summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:44:08 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:44:08 -0700
commitf5b3dc9a8b8bf2e421f20905d1cbb06afe36f5bf (patch)
tree00b74a1fc7575073c6147ff6687f52de52ede44b
initial commit of ebook 14296HEADmain
-rw-r--r--.gitattributes3
-rw-r--r--14296-0.txt2020
-rw-r--r--14296-h/14296-h.htm2357
-rw-r--r--14296-h/images/devil.pngbin0 -> 38908 bytes
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
-rw-r--r--old/14296-8.txt2412
-rw-r--r--old/14296-8.zipbin0 -> 49662 bytes
-rw-r--r--old/14296-h.zipbin0 -> 90736 bytes
-rw-r--r--old/14296-h/14296-h.htm2776
-rw-r--r--old/14296-h/images/devil.pngbin0 -> 38908 bytes
-rw-r--r--old/14296.txt5402
-rw-r--r--old/14296.zipbin0 -> 57455 bytes
-rw-r--r--old/old/14246.20041203.txt5399
-rw-r--r--old/old/14246.20041203.zipbin0 -> 57395 bytes
15 files changed, 20382 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..6833f05
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,3 @@
+* text=auto
+*.txt text
+*.md text
diff --git a/14296-0.txt b/14296-0.txt
new file mode 100644
index 0000000..bb87e6a
--- /dev/null
+++ b/14296-0.txt
@@ -0,0 +1,2020 @@
+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14296 ***
+
+[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
+
+EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO
+
+AS FARPAS
+
+_Chronica Mensal_
+
+DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+QUARTA SERIE N.º 2
+
+NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882
+
+Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+universo, e da adoração de mim mesmo.
+
+P.J. PROUDHON.
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+
+Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
+influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
+mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
+sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
+rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
+illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna
+arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
+partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
+Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
+bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
+desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
+Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de
+faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.
+
+ * * * * *
+
+«Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
+Está approvado.»
+
+Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
+qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
+muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
+gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
+divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
+cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
+sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
+sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
+assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.
+
+ * * * * *
+
+Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
+que nos concilios, mas reforçado com um cordel.
+
+O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
+prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
+almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
+irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
+espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
+Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
+seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
+com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
+ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
+o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
+pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
+venia e diz:
+
+«Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
+frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
+honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
+digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
+arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
+prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
+nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»
+
+E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
+intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
+tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
+lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
+elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
+perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
+ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
+mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
+nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
+esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
+Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
+quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.
+
+ * * * * *
+
+Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
+oratoria sacra.
+
+Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
+persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
+redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
+divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
+para este effeito invisivel.
+
+Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
+tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
+clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil
+estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
+com as marionettes.
+
+N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:
+
+«Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
+manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
+accordo.»
+
+Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
+para approvar.
+
+ * * * * *
+
+Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
+notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
+approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
+numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.
+
+É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
+sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
+do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
+com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
+cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!
+
+Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
+por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
+mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
+fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
+ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
+de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
+o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
+herva crescer.
+
+ * * * * *
+
+Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
+chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
+sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
+perigos, apertando-se de mais com o fiado.
+
+Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
+posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
+áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
+ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.
+
+Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
+provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
+de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
+nossas intimidades com o Divino.
+
+É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
+consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
+devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
+invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
+fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
+divino.
+
+Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
+deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
+Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
+D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
+Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
+no espaço,
+
+Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
+principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
+n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.
+
+Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
+ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
+apoplexia.
+
+Acontecem d'estas ás vezes!
+
+Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
+pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
+Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
+a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
+terrestre.
+
+ * * * * *
+
+O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
+pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
+pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
+grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
+sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
+temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
+d'hostias quotidianas.
+
+Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
+agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
+dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
+exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
+uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
+principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.
+
+ * * * * *
+
+Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
+sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
+um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
+do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
+liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
+preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.
+
+Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
+abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
+opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
+esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
+amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
+pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
+perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
+liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
+litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
+consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
+espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
+por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
+a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
+caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
+sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.
+
+ * * * * *
+
+O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
+a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
+estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
+fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
+seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
+redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
+concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
+por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
+de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
+o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural
+pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
+vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
+cherubins no gallinheiro celeste.
+
+ * * * * *
+
+O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
+occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
+pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
+parte do snr. França Neto.
+
+Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
+chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
+outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
+panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
+assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
+ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
+simples ciprestal sentado,--com defluxo.
+
+Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
+resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
+universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
+sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
+ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
+mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
+sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
+succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
+Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
+que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
+governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
+e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
+religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.
+
+ * * * * *
+
+Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
+algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
+dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
+sacerdocio decae de um modo sensibilisador.
+
+No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
+1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
+Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
+d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
+para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
+empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
+enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
+coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
+destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
+brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
+grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
+lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
+clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
+por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
+cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
+de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
+sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
+com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.
+
+Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
+do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
+livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
+de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
+do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
+rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.
+
+«Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são
+inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
+não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
+sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
+catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
+por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
+ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
+a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
+politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
+lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
+condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
+morto, e nunca mais resuscitará.»
+
+Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
+cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
+ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
+tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
+espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
+contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
+tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.
+
+A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
+predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
+representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
+religião.
+
+Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
+a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
+do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
+religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
+consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
+decretos ou por castigos humanos.
+
+«Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós,
+entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
+e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
+tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
+deem em toda a parte onde fordes escravos.»
+
+Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
+levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
+resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
+todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
+quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
+creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»
+
+ * * * * *
+
+Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
+de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
+liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
+seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
+historia das ideias clericaes.
+
+O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
+abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
+fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
+liberdade.
+
+Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
+baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
+continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
+com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
+resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
+quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
+que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
+ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
+_liberdade da sciencia_.
+
+Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
+obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
+Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
+Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
+sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
+liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica
+_Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
+illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
+civilisação.
+
+Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
+resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
+do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
+vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
+manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
+gremio da egreja.
+
+N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.
+
+Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.
+
+Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
+barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
+liberaes, julgaram impossivel transpôr.
+
+ * * * * *
+
+Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
+demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
+obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
+prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
+Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
+o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.
+
+Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
+emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
+congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
+ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
+querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.
+
+ * * * * *
+
+A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
+de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
+senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
+todas as sessões.
+
+Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
+as adhesões da mulher?
+
+Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
+tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre
+d'aldeia e o padre de sala.
+
+ * * * * *
+
+Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
+aventureiros e os mysticos.
+
+Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
+temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
+mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
+quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
+centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
+tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
+justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
+civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
+pretos do que elles são.
+
+Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
+martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
+fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
+sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
+canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
+dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
+Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
+inhospitas e selvagens.
+
+Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
+o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
+sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
+par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
+dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
+o outro:
+
+--Saboroso padre! benza-o Manipanso!
+
+ * * * * *
+
+O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.
+
+A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
+enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
+estonteadores.
+
+As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
+religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
+espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
+missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
+sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
+arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
+no arraial.
+
+Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
+da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.
+
+Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
+rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
+artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
+chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
+podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
+passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.
+
+Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
+latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
+cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
+saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
+perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
+para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
+hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
+jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.
+
+
+ * * * * *
+
+O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
+casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
+onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
+boleeiro, o creado de farda e a preta.
+
+As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não
+tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
+para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
+caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
+serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
+entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
+raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
+dos seminarios.
+
+É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
+matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
+_chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
+e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
+paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
+bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.
+
+Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
+aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
+ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
+noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
+terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
+outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
+para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.
+
+Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
+mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
+Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
+torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:
+
+--Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
+para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
+chão!
+
+E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
+inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_
+
+--Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!
+
+Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
+emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
+Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:
+
+«Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
+d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
+dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»
+
+Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
+posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
+pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
+rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.
+
+Alguém á noite pergunta:
+
+--Que é feito do padre João?
+
+E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
+responde lentamente:
+
+-Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
+para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
+meio de uma ligeira admoestação corporea.
+
+--Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!
+
+--Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
+pelo lado _cunhos_.
+
+ * * * * *
+
+De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
+casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
+para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
+dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.
+
+O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
+haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
+applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
+estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
+com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
+misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
+do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
+pecaminosa.
+
+Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
+lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
+Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
+foram manufacturados.
+
+ * * * * *
+
+Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
+vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
+tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
+apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
+oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
+manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.
+
+Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!
+
+Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
+de Castello Melhor. Que contraste!
+
+Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
+vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
+reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
+Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
+encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
+revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
+os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.
+
+A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
+por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
+levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
+discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
+monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
+heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
+triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.
+
+A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
+trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
+o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
+e a pratica da devoção.
+
+O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
+de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
+vae para padre, isto é, por simples estupidez.
+
+Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
+mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
+tapados para contas, e não tem perigo nenhum.
+
+Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
+sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.
+
+As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
+como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
+Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
+Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
+inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
+fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.
+
+O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para
+lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
+em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
+ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
+mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
+consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.
+
+ * * * * *
+
+Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
+os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
+extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
+verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
+ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
+debalde, transformal-as em obras.
+
+Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
+lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
+substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.
+
+Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
+perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
+inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
+aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
+alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
+agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
+renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
+que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
+grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
+aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
+infestam, sevandijam e conspurcam.
+
+Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
+um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
+Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
+escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
+politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
+de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
+vigentes.
+
+O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
+sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.
+
+No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
+para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
+de pistola.
+
+Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
+portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
+por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
+delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
+dos seus compatriotas.
+
+Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:
+
+_A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
+«bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
+consternação em que todos se achavam_.
+
+E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
+enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
+profunda de tão excelso quão sensivel principe.
+
+ * * * * *
+
+Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
+se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
+manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
+ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:
+
+Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
+têem os povos egualmente?
+
+Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
+testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
+do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
+ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
+museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
+lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
+como os reis choram pelos seus bons subditos?
+
+Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
+grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
+a queda de um honrado cidadão que morre?
+
+Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é
+perfeitamente a mesma coisa!
+
+Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
+acaba de passar o seu coração generoso e paternal!
+
+Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
+quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
+gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
+quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
+proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
+póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
+fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
+turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
+das proezas do tiro ao alvo.
+
+ * * * * *
+
+Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
+os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
+tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade
+se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
+occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
+das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.
+
+ * * * * *
+
+A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
+vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
+casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.
+
+Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.
+
+A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
+Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
+apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
+banca e o dos parceiros.
+
+O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
+louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
+elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
+mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
+_algum dinheiro e mobilia._
+
+Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
+intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
+redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
+acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
+surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
+e desapercebidos.
+
+No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
+nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
+as jogatinas.
+
+Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
+sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
+auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
+jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
+discutir com ellas sobre esta questão.
+
+ * * * * *
+
+O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
+S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.
+
+A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
+Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
+Senhora da Luz.
+
+No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
+mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
+achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
+provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
+sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
+circulos concentricos.
+
+A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
+adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
+uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
+das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
+apostas.
+
+Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
+cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
+egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
+particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
+que scintillava um olho de gato e um rubi.
+
+Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
+que tinha mais proximo de mim.
+
+Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
+finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
+trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
+para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
+preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
+segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
+cartas que em seguida sahia do baralho.
+
+Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
+expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
+mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
+Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
+administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
+ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
+lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
+cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.
+
+De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
+profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
+100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
+trez de espadas que se achava na mesa.
+
+Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
+direita ou para a esquerda das cartas.
+
+O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
+pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:
+
+--Mata o rei?
+
+Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:
+
+--Mato-o, sim senhor!
+
+Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
+silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
+e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
+cartas 3$000 que tinha posto.
+
+O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
+principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
+que comprimia nos dedos.
+
+A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.
+
+Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
+illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
+parada egual á minha.
+
+Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo
+bem caracteristicamente mediocre.
+
+Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
+consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
+de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma
+recebida n'esse mesmo dia.
+
+Fiquei na batota até pela manhã.
+
+Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
+entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
+e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
+em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
+primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
+da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
+pautava luminosamente d'azul.
+
+Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
+noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
+cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.
+
+O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
+saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
+raivosamente pelos pontos.
+
+O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
+o collarinho esverdinhado de transpiração.
+
+O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
+depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
+de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
+escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
+as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
+convulsões da bronchite.
+
+A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
+de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
+banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
+ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
+polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
+Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
+d'ali embora sosinho.
+
+Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
+Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
+filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
+no hotel do Romão, intitulado da Boavista.
+
+Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
+misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.
+
+A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
+um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
+melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
+tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
+atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
+palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
+fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
+elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.
+
+Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
+cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
+um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
+no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
+antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
+moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
+doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
+sovaco.
+
+--Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz
+estrangulada.
+
+E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
+alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
+bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.
+
+--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
+inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
+que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
+lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
+me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
+progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
+tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
+os olhos torvos!
+
+--Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
+parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
+porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
+cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
+janella.
+
+E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:
+
+--Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
+agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
+para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
+e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
+rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
+pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
+diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
+para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
+presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
+justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
+partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
+mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
+noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
+mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
+regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
+luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
+semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
+doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.
+
+--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
+de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
+modo que me está a appetecer isso, a mim!
+
+E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
+remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.
+
+Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
+vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
+encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
+entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
+ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
+vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.
+
+Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
+pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
+Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
+taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
+vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
+natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
+sempre velados pelo mysterio.
+
+ * * * * *
+
+Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
+batota!
+
+Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
+que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.
+
+Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
+de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
+castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
+lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
+aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
+impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
+solto.
+
+E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
+de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
+assalta e sequéstra as batotas!
+
+Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
+teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
+para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
+outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
+policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
+lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
+chalaça!
+
+ * * * * *
+
+Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
+jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
+_Frei Bandalho_.
+
+Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
+bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
+Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
+vulgarisação da litteratura jornalistica.
+
+Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
+ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
+cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
+pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
+preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
+braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
+_Bisborria_ e o _Pulha_.
+
+A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
+intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
+esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
+educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
+com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
+borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.
+
+ * * * * *
+
+S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
+Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
+_Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.
+
+Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
+s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
+portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»
+
+Inclinemo-nos com reverencia!
+
+Elle poz-lhe o nome de Rosalia....
+
+Tornemos a inclinar-nos!
+
+E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
+meiados do decimo setimo seculo.....
+
+Prostremo-nos por terra!
+
+ * * * * *
+
+D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis
+n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:
+
+«Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
+boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
+impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
+por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
+aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
+semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
+luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
+das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
+pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
+sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...
+
+«E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
+conde de Sabugosa.»
+
+É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
+D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
+um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
+pena de experimentar....
+
+De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
+preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
+differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
+os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
+os gostos d'horta ou de capoeira.
+
+O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
+massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
+a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.
+
+Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
+longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
+musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
+duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.
+
+Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
+da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
+jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.
+
+ * * * * *
+
+Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
+noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de
+Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
+devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
+de escamas de corvina.
+
+Tambem folgamos muito com isto.
+
+Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
+artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
+notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
+lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
+se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
+esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
+genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
+prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
+artes do desenho.
+
+Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
+peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
+suas boas mestras!
+
+Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
+processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
+perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
+apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
+faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
+escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
+Leopoldo!
+
+Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
+artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
+critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
+que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
+nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
+organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
+estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.
+
+ * * * * *
+
+Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
+assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
+aprehendidos.
+
+O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
+se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
+visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
+no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
+Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
+reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
+batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
+empalmou do bolo.
+
+A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
+policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
+para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.
+
+E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
+diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.
+
+Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
+chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
+propriamente--uma _vacca_.
+
+ * * * * *
+
+Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
+naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
+mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
+Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.
+
+Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
+dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
+implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
+outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
+baralhos.
+
+Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
+tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.
+
+O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
+esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
+gracejo_.
+
+O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
+inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a
+quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é
+licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.
+
+O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é
+accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.
+
+Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
+chamado a resolver questões d'olhos.
+
+Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
+ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
+que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.
+
+O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
+luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
+que entre esses dois amantes se passou!
+
+O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
+mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.
+
+Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
+ironica:
+
+--Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
+se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
+Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....
+
+--Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
+para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!
+
+E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
+transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
+delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.
+
+Oh! amor!... amor!
+
+Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
+breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
+um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
+jornal o serafim a que nos reportamos.
+
+Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
+patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
+collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
+juizo.
+
+Diz o jurado:
+
+_Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
+ôlho á queixosa?_
+
+Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
+Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
+XVII pelas damas illustres.
+
+Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
+que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
+obrigação d'este é por-se de rôjos.
+
+ * * * * *
+
+Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
+cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
+terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
+e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
+essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
+Bragança Junior.
+
+Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
+severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
+da patria.»
+
+Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
+de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
+bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
+fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
+a descobrir que ella era unicamente um lenço.
+
+Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
+attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
+venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
+correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
+crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
+servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
+cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
+I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
+o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
+outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.
+
+ * * * * *
+
+Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
+moveis artisticos.
+
+Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
+portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
+sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
+licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
+magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
+senhora.
+
+O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
+desafogo de alguns commentarios.
+
+ * * * * *
+
+A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
+de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
+antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
+Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
+restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
+dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
+armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
+das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
+roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
+guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
+sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
+as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
+João v.
+
+Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
+gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos
+ferros-velhos.
+
+ * * * * *
+
+É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
+artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
+resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
+modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
+linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
+o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
+não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
+cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
+o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
+convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
+a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
+rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.
+
+Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
+obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
+preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
+dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
+fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.
+
+O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
+proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
+fornecedor privilegiado de Luiz XIV.
+
+Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.
+
+Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
+consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
+immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
+alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
+progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
+elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.
+
+ * * * * *
+
+Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
+nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
+mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
+mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
+proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
+melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
+influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
+quanto talvez ephemera.
+
+Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
+quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
+sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
+definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
+sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
+fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.
+
+Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon
+e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry
+ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
+bem dissolvente!
+
+Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
+a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
+_nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
+aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
+do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
+Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
+esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
+mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
+Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!
+
+ * * * * *
+
+Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
+nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
+foi victima o mais bello gato de sua magestade!
+
+Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
+competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
+de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
+contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
+real camara a raparem-o á escovinha.
+
+Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
+ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
+dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
+dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
+destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
+versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
+sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
+pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
+a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
+com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
+no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.
+
+O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
+mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
+abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
+pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
+costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
+pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
+que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
+entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
+caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!
+
+ * * * * *
+
+Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
+unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
+espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
+soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
+promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
+reconhecel-o e a lamental-o.
+
+ * * * * *
+
+Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
+o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
+representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.
+
+O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
+diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
+menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.
+
+Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
+liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
+classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
+n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
+que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
+morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
+archeologicas.
+
+ * * * * *
+
+«Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
+com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
+arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as
+folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
+o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
+augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
+d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
+Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
+Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
+hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
+fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
+arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
+Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
+nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
+religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
+nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
+religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
+vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
+Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
+nação portuguesa!»
+
+ * * * * *
+
+Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
+d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
+offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.
+
+O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa
+do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
+á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
+por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
+bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
+pé outra vez.
+
+Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,
+se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
+a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
+unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
+tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.
+
+Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no
+primeiro repente gostamos d'elle.
+
+Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é
+geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
+bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
+affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
+nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
+ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
+em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.
+
+Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
+n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
+conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,
+estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
+bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
+os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!
+
+Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
+desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é
+preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
+a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
+ninguem.
+
+Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
+a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
+peiores de todos!
+
+Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,
+prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
+o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
+e o arcebispo de Bragança.
+
+O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
+que é fazenda.
+
+Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
+bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.
+
+O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
+gallinha!
+
+Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o
+_Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do
+exercito das trevas_.
+
+Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
+melros. Rua, que é a sala dos cães!
+
+Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
+escusa-se de bispos.
+
+Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e
+que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
+pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
+dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?
+
+E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós
+agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar
+ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor
+de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
+Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--
+
+Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja
+tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
+melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
+incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
+_Nação?..._
+
+Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
+que ha pouco demos á nossa cosinheira:
+
+--Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.
+
+ * * * * *
+
+Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao
+governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.
+
+O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
+representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
+impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
+cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.
+
+No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
+estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
+propicio para cardinalisar Masella.
+
+Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que
+se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
+encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
+ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
+propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é
+a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
+que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...
+
+Oh! não.
+
+Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
+exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
+distribuição dos barretes phrygios.
+
+O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
+symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
+sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
+de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
+então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
+borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.
+
+Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não
+temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
+de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
+a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
+pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
+tostões e meio.
+
+De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse
+barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
+critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
+traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
+mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
+balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
+instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
+do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
+seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
+affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.
+
+Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
+presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
+seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
+direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
+dizer em tal conjuntura:
+
+--Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
+esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
+sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
+turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
+agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
+e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.
+
+ * * * * *
+
+Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
+dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
+emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
+entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.
+
+Eis o caso:
+
+ * * * * *
+
+Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
+franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
+a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
+propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.
+
+Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
+benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
+pessimos alguns dos bispos propostos.
+
+--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
+humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
+amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
+desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
+que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
+precisamente opposta á que eu tenho!?...
+
+--Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
+ex.ª me consultava....
+
+-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
+Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
+cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
+ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
+gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
+por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
+baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
+fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
+sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
+toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
+chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
+um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
+principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
+do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
+_quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e
+jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
+as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
+liberrimo governo da nação portugueza.
+
+--Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
+cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
+mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
+da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
+e snr, agora, o vereis!
+
+_--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
+rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O
+forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,
+monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
+chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
+Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará
+então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
+pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
+ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
+carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
+incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
+carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
+Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
+d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
+sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
+vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
+porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
+bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
+a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
+efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
+convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
+sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
+sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
+snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
+abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
+pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
+sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
+assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
+Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
+para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
+Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções
+literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
+coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
+da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
+sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?
+
+Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
+que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
+perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
+o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e
+experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
+drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.
+
+ * * * * *
+
+Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
+dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
+ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
+passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que
+se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
+folha:
+
+_O nuncio desacatou sua excellencia_.
+
+Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
+periodicos ministeriaes.
+
+_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
+um calor_.
+
+ * * * * *
+
+Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
+nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
+causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
+occasião d'este jubiloso successo.
+
+ * * * * *
+
+E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
+compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
+nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.
+
+Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,
+incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
+que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
+confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
+considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
+Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
+ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
+de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.
+
+Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
+interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
+bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
+de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
+o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?
+
+ * * * * *
+
+Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
+Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
+que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
+pensadores?...
+
+Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:
+
+Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
+ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
+livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
+prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
+fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
+irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!
+
+Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
+pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?
+
+Vejamos, sinceramente:
+
+Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
+querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
+confessar mulheres?...
+
+Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
+a fallar n'isso.
+
+Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
+que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?
+
+Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:
+
+--Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
+republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
+bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
+bispos.
+
+Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
+governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
+Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
+governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!
+
+ * * * * *
+
+A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
+beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.
+
+Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
+empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
+que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
+republicano de opposição ao governo.
+
+Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
+que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
+do Arsenal na qualidade de vaso de paz.
+
+Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições
+pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
+estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
+para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.
+
+Parabens a sua excellencia!
+
+ * * * * *
+
+Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
+passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
+da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
+Carnaxide.
+
+Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
+inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
+presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
+pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
+bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
+gorgeios.
+
+Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
+fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
+lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
+o milagroso dia de tão prodigiosa santa.
+
+Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
+presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
+Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
+magestoso acima do narravel.
+
+Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
+quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
+de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
+horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
+vida em direcção á faia virente.
+
+Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
+ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco
+ao lado.
+
+Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
+Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
+as nuvens, exclamou:
+
+Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
+
+Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
+negocios do reino.
+
+Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.
+
+--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á
+rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
+Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!
+
+E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
+campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
+exprimir-se em prosa:
+
+--Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a
+vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?
+
+Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
+facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
+nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
+lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
+penna e de governação.
+
+Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
+matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um
+brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:
+
+--Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
+quebrada da serra?
+
+E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
+Nossa Senhora Apparecida,
+
+--Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a
+elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
+d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
+_Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
+Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
+templo!...
+
+Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
+Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
+infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
+a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
+patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
+feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
+para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
+Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
+publica:
+
+D. Miguel foi á Sé,
+Sentou-se n'uma cadeira,
+E disso para os malhados:
+Esta perna está inteira!
+
+Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
+que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
+governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
+Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
+outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
+Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
+segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.
+
+Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
+milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
+submissos em giolhos.
+
+E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
+viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
+repetir aos montes e ás hervinhas:
+
+ Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
+
+que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
+a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
+honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
+Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
+de nunca ter visto Lisboa.
+
+Gloria pois a s.ex.ª!
+
+ * * * * *
+
+Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
+pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
+desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
+na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
+minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
+molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.
+
+A patria explorava-o e ria-se d'elle.
+
+Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
+papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
+Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
+agraciou a regia munificencia.
+
+Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
+profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
+dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
+extrangeiro.
+
+Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
+embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
+Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
+instruida e forte, que vae chegar--para se rir.
+
+Lisboa 15 de dezembro de 1882.
+
+_Ramalho Ortigão._
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Novembro A Dezembro 1882)
+by José Maria Eça De Queiroz and Ramalho Ortigão
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14296 ***
diff --git a/14296-h/14296-h.htm b/14296-h/14296-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..5a04d65
--- /dev/null
+++ b/14296-h/14296-h.htm
@@ -0,0 +1,2357 @@
+<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN"
+ "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd">
+<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml">
+<head>
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=UTF-8" />
+ <meta content="pg2html (binary v0.16)" name="generator" />
+ <meta name="author" content="Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz" />
+ <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882
+by Ramalho Ortigão and Eça De Queiroz.</title>
+<style type="text/css">
+/*<![CDATA[*/
+ <!--
+ body { margin-left: 10%; margin-right: 10%; }
+ h1,h2,h3,h4,h5,h6 { text-align: center; }
+ hr.major { width: 30%;}
+ hr.minor { width: 10%;}
+ .centered {text-align: center}
+ .poem { margin-left: 10%; margin-right: 10%; margin-bottom: 1em; text-align: left; }
+ .poem .stanza { margin: 1em 0em 1em 0em; }
+ .poem p { margin: 0; padding-left: 3em; text-indent: -3em; }
+ .poem p.i2 { margin-left: 1em; }
+ .poem p.i4 { margin-left: 2em; }
+ .poem p.i6 { margin-left: 3em; }
+ .poem p.i8 { margin-left: 4em; }
+ .poem p.i10 { margin-left: 5em; }
+/*]]>*/
+ // -->
+</style>
+</head>
+<!--====================================================-->
+<body>
+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14296 ***</div>
+
+<div class="centered">
+ <img src="images/devil.png" width="570" height="755"
+ alt="Eça de Queiroz&mdash;Ramalho Ortigão&mdash;As Farpas" />
+ <!--IMAGE END-->
+</div>
+<hr class="major" />
+<h1>
+ AS FARPAS
+</h1>
+<div class="centered">
+ <p>EÇA DE QUEIROZ&mdash;RAMALHO ORTIGÃO</p>
+ <p><i>Chronica Mensal</i></p>
+ <p>DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p>
+ <p>QUARTA SERIE N.º 2</p>
+ <p>NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882</p>
+</div>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<blockquote>
+<p>
+ Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+ da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
+ sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+ politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+ universo, e da adoração de mim mesmo.
+</p>
+</blockquote>
+<p class="centered">
+ P.J. PROUDHON
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+
+<p class="centered">
+ <b>SUMMARIO</b>
+</p>
+<p>
+ Congressos catholicos e ideias clericaes&mdash;Anjos e reprobos&mdash;As
+ influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza&mdash;A egreja e as
+ mulheres&mdash;Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de
+ sala&mdash;Os clubs e as sacristias&mdash;O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
+ rei de copas, a rusga, a
+<a href="#vacca"><i>vacca</i></a>&mdash;Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
+ illustre&mdash;Novas applicações da mobilia á critica litteraria&mdash;A moderna
+ arte portugueza e as
+<a href="#escamasdecorvina">escamas da corvina</a>&mdash;O jornalismo em Braga&mdash;O
+ partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas&mdash;Sampaio o
+<a href="#saraivadecarvalho">Saraiva de Carvalho</a>&mdash;A
+ augusta princeza anjo da caridade e do
+<a href="#bricabrac">bric-à-brac</a>&mdash;Tragico fim de um
+<a href="#gato">gato</a> d'esse anjo&mdash;Fausto e jocundo
+ desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua
+ Santidade&mdash;A urna e a
+<a href="#stephania">corveta Stephania</a>&mdash;Os commendadores e os cães de
+ faiança&mdash;-Milagrosa reapparição de
+<a href="#apparecida">Nossa Senhora Apparecida</a>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ «Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado...
+ Está approvado.»
+</p>
+<p>
+ Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
+ qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
+ muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
+ gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da
+ divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses
+ cavalheiros,&mdash;papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
+ sacristães&mdash;Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a
+ sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
+ assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo
+ que nos concilios, mas reforçado com um cordel.
+</p>
+<p>
+ O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um
+ prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
+ almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
+ irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação
+ espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
+ Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
+ seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
+ com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o
+ ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre
+ o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e
+ pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
+ venia e diz:
+</p>
+<p>
+ «Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
+ frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
+ honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,&mdash;se minha debil voz,
+ digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do
+ arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
+ prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
+ nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»
+</p>
+<p>
+ E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
+ intitulada obsecração,&mdash;um dos mais arrojados e vehementes de todos os
+ tropos,&mdash;o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a
+ lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que
+ elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes
+ perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o
+ ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
+ mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se
+ nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como
+ esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
+ Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
+ quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
+ oratoria sacra.
+</p>
+<p>
+ Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
+ persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a
+ redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
+ divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e
+ para este effeito invisivel.
+</p>
+<p>
+ Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
+ tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
+ clerigos&mdash;e mui judiciosamente segundo se nos affigura&mdash;que é inutil
+ estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
+ com as marionettes.
+</p>
+<p>
+ N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:
+</p>
+<p>
+ «Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se
+ manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de
+ accordo.»
+</p>
+<p>
+ Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas
+ para approvar.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é
+ notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para
+ approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
+ numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.
+</p>
+<p>
+ É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão
+ sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella
+ do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
+ com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
+ cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!
+</p>
+<p>
+ Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
+ por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
+ mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais
+ fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
+ ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
+ de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
+ o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
+ herva crescer.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de
+ chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
+ sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
+ perigos, apertando-se de mais com o fiado.
+</p>
+<p>
+ Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
+ posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
+ áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
+ ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.
+</p>
+<p>
+ Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
+ provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
+ de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em
+ nossas intimidades com o Divino.
+</p>
+<p>
+ É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
+ consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
+ devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais
+ invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de
+ fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito
+ divino.
+</p>
+<p>
+ Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um
+ deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que
+ Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
+ D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de
+ Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
+ no espaço,
+</p>
+<p>
+ Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
+ principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
+ n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.
+</p>
+<p>
+ Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o
+ ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
+ apoplexia.
+</p>
+<p>
+ Acontecem d'estas ás vezes!
+</p>
+<p>
+ Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
+ pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
+ Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com
+ a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
+ terrestre.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel
+ pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
+ pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a
+ grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a
+ sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga
+ temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e
+ d'hostias quotidianas.
+</p>
+<p>
+ Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
+ agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
+ dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
+ exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
+ uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor
+ principal e leitor unico da <i>Nação,</i> o snr Fernando Todo Pedroso.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
+ sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
+ um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
+ do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de
+ liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava
+ preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.
+</p>
+<p>
+ Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
+ abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os
+ opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima
+ esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
+ amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a
+ pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
+ perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a
+ liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia
+ litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não
+ consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
+ espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer
+ por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
+ a outra.&mdash;-Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
+ caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
+ sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com
+ a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
+ estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso
+ fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no
+ seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
+ redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
+ concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já,
+ por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
+ de s. ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar
+ o Chiado como o atravessam os perus, isto é&mdash;em pennas. A natural
+ pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes
+ vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
+ cherubins no gallinheiro celeste.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
+ occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
+ pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da
+ parte do snr. França Neto.
+</p>
+<p>
+ Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
+ chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais
+ outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do
+ panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
+ assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um
+ ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um
+ simples ciprestal sentado,&mdash;com defluxo.
+</p>
+<p>
+ Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa
+ resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma
+ universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
+ sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos
+ ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles
+ mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
+ sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que
+ succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração.
+ Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle
+ que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do
+ governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
+ e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
+ religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
+ algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
+ dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
+ sacerdocio decae de um modo sensibilisador.
+</p>
+<p>
+ No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
+ 1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
+ Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
+ d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão
+ para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e
+ empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
+ enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era
+ coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
+ destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
+ brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
+ grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
+ lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
+ clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
+ por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os
+ cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os
+ de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
+ sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
+ com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.
+</p>
+<p>
+ Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
+ do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
+ livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
+ de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
+ do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma
+ rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.
+</p>
+<p>
+ «Em toda a parte excepto na Belgica&mdash;disse elle&mdash;os catholicos são
+ inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
+ não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova
+ sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os
+ catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam
+ por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão
+ ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é,
+ a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
+ politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
+ lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
+ condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está
+ morto, e nunca mais resuscitará.»
+</p>
+<p>
+ Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
+ cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
+ ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
+ tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
+ espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão
+ contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as
+ tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.
+</p>
+<p>
+ A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
+ predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
+ representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
+ religião.
+</p>
+<p>
+ Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
+ a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações
+ do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na
+ religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
+ consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por
+ decretos ou por castigos humanos.
+</p>
+<p>
+ «Catholicos&mdash;disse Montalembert&mdash;se quereis a liberdade para vós,
+ entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
+ e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a
+ tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
+ deem em toda a parte onde fordes escravos.»
+</p>
+<p>
+ Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
+ levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
+ resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do
+ todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir
+ quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia
+ creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
+ de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
+ liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do
+ seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na
+ historia das ideias clericaes.
+</p>
+<p>
+ O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
+ abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert
+ fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a
+ liberdade.
+</p>
+<p>
+ Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do
+ baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
+ continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos
+ com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das
+ resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou
+ quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
+ que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
+ ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
+ <i>liberdade da sciencia</i>.
+</p>
+<p>
+ Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não
+ obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
+ Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
+ Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu
+ sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias
+ liberaes do congresso com a publicação do <i>Syllabus</i> e da encyclica
+ <i>Quanta cura</i>, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
+ illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
+ civilisação.
+</p>
+<p>
+ Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
+ resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
+ do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação
+ vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações
+ manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
+ gremio da egreja.
+</p>
+<p>
+ N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.
+</p>
+<p>
+ Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.
+</p>
+<p>
+ Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma
+ barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
+ liberaes, julgaram impossivel transpôr.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente
+ demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
+ obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos
+ prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do
+ Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que
+ o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.
+</p>
+<p>
+ Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
+ emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O
+ congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe
+ ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
+ querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
+ de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
+ senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
+ todas as sessões.
+</p>
+<p>
+ Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
+ as adhesões da mulher?
+</p>
+<p>
+ Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
+ tres especies distinctas de padres:&mdash;o padre das missões, o padre
+ d'aldeia e o padre de sala.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os
+ aventureiros e os mysticos.
+</p>
+<p>
+ Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação
+ temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro
+ mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De
+ quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns
+ centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,&mdash;cerimonia
+ tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
+ justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante
+ civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos
+ pretos do que elles são.
+</p>
+<p>
+ Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do
+ martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias
+ fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam
+ sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
+ canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
+ dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no <i>Barbeiro de
+ Sevilha,</i> mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões
+ inhospitas e selvagens.
+</p>
+<p>
+ Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
+ o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a
+ sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um
+ par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
+ dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
+ o outro:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Saboroso padre! benza-o Manipanso!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.
+</p>
+<p>
+ A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
+ enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
+ estonteadores.
+</p>
+<p>
+ As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa
+ religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
+ espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á
+ missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de
+ sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
+ arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
+ no arraial.
+</p>
+<p>
+ Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda
+ da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.
+</p>
+<p>
+ Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
+ rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
+ artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
+ chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão
+ podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a
+ passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.
+</p>
+<p>
+ Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
+ latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o
+ cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte,
+ saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
+ perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites
+ para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
+ hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
+ jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
+ casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres,
+ onde o capellão era de rigor nos accessorios da <i>mise-en-scene,</i> como o
+ boleeiro, o creado de farda e a preta.
+</p>
+<p>
+ As meninas nobres, que hoje lêem o <i>Figaro</i> e os romances de Daudel, não
+ tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é
+ para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
+ caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
+ serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
+ entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
+ raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso
+ dos seminarios.
+</p>
+<p>
+ É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os
+ matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o
+ <i>chignon</i> para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia
+ e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
+ paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os
+ bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.
+</p>
+<p>
+ Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda
+ aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
+ ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á
+ noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás
+ terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a
+ outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga
+ para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.
+</p>
+<p>
+ Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
+ mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das
+ Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao
+ torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille
+ para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
+ chão!
+</p>
+<p>
+ E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
+ inglez, umas para as outras, picando o <i>crochet:</i>
+</p>
+<p>
+ &mdash;Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!
+</p>
+<p>
+ Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede
+ emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em
+ Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:
+</p>
+<p>
+ «Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
+ d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe
+ dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»
+</p>
+<p>
+ Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação,
+ posto na escada com a respectiva bagagem,&mdash;uma camisa, um pente, dois
+ pares de piugas embrulhadas n'um jornal&mdash;, e uma pontuada de bengala nos
+ rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.
+</p>
+<p>
+ Alguém á noite pergunta:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Que é feito do padre João?
+</p>
+<p>
+ E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto,
+ responde lentamente:
+</p>
+<p>
+ -Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais
+ para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por
+ meio de uma ligeira admoestação corporea.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Por isso tambem não foi pelo lado <i>cruzes</i> que eu o admoestei, foi
+ pelo lado <i>cunhos</i>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
+ casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
+ para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
+ dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.
+</p>
+<p>
+ O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se
+ haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos
+ applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que
+ estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares
+ com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não
+ misturar nunca&mdash;a não ser no sigillo do sanctuario&mdash;o bacalhau norueguez
+ do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
+ pecaminosa.
+</p>
+<p>
+ Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos
+ lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de
+ Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
+ foram manufacturados.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão
+ vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á
+ tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
+ apenas quatro padres annunciam um dos seus <i>meetings</i> ao eterno, logo
+ oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
+ manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.
+</p>
+<p>
+ Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!
+</p>
+<p>
+ Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
+ de Castello Melhor. Que contraste!
+</p>
+<p>
+ Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas
+ vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
+ reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
+ Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão
+ encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
+ revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
+ os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.
+</p>
+<p>
+ A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas,
+ por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a
+ levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de
+ discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
+ monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
+ heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
+ triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.
+</p>
+<p>
+ A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
+ trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil
+ o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
+ e a pratica da devoção.
+</p>
+<p>
+ O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
+ de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
+ vae para padre, isto é, por simples estupidez.
+</p>
+<p>
+ Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa
+ mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos
+ tapados para contas, e não tem perigo nenhum.
+</p>
+<p>
+ Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não
+ sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.
+</p>
+<p>
+ As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim
+ como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
+ Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem
+ Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
+ inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
+ fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.
+</p>
+<p>
+ O erro dos padres nas suas relações com o seculo&mdash;pedimos licença para
+ lh'o dizer&mdash;está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
+ em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
+ ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
+ mortas,&mdash;convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois
+ consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.
+</p>
+<hr />
+<p id="saraivadecarvalho">
+ Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos
+ os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
+ extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
+ verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
+ ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
+ debalde, transformal-as em obras.
+</p>
+<p>
+ Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço,
+ lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
+ substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.
+</p>
+<p>
+ Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
+ perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes
+ inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
+ aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a
+ alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás
+ agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
+ renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
+ que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
+ grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
+ aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
+ infestam, sevandijam e conspurcam.
+</p>
+<p>
+ Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
+ um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros.
+ Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
+ escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens
+ politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
+ de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições
+ vigentes.
+</p>
+<p>
+ O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
+ sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.
+</p>
+<p>
+ No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
+ para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
+ de pistola.
+</p>
+<p>
+ Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão
+ portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
+ por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
+ delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres
+ dos seus compatriotas.
+</p>
+<p>
+ Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:
+</p>
+<p>
+ <i>A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
+ «bis» ao tenor Gayarre,&mdash;uma e outra coisa devida ao estado de
+ consternação em que todos se achavam</i>.
+</p>
+<p>
+ E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de
+ enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
+ profunda de tão excelso quão sensivel principe.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano,
+ se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão
+ manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós
+ ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:
+</p>
+<p>
+ Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não
+ têem os povos egualmente?
+</p>
+<p>
+ Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes
+ testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
+ do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar
+ ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
+ museu da Via Lactea,&mdash;julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
+ lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
+ como os reis choram pelos seus bons subditos?
+</p>
+<p>
+ Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um
+ grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
+ a queda de um honrado cidadão que morre?
+</p>
+<p>
+ Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:&mdash;é
+ perfeitamente a mesma coisa!
+</p>
+<p>
+ Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
+ acaba de passar o seu coração generoso e paternal!
+</p>
+<p>
+ Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes,
+ quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
+ gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
+ quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
+ proclama&mdash;<i>Real, real, real, por el-rei de Portugal</i>,&mdash;a alma do povo
+ póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
+ fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu
+ turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
+ das proezas do tiro ao alvo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que&mdash;tendo em vista,
+ os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade,
+ tanto no coração do povo, como no coração dos principes,&mdash;sua magestade
+ se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
+ occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
+ das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás
+ vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias
+ casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.
+</p>
+<p>
+ Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.
+</p>
+<p>
+ A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos <i>Bandidos</i> de
+ Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
+ apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
+ banca e o dos parceiros.
+</p>
+<p>
+ O <i>Diario do Governo</i> d'ontem traz a este respeito uma portaria de
+ louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
+ elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores,
+ mas&mdash;como muito bem acrescenta a portaria&mdash;apprehendendo outro sim
+ <i>algum dinheiro e mobilia.</i>
+</p>
+<p>
+ Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação
+ intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
+ redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
+ acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
+ surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos
+ e desapercebidos.
+</p>
+<p>
+ No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
+ nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
+ as jogatinas.
+</p>
+<p>
+ Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
+ sobre o assumpto <i>batotas</i>, porque estamos convencidos de que essas
+ auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de
+ jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder
+ discutir com ellas sobre esta questão.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
+ S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.
+</p>
+<p>
+ A espelunca achava-se estabelecida no lindo <i>cottage</i> do Mallen, na
+ Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da
+ Senhora da Luz.
+</p>
+<p>
+ No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
+ mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
+ achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
+ provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
+ sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro
+ circulos concentricos.
+</p>
+<p>
+ A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
+ adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de
+ uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro
+ das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
+ apostas.
+</p>
+<p>
+ Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
+ cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto
+ egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas,
+ particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em
+ que scintillava um olho de gato e um rubi.
+</p>
+<p>
+ Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
+ que tinha mais proximo de mim.
+</p>
+<p>
+ Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos
+ finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o
+ trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
+ para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
+ preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
+ segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
+ cartas que em seguida sahia do baralho.
+</p>
+<p>
+ Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
+ expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
+ mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
+ Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo
+ administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
+ ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão
+ lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
+ cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.
+</p>
+<p>
+ De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
+ profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
+ 100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
+ trez de espadas que se achava na mesa.
+</p>
+<p>
+ Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
+ direita ou para a esquerda das cartas.
+</p>
+<p>
+ O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
+ pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Mata o rei?
+</p>
+<p>
+ Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Mato-o, sim senhor!
+</p>
+<p>
+ Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um
+ silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro
+ e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
+ cartas 3$000 que tinha posto.
+</p>
+<p>
+ O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
+ principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso
+ que comprimia nos dedos.
+</p>
+<p>
+ A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.
+</p>
+<p>
+ Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um
+ illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
+ parada egual á minha.
+</p>
+<p>
+ Esta decisão da sorte&mdash;eu o confesso&mdash;não me regosijou senão de um modo
+ bem caracteristicamente mediocre.
+</p>
+<p>
+ Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
+ consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
+ de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,&mdash;somma
+ recebida n'esse mesmo dia.
+</p>
+<p>
+ Fiquei na batota até pela manhã.
+</p>
+<p>
+ Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada
+ entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas
+ e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
+ em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
+ primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado
+ da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã
+ pautava luminosamente d'azul.
+</p>
+<p>
+ Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
+ noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
+ cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.
+</p>
+<p>
+ O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
+ saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
+ raivosamente pelos pontos.
+</p>
+<p>
+ O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
+ o collarinho esverdinhado de transpiração.
+</p>
+<p>
+ O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
+ depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
+ de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
+ escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
+ as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
+ convulsões da bronchite.
+</p>
+<p>
+ A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima
+ de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
+ banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
+ ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de
+ polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet.
+ Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir
+ d'ali embora sosinho.
+</p>
+<p>
+ Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
+ Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
+ filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
+ no hotel do Romão, intitulado da Boavista.
+</p>
+<p>
+ Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o
+ misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.
+</p>
+<p>
+ A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de
+ um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo
+ melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação
+ tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me
+ atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras
+ palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa
+ fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
+ elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.
+</p>
+<p>
+ Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
+ cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
+ um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
+ no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias
+ antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
+ moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
+ doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um
+ sovaco.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!&mdash;explicou-me elle com voz
+ estrangulada.
+</p>
+<p>
+ E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o
+ alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o
+ bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Como assim!&mdash;lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
+ inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
+ que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos
+ lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até
+ me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
+ progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle
+ tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós
+ os olhos torvos!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Cão!&mdash;disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
+ parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
+ porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
+ cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
+ janella.
+</p>
+<p>
+ E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
+ agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,
+ para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
+ e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
+ rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e
+ pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
+ diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
+ para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
+ presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a
+ justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás
+ partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
+ mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
+ noite o rei ... Não sei se o snr m'o viu matar? ... Matei-o como quem
+ mata um pôrco ... Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
+ regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este
+ luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
+ semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
+ doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Pois olhe&mdash;exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
+ de um repentino jubilo&mdash;dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
+ modo que me está a appetecer isso, a mim!
+</p>
+<p>
+ E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,
+ remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.
+</p>
+<p>
+ Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão
+ vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
+ encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se
+ entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
+ ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e
+ vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.
+</p>
+<p>
+ Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
+ pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da
+ Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava
+ taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
+ vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu
+ natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
+ sempre velados pelo mysterio.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
+ batota!
+</p>
+<p>
+ Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,
+ que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.
+</p>
+<p>
+ Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar
+ de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
+ castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
+ lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
+ aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
+ impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse
+ solto.
+</p>
+<p>
+ E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica
+ de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
+ assalta e sequéstra as batotas!
+</p>
+<p>
+ Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
+ teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
+ para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E
+ outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
+ policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
+ lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
+ chalaça!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos
+ jornaes, um delles intitulado <i>Supplicantibus</i>, e intitulado o outro
+ <i>Frei Bandalho</i>.
+</p>
+<p>
+ Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
+ bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em
+ Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á
+ vulgarisação da litteratura jornalistica.
+</p>
+<p>
+ Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se
+ ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
+ cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados
+ pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho
+ preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
+ braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o <i>Reles</i>, o
+ <i>Bisborria</i> e o <i>Pulha</i>.
+</p>
+<p>
+ A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
+ intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis
+ esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
+ educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
+ com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores
+ borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ S. ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
+ Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
+ <i>Rosalia</i> a uma creança de quem foi padrinho.
+</p>
+<p>
+ Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
+ s. ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama
+ portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»
+</p>
+<p>
+ Inclinemo-nos com reverencia!
+</p>
+<p>
+ Elle poz-lhe o nome de Rosalia...
+</p>
+<p>
+ Tornemos a inclinar-nos!
+</p>
+<p>
+ E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
+ meiados do decimo setimo seculo ...
+</p>
+<p>
+ Prostremo-nos por terra!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ D. Guiomar Torrezão, do <i>Diario Illustrado,</i> dedilhando com mão d'anneis
+ n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:
+</p>
+<p>
+ «Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um
+ boudoir, em uma especie de <i>bonbonniere</i> capitonada de setim azul,
+ impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
+ por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
+ aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
+ semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e
+ luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
+ das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
+ pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
+ sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas? ...
+</p>
+<p>
+ «E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do
+ conde de Sabugosa.»
+</p>
+<p>
+ É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
+ D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de
+ um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
+ pena de experimentar...
+</p>
+<p>
+ De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
+ preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das
+ differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
+ os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos
+ os gostos d'horta ou de capoeira.
+</p>
+<p>
+ O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
+ massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
+ a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.
+</p>
+<p>
+ Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
+ longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a
+ musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará
+ duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.
+</p>
+<p>
+ Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito
+ da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
+ jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.
+</p>
+<hr />
+<p id="escamasdecorvina">
+ Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
+ noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no <i>Diario de
+ Noticias</i> que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
+ devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
+ de escamas de corvina.
+</p>
+<p>
+ Tambem folgamos muito com isto.
+</p>
+<p>
+ Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros
+ artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se
+ notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
+ lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
+ se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
+ esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão
+ genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem
+ prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das
+ artes do desenho.
+</p>
+<p>
+ Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do
+ peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de
+ suas boas mestras!
+</p>
+<p>
+ Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de
+ processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
+ perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
+ apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a
+ faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
+ escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
+ Leopoldo!
+</p>
+<p>
+ Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto
+ artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
+ critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e
+ que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
+ nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas
+ organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos
+ estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.
+</p>
+<hr />
+<p id="vacca">
+ Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota
+ assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis
+ aprehendidos.
+</p>
+<p>
+ O <i>Correio da Noite</i> refere sobre este assumpto que na batota alludida
+ se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
+ visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
+ no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.
+ Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
+ reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
+ batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
+ empalmou do bolo.
+</p>
+<p>
+ A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
+ policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime
+ para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.
+</p>
+<p>
+ E os jornaes continuam a chamar <i>uma rusga</i> a cada uma d'estas
+ diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.
+</p>
+<p>
+ Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não
+ chamariam a estes lances <i>uma rusga</i>; chamar-lhe-hiam&mdash;mais
+ propriamente&mdash;uma <i>vacca</i>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;&mdash;coisa que
+ naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não
+ mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
+ Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.
+</p>
+<p>
+ Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
+ dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,
+ implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
+ outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos
+ baralhos.
+</p>
+<p>
+ Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
+ tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.
+</p>
+<p>
+ O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam
+ esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, <i>innocente
+ gracejo</i>.
+</p>
+<p>
+ O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de
+ inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:&mdash;aquelle a
+ quem por um momento pedimos venia para chamar <i>reu,</i> se assim nos é
+ licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.
+</p>
+<p>
+ O movel do crime,&mdash;digo&mdash;o movel da pilheria, de que o innocente é
+ accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.
+</p>
+<p>
+ Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser
+ chamado a resolver questões d'olhos.
+</p>
+<p>
+ Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de
+ ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
+ que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.
+</p>
+<p>
+ O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
+ luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
+ que entre esses dois amantes se passou!
+</p>
+<p>
+ O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella
+ mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.
+</p>
+<p>
+ Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
+ ironica:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!
+ se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua
+ Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas...
+</p>
+<p>
+ &mdash;Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho
+ para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!
+</p>
+<p>
+ E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes
+ transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
+ delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.
+</p>
+<p>
+ Oh! amor!... amor!
+</p>
+<p>
+ Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este
+ breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia
+ um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
+ jornal o serafim a que nos reportamos.
+</p>
+<p>
+ Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta
+ patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus
+ collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
+ juizo.
+</p>
+<p>
+ Diz o jurado:
+</p>
+<p>
+ <i>Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
+ ôlho á queixosa?</i>
+</p>
+<p>
+ Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o
+ Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
+ XVII pelas damas illustres.
+</p>
+<p>
+ Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre
+ que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
+ obrigação d'este é por-se de rôjos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
+ cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
+ terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
+ e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
+ essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
+ Bragança Junior.
+</p>
+<p>
+ Referindo este facto o <i>Diario de Noticias</i> accresccnta, reprehensivo e
+ severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia
+ da patria.»
+</p>
+<p>
+ Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do <i>Diario
+ de Noticias</i>, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
+ bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna&mdash;como consta por pessoas
+ fidedignas&mdash;se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
+ a descobrir que ella era unicamente um lenço.
+</p>
+<p>
+ Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a
+ attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
+ venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus
+ correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
+ crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir
+ servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e
+ cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
+ I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia
+ o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
+ outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do
+ moveis artisticos.
+</p>
+<p>
+ Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança
+ portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
+ sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
+ licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
+ magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
+ senhora.
+</p>
+<p>
+ O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao
+ desafogo de alguns commentarios.
+</p>
+<hr />
+<p id="bricabrac">
+ A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos
+ de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
+ antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
+ Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
+ restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se
+ dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
+ armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação
+ das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a
+ roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
+ guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
+ sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora
+ as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
+ João v.
+</p>
+<p>
+ Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
+ gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo&mdash;dos
+ ferros-velhos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
+ artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de
+ resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das
+ modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a
+ linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
+ o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de
+ não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de
+ cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
+ o typo da mesma emphase cezarea que o imperial <i>parvenu</i> aprendera na
+ convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
+ a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
+ rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.
+</p>
+<p>
+ Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras
+ obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos
+ preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
+ dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles
+ fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.
+</p>
+<p>
+ O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
+ proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
+ fornecedor privilegiado de Luiz XIV.
+</p>
+<p>
+ Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.
+</p>
+<p>
+ Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á
+ consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo
+ immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,
+ alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
+ progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da
+ elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
+ nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
+ mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho
+ mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
+ proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
+ melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
+ influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta
+ quanto talvez ephemera.
+</p>
+<p>
+ Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela
+ quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
+ sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,
+ definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
+ sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á
+ fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.
+</p>
+<p>
+ Que os adelos se barbeassem deante das elegantes <i>psychés</i> das Maintenon
+ e das Pompadour, e que almoçassem nas taças <i>pâte tendre</i>, das Dubarry
+ ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e
+ bem dissolvente!
+</p>
+<p>
+ Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade
+ a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque&mdash;comprehendem bem esta
+ <i>nuance</i>&mdash;agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais
+ aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos
+ do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
+ Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
+ esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
+ mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o
+ Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!
+</p>
+<hr />
+<p id="gato">
+ Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se
+ nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que
+ foi victima o mais bello gato de sua magestade!
+</p>
+<p>
+ Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
+ competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
+ de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
+ contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
+ real camara a raparem-o á escovinha.
+</p>
+<p>
+ Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o
+ ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
+ dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
+ dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
+ destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas
+ versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,
+ sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes
+ pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente
+ a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
+ com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria
+ no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.
+</p>
+<p>
+ O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente
+ mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
+ abstinentes e mais respeitosos, o camareiro&mdash;dizemos&mdash;acceso em zelo
+ pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
+ costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
+ pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica
+ que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
+ entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
+ caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido
+ unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um
+ espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
+ soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
+ promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
+ reconhecel-o e a lamental-o.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
+ o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
+ representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.
+</p>
+<p>
+ O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
+ diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
+ menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.
+</p>
+<p>
+ Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
+ liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação
+ classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como
+ n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
+ que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
+ morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções
+ archeologicas.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ «Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
+ com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente
+ arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!&mdash;dizem as
+ folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir
+ o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
+ augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e
+ d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
+ Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.
+ Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
+ hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
+ fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
+ arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
+ Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de
+ nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a
+ religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
+ nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!&mdash;a nossa sublime
+ religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora
+ vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
+ Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da
+ nação portuguesa!»
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
+ d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
+ offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.
+</p>
+<p>
+ O periodico legitimista a <i>Nação</i> foi o unico que ousou tomar a defesa
+ do odioso Nuncio, mas o <i>Diario da Manhã</i> d'hoje agarra-se pelas orelhas
+ á <i>Nação</i> e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
+ por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os
+ bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em
+ pé outra vez.
+</p>
+<p>
+ Imaginem que o <i>Diario da Manhã</i>, desde que começou a questão até hoje,
+ se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando
+ a <i>Nação,</i> imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
+ unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os
+ tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.
+</p>
+<p>
+ Nós tínhamos lido o artigo da <i>Nação</i> e confessamos mesmo que no
+ primeiro repente gostamos d'elle.
+</p>
+<p>
+ Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a <i>Nação</i> é
+ geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
+ bispos&mdash;especialidade em que somos completamente leigos&mdash;desde que ella
+ affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,
+ nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá
+ ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia
+ em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.
+</p>
+<p>
+ Mas o <i>Diario da Manhã</i>, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado
+ n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros
+ conhecemos os nossos dedos, o <i>Diario da Manhã</i>, que, segundo parece,
+ estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os
+ bispos, apenas a <i>Nação</i> disse que os unicos tres bispos com geito eram
+ os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!
+</p>
+<p>
+ Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
+ desanda tremenda applicada á <i>Nação</i> pelo <i>Diario da Manhã</i> d'hoje! E é
+ preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
+ a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em
+ ninguem.
+</p>
+<p>
+ Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
+ a <i>Nação</i> nos queria espigar como afiançados, são precisamente os
+ peiores de todos!
+</p>
+<p>
+ Prelados bons, segundo o <i>Diario da Manhã</i>, prelados desenganados,
+ prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se
+ o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
+ e o arcebispo de Bragança.
+</p>
+<p>
+ O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é
+ que é fazenda.
+</p>
+<p>
+ Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão
+ bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.
+</p>
+<p>
+ O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é
+ gallinha!
+</p>
+<p>
+ Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da <i>Nação</i> diz o
+ <i>Diario da Manhã</i> que elles não são outra coisa senão os <i>soldados do
+ exercito das trevas</i>.
+</p>
+<p>
+ Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres
+ melros. Rua, que é a sala dos cães!
+</p>
+<p>
+ Para <i>soldados do exercito das trevas</i> bastam-nos os persevejos,
+ escusa-se de bispos.
+</p>
+<p>
+ Supponham porém que o benemerito <i>Diario da Manhã</i> nos não prevenia e
+ que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um
+ pouco pellada no lombo&mdash;abria o meu seio incauto aos persevejos... quero
+ dizer, aos bispos... da, <i>Nação!</i>... Que tal estava a rascada, heim?
+</p>
+<p>
+ E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar... Vamos nós
+ agora que o proprio <i>Diario da Manhã</i>...&mdash;Não queremos melindrar
+ ninguem, e pedimos ao <i>Diario da Manhã</i> que o não leve a mal pelo amor
+ de Deus... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.
+ Infallivel é unicamente o papa, o homem não. <i>Humanum est errare</i>...&mdash;
+</p>
+<p>
+ Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo <i>Diario da Manhã</i> não seja
+ tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os
+ melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa
+ incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
+ <i>Nação?...</i>
+</p>
+<p>
+ Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções
+ que ha pouco demos á nossa cosinheira:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada <i>Nação,</i> pedem ao
+ governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.
+</p>
+<p>
+ O <i>Seculo</i> vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
+ representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para
+ impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete
+ cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.
+</p>
+<p>
+ No <i>Seculo</i>, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco
+ estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais
+ propicio para cardinalisar Masella.
+</p>
+<p>
+ Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão&mdash;operação a que
+ se procede cosendo-o&mdash;o parecer do <i>Seculo</i> junto da tia Pincha,
+ encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo
+ ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a
+ propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o <i>Seculo</i> que a coisa é
+ a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
+ que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...
+</p>
+<p>
+ Oh! não.
+</p>
+<p>
+ Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o <i>Seculo</i> tem
+ exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
+ distribuição dos barretes phrygios.
+</p>
+<p>
+ O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete
+ symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
+ sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento
+ de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
+ então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e
+ borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.
+</p>
+<p>
+ Outro tanto&mdash;com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum&mdash;não
+ temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa
+ de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
+ a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
+ pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
+ tostões e meio.
+</p>
+<p>
+ De lã e vermelho, do matiz radical denominado <i>rebenta-boi</i>, é com esse
+ barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
+ critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
+ traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do
+ mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações
+ balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
+ instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
+ do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do
+ seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
+ affirma o mui culto Doutor Jardim... de S. Pedro d'Alcantara.
+</p>
+<p>
+ Se o <i>Seculo</i> segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,
+ presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
+ seu partido, que diria o <i>Seculo</i> se, usando da reciprocidade de um
+ direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
+ dizer em tal conjuntura:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
+ esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
+ sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do
+ turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até
+ agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos
+ e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
+ dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que
+ emfim conseguimos&mdash;por um acaso&mdash;descobrir os elementos do conflicto
+ entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.
+</p>
+<p>
+ Eis o caso:
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel
+ franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
+ a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
+ propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.
+</p>
+<p>
+ Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão
+ benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
+ pessimos alguns dos bispos propostos.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Como assim!?&mdash;volveu, acidulado e surpreso, o das justiças
+ humanas.&mdash;Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
+ amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,
+ desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião
+ que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião
+ precisamente opposta á que eu tenho!?...
+</p>
+<p>
+ &mdash;Perdão...&mdash;-interrompe o ecclesiastico&mdash;eu pensei que, desde que v.
+ ex.ª me consultava...
+</p>
+<p>
+ -Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa
+ Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
+ cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
+ ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no
+ gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce
+ por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
+ baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções
+ fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
+ sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
+ toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar&mdash;e para isto
+ chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia&mdash;que, toda a vez que
+ um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do
+ principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes
+ do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
+ <i>quaesguer que elles sejam</i>&mdash;repito-o&mdash;é abundarem approvativamente e
+ jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
+ as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
+ liberrimo governo da nação portugueza.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Mas então,&mdash;obtemperou o sacerdote romano&mdash;o systema governativo, de
+ cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça
+ mais divertida <i>(la piu piacevole)</i> que se conhece! O pundonoroso luso
+ da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho
+ e snr, agora, o vereis!
+</p>
+<p>
+ <i>&mdash;Farça!</i> bradou s. ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela
+ rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. <i>&mdash;Farça!</i> O
+ forasteiro ousa chamar <i>farça</i> ao sublime governo constitucional,
+ monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
+ chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de
+ Magalhães, cognominado por antonomasia o <i>Deus da Palavra</i>!!... Cuidará
+ então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o
+ pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para
+ ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar
+ carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
+ incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
+ carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...
+ Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
+ d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a
+ sua famosa <i>vinha do senhor:&mdash;Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
+ vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!</i> Suppoem os snrs
+ porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
+ bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
+ a si mesmos <i>sal da terra</i>; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão
+ efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na
+ convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés
+ sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire
+ sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
+ snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
+ abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
+ pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de
+ sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe
+ assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
+ Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde
+ para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de
+ Garcia Diniz ou sobre os artigos da <i>Nação</i> para que essas producções
+ literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
+ coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão
+ da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os
+ sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?
+</p>
+<p>
+ Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
+ que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de
+ perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
+ o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s. ex.ª, e
+ experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e
+ drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações
+ dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse
+ ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se
+ passaram. Lemos porem no <i>Diario de Portugal</i> uma phrase reveladôra, que
+ se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
+ folha:
+</p>
+<p>
+ <i>O nuncio desacatou sua excellencia</i>.
+</p>
+<p>
+ Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
+ periodicos ministeriaes.
+</p>
+<p>
+ <i>Sua excelencia</i>&mdash;segredam as vozes familiares da burocracia&mdash;<i>apanhou
+ um calor</i>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
+ nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as
+ causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
+ occasião d'este jubiloso successo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
+ compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,
+ nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.
+</p>
+<p>
+ Os bispos&mdash;dizem-o todos os textos canonicos&mdash;são os pastores das almas,
+ incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
+ que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
+ confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser
+ considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
+ Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
+ ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
+ de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.
+</p>
+<p>
+ Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os
+ interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os
+ bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,
+ de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja
+ o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
+ Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
+ que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
+ pensadores?...
+</p>
+<p>
+ Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:
+</p>
+<p>
+ Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
+ ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
+ livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,
+ prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal
+ fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
+ irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!
+</p>
+<p>
+ Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
+ pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?
+</p>
+<p>
+ Vejamos, sinceramente:
+</p>
+<p>
+ Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
+ querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
+ confessar mulheres?...
+</p>
+<p>
+ Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais
+ a fallar n'isso.
+</p>
+<p>
+ Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,
+ que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?
+</p>
+<p>
+ Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
+ republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos
+ bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os
+ bispos.
+</p>
+<p>
+ Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o
+ governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr
+ Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, <i>desacatou</i> o
+ governo:&mdash;para ver se o governo aprende a não ser tolo!
+</p>
+<hr />
+<p id="stephania">
+ A corveta <i>Stephania</i> acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
+ beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.
+</p>
+<p>
+ Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
+ empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
+ que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato
+ republicano de opposição ao governo.
+</p>
+<p>
+ Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta
+ que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
+ do Arsenal na qualidade de vaso de paz.
+</p>
+<p>
+ Para substituir a <i>Stephania</i> nas campanhas navaes das futuras eleições
+ pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
+ estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos
+ para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.
+</p>
+<p>
+ Parabens a sua excellencia!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,
+ passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
+ da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
+ Carnaxide.
+</p>
+<p>
+ Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se
+ inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
+ presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
+ pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
+ bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
+ gorgeios.
+</p>
+<p>
+ Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
+ fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos
+ lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
+ o milagroso dia de tão prodigiosa santa.
+</p>
+<p>
+ Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
+ presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
+ Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
+ magestoso acima do narravel.
+</p>
+<p>
+ Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em
+ quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
+ de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
+ horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
+ vida em direcção á faia virente.
+</p>
+<p>
+ Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
+ ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão&mdash;por não ter porco
+ ao lado.
+</p>
+<p>
+ Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
+ Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para
+ as nuvens, exclamou:
+</p>
+<blockquote>
+<p>
+ Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
+</p>
+</blockquote>
+<p>
+ Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
+ negocios do reino.
+</p>
+<p>
+ Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Guarde-vos Deus, bons rusticos!&mdash;disse s.ex.ª acommodando o stylo á
+ rude e acanhada comprehensão do auditorio&mdash;E que a senhora Santa Rosa de
+ Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!
+</p>
+<p>
+ E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
+ campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a
+ exprimir-se em prosa:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?&mdash;Trazeis comvosco a
+ vossa avena, Melibeu?&mdash;Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?
+</p>
+<p>
+ Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da
+ facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
+ nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
+ lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de
+ penna e de governação.
+</p>
+<p>
+ Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão
+ matizada de piericos primores, quando s. ex.ª, alongando a dextra n'um
+ brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na
+ quebrada da serra?
+</p>
+<p id="apparecida">
+ E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
+ Nossa Senhora Apparecida,
+</p>
+<p>
+ &mdash;Corramos prestes ao templo!&mdash;bradou s.ex.ª&mdash;Dirijamo-nos pressurosos a
+ elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
+ d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes
+ <i>Apparecida!</i> Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
+ Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao
+ templo! ...
+</p>
+<p>
+ Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
+ Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de
+ infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
+ a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das
+ patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o
+ feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida
+ para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
+ Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
+ publica:
+</p>
+<blockquote>
+<pre>
+ D. Miguel foi á Sé,
+ Sentou-se n'uma cadeira,
+ E disso para os malhados:
+ Esta perna está inteira!
+</pre>
+</blockquote>
+<p>
+ Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra
+ que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
+ governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
+ Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou&mdash;por
+ outra&mdash;que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
+ Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela
+ segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.
+</p>
+<p>
+ Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso
+ milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
+ submissos em giolhos.
+</p>
+<p>
+ E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde
+ viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
+ repetir aos montes e ás hervinhas:
+</p>
+<blockquote>
+<p>
+ Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
+</p>
+</blockquote>
+<p>
+ que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
+ a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em
+ honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a
+ Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes
+ de nunca ter visto Lisboa.
+</p>
+<p>
+ Gloria pois a s.ex.ª!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
+ pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
+ desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial
+ na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
+ minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
+ molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.
+</p>
+<p>
+ A patria explorava-o e ria-se d'elle.
+</p>
+<p>
+ Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
+ papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no <i>Diario do
+ Governo</i>, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o
+ agraciou a regia munificencia.
+</p>
+<p>
+ Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução
+ profunda: elle é o <i>Emfim Malherbe veio</i> da historia dos commendadores e
+ dos cães,&mdash;vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
+ extrangeiro.
+</p>
+<p>
+ Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
+ embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
+ Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente,
+ instruida e forte, que vae chegar&mdash;para se rir.
+</p>
+<p>
+ Lisboa 15 de dezembro de 1882.
+</p>
+<p class="centered">
+ <i><b>Ramalho Ortigão.</b></i>
+</p>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14296 ***</div>
+</body>
+</html>
diff --git a/14296-h/images/devil.png b/14296-h/images/devil.png
new file mode 100644
index 0000000..13a77a6
--- /dev/null
+++ b/14296-h/images/devil.png
Binary files differ
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..7ebb053
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #14296 (https://www.gutenberg.org/ebooks/14296)
diff --git a/old/14296-8.txt b/old/14296-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..31dd9cd
--- /dev/null
+++ b/old/14296-8.txt
@@ -0,0 +1,2412 @@
+Project Gutenberg's As Farpas (Novembro A Dezembro 1882), by Ea de Queiroz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Farpas Da Politica, Das Letras E Dos Costumes
+ (Novembro A Dezembro 1882)
+
+
+Author: Jos Maria Ea De Queiroz and Ramalho Ortigo
+
+Release Date: December 7, 2004 [EBook #14296]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+
+
+
+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
+Proofreading Team. This work was produced from images generously
+made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal.
+
+
+
+
+
+[Illustration: EA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGO--AS FARPAS]
+
+EA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGO
+
+AS FARPAS
+
+_Chronica Mensal_
+
+DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+QUARTA SERIE N. 2
+
+NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882
+
+Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
+da escravido dos partidos da venerao da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
+universo, e da adorao de mim mesmo.
+
+P.J. PROUDHON.
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+
+Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As
+influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as
+mulheres--Os nossos padres, padre de misses, padre d'aldeia e padre de
+sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
+rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
+illustre--Novas applicaes da mobilia critica litteraria--A moderna
+arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O
+partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o
+Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do
+bric--brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo
+desacato de s.ex. o ministro da justia por s.em. o nuncio de sua
+Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os ces de
+faiana---Milagrosa reappario de Nossa Senhora Apparecida.
+
+ * * * * *
+
+Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado....
+Est approvado.
+
+Tal , resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
+qual no s o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
+muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
+gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvao da
+divindade s deliberaes tomadas pelos clerigos. Para esses
+cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
+sacristes--Deus absolutamente a mesma coisa que para o snr Fontes a
+sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
+assistir apresentao dos decretos e de dar o sim.
+
+ * * * * *
+
+Nos sermes de penitencia das nossas villas e aldeias o truque o mesmo
+que nos concilios, mas reforado com um cordel.
+
+O orador sacro, encarregado pela remunerao de 3$600 em dinheiro e um
+prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
+almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
+irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificao
+espiritual, comea por pr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
+Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
+seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
+com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, perorao, o
+ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenos estendidos sobre
+o parapeito do pulpito os 3$600 de transpirao escorrida pela fronte e
+pela regio cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
+venia e diz:
+
+Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
+frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
+honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz,
+digo, conseguiu levar ao vosso corao amantissimo a convico do
+arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
+prostradas a vossos ps, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
+nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque no appareceis?!
+
+E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
+intitulada obsecrao,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os
+tropos,--o orador, dirigindo-se sempre cortina, com bola de mo para a
+lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que mister que
+elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes apparea, e lhes
+perdoe. Os fieis ento desatam em suspiros de corrente pranto, e o
+ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
+mesmo prostrado de commoo e de espanto na borda do pulpito, como se
+nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um to portentoso milagre como
+esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
+Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
+quaresmas, razo de trinta e seis tostes por tarde, alm do beberete.
+
+ * * * * *
+
+Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
+oratoria sacra.
+
+Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
+persignam-se, abancam, pem deante de si os raps, e passam desde logo a
+redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
+divino Espirito Santo, representado sob a frma de volatil symbolico e
+para este effeito invisivel.
+
+Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
+tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
+clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que inutil
+estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
+com as marionettes.
+
+N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:
+
+Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resolues, que se
+manifeste n'esse sentido. No se manifestando, entende-se que est de
+accordo.
+
+Com o qu, do a palavra aos snrs membros que tenham que propr coisas
+para approvar.
+
+ * * * * *
+
+Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como
+notorio, o systema habitual de no se manifestar nunca, quer seja para
+approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
+numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.
+
+ claro que lhe no faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, seno
+sahir de toda a parte, onde dizem que est, para vir ali assim capella
+do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
+com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
+cumprimentar ou de os mandar fava pelos seus discursos!
+
+Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
+por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
+mordidos pelo bicho carpinteiro do zlo, e decidem juntos decretar mais
+fervor devoo das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
+ou se faam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
+de indifferena ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
+o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
+herva crescer.
+
+ * * * * *
+
+No affirmaremos porm em absoluto que esta enorme frescata de
+chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
+sacerdotes, no possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
+perigos, apertando-se de mais com o fiado.
+
+Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
+posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
+quelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
+ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.
+
+Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
+provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
+de nos tornarmos nojosos fora de sermos nimiamente prolixos em
+nossas intimidades com o Divino.
+
+ de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
+consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
+devoes castelhanas, os bens da sua cora, se achou reduzido ao mais
+invejavel estado de pureza christ, no tendo de seu seno facturas de
+fornecedores que pagar, a beno apostolica de Sua Santidade e o direito
+divino.
+
+Para sustentar esse direilo nas crtes da nao hispanhola havia um
+deputado especialmente incumbido de narrar Peninsula tudo aquillo que
+Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
+D. Carlos, com a sua fora desarmada e posta em penhor n'um banco de
+Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
+no espao,
+
+Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
+principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
+n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.
+
+Os anjos haviam-o chamado s alturas estendendo-lhe do empyreo o
+ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
+apoplexia.
+
+Acontecem d'estas s vezes!
+
+Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
+pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
+Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente no esto satisfeitos com
+a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
+terrestre.
+
+ * * * * *
+
+O mais vulgar porem, da parte de Deus, a indifferena imperturbavel
+pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
+pondo-se de Deus esquina para a gente e vibrando a religio como a
+grande moca benzida com que atiram testa de quantos andam a ganhar a
+sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias esto em folga
+temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurana futura e
+d'hostias quotidianas.
+
+Assim como ns outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
+agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
+dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
+exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
+uns mo direita e outros mo esquerda do bem conhecido redactor
+principal e leitor unico da _Nao,_ o snr Fernando Todo Pedroso.
+
+ * * * * *
+
+Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
+sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
+um rubr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
+do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixo de
+liberdade que encheu na terra o seu corao maldito. Elle levou uma fava
+preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro est prevenido.
+
+Os doze pescadores, que, voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
+abandonaram as redes para levar palavras de consolao a todos os
+opprimidos atravez do universo, no quereriam ao p de si l em cima
+esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
+amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mo arriscar a
+pelle, no j para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
+perdida, como nos apologos da biblia, mas para pr definitivamente a
+liberdade onde estava a oppresso. S. Paulo, que procedia
+litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Svign, no
+consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
+espada cheia de bccas de um companheiro que procurou como pde lazer
+por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
+a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
+caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
+sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.
+
+ * * * * *
+
+O nobre conde de Santiago, pelo contrario, recebido por aclamao, com
+a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
+estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurana. Esse pieodoso
+fidalgo est nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe d no
+seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
+redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
+concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo j,
+por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
+de s.ex., e poderemos alimentar a esperana de o ver ainda atravessar
+o Chiado como o atravessam os perus, isto --em pennas. A natural
+pudicicia de s.ex. lhe vedar porm talvez o circular entre os viventes
+vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
+cherubins no gallinheiro celeste.
+
+ * * * * *
+
+O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
+occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
+pompa particularmente modesta, destinada, a no excitar represalias da
+parte do snr. Frana Neto.
+
+Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
+chapeus altos anediados de novo para decoro das coras subjacentes, mais
+outros tantos seculares vestidos de preto e puxados substancia do
+panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
+assoarem-se uns para os outros com emphase, do-nos menos a ideia de um
+ajuntamento triumphante de convices victoriosas do que o painel de um
+simples ciprestal sentado,--com defluxo.
+
+Alem de solicitar a beno apostolica, o congresso catholico de Lisboa
+resumiu os seus trabalhos em duas unicas resolues: fundar uma
+universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
+sua policia elles faam respeitar nas ruas as pessoas dos
+ecclesiasticos, presentemente apupados pela multido, segundo elles
+mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
+sacerdotaes. O que, a ser exacto, precisamente a mesma coisa que
+succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restaurao.
+Notando-se que a Restaurao foi de todos os governos em Frana aquelle
+que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a interveno do
+governo ser o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
+e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
+religiosa, em que o Estado atheu, como na America do Norte.
+
+ * * * * *
+
+Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
+algumas reunies do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
+dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
+sacerdocio decae de um modo sensibilisador.
+
+No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
+1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
+Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
+d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procisso
+para a vasta sala das sesses, engrinaldada de festes de rosas e
+empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
+enorme nau em triumpho. No topo do salo o estrado destinado meza era
+coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
+destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
+brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
+grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
+lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
+clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
+por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. frente, os
+cardeaes com as suas purpuras roagantes; depois os bispos inglezes, os
+de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
+sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
+com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de casto de ouro.
+
+Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
+do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
+livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
+de uma alliana entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
+do mundo moderno, e o seu discurso n'esse intuito um manifesto de uma
+rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.
+
+Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos so
+inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
+no souberam ainda congrassar-se com a grande revoluo que gerou a nova
+sociedade, a moderna vida dos povos. Em presena da sociedade moderna os
+catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. No aprenderam
+por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos esto
+ainda, pelo corao e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto ,
+a um systema que no admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
+politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
+lado grande e bello; no pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
+condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: est
+morto, e nunca mais resuscitar.
+
+Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
+cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
+ou no tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
+tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
+espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razo
+contra todas as usurpaes, contra todos os privilegios, contra todas as
+tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.
+
+A liberdade uma s, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
+predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
+representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
+religio.
+
+Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
+a proclamar sem disfarce e sem restrico alguma como base das relaes
+do homem com o homem na independencia absoluta da revelao e da f. Na
+religio a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
+consciencia humana de no ser governada nas suas relaes com Deus por
+decretos ou por castigos humanos.
+
+Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vs,
+entendei-o bem, preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
+e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vs unicamente, no a
+tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
+deem em toda a parte onde fordes escravos.
+
+Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
+levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
+resolues da assembleia: do interesse dos catholicos, assim como do
+todos os cidados que sinceramente querem a liberdade, o substituir
+quanto possivel a interveno e a omnipotencia do estado pela energia
+creadora e pelo principio expansivo do espirito de associao.
+
+ * * * * *
+
+Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
+de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
+liberal da moderna civilisao. Os destinos da egreja n'este fim do
+seculo XIX esto profundamente ligados a esse facto culminante na
+historia das ideias clericaes.
+
+O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
+abandonaram a reunio no dia immediato quelle em que Montalembert
+fizera o elogio da alliana da egreja catholica com a sciencia e com a
+liberdade.
+
+Compareceram apenas nas sesses subsequentes os membros obscuros do
+baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
+continuavam a applaudir Montalembert, no sem perguntarem a si mesmos
+com certa inquietao o que se pensaria em Roma dos discursos e das
+resolues do congresso belga. A resposta no se fez esperar. Tres ou
+quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
+que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
+ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
+_liberdade da sciencia_.
+
+Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, no
+obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
+Montalembert no compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
+Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, no pareceu
+sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu s utopias
+liberaes do congresso com a publicao do _Syllabus_ e da encyclica
+_Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
+illuso de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
+civilisao.
+
+Em presena d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
+resolues que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
+do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractao
+vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspiraes
+manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
+gremio da egreja.
+
+N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.
+
+Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.
+
+Entre os interesses do clero e os interesses da civilisao ha uma
+barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
+liberaes, julgaram impossivel transpr.
+
+ * * * * *
+
+Ora desde que no pde ser um alliado, o que est evidentemente
+demonstrado, o padre um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
+obrigao tomar conhecimento das foras de que elle dispe para nos
+prejudicar. Sobre este ponto a resoluo tomada pelo congresso do
+Passeio Publico de pedir a interveno da policia civil para evitar que
+o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.
+
+Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
+emprestado ao chifarote do habil Antunes um symptoma doce. O
+congresso prope-se morder os impios com a condio de que os impios lhe
+ponham as presas. a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
+querem ver cantar o cro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.
+
+ * * * * *
+
+A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
+de Lisboa, que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
+senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
+todas as sesses.
+
+Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
+as adheses da mulher?
+
+Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
+tres especies distinctas de padres:--o padre das misses, o padre
+d'aldeia e o padre de sala.
+
+ * * * * *
+
+Os padres das misses subdividem-se em dois grupos differentes: os
+aventureiros e os mysticos.
+
+Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulao
+temporal, por amor vida d'emigrante, lavoura dos tropicos, ao lucro
+mercantil, intriga da politica colonial e batota ultramarina. De
+quando em quando, ao apparececrem-lhes mo, arrebanhados, alguns
+centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia
+tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
+justos, conscios por experiencias feitas de que essa operao, altamante
+civilisadora posto que inoffensiva, os no torna nem mais nem menos
+pretos do que elles so.
+
+Os mysticos, mais raros, so pessoas doentes da hallucinao do
+martyrio. A sua ambio suprema consiste em serem comidos s fatias
+fritas, com mandioca, pelas raas anthropophagas. Logo que se julgam
+sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
+canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
+dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de
+Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do brao e embarcam para regies
+inhospitas e selvagens.
+
+Uma vez em communicao com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
+o breviario em cruz entre a bocca e o prato, at conseguirem realisar a
+sua aspirao suprema, que no restar d'elles mais que uma batina e um
+par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
+dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
+o outro:
+
+--Saboroso padre! benza-o Manipanso!
+
+ * * * * *
+
+O padre d'aldeia d'ordinario o melhor dos homens.
+
+A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
+enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
+estonteadores.
+
+As suas intimidades com a s natureza do-lhe o instincto de uma boa
+religio alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
+espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros
+missa cantada, n'uma vasta satisfao de cajados reluzentes, de
+sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
+arregaadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
+no arraial.
+
+Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra roda
+da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, at grade do cemiterio.
+
+Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
+rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
+artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
+chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de po
+podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capes, que atravancam a
+passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.
+
+Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
+latim abreviado, mastigado pressa, e vae podar as cepas, sachar o
+cebolo, enxertar os limoeiros ou caar as perdizes, palmilhando o monte,
+saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
+perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bas noites
+para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
+hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
+jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.
+
+
+ * * * * *
+
+O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
+casas frequenta por um resto de tradio antiga nas familias nobres,
+onde o capello era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o
+boleeiro, o creado de farda e a preta.
+
+As meninas nobres, que hoje lem o _Figaro_ e os romances de Daudel, no
+tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa
+para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
+caturra. Troam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
+servial de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
+entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
+raciocinadas, que no sabe fazer um simples moo de recados sem o curso
+dos seminarios.
+
+ o padre que vae ao Sexas buscar as ls para bordar, segundo os
+matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leito, e o
+_chignon_ para frisar ao Godefroy. elle que acompanha s lojas de dia
+e s visitas sem cerimonia noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
+paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaam no caminho, e paga os
+bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.
+
+No est persistente n'uma s casa, como nas antigas capellanias. Anda
+aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
+ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar
+noite. s segundas feiras chaperona a lio de desenho das meninas S. s
+teras acompanha a viscondessinha de X s suas devoes a S. Luiz e a
+outros logares. s quintas do-lhe ch preto e po torrado com manteiga
+para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.
+
+Aos seres, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
+mexeriquices que traz das casas d'onde vem, v as gravuras das
+Illustraes, ou dorme. As meninas procuram s vezes arrancal-o ao
+torpr da sua digesto ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:
+
+--Padre Jos, esperte! no se faa ainda mais mono do que ; scintille
+para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
+cho!
+
+E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
+inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_
+
+--Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!
+
+Quem precisa de padre e o no tem mo, pede-o emprestado, como se pede
+emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que est em
+Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:
+
+Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
+d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. D-lhe
+dinheiro para o omnibus e manda-m'o manh sem falta.
+
+s vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulao,
+posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois
+pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos
+rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.
+
+Algum noite pergunta:
+
+--Que feito do padre Joo?
+
+E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que l a um canto,
+responde lentamente:
+
+-Mandei-o rinchar para as lesirias. Comeava a achar-se folgado de mais
+para se continuar a ter argola. o que lhe fiz sentir esta manh por
+meio de uma ligeira admoestao corporea.
+
+--Mas o physico do sacerdote inviolavel sagrado!
+
+--Por isso tambem no foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi
+pelo lado _cunhos_.
+
+ * * * * *
+
+De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
+casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
+para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
+dos Francezes a visita do reverendo Abb Miel.
+
+O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de no se
+haver abandalhado nas eleies, de no ir para a plateia de S. Carlos
+applaudir a opera e dizer graolas s senhoras suas confessadas, que
+esto nas bancadas ao p d'elle, de no andar pelas casas particulares
+com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de no
+misturar nunca--a no ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez
+do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
+pecaminosa.
+
+Alem do que como vm feitos de fora, no consta na confidencia dos
+lisboetas nem nas revelaes mais desabotoadas das villegiaturas de
+Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
+foram manufacturados.
+
+ * * * * *
+
+Apesar porm de todas as apreciaveis inferioridades que to
+vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos estima e
+tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
+apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo
+oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
+manifestao com o effeito scenico dos seus encantos.
+
+Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se so capazes!
+
+Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
+de Castello Melhor. Que contraste!
+
+Esse club reunir facilmente nas suas sesses todas as gravatas
+vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
+reservados s damas, ser mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
+Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commisso
+encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
+revolucionaria poder tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
+os colletes, que no ter mais ninguem para conduzir.
+
+A razo d'este phenomeno significativo que os padres e os padristas,
+por menos espertos e menos habeis que sejam, tem por baixo de si a
+levantal-os mais alto do que todos ns, oito seculos de talento, de
+discusso e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
+monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
+heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
+triumpho mais maravilhoso d'essa grande fora chamada o estudo.
+
+A antiga tradio, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
+trespassado pela heriditariedade de gerao em gerao, torna hoje facil
+o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
+e a pratica da devoo.
+
+O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
+de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
+vae para padre, isto , por simples estupidez.
+
+Ora ser padre quando se no tem cabea para ser qualquer outra coisa
+mais util, corrente, commodo, faz arranjo s familias com filhos
+tapados para contas, e no tem perigo nenhum.
+
+Na Egreja quem no sabe outra coisa diz missas. Na Revoluo quem no
+sabe mais nada diz asneiras. Essa a differena.
+
+As mulheres, que em geral no conhecem os chefes da Revoluo, assim
+como tambem no conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
+Proudhon nem Michelet, como egualmente no leram nunca S. Paulo nem
+Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
+inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
+fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.
+
+O erro dos padres nas suas relaes com o seculo--pedimos licena para
+lh'o dizer--est unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
+em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
+ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
+mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molire, pois
+consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.
+
+ * * * * *
+
+Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabea distincta das de todos
+os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
+extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
+verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
+ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
+debalde, transformal-as em obras.
+
+ dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante servio,
+lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
+substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.
+
+Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
+perpetuar para todo sempre a localisao da familia dos actuaes
+inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
+aquelle notavel edificio. Pois evidente que, posto esse casaro a
+alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores s
+agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
+renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
+que offerece para habitao, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
+grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
+aterradra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
+infestam, sevandijam e conspurcam.
+
+Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
+um jornalismo onde os escriptores cada vez se vo tornando mais raros.
+Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
+escrevendo bem a sua lingoa, e foi, alm d'isso, entre os homens
+politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
+de espirito, de corao e de caracter sacrificou s instituies
+vigentes.
+
+O chefe dessas instituies, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
+sua dr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.
+
+No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
+para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
+de pistola.
+
+Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidado
+portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
+por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
+delambido, uma justa e equitativa compensao perda dos mais illustres
+dos seus compatriotas.
+
+Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dir:
+
+_A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
+bis ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de
+consternao em que todos se achavam_.
+
+E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, vertero lagrimas de
+enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
+profunda de to excelso quo sensivel principe.
+
+ * * * * *
+
+Se no receassemos profanar a dr to intima e to sincera do soberano,
+se no temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso corao, to
+manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasio presente, ns
+ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:
+
+Julga sua magestade que, assim como os principes tem corao, o no
+tem os povos egualmente?
+
+Quando, em vez das testas communs e opacas, so as fulgidas e rutilantes
+testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
+do alto do throno celestial, resolve com a devida, considerao chamar
+s alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
+museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
+lances, no choram to dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
+como os reis choram pelos seus bons subditos?
+
+Cuida Sua Magestade que no nos faz to grande mossa o baque de um
+grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
+a queda de um honrado cidado que morre?
+
+Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justia:--
+perfeitamente a mesma coisa!
+
+Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
+acaba de passar o seu corao generoso e paternal!
+
+Quando o sino grande da S badala o dobre supremo dos obitos reaes,
+quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
+gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
+quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
+proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo
+pde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
+fim de no succumbir intensidade da dr, de appelar ento por seu
+turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
+das proezas do tiro ao alvo.
+
+ * * * * *
+
+Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista,
+os dolorosos e excruciantes paroxismos que pde attingir a saudade,
+tanto no corao do povo, como no corao dos principes,--sua magestade
+se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
+occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
+das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.
+
+ * * * * *
+
+A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que s
+vezes acomette esta veneranda instituio, acaba, de assaltar varias
+casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.
+
+Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.
+
+A policia foi p ante p, como o cro dos carabineiros nos _Bandidos_ de
+Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
+apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
+banca e o dos parceiros.
+
+O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de
+louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
+elogia a policia pelo bem que andou, no s capturando os jogadores,
+mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim
+_algum dinheiro e mobilia._
+
+Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfao
+intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
+redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
+acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
+surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidados, improvidos
+e desapercebidos.
+
+No Porto o zlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
+nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
+as jogatinas.
+
+No pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
+sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas
+auctoridades, morigeradas e pudibundas, no foram nunca s casas de
+jogo, o que as desarma de toda a habilitao precisa para se poder
+discutir com ellas sobre esta questo.
+
+ * * * * *
+
+O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
+S. Joo da Foz, ha coisa de vinte annos.
+
+A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na
+Praia dos Inglezes, com um terrao sobre o mar e a entrada pela rua da
+Senhora da Luz.
+
+No meio do grande salo de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
+mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
+achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
+provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
+sentados, outros em p por traz d'esses, formando tres ou quatro
+circulos concentricos.
+
+A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
+adornado de uma longa pra grisalha, puxava para junto de si por meio de
+uma pequena rapadeira de mogno polido, em frma de ensinho, o dinheiro
+das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
+apostas.
+
+Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
+cavalheiro, mais gordo, ainda que no mais solicito, e de aspecto
+egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mos finas,
+particularmente bem tratadas e realadas por dois bellos cachuchos em
+que scintillava um olho de gato e um rubi.
+
+Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
+que tinha mais proximo de mim.
+
+Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mos
+finas collocava na mesa ao lado uma da outra. L estava, por exemplo, o
+trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
+para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
+preo da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
+segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
+cartas que em seguida sahia do baralho.
+
+Devo dizer, face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
+expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
+mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
+Estado alguns esclarecimentos cerca do jogo do machinismo
+administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
+ninguem, que jamais das regies officiaes recebi informaes to
+lucidas e to leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
+cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.
+
+De um s relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
+profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
+100$000 ris que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
+trez de espadas que se achava na mesa.
+
+Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
+direita ou para a esquerda das cartas.
+
+O homem da p de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
+pra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:
+
+--Mata o rei?
+
+Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:
+
+--Mato-o, sim senhor!
+
+Esta phrase pareceu fazer uma certa impresso no auditorio. Houve um
+silencio. Um desembargador da relao do Porto, ancio de oculos d'ouro
+e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
+cartas 3$000 que tinha posto.
+
+O cavalheiro das lindas mos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
+principiou a extrahir com lentido as cartas, a uma por uma, do masso
+que comprimia nos dedos.
+
+A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.
+
+Eu tinha perdido os meus 100$000 ris. Ganhava-os precisamente um
+illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
+parada egual minha.
+
+Esta deciso da sorte--eu o confesso--no me regosijou seno de um modo
+bem caracteristicamente mediocre.
+
+Resolvi porm interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
+consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
+de perto de meio anno de collaborao n'um jornal americano,--somma
+recebida n'esse mesmo dia.
+
+Fiquei na batota at pela manh.
+
+Por uma janella aberta sobre o terrao a luz cr de perola da madrugada
+entrava humedecida e salgada pela virao maritima. As banheiras, filhas
+e moas da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
+em terceiras, n'um cro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
+primeiros preges matutinos dos vendilhes ambulantes penetravam do lado
+da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o claro da manh
+pautava luminosamente d'azul.
+
+Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
+noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
+cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balo do buffette.
+
+O cho estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
+saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
+raivosamente pelos pontos.
+
+O homem das bellas mos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
+o collarinho esverdinhado de transpirao.
+
+O cavalheiro da pra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
+depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
+de braos em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
+escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
+as mos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
+convulses da bronchite.
+
+A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruos para cima
+de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
+banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
+ficara esquecido um janota de calas cr de flr de alecrim, botinas de
+polimento, luvas azues e fraque cr de pinho feito no Pereira Baquet.
+Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me no ir
+d'ali embora sosinho.
+
+Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
+Chico ... no me lembra j de qu. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
+filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
+no hotel do Romo, intitulado da Boavista.
+
+Quando elle se ergueu da mesa e se poz em p deante de mim, vi que o
+misero no tinha estado a dormir, mas sim a chorar.
+
+A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buo, de
+um signal cabelludo na face e de dois bands cr de ouro anediados pelo
+melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternao
+to profunda, to cca, to francamente imbecil, que desde logo me
+atrahiu para elle com uma compaixo verdadeira. Agarrou-se s primeiras
+palavras que lhe disse, como um afogado se agarra primeira cousa
+fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
+elegante moo vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.
+
+Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
+cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
+um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
+no valor de 1:600$000 ris. Era d'esta quantia, recebida tres dias
+antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
+moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
+doutor da Regoa para um tumor frio que lhe comeara a inchar n'um
+sovaco.
+
+--Meu pae, para coisas d'estas, uma fera!--explicou-me elle com voz
+estrangulada.
+
+E, tendo descalado uma das luvas azues, comprimia com mo nervosa o
+alto da sua pequena cabea de gallo, apagando da testa n'um repello o
+bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bands.
+
+--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
+inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
+que lhe cumpre fazer nas funestas condies em que se acha?... Saiamos
+l para fora! Saiamos com p expedito e rapido d'esta caverna, que at
+me est a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
+progenitor, proferindo-o perante a pra cavilosa e obscena d'aquelle
+tisico, malandro em terceiro grau, que alm diviso envesgando para ns
+os olhos torvos!
+
+--Co!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
+parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
+porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
+cavalheiro da pra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
+janella.
+
+E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:
+
+--Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
+agricolas das nossas regies vinhateiras a quantia de ris 1:600$000,
+para os entregar nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
+e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
+rispidos ancios, de ouvidos cerrados misericordia pelo mau genio e
+pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
+diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
+para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
+presente, do que a applicao lombar da bengala de um antepassado, ou a
+justaposio da abenoada sola e vira de uns bons sapatos paternos s
+partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
+mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
+noite o rei.....No sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem
+mata um prco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
+regicidio? Ficou-me por 176$000 ris. A recordao amarga d'este
+luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
+semsaboria, e s uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
+doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.
+
+--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
+de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
+modo que me est a appetecer isso, a mim!
+
+E trocadas entre ns estas profundas e memoraveis palavras,
+remergulhamos em intimas e silenciosas cogitaes, eu e o Chico.
+
+Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes do
+vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
+encapuchadas em rendas de l desciam de suas manses praia para se
+entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
+ainda, volviam da praia a suas manses, com narizes arrebitados e
+vermelhos, avidas de po quente com manteiga e de caf com leite.
+
+Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
+pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padres da
+Teixeira, de braos abertos e um marmeleiro em cada brao. Eu voltava
+taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
+vil e mercenario ensinho do Pra Tisica n'essa noite desvira de seu
+natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
+sempre velados pelo mysterio.
+
+ * * * * *
+
+Tal , em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
+batota!
+
+Temos visto do jogo muitas e mui variadas definies. A unica, porm,
+que inteiramente nos satisfaz a seguinte: O jogo uma asneira.
+
+Reduzida assim a questo aos seus verdadeiros termos, no podemos deixar
+de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
+castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
+lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
+aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
+impossivel, porque ha muito no haveria ministro nenhum que andasse
+solto.
+
+E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicao sophistica
+de que para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
+assalta e sequstra as batotas!
+
+Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
+teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
+para o rei de Portugal os 176$000 ris que eu dei para o rei de copas? E
+outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
+policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
+lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
+chalaa!
+
+ * * * * *
+
+Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecero brevemente dois novos
+jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro
+_Frei Bandalho_.
+
+Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
+bem, em duas unicas pennadas, a elevao intellectual que, no s em
+Braga como em todo o reino, est presidindo n'este momento
+vulgarisao da litteratura jornalistica.
+
+Guimares, Barcellos e Vianna no querero por certo deixar-se
+ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
+cremos mesmo no ser indiscretos revelando desde j que, estimulados
+pela mais nobre emulao, os grandes centros intellectuaes do Minho
+preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
+braguezes, a appario proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o
+_Bisborria_ e o _Pulha_.
+
+A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
+intellectual o secreto receio de que, no obstante, os incansaveis
+esforos empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
+educao nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
+com suas auctorisadas pennas a um to vasto labor mental, os escriptores
+borra-botas, os troca-tintas e os manccos indispensaveis para o caso.
+
+ * * * * *
+
+S.ex. o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
+Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
+_Rosalia_ a uma creana de quem foi padrinho.
+
+Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
+s.ex. escolhera este nome por elle ser o de uma illustre dama
+portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.
+
+Inclinemo-nos com reverencia!
+
+Elle poz-lhe o nome de Rosalia....
+
+Tornemos a inclinar-nos!
+
+E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
+meiados do decimo setimo seculo.....
+
+Prostremo-nos por terra!
+
+ * * * * *
+
+D. Guiomar Torrezo, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mo d'anneis
+n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:
+
+J alguma vez experimentaram a impresso que se sente entrando-se em um
+boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,
+impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
+por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
+aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
+semi-cerradas e a cabea enterrada em uma almofada de setim macio e
+luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
+das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
+pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
+sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...
+
+E' esta mesma impresso que se experimenta lendo-se os poemetos do
+conde de Sabugosa.
+
+ talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
+D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle d a impresso perfeita da obra de
+um to sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
+pena de experimentar....
+
+De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
+preo modico todos os trastes precisos para a comprehenso das
+differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
+os preos, j em flores caprichosas, j em plumagens ondulantes, a todos
+os gostos d'horta ou de capoeira.
+
+O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
+massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
+a cabea enterrada na almofada de setim phosphorecente.
+
+Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
+longe, o paciente se queixar de no desfructar sufficientemente a
+musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remunerao, facultar
+duas buxas de algodo em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.
+
+Folgamos de veras ao ver assim to harmonicamente alliadas em proveito
+da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
+jornaes e de pr cortinados da Suissa nas casas.
+
+ * * * * *
+
+Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
+noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lmos no _Diario de
+Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
+devidos pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
+de escamas de corvina.
+
+Tambem folgamos muito com isto.
+
+Em todas as exposies de quadros celebradas nos principaes centros
+artisticos do mundo durante este derradeiro quarteiro do seculo, se
+notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
+lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
+se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
+esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lanando mo
+genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente tela, vem
+prehencher uma lacuna immensa nos recursos at hoje to estreitos das
+artes do desenho.
+
+Gloria eterna a to benefica e prestante menina, honra da patria e do
+peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfao completa de
+suas boas mestras!
+
+Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforos de
+processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
+perfeio, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
+apartar-se repentinamente da grande legio dos atormentados, empunhar a
+faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
+escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
+Leopoldo!
+
+S nos resta agora, para inteira consagrao d'este grande facto
+artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
+critica, nos queira dizer de que cr que devemos capitonar as casas e
+que pea de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
+nos compenetrarmos das impresses que so chamados a produzir nas
+organisaes accessiveis comprehenso do bello os novos effeitos
+estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.
+
+ * * * * *
+
+Antes d'hontem, 3, nova rusga s casas de jogo. Em uma batota
+assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil ris
+aprehendidos.
+
+O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida
+se no jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
+visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
+no bairro o boato semi-official de que no havia mais rusgas s batotas.
+Os jogadores ento, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
+reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
+batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
+empalmou do bolo.
+
+A opinio mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
+policia, que anima sagazmente os mal intencionados pratica do crime
+para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.
+
+E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas
+diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.
+
+Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, no
+chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais
+propriamente--uma _vacca_.
+
+ * * * * *
+
+Os jogadores at hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que
+naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a no
+mais jogarem seno nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
+Eleies, ou a jogarem mais reconditamente.
+
+Para no desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
+dos crimes a que elles, coitadinhos, esto habituados, os tribunaes,
+implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
+outros erros menos funestos moral e ao proximo do que o manejo dos
+baralhos.
+
+Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
+tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.
+
+O juri tomou em considerao as circumstancias attenuantes que revestiam
+esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente
+gracejo_.
+
+O juri attendeu principalmente a este facto, que no pde deixar de
+inspirar a mais profunda piedade a todos os coraes ternos:--aquelle a
+quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos
+licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.
+
+O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente
+accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.
+
+Ai d'aquelle que nunca amou! esse um bruto, que jamais dever ser
+chamado a resolver questes d'olhos.
+
+Os que uma vez amaram esses comprehendero bem todos os thesouros de
+ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
+que o levou, incomprehendido, barra dos tribunaes humanos.
+
+O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
+luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
+que entre esses dois amantes se passou!
+
+O cavalheiro principiou naturalmente por pedir sua doce amada que ella
+mesma lhe desse o lho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.
+
+Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
+ironica:
+
+--Ora, para que queres tu o lho?... Importas-te tu bem com o meu lho!
+se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um lho meu, o lho da tua
+Bb, para o pres n'um medalho. Mas oh! tu no me amas....
+
+--Ah! eu no te amo? Eu que te no amo?! Eu que te no quero um lho
+para um berloque?!... Ora espera, que j te mostro se te adoro ou no!
+
+E, em seguida, por um d'esses actos de paixo profunda que muitas vezes
+transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
+delicadamente, apoderar-se-hia do lho da creatura.
+
+Oh! amor!... amor!
+
+Um jornal pareceu no saborear competentemente toda a doura d'este
+breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado cadeia
+um malandro to garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
+jornal o serafim a que nos reportamos.
+
+Um dos membros do juri dirigiu folha alludida uma bella carta
+patenteando as altas razes juridicas que os levaram, elle e os seus
+collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
+juizo.
+
+Diz o jurado:
+
+_Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
+lho queixosa?_
+
+Ns j acima nos prostramos no cho junto s plantas eruditas com que o
+Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
+XVII pelas damas illustres.
+
+Outra vez nos vemos agora forados a estender-nos ao comprido. Sempre
+que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
+obrigao d'este por-se de rjos.
+
+ * * * * *
+
+Na sesso inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
+cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
+terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
+e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
+essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
+Bragana Junior.
+
+Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e
+severo, que no se devem fazer comedias partidarias com a independencia
+da patria.
+
+Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario
+de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
+bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas
+fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
+a descobrir que ella era unicamente um leno.
+
+Pela parte que nos toca no podemos deixar de applaudir absolutamente a
+attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
+venerando partido legitimista, levando pela persuaso oratoria os seus
+correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
+crenas o moderno leno d'assoar, em vez de continuarem a seguir
+servilmente as tradies partidarias da velha crte toireira e
+cavalharial de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
+I, taes como o picador Joo Sedvem e o caceteiro Jos da Policia, exigia
+o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
+outro qualquer symbolo que no fosse unicamente a mo de cada um.
+
+ * * * * *
+
+Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilo de louas, de antiguidades e do
+moveis artisticos.
+
+Tentmos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiana
+portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
+sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
+licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
+magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
+senhora.
+
+O negro despeito pela privao dos referidos objectos obriga-nos ao
+desafogo de alguns commentarios.
+
+ * * * * *
+
+A tendencia geral para o bric--brac o grande escolho dos progressos
+de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
+antigas acabou, assim se pde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
+Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
+restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ningum se
+d j ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
+armario, o mais gracioso sof. Contentamo-nos, como suprema realisao
+das nossas aspiraes no conforto e na graa da habitao, em metter a
+roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
+guardavam os seus cales curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
+sentar as nossas mulheres nos mesmos canaps em que se entufaram outrora
+as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
+Joo v.
+
+Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
+gosto, o seculo XIX figurar na historia como o seculo--dos
+ferros-velhos.
+
+ * * * * *
+
+ aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
+artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. isso de
+resto o que sempre se v na historia do movel. A cada uma das
+modificaes caracteristicas por que successivamente vae passando a
+linha e a cr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
+o nome de um soberano, desde Luiz XIII at Napoleo I, o qual, apesar de
+no ter passado nunca em questes de gosto da sua primeira patente de
+cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
+o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na
+convivencia e nas lies do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
+a traar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
+rascunhos dos improvisos para as proclamaes de guerra.
+
+Os trez grandes decoradores Boule, Gouthire e Riesner, cujas obras
+obtiveram recentemente no leilo do duque de Hamilton os mais fabulosos
+preos que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
+dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de Frana que elles
+fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.
+
+O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
+proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
+fornecedor privilegiado de Luiz XIV.
+
+Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.
+
+Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos
+considerao e estima do mundo moderno, vivero por muito tempo
+immortalisados nas colleces democraticas das artes decorativas,
+alliados memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
+progressos do gosto artistico, que so ao mesmo tempo os progressos da
+elevao do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.
+
+ * * * * *
+
+Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
+nos leiles dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
+mais talentosos do seu reino, no se nos figura que esteja no caminho
+mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
+proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
+melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
+influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia to distincta
+quanto talvez ephemera.
+
+Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilo e arrebatando-os pela
+quantia de mais tres tostes e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
+sua magestade a rainha vibrou, com fina mo ganhosa, o derradeiro golpe,
+definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
+sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje
+fascinao dos miseros burgueses enriquecidos.
+
+Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychs_ das Maintenon
+e das Pompadour, e que almoassem nas taas _pte tendre_, das Dubarry
+ou das Marie Antoinette, coisa era j bem desconsoladora, bem triste e
+bem dissolvente!
+
+Mas, depois do ultimo leilo, em que ns fomos batidos por sua magestade
+a rainha, o facto mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta
+_nuance_--agora a mais distincta, a mais elegante, a mais
+aristocratica das princezas, que rev os candidos e impolutos arminhos
+do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
+Villas! e a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
+esvelta graa altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
+mesma tomar o ch no mesmo bule por cujo bico almoou dois dias antes o
+Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!
+
+ * * * * *
+
+Despeitados, como naturalmente sahimos do leilo Cordeiro, imaginem se
+nos daria prazer ou no a noticia da morte violenta e affrontosa de que
+foi victima o mais bello gato de sua magestade!
+
+Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
+competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
+de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
+contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
+real camara a raparem-o escovinha.
+
+Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal at o
+ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
+dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
+dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
+destinada ao inviolavel almoo do monarcha. Ora todas as pessoas
+versadas nas praticas da crte, por mais perfunctoriamente que seja,
+sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoo s reaes
+pessoas, uma costelleta destinada refeio do principe absolutamente
+a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
+com uma rodella de limo em cima, to real e perfeitamente como estaria
+no solio com a sua cora na cabea e o seu sceptro em punho.
+
+O camareiro pois, vendo seu augusto amo to vil e perversamente
+mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
+abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo
+pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
+costelleta, foi p ante p, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
+pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella distancia kilometrica
+que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
+entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
+caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!
+
+ * * * * *
+
+Aquelle que com amargo fel traa estas linhas colericas, movido
+unicamente pelo baixo despeito de no haver pechinchado n'um leilo um
+espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
+soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
+promtifica desde j a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
+reconhecel-o e a lamental-o.
+
+ * * * * *
+
+Andmos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
+o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
+representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.
+
+O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
+diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
+meno do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.
+
+Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
+liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignao
+classica, e mais uma vez vimos luz do dia, expostas em andr, como
+n'uma procisso solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
+que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
+morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas colleces
+archeologicas.
+
+ * * * * *
+
+Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
+com tanto sangue implantaram e regaram n'este abenoado torro a virente
+arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um s homem!--dizem as
+folhas. Ergamo-nos, sem distinco de campo nem de faco, para sacudir
+o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
+augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister todo de paz e
+d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
+Crucificado, calcando a ps os preceitos evangelicos do Redemptor.
+Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
+hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
+fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
+arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
+Jesus o vendilho infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religio de
+nossos paes, a religio de nossas mes, a religio de nossas filhas, a
+religio de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
+nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime
+religio, finalmente, tal como ella em sua excelsa pureza, que ora
+vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
+Redemptor, cujas cinco chagas so o mais augusto emblema da bandeira da
+nao portuguesa!
+
+ * * * * *
+
+Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
+d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
+offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.
+
+O periodico legitimista a _Nao_ foi o unico que ousou tomar a defesa
+do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manh_ d'hoje agarra-se pelas orelhas
+ _Nao_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
+por espao de seis dias, porque preciso andar a procurar-lhe os
+bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pr em
+p outra vez.
+
+Imaginem que o _Diario da Manh_, desde que comeou a questo at hoje,
+se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis seno quando
+a _Nao,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
+unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus so os
+tres prelados de Angra, do Funchal e de Ga.
+
+Ns tnhamos lido o artigo da _Nao_ e confessamos mesmo que no
+primeiro repente gostamos d'elle.
+
+Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nao_
+geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
+bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella
+affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Ga,
+ns, na boa f, appressmo-nos logo a tomar nota do documento, e c
+ficamos com mais essa informao devidamente registrada para algum dia
+em que por acaso viessemos a ter preciso de bispos maus para nosso uso.
+
+Mas o _Diario da Manh_, o qual, pelo que se v agora, doutorado
+n'esta materia, e conhece to bem todos os bispos como ns outros
+conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manh_, que, segundo parece,
+estava calado e coca, exactamente espera de que lhe bolisscm com os
+bispos, apenas a _Nao_ disse que os unicos tres bispos com geito eram
+os do Funchal, d'Angra e de Ga, ah! pae do ceu!
+
+Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
+desanda tremenda applicada _Nao_ pelo _Diario da Manh_ d'hoje! E
+preciso ll-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
+a tristissima verdade de que no pde um homem hoje em dia fiar-se em
+ninguem.
+
+Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
+a _Nao_ nos queria espigar como afianados, so precisamente os
+peiores de todos!
+
+Prelados bons, segundo o _Diario da Manh_, prelados desenganados,
+prelados que se podem dar a contento seja para onde fr, restituindo-se
+o seu importe caso no agradem, so o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
+e o arcebispo de Bragana.
+
+O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso
+que fazenda.
+
+Bispo de Bragana, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem iro to
+bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.
+
+O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos:
+gallinha!
+
+Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nao_ diz o
+_Diario da Manh_ que elles no so outra coisa seno os _soldados do
+exercito das trevas_.
+
+Tomo nota, e c dou ordem que no estou em casa para nenhum d'esses tres
+melros. Rua, que a sala dos ces!
+
+Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,
+escusa-se de bispos.
+
+Supponham porm que o benemerito _Diario da Manh_ nos no prevenia e
+que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo j um
+pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero
+dizer, aos bispos ... da, _Nao_!... Que tal estava a rascada, heim?
+
+E vamos agora ns a outra coisa, que nos est a lembrar.... Vamos ns
+agora que o proprio _Diario da Manh_....--No queremos melindrar
+ninguem, e pedimos ao _Diario da Manh_ que o no leve a mal pelo amor
+de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem infallivel? No .
+Infallivel unicamente o papa, o homem no. _Humanum est errare_...--
+
+Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manh_ no seja
+to forte em escolher os bispos como a Vicencia o em escolher os
+meles. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade no possa
+incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
+_Nao?..._
+
+Decididamente pedimos licena para ampliar um tanto mais as instruces
+que ha pouco demos nossa cosinheira:
+
+--Gertrudes! no estou em casa para bispo nenhum.
+
+ * * * * *
+
+Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nao,_ pedem ao
+governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.
+
+O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
+representante junto ao Vaticano se enviem instruces terminantes para
+impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasio o barrete
+cardinalicio que lhe est promettido por Sua Santidade.
+
+No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, talvez um pouco
+estranhavel a pretenso de influir com o seu voto sobre o momento mais
+propicio para cardinalisar Masella.
+
+Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camaro--operao a que
+se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,
+encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria at certo
+ponto admissivel e opportuno. Mas quando o papa Leo XIII e no a
+propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa
+a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
+que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o no sirva?...
+
+Oh! no.
+
+Para intervir na distribuio dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem
+exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
+distribuio dos barretes phrygios.
+
+O partido republicano do Brazil impe s vezes solemnemente o barrete
+symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
+sympathico agitador Lopes Trovo recebeu no Rio de Janeiro, no momento
+de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
+ento um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com gales e
+borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.
+
+Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--no
+temos ns que agradecer obzequiosidade da mocidade avanada e generosa
+de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
+a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
+pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
+tostes e meio.
+
+De l e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, com esse
+barrete carregado banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
+critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
+traa estas regras se presa de ter servido a causa, j sobre as aguas do
+mar, j em terra firme, nas praias de banhos durante as estaes
+balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
+instuies caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
+do constitucionalismo D. Guimar Torreso, dama to illustre em fins do
+seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
+affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.
+
+Se o _Seculo_ segue porm as boas praticas do republicanismo brazileiro,
+presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
+seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um
+direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
+dizer em tal conjuntura:
+
+--Alto l! no dem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
+esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
+sobre a cabea do martyr Gomes Leal, cabea de genio e bem assim do
+turco, cabea at hoje inteiramente despremiada, no constando que at
+agora tivesse ainda tido outra coisa, alm da caspa propria, seno galos
+e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.
+
+ * * * * *
+
+Foi s no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
+dias de estudo retroactivo atravez das declamaes da imprensa, que
+emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto
+entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.
+
+Eis o caso:
+
+ * * * * *
+
+Sua excellencia o nobre ministro da justia, usando d'aquella apreciavel
+franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
+a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
+propunha nomear, pedindo cerca d'elles a opinio do mesmo snr nuncio.
+
+Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que to
+benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
+pessimos alguns dos bispos propostos.
+
+--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justias
+humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
+amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinio franca,
+desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinio
+que eu to bisarramente lhe peo, d-me pelo contrario a opinio
+precisamente opposta que eu tenho!?...
+
+--Perdo...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.
+ex. me consultava....
+
+-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... No me force Vossa
+Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
+cavilaes! No queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
+ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, merc de Deus, no
+gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se no exerce
+por sophisticaes capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
+baseadas nas fices mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas fices
+fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
+sagrado da discusso, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
+toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto
+chamo particularmente a atteno de Vossa Eminencia--que, toda a vez que
+um estadista, chamado aos conselhos da cora pela augusta confiana do
+principe, pede cerca dos seus actos a opinio de qualquer dos poderes
+do Estado, a obrigao d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
+_quaesguer que elles sejam_--repito-o-- abundarem approvativamente e
+jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
+as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
+liberrimo governo da nao portugueza.
+
+--Mas ento,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de
+cujo elencho V. Ex. tenor applaudido, vem a ser realmente a fara
+mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso
+da pasta da justia, apenas o roupeta lhe fallou em fara, meu amiguinho
+e snr, agora, o vereis!
+
+_--Fara!_ bradou s.ex. com o gesto nobre mais recommendado pela
+rhetorica para os grandes lances da indignao suprema. _--Fara!_ O
+forasteiro ousa chamar _fara_ ao sublime governo constitucional,
+monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
+chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno Jos Estevo Coelho de
+Magalhes, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidar
+ento o snr, por acaso, que seja uma coisa sria a curia! mais o
+pontificado! mais a infalliblidade do papa! mais as indulgencias para
+ir para o ceu a trez vintens por cabea! mais a bulla para misturar
+carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
+incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
+carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavs!...
+Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
+d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar a
+sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
+vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs
+porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
+bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
+a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs esto
+efectivamente persuadidos de que so sal?... Vive o snr, por exemplo, na
+convico profunda e inabalavel de que medido s razas pelos almotacs
+sempre que passa s portas, e que paga 10 ris de direitos em alqueire
+sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
+snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
+abraar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
+pronta para se deitar panella com cebola e batatas?! No dito estado de
+sal, nutre o snr a austera e firme convico profissional de que lhe
+assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
+Est o snr bem certo de que no tenha seno a sentar-se no bucho verde
+para que elle ganhe caruncho, ou a pr a benta mo sobre os sermes de
+Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nao_ para que essas produces
+literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
+coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastido
+da crusta terrachea?!... E, ento, com tudo isto, os snrs que so os
+srios, e ns que havemos de ser os farantes, heim?
+
+Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
+que no hesitamos um s momento em qualificar de sacrilego e de
+perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
+o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex., e
+experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe cacheira e
+drobando-o e redobrando-o de ferro fixado ao solo.
+
+ * * * * *
+
+At ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informaes
+dispersas que podemos recolher cerca d'este memoravel incidente. D'esse
+ponto por deante ignoramos como que os factos precisamente se
+passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladra, que
+se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
+folha:
+
+_O nuncio desacatou sua excellencia_.
+
+Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
+periodicos ministeriaes.
+
+_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou
+um calor_.
+
+ * * * * *
+
+Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
+nuncio andou admiravelmente bem. E no podemos de modo algum attingir as
+causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
+occasio d'este jubiloso successo.
+
+ * * * * *
+
+E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
+compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos no entendem,
+nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.
+
+Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--so os pastores das almas,
+incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
+que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
+confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles no podem ser
+considerados seno como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
+Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
+ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
+de Deus, de quem o papa o representante visivel na terra.
+
+Ora, se so effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspiraes, os
+interesses do Summo Pontifice e no os do snr Julio de Vilhena que os
+bispos teem de representar, de deffender e de servir, como que querem,
+de boa f e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que no seja
+o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante misso?
+
+ * * * * *
+
+Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
+Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
+que que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
+pensadores?...
+
+Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:
+
+Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
+ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
+livres pensadores? Mas escusavam ento de se incommodar para isso,
+prejudicando-se consideravelmente nos meios de aco, de que para tal
+fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
+irmos do Senhor dos Passos da parochia das Mercs!
+
+Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
+pretenes secretas pendentes do governo das deoceses do reino?
+
+Vejamos, sinceramente:
+
+Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
+querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
+confessar mulheres?...
+
+Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questo e no se torna mais
+a fallar n'isso.
+
+Se, pelo contrario, os snrs no pretendem coisa nenhuma dos bispados,
+que diabo ento lhes importam, aos snrs, os bispos?
+
+Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:
+
+--Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
+republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questo dos
+bispados, e esse facto vem a ser que o governo da nao quem paga os
+bispos.
+
+Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos com effeito o
+governo. E por essa razo que ns applaudimos com enthusiasmo o snr
+Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o
+governo:--para ver se o governo aprende a no ser tolo!
+
+ * * * * *
+
+A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
+beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.
+
+Mandada ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
+empate de uma eleio de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
+que a eleio de desempate recahiu em massa sobre o candidato
+republicano de opposio ao governo.
+
+Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real servio, consta
+que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
+do Arsenal na qualidade de vaso de paz.
+
+Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleies
+pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
+esto-se j colligindo nas estaes competentes os mexilhes precisos
+para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.
+
+Parabens a sua excellencia!
+
+ * * * * *
+
+Agora invocamos a proteco dos anjos para que, com sua assistencia,
+passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
+da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
+Carnaxide.
+
+Era por uma formosa tarde do clido mez de agosto. O astro do dia se
+inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
+presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
+pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
+bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
+gorgeios.
+
+Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
+fatigado corpo e discreteando em ameno convivio cerca de seus bucolicos
+lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
+o milagroso dia de to prodigiosa santa.
+
+Eis seno quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
+presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
+Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
+magestoso acima do narravel.
+
+Com a mo direita se apoiava esse vulto a um bordo de peregrino, em
+quanto que com a mo esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
+de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
+horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
+vida em direco faia virente.
+
+Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
+ou S. Praxedes, e logo viram que no era Santo Anto--por no ter porco
+ao lado.
+
+Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
+Praxedes, collocou a mo sobre o corao e arremetendo com a fronte para
+as nuvens, exclamou:
+
+Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
+
+Era s.ex. o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
+negocios do reino.
+
+Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.
+
+--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex. acommodando o stylo
+rude e acanhada comprehenso do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de
+Lima, que hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mo!
+
+E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
+campesino a que nos referimos, s.ex. proseguiu continuando a
+exprimir-se em prosa:
+
+--Que fizestes do vosso cordeiro favorito, Tityro?--Trazeis comvosco a
+vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?
+
+Todos os camponeses se acercaram ento de s.ex., ficando suspensos da
+facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
+nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
+lingoagem como a que sahia em jorras da bcca d'esse portentoso homem de
+penna e de governao.
+
+Felizes e volozes devolviam as horas em pratica to discreta quo
+matizada de piericos primores, quando s.ex., alongando a dextra n'um
+brando meneio para o pendr da collina, perguntou:
+
+--Que vetustas ruinas so aquellas que alem descortino alvejando na
+quebrada da serra?
+
+E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
+Nossa Senhora Apparecida,
+
+--Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.--Dirijamo-nos pressurosos a
+elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
+d'essa Virgem Senhora Nossa que to galhardamente denominaes
+_Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
+Belmiro e Castalio! Vinde todos, pastores! Eia!... Ao templo! ao
+templo!...
+
+Os pastores, ento, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
+Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mo impia de
+infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
+a transportar para a S no meio da indignao geral dos povos e das
+patronas minazes da real melicia. De sorte que, j no tempo em que o
+feroz usurpador do throno de Lysia se apegra com a Senhora Apparecida
+para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
+Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
+publica:
+
+D. Miguel foi S,
+Sentou-se n'uma cadeira,
+E disso para os malhados:
+Esta perna est inteira!
+
+Ao ouvir taes vozes, j soltas, j metreficadas, s.ex. extrahiu a lyra
+que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
+governao, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
+Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por
+outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
+Senhora Apparecida volveria da S a Carnaxide, reapparecendo pela
+segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.
+
+Vendo os camponezes que por meio de um to manifesto e prodigioso
+milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
+submissos em giolhos.
+
+E foi s depois de s.ex. se haver retirado pela mesma vereda por onde
+viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
+repetir aos montes e s hervinhas:
+
+ Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
+
+que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
+a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando las festivaes em
+honra d'aquelle que to grande capricho punha em lhes restituir a
+Senhora Apparecida quo grande era a pena que alimentava em seus carmes
+de nunca ter visto Lisboa.
+
+Gloria pois a s.ex.!
+
+ * * * * *
+
+Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
+pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
+desembarcar, um acommenda, dois ces de faiana e um bilhete da imperial
+na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
+minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
+molestias sedentarias, em graas regias e em quadrupedes de loua.
+
+A patria explorava-o e ria-se d'elle.
+
+Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
+papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do
+Governo_, elle no s no paga mas resigna uma commenda com que o
+agraciou a regia munificencia.
+
+Tomemos nota do phenomeno, porque elle o symptoma de uma revoluo
+profunda: elle o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e
+dos ces,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
+extrangeiro.
+
+Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
+embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
+Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legio inteira, intelligente,
+instruida e forte, que vae chegar--para se rir.
+
+Lisboa 15 de dezembro de 1882.
+
+_Ramalho Ortigo._
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Novembro A Dezembro 1882)
+by Jos Maria Ea De Queiroz and Ramalho Ortigo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+***** This file should be named 14296-8.txt or 14296-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/1/4/2/9/14296/
+
+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
+Proofreading Team. This work was produced from images generously
+made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal.
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
diff --git a/old/14296-8.zip b/old/14296-8.zip
new file mode 100644
index 0000000..f40f50f
--- /dev/null
+++ b/old/14296-8.zip
Binary files differ
diff --git a/old/14296-h.zip b/old/14296-h.zip
new file mode 100644
index 0000000..7e2be52
--- /dev/null
+++ b/old/14296-h.zip
Binary files differ
diff --git a/old/14296-h/14296-h.htm b/old/14296-h/14296-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..9b4bf96
--- /dev/null
+++ b/old/14296-h/14296-h.htm
@@ -0,0 +1,2776 @@
+<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN"
+ "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd">
+<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml">
+<head>
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" />
+ <meta content="pg2html (binary v0.16)" name="generator" />
+ <meta name="author" content="Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz" />
+ <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882
+by Ramalho Ortigo and Ea De Queiroz.</title>
+<style type="text/css">
+/*<![CDATA[*/
+ <!--
+ body { margin-left: 10%; margin-right: 10%; }
+ h1,h2,h3,h4,h5,h6 { text-align: center; }
+ hr.major { width: 30%;}
+ hr.minor { width: 10%;}
+ .centered {text-align: center}
+ .poem { margin-left: 10%; margin-right: 10%; margin-bottom: 1em; text-align: left; }
+ .poem .stanza { margin: 1em 0em 1em 0em; }
+ .poem p { margin: 0; padding-left: 3em; text-indent: -3em; }
+ .poem p.i2 { margin-left: 1em; }
+ .poem p.i4 { margin-left: 2em; }
+ .poem p.i6 { margin-left: 3em; }
+ .poem p.i8 { margin-left: 4em; }
+ .poem p.i10 { margin-left: 5em; }
+/*]]>*/
+ // -->
+</style>
+</head>
+<!--====================================================-->
+<body>
+
+
+<pre>
+
+Project Gutenberg's As Farpas Da Politica, Das Letras E Dos Costumes
+(Novembro A Dezembro 1882), by Jos Maria Ea De Queiroz and Ramalho Ortigo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Farpas Da Politica, Das Letras E Dos Costumes
+ (Novembro A Dezembro 1882)
+
+Author: Jos Maria Ea De Queiroz and Ramalho Ortigo
+
+
+Release Date: December 7, 2004 [EBook #14296]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+
+
+
+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
+Proofreading Team. This work was produced from images generously
+made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal.
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<div class="centered">
+ <img src="images/devil.png" width="570" height="755"
+ alt="Ea de Queiroz&mdash;Ramalho Ortigo&mdash;As Farpas" />
+ <!--IMAGE END-->
+</div>
+<hr class="major" />
+<h1>
+ AS FARPAS
+</h1>
+<div class="centered">
+ <p>EA DE QUEIROZ&mdash;RAMALHO ORTIGO</p>
+ <p><i>Chronica Mensal</i></p>
+ <p>DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p>
+ <p>QUARTA SERIE N. 2</p>
+ <p>NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882</p>
+</div>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<blockquote>
+<p>
+ Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
+ da escravido dos partidos da venerao da rotina, do pedantismo das
+ sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
+ politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
+ universo, e da adorao de mim mesmo.
+</p>
+</blockquote>
+<p class="centered">
+ P.J. PROUDHON
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+
+<p class="centered">
+ <b>SUMMARIO</b>
+</p>
+<p>
+ Congressos catholicos e ideias clericaes&mdash;Anjos e reprobos&mdash;As
+ influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza&mdash;A egreja e as
+ mulheres&mdash;Os nossos padres, padre de misses, padre d'aldeia e padre de
+ sala&mdash;Os clubs e as sacristias&mdash;O jogo, a batota, o rei dos lusos e o
+ rei de copas, a rusga, a
+<a href="#vacca"><i>vacca</i></a>&mdash;Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama
+ illustre&mdash;Novas applicaes da mobilia critica litteraria&mdash;A moderna
+ arte portugueza e as
+<a href="#escamasdecorvina">escamas da corvina</a>&mdash;O jornalismo em Braga&mdash;O
+ partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas&mdash;Sampaio o
+<a href="#saraivadecarvalho">Saraiva de Carvalho</a>&mdash;A
+ augusta princeza anjo da caridade e do
+<a href="#bricabrac">bric--brac</a>&mdash;Tragico fim de um
+<a href="#gato">gato</a> d'esse anjo&mdash;Fausto e jocundo
+ desacato de s.ex. o ministro da justia por s.em. o nuncio de sua
+ Santidade&mdash;A urna e a
+<a href="#stephania">corveta Stephania</a>&mdash;Os commendadores e os ces de
+ faiana&mdash;-Milagrosa reappario de
+<a href="#apparecida">Nossa Senhora Apparecida</a>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado...
+ Est approvado.
+</p>
+<p>
+ Tal , resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da
+ qual no s o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas
+ muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de
+ gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvao da
+ divindade s deliberaes tomadas pelos clerigos. Para esses
+ cavalheiros,&mdash;papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou
+ sacristes&mdash;Deus absolutamente a mesma coisa que para o snr Fontes a
+ sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de,
+ assistir apresentao dos decretos e de dar o sim.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Nos sermes de penitencia das nossas villas e aldeias o truque o mesmo
+ que nos concilios, mas reforado com um cordel.
+</p>
+<p>
+ O orador sacro, encarregado pela remunerao de 3$600 em dinheiro e um
+ prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das
+ almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio,
+ irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificao
+ espiritual, comea por pr Deus no throno do altar mor, sob a figura do
+ Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em
+ seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante
+ com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, perorao, o
+ ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenos estendidos sobre
+ o parapeito do pulpito os 3$600 de transpirao escorrida pela fronte e
+ pela regio cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma
+ venia e diz:
+</p>
+<p>
+ Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja
+ frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado
+ honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,&mdash;se minha debil voz,
+ digo, conseguiu levar ao vosso corao amantissimo a convico do
+ arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes
+ prostradas a vossos ps, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes
+ nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque no appareceis?!
+</p>
+<p>
+ E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica
+ intitulada obsecrao,&mdash;um dos mais arrojados e vehementes de todos os
+ tropos,&mdash;o orador, dirigindo-se sempre cortina, com bola de mo para a
+ lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que mister que
+ elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes apparea, e lhes
+ perdoe. Os fieis ento desatam em suspiros de corrente pranto, e o
+ ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle
+ mesmo prostrado de commoo e de espanto na borda do pulpito, como se
+ nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um to portentoso milagre como
+ esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos
+ Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as
+ quaresmas, razo de trinta e seis tostes por tarde, alm do beberete.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da
+ oratoria sacra.
+</p>
+<p>
+ Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos
+ persignam-se, abancam, pem deante de si os raps, e passam desde logo a
+ redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do
+ divino Espirito Santo, representado sob a frma de volatil symbolico e
+ para este effeito invisivel.
+</p>
+<p>
+ Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta,
+ tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os
+ clerigos&mdash;e mui judiciosamente segundo se nos affigura&mdash;que inutil
+ estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem
+ com as marionettes.
+</p>
+<p>
+ N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:
+</p>
+<p>
+ Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resolues, que se
+ manifeste n'esse sentido. No se manifestando, entende-se que est de
+ accordo.
+</p>
+<p>
+ Com o qu, do a palavra aos snrs membros que tenham que propr coisas
+ para approvar.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como
+ notorio, o systema habitual de no se manifestar nunca, quer seja para
+ approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor
+ numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.
+</p>
+<p>
+ claro que lhe no faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, seno
+ sahir de toda a parte, onde dizem que est, para vir ali assim capella
+ do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo
+ com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os
+ cumprimentar ou de os mandar fava pelos seus discursos!
+</p>
+<p>
+ Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga
+ por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares
+ mordidos pelo bicho carpinteiro do zlo, e decidem juntos decretar mais
+ fervor devoo das massas afim de que estas mandem dizer mais missas
+ ou se faam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri
+ de indifferena ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa
+ o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a
+ herva crescer.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ No affirmaremos porm em absoluto que esta enorme frescata de
+ chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos
+ sacerdotes, no possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros
+ perigos, apertando-se de mais com o fiado.
+</p>
+<p>
+ Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia,
+ posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima
+ quelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o
+ ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.
+</p>
+<p>
+ Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para
+ provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes
+ de nos tornarmos nojosos fora de sermos nimiamente prolixos em
+ nossas intimidades com o Divino.
+</p>
+<p>
+ de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver
+ consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em
+ devoes castelhanas, os bens da sua cora, se achou reduzido ao mais
+ invejavel estado de pureza christ, no tendo de seu seno facturas de
+ fornecedores que pagar, a beno apostolica de Sua Santidade e o direito
+ divino.
+</p>
+<p>
+ Para sustentar esse direilo nas crtes da nao hispanhola havia um
+ deputado especialmente incumbido de narrar Peninsula tudo aquillo que
+ Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que
+ D. Carlos, com a sua fora desarmada e posta em penhor n'um banco de
+ Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda
+ no espao,
+</p>
+<p>
+ Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao
+ principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade
+ n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.
+</p>
+<p>
+ Os anjos haviam-o chamado s alturas estendendo-lhe do empyreo o
+ ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de
+ apoplexia.
+</p>
+<p>
+ Acontecem d'estas s vezes!
+</p>
+<p>
+ Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um
+ pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo
+ Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente no esto satisfeitos com
+ a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera
+ terrestre.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O mais vulgar porem, da parte de Deus, a indifferena imperturbavel
+ pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja,
+ pondo-se de Deus esquina para a gente e vibrando a religio como a
+ grande moca benzida com que atiram testa de quantos andam a ganhar a
+ sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias esto em folga
+ temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurana futura e
+ d'hostias quotidianas.
+</p>
+<p>
+ Assim como ns outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles
+ agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos
+ dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os
+ exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo
+ uns mo direita e outros mo esquerda do bem conhecido redactor
+ principal e leitor unico da <i>Nao,</i> o snr Fernando Todo Pedroso.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a
+ sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea
+ um rubr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades
+ do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixo de
+ liberdade que encheu na terra o seu corao maldito. Elle levou uma fava
+ preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro est prevenido.
+</p>
+<p>
+ Os doze pescadores, que, voz de Jesus fallando-lhes na montanba,
+ abandonaram as redes para levar palavras de consolao a todos os
+ opprimidos atravez do universo, no quereriam ao p de si l em cima
+ esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca
+ amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mo arriscar a
+ pelle, no j para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade
+ perdida, como nos apologos da biblia, mas para pr definitivamente a
+ liberdade onde estava a oppresso. S. Paulo, que procedia
+ litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Svign, no
+ consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a
+ espada cheia de bccas de um companheiro que procurou como pde lazer
+ por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para
+ a outra.&mdash;-Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o
+ caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de
+ sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O nobre conde de Santiago, pelo contrario, recebido por aclamao, com
+ a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por
+ estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurana. Esse pieodoso
+ fidalgo est nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe d no
+ seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de
+ redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se
+ concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo j,
+ por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte
+ de s. ex., e poderemos alimentar a esperana de o ver ainda atravessar
+ o Chiado como o atravessam os perus, isto &mdash;em pennas. A natural
+ pudicicia de s.ex. lhe vedar porm talvez o circular entre os viventes
+ vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos
+ cherubins no gallinheiro celeste.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado
+ occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma
+ pompa particularmente modesta, destinada, a no excitar represalias da
+ parte do snr. Frana Neto.
+</p>
+<p>
+ Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus
+ chapeus altos anediados de novo para decoro das coras subjacentes, mais
+ outros tantos seculares vestidos de preto e puxados substancia do
+ panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a
+ assoarem-se uns para os outros com emphase, do-nos menos a ideia de um
+ ajuntamento triumphante de convices victoriosas do que o painel de um
+ simples ciprestal sentado,&mdash;com defluxo.
+</p>
+<p>
+ Alem de solicitar a beno apostolica, o congresso catholico de Lisboa
+ resumiu os seus trabalhos em duas unicas resolues: fundar uma
+ universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da
+ sua policia elles faam respeitar nas ruas as pessoas dos
+ ecclesiasticos, presentemente apupados pela multido, segundo elles
+ mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos
+ sacerdotaes. O que, a ser exacto, precisamente a mesma coisa que
+ succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restaurao.
+ Notando-se que a Restaurao foi de todos os governos em Frana aquelle
+ que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a interveno do
+ governo ser o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia
+ e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade
+ religiosa, em que o Estado atheu, como na America do Norte.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com
+ algumas reunies do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso
+ dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do
+ sacerdocio decae de um modo sensibilisador.
+</p>
+<p>
+ No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de
+ 1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de
+ Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne
+ d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procisso
+ para a vasta sala das sesses, engrinaldada de festes de rosas e
+ empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma
+ enorme nau em triumpho. No topo do salo o estrado destinado meza era
+ coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se
+ destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de
+ brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em
+ grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas
+ lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto
+ clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente,
+ por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. frente, os
+ cardeaes com as suas purpuras roagantes; depois os bispos inglezes, os
+ de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os
+ sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas
+ com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de casto de ouro.
+</p>
+<p>
+ Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador
+ do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja
+ livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade
+ de uma alliana entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico
+ do mundo moderno, e o seu discurso n'esse intuito um manifesto de uma
+ rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.
+</p>
+<p>
+ Em toda a parte excepto na Belgica&mdash;disse elle&mdash;os catholicos so
+ inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos
+ no souberam ainda congrassar-se com a grande revoluo que gerou a nova
+ sociedade, a moderna vida dos povos. Em presena da sociedade moderna os
+ catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. No aprenderam
+ por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos esto
+ ainda, pelo corao e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto ,
+ a um systema que no admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade
+ politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu
+ lado grande e bello; no pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo
+ condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: est
+ morto, e nunca mais resuscitar.
+</p>
+<p>
+ Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de
+ cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja,
+ ou no tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos
+ tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do
+ espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razo
+ contra todas as usurpaes, contra todos os privilegios, contra todas as
+ tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.
+</p>
+<p>
+ A liberdade uma s, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo
+ predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes,
+ representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela
+ religio.
+</p>
+<p>
+ Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de
+ a proclamar sem disfarce e sem restrico alguma como base das relaes
+ do homem com o homem na independencia absoluta da revelao e da f. Na
+ religio a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a
+ consciencia humana de no ser governada nas suas relaes com Deus por
+ decretos ou por castigos humanos.
+</p>
+<p>
+ Catholicos&mdash;disse Montalembert&mdash;se quereis a liberdade para vs,
+ entendei-o bem, preciso que a queiraes egualmente para todos os homens
+ e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vs unicamente, no a
+ tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a
+ deem em toda a parte onde fordes escravos.
+</p>
+<p>
+ Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida,
+ levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das
+ resolues da assembleia: do interesse dos catholicos, assim como do
+ todos os cidados que sinceramente querem a liberdade, o substituir
+ quanto possivel a interveno e a omnipotencia do estado pela energia
+ creadora e pelo principio expansivo do espirito de associao.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso
+ de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento
+ liberal da moderna civilisao. Os destinos da egreja n'este fim do
+ seculo XIX esto profundamente ligados a esse facto culminante na
+ historia das ideias clericaes.
+</p>
+<p>
+ O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos
+ abandonaram a reunio no dia immediato quelle em que Montalembert
+ fizera o elogio da alliana da egreja catholica com a sciencia e com a
+ liberdade.
+</p>
+<p>
+ Compareceram apenas nas sesses subsequentes os membros obscuros do
+ baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico
+ continuavam a applaudir Montalembert, no sem perguntarem a si mesmos
+ com certa inquietao o que se pensaria em Roma dos discursos e das
+ resolues do congresso belga. A resposta no se fez esperar. Tres ou
+ quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em
+ que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que
+ ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a
+ <i>liberdade da sciencia</i>.
+</p>
+<p>
+ Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, no
+ obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864.
+ Montalembert no compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo
+ Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, no pareceu
+ sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu s utopias
+ liberaes do congresso com a publicao do <i>Syllabus</i> e da encyclica
+ <i>Quanta cura</i>, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a
+ illuso de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da
+ civilisao.
+</p>
+<p>
+ Em presena d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas
+ resolues que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e
+ do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractao
+ vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspiraes
+ manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no
+ gremio da egreja.
+</p>
+<p>
+ N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.
+</p>
+<p>
+ Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.
+</p>
+<p>
+ Entre os interesses do clero e os interesses da civilisao ha uma
+ barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais
+ liberaes, julgaram impossivel transpr.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ora desde que no pde ser um alliado, o que est evidentemente
+ demonstrado, o padre um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira
+ obrigao tomar conhecimento das foras de que elle dispe para nos
+ prejudicar. Sobre este ponto a resoluo tomada pelo congresso do
+ Passeio Publico de pedir a interveno da policia civil para evitar que
+ o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.
+</p>
+<p>
+ Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo
+ emprestado ao chifarote do habil Antunes um symptoma doce. O
+ congresso prope-se morder os impios com a condio de que os impios lhe
+ ponham as presas. a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os
+ querem ver cantar o cro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico
+ de Lisboa, que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As
+ senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a
+ todas as sesses.
+</p>
+<p>
+ Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim
+ as adheses da mulher?
+</p>
+<p>
+ Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal
+ tres especies distinctas de padres:&mdash;o padre das misses, o padre
+ d'aldeia e o padre de sala.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Os padres das misses subdividem-se em dois grupos differentes: os
+ aventureiros e os mysticos.
+</p>
+<p>
+ Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulao
+ temporal, por amor vida d'emigrante, lavoura dos tropicos, ao lucro
+ mercantil, intriga da politica colonial e batota ultramarina. De
+ quando em quando, ao apparececrem-lhes mo, arrebanhados, alguns
+ centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,&mdash;cerimonia
+ tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros
+ justos, conscios por experiencias feitas de que essa operao, altamante
+ civilisadora posto que inoffensiva, os no torna nem mais nem menos
+ pretos do que elles so.
+</p>
+<p>
+ Os mysticos, mais raros, so pessoas doentes da hallucinao do
+ martyrio. A sua ambio suprema consiste em serem comidos s fatias
+ fritas, com mandioca, pelas raas anthropophagas. Logo que se julgam
+ sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula
+ canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros
+ dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no <i>Barbeiro de
+ Sevilha,</i> mettem um breviario debaixo do brao e embarcam para regies
+ inhospitas e selvagens.
+</p>
+<p>
+ Uma vez em communicao com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter
+ o breviario em cruz entre a bocca e o prato, at conseguirem realisar a
+ sua aspirao suprema, que no restar d'elles mais que uma batina e um
+ par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas
+ dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para
+ o outro:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Saboroso padre! benza-o Manipanso!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O padre d'aldeia d'ordinario o melhor dos homens.
+</p>
+<p>
+ A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas
+ enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e
+ estonteadores.
+</p>
+<p>
+ As suas intimidades com a s natureza do-lhe o instincto de uma boa
+ religio alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de
+ espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros
+ missa cantada, n'uma vasta satisfao de cajados reluzentes, de
+ sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas
+ arregaadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila
+ no arraial.
+</p>
+<p>
+ Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra roda
+ da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, at grade do cemiterio.
+</p>
+<p>
+ Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e
+ rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos
+ artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um
+ chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de po
+ podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capes, que atravancam a
+ passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.
+</p>
+<p>
+ Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um
+ latim abreviado, mastigado pressa, e vae podar as cepas, sachar o
+ cebolo, enxertar os limoeiros ou caar as perdizes, palmilhando o monte,
+ saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os
+ perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bas noites
+ para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no
+ hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa
+ jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas
+ casas frequenta por um resto de tradio antiga nas familias nobres,
+ onde o capello era de rigor nos accessorios da <i>mise-en-scene,</i> como o
+ boleeiro, o creado de farda e a preta.
+</p>
+<p>
+ As meninas nobres, que hoje lem o <i>Figaro</i> e os romances de Daudel, no
+ tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa
+ para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e
+ caturra. Troam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um
+ servial de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade
+ entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras
+ raciocinadas, que no sabe fazer um simples moo de recados sem o curso
+ dos seminarios.
+</p>
+<p>
+ o padre que vae ao Sexas buscar as ls para bordar, segundo os
+ matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leito, e o
+ <i>chignon</i> para frisar ao Godefroy. elle que acompanha s lojas de dia
+ e s visitas sem cerimonia noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os
+ paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaam no caminho, e paga os
+ bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.
+</p>
+<p>
+ No est persistente n'uma s casa, como nas antigas capellanias. Anda
+ aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet
+ ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar
+ noite. s segundas feiras chaperona a lio de desenho das meninas S. s
+ teras acompanha a viscondessinha de X s suas devoes a S. Luiz e a
+ outros logares. s quintas do-lhe ch preto e po torrado com manteiga
+ para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.
+</p>
+<p>
+ Aos seres, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das
+ mexeriquices que traz das casas d'onde vem, v as gravuras das
+ Illustraes, ou dorme. As meninas procuram s vezes arrancal-o ao
+ torpr da sua digesto ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Padre Jos, esperte! no se faa ainda mais mono do que ; scintille
+ para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto
+ cho!
+</p>
+<p>
+ E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em
+ inglez, umas para as outras, picando o <i>crochet:</i>
+</p>
+<p>
+ &mdash;Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!
+</p>
+<p>
+ Quem precisa de padre e o no tem mo, pede-o emprestado, como se pede
+ emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que est em
+ Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:
+</p>
+<p>
+ Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso
+ d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. D-lhe
+ dinheiro para o omnibus e manda-m'o manh sem falta.
+</p>
+<p>
+ s vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulao,
+ posto na escada com a respectiva bagagem,&mdash;uma camisa, um pente, dois
+ pares de piugas embrulhadas n'um jornal&mdash;, e uma pontuada de bengala nos
+ rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.
+</p>
+<p>
+ Algum noite pergunta:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Que feito do padre Joo?
+</p>
+<p>
+ E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que l a um canto,
+ responde lentamente:
+</p>
+<p>
+ -Mandei-o rinchar para as lesirias. Comeava a achar-se folgado de mais
+ para se continuar a ter argola. o que lhe fiz sentir esta manh por
+ meio de uma ligeira admoestao corporea.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Mas o physico do sacerdote inviolavel sagrado!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Por isso tambem no foi pelo lado <i>cruzes</i> que eu o admoestei, foi
+ pelo lado <i>cunhos</i>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer
+ casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes
+ para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz
+ dos Francezes a visita do reverendo Abb Miel.
+</p>
+<p>
+ O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de no se
+ haver abandalhado nas eleies, de no ir para a plateia de S. Carlos
+ applaudir a opera e dizer graolas s senhoras suas confessadas, que
+ esto nas bancadas ao p d'elle, de no andar pelas casas particulares
+ com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de no
+ misturar nunca&mdash;a no ser no sigillo do sanctuario&mdash;o bacalhau norueguez
+ do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e
+ pecaminosa.
+</p>
+<p>
+ Alem do que como vm feitos de fora, no consta na confidencia dos
+ lisboetas nem nas revelaes mais desabotoadas das villegiaturas de
+ Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles
+ foram manufacturados.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Apesar porm de todas as apreciaveis inferioridades que to
+ vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos estima e
+ tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que,
+ apenas quatro padres annunciam um dos seus <i>meetings</i> ao eterno, logo
+ oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa
+ manifestao com o effeito scenico dos seus encantos.
+</p>
+<p>
+ Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se so capazes!
+</p>
+<p>
+ Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes
+ de Castello Melhor. Que contraste!
+</p>
+<p>
+ Esse club reunir facilmente nas suas sesses todas as gravatas
+ vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares
+ reservados s damas, ser mais difficil prehenchel-os. Logo que D.
+ Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commisso
+ encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia
+ revolucionaria poder tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar
+ os colletes, que no ter mais ninguem para conduzir.
+</p>
+<p>
+ A razo d'este phenomeno significativo que os padres e os padristas,
+ por menos espertos e menos habeis que sejam, tem por baixo de si a
+ levantal-os mais alto do que todos ns, oito seculos de talento, de
+ discusso e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos
+ monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus
+ heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o
+ triumpho mais maravilhoso d'essa grande fora chamada o estudo.
+</p>
+<p>
+ A antiga tradio, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido,
+ trespassado pela heriditariedade de gerao em gerao, torna hoje facil
+ o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito
+ e a pratica da devoo.
+</p>
+<p>
+ O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro
+ de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se
+ vae para padre, isto , por simples estupidez.
+</p>
+<p>
+ Ora ser padre quando se no tem cabea para ser qualquer outra coisa
+ mais util, corrente, commodo, faz arranjo s familias com filhos
+ tapados para contas, e no tem perigo nenhum.
+</p>
+<p>
+ Na Egreja quem no sabe outra coisa diz missas. Na Revoluo quem no
+ sabe mais nada diz asneiras. Essa a differena.
+</p>
+<p>
+ As mulheres, que em geral no conhecem os chefes da Revoluo, assim
+ como tambem no conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem
+ Proudhon nem Michelet, como egualmente no leram nunca S. Paulo nem
+ Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres
+ inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e
+ fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.
+</p>
+<p>
+ O erro dos padres nas suas relaes com o seculo&mdash;pedimos licena para
+ lh'o dizer&mdash;est unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se
+ em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos
+ ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas
+ mortas,&mdash;convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molire, pois
+ consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.
+</p>
+<hr />
+<p id="saraivadecarvalho">
+ Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabea distincta das de todos
+ os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia
+ extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia
+ verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas
+ ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que
+ debalde, transformal-as em obras.
+</p>
+<p>
+ dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante servio,
+ lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a
+ substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.
+</p>
+<p>
+ Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de
+ perpetuar para todo sempre a localisao da familia dos actuaes
+ inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo
+ aquelle notavel edificio. Pois evidente que, posto esse casaro a
+ alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores s
+ agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de
+ renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos
+ que offerece para habitao, de familia, pelos maus cheiros que n'elle
+ grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela
+ aterradra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o
+ infestam, sevandijam e conspurcam.
+</p>
+<p>
+ Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de
+ um jornalismo onde os escriptores cada vez se vo tornando mais raros.
+ Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria
+ escrevendo bem a sua lingoa, e foi, alm d'isso, entre os homens
+ politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades
+ de espirito, de corao e de caracter sacrificou s instituies
+ vigentes.
+</p>
+<p>
+ O chefe dessas instituies, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a
+ sua dr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.
+</p>
+<p>
+ No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia
+ para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas
+ de pistola.
+</p>
+<p>
+ Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidado
+ portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos
+ por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor
+ delambido, uma justa e equitativa compensao perda dos mais illustres
+ dos seus compatriotas.
+</p>
+<p>
+ Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dir:
+</p>
+<p>
+ <i>A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu
+ bis ao tenor Gayarre,&mdash;uma e outra coisa devida ao estado de
+ consternao em que todos se achavam</i>.
+</p>
+<p>
+ E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, vertero lagrimas de
+ enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza
+ profunda de to excelso quo sensivel principe.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Se no receassemos profanar a dr to intima e to sincera do soberano,
+ se no temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso corao, to
+ manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasio presente, ns
+ ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:
+</p>
+<p>
+ Julga sua magestade que, assim como os principes tem corao, o no
+ tem os povos egualmente?
+</p>
+<p>
+ Quando, em vez das testas communs e opacas, so as fulgidas e rutilantes
+ testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito
+ do alto do throno celestial, resolve com a devida, considerao chamar
+ s alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante
+ museu da Via Lactea,&mdash;julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos
+ lances, no choram to dolorosamente os subditos pelos seus bons reis
+ como os reis choram pelos seus bons subditos?
+</p>
+<p>
+ Cuida Sua Magestade que no nos faz to grande mossa o baque de um
+ grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz
+ a queda de um honrado cidado que morre?
+</p>
+<p>
+ Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justia:&mdash;
+ perfeitamente a mesma coisa!
+</p>
+<p>
+ Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que
+ acaba de passar o seu corao generoso e paternal!
+</p>
+<p>
+ Quando o sino grande da S badala o dobre supremo dos obitos reaes,
+ quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as
+ gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das
+ quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que
+ proclama&mdash;<i>Real, real, real, por el-rei de Portugal</i>,&mdash;a alma do povo
+ pde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o
+ fim de no succumbir intensidade da dr, de appelar ento por seu
+ turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e
+ das proezas do tiro ao alvo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que&mdash;tendo em vista,
+ os dolorosos e excruciantes paroxismos que pde attingir a saudade,
+ tanto no corao do povo, como no corao dos principes,&mdash;sua magestade
+ se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por
+ occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto
+ das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que s
+ vezes acomette esta veneranda instituio, acaba, de assaltar varias
+ casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.
+</p>
+<p>
+ Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.
+</p>
+<p>
+ A policia foi p ante p, como o cro dos carabineiros nos <i>Bandidos</i> de
+ Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e
+ apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da
+ banca e o dos parceiros.
+</p>
+<p>
+ O <i>Diario do Governo</i> d'ontem traz a este respeito uma portaria de
+ louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei,
+ elogia a policia pelo bem que andou, no s capturando os jogadores,
+ mas&mdash;como muito bem acrescenta a portaria&mdash;apprehendendo outro sim
+ <i>algum dinheiro e mobilia.</i>
+</p>
+<p>
+ Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfao
+ intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e
+ redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente
+ acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente
+ surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidados, improvidos
+ e desapercebidos.
+</p>
+<p>
+ No Porto o zlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar
+ nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para
+ as jogatinas.
+</p>
+<p>
+ No pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas
+ sobre o assumpto <i>batotas</i>, porque estamos convencidos de que essas
+ auctoridades, morigeradas e pudibundas, no foram nunca s casas de
+ jogo, o que as desarma de toda a habilitao precisa para se poder
+ discutir com ellas sobre esta questo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em
+ S. Joo da Foz, ha coisa de vinte annos.
+</p>
+<p>
+ A espelunca achava-se estabelecida no lindo <i>cottage</i> do Mallen, na
+ Praia dos Inglezes, com um terrao sobre o mar e a entrada pela rua da
+ Senhora da Luz.
+</p>
+<p>
+ No meio do grande salo de baile estava armado o jogo sobre uma vasta
+ mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa
+ achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da
+ provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa,
+ sentados, outros em p por traz d'esses, formando tres ou quatro
+ circulos concentricos.
+</p>
+<p>
+ A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas,
+ adornado de uma longa pra grisalha, puxava para junto de si por meio de
+ uma pequena rapadeira de mogno polido, em frma de ensinho, o dinheiro
+ das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das
+ apostas.
+</p>
+<p>
+ Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um
+ cavalheiro, mais gordo, ainda que no mais solicito, e de aspecto
+ egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mos finas,
+ particularmente bem tratadas e realadas por dois bellos cachuchos em
+ que scintillava um olho de gato e um rubi.
+</p>
+<p>
+ Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas
+ que tinha mais proximo de mim.
+</p>
+<p>
+ Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mos
+ finas collocava na mesa ao lado uma da outra. L estava, por exemplo, o
+ trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia,
+ para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o
+ preo da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno,
+ segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas
+ cartas que em seguida sahia do baralho.
+</p>
+<p>
+ Devo dizer, face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me
+ expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e
+ mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do
+ Estado alguns esclarecimentos cerca do jogo do machinismo
+ administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar
+ ninguem, que jamais das regies officiaes recebi informaes to
+ lucidas e to leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram
+ cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.
+</p>
+<p>
+ De um s relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma
+ profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei
+ 100$000 ris que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o
+ trez de espadas que se achava na mesa.
+</p>
+<p>
+ Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a
+ direita ou para a esquerda das cartas.
+</p>
+<p>
+ O homem da p de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua
+ pra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Mata o rei?
+</p>
+<p>
+ Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Mato-o, sim senhor!
+</p>
+<p>
+ Esta phrase pareceu fazer uma certa impresso no auditorio. Houve um
+ silencio. Um desembargador da relao do Porto, ancio de oculos d'ouro
+ e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das
+ cartas 3$000 que tinha posto.
+</p>
+<p>
+ O cavalheiro das lindas mos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e
+ principiou a extrahir com lentido as cartas, a uma por uma, do masso
+ que comprimia nos dedos.
+</p>
+<p>
+ A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.
+</p>
+<p>
+ Eu tinha perdido os meus 100$000 ris. Ganhava-os precisamente um
+ illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma
+ parada egual minha.
+</p>
+<p>
+ Esta deciso da sorte&mdash;eu o confesso&mdash;no me regosijou seno de um modo
+ bem caracteristicamente mediocre.
+</p>
+<p>
+ Resolvi porm interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi
+ consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia
+ de perto de meio anno de collaborao n'um jornal americano,&mdash;somma
+ recebida n'esse mesmo dia.
+</p>
+<p>
+ Fiquei na batota at pela manh.
+</p>
+<p>
+ Por uma janella aberta sobre o terrao a luz cr de perola da madrugada
+ entrava humedecida e salgada pela virao maritima. As banheiras, filhas
+ e moas da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe
+ em terceiras, n'um cro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os
+ primeiros preges matutinos dos vendilhes ambulantes penetravam do lado
+ da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o claro da manh
+ pautava luminosamente d'azul.
+</p>
+<p>
+ Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da
+ noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da
+ cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balo do buffette.
+</p>
+<p>
+ O cho estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a
+ saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados
+ raivosamente pelos pontos.
+</p>
+<p>
+ O homem das bellas mos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e
+ o collarinho esverdinhado de transpirao.
+</p>
+<p>
+ O cavalheiro da pra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e
+ depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira
+ de braos em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia,
+ escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas,
+ as mos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas
+ convulses da bronchite.
+</p>
+<p>
+ A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruos para cima
+ de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da
+ banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete,
+ ficara esquecido um janota de calas cr de flr de alecrim, botinas de
+ polimento, luvas azues e fraque cr de pinho feito no Pereira Baquet.
+ Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me no ir
+ d'ali embora sosinho.
+</p>
+<p>
+ Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o
+ Chico ... no me lembra j de qu. Tinha dezesete ou dezoito annos, era
+ filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado
+ no hotel do Romo, intitulado da Boavista.
+</p>
+<p>
+ Quando elle se ergueu da mesa e se poz em p deante de mim, vi que o
+ misero no tinha estado a dormir, mas sim a chorar.
+</p>
+<p>
+ A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buo, de
+ um signal cabelludo na face e de dois bands cr de ouro anediados pelo
+ melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternao
+ to profunda, to cca, to francamente imbecil, que desde logo me
+ atrahiu para elle com uma compaixo verdadeira. Agarrou-se s primeiras
+ palavras que lhe disse, como um afogado se agarra primeira cousa
+ fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e
+ elegante moo vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.
+</p>
+<p>
+ Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de
+ cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de
+ um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra
+ no valor de 1:600$000 ris. Era d'esta quantia, recebida tres dias
+ antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta
+ moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo
+ doutor da Regoa para um tumor frio que lhe comeara a inchar n'um
+ sovaco.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Meu pae, para coisas d'estas, uma fera!&mdash;explicou-me elle com voz
+ estrangulada.
+</p>
+<p>
+ E, tendo descalado uma das luvas azues, comprimia com mo nervosa o
+ alto da sua pequena cabea de gallo, apagando da testa n'um repello o
+ bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bands.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Como assim!&mdash;lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna
+ inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o
+ que lhe cumpre fazer nas funestas condies em que se acha?... Saiamos
+ l para fora! Saiamos com p expedito e rapido d'esta caverna, que at
+ me est a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel
+ progenitor, proferindo-o perante a pra cavilosa e obscena d'aquelle
+ tisico, malandro em terceiro grau, que alm diviso envesgando para ns
+ os olhos torvos!
+</p>
+<p>
+ &mdash;Co!&mdash;disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um
+ parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da
+ porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do
+ cavalheiro da pra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da
+ janella.
+</p>
+<p>
+ E, uma vez ambos na rua, eu prosegui, reatando o fio do discurso:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses
+ agricolas das nossas regies vinhateiras a quantia de ris 1:600$000,
+ para os entregar nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom
+ e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os
+ rispidos ancios, de ouvidos cerrados misericordia pelo mau genio e
+ pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os
+ diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz
+ para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento
+ presente, do que a applicao lombar da bengala de um antepassado, ou a
+ justaposio da abenoada sola e vira de uns bons sapatos paternos s
+ partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da
+ mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta
+ noite o rei ... No sei se o snr m'o viu matar? ... Matei-o como quem
+ mata um prco ... Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse
+ regicidio? Ficou-me por 176$000 ris. A recordao amarga d'este
+ luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de
+ semsaboria, e s uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na
+ doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Pois olhe&mdash;exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados
+ de um repentino jubilo&mdash;dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a
+ modo que me est a appetecer isso, a mim!
+</p>
+<p>
+ E trocadas entre ns estas profundas e memoraveis palavras,
+ remergulhamos em intimas e silenciosas cogitaes, eu e o Chico.
+</p>
+<p>
+ Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes do
+ vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas
+ encapuchadas em rendas de l desciam de suas manses praia para se
+ entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras
+ ainda, volviam da praia a suas manses, com narizes arrebitados e
+ vermelhos, avidas de po quente com manteiga e de caf com leite.
+</p>
+<p>
+ Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso
+ pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padres da
+ Teixeira, de braos abertos e um marmeleiro em cada brao. Eu voltava
+ taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o
+ vil e mercenario ensinho do Pra Tisica n'essa noite desvira de seu
+ natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o
+ sempre velados pelo mysterio.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Tal , em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada
+ batota!
+</p>
+<p>
+ Temos visto do jogo muitas e mui variadas definies. A unica, porm,
+ que inteiramente nos satisfaz a seguinte: O jogo uma asneira.
+</p>
+<p>
+ Reduzida assim a questo aos seus verdadeiros termos, no podemos deixar
+ de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de
+ castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se
+ lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos
+ aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa
+ impossivel, porque ha muito no haveria ministro nenhum que andasse
+ solto.
+</p>
+<p>
+ E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicao sophistica
+ de que para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal
+ assalta e sequstra as batotas!
+</p>
+<p>
+ Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu
+ teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido
+ para o rei de Portugal os 176$000 ris que eu dei para o rei de copas? E
+ outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua
+ policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe
+ lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da
+ chalaa!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecero brevemente dois novos
+ jornaes, um delles intitulado <i>Supplicantibus</i>, e intitulado o outro
+ <i>Frei Bandalho</i>.
+</p>
+<p>
+ Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar
+ bem, em duas unicas pennadas, a elevao intellectual que, no s em
+ Braga como em todo o reino, est presidindo n'este momento
+ vulgarisao da litteratura jornalistica.
+</p>
+<p>
+ Guimares, Barcellos e Vianna no querero por certo deixar-se
+ ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e
+ cremos mesmo no ser indiscretos revelando desde j que, estimulados
+ pela mais nobre emulao, os grandes centros intellectuaes do Minho
+ preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos
+ braguezes, a appario proxima d'outros jornaes intitulados o <i>Reles</i>, o
+ <i>Bisborria</i> e o <i>Pulha</i>.
+</p>
+<p>
+ A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia
+ intellectual o secreto receio de que, no obstante, os incansaveis
+ esforos empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da
+ educao nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face
+ com suas auctorisadas pennas a um to vasto labor mental, os escriptores
+ borra-botas, os troca-tintas e os manccos indispensaveis para o caso.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ S. ex. o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de
+ Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de
+ <i>Rosalia</i> a uma creana de quem foi padrinho.
+</p>
+<p>
+ Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que
+ s. ex. escolhera este nome por elle ser o de uma illustre dama
+ portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.
+</p>
+<p>
+ Inclinemo-nos com reverencia!
+</p>
+<p>
+ Elle poz-lhe o nome de Rosalia...
+</p>
+<p>
+ Tornemos a inclinar-nos!
+</p>
+<p>
+ E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos
+ meiados do decimo setimo seculo ...
+</p>
+<p>
+ Prostremo-nos por terra!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ D. Guiomar Torrezo, do <i>Diario Illustrado,</i> dedilhando com mo d'anneis
+ n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:
+</p>
+<p>
+ J alguma vez experimentaram a impresso que se sente entrando-se em um
+ boudoir, em uma especie de <i>bonbonniere</i> capitonada de setim azul,
+ impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada
+ por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e
+ aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras
+ semi-cerradas e a cabea enterrada em uma almofada de setim macio e
+ luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se
+ das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,
+ pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente
+ sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas? ...
+</p>
+<p>
+ E' esta mesma impresso que se experimenta lendo-se os poemetos do
+ conde de Sabugosa.
+</p>
+<p>
+ talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de
+ D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle d a impresso perfeita da obra de
+ um to sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a
+ pena de experimentar...
+</p>
+<p>
+ De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por
+ preo modico todos os trastes precisos para a comprehenso das
+ differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos
+ os preos, j em flores caprichosas, j em plumagens ondulantes, a todos
+ os gostos d'horta ou de capoeira.
+</p>
+<p>
+ O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para
+ massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com
+ a cabea enterrada na almofada de setim phosphorecente.
+</p>
+<p>
+ Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao
+ longe, o paciente se queixar de no desfructar sufficientemente a
+ musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remunerao, facultar
+ duas buxas de algodo em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.
+</p>
+<p>
+ Folgamos de veras ao ver assim to harmonicamente alliadas em proveito
+ da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos
+ jornaes e de pr cortinados da Suissa nas casas.
+</p>
+<hr />
+<p id="escamasdecorvina">
+ Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na
+ noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lmos no <i>Diario de
+ Noticias</i> que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros
+ devidos pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos
+ de escamas de corvina.
+</p>
+<p>
+ Tambem folgamos muito com isto.
+</p>
+<p>
+ Em todas as exposies de quadros celebradas nos principaes centros
+ artisticos do mundo durante este derradeiro quarteiro do seculo, se
+ notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o
+ lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles
+ se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da
+ esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lanando mo
+ genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente tela, vem
+ prehencher uma lacuna immensa nos recursos at hoje to estreitos das
+ artes do desenho.
+</p>
+<p>
+ Gloria eterna a to benefica e prestante menina, honra da patria e do
+ peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfao completa de
+ suas boas mestras!
+</p>
+<p>
+ Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforos de
+ processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel
+ perfeio, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,
+ apartar-se repentinamente da grande legio dos atormentados, empunhar a
+ faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e
+ escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor
+ Leopoldo!
+</p>
+<p>
+ S nos resta agora, para inteira consagrao d'este grande facto
+ artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da
+ critica, nos queira dizer de que cr que devemos capitonar as casas e
+ que pea de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem
+ nos compenetrarmos das impresses que so chamados a produzir nas
+ organisaes accessiveis comprehenso do bello os novos effeitos
+ estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.
+</p>
+<hr />
+<p id="vacca">
+ Antes d'hontem, 3, nova rusga s casas de jogo. Em uma batota
+ assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil ris
+ aprehendidos.
+</p>
+<p>
+ O <i>Correio da Noite</i> refere sobre este assumpto que na batota alludida
+ se no jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma
+ visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr
+ no bairro o boato semi-official de que no havia mais rusgas s batotas.
+ Os jogadores ento, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,
+ reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e
+ batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que
+ empalmou do bolo.
+</p>
+<p>
+ A opinio mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da
+ policia, que anima sagazmente os mal intencionados pratica do crime
+ para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.
+</p>
+<p>
+ E os jornaes continuam a chamar <i>uma rusga</i> a cada uma d'estas
+ diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.
+</p>
+<p>
+ Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, no
+ chamariam a estes lances <i>uma rusga</i>; chamar-lhe-hiam&mdash;mais
+ propriamente&mdash;uma <i>vacca</i>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Os jogadores at hoje presos teem sido todos condemnados;&mdash;coisa que
+ naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a no
+ mais jogarem seno nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as
+ Eleies, ou a jogarem mais reconditamente.
+</p>
+<p>
+ Para no desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica
+ dos crimes a que elles, coitadinhos, esto habituados, os tribunaes,
+ implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com
+ outros erros menos funestos moral e ao proximo do que o manejo dos
+ baralhos.
+</p>
+<p>
+ Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que
+ tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.
+</p>
+<p>
+ O juri tomou em considerao as circumstancias attenuantes que revestiam
+ esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, <i>innocente
+ gracejo</i>.
+</p>
+<p>
+ O juri attendeu principalmente a este facto, que no pde deixar de
+ inspirar a mais profunda piedade a todos os coraes ternos:&mdash;aquelle a
+ quem por um momento pedimos venia para chamar <i>reu,</i> se assim nos
+ licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.
+</p>
+<p>
+ O movel do crime,&mdash;digo&mdash;o movel da pilheria, de que o innocente
+ accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.
+</p>
+<p>
+ Ai d'aquelle que nunca amou! esse um bruto, que jamais dever ser
+ chamado a resolver questes d'olhos.
+</p>
+<p>
+ Os que uma vez amaram esses comprehendero bem todos os thesouros de
+ ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto
+ que o levou, incomprehendido, barra dos tribunaes humanos.
+</p>
+<p>
+ O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e
+ luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena
+ que entre esses dois amantes se passou!
+</p>
+<p>
+ O cavalheiro principiou naturalmente por pedir sua doce amada que ella
+ mesma lhe desse o lho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.
+</p>
+<p>
+ Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e
+ ironica:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Ora, para que queres tu o lho?... Importas-te tu bem com o meu lho!
+ se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um lho meu, o lho da tua
+ Bb, para o pres n'um medalho. Mas oh! tu no me amas...
+</p>
+<p>
+ &mdash;Ah! eu no te amo? Eu que te no amo?! Eu que te no quero um lho
+ para um berloque?!... Ora espera, que j te mostro se te adoro ou no!
+</p>
+<p>
+ E, em seguida, por um d'esses actos de paixo profunda que muitas vezes
+ transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,
+ delicadamente, apoderar-se-hia do lho da creatura.
+</p>
+<p>
+ Oh! amor!... amor!
+</p>
+<p>
+ Um jornal pareceu no saborear competentemente toda a doura d'este
+ breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado cadeia
+ um malandro to garantidamente bestial como mostrava ser para o dito
+ jornal o serafim a que nos reportamos.
+</p>
+<p>
+ Um dos membros do juri dirigiu folha alludida uma bella carta
+ patenteando as altas razes juridicas que os levaram, elle e os seus
+ collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em
+ juizo.
+</p>
+<p>
+ Diz o jurado:
+</p>
+<p>
+ <i>Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o
+ lho queixosa?</i>
+</p>
+<p>
+ Ns j acima nos prostramos no cho junto s plantas eruditas com que o
+ Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo
+ XVII pelas damas illustres.
+</p>
+<p>
+ Outra vez nos vemos agora forados a estender-nos ao comprido. Sempre
+ que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta
+ obrigao d'este por-se de rjos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Na sesso inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na
+ cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,
+ terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,
+ e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre
+ essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de
+ Bragana Junior.
+</p>
+<p>
+ Referindo este facto o <i>Diario de Noticias</i> accresccnta, reprehensivo e
+ severo, que no se devem fazer comedias partidarias com a independencia
+ da patria.
+</p>
+<p>
+ Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do <i>Diario
+ de Noticias</i>, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a
+ bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna&mdash;como consta por pessoas
+ fidedignas&mdash;se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio
+ a descobrir que ella era unicamente um leno.
+</p>
+<p>
+ Pela parte que nos toca no podemos deixar de applaudir absolutamente a
+ attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do
+ venerando partido legitimista, levando pela persuaso oratoria os seus
+ correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas
+ crenas o moderno leno d'assoar, em vez de continuarem a seguir
+ servilmente as tradies partidarias da velha crte toireira e
+ cavalharial de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel
+ I, taes como o picador Joo Sedvem e o caceteiro Jos da Policia, exigia
+ o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre
+ outro qualquer symbolo que no fosse unicamente a mo de cada um.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilo de louas, de antiguidades e do
+ moveis artisticos.
+</p>
+<p>
+ Tentmos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiana
+ portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues
+ sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um
+ licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua
+ magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta
+ senhora.
+</p>
+<p>
+ O negro despeito pela privao dos referidos objectos obriga-nos ao
+ desafogo de alguns commentarios.
+</p>
+<hr />
+<p id="bricabrac">
+ A tendencia geral para o bric--brac o grande escolho dos progressos
+ de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias
+ antigas acabou, assim se pde dizer, com a moderna marcenaria artistica.
+ Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram
+ restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ningum se
+ d j ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo
+ armario, o mais gracioso sof. Contentamo-nos, como suprema realisao
+ das nossas aspiraes no conforto e na graa da habitao, em metter a
+ roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros
+ guardavam os seus cales curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos
+ sentar as nossas mulheres nos mesmos canaps em que se entufaram outrora
+ as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.
+ Joo v.
+</p>
+<p>
+ Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu
+ gosto, o seculo XIX figurar na historia como o seculo&mdash;dos
+ ferros-velhos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas
+ artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. isso de
+ resto o que sempre se v na historia do movel. A cada uma das
+ modificaes caracteristicas por que successivamente vae passando a
+ linha e a cr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente
+ o nome de um soberano, desde Luiz XIII at Napoleo I, o qual, apesar de
+ no ter passado nunca em questes de gosto da sua primeira patente de
+ cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha
+ o typo da mesma emphase cezarea que o imperial <i>parvenu</i> aprendera na
+ convivencia e nas lies do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar
+ a traar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os
+ rascunhos dos improvisos para as proclamaes de guerra.
+</p>
+<p>
+ Os trez grandes decoradores Boule, Gouthire e Riesner, cujas obras
+ obtiveram recentemente no leilo do duque de Hamilton os mais fabulosos
+ preos que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores
+ dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de Frana que elles
+ fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.
+</p>
+<p>
+ O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no
+ proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de
+ fornecedor privilegiado de Luiz XIV.
+</p>
+<p>
+ Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.
+</p>
+<p>
+ Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos
+ considerao e estima do mundo moderno, vivero por muito tempo
+ immortalisados nas colleces democraticas das artes decorativas,
+ alliados memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os
+ progressos do gosto artistico, que so ao mesmo tempo os progressos da
+ elevao do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis
+ nos leiles dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas
+ mais talentosos do seu reino, no se nos figura que esteja no caminho
+ mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar
+ proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais
+ melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da
+ influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia to distincta
+ quanto talvez ephemera.
+</p>
+<p>
+ Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilo e arrebatando-os pela
+ quantia de mais tres tostes e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,
+ sua magestade a rainha vibrou, com fina mo ganhosa, o derradeiro golpe,
+ definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica
+ sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje
+ fascinao dos miseros burgueses enriquecidos.
+</p>
+<p>
+ Que os adelos se barbeassem deante das elegantes <i>psychs</i> das Maintenon
+ e das Pompadour, e que almoassem nas taas <i>pte tendre</i>, das Dubarry
+ ou das Marie Antoinette, coisa era j bem desconsoladora, bem triste e
+ bem dissolvente!
+</p>
+<p>
+ Mas, depois do ultimo leilo, em que ns fomos batidos por sua magestade
+ a rainha, o facto mil vezes mais grave. Porque&mdash;comprehendem bem esta
+ <i>nuance</i>&mdash;agora a mais distincta, a mais elegante, a mais
+ aristocratica das princezas, que rev os candidos e impolutos arminhos
+ do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o
+ Villas! e a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a
+ esvelta graa altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella
+ mesma tomar o ch no mesmo bule por cujo bico almoou dois dias antes o
+ Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!
+</p>
+<hr />
+<p id="gato">
+ Despeitados, como naturalmente sahimos do leilo Cordeiro, imaginem se
+ nos daria prazer ou no a noticia da morte violenta e affrontosa de que
+ foi victima o mais bello gato de sua magestade!
+</p>
+<p>
+ Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela
+ competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato
+ de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,
+ contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da
+ real camara a raparem-o escovinha.
+</p>
+<p>
+ Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal at o
+ ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um
+ dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha
+ dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta
+ destinada ao inviolavel almoo do monarcha. Ora todas as pessoas
+ versadas nas praticas da crte, por mais perfunctoriamente que seja,
+ sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoo s reaes
+ pessoas, uma costelleta destinada refeio do principe absolutamente
+ a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato
+ com uma rodella de limo em cima, to real e perfeitamente como estaria
+ no solio com a sua cora na cabea e o seu sceptro em punho.
+</p>
+<p>
+ O camareiro pois, vendo seu augusto amo to vil e perversamente
+ mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais
+ abstinentes e mais respeitosos, o camareiro&mdash;dizemos&mdash;acceso em zelo
+ pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de
+ costelleta, foi p ante p, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo
+ pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella distancia kilometrica
+ que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear
+ entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites
+ caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Aquelle que com amargo fel traa estas linhas colericas, movido
+ unicamente pelo baixo despeito de no haver pechinchado n'um leilo um
+ espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta
+ soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se
+ promtifica desde j a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a
+ reconhecel-o e a lamental-o.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Andmos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre
+ o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e
+ representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.
+</p>
+<p>
+ O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,
+ diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a
+ meno do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.
+</p>
+<p>
+ Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica
+ liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignao
+ classica, e mais uma vez vimos luz do dia, expostas em andr, como
+ n'uma procisso solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra
+ que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente
+ morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas colleces
+ archeologicas.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que
+ com tanto sangue implantaram e regaram n'este abenoado torro a virente
+ arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um s homem!&mdash;dizem as
+ folhas. Ergamo-nos, sem distinco de campo nem de faco, para sacudir
+ o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do
+ augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister todo de paz e
+ d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do
+ Crucificado, calcando a ps os preceitos evangelicos do Redemptor.
+ Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura
+ hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo
+ fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam
+ arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de
+ Jesus o vendilho infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religio de
+ nossos paes, a religio de nossas mes, a religio de nossas filhas, a
+ religio de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de
+ nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!&mdash;a nossa sublime
+ religio, finalmente, tal como ella em sua excelsa pureza, que ora
+ vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo
+ Redemptor, cujas cinco chagas so o mais augusto emblema da bandeira da
+ nao portuguesa!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos
+ d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de
+ offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.
+</p>
+<p>
+ O periodico legitimista a <i>Nao</i> foi o unico que ousou tomar a defesa
+ do odioso Nuncio, mas o <i>Diario da Manh</i> d'hoje agarra-se pelas orelhas
+ <i>Nao</i> e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario
+ por espao de seis dias, porque preciso andar a procurar-lhe os
+ bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pr em
+ p outra vez.
+</p>
+<p>
+ Imaginem que o <i>Diario da Manh</i>, desde que comeou a questo at hoje,
+ se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis seno quando
+ a <i>Nao,</i> imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os
+ unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus so os
+ tres prelados de Angra, do Funchal e de Ga.
+</p>
+<p>
+ Ns tnhamos lido o artigo da <i>Nao</i> e confessamos mesmo que no
+ primeiro repente gostamos d'elle.
+</p>
+<p>
+ Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a <i>Nao</i>
+ geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de
+ bispos&mdash;especialidade em que somos completamente leigos&mdash;desde que ella
+ affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Ga,
+ ns, na boa f, appressmo-nos logo a tomar nota do documento, e c
+ ficamos com mais essa informao devidamente registrada para algum dia
+ em que por acaso viessemos a ter preciso de bispos maus para nosso uso.
+</p>
+<p>
+ Mas o <i>Diario da Manh</i>, o qual, pelo que se v agora, doutorado
+ n'esta materia, e conhece to bem todos os bispos como ns outros
+ conhecemos os nossos dedos, o <i>Diario da Manh</i>, que, segundo parece,
+ estava calado e coca, exactamente espera de que lhe bolisscm com os
+ bispos, apenas a <i>Nao</i> disse que os unicos tres bispos com geito eram
+ os do Funchal, d'Angra e de Ga, ah! pae do ceu!
+</p>
+<p>
+ Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a
+ desanda tremenda applicada <i>Nao</i> pelo <i>Diario da Manh</i> d'hoje! E
+ preciso ll-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos
+ a tristissima verdade de que no pde um homem hoje em dia fiar-se em
+ ninguem.
+</p>
+<p>
+ Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que
+ a <i>Nao</i> nos queria espigar como afianados, so precisamente os
+ peiores de todos!
+</p>
+<p>
+ Prelados bons, segundo o <i>Diario da Manh</i>, prelados desenganados,
+ prelados que se podem dar a contento seja para onde fr, restituindo-se
+ o seu importe caso no agradem, so o bispo de Coimbra, o bispo de Evora
+ e o arcebispo de Bragana.
+</p>
+<p>
+ O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso
+ que fazenda.
+</p>
+<p>
+ Bispo de Bragana, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem iro to
+ bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.
+</p>
+<p>
+ O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos:
+ gallinha!
+</p>
+<p>
+ Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da <i>Nao</i> diz o
+ <i>Diario da Manh</i> que elles no so outra coisa seno os <i>soldados do
+ exercito das trevas</i>.
+</p>
+<p>
+ Tomo nota, e c dou ordem que no estou em casa para nenhum d'esses tres
+ melros. Rua, que a sala dos ces!
+</p>
+<p>
+ Para <i>soldados do exercito das trevas</i> bastam-nos os persevejos,
+ escusa-se de bispos.
+</p>
+<p>
+ Supponham porm que o benemerito <i>Diario da Manh</i> nos no prevenia e
+ que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo j um
+ pouco pellada no lombo&mdash;abria o meu seio incauto aos persevejos... quero
+ dizer, aos bispos... da, <i>Nao!</i>... Que tal estava a rascada, heim?
+</p>
+<p>
+ E vamos agora ns a outra coisa, que nos est a lembrar... Vamos ns
+ agora que o proprio <i>Diario da Manh</i>...&mdash;No queremos melindrar
+ ninguem, e pedimos ao <i>Diario da Manh</i> que o no leve a mal pelo amor
+ de Deus... Perguntamos apenas uma coisa: o homem infallivel? No .
+ Infallivel unicamente o papa, o homem no. <i>Humanum est errare</i>...&mdash;
+</p>
+<p>
+ Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo <i>Diario da Manh</i> no seja
+ to forte em escolher os bispos como a Vicencia o em escolher os
+ meles. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade no possa
+ incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a
+ <i>Nao?...</i>
+</p>
+<p>
+ Decididamente pedimos licena para ampliar um tanto mais as instruces
+ que ha pouco demos nossa cosinheira:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Gertrudes! no estou em casa para bispo nenhum.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada <i>Nao,</i> pedem ao
+ governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.
+</p>
+<p>
+ O <i>Seculo</i> vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso
+ representante junto ao Vaticano se enviem instruces terminantes para
+ impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasio o barrete
+ cardinalicio que lhe est promettido por Sua Santidade.
+</p>
+<p>
+ No <i>Seculo</i>, um jornal republicano e livre pensador, talvez um pouco
+ estranhavel a pretenso de influir com o seu voto sobre o momento mais
+ propicio para cardinalisar Masella.
+</p>
+<p>
+ Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camaro&mdash;operao a que
+ se procede cosendo-o&mdash;o parecer do <i>Seculo</i> junto da tia Pincha,
+ encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria at certo
+ ponto admissivel e opportuno. Mas quando o papa Leo XIII e no a
+ propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o <i>Seculo</i> que a coisa
+ a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para
+ que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o no sirva?...
+</p>
+<p>
+ Oh! no.
+</p>
+<p>
+ Para intervir na distribuio dos barretes cardinalicios o <i>Seculo</i> tem
+ exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na
+ distribuio dos barretes phrygios.
+</p>
+<p>
+ O partido republicano do Brazil impe s vezes solemnemente o barrete
+ symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o
+ sympathico agitador Lopes Trovo recebeu no Rio de Janeiro, no momento
+ de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado
+ ento um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com gales e
+ borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.
+</p>
+<p>
+ Outro tanto&mdash;com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum&mdash;no
+ temos ns que agradecer obzequiosidade da mocidade avanada e generosa
+ de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre
+ a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo
+ pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito
+ tostes e meio.
+</p>
+<p>
+ De l e vermelho, do matiz radical denominado <i>rebenta-boi</i>, com esse
+ barrete carregado banda sobre um olho, com o monoculo expectante da
+ critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que
+ traa estas regras se presa de ter servido a causa, j sobre as aguas do
+ mar, j em terra firme, nas praias de banhos durante as estaes
+ balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das
+ instuies caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa
+ do constitucionalismo D. Guimar Torreso, dama to illustre em fins do
+ seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o
+ affirma o mui culto Doutor Jardim... de S. Pedro d'Alcantara.
+</p>
+<p>
+ Se o <i>Seculo</i> segue porm as boas praticas do republicanismo brazileiro,
+ presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do
+ seu partido, que diria o <i>Seculo</i> se, usando da reciprocidade de um
+ direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse
+ dizer em tal conjuntura:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Alto l! no dem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com
+ esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete
+ sobre a cabea do martyr Gomes Leal, cabea de genio e bem assim do
+ turco, cabea at hoje inteiramente despremiada, no constando que at
+ agora tivesse ainda tido outra coisa, alm da caspa propria, seno galos
+ e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Foi s no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios
+ dias de estudo retroactivo atravez das declamaes da imprensa, que
+ emfim conseguimos&mdash;por um acaso&mdash;descobrir os elementos do conflicto
+ entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.
+</p>
+<p>
+ Eis o caso:
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Sua excellencia o nobre ministro da justia, usando d'aquella apreciavel
+ franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou
+ a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se
+ propunha nomear, pedindo cerca d'elles a opinio do mesmo snr nuncio.
+</p>
+<p>
+ Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que to
+ benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava
+ pessimos alguns dos bispos propostos.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Como assim!?&mdash;volveu, acidulado e surpreso, o das justias
+ humanas.&mdash;Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me
+ amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinio franca,
+ desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinio
+ que eu to bisarramente lhe peo, d-me pelo contrario a opinio
+ precisamente opposta que eu tenho!?...
+</p>
+<p>
+ &mdash;Perdo...&mdash;-interrompe o ecclesiastico&mdash;eu pensei que, desde que v.
+ ex. me consultava...
+</p>
+<p>
+ -Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... No me force Vossa
+ Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de
+ cavilaes! No queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de
+ ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, merc de Deus, no
+ gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se no exerce
+ por sophisticaes capciosas, antes versa sobre formas parlamentares
+ baseadas nas fices mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas fices
+ fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio
+ sagrado da discusso, da consulta e do voto. Para bem se comprehender
+ toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar&mdash;e para isto
+ chamo particularmente a atteno de Vossa Eminencia&mdash;que, toda a vez que
+ um estadista, chamado aos conselhos da cora pela augusta confiana do
+ principe, pede cerca dos seus actos a opinio de qualquer dos poderes
+ do Estado, a obrigao d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,
+ <i>quaesguer que elles sejam</i>&mdash;repito-o&mdash; abundarem approvativamente e
+ jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem
+ as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e
+ liberrimo governo da nao portugueza.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Mas ento,&mdash;obtemperou o sacerdote romano&mdash;o systema governativo, de
+ cujo elencho V. Ex. tenor applaudido, vem a ser realmente a fara
+ mais divertida <i>(la piu piacevole)</i> que se conhece! O pundonoroso luso
+ da pasta da justia, apenas o roupeta lhe fallou em fara, meu amiguinho
+ e snr, agora, o vereis!
+</p>
+<p>
+ <i>&mdash;Fara!</i> bradou s. ex. com o gesto nobre mais recommendado pela
+ rhetorica para os grandes lances da indignao suprema. <i>&mdash;Fara!</i> O
+ forasteiro ousa chamar <i>fara</i> ao sublime governo constitucional,
+ monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do
+ chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno Jos Estevo Coelho de
+ Magalhes, cognominado por antonomasia o <i>Deus da Palavra</i>!!... Cuidar
+ ento o snr, por acaso, que seja uma coisa sria a curia! mais o
+ pontificado! mais a infalliblidade do papa! mais as indulgencias para
+ ir para o ceu a trez vintens por cabea! mais a bulla para misturar
+ carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por
+ incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos
+ carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavs!...
+ Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola
+ d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar a
+ sua famosa <i>vinha do senhor:&mdash;Vimos da vinha do senhor! Vamos para a
+ vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!</i> Suppoem os snrs
+ porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou
+ bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se
+ a si mesmos <i>sal da terra</i>; ora vamos a saber uma coisa: os snrs esto
+ efectivamente persuadidos de que so sal?... Vive o snr, por exemplo, na
+ convico profunda e inabalavel de que medido s razas pelos almotacs
+ sempre que passa s portas, e que paga 10 ris de direitos em alqueire
+ sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o
+ snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste
+ abraar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique
+ pronta para se deitar panella com cebola e batatas?! No dito estado de
+ sal, nutre o snr a austera e firme convico profissional de que lhe
+ assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...
+ Est o snr bem certo de que no tenha seno a sentar-se no bucho verde
+ para que elle ganhe caruncho, ou a pr a benta mo sobre os sermes de
+ Garcia Diniz ou sobre os artigos da <i>Nao</i> para que essas produces
+ literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida
+ coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastido
+ da crusta terrachea?!... E, ento, com tudo isto, os snrs que so os
+ srios, e ns que havemos de ser os farantes, heim?
+</p>
+<p>
+ Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,
+ que no hesitamos um s momento em qualificar de sacrilego e de
+ perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si
+ o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s. ex., e
+ experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe cacheira e
+ drobando-o e redobrando-o de ferro fixado ao solo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ At ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informaes
+ dispersas que podemos recolher cerca d'este memoravel incidente. D'esse
+ ponto por deante ignoramos como que os factos precisamente se
+ passaram. Lemos porem no <i>Diario de Portugal</i> uma phrase reveladra, que
+ se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada
+ folha:
+</p>
+<p>
+ <i>O nuncio desacatou sua excellencia</i>.
+</p>
+<p>
+ Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos
+ periodicos ministeriaes.
+</p>
+<p>
+ <i>Sua excelencia</i>&mdash;segredam as vozes familiares da burocracia&mdash;<i>apanhou
+ um calor</i>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr
+ nuncio andou admiravelmente bem. E no podemos de modo algum attingir as
+ causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por
+ occasio d'este jubiloso successo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se
+ compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos no entendem,
+ nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.
+</p>
+<p>
+ Os bispos&mdash;dizem-o todos os textos canonicos&mdash;so os pastores das almas,
+ incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles
+ que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes
+ confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles no podem ser
+ considerados seno como puros e legitimos delegados do chefe supremo da
+ Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado
+ ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome
+ de Deus, de quem o papa o representante visivel na terra.
+</p>
+<p>
+ Ora, se so effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspiraes, os
+ interesses do Summo Pontifice e no os do snr Julio de Vilhena que os
+ bispos teem de representar, de deffender e de servir, como que querem,
+ de boa f e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que no seja
+ o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante misso?
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de
+ Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,
+ que que teem com isso os jornalistas republicanos e livres
+ pensadores?...
+</p>
+<p>
+ Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:
+</p>
+<p>
+ Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar
+ ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram
+ livres pensadores? Mas escusavam ento de se incommodar para isso,
+ prejudicando-se consideravelmente nos meios de aco, de que para tal
+ fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou
+ irmos do Senhor dos Passos da parochia das Mercs!
+</p>
+<p>
+ Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas
+ pretenes secretas pendentes do governo das deoceses do reino?
+</p>
+<p>
+ Vejamos, sinceramente:
+</p>
+<p>
+ Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?
+ querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem
+ confessar mulheres?...
+</p>
+<p>
+ Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questo e no se torna mais
+ a fallar n'isso.
+</p>
+<p>
+ Se, pelo contrario, os snrs no pretendem coisa nenhuma dos bispados,
+ que diabo ento lhes importam, aos snrs, os bispos?
+</p>
+<p>
+ Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os
+ republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questo dos
+ bispados, e esse facto vem a ser que o governo da nao quem paga os
+ bispos.
+</p>
+<p>
+ Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos com effeito o
+ governo. E por essa razo que ns applaudimos com enthusiasmo o snr
+ Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, <i>desacatou</i> o
+ governo:&mdash;para ver se o governo aprende a no ser tolo!
+</p>
+<hr />
+<p id="stephania">
+ A corveta <i>Stephania</i> acaba de dar da sua incapacidade como instrumento
+ beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.
+</p>
+<p>
+ Mandada ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o
+ empate de uma eleio de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou
+ que a eleio de desempate recahiu em massa sobre o candidato
+ republicano de opposio ao governo.
+</p>
+<p>
+ Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real servio, consta
+ que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito
+ do Arsenal na qualidade de vaso de paz.
+</p>
+<p>
+ Para substituir a <i>Stephania</i> nas campanhas navaes das futuras eleies
+ pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim
+ esto-se j colligindo nas estaes competentes os mexilhes precisos
+ para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.
+</p>
+<p>
+ Parabens a sua excellencia!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Agora invocamos a proteco dos anjos para que, com sua assistencia,
+ passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria
+ da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do
+ Carnaxide.
+</p>
+<p>
+ Era por uma formosa tarde do clido mez de agosto. O astro do dia se
+ inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas
+ presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos
+ pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o
+ bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados
+ gorgeios.
+</p>
+<p>
+ Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao
+ fatigado corpo e discreteando em ameno convivio cerca de seus bucolicos
+ lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse
+ o milagroso dia de to prodigiosa santa.
+</p>
+<p>
+ Eis seno quando, volvendo os olhos, como que tocados por um
+ presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de
+ Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo
+ magestoso acima do narravel.
+</p>
+<p>
+ Com a mo direita se apoiava esse vulto a um bordo de peregrino, em
+ quanto que com a mo esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada
+ de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o
+ horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da
+ vida em direco faia virente.
+</p>
+<p>
+ Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco
+ ou S. Praxedes, e logo viram que no era Santo Anto&mdash;por no ter porco
+ ao lado.
+</p>
+<p>
+ Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por
+ Praxedes, collocou a mo sobre o corao e arremetendo com a fronte para
+ as nuvens, exclamou:
+</p>
+<blockquote>
+<p>
+ Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
+</p>
+</blockquote>
+<p>
+ Era s.ex. o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos
+ negocios do reino.
+</p>
+<p>
+ Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Guarde-vos Deus, bons rusticos!&mdash;disse s.ex. acommodando o stylo
+ rude e acanhada comprehenso do auditorio&mdash;E que a senhora Santa Rosa de
+ Lima, que hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mo!
+</p>
+<p>
+ E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo
+ campesino a que nos referimos, s.ex. proseguiu continuando a
+ exprimir-se em prosa:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Que fizestes do vosso cordeiro favorito, Tityro?&mdash;Trazeis comvosco a
+ vossa avena, Melibeu?&mdash;Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?
+</p>
+<p>
+ Todos os camponeses se acercaram ento de s.ex., ficando suspensos da
+ facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide
+ nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de
+ lingoagem como a que sahia em jorras da bcca d'esse portentoso homem de
+ penna e de governao.
+</p>
+<p>
+ Felizes e volozes devolviam as horas em pratica to discreta quo
+ matizada de piericos primores, quando s. ex., alongando a dextra n'um
+ brando meneio para o pendr da collina, perguntou:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Que vetustas ruinas so aquellas que alem descortino alvejando na
+ quebrada da serra?
+</p>
+<p id="apparecida">
+ E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de
+ Nossa Senhora Apparecida,
+</p>
+<p>
+ &mdash;Corramos prestes ao templo!&mdash;bradou s.ex.&mdash;Dirijamo-nos pressurosos a
+ elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar
+ d'essa Virgem Senhora Nossa que to galhardamente denominaes
+ <i>Apparecida!</i> Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,
+ Belmiro e Castalio! Vinde todos, pastores! Eia!... Ao templo! ao
+ templo! ...
+</p>
+<p>
+ Os pastores, ento, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que
+ Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mo impia de
+ infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para
+ a transportar para a S no meio da indignao geral dos povos e das
+ patronas minazes da real melicia. De sorte que, j no tempo em que o
+ feroz usurpador do throno de Lysia se apegra com a Senhora Apparecida
+ para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para
+ Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via
+ publica:
+</p>
+<blockquote>
+<pre>
+ D. Miguel foi S,
+ Sentou-se n'uma cadeira,
+ E disso para os malhados:
+ Esta perna est inteira!
+</pre>
+</blockquote>
+<p>
+ Ao ouvir taes vozes, j soltas, j metreficadas, s.ex. extrahiu a lyra
+ que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica
+ governao, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta
+ Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou&mdash;por
+ outra&mdash;que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa
+ Senhora Apparecida volveria da S a Carnaxide, reapparecendo pela
+ segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.
+</p>
+<p>
+ Vendo os camponezes que por meio de um to manifesto e prodigioso
+ milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram
+ submissos em giolhos.
+</p>
+<p>
+ E foi s depois de s.ex. se haver retirado pela mesma vereda por onde
+ viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez
+ repetir aos montes e s hervinhas:
+</p>
+<blockquote>
+<p>
+ Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!
+</p>
+</blockquote>
+<p>
+ que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram
+ a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando las festivaes em
+ honra d'aquelle que to grande capricho punha em lhes restituir a
+ Senhora Apparecida quo grande era a pena que alimentava em seus carmes
+ de nunca ter visto Lisboa.
+</p>
+<p>
+ Gloria pois a s.ex.!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com
+ pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao
+ desembarcar, um acommenda, dois ces de faiana e um bilhete da imperial
+ na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta
+ minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em
+ molestias sedentarias, em graas regias e em quadrupedes de loua.
+</p>
+<p>
+ A patria explorava-o e ria-se d'elle.
+</p>
+<p>
+ Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem
+ papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no <i>Diario do
+ Governo</i>, elle no s no paga mas resigna uma commenda com que o
+ agraciou a regia munificencia.
+</p>
+<p>
+ Tomemos nota do phenomeno, porque elle o symptoma de uma revoluo
+ profunda: elle o <i>Emfim Malherbe veio</i> da historia dos commendadores e
+ dos ces,&mdash;vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio
+ extrangeiro.
+</p>
+<p>
+ Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o
+ embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia!
+ Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legio inteira, intelligente,
+ instruida e forte, que vae chegar&mdash;para se rir.
+</p>
+<p>
+ Lisboa 15 de dezembro de 1882.
+</p>
+<p class="centered">
+ <i><b>Ramalho Ortigo.</b></i>
+</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas (Novembro A Dezembro 1882)
+by Jos Maria Ea De Queiroz and Ramalho Ortigo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+***** This file should be named 14296-h.htm or 14296-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/1/4/2/9/14296/
+
+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
+Proofreading Team. This work was produced from images generously
+made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal.
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>
diff --git a/old/14296-h/images/devil.png b/old/14296-h/images/devil.png
new file mode 100644
index 0000000..13a77a6
--- /dev/null
+++ b/old/14296-h/images/devil.png
Binary files differ
diff --git a/old/14296.txt b/old/14296.txt
new file mode 100644
index 0000000..d21cac5
--- /dev/null
+++ b/old/14296.txt
@@ -0,0 +1,5402 @@
+The Project Gutenberg EBook of Mercadet, by Honore De Balzac
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Mercadet
+ A Comedy In Three Acts
+
+Author: Honore De Balzac
+
+Release Date: November 26, 2005 [EBook #14296]
+
+Language: English
+
+Character set encoding: ASCII
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MERCADET ***
+
+
+
+
+Produced by Dagny; and John Bickers
+
+
+
+
+
+ MERCADET
+ A COMEDY IN THREE ACTS
+
+ BY
+
+ HONORE DE BALZAC
+
+
+
+ Presented for the First Time in Paris
+ At the Theatre du Gymnase-Dramatique
+ August 24, 1851
+
+
+
+ PERSONS OF THE PLAY
+
+Mercadet, a speculator
+Madame Mercadet, his wife
+Julie, their daughter
+Minard, clerk of Mercadet
+Verdelin, friend of Mercadet
+Goulard, creditor of Mercadet
+Pierquin, creditor of Mercadet
+Violette, creditor of Mercadet
+Mericourt, acquaintance of Mercadet
+De la Brive, suitor to Julie
+Justin, valet
+Therese, lady's maid
+Virginie, cook
+Various other creditors of Mercadet
+
+
+
+SCENE: Paris, in the house of Mercadet
+
+TIME: About 1845
+
+
+
+
+
+ MERCADET
+
+
+
+
+ ACT I
+
+
+
+ SCENE FIRST
+
+
+(A drawing-room. A door in the centre. Side doors. At the front, to
+the left, a mantel-piece with a mirror. To the right, a window, and
+next it a writing-table. Armchairs.)
+
+Justin, Virginie and Therese
+
+
+Justin (finishing dusting the room)
+Yes, my dears, he finds it very hard to swim; he is certain to drown,
+poor M. Mercadet.
+
+Virginie (her basket on her arm)
+Honestly, do you think that?
+
+Justin
+He is ruined! And although there is much fat to be stewed from a
+master while he is financially embarrassed, you must not forget that
+he owes us a year's wages, and we had better get ourselves discharged.
+
+Therese
+Some masters are so frightfully stubborn! I spoke to the mistress
+disrespectfully two or three times, and she pretended not to hear me.
+
+Virginie
+Ah! I have been at service in many middle-class houses; but I have
+never seen one like this! I am going to leave my stove, and become an
+actress in some theatre.
+
+Justin
+All of us here are nothing but actors in a theatre.
+
+Virginie
+Yes, indeed, sometimes one has to put on an air of astonishment, as if
+just fallen from the moon, when a creditor appears: "Didn't you know
+it, sir?"--"No."--"M. Mercadet has gone to Lyons."--"Ah! He is away?"
+--"Yes, his prospects are most brilliant; he has discovered some
+coal-mines."--"Ah! So much the better! When does he return?"--"I do not
+know." Sometimes I put on an expression as if I had lost the dearest
+friend I had in the world.
+
+Justin (aside)
+That would be her money.
+
+Virginie (pretending to cry)
+"Monsieur and mademoiselle are in the greatest distress. It seems that
+we are going to lose poor Madame Mercadet. They have taken her away to
+the waters! Ah!"
+
+Therese
+And then, there are some creditors who are actual brutes! They speak
+to you as if you were the masters!
+
+Virginie
+There's an end of it. I ask them for their bill and tell them I am
+going to settle. But now, the tradesmen refuse to give anything
+without the money! And you may be sure that I am not going to lend any
+of mine.
+
+Justin
+Let us demand our wages.
+
+Virginie and Therese
+Yes, let us demand our wages.
+
+Virginie
+Who are middle-class people? Middle-class people are those who spend a
+great deal on their kitchen--
+
+Justin
+Who are devoted to their servants--
+
+Virginie
+And who leave them a pension. That is how middle-class people ought to
+behave to their servants.
+
+Therese
+The lady of Picardy speaks well. But all the same, I pity mademoiselle
+and young Minard, her suitor.
+
+Justin
+M. Mercadet is not going to give his daughter to a miserable
+bookkeeper who earns no more than eighteen hundred francs a year; he
+has better views for her than that.
+
+Therese and Virginie
+Who is the man he thinks of?
+
+Justin
+Yesterday two fine young gentlemen came here in a carriage, and their
+groom told old Gruneau that one of them was going to marry Mlle.
+Mercadet.
+
+Virginie
+You don't mean to say so! Are those gentlemen in yellow gloves, with
+fine flowered waistcoats, going to marry mademoiselle?
+
+Justin
+Not both of them, lady of Picardy.
+
+Virginie
+The panels of their carriage shone like satin. Their horse had
+rosettes here. (She points to her ears.) It was held by a boy of
+eight, fair, with frizzed hair and top boots. He looked as sly as a
+mouse--a very Cupid, though he swore like a trooper. His master is as
+fine as a picture, with a big diamond in his scarf. It ain't possible
+that a handsome young man who owns such a turnout as that is going to
+be the husband of Mlle. Mercadet? I can't believe it.
+
+Justin
+You don't know M. Mercadet! I, who have been in his house for the last
+six years, and have seen him since his troubles fighting with his
+creditors, can believe him capable of anything, even of growing rich;
+sometimes I say to myself he is utterly ruined! Yellow auction
+placards flame at his door. He receives reams of stamped creditor's
+notices, which I sell by the pound for waste paper without being
+noticed. But presto! Up he bobs again. He is triumphant. And what
+devices he has! There is a new one every day! First of all, it is a
+scheme for wooden pavements--then it is dukedoms, ponds, mills. I
+don't know where the leakage is in his cash box; he finds it so hard
+to fill; for it empties itself as easily as a drained wine-glass! And
+always crowds of creditors! How well he turns them away! Sometimes I
+have seen them come with the intention of carrying off everything and
+throwing him into prison. But when he talks to them they end by being
+the best of friends, and part with cordial handshakes! There are some
+men who can tame jackals and lions. That's not a circumstance; M.
+Mercadet can tame creditors!
+
+Therese
+One of them is not quite so easily managed; and that is M. Pierquin.
+
+Justin
+He is a tiger who feeds on bankrupts. And to think of poor old
+Violette!
+
+Virginie
+He is both creditor and beggar--I always feel inclined to give him a
+plate of soup.
+
+Justin
+And Goulard!
+
+Therese
+A bill discounter who would like very much to--to discount me.
+
+Virginie (amid a general laugh)
+I hear madame coming.
+
+Justin
+Let us keep a civil tongue in our heads, and we shall learn something
+about the marriage.
+
+
+
+ SCENE SECOND
+
+
+The same persons and Mme. Mercadet.
+
+
+Mme. Mercadet
+Justin, have you executed the commissions I gave you?
+
+Justin
+Yes, madame, but they refused to deliver the dresses, the hats, and
+indeed all the things you ordered until--
+
+Virginie
+And I also have to inform madame that the tradesmen are no longer
+willing--
+
+Mme. Mercadet
+I understand.
+
+Justin
+The creditors are the cause of the whole trouble. I wish I knew how to
+get even with them.
+
+Mme. Mercadet
+The best way to do so would be to pay them.
+
+Justin
+They would be mightily surprised.
+
+Mme. Mercadet
+It is useless to conceal from you the excessive anxiety which I suffer
+over the condition of my husband's affairs. We shall doubtless be in
+need of your discretion--for we can depend upon you, can we not?
+
+All
+You need not mention it, madame.
+
+Virginie
+We were just saying, what excellent employers we had.
+
+Therese
+And that we would go through fire and water for you!
+
+Justin
+We were saying--
+
+(Mercadet appears unnoticed.)
+
+Mme. Mercadet
+Thank you all, you are good creatures. (Mercadet shrugs his
+shoulders.) Your master needs only time, he has so many schemes in his
+head!--a rich suitor has offered himself for Mlle. Julie, and if--
+
+
+
+ SCENE THIRD
+
+
+The same persons and Mercadet.
+
+
+Mercadet (interrupting his wife)
+My dearest! (The servants draw back a little. In a low voice to
+madame) And so this is how you speak to the servants! To-morrow they
+laugh at us. (To Justin) Justin, go at once to M. Verdelin's house,
+and ask him to come here, as I want to speak to him about a piece of
+business that will not admit of delay. Assume an air of mystery, for I
+must have him come. You, Therese, go to the tradesmen of Madame de
+Mercadet, and tell them, sharply, that they must send the things that
+have been ordered.--They will be paid for--yes--and cash, too--go at
+once. (Justin and Therese start.) Ah!--(They stop.) If--these people
+come to the house again, ask them to enter. (Mme. Mercadet takes a
+seat.)
+
+Justin
+These--these people?--
+
+Therese and Virginie
+These people? Eh!
+
+Mercadet
+Yes, these people--these creditors of mine!--
+
+Mme. Mercadet
+How is this, my dear?
+
+Mercadet (taking a seat opposite his wife)
+I am weary of solitude--I want their society. (To Justin and Therese)
+That will do.
+
+(Justin and Therese leave the room.)
+
+
+
+ SCENE FOURTH
+
+
+Mercadet, Mme. Mercadet and Virginie.
+
+
+Mercadet (to Virginie)
+Has madame given you any orders?
+
+Virginie
+No, sir, and besides the tradespeople--
+
+Mercadet
+I hope you will do yourself credit to-day. We are going to have four
+people to dinner--Verdelin and his wife, M. de Mericourt and M. de la
+Brive--so there will be seven of us. Such dinners are the glory of
+great cooks! You must have a fine fish after the soup, then two
+entrees, very delicately cooked--
+
+Virginie
+But, sir, the trades--
+
+Mercadet
+For the second course--ah, the second course ought to be at once rich
+and brilliant, yet solid. The second course--
+
+Virginie
+But the tradespeople--
+
+Mercadet
+Nonsense! You annoy me--To talk about tradespeople on the day when my
+daughter and her intended are to meet!
+
+Virginie
+They won't supply anything.
+
+Mercadet
+What have we got to do with tradespeople that won't take our trade? We
+must get others. You must go to their competitors, you must give them
+my custom, and they will tip you for it.
+
+Virginie
+And how shall I pay those that I am giving up?
+
+Mercadet
+Don't worry yourself about that,--it is my business.
+
+Virginie
+But if they ask me to pay them--
+
+Mercadet (aside, rising to his feet)
+That girl has money of her own. (Aloud) Virginie, in these days,
+credit is the sole wealth of the government. My tradespeople
+misunderstand the laws of their country, they will show themselves
+unconstitutional and utter radicals, unless they leave me alone.
+--Don't you trouble your head about people who raise an insurrection
+against the vital principles of all rightly constituted states! What
+you have got to attend to, is dinner,--that is your duty, and I hope
+that on this occasion you will show yourself to be what you are, a
+first-class cook! And if Mme. Mercadet, when she settles with you on
+the day after my daughter's wedding, finds that she owes you anything,
+I will hold myself liable for it all.
+
+Virginie (hesitating)
+Sir--
+
+Mercadet
+Now go about your business. I give you here an opportunity of gaining
+an interest of ten per cent every six months!--and that is better than
+the savings banks will do for you.
+
+Virginie
+That it is; they only give four per cent a year!
+
+Mercadet (whispering to his wife)
+What did I tell you!--(To Virginie) How can you run the risk of
+putting your money into the hands of strangers--You are quite clever
+enough to invest it yourself, and here your little nest-egg will
+remain in your own possession.
+
+Virginie
+Ten per cent every six months!--I suppose that madame will give me the
+particulars with regard to the second course. I must start to work on
+it. (Exit.)
+
+
+
+ SCENE FIFTH
+
+
+Mercadet and Mme. Mercadet
+
+
+Mercadet (watching Virginie as she goes out)
+That girl has a thousand crowns of our good money in the savings bank,
+so that we needn't worry about the kitchen for awhile.
+
+Mme. Mercadet
+Ah! sir, how can you stoop to such a thing as this?
+
+Mercadet
+Madame, these are mere petty details; don't bother about the means to
+an end. You, a little time ago, were trying to control your servants
+by kindness, but it is necessary to command and compel them, and to do
+it briefly, like Napoleon.
+
+Mme. Mercadet
+How can you order them when you don't pay them?
+
+Mercadet
+You must pay them by a bluff.
+
+Mme. Mercadet
+Sometimes you can obtain by affection what is not attainable by--
+
+Mercadet
+By affection! Ah! Little do you know the age in which we live--To-day,
+madame, wealth is everything, family is nothing; there are no
+families, but only individuals! The future of each one is to be
+determined by the public funds. A young girl when she needs a dowry no
+longer appeals to her family, but to a syndicate. The income of the
+King of England comes from an insurance company. The wife depends for
+funds, not upon her husband, but upon the savings bank!--Debts are
+paid, not to creditors, but to the country, through an agency, which
+manages a sort of slave-trade in white people! All our duties are
+arranged by coupons--The servants which we exchange for them are no
+longer attached to their masters, but if you hold their money they
+will be devoted to you.
+
+Mme. Mercadet
+Oh, sir, you who are so honorable, so upright, sometimes say things to
+me which--
+
+Mercadet
+And what is said may also be done, that is what you mean, isn't it?
+Undoubtedly I would do anything to save myself, for (he pulls out a
+five-franc piece) this represents modern honor. Do you know why the
+dramas that have criminals for their heroes are so popular? It is
+because all the audience flatter themselves and say, "at any rate, I
+am much better than that fellow!"
+
+Mme. Mercadet
+My dear!
+
+Mercadet
+For my part I have an excuse, for I am bearing the burden of my
+partner's crime--of that fellow Godeau, who absconded, carrying with
+him the cash box of our house!--And besides that, what disgrace is it
+to be in debt? What man is there who does not owe his father his
+existence? He can never repay that debt. The earth is constantly
+bankrupt to the sun. Life, madame, is a perpetual loan! Am I not
+superior to my creditors? I have their money, when they can only
+expect mine. I do not ask anything of them, and yet they are
+constantly importuning me.--A man who does not owe anything is not
+thought about by any one, while my creditors take a keen interest in
+me.
+
+Mme. Mercadet
+They take rather too much! To owe and to pay is well enough--but to
+borrow without any prospect of returning--
+
+Mercadet
+You feel a great deal of compassion for my creditors, but our
+indebtedness to them springs from--
+
+Mme. Mercadet
+Their confidence in us, sir.
+
+Mercadet
+No, but from their greed of gain! The speculator and the broker are
+one and the same--each of them aims at sudden wealth. I have done a
+favor to all my creditors, and they all expect to get something out of
+me! I should be most unhappy but for the secret consciousness I have
+that they are selfish and avaricious--so that you will see in a few
+moments how I will make each of them play out his little comedy. (He
+sits down.)
+
+Mme. Mercadet
+You have actually ordered them to be admitted?
+
+Mercadet
+That I may meet them as I ought to!--(taking her hand.) I am at the
+end of my resources; the time has come for a master-stroke, and Julie
+must come to our assistance.
+
+Mme. Mercadet
+What, my daughter!
+
+Mercadet
+My creditors are pressing me, and harassing me. I must manage to make
+a brilliant match for Julie. This will dazzle them; they will give me
+more time. But in order that this brilliant marriage may take place,
+these gentlemen must give me more money.
+
+Mme. Mercadet
+They give you more money!
+
+Mercadet
+Isn't there need of it for the dresses which they are sending to you,
+and for the trousseau which I am giving? And a suitable trousseau to
+go with the dowry of two hundred thousand francs, will cost fifteen
+thousand.
+
+Mme. Mercadet
+But you are utterly unable to give such a dowry.
+
+Mercadet (rising)
+All the more reason why I should give the trousseau. Now this is what
+we stand in need of: twelve or fifteen thousand francs for the
+trousseau, and a thousand crowns to pay the tradesmen and to prevent
+any appearance of straitened circumstances in our house, when M. de la
+Brive arrives.
+
+Mme. Mercadet
+How can you count on your creditors for that?
+
+Mercadet
+Don't they now belong to the family? Can you find any relation who is
+as anxious as they are to see me wealthy and rich? Relations are
+always a little envious of the happiness of the wealth which comes to
+us; the creditor's joy alone is sincere. If I were to die, I should
+have at my funeral more creditors than relations, and while the latter
+carried their mourning in their hearts or on their heads, the former
+would carry it in their ledgers and purses. It is here that my
+departure would leave a genuine void! The heart forgets, and crape
+disappears at the end of a year, but the account which is unpaid is
+ineffaceable, and the void remains eternally unfilled.
+
+Mme. Mercadet
+My dear, I know the people to whom you are indebted, and I am quite
+certain that you will obtain nothing from them.
+
+Mercadet
+I shall obtain both time and money from them, rest assured of that.
+(Mme. Mercadet is perturbed.) Don't you see, my dear, that creditors
+when once they have opened their purses are like gamblers who continue
+to stake their money in order to recover their first losses? (Growing
+excited.) Yes! they are inexhaustible gold mines! If a man has no
+father to leave him a fortune, he finds his creditors are so many
+indefatigable uncles.
+
+Justin (entering)
+M. Goulard wishes to know if it is true that you desire to see him?
+
+Mercadet (to his wife)
+My message astounded him. (To Justin) Beg him to come in. (Justin goes
+out.) Goulard! The most intractable of them all!--who has three
+bailiffs in his employ. But fortunately he is a greedy though timid
+speculator who engages in the most risky affairs and trembles all the
+time they are being conducted.
+
+Justin (announcing)
+M. Goulard!
+
+(Exit Justin.)
+
+
+
+ SCENE SIXTH
+
+
+The same persons and Goulard.
+
+
+Goulard (in anger)
+Ah! you can be found, sir, when you want to be!
+
+Mme. Mercadet (aside to her husband)
+My dear, how angry he seems!
+
+Mercadet (making a sign that she should be calm)
+This is one of my creditors, my dear.
+
+Goulard
+Yes, and I sha'n't leave this house until you pay me.
+
+Mercadet (aside)
+You sha'n't leave this house until you give me some money--(Aloud) Ah!
+you have persecuted me most unkindly--me, a man with whom you have had
+such extensive dealings!
+
+Goulard
+Dealings which have not always been to my advantage.
+
+Mercadet
+All the more credit to you, for if advantage were the sole results of
+business, everybody would become a money-lender.
+
+Goulard
+I hope you haven't asked me to come here, in order to show me how
+clever you are! I know that you are cleverer than I am, for you have
+got over me in money matters.
+
+Mercadet
+Well, money matters have some importance. (To his wife) Yes, yes, you
+see in this man one who has hunted me as if I were a hare. Come, come,
+Goulard, admit it, you have behaved badly. Anybody but myself would
+have taken vengeance on you--for of course I could cause you to lose a
+considerable sum of money.
+
+Goulard
+So you could, if you didn't pay me; but you shall pay me--your
+obligations are now in the hands of the law.
+
+Mme. Mercadet
+Of the law?
+
+Mercadet
+Of the law! You are losing your senses, you don't know what you are
+doing, you are ruining us both--yourself and me--at the same time.
+
+Goulard (anxiously)
+How?--You--that of course is possible--but--but--me?
+
+Mercadet
+Both of us, I tell you! Quick, sit down there--write--write--!
+
+Goulard (mechanically taking his pen)
+Write--write what?
+
+Mercadet
+Write to Delannoy that he must make them stay the proceedings, and
+give me the thousand crowns which I absolutely need.
+
+Goulard (throwing down the pen)
+That is very likely, indeed!
+
+Mercadet
+You hesitate, and, when I am on the eve of marrying my daughter to a
+man immensely wealthy--that is the time you choose to cause my arrest.
+And by that means you are killing both your capital and interest!
+
+Goulard
+Ah! you are going to marry your daughter--
+
+Mercadet
+To the Comte de la Brive; he possesses as many thousand francs as he
+is years old!
+
+Goulard
+Then if he is up in years, there is reason for giving you some delay.
+But the thousand crowns--the thousand crowns--never.--I am quite
+decided on that point. I will give you nothing, neither delay nor--I
+must go now--
+
+Mercadet (with energy)
+Very well! You can go if you like, you ungrateful fellow!--But don't
+forget that I have done my best to save you.
+
+Goulard (turning back)
+Me?--To save me--from what?
+
+Mercadet (aside)
+I have him now. (Aloud) From what?--From the most complete ruin.
+
+Goulard
+Ruin? It is impossible.
+
+Mercadet (taking a seat)
+What is the matter with you? You, a man of intelligence, of ability--a
+strong man, and yet you cause me all this trouble! You came here and I
+felt absolutely enraged against you--not because I was your friend, I
+confess it, but through selfishness. I look upon our interests as
+identical. I said to myself: I owe him so much that he is sure to give
+me his assistance when I have such a grand chance--like the one at
+this moment! And you are going to let out the whole business and to
+lose everything for the sake of a paltry sum! Everything! You are
+perhaps right in refusing me the thousand crowns--It is better,
+perhaps, to bury them in your coffers with the rest. All right! Send
+me to prison! Then, when all is gone, you'll have to look somewhere
+else for a friend!
+
+Goulard (in a tone of self-reproach)
+Mercadet!--my dear Mercadet!--But is it actually true?
+
+Mercadet (rising from his seat)
+Is it true? (to his wife) You would not believe he was so stupid. (To
+Goulard) She has ended by becoming a daring speculator. (To his wife)
+I may tell you, my dear, that Goulard is going to invest a large sum
+in our great enterprise.
+
+Mme. Mercadet (ashamed)
+Sir!
+
+Mercadet
+What a misfortune it will be if it does not turn out well.
+
+Goulard
+Mercadet!--Are you talking about the Basse-Indre mines?
+
+Mercadet
+Of course I am. (Aside) Ah! You have some of the Basse-Indre stock, I
+see.
+
+Goulard
+But the investment seems to me first-class.
+
+Mercadet
+First-class--Yes, for those who sold out yesterday.
+
+Goulard
+Have any stockholders sold out?
+
+Mercadet
+Yes, privately.
+
+Goulard
+Good-bye. Thanks, Mercadet; madame, accept my respects.
+
+Mercadet (stopping him)
+Goulard!
+
+Goulard
+Eh?
+
+Mercadet
+What about this note to Delannoy?
+
+Goulard
+I will speak to him about the postponement--
+
+Mercadet
+No; write to him; and in the meantime I will find some one who will
+buy your stock.
+
+Goulard (sitting down)
+All my Basse-Indre? (He takes up a pen.)
+
+Mercadet (aside)
+Here you see the honest man, ever ready to rob his neighbor. (Aloud)
+Very well, write--ordering a postponement of three months.
+
+Goulard (writing)
+Three months! There you have it.
+
+Mercadet
+The man I allude to, who buys in secret for fear of causing a rise,
+wants to get three hundred shares; do you happen to have three
+hundred?
+
+Goulard
+I have three hundred and fifty.
+
+Mercadet
+Fifty more! Never mind! He'll take them all. (Examining what Goulard
+has written.) Have you mentioned the thousand crowns?
+
+Goulard
+And what is your friend's name?
+
+Mercadet
+His name? You haven't mentioned?--
+
+Goulard
+His name!
+
+Mercadet
+The thousand crowns.
+
+Goulard
+What a devil of a man he is! (He writes.) There, you have it!
+
+Mercadet
+His name is Pierquin.
+
+Goulard (rising)
+Pierquin.
+
+Mercadet
+He at least is the nominal buyer.--Go to your house and I will send
+him to you; it is never a good thing to run after a purchaser.
+
+Goulard
+Never!--You have saved my life. Good-bye, my friend. Madame, accept my
+prayers for the happiness of your daughter. (Exit.)
+
+Mercadet
+One of them captured! Now watch me get the others!
+
+
+
+ SCENE SEVENTH
+
+
+Mme. Mercadet, Mercadet, then Julie.
+
+
+Mme. Mercadet
+Is there any truth in what you just now said? I could not quite follow
+you.
+
+Mercadet
+It is to the interest of my friend Verdelin to cause a panic in
+Basse-Indre stock; this stock has been for a long time very risky and
+has suddenly become of first-class value, through the discovery of
+certain beds of mineral, which are known only to those on the inside.
+--Ah! If I could but invest a thousand crowns in it my fortune would
+be made. But, of course, our main object at present is the marriage
+of Julie.
+
+Mme. Mercadet
+You are well acquainted with M. de la Brive, are you not?
+
+Mercadet
+I have dined with him. He has a charming apartment, fine plate, a
+silver dessert service, bearing his arms, so that it could not have
+been borrowed. Our daughter is going to make a fine match, and he
+--when either one of a married couple is happy, it is all right.
+
+(Julie enters.)
+
+Mme. Mercadet
+Here comes our daughter. Julie, your father and I have something to
+say to you on a subject which is always agreeable to a young girl.
+
+Julie
+M. Minard has then spoken to you, father?
+
+Mercadet
+M. Minard! Did you expect, madame, to find a M. Minard reigning in the
+heart of your daughter? Is not this M. Minard that under clerk of
+mine?
+
+Julie
+Yes, papa.
+
+Mercadet
+Do you love him?
+
+Julie
+Yes, papa.
+
+Mercadet
+But besides loving, it is necessary for a person to be loved.
+
+Mme. Mercadet
+Does he love you?
+
+Julie
+Yes, mamma!
+
+Mercadet
+Yes, papa; yes, mamma; why don't you say mammy and daddy?--As soon as
+daughters have passed their majority they begin to talk as if they
+were just weaned. Be polite enough to address your mother as madame.
+
+Julie
+Yes, monsieur.
+
+Mercadet
+Oh! you may address me as papa. I sha'n't be annoyed at that. What
+proof have you that he loves you?
+
+Julie
+The best proof of all; he wishes to marry me.
+
+Mercadet
+It is quite true, as has been said, that young girls, like little
+children, have answers ready enough to knock one silly. Let me tell
+you, mademoiselle, that a clerk with a salary of eighteen hundred
+francs does not know how to love. He hasn't got the time, he has to
+work too hard--
+
+Mme. Mercadet
+But, unhappy child--
+
+Mercadet
+Ah! A lucky thought strikes me! Let me talk to her. Julie, listen to
+me. I will marry you to Minard. (Julie smiles with delight.) Now, look
+here, you haven't got a single sou, and you know it; what is going to
+become of you a week after your marriage? Have you thought about that?
+
+Julie
+Yes, papa--
+
+Mme. Mercadet (with sympathy, to her husband)
+The poor child is mad.
+
+Mercadet
+Yes, she is in love. (To Julie) Tell me all about it, Julie. I am not
+now your father, but your confidant; I am listening.
+
+Julie
+After our marriage we will still love each other.
+
+Mercadet
+But will Cupid shoot you bank coupons at the end of his arrows?
+
+Julie
+Father, we shall lodge in a small apartment, at the extremity of the
+Faubourg, on the fourth story, if necessary!--And if it can't be
+helped, I will be his house-maid. Oh! I will take an immense delight
+in the care of the household, for I shall know that it will all be
+done for him. I will work for him, while he is working for me. I will
+spare him every anxiety, and he will never know how straitened we are.
+Our home will be spotlessly clean, even elegant--You shall see!
+Elegance depends upon such little things; it springs from the soul,
+and happiness is at once the cause and the effect of it. I can earn
+enough from my painting to cost him nothing and even to contribute to
+the expenses of our living. Moreover, love will help us to pass
+through the days of hardship. Adolphe has ambition, like all those who
+are of lofty soul, and these are the successful men--
+
+Mercadet
+Success is within reach of the bachelor, but, when a man is married,
+he exhausts himself in meeting his expenses, and runs after a thousand
+franc bill as a dog runs after a carriage.
+
+Julie
+But, papa, Adolphe has strength of will, united with such capacity
+that I feel sure I shall see him some day a Minister, perhaps--
+
+Mercadet
+In these days, who is there that does not indulge more or less the
+hope of being a minister? When a man leaves college he thinks himself
+a great poet, or a great orator! Do you know what your Adolphe will
+really become?--Why, the father of several children, who will utterly
+disarrange your plans of work and economy, who will end by landing his
+excellency in the debtor's prison, and who will plunge you into the
+most frightful poverty. What you have related to me is the romance and
+not the reality of life.
+
+Mme. Mercadet
+Daughter, there can be nothing serious in this love of yours.
+
+Julie
+It is a love to which both of us are willing to sacrifice everything.
+
+Mercadet
+I suppose that your friend Adolphe thinks that we are rich?
+
+Julie
+He has never spoken to me about money.
+
+Mercadet
+Just so. I can quite understand it. (To Julie) Julie, write to him at
+once, telling him to come to me.
+
+Julie (kissing him)
+Dear papa!
+
+Mercadet
+And you must marry M. de la Brive. Instead of living on a fourth floor
+in a suburb, you will have a fine house in the Chaussee-d'Antin, and,
+if you are not the wife of a Minister, you perhaps will be the wife of
+a peer of France. I am sorry, my daughter, that I have no more to
+offer you. Remember, you can have no choice in the matter, for M.
+Minard is going to give you up.
+
+Julie
+Oh! he will never do that, papa. He will win your heart--
+
+Mme. Mercadet
+My dear, suppose he loves her?
+
+Mercadet
+He is deceiving her--
+
+Julie
+I shouldn't mind being always deceived in that way.
+
+(A bell is heard without.)
+
+Mme. Mercadet
+Some one is ringing, and we have no one to open the door.
+
+Mercadet
+That is all right. Let them ring.
+
+Mme. Mercadet
+I am all the time thinking that Godeau may return.
+
+Mercadet
+After eight years without any news, you are still expecting Godeau!
+You seem to me like those old soldiers who are waiting for the return
+of Napoleon.
+
+Mme. Mercadet
+They are ringing again.
+
+Mercadet
+Julie, go and see who it is, and tell them that your mother and I have
+gone out. If any one is shameless enough to disbelieve a young girl
+--it must be a creditor--let him come in.
+
+(Exit Julie.)
+
+Mme. Mercadet
+This love she speaks of, and which, at least on her side, is sincere,
+disturbs me greatly.
+
+Mercadet
+You women are all too romantic.
+
+Julie (returning)
+It is M. Pierquin, papa.
+
+Mercadet
+A creditor and usurer--a vile and violent soul, who humors me because
+he thinks me a man of resources; a wild beast only half-tamed yet
+cowed by my audacity. If I showed fear he would devour me. (Going to
+the door.) Come in, Pierquin, come in.
+
+
+
+ SCENE EIGHTH
+
+
+The same persons and Pierquin.
+
+
+Pierquin
+My congratulations to you all. I hear that you are making a grand
+marriage for your daughter. Mademoiselle is to marry a millionaire;
+the report has already gone abroad.
+
+Mercadet
+A millionaire?--No, he has only nine hundred thousand francs, at the
+most.
+
+Pierquin
+This magnificent prospect will induce a lot of people to give you
+time. They are becoming devilishly tired of your talk about Godeau's
+return. And I myself--
+
+Mercadet
+Were you thinking about having me arrested?
+
+Julie
+Arrested!
+
+Mme. Mercadet (to Pierquin)
+Ah! sir.
+
+Pierquin
+Now listen to me, you have had two years, and I never before let a
+bond go over so long; but this marriage is a glorious invention and--
+
+Mme. Mercadet
+An invention!
+
+Mercadet
+Sir, my future son-in-law, M. de la Brive, is a young man--
+
+Pierquin
+So that there is a real young man in the case? How much are you going
+to pay the young man?
+
+Mme. Mercadet
+Oh!
+
+Mercadet (checking his wife by a sign)
+No more of this insolence! Otherwise, my dear sir, I shall be forced
+to demand a settlement of our accounts--and, my dear M. Pierquin, you
+will lose a good deal of the price at which you sold your money to me.
+And at the rate of interest you charge, I shall cost you more than the
+value of a farm in Bauce.
+
+Pierquin
+Sir--
+
+Mercadet (haughtily)
+Sir, I shall soon be so rich that I will not endure to be twitted by
+any one--not even by a creditor.
+
+Pierquin
+But--
+
+Mercadet
+Not a word--or I will pay you! Come into my private room and we will
+settle the business about which I asked you to come.
+
+Pierquin
+I am at your service, sir. (Aside) What a devil of a man!
+
+(Pierquin and Mercadet bow to the ladies and enter Mercadet's room.)
+
+Mercadet (following Pierquin; aside to his wife)
+The wild beast is tamed. I'll get this one, too.
+
+
+
+ SCENE NINTH
+
+
+Mme. Mercadet, Julie, and later, Servants.
+
+
+Julie
+O mamma! I cannot marry this M. de la Brive!
+
+Mme. Mercadet
+But he is rich, you know.
+
+Julie
+But I prefer happiness and poverty, to unhappiness and wealth.
+
+Mme. Mercadet
+My child, happiness is impossible in poverty, while there is no
+misfortune that wealth cannot alleviate.
+
+Julie
+How can you say such sad words to me?
+
+Mme. Mercadet
+Children should learn a lesson from the experience of parents. We are
+at present having a very bitter taste of life's vicissitudes. Take my
+advice, daughter, and marry wealth.
+
+Justin (entering, followed by Therese and Virginie)
+Madame, we have carried out the master's orders.
+
+Virginie
+My dinner will be ready.
+
+Therese
+And the tradesmen have consented.
+
+Justin
+As far as concerns M. Verdelin--
+
+
+
+ SCENE TENTH
+
+
+The same persons and Mercadet (carrying a bundle of papers).
+
+
+Mercadet
+What did my friend Verdelin say?
+
+Justin
+He will be here in a moment. He was just on his way here to bring some
+money to M. Bredif, the owner of this house.
+
+Mercadet
+Bredif is a millionaire. Take care that Verdelin speaks to me before
+going up to him. How did you get on, Therese, with the milliners and
+dressmakers?
+
+Therese
+Sir, as soon as I gave them a promise of payment, every one greeted me
+with smiles.
+
+Mercadet
+Very good. And shall we have a fine dinner, Virginie?
+
+Virginie
+You will compliment it, sir, when you eat it.
+
+Mercadet
+And the tradespeople?
+
+Virginie
+They will wait your time.
+
+Mercadet
+I shall settle with you all to-morrow. You can go now. (They go out.)
+A man who has his servants with him is like a minister who has the
+press on his side!
+
+Mme. Mercadet
+And what of Pierquin?
+
+Mercadet (showing the papers)
+All that I could extort from him is as follows.--He will give me time,
+and this negotiable paper in exchange for stock.--Also notes for
+forty-seven thousand francs, to be collected from a man named
+Michonnin, a gentleman broker, not considered very solvent, who may be
+a crook but has a very rich aunt at Bordeaux; M. de la Brive is from
+that district and I can learn from him if there is anything to be got
+out of it.
+
+Mme. Mercadet
+But the tradesmen will soon arrive.
+
+Mercadet
+I shall be here to receive them. Now leave me, leave me, my dears.
+
+(Exeunt the two ladies.)
+
+
+
+ SCENE ELEVENTH
+
+
+Mercadet, then Violette.
+
+
+Mercadet (walking up and down)
+Yes, they will soon be here! And everything depends upon that somewhat
+slippery friendship of Verdelin--a man whose fortune I made! Ah! when
+a man has passed forty he learns that the world is peopled by the
+ungrateful--I do not know where all the benefactors have gone to.
+Verdelin and I have a high opinion of each other. He owes me
+gratitude, I owe him money, and neither of us pays the other. And now,
+in order to arrange the marriage of Julie, my business is to find a
+thousand crowns in a pocket which pretends to be empty--to find
+entrance into a heart in order to find entrance into a cash-box! What
+an undertaking! Only women can do such things, and with men who are in
+love with them.
+
+Justin (without)
+Yes, he is in.
+
+Mercadet
+It is he. (Violette appears.) Ah! my friend! It is dear old Violette!
+
+Violette
+This is the eleventh call within a week, my dear M. Mercadet, and my
+actual necessity has driven me to wait for you three hours in the
+street; I thought the truth was told me when I was assured that you
+were in the country. But I came to-day--
+
+Mercadet
+Ah! Violette, old fellow, we are both hard up!
+
+Violette
+Humph! I don't think so. For my part, I've pledged everything I could
+put in the pawn-shop.
+
+Mercadet
+So have we.
+
+Violette
+I have never reproached you with my ruin, for I believe it is your
+intention to enrich me, as well as yourself; but still, fine words
+butter no parsnips, and I am come to implore you to give me a small
+sum on account, and by so doing you will save the lives of a whole
+family.
+
+Mercadet
+My dear old Violette, you grieve me deeply! Be reasonable and I will
+share with you. (In a low voice) We have scarcely a hundred francs in
+the house, and even that is my daughter's money.
+
+Violette
+Is it possible! You, Mercadet, whom I have known so rich?
+
+Mercadet
+I conceal nothing from you.
+
+Violette
+Unfortunate people owe it to each other to speak the truth.
+
+Mercadet
+Ah! If that were the only thing they owed how prompt would be the
+payment! But keep this as a secret, for I am on the point of making a
+good match for my daughter.
+
+Violette
+I have two daughters, sir, and they work without hope of being
+married! In your present circumstances I cannot press you, but my wife
+and my daughters await my return in the deepest anxiety.
+
+Mercadet
+Stay a moment. I will give you sixty francs.
+
+Violette
+Ah! my wife and my girls will bless you. (Aside, while Mercadet leaves
+the room for a moment.) The others who abuse him get nothing out of
+him, but by appealing to his pity, little by little I get back my
+money. (Chuckles and slaps his pocket.)
+
+Mercadet (on the point of re-entering sees this action)
+The beggarly old miser! Sixty francs on account paid ten times makes
+six hundred francs. Come now, I have sown enough, it is time to reap
+the harvest. (Aloud) Take this.
+
+Violette
+Sixty francs in gold! It is a long time since I have seen such a sum.
+Good-bye, we sha'n't forget to pray for the speedy marriage of Mlle.
+Mercadet.
+
+Mercadet
+Good-bye, dear old Violette. (Holding him by the hand.) Poor old man,
+when I look at you, I think myself rich--your misfortunes touch me
+deeply. And yesterday I thought I would soon be on the point of paying
+back to you not only the interest but the principal of what I owe you.
+
+Violette (turning back)
+Paying me back! In full!
+
+Mercadet
+It was a close shave.
+
+Violette
+What was?
+
+Mercadet
+Imagine, my dear fellow, that there exists a most brilliant
+opportunity, a most magnificent speculation, the most sublime
+discovery--an affair which appeals to the interest of every one, which
+will draw upon all the exchanges, and for the realization of which a
+stupid banker has refused me the miserable sum of a thousand crowns
+--when there is more than a million in sight.
+
+Violette
+A million!
+
+Mercadet
+Yes, a million, from the start. Afterwards no one can calculate where
+the rage for protective pavement will stop.
+
+Violette
+Pavement?
+
+Mercadet
+Protective pavement. A pavement on which no barricade can be raised.
+
+Violette
+Really?
+
+Mercadet
+You see, that from henceforth all governments interested in the
+preservation of order will become our chief shareholders--Ministers,
+princes and kings will be our chief partners. Next come the gods of
+finance, the great bankers, those of independent income in commerce
+and speculation; even the socialists, seeing that their industry is
+ruined, will be forced to buy stocks for a living from me!
+
+Violette
+Yes, it is fine! It is grand!
+
+Mercadet
+It is sublime and philanthropic! And to think I have been refused four
+thousand francs, wherewith to send out advertisements and launch my
+prospectus!
+
+Violette
+Four thousand francs! I thought it was only--
+
+Mercadet
+Four thousand francs, no more! And I was to give away for the loan a
+half interest in the enterprise--that is to say a fortune! Ten
+fortunes!
+
+Violette
+Listen--I will see--I will speak to some one--
+
+Mercadet
+Speak to no one! Keep it to yourself! The idea would at once be
+snatched up--or perhaps they wouldn't understand it so well as you
+have immediately done. These money dealers are so stupid. Besides, I
+am expecting Verdelin here--
+
+Violette
+Verdelin--but--we might perhaps--
+
+Mercadet
+'Twill be lucky for Verdelin, if he has the brains to risk six
+thousand francs in it.
+
+Violette
+But you said four thousand just now.
+
+Mercadet
+It was four thousand that they refused me, but I need six thousand!
+Six thousand francs, and Verdelin, whom I have already made a
+millionaire once, is likely to become so three, four, five times over!
+But he will deserve it, for he is a clever fellow, is Verdelin.
+
+Violette
+Mercadet, I will find you the money.
+
+Mercadet
+No, no, don't think of it. Besides, he will be here in a moment, and
+if I am to send him away without concluding the business with him, it
+will be necessary to have it settled with some one else before
+Verdelin comes--and, as that is impossible--good-bye--and good luck--I
+shall certainly be able to pay you your thirty thousand francs.
+
+Violette
+But say--why couldn't I--?
+
+Mme. Mercadet (entering)
+M. Verdelin has come, my dear.
+
+Mercadet (aside)
+Good, good! (Aloud) Just detain him a minute. (Mme. Mercadet goes
+out.) Well, good-bye, dear old Violette--
+
+Violette (pulling out a greasy pocketbook)
+Wait a moment--here, I have the money with me--and will give it you
+beforehand.
+
+Mercadet
+You! Six thousand francs!
+
+Violette
+A friend asked me to invest it for him, and--
+
+Mercadet
+And you couldn't find a better opening. We'll sign the contract
+presently! (He takes the bills.) This closes the deal--and so much the
+worse for Verdelin--he has missed a gold mine!
+
+Violette
+Well, I'll see you later.
+
+Mercadet
+Yes--see you later! You can get out through my study.
+
+(Mercadet shows Violette the way out. Mme. Mercadet enters.)
+
+Mme. Mercadet
+Mercadet!
+
+Mercadet (reappearing)
+Ah! my dear! I am an unfortunate man! I ought to blow my brains out.
+
+Mme. Mercadet
+Good heavens! What is the matter?
+
+Mercadet
+The matter is that a moment ago I asked this sham bankrupt Violette
+for six thousand francs.
+
+Mme. Mercadet
+And he refused to give them to you?
+
+Mercadet
+On the contrary, he handed them over.
+
+Mme. Mercadet
+What, then, do you mean?
+
+Mercadet
+I am an unlucky man, as I told you, because he gave them so quickly
+that I could have gotten ten thousand if I had only known it.
+
+Mme. Mercadet
+What a man you are! I suppose you know that Verdelin is waiting for
+you.
+
+Mercadet
+Beg him to come in. At last I have Julie's trousseau; and we now need
+only enough money for your dresses and for household expenses until
+the marriage. Send in Verdelin.
+
+Mme. Mercadet
+Yes, he is your friend, and of course you will gain your end with him.
+
+(Exit Mme. Mercadet.)
+
+Mercadet (alone)
+Yes, he is my friend! And he has all the pride that comes with
+fortune; but he has never had a Godeau (looking round to see if he is
+alone). After all, Godeau! I really believe that Godeau has brought me
+in more money than he has taken from me.
+
+
+
+ SCENE TWELFTH
+
+
+Mercadet and Verdelin.
+
+
+Verdelin
+Good-day, Mercadet. What is doing now? Tell me quickly for I was
+stopped here on my way up-stairs to Bredif's apartment.
+
+Mercadet
+Oh, he can wait! How is it that you are going to see a man like
+Bredif?
+
+Verdelin (laughing)
+My dear friend, if people only visited those they esteem they would
+make no visits at all.
+
+Mercadet (laughing and taking his hand)
+A man wouldn't go even into his own house.
+
+Verdelin
+But tell me what you want with me?
+
+Mercadet
+Your question is so sudden that it hasn't left me time to gild the
+pill.
+
+Verdelin
+Oh! my old comrade. I have nothing, and I am frank to say that even if
+I had I could give you nothing. I have already lent you all that my
+means permit me to dispose of; I have never asked you for payment, for
+I am your friend as well as your creditor, and indeed, if my heart did
+not overflow in gratitude towards you, if I had not been a man
+different from ordinary men, the creditor would long ago have killed
+the man. I tell you everything has a limit in this world.
+
+Mercadet
+Friendship has a limit, that's certain; but not misfortune.
+
+Verdelin
+If I were rich enough to save you altogether, to cancel your debt
+entirely, I would do so with all my heart, for I admire your courage.
+But you are bound to go under. Your last schemes, although cleverly
+projected, have collapsed. You have ruined your reputation, you are
+looked upon as a dangerous man. You have not known how to take
+advantage of the momentary success of your operations. When you are
+utterly beggared, you will always find bread at my house; but it is
+the duty of a friend to speak these plain truths.
+
+Mercadet
+What would be the advantage of friendship unless it gave us the
+pleasure of finding ourselves in the right, and seeing a friend in the
+wrong--of being comfortable ourselves and seeing our friend in
+difficulties and of paying compliment to ourselves by saying
+disagreeable things to him? Is it true then that I am little thought
+of on 'Change?
+
+Verdelin
+I do not say so much as that. No; you still pass for an honest man,
+but necessity is forcing you to adopt expedients--
+
+Mercadet
+Which are not justified by the success which luckier men enjoy! Ah,
+success! How many outrageous things go to make up success. You'll
+learn that soon enough. Now, for instance, this morning I began to
+bear the market on the mines of Basse-Indre, in order that you may
+gain control of that enterprise before the favorable report of the
+engineers is published.
+
+Verdelin
+Hush, Mercadet, can this be true? Ah! I see your genius there! (Puts
+his arm around him.)
+
+Mercadet
+I say this in order that you may understand that I have no need of
+advice, or of moralizing,--merely of money. Alas! I do not ask any
+thing of you for myself, my dear friend, but I am about to make a
+marriage for my daughter, and here we are actually, although secretly,
+fallen into absolute destitution. We are in a house where poverty
+reigns under the appearance of luxury. The power of promises, and of
+credit, all is exhausted! And if I cannot pay in cash for certain
+necessary expenses, this marriage must be broken off. All I went here
+is a fortnight of opulence, just as all that you want is twenty-four
+hours of lying on the Exchange. Verdelin, this request will never be
+repeated, for I have only one daughter. Must I confess it to you? My
+wife and daughter are absolutely destitute of clothes! (Aside) He is
+hesitating.
+
+Verdelin (aside)
+He has played me so many tricks that I really do not know whether his
+daughter is doing to be married or not. How can she marry?
+
+Mercadet
+This very day I have to give a dinner to my future son-in-law, whom a
+mutual friend is introducing to us, and I haven't even my plate
+remaining in the house. It is--you know where it is--I not only need a
+thousand crowns, but I also hope that you will lend me your dinner
+service and come and dine here with your wife.
+
+Verdelin
+A thousand crowns! Mercadet! No one has a thousand crowns to lend. One
+scarcely has them for himself; if he were to lend them whenever he was
+asked, he would never have them. (He retires to the fire-place.)
+
+Mercadet (following him, aside)
+He will yet come to the scratch. (Aloud) Now look here, Verdelin, I
+love my wife and my daughter; these sentiments, my friend, are my sole
+consolation in the midst of my recent disasters; these women have been
+so gentle, so patient! I should like to see them placed beyond the
+reach of distress. Oh! It is on this point that my sufferings are most
+real! (They walk to the front of the stage arm in arm.) I have
+recently drunk the cup of bitterness, I have slipped upon my wooden
+pavement,--I organized a monopoly and others drained me of everything!
+But, believe me, this is nothing in comparison with the pain of seeing
+you refuse me help in this extremity! Nevertheless, I am not going to
+dwell upon the consequences--for I do not wish to owe anything to your
+pity.
+
+Verdelin (taking a seat)
+A thousand crowns! But what purpose would you apply them to?
+
+Mercadet (aside)
+I shall get them. (Aloud) My dear fellow, a son-in-law is a bird who
+is easily frightened away. The absence of one piece of lace on a dress
+reveals everything to them. The ladies' costumes are ordered, the
+merchants are on the point of delivering them--yes, I was rash enough
+to say that I would pay for everything, for I counted on you!
+Verdelin, a thousand crowns won't kill you, for you have sixty
+thousand francs a year. And the life of a young girl of whom you are
+fond is now at stake--for you are fond of Julie! She has a sincere
+attachment for your little girl, they play together like the happiest
+of creatures. Would you let the companion of your daughter pine away
+with despair? Misfortune is contagious! It brings evil on all around!
+
+Verdelin
+My dear fellow, I have not a thousand crowns. I can lend you my plate;
+but I have not--
+
+Mercadet
+You can give me your note on the bank. It is soon signed--
+
+Verdelin (rising)
+I--no--
+
+Mercadet
+Ah! my poor daughter! It is all over. (Falls back overcome in an
+armchair near the table.) God forgive me, if I put an end to the
+painful dream of life, and let me awaken in Thy bosom!
+
+Verdelin (after a short silence)
+But-- Have you really found a son-in-law?
+
+Mercadet (rising abruptly to his feet)
+You ask if I have found a son-in-law! You actually throw a doubt upon
+this! You may refuse me, if you like, the means of effecting the
+happiness of my daughter, but do not insult me! I am fallen low
+indeed! O Verdelin! I would not for a thousand crowns have had such an
+idea of you, and you can never win absolution from me excepting by
+giving them.
+
+Verdelin (wishing to leave)
+I must go and see if I can--
+
+Mercadet
+No! This is only another way of refusing me! Can I believe it? Will
+not you whom I have seen spend the same sum upon some such trifle as a
+passing love affair--will you not apply the thousand crowns to the
+performance of a good action?
+
+Verdelin (laughing)
+At the present time there are very few good actions, or transactions.
+
+Mercadet
+Ha! Ha! Ha! How witty! You are laughing, I see there is a reaction!
+
+Verdelin
+Ha! Ha! Ha! (He drops his hat.)
+
+Mercadet (picking up the hat and dusting it with his sleeve)
+Come now, old fellow. Haven't we seen life! We two began it together.
+What a lot of things we have said and done! Don't you recollect the
+good old time when we swore to be friends always through thick and
+thin?
+
+Verdelin
+Indeed, I do. And don't you recollect our party at Rambouillet, where
+I fought an officer of the Guard on your account?
+
+Mercadet
+I thought it was for the lovely Clarissa! Ah! But we were gay! We were
+young! And to-day we have our daughters, daughters old enough to
+marry! If Clarissa were alive now, she would blame your hesitation!
+
+Verdelin
+If she had lived, I should never have married.
+
+Mercadet
+Because you know what love is, that you do! So I may count upon you
+for dinner, and you give me your word of honor that you will send me--
+
+Verdelin
+The plate?
+
+Mercadet
+And the thousand crowns--
+
+Verdelin
+Ah! You still harp upon that! I have told you I cannot do it.
+
+Mercadet (aside)
+It is certain that this fellow will never die of heart failure.
+(Aloud) And so it seems I am to be murdered by my best friend? Alas!
+It is always thus! You are actually untouched by the memory of
+Clarissa--and by the despair of a father! (He cries out towards the
+chamber of his wife.) Ah! it is all over! I am in despair! I am going
+to blow my brains out!
+
+
+
+ SCENE THIRTEENTH
+
+
+The same persons, Mme. Mercadet and Julie.
+
+
+Mme. Mercadet
+What on earth is the matter with you, my dear?
+
+Julie
+How your voice frightened us, papa!
+
+Mercadet
+They heard us! See how they come, like two guardian angels! (He takes
+them by the hand.) Ah! you melt my heart! (To Verdelin) Verdelin! Do
+you wish to slay a whole family? This proof of their tenderness gives
+me courage to fall at your feet.
+
+Julie
+Oh, sir! (She checks her father.) It is I who will implore you for
+him. Whatever may be his demand, do not refuse my father; he must,
+indeed, be in the most terrible anguish!
+
+Mercadet
+Dear child! (Aside) In what accents does she speak! I couldn't speak
+so naturally as that.
+
+Mme. Mercadet
+M. Verdelin, listen to us--
+
+Verdelin (to Julie)
+You don't know what he is asking, do you?
+
+Julie
+No.
+
+Verdelin
+He is asking for a thousand crowns, in order to arrange your marriage.
+
+Julie
+Then, forget, sir, all that I said to you; I do not wish for a
+marriage which has been purchased by the humiliation of my father.
+
+Mercadet (aside)
+She is magnificent!
+
+Verdelin
+Julie! I will go at once and get the money for you. (Exit.)
+
+
+
+ SCENE FOURTEENTH
+
+
+The same persons, except Verdelin; then the servants.
+
+
+Julie
+Oh, father! Why did you not tell me?
+
+Mercadet (kissing her)
+You have saved us all! Ah! when shall I be so rich and powerful that I
+may make him repent of a favor done so grudgingly?
+
+Mme. Mercadet
+Do not be unjust; Verdelin yielded to your request.
+
+Mercadet
+He yielded to the cry of Julie, not to my request. Ah! my dear, he has
+extorted from me more than a thousand crowns' worth of humiliation!
+
+Justin (coming in with Therese and Virginie)
+The tradespeople.
+
+Virginie
+The milliner and the dressmaker--
+
+Therese
+And the dry-goods merchants.
+
+Mercadet
+That is all right! I have succeeded in my scheme! My daughter shall be
+Comtesse de la Brive! (To the servants) Show them in! I am waiting,
+and the money is ready. (He goes proudly towards his study, while the
+servants look at him with surprise.)
+
+
+
+Curtain to the First Act.
+
+
+
+
+ ACT II
+
+
+
+ SCENE FIRST
+
+
+(Mercadet's study, containing book-shelves, a safe, a desk, an
+armchair and a sofa.)
+
+Minard and Justin, then Julie.
+
+
+Minard
+Did you say that M. Mercadet wished to speak with me?
+
+Justin
+Yes, sir. But mademoiselle has requested that you await her here.
+
+Minard (aside)
+Her father asks to see me. She wishes to speak to me before the
+interview. Something extraordinary must have happened.
+
+Justin
+Mademoiselle is here.
+
+(Enter Julie.)
+
+Minard (going towards her)
+Mlle. Julie!
+
+Julie
+Justin, inform my father that the gentleman has arrived. (Exit
+Justin.) If you wish, Adolphe, that our love should shine as bright in
+the sight of all as it does in our hearts, be as courageous as I have
+already been.
+
+Minard
+What has taken place?
+
+Julie
+A rich young suitor has presented himself, and my father is acting
+without any pity for us.
+
+Minard
+A rival! And you ask me if I have any courage! Tell me his name,
+Julie, and you will soon know whether I have any courage.
+
+Julie
+Adolphe! You make me shudder! Is this the way in which you are going
+to act with the hope of bending my father?
+
+Minard (seeing Mercadet approach)
+Here he comes.
+
+
+
+ SCENE SECOND
+
+
+The same persons and Mercadet.
+
+
+Mercadet
+Sir, are you in love with my daughter?
+
+Minard
+Yes, sir.
+
+Mercadet
+That is, at least, what she believes, and you seem to have had the
+talent to persuade her that it is so.
+
+Minard
+Your manner of expressing yourself implies a doubt on your part, which
+in any one else would have been offensive to me. Why should I not love
+mademoiselle? Abandoned by my parents, it was from your daughter, sir,
+that I have learned for the first time the happiness of affection.
+Mlle. Julie is at the same time a sister and a friend to me. She is my
+whole family. She alone has smiled upon me and has encouraged me; and
+my love for her is beyond what language can express!
+
+Julie
+Must I remain here, father?
+
+Mercadet (to his daughter)
+Swallow it all! (To Minard) Sir, with regard to the love of young
+people I have those positive ideas which are considered peculiar to
+old men. My distrust of such love is all the more permissible because
+I am not the father blinded by paternal affection. I see Julie exactly
+as she is; without being absolutely plain, she has none of that beauty
+that makes people cry out, "See!" She is quite mediocre.
+
+Minard
+You are mistaken, sir; I venture to say that you do not know your
+daughter.
+
+Mercadet
+Permit me--
+
+Minard
+You do not know her, sir.
+
+Mercadet
+But I know her perfectly well--as if--in a word, I know her--
+
+Minard
+No, sir, you do not.
+
+Mercadet
+Do you mean to contradict me again, sir?
+
+Minard
+You know the Julie that all the world sees; but love has transfigured
+her! Tenderness and devotion lend to her a transporting beauty that I
+alone have called up in her.
+
+Julie
+Father, I feel ashamed--
+
+Mercadet
+You mean you feel happy. And if you, sir, repeat these things--
+
+Minard
+I shall repeat them a hundred times, a thousand times, and even then I
+couldn't repeat them often enough. There is no crime in repeating them
+before a father!
+
+Mercadet
+You flatter me! I did believe myself her father; but you are the
+father of a Julie whose acquaintance I should very much like to make.
+
+Minard
+You have never been in love, I suppose?
+
+Mercadet
+I have been very much in love! And felt the galling chain of gold like
+everybody else.
+
+Minard
+That was long ago. In these days we love in a better way.
+
+Mercadet
+How do you do that?
+
+Minard
+We cling to the soul, to the idea!
+
+Mercadet
+What we used to call under the Empire, having our eyes bandaged.
+
+Minard
+It is love, pure and holy, which can lend a charm to all the hours of
+life.
+
+Mercadet
+Yes all!--except the dinner hour.
+
+Julie
+Father, do not ridicule two children who love each other with a
+passion which is true and pure, because it is founded upon a knowledge
+of each other's character; on the certitude of their mutual ardor in
+conquering the difficulties of life; in a word, of two children who
+will also cherish sincere affection for you.
+
+Minard (to Mercadet)
+What an angel, sir!
+
+Mercadet (aside)
+I'll angel you! (Putting an arm around each.) Happy children!--You are
+absolutely in love? What a fine romance! (To Minard) You desire her
+for your wife?
+
+Minard
+Yes, sir.
+
+Mercadet
+In spite of all obstacles?
+
+Minard
+It is mine to overcome them!
+
+Julie
+Father, ought you not to be grateful to me in that by my choice I am
+giving you a son full of lofty sentiments, endowed with a courageous
+soul, and--
+
+Minard
+Mademoiselle--Julie.
+
+Julie
+Let me finish; I must have my say.
+
+Mercadet
+My daughter, go and see your mother, and let me speak of matters which
+are a great deal more material than these.
+
+Julie
+I will go, father--
+
+Mercadet
+Come back presently with your mother, my child.
+
+(Mercadet kisses Julie and leads her to the door.)
+
+Minard (aside)
+I feel my hopes revive.
+
+Mercadet (returning)
+Sir, I am a ruined man.
+
+Minard
+What does that mean?
+
+Mercadet
+Totally ruined. And if you wish to have my Julie, you are welcome to
+her. She will be much better off at your house, poor as you are, than
+in her paternal home. Not only is she without dowry, but she is
+burdened with poor parents--parents who are more than poor.
+
+Minard
+More than poor! There is nothing beyond that.
+
+Mercadet
+Yes, sir, we are in debt, deeply in debt, and some of these debts
+clamor for payment.
+
+Minard
+No, no, it is impossible!
+
+Mercadet
+Don't you believe it? (Aside) He is getting frightened. (Taking up a
+pile of papers from his desk. Aloud) Here, my would-be son-in-law, are
+the family papers which will show you our fortune--
+
+Minard
+Sir--
+
+Mercadet
+Or rather our lack of fortune! Read-- Here is a writ of attachment on
+our furniture.
+
+Minard
+Can it be possible?
+
+Mercadet
+It is perfectly possible! Here are judgments by the score! Here is a
+writ of my arrest. You see in what straits we are! Here you see all my
+sales, the protests on my notes and the judgments classed in order
+--for, young man, understand well in a disordered condition of things,
+order is above all things necessary. When disorder is well arranged it
+can be relieved and controlled-- What can a debtor say when he sees
+his debt entered up under his number? I make the government my model.
+All payments are made in alphabetic order. I have not yet touched the
+letter A. (He replaces the papers.)
+
+Minard
+You haven't yet paid anything?
+
+Mercadet
+Scarcely anything. You know the condition of my expenses. You know,
+because you are a book-keeper. See, (picking up the papers again) the
+total debit is three hundred and eighty thousand.
+
+Minard
+Yes, sir. The balance is entered here.
+
+Mercadet
+You can understand then how you must make me shudder when you come
+before my daughter with your fine protestations! Since to marry a poor
+girl with nothing but an income of eighteen hundred francs, is like
+inviting in wedlock a protested note with a writ of execution.
+
+Minard (lost in thought)
+Ruined, ruined! And without resources!
+
+Mercadet (aside)
+I thought that would upset him. (Aloud) Come, now, young man, what are
+you going to do?
+
+Minard
+First, I thank you, sir, for the frankness of your admissions.
+
+Mercadet
+That is good! And what of the ideal, and your love for my daughter?
+
+Minard
+You have opened my eyes, sir.
+
+Mercadet (aside)
+I am glad to hear it.
+
+Minard
+I thought that I already loved her with a love that was boundless, and
+now I love her a hundred times more.
+
+Mercadet
+The deuce you do!
+
+Minard
+Have you not led me to understand that she will have need of all my
+courage, of all my devotion! I will render her happy by other means
+than my tenderness; she shall feel grateful for all my efforts, she
+shall love me for my vigils, and for my toils.
+
+Mercadet
+You mean to tell me that you still wish to marry her?
+
+Minard
+Do I wish! When I believed that you were rich, I would not ask her of
+you without trembling, without feeling ashamed of my poverty; but now,
+sir, it is with assurance and with tranquillity of mind that I ask for
+her.
+
+Mercadet (to himself)
+I must admit that this is a love exceedingly true, sincere and noble!
+And such as I had believed it impossible to find in the whole world!
+(To Minard) Forgive me, young man, for the opinion I had of you
+--forgive me, above all, for the disappointment I am about to cause
+you.
+
+Minard
+What do you mean?
+
+Mercadet
+M. Minard--Julie--cannot be your wife.
+
+Minard
+What is this, sir? Not be my wife? In spite of our love, in spite of
+all you have confided to me?
+
+Mercadet
+Yes, and just because of all I have confided to you. I have shown you
+Mercadet the rich man in his true colors. I am going to show you him
+as the skeptical man of business. I have frankly opened my books to
+you. I am now going to open my heart to you as frankly.
+
+Minard
+Speak out, sir, but remember how great my devotion to Mlle. Julie is.
+Remember that my self-sacrifice and unselfishness are equal to my love
+for her.
+
+Mercadet
+Let it be granted that by means of night-long vigils and toils you
+will make a living for Julie! But who will make a living for us, her
+father and mother?
+
+Minard
+Ah! sir--believe in me!
+
+Mercadet
+What! Are you going to work for four, instead of working for only two?
+The task will be too much for you! And the bread which you give to us,
+you will have to snatch out of the hands of your children--
+
+Minard
+How wildly you talk!
+
+Mercadet
+And I, in spite of your generous efforts, shall fall, crushed under
+the weight of disgraceful ruin. A brilliant marriage for my daughter
+is the only means by which I would be enabled to discharge the
+enormous sums I owe. It is only thus that in time I could regain
+confidence and credit. With the aid of a rich son-in-law I can
+reconquer my position, and recuperate my fortune! Why, the marriage of
+my daughter is our last anchor of salvation! This marriage is our
+hope, our wealth, the prop of our honor, sir! And since you love my
+daughter, it is to this very love that I make my appeal. My friend, do
+not condemn her to poverty; do not condemn her to a life of regret
+over the loss and disgrace which she has brought upon her father!
+
+Minard (in great distress)
+But what do you ask me to do?
+
+Mercadet (taking him by the hand)
+I wish that this noble affection which you have for her, may arm you
+with more courage than I myself possess.
+
+Minard
+I will show such courage--
+
+Mercadet
+Then listen to me. If I refuse Julie to you, Julie will refuse the man
+I destine for her. It will be best, therefore, that I grant your
+request for her hand, and that you be the one--
+
+Minard
+I!-- She will not believe it, sir--
+
+Mercadet
+She will believe you, if you tell her that you fear poverty for her.
+
+Minard
+She will accuse me of being a fortune hunter.
+
+Mercadet
+She will be indebted to you for having secured her happiness.
+
+Minard (despairingly)
+She will despise me, sir!
+
+Mercadet
+That is probable! But if I have read your heart aright, your love for
+her is such that you will sacrifice yourself completely to the
+happiness of her life. But here she comes, sir, and her mother is with
+her. It is on their account that I make this request to you, sir; can
+I count on you?
+
+Minard
+You--can.
+
+Mercadet
+Very good--I thank you.
+
+
+
+ SCENE THIRD
+
+
+The preceding, Julie and Mme. Mercadet.
+
+
+Julie
+Come, mother, I am sure that Adolphe has triumphed over all obstacles.
+
+Mme. Mercadet
+My dear, M. Minard has asked of you the hand of Julie. What answer
+have you given him?
+
+Mercadet (going to the desk)
+It is for him to say.
+
+Mercadet (aside)
+How can I tell her? My heart is breaking.
+
+Julie
+What have you got to say, Adolphe?
+
+Minard
+Mademoiselle--
+
+Julie
+Mademoiselle! Am I no longer Julie to you? Oh, tell me quickly. You
+have settled everything with my father, have you not?
+
+Minard
+Your father has shown great confidence in me. He has revealed to me
+his situation; he has told me--
+
+Julie
+Go on, please go on--
+
+Mercadet
+I have told him that we are ruined--
+
+Julie
+And this avowal has not changed your plans--your love--has it,
+Adolphe?
+
+Minard (ardently)
+My love! (Mercadet, without being noticed, seizes his hand.) I should
+be deceiving you--mademoiselle--(speaking with great effort)--if I
+were to say that my intentions are unaltered.
+
+Julie
+Oh! It is impossible! Can it be you who speak to me in this strain?
+
+Mme. Mercadet
+Julie--
+
+Minard (rousing himself)
+There are some men to whom poverty adds energy; men capable of daily
+self-sacrifice, of hourly toil; men who think themselves sufficiently
+recompensed by a smile from a companion that they love--(checking
+himself). I, mademoiselle am not one of these. The thought of poverty
+dismays me. I--I could not endure the sight of your unhappiness.
+
+Julie (bursting into tears and flinging herself into the arms of her
+mother)
+Oh! Mother! Mother! Mother!
+
+Mme. Mercadet
+My daughter--my poor Julie!
+
+Minard (in a low voice to Mercadet)
+Is this sufficient, sir?
+
+Julie (without looking at Minard)
+I should have had courage for both of us. I should always have greeted
+you with a smile, I should have toiled without regret, and happiness
+would always have reigned in our home. You could never have meant
+this, Adolphe. You do not mean it.
+
+Minard (in a low voice)
+Let me go--let me leave the house, sir.
+
+Mercadet
+Come, then. (He retires to the back of the stage.)
+
+Minard
+Good-bye--Julie. A love that would have flung you into poverty is a
+thoughtless love. I have preferred to show the love that sacrifices
+itself to your happiness--
+
+Julie
+No, I trust you no longer. (In a low voice to her mother) My only
+happiness would have been to be his.
+
+Justin (announcing visitors)
+M. de la Brive! M. de Mericourt!
+
+Mercadet
+Take your daughter away, madame. M. Minard, follow me. (To Justin) Ask
+them to wait here for a while. (To Minard) I am well satisfied with
+you.
+
+(Mme. Mercadet and Julie, Mercadet and Minard go out in opposite
+directions, while Justin admits Mericourt and De la Brive.)
+
+
+
+ SCENE FOURTH
+
+
+De la Brive and Mericourt.
+
+
+Justin
+M. Mercadet begs that the gentlemen will wait for him here. (Exit.)
+
+Mericourt
+At last, my dear friend, you are on the ground, and you will be very
+soon officially recognized as Mlle. Mercadet's intended! Steer your
+bark well, for the father is a deep one.
+
+De la Brive
+That is what frightens me, for difficulties loom ahead.
+
+Mericourt
+I do not believe so; Mercadet is a speculator, rich to-day, to-morrow
+possibly a beggar. With the little I know of his affairs from his
+wife, I am led to believe that he is enchanted with the prospect of
+depositing a part of his fortune in the name of his daughter, and of
+obtaining a son-in-law capable of assisting him in carrying out his
+financial schemes.
+
+De la Brive
+That is a good idea, and suits me exactly; but suppose he wishes to
+find out too much about me.
+
+Mericourt
+I have given M. Mercadet an excellent account of you.
+
+De la Brive
+I have fallen upon my feet truly.
+
+Mericourt
+But you are not going to lose the dandy's self-possession? I quite
+understand that your position is risky. A man would not marry,
+excepting from utter despair. Marriage is suicide for the man of the
+world. (In a low voice) Come, tell me--can you hold out much longer?
+
+De la Brive
+If I had not two names, one for the bailiffs and one for the
+fashionable world, I should be banished from the Boulevard. Woman and
+I, as you know, have wrought each the ruin of the other, and, as
+fashion now goes, to find a rich Englishwoman, an amiable dowager, an
+amorous gold mine, would be as impossible as to find an extinct
+animal.
+
+Mericourt
+What of the gaming table?
+
+De la Brive
+Oh! Gambling is an unreliable resource excepting for certain crooks,
+and I am not such a fool as to run the risk of disgrace for the sake
+of winnings which always have their limit. Publicity, my dear friend,
+has been the abolition of all those shady careers in which fortune
+once was to be found. So, that for a hundred thousand francs of
+accepted bills, the usurer gives me but ten thousand. Pierquin sent me
+to one of his agents, a sort of sub-Pierquin, a little old man called
+Violette, who said to my broker that he could not give me money on
+such paper at any rate! Meanwhile my tailor has refused to bank upon
+my prospects. My horse is living on credit; as to my tiger, the little
+wretch who wears such fine clothes, I do now know how he lives, or
+where he feeds. I dare not peer into the mystery. Now, as we are not
+so advanced in civilization as the Jews, who canceled all debts every
+half-century, a man must pay by the sacrifice of personal liberty.
+Horrible things will be said about me. Here is a young man of high
+esteem in the world of fashion, pretty lucky at cards, of a passable
+figure, less than twenty-eight years old, and he is going to marry the
+daughter of a rich speculator!
+
+Mericourt
+What difference does it make?
+
+De la Brive
+It is slightly off color! But I am tired of a sham life. I have
+learned at last that the only way to amass wealth is to work. But our
+misfortune is that we find ourselves quick at everything, but not good
+at anything! A man like me, capable of inspiring a passion and of
+maintaining it, cannot become either a clerk or a soldier! Society has
+provided no employment for us. Accordingly, I am going to set up
+business with Mercadet. He is one of the greatest of schemers. You are
+sure that he won't give less than a hundred and fifty thousand francs
+to his daughter.
+
+Mericourt
+Judge yourself, my dear friend, from the style which Mme. Mercadet
+puts on; you see her at all the first nights, in her own box, at the
+opera, and her conspicuous elegance--
+
+De la Brive
+I myself am elegant enough, but--
+
+Mericourt
+Look round you here--everything indicates opulence--Oh! they are well
+off!
+
+De la Brive
+Yet, it is a sort of middle-class splendor, something substantial
+which promises well.
+
+Mericourt
+And then the mother is a woman of principle, of irreproachable
+behavior. Can you possibly conclude matters to-day?
+
+De la Brive
+I have taken steps to do so. I won at the club yesterday sufficient to
+go on with; I shall pay something on the wedding presents, and let the
+balance stand.
+
+Mericourt
+Without reckoning my account, what is the amount of your debts?
+
+De la Brive
+A mere trifle! A hundred and fifty thousand francs, which my
+father-in-law will cut down to fifty thousand. I shall have a hundred
+thousand francs left to begin life on. I always said that I should
+never become rich until I hadn't a sou left.
+
+Mericourt
+Mercadet is an astute man; he will question you about your fortune;
+are you prepared?
+
+De la Brive
+Am I not the landed proprietor of La Brive? Three thousand acres in
+the Landes, which are worth thirty thousand francs, mortgaged for
+forty-five thousand and capable of being floated by a stock jobbing
+company for some commercial purpose or other, say, as representing a
+capital of a hundred thousand crowns! You cannot imagine how much this
+property has brought me in.
+
+Mericourt
+Your name, your horse, and your lands seem to me to be on their last
+legs.
+
+De la Brive
+Not so loud!
+
+Mericourt
+So you have quite made up your mind?
+
+De la Brive
+Yes, and all the more decidedly in that I am going into politics.
+
+Mericourt
+Really--but you are too clever for that!
+
+De la Brive
+As a preparation I shall take to journalism.
+
+Mericourt
+And you have never written two lines in your life!
+
+De la Brive
+There are journalists who write and journalists who do not write. The
+former are editors--and horses that drag the car; the latter, the
+proprietors, who furnish the funds; these give oats to their horses
+and keep the capital for themselves. I shall be a proprietor. You
+merely have to put on a lofty air and exclaim: "The Eastern question
+is a question of great importance and of wide influence, one about
+which there cannot be two opinions!" You sum up a discussion by
+declaiming: "England, sir, will always get the better of us!" or you
+make an answer to some one whom you have heard speak for a long time
+without paying attention to him: "We are advancing towards an abyss,
+we have not yet passed through all the evolutions of the evolutionary
+phase!" You say to a representative of labor: "Sir, I think there is
+something to be done in this matter." A proprietor of a journal speaks
+very little, rushes about and makes himself useful by doing for a man
+in power what the latter cannot do himself. He is supposed to inspire
+the articles, those I mean, which attract any notice! And then, if it
+is absolutely necessary he undertakes to publish a yellow-backed
+volume on some Utopian topic, so well written, so strong, that no one
+opens it, although every one declares that he has read it! Then he is
+looked upon as an earnest man, and ends by finding himself
+acknowledged as somebody, instead of something.
+
+Mericourt
+Alas! What you say is too true, in these times!
+
+De la Brive
+And we ourselves are a startling proof of this! In order to claim a
+part in political power you must not show what good but what harm you
+can do. You must not alone possess talents, you must be able also to
+inspire fear. Accordingly, the very day after my marriage, I shall
+assume an air of seriousness, of profundity, of high principles! I can
+take my choice, for we have in France a list of principles which is as
+varied as a bill of fare. I elect to be a socialist! The word pleases
+me! At every epoch, my dear friend, there are adjectives which form
+the pass-words of ambition! Before 1789 a man called himself an
+economist; in 1815 he was a liberal; the next party will call itself
+the social party--perhaps because it is so unsocial. For in France you
+must always take the opposite sense of a word to understand its
+meaning.
+
+Mericourt
+Let me tell you privately, that you are now talking nothing but the
+nonsense of masked ball chatter, which passes for wit among those who
+do not indulge in it. What are you going to do when a certain definite
+knowledge becomes necessary?
+
+De la Brive
+My dear friend! In every profession, whether of art, science or
+literature, a man needs intellectual capital, special knowledge and
+capacity. But in politics, my dear fellow, a man wins everything and
+attains to everything by means of a single phrase--
+
+Mericourt
+What is that?
+
+De la Brive
+"The principles of my friends, the party for which I stand, look
+for--"
+
+Mericourt
+Hush! Here comes the father-in-law!
+
+
+
+ SCENE FIFTH
+
+
+The same persons and Mercadet.
+
+
+Mercadet
+Good-day, my dear Mericourt! (To De la Brive) The ladies have kept you
+waiting, sir. Ah! They are putting on their finery. For myself, I was
+just on the point of dismissing--whom do you think?--an aspirant to
+the hand of Mlle. Julie. Poor young man! I was perhaps hard on him,
+and yet I felt for him. He worships my daughter; but what could I do?
+He has only ten thousand francs' income.
+
+De la Brive
+That wouldn't go very far!
+
+Mercadet
+A mere subsistence!
+
+De la Brive
+You're not the man to give a rich and clever girl to the first comer--
+
+Mericourt
+Certainly not.
+
+Mercadet
+Before the ladies come in, gentlemen, we must talk a little serious
+business.
+
+De la Brive (to Mericourt)
+Now comes the tug of war!
+
+(They all sit down.)
+
+Mercadet (on the sofa)
+Are you seriously in love with my daughter?
+
+De la Brive
+I love her passionately!
+
+Mercadet
+Passionately?
+
+Mericourt (to his friend)
+You are over-doing it.
+
+De la Brive (to Mericourt)
+Wait a moment. (Aloud) Sir, I am ambitious--and I saw in Mlle. Julie a
+lady at once distinguished, full of intellect, possessed of charming
+manners, who would never be out of place in the position in which my
+fortune puts me; and such a wife is essential to the success of a
+politician.
+
+Mercadet
+I understand! It is easy to find a woman, but it is very rare that a
+man who wishes to be a minister or ambassador finds a wife. You are a
+man of wit, sir. May I ask your political leaning?
+
+De la Brive
+Sir, I am a socialist.
+
+Mercadet
+That is a new move! But now let us talk of money matters.
+
+Mericourt
+It seems to me that the notary might attend to that.
+
+De la Brive
+No! M. Mercadet is right; it is best that we should attend to these
+things ourselves.
+
+Mercadet
+True, sir.
+
+De la Brive
+Sir, my whole fortune consists in the estate which bears my name; it
+has been in my family for a hundred and fifty years, and I hope will
+never pass from us.
+
+Mercadet
+The possession of capital is perhaps more valuable in these days.
+Capital is in your own hand. If a revolution breaks out, and we have
+had many revolutions lately, capital follows us everywhere. Landed
+property, on the contrary, must furnish funds for every one. There it
+stands stock still like a fool to pay the taxes, while capital dodges
+out of the way. But this is not real obstacle. What is the amount of
+your land?
+
+De la Brive
+Three thousand acres, without a break.
+
+Mercadet
+Without a break?
+
+Mericourt
+Did I not tell you as much?
+
+Mercadet
+I never doubted it.
+
+De la Brive
+A chateau--
+
+Mercadet
+Good--
+
+De la Brive
+And salt marshes, which can be worked as soon as the administration
+gives permission. They would yield enormous returns!
+
+Mercadet
+Ah, sir, why have we been so late in becoming acquainted! Your land,
+then, must be on the seashore.
+
+De la Brive
+Without half a league of it.
+
+Mercadet
+And it is situated?
+
+De la Brive
+Near Bordeaux.
+
+Mercadet
+You have vineyards, then?
+
+De la Brive
+No! fortunately not, for the disposal of wines is a troublesome
+matter, and, moreover, the cultivation of the vine is exceedingly
+expensive. My estate was planted with pine trees by my grandfather, a
+man of genius, who was wise enough to sacrifice himself to the welfare
+of his descendants. Besides, I have furniture, which you know--
+
+Mercadet
+Sir, one moment, a man of business is always careful to dot his i's.
+
+De la Brive (under his voice)
+Now we're in for it!
+
+Mercadet
+With regard to your estate and your marshes,--I see all that can be
+got out of these marshes. The best way of utilizing them would be to
+form a company for the exploitation of the marshes of the Brive! There
+is more than a million in it!
+
+De la Brive
+I quite understand that, sir. They need only to be thrown upon the
+market.
+
+Mercadet (aside)
+These words indicate a certain intelligence in this young man. (Aloud)
+Have you any debts? Is your estate mortgaged?
+
+Mericourt
+You would not think much of my friend if he had not debts.
+
+De la Brive
+I will be frank, sir, there is a mortgage of forty-five thousand
+francs on my estate.
+
+Mercadet (aside)
+An innocent young man! he might easily-- (Rising from his seat. Aloud)
+You have my consent; you shall be my son-in-law, and are the very man
+I would choose for my daughter's husband. You do not realize what a
+fortune you possess.
+
+De la Brive (to Mericourt)
+This is almost too good to be true.
+
+Mericourt (to De la Brive)
+He is dazzled by the good speculation which he sees ahead.
+
+Mercadet (aside)
+With government protection, which can be purchased, salt pits may be
+established. I am saved! (Aloud) Allow me to shake hands with you,
+after the English fashion. You fulfill all that I expected in a
+son-in-law. I plainly see you have none of the narrowness of
+provincial land-holders; we shall understand each other thoroughly.
+
+De la Brive
+You must not take it in bad part, sir, if I, on my part, ask you--
+
+Mercadet
+The amount of my daughter's fortune? I should have distrusted you if
+you hadn't asked! My daughter has independent means; her mother
+settles on her her own fortune, consisting of a small property--a farm
+of two hundred acres, but in the very heart of Brie, and provided with
+good buildings. Besides this, I shall give her two hundred thousand
+francs, the interest of which will be for your use, until you find a
+suitable investment for it. So you see, young man, we do not wish to
+deceive you, we wish to keep the money moving; I like you, you please
+me, for I see you have ambition.
+
+De la Brive
+Yes, sir.
+
+Mercadet
+You love luxury, extravagance; you wish to shine at Paris--
+
+De la Brive
+Yes, sir.
+
+Mercadet
+You see that I am already an old man, obliged to lay the load of my
+ambition upon some congenial co-operator, and you shall be the one to
+play the brilliant part.
+
+De la Brive
+Sir, had I been obliged to take my choice of all the fathers-in-law in
+Paris, I should have given the preference to you. You are a man after
+my own heart! Allow me to shake hands, after the English fashion!
+(They shake hands for the second time.)
+
+Mercadet (aside)
+It seems too good to be true.
+
+De la Brive (aside)
+He fell head-first into my salt marshes!
+
+Mercadet (aside)
+He accepts an income from me!
+
+(Mercadet retires towards the door on the left side.)
+
+Mericourt (to De la Brive)
+Are you satisfied?
+
+De la Brive (to Mericourt)
+I don't see the money for my debts.
+
+Mericourt (to De la Brive)
+Wait a moment. (To Mercadet) My friend does not dare to tell you of
+it, but he is too honest for concealment. He has a few debts.
+
+Mercadet
+Oh, please tell me. I understand perfectly--I suppose it is about
+fifty thousand you owe?
+
+Mericourt
+Very nearly--
+
+De la Brive
+Very nearly--
+
+Mercadet
+A mere trifle.
+
+De la Brive (laughing)
+Yes, a mere trifle!
+
+Mercadet
+They will serve as a subject of discussion between your wife and you;
+yes, let her have the pleasure of-- But, we will pay them all. (Aside)
+In shares of the La Brive salt pits. (Aloud) It is so small an amount.
+(Aside) We will put up the capital of the salt marsh a hundred
+thousand francs more. (Aloud) The matter is settled, son-in-law.
+
+De la Brive
+We will consider it settled, father-in-law.
+
+Mercadet (aside)
+I am saved!
+
+De la Brive (aside)
+I am saved!
+
+
+
+ SCENE SIXTH
+
+
+The same persons, Mme. Mercadet and Julie.
+
+
+Mercadet
+Here are my wife and daughter.
+
+Mericourt
+Madame, allow me to present to you my friend, M. de la Brive, who
+regards your daughter with--
+
+De la Brive
+With passionate admiration.
+
+Mercadet
+My daughter is exactly the woman to suit a politician.
+
+De la Brive (to Mericourt. Gazing at Julie through his eyeglass)
+A fine girl. (To Madame Mercadet) Like mother, like daughter. Madame,
+I place my hopes under your protection.
+
+Mme. Mercadet
+Anyone introduced by M. Mericourt would be welcome here.
+
+Julie (to her father)
+What a coxcomb!
+
+Mercadet (to his daughter)
+He is enormously rich. We shall all be millionaires! He is an
+excessively clever fellow. Now, do try and be amiable, as you ought to
+be.
+
+Julie (answering him)
+What would you wish me to say to a dandy whom I have just seen for the
+first time, and whom you destine for my husband?
+
+De la Brive
+May I be permitted to hope, mademoiselle, that you will look favorably
+upon me?
+
+Julie
+My duty is to obey my father.
+
+De la Brive
+Young people are not always aware of the feelings which they inspire.
+For two months I have been longing for the happiness of paying my
+respects to you.
+
+Julie
+Who can be more flattered than I am, sir, to find that I have
+attracted your attention?
+
+Mme. Mercadet (to Mericourt)
+He is a fine fellow. (Aloud) We hope that you and your friend M. de la
+Brive will do us the pleasure of accepting our invitation to dine
+without ceremony?
+
+Mercadet
+To take pot-luck with us. (To De la Brive) You must excuse our
+simplicity.
+
+Justin (entering, in a low voice to Mercadet)
+M. Pierquin wishes to speak to you, monsieur.
+
+Mercadet (low)
+Pierquin?
+
+Justin
+He says it is concerning an important and urgent matter.
+
+Mercadet
+What can he want with me? Let him come in. (Justin goes out. Aloud) My
+dear, these gentlemen must be tired. Won't you take them into the
+drawing-room? M. de la Brive, give my daughter you arm.
+
+De la Brive
+Mademoiselle-- (offers her his arm)
+
+Julie (aside)
+He is handsome, he is rich--why does he choose me?
+
+Mme. Mercadet
+M. de Mericourt, will you come and see the picture which we are going
+to raffle off for the benefit of the poor orphans?
+
+Mericourt
+With pleasure, madame.
+
+Mercadet
+Go on. I shall be with you in a moment.
+
+
+
+ SCENE SEVENTH
+
+
+Mercadet (alone)
+Well, after all, this time I have really secured fortune and the
+happiness of Julie and the rest of us. For a son-in-law like this is a
+veritable gold mine! Three thousand acres! A chateau! Salt marshes!
+(He sits down at his desk.)
+
+Pierquin (entering)
+Good-day, Mercadet. I have come--
+
+Mercadet
+Rather inopportunely. But what do you wish?
+
+Pierquin
+I sha'n't detain you long. The bills of exchange I gave you this
+morning, signed by a man called Michonnin, are absolutely valueless. I
+told you this beforehand.
+
+Mercadet
+I know that.
+
+Pierquin
+I now offer you a thousand crowns for them.
+
+Mercadet
+That is either too much or too little! Anything for which you will
+give that sum must be worth infinitely more. Some one is waiting for
+me in the other room. I will bid you good-evening.
+
+Pierquin
+I will give you four thousand francs.
+
+Mercadet
+No!
+
+Pierquin
+Five--six thousand.
+
+Mercadet
+If you wish to play cards, keep to the gambling table. Why do you wish
+to recover this paper?
+
+Pierquin
+Michonnin has insulted me. I wish to take vengeance on him; to send
+him to jail.
+
+Mercadet (rising)
+Six thousand francs worth of vengeance! You are not a man to indulge
+in luxuries of that kind.
+
+Pierquin
+I assure you--
+
+Mercadet
+Come, now, my friend, consider that for a satisfactory defamation of
+character the code won't charge you more than five or six hundred
+francs, and the tax on a blow is only fifty francs--
+
+Pierquin
+I swear to you--
+
+Mercadet
+Has this Michonnin come into a legacy? And are the forty-seven
+thousand francs of these vouchers actually worth forty-seven thousand
+francs? You should post me on this subject and then we'll cry halves!
+
+Pierquin
+Very well, I agree. The fact of it is, Michonnin is to be married.
+
+Mercadet
+What next! And with whom, pray?
+
+Pierquin
+With the daughter of some nabob--an idiot who is giving her an
+enormous dowry.
+
+Mercadet
+Where does Michonnin live?
+
+Pierquin
+Do you want to issue a writ? He is without a fixed abode in Paris. His
+furniture is held under the name of a friend; but his legal domicile
+must be in the neighborhood of Bordeaux, in the village of Ermont.
+
+Mercadet
+Stay a while. I have some one here from that region. I can get exact
+information in a moment--and then we can begin proceedings.
+
+Pierquin
+Send me the paper, and leave the business to me--
+
+Mercadet
+I shall be very glad to do so. They shall be put into your hands in
+return for a signed agreement as to the sharing of the money. I am at
+present altogether taken up with the marriage of my daughter.
+
+Pierquin
+I hope everything is going on well.
+
+Mercadet
+Wonderfully well. My son-in-law is a gentleman and, in spite of that,
+he is rich. And, although both rich and a gentleman, he is clever into
+the bargain.
+
+Pierquin
+I congratulate you.
+
+Mercadet
+One word with you before you go. You said, Michonnin, of Ermont, in
+the neighborhood of Bordeaux?
+
+Pierquin
+Yes, he has an old aunt somewhere about there! A good woman called
+Bourdillac, who scrapes along on some six hundred francs a year, but
+to whom he gives the title of Marchioness of Bourdillac. He pretends
+that her health is delicate and that she has a yearly income of forty
+thousand francs.
+
+Mercadet
+Thank you. Good-evening--
+
+Pierquin
+Good-evening. (goes out)
+
+Mercadet (ringing)
+Justin!
+
+Justin
+Did you call, sir?
+
+Mercadet
+Ask M. de la Brive to speak with me for a moment. (Justin goes out.)
+
+Mercadet
+Here is a windfall of twenty-three thousand francs! We shall be able
+to arrange things famously for Julie's marriage.
+
+
+
+ SCENE EIGHTH
+
+
+Mercadet, De la Brive and Justin.
+
+
+De la Brive (to Justin, handing him a letter)
+Here, deliver this letter. And this is for yourself.
+
+Justin (aside)
+A louis! Mademoiselle will be sure to have a happy home. (Exit.)
+
+De la Brive
+You wish to speak with me, my dear father-in-law?
+
+Mercadet
+Yes. You see I already treat you without ceremony. Please to take a
+seat.
+
+De la Brive (sitting on a sofa)
+I am grateful for your confidence.
+
+Mercadet
+I am seeking information with regard to a debtor, who, like you, lives
+in the neighborhood of Bordeaux.
+
+De la Brive
+I know every one in that district.
+
+Mercadet
+It is said he has relations there.
+
+De la Brive
+Relations! I have none but an old aunt.
+
+Mercadet (pricking up his ears)
+An--old aunt--?
+
+De la Brive
+Whose health--
+
+Mercadet (trembling)
+Is--is--delicate?
+
+De la Brive
+And her income is forty thousand francs.
+
+Mercadet (quite overcome)
+Good Lord! The very figure!
+
+De la Brive
+The Marchioness, you see, will be a good woman to have on hand. I mean
+the Marchioness--
+
+Mercadet (vehemently rushing at him)
+Of Bourdillac, sir!
+
+De la Brive
+How is this? Do you know her name?
+
+Mercadet
+Yes, and yours too!
+
+De la Brive
+The devil you do!
+
+Mercadet
+You are head over ears in debt; your furniture is held in another
+man's name; your old aunt has a pittance of six hundred francs;
+Pierquin, who is one of your smallest creditors, has forty-seven
+thousand francs in notes of hand from you. You are Michonnin, and I am
+the idiotic nabob!
+
+De la Brive (stretching himself at full length on the sofa)
+By heavens! You know just as much about it as I do!
+
+Mercadet
+Well--I see that once more the devil has taken a hand in my game.
+
+De la Brive (aside, rising to his feet)
+The marriage is over! I am no longer a socialist; I shall become a
+communist.
+
+Mercadet
+And I have been just as easily deceived, as if I had been on the
+Exchange.
+
+De la Brive
+Show yourself worthy of your reputation.
+
+Mercadet
+M. Michonnin, your conduct is more than blameworthy!
+
+De la Brive
+In what particular? Did I not say that I had debts?
+
+Mercadet
+We'll let that pass, for any one may have debts; but where is your
+estate situated.
+
+De la Brive
+In the Landes.
+
+Mercadet
+And of what does it consist?
+
+De la Brive
+Of sand wastes, planted with firs.
+
+Mercadet
+Good to make toothpicks.
+
+De la Brive
+That's about it.
+
+Mercadet
+And it is worth?
+
+De la Brive
+Thirty thousand francs.
+
+Mercadet
+And mortgaged for--
+
+De la Brive
+Forty-five thousand!
+
+Mercadet
+And you had the skill to effect that?
+
+De la Brive
+Why, yes--
+
+Mercadet
+Damnation! But that was pretty clever! And your marshes, sir?
+
+De la Brive
+They border on the sea--
+
+Mercadet
+They are part of the ocean!
+
+De la Brive
+The people of that country are evil-minded enough to say so. That is
+what hinders my loans!
+
+Mercadet
+It would be very difficult to issue ocean shares! Sir, I may tell you,
+between ourselves, that your morality seems to me--
+
+De la Brive
+Somewhat--
+
+Mercadet
+Risky.
+
+De la Brive (in anger)
+Sir! (calming himself) Let this be merely between ourselves!
+
+Mercadet
+You gave a friend a bill of sale of your furniture, you sign your
+notes of hand with the name of Michonnin, and you call yourself merely
+De la Brive--
+
+De la Brive
+Well, sir, what are you going to do about it?
+
+Mercadet
+Do about it? I am going to lead you a pretty dance--
+
+De la Brive
+Sir, I am your guest! Moreover, I may deny everything-- What proofs
+have you?
+
+Mercadet
+What proofs! I have in my hands forty-seven thousand francs' worth of
+your notes.
+
+De la Brive
+Are they signed to the order of Pierquin?
+
+Mercadet
+Precisely so.
+
+De la Brive
+And you have had them since this morning?
+
+Mercadet
+Since this morning.
+
+De la Brive
+I see. You have given worthless stock in exchange for valueless notes.
+
+Mercadet
+Sir!
+
+De la Brive
+And, in order to seal the bargain, Pierquin, one of the least
+important of your creditors, has given you a delay of three months.
+
+Mercadet
+Who told you that?
+
+De la Brive
+Who? Who? Pierquin himself, of course, as soon as he learned I was
+going to make an arrangement--
+
+Mercadet
+The devil he did!
+
+De la Brive
+Ah! You were going to give two hundred thousand francs as a dowry to
+your daughter, and you had debts to the amount of three hundred and
+fifty thousand! Between ourselves it looks like you who had been
+trying to swindle the son-in-law, sir--
+
+Mercadet (angrily)
+Sir! (calming himself) This is merely between ourselves, sir.
+
+De la Brive
+You took advantage of my inexperience!
+
+Mercadet
+Of course I did! The inexperience of a man who raises a loan on his
+sand wastes fifty per cent above their value.
+
+De la Brive
+Glass can be made out of sand!
+
+Mercadet
+That's a good idea!
+
+De la Brive
+Therefore, sir--
+
+Mercadet
+Silence! Promise me that this broken marriage-contract shall be kept
+secret.
+
+De la Brive
+I swear it shall-- Ah! excepting to Pierquin. I have just written to
+him to set his mind at rest.
+
+Mercadet
+Is that the letter you sent by Justin?
+
+De la Brive
+The very one.
+
+Mercadet
+And what have you told him?
+
+De la Brive
+The name of my father-in-law. Confound it!--I thought you were rich.
+
+Mercadet (despairingly)
+And you have written that to Pierquin? It's all up! This fresh defeat
+will be known on the Exchange! But, any way, I am ruined! Suppose I
+write to him-- Suppose I ask him-- (He goes to the table to write.)
+
+
+
+ SCENE NINTH
+
+
+The same persons, Mme. Mercadet, Julie and Verdelin.
+
+
+Mme. Mercadet
+My friend, M. Verdelin.
+
+Julie (to Verdelin)
+Here is my father, sir.
+
+Mercadet
+Ah! It is you, is it, Verdelin--and you are come to dinner?
+
+Verdelin
+No, I am not come to dinner.
+
+Mercadet (aside)
+He knows all. He is furious!
+
+Verdelin
+And this gentleman is your son-in-law? (Verdelin bows to De la Brive.)
+This is a fine marriage you are going to make!
+
+Mercadet
+The marriage, my dear sir, is not going to take place.
+
+Julie
+How happy I feel!
+
+(De la Brive bows to Julie. She casts down her eyes.)
+
+Mme. Mercadet (seizing her hand)
+My dear daughter!
+
+Mercadet
+I have been deceived by Mericourt.
+
+Verdelin
+And you have played on me one of your tricks this morning, for the
+purpose of getting a thousand crowns; but the whole incident has been
+made public on the Exchange, and they think it a huge joke!
+
+Mercadet
+They have been informed, I suppose--
+
+Verdelin
+That your pocket-book is full of the notes of hand signed by your
+son-in-law. And Pierquin tells me that your creditors are exasperated,
+and are to meet to-night at the house of Goulard to conclude measures
+for united action against you to-morrow!
+
+Mercadet
+To-night! To-morrow! Ah! I hear the knell of bankruptcy sound!
+
+Verdelin
+Yes, to-morrow they are going to send a prison cab for you.
+
+Mme. Mercadet and Julie
+God help us!
+
+Mercadet
+I see the carriage, the hearse of the speculator, carrying me to
+Clichy!
+
+Verdelin
+They wish, as far as possible, to rid the Exchange of all sharpers!
+
+Mercadet
+They are fools, for in that case they will turn it into a desert! And
+so I am ruined! Expelled from the Exchange with all the sequelae of
+bankruptcy,--shame, beggary! I cannot believe it--it is impossible!
+
+De la Brive
+Believe me, sir, that I regret having been in some degree--
+
+Mercadet (looking him in the face)
+You! (in a low voice to him) Listen to me: you have hurried on my
+destruction, but you have it in your power to help me to escape.
+
+De la Brive
+On what conditions?
+
+Mercadet
+I will make you a good offer! (Aloud, as they start toward opposite
+doors) True, the idea is a bold one! But to-morrow, the 'Change will
+recognize in me one of its master spirits.
+
+Verdelin
+What is he talking about?
+
+Mercadet
+To-morrow, all my debts will be paid, and the house of Mercadet will
+be turning over millions! I shall be acknowledged as the Napoleon of
+finance.
+
+Verdelin
+What a man he is!
+
+Mercadet
+And a Napoleon who meets no Waterloo!
+
+Verdelin
+But where are your troops?
+
+Mercadet
+My army is cash in hand! What answer can be made to a business man who
+says, "Take your money!" Come let us dine now.
+
+Verdelin
+Certainly. I shall be delighted to dine with you.
+
+Mercadet (while they all move towards the dining-room, aside)
+They are all glad of it! To-morrow I will either command millions, or
+rest in the damp winding-sheet of the Seine!
+
+
+
+Curtain to the Second Act.
+
+
+
+
+ ACT III
+
+
+
+ SCENE FIRST
+
+
+(Another apartment in Mercadet's house, well furnished. At the back
+and in the centre is a mantel-piece, having instead of a mirror a
+clear plate of glass; side doors; a large table, surrounded by chairs,
+in the middle of the stage; sofa and armchairs.)
+
+Justin, Therese and Virginie, then Mercadet.
+
+
+(Justin enters first and beckons to Therese. Virginie, carrying
+papers, sits insolently on the sofa. Justin looks through the keyhole
+of the door on the left side and listens.)
+
+Therese
+Is it possible that they could pretend to conceal from us the
+condition of their affairs?
+
+Virginie
+Old Gruneau tells me that the master is soon to be arrested; I hope
+that what I have spent will be taken account of, for he owes me the
+money for these bills, besides my wages!
+
+Therese
+Oh! set your mind at rest. We are likely to lose everything, for the
+master is bankrupt.
+
+Justin
+I can't hear anything. They speak too low! They don't trust us.
+
+Virginie
+It is frightful!
+
+Justin (with his ear to the half-open door)
+Wait, I think I hear something.
+
+(The door bursts open and Mercadet appears.)
+
+Mercadet (to Justin)
+Don't let me disturb you.
+
+Justin
+Sir, I--I--was just putting--
+
+Mercadet
+Really! (To Virginie, who jumps up suddenly from the sofa) Keep your
+seat, Mlle. Virginie, and you, M. Justin, why didn't you come in? We
+were talking about my business.
+
+Justin
+You amuse me, sir.
+
+Mercadet
+I am heartily glad of it.
+
+Justin
+You take trouble easy, sir.
+
+Mercadet (severely)
+That will do, all of you. And remember that from this time forth I see
+all who call. Treat no one either with insolence or too much humility,
+for you will meet here no creditors, but such as have been paid.
+
+Justin
+Oh, bosh!
+
+Mercadet
+Go!
+
+(The central door opens. Mme. Mercadet, Julie and Minard appear. The
+servants leave the room.)
+
+
+
+ SCENE SECOND
+
+
+Mercadet, Mme. Mercadet, Julie and Minard.
+
+
+Mercadet (aside)
+I am annoyed to see my wife and daughter here. In my present
+circumstances, women are likely to spoil everything, for they have
+nerves. (Aloud) What is it, Mme. Mercadet?
+
+Mme. Mercadet
+Sir, you were counting on the marriage of Julie to establish your
+credit and reassure your creditors, but the event of yesterday has put
+you at their mercy--
+
+Mercadet
+Do you think so? Well, you are quite mistaken. I beg your pardon, M.
+Minard, but what brings you here?
+
+Minard
+Sir--I--
+
+Julie
+Father--it is--
+
+Mercadet
+Are you come to ask again for my daughter?
+
+Minard
+Yes, sir.
+
+Mercadet
+But everybody says that I am going to fail--
+
+Minard
+I know it, sir.
+
+Mercadet
+And would you marry the daughter of a bankrupt?
+
+Minard
+Yes, for I would work to re-establish him.
+
+Julie
+That's good, Adolphe.
+
+Mercadet (aside)
+A fine young fellow. I will give him an interest in the first big
+business I do.
+
+Minard
+I have made known my attachment to the man I look upon as a father. He
+has informed me--that I am the possessor of a small fortune--
+
+Mercadet
+A fortune!
+
+Minard
+When I was confided to his care, a sum of money was entrusted to him,
+which has increased by interest, and I now possess thirty thousand
+francs.
+
+Mercadet
+Thirty thousand francs!
+
+Minard
+On learning of the disaster that had befallen you, I realized this
+sum, and I bring it to you, sir; for sometimes in these cases an
+arrangement can be made by paying something on account--
+
+Mme. Mercadet
+He has an excellent heart!
+
+Julie (with pride)
+Yes, indeed, papa!
+
+Mercadet
+Thirty thousand francs. (Aside) They might be tripled by buying some
+of Verdelin's stock and then doubled with-- No, no. (To Minard) My
+boy, you are at the age of self-sacrifice. If I could pay two hundred
+francs with thirty thousand, the fortune of France, of myself and of
+most people would be made. No, keep your money!
+
+Minard
+What! You refuse it?
+
+Mercadet (aside)
+If with this I could keep them quiet for a month, if by some bold
+stoke I could revive the depression in my property, it might be all
+right. But the money of these poor children, it cuts me to the heart
+to think of it, for when they are in tears people calculate amiss; it
+is not well to risk the money of any but fellow-brokers--no--no
+(Aloud) Adolphe, you may marry my daughter.
+
+Minard
+Oh! Sir--Julie--my own Julie--
+
+Mercadet
+That is, of course, as soon as she has three hundred thousand francs
+as dowry.
+
+Mme. Mercadet
+My dear!
+
+Julie
+Papa!
+
+Minard
+Ah, sir! How long are you going to put me off?
+
+Mercadet
+Put you off? She will have it in a month! Perhaps sooner--
+
+All
+How is that?
+
+Mercadet
+Yes, by the use of my brains--and a little money. (Minard holds out
+his pocket-book.) But lock up those bills! And come, take away my wife
+and daughter. I want to be alone.
+
+Mme. Mercadet (aside)
+Is he going to hatch some plot against his creditors? I must find out.
+Come, Julie.
+
+Julie
+Papa, how good you are!
+
+Mercadet
+Nonsense!
+
+Julie
+I love you so much.
+
+Mercadet
+Nonsense!
+
+Julie
+Adolphe, I do not thank you, I shall have all my life for that.
+
+Minard
+Dearest Julie!
+
+Mercadet (leading them out)
+Come, now, you had better breathe out your idyls in some more retired
+spot.
+
+(They go out.)
+
+
+
+ SCENE THIRD
+
+
+Mercadet, then De la Brive.
+
+
+Mercadet
+I have resisted--it was a good impulse! But I was wrong to obey it. If
+I finally yield to the temptation, I can make their little capital
+worth very much more. I shall manage this fortune for them. My poor
+daughter has indeed a good lover. What hearts of gold are theirs! Dear
+children! (Goes towards the door at the right.) I must make their
+fortune. De la Brive is here awaiting me. (Looking through the open
+door) I believe he is asleep. I gave him a little too much wine, so as
+to handle him more easily. (Shouting) Michonnin! The constable! The
+constable!
+
+De la Brive (coming out, rubbing his eyes)
+Hello! What are you saying?
+
+Mercadet
+Don't be frightened, I only wanted to wake you up. (Takes his seat at
+the table.)
+
+De la Brive (sitting at the other side of the table)
+Sir, an orgie acts on the mind like a storm on the country. It brings
+on refreshment, it clothes with verdure! And ideas spring forth and
+bloom! _In vino varietas_!
+
+Mercadet
+Yesterday, our conversation on business matters was interrupted.
+
+De la Brive
+Father-in-law, I recall it distinctly--we recognized the fact that our
+houses could not keep their engagements. We were on the point of
+bankruptcy, and you are unfortunate enough to be my creditor, while I
+am fortunate enough to be your debtor by the amount of forty-seven
+thousand, two hundred and thirty-three francs and some centimes.
+
+Mercadet
+Your head is level enough.
+
+De la Brive
+But my pocket and my conscience are a little out. Yet who can reproach
+me? By squandering my fortune I have brought profit to every trade in
+Paris, and even to those who do not know me. We, the useless ones! We,
+the idlers! Upon my soul! It is we who keep up the circulation of
+money--
+
+Mercadet
+By means of the money in circulation. Ah! you have all your wits about
+you!
+
+De la Brive
+But I have nothing else.
+
+Mercadet
+Our wits are our mint. Is it not so? But, considering your present
+situation, I shall be brief.
+
+De la Brive
+That is why I take a seat.
+
+Mercadet
+Listen to me. I see that you are going down the steep way which leads
+to that daring cleverness for which fools blame successful operators.
+You have tasted the piquant intoxicating fruits of Parisian pleasure.
+You have made luxury the inseparable companion of your life. Paris
+begins at the Place de l'Etoile, and ends at the Jockey Club. That is
+your Paris, which is the world of women who are talked about too much,
+or not at all.
+
+De la Brive
+That is true.
+
+Mercadet
+You breathe the cynical atmosphere of wits and journalists, the
+atmosphere of the theatre and of the ministry. It is a vast sea in
+which thousands are casting their nets! You must either continue this
+existence, or blow your brains out!
+
+De la Brive
+No! For it is impossible to think that it can continue without me.
+
+Mercadet
+Do you feel that you have the genius to maintain yourself in style at
+the height to which you aspire? To dominate men of mind by the power
+of capital and superiority of intellect? Do you think that you will
+always have skill enough to keep afloat between the two capes, which
+have seen the life of elegance so often founder between the cheap
+restaurant and the debtors' prison?
+
+De la Brive
+Why! You are breaking into my conscience like a burglar--you echo my
+very thought! What do you want with me?
+
+Mercadet
+I wish to rescue you, by launching you into the world of business.
+
+De la Brive
+By what entrance?
+
+Mercadet
+Let me choose the door.
+
+De la Brive
+The devil!
+
+Mercadet
+Show yourself a man who will compromise himself for me--
+
+De la Brive
+But men of straw may be burnt.
+
+Mercadet
+You must be incombustible.
+
+De la Brive
+What are the terms of our copartnership?
+
+Mercadet
+You try to serve me in the desperate circumstances in which I am at
+present, and I will make you a present of your forty-seven thousand,
+two hundred and thirty-three francs, to say nothing of the centimes.
+Between ourselves, I may say that only address is needed.
+
+De la Brive
+In the use of the pistol or the sword?
+
+Mercadet
+No one is to be killed; on the contrary--
+
+De la Brive
+That will suit me.
+
+Mercadet
+A man is to be brought to life again.
+
+De la Brive
+That doesn't suit me at all, my dear fellow. The legacy, the chest of
+Harpagon, the little mule of Scapin and, indeed, all the farces which
+have made us laugh on the ancient stage are not well received nowadays
+in real life. The police have a way of getting mixed up with them, and
+since the abolition of privileges, no one can administer a drubbing
+with impunity.
+
+Mercadet
+Well, what do you think of five years in debtors' prison? Eh? What a
+fate!
+
+De la Brive
+As a matter of fact, my decision must depend upon what you want me to
+do to any one, for my honor so far is intact and is worth--
+
+Mercadet
+You must invest it well, for we shall have dire need of all that it is
+worth. I want you to assist me in sitting at the table which the
+Exchange always keeps spread, and we will gorge ourselves with the
+good things there offered us, for you must admit that while those who
+seek for millions have great difficulty in finding them, they are
+never found by those who do not seek.
+
+De la Brive
+I think I can co-operate with you in this matter. You will return to
+me my forty-seven thousand francs--
+
+Mercadet
+Yes, sir.
+
+De la Brive
+I am not required to be anything but be--very clever?
+
+Mercadet
+Nimble, but this nimbleness will be exercised, as the English say, on
+the right side of the law.
+
+De la Brive
+What is it you propose?
+
+Mercadet (giving him a paper)
+Here are your written instructions. You are to represent something
+like an uncle from America--in fact, my partner, who has just come
+back from the West Indies.
+
+De la Brive
+I understand.
+
+Mercadet
+Go to the Champs-Elysees, secure a post-chaise that has been much
+battered, have horses harnessed to it, and make your arrival here
+wrapped in a great pelisse, your head enveloped in a huge cap, while
+you shiver like a man who finds our summer icy cold. I will receive
+you; I will conduct you in; you will speak to my creditors; not one of
+them knows Godeau; you will make them give me more time.
+
+De la Brive
+How much time?
+
+Mercadet
+I need only two days--two days, in order that Pierquin may complete
+certain purchases which we have ordered. Two days in order that the
+stock which I know how to inflate may have time to rise. You will be
+my backer, my security. And as no one will recognize you--
+
+De la Brive
+I shall cease to be this personage as soon as I have paid you
+forty-seven thousand, two hundred and thirty-three francs and some
+centimes.
+
+Mercadet
+That is so. But I hear some one--my wife--
+
+Mme. Mercadet (enters)
+My dear, there are some letters for you, and the bearer requires an
+answer.
+
+(Mme. Mercadet withdraws to the fireplace.)
+
+Mercadet
+I suppose I must go. Good-day, my dear De la Brive. (In a low voice)
+Not a word to my wife; she would not understand the operation, and
+would misconstrue it. (Aloud) Go quickly, and forget nothing.
+
+De la Brive
+You need have no fear.
+
+(Mercadet goes out by the left; De la Brive starts to go out by the
+centre, but Mme. Mercadet intercepts him.)
+
+
+
+ SCENE FOURTH
+
+
+Mme. Mercadet and De la Brive.
+
+
+De la Brive
+Madame?
+
+Mme. Mercadet
+Forgive me, sir!
+
+De la Brive
+Kindly excuse me, madame, I must be going--
+
+Mme. Mercadet
+You must not go.
+
+De la Brive
+But you are not aware--
+
+Mme. Mercadet
+I know all.
+
+De la Brive
+How is that?
+
+Mme. Mercadet
+You and my husband are bent upon resorting to some very ancient
+expedients proper to the comic drama, and I have employed one which is
+more ancient still. And as I told you, I know all--
+
+De la Brive (aside)
+She must have been listening.
+
+Mme. Mercadet
+Sir, the part which you have been induced to undertake is blameworthy
+and shameful, and you must give it up--
+
+De la Brive
+But after all, madame--
+
+Mme. Mercadet
+Oh! I know to whom I am speaking, sir; it was only a few hours ago
+that I saw you for the first time, and yet--I think I know you.
+
+De la Brive
+Really? I am sure I do not know what opinion you have of me.
+
+Mme. Mercadet
+One day has given me time to form a correct judgment of you--and at
+the very time that my husband was trying to discover some foible in
+you he might make use of, or what evil passions he might rouse in you,
+I looked in your heart and discerned that it still contained good
+feelings which eventually may prove your salvation.
+
+De la Brive
+Prove my salvation? Excuse me, madame.
+
+Mme. Mercadet
+Yes, sir, prove your salvation and that of my husband; for both of you
+are on the way to ruin. For you must understand that debts are no
+disgrace to any one who admits them and toils for their payment. You
+have your whole life before you, and you have too much good sense to
+wish that it should be blighted through engaging in a business which
+justice is sure to punish.
+
+De la Brive
+Justice! Ah! You are right, madame, and I certainly would not lend
+myself to this dangerous comedy, unless your husband had some notes of
+hand of mine--
+
+Mme. Mercadet
+Which he will surrender to you, sir, I'll promise you that.
+
+De la Brive
+But, madame, I cannot pay them--
+
+Mme. Mercadet
+We will be satisfied with your word, and you will discharge your
+obligation as soon as you have honestly made your fortune.
+
+De la Brive
+Honestly! That will be perhaps a long time to wait.
+
+Mme. Mercadet
+We will be patient. And now, sir, go and inform my husband that he
+must give up this attempt because he will not have your co-operation.
+(She goes towards the door on the left.)
+
+De la Brive
+I should be rather afraid to face him-- I should prefer to write to
+him.
+
+Mme. Mercadet (pointing out to him the door by which he entered)
+You will find the necessary writing materials in that room. Remain
+there until I come for your letter. I will hand it to him myself.
+
+De la Brive
+I will do so, madame. After all I am not so worthless as I thought I
+was. It is you who have taught me this; you have a right to the whole
+credit of it. (He respectfully kisses her hand.) Thank you, madame,
+thank you! (He goes out.)
+
+Mme. Mercadet
+I have succeeded--if only I could now persuade Mercadet.
+
+Justin (entering from the center)
+Madame--madame--here they are--all of them.
+
+Mme. Mercadet
+Who?
+
+Justin
+The creditors.
+
+Mme. Mercadet
+Already?
+
+Justin
+There are a great many of them, madame.
+
+Mme. Mercadet
+Let them come in here. I will go and inform my husband.
+
+(Mme. Mercadet goes out by one door. Justin opens the other.)
+
+
+
+ SCENE FIFTH
+
+
+Pierquin, Goulard, Violette and several other creditors.
+
+
+Goulard
+Gentlemen, we have quite made up our minds, have we not?
+
+All
+We have, we have--
+
+Pierquin
+No more deluding promises.
+
+Goulard
+No more prayers and expostulations.
+
+Violette
+No more pretended payments on account, thrown out as a bait to get
+deeper into our pockets.
+
+
+
+ SCENE SIXTH
+
+
+The same persons and Mercadet.
+
+
+Mercadet
+And do you mean to tell me that you gentlemen are come to force me
+into bankruptcy?
+
+Goulard
+We shall do so, unless you find means to pay us in full this very day.
+
+Mercadet
+To-day!
+
+Pierquin
+This very day.
+
+Mercadet (standing before the fireplace)
+Do you think that I possess the plates for striking off Bank of France
+notes?
+
+Violette
+You mean that you have no offer to make?
+
+Mercadet
+Absolutely none! And you are going to lock me up? I warn him who is
+going to pay for the cab that he won't be reimbursed from any assets
+of mine.
+
+Goulard
+I shall add that along with all that you owe me to the debit of your
+account--
+
+Mercadet
+Thank you. You've all made up your mind, I suppose?
+
+The Creditors
+We have.
+
+Mercadet
+I am touched by your unanimity! (pulling out his watch) Two o'clock.
+(Aside) De la Brive has had quite time enough--he ought to be on his
+way here. (Aloud) Gentlemen, you compel me to admit that you are men
+of inspiration and have chosen your time well!
+
+Pierquin
+What does he mean?
+
+Mercadet
+For months, for years, you have allowed yourselves to be humbugged by
+fine promises, and deceived--yes, deceived by preposterous stories;
+and to-day is the day you choose for showing yourselves inexorable!
+Upon my word and honor, it is positively amusing! By all means let us
+start for Clichy.
+
+Goulard
+But, sir--
+
+Pierquin
+He is laughing.
+
+Violette (rising from his chair)
+There is something in the wind. Gentlemen, there is something in the
+wind!
+
+Pierquin
+Please explain to us--
+
+Goulard
+We desire to know--
+
+Violette (rising to his feet)
+M. Mercadet, if there is anything--tell us about it.
+
+Mercadet (coming to the table)
+Nothing! I shall say nothing, not I--I wish to be put behind the
+bars!--I would like to see the figure you all will cut to-morrow or
+this evening, when you find he has returned.
+
+Goulard (rising to his feet)
+He has returned?
+
+Pierquin
+Returned from where?
+
+Violette
+Who has returned?
+
+Mercadet (coming forward)
+Nobody has returned. Let us start for Clichy, gentlemen.
+
+Goulard
+But listen, if you are expecting any assistance--
+
+Pierquin
+If you have any hope that--
+
+Violette
+Or if even some considerable legacy--
+
+Goulard
+Come, now!
+
+Pierquin
+Answer--
+
+Violette
+Tell us--
+
+Mercadet
+Now, take care, I beg you. You are giving way, you are giving way,
+gentlemen, and if I wished to take the trouble, I could win you over
+again. Come now, act like genuine creditors! Ridicule the past, forget
+the brilliant strokes of business I put within the power of each of
+you before the sudden departure of my faithful Godeau--
+
+Goulard
+His faithful Godeau!
+
+Pierquin
+Ah! If there were only--
+
+Mercadet
+Forget all that preposterous past, take no account of what might
+induce him to return--after being waited for so long--and--let us
+start for Clichy, gentlemen, let us start for Clichy!
+
+Violette
+Mercadet, you are expecting Godeau, aren't you?
+
+Mercadet
+No!
+
+Violette (as with a sudden inspiration)
+Gentlemen, he is expecting Godeau!
+
+Goulard
+Can it be true?
+
+Pierquin
+Speak.
+
+All
+Speak! Speak!
+
+Mercadet (with feeble deprecations)
+Why, no, no--yet I do not know--I-- Certainly, it is possible
+that some day or other he may return form the Indies with some
+--considerable fortune-- (In a decided tone) But I give you my
+word of honor that I don't expect Godeau here to-day.
+
+Violette (excitedly)
+Then it must be to-morrow! Gentlemen, he expects him to-morrow!
+
+Goulard (in a low voice to the others)
+Unless this is some fresh trick to gain time and ridicule us--
+
+Pierquin (aloud)
+Do you think it might be?
+
+Goulard
+It is quite possible.
+
+Violette (in a loud tone)
+Gentlemen, he is fooling us.
+
+Mercadet (aside)
+The devil he is! (Aloud) Come, gentlemen, we had better be starting.
+
+Goulard
+I swear that--
+
+(The rumbling of carriage wheels is heard.)
+
+Mercadet (aside)
+At last! (Aloud) Oh, heavens! (He lays his hand upon his heart.)
+
+A Postillion (outside)
+A carriage at the door.
+
+Mercadet
+Ah! (Falls back on a chair near the table.)
+
+Goulard (looking through the pane of glass above the mantel)
+A carriage!
+
+Pierquin (doing the same)
+A post-chaise!
+
+Violette (doing the same)
+Gentlemen, a post-chaise is at the door.
+
+Mercadet (aside)
+My dear De la Brive could not have arrived at a better moment!
+
+Goulard
+See how dusty it is!
+
+Violette
+And battered to the very hood! It must have come from the heart of the
+Indies, to be as battered as that.
+
+Mercadet (mildly)
+You don't know what you are talking about, Violette! Why, my good
+fellow, people don't arrive from the Indies by land.
+
+Goulard
+But come and see for yourself, Mercadet; a man has stepped out--
+
+Pierquin
+Enveloped in a large pelisse--do come--
+
+Mercadet
+No--pardon me. The joy--the excitement--I--
+
+Violette
+He carries a chest. Oh! what a huge chest! Gentlemen, it is Godeau! I
+recognize him by the chest.
+
+Mercadet
+Yes--I was expecting Godeau.
+
+Goulard
+He has come back from Calcutta.
+
+Pierquin
+With a fortune.
+
+Mercadet
+Of incalculable extent!
+
+Violette
+What have I been saying?
+
+(Violette goes in silence to Mercadet and grasps his hand. The two
+others follow his example, and then all the creditors form a ring
+round Mercadet.)
+
+Mercadet (with seeming emotion)
+Oh! Gentlemen--my friends--my dear comrades--my children!
+
+
+
+ SCENE SEVENTH
+
+
+The same persons and Mme. Mercadet.
+
+
+Mme. Mercadet (entering from the left)
+Mercadet! My dear!
+
+Mercadet (aside)
+It is my wife. I thought that she had gone out. She is going to ruin
+everything!
+
+Mme. Mercadet
+My dear! I see that you don't know what has happened?
+
+Mercadet
+I? No, I don't--if I--
+
+Mme. Mercadet
+Godeau is returned.
+
+Mercadet
+Ah! You say? (Aside) I wonder if she suspects--
+
+Mme. Mercadet
+I have seen him--I have spoken to him. It was I who saw him first.
+
+Mercadet (aside)
+De la Brive has won her over! What a man he is! (To Mme. Mercadet,
+low) Good, my dear wife, good! You will be our salvation.
+
+Mme. Mercadet
+But you don't understand me, it is really he, it is--
+
+Mercadet (in a low voice)
+Hush! (Aloud) I must--gentlemen--I must go and welcome him.
+
+Mme. Mercadet
+No--wait, wait a little, my dear; poor Godeau has overtaxed his
+strength--scarcely had he reached my apartment when fatigue,
+excitement and a nervous attack overcame him--
+
+Mercadet
+Really! (Aside) How well she does it!
+
+Violette
+Poor Godeau!
+
+Mme. Mercadet
+"Madame," he said to me, "go and see your husband. Bring me back his
+pardon; I do not wish to see him face to face, until I have repaired
+the past."
+
+Goulard
+That was fine.
+
+Pierquin
+It was sublime.
+
+Violette
+It melts me to tears, gentlemen, it melts me to tears.
+
+Mercadet (aside)
+Look at that! Well! There's a woman worth calling a wife! (Taking her
+by the hand) My darling-- Excuse me, gentlemen. (He kisses her on both
+cheeks. In a low voice) Things are going on finely.
+
+Mme. Mercadet (in a low voice)
+How lucky this is, my dear! Better than anything you could have
+fancied.
+
+Mercadet
+I should think so. (Aside) It is very much better. (Aloud) Go and look
+after him, my dear. And you, gentlemen, be good enough to pass into my
+office. (He points to the left.) Wait there till we settle our
+accounts.
+
+(Mme. Mercadet goes out.)
+
+Goulard
+I am at your service, my friend--
+
+Pierquin
+Our excellent friend.
+
+Violette
+Friend, we are at your service.
+
+Mercadet (supporting himself half-dazed against the table)
+What do you think? And people said that I was nothing but a sharper!
+
+Goulard
+You! You are one of the most capable men in Paris.
+
+Pierquin
+Who is bound to make a million--as soon as he has a--
+
+Violette
+Dear M. Mercadet, we will give you as much time as you want.
+
+All
+Certainly.
+
+Mercadet
+This is a little late--but gentlemen, I thank you as heartily as if
+you had said it yesterday morning. Good-day. (In a low voice to
+Goulard) Within an hour your stock shall be sold--
+
+Goulard
+Good!
+
+Mercadet (in a low voice to Pierquin)
+Stay where you are.
+
+(All the others enter the office.)
+
+Pierquin
+What can I do for you?
+
+
+
+ SCENE EIGHTH
+
+
+Mercadet and Pierquin.
+
+
+Mercadet
+We are now alone. There is no time to lose. The stock of Basse-Indre
+went down yesterday. Go to the Exchange, buy up two hundred, three
+hundred, four hundred--Goulard will deliver them to you--
+
+Pierquin
+And for what date, and on what collateral?
+
+Mercadet
+Collateral? Nonsense! This is a cash deal; bring them to me to-day,
+and I will pay to-morrow.
+
+Pierquin
+To-morrow?
+
+Mercadet
+To-morrow the stock will have risen.
+
+Pierquin
+I suppose, considering your situation, that you are buying for Godeau.
+
+Mercadet
+Do you think so?
+
+Pierquin
+I presume he gave his orders in the letter which announced his return.
+
+Mercadet
+Possibly so. Ah! Master Pierquin, we are going to take a hand in
+business again, and I guess that you will gain from this to the end of
+the year something like a hundred thousand francs in brokerage from
+us.
+
+Pierquin
+A hundred thousand francs!
+
+Mercadet
+Let the stock be depressed below par, and then buy it in, and
+--(handing him a letter) see that this letter appears in the evening
+paper. This evening, at Tortoni's, you will see an immediate rise in
+the quotations. Now be quick about this.
+
+Pierquin
+I will fly. Good-bye. (Exit.)
+
+
+
+ SCENE NINTH
+
+
+Mercadet, then Justin.
+
+
+Mercadet
+How well everything is going on, when we consider our recent
+complications! When Mahomet had three reliable friends (and it was
+hard to find them) the whole world was his! I have now won over as my
+allies all my creditors, thanks to the pretended arrival of Godeau.
+And I gain eight days, which means fifteen, with regard to actual
+payment. I shall buy three hundred thousand francs' worth of
+Basse-Indre before Verdelin. And when Verdelin asks for some of that
+stock, he will find it has risen, for a demand will have raised it
+above the current quotation, and I shall make at one stroke six hundred
+thousand francs. With three hundred thousand I will pay my creditors
+and show myself a Napoleon of finance. (He struts up and down.)
+
+Justin (from the back of the stage)
+Sir--
+
+Mercadet
+What is it--what do you want, Justin?
+
+Justin
+Sir--
+
+Mercadet
+Go on! Tell me.
+
+Justin
+M. Violette has offered me sixty francs if I will let him speak with
+M. Godeau.
+
+Mercadet
+Sixty francs. (Aside) He fleeced me out of them.
+
+Justin
+I am sure, sir, that you wouldn't like me to lose such a present.
+
+Mercadet
+Let him have his way with you.
+
+Justin
+Ah! sir, but--M. Goulard also--and the others--
+
+Mercadet
+Do as you like--I give them over into your hands. Fleece them well!
+
+Justin
+I'll do my best. Thank you, sir.
+
+Mercadet
+Let them all see Godeau. (Aside) De la Brive is well able to look
+after himself. (Aloud) But, between ourselves, keep Pierquin away.
+(Aside) He would recognize his dear friend, Michonnin.
+
+Justin
+I understand, sir. Ah! here is M. Minard. (Exit.)
+
+
+
+ SCENE TENTH
+
+
+Mercadet and Minard.
+
+
+Minard (coming forward)
+Ah, sir!
+
+Mercadet
+Well, M. Minard, and what brings you here?
+
+Minard
+Despair.
+
+Mercadet
+Despair?
+
+Minard
+M. Godeau has come back; and they say that you are now a millionaire!
+
+Mercadet
+Is that the cause of your despair?
+
+Minard
+Yes, sir.
+
+Mercadet
+Well, you are a strange fellow! I disclose to you the fact of my ruin
+and you are delighted. You learn that good fortune has returned to me
+and you are overwhelmed with despair! And all the while you wish to
+enter into my family! Yet you act like my enemy--
+
+Minard
+It is just my love that makes your good fortune so alarming to me; I
+fear all the while that you will now refuse me the hand--
+
+Mercadet
+Of Julie? My dear Adolphe, all men of business have not put their
+heart in their money-bags. Our sentiments are not always to be
+reckoned by debit and credit. You offered me the thirty thousand
+francs that you possessed--I certainly have no right to reject you on
+account of certain millions. (Aside) Which I do not possess!
+
+Minard
+You bring back life to me.
+
+Mercadet
+Well, I suppose that is true, but so much the better, for I am very
+fond of you. You are simple, honorable. I am touched, I am delighted.
+I am even charmed. Ah! Let me once get hold of my six hundred thousand
+francs and--(Sees Pierquin enter) Here they come--
+
+
+
+ SCENE ELEVENTH
+
+
+The same persons, Pierquin and Verdelin.
+
+
+Mercadet (leading Pierquin to the front of the stage without perceiving
+Verdelin)
+Is it all right?
+
+Pierquin (in some embarrassment)
+It is all right. The stock is ours.
+
+Mercadet (joyfully)
+Bravo!
+
+Verdelin (approaching Mercadet)
+Good-day!
+
+Mercadet
+What! Verdelin--
+
+Verdelin
+I find out that you have bought the stock before me, and that now I
+shall have to pay very much higher than I expected; but it is all
+right, it was well managed, and I am compelled to cry, "Hail to the
+King of the Exchange, Hail to the Napoleon of Finance!" (He laughs
+derisively.)
+
+Mercadet (somewhat abashed)
+What does he mean?
+
+Verdelin
+I'm only repeating what you said yesterday--
+
+Mercadet
+What I said?
+
+Pierquin
+The fact of it is, Verdelin does not believe in the return of Godeau--
+
+Minard
+Ah, sir!
+
+Mercadet
+Is there any doubt about it?
+
+Verdelin (ironically)
+Doubt about it! There is more than doubt about it. I at once concluded
+that this so-called return was the bold stroke that you spoke of
+yesterday.
+
+Mercadet
+I--(Aside) Stupid of me!
+
+Verdelin
+I concluded that, relying upon the presence of this fictitious Godeau,
+you made purchases with the idea of paying on the rise, which would
+follow to-morrow, and that to-day you have actually not a single sou--
+
+Mercadet
+You had imagined all that?
+
+Verdelin (approaching the fireplace)
+Yes, but when I saw outside that triumphal post-chaise--that model of
+Indian manufacture, and I realized that it was impossible to find such
+a vehicle in the Champs-Elysees, all my doubts disappeared and-- But
+hand him over the bonds, M. Pierquin!
+
+Pierquin
+The--bonds--it happens that--
+
+Mercadet (aside)
+I must bluff, or I am lost! (Aloud) Certainly, produce the bonds.
+
+Pierquin
+One moment--if what this gentleman has said is true--
+
+Mercadet (haughtily)
+M. Pierquin!
+
+Minard
+But, gentlemen--M. Godeau is here--I have seen him--I have talked with
+him.
+
+Mercadet (to Pierquin)
+He has talked with him, sir.
+
+Pierquin (to Verdelin)
+The fact of it is, I have seen him myself.
+
+Verdelin
+I don't doubt it! By the bye, on what vessel did our friend Godeau say
+he arrived?
+
+Mercadet
+By what vessel? It was by the--by the _Triton_--
+
+Verdelin
+How careless the English newspapers are. They have published the
+arrival of no other English mail packet but the _Halcyon_.
+
+Pierquin
+Really!
+
+Mercadet
+Let us end this discussion. M. Pierquin--those bonds--
+
+Pierquin
+Pardon me, but as you have offered no collateral, I would wish--I do
+wish to speak with Godeau.
+
+Mercadet
+You shall not speak with him, sir. I cannot permit you to doubt my
+word.
+
+Verdelin
+This is superb.
+
+Mercadet
+M. Minard, go to Godeau-- Tell him that I have obtained an option on
+three hundred thousand francs' worth of stock, and ask him to send me
+--(with emphasis)--thirty thousand francs for use as a margin. A man
+in his position always has such a sum about him. (In a low voice) Do
+not fail to bring me the thirty thousand.
+
+Minard
+Yes, sir. (Goes out, through the right.)
+
+Mercadet (haughtily)
+Will that satisfy you, M. Pierquin?
+
+Pierquin
+Certainly, certainly. (To Verdelin) It will be all right when he comes
+back.
+
+Verdelin (rising from his seat)
+And you expect that he will bring thirty thousand francs?
+
+Mercadet
+I have a perfect right to be offended by your insulting doubt; but I
+am still your debtor--
+
+Verdelin
+Bosh! You have enough in Godeau's pocket-book wherewith to liquidate;
+besides, to-morrow the Basse-Indre will rise above par. It will go up,
+up, till you don't know how far it will go. Your letter worked
+wonders, and we were obliged to publish on the Exchange the results of
+our explorations by boring. The mines will become as valuable as those
+of Mons--and--your fortune is made--when I thought I was going to make
+mine.
+
+Mercadet
+I now understand your rage. (To Pierquin) And this is the origin of
+all the doubtful rumors.
+
+Verdelin
+Rumors which can only vanish before the appearance of Godeau's cash.
+
+
+
+ SCENE TWELFTH
+
+
+The same persons, Violette and Goulard.
+
+
+Goulard
+Ah! my friend!
+
+Violette (following him)
+My dear Mercadet!
+
+Goulard
+What a man this Godeau is!
+
+Mercadet (aside)
+Fine!
+
+Violette
+What high sense of honor he has!
+
+Mercadet (aside)
+That's pretty good!
+
+Goulard
+What magnanimity!
+
+Mercadet (aside)
+Prodigious!
+
+Verdelin
+Have you seen him?
+
+Violette
+Of course, I have!
+
+Pierquin
+Have you spoken to him?
+
+Goulard
+Just as I speak to you. And I have been paid.
+
+All
+Paid!
+
+Mercadet
+Paid? How--how have you been paid?
+
+Goulard
+In full. Fifty thousand in drafts.
+
+Mercadet (aside)
+That I can understand.
+
+Goulard
+And eight thousand francs net, in notes.
+
+Mercadet
+In bank-notes?
+
+Goulard
+Bank-notes.
+
+Mercadet (aside)
+It is past my understanding. Ah! Eight thousand! Minard might have
+given them, so that now he'll bring me only twenty-two thousand.
+
+Violette
+And I--I, who would have been willing to make some reduction--I have
+been paid in full!
+
+Mercadet
+All! (in a low voice to him) I suppose in drafts?
+
+Violette
+In first-class drafts to the amount of eighteen thousand francs.
+
+Mercadet (aside)
+What a fellow this De la Brive is!
+
+Violette
+And the balance, the other twelve thousand--
+
+Verdelin
+Yes--the balance?
+
+Violette
+In cash. Here it is. (He shows the bank-notes.)
+
+Mercadet (aside)
+Minard won't bring me more than ten.
+
+Goulard (taking a seat at the table)
+And this very moment he is paying in the same way all your creditors.
+
+Mercadet
+In the same way?
+
+Violette (taking a seat at the table)
+Yes, in drafts, in specie, and in bank-notes.
+
+Mercadet (forgetting himself)
+Lord, have mercy upon me! (Aside) Minard will bring me nothing at all.
+
+Verdelin
+What is the matter with you?
+
+Mercadet
+Me! Nothing--I--
+
+
+
+ SCENE THIRTEENTH
+
+
+The same persons and Minard, followed by creditors.
+
+
+Minard
+I have done your errand.
+
+Mercadet (trembling)
+And you--have brought me--a few--bank-notes?
+
+Minard
+A few bank-notes? Of course. M. Godeau wouldn't let me even mention
+the thirty thousand francs.
+
+(Goulard and Violette rise. Minard stands before the table, surrounded
+by creditors.)
+
+Mercadet
+I can quite understand that.
+
+Minard
+"You mean," he said, "a hundred thousand crowns; here are a hundred
+thousand crowns, with my compliments!" (He pulls out a large roll of
+bank-notes, which he places on the table.)
+
+Mercadet (rushing to the table)
+What the devil! (Looking at the notes) What is all this about?
+
+Minard
+The three hundred thousand francs.
+
+Pierquin
+My three hundred thousand francs!
+
+Verdelin
+The truth for once!
+
+Mercadet (astounded)
+Three hundred thousand francs! I see them! I touch them! I grasp them!
+Three hundred thousand--where did you get them?
+
+Minard
+I told you he gave them to me.
+
+Mercadet (with vehemence)
+He!-- He--! Who is he?
+
+Minard
+Did not I say, M. Godeau?
+
+Mercadet
+What Godeau? Which Godeau?
+
+Minard
+Why the Godeau who has come back from the Indies.
+
+Mercadet
+From the Indies?
+
+Violette
+And who is paying all your debts.
+
+Mercadet
+What is this? I never expected to strike a Godeau of this kind.
+
+Pierquin
+He has gone crazy!
+
+(All the other creditors gather at the back of the stage. Verdelin
+approaches them, and speaks in a low voice.)
+
+Verdelin (returning to Mercadet)
+It's true enough! All are paid in full!
+
+Mercadet
+Paid? Every one of them? (Goes from one to the other and looks at the
+bank-notes and the drafts they have.) Yes, all settled with--settled
+in full! Ah! I see blue, red, violet! A rainbow seems to surround me.
+
+
+
+ SCENE FOURTEENTH
+
+
+The same persons, Mme. Mercadet, Julie (entering at one side) and De
+la Brive (entering at the other side).
+
+
+Mme. Mercadet
+My friend, M. Godeau, feels himself strong enough to see you all.
+
+Mercadet
+Come, daughter, wife, Adolphe, and my other friends, gather round me,
+look at me. I know you would not deceive me.
+
+Julie
+What is the matter, father?
+
+Mercadet
+Tell me (seeing De la Brive come in) Michonnin, tell me frankly--
+
+De la Brive
+Luckily for me, sir, I followed the advice of madame--otherwise you
+would have had two Godeaus at a time, for heaven has brought back to
+you the genuine man.
+
+Mercadet
+You mean to say then--that he has really returned!
+
+Verdelin
+Do you mean to say that you didn't know it after all?
+
+Mercadet (recovering himself, standing before the table and touching
+the notes)
+I--of course I did. Oh, fortune, all hail to thee, queen of monarchs,
+archduchess of loans, princess of stocks and mother of credit! All
+hail! Thou long sought for, and now for the thousandth time come home
+to us from the Indies! Oh! I've always said that Godeau had a mind of
+tireless energy and an honest heart! (Going up to his wife and
+daughter) Kiss me!
+
+Mme. Mercadet (in tears)
+Ah! dear, dear husband!
+
+Mercadet (supporting her)
+And you, what courage you have shown in adversity!
+
+Mme. Mercadet
+But I am overcome by the happiness of seeing you saved--wealthy!
+
+Mercadet
+But honest! And yet I must tell you my wife, my children--I could not
+have held out much longer--I was about to succumb--my mind always on
+the rack--always on the defensive--a giant might have yielded. There
+were moments when I longed to flee away-- Oh! For some place of
+repose! Henceforth let us live in the country.
+
+Mme. Mercadet
+But you will soon grow weary of it.
+
+Mercadet
+No, for I shall be a witness in their happiness. (Pointing to Minard
+and Julie.) And after all this financial traffic I shall devote myself
+to agriculture; the study of agriculture will never prove tedious. (To
+the creditors) Gentlemen, we will continue to be good friends, but
+will have no more business transactions. (To De la Brive) M. de la
+Brive, let me pay back to you your forty-eight thousand francs.
+
+De la Brive
+Ah! sir--
+
+Mercadet
+And I will lend you ten thousand more.
+
+De la Brive
+Ten thousand francs? But I don't know when I shall be able--
+
+Mercadet
+You need have no scruples; take them--for I have a scheme--
+
+De la Brive
+I accept them.
+
+Mercadet
+Ah! It is one of my dreams. Gentlemen (to the creditors who are
+standing in a row) I am a--creditor!
+
+Mme. Mercadet (pointing to the door)
+My dear, he is waiting for us.
+
+Mercadet
+Yes, let us go in. I have so many times drawn your attention to
+Godeau, that I certainly have the right to see him. Let us go in and
+see Godeau!
+
+
+
+Final curtain.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Mercadet, by Honore De Balzac
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MERCADET ***
+
+***** This file should be named 14296.txt or 14296.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/1/4/2/9/14296/
+
+Produced by Dagny; and John Bickers
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
diff --git a/old/14296.zip b/old/14296.zip
new file mode 100644
index 0000000..a90878a
--- /dev/null
+++ b/old/14296.zip
Binary files differ
diff --git a/old/old/14246.20041203.txt b/old/old/14246.20041203.txt
new file mode 100644
index 0000000..b61d7a5
--- /dev/null
+++ b/old/old/14246.20041203.txt
@@ -0,0 +1,5399 @@
+The Project Gutenberg EBook of Mercadet, by Honore De Balzac
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.net
+
+
+Title: Mercadet
+ A Comedy In Three Acts
+
+Author: Honore De Balzac
+
+Release Date: December 3, 2004 [EBook #14246]
+
+Language: English
+
+Character set encoding: ASCII
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MERCADET ***
+
+
+
+
+Produced by Dagny and John Bickers
+
+
+
+
+
+ MERCADET
+ A COMEDY IN THREE ACTS
+
+ BY
+
+ HONORE DE BALZAC
+
+
+
+ Presented for the First Time in Paris
+ At the Theatre du Gymnase-Dramatique
+ August 24, 1851
+
+
+
+ PERSONS OF THE PLAY
+
+Mercadet, a speculator
+Madame Mercadet, his wife
+Julie, their daughter
+Minard, clerk of Mercadet
+Verdelin, friend of Mercadet
+Goulard, creditor of Mercadet
+Pierquin, creditor of Mercadet
+Violette, creditor of Mercadet
+Mericourt, acquaintance of Mercadet
+De la Brive, suitor to Julie
+Justin, valet
+Therese, lady's maid
+Virginie, cook
+Various other creditors of Mercadet
+
+
+
+SCENE: Paris, in the house of Mercadet
+
+TIME: About 1845
+
+
+
+
+
+ MERCADET
+
+
+
+
+ ACT I
+
+
+
+ SCENE FIRST
+
+
+(A drawing-room. A door in the centre. Side doors. At the front, to
+the left, a mantel-piece with a mirror. To the right, a window, and
+next it a writing-table. Armchairs.)
+
+Justin, Virginie and Therese
+
+
+Justin (finishing dusting the room)
+Yes, my dears, he finds it very hard to swim; he is certain to drown,
+poor M. Mercadet.
+
+Virginie (her basket on her arm)
+Honestly, do you think that?
+
+Justin
+He is ruined! And although there is much fat to be stewed from a
+master while he is financially embarrassed, you must not forget that
+he owes us a year's wages, and we had better get ourselves discharged.
+
+Therese
+Some masters are so frightfully stubborn! I spoke to the mistress
+disrespectfully two or three times, and she pretended not to hear me.
+
+Virginie
+Ah! I have been at service in many middle-class houses; but I have
+never seen one like this! I am going to leave my stove, and become an
+actress in some theatre.
+
+Justin
+All of us here are nothing but actors in a theatre.
+
+Virginie
+Yes, indeed, sometimes one has to put on an air of astonishment, as if
+just fallen from the moon, when a creditor appears: "Didn't you know
+it, sir?"--"No."--"M. Mercadet has gone to Lyons."--"Ah! He is away?"
+--"Yes, his prospects are most brilliant; he has discovered some coal-
+mines."--"Ah! So much the better! When does he return?"--"I do not
+know." Sometimes I put on an expression as if I had lost the dearest
+friend I had in the world.
+
+Justin (aside)
+That would be her money.
+
+Virginie (pretending to cry)
+"Monsieur and mademoiselle are in the greatest distress. It seems that
+we are going to lose poor Madame Mercadet. They have taken her away to
+the waters! Ah!"
+
+Therese
+And then, there are some creditors who are actual brutes! They speak
+to you as if you were the masters!
+
+Virginie
+There's an end of it. I ask them for their bill and tell them I am
+going to settle. But now, the tradesmen refuse to give anything
+without the money! And you may be sure that I am not going to lend any
+of mine.
+
+Justin
+Let us demand our wages.
+
+Virginie and Therese
+Yes, let us demand our wages.
+
+Virginie
+Who are middle-class people? Middle-class people are those who spend a
+great deal on their kitchen--
+
+Justin
+Who are devoted to their servants--
+
+Virginie
+And who leave them a pension. That is how middle-class people ought to
+behave to their servants.
+
+Therese
+The lady of Picardy speaks well. But all the same, I pity mademoiselle
+and young Minard, her suitor.
+
+Justin
+M. Mercadet is not going to give his daughter to a miserable
+bookkeeper who earns no more than eighteen hundred francs a year; he
+has better views for her than that.
+
+Therese and Virginie
+Who is the man he thinks of?
+
+Justin
+Yesterday two fine young gentlemen came here in a carriage, and their
+groom told old Gruneau that one of them was going to marry Mlle.
+Mercadet.
+
+Virginie
+You don't mean to say so! Are those gentlemen in yellow gloves, with
+fine flowered waistcoats, going to marry mademoiselle?
+
+Justin
+Not both of them, lady of Picardy.
+
+Virginie
+The panels of their carriage shone like satin. Their horse had
+rosettes here. (She points to her ears.) It was held by a boy of
+eight, fair, with frizzed hair and top boots. He looked as sly as a
+mouse--a very Cupid, though he swore like a trooper. His master is as
+fine as a picture, with a big diamond in his scarf. It ain't possible
+that a handsome young man who owns such a turnout as that is going to
+be the husband of Mlle. Mercadet? I can't believe it.
+
+Justin
+You don't know M. Mercadet! I, who have been in his house for the last
+six years, and have seen him since his troubles fighting with his
+creditors, can believe him capable of anything, even of growing rich;
+sometimes I say to myself he is utterly ruined! Yellow auction
+placards flame at his door. He receives reams of stamped creditor's
+notices, which I sell by the pound for waste paper without being
+noticed. But presto! Up he bobs again. He is triumphant. And what
+devices he has! There is a new one every day! First of all, it is a
+scheme for wooden pavements--then it is dukedoms, ponds, mills. I
+don't know where the leakage is in his cash box; he finds it so hard
+to fill; for it empties itself as easily as a drained wine-glass! And
+always crowds of creditors! How well he turns them away! Sometimes I
+have seen them come with the intention of carrying off everything and
+throwing him into prison. But when he talks to them they end by being
+the best of friends, and part with cordial handshakes! There are some
+men who can tame jackals and lions. That's not a circumstance; M.
+Mercadet can tame creditors!
+
+Therese
+One of them is not quite so easily managed; and that is M. Pierquin.
+
+Justin
+He is a tiger who feeds on bankrupts. And to think of poor old
+Violette!
+
+Virginie
+He is both creditor and beggar--I always feel inclined to give him a
+plate of soup.
+
+Justin
+And Goulard!
+
+Therese
+A bill discounter who would like very much to--to discount me.
+
+Virginie (amid a general laugh)
+I hear madame coming.
+
+Justin
+Let us keep a civil tongue in our heads, and we shall learn something
+about the marriage.
+
+
+
+ SCENE SECOND
+
+
+The same persons and Mme. Mercadet.
+
+
+Mme. Mercadet
+Justin, have you executed the commissions I gave you?
+
+Justin
+Yes, madame, but they refused to deliver the dresses, the hats, and
+indeed all the things you ordered until--
+
+Virginie
+And I also have to inform madame that the tradesmen are no longer
+willing--
+
+Mme. Mercadet
+I understand.
+
+Justin
+The creditors are the cause of the whole trouble. I wish I knew how to
+get even with them.
+
+Mme. Mercadet
+The best way to do so would be to pay them.
+
+Justin
+They would be mightily surprised.
+
+Mme. Mercadet
+It is useless to conceal from you the excessive anxiety which I suffer
+over the condition of my husband's affairs. We shall doubtless be in
+need of your discretion--for we can depend upon you, can we not?
+
+All
+You need not mention it, madame.
+
+Virginie
+We were just saying, what excellent employers we had.
+
+Therese
+And that we would go through fire and water for you!
+
+Justin
+We were saying--
+
+(Mercadet appears unnoticed.)
+
+Mme. Mercadet
+Thank you all, you are good creatures. (Mercadet shrugs his
+shoulders.) Your master needs only time, he has so many schemes in his
+head!--a rich suitor has offered himself for Mlle. Julie, and if--
+
+
+
+ SCENE THIRD
+
+
+The same persons and Mercadet.
+
+
+Mercadet (interrupting his wife)
+My dearest! (The servants draw back a little. In a low voice to
+madame) And so this is how you speak to the servants! To-morrow they
+laugh at us. (To Justin) Justin, go at once to M. Verdelin's house,
+and ask him to come here, as I want to speak to him about a piece of
+business that will not admit of delay. Assume an air of mystery, for I
+must have him come. You, Therese, go to the tradesmen of Madame de
+Mercadet, and tell them, sharply, that they must send the things that
+have been ordered.--They will be paid for--yes--and cash, too--go at
+once. (Justin and Therese start.) Ah!--(They stop.) If--these people
+come to the house again, ask them to enter. (Mme. Mercadet takes a
+seat.)
+
+Justin
+These--these people?--
+
+Therese and Virginie
+These people? Eh!
+
+Mercadet
+Yes, these people--these creditors of mine!--
+
+Mme. Mercadet
+How is this, my dear?
+
+Mercadet (taking a seat opposite his wife)
+I am weary of solitude--I want their society. (To Justin and Therese)
+That will do.
+
+(Justin and Therese leave the room.)
+
+
+
+ SCENE FOURTH
+
+
+Mercadet, Mme. Mercadet and Virginie.
+
+
+Mercadet (to Virginie)
+Has madame given you any orders?
+
+Virginie
+No, sir, and besides the tradespeople--
+
+Mercadet
+I hope you will do yourself credit to-day. We are going to have four
+people to dinner--Verdelin and his wife, M. de Mericourt and M. de la
+Brive--so there will be seven of us. Such dinners are the glory of
+great cooks! You must have a fine fish after the soup, then two
+entrees, very delicately cooked--
+
+Virginie
+But, sir, the trades--
+
+Mercadet
+For the second course--ah, the second course ought to be at once rich
+and brilliant, yet solid. The second course--
+
+Virginie
+But the tradespeople--
+
+Mercadet
+Nonsense! You annoy me--To talk about tradespeople on the day when my
+daughter and her intended are to meet!
+
+Virginie
+They won't supply anything.
+
+Mercadet
+What have we got to do with tradespeople that won't take our trade? We
+must get others. You must go to their competitors, you must give them
+my custom, and they will tip you for it.
+
+Virginie
+And how shall I pay those that I am giving up?
+
+Mercadet
+Don't worry yourself about that,--it is my business.
+
+Virginie
+But if they ask me to pay them--
+
+Mercadet (aside, rising to his feet)
+That girl has money of her own. (Aloud) Virginie, in these days,
+credit is the sole wealth of the government. My tradespeople
+misunderstand the laws of their country, they will show themselves
+unconstitutional and utter radicals, unless they leave me alone.--
+Don't you trouble your head about people who raise an insurrection
+against the vital principles of all rightly constituted states! What
+you have got to attend to, is dinner,--that is your duty, and I hope
+that on this occasion you will show yourself to be what you are, a
+first-class cook! And if Mme. Mercadet, when she settles with you on
+the day after my daughter's wedding, finds that she owes you anything,
+I will hold myself liable for it all.
+
+Virginie (hesitating)
+Sir--
+
+Mercadet
+Now go about your business. I give you here an opportunity of gaining
+an interest of ten per cent every six months!--and that is better than
+the savings banks will do for you.
+
+Virginie
+That it is; they only give four per cent a year!
+
+Mercadet (whispering to his wife)
+What did I tell you!--(To Virginie) How can you run the risk of
+putting your money into the hands of strangers--You are quite clever
+enough to invest it yourself, and here your little nest-egg will
+remain in your own possession.
+
+Virginie
+Ten per cent every six months!--I suppose that madame will give me the
+particulars with regard to the second course. I must start to work on
+it. (Exit.)
+
+
+
+ SCENE FIFTH
+
+
+Mercadet and Mme. Mercadet
+
+
+Mercadet (watching Virginie as she goes out)
+That girl has a thousand crowns of our good money in the savings bank,
+so that we needn't worry about the kitchen for awhile.
+
+Mme. Mercadet
+Ah! sir, how can you stoop to such a thing as this?
+
+Mercadet
+Madame, these are mere petty details; don't bother about the means to
+an end. You, a little time ago, were trying to control your servants
+by kindness, but it is necessary to command and compel them, and to do
+it briefly, like Napoleon.
+
+Mme. Mercadet
+How can you order them when you don't pay them?
+
+Mercadet
+You must pay them by a bluff.
+
+Mme. Mercadet
+Sometimes you can obtain by affection what is not attainable by--
+
+Mercadet
+By affection! Ah! Little do you know the age in which we live--To-day,
+madame, wealth is everything, family is nothing; there are no
+families, but only individuals! The future of each one is to be
+determined by the public funds. A young girl when she needs a dowry no
+longer appeals to her family, but to a syndicate. The income of the
+King of England comes from an insurance company. The wife depends for
+funds, not upon her husband, but upon the savings bank!--Debts are
+paid, not to creditors, but to the country, through an agency, which
+manages a sort of slave-trade in white people! All our duties are
+arranged by coupons--The servants which we exchange for them are no
+longer attached to their masters, but if you hold their money they
+will be devoted to you.
+
+Mme. Mercadet
+Oh, sir, you who are so honorable, so upright, sometimes say things to
+me which--
+
+Mercadet
+And what is said may also be done, that is what you mean, isn't it?
+Undoubtedly I would do anything to save myself, for (he pulls out a
+five-franc piece) this represents modern honor. Do you know why the
+dramas that have criminals for their heroes are so popular? It is
+because all the audience flatter themselves and say, "at any rate, I
+am much better than that fellow!"
+
+Mme. Mercadet
+My dear!
+
+Mercadet
+For my part I have an excuse, for I am bearing the burden of my
+partner's crime--of that fellow Godeau, who absconded, carrying with
+him the cash box of our house!--And besides that, what disgrace is it
+to be in debt? What man is there who does not owe his father his
+existence? He can never repay that debt. The earth is constantly
+bankrupt to the sun. Life, madame, is a perpetual loan! Am I not
+superior to my creditors? I have their money, when they can only
+expect mine. I do not ask anything of them, and yet they are
+constantly importuning me.--A man who does not owe anything is not
+thought about by any one, while my creditors take a keen interest in
+me.
+
+Mme. Mercadet
+They take rather too much! To owe and to pay is well enough--but to
+borrow without any prospect of returning--
+
+Mercadet
+You feel a great deal of compassion for my creditors, but our
+indebtedness to them springs from--
+
+Mme. Mercadet
+Their confidence in us, sir.
+
+Mercadet
+No, but from their greed of gain! The speculator and the broker are
+one and the same--each of them aims at sudden wealth. I have done a
+favor to all my creditors, and they all expect to get something out of
+me! I should be most unhappy but for the secret consciousness I have
+that they are selfish and avaricious--so that you will see in a few
+moments how I will make each of them play out his little comedy. (He
+sits down.)
+
+Mme. Mercadet
+You have actually ordered them to be admitted?
+
+Mercadet
+That I may meet them as I ought to!--(taking her hand.) I am at the
+end of my resources; the time has come for a master-stroke, and Julie
+must come to our assistance.
+
+Mme. Mercadet
+What, my daughter!
+
+Mercadet
+My creditors are pressing me, and harassing me. I must manage to make
+a brilliant match for Julie. This will dazzle them; they will give me
+more time. But in order that this brilliant marriage may take place,
+these gentlemen must give me more money.
+
+Mme. Mercadet
+They give you more money!
+
+Mercadet
+Isn't there need of it for the dresses which they are sending to you,
+and for the trousseau which I am giving? And a suitable trousseau to
+go with the dowry of two hundred thousand francs, will cost fifteen
+thousand.
+
+Mme. Mercadet
+But you are utterly unable to give such a dowry.
+
+Mercadet (rising)
+All the more reason why I should give the trousseau. Now this is what
+we stand in need of: twelve or fifteen thousand francs for the
+trousseau, and a thousand crowns to pay the tradesmen and to prevent
+any appearance of straitened circumstances in our house, when M. de la
+Brive arrives.
+
+Mme. Mercadet
+How can you count on your creditors for that?
+
+Mercadet
+Don't they now belong to the family? Can you find any relation who is
+as anxious as they are to see me wealthy and rich? Relations are
+always a little envious of the happiness of the wealth which comes to
+us; the creditor's joy alone is sincere. If I were to die, I should
+have at my funeral more creditors than relations, and while the latter
+carried their mourning in their hearts or on their heads, the former
+would carry it in their ledgers and purses. It is here that my
+departure would leave a genuine void! The heart forgets, and crape
+disappears at the end of a year, but the account which is unpaid is
+ineffaceable, and the void remains eternally unfilled.
+
+Mme. Mercadet
+My dear, I know the people to whom you are indebted, and I am quite
+certain that you will obtain nothing from them.
+
+Mercadet
+I shall obtain both time and money from them, rest assured of that.
+(Mme. Mercadet is perturbed.) Don't you see, my dear, that creditors
+when once they have opened their purses are like gamblers who continue
+to stake their money in order to recover their first losses? (Growing
+excited.) Yes! they are inexhaustible gold mines! If a man has no
+father to leave him a fortune, he finds his creditors are so many
+indefatigable uncles.
+
+Justin (entering)
+M. Goulard wishes to know if it is true that you desire to see him?
+
+Mercadet (to his wife)
+My message astounded him. (To Justin) Beg him to come in. (Justin goes
+out.) Goulard! The most intractable of them all!--who has three
+bailiffs in his employ. But fortunately he is a greedy though timid
+speculator who engages in the most risky affairs and trembles all the
+time they are being conducted.
+
+Justin (announcing)
+M. Goulard!
+
+(Exit Justin.)
+
+
+
+ SCENE SIXTH
+
+
+The same persons and Goulard.
+
+
+Goulard (in anger)
+Ah! you can be found, sir, when you want to be!
+
+Mme. Mercadet (aside to her husband)
+My dear, how angry he seems!
+
+Mercadet (making a sign that she should be calm)
+This is one of my creditors, my dear.
+
+Goulard
+Yes, and I sha'n't leave this house until you pay me.
+
+Mercadet (aside)
+You sha'n't leave this house until you give me some money--(Aloud) Ah!
+you have persecuted me most unkindly--me, a man with whom you have had
+such extensive dealings!
+
+Goulard
+Dealings which have not always been to my advantage.
+
+Mercadet
+All the more credit to you, for if advantage were the sole results of
+business, everybody would become a money-lender.
+
+Goulard
+I hope you haven't asked me to come here, in order to show me how
+clever you are! I know that you are cleverer than I am, for you have
+got over me in money matters.
+
+Mercadet
+Well, money matters have some importance. (To his wife) Yes, yes, you
+see in this man one who has hunted me as if I were a hare. Come, come,
+Goulard, admit it, you have behaved badly. Anybody but myself would
+have taken vengeance on you--for of course I could cause you to lose a
+considerable sum of money.
+
+Goulard
+So you could, if you didn't pay me; but you shall pay me--your
+obligations are now in the hands of the law.
+
+Mme. Mercadet
+Of the law?
+
+Mercadet
+Of the law! You are losing your senses, you don't know what you are
+doing, you are ruining us both--yourself and me--at the same time.
+
+Goulard (anxiously)
+How?--You--that of course is possible--but--but--me?
+
+Mercadet
+Both of us, I tell you! Quick, sit down there--write--write--!
+
+Goulard (mechanically taking his pen)
+Write--write what?
+
+Mercadet
+Write to Delannoy that he must make them stay the proceedings, and
+give me the thousand crowns which I absolutely need.
+
+Goulard (throwing down the pen)
+That is very likely, indeed!
+
+Mercadet
+You hesitate, and, when I am on the eve of marrying my daughter to a
+man immensely wealthy--that is the time you choose to cause my arrest.
+And by that means you are killing both your capital and interest!
+
+Goulard
+Ah! you are going to marry your daughter--
+
+Mercadet
+To the Comte de la Brive; he possesses as many thousand francs as he
+is years old!
+
+Goulard
+Then if he is up in years, there is reason for giving you some delay.
+But the thousand crowns--the thousand crowns--never.--I am quite
+decided on that point. I will give you nothing, neither delay nor--I
+must go now--
+
+Mercadet (with energy)
+Very well! You can go if you like, you ungrateful fellow!--But don't
+forget that I have done my best to save you.
+
+Goulard (turning back)
+Me?--To save me--from what?
+
+Mercadet (aside)
+I have him now. (Aloud) From what?--From the most complete ruin.
+
+Goulard
+Ruin? It is impossible.
+
+Mercadet (taking a seat)
+What is the matter with you? You, a man of intelligence, of ability--a
+strong man, and yet you cause me all this trouble! You came here and I
+felt absolutely enraged against you--not because I was your friend, I
+confess it, but through selfishness. I look upon our interests as
+identical. I said to myself: I owe him so much that he is sure to give
+me his assistance when I have such a grand chance--like the one at
+this moment! And you are going to let out the whole business and to
+lose everything for the sake of a paltry sum! Everything! You are
+perhaps right in refusing me the thousand crowns--It is better,
+perhaps, to bury them in your coffers with the rest. All right! Send
+me to prison! Then, when all is gone, you'll have to look somewhere
+else for a friend!
+
+Goulard (in a tone of self-reproach)
+Mercadet!--my dear Mercadet!--But is it actually true?
+
+Mercadet (rising from his seat)
+Is it true? (to his wife) You would not believe he was so stupid. (To
+Goulard) She has ended by becoming a daring speculator. (To his wife)
+I may tell you, my dear, that Goulard is going to invest a large sum
+in our great enterprise.
+
+Mme. Mercadet (ashamed)
+Sir!
+
+Mercadet
+What a misfortune it will be if it does not turn out well.
+
+Goulard
+Mercadet!--Are you talking about the Basse-Indre mines?
+
+Mercadet
+Of course I am. (Aside) Ah! You have some of the Basse-Indre stock, I
+see.
+
+Goulard
+But the investment seems to me first-class.
+
+Mercadet
+First-class--Yes, for those who sold out yesterday.
+
+Goulard
+Have any stockholders sold out?
+
+Mercadet
+Yes, privately.
+
+Goulard
+Good-bye. Thanks, Mercadet; madame, accept my respects.
+
+Mercadet (stopping him)
+Goulard!
+
+Goulard
+Eh?
+
+Mercadet
+What about this note to Delannoy?
+
+Goulard
+I will speak to him about the postponement--
+
+Mercadet
+No; write to him; and in the meantime I will find some one who will
+buy your stock.
+
+Goulard (sitting down)
+All my Basse-Indre? (He takes up a pen.)
+
+Mercadet (aside)
+Here you see the honest man, ever ready to rob his neighbor. (Aloud)
+Very well, write--ordering a postponement of three months.
+
+Goulard (writing)
+Three months! There you have it.
+
+Mercadet
+The man I allude to, who buys in secret for fear of causing a rise,
+wants to get three hundred shares; do you happen to have three
+hundred?
+
+Goulard
+I have three hundred and fifty.
+
+Mercadet
+Fifty more! Never mind! He'll take them all. (Examining what Goulard
+has written.) Have you mentioned the thousand crowns?
+
+Goulard
+And what is your friend's name?
+
+Mercadet
+His name? You haven't mentioned?--
+
+Goulard
+His name!
+
+Mercadet
+The thousand crowns.
+
+Goulard
+What a devil of a man he is! (He writes.) There, you have it!
+
+Mercadet
+His name is Pierquin.
+
+Goulard (rising)
+Pierquin.
+
+Mercadet
+He at least is the nominal buyer.--Go to your house and I will send
+him to you; it is never a good thing to run after a purchaser.
+
+Goulard
+Never!--You have saved my life. Good-bye, my friend. Madame, accept my
+prayers for the happiness of your daughter. (Exit.)
+
+Mercadet
+One of them captured! Now watch me get the others!
+
+
+
+ SCENE SEVENTH
+
+
+Mme. Mercadet, Mercadet, then Julie.
+
+
+Mme. Mercadet
+Is there any truth in what you just now said? I could not quite follow
+you.
+
+Mercadet
+It is to the interest of my friend Verdelin to cause a panic in Basse-
+Indre stock; this stock has been for a long time very risky and has
+suddenly become of first-class value, through the discovery of certain
+beds of mineral, which are known only to those on the inside.--Ah! If
+I could but invest a thousand crowns in it my fortune would be made.
+But, of course, our main object at present is the marriage of Julie.
+
+Mme. Mercadet
+You are well acquainted with M. de la Brive, are you not?
+
+Mercadet
+I have dined with him. He has a charming apartment, fine plate, a
+silver dessert service, bearing his arms, so that it could not have
+been borrowed. Our daughter is going to make a fine match, and he--
+when either one of a married couple is happy, it is all right.
+
+(Julie enters.)
+
+Mme. Mercadet
+Here comes our daughter. Julie, your father and I have something to
+say to you on a subject which is always agreeable to a young girl.
+
+Julie
+M. Minard has then spoken to you, father?
+
+Mercadet
+M. Minard! Did you expect, madame, to find a M. Minard reigning in the
+heart of your daughter? Is not this M. Minard that under clerk of
+mine?
+
+Julie
+Yes, papa.
+
+Mercadet
+Do you love him?
+
+Julie
+Yes, papa.
+
+Mercadet
+But besides loving, it is necessary for a person to be loved.
+
+Mme. Mercadet
+Does he love you?
+
+Julie
+Yes, mamma!
+
+Mercadet
+Yes, papa; yes, mamma; why don't you say mammy and daddy?--As soon as
+daughters have passed their majority they begin to talk as if they
+were just weaned. Be polite enough to address your mother as madame.
+
+Julie
+Yes, monsieur.
+
+Mercadet
+Oh! you may address me as papa. I sha'n't be annoyed at that. What
+proof have you that he loves you?
+
+Julie
+The best proof of all; he wishes to marry me.
+
+Mercadet
+It is quite true, as has been said, that young girls, like little
+children, have answers ready enough to knock one silly. Let me tell
+you, mademoiselle, that a clerk with a salary of eighteen hundred
+francs does not know how to love. He hasn't got the time, he has to
+work too hard--
+
+Mme. Mercadet
+But, unhappy child--
+
+Mercadet
+Ah! A lucky thought strikes me! Let me talk to her. Julie, listen to
+me. I will marry you to Minard. (Julie smiles with delight.) Now, look
+here, you haven't got a single sou, and you know it; what is going to
+become of you a week after your marriage? Have you thought about that?
+
+Julie
+Yes, papa--
+
+Mme. Mercadet (with sympathy, to her husband)
+The poor child is mad.
+
+Mercadet
+Yes, she is in love. (To Julie) Tell me all about it, Julie. I am not
+now your father, but your confidant; I am listening.
+
+Julie
+After our marriage we will still love each other.
+
+Mercadet
+But will Cupid shoot you bank coupons at the end of his arrows?
+
+Julie
+Father, we shall lodge in a small apartment, at the extremity of the
+Faubourg, on the fourth story, if necessary!--And if it can't be
+helped, I will be his house-maid. Oh! I will take an immense delight
+in the care of the household, for I shall know that it will all be
+done for him. I will work for him, while he is working for me. I will
+spare him every anxiety, and he will never know how straitened we are.
+Our home will be spotlessly clean, even elegant--You shall see!
+Elegance depends upon such little things; it springs from the soul,
+and happiness is at once the cause and the effect of it. I can earn
+enough from my painting to cost him nothing and even to contribute to
+the expenses of our living. Moreover, love will help us to pass
+through the days of hardship. Adolphe has ambition, like all those who
+are of lofty soul, and these are the successful men--
+
+Mercadet
+Success is within reach of the bachelor, but, when a man is married,
+he exhausts himself in meeting his expenses, and runs after a thousand
+franc bill as a dog runs after a carriage.
+
+Julie
+But, papa, Adolphe has strength of will, united with such capacity
+that I feel sure I shall see him some day a Minister, perhaps--
+
+Mercadet
+In these days, who is there that does not indulge more or less the
+hope of being a minister? When a man leaves college he thinks himself
+a great poet, or a great orator! Do you know what your Adolphe will
+really become?--Why, the father of several children, who will utterly
+disarrange your plans of work and economy, who will end by landing his
+excellency in the debtor's prison, and who will plunge you into the
+most frightful poverty. What you have related to me is the romance and
+not the reality of life.
+
+Mme. Mercadet
+Daughter, there can be nothing serious in this love of yours.
+
+Julie
+It is a love to which both of us are willing to sacrifice everything.
+
+Mercadet
+I suppose that your friend Adolphe thinks that we are rich?
+
+Julie
+He has never spoken to me about money.
+
+Mercadet
+Just so. I can quite understand it. (To Julie) Julie, write to him at
+once, telling him to come to me.
+
+Julie (kissing him)
+Dear papa!
+
+Mercadet
+And you must marry M. de la Brive. Instead of living on a fourth floor
+in a suburb, you will have a fine house in the Chaussee-d'Antin, and,
+if you are not the wife of a Minister, you perhaps will be the wife of
+a peer of France. I am sorry, my daughter, that I have no more to
+offer you. Remember, you can have no choice in the matter, for M.
+Minard is going to give you up.
+
+Julie
+Oh! he will never do that, papa. He will win your heart--
+
+Mme. Mercadet
+My dear, suppose he loves her?
+
+Mercadet
+He is deceiving her--
+
+Julie
+I shouldn't mind being always deceived in that way.
+
+(A bell is heard without.)
+
+Mme. Mercadet
+Some one is ringing, and we have no one to open the door.
+
+Mercadet
+That is all right. Let them ring.
+
+Mme. Mercadet
+I am all the time thinking that Godeau may return.
+
+Mercadet
+After eight years without any news, you are still expecting Godeau!
+You seem to me like those old soldiers who are waiting for the return
+of Napoleon.
+
+Mme. Mercadet
+They are ringing again.
+
+Mercadet
+Julie, go and see who it is, and tell them that your mother and I have
+gone out. If any one is shameless enough to disbelieve a young girl--
+it must be a creditor--let him come in.
+
+(Exit Julie.)
+
+Mme. Mercadet
+This love she speaks of, and which, at least on her side, is sincere,
+disturbs me greatly.
+
+Mercadet
+You women are all too romantic.
+
+Julie (returning)
+It is M. Pierquin, papa.
+
+Mercadet
+A creditor and usurer--a vile and violent soul, who humors me because
+he thinks me a man of resources; a wild beast only half-tamed yet
+cowed by my audacity. If I showed fear he would devour me. (Going to
+the door.) Come in, Pierquin, come in.
+
+
+
+ SCENE EIGHTH
+
+
+The same persons and Pierquin.
+
+
+Pierquin
+My congratulations to you all. I hear that you are making a grand
+marriage for your daughter. Mademoiselle is to marry a millionaire;
+the report has already gone abroad.
+
+Mercadet
+A millionaire?--No, he has only nine hundred thousand francs, at the
+most.
+
+Pierquin
+This magnificent prospect will induce a lot of people to give you
+time. They are becoming devilishly tired of your talk about Godeau's
+return. And I myself--
+
+Mercadet
+Were you thinking about having me arrested?
+
+Julie
+Arrested!
+
+Mme. Mercadet (to Pierquin)
+Ah! sir.
+
+Pierquin
+Now listen to me, you have had two years, and I never before let a
+bond go over so long; but this marriage is a glorious invention and--
+
+Mme. Mercadet
+An invention!
+
+Mercadet
+Sir, my future son-in-law, M. de la Brive, is a young man--
+
+Pierquin
+So that there is a real young man in the case? How much are you going
+to pay the young man?
+
+Mme. Mercadet
+Oh!
+
+Mercadet (checking his wife by a sign)
+No more of this insolence! Otherwise, my dear sir, I shall be forced
+to demand a settlement of our accounts--and, my dear M. Pierquin, you
+will lose a good deal of the price at which you sold your money to me.
+And at the rate of interest you charge, I shall cost you more than the
+value of a farm in Bauce.
+
+Pierquin
+Sir--
+
+Mercadet (haughtily)
+Sir, I shall soon be so rich that I will not endure to be twitted by
+any one--not even by a creditor.
+
+Pierquin
+But--
+
+Mercadet
+Not a word--or I will pay you! Come into my private room and we will
+settle the business about which I asked you to come.
+
+Pierquin
+I am at your service, sir. (Aside) What a devil of a man!
+
+(Pierquin and Mercadet bow to the ladies and enter Mercadet's room.)
+
+Mercadet (following Pierquin; aside to his wife)
+The wild beast is tamed. I'll get this one, too.
+
+
+
+ SCENE NINTH
+
+
+Mme. Mercadet, Julie, and later, Servants.
+
+
+Julie
+O mamma! I cannot marry this M. de la Brive!
+
+Mme. Mercadet
+But he is rich, you know.
+
+Julie
+But I prefer happiness and poverty, to unhappiness and wealth.
+
+Mme. Mercadet
+My child, happiness is impossible in poverty, while there is no
+misfortune that wealth cannot alleviate.
+
+Julie
+How can you say such sad words to me?
+
+Mme. Mercadet
+Children should learn a lesson from the experience of parents. We are
+at present having a very bitter taste of life's vicissitudes. Take my
+advice, daughter, and marry wealth.
+
+Justin (entering, followed by Therese and Virginie)
+Madame, we have carried out the master's orders.
+
+Virginie
+My dinner will be ready.
+
+Therese
+And the tradesmen have consented.
+
+Justin
+As far as concerns M. Verdelin--
+
+
+
+ SCENE TENTH
+
+
+The same persons and Mercadet (carrying a bundle of papers).
+
+
+Mercadet
+What did my friend Verdelin say?
+
+Justin
+He will be here in a moment. He was just on his way here to bring some
+money to M. Bredif, the owner of this house.
+
+Mercadet
+Bredif is a millionaire. Take care that Verdelin speaks to me before
+going up to him. How did you get on, Therese, with the milliners and
+dressmakers?
+
+Therese
+Sir, as soon as I gave them a promise of payment, every one greeted me
+with smiles.
+
+Mercadet
+Very good. And shall we have a fine dinner, Virginie?
+
+Virginie
+You will compliment it, sir, when you eat it.
+
+Mercadet
+And the tradespeople?
+
+Virginie
+They will wait your time.
+
+Mercadet
+I shall settle with you all to-morrow. You can go now. (They go out.)
+A man who has his servants with him is like a minister who has the
+press on his side!
+
+Mme. Mercadet
+And what of Pierquin?
+
+Mercadet (showing the papers)
+All that I could extort from him is as follows.--He will give me time,
+and this negotiable paper in exchange for stock.--Also notes for
+forty-seven thousand francs, to be collected from a man named
+Michonnin, a gentleman broker, not considered very solvent, who may be
+a crook but has a very rich aunt at Bordeaux; M. de la Brive is from
+that district and I can learn from him if there is anything to be got
+out of it.
+
+Mme. Mercadet
+But the tradesmen will soon arrive.
+
+Mercadet
+I shall be here to receive them. Now leave me, leave me, my dears.
+
+(Exeunt the two ladies.)
+
+
+
+ SCENE ELEVENTH
+
+
+Mercadet, then Violette.
+
+
+Mercadet (walking up and down)
+Yes, they will soon be here! And everything depends upon that somewhat
+slippery friendship of Verdelin--a man whose fortune I made! Ah! when
+a man has passed forty he learns that the world is peopled by the
+ungrateful--I do not know where all the benefactors have gone to.
+Verdelin and I have a high opinion of each other. He owes me
+gratitude, I owe him money, and neither of us pays the other. And now,
+in order to arrange the marriage of Julie, my business is to find a
+thousand crowns in a pocket which pretends to be empty--to find
+entrance into a heart in order to find entrance into a cash-box! What
+an undertaking! Only women can do such things, and with men who are in
+love with them.
+
+Justin (without)
+Yes, he is in.
+
+Mercadet
+It is he. (Violette appears.) Ah! my friend! It is dear old Violette!
+
+Violette
+This is the eleventh call within a week, my dear M. Mercadet, and my
+actual necessity has driven me to wait for you three hours in the
+street; I thought the truth was told me when I was assured that you
+were in the country. But I came to-day--
+
+Mercadet
+Ah! Violette, old fellow, we are both hard up!
+
+Violette
+Humph! I don't think so. For my part, I've pledged everything I could
+put in the pawn-shop.
+
+Mercadet
+So have we.
+
+Violette
+I have never reproached you with my ruin, for I believe it is your
+intention to enrich me, as well as yourself; but still, fine words
+butter no parsnips, and I am come to implore you to give me a small
+sum on account, and by so doing you will save the lives of a whole
+family.
+
+Mercadet
+My dear old Violette, you grieve me deeply! Be reasonable and I will
+share with you. (In a low voice) We have scarcely a hundred francs in
+the house, and even that is my daughter's money.
+
+Violette
+Is it possible! You, Mercadet, whom I have known so rich?
+
+Mercadet
+I conceal nothing from you.
+
+Violette
+Unfortunate people owe it to each other to speak the truth.
+
+Mercadet
+Ah! If that were the only thing they owed how prompt would be the
+payment! But keep this as a secret, for I am on the point of making a
+good match for my daughter.
+
+Violette
+I have two daughters, sir, and they work without hope of being
+married! In your present circumstances I cannot press you, but my wife
+and my daughters await my return in the deepest anxiety.
+
+Mercadet
+Stay a moment. I will give you sixty francs.
+
+Violette
+Ah! my wife and my girls will bless you. (Aside, while Mercadet leaves
+the room for a moment.) The others who abuse him get nothing out of
+him, but by appealing to his pity, little by little I get back my
+money. (Chuckles and slaps his pocket.)
+
+Mercadet (on the point of re-entering sees this action)
+The beggarly old miser! Sixty francs on account paid ten times makes
+six hundred francs. Come now, I have sown enough, it is time to reap
+the harvest. (Aloud) Take this.
+
+Violette
+Sixty francs in gold! It is a long time since I have seen such a sum.
+Good-bye, we sha'n't forget to pray for the speedy marriage of Mlle.
+Mercadet.
+
+Mercadet
+Good-bye, dear old Violette. (Holding him by the hand.) Poor old man,
+when I look at you, I think myself rich--your misfortunes touch me
+deeply. And yesterday I thought I would soon be on the point of paying
+back to you not only the interest but the principal of what I owe you.
+
+Violette (turning back)
+Paying me back! In full!
+
+Mercadet
+It was a close shave.
+
+Violette
+What was?
+
+Mercadet
+Imagine, my dear fellow, that there exists a most brilliant
+opportunity, a most magnificent speculation, the most sublime
+discovery--an affair which appeals to the interest of every one, which
+will draw upon all the exchanges, and for the realization of which a
+stupid banker has refused me the miserable sum of a thousand crowns--
+when there is more than a million in sight.
+
+Violette
+A million!
+
+Mercadet
+Yes, a million, from the start. Afterwards no one can calculate where
+the rage for protective pavement will stop.
+
+Violette
+Pavement?
+
+Mercadet
+Protective pavement. A pavement on which no barricade can be raised.
+
+Violette
+Really?
+
+Mercadet
+You see, that from henceforth all governments interested in the
+preservation of order will become our chief shareholders--Ministers,
+princes and kings will be our chief partners. Next come the gods of
+finance, the great bankers, those of independent income in commerce
+and speculation; even the socialists, seeing that their industry is
+ruined, will be forced to buy stocks for a living from me!
+
+Violette
+Yes, it is fine! It is grand!
+
+Mercadet
+It is sublime and philanthropic! And to think I have been refused four
+thousand francs, wherewith to send out advertisements and launch my
+prospectus!
+
+Violette
+Four thousand francs! I thought it was only--
+
+Mercadet
+Four thousand francs, no more! And I was to give away for the loan a
+half interest in the enterprise--that is to say a fortune! Ten
+fortunes!
+
+Violette
+Listen--I will see--I will speak to some one--
+
+Mercadet
+Speak to no one! Keep it to yourself! The idea would at once be
+snatched up--or perhaps they wouldn't understand it so well as you
+have immediately done. These money dealers are so stupid. Besides, I
+am expecting Verdelin here--
+
+Violette
+Verdelin--but--we might perhaps--
+
+Mercadet
+'Twill be lucky for Verdelin, if he has the brains to risk six
+thousand francs in it.
+
+Violette
+But you said four thousand just now.
+
+Mercadet
+It was four thousand that they refused me, but I need six thousand!
+Six thousand francs, and Verdelin, whom I have already made a
+millionaire once, is likely to become so three, four, five times over!
+But he will deserve it, for he is a clever fellow, is Verdelin.
+
+Violette
+Mercadet, I will find you the money.
+
+Mercadet
+No, no, don't think of it. Besides, he will be here in a moment, and
+if I am to send him away without concluding the business with him, it
+will be necessary to have it settled with some one else before
+Verdelin comes--and, as that is impossible--good-bye--and good luck--I
+shall certainly be able to pay you your thirty thousand francs.
+
+Violette
+But say--why couldn't I--?
+
+Mme. Mercadet (entering)
+M. Verdelin has come, my dear.
+
+Mercadet (aside)
+Good, good! (Aloud) Just detain him a minute. (Mme. Mercadet goes
+out.) Well, good-bye, dear old Violette--
+
+Violette (pulling out a greasy pocketbook)
+Wait a moment--here, I have the money with me--and will give it you
+beforehand.
+
+Mercadet
+You! Six thousand francs!
+
+Violette
+A friend asked me to invest it for him, and--
+
+Mercadet
+And you couldn't find a better opening. We'll sign the contract
+presently! (He takes the bills.) This closes the deal--and so much the
+worse for Verdelin--he has missed a gold mine!
+
+Violette
+Well, I'll see you later.
+
+Mercadet
+Yes--see you later! You can get out through my study.
+
+(Mercadet shows Violette the way out. Mme. Mercadet enters.)
+
+Mme. Mercadet
+Mercadet!
+
+Mercadet (reappearing)
+Ah! my dear! I am an unfortunate man! I ought to blow my brains out.
+
+Mme. Mercadet
+Good heavens! What is the matter?
+
+Mercadet
+The matter is that a moment ago I asked this sham bankrupt Violette
+for six thousand francs.
+
+Mme. Mercadet
+And he refused to give them to you?
+
+Mercadet
+On the contrary, he handed them over.
+
+Mme. Mercadet
+What, then, do you mean?
+
+Mercadet
+I am an unlucky man, as I told you, because he gave them so quickly
+that I could have gotten ten thousand if I had only known it.
+
+Mme. Mercadet
+What a man you are! I suppose you know that Verdelin is waiting for
+you.
+
+Mercadet
+Beg him to come in. At last I have Julie's trousseau; and we now need
+only enough money for your dresses and for household expenses until
+the marriage. Send in Verdelin.
+
+Mme. Mercadet
+Yes, he is your friend, and of course you will gain your end with him.
+
+(Exit Mme. Mercadet.)
+
+Mercadet (alone)
+Yes, he is my friend! And he has all the pride that comes with
+fortune; but he has never had a Godeau (looking round to see if he is
+alone). After all, Godeau! I really believe that Godeau has brought me
+in more money than he has taken from me.
+
+
+
+ SCENE TWELFTH
+
+
+Mercadet and Verdelin.
+
+
+Verdelin
+Good-day, Mercadet. What is doing now? Tell me quickly for I was
+stopped here on my way up-stairs to Bredif's apartment.
+
+Mercadet
+Oh, he can wait! How is it that you are going to see a man like
+Bredif?
+
+Verdelin (laughing)
+My dear friend, if people only visited those they esteem they would
+make no visits at all.
+
+Mercadet (laughing and taking his hand)
+A man wouldn't go even into his own house.
+
+Verdelin
+But tell me what you want with me?
+
+Mercadet
+Your question is so sudden that it hasn't left me time to gild the
+pill.
+
+Verdelin
+Oh! my old comrade. I have nothing, and I am frank to say that even if
+I had I could give you nothing. I have already lent you all that my
+means permit me to dispose of; I have never asked you for payment, for
+I am your friend as well as your creditor, and indeed, if my heart did
+not overflow in gratitude towards you, if I had not been a man
+different from ordinary men, the creditor would long ago have killed
+the man. I tell you everything has a limit in this world.
+
+Mercadet
+Friendship has a limit, that's certain; but not misfortune.
+
+Verdelin
+If I were rich enough to save you altogether, to cancel your debt
+entirely, I would do so with all my heart, for I admire your courage.
+But you are bound to go under. Your last schemes, although cleverly
+projected, have collapsed. You have ruined your reputation, you are
+looked upon as a dangerous man. You have not known how to take
+advantage of the momentary success of your operations. When you are
+utterly beggared, you will always find bread at my house; but it is
+the duty of a friend to speak these plain truths.
+
+Mercadet
+What would be the advantage of friendship unless it gave us the
+pleasure of finding ourselves in the right, and seeing a friend in the
+wrong--of being comfortable ourselves and seeing our friend in
+difficulties and of paying compliment to ourselves by saying
+disagreeable things to him? Is it true then that I am little thought
+of on 'Change?
+
+Verdelin
+I do not say so much as that. No; you still pass for an honest man,
+but necessity is forcing you to adopt expedients--
+
+Mercadet
+Which are not justified by the success which luckier men enjoy! Ah,
+success! How many outrageous things go to make up success. You'll
+learn that soon enough. Now, for instance, this morning I began to
+bear the market on the mines of Basse-Indre, in order that you may
+gain control of that enterprise before the favorable report of the
+engineers is published.
+
+Verdelin
+Hush, Mercadet, can this be true? Ah! I see your genius there! (Puts
+his arm around him.)
+
+Mercadet
+I say this in order that you may understand that I have no need of
+advice, or of moralizing,--merely of money. Alas! I do not ask any
+thing of you for myself, my dear friend, but I am about to make a
+marriage for my daughter, and here we are actually, although secretly,
+fallen into absolute destitution. We are in a house where poverty
+reigns under the appearance of luxury. The power of promises, and of
+credit, all is exhausted! And if I cannot pay in cash for certain
+necessary expenses, this marriage must be broken off. All I went here
+is a fortnight of opulence, just as all that you want is twenty-four
+hours of lying on the Exchange. Verdelin, this request will never be
+repeated, for I have only one daughter. Must I confess it to you? My
+wife and daughter are absolutely destitute of clothes! (Aside) He is
+hesitating.
+
+Verdelin (aside)
+He has played me so many tricks that I really do not know whether his
+daughter is doing to be married or not. How can she marry?
+
+Mercadet
+This very day I have to give a dinner to my future son-in-law, whom a
+mutual friend is introducing to us, and I haven't even my plate
+remaining in the house. It is--you know where it is--I not only need a
+thousand crowns, but I also hope that you will lend me your dinner
+service and come and dine here with your wife.
+
+Verdelin
+A thousand crowns! Mercadet! No one has a thousand crowns to lend. One
+scarcely has them for himself; if he were to lend them whenever he was
+asked, he would never have them. (He retires to the fire-place.)
+
+Mercadet (following him, aside)
+He will yet come to the scratch. (Aloud) Now look here, Verdelin, I
+love my wife and my daughter; these sentiments, my friend, are my sole
+consolation in the midst of my recent disasters; these women have been
+so gentle, so patient! I should like to see them placed beyond the
+reach of distress. Oh! It is on this point that my sufferings are most
+real! (They walk to the front of the stage arm in arm.) I have
+recently drunk the cup of bitterness, I have slipped upon my wooden
+pavement,--I organized a monopoly and others drained me of everything!
+But, believe me, this is nothing in comparison with the pain of seeing
+you refuse me help in this extremity! Nevertheless, I am not going to
+dwell upon the consequences--for I do not wish to owe anything to your
+pity.
+
+Verdelin (taking a seat)
+A thousand crowns! But what purpose would you apply them to?
+
+Mercadet (aside)
+I shall get them. (Aloud) My dear fellow, a son-in-law is a bird who
+is easily frightened away. The absence of one piece of lace on a dress
+reveals everything to them. The ladies' costumes are ordered, the
+merchants are on the point of delivering them--yes, I was rash enough
+to say that I would pay for everything, for I counted on you!
+Verdelin, a thousand crowns won't kill you, for you have sixty
+thousand francs a year. And the life of a young girl of whom you are
+fond is now at stake--for you are fond of Julie! She has a sincere
+attachment for your little girl, they play together like the happiest
+of creatures. Would you let the companion of your daughter pine away
+with despair? Misfortune is contagious! It brings evil on all around!
+
+Verdelin
+My dear fellow, I have not a thousand crowns. I can lend you my plate;
+but I have not--
+
+Mercadet
+You can give me your note on the bank. It is soon signed--
+
+Verdelin (rising)
+I--no--
+
+Mercadet
+Ah! my poor daughter! It is all over. (Falls back overcome in an
+armchair near the table.) God forgive me, if I put an end to the
+painful dream of life, and let me awaken in Thy bosom!
+
+Verdelin (after a short silence)
+But-- Have you really found a son-in-law?
+
+Mercadet (rising abruptly to his feet)
+You ask if I have found a son-in-law! You actually throw a doubt upon
+this! You may refuse me, if you like, the means of effecting the
+happiness of my daughter, but do not insult me! I am fallen low
+indeed! O Verdelin! I would not for a thousand crowns have had such an
+idea of you, and you can never win absolution from me excepting by
+giving them.
+
+Verdelin (wishing to leave)
+I must go and see if I can--
+
+Mercadet
+No! This is only another way of refusing me! Can I believe it? Will
+not you whom I have seen spend the same sum upon some such trifle as a
+passing love affair--will you not apply the thousand crowns to the
+performance of a good action?
+
+Verdelin (laughing)
+At the present time there are very few good actions, or transactions.
+
+Mercadet
+Ha! Ha! Ha! How witty! You are laughing, I see there is a reaction!
+
+Verdelin
+Ha! Ha! Ha! (He drops his hat.)
+
+Mercadet (picking up the hat and dusting it with his sleeve)
+Come now, old fellow. Haven't we seen life! We two began it together.
+What a lot of things we have said and done! Don't you recollect the
+good old time when we swore to be friends always through thick and
+thin?
+
+Verdelin
+Indeed, I do. And don't you recollect our party at Rambouillet, where
+I fought an officer of the Guard on your account?
+
+Mercadet
+I thought it was for the lovely Clarissa! Ah! But we were gay! We were
+young! And to-day we have our daughters, daughters old enough to
+marry! If Clarissa were alive now, she would blame your hesitation!
+
+Verdelin
+If she had lived, I should never have married.
+
+Mercadet
+Because you know what love is, that you do! So I may count upon you
+for dinner, and you give me your word of honor that you will send me--
+
+Verdelin
+The plate?
+
+Mercadet
+And the thousand crowns--
+
+Verdelin
+Ah! You still harp upon that! I have told you I cannot do it.
+
+Mercadet (aside)
+It is certain that this fellow will never die of heart failure.
+(Aloud) And so it seems I am to be murdered by my best friend? Alas!
+It is always thus! You are actually untouched by the memory of
+Clarissa--and by the despair of a father! (He cries out towards the
+chamber of his wife.) Ah! it is all over! I am in despair! I am going
+to blow my brains out!
+
+
+
+ SCENE THIRTEENTH
+
+
+The same persons, Mme. Mercadet and Julie.
+
+
+Mme. Mercadet
+What on earth is the matter with you, my dear?
+
+Julie
+How your voice frightened us, papa!
+
+Mercadet
+They heard us! See how they come, like two guardian angels! (He takes
+them by the hand.) Ah! you melt my heart! (To Verdelin) Verdelin! Do
+you wish to slay a whole family? This proof of their tenderness gives
+me courage to fall at your feet.
+
+Julie
+Oh, sir! (She checks her father.) It is I who will implore you for
+him. Whatever may be his demand, do not refuse my father; he must,
+indeed, be in the most terrible anguish!
+
+Mercadet
+Dear child! (Aside) In what accents does she speak! I couldn't speak
+so naturally as that.
+
+Mme. Mercadet
+M. Verdelin, listen to us--
+
+Verdelin (to Julie)
+You don't know what he is asking, do you?
+
+Julie
+No.
+
+Verdelin
+He is asking for a thousand crowns, in order to arrange your marriage.
+
+Julie
+Then, forget, sir, all that I said to you; I do not wish for a
+marriage which has been purchased by the humiliation of my father.
+
+Mercadet (aside)
+She is magnificent!
+
+Verdelin
+Julie! I will go at once and get the money for you. (Exit.)
+
+
+
+ SCENE FOURTEENTH
+
+
+The same persons, except Verdelin; then the servants.
+
+
+Julie
+Oh, father! Why did you not tell me?
+
+Mercadet (kissing her)
+You have saved us all! Ah! when shall I be so rich and powerful that I
+may make him repent of a favor done so grudgingly?
+
+Mme. Mercadet
+Do not be unjust; Verdelin yielded to your request.
+
+Mercadet
+He yielded to the cry of Julie, not to my request. Ah! my dear, he has
+extorted from me more than a thousand crowns' worth of humiliation!
+
+Justin (coming in with Therese and Virginie)
+The tradespeople.
+
+Virginie
+The milliner and the dressmaker--
+
+Therese
+And the dry-goods merchants.
+
+Mercadet
+That is all right! I have succeeded in my scheme! My daughter shall be
+Comtesse de la Brive! (To the servants) Show them in! I am waiting,
+and the money is ready. (He goes proudly towards his study, while the
+servants look at him with surprise.)
+
+
+
+Curtain to the First Act.
+
+
+
+
+ ACT II
+
+
+
+ SCENE FIRST
+
+
+(Mercadet's study, containing book-shelves, a safe, a desk, an
+armchair and a sofa.)
+
+Minard and Justin, then Julie.
+
+
+Minard
+Did you say that M. Mercadet wished to speak with me?
+
+Justin
+Yes, sir. But mademoiselle has requested that you await her here.
+
+Minard (aside)
+Her father asks to see me. She wishes to speak to me before the
+interview. Something extraordinary must have happened.
+
+Justin
+Mademoiselle is here.
+
+(Enter Julie.)
+
+Minard (going towards her)
+Mlle. Julie!
+
+Julie
+Justin, inform my father that the gentleman has arrived. (Exit
+Justin.) If you wish, Adolphe, that our love should shine as bright in
+the sight of all as it does in our hearts, be as courageous as I have
+already been.
+
+Minard
+What has taken place?
+
+Julie
+A rich young suitor has presented himself, and my father is acting
+without any pity for us.
+
+Minard
+A rival! And you ask me if I have any courage! Tell me his name,
+Julie, and you will soon know whether I have any courage.
+
+Julie
+Adolphe! You make me shudder! Is this the way in which you are going
+to act with the hope of bending my father?
+
+Minard (seeing Mercadet approach)
+Here he comes.
+
+
+
+ SCENE SECOND
+
+
+The same persons and Mercadet.
+
+
+Mercadet
+Sir, are you in love with my daughter?
+
+Minard
+Yes, sir.
+
+Mercadet
+That is, at least, what she believes, and you seem to have had the
+talent to persuade her that it is so.
+
+Minard
+Your manner of expressing yourself implies a doubt on your part, which
+in any one else would have been offensive to me. Why should I not love
+mademoiselle? Abandoned by my parents, it was from your daughter, sir,
+that I have learned for the first time the happiness of affection.
+Mlle. Julie is at the same time a sister and a friend to me. She is my
+whole family. She alone has smiled upon me and has encouraged me; and
+my love for her is beyond what language can express!
+
+Julie
+Must I remain here, father?
+
+Mercadet (to his daughter)
+Swallow it all! (To Minard) Sir, with regard to the love of young
+people I have those positive ideas which are considered peculiar to
+old men. My distrust of such love is all the more permissible because
+I am not the father blinded by paternal affection. I see Julie exactly
+as she is; without being absolutely plain, she has none of that beauty
+that makes people cry out, "See!" She is quite mediocre.
+
+Minard
+You are mistaken, sir; I venture to say that you do not know your
+daughter.
+
+Mercadet
+Permit me--
+
+Minard
+You do not know her, sir.
+
+Mercadet
+But I know her perfectly well--as if--in a word, I know her--
+
+Minard
+No, sir, you do not.
+
+Mercadet
+Do you mean to contradict me again, sir?
+
+Minard
+You know the Julie that all the world sees; but love has transfigured
+her! Tenderness and devotion lend to her a transporting beauty that I
+alone have called up in her.
+
+Julie
+Father, I feel ashamed--
+
+Mercadet
+You mean you feel happy. And if you, sir, repeat these things--
+
+Minard
+I shall repeat them a hundred times, a thousand times, and even then I
+couldn't repeat them often enough. There is no crime in repeating them
+before a father!
+
+Mercadet
+You flatter me! I did believe myself her father; but you are the
+father of a Julie whose acquaintance I should very much like to make.
+
+Minard
+You have never been in love, I suppose?
+
+Mercadet
+I have been very much in love! And felt the galling chain of gold like
+everybody else.
+
+Minard
+That was long ago. In these days we love in a better way.
+
+Mercadet
+How do you do that?
+
+Minard
+We cling to the soul, to the idea!
+
+Mercadet
+What we used to call under the Empire, having our eyes bandaged.
+
+Minard
+It is love, pure and holy, which can lend a charm to all the hours of
+life.
+
+Mercadet
+Yes all!--except the dinner hour.
+
+Julie
+Father, do not ridicule two children who love each other with a
+passion which is true and pure, because it is founded upon a knowledge
+of each other's character; on the certitude of their mutual ardor in
+conquering the difficulties of life; in a word, of two children who
+will also cherish sincere affection for you.
+
+Minard (to Mercadet)
+What an angel, sir!
+
+Mercadet (aside)
+I'll angel you! (Putting an arm around each.) Happy children!--You are
+absolutely in love? What a fine romance! (To Minard) You desire her
+for your wife?
+
+Minard
+Yes, sir.
+
+Mercadet
+In spite of all obstacles?
+
+Minard
+It is mine to overcome them!
+
+Julie
+Father, ought you not to be grateful to me in that by my choice I am
+giving you a son full of lofty sentiments, endowed with a courageous
+soul, and--
+
+Minard
+Mademoiselle--Julie.
+
+Julie
+Let me finish; I must have my say.
+
+Mercadet
+My daughter, go and see your mother, and let me speak of matters which
+are a great deal more material than these.
+
+Julie
+I will go, father--
+
+Mercadet
+Come back presently with your mother, my child.
+
+(Mercadet kisses Julie and leads her to the door.)
+
+Minard (aside)
+I feel my hopes revive.
+
+Mercadet (returning)
+Sir, I am a ruined man.
+
+Minard
+What does that mean?
+
+Mercadet
+Totally ruined. And if you wish to have my Julie, you are welcome to
+her. She will be much better off at your house, poor as you are, than
+in her paternal home. Not only is she without dowry, but she is
+burdened with poor parents--parents who are more than poor.
+
+Minard
+More than poor! There is nothing beyond that.
+
+Mercadet
+Yes, sir, we are in debt, deeply in debt, and some of these debts
+clamor for payment.
+
+Minard
+No, no, it is impossible!
+
+Mercadet
+Don't you believe it? (Aside) He is getting frightened. (Taking up a
+pile of papers from his desk. Aloud) Here, my would-be son-in-law, are
+the family papers which will show you our fortune--
+
+Minard
+Sir--
+
+Mercadet
+Or rather our lack of fortune! Read-- Here is a writ of attachment on
+our furniture.
+
+Minard
+Can it be possible?
+
+Mercadet
+It is perfectly possible! Here are judgments by the score! Here is a
+writ of my arrest. You see in what straits we are! Here you see all my
+sales, the protests on my notes and the judgments classed in order--
+for, young man, understand well in a disordered condition of things,
+order is above all things necessary. When disorder is well arranged it
+can be relieved and controlled-- What can a debtor say when he sees
+his debt entered up under his number? I make the government my model.
+All payments are made in alphabetic order. I have not yet touched the
+letter A. (He replaces the papers.)
+
+Minard
+You haven't yet paid anything?
+
+Mercadet
+Scarcely anything. You know the condition of my expenses. You know,
+because you are a book-keeper. See, (picking up the papers again) the
+total debit is three hundred and eighty thousand.
+
+Minard
+Yes, sir. The balance is entered here.
+
+Mercadet
+You can understand then how you must make me shudder when you come
+before my daughter with your fine protestations! Since to marry a poor
+girl with nothing but an income of eighteen hundred francs, is like
+inviting in wedlock a protested note with a writ of execution.
+
+Minard (lost in thought)
+Ruined, ruined! And without resources!
+
+Mercadet (aside)
+I thought that would upset him. (Aloud) Come, now, young man, what are
+you going to do?
+
+Minard
+First, I thank you, sir, for the frankness of your admissions.
+
+Mercadet
+That is good! And what of the ideal, and your love for my daughter?
+
+Minard
+You have opened my eyes, sir.
+
+Mercadet (aside)
+I am glad to hear it.
+
+Minard
+I thought that I already loved her with a love that was boundless, and
+now I love her a hundred times more.
+
+Mercadet
+The deuce you do!
+
+Minard
+Have you not led me to understand that she will have need of all my
+courage, of all my devotion! I will render her happy by other means
+than my tenderness; she shall feel grateful for all my efforts, she
+shall love me for my vigils, and for my toils.
+
+Mercadet
+You mean to tell me that you still wish to marry her?
+
+Minard
+Do I wish! When I believed that you were rich, I would not ask her of
+you without trembling, without feeling ashamed of my poverty; but now,
+sir, it is with assurance and with tranquillity of mind that I ask for
+her.
+
+Mercadet (to himself)
+I must admit that this is a love exceedingly true, sincere and noble!
+And such as I had believed it impossible to find in the whole world!
+(To Minard) Forgive me, young man, for the opinion I had of you--
+forgive me, above all, for the disappointment I am about to cause you.
+
+Minard
+What do you mean?
+
+Mercadet
+M. Minard--Julie--cannot be your wife.
+
+Minard
+What is this, sir? Not be my wife? In spite of our love, in spite of
+all you have confided to me?
+
+Mercadet
+Yes, and just because of all I have confided to you. I have shown you
+Mercadet the rich man in his true colors. I am going to show you him
+as the skeptical man of business. I have frankly opened my books to
+you. I am now going to open my heart to you as frankly.
+
+Minard
+Speak out, sir, but remember how great my devotion to Mlle. Julie is.
+Remember that my self-sacrifice and unselfishness are equal to my love
+for her.
+
+Mercadet
+Let it be granted that by means of night-long vigils and toils you
+will make a living for Julie! But who will make a living for us, her
+father and mother?
+
+Minard
+Ah! sir--believe in me!
+
+Mercadet
+What! Are you going to work for four, instead of working for only two?
+The task will be too much for you! And the bread which you give to us,
+you will have to snatch out of the hands of your children--
+
+Minard
+How wildly you talk!
+
+Mercadet
+And I, in spite of your generous efforts, shall fall, crushed under
+the weight of disgraceful ruin. A brilliant marriage for my daughter
+is the only means by which I would be enabled to discharge the
+enormous sums I owe. It is only thus that in time I could regain
+confidence and credit. With the aid of a rich son-in-law I can
+reconquer my position, and recuperate my fortune! Why, the marriage of
+my daughter is our last anchor of salvation! This marriage is our
+hope, our wealth, the prop of our honor, sir! And since you love my
+daughter, it is to this very love that I make my appeal. My friend, do
+not condemn her to poverty; do not condemn her to a life of regret
+over the loss and disgrace which she has brought upon her father!
+
+Minard (in great distress)
+But what do you ask me to do?
+
+Mercadet (taking him by the hand)
+I wish that this noble affection which you have for her, may arm you
+with more courage than I myself possess.
+
+Minard
+I will show such courage--
+
+Mercadet
+Then listen to me. If I refuse Julie to you, Julie will refuse the man
+I destine for her. It will be best, therefore, that I grant your
+request for her hand, and that you be the one--
+
+Minard
+I!-- She will not believe it, sir--
+
+Mercadet
+She will believe you, if you tell her that you fear poverty for her.
+
+Minard
+She will accuse me of being a fortune hunter.
+
+Mercadet
+She will be indebted to you for having secured her happiness.
+
+Minard (despairingly)
+She will despise me, sir!
+
+Mercadet
+That is probable! But if I have read your heart aright, your love for
+her is such that you will sacrifice yourself completely to the
+happiness of her life. But here she comes, sir, and her mother is with
+her. It is on their account that I make this request to you, sir; can
+I count on you?
+
+Minard
+You--can.
+
+Mercadet
+Very good--I thank you.
+
+
+
+ SCENE THIRD
+
+
+The preceding, Julie and Mme. Mercadet.
+
+
+Julie
+Come, mother, I am sure that Adolphe has triumphed over all obstacles.
+
+Mme. Mercadet
+My dear, M. Minard has asked of you the hand of Julie. What answer
+have you given him?
+
+Mercadet (going to the desk)
+It is for him to say.
+
+Mercadet (aside)
+How can I tell her? My heart is breaking.
+
+Julie
+What have you got to say, Adolphe?
+
+Minard
+Mademoiselle--
+
+Julie
+Mademoiselle! Am I no longer Julie to you? Oh, tell me quickly. You
+have settled everything with my father, have you not?
+
+Minard
+Your father has shown great confidence in me. He has revealed to me
+his situation; he has told me--
+
+Julie
+Go on, please go on--
+
+Mercadet
+I have told him that we are ruined--
+
+Julie
+And this avowal has not changed your plans--your love--has it,
+Adolphe?
+
+Minard (ardently)
+My love! (Mercadet, without being noticed, seizes his hand.) I should
+be deceiving you--mademoiselle--(speaking with great effort)--if I
+were to say that my intentions are unaltered.
+
+Julie
+Oh! It is impossible! Can it be you who speak to me in this strain?
+
+Mme. Mercadet
+Julie--
+
+Minard (rousing himself)
+There are some men to whom poverty adds energy; men capable of daily
+self-sacrifice, of hourly toil; men who think themselves sufficiently
+recompensed by a smile from a companion that they love--(checking
+himself). I, mademoiselle am not one of these. The thought of poverty
+dismays me. I--I could not endure the sight of your unhappiness.
+
+Julie (bursting into tears and flinging herself into the arms of her
+mother)
+Oh! Mother! Mother! Mother!
+
+Mme. Mercadet
+My daughter--my poor Julie!
+
+Minard (in a low voice to Mercadet)
+Is this sufficient, sir?
+
+Julie (without looking at Minard)
+I should have had courage for both of us. I should always have greeted
+you with a smile, I should have toiled without regret, and happiness
+would always have reigned in our home. You could never have meant
+this, Adolphe. You do not mean it.
+
+Minard (in a low voice)
+Let me go--let me leave the house, sir.
+
+Mercadet
+Come, then. (He retires to the back of the stage.)
+
+Minard
+Good-bye--Julie. A love that would have flung you into poverty is a
+thoughtless love. I have preferred to show the love that sacrifices
+itself to your happiness--
+
+Julie
+No, I trust you no longer. (In a low voice to her mother) My only
+happiness would have been to be his.
+
+Justin (announcing visitors)
+M. de la Brive! M. de Mericourt!
+
+Mercadet
+Take your daughter away, madame. M. Minard, follow me. (To Justin) Ask
+them to wait here for a while. (To Minard) I am well satisfied with
+you.
+
+(Mme. Mercadet and Julie, Mercadet and Minard go out in opposite
+directions, while Justin admits Mericourt and De la Brive.)
+
+
+
+ SCENE FOURTH
+
+
+De la Brive and Mericourt.
+
+
+Justin
+M. Mercadet begs that the gentlemen will wait for him here. (Exit.)
+
+Mericourt
+At last, my dear friend, you are on the ground, and you will be very
+soon officially recognized as Mlle. Mercadet's intended! Steer your
+bark well, for the father is a deep one.
+
+De la Brive
+That is what frightens me, for difficulties loom ahead.
+
+Mericourt
+I do not believe so; Mercadet is a speculator, rich to-day, to-morrow
+possibly a beggar. With the little I know of his affairs from his
+wife, I am led to believe that he is enchanted with the prospect of
+depositing a part of his fortune in the name of his daughter, and of
+obtaining a son-in-law capable of assisting him in carrying out his
+financial schemes.
+
+De la Brive
+That is a good idea, and suits me exactly; but suppose he wishes to
+find out too much about me.
+
+Mericourt
+I have given M. Mercadet an excellent account of you.
+
+De la Brive
+I have fallen upon my feet truly.
+
+Mericourt
+But you are not going to lose the dandy's self-possession? I quite
+understand that your position is risky. A man would not marry,
+excepting from utter despair. Marriage is suicide for the man of the
+world. (In a low voice) Come, tell me--can you hold out much longer?
+
+De la Brive
+If I had not two names, one for the bailiffs and one for the
+fashionable world, I should be banished from the Boulevard. Woman and
+I, as you know, have wrought each the ruin of the other, and, as
+fashion now goes, to find a rich Englishwoman, an amiable dowager, an
+amorous gold mine, would be as impossible as to find an extinct
+animal.
+
+Mericourt
+What of the gaming table?
+
+De la Brive
+Oh! Gambling is an unreliable resource excepting for certain crooks,
+and I am not such a fool as to run the risk of disgrace for the sake
+of winnings which always have their limit. Publicity, my dear friend,
+has been the abolition of all those shady careers in which fortune
+once was to be found. So, that for a hundred thousand francs of
+accepted bills, the usurer gives me but ten thousand. Pierquin sent me
+to one of his agents, a sort of sub-Pierquin, a little old man called
+Violette, who said to my broker that he could not give me money on
+such paper at any rate! Meanwhile my tailor has refused to bank upon
+my prospects. My horse is living on credit; as to my tiger, the little
+wretch who wears such fine clothes, I do now know how he lives, or
+where he feeds. I dare not peer into the mystery. Now, as we are not
+so advanced in civilization as the Jews, who canceled all debts every
+half-century, a man must pay by the sacrifice of personal liberty.
+Horrible things will be said about me. Here is a young man of high
+esteem in the world of fashion, pretty lucky at cards, of a passable
+figure, less than twenty-eight years old, and he is going to marry the
+daughter of a rich speculator!
+
+Mericourt
+What difference does it make?
+
+De la Brive
+It is slightly off color! But I am tired of a sham life. I have
+learned at last that the only way to amass wealth is to work. But our
+misfortune is that we find ourselves quick at everything, but not good
+at anything! A man like me, capable of inspiring a passion and of
+maintaining it, cannot become either a clerk or a soldier! Society has
+provided no employment for us. Accordingly, I am going to set up
+business with Mercadet. He is one of the greatest of schemers. You are
+sure that he won't give less than a hundred and fifty thousand francs
+to his daughter.
+
+Mericourt
+Judge yourself, my dear friend, from the style which Mme. Mercadet
+puts on; you see her at all the first nights, in her own box, at the
+opera, and her conspicuous elegance--
+
+De la Brive
+I myself am elegant enough, but--
+
+Mericourt
+Look round you here--everything indicates opulence--Oh! they are well
+off!
+
+De la Brive
+Yet, it is a sort of middle-class splendor, something substantial
+which promises well.
+
+Mericourt
+And then the mother is a woman of principle, of irreproachable
+behavior. Can you possibly conclude matters to-day?
+
+De la Brive
+I have taken steps to do so. I won at the club yesterday sufficient to
+go on with; I shall pay something on the wedding presents, and let the
+balance stand.
+
+Mericourt
+Without reckoning my account, what is the amount of your debts?
+
+De la Brive
+A mere trifle! A hundred and fifty thousand francs, which my father-
+in-law will cut down to fifty thousand. I shall have a hundred
+thousand francs left to begin life on. I always said that I should
+never become rich until I hadn't a sou left.
+
+Mericourt
+Mercadet is an astute man; he will question you about your fortune;
+are you prepared?
+
+De la Brive
+Am I not the landed proprietor of La Brive? Three thousand acres in
+the Landes, which are worth thirty thousand francs, mortgaged for
+forty-five thousand and capable of being floated by a stock jobbing
+company for some commercial purpose or other, say, as representing a
+capital of a hundred thousand crowns! You cannot imagine how much this
+property has brought me in.
+
+Mericourt
+Your name, your horse, and your lands seem to me to be on their last
+legs.
+
+De la Brive
+Not so loud!
+
+Mericourt
+So you have quite made up your mind?
+
+De la Brive
+Yes, and all the more decidedly in that I am going into politics.
+
+Mericourt
+Really--but you are too clever for that!
+
+De la Brive
+As a preparation I shall take to journalism.
+
+Mericourt
+And you have never written two lines in your life!
+
+De la Brive
+There are journalists who write and journalists who do not write. The
+former are editors--and horses that drag the car; the latter, the
+proprietors, who furnish the funds; these give oats to their horses
+and keep the capital for themselves. I shall be a proprietor. You
+merely have to put on a lofty air and exclaim: "The Eastern question
+is a question of great importance and of wide influence, one about
+which there cannot be two opinions!" You sum up a discussion by
+declaiming: "England, sir, will always get the better of us!" or you
+make an answer to some one whom you have heard speak for a long time
+without paying attention to him: "We are advancing towards an abyss,
+we have not yet passed through all the evolutions of the evolutionary
+phase!" You say to a representative of labor: "Sir, I think there is
+something to be done in this matter." A proprietor of a journal speaks
+very little, rushes about and makes himself useful by doing for a man
+in power what the latter cannot do himself. He is supposed to inspire
+the articles, those I mean, which attract any notice! And then, if it
+is absolutely necessary he undertakes to publish a yellow-backed
+volume on some Utopian topic, so well written, so strong, that no one
+opens it, although every one declares that he has read it! Then he is
+looked upon as an earnest man, and ends by finding himself
+acknowledged as somebody, instead of something.
+
+Mericourt
+Alas! What you say is too true, in these times!
+
+De la Brive
+And we ourselves are a startling proof of this! In order to claim a
+part in political power you must not show what good but what harm you
+can do. You must not alone possess talents, you must be able also to
+inspire fear. Accordingly, the very day after my marriage, I shall
+assume an air of seriousness, of profundity, of high principles! I can
+take my choice, for we have in France a list of principles which is as
+varied as a bill of fare. I elect to be a socialist! The word pleases
+me! At every epoch, my dear friend, there are adjectives which form
+the pass-words of ambition! Before 1789 a man called himself an
+economist; in 1815 he was a liberal; the next party will call itself
+the social party--perhaps because it is so unsocial. For in France you
+must always take the opposite sense of a word to understand its
+meaning.
+
+Mericourt
+Let me tell you privately, that you are now talking nothing but the
+nonsense of masked ball chatter, which passes for wit among those who
+do not indulge in it. What are you going to do when a certain definite
+knowledge becomes necessary?
+
+De la Brive
+My dear friend! In every profession, whether of art, science or
+literature, a man needs intellectual capital, special knowledge and
+capacity. But in politics, my dear fellow, a man wins everything and
+attains to everything by means of a single phrase--
+
+Mericourt
+What is that?
+
+De la Brive
+"The principles of my friends, the party for which I stand, look
+for--"
+
+Mericourt
+Hush! Here comes the father-in-law!
+
+
+
+ SCENE FIFTH
+
+
+The same persons and Mercadet.
+
+
+Mercadet
+Good-day, my dear Mericourt! (To De la Brive) The ladies have kept you
+waiting, sir. Ah! They are putting on their finery. For myself, I was
+just on the point of dismissing--whom do you think?--an aspirant to
+the hand of Mlle. Julie. Poor young man! I was perhaps hard on him,
+and yet I felt for him. He worships my daughter; but what could I do?
+He has only ten thousand francs' income.
+
+De la Brive
+That wouldn't go very far!
+
+Mercadet
+A mere subsistence!
+
+De la Brive
+You're not the man to give a rich and clever girl to the first comer--
+
+Mericourt
+Certainly not.
+
+Mercadet
+Before the ladies come in, gentlemen, we must talk a little serious
+business.
+
+De la Brive (to Mericourt)
+Now comes the tug of war!
+
+(They all sit down.)
+
+Mercadet (on the sofa)
+Are you seriously in love with my daughter?
+
+De la Brive
+I love her passionately!
+
+Mercadet
+Passionately?
+
+Mericourt (to his friend)
+You are over-doing it.
+
+De la Brive (to Mericourt)
+Wait a moment. (Aloud) Sir, I am ambitious--and I saw in Mlle. Julie a
+lady at once distinguished, full of intellect, possessed of charming
+manners, who would never be out of place in the position in which my
+fortune puts me; and such a wife is essential to the success of a
+politician.
+
+Mercadet
+I understand! It is easy to find a woman, but it is very rare that a
+man who wishes to be a minister or ambassador finds a wife. You are a
+man of wit, sir. May I ask your political leaning?
+
+De la Brive
+Sir, I am a socialist.
+
+Mercadet
+That is a new move! But now let us talk of money matters.
+
+Mericourt
+It seems to me that the notary might attend to that.
+
+De la Brive
+No! M. Mercadet is right; it is best that we should attend to these
+things ourselves.
+
+Mercadet
+True, sir.
+
+De la Brive
+Sir, my whole fortune consists in the estate which bears my name; it
+has been in my family for a hundred and fifty years, and I hope will
+never pass from us.
+
+Mercadet
+The possession of capital is perhaps more valuable in these days.
+Capital is in your own hand. If a revolution breaks out, and we have
+had many revolutions lately, capital follows us everywhere. Landed
+property, on the contrary, must furnish funds for every one. There it
+stands stock still like a fool to pay the taxes, while capital dodges
+out of the way. But this is not real obstacle. What is the amount of
+your land?
+
+De la Brive
+Three thousand acres, without a break.
+
+Mercadet
+Without a break?
+
+Mericourt
+Did I not tell you as much?
+
+Mercadet
+I never doubted it.
+
+De la Brive
+A chateau--
+
+Mercadet
+Good--
+
+De la Brive
+And salt marshes, which can be worked as soon as the administration
+gives permission. They would yield enormous returns!
+
+Mercadet
+Ah, sir, why have we been so late in becoming acquainted! Your land,
+then, must be on the seashore.
+
+De la Brive
+Without half a league of it.
+
+Mercadet
+And it is situated?
+
+De la Brive
+Near Bordeaux.
+
+Mercadet
+You have vineyards, then?
+
+De la Brive
+No! fortunately not, for the disposal of wines is a troublesome
+matter, and, moreover, the cultivation of the vine is exceedingly
+expensive. My estate was planted with pine trees by my grandfather, a
+man of genius, who was wise enough to sacrifice himself to the welfare
+of his descendants. Besides, I have furniture, which you know--
+
+Mercadet
+Sir, one moment, a man of business is always careful to dot his i's.
+
+De la Brive (under his voice)
+Now we're in for it!
+
+Mercadet
+With regard to your estate and your marshes,--I see all that can be
+got out of these marshes. The best way of utilizing them would be to
+form a company for the exploitation of the marshes of the Brive! There
+is more than a million in it!
+
+De la Brive
+I quite understand that, sir. They need only to be thrown upon the
+market.
+
+Mercadet (aside)
+These words indicate a certain intelligence in this young man. (Aloud)
+Have you any debts? Is your estate mortgaged?
+
+Mericourt
+You would not think much of my friend if he had not debts.
+
+De la Brive
+I will be frank, sir, there is a mortgage of forty-five thousand
+francs on my estate.
+
+Mercadet (aside)
+An innocent young man! he might easily-- (Rising from his seat. Aloud)
+You have my consent; you shall be my son-in-law, and are the very man
+I would choose for my daughter's husband. You do not realize what a
+fortune you possess.
+
+De la Brive (to Mericourt)
+This is almost too good to be true.
+
+Mericourt (to De la Brive)
+He is dazzled by the good speculation which he sees ahead.
+
+Mercadet (aside)
+With government protection, which can be purchased, salt pits may be
+established. I am saved! (Aloud) Allow me to shake hands with you,
+after the English fashion. You fulfill all that I expected in a son-
+in-law. I plainly see you have none of the narrowness of provincial
+land-holders; we shall understand each other thoroughly.
+
+De la Brive
+You must not take it in bad part, sir, if I, on my part, ask you--
+
+Mercadet
+The amount of my daughter's fortune? I should have distrusted you if
+you hadn't asked! My daughter has independent means; her mother
+settles on her her own fortune, consisting of a small property--a farm
+of two hundred acres, but in the very heart of Brie, and provided with
+good buildings. Besides this, I shall give her two hundred thousand
+francs, the interest of which will be for your use, until you find a
+suitable investment for it. So you see, young man, we do not wish to
+deceive you, we wish to keep the money moving; I like you, you please
+me, for I see you have ambition.
+
+De la Brive
+Yes, sir.
+
+Mercadet
+You love luxury, extravagance; you wish to shine at Paris--
+
+De la Brive
+Yes, sir.
+
+Mercadet
+You see that I am already an old man, obliged to lay the load of my
+ambition upon some congenial co-operator, and you shall be the one to
+play the brilliant part.
+
+De la Brive
+Sir, had I been obliged to take my choice of all the fathers-in-law in
+Paris, I should have given the preference to you. You are a man after
+my own heart! Allow me to shake hands, after the English fashion!
+(They shake hands for the second time.)
+
+Mercadet (aside)
+It seems too good to be true.
+
+De la Brive (aside)
+He fell head-first into my salt marshes!
+
+Mercadet (aside)
+He accepts an income from me!
+
+(Mercadet retires towards the door on the left side.)
+
+Mericourt (to De la Brive)
+Are you satisfied?
+
+De la Brive (to Mericourt)
+I don't see the money for my debts.
+
+Mericourt (to De la Brive)
+Wait a moment. (To Mercadet) My friend does not dare to tell you of
+it, but he is too honest for concealment. He has a few debts.
+
+Mercadet
+Oh, please tell me. I understand perfectly--I suppose it is about
+fifty thousand you owe?
+
+Mericourt
+Very nearly--
+
+De la Brive
+Very nearly--
+
+Mercadet
+A mere trifle.
+
+De la Brive (laughing)
+Yes, a mere trifle!
+
+Mercadet
+They will serve as a subject of discussion between your wife and you;
+yes, let her have the pleasure of-- But, we will pay them all. (Aside)
+In shares of the La Brive salt pits. (Aloud) It is so small an amount.
+(Aside) We will put up the capital of the salt marsh a hundred
+thousand francs more. (Aloud) The matter is settled, son-in-law.
+
+De la Brive
+We will consider it settled, father-in-law.
+
+Mercadet (aside)
+I am saved!
+
+De la Brive (aside)
+I am saved!
+
+
+
+ SCENE SIXTH
+
+
+The same persons, Mme. Mercadet and Julie.
+
+
+Mercadet
+Here are my wife and daughter.
+
+Mericourt
+Madame, allow me to present to you my friend, M. de la Brive, who
+regards your daughter with--
+
+De la Brive
+With passionate admiration.
+
+Mercadet
+My daughter is exactly the woman to suit a politician.
+
+De la Brive (to Mericourt. Gazing at Julie through his eyeglass)
+A fine girl. (To Madame Mercadet) Like mother, like daughter. Madame,
+I place my hopes under your protection.
+
+Mme. Mercadet
+Anyone introduced by M. Mericourt would be welcome here.
+
+Julie (to her father)
+What a coxcomb!
+
+Mercadet (to his daughter)
+He is enormously rich. We shall all be millionaires! He is an
+excessively clever fellow. Now, do try and be amiable, as you ought to
+be.
+
+Julie (answering him)
+What would you wish me to say to a dandy whom I have just seen for the
+first time, and whom you destine for my husband?
+
+De la Brive
+May I be permitted to hope, mademoiselle, that you will look favorably
+upon me?
+
+Julie
+My duty is to obey my father.
+
+De la Brive
+Young people are not always aware of the feelings which they inspire.
+For two months I have been longing for the happiness of paying my
+respects to you.
+
+Julie
+Who can be more flattered than I am, sir, to find that I have
+attracted your attention?
+
+Mme. Mercadet (to Mericourt)
+He is a fine fellow. (Aloud) We hope that you and your friend M. de la
+Brive will do us the pleasure of accepting our invitation to dine
+without ceremony?
+
+Mercadet
+To take pot-luck with us. (To De la Brive) You must excuse our
+simplicity.
+
+Justin (entering, in a low voice to Mercadet)
+M. Pierquin wishes to speak to you, monsieur.
+
+Mercadet (low)
+Pierquin?
+
+Justin
+He says it is concerning an important and urgent matter.
+
+Mercadet
+What can he want with me? Let him come in. (Justin goes out. Aloud) My
+dear, these gentlemen must be tired. Won't you take them into the
+drawing-room? M. de la Brive, give my daughter you arm.
+
+De la Brive
+Mademoiselle-- (offers her his arm)
+
+Julie (aside)
+He is handsome, he is rich--why does he choose me?
+
+Mme. Mercadet
+M. de Mericourt, will you come and see the picture which we are going
+to raffle off for the benefit of the poor orphans?
+
+Mericourt
+With pleasure, madame.
+
+Mercadet
+Go on. I shall be with you in a moment.
+
+
+
+ SCENE SEVENTH
+
+
+Mercadet (alone)
+Well, after all, this time I have really secured fortune and the
+happiness of Julie and the rest of us. For a son-in-law like this is a
+veritable gold mine! Three thousand acres! A chateau! Salt marshes!
+(He sits down at his desk.)
+
+Pierquin (entering)
+Good-day, Mercadet. I have come--
+
+Mercadet
+Rather inopportunely. But what do you wish?
+
+Pierquin
+I sha'n't detain you long. The bills of exchange I gave you this
+morning, signed by a man called Michonnin, are absolutely valueless. I
+told you this beforehand.
+
+Mercadet
+I know that.
+
+Pierquin
+I now offer you a thousand crowns for them.
+
+Mercadet
+That is either too much or too little! Anything for which you will
+give that sum must be worth infinitely more. Some one is waiting for
+me in the other room. I will bid you good-evening.
+
+Pierquin
+I will give you four thousand francs.
+
+Mercadet
+No!
+
+Pierquin
+Five--six thousand.
+
+Mercadet
+If you wish to play cards, keep to the gambling table. Why do you wish
+to recover this paper?
+
+Pierquin
+Michonnin has insulted me. I wish to take vengeance on him; to send
+him to jail.
+
+Mercadet (rising)
+Six thousand francs worth of vengeance! You are not a man to indulge
+in luxuries of that kind.
+
+Pierquin
+I assure you--
+
+Mercadet
+Come, now, my friend, consider that for a satisfactory defamation of
+character the code won't charge you more than five or six hundred
+francs, and the tax on a blow is only fifty francs--
+
+Pierquin
+I swear to you--
+
+Mercadet
+Has this Michonnin come into a legacy? And are the forty-seven
+thousand francs of these vouchers actually worth forty-seven thousand
+francs? You should post me on this subject and then we'll cry halves!
+
+Pierquin
+Very well, I agree. The fact of it is, Michonnin is to be married.
+
+Mercadet
+What next! And with whom, pray?
+
+Pierquin
+With the daughter of some nabob--an idiot who is giving her an
+enormous dowry.
+
+Mercadet
+Where does Michonnin live?
+
+Pierquin
+Do you want to issue a writ? He is without a fixed abode in Paris. His
+furniture is held under the name of a friend; but his legal domicile
+must be in the neighborhood of Bordeaux, in the village of Ermont.
+
+Mercadet
+Stay a while. I have some one here from that region. I can get exact
+information in a moment--and then we can begin proceedings.
+
+Pierquin
+Send me the paper, and leave the business to me--
+
+Mercadet
+I shall be very glad to do so. They shall be put into your hands in
+return for a signed agreement as to the sharing of the money. I am at
+present altogether taken up with the marriage of my daughter.
+
+Pierquin
+I hope everything is going on well.
+
+Mercadet
+Wonderfully well. My son-in-law is a gentleman and, in spite of that,
+he is rich. And, although both rich and a gentleman, he is clever into
+the bargain.
+
+Pierquin
+I congratulate you.
+
+Mercadet
+One word with you before you go. You said, Michonnin, of Ermont, in
+the neighborhood of Bordeaux?
+
+Pierquin
+Yes, he has an old aunt somewhere about there! A good woman called
+Bourdillac, who scrapes along on some six hundred francs a year, but
+to whom he gives the title of Marchioness of Bourdillac. He pretends
+that her health is delicate and that she has a yearly income of forty
+thousand francs.
+
+Mercadet
+Thank you. Good-evening--
+
+Pierquin
+Good-evening. (goes out)
+
+Mercadet (ringing)
+Justin!
+
+Justin
+Did you call, sir?
+
+Mercadet
+Ask M. de la Brive to speak with me for a moment. (Justin goes out.)
+
+Mercadet
+Here is a windfall of twenty-three thousand francs! We shall be able
+to arrange things famously for Julie's marriage.
+
+
+
+ SCENE EIGHTH
+
+
+Mercadet, De la Brive and Justin.
+
+
+De la Brive (to Justin, handing him a letter)
+Here, deliver this letter. And this is for yourself.
+
+Justin (aside)
+A louis! Mademoiselle will be sure to have a happy home. (Exit.)
+
+De la Brive
+You wish to speak with me, my dear father-in-law?
+
+Mercadet
+Yes. You see I already treat you without ceremony. Please to take a
+seat.
+
+De la Brive (sitting on a sofa)
+I am grateful for your confidence.
+
+Mercadet
+I am seeking information with regard to a debtor, who, like you, lives
+in the neighborhood of Bordeaux.
+
+De la Brive
+I know every one in that district.
+
+Mercadet
+It is said he has relations there.
+
+De la Brive
+Relations! I have none but an old aunt.
+
+Mercadet (pricking up his ears)
+An--old aunt--?
+
+De la Brive
+Whose health--
+
+Mercadet (trembling)
+Is--is--delicate?
+
+De la Brive
+And her income is forty thousand francs.
+
+Mercadet (quite overcome)
+Good Lord! The very figure!
+
+De la Brive
+The Marchioness, you see, will be a good woman to have on hand. I mean
+the Marchioness--
+
+Mercadet (vehemently rushing at him)
+Of Bourdillac, sir!
+
+De la Brive
+How is this? Do you know her name?
+
+Mercadet
+Yes, and yours too!
+
+De la Brive
+The devil you do!
+
+Mercadet
+You are head over ears in debt; your furniture is held in another
+man's name; your old aunt has a pittance of six hundred francs;
+Pierquin, who is one of your smallest creditors, has forty-seven
+thousand francs in notes of hand from you. You are Michonnin, and I am
+the idiotic nabob!
+
+De la Brive (stretching himself at full length on the sofa)
+By heavens! You know just as much about it as I do!
+
+Mercadet
+Well--I see that once more the devil has taken a hand in my game.
+
+De la Brive (aside, rising to his feet)
+The marriage is over! I am no longer a socialist; I shall become a
+communist.
+
+Mercadet
+And I have been just as easily deceived, as if I had been on the
+Exchange.
+
+De la Brive
+Show yourself worthy of your reputation.
+
+Mercadet
+M. Michonnin, your conduct is more than blameworthy!
+
+De la Brive
+In what particular? Did I not say that I had debts?
+
+Mercadet
+We'll let that pass, for any one may have debts; but where is your
+estate situated.
+
+De la Brive
+In the Landes.
+
+Mercadet
+And of what does it consist?
+
+De la Brive
+Of sand wastes, planted with firs.
+
+Mercadet
+Good to make toothpicks.
+
+De la Brive
+That's about it.
+
+Mercadet
+And it is worth?
+
+De la Brive
+Thirty thousand francs.
+
+Mercadet
+And mortgaged for--
+
+De la Brive
+Forty-five thousand!
+
+Mercadet
+And you had the skill to effect that?
+
+De la Brive
+Why, yes--
+
+Mercadet
+Damnation! But that was pretty clever! And your marshes, sir?
+
+De la Brive
+They border on the sea--
+
+Mercadet
+They are part of the ocean!
+
+De la Brive
+The people of that country are evil-minded enough to say so. That is
+what hinders my loans!
+
+Mercadet
+It would be very difficult to issue ocean shares! Sir, I may tell you,
+between ourselves, that your morality seems to me--
+
+De la Brive
+Somewhat--
+
+Mercadet
+Risky.
+
+De la Brive (in anger)
+Sir! (calming himself) Let this be merely between ourselves!
+
+Mercadet
+You gave a friend a bill of sale of your furniture, you sign your
+notes of hand with the name of Michonnin, and you call yourself merely
+De la Brive--
+
+De la Brive
+Well, sir, what are you going to do about it?
+
+Mercadet
+Do about it? I am going to lead you a pretty dance--
+
+De la Brive
+Sir, I am your guest! Moreover, I may deny everything-- What proofs
+have you?
+
+Mercadet
+What proofs! I have in my hands forty-seven thousand francs' worth of
+your notes.
+
+De la Brive
+Are they signed to the order of Pierquin?
+
+Mercadet
+Precisely so.
+
+De la Brive
+And you have had them since this morning?
+
+Mercadet
+Since this morning.
+
+De la Brive
+I see. You have given worthless stock in exchange for valueless notes.
+
+Mercadet
+Sir!
+
+De la Brive
+And, in order to seal the bargain, Pierquin, one of the least
+important of your creditors, has given you a delay of three months.
+
+Mercadet
+Who told you that?
+
+De la Brive
+Who? Who? Pierquin himself, of course, as soon as he learned I was
+going to make an arrangement--
+
+Mercadet
+The devil he did!
+
+De la Brive
+Ah! You were going to give two hundred thousand francs as a dowry to
+your daughter, and you had debts to the amount of three hundred and
+fifty thousand! Between ourselves it looks like you who had been
+trying to swindle the son-in-law, sir--
+
+Mercadet (angrily)
+Sir! (calming himself) This is merely between ourselves, sir.
+
+De la Brive
+You took advantage of my inexperience!
+
+Mercadet
+Of course I did! The inexperience of a man who raises a loan on his
+sand wastes fifty per cent above their value.
+
+De la Brive
+Glass can be made out of sand!
+
+Mercadet
+That's a good idea!
+
+De la Brive
+Therefore, sir--
+
+Mercadet
+Silence! Promise me that this broken marriage-contract shall be kept
+secret.
+
+De la Brive
+I swear it shall-- Ah! excepting to Pierquin. I have just written to
+him to set his mind at rest.
+
+Mercadet
+Is that the letter you sent by Justin?
+
+De la Brive
+The very one.
+
+Mercadet
+And what have you told him?
+
+De la Brive
+The name of my father-in-law. Confound it!--I thought you were rich.
+
+Mercadet (despairingly)
+And you have written that to Pierquin? It's all up! This fresh defeat
+will be known on the Exchange! But, any way, I am ruined! Suppose I
+write to him-- Suppose I ask him-- (He goes to the table to write.)
+
+
+
+ SCENE NINTH
+
+
+The same persons, Mme. Mercadet, Julie and Verdelin.
+
+
+Mme. Mercadet
+My friend, M. Verdelin.
+
+Julie (to Verdelin)
+Here is my father, sir.
+
+Mercadet
+Ah! It is you, is it, Verdelin--and you are come to dinner?
+
+Verdelin
+No, I am not come to dinner.
+
+Mercadet (aside)
+He knows all. He is furious!
+
+Verdelin
+And this gentleman is your son-in-law? (Verdelin bows to De la Brive.)
+This is a fine marriage you are going to make!
+
+Mercadet
+The marriage, my dear sir, is not going to take place.
+
+Julie
+How happy I feel!
+
+(De la Brive bows to Julie. She casts down her eyes.)
+
+Mme. Mercadet (seizing her hand)
+My dear daughter!
+
+Mercadet
+I have been deceived by Mericourt.
+
+Verdelin
+And you have played on me one of your tricks this morning, for the
+purpose of getting a thousand crowns; but the whole incident has been
+made public on the Exchange, and they think it a huge joke!
+
+Mercadet
+They have been informed, I suppose--
+
+Verdelin
+That your pocket-book is full of the notes of hand signed by your son-
+in-law. And Pierquin tells me that your creditors are exasperated, and
+are to meet to-night at the house of Goulard to conclude measures for
+united action against you to-morrow!
+
+Mercadet
+To-night! To-morrow! Ah! I hear the knell of bankruptcy sound!
+
+Verdelin
+Yes, to-morrow they are going to send a prison cab for you.
+
+Mme. Mercadet and Julie
+God help us!
+
+Mercadet
+I see the carriage, the hearse of the speculator, carrying me to
+Clichy!
+
+Verdelin
+They wish, as far as possible, to rid the Exchange of all sharpers!
+
+Mercadet
+They are fools, for in that case they will turn it into a desert! And
+so I am ruined! Expelled from the Exchange with all the sequelae of
+bankruptcy,--shame, beggary! I cannot believe it--it is impossible!
+
+De la Brive
+Believe me, sir, that I regret having been in some degree--
+
+Mercadet (looking him in the face)
+You! (in a low voice to him) Listen to me: you have hurried on my
+destruction, but you have it in your power to help me to escape.
+
+De la Brive
+On what conditions?
+
+Mercadet
+I will make you a good offer! (Aloud, as they start toward opposite
+doors) True, the idea is a bold one! But to-morrow, the 'Change will
+recognize in me one of its master spirits.
+
+Verdelin
+What is he talking about?
+
+Mercadet
+To-morrow, all my debts will be paid, and the house of Mercadet will
+be turning over millions! I shall be acknowledged as the Napoleon of
+finance.
+
+Verdelin
+What a man he is!
+
+Mercadet
+And a Napoleon who meets no Waterloo!
+
+Verdelin
+But where are your troops?
+
+Mercadet
+My army is cash in hand! What answer can be made to a business man who
+says, "Take your money!" Come let us dine now.
+
+Verdelin
+Certainly. I shall be delighted to dine with you.
+
+Mercadet (while they all move towards the dining-room, aside)
+They are all glad of it! To-morrow I will either command millions, or
+rest in the damp winding-sheet of the Seine!
+
+
+
+Curtain to the Second Act.
+
+
+
+
+ ACT III
+
+
+
+ SCENE FIRST
+
+
+(Another apartment in Mercadet's house, well furnished. At the back
+and in the centre is a mantel-piece, having instead of a mirror a
+clear plate of glass; side doors; a large table, surrounded by chairs,
+in the middle of the stage; sofa and armchairs.)
+
+Justin, Therese and Virginie, then Mercadet.
+
+
+(Justin enters first and beckons to Therese. Virginie, carrying
+papers, sits insolently on the sofa. Justin looks through the keyhole
+of the door on the left side and listens.)
+
+Therese
+Is it possible that they could pretend to conceal from us the
+condition of their affairs?
+
+Virginie
+Old Gruneau tells me that the master is soon to be arrested; I hope
+that what I have spent will be taken account of, for he owes me the
+money for these bills, besides my wages!
+
+Therese
+Oh! set your mind at rest. We are likely to lose everything, for the
+master is bankrupt.
+
+Justin
+I can't hear anything. They speak too low! They don't trust us.
+
+Virginie
+It is frightful!
+
+Justin (with his ear to the half-open door)
+Wait, I think I hear something.
+
+(The door bursts open and Mercadet appears.)
+
+Mercadet (to Justin)
+Don't let me disturb you.
+
+Justin
+Sir, I--I--was just putting--
+
+Mercadet
+Really! (To Virginie, who jumps up suddenly from the sofa) Keep your
+seat, Mlle. Virginie, and you, M. Justin, why didn't you come in? We
+were talking about my business.
+
+Justin
+You amuse me, sir.
+
+Mercadet
+I am heartily glad of it.
+
+Justin
+You take trouble easy, sir.
+
+Mercadet (severely)
+That will do, all of you. And remember that from this time forth I see
+all who call. Treat no one either with insolence or too much humility,
+for you will meet here no creditors, but such as have been paid.
+
+Justin
+Oh, bosh!
+
+Mercadet
+Go!
+
+(The central door opens. Mme. Mercadet, Julie and Minard appear. The
+servants leave the room.)
+
+
+
+ SCENE SECOND
+
+
+Mercadet, Mme. Mercadet, Julie and Minard.
+
+
+Mercadet (aside)
+I am annoyed to see my wife and daughter here. In my present
+circumstances, women are likely to spoil everything, for they have
+nerves. (Aloud) What is it, Mme. Mercadet?
+
+Mme. Mercadet
+Sir, you were counting on the marriage of Julie to establish your
+credit and reassure your creditors, but the event of yesterday has put
+you at their mercy--
+
+Mercadet
+Do you think so? Well, you are quite mistaken. I beg your pardon, M.
+Minard, but what brings you here?
+
+Minard
+Sir--I--
+
+Julie
+Father--it is--
+
+Mercadet
+Are you come to ask again for my daughter?
+
+Minard
+Yes, sir.
+
+Mercadet
+But everybody says that I am going to fail--
+
+Minard
+I know it, sir.
+
+Mercadet
+And would you marry the daughter of a bankrupt?
+
+Minard
+Yes, for I would work to re-establish him.
+
+Julie
+That's good, Adolphe.
+
+Mercadet (aside)
+A fine young fellow. I will give him an interest in the first big
+business I do.
+
+Minard
+I have made known my attachment to the man I look upon as a father. He
+has informed me--that I am the possessor of a small fortune--
+
+Mercadet
+A fortune!
+
+Minard
+When I was confided to his care, a sum of money was entrusted to him,
+which has increased by interest, and I now possess thirty thousand
+francs.
+
+Mercadet
+Thirty thousand francs!
+
+Minard
+On learning of the disaster that had befallen you, I realized this
+sum, and I bring it to you, sir; for sometimes in these cases an
+arrangement can be made by paying something on account--
+
+Mme. Mercadet
+He has an excellent heart!
+
+Julie (with pride)
+Yes, indeed, papa!
+
+Mercadet
+Thirty thousand francs. (Aside) They might be tripled by buying some
+of Verdelin's stock and then doubled with-- No, no. (To Minard) My
+boy, you are at the age of self-sacrifice. If I could pay two hundred
+francs with thirty thousand, the fortune of France, of myself and of
+most people would be made. No, keep your money!
+
+Minard
+What! You refuse it?
+
+Mercadet (aside)
+If with this I could keep them quiet for a month, if by some bold
+stoke I could revive the depression in my property, it might be all
+right. But the money of these poor children, it cuts me to the heart
+to think of it, for when they are in tears people calculate amiss; it
+is not well to risk the money of any but fellow-brokers--no--no
+(Aloud) Adolphe, you may marry my daughter.
+
+Minard
+Oh! Sir--Julie--my own Julie--
+
+Mercadet
+That is, of course, as soon as she has three hundred thousand francs
+as dowry.
+
+Mme. Mercadet
+My dear!
+
+Julie
+Papa!
+
+Minard
+Ah, sir! How long are you going to put me off?
+
+Mercadet
+Put you off? She will have it in a month! Perhaps sooner--
+
+All
+How is that?
+
+Mercadet
+Yes, by the use of my brains--and a little money. (Minard holds out
+his pocket-book.) But lock up those bills! And come, take away my wife
+and daughter. I want to be alone.
+
+Mme. Mercadet (aside)
+Is he going to hatch some plot against his creditors? I must find out.
+Come, Julie.
+
+Julie
+Papa, how good you are!
+
+Mercadet
+Nonsense!
+
+Julie
+I love you so much.
+
+Mercadet
+Nonsense!
+
+Julie
+Adolphe, I do not thank you, I shall have all my life for that.
+
+Minard
+Dearest Julie!
+
+Mercadet (leading them out)
+Come, now, you had better breathe out your idyls in some more retired
+spot.
+
+(They go out.)
+
+
+
+ SCENE THIRD
+
+
+Mercadet, then De la Brive.
+
+
+Mercadet
+I have resisted--it was a good impulse! But I was wrong to obey it. If
+I finally yield to the temptation, I can make their little capital
+worth very much more. I shall manage this fortune for them. My poor
+daughter has indeed a good lover. What hearts of gold are theirs! Dear
+children! (Goes towards the door at the right.) I must make their
+fortune. De la Brive is here awaiting me. (Looking through the open
+door) I believe he is asleep. I gave him a little too much wine, so as
+to handle him more easily. (Shouting) Michonnin! The constable! The
+constable!
+
+De la Brive (coming out, rubbing his eyes)
+Hello! What are you saying?
+
+Mercadet
+Don't be frightened, I only wanted to wake you up. (Takes his seat at
+the table.)
+
+De la Brive (sitting at the other side of the table)
+Sir, an orgie acts on the mind like a storm on the country. It brings
+on refreshment, it clothes with verdure! And ideas spring forth and
+bloom! /In vino varietas/!
+
+Mercadet
+Yesterday, our conversation on business matters was interrupted.
+
+De la Brive
+Father-in-law, I recall it distinctly--we recognized the fact that our
+houses could not keep their engagements. We were on the point of
+bankruptcy, and you are unfortunate enough to be my creditor, while I
+am fortunate enough to be your debtor by the amount of forty-seven
+thousand, two hundred and thirty-three francs and some centimes.
+
+Mercadet
+Your head is level enough.
+
+De la Brive
+But my pocket and my conscience are a little out. Yet who can reproach
+me? By squandering my fortune I have brought profit to every trade in
+Paris, and even to those who do not know me. We, the useless ones! We,
+the idlers! Upon my soul! It is we who keep up the circulation of
+money--
+
+Mercadet
+By means of the money in circulation. Ah! you have all your wits about
+you!
+
+De la Brive
+But I have nothing else.
+
+Mercadet
+Our wits are our mint. Is it not so? But, considering your present
+situation, I shall be brief.
+
+De la Brive
+That is why I take a seat.
+
+Mercadet
+Listen to me. I see that you are going down the steep way which leads
+to that daring cleverness for which fools blame successful operators.
+You have tasted the piquant intoxicating fruits of Parisian pleasure.
+You have made luxury the inseparable companion of your life. Paris
+begins at the Place de l'Etoile, and ends at the Jockey Club. That is
+your Paris, which is the world of women who are talked about too much,
+or not at all.
+
+De la Brive
+That is true.
+
+Mercadet
+You breathe the cynical atmosphere of wits and journalists, the
+atmosphere of the theatre and of the ministry. It is a vast sea in
+which thousands are casting their nets! You must either continue this
+existence, or blow your brains out!
+
+De la Brive
+No! For it is impossible to think that it can continue without me.
+
+Mercadet
+Do you feel that you have the genius to maintain yourself in style at
+the height to which you aspire? To dominate men of mind by the power
+of capital and superiority of intellect? Do you think that you will
+always have skill enough to keep afloat between the two capes, which
+have seen the life of elegance so often founder between the cheap
+restaurant and the debtors' prison?
+
+De la Brive
+Why! You are breaking into my conscience like a burglar--you echo my
+very thought! What do you want with me?
+
+Mercadet
+I wish to rescue you, by launching you into the world of business.
+
+De la Brive
+By what entrance?
+
+Mercadet
+Let me choose the door.
+
+De la Brive
+The devil!
+
+Mercadet
+Show yourself a man who will compromise himself for me--
+
+De la Brive
+But men of straw may be burnt.
+
+Mercadet
+You must be incombustible.
+
+De la Brive
+What are the terms of our copartnership?
+
+Mercadet
+You try to serve me in the desperate circumstances in which I am at
+present, and I will make you a present of your forty-seven thousand,
+two hundred and thirty-three francs, to say nothing of the centimes.
+Between ourselves, I may say that only address is needed.
+
+De la Brive
+In the use of the pistol or the sword?
+
+Mercadet
+No one is to be killed; on the contrary--
+
+De la Brive
+That will suit me.
+
+Mercadet
+A man is to be brought to life again.
+
+De la Brive
+That doesn't suit me at all, my dear fellow. The legacy, the chest of
+Harpagon, the little mule of Scapin and, indeed, all the farces which
+have made us laugh on the ancient stage are not well received nowadays
+in real life. The police have a way of getting mixed up with them, and
+since the abolition of privileges, no one can administer a drubbing
+with impunity.
+
+Mercadet
+Well, what do you think of five years in debtors' prison? Eh? What a
+fate!
+
+De la Brive
+As a matter of fact, my decision must depend upon what you want me to
+do to any one, for my honor so far is intact and is worth--
+
+Mercadet
+You must invest it well, for we shall have dire need of all that it is
+worth. I want you to assist me in sitting at the table which the
+Exchange always keeps spread, and we will gorge ourselves with the
+good things there offered us, for you must admit that while those who
+seek for millions have great difficulty in finding them, they are
+never found by those who do not seek.
+
+De la Brive
+I think I can co-operate with you in this matter. You will return to
+me my forty-seven thousand francs--
+
+Mercadet
+Yes, sir.
+
+De la Brive
+I am not required to be anything but be--very clever?
+
+Mercadet
+Nimble, but this nimbleness will be exercised, as the English say, on
+the right side of the law.
+
+De la Brive
+What is it you propose?
+
+Mercadet (giving him a paper)
+Here are your written instructions. You are to represent something
+like an uncle from America--in fact, my partner, who has just come
+back from the West Indies.
+
+De la Brive
+I understand.
+
+Mercadet
+Go to the Champs-Elysees, secure a post-chaise that has been much
+battered, have horses harnessed to it, and make your arrival here
+wrapped in a great pelisse, your head enveloped in a huge cap, while
+you shiver like a man who finds our summer icy cold. I will receive
+you; I will conduct you in; you will speak to my creditors; not one of
+them knows Godeau; you will make them give me more time.
+
+De la Brive
+How much time?
+
+Mercadet
+I need only two days--two days, in order that Pierquin may complete
+certain purchases which we have ordered. Two days in order that the
+stock which I know how to inflate may have time to rise. You will be
+my backer, my security. And as no one will recognize you--
+
+De la Brive
+I shall cease to be this personage as soon as I have paid you forty-
+seven thousand, two hundred and thirty-three francs and some centimes.
+
+Mercadet
+That is so. But I hear some one--my wife--
+
+Mme. Mercadet (enters)
+My dear, there are some letters for you, and the bearer requires an
+answer.
+
+(Mme. Mercadet withdraws to the fireplace.)
+
+Mercadet
+I suppose I must go. Good-day, my dear De la Brive. (In a low voice)
+Not a word to my wife; she would not understand the operation, and
+would misconstrue it. (Aloud) Go quickly, and forget nothing.
+
+De la Brive
+You need have no fear.
+
+(Mercadet goes out by the left; De la Brive starts to go out by the
+centre, but Mme. Mercadet intercepts him.)
+
+
+
+ SCENE FOURTH
+
+
+Mme. Mercadet and De la Brive.
+
+
+De la Brive
+Madame?
+
+Mme. Mercadet
+Forgive me, sir!
+
+De la Brive
+Kindly excuse me, madame, I must be going--
+
+Mme. Mercadet
+You must not go.
+
+De la Brive
+But you are not aware--
+
+Mme. Mercadet
+I know all.
+
+De la Brive
+How is that?
+
+Mme. Mercadet
+You and my husband are bent upon resorting to some very ancient
+expedients proper to the comic drama, and I have employed one which is
+more ancient still. And as I told you, I know all--
+
+De la Brive (aside)
+She must have been listening.
+
+Mme. Mercadet
+Sir, the part which you have been induced to undertake is blameworthy
+and shameful, and you must give it up--
+
+De la Brive
+But after all, madame--
+
+Mme. Mercadet
+Oh! I know to whom I am speaking, sir; it was only a few hours ago
+that I saw you for the first time, and yet--I think I know you.
+
+De la Brive
+Really? I am sure I do not know what opinion you have of me.
+
+Mme. Mercadet
+One day has given me time to form a correct judgment of you--and at
+the very time that my husband was trying to discover some foible in
+you he might make use of, or what evil passions he might rouse in you,
+I looked in your heart and discerned that it still contained good
+feelings which eventually may prove your salvation.
+
+De la Brive
+Prove my salvation? Excuse me, madame.
+
+Mme. Mercadet
+Yes, sir, prove your salvation and that of my husband; for both of you
+are on the way to ruin. For you must understand that debts are no
+disgrace to any one who admits them and toils for their payment. You
+have your whole life before you, and you have too much good sense to
+wish that it should be blighted through engaging in a business which
+justice is sure to punish.
+
+De la Brive
+Justice! Ah! You are right, madame, and I certainly would not lend
+myself to this dangerous comedy, unless your husband had some notes of
+hand of mine--
+
+Mme. Mercadet
+Which he will surrender to you, sir, I'll promise you that.
+
+De la Brive
+But, madame, I cannot pay them--
+
+Mme. Mercadet
+We will be satisfied with your word, and you will discharge your
+obligation as soon as you have honestly made your fortune.
+
+De la Brive
+Honestly! That will be perhaps a long time to wait.
+
+Mme. Mercadet
+We will be patient. And now, sir, go and inform my husband that he
+must give up this attempt because he will not have your co-operation.
+(She goes towards the door on the left.)
+
+De la Brive
+I should be rather afraid to face him-- I should prefer to write to
+him.
+
+Mme. Mercadet (pointing out to him the door by which he entered)
+You will find the necessary writing materials in that room. Remain
+there until I come for your letter. I will hand it to him myself.
+
+De la Brive
+I will do so, madame. After all I am not so worthless as I thought I
+was. It is you who have taught me this; you have a right to the whole
+credit of it. (He respectfully kisses her hand.) Thank you, madame,
+thank you! (He goes out.)
+
+Mme. Mercadet
+I have succeeded--if only I could now persuade Mercadet.
+
+Justin (entering from the center)
+Madame--madame--here they are--all of them.
+
+Mme. Mercadet
+Who?
+
+Justin
+The creditors.
+
+Mme. Mercadet
+Already?
+
+Justin
+There are a great many of them, madame.
+
+Mme. Mercadet
+Let them come in here. I will go and inform my husband.
+
+(Mme. Mercadet goes out by one door. Justin opens the other.)
+
+
+
+ SCENE FIFTH
+
+
+Pierquin, Goulard, Violette and several other creditors.
+
+
+Goulard
+Gentlemen, we have quite made up our minds, have we not?
+
+All
+We have, we have--
+
+Pierquin
+No more deluding promises.
+
+Goulard
+No more prayers and expostulations.
+
+Violette
+No more pretended payments on account, thrown out as a bait to get
+deeper into our pockets.
+
+
+
+ SCENE SIXTH
+
+
+The same persons and Mercadet.
+
+
+Mercadet
+And do you mean to tell me that you gentlemen are come to force me
+into bankruptcy?
+
+Goulard
+We shall do so, unless you find means to pay us in full this very day.
+
+Mercadet
+To-day!
+
+Pierquin
+This very day.
+
+Mercadet (standing before the fireplace)
+Do you think that I possess the plates for striking off Bank of France
+notes?
+
+Violette
+You mean that you have no offer to make?
+
+Mercadet
+Absolutely none! And you are going to lock me up? I warn him who is
+going to pay for the cab that he won't be reimbursed from any assets
+of mine.
+
+Goulard
+I shall add that along with all that you owe me to the debit of your
+account--
+
+Mercadet
+Thank you. You've all made up your mind, I suppose?
+
+The Creditors
+We have.
+
+Mercadet
+I am touched by your unanimity! (pulling out his watch) Two o'clock.
+(Aside) De la Brive has had quite time enough--he ought to be on his
+way here. (Aloud) Gentlemen, you compel me to admit that you are men
+of inspiration and have chosen your time well!
+
+Pierquin
+What does he mean?
+
+Mercadet
+For months, for years, you have allowed yourselves to be humbugged by
+fine promises, and deceived--yes, deceived by preposterous stories;
+and to-day is the day you choose for showing yourselves inexorable!
+Upon my word and honor, it is positively amusing! By all means let us
+start for Clichy.
+
+Goulard
+But, sir--
+
+Pierquin
+He is laughing.
+
+Violette (rising from his chair)
+There is something in the wind. Gentlemen, there is something in the
+wind!
+
+Pierquin
+Please explain to us--
+
+Goulard
+We desire to know--
+
+Violette (rising to his feet)
+M. Mercadet, if there is anything--tell us about it.
+
+Mercadet (coming to the table)
+Nothing! I shall say nothing, not I--I wish to be put behind the
+bars!--I would like to see the figure you all will cut to-morrow or
+this evening, when you find he has returned.
+
+Goulard (rising to his feet)
+He has returned?
+
+Pierquin
+Returned from where?
+
+Violette
+Who has returned?
+
+Mercadet (coming forward)
+Nobody has returned. Let us start for Clichy, gentlemen.
+
+Goulard
+But listen, if you are expecting any assistance--
+
+Pierquin
+If you have any hope that--
+
+Violette
+Or if even some considerable legacy--
+
+Goulard
+Come, now!
+
+Pierquin
+Answer--
+
+Violette
+Tell us--
+
+Mercadet
+Now, take care, I beg you. You are giving way, you are giving way,
+gentlemen, and if I wished to take the trouble, I could win you over
+again. Come now, act like genuine creditors! Ridicule the past, forget
+the brilliant strokes of business I put within the power of each of
+you before the sudden departure of my faithful Godeau--
+
+Goulard
+His faithful Godeau!
+
+Pierquin
+Ah! If there were only--
+
+Mercadet
+Forget all that preposterous past, take no account of what might
+induce him to return--after being waited for so long--and--let us
+start for Clichy, gentlemen, let us start for Clichy!
+
+Violette
+Mercadet, you are expecting Godeau, aren't you?
+
+Mercadet
+No!
+
+Violette (as with a sudden inspiration)
+Gentlemen, he is expecting Godeau!
+
+Goulard
+Can it be true?
+
+Pierquin
+Speak.
+
+All
+Speak! Speak!
+
+Mercadet (with feeble deprecations)
+Why, no, no--yet I do not know--I-- Certainly, it is possible that
+some day or other he may return form the Indies with some--
+considerable fortune-- (In a decided tone) But I give you my word of
+honor that I don't expect Godeau here to-day.
+
+Violette (excitedly)
+Then it must be to-morrow! Gentlemen, he expects him to-morrow!
+
+Goulard (in a low voice to the others)
+Unless this is some fresh trick to gain time and ridicule us--
+
+Pierquin (aloud)
+Do you think it might be?
+
+Goulard
+It is quite possible.
+
+Violette (in a loud tone)
+Gentlemen, he is fooling us.
+
+Mercadet (aside)
+The devil he is! (Aloud) Come, gentlemen, we had better be starting.
+
+Goulard
+I swear that--
+
+(The rumbling of carriage wheels is heard.)
+
+Mercadet (aside)
+At last! (Aloud) Oh, heavens! (He lays his hand upon his heart.)
+
+A Postillion (outside)
+A carriage at the door.
+
+Mercadet
+Ah! (Falls back on a chair near the table.)
+
+Goulard (looking through the pane of glass above the mantel)
+A carriage!
+
+Pierquin (doing the same)
+A post-chaise!
+
+Violette (doing the same)
+Gentlemen, a post-chaise is at the door.
+
+Mercadet (aside)
+My dear De la Brive could not have arrived at a better moment!
+
+Goulard
+See how dusty it is!
+
+Violette
+And battered to the very hood! It must have come from the heart of the
+Indies, to be as battered as that.
+
+Mercadet (mildly)
+You don't know what you are talking about, Violette! Why, my good
+fellow, people don't arrive from the Indies by land.
+
+Goulard
+But come and see for yourself, Mercadet; a man has stepped out--
+
+Pierquin
+Enveloped in a large pelisse--do come--
+
+Mercadet
+No--pardon me. The joy--the excitement--I--
+
+Violette
+He carries a chest. Oh! what a huge chest! Gentlemen, it is Godeau! I
+recognize him by the chest.
+
+Mercadet
+Yes--I was expecting Godeau.
+
+Goulard
+He has come back from Calcutta.
+
+Pierquin
+With a fortune.
+
+Mercadet
+Of incalculable extent!
+
+Violette
+What have I been saying?
+
+(Violette goes in silence to Mercadet and grasps his hand. The two
+others follow his example, and then all the creditors form a ring
+round Mercadet.)
+
+Mercadet (with seeming emotion)
+Oh! Gentlemen--my friends--my dear comrades--my children!
+
+
+
+ SCENE SEVENTH
+
+
+The same persons and Mme. Mercadet.
+
+
+Mme. Mercadet (entering from the left)
+Mercadet! My dear!
+
+Mercadet (aside)
+It is my wife. I thought that she had gone out. She is going to ruin
+everything!
+
+Mme. Mercadet
+My dear! I see that you don't know what has happened?
+
+Mercadet
+I? No, I don't--if I--
+
+Mme. Mercadet
+Godeau is returned.
+
+Mercadet
+Ah! You say? (Aside) I wonder if she suspects--
+
+Mme. Mercadet
+I have seen him--I have spoken to him. It was I who saw him first.
+
+Mercadet (aside)
+De la Brive has won her over! What a man he is! (To Mme. Mercadet,
+low) Good, my dear wife, good! You will be our salvation.
+
+Mme. Mercadet
+But you don't understand me, it is really he, it is--
+
+Mercadet (in a low voice)
+Hush! (Aloud) I must--gentlemen--I must go and welcome him.
+
+Mme. Mercadet
+No--wait, wait a little, my dear; poor Godeau has overtaxed his
+strength--scarcely had he reached my apartment when fatigue,
+excitement and a nervous attack overcame him--
+
+Mercadet
+Really! (Aside) How well she does it!
+
+Violette
+Poor Godeau!
+
+Mme. Mercadet
+"Madame," he said to me, "go and see your husband. Bring me back his
+pardon; I do not wish to see him face to face, until I have repaired
+the past."
+
+Goulard
+That was fine.
+
+Pierquin
+It was sublime.
+
+Violette
+It melts me to tears, gentlemen, it melts me to tears.
+
+Mercadet (aside)
+Look at that! Well! There's a woman worth calling a wife! (Taking her
+by the hand) My darling-- Excuse me, gentlemen. (He kisses her on both
+cheeks. In a low voice) Things are going on finely.
+
+Mme. Mercadet (in a low voice)
+How lucky this is, my dear! Better than anything you could have
+fancied.
+
+Mercadet
+I should think so. (Aside) It is very much better. (Aloud) Go and look
+after him, my dear. And you, gentlemen, be good enough to pass into my
+office. (He points to the left.) Wait there till we settle our
+accounts.
+
+(Mme. Mercadet goes out.)
+
+Goulard
+I am at your service, my friend--
+
+Pierquin
+Our excellent friend.
+
+Violette
+Friend, we are at your service.
+
+Mercadet (supporting himself half-dazed against the table)
+What do you think? And people said that I was nothing but a sharper!
+
+Goulard
+You! You are one of the most capable men in Paris.
+
+Pierquin
+Who is bound to make a million--as soon as he has a--
+
+Violette
+Dear M. Mercadet, we will give you as much time as you want.
+
+All
+Certainly.
+
+Mercadet
+This is a little late--but gentlemen, I thank you as heartily as if
+you had said it yesterday morning. Good-day. (In a low voice to
+Goulard) Within an hour your stock shall be sold--
+
+Goulard
+Good!
+
+Mercadet (in a low voice to Pierquin)
+Stay where you are.
+
+(All the others enter the office.)
+
+Pierquin
+What can I do for you?
+
+
+
+ SCENE EIGHTH
+
+
+Mercadet and Pierquin.
+
+
+Mercadet
+We are now alone. There is no time to lose. The stock of Basse-Indre
+went down yesterday. Go to the Exchange, buy up two hundred, three
+hundred, four hundred--Goulard will deliver them to you--
+
+Pierquin
+And for what date, and on what collateral?
+
+Mercadet
+Collateral? Nonsense! This is a cash deal; bring them to me to-day,
+and I will pay to-morrow.
+
+Pierquin
+To-morrow?
+
+Mercadet
+To-morrow the stock will have risen.
+
+Pierquin
+I suppose, considering your situation, that you are buying for Godeau.
+
+Mercadet
+Do you think so?
+
+Pierquin
+I presume he gave his orders in the letter which announced his return.
+
+Mercadet
+Possibly so. Ah! Master Pierquin, we are going to take a hand in
+business again, and I guess that you will gain from this to the end of
+the year something like a hundred thousand francs in brokerage from
+us.
+
+Pierquin
+A hundred thousand francs!
+
+Mercadet
+Let the stock be depressed below par, and then buy it in, and--
+(handing him a letter) see that this letter appears in the evening
+paper. This evening, at Tortoni's, you will see an immediate rise in
+the quotations. Now be quick about this.
+
+Pierquin
+I will fly. Good-bye. (Exit.)
+
+
+
+ SCENE NINTH
+
+
+Mercadet, then Justin.
+
+
+Mercadet
+How well everything is going on, when we consider our recent
+complications! When Mahomet had three reliable friends (and it was
+hard to find them) the whole world was his! I have now won over as my
+allies all my creditors, thanks to the pretended arrival of Godeau.
+And I gain eight days, which means fifteen, with regard to actual
+payment. I shall buy three hundred thousand francs' worth of Basse-
+Indre before Verdelin. And when Verdelin asks for some of that stock,
+he will find it has risen, for a demand will have raised it above the
+current quotation, and I shall make at one stroke six hundred thousand
+francs. With three hundred thousand I will pay my creditors and show
+myself a Napoleon of finance. (He struts up and down.)
+
+Justin (from the back of the stage)
+Sir--
+
+Mercadet
+What is it--what do you want, Justin?
+
+Justin
+Sir--
+
+Mercadet
+Go on! Tell me.
+
+Justin
+M. Violette has offered me sixty francs if I will let him speak with
+M. Godeau.
+
+Mercadet
+Sixty francs. (Aside) He fleeced me out of them.
+
+Justin
+I am sure, sir, that you wouldn't like me to lose such a present.
+
+Mercadet
+Let him have his way with you.
+
+Justin
+Ah! sir, but--M. Goulard also--and the others--
+
+Mercadet
+Do as you like--I give them over into your hands. Fleece them well!
+
+Justin
+I'll do my best. Thank you, sir.
+
+Mercadet
+Let them all see Godeau. (Aside) De la Brive is well able to look
+after himself. (Aloud) But, between ourselves, keep Pierquin away.
+(Aside) He would recognize his dear friend, Michonnin.
+
+Justin
+I understand, sir. Ah! here is M. Minard. (Exit.)
+
+
+
+ SCENE TENTH
+
+
+Mercadet and Minard.
+
+
+Minard (coming forward)
+Ah, sir!
+
+Mercadet
+Well, M. Minard, and what brings you here?
+
+Minard
+Despair.
+
+Mercadet
+Despair?
+
+Minard
+M. Godeau has come back; and they say that you are now a millionaire!
+
+Mercadet
+Is that the cause of your despair?
+
+Minard
+Yes, sir.
+
+Mercadet
+Well, you are a strange fellow! I disclose to you the fact of my ruin
+and you are delighted. You learn that good fortune has returned to me
+and you are overwhelmed with despair! And all the while you wish to
+enter into my family! Yet you act like my enemy--
+
+Minard
+It is just my love that makes your good fortune so alarming to me; I
+fear all the while that you will now refuse me the hand--
+
+Mercadet
+Of Julie? My dear Adolphe, all men of business have not put their
+heart in their money-bags. Our sentiments are not always to be
+reckoned by debit and credit. You offered me the thirty thousand
+francs that you possessed--I certainly have no right to reject you on
+account of certain millions. (Aside) Which I do not possess!
+
+Minard
+You bring back life to me.
+
+Mercadet
+Well, I suppose that is true, but so much the better, for I am very
+fond of you. You are simple, honorable. I am touched, I am delighted.
+I am even charmed. Ah! Let me once get hold of my six hundred thousand
+francs and--(Sees Pierquin enter) Here they come--
+
+
+
+ SCENE ELEVENTH
+
+
+The same persons, Pierquin and Verdelin.
+
+
+Mercadet (leading Pierquin to the front of the stage without perceiving
+Verdelin)
+Is it all right?
+
+Pierquin (in some embarrassment)
+It is all right. The stock is ours.
+
+Mercadet (joyfully)
+Bravo!
+
+Verdelin (approaching Mercadet)
+Good-day!
+
+Mercadet
+What! Verdelin--
+
+Verdelin
+I find out that you have bought the stock before me, and that now I
+shall have to pay very much higher than I expected; but it is all
+right, it was well managed, and I am compelled to cry, "Hail to the
+King of the Exchange, Hail to the Napoleon of Finance!" (He laughs
+derisively.)
+
+Mercadet (somewhat abashed)
+What does he mean?
+
+Verdelin
+I'm only repeating what you said yesterday--
+
+Mercadet
+What I said?
+
+Pierquin
+The fact of it is, Verdelin does not believe in the return of Godeau--
+
+Minard
+Ah, sir!
+
+Mercadet
+Is there any doubt about it?
+
+Verdelin (ironically)
+Doubt about it! There is more than doubt about it. I at once concluded
+that this so-called return was the bold stroke that you spoke of
+yesterday.
+
+Mercadet
+I--(Aside) Stupid of me!
+
+Verdelin
+I concluded that, relying upon the presence of this fictitious Godeau,
+you made purchases with the idea of paying on the rise, which would
+follow to-morrow, and that to-day you have actually not a single sou--
+
+Mercadet
+You had imagined all that?
+
+Verdelin (approaching the fireplace)
+Yes, but when I saw outside that triumphal post-chaise--that model of
+Indian manufacture, and I realized that it was impossible to find such
+a vehicle in the Champs-Elysees, all my doubts disappeared and-- But
+hand him over the bonds, M. Pierquin!
+
+Pierquin
+The--bonds--it happens that--
+
+Mercadet (aside)
+I must bluff, or I am lost! (Aloud) Certainly, produce the bonds.
+
+Pierquin
+One moment--if what this gentleman has said is true--
+
+Mercadet (haughtily)
+M. Pierquin!
+
+Minard
+But, gentlemen--M. Godeau is here--I have seen him--I have talked with
+him.
+
+Mercadet (to Pierquin)
+He has talked with him, sir.
+
+Pierquin (to Verdelin)
+The fact of it is, I have seen him myself.
+
+Verdelin
+I don't doubt it! By the bye, on what vessel did our friend Godeau say
+he arrived?
+
+Mercadet
+By what vessel? It was by the--by the /Triton/--
+
+Verdelin
+How careless the English newspapers are. They have published the
+arrival of no other English mail packet but the /Halcyon/.
+
+Pierquin
+Really!
+
+Mercadet
+Let us end this discussion. M. Pierquin--those bonds--
+
+Pierquin
+Pardon me, but as you have offered no collateral, I would wish--I do
+wish to speak with Godeau.
+
+Mercadet
+You shall not speak with him, sir. I cannot permit you to doubt my
+word.
+
+Verdelin
+This is superb.
+
+Mercadet
+M. Minard, go to Godeau-- Tell him that I have obtained an option on
+three hundred thousand francs' worth of stock, and ask him to send me
+--(with emphasis)--thirty thousand francs for use as a margin. A man
+in his position always has such a sum about him. (In a low voice) Do
+not fail to bring me the thirty thousand.
+
+Minard
+Yes, sir. (Goes out, through the right.)
+
+Mercadet (haughtily)
+Will that satisfy you, M. Pierquin?
+
+Pierquin
+Certainly, certainly. (To Verdelin) It will be all right when he comes
+back.
+
+Verdelin (rising from his seat)
+And you expect that he will bring thirty thousand francs?
+
+Mercadet
+I have a perfect right to be offended by your insulting doubt; but I
+am still your debtor--
+
+Verdelin
+Bosh! You have enough in Godeau's pocket-book wherewith to liquidate;
+besides, to-morrow the Basse-Indre will rise above par. It will go up,
+up, till you don't know how far it will go. Your letter worked
+wonders, and we were obliged to publish on the Exchange the results of
+our explorations by boring. The mines will become as valuable as those
+of Mons--and--your fortune is made--when I thought I was going to make
+mine.
+
+Mercadet
+I now understand your rage. (To Pierquin) And this is the origin of
+all the doubtful rumors.
+
+Verdelin
+Rumors which can only vanish before the appearance of Godeau's cash.
+
+
+
+ SCENE TWELFTH
+
+
+The same persons, Violette and Goulard.
+
+
+Goulard
+Ah! my friend!
+
+Violette (following him)
+My dear Mercadet!
+
+Goulard
+What a man this Godeau is!
+
+Mercadet (aside)
+Fine!
+
+Violette
+What high sense of honor he has!
+
+Mercadet (aside)
+That's pretty good!
+
+Goulard
+What magnanimity!
+
+Mercadet (aside)
+Prodigious!
+
+Verdelin
+Have you seen him?
+
+Violette
+Of course, I have!
+
+Pierquin
+Have you spoken to him?
+
+Goulard
+Just as I speak to you. And I have been paid.
+
+All
+Paid!
+
+Mercadet
+Paid? How--how have you been paid?
+
+Goulard
+In full. Fifty thousand in drafts.
+
+Mercadet (aside)
+That I can understand.
+
+Goulard
+And eight thousand francs net, in notes.
+
+Mercadet
+In bank-notes?
+
+Goulard
+Bank-notes.
+
+Mercadet (aside)
+It is past my understanding. Ah! Eight thousand! Minard might have
+given them, so that now he'll bring me only twenty-two thousand.
+
+Violette
+And I--I, who would have been willing to make some reduction--I have
+been paid in full!
+
+Mercadet
+All! (in a low voice to him) I suppose in drafts?
+
+Violette
+In first-class drafts to the amount of eighteen thousand francs.
+
+Mercadet (aside)
+What a fellow this De la Brive is!
+
+Violette
+And the balance, the other twelve thousand--
+
+Verdelin
+Yes--the balance?
+
+Violette
+In cash. Here it is. (He shows the bank-notes.)
+
+Mercadet (aside)
+Minard won't bring me more than ten.
+
+Goulard (taking a seat at the table)
+And this very moment he is paying in the same way all your creditors.
+
+Mercadet
+In the same way?
+
+Violette (taking a seat at the table)
+Yes, in drafts, in specie, and in bank-notes.
+
+Mercadet (forgetting himself)
+Lord, have mercy upon me! (Aside) Minard will bring me nothing at all.
+
+Verdelin
+What is the matter with you?
+
+Mercadet
+Me! Nothing--I--
+
+
+
+ SCENE THIRTEENTH
+
+
+The same persons and Minard, followed by creditors.
+
+
+Minard
+I have done your errand.
+
+Mercadet (trembling)
+And you--have brought me--a few--bank-notes?
+
+Minard
+A few bank-notes? Of course. M. Godeau wouldn't let me even mention
+the thirty thousand francs.
+
+(Goulard and Violette rise. Minard stands before the table, surrounded
+by creditors.)
+
+Mercadet
+I can quite understand that.
+
+Minard
+"You mean," he said, "a hundred thousand crowns; here are a hundred
+thousand crowns, with my compliments!" (He pulls out a large roll of
+bank-notes, which he places on the table.)
+
+Mercadet (rushing to the table)
+What the devil! (Looking at the notes) What is all this about?
+
+Minard
+The three hundred thousand francs.
+
+Pierquin
+My three hundred thousand francs!
+
+Verdelin
+The truth for once!
+
+Mercadet (astounded)
+Three hundred thousand francs! I see them! I touch them! I grasp them!
+Three hundred thousand--where did you get them?
+
+Minard
+I told you he gave them to me.
+
+Mercadet (with vehemence)
+He!-- He--! Who is he?
+
+Minard
+Did not I say, M. Godeau?
+
+Mercadet
+What Godeau? Which Godeau?
+
+Minard
+Why the Godeau who has come back from the Indies.
+
+Mercadet
+From the Indies?
+
+Violette
+And who is paying all your debts.
+
+Mercadet
+What is this? I never expected to strike a Godeau of this kind.
+
+Pierquin
+He has gone crazy!
+
+(All the other creditors gather at the back of the stage. Verdelin
+approaches them, and speaks in a low voice.)
+
+Verdelin (returning to Mercadet)
+It's true enough! All are paid in full!
+
+Mercadet
+Paid? Every one of them? (Goes from one to the other and looks at the
+bank-notes and the drafts they have.) Yes, all settled with--settled
+in full! Ah! I see blue, red, violet! A rainbow seems to surround me.
+
+
+
+ SCENE FOURTEENTH
+
+
+The same persons, Mme. Mercadet, Julie (entering at one side) and De
+la Brive (entering at the other side).
+
+
+Mme. Mercadet
+My friend, M. Godeau, feels himself strong enough to see you all.
+
+Mercadet
+Come, daughter, wife, Adolphe, and my other friends, gather round me,
+look at me. I know you would not deceive me.
+
+Julie
+What is the matter, father?
+
+Mercadet
+Tell me (seeing De la Brive come in) Michonnin, tell me frankly--
+
+De la Brive
+Luckily for me, sir, I followed the advice of madame--otherwise you
+would have had two Godeaus at a time, for heaven has brought back to
+you the genuine man.
+
+Mercadet
+You mean to say then--that he has really returned!
+
+Verdelin
+Do you mean to say that you didn't know it after all?
+
+Mercadet (recovering himself, standing before the table and touching
+the notes)
+I--of course I did. Oh, fortune, all hail to thee, queen of monarchs,
+archduchess of loans, princess of stocks and mother of credit! All
+hail! Thou long sought for, and now for the thousandth time come home
+to us from the Indies! Oh! I've always said that Godeau had a mind of
+tireless energy and an honest heart! (Going up to his wife and
+daughter) Kiss me!
+
+Mme. Mercadet (in tears)
+Ah! dear, dear husband!
+
+Mercadet (supporting her)
+And you, what courage you have shown in adversity!
+
+Mme. Mercadet
+But I am overcome by the happiness of seeing you saved--wealthy!
+
+Mercadet
+But honest! And yet I must tell you my wife, my children--I could not
+have held out much longer--I was about to succumb--my mind always on
+the rack--always on the defensive--a giant might have yielded. There
+were moments when I longed to flee away-- Oh! For some place of
+repose! Henceforth let us live in the country.
+
+Mme. Mercadet
+But you will soon grow weary of it.
+
+Mercadet
+No, for I shall be a witness in their happiness. (Pointing to Minard
+and Julie.) And after all this financial traffic I shall devote myself
+to agriculture; the study of agriculture will never prove tedious. (To
+the creditors) Gentlemen, we will continue to be good friends, but
+will have no more business transactions. (To De la Brive) M. de la
+Brive, let me pay back to you your forty-eight thousand francs.
+
+De la Brive
+Ah! sir--
+
+Mercadet
+And I will lend you ten thousand more.
+
+De la Brive
+Ten thousand francs? But I don't know when I shall be able--
+
+Mercadet
+You need have no scruples; take them--for I have a scheme--
+
+De la Brive
+I accept them.
+
+Mercadet
+Ah! It is one of my dreams. Gentlemen (to the creditors who are
+standing in a row) I am a--creditor!
+
+Mme. Mercadet (pointing to the door)
+My dear, he is waiting for us.
+
+Mercadet
+Yes, let us go in. I have so many times drawn your attention to
+Godeau, that I certainly have the right to see him. Let us go in and
+see Godeau!
+
+
+
+Final curtain.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Mercadet, by Honore De Balzac
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MERCADET ***
+
+***** This file should be named 14246.txt or 14246.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.net/1/4/2/4/14246/
+
+Produced by Dagny and John Bickers
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.net/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.net
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.net),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.net
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
diff --git a/old/old/14246.20041203.zip b/old/old/14246.20041203.zip
new file mode 100644
index 0000000..5607138
--- /dev/null
+++ b/old/old/14246.20041203.zip
Binary files differ