diff options
| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:41:20 -0700 |
|---|---|---|
| committer | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:41:20 -0700 |
| commit | b5ae4052a90fcc47bc5084825433743dad10f600 (patch) | |
| tree | 70132dbd01002612cb2fb7d1f6289675da49966f | |
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 3 | ||||
| -rw-r--r-- | 13092-0.txt | 1951 | ||||
| -rw-r--r-- | 13092-h/13092-h.htm | 2212 | ||||
| -rw-r--r-- | 13092-h/images/devil.png | bin | 0 -> 38908 bytes | |||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 | ||||
| -rw-r--r-- | old/13092-8.txt | 2342 | ||||
| -rw-r--r-- | old/13092-8.zip | bin | 0 -> 51613 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/13092-h.zip | bin | 0 -> 92849 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/13092-h/13092-h.htm | 2629 | ||||
| -rw-r--r-- | old/13092-h/images/devil.png | bin | 0 -> 38908 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/13092.txt | 2343 | ||||
| -rw-r--r-- | old/13092.zip | bin | 0 -> 50994 bytes |
13 files changed, 11493 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/13092-0.txt b/13092-0.txt new file mode 100644 index 0000000..749f3e8 --- /dev/null +++ b/13092-0.txt @@ -0,0 +1,1951 @@ +*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13092 *** + +[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS] + +RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ + +AS FARPAS + +CHRONICA MENSAL + +DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES + +TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878 + +Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, +da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das +sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da +politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande +universo, e da adoração de mim mesmo. + +P.J. PROUDHON + + + + +SUMMARIO + + +A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, José de Alencar, +Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello +d'aquella dama. A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe +fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A +litteratura feminina e a cozinha de minha avó.--Da influencia dos hymnos +sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios. +A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A +cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho +Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro +civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A +situação politica. As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os +partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação. + +No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um +pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados. +Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor +Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho. + +Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo +imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças +sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da +grande alma do povo. + +Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão +profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos +descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e +póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia +microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia +da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o +que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do +suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de +Ville a Republica de 48. + +Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias +physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias +socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo, +economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio +profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros, +das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as +instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma +judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo +caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o +favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou +todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os +diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas, +os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao +estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde +dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no +isolamento austero da independencia o do sacrificio. + +Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno +e do Bernardo Palissy. + +A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma, +resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca +do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o +homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade. + +Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da +academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da +rebelião_.[1] O chefe do partido conservador francez não podia esquecer +que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior, +em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a +phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de +cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias +todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.» + +[Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma +cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a +desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois +crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.] + +É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi +egualmente o braço constantemente pronto para resistir. + +Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e +mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á +carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um +theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de +verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos +dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser +condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da +liberdade de pensamento! + +O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma +trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a +força do trabalho; Littré, a força da philosophia. + +D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais +fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram +são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse +exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em +nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde +as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão +raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a +mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no +jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não +tem partido. + +Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no +coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se +sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez +calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus +similhantes! + +Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde +repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que +deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela +consciencia e pela verdade! + + * * * * * + +Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um +idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas +instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a +derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou +pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel +empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada +para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um +symbolo ultrajante para a dignidade humana. + +A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com +palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia +olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos +principios de justiça social constantemente professados pelo immortal +artista. + +Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém +soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar +puerilmente que se deve ser + +_Fier d'être français +Quand on regarde la colonne!_ + +Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora, +comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na +obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o +distico diz ser: _levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o +Grande!!_ + +Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen +republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo +municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus +estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris +que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação +dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma +das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas +aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores +nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os +direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em +cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia. + +A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou +um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes +da geração actual o sol de Austerlitz. + +Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a +que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará, +ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e +pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de +remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na +maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que +será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em +que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na +pratica dos seus actos a opinião do seu tempo. + + * * * * * + +Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico +de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da +espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como +elle uma cruzada,--a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a +terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo +realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na +alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos +fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas +dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes, +mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos, +atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás +altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais +encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte. +Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os +attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão +contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do +Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta. + +Feliz homem! + + * * * * * + +A morte de José de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_, +representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão +notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus +pensadores. + +Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos +annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a +organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um +novo elemento social--o povo. + +José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando +poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem +synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e +decide da sorte dos imperios. + +Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais +celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade, +procedera da roda dos expostos. + +Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do +trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno +da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica +azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e +fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do +senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante, +que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para +reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus +inimigos.» + + * * * * * + +Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce +consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas +amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella +natureza essencialmente desgraçada. + +Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia +em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o +collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia +nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem +melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos +nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico, +jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem +texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade +portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto +tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e +incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem +consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do +direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e +da lingua. + +Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da +generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a +funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse +motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um +instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias +concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle +estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação, +repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente +aggravada por uma falsa educação. + +Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame, +de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento +caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na +infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um +sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios +da sua inquieta o attribulada existencia. + +A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem. +O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa, +conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do +dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que +vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós +precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem +para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da +crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da +palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado +vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa +virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres +para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho +no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia +social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o--como succede ás +mulheres nervosas. + +Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As +suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua +sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta +pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil. +Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou +lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas +sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior +de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão +caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas +physicas. + +Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar +obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro +andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da +camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de +Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os +quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre, +tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos +philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era +preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o +nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas +assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro +imperfeitamente orientado. + +Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto +da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara +alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o +estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda +ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_ +nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o +canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando +descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as +outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os +clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as +bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros, +aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe, +negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua +voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no +maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços, +estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom +sitio amado, uma velha canção querida. + +Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em +que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da +sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi +sepultado n'este medonho tumulo--o despreso. + +Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo +dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do +aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a +parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de +madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua +biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico. +Inutilmente. Elle estava morto. + +Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto +Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de +acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse +traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem +o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos. +O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios +e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões +illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas +qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica, +quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela +maledicencia. + + * * * * * + +Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigão_--publicou o _Diario da Manhã_ +o folhetim seguinte: + +_Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educação--Um programma de +ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipação das +mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o +estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais +caldo_. + +Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nós +deixaria de ler com a maxima attenção um artigo escripto pelo sr. +Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma +de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do +paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgão, pedindo-nos caldo, não foi +ouvido por uma só mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho +por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só _caldo_, mas +tambem _luz_, que o alumie nas suas investigações ácerca d'um assumpto, +que é realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex.ª attribue á +nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda +responsabilidade. + +Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave, +contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos +escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu +espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena +que os escriptos do sr. Ramalho não sejam mais succulentos! são como os +caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica, +depurados até á transparencia, muito aromatisados ... mas sem +substancia. + +Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla +sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho, +esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmão, +deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor +vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouça-me pois. + +Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se +faz esse alambicado caldo francez, tão purificado, que por fim como o +proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á +sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os +classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam +nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal +agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formação das suas +idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi +comendo esses caldos e quasi só com elles, que os energicos e valentes +portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na +Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo +á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos +lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo +nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua +heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se +incommodasse com a dyspepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que +todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que +supportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia, +os mais rudes trabalhos; e comtudo não soffrem de dyspepsia. Será por +terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem é +preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas +rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o affirma. + +A dyspepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quasi privativa dos +homens das classes elevadas--e quer que lhe digámos porque? Porque elles +teem com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos +quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemães fazem +consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e +todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os +portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e +das tavernas, onde é considerado heroe aquelle que come e bebe mais +brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices +de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se +chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso codigo de +educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio. + +Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque +passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, até que +chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de +lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de +familia, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o +braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em +crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle não +seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestigios de +gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome, +pois d'este modo terá prestado um importantissimo serviço ao seu paiz. + +O seu programma para a educação das mulheres parece-nos excellente para +a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos +collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanças que os +frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser +boas _ménagéres_, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos, +recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães. + +Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa, +todas nós sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como +se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não +fazem esses serviços sabem como elles são feitos, pois desde crianças os +viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é _differençar os +differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas +mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto +considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a +suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos +falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos. + +Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum +as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais +sobrias e economicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda +a eloquencia do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa +convicção. + +Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres--por +profissão--enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitaes, e nem se +lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella +seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira +sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os +horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens +energicos e audaciosos. + +Para sabermos fazer prodigios de economia não precisamos de nos alistar +n'uma escola ingleza, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo +que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se póde +sustentar uma familia com 18$000 réis por semana, mas n'essa familia--o +chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo tres +tigellas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas, +e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis. + +Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este +alimento é muito sufficiente para lhes conservar robustas as forças +vitaes, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma +casa deixará de ser uma _lôba_ para se transformar n'uma _burra_. + +Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ella o _braço +forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos +exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e +guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os +maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós +realizar o seu ideal basta casar em Avintes. + +A educação intellectual das mulheres, quando ellas se não dediquem a ser +mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento +necessario, as liçoes dos homens de quem forem esposas. Assim +reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos +conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse +respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever +da esposa. + +Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras +inglezas--nós, menos profundas pensadoras, não o queremos. + +Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores +physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mãe, nos +ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber soffrer e amar, por +isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que +acaba de nos fazer soffrer as dôres da maternidade, e abençoamos +reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa +mão é a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixão, +encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos. + +Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida +como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais +civilizadas da Europa. + +Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua +irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua +intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa +sua robustez physica, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou +de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros, +que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos +circos o trabalho de fazer rir o publico. + +Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas +esse importantissimo. + +Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o +sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos +seus. + +Sua + +_Irmã de Caridade_ + + * * * * * + +Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que +effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle +é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos +já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a +retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um +espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa +acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a +phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um +lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que +apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua +prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores! +queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a! + +Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha +processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade +mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve, +não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella +mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece. + +O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos +imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da +philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que +temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram +os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro. +Revêde-vos na vossa obra. + +Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e +de pó de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de +recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de +_cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto. + +Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de +raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades +intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos +encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão +vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler +presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais +racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira +de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver. +Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós +mesmo pelo que lhe ensinastes. + + * * * * * + +Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz +interprete, dirigi-se ás _Farpas_ na pessoa do seu auctor. + +O que são as _Farpas_ com relação ás mulheres? + +As _Farpas_ são a publicação periodica--unica em Portugal--que em +artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem +constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á +reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o +criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido +violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde +dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o +flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento +indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a +dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico +e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção +pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão +negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é +aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de +ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua +collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor +indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para +ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino +superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos +palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas +amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas +filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da +cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor +dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito +presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de +systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--é +claro--mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma +das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás +mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade +suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa. + +Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das _Farpas_ +uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe +o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas +portuguezas: + +«Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhaços dos circos_ o +trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!» + +Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito. +Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das +senhoras portuguezas não só é igual--como a auctora modestamente +formula--á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo +considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de +Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor +qualquer--amigo ou adversario--uma palavra tão lucida, tão conceituosa, +tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão +nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio +da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos +mais que _um palhaço de circo_, opinião profundamente philosophica. É +talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos +lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas, +entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho +cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas +recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio +qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco +lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-ç-o_ a um homem a quem os +seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa. + +Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia +e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos +deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de +Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina. + +Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta +compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e +chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse +effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se +sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher +é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que +estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua +excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da +nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos +da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos +mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares +pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a +força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que +sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples +caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos +eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital +pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene, +pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as +substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene +alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo +sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos +srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud, +Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua +excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira +tintura--alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é +um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o +seu voto n'esse caso poderia ter discussão. + +A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este +assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir +nos adversarios senão admiração e respeito. + +É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham +dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o +seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada +hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou +muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada +individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as +analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo +dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida +pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton +nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas +campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da +alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que +pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de +operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da +qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30 +por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire +nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos +historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside +simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia +tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em +cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos +nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do +nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça +melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição +dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua +economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os +philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e +de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a +resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo +quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta +illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus +similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos +empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó. + +Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos +de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento +supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em +respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na +Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à +travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de +uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os +vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Café Anglais_. + +Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e +reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia +affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na +perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia +imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um +vestido e que sabe tambem--ó legítimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a +mais--notem--sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos +offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada. +Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas +virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os +enthusiasmos da paixão»:--sua excellencia gosta de assucar! + +Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os +meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber +licores para os botequins? + +As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem +ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da +agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos +unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas +poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o _box_, dão-lhes desde a +idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles +vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir +lá buscar. + + * * * * * + +Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo +segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que +Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais +d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras, +encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da +arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos +para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os +pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e +da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna, +pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade +conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em +trabalho e em força. Sua excellencia prefere _deixar todos esses +conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera +a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_ + +Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua +excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a +bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de +_abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava_ (!) + +O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não +promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas +algemas! + +Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua +excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a +jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe +constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de +poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha. + + * * * * * + +O folhetim de sua excellencia termina com uma allusão pessoal à nossa +robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos +licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos: + +Eu--pois que é bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas +linhas, não me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calçada dos +Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos +homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirará d'este facto +a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua +excellencia não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que +me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de +que não tomei ease chá. + +Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida +courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos +mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia +para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:--o phosphato de cal, +que eu ingeria em grandes dozes. + +A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, não tinha saguão, +não tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não +tinha pia. + +A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o +grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o +primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem +terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias +dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um +instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher: +Primeiro ser saudavel; Segundo não ser conhecida. No interior da sua +casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de +economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho +piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se +fechar de memoria d'homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se +desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de +cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um +dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execução +esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graça, de que era +modelo a incomparavel cosinha da minha avó,--aberta ao nivel do pateo +defronte do poço, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico +perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de +cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira +onde se espanejavam os capões; os tropheus ornamentaes dos instrumentos +agricolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a +masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do +fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos môços da lavoura tendo +em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada +com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas +efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervenção periodica +do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua +escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam +sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno. + +Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tepido aconchego, de +suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e +honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias +contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da +familia; explicava o amor á, terra da patria pela dedicação ás quatro +braças de solo cobertas por esse velho tecto. + +A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual +os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da +poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e +fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem +havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra +modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a +educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da +saudade eterna dos seus netos. + +A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a +minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann +que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha +robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os +nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo +das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas +vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos +folhetins dos periodicos. + + * * * * * + +Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre +escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir. +Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem +chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso. + + * * * * * + +Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o +telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada. + +Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes +que sua magestade ouvira--um solo de cornetim! + +Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o +Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _União e +Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio. +Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a +arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe. + +A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre +as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir +a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor. + +Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de +accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno +parece-nos um abuso que o principe não levará a bem. + +Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro +coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas +conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso. + +Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa. +O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é +verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a +vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias, +sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença +chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo +trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente á loucura. + +Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão +incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das +contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter +faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes, +ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem +hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal +ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro +remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas +sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha +presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse +instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da +tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos +cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_ + +E a posteridade nos abençoará. + + * * * * * + +Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A +hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder +politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada +manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente +uns aos outros: + +--Não viram por ahi a hydra? + +Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha +entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr. +Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua +dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito +imperfeito do verbo Mexer. + + * * * * * + +N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila, +presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser +hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as +suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas +de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa. + +Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para +salvar a situação da falta da hydra: + + * * * * * + +O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz. +Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal +pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos +seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o +haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena +questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais +exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio +como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos +que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as +d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil. +Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a +esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente +podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente +enterrado. + +N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e +determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao +que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara +municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e +discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios +alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim. + + * * * * * + +Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem +de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o +triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira +cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem +uma formula. A sua formula é esta: «..._O bucentauro do progresso +rasgando os flancos da montanha_ ...» Sempre que esse homem terrivel +arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os +auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido +uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua +cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor +o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle +triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas +theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para +lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e +phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario +e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro +estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica +ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama. + + * * * * * + +Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito +canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da +montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e +philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da +morte,--comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro +rasgando os supracitados flancos,--que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a +vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro--o que à +hydra parecerá sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro +ainda parece pouco. + +O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim +fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos +aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica +romana. + + * * * * * + +Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico +dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que +cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da +consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico +infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião, +cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica. +Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas +mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o +campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a +discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão +eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as +amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do +orbe pela larga benção incondicional de Jesus. + +Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa, +pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um +recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das +podridões privilegiadas. + +Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem +ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta +pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com +as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e +pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda +no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem +terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais +sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da +resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No +dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu +chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na +bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso. + +Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano +do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da +grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie +do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem, +nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem +o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos +teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar +usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um +canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos +sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza +humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do +sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta. +És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires +para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor +te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para +o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado, +distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma +sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios +chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote, +poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua +outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila +e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros +doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que +te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de +horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os +homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do +padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua +dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus +filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas, +entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as +suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo +tepido dos seus ligeiros _coupés_. Assim com as abençoadas sepulturas +dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos +enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram +cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um +bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas +vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus +preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,--cem +mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela +cidade inteira. + +E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça +inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor +que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como +te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte: + +No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o +canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um +anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão +para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos +os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das +catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio. +Não terás remedio senão acordar,--quer queiras, quer não--do teu pesado +somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois +ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas +como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão +com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de +ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é +condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que +tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna +justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a +elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de +interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus +dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande +voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o +Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:--«Deram-lhe o +baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia? +Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O +cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a +esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará +para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--«Fogo eterno para +um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando +o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella +sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição +eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais. + +Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros. +Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas +mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle +mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos! +Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam +Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do +que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os +cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do +os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os +collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não +resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os +primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos +pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os +impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o +sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que +fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais +contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo. + + * * * * * + +Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o +ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo +por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que +muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas +esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos +n'outros termos--a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que +pretendemos consultar s. exª: + + * * * * * + +Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas, +não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se +por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir +entretendo. + +N'esta hypothese pergunta-se: + +Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha +o capricho de descartar-me? + +Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo +indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente +escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros +impios e locomotores. + +A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da +direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana. +Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia +baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em +lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de +aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E +este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido +as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o +parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da +carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu +padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali +tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o +resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem +varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas +crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe +compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de +todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje +contradisse--que me conste--as declarações latinas feitas em seu nome +por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto é catholica, +e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no +paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio +dos atheus. + + * * * * * + +Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á +funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa +resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes: + +Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a +communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias +não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim +uma affirmação civil. + +Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é +facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem +ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que +substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha +perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo +o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente +demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o +attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais +sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria; +não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no +exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem +na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não +póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não +póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome! + +A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna +antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe +pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada. + +Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de +nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da +igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para +dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu +pae e de minha mãe--a minha perna está prohibida de a ter sem que a +igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar +de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente +minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando +eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que +espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente +deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna, +era--a perna da igreja. + +Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha +perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o +catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado, +recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o +direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de +ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada +anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira, +de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na +religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças +religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de +baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista. + +Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em +Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim +separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não +obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de +dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a +sua transgressão,--é claro que não póde ser unicamente pelo facto de +estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de +designar a sepultura sagrada. + +Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico +outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna +pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é +effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial +de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios, +e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o +contrario. + +Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se +encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha +perna. + +Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a +creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade +de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem +padre, morrer sem padre. + + * * * * * + +Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta +cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paços da Camara na Praça Nova, +esquina do Laranjal + +Porto + +Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados +pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de +todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia +inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras. + +Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que +tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de +comparecer. + +Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes +reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado +pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande +comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova +ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que +presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei, +certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª! + +Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de +uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem +n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das +violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus +encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera +maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto, +levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol. +Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo +Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o +caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado +de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da +Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias +da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em +_pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos, +reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados, +fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros, +ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa, +com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por +trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas +abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle, +os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e +murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da +freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração +de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de +torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha +venezianamente na agua. + +Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da +ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes +proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação +humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos +os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos +os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas, +tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do +Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do +paiz estavam ahi reunidos. Para que? + +Para celebrar um puro facto scientifico--a solução de um problema de +mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que +phenomeno! que revolução! + +Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de +determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato +de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos +iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus +casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões +domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz, +os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os +mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a +longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos +caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de +plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes. + +Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum +pessoal. + +Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se +o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos +exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma +funccionalidade diversa. + +Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder +politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já +por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder, +irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos +nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera +espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria. + +A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão +symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto +mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de +que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era +tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação, +que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia +todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções +de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza. +A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de +convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os +individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e +o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais +progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes +revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se +acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço +cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos +outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais +tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias +episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de +conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse +sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel +força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das +bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo, +vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o +aperfeiçoamento e para a felicidade. + +Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem +os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e +dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi +elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos +remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que +determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos +das sociedades. + +A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas +victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de +paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem +sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino +progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas +instituições. + +Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas +estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por +um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos +reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os +nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo +com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo +debatida entre dois principes. + +A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que +progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos +milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente +affirmação d'esse progresso. + +A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus +principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a +especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo. + +Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este +seu novo hospede? Não lhe apparecendo! + +V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais +irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia +satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª +que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos +pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos +do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as +chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v. +ex.ª--dizemos--não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para +agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais +extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma +cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro. + +Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece +completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades +democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos +abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população +portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva. + +É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse +contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada +com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa +patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo +o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do +forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª +nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a +sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso +telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas, +teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa +resignação para o desgosto de a não vermos no espirito. + +Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes +como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu. + + + * * * * * + + +Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira +de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre +os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder. + +Eis o que ao depois occorreu: + + * * * * * + +A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes, +choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e +Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre +estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de +suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra? + +--Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das +mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional. + +Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha +bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão +aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam: + +--Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade. + +E deixaram-o ir. + + * * * * * + +Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo, +com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da +estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a +orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos +deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices +adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande +homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a +perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao +abysmo,--sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na +redea. + + * * * * * + +Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a +cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões, +retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a +saudade da mangedoura na alma.--Tão poderoso e fecundo é o ascendente +moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades +officiaes! + + * * * * * + +Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha +do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o +dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os +circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao +sr. José Dias Ferreira. + +Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder, +o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso: + +--A mim, rapazes! + +E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»--os rapazes foram a elle. + + * * * * * + +Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem +assim elle mesmo? + +Atonitos elles vêem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a +burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima! + +Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o +sr. Fontes veloz encavalgara o poder. + + * * * * * + +O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões +do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a +Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos, +rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou +depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o +seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em +cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão +para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de +dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes +nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e, +como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram +estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr. +Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da +commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a +delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª +abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque +de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de +ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave +auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá +azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial! + +Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental +da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das +causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar +durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa +intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra +bolsa do alforge ministerial. + +Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra, +enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra. + + * * * * * + +E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo +logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto +nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com +arnica o seu galo. + + * * * * * + +Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve +jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes +eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr. +Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico. + +O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente +como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre +estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns +kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª + + + * * * * * + + +Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores +deputados: + + * * * * * + +Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores, +funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde +os parapeitos até ao tecto. + +Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre +o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado. + +Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um +individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em +resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar, +publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de +dôr--Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro. + +Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente +encasados nos seus _fauteuils_. Não teem uma apparencia espirituosamente +feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço +com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos +calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra. + +No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o +coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando. + +Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação. + +Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em +amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforço. +O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava +Robespierre--São os empaturrados da coisa publica. + +Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés +mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos +sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que +descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--São os espinhelas +cahidas do systema que felizmente nos rege. + +No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de +inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto +dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma +sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz +inoffensivamente, n'uma abstração magnanima. + +--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca, +lacrimejante--Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade. + +Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu +estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de +cabeça. + +Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de +vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade, +estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma +resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido +mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação, +a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a +submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma +face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a +resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz +sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a +constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em +extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas +lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida +moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as +botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do +trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão +ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e +da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica +constitucional. + +Diz mais o orador: + +--«Sr. presidente!--e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e +pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as +investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman +inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo +isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram +aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem +porque elles serão consolados». + +E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da +camara:--«Muito bem! muito bem!» + +Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por +Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin +e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo +victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas +questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores +desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos +srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate. +Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano, +ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius +Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart +Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a +alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita +dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois +d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas +crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não +queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este +moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da +nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno +collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no +meio dos applausos geraes de todo o parlamento. + +E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a +applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades. + +A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está, +como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de +Kant, de Hegel e de Hartman. + +Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da +philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou +precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o +grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela +indisciplina mental. + +Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo +philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848. + +Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases +definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e +para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho +triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o +filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado. + +Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande +peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de +pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi +o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado +politico do imperador Guilherme? + +Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal +senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica +arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha? + +Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso +vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos +preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua +ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na +peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos +certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a +pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado +philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e +contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia, +pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela +linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua +elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e +actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza. + +Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão +experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino +humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande +maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se +indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da +sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta +noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.» + +A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de +esphacelamento cerebral. + +Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de +caturras?--É unicamente o que perguntamos. + + * * * * * + +O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara +governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a +coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão +social. + +A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por +fazer. + +A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo +o principio em que se funda. + +A distribuição racional do imposto ainda não foi definida. + +Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de +uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma +Turquia está muito adeante de nós. + +Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem +destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e +dissolvem-se na banalidade. + +As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos +personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás +camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as +mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade. + +Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para +assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses +exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a +burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso +moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de +cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento +similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolução do despreso_. + +Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de +circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos +do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de +funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal? + + * * * * * + +Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É +catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é +militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma +electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado; +quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito +permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena +de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de +governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro, +uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica +de cordas, uma photographa, etc. + +Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se +disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que +pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido +opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o +partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente +conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É +evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da +industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção +das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a +universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a +magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o +governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se +distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa, +a photographia, a cordoaria, a fundição, etc. + +A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de +não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade +e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o +partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder +perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e +a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não +pódem constituir principios de programma, são communs a todos os +partidos ou não são especiaes de partido nenhum. + +Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos +mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia +completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando +constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo +vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e +digerindo-se pouco e pouco a si mesmo. + + * * * * * + +Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica +converte-se fatalmente em uma questão de compadres. + +O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo, +corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o +appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo +appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos +compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou +diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no +favor da urna. + +O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma +todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a +expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria +consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria +commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas! + +Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais +competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e +de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem +moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido: +a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos +preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja, +é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo +deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito +e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado, +aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o +insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever. + +Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e +como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de +_compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do +ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão +correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz +apenas:--É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o +compadre, vou para o partido d'elle. + +O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do +machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do +governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir +o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de +que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando +como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a +engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a +tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa. + +A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa +contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre, +esse poder é unicamente--o da comadre. + +A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no +dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais +rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras, +unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva, +real; compadrice, comadrice--eis tudo. + + * * * * * + +Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja +decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que +ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma +miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse +remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de +quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos, +socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que +sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia +e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio +philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa +que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe +resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo +reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das +concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos +revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos +conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento +actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos +mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes. + + * * * * * + +Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que +sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto +pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas +que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto: +caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento--_dealbatum +sepulchrum_! + + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878, +by Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13092 *** diff --git a/13092-h/13092-h.htm b/13092-h/13092-h.htm new file mode 100644 index 0000000..268569c --- /dev/null +++ b/13092-h/13092-h.htm @@ -0,0 +1,2212 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=UTF-8" /> + <meta content="pg2html (binary v0.16)" name="generator" /> + <meta name="author" content="Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz" /> + <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, Janeiro de 1878 by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz.</title> + <style type="text/css"> + /*<![CDATA[*/ + <!-- + body { margin-left: 10%; margin-right: 10%; } + h1,h2,h3,h4,h5,h6 { text-align: center; } + hr.major { width: 30%;} + hr.minor { width: 10%;} + sup.small {font-size: 75%} + .centered {text-align: center} + .foot { margin-left: 10%; margin-right: 10%; text-align: justify; text-indent: -3em; font-size: 85%; } + .poem { margin-left: 10%; margin-right: 10%; margin-bottom: 1em; text-align: left; } + .poem .stanza { margin: 1em 0em 1em 0em; } + .poem p { margin: 0; padding-left: 3em; text-indent: -3em; } + .poem p.i2 { margin-left: 1em; } + .poem p.i4 { margin-left: 2em; } + .poem p.i6 { margin-left: 3em; } + .poem p.i8 { margin-left: 4em; } + .poem p.i10 { margin-left: 5em; } + /*]]>*/ + // --> + </style> +</head> +<!--====================================================--> +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13092 ***</div> + +<div class="centered"> + <img src="images/devil.png" width="570" height="755" + alt="Eça de Queiroz—Ramalho Ortigão—As Farpas" /> + <!--IMAGE END--> +</div> +<hr class="major" /> +<h1> + AS FARPAS +</h1> +<div class="centered"> + <p>RAMALHO ORTIGÃO—EÇA DE QUEIROZ</p> + <p>CHRONICA MENSAL</p> + <p>DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p> + <p>TERCEIRA SERIE—TOMO I</p> + <p>Janeiro de 1878</p> +</div> + +<hr class="major" /><!--===================--> +<blockquote> +<p> + Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, + da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das + sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da + politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande + universo, e da adoração de mim mesmo. +</p> +</blockquote> +<p class="centered"> + P.J. PROUDHON +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> + +<p class="centered"> + <b>SUMMARIO</b> +</p> +<p> + A romagem dos mortos. + <a href="#raspail" >Raspail</a>, + <a href="#courbet" >Courbet</a>, + <a href="#victormanuel">Victor Manuel</a>, + <a href="#alencar" >José de Alencar</a>, + <a href="#soromenho" >Augusto Soromenho</a>.—<i>A + senhora portuense</i> e <i>as Farpas</i>. + <a href="#libello" >O libello d'aquella dama.</a> + A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe + fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A + litteratura feminina e a cozinha de minha avó. + —Da influencia dos hymnos + sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do + <a href="#telephonio" >telephonio</a>. + — + <a href="#cemiterios" >Os cemiterios</a>. + A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A + cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho + Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro + civil.—A ex'ma + <a href="#camara" >Camara Municipal do Porto</a> ou a quem suas vezes fizer.— + <a href="#politica" >A situação politica</a>. + As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os + partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação. +</p> +<hr id="mortos" class="major" /><!--===================--> +<p> + No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um + pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados. + Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor + Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho. +</p> +<p> + <a id="raspail" name="raspail" >Raspail</a> + , entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo + imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças + sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da + grande alma do povo. +</p> +<p> + Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão + profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos + descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e + póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia + microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia + da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o + que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do + suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de + Ville a Republica de 48. +</p> +<p> + Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias + physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias + socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo, + economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio + profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros, + das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as + instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma + judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo + caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o + favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou + todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os + diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas, + os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao + estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde + dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no + isolamento austero da independencia o do sacrificio. +</p> +<p> + Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno + e do Bernardo Palissy. +</p> +<p> + A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma, + resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca + do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o + homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade. +</p> +<p> + Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da + academia prohibindo que <i>o premio da virtude cahisse no cofre da + rebelião</i>. +<a href="#note-1"> +<sup class="small" id="note_return_1">1</sup></a> + O chefe do partido conservador francez não podia esquecer + que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior, + em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a + phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de + cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias + todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.» +</p> +<p class="foot"> +<a href="#note_return_1"><sup id="note-1">1</sup></a> + [Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma + cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a + desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois + crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.] +</p> +<p> + É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi + egualmente o braço constantemente pronto para resistir. +</p> +<p> + Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e + mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á + carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um + theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de + verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos + dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser + condemnado aos oitenta,—aos oitenta annos de idade!—por abuso da + liberdade de pensamento! +</p> +<p> + O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma + trindade sacrosanta:—Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a + força do trabalho; Littré, a força da philosophia. +</p> +<p> + D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais + fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram + são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse + exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em + nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde + as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão + raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a + mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no + jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não + tem partido. +</p> +<p> + Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no + coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se + sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez + calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus + similhantes! +</p> +<p> + Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde + repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que + deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela + consciencia e pela verdade! +</p> +<hr id="courbet" class="minor" /> +<p> + Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um + idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas + instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a + derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou + pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel + empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada + para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um + symbolo ultrajante para a dignidade humana. +</p> +<p> + A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com + palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia + olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos + principios de justiça social constantemente professados pelo immortal + artista. +</p> +<p> + Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém + soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar + puerilmente que se deve ser +</p> +<p class="poem"><i> + Fier d'être français<br /> + Quand on regarde la colonne!<br /> +</i> +</p> +<p> + Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora, + comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na + obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o + distico diz ser: <i>levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o + Grande!!</i> +</p> +<p> + Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen + republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo + municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus + estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris + que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação + dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma + das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas + aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores + nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os + direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em + cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia. +</p> +<p> + A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou + um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes + da geração actual o sol de Austerlitz. +</p> +<p> + Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a + que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará, + ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e + pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de + remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na + maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que + será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em + que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na + pratica dos seus actos a opinião do seu tempo. +</p> +<hr id="victormanuel" class="minor" /> +<p> + Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico + de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da + espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como + elle uma cruzada,—a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a + terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo + realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na + alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos + fortes—a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas + dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes, + mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos, + atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás + altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais + encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte. + Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os + attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão + contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do + Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta. +</p> +<p> + Feliz homem! +</p> +<hr id="alencar" class="minor" /> +<p> + A morte de José de Alencar, o auctor do <i>Guarany</i> e de <i>Luciola</i>, + representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão + notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus + pensadores. +</p> +<p> + Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos + annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a + organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um + novo elemento social—o povo. +</p> +<p> + José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando + poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem + synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e + decide da sorte dos imperios. +</p> +<p> + Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais + celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade, + procedera da roda dos expostos. +</p> +<p> + Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do + trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno + da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica + azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e + fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do + senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante, + que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para + reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus + inimigos.» +</p> +<hr id="soromenho" class="minor" /> +<p> + Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce + consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas + amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella + natureza essencialmente desgraçada. +</p> +<p> + Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia + em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o + collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia + nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem + melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos + nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico, + jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem + texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade + portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto + tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e + incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem + consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do + direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e + da lingua. +</p> +<p> + Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da + generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a + funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse + motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um + instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias + concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle + estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação, + repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente + aggravada por uma falsa educação. +</p> +<p> + Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame, + de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento + caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na + infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um + sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios + da sua inquieta o attribulada existencia. +</p> +<p> + A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem. + O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa, + conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do + dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que + vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós + precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem + para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da + crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da + palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado + vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa + virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres + para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho + no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia + social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o—como succede ás + mulheres nervosas. +</p> +<p> + Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As + suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua + sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta + pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil. + Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou + lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas + sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior + de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão + caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas + physicas. +</p> +<p> + Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar + obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro + andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da + camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de + Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os + quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre, + tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos + philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era + preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o + nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas + assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro + imperfeitamente orientado. +</p> +<p> + Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto + da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara + alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o + estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda + ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma <i>esfolhada</i> + nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o + canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando + descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as + outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os + clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as + bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros, + aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe, + negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua + voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no + maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços, + estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom + sitio amado, uma velha canção querida. +</p> +<p> + Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em + que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da + sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi + sepultado n'este medonho tumulo—o despreso. +</p> +<p> + Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo + dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do + aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a + parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de + madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua + biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico. + Inutilmente. Elle estava morto. +</p> +<p> + Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto + Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de + acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse + traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem + o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos. + O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios + e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões + illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas + qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica, + quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela + maledicencia. +</p> +<hr id="libello" class="minor" /> +<p> + Com esle titulo—<i>Ao sr. Ramalho Ortigão</i>—publicou o + <i>Diario da Manhã</i> o folhetim seguinte: +</p> +<p> + <i>Os exames no Lyceu Nacional—Os fins da educação—Um programma de + ensino para o sexo feminino—Como se prepara a emancipação das + mulheres—Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o + estado da cosinha nacional—Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais + caldo</i>. +</p> +<p> + Termina assim o summario do ultimo numero das <i>Farpas</i>. Qual de nós + deixaria de ler com a maxima attenção um artigo escripto pelo sr. + Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma + de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do + paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgão, pedindo-nos caldo, não foi + ouvido por uma só mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho + por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só <i>caldo</i>, mas + tambem <i>luz</i>, que o alumie nas suas investigações ácerca d'um assumpto, + que é realmente grave—a dyspepsia nacional, que s. ex.ª attribue á + nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda + responsabilidade. +</p> +<p> + Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave, + contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos + escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu + espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena + que os escriptos do sr. Ramalho não sejam mais succulentos! são como os + caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica, + depurados até á transparencia, muito aromatisados ... mas sem + substancia. +</p> +<p> + Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla + sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho, + esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmão, + deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor + vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouça-me pois. +</p> +<p> + Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se + faz esse alambicado caldo francez, tão purificado, que por fim como o + proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á + sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os + classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam + nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal + agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formação das suas + idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi + comendo esses caldos e quasi só com elles, que os energicos e valentes + portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na + Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo + á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos + lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo + nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua + heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se + incommodasse com a dyspepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que + todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que + supportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia, + os mais rudes trabalhos; e comtudo não soffrem de dyspepsia. Será por + terem <i>mulheres muito instruidas</i>, ou porque o <i>caldo que comem é + preparado por cosinheiros de 5:000 francos</i>? deve ser por uma d'estas + rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o affirma. +</p> +<p> + A dyspepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quasi privativa dos + homens das classes elevadas—e quer que lhe digámos porque? Porque elles + teem com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos + quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemães fazem + consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e + todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os + portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e + das tavernas, onde é considerado heroe aquelle que come e bebe mais + brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices + de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se + chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso codigo de + educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio. +</p> +<p> + Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque + passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, até que + chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de + lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de + familia, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o + braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em + crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle não + seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestigios de + gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome, + pois d'este modo terá prestado um importantissimo serviço ao seu paiz. +</p> +<p> + O seu programma para a educação das mulheres parece-nos excellente para + a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos + collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanças que os + frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser + boas <i>ménagéres</i>, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos, + recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães. +</p> +<p> + Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa, + todas nós sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como + se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não + fazem esses serviços sabem como elles são feitos, pois desde crianças os + viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é <i>differençar os + differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas + mais notaveis da arte ornamental</i>, etc. etc.; mas em quanto + considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a + suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos + falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos. +</p> +<p> + Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum + as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais + sobrias e economicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda + a eloquencia do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa + convicção. +</p> +<p> + Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres—por + profissão—enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitaes, e nem se + lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella + seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira + sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os + horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens + energicos e audaciosos. +</p> +<p> + Para sabermos fazer prodigios de economia não precisamos de nos alistar + n'uma escola ingleza, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo + que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se póde + sustentar uma familia com 18$000 réis por semana, mas n'essa familia—o + chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo tres + tigellas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas, + e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis. +</p> +<p> + Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este + alimento é muito sufficiente para lhes conservar robustas as forças + vitaes, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma + casa deixará de ser uma <i>lôba</i> para se transformar n'uma <i>burra</i>. +</p> +<p> + Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ella o <i>braço + forte e escudo da familia</i>, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos + exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e + guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os + maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós + realizar o seu ideal basta casar em Avintes. +</p> +<p> + A educação intellectual das mulheres, quando ellas se não dediquem a ser + mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento + necessario, as liçoes dos homens de quem forem esposas. Assim + reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos + conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse + respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever + da esposa. +</p> +<p> + Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras + inglezas—nós, menos profundas pensadoras, não o queremos. +</p> +<p> + Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores + physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria—o ser mãe, nos + ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber soffrer e amar, por + isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que + acaba de nos fazer soffrer as dôres da maternidade, e abençoamos + reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa + mão é a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixão, + encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos. +</p> +<p> + Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida + como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais + civilizadas da Europa. +</p> +<p> + Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua + irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua + intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa + sua robustez physica, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou + de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros, + que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos + circos o trabalho de fazer rir o publico. +</p> +<p> + Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas + esse importantissimo. +</p> +<p> + Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o + sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos + seus. +</p> +<div class="centered"> +<p> + Sua +</p> +<p> + <i>Irmã de Caridade</i> +</p> +</div> +<hr class="minor" /> +<p> + Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que + effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle + é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos + já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a + retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um + espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa + acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a + phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um + lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que + apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua + prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores! + queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a! +</p> +<p> + Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha + processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade + mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve, + não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella + mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece. +</p> +<p> + O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos + imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da + philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que + temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram + os contactos da nossa convivencia—a escola, o jornal, o livro. + Revêde-vos na vossa obra. +</p> +<p> + Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e + de pó de arroz, de rhetorica e de <i>chic</i>, de doce d'ovos e de cuia, de + recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de + <i>cold-cream</i>, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto. +</p> +<p> + Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de + raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades + intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos + encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão + vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler + presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais + racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira + de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver. + Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós + mesmo pelo que lhe ensinastes. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz + interprete, dirigi-se ás <i>Farpas</i> na pessoa do seu auctor. +</p> +<p> + O que são as <i>Farpas</i> com relação ás mulheres? +</p> +<p> + As <i>Farpas</i> são a publicação periodica—unica em Portugal—que em + artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem + constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á + reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o + criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido + violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde + dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o + flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento + indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a + dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico + e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção + pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão + negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é + aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de + ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua + collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor + indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para + ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino + superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos + palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas + amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas + filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da + cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor + dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito + presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de + systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos—é + claro—mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma + das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás + mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade + suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa. +</p> +<p> + Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das <i>Farpas</i> + uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe + o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas + portuguezas: +</p> +<p> + «Que elle trate d'outro officio e deixe aos <i>palhaços dos circos</i> o + trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!» +</p> +<p> + Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito. + Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das + senhoras portuguezas não só é igual—como a auctora modestamente + formula—á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo + considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de + Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor + qualquer—amigo ou adversario—uma palavra tão lucida, tão conceituosa, + tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão + nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio + da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos + mais que <i>um palhaço de circo</i>, opinião profundamente philosophica. É + talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos + lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas, + entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho + cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas + recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio + qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco + lettras e a sua respectiva cedilha, <i>p-a-l-h-a-ç-o</i> a um homem a quem os + seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa. +</p> +<p> + Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia + e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos + deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de + Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina. +</p> +<p> + Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta + compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e + chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse + effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se + sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher + é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que + estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua + excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da + nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos + da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos + mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares + pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a + força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que + sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples + caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos + eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital + pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene, + pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as + substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua <i>Hygiene + alimentar</i>, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo + sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos + srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud, + Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua + excellencia possuisse finalmente—ainda que no estado da mais ligeira + tintura—alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é + um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o + seu voto n'esse caso poderia ter discussão. +</p> +<p> + A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este + assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir + nos adversarios senão admiração e respeito. +</p> +<p> + É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham + dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o + seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada + hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou + muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada + individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as + analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo + dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida + pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton + nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas + campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da + alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que + pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de + operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da + qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30 + por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire + nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos + historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside + simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia + tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em + cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos + nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do + nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça + melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição + dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua + economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os + philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e + de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a + resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo + quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta + illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus + similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos + empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó. +</p> +<p> + Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos + de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento + supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em + respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na + Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à + travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de + uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os + vencidos jantavam no <i>Bignon</i> ou no <i>Café Anglais</i>. +</p> +<p> + Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e + reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia + affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o <i>statu quo</i> na + perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia + imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um + vestido e que sabe tambem—ó legítimo + orgulho!—<i>fazer doce</i>.—De mais a + mais—notem—sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos + offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada. + Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas + virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os + enthusiasmos da paixão»:—sua excellencia gosta de assucar! +</p> +<p> + Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os + meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber + licores para os botequins? +</p> +<p> + As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem + ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do <i>roast-beef</i> e da + agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos + unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas + poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o <i>box</i>, dão-lhes desde a + idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles + vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir + lá buscar. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo + segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que + Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais + d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras, + encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da + arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos + para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os + pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e + da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna, + pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade + conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em + trabalho e em força. Sua excellencia prefere <i>deixar todos esses + conhecimentos aos cuidados do dono da casa</i> (!) <i>cuja vontade considera + a lei suprema, na escolha de todos os artigos!</i> +</p> +<p> + Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua + excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a + bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de + <i>abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava</i> (!) +</p> +<p> + O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não + promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas + algemas! +</p> +<p> + Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua + excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a + jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe + constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de + poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O folhetim de sua excellencia termina com uma allusão pessoal à nossa + robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos + licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos: +</p> +<p> + Eu—pois que é bom precisar a clareza dos numeros—eu, auctor d'estas + linhas, não me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calçada dos + Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos + homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirará d'este facto + a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua + excellencia não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que + me faz—para simplificar os dados do problema—o partir do principio de + que não tomei ease chá. +</p> +<p> + Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida + courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos + mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia + para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:—o phosphato de cal, + que eu ingeria em grandes dozes. +</p> +<p> + A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, não tinha saguão, + não tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não + tinha pia. +</p> +<p> + A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o + grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o + primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem + terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias + dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um + instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher: + Primeiro ser saudavel; Segundo não ser conhecida. No interior da sua + casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de + economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho + piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se + fechar de memoria d'homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se + desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de + cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um + dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execução + esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graça, de que era + modelo a incomparavel cosinha da minha avó,—aberta ao nivel do pateo + defronte do poço, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico + perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de + cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira + onde se espanejavam os capões; os tropheus ornamentaes dos instrumentos + agricolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a + masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do + fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos môços da lavoura tendo + em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada + com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas + efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervenção periodica + do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua + escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam + sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno. +</p> +<p> + Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tepido aconchego, de + suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e + honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias + contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da + familia; explicava o amor á, terra da patria pela dedicação ás quatro + braças de solo cobertas por esse velho tecto. +</p> +<p> + A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual + os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da + poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e + fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem + havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra + modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a + educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da + saudade eterna dos seus netos. +</p> +<p> + A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a + minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann + que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha + robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os + nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo + das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas + vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos + folhetins dos periodicos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre + escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir. + Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem + chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso. +</p> + +<hr id="telephonio" class="major" /><!--===================--> + +<p> + Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o + telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada. +</p> +<p> + Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes + que sua magestade ouvira—um solo de cornetim! +</p> +<p> + Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o + Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica <i>União e + Capricho</i>. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio. + Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a + arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe. +</p> +<p> + A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre + as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir + a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor. +</p> +<p> + Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de + accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno + parece-nos um abuso que o principe não levará a bem. +</p> +<p> + Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro + coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas + conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso. +</p> +<p> + Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa. + O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é + verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a + vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias, + sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença + chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo + trecho de musica!—O que deve levar paulatinamente á loucura. +</p> +<p> + Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão + incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das + contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter + faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes, + ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem + hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal + ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro + remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas + sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha + presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse + instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da + tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos + cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o <i>Pirolito!</i> +</p> +<p> + E a posteridade nos abençoará. +</p> + +<hr id="cemiterios" class="major" /><!--===================--> + +<p> + Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A + hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder + politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada + manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente + uns aos outros: +</p> +<p> + —Não viram por ahi a hydra? +</p> +<p> + Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha + entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr. + Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua + dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito + imperfeito do verbo Mexer. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila, + presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser + hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as + suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas + de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa. +</p> +<p> + Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para + salvar a situação da falta da hydra: +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz. + Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal + pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos + seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o + haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena + questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais + exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio + como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos + que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as + d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil. + Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a + esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente + podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente + enterrado. +</p> +<p> + N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e + determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao + que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara + municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e + discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios + alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem + de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o + triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira + cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem + uma formula. A sua formula é esta: «...<i>O bucentauro do progresso + rasgando os flancos da montanha</i> ...» Sempre que esse homem terrivel + arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os + auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido + uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua + cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor + o <i>bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha</i> que elle + triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas + theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para + lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e + phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario + e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro + estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica + ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito + canonico extraidos do <i>bucentauro do progresso rasgando os flancos da + montanha</i>, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e + philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da + morte,—comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro + rasgando os supracitados flancos,—que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a + vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro—o que à + hydra parecerá sufficiente—mas a de quatro muros, o que ao bucentauro + ainda parece pouco. +</p> +<p> + O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim + fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos + aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica + romana. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico + dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que + cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da + consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico + infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião, + cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica. + Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas + mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o + campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a + discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão + eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as + amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do + orbe pela larga benção incondicional de Jesus. +</p> +<p> + Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa, + pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um + recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das + podridões privilegiadas. +</p> +<p> + Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem + ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta + pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com + as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e + pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda + no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem + terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais + sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da + resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No + dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu + chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na + bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso. +</p> +<p> + Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano + do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da + grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie + do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem, + nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem + o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos + teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar + usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um + canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos + sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza + humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do + sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta. + És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires + para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor + te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para + o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado, + distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma + sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios + chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote, + poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua + outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila + e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros + doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que + te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de + horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os + homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do + padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua + dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus + filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas, + entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as + suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo + tepido dos seus ligeiros <i>coupés</i>. Assim com as abençoadas sepulturas + dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos + enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram + cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um + bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas + vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus + preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,—cem + mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela + cidade inteira. +</p> +<p> + E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça + inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor + que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como + te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte: +</p> +<p> + No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o + canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um + anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão + para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos + os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das + catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio. + Não terás remedio senão acordar,—quer queiras, quer não—do teu pesado + somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois + ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas + como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão + com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de + ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é + condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que + tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna + justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a + elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de + interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus + dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande + voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o + Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:—«Deram-lhe o + baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia? + Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O + cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a + esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará + para baixo, para as profundidades do immenso vortice:—«Fogo eterno para + um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando + o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella + sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição + eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais. +</p> +<p> + Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros. + Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas + mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle + mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos! + Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam + Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do + que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os + cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do + os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os + collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não + resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os + primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos + pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os + impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o + sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que + fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais + contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o + ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo + por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que + muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas + esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou—porque o digamos + n'outros termos—a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que + pretendemos consultar s. exª: +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas, + não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se + por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir + entretendo. +</p> +<p> + N'esta hypothese pergunta-se: +</p> +<p> + Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha + o capricho de descartar-me? +</p> +<p> + Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo + indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente + escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros + impios e locomotores. +</p> +<p> + A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da + direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana. + Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia + baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em + lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de + aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu <i>Volo</i>! E + este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido + as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o + parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da + carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu + padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali + tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o + resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem + varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas + crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe + compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de + todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje + contradisse—que me conste—as declarações latinas feitas em seu nome + por meu padrinho: <i>Volo, credo, abrenuntio</i>. Ella portanto é catholica, + e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no + paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio + dos atheus. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á + funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa + resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes: +</p> +<p> + Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a + communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias + não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim + uma affirmação civil. +</p> +<p> + Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é + facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem + ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que + substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha + perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo + o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente + demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o + attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais + sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria; + não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no + exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem + na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não + póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não + póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome! +</p> +<p> + A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna + antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe + pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada. +</p> +<p> + Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de + nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da + igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para + dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu + pae e de minha mãe—a minha perna está prohibida de a ter sem que a + igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar + de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente + minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando + eu ouso dizer <i>a minha perna</i>, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que + espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente + deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna, + era—a perna da igreja. +</p> +<p> + Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha + perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o + catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado, + recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o + direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de + ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada + anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira, + de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na + religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças + religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de + baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista. +</p> +<p> + Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em + Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim + separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não + obedecem—o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de + dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a + sua transgressão,—é claro que não póde ser unicamente pelo facto de + estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de + designar a sepultura sagrada. +</p> +<p> + Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico + outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna + pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é + effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial + de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios, + e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o + contrario. +</p> +<p> + Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se + encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha + perna. +</p> +<p> + Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a + creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade + de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem + padre, morrer sem padre. +</p> +<hr id="camara" class="minor" /> +<blockquote> +<p> + Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta + cidade do Porto ou quem suas vezes fizer—Paços da Camara na Praça Nova, + esquina do Laranjal +</p> +</blockquote> +<p class="centered"> + Porto +</p> +<p> + Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados + pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de + todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia + inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras. +</p> +<p> + Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que + tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de + comparecer. +</p> +<p> + Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes + reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado + pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande + comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova + ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que + presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei, + certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª! +</p> +<p> + Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de + uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem + n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das + violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus + encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera + maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto, + levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol. + Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo + Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o + caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado + de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da + Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias + da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em + <i>pignon</i> como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos, + reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados, + fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros, + ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa, + com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por + trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas + abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle, + os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e + murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da + freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração + de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de + torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha + venezianamente na agua. +</p> +<p> + Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da + ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes + proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação + humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos + os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos + os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas, + tinham um debrum de gente.—Enorme romagem nunca vista. A cidade do + Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do + paiz estavam ahi reunidos. Para que? +</p> +<p> + Para celebrar um puro facto scientifico—a solução de um problema de + mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que + phenomeno! que revolução! +</p> +<p> + Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de + determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato + de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos + iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus + casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões + domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz, + os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os + mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a + longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos + caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de + plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes. +</p> +<p> + Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum + pessoal. +</p> +<p> + Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se + o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos + exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma + funccionalidade diversa. +</p> +<p> + Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder + politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já + por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder, + irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos + nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera + espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria. +</p> +<p> + A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão + symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto + mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de + que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era + tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação, + que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia + todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções + de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza. + A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de + convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os + individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e + o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais + progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes + revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se + acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço + cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos + outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais + tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias + episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de + conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse + sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel + força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das + bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo, + vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o + aperfeiçoamento e para a felicidade. +</p> +<p> + Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem + os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e + dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi + elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos + remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que + determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos + das sociedades. +</p> +<p> + A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas + victorias, um d'esses triumphos:—a conquista de perto de meio seculo de + paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem + sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino + progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas + instituições. +</p> +<p> + Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas + estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por + um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos + reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os + nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo + com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo + debatida entre dois principes. +</p> +<p> + A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que + progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos + milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente + affirmação d'esse progresso. +</p> +<p> + A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus + principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a + especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo. +</p> +<p> + Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este + seu novo hospede? Não lhe apparecendo! +</p> +<p> + V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais + irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia + satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª + que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos + pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos + do seu stylo declamatorio—ao mesmo tempo alambicado e labrego—<i>as + chaves d'esse heroico baluarte</i> depostas em cada anno por v. + ex.ª—dizemos—não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para + agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais + extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma + cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro. +</p> +<p> + Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece + completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades + democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos + abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população + portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva. +</p> +<p> + É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse + contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada + com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa + patuscada, para alguma das bem conhecidas <i>sapateiradas</i>, nas quaes todo + o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do + forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª + nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a + sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso + telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas, + teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa + resignação para o desgosto de a não vermos no espirito. +</p> +<p> + Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes + como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu. +</p> + +<hr id="politica" class="major" /><!--===================--> + +<p> + Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira + de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre + os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder. +</p> +<p> + Eis o que ao depois occorreu: +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes, + choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e + Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre + estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de + suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra? +</p> +<p> + —Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das + mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional. +</p> +<p> + Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha + bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão + aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam: +</p> +<p> + —Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade. +</p> +<p> + E deixaram-o ir. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo, + com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da + estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a + orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos + deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices + adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande + homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a + perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao + abysmo,—sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na + redea. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a + cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões, + retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a + saudade da mangedoura na alma.—Tão poderoso e fecundo é o ascendente + moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades + officiaes! +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha + do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o + dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os + circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao + sr. José Dias Ferreira. +</p> +<p> + Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder, + o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso: +</p> +<p> + —A mim, rapazes! +</p> +<p> + E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»—os rapazes foram a elle. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem + assim elle mesmo? +</p> +<p> + Atonitos elles vêem—caso que os olhos se lhes recusam acreditar—que a + burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima! +</p> +<p> + Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o + sr. Fontes veloz encavalgara o poder. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões + do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a + Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos, + rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou + depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o + seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em + cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão + para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de + dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes + nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o <i>Times</i>; e, + como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram + estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr. + Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da + commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a + delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª + abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque + de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de + ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave + auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá + azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial! +</p> +<p> + Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental + da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das + causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar + durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa + intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra + bolsa do alforge ministerial. +</p> +<p> + Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra, + enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo + logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto + nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com + arnica o seu galo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve + jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes + eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr. + Fontes pelos <i>gentlemen</i> do <i>turf</i> politico. +</p> +<p> + O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente + como o <i>Gladiateur</i>, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre + estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns + kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª +</p> + +<hr class="major" /><!--===================--> + +<p> + Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores + deputados: +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores, + funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde + os parapeitos até ao tecto. +</p> +<p> + Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre + o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado. +</p> +<p> + Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um + individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em + resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar, + publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de + dôr—Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro. +</p> +<p> + Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente + encasados nos seus <i>fauteuils</i>. Não teem uma apparencia espirituosamente + feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço + com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos + calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra. +</p> +<p> + No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o + coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando. +</p> +<p> + Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação. +</p> +<p> + Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em + amplas sobrecasacas pomposas. Sente—se que elles respiram com exforço. + O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava + Robespierre—São os empaturrados da coisa publica. +</p> +<p> + Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés + mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos + sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que + descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.—São os espinhelas + cahidas do systema que felizmente nos rege. +</p> +<p> + No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de + inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto + dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma + sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz + inoffensivamente, n'uma abstração magnanima. +</p> +<p> + —Sr. presidente—diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca, + lacrimejante—Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade. +</p> +<p> + Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu + estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de + cabeça. +</p> +<p> + Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de + vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade, + estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma + resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido + mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação, + a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a + submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma + face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a + resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz + sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a + constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em + extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas + lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida + moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as + botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do + trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão + ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e + da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica + constitucional. +</p> +<p> + Diz mais o orador: +</p> +<p> + —«Sr. presidente!—e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e + pathetica—li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as + investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman + inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo + isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram + aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem + porque elles serão consolados». +</p> +<p> + E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da + camara:—«Muito bem! muito bem!» +</p> +<p> + Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por + Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin + e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo + victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas + questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores + desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos + srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate. + Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano, + ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius + Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart + Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a + alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita + dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois + d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas + crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não + queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este + moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da + nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno + collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no + meio dos applausos geraes de todo o parlamento. +</p> +<p> + E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a + applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades. +</p> +<p> + A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está, + como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de + Kant, de Hegel e de Hartman. +</p> +<p> + Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da + philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou + precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o + grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela + indisciplina mental. +</p> +<p> + Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo + philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848. +</p> +<p> + Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases + definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e + para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho + triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o + filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado. +</p> +<p> + Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande + peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de + pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi + o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado + politico do imperador Guilherme? +</p> +<p> + Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal + senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica + arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha? +</p> +<p> + Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso + vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos + preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua + ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na + peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos + certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a + pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado + philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e + contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia, + pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela + linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua + elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e + actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza. +</p> +<p> + Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão + experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino + humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande + maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se + indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da + sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta + noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.» +</p> +<p> + A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de + esphacelamento cerebral. +</p> +<p> + Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de + caturras?—É unicamente o que perguntamos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara + governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a + coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão + social. +</p> +<p> + A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por + fazer. +</p> +<p> + A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo + o principio em que se funda. +</p> +<p> + A distribuição racional do imposto ainda não foi definida. +</p> +<p> + Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de + uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma + Turquia está muito adeante de nós. +</p> +<p> + Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem + destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e + dissolvem-se na banalidade. +</p> +<p> + As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos + personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás + camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as + mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade. +</p> +<p> + Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para + assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses + exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a + burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso + moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de + cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento + similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a <i>revolução do despreso</i>. +</p> +<p> + Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de + circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos + do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de + funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal? +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É + catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é + militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma + electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado; + quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito + permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena + de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de + governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro, + uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica + de cordas, uma photographa, etc. +</p> +<p> + Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se + disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que + pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido + opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o + partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente + conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É + evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da + industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção + das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a + universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a + magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o + governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se + distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa, + a photographia, a cordoaria, a fundição, etc. +</p> +<p> + A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de + não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade + e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o + partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder + perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e + a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não + pódem constituir principios de programma, são communs a todos os + partidos ou não são especiaes de partido nenhum. +</p> +<p> + Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos + mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia + completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando + constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo + vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e + digerindo-se pouco e pouco a si mesmo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica + converte-se fatalmente em uma questão de compadres. +</p> +<p> + O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo, + corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o + appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo + appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos + compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou + diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no + favor da urna. +</p> +<p> + O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma + todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a + expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria + consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria + commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas! +</p> +<p> + Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais + competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e + de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem + moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido: + a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos + preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja, + é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo + deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito + e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado, + aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o + insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever. +</p> +<p> + Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e + como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de + <i>compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria</i>. E do + ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão + correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz + apenas:—É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o + compadre, vou para o partido d'elle. +</p> +<p> + O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do + machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do + governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir + o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de + que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando + como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a + engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a + tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa. +</p> +<p> + A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa + contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre, + esse poder é unicamente—o da comadre. +</p> +<p> + A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no + dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais + rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra—palavras, palavras, + unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva, + real; compadrice, comadrice—eis tudo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja + decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que + ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma + miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse + remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de + quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos, + socialistas, federalistas, positivistas—o que quizerem—com tanto que + sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia + e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio + philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa + que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe + resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo + reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das + concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos + revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos + conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento + actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos + mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que + sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto + pela municipalidade de Lisboa:—tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas + que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto: + caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento—<i>dealbatum + sepulchrum</i>! +</p> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13092 ***</div> +</body> +</html> diff --git a/13092-h/images/devil.png b/13092-h/images/devil.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..13a77a6 --- /dev/null +++ b/13092-h/images/devil.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..55d5319 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #13092 (https://www.gutenberg.org/ebooks/13092) diff --git a/old/13092-8.txt b/old/13092-8.txt new file mode 100644 index 0000000..0f2af14 --- /dev/null +++ b/old/13092-8.txt @@ -0,0 +1,2342 @@ +The Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878 +by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Farpas (Janeiro 1878) + +Author: Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz + +Release Date: August 2, 2004 [EBook #13092] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + + + + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed +Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional +de Lisboa. + + + + + +[Illustration: EA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGO--AS FARPAS] + +RAMALHO ORTIGO--EA DE QUEIROZ + +AS FARPAS + +CHRONICA MENSAL + +DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES + +TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878 + +Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder, +da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das +sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da +politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande +universo, e da adorao de mim mesmo. + +P.J. PROUDHON + + + + +SUMMARIO + + +A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, Jos de Alencar, +Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello +d'aquella dama. A nossa resposta. No, a mulher portugueza no sabe +fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A +litteratura feminina e a cozinha de minha av.--Da influencia dos hymnos +sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios. +A interveno do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A +cabelleira e a formula de s. ex. Mostra-se que s. ex. no o velho +Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro +civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A +situao politica. As ultimas sesses parlamentares. Alguns perfis. Os +partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governao. + +No breve espao dos ultimos quinze dias a humanidade pagou morte um +pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados. +Deixaram de existir, em Frana Raspail e Courbet; na Italia Victor +Manuel, no Brazil Jos de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho. + +Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo +imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas foras +sociaes do mundo moderno, a poro mais fecunda e mais gloriosa da +grande alma do povo. + +Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou to vastas e to +profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos +descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e +pde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia +microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, no como uma dependencia +da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o +que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do +suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de +Ville a Republica de 48. + +Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias +physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias +socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo, +economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio +profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros, +das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as +instituies politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma +judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo +caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o +favor, com lodo o auxilio, com toda a collaborao official. Recusou +todas as distines honorificas, todos os cargos publicos, todos os +diplomas scientificos ou litterarios. As suas observaes astronomicas, +os seus trabalhos de chimica, as suas applicaes do microscopio ao +estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde +dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no +isolamento austero da independencia o do sacrificio. + +Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno +e do Bernardo Palissy. + +A academia franceza, commovida com uma to exemplar grandeza d'alma, +resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca +do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o +homem que mais servios tinha prestado sciencia e humanidade. + +Guizot, ento ministro da instruo publica, interveio na resoluo da +academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da +rebelio_.[1] O chefe do partido conservador francez no podia esquecer +que fra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior, +em plena Restaurao, ousara fulminar a votao da lista civil com a +phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de +cadeia: Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias +todo o cidado que ousasse pedir Frana 14 milhes para viver. + +[Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma +cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a +desgraa de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois +crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.] + + que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi +egualmente o brao constantemente pronto para resistir. + +Portentosa existencia, que ficar na historia entre as mais bellas e +mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae +carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, comeou por ser um +theologo. Era porm de tal modo intenso e explosivo o seu amor de +verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos +dezenove annos, acabou por alcanar a gloria immarcessivel de ser +condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da +liberdade de pensamento! + +O poder espiritual do mundo moderno era representado em Frana por uma +trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a fora do sentimento; Raspail, a +fora do trabalho; Littr, a fora da philosophia. + +D'esses tres ancios o primeiro que desceu ao tumulo o que mais +fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram +so d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse +exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em +nenhuma outra parte mais precioso do que na sociedade portugueza, onde +as idas radicaes, que so as sentinelas avanadas da civilisao, to +raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a +mocidade mais vivaz e intelligente est defendendo no parlamento e no +jornalismo as opinies mais retrogradas, onde finalmente o futuro no +tem partido. + +Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverana e a firmeza no +corao d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se +sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez +calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeioamento dos seus +similhantes! + +Que todos os que so moos e fortes se inclinem sobre esta campa onde +repousa um triumpho, e reflictam, que na pedra tumular de Raspail que +devero aguar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela +consciencia e pela verdade! + + * * * * * + +Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um +idal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas +instituies sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a +derrocar pela pintura a inspirao da antiga arte assim como derrocou +pelo uso do poder executivo a columna da praa Vendme. Louvavel +empenho, porque Courbet considerava essa inspirao uma fonte envenenada +para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um +symbolo ultrajante para a dignidade humana. + +A demolio da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com +palavras to resentidas e acerbas, no poder deixar de ser um dia +olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos +principios de justia social constantemente professados pelo immortal +artista. + +Courbet foi condemnado a pagar a reconstituio da columna. Breve porm +soar a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar +puerilmente que se deve ser + +_Fier d'tre franais +Quand on regarde la colonne!_ + +Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora, +comprehender em pouco tempo que uma injuria ao seu bello destino na +obra da conciliao humana a ostentao orgulhosa de um monumento que o +distico diz ser: _levantado gloria do grande exercito por Napoleo o +Grande!!_ + +Paris, qua vae na proxima exposio celebrar dentro do regimen +republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo +municipio acaba de votar 546 contos de ris para os seus +estabelecimentos publicos de instruco primaria ao anno corrente, Paris +que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos reorganisao +dos seus lyceus, no poder manter em p por muitos annos mais, em uma +das suas praas publicas, um symbolo que contradiz todas as suas +aspiraes philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores +nodoas da civilisao: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os +direitos do homem, a sujeio da Frana aos caprichos de um despota em +cuja fronte as justias da historia estamparam j o ferrete da ignommia. + +A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou +um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradies marciaes +da gerao actual o sol de Austerlitz. + +Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a +que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravar, +ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendme e +pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de +remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na +maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que +ser uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em +que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na +pratica dos seus actos a opinio do seu tempo. + + * * * * * + +Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico +de Godofredo de Bulhes. Poderia como elle decepar de um s golpe da +espada a cabea de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como +elle uma cruzada,--a cruzada de Novara at Roma, como elle chegou a +terra promettida; morreu moo como elle, como todos os heroes que tendo +realisado na terra uma grande misso, se sentem de repente invadidos na +alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos +fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas +dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes, +mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos, +atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmes mais rijos s +altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais +encanto e com mais prestigio fadiga, ao perigo, s mulheres e morte. +Era evidentemente um forte. E como a fora o maior de todos os +attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si to +contradictorias sympathias e to heterogeneas affeies: foi o amigo do +Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta. + +Feliz homem! + + * * * * * + +A morte de Jos de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_, +representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, to +notavel nos ultimos tempos pela cooperao dos seus poetas e dos seus +pensadores. + +Na sociedade do Brazil, que o principio da escravido desviou por tantos +annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a +organisao moderna do trabalho livre ao mesmo tempo a creao de um +novo elemento social--o povo. + +Jos de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando +poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem +synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e +decide da sorte dos imperios. + +Elle, que alcanra um dos mais luminosos logares entre os homens mais +celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade, +procedera da roda dos expostos. + +Esse engeitado era a personalisao mais gloriosa da soberania do +trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno +da arte a sua larga espada de justia, vestindo a tunica e a dalmatica +azul, calando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e +fazendo-se ungir e sagrar pelas multides como os antigos eleitos do +senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante, +que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: Deus te elegeu para +reinar sobre a sua herana e para livrar os povos das mos dos seus +inimigos. + + * * * * * + +Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce +consolao de cumprir um destino, consolao compensadora de tantas +amarguras e de tantos sacrificios, no foi concedida na terra quella +natureza essencialmente desgraada. + +Tinha um incomparavel poder de applicao e de estudo e ninguem possuia +em Portugal uma proviso mais copiosa de noes e do factos. Foi o +collaborador do Alexandre Herculano nas investigaes da historia +nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem +melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos +nossos costumes e das nossas tradies. Era archeologo, diplomatico, +jurista, bibliographo. No havia inscripo truncada na epigraphia nem +texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade +portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresena de quanto +tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e +incessante. Era um tomo de erudio vastissima, assombrosa, que ninguem +consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do +direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e +da lingua. + +Faltava-lhe porm no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da +generalisao. No sabia tirar dos factos as leis de que elles so a +funco. No sabia correlacionar. No tinha o poder creador. Por esse +motivo a isolao suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um +instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulso de energias +concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle +estava condemnado a submetter-se para ser uma fora na civilisao, +repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente +aggravada por uma falsa educao. + +Essa capacidade to prodigiosa de contenso, de investigao, de exame, +de absorpo de idas, estava na sua natureza alliada a um temperamento +caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na +infancia, no poderia fatalmente deixar de ser o que era: um +sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios +da sua inquieta o attribulada existencia. + +A indifferena perante o conflicto uma nobre virtude. Raros a possuem. +O que succede com as naturezas vulgares que a nossa resoluo ba, +conscientemente reflectida, reforada na mais legitima compenetrao do +dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que +vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e ns +precisamos de reagir sobre ns mesmos com toda a fora da nossa coragem +para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a exploso da +crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da +palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado +vamos lanar ao corao d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa +virtude, to rara, to viril, de desmanchar implacavelmente prazeres +para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho +no estado de uma exagerao pathologica. O conflicto na convivencia +social no somente lhe no repugnava mas attrahia-o--como succede s +mulheres nervosas. + +Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creana. As +suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua +sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta +pela mesma raso de que ninguem teve egualmente a compaixo mais facil. +Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou +lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas +sesses da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior +de Lettras no conheceram seno metade d'essa physionomia to +caracteristicamente meridional nos traos moraes como nas frmas +physicas. + +Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar +obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro +andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da +camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de +Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os +quaes aquella humilde casa de litterato, to hospitaleira e to pobre, +tinha altractivos que no podiam propornionar s exigencias dos +philosphos e dos principes, os mais brilhantes sales de Lisboa. Era +preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o +nervosismo do seu corao com a mesma prodigalidade cem que nas +assemblas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro +imperfeitamente orientado. + +Quando alludia sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto +da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara +alegremente a p nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o +estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda +ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_ +nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o +canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando +descrevia as madrogradas da caa s perdizes no monte de S. Felix, ou as +outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os +clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo danar pelos caminhos as +bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros, +aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe, +negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua +voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no +maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluos, +estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom +sitio amado, uma velha cano querida. + +Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em +que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da +sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi +sepultado n'este medonho tumulo--o despreso. + +Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou at o seu ultimo +dia. Ha cerca de um anno padecia uma dr sternalgica, symptomatica do +aneurisma. Esta dr lancinante, que o privava do movimento, forando-o a +parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de +madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua +biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se pressa um medico. +Inutilmente. Elle estava morto. + +Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto +Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de +acrescentar que a reputao to frequentemente discutida d'esse +traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem +o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos. +O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios +e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipies +illustres e dos Cates celebres achem sempre nos seus heroes tantas +qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica, +quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela +maledicencia. + + * * * * * + +Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigo_--publicou o _Diario da Manh_ +o folhetim seguinte: + +_Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educao--Um programma de +ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipao das +mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o +estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais +caldo_. + +Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de ns +deixaria de ler com a maxima atteno um artigo escripto pelo sr. +Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma +de certo. E para que se no diga com verdade que o grito afflictivo do +paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgo, pedindo-nos caldo, no foi +ouvido por uma s mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho +por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe no s _caldo_, mas +tambem _luz_, que o alumie nas suas investigaes cerca d'um assumpto, +que realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex. attribue +nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre ns, to tremenda +responsabilidade. + +Se o assumpto de que se trata, no fosse realmente grave, +contentar-nos-hiamos com o praser que nos d sempre a leitura dos +escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu +espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: pena +que os escriptos do sr. Ramalho no sejam mais succulentos! so como os +caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica, +depurados at transparencia, muito aromatisados ... mas sem +substancia. + +Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla +sempre de ns, que no tem raso para nos querer mal; e que como filho, +esposo e irmo de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmo, +deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor +vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Oua-me pois. + +No ensine sr. D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se +faz esse alambicado caldo francez, to purificado, que por fim como o +proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor +sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os +classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam +nossas avs, e como ns todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal +agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formao das suas +idas, , como s. ex. diz a sua alimentao, no esqueamos que foi +comendo esses caldos e quasi s com elles, que os energicos e valentes +portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na +Africa, e na Asia praticaram aces de to prodigioso valor. E descendo + historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos +lidadores da epopa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo +nacional e ento infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua +heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se +incommodasse com a dyspepsia nacional. s com caldo, e com bra que +todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que +supportam, sem cansao, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia, +os mais rudes trabalhos; e comtudo no soffrem de dyspepsia. Ser por +terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem +preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas +rases, visto que o sr. Ramalho quem nol-o affirma. + +A dyspepsia no em Portugal uma doena nacional, quasi privativa dos +homens das classes elevadas--e quer que lhe digmos porque? Porque elles +teem com raras excepes, uma mocidade dissipada; porque na idade dos +quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemes fazem +consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e +todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os +portuguezes vo descanar das lides do estudo nos bancos dos botequins e +das tavernas, onde considerado heroe aquelle que come e bebe mais +brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices +de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se +chama dar uma salva real! Desculpa-os porm o axioma do nosso codigo de +educao: que preciso dar muita cabeada para vir a ser homem serio. + +Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que ns, todos os perigos porque +passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, at que +chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de +lhes regenerar os costumes, e ver que, quando chegarem a ser chefes de +familia, seu natural destino, no precisaro de encontrar na esposa o +brao forte que lhes seja amparo, e tero o estomago so como em +crianas, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle no +seja perfeitamente transparente, e at quando tenha seus vestigios de +gordura. Faa isto que lhe pedimos, e todas ns bemdiremos o seu nome, +pois d'este modo ter prestado um importantissimo servio ao seu paiz. + +O seu programma para a educao das mulheres parece-nos excellente para +a Frana, Inglaterra e outros paizes onde as meninas so educadas nos +collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanas que os +frequentam comem e dormem em casa, essa educao que nos habilita a ser +boas _mnagres_, j que o sr. Ramalho gosta de francezismos, +recebemol-a ns todas com o exemplo e lio de nossas mes. + +Em Portugal onde todo o servio domestico geralmente feito em casa, +todas ns sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como +se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que no +fazem esses servios sabem como elles so feitos, pois desde crianas os +viram fazer. O que no sabemos, l isso no, _differenar os +differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas +mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto +considerarmos, como at agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a +suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos +falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos. + +Em quanto nossa educao moral, estamos convencidas que em paiz nenhum +as mulheres so mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais +sobrias e economicas, mais submissas vontade do marido que ns, e toda +a eloquencia do sr. Ramalho no capaz de abalar sequer a nossa +convico. + +Em Frana e em Inglaterra ha muitas mulheres--por +profisso--enfermeiras, aqui no as ha seno nos hospitaes, e nem se +lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella +seja me, esposa, filha, irm, ou mesmo criada, ha uma enfermeira +sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os +horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens +energicos e audaciosos. + +Para sabermos fazer prodigios de economia no precisamos de nos alistar +n'uma escola ingleza, e, se o no soubessemos, a primeira mulher do povo +que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se pde +sustentar uma familia com 18$000 ris por semana, mas n'essa familia--o +chefe, que trabalha do nascer ao pr do sol, sustenta-se comendo tres +tigellas de caldo que lhe custam 10 ris cada uma, 20 ris de sardinhas, +e 10 ris de bra por dia: total 90 ris. + +Convena os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este +alimento muito sufficiente para lhes conservar robustas as foras +vitaes, e ver como ns todas fazemos economias prodigiosas, e como uma +casa deixar de ser uma _lba_ para se transformar n'uma _burra_. + +Mas se considera como o ideal da perfeio na mulher, ser ella o _brao +forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos +exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e +guiando barcos no nosso Douro para ganhar o po dos filhos, em quanto os +maridos ficam em casa cosinhando: j v que para qualquer de ns +realizar o seu ideal basta casar em Avintes. + +A educao intellectual das mulheres, quando ellas se no dediquem a ser +mestras, pde, e at deve, assim como a moral, receber, como complemento +necessario, as lioes dos homens de quem forem esposas. Assim +reconhecendo no marido superioridade em tudo, at mesmo nos +conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse +respeito que a religio e a sociedade nos impem como o primeiro dever +da esposa. + +Em quanto emancipao das mulheres, esse sonho dourado das senhoras +inglezas--ns, menos profundas pensadoras, no o queremos. + +Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores +physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser me, nos +ensina a todas, que a nossa misso na terra, saber soffrer e amar, por +isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que +acaba de nos fazer soffrer as dres da maternidade, e abenoamos +reconhecidas a mo que prende as nossas algemas de escravas, quando essa +mo a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixo, +encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos. + +Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida +como at agora, poderia ser apresentada como modelo s naes mais +civilizadas da Europa. + +Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua +irm e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua +intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa +sua robustez physica, a sua grande cabea na qual o chapo de Thiers ou +de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros, +que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaos dos +circos o trabalho de fazer rir o publico. + +Em paga de todos os favores, que lhe peo, prometto fazer-lhe s um, mas +esse importantissimo. + +No dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o +sr. Ramalho, seno julgal-o-hiam to criminoso como quem maldiz dos +seus. + +Sua + +_Irm de Caridade_ + + * * * * * + +Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que +effectivamente escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle + para ns de um valor inestimavel. Este folhetim a mulher. No somos +j agora ns que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a +retratar. ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um +espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa +acquisio da nossa galeria. No somos ns que a descrevemos, que a +phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um +lapis suspeito de inhabilidade ou de m f. Vem que ella mesma que +apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua +prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores! +queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a! + +Ahi a teem! assim que ella . No ha artificio, no ha preparo, no ha +processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade +mesma. Reparem bem, meus senhores, que no Proudhon que a descreve, +no Coubert que a pinta, no Offenbach que a pe em musica. ella +mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece. + +O que estaes contemplando a obra da direco mental que ns mesmos +imprimimos ao nosso tempo, o fructo legtimo e authentico da +philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idas que +temos produzido e impulsionado: a nossa mulher tal como nol-a fizeram +os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro. +Revde-vos na vossa obra. + +Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e +de p de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de +recitao ao piano e de taces Luiz XV, de collegio nacional e de +_cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto. + +Vede que lucidez de razo! que firmeza de criterio! que contenso de +raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades +intellectuaes a circulao facil e viva atravez da rede dos nervos +encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente s que to +vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler +presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais +racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira +de pensar podeis ajuizar com segurana da sua forte maneira de viver. +Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vs +mesmo pelo que lhe ensinastes. + + * * * * * + +Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz +interprete, dirigi-se s _Farpas_ na pessoa do seu auctor. + +O que so as _Farpas_ com relao s mulheres? + +As _Farpas_ so a publicao periodica--unica em Portugal--que em +artigos consecutivos desde a sua appario at hoje se tem +constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica +reconstituio dos costumes e reorganisao da familia segundo o +criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido +violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde +dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o +flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento +indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituies perante a +dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijo physiologico +e social; teem dado como base emancipao da mulher a instruco +pratica, to defficiente, e a alta cultura do espirito, to +negligentemente descurada na antiga educao; teem-lhe ensinado que +aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrir o segredo de +ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua +collaborao no estudo dos modernos problemas sociaes como factor +indispensavel fixao do nosso destino; teem pedido instantemente para +ella a fundao de novas escolas de ensino especial e de ensino +superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos +palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas +amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas +filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da +cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor +dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito +presente de uma infinidade de theorias, de noes, de projectos, de +systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos-- +claro--mas demonstrando uma dedicao excepcional, por isso que nenhuma +das publicaes periodicas que precederam esta se dirigiu jmais s +mulheres a no ser para lhes consagrar romances de uma moralidade +suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa. + +Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleo das _Farpas_ +uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe +o seguinte conselho como resumo da opinio collectiva de todas as damas +portuguezas: + +Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhaos dos circos_ o +trabalho a que at aqui se tem dado de fazer rir os outros! + +Este simples conselho como um relampago, nas trevas do nosso espirito. +Elle de per si s basta para nos convencer de que a educao das +senhoras portuguezas no s igual--como a auctora modestamente +formula-- das primeiras mulheres extrangeiras, mas que pde mesmo +considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de +Girardin, Lady Morgan no tiveram nunca para dirigir a um escriptor +qualquer--amigo ou adversario--uma palavra to lucida, to conceituosa, +to profunda e ao mesmo tempo to finamente aristocratica, to +nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio +da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que no somos +mais que _um palhao de circo_, opinio profundamente philosophica. +talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos +lessem. natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas, +entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho +cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas +recordaes perdidas da sua carteira ou do seu corao, um pequeno meio +qualquer de no chamarem completamente palhao com todas as suas cinco +lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a--o_ a um homem a quem os +seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa. + +Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia +e da sua propria dignidade uma comprehenso diversa, que no podemos +deixar de attribuir com orgulho patriotico influencia local da rua de +Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina. + +No menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta +compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e +chimica culinaria s mennas portuguezas. Se sua excellencia tivesse +effectivamente a instruo que ns pretendemos que se lhe deve dar; se +sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre misso da mulher +, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que +estava apta para cumprir no seio da sua familia essa misso, sua +excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da +nutrio, a evoluo cellular, a relao existente entre os phenomenos +da nutrio e do desenvolvimento, do movimento e da combusto; se nos +mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares +pelas suas classificaes mais genericas, os que fornecem o calor e a +fora e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que +sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples +caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos +eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital +pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada hygiene, +pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as +substancias alimentcias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene +alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas lies e conferencias, pelo +sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentao insuficiente, pelos +srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud, +Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua +excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira +tintura--alguma das noes em que se basea a theoria da cosinha, que +um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o +seu voto n'esse caso poderia ter discusso. + +A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este +assumpto d ao seu voto um caracter irrevogavel, que no pode infundir +nos adversarios seno admirao e respeito. + + inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham +dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o +seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada +hora, j dormindo, j caminhando, j executando um trabalho mental ou +muscular, para regular sobre este dispendio a rao alimentar de cada +individuo. inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as +analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo +dos diversos alimentos e da quantidade de fora e de calor desenvolvida +pela oxydao d'elles. inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton +nos tenham mostrado pela comparao das estatsticas da salubridade nas +campanhas da Crima e da Italia o extraordinario poder da qualidade da +alimentao sobre a saude e sobre a energia dos soldados. inutil que +pelo estudo de iguaes estatsticas com relao alimentao de +operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da +qualidade da alimentao resulta o augmento ou a diminuio de 20 a 30 +por cento no trabalho de cada homem. inutil que Geoffrey Saint-Hilaire +nos tenha dito: Quantos factos na vida das naes attribuidos pelos +historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside +simplesmente na cosinha das familias!. inutil que toda a sciencia +tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em +cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos +nervinos uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do +nosso tempo; que indispensavel perante a moral e perante a justia +melhorar a alimentao dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisio +dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua +economia. inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os +philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisao e +de associao chamar a atteno das mulheres para o estudo e para a +resoluo d'esse grave problema cuja sede a cosinha. inutil tudo +quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta +illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus +similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos +empyricamente do que por tel-o visto fazer cozinheira da sua av. + +Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradio sobre os methodos +de deitar a carne panella nas cosinhas da sua rua este argumento +supremo: Foi com essa panella frente que os portuguezes contiveram em +respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na +Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraados +travessa do cosido que nossos avs descobriram a India e que os paes de +uns de ns resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os +vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Caf Anglais_. + +Em presena d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e +reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia +affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na +perfeita educao da mulher portugueza. Continue sua excellencia +imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um +vestido e que sabe tambem-- legtimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a +mais--notem--sua excellencia faz doce! No! positivamente nada se nos +offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. No precisa de saber mais nada. +Ahi tem sua excellencia uma opinio que lhe garantir as solidas +virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os +enthusiasmos da paixo:--sua excellencia gosta de assucar! + +Quem sabe se no ser por um effeito do atavismo sobre a gula qae os +meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vo beber +licores para os botequins? + +As mes dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem +ellas mesmas no a opinio do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da +agua fria; no fazem doce, fazem gymnastica, e no ensinam os filhos +unicamente a comer marmelada, a ir novena e a no metter os ps nas +poas; ensinam-lhes o cricket, a natao e o _box_, do-lhes desde a +idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles +vo para os botequins, no costumam encarregar os criticos de lh'os ir +l buscar. + + * * * * * + +Sua excellencia no se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo +segundo os preceitos de Liebig, que ns lhe aconselhamos suppondo que +Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais +d'isso do que o Antonio das Mas, celebre inculcador de cosinheiras, +encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da +arte culinaria. Sua excellencia no s no quer fazer caldo em termos +para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os +pratos e os copos, determinar a differena de cr nos estofos do salo e +da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna, +pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto sociedade +conjugal um servio igual quelle que recebe d'ella em proteo, em +trabalho e em fora. Sua excellencia prefere _deixar todos esses +conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera +a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_ + +Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funces que sua +excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma no tivesse a +bondade de nos explicar que a occupao para que se reserva a de +_abenoar agradecida a mo que prende as suas algemas de escrava_ (!) + +O que nos parece que esse mister exclusivo de sua excellencia no +promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas +algemas! + +Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua +excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abenoar os ferros, a +jogar a bisca. O nosso temperamento no nos permittiria estar a dar-lhe +constantemente o grilho a abenoar; quereriamos ter a faculdade de +poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma ba rlha. + + * * * * * + +O folhetim de sua excellencia termina com uma alluso pessoal nossa +robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos +licena para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos: + +Eu--pois que bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas +linhas, no me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calada dos +Clerigos. No, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos +homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirar d'este facto +a concluso maliciosa de que no tomei ch em pequeno. Que sua +excellencia no hesite um momento em tirar tal conclso! at favor que +me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de +que no tomei ease ch. + +Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida +courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos +mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia +para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouo:--o phosphato de cal, +que eu ingeria em grandes dozes. + +A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, no tinha saguo, +no tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, no +tinha pia. + +A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o +grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o +primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem +terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias +dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um +instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher: +Primeiro ser saudavel; Segundo no ser conhecida. No interior da sua +casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de +economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho +piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se +fechar de memoria d'homems s 10 horas da noite, o mais tardar. No se +desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de +cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um +dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execuo +esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graa, de que era +modelo a incomparavel cosinha da minha av,--aberta ao nivel do pateo +defronte do poo, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico +perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de +cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira +onde se espanejavam os capes; os tropheus ornamentaes dos instrumentos +agricolas; as prateleiras da loua reluzente; o cortio da barrela e a +masseira do po a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do +fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos mos da lavoura tendo +em cima a grande celha com a braada verde dos frescos legumes picada +com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas +efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a interveno periodica +do mendigo de estrada, de alforge ao pescoo, que vinha encher a sua +escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam +sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno. + +Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensao de tepido aconchego, de +suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e +honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias +contadas lareira; infundia o respeito da tradio; dava o amor da +familia; explicava o amor , terra da patria pela dedicao s quatro +braas de solo cobertas por esse velho tecto. + +A cosinha de minha av era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual +os mais bellos quadros da escola flamenga, to penetrados como so da +poesia domestica, no poderam dar-me jmais seno uma ideia desbotada e +fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem +havido em Portugal no pode seno fazer-me sorrir comparada obra +modesta de minha av, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a +educaao das suas filhas, para a fixao do respeito, da venerao e da +saudade eterna dos seus netos. + +A minha robustez physica o mais contraproducente dos argumentos que a +minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann +que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da me. A minha +robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raa de mulheres, que os +nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo +das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas +vezes empallideceram nos bailes e no tiveram nunca de que corar aos +folhetins dos periodicos. + + * * * * * + +Terminando, agradeo de novo os conselhos de sua excellencia a illustre +escriptora minha patricia, mas peo licena para os no seguir. +Continuarei a fazer rir os outros, o que me no impedir de fazer tambem +chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso. + + * * * * * + +Por occasio da visita de el-rei Escola Polytechnica funccionou o +telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada. + +Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes +que sua magestade ouvira--um solo de cornetim! + +Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o +Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _Unio e +Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio. +Emquanto a astronomia tocava cornetim natural que, em compensao, a +arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe. + +A unica cousa que extranhamos que o Observatorio no observasse entre +as suas peas de musica alguma coisa mais interessante para transmittir +a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor. + +Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de +accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno +parece-nos um abuso que o principe no levar a bem. + +Reflectiu por acaso o Observatorio no que o hymno para um cerebro +coroado? Cremos que o Observatorio no desceu ainda com as suas +conjecturas ao fundo d'esse abysmo. horroroso. + +Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa. +O observatorio faz certamente ideia do que ter zumbidos, no +verdade? Pois ter hymno peor. ter constantemente, durante toda a +vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias, +sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doena +chronica, como affeco incuravel do nervo acustico, a audiao do mesmo +trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente loucura. + +Que o Observatorio se compadea do infeliz principe condemnado a to +incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das +contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter +faltas de dinheiro, ha de ter constipaes, ha de ter dores de dentes, +ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem +hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal +s regies da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que no ha outro +remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas +sejamos justos! A providencia collocou-nos na mo o cornetim. O monarcha +presta-nos submissamente o seu real ouvido. No abusemos d'esse +instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da +tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeas! Somos +cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_ + +E a posteridade nos abenoar. + + * * * * * + +Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A +hydra da reaco desapparecera da orbita dos conflictos do poder +politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada +manh nas secretarias do Terreiro do Pao, perguntavam angustiadamente +uns aos outros: + +--No viram por ahi a hydra? + +Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha +entumeciam de impaciencia por no poderem esmagar o monstro; e o sr. +Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhao na sua +dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito +imperfeito do verbo Mexer. + + * * * * * + +N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila, +presidente do conselho, tomou uma resoluo heroica: determinou ser +hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as +suas funces de bicha ultramontana com as suas funces administrativas +de homem de estado. Pela manh s. ex. governa. De tarde s. ex. raba. + +Eis um dos resultados da dualidade que s. ex. se dignou de assumir para +salvar a situao da falta da hydra: + + * * * * * + +O servio dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz. +Catholicos e no catholicos eram levados para o cemiterio municipal +pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos +seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o +haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena +questo canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais +exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio +como uma instituio municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos +que desejassem repousar em terreno sagrado, e no benzessem as +d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil. +No tinha jmais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a +esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente +podia-se morrer em Lisboa s pelo gosto de ser to tranquillamente +enterrado. + +N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua frma de hydra e +determina em favor da morte catholica a creao de um muro similhante ao +que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara +municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento portaria de s.ex. e +discutir o modo de levantar o muro. Propem-se a tal respeito varios +alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim. + + * * * * * + +Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem +de facto n'essa cavalheiro todas as condies que se requisitam para o +triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispe da primeira +cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem +uma formula. A sua formula esta: ..._O bucentauro do progresso +rasgando os flancos da montanha_ ... Sempre que esse homem terrivel +arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os +auditorios a sua formula, a victoria d'elle. A sua existencia tem sido +uma serie nunca interrompida de triumphos, alcanados pela sua +cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor +o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle +triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas +theses de doutoramento, na exhibio das provas do seu concurso para +lente da universidade, nas reunies das associaes operarias e +phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario +e de Lisboa e Aores, nas suas eternas preleces sobre o terceiro +estado, e finalmente na discusso do muro Guillomin da morte catholica +ordenado por s. ex. a nobre hydra de Avila e Bolama. + + * * * * * + +Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito +canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da +montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehenso scientifica e +philosophica do phenomeno social da religio e do facto biologico da +morte,--comprehenso egualmente haurida do j alludido bucentauro +rasgando os supracitados flancos,--que s.ex. o sr. doutor convenceu a +vereao lisbonense a approvar no s a creao de um muro--o que +hydra parecer sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro +ainda parece pouco. + +O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim +fecharo o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos +aquelles que morrerem fra do gremio da religio catholica apostolica +romana. + + * * * * * + +Ns suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico +dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que +cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da +consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico +infinito onde pra a vida; que o cadaver deixava de ter uma religio, +cessava de pertencer igreja, para pertencer exclusivamente chimica. +Suppunhamos que o cemiterio, considerado no s pelo seu lado civil mas +mas principalmente ainda pela inteno do seu instituto christo, era o +campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a +discrepancia de idas, de toda a offensa, de toda a injuria, a manso +eterna do perdo e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as +amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do +orbe pela larga beno incondicional de Jesus. + +Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa, +pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. Joo, puramente um +recinto de caracter official, destinado fermentao exclusiva das +podrides privilegiadas. + +Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem +ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta +pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com +as suas calas de galo de ouro duplamente retesadas pela inchao e +pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda +no peito, o espadim ao lado, o chapo armado aos ps, o cordo da ordem +terceira de S. Francisco cinta, vae legitimamente e no uso do mais +sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da +resurreio da carne, como esperou na vida a hora da sua repartio. No +dia da chamada geral no valle de Josaphat elle por na cabea o seu +chapo de bicos e ir tomar o competente logar na gloria eterna, na +bancada dos conselheiros, mo direita de Deus Padre Todo Poderoso. + +Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado luz no cano +do esgoto, tu que no conheceste pae nem me, producto espontaneo da +grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre superficie +do pantano, tu que no recebeste baptismo, nem confirmao, nem ordem, +nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem +o co e que a igreja confere por uma tarifa de preos superiores aos +teus capitaes, tu, no tinhas no cemiterio de Lisboa seno um logar +usurpado, roubado indignamente s pessoas de bem. Estoiraste para um +canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fra dos +sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. s como um co. A tua natureza +humana no a da outra gente. A tua podrido no a da cabelleira do +sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu s uma besta. +s peior ainda: s um impio. Vo conceder-te agora um quintal para ires +para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor +te fazem estes bons senhores em te no remetterem s equarissagens para +o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado, +distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma +sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios +chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote, +poderiam achar uma applicao pratica e decente. Poderias aspirar na tua +outra vida a abotoar com os teus ossos as calas do sr. marquez de Avila +e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros +doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que +te destinam nada mais sers do que um eterno objecto de execrao e de +horror para os teus concidados. Quando passarem por cima da tua cova os +homens srios, a quem est promettido o co sob a palavra de honra do +padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspiro sobre a tua +dissoluo infecta. As mes passaro de longe, correndo, com os seus +filhos pela mo, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas, +entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-ho com as +suas finas mos pallidas e rezaro os esconjuros mais efficazes no fundo +tepido dos seus ligeiros _coups_. Assim com as abenoadas sepulturas +dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dar os horrendos +enguios. E eu te affirmo que ainda havemos de vr aquelles que eram +cegos e que recuperaram a vista abraando-se s sagradas reliquias de um +bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas +vegetaes malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus +preverso! Finalmente sers detestado, abominado, execrado, maldito,--cem +mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanas, pela +cidade inteira. + +E cuidas tu, miseravel, que poders encontrar um dia na eterna justia +inviolavel a compensao d'este despreso systematisado, d'este rancor +que um regulamento municipal, d'este odio que uma lei do reino? Como +te enganas! O que tem de te succeder irremissivelmente o seguinte: + +No dia do juizo final tu ouvirs na profundidade do teu estrume o +canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um +anjo que desde o principio do mundo ter estado a recolher no pulmo +para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos +os bramidos do mar, todas as erupes dos vulces, todas as quedas das +catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovo e do raio. +No ters remedio seno acordar,--quer queiras, quer no--do teu pesado +somno da materia bruta. Sers levado revista do grande valle por dois +ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas +como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-ho +com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: Vocemec ha de +ter a bondade de passar ali para a mo esquerda de Deus Padre porque +condemnado. Tentars escapulir-te, safar-te para a podrido de que +tinhas vindo. Appellars para o juiz supremo. O arbitro da eterna +justia inquebrantavel cravar em ti os seus olhos. Tu o vers tambem a +elle, com a sua longa barba que envolver toda a terra, o seu bigode de +interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus +dedos, chisparo os raios na amplido infinita. Ouvirs a sua grande +voz, cujas sylabas cairo na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o +Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dir:--Deram-lhe o +baptismo? No. Deram-lhe a confirmao? No. Deram-lhe a penitencia? +No. Deram-lhe a absolvio da culpa? No. No lhe deram nada. O +cherubim tem razo. Passe para a mo esquerda. Ento passars para a +esquerda. O teu anjo custodio abrir um alapo aos teus ps e gritar +para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--Fogo eterno para +um! Depois do que, te tocra com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando +o espao como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella +sombria feita de lama, at te submergires no tremendo abysmo, na punio +eterna. E ser por todos os seculos dos seculos, sem fim jmais. + +Eis ahi tens o que te espera, segundo a religio do dr. Jardim e outros. +Religio bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas +mos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle +mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos! +Bem diversa da d'aquelles christos da igreja primitiva, que assombravam +Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do +que os pagos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os +cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do +os conduzirem sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os +collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E no +resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os +primeiros christos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagos +pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os +impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o +sacrificio bastava ser desgraado. Por isso disia o imperdor Juliano que +fra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais +contribira para o estabelecimenlo e para a propagao do christianismo. + + * * * * * + +Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vr como s. ex. o +ministro do reino resolver os conflictos promovidos contra elle mesmo +por s. ex. a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que +muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas +esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos +n'outros termos--a atteno do seu genio. Eis um dos casos sobre que +pretendemos consultar s. ex: + + * * * * * + +Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas, +no querendo enterrar-se de todo por uma s vez, resolvia enterrar-se +por partes e dar terra uma das suas pernas para a terra se ir +entretendo. + +N'esta hypothese pergunta-se: + +Onde que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha +o capricho de descartar-me? + +Estou prevendo que o bucentauro de s. ex., attribuindo +indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente +escripto, me prescrever o logar destinado por s. ex. para os membros +impios e locomotores. + +A isto porm replico a s. ex. que a minha perna quer se trate da +direita, quer se trata da esquerda, boa catholica apostolica romana. +Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei pia +baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em +lingua latina, que ella a esse tempo ainda no tinha tido tempo de +aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E +este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido +as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o +parocho se ella acreditava na communicao dos santos, na resurreio da +carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu +padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali +tinha ido com o seu respectivo p e com o pequeno apendice que era o +resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia at hoje bem +varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas +crenas religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe +compete na funeral manso. Ella porm, ex'mo. sr. doutor, apezar de +todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca at hoje +contradisse--que me conste--as declaraes latinas feitas em seu nome +por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto catholica, +e tem direito sepultura sagrada na terra e bemaventurana no +paraiso. O sr. Jardim no pde de modo alguma mandal-a para o cemiterio +dos atheus. + + * * * * * + +Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete +funeral jazida de uma das minhas pernas o cemiterio catholico. A essa +resoluo tenho egualmente de oppr-me com os fundamentos seguintes: + +Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confisso, a missa, a +communho, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias +no significa da parte da minha perna uma affirmao religiosa mas sim +uma affirmao civil. + +Pelas leis do reino a religio catholica apostolica romana no +facultativa, obrigatoria. A minha perna no pde entrar no estado sem +ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que +substitua o assento baptimal para a consignao do nascimento, a minha +perna nem sequer portugueza pde ser emquanto no fr baptisada! Em todo +o decurso da vida civil, ella no pde dar um s passo sem primeiramente +demonstrar que catholica. Sem a certido de baptismo, primeiro, sem o +attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais +sacramentos depois, ella no pde fazer exame de instruco primaria; +no pde matricular-se em nenhuma das escolas; no pde entrar no +exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem +na magistratura, nem na representao nacional. No sendo catholica no +pde ter nacionalidade, no pde ter profisso, no pde ter estado, no +pde ter mulher, no pde ter filhos, no pde nem ao menos ter nome! + +A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta minha perna +antes de a deixar penetrar, se ella catholica, exactamente como se lhe +pergunta se ella est isempta do recrutamento e se vaccinada. + +Desde que veiu luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de +nascer, pertence irremissivilmente igreja. Sem previa licena da +igreja ella no pde dar um unico passo para dentro do estado ou para +dentro da familia. Esta simples aspirao, to modesta: ser filha de meu +pae e de minha me--a minha perna est prohibida de a ter sem que a +igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar +de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente +minha emquanto a igreja no disser tambem que sim. De sorte que, quando +eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que +espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente +deveria dizer em linguagem litteral, para me referir minha perna, +era--a perna da igreja. + +Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha +perna da faculdade de escolher uma religio, chumbando-lhe elle mesmo o +catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado, +recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o +direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religio. Pelo facto de +ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada +anno, de commungar pela Paschoa da Resurreio, de jejuar sexta feira, +de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna no est na +religio, est apenas na lei civil, est na carta. Em quanto a crenas +religiosas, o mais que se poder dizer da minha perna, apezar de +baptisada, de jejuada, de confessada, etc., que ella cartista. + +Como porm a creao das duas especies de cemiterios imaginados em +Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila no pde ter por fim +separar os cidados que obedecem carta dos cidados que lhe no +obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de +dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a +sua transgresso,-- claro que no pde ser unicamente pelo facto de +estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de +designar a sepultura sagrada. + +Em concluso final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico +outro no catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna +pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella +effectivamente catholica ou se no catholica, acha-se no caso especial +de no poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios, +e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim no mandar o +contrario. + +Ora succede que todos os cidados portuguezes, sem excepo alguma, se +encontram precisamente nas mesmas condies em que se acha a minha +perna. + +No se pde affirmar que alguem catholico ou que o no emquanto a +creao do registro civil no assegurar a cada cidado a livre faculdade +de exercer ou no qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem +padre, morrer sem padre. + + * * * * * + +Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta +cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paos da Camara na Praa Nova, +esquina do Laranjal + +Porto + +Excellentissima camara e minha boa senhora. cheio dos maiores cuidados +pela preciosa saude de v. ex. que lanamos mo da pena para, em nome de +todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasio da cerimonia +inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex. algumas regras. + +Principiaremos por dar a v. ex. uma breve noticia da festa em que +tomamos parte e em que v. ex. teve as suas razes para no se dignar de +comparecer. + +Por convite da direco da companhia dos caminhos de ferro portuguezes +reunimo-nos na estao das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado +pelas 11 horas da manh. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande +comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, entrada da nova +ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que +presenceamos desde Gaya at estao de Campanh e do qual procurarei, +certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.! + +Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de +uma perola azul, abraa amorosamente a natureza e banhava a paizagem +n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das +violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus +encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera +maritima, salgada e humida, at os montes longnquos do lado opposto, +levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisaes do sol. +Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo +Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o +caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado +de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da +Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias +da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em +_pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos, +reluzentes, forrados de faiana, outros barrigudos, sombrios enodoados, +fazendo fincap para no cambalearem como ebrios taciturnos; outros, +ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de cr de rosa, +com chamins bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por +trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas +abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle, +os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e +murmurosas frescuras das quintas de Quebrantes, da Oliveira, da +freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configurao +de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de +torrees e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha +venezianamente na agua. + +Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebrao da +ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes +proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetao +humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos +os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos +os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas, +tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do +Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regies do +paiz estavam ahi reunidos. Para que? + +Para celebrar um puro facto scientifico--a soluo de um problema de +mechanica. N'este simples facto, exm. camara, que symptoma! que +phenomeno! que revoluo! + +Ha bens poucos annos ainda s o fanatismo religioso tinha o poder de +determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato +de Guimares, senhora da Nazareth, senhora do Cabo. Os peregrinos +iam ento solicitar a interveno milagrosa dos bons santos nos seus +casos pathologicos, nas suas ambies pessoaes, nas suas questes +domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz, +os tristes iam pedir consolao, os turbulentos iam pedir paz, e os +mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoo, a +longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no p dos +caminhos, iam simplesmente beira das estradas pedir po em troca de +plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes. + +Os peregrinos ponte sobre o Douro no eram movidos por interesse algum +pessoal. + +Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se +o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos +exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia j uma +funccionalidade diversa. + +Um poder absolutamente novo, que no o poder religioso nem o poder +politico, com quanto no affirmado ainda nas instituies, revela-se j +por este facto na comprehenso dos espiritos. Esse novo poder, +irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos +nomes teem gerido at hoje a direco da sociedade, na esphera +espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria. + +A ponte sobre o Douro a mais bella e a mais perfeita expresso +symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto +mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de +que ha exemplo na historia das manifestaes do applauso publico. Era +to superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisao, +que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia +todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distinces +de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza. +A direco da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de +convidar para o banquete que se seguiu solemnidade da inaugurao os +individuos representantes das opinies mais extremas, o mundo official e +o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais +progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes +revolucionarios. Estes personagens to justamente surprehendidos de se +acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoo +cujos convivas no tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos +outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais +tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias +episodicas de opinio, havia um sentimento de attraco commum, de +conciliao geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse +sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel +fora anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das +bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo, +vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o +aperfeioamento e para a felicidade. + +No foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas no foram tambem +os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e +dirigido at hoje a humanidade na sua asceno atravez da historia. Foi +elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos +remansos da paz, nos recolhimentos da applicao e do estudo o que +determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos +das sociedades. + +A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas +victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de +paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem +sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino +progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas +instituies. + +Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas +estreitamente enlaadas agora por um abrao de ferro, eram separadas por +um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde ns agora nos +reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os +nossos paes e os nossos avs espingardeavam-se convictamente, decidindo +com o sacrificio das suas vidas a questo de palacio a esse tempo +debatida entre dois principes. + +A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. evidente que +progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos +milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente +affirmao d'esse progresso. + +A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus +principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandes de toda a +especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo. + +Como foi que v. ex., representante do municipio portuense recebem este +seu novo hospede? No lhe apparecendo! + +V. ex., que tem dado a esse espinhao os tratos mais violentos e mais +irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia +satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex. +que tem desengonado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos +ps da real familia; v. ex. que conserva ainda entre os ferros velhos +do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as +chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v. +ex.--dizemos--no teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para +agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais +extraordinaria manifestao de estima de que ainda foi objecto uma +cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro. + +Este simples facto basta para nos provar que v. ex. desconhece +completamente qual o espirito municipal das modernas sociedades +democraticas, que v. ex. est cem annos atraz do seu tempo, e cem furos +abaixo da misso em que foi investida pelos suffragios da populao +portuense, to energica, to intelligente e to progressiva. + + possivel que v. ex. tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse +contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada +com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa +patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo +o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do +forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque que v. ex. +nos no preveniu? Durante a ausencia de v. ex., minha boa senhora, a +sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso +telegraphico ns, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas, +teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa +resignao para o desgosto de a no vermos no espirito. + +Acceite minha senhora a expresso dos nossos sentimentos, to cordeaes +como aquelles que v. ex. nos no exprimiu. + + + * * * * * + + +Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira +de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre +os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder. + +Eis o que ao depois occorreu: + + * * * * * + +A pacata bestinha da governao andou a monte por alguns mezes, +choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos taces do sr. Barros e +Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre +estadista e cavalleiro. Para onde que s. ex., coberto de zelo e de +suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra? + +--Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex. com uma das +mos na redea e com a outra mo sobre a carta constitucional. + +Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha +bambeavam dubitativamente a cabea, e do alto das montanhas, com a mo +aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam: + +--No. Para onde elle vae para a senda de Cacilhas Cova da Piedade. + +E deixaram-o ir. + + * * * * * + +Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo, +com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da +estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a +orelha, baixando a cabea, cravando os olhos sinistros nos cascos +deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices +adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande +homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a +perfidia das rs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao +abysmo,--sempre com uma das mos na carta, mas j tem a outra mo na +redea. + + * * * * * + +Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a +cavalgadurinha do Estado principiou ento a dar terra para feijes, +retrocedendo para casa e bebendo o espao com o freio nos dentes e com a +saudade da mangedoura na alma.--To poderoso e fecundo o ascendente +moral que exerce o principio sagrado da rao sobre as actividades +officiaes! + + * * * * * + +Quando as boninas e os representantes da nao tornaram a ver a burrinha +do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o +dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulao entre os +circumstantes que porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao +sr. Jos Dias Ferreira. + +Empolgando com mo dextra e firme a camba do freio alimaria do poder, +o sr. Jos Dias exclamou triumphante e glorioso: + +--A mim, rapazes! + +E gritando em coro: Ave, Jos vencedor!--os rapazes foram a elle. + + * * * * * + +Eis seno quando, que ho de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem +assim elle mesmo? + +Atonitos elles vem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a +burra j no est devoluta, que a albarda tem gente em cima! + +Effectivamente emquanto o sr. Jos Dias intrepido segurava a redea, o +sr. Fontes veloz encavalgara o poder. + + * * * * * + +O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provises +do governo que o precedera. S. ex. sacou os 150 contos de tijolo para a +Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos, +rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou +depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de cro e o +seu devido rap; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em +cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaada de algodo +para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixes cheio de +dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes +nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e, +como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram +estes virados com o de dentro para fra, e appareceu por ultimo o sr. +Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da +commisso da exposio de Paris. S. ex. trazia empunhada e aberta a +delicada umbela de linho cru forrada de tafet azul com a qual s. ex. +abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Pao at rua do Duque +de Bragana a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de +ministros. O ar de s. ex. o sr. Deslandes era cheio de uma grave +auctoridade, e sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafet +azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial! + +Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental +da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das +causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar +durante alguns mezes e querendo obviar repetio d'essa +intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra +bolsa do alforge ministerial. + +Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. Jos Dias do alto da burra, +enfiou a trote marcial provincias da publica administrao em fra. + + * * * * * + +E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. To smente no mesmo +logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto +nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solido, a chapinhar com +arnica o seu galo. + + * * * * * + +Na semana seguinte quella em que estes successos occorreram houve +jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes +eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr. +Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico. + +O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente +como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornar a apostar contra o nobre +estadista sem a condio previa de que se sobrecarregue com mais alguns +kilogrammas de chumbo o dente de s. ex. + + + * * * * * + + +Uma vista d'olhos a uma das ultimas sesses da camara dos senhores +deputados: + + * * * * * + +Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores, +funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde +os parapeitos at ao tecto. + +Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traada sobre +o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado. + +Serve de secretario, lanando apontamentos a uma larga folha de papel um +individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em +resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar, +publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de +dr--Alfredo Angelino. S. ex. traja rigorosmente de negro. + +Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente +encasados nos seus _fauteuils_. No teem uma apparencia espirituosamente +feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espao +com a expresso passiva e to caracteristicamente pacata dos individuos +calidos quando instalados em decoces emolientes de alfavaca de cobra. + +No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mos sobre o +corao, a outra mo alongada patheticamente no espao, est orando. + +Em torno do tribuno agrupam-se em p varios representantes da Nao. + +Uns rolios, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em +amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforo. +O abuso do feijo suffoca-os como o sangue de Danton suffocava +Robespierre--So os empaturrados da coisa publica. + +Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lvidas, os ps +mettidos para dentro, as calas esbambeadas pelas joelheiras dos +sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calas e que +descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--So os espinhelas +cahidas do systema que felizmente nos rege. + +No fundo escuro da bancada sobresaem da cr sombria dos vestuarios de +inverno duas mos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto +dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripo ou uma +sentena de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz +inoffensivamente, n'uma abstrao magnanima. + +--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz pungente, elegiaca, +lacrimejante--Sr. presidente! onde no ha religio no ha dignidade. + +Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu +estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de +cabea. + +Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de +vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade, +esto ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade uma +resultante da religio. E todavia a religio que obriga esse pallido +mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplao, +a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a +submetter-se pela humilhao, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma +face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a +resignar-se. E pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz +sanguineo e robusto a caminhar na direco opposta d'esse anemico, a +constituir a familia, a luctar, a no perder tempo em contemplaes e em +extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas +lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida +moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as +botas novas no caem do ceu cob a frma de man, caem unicamente do +trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porm esto +ambos de accordo emquanto alliana indissoluvel da dignidade de um e +da religio do outro perante o principio transcendente da rhetorica +constitucional. + +Diz mais o orador: + +--Sr. presidente!--e a entonao do tribuno continua a ser lacrimosa e +pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as +investigaes de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman +inventando religies para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo +isto porem no apagou na minha alma a doce esperana que n'ella lanaram +aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem +porque elles sero consolados. + +E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da +camara:--Muito bem! muito bem! + + morbida corrente intellectual do pessimismo allemo representado por +Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppe o naturalissimo de Darwin +e as poderosas systematisaes de Spencer, a Frana oppe o positivismo +victorioso de Augusto Comte e de Littr. Em Portugal, onde estas +questes no foram nunca ventiladas seno por pobres escriptores +desconhecidos em periodicos to desconhecidos como elles, a camara dos +srs. deputados ouve pela primeira vez a soluo official d'esse debate. +Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano, +ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius +Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart +Mill e de Littr, a intellectualidade portugueza responde mostrando a +alma virginal do sr. Manuel d'Assumpo. E a comprehenso mais perfeita +dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois +d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas +crenas. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna no +queria evidentemente seno uma coisa: apagar a esperana na alma d'este +moo. Pois ficar sabendo que o no conseguiu. A camara dos deputados da +nao portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno +collocando-lhe em cima o sr. Assumpo e a esperana da sua alma, no +meio dos applausos geraes de todo o parlamento. + +E, no obstante, querem dizer alguns que a politica no mais do que a +applicao da philosophia direco pratica das sociedades. + +A politica de Bismark um grande poder social porque atraz d'elle est, +como o peito pelo outro lado da couraa, a disciplina philosophica de +Kant, de Hegel e de Hartman. + +Danton, a alma da Revoluo, era na esphera executiva o instrumento da +philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou +precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o +grande movimento cahiu com a cabea de Danton, guilhotinado pela +indisciplina mental. + +Foi ainda a anarchia das idas, resultante da falta de um methodo +philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848. + +Finalmente para que a democracia se fundasse em Frana sobre bases +definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e +para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que o filho +triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton o +filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado. + +Na Italia o que a politica actual, que libertou e unificou a grande +peninsula, seno a somma das expeculaes de uma longa serie de +pensadores, desde Dante, o vidente, at esse taciturno Leopardi, que foi +o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado +politico do imperador Guilherme? + +Em todos os estados actualmente em dissoluo qual a causa do mal +seno a perturbao da mentalidade pelo empyrismo da politica +arbitraria? Ser preciso citar a Turquia? Ser preciso citar a Hispanha? + +Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso +vigor intellectual, que em poucos annos despedaar todos os velhos +preconceitos e todas as caducas instituies que embargarem a sua +asceno politica. O federalismo, forma definitiva da civilisao na +peninsula iberica, est-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos +certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a +pouco e pouco o caracter de uma opinio partidaria. um resultado +philosophico, que em toda a Hispanha est sendo pacificmente revisto e +contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia, +pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela +linguistica, pela historia. Quando esta ida chegar ao cabo da sua +elaborao especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e +actuar sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma fora da natureza. + +Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata to +experimentalmente e to evidentemente os seus dominios sobre o destino +humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande +maioria a condemnao da critica e do pensamento moderno; declara-se +indissoluvelmente abraada theologia; e a todas as conquistas da +sciencia no presente seculo ella oppe triumphantemente a posse d'esta +noo: Bemaventurados os que soffrem porque elles sero consolados. + +A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma to patente de +esphacelamento cerebral. + +Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de +caturras?-- unicamente o que perguntamos. + + * * * * * + +O medo como a camara pensa d-nos a justa medida do modo como a camara +governa. Ha muitos annos que ella no toma uma unica medida tendente a +coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforos da progresso +social. + +A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituio politica, est por +fazer. + +A liberdade religiosa no est regulamentada de modo que torne effectivo +o principio em que se funda. + +A distribuio racional do imposto ainda no foi definida. + +Finalmente a organisao da instruco publicia, esse elemento vital de +uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma +Turquia est muito adeante de ns. + +Os parlamentos, sem direco mental, sem criterio scientifico, sem +destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e +dissolvem-se na banalidade. + +As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos +personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente s +camaras uma grande concorrencia de ouvintes que no recebem ahi seno as +mais perigosas lies de cynismo e de immoralidade. + +Das duas coisas uma: ou o espirito publico est bastante corrompido para +assimilar sem perturbo do seu organismo a entoxicao d'esses +exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado dissoluo; ou a +burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso +moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de +cair como caiu em Frana o segundo imperio por effeito de um movimento +similhante quelle a que Luiz Veuillot chamou a _revoluo do despreso_. + + similhana de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de +circulao intellectual. Os partidos politicos so os centros nervosos +do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de +funccionar. Ora qual o estado dos partidos politicos em Portugal? + + * * * * * + +Ha um partido que est hoje no poder. um partido conservador. +catholico, monarchico, auctoritario, proteccionista, +militarista, unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma +electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religio do Estado; +quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito +permanente com os seus respectivos canhes Krupp e a sua competente pena +de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direco e de +governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro, +uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundio de typo, uma fabrica +de cordas, uma photographa, etc. + +Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se +disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que +pelas suas idas no formam realmente seno um partido unico: o partido +opposicionista. Que differena ha entre este partido na opposio e o +partido actualmente no governo? revolucionario? No: egualmente +conservador. racionalista? No: egualmente catholico. +evolucionista? No: egualmente auctoritario. Quer a liberdade da +industria e a liberdade do commercio? No: quer egualmente a proteco +das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a +universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a +magistratura anarchica, a instruco cahotica, o suffragio corrompido, o +governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se +distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa, +a photographia, a cordoaria, a fundio, etc. + +A unica opinio que a opposio diz ter e que ella accusa o governo de +no professar a opinio abstracta da economia, da ordem, da moralidade +e do progresso. Como porm todos os governos, qualquer que seja o +partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder +perante a accusao de no servirem o progresso, a moralidade, a ordem e +a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que alis no +pdem constituir principios de programma, so communs a todos os +partidos ou no so especiaes de partido nenhum. + +Os partidos portanto no se differenam seno pelos nomes dos individuos +mais ou menos numerosos do que elles se compem. N'esta ausencia +completa de idas contrapostas o governo em Portugal, versando +constantemente sobre si proprio, d-nos o espectaculo de um organismo +vivo isolado na creao, alimentando-se na sua propria substancia e +digerindo-se pouco e pouco a si mesmo. + + * * * * * + +Deixando de ser uma lucta de principios e de idas a politica +converte-se fatalmente em uma questo de compadres. + +O compadrio elevado cathegoria de instituio nacional, domina tudo, +corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que no pdem conquistar o +appoio da opinio pelas idas que representam, procuram manter-se pelo +appoio dos compadres que favorecem. na proporo exacta do numero dos +compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou +diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiana da cora e no +favor da urna. + +O dogma fundamental do compadrio impe-se por tal modo que transforma +todas as outras noes moraes segundo o criterio de que elle a +expresso. Transforma a justia, a honra, a probidade, a propria +consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria +commetter a mais vil e a mais nefanda das traies politicas! + +Despachando o compadre mais servial com excluso do adversario mais +competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratido e +de lealdade. E ninguem v quanto ha de profundamente subversivo da ordem +moral n'este simples facto to vulgar, to frequente, to despercebido: +a excluso da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos +preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja, + commetter o attentado mais criminoso de que o Estado pde ser ro +deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violaes do direito +e todas as affrontas da justia. um roubo violento e descarado, +aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o +insulto ao trabalho, com o escarneo moral, com o ultrage ao dever. + +Na politica portugueza, que tem o seu calo como as mulheres publicas e +como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de +_compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do +ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a priso +correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinio diz +apenas:-- fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o +compadre, vou para o partido d'elle. + +O officio do governo servir o paiz. Como porm o paiz, por effeito do +machinismo eleitoral, representado constantemente pelos compadres do +governo, o officio do governo em ultima analyse no mais do que servir +o compadre. Est no seu destino. Graas aos elementos de corrupo de +que o governo dispe, o cidado, no votando como cidado mas votando +como compadre, d o primeiro impulso que pe em movimento toda a +engrenagem do systema: elegendo o compadre elle mesmo que funda a +tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa. + +A sociedade est merc do compadre. E se ha poder que possa +contrabalanar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre, +esse poder unicamente--o da comadre. + +A aptido provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no +dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehenso e o mais +rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras, +unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva, +real; compadrice, comadrice--eis tudo. + + * * * * * + +Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja +decadencia tanto mais lamentavel quanto certo que a sociedade que +ella tem por fim dirigir est na anarchia economica e tende para uma +miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse +remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de +quatro ou cinco individuos de opinies radicaes: republicanos, +socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que +sejam homens profundamente convictos e determinados peleja de cada dia +e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio +philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa +que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe +resistir, no j pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo +reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisao. E das +concesses mutuas e successivas, feitas, j ao principio da ordem pelos +revolucionarios impacientes, j ao principio do progresso pelos +conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento +actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixes e dos +mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes. + + * * * * * + +Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que +sollicitamos, resta-nos ento adoptar o expediente ultimamente proposto +pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas +que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto: +caiar o palacio das crtes, branquear por fra o parlamento--_dealbatum +sepulchrum_! + + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878, +by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + +***** This file should be named 13092-8.txt or 13092-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/3/0/9/13092/ + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed +Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional +de Lisboa. + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/13092-8.zip b/old/13092-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..fa0cc15 --- /dev/null +++ b/old/13092-8.zip diff --git a/old/13092-h.zip b/old/13092-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..f706e8a --- /dev/null +++ b/old/13092-h.zip diff --git a/old/13092-h/13092-h.htm b/old/13092-h/13092-h.htm new file mode 100644 index 0000000..f4cb349 --- /dev/null +++ b/old/13092-h/13092-h.htm @@ -0,0 +1,2629 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + <meta content="pg2html (binary v0.16)" name="generator" /> + <meta name="author" content="Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz" /> + <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, Janeiro de 1878 by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz.</title> + <style type="text/css"> + /*<![CDATA[*/ + <!-- + body { margin-left: 10%; margin-right: 10%; } + h1,h2,h3,h4,h5,h6 { text-align: center; } + hr.major { width: 30%;} + hr.minor { width: 10%;} + sup.small {font-size: 75%} + .centered {text-align: center} + .foot { margin-left: 10%; margin-right: 10%; text-align: justify; text-indent: -3em; font-size: 85%; } + .poem { margin-left: 10%; margin-right: 10%; margin-bottom: 1em; text-align: left; } + .poem .stanza { margin: 1em 0em 1em 0em; } + .poem p { margin: 0; padding-left: 3em; text-indent: -3em; } + .poem p.i2 { margin-left: 1em; } + .poem p.i4 { margin-left: 2em; } + .poem p.i6 { margin-left: 3em; } + .poem p.i8 { margin-left: 4em; } + .poem p.i10 { margin-left: 5em; } + /*]]>*/ + // --> + </style> +</head> +<!--====================================================--> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878 +by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Farpas (Janeiro 1878) + +Author: Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz + +Release Date: August 2, 2004 [EBook #13092] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + + + + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed +Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional +de Lisboa. + + + + + + +</pre> + +<div class="centered"> + <img src="images/devil.png" width="570" height="755" + alt="Ea de Queiroz—Ramalho Ortigo—As Farpas" /> + <!--IMAGE END--> +</div> +<hr class="major" /> +<h1> + AS FARPAS +</h1> +<div class="centered"> + <p>RAMALHO ORTIGO—EA DE QUEIROZ</p> + <p>CHRONICA MENSAL</p> + <p>DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p> + <p>TERCEIRA SERIE—TOMO I</p> + <p>Janeiro de 1878</p> +</div> + +<hr class="major" /><!--===================--> +<blockquote> +<p> + Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder, + da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das + sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da + politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande + universo, e da adorao de mim mesmo. +</p> +</blockquote> +<p class="centered"> + P.J. PROUDHON +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> + +<p class="centered"> + <b>SUMMARIO</b> +</p> +<p> + A romagem dos mortos. + <a href="#raspail" >Raspail</a>, + <a href="#courbet" >Courbet</a>, + <a href="#victormanuel">Victor Manuel</a>, + <a href="#alencar" >Jos de Alencar</a>, + <a href="#soromenho" >Augusto Soromenho</a>.—<i>A + senhora portuense</i> e <i>as Farpas</i>. + <a href="#libello" >O libello d'aquella dama.</a> + A nossa resposta. No, a mulher portugueza no sabe + fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A + litteratura feminina e a cozinha de minha av. + —Da influencia dos hymnos + sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do + <a href="#telephonio" >telephonio</a>. + — + <a href="#cemiterios" >Os cemiterios</a>. + A interveno do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A + cabelleira e a formula de s. ex. Mostra-se que s. ex. no o velho + Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro + civil.—A ex'ma + <a href="#camara" >Camara Municipal do Porto</a> ou a quem suas vezes fizer.— + <a href="#politica" >A situao politica</a>. + As ultimas sesses parlamentares. Alguns perfis. Os + partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governao. +</p> +<hr id="mortos" class="major" /><!--===================--> +<p> + No breve espao dos ultimos quinze dias a humanidade pagou morte um + pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados. + Deixaram de existir, em Frana Raspail e Courbet; na Italia Victor + Manuel, no Brazil Jos de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho. +</p> +<p> + <a id="raspail" name="raspail" >Raspail</a> + , entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo + imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas foras + sociaes do mundo moderno, a poro mais fecunda e mais gloriosa da + grande alma do povo. +</p> +<p> + Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou to vastas e to + profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos + descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e + pde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia + microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, no como uma dependencia + da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o + que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do + suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de + Ville a Republica de 48. +</p> +<p> + Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias + physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias + socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo, + economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio + profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros, + das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as + instituies politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma + judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo + caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o + favor, com lodo o auxilio, com toda a collaborao official. Recusou + todas as distines honorificas, todos os cargos publicos, todos os + diplomas scientificos ou litterarios. As suas observaes astronomicas, + os seus trabalhos de chimica, as suas applicaes do microscopio ao + estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde + dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no + isolamento austero da independencia o do sacrificio. +</p> +<p> + Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno + e do Bernardo Palissy. +</p> +<p> + A academia franceza, commovida com uma to exemplar grandeza d'alma, + resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca + do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o + homem que mais servios tinha prestado sciencia e humanidade. +</p> +<p> + Guizot, ento ministro da instruo publica, interveio na resoluo da + academia prohibindo que <i>o premio da virtude cahisse no cofre da + rebelio</i>. +<a href="#note-1"> +<sup class="small" id="note_return_1">1</sup></a> + O chefe do partido conservador francez no podia esquecer + que fra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior, + em plena Restaurao, ousara fulminar a votao da lista civil com a + phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de + cadeia: Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias + todo o cidado que ousasse pedir Frana 14 milhes para viver. +</p> +<p class="foot"> +<a href="#note_return_1"><sup id="note-1">1</sup></a> + [Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma + cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a + desgraa de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois + crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.] +</p> +<p> + que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi + egualmente o brao constantemente pronto para resistir. +</p> +<p> + Portentosa existencia, que ficar na historia entre as mais bellas e + mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae + carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, comeou por ser um + theologo. Era porm de tal modo intenso e explosivo o seu amor de + verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos + dezenove annos, acabou por alcanar a gloria immarcessivel de ser + condemnado aos oitenta,—aos oitenta annos de idade!—por abuso da + liberdade de pensamento! +</p> +<p> + O poder espiritual do mundo moderno era representado em Frana por uma + trindade sacrosanta:—Victor Hugo, a fora do sentimento; Raspail, a + fora do trabalho; Littr, a fora da philosophia. +</p> +<p> + D'esses tres ancios o primeiro que desceu ao tumulo o que mais + fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram + so d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse + exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em + nenhuma outra parte mais precioso do que na sociedade portugueza, onde + as idas radicaes, que so as sentinelas avanadas da civilisao, to + raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a + mocidade mais vivaz e intelligente est defendendo no parlamento e no + jornalismo as opinies mais retrogradas, onde finalmente o futuro no + tem partido. +</p> +<p> + Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverana e a firmeza no + corao d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se + sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez + calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeioamento dos seus + similhantes! +</p> +<p> + Que todos os que so moos e fortes se inclinem sobre esta campa onde + repousa um triumpho, e reflictam, que na pedra tumular de Raspail que + devero aguar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela + consciencia e pela verdade! +</p> +<hr id="courbet" class="minor" /> +<p> + Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um + idal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas + instituies sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a + derrocar pela pintura a inspirao da antiga arte assim como derrocou + pelo uso do poder executivo a columna da praa Vendme. Louvavel + empenho, porque Courbet considerava essa inspirao uma fonte envenenada + para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um + symbolo ultrajante para a dignidade humana. +</p> +<p> + A demolio da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com + palavras to resentidas e acerbas, no poder deixar de ser um dia + olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos + principios de justia social constantemente professados pelo immortal + artista. +</p> +<p> + Courbet foi condemnado a pagar a reconstituio da columna. Breve porm + soar a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar + puerilmente que se deve ser +</p> +<p class="poem"><i> + Fier d'tre franais<br /> + Quand on regarde la colonne!<br /> +</i> +</p> +<p> + Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora, + comprehender em pouco tempo que uma injuria ao seu bello destino na + obra da conciliao humana a ostentao orgulhosa de um monumento que o + distico diz ser: <i>levantado gloria do grande exercito por Napoleo o + Grande!!</i> +</p> +<p> + Paris, qua vae na proxima exposio celebrar dentro do regimen + republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo + municipio acaba de votar 546 contos de ris para os seus + estabelecimentos publicos de instruco primaria ao anno corrente, Paris + que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos reorganisao + dos seus lyceus, no poder manter em p por muitos annos mais, em uma + das suas praas publicas, um symbolo que contradiz todas as suas + aspiraes philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores + nodoas da civilisao: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os + direitos do homem, a sujeio da Frana aos caprichos de um despota em + cuja fronte as justias da historia estamparam j o ferrete da ignommia. +</p> +<p> + A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou + um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradies marciaes + da gerao actual o sol de Austerlitz. +</p> +<p> + Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a + que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravar, + ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendme e + pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de + remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na + maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que + ser uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em + que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na + pratica dos seus actos a opinio do seu tempo. +</p> +<hr id="victormanuel" class="minor" /> +<p> + Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico + de Godofredo de Bulhes. Poderia como elle decepar de um s golpe da + espada a cabea de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como + elle uma cruzada,—a cruzada de Novara at Roma, como elle chegou a + terra promettida; morreu moo como elle, como todos os heroes que tendo + realisado na terra uma grande misso, se sentem de repente invadidos na + alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos + fortes—a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas + dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes, + mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos, + atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmes mais rijos s + altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais + encanto e com mais prestigio fadiga, ao perigo, s mulheres e morte. + Era evidentemente um forte. E como a fora o maior de todos os + attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si to + contradictorias sympathias e to heterogeneas affeies: foi o amigo do + Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta. +</p> +<p> + Feliz homem! +</p> +<hr id="alencar" class="minor" /> +<p> + A morte de Jos de Alencar, o auctor do <i>Guarany</i> e de <i>Luciola</i>, + representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, to + notavel nos ultimos tempos pela cooperao dos seus poetas e dos seus + pensadores. +</p> +<p> + Na sociedade do Brazil, que o principio da escravido desviou por tantos + annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a + organisao moderna do trabalho livre ao mesmo tempo a creao de um + novo elemento social—o povo. +</p> +<p> + Jos de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando + poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem + synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e + decide da sorte dos imperios. +</p> +<p> + Elle, que alcanra um dos mais luminosos logares entre os homens mais + celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade, + procedera da roda dos expostos. +</p> +<p> + Esse engeitado era a personalisao mais gloriosa da soberania do + trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno + da arte a sua larga espada de justia, vestindo a tunica e a dalmatica + azul, calando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e + fazendo-se ungir e sagrar pelas multides como os antigos eleitos do + senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante, + que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: Deus te elegeu para + reinar sobre a sua herana e para livrar os povos das mos dos seus + inimigos. +</p> +<hr id="soromenho" class="minor" /> +<p> + Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce + consolao de cumprir um destino, consolao compensadora de tantas + amarguras e de tantos sacrificios, no foi concedida na terra quella + natureza essencialmente desgraada. +</p> +<p> + Tinha um incomparavel poder de applicao e de estudo e ninguem possuia + em Portugal uma proviso mais copiosa de noes e do factos. Foi o + collaborador do Alexandre Herculano nas investigaes da historia + nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem + melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos + nossos costumes e das nossas tradies. Era archeologo, diplomatico, + jurista, bibliographo. No havia inscripo truncada na epigraphia nem + texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade + portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresena de quanto + tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e + incessante. Era um tomo de erudio vastissima, assombrosa, que ninguem + consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do + direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e + da lingua. +</p> +<p> + Faltava-lhe porm no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da + generalisao. No sabia tirar dos factos as leis de que elles so a + funco. No sabia correlacionar. No tinha o poder creador. Por esse + motivo a isolao suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um + instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulso de energias + concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle + estava condemnado a submetter-se para ser uma fora na civilisao, + repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente + aggravada por uma falsa educao. +</p> +<p> + Essa capacidade to prodigiosa de contenso, de investigao, de exame, + de absorpo de idas, estava na sua natureza alliada a um temperamento + caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na + infancia, no poderia fatalmente deixar de ser o que era: um + sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios + da sua inquieta o attribulada existencia. +</p> +<p> + A indifferena perante o conflicto uma nobre virtude. Raros a possuem. + O que succede com as naturezas vulgares que a nossa resoluo ba, + conscientemente reflectida, reforada na mais legitima compenetrao do + dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que + vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e ns + precisamos de reagir sobre ns mesmos com toda a fora da nossa coragem + para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a exploso da + crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da + palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado + vamos lanar ao corao d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa + virtude, to rara, to viril, de desmanchar implacavelmente prazeres + para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho + no estado de uma exagerao pathologica. O conflicto na convivencia + social no somente lhe no repugnava mas attrahia-o—como succede s + mulheres nervosas. +</p> +<p> + Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creana. As + suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua + sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta + pela mesma raso de que ninguem teve egualmente a compaixo mais facil. + Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou + lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas + sesses da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior + de Lettras no conheceram seno metade d'essa physionomia to + caracteristicamente meridional nos traos moraes como nas frmas + physicas. +</p> +<p> + Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar + obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro + andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da + camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de + Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os + quaes aquella humilde casa de litterato, to hospitaleira e to pobre, + tinha altractivos que no podiam propornionar s exigencias dos + philosphos e dos principes, os mais brilhantes sales de Lisboa. Era + preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o + nervosismo do seu corao com a mesma prodigalidade cem que nas + assemblas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro + imperfeitamente orientado. +</p> +<p> + Quando alludia sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto + da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara + alegremente a p nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o + estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda + ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma <i>esfolhada</i> + nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o + canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando + descrevia as madrogradas da caa s perdizes no monte de S. Felix, ou as + outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os + clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo danar pelos caminhos as + bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros, + aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe, + negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua + voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no + maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluos, + estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom + sitio amado, uma velha cano querida. +</p> +<p> + Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em + que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da + sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi + sepultado n'este medonho tumulo—o despreso. +</p> +<p> + Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou at o seu ultimo + dia. Ha cerca de um anno padecia uma dr sternalgica, symptomatica do + aneurisma. Esta dr lancinante, que o privava do movimento, forando-o a + parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de + madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua + biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se pressa um medico. + Inutilmente. Elle estava morto. +</p> +<p> + Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto + Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de + acrescentar que a reputao to frequentemente discutida d'esse + traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem + o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos. + O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios + e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipies + illustres e dos Cates celebres achem sempre nos seus heroes tantas + qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica, + quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela + maledicencia. +</p> +<hr id="libello" class="minor" /> +<p> + Com esle titulo—<i>Ao sr. Ramalho Ortigo</i>—publicou o + <i>Diario da Manh</i> o folhetim seguinte: +</p> +<p> + <i>Os exames no Lyceu Nacional—Os fins da educao—Um programma de + ensino para o sexo feminino—Como se prepara a emancipao das + mulheres—Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o + estado da cosinha nacional—Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais + caldo</i>. +</p> +<p> + Termina assim o summario do ultimo numero das <i>Farpas</i>. Qual de ns + deixaria de ler com a maxima atteno um artigo escripto pelo sr. + Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma + de certo. E para que se no diga com verdade que o grito afflictivo do + paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgo, pedindo-nos caldo, no foi + ouvido por uma s mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho + por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe no s <i>caldo</i>, mas + tambem <i>luz</i>, que o alumie nas suas investigaes cerca d'um assumpto, + que realmente grave—a dyspepsia nacional, que s. ex. attribue + nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre ns, to tremenda + responsabilidade. +</p> +<p> + Se o assumpto de que se trata, no fosse realmente grave, + contentar-nos-hiamos com o praser que nos d sempre a leitura dos + escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu + espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: pena + que os escriptos do sr. Ramalho no sejam mais succulentos! so como os + caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica, + depurados at transparencia, muito aromatisados ... mas sem + substancia. +</p> +<p> + Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla + sempre de ns, que no tem raso para nos querer mal; e que como filho, + esposo e irmo de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmo, + deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor + vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Oua-me pois. +</p> +<p> + No ensine sr. D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se + faz esse alambicado caldo francez, to purificado, que por fim como o + proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor + sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os + classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam + nossas avs, e como ns todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal + agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formao das suas + idas, , como s. ex. diz a sua alimentao, no esqueamos que foi + comendo esses caldos e quasi s com elles, que os energicos e valentes + portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na + Africa, e na Asia praticaram aces de to prodigioso valor. E descendo + historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos + lidadores da epopa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo + nacional e ento infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua + heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se + incommodasse com a dyspepsia nacional. s com caldo, e com bra que + todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que + supportam, sem cansao, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia, + os mais rudes trabalhos; e comtudo no soffrem de dyspepsia. Ser por + terem <i>mulheres muito instruidas</i>, ou porque o <i>caldo que comem + preparado por cosinheiros de 5:000 francos</i>? deve ser por uma d'estas + rases, visto que o sr. Ramalho quem nol-o affirma. +</p> +<p> + A dyspepsia no em Portugal uma doena nacional, quasi privativa dos + homens das classes elevadas—e quer que lhe digmos porque? Porque elles + teem com raras excepes, uma mocidade dissipada; porque na idade dos + quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemes fazem + consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e + todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os + portuguezes vo descanar das lides do estudo nos bancos dos botequins e + das tavernas, onde considerado heroe aquelle que come e bebe mais + brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices + de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se + chama dar uma salva real! Desculpa-os porm o axioma do nosso codigo de + educao: que preciso dar muita cabeada para vir a ser homem serio. +</p> +<p> + Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que ns, todos os perigos porque + passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, at que + chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de + lhes regenerar os costumes, e ver que, quando chegarem a ser chefes de + familia, seu natural destino, no precisaro de encontrar na esposa o + brao forte que lhes seja amparo, e tero o estomago so como em + crianas, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle no + seja perfeitamente transparente, e at quando tenha seus vestigios de + gordura. Faa isto que lhe pedimos, e todas ns bemdiremos o seu nome, + pois d'este modo ter prestado um importantissimo servio ao seu paiz. +</p> +<p> + O seu programma para a educao das mulheres parece-nos excellente para + a Frana, Inglaterra e outros paizes onde as meninas so educadas nos + collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanas que os + frequentam comem e dormem em casa, essa educao que nos habilita a ser + boas <i>mnagres</i>, j que o sr. Ramalho gosta de francezismos, + recebemol-a ns todas com o exemplo e lio de nossas mes. +</p> +<p> + Em Portugal onde todo o servio domestico geralmente feito em casa, + todas ns sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como + se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que no + fazem esses servios sabem como elles so feitos, pois desde crianas os + viram fazer. O que no sabemos, l isso no, <i>differenar os + differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas + mais notaveis da arte ornamental</i>, etc. etc.; mas em quanto + considerarmos, como at agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a + suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos + falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos. +</p> +<p> + Em quanto nossa educao moral, estamos convencidas que em paiz nenhum + as mulheres so mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais + sobrias e economicas, mais submissas vontade do marido que ns, e toda + a eloquencia do sr. Ramalho no capaz de abalar sequer a nossa + convico. +</p> +<p> + Em Frana e em Inglaterra ha muitas mulheres—por + profisso—enfermeiras, aqui no as ha seno nos hospitaes, e nem se + lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella + seja me, esposa, filha, irm, ou mesmo criada, ha uma enfermeira + sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os + horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens + energicos e audaciosos. +</p> +<p> + Para sabermos fazer prodigios de economia no precisamos de nos alistar + n'uma escola ingleza, e, se o no soubessemos, a primeira mulher do povo + que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se pde + sustentar uma familia com 18$000 ris por semana, mas n'essa familia—o + chefe, que trabalha do nascer ao pr do sol, sustenta-se comendo tres + tigellas de caldo que lhe custam 10 ris cada uma, 20 ris de sardinhas, + e 10 ris de bra por dia: total 90 ris. +</p> +<p> + Convena os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este + alimento muito sufficiente para lhes conservar robustas as foras + vitaes, e ver como ns todas fazemos economias prodigiosas, e como uma + casa deixar de ser uma <i>lba</i> para se transformar n'uma <i>burra</i>. +</p> +<p> + Mas se considera como o ideal da perfeio na mulher, ser ella o <i>brao + forte e escudo da familia</i>, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos + exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e + guiando barcos no nosso Douro para ganhar o po dos filhos, em quanto os + maridos ficam em casa cosinhando: j v que para qualquer de ns + realizar o seu ideal basta casar em Avintes. +</p> +<p> + A educao intellectual das mulheres, quando ellas se no dediquem a ser + mestras, pde, e at deve, assim como a moral, receber, como complemento + necessario, as lioes dos homens de quem forem esposas. Assim + reconhecendo no marido superioridade em tudo, at mesmo nos + conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse + respeito que a religio e a sociedade nos impem como o primeiro dever + da esposa. +</p> +<p> + Em quanto emancipao das mulheres, esse sonho dourado das senhoras + inglezas—ns, menos profundas pensadoras, no o queremos. +</p> +<p> + Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores + physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria—o ser me, nos + ensina a todas, que a nossa misso na terra, saber soffrer e amar, por + isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que + acaba de nos fazer soffrer as dres da maternidade, e abenoamos + reconhecidas a mo que prende as nossas algemas de escravas, quando essa + mo a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixo, + encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos. +</p> +<p> + Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida + como at agora, poderia ser apresentada como modelo s naes mais + civilizadas da Europa. +</p> +<p> + Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua + irm e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua + intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa + sua robustez physica, a sua grande cabea na qual o chapo de Thiers ou + de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros, + que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaos dos + circos o trabalho de fazer rir o publico. +</p> +<p> + Em paga de todos os favores, que lhe peo, prometto fazer-lhe s um, mas + esse importantissimo. +</p> +<p> + No dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o + sr. Ramalho, seno julgal-o-hiam to criminoso como quem maldiz dos + seus. +</p> +<div class="centered"> +<p> + Sua +</p> +<p> + <i>Irm de Caridade</i> +</p> +</div> +<hr class="minor" /> +<p> + Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que + effectivamente escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle + para ns de um valor inestimavel. Este folhetim a mulher. No somos + j agora ns que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a + retratar. ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um + espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa + acquisio da nossa galeria. No somos ns que a descrevemos, que a + phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um + lapis suspeito de inhabilidade ou de m f. Vem que ella mesma que + apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua + prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores! + queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a! +</p> +<p> + Ahi a teem! assim que ella . No ha artificio, no ha preparo, no ha + processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade + mesma. Reparem bem, meus senhores, que no Proudhon que a descreve, + no Coubert que a pinta, no Offenbach que a pe em musica. ella + mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece. +</p> +<p> + O que estaes contemplando a obra da direco mental que ns mesmos + imprimimos ao nosso tempo, o fructo legtimo e authentico da + philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idas que + temos produzido e impulsionado: a nossa mulher tal como nol-a fizeram + os contactos da nossa convivencia—a escola, o jornal, o livro. + Revde-vos na vossa obra. +</p> +<p> + Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e + de p de arroz, de rhetorica e de <i>chic</i>, de doce d'ovos e de cuia, de + recitao ao piano e de taces Luiz XV, de collegio nacional e de + <i>cold-cream</i>, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto. +</p> +<p> + Vede que lucidez de razo! que firmeza de criterio! que contenso de + raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades + intellectuaes a circulao facil e viva atravez da rede dos nervos + encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente s que to + vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler + presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais + racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira + de pensar podeis ajuizar com segurana da sua forte maneira de viver. + Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vs + mesmo pelo que lhe ensinastes. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz + interprete, dirigi-se s <i>Farpas</i> na pessoa do seu auctor. +</p> +<p> + O que so as <i>Farpas</i> com relao s mulheres? +</p> +<p> + As <i>Farpas</i> so a publicao periodica—unica em Portugal—que em + artigos consecutivos desde a sua appario at hoje se tem + constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica + reconstituio dos costumes e reorganisao da familia segundo o + criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido + violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde + dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o + flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento + indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituies perante a + dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijo physiologico + e social; teem dado como base emancipao da mulher a instruco + pratica, to defficiente, e a alta cultura do espirito, to + negligentemente descurada na antiga educao; teem-lhe ensinado que + aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrir o segredo de + ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua + collaborao no estudo dos modernos problemas sociaes como factor + indispensavel fixao do nosso destino; teem pedido instantemente para + ella a fundao de novas escolas de ensino especial e de ensino + superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos + palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas + amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas + filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da + cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor + dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito + presente de uma infinidade de theorias, de noes, de projectos, de + systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos— + claro—mas demonstrando uma dedicao excepcional, por isso que nenhuma + das publicaes periodicas que precederam esta se dirigiu jmais s + mulheres a no ser para lhes consagrar romances de uma moralidade + suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa. +</p> +<p> + Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleo das <i>Farpas</i> + uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe + o seguinte conselho como resumo da opinio collectiva de todas as damas + portuguezas: +</p> +<p> + Que elle trate d'outro officio e deixe aos <i>palhaos dos circos</i> o + trabalho a que at aqui se tem dado de fazer rir os outros! +</p> +<p> + Este simples conselho como um relampago, nas trevas do nosso espirito. + Elle de per si s basta para nos convencer de que a educao das + senhoras portuguezas no s igual—como a auctora modestamente + formula— das primeiras mulheres extrangeiras, mas que pde mesmo + considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de + Girardin, Lady Morgan no tiveram nunca para dirigir a um escriptor + qualquer—amigo ou adversario—uma palavra to lucida, to conceituosa, + to profunda e ao mesmo tempo to finamente aristocratica, to + nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio + da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que no somos + mais que <i>um palhao de circo</i>, opinio profundamente philosophica. + talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos + lessem. natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas, + entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho + cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas + recordaes perdidas da sua carteira ou do seu corao, um pequeno meio + qualquer de no chamarem completamente palhao com todas as suas cinco + lettras e a sua respectiva cedilha, <i>p-a-l-h-a--o</i> a um homem a quem os + seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa. +</p> +<p> + Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia + e da sua propria dignidade uma comprehenso diversa, que no podemos + deixar de attribuir com orgulho patriotico influencia local da rua de + Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina. +</p> +<p> + No menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta + compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e + chimica culinaria s mennas portuguezas. Se sua excellencia tivesse + effectivamente a instruo que ns pretendemos que se lhe deve dar; se + sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre misso da mulher + , como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que + estava apta para cumprir no seio da sua familia essa misso, sua + excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da + nutrio, a evoluo cellular, a relao existente entre os phenomenos + da nutrio e do desenvolvimento, do movimento e da combusto; se nos + mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares + pelas suas classificaes mais genericas, os que fornecem o calor e a + fora e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que + sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples + caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos + eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital + pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada hygiene, + pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as + substancias alimentcias, pelo sr. Champouillon na sua <i>Hygiene + alimentar</i>, pelo sr. Claude Bernard nas suas lies e conferencias, pelo + sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentao insuficiente, pelos + srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud, + Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua + excellencia possuisse finalmente—ainda que no estado da mais ligeira + tintura—alguma das noes em que se basea a theoria da cosinha, que + um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o + seu voto n'esse caso poderia ter discusso. +</p> +<p> + A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este + assumpto d ao seu voto um caracter irrevogavel, que no pode infundir + nos adversarios seno admirao e respeito. +</p> +<p> + inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham + dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o + seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada + hora, j dormindo, j caminhando, j executando um trabalho mental ou + muscular, para regular sobre este dispendio a rao alimentar de cada + individuo. inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as + analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo + dos diversos alimentos e da quantidade de fora e de calor desenvolvida + pela oxydao d'elles. inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton + nos tenham mostrado pela comparao das estatsticas da salubridade nas + campanhas da Crima e da Italia o extraordinario poder da qualidade da + alimentao sobre a saude e sobre a energia dos soldados. inutil que + pelo estudo de iguaes estatsticas com relao alimentao de + operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da + qualidade da alimentao resulta o augmento ou a diminuio de 20 a 30 + por cento no trabalho de cada homem. inutil que Geoffrey Saint-Hilaire + nos tenha dito: Quantos factos na vida das naes attribuidos pelos + historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside + simplesmente na cosinha das familias!. inutil que toda a sciencia + tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em + cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos + nervinos uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do + nosso tempo; que indispensavel perante a moral e perante a justia + melhorar a alimentao dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisio + dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua + economia. inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os + philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisao e + de associao chamar a atteno das mulheres para o estudo e para a + resoluo d'esse grave problema cuja sede a cosinha. inutil tudo + quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta + illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus + similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos + empyricamente do que por tel-o visto fazer cozinheira da sua av. +</p> +<p> + Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradio sobre os methodos + de deitar a carne panella nas cosinhas da sua rua este argumento + supremo: Foi com essa panella frente que os portuguezes contiveram em + respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na + Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraados + travessa do cosido que nossos avs descobriram a India e que os paes de + uns de ns resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os + vencidos jantavam no <i>Bignon</i> ou no <i>Caf Anglais</i>. +</p> +<p> + Em presena d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e + reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia + affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o <i>statu quo</i> na + perfeita educao da mulher portugueza. Continue sua excellencia + imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um + vestido e que sabe tambem— legtimo + orgulho!—<i>fazer doce</i>.—De mais a + mais—notem—sua excellencia faz doce! No! positivamente nada se nos + offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. No precisa de saber mais nada. + Ahi tem sua excellencia uma opinio que lhe garantir as solidas + virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os + enthusiasmos da paixo:—sua excellencia gosta de assucar! +</p> +<p> + Quem sabe se no ser por um effeito do atavismo sobre a gula qae os + meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vo beber + licores para os botequins? +</p> +<p> + As mes dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem + ellas mesmas no a opinio do assucar mas sim a do <i>roast-beef</i> e da + agua fria; no fazem doce, fazem gymnastica, e no ensinam os filhos + unicamente a comer marmelada, a ir novena e a no metter os ps nas + poas; ensinam-lhes o cricket, a natao e o <i>box</i>, do-lhes desde a + idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles + vo para os botequins, no costumam encarregar os criticos de lh'os ir + l buscar. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Sua excellencia no se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo + segundo os preceitos de Liebig, que ns lhe aconselhamos suppondo que + Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais + d'isso do que o Antonio das Mas, celebre inculcador de cosinheiras, + encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da + arte culinaria. Sua excellencia no s no quer fazer caldo em termos + para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os + pratos e os copos, determinar a differena de cr nos estofos do salo e + da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna, + pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto sociedade + conjugal um servio igual quelle que recebe d'ella em proteo, em + trabalho e em fora. Sua excellencia prefere <i>deixar todos esses + conhecimentos aos cuidados do dono da casa</i> (!) <i>cuja vontade considera + a lei suprema, na escolha de todos os artigos!</i> +</p> +<p> + Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funces que sua + excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma no tivesse a + bondade de nos explicar que a occupao para que se reserva a de + <i>abenoar agradecida a mo que prende as suas algemas de escrava</i> (!) +</p> +<p> + O que nos parece que esse mister exclusivo de sua excellencia no + promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas + algemas! +</p> +<p> + Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua + excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abenoar os ferros, a + jogar a bisca. O nosso temperamento no nos permittiria estar a dar-lhe + constantemente o grilho a abenoar; quereriamos ter a faculdade de + poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma ba rlha. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O folhetim de sua excellencia termina com uma alluso pessoal nossa + robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos + licena para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos: +</p> +<p> + Eu—pois que bom precisar a clareza dos numeros—eu, auctor d'estas + linhas, no me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calada dos + Clerigos. No, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos + homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirar d'este facto + a concluso maliciosa de que no tomei ch em pequeno. Que sua + excellencia no hesite um momento em tirar tal conclso! at favor que + me faz—para simplificar os dados do problema—o partir do principio de + que no tomei ease ch. +</p> +<p> + Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida + courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos + mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia + para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouo:—o phosphato de cal, + que eu ingeria em grandes dozes. +</p> +<p> + A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, no tinha saguo, + no tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, no + tinha pia. +</p> +<p> + A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o + grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o + primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem + terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias + dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um + instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher: + Primeiro ser saudavel; Segundo no ser conhecida. No interior da sua + casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de + economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho + piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se + fechar de memoria d'homems s 10 horas da noite, o mais tardar. No se + desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de + cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um + dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execuo + esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graa, de que era + modelo a incomparavel cosinha da minha av,—aberta ao nivel do pateo + defronte do poo, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico + perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de + cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira + onde se espanejavam os capes; os tropheus ornamentaes dos instrumentos + agricolas; as prateleiras da loua reluzente; o cortio da barrela e a + masseira do po a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do + fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos mos da lavoura tendo + em cima a grande celha com a braada verde dos frescos legumes picada + com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas + efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a interveno periodica + do mendigo de estrada, de alforge ao pescoo, que vinha encher a sua + escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam + sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno. +</p> +<p> + Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensao de tepido aconchego, de + suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e + honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias + contadas lareira; infundia o respeito da tradio; dava o amor da + familia; explicava o amor , terra da patria pela dedicao s quatro + braas de solo cobertas por esse velho tecto. +</p> +<p> + A cosinha de minha av era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual + os mais bellos quadros da escola flamenga, to penetrados como so da + poesia domestica, no poderam dar-me jmais seno uma ideia desbotada e + fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem + havido em Portugal no pode seno fazer-me sorrir comparada obra + modesta de minha av, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a + educaao das suas filhas, para a fixao do respeito, da venerao e da + saudade eterna dos seus netos. +</p> +<p> + A minha robustez physica o mais contraproducente dos argumentos que a + minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann + que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da me. A minha + robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raa de mulheres, que os + nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo + das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas + vezes empallideceram nos bailes e no tiveram nunca de que corar aos + folhetins dos periodicos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Terminando, agradeo de novo os conselhos de sua excellencia a illustre + escriptora minha patricia, mas peo licena para os no seguir. + Continuarei a fazer rir os outros, o que me no impedir de fazer tambem + chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso. +</p> + +<hr id="telephonio" class="major" /><!--===================--> + +<p> + Por occasio da visita de el-rei Escola Polytechnica funccionou o + telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada. +</p> +<p> + Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes + que sua magestade ouvira—um solo de cornetim! +</p> +<p> + Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o + Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica <i>Unio e + Capricho</i>. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio. + Emquanto a astronomia tocava cornetim natural que, em compensao, a + arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe. +</p> +<p> + A unica cousa que extranhamos que o Observatorio no observasse entre + as suas peas de musica alguma coisa mais interessante para transmittir + a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor. +</p> +<p> + Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de + accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno + parece-nos um abuso que o principe no levar a bem. +</p> +<p> + Reflectiu por acaso o Observatorio no que o hymno para um cerebro + coroado? Cremos que o Observatorio no desceu ainda com as suas + conjecturas ao fundo d'esse abysmo. horroroso. +</p> +<p> + Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa. + O observatorio faz certamente ideia do que ter zumbidos, no + verdade? Pois ter hymno peor. ter constantemente, durante toda a + vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias, + sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doena + chronica, como affeco incuravel do nervo acustico, a audiao do mesmo + trecho de musica!—O que deve levar paulatinamente loucura. +</p> +<p> + Que o Observatorio se compadea do infeliz principe condemnado a to + incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das + contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter + faltas de dinheiro, ha de ter constipaes, ha de ter dores de dentes, + ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem + hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal + s regies da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que no ha outro + remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas + sejamos justos! A providencia collocou-nos na mo o cornetim. O monarcha + presta-nos submissamente o seu real ouvido. No abusemos d'esse + instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da + tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeas! Somos + cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o <i>Pirolito!</i> +</p> +<p> + E a posteridade nos abenoar. +</p> + +<hr id="cemiterios" class="major" /><!--===================--> + +<p> + Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A + hydra da reaco desapparecera da orbita dos conflictos do poder + politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada + manh nas secretarias do Terreiro do Pao, perguntavam angustiadamente + uns aos outros: +</p> +<p> + —No viram por ahi a hydra? +</p> +<p> + Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha + entumeciam de impaciencia por no poderem esmagar o monstro; e o sr. + Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhao na sua + dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito + imperfeito do verbo Mexer. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila, + presidente do conselho, tomou uma resoluo heroica: determinou ser + hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as + suas funces de bicha ultramontana com as suas funces administrativas + de homem de estado. Pela manh s. ex. governa. De tarde s. ex. raba. +</p> +<p> + Eis um dos resultados da dualidade que s. ex. se dignou de assumir para + salvar a situao da falta da hydra: +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O servio dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz. + Catholicos e no catholicos eram levados para o cemiterio municipal + pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos + seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o + haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena + questo canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais + exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio + como uma instituio municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos + que desejassem repousar em terreno sagrado, e no benzessem as + d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil. + No tinha jmais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a + esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente + podia-se morrer em Lisboa s pelo gosto de ser to tranquillamente + enterrado. +</p> +<p> + N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua frma de hydra e + determina em favor da morte catholica a creao de um muro similhante ao + que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara + municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento portaria de s.ex. e + discutir o modo de levantar o muro. Propem-se a tal respeito varios + alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem + de facto n'essa cavalheiro todas as condies que se requisitam para o + triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispe da primeira + cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem + uma formula. A sua formula esta: ...<i>O bucentauro do progresso + rasgando os flancos da montanha</i> ... Sempre que esse homem terrivel + arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os + auditorios a sua formula, a victoria d'elle. A sua existencia tem sido + uma serie nunca interrompida de triumphos, alcanados pela sua + cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor + o <i>bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha</i> que elle + triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas + theses de doutoramento, na exhibio das provas do seu concurso para + lente da universidade, nas reunies das associaes operarias e + phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario + e de Lisboa e Aores, nas suas eternas preleces sobre o terceiro + estado, e finalmente na discusso do muro Guillomin da morte catholica + ordenado por s. ex. a nobre hydra de Avila e Bolama. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito + canonico extraidos do <i>bucentauro do progresso rasgando os flancos da + montanha</i>, e ardendo em zelo pela sua alta comprehenso scientifica e + philosophica do phenomeno social da religio e do facto biologico da + morte,—comprehenso egualmente haurida do j alludido bucentauro + rasgando os supracitados flancos,—que s.ex. o sr. doutor convenceu a + vereao lisbonense a approvar no s a creao de um muro—o que + hydra parecer sufficiente—mas a de quatro muros, o que ao bucentauro + ainda parece pouco. +</p> +<p> + O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim + fecharo o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos + aquelles que morrerem fra do gremio da religio catholica apostolica + romana. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Ns suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico + dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que + cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da + consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico + infinito onde pra a vida; que o cadaver deixava de ter uma religio, + cessava de pertencer igreja, para pertencer exclusivamente chimica. + Suppunhamos que o cemiterio, considerado no s pelo seu lado civil mas + mas principalmente ainda pela inteno do seu instituto christo, era o + campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a + discrepancia de idas, de toda a offensa, de toda a injuria, a manso + eterna do perdo e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as + amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do + orbe pela larga beno incondicional de Jesus. +</p> +<p> + Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa, + pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. Joo, puramente um + recinto de caracter official, destinado fermentao exclusiva das + podrides privilegiadas. +</p> +<p> + Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem + ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta + pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com + as suas calas de galo de ouro duplamente retesadas pela inchao e + pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda + no peito, o espadim ao lado, o chapo armado aos ps, o cordo da ordem + terceira de S. Francisco cinta, vae legitimamente e no uso do mais + sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da + resurreio da carne, como esperou na vida a hora da sua repartio. No + dia da chamada geral no valle de Josaphat elle por na cabea o seu + chapo de bicos e ir tomar o competente logar na gloria eterna, na + bancada dos conselheiros, mo direita de Deus Padre Todo Poderoso. +</p> +<p> + Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado luz no cano + do esgoto, tu que no conheceste pae nem me, producto espontaneo da + grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre superficie + do pantano, tu que no recebeste baptismo, nem confirmao, nem ordem, + nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem + o co e que a igreja confere por uma tarifa de preos superiores aos + teus capitaes, tu, no tinhas no cemiterio de Lisboa seno um logar + usurpado, roubado indignamente s pessoas de bem. Estoiraste para um + canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fra dos + sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. s como um co. A tua natureza + humana no a da outra gente. A tua podrido no a da cabelleira do + sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu s uma besta. + s peior ainda: s um impio. Vo conceder-te agora um quintal para ires + para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor + te fazem estes bons senhores em te no remetterem s equarissagens para + o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado, + distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma + sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios + chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote, + poderiam achar uma applicao pratica e decente. Poderias aspirar na tua + outra vida a abotoar com os teus ossos as calas do sr. marquez de Avila + e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros + doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que + te destinam nada mais sers do que um eterno objecto de execrao e de + horror para os teus concidados. Quando passarem por cima da tua cova os + homens srios, a quem est promettido o co sob a palavra de honra do + padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspiro sobre a tua + dissoluo infecta. As mes passaro de longe, correndo, com os seus + filhos pela mo, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas, + entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-ho com as + suas finas mos pallidas e rezaro os esconjuros mais efficazes no fundo + tepido dos seus ligeiros <i>coups</i>. Assim com as abenoadas sepulturas + dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dar os horrendos + enguios. E eu te affirmo que ainda havemos de vr aquelles que eram + cegos e que recuperaram a vista abraando-se s sagradas reliquias de um + bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas + vegetaes malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus + preverso! Finalmente sers detestado, abominado, execrado, maldito,—cem + mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanas, pela + cidade inteira. +</p> +<p> + E cuidas tu, miseravel, que poders encontrar um dia na eterna justia + inviolavel a compensao d'este despreso systematisado, d'este rancor + que um regulamento municipal, d'este odio que uma lei do reino? Como + te enganas! O que tem de te succeder irremissivelmente o seguinte: +</p> +<p> + No dia do juizo final tu ouvirs na profundidade do teu estrume o + canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um + anjo que desde o principio do mundo ter estado a recolher no pulmo + para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos + os bramidos do mar, todas as erupes dos vulces, todas as quedas das + catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovo e do raio. + No ters remedio seno acordar,—quer queiras, quer no—do teu pesado + somno da materia bruta. Sers levado revista do grande valle por dois + ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas + como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-ho + com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: Vocemec ha de + ter a bondade de passar ali para a mo esquerda de Deus Padre porque + condemnado. Tentars escapulir-te, safar-te para a podrido de que + tinhas vindo. Appellars para o juiz supremo. O arbitro da eterna + justia inquebrantavel cravar em ti os seus olhos. Tu o vers tambem a + elle, com a sua longa barba que envolver toda a terra, o seu bigode de + interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus + dedos, chisparo os raios na amplido infinita. Ouvirs a sua grande + voz, cujas sylabas cairo na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o + Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dir:—Deram-lhe o + baptismo? No. Deram-lhe a confirmao? No. Deram-lhe a penitencia? + No. Deram-lhe a absolvio da culpa? No. No lhe deram nada. O + cherubim tem razo. Passe para a mo esquerda. Ento passars para a + esquerda. O teu anjo custodio abrir um alapo aos teus ps e gritar + para baixo, para as profundidades do immenso vortice:—Fogo eterno para + um! Depois do que, te tocra com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando + o espao como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella + sombria feita de lama, at te submergires no tremendo abysmo, na punio + eterna. E ser por todos os seculos dos seculos, sem fim jmais. +</p> +<p> + Eis ahi tens o que te espera, segundo a religio do dr. Jardim e outros. + Religio bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas + mos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle + mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos! + Bem diversa da d'aquelles christos da igreja primitiva, que assombravam + Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do + que os pagos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os + cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do + os conduzirem sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os + collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E no + resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os + primeiros christos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagos + pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os + impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o + sacrificio bastava ser desgraado. Por isso disia o imperdor Juliano que + fra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais + contribira para o estabelecimenlo e para a propagao do christianismo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vr como s. ex. o + ministro do reino resolver os conflictos promovidos contra elle mesmo + por s. ex. a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que + muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas + esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou—porque o digamos + n'outros termos—a atteno do seu genio. Eis um dos casos sobre que + pretendemos consultar s. ex: +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas, + no querendo enterrar-se de todo por uma s vez, resolvia enterrar-se + por partes e dar terra uma das suas pernas para a terra se ir + entretendo. +</p> +<p> + N'esta hypothese pergunta-se: +</p> +<p> + Onde que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha + o capricho de descartar-me? +</p> +<p> + Estou prevendo que o bucentauro de s. ex., attribuindo + indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente + escripto, me prescrever o logar destinado por s. ex. para os membros + impios e locomotores. +</p> +<p> + A isto porm replico a s. ex. que a minha perna quer se trate da + direita, quer se trata da esquerda, boa catholica apostolica romana. + Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei pia + baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em + lingua latina, que ella a esse tempo ainda no tinha tido tempo de + aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu <i>Volo</i>! E + este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido + as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o + parocho se ella acreditava na communicao dos santos, na resurreio da + carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu + padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali + tinha ido com o seu respectivo p e com o pequeno apendice que era o + resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia at hoje bem + varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas + crenas religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe + compete na funeral manso. Ella porm, ex'mo. sr. doutor, apezar de + todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca at hoje + contradisse—que me conste—as declaraes latinas feitas em seu nome + por meu padrinho: <i>Volo, credo, abrenuntio</i>. Ella portanto catholica, + e tem direito sepultura sagrada na terra e bemaventurana no + paraiso. O sr. Jardim no pde de modo alguma mandal-a para o cemiterio + dos atheus. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete + funeral jazida de uma das minhas pernas o cemiterio catholico. A essa + resoluo tenho egualmente de oppr-me com os fundamentos seguintes: +</p> +<p> + Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confisso, a missa, a + communho, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias + no significa da parte da minha perna uma affirmao religiosa mas sim + uma affirmao civil. +</p> +<p> + Pelas leis do reino a religio catholica apostolica romana no + facultativa, obrigatoria. A minha perna no pde entrar no estado sem + ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que + substitua o assento baptimal para a consignao do nascimento, a minha + perna nem sequer portugueza pde ser emquanto no fr baptisada! Em todo + o decurso da vida civil, ella no pde dar um s passo sem primeiramente + demonstrar que catholica. Sem a certido de baptismo, primeiro, sem o + attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais + sacramentos depois, ella no pde fazer exame de instruco primaria; + no pde matricular-se em nenhuma das escolas; no pde entrar no + exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem + na magistratura, nem na representao nacional. No sendo catholica no + pde ter nacionalidade, no pde ter profisso, no pde ter estado, no + pde ter mulher, no pde ter filhos, no pde nem ao menos ter nome! +</p> +<p> + A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta minha perna + antes de a deixar penetrar, se ella catholica, exactamente como se lhe + pergunta se ella est isempta do recrutamento e se vaccinada. +</p> +<p> + Desde que veiu luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de + nascer, pertence irremissivilmente igreja. Sem previa licena da + igreja ella no pde dar um unico passo para dentro do estado ou para + dentro da familia. Esta simples aspirao, to modesta: ser filha de meu + pae e de minha me—a minha perna est prohibida de a ter sem que a + igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar + de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente + minha emquanto a igreja no disser tambem que sim. De sorte que, quando + eu ouso dizer <i>a minha perna</i>, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que + espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente + deveria dizer em linguagem litteral, para me referir minha perna, + era—a perna da igreja. +</p> +<p> + Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha + perna da faculdade de escolher uma religio, chumbando-lhe elle mesmo o + catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado, + recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o + direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religio. Pelo facto de + ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada + anno, de commungar pela Paschoa da Resurreio, de jejuar sexta feira, + de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna no est na + religio, est apenas na lei civil, est na carta. Em quanto a crenas + religiosas, o mais que se poder dizer da minha perna, apezar de + baptisada, de jejuada, de confessada, etc., que ella cartista. +</p> +<p> + Como porm a creao das duas especies de cemiterios imaginados em + Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila no pde ter por fim + separar os cidados que obedecem carta dos cidados que lhe no + obedecem—o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de + dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a + sua transgresso,— claro que no pde ser unicamente pelo facto de + estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de + designar a sepultura sagrada. +</p> +<p> + Em concluso final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico + outro no catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna + pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella + effectivamente catholica ou se no catholica, acha-se no caso especial + de no poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios, + e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim no mandar o + contrario. +</p> +<p> + Ora succede que todos os cidados portuguezes, sem excepo alguma, se + encontram precisamente nas mesmas condies em que se acha a minha + perna. +</p> +<p> + No se pde affirmar que alguem catholico ou que o no emquanto a + creao do registro civil no assegurar a cada cidado a livre faculdade + de exercer ou no qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem + padre, morrer sem padre. +</p> +<hr id="camara" class="minor" /> +<blockquote> +<p> + Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta + cidade do Porto ou quem suas vezes fizer—Paos da Camara na Praa Nova, + esquina do Laranjal +</p> +</blockquote> +<p class="centered"> + Porto +</p> +<p> + Excellentissima camara e minha boa senhora. cheio dos maiores cuidados + pela preciosa saude de v. ex. que lanamos mo da pena para, em nome de + todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasio da cerimonia + inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex. algumas regras. +</p> +<p> + Principiaremos por dar a v. ex. uma breve noticia da festa em que + tomamos parte e em que v. ex. teve as suas razes para no se dignar de + comparecer. +</p> +<p> + Por convite da direco da companhia dos caminhos de ferro portuguezes + reunimo-nos na estao das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado + pelas 11 horas da manh. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande + comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, entrada da nova + ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que + presenceamos desde Gaya at estao de Campanh e do qual procurarei, + certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.! +</p> +<p> + Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de + uma perola azul, abraa amorosamente a natureza e banhava a paizagem + n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das + violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus + encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera + maritima, salgada e humida, at os montes longnquos do lado opposto, + levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisaes do sol. + Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo + Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o + caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado + de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da + Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias + da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em + <i>pignon</i> como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos, + reluzentes, forrados de faiana, outros barrigudos, sombrios enodoados, + fazendo fincap para no cambalearem como ebrios taciturnos; outros, + ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de cr de rosa, + com chamins bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por + trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas + abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle, + os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e + murmurosas frescuras das quintas de Quebrantes, da Oliveira, da + freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configurao + de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de + torrees e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha + venezianamente na agua. +</p> +<p> + Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebrao da + ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes + proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetao + humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos + os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos + os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas, + tinham um debrum de gente.—Enorme romagem nunca vista. A cidade do + Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regies do + paiz estavam ahi reunidos. Para que? +</p> +<p> + Para celebrar um puro facto scientifico—a soluo de um problema de + mechanica. N'este simples facto, exm. camara, que symptoma! que + phenomeno! que revoluo! +</p> +<p> + Ha bens poucos annos ainda s o fanatismo religioso tinha o poder de + determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato + de Guimares, senhora da Nazareth, senhora do Cabo. Os peregrinos + iam ento solicitar a interveno milagrosa dos bons santos nos seus + casos pathologicos, nas suas ambies pessoaes, nas suas questes + domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz, + os tristes iam pedir consolao, os turbulentos iam pedir paz, e os + mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoo, a + longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no p dos + caminhos, iam simplesmente beira das estradas pedir po em troca de + plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes. +</p> +<p> + Os peregrinos ponte sobre o Douro no eram movidos por interesse algum + pessoal. +</p> +<p> + Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se + o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos + exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia j uma + funccionalidade diversa. +</p> +<p> + Um poder absolutamente novo, que no o poder religioso nem o poder + politico, com quanto no affirmado ainda nas instituies, revela-se j + por este facto na comprehenso dos espiritos. Esse novo poder, + irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos + nomes teem gerido at hoje a direco da sociedade, na esphera + espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria. +</p> +<p> + A ponte sobre o Douro a mais bella e a mais perfeita expresso + symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto + mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de + que ha exemplo na historia das manifestaes do applauso publico. Era + to superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisao, + que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia + todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distinces + de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza. + A direco da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de + convidar para o banquete que se seguiu solemnidade da inaugurao os + individuos representantes das opinies mais extremas, o mundo official e + o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais + progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes + revolucionarios. Estes personagens to justamente surprehendidos de se + acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoo + cujos convivas no tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos + outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais + tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias + episodicas de opinio, havia um sentimento de attraco commum, de + conciliao geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse + sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel + fora anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das + bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo, + vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o + aperfeioamento e para a felicidade. +</p> +<p> + No foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas no foram tambem + os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e + dirigido at hoje a humanidade na sua asceno atravez da historia. Foi + elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos + remansos da paz, nos recolhimentos da applicao e do estudo o que + determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos + das sociedades. +</p> +<p> + A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas + victorias, um d'esses triumphos:—a conquista de perto de meio seculo de + paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem + sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino + progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas + instituies. +</p> +<p> + Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas + estreitamente enlaadas agora por um abrao de ferro, eram separadas por + um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde ns agora nos + reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os + nossos paes e os nossos avs espingardeavam-se convictamente, decidindo + com o sacrificio das suas vidas a questo de palacio a esse tempo + debatida entre dois principes. +</p> +<p> + A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. evidente que + progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos + milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente + affirmao d'esse progresso. +</p> +<p> + A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus + principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandes de toda a + especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo. +</p> +<p> + Como foi que v. ex., representante do municipio portuense recebem este + seu novo hospede? No lhe apparecendo! +</p> +<p> + V. ex., que tem dado a esse espinhao os tratos mais violentos e mais + irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia + satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex. + que tem desengonado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos + ps da real familia; v. ex. que conserva ainda entre os ferros velhos + do seu stylo declamatorio—ao mesmo tempo alambicado e labrego—<i>as + chaves d'esse heroico baluarte</i> depostas em cada anno por v. + ex.—dizemos—no teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para + agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais + extraordinaria manifestao de estima de que ainda foi objecto uma + cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro. +</p> +<p> + Este simples facto basta para nos provar que v. ex. desconhece + completamente qual o espirito municipal das modernas sociedades + democraticas, que v. ex. est cem annos atraz do seu tempo, e cem furos + abaixo da misso em que foi investida pelos suffragios da populao + portuense, to energica, to intelligente e to progressiva. +</p> +<p> + possivel que v. ex. tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse + contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada + com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa + patuscada, para alguma das bem conhecidas <i>sapateiradas</i>, nas quaes todo + o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do + forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque que v. ex. + nos no preveniu? Durante a ausencia de v. ex., minha boa senhora, a + sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso + telegraphico ns, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas, + teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa + resignao para o desgosto de a no vermos no espirito. +</p> +<p> + Acceite minha senhora a expresso dos nossos sentimentos, to cordeaes + como aquelles que v. ex. nos no exprimiu. +</p> + +<hr id="politica" class="major" /><!--===================--> + +<p> + Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira + de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre + os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder. +</p> +<p> + Eis o que ao depois occorreu: +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + A pacata bestinha da governao andou a monte por alguns mezes, + choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos taces do sr. Barros e + Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre + estadista e cavalleiro. Para onde que s. ex., coberto de zelo e de + suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra? +</p> +<p> + —Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex. com uma das + mos na redea e com a outra mo sobre a carta constitucional. +</p> +<p> + Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha + bambeavam dubitativamente a cabea, e do alto das montanhas, com a mo + aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam: +</p> +<p> + —No. Para onde elle vae para a senda de Cacilhas Cova da Piedade. +</p> +<p> + E deixaram-o ir. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo, + com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da + estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a + orelha, baixando a cabea, cravando os olhos sinistros nos cascos + deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices + adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande + homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a + perfidia das rs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao + abysmo,—sempre com uma das mos na carta, mas j tem a outra mo na + redea. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a + cavalgadurinha do Estado principiou ento a dar terra para feijes, + retrocedendo para casa e bebendo o espao com o freio nos dentes e com a + saudade da mangedoura na alma.—To poderoso e fecundo o ascendente + moral que exerce o principio sagrado da rao sobre as actividades + officiaes! +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Quando as boninas e os representantes da nao tornaram a ver a burrinha + do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o + dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulao entre os + circumstantes que porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao + sr. Jos Dias Ferreira. +</p> +<p> + Empolgando com mo dextra e firme a camba do freio alimaria do poder, + o sr. Jos Dias exclamou triumphante e glorioso: +</p> +<p> + —A mim, rapazes! +</p> +<p> + E gritando em coro: Ave, Jos vencedor!—os rapazes foram a elle. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Eis seno quando, que ho de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem + assim elle mesmo? +</p> +<p> + Atonitos elles vem—caso que os olhos se lhes recusam acreditar—que a + burra j no est devoluta, que a albarda tem gente em cima! +</p> +<p> + Effectivamente emquanto o sr. Jos Dias intrepido segurava a redea, o + sr. Fontes veloz encavalgara o poder. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provises + do governo que o precedera. S. ex. sacou os 150 contos de tijolo para a + Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos, + rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou + depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de cro e o + seu devido rap; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em + cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaada de algodo + para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixes cheio de + dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes + nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o <i>Times</i>; e, + como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram + estes virados com o de dentro para fra, e appareceu por ultimo o sr. + Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da + commisso da exposio de Paris. S. ex. trazia empunhada e aberta a + delicada umbela de linho cru forrada de tafet azul com a qual s. ex. + abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Pao at rua do Duque + de Bragana a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de + ministros. O ar de s. ex. o sr. Deslandes era cheio de uma grave + auctoridade, e sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafet + azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial! +</p> +<p> + Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental + da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das + causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar + durante alguns mezes e querendo obviar repetio d'essa + intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra + bolsa do alforge ministerial. +</p> +<p> + Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. Jos Dias do alto da burra, + enfiou a trote marcial provincias da publica administrao em fra. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. To smente no mesmo + logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto + nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solido, a chapinhar com + arnica o seu galo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Na semana seguinte quella em que estes successos occorreram houve + jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes + eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr. + Fontes pelos <i>gentlemen</i> do <i>turf</i> politico. +</p> +<p> + O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente + como o <i>Gladiateur</i>, e ninguem mais tornar a apostar contra o nobre + estadista sem a condio previa de que se sobrecarregue com mais alguns + kilogrammas de chumbo o dente de s. ex. +</p> + +<hr class="major" /><!--===================--> + +<p> + Uma vista d'olhos a uma das ultimas sesses da camara dos senhores + deputados: +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores, + funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde + os parapeitos at ao tecto. +</p> +<p> + Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traada sobre + o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado. +</p> +<p> + Serve de secretario, lanando apontamentos a uma larga folha de papel um + individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em + resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar, + publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de + dr—Alfredo Angelino. S. ex. traja rigorosmente de negro. +</p> +<p> + Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente + encasados nos seus <i>fauteuils</i>. No teem uma apparencia espirituosamente + feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espao + com a expresso passiva e to caracteristicamente pacata dos individuos + calidos quando instalados em decoces emolientes de alfavaca de cobra. +</p> +<p> + No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mos sobre o + corao, a outra mo alongada patheticamente no espao, est orando. +</p> +<p> + Em torno do tribuno agrupam-se em p varios representantes da Nao. +</p> +<p> + Uns rolios, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em + amplas sobrecasacas pomposas. Sente—se que elles respiram com exforo. + O abuso do feijo suffoca-os como o sangue de Danton suffocava + Robespierre—So os empaturrados da coisa publica. +</p> +<p> + Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lvidas, os ps + mettidos para dentro, as calas esbambeadas pelas joelheiras dos + sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calas e que + descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.—So os espinhelas + cahidas do systema que felizmente nos rege. +</p> +<p> + No fundo escuro da bancada sobresaem da cr sombria dos vestuarios de + inverno duas mos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto + dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripo ou uma + sentena de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz + inoffensivamente, n'uma abstrao magnanima. +</p> +<p> + —Sr. presidente—diz o orador, e a sua voz pungente, elegiaca, + lacrimejante—Sr. presidente! onde no ha religio no ha dignidade. +</p> +<p> + Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu + estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de + cabea. +</p> +<p> + Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de + vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade, + esto ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade uma + resultante da religio. E todavia a religio que obriga esse pallido + mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplao, + a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a + submetter-se pela humilhao, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma + face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a + resignar-se. E pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz + sanguineo e robusto a caminhar na direco opposta d'esse anemico, a + constituir a familia, a luctar, a no perder tempo em contemplaes e em + extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas + lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida + moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as + botas novas no caem do ceu cob a frma de man, caem unicamente do + trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porm esto + ambos de accordo emquanto alliana indissoluvel da dignidade de um e + da religio do outro perante o principio transcendente da rhetorica + constitucional. +</p> +<p> + Diz mais o orador: +</p> +<p> + —Sr. presidente!—e a entonao do tribuno continua a ser lacrimosa e + pathetica—li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as + investigaes de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman + inventando religies para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo + isto porem no apagou na minha alma a doce esperana que n'ella lanaram + aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem + porque elles sero consolados. +</p> +<p> + E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da + camara:—Muito bem! muito bem! +</p> +<p> + morbida corrente intellectual do pessimismo allemo representado por + Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppe o naturalissimo de Darwin + e as poderosas systematisaes de Spencer, a Frana oppe o positivismo + victorioso de Augusto Comte e de Littr. Em Portugal, onde estas + questes no foram nunca ventiladas seno por pobres escriptores + desconhecidos em periodicos to desconhecidos como elles, a camara dos + srs. deputados ouve pela primeira vez a soluo official d'esse debate. + Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano, + ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius + Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart + Mill e de Littr, a intellectualidade portugueza responde mostrando a + alma virginal do sr. Manuel d'Assumpo. E a comprehenso mais perfeita + dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois + d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas + crenas. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna no + queria evidentemente seno uma coisa: apagar a esperana na alma d'este + moo. Pois ficar sabendo que o no conseguiu. A camara dos deputados da + nao portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno + collocando-lhe em cima o sr. Assumpo e a esperana da sua alma, no + meio dos applausos geraes de todo o parlamento. +</p> +<p> + E, no obstante, querem dizer alguns que a politica no mais do que a + applicao da philosophia direco pratica das sociedades. +</p> +<p> + A politica de Bismark um grande poder social porque atraz d'elle est, + como o peito pelo outro lado da couraa, a disciplina philosophica de + Kant, de Hegel e de Hartman. +</p> +<p> + Danton, a alma da Revoluo, era na esphera executiva o instrumento da + philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou + precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o + grande movimento cahiu com a cabea de Danton, guilhotinado pela + indisciplina mental. +</p> +<p> + Foi ainda a anarchia das idas, resultante da falta de um methodo + philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848. +</p> +<p> + Finalmente para que a democracia se fundasse em Frana sobre bases + definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e + para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que o filho + triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton o + filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado. +</p> +<p> + Na Italia o que a politica actual, que libertou e unificou a grande + peninsula, seno a somma das expeculaes de uma longa serie de + pensadores, desde Dante, o vidente, at esse taciturno Leopardi, que foi + o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado + politico do imperador Guilherme? +</p> +<p> + Em todos os estados actualmente em dissoluo qual a causa do mal + seno a perturbao da mentalidade pelo empyrismo da politica + arbitraria? Ser preciso citar a Turquia? Ser preciso citar a Hispanha? +</p> +<p> + Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso + vigor intellectual, que em poucos annos despedaar todos os velhos + preconceitos e todas as caducas instituies que embargarem a sua + asceno politica. O federalismo, forma definitiva da civilisao na + peninsula iberica, est-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos + certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a + pouco e pouco o caracter de uma opinio partidaria. um resultado + philosophico, que em toda a Hispanha est sendo pacificmente revisto e + contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia, + pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela + linguistica, pela historia. Quando esta ida chegar ao cabo da sua + elaborao especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e + actuar sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma fora da natureza. +</p> +<p> + Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata to + experimentalmente e to evidentemente os seus dominios sobre o destino + humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande + maioria a condemnao da critica e do pensamento moderno; declara-se + indissoluvelmente abraada theologia; e a todas as conquistas da + sciencia no presente seculo ella oppe triumphantemente a posse d'esta + noo: Bemaventurados os que soffrem porque elles sero consolados. +</p> +<p> + A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma to patente de + esphacelamento cerebral. +</p> +<p> + Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de + caturras?— unicamente o que perguntamos. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + O medo como a camara pensa d-nos a justa medida do modo como a camara + governa. Ha muitos annos que ella no toma uma unica medida tendente a + coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforos da progresso + social. +</p> +<p> + A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituio politica, est por + fazer. +</p> +<p> + A liberdade religiosa no est regulamentada de modo que torne effectivo + o principio em que se funda. +</p> +<p> + A distribuio racional do imposto ainda no foi definida. +</p> +<p> + Finalmente a organisao da instruco publicia, esse elemento vital de + uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma + Turquia est muito adeante de ns. +</p> +<p> + Os parlamentos, sem direco mental, sem criterio scientifico, sem + destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e + dissolvem-se na banalidade. +</p> +<p> + As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos + personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente s + camaras uma grande concorrencia de ouvintes que no recebem ahi seno as + mais perigosas lies de cynismo e de immoralidade. +</p> +<p> + Das duas coisas uma: ou o espirito publico est bastante corrompido para + assimilar sem perturbo do seu organismo a entoxicao d'esses + exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado dissoluo; ou a + burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso + moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de + cair como caiu em Frana o segundo imperio por effeito de um movimento + similhante quelle a que Luiz Veuillot chamou a <i>revoluo do despreso</i>. +</p> +<p> + similhana de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de + circulao intellectual. Os partidos politicos so os centros nervosos + do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de + funccionar. Ora qual o estado dos partidos politicos em Portugal? +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Ha um partido que est hoje no poder. um partido conservador. + catholico, monarchico, auctoritario, proteccionista, + militarista, unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma + electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religio do Estado; + quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito + permanente com os seus respectivos canhes Krupp e a sua competente pena + de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direco e de + governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro, + uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundio de typo, uma fabrica + de cordas, uma photographa, etc. +</p> +<p> + Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se + disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que + pelas suas idas no formam realmente seno um partido unico: o partido + opposicionista. Que differena ha entre este partido na opposio e o + partido actualmente no governo? revolucionario? No: egualmente + conservador. racionalista? No: egualmente catholico. + evolucionista? No: egualmente auctoritario. Quer a liberdade da + industria e a liberdade do commercio? No: quer egualmente a proteco + das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a + universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a + magistratura anarchica, a instruco cahotica, o suffragio corrompido, o + governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se + distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa, + a photographia, a cordoaria, a fundio, etc. +</p> +<p> + A unica opinio que a opposio diz ter e que ella accusa o governo de + no professar a opinio abstracta da economia, da ordem, da moralidade + e do progresso. Como porm todos os governos, qualquer que seja o + partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder + perante a accusao de no servirem o progresso, a moralidade, a ordem e + a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que alis no + pdem constituir principios de programma, so communs a todos os + partidos ou no so especiaes de partido nenhum. +</p> +<p> + Os partidos portanto no se differenam seno pelos nomes dos individuos + mais ou menos numerosos do que elles se compem. N'esta ausencia + completa de idas contrapostas o governo em Portugal, versando + constantemente sobre si proprio, d-nos o espectaculo de um organismo + vivo isolado na creao, alimentando-se na sua propria substancia e + digerindo-se pouco e pouco a si mesmo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Deixando de ser uma lucta de principios e de idas a politica + converte-se fatalmente em uma questo de compadres. +</p> +<p> + O compadrio elevado cathegoria de instituio nacional, domina tudo, + corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que no pdem conquistar o + appoio da opinio pelas idas que representam, procuram manter-se pelo + appoio dos compadres que favorecem. na proporo exacta do numero dos + compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou + diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiana da cora e no + favor da urna. +</p> +<p> + O dogma fundamental do compadrio impe-se por tal modo que transforma + todas as outras noes moraes segundo o criterio de que elle a + expresso. Transforma a justia, a honra, a probidade, a propria + consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria + commetter a mais vil e a mais nefanda das traies politicas! +</p> +<p> + Despachando o compadre mais servial com excluso do adversario mais + competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratido e + de lealdade. E ninguem v quanto ha de profundamente subversivo da ordem + moral n'este simples facto to vulgar, to frequente, to despercebido: + a excluso da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos + preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja, + commetter o attentado mais criminoso de que o Estado pde ser ro + deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violaes do direito + e todas as affrontas da justia. um roubo violento e descarado, + aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o + insulto ao trabalho, com o escarneo moral, com o ultrage ao dever. +</p> +<p> + Na politica portugueza, que tem o seu calo como as mulheres publicas e + como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de + <i>compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria</i>. E do + ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a priso + correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinio diz + apenas:— fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o + compadre, vou para o partido d'elle. +</p> +<p> + O officio do governo servir o paiz. Como porm o paiz, por effeito do + machinismo eleitoral, representado constantemente pelos compadres do + governo, o officio do governo em ultima analyse no mais do que servir + o compadre. Est no seu destino. Graas aos elementos de corrupo de + que o governo dispe, o cidado, no votando como cidado mas votando + como compadre, d o primeiro impulso que pe em movimento toda a + engrenagem do systema: elegendo o compadre elle mesmo que funda a + tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa. +</p> +<p> + A sociedade est merc do compadre. E se ha poder que possa + contrabalanar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre, + esse poder unicamente—o da comadre. +</p> +<p> + A aptido provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no + dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehenso e o mais + rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra—palavras, palavras, + unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva, + real; compadrice, comadrice—eis tudo. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja + decadencia tanto mais lamentavel quanto certo que a sociedade que + ella tem por fim dirigir est na anarchia economica e tende para uma + miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse + remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de + quatro ou cinco individuos de opinies radicaes: republicanos, + socialistas, federalistas, positivistas—o que quizerem—com tanto que + sejam homens profundamente convictos e determinados peleja de cada dia + e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio + philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa + que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe + resistir, no j pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo + reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisao. E das + concesses mutuas e successivas, feitas, j ao principio da ordem pelos + revolucionarios impacientes, j ao principio do progresso pelos + conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento + actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixes e dos + mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes. +</p> +<hr class="minor" /> +<p> + Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que + sollicitamos, resta-nos ento adoptar o expediente ultimamente proposto + pela municipalidade de Lisboa:—tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas + que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto: + caiar o palacio das crtes, branquear por fra o parlamento—<i>dealbatum + sepulchrum</i>! +</p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878, +by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + +***** This file should be named 13092-h.htm or 13092-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/3/0/9/13092/ + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed +Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional +de Lisboa. + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/old/13092-h/images/devil.png b/old/13092-h/images/devil.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..13a77a6 --- /dev/null +++ b/old/13092-h/images/devil.png diff --git a/old/13092.txt b/old/13092.txt new file mode 100644 index 0000000..484a5f9 --- /dev/null +++ b/old/13092.txt @@ -0,0 +1,2343 @@ +The Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878 +by Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Farpas (Janeiro 1878) + +Author: Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz + +Release Date: August 2, 2004 [EBook #13092] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ASCII + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + + + + +Produced by Claudia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed +Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional +de Lisboa. + + + + + +[Illustration: ECA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGAO--AS FARPAS] + +RAMALHO ORTIGAO--ECA DE QUEIROZ + +AS FARPAS + +CHRONICA MENSAL + +DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES + +TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878 + +Ironia, verdadeira liberdade! Es tu que me livras da ambicao do poder, +da escravidao dos partidos, da veneracao da rotina, do pedantismo das +sciencias, da admiracao das grandes personagens, das mystificacoes da +politica, do fanatismo dos reformadores, da supersticao d'este grande +universo, e da adoracao de mim mesmo. + +P.J. PROUDHON + + + + +SUMMARIO + + +A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, Jose de Alencar, +Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello +d'aquella dama. A nossa resposta. Nao, a mulher portugueza nao sabe +fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A +litteratura feminina e a cozinha de minha avo.--Da influencia dos hymnos +sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios. +A intervencao do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A +cabelleira e a formula de s. ex. Mostra-se que s. ex. nao e o velho +Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro +civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A +situacao politica. As ultimas sessoes parlamentares. Alguns perfis. Os +partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governacao. + +No breve espaco dos ultimos quinze dias a humanidade pagou a morte um +pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados. +Deixaram de existir, em Franca Raspail e Courbet; na Italia Victor +Manuel, no Brazil Jose de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho. + +Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo +imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forcas +sociaes do mundo moderno, a porcao mais fecunda e mais gloriosa da +grande alma do povo. + +Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tao vastas e tao +profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos +descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e +pode-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia +microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, nao como uma dependencia +da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o +que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do +suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de +Ville a Republica de 48. + +Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias +physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias +socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo, +economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio +profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros, +das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as +instituicoes politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma +judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo +caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o +favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboracao official. Recusou +todas as distincoes honorificas, todos os cargos publicos, todos os +diplomas scientificos ou litterarios. As suas observacoes astronomicas, +os seus trabalhos de chimica, as suas applicacoes do microscopio ao +estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde +dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no +isolamento austero da independencia o do sacrificio. + +Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno +e do Bernardo Palissy. + +A academia franceza, commovida com uma tao exemplar grandeza d'alma, +resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca +do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o +homem que mais servicos tinha prestado a sciencia e a humanidade. + +Guizot, entao ministro da instrucao publica, interveio na resolucao da +academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da +rebeliao_.[1] O chefe do partido conservador francez nao podia esquecer +que fora esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior, +em plena Restauracao, ousara fulminar a votacao da lista civil com a +phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de +cadeia: "Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias +todo o cidadao que ousasse pedir a Franca 14 milhoes para viver." + +[Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma +cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a +desgraca de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois +crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.] + +E que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi +egualmente o braco constantemente pronto para resistir. + +Portentosa existencia, que ficara na historia entre as mais bellas e +mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae a +carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, comecou por ser um +theologo. Era porem de tal modo intenso e explosivo o seu amor de +verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos +dezenove annos, acabou por alcancar a gloria immarcessivel de ser +condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da +liberdade de pensamento! + +O poder espiritual do mundo moderno era representado em Franca por uma +trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a forca do sentimento; Raspail, a +forca do trabalho; Littre, a forca da philosophia. + +D'esses tres anciaos o primeiro que desceu ao tumulo e o que mais +fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram +sao d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse +exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em +nenhuma outra parte e mais precioso do que na sociedade portugueza, onde +as ideas radicaes, que sao as sentinelas avancadas da civilisacao, tao +raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a +mocidade mais vivaz e intelligente esta defendendo no parlamento e no +jornalismo as opinioes mais retrogradas, onde finalmente o futuro nao +tem partido. + +Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseveranca e a firmeza no +coracao d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se +sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez +calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeicoamento dos seus +similhantes! + +Que todos os que sao mocos e fortes se inclinem sobre esta campa onde +repousa um triumpho, e reflictam, que e na pedra tumular de Raspail que +deverao agucar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela +consciencia e pela verdade! + + * * * * * + +Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um +ideal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas +instituicoes sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a +derrocar pela pintura a inspiracao da antiga arte assim como derrocou +pelo uso do poder executivo a columna da praca Vendome. Louvavel +empenho, porque Courbet considerava essa inspiracao uma fonte envenenada +para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um +symbolo ultrajante para a dignidade humana. + +A demolicao da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com +palavras tao resentidas e acerbas, nao podera deixar de ser um dia +olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos +principios de justica social constantemente professados pelo immortal +artista. + +Courbet foi condemnado a pagar a reconstituicao da columna. Breve porem +soara a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar +puerilmente que se deve ser + +_Fier d'etre francais +Quand on regarde la colonne!_ + +Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora, +comprehendera em pouco tempo que e uma injuria ao seu bello destino na +obra da conciliacao humana a ostentacao orgulhosa de um monumento que o +distico diz ser: _levantado a gloria do grande exercito por Napoleao o +Grande!!_ + +Paris, qua vae na proxima exposicao celebrar dentro do regimen +republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo +municipio acaba de votar 546 contos de reis para os seus +estabelecimentos publicos de instruccao primaria ao anno corrente, Paris +que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos a reorganisacao +dos seus lyceus, nao podera manter em pe por muitos annos mais, em uma +das suas pracas publicas, um symbolo que contradiz todas as suas +aspiracoes philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores +nodoas da civilisacao: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os +direitos do homem, a sujeicao da Franca aos caprichos de um despota em +cuja fronte as justicas da historia estamparam ja o ferrete da ignommia. + +A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou +um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradicoes marciaes +da geracao actual o sol de Austerlitz. + +Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a +que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravara, +ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendome e +pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de +remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na +maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que +sera uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em +que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na +pratica dos seus actos a opiniao do seu tempo. + + * * * * * + +Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico +de Godofredo de Bulhoes. Poderia como elle decepar de um so golpe da +espada a cabeca de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como +elle uma cruzada,--a cruzada de Novara ate Roma, como elle chegou a +terra promettida; morreu moco como elle, como todos os heroes que tendo +realisado na terra uma grande missao, se sentem de repente invadidos na +alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos +fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas +dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes, +mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos, +atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmoes mais rijos as +altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais +encanto e com mais prestigio a fadiga, ao perigo, as mulheres e a morte. +Era evidentemente um forte. E como a forca e o maior de todos os +attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tao +contradictorias sympathias e tao heterogeneas affeicoes: foi o amigo do +Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta. + +Feliz homem! + + * * * * * + +A morte de Jose de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_, +representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tao +notavel nos ultimos tempos pela cooperacao dos seus poetas e dos seus +pensadores. + +Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidao desviou por tantos +annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a +organisacao moderna do trabalho livre e ao mesmo tempo a creacao de um +novo elemento social--o povo. + +Jose de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando +poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem +synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e +decide da sorte dos imperios. + +Elle, que alcancara um dos mais luminosos logares entre os homens mais +celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade, +procedera da roda dos expostos. + +Esse engeitado era a personalisacao mais gloriosa da soberania do +trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno +da arte a sua larga espada de justica, vestindo a tunica e a dalmatica +azul, calcando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e +fazendo-se ungir e sagrar pelas multidoes como os antigos eleitos do +senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante, +que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: "Deus te elegeu para +reinar sobre a sua heranca e para livrar os povos das maos dos seus +inimigos." + + * * * * * + +Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce +consolacao de cumprir um destino, consolacao compensadora de tantas +amarguras e de tantos sacrificios, nao foi concedida na terra aquella +natureza essencialmente desgracada. + +Tinha um incomparavel poder de applicacao e de estudo e ninguem possuia +em Portugal uma provisao mais copiosa de nocoes e do factos. Foi o +collaborador do Alexandre Herculano nas investigacoes da historia +nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem +melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos +nossos costumes e das nossas tradicoes. Era archeologo, diplomatico, +jurista, bibliographo. Nao havia inscripcao truncada na epigraphia nem +texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade +portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresenca de quanto +tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e +incessante. Era um tomo de erudicao vastissima, assombrosa, que ninguem +consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do +direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e +da lingua. + +Faltava-lhe porem no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da +generalisacao. Nao sabia tirar dos factos as leis de que elles sao a +funccao. Nao sabia correlacionar. Nao tinha o poder creador. Por esse +motivo a isolacao suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um +instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsao de energias +concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle +estava condemnado a submetter-se para ser uma forca na civilisacao, +repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente +aggravada por uma falsa educacao. + +Essa capacidade tao prodigiosa de contensao, de investigacao, de exame, +de absorpcao de ideas, estava na sua natureza alliada a um temperamento +caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na +infancia, nao poderia fatalmente deixar de ser o que era: um +sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios +da sua inquieta o attribulada existencia. + +A indifferenca perante o conflicto e uma nobre virtude. Raros a possuem. +O que succede com as naturezas vulgares e que a nossa resolucao boa, +conscientemente reflectida, reforcada na mais legitima compenetracao do +dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que +vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nos +precisamos de reagir sobre nos mesmos com toda a forca da nossa coragem +para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosao da +crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da +palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado +vamos lancar ao coracao d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa +virtude, tao rara, tao viril, de desmanchar implacavelmente prazeres +para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho +no estado de uma exageracao pathologica. O conflicto na convivencia +social nao somente lhe nao repugnava mas attrahia-o--como succede as +mulheres nervosas. + +Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creanca. As +suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua +sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta +pela mesma rasao de que ninguem teve egualmente a compaixao mais facil. +Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou +lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas +sessoes da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior +de Lettras nao conheceram senao metade d'essa physionomia tao +caracteristicamente meridional nos tracos moraes como nas formas +physicas. + +Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar +obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro +andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da +camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de +Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os +quaes aquella humilde casa de litterato, tao hospitaleira e tao pobre, +tinha altractivos que nao podiam propornionar as exigencias dos +philosphos e dos principes, os mais brilhantes saloes de Lisboa. Era +preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o +nervosismo do seu coracao com a mesma prodigalidade cem que nas +assembleas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro +imperfeitamente orientado. + +Quando alludia a sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto +da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara +alegremente a pe nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o +estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda +ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_ +nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o +canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando +descrevia as madrogradas da caca as perdizes no monte de S. Felix, ou as +outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os +clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dancar pelos caminhos as +bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros, +aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe, +negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua +voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no +maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em solucos, +estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom +sitio amado, uma velha cancao querida. + +Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em +que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da +sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi +sepultado n'este medonho tumulo--o despreso. + +Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou ate o seu ultimo +dia. Ha cerca de um anno padecia uma dor sternalgica, symptomatica do +aneurisma. Esta dor lancinante, que o privava do movimento, forcando-o a +parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de +madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua +biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se a pressa um medico. +Inutilmente. Elle estava morto. + +Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto +Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de +acrescentar que a reputacao tao frequentemente discutida d'esse +traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem +o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos. +O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios +e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipioes +illustres e dos Catoes celebres achem sempre nos seus heroes tantas +qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica, +quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela +maledicencia. + + * * * * * + +Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigao_--publicou o _Diario da Manha_ +o folhetim seguinte: + +_Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educacao--Um programma de +ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipacao das +mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o +estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais +caldo_. + +Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nos +deixaria de ler com a maxima attencao um artigo escripto pelo sr. +Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma +de certo. E para que se nao diga com verdade que o grito afflictivo do +paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgao, pedindo-nos caldo, nao foi +ouvido por uma so mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho +por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe nao so _caldo_, mas +tambem _luz_, que o alumie nas suas investigacoes acerca d'um assumpto, +que e realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex. attribue a +nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nos, tao tremenda +responsabilidade. + +Se o assumpto de que se trata, nao fosse realmente grave, +contentar-nos-hiamos com o praser que nos da sempre a leitura dos +escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu +espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: E pena +que os escriptos do sr. Ramalho nao sejam mais succulentos! sao como os +caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica, +depurados ate a transparencia, muito aromatisados ... mas sem +substancia. + +Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla +sempre de nos, que nao tem rasao para nos querer mal; e que como filho, +esposo e irmao de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmao, +deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor +vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouca-me pois. + +Nao ensine a sr. D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se +faz esse alambicado caldo francez, tao purificado, que por fim como o +proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor a +sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os +classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam +nossas avos, e como nos todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal +agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formacao das suas +ideas, e, como s. ex. diz a sua alimentacao, nao esquecamos que foi +comendo esses caldos e quasi so com elles, que os energicos e valentes +portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na +Africa, e na Asia praticaram accoes de tao prodigioso valor. E descendo +a historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos +lidadores da epopea da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo +nacional e entao infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua +heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se +incommodasse com a dyspepsia nacional. E so com caldo, e com broa que +todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que +supportam, sem cansaco, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia, +os mais rudes trabalhos; e comtudo nao soffrem de dyspepsia. Sera por +terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem e +preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas +rasoes, visto que e o sr. Ramalho quem nol-o affirma. + +A dyspepsia nao e em Portugal uma doenca nacional, e quasi privativa dos +homens das classes elevadas--e quer que lhe digamos porque? Porque elles +teem com raras excepcoes, uma mocidade dissipada; porque na idade dos +quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemaes fazem +consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e +todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os +portuguezes vao descancar das lides do estudo nos bancos dos botequins e +das tavernas, onde e considerado heroe aquelle que come e bebe mais +brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices +de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se +chama dar uma salva real! Desculpa-os porem o axioma do nosso codigo de +educacao: que e preciso dar muita cabecada para vir a ser homem serio. + +Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nos, todos os perigos porque +passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, ate que +chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de +lhes regenerar os costumes, e vera que, quando chegarem a ser chefes de +familia, seu natural destino, nao precisarao de encontrar na esposa o +braco forte que lhes seja amparo, e terao o estomago sao como em +criancas, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle nao +seja perfeitamente transparente, e ate quando tenha seus vestigios de +gordura. Faca isto que lhe pedimos, e todas nos bemdiremos o seu nome, +pois d'este modo tera prestado um importantissimo servico ao seu paiz. + +O seu programma para a educacao das mulheres parece-nos excellente para +a Franca, Inglaterra e outros paizes onde as meninas sao educadas nos +collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creancas que os +frequentam comem e dormem em casa, essa educacao que nos habilita a ser +boas _menageres_, ja que o sr. Ramalho gosta de francezismos, +recebemol-a nos todas com o exemplo e licao de nossas maes. + +Em Portugal onde todo o servico domestico e geralmente feito em casa, +todas nos sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como +se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que nao +fazem esses servicos sabem como elles sao feitos, pois desde criancas os +viram fazer. O que nao sabemos, la isso nao, e _differencar os +differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas +mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto +considerarmos, como ate agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a +suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos +falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos. + +Em quanto a nossa educacao moral, estamos convencidas que em paiz nenhum +as mulheres sao mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais +sobrias e economicas, mais submissas a vontade do marido que nos, e toda +a eloquencia do sr. Ramalho nao e capaz de abalar sequer a nossa +conviccao. + +Em Franca e em Inglaterra ha muitas mulheres--por +profissao--enfermeiras, aqui nao as ha senao nos hospitaes, e nem se +lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella +seja mae, esposa, filha, irma, ou mesmo criada, ha uma enfermeira +sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os +horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens +energicos e audaciosos. + +Para sabermos fazer prodigios de economia nao precisamos de nos alistar +n'uma escola ingleza, e, se o nao soubessemos, a primeira mulher do povo +que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se pode +sustentar uma familia com 18$000 reis por semana, mas n'essa familia--o +chefe, que trabalha do nascer ao por do sol, sustenta-se comendo tres +tigellas de caldo que lhe custam 10 reis cada uma, 20 reis de sardinhas, +e 10 reis de broa por dia: total 90 reis. + +Convenca os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este +alimento e muito sufficiente para lhes conservar robustas as forcas +vitaes, e vera como nos todas fazemos economias prodigiosas, e como uma +casa deixara de ser uma _loba_ para se transformar n'uma _burra_. + +Mas se considera como o ideal da perfeicao na mulher, ser ella o _braco +forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos +exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e +guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pao dos filhos, em quanto os +maridos ficam em casa cosinhando: ja ve que para qualquer de nos +realizar o seu ideal basta casar em Avintes. + +A educacao intellectual das mulheres, quando ellas se nao dediquem a ser +mestras, pode, e ate deve, assim como a moral, receber, como complemento +necessario, as licoes dos homens de quem forem esposas. Assim +reconhecendo no marido superioridade em tudo, ate mesmo nos +conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse +respeito que a religiao e a sociedade nos impoem como o primeiro dever +da esposa. + +Em quanto a emancipacao das mulheres, esse sonho dourado das senhoras +inglezas--nos, menos profundas pensadoras, nao o queremos. + +Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores +physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mae, nos +ensina a todas, que a nossa missao na terra, e saber soffrer e amar, por +isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que +acaba de nos fazer soffrer as dores da maternidade, e abencoamos +reconhecidas a mao que prende as nossas algemas de escravas, quando essa +mao e a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixao, +encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos. + +Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida +como ate agora, poderia ser apresentada como modelo as nacoes mais +civilizadas da Europa. + +Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua +irma e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua +intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa +sua robustez physica, a sua grande cabeca na qual o chapeo de Thiers ou +de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros, +que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhacos dos +circos o trabalho de fazer rir o publico. + +Em paga de todos os favores, que lhe peco, prometto fazer-lhe so um, mas +esse importantissimo. + +Nao dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o +sr. Ramalho, senao julgal-o-hiam tao criminoso como quem maldiz dos +seus. + +Sua + +_Irma de Caridade_ + + * * * * * + +Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que +effectivamente e escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle +e para nos de um valor inestimavel. Este folhetim e a mulher. Nao somos +ja agora nos que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a +retratar. E ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um +espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa +acquisicao da nossa galeria. Nao somos nos que a descrevemos, que a +phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um +lapis suspeito de inhabilidade ou de ma fe. Veem que e ella mesma que +apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua +prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores! +queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a! + +Ahi a teem! E assim que ella e. Nao ha artificio, nao ha preparo, nao ha +processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade +mesma. Reparem bem, meus senhores, que nao e Proudhon que a descreve, +nao e Coubert que a pinta, nao e Offenbach que a poe em musica. E ella +mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece. + +O que estaes contemplando e a obra da direccao mental que nos mesmos +imprimimos ao nosso tempo, e o fructo legitimo e authentico da +philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de ideas que +temos produzido e impulsionado: e a nossa mulher tal como nol-a fizeram +os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro. +Revede-vos na vossa obra. + +Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e +de po de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de +recitacao ao piano e de tacoes Luiz XV, de collegio nacional e de +_cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto. + +Vede que lucidez de razao! que firmeza de criterio! que contensao de +raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades +intellectuaes a circulacao facil e viva atravez da rede dos nervos +encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sa que tao +vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler +presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais +racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira +de pensar podeis ajuizar com seguranca da sua forte maneira de viver. +Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vos +mesmo pelo que lhe ensinastes. + + * * * * * + +Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz +interprete, dirigi-se as _Farpas_ na pessoa do seu auctor. + +O que sao as _Farpas_ com relacao as mulheres? + +As _Farpas_ sao a publicacao periodica--unica em Portugal--que em +artigos consecutivos desde a sua apparicao ate hoje se tem +constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica a +reconstituicao dos costumes e a reorganisacao da familia segundo o +criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido +violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde +dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o +flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento +indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituicoes perante a +dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijao physiologico +e social; teem dado como base a emancipacao da mulher a instruccao +pratica, tao defficiente, e a alta cultura do espirito, tao +negligentemente descurada na antiga educacao; teem-lhe ensinado que e +aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrira o segredo de +ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua +collaboracao no estudo dos modernos problemas sociaes como factor +indispensavel a fixacao do nosso destino; teem pedido instantemente para +ella a fundacao de novas escolas de ensino especial e de ensino +superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos +palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas +amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas +filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da +cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor +dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito +presente de uma infinidade de theorias, de nocoes, de projectos, de +systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--e +claro--mas demonstrando uma dedicacao excepcional, por isso que nenhuma +das publicacoes periodicas que precederam esta se dirigiu jamais as +mulheres a nao ser para lhes consagrar romances de uma moralidade +suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa. + +Depois de publicados cerca de quarenta volumes da collecao das _Farpas_ +uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe +o seguinte conselho como resumo da opiniao collectiva de todas as damas +portuguezas: + +"Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhacos dos circos_ o +trabalho a que ate aqui se tem dado de fazer rir os outros!" + +Este simples conselho e como um relampago, nas trevas do nosso espirito. +Elle de per si so basta para nos convencer de que a educacao das +senhoras portuguezas nao so e igual--como a auctora modestamente +formula--a das primeiras mulheres extrangeiras, mas que pode mesmo +considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de +Girardin, Lady Morgan nao tiveram nunca para dirigir a um escriptor +qualquer--amigo ou adversario--uma palavra tao lucida, tao conceituosa, +tao profunda e ao mesmo tempo tao finamente aristocratica, tao +nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio +da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que nao somos +mais que _um palhaco de circo_, opiniao profundamente philosophica. E +talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos +lessem. E natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas, +entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho +cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas +recordacoes perdidas da sua carteira ou do seu coracao, um pequeno meio +qualquer de nao chamarem completamente palhaco com todas as suas cinco +lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-c-o_ a um homem a quem os +seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa. + +Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia +e da sua propria dignidade uma comprehensao diversa, que nao podemos +deixar de attribuir com orgulho patriotico a influencia local da rua de +Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina. + +Nao e menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta +compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e +chimica culinaria as meninas portuguezas. Se sua excellencia tivesse +effectivamente a instrucao que nos pretendemos que se lhe deve dar; se +sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missao da mulher +e, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que +estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missao, sua +excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da +nutricao, a evolucao cellular, a relacao existente entre os phenomenos +da nutricao e do desenvolvimento, do movimento e da combustao; se nos +mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares +pelas suas classificacoes mais genericas, os que fornecem o calor e a +forca e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que +sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples +caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos +eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital +pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada a hygiene, +pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as +substancias alimenticias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene +alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas licoes e conferencias, pelo +sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentacao insuficiente, pelos +srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud, +Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua +excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira +tintura--alguma das nocoes em que se basea a theoria da cosinha, que e +um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o +seu voto n'esse caso poderia ter discussao. + +A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este +assumpto da ao seu voto um caracter irrevogavel, que nao pode infundir +nos adversarios senao admiracao e respeito. + +E inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham +dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o +seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada +hora, ja dormindo, ja caminhando, ja executando um trabalho mental ou +muscular, para regular sobre este dispendio a racao alimentar de cada +individuo. E inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as +analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo +dos diversos alimentos e da quantidade de forca e de calor desenvolvida +pela oxydacao d'elles. E inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton +nos tenham mostrado pela comparacao das estatisticas da salubridade nas +campanhas da Crimea e da Italia o extraordinario poder da qualidade da +alimentacao sobre a saude e sobre a energia dos soldados. E inutil que +pelo estudo de iguaes estatisticas com relacao a alimentacao de +operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da +qualidade da alimentacao resulta o augmento ou a diminuicao de 20 a 30 +por cento no trabalho de cada homem. E inutil que Geoffrey Saint-Hilaire +nos tenha dito: "Quantos factos na vida das nacoes attribuidos pelos +historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside +simplesmente na cosinha das familias!". E inutil que toda a sciencia +tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em +cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos +nervinos e uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do +nosso tempo; que e indispensavel perante a moral e perante a justica +melhorar a alimentacao dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisicao +dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua +economia. E inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os +philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisacao e +de associacao chamar a attencao das mulheres para o estudo e para a +resolucao d'esse grave problema cuja sede e a cosinha. E inutil tudo +quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta +illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus +similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos +empyricamente do que por tel-o visto fazer a cozinheira da sua avo. + +Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradicao sobre os methodos +de deitar a carne a panella nas cosinhas da sua rua este argumento +supremo: Foi com essa panella a frente que os portuguezes contiveram em +respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na +Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abracados a +travessa do cosido que nossos avos descobriram a India e que os paes de +uns de nos resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os +vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Cafe Anglais_. + +Em presenca d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e +reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia +affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na +perfeita educacao da mulher portugueza. Continue sua excellencia +imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um +vestido e que sabe tambem--o legitimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a +mais--notem--sua excellencia faz doce! Nao! positivamente nada se nos +offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Nao precisa de saber mais nada. +Ahi tem sua excellencia uma opiniao que lhe garantira "as solidas +virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os +enthusiasmos da paixao":--sua excellencia gosta de assucar! + +Quem sabe se nao sera por um effeito do atavismo sobre a gula qae os +meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vao beber +licores para os botequins? + +As maes dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem +ellas mesmas nao a opiniao do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da +agua fria; nao fazem doce, fazem gymnastica, e nao ensinam os filhos +unicamente a comer marmelada, a ir a novena e a nao metter os pes nas +pocas; ensinam-lhes o cricket, a natacao e o _box_, dao-lhes desde a +idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles +vao para os botequins, nao costumam encarregar os criticos de lh'os ir +la buscar. + + * * * * * + +Sua excellencia nao se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo +segundo os preceitos de Liebig, que nos lhe aconselhamos suppondo que +Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais +d'isso do que o Antonio das Mocas, celebre inculcador de cosinheiras, +encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da +arte culinaria. Sua excellencia nao so nao quer fazer caldo em termos +para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os +pratos e os copos, determinar a differenca de cor nos estofos do salao e +da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna, +pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto a sociedade +conjugal um servico igual aquelle que recebe d'ella em protecao, em +trabalho e em forca. Sua excellencia prefere _deixar todos esses +conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera +a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_ + +Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funccoes que sua +excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma nao tivesse a +bondade de nos explicar que a occupacao para que se reserva e a de +_abencoar agradecida a mao que prende as suas algemas de escrava_ (!) + +O que nos parece e que esse mister exclusivo de sua excellencia nao +promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas +algemas! + +Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua +excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abencoar os ferros, a +jogar a bisca. O nosso temperamento nao nos permittiria estar a dar-lhe +constantemente o grilhao a abencoar; quereriamos ter a faculdade de +poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma boa rolha. + + * * * * * + +O folhetim de sua excellencia termina com uma allusao pessoal a nossa +robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos +licenca para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos: + +Eu--pois que e bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas +linhas, nao me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calcada dos +Clerigos. Nao, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos +homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirara d'este facto +a conclusao maliciosa de que nao tomei cha em pequeno. Que sua +excellencia nao hesite um momento em tirar tal conclsao! E ate favor que +me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de +que nao tomei ease cha. + +Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida +courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos +mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia +para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouco:--o phosphato de cal, +que eu ingeria em grandes dozes. + +A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, nao tinha saguao, +nao tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, nao +tinha pia. + +A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o +grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o +primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem +terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias +dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um +instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher: +Primeiro ser saudavel; Segundo nao ser conhecida. No interior da sua +casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de +economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho +piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se +fechar de memoria d'homems as 10 horas da noite, o mais tardar. Nao se +desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de +cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um +dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execucao +esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graca, de que era +modelo a incomparavel cosinha da minha avo,--aberta ao nivel do pateo +defronte do poco, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico +perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de +cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira +onde se espanejavam os capoes; os tropheus ornamentaes dos instrumentos +agricolas; as prateleiras da louca reluzente; o cortico da barrela e a +masseira do pao a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do +fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos mocos da lavoura tendo +em cima a grande celha com a bracada verde dos frescos legumes picada +com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas +efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervencao periodica +do mendigo de estrada, de alforge ao pescoco, que vinha encher a sua +escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam +sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno. + +Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensacao de tepido aconchego, de +suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e +honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias +contadas a lareira; infundia o respeito da tradicao; dava o amor da +familia; explicava o amor a, terra da patria pela dedicacao as quatro +bracas de solo cobertas por esse velho tecto. + +A cosinha de minha avo era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual +os mais bellos quadros da escola flamenga, tao penetrados como sao da +poesia domestica, nao poderam dar-me jamais senao uma ideia desbotada e +fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem +havido em Portugal nao pode senao fazer-me sorrir comparada a obra +modesta de minha avo, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a +educacao das suas filhas, para a fixacao do respeito, da veneracao e da +saudade eterna dos seus netos. + +A minha robustez physica e o mais contraproducente dos argumentos que a +minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann +que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mae. A minha +robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raca de mulheres, que os +nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo +das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas +vezes empallideceram nos bailes e nao tiveram nunca de que corar aos +folhetins dos periodicos. + + * * * * * + +Terminando, agradeco de novo os conselhos de sua excellencia a illustre +escriptora minha patricia, mas peco licenca para os nao seguir. +Continuarei a fazer rir os outros, o que me nao impedira de fazer tambem +chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso. + + * * * * * + +Por occasiao da visita de el-rei a Escola Polytechnica funccionou o +telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada. + +Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes +que sua magestade ouvira--um solo de cornetim! + +Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o +Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _Uniao e +Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio. +Emquanto a astronomia tocava cornetim e natural que, em compensacao, a +arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe. + +A unica cousa que extranhamos e que o Observatorio nao observasse entre +as suas pecas de musica alguma coisa mais interessante para transmittir +a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor. + +Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de +accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno +parece-nos um abuso que o principe nao levara a bem. + +Reflectiu por acaso o Observatorio no que e o hymno para um cerebro +coroado? Cremos que o Observatorio nao desceu ainda com as suas +conjecturas ao fundo d'esse abysmo. E horroroso. + +Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa. +O observatorio faz certamente ideia do que e ter zumbidos, nao e +verdade? Pois ter hymno e peor. E ter constantemente, durante toda a +vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias, +sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doenca +chronica, como affeccao incuravel do nervo acustico, a audicao do mesmo +trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente a loucura. + +Que o Observatorio se compadeca do infeliz principe condemnado a tao +incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das +contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter +faltas de dinheiro, ha de ter constipacoes, ha de ter dores de dentes, +ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem +hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal +as regioes da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que nao ha outro +remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas +sejamos justos! A providencia collocou-nos na mao o cornetim. O monarcha +presta-nos submissamente o seu real ouvido. Nao abusemos d'esse +instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da +tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabecas! Somos +cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_ + +E a posteridade nos abencoara. + + * * * * * + +Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A +hydra da reaccao desapparecera da orbita dos conflictos do poder +politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada +manha nas secretarias do Terreiro do Paco, perguntavam angustiadamente +uns aos outros: + +--Nao viram por ahi a hydra? + +Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha +entumeciam de impaciencia por nao poderem esmagar o monstro; e o sr. +Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhacao na sua +dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito +imperfeito do verbo Mexer. + + * * * * * + +N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila, +presidente do conselho, tomou uma resolucao heroica: determinou ser +hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as +suas funccoes de bicha ultramontana com as suas funccoes administrativas +de homem de estado. Pela manha s. ex. governa. De tarde s. ex. rabea. + +Eis um dos resultados da dualidade que s. ex. se dignou de assumir para +salvar a situacao da falta da hydra: + + * * * * * + +O servico dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz. +Catholicos e nao catholicos eram levados para o cemiterio municipal +pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos +seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o +haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena +questao canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais +exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio +como uma instituicao municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos +que desejassem repousar em terreno sagrado, e nao benzessem as +d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil. +Nao tinha jamais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a +esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente +podia-se morrer em Lisboa so pelo gosto de ser tao tranquillamente +enterrado. + +N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua forma de hydra e +determina em favor da morte catholica a creacao de um muro similhante ao +que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara +municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento a portaria de s.ex. e +discutir o modo de levantar o muro. Propoem-se a tal respeito varios +alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim. + + * * * * * + +Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem +de facto n'essa cavalheiro todas as condicoes que se requisitam para o +triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispoe da primeira +cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem +uma formula. A sua formula e esta: "..._O bucentauro do progresso +rasgando os flancos da montanha_ ..." Sempre que esse homem terrivel +arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os +auditorios a sua formula, a victoria e d'elle. A sua existencia tem sido +uma serie nunca interrompida de triumphos, alcancados pela sua +cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor +o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle +triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas +theses de doutoramento, na exhibicao das provas do seu concurso para +lente da universidade, nas reunioes das associacoes operarias e +phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario +e de Lisboa e Acores, nas suas eternas preleccoes sobre o terceiro +estado, e finalmente na discussao do muro Guillomin da morte catholica +ordenado por s. ex. a nobre hydra de Avila e Bolama. + + * * * * * + +Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito +canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da +montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensao scientifica e +philosophica do phenomeno social da religiao e do facto biologico da +morte,--comprehensao egualmente haurida do ja alludido bucentauro +rasgando os supracitados flancos,--que s.ex. o sr. doutor convenceu a +vereacao lisbonense a approvar nao so a creacao de um muro--o que a +hydra parecera sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro +ainda parece pouco. + +O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim +fecharao o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos +aquelles que morrerem fora do gremio da religiao catholica apostolica +romana. + + * * * * * + +Nos suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico +dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que +cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da +consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico +infinito onde para a vida; que o cadaver deixava de ter uma religiao, +cessava de pertencer a igreja, para pertencer exclusivamente a chimica. +Suppunhamos que o cemiterio, considerado nao so pelo seu lado civil mas +mas principalmente ainda pela intencao do seu instituto christao, era o +campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a +discrepancia de ideas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansao +eterna do perdao e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as +amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do +orbe pela larga bencao incondicional de Jesus. + +Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa, +pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. Joao, e puramente um +recinto de caracter official, destinado a fermentacao exclusiva das +podridoes privilegiadas. + +Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem +ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta +pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com +as suas calcas de galao de ouro duplamente retesadas pela inchacao e +pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda +no peito, o espadim ao lado, o chapeo armado aos pes, o cordao da ordem +terceira de S. Francisco a cinta, vae legitimamente e no uso do mais +sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da +resurreicao da carne, como esperou na vida a hora da sua reparticao. No +dia da chamada geral no valle de Josaphat elle pora na cabeca o seu +chapeo de bicos e ira tomar o competente logar na gloria eterna, na +bancada dos conselheiros, a mao direita de Deus Padre Todo Poderoso. + +Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado a luz no cano +do esgoto, tu que nao conheceste pae nem mae, producto espontaneo da +grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre a superficie +do pantano, tu que nao recebeste baptismo, nem confirmacao, nem ordem, +nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem +o ceo e que a igreja confere por uma tarifa de precos superiores aos +teus capitaes, tu, nao tinhas no cemiterio de Lisboa senao um logar +usurpado, roubado indignamente as pessoas de bem. Estoiraste para um +canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fora dos +sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. Es como um cao. A tua natureza +humana nao e a da outra gente. A tua podridao nao e a da cabelleira do +sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu es uma besta. +Es peior ainda: es um impio. Vao conceder-te agora um quintal para ires +para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor +te fazem estes bons senhores em te nao remetterem as equarissagens para +o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado, +distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma +sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios +chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote, +poderiam achar uma applicacao pratica e decente. Poderias aspirar na tua +outra vida a abotoar com os teus ossos as calcas do sr. marquez de Avila +e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros +doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que +te destinam nada mais seras do que um eterno objecto de execracao e de +horror para os teus concidadaos. Quando passarem por cima da tua cova os +homens serios, a quem esta promettido o ceo sob a palavra de honra do +padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirao sobre a tua +dissolucao infecta. As maes passarao de longe, correndo, com os seus +filhos pela mao, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas, +entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hao com as +suas finas maos pallidas e rezarao os esconjuros mais efficazes no fundo +tepido dos seus ligeiros _coupes_. Assim com as abencoadas sepulturas +dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dara os horrendos +enguicos. E eu te affirmo que ainda havemos de ver aquelles que eram +cegos e que recuperaram a vista abracando-se as sagradas reliquias de um +bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas +vegetacoes malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus +preverso! Finalmente seras detestado, abominado, execrado, maldito,--cem +mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creancas, pela +cidade inteira. + +E cuidas tu, miseravel, que poderas encontrar um dia na eterna justica +inviolavel a compensacao d'este despreso systematisado, d'este rancor +que e um regulamento municipal, d'este odio que e uma lei do reino? Como +te enganas! O que tem de te succeder e irremissivelmente o seguinte: + +No dia do juizo final tu ouviras na profundidade do teu estrume o +canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um +anjo que desde o principio do mundo tera estado a recolher no pulmao +para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos +os bramidos do mar, todas as erupcoes dos vulcoes, todas as quedas das +catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovao e do raio. +Nao teras remedio senao acordar,--quer queiras, quer nao--do teu pesado +somno da materia bruta. Seras levado a revista do grande valle por dois +ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas +como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hao +com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: "Vocemece ha de +ter a bondade de passar ali para a mao esquerda de Deus Padre porque e +condemnado." Tentaras escapulir-te, safar-te para a podridao de que +tinhas vindo. Appellaras para o juiz supremo. O arbitro da eterna +justica inquebrantavel cravara em ti os seus olhos. Tu o veras tambem a +elle, com a sua longa barba que envolvera toda a terra, o seu bigode de +interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus +dedos, chisparao os raios na amplidao infinita. Ouviras a sua grande +voz, cujas sylabas cairao na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o +Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dira:--"Deram-lhe o +baptismo? Nao. Deram-lhe a confirmacao? Nao. Deram-lhe a penitencia? +Nao. Deram-lhe a absolvicao da culpa? Nao. Nao lhe deram nada. O +cherubim tem razao. Passe para a mao esquerda." Entao passaras para a +esquerda. O teu anjo custodio abrira um alcapao aos teus pes e gritara +para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--"Fogo eterno para +um!" Depois do que, te tocara com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando +o espaco como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella +sombria feita de lama, ate te submergires no tremendo abysmo, na punicao +eterna. E sera por todos os seculos dos seculos, sem fim jamais. + +Eis ahi tens o que te espera, segundo a religiao do dr. Jardim e outros. +Religiao bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas +maos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle +mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos! +Bem diversa da d'aquelles christaos da igreja primitiva, que assombravam +Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do +que os pagaos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os +cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do +os conduzirem a sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os +collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E nao +resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os +primeiros christaos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagaos +pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os +impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o +sacrificio bastava ser desgracado. Por isso disia o imperdor Juliano que +fora a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais +contribira para o estabelecimenlo e para a propagacao do christianismo. + + * * * * * + +Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos ver como s. ex. o +ministro do reino resolvera os conflictos promovidos contra elle mesmo +por s. ex. a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que +muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas +esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos +n'outros termos--a attencao do seu genio. Eis um dos casos sobre que +pretendemos consultar s. ex: + + * * * * * + +Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas, +nao querendo enterrar-se de todo por uma so vez, resolvia enterrar-se +por partes e dar a terra uma das suas pernas para a terra se ir +entretendo. + +N'esta hypothese pergunta-se: + +Onde e que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha +o capricho de descartar-me? + +Estou prevendo que o bucentauro de s. ex., attribuindo +indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente +escripto, me prescrevera o logar destinado por s. ex. para os membros +impios e locomotores. + +A isto porem replico a s. ex. que a minha perna quer se trate da +direita, quer se trata da esquerda, e boa catholica apostolica romana. +Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei a pia +baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em +lingua latina, que ella a esse tempo ainda nao tinha tido tempo de +aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E +este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido +as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o +parocho se ella acreditava na communicacao dos santos, na resurreicao da +carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu +padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali +tinha ido com o seu respectivo pe e com o pequeno apendice que era o +resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia ate hoje bem +varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas +crencas religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe +compete na funeral mansao. Ella porem, ex'mo. sr. doutor, apezar de +todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca ate hoje +contradisse--que me conste--as declaracoes latinas feitas em seu nome +por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto e catholica, +e tem direito a sepultura sagrada na terra e a bemaventuranca no +paraiso. O sr. Jardim nao pode de modo alguma mandal-a para o cemiterio +dos atheus. + + * * * * * + +Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete a +funeral jazida de uma das minhas pernas e o cemiterio catholico. A essa +resolucao tenho egualmente de oppor-me com os fundamentos seguintes: + +Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissao, a missa, a +communhao, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias +nao significa da parte da minha perna uma affirmacao religiosa mas sim +uma affirmacao civil. + +Pelas leis do reino a religiao catholica apostolica romana nao e +facultativa, e obrigatoria. A minha perna nao pode entrar no estado sem +ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que +substitua o assento baptimal para a consignacao do nascimento, a minha +perna nem sequer portugueza pode ser emquanto nao for baptisada! Em todo +o decurso da vida civil, ella nao pode dar um so passo sem primeiramente +demonstrar que e catholica. Sem a certidao de baptismo, primeiro, sem o +attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais +sacramentos depois, ella nao pode fazer exame de instruccao primaria; +nao pode matricular-se em nenhuma das escolas; nao pode entrar no +exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem +na magistratura, nem na representacao nacional. Nao sendo catholica nao +pode ter nacionalidade, nao pode ter profissao, nao pode ter estado, nao +pode ter mulher, nao pode ter filhos, nao pode nem ao menos ter nome! + +A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta a minha perna +antes de a deixar penetrar, se ella e catholica, exactamente como se lhe +pergunta se ella esta isempta do recrutamento e se e vaccinada. + +Desde que veiu a luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de +nascer, pertence irremissivilmente a igreja. Sem previa licenca da +igreja ella nao pode dar um unico passo para dentro do estado ou para +dentro da familia. Esta simples aspiracao, tao modesta: ser filha de meu +pae e de minha mae--a minha perna esta prohibida de a ter sem que a +igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar +de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente +minha emquanto a igreja nao disser tambem que sim. De sorte que, quando +eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que +espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente +deveria dizer em linguagem litteral, para me referir a minha perna, +era--a perna da igreja. + +Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha +perna da faculdade de escolher uma religiao, chumbando-lhe elle mesmo o +catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado, +recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o +direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religiao. Pelo facto de +ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada +anno, de commungar pela Paschoa da Resurreicao, de jejuar a sexta feira, +de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna nao esta na +religiao, esta apenas na lei civil, esta na carta. Em quanto a crencas +religiosas, o mais que se podera dizer da minha perna, apezar de +baptisada, de jejuada, de confessada, etc., e que ella e cartista. + +Como porem a creacao das duas especies de cemiterios imaginados em +Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila nao pode ter por fim +separar os cidadaos que obedecem a carta dos cidadaos que lhe nao +obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de +dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a +sua transgressao,--e claro que nao pode ser unicamente pelo facto de +estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de +designar a sepultura sagrada. + +Em conclusao final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico +outro nao catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna +pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella e +effectivamente catholica ou se nao e catholica, acha-se no caso especial +de nao poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios, +e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim nao mandar o +contrario. + +Ora succede que todos os cidadaos portuguezes, sem excepcao alguma, se +encontram precisamente nas mesmas condicoes em que se acha a minha +perna. + +Nao se pode affirmar que alguem e catholico ou que o nao e emquanto a +creacao do registro civil nao assegurar a cada cidadao a livre faculdade +de exercer ou nao qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem +padre, morrer sem padre. + + * * * * * + +Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta +cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Pacos da Camara na Praca Nova, +esquina do Laranjal + +Porto + +Excellentissima camara e minha boa senhora. E cheio dos maiores cuidados +pela preciosa saude de v. ex. que lancamos mao da pena para, em nome de +todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasiao da cerimonia +inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex. algumas regras. + +Principiaremos por dar a v. ex. uma breve noticia da festa em que +tomamos parte e em que v. ex. teve as suas razoes para nao se dignar de +comparecer. + +Por convite da direccao da companhia dos caminhos de ferro portuguezes +reunimo-nos na estacao das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado +pelas 11 horas da manha. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande +comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, a entrada da nova +ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que +presenceamos desde Gaya ate a estacao de Campanha e do qual procurarei, +certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.! + +Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de +uma perola azul, abraca amorosamente a natureza e banhava a paizagem +n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das +violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus +encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera +maritima, salgada e humida, ate os montes longinquos do lado opposto, +levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisacoes do sol. +Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo +Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o +caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado +de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da +Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias +da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em +_pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos, +reluzentes, forrados de faianca, outros barrigudos, sombrios enodoados, +fazendo fincape para nao cambalearem como ebrios taciturnos; outros, +ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de cor de rosa, +com chamines bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por +trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas +abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle, +os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e +murmurosas frescuras das quintas de Quebrantoes, da Oliveira, da +freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuracao +de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de +torreoes e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha +venezianamente na agua. + +Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebracao da +ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes +proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetacao +humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos +os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos +os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas, +tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do +Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regioes do +paiz estavam ahi reunidos. Para que? + +Para celebrar um puro facto scientifico--a solucao de um problema de +mechanica. N'este simples facto, exm. camara, que symptoma! que +phenomeno! que revolucao! + +Ha bens poucos annos ainda so o fanatismo religioso tinha o poder de +determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato +de Guimaraes, a senhora da Nazareth, a senhora do Cabo. Os peregrinos +iam entao solicitar a intervencao milagrosa dos bons santos nos seus +casos pathologicos, nas suas ambicoes pessoaes, nas suas questoes +domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz, +os tristes iam pedir consolacao, os turbulentos iam pedir paz, e os +mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoco, a +longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no po dos +caminhos, iam simplesmente a beira das estradas pedir pao em troca de +plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes. + +Os peregrinos a ponte sobre o Douro nao eram movidos por interesse algum +pessoal. + +Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se +o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos +exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia ja uma +funccionalidade diversa. + +Um poder absolutamente novo, que nao e o poder religioso nem o poder +politico, com quanto nao affirmado ainda nas instituicoes, revela-se ja +por este facto na comprehensao dos espiritos. Esse novo poder, +irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos +nomes teem gerido ate hoje a direccao da sociedade, e na esphera +espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria. + +A ponte sobre o Douro e a mais bella e a mais perfeita expressao +symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto +mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de +que ha exemplo na historia das manifestacoes do applauso publico. Era +tao superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisacao, +que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia +todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distinccoes +de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza. +A direccao da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de +convidar para o banquete que se seguiu a solemnidade da inauguracao os +individuos representantes das opinioes mais extremas, o mundo official e +o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais +progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes +revolucionarios. Estes personagens tao justamente surprehendidos de se +acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoco +cujos convivas nao tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos +outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais +tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias +episodicas de opiniao, havia um sentimento de attraccao commum, de +conciliacao geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse +sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel +forca anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das +bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo, +vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o +aperfeicoamento e para a felicidade. + +Nao foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas nao foram tambem +os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e +dirigido ate hoje a humanidade na sua ascencao atravez da historia. Foi +elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos +remansos da paz, nos recolhimentos da applicacao e do estudo o que +determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos +das sociedades. + +A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas +victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de +paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem +sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino +progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas +instituicoes. + +Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas +estreitamente enlacadas agora por um abraco de ferro, eram separadas por +um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nos agora nos +reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os +nossos paes e os nossos avos espingardeavam-se convictamente, decidindo +com o sacrificio das suas vidas a questao de palacio a esse tempo +debatida entre dois principes. + +A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. E evidente que +progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos +milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente +affirmacao d'esse progresso. + +A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus +principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandoes de toda a +especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo. + +Como foi que v. ex., representante do municipio portuense recebem este +seu novo hospede? Nao lhe apparecendo! + +V. ex., que tem dado a esse espinhaco os tratos mais violentos e mais +irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia +satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex. +que tem desengoncado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos +pes da real familia; v. ex. que conserva ainda entre os ferros velhos +do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as +chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v. +ex.--dizemos--nao teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para +agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais +extraordinaria manifestacao de estima de que ainda foi objecto uma +cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro. + +Este simples facto basta para nos provar que v. ex. desconhece +completamente qual e o espirito municipal das modernas sociedades +democraticas, que v. ex. esta cem annos atraz do seu tempo, e cem furos +abaixo da missao em que foi investida pelos suffragios da populacao +portuense, tao energica, tao intelligente e tao progressiva. + +E possivel que v. ex. tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse +contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada +com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa +patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo +o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do +forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque e que v. ex. +nos nao preveniu? Durante a ausencia de v. ex., minha boa senhora, a +sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso +telegraphico nos, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas, +teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa +resignacao para o desgosto de a nao vermos no espirito. + +Acceite minha senhora a expressao dos nossos sentimentos, tao cordeaes +como aquelles que v. ex. nos nao exprimiu. + + + * * * * * + + +Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira +de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre +os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder. + +Eis o que ao depois occorreu: + + * * * * * + +A pacata bestinha da governacao andou a monte por alguns mezes, +choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacoes do sr. Barros e +Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre +estadista e cavalleiro. Para onde e que s. ex., coberto de zelo e de +suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra? + +--Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex. com uma das +maos na redea e com a outra mao sobre a carta constitucional. + +Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha +bambeavam dubitativamente a cabeca, e do alto das montanhas, com a mao +aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam: + +--Nao. Para onde elle vae e para a senda de Cacilhas a Cova da Piedade. + +E deixaram-o ir. + + * * * * * + +Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo, +com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da +estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a +orelha, baixando a cabeca, cravando os olhos sinistros nos cascos +deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices +adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande +homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a +perfidia das ras o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao +abysmo,--sempre com uma das maos na carta, mas ja tem a outra mao na +redea. + + * * * * * + +Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a +cavalgadurinha do Estado principiou entao a dar terra para feijoes, +retrocedendo para casa e bebendo o espaco com o freio nos dentes e com a +saudade da mangedoura na alma.--Tao poderoso e fecundo e o ascendente +moral que exerce o principio sagrado da racao sobre as actividades +officiaes! + + * * * * * + +Quando as boninas e os representantes da nacao tornaram a ver a burrinha +do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o +dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulacao entre os +circumstantes que a porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao +sr. Jose Dias Ferreira. + +Empolgando com mao dextra e firme a camba do freio a alimaria do poder, +o sr. Jose Dias exclamou triumphante e glorioso: + +--A mim, rapazes! + +E gritando em coro: "Ave, Jose vencedor!"--os rapazes foram a elle. + + * * * * * + +Eis senao quando, que hao de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem +assim elle mesmo? + +Atonitos elles veem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a +burra ja nao esta devoluta, que a albarda tem gente em cima! + +Effectivamente emquanto o sr. Jose Dias intrepido segurava a redea, o +sr. Fontes veloz encavalgara o poder. + + * * * * * + +O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisoes +do governo que o precedera. S. ex. sacou os 150 contos de tijolo para a +Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos, +rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou +depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de coro e o +seu devido rape; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em +cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumacada de algodao +para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixoes cheio de +dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes +nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e, +como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram +estes virados com o de dentro para fora, e appareceu por ultimo o sr. +Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da +commissao da exposicao de Paris. S. ex. trazia empunhada e aberta a +delicada umbela de linho cru forrada de tafeta azul com a qual s. ex. +abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paco ate a rua do Duque +de Braganca a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de +ministros. O ar de s. ex. o sr. Deslandes era cheio de uma grave +auctoridade, e a sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafeta +azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial! + +Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental +da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das +causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar +durante alguns mezes e querendo obviar a repeticao d'essa +intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra +bolsa do alforge ministerial. + +Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. Jose Dias do alto da burra, +enfiou a trote marcial provincias da publica administracao em fora. + + * * * * * + +E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tao somente no mesmo +logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto +nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidao, a chapinhar com +arnica o seu galo. + + * * * * * + +Na semana seguinte aquella em que estes successos occorreram houve +jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes +eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr. +Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico. + +O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente +como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornara a apostar contra o nobre +estadista sem a condicao previa de que se sobrecarregue com mais alguns +kilogrammas de chumbo o dente de s. ex. + + + * * * * * + + +Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessoes da camara dos senhores +deputados: + + * * * * * + +Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores, +funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde +os parapeitos ate ao tecto. + +Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna tracada sobre +o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado. + +Serve de secretario, lancando apontamentos a uma larga folha de papel um +individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em +resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar, +publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de +dor--Alfredo Angelino. S. ex. traja rigorosmente de negro. + +Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente +encasados nos seus _fauteuils_. Nao teem uma apparencia espirituosamente +feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaco +com a expressao passiva e tao caracteristicamente pacata dos individuos +calidos quando instalados em decoccoes emolientes de alfavaca de cobra. + +No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das maos sobre o +coracao, a outra mao alongada patheticamente no espaco, esta orando. + +Em torno do tribuno agrupam-se em pe varios representantes da Nacao. + +Uns rolicos, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em +amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforco. +O abuso do feijao suffoca-os como o sangue de Danton suffocava +Robespierre--Sao os empaturrados da coisa publica. + +Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lividas, os pes +mettidos para dentro, as calcas esbambeadas pelas joelheiras dos +sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calcas e que +descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--Sao os espinhelas +cahidas do systema que felizmente nos rege. + +No fundo escuro da bancada sobresaem da cor sombria dos vestuarios de +inverno duas maos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto +dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripcao ou uma +sentenca de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz +inoffensivamente, n'uma abstracao magnanima. + +--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz e pungente, elegiaca, +lacrimejante--Sr. presidente! onde nao ha religiao nao ha dignidade. + +Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu +estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de +cabeca. + +Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de +vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade, +estao ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade e uma +resultante da religiao. E todavia e a religiao que obriga esse pallido +mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplacao, +a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a +submetter-se pela humilhacao, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma +face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a +resignar-se. E e pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz +sanguineo e robusto a caminhar na direccao opposta a d'esse anemico, a +constituir a familia, a luctar, a nao perder tempo em contemplacoes e em +extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas +lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida +moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as +botas novas nao caem do ceu cob a forma de mana, caem unicamente do +trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porem estao +ambos de accordo emquanto a allianca indissoluvel da dignidade de um e +da religiao do outro perante o principio transcendente da rhetorica +constitucional. + +Diz mais o orador: + +--"Sr. presidente!--e a entonacao do tribuno continua a ser lacrimosa e +pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as +investigacoes de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman +inventando religioes para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo +isto porem nao apagou na minha alma a doce esperanca que n'ella lancaram +aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem +porque elles serao consolados". + +E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da +camara:--"Muito bem! muito bem!" + +A morbida corrente intellectual do pessimismo allemao representado por +Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppoe o naturalissimo de Darwin +e as poderosas systematisacoes de Spencer, a Franca oppoe o positivismo +victorioso de Augusto Comte e de Littre. Em Portugal, onde estas +questoes nao foram nunca ventiladas senao por pobres escriptores +desconhecidos em periodicos tao desconhecidos como elles, a camara dos +srs. deputados ouve pela primeira vez a solucao official d'esse debate. +Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano, +ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius +Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart +Mill e de Littre, a intellectualidade portugueza responde mostrando a +alma virginal do sr. Manuel d'Assumpcao. E a comprehensao mais perfeita +dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois +d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas +crencas. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna nao +queria evidentemente senao uma coisa: apagar a esperanca na alma d'este +moco. Pois ficara sabendo que o nao conseguiu. A camara dos deputados da +nacao portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno +collocando-lhe em cima o sr. Assumpcao e a esperanca da sua alma, no +meio dos applausos geraes de todo o parlamento. + +E, nao obstante, querem dizer alguns que a politica nao e mais do que a +applicacao da philosophia a direccao pratica das sociedades. + +A politica de Bismark e um grande poder social porque atraz d'elle esta, +como o peito pelo outro lado da couraca, a disciplina philosophica de +Kant, de Hegel e de Hartman. + +Danton, a alma da Revolucao, era na esphera executiva o instrumento da +philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou +precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o +grande movimento cahiu com a cabeca de Danton, guilhotinado pela +indisciplina mental. + +Foi ainda a anarchia das ideas, resultante da falta de um methodo +philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848. + +Finalmente para que a democracia se fundasse em Franca sobre bases +definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e +para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que e o filho +triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton e o +filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado. + +Na Italia o que e a politica actual, que libertou e unificou a grande +peninsula, senao a somma das expeculacoes de uma longa serie de +pensadores, desde Dante, o vidente, ate esse taciturno Leopardi, que foi +o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado +politico do imperador Guilherme? + +Em todos os estados actualmente em dissolucao qual e a causa do mal +senao a perturbacao da mentalidade pelo empyrismo da politica +arbitraria? Sera preciso citar a Turquia? Sera preciso citar a Hispanha? + +Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso +vigor intellectual, que em poucos annos despedacara todos os velhos +preconceitos e todas as caducas instituicoes que embargarem a sua +ascencao politica. O federalismo, forma definitiva da civilisacao na +peninsula iberica, esta-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos +certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a +pouco e pouco o caracter de uma opiniao partidaria. E um resultado +philosophico, que em toda a Hispanha esta sendo pacificmente revisto e +contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia, +pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela +linguistica, pela historia. Quando esta idea chegar ao cabo da sua +elaboracao especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e +actuara sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma forca da natureza. + +Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tao +experimentalmente e tao evidentemente os seus dominios sobre o destino +humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande +maioria a condemnacao da critica e do pensamento moderno; declara-se +indissoluvelmente abracada a theologia; e a todas as conquistas da +sciencia no presente seculo ella oppoe triumphantemente a posse d'esta +nocao: "Bemaventurados os que soffrem porque elles serao consolados." + +A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tao patente de +esphacelamento cerebral. + +Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de +caturras?--E unicamente o que perguntamos. + + * * * * * + +O medo como a camara pensa da-nos a justa medida do modo como a camara +governa. Ha muitos annos que ella nao toma uma unica medida tendente a +coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforcos da progressao +social. + +A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituicao politica, esta por +fazer. + +A liberdade religiosa nao esta regulamentada de modo que torne effectivo +o principio em que se funda. + +A distribuicao racional do imposto ainda nao foi definida. + +Finalmente a organisacao da instruccao publicia, esse elemento vital de +uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma +Turquia esta muito adeante de nos. + +Os parlamentos, sem direccao mental, sem criterio scientifico, sem +destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e +dissolvem-se na banalidade. + +As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos +personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente as +camaras uma grande concorrencia de ouvintes que nao recebem ahi senao as +mais perigosas licoes de cynismo e de immoralidade. + +Das duas coisas uma: ou o espirito publico esta bastante corrompido para +assimilar sem perturbcao do seu organismo a entoxicacao d'esses +exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado a dissolucao; ou a +burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso +moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de +cair como caiu em Franca o segundo imperio por effeito de um movimento +similhante aquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolucao do despreso_. + +A similhanca de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de +circulacao intellectual. Os partidos politicos sao os centros nervosos +do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de +funccionar. Ora qual e o estado dos partidos politicos em Portugal? + + * * * * * + +Ha um partido que esta hoje no poder. E um partido conservador. E +catholico, e monarchico, e auctoritario, e proteccionista, e +militarista, e unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma +electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religiao do Estado; +quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito +permanente com os seus respectivos canhoes Krupp e a sua competente pena +de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direccao e de +governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro, +uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundicao de typo, uma fabrica +de cordas, uma photographa, etc. + +Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se +disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que +pelas suas ideas nao formam realmente senao um partido unico: o partido +opposicionista. Que differenca ha entre este partido na opposicao e o +partido actualmente no governo? E revolucionario? Nao: e egualmente +conservador. E racionalista? Nao: e egualmente catholico. E +evolucionista? Nao: e egualmente auctoritario. Quer a liberdade da +industria e a liberdade do commercio? Nao: quer egualmente a proteccao +das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a +universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a +magistratura anarchica, a instruccao cahotica, o suffragio corrompido, o +governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se +distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa, +a photographia, a cordoaria, a fundicao, etc. + +A unica opiniao que a opposicao diz ter e que ella accusa o governo de +nao professar e a opiniao abstracta da economia, da ordem, da moralidade +e do progresso. Como porem todos os governos, qualquer que seja o +partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder +perante a accusacao de nao servirem o progresso, a moralidade, a ordem e +a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que alias nao +podem constituir principios de programma, sao communs a todos os +partidos ou nao sao especiaes de partido nenhum. + +Os partidos portanto nao se differencam senao pelos nomes dos individuos +mais ou menos numerosos do que elles se compoem. N'esta ausencia +completa de ideas contrapostas o governo em Portugal, versando +constantemente sobre si proprio, da-nos o espectaculo de um organismo +vivo isolado na creacao, alimentando-se na sua propria substancia e +digerindo-se pouco e pouco a si mesmo. + + * * * * * + +Deixando de ser uma lucta de principios e de ideas a politica +converte-se fatalmente em uma questao de compadres. + +O compadrio elevado a cathegoria de instituicao nacional, domina tudo, +corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que nao podem conquistar o +appoio da opiniao pelas ideas que representam, procuram manter-se pelo +appoio dos compadres que favorecem. E na proporcao exacta do numero dos +compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou +diminue de adeptos, progride ou retrograda na confianca da coroa e no +favor da urna. + +O dogma fundamental do compadrio impoe-se por tal modo que transforma +todas as outras nocoes moraes segundo o criterio de que elle e a +expressao. Transforma a justica, a honra, a probidade, a propria +consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria +commetter a mais vil e a mais nefanda das traicoes politicas! + +Despachando o compadre mais servical com exclusao do adversario mais +competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidao e +de lealdade. E ninguem ve quanto ha de profundamente subversivo da ordem +moral n'este simples facto tao vulgar, tao frequente, tao despercebido: +a exclusao da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos +preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja, +e commetter o attentado mais criminoso de que o Estado pode ser reo +deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violacoes do direito +e todas as affrontas da justica. E um roubo violento e descarado, +aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o +insulto ao trabalho, com o escarneo a moral, com o ultrage ao dever. + +Na politica portugueza, que tem o seu calao como as mulheres publicas e +como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de +_compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do +ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisao +correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opiniao diz +apenas:--E fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o +compadre, vou para o partido d'elle. + +O officio do governo e servir o paiz. Como porem o paiz, por effeito do +machinismo eleitoral, e representado constantemente pelos compadres do +governo, o officio do governo em ultima analyse nao e mais do que servir +o compadre. Esta no seu destino. Gracas aos elementos de corrupcao de +que o governo dispoe, o cidadao, nao votando como cidadao mas votando +como compadre, da o primeiro impulso que poe em movimento toda a +engrenagem do systema: elegendo o compadre e elle mesmo que funda a +tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa. + +A sociedade esta a merce do compadre. E se ha poder que possa +contrabalancar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre, +esse poder e unicamente--o da comadre. + +A aptidao provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no +dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensao e o mais +rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras, +unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva, +real; compadrice, comadrice--eis tudo. + + * * * * * + +Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja +decadencia e tanto mais lamentavel quanto e certo que a sociedade que +ella tem por fim dirigir esta na anarchia economica e tende para uma +miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse +remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de +quatro ou cinco individuos de opinioes radicaes: republicanos, +socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que +sejam homens profundamente convictos e determinados a peleja de cada dia +e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio +philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa +que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe +resistir, nao ja pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo +reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisacao. E das +concessoes mutuas e successivas, feitas, ja ao principio da ordem pelos +revolucionarios impacientes, ja ao principio do progresso pelos +conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento +actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixoes e dos +mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes. + + * * * * * + +Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que +sollicitamos, resta-nos entao adoptar o expediente ultimamente proposto +pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas +que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto: +caiar o palacio das cortes, branquear por fora o parlamento--_dealbatum +sepulchrum_! + + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878 +by Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz + + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + +***** This file should be named 13092.txt or 13092.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/3/0/9/13092/ + +Produced by Claudia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed +Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional +de Lisboa. + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/13092.zip b/old/13092.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..5930e7e --- /dev/null +++ b/old/13092.zip |
