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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:41:20 -0700
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+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13092 ***
+
+[Illustration: EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO--AS FARPAS]
+
+RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL
+
+DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878
+
+Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+universo, e da adoração de mim mesmo.
+
+P.J. PROUDHON
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+
+A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, José de Alencar,
+Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello
+d'aquella dama. A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe
+fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A
+litteratura feminina e a cozinha de minha avó.--Da influencia dos hymnos
+sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios.
+A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A
+cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho
+Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro
+civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A
+situação politica. As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os
+partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação.
+
+No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um
+pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.
+Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor
+Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.
+
+Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo
+imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças
+sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da
+grande alma do povo.
+
+Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão
+profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos
+descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e
+póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia
+microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia
+da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o
+que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do
+suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de
+Ville a Republica de 48.
+
+Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias
+physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias
+socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo,
+economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio
+profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros,
+das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as
+instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma
+judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo
+caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o
+favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou
+todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os
+diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas,
+os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao
+estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde
+dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no
+isolamento austero da independencia o do sacrificio.
+
+Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno
+e do Bernardo Palissy.
+
+A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma,
+resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca
+do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o
+homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade.
+
+Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da
+academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da
+rebelião_.[1] O chefe do partido conservador francez não podia esquecer
+que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior,
+em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a
+phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de
+cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias
+todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.»
+
+[Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma
+cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a
+desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois
+crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]
+
+É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi
+egualmente o braço constantemente pronto para resistir.
+
+Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e
+mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á
+carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um
+theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de
+verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos
+dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser
+condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da
+liberdade de pensamento!
+
+O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma
+trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a
+força do trabalho; Littré, a força da philosophia.
+
+D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais
+fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram
+são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse
+exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em
+nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde
+as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão
+raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a
+mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no
+jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não
+tem partido.
+
+Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no
+coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se
+sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez
+calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus
+similhantes!
+
+Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde
+repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que
+deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela
+consciencia e pela verdade!
+
+ * * * * *
+
+Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um
+idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas
+instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a
+derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou
+pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel
+empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada
+para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um
+symbolo ultrajante para a dignidade humana.
+
+A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com
+palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia
+olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos
+principios de justiça social constantemente professados pelo immortal
+artista.
+
+Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém
+soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar
+puerilmente que se deve ser
+
+_Fier d'être français
+Quand on regarde la colonne!_
+
+Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora,
+comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na
+obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o
+distico diz ser: _levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o
+Grande!!_
+
+Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen
+republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo
+municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus
+estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris
+que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação
+dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma
+das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas
+aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores
+nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os
+direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em
+cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.
+
+A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou
+um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes
+da geração actual o sol de Austerlitz.
+
+Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a
+que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará,
+ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e
+pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de
+remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na
+maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que
+será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em
+que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na
+pratica dos seus actos a opinião do seu tempo.
+
+ * * * * *
+
+Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico
+de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da
+espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como
+elle uma cruzada,--a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a
+terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo
+realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na
+alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos
+fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas
+dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes,
+mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos,
+atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás
+altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais
+encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte.
+Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os
+attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão
+contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do
+Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.
+
+Feliz homem!
+
+ * * * * *
+
+A morte de José de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_,
+representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão
+notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus
+pensadores.
+
+Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos
+annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a
+organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um
+novo elemento social--o povo.
+
+José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando
+poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem
+synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e
+decide da sorte dos imperios.
+
+Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais
+celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade,
+procedera da roda dos expostos.
+
+Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do
+trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno
+da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica
+azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e
+fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do
+senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante,
+que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para
+reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus
+inimigos.»
+
+ * * * * *
+
+Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce
+consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas
+amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella
+natureza essencialmente desgraçada.
+
+Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia
+em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o
+collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia
+nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem
+melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos
+nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico,
+jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem
+texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade
+portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto
+tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e
+incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem
+consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do
+direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e
+da lingua.
+
+Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da
+generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a
+funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse
+motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um
+instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias
+concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle
+estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação,
+repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente
+aggravada por uma falsa educação.
+
+Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame,
+de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento
+caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na
+infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um
+sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios
+da sua inquieta o attribulada existencia.
+
+A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem.
+O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa,
+conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do
+dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que
+vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós
+precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem
+para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da
+crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da
+palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado
+vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa
+virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres
+para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho
+no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia
+social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o--como succede ás
+mulheres nervosas.
+
+Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As
+suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua
+sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta
+pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil.
+Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou
+lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas
+sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior
+de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão
+caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas
+physicas.
+
+Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar
+obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro
+andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da
+camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de
+Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os
+quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre,
+tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos
+philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era
+preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o
+nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas
+assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro
+imperfeitamente orientado.
+
+Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto
+da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara
+alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o
+estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda
+ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_
+nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o
+canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando
+descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as
+outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os
+clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as
+bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros,
+aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe,
+negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua
+voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no
+maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços,
+estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom
+sitio amado, uma velha canção querida.
+
+Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em
+que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da
+sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi
+sepultado n'este medonho tumulo--o despreso.
+
+Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo
+dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do
+aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a
+parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de
+madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua
+biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico.
+Inutilmente. Elle estava morto.
+
+Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto
+Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de
+acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse
+traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem
+o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.
+O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios
+e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões
+illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas
+qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica,
+quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela
+maledicencia.
+
+ * * * * *
+
+Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigão_--publicou o _Diario da Manhã_
+o folhetim seguinte:
+
+_Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educação--Um programma de
+ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipação das
+mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o
+estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais
+caldo_.
+
+Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nós
+deixaria de ler com a maxima attenção um artigo escripto pelo sr.
+Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma
+de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do
+paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgão, pedindo-nos caldo, não foi
+ouvido por uma só mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho
+por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só _caldo_, mas
+tambem _luz_, que o alumie nas suas investigações ácerca d'um assumpto,
+que é realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex.ª attribue á
+nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda
+responsabilidade.
+
+Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave,
+contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos
+escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu
+espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena
+que os escriptos do sr. Ramalho não sejam mais succulentos! são como os
+caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica,
+depurados até á transparencia, muito aromatisados ... mas sem
+substancia.
+
+Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla
+sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho,
+esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmão,
+deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor
+vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouça-me pois.
+
+Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se
+faz esse alambicado caldo francez, tão purificado, que por fim como o
+proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á
+sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os
+classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam
+nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal
+agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formação das suas
+idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi
+comendo esses caldos e quasi só com elles, que os energicos e valentes
+portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na
+Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo
+á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos
+lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo
+nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua
+heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se
+incommodasse com a dyspepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que
+todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que
+supportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia,
+os mais rudes trabalhos; e comtudo não soffrem de dyspepsia. Será por
+terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem é
+preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas
+rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o affirma.
+
+A dyspepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quasi privativa dos
+homens das classes elevadas--e quer que lhe digámos porque? Porque elles
+teem com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos
+quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemães fazem
+consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e
+todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os
+portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e
+das tavernas, onde é considerado heroe aquelle que come e bebe mais
+brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices
+de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se
+chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso codigo de
+educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio.
+
+Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque
+passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, até que
+chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de
+lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de
+familia, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o
+braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em
+crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle não
+seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestigios de
+gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome,
+pois d'este modo terá prestado um importantissimo serviço ao seu paiz.
+
+O seu programma para a educação das mulheres parece-nos excellente para
+a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos
+collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanças que os
+frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser
+boas _ménagéres_, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos,
+recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães.
+
+Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa,
+todas nós sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como
+se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não
+fazem esses serviços sabem como elles são feitos, pois desde crianças os
+viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é _differençar os
+differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas
+mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto
+considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a
+suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos
+falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.
+
+Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum
+as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais
+sobrias e economicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda
+a eloquencia do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa
+convicção.
+
+Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres--por
+profissão--enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitaes, e nem se
+lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella
+seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira
+sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os
+horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens
+energicos e audaciosos.
+
+Para sabermos fazer prodigios de economia não precisamos de nos alistar
+n'uma escola ingleza, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo
+que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se póde
+sustentar uma familia com 18$000 réis por semana, mas n'essa familia--o
+chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo tres
+tigellas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas,
+e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis.
+
+Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este
+alimento é muito sufficiente para lhes conservar robustas as forças
+vitaes, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma
+casa deixará de ser uma _lôba_ para se transformar n'uma _burra_.
+
+Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ella o _braço
+forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos
+exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e
+guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os
+maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós
+realizar o seu ideal basta casar em Avintes.
+
+A educação intellectual das mulheres, quando ellas se não dediquem a ser
+mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento
+necessario, as liçoes dos homens de quem forem esposas. Assim
+reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos
+conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse
+respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever
+da esposa.
+
+Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras
+inglezas--nós, menos profundas pensadoras, não o queremos.
+
+Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores
+physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mãe, nos
+ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber soffrer e amar, por
+isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que
+acaba de nos fazer soffrer as dôres da maternidade, e abençoamos
+reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa
+mão é a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixão,
+encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.
+
+Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida
+como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais
+civilizadas da Europa.
+
+Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua
+irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua
+intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa
+sua robustez physica, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou
+de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros,
+que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos
+circos o trabalho de fazer rir o publico.
+
+Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas
+esse importantissimo.
+
+Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o
+sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos
+seus.
+
+Sua
+
+_Irmã de Caridade_
+
+ * * * * *
+
+Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que
+effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle
+é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos
+já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a
+retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um
+espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa
+acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a
+phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um
+lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que
+apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua
+prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores!
+queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!
+
+Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha
+processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade
+mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve,
+não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella
+mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.
+
+O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos
+imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da
+philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que
+temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram
+os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro.
+Revêde-vos na vossa obra.
+
+Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e
+de pó de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de
+recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de
+_cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.
+
+Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de
+raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades
+intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos
+encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão
+vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler
+presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais
+racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira
+de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver.
+Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós
+mesmo pelo que lhe ensinastes.
+
+ * * * * *
+
+Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz
+interprete, dirigi-se ás _Farpas_ na pessoa do seu auctor.
+
+O que são as _Farpas_ com relação ás mulheres?
+
+As _Farpas_ são a publicação periodica--unica em Portugal--que em
+artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem
+constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á
+reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o
+criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido
+violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde
+dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o
+flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento
+indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a
+dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico
+e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção
+pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão
+negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é
+aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de
+ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua
+collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor
+indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para
+ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino
+superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos
+palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas
+amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas
+filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da
+cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor
+dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito
+presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de
+systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--é
+claro--mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma
+das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás
+mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade
+suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.
+
+Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das _Farpas_
+uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe
+o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas
+portuguezas:
+
+«Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhaços dos circos_ o
+trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!»
+
+Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito.
+Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das
+senhoras portuguezas não só é igual--como a auctora modestamente
+formula--á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo
+considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de
+Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor
+qualquer--amigo ou adversario--uma palavra tão lucida, tão conceituosa,
+tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão
+nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio
+da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos
+mais que _um palhaço de circo_, opinião profundamente philosophica. É
+talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos
+lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas,
+entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho
+cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas
+recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio
+qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco
+lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-ç-o_ a um homem a quem os
+seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.
+
+Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia
+e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos
+deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de
+Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.
+
+Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta
+compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e
+chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse
+effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se
+sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher
+é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que
+estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua
+excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da
+nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos
+da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos
+mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares
+pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a
+força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que
+sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples
+caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos
+eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital
+pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene,
+pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as
+substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene
+alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo
+sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos
+srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud,
+Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua
+excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira
+tintura--alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é
+um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o
+seu voto n'esse caso poderia ter discussão.
+
+A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este
+assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir
+nos adversarios senão admiração e respeito.
+
+É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham
+dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o
+seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada
+hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou
+muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada
+individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as
+analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo
+dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida
+pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton
+nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas
+campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da
+alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que
+pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de
+operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da
+qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30
+por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire
+nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos
+historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside
+simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia
+tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em
+cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos
+nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do
+nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça
+melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição
+dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua
+economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os
+philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e
+de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a
+resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo
+quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta
+illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus
+similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos
+empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó.
+
+Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos
+de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento
+supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em
+respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na
+Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à
+travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de
+uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os
+vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Café Anglais_.
+
+Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e
+reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia
+affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na
+perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia
+imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um
+vestido e que sabe tambem--ó legítimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a
+mais--notem--sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos
+offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada.
+Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas
+virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os
+enthusiasmos da paixão»:--sua excellencia gosta de assucar!
+
+Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os
+meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber
+licores para os botequins?
+
+As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem
+ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da
+agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos
+unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas
+poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o _box_, dão-lhes desde a
+idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles
+vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir
+lá buscar.
+
+ * * * * *
+
+Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo
+segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que
+Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais
+d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras,
+encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da
+arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos
+para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os
+pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e
+da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna,
+pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade
+conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em
+trabalho e em força. Sua excellencia prefere _deixar todos esses
+conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera
+a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_
+
+Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua
+excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a
+bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de
+_abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava_ (!)
+
+O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não
+promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas
+algemas!
+
+Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua
+excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a
+jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe
+constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de
+poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha.
+
+ * * * * *
+
+O folhetim de sua excellencia termina com uma allusão pessoal à nossa
+robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos
+licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:
+
+Eu--pois que é bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas
+linhas, não me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calçada dos
+Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos
+homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirará d'este facto
+a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua
+excellencia não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que
+me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de
+que não tomei ease chá.
+
+Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida
+courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos
+mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia
+para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:--o phosphato de cal,
+que eu ingeria em grandes dozes.
+
+A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, não tinha saguão,
+não tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não
+tinha pia.
+
+A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o
+grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o
+primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem
+terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias
+dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um
+instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher:
+Primeiro ser saudavel; Segundo não ser conhecida. No interior da sua
+casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de
+economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho
+piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se
+fechar de memoria d'homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se
+desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de
+cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um
+dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execução
+esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graça, de que era
+modelo a incomparavel cosinha da minha avó,--aberta ao nivel do pateo
+defronte do poço, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico
+perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de
+cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira
+onde se espanejavam os capões; os tropheus ornamentaes dos instrumentos
+agricolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a
+masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do
+fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos môços da lavoura tendo
+em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada
+com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas
+efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervenção periodica
+do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua
+escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam
+sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.
+
+Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tepido aconchego, de
+suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e
+honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias
+contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da
+familia; explicava o amor á, terra da patria pela dedicação ás quatro
+braças de solo cobertas por esse velho tecto.
+
+A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual
+os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da
+poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e
+fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
+havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra
+modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
+educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da
+saudade eterna dos seus netos.
+
+A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a
+minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
+que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha
+robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os
+nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
+das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
+vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos
+folhetins dos periodicos.
+
+ * * * * *
+
+Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
+escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir.
+Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem
+chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.
+
+ * * * * *
+
+Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o
+telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.
+
+Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
+que sua magestade ouvira--um solo de cornetim!
+
+Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
+Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _União e
+Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
+Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a
+arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.
+
+A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre
+as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
+a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.
+
+Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
+accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
+parece-nos um abuso que o principe não levará a bem.
+
+Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro
+coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas
+conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso.
+
+Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
+O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é
+verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a
+vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
+sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença
+chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo
+trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente á loucura.
+
+Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão
+incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
+contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
+faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes,
+ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
+hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
+ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro
+remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
+sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha
+presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse
+instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
+tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos
+cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_
+
+E a posteridade nos abençoará.
+
+ * * * * *
+
+Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
+hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder
+politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
+manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente
+uns aos outros:
+
+--Não viram por ahi a hydra?
+
+Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
+entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr.
+Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua
+dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
+imperfeito do verbo Mexer.
+
+ * * * * *
+
+N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
+presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser
+hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
+suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas
+de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.
+
+Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para
+salvar a situação da falta da hydra:
+
+ * * * * *
+
+O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
+Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal
+pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
+seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
+haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
+questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
+exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
+como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
+que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as
+d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
+Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
+esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
+podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente
+enterrado.
+
+N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e
+determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao
+que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
+municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e
+discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios
+alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.
+
+ * * * * *
+
+Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
+de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o
+triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira
+cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
+uma formula. A sua formula é esta: «..._O bucentauro do progresso
+rasgando os flancos da montanha_ ...» Sempre que esse homem terrivel
+arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
+auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido
+uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua
+cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
+o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle
+triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
+theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para
+lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e
+phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
+e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro
+estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica
+ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama.
+
+ * * * * *
+
+Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
+canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da
+montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e
+philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da
+morte,--comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro
+rasgando os supracitados flancos,--que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a
+vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro--o que à
+hydra parecerá sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
+ainda parece pouco.
+
+O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
+fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
+aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica
+romana.
+
+ * * * * *
+
+Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
+dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
+cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
+consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
+infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião,
+cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica.
+Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas
+mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o
+campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
+discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão
+eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
+amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
+orbe pela larga benção incondicional de Jesus.
+
+Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
+pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um
+recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das
+podridões privilegiadas.
+
+Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
+ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
+pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
+as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e
+pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
+no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem
+terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais
+sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
+resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No
+dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu
+chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na
+bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.
+
+Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano
+do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da
+grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie
+do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem,
+nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
+o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos
+teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar
+usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um
+canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos
+sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza
+humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do
+sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta.
+És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires
+para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
+te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para
+o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
+distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
+sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
+chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
+poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua
+outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila
+e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
+doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
+te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de
+horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os
+homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do
+padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua
+dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus
+filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
+entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as
+suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo
+tepido dos seus ligeiros _coupés_. Assim com as abençoadas sepulturas
+dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos
+enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram
+cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um
+bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
+vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
+preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,--cem
+mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela
+cidade inteira.
+
+E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça
+inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor
+que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como
+te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte:
+
+No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o
+canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
+anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão
+para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
+os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das
+catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio.
+Não terás remedio senão acordar,--quer queiras, quer não--do teu pesado
+somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois
+ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
+como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão
+com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de
+ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é
+condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que
+tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna
+justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a
+elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de
+interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
+dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande
+voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
+Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:--«Deram-lhe o
+baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia?
+Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O
+cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a
+esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará
+para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--«Fogo eterno para
+um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
+o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
+sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição
+eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.
+
+Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros.
+Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
+mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
+mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
+Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam
+Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
+que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
+cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
+os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
+collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não
+resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
+primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos
+pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
+impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
+sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que
+fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
+contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.
+
+ * * * * *
+
+Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o
+ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo
+por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
+muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
+esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos
+n'outros termos--a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que
+pretendemos consultar s. exª:
+
+ * * * * *
+
+Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
+não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se
+por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir
+entretendo.
+
+N'esta hypothese pergunta-se:
+
+Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
+o capricho de descartar-me?
+
+Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo
+indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
+escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros
+impios e locomotores.
+
+A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da
+direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana.
+Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia
+baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
+lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de
+aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E
+este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
+as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
+parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da
+carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
+padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
+tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o
+resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem
+varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
+crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
+compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de
+todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje
+contradisse--que me conste--as declarações latinas feitas em seu nome
+por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto é catholica,
+e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no
+paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio
+dos atheus.
+
+ * * * * *
+
+Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á
+funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa
+resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes:
+
+Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a
+communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
+não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim
+uma affirmação civil.
+
+Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é
+facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem
+ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
+substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha
+perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo
+o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente
+demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o
+attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
+sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria;
+não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no
+exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
+na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não
+póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não
+póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome!
+
+A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna
+antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe
+pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada.
+
+Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
+nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da
+igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para
+dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu
+pae e de minha mãe--a minha perna está prohibida de a ter sem que a
+igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
+de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
+minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando
+eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
+espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
+deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna,
+era--a perna da igreja.
+
+Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
+perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o
+catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
+recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
+direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de
+ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
+anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira,
+de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na
+religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças
+religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de
+baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista.
+
+Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em
+Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim
+separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não
+obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
+dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
+sua transgressão,--é claro que não póde ser unicamente pelo facto de
+estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
+designar a sepultura sagrada.
+
+Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
+outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
+pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é
+effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial
+de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
+e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o
+contrario.
+
+Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se
+encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha
+perna.
+
+Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a
+creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade
+de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
+padre, morrer sem padre.
+
+ * * * * *
+
+Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
+cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paços da Camara na Praça Nova,
+esquina do Laranjal
+
+Porto
+
+Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados
+pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de
+todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia
+inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.
+
+Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que
+tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de
+comparecer.
+
+Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes
+reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
+pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
+comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova
+ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
+presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei,
+certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª!
+
+Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
+uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem
+n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
+violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
+encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
+maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto,
+levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol.
+Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
+Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
+caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
+de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
+Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
+da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
+_pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
+reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados,
+fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
+ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa,
+com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
+trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
+abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
+os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
+murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da
+freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração
+de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
+torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
+venezianamente na agua.
+
+Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da
+ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
+proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação
+humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
+os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
+os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
+tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do
+Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do
+paiz estavam ahi reunidos. Para que?
+
+Para celebrar um puro facto scientifico--a solução de um problema de
+mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que
+phenomeno! que revolução!
+
+Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de
+determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
+de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos
+iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus
+casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões
+domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
+os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os
+mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a
+longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos
+caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de
+plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.
+
+Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum
+pessoal.
+
+Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
+o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
+exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma
+funccionalidade diversa.
+
+Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder
+politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já
+por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder,
+irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
+nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera
+espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.
+
+A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão
+symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
+mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
+que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era
+tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação,
+que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
+todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções
+de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
+A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
+convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os
+individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e
+o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
+progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
+revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se
+acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço
+cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
+outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
+tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
+episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de
+conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
+sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
+força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
+bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
+vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
+aperfeiçoamento e para a felicidade.
+
+Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem
+os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
+dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi
+elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
+remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que
+determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
+das sociedades.
+
+A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
+victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de
+paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
+sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
+progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
+instituições.
+
+Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
+estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por
+um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos
+reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
+nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo
+com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo
+debatida entre dois principes.
+
+A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que
+progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
+milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
+affirmação d'esse progresso.
+
+A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
+principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a
+especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.
+
+Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este
+seu novo hospede? Não lhe apparecendo!
+
+V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais
+irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
+satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª
+que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
+pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos
+do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as
+chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.
+ex.ª--dizemos--não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
+agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
+extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma
+cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.
+
+Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece
+completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades
+democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
+abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população
+portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva.
+
+É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
+contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
+com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
+patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo
+o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
+forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª
+nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a
+sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
+telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
+teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
+resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.
+
+Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes
+como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
+de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
+os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.
+
+Eis o que ao depois occorreu:
+
+ * * * * *
+
+A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes,
+choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e
+Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
+estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de
+suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?
+
+--Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das
+mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.
+
+Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
+bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão
+aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:
+
+--Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.
+
+E deixaram-o ir.
+
+ * * * * *
+
+Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
+com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
+estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
+orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos
+deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
+adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
+homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
+perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
+abysmo,--sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na
+redea.
+
+ * * * * *
+
+Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
+cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões,
+retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a
+saudade da mangedoura na alma.--Tão poderoso e fecundo é o ascendente
+moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades
+officiaes!
+
+ * * * * *
+
+Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha
+do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
+dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os
+circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
+sr. José Dias Ferreira.
+
+Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder,
+o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso:
+
+--A mim, rapazes!
+
+E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»--os rapazes foram a elle.
+
+ * * * * *
+
+Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
+assim elle mesmo?
+
+Atonitos elles vêem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a
+burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima!
+
+Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o
+sr. Fontes veloz encavalgara o poder.
+
+ * * * * *
+
+O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões
+do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a
+Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
+rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
+depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o
+seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
+cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão
+para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de
+dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
+nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e,
+como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
+estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr.
+Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
+commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a
+delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª
+abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque
+de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
+ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave
+auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá
+azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!
+
+Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
+da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
+causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
+durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa
+intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
+bolsa do alforge ministerial.
+
+Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra,
+enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra.
+
+ * * * * *
+
+E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo
+logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
+nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com
+arnica o seu galo.
+
+ * * * * *
+
+Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve
+jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
+eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
+Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.
+
+O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
+como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre
+estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns
+kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª
+
+
+ * * * * *
+
+
+Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores
+deputados:
+
+ * * * * *
+
+Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
+funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
+os parapeitos até ao tecto.
+
+Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre
+o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.
+
+Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um
+individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
+resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
+publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
+dôr--Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.
+
+Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
+encasados nos seus _fauteuils_. Não teem uma apparencia espirituosamente
+feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço
+com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos
+calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.
+
+No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o
+coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.
+
+Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.
+
+Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
+amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforço.
+O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
+Robespierre--São os empaturrados da coisa publica.
+
+Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés
+mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos
+sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que
+descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--São os espinhelas
+cahidas do systema que felizmente nos rege.
+
+No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de
+inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
+dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma
+sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
+inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.
+
+--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca,
+lacrimejante--Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.
+
+Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
+estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
+cabeça.
+
+Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
+vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
+estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma
+resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido
+mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação,
+a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
+submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
+face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
+resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
+sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a
+constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em
+extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
+lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
+moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
+botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do
+trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão
+ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e
+da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica
+constitucional.
+
+Diz mais o orador:
+
+--«Sr. presidente!--e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e
+pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
+investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
+inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
+isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram
+aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
+porque elles serão consolados».
+
+E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
+camara:--«Muito bem! muito bem!»
+
+Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por
+Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin
+e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo
+victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas
+questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores
+desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos
+srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate.
+Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
+ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
+Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
+Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
+alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita
+dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
+d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
+crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não
+queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este
+moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da
+nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
+collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no
+meio dos applausos geraes de todo o parlamento.
+
+E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a
+applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.
+
+A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está,
+como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de
+Kant, de Hegel e de Hartman.
+
+Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da
+philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
+precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
+grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela
+indisciplina mental.
+
+Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo
+philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.
+
+Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases
+definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
+para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho
+triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o
+filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.
+
+Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande
+peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de
+pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi
+o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
+politico do imperador Guilherme?
+
+Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal
+senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica
+arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha?
+
+Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
+vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos
+preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua
+ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na
+peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
+certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
+pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado
+philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e
+contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
+pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
+linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua
+elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
+actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza.
+
+Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão
+experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino
+humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande
+maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se
+indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da
+sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta
+noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.»
+
+A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de
+esphacelamento cerebral.
+
+Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de
+caturras?--É unicamente o que perguntamos.
+
+ * * * * *
+
+O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara
+governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a
+coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão
+social.
+
+A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por
+fazer.
+
+A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo
+o principio em que se funda.
+
+A distribuição racional do imposto ainda não foi definida.
+
+Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de
+uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma
+Turquia está muito adeante de nós.
+
+Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem
+destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e
+dissolvem-se na banalidade.
+
+As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos
+personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás
+camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as
+mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade.
+
+Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para
+assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses
+exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a
+burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso
+moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de
+cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento
+similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolução do despreso_.
+
+Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de
+circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos
+do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de
+funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal?
+
+ * * * * *
+
+Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É
+catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é
+militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma
+electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado;
+quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito
+permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena
+de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de
+governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,
+uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica
+de cordas, uma photographa, etc.
+
+Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se
+disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que
+pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido
+opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o
+partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente
+conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É
+evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da
+industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção
+das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a
+universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a
+magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o
+governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se
+distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,
+a photographia, a cordoaria, a fundição, etc.
+
+A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de
+não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade
+e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o
+partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder
+perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e
+a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não
+pódem constituir principios de programma, são communs a todos os
+partidos ou não são especiaes de partido nenhum.
+
+Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos
+mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia
+completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando
+constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo
+vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e
+digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.
+
+ * * * * *
+
+Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica
+converte-se fatalmente em uma questão de compadres.
+
+O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo,
+corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o
+appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo
+appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos
+compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou
+diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no
+favor da urna.
+
+O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma
+todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a
+expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria
+consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria
+commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas!
+
+Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais
+competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e
+de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem
+moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido:
+a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos
+preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,
+é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo
+deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito
+e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado,
+aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o
+insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever.
+
+Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e
+como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de
+_compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do
+ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão
+correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz
+apenas:--É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o
+compadre, vou para o partido d'elle.
+
+O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do
+machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do
+governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir
+o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de
+que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando
+como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a
+engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a
+tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.
+
+A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa
+contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,
+esse poder é unicamente--o da comadre.
+
+A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no
+dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais
+rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras,
+unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,
+real; compadrice, comadrice--eis tudo.
+
+ * * * * *
+
+Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja
+decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que
+ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma
+miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse
+remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de
+quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos,
+socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que
+sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia
+e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio
+philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa
+que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe
+resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo
+reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das
+concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos
+revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos
+conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento
+actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos
+mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.
+
+ * * * * *
+
+Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que
+sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto
+pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas
+que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:
+caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento--_dealbatum
+sepulchrum_!
+
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878,
+by Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13092 ***
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+ <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, Janeiro de 1878 by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz.</title>
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+
+<div class="centered">
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+ alt="Eça de Queiroz&mdash;Ramalho Ortigão&mdash;As Farpas" />
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+</div>
+<hr class="major" />
+<h1>
+ AS FARPAS
+</h1>
+<div class="centered">
+ <p>RAMALHO ORTIGÃO&mdash;EÇA DE QUEIROZ</p>
+ <p>CHRONICA MENSAL</p>
+ <p>DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p>
+ <p>TERCEIRA SERIE&mdash;TOMO I</p>
+ <p>Janeiro de 1878</p>
+</div>
+
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<blockquote>
+<p>
+ Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+ da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+ sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+ politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+ universo, e da adoração de mim mesmo.
+</p>
+</blockquote>
+<p class="centered">
+ P.J. PROUDHON
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+
+<p class="centered">
+ <b>SUMMARIO</b>
+</p>
+<p>
+ A romagem dos mortos.
+ <a href="#raspail" >Raspail</a>,
+ <a href="#courbet" >Courbet</a>,
+ <a href="#victormanuel">Victor Manuel</a>,
+ <a href="#alencar" >José de Alencar</a>,
+ <a href="#soromenho" >Augusto Soromenho</a>.&mdash;<i>A
+ senhora portuense</i> e <i>as Farpas</i>.
+ <a href="#libello" >O libello d'aquella dama.</a>
+ A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe
+ fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A
+ litteratura feminina e a cozinha de minha avó.
+ &mdash;Da influencia dos hymnos
+ sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do
+ <a href="#telephonio" >telephonio</a>.
+ &mdash;
+ <a href="#cemiterios" >Os cemiterios</a>.
+ A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A
+ cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho
+ Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro
+ civil.&mdash;A ex'ma
+ <a href="#camara" >Camara Municipal do Porto</a> ou a quem suas vezes fizer.&mdash;
+ <a href="#politica" >A situação politica</a>.
+ As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os
+ partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação.
+</p>
+<hr id="mortos" class="major" /><!--===================-->
+<p>
+ No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um
+ pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.
+ Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor
+ Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.
+</p>
+<p>
+ <a id="raspail" name="raspail" >Raspail</a>
+ , entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo
+ imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças
+ sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da
+ grande alma do povo.
+</p>
+<p>
+ Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão
+ profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos
+ descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e
+ póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia
+ microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia
+ da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o
+ que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do
+ suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de
+ Ville a Republica de 48.
+</p>
+<p>
+ Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias
+ physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias
+ socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo,
+ economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio
+ profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros,
+ das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as
+ instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma
+ judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo
+ caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o
+ favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou
+ todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os
+ diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas,
+ os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao
+ estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde
+ dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no
+ isolamento austero da independencia o do sacrificio.
+</p>
+<p>
+ Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno
+ e do Bernardo Palissy.
+</p>
+<p>
+ A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma,
+ resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca
+ do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o
+ homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade.
+</p>
+<p>
+ Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da
+ academia prohibindo que <i>o premio da virtude cahisse no cofre da
+ rebelião</i>.
+<a href="#note-1">
+<sup class="small" id="note_return_1">1</sup></a>
+ O chefe do partido conservador francez não podia esquecer
+ que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior,
+ em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a
+ phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de
+ cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias
+ todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.»
+</p>
+<p class="foot">
+<a href="#note_return_1"><sup id="note-1">1</sup></a>
+ [Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma
+ cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a
+ desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois
+ crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]
+</p>
+<p>
+ É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi
+ egualmente o braço constantemente pronto para resistir.
+</p>
+<p>
+ Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e
+ mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á
+ carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um
+ theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de
+ verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos
+ dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser
+ condemnado aos oitenta,&mdash;aos oitenta annos de idade!&mdash;por abuso da
+ liberdade de pensamento!
+</p>
+<p>
+ O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma
+ trindade sacrosanta:&mdash;Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a
+ força do trabalho; Littré, a força da philosophia.
+</p>
+<p>
+ D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais
+ fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram
+ são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse
+ exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em
+ nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde
+ as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão
+ raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a
+ mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no
+ jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não
+ tem partido.
+</p>
+<p>
+ Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no
+ coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se
+ sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez
+ calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus
+ similhantes!
+</p>
+<p>
+ Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde
+ repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que
+ deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela
+ consciencia e pela verdade!
+</p>
+<hr id="courbet" class="minor" />
+<p>
+ Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um
+ idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas
+ instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a
+ derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou
+ pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel
+ empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada
+ para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um
+ symbolo ultrajante para a dignidade humana.
+</p>
+<p>
+ A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com
+ palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia
+ olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos
+ principios de justiça social constantemente professados pelo immortal
+ artista.
+</p>
+<p>
+ Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém
+ soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar
+ puerilmente que se deve ser
+</p>
+<p class="poem"><i>
+ Fier d'être français<br />
+ Quand on regarde la colonne!<br />
+</i>
+</p>
+<p>
+ Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora,
+ comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na
+ obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o
+ distico diz ser: <i>levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o
+ Grande!!</i>
+</p>
+<p>
+ Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen
+ republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo
+ municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus
+ estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris
+ que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação
+ dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma
+ das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas
+ aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores
+ nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os
+ direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em
+ cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.
+</p>
+<p>
+ A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou
+ um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes
+ da geração actual o sol de Austerlitz.
+</p>
+<p>
+ Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a
+ que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará,
+ ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e
+ pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de
+ remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na
+ maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que
+ será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em
+ que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na
+ pratica dos seus actos a opinião do seu tempo.
+</p>
+<hr id="victormanuel" class="minor" />
+<p>
+ Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico
+ de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da
+ espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como
+ elle uma cruzada,&mdash;a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a
+ terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo
+ realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na
+ alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos
+ fortes&mdash;a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas
+ dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes,
+ mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos,
+ atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás
+ altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais
+ encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte.
+ Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os
+ attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão
+ contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do
+ Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.
+</p>
+<p>
+ Feliz homem!
+</p>
+<hr id="alencar" class="minor" />
+<p>
+ A morte de José de Alencar, o auctor do <i>Guarany</i> e de <i>Luciola</i>,
+ representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão
+ notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus
+ pensadores.
+</p>
+<p>
+ Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos
+ annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a
+ organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um
+ novo elemento social&mdash;o povo.
+</p>
+<p>
+ José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando
+ poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem
+ synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e
+ decide da sorte dos imperios.
+</p>
+<p>
+ Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais
+ celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade,
+ procedera da roda dos expostos.
+</p>
+<p>
+ Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do
+ trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno
+ da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica
+ azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e
+ fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do
+ senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante,
+ que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para
+ reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus
+ inimigos.»
+</p>
+<hr id="soromenho" class="minor" />
+<p>
+ Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce
+ consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas
+ amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella
+ natureza essencialmente desgraçada.
+</p>
+<p>
+ Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia
+ em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o
+ collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia
+ nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem
+ melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos
+ nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico,
+ jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem
+ texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade
+ portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto
+ tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e
+ incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem
+ consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do
+ direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e
+ da lingua.
+</p>
+<p>
+ Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da
+ generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a
+ funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse
+ motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um
+ instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias
+ concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle
+ estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação,
+ repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente
+ aggravada por uma falsa educação.
+</p>
+<p>
+ Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame,
+ de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento
+ caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na
+ infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um
+ sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios
+ da sua inquieta o attribulada existencia.
+</p>
+<p>
+ A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem.
+ O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa,
+ conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do
+ dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que
+ vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós
+ precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem
+ para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da
+ crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da
+ palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado
+ vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa
+ virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres
+ para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho
+ no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia
+ social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o&mdash;como succede ás
+ mulheres nervosas.
+</p>
+<p>
+ Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As
+ suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua
+ sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta
+ pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil.
+ Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou
+ lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas
+ sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior
+ de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão
+ caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas
+ physicas.
+</p>
+<p>
+ Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar
+ obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro
+ andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da
+ camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de
+ Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os
+ quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre,
+ tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos
+ philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era
+ preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o
+ nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas
+ assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro
+ imperfeitamente orientado.
+</p>
+<p>
+ Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto
+ da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara
+ alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o
+ estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda
+ ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma <i>esfolhada</i>
+ nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o
+ canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando
+ descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as
+ outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os
+ clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as
+ bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros,
+ aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe,
+ negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua
+ voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no
+ maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços,
+ estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom
+ sitio amado, uma velha canção querida.
+</p>
+<p>
+ Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em
+ que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da
+ sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi
+ sepultado n'este medonho tumulo&mdash;o despreso.
+</p>
+<p>
+ Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo
+ dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do
+ aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a
+ parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de
+ madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua
+ biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico.
+ Inutilmente. Elle estava morto.
+</p>
+<p>
+ Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto
+ Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de
+ acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse
+ traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem
+ o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.
+ O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios
+ e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões
+ illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas
+ qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica,
+ quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela
+ maledicencia.
+</p>
+<hr id="libello" class="minor" />
+<p>
+ Com esle titulo&mdash;<i>Ao sr. Ramalho Ortigão</i>&mdash;publicou o
+ <i>Diario da Manhã</i> o folhetim seguinte:
+</p>
+<p>
+ <i>Os exames no Lyceu Nacional&mdash;Os fins da educação&mdash;Um programma de
+ ensino para o sexo feminino&mdash;Como se prepara a emancipação das
+ mulheres&mdash;Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o
+ estado da cosinha nacional&mdash;Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais
+ caldo</i>.
+</p>
+<p>
+ Termina assim o summario do ultimo numero das <i>Farpas</i>. Qual de nós
+ deixaria de ler com a maxima attenção um artigo escripto pelo sr.
+ Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma
+ de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do
+ paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgão, pedindo-nos caldo, não foi
+ ouvido por uma só mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho
+ por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só <i>caldo</i>, mas
+ tambem <i>luz</i>, que o alumie nas suas investigações ácerca d'um assumpto,
+ que é realmente grave&mdash;a dyspepsia nacional, que s. ex.ª attribue á
+ nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda
+ responsabilidade.
+</p>
+<p>
+ Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave,
+ contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos
+ escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu
+ espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena
+ que os escriptos do sr. Ramalho não sejam mais succulentos! são como os
+ caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica,
+ depurados até á transparencia, muito aromatisados ... mas sem
+ substancia.
+</p>
+<p>
+ Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla
+ sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho,
+ esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmão,
+ deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor
+ vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouça-me pois.
+</p>
+<p>
+ Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se
+ faz esse alambicado caldo francez, tão purificado, que por fim como o
+ proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á
+ sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os
+ classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam
+ nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal
+ agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formação das suas
+ idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi
+ comendo esses caldos e quasi só com elles, que os energicos e valentes
+ portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na
+ Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo
+ á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos
+ lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo
+ nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua
+ heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se
+ incommodasse com a dyspepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que
+ todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que
+ supportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia,
+ os mais rudes trabalhos; e comtudo não soffrem de dyspepsia. Será por
+ terem <i>mulheres muito instruidas</i>, ou porque o <i>caldo que comem é
+ preparado por cosinheiros de 5:000 francos</i>? deve ser por uma d'estas
+ rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o affirma.
+</p>
+<p>
+ A dyspepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quasi privativa dos
+ homens das classes elevadas&mdash;e quer que lhe digámos porque? Porque elles
+ teem com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos
+ quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemães fazem
+ consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e
+ todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os
+ portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e
+ das tavernas, onde é considerado heroe aquelle que come e bebe mais
+ brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices
+ de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se
+ chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso codigo de
+ educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio.
+</p>
+<p>
+ Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque
+ passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, até que
+ chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de
+ lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de
+ familia, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o
+ braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em
+ crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle não
+ seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestigios de
+ gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome,
+ pois d'este modo terá prestado um importantissimo serviço ao seu paiz.
+</p>
+<p>
+ O seu programma para a educação das mulheres parece-nos excellente para
+ a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos
+ collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanças que os
+ frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser
+ boas <i>ménagéres</i>, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos,
+ recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães.
+</p>
+<p>
+ Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa,
+ todas nós sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como
+ se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não
+ fazem esses serviços sabem como elles são feitos, pois desde crianças os
+ viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é <i>differençar os
+ differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas
+ mais notaveis da arte ornamental</i>, etc. etc.; mas em quanto
+ considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a
+ suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos
+ falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.
+</p>
+<p>
+ Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum
+ as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais
+ sobrias e economicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda
+ a eloquencia do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa
+ convicção.
+</p>
+<p>
+ Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres&mdash;por
+ profissão&mdash;enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitaes, e nem se
+ lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella
+ seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira
+ sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os
+ horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens
+ energicos e audaciosos.
+</p>
+<p>
+ Para sabermos fazer prodigios de economia não precisamos de nos alistar
+ n'uma escola ingleza, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo
+ que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se póde
+ sustentar uma familia com 18$000 réis por semana, mas n'essa familia&mdash;o
+ chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo tres
+ tigellas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas,
+ e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis.
+</p>
+<p>
+ Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este
+ alimento é muito sufficiente para lhes conservar robustas as forças
+ vitaes, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma
+ casa deixará de ser uma <i>lôba</i> para se transformar n'uma <i>burra</i>.
+</p>
+<p>
+ Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ella o <i>braço
+ forte e escudo da familia</i>, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos
+ exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e
+ guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os
+ maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós
+ realizar o seu ideal basta casar em Avintes.
+</p>
+<p>
+ A educação intellectual das mulheres, quando ellas se não dediquem a ser
+ mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento
+ necessario, as liçoes dos homens de quem forem esposas. Assim
+ reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos
+ conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse
+ respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever
+ da esposa.
+</p>
+<p>
+ Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras
+ inglezas&mdash;nós, menos profundas pensadoras, não o queremos.
+</p>
+<p>
+ Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores
+ physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria&mdash;o ser mãe, nos
+ ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber soffrer e amar, por
+ isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que
+ acaba de nos fazer soffrer as dôres da maternidade, e abençoamos
+ reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa
+ mão é a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixão,
+ encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.
+</p>
+<p>
+ Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida
+ como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais
+ civilizadas da Europa.
+</p>
+<p>
+ Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua
+ irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua
+ intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa
+ sua robustez physica, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou
+ de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros,
+ que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos
+ circos o trabalho de fazer rir o publico.
+</p>
+<p>
+ Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas
+ esse importantissimo.
+</p>
+<p>
+ Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o
+ sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos
+ seus.
+</p>
+<div class="centered">
+<p>
+ Sua
+</p>
+<p>
+ <i>Irmã de Caridade</i>
+</p>
+</div>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que
+ effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle
+ é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos
+ já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a
+ retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um
+ espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa
+ acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a
+ phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um
+ lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que
+ apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua
+ prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores!
+ queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!
+</p>
+<p>
+ Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha
+ processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade
+ mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve,
+ não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella
+ mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.
+</p>
+<p>
+ O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos
+ imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da
+ philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que
+ temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram
+ os contactos da nossa convivencia&mdash;a escola, o jornal, o livro.
+ Revêde-vos na vossa obra.
+</p>
+<p>
+ Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e
+ de pó de arroz, de rhetorica e de <i>chic</i>, de doce d'ovos e de cuia, de
+ recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de
+ <i>cold-cream</i>, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.
+</p>
+<p>
+ Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de
+ raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades
+ intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos
+ encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão
+ vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler
+ presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais
+ racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira
+ de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver.
+ Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós
+ mesmo pelo que lhe ensinastes.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz
+ interprete, dirigi-se ás <i>Farpas</i> na pessoa do seu auctor.
+</p>
+<p>
+ O que são as <i>Farpas</i> com relação ás mulheres?
+</p>
+<p>
+ As <i>Farpas</i> são a publicação periodica&mdash;unica em Portugal&mdash;que em
+ artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem
+ constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á
+ reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o
+ criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido
+ violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde
+ dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o
+ flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento
+ indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a
+ dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico
+ e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção
+ pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão
+ negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é
+ aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de
+ ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua
+ collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor
+ indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para
+ ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino
+ superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos
+ palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas
+ amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas
+ filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da
+ cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor
+ dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito
+ presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de
+ systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos&mdash;é
+ claro&mdash;mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma
+ das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás
+ mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade
+ suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.
+</p>
+<p>
+ Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das <i>Farpas</i>
+ uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe
+ o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas
+ portuguezas:
+</p>
+<p>
+ «Que elle trate d'outro officio e deixe aos <i>palhaços dos circos</i> o
+ trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!»
+</p>
+<p>
+ Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito.
+ Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das
+ senhoras portuguezas não só é igual&mdash;como a auctora modestamente
+ formula&mdash;á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo
+ considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de
+ Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor
+ qualquer&mdash;amigo ou adversario&mdash;uma palavra tão lucida, tão conceituosa,
+ tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão
+ nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio
+ da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos
+ mais que <i>um palhaço de circo</i>, opinião profundamente philosophica. É
+ talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos
+ lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas,
+ entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho
+ cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas
+ recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio
+ qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco
+ lettras e a sua respectiva cedilha, <i>p-a-l-h-a-ç-o</i> a um homem a quem os
+ seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.
+</p>
+<p>
+ Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia
+ e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos
+ deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de
+ Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.
+</p>
+<p>
+ Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta
+ compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e
+ chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse
+ effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se
+ sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher
+ é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que
+ estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua
+ excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da
+ nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos
+ da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos
+ mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares
+ pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a
+ força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que
+ sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples
+ caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos
+ eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital
+ pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene,
+ pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as
+ substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua <i>Hygiene
+ alimentar</i>, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo
+ sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos
+ srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud,
+ Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua
+ excellencia possuisse finalmente&mdash;ainda que no estado da mais ligeira
+ tintura&mdash;alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é
+ um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o
+ seu voto n'esse caso poderia ter discussão.
+</p>
+<p>
+ A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este
+ assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir
+ nos adversarios senão admiração e respeito.
+</p>
+<p>
+ É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham
+ dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o
+ seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada
+ hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou
+ muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada
+ individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as
+ analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo
+ dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida
+ pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton
+ nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas
+ campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da
+ alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que
+ pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de
+ operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da
+ qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30
+ por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire
+ nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos
+ historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside
+ simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia
+ tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em
+ cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos
+ nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do
+ nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça
+ melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição
+ dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua
+ economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os
+ philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e
+ de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a
+ resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo
+ quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta
+ illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus
+ similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos
+ empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó.
+</p>
+<p>
+ Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos
+ de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento
+ supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em
+ respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na
+ Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à
+ travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de
+ uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os
+ vencidos jantavam no <i>Bignon</i> ou no <i>Café Anglais</i>.
+</p>
+<p>
+ Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e
+ reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia
+ affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o <i>statu quo</i> na
+ perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia
+ imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um
+ vestido e que sabe tambem&mdash;ó legítimo
+ orgulho!&mdash;<i>fazer doce</i>.&mdash;De mais a
+ mais&mdash;notem&mdash;sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos
+ offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada.
+ Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas
+ virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os
+ enthusiasmos da paixão»:&mdash;sua excellencia gosta de assucar!
+</p>
+<p>
+ Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os
+ meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber
+ licores para os botequins?
+</p>
+<p>
+ As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem
+ ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do <i>roast-beef</i> e da
+ agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos
+ unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas
+ poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o <i>box</i>, dão-lhes desde a
+ idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles
+ vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir
+ lá buscar.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo
+ segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que
+ Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais
+ d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras,
+ encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da
+ arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos
+ para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os
+ pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e
+ da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna,
+ pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade
+ conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em
+ trabalho e em força. Sua excellencia prefere <i>deixar todos esses
+ conhecimentos aos cuidados do dono da casa</i> (!) <i>cuja vontade considera
+ a lei suprema, na escolha de todos os artigos!</i>
+</p>
+<p>
+ Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua
+ excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a
+ bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de
+ <i>abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava</i> (!)
+</p>
+<p>
+ O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não
+ promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas
+ algemas!
+</p>
+<p>
+ Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua
+ excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a
+ jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe
+ constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de
+ poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O folhetim de sua excellencia termina com uma allusão pessoal à nossa
+ robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos
+ licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:
+</p>
+<p>
+ Eu&mdash;pois que é bom precisar a clareza dos numeros&mdash;eu, auctor d'estas
+ linhas, não me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calçada dos
+ Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos
+ homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirará d'este facto
+ a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua
+ excellencia não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que
+ me faz&mdash;para simplificar os dados do problema&mdash;o partir do principio de
+ que não tomei ease chá.
+</p>
+<p>
+ Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida
+ courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos
+ mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia
+ para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:&mdash;o phosphato de cal,
+ que eu ingeria em grandes dozes.
+</p>
+<p>
+ A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, não tinha saguão,
+ não tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não
+ tinha pia.
+</p>
+<p>
+ A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o
+ grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o
+ primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem
+ terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias
+ dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um
+ instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher:
+ Primeiro ser saudavel; Segundo não ser conhecida. No interior da sua
+ casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de
+ economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho
+ piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se
+ fechar de memoria d'homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se
+ desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de
+ cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um
+ dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execução
+ esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graça, de que era
+ modelo a incomparavel cosinha da minha avó,&mdash;aberta ao nivel do pateo
+ defronte do poço, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico
+ perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de
+ cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira
+ onde se espanejavam os capões; os tropheus ornamentaes dos instrumentos
+ agricolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a
+ masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do
+ fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos môços da lavoura tendo
+ em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada
+ com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas
+ efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervenção periodica
+ do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua
+ escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam
+ sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.
+</p>
+<p>
+ Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tepido aconchego, de
+ suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e
+ honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias
+ contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da
+ familia; explicava o amor á, terra da patria pela dedicação ás quatro
+ braças de solo cobertas por esse velho tecto.
+</p>
+<p>
+ A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual
+ os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da
+ poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e
+ fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
+ havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra
+ modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
+ educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da
+ saudade eterna dos seus netos.
+</p>
+<p>
+ A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a
+ minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
+ que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha
+ robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os
+ nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
+ das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
+ vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos
+ folhetins dos periodicos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
+ escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir.
+ Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem
+ chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.
+</p>
+
+<hr id="telephonio" class="major" /><!--===================-->
+
+<p>
+ Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o
+ telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.
+</p>
+<p>
+ Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
+ que sua magestade ouvira&mdash;um solo de cornetim!
+</p>
+<p>
+ Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
+ Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica <i>União e
+ Capricho</i>. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
+ Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a
+ arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.
+</p>
+<p>
+ A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre
+ as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
+ a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.
+</p>
+<p>
+ Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
+ accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
+ parece-nos um abuso que o principe não levará a bem.
+</p>
+<p>
+ Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro
+ coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas
+ conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso.
+</p>
+<p>
+ Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
+ O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é
+ verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a
+ vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
+ sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença
+ chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo
+ trecho de musica!&mdash;O que deve levar paulatinamente á loucura.
+</p>
+<p>
+ Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão
+ incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
+ contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
+ faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes,
+ ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
+ hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
+ ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro
+ remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
+ sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha
+ presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse
+ instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
+ tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos
+ cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o <i>Pirolito!</i>
+</p>
+<p>
+ E a posteridade nos abençoará.
+</p>
+
+<hr id="cemiterios" class="major" /><!--===================-->
+
+<p>
+ Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
+ hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder
+ politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
+ manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente
+ uns aos outros:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Não viram por ahi a hydra?
+</p>
+<p>
+ Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
+ entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr.
+ Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua
+ dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
+ imperfeito do verbo Mexer.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
+ presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser
+ hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
+ suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas
+ de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.
+</p>
+<p>
+ Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para
+ salvar a situação da falta da hydra:
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
+ Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal
+ pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
+ seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
+ haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
+ questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
+ exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
+ como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
+ que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as
+ d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
+ Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
+ esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
+ podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente
+ enterrado.
+</p>
+<p>
+ N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e
+ determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao
+ que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
+ municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e
+ discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios
+ alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
+ de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o
+ triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira
+ cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
+ uma formula. A sua formula é esta: «...<i>O bucentauro do progresso
+ rasgando os flancos da montanha</i> ...» Sempre que esse homem terrivel
+ arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
+ auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido
+ uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua
+ cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
+ o <i>bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha</i> que elle
+ triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
+ theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para
+ lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e
+ phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
+ e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro
+ estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica
+ ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
+ canonico extraidos do <i>bucentauro do progresso rasgando os flancos da
+ montanha</i>, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e
+ philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da
+ morte,&mdash;comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro
+ rasgando os supracitados flancos,&mdash;que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a
+ vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro&mdash;o que à
+ hydra parecerá sufficiente&mdash;mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
+ ainda parece pouco.
+</p>
+<p>
+ O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
+ fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
+ aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica
+ romana.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
+ dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
+ cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
+ consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
+ infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião,
+ cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica.
+ Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas
+ mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o
+ campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
+ discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão
+ eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
+ amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
+ orbe pela larga benção incondicional de Jesus.
+</p>
+<p>
+ Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
+ pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um
+ recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das
+ podridões privilegiadas.
+</p>
+<p>
+ Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
+ ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
+ pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
+ as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e
+ pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
+ no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem
+ terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais
+ sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
+ resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No
+ dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu
+ chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na
+ bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.
+</p>
+<p>
+ Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano
+ do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da
+ grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie
+ do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem,
+ nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
+ o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos
+ teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar
+ usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um
+ canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos
+ sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza
+ humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do
+ sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta.
+ És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires
+ para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
+ te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para
+ o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
+ distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
+ sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
+ chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
+ poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua
+ outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila
+ e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
+ doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
+ te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de
+ horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os
+ homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do
+ padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua
+ dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus
+ filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
+ entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as
+ suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo
+ tepido dos seus ligeiros <i>coupés</i>. Assim com as abençoadas sepulturas
+ dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos
+ enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram
+ cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um
+ bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
+ vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
+ preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,&mdash;cem
+ mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela
+ cidade inteira.
+</p>
+<p>
+ E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça
+ inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor
+ que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como
+ te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte:
+</p>
+<p>
+ No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o
+ canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
+ anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão
+ para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
+ os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das
+ catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio.
+ Não terás remedio senão acordar,&mdash;quer queiras, quer não&mdash;do teu pesado
+ somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois
+ ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
+ como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão
+ com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de
+ ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é
+ condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que
+ tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna
+ justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a
+ elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de
+ interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
+ dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande
+ voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
+ Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:&mdash;«Deram-lhe o
+ baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia?
+ Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O
+ cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a
+ esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará
+ para baixo, para as profundidades do immenso vortice:&mdash;«Fogo eterno para
+ um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
+ o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
+ sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição
+ eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.
+</p>
+<p>
+ Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros.
+ Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
+ mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
+ mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
+ Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam
+ Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
+ que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
+ cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
+ os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
+ collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não
+ resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
+ primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos
+ pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
+ impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
+ sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que
+ fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
+ contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o
+ ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo
+ por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
+ muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
+ esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou&mdash;porque o digamos
+ n'outros termos&mdash;a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que
+ pretendemos consultar s. exª:
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
+ não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se
+ por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir
+ entretendo.
+</p>
+<p>
+ N'esta hypothese pergunta-se:
+</p>
+<p>
+ Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
+ o capricho de descartar-me?
+</p>
+<p>
+ Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo
+ indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
+ escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros
+ impios e locomotores.
+</p>
+<p>
+ A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da
+ direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana.
+ Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia
+ baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
+ lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de
+ aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu <i>Volo</i>! E
+ este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
+ as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
+ parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da
+ carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
+ padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
+ tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o
+ resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem
+ varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
+ crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
+ compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de
+ todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje
+ contradisse&mdash;que me conste&mdash;as declarações latinas feitas em seu nome
+ por meu padrinho: <i>Volo, credo, abrenuntio</i>. Ella portanto é catholica,
+ e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no
+ paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio
+ dos atheus.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á
+ funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa
+ resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes:
+</p>
+<p>
+ Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a
+ communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
+ não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim
+ uma affirmação civil.
+</p>
+<p>
+ Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é
+ facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem
+ ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
+ substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha
+ perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo
+ o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente
+ demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o
+ attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
+ sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria;
+ não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no
+ exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
+ na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não
+ póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não
+ póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome!
+</p>
+<p>
+ A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna
+ antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe
+ pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada.
+</p>
+<p>
+ Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
+ nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da
+ igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para
+ dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu
+ pae e de minha mãe&mdash;a minha perna está prohibida de a ter sem que a
+ igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
+ de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
+ minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando
+ eu ouso dizer <i>a minha perna</i>, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
+ espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
+ deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna,
+ era&mdash;a perna da igreja.
+</p>
+<p>
+ Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
+ perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o
+ catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
+ recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
+ direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de
+ ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
+ anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira,
+ de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na
+ religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças
+ religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de
+ baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista.
+</p>
+<p>
+ Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em
+ Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim
+ separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não
+ obedecem&mdash;o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
+ dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
+ sua transgressão,&mdash;é claro que não póde ser unicamente pelo facto de
+ estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
+ designar a sepultura sagrada.
+</p>
+<p>
+ Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
+ outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
+ pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é
+ effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial
+ de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
+ e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o
+ contrario.
+</p>
+<p>
+ Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se
+ encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha
+ perna.
+</p>
+<p>
+ Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a
+ creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade
+ de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
+ padre, morrer sem padre.
+</p>
+<hr id="camara" class="minor" />
+<blockquote>
+<p>
+ Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
+ cidade do Porto ou quem suas vezes fizer&mdash;Paços da Camara na Praça Nova,
+ esquina do Laranjal
+</p>
+</blockquote>
+<p class="centered">
+ Porto
+</p>
+<p>
+ Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados
+ pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de
+ todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia
+ inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.
+</p>
+<p>
+ Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que
+ tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de
+ comparecer.
+</p>
+<p>
+ Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes
+ reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
+ pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
+ comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova
+ ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
+ presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei,
+ certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª!
+</p>
+<p>
+ Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
+ uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem
+ n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
+ violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
+ encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
+ maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto,
+ levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol.
+ Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
+ Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
+ caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
+ de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
+ Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
+ da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
+ <i>pignon</i> como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
+ reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados,
+ fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
+ ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa,
+ com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
+ trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
+ abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
+ os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
+ murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da
+ freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração
+ de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
+ torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
+ venezianamente na agua.
+</p>
+<p>
+ Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da
+ ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
+ proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação
+ humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
+ os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
+ os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
+ tinham um debrum de gente.&mdash;Enorme romagem nunca vista. A cidade do
+ Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do
+ paiz estavam ahi reunidos. Para que?
+</p>
+<p>
+ Para celebrar um puro facto scientifico&mdash;a solução de um problema de
+ mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que
+ phenomeno! que revolução!
+</p>
+<p>
+ Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de
+ determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
+ de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos
+ iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus
+ casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões
+ domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
+ os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os
+ mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a
+ longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos
+ caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de
+ plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.
+</p>
+<p>
+ Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum
+ pessoal.
+</p>
+<p>
+ Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
+ o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
+ exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma
+ funccionalidade diversa.
+</p>
+<p>
+ Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder
+ politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já
+ por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder,
+ irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
+ nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera
+ espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.
+</p>
+<p>
+ A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão
+ symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
+ mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
+ que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era
+ tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação,
+ que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
+ todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções
+ de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
+ A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
+ convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os
+ individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e
+ o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
+ progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
+ revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se
+ acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço
+ cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
+ outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
+ tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
+ episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de
+ conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
+ sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
+ força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
+ bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
+ vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
+ aperfeiçoamento e para a felicidade.
+</p>
+<p>
+ Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem
+ os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
+ dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi
+ elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
+ remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que
+ determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
+ das sociedades.
+</p>
+<p>
+ A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
+ victorias, um d'esses triumphos:&mdash;a conquista de perto de meio seculo de
+ paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
+ sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
+ progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
+ instituições.
+</p>
+<p>
+ Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
+ estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por
+ um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos
+ reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
+ nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo
+ com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo
+ debatida entre dois principes.
+</p>
+<p>
+ A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que
+ progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
+ milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
+ affirmação d'esse progresso.
+</p>
+<p>
+ A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
+ principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a
+ especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.
+</p>
+<p>
+ Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este
+ seu novo hospede? Não lhe apparecendo!
+</p>
+<p>
+ V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais
+ irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
+ satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª
+ que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
+ pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos
+ do seu stylo declamatorio&mdash;ao mesmo tempo alambicado e labrego&mdash;<i>as
+ chaves d'esse heroico baluarte</i> depostas em cada anno por v.
+ ex.ª&mdash;dizemos&mdash;não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
+ agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
+ extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma
+ cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.
+</p>
+<p>
+ Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece
+ completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades
+ democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
+ abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população
+ portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva.
+</p>
+<p>
+ É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
+ contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
+ com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
+ patuscada, para alguma das bem conhecidas <i>sapateiradas</i>, nas quaes todo
+ o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
+ forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª
+ nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a
+ sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
+ telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
+ teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
+ resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.
+</p>
+<p>
+ Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes
+ como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu.
+</p>
+
+<hr id="politica" class="major" /><!--===================-->
+
+<p>
+ Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
+ de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
+ os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.
+</p>
+<p>
+ Eis o que ao depois occorreu:
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes,
+ choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e
+ Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
+ estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de
+ suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?
+</p>
+<p>
+ &mdash;Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das
+ mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.
+</p>
+<p>
+ Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
+ bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão
+ aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.
+</p>
+<p>
+ E deixaram-o ir.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
+ com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
+ estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
+ orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos
+ deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
+ adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
+ homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
+ perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
+ abysmo,&mdash;sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na
+ redea.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
+ cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões,
+ retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a
+ saudade da mangedoura na alma.&mdash;Tão poderoso e fecundo é o ascendente
+ moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades
+ officiaes!
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha
+ do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
+ dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os
+ circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
+ sr. José Dias Ferreira.
+</p>
+<p>
+ Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder,
+ o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso:
+</p>
+<p>
+ &mdash;A mim, rapazes!
+</p>
+<p>
+ E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»&mdash;os rapazes foram a elle.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
+ assim elle mesmo?
+</p>
+<p>
+ Atonitos elles vêem&mdash;caso que os olhos se lhes recusam acreditar&mdash;que a
+ burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima!
+</p>
+<p>
+ Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o
+ sr. Fontes veloz encavalgara o poder.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões
+ do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a
+ Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
+ rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
+ depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o
+ seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
+ cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão
+ para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de
+ dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
+ nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o <i>Times</i>; e,
+ como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
+ estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr.
+ Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
+ commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a
+ delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª
+ abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque
+ de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
+ ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave
+ auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá
+ azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!
+</p>
+<p>
+ Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
+ da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
+ causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
+ durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa
+ intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
+ bolsa do alforge ministerial.
+</p>
+<p>
+ Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra,
+ enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo
+ logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
+ nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com
+ arnica o seu galo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve
+ jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
+ eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
+ Fontes pelos <i>gentlemen</i> do <i>turf</i> politico.
+</p>
+<p>
+ O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
+ como o <i>Gladiateur</i>, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre
+ estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns
+ kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª
+</p>
+
+<hr class="major" /><!--===================-->
+
+<p>
+ Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores
+ deputados:
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
+ funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
+ os parapeitos até ao tecto.
+</p>
+<p>
+ Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre
+ o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.
+</p>
+<p>
+ Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um
+ individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
+ resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
+ publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
+ dôr&mdash;Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.
+</p>
+<p>
+ Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
+ encasados nos seus <i>fauteuils</i>. Não teem uma apparencia espirituosamente
+ feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço
+ com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos
+ calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.
+</p>
+<p>
+ No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o
+ coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.
+</p>
+<p>
+ Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.
+</p>
+<p>
+ Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
+ amplas sobrecasacas pomposas. Sente&mdash;se que elles respiram com exforço.
+ O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
+ Robespierre&mdash;São os empaturrados da coisa publica.
+</p>
+<p>
+ Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés
+ mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos
+ sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que
+ descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.&mdash;São os espinhelas
+ cahidas do systema que felizmente nos rege.
+</p>
+<p>
+ No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de
+ inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
+ dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma
+ sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
+ inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Sr. presidente&mdash;diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca,
+ lacrimejante&mdash;Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.
+</p>
+<p>
+ Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
+ estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
+ cabeça.
+</p>
+<p>
+ Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
+ vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
+ estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma
+ resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido
+ mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação,
+ a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
+ submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
+ face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
+ resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
+ sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a
+ constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em
+ extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
+ lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
+ moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
+ botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do
+ trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão
+ ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e
+ da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica
+ constitucional.
+</p>
+<p>
+ Diz mais o orador:
+</p>
+<p>
+ &mdash;«Sr. presidente!&mdash;e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e
+ pathetica&mdash;li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
+ investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
+ inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
+ isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram
+ aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
+ porque elles serão consolados».
+</p>
+<p>
+ E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
+ camara:&mdash;«Muito bem! muito bem!»
+</p>
+<p>
+ Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por
+ Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin
+ e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo
+ victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas
+ questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores
+ desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos
+ srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate.
+ Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
+ ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
+ Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
+ Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
+ alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita
+ dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
+ d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
+ crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não
+ queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este
+ moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da
+ nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
+ collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no
+ meio dos applausos geraes de todo o parlamento.
+</p>
+<p>
+ E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a
+ applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.
+</p>
+<p>
+ A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está,
+ como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de
+ Kant, de Hegel e de Hartman.
+</p>
+<p>
+ Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da
+ philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
+ precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
+ grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela
+ indisciplina mental.
+</p>
+<p>
+ Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo
+ philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.
+</p>
+<p>
+ Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases
+ definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
+ para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho
+ triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o
+ filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.
+</p>
+<p>
+ Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande
+ peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de
+ pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi
+ o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
+ politico do imperador Guilherme?
+</p>
+<p>
+ Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal
+ senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica
+ arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha?
+</p>
+<p>
+ Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
+ vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos
+ preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua
+ ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na
+ peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
+ certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
+ pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado
+ philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e
+ contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
+ pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
+ linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua
+ elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
+ actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza.
+</p>
+<p>
+ Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão
+ experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino
+ humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande
+ maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se
+ indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da
+ sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta
+ noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.»
+</p>
+<p>
+ A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de
+ esphacelamento cerebral.
+</p>
+<p>
+ Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de
+ caturras?&mdash;É unicamente o que perguntamos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara
+ governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a
+ coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão
+ social.
+</p>
+<p>
+ A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por
+ fazer.
+</p>
+<p>
+ A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo
+ o principio em que se funda.
+</p>
+<p>
+ A distribuição racional do imposto ainda não foi definida.
+</p>
+<p>
+ Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de
+ uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma
+ Turquia está muito adeante de nós.
+</p>
+<p>
+ Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem
+ destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e
+ dissolvem-se na banalidade.
+</p>
+<p>
+ As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos
+ personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás
+ camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as
+ mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade.
+</p>
+<p>
+ Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para
+ assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses
+ exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a
+ burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso
+ moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de
+ cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento
+ similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a <i>revolução do despreso</i>.
+</p>
+<p>
+ Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de
+ circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos
+ do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de
+ funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal?
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É
+ catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é
+ militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma
+ electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado;
+ quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito
+ permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena
+ de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de
+ governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,
+ uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica
+ de cordas, uma photographa, etc.
+</p>
+<p>
+ Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se
+ disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que
+ pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido
+ opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o
+ partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente
+ conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É
+ evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da
+ industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção
+ das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a
+ universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a
+ magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o
+ governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se
+ distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,
+ a photographia, a cordoaria, a fundição, etc.
+</p>
+<p>
+ A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de
+ não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade
+ e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o
+ partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder
+ perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e
+ a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não
+ pódem constituir principios de programma, são communs a todos os
+ partidos ou não são especiaes de partido nenhum.
+</p>
+<p>
+ Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos
+ mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia
+ completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando
+ constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo
+ vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e
+ digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica
+ converte-se fatalmente em uma questão de compadres.
+</p>
+<p>
+ O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo,
+ corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o
+ appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo
+ appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos
+ compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou
+ diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no
+ favor da urna.
+</p>
+<p>
+ O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma
+ todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a
+ expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria
+ consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria
+ commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas!
+</p>
+<p>
+ Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais
+ competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e
+ de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem
+ moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido:
+ a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos
+ preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,
+ é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo
+ deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito
+ e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado,
+ aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o
+ insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever.
+</p>
+<p>
+ Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e
+ como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de
+ <i>compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria</i>. E do
+ ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão
+ correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz
+ apenas:&mdash;É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o
+ compadre, vou para o partido d'elle.
+</p>
+<p>
+ O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do
+ machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do
+ governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir
+ o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de
+ que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando
+ como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a
+ engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a
+ tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.
+</p>
+<p>
+ A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa
+ contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,
+ esse poder é unicamente&mdash;o da comadre.
+</p>
+<p>
+ A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no
+ dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais
+ rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra&mdash;palavras, palavras,
+ unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,
+ real; compadrice, comadrice&mdash;eis tudo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja
+ decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que
+ ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma
+ miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse
+ remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de
+ quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos,
+ socialistas, federalistas, positivistas&mdash;o que quizerem&mdash;com tanto que
+ sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia
+ e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio
+ philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa
+ que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe
+ resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo
+ reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das
+ concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos
+ revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos
+ conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento
+ actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos
+ mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que
+ sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto
+ pela municipalidade de Lisboa:&mdash;tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas
+ que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:
+ caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento&mdash;<i>dealbatum
+ sepulchrum</i>!
+</p>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 13092 ***</div>
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+</html>
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+The Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878
+by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Farpas (Janeiro 1878)
+
+Author: Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz
+
+Release Date: August 2, 2004 [EBook #13092]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+
+
+
+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
+Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional
+de Lisboa.
+
+
+
+
+
+[Illustration: EA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGO--AS FARPAS]
+
+RAMALHO ORTIGO--EA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL
+
+DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878
+
+Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
+da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
+universo, e da adorao de mim mesmo.
+
+P.J. PROUDHON
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+
+A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, Jos de Alencar,
+Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello
+d'aquella dama. A nossa resposta. No, a mulher portugueza no sabe
+fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A
+litteratura feminina e a cozinha de minha av.--Da influencia dos hymnos
+sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios.
+A interveno do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A
+cabelleira e a formula de s. ex. Mostra-se que s. ex. no o velho
+Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro
+civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A
+situao politica. As ultimas sesses parlamentares. Alguns perfis. Os
+partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governao.
+
+No breve espao dos ultimos quinze dias a humanidade pagou morte um
+pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.
+Deixaram de existir, em Frana Raspail e Courbet; na Italia Victor
+Manuel, no Brazil Jos de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.
+
+Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo
+imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas foras
+sociaes do mundo moderno, a poro mais fecunda e mais gloriosa da
+grande alma do povo.
+
+Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou to vastas e to
+profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos
+descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e
+pde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia
+microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, no como uma dependencia
+da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o
+que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do
+suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de
+Ville a Republica de 48.
+
+Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias
+physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias
+socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo,
+economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio
+profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros,
+das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as
+instituies politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma
+judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo
+caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o
+favor, com lodo o auxilio, com toda a collaborao official. Recusou
+todas as distines honorificas, todos os cargos publicos, todos os
+diplomas scientificos ou litterarios. As suas observaes astronomicas,
+os seus trabalhos de chimica, as suas applicaes do microscopio ao
+estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde
+dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no
+isolamento austero da independencia o do sacrificio.
+
+Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno
+e do Bernardo Palissy.
+
+A academia franceza, commovida com uma to exemplar grandeza d'alma,
+resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca
+do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o
+homem que mais servios tinha prestado sciencia e humanidade.
+
+Guizot, ento ministro da instruo publica, interveio na resoluo da
+academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da
+rebelio_.[1] O chefe do partido conservador francez no podia esquecer
+que fra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior,
+em plena Restaurao, ousara fulminar a votao da lista civil com a
+phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de
+cadeia: Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias
+todo o cidado que ousasse pedir Frana 14 milhes para viver.
+
+[Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma
+cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a
+desgraa de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois
+crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]
+
+ que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi
+egualmente o brao constantemente pronto para resistir.
+
+Portentosa existencia, que ficar na historia entre as mais bellas e
+mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae
+carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, comeou por ser um
+theologo. Era porm de tal modo intenso e explosivo o seu amor de
+verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos
+dezenove annos, acabou por alcanar a gloria immarcessivel de ser
+condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da
+liberdade de pensamento!
+
+O poder espiritual do mundo moderno era representado em Frana por uma
+trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a fora do sentimento; Raspail, a
+fora do trabalho; Littr, a fora da philosophia.
+
+D'esses tres ancios o primeiro que desceu ao tumulo o que mais
+fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram
+so d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse
+exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em
+nenhuma outra parte mais precioso do que na sociedade portugueza, onde
+as idas radicaes, que so as sentinelas avanadas da civilisao, to
+raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a
+mocidade mais vivaz e intelligente est defendendo no parlamento e no
+jornalismo as opinies mais retrogradas, onde finalmente o futuro no
+tem partido.
+
+Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverana e a firmeza no
+corao d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se
+sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez
+calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeioamento dos seus
+similhantes!
+
+Que todos os que so moos e fortes se inclinem sobre esta campa onde
+repousa um triumpho, e reflictam, que na pedra tumular de Raspail que
+devero aguar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela
+consciencia e pela verdade!
+
+ * * * * *
+
+Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um
+idal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas
+instituies sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a
+derrocar pela pintura a inspirao da antiga arte assim como derrocou
+pelo uso do poder executivo a columna da praa Vendme. Louvavel
+empenho, porque Courbet considerava essa inspirao uma fonte envenenada
+para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um
+symbolo ultrajante para a dignidade humana.
+
+A demolio da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com
+palavras to resentidas e acerbas, no poder deixar de ser um dia
+olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos
+principios de justia social constantemente professados pelo immortal
+artista.
+
+Courbet foi condemnado a pagar a reconstituio da columna. Breve porm
+soar a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar
+puerilmente que se deve ser
+
+_Fier d'tre franais
+Quand on regarde la colonne!_
+
+Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora,
+comprehender em pouco tempo que uma injuria ao seu bello destino na
+obra da conciliao humana a ostentao orgulhosa de um monumento que o
+distico diz ser: _levantado gloria do grande exercito por Napoleo o
+Grande!!_
+
+Paris, qua vae na proxima exposio celebrar dentro do regimen
+republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo
+municipio acaba de votar 546 contos de ris para os seus
+estabelecimentos publicos de instruco primaria ao anno corrente, Paris
+que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos reorganisao
+dos seus lyceus, no poder manter em p por muitos annos mais, em uma
+das suas praas publicas, um symbolo que contradiz todas as suas
+aspiraes philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores
+nodoas da civilisao: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os
+direitos do homem, a sujeio da Frana aos caprichos de um despota em
+cuja fronte as justias da historia estamparam j o ferrete da ignommia.
+
+A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou
+um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradies marciaes
+da gerao actual o sol de Austerlitz.
+
+Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a
+que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravar,
+ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendme e
+pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de
+remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na
+maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que
+ser uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em
+que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na
+pratica dos seus actos a opinio do seu tempo.
+
+ * * * * *
+
+Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico
+de Godofredo de Bulhes. Poderia como elle decepar de um s golpe da
+espada a cabea de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como
+elle uma cruzada,--a cruzada de Novara at Roma, como elle chegou a
+terra promettida; morreu moo como elle, como todos os heroes que tendo
+realisado na terra uma grande misso, se sentem de repente invadidos na
+alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos
+fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas
+dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes,
+mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos,
+atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmes mais rijos s
+altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais
+encanto e com mais prestigio fadiga, ao perigo, s mulheres e morte.
+Era evidentemente um forte. E como a fora o maior de todos os
+attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si to
+contradictorias sympathias e to heterogeneas affeies: foi o amigo do
+Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.
+
+Feliz homem!
+
+ * * * * *
+
+A morte de Jos de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_,
+representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, to
+notavel nos ultimos tempos pela cooperao dos seus poetas e dos seus
+pensadores.
+
+Na sociedade do Brazil, que o principio da escravido desviou por tantos
+annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a
+organisao moderna do trabalho livre ao mesmo tempo a creao de um
+novo elemento social--o povo.
+
+Jos de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando
+poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem
+synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e
+decide da sorte dos imperios.
+
+Elle, que alcanra um dos mais luminosos logares entre os homens mais
+celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade,
+procedera da roda dos expostos.
+
+Esse engeitado era a personalisao mais gloriosa da soberania do
+trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno
+da arte a sua larga espada de justia, vestindo a tunica e a dalmatica
+azul, calando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e
+fazendo-se ungir e sagrar pelas multides como os antigos eleitos do
+senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante,
+que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: Deus te elegeu para
+reinar sobre a sua herana e para livrar os povos das mos dos seus
+inimigos.
+
+ * * * * *
+
+Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce
+consolao de cumprir um destino, consolao compensadora de tantas
+amarguras e de tantos sacrificios, no foi concedida na terra quella
+natureza essencialmente desgraada.
+
+Tinha um incomparavel poder de applicao e de estudo e ninguem possuia
+em Portugal uma proviso mais copiosa de noes e do factos. Foi o
+collaborador do Alexandre Herculano nas investigaes da historia
+nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem
+melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos
+nossos costumes e das nossas tradies. Era archeologo, diplomatico,
+jurista, bibliographo. No havia inscripo truncada na epigraphia nem
+texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade
+portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresena de quanto
+tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e
+incessante. Era um tomo de erudio vastissima, assombrosa, que ninguem
+consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do
+direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e
+da lingua.
+
+Faltava-lhe porm no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da
+generalisao. No sabia tirar dos factos as leis de que elles so a
+funco. No sabia correlacionar. No tinha o poder creador. Por esse
+motivo a isolao suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um
+instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulso de energias
+concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle
+estava condemnado a submetter-se para ser uma fora na civilisao,
+repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente
+aggravada por uma falsa educao.
+
+Essa capacidade to prodigiosa de contenso, de investigao, de exame,
+de absorpo de idas, estava na sua natureza alliada a um temperamento
+caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na
+infancia, no poderia fatalmente deixar de ser o que era: um
+sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios
+da sua inquieta o attribulada existencia.
+
+A indifferena perante o conflicto uma nobre virtude. Raros a possuem.
+O que succede com as naturezas vulgares que a nossa resoluo ba,
+conscientemente reflectida, reforada na mais legitima compenetrao do
+dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que
+vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e ns
+precisamos de reagir sobre ns mesmos com toda a fora da nossa coragem
+para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a exploso da
+crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da
+palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado
+vamos lanar ao corao d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa
+virtude, to rara, to viril, de desmanchar implacavelmente prazeres
+para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho
+no estado de uma exagerao pathologica. O conflicto na convivencia
+social no somente lhe no repugnava mas attrahia-o--como succede s
+mulheres nervosas.
+
+Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creana. As
+suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua
+sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta
+pela mesma raso de que ninguem teve egualmente a compaixo mais facil.
+Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou
+lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas
+sesses da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior
+de Lettras no conheceram seno metade d'essa physionomia to
+caracteristicamente meridional nos traos moraes como nas frmas
+physicas.
+
+Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar
+obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro
+andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da
+camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de
+Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os
+quaes aquella humilde casa de litterato, to hospitaleira e to pobre,
+tinha altractivos que no podiam propornionar s exigencias dos
+philosphos e dos principes, os mais brilhantes sales de Lisboa. Era
+preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o
+nervosismo do seu corao com a mesma prodigalidade cem que nas
+assemblas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro
+imperfeitamente orientado.
+
+Quando alludia sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto
+da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara
+alegremente a p nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o
+estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda
+ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_
+nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o
+canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando
+descrevia as madrogradas da caa s perdizes no monte de S. Felix, ou as
+outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os
+clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo danar pelos caminhos as
+bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros,
+aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe,
+negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua
+voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no
+maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluos,
+estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom
+sitio amado, uma velha cano querida.
+
+Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em
+que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da
+sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi
+sepultado n'este medonho tumulo--o despreso.
+
+Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou at o seu ultimo
+dia. Ha cerca de um anno padecia uma dr sternalgica, symptomatica do
+aneurisma. Esta dr lancinante, que o privava do movimento, forando-o a
+parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de
+madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua
+biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se pressa um medico.
+Inutilmente. Elle estava morto.
+
+Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto
+Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de
+acrescentar que a reputao to frequentemente discutida d'esse
+traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem
+o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.
+O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios
+e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipies
+illustres e dos Cates celebres achem sempre nos seus heroes tantas
+qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica,
+quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela
+maledicencia.
+
+ * * * * *
+
+Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigo_--publicou o _Diario da Manh_
+o folhetim seguinte:
+
+_Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educao--Um programma de
+ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipao das
+mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o
+estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais
+caldo_.
+
+Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de ns
+deixaria de ler com a maxima atteno um artigo escripto pelo sr.
+Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma
+de certo. E para que se no diga com verdade que o grito afflictivo do
+paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgo, pedindo-nos caldo, no foi
+ouvido por uma s mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho
+por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe no s _caldo_, mas
+tambem _luz_, que o alumie nas suas investigaes cerca d'um assumpto,
+que realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex. attribue
+nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre ns, to tremenda
+responsabilidade.
+
+Se o assumpto de que se trata, no fosse realmente grave,
+contentar-nos-hiamos com o praser que nos d sempre a leitura dos
+escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu
+espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: pena
+que os escriptos do sr. Ramalho no sejam mais succulentos! so como os
+caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica,
+depurados at transparencia, muito aromatisados ... mas sem
+substancia.
+
+Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla
+sempre de ns, que no tem raso para nos querer mal; e que como filho,
+esposo e irmo de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmo,
+deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor
+vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Oua-me pois.
+
+No ensine sr. D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se
+faz esse alambicado caldo francez, to purificado, que por fim como o
+proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor
+sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os
+classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam
+nossas avs, e como ns todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal
+agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formao das suas
+idas, , como s. ex. diz a sua alimentao, no esqueamos que foi
+comendo esses caldos e quasi s com elles, que os energicos e valentes
+portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na
+Africa, e na Asia praticaram aces de to prodigioso valor. E descendo
+ historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos
+lidadores da epopa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo
+nacional e ento infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua
+heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se
+incommodasse com a dyspepsia nacional. s com caldo, e com bra que
+todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que
+supportam, sem cansao, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia,
+os mais rudes trabalhos; e comtudo no soffrem de dyspepsia. Ser por
+terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem
+preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas
+rases, visto que o sr. Ramalho quem nol-o affirma.
+
+A dyspepsia no em Portugal uma doena nacional, quasi privativa dos
+homens das classes elevadas--e quer que lhe digmos porque? Porque elles
+teem com raras excepes, uma mocidade dissipada; porque na idade dos
+quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemes fazem
+consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e
+todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os
+portuguezes vo descanar das lides do estudo nos bancos dos botequins e
+das tavernas, onde considerado heroe aquelle que come e bebe mais
+brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices
+de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se
+chama dar uma salva real! Desculpa-os porm o axioma do nosso codigo de
+educao: que preciso dar muita cabeada para vir a ser homem serio.
+
+Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que ns, todos os perigos porque
+passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, at que
+chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de
+lhes regenerar os costumes, e ver que, quando chegarem a ser chefes de
+familia, seu natural destino, no precisaro de encontrar na esposa o
+brao forte que lhes seja amparo, e tero o estomago so como em
+crianas, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle no
+seja perfeitamente transparente, e at quando tenha seus vestigios de
+gordura. Faa isto que lhe pedimos, e todas ns bemdiremos o seu nome,
+pois d'este modo ter prestado um importantissimo servio ao seu paiz.
+
+O seu programma para a educao das mulheres parece-nos excellente para
+a Frana, Inglaterra e outros paizes onde as meninas so educadas nos
+collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanas que os
+frequentam comem e dormem em casa, essa educao que nos habilita a ser
+boas _mnagres_, j que o sr. Ramalho gosta de francezismos,
+recebemol-a ns todas com o exemplo e lio de nossas mes.
+
+Em Portugal onde todo o servio domestico geralmente feito em casa,
+todas ns sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como
+se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que no
+fazem esses servios sabem como elles so feitos, pois desde crianas os
+viram fazer. O que no sabemos, l isso no, _differenar os
+differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas
+mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto
+considerarmos, como at agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a
+suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos
+falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.
+
+Em quanto nossa educao moral, estamos convencidas que em paiz nenhum
+as mulheres so mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais
+sobrias e economicas, mais submissas vontade do marido que ns, e toda
+a eloquencia do sr. Ramalho no capaz de abalar sequer a nossa
+convico.
+
+Em Frana e em Inglaterra ha muitas mulheres--por
+profisso--enfermeiras, aqui no as ha seno nos hospitaes, e nem se
+lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella
+seja me, esposa, filha, irm, ou mesmo criada, ha uma enfermeira
+sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os
+horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens
+energicos e audaciosos.
+
+Para sabermos fazer prodigios de economia no precisamos de nos alistar
+n'uma escola ingleza, e, se o no soubessemos, a primeira mulher do povo
+que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se pde
+sustentar uma familia com 18$000 ris por semana, mas n'essa familia--o
+chefe, que trabalha do nascer ao pr do sol, sustenta-se comendo tres
+tigellas de caldo que lhe custam 10 ris cada uma, 20 ris de sardinhas,
+e 10 ris de bra por dia: total 90 ris.
+
+Convena os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este
+alimento muito sufficiente para lhes conservar robustas as foras
+vitaes, e ver como ns todas fazemos economias prodigiosas, e como uma
+casa deixar de ser uma _lba_ para se transformar n'uma _burra_.
+
+Mas se considera como o ideal da perfeio na mulher, ser ella o _brao
+forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos
+exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e
+guiando barcos no nosso Douro para ganhar o po dos filhos, em quanto os
+maridos ficam em casa cosinhando: j v que para qualquer de ns
+realizar o seu ideal basta casar em Avintes.
+
+A educao intellectual das mulheres, quando ellas se no dediquem a ser
+mestras, pde, e at deve, assim como a moral, receber, como complemento
+necessario, as lioes dos homens de quem forem esposas. Assim
+reconhecendo no marido superioridade em tudo, at mesmo nos
+conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse
+respeito que a religio e a sociedade nos impem como o primeiro dever
+da esposa.
+
+Em quanto emancipao das mulheres, esse sonho dourado das senhoras
+inglezas--ns, menos profundas pensadoras, no o queremos.
+
+Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores
+physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser me, nos
+ensina a todas, que a nossa misso na terra, saber soffrer e amar, por
+isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que
+acaba de nos fazer soffrer as dres da maternidade, e abenoamos
+reconhecidas a mo que prende as nossas algemas de escravas, quando essa
+mo a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixo,
+encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.
+
+Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida
+como at agora, poderia ser apresentada como modelo s naes mais
+civilizadas da Europa.
+
+Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua
+irm e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua
+intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa
+sua robustez physica, a sua grande cabea na qual o chapo de Thiers ou
+de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros,
+que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaos dos
+circos o trabalho de fazer rir o publico.
+
+Em paga de todos os favores, que lhe peo, prometto fazer-lhe s um, mas
+esse importantissimo.
+
+No dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o
+sr. Ramalho, seno julgal-o-hiam to criminoso como quem maldiz dos
+seus.
+
+Sua
+
+_Irm de Caridade_
+
+ * * * * *
+
+Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que
+effectivamente escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle
+ para ns de um valor inestimavel. Este folhetim a mulher. No somos
+j agora ns que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a
+retratar. ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um
+espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa
+acquisio da nossa galeria. No somos ns que a descrevemos, que a
+phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um
+lapis suspeito de inhabilidade ou de m f. Vem que ella mesma que
+apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua
+prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores!
+queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!
+
+Ahi a teem! assim que ella . No ha artificio, no ha preparo, no ha
+processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade
+mesma. Reparem bem, meus senhores, que no Proudhon que a descreve,
+no Coubert que a pinta, no Offenbach que a pe em musica. ella
+mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.
+
+O que estaes contemplando a obra da direco mental que ns mesmos
+imprimimos ao nosso tempo, o fructo legtimo e authentico da
+philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idas que
+temos produzido e impulsionado: a nossa mulher tal como nol-a fizeram
+os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro.
+Revde-vos na vossa obra.
+
+Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e
+de p de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de
+recitao ao piano e de taces Luiz XV, de collegio nacional e de
+_cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.
+
+Vede que lucidez de razo! que firmeza de criterio! que contenso de
+raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades
+intellectuaes a circulao facil e viva atravez da rede dos nervos
+encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente s que to
+vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler
+presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais
+racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira
+de pensar podeis ajuizar com segurana da sua forte maneira de viver.
+Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vs
+mesmo pelo que lhe ensinastes.
+
+ * * * * *
+
+Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz
+interprete, dirigi-se s _Farpas_ na pessoa do seu auctor.
+
+O que so as _Farpas_ com relao s mulheres?
+
+As _Farpas_ so a publicao periodica--unica em Portugal--que em
+artigos consecutivos desde a sua appario at hoje se tem
+constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica
+reconstituio dos costumes e reorganisao da familia segundo o
+criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido
+violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde
+dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o
+flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento
+indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituies perante a
+dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijo physiologico
+e social; teem dado como base emancipao da mulher a instruco
+pratica, to defficiente, e a alta cultura do espirito, to
+negligentemente descurada na antiga educao; teem-lhe ensinado que
+aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrir o segredo de
+ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua
+collaborao no estudo dos modernos problemas sociaes como factor
+indispensavel fixao do nosso destino; teem pedido instantemente para
+ella a fundao de novas escolas de ensino especial e de ensino
+superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos
+palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas
+amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas
+filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da
+cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor
+dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito
+presente de uma infinidade de theorias, de noes, de projectos, de
+systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--
+claro--mas demonstrando uma dedicao excepcional, por isso que nenhuma
+das publicaes periodicas que precederam esta se dirigiu jmais s
+mulheres a no ser para lhes consagrar romances de uma moralidade
+suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.
+
+Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleo das _Farpas_
+uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe
+o seguinte conselho como resumo da opinio collectiva de todas as damas
+portuguezas:
+
+Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhaos dos circos_ o
+trabalho a que at aqui se tem dado de fazer rir os outros!
+
+Este simples conselho como um relampago, nas trevas do nosso espirito.
+Elle de per si s basta para nos convencer de que a educao das
+senhoras portuguezas no s igual--como a auctora modestamente
+formula-- das primeiras mulheres extrangeiras, mas que pde mesmo
+considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de
+Girardin, Lady Morgan no tiveram nunca para dirigir a um escriptor
+qualquer--amigo ou adversario--uma palavra to lucida, to conceituosa,
+to profunda e ao mesmo tempo to finamente aristocratica, to
+nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio
+da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que no somos
+mais que _um palhao de circo_, opinio profundamente philosophica.
+talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos
+lessem. natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas,
+entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho
+cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas
+recordaes perdidas da sua carteira ou do seu corao, um pequeno meio
+qualquer de no chamarem completamente palhao com todas as suas cinco
+lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a--o_ a um homem a quem os
+seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.
+
+Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia
+e da sua propria dignidade uma comprehenso diversa, que no podemos
+deixar de attribuir com orgulho patriotico influencia local da rua de
+Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.
+
+No menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta
+compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e
+chimica culinaria s mennas portuguezas. Se sua excellencia tivesse
+effectivamente a instruo que ns pretendemos que se lhe deve dar; se
+sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre misso da mulher
+, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que
+estava apta para cumprir no seio da sua familia essa misso, sua
+excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da
+nutrio, a evoluo cellular, a relao existente entre os phenomenos
+da nutrio e do desenvolvimento, do movimento e da combusto; se nos
+mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares
+pelas suas classificaes mais genericas, os que fornecem o calor e a
+fora e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que
+sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples
+caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos
+eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital
+pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada hygiene,
+pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as
+substancias alimentcias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene
+alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas lies e conferencias, pelo
+sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentao insuficiente, pelos
+srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud,
+Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua
+excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira
+tintura--alguma das noes em que se basea a theoria da cosinha, que
+um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o
+seu voto n'esse caso poderia ter discusso.
+
+A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este
+assumpto d ao seu voto um caracter irrevogavel, que no pode infundir
+nos adversarios seno admirao e respeito.
+
+ inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham
+dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o
+seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada
+hora, j dormindo, j caminhando, j executando um trabalho mental ou
+muscular, para regular sobre este dispendio a rao alimentar de cada
+individuo. inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as
+analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo
+dos diversos alimentos e da quantidade de fora e de calor desenvolvida
+pela oxydao d'elles. inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton
+nos tenham mostrado pela comparao das estatsticas da salubridade nas
+campanhas da Crima e da Italia o extraordinario poder da qualidade da
+alimentao sobre a saude e sobre a energia dos soldados. inutil que
+pelo estudo de iguaes estatsticas com relao alimentao de
+operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da
+qualidade da alimentao resulta o augmento ou a diminuio de 20 a 30
+por cento no trabalho de cada homem. inutil que Geoffrey Saint-Hilaire
+nos tenha dito: Quantos factos na vida das naes attribuidos pelos
+historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside
+simplesmente na cosinha das familias!. inutil que toda a sciencia
+tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em
+cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos
+nervinos uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do
+nosso tempo; que indispensavel perante a moral e perante a justia
+melhorar a alimentao dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisio
+dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua
+economia. inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os
+philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisao e
+de associao chamar a atteno das mulheres para o estudo e para a
+resoluo d'esse grave problema cuja sede a cosinha. inutil tudo
+quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta
+illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus
+similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos
+empyricamente do que por tel-o visto fazer cozinheira da sua av.
+
+Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradio sobre os methodos
+de deitar a carne panella nas cosinhas da sua rua este argumento
+supremo: Foi com essa panella frente que os portuguezes contiveram em
+respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na
+Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraados
+travessa do cosido que nossos avs descobriram a India e que os paes de
+uns de ns resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os
+vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Caf Anglais_.
+
+Em presena d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e
+reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia
+affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na
+perfeita educao da mulher portugueza. Continue sua excellencia
+imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um
+vestido e que sabe tambem-- legtimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a
+mais--notem--sua excellencia faz doce! No! positivamente nada se nos
+offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. No precisa de saber mais nada.
+Ahi tem sua excellencia uma opinio que lhe garantir as solidas
+virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os
+enthusiasmos da paixo:--sua excellencia gosta de assucar!
+
+Quem sabe se no ser por um effeito do atavismo sobre a gula qae os
+meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vo beber
+licores para os botequins?
+
+As mes dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem
+ellas mesmas no a opinio do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da
+agua fria; no fazem doce, fazem gymnastica, e no ensinam os filhos
+unicamente a comer marmelada, a ir novena e a no metter os ps nas
+poas; ensinam-lhes o cricket, a natao e o _box_, do-lhes desde a
+idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles
+vo para os botequins, no costumam encarregar os criticos de lh'os ir
+l buscar.
+
+ * * * * *
+
+Sua excellencia no se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo
+segundo os preceitos de Liebig, que ns lhe aconselhamos suppondo que
+Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais
+d'isso do que o Antonio das Mas, celebre inculcador de cosinheiras,
+encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da
+arte culinaria. Sua excellencia no s no quer fazer caldo em termos
+para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os
+pratos e os copos, determinar a differena de cr nos estofos do salo e
+da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna,
+pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto sociedade
+conjugal um servio igual quelle que recebe d'ella em proteo, em
+trabalho e em fora. Sua excellencia prefere _deixar todos esses
+conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera
+a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_
+
+Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funces que sua
+excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma no tivesse a
+bondade de nos explicar que a occupao para que se reserva a de
+_abenoar agradecida a mo que prende as suas algemas de escrava_ (!)
+
+O que nos parece que esse mister exclusivo de sua excellencia no
+promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas
+algemas!
+
+Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua
+excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abenoar os ferros, a
+jogar a bisca. O nosso temperamento no nos permittiria estar a dar-lhe
+constantemente o grilho a abenoar; quereriamos ter a faculdade de
+poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma ba rlha.
+
+ * * * * *
+
+O folhetim de sua excellencia termina com uma alluso pessoal nossa
+robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos
+licena para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:
+
+Eu--pois que bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas
+linhas, no me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calada dos
+Clerigos. No, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos
+homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirar d'este facto
+a concluso maliciosa de que no tomei ch em pequeno. Que sua
+excellencia no hesite um momento em tirar tal conclso! at favor que
+me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de
+que no tomei ease ch.
+
+Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida
+courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos
+mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia
+para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouo:--o phosphato de cal,
+que eu ingeria em grandes dozes.
+
+A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, no tinha saguo,
+no tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, no
+tinha pia.
+
+A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o
+grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o
+primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem
+terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias
+dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um
+instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher:
+Primeiro ser saudavel; Segundo no ser conhecida. No interior da sua
+casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de
+economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho
+piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se
+fechar de memoria d'homems s 10 horas da noite, o mais tardar. No se
+desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de
+cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um
+dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execuo
+esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graa, de que era
+modelo a incomparavel cosinha da minha av,--aberta ao nivel do pateo
+defronte do poo, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico
+perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de
+cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira
+onde se espanejavam os capes; os tropheus ornamentaes dos instrumentos
+agricolas; as prateleiras da loua reluzente; o cortio da barrela e a
+masseira do po a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do
+fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos mos da lavoura tendo
+em cima a grande celha com a braada verde dos frescos legumes picada
+com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas
+efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a interveno periodica
+do mendigo de estrada, de alforge ao pescoo, que vinha encher a sua
+escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam
+sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.
+
+Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensao de tepido aconchego, de
+suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e
+honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias
+contadas lareira; infundia o respeito da tradio; dava o amor da
+familia; explicava o amor , terra da patria pela dedicao s quatro
+braas de solo cobertas por esse velho tecto.
+
+A cosinha de minha av era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual
+os mais bellos quadros da escola flamenga, to penetrados como so da
+poesia domestica, no poderam dar-me jmais seno uma ideia desbotada e
+fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
+havido em Portugal no pode seno fazer-me sorrir comparada obra
+modesta de minha av, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
+educaao das suas filhas, para a fixao do respeito, da venerao e da
+saudade eterna dos seus netos.
+
+A minha robustez physica o mais contraproducente dos argumentos que a
+minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
+que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da me. A minha
+robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raa de mulheres, que os
+nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
+das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
+vezes empallideceram nos bailes e no tiveram nunca de que corar aos
+folhetins dos periodicos.
+
+ * * * * *
+
+Terminando, agradeo de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
+escriptora minha patricia, mas peo licena para os no seguir.
+Continuarei a fazer rir os outros, o que me no impedir de fazer tambem
+chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.
+
+ * * * * *
+
+Por occasio da visita de el-rei Escola Polytechnica funccionou o
+telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.
+
+Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
+que sua magestade ouvira--um solo de cornetim!
+
+Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
+Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _Unio e
+Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
+Emquanto a astronomia tocava cornetim natural que, em compensao, a
+arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.
+
+A unica cousa que extranhamos que o Observatorio no observasse entre
+as suas peas de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
+a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.
+
+Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
+accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
+parece-nos um abuso que o principe no levar a bem.
+
+Reflectiu por acaso o Observatorio no que o hymno para um cerebro
+coroado? Cremos que o Observatorio no desceu ainda com as suas
+conjecturas ao fundo d'esse abysmo. horroroso.
+
+Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
+O observatorio faz certamente ideia do que ter zumbidos, no
+verdade? Pois ter hymno peor. ter constantemente, durante toda a
+vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
+sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doena
+chronica, como affeco incuravel do nervo acustico, a audiao do mesmo
+trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente loucura.
+
+Que o Observatorio se compadea do infeliz principe condemnado a to
+incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
+contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
+faltas de dinheiro, ha de ter constipaes, ha de ter dores de dentes,
+ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
+hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
+s regies da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que no ha outro
+remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
+sejamos justos! A providencia collocou-nos na mo o cornetim. O monarcha
+presta-nos submissamente o seu real ouvido. No abusemos d'esse
+instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
+tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeas! Somos
+cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_
+
+E a posteridade nos abenoar.
+
+ * * * * *
+
+Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
+hydra da reaco desapparecera da orbita dos conflictos do poder
+politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
+manh nas secretarias do Terreiro do Pao, perguntavam angustiadamente
+uns aos outros:
+
+--No viram por ahi a hydra?
+
+Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
+entumeciam de impaciencia por no poderem esmagar o monstro; e o sr.
+Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhao na sua
+dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
+imperfeito do verbo Mexer.
+
+ * * * * *
+
+N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
+presidente do conselho, tomou uma resoluo heroica: determinou ser
+hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
+suas funces de bicha ultramontana com as suas funces administrativas
+de homem de estado. Pela manh s. ex. governa. De tarde s. ex. raba.
+
+Eis um dos resultados da dualidade que s. ex. se dignou de assumir para
+salvar a situao da falta da hydra:
+
+ * * * * *
+
+O servio dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
+Catholicos e no catholicos eram levados para o cemiterio municipal
+pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
+seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
+haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
+questo canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
+exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
+como uma instituio municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
+que desejassem repousar em terreno sagrado, e no benzessem as
+d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
+No tinha jmais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
+esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
+podia-se morrer em Lisboa s pelo gosto de ser to tranquillamente
+enterrado.
+
+N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua frma de hydra e
+determina em favor da morte catholica a creao de um muro similhante ao
+que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
+municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento portaria de s.ex. e
+discutir o modo de levantar o muro. Propem-se a tal respeito varios
+alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.
+
+ * * * * *
+
+Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
+de facto n'essa cavalheiro todas as condies que se requisitam para o
+triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispe da primeira
+cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
+uma formula. A sua formula esta: ..._O bucentauro do progresso
+rasgando os flancos da montanha_ ... Sempre que esse homem terrivel
+arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
+auditorios a sua formula, a victoria d'elle. A sua existencia tem sido
+uma serie nunca interrompida de triumphos, alcanados pela sua
+cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
+o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle
+triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
+theses de doutoramento, na exhibio das provas do seu concurso para
+lente da universidade, nas reunies das associaes operarias e
+phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
+e de Lisboa e Aores, nas suas eternas preleces sobre o terceiro
+estado, e finalmente na discusso do muro Guillomin da morte catholica
+ordenado por s. ex. a nobre hydra de Avila e Bolama.
+
+ * * * * *
+
+Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
+canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da
+montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehenso scientifica e
+philosophica do phenomeno social da religio e do facto biologico da
+morte,--comprehenso egualmente haurida do j alludido bucentauro
+rasgando os supracitados flancos,--que s.ex. o sr. doutor convenceu a
+vereao lisbonense a approvar no s a creao de um muro--o que
+hydra parecer sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
+ainda parece pouco.
+
+O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
+fecharo o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
+aquelles que morrerem fra do gremio da religio catholica apostolica
+romana.
+
+ * * * * *
+
+Ns suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
+dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
+cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
+consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
+infinito onde pra a vida; que o cadaver deixava de ter uma religio,
+cessava de pertencer igreja, para pertencer exclusivamente chimica.
+Suppunhamos que o cemiterio, considerado no s pelo seu lado civil mas
+mas principalmente ainda pela inteno do seu instituto christo, era o
+campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
+discrepancia de idas, de toda a offensa, de toda a injuria, a manso
+eterna do perdo e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
+amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
+orbe pela larga beno incondicional de Jesus.
+
+Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
+pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. Joo, puramente um
+recinto de caracter official, destinado fermentao exclusiva das
+podrides privilegiadas.
+
+Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
+ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
+pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
+as suas calas de galo de ouro duplamente retesadas pela inchao e
+pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
+no peito, o espadim ao lado, o chapo armado aos ps, o cordo da ordem
+terceira de S. Francisco cinta, vae legitimamente e no uso do mais
+sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
+resurreio da carne, como esperou na vida a hora da sua repartio. No
+dia da chamada geral no valle de Josaphat elle por na cabea o seu
+chapo de bicos e ir tomar o competente logar na gloria eterna, na
+bancada dos conselheiros, mo direita de Deus Padre Todo Poderoso.
+
+Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado luz no cano
+do esgoto, tu que no conheceste pae nem me, producto espontaneo da
+grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre superficie
+do pantano, tu que no recebeste baptismo, nem confirmao, nem ordem,
+nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
+o co e que a igreja confere por uma tarifa de preos superiores aos
+teus capitaes, tu, no tinhas no cemiterio de Lisboa seno um logar
+usurpado, roubado indignamente s pessoas de bem. Estoiraste para um
+canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fra dos
+sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. s como um co. A tua natureza
+humana no a da outra gente. A tua podrido no a da cabelleira do
+sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu s uma besta.
+s peior ainda: s um impio. Vo conceder-te agora um quintal para ires
+para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
+te fazem estes bons senhores em te no remetterem s equarissagens para
+o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
+distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
+sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
+chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
+poderiam achar uma applicao pratica e decente. Poderias aspirar na tua
+outra vida a abotoar com os teus ossos as calas do sr. marquez de Avila
+e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
+doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
+te destinam nada mais sers do que um eterno objecto de execrao e de
+horror para os teus concidados. Quando passarem por cima da tua cova os
+homens srios, a quem est promettido o co sob a palavra de honra do
+padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspiro sobre a tua
+dissoluo infecta. As mes passaro de longe, correndo, com os seus
+filhos pela mo, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
+entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-ho com as
+suas finas mos pallidas e rezaro os esconjuros mais efficazes no fundo
+tepido dos seus ligeiros _coups_. Assim com as abenoadas sepulturas
+dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dar os horrendos
+enguios. E eu te affirmo que ainda havemos de vr aquelles que eram
+cegos e que recuperaram a vista abraando-se s sagradas reliquias de um
+bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
+vegetaes malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
+preverso! Finalmente sers detestado, abominado, execrado, maldito,--cem
+mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanas, pela
+cidade inteira.
+
+E cuidas tu, miseravel, que poders encontrar um dia na eterna justia
+inviolavel a compensao d'este despreso systematisado, d'este rancor
+que um regulamento municipal, d'este odio que uma lei do reino? Como
+te enganas! O que tem de te succeder irremissivelmente o seguinte:
+
+No dia do juizo final tu ouvirs na profundidade do teu estrume o
+canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
+anjo que desde o principio do mundo ter estado a recolher no pulmo
+para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
+os bramidos do mar, todas as erupes dos vulces, todas as quedas das
+catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovo e do raio.
+No ters remedio seno acordar,--quer queiras, quer no--do teu pesado
+somno da materia bruta. Sers levado revista do grande valle por dois
+ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
+como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-ho
+com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: Vocemec ha de
+ter a bondade de passar ali para a mo esquerda de Deus Padre porque
+condemnado. Tentars escapulir-te, safar-te para a podrido de que
+tinhas vindo. Appellars para o juiz supremo. O arbitro da eterna
+justia inquebrantavel cravar em ti os seus olhos. Tu o vers tambem a
+elle, com a sua longa barba que envolver toda a terra, o seu bigode de
+interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
+dedos, chisparo os raios na amplido infinita. Ouvirs a sua grande
+voz, cujas sylabas cairo na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
+Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dir:--Deram-lhe o
+baptismo? No. Deram-lhe a confirmao? No. Deram-lhe a penitencia?
+No. Deram-lhe a absolvio da culpa? No. No lhe deram nada. O
+cherubim tem razo. Passe para a mo esquerda. Ento passars para a
+esquerda. O teu anjo custodio abrir um alapo aos teus ps e gritar
+para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--Fogo eterno para
+um! Depois do que, te tocra com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
+o espao como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
+sombria feita de lama, at te submergires no tremendo abysmo, na punio
+eterna. E ser por todos os seculos dos seculos, sem fim jmais.
+
+Eis ahi tens o que te espera, segundo a religio do dr. Jardim e outros.
+Religio bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
+mos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
+mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
+Bem diversa da d'aquelles christos da igreja primitiva, que assombravam
+Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
+que os pagos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
+cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
+os conduzirem sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
+collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E no
+resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
+primeiros christos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagos
+pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
+impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
+sacrificio bastava ser desgraado. Por isso disia o imperdor Juliano que
+fra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
+contribira para o estabelecimenlo e para a propagao do christianismo.
+
+ * * * * *
+
+Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vr como s. ex. o
+ministro do reino resolver os conflictos promovidos contra elle mesmo
+por s. ex. a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
+muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
+esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos
+n'outros termos--a atteno do seu genio. Eis um dos casos sobre que
+pretendemos consultar s. ex:
+
+ * * * * *
+
+Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
+no querendo enterrar-se de todo por uma s vez, resolvia enterrar-se
+por partes e dar terra uma das suas pernas para a terra se ir
+entretendo.
+
+N'esta hypothese pergunta-se:
+
+Onde que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
+o capricho de descartar-me?
+
+Estou prevendo que o bucentauro de s. ex., attribuindo
+indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
+escripto, me prescrever o logar destinado por s. ex. para os membros
+impios e locomotores.
+
+A isto porm replico a s. ex. que a minha perna quer se trate da
+direita, quer se trata da esquerda, boa catholica apostolica romana.
+Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei pia
+baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
+lingua latina, que ella a esse tempo ainda no tinha tido tempo de
+aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E
+este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
+as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
+parocho se ella acreditava na communicao dos santos, na resurreio da
+carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
+padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
+tinha ido com o seu respectivo p e com o pequeno apendice que era o
+resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia at hoje bem
+varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
+crenas religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
+compete na funeral manso. Ella porm, ex'mo. sr. doutor, apezar de
+todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca at hoje
+contradisse--que me conste--as declaraes latinas feitas em seu nome
+por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto catholica,
+e tem direito sepultura sagrada na terra e bemaventurana no
+paraiso. O sr. Jardim no pde de modo alguma mandal-a para o cemiterio
+dos atheus.
+
+ * * * * *
+
+Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete
+funeral jazida de uma das minhas pernas o cemiterio catholico. A essa
+resoluo tenho egualmente de oppr-me com os fundamentos seguintes:
+
+Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confisso, a missa, a
+communho, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
+no significa da parte da minha perna uma affirmao religiosa mas sim
+uma affirmao civil.
+
+Pelas leis do reino a religio catholica apostolica romana no
+facultativa, obrigatoria. A minha perna no pde entrar no estado sem
+ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
+substitua o assento baptimal para a consignao do nascimento, a minha
+perna nem sequer portugueza pde ser emquanto no fr baptisada! Em todo
+o decurso da vida civil, ella no pde dar um s passo sem primeiramente
+demonstrar que catholica. Sem a certido de baptismo, primeiro, sem o
+attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
+sacramentos depois, ella no pde fazer exame de instruco primaria;
+no pde matricular-se em nenhuma das escolas; no pde entrar no
+exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
+na magistratura, nem na representao nacional. No sendo catholica no
+pde ter nacionalidade, no pde ter profisso, no pde ter estado, no
+pde ter mulher, no pde ter filhos, no pde nem ao menos ter nome!
+
+A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta minha perna
+antes de a deixar penetrar, se ella catholica, exactamente como se lhe
+pergunta se ella est isempta do recrutamento e se vaccinada.
+
+Desde que veiu luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
+nascer, pertence irremissivilmente igreja. Sem previa licena da
+igreja ella no pde dar um unico passo para dentro do estado ou para
+dentro da familia. Esta simples aspirao, to modesta: ser filha de meu
+pae e de minha me--a minha perna est prohibida de a ter sem que a
+igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
+de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
+minha emquanto a igreja no disser tambem que sim. De sorte que, quando
+eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
+espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
+deveria dizer em linguagem litteral, para me referir minha perna,
+era--a perna da igreja.
+
+Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
+perna da faculdade de escolher uma religio, chumbando-lhe elle mesmo o
+catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
+recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
+direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religio. Pelo facto de
+ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
+anno, de commungar pela Paschoa da Resurreio, de jejuar sexta feira,
+de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna no est na
+religio, est apenas na lei civil, est na carta. Em quanto a crenas
+religiosas, o mais que se poder dizer da minha perna, apezar de
+baptisada, de jejuada, de confessada, etc., que ella cartista.
+
+Como porm a creao das duas especies de cemiterios imaginados em
+Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila no pde ter por fim
+separar os cidados que obedecem carta dos cidados que lhe no
+obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
+dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
+sua transgresso,-- claro que no pde ser unicamente pelo facto de
+estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
+designar a sepultura sagrada.
+
+Em concluso final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
+outro no catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
+pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella
+effectivamente catholica ou se no catholica, acha-se no caso especial
+de no poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
+e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim no mandar o
+contrario.
+
+Ora succede que todos os cidados portuguezes, sem excepo alguma, se
+encontram precisamente nas mesmas condies em que se acha a minha
+perna.
+
+No se pde affirmar que alguem catholico ou que o no emquanto a
+creao do registro civil no assegurar a cada cidado a livre faculdade
+de exercer ou no qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
+padre, morrer sem padre.
+
+ * * * * *
+
+Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
+cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paos da Camara na Praa Nova,
+esquina do Laranjal
+
+Porto
+
+Excellentissima camara e minha boa senhora. cheio dos maiores cuidados
+pela preciosa saude de v. ex. que lanamos mo da pena para, em nome de
+todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasio da cerimonia
+inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex. algumas regras.
+
+Principiaremos por dar a v. ex. uma breve noticia da festa em que
+tomamos parte e em que v. ex. teve as suas razes para no se dignar de
+comparecer.
+
+Por convite da direco da companhia dos caminhos de ferro portuguezes
+reunimo-nos na estao das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
+pelas 11 horas da manh. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
+comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, entrada da nova
+ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
+presenceamos desde Gaya at estao de Campanh e do qual procurarei,
+certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.!
+
+Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
+uma perola azul, abraa amorosamente a natureza e banhava a paizagem
+n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
+violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
+encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
+maritima, salgada e humida, at os montes longnquos do lado opposto,
+levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisaes do sol.
+Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
+Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
+caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
+de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
+Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
+da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
+_pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
+reluzentes, forrados de faiana, outros barrigudos, sombrios enodoados,
+fazendo fincap para no cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
+ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de cr de rosa,
+com chamins bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
+trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
+abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
+os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
+murmurosas frescuras das quintas de Quebrantes, da Oliveira, da
+freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configurao
+de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
+torrees e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
+venezianamente na agua.
+
+Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebrao da
+ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
+proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetao
+humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
+os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
+os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
+tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do
+Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regies do
+paiz estavam ahi reunidos. Para que?
+
+Para celebrar um puro facto scientifico--a soluo de um problema de
+mechanica. N'este simples facto, exm. camara, que symptoma! que
+phenomeno! que revoluo!
+
+Ha bens poucos annos ainda s o fanatismo religioso tinha o poder de
+determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
+de Guimares, senhora da Nazareth, senhora do Cabo. Os peregrinos
+iam ento solicitar a interveno milagrosa dos bons santos nos seus
+casos pathologicos, nas suas ambies pessoaes, nas suas questes
+domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
+os tristes iam pedir consolao, os turbulentos iam pedir paz, e os
+mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoo, a
+longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no p dos
+caminhos, iam simplesmente beira das estradas pedir po em troca de
+plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.
+
+Os peregrinos ponte sobre o Douro no eram movidos por interesse algum
+pessoal.
+
+Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
+o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
+exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia j uma
+funccionalidade diversa.
+
+Um poder absolutamente novo, que no o poder religioso nem o poder
+politico, com quanto no affirmado ainda nas instituies, revela-se j
+por este facto na comprehenso dos espiritos. Esse novo poder,
+irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
+nomes teem gerido at hoje a direco da sociedade, na esphera
+espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.
+
+A ponte sobre o Douro a mais bella e a mais perfeita expresso
+symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
+mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
+que ha exemplo na historia das manifestaes do applauso publico. Era
+to superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisao,
+que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
+todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distinces
+de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
+A direco da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
+convidar para o banquete que se seguiu solemnidade da inaugurao os
+individuos representantes das opinies mais extremas, o mundo official e
+o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
+progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
+revolucionarios. Estes personagens to justamente surprehendidos de se
+acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoo
+cujos convivas no tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
+outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
+tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
+episodicas de opinio, havia um sentimento de attraco commum, de
+conciliao geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
+sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
+fora anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
+bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
+vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
+aperfeioamento e para a felicidade.
+
+No foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas no foram tambem
+os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
+dirigido at hoje a humanidade na sua asceno atravez da historia. Foi
+elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
+remansos da paz, nos recolhimentos da applicao e do estudo o que
+determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
+das sociedades.
+
+A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
+victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de
+paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
+sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
+progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
+instituies.
+
+Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
+estreitamente enlaadas agora por um abrao de ferro, eram separadas por
+um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde ns agora nos
+reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
+nossos paes e os nossos avs espingardeavam-se convictamente, decidindo
+com o sacrificio das suas vidas a questo de palacio a esse tempo
+debatida entre dois principes.
+
+A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. evidente que
+progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
+milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
+affirmao d'esse progresso.
+
+A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
+principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandes de toda a
+especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.
+
+Como foi que v. ex., representante do municipio portuense recebem este
+seu novo hospede? No lhe apparecendo!
+
+V. ex., que tem dado a esse espinhao os tratos mais violentos e mais
+irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
+satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.
+que tem desengonado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
+ps da real familia; v. ex. que conserva ainda entre os ferros velhos
+do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as
+chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.
+ex.--dizemos--no teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
+agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
+extraordinaria manifestao de estima de que ainda foi objecto uma
+cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.
+
+Este simples facto basta para nos provar que v. ex. desconhece
+completamente qual o espirito municipal das modernas sociedades
+democraticas, que v. ex. est cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
+abaixo da misso em que foi investida pelos suffragios da populao
+portuense, to energica, to intelligente e to progressiva.
+
+ possivel que v. ex. tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
+contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
+com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
+patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo
+o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
+forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque que v. ex.
+nos no preveniu? Durante a ausencia de v. ex., minha boa senhora, a
+sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
+telegraphico ns, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
+teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
+resignao para o desgosto de a no vermos no espirito.
+
+Acceite minha senhora a expresso dos nossos sentimentos, to cordeaes
+como aquelles que v. ex. nos no exprimiu.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
+de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
+os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.
+
+Eis o que ao depois occorreu:
+
+ * * * * *
+
+A pacata bestinha da governao andou a monte por alguns mezes,
+choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos taces do sr. Barros e
+Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
+estadista e cavalleiro. Para onde que s. ex., coberto de zelo e de
+suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?
+
+--Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex. com uma das
+mos na redea e com a outra mo sobre a carta constitucional.
+
+Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
+bambeavam dubitativamente a cabea, e do alto das montanhas, com a mo
+aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:
+
+--No. Para onde elle vae para a senda de Cacilhas Cova da Piedade.
+
+E deixaram-o ir.
+
+ * * * * *
+
+Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
+com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
+estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
+orelha, baixando a cabea, cravando os olhos sinistros nos cascos
+deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
+adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
+homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
+perfidia das rs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
+abysmo,--sempre com uma das mos na carta, mas j tem a outra mo na
+redea.
+
+ * * * * *
+
+Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
+cavalgadurinha do Estado principiou ento a dar terra para feijes,
+retrocedendo para casa e bebendo o espao com o freio nos dentes e com a
+saudade da mangedoura na alma.--To poderoso e fecundo o ascendente
+moral que exerce o principio sagrado da rao sobre as actividades
+officiaes!
+
+ * * * * *
+
+Quando as boninas e os representantes da nao tornaram a ver a burrinha
+do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
+dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulao entre os
+circumstantes que porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
+sr. Jos Dias Ferreira.
+
+Empolgando com mo dextra e firme a camba do freio alimaria do poder,
+o sr. Jos Dias exclamou triumphante e glorioso:
+
+--A mim, rapazes!
+
+E gritando em coro: Ave, Jos vencedor!--os rapazes foram a elle.
+
+ * * * * *
+
+Eis seno quando, que ho de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
+assim elle mesmo?
+
+Atonitos elles vem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a
+burra j no est devoluta, que a albarda tem gente em cima!
+
+Effectivamente emquanto o sr. Jos Dias intrepido segurava a redea, o
+sr. Fontes veloz encavalgara o poder.
+
+ * * * * *
+
+O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provises
+do governo que o precedera. S. ex. sacou os 150 contos de tijolo para a
+Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
+rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
+depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de cro e o
+seu devido rap; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
+cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaada de algodo
+para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixes cheio de
+dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
+nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e,
+como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
+estes virados com o de dentro para fra, e appareceu por ultimo o sr.
+Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
+commisso da exposio de Paris. S. ex. trazia empunhada e aberta a
+delicada umbela de linho cru forrada de tafet azul com a qual s. ex.
+abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Pao at rua do Duque
+de Bragana a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
+ministros. O ar de s. ex. o sr. Deslandes era cheio de uma grave
+auctoridade, e sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafet
+azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!
+
+Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
+da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
+causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
+durante alguns mezes e querendo obviar repetio d'essa
+intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
+bolsa do alforge ministerial.
+
+Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. Jos Dias do alto da burra,
+enfiou a trote marcial provincias da publica administrao em fra.
+
+ * * * * *
+
+E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. To smente no mesmo
+logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
+nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solido, a chapinhar com
+arnica o seu galo.
+
+ * * * * *
+
+Na semana seguinte quella em que estes successos occorreram houve
+jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
+eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
+Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.
+
+O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
+como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornar a apostar contra o nobre
+estadista sem a condio previa de que se sobrecarregue com mais alguns
+kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Uma vista d'olhos a uma das ultimas sesses da camara dos senhores
+deputados:
+
+ * * * * *
+
+Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
+funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
+os parapeitos at ao tecto.
+
+Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traada sobre
+o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.
+
+Serve de secretario, lanando apontamentos a uma larga folha de papel um
+individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
+resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
+publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
+dr--Alfredo Angelino. S. ex. traja rigorosmente de negro.
+
+Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
+encasados nos seus _fauteuils_. No teem uma apparencia espirituosamente
+feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espao
+com a expresso passiva e to caracteristicamente pacata dos individuos
+calidos quando instalados em decoces emolientes de alfavaca de cobra.
+
+No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mos sobre o
+corao, a outra mo alongada patheticamente no espao, est orando.
+
+Em torno do tribuno agrupam-se em p varios representantes da Nao.
+
+Uns rolios, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
+amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforo.
+O abuso do feijo suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
+Robespierre--So os empaturrados da coisa publica.
+
+Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lvidas, os ps
+mettidos para dentro, as calas esbambeadas pelas joelheiras dos
+sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calas e que
+descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--So os espinhelas
+cahidas do systema que felizmente nos rege.
+
+No fundo escuro da bancada sobresaem da cr sombria dos vestuarios de
+inverno duas mos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
+dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripo ou uma
+sentena de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
+inoffensivamente, n'uma abstrao magnanima.
+
+--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz pungente, elegiaca,
+lacrimejante--Sr. presidente! onde no ha religio no ha dignidade.
+
+Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
+estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
+cabea.
+
+Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
+vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
+esto ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade uma
+resultante da religio. E todavia a religio que obriga esse pallido
+mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplao,
+a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
+submetter-se pela humilhao, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
+face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
+resignar-se. E pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
+sanguineo e robusto a caminhar na direco opposta d'esse anemico, a
+constituir a familia, a luctar, a no perder tempo em contemplaes e em
+extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
+lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
+moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
+botas novas no caem do ceu cob a frma de man, caem unicamente do
+trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porm esto
+ambos de accordo emquanto alliana indissoluvel da dignidade de um e
+da religio do outro perante o principio transcendente da rhetorica
+constitucional.
+
+Diz mais o orador:
+
+--Sr. presidente!--e a entonao do tribuno continua a ser lacrimosa e
+pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
+investigaes de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
+inventando religies para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
+isto porem no apagou na minha alma a doce esperana que n'ella lanaram
+aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
+porque elles sero consolados.
+
+E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
+camara:--Muito bem! muito bem!
+
+ morbida corrente intellectual do pessimismo allemo representado por
+Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppe o naturalissimo de Darwin
+e as poderosas systematisaes de Spencer, a Frana oppe o positivismo
+victorioso de Augusto Comte e de Littr. Em Portugal, onde estas
+questes no foram nunca ventiladas seno por pobres escriptores
+desconhecidos em periodicos to desconhecidos como elles, a camara dos
+srs. deputados ouve pela primeira vez a soluo official d'esse debate.
+Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
+ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
+Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
+Mill e de Littr, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
+alma virginal do sr. Manuel d'Assumpo. E a comprehenso mais perfeita
+dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
+d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
+crenas. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna no
+queria evidentemente seno uma coisa: apagar a esperana na alma d'este
+moo. Pois ficar sabendo que o no conseguiu. A camara dos deputados da
+nao portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
+collocando-lhe em cima o sr. Assumpo e a esperana da sua alma, no
+meio dos applausos geraes de todo o parlamento.
+
+E, no obstante, querem dizer alguns que a politica no mais do que a
+applicao da philosophia direco pratica das sociedades.
+
+A politica de Bismark um grande poder social porque atraz d'elle est,
+como o peito pelo outro lado da couraa, a disciplina philosophica de
+Kant, de Hegel e de Hartman.
+
+Danton, a alma da Revoluo, era na esphera executiva o instrumento da
+philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
+precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
+grande movimento cahiu com a cabea de Danton, guilhotinado pela
+indisciplina mental.
+
+Foi ainda a anarchia das idas, resultante da falta de um methodo
+philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.
+
+Finalmente para que a democracia se fundasse em Frana sobre bases
+definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
+para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que o filho
+triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton o
+filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.
+
+Na Italia o que a politica actual, que libertou e unificou a grande
+peninsula, seno a somma das expeculaes de uma longa serie de
+pensadores, desde Dante, o vidente, at esse taciturno Leopardi, que foi
+o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
+politico do imperador Guilherme?
+
+Em todos os estados actualmente em dissoluo qual a causa do mal
+seno a perturbao da mentalidade pelo empyrismo da politica
+arbitraria? Ser preciso citar a Turquia? Ser preciso citar a Hispanha?
+
+Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
+vigor intellectual, que em poucos annos despedaar todos os velhos
+preconceitos e todas as caducas instituies que embargarem a sua
+asceno politica. O federalismo, forma definitiva da civilisao na
+peninsula iberica, est-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
+certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
+pouco e pouco o caracter de uma opinio partidaria. um resultado
+philosophico, que em toda a Hispanha est sendo pacificmente revisto e
+contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
+pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
+linguistica, pela historia. Quando esta ida chegar ao cabo da sua
+elaborao especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
+actuar sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma fora da natureza.
+
+Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata to
+experimentalmente e to evidentemente os seus dominios sobre o destino
+humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande
+maioria a condemnao da critica e do pensamento moderno; declara-se
+indissoluvelmente abraada theologia; e a todas as conquistas da
+sciencia no presente seculo ella oppe triumphantemente a posse d'esta
+noo: Bemaventurados os que soffrem porque elles sero consolados.
+
+A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma to patente de
+esphacelamento cerebral.
+
+Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de
+caturras?-- unicamente o que perguntamos.
+
+ * * * * *
+
+O medo como a camara pensa d-nos a justa medida do modo como a camara
+governa. Ha muitos annos que ella no toma uma unica medida tendente a
+coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforos da progresso
+social.
+
+A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituio politica, est por
+fazer.
+
+A liberdade religiosa no est regulamentada de modo que torne effectivo
+o principio em que se funda.
+
+A distribuio racional do imposto ainda no foi definida.
+
+Finalmente a organisao da instruco publicia, esse elemento vital de
+uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma
+Turquia est muito adeante de ns.
+
+Os parlamentos, sem direco mental, sem criterio scientifico, sem
+destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e
+dissolvem-se na banalidade.
+
+As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos
+personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente s
+camaras uma grande concorrencia de ouvintes que no recebem ahi seno as
+mais perigosas lies de cynismo e de immoralidade.
+
+Das duas coisas uma: ou o espirito publico est bastante corrompido para
+assimilar sem perturbo do seu organismo a entoxicao d'esses
+exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado dissoluo; ou a
+burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso
+moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de
+cair como caiu em Frana o segundo imperio por effeito de um movimento
+similhante quelle a que Luiz Veuillot chamou a _revoluo do despreso_.
+
+ similhana de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de
+circulao intellectual. Os partidos politicos so os centros nervosos
+do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de
+funccionar. Ora qual o estado dos partidos politicos em Portugal?
+
+ * * * * *
+
+Ha um partido que est hoje no poder. um partido conservador.
+catholico, monarchico, auctoritario, proteccionista,
+militarista, unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma
+electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religio do Estado;
+quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito
+permanente com os seus respectivos canhes Krupp e a sua competente pena
+de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direco e de
+governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,
+uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundio de typo, uma fabrica
+de cordas, uma photographa, etc.
+
+Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se
+disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que
+pelas suas idas no formam realmente seno um partido unico: o partido
+opposicionista. Que differena ha entre este partido na opposio e o
+partido actualmente no governo? revolucionario? No: egualmente
+conservador. racionalista? No: egualmente catholico.
+evolucionista? No: egualmente auctoritario. Quer a liberdade da
+industria e a liberdade do commercio? No: quer egualmente a proteco
+das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a
+universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a
+magistratura anarchica, a instruco cahotica, o suffragio corrompido, o
+governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se
+distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,
+a photographia, a cordoaria, a fundio, etc.
+
+A unica opinio que a opposio diz ter e que ella accusa o governo de
+no professar a opinio abstracta da economia, da ordem, da moralidade
+e do progresso. Como porm todos os governos, qualquer que seja o
+partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder
+perante a accusao de no servirem o progresso, a moralidade, a ordem e
+a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que alis no
+pdem constituir principios de programma, so communs a todos os
+partidos ou no so especiaes de partido nenhum.
+
+Os partidos portanto no se differenam seno pelos nomes dos individuos
+mais ou menos numerosos do que elles se compem. N'esta ausencia
+completa de idas contrapostas o governo em Portugal, versando
+constantemente sobre si proprio, d-nos o espectaculo de um organismo
+vivo isolado na creao, alimentando-se na sua propria substancia e
+digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.
+
+ * * * * *
+
+Deixando de ser uma lucta de principios e de idas a politica
+converte-se fatalmente em uma questo de compadres.
+
+O compadrio elevado cathegoria de instituio nacional, domina tudo,
+corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que no pdem conquistar o
+appoio da opinio pelas idas que representam, procuram manter-se pelo
+appoio dos compadres que favorecem. na proporo exacta do numero dos
+compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou
+diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiana da cora e no
+favor da urna.
+
+O dogma fundamental do compadrio impe-se por tal modo que transforma
+todas as outras noes moraes segundo o criterio de que elle a
+expresso. Transforma a justia, a honra, a probidade, a propria
+consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria
+commetter a mais vil e a mais nefanda das traies politicas!
+
+Despachando o compadre mais servial com excluso do adversario mais
+competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratido e
+de lealdade. E ninguem v quanto ha de profundamente subversivo da ordem
+moral n'este simples facto to vulgar, to frequente, to despercebido:
+a excluso da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos
+preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,
+ commetter o attentado mais criminoso de que o Estado pde ser ro
+deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violaes do direito
+e todas as affrontas da justia. um roubo violento e descarado,
+aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o
+insulto ao trabalho, com o escarneo moral, com o ultrage ao dever.
+
+Na politica portugueza, que tem o seu calo como as mulheres publicas e
+como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de
+_compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do
+ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a priso
+correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinio diz
+apenas:-- fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o
+compadre, vou para o partido d'elle.
+
+O officio do governo servir o paiz. Como porm o paiz, por effeito do
+machinismo eleitoral, representado constantemente pelos compadres do
+governo, o officio do governo em ultima analyse no mais do que servir
+o compadre. Est no seu destino. Graas aos elementos de corrupo de
+que o governo dispe, o cidado, no votando como cidado mas votando
+como compadre, d o primeiro impulso que pe em movimento toda a
+engrenagem do systema: elegendo o compadre elle mesmo que funda a
+tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.
+
+A sociedade est merc do compadre. E se ha poder que possa
+contrabalanar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,
+esse poder unicamente--o da comadre.
+
+A aptido provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no
+dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehenso e o mais
+rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras,
+unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,
+real; compadrice, comadrice--eis tudo.
+
+ * * * * *
+
+Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja
+decadencia tanto mais lamentavel quanto certo que a sociedade que
+ella tem por fim dirigir est na anarchia economica e tende para uma
+miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse
+remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de
+quatro ou cinco individuos de opinies radicaes: republicanos,
+socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que
+sejam homens profundamente convictos e determinados peleja de cada dia
+e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio
+philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa
+que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe
+resistir, no j pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo
+reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisao. E das
+concesses mutuas e successivas, feitas, j ao principio da ordem pelos
+revolucionarios impacientes, j ao principio do progresso pelos
+conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento
+actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixes e dos
+mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.
+
+ * * * * *
+
+Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que
+sollicitamos, resta-nos ento adoptar o expediente ultimamente proposto
+pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas
+que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:
+caiar o palacio das crtes, branquear por fra o parlamento--_dealbatum
+sepulchrum_!
+
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878,
+by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+***** This file should be named 13092-8.txt or 13092-8.zip *****
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+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
+Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional
+de Lisboa.
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
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+used on or associated in any way with an electronic work by people who
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+The Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878
+by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: As Farpas (Janeiro 1878)
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+Author: Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz
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+Release Date: August 2, 2004 [EBook #13092]
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
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+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
+Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional
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+<h1>
+ AS FARPAS
+</h1>
+<div class="centered">
+ <p>RAMALHO ORTIGO&mdash;EA DE QUEIROZ</p>
+ <p>CHRONICA MENSAL</p>
+ <p>DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p>
+ <p>TERCEIRA SERIE&mdash;TOMO I</p>
+ <p>Janeiro de 1878</p>
+</div>
+
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<blockquote>
+<p>
+ Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
+ da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das
+ sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
+ politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
+ universo, e da adorao de mim mesmo.
+</p>
+</blockquote>
+<p class="centered">
+ P.J. PROUDHON
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+
+<p class="centered">
+ <b>SUMMARIO</b>
+</p>
+<p>
+ A romagem dos mortos.
+ <a href="#raspail" >Raspail</a>,
+ <a href="#courbet" >Courbet</a>,
+ <a href="#victormanuel">Victor Manuel</a>,
+ <a href="#alencar" >Jos de Alencar</a>,
+ <a href="#soromenho" >Augusto Soromenho</a>.&mdash;<i>A
+ senhora portuense</i> e <i>as Farpas</i>.
+ <a href="#libello" >O libello d'aquella dama.</a>
+ A nossa resposta. No, a mulher portugueza no sabe
+ fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A
+ litteratura feminina e a cozinha de minha av.
+ &mdash;Da influencia dos hymnos
+ sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do
+ <a href="#telephonio" >telephonio</a>.
+ &mdash;
+ <a href="#cemiterios" >Os cemiterios</a>.
+ A interveno do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A
+ cabelleira e a formula de s. ex. Mostra-se que s. ex. no o velho
+ Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro
+ civil.&mdash;A ex'ma
+ <a href="#camara" >Camara Municipal do Porto</a> ou a quem suas vezes fizer.&mdash;
+ <a href="#politica" >A situao politica</a>.
+ As ultimas sesses parlamentares. Alguns perfis. Os
+ partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governao.
+</p>
+<hr id="mortos" class="major" /><!--===================-->
+<p>
+ No breve espao dos ultimos quinze dias a humanidade pagou morte um
+ pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.
+ Deixaram de existir, em Frana Raspail e Courbet; na Italia Victor
+ Manuel, no Brazil Jos de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.
+</p>
+<p>
+ <a id="raspail" name="raspail" >Raspail</a>
+ , entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo
+ imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas foras
+ sociaes do mundo moderno, a poro mais fecunda e mais gloriosa da
+ grande alma do povo.
+</p>
+<p>
+ Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou to vastas e to
+ profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos
+ descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e
+ pde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia
+ microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, no como uma dependencia
+ da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o
+ que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do
+ suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de
+ Ville a Republica de 48.
+</p>
+<p>
+ Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias
+ physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias
+ socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo,
+ economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio
+ profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros,
+ das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as
+ instituies politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma
+ judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo
+ caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o
+ favor, com lodo o auxilio, com toda a collaborao official. Recusou
+ todas as distines honorificas, todos os cargos publicos, todos os
+ diplomas scientificos ou litterarios. As suas observaes astronomicas,
+ os seus trabalhos de chimica, as suas applicaes do microscopio ao
+ estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde
+ dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no
+ isolamento austero da independencia o do sacrificio.
+</p>
+<p>
+ Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno
+ e do Bernardo Palissy.
+</p>
+<p>
+ A academia franceza, commovida com uma to exemplar grandeza d'alma,
+ resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca
+ do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o
+ homem que mais servios tinha prestado sciencia e humanidade.
+</p>
+<p>
+ Guizot, ento ministro da instruo publica, interveio na resoluo da
+ academia prohibindo que <i>o premio da virtude cahisse no cofre da
+ rebelio</i>.
+<a href="#note-1">
+<sup class="small" id="note_return_1">1</sup></a>
+ O chefe do partido conservador francez no podia esquecer
+ que fra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior,
+ em plena Restaurao, ousara fulminar a votao da lista civil com a
+ phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de
+ cadeia: Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias
+ todo o cidado que ousasse pedir Frana 14 milhes para viver.
+</p>
+<p class="foot">
+<a href="#note_return_1"><sup id="note-1">1</sup></a>
+ [Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma
+ cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a
+ desgraa de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois
+ crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]
+</p>
+<p>
+ que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi
+ egualmente o brao constantemente pronto para resistir.
+</p>
+<p>
+ Portentosa existencia, que ficar na historia entre as mais bellas e
+ mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae
+ carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, comeou por ser um
+ theologo. Era porm de tal modo intenso e explosivo o seu amor de
+ verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos
+ dezenove annos, acabou por alcanar a gloria immarcessivel de ser
+ condemnado aos oitenta,&mdash;aos oitenta annos de idade!&mdash;por abuso da
+ liberdade de pensamento!
+</p>
+<p>
+ O poder espiritual do mundo moderno era representado em Frana por uma
+ trindade sacrosanta:&mdash;Victor Hugo, a fora do sentimento; Raspail, a
+ fora do trabalho; Littr, a fora da philosophia.
+</p>
+<p>
+ D'esses tres ancios o primeiro que desceu ao tumulo o que mais
+ fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram
+ so d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse
+ exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em
+ nenhuma outra parte mais precioso do que na sociedade portugueza, onde
+ as idas radicaes, que so as sentinelas avanadas da civilisao, to
+ raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a
+ mocidade mais vivaz e intelligente est defendendo no parlamento e no
+ jornalismo as opinies mais retrogradas, onde finalmente o futuro no
+ tem partido.
+</p>
+<p>
+ Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverana e a firmeza no
+ corao d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se
+ sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez
+ calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeioamento dos seus
+ similhantes!
+</p>
+<p>
+ Que todos os que so moos e fortes se inclinem sobre esta campa onde
+ repousa um triumpho, e reflictam, que na pedra tumular de Raspail que
+ devero aguar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela
+ consciencia e pela verdade!
+</p>
+<hr id="courbet" class="minor" />
+<p>
+ Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um
+ idal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas
+ instituies sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a
+ derrocar pela pintura a inspirao da antiga arte assim como derrocou
+ pelo uso do poder executivo a columna da praa Vendme. Louvavel
+ empenho, porque Courbet considerava essa inspirao uma fonte envenenada
+ para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um
+ symbolo ultrajante para a dignidade humana.
+</p>
+<p>
+ A demolio da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com
+ palavras to resentidas e acerbas, no poder deixar de ser um dia
+ olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos
+ principios de justia social constantemente professados pelo immortal
+ artista.
+</p>
+<p>
+ Courbet foi condemnado a pagar a reconstituio da columna. Breve porm
+ soar a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar
+ puerilmente que se deve ser
+</p>
+<p class="poem"><i>
+ Fier d'tre franais<br />
+ Quand on regarde la colonne!<br />
+</i>
+</p>
+<p>
+ Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora,
+ comprehender em pouco tempo que uma injuria ao seu bello destino na
+ obra da conciliao humana a ostentao orgulhosa de um monumento que o
+ distico diz ser: <i>levantado gloria do grande exercito por Napoleo o
+ Grande!!</i>
+</p>
+<p>
+ Paris, qua vae na proxima exposio celebrar dentro do regimen
+ republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo
+ municipio acaba de votar 546 contos de ris para os seus
+ estabelecimentos publicos de instruco primaria ao anno corrente, Paris
+ que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos reorganisao
+ dos seus lyceus, no poder manter em p por muitos annos mais, em uma
+ das suas praas publicas, um symbolo que contradiz todas as suas
+ aspiraes philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores
+ nodoas da civilisao: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os
+ direitos do homem, a sujeio da Frana aos caprichos de um despota em
+ cuja fronte as justias da historia estamparam j o ferrete da ignommia.
+</p>
+<p>
+ A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou
+ um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradies marciaes
+ da gerao actual o sol de Austerlitz.
+</p>
+<p>
+ Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a
+ que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravar,
+ ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendme e
+ pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de
+ remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na
+ maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que
+ ser uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em
+ que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na
+ pratica dos seus actos a opinio do seu tempo.
+</p>
+<hr id="victormanuel" class="minor" />
+<p>
+ Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico
+ de Godofredo de Bulhes. Poderia como elle decepar de um s golpe da
+ espada a cabea de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como
+ elle uma cruzada,&mdash;a cruzada de Novara at Roma, como elle chegou a
+ terra promettida; morreu moo como elle, como todos os heroes que tendo
+ realisado na terra uma grande misso, se sentem de repente invadidos na
+ alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos
+ fortes&mdash;a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas
+ dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes,
+ mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos,
+ atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmes mais rijos s
+ altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais
+ encanto e com mais prestigio fadiga, ao perigo, s mulheres e morte.
+ Era evidentemente um forte. E como a fora o maior de todos os
+ attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si to
+ contradictorias sympathias e to heterogeneas affeies: foi o amigo do
+ Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.
+</p>
+<p>
+ Feliz homem!
+</p>
+<hr id="alencar" class="minor" />
+<p>
+ A morte de Jos de Alencar, o auctor do <i>Guarany</i> e de <i>Luciola</i>,
+ representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, to
+ notavel nos ultimos tempos pela cooperao dos seus poetas e dos seus
+ pensadores.
+</p>
+<p>
+ Na sociedade do Brazil, que o principio da escravido desviou por tantos
+ annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a
+ organisao moderna do trabalho livre ao mesmo tempo a creao de um
+ novo elemento social&mdash;o povo.
+</p>
+<p>
+ Jos de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando
+ poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem
+ synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e
+ decide da sorte dos imperios.
+</p>
+<p>
+ Elle, que alcanra um dos mais luminosos logares entre os homens mais
+ celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade,
+ procedera da roda dos expostos.
+</p>
+<p>
+ Esse engeitado era a personalisao mais gloriosa da soberania do
+ trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno
+ da arte a sua larga espada de justia, vestindo a tunica e a dalmatica
+ azul, calando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e
+ fazendo-se ungir e sagrar pelas multides como os antigos eleitos do
+ senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante,
+ que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: Deus te elegeu para
+ reinar sobre a sua herana e para livrar os povos das mos dos seus
+ inimigos.
+</p>
+<hr id="soromenho" class="minor" />
+<p>
+ Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce
+ consolao de cumprir um destino, consolao compensadora de tantas
+ amarguras e de tantos sacrificios, no foi concedida na terra quella
+ natureza essencialmente desgraada.
+</p>
+<p>
+ Tinha um incomparavel poder de applicao e de estudo e ninguem possuia
+ em Portugal uma proviso mais copiosa de noes e do factos. Foi o
+ collaborador do Alexandre Herculano nas investigaes da historia
+ nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem
+ melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos
+ nossos costumes e das nossas tradies. Era archeologo, diplomatico,
+ jurista, bibliographo. No havia inscripo truncada na epigraphia nem
+ texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade
+ portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresena de quanto
+ tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e
+ incessante. Era um tomo de erudio vastissima, assombrosa, que ninguem
+ consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do
+ direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e
+ da lingua.
+</p>
+<p>
+ Faltava-lhe porm no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da
+ generalisao. No sabia tirar dos factos as leis de que elles so a
+ funco. No sabia correlacionar. No tinha o poder creador. Por esse
+ motivo a isolao suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um
+ instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulso de energias
+ concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle
+ estava condemnado a submetter-se para ser uma fora na civilisao,
+ repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente
+ aggravada por uma falsa educao.
+</p>
+<p>
+ Essa capacidade to prodigiosa de contenso, de investigao, de exame,
+ de absorpo de idas, estava na sua natureza alliada a um temperamento
+ caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na
+ infancia, no poderia fatalmente deixar de ser o que era: um
+ sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios
+ da sua inquieta o attribulada existencia.
+</p>
+<p>
+ A indifferena perante o conflicto uma nobre virtude. Raros a possuem.
+ O que succede com as naturezas vulgares que a nossa resoluo ba,
+ conscientemente reflectida, reforada na mais legitima compenetrao do
+ dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que
+ vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e ns
+ precisamos de reagir sobre ns mesmos com toda a fora da nossa coragem
+ para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a exploso da
+ crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da
+ palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado
+ vamos lanar ao corao d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa
+ virtude, to rara, to viril, de desmanchar implacavelmente prazeres
+ para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho
+ no estado de uma exagerao pathologica. O conflicto na convivencia
+ social no somente lhe no repugnava mas attrahia-o&mdash;como succede s
+ mulheres nervosas.
+</p>
+<p>
+ Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creana. As
+ suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua
+ sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta
+ pela mesma raso de que ninguem teve egualmente a compaixo mais facil.
+ Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou
+ lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas
+ sesses da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior
+ de Lettras no conheceram seno metade d'essa physionomia to
+ caracteristicamente meridional nos traos moraes como nas frmas
+ physicas.
+</p>
+<p>
+ Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar
+ obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro
+ andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da
+ camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de
+ Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os
+ quaes aquella humilde casa de litterato, to hospitaleira e to pobre,
+ tinha altractivos que no podiam propornionar s exigencias dos
+ philosphos e dos principes, os mais brilhantes sales de Lisboa. Era
+ preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o
+ nervosismo do seu corao com a mesma prodigalidade cem que nas
+ assemblas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro
+ imperfeitamente orientado.
+</p>
+<p>
+ Quando alludia sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto
+ da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara
+ alegremente a p nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o
+ estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda
+ ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma <i>esfolhada</i>
+ nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o
+ canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando
+ descrevia as madrogradas da caa s perdizes no monte de S. Felix, ou as
+ outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os
+ clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo danar pelos caminhos as
+ bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros,
+ aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe,
+ negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua
+ voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no
+ maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluos,
+ estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom
+ sitio amado, uma velha cano querida.
+</p>
+<p>
+ Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em
+ que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da
+ sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi
+ sepultado n'este medonho tumulo&mdash;o despreso.
+</p>
+<p>
+ Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou at o seu ultimo
+ dia. Ha cerca de um anno padecia uma dr sternalgica, symptomatica do
+ aneurisma. Esta dr lancinante, que o privava do movimento, forando-o a
+ parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de
+ madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua
+ biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se pressa um medico.
+ Inutilmente. Elle estava morto.
+</p>
+<p>
+ Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto
+ Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de
+ acrescentar que a reputao to frequentemente discutida d'esse
+ traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem
+ o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.
+ O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios
+ e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipies
+ illustres e dos Cates celebres achem sempre nos seus heroes tantas
+ qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica,
+ quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela
+ maledicencia.
+</p>
+<hr id="libello" class="minor" />
+<p>
+ Com esle titulo&mdash;<i>Ao sr. Ramalho Ortigo</i>&mdash;publicou o
+ <i>Diario da Manh</i> o folhetim seguinte:
+</p>
+<p>
+ <i>Os exames no Lyceu Nacional&mdash;Os fins da educao&mdash;Um programma de
+ ensino para o sexo feminino&mdash;Como se prepara a emancipao das
+ mulheres&mdash;Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o
+ estado da cosinha nacional&mdash;Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais
+ caldo</i>.
+</p>
+<p>
+ Termina assim o summario do ultimo numero das <i>Farpas</i>. Qual de ns
+ deixaria de ler com a maxima atteno um artigo escripto pelo sr.
+ Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma
+ de certo. E para que se no diga com verdade que o grito afflictivo do
+ paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgo, pedindo-nos caldo, no foi
+ ouvido por uma s mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho
+ por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe no s <i>caldo</i>, mas
+ tambem <i>luz</i>, que o alumie nas suas investigaes cerca d'um assumpto,
+ que realmente grave&mdash;a dyspepsia nacional, que s. ex. attribue
+ nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre ns, to tremenda
+ responsabilidade.
+</p>
+<p>
+ Se o assumpto de que se trata, no fosse realmente grave,
+ contentar-nos-hiamos com o praser que nos d sempre a leitura dos
+ escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu
+ espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: pena
+ que os escriptos do sr. Ramalho no sejam mais succulentos! so como os
+ caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica,
+ depurados at transparencia, muito aromatisados ... mas sem
+ substancia.
+</p>
+<p>
+ Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla
+ sempre de ns, que no tem raso para nos querer mal; e que como filho,
+ esposo e irmo de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmo,
+ deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor
+ vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Oua-me pois.
+</p>
+<p>
+ No ensine sr. D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se
+ faz esse alambicado caldo francez, to purificado, que por fim como o
+ proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor
+ sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os
+ classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam
+ nossas avs, e como ns todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal
+ agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formao das suas
+ idas, , como s. ex. diz a sua alimentao, no esqueamos que foi
+ comendo esses caldos e quasi s com elles, que os energicos e valentes
+ portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na
+ Africa, e na Asia praticaram aces de to prodigioso valor. E descendo
+ historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos
+ lidadores da epopa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo
+ nacional e ento infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua
+ heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se
+ incommodasse com a dyspepsia nacional. s com caldo, e com bra que
+ todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que
+ supportam, sem cansao, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia,
+ os mais rudes trabalhos; e comtudo no soffrem de dyspepsia. Ser por
+ terem <i>mulheres muito instruidas</i>, ou porque o <i>caldo que comem
+ preparado por cosinheiros de 5:000 francos</i>? deve ser por uma d'estas
+ rases, visto que o sr. Ramalho quem nol-o affirma.
+</p>
+<p>
+ A dyspepsia no em Portugal uma doena nacional, quasi privativa dos
+ homens das classes elevadas&mdash;e quer que lhe digmos porque? Porque elles
+ teem com raras excepes, uma mocidade dissipada; porque na idade dos
+ quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemes fazem
+ consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e
+ todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os
+ portuguezes vo descanar das lides do estudo nos bancos dos botequins e
+ das tavernas, onde considerado heroe aquelle que come e bebe mais
+ brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices
+ de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se
+ chama dar uma salva real! Desculpa-os porm o axioma do nosso codigo de
+ educao: que preciso dar muita cabeada para vir a ser homem serio.
+</p>
+<p>
+ Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que ns, todos os perigos porque
+ passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, at que
+ chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de
+ lhes regenerar os costumes, e ver que, quando chegarem a ser chefes de
+ familia, seu natural destino, no precisaro de encontrar na esposa o
+ brao forte que lhes seja amparo, e tero o estomago so como em
+ crianas, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle no
+ seja perfeitamente transparente, e at quando tenha seus vestigios de
+ gordura. Faa isto que lhe pedimos, e todas ns bemdiremos o seu nome,
+ pois d'este modo ter prestado um importantissimo servio ao seu paiz.
+</p>
+<p>
+ O seu programma para a educao das mulheres parece-nos excellente para
+ a Frana, Inglaterra e outros paizes onde as meninas so educadas nos
+ collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanas que os
+ frequentam comem e dormem em casa, essa educao que nos habilita a ser
+ boas <i>mnagres</i>, j que o sr. Ramalho gosta de francezismos,
+ recebemol-a ns todas com o exemplo e lio de nossas mes.
+</p>
+<p>
+ Em Portugal onde todo o servio domestico geralmente feito em casa,
+ todas ns sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como
+ se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que no
+ fazem esses servios sabem como elles so feitos, pois desde crianas os
+ viram fazer. O que no sabemos, l isso no, <i>differenar os
+ differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas
+ mais notaveis da arte ornamental</i>, etc. etc.; mas em quanto
+ considerarmos, como at agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a
+ suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos
+ falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.
+</p>
+<p>
+ Em quanto nossa educao moral, estamos convencidas que em paiz nenhum
+ as mulheres so mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais
+ sobrias e economicas, mais submissas vontade do marido que ns, e toda
+ a eloquencia do sr. Ramalho no capaz de abalar sequer a nossa
+ convico.
+</p>
+<p>
+ Em Frana e em Inglaterra ha muitas mulheres&mdash;por
+ profisso&mdash;enfermeiras, aqui no as ha seno nos hospitaes, e nem se
+ lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella
+ seja me, esposa, filha, irm, ou mesmo criada, ha uma enfermeira
+ sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os
+ horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens
+ energicos e audaciosos.
+</p>
+<p>
+ Para sabermos fazer prodigios de economia no precisamos de nos alistar
+ n'uma escola ingleza, e, se o no soubessemos, a primeira mulher do povo
+ que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se pde
+ sustentar uma familia com 18$000 ris por semana, mas n'essa familia&mdash;o
+ chefe, que trabalha do nascer ao pr do sol, sustenta-se comendo tres
+ tigellas de caldo que lhe custam 10 ris cada uma, 20 ris de sardinhas,
+ e 10 ris de bra por dia: total 90 ris.
+</p>
+<p>
+ Convena os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este
+ alimento muito sufficiente para lhes conservar robustas as foras
+ vitaes, e ver como ns todas fazemos economias prodigiosas, e como uma
+ casa deixar de ser uma <i>lba</i> para se transformar n'uma <i>burra</i>.
+</p>
+<p>
+ Mas se considera como o ideal da perfeio na mulher, ser ella o <i>brao
+ forte e escudo da familia</i>, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos
+ exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e
+ guiando barcos no nosso Douro para ganhar o po dos filhos, em quanto os
+ maridos ficam em casa cosinhando: j v que para qualquer de ns
+ realizar o seu ideal basta casar em Avintes.
+</p>
+<p>
+ A educao intellectual das mulheres, quando ellas se no dediquem a ser
+ mestras, pde, e at deve, assim como a moral, receber, como complemento
+ necessario, as lioes dos homens de quem forem esposas. Assim
+ reconhecendo no marido superioridade em tudo, at mesmo nos
+ conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse
+ respeito que a religio e a sociedade nos impem como o primeiro dever
+ da esposa.
+</p>
+<p>
+ Em quanto emancipao das mulheres, esse sonho dourado das senhoras
+ inglezas&mdash;ns, menos profundas pensadoras, no o queremos.
+</p>
+<p>
+ Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores
+ physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria&mdash;o ser me, nos
+ ensina a todas, que a nossa misso na terra, saber soffrer e amar, por
+ isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que
+ acaba de nos fazer soffrer as dres da maternidade, e abenoamos
+ reconhecidas a mo que prende as nossas algemas de escravas, quando essa
+ mo a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixo,
+ encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.
+</p>
+<p>
+ Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida
+ como at agora, poderia ser apresentada como modelo s naes mais
+ civilizadas da Europa.
+</p>
+<p>
+ Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua
+ irm e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua
+ intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa
+ sua robustez physica, a sua grande cabea na qual o chapo de Thiers ou
+ de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros,
+ que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaos dos
+ circos o trabalho de fazer rir o publico.
+</p>
+<p>
+ Em paga de todos os favores, que lhe peo, prometto fazer-lhe s um, mas
+ esse importantissimo.
+</p>
+<p>
+ No dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o
+ sr. Ramalho, seno julgal-o-hiam to criminoso como quem maldiz dos
+ seus.
+</p>
+<div class="centered">
+<p>
+ Sua
+</p>
+<p>
+ <i>Irm de Caridade</i>
+</p>
+</div>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que
+ effectivamente escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle
+ para ns de um valor inestimavel. Este folhetim a mulher. No somos
+ j agora ns que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a
+ retratar. ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um
+ espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa
+ acquisio da nossa galeria. No somos ns que a descrevemos, que a
+ phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um
+ lapis suspeito de inhabilidade ou de m f. Vem que ella mesma que
+ apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua
+ prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores!
+ queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!
+</p>
+<p>
+ Ahi a teem! assim que ella . No ha artificio, no ha preparo, no ha
+ processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade
+ mesma. Reparem bem, meus senhores, que no Proudhon que a descreve,
+ no Coubert que a pinta, no Offenbach que a pe em musica. ella
+ mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.
+</p>
+<p>
+ O que estaes contemplando a obra da direco mental que ns mesmos
+ imprimimos ao nosso tempo, o fructo legtimo e authentico da
+ philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idas que
+ temos produzido e impulsionado: a nossa mulher tal como nol-a fizeram
+ os contactos da nossa convivencia&mdash;a escola, o jornal, o livro.
+ Revde-vos na vossa obra.
+</p>
+<p>
+ Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e
+ de p de arroz, de rhetorica e de <i>chic</i>, de doce d'ovos e de cuia, de
+ recitao ao piano e de taces Luiz XV, de collegio nacional e de
+ <i>cold-cream</i>, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.
+</p>
+<p>
+ Vede que lucidez de razo! que firmeza de criterio! que contenso de
+ raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades
+ intellectuaes a circulao facil e viva atravez da rede dos nervos
+ encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente s que to
+ vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler
+ presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais
+ racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira
+ de pensar podeis ajuizar com segurana da sua forte maneira de viver.
+ Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vs
+ mesmo pelo que lhe ensinastes.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz
+ interprete, dirigi-se s <i>Farpas</i> na pessoa do seu auctor.
+</p>
+<p>
+ O que so as <i>Farpas</i> com relao s mulheres?
+</p>
+<p>
+ As <i>Farpas</i> so a publicao periodica&mdash;unica em Portugal&mdash;que em
+ artigos consecutivos desde a sua appario at hoje se tem
+ constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica
+ reconstituio dos costumes e reorganisao da familia segundo o
+ criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido
+ violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde
+ dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o
+ flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento
+ indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituies perante a
+ dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijo physiologico
+ e social; teem dado como base emancipao da mulher a instruco
+ pratica, to defficiente, e a alta cultura do espirito, to
+ negligentemente descurada na antiga educao; teem-lhe ensinado que
+ aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrir o segredo de
+ ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua
+ collaborao no estudo dos modernos problemas sociaes como factor
+ indispensavel fixao do nosso destino; teem pedido instantemente para
+ ella a fundao de novas escolas de ensino especial e de ensino
+ superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos
+ palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas
+ amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas
+ filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da
+ cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor
+ dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito
+ presente de uma infinidade de theorias, de noes, de projectos, de
+ systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos&mdash;
+ claro&mdash;mas demonstrando uma dedicao excepcional, por isso que nenhuma
+ das publicaes periodicas que precederam esta se dirigiu jmais s
+ mulheres a no ser para lhes consagrar romances de uma moralidade
+ suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.
+</p>
+<p>
+ Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleo das <i>Farpas</i>
+ uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe
+ o seguinte conselho como resumo da opinio collectiva de todas as damas
+ portuguezas:
+</p>
+<p>
+ Que elle trate d'outro officio e deixe aos <i>palhaos dos circos</i> o
+ trabalho a que at aqui se tem dado de fazer rir os outros!
+</p>
+<p>
+ Este simples conselho como um relampago, nas trevas do nosso espirito.
+ Elle de per si s basta para nos convencer de que a educao das
+ senhoras portuguezas no s igual&mdash;como a auctora modestamente
+ formula&mdash; das primeiras mulheres extrangeiras, mas que pde mesmo
+ considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de
+ Girardin, Lady Morgan no tiveram nunca para dirigir a um escriptor
+ qualquer&mdash;amigo ou adversario&mdash;uma palavra to lucida, to conceituosa,
+ to profunda e ao mesmo tempo to finamente aristocratica, to
+ nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio
+ da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que no somos
+ mais que <i>um palhao de circo</i>, opinio profundamente philosophica.
+ talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos
+ lessem. natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas,
+ entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho
+ cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas
+ recordaes perdidas da sua carteira ou do seu corao, um pequeno meio
+ qualquer de no chamarem completamente palhao com todas as suas cinco
+ lettras e a sua respectiva cedilha, <i>p-a-l-h-a--o</i> a um homem a quem os
+ seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.
+</p>
+<p>
+ Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia
+ e da sua propria dignidade uma comprehenso diversa, que no podemos
+ deixar de attribuir com orgulho patriotico influencia local da rua de
+ Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.
+</p>
+<p>
+ No menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta
+ compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e
+ chimica culinaria s mennas portuguezas. Se sua excellencia tivesse
+ effectivamente a instruo que ns pretendemos que se lhe deve dar; se
+ sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre misso da mulher
+ , como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que
+ estava apta para cumprir no seio da sua familia essa misso, sua
+ excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da
+ nutrio, a evoluo cellular, a relao existente entre os phenomenos
+ da nutrio e do desenvolvimento, do movimento e da combusto; se nos
+ mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares
+ pelas suas classificaes mais genericas, os que fornecem o calor e a
+ fora e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que
+ sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples
+ caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos
+ eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital
+ pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada hygiene,
+ pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as
+ substancias alimentcias, pelo sr. Champouillon na sua <i>Hygiene
+ alimentar</i>, pelo sr. Claude Bernard nas suas lies e conferencias, pelo
+ sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentao insuficiente, pelos
+ srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud,
+ Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua
+ excellencia possuisse finalmente&mdash;ainda que no estado da mais ligeira
+ tintura&mdash;alguma das noes em que se basea a theoria da cosinha, que
+ um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o
+ seu voto n'esse caso poderia ter discusso.
+</p>
+<p>
+ A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este
+ assumpto d ao seu voto um caracter irrevogavel, que no pode infundir
+ nos adversarios seno admirao e respeito.
+</p>
+<p>
+ inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham
+ dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o
+ seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada
+ hora, j dormindo, j caminhando, j executando um trabalho mental ou
+ muscular, para regular sobre este dispendio a rao alimentar de cada
+ individuo. inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as
+ analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo
+ dos diversos alimentos e da quantidade de fora e de calor desenvolvida
+ pela oxydao d'elles. inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton
+ nos tenham mostrado pela comparao das estatsticas da salubridade nas
+ campanhas da Crima e da Italia o extraordinario poder da qualidade da
+ alimentao sobre a saude e sobre a energia dos soldados. inutil que
+ pelo estudo de iguaes estatsticas com relao alimentao de
+ operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da
+ qualidade da alimentao resulta o augmento ou a diminuio de 20 a 30
+ por cento no trabalho de cada homem. inutil que Geoffrey Saint-Hilaire
+ nos tenha dito: Quantos factos na vida das naes attribuidos pelos
+ historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside
+ simplesmente na cosinha das familias!. inutil que toda a sciencia
+ tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em
+ cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos
+ nervinos uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do
+ nosso tempo; que indispensavel perante a moral e perante a justia
+ melhorar a alimentao dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisio
+ dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua
+ economia. inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os
+ philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisao e
+ de associao chamar a atteno das mulheres para o estudo e para a
+ resoluo d'esse grave problema cuja sede a cosinha. inutil tudo
+ quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta
+ illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus
+ similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos
+ empyricamente do que por tel-o visto fazer cozinheira da sua av.
+</p>
+<p>
+ Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradio sobre os methodos
+ de deitar a carne panella nas cosinhas da sua rua este argumento
+ supremo: Foi com essa panella frente que os portuguezes contiveram em
+ respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na
+ Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraados
+ travessa do cosido que nossos avs descobriram a India e que os paes de
+ uns de ns resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os
+ vencidos jantavam no <i>Bignon</i> ou no <i>Caf Anglais</i>.
+</p>
+<p>
+ Em presena d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e
+ reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia
+ affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o <i>statu quo</i> na
+ perfeita educao da mulher portugueza. Continue sua excellencia
+ imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um
+ vestido e que sabe tambem&mdash; legtimo
+ orgulho!&mdash;<i>fazer doce</i>.&mdash;De mais a
+ mais&mdash;notem&mdash;sua excellencia faz doce! No! positivamente nada se nos
+ offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. No precisa de saber mais nada.
+ Ahi tem sua excellencia uma opinio que lhe garantir as solidas
+ virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os
+ enthusiasmos da paixo:&mdash;sua excellencia gosta de assucar!
+</p>
+<p>
+ Quem sabe se no ser por um effeito do atavismo sobre a gula qae os
+ meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vo beber
+ licores para os botequins?
+</p>
+<p>
+ As mes dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem
+ ellas mesmas no a opinio do assucar mas sim a do <i>roast-beef</i> e da
+ agua fria; no fazem doce, fazem gymnastica, e no ensinam os filhos
+ unicamente a comer marmelada, a ir novena e a no metter os ps nas
+ poas; ensinam-lhes o cricket, a natao e o <i>box</i>, do-lhes desde a
+ idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles
+ vo para os botequins, no costumam encarregar os criticos de lh'os ir
+ l buscar.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Sua excellencia no se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo
+ segundo os preceitos de Liebig, que ns lhe aconselhamos suppondo que
+ Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais
+ d'isso do que o Antonio das Mas, celebre inculcador de cosinheiras,
+ encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da
+ arte culinaria. Sua excellencia no s no quer fazer caldo em termos
+ para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os
+ pratos e os copos, determinar a differena de cr nos estofos do salo e
+ da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna,
+ pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto sociedade
+ conjugal um servio igual quelle que recebe d'ella em proteo, em
+ trabalho e em fora. Sua excellencia prefere <i>deixar todos esses
+ conhecimentos aos cuidados do dono da casa</i> (!) <i>cuja vontade considera
+ a lei suprema, na escolha de todos os artigos!</i>
+</p>
+<p>
+ Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funces que sua
+ excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma no tivesse a
+ bondade de nos explicar que a occupao para que se reserva a de
+ <i>abenoar agradecida a mo que prende as suas algemas de escrava</i> (!)
+</p>
+<p>
+ O que nos parece que esse mister exclusivo de sua excellencia no
+ promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas
+ algemas!
+</p>
+<p>
+ Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua
+ excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abenoar os ferros, a
+ jogar a bisca. O nosso temperamento no nos permittiria estar a dar-lhe
+ constantemente o grilho a abenoar; quereriamos ter a faculdade de
+ poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma ba rlha.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O folhetim de sua excellencia termina com uma alluso pessoal nossa
+ robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos
+ licena para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:
+</p>
+<p>
+ Eu&mdash;pois que bom precisar a clareza dos numeros&mdash;eu, auctor d'estas
+ linhas, no me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calada dos
+ Clerigos. No, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos
+ homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirar d'este facto
+ a concluso maliciosa de que no tomei ch em pequeno. Que sua
+ excellencia no hesite um momento em tirar tal conclso! at favor que
+ me faz&mdash;para simplificar os dados do problema&mdash;o partir do principio de
+ que no tomei ease ch.
+</p>
+<p>
+ Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida
+ courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos
+ mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia
+ para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouo:&mdash;o phosphato de cal,
+ que eu ingeria em grandes dozes.
+</p>
+<p>
+ A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, no tinha saguo,
+ no tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, no
+ tinha pia.
+</p>
+<p>
+ A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o
+ grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o
+ primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem
+ terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias
+ dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um
+ instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher:
+ Primeiro ser saudavel; Segundo no ser conhecida. No interior da sua
+ casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de
+ economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho
+ piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se
+ fechar de memoria d'homems s 10 horas da noite, o mais tardar. No se
+ desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de
+ cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um
+ dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execuo
+ esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graa, de que era
+ modelo a incomparavel cosinha da minha av,&mdash;aberta ao nivel do pateo
+ defronte do poo, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico
+ perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de
+ cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira
+ onde se espanejavam os capes; os tropheus ornamentaes dos instrumentos
+ agricolas; as prateleiras da loua reluzente; o cortio da barrela e a
+ masseira do po a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do
+ fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos mos da lavoura tendo
+ em cima a grande celha com a braada verde dos frescos legumes picada
+ com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas
+ efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a interveno periodica
+ do mendigo de estrada, de alforge ao pescoo, que vinha encher a sua
+ escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam
+ sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.
+</p>
+<p>
+ Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensao de tepido aconchego, de
+ suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e
+ honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias
+ contadas lareira; infundia o respeito da tradio; dava o amor da
+ familia; explicava o amor , terra da patria pela dedicao s quatro
+ braas de solo cobertas por esse velho tecto.
+</p>
+<p>
+ A cosinha de minha av era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual
+ os mais bellos quadros da escola flamenga, to penetrados como so da
+ poesia domestica, no poderam dar-me jmais seno uma ideia desbotada e
+ fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
+ havido em Portugal no pode seno fazer-me sorrir comparada obra
+ modesta de minha av, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
+ educaao das suas filhas, para a fixao do respeito, da venerao e da
+ saudade eterna dos seus netos.
+</p>
+<p>
+ A minha robustez physica o mais contraproducente dos argumentos que a
+ minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
+ que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da me. A minha
+ robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raa de mulheres, que os
+ nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
+ das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
+ vezes empallideceram nos bailes e no tiveram nunca de que corar aos
+ folhetins dos periodicos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Terminando, agradeo de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
+ escriptora minha patricia, mas peo licena para os no seguir.
+ Continuarei a fazer rir os outros, o que me no impedir de fazer tambem
+ chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.
+</p>
+
+<hr id="telephonio" class="major" /><!--===================-->
+
+<p>
+ Por occasio da visita de el-rei Escola Polytechnica funccionou o
+ telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.
+</p>
+<p>
+ Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
+ que sua magestade ouvira&mdash;um solo de cornetim!
+</p>
+<p>
+ Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
+ Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica <i>Unio e
+ Capricho</i>. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
+ Emquanto a astronomia tocava cornetim natural que, em compensao, a
+ arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.
+</p>
+<p>
+ A unica cousa que extranhamos que o Observatorio no observasse entre
+ as suas peas de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
+ a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.
+</p>
+<p>
+ Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
+ accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
+ parece-nos um abuso que o principe no levar a bem.
+</p>
+<p>
+ Reflectiu por acaso o Observatorio no que o hymno para um cerebro
+ coroado? Cremos que o Observatorio no desceu ainda com as suas
+ conjecturas ao fundo d'esse abysmo. horroroso.
+</p>
+<p>
+ Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
+ O observatorio faz certamente ideia do que ter zumbidos, no
+ verdade? Pois ter hymno peor. ter constantemente, durante toda a
+ vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
+ sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doena
+ chronica, como affeco incuravel do nervo acustico, a audiao do mesmo
+ trecho de musica!&mdash;O que deve levar paulatinamente loucura.
+</p>
+<p>
+ Que o Observatorio se compadea do infeliz principe condemnado a to
+ incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
+ contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
+ faltas de dinheiro, ha de ter constipaes, ha de ter dores de dentes,
+ ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
+ hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
+ s regies da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que no ha outro
+ remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
+ sejamos justos! A providencia collocou-nos na mo o cornetim. O monarcha
+ presta-nos submissamente o seu real ouvido. No abusemos d'esse
+ instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
+ tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeas! Somos
+ cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o <i>Pirolito!</i>
+</p>
+<p>
+ E a posteridade nos abenoar.
+</p>
+
+<hr id="cemiterios" class="major" /><!--===================-->
+
+<p>
+ Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
+ hydra da reaco desapparecera da orbita dos conflictos do poder
+ politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
+ manh nas secretarias do Terreiro do Pao, perguntavam angustiadamente
+ uns aos outros:
+</p>
+<p>
+ &mdash;No viram por ahi a hydra?
+</p>
+<p>
+ Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
+ entumeciam de impaciencia por no poderem esmagar o monstro; e o sr.
+ Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhao na sua
+ dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
+ imperfeito do verbo Mexer.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
+ presidente do conselho, tomou uma resoluo heroica: determinou ser
+ hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
+ suas funces de bicha ultramontana com as suas funces administrativas
+ de homem de estado. Pela manh s. ex. governa. De tarde s. ex. raba.
+</p>
+<p>
+ Eis um dos resultados da dualidade que s. ex. se dignou de assumir para
+ salvar a situao da falta da hydra:
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O servio dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
+ Catholicos e no catholicos eram levados para o cemiterio municipal
+ pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
+ seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
+ haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
+ questo canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
+ exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
+ como uma instituio municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
+ que desejassem repousar em terreno sagrado, e no benzessem as
+ d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
+ No tinha jmais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
+ esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
+ podia-se morrer em Lisboa s pelo gosto de ser to tranquillamente
+ enterrado.
+</p>
+<p>
+ N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua frma de hydra e
+ determina em favor da morte catholica a creao de um muro similhante ao
+ que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
+ municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento portaria de s.ex. e
+ discutir o modo de levantar o muro. Propem-se a tal respeito varios
+ alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
+ de facto n'essa cavalheiro todas as condies que se requisitam para o
+ triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispe da primeira
+ cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
+ uma formula. A sua formula esta: ...<i>O bucentauro do progresso
+ rasgando os flancos da montanha</i> ... Sempre que esse homem terrivel
+ arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
+ auditorios a sua formula, a victoria d'elle. A sua existencia tem sido
+ uma serie nunca interrompida de triumphos, alcanados pela sua
+ cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
+ o <i>bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha</i> que elle
+ triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
+ theses de doutoramento, na exhibio das provas do seu concurso para
+ lente da universidade, nas reunies das associaes operarias e
+ phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
+ e de Lisboa e Aores, nas suas eternas preleces sobre o terceiro
+ estado, e finalmente na discusso do muro Guillomin da morte catholica
+ ordenado por s. ex. a nobre hydra de Avila e Bolama.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
+ canonico extraidos do <i>bucentauro do progresso rasgando os flancos da
+ montanha</i>, e ardendo em zelo pela sua alta comprehenso scientifica e
+ philosophica do phenomeno social da religio e do facto biologico da
+ morte,&mdash;comprehenso egualmente haurida do j alludido bucentauro
+ rasgando os supracitados flancos,&mdash;que s.ex. o sr. doutor convenceu a
+ vereao lisbonense a approvar no s a creao de um muro&mdash;o que
+ hydra parecer sufficiente&mdash;mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
+ ainda parece pouco.
+</p>
+<p>
+ O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
+ fecharo o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
+ aquelles que morrerem fra do gremio da religio catholica apostolica
+ romana.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Ns suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
+ dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
+ cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
+ consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
+ infinito onde pra a vida; que o cadaver deixava de ter uma religio,
+ cessava de pertencer igreja, para pertencer exclusivamente chimica.
+ Suppunhamos que o cemiterio, considerado no s pelo seu lado civil mas
+ mas principalmente ainda pela inteno do seu instituto christo, era o
+ campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
+ discrepancia de idas, de toda a offensa, de toda a injuria, a manso
+ eterna do perdo e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
+ amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
+ orbe pela larga beno incondicional de Jesus.
+</p>
+<p>
+ Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
+ pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. Joo, puramente um
+ recinto de caracter official, destinado fermentao exclusiva das
+ podrides privilegiadas.
+</p>
+<p>
+ Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
+ ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
+ pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
+ as suas calas de galo de ouro duplamente retesadas pela inchao e
+ pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
+ no peito, o espadim ao lado, o chapo armado aos ps, o cordo da ordem
+ terceira de S. Francisco cinta, vae legitimamente e no uso do mais
+ sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
+ resurreio da carne, como esperou na vida a hora da sua repartio. No
+ dia da chamada geral no valle de Josaphat elle por na cabea o seu
+ chapo de bicos e ir tomar o competente logar na gloria eterna, na
+ bancada dos conselheiros, mo direita de Deus Padre Todo Poderoso.
+</p>
+<p>
+ Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado luz no cano
+ do esgoto, tu que no conheceste pae nem me, producto espontaneo da
+ grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre superficie
+ do pantano, tu que no recebeste baptismo, nem confirmao, nem ordem,
+ nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
+ o co e que a igreja confere por uma tarifa de preos superiores aos
+ teus capitaes, tu, no tinhas no cemiterio de Lisboa seno um logar
+ usurpado, roubado indignamente s pessoas de bem. Estoiraste para um
+ canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fra dos
+ sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. s como um co. A tua natureza
+ humana no a da outra gente. A tua podrido no a da cabelleira do
+ sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu s uma besta.
+ s peior ainda: s um impio. Vo conceder-te agora um quintal para ires
+ para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
+ te fazem estes bons senhores em te no remetterem s equarissagens para
+ o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
+ distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
+ sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
+ chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
+ poderiam achar uma applicao pratica e decente. Poderias aspirar na tua
+ outra vida a abotoar com os teus ossos as calas do sr. marquez de Avila
+ e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
+ doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
+ te destinam nada mais sers do que um eterno objecto de execrao e de
+ horror para os teus concidados. Quando passarem por cima da tua cova os
+ homens srios, a quem est promettido o co sob a palavra de honra do
+ padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspiro sobre a tua
+ dissoluo infecta. As mes passaro de longe, correndo, com os seus
+ filhos pela mo, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
+ entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-ho com as
+ suas finas mos pallidas e rezaro os esconjuros mais efficazes no fundo
+ tepido dos seus ligeiros <i>coups</i>. Assim com as abenoadas sepulturas
+ dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dar os horrendos
+ enguios. E eu te affirmo que ainda havemos de vr aquelles que eram
+ cegos e que recuperaram a vista abraando-se s sagradas reliquias de um
+ bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
+ vegetaes malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
+ preverso! Finalmente sers detestado, abominado, execrado, maldito,&mdash;cem
+ mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanas, pela
+ cidade inteira.
+</p>
+<p>
+ E cuidas tu, miseravel, que poders encontrar um dia na eterna justia
+ inviolavel a compensao d'este despreso systematisado, d'este rancor
+ que um regulamento municipal, d'este odio que uma lei do reino? Como
+ te enganas! O que tem de te succeder irremissivelmente o seguinte:
+</p>
+<p>
+ No dia do juizo final tu ouvirs na profundidade do teu estrume o
+ canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
+ anjo que desde o principio do mundo ter estado a recolher no pulmo
+ para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
+ os bramidos do mar, todas as erupes dos vulces, todas as quedas das
+ catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovo e do raio.
+ No ters remedio seno acordar,&mdash;quer queiras, quer no&mdash;do teu pesado
+ somno da materia bruta. Sers levado revista do grande valle por dois
+ ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
+ como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-ho
+ com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: Vocemec ha de
+ ter a bondade de passar ali para a mo esquerda de Deus Padre porque
+ condemnado. Tentars escapulir-te, safar-te para a podrido de que
+ tinhas vindo. Appellars para o juiz supremo. O arbitro da eterna
+ justia inquebrantavel cravar em ti os seus olhos. Tu o vers tambem a
+ elle, com a sua longa barba que envolver toda a terra, o seu bigode de
+ interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
+ dedos, chisparo os raios na amplido infinita. Ouvirs a sua grande
+ voz, cujas sylabas cairo na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
+ Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dir:&mdash;Deram-lhe o
+ baptismo? No. Deram-lhe a confirmao? No. Deram-lhe a penitencia?
+ No. Deram-lhe a absolvio da culpa? No. No lhe deram nada. O
+ cherubim tem razo. Passe para a mo esquerda. Ento passars para a
+ esquerda. O teu anjo custodio abrir um alapo aos teus ps e gritar
+ para baixo, para as profundidades do immenso vortice:&mdash;Fogo eterno para
+ um! Depois do que, te tocra com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
+ o espao como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
+ sombria feita de lama, at te submergires no tremendo abysmo, na punio
+ eterna. E ser por todos os seculos dos seculos, sem fim jmais.
+</p>
+<p>
+ Eis ahi tens o que te espera, segundo a religio do dr. Jardim e outros.
+ Religio bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
+ mos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
+ mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
+ Bem diversa da d'aquelles christos da igreja primitiva, que assombravam
+ Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
+ que os pagos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
+ cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
+ os conduzirem sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
+ collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E no
+ resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
+ primeiros christos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagos
+ pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
+ impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
+ sacrificio bastava ser desgraado. Por isso disia o imperdor Juliano que
+ fra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
+ contribira para o estabelecimenlo e para a propagao do christianismo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vr como s. ex. o
+ ministro do reino resolver os conflictos promovidos contra elle mesmo
+ por s. ex. a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
+ muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
+ esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou&mdash;porque o digamos
+ n'outros termos&mdash;a atteno do seu genio. Eis um dos casos sobre que
+ pretendemos consultar s. ex:
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
+ no querendo enterrar-se de todo por uma s vez, resolvia enterrar-se
+ por partes e dar terra uma das suas pernas para a terra se ir
+ entretendo.
+</p>
+<p>
+ N'esta hypothese pergunta-se:
+</p>
+<p>
+ Onde que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
+ o capricho de descartar-me?
+</p>
+<p>
+ Estou prevendo que o bucentauro de s. ex., attribuindo
+ indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
+ escripto, me prescrever o logar destinado por s. ex. para os membros
+ impios e locomotores.
+</p>
+<p>
+ A isto porm replico a s. ex. que a minha perna quer se trate da
+ direita, quer se trata da esquerda, boa catholica apostolica romana.
+ Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei pia
+ baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
+ lingua latina, que ella a esse tempo ainda no tinha tido tempo de
+ aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu <i>Volo</i>! E
+ este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
+ as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
+ parocho se ella acreditava na communicao dos santos, na resurreio da
+ carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
+ padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
+ tinha ido com o seu respectivo p e com o pequeno apendice que era o
+ resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia at hoje bem
+ varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
+ crenas religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
+ compete na funeral manso. Ella porm, ex'mo. sr. doutor, apezar de
+ todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca at hoje
+ contradisse&mdash;que me conste&mdash;as declaraes latinas feitas em seu nome
+ por meu padrinho: <i>Volo, credo, abrenuntio</i>. Ella portanto catholica,
+ e tem direito sepultura sagrada na terra e bemaventurana no
+ paraiso. O sr. Jardim no pde de modo alguma mandal-a para o cemiterio
+ dos atheus.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete
+ funeral jazida de uma das minhas pernas o cemiterio catholico. A essa
+ resoluo tenho egualmente de oppr-me com os fundamentos seguintes:
+</p>
+<p>
+ Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confisso, a missa, a
+ communho, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
+ no significa da parte da minha perna uma affirmao religiosa mas sim
+ uma affirmao civil.
+</p>
+<p>
+ Pelas leis do reino a religio catholica apostolica romana no
+ facultativa, obrigatoria. A minha perna no pde entrar no estado sem
+ ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
+ substitua o assento baptimal para a consignao do nascimento, a minha
+ perna nem sequer portugueza pde ser emquanto no fr baptisada! Em todo
+ o decurso da vida civil, ella no pde dar um s passo sem primeiramente
+ demonstrar que catholica. Sem a certido de baptismo, primeiro, sem o
+ attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
+ sacramentos depois, ella no pde fazer exame de instruco primaria;
+ no pde matricular-se em nenhuma das escolas; no pde entrar no
+ exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
+ na magistratura, nem na representao nacional. No sendo catholica no
+ pde ter nacionalidade, no pde ter profisso, no pde ter estado, no
+ pde ter mulher, no pde ter filhos, no pde nem ao menos ter nome!
+</p>
+<p>
+ A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta minha perna
+ antes de a deixar penetrar, se ella catholica, exactamente como se lhe
+ pergunta se ella est isempta do recrutamento e se vaccinada.
+</p>
+<p>
+ Desde que veiu luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
+ nascer, pertence irremissivilmente igreja. Sem previa licena da
+ igreja ella no pde dar um unico passo para dentro do estado ou para
+ dentro da familia. Esta simples aspirao, to modesta: ser filha de meu
+ pae e de minha me&mdash;a minha perna est prohibida de a ter sem que a
+ igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
+ de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
+ minha emquanto a igreja no disser tambem que sim. De sorte que, quando
+ eu ouso dizer <i>a minha perna</i>, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
+ espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
+ deveria dizer em linguagem litteral, para me referir minha perna,
+ era&mdash;a perna da igreja.
+</p>
+<p>
+ Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
+ perna da faculdade de escolher uma religio, chumbando-lhe elle mesmo o
+ catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
+ recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
+ direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religio. Pelo facto de
+ ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
+ anno, de commungar pela Paschoa da Resurreio, de jejuar sexta feira,
+ de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna no est na
+ religio, est apenas na lei civil, est na carta. Em quanto a crenas
+ religiosas, o mais que se poder dizer da minha perna, apezar de
+ baptisada, de jejuada, de confessada, etc., que ella cartista.
+</p>
+<p>
+ Como porm a creao das duas especies de cemiterios imaginados em
+ Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila no pde ter por fim
+ separar os cidados que obedecem carta dos cidados que lhe no
+ obedecem&mdash;o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
+ dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
+ sua transgresso,&mdash; claro que no pde ser unicamente pelo facto de
+ estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
+ designar a sepultura sagrada.
+</p>
+<p>
+ Em concluso final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
+ outro no catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
+ pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella
+ effectivamente catholica ou se no catholica, acha-se no caso especial
+ de no poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
+ e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim no mandar o
+ contrario.
+</p>
+<p>
+ Ora succede que todos os cidados portuguezes, sem excepo alguma, se
+ encontram precisamente nas mesmas condies em que se acha a minha
+ perna.
+</p>
+<p>
+ No se pde affirmar que alguem catholico ou que o no emquanto a
+ creao do registro civil no assegurar a cada cidado a livre faculdade
+ de exercer ou no qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
+ padre, morrer sem padre.
+</p>
+<hr id="camara" class="minor" />
+<blockquote>
+<p>
+ Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
+ cidade do Porto ou quem suas vezes fizer&mdash;Paos da Camara na Praa Nova,
+ esquina do Laranjal
+</p>
+</blockquote>
+<p class="centered">
+ Porto
+</p>
+<p>
+ Excellentissima camara e minha boa senhora. cheio dos maiores cuidados
+ pela preciosa saude de v. ex. que lanamos mo da pena para, em nome de
+ todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasio da cerimonia
+ inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex. algumas regras.
+</p>
+<p>
+ Principiaremos por dar a v. ex. uma breve noticia da festa em que
+ tomamos parte e em que v. ex. teve as suas razes para no se dignar de
+ comparecer.
+</p>
+<p>
+ Por convite da direco da companhia dos caminhos de ferro portuguezes
+ reunimo-nos na estao das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
+ pelas 11 horas da manh. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
+ comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, entrada da nova
+ ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
+ presenceamos desde Gaya at estao de Campanh e do qual procurarei,
+ certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.!
+</p>
+<p>
+ Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
+ uma perola azul, abraa amorosamente a natureza e banhava a paizagem
+ n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
+ violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
+ encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
+ maritima, salgada e humida, at os montes longnquos do lado opposto,
+ levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisaes do sol.
+ Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
+ Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
+ caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
+ de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
+ Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
+ da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
+ <i>pignon</i> como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
+ reluzentes, forrados de faiana, outros barrigudos, sombrios enodoados,
+ fazendo fincap para no cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
+ ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de cr de rosa,
+ com chamins bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
+ trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
+ abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
+ os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
+ murmurosas frescuras das quintas de Quebrantes, da Oliveira, da
+ freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configurao
+ de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
+ torrees e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
+ venezianamente na agua.
+</p>
+<p>
+ Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebrao da
+ ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
+ proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetao
+ humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
+ os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
+ os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
+ tinham um debrum de gente.&mdash;Enorme romagem nunca vista. A cidade do
+ Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regies do
+ paiz estavam ahi reunidos. Para que?
+</p>
+<p>
+ Para celebrar um puro facto scientifico&mdash;a soluo de um problema de
+ mechanica. N'este simples facto, exm. camara, que symptoma! que
+ phenomeno! que revoluo!
+</p>
+<p>
+ Ha bens poucos annos ainda s o fanatismo religioso tinha o poder de
+ determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
+ de Guimares, senhora da Nazareth, senhora do Cabo. Os peregrinos
+ iam ento solicitar a interveno milagrosa dos bons santos nos seus
+ casos pathologicos, nas suas ambies pessoaes, nas suas questes
+ domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
+ os tristes iam pedir consolao, os turbulentos iam pedir paz, e os
+ mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoo, a
+ longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no p dos
+ caminhos, iam simplesmente beira das estradas pedir po em troca de
+ plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.
+</p>
+<p>
+ Os peregrinos ponte sobre o Douro no eram movidos por interesse algum
+ pessoal.
+</p>
+<p>
+ Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
+ o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
+ exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia j uma
+ funccionalidade diversa.
+</p>
+<p>
+ Um poder absolutamente novo, que no o poder religioso nem o poder
+ politico, com quanto no affirmado ainda nas instituies, revela-se j
+ por este facto na comprehenso dos espiritos. Esse novo poder,
+ irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
+ nomes teem gerido at hoje a direco da sociedade, na esphera
+ espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.
+</p>
+<p>
+ A ponte sobre o Douro a mais bella e a mais perfeita expresso
+ symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
+ mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
+ que ha exemplo na historia das manifestaes do applauso publico. Era
+ to superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisao,
+ que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
+ todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distinces
+ de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
+ A direco da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
+ convidar para o banquete que se seguiu solemnidade da inaugurao os
+ individuos representantes das opinies mais extremas, o mundo official e
+ o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
+ progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
+ revolucionarios. Estes personagens to justamente surprehendidos de se
+ acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoo
+ cujos convivas no tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
+ outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
+ tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
+ episodicas de opinio, havia um sentimento de attraco commum, de
+ conciliao geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
+ sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
+ fora anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
+ bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
+ vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
+ aperfeioamento e para a felicidade.
+</p>
+<p>
+ No foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas no foram tambem
+ os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
+ dirigido at hoje a humanidade na sua asceno atravez da historia. Foi
+ elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
+ remansos da paz, nos recolhimentos da applicao e do estudo o que
+ determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
+ das sociedades.
+</p>
+<p>
+ A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
+ victorias, um d'esses triumphos:&mdash;a conquista de perto de meio seculo de
+ paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
+ sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
+ progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
+ instituies.
+</p>
+<p>
+ Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
+ estreitamente enlaadas agora por um abrao de ferro, eram separadas por
+ um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde ns agora nos
+ reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
+ nossos paes e os nossos avs espingardeavam-se convictamente, decidindo
+ com o sacrificio das suas vidas a questo de palacio a esse tempo
+ debatida entre dois principes.
+</p>
+<p>
+ A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. evidente que
+ progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
+ milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
+ affirmao d'esse progresso.
+</p>
+<p>
+ A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
+ principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandes de toda a
+ especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.
+</p>
+<p>
+ Como foi que v. ex., representante do municipio portuense recebem este
+ seu novo hospede? No lhe apparecendo!
+</p>
+<p>
+ V. ex., que tem dado a esse espinhao os tratos mais violentos e mais
+ irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
+ satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.
+ que tem desengonado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
+ ps da real familia; v. ex. que conserva ainda entre os ferros velhos
+ do seu stylo declamatorio&mdash;ao mesmo tempo alambicado e labrego&mdash;<i>as
+ chaves d'esse heroico baluarte</i> depostas em cada anno por v.
+ ex.&mdash;dizemos&mdash;no teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
+ agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
+ extraordinaria manifestao de estima de que ainda foi objecto uma
+ cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.
+</p>
+<p>
+ Este simples facto basta para nos provar que v. ex. desconhece
+ completamente qual o espirito municipal das modernas sociedades
+ democraticas, que v. ex. est cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
+ abaixo da misso em que foi investida pelos suffragios da populao
+ portuense, to energica, to intelligente e to progressiva.
+</p>
+<p>
+ possivel que v. ex. tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
+ contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
+ com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
+ patuscada, para alguma das bem conhecidas <i>sapateiradas</i>, nas quaes todo
+ o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
+ forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque que v. ex.
+ nos no preveniu? Durante a ausencia de v. ex., minha boa senhora, a
+ sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
+ telegraphico ns, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
+ teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
+ resignao para o desgosto de a no vermos no espirito.
+</p>
+<p>
+ Acceite minha senhora a expresso dos nossos sentimentos, to cordeaes
+ como aquelles que v. ex. nos no exprimiu.
+</p>
+
+<hr id="politica" class="major" /><!--===================-->
+
+<p>
+ Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
+ de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
+ os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.
+</p>
+<p>
+ Eis o que ao depois occorreu:
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ A pacata bestinha da governao andou a monte por alguns mezes,
+ choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos taces do sr. Barros e
+ Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
+ estadista e cavalleiro. Para onde que s. ex., coberto de zelo e de
+ suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?
+</p>
+<p>
+ &mdash;Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex. com uma das
+ mos na redea e com a outra mo sobre a carta constitucional.
+</p>
+<p>
+ Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
+ bambeavam dubitativamente a cabea, e do alto das montanhas, com a mo
+ aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:
+</p>
+<p>
+ &mdash;No. Para onde elle vae para a senda de Cacilhas Cova da Piedade.
+</p>
+<p>
+ E deixaram-o ir.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
+ com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
+ estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
+ orelha, baixando a cabea, cravando os olhos sinistros nos cascos
+ deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
+ adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
+ homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
+ perfidia das rs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
+ abysmo,&mdash;sempre com uma das mos na carta, mas j tem a outra mo na
+ redea.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
+ cavalgadurinha do Estado principiou ento a dar terra para feijes,
+ retrocedendo para casa e bebendo o espao com o freio nos dentes e com a
+ saudade da mangedoura na alma.&mdash;To poderoso e fecundo o ascendente
+ moral que exerce o principio sagrado da rao sobre as actividades
+ officiaes!
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Quando as boninas e os representantes da nao tornaram a ver a burrinha
+ do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
+ dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulao entre os
+ circumstantes que porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
+ sr. Jos Dias Ferreira.
+</p>
+<p>
+ Empolgando com mo dextra e firme a camba do freio alimaria do poder,
+ o sr. Jos Dias exclamou triumphante e glorioso:
+</p>
+<p>
+ &mdash;A mim, rapazes!
+</p>
+<p>
+ E gritando em coro: Ave, Jos vencedor!&mdash;os rapazes foram a elle.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Eis seno quando, que ho de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
+ assim elle mesmo?
+</p>
+<p>
+ Atonitos elles vem&mdash;caso que os olhos se lhes recusam acreditar&mdash;que a
+ burra j no est devoluta, que a albarda tem gente em cima!
+</p>
+<p>
+ Effectivamente emquanto o sr. Jos Dias intrepido segurava a redea, o
+ sr. Fontes veloz encavalgara o poder.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provises
+ do governo que o precedera. S. ex. sacou os 150 contos de tijolo para a
+ Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
+ rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
+ depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de cro e o
+ seu devido rap; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
+ cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaada de algodo
+ para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixes cheio de
+ dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
+ nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o <i>Times</i>; e,
+ como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
+ estes virados com o de dentro para fra, e appareceu por ultimo o sr.
+ Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
+ commisso da exposio de Paris. S. ex. trazia empunhada e aberta a
+ delicada umbela de linho cru forrada de tafet azul com a qual s. ex.
+ abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Pao at rua do Duque
+ de Bragana a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
+ ministros. O ar de s. ex. o sr. Deslandes era cheio de uma grave
+ auctoridade, e sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafet
+ azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!
+</p>
+<p>
+ Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
+ da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
+ causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
+ durante alguns mezes e querendo obviar repetio d'essa
+ intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
+ bolsa do alforge ministerial.
+</p>
+<p>
+ Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. Jos Dias do alto da burra,
+ enfiou a trote marcial provincias da publica administrao em fra.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. To smente no mesmo
+ logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
+ nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solido, a chapinhar com
+ arnica o seu galo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Na semana seguinte quella em que estes successos occorreram houve
+ jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
+ eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
+ Fontes pelos <i>gentlemen</i> do <i>turf</i> politico.
+</p>
+<p>
+ O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
+ como o <i>Gladiateur</i>, e ninguem mais tornar a apostar contra o nobre
+ estadista sem a condio previa de que se sobrecarregue com mais alguns
+ kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.
+</p>
+
+<hr class="major" /><!--===================-->
+
+<p>
+ Uma vista d'olhos a uma das ultimas sesses da camara dos senhores
+ deputados:
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
+ funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
+ os parapeitos at ao tecto.
+</p>
+<p>
+ Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traada sobre
+ o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.
+</p>
+<p>
+ Serve de secretario, lanando apontamentos a uma larga folha de papel um
+ individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
+ resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
+ publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
+ dr&mdash;Alfredo Angelino. S. ex. traja rigorosmente de negro.
+</p>
+<p>
+ Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
+ encasados nos seus <i>fauteuils</i>. No teem uma apparencia espirituosamente
+ feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espao
+ com a expresso passiva e to caracteristicamente pacata dos individuos
+ calidos quando instalados em decoces emolientes de alfavaca de cobra.
+</p>
+<p>
+ No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mos sobre o
+ corao, a outra mo alongada patheticamente no espao, est orando.
+</p>
+<p>
+ Em torno do tribuno agrupam-se em p varios representantes da Nao.
+</p>
+<p>
+ Uns rolios, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
+ amplas sobrecasacas pomposas. Sente&mdash;se que elles respiram com exforo.
+ O abuso do feijo suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
+ Robespierre&mdash;So os empaturrados da coisa publica.
+</p>
+<p>
+ Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lvidas, os ps
+ mettidos para dentro, as calas esbambeadas pelas joelheiras dos
+ sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calas e que
+ descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.&mdash;So os espinhelas
+ cahidas do systema que felizmente nos rege.
+</p>
+<p>
+ No fundo escuro da bancada sobresaem da cr sombria dos vestuarios de
+ inverno duas mos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
+ dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripo ou uma
+ sentena de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
+ inoffensivamente, n'uma abstrao magnanima.
+</p>
+<p>
+ &mdash;Sr. presidente&mdash;diz o orador, e a sua voz pungente, elegiaca,
+ lacrimejante&mdash;Sr. presidente! onde no ha religio no ha dignidade.
+</p>
+<p>
+ Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
+ estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
+ cabea.
+</p>
+<p>
+ Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
+ vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
+ esto ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade uma
+ resultante da religio. E todavia a religio que obriga esse pallido
+ mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplao,
+ a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
+ submetter-se pela humilhao, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
+ face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
+ resignar-se. E pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
+ sanguineo e robusto a caminhar na direco opposta d'esse anemico, a
+ constituir a familia, a luctar, a no perder tempo em contemplaes e em
+ extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
+ lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
+ moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
+ botas novas no caem do ceu cob a frma de man, caem unicamente do
+ trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porm esto
+ ambos de accordo emquanto alliana indissoluvel da dignidade de um e
+ da religio do outro perante o principio transcendente da rhetorica
+ constitucional.
+</p>
+<p>
+ Diz mais o orador:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Sr. presidente!&mdash;e a entonao do tribuno continua a ser lacrimosa e
+ pathetica&mdash;li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
+ investigaes de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
+ inventando religies para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
+ isto porem no apagou na minha alma a doce esperana que n'ella lanaram
+ aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
+ porque elles sero consolados.
+</p>
+<p>
+ E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
+ camara:&mdash;Muito bem! muito bem!
+</p>
+<p>
+ morbida corrente intellectual do pessimismo allemo representado por
+ Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppe o naturalissimo de Darwin
+ e as poderosas systematisaes de Spencer, a Frana oppe o positivismo
+ victorioso de Augusto Comte e de Littr. Em Portugal, onde estas
+ questes no foram nunca ventiladas seno por pobres escriptores
+ desconhecidos em periodicos to desconhecidos como elles, a camara dos
+ srs. deputados ouve pela primeira vez a soluo official d'esse debate.
+ Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
+ ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
+ Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
+ Mill e de Littr, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
+ alma virginal do sr. Manuel d'Assumpo. E a comprehenso mais perfeita
+ dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
+ d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
+ crenas. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna no
+ queria evidentemente seno uma coisa: apagar a esperana na alma d'este
+ moo. Pois ficar sabendo que o no conseguiu. A camara dos deputados da
+ nao portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
+ collocando-lhe em cima o sr. Assumpo e a esperana da sua alma, no
+ meio dos applausos geraes de todo o parlamento.
+</p>
+<p>
+ E, no obstante, querem dizer alguns que a politica no mais do que a
+ applicao da philosophia direco pratica das sociedades.
+</p>
+<p>
+ A politica de Bismark um grande poder social porque atraz d'elle est,
+ como o peito pelo outro lado da couraa, a disciplina philosophica de
+ Kant, de Hegel e de Hartman.
+</p>
+<p>
+ Danton, a alma da Revoluo, era na esphera executiva o instrumento da
+ philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
+ precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
+ grande movimento cahiu com a cabea de Danton, guilhotinado pela
+ indisciplina mental.
+</p>
+<p>
+ Foi ainda a anarchia das idas, resultante da falta de um methodo
+ philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.
+</p>
+<p>
+ Finalmente para que a democracia se fundasse em Frana sobre bases
+ definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
+ para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que o filho
+ triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton o
+ filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.
+</p>
+<p>
+ Na Italia o que a politica actual, que libertou e unificou a grande
+ peninsula, seno a somma das expeculaes de uma longa serie de
+ pensadores, desde Dante, o vidente, at esse taciturno Leopardi, que foi
+ o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
+ politico do imperador Guilherme?
+</p>
+<p>
+ Em todos os estados actualmente em dissoluo qual a causa do mal
+ seno a perturbao da mentalidade pelo empyrismo da politica
+ arbitraria? Ser preciso citar a Turquia? Ser preciso citar a Hispanha?
+</p>
+<p>
+ Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
+ vigor intellectual, que em poucos annos despedaar todos os velhos
+ preconceitos e todas as caducas instituies que embargarem a sua
+ asceno politica. O federalismo, forma definitiva da civilisao na
+ peninsula iberica, est-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
+ certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
+ pouco e pouco o caracter de uma opinio partidaria. um resultado
+ philosophico, que em toda a Hispanha est sendo pacificmente revisto e
+ contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
+ pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
+ linguistica, pela historia. Quando esta ida chegar ao cabo da sua
+ elaborao especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
+ actuar sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma fora da natureza.
+</p>
+<p>
+ Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata to
+ experimentalmente e to evidentemente os seus dominios sobre o destino
+ humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande
+ maioria a condemnao da critica e do pensamento moderno; declara-se
+ indissoluvelmente abraada theologia; e a todas as conquistas da
+ sciencia no presente seculo ella oppe triumphantemente a posse d'esta
+ noo: Bemaventurados os que soffrem porque elles sero consolados.
+</p>
+<p>
+ A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma to patente de
+ esphacelamento cerebral.
+</p>
+<p>
+ Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de
+ caturras?&mdash; unicamente o que perguntamos.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ O medo como a camara pensa d-nos a justa medida do modo como a camara
+ governa. Ha muitos annos que ella no toma uma unica medida tendente a
+ coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforos da progresso
+ social.
+</p>
+<p>
+ A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituio politica, est por
+ fazer.
+</p>
+<p>
+ A liberdade religiosa no est regulamentada de modo que torne effectivo
+ o principio em que se funda.
+</p>
+<p>
+ A distribuio racional do imposto ainda no foi definida.
+</p>
+<p>
+ Finalmente a organisao da instruco publicia, esse elemento vital de
+ uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma
+ Turquia est muito adeante de ns.
+</p>
+<p>
+ Os parlamentos, sem direco mental, sem criterio scientifico, sem
+ destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e
+ dissolvem-se na banalidade.
+</p>
+<p>
+ As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos
+ personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente s
+ camaras uma grande concorrencia de ouvintes que no recebem ahi seno as
+ mais perigosas lies de cynismo e de immoralidade.
+</p>
+<p>
+ Das duas coisas uma: ou o espirito publico est bastante corrompido para
+ assimilar sem perturbo do seu organismo a entoxicao d'esses
+ exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado dissoluo; ou a
+ burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso
+ moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de
+ cair como caiu em Frana o segundo imperio por effeito de um movimento
+ similhante quelle a que Luiz Veuillot chamou a <i>revoluo do despreso</i>.
+</p>
+<p>
+ similhana de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de
+ circulao intellectual. Os partidos politicos so os centros nervosos
+ do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de
+ funccionar. Ora qual o estado dos partidos politicos em Portugal?
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Ha um partido que est hoje no poder. um partido conservador.
+ catholico, monarchico, auctoritario, proteccionista,
+ militarista, unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma
+ electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religio do Estado;
+ quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito
+ permanente com os seus respectivos canhes Krupp e a sua competente pena
+ de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direco e de
+ governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,
+ uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundio de typo, uma fabrica
+ de cordas, uma photographa, etc.
+</p>
+<p>
+ Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se
+ disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que
+ pelas suas idas no formam realmente seno um partido unico: o partido
+ opposicionista. Que differena ha entre este partido na opposio e o
+ partido actualmente no governo? revolucionario? No: egualmente
+ conservador. racionalista? No: egualmente catholico.
+ evolucionista? No: egualmente auctoritario. Quer a liberdade da
+ industria e a liberdade do commercio? No: quer egualmente a proteco
+ das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a
+ universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a
+ magistratura anarchica, a instruco cahotica, o suffragio corrompido, o
+ governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se
+ distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,
+ a photographia, a cordoaria, a fundio, etc.
+</p>
+<p>
+ A unica opinio que a opposio diz ter e que ella accusa o governo de
+ no professar a opinio abstracta da economia, da ordem, da moralidade
+ e do progresso. Como porm todos os governos, qualquer que seja o
+ partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder
+ perante a accusao de no servirem o progresso, a moralidade, a ordem e
+ a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que alis no
+ pdem constituir principios de programma, so communs a todos os
+ partidos ou no so especiaes de partido nenhum.
+</p>
+<p>
+ Os partidos portanto no se differenam seno pelos nomes dos individuos
+ mais ou menos numerosos do que elles se compem. N'esta ausencia
+ completa de idas contrapostas o governo em Portugal, versando
+ constantemente sobre si proprio, d-nos o espectaculo de um organismo
+ vivo isolado na creao, alimentando-se na sua propria substancia e
+ digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Deixando de ser uma lucta de principios e de idas a politica
+ converte-se fatalmente em uma questo de compadres.
+</p>
+<p>
+ O compadrio elevado cathegoria de instituio nacional, domina tudo,
+ corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que no pdem conquistar o
+ appoio da opinio pelas idas que representam, procuram manter-se pelo
+ appoio dos compadres que favorecem. na proporo exacta do numero dos
+ compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou
+ diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiana da cora e no
+ favor da urna.
+</p>
+<p>
+ O dogma fundamental do compadrio impe-se por tal modo que transforma
+ todas as outras noes moraes segundo o criterio de que elle a
+ expresso. Transforma a justia, a honra, a probidade, a propria
+ consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria
+ commetter a mais vil e a mais nefanda das traies politicas!
+</p>
+<p>
+ Despachando o compadre mais servial com excluso do adversario mais
+ competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratido e
+ de lealdade. E ninguem v quanto ha de profundamente subversivo da ordem
+ moral n'este simples facto to vulgar, to frequente, to despercebido:
+ a excluso da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos
+ preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,
+ commetter o attentado mais criminoso de que o Estado pde ser ro
+ deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violaes do direito
+ e todas as affrontas da justia. um roubo violento e descarado,
+ aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o
+ insulto ao trabalho, com o escarneo moral, com o ultrage ao dever.
+</p>
+<p>
+ Na politica portugueza, que tem o seu calo como as mulheres publicas e
+ como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de
+ <i>compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria</i>. E do
+ ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a priso
+ correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinio diz
+ apenas:&mdash; fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o
+ compadre, vou para o partido d'elle.
+</p>
+<p>
+ O officio do governo servir o paiz. Como porm o paiz, por effeito do
+ machinismo eleitoral, representado constantemente pelos compadres do
+ governo, o officio do governo em ultima analyse no mais do que servir
+ o compadre. Est no seu destino. Graas aos elementos de corrupo de
+ que o governo dispe, o cidado, no votando como cidado mas votando
+ como compadre, d o primeiro impulso que pe em movimento toda a
+ engrenagem do systema: elegendo o compadre elle mesmo que funda a
+ tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.
+</p>
+<p>
+ A sociedade est merc do compadre. E se ha poder que possa
+ contrabalanar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,
+ esse poder unicamente&mdash;o da comadre.
+</p>
+<p>
+ A aptido provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no
+ dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehenso e o mais
+ rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra&mdash;palavras, palavras,
+ unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,
+ real; compadrice, comadrice&mdash;eis tudo.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja
+ decadencia tanto mais lamentavel quanto certo que a sociedade que
+ ella tem por fim dirigir est na anarchia economica e tende para uma
+ miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse
+ remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de
+ quatro ou cinco individuos de opinies radicaes: republicanos,
+ socialistas, federalistas, positivistas&mdash;o que quizerem&mdash;com tanto que
+ sejam homens profundamente convictos e determinados peleja de cada dia
+ e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio
+ philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa
+ que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe
+ resistir, no j pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo
+ reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisao. E das
+ concesses mutuas e successivas, feitas, j ao principio da ordem pelos
+ revolucionarios impacientes, j ao principio do progresso pelos
+ conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento
+ actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixes e dos
+ mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.
+</p>
+<hr class="minor" />
+<p>
+ Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que
+ sollicitamos, resta-nos ento adoptar o expediente ultimamente proposto
+ pela municipalidade de Lisboa:&mdash;tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas
+ que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:
+ caiar o palacio das crtes, branquear por fra o parlamento&mdash;<i>dealbatum
+ sepulchrum</i>!
+</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878,
+by Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
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+
+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
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+de Lisboa.
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+++ b/old/13092.txt
@@ -0,0 +1,2343 @@
+The Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878
+by Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Farpas (Janeiro 1878)
+
+Author: Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz
+
+Release Date: August 2, 2004 [EBook #13092]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ASCII
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+
+
+
+Produced by Claudia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
+Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional
+de Lisboa.
+
+
+
+
+
+[Illustration: ECA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGAO--AS FARPAS]
+
+RAMALHO ORTIGAO--ECA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL
+
+DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878
+
+Ironia, verdadeira liberdade! Es tu que me livras da ambicao do poder,
+da escravidao dos partidos, da veneracao da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admiracao das grandes personagens, das mystificacoes da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da supersticao d'este grande
+universo, e da adoracao de mim mesmo.
+
+P.J. PROUDHON
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+
+A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, Jose de Alencar,
+Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello
+d'aquella dama. A nossa resposta. Nao, a mulher portugueza nao sabe
+fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A
+litteratura feminina e a cozinha de minha avo.--Da influencia dos hymnos
+sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios.
+A intervencao do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A
+cabelleira e a formula de s. ex. Mostra-se que s. ex. nao e o velho
+Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro
+civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A
+situacao politica. As ultimas sessoes parlamentares. Alguns perfis. Os
+partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governacao.
+
+No breve espaco dos ultimos quinze dias a humanidade pagou a morte um
+pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.
+Deixaram de existir, em Franca Raspail e Courbet; na Italia Victor
+Manuel, no Brazil Jose de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.
+
+Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo
+imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forcas
+sociaes do mundo moderno, a porcao mais fecunda e mais gloriosa da
+grande alma do povo.
+
+Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tao vastas e tao
+profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos
+descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e
+pode-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia
+microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, nao como uma dependencia
+da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o
+que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do
+suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de
+Ville a Republica de 48.
+
+Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias
+physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias
+socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo,
+economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio
+profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros,
+das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as
+instituicoes politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma
+judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo
+caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o
+favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboracao official. Recusou
+todas as distincoes honorificas, todos os cargos publicos, todos os
+diplomas scientificos ou litterarios. As suas observacoes astronomicas,
+os seus trabalhos de chimica, as suas applicacoes do microscopio ao
+estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde
+dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no
+isolamento austero da independencia o do sacrificio.
+
+Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno
+e do Bernardo Palissy.
+
+A academia franceza, commovida com uma tao exemplar grandeza d'alma,
+resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca
+do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o
+homem que mais servicos tinha prestado a sciencia e a humanidade.
+
+Guizot, entao ministro da instrucao publica, interveio na resolucao da
+academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da
+rebeliao_.[1] O chefe do partido conservador francez nao podia esquecer
+que fora esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior,
+em plena Restauracao, ousara fulminar a votacao da lista civil com a
+phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de
+cadeia: "Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias
+todo o cidadao que ousasse pedir a Franca 14 milhoes para viver."
+
+[Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma
+cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a
+desgraca de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois
+crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]
+
+E que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi
+egualmente o braco constantemente pronto para resistir.
+
+Portentosa existencia, que ficara na historia entre as mais bellas e
+mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae a
+carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, comecou por ser um
+theologo. Era porem de tal modo intenso e explosivo o seu amor de
+verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos
+dezenove annos, acabou por alcancar a gloria immarcessivel de ser
+condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da
+liberdade de pensamento!
+
+O poder espiritual do mundo moderno era representado em Franca por uma
+trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a forca do sentimento; Raspail, a
+forca do trabalho; Littre, a forca da philosophia.
+
+D'esses tres anciaos o primeiro que desceu ao tumulo e o que mais
+fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram
+sao d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse
+exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em
+nenhuma outra parte e mais precioso do que na sociedade portugueza, onde
+as ideas radicaes, que sao as sentinelas avancadas da civilisacao, tao
+raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a
+mocidade mais vivaz e intelligente esta defendendo no parlamento e no
+jornalismo as opinioes mais retrogradas, onde finalmente o futuro nao
+tem partido.
+
+Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseveranca e a firmeza no
+coracao d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se
+sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez
+calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeicoamento dos seus
+similhantes!
+
+Que todos os que sao mocos e fortes se inclinem sobre esta campa onde
+repousa um triumpho, e reflictam, que e na pedra tumular de Raspail que
+deverao agucar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela
+consciencia e pela verdade!
+
+ * * * * *
+
+Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um
+ideal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas
+instituicoes sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a
+derrocar pela pintura a inspiracao da antiga arte assim como derrocou
+pelo uso do poder executivo a columna da praca Vendome. Louvavel
+empenho, porque Courbet considerava essa inspiracao uma fonte envenenada
+para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um
+symbolo ultrajante para a dignidade humana.
+
+A demolicao da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com
+palavras tao resentidas e acerbas, nao podera deixar de ser um dia
+olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos
+principios de justica social constantemente professados pelo immortal
+artista.
+
+Courbet foi condemnado a pagar a reconstituicao da columna. Breve porem
+soara a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar
+puerilmente que se deve ser
+
+_Fier d'etre francais
+Quand on regarde la colonne!_
+
+Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora,
+comprehendera em pouco tempo que e uma injuria ao seu bello destino na
+obra da conciliacao humana a ostentacao orgulhosa de um monumento que o
+distico diz ser: _levantado a gloria do grande exercito por Napoleao o
+Grande!!_
+
+Paris, qua vae na proxima exposicao celebrar dentro do regimen
+republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo
+municipio acaba de votar 546 contos de reis para os seus
+estabelecimentos publicos de instruccao primaria ao anno corrente, Paris
+que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos a reorganisacao
+dos seus lyceus, nao podera manter em pe por muitos annos mais, em uma
+das suas pracas publicas, um symbolo que contradiz todas as suas
+aspiracoes philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores
+nodoas da civilisacao: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os
+direitos do homem, a sujeicao da Franca aos caprichos de um despota em
+cuja fronte as justicas da historia estamparam ja o ferrete da ignommia.
+
+A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou
+um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradicoes marciaes
+da geracao actual o sol de Austerlitz.
+
+Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a
+que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravara,
+ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendome e
+pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de
+remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na
+maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que
+sera uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em
+que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na
+pratica dos seus actos a opiniao do seu tempo.
+
+ * * * * *
+
+Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico
+de Godofredo de Bulhoes. Poderia como elle decepar de um so golpe da
+espada a cabeca de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como
+elle uma cruzada,--a cruzada de Novara ate Roma, como elle chegou a
+terra promettida; morreu moco como elle, como todos os heroes que tendo
+realisado na terra uma grande missao, se sentem de repente invadidos na
+alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos
+fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas
+dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes,
+mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos,
+atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmoes mais rijos as
+altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais
+encanto e com mais prestigio a fadiga, ao perigo, as mulheres e a morte.
+Era evidentemente um forte. E como a forca e o maior de todos os
+attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tao
+contradictorias sympathias e tao heterogeneas affeicoes: foi o amigo do
+Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.
+
+Feliz homem!
+
+ * * * * *
+
+A morte de Jose de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_,
+representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tao
+notavel nos ultimos tempos pela cooperacao dos seus poetas e dos seus
+pensadores.
+
+Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidao desviou por tantos
+annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a
+organisacao moderna do trabalho livre e ao mesmo tempo a creacao de um
+novo elemento social--o povo.
+
+Jose de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando
+poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem
+synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e
+decide da sorte dos imperios.
+
+Elle, que alcancara um dos mais luminosos logares entre os homens mais
+celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade,
+procedera da roda dos expostos.
+
+Esse engeitado era a personalisacao mais gloriosa da soberania do
+trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno
+da arte a sua larga espada de justica, vestindo a tunica e a dalmatica
+azul, calcando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e
+fazendo-se ungir e sagrar pelas multidoes como os antigos eleitos do
+senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante,
+que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: "Deus te elegeu para
+reinar sobre a sua heranca e para livrar os povos das maos dos seus
+inimigos."
+
+ * * * * *
+
+Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce
+consolacao de cumprir um destino, consolacao compensadora de tantas
+amarguras e de tantos sacrificios, nao foi concedida na terra aquella
+natureza essencialmente desgracada.
+
+Tinha um incomparavel poder de applicacao e de estudo e ninguem possuia
+em Portugal uma provisao mais copiosa de nocoes e do factos. Foi o
+collaborador do Alexandre Herculano nas investigacoes da historia
+nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem
+melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos
+nossos costumes e das nossas tradicoes. Era archeologo, diplomatico,
+jurista, bibliographo. Nao havia inscripcao truncada na epigraphia nem
+texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade
+portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresenca de quanto
+tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e
+incessante. Era um tomo de erudicao vastissima, assombrosa, que ninguem
+consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do
+direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e
+da lingua.
+
+Faltava-lhe porem no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da
+generalisacao. Nao sabia tirar dos factos as leis de que elles sao a
+funccao. Nao sabia correlacionar. Nao tinha o poder creador. Por esse
+motivo a isolacao suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um
+instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsao de energias
+concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle
+estava condemnado a submetter-se para ser uma forca na civilisacao,
+repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente
+aggravada por uma falsa educacao.
+
+Essa capacidade tao prodigiosa de contensao, de investigacao, de exame,
+de absorpcao de ideas, estava na sua natureza alliada a um temperamento
+caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na
+infancia, nao poderia fatalmente deixar de ser o que era: um
+sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios
+da sua inquieta o attribulada existencia.
+
+A indifferenca perante o conflicto e uma nobre virtude. Raros a possuem.
+O que succede com as naturezas vulgares e que a nossa resolucao boa,
+conscientemente reflectida, reforcada na mais legitima compenetracao do
+dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que
+vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nos
+precisamos de reagir sobre nos mesmos com toda a forca da nossa coragem
+para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosao da
+crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da
+palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado
+vamos lancar ao coracao d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa
+virtude, tao rara, tao viril, de desmanchar implacavelmente prazeres
+para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho
+no estado de uma exageracao pathologica. O conflicto na convivencia
+social nao somente lhe nao repugnava mas attrahia-o--como succede as
+mulheres nervosas.
+
+Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creanca. As
+suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua
+sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta
+pela mesma rasao de que ninguem teve egualmente a compaixao mais facil.
+Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou
+lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas
+sessoes da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior
+de Lettras nao conheceram senao metade d'essa physionomia tao
+caracteristicamente meridional nos tracos moraes como nas formas
+physicas.
+
+Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar
+obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro
+andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da
+camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de
+Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os
+quaes aquella humilde casa de litterato, tao hospitaleira e tao pobre,
+tinha altractivos que nao podiam propornionar as exigencias dos
+philosphos e dos principes, os mais brilhantes saloes de Lisboa. Era
+preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o
+nervosismo do seu coracao com a mesma prodigalidade cem que nas
+assembleas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro
+imperfeitamente orientado.
+
+Quando alludia a sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto
+da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara
+alegremente a pe nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o
+estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda
+ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_
+nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o
+canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando
+descrevia as madrogradas da caca as perdizes no monte de S. Felix, ou as
+outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os
+clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dancar pelos caminhos as
+bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros,
+aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe,
+negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua
+voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no
+maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em solucos,
+estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom
+sitio amado, uma velha cancao querida.
+
+Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em
+que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da
+sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi
+sepultado n'este medonho tumulo--o despreso.
+
+Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou ate o seu ultimo
+dia. Ha cerca de um anno padecia uma dor sternalgica, symptomatica do
+aneurisma. Esta dor lancinante, que o privava do movimento, forcando-o a
+parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de
+madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua
+biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se a pressa um medico.
+Inutilmente. Elle estava morto.
+
+Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto
+Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de
+acrescentar que a reputacao tao frequentemente discutida d'esse
+traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem
+o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.
+O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios
+e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipioes
+illustres e dos Catoes celebres achem sempre nos seus heroes tantas
+qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica,
+quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela
+maledicencia.
+
+ * * * * *
+
+Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigao_--publicou o _Diario da Manha_
+o folhetim seguinte:
+
+_Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educacao--Um programma de
+ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipacao das
+mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o
+estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais
+caldo_.
+
+Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nos
+deixaria de ler com a maxima attencao um artigo escripto pelo sr.
+Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma
+de certo. E para que se nao diga com verdade que o grito afflictivo do
+paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgao, pedindo-nos caldo, nao foi
+ouvido por uma so mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho
+por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe nao so _caldo_, mas
+tambem _luz_, que o alumie nas suas investigacoes acerca d'um assumpto,
+que e realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex. attribue a
+nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nos, tao tremenda
+responsabilidade.
+
+Se o assumpto de que se trata, nao fosse realmente grave,
+contentar-nos-hiamos com o praser que nos da sempre a leitura dos
+escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu
+espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: E pena
+que os escriptos do sr. Ramalho nao sejam mais succulentos! sao como os
+caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica,
+depurados ate a transparencia, muito aromatisados ... mas sem
+substancia.
+
+Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla
+sempre de nos, que nao tem rasao para nos querer mal; e que como filho,
+esposo e irmao de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmao,
+deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor
+vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouca-me pois.
+
+Nao ensine a sr. D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se
+faz esse alambicado caldo francez, tao purificado, que por fim como o
+proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor a
+sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os
+classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam
+nossas avos, e como nos todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal
+agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formacao das suas
+ideas, e, como s. ex. diz a sua alimentacao, nao esquecamos que foi
+comendo esses caldos e quasi so com elles, que os energicos e valentes
+portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na
+Africa, e na Asia praticaram accoes de tao prodigioso valor. E descendo
+a historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos
+lidadores da epopea da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo
+nacional e entao infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua
+heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se
+incommodasse com a dyspepsia nacional. E so com caldo, e com broa que
+todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que
+supportam, sem cansaco, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia,
+os mais rudes trabalhos; e comtudo nao soffrem de dyspepsia. Sera por
+terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem e
+preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas
+rasoes, visto que e o sr. Ramalho quem nol-o affirma.
+
+A dyspepsia nao e em Portugal uma doenca nacional, e quasi privativa dos
+homens das classes elevadas--e quer que lhe digamos porque? Porque elles
+teem com raras excepcoes, uma mocidade dissipada; porque na idade dos
+quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemaes fazem
+consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e
+todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os
+portuguezes vao descancar das lides do estudo nos bancos dos botequins e
+das tavernas, onde e considerado heroe aquelle que come e bebe mais
+brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices
+de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se
+chama dar uma salva real! Desculpa-os porem o axioma do nosso codigo de
+educacao: que e preciso dar muita cabecada para vir a ser homem serio.
+
+Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nos, todos os perigos porque
+passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, ate que
+chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de
+lhes regenerar os costumes, e vera que, quando chegarem a ser chefes de
+familia, seu natural destino, nao precisarao de encontrar na esposa o
+braco forte que lhes seja amparo, e terao o estomago sao como em
+criancas, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle nao
+seja perfeitamente transparente, e ate quando tenha seus vestigios de
+gordura. Faca isto que lhe pedimos, e todas nos bemdiremos o seu nome,
+pois d'este modo tera prestado um importantissimo servico ao seu paiz.
+
+O seu programma para a educacao das mulheres parece-nos excellente para
+a Franca, Inglaterra e outros paizes onde as meninas sao educadas nos
+collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creancas que os
+frequentam comem e dormem em casa, essa educacao que nos habilita a ser
+boas _menageres_, ja que o sr. Ramalho gosta de francezismos,
+recebemol-a nos todas com o exemplo e licao de nossas maes.
+
+Em Portugal onde todo o servico domestico e geralmente feito em casa,
+todas nos sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como
+se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que nao
+fazem esses servicos sabem como elles sao feitos, pois desde criancas os
+viram fazer. O que nao sabemos, la isso nao, e _differencar os
+differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas
+mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto
+considerarmos, como ate agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a
+suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos
+falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.
+
+Em quanto a nossa educacao moral, estamos convencidas que em paiz nenhum
+as mulheres sao mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais
+sobrias e economicas, mais submissas a vontade do marido que nos, e toda
+a eloquencia do sr. Ramalho nao e capaz de abalar sequer a nossa
+conviccao.
+
+Em Franca e em Inglaterra ha muitas mulheres--por
+profissao--enfermeiras, aqui nao as ha senao nos hospitaes, e nem se
+lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella
+seja mae, esposa, filha, irma, ou mesmo criada, ha uma enfermeira
+sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os
+horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens
+energicos e audaciosos.
+
+Para sabermos fazer prodigios de economia nao precisamos de nos alistar
+n'uma escola ingleza, e, se o nao soubessemos, a primeira mulher do povo
+que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se pode
+sustentar uma familia com 18$000 reis por semana, mas n'essa familia--o
+chefe, que trabalha do nascer ao por do sol, sustenta-se comendo tres
+tigellas de caldo que lhe custam 10 reis cada uma, 20 reis de sardinhas,
+e 10 reis de broa por dia: total 90 reis.
+
+Convenca os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este
+alimento e muito sufficiente para lhes conservar robustas as forcas
+vitaes, e vera como nos todas fazemos economias prodigiosas, e como uma
+casa deixara de ser uma _loba_ para se transformar n'uma _burra_.
+
+Mas se considera como o ideal da perfeicao na mulher, ser ella o _braco
+forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos
+exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e
+guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pao dos filhos, em quanto os
+maridos ficam em casa cosinhando: ja ve que para qualquer de nos
+realizar o seu ideal basta casar em Avintes.
+
+A educacao intellectual das mulheres, quando ellas se nao dediquem a ser
+mestras, pode, e ate deve, assim como a moral, receber, como complemento
+necessario, as licoes dos homens de quem forem esposas. Assim
+reconhecendo no marido superioridade em tudo, ate mesmo nos
+conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse
+respeito que a religiao e a sociedade nos impoem como o primeiro dever
+da esposa.
+
+Em quanto a emancipacao das mulheres, esse sonho dourado das senhoras
+inglezas--nos, menos profundas pensadoras, nao o queremos.
+
+Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores
+physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mae, nos
+ensina a todas, que a nossa missao na terra, e saber soffrer e amar, por
+isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que
+acaba de nos fazer soffrer as dores da maternidade, e abencoamos
+reconhecidas a mao que prende as nossas algemas de escravas, quando essa
+mao e a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixao,
+encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.
+
+Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida
+como ate agora, poderia ser apresentada como modelo as nacoes mais
+civilizadas da Europa.
+
+Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua
+irma e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua
+intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa
+sua robustez physica, a sua grande cabeca na qual o chapeo de Thiers ou
+de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros,
+que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhacos dos
+circos o trabalho de fazer rir o publico.
+
+Em paga de todos os favores, que lhe peco, prometto fazer-lhe so um, mas
+esse importantissimo.
+
+Nao dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o
+sr. Ramalho, senao julgal-o-hiam tao criminoso como quem maldiz dos
+seus.
+
+Sua
+
+_Irma de Caridade_
+
+ * * * * *
+
+Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que
+effectivamente e escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle
+e para nos de um valor inestimavel. Este folhetim e a mulher. Nao somos
+ja agora nos que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a
+retratar. E ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um
+espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa
+acquisicao da nossa galeria. Nao somos nos que a descrevemos, que a
+phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um
+lapis suspeito de inhabilidade ou de ma fe. Veem que e ella mesma que
+apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua
+prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores!
+queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!
+
+Ahi a teem! E assim que ella e. Nao ha artificio, nao ha preparo, nao ha
+processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade
+mesma. Reparem bem, meus senhores, que nao e Proudhon que a descreve,
+nao e Coubert que a pinta, nao e Offenbach que a poe em musica. E ella
+mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.
+
+O que estaes contemplando e a obra da direccao mental que nos mesmos
+imprimimos ao nosso tempo, e o fructo legitimo e authentico da
+philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de ideas que
+temos produzido e impulsionado: e a nossa mulher tal como nol-a fizeram
+os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro.
+Revede-vos na vossa obra.
+
+Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e
+de po de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de
+recitacao ao piano e de tacoes Luiz XV, de collegio nacional e de
+_cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.
+
+Vede que lucidez de razao! que firmeza de criterio! que contensao de
+raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades
+intellectuaes a circulacao facil e viva atravez da rede dos nervos
+encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sa que tao
+vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler
+presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais
+racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira
+de pensar podeis ajuizar com seguranca da sua forte maneira de viver.
+Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vos
+mesmo pelo que lhe ensinastes.
+
+ * * * * *
+
+Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz
+interprete, dirigi-se as _Farpas_ na pessoa do seu auctor.
+
+O que sao as _Farpas_ com relacao as mulheres?
+
+As _Farpas_ sao a publicacao periodica--unica em Portugal--que em
+artigos consecutivos desde a sua apparicao ate hoje se tem
+constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica a
+reconstituicao dos costumes e a reorganisacao da familia segundo o
+criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido
+violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde
+dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o
+flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento
+indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituicoes perante a
+dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijao physiologico
+e social; teem dado como base a emancipacao da mulher a instruccao
+pratica, tao defficiente, e a alta cultura do espirito, tao
+negligentemente descurada na antiga educacao; teem-lhe ensinado que e
+aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrira o segredo de
+ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua
+collaboracao no estudo dos modernos problemas sociaes como factor
+indispensavel a fixacao do nosso destino; teem pedido instantemente para
+ella a fundacao de novas escolas de ensino especial e de ensino
+superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos
+palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas
+amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas
+filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da
+cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor
+dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito
+presente de uma infinidade de theorias, de nocoes, de projectos, de
+systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--e
+claro--mas demonstrando uma dedicacao excepcional, por isso que nenhuma
+das publicacoes periodicas que precederam esta se dirigiu jamais as
+mulheres a nao ser para lhes consagrar romances de uma moralidade
+suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.
+
+Depois de publicados cerca de quarenta volumes da collecao das _Farpas_
+uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe
+o seguinte conselho como resumo da opiniao collectiva de todas as damas
+portuguezas:
+
+"Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhacos dos circos_ o
+trabalho a que ate aqui se tem dado de fazer rir os outros!"
+
+Este simples conselho e como um relampago, nas trevas do nosso espirito.
+Elle de per si so basta para nos convencer de que a educacao das
+senhoras portuguezas nao so e igual--como a auctora modestamente
+formula--a das primeiras mulheres extrangeiras, mas que pode mesmo
+considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de
+Girardin, Lady Morgan nao tiveram nunca para dirigir a um escriptor
+qualquer--amigo ou adversario--uma palavra tao lucida, tao conceituosa,
+tao profunda e ao mesmo tempo tao finamente aristocratica, tao
+nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio
+da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que nao somos
+mais que _um palhaco de circo_, opiniao profundamente philosophica. E
+talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos
+lessem. E natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas,
+entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho
+cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas
+recordacoes perdidas da sua carteira ou do seu coracao, um pequeno meio
+qualquer de nao chamarem completamente palhaco com todas as suas cinco
+lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-c-o_ a um homem a quem os
+seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.
+
+Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia
+e da sua propria dignidade uma comprehensao diversa, que nao podemos
+deixar de attribuir com orgulho patriotico a influencia local da rua de
+Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.
+
+Nao e menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta
+compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e
+chimica culinaria as meninas portuguezas. Se sua excellencia tivesse
+effectivamente a instrucao que nos pretendemos que se lhe deve dar; se
+sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missao da mulher
+e, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que
+estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missao, sua
+excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da
+nutricao, a evolucao cellular, a relacao existente entre os phenomenos
+da nutricao e do desenvolvimento, do movimento e da combustao; se nos
+mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares
+pelas suas classificacoes mais genericas, os que fornecem o calor e a
+forca e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que
+sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples
+caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos
+eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital
+pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada a hygiene,
+pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as
+substancias alimenticias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene
+alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas licoes e conferencias, pelo
+sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentacao insuficiente, pelos
+srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud,
+Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua
+excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira
+tintura--alguma das nocoes em que se basea a theoria da cosinha, que e
+um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o
+seu voto n'esse caso poderia ter discussao.
+
+A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este
+assumpto da ao seu voto um caracter irrevogavel, que nao pode infundir
+nos adversarios senao admiracao e respeito.
+
+E inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham
+dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o
+seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada
+hora, ja dormindo, ja caminhando, ja executando um trabalho mental ou
+muscular, para regular sobre este dispendio a racao alimentar de cada
+individuo. E inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as
+analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo
+dos diversos alimentos e da quantidade de forca e de calor desenvolvida
+pela oxydacao d'elles. E inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton
+nos tenham mostrado pela comparacao das estatisticas da salubridade nas
+campanhas da Crimea e da Italia o extraordinario poder da qualidade da
+alimentacao sobre a saude e sobre a energia dos soldados. E inutil que
+pelo estudo de iguaes estatisticas com relacao a alimentacao de
+operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da
+qualidade da alimentacao resulta o augmento ou a diminuicao de 20 a 30
+por cento no trabalho de cada homem. E inutil que Geoffrey Saint-Hilaire
+nos tenha dito: "Quantos factos na vida das nacoes attribuidos pelos
+historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside
+simplesmente na cosinha das familias!". E inutil que toda a sciencia
+tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em
+cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos
+nervinos e uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do
+nosso tempo; que e indispensavel perante a moral e perante a justica
+melhorar a alimentacao dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisicao
+dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua
+economia. E inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os
+philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisacao e
+de associacao chamar a attencao das mulheres para o estudo e para a
+resolucao d'esse grave problema cuja sede e a cosinha. E inutil tudo
+quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta
+illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus
+similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos
+empyricamente do que por tel-o visto fazer a cozinheira da sua avo.
+
+Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradicao sobre os methodos
+de deitar a carne a panella nas cosinhas da sua rua este argumento
+supremo: Foi com essa panella a frente que os portuguezes contiveram em
+respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na
+Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abracados a
+travessa do cosido que nossos avos descobriram a India e que os paes de
+uns de nos resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os
+vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Cafe Anglais_.
+
+Em presenca d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e
+reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia
+affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na
+perfeita educacao da mulher portugueza. Continue sua excellencia
+imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um
+vestido e que sabe tambem--o legitimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a
+mais--notem--sua excellencia faz doce! Nao! positivamente nada se nos
+offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Nao precisa de saber mais nada.
+Ahi tem sua excellencia uma opiniao que lhe garantira "as solidas
+virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os
+enthusiasmos da paixao":--sua excellencia gosta de assucar!
+
+Quem sabe se nao sera por um effeito do atavismo sobre a gula qae os
+meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vao beber
+licores para os botequins?
+
+As maes dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem
+ellas mesmas nao a opiniao do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da
+agua fria; nao fazem doce, fazem gymnastica, e nao ensinam os filhos
+unicamente a comer marmelada, a ir a novena e a nao metter os pes nas
+pocas; ensinam-lhes o cricket, a natacao e o _box_, dao-lhes desde a
+idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles
+vao para os botequins, nao costumam encarregar os criticos de lh'os ir
+la buscar.
+
+ * * * * *
+
+Sua excellencia nao se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo
+segundo os preceitos de Liebig, que nos lhe aconselhamos suppondo que
+Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais
+d'isso do que o Antonio das Mocas, celebre inculcador de cosinheiras,
+encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da
+arte culinaria. Sua excellencia nao so nao quer fazer caldo em termos
+para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os
+pratos e os copos, determinar a differenca de cor nos estofos do salao e
+da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna,
+pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto a sociedade
+conjugal um servico igual aquelle que recebe d'ella em protecao, em
+trabalho e em forca. Sua excellencia prefere _deixar todos esses
+conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera
+a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_
+
+Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funccoes que sua
+excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma nao tivesse a
+bondade de nos explicar que a occupacao para que se reserva e a de
+_abencoar agradecida a mao que prende as suas algemas de escrava_ (!)
+
+O que nos parece e que esse mister exclusivo de sua excellencia nao
+promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas
+algemas!
+
+Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua
+excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abencoar os ferros, a
+jogar a bisca. O nosso temperamento nao nos permittiria estar a dar-lhe
+constantemente o grilhao a abencoar; quereriamos ter a faculdade de
+poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma boa rolha.
+
+ * * * * *
+
+O folhetim de sua excellencia termina com uma allusao pessoal a nossa
+robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos
+licenca para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:
+
+Eu--pois que e bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas
+linhas, nao me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calcada dos
+Clerigos. Nao, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos
+homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirara d'este facto
+a conclusao maliciosa de que nao tomei cha em pequeno. Que sua
+excellencia nao hesite um momento em tirar tal conclsao! E ate favor que
+me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de
+que nao tomei ease cha.
+
+Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida
+courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos
+mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia
+para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouco:--o phosphato de cal,
+que eu ingeria em grandes dozes.
+
+A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, nao tinha saguao,
+nao tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, nao
+tinha pia.
+
+A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o
+grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o
+primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem
+terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias
+dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um
+instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher:
+Primeiro ser saudavel; Segundo nao ser conhecida. No interior da sua
+casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de
+economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho
+piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se
+fechar de memoria d'homems as 10 horas da noite, o mais tardar. Nao se
+desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de
+cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um
+dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execucao
+esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graca, de que era
+modelo a incomparavel cosinha da minha avo,--aberta ao nivel do pateo
+defronte do poco, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico
+perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de
+cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira
+onde se espanejavam os capoes; os tropheus ornamentaes dos instrumentos
+agricolas; as prateleiras da louca reluzente; o cortico da barrela e a
+masseira do pao a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do
+fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos mocos da lavoura tendo
+em cima a grande celha com a bracada verde dos frescos legumes picada
+com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas
+efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervencao periodica
+do mendigo de estrada, de alforge ao pescoco, que vinha encher a sua
+escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam
+sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.
+
+Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensacao de tepido aconchego, de
+suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e
+honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias
+contadas a lareira; infundia o respeito da tradicao; dava o amor da
+familia; explicava o amor a, terra da patria pela dedicacao as quatro
+bracas de solo cobertas por esse velho tecto.
+
+A cosinha de minha avo era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual
+os mais bellos quadros da escola flamenga, tao penetrados como sao da
+poesia domestica, nao poderam dar-me jamais senao uma ideia desbotada e
+fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
+havido em Portugal nao pode senao fazer-me sorrir comparada a obra
+modesta de minha avo, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
+educacao das suas filhas, para a fixacao do respeito, da veneracao e da
+saudade eterna dos seus netos.
+
+A minha robustez physica e o mais contraproducente dos argumentos que a
+minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
+que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mae. A minha
+robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raca de mulheres, que os
+nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
+das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
+vezes empallideceram nos bailes e nao tiveram nunca de que corar aos
+folhetins dos periodicos.
+
+ * * * * *
+
+Terminando, agradeco de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
+escriptora minha patricia, mas peco licenca para os nao seguir.
+Continuarei a fazer rir os outros, o que me nao impedira de fazer tambem
+chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.
+
+ * * * * *
+
+Por occasiao da visita de el-rei a Escola Polytechnica funccionou o
+telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.
+
+Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
+que sua magestade ouvira--um solo de cornetim!
+
+Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
+Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _Uniao e
+Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
+Emquanto a astronomia tocava cornetim e natural que, em compensacao, a
+arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.
+
+A unica cousa que extranhamos e que o Observatorio nao observasse entre
+as suas pecas de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
+a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.
+
+Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
+accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
+parece-nos um abuso que o principe nao levara a bem.
+
+Reflectiu por acaso o Observatorio no que e o hymno para um cerebro
+coroado? Cremos que o Observatorio nao desceu ainda com as suas
+conjecturas ao fundo d'esse abysmo. E horroroso.
+
+Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
+O observatorio faz certamente ideia do que e ter zumbidos, nao e
+verdade? Pois ter hymno e peor. E ter constantemente, durante toda a
+vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
+sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doenca
+chronica, como affeccao incuravel do nervo acustico, a audicao do mesmo
+trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente a loucura.
+
+Que o Observatorio se compadeca do infeliz principe condemnado a tao
+incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
+contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
+faltas de dinheiro, ha de ter constipacoes, ha de ter dores de dentes,
+ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
+hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
+as regioes da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que nao ha outro
+remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
+sejamos justos! A providencia collocou-nos na mao o cornetim. O monarcha
+presta-nos submissamente o seu real ouvido. Nao abusemos d'esse
+instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
+tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabecas! Somos
+cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_
+
+E a posteridade nos abencoara.
+
+ * * * * *
+
+Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
+hydra da reaccao desapparecera da orbita dos conflictos do poder
+politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
+manha nas secretarias do Terreiro do Paco, perguntavam angustiadamente
+uns aos outros:
+
+--Nao viram por ahi a hydra?
+
+Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
+entumeciam de impaciencia por nao poderem esmagar o monstro; e o sr.
+Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhacao na sua
+dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
+imperfeito do verbo Mexer.
+
+ * * * * *
+
+N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
+presidente do conselho, tomou uma resolucao heroica: determinou ser
+hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
+suas funccoes de bicha ultramontana com as suas funccoes administrativas
+de homem de estado. Pela manha s. ex. governa. De tarde s. ex. rabea.
+
+Eis um dos resultados da dualidade que s. ex. se dignou de assumir para
+salvar a situacao da falta da hydra:
+
+ * * * * *
+
+O servico dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
+Catholicos e nao catholicos eram levados para o cemiterio municipal
+pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
+seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
+haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
+questao canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
+exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
+como uma instituicao municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
+que desejassem repousar em terreno sagrado, e nao benzessem as
+d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
+Nao tinha jamais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
+esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
+podia-se morrer em Lisboa so pelo gosto de ser tao tranquillamente
+enterrado.
+
+N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua forma de hydra e
+determina em favor da morte catholica a creacao de um muro similhante ao
+que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
+municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento a portaria de s.ex. e
+discutir o modo de levantar o muro. Propoem-se a tal respeito varios
+alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.
+
+ * * * * *
+
+Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
+de facto n'essa cavalheiro todas as condicoes que se requisitam para o
+triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispoe da primeira
+cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
+uma formula. A sua formula e esta: "..._O bucentauro do progresso
+rasgando os flancos da montanha_ ..." Sempre que esse homem terrivel
+arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
+auditorios a sua formula, a victoria e d'elle. A sua existencia tem sido
+uma serie nunca interrompida de triumphos, alcancados pela sua
+cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
+o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle
+triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
+theses de doutoramento, na exhibicao das provas do seu concurso para
+lente da universidade, nas reunioes das associacoes operarias e
+phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
+e de Lisboa e Acores, nas suas eternas preleccoes sobre o terceiro
+estado, e finalmente na discussao do muro Guillomin da morte catholica
+ordenado por s. ex. a nobre hydra de Avila e Bolama.
+
+ * * * * *
+
+Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
+canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da
+montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensao scientifica e
+philosophica do phenomeno social da religiao e do facto biologico da
+morte,--comprehensao egualmente haurida do ja alludido bucentauro
+rasgando os supracitados flancos,--que s.ex. o sr. doutor convenceu a
+vereacao lisbonense a approvar nao so a creacao de um muro--o que a
+hydra parecera sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
+ainda parece pouco.
+
+O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
+fecharao o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
+aquelles que morrerem fora do gremio da religiao catholica apostolica
+romana.
+
+ * * * * *
+
+Nos suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
+dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
+cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
+consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
+infinito onde para a vida; que o cadaver deixava de ter uma religiao,
+cessava de pertencer a igreja, para pertencer exclusivamente a chimica.
+Suppunhamos que o cemiterio, considerado nao so pelo seu lado civil mas
+mas principalmente ainda pela intencao do seu instituto christao, era o
+campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
+discrepancia de ideas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansao
+eterna do perdao e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
+amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
+orbe pela larga bencao incondicional de Jesus.
+
+Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
+pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. Joao, e puramente um
+recinto de caracter official, destinado a fermentacao exclusiva das
+podridoes privilegiadas.
+
+Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
+ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
+pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
+as suas calcas de galao de ouro duplamente retesadas pela inchacao e
+pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
+no peito, o espadim ao lado, o chapeo armado aos pes, o cordao da ordem
+terceira de S. Francisco a cinta, vae legitimamente e no uso do mais
+sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
+resurreicao da carne, como esperou na vida a hora da sua reparticao. No
+dia da chamada geral no valle de Josaphat elle pora na cabeca o seu
+chapeo de bicos e ira tomar o competente logar na gloria eterna, na
+bancada dos conselheiros, a mao direita de Deus Padre Todo Poderoso.
+
+Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado a luz no cano
+do esgoto, tu que nao conheceste pae nem mae, producto espontaneo da
+grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre a superficie
+do pantano, tu que nao recebeste baptismo, nem confirmacao, nem ordem,
+nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
+o ceo e que a igreja confere por uma tarifa de precos superiores aos
+teus capitaes, tu, nao tinhas no cemiterio de Lisboa senao um logar
+usurpado, roubado indignamente as pessoas de bem. Estoiraste para um
+canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fora dos
+sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. Es como um cao. A tua natureza
+humana nao e a da outra gente. A tua podridao nao e a da cabelleira do
+sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu es uma besta.
+Es peior ainda: es um impio. Vao conceder-te agora um quintal para ires
+para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
+te fazem estes bons senhores em te nao remetterem as equarissagens para
+o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
+distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
+sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
+chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
+poderiam achar uma applicacao pratica e decente. Poderias aspirar na tua
+outra vida a abotoar com os teus ossos as calcas do sr. marquez de Avila
+e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
+doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
+te destinam nada mais seras do que um eterno objecto de execracao e de
+horror para os teus concidadaos. Quando passarem por cima da tua cova os
+homens serios, a quem esta promettido o ceo sob a palavra de honra do
+padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirao sobre a tua
+dissolucao infecta. As maes passarao de longe, correndo, com os seus
+filhos pela mao, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
+entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hao com as
+suas finas maos pallidas e rezarao os esconjuros mais efficazes no fundo
+tepido dos seus ligeiros _coupes_. Assim com as abencoadas sepulturas
+dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dara os horrendos
+enguicos. E eu te affirmo que ainda havemos de ver aquelles que eram
+cegos e que recuperaram a vista abracando-se as sagradas reliquias de um
+bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
+vegetacoes malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
+preverso! Finalmente seras detestado, abominado, execrado, maldito,--cem
+mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creancas, pela
+cidade inteira.
+
+E cuidas tu, miseravel, que poderas encontrar um dia na eterna justica
+inviolavel a compensacao d'este despreso systematisado, d'este rancor
+que e um regulamento municipal, d'este odio que e uma lei do reino? Como
+te enganas! O que tem de te succeder e irremissivelmente o seguinte:
+
+No dia do juizo final tu ouviras na profundidade do teu estrume o
+canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
+anjo que desde o principio do mundo tera estado a recolher no pulmao
+para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
+os bramidos do mar, todas as erupcoes dos vulcoes, todas as quedas das
+catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovao e do raio.
+Nao teras remedio senao acordar,--quer queiras, quer nao--do teu pesado
+somno da materia bruta. Seras levado a revista do grande valle por dois
+ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
+como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hao
+com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: "Vocemece ha de
+ter a bondade de passar ali para a mao esquerda de Deus Padre porque e
+condemnado." Tentaras escapulir-te, safar-te para a podridao de que
+tinhas vindo. Appellaras para o juiz supremo. O arbitro da eterna
+justica inquebrantavel cravara em ti os seus olhos. Tu o veras tambem a
+elle, com a sua longa barba que envolvera toda a terra, o seu bigode de
+interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
+dedos, chisparao os raios na amplidao infinita. Ouviras a sua grande
+voz, cujas sylabas cairao na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
+Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dira:--"Deram-lhe o
+baptismo? Nao. Deram-lhe a confirmacao? Nao. Deram-lhe a penitencia?
+Nao. Deram-lhe a absolvicao da culpa? Nao. Nao lhe deram nada. O
+cherubim tem razao. Passe para a mao esquerda." Entao passaras para a
+esquerda. O teu anjo custodio abrira um alcapao aos teus pes e gritara
+para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--"Fogo eterno para
+um!" Depois do que, te tocara com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
+o espaco como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
+sombria feita de lama, ate te submergires no tremendo abysmo, na punicao
+eterna. E sera por todos os seculos dos seculos, sem fim jamais.
+
+Eis ahi tens o que te espera, segundo a religiao do dr. Jardim e outros.
+Religiao bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
+maos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
+mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
+Bem diversa da d'aquelles christaos da igreja primitiva, que assombravam
+Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
+que os pagaos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
+cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
+os conduzirem a sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
+collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E nao
+resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
+primeiros christaos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagaos
+pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
+impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
+sacrificio bastava ser desgracado. Por isso disia o imperdor Juliano que
+fora a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
+contribira para o estabelecimenlo e para a propagacao do christianismo.
+
+ * * * * *
+
+Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos ver como s. ex. o
+ministro do reino resolvera os conflictos promovidos contra elle mesmo
+por s. ex. a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
+muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
+esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos
+n'outros termos--a attencao do seu genio. Eis um dos casos sobre que
+pretendemos consultar s. ex:
+
+ * * * * *
+
+Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
+nao querendo enterrar-se de todo por uma so vez, resolvia enterrar-se
+por partes e dar a terra uma das suas pernas para a terra se ir
+entretendo.
+
+N'esta hypothese pergunta-se:
+
+Onde e que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
+o capricho de descartar-me?
+
+Estou prevendo que o bucentauro de s. ex., attribuindo
+indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
+escripto, me prescrevera o logar destinado por s. ex. para os membros
+impios e locomotores.
+
+A isto porem replico a s. ex. que a minha perna quer se trate da
+direita, quer se trata da esquerda, e boa catholica apostolica romana.
+Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei a pia
+baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
+lingua latina, que ella a esse tempo ainda nao tinha tido tempo de
+aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E
+este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
+as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
+parocho se ella acreditava na communicacao dos santos, na resurreicao da
+carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
+padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
+tinha ido com o seu respectivo pe e com o pequeno apendice que era o
+resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia ate hoje bem
+varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
+crencas religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
+compete na funeral mansao. Ella porem, ex'mo. sr. doutor, apezar de
+todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca ate hoje
+contradisse--que me conste--as declaracoes latinas feitas em seu nome
+por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto e catholica,
+e tem direito a sepultura sagrada na terra e a bemaventuranca no
+paraiso. O sr. Jardim nao pode de modo alguma mandal-a para o cemiterio
+dos atheus.
+
+ * * * * *
+
+Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete a
+funeral jazida de uma das minhas pernas e o cemiterio catholico. A essa
+resolucao tenho egualmente de oppor-me com os fundamentos seguintes:
+
+Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissao, a missa, a
+communhao, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
+nao significa da parte da minha perna uma affirmacao religiosa mas sim
+uma affirmacao civil.
+
+Pelas leis do reino a religiao catholica apostolica romana nao e
+facultativa, e obrigatoria. A minha perna nao pode entrar no estado sem
+ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
+substitua o assento baptimal para a consignacao do nascimento, a minha
+perna nem sequer portugueza pode ser emquanto nao for baptisada! Em todo
+o decurso da vida civil, ella nao pode dar um so passo sem primeiramente
+demonstrar que e catholica. Sem a certidao de baptismo, primeiro, sem o
+attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
+sacramentos depois, ella nao pode fazer exame de instruccao primaria;
+nao pode matricular-se em nenhuma das escolas; nao pode entrar no
+exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
+na magistratura, nem na representacao nacional. Nao sendo catholica nao
+pode ter nacionalidade, nao pode ter profissao, nao pode ter estado, nao
+pode ter mulher, nao pode ter filhos, nao pode nem ao menos ter nome!
+
+A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta a minha perna
+antes de a deixar penetrar, se ella e catholica, exactamente como se lhe
+pergunta se ella esta isempta do recrutamento e se e vaccinada.
+
+Desde que veiu a luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
+nascer, pertence irremissivilmente a igreja. Sem previa licenca da
+igreja ella nao pode dar um unico passo para dentro do estado ou para
+dentro da familia. Esta simples aspiracao, tao modesta: ser filha de meu
+pae e de minha mae--a minha perna esta prohibida de a ter sem que a
+igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
+de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
+minha emquanto a igreja nao disser tambem que sim. De sorte que, quando
+eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
+espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
+deveria dizer em linguagem litteral, para me referir a minha perna,
+era--a perna da igreja.
+
+Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
+perna da faculdade de escolher uma religiao, chumbando-lhe elle mesmo o
+catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
+recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
+direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religiao. Pelo facto de
+ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
+anno, de commungar pela Paschoa da Resurreicao, de jejuar a sexta feira,
+de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna nao esta na
+religiao, esta apenas na lei civil, esta na carta. Em quanto a crencas
+religiosas, o mais que se podera dizer da minha perna, apezar de
+baptisada, de jejuada, de confessada, etc., e que ella e cartista.
+
+Como porem a creacao das duas especies de cemiterios imaginados em
+Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila nao pode ter por fim
+separar os cidadaos que obedecem a carta dos cidadaos que lhe nao
+obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
+dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
+sua transgressao,--e claro que nao pode ser unicamente pelo facto de
+estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
+designar a sepultura sagrada.
+
+Em conclusao final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
+outro nao catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
+pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella e
+effectivamente catholica ou se nao e catholica, acha-se no caso especial
+de nao poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
+e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim nao mandar o
+contrario.
+
+Ora succede que todos os cidadaos portuguezes, sem excepcao alguma, se
+encontram precisamente nas mesmas condicoes em que se acha a minha
+perna.
+
+Nao se pode affirmar que alguem e catholico ou que o nao e emquanto a
+creacao do registro civil nao assegurar a cada cidadao a livre faculdade
+de exercer ou nao qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
+padre, morrer sem padre.
+
+ * * * * *
+
+Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
+cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Pacos da Camara na Praca Nova,
+esquina do Laranjal
+
+Porto
+
+Excellentissima camara e minha boa senhora. E cheio dos maiores cuidados
+pela preciosa saude de v. ex. que lancamos mao da pena para, em nome de
+todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasiao da cerimonia
+inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex. algumas regras.
+
+Principiaremos por dar a v. ex. uma breve noticia da festa em que
+tomamos parte e em que v. ex. teve as suas razoes para nao se dignar de
+comparecer.
+
+Por convite da direccao da companhia dos caminhos de ferro portuguezes
+reunimo-nos na estacao das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
+pelas 11 horas da manha. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
+comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, a entrada da nova
+ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
+presenceamos desde Gaya ate a estacao de Campanha e do qual procurarei,
+certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.!
+
+Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
+uma perola azul, abraca amorosamente a natureza e banhava a paizagem
+n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
+violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
+encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
+maritima, salgada e humida, ate os montes longinquos do lado opposto,
+levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisacoes do sol.
+Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
+Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
+caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
+de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
+Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
+da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
+_pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
+reluzentes, forrados de faianca, outros barrigudos, sombrios enodoados,
+fazendo fincape para nao cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
+ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de cor de rosa,
+com chamines bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
+trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
+abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
+os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
+murmurosas frescuras das quintas de Quebrantoes, da Oliveira, da
+freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuracao
+de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
+torreoes e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
+venezianamente na agua.
+
+Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebracao da
+ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
+proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetacao
+humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
+os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
+os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
+tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do
+Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regioes do
+paiz estavam ahi reunidos. Para que?
+
+Para celebrar um puro facto scientifico--a solucao de um problema de
+mechanica. N'este simples facto, exm. camara, que symptoma! que
+phenomeno! que revolucao!
+
+Ha bens poucos annos ainda so o fanatismo religioso tinha o poder de
+determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
+de Guimaraes, a senhora da Nazareth, a senhora do Cabo. Os peregrinos
+iam entao solicitar a intervencao milagrosa dos bons santos nos seus
+casos pathologicos, nas suas ambicoes pessoaes, nas suas questoes
+domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
+os tristes iam pedir consolacao, os turbulentos iam pedir paz, e os
+mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoco, a
+longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no po dos
+caminhos, iam simplesmente a beira das estradas pedir pao em troca de
+plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.
+
+Os peregrinos a ponte sobre o Douro nao eram movidos por interesse algum
+pessoal.
+
+Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
+o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
+exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia ja uma
+funccionalidade diversa.
+
+Um poder absolutamente novo, que nao e o poder religioso nem o poder
+politico, com quanto nao affirmado ainda nas instituicoes, revela-se ja
+por este facto na comprehensao dos espiritos. Esse novo poder,
+irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
+nomes teem gerido ate hoje a direccao da sociedade, e na esphera
+espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.
+
+A ponte sobre o Douro e a mais bella e a mais perfeita expressao
+symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
+mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
+que ha exemplo na historia das manifestacoes do applauso publico. Era
+tao superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisacao,
+que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
+todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distinccoes
+de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
+A direccao da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
+convidar para o banquete que se seguiu a solemnidade da inauguracao os
+individuos representantes das opinioes mais extremas, o mundo official e
+o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
+progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
+revolucionarios. Estes personagens tao justamente surprehendidos de se
+acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoco
+cujos convivas nao tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
+outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
+tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
+episodicas de opiniao, havia um sentimento de attraccao commum, de
+conciliacao geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
+sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
+forca anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
+bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
+vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
+aperfeicoamento e para a felicidade.
+
+Nao foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas nao foram tambem
+os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
+dirigido ate hoje a humanidade na sua ascencao atravez da historia. Foi
+elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
+remansos da paz, nos recolhimentos da applicacao e do estudo o que
+determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
+das sociedades.
+
+A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
+victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de
+paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
+sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
+progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
+instituicoes.
+
+Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
+estreitamente enlacadas agora por um abraco de ferro, eram separadas por
+um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nos agora nos
+reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
+nossos paes e os nossos avos espingardeavam-se convictamente, decidindo
+com o sacrificio das suas vidas a questao de palacio a esse tempo
+debatida entre dois principes.
+
+A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. E evidente que
+progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
+milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
+affirmacao d'esse progresso.
+
+A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
+principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandoes de toda a
+especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.
+
+Como foi que v. ex., representante do municipio portuense recebem este
+seu novo hospede? Nao lhe apparecendo!
+
+V. ex., que tem dado a esse espinhaco os tratos mais violentos e mais
+irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
+satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.
+que tem desengoncado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
+pes da real familia; v. ex. que conserva ainda entre os ferros velhos
+do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as
+chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.
+ex.--dizemos--nao teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
+agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
+extraordinaria manifestacao de estima de que ainda foi objecto uma
+cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.
+
+Este simples facto basta para nos provar que v. ex. desconhece
+completamente qual e o espirito municipal das modernas sociedades
+democraticas, que v. ex. esta cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
+abaixo da missao em que foi investida pelos suffragios da populacao
+portuense, tao energica, tao intelligente e tao progressiva.
+
+E possivel que v. ex. tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
+contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
+com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
+patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo
+o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
+forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque e que v. ex.
+nos nao preveniu? Durante a ausencia de v. ex., minha boa senhora, a
+sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
+telegraphico nos, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
+teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
+resignacao para o desgosto de a nao vermos no espirito.
+
+Acceite minha senhora a expressao dos nossos sentimentos, tao cordeaes
+como aquelles que v. ex. nos nao exprimiu.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
+de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
+os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.
+
+Eis o que ao depois occorreu:
+
+ * * * * *
+
+A pacata bestinha da governacao andou a monte por alguns mezes,
+choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacoes do sr. Barros e
+Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
+estadista e cavalleiro. Para onde e que s. ex., coberto de zelo e de
+suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?
+
+--Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex. com uma das
+maos na redea e com a outra mao sobre a carta constitucional.
+
+Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
+bambeavam dubitativamente a cabeca, e do alto das montanhas, com a mao
+aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:
+
+--Nao. Para onde elle vae e para a senda de Cacilhas a Cova da Piedade.
+
+E deixaram-o ir.
+
+ * * * * *
+
+Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
+com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
+estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
+orelha, baixando a cabeca, cravando os olhos sinistros nos cascos
+deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
+adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
+homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
+perfidia das ras o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
+abysmo,--sempre com uma das maos na carta, mas ja tem a outra mao na
+redea.
+
+ * * * * *
+
+Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
+cavalgadurinha do Estado principiou entao a dar terra para feijoes,
+retrocedendo para casa e bebendo o espaco com o freio nos dentes e com a
+saudade da mangedoura na alma.--Tao poderoso e fecundo e o ascendente
+moral que exerce o principio sagrado da racao sobre as actividades
+officiaes!
+
+ * * * * *
+
+Quando as boninas e os representantes da nacao tornaram a ver a burrinha
+do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
+dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulacao entre os
+circumstantes que a porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
+sr. Jose Dias Ferreira.
+
+Empolgando com mao dextra e firme a camba do freio a alimaria do poder,
+o sr. Jose Dias exclamou triumphante e glorioso:
+
+--A mim, rapazes!
+
+E gritando em coro: "Ave, Jose vencedor!"--os rapazes foram a elle.
+
+ * * * * *
+
+Eis senao quando, que hao de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
+assim elle mesmo?
+
+Atonitos elles veem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a
+burra ja nao esta devoluta, que a albarda tem gente em cima!
+
+Effectivamente emquanto o sr. Jose Dias intrepido segurava a redea, o
+sr. Fontes veloz encavalgara o poder.
+
+ * * * * *
+
+O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisoes
+do governo que o precedera. S. ex. sacou os 150 contos de tijolo para a
+Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
+rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
+depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de coro e o
+seu devido rape; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
+cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumacada de algodao
+para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixoes cheio de
+dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
+nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e,
+como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
+estes virados com o de dentro para fora, e appareceu por ultimo o sr.
+Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
+commissao da exposicao de Paris. S. ex. trazia empunhada e aberta a
+delicada umbela de linho cru forrada de tafeta azul com a qual s. ex.
+abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paco ate a rua do Duque
+de Braganca a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
+ministros. O ar de s. ex. o sr. Deslandes era cheio de uma grave
+auctoridade, e a sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafeta
+azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!
+
+Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
+da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
+causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
+durante alguns mezes e querendo obviar a repeticao d'essa
+intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
+bolsa do alforge ministerial.
+
+Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. Jose Dias do alto da burra,
+enfiou a trote marcial provincias da publica administracao em fora.
+
+ * * * * *
+
+E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tao somente no mesmo
+logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
+nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidao, a chapinhar com
+arnica o seu galo.
+
+ * * * * *
+
+Na semana seguinte aquella em que estes successos occorreram houve
+jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
+eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
+Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.
+
+O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
+como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornara a apostar contra o nobre
+estadista sem a condicao previa de que se sobrecarregue com mais alguns
+kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessoes da camara dos senhores
+deputados:
+
+ * * * * *
+
+Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
+funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
+os parapeitos ate ao tecto.
+
+Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna tracada sobre
+o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.
+
+Serve de secretario, lancando apontamentos a uma larga folha de papel um
+individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
+resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
+publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
+dor--Alfredo Angelino. S. ex. traja rigorosmente de negro.
+
+Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
+encasados nos seus _fauteuils_. Nao teem uma apparencia espirituosamente
+feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaco
+com a expressao passiva e tao caracteristicamente pacata dos individuos
+calidos quando instalados em decoccoes emolientes de alfavaca de cobra.
+
+No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das maos sobre o
+coracao, a outra mao alongada patheticamente no espaco, esta orando.
+
+Em torno do tribuno agrupam-se em pe varios representantes da Nacao.
+
+Uns rolicos, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
+amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforco.
+O abuso do feijao suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
+Robespierre--Sao os empaturrados da coisa publica.
+
+Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lividas, os pes
+mettidos para dentro, as calcas esbambeadas pelas joelheiras dos
+sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calcas e que
+descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--Sao os espinhelas
+cahidas do systema que felizmente nos rege.
+
+No fundo escuro da bancada sobresaem da cor sombria dos vestuarios de
+inverno duas maos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
+dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripcao ou uma
+sentenca de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
+inoffensivamente, n'uma abstracao magnanima.
+
+--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz e pungente, elegiaca,
+lacrimejante--Sr. presidente! onde nao ha religiao nao ha dignidade.
+
+Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
+estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
+cabeca.
+
+Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
+vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
+estao ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade e uma
+resultante da religiao. E todavia e a religiao que obriga esse pallido
+mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplacao,
+a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
+submetter-se pela humilhacao, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
+face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
+resignar-se. E e pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
+sanguineo e robusto a caminhar na direccao opposta a d'esse anemico, a
+constituir a familia, a luctar, a nao perder tempo em contemplacoes e em
+extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
+lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
+moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
+botas novas nao caem do ceu cob a forma de mana, caem unicamente do
+trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porem estao
+ambos de accordo emquanto a allianca indissoluvel da dignidade de um e
+da religiao do outro perante o principio transcendente da rhetorica
+constitucional.
+
+Diz mais o orador:
+
+--"Sr. presidente!--e a entonacao do tribuno continua a ser lacrimosa e
+pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
+investigacoes de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
+inventando religioes para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
+isto porem nao apagou na minha alma a doce esperanca que n'ella lancaram
+aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
+porque elles serao consolados".
+
+E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
+camara:--"Muito bem! muito bem!"
+
+A morbida corrente intellectual do pessimismo allemao representado por
+Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppoe o naturalissimo de Darwin
+e as poderosas systematisacoes de Spencer, a Franca oppoe o positivismo
+victorioso de Augusto Comte e de Littre. Em Portugal, onde estas
+questoes nao foram nunca ventiladas senao por pobres escriptores
+desconhecidos em periodicos tao desconhecidos como elles, a camara dos
+srs. deputados ouve pela primeira vez a solucao official d'esse debate.
+Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
+ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
+Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
+Mill e de Littre, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
+alma virginal do sr. Manuel d'Assumpcao. E a comprehensao mais perfeita
+dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
+d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
+crencas. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna nao
+queria evidentemente senao uma coisa: apagar a esperanca na alma d'este
+moco. Pois ficara sabendo que o nao conseguiu. A camara dos deputados da
+nacao portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
+collocando-lhe em cima o sr. Assumpcao e a esperanca da sua alma, no
+meio dos applausos geraes de todo o parlamento.
+
+E, nao obstante, querem dizer alguns que a politica nao e mais do que a
+applicacao da philosophia a direccao pratica das sociedades.
+
+A politica de Bismark e um grande poder social porque atraz d'elle esta,
+como o peito pelo outro lado da couraca, a disciplina philosophica de
+Kant, de Hegel e de Hartman.
+
+Danton, a alma da Revolucao, era na esphera executiva o instrumento da
+philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
+precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
+grande movimento cahiu com a cabeca de Danton, guilhotinado pela
+indisciplina mental.
+
+Foi ainda a anarchia das ideas, resultante da falta de um methodo
+philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.
+
+Finalmente para que a democracia se fundasse em Franca sobre bases
+definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
+para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que e o filho
+triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton e o
+filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.
+
+Na Italia o que e a politica actual, que libertou e unificou a grande
+peninsula, senao a somma das expeculacoes de uma longa serie de
+pensadores, desde Dante, o vidente, ate esse taciturno Leopardi, que foi
+o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
+politico do imperador Guilherme?
+
+Em todos os estados actualmente em dissolucao qual e a causa do mal
+senao a perturbacao da mentalidade pelo empyrismo da politica
+arbitraria? Sera preciso citar a Turquia? Sera preciso citar a Hispanha?
+
+Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
+vigor intellectual, que em poucos annos despedacara todos os velhos
+preconceitos e todas as caducas instituicoes que embargarem a sua
+ascencao politica. O federalismo, forma definitiva da civilisacao na
+peninsula iberica, esta-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
+certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
+pouco e pouco o caracter de uma opiniao partidaria. E um resultado
+philosophico, que em toda a Hispanha esta sendo pacificmente revisto e
+contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
+pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
+linguistica, pela historia. Quando esta idea chegar ao cabo da sua
+elaboracao especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
+actuara sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma forca da natureza.
+
+Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tao
+experimentalmente e tao evidentemente os seus dominios sobre o destino
+humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande
+maioria a condemnacao da critica e do pensamento moderno; declara-se
+indissoluvelmente abracada a theologia; e a todas as conquistas da
+sciencia no presente seculo ella oppoe triumphantemente a posse d'esta
+nocao: "Bemaventurados os que soffrem porque elles serao consolados."
+
+A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tao patente de
+esphacelamento cerebral.
+
+Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de
+caturras?--E unicamente o que perguntamos.
+
+ * * * * *
+
+O medo como a camara pensa da-nos a justa medida do modo como a camara
+governa. Ha muitos annos que ella nao toma uma unica medida tendente a
+coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforcos da progressao
+social.
+
+A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituicao politica, esta por
+fazer.
+
+A liberdade religiosa nao esta regulamentada de modo que torne effectivo
+o principio em que se funda.
+
+A distribuicao racional do imposto ainda nao foi definida.
+
+Finalmente a organisacao da instruccao publicia, esse elemento vital de
+uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma
+Turquia esta muito adeante de nos.
+
+Os parlamentos, sem direccao mental, sem criterio scientifico, sem
+destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e
+dissolvem-se na banalidade.
+
+As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos
+personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente as
+camaras uma grande concorrencia de ouvintes que nao recebem ahi senao as
+mais perigosas licoes de cynismo e de immoralidade.
+
+Das duas coisas uma: ou o espirito publico esta bastante corrompido para
+assimilar sem perturbcao do seu organismo a entoxicacao d'esses
+exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado a dissolucao; ou a
+burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso
+moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de
+cair como caiu em Franca o segundo imperio por effeito de um movimento
+similhante aquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolucao do despreso_.
+
+A similhanca de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de
+circulacao intellectual. Os partidos politicos sao os centros nervosos
+do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de
+funccionar. Ora qual e o estado dos partidos politicos em Portugal?
+
+ * * * * *
+
+Ha um partido que esta hoje no poder. E um partido conservador. E
+catholico, e monarchico, e auctoritario, e proteccionista, e
+militarista, e unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma
+electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religiao do Estado;
+quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito
+permanente com os seus respectivos canhoes Krupp e a sua competente pena
+de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direccao e de
+governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,
+uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundicao de typo, uma fabrica
+de cordas, uma photographa, etc.
+
+Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se
+disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que
+pelas suas ideas nao formam realmente senao um partido unico: o partido
+opposicionista. Que differenca ha entre este partido na opposicao e o
+partido actualmente no governo? E revolucionario? Nao: e egualmente
+conservador. E racionalista? Nao: e egualmente catholico. E
+evolucionista? Nao: e egualmente auctoritario. Quer a liberdade da
+industria e a liberdade do commercio? Nao: quer egualmente a proteccao
+das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a
+universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a
+magistratura anarchica, a instruccao cahotica, o suffragio corrompido, o
+governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se
+distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,
+a photographia, a cordoaria, a fundicao, etc.
+
+A unica opiniao que a opposicao diz ter e que ella accusa o governo de
+nao professar e a opiniao abstracta da economia, da ordem, da moralidade
+e do progresso. Como porem todos os governos, qualquer que seja o
+partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder
+perante a accusacao de nao servirem o progresso, a moralidade, a ordem e
+a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que alias nao
+podem constituir principios de programma, sao communs a todos os
+partidos ou nao sao especiaes de partido nenhum.
+
+Os partidos portanto nao se differencam senao pelos nomes dos individuos
+mais ou menos numerosos do que elles se compoem. N'esta ausencia
+completa de ideas contrapostas o governo em Portugal, versando
+constantemente sobre si proprio, da-nos o espectaculo de um organismo
+vivo isolado na creacao, alimentando-se na sua propria substancia e
+digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.
+
+ * * * * *
+
+Deixando de ser uma lucta de principios e de ideas a politica
+converte-se fatalmente em uma questao de compadres.
+
+O compadrio elevado a cathegoria de instituicao nacional, domina tudo,
+corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que nao podem conquistar o
+appoio da opiniao pelas ideas que representam, procuram manter-se pelo
+appoio dos compadres que favorecem. E na proporcao exacta do numero dos
+compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou
+diminue de adeptos, progride ou retrograda na confianca da coroa e no
+favor da urna.
+
+O dogma fundamental do compadrio impoe-se por tal modo que transforma
+todas as outras nocoes moraes segundo o criterio de que elle e a
+expressao. Transforma a justica, a honra, a probidade, a propria
+consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria
+commetter a mais vil e a mais nefanda das traicoes politicas!
+
+Despachando o compadre mais servical com exclusao do adversario mais
+competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidao e
+de lealdade. E ninguem ve quanto ha de profundamente subversivo da ordem
+moral n'este simples facto tao vulgar, tao frequente, tao despercebido:
+a exclusao da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos
+preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,
+e commetter o attentado mais criminoso de que o Estado pode ser reo
+deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violacoes do direito
+e todas as affrontas da justica. E um roubo violento e descarado,
+aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o
+insulto ao trabalho, com o escarneo a moral, com o ultrage ao dever.
+
+Na politica portugueza, que tem o seu calao como as mulheres publicas e
+como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de
+_compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do
+ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisao
+correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opiniao diz
+apenas:--E fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o
+compadre, vou para o partido d'elle.
+
+O officio do governo e servir o paiz. Como porem o paiz, por effeito do
+machinismo eleitoral, e representado constantemente pelos compadres do
+governo, o officio do governo em ultima analyse nao e mais do que servir
+o compadre. Esta no seu destino. Gracas aos elementos de corrupcao de
+que o governo dispoe, o cidadao, nao votando como cidadao mas votando
+como compadre, da o primeiro impulso que poe em movimento toda a
+engrenagem do systema: elegendo o compadre e elle mesmo que funda a
+tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.
+
+A sociedade esta a merce do compadre. E se ha poder que possa
+contrabalancar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,
+esse poder e unicamente--o da comadre.
+
+A aptidao provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no
+dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensao e o mais
+rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras,
+unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,
+real; compadrice, comadrice--eis tudo.
+
+ * * * * *
+
+Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja
+decadencia e tanto mais lamentavel quanto e certo que a sociedade que
+ella tem por fim dirigir esta na anarchia economica e tende para uma
+miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse
+remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de
+quatro ou cinco individuos de opinioes radicaes: republicanos,
+socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que
+sejam homens profundamente convictos e determinados a peleja de cada dia
+e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio
+philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa
+que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe
+resistir, nao ja pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo
+reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisacao. E das
+concessoes mutuas e successivas, feitas, ja ao principio da ordem pelos
+revolucionarios impacientes, ja ao principio do progresso pelos
+conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento
+actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixoes e dos
+mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.
+
+ * * * * *
+
+Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que
+sollicitamos, resta-nos entao adoptar o expediente ultimamente proposto
+pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas
+que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:
+caiar o palacio das cortes, branquear por fora o parlamento--_dealbatum
+sepulchrum_!
+
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas, Janeiro de 1878
+by Ramalho Ortigao and Jose Maria Eca de Queiroz
+
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+***** This file should be named 13092.txt or 13092.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/1/3/0/9/13092/
+
+Produced by Claudia Ribeiro, Larry Bergey and PG Distributed
+Proofreaders. Produced from page scans provided by Biblioteca Nacional
+de Lisboa.
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
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+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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+electronic works
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+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
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+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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