dagonet,
+notaram a successão de delirios diversos, nomeadamente de perseguições e
+de grandezas, n'um mesmo alienado; todavia, por desconhecimento ou
+incomprehensão do alcance dos trabalhos de Morel, nenhum d'elles se
+preoccupou com a interpretação do phenomeno. Só em 1869 Foville,
+retomando a questão na sua excellente memoria sobre a _Loucura com
+predominio ao delirio de grandezas_, procurou interpretar, sobretudo, a
+passagem--tão frequentemente observada agora que a attenção dos clinicos
+incidia sobre ella--do delirio de perseguições ao de grandezas.
+
+Marcando na historia dos delirios systematisados um periodo importante,
+o trabalho de Foville merece deter-nos um momento.
+
+Depois de ter mostrado que o delirio de grandezas póde apparecer a
+titulo episodico na maioria das doenças mentaes e com mais ou menos
+relevo constituir um syndroma de algum dos seus periodos evolutivos,
+Foville estabelece que elle se torna preponderante e reveste
+inconfundiveis caracteres semeioticos em dois casos: na loucura parcial
+e na demencia paralytica. Pondo de parte, por alheio ao nosso estudo,
+este ultimo caso, vejamos o que Foville pensava do primeiro.
+
+A loucura parcial, que importa não confundir com a monomania de
+Esquirol, representaria, segundo Foville, as alienações caracterisadas
+pelo conjuncto d'estes caracteres: presença de um delirio systematisado,
+ausencia de um estado habitual depressivo ou expansivo, existencia de
+perturbações sensoriaes, e chronicidade.
+
+O delirio de perseguições descripto por Lasègue é um dos representantes
+d'este grupo; um outro seria, segundo Foville, a _megalomania_, que elle
+define como um delirio de grandezas logicamente coordenado,
+associando-se a allucinações chronicas e, no seu periodo de estado, a
+idéas de perseguição.
+
+Em rigor, nem o termo é novo, porque antes o tinham empregado, entre
+outros, Broc e Dogonet, nem a definição da doença absolutamente
+original, porque desde Esquirol se havia reconhecido a existencia de um
+delirio ambicioso idiopatico. O que de original e novo existe no
+trabalho de Foville é a maneira de estudar a génese do delirio de
+grandezas e as relações d'elle com a doença de Lasègue.
+
+Segundo Foville, na loucura parcial, de que são escólas o delirio de
+perseguições e a megalomania, toda a symptomatologia essencial se reduz
+a concepções delirantes e erros sensoriaes, podendo estas duas ordens de
+factos manter entre si relações diversas, que importa muito considerar
+para a comprehensão da pathogenia. Ou as concepções delirantes se
+apresentam primeiro, apparecendo as illusões e allucinações como um
+facto secundario da doença, ou, pelo contrario, a esphera sensorial é
+primitivamente affectada e só depois irrompem as concepções chimericas.
+
+Ora, segundo Foville, não é de modo nenhum indifferente para a natureza
+mesma da doença que a successão das duas ordens de symptomas se realise
+n'um sentido ou n'outro, porque o allucinado-delirante é, em regra, um
+perseguido que póde tornar-se megalomano, ao passo que o
+delirante-allucinado é mais vezes um megalomano que póde vir a ter idéas
+de perseguição. A razão d'isto, no dizer de Foville, vem de que na
+loucura parcial as allucinações primitivas são, como estabelecera
+Lasègue, preponderantemente, senão exclusivamente as do ouvido, de um
+caracter, em regra, penoso ao principio e de molde, portanto, a gerarem
+um delirio depressivo. Ora, sendo a hypothese do allucinado-delirante
+mais frequente que a do delirante-allucinado, é tambem mais vulgar o
+perseguido-megalomano que o megalomano-perseguido.
+
+Posto isto, que serve para mostrar que não é meramente accidental a
+passagem de um delirio a outro, Foville, estreitando mais o assumpto,
+deriva á explicação do modo intimo por que ella se realisa.
+
+A transição (mais frequente, como foi dito) do delirio de perseguição ao
+de grandezas opera-se, ao vêr de Foville, por um processo logico.
+«Depois, diz elle, de terem por mais ou menos tempo attribuido as
+proprias allucinações a inimigos desconhecidos, contentando-se com
+explical-as por uma palavra mais ou menos obscura e mysteriosa, certos
+lypemaniacos allucinados dizem a si mesmos: Factos d'esta ordem não
+podem passar-se, no estado social em que vivemos, sem a intervenção de
+pessoas influentes e altamente collocadas; essas só, portanto, são as
+instigadoras dos nossos tormentos. Outros, ao contrario, reconhecendo
+que não succumbem nunca de um modo completo aos perigos de que se sentem
+cercados; suppõem ter amigos occultos, mas de um grande poder, que os
+protegem. Esta ordem de idéas imprime desde então o seu cunho ao
+conjunto das concepções e allucinações: os doentes fallam de grandes
+personagens que vêem por toda a parte, desconhecem a identidade real dos
+individuos, que os cercam e crêem que imperadores, imperatrizes e
+principes os visitam ou lhes enviam mensagens. No meio do delirio
+melancolico as idéas de grandeza adquirem realmente uma importancia
+preponderante. Mas as coisas podem ir mais longe ainda. Impressionados
+pela desproporção entre a sua posição burgueza e o poder de que devem
+dispôr os seus inimigos para os attingirem, a despeito de tudo; entre o
+apagado papel que desempenham no mundo e os moveis imperiosos que podem
+explicar o encarniçamento com que são perseguidos, alguns d'estes
+doentes acabam por a si proprios perguntarem se realmente são tão pouco
+importantes como parecem. Uma nova perspectiva se abre diante do seu
+atormentado espirito: não é já a dos outros, mas a propria personalidade
+que aos seus olhos se transforma. Para que os persigam d'este modo,
+dizem elles, é preciso que um alto interesse se dê, e isso só se
+comprehende porque elles façam sombra a gente rica e poderosa, porque
+tenham, elles proprios, direito a uma fortuna e a uma posição de que
+fraudulentamente os despojaram, porque pertençam a uma classe elevada de
+que foram afastados por circumstancias mais ou menos mysteriosas, porque
+não sejam seus verdadeiros paes os que como taes consideram, porque
+pertençam, emfim, a uma alta estirpe, as mais das vezes real»[1].
+
+ [1] Foville, _La folie avec prédominence du délire des grandeurs_, pag.
+ 345.
+
+E accrescenta: «Estas idéas terão, sobretudo, tendencia a produzir-se
+nos casos em que, já antes de doente, o individuo teve de soffrer no seu
+orgulho ou nos seus interesses pelo facto da irregularidade ou do
+mysterio do proprio nascimento. Assim, temos notado que esta fé n'uma
+origem illustre, que esta crença n'uma imaginaria fortuna é
+relativamente frequente nos _filhos naturaes_ que véem a cahir na
+loucura. São elles principalmente os preparados para ás idéas de
+perseguição juntarem um novo romance em que dominam as concepções de
+grandeza, as substituições ao nascer, as confusões de pessoas»[1].
+
+ [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 346.
+
+Como se vê, Foville não faz senão seguir a orientação psychologica de
+Lasègue, que explicava pela intervenção de um raciocinio a passagem, no
+delirio de perseguições, do periodo prodromico ao de estado. Um processo
+logico, essencialmente deductivo e syllogistico preside tambem, segundo
+Foville, á génese das idéas ambiciosas que derivam de um delirio
+persecutorio.
+
+Mas não é este, reconhece-o Foville, o unico modo por que o delirio de
+grandezas póde produzir-se; algumas vezes succede que as concepções
+ambiciosas se installam primitivamente, dando-se então o caso de
+surgirem depois idéas de perseguição, por _uma sorte de propagação
+regressiva que, ao fim de um certo tempo, acaba por nivelar as
+situações._ Qual é agora o mecanismo de transição? «É difficil, escreve
+Foville, crêr-se um doente na posse de direitos á fortuna e ao mando,
+figurar-se descendente de uma familia illustre, e não se sentir vexado
+pela modestia da posição que occupa ou pela exiguidade dos recursos de
+que dispõe. N'isto vê elle um signal de injustiça, que attribue á acção
+de inimigos poderosos; crê-se, pois, victima de manobras hostis e
+fabrica assim um systematico delirio de perseguições, secundario agora e
+consequencia das idéas de grandezas»[1].
+
+ [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 347.
+
+É ainda, como se vê, um processo logico o destinado; segundo Foville, a
+explicar a passagem do delirio ambicioso ao de perseguições; toda a
+vesania parcial, portanto, qualquer que tenha sido o seu ponto de
+partida e qualquer que haja de ser o seu termo, se desenrola sob a
+dependencia do raciocinio e dentro da esphera consciente da ideação.
+
+Os casos em que o delirio de grandezas succede immediatamente a
+allucinações de caracter agradavel e lisongeiro, são extremamente raros;
+a interpretação dos erros sensoriaes, isto é, um processo consciente e
+reflectido, é ainda d'esta vez origem da doença.
+
+Referindo-se á doutrina de Morel, Foville declara não a acceitar, porque
+o delirio hypocondriaco, ponto de partida necessario, segundo aquelle
+auctor, dos delirios de perseguições e de grandezas, só excepcionalmente
+o encontrou.
+
+De quanto vem de ser exposto a conclusão a tirar é esta:
+
+Existe um delirio systematisado de grandezas que, no seu periodo de
+estado, se combina sempre com idéas de perseguição, que é
+invariavelmente acompanhado de allucinações auditivas e que tanto póde
+originar-se, por via deductiva, de um preexistente delirio
+persecutorio, como nascer _d'emblèe_. Não sendo um episodio morbido, nem
+mesmo a phase evolutiva de uma vesania anterior, porque póde ser e é
+muitas vezes primitivo, esse delirio constitue uma doença com foros de
+autonomia e direitos a uma designação privativa: a _megalomania_.
+
+Tal é, em resumo, a memoria de Foville na parte consagrada ao delirio
+parcial de grandezas.
+
+Depois dos importantes trabalhos de Lasègue e Foville, a psychiatria
+franceza não nos offerece, dentro d'este periodo de analyse, estudo que
+tenha feito progredir pela interferencia de pontos de vista novos o
+conhecimento dos delirios systematisados. O livro publicado por Legrand
+du Saulle, sob o titulo de _Delirio de perseguições_, em 1871, valioso,
+certamente, pela copia de observações e pelos detalhes de analyse
+clinica, nada tem, no fundo, de original, embora tentem proclamar o
+contrario estas ambiciosas palavras do prefacio: «A despeito da sua
+extrema frequencia e dos seus tão claros caracteres distinctivos, o
+delirio de perseguições achou-se confundido com a melancolia de Pinel,
+com a lypemania de Esquirol, com a monomania depressiva de Baillarger; é
+ahi que eu vou buscal-o para o estudar nas suas diferentes phases, para
+o constituir _de toutes pièces_ e fazer d'elle uma _especie_ á
+parte»[1]. Dezenove annos antes fizera Lasègue, como vimos, o que n'esta
+passagem se annuncia. O trabalho de Legrand du Saulle, excepção feita
+dos capitulos consagrados ao tratamento, á medicina legal e ao contagio
+do delirio, que nada teem que vêr com a constituição scientifica da
+doença, não é senão um desenvolvimento da memoria de Lasègue, cuja ordem
+de exposição adopta e cujas expressões mesmo não raro se apropria.
+
+ [1] Legrand du Saulle, _Le Délire des persécutions,_ pag. 11.
+
+Como Lasègue, Legrand du Saulle descreveu dois periodos no delirio de
+perseguições: um, de começo, exteriorisado por uma _inquietação
+indefinivel e de nenhum modo comparavel á do homem normal que tem um
+grande interesse compromettido;_ outro, de estado, caracterisado pela
+definitiva systematisação das idéas delirantes formando um _romance_
+invariavel para cada doente.
+
+Como Lasègue, Legrand du Saulle caracterisa a inquietação do primeiro
+periodo comparando-a á _cephalalgia_ e ao _arrepio_ que são muitas vezes
+os precursores de graves doenças communs, mas que em si mesmos nada teem
+de preciso.
+
+Como Lasègue, Legrand du Saulle explica a transição do primeiro ao
+segundo periodo por um acto de reflexão do perseguido, por um verdadeiro
+raciocinio. «O doente, escreve Legrand du Saulle, diz a si proprio e aos
+outros que não são naturaes as inquietações e angustias que experimenta,
+que lhes não encontra causa no meio em que vive, no estado da propria
+saude, no da propria fortuna. No seu passado experimento grandes
+infortunios, mas sabia o motivo d'elles e não eram os mesmos os seus
+soffrimentos, não tinham o caracter vago e indefinido dos actuaes. Este
+mal-estar tão grande, estas impressões tão penosas e tão injustificadas
+devem ter uma causa secreta. E é assim que o doente se sente
+naturalmente levado a pensar que inimigos occultos, interessados em
+perdel-o, se reunem e procuram fazel-o soffrer»[1].
+
+ [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 17.
+
+Como Lasègue, Legrand du Saulle dá na symptomatologia da doença um logar
+preponderante ás allucinações auditivas, precedidas frequentemente de
+illusões do mesmo sentido. «O doente, escreve o auctor, começa por dar
+uma falsa significação aos ruidos reaes que escuta: uma porta que se
+abre, pessoas que fallam na rua, uma palavra pronunciada ao pé d'elle,
+os passos de alguem, tudo é materia do delirio. As verdadeiras
+allucinações só começam, em geral, mais tarde e n'uma epocha
+variavel»[2].
+
+ [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 43.
+
+Como Lasègue, Legrand du Saulle admitte um periodo de declinação na
+doença, que, sendo, em regra, incuravel, póde terminar pela cura n'uma
+quinta parte dos casos. Na etiologia, Legrand du Saulle constata, como
+Lasègue, que a doença é mais frequente nas mulheres e se realisa
+preferentemente na epocha por excellencia das grandes luctas da vida.
+Algumas considerações que faz sobre a _hereditariedade_, o _onanismo_ e
+as _perseguições infantis_ são de um caracter vago. Como se vê, em tudo
+quanto póde servir para caracterisar como _especie_ o delirio de
+perseguições--na symptomatologia, na marcha, na etiologia, Legrand du
+Saulle não faz senão seguir a memoria de Lasègue.
+
+Vamos vêr que n'um ponto de maxima importancia, não tratado pelo
+eminente professor da faculdade de Paris no seu trabalho de 1852,
+Legrand du Saulle acompanha a memoria de Foville. Refiro-me á passagem
+do delirio de perseguições ao de grandezas, explicada, como vimos, por
+Legrand du Saulle acceita esta mesma pathogenia. «Depois, diz elle, de
+ter soffrido tantas hostilidades da parte de implacaveis inimigos,
+depois de ter sido victima de tantas intervenções devidas á magia ou ao
+electro-magnetismo, o perseguido recolhe-se por vezes e pensa: Como
+podem em pleno seculo XIX produzir-se factos d'esta natureza? É preciso
+admittir no fundo de tudo isto uma energica vontade superior, a de um
+alto personagem, a de um principe ou, talvez, de um rei! Deve ter sido
+necessaria, com effeito, para explicar o meu caso uma auctoridade
+verdadeira, que só póde existir nas mãos de millionarios, de ministros e
+de imperadores: quem ordenou tudo é, pois, um grande senhor ou um
+notavel personagem. Um outro perseguido pensará: Armam-me redes, mas eu
+evito-as; expõem-me a coalisões formidaveis, mas eu saio-me bem d'ellas;
+attentam contra a minha vida, mas eu resisto; alguem, pois, de um alto
+poder vela por mim e me protege; esse alguem é o chefe do estado. Eis, a
+partir d'aqui, toda uma ordem nova de idéas imprimindo uma outra
+direcção ás concepções delirantes e ás allucinações. O perseguido não
+cessa desde então de fallar em ministros, em familias reinantes, na
+côrte pontifical, desconhecendo o caracter real das pesssoas que o
+cercam e affirmando que Napoleão lhe envia mensagens, que Trochu o
+chamou, que Thiers vae recebel-o, que tal ou tal princesa vem visital-o.
+N'uma palavra, encontramo-nos em presença de idéas de grandeza
+pathologicamente juxtapostas, porque as perseguições não cessaram, os
+inimigos existem ainda»[1].
+
+ [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 84.
+
+«Acabamos de constatar, continua Legrand du Saulle, erros grosseiros
+sobre a personalidade dos outros; pois vamos vêr que uma nova
+transformação se opera agora e que erros mais grosseiros ainda vão
+dar-se d'esta vez sobre a personalidade de perseguido. Sigamos um pouco
+o raciocinio do doente: As operações dos meus inimigos, pensa elle, são
+tão desleaes como persistentes e perigosas; os meus inimigos são
+infatigaveis e poderosos; mas que interesse podem elles ter em me
+mortificarem d'este modo, a mim, homem ignorado, obscuro ou collocado
+n'uma situação modesta? O contraste entre os perseguidores e a victima é
+dos mais notaveis. Quem sou eu com effeito? Talvez um ser menos apagado
+do que se pensa, mais importante do que se imagina, mais temivel do que
+se suppõe. E nem póde deixar de ser assim. Enchem-me de humilhações
+odiosas, dirigem contra mim os mais tenebrosos attentados; ha, pois, um
+interesse em fazel-o. Esse interesse parte de millionarios, duques,
+principes ou imperadores, e é, portanto, dos mais consideraveis. Mas
+então faço eu sombra a alguem e esse alguem roubou-me necessariamente o
+meu nome, o meu titulo, a minha fortuna, o meu logar social, a minha
+corôa. Eu não sou, portanto, o homem humilde sob cuja mascara vivi até
+hoje: fui mysteriosamente posto de lado, iniquamente esbulhado; o nome
+de que uso não é o meu, os que teem feito de meus paes não são da minha
+familia; eu sou o neto de Luiz XVI ou o filho de Napoleão, sou o duque
+de Orleans ou chamo-me D. Carlos»[2].
+
+ [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 85.
+
+Para não deixar de seguir passo a passo Foville, que, como vimos, notara
+a relativa frequencia do delirio ambicioso nos perseguidos _filhos
+naturaes_, Legrand du Saulle accrescenta: «Se o perseguido não tem um
+acto de nascimento regular, se alguma vez soffreu pelo facto de uma
+situação indecisa, de uma paternidade não confessada ou de uma educação
+mysteriosa, se o seu orgulho foi torturado ou lesada a sua fortuna, com
+que perniciosos elementos não crescerá o seu delirio, com que
+apparencias de verosimilhanças não fallará elle a todos da sua
+imaginaria fortuna, do seu nascimento illustre?!»[1]
+
+ [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 86.
+
+Como Foville e Morel, Legrand du Saulle refere casos em que no delirio
+de perseguições se observam concepções hypocondriacas; estas, porém,
+como as de grandeza, não constituem para elle uma phase evolutiva, mas
+apenas um _acompanhamento_ ou _complicação_ da doença de Lasègue.
+
+Uma parte nova e valiosa do trabalho de Legrand du Saulle é a que se
+refere ao diagnostico differencial entre o delirio de perseguições
+idiopathico e o que, como syndroma, apparece na demencia senil, na
+paralysia geral, no alcoolismo subagudo e nas intoxicações pelo chumbo e
+pelo sulfureto de carbone.
+
+Não terminaremos esta rapida analyse do livro de Legrand du Saulle sem
+notar que elle soube pôr em relevo dois factos interessantes,
+ulteriormente notados por quantos se teem occupado d'este assumpto: a
+existencia em muitos perseguidos de allucinações auditivas bilateraes de
+caracter differente--vozes benevolas d'um lado, vozes hostis do outro, e
+a tendencia d'estes doentes á formação de _neologismos_ e de um
+incomprehensivel vocabulario privativo de cada um.
+
+ * * * * *
+
+Até aqui os trabalhos francezes. Vejamos agora, retrocedendo um pouco na
+ordem dos tempos, de que maneira os psychiatras allemães comprehenderam
+os delirios systematisados.
+
+Foi Griesinger o primeiro entre elles a occupar-se d'este assumpto no
+seu _Tratado de Doenças Mentaes_ cuja apparição remonta a 1845, mas que
+só vinte annos depois veio a ser conhecido em França pela traducção
+Doumic. N'esse livro, por muitos titulos notavel, descreve o eminente
+professor de Zurich, sob a denominação de _Verrücktheit_, os delirios
+parciaes que alguns annos mais tarde Lasègue e Foville haviam de elevar,
+dando-lhes nomes privativos, á cathegoria de especies em nosographia
+mental. Se bem que abreviada e n'um ou outro ponto confusa, a descripção
+de Griesinger abrange todos os pontos essenciaes da symptomatologia dos
+perseguidos e megalomanos, como facilmente se ajuizará pelas
+transcripções que seguem.
+
+Referindo se ás concepções que são o nucleo mesmo do delirio e o seu
+mais apparente symptoma, Griesinger escreve: «São umas vezes idéas
+activas, exaltadas, maniacas; o doente occupa uma posição elevadissima e
+tem um grande poder: é Deus, as tres pessoas da Santissima Trindade,
+reformador do Estado, rei, um grande sabio, um propheta, um enviado de
+Deus ou descobriu o movimento perpetuo, é o dominador de toda a natureza
+e conhece os elementos de todas as coisas, etc. Outras vezes são idéas
+passivas: os doentes crêem-se lesados, dominados, submettidos ao poder
+d'outrem; julgam-se perseguidos, victimas de tramas hostis; mysteriosos
+inimigos atormentam-nos pela electricidade, os maçonicos fazem lhes mal,
+são possessos do diabo, estão condemnados a supplicios eternos, e
+roubados nos seus bens mais caros, etc.»[1]
+
+ [1] Griesinger, _Traité des maladies mentales,_ trad. franceza, pag.
+386.
+
+Occupando-se dos erros psycho-sensoriaes, escreve: «As illusões e
+allucinações em nenhuma outra fórma de loucura são tão frequentes como
+na _Verrücktheit;_ em grande numero de casos são ellas principalmente
+que alimentam e entreteem o delirio. Muitas vezes os doentes conversam
+com as vozes que escutam, ou discutem com ellas, entregando-se então a
+accessos de colera»[1]
+
+ [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.
+
+Sobre o caracter absorvente d'estes delirios e sobre as transformações
+de personalidade, diz Griesinger; «Involuntariamente o alienado refere
+tudo ao seu delirio, e é d'este ponto de vista que julga todas as
+coisas ... As concepções falsas relativas ao proprio Eu chegam a attingir
+um elevadissimo grau, a partir do qual o doente não considera as coisas
+do mundo externo senão de um modo inteiramente pervertido ... Alguns
+d'estes doentes parecem crêr que a sua verdadeira personalidade anterior
+deixou de existir»[2]
+
+ [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 387.
+
+Sobre a necessidade do _neologismo_ nos delirios systematisados de uma
+longa duração, escreve o eminente alienista: «Por vezes a linguagem
+ordinaria não basta ao doente para exprimir o proprio pensamento, pelo
+que construe, ao menos para traduzir as suas concepções delirantes, um
+vocabulario especial, que elle crê ser a linguagem primitiva, a
+linguagem dos ceus»[3]. Ainda a proposito da exteriorisação do delirio,
+Griesinger nota que «por vezes o doente occulta cuidadosamente o seu
+systema geral de absurdos»[4].
+
+ [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.
+
+ [4] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.
+
+Sobre o estado affectivo d'estes delirantes exprime-se assim o professor
+allemão: «Nunca estes doentes tomam parte, como outr'ora, nas coisas do
+mundo externo, ou são capazes de amar e odiar como antes; podem
+morrer-lhes os paes e os amigos, póde ser-lhes subtrahido o que mais
+estimavam, póde o mais terrivel acontecimento incidir-lhes sobre a
+familia sem que elles sintam mais que uma ligeira emoção, se alguma
+sentem. Um só ponto ha em que podem ser ainda emocionados, que póde
+abalar-lhes promptamente os sentimentos e provocar uma forte reacção da
+vontade: procurem-se combater pelo raciocinio as suas idéas fixas e logo
+elles se irritarão e entrarão em colera; acariciem-se, pelo contrario,
+as suas concepções e elles mostrar-se-hão contentes»[1].
+
+ [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.
+
+Crêmos que as citações precedentes bastam para demonstrar que Griesinger
+conheceu intimamente os perseguidos e ambiciosos. A descripção que
+d'elles faz, como quadro symptomatico _d'après nature_, é nas suas
+linhas capitaes e até em alguns detalhes a mesma que alguns annos mais
+tarde haviam de exhibir-nos os alienistas francezes que, não conhecendo
+os trabalhos do professor allemão, tinham, comtudo, diante de si
+analogos modelos.
+
+Mas se a descripção symptomatica é a mesma, a _interpretação
+nosographica e pathogenica_ é profundamente diversa, porque, ao passo
+que os francezes consideraram sempre os delirios parciaes como fórmas
+primarias da loucura, Griesinger julga-os, como vamos vêr, fórmas
+secundarias ou estados procedentes da mania e da melancolia.
+
+O que é, com effeito, a _Verrücktheit_ do psychiatra allemão? «Sob este
+nome, diz elle, designamos os estados secundarios de loucura, nos quaes,
+embora tenha diminuido consideravelmente ou mesmo desapparecido por
+completo a situação afectiva que caracterizava a fórma mental no seu
+começo, o doente não cura, e em que a alienação consiste n'um pequeno
+numero de concepções delirantes fixas que elle acaricia de um modo
+particular e constantemente repete»[2]. E accrescenta: «A _Verrücktheit_
+é _sempre_, pois, uma doença _secundaria_, consecutiva á melancolia ou á
+mania»[3]. _Residuos de estados de exaltação ou depressão,_ diz ainda em
+outro logar, constituem a _Verrücktheit_ que, por isso mesmo, elle
+colloca no grupo dos _estados de enfraquecimento psychico_, ao lado da
+demencia.
+
+ [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.
+
+ [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.
+
+Na direcção de Griesinger e pelo caminho que elle abriu seguiram longo
+tempo os alienistas allemães. «O delirio parcial, escrevia Albers em
+sobretudo uma fórma de terminação da loucura com excitação ou depressão
+geraes; quando se encontra esta fórma, uma das duas existiu
+anteriormente e acabou por _uma cura incompleta_»[1]. Fallando da
+metamorphose do Eu que acompanha os delirios systematisados n'uma phase
+de adiantada chronicidade, Spielmann escrevia no mesmo anno «que ella
+suppõe a existencia anterior da melancolia ou da mania, sem uma das
+quaes não póde _nunca_ produzir-se»[2]. Em 1859 Neuman considerava a
+_Verrücktheit_ «uma cura com perda de substancia da intelligencia», isto
+é, uma cura incompleta da mania ou da melancolia, um estado secundario
+ou consecutivo, acompanhado de uma decadencia das faculdades.
+
+ [1] Albers, _Memoranda der Psychiatrie_.
+
+ [2] Spielmann, _Diagnostik der Geisteskrankheiten_.
+
+Crêmos inutil proseguir em citações. As precedentes bastam a dar-nos uma
+clara idéa da doutrina pathogenica dos delirios, systematisados segundo
+a psychiatria allemã d'esta epocha. Suspensas na sua evolução para a
+demencia, a mania e a melancolia atardar-se-hiam nas fórmas expansivas
+ou depressivas da _Verrücktheit,_ delirio de grandezas ou delirio de
+perseguições.
+
+Em contraste, porém, com estas idéas, que durante vinte annos dominaram
+absolutamente a psychiatria allemã, descreveu Snell em 1865, baseando-se
+em dez casos de observação pessoal, uma nova fórma de loucura
+essencialmente caracterisada pela apparição primitiva de estados
+allucinatorios e conceitos delirantes de contheudo mixto, expansivo e
+depressivo.
+
+Esta fórma, que Snell denomina _monomania_ ou _Wahnsinn_, é inteiramente
+distincta da mania e da melancolia. N'ella podem as idéas de perseguição
+e de grandeza ser contemporaneas ou successivas; quando as ideias
+ambiciosas succedem ás de perseguição realisa-se uma metamorphose da
+personalidade vesanica. A evolução d'esta fórma é essencialmente
+chronica e o seu prognostico infausto. A adopção do termo francez
+_monomania_ parece indicar a parcialidade do delirio que, segundo Snell,
+não conduz nunca á demencia, como a do termo allemão (derivado de
+_Vahn_: delirio, e _Sinn_: sentidos) põe em relevo a importancia das
+allucinações.
+
+Acceitando este modo de vêr, Griesinger penitenceia-se em 1867 da
+excessiva e precipitada generalisação das suas idéas pathogenicas e
+acaba por admittir, ao lado da _Secundäre Verrücktheit,_ uma _Primäre
+Verrücktheit_, analoga ao _Wahnsinn_ de Snell. Na lição de abertura do
+seu curso n'esse anno exprimia-se assim o grande chefe da psychiatria
+allemã: «Áctualmente não considero já como fórmas secundarias as
+alterações peculiares, muito chronicas e mixtas do delirio persecutorio
+e ambicioso; ao contrario, convenci-me da origem _protogenica_ d'estes
+estados que denomino _Primäre Verrücktheit»._
+
+Perfilhando as idéas de Griesinger sobre a _Primäre Verrücktheit,_
+descreveu Sander em 1868, baseado em quatro casos clinicos, uma
+variedade congenita d'esta fórma sob a designação de _Originäre
+Verrücktheit_. Os delirantes perseguidos ou ambiciosos d'este sub-grupo
+são desde a infancia taciturnos, mysantropos, romanticos, excessivamente
+phantasistas, faltos de energia, onanistas, n'uma palavra,
+originariamente enfermos. É na puberdade que os delirios, de longa data
+preparados, fazem explosão. Sander nota as tendencias remittentes da
+_Originäre Verrücktheit_ e observa que a demencia está muito longe de
+ser um dos seus modos de terminação.
+
+Como se vê, a primitividade ou protogénese dos delirios systematisados,
+admittida desde todo o principio pelos alienistas francezes, é agora
+acceite pela psychiatria allemã, cujo dogmatismo desde 1845 a 1865
+mandava admittir _quand méme_ uma preexistente psychose maniaca ou
+melancolica em todos os delirios de perseguição e de grandeza.
+
+Não morreu, como veremos ainda, a _Secundäre Verrücktheit,_ a despeito
+de Koch e de Pelman que lhe negaram a existencia; mas a sua esphera
+clinica foi estreitecendo á medida que alargava a da _Primäre
+Verrücktheit_.
+
+ * * * * *
+
+Voltemos aos trabalhos francezes.
+
+Tendo tido a felicidade de sobreviver trinta e um annos á publicação da
+sua memoria sobre o delirio de perseguições, Lasègue foi conduzido pela
+ulterior observação clinica dos factos a modificar uma das affirmações
+que n'esse trabalho fizera. Assim, tendo escripto em 1852 que os
+perseguidos supportam resignadamente todos os seus martyrios--a ponto,
+dizia então, de não ter visto um só reagir por um acto de vingança,
+Lasègue constatou mais tarde a existencia de muitos que se apresentam
+armados para a lucta, represaliando energicamente, como Sandon, como
+Verger, como Teulot, as suppostas perseguições. Perito em mais de uma
+ruidosa questão medico-legal determinada pelas violencias d'esta ordem
+de doentes, o eminente professor foi ainda, elle proprio, victima das
+aggressões brutaes de um d'elles, que o appellidava _chefe dos
+alienistas alienisantes_. Modificando as suas primitivas idéas, o
+celebre psychiatra achou que o delirio de perseguições comporta duas
+variedades, correspondendo aos modos de reacção dos doentes: uma
+_passiva_, a mais commum, representada pelos perseguidos que apenas se
+defendem, fugindo ao convivio, mudando de logares, tomando nomes
+suppostos, cosinhando os proprios alimentos, queixando-se ás
+auctoridades, barricando-se dentro dos seus aposentos, suicidando-se
+mesmo; outra _activa_, representada pelos que acceitam a lucta e
+respondem ao mal com o mal, calumniando, ferindo, matando até. Aos
+doentes d'esta ultima cathegoria deu Lasègue o nome, depois consagrado,
+de perseguidos-perseguidores, consignando que a explicação do seu modo
+especial de reagir deve ser pedida, não a condições privativas do
+delirio, mas ao caracter moral preexistente á vesania.
+
+Pondo no estudo da variedade _activa_ do delirio de perseguições o mesmo
+espirito de analyse que desenvolvera na creação da fórma _passiva_ ou
+commum, Lasègue fez a proposito as seguintes indicações de uma justeza
+clinica indiscutivel: que os perseguidos-perseguidores chegam á
+personificação do seu delirio em virtude de circumstancias accidentaes
+ou de factos sem importancia, mas exactos, que determinaram a sua
+antipathia por um dado individuo; que taes circumstancias ou factos
+reaes não são, em geral, recentes, mas antigos e evocados pela memoria,
+incessantemente occupada na revivescencia do passado; emfim, que os
+doentes, uma vez achado o seu perseguidor, não o esquecem mais, não o
+abandonam, nem o substituem, quando mesmo factos ulteriores e de maior
+valia justifiquem sentimentos de odio e de vingança contra outros
+individuos. Na escolha do perseguidor evidenceiam os perseguidos activos
+a mesma critica futil que os passivos demonstram na determinação dos
+factos que apontam como provas de perseguição: uma pedra achada á porta,
+um lençol esquecido na varanda de um visinho, a tosse de um sujeito que
+passa. De resto, Lasègue observou que, excepção feita do modo de reacção
+delirante, perseguidos activos e passivos se comportam identicamente,
+offerecendo o mesmo quadro de symptomas e a mesma evolução pathogenica.
+
+Creando a variedade _activa_ do delirio de perseguições, o notavel
+professor melhorou, pois, completando-a, a sua primitiva descripção
+clinica d'esta psychose, sem, todavia, a alterar na essencia; de facto,
+a unidade da doença persistiu, não tendo alcance nosologico, mas apenas
+medico-legal, o reconhecimento das duas variedades.
+
+Ulteriores trabalhos, porém, vieram quebrar, dentro da propria França,
+essa unidade do delirio de perseguições.
+
+Notou, com effeito, J. Falret em 1878 que ha entre os perseguidos
+activos ou perseguidos-perseguidores duas cathegorias de doentes que
+profundamente divergem; symptomas, evolução, etiologia--tudo n'elles é
+differente. Uns, em verdade (e são esses os que Lasègue notou), apenas
+no modo de reacção delirante se separam do typo classico dos perseguidos
+passivos, sendo-lhes em tudo o mais similhantes: nos symptomas, porque,
+como estes, offerecem idéas systematicas de perseguição alimentadas por
+erros sensoriaes constantes, sobretudo por allucinações auditivas; na
+marcha, porque, como os perseguidos communs, podem soffrer a alteração
+de personalidade caracterisada clinicamente pela passagem do delirio de
+perseguições, ao de grandezas; na etiologia, emfim, porque teem uma
+historia ancestral e pregressa identica á dos perseguidos vulgares. Com
+razão, portanto, fez Lasègue d'estes perseguidos activos os
+representantes apenas de uma variedade clinica do delirio de
+perseguições. Outros, porém, não offerecem do quadro d'esta psychose
+senão as idéas systematisadas de perseguição, divergindo em tudo o mais:
+na symptomatologia, porque as suas concepções morbidas não se apoiam em
+erros sensoriaes; na marcha, porque nunca o seu delirio se transforma,
+n'um sentido ambicioso; na etiologia, emfim, porque a sua historia
+ancestral e anamnestica não é a dos outros perseguir, dos, activos ou
+passivos, mas a dos degenerados hereditarios.
+
+A doença de Lasègue não comporta esta cathegoria de
+perseguidos-perseguidores; forçoso é, pois, no dizer de Falret,
+acceital-os como representantes de uma outra _especie_ nosographica.
+
+Pottier desenvolve no seu _Estudo sobre os alienados perseguidores_ as
+idéas do eminente clinico de Salpêtrière, seu mestre, insistindo no
+diagnostico differencial entre estes vesanicos e os outros perseguidos.
+A proposito da etiologia escreve: «Estes doentes, em vez de apresentarem
+desde a juventude um caracter desconfiado ou de passarem pela phase de
+hypocondria que muitas vezes precede o delirio de perseguições
+ordinario, teem quasi sempre manifestado na infancia, na adolescencia ou
+na idade adulta alguns dos symptomas physicos e moraes attribuidos hoje
+aos alienados hereditarios: alterações de caracter, desigual
+desenvolvimento das funcções intellectuaes, faculdades eminentes ao lado
+de enormes lacunas, accidentes nervosos ou perturbações mentaes
+passageiras, na puberdade, existencia movimentada, irregular, vagabunda,
+perversões genitaes e outras. O passado d'estes doentes é, n'uma
+palavra, não o dos perseguidos classicos, mas o dos alienados
+hereditarios»[1].
+
+ [1] Pottier, _Ètude sur les aliénés persécuteurs_, pag. 3
+
+A proposito da ausencia de allucinações n'estes doentes, diz Pottier:
+«Imaginou-se que as allucinações auditivas, escapando a uma observação
+superficial, seriam encontradas n'estes doentes por um exame
+escrupuloso. Não é assim, porém. Nós crêmos, ao contrario, que, na
+direcção actual das idéas, se teem admittido allucinações não
+demonstradas ou se teem tomado como allucinações simples phenomenos de
+interpretação delirante, illusões ou mesmo impressões procedentes do
+mundo exterior e realmente percebidas pelos doentes, cuja acuidade
+sensorial se encontra muitas vezes exaggerada»[2].
+
+ [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 38.
+
+Sobre a evolução do delirio n'estes doentes, diz ainda Pottier: «Ha
+periodos de remissão prolongada e de intensa exacerbação, mas nenhuma
+evolução progressiva ... Estes alienados são, em regra, muito orgulhosos,
+mas não chegam, como os outros perseguidos, á megalomania, ao delirio de
+grandezas, emfim, a uma verdadeira transformação da personalidade»[1].
+
+ [1] Pottier, _Obr. cit._, pag. 39.
+
+A estas notas differenciaes junta Pottier uma outra: a existencia, nos
+doentes de que nos occupamos, de accidentes cerebraes, congestivos ou
+convulsivos, produzindo-se a largos intervallos. «Observem-se
+attentamente, diz, o auctor, estes doentes durante o curso da sua vida,
+estudem-se as observações já publicadas, e chegar-se-ha a verificar que,
+nos perseguidores lucidos, accidentes cerebracs graves se dão de tempos
+a tempos e que, as mais das vezes, elles morrem cerebralmente, quer por
+um ataque, quer por influencia de lesões consecutivas»[2].
+
+ [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 41.
+
+Ainda no capitulo do diagnostico, o mais completo do trabalho que vimos
+citando, observa Pottier a extrema facilidade com que os perseguidores
+conseguem fazer perfilhar as suas idéas por um grande numero de pessoas,
+chegando mesmo a interessar em sua defeza a propria imprensa. A
+explicação d'este _contagio delirante_ procede sobretudo, segundo
+Pottier, da convergencia d'estes dois factos: de um lado, a
+intelligencia de ordinario muito viva d'estes doentes e a sua incansavel
+actividade; de outro lado, o colorido verosimil do seu delirio, que não
+é em si mesmo absurdo, que se não apoia em estados allucinatorios, mas
+que tem por base factos reaes, embora morbidamente interpretados, e
+circumstancias possiveis, cuja veracidade não é facil contestar ou mesmo
+pôr em duvida.
+
+Os _litigantes_ ou _processomanos_ constituem a mais importante
+cathegori d'estes doentes; uma outra é formada pelos _perseguidores
+hypocondriacos_ que, attribuindo os seus imaginarios males ao tratamento
+seguido, hostilisam o medico assistente.
+
+As idéas de J. Falret fizeram carreira em França, onde os
+perseguidos-perseguidores são geralmente considerados como exemplares de
+loucura lucida _(folie raisonnante)_, sub-grupo das degenerescencias
+psychicas hereditarias. Nas suas _Lições clinicas sobre as doenças
+mentaes_, Magnan presta um largo apoio á doutrina de Falret, fazendo
+apenas reservas sobre dois pontos: as allucinações, que elle admitte a
+titulo de excepção, e os accidentes cerebraes, que julga, em face da sua
+experiencia pessoal, muito menos frequentes do que se tem pensado.
+
+De passagem faremos notar que na Allemanha o _delirio processivo_ tem
+soffrido as mesmas vicissitudes theoricas que experimentou em França o
+delirio dos perseguidos-perseguidores. Ao passo que a maioria dos
+auctores, á maneira de Lasègue, consideram aquelle delirio uma simples
+variedade da _Verrücktheit_, descrevendo-o, como faz Krafft-Ebing, ao
+lado do delirio de perseguições, outros, como Arndt, Kraepelin e Schüle,
+fazem d'elle um sub-grupo da _loucura moral._
+
+
+
+III--PHASE SYNTHETICA
+
+De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva--A
+loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a
+Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional
+insanity--Determinação pathogenica.
+
+
+Vimos precedentemente que Morel, quando ainda a psychiatria franceza se
+esforçava por elevar á cathegoria de fórmas nosographicas autonomas os
+delirios de perseguições e de grandezas, esboçara a doutrina segundo a
+qual taes delirios não seriam senão manifestações de uma doença ou, mais
+precisamente, transformações progressivas da loucura hypocondriaca.
+
+Da idéa inicial de um compromisso da saude, caracteristica da
+hypocondria, passaria o doente, generalisando, á idéa de um compromisso
+da vida, da honra, dos interesses intellectuaes e moraes, caracteristica
+do delirio de perseguições. Este seria uma simples manifestação da
+hypocondria anomala ou, como elle proprio escreve, sublinhando, _uma
+hipocondria de uma natureza mais intellectual_. Em 1860 exprimia-se
+assim no seu _Tratado_ o illustre psychiatra: «Fallando da hysteria,
+disse eu que esta nevrose póde percorrer as suas phases mais
+extraordinarias sem que a alteração das faculdades intellectuaes e
+afectivas se torne uma consequencia forçada. A hysteria larvada, se
+assim posso exprimir-me, offerece perigos muito maiores para o livre
+exercicio das faculdades, como provei com numerosos exemplos. A mesma
+reflexão póde applicar-se á hypocondria. Para d'isto nos convencermos,
+basta examinar até que ponto o temperamento dos individuos com delirio
+predominante de perseguições está sob a influencia d'este estado
+nevropathico»[1]. E mais adiante: «Quando elles (os hypocondriacos)
+chegam á supposição de que os seus alimentos teem venenos ou, pelo
+menos, substancias que lhes produzem as sensações de que se queixam;
+quando elles se imaginam expostos aos maleficios do que chamam potencias
+occultas, como a electricidade e o magnetismo, e pensam que a propria
+policia procura perdel-os, podemos estar certos de que vão entrar _na
+phase d'este delirio especial_ que a designação de _delirio de
+perseguições_ melhor do que todas exprime»[2].
+
+ [1] Morel, _Traité des maladies mentales_, pag. 706.
+
+ [2] Morel, _Obr. cit._, pag. 707.
+
+Quanto ao _delirio ambicioso_ elle seria, segundo Morel, uma terminação
+frequente do delirio de perseguições. Fallando dos megalomanos,
+escrevia: «E quando mesmo os doentes chegaram a este estado de
+contentamento e de vaidosa satisfação que é proprio das idéas
+systematicas de grandeza, elles não lograram collocar-se de um modo fixo
+e irremediavel sobre o pedestal da sua loucura senão com a condição de
+passarem por todas as peripecias do delirio de perseguições, e de terem,
+as mais das vezes, experimentado todos os soffrimentos dos
+hypocondriacos»[3].
+
+ [3] Morel, _Obr. cit._, pag. 716.
+
+Para explicar a passagem do delirio de perseguições ao de grandezas,
+Morel não invocava, á maneira de Foville, o _raciocinio_ e a _logica,_
+mas a _physiologia morbida:_ era, com effeito, ao echo psychico de uma
+alteração no funccionalismo visceral dos hypocondriacos que elle ia
+procurar a chave d'este phenomeno _tão frequente quanto assombroso para
+os homens alheios á medicina e desconhecedores das leis dos organismos
+doentes._
+
+Esta doutrina, integrando os delirios de perseguições e de grandezas na
+hypocondria, representava uma tentativa de synthese clinica,
+naturalmente destinada a não encontrar seguidores entre os
+contemporaneos de Morel, porque o tempo era de analyse, e a tendencia
+geral a da multiplicação das fórmas nosographicas. O estudo minucioso
+dos symptomas absorvia as attenções, relegando a um plano subalterno o
+das causas e da evolução das doenças. Embora combatidas quasi desde a
+sua introducção na sciencia, as _monomanias_ de Esquirol triumphavam
+ainda então: o delirio de perseguições era uma monomania, o delirio de
+grandezas, outra. O _Tratado_ de Marcé, o mais cotado dos livros
+classicos da psychiatria franceza, consagrava esta doutrina em 1862; e a
+memoria de Foville, que atraz citámos, tem a data de 1869, como tem a de
+1871 a monographia de Legrand du Saulle, de que tambem démos idéa no
+capitulo anterior.
+
+Isto é dizer que não foi comprehendida a maneira de vêr de Morel sobre
+os delirios systematisados, como o não foram outros pontos de vista
+d'este homem de genio, que Morselli justamente denomina o _Darwin da
+psychiatria_. Fallava para o futuro o auctor das _Degenerescencias
+Humanas_, cuja alta originalidade rompe na historia da medicina mental
+franceza o parallelismo entre a ordem chronologica e a ordem logica das
+idéas.
+
+É só em 1883, mais de vinte annos depois de publicado o _Tratado_ de
+Morel, que as idéas d'este psychiatra a proposito dos delirios
+systematisados são retornadas e postas em relevo n'um trabalho de
+Gérente.
+
+Escripto sob a evidente inspiração de Magnan, esse trabalho destina-se a
+provar com o apoio dos factos, que não existe _um_ delirio
+hypocondriaco, _um_ delirio de perseguições e _um_ delirio de grandezas,
+mas uma vesania, o _Delirio Chronico,_ de que aquelles não são senão
+phases evolutivas. «Vamos, diz o auctor, estudar clinicamente todos os
+delirios da vesania; seguiremos n'uma observação attenta a génese e a
+evolução d'estes delirios; e, por conclusão d'este trabalho, esperamos
+que em vez d'essas _monomanias_, tão artificiaes e tão confusas, de
+certos auctores, appareça claramente, emfim, _uma só e mesma especie
+morbida_ que chamaremos o _Delirio Chronico_»[1].
+
+ [1] Gérente, _Le délire chronique_, pag. 10.
+
+O que é, verdadeiramente, este _Delirio Chronico_? Segundo Gérente, uma
+doença que, germinando sempre n'um terreno hypocondriaco, se denuncía
+nos seus casos typicos e eschematicos pela successão regular de tres
+periodos: um de concentração dolorosa do espirito; um de expansão; e um
+mixto ou de transição entre os dois. Se a doença se prolonga
+sufficientemente, a demencia é o seu termo natural.
+
+O terreno hypocondriaco em que, segundo Gérente, o _Delirio Chronico_
+mergulha as suas raizes para constituir-se e crescer, é caracterisado
+essencialmente por uma impressionabilidade anormal, de origem quasi
+sempre hereditaria, por uma perversão dolorosa da sensibilidade mental,
+n'uma palavra, por uma _hyperalgesia psychica_; uma autoobservação
+permanente, uma sorte de habitual _ruminação_ interior de estados
+physicos ou de estados moraes define a mentalidade prediposta, da qual,
+sob a mais ligeira causa determinante, ha de surgir a vesania. É, pois,
+um hypocondriaco o candidato ao _Delirio Chronico_; mas não é um
+alienado, emquanto sobre si mesmo poder exercer uma acção de _contrôle_.
+Sel-o-ha no dia em que esse exercicio se torne impossivel, no dia em que
+a preoccupação dos seus estados physicos e moraes venha a ser absorvente
+e o desligue das relações normaes com a sociedade. A hypocondria simples
+torna-se então loucura hypocondriaca. E é d'ela que vae sahir o periodo
+inicial ou depressivo do _Delirio Chronico_.
+
+Este periodo é caracterisado por uma concentração dolorosa do Eu, de que
+procedem idéas delirantes de natureza depressiva e de um contheudo que
+varía com a intelligencia, a educação e o meio do doente. As falsas
+concepções hypocondriacas subsistem ainda; mas, ao lado d'ellas, outras
+germinam: a crença n'uma hostilidade dos homens (delirio de
+perseguições) ou de maleficos poderes sobrenaturaes (demonomania).
+Perturbações da sensibilidade geral e especial, sobretudo allucinações
+auditivas, dominam esta phase do _Delirio Chronico_, de uma duração que
+póde ser muito longa.
+
+Mas, pouco a pouco, a dôr moral esbate-se; e na personalidade vesanica,
+enfraquecida pelo delirio depressivo, uma sorte de reacção se dá em
+sentido contrario. Então, no espirito enfermo, trabalhado por infinitas
+angustias, uma pouca de felicidade rompe, como n'um ceu enevoado uma
+restea de sol: entre as idéas depressivas surgem idéas de grandeza,
+ainda vagas, mas a que o futuro reserva uma preponderancia definitiva.
+Esta confusão de elementos apparentemente contradictorios, de idéas e
+sentimentos depressivos com estados expansivos, caracterisa o segundo
+periodo, chamado, por isso, mixto ou de transição.
+
+Como a dôr moral e as idéas depressivas definem o primeiro periodo, a
+plena beatitude de espirito e as idéas ambiciosas definem o terceiro.
+Lentamente, as emoções e as concepções expansivas do periodo mixto vão
+tomando crescente logar no espirito vesanico á custa de uma reducção na
+intensidade e numero das emoções e idéas depressivas, que acabam por
+desapparecer. Então, um delirio de grandezas de colorido mystico ou
+humano, versando sobre a graça, sobre dotes pessoaes, sobre riquezas,
+sobre posição social, se estabelece definitivamente, caracterisando na
+sua exclusividade o terceiro periodo do _Delirio Chronico_.
+
+Esta lenta evolução da vesania--tão lenta que póde cobrir dezenas de
+annos, não se faz sem que a mentalidade soffra nas suas forças vivas e
+productoras. E assim, o seu termo natural é a demencia, quer simples e
+apathica, se o delirio cessou absolutamente, quer agitada, se restam
+perturbações da sensibilidade e falsas concepções desconnexas e
+dissociadas.
+
+Tal é, summariamente, a marcha typica do _Delirio Chronico,_ segundo
+Gérente,
+
+Nem sempre, porém, faz observar o auctor, as coisas se passam d'este
+modo regular e eschematico; não raro apparecem casos em que a evolução
+descripta não tem logar: póde, por exemplo, o periodo depressivo,
+representado por um delirio de perseguições, extender-se por toda a vida
+do doente que não chega a fazer um delirio de grandezas, caracteristico
+do terceiro periodo; póde do periodo mixto passar um outro doente á
+demencia, sem que o periodo expansivo se tenha realisado em toda a sua
+pureza; póde acontecer que a doença suspenda a sua evolução n'um delirio
+hypocondriaco inicial, que se perpetua, systematisando-se e
+estereotypando-se; emfim, póde mesmo dar-se uma regressão, voltando o
+doente do delirio ambicioso ao de perseguições. Como todas as doenças,
+comporta o _Delirio Chronico_ anomalias evolutivas, que compete á
+clinica registrar; esses casos, porém, não invalidam o _typo_ descripto
+sobre exemplares completos.
+
+Como se vê, n'esta synthese clinica retoma Gérente as idéas fundamentaes
+de Morel sobre os delirios systematisados, reduzindo-os a expressões
+symptomaticas e momentos evolutivos de uma vesania caracterisada pela
+successão de duas phases apparentemente oppostas: uma, inicial,
+angustiosa e depressiva; outra, final, expansiva e de beatitude, Toda a
+differença, entre os dois psychiatras, está em que Morel chamava
+_Loucura hypocondriaca_ ao que Gérente denomina _Delirio Chronico_,
+
+Vejamos agora a pathogenia da doença, tal como a comprehende este
+psychiatra.
+
+De um lado, importa considerar o fundamento hereditario, commum a todas
+as psychoses funccionaes: «Não é vesanico, diz elle, quem quer: é
+precisa uma longa incubação; são precisas, pelo menos, duas gerações que
+preparem o terreno»[1]. Não, é claro, duas gerações de delirantes
+chronicos, mas de nevro e psychopatas. «São umas vezes, explica,
+nevroses, outras vezes intoxicações chronicas, outras ainda anomalias da
+intelligencia, do sentimento ou da vontade a que se não prestaria,
+talvez, attenção, mas que nem por isso deixaram de imprimir o seu cunho
+sobre o individuo e os seus descendentes»[2]. A tara hereditaria cria a
+predisposição; para determinar a doença qualquer abalo moral é bastante.
+
+ [1] Gérente,_Obr. cit._, pag. 8.
+
+ [2] Gérente,_Obr. cit._, pag. 9.
+
+Mas, por outro lado, importa em relação ao _Delirio Chronico_ attender á
+natureza especial do terreno predisposto. O que atraz dissemos,
+dispensa-nos de insistir sobre este ponto: é sabido que para Gérente,
+como para Morel, essa feição peculiar consiste na hypocondria.
+
+Emfim, conhecidas as causas e o terreno morbido, importa conhecer a
+_lesão,_ no sentido psychologico do termo.
+
+Ora, segundo Gérente, nenhuma duvida póde existir a este proposito. «É
+sempre, diz elle, uma alteração do senso emotivo, é a alteração do
+sentimento, agora penosa, logo expansiva, que imprime tal ou tal
+direcção ás perturbações da sensibilidade e ás idéas delirantes; esta
+alteração é, pois, a _lesão essencial e caracteristica ao delirio
+chronico_»[3].
+
+ [3] Gérente,_Obr. cit._, pag. 24.
+
+Cremos ter dado uma idéa sufficiente da doutrina exposta por Gérente.
+Uma psychose, de origem hereditaria, de evolução de ordinario regular e
+tendo por lesão primitiva uma perturbação do sentimento, integraria como
+syndromas os delirios systematisados, hypocondriaco, de perseguições e
+ambicioso, descriptos na antiga psychiatria como doenças autonomas, sob
+a designação de monomanias; _Delirio Chronico_ é o nome d'essa psychose.
+
+Dissemos que Gérente se inspirou nas idéas de Magnan; e talvez
+podessemos mesmo affirmar que aquelle não fez senão expôr no seu
+trabalho, que é uma these de doutoramento, os pontos de vista do mestre.
+De facto, não só a designação de _Delirio Chronico_ tomada por Gérente
+para titulo do seu livro, foi creada por Magnan, que a vulgarisara nas
+suas lições oraes, mas foram colhidas no serviço e sob a direcção
+d'este, no asylo de Sant'Anna, as observações clinicas da these.
+Entretanto, nos debates que em 1887 se abriram sobre o assumpto na
+Sociedade Medico-Psychologica de Paris, Magnan apparece-nos, como mais
+tarde nas suas _Lições Clinicas_, publicadas em 1893, expondo uma
+doutrina do _Delirio Chronico_ notavelmente diversa da proclamada por
+Gérente. Admittiremos que o insigne clinico de Sant'Anna concedesse ao
+seu discipulo uma absoluta liberdade de opinião? É isso possivel; mas
+não é provavel que Gérente abusasse de tal liberdade até ao ponto de
+cobrir com a designação consagrada pelo mestre uma doutrina propria e em
+mais de um ponto contraria á d'este. O que nos parece mais acceitavel é
+que o conceito de _Delirio Chronico_ tenha soffrido no espirito de
+Magnan uma evolução durante o periodo que vem da these de Gérente á
+discussão da Sociedade Medico-Psychologica.
+
+Como quer que seja, as duas doutrinas, a de 1883 e a de 1887, differem
+muito. É o que vamos vêr.
+
+Ao passo que Gérente, como foi dito, fazia derivar o _Delirio Chronico_
+de uma predisposição quasi sempre hereditaria e preparada atravez de
+gerações, Magnan affirma que um tal facto é excepcional e que, de
+ordinario, a psychose affecta individuos isentos de qualquer tara
+nervosa e absolutamente correctos no ponto de vista mental. «O _Delirio
+Chronico_, diz Magnan, fere em geral na idade adulta individuos sãos de
+espirito, não tendo até então apresentado perturbação alguma
+intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este importante ponto,
+porque tal particularidade basta para separar immediatamente os
+delirantes chronicos dos degenerados hereditarios que offerecem desde a
+infancia perturbações que os fazem reconhecer»[1].
+
+ [1] Magnan, _Leçons cliniques sur les maladies mentales_, pag. 236.
+
+Ao passo que Gérente, seguindo a tradição de Morel, admittiu como
+constante uma phase inicial hypocondriaca na constituição do _Delirio
+Chronico_, Magnan não a acceita senão a titulo excepcional. «Para Morel,
+escreve o medico de Sant'Anna, é preciso que elles (os perseguidos que
+se tornam ambiciosos) tenham sido hypocondriacos primeiro; ora, sendo a
+hypocondria, como se sabe, as mais das vezes uma manifestação
+dos hereditarios degenerados, não parece provavel que o
+_hypocondriaco-perseguido-ambicioso_ possa apresentar caracteres
+bastante fixos para entrar no quadro do _Delirio Chronico_»[2].
+
+ [2] Magnan, _Obr. cit._, pag 221.
+
+Emfim, emquanto Gérente concedia irregularidades de marcha ao _Delirio
+Chronico_, admittindo a existencia de casos frustres em que a evolução
+se suspendia ou mesmo por algum tempo retrogradava, Magnan exclue do
+_Delirio Chronico_ todos os casos d'esta natureza. Depois, com effeito,
+de ter admittido na evolução do _Delirio Chronico_ quatro periodos
+nitidamente desenhados--o _de incubação_, o _de perseguições_, o
+_ambicioso_ e o _demente_, Magnan escreve: «Estes periodos succedem-se
+irrevogavelmente da mesma maneira, de sorte que podemos sem receio pôr
+fóra do _Delirio Chronico_ todo o doente que _d'emblèe_ se torna
+perseguido ou ambicioso, ou que, primeiro ambicioso, se torna depois
+perseguido»[3].
+
+ [3] Magnan, _Obr. cit._, pag 237.
+
+São estes tres os pontos em que as syntheses clinicas do _Delirio
+Chronico_, a de 1883 e a actual, differem. Quanto ao nome, julgou
+Magnan, depois dos reparos de alguns criticos, dever amplial-o para o
+tornar mais explicativo: _Delirio Chronico de evolução systematica_ é a
+designação adoptada por este psychiatra nas suas _Lições Clinicas_.
+
+Naturalmente occorre perguntar para que nova cathegoria são relegados os
+casos, tão numerosos, de delirios systematisados de evolução irregular
+que Gérente considerava como exemplares frustres de _Delirio Chronico_ e
+que Magnan resolutamente aparta do quadro clinico d'esta psychose. A
+resposta vae o leitor encontral-a no resumo que em seguida fazemos dos
+debates a que deu logar na Sociedade Medico-Psychologica de Paris a
+doutrina do _Delirio Chronico_.
+
+Digamol-o desde já: vigorosamente sustentada por Garnier e Briand, a
+synthese clinica de Magnan foi tambem rudemente combatida.
+
+Ninguem contestou a existencia de alienados que, primeiro inquietos,
+suspeitosos, interpretando illusoriamente e n'um sentido pejorativo
+todos os actos e palavras d'outrem (_periodo de incubação_), se tornam
+depois allucinados, sobretudo do ouvido, e se lançam n'um delirio
+systematisado de hostilidades (_periodo de perseguições_), fabricam mais
+tarde ainda idéas de grandeza (_periodo ambicioso_), e, por fim, cahem
+n'um estado de enfraquecimento cerebral em que as concepções falsas se
+esbatem e dissociam (_periodo de demencia_). Ninguem contestou,
+repetimos, a existencia d'estes casos; contestou-se, porém, desde todo o
+principio, que elles fossem _regra_. A fatalidade do terceiro periodo do
+_Delirio Chronico_ foi, por exemplo, negada. Assim, J. Falret sustentou
+que _o delirio de grandezas só n'um terço dos casos succede ao delirio
+de perseguições_. Facilmente se comprehende o alcance d'esta affirmação
+que varios alienistas--Christian entre outros--apoiaram: ao passo que
+para Magnan o delirio ambicioso é um periodo inevitavel do _Delirio
+Chronico_, para Falret elle não constitue senão um episodio fallivel da
+evolução vesanica, um delirio que apenas accidentalmente vem
+juxta-por-se ao de perseguições. Se todo o alienado que entrou, não
+_d'emblèe_, mas após uma phase mais ou menos longa de incubação, no
+delirio de perseguições, houvesse fatalmente de tornar-se ambicioso,
+Magnan teria, talvez, razão, affirmando a existencia de uma _Psychose_
+na qual o delirio de grandezas representaria, segundo a sua phrase, um
+papel evolutivamente similhante ao da _suppuração n'nuna erupção
+variolica;_ mas se, como pretende Falret, esse alienado póde
+perpetuar-se no delirio de perseguições sem jámais esboçar uma idéa
+ambiciosa, tal _Psychose_ não existe: a synthese clinica legitima não é
+o _Delirio Chronico de evolução systematica,_ mas o _Delirio de
+Perseguições,_ que póde ou não, _sem mudar de natureza_, complicar-se de
+um delirio ambicioso. Baseada em factos e apoiada na auctoridade de
+alienistas illustres, a objecção de Falret parece decisiva contra a
+doutrina actualmente professada por Magnan.
+
+Notemos de passagem que o argumento de Falret não attingiria a doutrina
+de Gérente, segundo a qual o _Delirio Chronico,_ á maneira d'outras
+doenças, comportaria casos de evolução irregular, anomala, entre os
+quaes estariam esses a que se reporta o sabio medico da Salpêtrière.
+
+J. Falret contestou ainda a Magnan que a demencia constitua o termo
+irrevogavel de uma vesania que passou pelas phases dos delirios de
+perseguições e de grandezas: muitos perseguidos e ambiciosos ha, segundo
+elle, que, ao fim de trinta, de quarenta e mais annos de delirio, morrem
+sem ter attingido a demencia. É mister dizer-se, para avaliar este
+argumento, que Magnan não toma a palavra _demencia_ no restricto sentido
+de abolição das faculdades, mas na accepção mais larga de
+enfraquecimento e falta de iniciativa mental. Desde que o delirio se
+_estereotypa_ (o que é de regra na phase ambiciosa e muitas vezes se dá
+mesmo na phase persecutoria da vesania), o enfraquecimento cerebral é
+já, segundo Magnan, um facto, que a diuturnidade da doença não faz senão
+aggravar; chamar-lhe, pois, _demencia_, quando elle attinge um grau em
+que os conceitos delirantes, desde ha muito invariaveis, se dissociam,
+não deverá parecer senão legitimo. Em todo o caso, é n'este sentido que
+o medico de Sant'Anna toma a _demencia_ quando faz d'ella a phase
+terminal da sua Psychose.
+
+Manifestando uma grande incomprehensão das idéas do medico de Sant'Anna,
+alguns membros da Sociedade tentaram atacar a doutrina do _Delirio
+Chronico_, affirmando que muitos vesanicos são ambiciosos antes de serem
+perseguidos; que outros surgem com um delirio de perseguições sem terem
+passado por uma phase de incubação; que alguns, emfim, só
+intermittentememe deliram n'um sentido persecutorio ou ambicioso. Todos
+estes casos são conhecidos e de observação diaria; mas, desde que Magnan
+os colloca, pela irregularidade mesma da sua marcha, fóra do quadro do
+_Delirio Chronico_, é evidentemente absurdo invocal-os contra a
+legitimidade d'esta psychose.
+
+Para Magnan, ao lado do _Delirio Chronico de evolução systematica_, ha
+os delirios que elle chama _polymorphos_ ou _d'emblèe_. E as distincções
+entre aquelle e estes são, segundo o eminente alienista, tão profundas
+quanto possivel, porque derivam da marcha, da etiologia e do
+prognostico. Ao passo que o _Delirio Chronico_ se caracterisa
+evolutivamente pela successão regular e irrevogavel de certos periodos,
+sendo o primeiro de incubação, os delirios polymorphos teem uma evolução
+irregular, imprevista, e rompem subitamente, sem preparação. Emquanto,
+sob o ponto de vista da etiologia, o _Delirio Chronico_ prescinde para
+constituir-se de uma pesada tara ancestral, podendo installar-se em
+individuos psychicamente correctos, os delirios polymorphos são
+eminentemente hereditarios e só podem realisar-se em degenerados, quer
+dizer em individuos tendo antes offerecido signaes de um desequilibrio
+mental. Emfim, emquanto o _Delirio_, _Chronico_, na sua qualidade de
+psychose progressiva e cyclica, é absolutamente incuravel, os delirios
+polymorphos, de marcha remittente ou intermittente, curam muitas vezes.
+
+É evidente, em face d'esta doutrina, exposta sem reticencias no seio da
+Sociedade Medico-Psychologica de Paris, que os casos, invocados por
+Dagonet e outros, de doentes que entram em delirio de grandezas para
+ulteriormente se tornarem perseguidos, de doentes que abruptamente, de
+um dia para o outro, apparecem allucinados do ouvido e se crêem victimas
+de injustificadas hostilidades, de doentes que após semanas de um
+delirio qualquer ambicioso ou de perseguições, surgem curados para
+recidivarem mais tarde, ou cahem rapidamente em demencia,--é evidente,
+diziamos que esses casos nada provam, em si mesmos, contra a existencia
+do _Delirio Chronico_, por isso que, segundo Magnan, elles pertencem a
+uma cathegoria diversa e não são senão episodios mais ou menos longos e
+interessantes da vida dos degenerados hereditarios.
+
+A doutrina do medico de Sant'Anna não póde ser combatida senão pela
+demonstração de que as differenciações por elle feitas entre os
+delirantes chronicos e os delirantes degenerados, são infundadas. Mas
+como, sob o ponto de vista da marcha, a differenciação é, _ao menos
+n'um certo numero de casos_, indiscutivelmente exacta; como por consenso
+de todos os alienistas e por testemunho irrecusavel da experiencia, ao
+lado de doentes que incubam um delirio de perseguições e d'este passam
+para o ambicioso, cahindo por fim n'um estado de fraqueza mental
+(_Delirio Chronico_ de Magnan), ha doentes que fazem bruscos,
+irregulares e mais ou menos ephemeros delirios multiplos, de que por
+vezes curam, embora para recidivarem mais tarde (_delirios
+degenerativos_ de Magnan), o ataque á synthese clinica do medico de
+Sant'Anna só póde ser feito de um ponto de vista mais alto,
+demonstrando-se que as duas ordens de delirios, a despeito das suas
+_allure_ diversas, procedem de uma causa commum e assentam sobre um
+mesmo fundo.
+
+Séglas viu isto--e só elle parece tel-o visto--quando na Sociedade
+Medico-Psychologica affirmou que alguns delirantes chronicos de Magnan
+apresentam os estygmas physicos e mentaes dos degenerados hereditarios.
+
+Demonstrar esta proposição seria evidentemente destruir á doutrina de
+Magnan o seu mais solido fundamento: o etiologico. Se os degenerados
+hereditarios podem delirar tanto de um modo remittente e anomalo como de
+um modo regular e progressivo, caminhando tanto para a cura como para a
+demencia, toda a differença entre o _Delirio Chronico_ e os _delirios
+polymorphos_ se reduz a accidentes de marcha e a possiveis variações de
+prognose, o que não é bastante para estabelecer _especies_ morbidas
+distinctas.
+
+Nos longos debates da Sociedade Medico-Psychologica sobre os delirios
+systematisados, tomaram parte os mais eminentes psychiatras francezes;
+cremos, porém, que só Falret e Séglas produziram contra a legitimidade
+clinica do _Delirio Chronico_ argumentos de valor.
+
+Mas não insistiremos sobre elles; por agora fazemos apenas historia.
+
+Para completarmos o que na psychiatria franceza tem direito a menção
+especial em materia de delirios systematisados, resta-nos expôr a
+maneira de vêr de Régis.
+
+Retomando uma doutrina exposta por Baillarger em 1853, o auctor do
+_Manual pratico de Medicina Mental_ sustenta que uma natural distincção
+existe entre as _loucuras generalisadas_ e a _Loucura parcial_: ao passo
+que as primeiras se caracterisam pela presença constante e essencial de
+um elemento affectivo, _excitação_ na mania e _depressão_ na melancolia,
+a segunda manifesta-se por simples perturbações intellectuaes e moraes
+sem participação, a não ser accidental e episodica, da emotividade. A
+excitação e a depressão, affirma Régis, são tanto a fundamental
+caracteristica das loucuras generalisadas que muitas vezes só ellas
+existem n'estas doenças: tal é o caso das manias e melancolias sem
+delirio, nas quaes, como se sabe, ha exaltação ou diminuição do _tonus
+emotivo_, sem compromisso grave da intelligencia e do senso moral. O
+contrario d'isto se dá na _Loucura parcial_: um delirio mais ou menos
+extenso caracterisa n'este caso a alienação, que só por momentos póde
+acompanhar-se de crises ephemeras de excitação ou depressão, analogas ás
+dos espiritos normaes em conflicto com causas externas. A mania e a
+melancolia, accrescenta Régis, sendo muitas vezes idiopathicas, são, não
+raro, meros symptomas d'outras doenças mentaes, como a hysteria, a
+epilepsia, a demencia paralytica; ao contrario, a _Loucura parcial_ é
+sempre idiopathica, essencial.
+
+Ora, é n'esta _verdadeira loucura_ que os delirios systematisados se
+integram, segundo Régis, a titulo de manifestações e de estadios
+evolutivos.
+
+No seu curso regular e typico, a _Loucura parcial_ offereceria tres
+periodos: um, de _analyse subjectiva_, caracterisado pelo _delirio
+hypocondriaco_; outro de _interpretação_, revellado pelo _delirio de
+perseguições_ ou pelo _delirio mystico_, segundo o doente attribue a
+pessoas ou a divindades os seus males; um terceiro, emfim, de
+_transformação pessoal_, exteriorisado pelo _delirio ambicioso_. As
+allucinações, sobretudo auditivas, são o symptoma dominante da _Loucura
+parcial_.
+
+Quanto á etiologia, sustenta Régis que a doença é constitucional, faz
+parte do individuo e surge n'um dado momento sob a influencia de
+quaesquer circumstancias; isto é dizer que _Loucura parcial_ é
+eminentemente hereditaria. Segundo este auctor, «ella attinge de
+preferencia os individuos sombrios, desconfiados, com tendencias á
+mysantropia e ao orgulho»[1]
+
+ [1] E. Régis, _Manuel pratique de médecine mentale_, 2º ed., pag. 228.
+
+Como se vê, a _Loucura parcial_ de Régis mantem relações profundas de
+similhança com a _Loucura Hypocondriaca_ de Morel e o _Delirio Chronico_
+de Gérente. Um mesmo pensamento etiologico-evolutivo preside ás tres
+syntheses clinicas.
+
+ * * * * *
+
+Expostos os trabalhos francezes sobre os delirios systematisados na sua
+phase de synthese clinica e de interpretação pathogenica, vejamos,
+retrocedendo na ordem dos tempos, o que se passou na Allemanha desde
+que, com Snell, Griesinger e Sander, a psychiatria d'este paiz assentou
+na existencia de delirios _primitivos_ de perseguições e de grandezas.
+
+Antes, porém, seja-nos licito dar uma explicação sobre a marcha a
+seguir.
+
+Delimitar um assumpto é a primeira das condições a preencher para
+tratal-o scientificamente; a segunda, é possuir uma nomenclatura
+definida e precisa. Ora, não satisfazendo a uma só d'estas duas
+condições os trabalhos allemães sobre os delirios systematisados, a
+impressão que recebe quem d'elles procura tomar conhecimento, é, sem
+exaggero, a de ter penetrado n'um labyrintho. Não o dizemos nós: por
+esta ou analogas expressões disseram-no em 1887 Séglas e recentemente
+Kéraval, os alienistas francezes que com maior auctoridade se occuparam
+do assumpto; disse-o tambem, mais insuspeitamente, Pelman ao formular ha
+vinte annos esta queixa: «Acabaremos por nem mesmo entre nós,
+psychiatras, nos entendermos»; repetirara-n'o, emfim, em 1894 quasi
+todos os alienistas allemães que tomaram parte na discussão aberta sobre
+a Paranoia na Sociedade Psychiatrica de Berlim.
+
+De facto, a extensão do assumpto varia de auctor para auctor; restricta
+para uns que, como Krafft-Ebing, lhe estabelecem os mesmos limites que
+os alienistas francezes, ella é tão vasta para outros, para Cramer, por
+exemplo, que parece estar contida lá dentro a psychiatria inteira. Por
+outro lado ainda, a nomenclatura é vaga e é confusa: vaga, pela
+multiplicidade de termos com que um dado auctor exprime um mesmo facto;
+confusa, pela variedade de significações de cada termo para cada auctor.
+_Wahnsinn, Verrücktheit_ e _Paranoia_ são as palavras com que na
+litteratura allemã apparecem designados os delirios systematicos
+descriptos pelos franceses; estes termos, porém, ora figuram como
+synonimos, ora como vocabulos de significados distinctos, succedendo
+ainda que o ultimo é pelo mesmo auctor tomado umas vezes n'um sentido
+restricto, outras vezes n'um sentido geral, infinitamente mais amplo.
+
+N'estas deploraveis condições de maxima obscuridade, fazer n'uma ordem
+rigorosamente chronologica e sob a respectiva terminologia a exposição
+das doutrinas allemãs ácerca dos delirios systematisados, seria,
+evidentemente, deixar o leitor em conflicto com obstaculos e
+difficuldades que indeclinavelmente nos cumpre remover-lhe. E eis
+porque, abandonando este invio caminho, procuraremos, antes de fazer
+historia, fixar os limites do assumpto e o valor dos termos.
+
+A expressão _delirio systematisado_, empregada por opposição á de
+_delirio dissociado_ ou _incoherente,_ significa apenas que certas idéas
+morbidas habitualmente adherem e se conjugam em grupos associativos;
+assim comprehendida, esta expressão não allude, nem mesmo remotamente,
+quer á _origem_ d'essas idéas, quer á _natureza_ e _grau_ da affinidade
+que as liga, quer, emfim, á sua _evolução_. N'este sentido, tão
+systematisados são os delirios protogenicos como aquelles que succedem a
+estados affectivos, tanto os que constituem doenças como os que apenas
+representam syndromas, tanto aquelles em que as associações morbidas são
+activas e fortes como aquelles em que ellas são examines, passivas e
+frouxas, tanto os que marcham para a extincção pela demencia como
+aquelles que se perpetuam, tanto os continuos como os que procedem por
+accessos.
+
+N'este sentido geral ha, pois, delirios systematisados _primitivos_ e
+_secundarios_, _idiopaticos_ e _symptomaticos_, _continuos_ e
+_intermittentes, agudos_ e _chronicos_. E assim, a não ser nos casos
+extremos de mania, de demencia, de confusão mental e de idiotia, todos
+os delirios serão mais ou menos systematisados, até os que se geram na
+imbecilidade, até os que, uma ou outra vez, se desenvolvem nos periodos
+iniciaes da paralysia geral, o que não fará espanto, se nos lembrarmos
+de que a systematisação associativa é o fundamento mesmo de toda a
+actividade mental. _Verrücktheit_ é o termo empregado pela maioria dos
+auctores allemães para, exprimirem este sentido geral dos delirios
+systematisados; e se estes, como é de regra, se associam a illusões e
+allucinações, o termo _Wahnsinn_ é synonimamente empregado, se bem que
+com menor frequencia.
+
+Mas ao lado d'este sentido geral e vago, ha um outro limitado e
+restricto,--precisamente o que nas paginas precedentes vimos
+implicitamente adoptado pelos psychtatras francezes. Este novo sentido
+exclue os delirios _secundarios,_ os _symptomaticos_ e os _agudos_ para
+comprehender apenas os _primitivos_, os _idiopaticos_ e os _chronicos_.
+Na accepção restricta do termo, só são systematisados os delirios que
+não teem uma base affectiva em estados expansivos ou depressivos (mania
+ou melancolia), e que na sua evolução progressiva ou remittente, mas
+sempre continua e chronica, não offerecem tendencias para a demencia.
+Tal o delirio de perseguições, typo-Lasègue; tal o delirio ambicioso,
+typo-Foville; tal o delirio dos perseguidos-perseguidores, typo-Falret.
+
+Este sentido restricto parece ser tambem o proprio, se attendermos
+a que o termo _systema_, pedido á technologia das sciencias
+physico-mathematicas, implica a idéa de uma força _activa_ e
+_persistente_ de attracção ou de affinidade (_systemas planetarios,
+systemas de crystalisação_); por analogia, na esphera psychologica o
+_systema delirante_ deveria resultar de uma força _viva_ e _permanente_
+de associação das idéas, tal como se dá sómente nos delirios primitivos,
+idiopaticos e chronicos,--delirios movimentados, activos, tenazes.
+_Paranoia_ é o termo com que de preferencia exprimem os auctores
+allemães contemporaneos este sentido restricto dos delirios
+systematisados, quer isolados, quer succedendo-se, quer coexistindo no
+mesmo doente; e assim corresponde inteiramente á _loucura systematizada_
+dos francezes, na qual estão comprehendidas as syntheses de Morel, de
+Gérente e de Régis.
+
+Entretanto, mesmo os auctores para quem o termo _Paranoia_ tem esta
+accepção restricta e determinada, o desviam d'ella não raras vezes (o
+que é uma causa de confusão) para tomal-o no sentido geral e como
+synonimo de _Verrücktheit_ ou _Wahnsinn_; é o que faz, por exemplo,
+Krafft-Ebing que, não admittindo na sua theoria da Paranoia (_psychose
+degenerativa_) senão a fórma primaria, idiopatica e chronica, não duvida
+empregar as expressões de _Paranoia epileptica_, de _paranoia
+masturbatoria_ (_delirios syntptomaticos_), como não deixa de occupar-se
+em detalhe de uma _Paranoia Secundaria (estado terminal das
+psychoneuroses_). Note-se, porém,--e isto fará cessar toda a
+confusão--que o termo Paranoia, quando empregado n'um sentido geral
+pelos auctores a que me refiro, vem sempre seguido de um adjectivo que o
+determina; quando tomado no seu sentido restricto, ou vem só ou, quando
+muito, acompanhado de um termo que faz allusão a accidentes evolutivos
+de chronicidade ou ao contheudo das idéas delirantes, como nas
+expressões _Paranoia originaria, Paranoia adquirida_, ou ainda _Paranoia
+persecutoria, Paranoia ambiciosa_. No primeiro caso, sendo a _Paranoia_
+uma _Verrücktheit_, um _Wahnsinn_, um delirio systematisado, importa
+determinar-lhe a _especie_; no segundo, sendo uma _Primäre
+Verrücktheit_, um _Cronicher Wahnsinn_, um delirio systematisado
+primitivo e chronico, a sua especie está definida, o seu logar marcado
+na classificação, importando apenas, quando importe, designar-lhe a
+_variedade_.
+
+Posto isto, diremos que é sobre a _Paranoia_ como synthese clinica e
+doutrina equivalente em extensão á _loucura systematisada_ dos francezes
+que primeiro vae recahir a nossa attenção. Claro está que este modo de
+limitar o assumpto e de fixar-lhe a terminologia, de modo nenhum nos
+inhibe de dar na historia das doutrinas um logar áquellas em que o
+assumpto se toma n'uma extensão maior; esse logar, porém, deve ser o
+ultimo, não só porque assim o exige a clareza da exposição, mas porque
+só depois de passados em revista os delirios systematisados primitivos e
+chronicos, ácerca dos quaes ha na Allemanha uma doutrina mais ou menos
+definida, poderemos com vantagem occupar-nos dos secundarios e agudos,
+cuja controvertida existencia é um thema de infinitas e obscuras
+divagações.
+
+Quanto á terminologia por nós adoptada n'esta exposição, diremos que,
+podendo empregar indifferentemente as palavras Paranoia, Primäre
+chroniche Verrücktheit ou Chronicher Wahnsinn, faremos uso exclusivo da
+primeira, não só por um motivo de simplicidade, senão pelas razões que
+os italianos invocam para dar-lhe tambem preferencia: a sua origem
+grega, que a assemelha aos outros nomes da psychiatria; a sua
+expansibilidade internacional, que lhe vem d'essa mesma procedencia;
+emfim, a facilidade com que d'ella se fazem necessarias palavras
+derivadas, adjectivos e adverbios.
+
+Depois dos trabalhos de Snell[1], de Griesinger[2] e de Sander[3], a
+doutrina da Paranoia foi retomada em 1878 por Westphal[4], que a
+desenvolveu e aprofundou.
+
+ [1] _Über Monomanie_, 1863.
+
+ [2] _Arch. f. Psych._, 1867.
+
+ [3] _Über eine specielle Form der primäre Verrücktheit_, 1868-69.
+
+ [4] _Zeitschr. f. Psych._, 1878.
+
+Como os seus antecessores, elle insistiu na origem protogenica da
+Paranoia: a perturbação ideativa é o facto inicial, independente de
+estados affectivos preexistentes; os sentimentos depressivos ou
+expansivos que no curso d'esta psychose se observam, não são senão
+secundarios e determinados pelo contheudo das idéas hypocondriacas, de
+perseguição ou de grandezas. Ainda como os seus predecessores, Westphal
+insistiu na falta de tendencias da Paranoia para a demencia; a
+debilidade mental que por vezes se nota nos paranoicos, é prévia e não
+consecutiva, e não póde, por isso, servir para caracterisar a psychose,
+mas o terreno em que ella germina. Reconhecendo a frequencia das
+allucinações na Paranoia, Westphal notou, todavia, que ellas podem
+algumas vezes faltar; para elle a caracteristica fundamental da Paranoia
+reside na perturbação ideativa, na anomalia conceptual que, por si só e
+independentemente dos erros sensoriaes, gera as idéas delirantes
+destinadas a dominarem de um modo completo e absoluto o Eu vesanico. As
+idéas de perseguição e de grandeza podem, segundo Westphal, succeder,
+como notara Morel, á hypocondria, mas podem tambem nascer e organisar-se
+_d'emblèe_. De resto, segundo Westphal, o desvio paranoico está no modo
+de formar as idéas, não de as associar, o que explica a persistencia do
+raciocinio e a coherencia entre os actos e os pensamentos do doente.
+
+Alargando a area extensiva da Paranoia, Westphal integrou no quadro
+clinico d'esta psychose as _obsessões_, que, não offerecendo a marcha e
+evolução das idéas delirantes dos paranoicos, teem, comtudo, como ellas,
+uma origem primitiva e espontanea; d'aqui a creação de uma variedade,
+_Paranoia abortiva_ ou rudimentar ou frustre, para designar a loucura
+obsessiva ou das idéas fixas.
+
+Até aqui, como se vê, a doutrina de Westphal não differe essencialmente
+das estudadas syntheses clinicas dos psychiatras francezes. Todavia na
+sua classificação da Paranoia produziu o eminente professor de Vienna
+uma idéa que o separa dos seus predecessores francezes e allemães: de
+facto, ao lado da fórma _hypocondriaca_, já conhecida desde Morel, da
+fórma _originaria_ ou congenita, descripta antes por Sander, e da fórma
+_chronica_, de marcha progressiva ou remittente, em que _d'emblèe_ se
+produzem idéas de perseguição e de grandeza, admittiu Westphal uma
+fórmia _aguda_, caracterisada pela subita eclosão de allucinações
+principalmente auditivas e muitas vezes aterradoras, acompanhando-se de
+idéas de perseguição e levando o doente ora á incoherencia e confusão
+mental (_Verwirrtheit_) com impulsões, ora ao stupor, á prostração e aos
+estados catatonicos de Kahlbaum.
+
+A creação d'esta fórma _aguda_, que está fóra dos limites por nós
+traçados ha pouco á Paranoia, foi o ponto de partida, entre os allemães,
+das mais numerosas e mais graves dissidencias doutrinarias sobre este
+capitulo da psychiatria. Comquanto não tenhamos de occupar-nos agora
+d'este ponto, entendemos dever fazer-lhe desde já uma referencia, não só
+para não deixarmos incompleta a exposição das idéas de Westphal, mas
+para marcarmos a origem historica de uma corrente de idéas que teremos
+de estudar e precisar mais tarde.
+
+Notaremos, por fim, que Westphal só á fórma _originaria_ reconhece um
+fundo degenerativo.
+
+Fritsch[1] em 1878 insistiu nas relações entre as idéas delirantes e os
+estados affectivos, comparando o que se passa na Paranoia com o que tem
+logar na mania e na melancolia.
+
+ [1] _Psychiatr. Centralblatt_, 1878.
+
+Ao passo que n'estas psychoses o delirio surge secundariamente, e as
+idéas falsas podem, com Griesinger, considerar-se _tentativas de
+interpretação_ das emoções iniciaes depressivas ou expansivas, na
+Paranoia, ao inverso, as idéas delirantes são primitivas e os estados
+emocionaes secundarios,--meras reacções do sentimento sob o contheudo
+das idéas. Adiante voltaremos a citar este auctor, que não acceita a
+fórma _aguda_ da Paranoia.
+
+Em 1879, Schaefer[1] continuou as idéas de Westphal, pondo, comtudo,
+n'um relevo maior o papel das allucinações e illusões.
+
+ [1] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1879.
+
+Se a Paranoia essencialmente consiste no facto de que as idéas
+delirantes são acceites pelo doente como realidades e n'este sentido
+constituem o alimento habitual e ordinario de toda a sua actividade
+psychica, não deve esquecer-se que os erros sensoriaes, mais frequentes
+n'esta psychose do que em todas as outras, activam o delirio, dão-lhe
+uma base, um ponto de apoio constante, e pela sua diuturnidade criam
+para o doente um mundo phantastico, falseam-lhe o juizo e acabam por
+n'elle abolir o _senso critico_.
+
+Digamos de passagem que Schaefer acceita todas as fórmas da Paranoia
+descriptas por Westphal, incluindo a _aguda_, que teria por ponto de
+partida as allucinações.
+
+No mesmo anno, Merklin[2] descreveu pela primeira vez o delirio
+processivo (_Quaerulantenwahnn_) como variedade ou sub-grupo da
+Paranoia, encontrando-se assim no terreno da theoria com Lasègue, para
+quem, como foi dito, o delirio dos perseguidores seria uma variedade
+(_fórma activa_) do delirio de perseguições.
+
+ [2] _Studien über primäre Verrücktheit_, 1879.
+
+No seu _Tratado_, cuja primeira edição remonta a 1879, fez Krafft-Ebing
+da Paranoia um estudo completo, de uma rara e attrahente lucidez.
+Paranoia e loucura systematisada são termos e noções equivalentes;
+assim, separando-se de Westphal, regeita a fórma aguda da Paranoia e
+desintegra d'esta psychose a loucura obsessiva, no que procede á maneira
+dos auctores francezes. Mas o ponto original da sua doutrina está em dar
+á Paranoia um logar entre as degenerescencias psychicas. Duas ordens de
+considerações conduzem Krafft-Ebing a este modo de vêr; a génese e a
+evolução da doença, por um lado, os antecedentes psychopaticos dos
+doentes, por outro. Nem o modo de apparição, nem a marcha permittem
+considerar a Paranoia uma doença accidental, como o são as
+psychonevroses; pelo contrario, tudo a inculca uma psychose
+constitucional, uma doença de um cerebro tocado quer pela
+hereditariedade, quer por graves affecções capazes de irreparavelmente o
+enfraquecerem. De facto, sem obnubilação de consciencia, sem alteração
+fundamental de affectos, no goso habitual de um humor nem deprimido, nem
+exaltado, e a despeito da integridade das fórmas do raciocinio, o
+paranoico vê o mundo erradamente e é incapaz de corrigir quer as suas
+idéas, quer as suas falsas percepções. As idéas delirantes, não
+procedendo do exterior, nem resultando de emoções preexistentes pelo
+mecanismo psychologico da reflexão, vêem do inconsciente e impõem-se ao
+paranoico, do mesmo modo que se lhe impõem os erros sensoriaes: um
+excesso de subjectivismo e uma radical ausencia de senso critico, são,
+pois, as caracteristicas fundamentaes da Paranoia, cuja evolução, sem
+tendencias para a demencia ou para a cura, é essencialmente chronica. De
+resto, a banalidade das causas determinantes (que muitas vezes não são
+senão as phases physiologicas da vida: a puberdade, a menopause, etc.)
+implica uma forte predisposição congenita ou adquirida. Por outro lado,
+a historia de todos os paranoicos (e não só, como pretendia Westphal, a
+dos originarios de Sander) é a dos desequilibrados, dos candidatos á
+loucura, dos degenerados, n'uma palavra; de sorte que a doença
+representa apenas o exaggero ou _hyperthrophia_ de um caracter
+preexistente, não podendo entre ella e o estado normal traçar-se, como
+nas psychonevroses, uma nitida linha divisoria.
+
+Krafft-Ebing classificou a Paranoia pelo contheudo das idéas delirantes,
+descrevendo uma fórma _persecutoria_ com o seu sub-grupo _processivo_, e
+uma fórma _ambiciosa_ com as suas variedades _religiosa_ e _erotica_; e
+notou o sabio professor de Graz que estas fórmas podem observar-se
+isoladas e podem ora coexistir, ora succeder-se no mesmo doente. Na
+descripção da Paranoia persecutoria insistiu na passagem gradual e
+progressiva das idéas hypocondriacas ás de perseguição e d'estas ás de
+grandeza. Segundo a pratica do grande alienista, esta ultima evolução
+dar-se-hia n'um terço dos casos da doença. É de notar que Krafft-Ebing,
+ao inverso da maioria dos auctores francezes, não concedeu ao raciocinio
+o minimo papel na transformação pessoal, que se realisa pela passagem do
+delirio de perseguições ao de grandezas; o inconsciente domina, segundo
+o eminente professor, toda a evolução da doença.
+
+Póde seguramente affirmar-se que, com Krafft-Ebing, a doutrina da
+Paranoia, tomada como equivalente de loucura systematisada, recebeu na
+Allemanha os seus derradeiros desenvolvimentos. De facto, n'esta ordem
+de idéas, os psychiatras allemães que lhe succedem, nada accrescentam a
+esta construcção synthetica, ao mesmo tempo simples, elegante e
+profunda.
+
+Ulteriormente veremos que logar assignala o eminente professor aos casos
+que Westphal, Schaefer e outros incluiam na fórma aguda da Paranoia.
+
+Em 1880, Scholz[1] insistiu lucidamente nas idéas de Krafft-Ebing sobre
+o papel do inconsciente na génese dos delirios paranoicos. Os factos
+morbidos obedecem, no fundo, ás leis reguladoras dos factos normaes;
+ora, no estado physiologico, é da esphera inconsciente que procedem os
+factos psychicos destinados a tornarem-se conscientes; nos delirios
+primitivos é tambem d'essa esphera que naturalmente emergem as idéas e
+conceitos falsos. As idéas delirantes, como as idéas justas, não são,
+definitivamente, senão resultados finaes, complexos e conscientes de
+actividades elementares e inconscientes do cerebro; toda a differença
+está em que nas idéas delirantes a actividade molecular das cellulas
+corticaes se encontra pervertida. D'aqui resulta que, a não existirem,
+como não existem na Paranoia, modificações anatomicas profundas, os
+processos logicos do pensamento podem subsistir, e o doente não fará
+senão raciocinar _justo_ sobre premissas _falsas_; a apparente lucidez
+dos paranoicos não é senão isto. Mas não são susceptiveis d'esta
+explicação os casos em que o delirio tem por base as allucinações e
+illusões; o inconsciente não representa aqui um papel. Para dar conta
+d'estes casos, é necessario admittir no cerebro um estado de
+enfraquecimento, que o predispõe á falsa interpretação das percepções ou
+das excitações sensoriaes; n'esta ordem de idéas, Scholz dá aos delirios
+de base allucinatoria um caracter eminentemente asthenico, notando que
+elles se desenvolvem frequentes vezes na convalescença das doenças
+febris.
+
+ [1] _Über primäre Verrücktheit_, 1880.
+
+Em 1882, Jung[1] reeditou as idéas de Westphal e de Fritsch sobre a
+diversidade genetica dos delirios na Paranoia e nas psychoses depressiva
+ou expansiva. Notando a frequencia crescente da Paranoia, Jung attribuiu
+o facto á extensão que todos os dias toma a degenerescencia physica e
+mental da nossa especie. Isto denuncía um accordo entre este auctor e
+Krafft-Ebing sobre a pathogenia intima da doença.
+
+ [1] _Zeitsch. f. Psych_, 1882.
+
+Kraepelin[1] em 1883, retomando no seu _Compendio de Psychiatria_ as
+idéas de Krafft-Ebing sobre a Paranoia, definiu-a «uma profunda e
+duradoura transformação do Eu, essencialmente evidenciada por uma
+anomala comprehensão e elaboração das impressões internas e externas».
+Sem obnubilação da consciencia e sem vivas emoções que lhe perturbem o
+curso dos processos intellectuaes, o paranoico acceita as idéas
+delirantes, que se lhe impõem e que elle é incapaz de corrigir; esta
+_invalidade psyquica_--umas vezes congenita, adquirida outras--é, pois,
+a base e o terreno de evolução da Paranoia, que, porisso mesmo, não
+representa um mero accidente na vida de um homem são, mas uma doença
+_constituicional_, atacando nos seus mesmos fundamentos a personalidade
+psychica. Todas as relações do Eu com o exterior se encontram
+radicalmente pervertidas no paranoico; e isto não tanto pela
+interferencia das allucinações, que são apenas symptomas, como pela
+caracteristica tendencia do doente á _comprehensão egocentrica do
+mundo_. E não só as relações do Eu com o meio ambiente, mas as que elle
+mantem com o corpo, se encontram alteradas. Pelo que, ás fórmas
+_persecutoria_ e _ambiciosa_ de Krafft-Ebing, Kraepelin accrescenta,
+descrevendo-a minuciosamente, a fórma _hypocondriaca_,
+
+ [1] _Comp. der Psych._, 1883
+
+Devemos notar que Kraepelin separa da Paranoia o _delirio processivo_,
+que considera uma fórma de _loucura moral_. Baseia-se para essa
+separação em dois factos: de um lado, a ausencia de allucinações nos
+alienados litigantes; do outro, a radical incapacidade destes enfermos
+para se elevarem á noção de direito, como facto objectivo, o que
+denuncía uma suspensão de desenvolvimento psychico nos dominios ethicos,
+tal como se dá nos criminosos.
+
+Em 1883, Tuczek[2], fazendo o estudo da hypocondria, apeia-a do pedestal
+de fórma nosographica e considera-a um syndroma, ora da melancolia, ora
+da Paranoia, ora loucura obsessiva. A presença ou ausencia habitual de
+uma depressão primitiva indicará se a hypocondria symptomatisa um estado
+melancolico ou representa, pelo contrario, simples e primitivo desvio
+ideogenico. Este modo de vêr projecta uma luz intensa no assumpto,
+fazendo ás idéas hypocondriacas na Paranoia a parte que de todos os
+tempos vinha sendo feita ás idéas de perseguição e de grandeza, que não
+são, aliás, privativas da loucura systematisada. Um delirio de
+perseguições póde episodicamente symptomatisar um accesso de melancolia
+ou secundariamente estabelecer-se após elle, como um delirio de
+grandezas póde ser a expressão de um accesso maniaco; mas, ao lado
+d'estes delirios, ha uma Paranoia persecutoria e uma Paranoia ambiciosa.
+O que distingue estes casos é a lesão primitiva: da sensibilidade nos
+primeiros, da ideação nos segundos, com o delirio hypocondriaco, ora
+expressão de uma hyperesthesia dolorosa, essencial e primitiva, ora
+manifestação de um desvio ideogenico permittindo ao vesanico a habitual
+serenidade e igualdade de humor que caracterisa o paranoico. N'este
+ultimo caso a hypocondria, como justamente observara Kraepelin, não
+seria senão uma perturbação das relações do Eu com o corpo ou com as
+impressões internas, analoga á perturbação das relações d'elle com o
+mundo externo ou com as impressões sensoriaes. E assim se comprehende
+como, ao lado das fórmas _persecutoria_ e _ambiciosa_, deva dar-se no
+quadro da Paranoia um logar á fórma _hypocondriaca_, a despeito de uma
+errada tradicção que espirito faz surgir como inseparaveis as idéas de
+hypocondria e de melancolia.
+
+ [2] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1883
+
+Meynert expôz, em 1890, nas suas _Lições Clinicas_ uma interessante
+doutrina da Paranoia, diversa das perfilhadas pelos seus predecessores
+allemães. Para o sabio professor de Vienna esta psychose não
+representaria um especial desvio ideogenico de um cerebro invalido, mas
+a perturbação de um cerebro normal sob a influencia de impulsos morbidos
+que, como nos maniacos e melancolicos, dirigem as idéas. «Os affectos
+originarios, escreve, são os de defeza e de conquista. Os primeiros
+estão em relação com o sentimento de uma influencia externa; os segundos
+com o sentimento de uma força que actua sobre o exterior. São processos
+physiologicos ou, antes, indispensaveis funcções biologicas do
+organismo. Um ser animal incapaz de experimentar affectos conducentes a
+movimentos de defeza, apossar-se-hia da natureza para as suas
+necessidades, mas succumbiria sem resistencia ás nocivas acções d'essa
+mesma natureza; um ser sem movimentos de conquista, como resultados de
+affectos relativos, poderia subtrahir-se aos males da natureza, mas, por
+defeito de apropriação, morreria á falta de satisfação das proprias
+necessidades. Na illimitação das idéas de defeza da creança inexperiente
+e timida encontra-se esboçado physiologicamente o delirio de
+perseguições, como o de grandezas se encontra na mesma creança, quando
+tenta soprar á lua para apagal-a como se fôra uma vela. O delirio de
+perseguição inclue em si a angustia; na Paranoia, como na mania e na
+melancolia, isto póde representar uma relação restabelecida entre este
+sentimento e as circumstancias exteriores. Do sentimento de angustia
+conclue-se para a perseguição. Eu vou, porém, mais longe: o que
+immediatamente se associa ao sentimento de angustia, é o perigo. Perigo,
+antes de tudo, de uma doença illusoria, na hypocondria simples; perigos,
+nas idéas de violencia, em connexão com a chamada angustia
+neurasthenica; perigos, nas coisas da natureza morta--infecções,
+venenos; perigos, creados por nós proprios, como quando receiamos, por
+impulso d'outrem, cahir de uma altura. Este é o delirio de perigo. O
+delirio de perseguição refere-se, porém, a uma influencia procedente
+d'outrem, sendo certo que na Paranoia a angustia causada pelos homens
+excede a que determinam as coisas. O sentimento de defeza é n'este caso
+_anthropomorphisado_: como as suas aggressões procedem de um impulso
+humano, as que o doente receia, teem para elle analoga origem nos
+sentimentos dos homens, na vontade d'elles. Este modo de pensar não é
+especial de um estado de doença; o delirio que se lhe refere é popular,
+diffuso, quanto póde sel-o, por exemplo, a crença na religião natural.
+Todos os phenomenos favoraveis ou perniciosos, o ceu, o sol, as nuvens,
+o oceano, o fogo são assim comprehendidos n'um termo de analogia; e,
+como o homem explica as suas aggressões ou conquistas sobre o natureza
+como resultados de disposições que o estimulam, pensa elle que tambem as
+vantajosas ou maleficas influencias naturaes procedem de affectos de
+seres mais perfeitos. Com razão disse um dos mais profundos pensadores
+da época da encyclopedia que o _homem creou os deuses à sua imagem_»[1].
+
+ [1] Meynert, _Lezioni cliniche di Psychiatria_, trad. it., pag. 128.
+
+Como do sentimento de defeza fez surgir o delirio de perseguição,
+Meynert faz derivar o delirio de grandezas do sentimento de conquista; e
+como as duas ordens de sentimentos physiologicos, longe de se
+hostilisarem, coexistem no mesmo individuo e mais ou menos se implicam
+n'um fim geral de conservação, as duas ordens de delirios, persecutorio
+e ambicioso, se agregam e formam corpo no mesmo doente.
+
+D'onde vem ao paranoico o exaggero d'esses fundamentaes sentimentos de
+defeza e de conquista? Meynert não hesita em responder que elle procede
+de uma sorte da hypertrophia do sentimento pessoal, determinada por
+_sensações hypocondriacas_ ou _estimulos subcorticaes bulbares_. O
+doente sentiria mais fortemente o seu Eu; e esta emoção intensa,
+associando-se a todas as percepções, crearia um estado particular de
+consciencia no qual tudo seria interpretado egocentricamente. Uma
+_hyperesthesia psychica_ seria, pois, para Meynert, como vimos que o era
+para Gérente, o fundamento da Paranoia.
+
+Ao contrario de Krafft-Ebing, Meynert não liga uma grande importancia á
+hereditariedade como causa da Paranoia; e junto d'elle a noção
+psychiatrica da degenerescencia não tem senão um frio e reservado
+acolhimento. Para Meynert a etiologia não fornece, nem fornecerá nunca a
+base de uma classificação natural das psychoses; essa base tem de ser
+procurada na anatomia pathologica, na lesão do cerebro. Na Paranoia essa
+lesão seria um processo atrophico do manto cerebral.
+
+O conceito da degenerescencia psychica não encontra em Mendel[1] melhor
+acolhimento do que em Meynert. Occupando-se em 1883 da Paranoia, n'um
+extenso trabalho a que teremos de alludir ainda, Mendel apenas concedeu
+fóros de degenerativa á fórma originaria de Sander.
+
+ [1] _Die Paranoia_, 1883.
+
+Pelo seu lado, Schüle[2], em 1886, só considerou francamente
+degenerativas as fórmas _originaria_ e _processiva_, por elle descriptas
+no seu _Tratado Clinico_ dentro do grupo das psychoses hereditarias,
+entre a loucura obsessiva e a loucura moral.
+
+ [2] _Klinische Psychiatrie_, 1886.
+
+Mendel, distinguindo a obsessão da idéa delirante, separa da Paranoia a
+fórma _abortiva_ de Westphal. Ao contrario, Salgo[3] vê na loucura
+obsessiva uma fórma frustre ou incompleta da Paranoia, porque para elle
+a obsessão e a idéa paranoica teem a mesma génese: uma e outra surgem
+primitiva e espontaneamente n'um cerebro fraco. Para este auctor, com
+effeito, a _debilidade de espirito_, no sentido do que outros chamam
+_invalidade psychica_ e _ausencia de senso critico_, representa na
+Paranoia um papel fundamental. Poderiamos inscrever, ao lado dos nomes
+até aqui citados, os de Koch, Arndt, Weiss, Pelman, Samt, outros ainda,
+tão vasta é na Allemanha a bibliographia do assumpto que nos occupa; não
+accrescentariamos, porém, com isso o quadro doutrinario da Paranoia como
+conceito equivalente ao de Loucura Systematisada dos auctores francezes.
+Passemos, pois, á exposição dos trabalhos em que um tal conceito se
+altera pela integração de uma fórma _aguda_, sem precedentes quer em
+França, quer na Allemanha, antes de 1878.
+
+ [3] _Compend. der Psychiatrie_, 1887.
+
+Foi Westphal, como dissemos, quem primeiro admittiu a existencia de uma
+variedade da Paranoia procedendo de estados allucinatorios primitivos e
+apresentando na sua marcha ora a confusão mental da mania, ora a
+depressão stuporosa da melancolia. Tal era a Paranoia aguda do professor
+de Vienna, desde logo perfilhada por Schaefer e tambem desde logo
+rudemente combatida por Fritsch e outros.
+
+Sem extemporaneos intuitos de critica, mas n'um unico fim de ordenar
+idéas, accentuemos, antes de tudo, as differenças que separam as fórmas
+aguda e chronica da Paranoia.
+
+Segundo as doutrinas recebidas de Snell, de Griesinger, de Sander, do
+proprio Westphal, dois factos caracterisam principalmente a fórma
+chronica: de um lado, a primitividade das idéas delirantes, que ao
+espirito se impõem á maneira de obsessões; do outro, a integridade da
+associação logica dos pensamentos, explicando a resistencia dos doentes
+á demencia.
+
+Na fórma aguda, o contrario teria logar: as allucinações seriam o facto
+primordial, e a associação das idéas achar-se-hia fundamentalmente
+compromettida quer por um exaggero até á fuga, quer por um affrouxamento
+até á suspensão. Na fórma chronica, as allucinações, constituindo um
+symptoma secundario e mesmo fallivel, são tributarias das idéas
+delirantes a cujo contheudo se subordinam (depressivas e hostis no
+delirio persecutorio, expansivas e benevolas no ambicioso); na fórma
+aguda, pelo contrario, sendo um facto primitivo e essencial, as
+allucinações teriam sob a sua dependencia os conceitos delirantes (de
+perseguição sob vozes hostis, de grandeza sob audições lisongeiras).
+Quanto á associação das idéas, não ha na fórma chronica mais do que um
+desvio inicial de orientação, sem compromisso da consciencia e sem perda
+de lucidez; pelo contrario, na fórma aguda a precipitação das idéas
+poderia levar o doente á incoherencia e á dissociação da mania, como o
+affrouxamento do seu curso o poderia conduzir á fixidez melancolica ou
+mesmo, sob a acção inhibitoria de allucinações terrorisantes, a estados
+de catatonia. Estas differenças de marcha implicam naturalmente a de
+prognostico: a fórma chronica não cura e não conduz por si mesma á
+demencia; pelo contrario, a fórma aguda terminaria umas vezes pela cura,
+outras pela abolição das faculdades.
+
+Assim, tanto a subordinação dos symptomas como a terminação separam as
+duas fórmas. O que as une então? O contheudo das idéas delirantes, que
+são sempre, n'uma e n'outra, reductiveis ás tres conhecidas cathegorias:
+hyponcondriacas, persecutorias e ambiciosas, sobretudo ás duas ultimas.
+
+É este, com effeito, para todos os que admittem uma Paranoia aguda, o
+traço clinico de ligação entre esta fórma e a outra. Que exista uma
+perturbação de consciencia ou até mesmo uma inconsciencia mais ou menos
+duradoura; que o delirio se acompanhe de allucinações em massa de todos
+os sentidos; que haja manifesta incoherencia, pouco importa, desde que,
+como diz Mendel, se possam reconhecer os dois typos de ideação:
+persecutorio e ambicioso. Muitas vezes, como o mesmo Mendel o confessa,
+o diagnostico differencial entre a Paranoia aguda e a mania com
+predominio de allucinações seria difficil de estabelecer. D'esta sorte,
+no quadro da Paranoia entram não só os delirios systematisados, mas até
+os dissociados e incoherentes, uma vez que as idéas de perseguição ou de
+grandeza n'elles predominem ou mesmo _tendam_ a predominar, como alguns
+escrevem.
+
+É necessario, entretanto, reconhecer que Schüle, achando, talvez,
+demasiadamente frouxo, como unico laço de união entre fórmas por muitos
+symptomas diversas e até antinomicas, o contheudo das idéas delirantes,
+tenta a approximação das duas Paranoias sobre um terreno de evolução,
+notando que dos casos agudos aos chronicos e d'estes áquelles a
+transição se póde fazer sem violencia, antes insensivelmente. Depois,
+com effeito, de ter accentuado (como acabamos de fazel-o) todos os
+symptomas que separam as fórmas chronica e aguda, Schüle escreve: «Estas
+differenças, porém, caracterisam apenas os casos extremos do delirio
+systematisado chronico e agudo; ha casos intermedios em que
+manifestamente se revella o parentesco d'estas duas fórmas. De modo que
+o importante grupo da fórma aguda não é senão a repetição da fórma
+chronica: é um delirio de perseguição, uma interpretação delirante com
+erros sensoriaes e raciocinio falso que abre a scena, sendo ainda
+possiveis ao principio as percepções exactas. Ao mesmo tempo que a
+consciencia se torna mais obscura, produz-se um delirio expansivo de
+fórma mystica ou erotica; o Eu conserva-se, sem poder distinguir as
+percepções exactas das allucinações que se unem e entre si se prendem
+systematicamente. Este estado representa o delirio systematisado agudo
+por excellencia. Por vezes este aspecto clinico mantem-se, mas póde
+tambem mudar, como acontece nos casos de affeções agudas e febris: as
+allucinações tornam-se predominantes, variaveis, e trata-se então de um
+d'esses casos extremos de que fallamos. Por outro lado, a fórma chronica
+apresenta muitas vezes exacerbações que não são, pela fórma e pelo
+fundo, senão o delirio systematisado com allucinações; o começo,
+sobretudo, da doença offerece este aspecto. O delirio systematisado
+agudo, quando não cura, torna-se uma fórma chronica com allucinações e
+systematisação parcial. Todas estas transições demonstram que as
+differenças notadas não são essenciaes e que estas fórmas, apesar de
+variadas, são visinhas»[1].
+
+ [1] Schüle, _Traité clinique des maladies mentales_, trad. fr., pag.
+122.
+
+A citação que acabamos de fazer, synthetisando as idéas de quantos
+acceitam hoje na Allemanha a Paranoia aguda, dispensa-nos de toda uma
+erudita, mas inutil _étalage_ de nomes proprios; por ella se fica
+sabendo o que pensam do parentesco das duas fórmas os que, desde
+Westphal, as admittem ambas. Entretanto, não será ocioso fixar idéas
+sobre este ponto por uma nova e caracteristica citação de Schüle: «Uma
+analyse minuciosa, escreve este psychiatra, revella differenças entre
+todos os casos que entram n'este grupo tão consideravel de psychoses,
+direi mesmo, d'este grupo que é de todos o maior. Assim, devem
+distinguir-se casos intermediarios n'este vastissimo grupo dos delirios
+systematisados. Os casos chronicos approximam-se tanto, no ponto de
+vista dos symptomas, do delirio systematisado dos degenerados, de que
+muitas vezes offerecem a physionomia clinica, quanto os casos agudos se
+approximam das psychonevroses (melancolia e certas fórmas de stupor com
+allucinações). Estas relações devem ser cuidadosamente notadas. Assim,
+distingue-se, em regra, nitidamente o delirio systematisado agudo, da
+melancolia, pela mediocre importancia da perturbação primitiva do humor,
+que é n'esta, pelo contrario, um elemento psychico duravel, que produz e
+domina toda a doença; entretanto, o delirio systematisado agudo contém
+tambem um grupo demonomaniaco, o qual não só apresenta um sentimento
+depressivo intenso (panophobia), mas succede a um estado de verdadeira
+depressão, de caracteristica diminuição do sentimento da personalidade,
+de illusões e de allucinações de caracter triste. O mesmo acontece com o
+stupor. Em regra, o stupor typico (_atonito_) póde nitidamente
+distinguir-se do delirio systematisado agudo, que não apresenta as
+caracteristicas ausencia de percepção e falta absoluta de vontade; mas o
+stupor com allucinações (_pseudo-stupor_) está evidentemente ligado á
+variedade do delirio systematisado agudo em que a intelligencia
+obscurecida tem phases passageiras de semi-lucidez. Poderiamos chamar a
+este estado a fórma estupida do delirio systematisado agudo tanto como o
+stupor com allucinações; a génese e a marcha da doença permittiriam uma
+e outra coisa. Assim, póde definir-se e conceber-se todo este grupo do
+delirio systematisado agudo como sendo, em summa, a repetição de certas
+psychonevroses melancolicas, maniacas e estupidas em que a consciencia
+se acharia _completamente perturbada pelo delirio_ (estado do
+sonho)»[1].
+
+ [1] Schüle, _Obr. cit._, pag. 123.
+
+Estas palavras de Schüle, pondo em relevo a immensuravel extensão da
+Paranoia no conceito de alguns psychiatras allemães, permittem-nos
+interpretar expressões, aliás frequentes, que parecem meros jogos de
+termos, que um accidente de composição typographica juntou: tal, por
+exemplo, a da _Paranoia dissociativa_, de Ziehen. Só quem tiver em
+vista que a fórma aguda integra situações mentaes que vão desde a
+obnubilação até á fuga das idéas, desde a somniação até á catatonia,
+póde comprehender que um termo creado para exprimir a idéa de
+_systematisação_ se adjective por uma palavra synonima de
+_incoherencia_.
+
+Como já dissemos, a idéa de uma Paranoia aguda, primeiro enunciada por
+Westphal e logo acceite por um grande numero de alienistas allemães, foi
+vivamente combatida desde todo o principio por muitos outros. Defensores
+e adversarios d'essa idéa constituem hoje duas escólas nitidamente
+separadas, como temos tentado mostrar nas paginas precedentes. O nosso
+estudo d'este assumpto seria, comtudo, incompleto, se não dissessemos de
+que maneira os adversarios da Paranoia aguda interpretam os casos
+clinicos expostos como pertencendo a esta fórma. Que pathogenia teem e
+que logar occupam na classificação das psychoses, uma vez eliminada a
+Paranoia aguda, os delirios, tão numerosos, em que idéas de perseguição
+e de grandeza surgem sem systematisação completa, sem coherencia até,
+acompanhadas de vivos estados allucinatorios, seguindo uma evolução
+irregular e marchando tantas vezes para a cura?
+
+A resposta a esta questão, já formulada, talvez, no espirito do leitor,
+vae permittir-nos completar a differenciação das duas escólas, pondo em
+mais alto relevo o caracteristico espirito das doutrinas de cada uma.
+
+Dizer que esses delirios persecutorio e ambicioso de marcha aguda estão
+fóra da Paranoia, porque são diversos d'ella pelo começo, pela
+terminação, pela hierarchia mesmo dos symptomas, não basta, porque
+precisamente se discute se a Paranoia deve ter a limitada extensão que
+uma tal doutrina lhe assignala ou, pelo contrario, alargar-se para
+abranger novos grupos de factos clinicos. Schüle, Mendel e Cramer (para
+não citarmos senão os principaes e mais modernos defensores da Paranoia
+aguda), acceitando como perfeitamente distinctos e até apparentemente
+contrarios os casos _extremos_ das duas fórmas, sustentam, comtudo, que
+a fusão d'ellas se estabelece pelo exame dos casos _de transição_, em
+que os motivos differenciaes se esbatem.
+
+Ora, sabendo-se que em sciencias naturaes, desde que n'ellas penetrou o
+criterio evolutivo, deixaram de existir grupos definitivos e fechados,
+importa considerar este argumento. E é por isso que não podemos
+prescindir de saber como interpretam os pretendidos casos de Paranoia
+aguda aquelles que apenas admittem uma Paranoia chronica.
+
+Fritsch, um dos primeiros a combater a noção da Paranoia aguda, designou
+esses casos sob o nome _Verwirrtheit_ ou confusão mental, fazendo-os
+depender de uma fraqueza irritavel ou esgotamento nervoso dos
+hemispherios cerebraes, que póde observar-se como syndroma ou como
+complicação da maior parte das psychoses e, portanto, da Paranoia.
+Decerto, a _Verwirrtheit_ offerece, como a Paranoia, idéas delirantes e
+allucinações; estes symptomas communs, porém, não são da natureza,
+segundo Fritsch, a permittir a confusão entre uma _doença_, de marcha
+gradual, em que se dá uma transformação da personalidade, e um simples
+_estado_ transitorio, um mero _syndroma_ de innumeras psychoses
+funccionaes e organicas.
+
+Pelo seu lado, Krafft-Ebing, que á Paranoia dá um logar entre as
+degenerescencias psychicas ou psychoses constitucionaes, relega os
+pretendidos casos de Paranoia aguda para o delirio sensorial,
+_Hallucinatorischer Wahnsinn_, que elle colloca entre as psychonevroses
+ou psychoses accidentaes, ao lado da mania e da melancolia.
+
+Como Fritsch, Krafft-Ebing faz esses casos tributarios de uma asthenia
+cerebral. De facto, segundo elle, o _Hallucinatorischer Wahnsinn_
+reconhece por causas as doenças febris, infecciosas, neurasthenisantes;
+a sua caracteristica é um enfraquecimento cerebral _d'emblèe_, ou
+passageiro e curavel ou rapidamente demencial, impedindo todo o trabalho
+de systematisação delirante. A passagem do _Hallucinatorischer Wahnsinn_
+á Paranoia é, pois, impossivel.
+
+Para Kraepelin os pretendidos casos de Paranoia aguda entrariam quer na
+_Hallucinatorische Verwirrtheit_, quer no _Hallucinatorischer Wahnsinn_.
+A primeira d'estas psychoses é uma confusão mental devida a um
+esgotamento agudo do cerebro; a segunda é um delirio pouco coherente, da
+marcha rapida e terminação favoravel, em que as allucinações representam
+o principal papel, subordinando a si o estado emotivo e as idéas falsas.
+A distincção entre estas duas doenças não parece muito nitida; como quer
+que seja, ambas se distinguem profundamente, segundo Kraepelin, da
+Paranoia, que consiste n'uma lenta e intima transformação da
+personalidade, sem obnubilação da consciencia e sem perturbações
+fundamentaes do humor.
+
+Mayser[1] considera os mesmos casos de Paranoia aguda como exemplares de
+_Delirio asthenico_, analogos aos produzidos pelas intoxicações
+medicamentosas ou outras; a obnubilação da consciencia e a confusão
+mental, devidas a um esgotamento do cerebro, seriam as caracteristicas
+d'este delirio.
+
+ [1] _Zur sogennanter hallucinatorischer Wahnsinn_.
+
+Meynert[2] pertence ao numero dos que contestam a existencia de uma
+Paranoia aguda. Os casos expostos como taes, são por elle estudados sob
+o nome da _Amencia_, especie de confusão mental, ora idiopathica, ora
+symptomatica, tributaria de uma fraqueza irritavel, de um exhaurimento
+do cerebro e podendo manifestar-se tanto por symptomas de stupor, como
+por excitação acompanhada de vivos e multiplos estados allucinatorios. O
+predominio de phenomenos neurasthenicos sobre os irritativos explicaria
+os casos que difficilmente se distinguem da melancolia, como,
+inversamente, o predominio de phenomenos irritativos sobre os
+depressivos explicaria os casos que a custo se distinguem dos delirios
+maniacos, agudos e sobreagudos.
+
+ [2] _Obr. cit._, pag. 27 e seg.
+
+As causas da _Amencia_ seriam todos os accidentes capazes de produzir
+mais ou menos rapidamente o esgotamento cerebral: choques moraes
+intensos n'um individuo debilitado, onanismo abusivo, doenças febris,
+puerperio, intoxicações, traumatismos, molestias infecciosas, outros
+ainda. A hereditariedade não exerceria senão um papel subalterno. A
+marcha da _Amencia_ seria sempre aguda e a terminação far-se-hia pela
+morte, pela demencia ou pela cura ao fim de um tempo variavel entre
+algumas semanas e alguns mezes. As recidivas seriam para receiar. De
+resto, a Amencia póde complicar grande numero de psychoses, não sendo
+raro que surja como um episodio na marcha da Paranoia. Meynert insiste,
+porém, sobre o diagnostico differencial entre a Amencia e a Paranoia
+que, mesmo coincidindo temporariamente, conservam a sua physionomia
+propria. Da Amencia não póde passar-se a outra psychose que não seja à
+demencia, termo natural das psychopatias que não curam.
+
+Tal é, pela voz dos seus mais illustres representantes, a theoria que
+rejeita a existencia de uma Paranoia aguda. Esta designação
+representaria um mal-intendido, pois que os casos clinicos por ella
+cobertos não seriam senão expressões de uma asthenia cerebral, quer
+idiopatica e primitiva, quer symptomatica e secundaria, profundamente
+diversa, não só pelos _symptomas_ e pela _marcha_, mas ainda pelas
+_causas_, da Paranoia. Que essa, asthenia com todo o seu cortejo de
+phenomenos ora stuporosos, ora maniacos, venha intercalar-se na marcha
+da Paranoia em algum dos periodos d'esta, é incontestavel; que devamos
+confundir as duas entidades morbidas é, porém, insustentavel, porque,
+desde os symptomas até ás causas, desde a marcha até á terminação, tudo
+se conspira para as separar.
+
+Os casos de delirio agudo em que retalhos de conceitos persecutorios e
+ambiciosos apparecem de mistura com erros sensoriaes, não seriam, pois,
+exemplares da Paranoia; seriam casos de _Verwirrtheit_, de
+_Hallucinatorischer Wahnsinn_, de _Hallucinatorische Verwirrtheit_, de
+_Amencia_, n'uma palavra, de _confusão mental_ asthenica. E a mistura
+possivel dos symptomas agudos d'essa confusão com os symptomas chronicos
+da Paranoia, não significam, como pretende Schüle, a passagem ou
+_transição_ entre duas fórmas de uma mesma doença, mas a _coexistencia_
+de duas psychoses distinctas n'um unico doente.
+
+Duas palavras ainda sobre a Paranoia secundaria antes de fecharmos a
+historia dos trabalhos germanicos.
+
+Vimos quanto esta noção dominante nos inicios da psychiatria allemã, foi
+perdendo terreno á medida que se elevava a de Paranoia primitiva. O nome
+não chegou nunca a desapparecer, graças á tradição; mas o conceito de
+Paranoia secundaria foi posto em contraste como o de Paranoia primitiva.
+Esta seria uma doença; aquella, um _estado terminal_, apenas, da
+melancolia ou da mania, uma _étape_ d'estas psychoses na sua marcha para
+a extincção definitiva. Tal em Krafft-Ebing, por exemplo, nos apparece a
+Paranoia secundaria: um prefacio da demencia vesanica, uma situação
+mental pouco definida e transitoria, correspondendo ao que os
+psychiatras francezes denominaram em todos os tempos a _demencia
+incompleta_.
+
+E assim devia ser. Entre o formidavel processo da Paranoia primitiva,
+tão movimentado, tão independente, tão cheio de cambiantes evolutivas, e
+o estado predemencial, tão pallido que os seus symptomas não são já
+senão residuos de psychoses moribundas--pedras de um edificio em ruinas,
+taboas de um navio em naufragio--nenhuma approximação pathogenica ou
+nosologica era, com effeito, possivel.
+
+Mas comprehende o leitor que esta situação tenha variado a partir do
+momento em que o conceito da Paranoia primitiva foi remanuseado e os
+seus severos moldes partidos pelos iconoclastas, introductores da fórma
+aguda. Desde que não repugna admittir que da confusão mental se passe á
+Paranoia, menos repugnará crêr que a ella se trasite da mania e da
+melancolia. E, de facto, os auctores que admittem a fórma aguda da
+Paranoia, acceitam igualmente a secundaria.
+
+ * * * * *
+
+Datam apenas de 1882 os trabalhos da psychiatria italiana sobre os
+delirios systematisados; são elles, porém, de um tão grande valor
+intrinseco e de uma tão alta originalidade, algumas vezes, que o seu
+logar na historia contemporanea está definitivamente marcado.
+
+A primeira memoria a citar sobre o assumpto é a de Buccola: _Sui delirii
+sistematisati_. Não tanto pela novidade das proprias idéas como pela
+clareza com que expõe e commenta as doutrinas germanicas, ainda então
+quasi desconhecidas fóra do paiz originario, é notavel este trabalho do
+mallogrado escriptor italiano.
+
+Na debatida questão da génese do delirio, Buccola hesita em affirmar com
+Krafft-Ebing a constante prioridade das idéas sobre as allucinações, do
+desvio conceptual sobre os erros sensoriaes. «A génese do delirio,
+escreve, não é em todos os casos nitidamente delimitada e não sabemos
+definitivamente se as allucinações precedem ou succedem sempre o
+desenvolvimento das idéas delirantes e se estes devem considerar-se
+tentativas de interpretação ou antes, á maneira de Samt, productos da
+vida psychica inconsciente»[1]. Quanto ao especial terreno sobre que
+assentam os delirios systematisados, é Buccola decisivo, affirmando com
+Weiss que elles traduzem uma invalidade mental; e este modo de vêr,
+apoia-o Buccola sobre o criterio etiologico, vista a preponderancia da
+hereditariedade na loucura systematisada, e ainda no prognostico, porque
+a doença é, maioria dos casos, estereotypada e insusceptivel de cura,
+comquanto capaz de remissões.
+
+ [1] Buccola, _Sui delirii sistematisati_, in _Rivista di Freniatria_,
+vol. VII.
+
+O estudo de Buccola, que fizera na Allemanha o seu noviciado
+psychiatrico, foi para a sciencia italiana, adormecida sobre os
+conceitos francezes, a denuncía de um mundo novo a explorar. E desde
+logo, com effeito, um fecundo movimento de inquerito aos delirios
+systematisados surgiu e se affirmou por estudos de uma profundidade e
+originalidade imprevistas.
+
+Pondo de parte todos os trabalhos (e são numerosos) que se limitam, como
+o de Buccola, a expôr ou a commentar as idéas germanicas, faltaremos
+sómente dos que, pela novidade dos seus pontos de vista, implicam
+modificações evolutivas no conceito da Paranoia. N'esta ordem de idéas
+são a mencionar, sobretudo, as memorias de Tanzi e Riva e de Tonnini.
+
+O trabalho dos dois primeiros escriptores é dos mais importantes e, como
+vae vêr-se, dos mais originaes.
+
+Para estes auctores Paranoia e delirio systematisado são conceitos
+diferentes, noções que importa não confundir: o delirio systematisado é
+um syndroma clinico, um _grupo symptomatico_ apenas, ao passo que a
+Paranoia representa uma _constituição morbida_, que o atavismo explica.
+Exteriorisando-se as mais das vezes por um delirio systematisado, a
+Paranoia póde, todavia, existir sem elle; d'aqui a variedade que os
+auctores denominam _Paranoia indifferente_, isto é, desacompanhada de
+delirio.
+
+O que é então a Paranoia, segundo Tanzi e Riva? De dois modos a definem
+e fazem comprehender estes auctores: descriptivamente, pela menção dos
+seus symptomas, da sua etiologia e da sua marcha; pathogenicamente, pelo
+exame das suas origens.
+
+Descriptivamente definida, a Paranoia é para Tanzi e Riva «uma psychose
+funccional de fundo degenerativo, caracterisada por um particular desvio
+das mais elementares operações intellectuaes, não implicando nem uma
+gravissima decadencia nem uma desordem geral; que se acompanha quasi
+sempre de allucinações e idéas delirantes permanentes mais ou menos
+coordenadas em systema, mas independentes de qualquer causa occasional
+constatavel ou de qualquer condição morbida emotiva; que tem uma
+evolução nem sempre uniforme ou continua, mas essencialmente chronica; e
+que, em geral, não tende por si mesma para a demencia»[1].
+
+ [1] Tanzi e Riva, _La Paranoia,_ in _Rivista di Freniatria_, vol. x,
+ pag. 293.
+
+A analyse d'esta definição, que a pathogenia tem de completar, permitte
+reconhecer, antes de tudo, a posição dos auctores em face das diversas
+doutrinas allemãs. Declarando a Paranoia uma psychose _degenerativa_, de
+marcha essencialmente _chronica e sem precedentes de emotividade
+morbida_, Tanzi e Riva excluem resolutamente do quadro da doença os
+delirios systematisados _secundarios_, que succedem á mania e á
+melancolia, e bem assim os _agudos_, admittidos pela escóla de Westphal.
+Constatando, além disso, a ausencia, na génese da psychose, quer de
+causas occasionaes apreciaveis, quer de perturbações morbidas de
+sentimento, os auctores affirmam a origem _inconsciente_ do desvio
+intellectual, que não póde tomar-se, porque é primitivo, á conta de
+interpretação de estados emotivos. Emfim, declarando que a Paranoia não
+implica uma desordem geral, mas ideativa, não tendendo por si mesmo para
+a demencia, Tanzi e Riva accentuam que ella consiste n'uma
+_degenerescencia intellectual_.
+
+Como se vê, é ao lado de Krafft-Ebing e em opposição a Schüle e a Mendel
+que os escriptores italianos se collocam. Mas no que elles se desviam de
+todos os psychiatras, assim franceses como allemães, é na affirmação da
+não essencialidade das idéas systematisadas na Paranoia; esta é a parte
+original e absolutamente imprevista da definição. Contrariamente ás
+idéas recebidas, o desvio ideativo que caracterisa a Paranoia não é
+sempre, segundo Tanzi e Riva, embora o seja na maioria dos casos, um
+delirio systematisado. É uma coisa diversa, em que pensaram Lombroso,
+creando a designação de _mattoide_, Maudsley, fallando de um
+_temperamento vesanico_, Moreau, traçando a zona indisdincta das
+_fronteiras da loucura_. O que é, pois? Um excesso de subjectivismo
+alterando fundamentalmente as relações do individuo com o mundo
+exterior, comprehendido o social, e tomando, n'este assumpto,
+radicalmente impossivel toda a justeza da critica. Lucido bastante para
+interpretar as coisas e os homens nas suas relações objectivas, o
+paranoico, uma vez em jogo a sua personalidade, vê tudo erradamente,
+como por interposta lente deformante. O Eu, medida de todas as coisas, é
+no paranoico um instrumento infiel e falso, porque vicia aquellas que o
+interessam, as que com elle directamente se relacionam; a
+_egocentricidade_ é, pois, o essencial _desvio_ e o incorrigivel _erro_
+do Eu paranoico. Accentuando-se de ordinario n'um delirio systematisado
+persecutorio, ambicioso ou erotico, elle póde ficar áquem, no dominio
+das idéas falsas, mas não absurdas, chimericas, mas não ainda
+inverosimeis ou repugnantes; d'aqui a Paranoia indifferente, que os
+auctores illustram de uma maneira magistral.
+
+D'onde procede esse desvio que nenhuma causa occasional explica? Se
+pensarmos que a evolução intellectual da humanidade se faz no sentido de
+um subjectivismo decrescente, isto é, de uma subordinação cada vez maior
+do Eu ao mundo exterior, de que somos apenas uma parcella, o excesso de
+subjectivismo apparecer-nos-ha como um retrocesso, uma regressão, e o
+paranoico, portanto, como um documento de atavismo.
+
+Tal é, na sua essencia, a doutrina de Tanzi e Riva a que cremos dever
+applicar a designação de _anthropologica_, porisso que, segundo ella, o
+paranoico é muito menos um _doente_, no sentido commum d'este termo, do
+que a revivescencia intellectual de velhos typos ancestraes da especie.
+
+
+«Não é em si mesma, escrevem Tanzi e Riva, mas em relação ao tempo em
+que se produz, que uma idéa póde considerar-se morbida; a pathologia do
+conceito delirante reside sobretudo no _anachronismo_» [1]. E, de facto,
+idéas e opiniões que hoje são delirantes, foram modos de vêr correntes
+em épocas mais ou menos afastadas. Mas não se conclua d'aqui que é
+paranoico todo o homem que n'um dado assumpto pensa como o fizeram
+remotos antepassados.
+
+ [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 305.
+
+Que um negro, uma creança ou um inculto camponez tenham do Universo uma
+grosseira concepção anthropomorphica, nada mais natural; que a tenha,
+porém, um branco de maior idade e scientificamente educado, eis o que
+denuncía um desvio paranoico da ideação. Que um rude marinheiro
+analphabeto responsabilise o seu santo de um naufragio ou lhe agradeça
+com offerendas uma viagem feliz, não é caso para espanto; que faça o
+mesmo um almirante, eis o que revellaria uma ideação paranoica. As
+raças, as idades e as classes (que são raças sociaes) teem cada uma a
+sua psychologia; e é dentro d'ella e pelos principios d'ella que os
+conceitos teem de ser afferidos. Um homem tendo as crenças dos da sua
+raça, do seu paiz, da sua idade, da sua classe e do seu nivel cultural,
+não é um paranoico, por falsas que essas crenças sejam; para que possa
+fallar-se da Paranoia é preciso que uma _regressão_ ideativa se realise.
+
+Na parte critica do nosso trabalho insistiremos sobre este e outros
+pontos. Por agora resta-nos sómente resumir a documentação do atavismo
+paranoico, tal como a apresentam os dois illustres psychiatras.
+
+Tanzi e Riva fazem notar em primeira linha a crença profunda e
+inabalavel dos paranoicos nas suas concepções delirantes, mau grado
+todos os raciocinios que as demonstram falsas, mau grado a evidencia
+dos factos, que as contradicta, e a realidade das coisas, que as choca;
+essa crença, inaccessivel a argumentos, superior a controversias,
+resistente ás suggestões do mundo objectivo, é verdadeiramente uma
+_fé_--tão integral e tão pura como a das velhas almas religiosas em face
+dos dogmas e das doutrinas revelladas. De uma intensidade inversamente
+proporcional ao seu fundamento logico, a fé paranoica não encontra hoje
+equivalente a não ser nos povos barbaros ou nos simples de espirito.
+
+Um novo documento da natureza degenerativa e atavica da Paranoia
+encontra-se no proprio contheudo do delirio, sobretudo nas idéas de
+perseguição, que representam uma phase de _lucta_ incompativel com os
+tempos actuaes e apenas possivel e necessaria em épocas anteriores á
+constituição do direito e ao reconhecimento das garantias individuaes.
+
+Como importante caracter degenerativo e prova de que o paranoico
+representa um producto inferior, referem os auctores o conjuncto de
+anomalias _psycho-sexuaes_ que só nos imbecis se encontram com a mesma
+frequencia e fórma. Indo do onanismo ao _horror feminae_ por innumeras
+cambiantes, essas anomalias, se não produzem o effeito da impotencia
+material, tornam o paranoico inadequado ao amor e ao matrimonio. «A
+extracção forçada de esperma por machinas electricas, a copula
+imaginaria com pessoas reaes, os mysticos commercios carnaes com entes
+nebulosos e imaginarios representam outros tantos aspectos, escrevem os
+auctores, das condições de inferioridade sob o ponto de vista da
+existencia da especie, em que se despenha o paranoico muitas mais vezes
+do que qualquer outro alienado»[1].
+
+ [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307.
+
+Emfim, ha na symptomatologia da Paranoia um grupo particular de factos
+de procedencia atavica evidente: taes são os que se designam pelas
+expressões syntheticas de _symbolismo_ e _allegorismo_. «Os complicados
+arabescos, as figuras allegoricas, os gestos e altitudes cabalisticas,
+as interpretações phantasticas de factos naturaes, os jogos de palavras,
+os neologismos, e o _argot_ individual que na Paranoia pullulam, dão ao
+delirio uma côr tão viva e tão grotesca, dizem os escriptores italianos,
+que o fazem reviver nas mais remotas phases da evolução historica da
+cultura. Lembram a escripta cuneifórme e hyerogliphica exprimindo
+material e figuradamente os conceitos abstractos, a conservação dos
+amuletos symbolisando as almas dos santos, a vivificação dos phenomenos
+naturaes, as evocações d'alemtumulo, os themas da alchimia medieval e da
+magia arabe, as cerimonias hyeraticas de velhos tempos, importadas do
+mysticismo oriental. Cada uma d'estas duas séries de factos,
+encontrando-se, de um lado, nos paranoicos, do outro, nos povos
+primitivos, exprime uma condição psychica commum»[1].
+
+ [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307.
+
+Tem a data de 1884 o trabalho eminentemente original que acabamos de
+resumir.
+
+A idéa de uma constituição paranoica, essencialmente degenerativa,
+recebe n'elle a consagração pathogenica. A Verrücktheit de Krafft-Ebing
+e da sua escóla é ainda um delirio systematisado, cuja primitividade,
+estabelecida pela clinica, não encontra uma clara interpretação; a
+Paranoia de Tanzi e Riva é pura e simplesmente uma degenerescencia
+intellectual, que a doutrina da evolução permitte comprehender. A
+Verrücktheit era com os allemães um conceito _medico_; a Paranoia, que
+d'elle deriva por natural desdobramento historico, tornou-se com os
+italianos, uma doutrina _anthropologica_.
+
+Mas não se esgotou com a memoria de Tanzi e Riva, a cujas idéas, seja
+dito de passagem, deram a sua adhesão Amadei, Tamburini, Morselli e
+outros, a fecundidade original da psychiatria italiana n'estes dominios.
+Tres annos depois, em 1887, surge o estudo de Tonnini sobre a _Paranoia
+secundaria_--um velho thema visto a uma nova luz. De facto, não é a
+primitiva concepção de Griesinger que Tonnini reedita: a Paranoia
+secundaria do auctor italiano não é Secundäre Verrücktheit do allemão,
+uma psychonevrose prefaciando uma demencia, um delirio systematisado
+feito dos residuos ideativos da mania e da melancolia; é antes uma fórma
+hybrida, participando ao mesmo tempo dos caracteres da psychonevrose e
+da degenerescencia.
+
+Demos, porém, a palavra ao escriptor italiano: «A Paranoia secundaria
+diz elle, é uma psychopatia que se affirna por delirio e caracter
+paranoico mais ou menos accentuados sobre um fundo de debilidade mental
+invasora, como terminação de uma psychonevrose que, desarranjando o
+equilibrio de um cerebro já de si invalido, reforça processo
+degenerativo, abreviando-lhe a evolução e concentrando n'um mesmo
+individuo os caracteres de um série pathologica»[1].
+
+ [1] Tonnini, _La Paranoia Secundaria_ in _Rivista di Freniatria_, vol.
+ XIII, pag. 61.
+
+Como d'esta definição se vê, a Paranoia secundaria implica uma inicial
+degenerescencia, uma invalidade mental primitiva, que a psychonevrose;
+mania ou melancolia, não faz senão aggravar e tornar manifestas. Sem a
+intervenção accidental da psychonevrose, a degenerescencia, menos
+avançada que na Paranoia primaria, não se accentuaria n'um delirio
+systematisado; dado, porém, o abalo maniaco ou melancolico, pronuncia-se
+o estado degenerativo por um complexo symptomatico especial em que ha
+concepções delirantes e tendencias para a demencia.
+
+«Estabelecido, diz Tonnini, que uma psychonevrose por recessivas
+evoluções morbidas produz a degenerescencia (Paranoia primaria) n'um ou
+mais individuos da especie, póde admittir-se que a Paranoia secundaria
+representa n'um só individuo o que faz a psychonevrose na especie. A
+Paranoia secundaria seria o resultado tardio (Paranoia tardia) de uma
+disposição precedente, apressado por uma doença mental qualquer, as mais
+das vezes de base affectiva. Segundo este conceito, a Paranoia
+secundaria não seria, como se pretende, uma psychonevrose que,
+caminhando para a demencia, deixa observar systematisadas as idéas
+falsas da mania ou da melancolia cessantes; ao contrario, a Paranoia
+secundaria offereceria um terreno degenerativo, naturalmente ligeiro em
+si mesmo, não chegado ainda ao de dar por maturidade propria o producto
+da Paranoia genuina; sobre este terreno, em si mesmo degenerado, a
+apparição de uma psychonevrose traria um profundo desequilibrio a um
+espirito já invalido, occasionando a manifestação de um processo com
+apparencias degenerativas, que por si só talvez se não accentuasse.
+Aconteceria, n'uma palavra, como nas fórmas de Paranoia illustradas por
+Leidesdorf, que se originam em graves doenças da infancia, em
+traumatismos, etc., e nas quaes, todavia, é necessario admittir uma
+predisposição, porque, na grande maioria dos casos, nem os traumatismos,
+nem as doenças infantis ou outras determinam ulteriormente a apparição
+da Paranoia. Por maioria de razão, uma doença mental como a mania ou a
+melancolia poderá determinar o apparecimento de uma doença affim,
+baixando os poderes de critica, introduzindo o elemento allucinatorio e
+guiando á demencia, que terá sempre o caracter paranoico. O exhaurimento
+cerebral psychonevrotico (demencia) n'um terreno mais ou menos
+degenerado produz o fructo hybrido da Paranoia secundaria, que não é a
+verdadeira demencia, mas tem alguma coisa da demencia e da Paranoia»[1].
+
+ [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 60.
+
+Tal é a doutrina da Paranoia secundaria, segundo Tonnini,--profundamente
+diversa, repetimol-o, da theorisação de Griesinger.
+
+Vejamos agora como o alienista italiano documenta a sua tão original
+concepção.
+
+Fazendo da Paranoia secundaria uma fórma hybrida, Tonnini procura
+demonstrar que ella não é uma psychonevrose genuina e que não é tambem
+uma degenerescencia pura e simples, mas participa dos caracteres de uma
+e de outra.
+
+Que não é uma psychonevrose genuina, demonstram-no segundo o escriptor
+italiano, tres ordens de razões: a primeira, não faltar nunca ao delirio
+o ar extranho da Paranoia e os neologismos, que são seus habituaes
+companheiros; a segunda, ser ás vezes o delirio muito menos a
+continuação do que se gerou durante a mania ou a melancolia precedentes,
+do que um delirio novo procedente de disposições paranoicas, como se vê
+n'um caso, que o auctor publica, de delirio exaltado succedendo á
+melancolia; terceira, emfim, a impossibilidade muhas vezes constatada de
+fazer-se um diagnostico differencial entre a Paranoia secundaria e a
+Paranoia primaria, a não ser pela consulta dos anamnesticos.
+
+Que a Paranoia secundaria não é uma degenerescencia pura e simples,
+resulta das seguintes considerações: a primeira é a presença do elemento
+affectivo, de expansão ou depressão, que falta na Paranoia primaria,
+evidentemente degenerativa; a segunda é a marcha e terminação, que são
+diversas das observadas na Paranoia primaria; a terceira, emfim,
+refere-se á hereditariedade que é sempre menos pesada na Paranoia
+secundaria que na primaria.
+
+Â conclusão geral do trabalho de Tonnini é esta: «Não sendo uma
+psychonevrose genuina, nem uma pura degenerescencia, a Paranoia
+secundaria compendia e resume n'um mesmo individuo os elementos d'estes
+dois processos, Constitue um traço de união entre elles e demonstra que
+os estados morbidos, como todos os factos naturaes, se não sujeitam a
+uma rígida classificação, mas teem entre si relações variaveis, que
+podem verificar-se associadas n'um mesmo typo pathologico»[1].
+
+ [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 67.
+
+ * * * * *
+
+Poderiamos, sem grave inconveniente, suspender n'este ponto a parte
+historica do nosso estudo, por isso que só a França, a Allemanha e a
+Italia teem no assumpto que nos occupa litteraturas psychiatricas
+originaes; completal-a-hemos, todavia, por uma ligeira noticia dos
+trabalhos inglezes, norte-americanos e russos.
+
+A psychiatria ingleza, orientada n'um sentido eminentemente analytico e,
+sobretudo, caracterisada pela investigação minuciosa dos symptomas e das
+causas, tem-se conservado quasi sempre alheia aos problemas de
+pathogenia que tão apaixonadamente sollicitam os paizes continentaes.
+
+A noção de _monomania_, com a significação que lhe davam Esquirol e os
+seus discipulos, foi propagada na Inglaterra por Prichard, que a definia
+nos seguintes termos: «A monomania ou loucura parcial é caracterisada
+por uma illusão particular ou erronea convicção do intendimento,
+determinando uma aberração do juizo; o monomaniaco é incapaz de pensar
+correctamente sobre objectos relacionados com a sua illusão especial,
+embora sobre outros assumptos não manifeste apreciaveis desordens do
+espirito»[1].
+
+ [1] Prichard, _Treatise on Insanity_, 1833.
+
+Mercê dos escriptos classicos de Hack Tuke e Bucknill, o termo
+_monomania_, começou em 1858 a ser substituido pela expressão
+_delusional insanity_, hoje correntemente empregada para indicar os
+delirios systematisados. Mas a designação nova não implica uma
+pathogenia definida, porque o termo _delusion_ significa apenas
+_concepção falsa_ ou _idéa delirante_, sem referencia a origem. Segundo
+Tuke e Bucknill, a _delusional insanity_ poderia ser secundaria, como
+algum tempo pretendeu Griesinger. É o que manifestamente exprimem estas
+palavras: «A concepção falsa (_delusion_) é muitas vezes o ultimo
+symptoma na morbida successão dos phenomenos mentaes; ella póde ser, com
+effeito, o reflexo de uma emoção, e, embora estrictamente signifique
+desordem intellectual, póde ser o resultado e o mero symptoma de uma
+desordem de sentimentos. Na verdade, a loucura affectiva (_emocional
+insanity_) não raro termina por uma perturbação conceptual (_delusional
+disorder_)»[1]. Explanando esta passagem, que tem a data de 1879, os
+auctores apresentam como exemplos de _delusional insanity_ casos que
+poderiam entrar no grupo germanico da Paranoia secundaria.
+
+ [1] H. Tuke and Bucknill, _A Manual of Psychological medicine_, 4.º ed.,
+ pag. 204.
+
+Sob o ponto de vista pathogenico, Maudsley conservou-se fiel á tradicção
+dos seus predecessores inglezes, como o demonstram estas palavras da
+_Pathologia do Espirito_: «Comquanto a monomania intellectual succeda
+muitas vezes á mania aguda, nem sempre isto acontece; por vezes este
+desarranjo do espirito desenvolve-se primitivamente e de um modo
+progressivo, como exaggero de um defeito fundamental do caracter»[2].
+
+ [2] Maudsley, _Pathologie de l'Ésprit_, trad. fr., pag. 441 (1883).
+
+O que em Maudsley se encontra de verdadeiramente notavel com relação ao
+assumpto que aqui versamos, é a descripção que elle faz, sob o nome de
+_nevrose vesanica_, da Paranoia sem delirio de Tanzi e Riva. Os
+portadores d'esta nevrose ou _temperamento louco_, de origem sempre
+hereditaria, são seres _originaes_ e _excentricos_, de um grande
+_egoismo_, de uma excessiva _vaidade_, seres _desequilibrados_, que,
+não delirando, constituem, todavia, alguma coisa de extranho no meio
+social a que se não subordinam, antes constantemente chocam.
+
+Em Clouston, cujas interessantes _Lições_ remontam a 1883 e tiveram nova
+edição em 1887, a _delusional insanity_ apparece como synonimo de
+_monomania_ ou _monopsychose_. Buscando as origens da doença, Clouston
+encontra-lhe quatro: a predisposição individual, a mania aguda, as
+intoxicações e traumatismos, e, por ultimo, as sensações falsas. Como se
+vê, a _delusional insanity_ é tanto um delirio systematisado primitivo
+como secundario, tanto essencial, como apenas symptomatico.
+
+O que em Clouston merece attenção é a sua maneira de definir a
+_delusion_ ou conceito delirante á maneira dos italianos, isto é,
+fazendo intervir o criterio evolutivo. «A educação, a idade, a classe e
+mesmo a raça, até um certo ponto, determinam se uma crença errada é ou
+não um conceito delirante»[1]. Assim, a noção morbida, a idéa
+pathologicamente falsa (_insane delusion_) deve definir-se «uma crença
+n'aquillo que seria inacreditavel para gente da mesma classe, educação e
+raça da pessoa que a expressa»[2].
+
+ [1] Clouston, _Clinical lectures on mental diseases_, 2º ed., pag. 243.
+
+ [2] Clouston, _Obr. cit._, pag. 244.
+
+Na America do Norte, Spitzka[3], servindo-se do termo _monomania_, expõe
+em 1883 a doutrina da Paranoia, tal como a comprehendem alguns
+alienistas allemães, assignalando-lhe uma origem primitiva e fazendo-a
+assentar sobre um fundo de fraqueza mental. Na classificação dos
+delirios, que divide em expansivos e depressivos, reconhece as
+variedades descriptas por Krafft-Ebing, excepto a processo-maniaca.
+
+ [3] Spitzka, _A Manual of Insanity_, 1883.
+
+No mesmo anno, Hammond[4] occupa-se dos delirios systematisados, sem,
+todavia, se pronunciar sobre a sua pathogenia.
+
+ [4] Hammond, _A Treatise on Insanity_, 1883.
+
+Não conhecemos, senão por ligeiras noticias de Tanzi e de Séglas, a
+litteratura russa da Paranoia. A julgar por essas noticias, não é ella
+nem mais abundante, nem mais original que a ingleza e a norte-americana.
+
+Parece que os mais importantes trabalhos são os de Rosenbach, em 1884, e
+de Greidenberg, em 1885.
+
+O primeiro d'estes auctores sustenta, como a maioria dos allemães, a
+génese expontanea dos delirios paranoicos, que teem por base a
+debilidade mental. As illusões e allucinações seriam secundarias e não
+primitivas na evolução d'estes delirios. As idéas de grandeza não
+derivariam, por um processo logico, das idéas de perseguição, mas seriam
+contemporaneas destas; de resto, o exaggero da personalidade, que as
+idéas ambiciosas põem em relevo, está já indicado nas idéas de
+perseguição.
+
+O segundo dos auctores citados reconhece uma Paranoia allucinatoria
+aguda, em que distingue duas variedades: uma hereditaria, e outra
+adquirida, asthenica. Esta seria a mais frequente, e terminar-se-hia
+quer pela cura, quer pela demencia, quer por um certo grau de
+enfraquecimento cerebral.
+
+
+
+
+SEGUNDA PARTE
+
+
+EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA
+
+METHODO A SEGUIR
+
+Dados resultantes do estudo historico dos delirios systematisados--Exame
+critico dos conceitos clinicos de Delirio Chronico e de Verrücktheit
+aguda e secundaria--Determinação final do conceito anthropologico de
+Paranoia.
+
+
+Todo o extenso caminho ascensional até agora andado nos apparece, da
+altura attingida, como uma linha de ideação que, partindo do exame dos
+delirios systematisados, se dirige para o conhecimento da constituição
+intellectual dos delirantes.
+
+Nas phases iniciaes da sciencia e quando ainda um exclusivo criterio
+symptomatico a orienta, é cada delirio uma doença--que se chama
+melancolia, monomania intellectual, lypemania, delirio de perseguições
+ou megalomania, segundo as modalidades clinicas de _fixidez_, de
+_extensão_, de _contheudo_ ou de _marcha_ das idéas delirantes. Mais
+tarde, a preponderancia do criterio etiologico, imposto á psychiatria
+pelo genio incomparavel de Morel, modifica e alarga a visão do assumpto,
+fazendo pensar no terreno especial de que as concepções falsas emergem;
+não ha então tantas doenças distinctas quantos os delirios, mas, formada
+pela convergencia da noção symptomatica de delirio e do conceito causal
+de predisposição, uma só doença de variaveis aspectos clinicos,
+successivamente denominada loucura hypocondriaca, delirio chronico,
+loucura parcial, delusional insanity e Verrücktheit. Emfim, a tentativa
+de explicar pela doutrina geral da evolução psychica a natureza da
+predisposição delirante origina o conceito de Paranoia como expressão de
+um desvio regressivo, de uma constituição atavica da intelligencia.
+
+Analyse, synthese e interpretação pathogenica--taes foram, pois, na
+marcha historica do assumpto que nos occupa, as _étapes_ seguidas pelo
+espirito scientifico.
+
+Mas esta linha evolutiva, que abstractamente nos apparece rectilinea,
+foi na realidade irregular e ondulante. Conhecidos, á maneira de dois
+pontos, o primeiro e o ultimo termo das séries de doutrinas, traçamos
+entre elles a mais curta distancia, como se a filiação das idéas se
+houvesse dado n'um mesmo cerebro; na verdade, porém, as theorias
+nasceram, como vimos, em litteraturas diversas, independentes por vezes
+e accusando cada qual o genio particular e as tendencias especiaes da
+respectiva nacionalidade. Assim, por exemplo, quando ainda o pratico
+espirito francez se occupava em fazer pelas pennas de Lasègue e de
+Foville a minuciosa descripção clinica dos delirios systematisados de
+perseguição e de grandezas, já o cerebro allemão, que os tinha
+entrevisto, prematuramente lhes assignalava pela voz de Griesinger urna
+hypothetica pathogenia. Por outro lado, dentro do mesmo pais, potentes
+organisações intellectuaes quebraram por bruscos saltos de genio o
+parallelismo entre as evoluções logica e chronologica das idéas,
+misturando assim n'um dado momento, como vimos succeder em França com
+Morel, o espirito de analyse e a tendencia synthetisadora. Emfim, o
+inevitavel desejo de explicar, coevo da humanidade, indisciplinada e
+temerariamente semeou de fragmentarias notas pathogenicas o proprio
+periodo analytico do nosso thema, como se viu em Lasègue e em Foville,
+tentando filiar n'uma autoobservação consciente as idéas delirantes.
+
+É, pois, por um artificio do espirito que figuramos como perfeitamente
+definidas e succedendo-se rectilineamente as phases evolutivas da
+questão que nos occupa. Mas esse mesmo artificio, aliás necessario e
+legitimo, está indicando que a historia, não sendo aqui, como as
+sciencias exactas, uma simples exposição chronologica dos erros e
+illusões que precedem a conquista definitiva da verdade, mas uma
+complicada e suggestiva revista de opiniões, carece de ser completada
+pela critica. Já no que apenas parece uma núa e secca exhibição de
+doutrinas, o espirito critico intervem, procurando no labyrintho de
+contradictorias affirmações a filiação das idéas; é preciso, comtudo,
+que elle se affirme ainda mais larga e mais activamente, julgando as
+theorias e os pontos de vista individuaes ou de escóla em face dos
+factos clinicos e dos principios de psychologia normal e pathologica.
+
+Eis o que explica a necessidade d'esta segunda parte do nosso trabalho.
+
+Acceitando nos seus traços fundamentaes a doutrina anthropologica da
+Paranoia--inevitavel corollario da theoria geral da evolução
+psychica--tentaremos demonstrar, aqui, que ella explica todos os factos
+e synthetisa todas as verdades incompletas das doutrinas que a
+precederam; n'este sentido reforçaremos e ampliaremos com novos dados e
+novos pontos de vista a argumentação dos psychiatras italianos.
+
+Antes, porém, uma tarefa se nos impõe: a de examinar as questões do
+Delirio Chronico e das variedades aguda e secundaria da Verrücktheit,
+sobre as quaes são ainda hoje em França e na Allemanha tão vivos e
+accesos os debates como antes dos trabalhos italianos que, uma vez
+comprehendidos, deveriam tel-os, a meu vêr, definitivamente encerrado.
+
+
+
+I--O DELIRIO CHRONICO
+
+A etiologia; a marcha; o prognostico--Confronto com os delirios
+polymorphos--A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso não e
+vulgar; a passagem á demencia é excepcional--O delirante chronico é um
+degenerado; importante observação pessoal--A prognose dos delirios
+polymorphos é muitas vezes a do Delirio Chronico--Dois conceitos de
+Delirio Chronico no espirito de Magnan; génese do segundo.
+
+
+O delirio chronico de evolução systematica, tal como nas paginas,
+anteriores o descrevemos, não é no espirito de Magnan uma formula
+eschematica ou uma abstracta construcção destinada a fazer comprehender
+um certo grupo de factos, mas uma doutrina concreta que a observação não
+faria senão confirmar.
+
+Recordemos que duas circumstancias--uma d'ordem etiologica, outra de
+natureza symptomatico-evolutiva, caracterisam a psychose: a primeira
+consiste em que ella ataca na idade média da vida individuos até então
+perfeitamente normaes, embora predispostos; a segunda, era que ella
+segue na sua marcha quatro periodos distinctos, succedendo-se n'uma
+ordem invariavel--o de incubação, o de perseguições, o megalomano e o
+demencial.
+
+Pelo que respeita á primeira d'estas caracteristicas, diz Magnan: «O
+delirio chronico fere em geral na idade adulta individuos sãos de
+espirito, não tendo até então apresentado nenhuma perturbação
+intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este facto que tem sua
+importancia, por isso que por esta particularidade os delirantes
+chronicos se separam immediatamente dos hereditarios degenerados, que
+desde a infancia apresentam perturbações que os fazem reconhecer»[1]. Em
+relação á marcha dos symptomas não é menos explicito o medico de
+Sant'Anna: «Estes periodos (incubação, delirio de perseguições,
+megalomania e demencia) succedem-se, diz elle, irrevogavelmente do mesmo
+modo, de sorte que póde excluir-se do delirio chronico todo o doente que
+_d'emblèe_ se torna perseguido ou megalomano, ou que, primeiro
+ambicioso, vem a ser depois perseguido»[2].
+
+ [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 236.
+
+ [2] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.
+
+Os delirios systematisados que pela etiologia ou pela marcha se desviam
+dos severos moldes traçados, ou são meros symptomas de uma affecção
+mental definida ou, se essenciaes, traduzem e denunciam a
+degenerescencia psychica, merecendo n'este ultimo caso os nomes de
+_polymorphos_ ou _multiplos_, em attenção ao seu contheudo, de _delirios
+d'emblèe_, em vista da sua brusca apparição, ou ainda de _delirios
+degenerativos_, olhando á etiologia. Derivada d'estas, mas de uma alta
+importancia pratica, existe ainda, segundo Magnan, uma nova
+caracteristica differencial entre os delirios polymorphos e o Delirio
+Chronico: emquanto este é absolutamente incuravel, comportariam
+aquelles, na maioria dos casos, um prognostico discretamente favoravel,
+pois que, expressões de um desequilibrio mental, podem desapparecer,
+embora possam tambem recidivar.
+
+Estamos, como se vê, em face de uma doutrina clara, precisa, de
+contornos bem definidos e de uma estructura mathematicamente regular.
+Isto nos facilita a critica.
+
+É indiscutivel a existencia de doentes que, durante algum tempo
+inquietos, preoccupados e irritaveis, cahem a seguir no delirio de
+perseguições, de que passam, decorridos annos, para o de grandezas,
+acabando pela demencia. Até ao segundo d'estes quatro periodos da
+evolução morbida, não differem taes doentes dos perseguidos de Lasègue e
+de J. Falret, que tambem passam, antes de constituido e systematisado o
+delirio, por uma phase preparatoria de concentração e de inquietude
+mental; o que os separa d'estes é a ulterior passagem ao delirio
+ambicioso, já observada por Foville, e, por fim, á demencia. Ora, se
+esta passagem é, como pretende Magnan, fatal e necessaria, só o Delirio
+Chronico é nosographicamente legitimo: se, ao contrario, ella é fortuita
+e precaria, a legitimidade nosographica pertence ao Delirio de
+perseguições.
+
+O que diz a observação clinica? Vamos vêr que o seu depoimento está
+longe de ser favoravel a Magnan.
+
+Pelo que respeita á passagem do delirio de perseguições ao de grandezas,
+affirmou J. Falret que ella não só hão é constante, mas está longe de
+ser vulgar, pois apenas se realisa n'um terço dos casos; pelo seu lado,
+Krafft-Ebing assegura tambem que uma tal transição se observa sómente
+n'um terço dos casos de Verrücktheit, isto é, do conjuncto dos delirios
+systematisados de evolução chronica; e Christian pretende mesmo que
+nunca attingem a megalomania os perseguidos cujo delirio se alimenta
+exclusivamente de perturbações da sensibilidade genital. A longa
+experiencia d'estes alienistas garante a realidade das suas affirmações;
+de resto, são conhecidos em todos os velhos manicomios alguns casos de
+delirio de perseguição durando vinte, trinta e mais annos e terminando
+pela morte do doente, sem que em tão largo periodo tenham surgido idéas
+ambiciosas.
+
+Mas, se nos perseguidos a passagem ao delirio de grandezas está longe de
+ser constante, nos perseguidos-megalomanos a queda na demencia é um
+facto excepcional. Feriu, com effeito, em todos os tempos a attenção dos
+alienistas francezes a extrema resistencia dos delirantes systematicos á
+dissolução mental que é o termo vulgar das outras vesanias; e os
+observadores allemães e italianos consideram mesmo tão caracteristico
+este facto do não abaixamento de nivel intellectual na Verrücktheit e na
+Paranoia que, como vimos, o fazem intervir na propria definição da
+psychose. Por nossa parte, alguns casos conhecemos de paranoicos,
+perseguidos e perseguidos-megalomanos, tendo mais de vinte annos de
+delirio e mais de cincoenta de idade, em que nenhuma decadencia mental
+se observa. Um d'esses casos é um official reformado do exercito que
+conhecemos em delirio ha, pelo menos, vinte e dois annos, e que ha
+quatorze se encontra no manicomio do Conde de Ferreira; são tão
+inexcediveis as subtilezas da sua dialectica quanto cheias de finura e
+de ironia as suas criticas sobre os acontecimentos politicos, que elle
+segue e interpreta sob um criterio de perseguido-ambicioso. Muitos annos
+de delirio systematisado são impotentes, no dizer de grande numero de
+observadores, para provocar a demencia; e, se esta excepcionalmente
+apparece, é antes aos progressos da idade ou a uma psychonevrose
+intercorrente que deve attribuir-se.
+
+Resumindo: não é fatal, nem mesmo vulgar a passagem ao delirio ambicioso
+nos perseguidos que, aliás, incubaram o seu delirio; é excepcional a
+terminação pela demencia, quer dos perseguidos, quer dos megalomanos,
+quer, emfim, dos systematisados que passaram n'uma longa evolução
+vesanica pelas successivas phases persecutoria e ambiciosa.
+
+O perseguido-megalomano-demente é, pois, menos commum que o perseguido,
+tal como vem sendo descripto desde Lasègue e J. Falret; pelo que, fazer
+do Delirio Chronico um typo destinado a conter o Delirio de perseguição,
+seria inverter abusivamente as noções recebidas em nosologia, tornando
+_especie_ o que é apenas _variedade_.
+
+Examinada a questão do lado da marcha dos symptomas, encaremol-a do
+ponto de vista da etiologia.
+
+Como foi dito, o delirante chronico não é, no dizer de Magnan, um
+degenerado: póde ser um predisposto, mas não é um candidato á loucura;
+póde ter antecedentes hereditarios, pois que a hereditariedade radia
+sobre todas as doenças mentaes, mas não apresenta até á invasão do
+delirio o desequilibrio caracteristico dos degenerados. O delirio
+d'estes é sempre polymorpho, _d'emblèe_, frouxamente systematisado, não
+tendo a longa duração do delirio chronico, nem o seu córte regular em
+periodos de irrevogavel successão.
+
+Esta maneira de vêr, em radical opposição com as affirmações dos
+psychiatras allemães e italianos sobre a Verrücktheit e a Paranoia (em
+que o delirio chronico de Magnan, como todos os delirios systematisados,
+se acha contido) merece ser examinada.
+
+É evidente que uma critica profunda d'este novo aspecto da questão só
+póde fazer-se discutindo a noção da degenerescencia, que não é identica
+para todos os psychiatras, que não tem o mesmo alcance em todos os
+livros e que representa para o medico de Sant'Anna um grupo de factos
+muito diverso do que representa para Krafft-Ebing ou para Tanzi e Riva,
+por exemplo. Ulteriormente examinaremos este assumpto. Notemos, porém,
+desde já que J. Séglas combateu vivamente, em nome da observação
+clinica, a etiologia de Magnan, referindo casos de Delirio Chronico em
+doentes portadores de estygmas physicos da degenerescencia; que Legrain,
+discipulo de Magnan, admitte a possibilidade da evolução caracteristica
+do delirio chronico nos degenerados hereditarios; que Respaut, outro
+discipulo de Magnan, descreve um caso de delirio chronico n'um
+epileptico impulsivo; que Dericq considera aptos a realisarem o delirio
+chronico os proprios fracos de espirito (_degenerados inferiores_, na
+technologia da escóla de Sant'Anna); emfim, que Marandon de Montyel,
+acceitando a doutrina de Magnan emquanto á evolução do Delirio Chronico,
+se afasta resolutamente do mestre emquanto á etiologia, affirmando que
+grande numero de delirantes chronicos se fazem notar desde a infancia ou
+desde a juventude por anomalias de caracter, que Magnan reputa indicios
+seguros da degenerescencia e que não desdizem da pesada herança que
+muitas vezes incide sobre estes doentes.
+
+Por nossa parte, cremos dever apontar um caso clinico de observação
+pessoal que póde juntar-se aos de Séglas.
+
+Trata-se de um antigo empregado commercial, celibatario, tendo
+actualmente 45 annos de idade, e a quem já em outra publicação nos
+referimos. O periodo de incubação delirante, a que accidentalmeme
+assistimos, mercê das relações que então mantinhamos com um irmão,
+remonta a 1878; no anno immediato o delirio de perseguições achava-se
+installado, fazendo-se acompanhar de allucinações auditivas e provocando
+da parte do doente reacções violentas: chamavam-lhe, na rua e nos cafés,
+_pederasta, onanista, devasso_, ao que elle respondia aggredindo os
+suppostos insultadores. Refugiando-se successivamente em casas de
+amigos, em pequenos hoteis e em hospitaes particulares, o doente veiu,
+por fim, a dar entrada no manicomio do Conde de Ferreira, em abril de
+1883, apresentando então, de mistura com o delirio de perseguições,
+idéas ambiciosas que apenas exhibia em cartas e só um anno depois
+começou a exteriorisar oralmente: tinha descoberto um novo systema do
+mundo, pretendia reformar toda a sciencia astronomica e todo o systema
+social; as perseguições soffridas e a sequestração, _o mais infame de
+todos os crimes até hoje praticados_, vinham-lhe do Papa, que assim
+defendia os dogmas christãos, e do Rei, que defendia a ordem social
+existente. Lentamente, as idéas ambiciosas foram dominando o delirio de
+perseguições, que hoje se alimenta exclusivamente no prolongamento da
+sequestração; livre, este doente seria o typo perfeito do megalomano.
+
+Eis aqui um caso a que nada parece faltar do que Magnan exige para o
+diagnostico do Delirio Chronico: iniciada aos 30 annos n'um individuo
+apparentemente são, que era um bom guarda-livros, que sustentava a mãe,
+que mantinha regulares relações sociaes, que se governava
+financeiramente bem, a psychose atravessou, na successão assignalada por
+Magnan, os periodos de incubação, de perseguições e de megalomania, sem
+a presença episodica de idéas hypocondriacas, eroticas ou outras que
+podessem fazer pensar n'um delirio polymorpho. Pois bem; este doente é
+um degenerado incontestavel, ainda para os que acceitam a mais estreita
+noção da degenerescencia. A hereditariedade é n'elle convergente e das
+mais pesadas: o _pae_, prematuramente morto, foi um louco moral; a
+_mãe_, de uma fealdade pathologica, morreu em estado de demencia senil
+aos 70 annos; um _tio materno_ é disforme; um outro _tio_ materno, mal
+dotado de sentimentos de probidade, passa por ter feito uma fallencia
+fraudulenta; um _irmão_, prematuramente morto de tuberculose, foi um
+louco moral, dipsomano, bulimico e de uma vaidade exaggerada; emfim, uma
+_irmã_, louca moral e impulsiva, prostituiu-se. Na historia pregressa do
+nosso doente figura uma febre typhoide grave na puberdade.
+Apparentemente ponderado, elle foi sempre, no dizer dos seus intimos, de
+uma susceptibilidade excessiva, de um grande orgulho; entregava-se a
+leituras para que não tinha preparação e evitava o commercio das
+mulheres. Como estygmas physicos, apresenta o nosso doente _hypospadias_
+e uma notavel _asymetria facial_.
+
+Este caso, que em nossa propria experiencia é o mais nitido, senão é
+mesmo o unico de um delirio paranoico offerecendo a evolução precisa e
+irrevogavel da entidade de Magnan, longe de confirmar as idéas d'este
+psychiatra em materia de pathogenia, infirma-as eloquentemente.
+
+Encaremos agora a duração e prognose comparadas do Delirio Chronico e
+dos delirios polymorphos.
+
+Como foi dito, na doutrina de Magnan a demencia faz parte do Delirio
+Chronico a titulo de phase terminal da sua evolução; é dizer que a
+psychose se installa definitivamente e o seu prognostico é sempre
+infausto. Ao contrario, os delirios polymorphos teriam por habituaes
+sahidas a _cura_ e, menos vezes, a _demencia precoce_, seriam de uma
+duração limitada e comportariam, portanto, um prognostico discretamente
+benigno. Será isto absolutamente exacto? Responde negativamente a
+clinica. De facto, se muitas vezes se obtem a cura dos delirios
+multiformes e se, algumas outras, uma demencia vem precocemente fechar a
+sua evolução, não é menos verdade que ha, ao lado dos que assim
+terminam, um formidavel numero de casos de uma duração perpetua,
+tendendo, se tendem, para a demencia tão lentamente como o Delirio
+Chronico. Os proprios discipulos de Magnan o reconhecem; e Legrain não
+hesita em descrever delirios polymorphos ou degenerativos _de marcha
+essencialmente chronica_. É, de resto, o que a experiencia nos ensina:
+ou se fixem n'um pequeno numero de idéas ou percorram toda a gamma dos
+conceitos morbidos, ha degenerados que deliram perpetuamente. Como
+distinguil-os prognosticamente dos delirantes chronicos? O invariavel e
+tranquillisador _ça guérira_ de Magnan e dos seus discipulos em face dos
+delirios _d'emblèe_, reserva-nos por vezes decepções crueis; muitos
+casos conheço, por minha parte, em que _ça n'a jámais guéri_. De resto,
+as pretendidas curas dos delirios systematisados não são, as mais das
+vezes, senão apparentes, quer porque o doente esconde as suas concepções
+para obter a liberdade, o que não é excessivamente raro nos manicomios,
+quer porque, desapparecendo realmente as idéas morbidas, subsiste a
+disposição a creal-as de novo, isto é, subsiste a mentalidade
+paranoica--a verdadeira doença, no fundo.
+
+Que Magnan tenha podido descriminar nos delirios systematisados
+evoluções diversas e justificativas de sub-grupos clinicos do que em
+França se chama a Loucura Parcial e na Allemanha a Verrücktheit, é
+perfeitamente incontestavel; que elle tenha proseguido com rara
+sagacidade analytica estudos anteriores sobre a successão dos delirios
+n'um mesmo alienado, é tambem indiscutivel; mas que o Delirio Chronico,
+tal como nos ultimos annos o descreve, seja uma especie morbida e um
+grupo nosologico bastantemente differenciado--pela evolução, pela
+pathogenia e pelo prognostico--dos delirios systematicos dos
+degenerados, eis o que não póde acceitar-se.
+
+Fechariamos aqui a nossa analyse da pretendida psychose de Magnan, se
+não crêssemos dever insistir n'um ponto, só ao de leve tocado na parte
+historica d'esta monographia: que anteriormente á concepção actual do
+Delirio Chronico existiu no espirito de Magnan uma outra, a exposta por
+Gérente, mais conforme com a realidade clinica e mais proxima da
+Verrücktheit de Krafft-Ebing.
+
+É certo que, quando na Sociedade Medico-Psychologica Séglas punha em
+evidencia as contradições entre as duas doutrinas, citando trabalhos dos
+discipulos de Magnan, este se defendeu declinando a responsabilidade de
+taes trabalhos e cathegoricamente affirmando que aos respectivos
+auctores concedera sempre a mais inteira independencia. Ora, sem de modo
+algum pretendermos que o medico de Sant'Anna imponha os proprios pontos
+de vista aos seus discipulos, é licito acreditar que estes os acceitam
+e propagam nos seus escriptos. Não é só Gérente que n'uma these de 1883,
+escripta no serviço da admissão e feita de casos clinicos ahi colhidos,
+expõe, sob a designação de _Delirio Chronico_, uma doutrina que em
+pontos capitaes se oppõe á que Magnan apresentou em 1887 á Sociedade
+Medico-Psychologica e reeditou em 1893 no seu livro de _Lições
+Clinicas_. N'um trabalho publicado em 1884, Boucher procede como
+Gérente, chamando aos delirantes chronicos _predispostos mal
+equilibrados_, declarando que _toda a etiologia do Delirio Chronico
+reside na hereditariedade_, e constatando n'um caso de Delirio Chronico,
+diagnosticado pelo proprio mestre, anomalias de caracter degenerativo na
+evolução da infancia; e, n'um artigo publicado já em 1889, o meu collega
+Magalhães Lemos, que aliás viveu perto de dois annos na intimidade
+scientifica de Magnan, descreve como exemplar clinico _frustre_ de
+Delirio Chronico um caso que se iniciou por idéas ambiciosas de colorido
+erotico. E nenhum dos escriptores que acabamos de citar se declara em
+opposição com o mestre, antes crê cada um interpretal-o; nem descobrindo
+signaes de degenerescencia nos portadores do Delirio Chronico, nem
+achando possivel a inversão evolutiva das phases habituaes d'esta
+psychose, pensa qualquer d'elles afastar-se da mais pura orthodoxia
+d'escóla. Tendo seguido o ensino de Sant'Anna e conhecendo as idéas de
+Magnan, Bajenoff escrevia tambem em 1885 que o Delirio Chronico é o
+equivalente da Verrücktheit e da Paranoia.
+
+A inevitavel conclusão a tirar d'estes factos é que realmente no
+espirito de Magnan o conceito de Delirio Chronico se modificou a ponto
+de apparecer-nos duplo á distancia de alguns annos. Infelizmente, o
+actual não vale o antigo.
+
+Mas, porque passou Magnan da larga concepção de 1883 para a de hoje, tão
+estreita, tão geometrica e tão rígida que os factos se lhe não
+acommodam? Tornando a degenerescencia como synonimo de desequilibrio, o
+medico de Sant'Anna estabeleceu como dogma fundamental que o degenerado
+só póde delirar de um modo conforme a esse desequilibrio: o seu delirio
+tem de ser, quanto á génese, improvisado; quanto á marcha, irregular e
+descontinuo, ora remittente, ora intermittente; quanto ao contheudo,
+caleidoscopico e multiforme; quanto á duração, ephemero ou pelo menos
+curto, porque a mesma persistencia seria um equilibrio; emfim, quanto á
+associação das idéas, de uma frouxa systematisação, porque esta, quando
+completa, representa uma demorada concentração d'espirito, incompativel
+com a ideação salturaria do degenerado. Pertencem, pois, á
+degenerescencia os delirios _d'emblèe_, os _polymorphos_, os _agudos_ e
+_sub-agudos_ e, por fim, os que não revellam senão uma _fraca tendencia
+á systematisação_. Os não-degenerados só podem delirar de um modo
+diametralmente opposto: o seu delirio tem de ser preparado, incubado; de
+marchar por _étapes_ de irrevogavel successão; de durar a vida do
+doente; de circumscrever-se a um numero limitado de idéas; de ser,
+emfim, contínuo e francamente systematisado. O _Delirio Chronico_ é a
+antithese completa e integral do delirio dos degenerados e só n'estas
+condições póde subsistir em face da doutrina; o conceito de 1883
+dissociou-se, pois, não em vista dos factos, mas da theoria, passando o
+que n'elle havia de eschematico a beneficio do _Delirio Chronico_
+actual, e os casos _frustres,_--a grande, a formidavel massa dos casos
+clinicos, ao lote dos delirios dos degenerados.
+
+Mas, por outro lado, não sendo o desequilibrio mental senão a
+consequencia de uma grave tara ancestral ou, como diz Magnan, de uma
+_impregnação hereditaria_, o _Delirio Chronico_ só deve realisar-se em
+individuos normaes e válidos para que, ainda no ponto de vista da
+etiologia, elle realise o typo contrario ao dos delirios degenerativos.
+«Delirio chronico e degenerescencia, diz Magnan, oppõem-se totalmente».
+
+Tal é, a meu vêr, a génese da actual noção de _Delirio Chronico_.
+Tentando impôr-se em nome dos factos, como inducção clinica, ella
+procede realmente, por via deductiva, de uma doutrina presupposta da
+degenerescencia, que está longe, como adiante veremos, de poder
+acceitar-se sem restricções.
+
+
+
+II--A VERRÜCKTHEIT AGUDA
+
+Dois grupos de psychoses sob a mesma designação: a confusão mental e os
+delirios polymorphos--A Verrücktheit e os delirios incoherentes; critica
+das opiniões de Schüle--A Verrücktheit e os delirios systematisados de
+marcha aguda; critica das opiniões de Krafft-Ebing--Observação
+pessoal--Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.
+
+
+Duas ordens de factos, a meu vêr inteiramente distinctos, se encontram
+englobados na Verrücktheit aguda: de um lado, delirios systematisados
+que sómente pela rapidez da sua marcha, pela curabilidade e, ás vezes,
+pelo excessivo predominio de allucinações differem da Verrücktheit
+chronica; do outro, delirios incoordenados, asystematicos e
+eminentemente sensoriaes que, no dizer mesmo de Mendel, de Schüle e de
+Cramer, não se descriminam bem, quer da mania, quer da melancolia
+estuporosa. É isto o que resulta da leitura attenta dos auctores que
+defendem a Verrücktheit aguda.
+
+Os primeiros d'estes delirios, não implicando nem uma obnubilação da
+consciencia, nem permanentes estados emocionaes de expansão ou
+depressão, separam-se nitidamente das psychonevroses; e, se bem que o
+predominio do elemento sensorial lhes imprime um caracter caleidoscopico
+e uma evolução irregular, é certo que elles manteem sempre aquella
+activa coordenação logica das idéas que constitue o _systema delirante_.
+Os segundos, pelo contrario, implicando a perda de lucidez e
+acompanhando-se de alterações affectivas, impõem-se pela anormal
+associação das idéas, que ora se precipitam e dissociam, como na mania,
+ora convergem na determinação de estados catatonicos, segundo a
+imprevista direcção das allucinações, sempre renovadas.
+
+Confundir estas duas cathegorias de delirios, sob pretexto de que é
+identico o seu contheudo e de que em ambas se realisa uma intervenção
+preponderante do elemento allucinatorio, é, ao que penso, cahir n'um
+erro grosseiro, porque os invocados elementos de analogia são
+infinitamente menos valiosos que os caracteres differenciaes. A
+identidade das idéas morbidas não é razão para que confundamos, por
+exemplo, os delirios de perseguição da melancolia e da Paranoia ou os
+delirios ambiciosos da paralysia geral e da mania; tambem o predominio
+de allucinações, ainda quando identicas, como as zoopsicas, não é razão
+para que não distingamos, por exemplo, os delirios alcoolico e
+hysterico. As idéas delirantes e as allucinações da Verrücktheit são as
+de todas as psychoses; fazer, pois, d'esses elementos um criterio
+diagnostico e nosographico seria regressar ao cahos de que a pathologia
+mental só conseguiu sahir por successivos esforços de analyse. Não são
+os symptomas, mas as suas origens pathogenicas, a sua coordenação e a
+sua marcha que no actual momento orientam a diagnose psychiatrica.
+
+Assim, o rigor scientifico exige que estudemos em separado os dois
+grupos de delirios, que alguns auctores allemães reunem sob a designação
+de Verrücktheit aguda.
+
+Comecemos pelos delirios systematicos.
+
+A psychiatria allemã, creando os termos de Verrücktheit e Wahnsinn para
+designar os delirios, teve sempre em vista accentuar differenças entre
+os que se impõem pela coordenação dos conceitos morbidos e os que se
+denunciam por um grau maior ou menor de incoherencia. Decerto, mudou cem
+vezes o valor d'estes termos, que teem uma historia tão complicada e tão
+longa como a da propria sciencia mental; decerto, a Verrücktheit d'hoje
+não é o delirio estereotypado dos cerebros enfraquecidos, descripto por
+Griesinger, como o Wahnsinn não é o delirio exaltado e optimista de que
+o mesmo auctor traçou um quadro clinico inteiramente analogo ao da
+monomania intellectual de Esquirol;--mas sempre, desde Griesinger até
+Westphal, os dois termos conservaram, através de todas as vicissitudes,
+um vestigio inapagavel dos primitivos significados. A confusão
+principiou sómente quando o professor de Vienna, creando a variedade
+aguda da Verrücktheit, integrou no quadro d'esta psychose delirios
+systematicos e até dissociados em que as allucinações desempenham um
+papel dominante. Será licito manter uma tal confusão?
+
+Já na parte historica d'este _Ensaio_ expozemos em detalhe não só os
+argumentos com que os adversarios de Westphal rejeitam da Verrücktheit o
+hallucinatorischer Wahnsinn, mas os motivos por que fazem d'este um
+grupo das psychonevroses. Não reeditaremos essa vigorosa critica;
+examinaremos, porém, os argumentos com que Schüle pretende justificar a
+opinião contraria.
+
+Não contesta este eminente psychiatra que entre os casos typicos ou,
+para me servir da sua propria linguagem, entre os casos extremos da
+Verrücktheit e do Wahnsinn existam realmente as profundas notas
+differenciaes apontadas por Fritsch e Krafft-Ebing, entre outros;
+sustenta, porém, que ha casos de transição em que ellas se esbatem,
+ficando então a descoberto a fundamental identidade dos dois processos.
+
+A confissão, por parte de Schüle, de que são justas as differenciações
+notadas pelos adversarios da escóla de Vienna entre a Verrücktheit e o
+Wahnsinn que n'ella se pretende incorporar a titulo de variedade aguda,
+é um facto importante e que deve registar-se, porque essas
+differenciações referem-se, como vimos, à coordenação dos symptomas, à
+etiologia, à marcha, à pathogenia, n'uma palavra, a quanto serve para
+definir uma entidade nosologica. A coordenação symptomatica, porque,
+enquanto na Verrücktheit as idéas delirantes formam systema e as
+allucinações occupam um logar secundario ou até nullo, no Wahnsinn o
+delirio é incoherente e os erros sensoriaes teem o primeiro plano; á
+etiologia, porque, emquanto a Verrücktheit se installa sem causa
+exterior apparente, o Wahnsinn reconhece como determinantes todas as
+causas capazes de provocarem uma asthenia profunda dos centros nervosos;
+á marcha, porque, tendo a Verrücktheit uma evolução essencialmente
+chronica, o Wahnsinn termina agudamente pela cura, pela demencia ou pela
+morte; á pathogenia, porque, emquanto a Verrücktheit se interpreta como
+um processo constitucional ou degenerativo, o Wahnsinn é uma doença
+accidental ou psychonevrotica. A estes multiplos elementos differenciaes
+outros se juntam ainda: ao passo que na Verrücktheit as allucinações,
+predominantemente auditivas, são determinadas pelo curso do delirio,
+dependendo o erethismo sensorial da absorvente fixidez das idéas, que
+provocam a apparição das imagens, no Wahnsinn succede que é o
+automatismo dos centros sensoriaes que determina as idéas delirantes,
+por esse facto variaveis, movediças, dissociadas; tambem, ao passo que
+na Verrücktheit o elemento affectivo não só é secundario, mas tende a
+apagar-se com os progressos mesmos da doença, no Wahnsinn, embora
+igualmente secundario pela génese, pois é determinado pelo contheudo das
+idéas, esse elemento representa um papel importante, mercê das vivas
+allucinações emergentes de todos os sentidos.
+
+Para diminuir o valor d'este quadro de differenciações nosologicas, ao
+mesmo tempo numerosas e profundas, argumenta o medico de Bade affirmando
+não só que na chronica evolução da Verrücktheit se observam phases
+agudas de Wahnsinn, mas que d'este se póde passar áquella, o que, a seu
+vêr, demonstra a identidade nosologica dos dois processos morbidos.
+
+Examinemos o valor d'estes argumentos.
+
+Quanto ao primeiro, sem de modo algum contestarmos a realidade clinica
+dos factos invocados por Schüle, pois mais de uma vez temos observado
+episodicos delirios asystematicos no curso da Paranoia, seja-nos
+permittido notar, na excellente companhia de Krafft-Ebing, de Fritsch,
+de Kraepelin e de Meynert, que esses factos comportam uma interpretação
+muito diversa da que lhes dá o celebre medico de Bade.
+
+Qualquer que seja a physionomia que apresentem, depressiva, expansiva ou
+mixta, esses delirios asystematicos podem conceber-se como não fazendo
+parte integrante da evolução da Verrücktheit, mas coexistindo com ella a
+titulo de complicações ou de intercorrencias psychonevroticas, tendo uma
+etiologia e uma marcha autonomas. Porque não? «Nenhuma razão há, dizem
+Tanzi e Riva, para crêr que o cerebro de um paranoico possa oppôr ás
+causas das doenças intercorrentes uma immunidade de que muitas vezes o
+individuo normal é incapaz, antes tudo conspira para nos fazer admittir
+que elle apresenta a essas causas uma resistencia menor»[1]. Assim
+pensamos tambem, recordando os casos de observação pessoal.
+
+ [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, vol. XII, pag. 417.
+
+Um d'estes, notavel entre todos, é o de um paranoico-originario, que já
+aos 17 annos se cria victima de tentativas de envenenamento e em quem
+sempre uma exaggerada autophilia se notou. Mas, nem as idéas de
+perseguição, nem a hyperbolica opinião dos seus meritos lhe embargaram o
+passo no curso de direito, que concluiu. Ridiculo e profundamente
+desequilibrado, de grande memoria e de pequena reflexão, desconfiado,
+phantasista e discursador, foi fazendo o seu caminho até delegado de
+procurador regio na India Portuguesa. Ahi, excessos de toda a ordem,
+juntos a uma febre biliosa, aggravaram-lhe o mal; regressando, muito
+fraco, á metropole, systematisava o seu delirio até ao ponto de viver só
+e de passar habitualmente a ovos e a agua, que elle proprio ia colher de
+noite ás fontes. Um dia, tendo chamado a casa um operario para lhe
+encadernar uns livros, foi por este traiçoeiramente aggredido, recebendo
+na cabeça um extenso e profundo traumatismo. A partir d'esse dia,
+allucinações auditivas, que até então parecia não terem existido,
+irromperam com extranha violencia; ao mesmo tempo apossou-se do doente
+um sentimento intenso de terror e de anciedade que o levou, poucos dias
+depois do traumatismo, a projectar-se de uma janella abaixo, fazendo uma
+luxação. Simultaneamente, illusões visuaes, confusão constante de
+pessoas, rejeição de alimentos e absoluta insomnia. Trazido ao hospital,
+persistiu algum tempo n'esta situação; rapidamente, porém, idéas de
+grandeza, se juntaram. O encadernador, tentando matal-o, foi apenas um
+instrumento de quem, por inveja do seu alto genio incomparavel, buscava
+desfazer-se d'elle. Tornou-se aggressivo então, fabricando uma nova
+religião, crendo-se superior a Christo, e começou a manifestar idéas
+eroticas e allucunações visuaes: masturbava-se, dizia obscenidades,
+proclamava as excellencias da pederastia, dos amores lesbicos, e via
+mulheres núas em attitudes lascivas. Mas, subitamente, derivou a idéas
+hypocondriacas e d'estas a um delirio de humildade, rojando-se no chão,
+beijando os pés dos companheiros, chorando, pedindo perdão a todos,
+rejeitando os alimentos n'um intuito de penitencia. Pouco a pouco
+resvallou no mutismo, a physionomia tornou-se-lhe parada, inexpressiva,
+contrahiu habitos immundos, apresentou, n'uma palavra, o quadro da
+demencia com accentuada desnutrição. Por mezes persistiu n'este estado,
+indifferente a sollicitações naturaes, deitado sobre bancos ou no chão
+da enfermaria, movendo-se como um automato, não respondendo a ninguem.
+Julguei-o então perdido e cheguei a consignar com segurança esta
+impressão clinica. Mas um dia, abruptamente, o doente dirige-se a mim,
+cumprimenta-me polidamente e diz-me que se sente, emfim, restabelecido,
+que deseja sahir, que quer escrever uma carta a um irmão para que venha
+buscado. Do pseudo-demente nada restava; a datar d'esse dia ficou o
+primitivo delirante, o perseguido-ambicioso quasi sem allucinações, que
+podia viver fóra do hospital e que eu, com effeito, deixei sahir algum
+tempo depois. Isto passou-se em 1884; de então até hoje fez o doente
+duas novas entradas no hospital, reproduzindo quasi sem variantes o
+quadro que vimos de esboçar. Conta-me um irmão que o aggravamento da
+doença se manifesta sempre por uma subita explosão de allucinações,
+succedendo a excessos venereos e alcoolicos.
+
+Como interpretar este caso? É evidente que os defensores da Verrücktheit
+aguda veriam n'elle um excellente exemplar d'esta fórma clinica; os que
+a combatem, porém, pensariam no hallucinatorischer Wahnsinn de
+Krafft-Ebing, na Amencia de Meynert, na Verwirrtheit de Fritsch, no
+Asteniche Delirium de Mayser, na confusão mental, emfim.
+
+Os primeiros invocariam, com Werner, o caracter egocentrico das
+concepções delirantes do nosso paranoico; os segundos poriam em
+evidencia o contraste entre um delirio de humildade e os delirios de
+perseguições e de grandezas, notariam a phase de estupidez ou demencia
+aguda que não pertence ao quadro da Verrücktheit, fariam valer o estado
+de anciedade, salientariam o phenomeno somatico da desnutrição,
+appellariam, emfim, para a etiologia asthenica do caso.
+
+Ora, emquanto no quadro clinico descripto tudo se reduz a uma acuidade
+maior dos delirios persecutorio e ambicioso, que a insistencia das
+allucinações explica de sobra, não seria difficil acceitar o diagnostico
+de Verrücktheit, pois que nem a systematisação dos conceitos se perdeu,
+nem o seu caracter egocentrico e autophilico deixou de fazer-se notar; e
+a mesma anciedade poderia acceitar-se como secundario symptoma de
+reacção em face dos erros sensoriaes.
+
+Mas é já muito difficil explicar n'esta ordem de idéas a phase de
+espirito que conduz o nosso doente a rojar-se no chão, a abater-se
+diante dos companheiros, a recusar os alimentos para se penitenciar e a
+pedir perdão de imaginarias culpas. Por outro lado, pensando na
+etiologia d'este caso, em que concorrem formidaveis elementos de
+esgotamento e de asthenia, é mais facil explicar por ella do que pela
+acuidade do delirio a demencia funccional que por mezes observei.
+Segundo a minha pratica pessoal, o onanismo abusivo seria frequentemente
+o responsavel de subitas invasões allucinatorias, acompanhadas de
+reacções emotivas de uma viva feição depressiva e anciosa em paranoicos
+averiguados. Assim, na interpretação do caso que citei, como de todos os
+de igual physionomia, julgo mais consentaneo com os dados da sciencia
+invocar uma complicação psychonevrotica (seja qual fôr o nome preferido
+para exprimil-a) do que alargar o quadro da Verrücktheit pela creação de
+uma obscura variedade aguda.
+
+Entretanto, comprehende-se que esta questão seja de certo modo
+secundaria para nós que, como Tanzi e Riva, dissociamos os conceitos de
+Paranoia e de Verrücktheit, vendo n'esta apenas uma habitual, mas não
+necessaria expressão symptomatica d'aquella.
+
+Que os delirios do paranoico sejam agudos ou chronicos; que se
+acompanhem ou não de allucinações; que conservem sempre ou percam por
+algum tempo a sua costumada systematisação--eis o que nos não preoccupa
+excessivamente, por isso que concebemos a Paranoia como uma constituição
+mental anterior a todos os delirios, sobrevivendo-lhes e podendo até
+existir independente d'elles.
+
+É tempo, porém, de examinarmos o segundo dos argumentos de Schüle em
+defeza da Verrücktheit aguda.
+
+Notando, como Westphal, que ha casos em que de um hallucinatorischer
+Wahnsinn se passa immediatamente e sem descontinuidade a um delirio
+systematisado, conclue o insigne psychiatra que a Verrücktheit offerece
+algumas vezes uma phase inicial aguda.
+
+Contesta Krafft-Ebing, como vimos em outro logar, os casos invocados por
+Schüle, proclamando que a transição do hallucinatorischer Wahnsinn á
+verdadeira Verrücktheit jámais se realisa. Por nossa parte nunca a
+observamos tambem; mas de modo nenhum nos sentimos dispostos, por isso
+só, a contestal-a. Em materia de facto, póde uma unica observação
+positiva ter mais alta significação que toda uma longa experiencia
+negativa; e é certo que não só muitos dos modernos alienistas affirmam
+ter observado casos analogos aos de Schüle, mas já em Delasiauve
+encontramos a affirmação clara de que a _confusão mental_ offerece na
+sua symptomatologia idéas morbidas que podem tornar-se o nucleo de um
+verdadeiro _delirio parcial_.
+
+Mas se nos não repugna acceitar a realidade dos casos em que Schüle
+baseia o controvertido thema da Verrücktheit aguda, cremos que elles
+podem interpretar-se de um outro modo. Porque não admittir, por exemplo,
+na comprehensão d'esses casos que os delirios asystematico sensorial e
+systematisado se succedem como factos morbidos distinctos, tendo cada
+qual uma etiologia privativa e uma evolução especial--nascendo o
+primeiro de causas asthenisantes e o segundo da maturidade degenerativa,
+marchando o primeiro para a extincção, e o segundo para a chronicidade?
+No cerebro eminentemente vulneravel do paranoico as causas depressivas e
+esgotantes provocariam a apparição de um confuso delirio sensorial, como
+outras determinariam a mania ou a melancolia; sómente, a psychonevrose,
+abalando esse cerebro maximamente predisposto, em vez de liquidar pela
+cura, apressaria a maturidade paranoica, isto é, o momento psychologico
+da eclosão de um delirio systematisado.
+
+Mas, ainda uma vez: desde que Paranoia e Verrücktheit não são conceitos
+equivalentes, a admissão de uma variedade aguda da segunda de modo
+nenhum infirma a manifesta chronicidade da primeira.
+
+Posto isto, consideremos o grupo dos delirios que, embora tendo uma
+evolução por vezes muito rapida, apparecendo sem preparação,
+acompanhando-se de multiplas allucinações e terminando pela cura,
+manteem constantemente um apreciavel grau de activa systematisação.
+
+Pertencem estes delirios ao quadro da Verrücktheit? Parece-nos que a
+resposta affirmativa se impõe. Com effeito, se a sua marcha contrasta
+frisantemente com a dos casos em que as concepções morbidas se
+perpetuam, cobrindo dezenas de annos, é certo que lhes não falta um
+unico dos caracteres essenciaes da Verrücktheit: nem a egocentricidade
+das idéas delirantes, hypocondriacas, eroticas, persecutorias ou
+ambiciosas, nem a coordenação d'ellas em systema, nem o predominio das
+allucinações auditivas, nem a origem essencialmente hereditaria. É,
+pois, a estes delirios, conhecidos em França pelos nomes de
+_polymorphos_ ou _d'emblèe_ que exclusivamente conviria, a meu vêr, a
+designação de Verrücktheit aguda.
+
+Os que, como Krafft-Ebing, não admittem esta fórma, são constrangidos,
+todavia, a fallar na rara _curabilidade_ da Verrücktheit e na sua marcha
+por vezes subaguda, o que, no fundo, é conceder aquillo que
+ostensivamente se nega. Reconhecer a legitimidade clinica da
+Verrücktheit aguda, no sentido em que acabamos de a definir, parece-nos,
+portanto, inevitavel.
+
+Por nossa parte hesitamos tanto menos em fazel-o quanto é certo que na
+Verrücktheit vemos apenas uma possivel manifestação da Paranoia.
+
+Quando entre os delirios systematisados (Verrücktheit) e a constituição
+mental (Paranoia), que elles revellam nos dominios intellectuaes, se
+estabelece uma perfeita equivalencia, o reconhecimento de uma variedade
+aguda e curavel dos primeiros implica uma perigosa negação da doutrina
+que faz da segunda uma doença de evolução essencialmente chronica e
+incuravel, uma degenerescencia, em summa. Mas, precisamente se
+encarregam os factos de pôr em relevo o lado fraco d'esta doutrina e a
+exactidão da que sustentamos com Tanzi e Riva. Os delirios
+systematisados podem revestir a fórma aguda e curar; o que é chronico,
+porém, e não cura jámais é a anomala organisação psychica de que elles
+não fazem senão traduzir a maxima intensidade ideativa. Póde ser aguda e
+curar a Verrücktheit; o que é chronico e não cura é a Paranoia.
+
+
+
+III--A VERRÜCKTHEIT SECUNDARIA
+
+Os delirios systematisados que succedem ás psychonevroses; sua
+interpretação pathogenica--A opinião de Tonnini; modificação
+introduzida--Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.
+
+
+A extensão com que na parte historica d'este _Ensaio_ tratamos o velho
+thema da Verrücktheit secundaria, tão caro aos allemães, permitte-nos
+agora limitar muito as considerações de ordem critica a fazer sobre
+elle.
+
+Disse alguem que, a partir dos trabalhos de Sander e Snell, a pergunta:
+_Existirá uma Verrücktheit primaria?_ começou a ser substituida por esta
+outra: _Existirá uma Verrücktheit secundaria?_ E nós vimos, com effeito,
+que a extensão d'esta diminuiu sempre na medida em que augmentava a
+d'aquella. Entendamo-nos, porém: se os delirios systematisados que
+succedem á mania e á melancolia de longa duração, não merecem realmente
+um logar no quadro clinico da Verrücktheit, que é uma doença
+constitucional, mas no grupo das psychonevroses, de que são apenas
+estados terminaes prefaciando a loucura e revellando já, pela sua mesma
+inactiva e apagada coordenação, um enfraquecimento cerebral, é
+indiscutivel que a observação clinica nos permitte uma ou outra vez
+surprehender delirios persecutorios e ambiciosos vivamente
+systematisados, activos e tenazes, succedendo, todavia, a psychoses de
+manifestações maniacas, melancolicas e até mesmo apparentemente
+demenciaes. Raros, estes ultimos delirios systematisados não o são
+tanto, comtudo, que os não tenham observado psychiatras de todos os
+paizes. Como interpretal-os? Onde achar-lhes logar dentro das modernas
+classificações?
+
+A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por
+Tonnini: Estes delirios são paranoicos; e a psychonevrose que os
+precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia,
+estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente.
+É possivel que, a não se realisar a incidencia perturbadora do elemento
+emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua
+evolução sem manifestações delirantes, comquanto houvessem de
+caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel
+egocentricidade. Vulneravel, porém, elle não póde resistir ás causas que
+nos espiritos sãos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se,
+portanto. O que deverá succeder a partir d'esse momento? Naturalmente,
+alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em
+vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose
+apressará aquella _maturidade degenerativa_ de que fallam Tanzi e Riva
+e que tem por expressão intellectual um delirio systematisado. Já em
+manifesto desequilibrio e já cançado pela passagem tormentosa da
+psychonevrose, o cerebro não poderá dar a este delirio secundario a
+forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha
+ainda a força psychica precisa a uma evolução que póde ser longa e de
+certo modo movimentada. É n'este especial sentido que, a meu vêr, a
+Verrücktheit secundaria deve ser admittida.
+
+Note-se, porém, que dizemos Verrücktheit e não Paranoia, no que
+divergimos de Tonnini. E esta divergencia não é só de fórma, mas de
+fundo, não apenas de nomenclatura, mas até certo ponto de interpretação.
+Com effeito, se bem comprehendemos todo o pensamento do escriptor
+italiano, a psychonevrose sommar-se-hia com uma simples predisposição
+vesanica para determinar a Paranoia, que os delirios systematisados
+secundarios symptomatisam; ao contrario, eu penso que a Paranoia
+preexiste á psychonevrose, embora tendo uma fórma mitigada e revestindo
+até ao advento d'esta uma feição mal definida, um verdadeiro typo
+indifferente. A psychonevrose que, na interpretação de Tonnini,
+contribuiria essencialmente para a constituição da Paranoia, não faz, a
+meu vêr, mais do que accentual-a, provocando a Verrücktheit, isto é,
+imprimindo-lhe um definido typo delirante. Todas as degenerescencias
+teem graus intensivos ou de gravidade: na ordem das paranoicas a mais
+grave seria a que mais rapidamente chega á maturidade, a mais precoce, a
+que desde a puberdade se revella por delirios systematisados, isto é,
+pela _Verrücktheit originaria_; a menos grave seria a que só attinge a
+maturidade por virtude de um abalo emocional, a mais tardia, a que se
+manifesta pela _Verrücktheit secundaria_. Mas em qualquer dos dois
+casos, como cm todos, a anomala constituição cerebral que na essencia
+caracterisa a Paranoia, é congenita. E eis porque eu não hesito em
+acceitar uma _Verrücktheit secundaria_, como não hesitei em admittir uma
+_Verrücktheit aguda_, comquanto sustente a _primitividade_ e a
+_chronicidade_ essenciaes da Paranoia.
+
+
+
+IV--O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS
+
+Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação
+pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na
+psychiatria franceza--A autoobservação e o raciocinio não representam um
+papel na génese dos delirios paranoicos--Depoimento dos factos--A
+primitividade dos delirios paranoicos, sua origem ideativa.
+
+
+Entre os erros concebidos a proposito da origem, sempre anciosamente
+procurada, dos delirios de perseguições e de grandezas, um ha que,
+embora contradictado pela experiencia, se divulgou, sobretudo em França,
+com manifesto prejuizo de uma sã pathogenia: refiro-me ao que faz
+intervir na génese d'estes delirios a autoobservação e o raciocinio do
+doente. Lasègue, affirmando que o perseguido, normal até ao momento da
+invasão da doença, annunciada por um vago, mas profundo mal-estar, se
+perscruta, se dobra sobre si mesmo, e acaba, não sem hesitações, por
+encontrar na hostilidade dos homens a interpretação dos seus
+soffrimentos, foi o creador d'esse erro funesto, que Foville generalisou
+mais tarde, fazendo proceder a megalomania da necessidade que o
+perseguido sente de explicar-se os motivos das acintosas miserias
+soffridas.
+
+Repetida como uma sorte de _cliché_ por successivas gerações de
+alienistas franceses, esta gratuita vista do espirito, que só Morel
+repudiou, insinua-se ainda nos livros contemporaneos; e assim é que,
+embora sem um só caso em apoio, Magnan, á maneira de Foville, enumera o
+_raciocinio_ entre os fundamentos possiveis da transição, no Delirio
+Chronico, da phase persecutoria á phase ambiciosa.
+
+Comecemos por examinar esta singular pathogenia em relação ao delirio de
+perseguições a que primeiro se applicou.
+
+Segundo ella, o perseguido, como um homem são, abruptamente assediado de
+obscuras emoções dolorosas, buscaria comprehendel-as, determinar-lhes as
+causas, fazendo conjecturas e construindo hypotheses, entre as quaes
+está a que, por successivas e mais ou menos demoradas exclusões, elle
+acceita como a melhor e mais explicativa: a de uma perseguição.
+
+A apparente nitidez d'esta pathogenia seduziu os espiritos; e, comtudo,
+ella é radicalmente falsa.
+
+Em primeiro logar, a observação clinica protesta contra, a normalidade
+do perseguido anteriormente á invasão do delirio, proclamando-o não só
+um predisposto, as mais das vezes hereditario, mas um verdadeiro
+candidato á loucura,
+
+Antes de imaginar o seu Delirio Chronico anti-degenerativo,
+releve-se-me a expressão, Magnan reclamava para os delirantes
+systematisados uma ancestralidade vesanica de duas gerações, pelo menos;
+e esta idéa, já antes emittida por Morel, é a que sempre dominou as
+psychiatrias allemã e italiana, accordes em acceitar como
+hereditariamente invalido o cerebro paranoico. Por outro lado, jámais se
+estudou de perto a vida predelirante de um perseguido sem que n'ella se
+encontrassem seguras manifestações de exaggerado subjectivismo, de
+autophilia, de egocentricidade, tornando difficil, melindroso e ás vezes
+chocante o commercio social d'este paranoico. E, como se tudo isto não
+fosse bastante para condemnar a ingenua supposição da normalidade de um
+espirito, que ámanhã fabricará, sem causas determinantes, um absurdo e
+tenacissimo delirio, surge não raro no perseguido a estygmatisação
+physica da degenerescencia.
+
+Em segundo logar, é absolutamente inexacto que o inicial symptoma da
+doença seja no perseguido, como a theoria inculca, um phenomeno obscuro
+de ordem sensivel, uma vaga e confusa emoção de que se encontre
+excluido, como nos prodromos de outras affecções, um elemento ideativo.
+A experiencia diz precisamente o contrario.
+
+Quando o perseguido começa, no periodo chamado de incubação do delirio,
+a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os
+seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente
+o interrogam, fal-o já por desconfiança do meio, que reputa hostil. É
+certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoção egocentrica, essa
+desconfiança, mitigada e ainda compativel com a vida social, o
+caracterisou sempre; agora, porém, ella tornou-se definido _sentimento_
+pela clara apparição no espirito de uma _idéa_ de hostilidade e de
+perigo. A inquirição perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a
+procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da
+mal-querença dos outros, a eclosão, emfim, das illusões sensoriaes,
+tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido
+se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma _idéa_ que a
+orienta, que lhe imprime uma direcção, que a conduz. A illusão auditiva,
+phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinação ha de
+surgir, suppõe já um erethismo sensorial a que preside, consciente e
+nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a _idéa_
+de uma hostilidade exterior. E é mesmo, é justamente porque essa
+idéa está presente no espirito e se lhe impõe que o perseguido
+paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querença,
+interpretações aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons
+mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos;
+cahindo sinceramente n'uma petição de principio, o perseguido prova que
+no seu cerebro existe uma idéa que o tyrannisa, que o empolga, e que,
+tornada um centro de associações psychicas, lhe vicia o raciocinio.
+Que essa idéa, como todas, proceda de preexistentes emoções, eis o que
+não contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou
+indirectamente reponta do humus da sensibilidade; mas só depois que
+ella espontaneamente appareceu na consciencia é que o delirio se
+iniciou. Não é, pois, emotiva, mas ideativa a origem directa e
+immediata d'este.
+
+O que-se passa na melancolia esclarece, pelo contraste, a situação
+paranoica. Ali, com effeito, o phenomeno inicial é d'ordem emotiva, pois
+que se reduz a uma depressão consciente, que estados de cenesthesia
+morbida provocam: a tonalidade psychica baixa, o doente sente-se diverso
+do que fóra, a dôr moral invade-o, e é ao fim d'algum tempo d'esta
+situação anormal que o delirio surge, quer como tentativa de
+interpretação do novo modo de ser, quer como adequada expressão ideativa
+de um sentimento geral de impotencia. As idéas de crime, de peccado, de
+doença incuravel, de miseria, de incapacidade, de possessão, n'uma
+palavra, todas as idéas que formam o contheudo do delirio melancolico,
+são ulteriores á depressão dolorosa, que é o facto morbido primitivo.
+Essas idéas não procedem do inconsciente, não irrompem de obscuras
+emoções por ignorados e mysteriosos processos, mas succedem a um
+consciente sentimento de dôr, que tem as suas raizes em phenomenos
+somaticos apreciaveis. O melancolico sente-se mudado, o que é exacto, e
+torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o
+perseguido, esse, sente mudado em relação a si o mundo exterior, o que é
+falso, o que presuppõe uma ideação anormal e, portanto, um começo de
+delirio, que a observação objectiva apenas ajudará a systematisar.
+Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de
+dôr, que é a expressão consciente de perturbações cenesthesicas, se
+concentra e se interroga, fazendo um delirio _secundario_, o perseguido,
+egocentrico e autophilico, partindo de uma idéa chimerica de
+hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando
+_primitivamente_.
+
+A autoobservação e o raciocinio na génese do delirio de perseguições não
+passam de miragens do espirito. No perseguido a attenção é dirigida em
+sentido objectivo; e o raciocinio, longe de intervir na formação do
+delirio, é por elle radicalmente falseado sempre que se trata das
+relações entre o mundo exterior e o Eu. A verdade clinica é, pois,
+precisamente o contrario do que affirma a doutrina de Lasègue; a verdade
+é que o delirio surge á sua hora, como o fructo amadurece e o grão
+germina: espontaneamente, fatalmente.
+
+Vejamos agora o que se dá com o delirio ambicioso que succede ao de
+perseguições.
+
+Haverá n'este caso, como pretendia Foville e como á saciedade se tem
+repetido, uma transformação consciente e raciocinada?
+
+O que acabamos de dizer sobre a direcção exclusivamente objectiva da
+attenção do perseguido, faz desde já suppôr o contrario. A attitude
+reflexiva, que seria necessaria para indagar as causas de uma
+hostilidade do meio, não está nos habitos do perseguido; por outro lado
+ainda, não é de modo nenhum natural que se procurem as origens de um
+facto acreditado, como os dogmas, com a inabalavel fé, que dispensa
+interpretações e as rejeita mesmo.
+
+Mas as provas directas da falsidade clinica da doutrina de Foville
+abundam. Assim, a observação permitte affirmar que não só o perseguido
+nunca formúla a pergunta: _Porque me perseguem?_ mas que, interrogado
+n'este sentido, invariavelmente responde: _Não sei_. O absurdo de uma
+perseguição sem causas, de uma hostilidade immotivada não choca esta
+ordem de doentes; e é debalde que se tenta dirigir-lhes a attenção para
+o exame de um assumpto que parece não os interessar. Absorvidos pelas
+allucinações ou empenhados em conjurar os effeitos de uma aggressão
+implacavel, os perseguidos não sentem a necessidade de inquirir as
+razões d'ella; e todo o insistente convite n'este sentido serve apenas
+para os impacientar, quando os não leva a entrevêr no solicito
+observador um cumplice de imaginarios inimigos.
+
+Mas ha mais. Se o delirio ambicioso podesse installar-se a titulo de
+explicação de precedentes perseguições, nada seria mais facil do que
+provocal-o: bastaria suggerir ao perseguido os themas habituaes da
+megalomania, deixando-lhe a escolha. Por outros termos: se o raciocinio
+bastasse, como candidamente pretendia Foville, a operar a transformação
+de uma personalidade,--para fazer-se de um perseguido um megalomano
+seria necessario apenas dizer-lhe precocemente o que, segundo o auctor
+francez, elle se dirá um dia, isto é, que, não podendo haver
+perseguições sem causa, o encarniçamento dos seus inimigos deve
+naturalmente explicar-se quer pela inveja dos altos meritos pessoaes do
+doente, quer pelo interesse de supprimir um individuo destinado, como
+elle o é, talvez, a reinar, a dirigir um partido, a instituir uma
+religião, a reformar uma sociedade, a mudar a face de uma sciencia. Ora,
+a verdade é que suggestões d'esta ordem não só não abalam os perseguidos
+que, aliás, se tornarão mais tarde megalomanos, mas determinam n'elles
+ora uma franca hilaridade, ora indignados protestos. Repeti muitas
+vezes, no começo da minha carreira, experiencias d'esta natureza,
+conseguindo apenas provocar dos doentes contestações como estas: que não
+estão doidos para desconhecerem a sua situação; que não admittem
+zombarias; que as historias phantasticas são boas para entreter creanças
+e idiotas; que não é digno escarnecer de quem soffre.
+
+É, pois, radicalmente falso e absolutamente contrario aos dados da
+observação que o delirio de grandezas appareça como tentativa feita para
+explicar perseguições soffridas. A idéa ambiciosa, como a de
+hostilidade, surge no espirito de um modo espontaneo e inconsciente; do
+delirio de grandezas póde, pois, repetir-se o que foi dito do delirio de
+perseguições: que elle irrompe á sua hora, como o fructo amadurece e o
+grão germina.
+
+É só depois de installado por um processo a que são extranhos o
+raciocinio e a vontade, que o delirio de grandezas servirá para explicar
+o de perseguições, como este, por sua vez, servira ao doente para
+interpretar os factos da sua vida anterior. É só a partir do momento em
+que se crê excepcionalmente grande pelo genio, pelo nascimento ou pela
+fortuna que o paranoico principia a explicar-se as miserias supportadas.
+
+Note-se, porém, este facto curioso e imprevisto em face da theoria que
+criticamos: o delirio de grandezas, dando um solido ponto de apoio ás
+idéas de perseguição, que esclarece e interpreta,--bem longe de as
+radicar, tornando-as definitivamente preponderantes no espirito do
+paranoico, tende, pelo contrario, a diminuil-as e a subalternisal-as em
+proveito proprio.
+
+Tal é o irrecusavel depoimento da clinica, absolutamente incompativel,
+como se vê, com a theoria que faz dos delirios paranoicos resultados de
+um esforço da intelligencia para comprehender e interpretar vagos e
+obscuros estados emotivos. Se essa theoria prevalecesse, a autonomia
+nosographica do delirio systematisado de perseguições seria inteiramente
+chimerica; e todo o esforço de Lasègue para o destacar da melancolia
+delirante resultaria inane, pois que a pathogenia, a despeito de todas
+as possiveis differenciações symptomaticas, identificaria
+definitivamente as duas doenças.
+
+Tendo de voltar ainda a este assumpto, procuraremos então interpretar as
+hesitações dos perseguidos e megalomanos na exhibição dos respectivos
+delirios.
+
+Por mal comprehendido, esse facto contribuiu não pouco para acreditar a
+phantastica doutrina da génese consciente e reflexiva dos delirios
+systematisados. A hesitação, parecendo implicar a duvida, iria bem com a
+opinião que faz d'esses delirios _conjecturas_ de um Eu que se observa,
+_hypotheses_ de um espirito que se perscruta, buscando dar-se conta de
+accidentaes perturbações emotivas.
+
+Veremos opportunamente que a interpretação do facto é muito outra; que
+essas hesitações não são senão o resultado da lucta que se exerce entre
+idéas nascidas do inconsciente e o systema de conceitos formados pela
+educação e até um certo tempo impostos pelo meio social.
+
+De modo analogo explicaremos o facto, erroneamente interpretado pelos
+psychiatras francezes, da inquietação dos perseguidos no periodo inicial
+da doença.
+
+
+
+V--AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS
+
+Erro de Foville sobre as relações dos delirios systematisados com as
+allucinações; como se perpetuou na psychiatria franceza--Uma antiga idéa
+de Magnan, exposta por Legrain, sobre este assumpto; falsidade d'essa
+idéa--Primitividade da concepção sobre a allucinação nos delirios
+paranoicos--Uma rectificação de Magnan.
+
+
+Dada a extrema frequencia dos erros sensoriaes, sobretudo das
+allucinações auditivas, na loucura systematisada, tem-se perguntado se
+as perturbações da sensibilidade especial precedem as idéas delirantes,
+servindo-lhes de base e fornecendo-lhes o contheudo, ou se, pelo
+contrario, apenas lhes succedem como uma sorte de confirmação.
+
+Lasègue, sustentando que as allucinações auditivas, unicas, segundo
+elle, compativeis com o delirio de perseguições, não são nem o
+antecedente necessario, nem o consequente inevitavel d'esta vesania,
+estabeleceu claramente a independencia essencial dos erros conceptuaes e
+perceptivos na mais commum das fórmas delirantes da Paranoia.
+
+Retomando, porém, annos depois a questão, Foville admittiu para ella
+duas ordens de soluções, desigualmente frequentes: uma, relativamente
+rara, em que o delirio é primitivo e as allucinações secundarias; outra,
+muito commum e, no delirio de perseguições, constante, em que a relação
+inversa se realisa.
+
+«O delirio, dizia elle, póde ou principiar _d'emblèe_ pelos conceitos ou
+affectar primeiro as sensações e extender-se depois ás idéas de um modo
+secundario»[1]. E, analysando cada um d'estes casos, commentava: «N'este
+ultimo (primitividade das allucinações) as funcções puramente
+intellectuaes não são, desde o começo, intrinsecamente lesadas, antes
+continuam a executar-se segundo a logica. Como faz notar Delasiauve, a
+faculdade syllogistica persiste intacta: emquanto se exerce sobre dados
+exactos, o producto das suas operações é normal e sensato; quando, pelo
+contrario, se exerce sobre dados falsos, isto é, sobre sensações
+imaginarias ou mal interpretadas, sobre allucinações e illusões, o
+producto encontra-se forçosamente em contradicção com a realidade. O
+delirio das sensações tem por effeito engendrar o delirio dos conceitos,
+sem que a intelligencia seja em si mesmo lesada e sem que ella deixe de
+funccionar sãmente, quando não é induzida em erro. Tal é um dos modos de
+producção e, não hesitamos em crêl-o, o _mais vulgarmente observado_ da
+loucura parcial ... Mas esta ordem na successão dos phenomenos morbidos,
+embora a _mais frequente_, não é constante. Acontece tambem _algumas
+vezes_ gue a perturbação começa por concepções erroneas, que succedem a
+uma idéa fixa na ausencia de qualquer allucinação. N'este caso ainda,
+faz-se ordinariamente uma propagação analoga á que indicamos ha pouco,
+mas em sentido inverso. Ao fim de certo tempo, as concepções delirantes
+transformam-se em sensações falsas, o delirio extende-se ás percepções;
+o doente torna-se allucinado, porque era já delirante, em vez de
+tornar-se, como ha pouco, delirante, porque era allucinado»[2].
+
+ [1] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.
+
+ [2] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.
+
+Ora, ao passo que o megalomano-perseguido seria as mais das vezes,
+segundo Foville, um delirante-allucinado, o perseguido-megalomano, pelo
+contrario, seria sempre um allucinado-delirante.
+
+Por muito singular que se nos affigure, este modo de vêr de Foville
+sobre a primitividade das allucinações na Paranoia persecutoria teve um
+exito só comparavel ao da sua theoria das origens reflexivas e
+raciocinadas do delirio ambicioso. Repetido em milhares de tiragens
+pelos alienistas francezes, este novo _cliché_ pathogenico perpetuou-se
+como o primeiro. Magnan, por exemplo, acceitava-o ainda em 1886 e
+dava-lhe curso nos trabalhos dos seus discipulos. Como Foville, o medico
+de Sant'Anna admittia que nos delirios systematisados a allucinação póde
+tanto ser um symptoma derivado da persistencia de conceitos falsos, como
+um phenomeno primitivo sobre que assenta e de que procede a ideação
+pathologica. O primeiro d'estes casos dar-se-hia nos _delirios
+d'emblèe_; o segundo no _Delirio Chronico_. Os degenerados, unicos
+capazes de fabricarem um delirio sem preparação, e de serem, portanto,
+megalomanos-perseguidos, entrariam no grupo dos delirantes-allucinados;
+os normaes, unicos a quem se consigna o Delirio Chronico e, portanto,
+perseguidos-megalomanos, seriam allucinados-delirantes.
+
+Eis como, interpretando o pensamento do mestre sobre as relações da
+allucinação com as idéas morbidas nos _delirios d'emblèe_ e no _Delirio
+Chronico_, se exprimia Legrain: «O mecanismo segundo o qual se produzem
+as allucinações, varia nos dois casos. No Delirio Chronico ellas são
+essencialmente primitivas; todo o delirio é construido sobre ellas, e se
+ellas não existissem, o delirio, que lhes é consecutivo, não existiria.
+Nos degenerados delirantes, quando existem, as allucinações formam-se de
+um outro modo. São symptomas contingentes da doença, não a sua base
+immutavel, pois que numerosos delirios degenerativos evolucionam sem
+allucinações. Quando estas complicam a scena morbida, é o proprio
+delirio que as _provoca_, as mais das vezes, em virtude do seguinte
+mecanismo: Todos os centros cerebraes se encontram em estado completo de
+erethismo; o cerebro anterior elabora as idéas delirantes e evoca as
+imagens nos centros posteriores; as imagens assim evocadas véem
+representar-se nos centros anteriores com uma vivacidade tal que são
+interpretadas como outras tantas realidades. Assim, a allucinação
+encontra a sua causa directa n'uma série de idéas delirantes que a fazem
+nascer, e produz-se como um verdadeiro reflexo. O caminho centripeto
+parte dos centros anteriores, em que é elaborada a idéa delirante, ganha
+as regiões posteriores do cortex, em que a imagem é evocada, depois
+volta aos centros anteriores, trazendo a imagem, que vem misturar-se ao
+delirio e se impõe como realidade ... Muito outra é a allucinação no
+Delirio Chronico: nasce primitivamente, _sur place_, nas regiões
+posteriores do cortex, sem ser provocada. Uma lesão local, lentamente
+progressiva, a produz; ella é a expressão funccional de uma lesão
+anatomica. Partindo d'esse ponto, ganha as regiões anteriores, que
+surprehende realmente. O cerebro anterior, em plena posse do seu
+equilibrio, da sua ponderação, interpreta-a como um facto real e deduz
+d'ella conclusões logicas, que são as primeiras idéas delirantes. Vê-se
+então evolucionar um delirio absolutamente sistematisado, lançando uma
+perturbação na intelligencia intacta e ponderada, que reage com todas as
+suas energias. No degenerado, a adhesão no delirio é plena e inteira
+desde o começo; no delirante chronico ella não é senão lenta e
+progressiva, fazendo-se a systematisação pouco a pouco, mercê de
+persistentes allucinações»[1].
+
+ [1] Legrain, _Du délire chez les dégénérés_, pag. 141.
+
+Se n'esta passagem de Legrain substituirmos as expressões de _cerebro
+anterior_ e _posterior_ pelas suas equivalentes antigas de
+_intelligencia_ e _sensibilidade especial_, reapparece-nos a citação
+precedente de Foville. Uma velha doutrina, pois, resurge sob roupagens
+novas.
+
+Será necessario affirmar n'esta altura do nosso trabalho que a
+primitividade das allucinações nos delirios paranoicos é ainda uma
+ficção, que o exame despreoccupado dos factos annulla e apaga?
+
+É incontestavel que, encarando de um modo geral as relações possiveis
+dos erros sensoriaes com os conceitos morbidos, são legitimos e a cada
+passo se realisam os casos enumerados por Foville: se ha delirios que
+provocam as allucinações, outros ha, que, ao contrario, as teem por base
+e ponto de partida. Isto é de tal modo reconhecido que os ultimos
+d'estes delirios teem na psychiatria contemporanea o nome consagrado de
+_allucinatorios_ ou _sensoriaes_ (Wahnsinn), que allude a um fundamento
+perceptivo, como os primeiros teem o de _systematisados_ (Verrücktheit),
+que inculca uma coordenação ideativa. Sómente, a experiencia clinica
+ensina que os deliros sensoriaes ou são absolutamente dissociados e
+dispersivos ou apenas attingem uma frouxa coordenação, ao passo que os
+delirios francamente systematisados podem, como o persecutorio na sua
+variedade litigante, evolucionar sem a intervenção de estados
+allucinatorios.
+
+De resto, o depoimento da clinica não seria difficil de prevêr.
+Allucinações nascidas _sur place_, sem uma idéa que as provoque e lhes
+forneça o contheudo, só podem ser, como aliás nota Legrain, autonomicos
+effeitos de um erethismo dos centros sensoriaes, anatomica ou
+funccionalmente compromettidos; mas, sendo assim, ou o cerebro anterior
+as corrige e nenhum delirio é então possivel, ou, perdido o _contrôle_
+normal, elle as acceita e delira, não n'um sentido determinado, mas em
+tantas direcções differentes quantas as allucinações, cujo contheudo
+nenhuma razão ha para não suppôr variavel e proteiforme como nos
+delirios sensoriaes das anemias, das febres, das intoxicações e das
+nevroses. Sem a direcção superior de um conceito ou, para fallarmos a
+linguagem de Magnan e Legrain, sem a intervenção provocadora do cerebro
+anterior, os centros sensoriaes, autonomisados e procedendo por conta
+propria e exclusiva, exportam, como nos sonhos, para as regiões
+superiores do cortex, os mais caleidoscopicos elementos de ideação; se,
+com materiaes d'esta natureza, um delirio tem de formar-se, elle não
+poderá ser senão, como o _hallucinatorischer Wahnsinn_ de Krafft-Ebing,
+alguma coisa de tormentoso e incoherente.
+
+Assim, nem _à posteriori_, isto é, tomando para base a clinica, nem _à
+priori_, isto é, partindo da doutrina da percepção, é licito acceitar a
+primitividade das allucinações nos deirios systematisados.
+
+Discutamos, entretanto, no terreno especial da Paranoia persecutoria a
+affirmação de Foville, retomada pela escóla de Sant'Anna.
+
+Fallar, como Legrain, de uma lesão anatomica dos centros sensoriaes no
+delirio de perseguições, é, evidentemente, fazer um abuso de linguagem,
+pois que jámais uma autopsia denunciou em paranoicos qualquer coisa de
+parecido com um desarranjo palpavel e visivel d'essas limitadas regiões
+do cortex. Perturbações d'ordem dynamica, alterações funccionaes,
+desequilibrios de movimento cellular, eis quanto o estado actual da
+physiologia permitte admittir. N'este sentido, o termo de _erethismo_,
+empregado por Legrain, parece-nos feliz. Mas provocado por que causa,
+esse erethismo?
+
+Não o diz o escriptor citado, e é lamentavel.
+
+Excluidas, naturalmente, as intoxicações e as asthenias cerebraes, que
+são as causas mais frequentes de estados allucinatorios, não vejo que
+nos fiquem para explicar a sobreexcitação funccional dos centros
+sensoriaes senão as idéas, delirantes; postas estas de parte, nada
+resta, a invocar na interpretação do phenomeno,--tão importante, aliás, e
+tão essencial, no dizer da escóla franceza, que n'elle repousa a doença
+inteira.
+
+Passemos, porém, ao de leve, sobre esta deficiencia de analyse e
+admittamos por um instante que uma causa, ainda não definida, vem
+provocar e determinar nos centros corticaes da sensibilidade especial um
+erethismo de que o cerebro anterior não partilha. O que nos diz a
+theoria da percepção que deveria succeder n'esta hypothese?
+Surprehendidas pelas extranhas sensações exportadas d'esses centros
+hyperfunccionantes, as regiões superiores da intelligencia entrariam com
+ellas em conflicto; e o resultado d'este, dada a integridade e
+normalidade d'essas regiões, a que incumbe a funcção suprema do
+_contrôle_ psychico, seria, indiscutivelmente, a correcção, a
+rectificação definitiva dos erros sensoriaes. É isto, como se sabe, o
+que acontece nos casos de illusões e allucinações em espiritos normaes.
+Fallar da integridade de uma razão, que constroe um delirio sobre
+percepções falsas, é um perfeito não-senso; admittir a normalidade de
+uma região de _contrôle_, que centros subordinados perturbam e vencem, é
+cahir n'uma grosseira contradicção. Por si sós, dil-o a experiencia
+clinica e ensina-o a theoria da percepção, os erros sensoriaes não
+falseiam os juizos, porque, para corrigir as illusões e allucinações,
+dispõe o cerebro de recursos, que vão desde a elementar contraprova da
+acção de um sentido pela dos outros até ao testemunho alheio e ao
+confronto dos dados perceptivos com o preexistente systema de conceitos
+e sentimentos, que é o fundo mesmo da personalidade sã.
+
+Se os erros sensoriaes não são corrigidos, mas acceites e elaborados
+como realidades objectivas, é que uma d'estas duas hypotheses se dá: ou
+o allucinado não empregou os recursos de rectificação e _contrôle_ da
+percepção exterior, porque, delirante já, viu nas allucinações uma
+confirmação dos seus conceitos; ou os empregou sem exito, porque o
+insistente depoimento dos centros sensoriaes em erethismo, acabou por
+vencer os argumentos da razão.
+
+Qual d'estas duas hypotheses se realisa no delirio de perseguições?
+Segundo o antigo ensino da escóla de Sant'Anna, de que Legrain é um
+interprete eminente, a primeira teria logar nos perseguidos _d'emblèe_,
+que são degenerados, e a segunda nos delirantes chronicos, que são
+normaes até á invasão da doença.
+
+É inutil repetir que não acceitamos esta distincção, e que a primeira
+das hypotheses formuladas é para nós a que tem logar em todos os casos
+não só de delerio de perseguições, mas dos outros delirios
+systematisados.
+
+Analysemos, comtudo, as affirmações de Legrain em relação ao Delirio
+Chronico.
+
+Estabelecendo com Magnan (como o fizera Lasègue para o perseguido) que o
+delirante chronico é um ser normal até á invasão da doença, Legrain
+compraz-se em vêr na incubação d'esta uma lucta da razão com os morbidos
+elementos invasores. Ao passo que o degenerado supportaria, por assim
+dizer, o seu delirio,--espontanea manifestação de um desequilibrio
+preexistente, o normal _fabrical-o-hia_ lentamente, hesitantemente e
+raciocinando sempre. É a velha doutrina. Mas como de um raciocinio só
+podem surgir conclusões falsas quando as premissas o são tambem,
+Legrain, á maneira de Delasiauve e de Foville, faz das illusões e
+allucinações, nascidas _sur place_ nos centros sensoriaes, o elemento
+morbido aggressivo e a premissa erronea de que o cerebro anterior
+deduzirá, emfim, o delirio.
+
+Acabamos de vêr, e toda a insistencia n'este ponto seria impertinente,
+que a incapacidade de corrigir percepções erradas implica deficiencia de
+senso critico e, portanto, insanidade mental, anormalidade psychica. Nem
+mesmo admittindo com Legrain que o cerebro reage contra a allucinação
+invasora com todas as suas energias, poderia evitar-se a conclusão, pois
+que a derrota denuncía a fraqueza e inferioridade d'essas energias.
+
+Mas será verdade, ao menos, que o perseguido reaja contra as illusões e
+allucinações incessantemente originadas nos centros sensoriaes
+sobreexcitados? De modo nenhum. Bem ao contrario do que Legrain
+pretende, as illusões e allucinações são para os perseguidos, como para
+todos os paranoicos, pontos de apoio e não de partida do delirio,
+confirmações e não elementos formativos d'elle, eccos dos erros
+conceptuaes e não o seu fundamento, n'uma palavra, precarios symptomas
+derivados e não phenomenos essenciaes e primitivos.
+
+A demonstração d'esta verdade clinica não será difficil, nem longa.
+
+Uma só passagem de Magnan a fará. Fallando do que se passa no chamado
+periodo de incubação do delirio persecutorio, escreve n'um dos seus
+ultimos trabalhos o eminente observador: «Os doentes experimentam um
+mal-estar, um descontentamento que não sabem explicar-se; tornam-se
+apprehensivos, inquietos, _desconfiados, crendo notar certas mudanças_
+na maneira de ser da familia e mesmo dos extranhos. Dormem mal, teem
+menos appetite, menos aptidão para o trabalho e para os negocios. N'esta
+época poderiam ser tomados por hypocondriacos. Pouco a pouco
+_parece-lhes que os observam_, que _os olham de travez_, que os
+_desprezam_; duvidam, hesitam, permanecem fluctuantes entre idéas
+variadas, acceites primeiro, repudiadas em seguida, admittidas pouco a
+pouco e dando logar, emfim, a interpretações delirantes ... O doente
+persiste assim perturbado, inquieto, por vezes excitado, todo entregue
+ás _concepções penosas que principiam a assaltal-o_ e _indifferente a
+tudo o que não parece prender-se com o seu delirio_. Os grandes
+acontecimentos não o commovem, as perturbações politicas deixam-no
+indifferente, as perdas de dinheiro e as luctas de familia não o
+emocionam. Pelo contrario, factos insignificantes, mas que se relacionam
+com as suas preoccupações penosas, que as justificam, adquirem uma
+importancia extrema e provocam-lhe a colera. Se uma pessoa se esquece de
+o saudar, vê n'isto uma injuria voluntaria; se alguem tosse ou escarra
+ao pé d'elle, se diante d'elle uma janella ou uma porta se abrem, se-uma
+cadeira se desloca, reconhece outros tantos testemunhos de despreso. As
+provas de benevolencia e de afeição tornam-se zombarias, e o proprio
+silencio é uma offensa. O vago apaga-se pouco a pouco; á hesitação
+succede a certeza, e, fortificadas por todas estas provas, as suas
+convicções tornam-se inabalaveis. N'estas condições, o doente, sempre em
+guarda, espia, escuta, surprehende n'uma conversação uma phrase que se
+attribue--eis a interpretação delirante; ou se crê aggravado por uma
+palavra insignificante, mas cujo som apresenta alguma analogia com uma
+injuria grosseira e que elle confunde com esta--eis a illusão. Depois, a
+_idéa constante de uma perseguição_, a tensão incessante da
+intelligencia acabam por _despertar o signal representativo da idéa_, a
+imagem tonal; n'uma palavra, a allucinação auditiva produz-se»[1].
+
+ [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.
+
+Não é possivel estabelecer de um modo mais preciso e mais eloquente a
+primitividade do delirio e a secundariedade da allucinação. Todo o
+commentario seria pallido, todo o retoque prejudicial a este quadro
+_d'après nature_.
+
+A questão de saber corno Magnan exprime em 1893 uma opinião
+diametralmente opposta á de Legrain, que em 1886 se dava como interprete
+da escóla de Sant'Anna, é secundaria para nós e sem interesse para a
+sciencia.
+
+Cremos que n'este caso, como no de Gérente, Magnan se contradicta a si
+proprio, fazendo do seu Delirio Chronico edições successivas e todas
+differentes.
+
+Felizmente, e é isto o que nos importa notar, a correcção introduzida
+ultimamente no capitulo das relações entre os erros perceptivos e
+conceptuaes, é conforme á verdade clinica.
+
+
+
+VI--AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS.
+
+A inquietação dos perseguidos e as hesitações de certos paranoicos na
+exhibição do delirio; como se explicam estes factos--A doutrina classica
+das obsessões; sua inexactidão--Idéas do auctor; inesperada confirmação
+d'ellas por J. Séglas--A obsessão é um delirio systematico abortado;
+este é uma obsessão progressiva--Demonstração; analyse dos factos--Como
+se fórma o Eu; estratificações systematisadas--A personalidade e as
+subpersonalidades; o atavismo.
+
+
+Se as idéas que formam o contheudo dos delirios paranoicos, não traduzem
+um esforço de reflexão exercendo-se sobre estados emotivos, nem
+reconhecem por causa os erros sensoriaes, como cremos ter provado, a
+conclusão se impõe de que ellas surgem na consciencia á maneira de
+obsessões.
+
+Comquanto sustentada por uma parte dos psychiatras allemães e italianos,
+esta affirmação está de tal modo em desaccordo com as radicadas
+tradicções da escóla franceza que não será sem vantagem discutil-a.
+Antes, porém, seja-me licito notar que, acceite a origem obsessiva dos
+delirios systematisados, dois factos, que os alienistas francezes não
+lograram explicar senão phantasiosamente e em contradicção com os dados
+mais positivos da observação clinica, recebem uma interpretação
+simplicissima: refiro-me á inquietação dos perseguidos quando o seu
+delirio aponta, e ás hesitações de grande numero de paranoicos na
+exhibição dos seus conceitos falsos.
+
+O primeiro d'estes factos, abusivamente comparado pelos psychiatras
+francezes ao vago mal-estar precursor das doenças graves, não é, em
+realidade, mais do que a natural reacção emotiva do Eu, subitamente
+empolgado por uma idéa penosa, que irrompe do inconsciente; longe de
+constituir, como a anciedade melancolica, uma situação primitiva de que
+surgirão os erros conceptuaes, é um estado secundario, um effeito mesmo
+da presença inesperada de uma idéa depressiva no campo da consciencia.
+
+Em que consiste, de facto, essa inquietação? Definitivamente e no
+fundo--em sentimentos e actos defensivos; ora, a organisação de uma
+defeza suppõe a idéa de um ataque, de uma hostilidade, de um perigo. Sem
+duvida, essa idéa só se terá transformado n'um conceito e recebido a sua
+inteira systematisação, quando se houver feito o reconhecimento do
+inimigo e das causas da aggressão; a partir, porém, do momento em que
+obsessivamente ella irrompe e se impõe ao espirito, a inquietação
+apparece como o grito de alarme da esphera emotiva do perseguido.
+
+Quanto ás hesitações, tantas vezes observadas, do paranoico na
+exteriorisação do seu delirio, qualquer que elle seja, nada mais facil
+que interpretal-as. Trata-se ainda, n'este caso, de um phenomeno
+secundario, inseparavel do primeiro. Surprehendendo a consciencia pelo
+contraste que faz com o systema de conceitos positivos recebidos da
+educação, a idéa delirante é para o Eu alguma coisa de extranho e de
+interposto que, tendo-lhe provocado uma forte reacção emotiva, irá ainda
+remodelar toda a sua precedente orientação pensante, não sem
+difficuldades e combates; a hesitação em affirmar o delirio é, pois, o
+resultado da novidade e extranhesa das idéas que o formam. Longe de ser,
+como se pretendeu, a duvida de um espirito que elabora conjecturas e
+procura cotejal-as com os actos, essa hesitação traduz o esforço penoso
+e vacillante de adaptação do Eu a uma nova ordem de idéas, que elle vê
+surgir e cuja origem desconhece. O paranoico não duvida, porque não
+critica. Como a victima de uma suggestão hypnotica activa não procura
+evitar o acto ordenado e imposto, ainda quando elle choca, ás suas
+habituaes inclinações, mas busca dar-lhe apparencias de espontaneo e
+querido, o paranoico, longe de tentar a correcção da sua idéa falsa,
+cuida em reforçal-a pela interpretação delirante dos factos.
+
+Mas ás vezes succede tambem que já o delirio se encontra systematisado e
+ainda o paranoico o occulta ou apenas o confia do papel, n'uma sorte de
+soliloquio. A razão d'este facto está em que o doente, reconhecendo,
+pelo que, em si proprio se passou no periodo presystematico, a
+extranheza do seu delirio e a formidavel antithese que elle faz com as
+idéas correntes, procura evitar as inuteis e irritantes discussões que
+provocaria, exhibindo-o. É o conhecido caso de alguns crentes que, em
+vez de propagarem a sua fé, penosamente conquistada em repetidas luctas
+interiores, se recolhem n'ella, evitando a controversia, sentindo uma
+sorte de pudor em desdobrar diante de profanos irreverentes o inabalavel
+systema das suas convicções religiosas.
+
+Mas eu prevejo uma objecção a esta doutrina. Como acceitar, dir-se-ha, a
+origem obsessiva dos delirios systematisados, se um dos caracteres das
+obsessões é justamente o de não serem integradas na consciencia, de
+subsistirem no Eu em lucta aberta com as disposições preexistentes,
+n'uma palavra, de não formarem systema?
+
+A resposta implica um exame de doutrinas a que vamos proceder.
+
+Westphal, definindo a obsessão _uma idéa que, sem precedencia de um
+estado emotivo ou passional, se impõe á consciencia do doente contra a
+sua vontade, impedindo o jogo normal do pensamento, em que se insinua, e
+sendo sempre reconhecida como anomala e extranha ao Eu_, foi um dos
+primeiros a proclamar a irreductivel systematisação da idéa obsessiva.
+
+Pelo seu lado, os auctores, que ulteriormente mais se occuparam das
+obsessões, insistiram sempre no facto de que ellas constituem na
+economia psychica uma sorte de _corpo extranho_, releve-se-me a
+expressão, para eliminar o qual, inutil, mas consciente e penosamente se
+esforça o Eu. Assim, Magnan, definindo a obsessão pathologica _um modo
+de actividade cerebral em que uma palavra, uma idéa, uma imagem se
+impõem ao espirito sem intervenção da vontade e com uma angustia
+dolorosa que a torna irresistivel_, conta, como Westphal, entre os
+caracteres pathognominicos d phenomeno (que para elle é sempre um
+syndroma da degenerescenda psychica), a _consciencia completa_ de um
+estado morbido. E.J. Falret, interpretando no Congresso Psychiatrico
+Internacional de 1892 as mesmas idéas, affirmou não só que as obsessões
+são _conscientes_ e _anciosas_, mas que se _não acompanham de
+allucinações_ e se _não transformam nunca em outras doenças mentaes_,
+embora algumas vezes e n'uma adiantada phase de evolução se possam
+_complicar_ de um delirio melancolico ou persecutorio. O assentimento do
+Congresso as conclusões do Relatorio de Falret foi como a consagração
+official da doutrina que faz da idéa obsessiva um facto insusceptivel da
+assimilação, um producto que o Eu considera sempre extranho, que a
+consciencia jámais incorpora, que a vontade combate e contra o qual a
+emotividade perpetuamente lança o seu grito de alarme.
+
+Será, porém, rigorosamente assim?
+
+Reconhecendo que a nossa experiencia é curta e a nossa auctoridade
+nulla, atrevemo-nos, comtudo, desde 1892; tendo por base uma solida
+convicção, a discutir alguns dos pontos essenciaes da doutrina classica.
+
+Assim, em conferencias publicas d'esse anno, a proposito de um caso
+medico-legal de impulsividade criminosa, sustentamos que a idéa
+obsessiva não póde ser, nem é na vida mental um elemento inerte, e que a
+sua actividade, como a de todo o phenomeno psychico, se mede pelo maior
+ou menor numero de factos da mesma ordem que ella evoca na consciencia,
+o que equivale a dizer--pelas mais ou menos extensas _systematisações_
+que provoca. Como cada atomo de um aggregado material, diziamos então,
+entra n'elle com uma certa affinidade, cada phenomeno psychico figura no
+Eu com uma dóse propria de força systematisante. E a idéa obsessiva,
+extranha á consciencia pelas suas origens confusas, não é essencialmente
+diversa dos outros factos psychicos, nascidos tambem em grande parte da
+cerebração inconsciente; surgindo, ella evoca, pois, pela sua mesma
+affinidade com esses factos, pela sua mesma força systematisante (de que
+as leis de associação não fazem senão constatar a existencia e denunciar
+parcialmente as orientações), idéas, emoções, desejos, impulsos, novas
+imagens mentaes, em summa.
+
+Longe de acompanhar-se, diziamos, de uma perfeita e _completa
+consciencia,_ a obsessão, representando um começo de _dissociação
+pessoal_, uma scisão do Eu por dois grupos antinomicos de
+systematisações psychicas, a normal e a obsessiva, implica uma
+_obnubilação da consciencia_ individual, pois que esta não póde
+comprehender-se senão como synthese de estados psychicos harmonicos e
+expressão da unidade do Eu.
+
+Este modo de vêr, seja dito de passagem, encontramol-o sustentado com
+profusão de argumentos psychologicos e clinicos nas excellentes _Lições
+sobre as doenças mentaes e nervosas_ de Séglas, publicadas em 1896. Este
+imprevisto encontro do nosso espirito com o do eminente psychiatra, sob
+ser-nos lisongeiro, depõe grandemente em favor da justeza das idéas que
+defendemos.
+
+A _angustia_ que acompanha os estados psychicos, diziamos nas mesmas
+conferencias, traduzindo a extranheza da consciencia em face da idéa
+imposta, está longe de ser um thenomeno invariavel, pois que, no fundo,
+elle depende da extensão maior ou menor que tomam as systematisações
+pathologicas em face das normaes. Ha estados em que toda a reacção
+emotiva se limita a uma passageira e leve inquietação de espirito;
+outros, em que surgem phenomenos criticos de anciedade, pronunciados,
+duradouros e graves. Procurando interpretar estes factos, Westphal
+collocou-os principalmente sob a dependencia do contheudo das obsessões,
+affirmando que, em igualdade de circumstancias, a idéa fixa de matar
+repugnará muito mais que a de pronunciar uma palavra inconveniente.
+Talvez seja assim; mas essa _igualdade de circumstancias_, reduzindo-se,
+no fundo, a uma identidade absoluta de disposições affectivas e moraes,
+não póde nunca affirmar-se com segurança em dois individuos ou n'um só
+em periodos diversos. Dizer que uma idéa obsessiva repugna, pelo seu
+contheudo, mais ou menos que uma outra, é dizer que as systematisações
+provocadas por cada uma valem diferentemente para o Eu. Mas porque? Em
+ultima analyse, porque as systematisações normaes com que ellas entram
+em conflicto na consciencia são diversas ou desigualmente organisadas. Á
+medida que a idéa obsessiva, quer por força propria, quer por frouxidão
+das suas antagonistas, alarga a esphera da sua systematisação, a
+dissociação do Eu progride, a extranheza da consciencia diminue e a
+_angustia_ reduz-se proporcionalmente. E o limite d'esta reducção, que
+theoricamente é zero, terá sido attingido, quando no campo da
+consciencia não existam systematisações que directa ou indirectamente
+não sejam provocadas pela idéa obsessiva.
+
+Mas, n'esta hypothese dois casos podem dar-se: ou as systematisações
+normaes readquirem, decorrido um certo tempo, a sua supremacia, ou, mais
+fracas, ellas se deixam vencer definitivamente pelas systematisações
+pathologicas. No primeiro caso, a consciencia individual restabelece-se,
+e da phase de derrota fica apenas a memoria confusa de uma sorte de
+estado secundario e de sonho,--o que tem permittido comparar as
+obsessões impulsivas a crises de epilepsia psychica; no segundo, um novo
+Eu se fórma, tendo por substracto associações pathologicas, isto é, um
+delirio systematisado.
+
+Tal foi, nos seus contornos, a doutrina que esboçamos em 1892 e
+exposemos ainda em conferencias sobre a Paranoia no começo de 96,
+contradictando os que pretendem achar contrastes irreductiveis entre
+obsessão e delirio. Insubsistentes no terreno da psychologia abstracta,
+esses contrastes não o são menos no campo da clinica, onde Tamburini,
+Stephani, Séglas, Catzras e outros demonstraram, contrariamente á
+cathegorica affirmação de J. Palret, que existem allucinações sensoriaes
+e psychomotoras exclusivamente determinadas pela persistencia de idéas
+obsessivas. Longe de serem antinomicos, a obsessão e o delirio
+approximam-se pela communidade de origem: a obsessão seria, na ordem de
+idéas que sustentamos, um começo de delirio systematisado, como este
+seria uma obsessão progressiva, desenvolvendo-se á custa de successivas
+associações. N'este sentido se interpreta sem esforço a expressão de
+_paranoia rudimentar_ por que Arnadt, Morselli e outros designam a
+obsessão.
+
+Mas, porque reputamos fundamentaes estas idéas, procuraremos dar-lhes
+aqui todo o desenvolvimento que ellas comportam.
+
+O phenomeno pathologico da obsessão tem, como nota Dallemagne, um
+representante physiologico no facto banal de uma idéa indifferente que,
+sem sabermos como, nos surge na consciencia, interrompendo
+disparatadamente o curso das nossas preoccupações e desapparecendo um
+instante depois. Não ha aqui, em verdade, nem angustia, nem
+irresistibilidade; ha, porém, o phenomeno da emergencia inexplicavel e
+extranha de uma imagem, que o jogo consciente das idéas não provocou. A
+systematisação não existe tambem: um momento presente na consciencia, a
+idéa desappareceu sem deixar n'ella um vestigio. Imaginemos, porém, que
+a idéa extranha pertence á cathegoria das impulsivas, e concedamos que o
+acto n'ella representado seja de natureza cruel: atirar, por exemplo, á
+linha férrea um companheiro de viagem. É evidente que o novo caso
+differe muito do anterior. Em primeiro logar, a idéa tem desde logo um
+começo de systematisação, por isso que mentalmente nos representamos uma
+scena complicada e os seus possiveis effeitos: imagens motoras, imagens
+sensoriaes, sentimentos, emoções, idéas de leis e principios moraes,
+idéas de sanção penal, tudo entra em jogo, tudo se grupa, em torno da
+idéa primitiva. A vontade lucta, como geralmente se diz, ou, como melhor
+deveria dizer-se, as systematisações normaes, mais ou menos organisadas
+e resistentes, repellem a systematisação anomala e intrusa. Esta,
+todavia, não desapparece sem vestigios; impossibilitada de tomar as
+reclamadas vias motoras externas, gastou-se na esphera emotiva,
+dando-nos um instante de inquietação, um sobresalto, um começo de
+angustia, traduzida, talvez, physicamente n'um subito pallor de face,
+n'uma agitação momentanea do pulso. Mas figuremos que a idéa se reproduz
+ainda, uma vez, duas, muitas vezes. A systematisação, que ella provocou
+no inicial momento, repete-se, avigora-se, organisa-se; a lucta das
+systematisações normaes antagonistas renova-se, e d'essa renovação
+deriva o prolongar-se na consciencia a presença de uma systematisação
+anomala, cada vez mais nitida e mais forte. As imagens motoras farão
+nascer o impulso; e este, se as systematisações normaes o não conseguem
+desviar n'um sentido diverso (a convulsão, o espasmo, o toque d'uma
+campainha de alarme, o grito de aviso) acabará por ser satisfeito,
+provocando uma _détente_, um allivio.
+
+Os caracteres da obsessão pathologica--origem invluntaria, angustia,
+irrisistibilidade, satisfação consecutiva, estão realisados, O que
+provocou a apparição d'estes caracteres? Em primeiro logar, as
+systematisações determinadas pela idéa obsessiva, em segundo, a lucta
+d'ellas com as systematisações normaes. Se a idéa obsessiva fosse
+incapaz de provocar systematisações, se fosse indifferente, ter-se-hia
+dissipado sem vestigios conscientes, como no caso que primeiro
+figuramos; se, por outro lado, uma forte lucta se não tivesse realisado
+entre antinomicos grupos ou systemas de factos psychicos, não existiria
+angustia concomitante, nem satisfação consecutiva. A obsessão deu-se,
+pois, á custa, de uma dissociação parcial e transitoria do Eu. Alarmada
+e impotente, a consciencia assistiu ao desdobramento de um acto reflexo;
+clara ao principio, ella obscureceu-se um instante--aquelle precisamente
+em que todo o vasto e harmonico systema de idéas, de affectos e
+impulsos, que constituem o Eu, se deixou vencer pelo systema antagonista
+creado pela idéa imposta.
+
+Que esta seja impulsiva, emotiva ou meramente abstracta, pouco importa,
+de resto; o quadro dos symptomas da obsessão é em todos os casos o
+mesmo, desde que se estabelece lucta entre systematisações pathologicas
+e normaes. É n'esta lucta que reside o caracter essencial da obsessão;
+tudo o mais é secundario e derivado.
+
+Imaginemos, por exemplo, que a idéa de matar surge no espirito de um
+criminoso-nato. Não encontrando em face d'ella, a offerecer-lhe
+resistencia, a longa série de systematisações que se comprehendem na
+designação synthetica de _senso moral_, essa-idéa exteriorisar-se-ha de
+um modo puramente reflexo e automatico; fallaremos, então, de impulso
+morbido, mas não será licito pronunciar o nome de obsessão.
+
+Figuremos ainda que uma idéa, embora não derivada do jogo normal e
+logico do pensamento, é de natureza a lisongear os nossos gostos, as
+nossas aspirações, os nossos desejos. Insubsistentes e chimericas, as
+systematisações, ás vezes complicadas e extensas, que ella gera ao
+irromper no nosso espirito, não provocam, todavia, uma lucta, é o estado
+de espirito assim creado não póde chamar-se obsessão. Tal é o caso da
+_réverie_, dos castellos no ar, de toda essa phantasiosa ideação em que,
+a despeito do testemunho contradictorio da realidade, nos deixamos
+apanhar involuntariamente. Quem, apenas remediado ou pobre, se não
+sentiu uma vez tomado, sem saber como ou porque, da idéa de opulencia, e
+não partiu d'ahi para o sonho dos palacios, das equipagens, da arte, da
+phylantropia? Comquanto anomalo e inutil, este estado de espirito não é
+obsessivo, porque não provoca urna _lucta_ de systematisações.
+
+Esta é, pois, repetimol-o, o signal, o seguro indicador da
+obsessão:--aquillo em que ella essencialmente consiste. Mas não poderá
+essa lucta, que de ordinario se renova, dando ás obsessões um caracter
+_intermittente_, cessar pela victoria definitiva das systematisações
+pathologicas, o que equivale a dizer--pela constituição de um delirio?
+Cremos que sim; e para comprehendel-o basta admittir que a idéa
+obsessiva é, na esphera inconsciente de que procede, um forte centro de
+systematisações organisadas, capazes não só de vencerem a resistencia
+das systematisações normaes, mas de as desviarem em proveito proprio.
+
+Já a victoria intermittente da obsessão sobre as systematisações
+normaes denuncía a existencia de ignoradas estratificações psychicas,
+tão extensas e importantes, comtudo, que podem por força propria ou por
+fraqueza das suas antagonistas, provocar uma dissociação do Eu e n'um
+dado instante occupar todo o campo da consciencia. Que se supponha maior
+a sua força e menor ao mesmo tempo a das systematisações normaes
+inhibitorias, e o triumpho será definitivo, porque toda a esphera
+consciente não conterá mais do que associações pathologicas. Teremos o
+delirio systematisado; e então, bem evidentemente, a dissociação do Eu,
+que na obsessão é passageira, tornar-se-ha definitiva, substituindo-se á
+personalidade normal vencida uma outra vencedora.
+
+Mas d'onde vem esta e como se formou? Eis o que a doutrina da evolução
+permitte explicar. Na sua lenta e progressiva constituição, a
+personalidade humana encontra-se successivamente representada por
+systematisações psychicas de uma complexidade crescente, isto é, por
+associações e inhibições cada vez mais extensas, traduzindo a acção do
+mundo sobre o Eu e a reacção d'este sobre o mundo. Cada nova
+systematisação formada, integrando elementos psychicos, é uma satisfação
+dada ás naturaes affinidades d'estes; cada nova inhibição realisada,
+dissociando elementos psychicos, provoca a formação de outras
+systematisações em que ellas vão achar novamente logar e novamente
+satisfazer uma affinidade propria. Assim se formam lentamente, mercê da
+hereditariedade, que capitalisa as conquistas do espirito, successivas
+estratificações systematicas de idéas, de emoções, de impulsos, n'uma
+palavra, successivas _tendencias_, que representam em momentos dados um
+espirito, um Eu, uma personalidade, emfim.
+
+As estratificações mais recentes são tambem as menos organisadas e as
+mais instaveis; os systemas de que ellas se compõem, contrariando em
+grande parte antigas e habituaes affinidades dos elementos psychicos,
+subsistem n'um equilibrio que só o tempo tornará estavel. Mas o tempo,
+quando se trata de evolução, não é a vida de um individuo, é a de
+gerações seguidas; é, pois, necessario para que a estabilidade psychica
+de uma personalidade se realise que a herança se faça sempre n'um mesmo
+sentido, que a orientação ou finalidade do espirito não seja perturbada.
+Se este facto se não dá, a estratificação mais antiga sobreleva a mais
+recente e atravez d'ella rompe total ou parcialmente. Cada personalidade
+é, pois, n'um dado momento a juxtaposição de subpersonalidades relegadas
+para o inconsciente, mas tenazes, persistentes, susceptiveis de uma
+integral ou parcial revivescencia. Por traz do _individuo_, que
+representa as ultimas acquisições de uma civilisação, está a _especie_,
+que representa todas as systematisações procedentes da acção lenta do
+meio, capitalisada pela herança.
+
+N'esta ordem de idéas, as obsessões e os delirios systematisados
+apparecem-nos _como resurreições parciaes e mais ou menos extensas de um
+Eu ancestral_. É da lucta que se estabelece entre este e o Eu de
+recente formação que derivam, de um lado, a _angustia_ que acompanha as
+obsessões e o allivio que lhes succede quando a _détente_ se realisa, do
+outro, a _inquietação_ dolorosa que faz cortejo aos delirios
+systematisados na sua phase inicial e a tranquillidade relativa que
+depois surge quando o paranoico definitivamente adquire uma convicção,
+uma crença, quando, na phrase justa dos alienistas francezes, elle sabe,
+emfim, _à quoi s'en tenir_.
+
+Mas como, repetimol-o, a lucta é tanto menos intensa quanto mais forte é
+o Eu ancestral e mais instavel o de recente formação, a _angustia
+obsessiva_ e a _inquietação paranoica_ podem reduzir-se a
+insignificantes proporções: tal é o caso dos impulsos nos criminosos
+habituaes e dos delirios _d'emblèe_ nos paranoicos originarios.
+
+
+
+VII--A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA
+
+Extensão do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores--Causas
+de degenerescencia; opiniões diversas--A degenerescencia e a observação
+clinica; modo de vêr de Magnan; opinião de Krafft-Ebing--Necessidade de
+um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico--A definição de
+Morel; o seu defeito essencial--A noção do atavismo em psychiatria; as
+idéas de Magnan e a sua falta de fundamento--Ponto de vista de Tanzi e
+Riva; documentos justificativos--A Paranoia é uma degenerescencia.
+
+
+Tem ainda hoje nos livros da especialidade um caracter eminentemente
+obscuro e vago a noção da _degenerescencia_. Nada o prova melhor que o
+conjuncto de contradictorias opiniões sobre a sua mesma extensão e sobre
+as suas origens.
+
+Que psychopatas abrange a degenerescencia?
+
+Emquanto certos auctores, á maneira de Mendel, só consideram degenerados
+aquelles que, pela presença de estygmas physicos de uma extrema
+decadencia, profundamente se afastam do typo humano commum, outros ha
+que seguindo a tradição de Morel, descobrem a degenerescencia onde quer
+que surjam indicios de uma constitucional desharmonia de funcções
+psychicas, de um originario desequilibrio mental, ainda quando
+inteiramente compativel com a vida collectiva e mesmo com parciaes
+superioridades de intendimento.
+
+O terreno que pizam os primeiros tem tanto de seguro e incontroverso
+quanto de infecundo: reduzida a cobrir, o grupo dos idiotas, alguns
+loucos moraes, physicamente disformes, e um ou outro delirante precoce,
+somaticamente estygmatisado, a degenerescencia é um conceito inerte, sem
+valor em clinica e sem applicações em nosologia psychiatrica.
+Suggestivo, o ponto de vista dos segundos é, todavia, impreciso, como o
+revella a comparação dos auctores, pois que, os mesmos loucos são,
+segundo uns e deixam de ser, segundo outros, comprehendidos no grupo dos
+degenerados. Assim, emquanto para Magnan não são degenerados uns certos
+paranoicos, os delirantes chronicos, para Krafft-Ebing são-no todos,
+como vimos; assim, os intermittentes, que a grande maioria dos auctores
+allemães e italianos consideram como exemplares degenerativos, formam
+para Magnan um grupo de transição entre os degenerados e os
+psychonevroticos; assim, ainda, os obsessivos, que para o psychiatra
+francez são sempre degenerados, não passam aigumas vezes para Morselli
+de neurasthenicos vulgares.
+
+Este grave desaccordo sobre a extensão do conceito, repete-se desde que a
+questão etiologica se aborda.
+
+Que origens reconhece a degenerescencia?
+
+Ao passo que uns, como J. Falret, exclusivamente incriminam a
+hereditariedade na producção dos degenerados, outros responsabilisam,
+como Cotard, as doenças infantis, como Boucherau, as doenças do feto, ou
+ainda, como Christian, o estado mental dos paes no acto da procreação.
+Pelo seu lado, Magnan reconhece todas estas causas, considerando,
+todavia, preponderante e typica a hereditariedade,
+
+Ora, para se poder fallar da hereditariedade, como agente de psychoses
+degenerativas, quando se sabe que ella é a causa por excellencia de
+todas as doenças mentaes, seria necessario possuir-se um meio de
+determinar _à priori_ o momento em que ella deixa de ser uma simples
+_predisposição_ generica para tornar-se um factor especial de anomalias
+psychicas; por outros termos, seria necessario precisar onde começa o
+que Magnan denomina a _impregnação hereditaria_.
+
+Se isto fosse possivel, teriamos na etiologia um excellente criterio
+para separar as loucuras degenerativas das que o não são: todas as
+fórmas nosologicas exhibidas por loucos impregnados de herança
+pertenceriam ao primeiro grupo, como pertenceriam ao segundo as
+exteriorisadas por simples predispostos. A analyse clinica,
+denunciando-nos depois a symptomatologia e a marcha das psychoses dos
+dois grupos, dar-nos-hia meios de reconhecer as equivalencias
+hereditarias, se ellas existem, como pretendem Boucherau, Cotard e
+Christian. Nada mais simples: dado que uma psychose offerecesse os
+caracteres peculiares das hereditarias, seria um degenerado o seu
+portador; e, quando a herança morbida não podesse ser incriminada,
+outras causas teriam de invocar-se de _igual valor pathogenico_.
+
+Mas, precisamente succede que ninguem ainda determinou, nem _à priori_
+parece determinavel a tara hereditaria em que a _predisposição_ acaba e
+a _impregnação_ começa.
+
+Nem o _numero_ de psychoses ancestraes, nem a sua _convergencia_ nas
+duas linhas de progenitores constituem motivo sufficiente para affirmar
+a impregnação hereditaria e a degenerescencia de um louco, pois que a
+pratica nos depara ás vezes alienados que, tendo, aliás, uma pesada
+herança psychopatica n'uma das linhas directas ou mesmo uma herança
+convergente, exhibem fórmas nosologicas insusceptiveis de se
+distinguirem,--quer pelos symptomas, quer pela marcha, quer, emfim, pela
+terminação, das psychonevroses puras, isto é, das loucuras accidentaes,
+das loucuras dos simples predispostos.
+
+Em contraste com estes casos, outros apparecem de um caracter
+univocamente admittido como degenerativo, em que, todavia, a analyse
+clinica, até onde ella póde ser feita, não surprehende mais do que uma
+psychose em qualquer das linhas directas ou collateraes; isto succede,
+não raro, nos debeis e imbecis, procedentes de pae ou mãe alcoolicos.
+
+Dir-se-ha, talvez, que n'estas considerações abusivamente restringimos o
+papel e alcance da hereditariedade, fallando apenas de psychoses
+ancestraes, quando deveriamos com os auctores contemporaneos fallar
+tambem, pelo menos, das nevropatias.
+
+Mas quem não vê que n'este novo terreno o problema se complica sem se
+resolver? Que para a tara hereditaria de um louco contribuam sómente as
+psychoses ancestraes ou tambem as nevropatias, ou ainda, generalisando,
+as diatheses, é seguro que jámais se determinará _á priori_, onde a
+_predisposição_ termina e a _impregnação_ principia.
+
+Tacita ou explicitamente é isto reconhecido pelos proprios auctores que,
+á maneira de Magnan e de Krafft-Ebing, assignalam á degenerescencia uma
+pluralidade de causas. Buscando na observação clinica dos symptomas e na
+marcha das affecções mentaes os indicios da degenerescencia, é evidente
+que elles abandonam o exclusivo criterio etiologico.
+
+Mas se, d'este modo, uma fonte de divergencias cessa, outra, como vamos
+vêr, immediatamente surge.
+
+Que anomalias symptomaticas e evolutivas da mentalidade psychiatrica
+deverão ser consideradas como indicios ou estygmas de degenerescencia?
+
+A este proposito um evidente desaccordo recomeça. Não sendo as doenças
+mentaes em si mesmas senão anomalias do espirito, o problema posto é o
+de procurar a anormalidade no anormal. Com que criterio?
+
+Magnan não hesita em adoptar _o estado mental_ do louco antes da invasão
+da psychose. Ouçamos as suas proprias palavras: «O grande grupo dos
+predispostos simples, faz-se notar por um caracter essencial,
+invariavel, pathognomonico: até ao dia em que cahem na loucura, os
+doentes que o formam são julgados _normaes_; comparados aos individuos
+que nunca se tornam alienados, nenhuma differença apparente revellam. É
+que n'elles a predisposição não adquiriu ainda um grau sufficiente para
+se traduzir em caracteres especificos. Esta predisposição é latente e
+não produziu senão um resultado: fazer do cerebro um logar de menor
+resistencia e um terreno favoravel, crear uma situação em virtude da
+qual as causas de desorganisação do equilibrio intellectual terão uma
+influencia mais marcada do que em outros e uma acção mais duradoura e
+mais energica. O factor _predisposição_ é evidentemente muito variavel
+como importancia; o seu valor não póde apreciar-se, á falta de criterio
+proprio, a não ser entre dois casos extremos. Como quer que seja, a
+resistencia cerebral dos predispostos deve variar em razão inversa da
+importancia do factor _predisposição_ ... N'uma outra grande divisão dos
+predispostos, collocamos os doentes cuja personalidade intellectual e
+moral é completamente transformada desde a base desde o nascimento pelo
+facto da aggravação progressiva do factor _predisposição_. Este grupo
+comprehende os predispostos com _degenerescencia_»[1].
+
+ [1] Magnan et Legrain, _Les dégénérés_, pag. 58.
+
+Nada, como se vê, apparentemente mais claro: emquanto o simples
+predisposto é um ser _normal_ até á invasão da doença psychica, o
+degenerado é _ab ovo_ um ser anormal. Resta sómente determinar em que
+essa anormalidade consiste. Eis como Magnan se explica a este proposito:
+«Nos degenerados, a predisposição, qualquer que seja a sua natureza
+(hereditaria ou adquirida), produziu uma perturbação profunda das
+funcções psychicas. Desde a origem, desde o nascimento, fazem-se elles
+notar por anomalias quer do sentimento quer da intelligencia, dos
+instinctos e das inclinações, quer de todas estas espheras ao mesmo
+tempo. Adquiriram estygmas que os fazem reconhecer immediatamente e
+agrupar á parte. Além d'isso a tara degenerativa, de que são portadores,
+traduz-se muitas vezes por anomalias physicas, cuja significação vem
+junctar-se á das anomalias psychicas concomitantes. Todos estes estygmas
+são permanentes, nascem com o individuo e só com elle se extinguem. Em
+caso algum, estes doentes pensam, sentem ou actuam como os individuos de
+cerebro normal ou como os predispostos simples. Degenerados por
+accumulação de taras hereditarias, na quasi totalidade dos casos, podem
+sel-o, comtudo, algumas vezes pela intervenção de momentos etiologicos
+potentes, cuja acção desorganisadora se exerce sobretudo nas épocas da
+evolução cerebral, isto é, na primeira infancia: doenças agudas graves,
+taes como a variola, a escarlatina e a febre typhoide, acompanham-se de
+lesões cerebraes irreparaveis. Póde-se admittir ainda a acção
+degenerativa das doenças fetaes, dos traumatismos, n'uma palavra, de
+todas as causas sufficientemente fortes para lesar materialmente os
+centros nervosos ou para impedir o seu desenvolvimento. Mas, qualquer
+que seja a causa degenerativa, hereditaria ou adquirida, os productos
+são identicos, e entre si comparaveis; são portadores de caracteres
+clinicos proprios a fazel-os reconhecer em todos os casos, e
+significativos da tara hereditaria. Comparados aos seus ascendentes
+directos, differem d'elles totalmente no ponto de vista das aptidões
+cerebraes: encontram-se visivelmente n'uma situação mental inferior; são
+seres novos, anormaes, de mecanismo cerebral falseado. A sua situação
+mental define-se n'uma palavra: o equilibrio entre todas as funcções
+cerebraes acha-se destruido e não póde recuperar-se. Fóra mesmo dos
+casos de verdadeira alienação, esta falta de equilibrio é flagrante.
+Quando deliram, as suas concepções revestem caracteres pathognomonicos:
+surgem ás menores causas occasionaes, indicio de extrema instabilidade
+do equilibrio mental. Fóra das causas moraes, cuja influencia é aqui
+preponderante em razão da extrema emotividade particular d'estes
+individuos, os proprios momentos physiologicos--a puberdade, a
+menopause, os menstruos, a prenhez, são causas de perturbação cerebral.
+N'elles, as doenças geraes acompanham-se frequentemente de delirio; o
+cerebro tornou-se o _locus minimae resistentiae_. Os accessos delirantes
+não teem uma evolução propria: affectam todas as fórmas possiveis e
+substituem-se com a maior facilidade. A systematisação e a cohesão das
+concepções delirantes é muito fraca. Não existe nenhuma tendencia á
+systematisação progressiva. Emfim, os degenerados de maior tara são
+candidatos a uma demencia precoce, quer primitiva, quer
+post-delirante»[1].
+
+ [1] Magnan et Legrain, _Obr. cit._, pag. 60 a 62.
+
+Como se infere d'estas passagens, que citamos _in extenso_, porque
+resumem toda a doutrina da Escóla de Sant'Anna sobre o assumpto, não ha
+verdadeiramente, como poderia parecer, um só criterio, _à posteriori_, o
+estado mental predelirante, para determinar a presença da
+degenerescencia, mas muitos. Ao lado, com effeito, de uma estygmatisação
+psychica, essencialmente consistindo n'um original e irreparavel
+desequilibrio de funcções cerebraes, apparece-nos a estygmatisação
+somatica, a feição polymorpha e a marcha irregular do delirio, e, ainda,
+a desproporção entre a causa occasional, que incide sobre o prediposto,
+e o effeito que ella produz.
+
+Ora, não é inteiramente facil conjugar entre si todos estes criterios.
+
+Se o degenerado é, como Magnan proclama, um _predisposto maximo_, e se o
+grau de predisposição é inversamente proporcional ao das causas
+occasionaes, porque não é degenerado o delirante chronico, no qual uma
+vesania irreparavel e perpetua surge as mais das vezes sem causa?
+Responderá Magnan que o delirante chronico é normal até á invasão da
+vesania. Mas quem não vê que, se o eminente alienista se não engana,
+affirmando tal, os seus dois criterios brigam? Por outro lado, como já
+vimos tambem, a estygmatisação physica apparece algumas vezes nos
+delirantes chronicos. Como conciliar, n'estes casos, o criterio das
+anomalias somaticas, indicando degenerescencia, com o da systematisação
+progressiva do delirio, que a exclue?
+
+Por outro lado, ainda, se o desequilibrio psychico é a principal
+caracteristica das degenerescencias, porque não considerar degenerados
+os hystericos e os epilepticos, tão profundamente desharmonicos sempre
+não manifestações da vida cerebral?
+
+O criterio clinico de Krafft-Ebing é mais extenso que o de Magnan. A
+presença de um estado de desequilibrio mental antes da invasão da
+doença, sendo para o psychiatra allemão de uma altissima importancia,
+não constitue; comtudo, como para o francez, um caracter essencial e
+imprescindivel do diagnostico da degenerescencia. Fazendo, com enfeito,
+a distincção entre os predispostos simples e os degenerados,
+Krafft-Ebing escreve: «Póde ser objecto de discussão saber se um
+individuo normal até ao apparecimento da psychose, mas procedente de
+geração psychopatica, deve collocar-se n'um ou n'outro grupo»[1]. O
+valor maior ou menor da causa occasional póde servir para dissipar as
+duvidas a este proposito, pois que um dos caracteres distinctivos das
+psychoses dos degenerados reside precisamente no facto da sua eclosão
+espontanea ou sob a influencia de minimos agentes provocadores. Este
+criterio, sobrelevando, na doutrina de Krafft-Ebing, o da presença de um
+desequilibrio mental anterior á psychose, alarga o ambito da
+degenerescencia, introduzindo ahi doenças, que Magnan excluiria sob
+pretexto da normalidade do individuo até á invasão d'ellas. Estão n'este
+caso, por exemplo, alguns delirios systematisados post-menopausicos.
+
+ [1] Krafft-Ebing, _Trattato clinico pratico delle malattie mentali_,
+ trad. It., vol. II, pag. 3.
+
+Krafft-Ebing separa-se ainda de Magnan, fazendo da periodicidade um dos
+signaes das psychoses degenerativas, no que é seguido por consideravel
+numero de psychiatras.
+
+Os confrontos e citações feitos bastam para mostrar como são numerosas
+as dissidencias dos auctores sobre a constituição nosologica do grupo
+dos degenerados.
+
+Concluiremos com Pierret que a _degenerescencia não é uma doutrina
+medica_ e que _deve reputar-se um crime ensinal-a?_. A nosso vêr, tem
+tanto de radical e temeraria, como de estreita, uma similhante opinião;
+proclamal-a, equivale a desconhecer que a maior parte dos progressos
+theoricos da psychiatria se devem precisamente á introducção d'esse
+conceito, que, ainda vago e controvertido, póde, comtudo, precisar-se.
+Porque, devemos notal-o, se as divergencias á hora actual são muitas,
+não são poucos, nem de insignificante valor no terreno da nosologia, os
+pontos sobre que se estabeleceu um definitivo accordo. O que a nós se
+nos affigura é que todas as difficuldades e todos os debates n'este
+assumpto procedem exclusivamente da falta de um ponto de vista geral e
+superior.
+
+Quer considerem a degenerescencia nas suas causas, quer nas suas
+manifestações clinicas, teem os alienistas contemporaneos tratado esta
+noção como se ella houvesse nascido no terreno da psychiatria e d'elle
+fosse tributaria, quando a verdade é que, referivel a todos os seres
+vivos, ella pertence á biologia, onde tem um significado que não é
+licito esquecer, e que, nos seus traços essenciaes, deverá subsistir,
+quaesquer que sejam as suas applicações.
+
+Isto viu lucidamente Morel, quando, ao trazer para a pathologia mental
+essa noção, subordinou o seu sentido psychiatrico ao anthropologico, e
+este ao da biologia. Infelizmente, o preconceito religioso não permittiu
+a este homem de genio fazer de um modo correcto essa subordinação, em si
+mesma necessaria e eminentemente philosophica.
+
+O que é, na sua inicial accepção biologica, a degenerescencia? O desvio
+pejorativo de um typo natural, a perda, no individuo, das qualidades
+caracteristicas da especie. Anthropologicamente considerada, a
+degenerescencia não póde, pois, significar senão a inferioridade do
+individuo em relação ao typo natural humano. Mas qual é esse typo? Foi a
+este proposito que na doutrina de Morel se insinuou o prejuizo
+theologico: esse typo, conservado nas tradições sagradas, teria sido o
+homem primitivo, paradisiaco depositario de todas as perfeições
+especificas, mas condemnado, _pelo grande facto da queda original_, a
+condições degradantes de lucta com a natureza.
+
+A conclusão a tirar d'este modo de vêr, seria que todos os homens são
+degenerados; e se, com gravissima offensa da logica, Morel a evitou, não
+foi senão introduzindo abusivamente a noção de _doença_ no conceito de
+degenerescencia, que define como _desvio morbido de um typo primitivo_.
+A que vem aqui o extranho qualificativo? Se existiu um typo humano
+especificamente perfeito, que as condições, para elle novas, de
+conflicto com o mundo começaram a degradar, é evidente que essas
+condições, pezando sobre os seus descendentes e imprimindo-lhes
+caracteres, que a hereditariedade transmitte, são causas para todos
+elles de mais ou menos extensos desvios. E estes, ou são sempre morbidos
+ou não o são nunca.
+
+Para escapar a esta conclusão, distinguiu Morel entre si essas causas
+degradativas, affirmando que umas se limitam a provocar variedades ou
+_raças_, emquanto outras conduzem a verdadeiras _monstruosidades_, de
+existencia felizmente limitada por uma maravilhosa e providencial
+esterilidade. D'estas duas ordens de desvios, só os ultimos
+constituiriam degenerescencias, segundo Morel.
+
+Faz dó vêr um homem de genio a debater-se contra phantasmas; e mais
+entristece reconhecer que os seus erros se transmittiram até nós,
+reapparecendo em trabalhos contemporaneos, como os de Magnan.
+
+Quem não vê que os iniciaes desvios de typo normal, qualquer que elle
+seja, podem, por condições imprevistas de cruzamento, progredir ou
+attenuar-se? E, sendo assim, quem não vê tambem que uma anomalia de
+ordem psychica ou moral póde tanto desvanecer-se nos descendentes como
+transmittir-se e accentuar-se até á monstruosidade? O proprio Morel,
+reconhecendo a tendencia da natureza á reconstituição do typo especifico
+normal, admittiu a _regeneração_ ao lado da _degenerescencia_. A
+monstruosidade não é, pois, a degenerescencia mesma, mas o seu termo, o
+seu limite, aquillo para que no processo degradativo se caminha, dadas
+infelizes condições geradoras.
+
+Mas, se o criterio de Morel foi falseado pela intervenção de um extranho
+elemento religioso, é certo que a sua maneira de atacar o problema é a
+unica legitima.
+
+É, com effeito, como um desvio do typo humano que a degenerescencia tem
+de ser definida em anthropologia. Sómente, esse typo tem de ser
+procurado, não nos dominios da tradição e para traz de nós, mas no
+terreno da previsão scientifica e para diante. Não sendo o homem
+primitivo da lenda, que a anthropologia reduziu ás humildes proporções
+de um animal apenas differenciado dos mamiferos superiores, esse typo é
+um ideal para que podemos suppôr que a humanidade caminha e de que, na
+sua evolução, procura incessantemente approximar-se.
+
+Mas como determinar-lhe os attributos sem cair nas incertezas da
+phantasia? Surprehendendo as linhas de evolução physica e psychica da
+nossa especie a partir d'esse remoto representante selvagem até hoje.
+Assim, para só fallarmos da evolução psychica, nota-se que,
+intellectualmente, o homem partiu da ideação theologica para attingir a
+scientifica, que, nos dominios do sentimento, derivou de um egoismo
+feroz para chegar a affectos altruistas, emfim, que, no campo da acção,
+procedeu de um automatismo impulsivo para conquistar a vontade.
+Conhecida esta orientação, está achado o meio de approximadamente
+constituir o typo, cujos regressivos desvios, sejam quaes forem as
+causas que os provoquem, constituem degenerescencias no sentido
+anthropologico do termo.
+
+Este sentido, porém, não é precisamente o da psychiatria.
+
+Anthropologicameme considerada, a loucura é sempre uma degenerescencia,
+porque em todas as suas multiplas fórmas implica um desvio regressivo,
+total ou parcial, extenso ou limitado, provisorio ou definitivo do typo
+que definimos.
+
+Psychiatricamente, porém, não é assim. Se o desvio é reparavel dentro da
+vida individual, se elle constitue um accidente ephemero, dependendo
+muito menos de uma falta inicial e congenita de resistencia do que da
+gravidade e continuidade das causas productoras, a loucura não se
+considera degenerativa; é-o, pelo contrario, se constitue um estado
+irreparavel, subsistente, espontaneo ou derivado de insignificantes
+causas e accusando, portanto, uma inferioridade constitucional.
+
+Mas já nas loucuras não degenerativas, nas psychonevroses, o germe da
+degenerescencia existe; cruzamentos infelizes o desenvolverão na
+descendencia, mercê da hereditariedade; e eis porque, podendo ter as
+mais variadas causas, as loucuras degenerativas teem sido chamadas
+_hereditarias_. Por outro lado, nas fórmas degenerativas menos graves, a
+regeneração é ainda possivel, mercê de cruzamentos felizes, pois que a
+hereditariedade tanto capitalisa as boas como as mas tendencias. Isto é
+dizer que a distincção psychiatrica das psychonevroses e das
+degenerescencias não tem nada de absoluta, desde que, em vez de
+considerarmos os casos extremos das duas escalas, fixamos os mais
+proximos.
+
+Dizer com Magnan que o _atavismo_ não implica degenerescencia, porque um
+typo regressivo seria _normal_, emquanto que um degenerado é um
+_doente_, que o primeiro, entregue a si, caminharia para diante, como
+fizeram os o contemporaneos da época por elle representada, ao passo que
+o segundo marcharia para a extincção pela infecundidade, é commetter um
+duplo erro: não comprehender que o atavismo humano é sempre parcial e
+incompleto, consistindo na revivescencia _d'algumas_ qualidades
+ancestraes, e não reconhecer que a regeneração aos degenerados
+superiores se torna, em certas condições, possivel. Pois é acaso fatal
+que a descendencia de um phobico ou de um impulsivo, que são para Magnan
+incontestaveis degenerados, venha a liquidar pela idiotia esteril?
+
+E esse phobico e esse impulsivo não são, pelo facto mesmo do seu
+_terror_ e do seu _automatismo_ indisciplinado, exemplares de atavismo
+parcial?
+
+Comprehende-se que, a não fazermos um livro do que deve ser apenas um
+final capitulo d'este _Ensaio_, nos cumpre suspender considerações, que
+o assumpto comporta, mas que se não prendem immediatamente com o nosso
+thema. O que acabamos de dizer sobre as degenerescencia em geral,
+conjugando-se com o que foi dito sobre o atavismo intellectual dos
+delirantes systematisados, justifica largamente a conclusão de que a
+Paranoia é uma degenerescencia.
+
+
+
+
+BIBLIOGRAPHIA
+
+
+TRABALHOS FRANCEZES:
+
+
+FOVILLE--_La folie avec prédominence du délire des grandeurs_;
+
+GARNIER--_Des idées de grandeur dans le délire de persécutions_;
+
+GÉRENTE--_Du délire chronique_;
+
+KÉRAVAL--_Des délires plus on moins coherents designés sons le nom de
+Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XXIX);
+
+LEGRAIN--_Du délire chez les dégénérés_;
+
+LASÈGUE--_Le délire de persécutions_;
+
+MAGNAN--_Le délire chronique à evolution systematique_;
+
+MAGNAN--_Leçons cliniques sur les maladies mentales_;
+
+MAGNAN ET LEGRAIN--_Les dégénérés_;
+
+RÉGIS--_Manuel pratique de médecine mentale_;
+
+SÉGLAS--_La Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XIII).
+
+
+
+TRABALHOS ALLEMÃES:
+
+
+CRAMER--_Abgrenzung und Differencial Diagnose der Paranoia_ (Allg.
+Zeitschr. f. Psychiatrie, vol. II);
+
+FRITSCH--_Die Verwirrtheit_ (Jahbücher f. Psych., vol. II);
+
+KRAFFT-EBING--_Lehrbuch der Psychiatrie_;
+
+KRAEPELIN--_Compendium der Psychiatrie_;
+
+MEYNERT--_Klinische Vorlesüngen über die Psychiatrie_;
+
+MENDEL--_Paranoia_ (Real Encyclopedie);
+
+MERKLIN--_Studien über die primäre Verrücktheit_;
+
+SCHÜLE--_Klinische Psychiatrie_;
+
+SALGO--_Compendium der Psychiatrie_
+
+WERNER--_Die Paranoia_.
+
+
+
+TRABALHOS ITALIANOS:
+
+
+
+AMADEI E TONNINI--_La Paranoia e la sue forme_ (Archivio italiano per le
+malattie nervose, 83-84);
+
+BUCCOLA--_Sui delirii sistematisati_ (Rivista di Freniatria, vol. VIII);
+
+TANZI--_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. x);
+
+TANZI E RIVA--_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. X, XI e XII);
+
+TONNINI--_La Paranoia secundaria_ (Rivista di Freniatria, vol. XIII).
+
+
+
+TRABALHOS INGLEZES E NORTE-AMERICANOS:
+
+
+CLOUSTON--_Clinical lectures on mental diseases_;
+
+HAMMOND--_A Treatise on insanity_;
+
+HAC TUKE AND BUCKNILL--_A Manual of Psychological medicine_;
+
+MAUDSLEY--_Pathlogy of Mind_;
+
+SPITZKA--_A Manual of Insanity_.
+
+
+
+
+INDICE
+
+PREFACIO
+
+
+
+PRIMEIRA PARTE
+
+HISTORIA DOS DELIRIOS SYSTEMATISADOS
+
+
+I--PHASE INICIAL
+
+De Areteo a Esquirol--Confusão dos delirios systematisados com a
+melancolia--A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e
+expansiva.
+
+
+II--PHASE ANALYTICA
+
+De Lasègue a J. Falret e de Griesinger a Snell e Sander--O delirio de
+perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit
+secundaria; a Verrücktheit originaria--Começo de interpretação
+pathogenica.
+
+
+III--PHASE SYNTHETICA
+
+De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva--A
+loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a
+Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional
+insanity--Determinação pathogenica.
+
+
+
+SEGUNDA PARTE
+
+EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA
+
+
+I--O DELIRIO CHRONICO
+
+A etiologia; a marcha; o prognostico--Confronto com os delirios
+polymorphos--A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso não é
+vulgar; a passagem á demencia é excepcional--O delirante chronico é um
+degenerado; importante observação pessoal--A prognose dos delirios
+polymorphos é muitas vezes a do Delirio Chronico--Dois conceitos de
+Delirio Chronico no espirito de Magnan; génese do segundo.
+
+
+II--A VERRÜCKTHEIT AGUDA
+
+Dois grupos de psychoses sob a mesma designação; a confusão mental e os
+delirios polymorphos--A Verrücktheit e os delirios incoherentes, critica
+das opiniões de Schüle--A Verrücktheit e os delirios systematisados de
+marcha aguda; a critica das opiniões de Krafft-Ebing--Observação
+pessoal--Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.
+
+
+III--A VERRÜCKTHEIT SECUNDARIA
+
+Os delirios systematisados que succedem ás psychonevroses; sua
+interpretação pathogenica--A opinião de Tonnini; modificação introduzida
+--Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.
+
+
+IV--O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS
+
+Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação
+pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na
+psychiatria francesa--A autoobservação e o raciocinio não representam um
+papel na génese dos delirios paranoicos--Depoimento dos factos--A
+primitividade dos delirios paranoicos; sua origem ideativa.
+
+
+V--AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS
+
+VI--AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS.
+
+VII--A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA
+
+Extensão do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores--Causas
+de degenerescencia; opiniões diversas--A degenerescencia e a observação
+clinica; modo de vêr de Magnan; opinião de Krafft-Ebing--Necessidade de
+um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico--A definição de
+Morel; o seu defeito essencial--A noção do atavismo em psychiatria; as
+idéas de Magnan e a sua falta de fundamento--Ponto de vista de Tanzi e
+Riva; documentos justificativos--A Paranoia é uma degenerescencia.
+
+
+BIBLIOGRAPHIA
+
+
+
+***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A PARANOIA***
+
+
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
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+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://www.gutenberg.org/about/contact
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+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
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+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit:
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+works.
+
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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