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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:44:08 -0700 |
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PROUDHON. + + + + +SUMMARIO + + +Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As +influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as +mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de +sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o +rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama +illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna +arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O +partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o +Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do +bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo +desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua +Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de +faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida. + + * * * * * + +«Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado.... +Está approvado.» + +Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da +qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas +muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de +gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da +divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses +cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou +sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a +sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de, +assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim. + + * * * * * + +Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo +que nos concilios, mas reforçado com um cordel. + +O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um +prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das +almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio, +irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação +espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do +Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em +seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante +com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o +ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre +o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e +pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma +venia e diz: + +«Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja +frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado +honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz, +digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do +arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes +prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes +nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!» + +E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica +intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os +tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a +lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que +elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes +perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o +ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle +mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se +nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como +esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos +Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as +quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete. + + * * * * * + +Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da +oratoria sacra. + +Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos +persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a +redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do +divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e +para este effeito invisivel. + +Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta, +tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os +clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil +estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem +com as marionettes. + +N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte: + +«Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se +manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de +accordo.» + +Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas +para approvar. + + * * * * * + +Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é +notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para +approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor +numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe. + +É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão +sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella +do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo +com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os +cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos! + +Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga +por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares +mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais +fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas +ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri +de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa +o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a +herva crescer. + + * * * * * + +Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de +chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos +sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros +perigos, apertando-se de mais com o fiado. + +Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia, +posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima +áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o +ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho. + +Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para +provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes +de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em +nossas intimidades com o Divino. + +É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver +consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em +devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais +invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de +fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito +divino. + +Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um +deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que +Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que +D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de +Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda +no espaço, + +Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao +principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade +n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto. + +Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o +ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de +apoplexia. + +Acontecem d'estas ás vezes! + +Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um +pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo +Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com +a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera +terrestre. + + * * * * * + +O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel +pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja, +pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a +grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a +sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga +temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e +d'hostias quotidianas. + +Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles +agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos +dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os +exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo +uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor +principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso. + + * * * * * + +Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a +sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea +um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades +do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de +liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava +preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido. + +Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba, +abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os +opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima +esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca +amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a +pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade +perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a +liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia +litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não +consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a +espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer +por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para +a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o +caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de +sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso. + + * * * * * + +O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com +a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por +estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso +fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no +seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de +redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se +concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já, +por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte +de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar +o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural +pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes +vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos +cherubins no gallinheiro celeste. + + * * * * * + +O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado +occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma +pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da +parte do snr. França Neto. + +Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus +chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais +outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do +panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a +assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um +ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um +simples ciprestal sentado,--com defluxo. + +Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa +resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma +universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da +sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos +ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles +mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos +sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que +succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração. +Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle +que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do +governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia +e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade +religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte. + + * * * * * + +Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com +algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso +dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do +sacerdocio decae de um modo sensibilisador. + +No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de +1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de +Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne +d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão +para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e +empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma +enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era +coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se +destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de +brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em +grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas +lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto +clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente, +por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os +cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os +de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os +sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas +com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro. + +Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador +do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja +livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade +de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico +do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma +rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta. + +«Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são +inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos +não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova +sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os +catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam +por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão +ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é, +a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade +politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu +lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo +condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está +morto, e nunca mais resuscitará.» + +Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de +cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja, +ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos +tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do +espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão +contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as +tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana. + +A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo +predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes, +representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela +religião. + +Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de +a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações +do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na +religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a +consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por +decretos ou por castigos humanos. + +«Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós, +entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens +e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a +tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a +deem em toda a parte onde fordes escravos.» + +Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida, +levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das +resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do +todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir +quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia +creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.» + + * * * * * + +Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso +de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento +liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do +seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na +historia das ideias clericaes. + +O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos +abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert +fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a +liberdade. + +Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do +baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico +continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos +com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das +resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou +quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em +que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que +ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a +_liberdade da sciencia_. + +Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não +obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864. +Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo +Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu +sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias +liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica +_Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a +illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da +civilisação. + +Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas +resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e +do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação +vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações +manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no +gremio da egreja. + +N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se. + +Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado. + +Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma +barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais +liberaes, julgaram impossivel transpôr. + + * * * * * + +Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente +demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira +obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos +prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do +Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que +o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente. + +Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo +emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O +congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe +ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os +querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry. + + * * * * * + +A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico +de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As +senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a +todas as sessões. + +Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim +as adhesões da mulher? + +Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal +tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre +d'aldeia e o padre de sala. + + * * * * * + +Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os +aventureiros e os mysticos. + +Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação +temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro +mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De +quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns +centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia +tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros +justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante +civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos +pretos do que elles são. + +Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do +martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias +fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam +sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula +canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros +dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de +Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões +inhospitas e selvagens. + +Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter +o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a +sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um +par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas +dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para +o outro: + +--Saboroso padre! benza-o Manipanso! + + * * * * * + +O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens. + +A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas +enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e +estonteadores. + +As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa +religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de +espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á +missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de +sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas +arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila +no arraial. + +Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda +da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio. + +Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e +rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos +artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um +chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão +podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a +passagem por entre os fieis ajoelhados na nave. + +Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um +latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o +cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte, +saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os +perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites +para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no +hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa +jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais. + + + * * * * * + +O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas +casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres, +onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o +boleeiro, o creado de farda e a preta. + +As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não +tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é +para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e +caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um +serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade +entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras +raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso +dos seminarios. + +É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os +matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o +_chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia +e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os +paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os +bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso. + +Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda +aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet +ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á +noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás +terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a +outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga +para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P. + +Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das +mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das +Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao +torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas: + +--Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille +para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto +chão! + +E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em +inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_ + +--Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo! + +Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede +emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em +Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga: + +«Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso +d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe +dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.» + +Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação, +posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois +pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos +rins em estimulo de velocidade para a porta da rua. + +Alguém á noite pergunta: + +--Que é feito do padre João? + +E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto, +responde lentamente: + +-Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais +para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por +meio de uma ligeira admoestação corporea. + +--Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado! + +--Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi +pelo lado _cunhos_. + + * * * * * + +De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer +casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes +para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz +dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel. + +O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se +haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos +applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que +estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares +com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não +misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez +do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e +pecaminosa. + +Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos +lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de +Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles +foram manufacturados. + + * * * * * + +Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão +vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á +tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que, +apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo +oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa +manifestação com o effeito scenico dos seus encantos. + +Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes! + +Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes +de Castello Melhor. Que contraste! + +Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas +vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares +reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D. +Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão +encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia +revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar +os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir. + +A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas, +por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a +levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de +discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos +monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus +heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o +triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo. + +A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido, +trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil +o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito +e a pratica da devoção. + +O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro +de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se +vae para padre, isto é, por simples estupidez. + +Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa +mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos +tapados para contas, e não tem perigo nenhum. + +Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não +sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença. + +As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim +como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem +Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem +Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres +inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e +fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua. + +O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para +lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se +em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos +ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas +mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois +consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse. + + * * * * * + +Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos +os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia +extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia +verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas +ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que +debalde, transformal-as em obras. + +Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço, +lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a +substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda. + +Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de +perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes +inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo +aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a +alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás +agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de +renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos +que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle +grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela +aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o +infestam, sevandijam e conspurcam. + +Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de +um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros. +Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria +escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens +politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades +de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições +vigentes. + +O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a +sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos. + +No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia +para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas +de pistola. + +Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão +portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos +por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor +delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres +dos seus compatriotas. + +Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá: + +_A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu +«bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de +consternação em que todos se achavam_. + +E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de +enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza +profunda de tão excelso quão sensivel principe. + + * * * * * + +Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano, +se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão +manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós +ousariamos formular humildemente uma debil pergunta: + +Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não +têem os povos egualmente? + +Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes +testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito +do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar +ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante +museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos +lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis +como os reis choram pelos seus bons subditos? + +Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um +grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz +a queda de um honrado cidadão que morre? + +Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é +perfeitamente a mesma coisa! + +Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que +acaba de passar o seu coração generoso e paternal! + +Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes, +quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as +gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das +quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que +proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo +póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o +fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu +turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e +das proezas do tiro ao alvo. + + * * * * * + +Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista, +os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade, +tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade +se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por +occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto +das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos. + + * * * * * + +A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás +vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias +casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu. + +Todas essas diligencias se fizeram com grande exito. + +A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de +Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e +apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da +banca e o dos parceiros. + +O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de +louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei, +elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores, +mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim +_algum dinheiro e mobilia._ + +Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação +intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e +redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente +acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente +surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos +e desapercebidos. + +No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar +nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para +as jogatinas. + +Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas +sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas +auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de +jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder +discutir com ellas sobre esta questão. + + * * * * * + +O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em +S. João da Foz, ha coisa de vinte annos. + +A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na +Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da +Senhora da Luz. + +No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta +mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa +achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da +provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa, +sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro +circulos concentricos. + +A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas, +adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de +uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro +das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das +apostas. + +Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um +cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto +egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas, +particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em +que scintillava um olho de gato e um rubi. + +Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas +que tinha mais proximo de mim. + +Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos +finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o +trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia, +para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o +preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno, +segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas +cartas que em seguida sahia do baralho. + +Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me +expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e +mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do +Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo +administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar +ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão +lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram +cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro. + +De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma +profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei +100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o +trez de espadas que se achava na mesa. + +Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a +direita ou para a esquerda das cartas. + +O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua +pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro: + +--Mata o rei? + +Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme: + +--Mato-o, sim senhor! + +Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um +silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro +e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das +cartas 3$000 que tinha posto. + +O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e +principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso +que comprimia nos dedos. + +A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas. + +Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um +illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma +parada egual á minha. + +Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo +bem caracteristicamente mediocre. + +Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi +consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia +de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma +recebida n'esse mesmo dia. + +Fiquei na batota até pela manhã. + +Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada +entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas +e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe +em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os +primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado +da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã +pautava luminosamente d'azul. + +Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da +noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da +cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette. + +O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a +saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados +raivosamente pelos pontos. + +O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e +o collarinho esverdinhado de transpiração. + +O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e +depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira +de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia, +escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas, +as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas +convulsões da bronchite. + +A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima +de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da +banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete, +ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de +polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet. +Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir +d'ali embora sosinho. + +Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o +Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era +filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado +no hotel do Romão, intitulado da Boavista. + +Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o +misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar. + +A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de +um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo +melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação +tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me +atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras +palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa +fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e +elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias. + +Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de +cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de +um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra +no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias +antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta +moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo +doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um +sovaco. + +--Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz +estrangulada. + +E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o +alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o +bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós. + +--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna +inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o +que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos +lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até +me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel +progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle +tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós +os olhos torvos! + +--Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um +parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da +porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do +cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da +janella. + +E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso: + +--Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses +agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000, +para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom +e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os +rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e +pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os +diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz +para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento +presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a +justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás +partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da +mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta +noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem +mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse +regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este +luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de +semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na +doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe. + +--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados +de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a +modo que me está a appetecer isso, a mim! + +E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras, +remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico. + +Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão +vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas +encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se +entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras +ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e +vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite. + +Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso +pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da +Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava +taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o +vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu +natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o +sempre velados pelo mysterio. + + * * * * * + +Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada +batota! + +Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém, +que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira. + +Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar +de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de +castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se +lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos +aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa +impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse +solto. + +E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica +de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal +assalta e sequéstra as batotas! + +Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu +teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido +para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E +outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua +policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe +lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da +chalaça! + + * * * * * + +Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos +jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro +_Frei Bandalho_. + +Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar +bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em +Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á +vulgarisação da litteratura jornalistica. + +Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se +ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e +cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados +pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho +preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos +braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o +_Bisborria_ e o _Pulha_. + +A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia +intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis +esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da +educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face +com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores +borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso. + + * * * * * + +S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de +Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de +_Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho. + +Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que +s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama +portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.» + +Inclinemo-nos com reverencia! + +Elle poz-lhe o nome de Rosalia.... + +Tornemos a inclinar-nos! + +E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos +meiados do decimo setimo seculo..... + +Prostremo-nos por terra! + + * * * * * + +D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis +n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte: + +«Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um +boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul, +impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada +por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e +aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras +semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e +luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se +das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello, +pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente +sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?... + +«E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do +conde de Sabugosa.» + +É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de +D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de +um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a +pena de experimentar.... + +De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por +preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das +differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos +os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos +os gostos d'horta ou de capoeira. + +O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para +massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com +a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente. + +Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao +longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a +musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará +duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas. + +Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito +da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos +jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas. + + * * * * * + +Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na +noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de +Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros +devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos +de escamas de corvina. + +Tambem folgamos muito com isto. + +Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros +artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se +notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o +lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles +se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da +esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão +genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem +prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das +artes do desenho. + +Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do +peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de +suas boas mestras! + +Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de +processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel +perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto, +apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a +faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e +escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor +Leopoldo! + +Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto +artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da +critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e +que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem +nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas +organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos +estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes. + + * * * * * + +Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota +assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis +aprehendidos. + +O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida +se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma +visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr +no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas. +Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei, +reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e +batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que +empalmou do bolo. + +A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da +policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime +para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle. + +E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas +diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem. + +Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não +chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais +propriamente--uma _vacca_. + + * * * * * + +Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que +naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não +mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as +Eleições, ou a jogarem mais reconditamente. + +Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica +dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes, +implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com +outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos +baralhos. + +Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que +tinha arrancado um olho da cara a uma mulher. + +O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam +esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente +gracejo_. + +O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de +inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a +quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é +licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho. + +O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é +accusado, foi o amor que lhe inundava o peito. + +Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser +chamado a resolver questões d'olhos. + +Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de +ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto +que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos. + +O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e +luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena +que entre esses dois amantes se passou! + +O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella +mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro. + +Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e +ironica: + +--Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho! +se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua +Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas.... + +--Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho +para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não! + +E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes +transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e, +delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura. + +Oh! amor!... amor! + +Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este +breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia +um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito +jornal o serafim a que nos reportamos. + +Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta +patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus +collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em +juizo. + +Diz o jurado: + +_Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o +ôlho á queixosa?_ + +Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o +Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo +XVII pelas damas illustres. + +Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre +que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta +obrigação d'este é por-se de rôjos. + + * * * * * + +Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na +cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas, +terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca, +e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre +essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de +Bragança Junior. + +Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e +severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia +da patria.» + +Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario +de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a +bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas +fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio +a descobrir que ella era unicamente um lenço. + +Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a +attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do +venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus +correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas +crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir +servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e +cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel +I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia +o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre +outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um. + + * * * * * + +Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do +moveis artisticos. + +Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança +portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues +sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um +licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua +magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta +senhora. + +O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao +desafogo de alguns commentarios. + + * * * * * + +A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos +de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias +antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica. +Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram +restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se +dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo +armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação +das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a +roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros +guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos +sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora +as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D. +João v. + +Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu +gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos +ferros-velhos. + + * * * * * + +É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas +artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de +resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das +modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a +linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente +o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de +não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de +cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha +o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na +convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar +a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os +rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra. + +Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras +obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos +preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores +dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles +fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras. + +O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no +proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de +fornecedor privilegiado de Luiz XIV. + +Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette. + +Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á +consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo +immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas, +alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os +progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da +elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado. + + * * * * * + +Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis +nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas +mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho +mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar +proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais +melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da +influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta +quanto talvez ephemera. + +Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela +quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance, +sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe, +definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica +sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á +fascinação dos miseros burgueses enriquecidos. + +Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon +e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry +ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e +bem dissolvente! + +Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade +a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta +_nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais +aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos +do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o +Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a +esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella +mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o +Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora! + + * * * * * + +Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se +nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que +foi victima o mais bello gato de sua magestade! + +Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela +competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato +de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire, +contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da +real camara a raparem-o á escovinha. + +Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o +ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um +dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha +dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta +destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas +versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja, +sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes +pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente +a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato +com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria +no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho. + +O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente +mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais +abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo +pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de +costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo +pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica +que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear +entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites +caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito! + + * * * * * + +Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido +unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um +espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta +soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se +promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a +reconhecel-o e a lamental-o. + + * * * * * + +Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre +o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e +representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa. + +O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente, +diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a +menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios. + +Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica +liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação +classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como +n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra +que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente +morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções +archeologicas. + + * * * * * + +«Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que +com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente +arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as +folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir +o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do +augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e +d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do +Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor. +Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura +hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo +fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam +arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de +Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de +nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a +religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de +nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime +religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora +vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo +Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da +nação portuguesa!» + + * * * * * + +Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos +d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de +offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero. + +O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa +do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas +á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario +por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os +bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em +pé outra vez. + +Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje, +se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando +a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os +unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os +tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa. + +Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no +primeiro repente gostamos d'elle. + +Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é +geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de +bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella +affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa, +nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá +ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia +em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso. + +Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado +n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros +conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece, +estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os +bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram +os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu! + +Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a +desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é +preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos +a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em +ninguem. + +Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que +a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os +peiores de todos! + +Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados, +prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se +o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora +e o arcebispo de Bragança. + +O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é +que é fazenda. + +Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão +bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor. + +O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é +gallinha! + +Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o +_Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do +exercito das trevas_. + +Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres +melros. Rua, que é a sala dos cães! + +Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos, +escusa-se de bispos. + +Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e +que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um +pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero +dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim? + +E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós +agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar +ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor +de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é. +Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...-- + +Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja +tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os +melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa +incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a +_Nação?..._ + +Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções +que ha pouco demos á nossa cosinheira: + +--Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum. + + * * * * * + +Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao +governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio. + +O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso +representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para +impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete +cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade. + +No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco +estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais +propicio para cardinalisar Masella. + +Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que +se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha, +encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo +ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a +propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é +a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para +que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?... + +Oh! não. + +Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem +exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na +distribuição dos barretes phrygios. + +O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete +symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o +sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento +de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado +então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e +borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal. + +Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não +temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa +de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre +a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo +pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito +tostões e meio. + +De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse +barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da +critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que +traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do +mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações +balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das +instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa +do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do +seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o +affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara. + +Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro, +presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do +seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um +direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse +dizer em tal conjuntura: + +--Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com +esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete +sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do +turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até +agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos +e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo. + + * * * * * + +Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios +dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que +emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto +entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa. + +Eis o caso: + + * * * * * + +Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel +franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou +a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se +propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio. + +Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão +benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava +pessimos alguns dos bispos propostos. + +--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças +humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me +amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca, +desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião +que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião +precisamente opposta á que eu tenho!?... + +--Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v. +ex.ª me consultava.... + +-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa +Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de +cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de +ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no +gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce +por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares +baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções +fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio +sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender +toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto +chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que +um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do +principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes +do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam, +_quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e +jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem +as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e +liberrimo governo da nação portugueza. + +--Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de +cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça +mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso +da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho +e snr, agora, o vereis! + +_--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela +rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O +forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional, +monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do +chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de +Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará +então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o +pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para +ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar +carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por +incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos +carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!... +Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola +d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a +sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a +vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs +porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou +bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se +a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão +efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na +convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés +sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire +sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o +snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste +abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique +pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de +sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe +assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?... +Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde +para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de +Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções +literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida +coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão +da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os +sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim? + +Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso, +que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de +perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si +o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e +experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e +drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo. + + * * * * * + +Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações +dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse +ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se +passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que +se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada +folha: + +_O nuncio desacatou sua excellencia_. + +Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos +periodicos ministeriaes. + +_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou +um calor_. + + * * * * * + +Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr +nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as +causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por +occasião d'este jubiloso successo. + + * * * * * + +E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se +compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem, +nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos. + +Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas, +incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles +que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes +confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser +considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da +Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado +ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome +de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra. + +Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os +interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os +bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem, +de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja +o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão? + + * * * * * + +Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de +Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima, +que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres +pensadores?... + +Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas: + +Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar +ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram +livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso, +prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal +fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou +irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês! + +Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas +pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino? + +Vejamos, sinceramente: + +Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono? +querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem +confessar mulheres?... + +Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais +a fallar n'isso. + +Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados, +que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos? + +Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo: + +--Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os +republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos +bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os +bispos. + +Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o +governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr +Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o +governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo! + + * * * * * + +A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento +beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne. + +Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o +empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou +que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato +republicano de opposição ao governo. + +Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta +que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito +do Arsenal na qualidade de vaso de paz. + +Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições +pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim +estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos +para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro. + +Parabens a sua excellencia! + + * * * * * + +Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia, +passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria +da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do +Carnaxide. + +Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se +inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas +presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos +pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o +bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados +gorgeios. + +Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao +fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos +lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse +o milagroso dia de tão prodigiosa santa. + +Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um +presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de +Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo +magestoso acima do narravel. + +Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em +quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada +de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o +horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da +vida em direcção á faia virente. + +Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco +ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco +ao lado. + +Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por +Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para +as nuvens, exclamou: + +Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena! + +Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos +negocios do reino. + +Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos. + +--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á +rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de +Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão! + +E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo +campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a +exprimir-se em prosa: + +--Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a +vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano? + +Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da +facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide +nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de +lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de +penna e de governação. + +Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão +matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um +brando meneio para o pendôr da collina, perguntou: + +--Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na +quebrada da serra? + +E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de +Nossa Senhora Apparecida, + +--Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a +elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar +d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes +_Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio, +Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao +templo!... + +Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que +Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de +infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para +a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das +patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o +feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida +para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para +Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via +publica: + +D. Miguel foi á Sé, +Sentou-se n'uma cadeira, +E disso para os malhados: +Esta perna está inteira! + +Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra +que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica +governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta +Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por +outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa +Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela +segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto. + +Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso +milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram +submissos em giolhos. + +E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde +viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez +repetir aos montes e ás hervinhas: + + Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena! + +que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram +a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em +honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a +Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes +de nunca ter visto Lisboa. + +Gloria pois a s.ex.ª! + + * * * * * + +Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com +pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao +desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial +na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta +minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em +molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça. + +A patria explorava-o e ria-se d'elle. + +Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem +papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do +Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o +agraciou a regia munificencia. + +Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução +profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e +dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio +extrangeiro. + +Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o +embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia! +Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente, +instruida e forte, que vae chegar--para se rir. + +Lisboa 15 de dezembro de 1882. + +_Ramalho Ortigão._ + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Novembro A Dezembro 1882) +by José Maria Eça De Queiroz and Ramalho Ortigão + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14296 *** diff --git a/14296-h/14296-h.htm b/14296-h/14296-h.htm new file mode 100644 index 0000000..5a04d65 --- /dev/null +++ b/14296-h/14296-h.htm @@ -0,0 +1,2357 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=UTF-8" /> + <meta content="pg2html (binary v0.16)" name="generator" /> + <meta name="author" content="Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz" /> + <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882 +by Ramalho Ortigão and Eça De Queiroz.</title> +<style type="text/css"> +/*<![CDATA[*/ + <!-- + body { margin-left: 10%; margin-right: 10%; } + h1,h2,h3,h4,h5,h6 { text-align: center; } + hr.major { width: 30%;} + hr.minor { width: 10%;} + .centered {text-align: center} + .poem { margin-left: 10%; margin-right: 10%; margin-bottom: 1em; text-align: left; } + .poem .stanza { margin: 1em 0em 1em 0em; } + .poem p { margin: 0; padding-left: 3em; text-indent: -3em; } + .poem p.i2 { margin-left: 1em; } + .poem p.i4 { margin-left: 2em; } + .poem p.i6 { margin-left: 3em; } + .poem p.i8 { margin-left: 4em; } + .poem p.i10 { margin-left: 5em; } +/*]]>*/ + // --> +</style> +</head> +<!--====================================================--> +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14296 ***</div> + +<div class="centered"> + <img src="images/devil.png" width="570" height="755" + alt="Eça de Queiroz—Ramalho Ortigão—As Farpas" /> + <!--IMAGE END--> +</div> +<hr class="major" /> +<h1> + AS FARPAS +</h1> +<div class="centered"> + <p>EÇA DE QUEIROZ—RAMALHO ORTIGÃO</p> + <p><i>Chronica Mensal</i></p> + <p>DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p> + <p>QUARTA SERIE N.º 2</p> + <p>NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882</p> +</div> +<hr class="major" /><!--===================--> +<blockquote> +<p> + Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, + da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das + sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da + politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande + universo, e da adoração de mim mesmo. +</p> +</blockquote> +<p class="centered"> + P.J. PROUDHON +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> + +<p class="centered"> + <b>SUMMARIO</b> +</p> +<p> + Congressos catholicos e ideias clericaes—Anjos e reprobos—As + influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza—A egreja e as + mulheres—Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de + sala—Os clubs e as sacristias—O jogo, a batota, o rei dos lusos e o + rei de copas, a rusga, a +<a href="#vacca"><i>vacca</i></a>—Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama + illustre—Novas applicações da mobilia á critica litteraria—A moderna + arte portugueza e as +<a href="#escamasdecorvina">escamas da corvina</a>—O jornalismo em Braga—O + partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas—Sampaio o +<a href="#saraivadecarvalho">Saraiva de Carvalho</a>—A + augusta princeza anjo da caridade e do +<a href="#bricabrac">bric-à-brac</a>—Tragico fim de um +<a href="#gato">gato</a> d'esse anjo—Fausto e jocundo + desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua + Santidade—A urna e a +<a href="#stephania">corveta Stephania</a>—Os commendadores e os cães de + faiança—-Milagrosa reapparição de +<a href="#apparecida">Nossa Senhora Apparecida</a>. +</p> +<hr /> +<p> + «Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado... + Está approvado.» +</p> +<p> + Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da + qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas + muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de + gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da + divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses + cavalheiros,—papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou + sacristães—Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a + sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de, + assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim. +</p> +<hr /> +<p> + Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo + que nos concilios, mas reforçado com um cordel. +</p> +<p> + O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um + prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das + almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio, + irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação + espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do + Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em + seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante + com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o + ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre + o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e + pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma + venia e diz: +</p> +<p> + «Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja + frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado + honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,—se minha debil voz, + digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do + arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes + prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes + nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!» +</p> +<p> + E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica + intitulada obsecração,—um dos mais arrojados e vehementes de todos os + tropos,—o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a + lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que + elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes + perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o + ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle + mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se + nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como + esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos + Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as + quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete. +</p> +<hr /> +<p> + Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da + oratoria sacra. +</p> +<p> + Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos + persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a + redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do + divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e + para este effeito invisivel. +</p> +<p> + Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta, + tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os + clerigos—e mui judiciosamente segundo se nos affigura—que é inutil + estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem + com as marionettes. +</p> +<p> + N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte: +</p> +<p> + «Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se + manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de + accordo.» +</p> +<p> + Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas + para approvar. +</p> +<hr /> +<p> + Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é + notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para + approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor + numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe. +</p> +<p> + É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão + sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella + do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo + com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os + cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos! +</p> +<p> + Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga + por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares + mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais + fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas + ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri + de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa + o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a + herva crescer. +</p> +<hr /> +<p> + Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de + chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos + sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros + perigos, apertando-se de mais com o fiado. +</p> +<p> + Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia, + posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima + áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o + ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho. +</p> +<p> + Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para + provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes + de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em + nossas intimidades com o Divino. +</p> +<p> + É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver + consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em + devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais + invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de + fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito + divino. +</p> +<p> + Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um + deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que + Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que + D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de + Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda + no espaço, +</p> +<p> + Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao + principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade + n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto. +</p> +<p> + Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o + ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de + apoplexia. +</p> +<p> + Acontecem d'estas ás vezes! +</p> +<p> + Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um + pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo + Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com + a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera + terrestre. +</p> +<hr /> +<p> + O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel + pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja, + pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a + grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a + sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga + temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e + d'hostias quotidianas. +</p> +<p> + Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles + agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos + dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os + exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo + uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor + principal e leitor unico da <i>Nação,</i> o snr Fernando Todo Pedroso. +</p> +<hr /> +<p> + Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a + sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea + um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades + do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de + liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava + preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido. +</p> +<p> + Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba, + abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os + opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima + esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca + amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a + pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade + perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a + liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia + litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não + consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a + espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer + por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para + a outra.—-Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o + caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de + sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso. +</p> +<hr /> +<p> + O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com + a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por + estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso + fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no + seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de + redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se + concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já, + por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte + de s. ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar + o Chiado como o atravessam os perus, isto é—em pennas. A natural + pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes + vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos + cherubins no gallinheiro celeste. +</p> +<hr /> +<p> + O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado + occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma + pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da + parte do snr. França Neto. +</p> +<p> + Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus + chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais + outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do + panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a + assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um + ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um + simples ciprestal sentado,—com defluxo. +</p> +<p> + Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa + resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma + universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da + sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos + ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles + mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos + sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que + succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração. + Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle + que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do + governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia + e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade + religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte. +</p> +<hr /> +<p> + Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com + algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso + dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do + sacerdocio decae de um modo sensibilisador. +</p> +<p> + No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de + 1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de + Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne + d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão + para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e + empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma + enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era + coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se + destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de + brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em + grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas + lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto + clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente, + por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os + cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os + de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os + sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas + com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro. +</p> +<p> + Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador + do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja + livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade + de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico + do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma + rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta. +</p> +<p> + «Em toda a parte excepto na Belgica—disse elle—os catholicos são + inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos + não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova + sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os + catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam + por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão + ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é, + a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade + politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu + lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo + condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está + morto, e nunca mais resuscitará.» +</p> +<p> + Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de + cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja, + ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos + tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do + espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão + contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as + tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana. +</p> +<p> + A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo + predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes, + representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela + religião. +</p> +<p> + Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de + a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações + do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na + religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a + consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por + decretos ou por castigos humanos. +</p> +<p> + «Catholicos—disse Montalembert—se quereis a liberdade para vós, + entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens + e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a + tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a + deem em toda a parte onde fordes escravos.» +</p> +<p> + Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida, + levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das + resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do + todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir + quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia + creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.» +</p> +<hr /> +<p> + Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso + de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento + liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do + seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na + historia das ideias clericaes. +</p> +<p> + O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos + abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert + fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a + liberdade. +</p> +<p> + Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do + baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico + continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos + com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das + resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou + quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em + que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que + ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a + <i>liberdade da sciencia</i>. +</p> +<p> + Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não + obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864. + Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo + Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu + sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias + liberaes do congresso com a publicação do <i>Syllabus</i> e da encyclica + <i>Quanta cura</i>, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a + illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da + civilisação. +</p> +<p> + Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas + resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e + do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação + vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações + manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no + gremio da egreja. +</p> +<p> + N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se. +</p> +<p> + Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado. +</p> +<p> + Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma + barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais + liberaes, julgaram impossivel transpôr. +</p> +<hr /> +<p> + Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente + demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira + obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos + prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do + Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que + o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente. +</p> +<p> + Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo + emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O + congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe + ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os + querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry. +</p> +<hr /> +<p> + A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico + de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As + senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a + todas as sessões. +</p> +<p> + Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim + as adhesões da mulher? +</p> +<p> + Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal + tres especies distinctas de padres:—o padre das missões, o padre + d'aldeia e o padre de sala. +</p> +<hr /> +<p> + Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os + aventureiros e os mysticos. +</p> +<p> + Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação + temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro + mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De + quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns + centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,—cerimonia + tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros + justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante + civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos + pretos do que elles são. +</p> +<p> + Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do + martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias + fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam + sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula + canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros + dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no <i>Barbeiro de + Sevilha,</i> mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões + inhospitas e selvagens. +</p> +<p> + Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter + o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a + sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um + par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas + dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para + o outro: +</p> +<p> + —Saboroso padre! benza-o Manipanso! +</p> +<hr /> +<p> + O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens. +</p> +<p> + A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas + enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e + estonteadores. +</p> +<p> + As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa + religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de + espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á + missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de + sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas + arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila + no arraial. +</p> +<p> + Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda + da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio. +</p> +<p> + Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e + rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos + artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um + chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão + podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a + passagem por entre os fieis ajoelhados na nave. +</p> +<p> + Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um + latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o + cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte, + saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os + perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites + para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no + hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa + jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais. +</p> +<hr /> +<p> + O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas + casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres, + onde o capellão era de rigor nos accessorios da <i>mise-en-scene,</i> como o + boleeiro, o creado de farda e a preta. +</p> +<p> + As meninas nobres, que hoje lêem o <i>Figaro</i> e os romances de Daudel, não + tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é + para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e + caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um + serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade + entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras + raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso + dos seminarios. +</p> +<p> + É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os + matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o + <i>chignon</i> para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia + e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os + paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os + bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso. +</p> +<p> + Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda + aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet + ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á + noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás + terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a + outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga + para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P. +</p> +<p> + Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das + mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das + Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao + torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas: +</p> +<p> + —Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille + para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto + chão! +</p> +<p> + E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em + inglez, umas para as outras, picando o <i>crochet:</i> +</p> +<p> + —Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo! +</p> +<p> + Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede + emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em + Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga: +</p> +<p> + «Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso + d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe + dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.» +</p> +<p> + Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação, + posto na escada com a respectiva bagagem,—uma camisa, um pente, dois + pares de piugas embrulhadas n'um jornal—, e uma pontuada de bengala nos + rins em estimulo de velocidade para a porta da rua. +</p> +<p> + Alguém á noite pergunta: +</p> +<p> + —Que é feito do padre João? +</p> +<p> + E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto, + responde lentamente: +</p> +<p> + -Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais + para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por + meio de uma ligeira admoestação corporea. +</p> +<p> + —Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado! +</p> +<p> + —Por isso tambem não foi pelo lado <i>cruzes</i> que eu o admoestei, foi + pelo lado <i>cunhos</i>. +</p> +<hr /> +<p> + De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer + casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes + para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz + dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel. +</p> +<p> + O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se + haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos + applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que + estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares + com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não + misturar nunca—a não ser no sigillo do sanctuario—o bacalhau norueguez + do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e + pecaminosa. +</p> +<p> + Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos + lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de + Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles + foram manufacturados. +</p> +<hr /> +<p> + Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão + vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á + tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que, + apenas quatro padres annunciam um dos seus <i>meetings</i> ao eterno, logo + oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa + manifestação com o effeito scenico dos seus encantos. +</p> +<p> + Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes! +</p> +<p> + Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes + de Castello Melhor. Que contraste! +</p> +<p> + Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas + vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares + reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D. + Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão + encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia + revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar + os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir. +</p> +<p> + A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas, + por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a + levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de + discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos + monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus + heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o + triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo. +</p> +<p> + A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido, + trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil + o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito + e a pratica da devoção. +</p> +<p> + O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro + de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se + vae para padre, isto é, por simples estupidez. +</p> +<p> + Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa + mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos + tapados para contas, e não tem perigo nenhum. +</p> +<p> + Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não + sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença. +</p> +<p> + As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim + como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem + Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem + Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres + inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e + fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua. +</p> +<p> + O erro dos padres nas suas relações com o seculo—pedimos licença para + lh'o dizer—está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se + em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos + ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas + mortas,—convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois + consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse. +</p> +<hr /> +<p id="saraivadecarvalho"> + Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos + os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia + extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia + verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas + ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que + debalde, transformal-as em obras. +</p> +<p> + Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço, + lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a + substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda. +</p> +<p> + Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de + perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes + inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo + aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a + alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás + agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de + renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos + que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle + grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela + aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o + infestam, sevandijam e conspurcam. +</p> +<p> + Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de + um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros. + Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria + escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens + politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades + de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições + vigentes. +</p> +<p> + O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a + sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos. +</p> +<p> + No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia + para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas + de pistola. +</p> +<p> + Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão + portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos + por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor + delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres + dos seus compatriotas. +</p> +<p> + Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá: +</p> +<p> + <i>A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu + «bis» ao tenor Gayarre,—uma e outra coisa devida ao estado de + consternação em que todos se achavam</i>. +</p> +<p> + E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de + enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza + profunda de tão excelso quão sensivel principe. +</p> +<hr /> +<p> + Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano, + se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão + manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós + ousariamos formular humildemente uma debil pergunta: +</p> +<p> + Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não + têem os povos egualmente? +</p> +<p> + Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes + testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito + do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar + ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante + museu da Via Lactea,—julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos + lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis + como os reis choram pelos seus bons subditos? +</p> +<p> + Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um + grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz + a queda de um honrado cidadão que morre? +</p> +<p> + Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:—é + perfeitamente a mesma coisa! +</p> +<p> + Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que + acaba de passar o seu coração generoso e paternal! +</p> +<p> + Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes, + quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as + gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das + quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que + proclama—<i>Real, real, real, por el-rei de Portugal</i>,—a alma do povo + póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o + fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu + turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e + das proezas do tiro ao alvo. +</p> +<hr /> +<p> + Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que—tendo em vista, + os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade, + tanto no coração do povo, como no coração dos principes,—sua magestade + se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por + occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto + das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos. +</p> +<hr /> +<p> + A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás + vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias + casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu. +</p> +<p> + Todas essas diligencias se fizeram com grande exito. +</p> +<p> + A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos <i>Bandidos</i> de + Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e + apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da + banca e o dos parceiros. +</p> +<p> + O <i>Diario do Governo</i> d'ontem traz a este respeito uma portaria de + louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei, + elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores, + mas—como muito bem acrescenta a portaria—apprehendendo outro sim + <i>algum dinheiro e mobilia.</i> +</p> +<p> + Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação + intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e + redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente + acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente + surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos + e desapercebidos. +</p> +<p> + No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar + nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para + as jogatinas. +</p> +<p> + Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas + sobre o assumpto <i>batotas</i>, porque estamos convencidos de que essas + auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de + jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder + discutir com ellas sobre esta questão. +</p> +<hr /> +<p> + O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em + S. João da Foz, ha coisa de vinte annos. +</p> +<p> + A espelunca achava-se estabelecida no lindo <i>cottage</i> do Mallen, na + Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da + Senhora da Luz. +</p> +<p> + No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta + mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa + achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da + provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa, + sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro + circulos concentricos. +</p> +<p> + A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas, + adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de + uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro + das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das + apostas. +</p> +<p> + Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um + cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto + egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas, + particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em + que scintillava um olho de gato e um rubi. +</p> +<p> + Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas + que tinha mais proximo de mim. +</p> +<p> + Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos + finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o + trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia, + para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o + preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno, + segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas + cartas que em seguida sahia do baralho. +</p> +<p> + Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me + expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e + mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do + Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo + administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar + ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão + lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram + cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro. +</p> +<p> + De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma + profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei + 100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o + trez de espadas que se achava na mesa. +</p> +<p> + Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a + direita ou para a esquerda das cartas. +</p> +<p> + O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua + pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro: +</p> +<p> + —Mata o rei? +</p> +<p> + Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme: +</p> +<p> + —Mato-o, sim senhor! +</p> +<p> + Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um + silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro + e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das + cartas 3$000 que tinha posto. +</p> +<p> + O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e + principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso + que comprimia nos dedos. +</p> +<p> + A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas. +</p> +<p> + Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um + illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma + parada egual á minha. +</p> +<p> + Esta decisão da sorte—eu o confesso—não me regosijou senão de um modo + bem caracteristicamente mediocre. +</p> +<p> + Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi + consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia + de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,—somma + recebida n'esse mesmo dia. +</p> +<p> + Fiquei na batota até pela manhã. +</p> +<p> + Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada + entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas + e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe + em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os + primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado + da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã + pautava luminosamente d'azul. +</p> +<p> + Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da + noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da + cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette. +</p> +<p> + O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a + saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados + raivosamente pelos pontos. +</p> +<p> + O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e + o collarinho esverdinhado de transpiração. +</p> +<p> + O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e + depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira + de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia, + escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas, + as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas + convulsões da bronchite. +</p> +<p> + A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima + de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da + banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete, + ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de + polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet. + Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir + d'ali embora sosinho. +</p> +<p> + Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o + Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era + filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado + no hotel do Romão, intitulado da Boavista. +</p> +<p> + Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o + misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar. +</p> +<p> + A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de + um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo + melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação + tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me + atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras + palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa + fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e + elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias. +</p> +<p> + Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de + cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de + um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra + no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias + antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta + moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo + doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um + sovaco. +</p> +<p> + —Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!—explicou-me elle com voz + estrangulada. +</p> +<p> + E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o + alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o + bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós. +</p> +<p> + —Como assim!—lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna + inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o + que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos + lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até + me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel + progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle + tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós + os olhos torvos! +</p> +<p> + —Cão!—disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um + parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da + porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do + cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da + janella. +</p> +<p> + E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso: +</p> +<p> + —Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses + agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000, + para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom + e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os + rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e + pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os + diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz + para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento + presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a + justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás + partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da + mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta + noite o rei ... Não sei se o snr m'o viu matar? ... Matei-o como quem + mata um pôrco ... Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse + regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este + luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de + semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na + doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe. +</p> +<p> + —Pois olhe—exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados + de um repentino jubilo—dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a + modo que me está a appetecer isso, a mim! +</p> +<p> + E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras, + remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico. +</p> +<p> + Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão + vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas + encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se + entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras + ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e + vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite. +</p> +<p> + Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso + pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da + Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava + taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o + vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu + natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o + sempre velados pelo mysterio. +</p> +<hr /> +<p> + Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada + batota! +</p> +<p> + Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém, + que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira. +</p> +<p> + Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar + de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de + castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se + lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos + aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa + impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse + solto. +</p> +<p> + E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica + de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal + assalta e sequéstra as batotas! +</p> +<p> + Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu + teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido + para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E + outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua + policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe + lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da + chalaça! +</p> +<hr /> +<p> + Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos + jornaes, um delles intitulado <i>Supplicantibus</i>, e intitulado o outro + <i>Frei Bandalho</i>. +</p> +<p> + Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar + bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em + Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á + vulgarisação da litteratura jornalistica. +</p> +<p> + Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se + ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e + cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados + pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho + preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos + braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o <i>Reles</i>, o + <i>Bisborria</i> e o <i>Pulha</i>. +</p> +<p> + A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia + intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis + esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da + educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face + com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores + borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso. +</p> +<hr /> +<p> + S. ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de + Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de + <i>Rosalia</i> a uma creança de quem foi padrinho. +</p> +<p> + Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que + s. ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama + portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.» +</p> +<p> + Inclinemo-nos com reverencia! +</p> +<p> + Elle poz-lhe o nome de Rosalia... +</p> +<p> + Tornemos a inclinar-nos! +</p> +<p> + E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos + meiados do decimo setimo seculo ... +</p> +<p> + Prostremo-nos por terra! +</p> +<hr /> +<p> + D. Guiomar Torrezão, do <i>Diario Illustrado,</i> dedilhando com mão d'anneis + n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte: +</p> +<p> + «Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um + boudoir, em uma especie de <i>bonbonniere</i> capitonada de setim azul, + impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada + por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e + aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras + semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e + luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se + das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello, + pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente + sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas? ... +</p> +<p> + «E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do + conde de Sabugosa.» +</p> +<p> + É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de + D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de + um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a + pena de experimentar... +</p> +<p> + De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por + preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das + differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos + os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos + os gostos d'horta ou de capoeira. +</p> +<p> + O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para + massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com + a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente. +</p> +<p> + Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao + longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a + musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará + duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas. +</p> +<p> + Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito + da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos + jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas. +</p> +<hr /> +<p id="escamasdecorvina"> + Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na + noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no <i>Diario de + Noticias</i> que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros + devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos + de escamas de corvina. +</p> +<p> + Tambem folgamos muito com isto. +</p> +<p> + Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros + artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se + notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o + lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles + se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da + esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão + genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem + prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das + artes do desenho. +</p> +<p> + Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do + peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de + suas boas mestras! +</p> +<p> + Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de + processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel + perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto, + apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a + faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e + escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor + Leopoldo! +</p> +<p> + Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto + artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da + critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e + que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem + nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas + organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos + estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes. +</p> +<hr /> +<p id="vacca"> + Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota + assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis + aprehendidos. +</p> +<p> + O <i>Correio da Noite</i> refere sobre este assumpto que na batota alludida + se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma + visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr + no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas. + Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei, + reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e + batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que + empalmou do bolo. +</p> +<p> + A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da + policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime + para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle. +</p> +<p> + E os jornaes continuam a chamar <i>uma rusga</i> a cada uma d'estas + diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem. +</p> +<p> + Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não + chamariam a estes lances <i>uma rusga</i>; chamar-lhe-hiam—mais + propriamente—uma <i>vacca</i>. +</p> +<hr /> +<p> + Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;—coisa que + naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não + mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as + Eleições, ou a jogarem mais reconditamente. +</p> +<p> + Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica + dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes, + implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com + outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos + baralhos. +</p> +<p> + Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que + tinha arrancado um olho da cara a uma mulher. +</p> +<p> + O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam + esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, <i>innocente + gracejo</i>. +</p> +<p> + O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de + inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:—aquelle a + quem por um momento pedimos venia para chamar <i>reu,</i> se assim nos é + licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho. +</p> +<p> + O movel do crime,—digo—o movel da pilheria, de que o innocente é + accusado, foi o amor que lhe inundava o peito. +</p> +<p> + Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser + chamado a resolver questões d'olhos. +</p> +<p> + Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de + ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto + que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos. +</p> +<p> + O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e + luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena + que entre esses dois amantes se passou! +</p> +<p> + O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella + mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro. +</p> +<p> + Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e + ironica: +</p> +<p> + —Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho! + se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua + Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas... +</p> +<p> + —Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho + para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não! +</p> +<p> + E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes + transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e, + delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura. +</p> +<p> + Oh! amor!... amor! +</p> +<p> + Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este + breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia + um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito + jornal o serafim a que nos reportamos. +</p> +<p> + Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta + patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus + collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em + juizo. +</p> +<p> + Diz o jurado: +</p> +<p> + <i>Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o + ôlho á queixosa?</i> +</p> +<p> + Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o + Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo + XVII pelas damas illustres. +</p> +<p> + Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre + que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta + obrigação d'este é por-se de rôjos. +</p> +<hr /> +<p> + Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na + cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas, + terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca, + e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre + essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de + Bragança Junior. +</p> +<p> + Referindo este facto o <i>Diario de Noticias</i> accresccnta, reprehensivo e + severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia + da patria.» +</p> +<p> + Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do <i>Diario + de Noticias</i>, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a + bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna—como consta por pessoas + fidedignas—se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio + a descobrir que ella era unicamente um lenço. +</p> +<p> + Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a + attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do + venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus + correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas + crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir + servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e + cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel + I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia + o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre + outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um. +</p> +<hr /> +<p> + Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do + moveis artisticos. +</p> +<p> + Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança + portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues + sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um + licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua + magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta + senhora. +</p> +<p> + O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao + desafogo de alguns commentarios. +</p> +<hr /> +<p id="bricabrac"> + A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos + de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias + antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica. + Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram + restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se + dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo + armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação + das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a + roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros + guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos + sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora + as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D. + João v. +</p> +<p> + Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu + gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo—dos + ferros-velhos. +</p> +<hr /> +<p> + É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas + artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de + resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das + modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a + linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente + o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de + não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de + cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha + o typo da mesma emphase cezarea que o imperial <i>parvenu</i> aprendera na + convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar + a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os + rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra. +</p> +<p> + Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras + obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos + preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores + dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles + fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras. +</p> +<p> + O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no + proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de + fornecedor privilegiado de Luiz XIV. +</p> +<p> + Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette. +</p> +<p> + Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á + consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo + immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas, + alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os + progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da + elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado. +</p> +<hr /> +<p> + Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis + nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas + mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho + mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar + proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais + melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da + influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta + quanto talvez ephemera. +</p> +<p> + Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela + quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance, + sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe, + definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica + sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á + fascinação dos miseros burgueses enriquecidos. +</p> +<p> + Que os adelos se barbeassem deante das elegantes <i>psychés</i> das Maintenon + e das Pompadour, e que almoçassem nas taças <i>pâte tendre</i>, das Dubarry + ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e + bem dissolvente! +</p> +<p> + Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade + a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque—comprehendem bem esta + <i>nuance</i>—agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais + aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos + do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o + Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a + esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella + mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o + Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora! +</p> +<hr /> +<p id="gato"> + Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se + nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que + foi victima o mais bello gato de sua magestade! +</p> +<p> + Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela + competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato + de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire, + contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da + real camara a raparem-o á escovinha. +</p> +<p> + Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o + ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um + dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha + dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta + destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas + versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja, + sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes + pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente + a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato + com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria + no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho. +</p> +<p> + O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente + mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais + abstinentes e mais respeitosos, o camareiro—dizemos—acceso em zelo + pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de + costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo + pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica + que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear + entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites + caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito! +</p> +<hr /> +<p> + Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido + unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um + espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta + soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se + promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a + reconhecel-o e a lamental-o. +</p> +<hr /> +<p> + Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre + o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e + representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa. +</p> +<p> + O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente, + diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a + menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios. +</p> +<p> + Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica + liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação + classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como + n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra + que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente + morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções + archeologicas. +</p> +<hr /> +<p> + «Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que + com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente + arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!—dizem as + folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir + o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do + augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e + d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do + Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor. + Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura + hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo + fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam + arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de + Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de + nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a + religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de + nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!—a nossa sublime + religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora + vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo + Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da + nação portuguesa!» +</p> +<hr /> +<p> + Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos + d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de + offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero. +</p> +<p> + O periodico legitimista a <i>Nação</i> foi o unico que ousou tomar a defesa + do odioso Nuncio, mas o <i>Diario da Manhã</i> d'hoje agarra-se pelas orelhas + á <i>Nação</i> e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario + por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os + bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em + pé outra vez. +</p> +<p> + Imaginem que o <i>Diario da Manhã</i>, desde que começou a questão até hoje, + se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando + a <i>Nação,</i> imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os + unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os + tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa. +</p> +<p> + Nós tínhamos lido o artigo da <i>Nação</i> e confessamos mesmo que no + primeiro repente gostamos d'elle. +</p> +<p> + Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a <i>Nação</i> é + geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de + bispos—especialidade em que somos completamente leigos—desde que ella + affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa, + nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá + ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia + em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso. +</p> +<p> + Mas o <i>Diario da Manhã</i>, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado + n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros + conhecemos os nossos dedos, o <i>Diario da Manhã</i>, que, segundo parece, + estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os + bispos, apenas a <i>Nação</i> disse que os unicos tres bispos com geito eram + os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu! +</p> +<p> + Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a + desanda tremenda applicada á <i>Nação</i> pelo <i>Diario da Manhã</i> d'hoje! E é + preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos + a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em + ninguem. +</p> +<p> + Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que + a <i>Nação</i> nos queria espigar como afiançados, são precisamente os + peiores de todos! +</p> +<p> + Prelados bons, segundo o <i>Diario da Manhã</i>, prelados desenganados, + prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se + o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora + e o arcebispo de Bragança. +</p> +<p> + O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é + que é fazenda. +</p> +<p> + Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão + bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor. +</p> +<p> + O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é + gallinha! +</p> +<p> + Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da <i>Nação</i> diz o + <i>Diario da Manhã</i> que elles não são outra coisa senão os <i>soldados do + exercito das trevas</i>. +</p> +<p> + Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres + melros. Rua, que é a sala dos cães! +</p> +<p> + Para <i>soldados do exercito das trevas</i> bastam-nos os persevejos, + escusa-se de bispos. +</p> +<p> + Supponham porém que o benemerito <i>Diario da Manhã</i> nos não prevenia e + que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um + pouco pellada no lombo—abria o meu seio incauto aos persevejos... quero + dizer, aos bispos... da, <i>Nação!</i>... Que tal estava a rascada, heim? +</p> +<p> + E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar... Vamos nós + agora que o proprio <i>Diario da Manhã</i>...—Não queremos melindrar + ninguem, e pedimos ao <i>Diario da Manhã</i> que o não leve a mal pelo amor + de Deus... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é. + Infallivel é unicamente o papa, o homem não. <i>Humanum est errare</i>...— +</p> +<p> + Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo <i>Diario da Manhã</i> não seja + tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os + melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa + incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a + <i>Nação?...</i> +</p> +<p> + Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções + que ha pouco demos á nossa cosinheira: +</p> +<p> + —Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum. +</p> +<hr /> +<p> + Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada <i>Nação,</i> pedem ao + governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio. +</p> +<p> + O <i>Seculo</i> vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso + representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para + impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete + cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade. +</p> +<p> + No <i>Seculo</i>, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco + estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais + propicio para cardinalisar Masella. +</p> +<p> + Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão—operação a que + se procede cosendo-o—o parecer do <i>Seculo</i> junto da tia Pincha, + encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo + ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a + propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o <i>Seculo</i> que a coisa é + a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para + que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?... +</p> +<p> + Oh! não. +</p> +<p> + Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o <i>Seculo</i> tem + exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na + distribuição dos barretes phrygios. +</p> +<p> + O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete + symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o + sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento + de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado + então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e + borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal. +</p> +<p> + Outro tanto—com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum—não + temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa + de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre + a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo + pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito + tostões e meio. +</p> +<p> + De lã e vermelho, do matiz radical denominado <i>rebenta-boi</i>, é com esse + barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da + critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que + traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do + mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações + balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das + instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa + do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do + seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o + affirma o mui culto Doutor Jardim... de S. Pedro d'Alcantara. +</p> +<p> + Se o <i>Seculo</i> segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro, + presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do + seu partido, que diria o <i>Seculo</i> se, usando da reciprocidade de um + direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse + dizer em tal conjuntura: +</p> +<p> + —Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com + esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete + sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do + turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até + agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos + e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo. +</p> +<hr /> +<p> + Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios + dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que + emfim conseguimos—por um acaso—descobrir os elementos do conflicto + entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa. +</p> +<p> + Eis o caso: +</p> +<hr /> +<p> + Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel + franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou + a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se + propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio. +</p> +<p> + Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão + benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava + pessimos alguns dos bispos propostos. +</p> +<p> + —Como assim!?—volveu, acidulado e surpreso, o das justiças + humanas.—Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me + amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca, + desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião + que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião + precisamente opposta á que eu tenho!?... +</p> +<p> + —Perdão...—-interrompe o ecclesiastico—eu pensei que, desde que v. + ex.ª me consultava... +</p> +<p> + -Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa + Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de + cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de + ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no + gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce + por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares + baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções + fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio + sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender + toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar—e para isto + chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia—que, toda a vez que + um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do + principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes + do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam, + <i>quaesguer que elles sejam</i>—repito-o—é abundarem approvativamente e + jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem + as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e + liberrimo governo da nação portugueza. +</p> +<p> + —Mas então,—obtemperou o sacerdote romano—o systema governativo, de + cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça + mais divertida <i>(la piu piacevole)</i> que se conhece! O pundonoroso luso + da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho + e snr, agora, o vereis! +</p> +<p> + <i>—Farça!</i> bradou s. ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela + rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. <i>—Farça!</i> O + forasteiro ousa chamar <i>farça</i> ao sublime governo constitucional, + monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do + chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de + Magalhães, cognominado por antonomasia o <i>Deus da Palavra</i>!!... Cuidará + então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o + pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para + ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar + carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por + incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos + carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!... + Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola + d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a + sua famosa <i>vinha do senhor:—Vimos da vinha do senhor! Vamos para a + vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!</i> Suppoem os snrs + porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou + bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se + a si mesmos <i>sal da terra</i>; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão + efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na + convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés + sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire + sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o + snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste + abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique + pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de + sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe + assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?... + Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde + para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de + Garcia Diniz ou sobre os artigos da <i>Nação</i> para que essas producções + literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida + coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão + da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os + sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim? +</p> +<p> + Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso, + que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de + perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si + o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s. ex.ª, e + experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e + drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo. +</p> +<hr /> +<p> + Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações + dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse + ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se + passaram. Lemos porem no <i>Diario de Portugal</i> uma phrase reveladôra, que + se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada + folha: +</p> +<p> + <i>O nuncio desacatou sua excellencia</i>. +</p> +<p> + Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos + periodicos ministeriaes. +</p> +<p> + <i>Sua excelencia</i>—segredam as vozes familiares da burocracia—<i>apanhou + um calor</i>. +</p> +<hr /> +<p> + Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr + nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as + causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por + occasião d'este jubiloso successo. +</p> +<hr /> +<p> + E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se + compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem, + nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos. +</p> +<p> + Os bispos—dizem-o todos os textos canonicos—são os pastores das almas, + incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles + que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes + confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser + considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da + Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado + ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome + de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra. +</p> +<p> + Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os + interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os + bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem, + de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja + o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão? +</p> +<hr /> +<p> + Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de + Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima, + que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres + pensadores?... +</p> +<p> + Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas: +</p> +<p> + Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar + ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram + livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso, + prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal + fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou + irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês! +</p> +<p> + Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas + pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino? +</p> +<p> + Vejamos, sinceramente: +</p> +<p> + Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono? + querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem + confessar mulheres?... +</p> +<p> + Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais + a fallar n'isso. +</p> +<p> + Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados, + que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos? +</p> +<p> + Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo: +</p> +<p> + —Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os + republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos + bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os + bispos. +</p> +<p> + Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o + governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr + Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, <i>desacatou</i> o + governo:—para ver se o governo aprende a não ser tolo! +</p> +<hr /> +<p id="stephania"> + A corveta <i>Stephania</i> acaba de dar da sua incapacidade como instrumento + beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne. +</p> +<p> + Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o + empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou + que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato + republicano de opposição ao governo. +</p> +<p> + Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta + que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito + do Arsenal na qualidade de vaso de paz. +</p> +<p> + Para substituir a <i>Stephania</i> nas campanhas navaes das futuras eleições + pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim + estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos + para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro. +</p> +<p> + Parabens a sua excellencia! +</p> +<hr /> +<p> + Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia, + passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria + da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do + Carnaxide. +</p> +<p> + Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se + inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas + presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos + pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o + bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados + gorgeios. +</p> +<p> + Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao + fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos + lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse + o milagroso dia de tão prodigiosa santa. +</p> +<p> + Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um + presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de + Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo + magestoso acima do narravel. +</p> +<p> + Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em + quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada + de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o + horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da + vida em direcção á faia virente. +</p> +<p> + Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco + ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão—por não ter porco + ao lado. +</p> +<p> + Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por + Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para + as nuvens, exclamou: +</p> +<blockquote> +<p> + Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena! +</p> +</blockquote> +<p> + Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos + negocios do reino. +</p> +<p> + Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos. +</p> +<p> + —Guarde-vos Deus, bons rusticos!—disse s.ex.ª acommodando o stylo á + rude e acanhada comprehensão do auditorio—E que a senhora Santa Rosa de + Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão! +</p> +<p> + E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo + campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a + exprimir-se em prosa: +</p> +<p> + —Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?—Trazeis comvosco a + vossa avena, Melibeu?—Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano? +</p> +<p> + Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da + facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide + nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de + lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de + penna e de governação. +</p> +<p> + Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão + matizada de piericos primores, quando s. ex.ª, alongando a dextra n'um + brando meneio para o pendôr da collina, perguntou: +</p> +<p> + —Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na + quebrada da serra? +</p> +<p id="apparecida"> + E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de + Nossa Senhora Apparecida, +</p> +<p> + —Corramos prestes ao templo!—bradou s.ex.ª—Dirijamo-nos pressurosos a + elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar + d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes + <i>Apparecida!</i> Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio, + Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao + templo! ... +</p> +<p> + Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que + Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de + infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para + a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das + patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o + feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida + para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para + Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via + publica: +</p> +<blockquote> +<pre> + D. Miguel foi á Sé, + Sentou-se n'uma cadeira, + E disso para os malhados: + Esta perna está inteira! +</pre> +</blockquote> +<p> + Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra + que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica + governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta + Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou—por + outra—que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa + Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela + segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto. +</p> +<p> + Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso + milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram + submissos em giolhos. +</p> +<p> + E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde + viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez + repetir aos montes e ás hervinhas: +</p> +<blockquote> +<p> + Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena! +</p> +</blockquote> +<p> + que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram + a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em + honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a + Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes + de nunca ter visto Lisboa. +</p> +<p> + Gloria pois a s.ex.ª! +</p> +<hr /> +<p> + Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com + pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao + desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial + na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta + minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em + molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça. +</p> +<p> + A patria explorava-o e ria-se d'elle. +</p> +<p> + Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem + papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no <i>Diario do + Governo</i>, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o + agraciou a regia munificencia. +</p> +<p> + Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução + profunda: elle é o <i>Emfim Malherbe veio</i> da historia dos commendadores e + dos cães,—vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio + extrangeiro. +</p> +<p> + Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o + embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia! + Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente, + instruida e forte, que vae chegar—para se rir. +</p> +<p> + Lisboa 15 de dezembro de 1882. +</p> +<p class="centered"> + <i><b>Ramalho Ortigão.</b></i> +</p> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14296 ***</div> +</body> +</html> diff --git a/14296-h/images/devil.png b/14296-h/images/devil.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..13a77a6 --- /dev/null +++ b/14296-h/images/devil.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Farpas Da Politica, Das Letras E Dos Costumes + (Novembro A Dezembro 1882) + + +Author: Jos Maria Ea De Queiroz and Ramalho Ortigo + +Release Date: December 7, 2004 [EBook #14296] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + + + + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed +Proofreading Team. This work was produced from images generously +made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal. + + + + + +[Illustration: EA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGO--AS FARPAS] + +EA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGO + +AS FARPAS + +_Chronica Mensal_ + +DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES + +QUARTA SERIE N. 2 + +NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882 + +Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder, +da escravido dos partidos da venerao da rotina, do pedantismo das +sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da +politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande +universo, e da adorao de mim mesmo. + +P.J. PROUDHON. + + + + +SUMMARIO + + +Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As +influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as +mulheres--Os nossos padres, padre de misses, padre d'aldeia e padre de +sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o +rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama +illustre--Novas applicaes da mobilia critica litteraria--A moderna +arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O +partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o +Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do +bric--brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo +desacato de s.ex. o ministro da justia por s.em. o nuncio de sua +Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os ces de +faiana---Milagrosa reappario de Nossa Senhora Apparecida. + + * * * * * + +Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado.... +Est approvado. + +Tal , resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da +qual no s o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas +muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de +gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvao da +divindade s deliberaes tomadas pelos clerigos. Para esses +cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou +sacristes--Deus absolutamente a mesma coisa que para o snr Fontes a +sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de, +assistir apresentao dos decretos e de dar o sim. + + * * * * * + +Nos sermes de penitencia das nossas villas e aldeias o truque o mesmo +que nos concilios, mas reforado com um cordel. + +O orador sacro, encarregado pela remunerao de 3$600 em dinheiro e um +prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das +almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio, +irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificao +espiritual, comea por pr Deus no throno do altar mor, sob a figura do +Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em +seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante +com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, perorao, o +ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenos estendidos sobre +o parapeito do pulpito os 3$600 de transpirao escorrida pela fronte e +pela regio cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma +venia e diz: + +Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja +frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado +honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz, +digo, conseguiu levar ao vosso corao amantissimo a convico do +arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes +prostradas a vossos ps, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes +nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque no appareceis?! + +E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica +intitulada obsecrao,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os +tropos,--o orador, dirigindo-se sempre cortina, com bola de mo para a +lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que mister que +elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes apparea, e lhes +perdoe. Os fieis ento desatam em suspiros de corrente pranto, e o +ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle +mesmo prostrado de commoo e de espanto na borda do pulpito, como se +nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um to portentoso milagre como +esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos +Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as +quaresmas, razo de trinta e seis tostes por tarde, alm do beberete. + + * * * * * + +Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da +oratoria sacra. + +Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos +persignam-se, abancam, pem deante de si os raps, e passam desde logo a +redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do +divino Espirito Santo, representado sob a frma de volatil symbolico e +para este effeito invisivel. + +Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta, +tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os +clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que inutil +estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem +com as marionettes. + +N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte: + +Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resolues, que se +manifeste n'esse sentido. No se manifestando, entende-se que est de +accordo. + +Com o qu, do a palavra aos snrs membros que tenham que propr coisas +para approvar. + + * * * * * + +Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como +notorio, o systema habitual de no se manifestar nunca, quer seja para +approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor +numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe. + + claro que lhe no faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, seno +sahir de toda a parte, onde dizem que est, para vir ali assim capella +do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo +com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os +cumprimentar ou de os mandar fava pelos seus discursos! + +Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga +por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares +mordidos pelo bicho carpinteiro do zlo, e decidem juntos decretar mais +fervor devoo das massas afim de que estas mandem dizer mais missas +ou se faam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri +de indifferena ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa +o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a +herva crescer. + + * * * * * + +No affirmaremos porm em absoluto que esta enorme frescata de +chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos +sacerdotes, no possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros +perigos, apertando-se de mais com o fiado. + +Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia, +posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima +quelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o +ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho. + +Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para +provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes +de nos tornarmos nojosos fora de sermos nimiamente prolixos em +nossas intimidades com o Divino. + + de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver +consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em +devoes castelhanas, os bens da sua cora, se achou reduzido ao mais +invejavel estado de pureza christ, no tendo de seu seno facturas de +fornecedores que pagar, a beno apostolica de Sua Santidade e o direito +divino. + +Para sustentar esse direilo nas crtes da nao hispanhola havia um +deputado especialmente incumbido de narrar Peninsula tudo aquillo que +Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que +D. Carlos, com a sua fora desarmada e posta em penhor n'um banco de +Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda +no espao, + +Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao +principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade +n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto. + +Os anjos haviam-o chamado s alturas estendendo-lhe do empyreo o +ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de +apoplexia. + +Acontecem d'estas s vezes! + +Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um +pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo +Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente no esto satisfeitos com +a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera +terrestre. + + * * * * * + +O mais vulgar porem, da parte de Deus, a indifferena imperturbavel +pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja, +pondo-se de Deus esquina para a gente e vibrando a religio como a +grande moca benzida com que atiram testa de quantos andam a ganhar a +sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias esto em folga +temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurana futura e +d'hostias quotidianas. + +Assim como ns outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles +agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos +dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os +exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo +uns mo direita e outros mo esquerda do bem conhecido redactor +principal e leitor unico da _Nao,_ o snr Fernando Todo Pedroso. + + * * * * * + +Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a +sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea +um rubr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades +do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixo de +liberdade que encheu na terra o seu corao maldito. Elle levou uma fava +preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro est prevenido. + +Os doze pescadores, que, voz de Jesus fallando-lhes na montanba, +abandonaram as redes para levar palavras de consolao a todos os +opprimidos atravez do universo, no quereriam ao p de si l em cima +esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca +amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mo arriscar a +pelle, no j para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade +perdida, como nos apologos da biblia, mas para pr definitivamente a +liberdade onde estava a oppresso. S. Paulo, que procedia +litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Svign, no +consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a +espada cheia de bccas de um companheiro que procurou como pde lazer +por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para +a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o +caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de +sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso. + + * * * * * + +O nobre conde de Santiago, pelo contrario, recebido por aclamao, com +a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por +estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurana. Esse pieodoso +fidalgo est nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe d no +seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de +redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se +concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo j, +por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte +de s.ex., e poderemos alimentar a esperana de o ver ainda atravessar +o Chiado como o atravessam os perus, isto --em pennas. A natural +pudicicia de s.ex. lhe vedar porm talvez o circular entre os viventes +vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos +cherubins no gallinheiro celeste. + + * * * * * + +O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado +occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma +pompa particularmente modesta, destinada, a no excitar represalias da +parte do snr. Frana Neto. + +Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus +chapeus altos anediados de novo para decoro das coras subjacentes, mais +outros tantos seculares vestidos de preto e puxados substancia do +panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a +assoarem-se uns para os outros com emphase, do-nos menos a ideia de um +ajuntamento triumphante de convices victoriosas do que o painel de um +simples ciprestal sentado,--com defluxo. + +Alem de solicitar a beno apostolica, o congresso catholico de Lisboa +resumiu os seus trabalhos em duas unicas resolues: fundar uma +universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da +sua policia elles faam respeitar nas ruas as pessoas dos +ecclesiasticos, presentemente apupados pela multido, segundo elles +mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos +sacerdotaes. O que, a ser exacto, precisamente a mesma coisa que +succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restaurao. +Notando-se que a Restaurao foi de todos os governos em Frana aquelle +que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a interveno do +governo ser o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia +e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade +religiosa, em que o Estado atheu, como na America do Norte. + + * * * * * + +Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com +algumas reunies do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso +dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do +sacerdocio decae de um modo sensibilisador. + +No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de +1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de +Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne +d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procisso +para a vasta sala das sesses, engrinaldada de festes de rosas e +empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma +enorme nau em triumpho. No topo do salo o estrado destinado meza era +coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se +destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de +brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em +grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas +lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto +clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente, +por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. frente, os +cardeaes com as suas purpuras roagantes; depois os bispos inglezes, os +de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os +sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas +com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de casto de ouro. + +Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador +do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja +livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade +de uma alliana entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico +do mundo moderno, e o seu discurso n'esse intuito um manifesto de uma +rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta. + +Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos so +inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos +no souberam ainda congrassar-se com a grande revoluo que gerou a nova +sociedade, a moderna vida dos povos. Em presena da sociedade moderna os +catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. No aprenderam +por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos esto +ainda, pelo corao e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto , +a um systema que no admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade +politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu +lado grande e bello; no pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo +condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: est +morto, e nunca mais resuscitar. + +Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de +cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja, +ou no tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos +tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do +espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razo +contra todas as usurpaes, contra todos os privilegios, contra todas as +tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana. + +A liberdade uma s, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo +predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes, +representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela +religio. + +Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de +a proclamar sem disfarce e sem restrico alguma como base das relaes +do homem com o homem na independencia absoluta da revelao e da f. Na +religio a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a +consciencia humana de no ser governada nas suas relaes com Deus por +decretos ou por castigos humanos. + +Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vs, +entendei-o bem, preciso que a queiraes egualmente para todos os homens +e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vs unicamente, no a +tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a +deem em toda a parte onde fordes escravos. + +Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida, +levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das +resolues da assembleia: do interesse dos catholicos, assim como do +todos os cidados que sinceramente querem a liberdade, o substituir +quanto possivel a interveno e a omnipotencia do estado pela energia +creadora e pelo principio expansivo do espirito de associao. + + * * * * * + +Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso +de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento +liberal da moderna civilisao. Os destinos da egreja n'este fim do +seculo XIX esto profundamente ligados a esse facto culminante na +historia das ideias clericaes. + +O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos +abandonaram a reunio no dia immediato quelle em que Montalembert +fizera o elogio da alliana da egreja catholica com a sciencia e com a +liberdade. + +Compareceram apenas nas sesses subsequentes os membros obscuros do +baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico +continuavam a applaudir Montalembert, no sem perguntarem a si mesmos +com certa inquietao o que se pensaria em Roma dos discursos e das +resolues do congresso belga. A resposta no se fez esperar. Tres ou +quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em +que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que +ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a +_liberdade da sciencia_. + +Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, no +obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864. +Montalembert no compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo +Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, no pareceu +sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu s utopias +liberaes do congresso com a publicao do _Syllabus_ e da encyclica +_Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a +illuso de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da +civilisao. + +Em presena d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas +resolues que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e +do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractao +vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspiraes +manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no +gremio da egreja. + +N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se. + +Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado. + +Entre os interesses do clero e os interesses da civilisao ha uma +barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais +liberaes, julgaram impossivel transpr. + + * * * * * + +Ora desde que no pde ser um alliado, o que est evidentemente +demonstrado, o padre um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira +obrigao tomar conhecimento das foras de que elle dispe para nos +prejudicar. Sobre este ponto a resoluo tomada pelo congresso do +Passeio Publico de pedir a interveno da policia civil para evitar que +o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente. + +Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo +emprestado ao chifarote do habil Antunes um symptoma doce. O +congresso prope-se morder os impios com a condio de que os impios lhe +ponham as presas. a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os +querem ver cantar o cro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry. + + * * * * * + +A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico +de Lisboa, que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As +senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a +todas as sesses. + +Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim +as adheses da mulher? + +Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal +tres especies distinctas de padres:--o padre das misses, o padre +d'aldeia e o padre de sala. + + * * * * * + +Os padres das misses subdividem-se em dois grupos differentes: os +aventureiros e os mysticos. + +Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulao +temporal, por amor vida d'emigrante, lavoura dos tropicos, ao lucro +mercantil, intriga da politica colonial e batota ultramarina. De +quando em quando, ao apparececrem-lhes mo, arrebanhados, alguns +centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia +tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros +justos, conscios por experiencias feitas de que essa operao, altamante +civilisadora posto que inoffensiva, os no torna nem mais nem menos +pretos do que elles so. + +Os mysticos, mais raros, so pessoas doentes da hallucinao do +martyrio. A sua ambio suprema consiste em serem comidos s fatias +fritas, com mandioca, pelas raas anthropophagas. Logo que se julgam +sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula +canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros +dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de +Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do brao e embarcam para regies +inhospitas e selvagens. + +Uma vez em communicao com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter +o breviario em cruz entre a bocca e o prato, at conseguirem realisar a +sua aspirao suprema, que no restar d'elles mais que uma batina e um +par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas +dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para +o outro: + +--Saboroso padre! benza-o Manipanso! + + * * * * * + +O padre d'aldeia d'ordinario o melhor dos homens. + +A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas +enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e +estonteadores. + +As suas intimidades com a s natureza do-lhe o instincto de uma boa +religio alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de +espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros +missa cantada, n'uma vasta satisfao de cajados reluzentes, de +sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas +arregaadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila +no arraial. + +Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra roda +da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, at grade do cemiterio. + +Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e +rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos +artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um +chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de po +podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capes, que atravancam a +passagem por entre os fieis ajoelhados na nave. + +Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um +latim abreviado, mastigado pressa, e vae podar as cepas, sachar o +cebolo, enxertar os limoeiros ou caar as perdizes, palmilhando o monte, +saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os +perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bas noites +para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no +hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa +jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais. + + + * * * * * + +O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas +casas frequenta por um resto de tradio antiga nas familias nobres, +onde o capello era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o +boleeiro, o creado de farda e a preta. + +As meninas nobres, que hoje lem o _Figaro_ e os romances de Daudel, no +tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa +para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e +caturra. Troam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um +servial de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade +entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras +raciocinadas, que no sabe fazer um simples moo de recados sem o curso +dos seminarios. + + o padre que vae ao Sexas buscar as ls para bordar, segundo os +matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leito, e o +_chignon_ para frisar ao Godefroy. elle que acompanha s lojas de dia +e s visitas sem cerimonia noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os +paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaam no caminho, e paga os +bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso. + +No est persistente n'uma s casa, como nas antigas capellanias. Anda +aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet +ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar +noite. s segundas feiras chaperona a lio de desenho das meninas S. s +teras acompanha a viscondessinha de X s suas devoes a S. Luiz e a +outros logares. s quintas do-lhe ch preto e po torrado com manteiga +para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P. + +Aos seres, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das +mexeriquices que traz das casas d'onde vem, v as gravuras das +Illustraes, ou dorme. As meninas procuram s vezes arrancal-o ao +torpr da sua digesto ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas: + +--Padre Jos, esperte! no se faa ainda mais mono do que ; scintille +para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto +cho! + +E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em +inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_ + +--Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo! + +Quem precisa de padre e o no tem mo, pede-o emprestado, como se pede +emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que est em +Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga: + +Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso +d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. D-lhe +dinheiro para o omnibus e manda-m'o manh sem falta. + +s vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulao, +posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois +pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos +rins em estimulo de velocidade para a porta da rua. + +Algum noite pergunta: + +--Que feito do padre Joo? + +E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que l a um canto, +responde lentamente: + +-Mandei-o rinchar para as lesirias. Comeava a achar-se folgado de mais +para se continuar a ter argola. o que lhe fiz sentir esta manh por +meio de uma ligeira admoestao corporea. + +--Mas o physico do sacerdote inviolavel sagrado! + +--Por isso tambem no foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi +pelo lado _cunhos_. + + * * * * * + +De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer +casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes +para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz +dos Francezes a visita do reverendo Abb Miel. + +O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de no se +haver abandalhado nas eleies, de no ir para a plateia de S. Carlos +applaudir a opera e dizer graolas s senhoras suas confessadas, que +esto nas bancadas ao p d'elle, de no andar pelas casas particulares +com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de no +misturar nunca--a no ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez +do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e +pecaminosa. + +Alem do que como vm feitos de fora, no consta na confidencia dos +lisboetas nem nas revelaes mais desabotoadas das villegiaturas de +Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles +foram manufacturados. + + * * * * * + +Apesar porm de todas as apreciaveis inferioridades que to +vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos estima e +tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que, +apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo +oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa +manifestao com o effeito scenico dos seus encantos. + +Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se so capazes! + +Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes +de Castello Melhor. Que contraste! + +Esse club reunir facilmente nas suas sesses todas as gravatas +vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares +reservados s damas, ser mais difficil prehenchel-os. Logo que D. +Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commisso +encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia +revolucionaria poder tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar +os colletes, que no ter mais ninguem para conduzir. + +A razo d'este phenomeno significativo que os padres e os padristas, +por menos espertos e menos habeis que sejam, tem por baixo de si a +levantal-os mais alto do que todos ns, oito seculos de talento, de +discusso e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos +monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus +heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o +triumpho mais maravilhoso d'essa grande fora chamada o estudo. + +A antiga tradio, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido, +trespassado pela heriditariedade de gerao em gerao, torna hoje facil +o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito +e a pratica da devoo. + +O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro +de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se +vae para padre, isto , por simples estupidez. + +Ora ser padre quando se no tem cabea para ser qualquer outra coisa +mais util, corrente, commodo, faz arranjo s familias com filhos +tapados para contas, e no tem perigo nenhum. + +Na Egreja quem no sabe outra coisa diz missas. Na Revoluo quem no +sabe mais nada diz asneiras. Essa a differena. + +As mulheres, que em geral no conhecem os chefes da Revoluo, assim +como tambem no conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem +Proudhon nem Michelet, como egualmente no leram nunca S. Paulo nem +Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres +inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e +fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua. + +O erro dos padres nas suas relaes com o seculo--pedimos licena para +lh'o dizer--est unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se +em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos +ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas +mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molire, pois +consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse. + + * * * * * + +Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabea distincta das de todos +os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia +extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia +verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas +ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que +debalde, transformal-as em obras. + + dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante servio, +lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a +substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda. + +Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de +perpetuar para todo sempre a localisao da familia dos actuaes +inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo +aquelle notavel edificio. Pois evidente que, posto esse casaro a +alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores s +agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de +renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos +que offerece para habitao, de familia, pelos maus cheiros que n'elle +grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela +aterradra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o +infestam, sevandijam e conspurcam. + +Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de +um jornalismo onde os escriptores cada vez se vo tornando mais raros. +Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria +escrevendo bem a sua lingoa, e foi, alm d'isso, entre os homens +politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades +de espirito, de corao e de caracter sacrificou s instituies +vigentes. + +O chefe dessas instituies, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a +sua dr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos. + +No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia +para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas +de pistola. + +Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidado +portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos +por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor +delambido, uma justa e equitativa compensao perda dos mais illustres +dos seus compatriotas. + +Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dir: + +_A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu +bis ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de +consternao em que todos se achavam_. + +E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, vertero lagrimas de +enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza +profunda de to excelso quo sensivel principe. + + * * * * * + +Se no receassemos profanar a dr to intima e to sincera do soberano, +se no temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso corao, to +manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasio presente, ns +ousariamos formular humildemente uma debil pergunta: + +Julga sua magestade que, assim como os principes tem corao, o no +tem os povos egualmente? + +Quando, em vez das testas communs e opacas, so as fulgidas e rutilantes +testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito +do alto do throno celestial, resolve com a devida, considerao chamar +s alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante +museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos +lances, no choram to dolorosamente os subditos pelos seus bons reis +como os reis choram pelos seus bons subditos? + +Cuida Sua Magestade que no nos faz to grande mossa o baque de um +grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz +a queda de um honrado cidado que morre? + +Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justia:-- +perfeitamente a mesma coisa! + +Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que +acaba de passar o seu corao generoso e paternal! + +Quando o sino grande da S badala o dobre supremo dos obitos reaes, +quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as +gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das +quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que +proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo +pde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o +fim de no succumbir intensidade da dr, de appelar ento por seu +turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e +das proezas do tiro ao alvo. + + * * * * * + +Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista, +os dolorosos e excruciantes paroxismos que pde attingir a saudade, +tanto no corao do povo, como no corao dos principes,--sua magestade +se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por +occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto +das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos. + + * * * * * + +A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que s +vezes acomette esta veneranda instituio, acaba, de assaltar varias +casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu. + +Todas essas diligencias se fizeram com grande exito. + +A policia foi p ante p, como o cro dos carabineiros nos _Bandidos_ de +Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e +apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da +banca e o dos parceiros. + +O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de +louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei, +elogia a policia pelo bem que andou, no s capturando os jogadores, +mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim +_algum dinheiro e mobilia._ + +Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfao +intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e +redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente +acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente +surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidados, improvidos +e desapercebidos. + +No Porto o zlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar +nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para +as jogatinas. + +No pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas +sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas +auctoridades, morigeradas e pudibundas, no foram nunca s casas de +jogo, o que as desarma de toda a habilitao precisa para se poder +discutir com ellas sobre esta questo. + + * * * * * + +O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em +S. Joo da Foz, ha coisa de vinte annos. + +A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na +Praia dos Inglezes, com um terrao sobre o mar e a entrada pela rua da +Senhora da Luz. + +No meio do grande salo de baile estava armado o jogo sobre uma vasta +mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa +achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da +provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa, +sentados, outros em p por traz d'esses, formando tres ou quatro +circulos concentricos. + +A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas, +adornado de uma longa pra grisalha, puxava para junto de si por meio de +uma pequena rapadeira de mogno polido, em frma de ensinho, o dinheiro +das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das +apostas. + +Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um +cavalheiro, mais gordo, ainda que no mais solicito, e de aspecto +egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mos finas, +particularmente bem tratadas e realadas por dois bellos cachuchos em +que scintillava um olho de gato e um rubi. + +Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas +que tinha mais proximo de mim. + +Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mos +finas collocava na mesa ao lado uma da outra. L estava, por exemplo, o +trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia, +para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o +preo da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno, +segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas +cartas que em seguida sahia do baralho. + +Devo dizer, face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me +expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e +mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do +Estado alguns esclarecimentos cerca do jogo do machinismo +administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar +ninguem, que jamais das regies officiaes recebi informaes to +lucidas e to leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram +cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro. + +De um s relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma +profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei +100$000 ris que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o +trez de espadas que se achava na mesa. + +Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a +direita ou para a esquerda das cartas. + +O homem da p de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua +pra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro: + +--Mata o rei? + +Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme: + +--Mato-o, sim senhor! + +Esta phrase pareceu fazer uma certa impresso no auditorio. Houve um +silencio. Um desembargador da relao do Porto, ancio de oculos d'ouro +e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das +cartas 3$000 que tinha posto. + +O cavalheiro das lindas mos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e +principiou a extrahir com lentido as cartas, a uma por uma, do masso +que comprimia nos dedos. + +A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas. + +Eu tinha perdido os meus 100$000 ris. Ganhava-os precisamente um +illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma +parada egual minha. + +Esta deciso da sorte--eu o confesso--no me regosijou seno de um modo +bem caracteristicamente mediocre. + +Resolvi porm interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi +consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia +de perto de meio anno de collaborao n'um jornal americano,--somma +recebida n'esse mesmo dia. + +Fiquei na batota at pela manh. + +Por uma janella aberta sobre o terrao a luz cr de perola da madrugada +entrava humedecida e salgada pela virao maritima. As banheiras, filhas +e moas da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe +em terceiras, n'um cro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os +primeiros preges matutinos dos vendilhes ambulantes penetravam do lado +da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o claro da manh +pautava luminosamente d'azul. + +Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da +noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da +cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balo do buffette. + +O cho estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a +saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados +raivosamente pelos pontos. + +O homem das bellas mos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e +o collarinho esverdinhado de transpirao. + +O cavalheiro da pra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e +depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira +de braos em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia, +escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas, +as mos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas +convulses da bronchite. + +A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruos para cima +de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da +banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete, +ficara esquecido um janota de calas cr de flr de alecrim, botinas de +polimento, luvas azues e fraque cr de pinho feito no Pereira Baquet. +Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me no ir +d'ali embora sosinho. + +Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o +Chico ... no me lembra j de qu. Tinha dezesete ou dezoito annos, era +filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado +no hotel do Romo, intitulado da Boavista. + +Quando elle se ergueu da mesa e se poz em p deante de mim, vi que o +misero no tinha estado a dormir, mas sim a chorar. + +A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buo, de +um signal cabelludo na face e de dois bands cr de ouro anediados pelo +melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternao +to profunda, to cca, to francamente imbecil, que desde logo me +atrahiu para elle com uma compaixo verdadeira. Agarrou-se s primeiras +palavras que lhe disse, como um afogado se agarra primeira cousa +fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e +elegante moo vertia no meu peito as suas doloridas confidencias. + +Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de +cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de +um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra +no valor de 1:600$000 ris. Era d'esta quantia, recebida tres dias +antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta +moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo +doutor da Regoa para um tumor frio que lhe comeara a inchar n'um +sovaco. + +--Meu pae, para coisas d'estas, uma fera!--explicou-me elle com voz +estrangulada. + +E, tendo descalado uma das luvas azues, comprimia com mo nervosa o +alto da sua pequena cabea de gallo, apagando da testa n'um repello o +bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bands. + +--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna +inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o +que lhe cumpre fazer nas funestas condies em que se acha?... Saiamos +l para fora! Saiamos com p expedito e rapido d'esta caverna, que at +me est a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel +progenitor, proferindo-o perante a pra cavilosa e obscena d'aquelle +tisico, malandro em terceiro grau, que alm diviso envesgando para ns +os olhos torvos! + +--Co!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um +parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da +porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do +cavalheiro da pra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da +janella. + +E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso: + +--Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses +agricolas das nossas regies vinhateiras a quantia de ris 1:600$000, +para os entregar nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom +e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os +rispidos ancios, de ouvidos cerrados misericordia pelo mau genio e +pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os +diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz +para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento +presente, do que a applicao lombar da bengala de um antepassado, ou a +justaposio da abenoada sola e vira de uns bons sapatos paternos s +partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da +mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta +noite o rei.....No sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem +mata um prco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse +regicidio? Ficou-me por 176$000 ris. A recordao amarga d'este +luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de +semsaboria, e s uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na +doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe. + +--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados +de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a +modo que me est a appetecer isso, a mim! + +E trocadas entre ns estas profundas e memoraveis palavras, +remergulhamos em intimas e silenciosas cogitaes, eu e o Chico. + +Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes do +vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas +encapuchadas em rendas de l desciam de suas manses praia para se +entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras +ainda, volviam da praia a suas manses, com narizes arrebitados e +vermelhos, avidas de po quente com manteiga e de caf com leite. + +Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso +pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padres da +Teixeira, de braos abertos e um marmeleiro em cada brao. Eu voltava +taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o +vil e mercenario ensinho do Pra Tisica n'essa noite desvira de seu +natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o +sempre velados pelo mysterio. + + * * * * * + +Tal , em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada +batota! + +Temos visto do jogo muitas e mui variadas definies. A unica, porm, +que inteiramente nos satisfaz a seguinte: O jogo uma asneira. + +Reduzida assim a questo aos seus verdadeiros termos, no podemos deixar +de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de +castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se +lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos +aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa +impossivel, porque ha muito no haveria ministro nenhum que andasse +solto. + +E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicao sophistica +de que para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal +assalta e sequstra as batotas! + +Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu +teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido +para o rei de Portugal os 176$000 ris que eu dei para o rei de copas? E +outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua +policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe +lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da +chalaa! + + * * * * * + +Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecero brevemente dois novos +jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro +_Frei Bandalho_. + +Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar +bem, em duas unicas pennadas, a elevao intellectual que, no s em +Braga como em todo o reino, est presidindo n'este momento +vulgarisao da litteratura jornalistica. + +Guimares, Barcellos e Vianna no querero por certo deixar-se +ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e +cremos mesmo no ser indiscretos revelando desde j que, estimulados +pela mais nobre emulao, os grandes centros intellectuaes do Minho +preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos +braguezes, a appario proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o +_Bisborria_ e o _Pulha_. + +A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia +intellectual o secreto receio de que, no obstante, os incansaveis +esforos empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da +educao nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face +com suas auctorisadas pennas a um to vasto labor mental, os escriptores +borra-botas, os troca-tintas e os manccos indispensaveis para o caso. + + * * * * * + +S.ex. o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de +Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de +_Rosalia_ a uma creana de quem foi padrinho. + +Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que +s.ex. escolhera este nome por elle ser o de uma illustre dama +portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII. + +Inclinemo-nos com reverencia! + +Elle poz-lhe o nome de Rosalia.... + +Tornemos a inclinar-nos! + +E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos +meiados do decimo setimo seculo..... + +Prostremo-nos por terra! + + * * * * * + +D. Guiomar Torrezo, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mo d'anneis +n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte: + +J alguma vez experimentaram a impresso que se sente entrando-se em um +boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul, +impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada +por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e +aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras +semi-cerradas e a cabea enterrada em uma almofada de setim macio e +luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se +das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello, +pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente +sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?... + +E' esta mesma impresso que se experimenta lendo-se os poemetos do +conde de Sabugosa. + + talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de +D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle d a impresso perfeita da obra de +um to sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a +pena de experimentar.... + +De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por +preo modico todos os trastes precisos para a comprehenso das +differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos +os preos, j em flores caprichosas, j em plumagens ondulantes, a todos +os gostos d'horta ou de capoeira. + +O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para +massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com +a cabea enterrada na almofada de setim phosphorecente. + +Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao +longe, o paciente se queixar de no desfructar sufficientemente a +musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remunerao, facultar +duas buxas de algodo em rama para se lhe introduzirem nas orelhas. + +Folgamos de veras ao ver assim to harmonicamente alliadas em proveito +da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos +jornaes e de pr cortinados da Suissa nas casas. + + * * * * * + +Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na +noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lmos no _Diario de +Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros +devidos pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos +de escamas de corvina. + +Tambem folgamos muito com isto. + +Em todas as exposies de quadros celebradas nos principaes centros +artisticos do mundo durante este derradeiro quarteiro do seculo, se +notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o +lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles +se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da +esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lanando mo +genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente tela, vem +prehencher uma lacuna immensa nos recursos at hoje to estreitos das +artes do desenho. + +Gloria eterna a to benefica e prestante menina, honra da patria e do +peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfao completa de +suas boas mestras! + +Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforos de +processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel +perfeio, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto, +apartar-se repentinamente da grande legio dos atormentados, empunhar a +faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e +escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor +Leopoldo! + +S nos resta agora, para inteira consagrao d'este grande facto +artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da +critica, nos queira dizer de que cr que devemos capitonar as casas e +que pea de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem +nos compenetrarmos das impresses que so chamados a produzir nas +organisaes accessiveis comprehenso do bello os novos effeitos +estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes. + + * * * * * + +Antes d'hontem, 3, nova rusga s casas de jogo. Em uma batota +assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil ris +aprehendidos. + +O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida +se no jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma +visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr +no bairro o boato semi-official de que no havia mais rusgas s batotas. +Os jogadores ento, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei, +reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e +batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que +empalmou do bolo. + +A opinio mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da +policia, que anima sagazmente os mal intencionados pratica do crime +para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle. + +E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas +diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem. + +Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, no +chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais +propriamente--uma _vacca_. + + * * * * * + +Os jogadores at hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que +naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a no +mais jogarem seno nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as +Eleies, ou a jogarem mais reconditamente. + +Para no desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica +dos crimes a que elles, coitadinhos, esto habituados, os tribunaes, +implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com +outros erros menos funestos moral e ao proximo do que o manejo dos +baralhos. + +Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que +tinha arrancado um olho da cara a uma mulher. + +O juri tomou em considerao as circumstancias attenuantes que revestiam +esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente +gracejo_. + +O juri attendeu principalmente a este facto, que no pde deixar de +inspirar a mais profunda piedade a todos os coraes ternos:--aquelle a +quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos +licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho. + +O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente +accusado, foi o amor que lhe inundava o peito. + +Ai d'aquelle que nunca amou! esse um bruto, que jamais dever ser +chamado a resolver questes d'olhos. + +Os que uma vez amaram esses comprehendero bem todos os thesouros de +ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto +que o levou, incomprehendido, barra dos tribunaes humanos. + +O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e +luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena +que entre esses dois amantes se passou! + +O cavalheiro principiou naturalmente por pedir sua doce amada que ella +mesma lhe desse o lho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro. + +Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e +ironica: + +--Ora, para que queres tu o lho?... Importas-te tu bem com o meu lho! +se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um lho meu, o lho da tua +Bb, para o pres n'um medalho. Mas oh! tu no me amas.... + +--Ah! eu no te amo? Eu que te no amo?! Eu que te no quero um lho +para um berloque?!... Ora espera, que j te mostro se te adoro ou no! + +E, em seguida, por um d'esses actos de paixo profunda que muitas vezes +transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e, +delicadamente, apoderar-se-hia do lho da creatura. + +Oh! amor!... amor! + +Um jornal pareceu no saborear competentemente toda a doura d'este +breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado cadeia +um malandro to garantidamente bestial como mostrava ser para o dito +jornal o serafim a que nos reportamos. + +Um dos membros do juri dirigiu folha alludida uma bella carta +patenteando as altas razes juridicas que os levaram, elle e os seus +collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em +juizo. + +Diz o jurado: + +_Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o +lho queixosa?_ + +Ns j acima nos prostramos no cho junto s plantas eruditas com que o +Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo +XVII pelas damas illustres. + +Outra vez nos vemos agora forados a estender-nos ao comprido. Sempre +que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta +obrigao d'este por-se de rjos. + + * * * * * + +Na sesso inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na +cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas, +terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca, +e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre +essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de +Bragana Junior. + +Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e +severo, que no se devem fazer comedias partidarias com a independencia +da patria. + +Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario +de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a +bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas +fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio +a descobrir que ella era unicamente um leno. + +Pela parte que nos toca no podemos deixar de applaudir absolutamente a +attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do +venerando partido legitimista, levando pela persuaso oratoria os seus +correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas +crenas o moderno leno d'assoar, em vez de continuarem a seguir +servilmente as tradies partidarias da velha crte toireira e +cavalharial de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel +I, taes como o picador Joo Sedvem e o caceteiro Jos da Policia, exigia +o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre +outro qualquer symbolo que no fosse unicamente a mo de cada um. + + * * * * * + +Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilo de louas, de antiguidades e do +moveis artisticos. + +Tentmos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiana +portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues +sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um +licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua +magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta +senhora. + +O negro despeito pela privao dos referidos objectos obriga-nos ao +desafogo de alguns commentarios. + + * * * * * + +A tendencia geral para o bric--brac o grande escolho dos progressos +de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias +antigas acabou, assim se pde dizer, com a moderna marcenaria artistica. +Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram +restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ningum se +d j ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo +armario, o mais gracioso sof. Contentamo-nos, como suprema realisao +das nossas aspiraes no conforto e na graa da habitao, em metter a +roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros +guardavam os seus cales curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos +sentar as nossas mulheres nos mesmos canaps em que se entufaram outrora +as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D. +Joo v. + +Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu +gosto, o seculo XIX figurar na historia como o seculo--dos +ferros-velhos. + + * * * * * + + aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas +artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. isso de +resto o que sempre se v na historia do movel. A cada uma das +modificaes caracteristicas por que successivamente vae passando a +linha e a cr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente +o nome de um soberano, desde Luiz XIII at Napoleo I, o qual, apesar de +no ter passado nunca em questes de gosto da sua primeira patente de +cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha +o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na +convivencia e nas lies do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar +a traar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os +rascunhos dos improvisos para as proclamaes de guerra. + +Os trez grandes decoradores Boule, Gouthire e Riesner, cujas obras +obtiveram recentemente no leilo do duque de Hamilton os mais fabulosos +preos que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores +dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de Frana que elles +fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras. + +O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no +proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de +fornecedor privilegiado de Luiz XIV. + +Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette. + +Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos +considerao e estima do mundo moderno, vivero por muito tempo +immortalisados nas colleces democraticas das artes decorativas, +alliados memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os +progressos do gosto artistico, que so ao mesmo tempo os progressos da +elevao do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado. + + * * * * * + +Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis +nos leiles dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas +mais talentosos do seu reino, no se nos figura que esteja no caminho +mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar +proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais +melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da +influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia to distincta +quanto talvez ephemera. + +Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilo e arrebatando-os pela +quantia de mais tres tostes e meio com que cobriu o nosso ultimo lance, +sua magestade a rainha vibrou, com fina mo ganhosa, o derradeiro golpe, +definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica +sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje +fascinao dos miseros burgueses enriquecidos. + +Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychs_ das Maintenon +e das Pompadour, e que almoassem nas taas _pte tendre_, das Dubarry +ou das Marie Antoinette, coisa era j bem desconsoladora, bem triste e +bem dissolvente! + +Mas, depois do ultimo leilo, em que ns fomos batidos por sua magestade +a rainha, o facto mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta +_nuance_--agora a mais distincta, a mais elegante, a mais +aristocratica das princezas, que rev os candidos e impolutos arminhos +do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o +Villas! e a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a +esvelta graa altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella +mesma tomar o ch no mesmo bule por cujo bico almoou dois dias antes o +Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora! + + * * * * * + +Despeitados, como naturalmente sahimos do leilo Cordeiro, imaginem se +nos daria prazer ou no a noticia da morte violenta e affrontosa de que +foi victima o mais bello gato de sua magestade! + +Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela +competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato +de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire, +contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da +real camara a raparem-o escovinha. + +Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal at o +ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um +dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha +dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta +destinada ao inviolavel almoo do monarcha. Ora todas as pessoas +versadas nas praticas da crte, por mais perfunctoriamente que seja, +sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoo s reaes +pessoas, uma costelleta destinada refeio do principe absolutamente +a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato +com uma rodella de limo em cima, to real e perfeitamente como estaria +no solio com a sua cora na cabea e o seu sceptro em punho. + +O camareiro pois, vendo seu augusto amo to vil e perversamente +mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais +abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo +pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de +costelleta, foi p ante p, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo +pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella distancia kilometrica +que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear +entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites +caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito! + + * * * * * + +Aquelle que com amargo fel traa estas linhas colericas, movido +unicamente pelo baixo despeito de no haver pechinchado n'um leilo um +espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta +soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se +promtifica desde j a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a +reconhecel-o e a lamental-o. + + * * * * * + +Andmos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre +o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e +representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa. + +O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente, +diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a +meno do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios. + +Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica +liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignao +classica, e mais uma vez vimos luz do dia, expostas em andr, como +n'uma procisso solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra +que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente +morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas colleces +archeologicas. + + * * * * * + +Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que +com tanto sangue implantaram e regaram n'este abenoado torro a virente +arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um s homem!--dizem as +folhas. Ergamo-nos, sem distinco de campo nem de faco, para sacudir +o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do +augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister todo de paz e +d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do +Crucificado, calcando a ps os preceitos evangelicos do Redemptor. +Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura +hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo +fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam +arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de +Jesus o vendilho infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religio de +nossos paes, a religio de nossas mes, a religio de nossas filhas, a +religio de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de +nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime +religio, finalmente, tal como ella em sua excelsa pureza, que ora +vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo +Redemptor, cujas cinco chagas so o mais augusto emblema da bandeira da +nao portuguesa! + + * * * * * + +Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos +d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de +offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero. + +O periodico legitimista a _Nao_ foi o unico que ousou tomar a defesa +do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manh_ d'hoje agarra-se pelas orelhas + _Nao_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario +por espao de seis dias, porque preciso andar a procurar-lhe os +bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pr em +p outra vez. + +Imaginem que o _Diario da Manh_, desde que comeou a questo at hoje, +se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis seno quando +a _Nao,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os +unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus so os +tres prelados de Angra, do Funchal e de Ga. + +Ns tnhamos lido o artigo da _Nao_ e confessamos mesmo que no +primeiro repente gostamos d'elle. + +Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nao_ +geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de +bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella +affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Ga, +ns, na boa f, appressmo-nos logo a tomar nota do documento, e c +ficamos com mais essa informao devidamente registrada para algum dia +em que por acaso viessemos a ter preciso de bispos maus para nosso uso. + +Mas o _Diario da Manh_, o qual, pelo que se v agora, doutorado +n'esta materia, e conhece to bem todos os bispos como ns outros +conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manh_, que, segundo parece, +estava calado e coca, exactamente espera de que lhe bolisscm com os +bispos, apenas a _Nao_ disse que os unicos tres bispos com geito eram +os do Funchal, d'Angra e de Ga, ah! pae do ceu! + +Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a +desanda tremenda applicada _Nao_ pelo _Diario da Manh_ d'hoje! E +preciso ll-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos +a tristissima verdade de que no pde um homem hoje em dia fiar-se em +ninguem. + +Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que +a _Nao_ nos queria espigar como afianados, so precisamente os +peiores de todos! + +Prelados bons, segundo o _Diario da Manh_, prelados desenganados, +prelados que se podem dar a contento seja para onde fr, restituindo-se +o seu importe caso no agradem, so o bispo de Coimbra, o bispo de Evora +e o arcebispo de Bragana. + +O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso +que fazenda. + +Bispo de Bragana, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem iro to +bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor. + +O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: +gallinha! + +Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nao_ diz o +_Diario da Manh_ que elles no so outra coisa seno os _soldados do +exercito das trevas_. + +Tomo nota, e c dou ordem que no estou em casa para nenhum d'esses tres +melros. Rua, que a sala dos ces! + +Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos, +escusa-se de bispos. + +Supponham porm que o benemerito _Diario da Manh_ nos no prevenia e +que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo j um +pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero +dizer, aos bispos ... da, _Nao_!... Que tal estava a rascada, heim? + +E vamos agora ns a outra coisa, que nos est a lembrar.... Vamos ns +agora que o proprio _Diario da Manh_....--No queremos melindrar +ninguem, e pedimos ao _Diario da Manh_ que o no leve a mal pelo amor +de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem infallivel? No . +Infallivel unicamente o papa, o homem no. _Humanum est errare_...-- + +Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manh_ no seja +to forte em escolher os bispos como a Vicencia o em escolher os +meles. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade no possa +incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a +_Nao?..._ + +Decididamente pedimos licena para ampliar um tanto mais as instruces +que ha pouco demos nossa cosinheira: + +--Gertrudes! no estou em casa para bispo nenhum. + + * * * * * + +Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nao,_ pedem ao +governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio. + +O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso +representante junto ao Vaticano se enviem instruces terminantes para +impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasio o barrete +cardinalicio que lhe est promettido por Sua Santidade. + +No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, talvez um pouco +estranhavel a pretenso de influir com o seu voto sobre o momento mais +propicio para cardinalisar Masella. + +Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camaro--operao a que +se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha, +encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria at certo +ponto admissivel e opportuno. Mas quando o papa Leo XIII e no a +propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa +a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para +que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o no sirva?... + +Oh! no. + +Para intervir na distribuio dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem +exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na +distribuio dos barretes phrygios. + +O partido republicano do Brazil impe s vezes solemnemente o barrete +symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o +sympathico agitador Lopes Trovo recebeu no Rio de Janeiro, no momento +de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado +ento um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com gales e +borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal. + +Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--no +temos ns que agradecer obzequiosidade da mocidade avanada e generosa +de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre +a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo +pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito +tostes e meio. + +De l e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, com esse +barrete carregado banda sobre um olho, com o monoculo expectante da +critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que +traa estas regras se presa de ter servido a causa, j sobre as aguas do +mar, j em terra firme, nas praias de banhos durante as estaes +balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das +instuies caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa +do constitucionalismo D. Guimar Torreso, dama to illustre em fins do +seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o +affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara. + +Se o _Seculo_ segue porm as boas praticas do republicanismo brazileiro, +presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do +seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um +direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse +dizer em tal conjuntura: + +--Alto l! no dem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com +esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete +sobre a cabea do martyr Gomes Leal, cabea de genio e bem assim do +turco, cabea at hoje inteiramente despremiada, no constando que at +agora tivesse ainda tido outra coisa, alm da caspa propria, seno galos +e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo. + + * * * * * + +Foi s no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios +dias de estudo retroactivo atravez das declamaes da imprensa, que +emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto +entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa. + +Eis o caso: + + * * * * * + +Sua excellencia o nobre ministro da justia, usando d'aquella apreciavel +franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou +a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se +propunha nomear, pedindo cerca d'elles a opinio do mesmo snr nuncio. + +Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que to +benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava +pessimos alguns dos bispos propostos. + +--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justias +humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me +amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinio franca, +desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinio +que eu to bisarramente lhe peo, d-me pelo contrario a opinio +precisamente opposta que eu tenho!?... + +--Perdo...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v. +ex. me consultava.... + +-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... No me force Vossa +Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de +cavilaes! No queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de +ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, merc de Deus, no +gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se no exerce +por sophisticaes capciosas, antes versa sobre formas parlamentares +baseadas nas fices mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas fices +fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio +sagrado da discusso, da consulta e do voto. Para bem se comprehender +toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto +chamo particularmente a atteno de Vossa Eminencia--que, toda a vez que +um estadista, chamado aos conselhos da cora pela augusta confiana do +principe, pede cerca dos seus actos a opinio de qualquer dos poderes +do Estado, a obrigao d'esses poderes, quaesquer que elles sejam, +_quaesguer que elles sejam_--repito-o-- abundarem approvativamente e +jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem +as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e +liberrimo governo da nao portugueza. + +--Mas ento,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de +cujo elencho V. Ex. tenor applaudido, vem a ser realmente a fara +mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso +da pasta da justia, apenas o roupeta lhe fallou em fara, meu amiguinho +e snr, agora, o vereis! + +_--Fara!_ bradou s.ex. com o gesto nobre mais recommendado pela +rhetorica para os grandes lances da indignao suprema. _--Fara!_ O +forasteiro ousa chamar _fara_ ao sublime governo constitucional, +monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do +chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno Jos Estevo Coelho de +Magalhes, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidar +ento o snr, por acaso, que seja uma coisa sria a curia! mais o +pontificado! mais a infalliblidade do papa! mais as indulgencias para +ir para o ceu a trez vintens por cabea! mais a bulla para misturar +carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por +incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos +carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavs!... +Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola +d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar a +sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a +vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs +porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou +bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se +a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs esto +efectivamente persuadidos de que so sal?... Vive o snr, por exemplo, na +convico profunda e inabalavel de que medido s razas pelos almotacs +sempre que passa s portas, e que paga 10 ris de direitos em alqueire +sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o +snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste +abraar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique +pronta para se deitar panella com cebola e batatas?! No dito estado de +sal, nutre o snr a austera e firme convico profissional de que lhe +assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?... +Est o snr bem certo de que no tenha seno a sentar-se no bucho verde +para que elle ganhe caruncho, ou a pr a benta mo sobre os sermes de +Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nao_ para que essas produces +literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida +coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastido +da crusta terrachea?!... E, ento, com tudo isto, os snrs que so os +srios, e ns que havemos de ser os farantes, heim? + +Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso, +que no hesitamos um s momento em qualificar de sacrilego e de +perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si +o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex., e +experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe cacheira e +drobando-o e redobrando-o de ferro fixado ao solo. + + * * * * * + +At ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informaes +dispersas que podemos recolher cerca d'este memoravel incidente. D'esse +ponto por deante ignoramos como que os factos precisamente se +passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladra, que +se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada +folha: + +_O nuncio desacatou sua excellencia_. + +Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos +periodicos ministeriaes. + +_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou +um calor_. + + * * * * * + +Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr +nuncio andou admiravelmente bem. E no podemos de modo algum attingir as +causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por +occasio d'este jubiloso successo. + + * * * * * + +E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se +compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos no entendem, +nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos. + +Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--so os pastores das almas, +incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles +que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes +confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles no podem ser +considerados seno como puros e legitimos delegados do chefe supremo da +Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado +ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome +de Deus, de quem o papa o representante visivel na terra. + +Ora, se so effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspiraes, os +interesses do Summo Pontifice e no os do snr Julio de Vilhena que os +bispos teem de representar, de deffender e de servir, como que querem, +de boa f e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que no seja +o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante misso? + + * * * * * + +Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de +Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima, +que que teem com isso os jornalistas republicanos e livres +pensadores?... + +Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas: + +Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar +ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram +livres pensadores? Mas escusavam ento de se incommodar para isso, +prejudicando-se consideravelmente nos meios de aco, de que para tal +fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou +irmos do Senhor dos Passos da parochia das Mercs! + +Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas +pretenes secretas pendentes do governo das deoceses do reino? + +Vejamos, sinceramente: + +Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono? +querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem +confessar mulheres?... + +Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questo e no se torna mais +a fallar n'isso. + +Se, pelo contrario, os snrs no pretendem coisa nenhuma dos bispados, +que diabo ento lhes importam, aos snrs, os bispos? + +Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo: + +--Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os +republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questo dos +bispados, e esse facto vem a ser que o governo da nao quem paga os +bispos. + +Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos com effeito o +governo. E por essa razo que ns applaudimos com enthusiasmo o snr +Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o +governo:--para ver se o governo aprende a no ser tolo! + + * * * * * + +A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento +beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne. + +Mandada ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o +empate de uma eleio de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou +que a eleio de desempate recahiu em massa sobre o candidato +republicano de opposio ao governo. + +Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real servio, consta +que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito +do Arsenal na qualidade de vaso de paz. + +Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleies +pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim +esto-se j colligindo nas estaes competentes os mexilhes precisos +para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro. + +Parabens a sua excellencia! + + * * * * * + +Agora invocamos a proteco dos anjos para que, com sua assistencia, +passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria +da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do +Carnaxide. + +Era por uma formosa tarde do clido mez de agosto. O astro do dia se +inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas +presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos +pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o +bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados +gorgeios. + +Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao +fatigado corpo e discreteando em ameno convivio cerca de seus bucolicos +lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse +o milagroso dia de to prodigiosa santa. + +Eis seno quando, volvendo os olhos, como que tocados por um +presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de +Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo +magestoso acima do narravel. + +Com a mo direita se apoiava esse vulto a um bordo de peregrino, em +quanto que com a mo esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada +de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o +horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da +vida em direco faia virente. + +Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco +ou S. Praxedes, e logo viram que no era Santo Anto--por no ter porco +ao lado. + +Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por +Praxedes, collocou a mo sobre o corao e arremetendo com a fronte para +as nuvens, exclamou: + +Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena! + +Era s.ex. o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos +negocios do reino. + +Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos. + +--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex. acommodando o stylo +rude e acanhada comprehenso do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de +Lima, que hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mo! + +E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo +campesino a que nos referimos, s.ex. proseguiu continuando a +exprimir-se em prosa: + +--Que fizestes do vosso cordeiro favorito, Tityro?--Trazeis comvosco a +vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano? + +Todos os camponeses se acercaram ento de s.ex., ficando suspensos da +facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide +nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de +lingoagem como a que sahia em jorras da bcca d'esse portentoso homem de +penna e de governao. + +Felizes e volozes devolviam as horas em pratica to discreta quo +matizada de piericos primores, quando s.ex., alongando a dextra n'um +brando meneio para o pendr da collina, perguntou: + +--Que vetustas ruinas so aquellas que alem descortino alvejando na +quebrada da serra? + +E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de +Nossa Senhora Apparecida, + +--Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.--Dirijamo-nos pressurosos a +elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar +d'essa Virgem Senhora Nossa que to galhardamente denominaes +_Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio, +Belmiro e Castalio! Vinde todos, pastores! Eia!... Ao templo! ao +templo!... + +Os pastores, ento, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que +Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mo impia de +infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para +a transportar para a S no meio da indignao geral dos povos e das +patronas minazes da real melicia. De sorte que, j no tempo em que o +feroz usurpador do throno de Lysia se apegra com a Senhora Apparecida +para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para +Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via +publica: + +D. Miguel foi S, +Sentou-se n'uma cadeira, +E disso para os malhados: +Esta perna est inteira! + +Ao ouvir taes vozes, j soltas, j metreficadas, s.ex. extrahiu a lyra +que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica +governao, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta +Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por +outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa +Senhora Apparecida volveria da S a Carnaxide, reapparecendo pela +segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto. + +Vendo os camponezes que por meio de um to manifesto e prodigioso +milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram +submissos em giolhos. + +E foi s depois de s.ex. se haver retirado pela mesma vereda por onde +viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez +repetir aos montes e s hervinhas: + + Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena! + +que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram +a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando las festivaes em +honra d'aquelle que to grande capricho punha em lhes restituir a +Senhora Apparecida quo grande era a pena que alimentava em seus carmes +de nunca ter visto Lisboa. + +Gloria pois a s.ex.! + + * * * * * + +Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com +pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao +desembarcar, um acommenda, dois ces de faiana e um bilhete da imperial +na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta +minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em +molestias sedentarias, em graas regias e em quadrupedes de loua. + +A patria explorava-o e ria-se d'elle. + +Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem +papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do +Governo_, elle no s no paga mas resigna uma commenda com que o +agraciou a regia munificencia. + +Tomemos nota do phenomeno, porque elle o symptoma de uma revoluo +profunda: elle o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e +dos ces,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio +extrangeiro. + +Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o +embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia! +Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legio inteira, intelligente, +instruida e forte, que vae chegar--para se rir. + +Lisboa 15 de dezembro de 1882. + +_Ramalho Ortigo._ + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Novembro A Dezembro 1882) +by Jos Maria Ea De Queiroz and Ramalho Ortigo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + +***** This file should be named 14296-8.txt or 14296-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/4/2/9/14296/ + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed +Proofreading Team. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Farpas Da Politica, Das Letras E Dos Costumes + (Novembro A Dezembro 1882) + +Author: Jos Maria Ea De Queiroz and Ramalho Ortigo + + +Release Date: December 7, 2004 [EBook #14296] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + + + + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed +Proofreading Team. This work was produced from images generously +made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal. + + + + + + +</pre> + +<div class="centered"> + <img src="images/devil.png" width="570" height="755" + alt="Ea de Queiroz—Ramalho Ortigo—As Farpas" /> + <!--IMAGE END--> +</div> +<hr class="major" /> +<h1> + AS FARPAS +</h1> +<div class="centered"> + <p>EA DE QUEIROZ—RAMALHO ORTIGO</p> + <p><i>Chronica Mensal</i></p> + <p>DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p> + <p>QUARTA SERIE N. 2</p> + <p>NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882</p> +</div> +<hr class="major" /><!--===================--> +<blockquote> +<p> + Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder, + da escravido dos partidos da venerao da rotina, do pedantismo das + sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da + politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande + universo, e da adorao de mim mesmo. +</p> +</blockquote> +<p class="centered"> + P.J. PROUDHON +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> + +<p class="centered"> + <b>SUMMARIO</b> +</p> +<p> + Congressos catholicos e ideias clericaes—Anjos e reprobos—As + influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza—A egreja e as + mulheres—Os nossos padres, padre de misses, padre d'aldeia e padre de + sala—Os clubs e as sacristias—O jogo, a batota, o rei dos lusos e o + rei de copas, a rusga, a +<a href="#vacca"><i>vacca</i></a>—Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama + illustre—Novas applicaes da mobilia critica litteraria—A moderna + arte portugueza e as +<a href="#escamasdecorvina">escamas da corvina</a>—O jornalismo em Braga—O + partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas—Sampaio o +<a href="#saraivadecarvalho">Saraiva de Carvalho</a>—A + augusta princeza anjo da caridade e do +<a href="#bricabrac">bric--brac</a>—Tragico fim de um +<a href="#gato">gato</a> d'esse anjo—Fausto e jocundo + desacato de s.ex. o ministro da justia por s.em. o nuncio de sua + Santidade—A urna e a +<a href="#stephania">corveta Stephania</a>—Os commendadores e os ces de + faiana—-Milagrosa reappario de +<a href="#apparecida">Nossa Senhora Apparecida</a>. +</p> +<hr /> +<p> + Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado... + Est approvado. +</p> +<p> + Tal , resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da + qual no s o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas + muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de + gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvao da + divindade s deliberaes tomadas pelos clerigos. Para esses + cavalheiros,—papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou + sacristes—Deus absolutamente a mesma coisa que para o snr Fontes a + sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de, + assistir apresentao dos decretos e de dar o sim. +</p> +<hr /> +<p> + Nos sermes de penitencia das nossas villas e aldeias o truque o mesmo + que nos concilios, mas reforado com um cordel. +</p> +<p> + O orador sacro, encarregado pela remunerao de 3$600 em dinheiro e um + prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das + almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio, + irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificao + espiritual, comea por pr Deus no throno do altar mor, sob a figura do + Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em + seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante + com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, perorao, o + ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenos estendidos sobre + o parapeito do pulpito os 3$600 de transpirao escorrida pela fronte e + pela regio cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma + venia e diz: +</p> +<p> + Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja + frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado + honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,—se minha debil voz, + digo, conseguiu levar ao vosso corao amantissimo a convico do + arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes + prostradas a vossos ps, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes + nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque no appareceis?! +</p> +<p> + E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica + intitulada obsecrao,—um dos mais arrojados e vehementes de todos os + tropos,—o orador, dirigindo-se sempre cortina, com bola de mo para a + lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que mister que + elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes apparea, e lhes + perdoe. Os fieis ento desatam em suspiros de corrente pranto, e o + ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle + mesmo prostrado de commoo e de espanto na borda do pulpito, como se + nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um to portentoso milagre como + esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos + Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as + quaresmas, razo de trinta e seis tostes por tarde, alm do beberete. +</p> +<hr /> +<p> + Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da + oratoria sacra. +</p> +<p> + Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos + persignam-se, abancam, pem deante de si os raps, e passam desde logo a + redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do + divino Espirito Santo, representado sob a frma de volatil symbolico e + para este effeito invisivel. +</p> +<p> + Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta, + tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os + clerigos—e mui judiciosamente segundo se nos affigura—que inutil + estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem + com as marionettes. +</p> +<p> + N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte: +</p> +<p> + Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resolues, que se + manifeste n'esse sentido. No se manifestando, entende-se que est de + accordo. +</p> +<p> + Com o qu, do a palavra aos snrs membros que tenham que propr coisas + para approvar. +</p> +<hr /> +<p> + Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como + notorio, o systema habitual de no se manifestar nunca, quer seja para + approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor + numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe. +</p> +<p> + claro que lhe no faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, seno + sahir de toda a parte, onde dizem que est, para vir ali assim capella + do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo + com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os + cumprimentar ou de os mandar fava pelos seus discursos! +</p> +<p> + Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga + por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares + mordidos pelo bicho carpinteiro do zlo, e decidem juntos decretar mais + fervor devoo das massas afim de que estas mandem dizer mais missas + ou se faam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri + de indifferena ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa + o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a + herva crescer. +</p> +<hr /> +<p> + No affirmaremos porm em absoluto que esta enorme frescata de + chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos + sacerdotes, no possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros + perigos, apertando-se de mais com o fiado. +</p> +<p> + Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia, + posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima + quelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o + ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho. +</p> +<p> + Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para + provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes + de nos tornarmos nojosos fora de sermos nimiamente prolixos em + nossas intimidades com o Divino. +</p> +<p> + de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver + consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em + devoes castelhanas, os bens da sua cora, se achou reduzido ao mais + invejavel estado de pureza christ, no tendo de seu seno facturas de + fornecedores que pagar, a beno apostolica de Sua Santidade e o direito + divino. +</p> +<p> + Para sustentar esse direilo nas crtes da nao hispanhola havia um + deputado especialmente incumbido de narrar Peninsula tudo aquillo que + Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que + D. Carlos, com a sua fora desarmada e posta em penhor n'um banco de + Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda + no espao, +</p> +<p> + Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao + principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade + n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto. +</p> +<p> + Os anjos haviam-o chamado s alturas estendendo-lhe do empyreo o + ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de + apoplexia. +</p> +<p> + Acontecem d'estas s vezes! +</p> +<p> + Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um + pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo + Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente no esto satisfeitos com + a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera + terrestre. +</p> +<hr /> +<p> + O mais vulgar porem, da parte de Deus, a indifferena imperturbavel + pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja, + pondo-se de Deus esquina para a gente e vibrando a religio como a + grande moca benzida com que atiram testa de quantos andam a ganhar a + sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias esto em folga + temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurana futura e + d'hostias quotidianas. +</p> +<p> + Assim como ns outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles + agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos + dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os + exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo + uns mo direita e outros mo esquerda do bem conhecido redactor + principal e leitor unico da <i>Nao,</i> o snr Fernando Todo Pedroso. +</p> +<hr /> +<p> + Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a + sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea + um rubr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades + do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixo de + liberdade que encheu na terra o seu corao maldito. Elle levou uma fava + preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro est prevenido. +</p> +<p> + Os doze pescadores, que, voz de Jesus fallando-lhes na montanba, + abandonaram as redes para levar palavras de consolao a todos os + opprimidos atravez do universo, no quereriam ao p de si l em cima + esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca + amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mo arriscar a + pelle, no j para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade + perdida, como nos apologos da biblia, mas para pr definitivamente a + liberdade onde estava a oppresso. S. Paulo, que procedia + litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Svign, no + consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a + espada cheia de bccas de um companheiro que procurou como pde lazer + por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para + a outra.—-Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o + caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de + sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso. +</p> +<hr /> +<p> + O nobre conde de Santiago, pelo contrario, recebido por aclamao, com + a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por + estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurana. Esse pieodoso + fidalgo est nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe d no + seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de + redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se + concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo j, + por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte + de s. ex., e poderemos alimentar a esperana de o ver ainda atravessar + o Chiado como o atravessam os perus, isto —em pennas. A natural + pudicicia de s.ex. lhe vedar porm talvez o circular entre os viventes + vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos + cherubins no gallinheiro celeste. +</p> +<hr /> +<p> + O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado + occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma + pompa particularmente modesta, destinada, a no excitar represalias da + parte do snr. Frana Neto. +</p> +<p> + Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus + chapeus altos anediados de novo para decoro das coras subjacentes, mais + outros tantos seculares vestidos de preto e puxados substancia do + panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a + assoarem-se uns para os outros com emphase, do-nos menos a ideia de um + ajuntamento triumphante de convices victoriosas do que o painel de um + simples ciprestal sentado,—com defluxo. +</p> +<p> + Alem de solicitar a beno apostolica, o congresso catholico de Lisboa + resumiu os seus trabalhos em duas unicas resolues: fundar uma + universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da + sua policia elles faam respeitar nas ruas as pessoas dos + ecclesiasticos, presentemente apupados pela multido, segundo elles + mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos + sacerdotaes. O que, a ser exacto, precisamente a mesma coisa que + succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restaurao. + Notando-se que a Restaurao foi de todos os governos em Frana aquelle + que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a interveno do + governo ser o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia + e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade + religiosa, em que o Estado atheu, como na America do Norte. +</p> +<hr /> +<p> + Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com + algumas reunies do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso + dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do + sacerdocio decae de um modo sensibilisador. +</p> +<p> + No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de + 1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de + Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne + d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procisso + para a vasta sala das sesses, engrinaldada de festes de rosas e + empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma + enorme nau em triumpho. No topo do salo o estrado destinado meza era + coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se + destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de + brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em + grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas + lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto + clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente, + por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. frente, os + cardeaes com as suas purpuras roagantes; depois os bispos inglezes, os + de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os + sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas + com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de casto de ouro. +</p> +<p> + Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador + do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja + livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade + de uma alliana entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico + do mundo moderno, e o seu discurso n'esse intuito um manifesto de uma + rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta. +</p> +<p> + Em toda a parte excepto na Belgica—disse elle—os catholicos so + inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos + no souberam ainda congrassar-se com a grande revoluo que gerou a nova + sociedade, a moderna vida dos povos. Em presena da sociedade moderna os + catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. No aprenderam + por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos esto + ainda, pelo corao e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto , + a um systema que no admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade + politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu + lado grande e bello; no pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo + condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: est + morto, e nunca mais resuscitar. +</p> +<p> + Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de + cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja, + ou no tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos + tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do + espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razo + contra todas as usurpaes, contra todos os privilegios, contra todas as + tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana. +</p> +<p> + A liberdade uma s, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo + predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes, + representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela + religio. +</p> +<p> + Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de + a proclamar sem disfarce e sem restrico alguma como base das relaes + do homem com o homem na independencia absoluta da revelao e da f. Na + religio a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a + consciencia humana de no ser governada nas suas relaes com Deus por + decretos ou por castigos humanos. +</p> +<p> + Catholicos—disse Montalembert—se quereis a liberdade para vs, + entendei-o bem, preciso que a queiraes egualmente para todos os homens + e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vs unicamente, no a + tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a + deem em toda a parte onde fordes escravos. +</p> +<p> + Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida, + levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das + resolues da assembleia: do interesse dos catholicos, assim como do + todos os cidados que sinceramente querem a liberdade, o substituir + quanto possivel a interveno e a omnipotencia do estado pela energia + creadora e pelo principio expansivo do espirito de associao. +</p> +<hr /> +<p> + Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso + de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento + liberal da moderna civilisao. Os destinos da egreja n'este fim do + seculo XIX esto profundamente ligados a esse facto culminante na + historia das ideias clericaes. +</p> +<p> + O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos + abandonaram a reunio no dia immediato quelle em que Montalembert + fizera o elogio da alliana da egreja catholica com a sciencia e com a + liberdade. +</p> +<p> + Compareceram apenas nas sesses subsequentes os membros obscuros do + baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico + continuavam a applaudir Montalembert, no sem perguntarem a si mesmos + com certa inquietao o que se pensaria em Roma dos discursos e das + resolues do congresso belga. A resposta no se fez esperar. Tres ou + quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em + que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que + ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a + <i>liberdade da sciencia</i>. +</p> +<p> + Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, no + obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864. + Montalembert no compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo + Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, no pareceu + sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu s utopias + liberaes do congresso com a publicao do <i>Syllabus</i> e da encyclica + <i>Quanta cura</i>, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a + illuso de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da + civilisao. +</p> +<p> + Em presena d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas + resolues que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e + do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractao + vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspiraes + manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no + gremio da egreja. +</p> +<p> + N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se. +</p> +<p> + Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado. +</p> +<p> + Entre os interesses do clero e os interesses da civilisao ha uma + barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais + liberaes, julgaram impossivel transpr. +</p> +<hr /> +<p> + Ora desde que no pde ser um alliado, o que est evidentemente + demonstrado, o padre um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira + obrigao tomar conhecimento das foras de que elle dispe para nos + prejudicar. Sobre este ponto a resoluo tomada pelo congresso do + Passeio Publico de pedir a interveno da policia civil para evitar que + o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente. +</p> +<p> + Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo + emprestado ao chifarote do habil Antunes um symptoma doce. O + congresso prope-se morder os impios com a condio de que os impios lhe + ponham as presas. a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os + querem ver cantar o cro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry. +</p> +<hr /> +<p> + A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico + de Lisboa, que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As + senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a + todas as sesses. +</p> +<p> + Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim + as adheses da mulher? +</p> +<p> + Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal + tres especies distinctas de padres:—o padre das misses, o padre + d'aldeia e o padre de sala. +</p> +<hr /> +<p> + Os padres das misses subdividem-se em dois grupos differentes: os + aventureiros e os mysticos. +</p> +<p> + Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulao + temporal, por amor vida d'emigrante, lavoura dos tropicos, ao lucro + mercantil, intriga da politica colonial e batota ultramarina. De + quando em quando, ao apparececrem-lhes mo, arrebanhados, alguns + centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,—cerimonia + tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros + justos, conscios por experiencias feitas de que essa operao, altamante + civilisadora posto que inoffensiva, os no torna nem mais nem menos + pretos do que elles so. +</p> +<p> + Os mysticos, mais raros, so pessoas doentes da hallucinao do + martyrio. A sua ambio suprema consiste em serem comidos s fatias + fritas, com mandioca, pelas raas anthropophagas. Logo que se julgam + sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula + canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros + dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no <i>Barbeiro de + Sevilha,</i> mettem um breviario debaixo do brao e embarcam para regies + inhospitas e selvagens. +</p> +<p> + Uma vez em communicao com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter + o breviario em cruz entre a bocca e o prato, at conseguirem realisar a + sua aspirao suprema, que no restar d'elles mais que uma batina e um + par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas + dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para + o outro: +</p> +<p> + —Saboroso padre! benza-o Manipanso! +</p> +<hr /> +<p> + O padre d'aldeia d'ordinario o melhor dos homens. +</p> +<p> + A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas + enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e + estonteadores. +</p> +<p> + As suas intimidades com a s natureza do-lhe o instincto de uma boa + religio alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de + espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros + missa cantada, n'uma vasta satisfao de cajados reluzentes, de + sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas + arregaadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila + no arraial. +</p> +<p> + Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra roda + da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, at grade do cemiterio. +</p> +<p> + Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e + rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos + artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um + chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de po + podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capes, que atravancam a + passagem por entre os fieis ajoelhados na nave. +</p> +<p> + Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um + latim abreviado, mastigado pressa, e vae podar as cepas, sachar o + cebolo, enxertar os limoeiros ou caar as perdizes, palmilhando o monte, + saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os + perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bas noites + para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no + hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa + jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais. +</p> +<hr /> +<p> + O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas + casas frequenta por um resto de tradio antiga nas familias nobres, + onde o capello era de rigor nos accessorios da <i>mise-en-scene,</i> como o + boleeiro, o creado de farda e a preta. +</p> +<p> + As meninas nobres, que hoje lem o <i>Figaro</i> e os romances de Daudel, no + tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa + para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e + caturra. Troam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um + servial de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade + entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras + raciocinadas, que no sabe fazer um simples moo de recados sem o curso + dos seminarios. +</p> +<p> + o padre que vae ao Sexas buscar as ls para bordar, segundo os + matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leito, e o + <i>chignon</i> para frisar ao Godefroy. elle que acompanha s lojas de dia + e s visitas sem cerimonia noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os + paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaam no caminho, e paga os + bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso. +</p> +<p> + No est persistente n'uma s casa, como nas antigas capellanias. Anda + aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet + ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar + noite. s segundas feiras chaperona a lio de desenho das meninas S. s + teras acompanha a viscondessinha de X s suas devoes a S. Luiz e a + outros logares. s quintas do-lhe ch preto e po torrado com manteiga + para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P. +</p> +<p> + Aos seres, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das + mexeriquices que traz das casas d'onde vem, v as gravuras das + Illustraes, ou dorme. As meninas procuram s vezes arrancal-o ao + torpr da sua digesto ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas: +</p> +<p> + —Padre Jos, esperte! no se faa ainda mais mono do que ; scintille + para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto + cho! +</p> +<p> + E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em + inglez, umas para as outras, picando o <i>crochet:</i> +</p> +<p> + —Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo! +</p> +<p> + Quem precisa de padre e o no tem mo, pede-o emprestado, como se pede + emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que est em + Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga: +</p> +<p> + Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso + d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. D-lhe + dinheiro para o omnibus e manda-m'o manh sem falta. +</p> +<p> + s vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulao, + posto na escada com a respectiva bagagem,—uma camisa, um pente, dois + pares de piugas embrulhadas n'um jornal—, e uma pontuada de bengala nos + rins em estimulo de velocidade para a porta da rua. +</p> +<p> + Algum noite pergunta: +</p> +<p> + —Que feito do padre Joo? +</p> +<p> + E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que l a um canto, + responde lentamente: +</p> +<p> + -Mandei-o rinchar para as lesirias. Comeava a achar-se folgado de mais + para se continuar a ter argola. o que lhe fiz sentir esta manh por + meio de uma ligeira admoestao corporea. +</p> +<p> + —Mas o physico do sacerdote inviolavel sagrado! +</p> +<p> + —Por isso tambem no foi pelo lado <i>cruzes</i> que eu o admoestei, foi + pelo lado <i>cunhos</i>. +</p> +<hr /> +<p> + De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer + casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes + para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz + dos Francezes a visita do reverendo Abb Miel. +</p> +<p> + O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de no se + haver abandalhado nas eleies, de no ir para a plateia de S. Carlos + applaudir a opera e dizer graolas s senhoras suas confessadas, que + esto nas bancadas ao p d'elle, de no andar pelas casas particulares + com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de no + misturar nunca—a no ser no sigillo do sanctuario—o bacalhau norueguez + do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e + pecaminosa. +</p> +<p> + Alem do que como vm feitos de fora, no consta na confidencia dos + lisboetas nem nas revelaes mais desabotoadas das villegiaturas de + Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles + foram manufacturados. +</p> +<hr /> +<p> + Apesar porm de todas as apreciaveis inferioridades que to + vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos estima e + tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que, + apenas quatro padres annunciam um dos seus <i>meetings</i> ao eterno, logo + oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa + manifestao com o effeito scenico dos seus encantos. +</p> +<p> + Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se so capazes! +</p> +<p> + Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes + de Castello Melhor. Que contraste! +</p> +<p> + Esse club reunir facilmente nas suas sesses todas as gravatas + vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares + reservados s damas, ser mais difficil prehenchel-os. Logo que D. + Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commisso + encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia + revolucionaria poder tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar + os colletes, que no ter mais ninguem para conduzir. +</p> +<p> + A razo d'este phenomeno significativo que os padres e os padristas, + por menos espertos e menos habeis que sejam, tem por baixo de si a + levantal-os mais alto do que todos ns, oito seculos de talento, de + discusso e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos + monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus + heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o + triumpho mais maravilhoso d'essa grande fora chamada o estudo. +</p> +<p> + A antiga tradio, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido, + trespassado pela heriditariedade de gerao em gerao, torna hoje facil + o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito + e a pratica da devoo. +</p> +<p> + O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro + de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se + vae para padre, isto , por simples estupidez. +</p> +<p> + Ora ser padre quando se no tem cabea para ser qualquer outra coisa + mais util, corrente, commodo, faz arranjo s familias com filhos + tapados para contas, e no tem perigo nenhum. +</p> +<p> + Na Egreja quem no sabe outra coisa diz missas. Na Revoluo quem no + sabe mais nada diz asneiras. Essa a differena. +</p> +<p> + As mulheres, que em geral no conhecem os chefes da Revoluo, assim + como tambem no conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem + Proudhon nem Michelet, como egualmente no leram nunca S. Paulo nem + Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres + inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e + fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua. +</p> +<p> + O erro dos padres nas suas relaes com o seculo—pedimos licena para + lh'o dizer—est unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se + em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos + ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas + mortas,—convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molire, pois + consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse. +</p> +<hr /> +<p id="saraivadecarvalho"> + Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabea distincta das de todos + os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia + extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia + verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas + ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que + debalde, transformal-as em obras. +</p> +<p> + dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante servio, + lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a + substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda. +</p> +<p> + Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de + perpetuar para todo sempre a localisao da familia dos actuaes + inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo + aquelle notavel edificio. Pois evidente que, posto esse casaro a + alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores s + agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de + renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos + que offerece para habitao, de familia, pelos maus cheiros que n'elle + grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela + aterradra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o + infestam, sevandijam e conspurcam. +</p> +<p> + Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de + um jornalismo onde os escriptores cada vez se vo tornando mais raros. + Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria + escrevendo bem a sua lingoa, e foi, alm d'isso, entre os homens + politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades + de espirito, de corao e de caracter sacrificou s instituies + vigentes. +</p> +<p> + O chefe dessas instituies, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a + sua dr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos. +</p> +<p> + No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia + para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas + de pistola. +</p> +<p> + Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidado + portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos + por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor + delambido, uma justa e equitativa compensao perda dos mais illustres + dos seus compatriotas. +</p> +<p> + Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dir: +</p> +<p> + <i>A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu + bis ao tenor Gayarre,—uma e outra coisa devida ao estado de + consternao em que todos se achavam</i>. +</p> +<p> + E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, vertero lagrimas de + enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza + profunda de to excelso quo sensivel principe. +</p> +<hr /> +<p> + Se no receassemos profanar a dr to intima e to sincera do soberano, + se no temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso corao, to + manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasio presente, ns + ousariamos formular humildemente uma debil pergunta: +</p> +<p> + Julga sua magestade que, assim como os principes tem corao, o no + tem os povos egualmente? +</p> +<p> + Quando, em vez das testas communs e opacas, so as fulgidas e rutilantes + testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito + do alto do throno celestial, resolve com a devida, considerao chamar + s alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante + museu da Via Lactea,—julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos + lances, no choram to dolorosamente os subditos pelos seus bons reis + como os reis choram pelos seus bons subditos? +</p> +<p> + Cuida Sua Magestade que no nos faz to grande mossa o baque de um + grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz + a queda de um honrado cidado que morre? +</p> +<p> + Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justia:— + perfeitamente a mesma coisa! +</p> +<p> + Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que + acaba de passar o seu corao generoso e paternal! +</p> +<p> + Quando o sino grande da S badala o dobre supremo dos obitos reaes, + quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as + gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das + quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que + proclama—<i>Real, real, real, por el-rei de Portugal</i>,—a alma do povo + pde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o + fim de no succumbir intensidade da dr, de appelar ento por seu + turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e + das proezas do tiro ao alvo. +</p> +<hr /> +<p> + Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que—tendo em vista, + os dolorosos e excruciantes paroxismos que pde attingir a saudade, + tanto no corao do povo, como no corao dos principes,—sua magestade + se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por + occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto + das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos. +</p> +<hr /> +<p> + A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que s + vezes acomette esta veneranda instituio, acaba, de assaltar varias + casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu. +</p> +<p> + Todas essas diligencias se fizeram com grande exito. +</p> +<p> + A policia foi p ante p, como o cro dos carabineiros nos <i>Bandidos</i> de + Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e + apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da + banca e o dos parceiros. +</p> +<p> + O <i>Diario do Governo</i> d'ontem traz a este respeito uma portaria de + louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei, + elogia a policia pelo bem que andou, no s capturando os jogadores, + mas—como muito bem acrescenta a portaria—apprehendendo outro sim + <i>algum dinheiro e mobilia.</i> +</p> +<p> + Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfao + intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e + redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente + acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente + surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidados, improvidos + e desapercebidos. +</p> +<p> + No Porto o zlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar + nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para + as jogatinas. +</p> +<p> + No pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas + sobre o assumpto <i>batotas</i>, porque estamos convencidos de que essas + auctoridades, morigeradas e pudibundas, no foram nunca s casas de + jogo, o que as desarma de toda a habilitao precisa para se poder + discutir com ellas sobre esta questo. +</p> +<hr /> +<p> + O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em + S. Joo da Foz, ha coisa de vinte annos. +</p> +<p> + A espelunca achava-se estabelecida no lindo <i>cottage</i> do Mallen, na + Praia dos Inglezes, com um terrao sobre o mar e a entrada pela rua da + Senhora da Luz. +</p> +<p> + No meio do grande salo de baile estava armado o jogo sobre uma vasta + mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa + achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da + provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa, + sentados, outros em p por traz d'esses, formando tres ou quatro + circulos concentricos. +</p> +<p> + A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas, + adornado de uma longa pra grisalha, puxava para junto de si por meio de + uma pequena rapadeira de mogno polido, em frma de ensinho, o dinheiro + das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das + apostas. +</p> +<p> + Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um + cavalheiro, mais gordo, ainda que no mais solicito, e de aspecto + egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mos finas, + particularmente bem tratadas e realadas por dois bellos cachuchos em + que scintillava um olho de gato e um rubi. +</p> +<p> + Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas + que tinha mais proximo de mim. +</p> +<p> + Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mos + finas collocava na mesa ao lado uma da outra. L estava, por exemplo, o + trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia, + para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o + preo da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno, + segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas + cartas que em seguida sahia do baralho. +</p> +<p> + Devo dizer, face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me + expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e + mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do + Estado alguns esclarecimentos cerca do jogo do machinismo + administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar + ninguem, que jamais das regies officiaes recebi informaes to + lucidas e to leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram + cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro. +</p> +<p> + De um s relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma + profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei + 100$000 ris que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o + trez de espadas que se achava na mesa. +</p> +<p> + Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a + direita ou para a esquerda das cartas. +</p> +<p> + O homem da p de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua + pra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro: +</p> +<p> + —Mata o rei? +</p> +<p> + Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme: +</p> +<p> + —Mato-o, sim senhor! +</p> +<p> + Esta phrase pareceu fazer uma certa impresso no auditorio. Houve um + silencio. Um desembargador da relao do Porto, ancio de oculos d'ouro + e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das + cartas 3$000 que tinha posto. +</p> +<p> + O cavalheiro das lindas mos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e + principiou a extrahir com lentido as cartas, a uma por uma, do masso + que comprimia nos dedos. +</p> +<p> + A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas. +</p> +<p> + Eu tinha perdido os meus 100$000 ris. Ganhava-os precisamente um + illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma + parada egual minha. +</p> +<p> + Esta deciso da sorte—eu o confesso—no me regosijou seno de um modo + bem caracteristicamente mediocre. +</p> +<p> + Resolvi porm interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi + consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia + de perto de meio anno de collaborao n'um jornal americano,—somma + recebida n'esse mesmo dia. +</p> +<p> + Fiquei na batota at pela manh. +</p> +<p> + Por uma janella aberta sobre o terrao a luz cr de perola da madrugada + entrava humedecida e salgada pela virao maritima. As banheiras, filhas + e moas da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe + em terceiras, n'um cro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os + primeiros preges matutinos dos vendilhes ambulantes penetravam do lado + da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o claro da manh + pautava luminosamente d'azul. +</p> +<p> + Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da + noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da + cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balo do buffette. +</p> +<p> + O cho estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a + saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados + raivosamente pelos pontos. +</p> +<p> + O homem das bellas mos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e + o collarinho esverdinhado de transpirao. +</p> +<p> + O cavalheiro da pra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e + depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira + de braos em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia, + escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas, + as mos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas + convulses da bronchite. +</p> +<p> + A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruos para cima + de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da + banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete, + ficara esquecido um janota de calas cr de flr de alecrim, botinas de + polimento, luvas azues e fraque cr de pinho feito no Pereira Baquet. + Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me no ir + d'ali embora sosinho. +</p> +<p> + Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o + Chico ... no me lembra j de qu. Tinha dezesete ou dezoito annos, era + filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado + no hotel do Romo, intitulado da Boavista. +</p> +<p> + Quando elle se ergueu da mesa e se poz em p deante de mim, vi que o + misero no tinha estado a dormir, mas sim a chorar. +</p> +<p> + A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buo, de + um signal cabelludo na face e de dois bands cr de ouro anediados pelo + melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternao + to profunda, to cca, to francamente imbecil, que desde logo me + atrahiu para elle com uma compaixo verdadeira. Agarrou-se s primeiras + palavras que lhe disse, como um afogado se agarra primeira cousa + fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e + elegante moo vertia no meu peito as suas doloridas confidencias. +</p> +<p> + Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de + cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de + um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra + no valor de 1:600$000 ris. Era d'esta quantia, recebida tres dias + antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta + moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo + doutor da Regoa para um tumor frio que lhe comeara a inchar n'um + sovaco. +</p> +<p> + —Meu pae, para coisas d'estas, uma fera!—explicou-me elle com voz + estrangulada. +</p> +<p> + E, tendo descalado uma das luvas azues, comprimia com mo nervosa o + alto da sua pequena cabea de gallo, apagando da testa n'um repello o + bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bands. +</p> +<p> + —Como assim!—lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna + inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o + que lhe cumpre fazer nas funestas condies em que se acha?... Saiamos + l para fora! Saiamos com p expedito e rapido d'esta caverna, que at + me est a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel + progenitor, proferindo-o perante a pra cavilosa e obscena d'aquelle + tisico, malandro em terceiro grau, que alm diviso envesgando para ns + os olhos torvos! +</p> +<p> + —Co!—disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um + parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da + porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do + cavalheiro da pra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da + janella. +</p> +<p> + E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso: +</p> +<p> + —Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses + agricolas das nossas regies vinhateiras a quantia de ris 1:600$000, + para os entregar nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom + e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os + rispidos ancios, de ouvidos cerrados misericordia pelo mau genio e + pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os + diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz + para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento + presente, do que a applicao lombar da bengala de um antepassado, ou a + justaposio da abenoada sola e vira de uns bons sapatos paternos s + partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da + mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta + noite o rei ... No sei se o snr m'o viu matar? ... Matei-o como quem + mata um prco ... Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse + regicidio? Ficou-me por 176$000 ris. A recordao amarga d'este + luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de + semsaboria, e s uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na + doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe. +</p> +<p> + —Pois olhe—exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados + de um repentino jubilo—dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a + modo que me est a appetecer isso, a mim! +</p> +<p> + E trocadas entre ns estas profundas e memoraveis palavras, + remergulhamos em intimas e silenciosas cogitaes, eu e o Chico. +</p> +<p> + Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes do + vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas + encapuchadas em rendas de l desciam de suas manses praia para se + entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras + ainda, volviam da praia a suas manses, com narizes arrebitados e + vermelhos, avidas de po quente com manteiga e de caf com leite. +</p> +<p> + Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso + pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padres da + Teixeira, de braos abertos e um marmeleiro em cada brao. Eu voltava + taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o + vil e mercenario ensinho do Pra Tisica n'essa noite desvira de seu + natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o + sempre velados pelo mysterio. +</p> +<hr /> +<p> + Tal , em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada + batota! +</p> +<p> + Temos visto do jogo muitas e mui variadas definies. A unica, porm, + que inteiramente nos satisfaz a seguinte: O jogo uma asneira. +</p> +<p> + Reduzida assim a questo aos seus verdadeiros termos, no podemos deixar + de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de + castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se + lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos + aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa + impossivel, porque ha muito no haveria ministro nenhum que andasse + solto. +</p> +<p> + E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicao sophistica + de que para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal + assalta e sequstra as batotas! +</p> +<p> + Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu + teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido + para o rei de Portugal os 176$000 ris que eu dei para o rei de copas? E + outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua + policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe + lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da + chalaa! +</p> +<hr /> +<p> + Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecero brevemente dois novos + jornaes, um delles intitulado <i>Supplicantibus</i>, e intitulado o outro + <i>Frei Bandalho</i>. +</p> +<p> + Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar + bem, em duas unicas pennadas, a elevao intellectual que, no s em + Braga como em todo o reino, est presidindo n'este momento + vulgarisao da litteratura jornalistica. +</p> +<p> + Guimares, Barcellos e Vianna no querero por certo deixar-se + ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e + cremos mesmo no ser indiscretos revelando desde j que, estimulados + pela mais nobre emulao, os grandes centros intellectuaes do Minho + preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos + braguezes, a appario proxima d'outros jornaes intitulados o <i>Reles</i>, o + <i>Bisborria</i> e o <i>Pulha</i>. +</p> +<p> + A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia + intellectual o secreto receio de que, no obstante, os incansaveis + esforos empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da + educao nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face + com suas auctorisadas pennas a um to vasto labor mental, os escriptores + borra-botas, os troca-tintas e os manccos indispensaveis para o caso. +</p> +<hr /> +<p> + S. ex. o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de + Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de + <i>Rosalia</i> a uma creana de quem foi padrinho. +</p> +<p> + Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que + s. ex. escolhera este nome por elle ser o de uma illustre dama + portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII. +</p> +<p> + Inclinemo-nos com reverencia! +</p> +<p> + Elle poz-lhe o nome de Rosalia... +</p> +<p> + Tornemos a inclinar-nos! +</p> +<p> + E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos + meiados do decimo setimo seculo ... +</p> +<p> + Prostremo-nos por terra! +</p> +<hr /> +<p> + D. Guiomar Torrezo, do <i>Diario Illustrado,</i> dedilhando com mo d'anneis + n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte: +</p> +<p> + J alguma vez experimentaram a impresso que se sente entrando-se em um + boudoir, em uma especie de <i>bonbonniere</i> capitonada de setim azul, + impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada + por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e + aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras + semi-cerradas e a cabea enterrada em uma almofada de setim macio e + luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se + das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello, + pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente + sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas? ... +</p> +<p> + E' esta mesma impresso que se experimenta lendo-se os poemetos do + conde de Sabugosa. +</p> +<p> + talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de + D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle d a impresso perfeita da obra de + um to sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a + pena de experimentar... +</p> +<p> + De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por + preo modico todos os trastes precisos para a comprehenso das + differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos + os preos, j em flores caprichosas, j em plumagens ondulantes, a todos + os gostos d'horta ou de capoeira. +</p> +<p> + O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para + massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com + a cabea enterrada na almofada de setim phosphorecente. +</p> +<p> + Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao + longe, o paciente se queixar de no desfructar sufficientemente a + musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remunerao, facultar + duas buxas de algodo em rama para se lhe introduzirem nas orelhas. +</p> +<p> + Folgamos de veras ao ver assim to harmonicamente alliadas em proveito + da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos + jornaes e de pr cortinados da Suissa nas casas. +</p> +<hr /> +<p id="escamasdecorvina"> + Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na + noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lmos no <i>Diario de + Noticias</i> que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros + devidos pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos + de escamas de corvina. +</p> +<p> + Tambem folgamos muito com isto. +</p> +<p> + Em todas as exposies de quadros celebradas nos principaes centros + artisticos do mundo durante este derradeiro quarteiro do seculo, se + notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o + lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles + se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da + esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lanando mo + genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente tela, vem + prehencher uma lacuna immensa nos recursos at hoje to estreitos das + artes do desenho. +</p> +<p> + Gloria eterna a to benefica e prestante menina, honra da patria e do + peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfao completa de + suas boas mestras! +</p> +<p> + Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforos de + processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel + perfeio, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto, + apartar-se repentinamente da grande legio dos atormentados, empunhar a + faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e + escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor + Leopoldo! +</p> +<p> + S nos resta agora, para inteira consagrao d'este grande facto + artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da + critica, nos queira dizer de que cr que devemos capitonar as casas e + que pea de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem + nos compenetrarmos das impresses que so chamados a produzir nas + organisaes accessiveis comprehenso do bello os novos effeitos + estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes. +</p> +<hr /> +<p id="vacca"> + Antes d'hontem, 3, nova rusga s casas de jogo. Em uma batota + assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil ris + aprehendidos. +</p> +<p> + O <i>Correio da Noite</i> refere sobre este assumpto que na batota alludida + se no jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma + visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr + no bairro o boato semi-official de que no havia mais rusgas s batotas. + Os jogadores ento, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei, + reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e + batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que + empalmou do bolo. +</p> +<p> + A opinio mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da + policia, que anima sagazmente os mal intencionados pratica do crime + para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle. +</p> +<p> + E os jornaes continuam a chamar <i>uma rusga</i> a cada uma d'estas + diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem. +</p> +<p> + Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, no + chamariam a estes lances <i>uma rusga</i>; chamar-lhe-hiam—mais + propriamente—uma <i>vacca</i>. +</p> +<hr /> +<p> + Os jogadores at hoje presos teem sido todos condemnados;—coisa que + naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a no + mais jogarem seno nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as + Eleies, ou a jogarem mais reconditamente. +</p> +<p> + Para no desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica + dos crimes a que elles, coitadinhos, esto habituados, os tribunaes, + implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com + outros erros menos funestos moral e ao proximo do que o manejo dos + baralhos. +</p> +<p> + Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que + tinha arrancado um olho da cara a uma mulher. +</p> +<p> + O juri tomou em considerao as circumstancias attenuantes que revestiam + esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, <i>innocente + gracejo</i>. +</p> +<p> + O juri attendeu principalmente a este facto, que no pde deixar de + inspirar a mais profunda piedade a todos os coraes ternos:—aquelle a + quem por um momento pedimos venia para chamar <i>reu,</i> se assim nos + licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho. +</p> +<p> + O movel do crime,—digo—o movel da pilheria, de que o innocente + accusado, foi o amor que lhe inundava o peito. +</p> +<p> + Ai d'aquelle que nunca amou! esse um bruto, que jamais dever ser + chamado a resolver questes d'olhos. +</p> +<p> + Os que uma vez amaram esses comprehendero bem todos os thesouros de + ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto + que o levou, incomprehendido, barra dos tribunaes humanos. +</p> +<p> + O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e + luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena + que entre esses dois amantes se passou! +</p> +<p> + O cavalheiro principiou naturalmente por pedir sua doce amada que ella + mesma lhe desse o lho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro. +</p> +<p> + Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e + ironica: +</p> +<p> + —Ora, para que queres tu o lho?... Importas-te tu bem com o meu lho! + se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um lho meu, o lho da tua + Bb, para o pres n'um medalho. Mas oh! tu no me amas... +</p> +<p> + —Ah! eu no te amo? Eu que te no amo?! Eu que te no quero um lho + para um berloque?!... Ora espera, que j te mostro se te adoro ou no! +</p> +<p> + E, em seguida, por um d'esses actos de paixo profunda que muitas vezes + transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e, + delicadamente, apoderar-se-hia do lho da creatura. +</p> +<p> + Oh! amor!... amor! +</p> +<p> + Um jornal pareceu no saborear competentemente toda a doura d'este + breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado cadeia + um malandro to garantidamente bestial como mostrava ser para o dito + jornal o serafim a que nos reportamos. +</p> +<p> + Um dos membros do juri dirigiu folha alludida uma bella carta + patenteando as altas razes juridicas que os levaram, elle e os seus + collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em + juizo. +</p> +<p> + Diz o jurado: +</p> +<p> + <i>Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o + lho queixosa?</i> +</p> +<p> + Ns j acima nos prostramos no cho junto s plantas eruditas com que o + Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo + XVII pelas damas illustres. +</p> +<p> + Outra vez nos vemos agora forados a estender-nos ao comprido. Sempre + que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta + obrigao d'este por-se de rjos. +</p> +<hr /> +<p> + Na sesso inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na + cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas, + terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca, + e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre + essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de + Bragana Junior. +</p> +<p> + Referindo este facto o <i>Diario de Noticias</i> accresccnta, reprehensivo e + severo, que no se devem fazer comedias partidarias com a independencia + da patria. +</p> +<p> + Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do <i>Diario + de Noticias</i>, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a + bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna—como consta por pessoas + fidedignas—se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio + a descobrir que ella era unicamente um leno. +</p> +<p> + Pela parte que nos toca no podemos deixar de applaudir absolutamente a + attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do + venerando partido legitimista, levando pela persuaso oratoria os seus + correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas + crenas o moderno leno d'assoar, em vez de continuarem a seguir + servilmente as tradies partidarias da velha crte toireira e + cavalharial de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel + I, taes como o picador Joo Sedvem e o caceteiro Jos da Policia, exigia + o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre + outro qualquer symbolo que no fosse unicamente a mo de cada um. +</p> +<hr /> +<p> + Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilo de louas, de antiguidades e do + moveis artisticos. +</p> +<p> + Tentmos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiana + portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues + sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um + licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua + magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta + senhora. +</p> +<p> + O negro despeito pela privao dos referidos objectos obriga-nos ao + desafogo de alguns commentarios. +</p> +<hr /> +<p id="bricabrac"> + A tendencia geral para o bric--brac o grande escolho dos progressos + de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias + antigas acabou, assim se pde dizer, com a moderna marcenaria artistica. + Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram + restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ningum se + d j ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo + armario, o mais gracioso sof. Contentamo-nos, como suprema realisao + das nossas aspiraes no conforto e na graa da habitao, em metter a + roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros + guardavam os seus cales curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos + sentar as nossas mulheres nos mesmos canaps em que se entufaram outrora + as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D. + Joo v. +</p> +<p> + Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu + gosto, o seculo XIX figurar na historia como o seculo—dos + ferros-velhos. +</p> +<hr /> +<p> + aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas + artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. isso de + resto o que sempre se v na historia do movel. A cada uma das + modificaes caracteristicas por que successivamente vae passando a + linha e a cr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente + o nome de um soberano, desde Luiz XIII at Napoleo I, o qual, apesar de + no ter passado nunca em questes de gosto da sua primeira patente de + cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha + o typo da mesma emphase cezarea que o imperial <i>parvenu</i> aprendera na + convivencia e nas lies do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar + a traar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os + rascunhos dos improvisos para as proclamaes de guerra. +</p> +<p> + Os trez grandes decoradores Boule, Gouthire e Riesner, cujas obras + obtiveram recentemente no leilo do duque de Hamilton os mais fabulosos + preos que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores + dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de Frana que elles + fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras. +</p> +<p> + O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no + proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de + fornecedor privilegiado de Luiz XIV. +</p> +<p> + Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette. +</p> +<p> + Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos + considerao e estima do mundo moderno, vivero por muito tempo + immortalisados nas colleces democraticas das artes decorativas, + alliados memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os + progressos do gosto artistico, que so ao mesmo tempo os progressos da + elevao do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado. +</p> +<hr /> +<p> + Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis + nos leiles dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas + mais talentosos do seu reino, no se nos figura que esteja no caminho + mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar + proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais + melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da + influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia to distincta + quanto talvez ephemera. +</p> +<p> + Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilo e arrebatando-os pela + quantia de mais tres tostes e meio com que cobriu o nosso ultimo lance, + sua magestade a rainha vibrou, com fina mo ganhosa, o derradeiro golpe, + definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica + sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje + fascinao dos miseros burgueses enriquecidos. +</p> +<p> + Que os adelos se barbeassem deante das elegantes <i>psychs</i> das Maintenon + e das Pompadour, e que almoassem nas taas <i>pte tendre</i>, das Dubarry + ou das Marie Antoinette, coisa era j bem desconsoladora, bem triste e + bem dissolvente! +</p> +<p> + Mas, depois do ultimo leilo, em que ns fomos batidos por sua magestade + a rainha, o facto mil vezes mais grave. Porque—comprehendem bem esta + <i>nuance</i>—agora a mais distincta, a mais elegante, a mais + aristocratica das princezas, que rev os candidos e impolutos arminhos + do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o + Villas! e a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a + esvelta graa altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella + mesma tomar o ch no mesmo bule por cujo bico almoou dois dias antes o + Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora! +</p> +<hr /> +<p id="gato"> + Despeitados, como naturalmente sahimos do leilo Cordeiro, imaginem se + nos daria prazer ou no a noticia da morte violenta e affrontosa de que + foi victima o mais bello gato de sua magestade! +</p> +<p> + Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela + competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato + de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire, + contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da + real camara a raparem-o escovinha. +</p> +<p> + Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal at o + ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um + dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha + dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta + destinada ao inviolavel almoo do monarcha. Ora todas as pessoas + versadas nas praticas da crte, por mais perfunctoriamente que seja, + sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoo s reaes + pessoas, uma costelleta destinada refeio do principe absolutamente + a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato + com uma rodella de limo em cima, to real e perfeitamente como estaria + no solio com a sua cora na cabea e o seu sceptro em punho. +</p> +<p> + O camareiro pois, vendo seu augusto amo to vil e perversamente + mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais + abstinentes e mais respeitosos, o camareiro—dizemos—acceso em zelo + pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de + costelleta, foi p ante p, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo + pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella distancia kilometrica + que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear + entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites + caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito! +</p> +<hr /> +<p> + Aquelle que com amargo fel traa estas linhas colericas, movido + unicamente pelo baixo despeito de no haver pechinchado n'um leilo um + espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta + soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se + promtifica desde j a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a + reconhecel-o e a lamental-o. +</p> +<hr /> +<p> + Andmos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre + o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e + representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa. +</p> +<p> + O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente, + diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a + meno do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios. +</p> +<p> + Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica + liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignao + classica, e mais uma vez vimos luz do dia, expostas em andr, como + n'uma procisso solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra + que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente + morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas colleces + archeologicas. +</p> +<hr /> +<p> + Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que + com tanto sangue implantaram e regaram n'este abenoado torro a virente + arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um s homem!—dizem as + folhas. Ergamo-nos, sem distinco de campo nem de faco, para sacudir + o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do + augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister todo de paz e + d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do + Crucificado, calcando a ps os preceitos evangelicos do Redemptor. + Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura + hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo + fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam + arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de + Jesus o vendilho infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religio de + nossos paes, a religio de nossas mes, a religio de nossas filhas, a + religio de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de + nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!—a nossa sublime + religio, finalmente, tal como ella em sua excelsa pureza, que ora + vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo + Redemptor, cujas cinco chagas so o mais augusto emblema da bandeira da + nao portuguesa! +</p> +<hr /> +<p> + Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos + d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de + offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero. +</p> +<p> + O periodico legitimista a <i>Nao</i> foi o unico que ousou tomar a defesa + do odioso Nuncio, mas o <i>Diario da Manh</i> d'hoje agarra-se pelas orelhas + <i>Nao</i> e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario + por espao de seis dias, porque preciso andar a procurar-lhe os + bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pr em + p outra vez. +</p> +<p> + Imaginem que o <i>Diario da Manh</i>, desde que comeou a questo at hoje, + se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis seno quando + a <i>Nao,</i> imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os + unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus so os + tres prelados de Angra, do Funchal e de Ga. +</p> +<p> + Ns tnhamos lido o artigo da <i>Nao</i> e confessamos mesmo que no + primeiro repente gostamos d'elle. +</p> +<p> + Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a <i>Nao</i> + geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de + bispos—especialidade em que somos completamente leigos—desde que ella + affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Ga, + ns, na boa f, appressmo-nos logo a tomar nota do documento, e c + ficamos com mais essa informao devidamente registrada para algum dia + em que por acaso viessemos a ter preciso de bispos maus para nosso uso. +</p> +<p> + Mas o <i>Diario da Manh</i>, o qual, pelo que se v agora, doutorado + n'esta materia, e conhece to bem todos os bispos como ns outros + conhecemos os nossos dedos, o <i>Diario da Manh</i>, que, segundo parece, + estava calado e coca, exactamente espera de que lhe bolisscm com os + bispos, apenas a <i>Nao</i> disse que os unicos tres bispos com geito eram + os do Funchal, d'Angra e de Ga, ah! pae do ceu! +</p> +<p> + Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a + desanda tremenda applicada <i>Nao</i> pelo <i>Diario da Manh</i> d'hoje! E + preciso ll-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos + a tristissima verdade de que no pde um homem hoje em dia fiar-se em + ninguem. +</p> +<p> + Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que + a <i>Nao</i> nos queria espigar como afianados, so precisamente os + peiores de todos! +</p> +<p> + Prelados bons, segundo o <i>Diario da Manh</i>, prelados desenganados, + prelados que se podem dar a contento seja para onde fr, restituindo-se + o seu importe caso no agradem, so o bispo de Coimbra, o bispo de Evora + e o arcebispo de Bragana. +</p> +<p> + O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso + que fazenda. +</p> +<p> + Bispo de Bragana, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem iro to + bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor. +</p> +<p> + O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: + gallinha! +</p> +<p> + Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da <i>Nao</i> diz o + <i>Diario da Manh</i> que elles no so outra coisa seno os <i>soldados do + exercito das trevas</i>. +</p> +<p> + Tomo nota, e c dou ordem que no estou em casa para nenhum d'esses tres + melros. Rua, que a sala dos ces! +</p> +<p> + Para <i>soldados do exercito das trevas</i> bastam-nos os persevejos, + escusa-se de bispos. +</p> +<p> + Supponham porm que o benemerito <i>Diario da Manh</i> nos no prevenia e + que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo j um + pouco pellada no lombo—abria o meu seio incauto aos persevejos... quero + dizer, aos bispos... da, <i>Nao!</i>... Que tal estava a rascada, heim? +</p> +<p> + E vamos agora ns a outra coisa, que nos est a lembrar... Vamos ns + agora que o proprio <i>Diario da Manh</i>...—No queremos melindrar + ninguem, e pedimos ao <i>Diario da Manh</i> que o no leve a mal pelo amor + de Deus... Perguntamos apenas uma coisa: o homem infallivel? No . + Infallivel unicamente o papa, o homem no. <i>Humanum est errare</i>...— +</p> +<p> + Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo <i>Diario da Manh</i> no seja + to forte em escolher os bispos como a Vicencia o em escolher os + meles. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade no possa + incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a + <i>Nao?...</i> +</p> +<p> + Decididamente pedimos licena para ampliar um tanto mais as instruces + que ha pouco demos nossa cosinheira: +</p> +<p> + —Gertrudes! no estou em casa para bispo nenhum. +</p> +<hr /> +<p> + Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada <i>Nao,</i> pedem ao + governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio. +</p> +<p> + O <i>Seculo</i> vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso + representante junto ao Vaticano se enviem instruces terminantes para + impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasio o barrete + cardinalicio que lhe est promettido por Sua Santidade. +</p> +<p> + No <i>Seculo</i>, um jornal republicano e livre pensador, talvez um pouco + estranhavel a pretenso de influir com o seu voto sobre o momento mais + propicio para cardinalisar Masella. +</p> +<p> + Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camaro—operao a que + se procede cosendo-o—o parecer do <i>Seculo</i> junto da tia Pincha, + encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria at certo + ponto admissivel e opportuno. Mas quando o papa Leo XIII e no a + propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o <i>Seculo</i> que a coisa + a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para + que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o no sirva?... +</p> +<p> + Oh! no. +</p> +<p> + Para intervir na distribuio dos barretes cardinalicios o <i>Seculo</i> tem + exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na + distribuio dos barretes phrygios. +</p> +<p> + O partido republicano do Brazil impe s vezes solemnemente o barrete + symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o + sympathico agitador Lopes Trovo recebeu no Rio de Janeiro, no momento + de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado + ento um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com gales e + borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal. +</p> +<p> + Outro tanto—com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum—no + temos ns que agradecer obzequiosidade da mocidade avanada e generosa + de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre + a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo + pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito + tostes e meio. +</p> +<p> + De l e vermelho, do matiz radical denominado <i>rebenta-boi</i>, com esse + barrete carregado banda sobre um olho, com o monoculo expectante da + critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que + traa estas regras se presa de ter servido a causa, j sobre as aguas do + mar, j em terra firme, nas praias de banhos durante as estaes + balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das + instuies caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa + do constitucionalismo D. Guimar Torreso, dama to illustre em fins do + seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o + affirma o mui culto Doutor Jardim... de S. Pedro d'Alcantara. +</p> +<p> + Se o <i>Seculo</i> segue porm as boas praticas do republicanismo brazileiro, + presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do + seu partido, que diria o <i>Seculo</i> se, usando da reciprocidade de um + direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse + dizer em tal conjuntura: +</p> +<p> + —Alto l! no dem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com + esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete + sobre a cabea do martyr Gomes Leal, cabea de genio e bem assim do + turco, cabea at hoje inteiramente despremiada, no constando que at + agora tivesse ainda tido outra coisa, alm da caspa propria, seno galos + e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo. +</p> +<hr /> +<p> + Foi s no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios + dias de estudo retroactivo atravez das declamaes da imprensa, que + emfim conseguimos—por um acaso—descobrir os elementos do conflicto + entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa. +</p> +<p> + Eis o caso: +</p> +<hr /> +<p> + Sua excellencia o nobre ministro da justia, usando d'aquella apreciavel + franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou + a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se + propunha nomear, pedindo cerca d'elles a opinio do mesmo snr nuncio. +</p> +<p> + Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que to + benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava + pessimos alguns dos bispos propostos. +</p> +<p> + —Como assim!?—volveu, acidulado e surpreso, o das justias + humanas.—Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me + amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinio franca, + desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinio + que eu to bisarramente lhe peo, d-me pelo contrario a opinio + precisamente opposta que eu tenho!?... +</p> +<p> + —Perdo...—-interrompe o ecclesiastico—eu pensei que, desde que v. + ex. me consultava... +</p> +<p> + -Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... No me force Vossa + Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de + cavilaes! No queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de + ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, merc de Deus, no + gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se no exerce + por sophisticaes capciosas, antes versa sobre formas parlamentares + baseadas nas fices mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas fices + fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio + sagrado da discusso, da consulta e do voto. Para bem se comprehender + toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar—e para isto + chamo particularmente a atteno de Vossa Eminencia—que, toda a vez que + um estadista, chamado aos conselhos da cora pela augusta confiana do + principe, pede cerca dos seus actos a opinio de qualquer dos poderes + do Estado, a obrigao d'esses poderes, quaesquer que elles sejam, + <i>quaesguer que elles sejam</i>—repito-o— abundarem approvativamente e + jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem + as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e + liberrimo governo da nao portugueza. +</p> +<p> + —Mas ento,—obtemperou o sacerdote romano—o systema governativo, de + cujo elencho V. Ex. tenor applaudido, vem a ser realmente a fara + mais divertida <i>(la piu piacevole)</i> que se conhece! O pundonoroso luso + da pasta da justia, apenas o roupeta lhe fallou em fara, meu amiguinho + e snr, agora, o vereis! +</p> +<p> + <i>—Fara!</i> bradou s. ex. com o gesto nobre mais recommendado pela + rhetorica para os grandes lances da indignao suprema. <i>—Fara!</i> O + forasteiro ousa chamar <i>fara</i> ao sublime governo constitucional, + monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do + chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno Jos Estevo Coelho de + Magalhes, cognominado por antonomasia o <i>Deus da Palavra</i>!!... Cuidar + ento o snr, por acaso, que seja uma coisa sria a curia! mais o + pontificado! mais a infalliblidade do papa! mais as indulgencias para + ir para o ceu a trez vintens por cabea! mais a bulla para misturar + carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por + incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos + carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavs!... + Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola + d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar a + sua famosa <i>vinha do senhor:—Vimos da vinha do senhor! Vamos para a + vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!</i> Suppoem os snrs + porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou + bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se + a si mesmos <i>sal da terra</i>; ora vamos a saber uma coisa: os snrs esto + efectivamente persuadidos de que so sal?... Vive o snr, por exemplo, na + convico profunda e inabalavel de que medido s razas pelos almotacs + sempre que passa s portas, e que paga 10 ris de direitos em alqueire + sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o + snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste + abraar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique + pronta para se deitar panella com cebola e batatas?! No dito estado de + sal, nutre o snr a austera e firme convico profissional de que lhe + assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?... + Est o snr bem certo de que no tenha seno a sentar-se no bucho verde + para que elle ganhe caruncho, ou a pr a benta mo sobre os sermes de + Garcia Diniz ou sobre os artigos da <i>Nao</i> para que essas produces + literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida + coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastido + da crusta terrachea?!... E, ento, com tudo isto, os snrs que so os + srios, e ns que havemos de ser os farantes, heim? +</p> +<p> + Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso, + que no hesitamos um s momento em qualificar de sacrilego e de + perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si + o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s. ex., e + experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe cacheira e + drobando-o e redobrando-o de ferro fixado ao solo. +</p> +<hr /> +<p> + At ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informaes + dispersas que podemos recolher cerca d'este memoravel incidente. D'esse + ponto por deante ignoramos como que os factos precisamente se + passaram. Lemos porem no <i>Diario de Portugal</i> uma phrase reveladra, que + se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada + folha: +</p> +<p> + <i>O nuncio desacatou sua excellencia</i>. +</p> +<p> + Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos + periodicos ministeriaes. +</p> +<p> + <i>Sua excelencia</i>—segredam as vozes familiares da burocracia—<i>apanhou + um calor</i>. +</p> +<hr /> +<p> + Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr + nuncio andou admiravelmente bem. E no podemos de modo algum attingir as + causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por + occasio d'este jubiloso successo. +</p> +<hr /> +<p> + E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se + compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos no entendem, + nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos. +</p> +<p> + Os bispos—dizem-o todos os textos canonicos—so os pastores das almas, + incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles + que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes + confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles no podem ser + considerados seno como puros e legitimos delegados do chefe supremo da + Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado + ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome + de Deus, de quem o papa o representante visivel na terra. +</p> +<p> + Ora, se so effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspiraes, os + interesses do Summo Pontifice e no os do snr Julio de Vilhena que os + bispos teem de representar, de deffender e de servir, como que querem, + de boa f e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que no seja + o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante misso? +</p> +<hr /> +<p> + Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de + Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima, + que que teem com isso os jornalistas republicanos e livres + pensadores?... +</p> +<p> + Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas: +</p> +<p> + Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar + ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram + livres pensadores? Mas escusavam ento de se incommodar para isso, + prejudicando-se consideravelmente nos meios de aco, de que para tal + fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou + irmos do Senhor dos Passos da parochia das Mercs! +</p> +<p> + Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas + pretenes secretas pendentes do governo das deoceses do reino? +</p> +<p> + Vejamos, sinceramente: +</p> +<p> + Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono? + querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem + confessar mulheres?... +</p> +<p> + Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questo e no se torna mais + a fallar n'isso. +</p> +<p> + Se, pelo contrario, os snrs no pretendem coisa nenhuma dos bispados, + que diabo ento lhes importam, aos snrs, os bispos? +</p> +<p> + Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo: +</p> +<p> + —Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os + republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questo dos + bispados, e esse facto vem a ser que o governo da nao quem paga os + bispos. +</p> +<p> + Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos com effeito o + governo. E por essa razo que ns applaudimos com enthusiasmo o snr + Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, <i>desacatou</i> o + governo:—para ver se o governo aprende a no ser tolo! +</p> +<hr /> +<p id="stephania"> + A corveta <i>Stephania</i> acaba de dar da sua incapacidade como instrumento + beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne. +</p> +<p> + Mandada ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o + empate de uma eleio de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou + que a eleio de desempate recahiu em massa sobre o candidato + republicano de opposio ao governo. +</p> +<p> + Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real servio, consta + que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito + do Arsenal na qualidade de vaso de paz. +</p> +<p> + Para substituir a <i>Stephania</i> nas campanhas navaes das futuras eleies + pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim + esto-se j colligindo nas estaes competentes os mexilhes precisos + para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro. +</p> +<p> + Parabens a sua excellencia! +</p> +<hr /> +<p> + Agora invocamos a proteco dos anjos para que, com sua assistencia, + passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria + da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do + Carnaxide. +</p> +<p> + Era por uma formosa tarde do clido mez de agosto. O astro do dia se + inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas + presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos + pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o + bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados + gorgeios. +</p> +<p> + Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao + fatigado corpo e discreteando em ameno convivio cerca de seus bucolicos + lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse + o milagroso dia de to prodigiosa santa. +</p> +<p> + Eis seno quando, volvendo os olhos, como que tocados por um + presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de + Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo + magestoso acima do narravel. +</p> +<p> + Com a mo direita se apoiava esse vulto a um bordo de peregrino, em + quanto que com a mo esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada + de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o + horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da + vida em direco faia virente. +</p> +<p> + Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco + ou S. Praxedes, e logo viram que no era Santo Anto—por no ter porco + ao lado. +</p> +<p> + Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por + Praxedes, collocou a mo sobre o corao e arremetendo com a fronte para + as nuvens, exclamou: +</p> +<blockquote> +<p> + Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena! +</p> +</blockquote> +<p> + Era s.ex. o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos + negocios do reino. +</p> +<p> + Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos. +</p> +<p> + —Guarde-vos Deus, bons rusticos!—disse s.ex. acommodando o stylo + rude e acanhada comprehenso do auditorio—E que a senhora Santa Rosa de + Lima, que hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mo! +</p> +<p> + E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo + campesino a que nos referimos, s.ex. proseguiu continuando a + exprimir-se em prosa: +</p> +<p> + —Que fizestes do vosso cordeiro favorito, Tityro?—Trazeis comvosco a + vossa avena, Melibeu?—Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano? +</p> +<p> + Todos os camponeses se acercaram ento de s.ex., ficando suspensos da + facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide + nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de + lingoagem como a que sahia em jorras da bcca d'esse portentoso homem de + penna e de governao. +</p> +<p> + Felizes e volozes devolviam as horas em pratica to discreta quo + matizada de piericos primores, quando s. ex., alongando a dextra n'um + brando meneio para o pendr da collina, perguntou: +</p> +<p> + —Que vetustas ruinas so aquellas que alem descortino alvejando na + quebrada da serra? +</p> +<p id="apparecida"> + E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de + Nossa Senhora Apparecida, +</p> +<p> + —Corramos prestes ao templo!—bradou s.ex.—Dirijamo-nos pressurosos a + elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar + d'essa Virgem Senhora Nossa que to galhardamente denominaes + <i>Apparecida!</i> Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio, + Belmiro e Castalio! Vinde todos, pastores! Eia!... Ao templo! ao + templo! ... +</p> +<p> + Os pastores, ento, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que + Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mo impia de + infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para + a transportar para a S no meio da indignao geral dos povos e das + patronas minazes da real melicia. De sorte que, j no tempo em que o + feroz usurpador do throno de Lysia se apegra com a Senhora Apparecida + para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para + Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via + publica: +</p> +<blockquote> +<pre> + D. Miguel foi S, + Sentou-se n'uma cadeira, + E disso para os malhados: + Esta perna est inteira! +</pre> +</blockquote> +<p> + Ao ouvir taes vozes, j soltas, j metreficadas, s.ex. extrahiu a lyra + que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica + governao, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta + Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou—por + outra—que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa + Senhora Apparecida volveria da S a Carnaxide, reapparecendo pela + segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto. +</p> +<p> + Vendo os camponezes que por meio de um to manifesto e prodigioso + milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram + submissos em giolhos. +</p> +<p> + E foi s depois de s.ex. se haver retirado pela mesma vereda por onde + viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez + repetir aos montes e s hervinhas: +</p> +<blockquote> +<p> + Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena! +</p> +</blockquote> +<p> + que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram + a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando las festivaes em + honra d'aquelle que to grande capricho punha em lhes restituir a + Senhora Apparecida quo grande era a pena que alimentava em seus carmes + de nunca ter visto Lisboa. +</p> +<p> + Gloria pois a s.ex.! +</p> +<hr /> +<p> + Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com + pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao + desembarcar, um acommenda, dois ces de faiana e um bilhete da imperial + na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta + minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em + molestias sedentarias, em graas regias e em quadrupedes de loua. +</p> +<p> + A patria explorava-o e ria-se d'elle. +</p> +<p> + Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem + papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no <i>Diario do + Governo</i>, elle no s no paga mas resigna uma commenda com que o + agraciou a regia munificencia. +</p> +<p> + Tomemos nota do phenomeno, porque elle o symptoma de uma revoluo + profunda: elle o <i>Emfim Malherbe veio</i> da historia dos commendadores e + dos ces,—vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio + extrangeiro. +</p> +<p> + Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o + embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia! + Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legio inteira, intelligente, + instruida e forte, que vae chegar—para se rir. +</p> +<p> + Lisboa 15 de dezembro de 1882. +</p> +<p class="centered"> + <i><b>Ramalho Ortigo.</b></i> +</p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Novembro A Dezembro 1882) +by Jos Maria Ea De Queiroz and Ramalho Ortigo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + +***** This file should be named 14296-h.htm or 14296-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/4/2/9/14296/ + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed +Proofreading Team. This work was produced from images generously +made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal. + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Mercadet + A Comedy In Three Acts + +Author: Honore De Balzac + +Release Date: November 26, 2005 [EBook #14296] + +Language: English + +Character set encoding: ASCII + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MERCADET *** + + + + +Produced by Dagny; and John Bickers + + + + + + MERCADET + A COMEDY IN THREE ACTS + + BY + + HONORE DE BALZAC + + + + Presented for the First Time in Paris + At the Theatre du Gymnase-Dramatique + August 24, 1851 + + + + PERSONS OF THE PLAY + +Mercadet, a speculator +Madame Mercadet, his wife +Julie, their daughter +Minard, clerk of Mercadet +Verdelin, friend of Mercadet +Goulard, creditor of Mercadet +Pierquin, creditor of Mercadet +Violette, creditor of Mercadet +Mericourt, acquaintance of Mercadet +De la Brive, suitor to Julie +Justin, valet +Therese, lady's maid +Virginie, cook +Various other creditors of Mercadet + + + +SCENE: Paris, in the house of Mercadet + +TIME: About 1845 + + + + + + MERCADET + + + + + ACT I + + + + SCENE FIRST + + +(A drawing-room. A door in the centre. Side doors. At the front, to +the left, a mantel-piece with a mirror. To the right, a window, and +next it a writing-table. Armchairs.) + +Justin, Virginie and Therese + + +Justin (finishing dusting the room) +Yes, my dears, he finds it very hard to swim; he is certain to drown, +poor M. Mercadet. + +Virginie (her basket on her arm) +Honestly, do you think that? + +Justin +He is ruined! And although there is much fat to be stewed from a +master while he is financially embarrassed, you must not forget that +he owes us a year's wages, and we had better get ourselves discharged. + +Therese +Some masters are so frightfully stubborn! I spoke to the mistress +disrespectfully two or three times, and she pretended not to hear me. + +Virginie +Ah! I have been at service in many middle-class houses; but I have +never seen one like this! I am going to leave my stove, and become an +actress in some theatre. + +Justin +All of us here are nothing but actors in a theatre. + +Virginie +Yes, indeed, sometimes one has to put on an air of astonishment, as if +just fallen from the moon, when a creditor appears: "Didn't you know +it, sir?"--"No."--"M. Mercadet has gone to Lyons."--"Ah! He is away?" +--"Yes, his prospects are most brilliant; he has discovered some +coal-mines."--"Ah! So much the better! When does he return?"--"I do not +know." Sometimes I put on an expression as if I had lost the dearest +friend I had in the world. + +Justin (aside) +That would be her money. + +Virginie (pretending to cry) +"Monsieur and mademoiselle are in the greatest distress. It seems that +we are going to lose poor Madame Mercadet. They have taken her away to +the waters! Ah!" + +Therese +And then, there are some creditors who are actual brutes! They speak +to you as if you were the masters! + +Virginie +There's an end of it. I ask them for their bill and tell them I am +going to settle. But now, the tradesmen refuse to give anything +without the money! And you may be sure that I am not going to lend any +of mine. + +Justin +Let us demand our wages. + +Virginie and Therese +Yes, let us demand our wages. + +Virginie +Who are middle-class people? Middle-class people are those who spend a +great deal on their kitchen-- + +Justin +Who are devoted to their servants-- + +Virginie +And who leave them a pension. That is how middle-class people ought to +behave to their servants. + +Therese +The lady of Picardy speaks well. But all the same, I pity mademoiselle +and young Minard, her suitor. + +Justin +M. Mercadet is not going to give his daughter to a miserable +bookkeeper who earns no more than eighteen hundred francs a year; he +has better views for her than that. + +Therese and Virginie +Who is the man he thinks of? + +Justin +Yesterday two fine young gentlemen came here in a carriage, and their +groom told old Gruneau that one of them was going to marry Mlle. +Mercadet. + +Virginie +You don't mean to say so! Are those gentlemen in yellow gloves, with +fine flowered waistcoats, going to marry mademoiselle? + +Justin +Not both of them, lady of Picardy. + +Virginie +The panels of their carriage shone like satin. Their horse had +rosettes here. (She points to her ears.) It was held by a boy of +eight, fair, with frizzed hair and top boots. He looked as sly as a +mouse--a very Cupid, though he swore like a trooper. His master is as +fine as a picture, with a big diamond in his scarf. It ain't possible +that a handsome young man who owns such a turnout as that is going to +be the husband of Mlle. Mercadet? I can't believe it. + +Justin +You don't know M. Mercadet! I, who have been in his house for the last +six years, and have seen him since his troubles fighting with his +creditors, can believe him capable of anything, even of growing rich; +sometimes I say to myself he is utterly ruined! Yellow auction +placards flame at his door. He receives reams of stamped creditor's +notices, which I sell by the pound for waste paper without being +noticed. But presto! Up he bobs again. He is triumphant. And what +devices he has! There is a new one every day! First of all, it is a +scheme for wooden pavements--then it is dukedoms, ponds, mills. I +don't know where the leakage is in his cash box; he finds it so hard +to fill; for it empties itself as easily as a drained wine-glass! And +always crowds of creditors! How well he turns them away! Sometimes I +have seen them come with the intention of carrying off everything and +throwing him into prison. But when he talks to them they end by being +the best of friends, and part with cordial handshakes! There are some +men who can tame jackals and lions. That's not a circumstance; M. +Mercadet can tame creditors! + +Therese +One of them is not quite so easily managed; and that is M. Pierquin. + +Justin +He is a tiger who feeds on bankrupts. And to think of poor old +Violette! + +Virginie +He is both creditor and beggar--I always feel inclined to give him a +plate of soup. + +Justin +And Goulard! + +Therese +A bill discounter who would like very much to--to discount me. + +Virginie (amid a general laugh) +I hear madame coming. + +Justin +Let us keep a civil tongue in our heads, and we shall learn something +about the marriage. + + + + SCENE SECOND + + +The same persons and Mme. Mercadet. + + +Mme. Mercadet +Justin, have you executed the commissions I gave you? + +Justin +Yes, madame, but they refused to deliver the dresses, the hats, and +indeed all the things you ordered until-- + +Virginie +And I also have to inform madame that the tradesmen are no longer +willing-- + +Mme. Mercadet +I understand. + +Justin +The creditors are the cause of the whole trouble. I wish I knew how to +get even with them. + +Mme. Mercadet +The best way to do so would be to pay them. + +Justin +They would be mightily surprised. + +Mme. Mercadet +It is useless to conceal from you the excessive anxiety which I suffer +over the condition of my husband's affairs. We shall doubtless be in +need of your discretion--for we can depend upon you, can we not? + +All +You need not mention it, madame. + +Virginie +We were just saying, what excellent employers we had. + +Therese +And that we would go through fire and water for you! + +Justin +We were saying-- + +(Mercadet appears unnoticed.) + +Mme. Mercadet +Thank you all, you are good creatures. (Mercadet shrugs his +shoulders.) Your master needs only time, he has so many schemes in his +head!--a rich suitor has offered himself for Mlle. Julie, and if-- + + + + SCENE THIRD + + +The same persons and Mercadet. + + +Mercadet (interrupting his wife) +My dearest! (The servants draw back a little. In a low voice to +madame) And so this is how you speak to the servants! To-morrow they +laugh at us. (To Justin) Justin, go at once to M. Verdelin's house, +and ask him to come here, as I want to speak to him about a piece of +business that will not admit of delay. Assume an air of mystery, for I +must have him come. You, Therese, go to the tradesmen of Madame de +Mercadet, and tell them, sharply, that they must send the things that +have been ordered.--They will be paid for--yes--and cash, too--go at +once. (Justin and Therese start.) Ah!--(They stop.) If--these people +come to the house again, ask them to enter. (Mme. Mercadet takes a +seat.) + +Justin +These--these people?-- + +Therese and Virginie +These people? Eh! + +Mercadet +Yes, these people--these creditors of mine!-- + +Mme. Mercadet +How is this, my dear? + +Mercadet (taking a seat opposite his wife) +I am weary of solitude--I want their society. (To Justin and Therese) +That will do. + +(Justin and Therese leave the room.) + + + + SCENE FOURTH + + +Mercadet, Mme. Mercadet and Virginie. + + +Mercadet (to Virginie) +Has madame given you any orders? + +Virginie +No, sir, and besides the tradespeople-- + +Mercadet +I hope you will do yourself credit to-day. We are going to have four +people to dinner--Verdelin and his wife, M. de Mericourt and M. de la +Brive--so there will be seven of us. Such dinners are the glory of +great cooks! You must have a fine fish after the soup, then two +entrees, very delicately cooked-- + +Virginie +But, sir, the trades-- + +Mercadet +For the second course--ah, the second course ought to be at once rich +and brilliant, yet solid. The second course-- + +Virginie +But the tradespeople-- + +Mercadet +Nonsense! You annoy me--To talk about tradespeople on the day when my +daughter and her intended are to meet! + +Virginie +They won't supply anything. + +Mercadet +What have we got to do with tradespeople that won't take our trade? We +must get others. You must go to their competitors, you must give them +my custom, and they will tip you for it. + +Virginie +And how shall I pay those that I am giving up? + +Mercadet +Don't worry yourself about that,--it is my business. + +Virginie +But if they ask me to pay them-- + +Mercadet (aside, rising to his feet) +That girl has money of her own. (Aloud) Virginie, in these days, +credit is the sole wealth of the government. My tradespeople +misunderstand the laws of their country, they will show themselves +unconstitutional and utter radicals, unless they leave me alone. +--Don't you trouble your head about people who raise an insurrection +against the vital principles of all rightly constituted states! What +you have got to attend to, is dinner,--that is your duty, and I hope +that on this occasion you will show yourself to be what you are, a +first-class cook! And if Mme. Mercadet, when she settles with you on +the day after my daughter's wedding, finds that she owes you anything, +I will hold myself liable for it all. + +Virginie (hesitating) +Sir-- + +Mercadet +Now go about your business. I give you here an opportunity of gaining +an interest of ten per cent every six months!--and that is better than +the savings banks will do for you. + +Virginie +That it is; they only give four per cent a year! + +Mercadet (whispering to his wife) +What did I tell you!--(To Virginie) How can you run the risk of +putting your money into the hands of strangers--You are quite clever +enough to invest it yourself, and here your little nest-egg will +remain in your own possession. + +Virginie +Ten per cent every six months!--I suppose that madame will give me the +particulars with regard to the second course. I must start to work on +it. (Exit.) + + + + SCENE FIFTH + + +Mercadet and Mme. Mercadet + + +Mercadet (watching Virginie as she goes out) +That girl has a thousand crowns of our good money in the savings bank, +so that we needn't worry about the kitchen for awhile. + +Mme. Mercadet +Ah! sir, how can you stoop to such a thing as this? + +Mercadet +Madame, these are mere petty details; don't bother about the means to +an end. You, a little time ago, were trying to control your servants +by kindness, but it is necessary to command and compel them, and to do +it briefly, like Napoleon. + +Mme. Mercadet +How can you order them when you don't pay them? + +Mercadet +You must pay them by a bluff. + +Mme. Mercadet +Sometimes you can obtain by affection what is not attainable by-- + +Mercadet +By affection! Ah! Little do you know the age in which we live--To-day, +madame, wealth is everything, family is nothing; there are no +families, but only individuals! The future of each one is to be +determined by the public funds. A young girl when she needs a dowry no +longer appeals to her family, but to a syndicate. The income of the +King of England comes from an insurance company. The wife depends for +funds, not upon her husband, but upon the savings bank!--Debts are +paid, not to creditors, but to the country, through an agency, which +manages a sort of slave-trade in white people! All our duties are +arranged by coupons--The servants which we exchange for them are no +longer attached to their masters, but if you hold their money they +will be devoted to you. + +Mme. Mercadet +Oh, sir, you who are so honorable, so upright, sometimes say things to +me which-- + +Mercadet +And what is said may also be done, that is what you mean, isn't it? +Undoubtedly I would do anything to save myself, for (he pulls out a +five-franc piece) this represents modern honor. Do you know why the +dramas that have criminals for their heroes are so popular? It is +because all the audience flatter themselves and say, "at any rate, I +am much better than that fellow!" + +Mme. Mercadet +My dear! + +Mercadet +For my part I have an excuse, for I am bearing the burden of my +partner's crime--of that fellow Godeau, who absconded, carrying with +him the cash box of our house!--And besides that, what disgrace is it +to be in debt? What man is there who does not owe his father his +existence? He can never repay that debt. The earth is constantly +bankrupt to the sun. Life, madame, is a perpetual loan! Am I not +superior to my creditors? I have their money, when they can only +expect mine. I do not ask anything of them, and yet they are +constantly importuning me.--A man who does not owe anything is not +thought about by any one, while my creditors take a keen interest in +me. + +Mme. Mercadet +They take rather too much! To owe and to pay is well enough--but to +borrow without any prospect of returning-- + +Mercadet +You feel a great deal of compassion for my creditors, but our +indebtedness to them springs from-- + +Mme. Mercadet +Their confidence in us, sir. + +Mercadet +No, but from their greed of gain! The speculator and the broker are +one and the same--each of them aims at sudden wealth. I have done a +favor to all my creditors, and they all expect to get something out of +me! I should be most unhappy but for the secret consciousness I have +that they are selfish and avaricious--so that you will see in a few +moments how I will make each of them play out his little comedy. (He +sits down.) + +Mme. Mercadet +You have actually ordered them to be admitted? + +Mercadet +That I may meet them as I ought to!--(taking her hand.) I am at the +end of my resources; the time has come for a master-stroke, and Julie +must come to our assistance. + +Mme. Mercadet +What, my daughter! + +Mercadet +My creditors are pressing me, and harassing me. I must manage to make +a brilliant match for Julie. This will dazzle them; they will give me +more time. But in order that this brilliant marriage may take place, +these gentlemen must give me more money. + +Mme. Mercadet +They give you more money! + +Mercadet +Isn't there need of it for the dresses which they are sending to you, +and for the trousseau which I am giving? And a suitable trousseau to +go with the dowry of two hundred thousand francs, will cost fifteen +thousand. + +Mme. Mercadet +But you are utterly unable to give such a dowry. + +Mercadet (rising) +All the more reason why I should give the trousseau. Now this is what +we stand in need of: twelve or fifteen thousand francs for the +trousseau, and a thousand crowns to pay the tradesmen and to prevent +any appearance of straitened circumstances in our house, when M. de la +Brive arrives. + +Mme. Mercadet +How can you count on your creditors for that? + +Mercadet +Don't they now belong to the family? Can you find any relation who is +as anxious as they are to see me wealthy and rich? Relations are +always a little envious of the happiness of the wealth which comes to +us; the creditor's joy alone is sincere. If I were to die, I should +have at my funeral more creditors than relations, and while the latter +carried their mourning in their hearts or on their heads, the former +would carry it in their ledgers and purses. It is here that my +departure would leave a genuine void! The heart forgets, and crape +disappears at the end of a year, but the account which is unpaid is +ineffaceable, and the void remains eternally unfilled. + +Mme. Mercadet +My dear, I know the people to whom you are indebted, and I am quite +certain that you will obtain nothing from them. + +Mercadet +I shall obtain both time and money from them, rest assured of that. +(Mme. Mercadet is perturbed.) Don't you see, my dear, that creditors +when once they have opened their purses are like gamblers who continue +to stake their money in order to recover their first losses? (Growing +excited.) Yes! they are inexhaustible gold mines! If a man has no +father to leave him a fortune, he finds his creditors are so many +indefatigable uncles. + +Justin (entering) +M. Goulard wishes to know if it is true that you desire to see him? + +Mercadet (to his wife) +My message astounded him. (To Justin) Beg him to come in. (Justin goes +out.) Goulard! The most intractable of them all!--who has three +bailiffs in his employ. But fortunately he is a greedy though timid +speculator who engages in the most risky affairs and trembles all the +time they are being conducted. + +Justin (announcing) +M. Goulard! + +(Exit Justin.) + + + + SCENE SIXTH + + +The same persons and Goulard. + + +Goulard (in anger) +Ah! you can be found, sir, when you want to be! + +Mme. Mercadet (aside to her husband) +My dear, how angry he seems! + +Mercadet (making a sign that she should be calm) +This is one of my creditors, my dear. + +Goulard +Yes, and I sha'n't leave this house until you pay me. + +Mercadet (aside) +You sha'n't leave this house until you give me some money--(Aloud) Ah! +you have persecuted me most unkindly--me, a man with whom you have had +such extensive dealings! + +Goulard +Dealings which have not always been to my advantage. + +Mercadet +All the more credit to you, for if advantage were the sole results of +business, everybody would become a money-lender. + +Goulard +I hope you haven't asked me to come here, in order to show me how +clever you are! I know that you are cleverer than I am, for you have +got over me in money matters. + +Mercadet +Well, money matters have some importance. (To his wife) Yes, yes, you +see in this man one who has hunted me as if I were a hare. Come, come, +Goulard, admit it, you have behaved badly. Anybody but myself would +have taken vengeance on you--for of course I could cause you to lose a +considerable sum of money. + +Goulard +So you could, if you didn't pay me; but you shall pay me--your +obligations are now in the hands of the law. + +Mme. Mercadet +Of the law? + +Mercadet +Of the law! You are losing your senses, you don't know what you are +doing, you are ruining us both--yourself and me--at the same time. + +Goulard (anxiously) +How?--You--that of course is possible--but--but--me? + +Mercadet +Both of us, I tell you! Quick, sit down there--write--write--! + +Goulard (mechanically taking his pen) +Write--write what? + +Mercadet +Write to Delannoy that he must make them stay the proceedings, and +give me the thousand crowns which I absolutely need. + +Goulard (throwing down the pen) +That is very likely, indeed! + +Mercadet +You hesitate, and, when I am on the eve of marrying my daughter to a +man immensely wealthy--that is the time you choose to cause my arrest. +And by that means you are killing both your capital and interest! + +Goulard +Ah! you are going to marry your daughter-- + +Mercadet +To the Comte de la Brive; he possesses as many thousand francs as he +is years old! + +Goulard +Then if he is up in years, there is reason for giving you some delay. +But the thousand crowns--the thousand crowns--never.--I am quite +decided on that point. I will give you nothing, neither delay nor--I +must go now-- + +Mercadet (with energy) +Very well! You can go if you like, you ungrateful fellow!--But don't +forget that I have done my best to save you. + +Goulard (turning back) +Me?--To save me--from what? + +Mercadet (aside) +I have him now. (Aloud) From what?--From the most complete ruin. + +Goulard +Ruin? It is impossible. + +Mercadet (taking a seat) +What is the matter with you? You, a man of intelligence, of ability--a +strong man, and yet you cause me all this trouble! You came here and I +felt absolutely enraged against you--not because I was your friend, I +confess it, but through selfishness. I look upon our interests as +identical. I said to myself: I owe him so much that he is sure to give +me his assistance when I have such a grand chance--like the one at +this moment! And you are going to let out the whole business and to +lose everything for the sake of a paltry sum! Everything! You are +perhaps right in refusing me the thousand crowns--It is better, +perhaps, to bury them in your coffers with the rest. All right! Send +me to prison! Then, when all is gone, you'll have to look somewhere +else for a friend! + +Goulard (in a tone of self-reproach) +Mercadet!--my dear Mercadet!--But is it actually true? + +Mercadet (rising from his seat) +Is it true? (to his wife) You would not believe he was so stupid. (To +Goulard) She has ended by becoming a daring speculator. (To his wife) +I may tell you, my dear, that Goulard is going to invest a large sum +in our great enterprise. + +Mme. Mercadet (ashamed) +Sir! + +Mercadet +What a misfortune it will be if it does not turn out well. + +Goulard +Mercadet!--Are you talking about the Basse-Indre mines? + +Mercadet +Of course I am. (Aside) Ah! You have some of the Basse-Indre stock, I +see. + +Goulard +But the investment seems to me first-class. + +Mercadet +First-class--Yes, for those who sold out yesterday. + +Goulard +Have any stockholders sold out? + +Mercadet +Yes, privately. + +Goulard +Good-bye. Thanks, Mercadet; madame, accept my respects. + +Mercadet (stopping him) +Goulard! + +Goulard +Eh? + +Mercadet +What about this note to Delannoy? + +Goulard +I will speak to him about the postponement-- + +Mercadet +No; write to him; and in the meantime I will find some one who will +buy your stock. + +Goulard (sitting down) +All my Basse-Indre? (He takes up a pen.) + +Mercadet (aside) +Here you see the honest man, ever ready to rob his neighbor. (Aloud) +Very well, write--ordering a postponement of three months. + +Goulard (writing) +Three months! There you have it. + +Mercadet +The man I allude to, who buys in secret for fear of causing a rise, +wants to get three hundred shares; do you happen to have three +hundred? + +Goulard +I have three hundred and fifty. + +Mercadet +Fifty more! Never mind! He'll take them all. (Examining what Goulard +has written.) Have you mentioned the thousand crowns? + +Goulard +And what is your friend's name? + +Mercadet +His name? You haven't mentioned?-- + +Goulard +His name! + +Mercadet +The thousand crowns. + +Goulard +What a devil of a man he is! (He writes.) There, you have it! + +Mercadet +His name is Pierquin. + +Goulard (rising) +Pierquin. + +Mercadet +He at least is the nominal buyer.--Go to your house and I will send +him to you; it is never a good thing to run after a purchaser. + +Goulard +Never!--You have saved my life. Good-bye, my friend. Madame, accept my +prayers for the happiness of your daughter. (Exit.) + +Mercadet +One of them captured! Now watch me get the others! + + + + SCENE SEVENTH + + +Mme. Mercadet, Mercadet, then Julie. + + +Mme. Mercadet +Is there any truth in what you just now said? I could not quite follow +you. + +Mercadet +It is to the interest of my friend Verdelin to cause a panic in +Basse-Indre stock; this stock has been for a long time very risky and +has suddenly become of first-class value, through the discovery of +certain beds of mineral, which are known only to those on the inside. +--Ah! If I could but invest a thousand crowns in it my fortune would +be made. But, of course, our main object at present is the marriage +of Julie. + +Mme. Mercadet +You are well acquainted with M. de la Brive, are you not? + +Mercadet +I have dined with him. He has a charming apartment, fine plate, a +silver dessert service, bearing his arms, so that it could not have +been borrowed. Our daughter is going to make a fine match, and he +--when either one of a married couple is happy, it is all right. + +(Julie enters.) + +Mme. Mercadet +Here comes our daughter. Julie, your father and I have something to +say to you on a subject which is always agreeable to a young girl. + +Julie +M. Minard has then spoken to you, father? + +Mercadet +M. Minard! Did you expect, madame, to find a M. Minard reigning in the +heart of your daughter? Is not this M. Minard that under clerk of +mine? + +Julie +Yes, papa. + +Mercadet +Do you love him? + +Julie +Yes, papa. + +Mercadet +But besides loving, it is necessary for a person to be loved. + +Mme. Mercadet +Does he love you? + +Julie +Yes, mamma! + +Mercadet +Yes, papa; yes, mamma; why don't you say mammy and daddy?--As soon as +daughters have passed their majority they begin to talk as if they +were just weaned. Be polite enough to address your mother as madame. + +Julie +Yes, monsieur. + +Mercadet +Oh! you may address me as papa. I sha'n't be annoyed at that. What +proof have you that he loves you? + +Julie +The best proof of all; he wishes to marry me. + +Mercadet +It is quite true, as has been said, that young girls, like little +children, have answers ready enough to knock one silly. Let me tell +you, mademoiselle, that a clerk with a salary of eighteen hundred +francs does not know how to love. He hasn't got the time, he has to +work too hard-- + +Mme. Mercadet +But, unhappy child-- + +Mercadet +Ah! A lucky thought strikes me! Let me talk to her. Julie, listen to +me. I will marry you to Minard. (Julie smiles with delight.) Now, look +here, you haven't got a single sou, and you know it; what is going to +become of you a week after your marriage? Have you thought about that? + +Julie +Yes, papa-- + +Mme. Mercadet (with sympathy, to her husband) +The poor child is mad. + +Mercadet +Yes, she is in love. (To Julie) Tell me all about it, Julie. I am not +now your father, but your confidant; I am listening. + +Julie +After our marriage we will still love each other. + +Mercadet +But will Cupid shoot you bank coupons at the end of his arrows? + +Julie +Father, we shall lodge in a small apartment, at the extremity of the +Faubourg, on the fourth story, if necessary!--And if it can't be +helped, I will be his house-maid. Oh! I will take an immense delight +in the care of the household, for I shall know that it will all be +done for him. I will work for him, while he is working for me. I will +spare him every anxiety, and he will never know how straitened we are. +Our home will be spotlessly clean, even elegant--You shall see! +Elegance depends upon such little things; it springs from the soul, +and happiness is at once the cause and the effect of it. I can earn +enough from my painting to cost him nothing and even to contribute to +the expenses of our living. Moreover, love will help us to pass +through the days of hardship. Adolphe has ambition, like all those who +are of lofty soul, and these are the successful men-- + +Mercadet +Success is within reach of the bachelor, but, when a man is married, +he exhausts himself in meeting his expenses, and runs after a thousand +franc bill as a dog runs after a carriage. + +Julie +But, papa, Adolphe has strength of will, united with such capacity +that I feel sure I shall see him some day a Minister, perhaps-- + +Mercadet +In these days, who is there that does not indulge more or less the +hope of being a minister? When a man leaves college he thinks himself +a great poet, or a great orator! Do you know what your Adolphe will +really become?--Why, the father of several children, who will utterly +disarrange your plans of work and economy, who will end by landing his +excellency in the debtor's prison, and who will plunge you into the +most frightful poverty. What you have related to me is the romance and +not the reality of life. + +Mme. Mercadet +Daughter, there can be nothing serious in this love of yours. + +Julie +It is a love to which both of us are willing to sacrifice everything. + +Mercadet +I suppose that your friend Adolphe thinks that we are rich? + +Julie +He has never spoken to me about money. + +Mercadet +Just so. I can quite understand it. (To Julie) Julie, write to him at +once, telling him to come to me. + +Julie (kissing him) +Dear papa! + +Mercadet +And you must marry M. de la Brive. Instead of living on a fourth floor +in a suburb, you will have a fine house in the Chaussee-d'Antin, and, +if you are not the wife of a Minister, you perhaps will be the wife of +a peer of France. I am sorry, my daughter, that I have no more to +offer you. Remember, you can have no choice in the matter, for M. +Minard is going to give you up. + +Julie +Oh! he will never do that, papa. He will win your heart-- + +Mme. Mercadet +My dear, suppose he loves her? + +Mercadet +He is deceiving her-- + +Julie +I shouldn't mind being always deceived in that way. + +(A bell is heard without.) + +Mme. Mercadet +Some one is ringing, and we have no one to open the door. + +Mercadet +That is all right. Let them ring. + +Mme. Mercadet +I am all the time thinking that Godeau may return. + +Mercadet +After eight years without any news, you are still expecting Godeau! +You seem to me like those old soldiers who are waiting for the return +of Napoleon. + +Mme. Mercadet +They are ringing again. + +Mercadet +Julie, go and see who it is, and tell them that your mother and I have +gone out. If any one is shameless enough to disbelieve a young girl +--it must be a creditor--let him come in. + +(Exit Julie.) + +Mme. Mercadet +This love she speaks of, and which, at least on her side, is sincere, +disturbs me greatly. + +Mercadet +You women are all too romantic. + +Julie (returning) +It is M. Pierquin, papa. + +Mercadet +A creditor and usurer--a vile and violent soul, who humors me because +he thinks me a man of resources; a wild beast only half-tamed yet +cowed by my audacity. If I showed fear he would devour me. (Going to +the door.) Come in, Pierquin, come in. + + + + SCENE EIGHTH + + +The same persons and Pierquin. + + +Pierquin +My congratulations to you all. I hear that you are making a grand +marriage for your daughter. Mademoiselle is to marry a millionaire; +the report has already gone abroad. + +Mercadet +A millionaire?--No, he has only nine hundred thousand francs, at the +most. + +Pierquin +This magnificent prospect will induce a lot of people to give you +time. They are becoming devilishly tired of your talk about Godeau's +return. And I myself-- + +Mercadet +Were you thinking about having me arrested? + +Julie +Arrested! + +Mme. Mercadet (to Pierquin) +Ah! sir. + +Pierquin +Now listen to me, you have had two years, and I never before let a +bond go over so long; but this marriage is a glorious invention and-- + +Mme. Mercadet +An invention! + +Mercadet +Sir, my future son-in-law, M. de la Brive, is a young man-- + +Pierquin +So that there is a real young man in the case? How much are you going +to pay the young man? + +Mme. Mercadet +Oh! + +Mercadet (checking his wife by a sign) +No more of this insolence! Otherwise, my dear sir, I shall be forced +to demand a settlement of our accounts--and, my dear M. Pierquin, you +will lose a good deal of the price at which you sold your money to me. +And at the rate of interest you charge, I shall cost you more than the +value of a farm in Bauce. + +Pierquin +Sir-- + +Mercadet (haughtily) +Sir, I shall soon be so rich that I will not endure to be twitted by +any one--not even by a creditor. + +Pierquin +But-- + +Mercadet +Not a word--or I will pay you! Come into my private room and we will +settle the business about which I asked you to come. + +Pierquin +I am at your service, sir. (Aside) What a devil of a man! + +(Pierquin and Mercadet bow to the ladies and enter Mercadet's room.) + +Mercadet (following Pierquin; aside to his wife) +The wild beast is tamed. I'll get this one, too. + + + + SCENE NINTH + + +Mme. Mercadet, Julie, and later, Servants. + + +Julie +O mamma! I cannot marry this M. de la Brive! + +Mme. Mercadet +But he is rich, you know. + +Julie +But I prefer happiness and poverty, to unhappiness and wealth. + +Mme. Mercadet +My child, happiness is impossible in poverty, while there is no +misfortune that wealth cannot alleviate. + +Julie +How can you say such sad words to me? + +Mme. Mercadet +Children should learn a lesson from the experience of parents. We are +at present having a very bitter taste of life's vicissitudes. Take my +advice, daughter, and marry wealth. + +Justin (entering, followed by Therese and Virginie) +Madame, we have carried out the master's orders. + +Virginie +My dinner will be ready. + +Therese +And the tradesmen have consented. + +Justin +As far as concerns M. Verdelin-- + + + + SCENE TENTH + + +The same persons and Mercadet (carrying a bundle of papers). + + +Mercadet +What did my friend Verdelin say? + +Justin +He will be here in a moment. He was just on his way here to bring some +money to M. Bredif, the owner of this house. + +Mercadet +Bredif is a millionaire. Take care that Verdelin speaks to me before +going up to him. How did you get on, Therese, with the milliners and +dressmakers? + +Therese +Sir, as soon as I gave them a promise of payment, every one greeted me +with smiles. + +Mercadet +Very good. And shall we have a fine dinner, Virginie? + +Virginie +You will compliment it, sir, when you eat it. + +Mercadet +And the tradespeople? + +Virginie +They will wait your time. + +Mercadet +I shall settle with you all to-morrow. You can go now. (They go out.) +A man who has his servants with him is like a minister who has the +press on his side! + +Mme. Mercadet +And what of Pierquin? + +Mercadet (showing the papers) +All that I could extort from him is as follows.--He will give me time, +and this negotiable paper in exchange for stock.--Also notes for +forty-seven thousand francs, to be collected from a man named +Michonnin, a gentleman broker, not considered very solvent, who may be +a crook but has a very rich aunt at Bordeaux; M. de la Brive is from +that district and I can learn from him if there is anything to be got +out of it. + +Mme. Mercadet +But the tradesmen will soon arrive. + +Mercadet +I shall be here to receive them. Now leave me, leave me, my dears. + +(Exeunt the two ladies.) + + + + SCENE ELEVENTH + + +Mercadet, then Violette. + + +Mercadet (walking up and down) +Yes, they will soon be here! And everything depends upon that somewhat +slippery friendship of Verdelin--a man whose fortune I made! Ah! when +a man has passed forty he learns that the world is peopled by the +ungrateful--I do not know where all the benefactors have gone to. +Verdelin and I have a high opinion of each other. He owes me +gratitude, I owe him money, and neither of us pays the other. And now, +in order to arrange the marriage of Julie, my business is to find a +thousand crowns in a pocket which pretends to be empty--to find +entrance into a heart in order to find entrance into a cash-box! What +an undertaking! Only women can do such things, and with men who are in +love with them. + +Justin (without) +Yes, he is in. + +Mercadet +It is he. (Violette appears.) Ah! my friend! It is dear old Violette! + +Violette +This is the eleventh call within a week, my dear M. Mercadet, and my +actual necessity has driven me to wait for you three hours in the +street; I thought the truth was told me when I was assured that you +were in the country. But I came to-day-- + +Mercadet +Ah! Violette, old fellow, we are both hard up! + +Violette +Humph! I don't think so. For my part, I've pledged everything I could +put in the pawn-shop. + +Mercadet +So have we. + +Violette +I have never reproached you with my ruin, for I believe it is your +intention to enrich me, as well as yourself; but still, fine words +butter no parsnips, and I am come to implore you to give me a small +sum on account, and by so doing you will save the lives of a whole +family. + +Mercadet +My dear old Violette, you grieve me deeply! Be reasonable and I will +share with you. (In a low voice) We have scarcely a hundred francs in +the house, and even that is my daughter's money. + +Violette +Is it possible! You, Mercadet, whom I have known so rich? + +Mercadet +I conceal nothing from you. + +Violette +Unfortunate people owe it to each other to speak the truth. + +Mercadet +Ah! If that were the only thing they owed how prompt would be the +payment! But keep this as a secret, for I am on the point of making a +good match for my daughter. + +Violette +I have two daughters, sir, and they work without hope of being +married! In your present circumstances I cannot press you, but my wife +and my daughters await my return in the deepest anxiety. + +Mercadet +Stay a moment. I will give you sixty francs. + +Violette +Ah! my wife and my girls will bless you. (Aside, while Mercadet leaves +the room for a moment.) The others who abuse him get nothing out of +him, but by appealing to his pity, little by little I get back my +money. (Chuckles and slaps his pocket.) + +Mercadet (on the point of re-entering sees this action) +The beggarly old miser! Sixty francs on account paid ten times makes +six hundred francs. Come now, I have sown enough, it is time to reap +the harvest. (Aloud) Take this. + +Violette +Sixty francs in gold! It is a long time since I have seen such a sum. +Good-bye, we sha'n't forget to pray for the speedy marriage of Mlle. +Mercadet. + +Mercadet +Good-bye, dear old Violette. (Holding him by the hand.) Poor old man, +when I look at you, I think myself rich--your misfortunes touch me +deeply. And yesterday I thought I would soon be on the point of paying +back to you not only the interest but the principal of what I owe you. + +Violette (turning back) +Paying me back! In full! + +Mercadet +It was a close shave. + +Violette +What was? + +Mercadet +Imagine, my dear fellow, that there exists a most brilliant +opportunity, a most magnificent speculation, the most sublime +discovery--an affair which appeals to the interest of every one, which +will draw upon all the exchanges, and for the realization of which a +stupid banker has refused me the miserable sum of a thousand crowns +--when there is more than a million in sight. + +Violette +A million! + +Mercadet +Yes, a million, from the start. Afterwards no one can calculate where +the rage for protective pavement will stop. + +Violette +Pavement? + +Mercadet +Protective pavement. A pavement on which no barricade can be raised. + +Violette +Really? + +Mercadet +You see, that from henceforth all governments interested in the +preservation of order will become our chief shareholders--Ministers, +princes and kings will be our chief partners. Next come the gods of +finance, the great bankers, those of independent income in commerce +and speculation; even the socialists, seeing that their industry is +ruined, will be forced to buy stocks for a living from me! + +Violette +Yes, it is fine! It is grand! + +Mercadet +It is sublime and philanthropic! And to think I have been refused four +thousand francs, wherewith to send out advertisements and launch my +prospectus! + +Violette +Four thousand francs! I thought it was only-- + +Mercadet +Four thousand francs, no more! And I was to give away for the loan a +half interest in the enterprise--that is to say a fortune! Ten +fortunes! + +Violette +Listen--I will see--I will speak to some one-- + +Mercadet +Speak to no one! Keep it to yourself! The idea would at once be +snatched up--or perhaps they wouldn't understand it so well as you +have immediately done. These money dealers are so stupid. Besides, I +am expecting Verdelin here-- + +Violette +Verdelin--but--we might perhaps-- + +Mercadet +'Twill be lucky for Verdelin, if he has the brains to risk six +thousand francs in it. + +Violette +But you said four thousand just now. + +Mercadet +It was four thousand that they refused me, but I need six thousand! +Six thousand francs, and Verdelin, whom I have already made a +millionaire once, is likely to become so three, four, five times over! +But he will deserve it, for he is a clever fellow, is Verdelin. + +Violette +Mercadet, I will find you the money. + +Mercadet +No, no, don't think of it. Besides, he will be here in a moment, and +if I am to send him away without concluding the business with him, it +will be necessary to have it settled with some one else before +Verdelin comes--and, as that is impossible--good-bye--and good luck--I +shall certainly be able to pay you your thirty thousand francs. + +Violette +But say--why couldn't I--? + +Mme. Mercadet (entering) +M. Verdelin has come, my dear. + +Mercadet (aside) +Good, good! (Aloud) Just detain him a minute. (Mme. Mercadet goes +out.) Well, good-bye, dear old Violette-- + +Violette (pulling out a greasy pocketbook) +Wait a moment--here, I have the money with me--and will give it you +beforehand. + +Mercadet +You! Six thousand francs! + +Violette +A friend asked me to invest it for him, and-- + +Mercadet +And you couldn't find a better opening. We'll sign the contract +presently! (He takes the bills.) This closes the deal--and so much the +worse for Verdelin--he has missed a gold mine! + +Violette +Well, I'll see you later. + +Mercadet +Yes--see you later! You can get out through my study. + +(Mercadet shows Violette the way out. Mme. Mercadet enters.) + +Mme. Mercadet +Mercadet! + +Mercadet (reappearing) +Ah! my dear! I am an unfortunate man! I ought to blow my brains out. + +Mme. Mercadet +Good heavens! What is the matter? + +Mercadet +The matter is that a moment ago I asked this sham bankrupt Violette +for six thousand francs. + +Mme. Mercadet +And he refused to give them to you? + +Mercadet +On the contrary, he handed them over. + +Mme. Mercadet +What, then, do you mean? + +Mercadet +I am an unlucky man, as I told you, because he gave them so quickly +that I could have gotten ten thousand if I had only known it. + +Mme. Mercadet +What a man you are! I suppose you know that Verdelin is waiting for +you. + +Mercadet +Beg him to come in. At last I have Julie's trousseau; and we now need +only enough money for your dresses and for household expenses until +the marriage. Send in Verdelin. + +Mme. Mercadet +Yes, he is your friend, and of course you will gain your end with him. + +(Exit Mme. Mercadet.) + +Mercadet (alone) +Yes, he is my friend! And he has all the pride that comes with +fortune; but he has never had a Godeau (looking round to see if he is +alone). After all, Godeau! I really believe that Godeau has brought me +in more money than he has taken from me. + + + + SCENE TWELFTH + + +Mercadet and Verdelin. + + +Verdelin +Good-day, Mercadet. What is doing now? Tell me quickly for I was +stopped here on my way up-stairs to Bredif's apartment. + +Mercadet +Oh, he can wait! How is it that you are going to see a man like +Bredif? + +Verdelin (laughing) +My dear friend, if people only visited those they esteem they would +make no visits at all. + +Mercadet (laughing and taking his hand) +A man wouldn't go even into his own house. + +Verdelin +But tell me what you want with me? + +Mercadet +Your question is so sudden that it hasn't left me time to gild the +pill. + +Verdelin +Oh! my old comrade. I have nothing, and I am frank to say that even if +I had I could give you nothing. I have already lent you all that my +means permit me to dispose of; I have never asked you for payment, for +I am your friend as well as your creditor, and indeed, if my heart did +not overflow in gratitude towards you, if I had not been a man +different from ordinary men, the creditor would long ago have killed +the man. I tell you everything has a limit in this world. + +Mercadet +Friendship has a limit, that's certain; but not misfortune. + +Verdelin +If I were rich enough to save you altogether, to cancel your debt +entirely, I would do so with all my heart, for I admire your courage. +But you are bound to go under. Your last schemes, although cleverly +projected, have collapsed. You have ruined your reputation, you are +looked upon as a dangerous man. You have not known how to take +advantage of the momentary success of your operations. When you are +utterly beggared, you will always find bread at my house; but it is +the duty of a friend to speak these plain truths. + +Mercadet +What would be the advantage of friendship unless it gave us the +pleasure of finding ourselves in the right, and seeing a friend in the +wrong--of being comfortable ourselves and seeing our friend in +difficulties and of paying compliment to ourselves by saying +disagreeable things to him? Is it true then that I am little thought +of on 'Change? + +Verdelin +I do not say so much as that. No; you still pass for an honest man, +but necessity is forcing you to adopt expedients-- + +Mercadet +Which are not justified by the success which luckier men enjoy! Ah, +success! How many outrageous things go to make up success. You'll +learn that soon enough. Now, for instance, this morning I began to +bear the market on the mines of Basse-Indre, in order that you may +gain control of that enterprise before the favorable report of the +engineers is published. + +Verdelin +Hush, Mercadet, can this be true? Ah! I see your genius there! (Puts +his arm around him.) + +Mercadet +I say this in order that you may understand that I have no need of +advice, or of moralizing,--merely of money. Alas! I do not ask any +thing of you for myself, my dear friend, but I am about to make a +marriage for my daughter, and here we are actually, although secretly, +fallen into absolute destitution. We are in a house where poverty +reigns under the appearance of luxury. The power of promises, and of +credit, all is exhausted! And if I cannot pay in cash for certain +necessary expenses, this marriage must be broken off. All I went here +is a fortnight of opulence, just as all that you want is twenty-four +hours of lying on the Exchange. Verdelin, this request will never be +repeated, for I have only one daughter. Must I confess it to you? My +wife and daughter are absolutely destitute of clothes! (Aside) He is +hesitating. + +Verdelin (aside) +He has played me so many tricks that I really do not know whether his +daughter is doing to be married or not. How can she marry? + +Mercadet +This very day I have to give a dinner to my future son-in-law, whom a +mutual friend is introducing to us, and I haven't even my plate +remaining in the house. It is--you know where it is--I not only need a +thousand crowns, but I also hope that you will lend me your dinner +service and come and dine here with your wife. + +Verdelin +A thousand crowns! Mercadet! No one has a thousand crowns to lend. One +scarcely has them for himself; if he were to lend them whenever he was +asked, he would never have them. (He retires to the fire-place.) + +Mercadet (following him, aside) +He will yet come to the scratch. (Aloud) Now look here, Verdelin, I +love my wife and my daughter; these sentiments, my friend, are my sole +consolation in the midst of my recent disasters; these women have been +so gentle, so patient! I should like to see them placed beyond the +reach of distress. Oh! It is on this point that my sufferings are most +real! (They walk to the front of the stage arm in arm.) I have +recently drunk the cup of bitterness, I have slipped upon my wooden +pavement,--I organized a monopoly and others drained me of everything! +But, believe me, this is nothing in comparison with the pain of seeing +you refuse me help in this extremity! Nevertheless, I am not going to +dwell upon the consequences--for I do not wish to owe anything to your +pity. + +Verdelin (taking a seat) +A thousand crowns! But what purpose would you apply them to? + +Mercadet (aside) +I shall get them. (Aloud) My dear fellow, a son-in-law is a bird who +is easily frightened away. The absence of one piece of lace on a dress +reveals everything to them. The ladies' costumes are ordered, the +merchants are on the point of delivering them--yes, I was rash enough +to say that I would pay for everything, for I counted on you! +Verdelin, a thousand crowns won't kill you, for you have sixty +thousand francs a year. And the life of a young girl of whom you are +fond is now at stake--for you are fond of Julie! She has a sincere +attachment for your little girl, they play together like the happiest +of creatures. Would you let the companion of your daughter pine away +with despair? Misfortune is contagious! It brings evil on all around! + +Verdelin +My dear fellow, I have not a thousand crowns. I can lend you my plate; +but I have not-- + +Mercadet +You can give me your note on the bank. It is soon signed-- + +Verdelin (rising) +I--no-- + +Mercadet +Ah! my poor daughter! It is all over. (Falls back overcome in an +armchair near the table.) God forgive me, if I put an end to the +painful dream of life, and let me awaken in Thy bosom! + +Verdelin (after a short silence) +But-- Have you really found a son-in-law? + +Mercadet (rising abruptly to his feet) +You ask if I have found a son-in-law! You actually throw a doubt upon +this! You may refuse me, if you like, the means of effecting the +happiness of my daughter, but do not insult me! I am fallen low +indeed! O Verdelin! I would not for a thousand crowns have had such an +idea of you, and you can never win absolution from me excepting by +giving them. + +Verdelin (wishing to leave) +I must go and see if I can-- + +Mercadet +No! This is only another way of refusing me! Can I believe it? Will +not you whom I have seen spend the same sum upon some such trifle as a +passing love affair--will you not apply the thousand crowns to the +performance of a good action? + +Verdelin (laughing) +At the present time there are very few good actions, or transactions. + +Mercadet +Ha! Ha! Ha! How witty! You are laughing, I see there is a reaction! + +Verdelin +Ha! Ha! Ha! (He drops his hat.) + +Mercadet (picking up the hat and dusting it with his sleeve) +Come now, old fellow. Haven't we seen life! We two began it together. +What a lot of things we have said and done! Don't you recollect the +good old time when we swore to be friends always through thick and +thin? + +Verdelin +Indeed, I do. And don't you recollect our party at Rambouillet, where +I fought an officer of the Guard on your account? + +Mercadet +I thought it was for the lovely Clarissa! Ah! But we were gay! We were +young! And to-day we have our daughters, daughters old enough to +marry! If Clarissa were alive now, she would blame your hesitation! + +Verdelin +If she had lived, I should never have married. + +Mercadet +Because you know what love is, that you do! So I may count upon you +for dinner, and you give me your word of honor that you will send me-- + +Verdelin +The plate? + +Mercadet +And the thousand crowns-- + +Verdelin +Ah! You still harp upon that! I have told you I cannot do it. + +Mercadet (aside) +It is certain that this fellow will never die of heart failure. +(Aloud) And so it seems I am to be murdered by my best friend? Alas! +It is always thus! You are actually untouched by the memory of +Clarissa--and by the despair of a father! (He cries out towards the +chamber of his wife.) Ah! it is all over! I am in despair! I am going +to blow my brains out! + + + + SCENE THIRTEENTH + + +The same persons, Mme. Mercadet and Julie. + + +Mme. Mercadet +What on earth is the matter with you, my dear? + +Julie +How your voice frightened us, papa! + +Mercadet +They heard us! See how they come, like two guardian angels! (He takes +them by the hand.) Ah! you melt my heart! (To Verdelin) Verdelin! Do +you wish to slay a whole family? This proof of their tenderness gives +me courage to fall at your feet. + +Julie +Oh, sir! (She checks her father.) It is I who will implore you for +him. Whatever may be his demand, do not refuse my father; he must, +indeed, be in the most terrible anguish! + +Mercadet +Dear child! (Aside) In what accents does she speak! I couldn't speak +so naturally as that. + +Mme. Mercadet +M. Verdelin, listen to us-- + +Verdelin (to Julie) +You don't know what he is asking, do you? + +Julie +No. + +Verdelin +He is asking for a thousand crowns, in order to arrange your marriage. + +Julie +Then, forget, sir, all that I said to you; I do not wish for a +marriage which has been purchased by the humiliation of my father. + +Mercadet (aside) +She is magnificent! + +Verdelin +Julie! I will go at once and get the money for you. (Exit.) + + + + SCENE FOURTEENTH + + +The same persons, except Verdelin; then the servants. + + +Julie +Oh, father! Why did you not tell me? + +Mercadet (kissing her) +You have saved us all! Ah! when shall I be so rich and powerful that I +may make him repent of a favor done so grudgingly? + +Mme. Mercadet +Do not be unjust; Verdelin yielded to your request. + +Mercadet +He yielded to the cry of Julie, not to my request. Ah! my dear, he has +extorted from me more than a thousand crowns' worth of humiliation! + +Justin (coming in with Therese and Virginie) +The tradespeople. + +Virginie +The milliner and the dressmaker-- + +Therese +And the dry-goods merchants. + +Mercadet +That is all right! I have succeeded in my scheme! My daughter shall be +Comtesse de la Brive! (To the servants) Show them in! I am waiting, +and the money is ready. (He goes proudly towards his study, while the +servants look at him with surprise.) + + + +Curtain to the First Act. + + + + + ACT II + + + + SCENE FIRST + + +(Mercadet's study, containing book-shelves, a safe, a desk, an +armchair and a sofa.) + +Minard and Justin, then Julie. + + +Minard +Did you say that M. Mercadet wished to speak with me? + +Justin +Yes, sir. But mademoiselle has requested that you await her here. + +Minard (aside) +Her father asks to see me. She wishes to speak to me before the +interview. Something extraordinary must have happened. + +Justin +Mademoiselle is here. + +(Enter Julie.) + +Minard (going towards her) +Mlle. Julie! + +Julie +Justin, inform my father that the gentleman has arrived. (Exit +Justin.) If you wish, Adolphe, that our love should shine as bright in +the sight of all as it does in our hearts, be as courageous as I have +already been. + +Minard +What has taken place? + +Julie +A rich young suitor has presented himself, and my father is acting +without any pity for us. + +Minard +A rival! And you ask me if I have any courage! Tell me his name, +Julie, and you will soon know whether I have any courage. + +Julie +Adolphe! You make me shudder! Is this the way in which you are going +to act with the hope of bending my father? + +Minard (seeing Mercadet approach) +Here he comes. + + + + SCENE SECOND + + +The same persons and Mercadet. + + +Mercadet +Sir, are you in love with my daughter? + +Minard +Yes, sir. + +Mercadet +That is, at least, what she believes, and you seem to have had the +talent to persuade her that it is so. + +Minard +Your manner of expressing yourself implies a doubt on your part, which +in any one else would have been offensive to me. Why should I not love +mademoiselle? Abandoned by my parents, it was from your daughter, sir, +that I have learned for the first time the happiness of affection. +Mlle. Julie is at the same time a sister and a friend to me. She is my +whole family. She alone has smiled upon me and has encouraged me; and +my love for her is beyond what language can express! + +Julie +Must I remain here, father? + +Mercadet (to his daughter) +Swallow it all! (To Minard) Sir, with regard to the love of young +people I have those positive ideas which are considered peculiar to +old men. My distrust of such love is all the more permissible because +I am not the father blinded by paternal affection. I see Julie exactly +as she is; without being absolutely plain, she has none of that beauty +that makes people cry out, "See!" She is quite mediocre. + +Minard +You are mistaken, sir; I venture to say that you do not know your +daughter. + +Mercadet +Permit me-- + +Minard +You do not know her, sir. + +Mercadet +But I know her perfectly well--as if--in a word, I know her-- + +Minard +No, sir, you do not. + +Mercadet +Do you mean to contradict me again, sir? + +Minard +You know the Julie that all the world sees; but love has transfigured +her! Tenderness and devotion lend to her a transporting beauty that I +alone have called up in her. + +Julie +Father, I feel ashamed-- + +Mercadet +You mean you feel happy. And if you, sir, repeat these things-- + +Minard +I shall repeat them a hundred times, a thousand times, and even then I +couldn't repeat them often enough. There is no crime in repeating them +before a father! + +Mercadet +You flatter me! I did believe myself her father; but you are the +father of a Julie whose acquaintance I should very much like to make. + +Minard +You have never been in love, I suppose? + +Mercadet +I have been very much in love! And felt the galling chain of gold like +everybody else. + +Minard +That was long ago. In these days we love in a better way. + +Mercadet +How do you do that? + +Minard +We cling to the soul, to the idea! + +Mercadet +What we used to call under the Empire, having our eyes bandaged. + +Minard +It is love, pure and holy, which can lend a charm to all the hours of +life. + +Mercadet +Yes all!--except the dinner hour. + +Julie +Father, do not ridicule two children who love each other with a +passion which is true and pure, because it is founded upon a knowledge +of each other's character; on the certitude of their mutual ardor in +conquering the difficulties of life; in a word, of two children who +will also cherish sincere affection for you. + +Minard (to Mercadet) +What an angel, sir! + +Mercadet (aside) +I'll angel you! (Putting an arm around each.) Happy children!--You are +absolutely in love? What a fine romance! (To Minard) You desire her +for your wife? + +Minard +Yes, sir. + +Mercadet +In spite of all obstacles? + +Minard +It is mine to overcome them! + +Julie +Father, ought you not to be grateful to me in that by my choice I am +giving you a son full of lofty sentiments, endowed with a courageous +soul, and-- + +Minard +Mademoiselle--Julie. + +Julie +Let me finish; I must have my say. + +Mercadet +My daughter, go and see your mother, and let me speak of matters which +are a great deal more material than these. + +Julie +I will go, father-- + +Mercadet +Come back presently with your mother, my child. + +(Mercadet kisses Julie and leads her to the door.) + +Minard (aside) +I feel my hopes revive. + +Mercadet (returning) +Sir, I am a ruined man. + +Minard +What does that mean? + +Mercadet +Totally ruined. And if you wish to have my Julie, you are welcome to +her. She will be much better off at your house, poor as you are, than +in her paternal home. Not only is she without dowry, but she is +burdened with poor parents--parents who are more than poor. + +Minard +More than poor! There is nothing beyond that. + +Mercadet +Yes, sir, we are in debt, deeply in debt, and some of these debts +clamor for payment. + +Minard +No, no, it is impossible! + +Mercadet +Don't you believe it? (Aside) He is getting frightened. (Taking up a +pile of papers from his desk. Aloud) Here, my would-be son-in-law, are +the family papers which will show you our fortune-- + +Minard +Sir-- + +Mercadet +Or rather our lack of fortune! Read-- Here is a writ of attachment on +our furniture. + +Minard +Can it be possible? + +Mercadet +It is perfectly possible! Here are judgments by the score! Here is a +writ of my arrest. You see in what straits we are! Here you see all my +sales, the protests on my notes and the judgments classed in order +--for, young man, understand well in a disordered condition of things, +order is above all things necessary. When disorder is well arranged it +can be relieved and controlled-- What can a debtor say when he sees +his debt entered up under his number? I make the government my model. +All payments are made in alphabetic order. I have not yet touched the +letter A. (He replaces the papers.) + +Minard +You haven't yet paid anything? + +Mercadet +Scarcely anything. You know the condition of my expenses. You know, +because you are a book-keeper. See, (picking up the papers again) the +total debit is three hundred and eighty thousand. + +Minard +Yes, sir. The balance is entered here. + +Mercadet +You can understand then how you must make me shudder when you come +before my daughter with your fine protestations! Since to marry a poor +girl with nothing but an income of eighteen hundred francs, is like +inviting in wedlock a protested note with a writ of execution. + +Minard (lost in thought) +Ruined, ruined! And without resources! + +Mercadet (aside) +I thought that would upset him. (Aloud) Come, now, young man, what are +you going to do? + +Minard +First, I thank you, sir, for the frankness of your admissions. + +Mercadet +That is good! And what of the ideal, and your love for my daughter? + +Minard +You have opened my eyes, sir. + +Mercadet (aside) +I am glad to hear it. + +Minard +I thought that I already loved her with a love that was boundless, and +now I love her a hundred times more. + +Mercadet +The deuce you do! + +Minard +Have you not led me to understand that she will have need of all my +courage, of all my devotion! I will render her happy by other means +than my tenderness; she shall feel grateful for all my efforts, she +shall love me for my vigils, and for my toils. + +Mercadet +You mean to tell me that you still wish to marry her? + +Minard +Do I wish! When I believed that you were rich, I would not ask her of +you without trembling, without feeling ashamed of my poverty; but now, +sir, it is with assurance and with tranquillity of mind that I ask for +her. + +Mercadet (to himself) +I must admit that this is a love exceedingly true, sincere and noble! +And such as I had believed it impossible to find in the whole world! +(To Minard) Forgive me, young man, for the opinion I had of you +--forgive me, above all, for the disappointment I am about to cause +you. + +Minard +What do you mean? + +Mercadet +M. Minard--Julie--cannot be your wife. + +Minard +What is this, sir? Not be my wife? In spite of our love, in spite of +all you have confided to me? + +Mercadet +Yes, and just because of all I have confided to you. I have shown you +Mercadet the rich man in his true colors. I am going to show you him +as the skeptical man of business. I have frankly opened my books to +you. I am now going to open my heart to you as frankly. + +Minard +Speak out, sir, but remember how great my devotion to Mlle. Julie is. +Remember that my self-sacrifice and unselfishness are equal to my love +for her. + +Mercadet +Let it be granted that by means of night-long vigils and toils you +will make a living for Julie! But who will make a living for us, her +father and mother? + +Minard +Ah! sir--believe in me! + +Mercadet +What! Are you going to work for four, instead of working for only two? +The task will be too much for you! And the bread which you give to us, +you will have to snatch out of the hands of your children-- + +Minard +How wildly you talk! + +Mercadet +And I, in spite of your generous efforts, shall fall, crushed under +the weight of disgraceful ruin. A brilliant marriage for my daughter +is the only means by which I would be enabled to discharge the +enormous sums I owe. It is only thus that in time I could regain +confidence and credit. With the aid of a rich son-in-law I can +reconquer my position, and recuperate my fortune! Why, the marriage of +my daughter is our last anchor of salvation! This marriage is our +hope, our wealth, the prop of our honor, sir! And since you love my +daughter, it is to this very love that I make my appeal. My friend, do +not condemn her to poverty; do not condemn her to a life of regret +over the loss and disgrace which she has brought upon her father! + +Minard (in great distress) +But what do you ask me to do? + +Mercadet (taking him by the hand) +I wish that this noble affection which you have for her, may arm you +with more courage than I myself possess. + +Minard +I will show such courage-- + +Mercadet +Then listen to me. If I refuse Julie to you, Julie will refuse the man +I destine for her. It will be best, therefore, that I grant your +request for her hand, and that you be the one-- + +Minard +I!-- She will not believe it, sir-- + +Mercadet +She will believe you, if you tell her that you fear poverty for her. + +Minard +She will accuse me of being a fortune hunter. + +Mercadet +She will be indebted to you for having secured her happiness. + +Minard (despairingly) +She will despise me, sir! + +Mercadet +That is probable! But if I have read your heart aright, your love for +her is such that you will sacrifice yourself completely to the +happiness of her life. But here she comes, sir, and her mother is with +her. It is on their account that I make this request to you, sir; can +I count on you? + +Minard +You--can. + +Mercadet +Very good--I thank you. + + + + SCENE THIRD + + +The preceding, Julie and Mme. Mercadet. + + +Julie +Come, mother, I am sure that Adolphe has triumphed over all obstacles. + +Mme. Mercadet +My dear, M. Minard has asked of you the hand of Julie. What answer +have you given him? + +Mercadet (going to the desk) +It is for him to say. + +Mercadet (aside) +How can I tell her? My heart is breaking. + +Julie +What have you got to say, Adolphe? + +Minard +Mademoiselle-- + +Julie +Mademoiselle! Am I no longer Julie to you? Oh, tell me quickly. You +have settled everything with my father, have you not? + +Minard +Your father has shown great confidence in me. He has revealed to me +his situation; he has told me-- + +Julie +Go on, please go on-- + +Mercadet +I have told him that we are ruined-- + +Julie +And this avowal has not changed your plans--your love--has it, +Adolphe? + +Minard (ardently) +My love! (Mercadet, without being noticed, seizes his hand.) I should +be deceiving you--mademoiselle--(speaking with great effort)--if I +were to say that my intentions are unaltered. + +Julie +Oh! It is impossible! Can it be you who speak to me in this strain? + +Mme. Mercadet +Julie-- + +Minard (rousing himself) +There are some men to whom poverty adds energy; men capable of daily +self-sacrifice, of hourly toil; men who think themselves sufficiently +recompensed by a smile from a companion that they love--(checking +himself). I, mademoiselle am not one of these. The thought of poverty +dismays me. I--I could not endure the sight of your unhappiness. + +Julie (bursting into tears and flinging herself into the arms of her +mother) +Oh! Mother! Mother! Mother! + +Mme. Mercadet +My daughter--my poor Julie! + +Minard (in a low voice to Mercadet) +Is this sufficient, sir? + +Julie (without looking at Minard) +I should have had courage for both of us. I should always have greeted +you with a smile, I should have toiled without regret, and happiness +would always have reigned in our home. You could never have meant +this, Adolphe. You do not mean it. + +Minard (in a low voice) +Let me go--let me leave the house, sir. + +Mercadet +Come, then. (He retires to the back of the stage.) + +Minard +Good-bye--Julie. A love that would have flung you into poverty is a +thoughtless love. I have preferred to show the love that sacrifices +itself to your happiness-- + +Julie +No, I trust you no longer. (In a low voice to her mother) My only +happiness would have been to be his. + +Justin (announcing visitors) +M. de la Brive! M. de Mericourt! + +Mercadet +Take your daughter away, madame. M. Minard, follow me. (To Justin) Ask +them to wait here for a while. (To Minard) I am well satisfied with +you. + +(Mme. Mercadet and Julie, Mercadet and Minard go out in opposite +directions, while Justin admits Mericourt and De la Brive.) + + + + SCENE FOURTH + + +De la Brive and Mericourt. + + +Justin +M. Mercadet begs that the gentlemen will wait for him here. (Exit.) + +Mericourt +At last, my dear friend, you are on the ground, and you will be very +soon officially recognized as Mlle. Mercadet's intended! Steer your +bark well, for the father is a deep one. + +De la Brive +That is what frightens me, for difficulties loom ahead. + +Mericourt +I do not believe so; Mercadet is a speculator, rich to-day, to-morrow +possibly a beggar. With the little I know of his affairs from his +wife, I am led to believe that he is enchanted with the prospect of +depositing a part of his fortune in the name of his daughter, and of +obtaining a son-in-law capable of assisting him in carrying out his +financial schemes. + +De la Brive +That is a good idea, and suits me exactly; but suppose he wishes to +find out too much about me. + +Mericourt +I have given M. Mercadet an excellent account of you. + +De la Brive +I have fallen upon my feet truly. + +Mericourt +But you are not going to lose the dandy's self-possession? I quite +understand that your position is risky. A man would not marry, +excepting from utter despair. Marriage is suicide for the man of the +world. (In a low voice) Come, tell me--can you hold out much longer? + +De la Brive +If I had not two names, one for the bailiffs and one for the +fashionable world, I should be banished from the Boulevard. Woman and +I, as you know, have wrought each the ruin of the other, and, as +fashion now goes, to find a rich Englishwoman, an amiable dowager, an +amorous gold mine, would be as impossible as to find an extinct +animal. + +Mericourt +What of the gaming table? + +De la Brive +Oh! Gambling is an unreliable resource excepting for certain crooks, +and I am not such a fool as to run the risk of disgrace for the sake +of winnings which always have their limit. Publicity, my dear friend, +has been the abolition of all those shady careers in which fortune +once was to be found. So, that for a hundred thousand francs of +accepted bills, the usurer gives me but ten thousand. Pierquin sent me +to one of his agents, a sort of sub-Pierquin, a little old man called +Violette, who said to my broker that he could not give me money on +such paper at any rate! Meanwhile my tailor has refused to bank upon +my prospects. My horse is living on credit; as to my tiger, the little +wretch who wears such fine clothes, I do now know how he lives, or +where he feeds. I dare not peer into the mystery. Now, as we are not +so advanced in civilization as the Jews, who canceled all debts every +half-century, a man must pay by the sacrifice of personal liberty. +Horrible things will be said about me. Here is a young man of high +esteem in the world of fashion, pretty lucky at cards, of a passable +figure, less than twenty-eight years old, and he is going to marry the +daughter of a rich speculator! + +Mericourt +What difference does it make? + +De la Brive +It is slightly off color! But I am tired of a sham life. I have +learned at last that the only way to amass wealth is to work. But our +misfortune is that we find ourselves quick at everything, but not good +at anything! A man like me, capable of inspiring a passion and of +maintaining it, cannot become either a clerk or a soldier! Society has +provided no employment for us. Accordingly, I am going to set up +business with Mercadet. He is one of the greatest of schemers. You are +sure that he won't give less than a hundred and fifty thousand francs +to his daughter. + +Mericourt +Judge yourself, my dear friend, from the style which Mme. Mercadet +puts on; you see her at all the first nights, in her own box, at the +opera, and her conspicuous elegance-- + +De la Brive +I myself am elegant enough, but-- + +Mericourt +Look round you here--everything indicates opulence--Oh! they are well +off! + +De la Brive +Yet, it is a sort of middle-class splendor, something substantial +which promises well. + +Mericourt +And then the mother is a woman of principle, of irreproachable +behavior. Can you possibly conclude matters to-day? + +De la Brive +I have taken steps to do so. I won at the club yesterday sufficient to +go on with; I shall pay something on the wedding presents, and let the +balance stand. + +Mericourt +Without reckoning my account, what is the amount of your debts? + +De la Brive +A mere trifle! A hundred and fifty thousand francs, which my +father-in-law will cut down to fifty thousand. I shall have a hundred +thousand francs left to begin life on. I always said that I should +never become rich until I hadn't a sou left. + +Mericourt +Mercadet is an astute man; he will question you about your fortune; +are you prepared? + +De la Brive +Am I not the landed proprietor of La Brive? Three thousand acres in +the Landes, which are worth thirty thousand francs, mortgaged for +forty-five thousand and capable of being floated by a stock jobbing +company for some commercial purpose or other, say, as representing a +capital of a hundred thousand crowns! You cannot imagine how much this +property has brought me in. + +Mericourt +Your name, your horse, and your lands seem to me to be on their last +legs. + +De la Brive +Not so loud! + +Mericourt +So you have quite made up your mind? + +De la Brive +Yes, and all the more decidedly in that I am going into politics. + +Mericourt +Really--but you are too clever for that! + +De la Brive +As a preparation I shall take to journalism. + +Mericourt +And you have never written two lines in your life! + +De la Brive +There are journalists who write and journalists who do not write. The +former are editors--and horses that drag the car; the latter, the +proprietors, who furnish the funds; these give oats to their horses +and keep the capital for themselves. I shall be a proprietor. You +merely have to put on a lofty air and exclaim: "The Eastern question +is a question of great importance and of wide influence, one about +which there cannot be two opinions!" You sum up a discussion by +declaiming: "England, sir, will always get the better of us!" or you +make an answer to some one whom you have heard speak for a long time +without paying attention to him: "We are advancing towards an abyss, +we have not yet passed through all the evolutions of the evolutionary +phase!" You say to a representative of labor: "Sir, I think there is +something to be done in this matter." A proprietor of a journal speaks +very little, rushes about and makes himself useful by doing for a man +in power what the latter cannot do himself. He is supposed to inspire +the articles, those I mean, which attract any notice! And then, if it +is absolutely necessary he undertakes to publish a yellow-backed +volume on some Utopian topic, so well written, so strong, that no one +opens it, although every one declares that he has read it! Then he is +looked upon as an earnest man, and ends by finding himself +acknowledged as somebody, instead of something. + +Mericourt +Alas! What you say is too true, in these times! + +De la Brive +And we ourselves are a startling proof of this! In order to claim a +part in political power you must not show what good but what harm you +can do. You must not alone possess talents, you must be able also to +inspire fear. Accordingly, the very day after my marriage, I shall +assume an air of seriousness, of profundity, of high principles! I can +take my choice, for we have in France a list of principles which is as +varied as a bill of fare. I elect to be a socialist! The word pleases +me! At every epoch, my dear friend, there are adjectives which form +the pass-words of ambition! Before 1789 a man called himself an +economist; in 1815 he was a liberal; the next party will call itself +the social party--perhaps because it is so unsocial. For in France you +must always take the opposite sense of a word to understand its +meaning. + +Mericourt +Let me tell you privately, that you are now talking nothing but the +nonsense of masked ball chatter, which passes for wit among those who +do not indulge in it. What are you going to do when a certain definite +knowledge becomes necessary? + +De la Brive +My dear friend! In every profession, whether of art, science or +literature, a man needs intellectual capital, special knowledge and +capacity. But in politics, my dear fellow, a man wins everything and +attains to everything by means of a single phrase-- + +Mericourt +What is that? + +De la Brive +"The principles of my friends, the party for which I stand, look +for--" + +Mericourt +Hush! Here comes the father-in-law! + + + + SCENE FIFTH + + +The same persons and Mercadet. + + +Mercadet +Good-day, my dear Mericourt! (To De la Brive) The ladies have kept you +waiting, sir. Ah! They are putting on their finery. For myself, I was +just on the point of dismissing--whom do you think?--an aspirant to +the hand of Mlle. Julie. Poor young man! I was perhaps hard on him, +and yet I felt for him. He worships my daughter; but what could I do? +He has only ten thousand francs' income. + +De la Brive +That wouldn't go very far! + +Mercadet +A mere subsistence! + +De la Brive +You're not the man to give a rich and clever girl to the first comer-- + +Mericourt +Certainly not. + +Mercadet +Before the ladies come in, gentlemen, we must talk a little serious +business. + +De la Brive (to Mericourt) +Now comes the tug of war! + +(They all sit down.) + +Mercadet (on the sofa) +Are you seriously in love with my daughter? + +De la Brive +I love her passionately! + +Mercadet +Passionately? + +Mericourt (to his friend) +You are over-doing it. + +De la Brive (to Mericourt) +Wait a moment. (Aloud) Sir, I am ambitious--and I saw in Mlle. Julie a +lady at once distinguished, full of intellect, possessed of charming +manners, who would never be out of place in the position in which my +fortune puts me; and such a wife is essential to the success of a +politician. + +Mercadet +I understand! It is easy to find a woman, but it is very rare that a +man who wishes to be a minister or ambassador finds a wife. You are a +man of wit, sir. May I ask your political leaning? + +De la Brive +Sir, I am a socialist. + +Mercadet +That is a new move! But now let us talk of money matters. + +Mericourt +It seems to me that the notary might attend to that. + +De la Brive +No! M. Mercadet is right; it is best that we should attend to these +things ourselves. + +Mercadet +True, sir. + +De la Brive +Sir, my whole fortune consists in the estate which bears my name; it +has been in my family for a hundred and fifty years, and I hope will +never pass from us. + +Mercadet +The possession of capital is perhaps more valuable in these days. +Capital is in your own hand. If a revolution breaks out, and we have +had many revolutions lately, capital follows us everywhere. Landed +property, on the contrary, must furnish funds for every one. There it +stands stock still like a fool to pay the taxes, while capital dodges +out of the way. But this is not real obstacle. What is the amount of +your land? + +De la Brive +Three thousand acres, without a break. + +Mercadet +Without a break? + +Mericourt +Did I not tell you as much? + +Mercadet +I never doubted it. + +De la Brive +A chateau-- + +Mercadet +Good-- + +De la Brive +And salt marshes, which can be worked as soon as the administration +gives permission. They would yield enormous returns! + +Mercadet +Ah, sir, why have we been so late in becoming acquainted! Your land, +then, must be on the seashore. + +De la Brive +Without half a league of it. + +Mercadet +And it is situated? + +De la Brive +Near Bordeaux. + +Mercadet +You have vineyards, then? + +De la Brive +No! fortunately not, for the disposal of wines is a troublesome +matter, and, moreover, the cultivation of the vine is exceedingly +expensive. My estate was planted with pine trees by my grandfather, a +man of genius, who was wise enough to sacrifice himself to the welfare +of his descendants. Besides, I have furniture, which you know-- + +Mercadet +Sir, one moment, a man of business is always careful to dot his i's. + +De la Brive (under his voice) +Now we're in for it! + +Mercadet +With regard to your estate and your marshes,--I see all that can be +got out of these marshes. The best way of utilizing them would be to +form a company for the exploitation of the marshes of the Brive! There +is more than a million in it! + +De la Brive +I quite understand that, sir. They need only to be thrown upon the +market. + +Mercadet (aside) +These words indicate a certain intelligence in this young man. (Aloud) +Have you any debts? Is your estate mortgaged? + +Mericourt +You would not think much of my friend if he had not debts. + +De la Brive +I will be frank, sir, there is a mortgage of forty-five thousand +francs on my estate. + +Mercadet (aside) +An innocent young man! he might easily-- (Rising from his seat. Aloud) +You have my consent; you shall be my son-in-law, and are the very man +I would choose for my daughter's husband. You do not realize what a +fortune you possess. + +De la Brive (to Mericourt) +This is almost too good to be true. + +Mericourt (to De la Brive) +He is dazzled by the good speculation which he sees ahead. + +Mercadet (aside) +With government protection, which can be purchased, salt pits may be +established. I am saved! (Aloud) Allow me to shake hands with you, +after the English fashion. You fulfill all that I expected in a +son-in-law. I plainly see you have none of the narrowness of +provincial land-holders; we shall understand each other thoroughly. + +De la Brive +You must not take it in bad part, sir, if I, on my part, ask you-- + +Mercadet +The amount of my daughter's fortune? I should have distrusted you if +you hadn't asked! My daughter has independent means; her mother +settles on her her own fortune, consisting of a small property--a farm +of two hundred acres, but in the very heart of Brie, and provided with +good buildings. Besides this, I shall give her two hundred thousand +francs, the interest of which will be for your use, until you find a +suitable investment for it. So you see, young man, we do not wish to +deceive you, we wish to keep the money moving; I like you, you please +me, for I see you have ambition. + +De la Brive +Yes, sir. + +Mercadet +You love luxury, extravagance; you wish to shine at Paris-- + +De la Brive +Yes, sir. + +Mercadet +You see that I am already an old man, obliged to lay the load of my +ambition upon some congenial co-operator, and you shall be the one to +play the brilliant part. + +De la Brive +Sir, had I been obliged to take my choice of all the fathers-in-law in +Paris, I should have given the preference to you. You are a man after +my own heart! Allow me to shake hands, after the English fashion! +(They shake hands for the second time.) + +Mercadet (aside) +It seems too good to be true. + +De la Brive (aside) +He fell head-first into my salt marshes! + +Mercadet (aside) +He accepts an income from me! + +(Mercadet retires towards the door on the left side.) + +Mericourt (to De la Brive) +Are you satisfied? + +De la Brive (to Mericourt) +I don't see the money for my debts. + +Mericourt (to De la Brive) +Wait a moment. (To Mercadet) My friend does not dare to tell you of +it, but he is too honest for concealment. He has a few debts. + +Mercadet +Oh, please tell me. I understand perfectly--I suppose it is about +fifty thousand you owe? + +Mericourt +Very nearly-- + +De la Brive +Very nearly-- + +Mercadet +A mere trifle. + +De la Brive (laughing) +Yes, a mere trifle! + +Mercadet +They will serve as a subject of discussion between your wife and you; +yes, let her have the pleasure of-- But, we will pay them all. (Aside) +In shares of the La Brive salt pits. (Aloud) It is so small an amount. +(Aside) We will put up the capital of the salt marsh a hundred +thousand francs more. (Aloud) The matter is settled, son-in-law. + +De la Brive +We will consider it settled, father-in-law. + +Mercadet (aside) +I am saved! + +De la Brive (aside) +I am saved! + + + + SCENE SIXTH + + +The same persons, Mme. Mercadet and Julie. + + +Mercadet +Here are my wife and daughter. + +Mericourt +Madame, allow me to present to you my friend, M. de la Brive, who +regards your daughter with-- + +De la Brive +With passionate admiration. + +Mercadet +My daughter is exactly the woman to suit a politician. + +De la Brive (to Mericourt. Gazing at Julie through his eyeglass) +A fine girl. (To Madame Mercadet) Like mother, like daughter. Madame, +I place my hopes under your protection. + +Mme. Mercadet +Anyone introduced by M. Mericourt would be welcome here. + +Julie (to her father) +What a coxcomb! + +Mercadet (to his daughter) +He is enormously rich. We shall all be millionaires! He is an +excessively clever fellow. Now, do try and be amiable, as you ought to +be. + +Julie (answering him) +What would you wish me to say to a dandy whom I have just seen for the +first time, and whom you destine for my husband? + +De la Brive +May I be permitted to hope, mademoiselle, that you will look favorably +upon me? + +Julie +My duty is to obey my father. + +De la Brive +Young people are not always aware of the feelings which they inspire. +For two months I have been longing for the happiness of paying my +respects to you. + +Julie +Who can be more flattered than I am, sir, to find that I have +attracted your attention? + +Mme. Mercadet (to Mericourt) +He is a fine fellow. (Aloud) We hope that you and your friend M. de la +Brive will do us the pleasure of accepting our invitation to dine +without ceremony? + +Mercadet +To take pot-luck with us. (To De la Brive) You must excuse our +simplicity. + +Justin (entering, in a low voice to Mercadet) +M. Pierquin wishes to speak to you, monsieur. + +Mercadet (low) +Pierquin? + +Justin +He says it is concerning an important and urgent matter. + +Mercadet +What can he want with me? Let him come in. (Justin goes out. Aloud) My +dear, these gentlemen must be tired. Won't you take them into the +drawing-room? M. de la Brive, give my daughter you arm. + +De la Brive +Mademoiselle-- (offers her his arm) + +Julie (aside) +He is handsome, he is rich--why does he choose me? + +Mme. Mercadet +M. de Mericourt, will you come and see the picture which we are going +to raffle off for the benefit of the poor orphans? + +Mericourt +With pleasure, madame. + +Mercadet +Go on. I shall be with you in a moment. + + + + SCENE SEVENTH + + +Mercadet (alone) +Well, after all, this time I have really secured fortune and the +happiness of Julie and the rest of us. For a son-in-law like this is a +veritable gold mine! Three thousand acres! A chateau! Salt marshes! +(He sits down at his desk.) + +Pierquin (entering) +Good-day, Mercadet. I have come-- + +Mercadet +Rather inopportunely. But what do you wish? + +Pierquin +I sha'n't detain you long. The bills of exchange I gave you this +morning, signed by a man called Michonnin, are absolutely valueless. I +told you this beforehand. + +Mercadet +I know that. + +Pierquin +I now offer you a thousand crowns for them. + +Mercadet +That is either too much or too little! Anything for which you will +give that sum must be worth infinitely more. Some one is waiting for +me in the other room. I will bid you good-evening. + +Pierquin +I will give you four thousand francs. + +Mercadet +No! + +Pierquin +Five--six thousand. + +Mercadet +If you wish to play cards, keep to the gambling table. Why do you wish +to recover this paper? + +Pierquin +Michonnin has insulted me. I wish to take vengeance on him; to send +him to jail. + +Mercadet (rising) +Six thousand francs worth of vengeance! You are not a man to indulge +in luxuries of that kind. + +Pierquin +I assure you-- + +Mercadet +Come, now, my friend, consider that for a satisfactory defamation of +character the code won't charge you more than five or six hundred +francs, and the tax on a blow is only fifty francs-- + +Pierquin +I swear to you-- + +Mercadet +Has this Michonnin come into a legacy? And are the forty-seven +thousand francs of these vouchers actually worth forty-seven thousand +francs? You should post me on this subject and then we'll cry halves! + +Pierquin +Very well, I agree. The fact of it is, Michonnin is to be married. + +Mercadet +What next! And with whom, pray? + +Pierquin +With the daughter of some nabob--an idiot who is giving her an +enormous dowry. + +Mercadet +Where does Michonnin live? + +Pierquin +Do you want to issue a writ? He is without a fixed abode in Paris. His +furniture is held under the name of a friend; but his legal domicile +must be in the neighborhood of Bordeaux, in the village of Ermont. + +Mercadet +Stay a while. I have some one here from that region. I can get exact +information in a moment--and then we can begin proceedings. + +Pierquin +Send me the paper, and leave the business to me-- + +Mercadet +I shall be very glad to do so. They shall be put into your hands in +return for a signed agreement as to the sharing of the money. I am at +present altogether taken up with the marriage of my daughter. + +Pierquin +I hope everything is going on well. + +Mercadet +Wonderfully well. My son-in-law is a gentleman and, in spite of that, +he is rich. And, although both rich and a gentleman, he is clever into +the bargain. + +Pierquin +I congratulate you. + +Mercadet +One word with you before you go. You said, Michonnin, of Ermont, in +the neighborhood of Bordeaux? + +Pierquin +Yes, he has an old aunt somewhere about there! A good woman called +Bourdillac, who scrapes along on some six hundred francs a year, but +to whom he gives the title of Marchioness of Bourdillac. He pretends +that her health is delicate and that she has a yearly income of forty +thousand francs. + +Mercadet +Thank you. Good-evening-- + +Pierquin +Good-evening. (goes out) + +Mercadet (ringing) +Justin! + +Justin +Did you call, sir? + +Mercadet +Ask M. de la Brive to speak with me for a moment. (Justin goes out.) + +Mercadet +Here is a windfall of twenty-three thousand francs! We shall be able +to arrange things famously for Julie's marriage. + + + + SCENE EIGHTH + + +Mercadet, De la Brive and Justin. + + +De la Brive (to Justin, handing him a letter) +Here, deliver this letter. And this is for yourself. + +Justin (aside) +A louis! Mademoiselle will be sure to have a happy home. (Exit.) + +De la Brive +You wish to speak with me, my dear father-in-law? + +Mercadet +Yes. You see I already treat you without ceremony. Please to take a +seat. + +De la Brive (sitting on a sofa) +I am grateful for your confidence. + +Mercadet +I am seeking information with regard to a debtor, who, like you, lives +in the neighborhood of Bordeaux. + +De la Brive +I know every one in that district. + +Mercadet +It is said he has relations there. + +De la Brive +Relations! I have none but an old aunt. + +Mercadet (pricking up his ears) +An--old aunt--? + +De la Brive +Whose health-- + +Mercadet (trembling) +Is--is--delicate? + +De la Brive +And her income is forty thousand francs. + +Mercadet (quite overcome) +Good Lord! The very figure! + +De la Brive +The Marchioness, you see, will be a good woman to have on hand. I mean +the Marchioness-- + +Mercadet (vehemently rushing at him) +Of Bourdillac, sir! + +De la Brive +How is this? Do you know her name? + +Mercadet +Yes, and yours too! + +De la Brive +The devil you do! + +Mercadet +You are head over ears in debt; your furniture is held in another +man's name; your old aunt has a pittance of six hundred francs; +Pierquin, who is one of your smallest creditors, has forty-seven +thousand francs in notes of hand from you. You are Michonnin, and I am +the idiotic nabob! + +De la Brive (stretching himself at full length on the sofa) +By heavens! You know just as much about it as I do! + +Mercadet +Well--I see that once more the devil has taken a hand in my game. + +De la Brive (aside, rising to his feet) +The marriage is over! I am no longer a socialist; I shall become a +communist. + +Mercadet +And I have been just as easily deceived, as if I had been on the +Exchange. + +De la Brive +Show yourself worthy of your reputation. + +Mercadet +M. Michonnin, your conduct is more than blameworthy! + +De la Brive +In what particular? Did I not say that I had debts? + +Mercadet +We'll let that pass, for any one may have debts; but where is your +estate situated. + +De la Brive +In the Landes. + +Mercadet +And of what does it consist? + +De la Brive +Of sand wastes, planted with firs. + +Mercadet +Good to make toothpicks. + +De la Brive +That's about it. + +Mercadet +And it is worth? + +De la Brive +Thirty thousand francs. + +Mercadet +And mortgaged for-- + +De la Brive +Forty-five thousand! + +Mercadet +And you had the skill to effect that? + +De la Brive +Why, yes-- + +Mercadet +Damnation! But that was pretty clever! And your marshes, sir? + +De la Brive +They border on the sea-- + +Mercadet +They are part of the ocean! + +De la Brive +The people of that country are evil-minded enough to say so. That is +what hinders my loans! + +Mercadet +It would be very difficult to issue ocean shares! Sir, I may tell you, +between ourselves, that your morality seems to me-- + +De la Brive +Somewhat-- + +Mercadet +Risky. + +De la Brive (in anger) +Sir! (calming himself) Let this be merely between ourselves! + +Mercadet +You gave a friend a bill of sale of your furniture, you sign your +notes of hand with the name of Michonnin, and you call yourself merely +De la Brive-- + +De la Brive +Well, sir, what are you going to do about it? + +Mercadet +Do about it? I am going to lead you a pretty dance-- + +De la Brive +Sir, I am your guest! Moreover, I may deny everything-- What proofs +have you? + +Mercadet +What proofs! I have in my hands forty-seven thousand francs' worth of +your notes. + +De la Brive +Are they signed to the order of Pierquin? + +Mercadet +Precisely so. + +De la Brive +And you have had them since this morning? + +Mercadet +Since this morning. + +De la Brive +I see. You have given worthless stock in exchange for valueless notes. + +Mercadet +Sir! + +De la Brive +And, in order to seal the bargain, Pierquin, one of the least +important of your creditors, has given you a delay of three months. + +Mercadet +Who told you that? + +De la Brive +Who? Who? Pierquin himself, of course, as soon as he learned I was +going to make an arrangement-- + +Mercadet +The devil he did! + +De la Brive +Ah! You were going to give two hundred thousand francs as a dowry to +your daughter, and you had debts to the amount of three hundred and +fifty thousand! Between ourselves it looks like you who had been +trying to swindle the son-in-law, sir-- + +Mercadet (angrily) +Sir! (calming himself) This is merely between ourselves, sir. + +De la Brive +You took advantage of my inexperience! + +Mercadet +Of course I did! The inexperience of a man who raises a loan on his +sand wastes fifty per cent above their value. + +De la Brive +Glass can be made out of sand! + +Mercadet +That's a good idea! + +De la Brive +Therefore, sir-- + +Mercadet +Silence! Promise me that this broken marriage-contract shall be kept +secret. + +De la Brive +I swear it shall-- Ah! excepting to Pierquin. I have just written to +him to set his mind at rest. + +Mercadet +Is that the letter you sent by Justin? + +De la Brive +The very one. + +Mercadet +And what have you told him? + +De la Brive +The name of my father-in-law. Confound it!--I thought you were rich. + +Mercadet (despairingly) +And you have written that to Pierquin? It's all up! This fresh defeat +will be known on the Exchange! But, any way, I am ruined! Suppose I +write to him-- Suppose I ask him-- (He goes to the table to write.) + + + + SCENE NINTH + + +The same persons, Mme. Mercadet, Julie and Verdelin. + + +Mme. Mercadet +My friend, M. Verdelin. + +Julie (to Verdelin) +Here is my father, sir. + +Mercadet +Ah! It is you, is it, Verdelin--and you are come to dinner? + +Verdelin +No, I am not come to dinner. + +Mercadet (aside) +He knows all. He is furious! + +Verdelin +And this gentleman is your son-in-law? (Verdelin bows to De la Brive.) +This is a fine marriage you are going to make! + +Mercadet +The marriage, my dear sir, is not going to take place. + +Julie +How happy I feel! + +(De la Brive bows to Julie. She casts down her eyes.) + +Mme. Mercadet (seizing her hand) +My dear daughter! + +Mercadet +I have been deceived by Mericourt. + +Verdelin +And you have played on me one of your tricks this morning, for the +purpose of getting a thousand crowns; but the whole incident has been +made public on the Exchange, and they think it a huge joke! + +Mercadet +They have been informed, I suppose-- + +Verdelin +That your pocket-book is full of the notes of hand signed by your +son-in-law. And Pierquin tells me that your creditors are exasperated, +and are to meet to-night at the house of Goulard to conclude measures +for united action against you to-morrow! + +Mercadet +To-night! To-morrow! Ah! I hear the knell of bankruptcy sound! + +Verdelin +Yes, to-morrow they are going to send a prison cab for you. + +Mme. Mercadet and Julie +God help us! + +Mercadet +I see the carriage, the hearse of the speculator, carrying me to +Clichy! + +Verdelin +They wish, as far as possible, to rid the Exchange of all sharpers! + +Mercadet +They are fools, for in that case they will turn it into a desert! And +so I am ruined! Expelled from the Exchange with all the sequelae of +bankruptcy,--shame, beggary! I cannot believe it--it is impossible! + +De la Brive +Believe me, sir, that I regret having been in some degree-- + +Mercadet (looking him in the face) +You! (in a low voice to him) Listen to me: you have hurried on my +destruction, but you have it in your power to help me to escape. + +De la Brive +On what conditions? + +Mercadet +I will make you a good offer! (Aloud, as they start toward opposite +doors) True, the idea is a bold one! But to-morrow, the 'Change will +recognize in me one of its master spirits. + +Verdelin +What is he talking about? + +Mercadet +To-morrow, all my debts will be paid, and the house of Mercadet will +be turning over millions! I shall be acknowledged as the Napoleon of +finance. + +Verdelin +What a man he is! + +Mercadet +And a Napoleon who meets no Waterloo! + +Verdelin +But where are your troops? + +Mercadet +My army is cash in hand! What answer can be made to a business man who +says, "Take your money!" Come let us dine now. + +Verdelin +Certainly. I shall be delighted to dine with you. + +Mercadet (while they all move towards the dining-room, aside) +They are all glad of it! To-morrow I will either command millions, or +rest in the damp winding-sheet of the Seine! + + + +Curtain to the Second Act. + + + + + ACT III + + + + SCENE FIRST + + +(Another apartment in Mercadet's house, well furnished. At the back +and in the centre is a mantel-piece, having instead of a mirror a +clear plate of glass; side doors; a large table, surrounded by chairs, +in the middle of the stage; sofa and armchairs.) + +Justin, Therese and Virginie, then Mercadet. + + +(Justin enters first and beckons to Therese. Virginie, carrying +papers, sits insolently on the sofa. Justin looks through the keyhole +of the door on the left side and listens.) + +Therese +Is it possible that they could pretend to conceal from us the +condition of their affairs? + +Virginie +Old Gruneau tells me that the master is soon to be arrested; I hope +that what I have spent will be taken account of, for he owes me the +money for these bills, besides my wages! + +Therese +Oh! set your mind at rest. We are likely to lose everything, for the +master is bankrupt. + +Justin +I can't hear anything. They speak too low! They don't trust us. + +Virginie +It is frightful! + +Justin (with his ear to the half-open door) +Wait, I think I hear something. + +(The door bursts open and Mercadet appears.) + +Mercadet (to Justin) +Don't let me disturb you. + +Justin +Sir, I--I--was just putting-- + +Mercadet +Really! (To Virginie, who jumps up suddenly from the sofa) Keep your +seat, Mlle. Virginie, and you, M. Justin, why didn't you come in? We +were talking about my business. + +Justin +You amuse me, sir. + +Mercadet +I am heartily glad of it. + +Justin +You take trouble easy, sir. + +Mercadet (severely) +That will do, all of you. And remember that from this time forth I see +all who call. Treat no one either with insolence or too much humility, +for you will meet here no creditors, but such as have been paid. + +Justin +Oh, bosh! + +Mercadet +Go! + +(The central door opens. Mme. Mercadet, Julie and Minard appear. The +servants leave the room.) + + + + SCENE SECOND + + +Mercadet, Mme. Mercadet, Julie and Minard. + + +Mercadet (aside) +I am annoyed to see my wife and daughter here. In my present +circumstances, women are likely to spoil everything, for they have +nerves. (Aloud) What is it, Mme. Mercadet? + +Mme. Mercadet +Sir, you were counting on the marriage of Julie to establish your +credit and reassure your creditors, but the event of yesterday has put +you at their mercy-- + +Mercadet +Do you think so? Well, you are quite mistaken. I beg your pardon, M. +Minard, but what brings you here? + +Minard +Sir--I-- + +Julie +Father--it is-- + +Mercadet +Are you come to ask again for my daughter? + +Minard +Yes, sir. + +Mercadet +But everybody says that I am going to fail-- + +Minard +I know it, sir. + +Mercadet +And would you marry the daughter of a bankrupt? + +Minard +Yes, for I would work to re-establish him. + +Julie +That's good, Adolphe. + +Mercadet (aside) +A fine young fellow. I will give him an interest in the first big +business I do. + +Minard +I have made known my attachment to the man I look upon as a father. He +has informed me--that I am the possessor of a small fortune-- + +Mercadet +A fortune! + +Minard +When I was confided to his care, a sum of money was entrusted to him, +which has increased by interest, and I now possess thirty thousand +francs. + +Mercadet +Thirty thousand francs! + +Minard +On learning of the disaster that had befallen you, I realized this +sum, and I bring it to you, sir; for sometimes in these cases an +arrangement can be made by paying something on account-- + +Mme. Mercadet +He has an excellent heart! + +Julie (with pride) +Yes, indeed, papa! + +Mercadet +Thirty thousand francs. (Aside) They might be tripled by buying some +of Verdelin's stock and then doubled with-- No, no. (To Minard) My +boy, you are at the age of self-sacrifice. If I could pay two hundred +francs with thirty thousand, the fortune of France, of myself and of +most people would be made. No, keep your money! + +Minard +What! You refuse it? + +Mercadet (aside) +If with this I could keep them quiet for a month, if by some bold +stoke I could revive the depression in my property, it might be all +right. But the money of these poor children, it cuts me to the heart +to think of it, for when they are in tears people calculate amiss; it +is not well to risk the money of any but fellow-brokers--no--no +(Aloud) Adolphe, you may marry my daughter. + +Minard +Oh! Sir--Julie--my own Julie-- + +Mercadet +That is, of course, as soon as she has three hundred thousand francs +as dowry. + +Mme. Mercadet +My dear! + +Julie +Papa! + +Minard +Ah, sir! How long are you going to put me off? + +Mercadet +Put you off? She will have it in a month! Perhaps sooner-- + +All +How is that? + +Mercadet +Yes, by the use of my brains--and a little money. (Minard holds out +his pocket-book.) But lock up those bills! And come, take away my wife +and daughter. I want to be alone. + +Mme. Mercadet (aside) +Is he going to hatch some plot against his creditors? I must find out. +Come, Julie. + +Julie +Papa, how good you are! + +Mercadet +Nonsense! + +Julie +I love you so much. + +Mercadet +Nonsense! + +Julie +Adolphe, I do not thank you, I shall have all my life for that. + +Minard +Dearest Julie! + +Mercadet (leading them out) +Come, now, you had better breathe out your idyls in some more retired +spot. + +(They go out.) + + + + SCENE THIRD + + +Mercadet, then De la Brive. + + +Mercadet +I have resisted--it was a good impulse! But I was wrong to obey it. If +I finally yield to the temptation, I can make their little capital +worth very much more. I shall manage this fortune for them. My poor +daughter has indeed a good lover. What hearts of gold are theirs! Dear +children! (Goes towards the door at the right.) I must make their +fortune. De la Brive is here awaiting me. (Looking through the open +door) I believe he is asleep. I gave him a little too much wine, so as +to handle him more easily. (Shouting) Michonnin! The constable! The +constable! + +De la Brive (coming out, rubbing his eyes) +Hello! What are you saying? + +Mercadet +Don't be frightened, I only wanted to wake you up. (Takes his seat at +the table.) + +De la Brive (sitting at the other side of the table) +Sir, an orgie acts on the mind like a storm on the country. It brings +on refreshment, it clothes with verdure! And ideas spring forth and +bloom! _In vino varietas_! + +Mercadet +Yesterday, our conversation on business matters was interrupted. + +De la Brive +Father-in-law, I recall it distinctly--we recognized the fact that our +houses could not keep their engagements. We were on the point of +bankruptcy, and you are unfortunate enough to be my creditor, while I +am fortunate enough to be your debtor by the amount of forty-seven +thousand, two hundred and thirty-three francs and some centimes. + +Mercadet +Your head is level enough. + +De la Brive +But my pocket and my conscience are a little out. Yet who can reproach +me? By squandering my fortune I have brought profit to every trade in +Paris, and even to those who do not know me. We, the useless ones! We, +the idlers! Upon my soul! It is we who keep up the circulation of +money-- + +Mercadet +By means of the money in circulation. Ah! you have all your wits about +you! + +De la Brive +But I have nothing else. + +Mercadet +Our wits are our mint. Is it not so? But, considering your present +situation, I shall be brief. + +De la Brive +That is why I take a seat. + +Mercadet +Listen to me. I see that you are going down the steep way which leads +to that daring cleverness for which fools blame successful operators. +You have tasted the piquant intoxicating fruits of Parisian pleasure. +You have made luxury the inseparable companion of your life. Paris +begins at the Place de l'Etoile, and ends at the Jockey Club. That is +your Paris, which is the world of women who are talked about too much, +or not at all. + +De la Brive +That is true. + +Mercadet +You breathe the cynical atmosphere of wits and journalists, the +atmosphere of the theatre and of the ministry. It is a vast sea in +which thousands are casting their nets! You must either continue this +existence, or blow your brains out! + +De la Brive +No! For it is impossible to think that it can continue without me. + +Mercadet +Do you feel that you have the genius to maintain yourself in style at +the height to which you aspire? To dominate men of mind by the power +of capital and superiority of intellect? Do you think that you will +always have skill enough to keep afloat between the two capes, which +have seen the life of elegance so often founder between the cheap +restaurant and the debtors' prison? + +De la Brive +Why! You are breaking into my conscience like a burglar--you echo my +very thought! What do you want with me? + +Mercadet +I wish to rescue you, by launching you into the world of business. + +De la Brive +By what entrance? + +Mercadet +Let me choose the door. + +De la Brive +The devil! + +Mercadet +Show yourself a man who will compromise himself for me-- + +De la Brive +But men of straw may be burnt. + +Mercadet +You must be incombustible. + +De la Brive +What are the terms of our copartnership? + +Mercadet +You try to serve me in the desperate circumstances in which I am at +present, and I will make you a present of your forty-seven thousand, +two hundred and thirty-three francs, to say nothing of the centimes. +Between ourselves, I may say that only address is needed. + +De la Brive +In the use of the pistol or the sword? + +Mercadet +No one is to be killed; on the contrary-- + +De la Brive +That will suit me. + +Mercadet +A man is to be brought to life again. + +De la Brive +That doesn't suit me at all, my dear fellow. The legacy, the chest of +Harpagon, the little mule of Scapin and, indeed, all the farces which +have made us laugh on the ancient stage are not well received nowadays +in real life. The police have a way of getting mixed up with them, and +since the abolition of privileges, no one can administer a drubbing +with impunity. + +Mercadet +Well, what do you think of five years in debtors' prison? Eh? What a +fate! + +De la Brive +As a matter of fact, my decision must depend upon what you want me to +do to any one, for my honor so far is intact and is worth-- + +Mercadet +You must invest it well, for we shall have dire need of all that it is +worth. I want you to assist me in sitting at the table which the +Exchange always keeps spread, and we will gorge ourselves with the +good things there offered us, for you must admit that while those who +seek for millions have great difficulty in finding them, they are +never found by those who do not seek. + +De la Brive +I think I can co-operate with you in this matter. You will return to +me my forty-seven thousand francs-- + +Mercadet +Yes, sir. + +De la Brive +I am not required to be anything but be--very clever? + +Mercadet +Nimble, but this nimbleness will be exercised, as the English say, on +the right side of the law. + +De la Brive +What is it you propose? + +Mercadet (giving him a paper) +Here are your written instructions. You are to represent something +like an uncle from America--in fact, my partner, who has just come +back from the West Indies. + +De la Brive +I understand. + +Mercadet +Go to the Champs-Elysees, secure a post-chaise that has been much +battered, have horses harnessed to it, and make your arrival here +wrapped in a great pelisse, your head enveloped in a huge cap, while +you shiver like a man who finds our summer icy cold. I will receive +you; I will conduct you in; you will speak to my creditors; not one of +them knows Godeau; you will make them give me more time. + +De la Brive +How much time? + +Mercadet +I need only two days--two days, in order that Pierquin may complete +certain purchases which we have ordered. Two days in order that the +stock which I know how to inflate may have time to rise. You will be +my backer, my security. And as no one will recognize you-- + +De la Brive +I shall cease to be this personage as soon as I have paid you +forty-seven thousand, two hundred and thirty-three francs and some +centimes. + +Mercadet +That is so. But I hear some one--my wife-- + +Mme. Mercadet (enters) +My dear, there are some letters for you, and the bearer requires an +answer. + +(Mme. Mercadet withdraws to the fireplace.) + +Mercadet +I suppose I must go. Good-day, my dear De la Brive. (In a low voice) +Not a word to my wife; she would not understand the operation, and +would misconstrue it. (Aloud) Go quickly, and forget nothing. + +De la Brive +You need have no fear. + +(Mercadet goes out by the left; De la Brive starts to go out by the +centre, but Mme. Mercadet intercepts him.) + + + + SCENE FOURTH + + +Mme. Mercadet and De la Brive. + + +De la Brive +Madame? + +Mme. Mercadet +Forgive me, sir! + +De la Brive +Kindly excuse me, madame, I must be going-- + +Mme. Mercadet +You must not go. + +De la Brive +But you are not aware-- + +Mme. Mercadet +I know all. + +De la Brive +How is that? + +Mme. Mercadet +You and my husband are bent upon resorting to some very ancient +expedients proper to the comic drama, and I have employed one which is +more ancient still. And as I told you, I know all-- + +De la Brive (aside) +She must have been listening. + +Mme. Mercadet +Sir, the part which you have been induced to undertake is blameworthy +and shameful, and you must give it up-- + +De la Brive +But after all, madame-- + +Mme. Mercadet +Oh! I know to whom I am speaking, sir; it was only a few hours ago +that I saw you for the first time, and yet--I think I know you. + +De la Brive +Really? I am sure I do not know what opinion you have of me. + +Mme. Mercadet +One day has given me time to form a correct judgment of you--and at +the very time that my husband was trying to discover some foible in +you he might make use of, or what evil passions he might rouse in you, +I looked in your heart and discerned that it still contained good +feelings which eventually may prove your salvation. + +De la Brive +Prove my salvation? Excuse me, madame. + +Mme. Mercadet +Yes, sir, prove your salvation and that of my husband; for both of you +are on the way to ruin. For you must understand that debts are no +disgrace to any one who admits them and toils for their payment. You +have your whole life before you, and you have too much good sense to +wish that it should be blighted through engaging in a business which +justice is sure to punish. + +De la Brive +Justice! Ah! You are right, madame, and I certainly would not lend +myself to this dangerous comedy, unless your husband had some notes of +hand of mine-- + +Mme. Mercadet +Which he will surrender to you, sir, I'll promise you that. + +De la Brive +But, madame, I cannot pay them-- + +Mme. Mercadet +We will be satisfied with your word, and you will discharge your +obligation as soon as you have honestly made your fortune. + +De la Brive +Honestly! That will be perhaps a long time to wait. + +Mme. Mercadet +We will be patient. And now, sir, go and inform my husband that he +must give up this attempt because he will not have your co-operation. +(She goes towards the door on the left.) + +De la Brive +I should be rather afraid to face him-- I should prefer to write to +him. + +Mme. Mercadet (pointing out to him the door by which he entered) +You will find the necessary writing materials in that room. Remain +there until I come for your letter. I will hand it to him myself. + +De la Brive +I will do so, madame. After all I am not so worthless as I thought I +was. It is you who have taught me this; you have a right to the whole +credit of it. (He respectfully kisses her hand.) Thank you, madame, +thank you! (He goes out.) + +Mme. Mercadet +I have succeeded--if only I could now persuade Mercadet. + +Justin (entering from the center) +Madame--madame--here they are--all of them. + +Mme. Mercadet +Who? + +Justin +The creditors. + +Mme. Mercadet +Already? + +Justin +There are a great many of them, madame. + +Mme. Mercadet +Let them come in here. I will go and inform my husband. + +(Mme. Mercadet goes out by one door. Justin opens the other.) + + + + SCENE FIFTH + + +Pierquin, Goulard, Violette and several other creditors. + + +Goulard +Gentlemen, we have quite made up our minds, have we not? + +All +We have, we have-- + +Pierquin +No more deluding promises. + +Goulard +No more prayers and expostulations. + +Violette +No more pretended payments on account, thrown out as a bait to get +deeper into our pockets. + + + + SCENE SIXTH + + +The same persons and Mercadet. + + +Mercadet +And do you mean to tell me that you gentlemen are come to force me +into bankruptcy? + +Goulard +We shall do so, unless you find means to pay us in full this very day. + +Mercadet +To-day! + +Pierquin +This very day. + +Mercadet (standing before the fireplace) +Do you think that I possess the plates for striking off Bank of France +notes? + +Violette +You mean that you have no offer to make? + +Mercadet +Absolutely none! And you are going to lock me up? I warn him who is +going to pay for the cab that he won't be reimbursed from any assets +of mine. + +Goulard +I shall add that along with all that you owe me to the debit of your +account-- + +Mercadet +Thank you. You've all made up your mind, I suppose? + +The Creditors +We have. + +Mercadet +I am touched by your unanimity! (pulling out his watch) Two o'clock. +(Aside) De la Brive has had quite time enough--he ought to be on his +way here. (Aloud) Gentlemen, you compel me to admit that you are men +of inspiration and have chosen your time well! + +Pierquin +What does he mean? + +Mercadet +For months, for years, you have allowed yourselves to be humbugged by +fine promises, and deceived--yes, deceived by preposterous stories; +and to-day is the day you choose for showing yourselves inexorable! +Upon my word and honor, it is positively amusing! By all means let us +start for Clichy. + +Goulard +But, sir-- + +Pierquin +He is laughing. + +Violette (rising from his chair) +There is something in the wind. Gentlemen, there is something in the +wind! + +Pierquin +Please explain to us-- + +Goulard +We desire to know-- + +Violette (rising to his feet) +M. Mercadet, if there is anything--tell us about it. + +Mercadet (coming to the table) +Nothing! I shall say nothing, not I--I wish to be put behind the +bars!--I would like to see the figure you all will cut to-morrow or +this evening, when you find he has returned. + +Goulard (rising to his feet) +He has returned? + +Pierquin +Returned from where? + +Violette +Who has returned? + +Mercadet (coming forward) +Nobody has returned. Let us start for Clichy, gentlemen. + +Goulard +But listen, if you are expecting any assistance-- + +Pierquin +If you have any hope that-- + +Violette +Or if even some considerable legacy-- + +Goulard +Come, now! + +Pierquin +Answer-- + +Violette +Tell us-- + +Mercadet +Now, take care, I beg you. You are giving way, you are giving way, +gentlemen, and if I wished to take the trouble, I could win you over +again. Come now, act like genuine creditors! Ridicule the past, forget +the brilliant strokes of business I put within the power of each of +you before the sudden departure of my faithful Godeau-- + +Goulard +His faithful Godeau! + +Pierquin +Ah! If there were only-- + +Mercadet +Forget all that preposterous past, take no account of what might +induce him to return--after being waited for so long--and--let us +start for Clichy, gentlemen, let us start for Clichy! + +Violette +Mercadet, you are expecting Godeau, aren't you? + +Mercadet +No! + +Violette (as with a sudden inspiration) +Gentlemen, he is expecting Godeau! + +Goulard +Can it be true? + +Pierquin +Speak. + +All +Speak! Speak! + +Mercadet (with feeble deprecations) +Why, no, no--yet I do not know--I-- Certainly, it is possible +that some day or other he may return form the Indies with some +--considerable fortune-- (In a decided tone) But I give you my +word of honor that I don't expect Godeau here to-day. + +Violette (excitedly) +Then it must be to-morrow! Gentlemen, he expects him to-morrow! + +Goulard (in a low voice to the others) +Unless this is some fresh trick to gain time and ridicule us-- + +Pierquin (aloud) +Do you think it might be? + +Goulard +It is quite possible. + +Violette (in a loud tone) +Gentlemen, he is fooling us. + +Mercadet (aside) +The devil he is! (Aloud) Come, gentlemen, we had better be starting. + +Goulard +I swear that-- + +(The rumbling of carriage wheels is heard.) + +Mercadet (aside) +At last! (Aloud) Oh, heavens! (He lays his hand upon his heart.) + +A Postillion (outside) +A carriage at the door. + +Mercadet +Ah! (Falls back on a chair near the table.) + +Goulard (looking through the pane of glass above the mantel) +A carriage! + +Pierquin (doing the same) +A post-chaise! + +Violette (doing the same) +Gentlemen, a post-chaise is at the door. + +Mercadet (aside) +My dear De la Brive could not have arrived at a better moment! + +Goulard +See how dusty it is! + +Violette +And battered to the very hood! It must have come from the heart of the +Indies, to be as battered as that. + +Mercadet (mildly) +You don't know what you are talking about, Violette! Why, my good +fellow, people don't arrive from the Indies by land. + +Goulard +But come and see for yourself, Mercadet; a man has stepped out-- + +Pierquin +Enveloped in a large pelisse--do come-- + +Mercadet +No--pardon me. The joy--the excitement--I-- + +Violette +He carries a chest. Oh! what a huge chest! Gentlemen, it is Godeau! I +recognize him by the chest. + +Mercadet +Yes--I was expecting Godeau. + +Goulard +He has come back from Calcutta. + +Pierquin +With a fortune. + +Mercadet +Of incalculable extent! + +Violette +What have I been saying? + +(Violette goes in silence to Mercadet and grasps his hand. The two +others follow his example, and then all the creditors form a ring +round Mercadet.) + +Mercadet (with seeming emotion) +Oh! Gentlemen--my friends--my dear comrades--my children! + + + + SCENE SEVENTH + + +The same persons and Mme. Mercadet. + + +Mme. Mercadet (entering from the left) +Mercadet! My dear! + +Mercadet (aside) +It is my wife. I thought that she had gone out. She is going to ruin +everything! + +Mme. Mercadet +My dear! I see that you don't know what has happened? + +Mercadet +I? No, I don't--if I-- + +Mme. Mercadet +Godeau is returned. + +Mercadet +Ah! You say? (Aside) I wonder if she suspects-- + +Mme. Mercadet +I have seen him--I have spoken to him. It was I who saw him first. + +Mercadet (aside) +De la Brive has won her over! What a man he is! (To Mme. Mercadet, +low) Good, my dear wife, good! You will be our salvation. + +Mme. Mercadet +But you don't understand me, it is really he, it is-- + +Mercadet (in a low voice) +Hush! (Aloud) I must--gentlemen--I must go and welcome him. + +Mme. Mercadet +No--wait, wait a little, my dear; poor Godeau has overtaxed his +strength--scarcely had he reached my apartment when fatigue, +excitement and a nervous attack overcame him-- + +Mercadet +Really! (Aside) How well she does it! + +Violette +Poor Godeau! + +Mme. Mercadet +"Madame," he said to me, "go and see your husband. Bring me back his +pardon; I do not wish to see him face to face, until I have repaired +the past." + +Goulard +That was fine. + +Pierquin +It was sublime. + +Violette +It melts me to tears, gentlemen, it melts me to tears. + +Mercadet (aside) +Look at that! Well! There's a woman worth calling a wife! (Taking her +by the hand) My darling-- Excuse me, gentlemen. (He kisses her on both +cheeks. In a low voice) Things are going on finely. + +Mme. Mercadet (in a low voice) +How lucky this is, my dear! Better than anything you could have +fancied. + +Mercadet +I should think so. (Aside) It is very much better. (Aloud) Go and look +after him, my dear. And you, gentlemen, be good enough to pass into my +office. (He points to the left.) Wait there till we settle our +accounts. + +(Mme. Mercadet goes out.) + +Goulard +I am at your service, my friend-- + +Pierquin +Our excellent friend. + +Violette +Friend, we are at your service. + +Mercadet (supporting himself half-dazed against the table) +What do you think? And people said that I was nothing but a sharper! + +Goulard +You! You are one of the most capable men in Paris. + +Pierquin +Who is bound to make a million--as soon as he has a-- + +Violette +Dear M. Mercadet, we will give you as much time as you want. + +All +Certainly. + +Mercadet +This is a little late--but gentlemen, I thank you as heartily as if +you had said it yesterday morning. Good-day. (In a low voice to +Goulard) Within an hour your stock shall be sold-- + +Goulard +Good! + +Mercadet (in a low voice to Pierquin) +Stay where you are. + +(All the others enter the office.) + +Pierquin +What can I do for you? + + + + SCENE EIGHTH + + +Mercadet and Pierquin. + + +Mercadet +We are now alone. There is no time to lose. The stock of Basse-Indre +went down yesterday. Go to the Exchange, buy up two hundred, three +hundred, four hundred--Goulard will deliver them to you-- + +Pierquin +And for what date, and on what collateral? + +Mercadet +Collateral? Nonsense! This is a cash deal; bring them to me to-day, +and I will pay to-morrow. + +Pierquin +To-morrow? + +Mercadet +To-morrow the stock will have risen. + +Pierquin +I suppose, considering your situation, that you are buying for Godeau. + +Mercadet +Do you think so? + +Pierquin +I presume he gave his orders in the letter which announced his return. + +Mercadet +Possibly so. Ah! Master Pierquin, we are going to take a hand in +business again, and I guess that you will gain from this to the end of +the year something like a hundred thousand francs in brokerage from +us. + +Pierquin +A hundred thousand francs! + +Mercadet +Let the stock be depressed below par, and then buy it in, and +--(handing him a letter) see that this letter appears in the evening +paper. This evening, at Tortoni's, you will see an immediate rise in +the quotations. Now be quick about this. + +Pierquin +I will fly. Good-bye. (Exit.) + + + + SCENE NINTH + + +Mercadet, then Justin. + + +Mercadet +How well everything is going on, when we consider our recent +complications! When Mahomet had three reliable friends (and it was +hard to find them) the whole world was his! I have now won over as my +allies all my creditors, thanks to the pretended arrival of Godeau. +And I gain eight days, which means fifteen, with regard to actual +payment. I shall buy three hundred thousand francs' worth of +Basse-Indre before Verdelin. And when Verdelin asks for some of that +stock, he will find it has risen, for a demand will have raised it +above the current quotation, and I shall make at one stroke six hundred +thousand francs. With three hundred thousand I will pay my creditors +and show myself a Napoleon of finance. (He struts up and down.) + +Justin (from the back of the stage) +Sir-- + +Mercadet +What is it--what do you want, Justin? + +Justin +Sir-- + +Mercadet +Go on! Tell me. + +Justin +M. Violette has offered me sixty francs if I will let him speak with +M. Godeau. + +Mercadet +Sixty francs. (Aside) He fleeced me out of them. + +Justin +I am sure, sir, that you wouldn't like me to lose such a present. + +Mercadet +Let him have his way with you. + +Justin +Ah! sir, but--M. Goulard also--and the others-- + +Mercadet +Do as you like--I give them over into your hands. Fleece them well! + +Justin +I'll do my best. Thank you, sir. + +Mercadet +Let them all see Godeau. (Aside) De la Brive is well able to look +after himself. (Aloud) But, between ourselves, keep Pierquin away. +(Aside) He would recognize his dear friend, Michonnin. + +Justin +I understand, sir. Ah! here is M. Minard. (Exit.) + + + + SCENE TENTH + + +Mercadet and Minard. + + +Minard (coming forward) +Ah, sir! + +Mercadet +Well, M. Minard, and what brings you here? + +Minard +Despair. + +Mercadet +Despair? + +Minard +M. Godeau has come back; and they say that you are now a millionaire! + +Mercadet +Is that the cause of your despair? + +Minard +Yes, sir. + +Mercadet +Well, you are a strange fellow! I disclose to you the fact of my ruin +and you are delighted. You learn that good fortune has returned to me +and you are overwhelmed with despair! And all the while you wish to +enter into my family! Yet you act like my enemy-- + +Minard +It is just my love that makes your good fortune so alarming to me; I +fear all the while that you will now refuse me the hand-- + +Mercadet +Of Julie? My dear Adolphe, all men of business have not put their +heart in their money-bags. Our sentiments are not always to be +reckoned by debit and credit. You offered me the thirty thousand +francs that you possessed--I certainly have no right to reject you on +account of certain millions. (Aside) Which I do not possess! + +Minard +You bring back life to me. + +Mercadet +Well, I suppose that is true, but so much the better, for I am very +fond of you. You are simple, honorable. I am touched, I am delighted. +I am even charmed. Ah! Let me once get hold of my six hundred thousand +francs and--(Sees Pierquin enter) Here they come-- + + + + SCENE ELEVENTH + + +The same persons, Pierquin and Verdelin. + + +Mercadet (leading Pierquin to the front of the stage without perceiving +Verdelin) +Is it all right? + +Pierquin (in some embarrassment) +It is all right. The stock is ours. + +Mercadet (joyfully) +Bravo! + +Verdelin (approaching Mercadet) +Good-day! + +Mercadet +What! Verdelin-- + +Verdelin +I find out that you have bought the stock before me, and that now I +shall have to pay very much higher than I expected; but it is all +right, it was well managed, and I am compelled to cry, "Hail to the +King of the Exchange, Hail to the Napoleon of Finance!" (He laughs +derisively.) + +Mercadet (somewhat abashed) +What does he mean? + +Verdelin +I'm only repeating what you said yesterday-- + +Mercadet +What I said? + +Pierquin +The fact of it is, Verdelin does not believe in the return of Godeau-- + +Minard +Ah, sir! + +Mercadet +Is there any doubt about it? + +Verdelin (ironically) +Doubt about it! There is more than doubt about it. I at once concluded +that this so-called return was the bold stroke that you spoke of +yesterday. + +Mercadet +I--(Aside) Stupid of me! + +Verdelin +I concluded that, relying upon the presence of this fictitious Godeau, +you made purchases with the idea of paying on the rise, which would +follow to-morrow, and that to-day you have actually not a single sou-- + +Mercadet +You had imagined all that? + +Verdelin (approaching the fireplace) +Yes, but when I saw outside that triumphal post-chaise--that model of +Indian manufacture, and I realized that it was impossible to find such +a vehicle in the Champs-Elysees, all my doubts disappeared and-- But +hand him over the bonds, M. Pierquin! + +Pierquin +The--bonds--it happens that-- + +Mercadet (aside) +I must bluff, or I am lost! (Aloud) Certainly, produce the bonds. + +Pierquin +One moment--if what this gentleman has said is true-- + +Mercadet (haughtily) +M. Pierquin! + +Minard +But, gentlemen--M. Godeau is here--I have seen him--I have talked with +him. + +Mercadet (to Pierquin) +He has talked with him, sir. + +Pierquin (to Verdelin) +The fact of it is, I have seen him myself. + +Verdelin +I don't doubt it! By the bye, on what vessel did our friend Godeau say +he arrived? + +Mercadet +By what vessel? It was by the--by the _Triton_-- + +Verdelin +How careless the English newspapers are. They have published the +arrival of no other English mail packet but the _Halcyon_. + +Pierquin +Really! + +Mercadet +Let us end this discussion. M. Pierquin--those bonds-- + +Pierquin +Pardon me, but as you have offered no collateral, I would wish--I do +wish to speak with Godeau. + +Mercadet +You shall not speak with him, sir. I cannot permit you to doubt my +word. + +Verdelin +This is superb. + +Mercadet +M. Minard, go to Godeau-- Tell him that I have obtained an option on +three hundred thousand francs' worth of stock, and ask him to send me +--(with emphasis)--thirty thousand francs for use as a margin. A man +in his position always has such a sum about him. (In a low voice) Do +not fail to bring me the thirty thousand. + +Minard +Yes, sir. (Goes out, through the right.) + +Mercadet (haughtily) +Will that satisfy you, M. Pierquin? + +Pierquin +Certainly, certainly. (To Verdelin) It will be all right when he comes +back. + +Verdelin (rising from his seat) +And you expect that he will bring thirty thousand francs? + +Mercadet +I have a perfect right to be offended by your insulting doubt; but I +am still your debtor-- + +Verdelin +Bosh! You have enough in Godeau's pocket-book wherewith to liquidate; +besides, to-morrow the Basse-Indre will rise above par. It will go up, +up, till you don't know how far it will go. Your letter worked +wonders, and we were obliged to publish on the Exchange the results of +our explorations by boring. The mines will become as valuable as those +of Mons--and--your fortune is made--when I thought I was going to make +mine. + +Mercadet +I now understand your rage. (To Pierquin) And this is the origin of +all the doubtful rumors. + +Verdelin +Rumors which can only vanish before the appearance of Godeau's cash. + + + + SCENE TWELFTH + + +The same persons, Violette and Goulard. + + +Goulard +Ah! my friend! + +Violette (following him) +My dear Mercadet! + +Goulard +What a man this Godeau is! + +Mercadet (aside) +Fine! + +Violette +What high sense of honor he has! + +Mercadet (aside) +That's pretty good! + +Goulard +What magnanimity! + +Mercadet (aside) +Prodigious! + +Verdelin +Have you seen him? + +Violette +Of course, I have! + +Pierquin +Have you spoken to him? + +Goulard +Just as I speak to you. And I have been paid. + +All +Paid! + +Mercadet +Paid? How--how have you been paid? + +Goulard +In full. Fifty thousand in drafts. + +Mercadet (aside) +That I can understand. + +Goulard +And eight thousand francs net, in notes. + +Mercadet +In bank-notes? + +Goulard +Bank-notes. + +Mercadet (aside) +It is past my understanding. Ah! Eight thousand! Minard might have +given them, so that now he'll bring me only twenty-two thousand. + +Violette +And I--I, who would have been willing to make some reduction--I have +been paid in full! + +Mercadet +All! (in a low voice to him) I suppose in drafts? + +Violette +In first-class drafts to the amount of eighteen thousand francs. + +Mercadet (aside) +What a fellow this De la Brive is! + +Violette +And the balance, the other twelve thousand-- + +Verdelin +Yes--the balance? + +Violette +In cash. Here it is. (He shows the bank-notes.) + +Mercadet (aside) +Minard won't bring me more than ten. + +Goulard (taking a seat at the table) +And this very moment he is paying in the same way all your creditors. + +Mercadet +In the same way? + +Violette (taking a seat at the table) +Yes, in drafts, in specie, and in bank-notes. + +Mercadet (forgetting himself) +Lord, have mercy upon me! (Aside) Minard will bring me nothing at all. + +Verdelin +What is the matter with you? + +Mercadet +Me! Nothing--I-- + + + + SCENE THIRTEENTH + + +The same persons and Minard, followed by creditors. + + +Minard +I have done your errand. + +Mercadet (trembling) +And you--have brought me--a few--bank-notes? + +Minard +A few bank-notes? Of course. M. Godeau wouldn't let me even mention +the thirty thousand francs. + +(Goulard and Violette rise. Minard stands before the table, surrounded +by creditors.) + +Mercadet +I can quite understand that. + +Minard +"You mean," he said, "a hundred thousand crowns; here are a hundred +thousand crowns, with my compliments!" (He pulls out a large roll of +bank-notes, which he places on the table.) + +Mercadet (rushing to the table) +What the devil! (Looking at the notes) What is all this about? + +Minard +The three hundred thousand francs. + +Pierquin +My three hundred thousand francs! + +Verdelin +The truth for once! + +Mercadet (astounded) +Three hundred thousand francs! I see them! I touch them! I grasp them! +Three hundred thousand--where did you get them? + +Minard +I told you he gave them to me. + +Mercadet (with vehemence) +He!-- He--! Who is he? + +Minard +Did not I say, M. Godeau? + +Mercadet +What Godeau? Which Godeau? + +Minard +Why the Godeau who has come back from the Indies. + +Mercadet +From the Indies? + +Violette +And who is paying all your debts. + +Mercadet +What is this? I never expected to strike a Godeau of this kind. + +Pierquin +He has gone crazy! + +(All the other creditors gather at the back of the stage. Verdelin +approaches them, and speaks in a low voice.) + +Verdelin (returning to Mercadet) +It's true enough! All are paid in full! + +Mercadet +Paid? Every one of them? (Goes from one to the other and looks at the +bank-notes and the drafts they have.) Yes, all settled with--settled +in full! Ah! I see blue, red, violet! A rainbow seems to surround me. + + + + SCENE FOURTEENTH + + +The same persons, Mme. Mercadet, Julie (entering at one side) and De +la Brive (entering at the other side). + + +Mme. Mercadet +My friend, M. Godeau, feels himself strong enough to see you all. + +Mercadet +Come, daughter, wife, Adolphe, and my other friends, gather round me, +look at me. I know you would not deceive me. + +Julie +What is the matter, father? + +Mercadet +Tell me (seeing De la Brive come in) Michonnin, tell me frankly-- + +De la Brive +Luckily for me, sir, I followed the advice of madame--otherwise you +would have had two Godeaus at a time, for heaven has brought back to +you the genuine man. + +Mercadet +You mean to say then--that he has really returned! + +Verdelin +Do you mean to say that you didn't know it after all? + +Mercadet (recovering himself, standing before the table and touching +the notes) +I--of course I did. Oh, fortune, all hail to thee, queen of monarchs, +archduchess of loans, princess of stocks and mother of credit! All +hail! Thou long sought for, and now for the thousandth time come home +to us from the Indies! Oh! I've always said that Godeau had a mind of +tireless energy and an honest heart! (Going up to his wife and +daughter) Kiss me! + +Mme. Mercadet (in tears) +Ah! dear, dear husband! + +Mercadet (supporting her) +And you, what courage you have shown in adversity! + +Mme. Mercadet +But I am overcome by the happiness of seeing you saved--wealthy! + +Mercadet +But honest! And yet I must tell you my wife, my children--I could not +have held out much longer--I was about to succumb--my mind always on +the rack--always on the defensive--a giant might have yielded. There +were moments when I longed to flee away-- Oh! For some place of +repose! Henceforth let us live in the country. + +Mme. Mercadet +But you will soon grow weary of it. + +Mercadet +No, for I shall be a witness in their happiness. (Pointing to Minard +and Julie.) And after all this financial traffic I shall devote myself +to agriculture; the study of agriculture will never prove tedious. (To +the creditors) Gentlemen, we will continue to be good friends, but +will have no more business transactions. (To De la Brive) M. de la +Brive, let me pay back to you your forty-eight thousand francs. + +De la Brive +Ah! sir-- + +Mercadet +And I will lend you ten thousand more. + +De la Brive +Ten thousand francs? But I don't know when I shall be able-- + +Mercadet +You need have no scruples; take them--for I have a scheme-- + +De la Brive +I accept them. + +Mercadet +Ah! It is one of my dreams. Gentlemen (to the creditors who are +standing in a row) I am a--creditor! + +Mme. Mercadet (pointing to the door) +My dear, he is waiting for us. + +Mercadet +Yes, let us go in. I have so many times drawn your attention to +Godeau, that I certainly have the right to see him. Let us go in and +see Godeau! + + + +Final curtain. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Mercadet, by Honore De Balzac + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MERCADET *** + +***** This file should be named 14296.txt or 14296.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/4/2/9/14296/ + +Produced by Dagny; and John Bickers + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/14296.zip b/old/14296.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a90878a --- /dev/null +++ b/old/14296.zip diff --git a/old/old/14246.20041203.txt b/old/old/14246.20041203.txt new file mode 100644 index 0000000..b61d7a5 --- /dev/null +++ b/old/old/14246.20041203.txt @@ -0,0 +1,5399 @@ +The Project Gutenberg EBook of Mercadet, by Honore De Balzac + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.net + + +Title: Mercadet + A Comedy In Three Acts + +Author: Honore De Balzac + +Release Date: December 3, 2004 [EBook #14246] + +Language: English + +Character set encoding: ASCII + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MERCADET *** + + + + +Produced by Dagny and John Bickers + + + + + + MERCADET + A COMEDY IN THREE ACTS + + BY + + HONORE DE BALZAC + + + + Presented for the First Time in Paris + At the Theatre du Gymnase-Dramatique + August 24, 1851 + + + + PERSONS OF THE PLAY + +Mercadet, a speculator +Madame Mercadet, his wife +Julie, their daughter +Minard, clerk of Mercadet +Verdelin, friend of Mercadet +Goulard, creditor of Mercadet +Pierquin, creditor of Mercadet +Violette, creditor of Mercadet +Mericourt, acquaintance of Mercadet +De la Brive, suitor to Julie +Justin, valet +Therese, lady's maid +Virginie, cook +Various other creditors of Mercadet + + + +SCENE: Paris, in the house of Mercadet + +TIME: About 1845 + + + + + + MERCADET + + + + + ACT I + + + + SCENE FIRST + + +(A drawing-room. A door in the centre. Side doors. At the front, to +the left, a mantel-piece with a mirror. To the right, a window, and +next it a writing-table. Armchairs.) + +Justin, Virginie and Therese + + +Justin (finishing dusting the room) +Yes, my dears, he finds it very hard to swim; he is certain to drown, +poor M. Mercadet. + +Virginie (her basket on her arm) +Honestly, do you think that? + +Justin +He is ruined! And although there is much fat to be stewed from a +master while he is financially embarrassed, you must not forget that +he owes us a year's wages, and we had better get ourselves discharged. + +Therese +Some masters are so frightfully stubborn! I spoke to the mistress +disrespectfully two or three times, and she pretended not to hear me. + +Virginie +Ah! I have been at service in many middle-class houses; but I have +never seen one like this! I am going to leave my stove, and become an +actress in some theatre. + +Justin +All of us here are nothing but actors in a theatre. + +Virginie +Yes, indeed, sometimes one has to put on an air of astonishment, as if +just fallen from the moon, when a creditor appears: "Didn't you know +it, sir?"--"No."--"M. Mercadet has gone to Lyons."--"Ah! He is away?" +--"Yes, his prospects are most brilliant; he has discovered some coal- +mines."--"Ah! So much the better! When does he return?"--"I do not +know." Sometimes I put on an expression as if I had lost the dearest +friend I had in the world. + +Justin (aside) +That would be her money. + +Virginie (pretending to cry) +"Monsieur and mademoiselle are in the greatest distress. It seems that +we are going to lose poor Madame Mercadet. They have taken her away to +the waters! Ah!" + +Therese +And then, there are some creditors who are actual brutes! They speak +to you as if you were the masters! + +Virginie +There's an end of it. I ask them for their bill and tell them I am +going to settle. But now, the tradesmen refuse to give anything +without the money! And you may be sure that I am not going to lend any +of mine. + +Justin +Let us demand our wages. + +Virginie and Therese +Yes, let us demand our wages. + +Virginie +Who are middle-class people? Middle-class people are those who spend a +great deal on their kitchen-- + +Justin +Who are devoted to their servants-- + +Virginie +And who leave them a pension. That is how middle-class people ought to +behave to their servants. + +Therese +The lady of Picardy speaks well. But all the same, I pity mademoiselle +and young Minard, her suitor. + +Justin +M. Mercadet is not going to give his daughter to a miserable +bookkeeper who earns no more than eighteen hundred francs a year; he +has better views for her than that. + +Therese and Virginie +Who is the man he thinks of? + +Justin +Yesterday two fine young gentlemen came here in a carriage, and their +groom told old Gruneau that one of them was going to marry Mlle. +Mercadet. + +Virginie +You don't mean to say so! Are those gentlemen in yellow gloves, with +fine flowered waistcoats, going to marry mademoiselle? + +Justin +Not both of them, lady of Picardy. + +Virginie +The panels of their carriage shone like satin. Their horse had +rosettes here. (She points to her ears.) It was held by a boy of +eight, fair, with frizzed hair and top boots. He looked as sly as a +mouse--a very Cupid, though he swore like a trooper. His master is as +fine as a picture, with a big diamond in his scarf. It ain't possible +that a handsome young man who owns such a turnout as that is going to +be the husband of Mlle. Mercadet? I can't believe it. + +Justin +You don't know M. Mercadet! I, who have been in his house for the last +six years, and have seen him since his troubles fighting with his +creditors, can believe him capable of anything, even of growing rich; +sometimes I say to myself he is utterly ruined! Yellow auction +placards flame at his door. He receives reams of stamped creditor's +notices, which I sell by the pound for waste paper without being +noticed. But presto! Up he bobs again. He is triumphant. And what +devices he has! There is a new one every day! First of all, it is a +scheme for wooden pavements--then it is dukedoms, ponds, mills. I +don't know where the leakage is in his cash box; he finds it so hard +to fill; for it empties itself as easily as a drained wine-glass! And +always crowds of creditors! How well he turns them away! Sometimes I +have seen them come with the intention of carrying off everything and +throwing him into prison. But when he talks to them they end by being +the best of friends, and part with cordial handshakes! There are some +men who can tame jackals and lions. That's not a circumstance; M. +Mercadet can tame creditors! + +Therese +One of them is not quite so easily managed; and that is M. Pierquin. + +Justin +He is a tiger who feeds on bankrupts. And to think of poor old +Violette! + +Virginie +He is both creditor and beggar--I always feel inclined to give him a +plate of soup. + +Justin +And Goulard! + +Therese +A bill discounter who would like very much to--to discount me. + +Virginie (amid a general laugh) +I hear madame coming. + +Justin +Let us keep a civil tongue in our heads, and we shall learn something +about the marriage. + + + + SCENE SECOND + + +The same persons and Mme. Mercadet. + + +Mme. Mercadet +Justin, have you executed the commissions I gave you? + +Justin +Yes, madame, but they refused to deliver the dresses, the hats, and +indeed all the things you ordered until-- + +Virginie +And I also have to inform madame that the tradesmen are no longer +willing-- + +Mme. Mercadet +I understand. + +Justin +The creditors are the cause of the whole trouble. I wish I knew how to +get even with them. + +Mme. Mercadet +The best way to do so would be to pay them. + +Justin +They would be mightily surprised. + +Mme. Mercadet +It is useless to conceal from you the excessive anxiety which I suffer +over the condition of my husband's affairs. We shall doubtless be in +need of your discretion--for we can depend upon you, can we not? + +All +You need not mention it, madame. + +Virginie +We were just saying, what excellent employers we had. + +Therese +And that we would go through fire and water for you! + +Justin +We were saying-- + +(Mercadet appears unnoticed.) + +Mme. Mercadet +Thank you all, you are good creatures. (Mercadet shrugs his +shoulders.) Your master needs only time, he has so many schemes in his +head!--a rich suitor has offered himself for Mlle. Julie, and if-- + + + + SCENE THIRD + + +The same persons and Mercadet. + + +Mercadet (interrupting his wife) +My dearest! (The servants draw back a little. In a low voice to +madame) And so this is how you speak to the servants! To-morrow they +laugh at us. (To Justin) Justin, go at once to M. Verdelin's house, +and ask him to come here, as I want to speak to him about a piece of +business that will not admit of delay. Assume an air of mystery, for I +must have him come. You, Therese, go to the tradesmen of Madame de +Mercadet, and tell them, sharply, that they must send the things that +have been ordered.--They will be paid for--yes--and cash, too--go at +once. (Justin and Therese start.) Ah!--(They stop.) If--these people +come to the house again, ask them to enter. (Mme. Mercadet takes a +seat.) + +Justin +These--these people?-- + +Therese and Virginie +These people? Eh! + +Mercadet +Yes, these people--these creditors of mine!-- + +Mme. Mercadet +How is this, my dear? + +Mercadet (taking a seat opposite his wife) +I am weary of solitude--I want their society. (To Justin and Therese) +That will do. + +(Justin and Therese leave the room.) + + + + SCENE FOURTH + + +Mercadet, Mme. Mercadet and Virginie. + + +Mercadet (to Virginie) +Has madame given you any orders? + +Virginie +No, sir, and besides the tradespeople-- + +Mercadet +I hope you will do yourself credit to-day. We are going to have four +people to dinner--Verdelin and his wife, M. de Mericourt and M. de la +Brive--so there will be seven of us. Such dinners are the glory of +great cooks! You must have a fine fish after the soup, then two +entrees, very delicately cooked-- + +Virginie +But, sir, the trades-- + +Mercadet +For the second course--ah, the second course ought to be at once rich +and brilliant, yet solid. The second course-- + +Virginie +But the tradespeople-- + +Mercadet +Nonsense! You annoy me--To talk about tradespeople on the day when my +daughter and her intended are to meet! + +Virginie +They won't supply anything. + +Mercadet +What have we got to do with tradespeople that won't take our trade? We +must get others. You must go to their competitors, you must give them +my custom, and they will tip you for it. + +Virginie +And how shall I pay those that I am giving up? + +Mercadet +Don't worry yourself about that,--it is my business. + +Virginie +But if they ask me to pay them-- + +Mercadet (aside, rising to his feet) +That girl has money of her own. (Aloud) Virginie, in these days, +credit is the sole wealth of the government. My tradespeople +misunderstand the laws of their country, they will show themselves +unconstitutional and utter radicals, unless they leave me alone.-- +Don't you trouble your head about people who raise an insurrection +against the vital principles of all rightly constituted states! What +you have got to attend to, is dinner,--that is your duty, and I hope +that on this occasion you will show yourself to be what you are, a +first-class cook! And if Mme. Mercadet, when she settles with you on +the day after my daughter's wedding, finds that she owes you anything, +I will hold myself liable for it all. + +Virginie (hesitating) +Sir-- + +Mercadet +Now go about your business. I give you here an opportunity of gaining +an interest of ten per cent every six months!--and that is better than +the savings banks will do for you. + +Virginie +That it is; they only give four per cent a year! + +Mercadet (whispering to his wife) +What did I tell you!--(To Virginie) How can you run the risk of +putting your money into the hands of strangers--You are quite clever +enough to invest it yourself, and here your little nest-egg will +remain in your own possession. + +Virginie +Ten per cent every six months!--I suppose that madame will give me the +particulars with regard to the second course. I must start to work on +it. (Exit.) + + + + SCENE FIFTH + + +Mercadet and Mme. Mercadet + + +Mercadet (watching Virginie as she goes out) +That girl has a thousand crowns of our good money in the savings bank, +so that we needn't worry about the kitchen for awhile. + +Mme. Mercadet +Ah! sir, how can you stoop to such a thing as this? + +Mercadet +Madame, these are mere petty details; don't bother about the means to +an end. You, a little time ago, were trying to control your servants +by kindness, but it is necessary to command and compel them, and to do +it briefly, like Napoleon. + +Mme. Mercadet +How can you order them when you don't pay them? + +Mercadet +You must pay them by a bluff. + +Mme. Mercadet +Sometimes you can obtain by affection what is not attainable by-- + +Mercadet +By affection! Ah! Little do you know the age in which we live--To-day, +madame, wealth is everything, family is nothing; there are no +families, but only individuals! The future of each one is to be +determined by the public funds. A young girl when she needs a dowry no +longer appeals to her family, but to a syndicate. The income of the +King of England comes from an insurance company. The wife depends for +funds, not upon her husband, but upon the savings bank!--Debts are +paid, not to creditors, but to the country, through an agency, which +manages a sort of slave-trade in white people! All our duties are +arranged by coupons--The servants which we exchange for them are no +longer attached to their masters, but if you hold their money they +will be devoted to you. + +Mme. Mercadet +Oh, sir, you who are so honorable, so upright, sometimes say things to +me which-- + +Mercadet +And what is said may also be done, that is what you mean, isn't it? +Undoubtedly I would do anything to save myself, for (he pulls out a +five-franc piece) this represents modern honor. Do you know why the +dramas that have criminals for their heroes are so popular? It is +because all the audience flatter themselves and say, "at any rate, I +am much better than that fellow!" + +Mme. Mercadet +My dear! + +Mercadet +For my part I have an excuse, for I am bearing the burden of my +partner's crime--of that fellow Godeau, who absconded, carrying with +him the cash box of our house!--And besides that, what disgrace is it +to be in debt? What man is there who does not owe his father his +existence? He can never repay that debt. The earth is constantly +bankrupt to the sun. Life, madame, is a perpetual loan! Am I not +superior to my creditors? I have their money, when they can only +expect mine. I do not ask anything of them, and yet they are +constantly importuning me.--A man who does not owe anything is not +thought about by any one, while my creditors take a keen interest in +me. + +Mme. Mercadet +They take rather too much! To owe and to pay is well enough--but to +borrow without any prospect of returning-- + +Mercadet +You feel a great deal of compassion for my creditors, but our +indebtedness to them springs from-- + +Mme. Mercadet +Their confidence in us, sir. + +Mercadet +No, but from their greed of gain! The speculator and the broker are +one and the same--each of them aims at sudden wealth. I have done a +favor to all my creditors, and they all expect to get something out of +me! I should be most unhappy but for the secret consciousness I have +that they are selfish and avaricious--so that you will see in a few +moments how I will make each of them play out his little comedy. (He +sits down.) + +Mme. Mercadet +You have actually ordered them to be admitted? + +Mercadet +That I may meet them as I ought to!--(taking her hand.) I am at the +end of my resources; the time has come for a master-stroke, and Julie +must come to our assistance. + +Mme. Mercadet +What, my daughter! + +Mercadet +My creditors are pressing me, and harassing me. I must manage to make +a brilliant match for Julie. This will dazzle them; they will give me +more time. But in order that this brilliant marriage may take place, +these gentlemen must give me more money. + +Mme. Mercadet +They give you more money! + +Mercadet +Isn't there need of it for the dresses which they are sending to you, +and for the trousseau which I am giving? And a suitable trousseau to +go with the dowry of two hundred thousand francs, will cost fifteen +thousand. + +Mme. Mercadet +But you are utterly unable to give such a dowry. + +Mercadet (rising) +All the more reason why I should give the trousseau. Now this is what +we stand in need of: twelve or fifteen thousand francs for the +trousseau, and a thousand crowns to pay the tradesmen and to prevent +any appearance of straitened circumstances in our house, when M. de la +Brive arrives. + +Mme. Mercadet +How can you count on your creditors for that? + +Mercadet +Don't they now belong to the family? Can you find any relation who is +as anxious as they are to see me wealthy and rich? Relations are +always a little envious of the happiness of the wealth which comes to +us; the creditor's joy alone is sincere. If I were to die, I should +have at my funeral more creditors than relations, and while the latter +carried their mourning in their hearts or on their heads, the former +would carry it in their ledgers and purses. It is here that my +departure would leave a genuine void! The heart forgets, and crape +disappears at the end of a year, but the account which is unpaid is +ineffaceable, and the void remains eternally unfilled. + +Mme. Mercadet +My dear, I know the people to whom you are indebted, and I am quite +certain that you will obtain nothing from them. + +Mercadet +I shall obtain both time and money from them, rest assured of that. +(Mme. Mercadet is perturbed.) Don't you see, my dear, that creditors +when once they have opened their purses are like gamblers who continue +to stake their money in order to recover their first losses? (Growing +excited.) Yes! they are inexhaustible gold mines! If a man has no +father to leave him a fortune, he finds his creditors are so many +indefatigable uncles. + +Justin (entering) +M. Goulard wishes to know if it is true that you desire to see him? + +Mercadet (to his wife) +My message astounded him. (To Justin) Beg him to come in. (Justin goes +out.) Goulard! The most intractable of them all!--who has three +bailiffs in his employ. But fortunately he is a greedy though timid +speculator who engages in the most risky affairs and trembles all the +time they are being conducted. + +Justin (announcing) +M. Goulard! + +(Exit Justin.) + + + + SCENE SIXTH + + +The same persons and Goulard. + + +Goulard (in anger) +Ah! you can be found, sir, when you want to be! + +Mme. Mercadet (aside to her husband) +My dear, how angry he seems! + +Mercadet (making a sign that she should be calm) +This is one of my creditors, my dear. + +Goulard +Yes, and I sha'n't leave this house until you pay me. + +Mercadet (aside) +You sha'n't leave this house until you give me some money--(Aloud) Ah! +you have persecuted me most unkindly--me, a man with whom you have had +such extensive dealings! + +Goulard +Dealings which have not always been to my advantage. + +Mercadet +All the more credit to you, for if advantage were the sole results of +business, everybody would become a money-lender. + +Goulard +I hope you haven't asked me to come here, in order to show me how +clever you are! I know that you are cleverer than I am, for you have +got over me in money matters. + +Mercadet +Well, money matters have some importance. (To his wife) Yes, yes, you +see in this man one who has hunted me as if I were a hare. Come, come, +Goulard, admit it, you have behaved badly. Anybody but myself would +have taken vengeance on you--for of course I could cause you to lose a +considerable sum of money. + +Goulard +So you could, if you didn't pay me; but you shall pay me--your +obligations are now in the hands of the law. + +Mme. Mercadet +Of the law? + +Mercadet +Of the law! You are losing your senses, you don't know what you are +doing, you are ruining us both--yourself and me--at the same time. + +Goulard (anxiously) +How?--You--that of course is possible--but--but--me? + +Mercadet +Both of us, I tell you! Quick, sit down there--write--write--! + +Goulard (mechanically taking his pen) +Write--write what? + +Mercadet +Write to Delannoy that he must make them stay the proceedings, and +give me the thousand crowns which I absolutely need. + +Goulard (throwing down the pen) +That is very likely, indeed! + +Mercadet +You hesitate, and, when I am on the eve of marrying my daughter to a +man immensely wealthy--that is the time you choose to cause my arrest. +And by that means you are killing both your capital and interest! + +Goulard +Ah! you are going to marry your daughter-- + +Mercadet +To the Comte de la Brive; he possesses as many thousand francs as he +is years old! + +Goulard +Then if he is up in years, there is reason for giving you some delay. +But the thousand crowns--the thousand crowns--never.--I am quite +decided on that point. I will give you nothing, neither delay nor--I +must go now-- + +Mercadet (with energy) +Very well! You can go if you like, you ungrateful fellow!--But don't +forget that I have done my best to save you. + +Goulard (turning back) +Me?--To save me--from what? + +Mercadet (aside) +I have him now. (Aloud) From what?--From the most complete ruin. + +Goulard +Ruin? It is impossible. + +Mercadet (taking a seat) +What is the matter with you? You, a man of intelligence, of ability--a +strong man, and yet you cause me all this trouble! You came here and I +felt absolutely enraged against you--not because I was your friend, I +confess it, but through selfishness. I look upon our interests as +identical. I said to myself: I owe him so much that he is sure to give +me his assistance when I have such a grand chance--like the one at +this moment! And you are going to let out the whole business and to +lose everything for the sake of a paltry sum! Everything! You are +perhaps right in refusing me the thousand crowns--It is better, +perhaps, to bury them in your coffers with the rest. All right! Send +me to prison! Then, when all is gone, you'll have to look somewhere +else for a friend! + +Goulard (in a tone of self-reproach) +Mercadet!--my dear Mercadet!--But is it actually true? + +Mercadet (rising from his seat) +Is it true? (to his wife) You would not believe he was so stupid. (To +Goulard) She has ended by becoming a daring speculator. (To his wife) +I may tell you, my dear, that Goulard is going to invest a large sum +in our great enterprise. + +Mme. Mercadet (ashamed) +Sir! + +Mercadet +What a misfortune it will be if it does not turn out well. + +Goulard +Mercadet!--Are you talking about the Basse-Indre mines? + +Mercadet +Of course I am. (Aside) Ah! You have some of the Basse-Indre stock, I +see. + +Goulard +But the investment seems to me first-class. + +Mercadet +First-class--Yes, for those who sold out yesterday. + +Goulard +Have any stockholders sold out? + +Mercadet +Yes, privately. + +Goulard +Good-bye. Thanks, Mercadet; madame, accept my respects. + +Mercadet (stopping him) +Goulard! + +Goulard +Eh? + +Mercadet +What about this note to Delannoy? + +Goulard +I will speak to him about the postponement-- + +Mercadet +No; write to him; and in the meantime I will find some one who will +buy your stock. + +Goulard (sitting down) +All my Basse-Indre? (He takes up a pen.) + +Mercadet (aside) +Here you see the honest man, ever ready to rob his neighbor. (Aloud) +Very well, write--ordering a postponement of three months. + +Goulard (writing) +Three months! There you have it. + +Mercadet +The man I allude to, who buys in secret for fear of causing a rise, +wants to get three hundred shares; do you happen to have three +hundred? + +Goulard +I have three hundred and fifty. + +Mercadet +Fifty more! Never mind! He'll take them all. (Examining what Goulard +has written.) Have you mentioned the thousand crowns? + +Goulard +And what is your friend's name? + +Mercadet +His name? You haven't mentioned?-- + +Goulard +His name! + +Mercadet +The thousand crowns. + +Goulard +What a devil of a man he is! (He writes.) There, you have it! + +Mercadet +His name is Pierquin. + +Goulard (rising) +Pierquin. + +Mercadet +He at least is the nominal buyer.--Go to your house and I will send +him to you; it is never a good thing to run after a purchaser. + +Goulard +Never!--You have saved my life. Good-bye, my friend. Madame, accept my +prayers for the happiness of your daughter. (Exit.) + +Mercadet +One of them captured! Now watch me get the others! + + + + SCENE SEVENTH + + +Mme. Mercadet, Mercadet, then Julie. + + +Mme. Mercadet +Is there any truth in what you just now said? I could not quite follow +you. + +Mercadet +It is to the interest of my friend Verdelin to cause a panic in Basse- +Indre stock; this stock has been for a long time very risky and has +suddenly become of first-class value, through the discovery of certain +beds of mineral, which are known only to those on the inside.--Ah! If +I could but invest a thousand crowns in it my fortune would be made. +But, of course, our main object at present is the marriage of Julie. + +Mme. Mercadet +You are well acquainted with M. de la Brive, are you not? + +Mercadet +I have dined with him. He has a charming apartment, fine plate, a +silver dessert service, bearing his arms, so that it could not have +been borrowed. Our daughter is going to make a fine match, and he-- +when either one of a married couple is happy, it is all right. + +(Julie enters.) + +Mme. Mercadet +Here comes our daughter. Julie, your father and I have something to +say to you on a subject which is always agreeable to a young girl. + +Julie +M. Minard has then spoken to you, father? + +Mercadet +M. Minard! Did you expect, madame, to find a M. Minard reigning in the +heart of your daughter? Is not this M. Minard that under clerk of +mine? + +Julie +Yes, papa. + +Mercadet +Do you love him? + +Julie +Yes, papa. + +Mercadet +But besides loving, it is necessary for a person to be loved. + +Mme. Mercadet +Does he love you? + +Julie +Yes, mamma! + +Mercadet +Yes, papa; yes, mamma; why don't you say mammy and daddy?--As soon as +daughters have passed their majority they begin to talk as if they +were just weaned. Be polite enough to address your mother as madame. + +Julie +Yes, monsieur. + +Mercadet +Oh! you may address me as papa. I sha'n't be annoyed at that. What +proof have you that he loves you? + +Julie +The best proof of all; he wishes to marry me. + +Mercadet +It is quite true, as has been said, that young girls, like little +children, have answers ready enough to knock one silly. Let me tell +you, mademoiselle, that a clerk with a salary of eighteen hundred +francs does not know how to love. He hasn't got the time, he has to +work too hard-- + +Mme. Mercadet +But, unhappy child-- + +Mercadet +Ah! A lucky thought strikes me! Let me talk to her. Julie, listen to +me. I will marry you to Minard. (Julie smiles with delight.) Now, look +here, you haven't got a single sou, and you know it; what is going to +become of you a week after your marriage? Have you thought about that? + +Julie +Yes, papa-- + +Mme. Mercadet (with sympathy, to her husband) +The poor child is mad. + +Mercadet +Yes, she is in love. (To Julie) Tell me all about it, Julie. I am not +now your father, but your confidant; I am listening. + +Julie +After our marriage we will still love each other. + +Mercadet +But will Cupid shoot you bank coupons at the end of his arrows? + +Julie +Father, we shall lodge in a small apartment, at the extremity of the +Faubourg, on the fourth story, if necessary!--And if it can't be +helped, I will be his house-maid. Oh! I will take an immense delight +in the care of the household, for I shall know that it will all be +done for him. I will work for him, while he is working for me. I will +spare him every anxiety, and he will never know how straitened we are. +Our home will be spotlessly clean, even elegant--You shall see! +Elegance depends upon such little things; it springs from the soul, +and happiness is at once the cause and the effect of it. I can earn +enough from my painting to cost him nothing and even to contribute to +the expenses of our living. Moreover, love will help us to pass +through the days of hardship. Adolphe has ambition, like all those who +are of lofty soul, and these are the successful men-- + +Mercadet +Success is within reach of the bachelor, but, when a man is married, +he exhausts himself in meeting his expenses, and runs after a thousand +franc bill as a dog runs after a carriage. + +Julie +But, papa, Adolphe has strength of will, united with such capacity +that I feel sure I shall see him some day a Minister, perhaps-- + +Mercadet +In these days, who is there that does not indulge more or less the +hope of being a minister? When a man leaves college he thinks himself +a great poet, or a great orator! Do you know what your Adolphe will +really become?--Why, the father of several children, who will utterly +disarrange your plans of work and economy, who will end by landing his +excellency in the debtor's prison, and who will plunge you into the +most frightful poverty. What you have related to me is the romance and +not the reality of life. + +Mme. Mercadet +Daughter, there can be nothing serious in this love of yours. + +Julie +It is a love to which both of us are willing to sacrifice everything. + +Mercadet +I suppose that your friend Adolphe thinks that we are rich? + +Julie +He has never spoken to me about money. + +Mercadet +Just so. I can quite understand it. (To Julie) Julie, write to him at +once, telling him to come to me. + +Julie (kissing him) +Dear papa! + +Mercadet +And you must marry M. de la Brive. Instead of living on a fourth floor +in a suburb, you will have a fine house in the Chaussee-d'Antin, and, +if you are not the wife of a Minister, you perhaps will be the wife of +a peer of France. I am sorry, my daughter, that I have no more to +offer you. Remember, you can have no choice in the matter, for M. +Minard is going to give you up. + +Julie +Oh! he will never do that, papa. He will win your heart-- + +Mme. Mercadet +My dear, suppose he loves her? + +Mercadet +He is deceiving her-- + +Julie +I shouldn't mind being always deceived in that way. + +(A bell is heard without.) + +Mme. Mercadet +Some one is ringing, and we have no one to open the door. + +Mercadet +That is all right. Let them ring. + +Mme. Mercadet +I am all the time thinking that Godeau may return. + +Mercadet +After eight years without any news, you are still expecting Godeau! +You seem to me like those old soldiers who are waiting for the return +of Napoleon. + +Mme. Mercadet +They are ringing again. + +Mercadet +Julie, go and see who it is, and tell them that your mother and I have +gone out. If any one is shameless enough to disbelieve a young girl-- +it must be a creditor--let him come in. + +(Exit Julie.) + +Mme. Mercadet +This love she speaks of, and which, at least on her side, is sincere, +disturbs me greatly. + +Mercadet +You women are all too romantic. + +Julie (returning) +It is M. Pierquin, papa. + +Mercadet +A creditor and usurer--a vile and violent soul, who humors me because +he thinks me a man of resources; a wild beast only half-tamed yet +cowed by my audacity. If I showed fear he would devour me. (Going to +the door.) Come in, Pierquin, come in. + + + + SCENE EIGHTH + + +The same persons and Pierquin. + + +Pierquin +My congratulations to you all. I hear that you are making a grand +marriage for your daughter. Mademoiselle is to marry a millionaire; +the report has already gone abroad. + +Mercadet +A millionaire?--No, he has only nine hundred thousand francs, at the +most. + +Pierquin +This magnificent prospect will induce a lot of people to give you +time. They are becoming devilishly tired of your talk about Godeau's +return. And I myself-- + +Mercadet +Were you thinking about having me arrested? + +Julie +Arrested! + +Mme. Mercadet (to Pierquin) +Ah! sir. + +Pierquin +Now listen to me, you have had two years, and I never before let a +bond go over so long; but this marriage is a glorious invention and-- + +Mme. Mercadet +An invention! + +Mercadet +Sir, my future son-in-law, M. de la Brive, is a young man-- + +Pierquin +So that there is a real young man in the case? How much are you going +to pay the young man? + +Mme. Mercadet +Oh! + +Mercadet (checking his wife by a sign) +No more of this insolence! Otherwise, my dear sir, I shall be forced +to demand a settlement of our accounts--and, my dear M. Pierquin, you +will lose a good deal of the price at which you sold your money to me. +And at the rate of interest you charge, I shall cost you more than the +value of a farm in Bauce. + +Pierquin +Sir-- + +Mercadet (haughtily) +Sir, I shall soon be so rich that I will not endure to be twitted by +any one--not even by a creditor. + +Pierquin +But-- + +Mercadet +Not a word--or I will pay you! Come into my private room and we will +settle the business about which I asked you to come. + +Pierquin +I am at your service, sir. (Aside) What a devil of a man! + +(Pierquin and Mercadet bow to the ladies and enter Mercadet's room.) + +Mercadet (following Pierquin; aside to his wife) +The wild beast is tamed. I'll get this one, too. + + + + SCENE NINTH + + +Mme. Mercadet, Julie, and later, Servants. + + +Julie +O mamma! I cannot marry this M. de la Brive! + +Mme. Mercadet +But he is rich, you know. + +Julie +But I prefer happiness and poverty, to unhappiness and wealth. + +Mme. Mercadet +My child, happiness is impossible in poverty, while there is no +misfortune that wealth cannot alleviate. + +Julie +How can you say such sad words to me? + +Mme. Mercadet +Children should learn a lesson from the experience of parents. We are +at present having a very bitter taste of life's vicissitudes. Take my +advice, daughter, and marry wealth. + +Justin (entering, followed by Therese and Virginie) +Madame, we have carried out the master's orders. + +Virginie +My dinner will be ready. + +Therese +And the tradesmen have consented. + +Justin +As far as concerns M. Verdelin-- + + + + SCENE TENTH + + +The same persons and Mercadet (carrying a bundle of papers). + + +Mercadet +What did my friend Verdelin say? + +Justin +He will be here in a moment. He was just on his way here to bring some +money to M. Bredif, the owner of this house. + +Mercadet +Bredif is a millionaire. Take care that Verdelin speaks to me before +going up to him. How did you get on, Therese, with the milliners and +dressmakers? + +Therese +Sir, as soon as I gave them a promise of payment, every one greeted me +with smiles. + +Mercadet +Very good. And shall we have a fine dinner, Virginie? + +Virginie +You will compliment it, sir, when you eat it. + +Mercadet +And the tradespeople? + +Virginie +They will wait your time. + +Mercadet +I shall settle with you all to-morrow. You can go now. (They go out.) +A man who has his servants with him is like a minister who has the +press on his side! + +Mme. Mercadet +And what of Pierquin? + +Mercadet (showing the papers) +All that I could extort from him is as follows.--He will give me time, +and this negotiable paper in exchange for stock.--Also notes for +forty-seven thousand francs, to be collected from a man named +Michonnin, a gentleman broker, not considered very solvent, who may be +a crook but has a very rich aunt at Bordeaux; M. de la Brive is from +that district and I can learn from him if there is anything to be got +out of it. + +Mme. Mercadet +But the tradesmen will soon arrive. + +Mercadet +I shall be here to receive them. Now leave me, leave me, my dears. + +(Exeunt the two ladies.) + + + + SCENE ELEVENTH + + +Mercadet, then Violette. + + +Mercadet (walking up and down) +Yes, they will soon be here! And everything depends upon that somewhat +slippery friendship of Verdelin--a man whose fortune I made! Ah! when +a man has passed forty he learns that the world is peopled by the +ungrateful--I do not know where all the benefactors have gone to. +Verdelin and I have a high opinion of each other. He owes me +gratitude, I owe him money, and neither of us pays the other. And now, +in order to arrange the marriage of Julie, my business is to find a +thousand crowns in a pocket which pretends to be empty--to find +entrance into a heart in order to find entrance into a cash-box! What +an undertaking! Only women can do such things, and with men who are in +love with them. + +Justin (without) +Yes, he is in. + +Mercadet +It is he. (Violette appears.) Ah! my friend! It is dear old Violette! + +Violette +This is the eleventh call within a week, my dear M. Mercadet, and my +actual necessity has driven me to wait for you three hours in the +street; I thought the truth was told me when I was assured that you +were in the country. But I came to-day-- + +Mercadet +Ah! Violette, old fellow, we are both hard up! + +Violette +Humph! I don't think so. For my part, I've pledged everything I could +put in the pawn-shop. + +Mercadet +So have we. + +Violette +I have never reproached you with my ruin, for I believe it is your +intention to enrich me, as well as yourself; but still, fine words +butter no parsnips, and I am come to implore you to give me a small +sum on account, and by so doing you will save the lives of a whole +family. + +Mercadet +My dear old Violette, you grieve me deeply! Be reasonable and I will +share with you. (In a low voice) We have scarcely a hundred francs in +the house, and even that is my daughter's money. + +Violette +Is it possible! You, Mercadet, whom I have known so rich? + +Mercadet +I conceal nothing from you. + +Violette +Unfortunate people owe it to each other to speak the truth. + +Mercadet +Ah! If that were the only thing they owed how prompt would be the +payment! But keep this as a secret, for I am on the point of making a +good match for my daughter. + +Violette +I have two daughters, sir, and they work without hope of being +married! In your present circumstances I cannot press you, but my wife +and my daughters await my return in the deepest anxiety. + +Mercadet +Stay a moment. I will give you sixty francs. + +Violette +Ah! my wife and my girls will bless you. (Aside, while Mercadet leaves +the room for a moment.) The others who abuse him get nothing out of +him, but by appealing to his pity, little by little I get back my +money. (Chuckles and slaps his pocket.) + +Mercadet (on the point of re-entering sees this action) +The beggarly old miser! Sixty francs on account paid ten times makes +six hundred francs. Come now, I have sown enough, it is time to reap +the harvest. (Aloud) Take this. + +Violette +Sixty francs in gold! It is a long time since I have seen such a sum. +Good-bye, we sha'n't forget to pray for the speedy marriage of Mlle. +Mercadet. + +Mercadet +Good-bye, dear old Violette. (Holding him by the hand.) Poor old man, +when I look at you, I think myself rich--your misfortunes touch me +deeply. And yesterday I thought I would soon be on the point of paying +back to you not only the interest but the principal of what I owe you. + +Violette (turning back) +Paying me back! In full! + +Mercadet +It was a close shave. + +Violette +What was? + +Mercadet +Imagine, my dear fellow, that there exists a most brilliant +opportunity, a most magnificent speculation, the most sublime +discovery--an affair which appeals to the interest of every one, which +will draw upon all the exchanges, and for the realization of which a +stupid banker has refused me the miserable sum of a thousand crowns-- +when there is more than a million in sight. + +Violette +A million! + +Mercadet +Yes, a million, from the start. Afterwards no one can calculate where +the rage for protective pavement will stop. + +Violette +Pavement? + +Mercadet +Protective pavement. A pavement on which no barricade can be raised. + +Violette +Really? + +Mercadet +You see, that from henceforth all governments interested in the +preservation of order will become our chief shareholders--Ministers, +princes and kings will be our chief partners. Next come the gods of +finance, the great bankers, those of independent income in commerce +and speculation; even the socialists, seeing that their industry is +ruined, will be forced to buy stocks for a living from me! + +Violette +Yes, it is fine! It is grand! + +Mercadet +It is sublime and philanthropic! And to think I have been refused four +thousand francs, wherewith to send out advertisements and launch my +prospectus! + +Violette +Four thousand francs! I thought it was only-- + +Mercadet +Four thousand francs, no more! And I was to give away for the loan a +half interest in the enterprise--that is to say a fortune! Ten +fortunes! + +Violette +Listen--I will see--I will speak to some one-- + +Mercadet +Speak to no one! Keep it to yourself! The idea would at once be +snatched up--or perhaps they wouldn't understand it so well as you +have immediately done. These money dealers are so stupid. Besides, I +am expecting Verdelin here-- + +Violette +Verdelin--but--we might perhaps-- + +Mercadet +'Twill be lucky for Verdelin, if he has the brains to risk six +thousand francs in it. + +Violette +But you said four thousand just now. + +Mercadet +It was four thousand that they refused me, but I need six thousand! +Six thousand francs, and Verdelin, whom I have already made a +millionaire once, is likely to become so three, four, five times over! +But he will deserve it, for he is a clever fellow, is Verdelin. + +Violette +Mercadet, I will find you the money. + +Mercadet +No, no, don't think of it. Besides, he will be here in a moment, and +if I am to send him away without concluding the business with him, it +will be necessary to have it settled with some one else before +Verdelin comes--and, as that is impossible--good-bye--and good luck--I +shall certainly be able to pay you your thirty thousand francs. + +Violette +But say--why couldn't I--? + +Mme. Mercadet (entering) +M. Verdelin has come, my dear. + +Mercadet (aside) +Good, good! (Aloud) Just detain him a minute. (Mme. Mercadet goes +out.) Well, good-bye, dear old Violette-- + +Violette (pulling out a greasy pocketbook) +Wait a moment--here, I have the money with me--and will give it you +beforehand. + +Mercadet +You! Six thousand francs! + +Violette +A friend asked me to invest it for him, and-- + +Mercadet +And you couldn't find a better opening. We'll sign the contract +presently! (He takes the bills.) This closes the deal--and so much the +worse for Verdelin--he has missed a gold mine! + +Violette +Well, I'll see you later. + +Mercadet +Yes--see you later! You can get out through my study. + +(Mercadet shows Violette the way out. Mme. Mercadet enters.) + +Mme. Mercadet +Mercadet! + +Mercadet (reappearing) +Ah! my dear! I am an unfortunate man! I ought to blow my brains out. + +Mme. Mercadet +Good heavens! What is the matter? + +Mercadet +The matter is that a moment ago I asked this sham bankrupt Violette +for six thousand francs. + +Mme. Mercadet +And he refused to give them to you? + +Mercadet +On the contrary, he handed them over. + +Mme. Mercadet +What, then, do you mean? + +Mercadet +I am an unlucky man, as I told you, because he gave them so quickly +that I could have gotten ten thousand if I had only known it. + +Mme. Mercadet +What a man you are! I suppose you know that Verdelin is waiting for +you. + +Mercadet +Beg him to come in. At last I have Julie's trousseau; and we now need +only enough money for your dresses and for household expenses until +the marriage. Send in Verdelin. + +Mme. Mercadet +Yes, he is your friend, and of course you will gain your end with him. + +(Exit Mme. Mercadet.) + +Mercadet (alone) +Yes, he is my friend! And he has all the pride that comes with +fortune; but he has never had a Godeau (looking round to see if he is +alone). After all, Godeau! I really believe that Godeau has brought me +in more money than he has taken from me. + + + + SCENE TWELFTH + + +Mercadet and Verdelin. + + +Verdelin +Good-day, Mercadet. What is doing now? Tell me quickly for I was +stopped here on my way up-stairs to Bredif's apartment. + +Mercadet +Oh, he can wait! How is it that you are going to see a man like +Bredif? + +Verdelin (laughing) +My dear friend, if people only visited those they esteem they would +make no visits at all. + +Mercadet (laughing and taking his hand) +A man wouldn't go even into his own house. + +Verdelin +But tell me what you want with me? + +Mercadet +Your question is so sudden that it hasn't left me time to gild the +pill. + +Verdelin +Oh! my old comrade. I have nothing, and I am frank to say that even if +I had I could give you nothing. I have already lent you all that my +means permit me to dispose of; I have never asked you for payment, for +I am your friend as well as your creditor, and indeed, if my heart did +not overflow in gratitude towards you, if I had not been a man +different from ordinary men, the creditor would long ago have killed +the man. I tell you everything has a limit in this world. + +Mercadet +Friendship has a limit, that's certain; but not misfortune. + +Verdelin +If I were rich enough to save you altogether, to cancel your debt +entirely, I would do so with all my heart, for I admire your courage. +But you are bound to go under. Your last schemes, although cleverly +projected, have collapsed. You have ruined your reputation, you are +looked upon as a dangerous man. You have not known how to take +advantage of the momentary success of your operations. When you are +utterly beggared, you will always find bread at my house; but it is +the duty of a friend to speak these plain truths. + +Mercadet +What would be the advantage of friendship unless it gave us the +pleasure of finding ourselves in the right, and seeing a friend in the +wrong--of being comfortable ourselves and seeing our friend in +difficulties and of paying compliment to ourselves by saying +disagreeable things to him? Is it true then that I am little thought +of on 'Change? + +Verdelin +I do not say so much as that. No; you still pass for an honest man, +but necessity is forcing you to adopt expedients-- + +Mercadet +Which are not justified by the success which luckier men enjoy! Ah, +success! How many outrageous things go to make up success. You'll +learn that soon enough. Now, for instance, this morning I began to +bear the market on the mines of Basse-Indre, in order that you may +gain control of that enterprise before the favorable report of the +engineers is published. + +Verdelin +Hush, Mercadet, can this be true? Ah! I see your genius there! (Puts +his arm around him.) + +Mercadet +I say this in order that you may understand that I have no need of +advice, or of moralizing,--merely of money. Alas! I do not ask any +thing of you for myself, my dear friend, but I am about to make a +marriage for my daughter, and here we are actually, although secretly, +fallen into absolute destitution. We are in a house where poverty +reigns under the appearance of luxury. The power of promises, and of +credit, all is exhausted! And if I cannot pay in cash for certain +necessary expenses, this marriage must be broken off. All I went here +is a fortnight of opulence, just as all that you want is twenty-four +hours of lying on the Exchange. Verdelin, this request will never be +repeated, for I have only one daughter. Must I confess it to you? My +wife and daughter are absolutely destitute of clothes! (Aside) He is +hesitating. + +Verdelin (aside) +He has played me so many tricks that I really do not know whether his +daughter is doing to be married or not. How can she marry? + +Mercadet +This very day I have to give a dinner to my future son-in-law, whom a +mutual friend is introducing to us, and I haven't even my plate +remaining in the house. It is--you know where it is--I not only need a +thousand crowns, but I also hope that you will lend me your dinner +service and come and dine here with your wife. + +Verdelin +A thousand crowns! Mercadet! No one has a thousand crowns to lend. One +scarcely has them for himself; if he were to lend them whenever he was +asked, he would never have them. (He retires to the fire-place.) + +Mercadet (following him, aside) +He will yet come to the scratch. (Aloud) Now look here, Verdelin, I +love my wife and my daughter; these sentiments, my friend, are my sole +consolation in the midst of my recent disasters; these women have been +so gentle, so patient! I should like to see them placed beyond the +reach of distress. Oh! It is on this point that my sufferings are most +real! (They walk to the front of the stage arm in arm.) I have +recently drunk the cup of bitterness, I have slipped upon my wooden +pavement,--I organized a monopoly and others drained me of everything! +But, believe me, this is nothing in comparison with the pain of seeing +you refuse me help in this extremity! Nevertheless, I am not going to +dwell upon the consequences--for I do not wish to owe anything to your +pity. + +Verdelin (taking a seat) +A thousand crowns! But what purpose would you apply them to? + +Mercadet (aside) +I shall get them. (Aloud) My dear fellow, a son-in-law is a bird who +is easily frightened away. The absence of one piece of lace on a dress +reveals everything to them. The ladies' costumes are ordered, the +merchants are on the point of delivering them--yes, I was rash enough +to say that I would pay for everything, for I counted on you! +Verdelin, a thousand crowns won't kill you, for you have sixty +thousand francs a year. And the life of a young girl of whom you are +fond is now at stake--for you are fond of Julie! She has a sincere +attachment for your little girl, they play together like the happiest +of creatures. Would you let the companion of your daughter pine away +with despair? Misfortune is contagious! It brings evil on all around! + +Verdelin +My dear fellow, I have not a thousand crowns. I can lend you my plate; +but I have not-- + +Mercadet +You can give me your note on the bank. It is soon signed-- + +Verdelin (rising) +I--no-- + +Mercadet +Ah! my poor daughter! It is all over. (Falls back overcome in an +armchair near the table.) God forgive me, if I put an end to the +painful dream of life, and let me awaken in Thy bosom! + +Verdelin (after a short silence) +But-- Have you really found a son-in-law? + +Mercadet (rising abruptly to his feet) +You ask if I have found a son-in-law! You actually throw a doubt upon +this! You may refuse me, if you like, the means of effecting the +happiness of my daughter, but do not insult me! I am fallen low +indeed! O Verdelin! I would not for a thousand crowns have had such an +idea of you, and you can never win absolution from me excepting by +giving them. + +Verdelin (wishing to leave) +I must go and see if I can-- + +Mercadet +No! This is only another way of refusing me! Can I believe it? Will +not you whom I have seen spend the same sum upon some such trifle as a +passing love affair--will you not apply the thousand crowns to the +performance of a good action? + +Verdelin (laughing) +At the present time there are very few good actions, or transactions. + +Mercadet +Ha! Ha! Ha! How witty! You are laughing, I see there is a reaction! + +Verdelin +Ha! Ha! Ha! (He drops his hat.) + +Mercadet (picking up the hat and dusting it with his sleeve) +Come now, old fellow. Haven't we seen life! We two began it together. +What a lot of things we have said and done! Don't you recollect the +good old time when we swore to be friends always through thick and +thin? + +Verdelin +Indeed, I do. And don't you recollect our party at Rambouillet, where +I fought an officer of the Guard on your account? + +Mercadet +I thought it was for the lovely Clarissa! Ah! But we were gay! We were +young! And to-day we have our daughters, daughters old enough to +marry! If Clarissa were alive now, she would blame your hesitation! + +Verdelin +If she had lived, I should never have married. + +Mercadet +Because you know what love is, that you do! So I may count upon you +for dinner, and you give me your word of honor that you will send me-- + +Verdelin +The plate? + +Mercadet +And the thousand crowns-- + +Verdelin +Ah! You still harp upon that! I have told you I cannot do it. + +Mercadet (aside) +It is certain that this fellow will never die of heart failure. +(Aloud) And so it seems I am to be murdered by my best friend? Alas! +It is always thus! You are actually untouched by the memory of +Clarissa--and by the despair of a father! (He cries out towards the +chamber of his wife.) Ah! it is all over! I am in despair! I am going +to blow my brains out! + + + + SCENE THIRTEENTH + + +The same persons, Mme. Mercadet and Julie. + + +Mme. Mercadet +What on earth is the matter with you, my dear? + +Julie +How your voice frightened us, papa! + +Mercadet +They heard us! See how they come, like two guardian angels! (He takes +them by the hand.) Ah! you melt my heart! (To Verdelin) Verdelin! Do +you wish to slay a whole family? This proof of their tenderness gives +me courage to fall at your feet. + +Julie +Oh, sir! (She checks her father.) It is I who will implore you for +him. Whatever may be his demand, do not refuse my father; he must, +indeed, be in the most terrible anguish! + +Mercadet +Dear child! (Aside) In what accents does she speak! I couldn't speak +so naturally as that. + +Mme. Mercadet +M. Verdelin, listen to us-- + +Verdelin (to Julie) +You don't know what he is asking, do you? + +Julie +No. + +Verdelin +He is asking for a thousand crowns, in order to arrange your marriage. + +Julie +Then, forget, sir, all that I said to you; I do not wish for a +marriage which has been purchased by the humiliation of my father. + +Mercadet (aside) +She is magnificent! + +Verdelin +Julie! I will go at once and get the money for you. (Exit.) + + + + SCENE FOURTEENTH + + +The same persons, except Verdelin; then the servants. + + +Julie +Oh, father! Why did you not tell me? + +Mercadet (kissing her) +You have saved us all! Ah! when shall I be so rich and powerful that I +may make him repent of a favor done so grudgingly? + +Mme. Mercadet +Do not be unjust; Verdelin yielded to your request. + +Mercadet +He yielded to the cry of Julie, not to my request. Ah! my dear, he has +extorted from me more than a thousand crowns' worth of humiliation! + +Justin (coming in with Therese and Virginie) +The tradespeople. + +Virginie +The milliner and the dressmaker-- + +Therese +And the dry-goods merchants. + +Mercadet +That is all right! I have succeeded in my scheme! My daughter shall be +Comtesse de la Brive! (To the servants) Show them in! I am waiting, +and the money is ready. (He goes proudly towards his study, while the +servants look at him with surprise.) + + + +Curtain to the First Act. + + + + + ACT II + + + + SCENE FIRST + + +(Mercadet's study, containing book-shelves, a safe, a desk, an +armchair and a sofa.) + +Minard and Justin, then Julie. + + +Minard +Did you say that M. Mercadet wished to speak with me? + +Justin +Yes, sir. But mademoiselle has requested that you await her here. + +Minard (aside) +Her father asks to see me. She wishes to speak to me before the +interview. Something extraordinary must have happened. + +Justin +Mademoiselle is here. + +(Enter Julie.) + +Minard (going towards her) +Mlle. Julie! + +Julie +Justin, inform my father that the gentleman has arrived. (Exit +Justin.) If you wish, Adolphe, that our love should shine as bright in +the sight of all as it does in our hearts, be as courageous as I have +already been. + +Minard +What has taken place? + +Julie +A rich young suitor has presented himself, and my father is acting +without any pity for us. + +Minard +A rival! And you ask me if I have any courage! Tell me his name, +Julie, and you will soon know whether I have any courage. + +Julie +Adolphe! You make me shudder! Is this the way in which you are going +to act with the hope of bending my father? + +Minard (seeing Mercadet approach) +Here he comes. + + + + SCENE SECOND + + +The same persons and Mercadet. + + +Mercadet +Sir, are you in love with my daughter? + +Minard +Yes, sir. + +Mercadet +That is, at least, what she believes, and you seem to have had the +talent to persuade her that it is so. + +Minard +Your manner of expressing yourself implies a doubt on your part, which +in any one else would have been offensive to me. Why should I not love +mademoiselle? Abandoned by my parents, it was from your daughter, sir, +that I have learned for the first time the happiness of affection. +Mlle. Julie is at the same time a sister and a friend to me. She is my +whole family. She alone has smiled upon me and has encouraged me; and +my love for her is beyond what language can express! + +Julie +Must I remain here, father? + +Mercadet (to his daughter) +Swallow it all! (To Minard) Sir, with regard to the love of young +people I have those positive ideas which are considered peculiar to +old men. My distrust of such love is all the more permissible because +I am not the father blinded by paternal affection. I see Julie exactly +as she is; without being absolutely plain, she has none of that beauty +that makes people cry out, "See!" She is quite mediocre. + +Minard +You are mistaken, sir; I venture to say that you do not know your +daughter. + +Mercadet +Permit me-- + +Minard +You do not know her, sir. + +Mercadet +But I know her perfectly well--as if--in a word, I know her-- + +Minard +No, sir, you do not. + +Mercadet +Do you mean to contradict me again, sir? + +Minard +You know the Julie that all the world sees; but love has transfigured +her! Tenderness and devotion lend to her a transporting beauty that I +alone have called up in her. + +Julie +Father, I feel ashamed-- + +Mercadet +You mean you feel happy. And if you, sir, repeat these things-- + +Minard +I shall repeat them a hundred times, a thousand times, and even then I +couldn't repeat them often enough. There is no crime in repeating them +before a father! + +Mercadet +You flatter me! I did believe myself her father; but you are the +father of a Julie whose acquaintance I should very much like to make. + +Minard +You have never been in love, I suppose? + +Mercadet +I have been very much in love! And felt the galling chain of gold like +everybody else. + +Minard +That was long ago. In these days we love in a better way. + +Mercadet +How do you do that? + +Minard +We cling to the soul, to the idea! + +Mercadet +What we used to call under the Empire, having our eyes bandaged. + +Minard +It is love, pure and holy, which can lend a charm to all the hours of +life. + +Mercadet +Yes all!--except the dinner hour. + +Julie +Father, do not ridicule two children who love each other with a +passion which is true and pure, because it is founded upon a knowledge +of each other's character; on the certitude of their mutual ardor in +conquering the difficulties of life; in a word, of two children who +will also cherish sincere affection for you. + +Minard (to Mercadet) +What an angel, sir! + +Mercadet (aside) +I'll angel you! (Putting an arm around each.) Happy children!--You are +absolutely in love? What a fine romance! (To Minard) You desire her +for your wife? + +Minard +Yes, sir. + +Mercadet +In spite of all obstacles? + +Minard +It is mine to overcome them! + +Julie +Father, ought you not to be grateful to me in that by my choice I am +giving you a son full of lofty sentiments, endowed with a courageous +soul, and-- + +Minard +Mademoiselle--Julie. + +Julie +Let me finish; I must have my say. + +Mercadet +My daughter, go and see your mother, and let me speak of matters which +are a great deal more material than these. + +Julie +I will go, father-- + +Mercadet +Come back presently with your mother, my child. + +(Mercadet kisses Julie and leads her to the door.) + +Minard (aside) +I feel my hopes revive. + +Mercadet (returning) +Sir, I am a ruined man. + +Minard +What does that mean? + +Mercadet +Totally ruined. And if you wish to have my Julie, you are welcome to +her. She will be much better off at your house, poor as you are, than +in her paternal home. Not only is she without dowry, but she is +burdened with poor parents--parents who are more than poor. + +Minard +More than poor! There is nothing beyond that. + +Mercadet +Yes, sir, we are in debt, deeply in debt, and some of these debts +clamor for payment. + +Minard +No, no, it is impossible! + +Mercadet +Don't you believe it? (Aside) He is getting frightened. (Taking up a +pile of papers from his desk. Aloud) Here, my would-be son-in-law, are +the family papers which will show you our fortune-- + +Minard +Sir-- + +Mercadet +Or rather our lack of fortune! Read-- Here is a writ of attachment on +our furniture. + +Minard +Can it be possible? + +Mercadet +It is perfectly possible! Here are judgments by the score! Here is a +writ of my arrest. You see in what straits we are! Here you see all my +sales, the protests on my notes and the judgments classed in order-- +for, young man, understand well in a disordered condition of things, +order is above all things necessary. When disorder is well arranged it +can be relieved and controlled-- What can a debtor say when he sees +his debt entered up under his number? I make the government my model. +All payments are made in alphabetic order. I have not yet touched the +letter A. (He replaces the papers.) + +Minard +You haven't yet paid anything? + +Mercadet +Scarcely anything. You know the condition of my expenses. You know, +because you are a book-keeper. See, (picking up the papers again) the +total debit is three hundred and eighty thousand. + +Minard +Yes, sir. The balance is entered here. + +Mercadet +You can understand then how you must make me shudder when you come +before my daughter with your fine protestations! Since to marry a poor +girl with nothing but an income of eighteen hundred francs, is like +inviting in wedlock a protested note with a writ of execution. + +Minard (lost in thought) +Ruined, ruined! And without resources! + +Mercadet (aside) +I thought that would upset him. (Aloud) Come, now, young man, what are +you going to do? + +Minard +First, I thank you, sir, for the frankness of your admissions. + +Mercadet +That is good! And what of the ideal, and your love for my daughter? + +Minard +You have opened my eyes, sir. + +Mercadet (aside) +I am glad to hear it. + +Minard +I thought that I already loved her with a love that was boundless, and +now I love her a hundred times more. + +Mercadet +The deuce you do! + +Minard +Have you not led me to understand that she will have need of all my +courage, of all my devotion! I will render her happy by other means +than my tenderness; she shall feel grateful for all my efforts, she +shall love me for my vigils, and for my toils. + +Mercadet +You mean to tell me that you still wish to marry her? + +Minard +Do I wish! When I believed that you were rich, I would not ask her of +you without trembling, without feeling ashamed of my poverty; but now, +sir, it is with assurance and with tranquillity of mind that I ask for +her. + +Mercadet (to himself) +I must admit that this is a love exceedingly true, sincere and noble! +And such as I had believed it impossible to find in the whole world! +(To Minard) Forgive me, young man, for the opinion I had of you-- +forgive me, above all, for the disappointment I am about to cause you. + +Minard +What do you mean? + +Mercadet +M. Minard--Julie--cannot be your wife. + +Minard +What is this, sir? Not be my wife? In spite of our love, in spite of +all you have confided to me? + +Mercadet +Yes, and just because of all I have confided to you. I have shown you +Mercadet the rich man in his true colors. I am going to show you him +as the skeptical man of business. I have frankly opened my books to +you. I am now going to open my heart to you as frankly. + +Minard +Speak out, sir, but remember how great my devotion to Mlle. Julie is. +Remember that my self-sacrifice and unselfishness are equal to my love +for her. + +Mercadet +Let it be granted that by means of night-long vigils and toils you +will make a living for Julie! But who will make a living for us, her +father and mother? + +Minard +Ah! sir--believe in me! + +Mercadet +What! Are you going to work for four, instead of working for only two? +The task will be too much for you! And the bread which you give to us, +you will have to snatch out of the hands of your children-- + +Minard +How wildly you talk! + +Mercadet +And I, in spite of your generous efforts, shall fall, crushed under +the weight of disgraceful ruin. A brilliant marriage for my daughter +is the only means by which I would be enabled to discharge the +enormous sums I owe. It is only thus that in time I could regain +confidence and credit. With the aid of a rich son-in-law I can +reconquer my position, and recuperate my fortune! Why, the marriage of +my daughter is our last anchor of salvation! This marriage is our +hope, our wealth, the prop of our honor, sir! And since you love my +daughter, it is to this very love that I make my appeal. My friend, do +not condemn her to poverty; do not condemn her to a life of regret +over the loss and disgrace which she has brought upon her father! + +Minard (in great distress) +But what do you ask me to do? + +Mercadet (taking him by the hand) +I wish that this noble affection which you have for her, may arm you +with more courage than I myself possess. + +Minard +I will show such courage-- + +Mercadet +Then listen to me. If I refuse Julie to you, Julie will refuse the man +I destine for her. It will be best, therefore, that I grant your +request for her hand, and that you be the one-- + +Minard +I!-- She will not believe it, sir-- + +Mercadet +She will believe you, if you tell her that you fear poverty for her. + +Minard +She will accuse me of being a fortune hunter. + +Mercadet +She will be indebted to you for having secured her happiness. + +Minard (despairingly) +She will despise me, sir! + +Mercadet +That is probable! But if I have read your heart aright, your love for +her is such that you will sacrifice yourself completely to the +happiness of her life. But here she comes, sir, and her mother is with +her. It is on their account that I make this request to you, sir; can +I count on you? + +Minard +You--can. + +Mercadet +Very good--I thank you. + + + + SCENE THIRD + + +The preceding, Julie and Mme. Mercadet. + + +Julie +Come, mother, I am sure that Adolphe has triumphed over all obstacles. + +Mme. Mercadet +My dear, M. Minard has asked of you the hand of Julie. What answer +have you given him? + +Mercadet (going to the desk) +It is for him to say. + +Mercadet (aside) +How can I tell her? My heart is breaking. + +Julie +What have you got to say, Adolphe? + +Minard +Mademoiselle-- + +Julie +Mademoiselle! Am I no longer Julie to you? Oh, tell me quickly. You +have settled everything with my father, have you not? + +Minard +Your father has shown great confidence in me. He has revealed to me +his situation; he has told me-- + +Julie +Go on, please go on-- + +Mercadet +I have told him that we are ruined-- + +Julie +And this avowal has not changed your plans--your love--has it, +Adolphe? + +Minard (ardently) +My love! (Mercadet, without being noticed, seizes his hand.) I should +be deceiving you--mademoiselle--(speaking with great effort)--if I +were to say that my intentions are unaltered. + +Julie +Oh! It is impossible! Can it be you who speak to me in this strain? + +Mme. Mercadet +Julie-- + +Minard (rousing himself) +There are some men to whom poverty adds energy; men capable of daily +self-sacrifice, of hourly toil; men who think themselves sufficiently +recompensed by a smile from a companion that they love--(checking +himself). I, mademoiselle am not one of these. The thought of poverty +dismays me. I--I could not endure the sight of your unhappiness. + +Julie (bursting into tears and flinging herself into the arms of her +mother) +Oh! Mother! Mother! Mother! + +Mme. Mercadet +My daughter--my poor Julie! + +Minard (in a low voice to Mercadet) +Is this sufficient, sir? + +Julie (without looking at Minard) +I should have had courage for both of us. I should always have greeted +you with a smile, I should have toiled without regret, and happiness +would always have reigned in our home. You could never have meant +this, Adolphe. You do not mean it. + +Minard (in a low voice) +Let me go--let me leave the house, sir. + +Mercadet +Come, then. (He retires to the back of the stage.) + +Minard +Good-bye--Julie. A love that would have flung you into poverty is a +thoughtless love. I have preferred to show the love that sacrifices +itself to your happiness-- + +Julie +No, I trust you no longer. (In a low voice to her mother) My only +happiness would have been to be his. + +Justin (announcing visitors) +M. de la Brive! M. de Mericourt! + +Mercadet +Take your daughter away, madame. M. Minard, follow me. (To Justin) Ask +them to wait here for a while. (To Minard) I am well satisfied with +you. + +(Mme. Mercadet and Julie, Mercadet and Minard go out in opposite +directions, while Justin admits Mericourt and De la Brive.) + + + + SCENE FOURTH + + +De la Brive and Mericourt. + + +Justin +M. Mercadet begs that the gentlemen will wait for him here. (Exit.) + +Mericourt +At last, my dear friend, you are on the ground, and you will be very +soon officially recognized as Mlle. Mercadet's intended! Steer your +bark well, for the father is a deep one. + +De la Brive +That is what frightens me, for difficulties loom ahead. + +Mericourt +I do not believe so; Mercadet is a speculator, rich to-day, to-morrow +possibly a beggar. With the little I know of his affairs from his +wife, I am led to believe that he is enchanted with the prospect of +depositing a part of his fortune in the name of his daughter, and of +obtaining a son-in-law capable of assisting him in carrying out his +financial schemes. + +De la Brive +That is a good idea, and suits me exactly; but suppose he wishes to +find out too much about me. + +Mericourt +I have given M. Mercadet an excellent account of you. + +De la Brive +I have fallen upon my feet truly. + +Mericourt +But you are not going to lose the dandy's self-possession? I quite +understand that your position is risky. A man would not marry, +excepting from utter despair. Marriage is suicide for the man of the +world. (In a low voice) Come, tell me--can you hold out much longer? + +De la Brive +If I had not two names, one for the bailiffs and one for the +fashionable world, I should be banished from the Boulevard. Woman and +I, as you know, have wrought each the ruin of the other, and, as +fashion now goes, to find a rich Englishwoman, an amiable dowager, an +amorous gold mine, would be as impossible as to find an extinct +animal. + +Mericourt +What of the gaming table? + +De la Brive +Oh! Gambling is an unreliable resource excepting for certain crooks, +and I am not such a fool as to run the risk of disgrace for the sake +of winnings which always have their limit. Publicity, my dear friend, +has been the abolition of all those shady careers in which fortune +once was to be found. So, that for a hundred thousand francs of +accepted bills, the usurer gives me but ten thousand. Pierquin sent me +to one of his agents, a sort of sub-Pierquin, a little old man called +Violette, who said to my broker that he could not give me money on +such paper at any rate! Meanwhile my tailor has refused to bank upon +my prospects. My horse is living on credit; as to my tiger, the little +wretch who wears such fine clothes, I do now know how he lives, or +where he feeds. I dare not peer into the mystery. Now, as we are not +so advanced in civilization as the Jews, who canceled all debts every +half-century, a man must pay by the sacrifice of personal liberty. +Horrible things will be said about me. Here is a young man of high +esteem in the world of fashion, pretty lucky at cards, of a passable +figure, less than twenty-eight years old, and he is going to marry the +daughter of a rich speculator! + +Mericourt +What difference does it make? + +De la Brive +It is slightly off color! But I am tired of a sham life. I have +learned at last that the only way to amass wealth is to work. But our +misfortune is that we find ourselves quick at everything, but not good +at anything! A man like me, capable of inspiring a passion and of +maintaining it, cannot become either a clerk or a soldier! Society has +provided no employment for us. Accordingly, I am going to set up +business with Mercadet. He is one of the greatest of schemers. You are +sure that he won't give less than a hundred and fifty thousand francs +to his daughter. + +Mericourt +Judge yourself, my dear friend, from the style which Mme. Mercadet +puts on; you see her at all the first nights, in her own box, at the +opera, and her conspicuous elegance-- + +De la Brive +I myself am elegant enough, but-- + +Mericourt +Look round you here--everything indicates opulence--Oh! they are well +off! + +De la Brive +Yet, it is a sort of middle-class splendor, something substantial +which promises well. + +Mericourt +And then the mother is a woman of principle, of irreproachable +behavior. Can you possibly conclude matters to-day? + +De la Brive +I have taken steps to do so. I won at the club yesterday sufficient to +go on with; I shall pay something on the wedding presents, and let the +balance stand. + +Mericourt +Without reckoning my account, what is the amount of your debts? + +De la Brive +A mere trifle! A hundred and fifty thousand francs, which my father- +in-law will cut down to fifty thousand. I shall have a hundred +thousand francs left to begin life on. I always said that I should +never become rich until I hadn't a sou left. + +Mericourt +Mercadet is an astute man; he will question you about your fortune; +are you prepared? + +De la Brive +Am I not the landed proprietor of La Brive? Three thousand acres in +the Landes, which are worth thirty thousand francs, mortgaged for +forty-five thousand and capable of being floated by a stock jobbing +company for some commercial purpose or other, say, as representing a +capital of a hundred thousand crowns! You cannot imagine how much this +property has brought me in. + +Mericourt +Your name, your horse, and your lands seem to me to be on their last +legs. + +De la Brive +Not so loud! + +Mericourt +So you have quite made up your mind? + +De la Brive +Yes, and all the more decidedly in that I am going into politics. + +Mericourt +Really--but you are too clever for that! + +De la Brive +As a preparation I shall take to journalism. + +Mericourt +And you have never written two lines in your life! + +De la Brive +There are journalists who write and journalists who do not write. The +former are editors--and horses that drag the car; the latter, the +proprietors, who furnish the funds; these give oats to their horses +and keep the capital for themselves. I shall be a proprietor. You +merely have to put on a lofty air and exclaim: "The Eastern question +is a question of great importance and of wide influence, one about +which there cannot be two opinions!" You sum up a discussion by +declaiming: "England, sir, will always get the better of us!" or you +make an answer to some one whom you have heard speak for a long time +without paying attention to him: "We are advancing towards an abyss, +we have not yet passed through all the evolutions of the evolutionary +phase!" You say to a representative of labor: "Sir, I think there is +something to be done in this matter." A proprietor of a journal speaks +very little, rushes about and makes himself useful by doing for a man +in power what the latter cannot do himself. He is supposed to inspire +the articles, those I mean, which attract any notice! And then, if it +is absolutely necessary he undertakes to publish a yellow-backed +volume on some Utopian topic, so well written, so strong, that no one +opens it, although every one declares that he has read it! Then he is +looked upon as an earnest man, and ends by finding himself +acknowledged as somebody, instead of something. + +Mericourt +Alas! What you say is too true, in these times! + +De la Brive +And we ourselves are a startling proof of this! In order to claim a +part in political power you must not show what good but what harm you +can do. You must not alone possess talents, you must be able also to +inspire fear. Accordingly, the very day after my marriage, I shall +assume an air of seriousness, of profundity, of high principles! I can +take my choice, for we have in France a list of principles which is as +varied as a bill of fare. I elect to be a socialist! The word pleases +me! At every epoch, my dear friend, there are adjectives which form +the pass-words of ambition! Before 1789 a man called himself an +economist; in 1815 he was a liberal; the next party will call itself +the social party--perhaps because it is so unsocial. For in France you +must always take the opposite sense of a word to understand its +meaning. + +Mericourt +Let me tell you privately, that you are now talking nothing but the +nonsense of masked ball chatter, which passes for wit among those who +do not indulge in it. What are you going to do when a certain definite +knowledge becomes necessary? + +De la Brive +My dear friend! In every profession, whether of art, science or +literature, a man needs intellectual capital, special knowledge and +capacity. But in politics, my dear fellow, a man wins everything and +attains to everything by means of a single phrase-- + +Mericourt +What is that? + +De la Brive +"The principles of my friends, the party for which I stand, look +for--" + +Mericourt +Hush! Here comes the father-in-law! + + + + SCENE FIFTH + + +The same persons and Mercadet. + + +Mercadet +Good-day, my dear Mericourt! (To De la Brive) The ladies have kept you +waiting, sir. Ah! They are putting on their finery. For myself, I was +just on the point of dismissing--whom do you think?--an aspirant to +the hand of Mlle. Julie. Poor young man! I was perhaps hard on him, +and yet I felt for him. He worships my daughter; but what could I do? +He has only ten thousand francs' income. + +De la Brive +That wouldn't go very far! + +Mercadet +A mere subsistence! + +De la Brive +You're not the man to give a rich and clever girl to the first comer-- + +Mericourt +Certainly not. + +Mercadet +Before the ladies come in, gentlemen, we must talk a little serious +business. + +De la Brive (to Mericourt) +Now comes the tug of war! + +(They all sit down.) + +Mercadet (on the sofa) +Are you seriously in love with my daughter? + +De la Brive +I love her passionately! + +Mercadet +Passionately? + +Mericourt (to his friend) +You are over-doing it. + +De la Brive (to Mericourt) +Wait a moment. (Aloud) Sir, I am ambitious--and I saw in Mlle. Julie a +lady at once distinguished, full of intellect, possessed of charming +manners, who would never be out of place in the position in which my +fortune puts me; and such a wife is essential to the success of a +politician. + +Mercadet +I understand! It is easy to find a woman, but it is very rare that a +man who wishes to be a minister or ambassador finds a wife. You are a +man of wit, sir. May I ask your political leaning? + +De la Brive +Sir, I am a socialist. + +Mercadet +That is a new move! But now let us talk of money matters. + +Mericourt +It seems to me that the notary might attend to that. + +De la Brive +No! M. Mercadet is right; it is best that we should attend to these +things ourselves. + +Mercadet +True, sir. + +De la Brive +Sir, my whole fortune consists in the estate which bears my name; it +has been in my family for a hundred and fifty years, and I hope will +never pass from us. + +Mercadet +The possession of capital is perhaps more valuable in these days. +Capital is in your own hand. If a revolution breaks out, and we have +had many revolutions lately, capital follows us everywhere. Landed +property, on the contrary, must furnish funds for every one. There it +stands stock still like a fool to pay the taxes, while capital dodges +out of the way. But this is not real obstacle. What is the amount of +your land? + +De la Brive +Three thousand acres, without a break. + +Mercadet +Without a break? + +Mericourt +Did I not tell you as much? + +Mercadet +I never doubted it. + +De la Brive +A chateau-- + +Mercadet +Good-- + +De la Brive +And salt marshes, which can be worked as soon as the administration +gives permission. They would yield enormous returns! + +Mercadet +Ah, sir, why have we been so late in becoming acquainted! Your land, +then, must be on the seashore. + +De la Brive +Without half a league of it. + +Mercadet +And it is situated? + +De la Brive +Near Bordeaux. + +Mercadet +You have vineyards, then? + +De la Brive +No! fortunately not, for the disposal of wines is a troublesome +matter, and, moreover, the cultivation of the vine is exceedingly +expensive. My estate was planted with pine trees by my grandfather, a +man of genius, who was wise enough to sacrifice himself to the welfare +of his descendants. Besides, I have furniture, which you know-- + +Mercadet +Sir, one moment, a man of business is always careful to dot his i's. + +De la Brive (under his voice) +Now we're in for it! + +Mercadet +With regard to your estate and your marshes,--I see all that can be +got out of these marshes. The best way of utilizing them would be to +form a company for the exploitation of the marshes of the Brive! There +is more than a million in it! + +De la Brive +I quite understand that, sir. They need only to be thrown upon the +market. + +Mercadet (aside) +These words indicate a certain intelligence in this young man. (Aloud) +Have you any debts? Is your estate mortgaged? + +Mericourt +You would not think much of my friend if he had not debts. + +De la Brive +I will be frank, sir, there is a mortgage of forty-five thousand +francs on my estate. + +Mercadet (aside) +An innocent young man! he might easily-- (Rising from his seat. Aloud) +You have my consent; you shall be my son-in-law, and are the very man +I would choose for my daughter's husband. You do not realize what a +fortune you possess. + +De la Brive (to Mericourt) +This is almost too good to be true. + +Mericourt (to De la Brive) +He is dazzled by the good speculation which he sees ahead. + +Mercadet (aside) +With government protection, which can be purchased, salt pits may be +established. I am saved! (Aloud) Allow me to shake hands with you, +after the English fashion. You fulfill all that I expected in a son- +in-law. I plainly see you have none of the narrowness of provincial +land-holders; we shall understand each other thoroughly. + +De la Brive +You must not take it in bad part, sir, if I, on my part, ask you-- + +Mercadet +The amount of my daughter's fortune? I should have distrusted you if +you hadn't asked! My daughter has independent means; her mother +settles on her her own fortune, consisting of a small property--a farm +of two hundred acres, but in the very heart of Brie, and provided with +good buildings. Besides this, I shall give her two hundred thousand +francs, the interest of which will be for your use, until you find a +suitable investment for it. So you see, young man, we do not wish to +deceive you, we wish to keep the money moving; I like you, you please +me, for I see you have ambition. + +De la Brive +Yes, sir. + +Mercadet +You love luxury, extravagance; you wish to shine at Paris-- + +De la Brive +Yes, sir. + +Mercadet +You see that I am already an old man, obliged to lay the load of my +ambition upon some congenial co-operator, and you shall be the one to +play the brilliant part. + +De la Brive +Sir, had I been obliged to take my choice of all the fathers-in-law in +Paris, I should have given the preference to you. You are a man after +my own heart! Allow me to shake hands, after the English fashion! +(They shake hands for the second time.) + +Mercadet (aside) +It seems too good to be true. + +De la Brive (aside) +He fell head-first into my salt marshes! + +Mercadet (aside) +He accepts an income from me! + +(Mercadet retires towards the door on the left side.) + +Mericourt (to De la Brive) +Are you satisfied? + +De la Brive (to Mericourt) +I don't see the money for my debts. + +Mericourt (to De la Brive) +Wait a moment. (To Mercadet) My friend does not dare to tell you of +it, but he is too honest for concealment. He has a few debts. + +Mercadet +Oh, please tell me. I understand perfectly--I suppose it is about +fifty thousand you owe? + +Mericourt +Very nearly-- + +De la Brive +Very nearly-- + +Mercadet +A mere trifle. + +De la Brive (laughing) +Yes, a mere trifle! + +Mercadet +They will serve as a subject of discussion between your wife and you; +yes, let her have the pleasure of-- But, we will pay them all. (Aside) +In shares of the La Brive salt pits. (Aloud) It is so small an amount. +(Aside) We will put up the capital of the salt marsh a hundred +thousand francs more. (Aloud) The matter is settled, son-in-law. + +De la Brive +We will consider it settled, father-in-law. + +Mercadet (aside) +I am saved! + +De la Brive (aside) +I am saved! + + + + SCENE SIXTH + + +The same persons, Mme. Mercadet and Julie. + + +Mercadet +Here are my wife and daughter. + +Mericourt +Madame, allow me to present to you my friend, M. de la Brive, who +regards your daughter with-- + +De la Brive +With passionate admiration. + +Mercadet +My daughter is exactly the woman to suit a politician. + +De la Brive (to Mericourt. Gazing at Julie through his eyeglass) +A fine girl. (To Madame Mercadet) Like mother, like daughter. Madame, +I place my hopes under your protection. + +Mme. Mercadet +Anyone introduced by M. Mericourt would be welcome here. + +Julie (to her father) +What a coxcomb! + +Mercadet (to his daughter) +He is enormously rich. We shall all be millionaires! He is an +excessively clever fellow. Now, do try and be amiable, as you ought to +be. + +Julie (answering him) +What would you wish me to say to a dandy whom I have just seen for the +first time, and whom you destine for my husband? + +De la Brive +May I be permitted to hope, mademoiselle, that you will look favorably +upon me? + +Julie +My duty is to obey my father. + +De la Brive +Young people are not always aware of the feelings which they inspire. +For two months I have been longing for the happiness of paying my +respects to you. + +Julie +Who can be more flattered than I am, sir, to find that I have +attracted your attention? + +Mme. Mercadet (to Mericourt) +He is a fine fellow. (Aloud) We hope that you and your friend M. de la +Brive will do us the pleasure of accepting our invitation to dine +without ceremony? + +Mercadet +To take pot-luck with us. (To De la Brive) You must excuse our +simplicity. + +Justin (entering, in a low voice to Mercadet) +M. Pierquin wishes to speak to you, monsieur. + +Mercadet (low) +Pierquin? + +Justin +He says it is concerning an important and urgent matter. + +Mercadet +What can he want with me? Let him come in. (Justin goes out. Aloud) My +dear, these gentlemen must be tired. Won't you take them into the +drawing-room? M. de la Brive, give my daughter you arm. + +De la Brive +Mademoiselle-- (offers her his arm) + +Julie (aside) +He is handsome, he is rich--why does he choose me? + +Mme. Mercadet +M. de Mericourt, will you come and see the picture which we are going +to raffle off for the benefit of the poor orphans? + +Mericourt +With pleasure, madame. + +Mercadet +Go on. I shall be with you in a moment. + + + + SCENE SEVENTH + + +Mercadet (alone) +Well, after all, this time I have really secured fortune and the +happiness of Julie and the rest of us. For a son-in-law like this is a +veritable gold mine! Three thousand acres! A chateau! Salt marshes! +(He sits down at his desk.) + +Pierquin (entering) +Good-day, Mercadet. I have come-- + +Mercadet +Rather inopportunely. But what do you wish? + +Pierquin +I sha'n't detain you long. The bills of exchange I gave you this +morning, signed by a man called Michonnin, are absolutely valueless. I +told you this beforehand. + +Mercadet +I know that. + +Pierquin +I now offer you a thousand crowns for them. + +Mercadet +That is either too much or too little! Anything for which you will +give that sum must be worth infinitely more. Some one is waiting for +me in the other room. I will bid you good-evening. + +Pierquin +I will give you four thousand francs. + +Mercadet +No! + +Pierquin +Five--six thousand. + +Mercadet +If you wish to play cards, keep to the gambling table. Why do you wish +to recover this paper? + +Pierquin +Michonnin has insulted me. I wish to take vengeance on him; to send +him to jail. + +Mercadet (rising) +Six thousand francs worth of vengeance! You are not a man to indulge +in luxuries of that kind. + +Pierquin +I assure you-- + +Mercadet +Come, now, my friend, consider that for a satisfactory defamation of +character the code won't charge you more than five or six hundred +francs, and the tax on a blow is only fifty francs-- + +Pierquin +I swear to you-- + +Mercadet +Has this Michonnin come into a legacy? And are the forty-seven +thousand francs of these vouchers actually worth forty-seven thousand +francs? You should post me on this subject and then we'll cry halves! + +Pierquin +Very well, I agree. The fact of it is, Michonnin is to be married. + +Mercadet +What next! And with whom, pray? + +Pierquin +With the daughter of some nabob--an idiot who is giving her an +enormous dowry. + +Mercadet +Where does Michonnin live? + +Pierquin +Do you want to issue a writ? He is without a fixed abode in Paris. His +furniture is held under the name of a friend; but his legal domicile +must be in the neighborhood of Bordeaux, in the village of Ermont. + +Mercadet +Stay a while. I have some one here from that region. I can get exact +information in a moment--and then we can begin proceedings. + +Pierquin +Send me the paper, and leave the business to me-- + +Mercadet +I shall be very glad to do so. They shall be put into your hands in +return for a signed agreement as to the sharing of the money. I am at +present altogether taken up with the marriage of my daughter. + +Pierquin +I hope everything is going on well. + +Mercadet +Wonderfully well. My son-in-law is a gentleman and, in spite of that, +he is rich. And, although both rich and a gentleman, he is clever into +the bargain. + +Pierquin +I congratulate you. + +Mercadet +One word with you before you go. You said, Michonnin, of Ermont, in +the neighborhood of Bordeaux? + +Pierquin +Yes, he has an old aunt somewhere about there! A good woman called +Bourdillac, who scrapes along on some six hundred francs a year, but +to whom he gives the title of Marchioness of Bourdillac. He pretends +that her health is delicate and that she has a yearly income of forty +thousand francs. + +Mercadet +Thank you. Good-evening-- + +Pierquin +Good-evening. (goes out) + +Mercadet (ringing) +Justin! + +Justin +Did you call, sir? + +Mercadet +Ask M. de la Brive to speak with me for a moment. (Justin goes out.) + +Mercadet +Here is a windfall of twenty-three thousand francs! We shall be able +to arrange things famously for Julie's marriage. + + + + SCENE EIGHTH + + +Mercadet, De la Brive and Justin. + + +De la Brive (to Justin, handing him a letter) +Here, deliver this letter. And this is for yourself. + +Justin (aside) +A louis! Mademoiselle will be sure to have a happy home. (Exit.) + +De la Brive +You wish to speak with me, my dear father-in-law? + +Mercadet +Yes. You see I already treat you without ceremony. Please to take a +seat. + +De la Brive (sitting on a sofa) +I am grateful for your confidence. + +Mercadet +I am seeking information with regard to a debtor, who, like you, lives +in the neighborhood of Bordeaux. + +De la Brive +I know every one in that district. + +Mercadet +It is said he has relations there. + +De la Brive +Relations! I have none but an old aunt. + +Mercadet (pricking up his ears) +An--old aunt--? + +De la Brive +Whose health-- + +Mercadet (trembling) +Is--is--delicate? + +De la Brive +And her income is forty thousand francs. + +Mercadet (quite overcome) +Good Lord! The very figure! + +De la Brive +The Marchioness, you see, will be a good woman to have on hand. I mean +the Marchioness-- + +Mercadet (vehemently rushing at him) +Of Bourdillac, sir! + +De la Brive +How is this? Do you know her name? + +Mercadet +Yes, and yours too! + +De la Brive +The devil you do! + +Mercadet +You are head over ears in debt; your furniture is held in another +man's name; your old aunt has a pittance of six hundred francs; +Pierquin, who is one of your smallest creditors, has forty-seven +thousand francs in notes of hand from you. You are Michonnin, and I am +the idiotic nabob! + +De la Brive (stretching himself at full length on the sofa) +By heavens! You know just as much about it as I do! + +Mercadet +Well--I see that once more the devil has taken a hand in my game. + +De la Brive (aside, rising to his feet) +The marriage is over! I am no longer a socialist; I shall become a +communist. + +Mercadet +And I have been just as easily deceived, as if I had been on the +Exchange. + +De la Brive +Show yourself worthy of your reputation. + +Mercadet +M. Michonnin, your conduct is more than blameworthy! + +De la Brive +In what particular? Did I not say that I had debts? + +Mercadet +We'll let that pass, for any one may have debts; but where is your +estate situated. + +De la Brive +In the Landes. + +Mercadet +And of what does it consist? + +De la Brive +Of sand wastes, planted with firs. + +Mercadet +Good to make toothpicks. + +De la Brive +That's about it. + +Mercadet +And it is worth? + +De la Brive +Thirty thousand francs. + +Mercadet +And mortgaged for-- + +De la Brive +Forty-five thousand! + +Mercadet +And you had the skill to effect that? + +De la Brive +Why, yes-- + +Mercadet +Damnation! But that was pretty clever! And your marshes, sir? + +De la Brive +They border on the sea-- + +Mercadet +They are part of the ocean! + +De la Brive +The people of that country are evil-minded enough to say so. That is +what hinders my loans! + +Mercadet +It would be very difficult to issue ocean shares! Sir, I may tell you, +between ourselves, that your morality seems to me-- + +De la Brive +Somewhat-- + +Mercadet +Risky. + +De la Brive (in anger) +Sir! (calming himself) Let this be merely between ourselves! + +Mercadet +You gave a friend a bill of sale of your furniture, you sign your +notes of hand with the name of Michonnin, and you call yourself merely +De la Brive-- + +De la Brive +Well, sir, what are you going to do about it? + +Mercadet +Do about it? I am going to lead you a pretty dance-- + +De la Brive +Sir, I am your guest! Moreover, I may deny everything-- What proofs +have you? + +Mercadet +What proofs! I have in my hands forty-seven thousand francs' worth of +your notes. + +De la Brive +Are they signed to the order of Pierquin? + +Mercadet +Precisely so. + +De la Brive +And you have had them since this morning? + +Mercadet +Since this morning. + +De la Brive +I see. You have given worthless stock in exchange for valueless notes. + +Mercadet +Sir! + +De la Brive +And, in order to seal the bargain, Pierquin, one of the least +important of your creditors, has given you a delay of three months. + +Mercadet +Who told you that? + +De la Brive +Who? Who? Pierquin himself, of course, as soon as he learned I was +going to make an arrangement-- + +Mercadet +The devil he did! + +De la Brive +Ah! You were going to give two hundred thousand francs as a dowry to +your daughter, and you had debts to the amount of three hundred and +fifty thousand! Between ourselves it looks like you who had been +trying to swindle the son-in-law, sir-- + +Mercadet (angrily) +Sir! (calming himself) This is merely between ourselves, sir. + +De la Brive +You took advantage of my inexperience! + +Mercadet +Of course I did! The inexperience of a man who raises a loan on his +sand wastes fifty per cent above their value. + +De la Brive +Glass can be made out of sand! + +Mercadet +That's a good idea! + +De la Brive +Therefore, sir-- + +Mercadet +Silence! Promise me that this broken marriage-contract shall be kept +secret. + +De la Brive +I swear it shall-- Ah! excepting to Pierquin. I have just written to +him to set his mind at rest. + +Mercadet +Is that the letter you sent by Justin? + +De la Brive +The very one. + +Mercadet +And what have you told him? + +De la Brive +The name of my father-in-law. Confound it!--I thought you were rich. + +Mercadet (despairingly) +And you have written that to Pierquin? It's all up! This fresh defeat +will be known on the Exchange! But, any way, I am ruined! Suppose I +write to him-- Suppose I ask him-- (He goes to the table to write.) + + + + SCENE NINTH + + +The same persons, Mme. Mercadet, Julie and Verdelin. + + +Mme. Mercadet +My friend, M. Verdelin. + +Julie (to Verdelin) +Here is my father, sir. + +Mercadet +Ah! It is you, is it, Verdelin--and you are come to dinner? + +Verdelin +No, I am not come to dinner. + +Mercadet (aside) +He knows all. He is furious! + +Verdelin +And this gentleman is your son-in-law? (Verdelin bows to De la Brive.) +This is a fine marriage you are going to make! + +Mercadet +The marriage, my dear sir, is not going to take place. + +Julie +How happy I feel! + +(De la Brive bows to Julie. She casts down her eyes.) + +Mme. Mercadet (seizing her hand) +My dear daughter! + +Mercadet +I have been deceived by Mericourt. + +Verdelin +And you have played on me one of your tricks this morning, for the +purpose of getting a thousand crowns; but the whole incident has been +made public on the Exchange, and they think it a huge joke! + +Mercadet +They have been informed, I suppose-- + +Verdelin +That your pocket-book is full of the notes of hand signed by your son- +in-law. And Pierquin tells me that your creditors are exasperated, and +are to meet to-night at the house of Goulard to conclude measures for +united action against you to-morrow! + +Mercadet +To-night! To-morrow! Ah! I hear the knell of bankruptcy sound! + +Verdelin +Yes, to-morrow they are going to send a prison cab for you. + +Mme. Mercadet and Julie +God help us! + +Mercadet +I see the carriage, the hearse of the speculator, carrying me to +Clichy! + +Verdelin +They wish, as far as possible, to rid the Exchange of all sharpers! + +Mercadet +They are fools, for in that case they will turn it into a desert! And +so I am ruined! Expelled from the Exchange with all the sequelae of +bankruptcy,--shame, beggary! I cannot believe it--it is impossible! + +De la Brive +Believe me, sir, that I regret having been in some degree-- + +Mercadet (looking him in the face) +You! (in a low voice to him) Listen to me: you have hurried on my +destruction, but you have it in your power to help me to escape. + +De la Brive +On what conditions? + +Mercadet +I will make you a good offer! (Aloud, as they start toward opposite +doors) True, the idea is a bold one! But to-morrow, the 'Change will +recognize in me one of its master spirits. + +Verdelin +What is he talking about? + +Mercadet +To-morrow, all my debts will be paid, and the house of Mercadet will +be turning over millions! I shall be acknowledged as the Napoleon of +finance. + +Verdelin +What a man he is! + +Mercadet +And a Napoleon who meets no Waterloo! + +Verdelin +But where are your troops? + +Mercadet +My army is cash in hand! What answer can be made to a business man who +says, "Take your money!" Come let us dine now. + +Verdelin +Certainly. I shall be delighted to dine with you. + +Mercadet (while they all move towards the dining-room, aside) +They are all glad of it! To-morrow I will either command millions, or +rest in the damp winding-sheet of the Seine! + + + +Curtain to the Second Act. + + + + + ACT III + + + + SCENE FIRST + + +(Another apartment in Mercadet's house, well furnished. At the back +and in the centre is a mantel-piece, having instead of a mirror a +clear plate of glass; side doors; a large table, surrounded by chairs, +in the middle of the stage; sofa and armchairs.) + +Justin, Therese and Virginie, then Mercadet. + + +(Justin enters first and beckons to Therese. Virginie, carrying +papers, sits insolently on the sofa. Justin looks through the keyhole +of the door on the left side and listens.) + +Therese +Is it possible that they could pretend to conceal from us the +condition of their affairs? + +Virginie +Old Gruneau tells me that the master is soon to be arrested; I hope +that what I have spent will be taken account of, for he owes me the +money for these bills, besides my wages! + +Therese +Oh! set your mind at rest. We are likely to lose everything, for the +master is bankrupt. + +Justin +I can't hear anything. They speak too low! They don't trust us. + +Virginie +It is frightful! + +Justin (with his ear to the half-open door) +Wait, I think I hear something. + +(The door bursts open and Mercadet appears.) + +Mercadet (to Justin) +Don't let me disturb you. + +Justin +Sir, I--I--was just putting-- + +Mercadet +Really! (To Virginie, who jumps up suddenly from the sofa) Keep your +seat, Mlle. Virginie, and you, M. Justin, why didn't you come in? We +were talking about my business. + +Justin +You amuse me, sir. + +Mercadet +I am heartily glad of it. + +Justin +You take trouble easy, sir. + +Mercadet (severely) +That will do, all of you. And remember that from this time forth I see +all who call. Treat no one either with insolence or too much humility, +for you will meet here no creditors, but such as have been paid. + +Justin +Oh, bosh! + +Mercadet +Go! + +(The central door opens. Mme. Mercadet, Julie and Minard appear. The +servants leave the room.) + + + + SCENE SECOND + + +Mercadet, Mme. Mercadet, Julie and Minard. + + +Mercadet (aside) +I am annoyed to see my wife and daughter here. In my present +circumstances, women are likely to spoil everything, for they have +nerves. (Aloud) What is it, Mme. Mercadet? + +Mme. Mercadet +Sir, you were counting on the marriage of Julie to establish your +credit and reassure your creditors, but the event of yesterday has put +you at their mercy-- + +Mercadet +Do you think so? Well, you are quite mistaken. I beg your pardon, M. +Minard, but what brings you here? + +Minard +Sir--I-- + +Julie +Father--it is-- + +Mercadet +Are you come to ask again for my daughter? + +Minard +Yes, sir. + +Mercadet +But everybody says that I am going to fail-- + +Minard +I know it, sir. + +Mercadet +And would you marry the daughter of a bankrupt? + +Minard +Yes, for I would work to re-establish him. + +Julie +That's good, Adolphe. + +Mercadet (aside) +A fine young fellow. I will give him an interest in the first big +business I do. + +Minard +I have made known my attachment to the man I look upon as a father. He +has informed me--that I am the possessor of a small fortune-- + +Mercadet +A fortune! + +Minard +When I was confided to his care, a sum of money was entrusted to him, +which has increased by interest, and I now possess thirty thousand +francs. + +Mercadet +Thirty thousand francs! + +Minard +On learning of the disaster that had befallen you, I realized this +sum, and I bring it to you, sir; for sometimes in these cases an +arrangement can be made by paying something on account-- + +Mme. Mercadet +He has an excellent heart! + +Julie (with pride) +Yes, indeed, papa! + +Mercadet +Thirty thousand francs. (Aside) They might be tripled by buying some +of Verdelin's stock and then doubled with-- No, no. (To Minard) My +boy, you are at the age of self-sacrifice. If I could pay two hundred +francs with thirty thousand, the fortune of France, of myself and of +most people would be made. No, keep your money! + +Minard +What! You refuse it? + +Mercadet (aside) +If with this I could keep them quiet for a month, if by some bold +stoke I could revive the depression in my property, it might be all +right. But the money of these poor children, it cuts me to the heart +to think of it, for when they are in tears people calculate amiss; it +is not well to risk the money of any but fellow-brokers--no--no +(Aloud) Adolphe, you may marry my daughter. + +Minard +Oh! Sir--Julie--my own Julie-- + +Mercadet +That is, of course, as soon as she has three hundred thousand francs +as dowry. + +Mme. Mercadet +My dear! + +Julie +Papa! + +Minard +Ah, sir! How long are you going to put me off? + +Mercadet +Put you off? She will have it in a month! Perhaps sooner-- + +All +How is that? + +Mercadet +Yes, by the use of my brains--and a little money. (Minard holds out +his pocket-book.) But lock up those bills! And come, take away my wife +and daughter. I want to be alone. + +Mme. Mercadet (aside) +Is he going to hatch some plot against his creditors? I must find out. +Come, Julie. + +Julie +Papa, how good you are! + +Mercadet +Nonsense! + +Julie +I love you so much. + +Mercadet +Nonsense! + +Julie +Adolphe, I do not thank you, I shall have all my life for that. + +Minard +Dearest Julie! + +Mercadet (leading them out) +Come, now, you had better breathe out your idyls in some more retired +spot. + +(They go out.) + + + + SCENE THIRD + + +Mercadet, then De la Brive. + + +Mercadet +I have resisted--it was a good impulse! But I was wrong to obey it. If +I finally yield to the temptation, I can make their little capital +worth very much more. I shall manage this fortune for them. My poor +daughter has indeed a good lover. What hearts of gold are theirs! Dear +children! (Goes towards the door at the right.) I must make their +fortune. De la Brive is here awaiting me. (Looking through the open +door) I believe he is asleep. I gave him a little too much wine, so as +to handle him more easily. (Shouting) Michonnin! The constable! The +constable! + +De la Brive (coming out, rubbing his eyes) +Hello! What are you saying? + +Mercadet +Don't be frightened, I only wanted to wake you up. (Takes his seat at +the table.) + +De la Brive (sitting at the other side of the table) +Sir, an orgie acts on the mind like a storm on the country. It brings +on refreshment, it clothes with verdure! And ideas spring forth and +bloom! /In vino varietas/! + +Mercadet +Yesterday, our conversation on business matters was interrupted. + +De la Brive +Father-in-law, I recall it distinctly--we recognized the fact that our +houses could not keep their engagements. We were on the point of +bankruptcy, and you are unfortunate enough to be my creditor, while I +am fortunate enough to be your debtor by the amount of forty-seven +thousand, two hundred and thirty-three francs and some centimes. + +Mercadet +Your head is level enough. + +De la Brive +But my pocket and my conscience are a little out. Yet who can reproach +me? By squandering my fortune I have brought profit to every trade in +Paris, and even to those who do not know me. We, the useless ones! We, +the idlers! Upon my soul! It is we who keep up the circulation of +money-- + +Mercadet +By means of the money in circulation. Ah! you have all your wits about +you! + +De la Brive +But I have nothing else. + +Mercadet +Our wits are our mint. Is it not so? But, considering your present +situation, I shall be brief. + +De la Brive +That is why I take a seat. + +Mercadet +Listen to me. I see that you are going down the steep way which leads +to that daring cleverness for which fools blame successful operators. +You have tasted the piquant intoxicating fruits of Parisian pleasure. +You have made luxury the inseparable companion of your life. Paris +begins at the Place de l'Etoile, and ends at the Jockey Club. That is +your Paris, which is the world of women who are talked about too much, +or not at all. + +De la Brive +That is true. + +Mercadet +You breathe the cynical atmosphere of wits and journalists, the +atmosphere of the theatre and of the ministry. It is a vast sea in +which thousands are casting their nets! You must either continue this +existence, or blow your brains out! + +De la Brive +No! For it is impossible to think that it can continue without me. + +Mercadet +Do you feel that you have the genius to maintain yourself in style at +the height to which you aspire? To dominate men of mind by the power +of capital and superiority of intellect? Do you think that you will +always have skill enough to keep afloat between the two capes, which +have seen the life of elegance so often founder between the cheap +restaurant and the debtors' prison? + +De la Brive +Why! You are breaking into my conscience like a burglar--you echo my +very thought! What do you want with me? + +Mercadet +I wish to rescue you, by launching you into the world of business. + +De la Brive +By what entrance? + +Mercadet +Let me choose the door. + +De la Brive +The devil! + +Mercadet +Show yourself a man who will compromise himself for me-- + +De la Brive +But men of straw may be burnt. + +Mercadet +You must be incombustible. + +De la Brive +What are the terms of our copartnership? + +Mercadet +You try to serve me in the desperate circumstances in which I am at +present, and I will make you a present of your forty-seven thousand, +two hundred and thirty-three francs, to say nothing of the centimes. +Between ourselves, I may say that only address is needed. + +De la Brive +In the use of the pistol or the sword? + +Mercadet +No one is to be killed; on the contrary-- + +De la Brive +That will suit me. + +Mercadet +A man is to be brought to life again. + +De la Brive +That doesn't suit me at all, my dear fellow. The legacy, the chest of +Harpagon, the little mule of Scapin and, indeed, all the farces which +have made us laugh on the ancient stage are not well received nowadays +in real life. The police have a way of getting mixed up with them, and +since the abolition of privileges, no one can administer a drubbing +with impunity. + +Mercadet +Well, what do you think of five years in debtors' prison? Eh? What a +fate! + +De la Brive +As a matter of fact, my decision must depend upon what you want me to +do to any one, for my honor so far is intact and is worth-- + +Mercadet +You must invest it well, for we shall have dire need of all that it is +worth. I want you to assist me in sitting at the table which the +Exchange always keeps spread, and we will gorge ourselves with the +good things there offered us, for you must admit that while those who +seek for millions have great difficulty in finding them, they are +never found by those who do not seek. + +De la Brive +I think I can co-operate with you in this matter. You will return to +me my forty-seven thousand francs-- + +Mercadet +Yes, sir. + +De la Brive +I am not required to be anything but be--very clever? + +Mercadet +Nimble, but this nimbleness will be exercised, as the English say, on +the right side of the law. + +De la Brive +What is it you propose? + +Mercadet (giving him a paper) +Here are your written instructions. You are to represent something +like an uncle from America--in fact, my partner, who has just come +back from the West Indies. + +De la Brive +I understand. + +Mercadet +Go to the Champs-Elysees, secure a post-chaise that has been much +battered, have horses harnessed to it, and make your arrival here +wrapped in a great pelisse, your head enveloped in a huge cap, while +you shiver like a man who finds our summer icy cold. I will receive +you; I will conduct you in; you will speak to my creditors; not one of +them knows Godeau; you will make them give me more time. + +De la Brive +How much time? + +Mercadet +I need only two days--two days, in order that Pierquin may complete +certain purchases which we have ordered. Two days in order that the +stock which I know how to inflate may have time to rise. You will be +my backer, my security. And as no one will recognize you-- + +De la Brive +I shall cease to be this personage as soon as I have paid you forty- +seven thousand, two hundred and thirty-three francs and some centimes. + +Mercadet +That is so. But I hear some one--my wife-- + +Mme. Mercadet (enters) +My dear, there are some letters for you, and the bearer requires an +answer. + +(Mme. Mercadet withdraws to the fireplace.) + +Mercadet +I suppose I must go. Good-day, my dear De la Brive. (In a low voice) +Not a word to my wife; she would not understand the operation, and +would misconstrue it. (Aloud) Go quickly, and forget nothing. + +De la Brive +You need have no fear. + +(Mercadet goes out by the left; De la Brive starts to go out by the +centre, but Mme. Mercadet intercepts him.) + + + + SCENE FOURTH + + +Mme. Mercadet and De la Brive. + + +De la Brive +Madame? + +Mme. Mercadet +Forgive me, sir! + +De la Brive +Kindly excuse me, madame, I must be going-- + +Mme. Mercadet +You must not go. + +De la Brive +But you are not aware-- + +Mme. Mercadet +I know all. + +De la Brive +How is that? + +Mme. Mercadet +You and my husband are bent upon resorting to some very ancient +expedients proper to the comic drama, and I have employed one which is +more ancient still. And as I told you, I know all-- + +De la Brive (aside) +She must have been listening. + +Mme. Mercadet +Sir, the part which you have been induced to undertake is blameworthy +and shameful, and you must give it up-- + +De la Brive +But after all, madame-- + +Mme. Mercadet +Oh! I know to whom I am speaking, sir; it was only a few hours ago +that I saw you for the first time, and yet--I think I know you. + +De la Brive +Really? I am sure I do not know what opinion you have of me. + +Mme. Mercadet +One day has given me time to form a correct judgment of you--and at +the very time that my husband was trying to discover some foible in +you he might make use of, or what evil passions he might rouse in you, +I looked in your heart and discerned that it still contained good +feelings which eventually may prove your salvation. + +De la Brive +Prove my salvation? Excuse me, madame. + +Mme. Mercadet +Yes, sir, prove your salvation and that of my husband; for both of you +are on the way to ruin. For you must understand that debts are no +disgrace to any one who admits them and toils for their payment. You +have your whole life before you, and you have too much good sense to +wish that it should be blighted through engaging in a business which +justice is sure to punish. + +De la Brive +Justice! Ah! You are right, madame, and I certainly would not lend +myself to this dangerous comedy, unless your husband had some notes of +hand of mine-- + +Mme. Mercadet +Which he will surrender to you, sir, I'll promise you that. + +De la Brive +But, madame, I cannot pay them-- + +Mme. Mercadet +We will be satisfied with your word, and you will discharge your +obligation as soon as you have honestly made your fortune. + +De la Brive +Honestly! That will be perhaps a long time to wait. + +Mme. Mercadet +We will be patient. And now, sir, go and inform my husband that he +must give up this attempt because he will not have your co-operation. +(She goes towards the door on the left.) + +De la Brive +I should be rather afraid to face him-- I should prefer to write to +him. + +Mme. Mercadet (pointing out to him the door by which he entered) +You will find the necessary writing materials in that room. Remain +there until I come for your letter. I will hand it to him myself. + +De la Brive +I will do so, madame. After all I am not so worthless as I thought I +was. It is you who have taught me this; you have a right to the whole +credit of it. (He respectfully kisses her hand.) Thank you, madame, +thank you! (He goes out.) + +Mme. Mercadet +I have succeeded--if only I could now persuade Mercadet. + +Justin (entering from the center) +Madame--madame--here they are--all of them. + +Mme. Mercadet +Who? + +Justin +The creditors. + +Mme. Mercadet +Already? + +Justin +There are a great many of them, madame. + +Mme. Mercadet +Let them come in here. I will go and inform my husband. + +(Mme. Mercadet goes out by one door. Justin opens the other.) + + + + SCENE FIFTH + + +Pierquin, Goulard, Violette and several other creditors. + + +Goulard +Gentlemen, we have quite made up our minds, have we not? + +All +We have, we have-- + +Pierquin +No more deluding promises. + +Goulard +No more prayers and expostulations. + +Violette +No more pretended payments on account, thrown out as a bait to get +deeper into our pockets. + + + + SCENE SIXTH + + +The same persons and Mercadet. + + +Mercadet +And do you mean to tell me that you gentlemen are come to force me +into bankruptcy? + +Goulard +We shall do so, unless you find means to pay us in full this very day. + +Mercadet +To-day! + +Pierquin +This very day. + +Mercadet (standing before the fireplace) +Do you think that I possess the plates for striking off Bank of France +notes? + +Violette +You mean that you have no offer to make? + +Mercadet +Absolutely none! And you are going to lock me up? I warn him who is +going to pay for the cab that he won't be reimbursed from any assets +of mine. + +Goulard +I shall add that along with all that you owe me to the debit of your +account-- + +Mercadet +Thank you. You've all made up your mind, I suppose? + +The Creditors +We have. + +Mercadet +I am touched by your unanimity! (pulling out his watch) Two o'clock. +(Aside) De la Brive has had quite time enough--he ought to be on his +way here. (Aloud) Gentlemen, you compel me to admit that you are men +of inspiration and have chosen your time well! + +Pierquin +What does he mean? + +Mercadet +For months, for years, you have allowed yourselves to be humbugged by +fine promises, and deceived--yes, deceived by preposterous stories; +and to-day is the day you choose for showing yourselves inexorable! +Upon my word and honor, it is positively amusing! By all means let us +start for Clichy. + +Goulard +But, sir-- + +Pierquin +He is laughing. + +Violette (rising from his chair) +There is something in the wind. Gentlemen, there is something in the +wind! + +Pierquin +Please explain to us-- + +Goulard +We desire to know-- + +Violette (rising to his feet) +M. Mercadet, if there is anything--tell us about it. + +Mercadet (coming to the table) +Nothing! I shall say nothing, not I--I wish to be put behind the +bars!--I would like to see the figure you all will cut to-morrow or +this evening, when you find he has returned. + +Goulard (rising to his feet) +He has returned? + +Pierquin +Returned from where? + +Violette +Who has returned? + +Mercadet (coming forward) +Nobody has returned. Let us start for Clichy, gentlemen. + +Goulard +But listen, if you are expecting any assistance-- + +Pierquin +If you have any hope that-- + +Violette +Or if even some considerable legacy-- + +Goulard +Come, now! + +Pierquin +Answer-- + +Violette +Tell us-- + +Mercadet +Now, take care, I beg you. You are giving way, you are giving way, +gentlemen, and if I wished to take the trouble, I could win you over +again. Come now, act like genuine creditors! Ridicule the past, forget +the brilliant strokes of business I put within the power of each of +you before the sudden departure of my faithful Godeau-- + +Goulard +His faithful Godeau! + +Pierquin +Ah! If there were only-- + +Mercadet +Forget all that preposterous past, take no account of what might +induce him to return--after being waited for so long--and--let us +start for Clichy, gentlemen, let us start for Clichy! + +Violette +Mercadet, you are expecting Godeau, aren't you? + +Mercadet +No! + +Violette (as with a sudden inspiration) +Gentlemen, he is expecting Godeau! + +Goulard +Can it be true? + +Pierquin +Speak. + +All +Speak! Speak! + +Mercadet (with feeble deprecations) +Why, no, no--yet I do not know--I-- Certainly, it is possible that +some day or other he may return form the Indies with some-- +considerable fortune-- (In a decided tone) But I give you my word of +honor that I don't expect Godeau here to-day. + +Violette (excitedly) +Then it must be to-morrow! Gentlemen, he expects him to-morrow! + +Goulard (in a low voice to the others) +Unless this is some fresh trick to gain time and ridicule us-- + +Pierquin (aloud) +Do you think it might be? + +Goulard +It is quite possible. + +Violette (in a loud tone) +Gentlemen, he is fooling us. + +Mercadet (aside) +The devil he is! (Aloud) Come, gentlemen, we had better be starting. + +Goulard +I swear that-- + +(The rumbling of carriage wheels is heard.) + +Mercadet (aside) +At last! (Aloud) Oh, heavens! (He lays his hand upon his heart.) + +A Postillion (outside) +A carriage at the door. + +Mercadet +Ah! (Falls back on a chair near the table.) + +Goulard (looking through the pane of glass above the mantel) +A carriage! + +Pierquin (doing the same) +A post-chaise! + +Violette (doing the same) +Gentlemen, a post-chaise is at the door. + +Mercadet (aside) +My dear De la Brive could not have arrived at a better moment! + +Goulard +See how dusty it is! + +Violette +And battered to the very hood! It must have come from the heart of the +Indies, to be as battered as that. + +Mercadet (mildly) +You don't know what you are talking about, Violette! Why, my good +fellow, people don't arrive from the Indies by land. + +Goulard +But come and see for yourself, Mercadet; a man has stepped out-- + +Pierquin +Enveloped in a large pelisse--do come-- + +Mercadet +No--pardon me. The joy--the excitement--I-- + +Violette +He carries a chest. Oh! what a huge chest! Gentlemen, it is Godeau! I +recognize him by the chest. + +Mercadet +Yes--I was expecting Godeau. + +Goulard +He has come back from Calcutta. + +Pierquin +With a fortune. + +Mercadet +Of incalculable extent! + +Violette +What have I been saying? + +(Violette goes in silence to Mercadet and grasps his hand. The two +others follow his example, and then all the creditors form a ring +round Mercadet.) + +Mercadet (with seeming emotion) +Oh! Gentlemen--my friends--my dear comrades--my children! + + + + SCENE SEVENTH + + +The same persons and Mme. Mercadet. + + +Mme. Mercadet (entering from the left) +Mercadet! My dear! + +Mercadet (aside) +It is my wife. I thought that she had gone out. She is going to ruin +everything! + +Mme. Mercadet +My dear! I see that you don't know what has happened? + +Mercadet +I? No, I don't--if I-- + +Mme. Mercadet +Godeau is returned. + +Mercadet +Ah! You say? (Aside) I wonder if she suspects-- + +Mme. Mercadet +I have seen him--I have spoken to him. It was I who saw him first. + +Mercadet (aside) +De la Brive has won her over! What a man he is! (To Mme. Mercadet, +low) Good, my dear wife, good! You will be our salvation. + +Mme. Mercadet +But you don't understand me, it is really he, it is-- + +Mercadet (in a low voice) +Hush! (Aloud) I must--gentlemen--I must go and welcome him. + +Mme. Mercadet +No--wait, wait a little, my dear; poor Godeau has overtaxed his +strength--scarcely had he reached my apartment when fatigue, +excitement and a nervous attack overcame him-- + +Mercadet +Really! (Aside) How well she does it! + +Violette +Poor Godeau! + +Mme. Mercadet +"Madame," he said to me, "go and see your husband. Bring me back his +pardon; I do not wish to see him face to face, until I have repaired +the past." + +Goulard +That was fine. + +Pierquin +It was sublime. + +Violette +It melts me to tears, gentlemen, it melts me to tears. + +Mercadet (aside) +Look at that! Well! There's a woman worth calling a wife! (Taking her +by the hand) My darling-- Excuse me, gentlemen. (He kisses her on both +cheeks. In a low voice) Things are going on finely. + +Mme. Mercadet (in a low voice) +How lucky this is, my dear! Better than anything you could have +fancied. + +Mercadet +I should think so. (Aside) It is very much better. (Aloud) Go and look +after him, my dear. And you, gentlemen, be good enough to pass into my +office. (He points to the left.) Wait there till we settle our +accounts. + +(Mme. Mercadet goes out.) + +Goulard +I am at your service, my friend-- + +Pierquin +Our excellent friend. + +Violette +Friend, we are at your service. + +Mercadet (supporting himself half-dazed against the table) +What do you think? And people said that I was nothing but a sharper! + +Goulard +You! You are one of the most capable men in Paris. + +Pierquin +Who is bound to make a million--as soon as he has a-- + +Violette +Dear M. Mercadet, we will give you as much time as you want. + +All +Certainly. + +Mercadet +This is a little late--but gentlemen, I thank you as heartily as if +you had said it yesterday morning. Good-day. (In a low voice to +Goulard) Within an hour your stock shall be sold-- + +Goulard +Good! + +Mercadet (in a low voice to Pierquin) +Stay where you are. + +(All the others enter the office.) + +Pierquin +What can I do for you? + + + + SCENE EIGHTH + + +Mercadet and Pierquin. + + +Mercadet +We are now alone. There is no time to lose. The stock of Basse-Indre +went down yesterday. Go to the Exchange, buy up two hundred, three +hundred, four hundred--Goulard will deliver them to you-- + +Pierquin +And for what date, and on what collateral? + +Mercadet +Collateral? Nonsense! This is a cash deal; bring them to me to-day, +and I will pay to-morrow. + +Pierquin +To-morrow? + +Mercadet +To-morrow the stock will have risen. + +Pierquin +I suppose, considering your situation, that you are buying for Godeau. + +Mercadet +Do you think so? + +Pierquin +I presume he gave his orders in the letter which announced his return. + +Mercadet +Possibly so. Ah! Master Pierquin, we are going to take a hand in +business again, and I guess that you will gain from this to the end of +the year something like a hundred thousand francs in brokerage from +us. + +Pierquin +A hundred thousand francs! + +Mercadet +Let the stock be depressed below par, and then buy it in, and-- +(handing him a letter) see that this letter appears in the evening +paper. This evening, at Tortoni's, you will see an immediate rise in +the quotations. Now be quick about this. + +Pierquin +I will fly. Good-bye. (Exit.) + + + + SCENE NINTH + + +Mercadet, then Justin. + + +Mercadet +How well everything is going on, when we consider our recent +complications! When Mahomet had three reliable friends (and it was +hard to find them) the whole world was his! I have now won over as my +allies all my creditors, thanks to the pretended arrival of Godeau. +And I gain eight days, which means fifteen, with regard to actual +payment. I shall buy three hundred thousand francs' worth of Basse- +Indre before Verdelin. And when Verdelin asks for some of that stock, +he will find it has risen, for a demand will have raised it above the +current quotation, and I shall make at one stroke six hundred thousand +francs. With three hundred thousand I will pay my creditors and show +myself a Napoleon of finance. (He struts up and down.) + +Justin (from the back of the stage) +Sir-- + +Mercadet +What is it--what do you want, Justin? + +Justin +Sir-- + +Mercadet +Go on! Tell me. + +Justin +M. Violette has offered me sixty francs if I will let him speak with +M. Godeau. + +Mercadet +Sixty francs. (Aside) He fleeced me out of them. + +Justin +I am sure, sir, that you wouldn't like me to lose such a present. + +Mercadet +Let him have his way with you. + +Justin +Ah! sir, but--M. Goulard also--and the others-- + +Mercadet +Do as you like--I give them over into your hands. Fleece them well! + +Justin +I'll do my best. Thank you, sir. + +Mercadet +Let them all see Godeau. (Aside) De la Brive is well able to look +after himself. (Aloud) But, between ourselves, keep Pierquin away. +(Aside) He would recognize his dear friend, Michonnin. + +Justin +I understand, sir. Ah! here is M. Minard. (Exit.) + + + + SCENE TENTH + + +Mercadet and Minard. + + +Minard (coming forward) +Ah, sir! + +Mercadet +Well, M. Minard, and what brings you here? + +Minard +Despair. + +Mercadet +Despair? + +Minard +M. Godeau has come back; and they say that you are now a millionaire! + +Mercadet +Is that the cause of your despair? + +Minard +Yes, sir. + +Mercadet +Well, you are a strange fellow! I disclose to you the fact of my ruin +and you are delighted. You learn that good fortune has returned to me +and you are overwhelmed with despair! And all the while you wish to +enter into my family! Yet you act like my enemy-- + +Minard +It is just my love that makes your good fortune so alarming to me; I +fear all the while that you will now refuse me the hand-- + +Mercadet +Of Julie? My dear Adolphe, all men of business have not put their +heart in their money-bags. Our sentiments are not always to be +reckoned by debit and credit. You offered me the thirty thousand +francs that you possessed--I certainly have no right to reject you on +account of certain millions. (Aside) Which I do not possess! + +Minard +You bring back life to me. + +Mercadet +Well, I suppose that is true, but so much the better, for I am very +fond of you. You are simple, honorable. I am touched, I am delighted. +I am even charmed. Ah! Let me once get hold of my six hundred thousand +francs and--(Sees Pierquin enter) Here they come-- + + + + SCENE ELEVENTH + + +The same persons, Pierquin and Verdelin. + + +Mercadet (leading Pierquin to the front of the stage without perceiving +Verdelin) +Is it all right? + +Pierquin (in some embarrassment) +It is all right. The stock is ours. + +Mercadet (joyfully) +Bravo! + +Verdelin (approaching Mercadet) +Good-day! + +Mercadet +What! Verdelin-- + +Verdelin +I find out that you have bought the stock before me, and that now I +shall have to pay very much higher than I expected; but it is all +right, it was well managed, and I am compelled to cry, "Hail to the +King of the Exchange, Hail to the Napoleon of Finance!" (He laughs +derisively.) + +Mercadet (somewhat abashed) +What does he mean? + +Verdelin +I'm only repeating what you said yesterday-- + +Mercadet +What I said? + +Pierquin +The fact of it is, Verdelin does not believe in the return of Godeau-- + +Minard +Ah, sir! + +Mercadet +Is there any doubt about it? + +Verdelin (ironically) +Doubt about it! There is more than doubt about it. I at once concluded +that this so-called return was the bold stroke that you spoke of +yesterday. + +Mercadet +I--(Aside) Stupid of me! + +Verdelin +I concluded that, relying upon the presence of this fictitious Godeau, +you made purchases with the idea of paying on the rise, which would +follow to-morrow, and that to-day you have actually not a single sou-- + +Mercadet +You had imagined all that? + +Verdelin (approaching the fireplace) +Yes, but when I saw outside that triumphal post-chaise--that model of +Indian manufacture, and I realized that it was impossible to find such +a vehicle in the Champs-Elysees, all my doubts disappeared and-- But +hand him over the bonds, M. Pierquin! + +Pierquin +The--bonds--it happens that-- + +Mercadet (aside) +I must bluff, or I am lost! (Aloud) Certainly, produce the bonds. + +Pierquin +One moment--if what this gentleman has said is true-- + +Mercadet (haughtily) +M. Pierquin! + +Minard +But, gentlemen--M. Godeau is here--I have seen him--I have talked with +him. + +Mercadet (to Pierquin) +He has talked with him, sir. + +Pierquin (to Verdelin) +The fact of it is, I have seen him myself. + +Verdelin +I don't doubt it! By the bye, on what vessel did our friend Godeau say +he arrived? + +Mercadet +By what vessel? It was by the--by the /Triton/-- + +Verdelin +How careless the English newspapers are. They have published the +arrival of no other English mail packet but the /Halcyon/. + +Pierquin +Really! + +Mercadet +Let us end this discussion. M. Pierquin--those bonds-- + +Pierquin +Pardon me, but as you have offered no collateral, I would wish--I do +wish to speak with Godeau. + +Mercadet +You shall not speak with him, sir. I cannot permit you to doubt my +word. + +Verdelin +This is superb. + +Mercadet +M. Minard, go to Godeau-- Tell him that I have obtained an option on +three hundred thousand francs' worth of stock, and ask him to send me +--(with emphasis)--thirty thousand francs for use as a margin. A man +in his position always has such a sum about him. (In a low voice) Do +not fail to bring me the thirty thousand. + +Minard +Yes, sir. (Goes out, through the right.) + +Mercadet (haughtily) +Will that satisfy you, M. Pierquin? + +Pierquin +Certainly, certainly. (To Verdelin) It will be all right when he comes +back. + +Verdelin (rising from his seat) +And you expect that he will bring thirty thousand francs? + +Mercadet +I have a perfect right to be offended by your insulting doubt; but I +am still your debtor-- + +Verdelin +Bosh! You have enough in Godeau's pocket-book wherewith to liquidate; +besides, to-morrow the Basse-Indre will rise above par. It will go up, +up, till you don't know how far it will go. Your letter worked +wonders, and we were obliged to publish on the Exchange the results of +our explorations by boring. The mines will become as valuable as those +of Mons--and--your fortune is made--when I thought I was going to make +mine. + +Mercadet +I now understand your rage. (To Pierquin) And this is the origin of +all the doubtful rumors. + +Verdelin +Rumors which can only vanish before the appearance of Godeau's cash. + + + + SCENE TWELFTH + + +The same persons, Violette and Goulard. + + +Goulard +Ah! my friend! + +Violette (following him) +My dear Mercadet! + +Goulard +What a man this Godeau is! + +Mercadet (aside) +Fine! + +Violette +What high sense of honor he has! + +Mercadet (aside) +That's pretty good! + +Goulard +What magnanimity! + +Mercadet (aside) +Prodigious! + +Verdelin +Have you seen him? + +Violette +Of course, I have! + +Pierquin +Have you spoken to him? + +Goulard +Just as I speak to you. And I have been paid. + +All +Paid! + +Mercadet +Paid? How--how have you been paid? + +Goulard +In full. Fifty thousand in drafts. + +Mercadet (aside) +That I can understand. + +Goulard +And eight thousand francs net, in notes. + +Mercadet +In bank-notes? + +Goulard +Bank-notes. + +Mercadet (aside) +It is past my understanding. Ah! Eight thousand! Minard might have +given them, so that now he'll bring me only twenty-two thousand. + +Violette +And I--I, who would have been willing to make some reduction--I have +been paid in full! + +Mercadet +All! (in a low voice to him) I suppose in drafts? + +Violette +In first-class drafts to the amount of eighteen thousand francs. + +Mercadet (aside) +What a fellow this De la Brive is! + +Violette +And the balance, the other twelve thousand-- + +Verdelin +Yes--the balance? + +Violette +In cash. Here it is. (He shows the bank-notes.) + +Mercadet (aside) +Minard won't bring me more than ten. + +Goulard (taking a seat at the table) +And this very moment he is paying in the same way all your creditors. + +Mercadet +In the same way? + +Violette (taking a seat at the table) +Yes, in drafts, in specie, and in bank-notes. + +Mercadet (forgetting himself) +Lord, have mercy upon me! (Aside) Minard will bring me nothing at all. + +Verdelin +What is the matter with you? + +Mercadet +Me! Nothing--I-- + + + + SCENE THIRTEENTH + + +The same persons and Minard, followed by creditors. + + +Minard +I have done your errand. + +Mercadet (trembling) +And you--have brought me--a few--bank-notes? + +Minard +A few bank-notes? Of course. M. Godeau wouldn't let me even mention +the thirty thousand francs. + +(Goulard and Violette rise. Minard stands before the table, surrounded +by creditors.) + +Mercadet +I can quite understand that. + +Minard +"You mean," he said, "a hundred thousand crowns; here are a hundred +thousand crowns, with my compliments!" (He pulls out a large roll of +bank-notes, which he places on the table.) + +Mercadet (rushing to the table) +What the devil! (Looking at the notes) What is all this about? + +Minard +The three hundred thousand francs. + +Pierquin +My three hundred thousand francs! + +Verdelin +The truth for once! + +Mercadet (astounded) +Three hundred thousand francs! I see them! I touch them! I grasp them! +Three hundred thousand--where did you get them? + +Minard +I told you he gave them to me. + +Mercadet (with vehemence) +He!-- He--! Who is he? + +Minard +Did not I say, M. Godeau? + +Mercadet +What Godeau? Which Godeau? + +Minard +Why the Godeau who has come back from the Indies. + +Mercadet +From the Indies? + +Violette +And who is paying all your debts. + +Mercadet +What is this? I never expected to strike a Godeau of this kind. + +Pierquin +He has gone crazy! + +(All the other creditors gather at the back of the stage. Verdelin +approaches them, and speaks in a low voice.) + +Verdelin (returning to Mercadet) +It's true enough! All are paid in full! + +Mercadet +Paid? Every one of them? (Goes from one to the other and looks at the +bank-notes and the drafts they have.) Yes, all settled with--settled +in full! Ah! I see blue, red, violet! A rainbow seems to surround me. + + + + SCENE FOURTEENTH + + +The same persons, Mme. Mercadet, Julie (entering at one side) and De +la Brive (entering at the other side). + + +Mme. Mercadet +My friend, M. Godeau, feels himself strong enough to see you all. + +Mercadet +Come, daughter, wife, Adolphe, and my other friends, gather round me, +look at me. I know you would not deceive me. + +Julie +What is the matter, father? + +Mercadet +Tell me (seeing De la Brive come in) Michonnin, tell me frankly-- + +De la Brive +Luckily for me, sir, I followed the advice of madame--otherwise you +would have had two Godeaus at a time, for heaven has brought back to +you the genuine man. + +Mercadet +You mean to say then--that he has really returned! + +Verdelin +Do you mean to say that you didn't know it after all? + +Mercadet (recovering himself, standing before the table and touching +the notes) +I--of course I did. Oh, fortune, all hail to thee, queen of monarchs, +archduchess of loans, princess of stocks and mother of credit! All +hail! Thou long sought for, and now for the thousandth time come home +to us from the Indies! Oh! I've always said that Godeau had a mind of +tireless energy and an honest heart! (Going up to his wife and +daughter) Kiss me! + +Mme. Mercadet (in tears) +Ah! dear, dear husband! + +Mercadet (supporting her) +And you, what courage you have shown in adversity! + +Mme. Mercadet +But I am overcome by the happiness of seeing you saved--wealthy! + +Mercadet +But honest! And yet I must tell you my wife, my children--I could not +have held out much longer--I was about to succumb--my mind always on +the rack--always on the defensive--a giant might have yielded. There +were moments when I longed to flee away-- Oh! For some place of +repose! Henceforth let us live in the country. + +Mme. Mercadet +But you will soon grow weary of it. + +Mercadet +No, for I shall be a witness in their happiness. (Pointing to Minard +and Julie.) And after all this financial traffic I shall devote myself +to agriculture; the study of agriculture will never prove tedious. (To +the creditors) Gentlemen, we will continue to be good friends, but +will have no more business transactions. (To De la Brive) M. de la +Brive, let me pay back to you your forty-eight thousand francs. + +De la Brive +Ah! sir-- + +Mercadet +And I will lend you ten thousand more. + +De la Brive +Ten thousand francs? But I don't know when I shall be able-- + +Mercadet +You need have no scruples; take them--for I have a scheme-- + +De la Brive +I accept them. + +Mercadet +Ah! It is one of my dreams. Gentlemen (to the creditors who are +standing in a row) I am a--creditor! + +Mme. Mercadet (pointing to the door) +My dear, he is waiting for us. + +Mercadet +Yes, let us go in. I have so many times drawn your attention to +Godeau, that I certainly have the right to see him. Let us go in and +see Godeau! + + + +Final curtain. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Mercadet, by Honore De Balzac + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MERCADET *** + +***** This file should be named 14246.txt or 14246.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.net/1/4/2/4/14246/ + +Produced by Dagny and John Bickers + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.net + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/old/14246.20041203.zip b/old/old/14246.20041203.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..5607138 --- /dev/null +++ b/old/old/14246.20041203.zip |
