diff options
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 4 | ||||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 | ||||
| -rw-r--r-- | old/69187-0.txt | 10737 | ||||
| -rw-r--r-- | old/69187-0.zip | bin | 202882 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69187-h.zip | bin | 356683 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/69187-h/69187-h.htm | 13131 | ||||
| -rw-r--r-- | old/69187-h/images/cortico_cover.jpg | bin | 148832 -> 0 bytes |
8 files changed, 17 insertions, 23868 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..d7b82bc --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,4 @@ +*.txt text eol=lf +*.htm text eol=lf +*.html text eol=lf +*.md text eol=lf diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..3e7ddef --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #69187 (https://www.gutenberg.org/ebooks/69187) diff --git a/old/69187-0.txt b/old/69187-0.txt deleted file mode 100644 index 1593cab..0000000 --- a/old/69187-0.txt +++ /dev/null @@ -1,10737 +0,0 @@ -The Project Gutenberg eBook of O Cortiço, by Aluízio Azevedo - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: O Cortiço - -Author: Aluízio Azevedo - -Release Date: October 20, 2022 [eBook #69187] - -Language: Portuguese - -Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by - Gallica, Bibliothèque nationale de France.) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O CORTIÇO *** - - - ALUIZIO AZEVEDO - - - - - O CORTIÇO - - - - - QUARTA EDIÇÃO - - - - - RIO DE JANEIRO - - H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR - - 71, Rua do Ouvidor, 71 - - E - - 6, Rue des Saints-Pères, 6 - - PARIS - - - - -«Periculum dicendi non recuso.» - - (CICERO.) - - -«La vérité, toute la vérité, rien que la vérité.» - - (_Droit criminel._) - - -«Os meus honrados collegas do jornalismo, e todos esses grandes -publicistas que fatigam o céo e a terra para provar que esta em que -estamos é a verdadeira epoca de transição, esses nos dirão se a -Providencia andaria bem ou mal se hoje suscitasse um novo Timon da -verdadeira raça das furias, que com as pontas viperinas do azorrague -vingador lacerasse sem piedade os crimes e os vicios que a deshonram.» - - (JOÃO FRANCISCO LISBOA, _Jornal - de Timon_. Prospecto--Obras - completas, 1° vol., pag. 12.) - - -«Ung oyseau qui se nomme cigale estoit en un figuier, et François -tendit sa main et appella celluy oyseau, et tantost il obeyt et vint sur -sa main. Et il lui deist: Chante, ma seur, et loue nostre Seigneur. Et -adoncques chanta incontinent, et ne sen alla devant quelle eust -congé.» - - (JACQUES DE VORAGINE, _La Légende - Dorée_. Traduction française.) - - - - -INDICE - -CAPITULO I -CAPITULO II -CAPITULO III -CAPITULO IV -CAPITULO V -CAPITULO VI -CAPITULO VII -CAPITULO VIII -CAPITULO IX -CAPITULO X -CAPITULO XI -CAPITULO XII -CAPITULO XIII -CAPITULO XIV -CAPITULO XV -CAPITULO XVI -CAPITULO XVII -CAPITULO XVIII -CAPITULO XIX -CAPITULO XX -CAPITULO XXI -CAPITULO XXII -CAPITULO XXIII - - - - -O CORTICO - - - - -I - - -João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco annos, empregado de um -vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura -taverna nos refolhos do bairro de Botafogo; e tanto economisou do pouco -que ganhára n'essa duzia de annos, que, ao retirar-se o patrão para a -terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda -com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro. - -Proprietario e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á -labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delirio de -enriquecer, que affrontava resignado as mais duras privações. Dormia -sobre o balcão da propria venda, em cima de uma esteira, fazendo -travesseiro de um sacco de estopa cheio de palha. A comida -arranjava-lh'a, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua -vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego -residente em Juiz de Fóra e amigada com um portuguez que tinha uma -carroça de mão e fazia fretes na cidade. - -Bertoleza tambem trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem -afreguezada do bairro. De manhã vendia angú, e á noite peixe frito e -iscas de figado; pagava de jornal a seu dono vinte mil réis por mez, e, -apezar d'isso, tinha de parte quasi que o necessario para a alforria. Um -dia, porém, o seu homem, depois de correr meia legua, puxando uma carga -superior ás suas forças, cahio morto na rua, ao lado da carroça, -estrompado como uma besta. - -João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até -participante directo dos soffrimentos da vizinha, e com tamanho empenho -a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas -desventuras. Abrio-se com elle, contou-lhe a sua vida de amofinações e -difficuldades. «Seu senhor comia-lhe a pelle do corpo! Não era -brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar p'rali, todos os mezes, -vinte mil réis em dinheiro!» E segredou-lhe então o que já tinha -junto para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe -guardasse as economias, porque já de certa vez fôra roubada por -gatunos que lhe entraram na quitanda pelos fundos. - -D'ahi em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o -conselheiro da crioula. No fim de pouco tempo era elle quem tomava conta -de tudo que ella produzia, e era tambem quem punha e dispunha dos seus -peculios, e quem se encarregava de remetter ao senhor os vinte mil réis -mensaes. Abrio-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando -precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até á venda e -recebia-o das mãos do vendeiro, de «Seu João,» como ella dizia. Seu -João debitava methodicamente essas pequenas quantias n'um quaderninho, -em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escripto e em letras cortadas de -jornal: «Activo e passivo de Bertoleza.» - -E por tal fórma foi o taverneiro ganhando confiança no espirito da -mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava -d'elle, cegamente, todo e qualquer arbitrio. Por ultimo, se alguem -precisava tratar com ella qualquer negocio, nem mais se dava ao trabalho -de procural-a, ia logo direita a João Romão. - -Quando deram fé estavam amigados. - -Elle propoz-lhe morarem juntos, e ella concordou de braços abertos, -feliz em metter-se de novo com um portuguez, porque, como toda a cafusa, -Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instinctivamente -o homem n'uma raça superior á sua. - -João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de -terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas -portas, dividida ao meio parallelamente á rua, sendo a parte da frente -destinada á quitanda e a do fundo para um dormitorio que se arranjou -com os cacarecos de Bertoleza. Havia, além da cama, uma commoda de -jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarello já mareadas, um -oratorio cheio de santos e forrado de papel de côr, um bahú grande de -couro crú taxeado, dous banquinhos de páo feitos de uma só peça e um -formidavel cabide de pregar na parede, com a sua competente coberta de -retalhos de chita. - -O vendeiro nunca tivera tanta mobilia. - ---Agora, disse elle á crioula, as coisas vão correr melhor para você. -Você vae ficar fôrra; eu entro com o que falta. - -N'esses dias elle sahio muito á rua, e uma semana depois appareceu com -uma folha de papel toda escripta, que leu em voz alta á companheira. - ---Você agora não tem mais senhor! declarou em seguida á leitura, que -ella ouvio entre lagrimas agradecidas. Agora está livre! De ora avante -o que você fizer é só seu e mais de seus filhos, se os tiver. -Acabou-se o captiveiro de pagar os vinte mil réis á peste do cego! - ---Coitado! A gente se queixa é da sorte! Elle, como meu senhor, exigia -o jornal, exigia o que era seu! - ---Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova! - -Contra todo o costume, abrio-se n'esse dia uma garrafa de vinho do -Porto, e os dous beberam-n'a em honra ao grande acontecimento. -Entretanto, a tal carta de liberdade era obra do proprio João Romão, e -nem mesmo o sello, que elle entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar -á burla maior formalidade, representava despeza, porque o esperto -aproveitára uma estampilha já servida. O senhor de Bertoleza não teve -sequer conhecimento do facto; o que lhe constou, sim, foi que a sua -escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo. - ---O cego que venha buscal-a aqui, se fôr capaz!... desafiou o vendeiro -de si para si. Elle que caia n'essa e verá se tem ou não para peras! - -Não obstante, só ficou tranquillo de todo d'ahi a tres mezes, quando -lhe constou a morte do velho. A escrava passara naturalmente em herança -a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que receiar: -dous pandegos de marca maior que, empolgada a legitima, cuidariam de -tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam de -muitos annos áquella parte. «Ora! bastava já, e não era pouco, o que -lhe tinham sugado durante tanto tempo!» - -Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel triplice de -caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre; -ás quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o -café para os freguezes e depois preparando o almoço para os -trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal -aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão na -taverna, quando o amigo andava occupado lá por fóra; fazia a sua -quitanda durante o dia no intervallo de outros serviços, e á noite -passava-se para a porta da venda, e, defronte de um fogareiro de barro, -fritava figado e frigia sardinhas, que Romão ia pela manhã, em mangas -de camisa, de tamancos e sem meias, comprar á praia do Peixe. E o -demonio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e concertar, além -da sua, a roupa do seu homem, que esta, valha a verdade, não era tanta -e nunca passava em todo o mez de alguns pares de calças de zuarte e -outras tantas camisas de riscado. - -João Romão não sahia nunca a passeio, nem ia á missa aos domingos; -tudo que rendia a sua venda e mais a quitandas eguia direitinho para a -caixa economica e d'ahi então para o banco. Tanto assim que, um anno -depois da acquisição da crioula, indo em hasta publica algumas braças -de terra situadas ao fundo da taverna, arrematou-as logo e tratou, sem -perda de tempo, de construir tres casinhas de porta e janella. - -Que milagres de esperteza e de economia não realizou elle n'essa -construcção! Servia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava -pedra; pedra, que o velhaco, fóra d'horas, junto com a amiga, furtavam -á pedreira do fundo, da mesma forma que subtrahiam o material das casas -em obra que havia por ali perto. - -Estes furtos eram feitos com todas as cautelas e sempre coroados do -melhor successo, graças á circumstancia de que n'esse tempo a policia -não se mostrava muito por aquellas alturas. João Romão observava -durante o dia quaes as obras em que ficava material para o dia seguinte, -e á noite lá estava elle rente, mais a Bertoleza, a removerem taboas, -tijolos, telhas, saccos de cal, para o meio da rua, com tamanha -habilidade que se não ouvia vislumbre de rumor. Depois, um tomava uma -carga e partia para casa, emquanto o outro ficava de alcatéa ao lado do -resto, prompto a dar signal em caso de perigo; e, quando o que tinha ido -voltava, seguia então o companheiro, carregado por sua vez. - -Nada lhes escapava, nem mesmo as escadas dos pedreiros, os cavallos de -páo, o banco ou a ferramenta dos marceneiros. - -E o facto é que aquellas tres casinhas, tão engenhosamente -construidas, foram o ponto de partida do grande cortiço de São Romão. - -Hoje quatro braças de terra, amanhã seis, depois mais outras, ia o -vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da sua -bodega; e, á proporção que o conquistava, reproduziam-se os quartos e -o numero dos moradores. - -Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia santo, não perdendo -nunca a occasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas -as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os freguezes, -roubando nos pezos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o -que os escravos furtavam da casa dos seus senhores, apertando cada vez -mais as proprias despezas, empilhando privações sobre privações, -trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois, João Romão veio -afinal a comprar uma boa parte da bella pedreira, que elle, todos os -dias, ao cahir da tarde, assentado um instante á porta da venda, -contemplava de longe com um resignado olhar de cobiça. - -Pôz lá seis homens a quebrarem pedra e outros seis a fazerem lagedos e -parallelepipedos, e então principiou a ganhar em grosso, tão em -grosso que, dentro de anno e meio, arrematava já todo o espaço -comprehendido entre as suas casinhas e a pedreira, isto é, umas oitenta -braças de fundo sobre vinte de frente em plano enxuto e magnifico para -construir. - -Justamente por essa occasião vendeu-se tambem um sobrado que ficava á -direita da venda, separado d'esta apenas por aquellas vinte braças; de -sorte que todo o flanco esquerdo do predio, coisa de uns vinte e tantos -metros, despejava para o terreno do vendeiro as suas nove janellas de -peitoril. Comprou-o um tal Miranda, negociante portuguez, estabelecido -na rua do Hospicio com uma loja de fazendas por atacado. Corrida uma -limpeza geral no casarão, mudar-se-hia elle para lá com a familia, -pois que a mulher, Dona Estella, senhora pretenciosa e com fumaças de -nobreza, já não podia supportar a residencia no centro da cidade, como -tambem sua menina, a Zulmirinha, crescia muito pallida e precisava de -largueza para enrijar e tomar corpo. - -Isto foi o que disse o Miranda aos collegas, porém a verdadeira causa -da mudança estava na necessidade, que elle reconhecia urgente, de -afastar Dona Estella do alcance dos seus caixeiros. Dona Estella era uma -mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze annos e -durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos. Ainda antes -de terminar o segundo anno de matrimonio, o Miranda pilhou-a em -flagrante delicio de adulterio; ficou furioso e o seu primeiro impulso -foi de mandal-a para o diabo junto com o cumplice; mas a sua casa -commercial garantia-se com o dote que ella trouxera, uns oitenta contos -em predios e acções da divida publica, de que se utilisava o -desgraçado tanto quanto lhe permittia o regimen dotal. Além de que, um -rompimento brusco seria obra para escandalo, e, segundo a sua opinião, -qualquer escandalo domestico ficava muito mal a um negociante de certa -ordem. Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a -idéa de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para -recomeçar a vida, depois de se haver habituado a umas tantas regalias e -affeito á hombridade de portuguez rico que já não tem patria na -Europa. - -Acovardado defronte d'estes raciocinios, contentou-se com uma simples -separação de leitos, e os dous passaram a dormir em quartos separados. -Não comiam juntos, e mal trocavam entre si uma ou outra palavra -constrangida, quando qualquer inesperado acaso os reunia a contra gosto. - -Odiavam-se. Cada qual sentia pelo outro um profundo desprezo, que pouco -a pouco se foi transformando em repugnancia completa. O nascimento de -Zulmira veio aggravar ainda mais a situação; a pobre criança, em vez -de servir de elo aos dous infelizes, foi antes um novo isolador que se -estabeleceu entre elles. Estella amava-a menos do que lhe pedia o -instincto materno por suppol-a filha do marido, e este a detestava -porque tinha convicção de não ser seu pae. - -Uma bella noite, porém, o Miranda, que era homem de sangue esperto e -orçava então pelos seus trinta e cinco annos, sentio-se em -insupportavel estado de lubricidade. Era tarde já e não havia em casa -alguma criada que lhe pudesse valer. Lembrou-se da mulher, mas repellio -logo esta idéa com escrupulosa repugnancia. Continuava a odial-a. -Entretanto este mesmo facto de obrigação em que elle se collocou de -não servir-se d'ella, a responsabilidade de desprezal-a, como que ainda -mais lhe assanhava o desejo da carne, fazendo da esposa infiel um fructo -prohibido. Afinal, coisa singular, posto que moralmente em nada -diminuisse a sua repugnancia pela perjura, foi ter ao quarto d'ella. - -A mulher dormia a somno solto. Miranda entrou pé ante pé e -approximou-se da cama. «Devia voltar!... pensou. Não lhe ficava bem -aquillo!...» Mas o sangue latejava-lhe, reclamando-a. Ainda hesitou um -instante, immovel, a contemplal-a no seu desejo. - -Estella, como se o olhar do marido lhe apalpasse o corpo, torceu-se -sobre o quadril da esquerda, repuxando com as coxas o lençol para a -frente e patenteando uma nesga de nudez estofada e branca. O Miranda -não pôde resistir, atirou-se contra ella, que, num pequeno sobresalto, -mais de sorpresa que de revolta, desviou-se, tornando logo e enfrentando -com o marido. E deixou-se empolgar pelos rins, de olhos fechados, -fingindo que continuava a dormir, sem a menor consciencia de tudo -aquillo. - -Ah! ella contava como certo que o esposo, desde que não teve coragem de -separar-se de casa, havia, mais cedo ou mais tarde, de procural-a de -novo. Conhecia-lhe o temperamento, forte para desejar e fraco para -resistir ao desejo. - -Consummado o delicto, o honrado negociante sentio-se tolhido de vergonha -e arrependimento. Não teve animo de dar palavra, e retirou-se tristonho -e murcho para o seu quarto de desquitado. - -Oh! como lhe doia agora o que acabava de praticar na cegueira da sua -sensualidade. - ---Que cabeçada!... dizia elle agitado. Que formidavel cabeçada!... - -No dia seguinte, os dois viram-se e evitaram-se em silencio, como se -nada de extraordinario houvera entre elles acontecido na vespera. Dir-se -ia até que, depois d'aquella occurrencia, o Miranda sentia crescer o -seu odio contra a esposa. E, á noite d'esse mesmo dia, quando se achou -sozinho na sua cama estreita, jurou mil vezes aos seus brios nunca mais, -nunca mais, praticar semelhante loucura. - -Mas, d'ahi a um mez, o pobre homem, acommettido de um novo accesso de -luxuria, voltou ao quarto da mulher. - -Estella recebeu-o d'esta vez como da primeira, fingindo que não -acordava; na occasião, porém, em que elle se apoderava d'ella -febrilmente, a leviana, sem se poder conter, soltou-lhe em cheio contra -o rosto uma gargalhada que a custo sopeava. O pobre diabo desnorteou, -devéras escandalisado, soerguendo-se, brusco, n'um estremunhamento de -somnambulo acordado com violencia. - -A mulher percebeu a situação e não lhe deu tempo para fugir; -passou-lhe rapido as pernas por cima e, grudando-se-lhe ao corpo, cegou-o -com uma metralhada de beijos. - -Não se fallaram. - -Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão violenta no prazer. -Estranhou-a. Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada; -descobrio n'ella o capitoso encanto com que nos embebedam as cortezãs -amestradas na sciencia do gozo venereo. Descobrio-lhe no cheiro da pelle -e no cheiro dos cabellos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro -halito, outro som nos gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a -loucamente, com delirio, com verdadeira satisfação de animal no cio. - -E ella tambem, ella tambem gozou, estimulada por aquella circumstancia -picante do resentimento que os desunia; gozou a deshonestidade d'aquelle -acto que a ambos acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se toda, -rangendo os dentes, grunhindo, debaixo d'aquelle seu inimigo odiado, -achando-o tambem agora, como homem, melhor que nunca, suffocando-o nos -seus abraços nús, mettendo-lhe pela bocca a lingua humida e em braza. -Depois, n'um arranco de corpo inteiro, com um soluço guttural e -estrangulado, arquejante e convulsa, estatelou-se n'um abandono de -pernas e braços abertos, a cabeça para o lado, os olhos moribundos e -chorosos, toda ella agonisante, como se a tivessem crucificado na cama. - -A partir d'essa noite, da qual só pela manhã o Miranda se retirou do -quarto da mulher, estabeleceu-se entre elles o habito de uma felicidade -sexual, tão completa como ainda não a tinham desfrutado, posto que no -intimo de cada um persistisse contra o outro a mesma repugnancia moral -em nada enfraquecida. - -Durante dez annos viveram muito bem casados; agora, porém, tanto tempo -depois da primeira infidelidade conjugal, e agora que o negociante já -não era acommettido tão frequentemente por aquellas crises que o -arrojavam fora d'horas ao dormitorio de Dona Estella; agora, eis que a -leviana parecia disposta a reincidir na culpa, dando corda aos caixeiros -do marido, na occasião em que estes subiam para almoçar ou jantar. - -Foi por isso que o Miranda comprou o predio vizinho a João Romão. - -A casa era boa; seu unico defeito estava na escassez do quintal; mas -para isso havia remedio: com muito pouco compravam-se umas dez braças -d'aquelle terreno do fundo, que ia até á pedreira, e mais uns dez ou -quinze palmos do lado em que ficava a venda. - -Miranda foi logo entender-se com o Romão e propoz-lhe negocio. O -taverneiro recussou formalmente. - -Miranda insistio. - ---O senhor perde seu tempo e seu latim! retrucou o amigo de Bertoleza. -Nem só não cedo uma pollegada do meu terreno, como ainda lhe compro, -sem o quizer vender, aquelle pedaço que lhe fica ao fundo da casa! - ---O quintal? - ---É exacto. - ---Pois você quer que eu fique sem chacara, sem jardim, sem nada? - ---Para mim era de vantagem... - ---Ora, deixe-se d'isso, homem, e diga lá quanto quer pelo que lhe -propuz. - ---Já disse o que tinha a dizer. - ---Ceda-me então ao menos as dez braças do fundo. - ---Nem meio palmo! - ---Isso é maldade de sua parte, sabe? Eu, se faço tamanho empenho, é -pela minha pequena, que precisa, coitada, de um pouco de espaço para -alargar-se. - ---E eu não cedo, porque preciso do meu terreno! - ---Ora qual! Que diabo póde lá você fazer ali? Uma porcaria de um -pedaço de terreno quasi grudado ao morro e aos fundos de minha casa! -quando você, aliás, dispõe de tanto espaço ainda! - ---Hei de lhe mostrar se tenho ou não o que fazer ali! - ---É que você é teimoso! Olhe, se me cedesse as dez braças do fundo, -a sua parte ficaria cortada em linha recta até á pedreira, e escusava -eu de ficar com uma aba de terreno alheio a metter-se pelo meu. Quer -saber? não amuro o quintal sem você decidir-se! - ---Então ficará com o quintal para sempre sem muro, porque o que tinha -a dizer já disse! - ---Mas, homem de Deus, que diabo! pense um pouco! Você ali não póde -construir nada! Ou pensará que lhe deixarei abrir janellas sobre o meu -quintal?... - ---Não preciso abrir janellas sobre o quintal de ninguem! - ---Nem tão pouco lhe deixarei levantar parede, tapando-me as janellas da -esquerda! - ---Não preciso levantar parede d'esse lado... - ---Então que diabo vai você fazer de todo este terreno?... - ---Ah! isso agora é cá comigo!... O que fôr soará! - ---Pois creia que se arrepende de não me ceder o terreno!... - ---Se me arrepender, paciencia! Só lhe digo é que muito mal se sahirá -quem quizer metter-se cá com a minha vida! - ---Passe bem! - ---Adeus! - -Travou-se então uma lucta renhida e surda entre o portuguez negociante -de fazendas por atacado e o portuguez negociante de seccos e molhados. -Aquelle não se resolvia a fazer o muro do quintal, sem ter alcançado o -pedaço de terreno que o separava do morro; e o outro, por seu lado, -não perdia a esperança de apanhar-lhe ainda, pelo menos, duas ou tres -braças aos fundos da casa; parte esta que, conforme os seus calculos, -valeria oiro, uma vez realizado o grande projecto que ultimamente o -trazia preoccupado--a creação de uma estalagem em ponto enorme, uma -estalagem monstro, sem exemplo, destinada a matar toda aquella miuçalha -de cortiços que alastravam por Botafogo. - -Era este o seu ideal. Havia muito que João Romão vivia exclusivamente -para essa idéa; sonhava com ella todas as noites; comparecia a todos os -leilões de materiaes de construcção; arrematava madeiramentos já -servidos; comprava telha em segunda mão; fazia pechinchas de cal e -tijolos; o que era tudo depositado no seu extenso chão vasio, cujo -aspecto tomava em breve o caracter estranho de uma enorme barricada, tal -era a variedade de objectos que ali se apinhavam accumulados: taboas e -sarrafos, troncos d'arvore, mastros de navio, caibros, restos de -carroças, chaminés de barro e de ferro, fogões desmantelados, pilhas -e pilhas de tijolos de todos os feitios, barricas de cimento, montes de -arêa e terra vermelha, aglomerações de telhas velhas, escadas -partidas, depositos de cal, o diabo emfim; ao que elle, que sabia -perfeitamente como essas coisas se furtavam, resguardava, soltando á -noite um formidavel cão de fila. - -Este cão era pretexto de eternas resingas com agente do Miranda, a cujo -quintal ninguem de casa podia descer, depois das dez horas da noite, sem -correr o risco de ser assaltado pela féra. - ---É fazer o muro! dizia João Romão, sacudindo os hombros. - ---Não faço! replicava o outro. Se elle é questão de capricho, eu -tambem tenho capricho! - -Em compensação, não cahia no quintal do Miranda gallinha ou frango, -fugidos do cercado do vendeiro, que não levasse immediato sumiço. -João Romão protestava contra o roubo em termos violentos, jurando -vinganças terriveis, fallando em dar tiros. - ---Pois é fazer um muro no gallinheiro! repontava o marido de Estella. - -D'ahi a alguns mezes, João Romão, depois de tentar um derradeiro -esforço para conseguir algumas braças do quintal do vizinho, resolveu -principiar as obras da estalagem. - ---Deixa estar, conversava elle na cama com a Bertoleza; deixa estar que -ainda lhe hei de entrar pelos fundos da casa, se é que não lhe entre -pela frente! Mais cedo ou mais tarde como-lhe, não duas braças, mas -seis, oito, todo o quintal e até o proprio sobrado talvez! - -E dizia isto com uma convicção de quem tudo póde e tudo espera da sua -perseverança, do seu esforço inquebrantavel e da fecundidade -prodigiosa do seu dinheiro, dinheiro que só lhe sahia das unhas para -voltar multiplicado. - -Desde que a febre de possuir se apoderou d'elle totalmente, todos os -seus actos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse -pecuniario. Só tinha uma preoccupação: augmentar os bens. Das suas -hortas recolhia para si e para a companheira os peiores legumes, -aquelles que, por máos, ninguem compraria; as suas gallinhas produziam -muito e elle não comia um ovo, do que no emtanto gostava immenso; -vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos -trabalhadores. Aquillo já não era ambição, era uma molestia nervosa, -uma loucura, um desespero de accumular, de reduzir tudo a moeda. E seu -typo baixote, socado, de cabellos á escovinha, a barba sempre por -fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda ás hortas e ao -capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando -para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com -os olhos, de tudo aquillo de que elle não podia apoderar-se logo com as -unhas. - -Entretanto, a rua lá fóra povoava-se de um modo admiravel. -Construia-se mal, porém muito; surgiam chalets e casinhas da noite para -o dia; subiam os alugueis; as propriedades dobravam de valor. -Montára-se uma fabrica de massas italianas e outra de vélas, e os -trabalhadores passavam de manhã e ás Ave-Marias, e a maior parte -d'elles ia comer á casa de pasto que João Romão arranjára aos fundos -da sua venda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser -tão afreguezada como a d'elle. Nunca o seu negocio fora tão bem, nunca -o finorio vendêra tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos annos -anteriores. Teve até de admittir caixeiros. As mercadorias não lhe -paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais -gasto. E o dinheiro a pingar, vintem por vintem, dentro da gaveta, e a -escorrer da gaveta para a burra, aos cincoenta e aos cem mil réis, e da -burra para o banco, aos contos e aos contos. - -Afinal, já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos armazens -fornecedores; começou a receber alguns generos directamente da Europa: -o vinho, por exemplo, que elle d'antes comprava aos quintos nas casas de -atacado, vinha-lhe agora de Portugal ás pipas, e de cada uma fazia tres -com agua e cachaça; e despachava facturas de barris de manteiga, de -caixas de conserva, caixões de phosphoros, azeite, queijos, louça e -muitas outras mercadorias. - -Creou armazens para deposito, abolio a quitanda e transferio o -dormitorio, aproveitando o espaço para ampliar a venda, que dobrou de -tamanho e ganhou mais duas portas. - -Já não era uma simples taverna, era um bazar em que se encontrava de -tudo: objectos de armarinho, ferragens, porcelanas, utensilios de -escriptorio, roupa de riscado para os trabalhadores, fazenda para roupa -de mulher, chapéos de palha proprios para o serviço ao sol, -perfumarias baratas, pentes de chifre, lenços com versos de amor, e -anneis e brincos de metal ordinario. - -E toda a gentalha d'aquellas redondezas ia cahir lá, ou então ali ao -lado, na casa de pasto, onde os operarios das fabricas e os -trabalhadores da pedreira se reuniam depois do serviço, e ficavam -bebendo e conversando até ás dez horas da noite, entre o espesso fumo -dos cachimbos, do peixe frito em azeite e dos lampeões de kerosene. - -Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado, -quando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo -ordenado não fosse inteirinho para ás mãos do velhaco. E sobre este -cobre, quasi sempre emprestado aos tostões, cobrava juros de oito por -cento ao mez, um pouco mais do que levava aos que garantiam a divida com -penhores de oiro ou prata. - -Não obstante, as casinhas do cortiço, á proporção que se -atamancavam, enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas -seccassem. Havia grande avidez em alugal-as; aquelle era o melhor ponto -do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam -todos morar lá, porque ficavam a dous passos da obrigação. - -O Miranda rebentava de raiva. - ---Um cortiço! exclamava elle, possesso. Um cortiço! Maldito seja -aquelle vendeiro de todos os diabos! Fazer-me um cortiço debaixo das -janellas!... Estragou-me á casa, o malvado! - -E vomitava pragas, jurando que havia de vingar-se, e protestando aos -berros contra o pó que lhe invadia em ondas as salas, e contra o -infernal barulho dos pedreiros e carpinteiros que levavam a martellar de -sol a sol. - -O que aliás não impedio que as casinhas continuassem a surgir, uma -após outra, e fossem logo se enchendo, a estenderem-se unidas por ali -afóra, desde a venda até quasi ao morro, e depois dobrassem para o -lado do Miranda e avançassem sobre o quintal d'este, que parecia -ameaçado por aquella serpente de pedra e cal. - -O Miranda mandou logo levantar o muro. - -Nada! aquelle demonio era capaz de invadir-lhe a casa até a sala de -visitas! - -E os quartos do cortiço pararam emfim de encontro ao muro do -negociante, formando com a continuação da casa d'este um grande -quadrilongo, especie de pateo de quartel, onde podia formar um -batalhão. - -Noventa e cinco casinhas comportou a immensa estalagem. - -Promptas, João Romão mandou levantar na frente, nas vinte braças que -separavam a venda do sobrado do Miranda, um grosso muro de dez palmos de -altura, coroado de cacos de vidro e fundos de garrafa, e com um grande -portão no centro, onde se dependurou uma lanterna de vidraças -vermelhas, por cima de uma taboleta amarella, em que se lia o seguinte, -escripto a tinta encarnada e sem ortographia. - -«Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para -lavadeiras.» - -As casinhas eram alugadas por mez e as tinas por dia: tudo pago -adiantado. O preço de cada tina, mettendo a agua, quinhentos réis; -sabão á parte. As moradoras do cortiço tinham preferencia e não -pagavam nada para lavar. - -Graças a abundancia d'agua que lá havia, como em nenhuma outra parte, -e graças ao muito espaço de que se dispunha no cortiço para estender -a roupa, a concurrencia ás tinas não se fez esperar; acudiram -lavadeiras de todos os pontos da cidade, entre ellas algumas vindas de -bem longe. E, mal vagava uma das casinhas, ou um quarto, um canto onde -coubesse um colchão, surgia uma nuvem de pretendentes a disputal-os. - -E aquillo se foi constituindo n'uma grande lavanderia, agitada e -barulhenta, com as suas cercas de varas, as suas hortaliças verdejantes -e os seus jardinzinhos de tres e quatro palmos, que appareciam como -manchas alegres por entre a negrura das limosas tinas transbordantes e o -reverbero das claras barracas de algodão crú, armadas sobre os -lustrosos bancos de lavar. E os gottejantes giráos, cobertos de roupa -molhada, scintillavam ao sol, que nem lagos de metal branco. - -E n'aquella terra encharcada e fumegante, n'aquella humidade quente e -lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma -coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontanea, ali mesmo, -d'aquelle lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco. - - - - -II - - -E durante dous annos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando -forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto -com aquella exhuberancia brutal de vida, aterrado defronte d'aquella -floresta implacavel que lhe crescia junto da casa, por debaixo das -janellas, e cujas raizes, peiores e mais grossas do que serpentes, -minavam por toda parte, ameaçando rebentar o chão em torno d'ella, -rachando o solo e abalando tudo. - -Posto que lá na rua do Hospicio os seus negocios não corressem mal, -custava-lhe a soffrer a escandalosa fortuna do vendeiro «aquelle typo! -um miseravel, um sujo, que não puzera nunca um paletó, e que vivia de -cama e mesa com uma negra!» - -Á noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando -elle, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar estendido -n'uma preguiçosa, junto á mesa da sala de jantar, e ouvia, a -contra-gosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem n'uma exhalação -forte de animaes cansados. Não podia chegar á janella sem receber no -rosto aquelle bafo, quente e sensual, que o embebedava com o seu fartum -de bestas no coito. - -E depois, fechado no quarto de dormir, indifferente e habituado ás -torpezas carnaes da mulher, isento já dos primitivos sobresaltos que -lhe faziam, a elle, ferver o sangue e perder a tramontana, era ainda a -prosperidade do vizinho o que lhe obcecava o espirito, ennegrecendo-lhe -a alma com um feio resentimento de despeito. - -Tinha inveja do outro, d'aquelle outro portuguez que fizera fortuna, sem -precisar roer nenhum chifre; d'aquelle outro que, para ser mais rico -tres vezes do que elle, não teve de casar com a filha do patrão ou com -a bastarda de algum fazendeiro freguez da casa! - -Mas então, elle, Miranda, que se suppunha a ultima expressão da -ladinagem e da esperteza; elle, que, logo depois do seu casamento, -respondendo para Portugal a um ex-collega que o felicitava, dissera que -o Brasil era uma cavalgadura carregada de dinheiro, cujas redeas um -homem fino empolgava facilmente; elle, que se tinha na conta de -invencivel matreiro, não passava afinal de um pedaço d'asno comparado -com o seu vizinho! Pensara fazer-se senhor do Brasil e fizera-se escravo -de uma brasileira mal educada e sem escrupulos de virtude! Imaginára-se -talhado para grandes conquistas, e não passava de uma victima ridicula -e soffredora!... Sim! no fim de contas qual fôra a sua Africa?... -Enriquecêra um pouco, é verdade, mas como? a que preço? -hypothecando-se a um diabo, que lhe trouxera oitenta contos de réis, -mas incalculaveis milhões de desgostos e vergonhas! Arranjára a vida, -sim, mas teve de aturar eternamente uma mulher que elle odiava! E do que -afinal lhe aproveitára tudo isso? Qual era afinal a sua grande -existencia? Do inferno da casa para o purgatorio do trabalho e -vice-versa! Invejavel sorte, não havia duvida! - -Na dolorosa incerteza de que Zulmira fosse sua filha, o desgraçado nem -sequer gozava o prazer de ser pae. Se ella, em vez de nascer de Estella, -fora uma engeitadinha recolhida por elle, é natural que a amasse, e -então a vida lhe correria de outro modo; mas, n'aquellas condições, a -pobre criança nada mais representava que o documento vivo do ludibrio -materno, e o Miranda estendia até á innocentezinha o odio que -sustentava contra a esposa. - -Uma espiga a tal da sua vida! - ---Fui uma besta! resumio elle, em voz alta, apeiando-se da cama, onde se -havia recolhido inutilmente. - -E pôz-se a passeiar no quarto, sem vontade de dormir, sentindo que a -febre d'aquella inveja lhe estorricava os miolos. - -Feliz e esperto era o João Romão! esse, sim, senhor! Para esse é que -havia de ser a vida!... Filho da mãe, que estava hoje tão livre e -desembaraçado como no dia em que chegou da terra sem um vintém de seu! -esse, sim, que era moço e podia ainda gozar muito, porque, quando mesmo -viesse a casar e a mulher lhe sahisse uma outra Estella, era só -mandal-a p'ra o diabo com um pontapé! Podia fazel-o! Para esse é que -era o Brasil! - ---Fui uma besta! repisava elle, sem conseguir conformar-se com a -felicidade do vendeiro. Uma grandissima besta! No fim de contas que -diabo possuo eu?... Uma casa de negocio, da qual não posso separar-me -sem comprometter o que lá está enterrado! um capital mettido n'uma -rêde de transacções que não se liquidam nunca, e cada vez mais se -complicam e mais me grudam ao estupor d'esta terra, onde deixarei a -casca! Que tenho de meu, se a alma do meu credito é o dote, que me -trouxe aquella sem vergonha, e que a ella me prende como a peste da casa -commercial me prende a esta Costa d'Africa?... - -Foi da suppuração fetida d'estas idéas que se formou no coração -vasio do Miranda um novo ideal--o titulo. Faltando-lhe temperamento -proprio para os vicios fortes que enchem a vida de um homem; sem familia -a quem amar e sem imaginação para poder gozar com as prostitutas, o -naufrago agarrou-se áquella taboa, como um agonisante, consciente da -morte, que se apega á esperança de uma vida futura. A vaidade de -Estella, que a principio lhe tirava dos labios incredulos sorrisos de -mofa, agora lhe comprazia á farta. Procurou capacitar-se de que ella -com effeito herdara sangue nobre, e que elle, por sua vez, se não o -tinha herdado, trouxera-o por natureza propria, o que devia valer mais -ainda; e desde então principiou a sonhar com um baronato, fazendo -d'isso o objecto querido da sua existencia, muito satisfeito no intimo -por ter afinal descoberto uma coisa em que podia empregar dinheiro, sem -ter, nunca mais, de restituil-o á mulher, nem ter de deixal-o a pessoa -alguma. - -Semelhante preoccupação modificou-o em extremo. Deu logo para -fingir-se escravo das conveniencias, affectando escrupulos sociaes, -empertigando-se quanto podia e disfarçando a sua inveja pelo vizinho -com um desdenhoso ar de superioridade condescendente. Ao passar-lhe -todos os dias pela venda, cumprimentava-o com protecção, sorrindo sem -rir e fechando logo a cara em seguida, muito serio. - -Dados os primeiros passos para a compra do titulo, abrio a casa e deu -festas. A mulher, posto que lhe apontassem já os cabellos brancos, -rejubilou com isso. - -Zulmira tinha então doze para treze annos e era o typo acabado da -fluminense; pallida, magrinha, com pequeninas manchas roxas nas mucosas -do nariz, das palpebras e dos labios, faces levemente pintalgadas de -sardas. Respirava o tom humido das flores nocturnas, uma brancura fria -de magnolia; cabellos castanho claro, mãos quasi transparentes, unhas -molles e curtas, como as da mãe, dentes pouco mais claros do que a -cutis do rosto, pés pequenos, quadril estreito, mas os olhos grandes, -negros, vivos e maliciosos. - -Por essa época, justamente, chegava de Minas, recommendado ao pae -d'ella, o filho de um fazendeiro importantissimo que dava bellos lucros -á casa commercial do Miranda e que era talvez o melhor freguez que este -possuia no interior. - -O rapaz chamava-se Henrique, tinha quinze annos e vinha terminar na -côrte alguns preparatorios que lhe faltavam para entrar na academia de -medicina. Miranda hospedou-o no seu sobrado da rua do Hospicio, mas o -estudante queixou-se, no fim de alguns dias, de que ahi ficava mal -accommodado, e o negociante, o quem não convinha desagradar-lhe, -carregou com elle para a sua residencia particular de Botafogo. - -Henrique era bonitinho, cheio de acanhamentos, com umas delicadezas de -menina. Parecia muito cuidadoso dos seus estudos e tão pouco -extravagante e gastador, que não despendia um vintem fóra das -necessidades de primeira urgencia. De resto, a não ser de manhã para -as aulas, que ia sempre com o Miranda, não arredava pé de casa senão -em companhia da familia d'este. Dona Estella, ao cabo de pouco tempo, -mostrou por elle estima quasi maternal e encarregou-se de tomar conta da -sua mesada, mesada posta pelo negociante, visto que o Henriquinho tinha -ordem franca do pae. - -Nunca pedia dinheiro; quando precisava de qualquer coisa, reclamava-a de -Dona Estella, que por sua vez encarregava ao marido de compral-a, sendo -o objecto lançado na conta do fazendeiro com uma commissão de -usurario. Sua hospedagem custava duzentos e cincoenta mil réis por mez, -do que elle todavia não tinha conhecimento, nem queria ter. Nada lhe -faltava, e os criados da casa o respeitavam como a um filho do proprio -senhor. - -Á noite, ás vezes, quando o tempo estava bom, Dona Estella sahia com -elle, a filha e um moleque, o Valentim, a darem uma volta até á praia, -e, em tendo convite para qualquer festa em casa das amigas, levava-o em -sua companhia. - -A criadagem da familia do Miranda compunha-se de Izaura, mulata ainda -moça, moleirona e tola, que gastava todo a vintemzinho que pilhava em -comprar capilé na venda de João Romão; uma negrinha virgem, chamada -Leonor, muito ligeira e viva, lisa e secca como um moleque, conhecendo -de orelha, sem lhe faltar um termo, a vasta technologia da obscenidade, -e dizendo, sempre que os caixeiros ou os freguezes da taberna, só para -mexer com ella, lhe davam atracações: «Oia, que eu me quexo ao juiz -de orfe!» e finalmente o tal Valentim, filho de uma escrava que foi de -Dona Estella e a quem esta havia alforriado. - -A mulher do Miranda tinha por este moleque uma affeição sem limites: -dava-lhe toda a liberdade, dinheiro, presentes, levava-o comsigo a -passeio, trazia-o bem vestido e muita vez chegou a fazer ciumes á -filha, de tão solicita que se mostrava com elle. Pois se a caprichosa -senhora ralhava com Zulmira por causa do negrinho! Pois, se quando se -queixavam os dous, um contra o outro, ella nunca dava razão á filha! -Pois se o que havia de melhor na casa era para o Valentim! Pois, se -quando foi este atacado de bexigas e o Miranda, apezar das supplicas e -dos protestos da esposa, mandou-o para um hospital, Dona Estella chorava -todos os dias e durante a ausencia d'elle não tocou piano, nem cantou, -nem mostrou os dentes a ninguem? E o pobre Miranda, se não queria -soffrer impertinencias da mulher e ouvir semsaborias defronte dos -criados, tinha de dar ao moleque toda a consideração e fazer-lhe -humildemente todas as vontades. - -Havia ainda, sob as telhas do negociante, um outro hospede alem do -Henrique, o velho Botelho. Este porém na qualidade de parasita. - -Era um pobre diabo caminhando para os setenta annos; antipathico, -cabello branco, curto e duro como escova, barba e bigode do mesmo theor; -muito macilento, com uns oculos redondos que lhe augmentavam o tamanho -da pupilla e davam-lhe á cara uma expressão de abutre, perfeitamente -de accordo com o seu nariz adunco e com a sua bocca sem labios; -viam-se-lhe ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que pareciam -limados até ao meio. Andava sempre de preto, com um guarda-chuva -debaixo do braço e um chapéu de Braga enterrado nas orelhas. Fôra em -seu tempo empregado do commercio, depois corretor de escravos; contava -mesmo que estivera mais de uma vez na Africa, negociando negros por sua -conta. Atirou-se muito ás especulações; durante a guerra do Paraguay -ainda ganhara forte, chegando a ser bem rico; mas a roda desandou e, de -malogro em malogro, foi-lhe escapando tudo por entre as suas garras de -ave de rapina. E agora, coitado, já velho, comido de desillusões, -cheio de hemorrhoidas, via-se totalmente sem recursos e vegetava á -sombra do Miranda, com quem por muitos annos trabalhou em rapaz, sob as -ordens do mesmo patrão, e de quem se conservara amigo, a principio por -acaso e mais tarde por necessidade. - -Devorava-o, noite e dia, uma implacavel amargura, uma surda tristeza de -vencido, um desespero impotente, contra tudo e contra todos, por não -lhe ter sido possivel empolgar o mundo com as suas mãos hoje inuteis e -tremulas. E, como o seu actual estado de miseria não lhe permittia -abrir contra ninguem o bico, desabafava vituperando as idéas da época. - -Assim, eram ás vezes muito quentes as sobremesas do Miranda, quando, -entre outros assumptos palpitantes, vinha á discussão o movimento -abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco. -Então o Botelho ficava possesso e vomitava phrases terriveis, para a -direita e para a esquerda, como quem dispara tiros sem fazer alvo, e -vociferava imprecações, aproveitando aquella valvula para desafogar o -velho odio accumulado dentro d'elle. - ---Bandidos! berrava apoplectico. Cafila de salteadores! - -E o seu rancor irradiava-lhe dos olhos em settas envenenadas, procurando -cravar-se em todas as brancuras e em todas as claridades. A virtude, a -belleza, o talento, a mocidade, a força, a saude, e principalmente a -fortuna, eis o que elle não perdoava a ninguem, amaldiçoando todo -aquelle que conseguia o que elle não obtivéra; que gosava o que elle -não desfructára; que sabia o que elle não aprendêra. E, para -individualisar o objecto do seu odio, voltava-se contra o Brasil, essa -terra que, na sua opinião, só tinha uma serventia: enriquecer os -portuguezes, e que, no emtanto, o deixára, a elle, na penuria. - -Seus dias eram consumidos do seguinte modo: acordava ás oito da manhã, -lavava-se mesmo no quarto com uma toalha molhada em espirito de vinho; -depois ia ler os jornaes para a sala de jantar, a espera do almoço; -almoçava e sahia, tomava o bonde e ia direitinho para uma charutaria da -rua do Ouvidor, onde costumava ficar assentado até ás horas do jantar, -entretido a dizer mal das pessoas que passavam lá fóra, de fronte -d'elle. Tinha a pretenção de conhecer todo o Rio de Janeiro e os -podres de cada um em particular. Ás vezes, poucas, Dona Estella -encarregava-o de fazer pequenas compras de armarinho, o que o Botelho -desempenhava melhor que ninguem. Mas a sua grande paixão, o seu fraco, -era a farda, adorava tudo que dissesse respeito ao militarismo, posto -que tivéra sempre invencivel medo ás armas de qualquer especie, -mórmente ás de fogo. Não podia ouvir disparar perto de si uma -espingarda, enthusiasmava-se porém com tudo que cheirasse a guerra; a -presença de um official em grande uniforme tirava-lhe lagrimas de -commoção; conhecia na ponta da lingua o que se referia á vida de -quartel; distinguia ao primeiro lance d'olhos o posto e o corpo a que -pertencia qualquer soldado, e, apezar dos seus achaques, era ouvir tocar -na rua a corneta ou o tambor conduzindo o batalhão, ficava logo no ar, -e, muita vez, quando dava por si, fazia parte dos que accompanhavam a -tropa. Então, não tornava para casa emquanto os militares não se -recolhessem. Quasi sempre voltava d'essa loucura ás seis da tarde, -moido a fazer dó, sem poder ter-se nas pernas, estrompado de marchar -horas e horas ao som da musica de pancadaria. E o mais interessante é -que elle, ao vir-lhe a reacção, revoltava-se furioso contra o maldito -commandante que o obrigára áquella estopada, levando o batalhão por -uma infinidade de ruas e fazendo de proposito o caminho mais longo. - ---Só parece, lamentava-se elle, que a intenção d'aquelle malvado era -dar-me cabo da pelle! Ora vejam! Tres horas de marche-marche por uma -soalheira de todos os diabos! - -Uma das birras mais comicas do Botelho era o seu odio pelo Valentim. O -moleque causava-lhe febre com as suas petulancias de mimalho, e, -velhaco, percebendo quanto ellas o irritavam, ainda mais abusava, seguro -na protecção de Dona Estella. O parasita de muito que o teria -estrangulado, se não fôra a necessidade de agradar a dona da casa. - -Botelho conhecia as fallas de Estella como as palmas da propria mão. O -Miranda mesmo, que o via em conta de amigo fiel, muitas e muitas vezes -lh'as confiára em occasiões desesperadas de desabafo, declarando -francamente o quanto no intimo a desprezava e a razão porque não a -punha na rua aos pontapés. E o Botelho dava-lhe toda a razão; entendia -tambem que os serios interesses commerciaes estavam acima de tudo. - ---Uma mulher n'aquellas condições, dizia elle convicto, representa -nada menos que o capital, e um capital em caso nenhum a gente despreza! -Agora, você o que devia era nunca chegar-se para ella... - ---Ora! explicava o marido. Eu me sirvo d'ella como quem se serve de uma -escarradeira! - -O parasita, feliz por ver quanto o amigo aviltava a mulher, concordava -em tudo plenamente, dando-lhe um carinhoso abraço de admiração. Mas -por outro lado, quando ouvia Estella fallar do marido, com infinito -desdem e até com asco, ainda mais resplandecia de contente. - ---Você quer saber? affirmava ella, eu bem percebo quanto aquelle traste -do senhor meu marido me detesta, mas isso tanto se me dá como a -primeira camisa que vesti! Desgraçadamente para nós, mulheres de -sociedade, não podemos viver sem o esposo, quando somos casadas; de -forma que tenho de aturar o que me cahio em sorte, quer goste d'elle -quer não goste! juro-lhe, porém, que, se consinto que o Miranda se -chege ás vezes para mim, é porque entendo que paga mais á pena ceder -do que puxar discussão com uma besta d'aquella ordem! - -O Botelho, com a sua encanecida experiencia do mundo, nunca transmittia -a nenhum dos dous o que cada qual lhe dizia contra o outro; tanto assim -que, certa occasião, recolhendo-se á casa incommodado, em hora que -não era do seu costume, ouvio, ao passar pelo quintal, sussurros de -vozes abafadas que pareciam vir de um canto afogado de verdura, onde em -geral não ia ninguem. - -Encaminhou-se para lá em bicos de pés e, sem ser percebido, descobrio -Estella entalada entre o muro e o Henrique. Deixou-se ficar espiando, -sem tugir nem mugir, e, só quando os dous se separaram, foi que elle se -mostrou. - -A senhora soltou um pequeno grito, e o rapaz, de vermelho que estava, -fez-se côr de cera; mas o Botelho procurou tranquillisal-os, dizendo em -voz amiga e mysteriosa: - ---Isso é uma imprudencia o que vocês estão fazendo!... Estas coisas -não é d'este modo que se arranjam! Assim como fui eu, podia ser outra -pessoa... Pois n'uma casa, em que ha tantos quartos, é lá preciso vir -metterem-se n'este canto do quintal?... - ---Nós não estávamos fazendo nada! disse Estella, recuperando o sangue -frio. - ---Ah! tornou o velho, apparentando summo respeito: então desculpe, -pensei que estivessem... E olhe que, se assim fosse, para mim seria o -mesmo, porque acho isso a coisa mais natural do mundo e entendo que -d'esta vida a gente só leva o que come!... Se vi, creia, foi como se -nada visse, porque nada tenho a cheirar com a vida de cada um!... A -senhora está moça, está na força dos annos; seu marido não a -satisfaz, é justo que o substitua por outro! Ah! isto é o mundo, e, se -é torto, não fomos nós que o fizemos torto!... Até certa idade todos -temos dentro um bichinho carpinteiro, que é preciso matar, antes que -elle nos mate! Não lhes doam as mãos!... apenas acho que, para outra -vez, devem ter um pouquito mais de cuidado e... - ---Está bom! basta! ordenou Estella. - ---Perdão! eu, se digo isto, é para deixal-os bem tranquillos a meu -respeito. Não quero, nem por sombra, que se persuadam de que... - -O Henrique atalhou, com a voz ainda commovida: - ---Mas, acredite, seu Botelho, que... - -O velho interrompeo-o tambem por sua vez, passando-lhe a mão no hombro -e affastando-o comsigo: - ---Não tenha receio, que não o comprometterei, menino! - -E, como já estivessem distantes de Estella, segredou-lhe em tom -protector: Não torne a fazer isto assim, que você se estraga... Olhe -como lhe tremem as pernas! - -Dona Estella acompanhou-os a distancia, vagarosamente, affectando -preoccupação em compor um ramalhete, cujas flores ella ia colhendo com -muita graça, ora toda vergada sobre as plantas rasteiras, ora pondo-se -na pontinha dos pés para alcançar os heliotropos e os manacás. - -Henrique seguio o Botelho até ao quarto d'este, conversando sem mudar -de assumpto. - ---Você então não falia n'isto, hein? Jura? perguntou-lhe. - -O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhára em flagrante e que -ficára bom tempo a espreita. - -Fallar o que, seu tolo?... Pois então quem pensa você que eu sou?... -Só abrirei o bico se você me der motivo para isso, mas estou -convencido que não dará... Quer saber? eu até sympathiso muito com -você, Henrique! Acho que você é um excellente menino, uma flôr! E -digo-lhe mais: hei de proteger os seus negocios com Dona Estella... - -Fallando assim, tinha-lhe tomado as mãos e affagava-as. - ---Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se metta com donzellas, -entende?... São o diabo! Por dá cá aquella palha fica um homem em -apuros! agora quanto ás outras, papo com ellas! Não mande nenhuma ao -vigario, nem lhe dôa a cabeça, porque, no fim de contas, nas -circumstancias de Dona Estella, é até um grande serviço que você lhe -faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e pilha -a geito um rapazito da sua idade, é como se descobrisse oiro em pó! -sabe-lhe a gaitas! Fique então sabendo de que não é só a ella que -você faz o obsequio, mas tambem ao marido: quanto mais escovar-lhe -você a mulher, melhor ella ficará de genio, e por conseguinte melhor -será para o pobre homem, coitado! que tem já bastante com que se -aborrecer lá por baixo, com os seus negocios, e precisa de um pouco de -descanço quando volta do serviço e mette-se em casa! Escove-a, -escove-a! que a porá macia que nem velludo! O que é preciso é muito -juizinho, percebe? Não faça outra criançada como a de hoje e continue -para diante, não só com ella, mas com todas as que lhe cahirem debaixo -da aza! Vá passando! menos as de casa aberta, que isso é perigoso por -causa das molestias; nem tão pouco donzellas! Não se metta com a -Zulmira! E creia que lhe fallo assim, porque sou seu amigo, porque o -acho sympathico, porque o acho bonito! - -E acarinhou-o tão vivamente d'esta vez, que o estudante, fugindo-lhe -das mãos, affastou-se com um gesto de repugnancia e desprezo, emquanto -o velho lhe dizia em voz comprimida: - ---Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!... - - - - -III - - -Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os -olhos, mas a sua infinidade de portas e janellas alinhadas. - -Um acordar alegre e farto de quem dormio de uma assentada sete horas de -chumbo. Como que se sentia ainda na indolencia da neblina as derradeiras -notas da ultima guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se á luz -loira e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra -alheia. - -A roupa lavada, que ficára de vespera nos córadoiros, humedecia o ar e -punha-lhe um fartum acre de sabão ordinario. As pedras do chão, -esbranquiçadas no logar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo -anil, mostravam uma pallidez grisalha e triste, feita de accumulações -de espumas seccas. - -Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de somno; -ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; -pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as chicaras a -tilintar; o cheiro quente do café aquecia, supplantando todos os -outros; trocavam-se de janella para janella as primeiras palavras, os -bons dias; reatavam-se conversas interrompidas á noite; a pequenada cá -fora traquinava já, e lá de dentro das casas vinham choros abafados de -crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava, -destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, -grasnar de marrecos, cantar de gallos, cacarejar de gallinhas. De alguns -quartos sabiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a -gaiola do papagaio, e os loiros, á semelhança dos donos, -cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se á luz nova do dia. - -D'ahi a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma -agglomeração tumultuosa de machos e femeas. Uns, após outros, lavavam -a cara, incommodamente, debaixo do fio d'agoa que escorria da altura de -uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já -prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a -tostada nudez dos braços e do pescoço, que ellas despiam, suspendendo o -cabello todo para o alto do casco; os homens, esses não se preoccupavam -em não molhar o pello, ao contrario mettiam a cabeça bem debaixo da -agoa e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando -contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era -um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sahir sem treguas. Não -se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; -as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali -mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto -das hortas. - -O rumor crescia, condensando-se; o zum-zum de todos os dias -accentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruido -compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na -venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e -pragas; já se não fallava, gritava-se. Sentia-se n'aquella -fermentação sanguinea, n'aquella gula viçosa de plantas rasteiras que -mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer -animal de existir, a triumphante satisfação de respirar sobre a terra. - -Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas, -fazendo compras. - -Duas janellas do Miranda abriram-se. Appareceu n'uma a Izaura, que se -dispunha a começar a limpeza da casa. - ---Nhá Dunga! gritou ella para baixo, a sacudir um panno de mesa; se -você tem cús-cús de milho hoje, bata na porta, ouvio? - -A Leonor surgio logo tambem, enfiando curiosa a carapinha por entre o -pescoço e o hombro da mulata. - -O padeiro entrou na estalagem, com a sua grande cesta á cabeça e o seu -banco de páo fechado debaixo do braço, e foi estacionar em meio do -pateo, a espera dos freguezes, pousando a canastra sobre o cavallete que -elle armou promptamente. Em breve estava cercado por uma nuvem de gente. -As crianças adulavam-no, e, á proporção que cada mulher ou cada -homem recebia o pão, disparava para casa com este abraçado contra o -peito. Uma vacca, seguida por um bezerro amordaçado, ia, tilintando -tristemente o seu chocalho, de porta em porta, guiada por um homem -carregado de vasilhame de folha. - -O zum-zum chegava ao seu apogeu. A fabrica de massas italianas, ali -mesmo da visinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o -seu arfar monotono de machina a vapor. As corridas até á venda -reproduziam-se, transformando-se n'um verminar constante de formigueiro -assanhado. Agora, no logar das bicas apinhavam-se latas de todos os -feitios, sobresahindo as de kerozene com um braço de madeira em cima; -sentia-se o trapejar da agoa cahindo na folha. Algumas lavadeiras -enchiam já as suas tinas; outras estendiam nos córadoiros a roupa que -ficára de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das gargantas os fados -portuguezes e as modinhas brasileiras. Um carroção de lixo entrou com -grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma algazarra medonha -algaraviada pelo carroceiro contra o burro. - -E, durante muito tempo, fez-se um vae-vem de mercadores. Appareceram os -taboleiros de carne fresca e outros de tripas e fatos de boi; só não -vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no cortiço. Vieram os -ruidosos mascates, com as suas latas de quinquilharia, com as suas -caixas de candieiros e objectos de vidro e com o seu fornecimento de -caçarolas e chocolateiras de folha de Flandres. Cada vendedor tinha o -seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas, com -as cestas do peixe dependuradas, á moda de balança, de um páo que -elle trazia ao hombro. Nada mais foi preciso do que o seu primeiro -guincho estridente e guttural para surgirem logo, como por encanto, uma -enorme variedade de gatos, que vieram correndo acercar-se d'elle com -grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas arregaçadas e miando -supplicantemente. O sardinheiro os affastava com o pé, emquanto vendia -o seu peixe á porta das casinhas, mas os bichanos não desistiam e -continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cuidadosamente -tapava mal servia ao freguez. Para ver-se livre por um instante dos -importunos era necessario atirar para bem longe um punhado de sardinhas, -sobre o qual se precipitava logo, aos pulos, o grupo dos pedinchões. - -A primeira que se pôz a lavar foi a Leandra, por alcunha a «Machona», -portugueza feroz, berradora, pulsos cabelludos e grossos, anca de animal -do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Anna das -Dores, a quem só chamavam a «das Dores» e outra donzella ainda, a -Nênêm, e mais um filho, o Agostinho, menino levado dos diabos, que -gritava tanto ou melhor que a mãe. A das Dores morava em sua casinha á -parte, mas toda a familia habitava no cortiço. - -Ninguem ali sabia ao certo se a Machona era viuva ou desquitada; os -filhos não se pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, affirmavam -que fôra casada e que largára o marido para metter-se com um homem do -commercio; e que este, retirando-se para a terra e não querendo -soltal-a ao desamparo, deixara o socio em seu logar. Teria vinte e cinco -annos. - -Nênêm desesete. Espigada, franzina e forte, com uma prôazinha de -orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos -rapazes que a queriam sem ser para casar. Engommava bem e sabia fazer -roupa branca de homem com muita perfeição. - -Ao lado da Leandra foi collocar-se á sua tina a Augusta Carne Molle, -brasileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta annos, -soldado de policia, pernostico, de grande bigode preto, queixo sempre -escanhoado e um luxo de calças brancas emgommadas e botões limpos na -farda, quando estava de serviço. Tambem tinham filhos, mas ainda -pequenos, e um dos quaes, a Jujú, vivia na cidade com a madrinha que se -encarregava d'ella. Esta madrinha era uma cocote de trinta mil réis -para cima, a Léonie, com sobrado na cidade. Procedencia franceza. - -Alexandre, em casa, á hora de descanso, nos seus chinellos e na sua -camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem, -conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o -bigode e empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar -as calças de brim, ninguem mais lhe via os dentes e então a todos -fallava tezo e por cima do hombro. A mulher, a quem elle só dava tu -quando não estava fardado, era de uma honestidade proverbial no -cortiço, honestidade sem merito, porque vinha da indolencia do seu -temperamento e não do arbitrio do seu caracter. - -Junto d'ella pôz-se a trabalhar a Leocadia, mulher de um ferreiro -chamado Bruno, portugueza pequena e socada, de carnes duras, com uma -fama terrivel de leviana entre as suas visinhas. - -Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam -todos pelas virtudes de que só ella dispunha para benzer erysipelas e -cortar febres por meio de rezas e feitiçarias. Era extremamente feia, -grossa, triste, com olhos desvairados, dentes cortados á navalha, -formando ponta, como dentes de cão, cabellos lisos, escorridos e ainda -retintos apezar da idade. Chamavam-lhe «Bruxa.» - -Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A primeira, -mulata antiga, muita séria e asseada em exagero: a sua casa estava -sempre humida das consecutivas lavagens. Em lhe apanhando o máo humor -punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a raiva era -grande, corria a buscar um balde d'agua e descarregava-o com furia pelo -chão da sala. A filha tinha quinze annos, a pelle de um moreno quente, -beiços sensuaes, bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ella -estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade e não -cedia, nem á mão de Deus Padre, aos rógos de João Romão, que a -desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no peso das -compras que Florinda fazia diariamente á venda. - -Depois via-se a velha Isabel, isto é, Dona Isabel, porque ali na -estalagem lhe dispensavam todos certa consideração, privilegiada pelas -suas maneiras graves de pessoa que já teve tratamento: uma pobre mulher -comida de desgostos. Fôra casada com o dono de uma casa de chapéos, -que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha e -fraca, a quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe mestre até -de francez. Tinha uma cara macilenta de velha portugueza devota, que já -foi gorda, bochechas molles de pellangas rechupadas, que lhe pendiam dos -cantos da bocca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos -castanhos, sempre chorosos e engolidos pelas palpebras. Puxava em -bandós sobre as fontes o escasso cabello grisalho untado de oleo de -amendoas doces. Quando sahia á rua punha um eterno vestido de seda -preta, achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um chale encarnado -que lhe dava a todo o corpo um feitio pyramidal. Da sua passada grandeza -só lhe ficára uma caixa de rapé de oiro, na qual a inconsolavel -senhora pitadeava agora, suspirando a cada pitada. - -A filha era a flôr do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha, Bonita, posto -que enfermiça e nervosa ao ultimo ponto; loira, muito pallida, com uns -modos de menina de boa familia. A mãe não lhe permittia lavar, nem -engommar, mesmo porque o medico o prohibira expressamente. - -Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço do commercio, estimado do -patrão e dos collegas, com muito futuro, e que a adorava e conhecia -desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se fizesse -já. É que Pombinha, orçando aliás pelos dezoito annos, não tinha -ainda pago á natureza o cruento tributo da puberdade, apezar do zelo da -velha e dos sacrificios que esta fazia para cumprir á risca as -prescripções do medico e não faltar á filha o menor desvelo. No -emtanto, coitadas! d'aquelle casamento dependia a felicidade de ambas, -porque o Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de -quem mais tarde havia de ser socio, tencionava, logo que mudasse de -estado, restituil-as ao seu primitivo circulo social. A pobre velha -desesperava-se com o facto e pedia a Deus, todas as noites, antes de -dormir, que as protegesse e conferisse á filha uma graça tão simples -que elle fazia, sem distincção de merecimento, a quantas raparigas -havia pelo mundo; mas, a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma -d'esta vida consentiria que a sua pequena casasse antes de «ser -mulher», como dizia ella. E «que deixassem lá fallar o doutor, -entendia que não era decente, nem tinha geito, dar homem a uma moça -que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vel-a solteira -toda a vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquelle inferno da -estalagem!» - -Lá no cortiço estavam todos a par d'esta historia: não era segredo -para ninguem. E não se passava um dia que não interrogassem duas e -tres vezes á velha com estas phrases: - ---Então? já veio? - ---Porque não tenta os banhos de mar? - ---Porque não chama outro medico? - ---Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo! - -A velha respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ella. E -suspirava resignada. - -Quando o Costa apparecia depois da sua obrigação para visitar a noiva, -os moradores da estalagem cumprimentavam-no em silencio com um -respeitoso ar de lastima e piedade, empenhados tacitamente por aquelle -caiporismo, contra o qual não valiam nem mesmo as virtudes da Bruxa. - -Pombinha era muito querida por toda aquella gente. Era quem lhe escrevia -as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem tirava as -contas; quem lia o jornal para os que quizessem ouvir. Presavam-na com -muito respeito e davam-lhe presentes, o que lhe permittia certo luxo -relativo. Andava sempre de botinas ou sapatinhos com meias de côr, seu -vestido de chita engommado; tinha as suas joiazinhas para sahir á rua, -e, aos domingos, quem a encontrasse á missa na egreja de São João -Baptista, não seria capaz de desconfiar que ella morava em cortiço. - -Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito -afeminado, fraco, côr de espargo cozido e com um cabellinho castanho, -deslavado e pobre, que lhe cahia, n'uma só linha, até ao pescocinho -molle e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem -já estava tão familiarisado que ellas o tratavam como a uma pessoa do -mesmo sexo; em presença d'elle fallavam de coisas que não exporiam em -presença de outro homem; faziam-no até confidente dos seus amores e -das suas infidelidades, com uma franqueza que o não revoltava, nem -commovia. Quando um casal brigava ou duas amigas se disputavam, era -sempre Albino quem tratava de reconcilial-os, exhortando as mulheres á -concordia. D'antes encarregava-se de cobrar o rol das collegas, por -amabilidade; mas uma vez, indo a uma republica de estudantes, deram-lhe -lá, ninguem sabia porque, uma duzia de bolos, e o pobre diabo jurou -então, entre lagrimas e soluços, que nunca mais se incumbiria de -receber os róes. - -E d'ahi em diante, com effeito, não arredava os pésinhos do cortiço, -a não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dansarina, -passear á tarde pelas ruas e á noite dansar nos bailes dos theatros. -Tinha verdadeira paixão por esse divertimento; ajuntava dinheiro -durante o anno para gastar todo com a mascarada. E ninguem o encontrava, -domingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que não estivesse com -a sua calça branca engommada, a sua camisa limpa, um lenço ao -pescoço, e, amarrado á cinta, um avental que lhe cahia sobre as pernas -como uma saia. Não fumava, não bebia espiritos e trazia sempre as -mãos geladas e humidas. - -N'aquella manhã levantára-se ainda um pouco mais languido que de -costume, porque passára mal a noite. A velha, Isabel, que lhe ficava ao -lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com insistencia, perguntou-lhe o que -tinha. - -Ah! muita molleza de corpo e uma pontada no vazio que o não deixava! - -A velha receitou diversos remedios, e ficaram os dois, no meio de toda -aquella vida, a fallar tristemente sobre molestias. - -E, emquanto, no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a Leocadia, a -Bruxa, a Marciana e sua filha, conversavam de tina a tina, berrando e -quasi sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo serviço, defronte -d'ellas, separado pelos giráos, formava-se um novo renque de -lavadeiras, que acudiam de fóra, carregadas de trouxas, e iam -ruidosamente tomando logar ao lado umas das outras, entre uma agitação -sem tregoas, onde se não distinguia o que era galhofa e o que era -briga. Uma a uma occupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos do -cortiço sahiam homens para as suas obrigações. Por uma porta que -havia ao fundo da estalagem desappareciam os trabalhadores da pedreira, -donde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de -calças de brim, chapéo alto e sobrecasaca preta, passou lá fóra, em -caminho para o armazem, acompanhado pelo Henrique que ia para as aulas. -O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada, entrou solemne, -atravessou o pateo, sem fallar a ninguem, nem mesmo á mulher, e -recolheu-se á casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o -Pompéo, o Francesco e o Andréa, armado cada qual com a sua grande -caixa de bugigangas, sahio para a perigrinação de todos os dias, -altercando e praguejando em italiano. - -Um rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar á Machona pela -inhá Rita. - ---A Rita Bahiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que ella arribou! - -A Leocadia explicou logo que a mulata estava com certeza de pandega com -o Firmo. - ---Que Firmo? interrogou Augusta. - ---Aquelle cabravasco que se mettia ás vezes ahi com ella. Diz que é -torneiro. - ---Ella mudou-se? perguntou o pequeno. - ---Não, disse a Machona; o quarto está fechado, mas a mulata tem coisas -lá. Você o que queria? - ---Vinha buscar uma roupa que está com ella. - ---Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão, que talvez te -possa dizer alguma coisa. - ---Ali? - ---Sim, pequeno, n'aquella porta, onde a preta do taboleiro está -vendendo! Ó diabo! olha que pizas a boneca de anil! Já se vio que -sorte? Parece que não vê onde piza este raio de criança! - -E, notando que o filho, o Agostinho, se approximava para tomar o logar -do outro que já se ia:--Sahe d'ahi, tu tambem, peste! Já principias na -reinação de todos os dias? Vem para cá, que levas! Mas, é verdade, -que fazes tu que não vaes regar a horta do Commendador? - ---Elle disse hontem que eu agora fosse á tarde, que era melhor. - ---Ah! E amanhã, não te esqueças, recebe os dois mil réis, que é fim -do mez. Olha! Vae lá dentro e diz a Nênêm que te entregue a roupa que -veio hontem á noite. - -O pequeno afastou-se de carreira, e ella lhe gritou na pista.--E que -não ponha o refogado no fogo sem eu ter lá ido! - -Uma conversa cerrada travára-se no resto da fila de lavadeiras a -respeito da Rita Bahiana. - ---É doida mesmo!... censurava Augusta. Metter-se na pandega sem dar -conta da roupa que lhe entregaram... Assim ha de ficar sem um freguez... - ---Aquella não endireita mais!... Cada vez fica até mais assanhada!... -Parece que tem fogo no rabo! Póde haver o serviço que houver, -apparecendo pagode, vae tudo pr'o lado! Olha o que sahio o anno passado -com a festa da Penha!... - ---Então agora, com este mulato, o Firmo, é uma pouca vergonha! Est'ro -dia, pois você não vio? levaram ahi n'uma bebedeira, a dansar e cantar -á viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre! - ---Para tudo ha horas e ha dias!... - ---Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é apparecer -quem puxe por ella! - ---Ainda assim não é má creatura... Tirante o defeito da vadiagem... - ---Bom coração tem ella, até de mais, que não guarda um vintém pr'o -dia d'amanhã. Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo! - ---Depois é que são ellas!... O João Romão já lhe não fia! - ---Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ella tem -dinheiro é porque o gasta mesmo! - -E as lavadeiras não se calavam, sempre a esfregar, e a bater, e a -torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercicio. Ao passo que, -em torno da sua tagarelice, o cortiço se enbandeirava todo de roupa -molhada, donde o sol tirava scintillações de prata. - -Estavam em dezembro e o dia era ardente. A grama dos córadoiros tinha -reflexos esmeraldinos; as paredes que davam frente ao nascente, -caiadinhas de novo, reverberavam illuminadas, offuscando a vista. Em uma -das janellas da sala de jantar do Miranda, Dona Estella e Zulmira, ambas -vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda, -indifferentes á agitação que ia lá em baixo, muito esquecidas na sua -tranquillidade de entes felizes. - -Entretanto, agora o maior movimento era na venda á entrada da -estalagem. Davam nove horas e os operarios das fabricas chegavam-se para -o almoço. Ao balcão o Domingos e o Manoel não tinham mãos a medir -com a criadagem da visinhança; os embrulhos de papel amarello -succediam-se, e o dinheiro pingava sem intermittencia dentro da gaveta. - ---Meio kilo de arroz! - ---Um tostão de assucar! - ---Uma garrafa de vinagre! - ---Dois martellos de vinho! - ---Dois vintens de fumo! - ---Quatro de sabão! - -E os gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons. - -Ouviam-se protestos entre os compradores: - ---Me avie, seu Domingos! Eu deixei a comida no fogo! - ---O peste! dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer! - ---Seu Manoel, não me demore essa manteiga! - -Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de saias arrepanhadas no -quadril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha de uma -panella á outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira -aos trabalhadores assentados num compartimento junto. Admittira-se um -novo caixeiro, só para o frege, e o rapaz, a cada commensal que ia -chegando, recitava, em tom cantado e estridente, a sua interminavel -lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite frito -predominava. O paraty circulava por todas as mezas, e cada caneca de -café, de louça espessa, erguia um vulcão de fumo tresandando a milho -queimado. Uma algazarra medonha, em que ninguem se entendia! Crusavam-se -conversas em todas as direcções, discutia-se a berros, com valentes -punhados sobre as mesas. E sempre a sahir, e sempre a entrar gente, e os -que sahiam, depois d'aquella comesaina grossa, iam radiantes de -contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar. - -N'um banco de páo tosco, que existia do lado de fóra, junto á parede -e perto da venda, um homem, de calça e camisa de zuarte, chinellos de -couro crú, esperava, havia já uma boa hora, para fallar com o -vendeiro. - -Era um portuguez de seus trinta e cinco a quarenta annos, alto, -espadaúdo, barbas asperas, cabellos pretos e mal tratados cahindo-lhe -sobre a testa, por debaixo de um chapéo de feltro ordinario; pescoço -de touro e cara de Hercules, na qual os olhos todavia, humildes como os -olhos de um boi de canga, exprimiam tranquilla bondade. - ---Então ainda não se póde fallar ao homem? perguntou elle, indo ao -balcão entender-se com o Domingos. - ---O patrão está agora muito occupado. Espere! - ---Mas são quasi dez horas e estou com um gole de café no estomago! - ---Volte logo! - ---Moro na cidade nova. É um estirão d'aqui! - -O caixeiro gritou então para a cozinha, sem interromper o que fazia: - ---O homem que ahi está, seu João, diz que se vae embora! - ---Elle que espere um pouco, que já lhe fallo! respondeu o vendeiro no -meio de uma carreira. Diga-lhe que não vá! - ---Mas é que ainda não almocei e estou aqui a tinir!... observou o -hercules com a sua voz grossa e sonora. - ---Ó filho, almoce ahi mesmo! Aqui o que não falta é de comer. Já -podia estar aviado! - ---Pois vá lá! resolveu o homemzarrão, sahindo da venda para entrar na -casa de pasto, onde os que lá se achavam o receberam com ar curioso, -medindo-o da cabeça aos pés, como faziam sempre com todos os que ahi -se apresentavam pela primeira vez. - -E assentou-se a uma das mezinhas, vindo logo o caixeiro cantar-lhe a -lista dos pratos. - ---Traga lá o pescado com batatas e venha um martello de vinho. - ---Quer verde ou virgem? - ---Venha o verde; mas anda com isso, filho, que já não vem sem tempo! - - - - -IV - - -Meia hora depois, quando João Romão se vio menos occupado, foi ter com -o sujeito que o procurava e assentou-se defronte d'elle, cahindo de -fadiga, mas sem se queixar, nem se lhe trahir na physionomia o menor -symptoma de cansaço. - ---Você vem da parte do Machucas? perguntou-lhe. Elle fallou-me de um -homem que sabe calçar pedra, lascar fogo e fazer lagedo... - ---Sou eu. - ---Estava empregado n'outra pedreira? - ---Estava e estou. Na de São Diogo, mas desgostei-me d'ella e quero -passar adiante. - ---Quanto lhe dão lá? - ---Setenta mil réis. - ---Oh! Isso é um disparate! - ---Não trabalho por menos... - ---Eu, o maior ordenado que faço é de cincoenta. - ---Cincoenta ganha um macaqueiro... - ---Ora! tenho ahi muitos trabalhadores de lagedo por esse preço! - ---Duvido que prestem! Aposto a mão direita em como o senhor não -encontra por cincoenta mil réis quem dirija a broca, pese a polvora e -lasque fogo, sem lhe estragar a pedra e sem fazer desastres! - ---Sim, mas setenta mil réis é um ordenado impossivel! - ---N'esse caso vou como vim... Fica o dito por não dito! - ---Setenta mil réis é muito dinheiro!... - ---Cá por mim, entendo que vale a pena pagar mais um pouco a um -trabalhador bom, do que estar a soffrer desastres, como o que soffreu -sua pedreira a semana passada! Não fallando na vida do pobre de Christo -que ficou debaixo da pedra! - ---Ah! O Machucas fallou-lhe no desastre? - ---Contou-m'o, sim senhor, e o desastre não aconteceria se o homem -soubesse fazer o serviço! - ---Mas setenta mil réis é impossivel. Desça um pouco! - ---Por menos não me serve... E escusamos de gastar palavras! - ---Você conhece a pedreira? - ---Nunca a vi de perto, mas quiz me parecer que é boa. De longe -cheirou-me a granito. - ---Espere um instante. - -João Romão deu um pulo á venda, deixou algumas ordens, enterrou um -chapéo na cabeça e voltou a ter com o outro. - ---Ande a ver! gritou-lhe da porta do frege, que a pouco e pouco se -esvaziara de todo. - -O cavouqueiro pagou doze vintens pelo seu almoço e acompanhou-o em -silencio. - -Atravessaram o cortiço. - -A labutação continuava. As lavadeiras tinham já ido almoçar e tinham -voltado de novo para o trabalho. Agora estavam todas de chapéo de -palha, apezar das toldas que se armaram. Um calor de caustico -mordia-lhes os toutiços em brasa e scintillantes de suor. Um estado -febril apoderava se d'ellas n'aquelle rescaldo; aquella digestão feita -ao sol fermentava-lhes o sangue. A Machona altercava com uma preta que -fôra reclamar um par de meias e destrocar uma camisa; a Augusta, muito -molle sobre a sua taboa de lavar, parecia derreter-se como cebo; a -Leocadia largava de vez em quando a roupa e o sabão para coçar as -comichões do quadril e das virilhas, assanhadas pelo mormaço; a Bruxa -monologava, resmungando n'uma insistencia de idiota, ao lado da -Marcianna que, com o seu typo de mulata velha, um cachimbo ao canto da -bocca, cantava toadas monotonas do sertão: - - - «Maricas tá marimbando. - Maricas tá marimbando, - Na passage do riacho - Maricas tá marimbando.» - - -A Florinda, alegre, perfeitamente bem com o rigor do sol, a rebolar sem -fadigas, assobiava os chorados e lundús que se tocavam na estalagem, e -junto d'ella, a melancolica senhora Dona Isabel suspirava, esfregando a -sua roupa dentro da tina, automaticamente, como um condemnado a -trabalhar no presidio; ao passo que o Albino, saracoteando os seus -quadris pobres de homem lymphatico, batia na taboa um par de calças, no -rhythmo cadenciado e miudo de um cozinheiro a bater bifes. O corpo -tremia-lhe todo, e elle, de vez em quando, suspendia o lenço do -pescoço para enxugar a fronte, e então um gemido suspirado subia-lhe -aos labios. - -Da casinha numero 8 vinha um falsete agudo, mas afinado. Era a das Dores -que principiava o seu serviço; não sabia engommar sem cantar. No -numero 7 Nênêm cantarolava em tom muito mais baixo; e de um dos -quartos do fundo da estalagem sahia de espaço a espaço uma nota aspera -de trombone. - -O vendeiro, ao passar por detrás de Florinda, que no momento apanhava -roupa do chão, ferrou-lhe uma palmada na parte do corpo então mais em -evidencia. - ---Não bula, hein?!... gritou ella, rapido, erguendo-se teza. - -E, dando com João Romão:--Eu logo vi! Leva implicando aqui com a gente -e depois, vae-se comprar na venda, o safado rouba no peso! Diabo do -gallego! Eu não te quero, sabe? - -O vendeiro soltou-lhe nova palmada com mais força e fugio, porque ella -se armára com um regador cheio d'agoa. - ---Vem p'ra cá, se és capaz! Diabo da peste! - -João Romão já se havia afastado com o cavouqueiro. - ---O senhor tem aqui muita gente!... observou-lhe este. - ---Oh! fez o outro, sacudindo os hombros, r disse depois com -empafia:--Houvesse mais cem quartos que estariam cheios! Mas é tudo -gente séria! Não ha chinfrins n'esta estalagem; se apparece uma rusga, -eu chego, e tudo acaba logo! Nunca nos entrou cá a policia, nem nunca -la deixaremos entrar! E olhe que se divertem bem com as suas violas! -Tudo gente muito boa! - -Tinham chegado ao fim do pateo do cortiço e, depois de transporem uma -porta que se fechava com um pezo amarrado a uma corda, acharam-se no -capinzal que havia antes da pedreira. - ---Vamos por aqui mesmo que é mais perto, aconselhou o vendeiro. - -E os dois, em vez de procurarem a estrada, atravessaram o capim quente e -trescalante. - -Meio dia em ponto. O sol estava a pino; tudo reverberava á luz -irreconciliavel de dezembro, n'um dia sem nuvens. A pedreira, em que -ella batia de chapa em cima, cegava olhada de frente. Era preciso -martyrisar a vista para descobrir as nuances da pedra; nada mais que uma -grande mancha branca e luminosa, terminando pela parte de baixo no chão -coberto de cascalho miudo, que ao longe produzia o effeito de um betume -cinzento, e pela parte de cima na espessura compacta do arvoredo, onde -se não distinguiam outros tons mais do que nodoas negras, bem negras, -sobre o verde-escuro. - -Á proporção que os dois se aproximavam da imponente pedreira, o -terreno ia-se tornando mais e mais cascalhudo; os sapatos -enfarinhavam-se de uma poeira clara. Mais adiante, por aqui e por ali, -havia muitas carroças, algumas em movimento, puxadas a burro e cheias -de calhaus partidos; outras já promptas para seguir, a espera do -animal, e outras enfim com os braços para o ar, como se acabassem de -ser despejadas n'aquelle instante. Homens labutavam. - -Á esquerda, por cima de um vestigio de rio, que parecia ter sido bebido -de um trago por aquelle sol sedento, havia uma ponte de taboas, onde -tres pequenos, quasi nús, conversavam assentados, sem fazer sombra, -illuminados a prumo pelo sol do meio dia. Para adiante, na mesma -direcção, corria um vasto telheiro, velho e sujo, firmado sobre -columnas de pedra tosca; ahi muitos portuguezes trabalhavam de canteiro, -ao barulho metallico do picão que feria o granito. Logo em seguida, -surgia uma officina de ferreiro, toda atravancada de destroços e -objectos quebrados, entre os quaes avultavam rodas de carro; em volta da -bigorna dois homens, de corpo nú, banhados de suor e alumiados de -vermelho como dous diabos, martellavam cadenciosamente sobre um pedaço -de ferro em brasa; e ali mesmo, perto d'elles, a forja escancarava uma -guela infernal, d'onde sahiam pequenas linguas de fogo, irrequietas e -gulosas. - -João Romão parou á entrada da officina e gritou para um dos -ferreiros: - ---Ó Bruno! Não se esqueça do varal da lanterna do portão! - -Os dois homens suspenderam por um instante o trabalho. - ---Já lá fui ver, respondeu o Bruno. Não vale a pena concertal-o; -está todo comido de ferrugem! Faz se-lhe um novo, que é melhor! - ---Pois veja lá isso, que a lanterna está a cahir! - -E o vendeiro seguio adiante com o outro, emquanto atrás recomeçava o -martellar sobre a bigorna. - -Em seguida via-se uma miseravel estrebaria, cheia de capim secco e -excremento de bestas, com logar para meia duzia de animaes. Estava -deserta, mas, no vivo fartum exhalado de lá, sentia-se que fora -habitada ainda aquella noite. Havia depois um deposito de madeiras, -servindo ao mesmo tempo de officina de carpinteiro, tendo á porta -troncos d'arvore, alguns já cerrados, muitas taboas empilhadas, restos -de cavernas e mastros de navio. - -D'ahi á pedreira restavam apenas uns cincoenta passos e o chão era já -todo coberto por uma farinha de pedra moida que sujava como a cal. - -Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se trabalhadores, uns ao sol, -outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de -palmeira. De um lado cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam a -picareta; de outro afeiçoavam lagedos a ponta de picão; mais adiante -faziam parallelepipedos a escopro e macete. E todo aquelle retimtim de -ferramentas, e o martellar da forja, e o côro dos que lá em cima -brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zuada ao longe, que -vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada; tudo dava a idéa de uma -actividade feroz, de uma luta de vingança e de odio. Aquelles homens -gottejantes de suor, bebedos de calor, desvairados de insolação, a -quebrarem, a espicaçarem, a torturarem a pedra, pareciam um punhado de -demonios revoltados na sua impotencia contra o impassivel gigante que os -contemplava com desprezo, imperturbavel a todos os golpes e a todos os -tiros que lhe desfechavam no dorso, deixando sem um gemido que lhe -abrissem as entranhas de granito. - -O membrudo cavouqueiro havia chegado á fralda do orgulhoso monstro de -pedra; tinha-o cara a cara, medio-o de alto abaixo, arrogante, n'um -desafio surdo. - -A pedreira mostrava n'esse ponto de vista o seu lado mais imponente. -Descomposta, com o escalavrado flanco exposto ao sol, erguia-se -altaneira e desassombrada, affrontando o céo, muito ingreme, lisa, -escaldante e cheia de cordas que mesquinhamente lhe escorriam pela -cyclopica nudez com um effeito de teias de aranha. Em certos logares, -muito alto do chão, lhe haviam espetado alfinetes de ferro, amparando, -sobre um precipicio, miseraveis taboas que, vistas cá de baixo, -pareciam palitos, mas em cima das quaes uns atrevidos pigmêos de forma -humana equilibravam-se, desfechando golpes de picareta contra o gigante. - -O cavouqueiro meneou a cabeça com ar de lastima. O seu gesto -desaprovava todo aquelle serviço. - ---Veja lá! disse elle, apontando para certo ponto da rocha. Olhe -pr'aquillo! Sua gente tem ido ás cegas no trabalho d'esta pedreira! -Deviam atacal-a justamente por aquel'outro lado, para não contrariar os -veios da pedra. Esta parte aqui é toda granito, é a melhor! Pois olhe -só o que elles têm tirado de lá--umas lascas, uns calháos que não -servem para nada! É uma dôr de coração ver estragar assim uma peça -tão boa! Agora o que hão de fazer d'essa cascalhada que ahi está -senão macacos? E brada aos céos, creia! ter pedra d'esta ordem para -empregal-a em macacos! - -O vendeiro escutava-o em silencio, apertando os beiços, aborrecido com -a idéa d'aquelle prejuizo. - ---Uma porcaria de serviço! continuou o outro. Ali onde está aquelle -homem é que deviam ter feito a broca, porque a explosão punha abaixo -toda esta aba que é separada por um veio. Mas quem tem ahi o senhor -capaz de fazer isso? Ninguem; porque é preciso um empregado que saiba o -que faz; que, se a polvora não fôr muito bem medida, nem só não se -abre o veio, como ainda succede ao trabalhador o mesmo que succedeu ao -outro! É preciso conhecer muito bem o trabalho para se poder tirar -partido vantajoso d'esta pedreira! Boa é ella, mas não nas mãos em -que está! É muito perigosa nas explosões; é muito em pé! Quem lhe -lascar fogo não póde fugir senão para cima pela corda, e se o sujeito -não fôr fino leva-o o demo! Sou eu quem o diz! - -E depois de uma pausa, acrescentou, tomando na sua mão, grossa como o -proprio cascalho, um parallelipipedo que estava no chão:--Que digo eu?! -Cá está! Macacos de granito! Isto até é uma coisa que estes burros -deviam esconder por vergonha! - -Acompanhando a pedreira pelo lado direito e seguindo-a na volta que ella -dava depois, formando um angulo obtuso, é que se via quanto era grande. -Suava-se bem antes de chegar ao seu limite com a matta. - ---Que mina de dinheiro!... dizia o homemzarrão, parando enthusiasmado -defronte do novo panno de rocha viva que se desdobrava na presença -d'elle. - ---Toda esta parte que se segue agora, declarou João Romão ainda não -é minha. - -E continuaram a andar para diante. - -D'este lado multiplicavam-se as barraquinhas; os macaqueiros trabalhavam -á sombra d'ellas, indifferentes áquelles dois. Viam-se panellas ao -fogo, sobre quatro pedras, ao ar livre, e rapazitos tratando do jantar -dos paes. De mulher nem signal. De vez em quando, na penumbra de um -ensombro de lona, dava-se com um grupo de homens, comendo de cocaras -defronte uns dos outros, uma sardinha na mão esquerda, um pão na -direita, ao lado de uma garrafa d'agua. - ---Sempre o mesmo serviço mal feito e mal dirigido!... resmungou o -cavouqueiro. - -Entretanto, a mesma actividade parecia reinar por toda a parte. Mas, lá -no fim, debaixo dos bambus que marcavam o limite da pedreira, alguns -trabalhadores dormiam á sombra, de papo para o ar, a barba espetando -para o alto, o pescoço entumecido de cordoveias grossas como enxarcias -de navio, a bocca aberta, a respiração forte e tranquilla de animal -sadio, n'um feliz e plethorico resfolgar de besta cansada. - ---Que relaxamento! resmungou de novo o cavouqueiro. Tudo isto está a -reclamar um homem tezo que olhe a sério para o serviço! - ---Eu nada tenho que ver com este lado! observou Romão. - ---Mas lá da sua banda hão de fazer o mesmo! Olaré! - ---Abusam, porque tenho de olhar pelo negocio lá fora... - ---Commigo aqui é que elles não fariam cera. Isso juro eu! Entendo que -o empregado deve ser bem pago, ter para a sua comida á farta, o seu -gole de vinho, mas que deve fazer serviço que se veja, ou, então, rua! -Rua, que não falta por ahi quem queira ganhar dinheiro! Auctorise-me a -olhar por elles e verá! - ---O diabo e que você quer setenta mil réis... suspirou João Romão. - ---Ah! nem menos um real!... Mas commigo aqui ha de ver o que lhe faço -entrar pr'algibeira! Temos cá muita gente que não precisa de estar. -Para que tanto macaqueiro, por exemplo? Aquillo é serviço para -descanço; é serviço de criança! Em vez de todas aquellas lesmas, -pagas talvez a trinta mil reis... - ---É justamente quanto lhes dou. - ---... melhor seria tomar dois bons trabalhadores de cincoenta, que fazem -o dobro do que fazem aquelles monos e que podem servir para outras -coisas! Parece que nunca trabalharam! Olhe, é já a terceira vez que -aquelle que alli está deixa cahir o escopro! Com effeito! - -João Romão ficou calado, a scismar, emquanto voltavam. Vinham ambos -pensativos. - ---E você, se eu o tomar, disse depois o vendeiro, muda-se cá para -estalagem? - ---Naturalmente! não hei de ficar lá na cidade nova, tendo o serviço -aqui!... - ---E a comida, forneço-a eu?... - ---Isso é que a mulher é quem a faz; mas as compras sahem-lhe da -venda... - ---Pois está fechado o negocio! deliberou João Romão, convencido de -que não podia, por economia, dispensar um homem d'aquelles. E pensou -lá de si para si: «Os meus setenta mil reis voltar-me-hão á gaveta. -Tudo me fica em casa!» - ---Então estamos entendidos?... - ---Estamos entendidos! - ---Posso amanhã fazer a mudança? - ---Hoje mesmo, se quizer; tenho um commodo que lhe ha de calhar. É o -numero 35. Vou mostrar-lh'o. - -E, aligeirando o passo, penetraram na estrada do capinzal com direcção -ao fundo do cortiço. - ---Ah! é verdade! como você se chama? - ---Jeronymo, para o servir. - ---Servir a Deus. Sua mulher lava? - ---É lavadeira, sim senhor. - ---Bem, precisamos ver-lhe uma tina. - -E o vendeiro empurrou a porta do fundo da estalagem, d'onde escapou, -como de uma panella fervendo que se destapa, uma baforada quente, -vozeria tresandante á fermentação de suores e roupa ensaboada -seccando ao sol. - - - - -V - - -No dia seguinte, com effeito, ali pelas sete da manhã, quando o -cortiço fervia já na costumada labutação, Jeronymo apresentou-se -junto com a mulher, para tomarem conta da casinha alugada na vespera. - -A mulher chamava-se Piedade de Jesus; teria trinta annos, boa estatura, -carne ampla e rija, cabellos fortes de um castanho fulvo, dentes pouco -alvos, mas solidos e perfeitos, cara cheia, physionomia aberta; um todo -de bonhomia toleirona, desabotoando-lhe pelos olhos e pela bocca numa -sympathica expressão de honestidade simples e natural. - -Vieram ambos á boléa da andorinha que lhes carregou os trens. Ella -trazia uma saia de sarja roxa, cabeção branco de panninho de algodão -e na cabeça um lenço vermelho de alcobaça; o marido a mesma roupa do -dia anterior. - -E os dois apearam-se muito atrapalhados com os objectos que não -confiaram dos homens da carroça; Jeronymo abraçado a duas formidaveis -mangas de vidro, das primitivas, d'essas em que se podia á vontade -enfiar uma perna; e a Piedade atracada com um velho relogio de parede e -com uma grande trouxa de santos e palmas bentas. E assim atravessaram o -pateo da estalagem, entre os commentarios e os olhares curiosos dos -antigos moradores, que nunca viam sem uma pontinha de desconfiança os -inquilinos novos que surgiam. - ---O que será este pedaço d'homem? indagou a Machona da sua visinha de -tina, a Augusta Carne-molle. - ---A modos, respondeu esta, que vem pr'a trabalhar na pedreira. Elle -hontem andou por lá um rôr de tempo com o João Romão. - ---Aquella mulher que entrou junto será casada com elle? - ---E de crer. - ---Ella me parece gente das ilhas. - ---Elles o que têm é muito bons trastes de seu! interveio a Leocadia. -Uma cama que deve de ser um regalo e um toucador com um espelho maior do -que aquella peneira! - ---E a commoda, você vio, nhá Leocadia? perguntou Florinda, gritando -para ser ouvida, porque entre ella e a outra estavam a Bruxa e a velha -Marcianna. - ---Vi. Rico traste! - ---E o oratorio, então? Muito bonito!... - ---Vi tambem. E obra de capricho. Não! elles, sejam lá quem fôr, são -gente arranjada... Isso não se lhes póde negar! - ---Se são bons ou máos só com o tempo se saberá!... arriscou Dona -Isabel. - ---Quem vê cara não vê corações ... sentenciou o triste Albino, -suspirando. - ---Mas o numero 35 não estava occupado por aquelle homem muito amarello -que fazia charutos?... inquirio Augusta. - ---Estava, confirmou a mulher do ferreiro, a Leocadia, porém creio que -arribou, devendo não sei quanto, e o João Romão então esvaziou-lhe -hontem a casa e tomou conta do que era d'elle. - -É! accudio a Machona; hontem, pelo cahir das duas da tarde, o Romão -andava ahi as voltas com os cacarecos do charuteiro. Quem sabe, se o -pobre homem não levou a breca, como succedeu aquel'outro que trabalhava -de ourives? - ---Não! Este creio que está vivo... - ---O que lhe digo é que aquelle numero 35 tem máo agouro! Eu cá por -mim não o queria nem de graça! Foi lá que morreu a Maricas do -Farjão! - -Tres horas depois, Jeronymo e Piedade achavam-se installados e -dispunham-se a comer o almoço, que a mulher preparara o melhor e o mais -depressa que poude. Elle contava aviar até á noite uma infinidade de -coisas, para poder começar a trabalhar logo no dia seguinte. - -Era tão methodico e tão bom como trabalhador quanto o era como homem. - -Jeronymo viéra da terra, com a mulher e uma filhinha ainda pequena, -tentar a vida no Brazil, na qualidade de colono de um fazendeiro, em -cuja fazenda moirejou durante dois annos, sem nunca levantar a cabeça, -e donde afinal se retirou de mãos vazias e com grande birra pela -lavoura brasileira. Para continuar a servir na roça tinha que -sujeitar-se a emparelhar com os negros escravos e viver com elles no -mesmo meio degradante, encurralado como uma besta, sem aspirações, nem -futuro, trabalhando eternamente para outro. - -Não quiz. Resolveu abandonar de vez semelhante estupor de vida e -atirar-se para a côrte, onde, diziam-lhe patricios, todo o homem bem -disposto encontrava furo. E, com effeito, mal chegou, devorado de -necessidades e privações, metteu-se a quebrar pedra n'uma pedreira, -mediante um miseravel salario. A sua existencia continuava dura e -precaria; a mulher já então lavava e engommava, mas com pequena -freguezia e mal paga. O que os dois faziam chegava-lhes apenas para não -morrer de fome e pagar o quarto da estalagem. - -Jeronymo, porém, era perseverante, observador e dotado de certa -habilidade. Em poucos mezes se apoderava do seu novo officio e, de -quebrador de pedra, passou logo a fazer parallelepipedos; e depois foi -se ageitando com o prumo e com a esquadria e metteu-se a fazer lagedos; -e finalmente, á força de dedicação pelo serviço, tornou-se tão bom -como os melhores trabalhadores de pedreira e a ter salario igual ao -d'elles. Dentro de dois annos, distinguia-se tanto entre os -companheiros, que o patrão o converteu n'uma especie de contra-mestre e -elevou-lhe o ordenado a setenta mil réis. - -Mas não foram só o seu zelo e a sua habilidade o que o pôz assim para -a frente; duas outras coisas contribuiram muito para isso: a força de -touro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos -trabalhadores, como ainda, e talvez principalmente, a grande seriedade -do seu caracter e a pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma -honestidade a toda a prova e de uma primitiva simplicidade no seu modo -de viver. Sahia de casa para o serviço e do serviço para a casa, onde -nunca ninguem o vira com a mulher senão em boa paz; traziam a filhinha -sempre limpa e bem alimentada, e, tanto um como o outro, eram sempre os -primeiros á hora do trabalho. Aos domingos iam ás vezes á missa ou, -á tarde, ao passeio publico; n'essas occasiões, elle punha uma camisa -engommada, calçava sapatos e enfiava um paletó; ella o seu vestido de -ver a Deus, os seus oiros trazidos da terra, que nunca tinham ido ao -monte de soccorro, máo grado as difficuldades com que os dois lutaram a -principio no Brazil. - -Piedade merecia bem o seu homem, muito diligente, sadia, honesta, forte, -bem acommodada com tudo e com todos, trabalhando de sol a sol e dando -sempre tão boas contas da obrigação, que os seus freguezes de roupa, -apezar d'aquella mudança para Botafogo, não a deixaram quasi todos. - -Jeronymo, ainda na cidade nova, logo que principiara a ganhar melhor, -fizéra-se irmão de uma ordem terceira e tratára de ir pondo alguma -coisinha de parte. Metteu a filha num collegio, «que a queria com outro -saber que não elle, a quem os paes não mandaram ensinar nada.» Por -ultimo, no cortiço em que então moravam, a sua casinha era a mais -decente, a mais respeitada e a mais confortavel; porém, com a morte do -seu patrão e com uma reforma estupida que os successores d'este -realisaram em todo o serviço da pedreira, o colono desgostou-se d'ella -e resolveu passar para outra. - -Foi então que lhe indicaram a do João Romão, que, depois do desastre -do seu melhor empregado, andava justamente á procura de um homem nas -condições de Jeronymo. - -Tomou conta da direcção de todo o serviço, e em boa hora o fez, -porque dia a dia a sua influencia se foi sentindo no progresso do -trabalho. Com o seu exemplo os companheiros tornavam-se igualmente -serios e zelosos. Elle não admittia relaxamentos, nem podia consentir -que um preguiçoso se demorasse ali tomando o logar de quem precisava -ganhar o pão. E alterou o pessoal da pedreira, despedio alguns -trabalhadores, admittio novos, augmentou o ordenado dos que ficaram, -estabelecendo-lhes novas obrigações e reformando tudo para melhor. No -fim de dois mezes já o vendeiro esfregava as mãos de contente e via, -radiante, quanto lucrara com a acquisição de Jeronymo; tanto assim que -estava disposto a augmentar-lhe o ordenado para conserval-o em sua -companhia, «Valia a pena! Aquelle homem era um achado precioso! -Abençoado fosse o Machucas que lh'o enviára!» E começou a -distinguil-o e respeital-o como não fazia a ninguem. - -O prestigio e a consideração que Jeronymo gosava entre os moradores da -outra estalagem d'onde vinha, foi a pouco e pouco se reproduzindo entre -os seus novos companheiros de cortiço. Ao cabo de algum tempo era -consultado e ouvido, quando qualquer questão difficil os preoccupava. -Descobriam-se defronte d'elle, como defronte de um superior; até o -proprio Alexandre abrira uma excepção nos seus habitos e fazia-lhe uma -ligeira continencia com a mão no boné, ao atravessar o pateo, todo -fardado, por occasião de vir ou de ir para o serviço. Os dois -caixeiros da venda, o Domingos e o Manoel, tinham enthusiasmo por elle. -«Aquelle é que devia ser o patrão, diziam. É um homem sério e -destemido! Com aquelle ninguem brinca!» E, sempre que a Piedade de -Jesus ia lá a taverna fazer as suas compras, a fazenda que lhe davam -era bem escolhida, bem medida ou bem pezada. Muitas lavadeiras tomavam -inveja d'ella, mas Piedade era de natural tão bom e bemfazejo que não -dava por isso e a maledicencia murchava antes de amadurecer. - -Jeronymo acordava todos os dias ás quatro horas da manhã, fazia antes -dos outros a sua lavagem á bica do pateo, soccava-se depois com uma boa -palangana de caldo de unto, acompanhada de um pão de quatro; e, em -mangas de camisa de riscado, a cabeça ao vento, os grossos pés sem -meias mettidos em um formidavel par de chinellos de couro crú, seguia -para a pedreira. - -A sua picareta era para os companheiros o toque de reunir. Aquella -ferramenta movida por um pulso de Hercules valia bem os clarins de um -regimento tocando alvorada. Ao seu retinir vibrante surgiam do chaos -opalino das neblinas vultos côr de cinza, que lá iam, como sombras, -galgando a montanha, para cavar na pedra o pão-nosso de cada dia. E, -quando o sol desfechava sobre o pincaro da rocha os seus primeiros -raios, já encontrava de pé, a bater-se contra o gigante de granito, -aquelle misero grupo de obscuros batalhadores. - -Jeronymo só voltava á casa ao descahir da tarde, morto de fome e de -fadiga. A mulher preparava-lhe sempre para o jantar alguma das comidas -da terra d'elles. E ali, n'aquella estreita salinha, socegada e humilde, -gosavam os dois, ao lado um do outro, a paz feliz dos simples, o -voluptuoso prazer do descanso após um dia inteiro de canceiras ao sol. -E, defronte do candieiro de kerosene, conversavam sobre a sua vida e -sobre a sua Marianita, a filhinha que estava no collegio e que só os -visitava aos domingos e dias santos. - -Depois, até ás horas de dormir, que nunca passavam das nove, elle -tomava a sua guitarra e ia para defronte da porta, junto com a mulher, -dedilhar os fados da sua terra. Era n'esses momentos que dava plena -expansão ás saudades da patria, com aquellas cantigas melancolicas em -que a sua alma de desterrado voava das zonas abrazadas da America para -as aldeias tristes da sua infancia. - -E o canto d'aquella guitarra estrangeira era um lamento choroso e -dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes do que uma oração em alto -mar, quando a tempestade agita as negras azas homicidas, e as gaivotas -doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos presagos, -tontas como se estivessem fechadas dentro de uma abobada de chumbo. - - - - -VI - - -Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz -e pouco calor. - -As tinas estavam abandonadas; os córadoiros despidos. Taboleiros e -taboleiros de roupa engommada sahiam das casinhas, carregados na maior -parte pelos filhos das proprias lavadeiras que se mostravam agora quasi -todas de fato limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias -de chita de côr. Desprezaram-se os grandes chapéos de palha e os -aventaes de aniagem; agora as portuguezas tinham na cabeça um lenço -novo de ramagens vistosas e as brazileiras haviam penteado o cabello e -pregado nos cachos negros um ramalhete de dois vintens; aquellas -traçavam no hombro chales de lã vermelha, e estas de crochet, de um -amarello desbotado. Viam-se homens de corpo nú, jogando a placa, com -grande algazarra. Um grupo de italianos, assentado debaixo de uma -arvore, conversava ruidosamente, fumando cachimbo. Mulheres ensaboavam -os filhos pequenos debaixo da bica, muito zangadas, a darem-lhe murros, -a praguejar, e as crianças berravam, de olhos fechados, esperneando. A -casa da Machona estava n'um reboliço, porque a familia ia sahir a -passeio; a velha gritava, gritava Nênêm, gritava o Agostinho. De -muitas outras sahiam cantos ou sons de instrumentos; ouviam-se -harmonicas e ouviam-se guitarras, cuja discreta melodia era de vez em -quando interrompida por um ronco forte de trombone. - -Os papagaios pareciam tambem mais alegres com o domingo e lançavam das -gaiolas phrases inteiras, entre gargalhadas e assobios. Á porta de -diversos commodos, trabalhadores descansavam, de calça limpa e camisa -de meia lavada, assentados em cadeira, lendo e soletrando jornaes ou -livros; um declamava em voz alta versos d'«Os Luziadas», com um -empenho feroz, que o punha rouco. Transparecia n'elles o prazer da roupa -mudada depois de uma semana no corpo. As casinhas fumegavam um cheiro -bom de refogados de carne fresca, fervendo ao fogo. Do sobrado do -Miranda só as duas ultimas janellas já estavam abertas e, pela escada -que descia para o quintal, passava uma criada carregando baldes de agoas -servidas. Sentia-se n'aquella quietação do dia inutil a falta do -resfolegar afflicto das machinas da visinhança, com que todos estavam -habituados. Para além do solitario capinzal do fundo a pedreira parecia -dormir em paz o seu somno de pedra; mas, em compensação, o movimento -era agora extraordinario á frente da estalagem e á entrada da venda. -Muitas lavadeiras tinham ido para o portão, olhar quem passava; ao lado -d'ellas o Albino, vestido de branco, com o seu lenço engommado ao -pescoço, entretinha-se a chupar balas de assucar, que comprara ali -mesmo ao taboleiro de um baleiro freguez do cortiço. - -Dentro da taverna, os martellos de vinho branco, os copos de cerveja -nacional e os dois vintens de paraty ou laranginha succediam-se por cima -do balcão, passando das mãos do Domingos e do Manoel para as mãos -ávidas dos operarios e dos trabalhadores, que os recebiam com -estrondosas exclamações de pandega. A Izaura, que fôra n'um pulo -tomar o seu primeiro capilé, via-se tonta com os apalpões que lhe -davam. Leonor não tinha um instante de socego, saltando de um lado para -outro, com uma agilidade de mono, a fugir dos punhos callosos dos -cavouqueiros que, entre risadas, tentavam agarral-a; e insistia na sua -ameaça do costume: «que se queixava ao juiz de orfe!» mas não se ia -embora, porque defronte da venda viera estacionar um homem que tocava -cinco instrumentos ao mesmo tempo, com um acompanhamento desafinado de -bombo, pratos e guizos. - -Eram apenas oito horas e já muita gente comia e palavreava na casa de -pasto ao lado da venda. João Romão, de roupa mudada como os outros, -mas sempre em mangas de camisa, apparecia de espaço a espaço, servindo -os commensaes; e a Bertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem domingo -nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as panellas e enchendo os -pratos. - -Um acontecimento, porém, veio revolucionar alegremente toda aquella -confederação da estalagem. Foi a chegada da Rita Bahiana, que voltava -depois de uma ausencia de mezes, durante a qual só déra noticias suas -nas occasiões de pagar o aluguel do commodo. - -Vinha acompanhada por um moleque, que trazia na cabeça um enorme -samburá carregado de compras feitas no mercado; um grande peixe espiava -por entre folhas de alface com o seu olhar embaciado e triste, -contrastando com as risonhas côres dos rabanetes, das cenouras e das -talhadas de abobora vermelha. - ---Põe isso tudo ahi n'essa porta. Ahi no numero 9, pequeno! gritou ella -ao moleque, indicando-lhe a sua casa, e depois pagou-lhe o -carreto.--Podes ir embora, carapeta! - -Desde que do portão a bisparam na rua, levantou-se logo um côro de -saudações. - ---Olha! quem ahi vem! - ---Olé! Bravo! É a Rita Bahiana! - ---Já te faziamos morta e enterrada! - ---E não é que o demo da mulata está cada vez mais sacudida?... - ---Então, coisa ruim! por onde andaste atirando esses quartos? - ---D'esta vez a coisa foi de esticar, hein?! - -Rita havia parado em meio do pateo. - -Cercavam-na homens, mulheres e crianças; todos queriam novas d'ella. -Não vinha em trajo de domingo; trazia casaquinho branco, uma saia que -lhe deixava ver o pé sem meia n'um chinello de polimento com enfeites -de marroquim de diversas côres. No seu farto cabello, crespo e -reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão e um -pedaço de baunilha espetado por um gancho. E toda ella respirava o -asseio das brazileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromaticas. -Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril bahiano, respondia -para a direita e para a esquerda, pondo á mostra um fio de dentes -claros e brilhantes que enriqueciam a sua physionomia com um realce -fascinador. - -Acudio quasi todo o cortiço para recebel-a. Choveram abraços e as -chufas do bom acolhimento. - -Por onde andara aquelle diabo, que não apparecia para mais de tres -mezes? - ---Ora, nem me falles, coração! Sabe? pagode de roça! Que hei de -fazer? é a minha cachaça velha!... - ---Mas onde estiveste tu enterrada tanto tempo, creatura? - ---Em Jacarepaguá. - ---Com quem? - ---Com o Firmo... - ---Oh! Ainda dura isso? - ---Cala a bocca! A coisa agora é seria! - ---Qual! Quem mesmo? tu? Passa fóra! - ---Paixões da Rita! exclamou o Bruno com uma risada. Uma por anno! Não -contando as miudas! - ---Não! isso é que não! Quando estou com um homem não olho p'ra -outro! - -Leocadia, que era perdida pela mulata, saltára-lhe ao pescoço ao -primeiro encontro, e agora, defronte d'ella, com as mãos nas cadeiras, -os olhos humidos de commoção, rindo, sem se fartar de vel-a, fazia-lhe -perguntas sobre perguntas: - ---Mas porque não te mettes tu logo por uma vez com o Firmo? porque não -te casas com elle? - ---Casar? protestou a Rita. N'essa não cáe a filha de meu pae! Casar? -livra! Para que? para arranjar captiveiro? Um marido é peior que o -diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! qual! Deus te livre! -Não ha como viver cada um senhor e dono do que é seu! - -E sacudio todo o corpo n'um movimento de desdem que lhe era peculiar. - ---Olha só que peste! considerou Augusta, rindo, muito molle, na sua -honestidade preguiçosa. - -Esta tambem achava infinita graça na Rita Bahiana e seria capaz de -levar um dia inteiro a vel-a dansar o chorado. - -Florinda ajudava á mãe a preparar o almoço, quando lhe cheirou que -chegara a mulata, e veio logo correndo, a rir-se desde longe, cahir-lhe -nos braços. A propria Marcianna, de seu natural sempre triste e mettida -comsigo, appareceu á janella, para saudal-a. A das Dôres, com as saias -arrepanhadas no quadril e uma toalha por cima amarrada pela parte de -traz e servindo de avental, o cabello ainda por pentear, mas entrouxado -no alto da cabeça, abandonou a limpeza que fazia em casa e veio ter com -a Rita, para dar-lhe uma palmada e gritar-lhe no nariz: - ---D'esta vez tomaste um fartão, hein, mulata assanhada?... - -E, ambas a cahirem de riso, abraçaram-se em intimidade de amigas, que -não têm segredos de amor uma para a outra. - -A Bruxa veio em silencio apertar a mão de Rita e retirou-se logo. - ---Olha a feiticeira! bradou esta ultima, batendo no hombro da idiota. -Que diabo você tanto reza, tia Paula? Eu quero que você me dê um -feitiço para prender meu homem! - -E tinha uma phrase para cada um que se aproximasse. Ao ver Dona Isabel, -que appareceu toda cerimoniosa na sua saia da missa e com o seu velho -chale de Macáo, abraçou-a e pedio-lhe uma pitada, que a senhora -recusou, resmungando: - ---Sae d'ahi, diabo! - ---Cadê Pombinha? perguntou a mulata. - -Mas, nessa occasião, Pombinha acabava justamente de sahir de casa, -muito bonita e asseiada com um vestido novo de setineta. As mãos -occupadas com o livro de rezas, o lenço e a sombrinha. - ---Ah! Como está chique! exclamou a Rita, meneando a cabeça. É mesmo -uma flor!--E logo que Pombinha se pôz ao seu alcance, abraçou-lhe a -cintura e deu-lhe um beijo.--O João Costa se não te fizer feliz como -os anjos sou capaz de abrir-lhe o casco com o salto do chinello! Juro -pelos cabellos do meu homem!--E depois, tornando-se séria, perguntou -muito em voz baixa á Dona Isabel:--Já veio?...--ao que a velha -respondeu negativamente com um desconsolado e mudo abanar de orelhas. - -O circumspecto Alexandre, sem querer declinar da sua gravidade, pois que -estava fardado e prompto para sahir, contentou-se em fazer com a mão um -cumprimento á mulata, ao qual retrucou esta com uma continencia militar -e uma gargalhada que o desconcertaram. - -Iam fazer commentarios sobre o caso, mas a Rita, voltando-se para o -outro lado, gritou: - ---Olha o velho Liborio! Como está cada vez mais duro!... Não se -entrega por nada o demonio do judeu! - -E correu para o lugar, onde estava, aquecendo-se ao bello sol de abril, -um octogenário, secco, que parecia mumificado pela idade, a fumar n'um -resto de cachimbo, cujo pipo desapparecia na sua bocca já sem labios. - ---Ê! ê! fez elle, quando a mulata se approximou. - ---Então? perguntou Rita, abaixando-se para tocar-lhe no hombro. Quando -é o nosso negocio?... Mas você ha de deixar-me primeiro abrir o -bahuzinho de folha!... - -Liborio rio-se com as gengivas, tentando apalpar as coxas da Bahiana, -por caçoada, affectando luxuria. - -Todos acharam graça n'esta pantominice do velhinho, e então, a mulata, -para completar a brincadeira, deu uma volta entufando as saias e -sacudio-as depois sobre a cabeça d'elle, que se fingio indignado, a -fungar exageradamente. - -E entre a alegria levantada pela sua reapparição no cortiço, a Rita -deu conta do que pintára na sua ausencia; disse o muito que festou em -Jacarepaguá; o entrudo que fizera pelo Carnaval. Tres mezes de folia! -E, afinal, abaixando a voz, segredou ás companheiras que á noite teriam -um pagodinho de violão. Podiam contar como certo! - -Esta ultima noticia causou verdadeiro jubilo no auditorio. As patuscadas -da Rita Bahiana eram sempre as melhores da estalagem. Ninguem como o -diabo da mulata para armar uma funcção que ia pelas tantas da -madrugada, sem saber a gente como foi que a noite se passou tão -depressa. Além de que «era aquella franqueza! emquanto houvesse -dinheiro ou credito, ninguem morria com a tripa murcha ou com a guéla -secca!» - ---Diz me cá, ó Leocadinha! quem são aquelles jururús que estão agora -no 35? indagou ella, vendo o Jeronymo á porta de casa com a mulher. - ---Ah! explicou a interrogada, é o Jeronymo e mais a Piedade, um casal -que inda não conheces. Entrou ao depois que arribaste. Boa gente, -coitados! - -Rita carregou para dentro de seu commodo as provisões que trouxera; -abrio logo a janella e poz-se a cantar. Sua presença enchia de alegria -a estalagem toda. - -O Firmo, o mulato com quem ella agora vivia mettida, o demonio que a -desencabeçara para aquella maluqueira de Jacarepaguá, ia lá jantar -esse dia com um amigo. Rita declarava isto ás companheiras, amolando -uma faquinha no tijollo da sua porta, para escamar o peixe; emquanto os -gatos, aquelles mesmos que perseguiam o sardinheiro, vinham, um a um, -chegando-se todos só com o ruido da afiação do ferro. - -Ao lado direito da casinha da mulata, no numero 8, a das Dores -preparava-se tambem para receber n'esse dia o seu amigo e dispunha-se a -fazer uma limpeza geral nas paredes, nos tectos, no chão e nos moveis, -antes de metter-se na cozinha. Descalça, com a saia levantada até ao -joelho, uma toalha na cabeça, os braços arregaçados, viam-na passar -de carreira, de casa para a bica e da bica outra vez para casa, -carregando pezados baldes cheios d'agoa. E d'ahi a pouco appareciam -ajudantes gratuitos para os arranjos do jantar, tanto do lado da das -Dores, como do lado da Rita Bahiana. O Albino encarregou-se de varrer e -arrumar a casa d'esta, entretanto que a mulata ia para o fogão preparar -os seus quitutes do norte. E veio a Florinda, e veio a Leocadia, e veio -a Augusta, impacientes todas ellas pelo pagode que havia de sahir á -noite, depois do jantar. Pombinha não appareceu durante o dia, porque -estava muito occupada, aviando a correspondencia dos trabalhadores e das -lavadeiras: serviço este que ella deixava para os domingos. - -N'uma pequena mesa, coberta por um pedaço de chita, com o tinteiro ao -lado da caixinha de papel, a menina escrevia, emquanto o dono ou dona da -carta dictava em voz alta o que queria mandar dizer á familia ou a -algum máo devedor de roupa lavada. E ia lançando tudo no papel, apenas -com algumas ligeiras modificações, para melhor, no modo de exprimir a -idéa. Prompta uma carta, subscriptava-a, entregava-a ao dono e chamava -por outro, ficando a sós com um de cada vez, pois que nenhum d'elles -queria dar o seu recado em presença de mais ninguem senão de Pombinha. -De sorte que a pobre rapariga ia accumulando no seu coração de -donzella toda a summula d'aquellas paixões e d'aquelles resentimentos, -ás vezes mais fetidos do que a evaporação de um lameiro em dias de -grande calor. - ---Escreva lá, Nhan Pombinha! disse junto d'ella um cavouqueiro, -coçando a cabeça; mas faça letra grande, que é pr'a mulher entender! -Diga-lhe que não lhe mando d'esta feita o dinheiro que me pedio, porque -agora não no tenho e estou muito acossado de apertos; mas que lh'o -prometto pr'o mez. Ella que se va arrajando por lá, que eu cá sabe -Deus como me coso; e que, se o Luiz, o irmão, resolver de vir, que m'o -mande dizer com tempo, para ver se se lhe dá furo á vida por aqui; que -isto de vir sem inda ter pr'onde, é fraco negocio, porque as coisas por -cá não correm lá para que digamos! - -E depois que Pombinha escreveu, accrescentou: - ---Que eu tenho sentido muito a sua falta d'ella; mas tambem sou o mesmo -e não me metto em porcarias e relaxamentos; e que tenciono mandar -buscal-a, logo que Deus me ajude, e a Virgem! Que elle não tem de que -se arreliar por mór do dinheiro não ir d'esta; que, como lá diz o -outro: quando não ha el-rei o perde! Ah! (ia esquecendo!) quanto á -Libania, é tirar d'ahi o juizo! que a Libania se atirou aos cães e faz -hoje má vida na rua de São Jorge; que se esqueça d'ella por vez e -perca o amor ás duas coroas que lhe emprestou! - -E a menina escrevia tudo, tudo, apenas interrompendo o seu trabalho para -fitar, com a mão no queixo, o cavouqueiro, á espera de nova phrase. - - - - -VII - - -E assim ia correndo o domingo no cortiço até ás tres da tarde, horas -em que chegou mestre Firmo, acompanhado pelo seu amigo Porfiro, trazendo -aquelle o violão e o outro o cavaquinho. - -Firmo, o actual amante de Rita Bahiana, era um mulato pachola, delgado -de corpo e agil como um cabrito; capadocio de marca, pernostico, só de -maçadas, e todo elle se quebrando nos seus movimentos de capoeira. -Teria seus trinta e tantos annos, mas não parecia ter mais de vinte e -poucos. Pernas e braços finos, pescoço estreito, porém forte; não -tinha musculos, tinha nervos. A respeito de barba, nada mais que um -bigodinho crespo, petulante, onde reluzia cheirosa a brilhantina do -barbeiro; grande cabelleira encaracolada, negra e bem negra, dividida ao -meio da cabeça, escondendo parte da testa e estufando em grande -gaforina por debaixo da aba do chapéo de palha, que elle punha de -banda, derreado sobre a orelha esquerda. - -Vestia, como de costume, um paletó de lustrina preta já bastante -usado, calças apertadas nos joelhos, mas tão largas na bainha que lhe -enguliam os pésinhos seccos e ligeiros. Não trazia gravata, nem -collete, sim uma camisa de chita nova e ao pescoço, resguardando o -collarinho, um lenço alvo e perfumado; á bocca um enorme charuto de -dois vintens e na mão um grosso porrete de Petropolis, que nunca -socegava, tantas voltas lhe dava elle a um tempo por entre os dedos -magros e nervosos. - -Era official de torneiro, official perito e vadio; ganhava uma semana -para gastar n'um dia; ás vezes porém os dados ou a roleta -multiplicavam-lhe o dinheiro, e então elle fazia como n'aquelles -ultimos tres mezes; afogava-se n'uma boa pandega com a Rita Bahiana. A -Rita ou outra «O que não faltava por ahi eram saias para ajudar um -homem a cuspir o cobre na bocca do diabo!» Nascera no Rio de Janeiro, -na Côrte; militara dos doze aos vinte annos em diversas maltas de -capoeiras; chegára a decidir eleições nos tempos do voto indirecto. -Deixou nome em varias freguezias e mereceu abraços, presentes e -palavras de gratidão de alguns importantes chefes de partido. Chamava a -isso a sua época de paixão politica; mas depois desgostou-se com o -systema de governo e renunciou ás lutas eleitoraes, pois não -conseguira nunca o logar de continuo n'uma repartição publica--o seu -ideal!--Setenta mil reis mensaes; trabalho das nove ás tres. - -Aquella amigação com a Rita Bahiana era uma coisa muito complicada e -vinha de longe; vinha do tempo em que ella ainda estava chegadinha de -fresco da Bahia, em companhia da mãe, uma cafusa dura, capaz de -arrancar as tripas ao Manduca da Praia. A cafusa morreu e o Firmo tomou -conta da mulata; mas pouco depois se separaram por ciumes, o que aliás -não impedio que se tornassem a unir mais tarde, e que de novo brigassem -e de novo se procurassem. Elle tinha «paixa» pela Rita, e ella, apezar -de voluvel como toda a mestiça, não podia esquecel-o por uma vez; -mettia-se com outros, é certo, de quando em quando, e o Firmo então -pintava o caneco, dava por páos e por pedras, enchia-a de bofetadas, -mas, afinal, ia procural-a, ou ella a elle, e ferravam-se de novo, cada -vez mais ardentes, como se aquellas turras constantes reforçassem o -combustivel dos seus amores. - -O amigo que Firmo trazia aquelle domingo em sua companhia, o Porfiro, -era mais velho do que elle e mais escuro. Tinha o cabello encarapinhado. -Typographo. Afinavam-se muito os dois typos com as suas calças de bocca -larga e com os seus chapéos ao lado; mas o Porfiro tinha outra linha: -não dispensava a sua gravata de côr saltando em laço frouxo sobre o -peito da camisa; fazia questão da sua bengalinha com cabeça de prata e -da sua piteira de ambar e espuma, em que elle equilibrava um cigarro de -palha. - -Desde a entrada dos dois, a casa da Rita esquentou. Ambos tiraram os -paletós e mandaram vir Paraty, «a abrideira pr'a muqueca Bahiana.» E -não tardou que se ouvissem gemer o cavaquinho e o violão. - -Ao lado chegava tambem o homem da das Dôres, com um companheiro do -commercio; vinham vestidos de fraque e chapéo alto. A Machona, Nênêm -e o Agostinho, já de volta do seu passeio á cidade, lá estavam -ajudando. Ficariam para o regabofe. - -Um rumor quente, do dia de festa, ia-se formando n'aquelle ponto da -estalagem. - -Tanto n'uma casa, como na outra, o jantar seria ás cinco horas. Rita -«botou» vestido branco, de cambraia, encanudado a ferro. Leocadia, -Augusta, o Bruno, o Alexandre e o Albino jantariam com ella no numero 9; -e no numero 8, com a das Dôres, ficariam, além dos parentes d'esta, -Dona Isabel, Pombinha, Marcianna e Florinda. - -Jeronymo e sua mulher foram convidados para ambas as mezas, mas não -acceitaram o convite para nenhuma, dispostos a passar a tarde ao lado um -do outro, tranquillamente, como sempre, comendo em boa paz o seu cozido -á moda da terra e bebendo o seu quartilho de verde pela mesma infusa. - -Entretanto, os dois jantares visinhos principiaram ruidosos logo desde a -sôpa e assanharam-se progressivamente. - -Meia hora depois vinha das duas casas uma algazarra infernal. Fallavam e -riam todos ao mesmo tempo; tilintavam os talheres e os copos. Cá de -fóra sentia-se perfeitamente o prazer que aquella gente punha em comer -e beber á farta, com a bocca cheia, os beiços envernisados de molho -gordo. Alguns cães rosnavam á porta, roendo os ossos que traziam lá -de dentro. De vez em quando, da janella de uma das casas apparecia uma -das moradoras, chamando a visinha, para entregar um prato cheio, -permutando as duas entre si os quitutes e as petisqueiras em que eram -mais peritas. - ---Olha! gritava a das Dôres para o numero 9, diz á Rita que prove -d'esse zôrô, pr'a ver que tal o acha, e que o vatapá estava muito -gostoso! Se ella tem pimentas, que me mande algumas! - -Do meio para o fim do jantar o barulho em ambas as casas era medonho. No -numero 8 berravam-se brindes e cantos desafinados. O portuguez amigo da -das Dôres, já desengravatado e com os braços á mostra, vermelho, -lustroso de suor, intumescido de vinho virgem e leitão de forno, -repotreava-se na sua cadeira, a rir forte, sem calar a bocca, com a -camisa a espipar-lhe pela braguilha aberta. O sujeito que o -accompanhára fazia fosquinhas a Nênêm, protegido no seu namoro por -toda a roda, desde a respeitavel Machona até ao endemoninhado -Agostinho, que não ficava quieto um instante, nem deixava socegar a -mãe, gritando um contra o outro como dois possessos. Florinda, sempre -muito risonha e esperta, divertia-se a valer e, de vez em quando, -levantava-se da mesa, para ir de carreira levar lá fora ao numero 12 um -prato de comida á sua velha que, á ultima hora, vindo-lhe o -aborrecimento, resolvêra não ir ao jantar. Á sobremesa o esfogueado -amigo da dona da casa exigio que a amante se lhe assentasse nas coxas e -dava-lhe beijos em presença de toda a companhia, o que fez com que Dona -Isabel, impaciente por afastar a filha d'aquelle inferno, declarasse que -sentia muito calor e que ia lá para a porta esperar mais á fresca o -café. - -Em casa da Rita Bahiana a animação era ainda maior. Firmo e Porfiro -faziam o diabo, cantando, trocando bestialogicos, arremedando a falla -dos pretos cassanges. Aquelle não largava a cintura da mulata e só -bebia no mesmo copo com ella; o outro divertia-se a perseguir o Albino, -galanteando-o affectadamente, para fazer rir á sociedade. O lavadeiro -indignava-se, dava o cavaco. Leocadia, a quem o vinho produzia delirios -de hilaridade, torcia-se em gargalhadas, tão fortes e sacudidas que -desconjuntavam a cadeira em que ella estava; e, muito lubrificada pela -bebedeira, punha os pezados pés sobre os de Porfiro, roçando as pernas -contra as d'elle e deixando-se apalpar pelo capadocio. O Bruno, defronte -d'ella, rubro e suado como se estivesse a trabalhar na forja, fallava e -gesticulava sem se levantar, praguejando ninguem sabia contra quem. O -Alexandre, á paizana, assentado ao lado da mulher, conservava quasi -toda a sua seriedade e pedia que não fizessem tanto barulho porque -podiam ouvir da rua. E notou, em voz mysteriosa, que o Miranda tinha -vindo já espiar por varias vezes da janella do sobrado. - ---Que espie as vezes que quizer! bradou a Rita. Pois então a gente não -é senhora de estar um domingo em casa a seu gosto e com os amigos que -entender?... Que vá pr'o diabo que o lixe! Eu não como nem bebo do que -é d'elle! - -Os dois mulatos e o Bruno tambem eram da mesma opinião. «Pois então! -Desde que se não offendia, nem prejudicava a safardana nenhum com -aquelle divertimento, não havia de que fallar!» - ---E que não entiquem muito, ameaçou o Firmo, que commigo é nove! E o -trunfo é páos! - -O Porfiro exclamou: - ---Se se incommodam com a gente ... os incommodados são os que se mudam! -Ora pistolas! - ---O domingo fez-se pr'a gosar!... resmungou o Bruno, deixando cahir a -cabeça nos braços crusados sobre a mesa. - -Mas ergueu-se logo, cambaleando, e acrescentou, despindo o braço -direito até ao hombro:--Elles que se façam finos, que os racho! - -O Alexandre procurou acalmal-o, dando-lhe um charuto. - -Em uma outra casinha do cortiço acabava de estalar uma nova sobremesa, -engrossando o barulho geral: era o jantar de um grupo de italianos -mascates, onde o Delporto, o Pompêo, o Francesco e o Andréa -representavam as principaes figuras. Todos elles cantavam em coro, mais -afinados que nas outras duas casas; quasi, porém, que se lhes não -podiam ouvir as vozes, tantas e tão estrondosas eram as pragas que -soltavam ao mesmo tempo. De quando em quando, de entre o grosso e macho -vozear dos homens, esguichava um falsete feminino, tão estridente que -provocava replica aos papagaios e aos perus da visinhança. E, d'aqui e -d'ali, iam rebentando novas algazarras em grupos formados cá e lá pela -estalagem. Havia nos operarios e nos trabalhadores decidida disposição -para pandegar, para aproveitar bem, até ao fim, aquelle dia de folga. A -casa de pasto fermentava revolucionada, como um estomago de bebado -depois de grande brodio, e arrotava sobre o pateo uma baforada quente e -ruidosa que entontecia. - -O Miranda appareceu furioso á janella, com o seu typo de commendador, a -barriga empinada pr'a frente, de paletó branco, um guardanapo ao -pescoço e um trinchante empunhado na destra, como uma espada. - ---Vão gritar pr'a o inferno, com um milhão de raios! berrou elle, -ameaçando para baixo. Isto tambem já é de mais! Se não se calam, vou -d'aqui direito chamar a policia! Sucia de brutos! - -Com os berros do Miranda muita gente chegou á porta de casa, e o côro -de gargalhadas, que ninguem podia conter n'aquelle momento de alegria, -ainda mais o pôz fóra de si. - ---Ah, canalhas! O que eu devia fazer era atirar-lhes d'aqui, como a -cães damnados! - -Uma vaia unisona echoou em todo o pateo da estalagem, emquanto em volta -do negociante surgiam varias pessoas, puxando-o para dentro de casa. - ---Que é isso, Miranda! Então! Estás agora a dar palha?... - ---O que elles querem é que encordôes!... - ---Saia d'ahi, papáe! - ---Olhe alguma pedrada, esta gente é capaz de tudo! - -E via-se de relance Dona Estella, com a sua pallidez de flôr meio -fanada, e Zulmira, livida, um ar de fastio a fazel-a feia, e o -Henriquinho, cada vez mais bonito, e o velho Botelho, indifferente, a -olhar para toda esta porcaria do mundo com o profundo desprezo dos que -já não esperam nada dos outros, nem de si proprio. - ---Canalhas! repisava o Miranda. - -O Alexandre, que fôra de carreira enfiar a sua farda, apresentou-se -então e disse ao negociante que não era prudente atirar insultos cá -pr'a baixo. Ninguem o tinha provocado! Se os moradores da estalagem -jantavam em companhia de amigos, lá em cima o Miranda tambem estava -comendo com os seus convidados! Era máo insultar, porque palavra puxa -palavra, e, em caso de ter de depor na policia, elle, Alexandre, deporia -a favor de quem tivesse razão!... - ---Fomente-se! respondeu o negociante, voltando-lhe as costas. - -Já se vio chubregas mais atrevido?! exclamou Firmo, que até ahi -estivera calado, á porta da Rita, com as mãos nas cadeiras, a fitar -provocadoramente o Miranda. - -E gritando mais alto, para ser bem ouvido:--Facilita muito, meu boi -manso, que te escorvo os galhos na primeira occasião! - -O Miranda foi arrancado com violencia da janella, e esta fechada logo em -seguida com estrondo. - ---Deixa lá esse labrego! resmungou Porfiro, tomando o amigo pelo braço -e fazendo-o recolher-se á casa da mulata. Vamos ao café, é o que é, -antes que esfrie! - -Defronte da porta de Rita tinham vindo postar-se diversos moradores do -cortiço, jornaleiros de baixo salario, pobre gente miseravel, que mal -podia matar a fome com o que ganhava. Ainda assim não havia entre elles -um só triste. A mulata convidou-os logo a comer um bocado e beber um -trago. A proposta foi acceita alegremente. - -E a casa d'ella nunca se esvasiava. - -Anoitecia já. - -O velho Liborio, que jamais ninguem sabia ao certo onde almoçava ou -jantava, surgio do seu buraco, que nem jaboti quando vê chuva. - -Um typão, o velho Liborio! Occupava o peior canto do cortiço e andava -sempre a fariscar os sobejos alheios, filando aqui, filando ali, pedindo -a um e a outro, como um mendigo, chorando miserias eternamente, -apanhando pontas de cigarro para fumar no cachimbo, cachimbo que o -sumitico roubára de um pobre cego decrepito. Na estalagem diziam -todavia que Liborio tinha dinheiro aferrolhado, contra o que elle -protestava resentido, jurando a sua extrema penuria. E era tão feroz o -demonio n'aquella fome de cão sem dono, que as mães recommendavam ás -suas crianças todo o cuidado com elle, porque o diabo do velho, quando -via algum pequeno desacompanhado, punha-se logo a rondal-o, a cercal-o -de festas e a fazer-lhe ratices para o engabelar, até conseguir -furtar-lhe o doce ou o vintemzinho que o pobrezito trazia fechado na -mão. - -Rita fel-o entrar e deu-lhe de comer e de beber; mas sob condição de -que o esfomeado não se soccasse demais, para não rebentar ali mesmo. - -Se queria estoirar, fosse estoirar para longe! - -Elle pôz-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os -lados, como se temesse que alguem lhe roubasse a comida da boca. Engolia -sem mastigar, empurrando os bocados com o dedo, agarrando-se ao prato e -escondendo nas algibeiras o que não podia de uma só vez metter para -dentro do corpo. - -Causava terror aquella sua implacavel mandibula, assanhada e devoradora; -aquelle enorme queixo, avido, ossudo e sem um dente, que parecia ir -engolir tudo, tudo, principiando pela propria cara, desde a immensa -batata vermelha e grelada, que ameaçava já entrar-lhe na boca, até as -duas bochechinhas engelhadas, os olhos, as orelhas, a cabeça inteira, -inclusive a sua grande calva, lisa como um queijo e guarnecida em redor -por uns pellos puídos e ralos como farripas de côco. - -Firmo propoz embebedal-o, só para ver a sorte que elle daria. O -Alexandre e a mulher oppuzeram-se, mas rindo muito; nem se podia deixar -de rir, apezar do espanto, vendo aquelle resto de gente, aquelle -esqueleto velho, coberto por uma pelle secca, a devorar, a devorar sem -tregoas, como se quizesse fazer provisão para uma outra vida. - -De repente, um pedaço de carne, grande de mais para ser ingerido de uma -vez, engasgou-o sériamente. Liborio começou a tossir, afflicto, com os -olhos sumidos, a cara tingida de uma vermelhidão apopletica. A -Leocadia, que era quem lhe ficava mais perto, soltou-lhe um murro nas -costas. - -O glutão arrevessou sobre a toalha da mesa o bocado de carne já meio -triturado. - -Foi um nojo geral. - ---Porco! gritou Rita, arredando-se. - ---Pois se o bruto quer socar tudo ao mesmo tempo! disse Porfiro. Parece -que nunca vio comida, este animal! - -E notando que elle continuava ainda mais sofrego por ter perdido um -instante:--Espera um pouco, lobo! Que diabo! A comida não foge! Ha -muito ahi com que te fartares por uma vez! Com effeito! - ---Beba agoa, tio Liborio! aconselhou Augusta. - -E, boa, foi buscar um copo d'agoa e levou-lh'o á boca. - -O velho bebeu, sem despregar os olhos do prato. - ---Arre diabo! resmungou Porfiro, cuspindo para o lado. Este é mesmo -capaz de comer-nos a todos nós, sem achar espinhas! - -Albino, esse, coitado! é que não comia quasi nada e o pouco que -conseguia metter no estomago fazia-lhe mal. Rita, para bulir com elle, -disse que semelhante fastio era gravidez com certeza. - ---Você já começa, hein?... balbuciou o pobre moço, esgueirando-se -com a sua chicara de café. - ---Olha, cuidado! gritou-lhe a mulata. Pouco café, que faz mal ao leite, -e a criança póde sahir trigueira! - -O Albino voltou para dizer muito serio á Rita que não gostava d'essas -brincadeiras. - -Alexandre, que havia accendido um charuto, depois de offerecer outros, -galantemente, aos companheiros, arriscou, para tambem fazer a sua -pilheria, que o sonso do Albino fôra pilhado ás voltas com a Bruxa no -capinzal dos fundos da estalagem, debaixo das mangueiras. - -Só a Leocadia achou graça n'isto e rio a bandeiras despregadas. Albino -declarou, quasi chorando, que elle não mexia com pessoa alguma, e que -ninguem, por conseguinte, devia mexer com elle. - ---Mas afinal, perguntou Porfiro, é mesmo exacto que este pamonha não -conhece mulher?... - ---Elle é quem póde responder! accudio a mulata. E esta historia vae -ficar hoje liquidada! Vamos lá, ó Albino! confessa-nos tudo, ou mal te -terás de haver com a gente! - -Se eu soubesse que era para isto que me chamaram, não tinha vindo cá, -sabe? gaguejou o lavadeiro, amuado. Eu não sirvo de palito! - -E ter-se-ia retirado chorando, se a Rita não lhe cortasse a sahida, -dizendo, como se fallasse a uma creatura do seu sexo, mais fraca do que -ella: - ---Ora não sejas tôlo! Deixa-te ficar ahi! Se deres o cavaco é peior! - -Albino limpou as lagrimas e foi assentar-se de novo. - -Entretanto, a noite fechava-se, refrescando a tarde com o sudoeste. -Bruno roncava no logar em que tinha jantado. A Leocadia passára -livremente a perna para cima da de Porfiro, que a abraçava, bebendo -paraty aos calices. - -Mas o Firmo lembrou que seria melhor irem lá para fóra; e todos, menos -o Bruno, dispozeram-se a deixar a sala, emquanto o velho Liborio pedia a -Alexandre um cigarro para despejar no cachimbo. Servido, o filante -desappareceu logo, correndo ao faro de outros jantares. Rita, Augusta e -Albino ficaram lavando a louça e arrumando a casa. - -Lá fóra o côro dos italianos se prolongava n'uma cadencia monotona e -arrastada, em que havia muito pezo de embriaguez. Junto á porta de -varias casas faziam-se grupos de pessoas assentadas em cadeiras ou no -chão; mas a roda da Rita Bahiana era a maior, porque fóra engrossada -pelos convivas da das Dôres. O fumo dos cachimbos e dos charutos -elevava-se de toda a parte. Decrescera o ruido geral; fazia-se a -digestão; já ninguem discutia e todos conversavam. - -Accendeu-se o lampeão do pateo. Illuminaram-se diversas janellas das -casinhas. - -Agora, no sobrado do Miranda é que era o maior barulho. Sahia de lá -uma terrivel gritaria de hippes e burrahs, virgulada pelo desarolhar de -garrafas de champanha. - ---Como elles atacam!... observou Alexandre, já de novo sem farda. - ---E no emtanto reprovam que a gente coma o que é seu com um pouco mais -de alegria! commentou a Rita. Uma sucia! - -Fallou-se então largamente a respeito da familia do Miranda, -principalmente de Dona Estella e do Henrique. A Leocadia afiançou que, -uma occasião, espiando por cima do muro, trepada n'um montão de -garrafas vazias que havia no pateo do cortiço, vira a sirigaita com a -cara agarrada á do estudante, aos beijos e aos abraços, que era obra; -e assim que os dois deram fé que ella os espreitava, deitaram a fugir -que nem cães apedrejados. - -A Augusta Carne-molle benzeu-se, com uma invocação á Virgem -Santissima, e o companheiro do amigo da das Dôres, que insistia no seu -namoro com a Nênêm, mostrou-se muito admirado com a noticia, -«suppunha Dona Estella um modelo de seriedade.» - ---Qual! negou Alexandre. Isso por ahi é tudo uma pouca vergonha, que -faz descrer um homem de si mesmo! - -Eu tambem já vi de uma feita bem boas coisas pela sombra d'ella na -parede; mas não era com o estudante, era com um sujeito que lá ia ás -vezes, um barbado, careca e comido de bexigas. E a pequena vae pelo -mesmo conseguinte... - -Esta novidade produzio grande surpreza no grupo inteiro. Quizeram os -pormenores e o Alexandre não se fez rogado: o namoro da Zulmira era com -um rapazola magro, de lunetas, bigode loiro, bem vestido, que lhe -rondava a casa á noite e ás vezes de madrugada. Parecia estudante! - ---O que elles tem feito? inquerio a das Dôres. - ---Por emquanto a coisa não passa de namorico da janella pr'a rua. -Conversam sempre n'aquella ultima do lado de lá de fóra. Já os tenho -apreciado quando estou de serviço. Elle falla muito em casamento e a -pequena o quer; mas, pelo geito, o velho é que lhe corta as azas. - ---Elle não tem entrada na casa? - ---Não! Pois isso é que eu acho feio!... Se elle quer casar com a -menina, devia entender-se com a familia e não estar agora d'aqui -debaixo a fazer-lhe fosquinhas! - ---Sim! intrometteu-se o Firmo; mas não vê que aquelle mesmo, o -Miranda, vae dar a filha a um estudante! Guarda-a para um dos seus... -Quem sabe até se o bruto não tem já de olho por ahi algum cafezista -pé de boi!... Eu sei o que é essa gente! - ---Por isso é que se vê tanta porcaria por esse mundo de Christo! disse -a Augusta. Filha minha só se casará com quem ella bem quizer; que isto -de casamentos empurrados á força acabam sempre desgraçando tanto a -mulher como o homem! Meu marido é pobre e é de côr, mas eu sou feliz, -porque casei por meu gosto! - ---Ora! Mais vale um gosto que quatro vintens! - -N'isto começou a gemer á porta do 35 uma guitarra; era de Jeronymo. -Depois da ruidosa alegria e do bom humor, em que palpitara áquella -tarde toda a republica do cortiço, ella parecia ainda mais triste e -mais saudosa do que nunca. - - - «Minha vida tem desgostos, - Que só eu sei comprender... - Quando me lembro da terra - Parece que vou morrer...» - - -E, com o exemplo da primeira, novas guitarras foram acordando. E, por -fim, a monotona cantiga dos portuguezes enchia de uma alma desconsolada -o vasto arraial da estalagem, contrastando com a barulhenta alacridade -que vinha lá de cima, do sobrado do Miranda. - - - «Terra minha, que te adoro, - Quando é que eu te torno a ver? - Leva-me d'este desterro; - Basta já de padecer.» - - -Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostalgico dos desterrados, iam -todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e cahindo em tristeza; -mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do -Firmo, romperam vibrantemente com um chorado bahiano. Nada mais que os -primeiros accordes da musica crioula para que o sangue de toda aquella -gente despertasse logo, como se alguem lhe fustigasse o corpo com -ortigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais -ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam, -eram lubricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem -serpenteando, como cobras n'uma floresta incendiada; eram ais convulsos, -chorados em frenezi de amor; musica feita de beijos e soluços gostosos; -caricia de fera, caricia de doer, fazendo estalar de goso. - -E aquella musica de fogo doidejava no ar como um aroma quente de plantas -brasileiras, em torno das quaes se nutrem, girando, moscardos sensuaes e -besoiros venenosos, freneticamente, bebedos do delicioso perfume que os -mata de volupia. - -E á viva crepitação da musica bahiana calaram-se as melancolicas -toadas dos de além-mar. Assim á refulgente luz dos tropicos amortece a -fresca e doce claridade dos céos da Europa, como se o proprio sol -americano, vermelho e esbrazeado, viesse, na sua luxuria de sultão, -beber a lagrima medrosa da decahida rainha dos mares velhos. - -Jeronymo alheiou-se da sua guitarra e ficou com as mãos esquecidas -sobre as cordas, todo attento para aquella musica estranha, que vinha -dentro d'elle continuar uma revolução começada desde a primeira vez -em que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz -d'este sol orgulhoso e selvagem, e lhe cantou no ouvido o estribilho da -primeira cigarra, e lhe acidulou a garganta o succo da primeira fructa -provada n'estas terras de braza, e lhe entonteceu a alma o aroma do -primeiro bogary, e lhe transtornou o sangue o cheiro animal da primeira -mulher, da primeira mestiça, que junto d'elle sacudio as saias e os -cabellos. - ---Que tens tu, Jeromo?... perguntou-lhe a companheira, estranhando-o. - ---Espera, respondeu elle, em voz baixa; deixa ouvir! - -Firmo principiava a cantar o chorado, seguido por um acompanhamento de -palmas. - -Jeronymo levantou-se, quasi que machinalmente, e, seguido por Piedade, -aproximou-se da grande roda que se formara em torno dos dois mulatos. -Ahi, de queixo grudado ás costas das mãos contra uma cerca de jardim, -permaneceu, sem tugir nem mugir, entregue de corpo e alma áquella -cantiga seductora e voluptuosa que o enleiava e tolhia, como á robusta -gameleira brava o cipó flexivel, carinhoso e traiçoeiro. - -E vio a Rita Bahiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de -hombros e braços nus, para dansar. A lua destoldára-se n'esse momento, -envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da -mestiça melhor se accentuavam, cheios de uma graça irresistivel, -simples, primitiva, feita toda de peccado, toda de paraiso, com muito de -serpente e muito de mulher. - -Ella saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as -ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a -direita, como n'uma sofreguidão de goso carnal, num requebrado -luxurioso que a punha offegante; já correndo de barriga empinada; já -recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse -afundando n'um prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e -nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse á vida, soltava um -gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, -descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida -sapateava, miudo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os -braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, emquanto a carne -lhe fervia toda, fibra por fibra, titillando. - -Em torno o enthusiasmo tocava ao delirio; um grito de applausos explodia -de vez em quando, rubro e quente como deve ser um grito sabido do -sangue. E as palmas insistiam, cadentes, certas, n'um rhythmo nervoso, -n'uma persistencia de loucura. E, arrastado por ella, pulou á arena o -Firmo, agil, de borracha, a fazer coisas phantasticas com as pernas, a -derreter-se todo, a sumir-se no chão, a resurgir inteiro com um pulo, -os pés no espaço batendo os calcanhares, os braços a querer -fugirem-lhe dos hombros, a cabeça a querer saltar-lhe. E depois, surgio -tambem a Florinda, e logo o Albino e até, quem diria! o grave e -circumspecto Alexandre. - -O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando aos que -não sabiam dansar. Mas, ninguem como a Rita; só ella, só aquelle -demonio, tinha o magico segredo d'aquelles movimentos de cobra -amaldiçoada; aquelles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a -mulata soltava de si e sem aquella voz doce, quebrada, harmoniosa, -arrogante, meiga e supplicante. - -E Jeronymo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos olhos -enamorados. - -N'aquella mulata estava o grande mysterio, a synthese das impressões -que elle recebeu chegando aqui: ella era a luz ardente do meio dia; ella -era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos -trevos e das baunilhas, que o atordoara nas mattas brasileiras; era a -palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; -era o veneno e era o assucar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e -era a castanha do cajú, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ella -era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, -que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo d'elle, -assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela -saudade da terra, picando-lhe as arterias, para lhe cuspir dentro do -sangue uma centelha d'aquelle amor septentrional, uma nota d'aquella -musica feita de gemidos de prazer, uma larva d'aquella nuvem de -cantharidas que zumbiam em torno da Rita Bahiana e espalhavam-se pelo ar -n'uma phosphorescencia aphrodisiaca. - -Isto era o que Jeronymo sentia, mas o que o tonto não podia conceber. -De todas as impressões d'aquelle resto de domingo só lhe ficou no -espirito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho, -mas de mel chuchurreado no calice de flores americanas, d'essas muito -alvas, cheirosas e humidas, que elle na fazenda via debruçadas -confidencialmente sobre os limosos pantanos sombrios, onde as oiticicas -trescalam um aroma que entristece de saudade. - -E deixava-se ficar, olhando. Outras raparigas dansaram, mas o portuguez -só via a mulata, mesmo quando, prostrada, fôra cahir nos braços do -amigo. Piedade, a cabecear de somno, chamára-o varias vezes para se -recolherem; elle respondeu com um resmungo e não deu pela retirada da -mulher. - -Passaram-se horas, e elle tambem não deu pelas horas que fugiram. - -O circulo do pagode augmentou: vieram de lá defronte a Izaura e a -Leonor; o João Romão e a Bertoleza, desembaraçados da sua faina, -quizeram dar fé da patuscada um instante antes de cahirem na cama; a -familia do Miranda puzera-se á janella, divertindo-se com a gentalha da -estalagem; reunira povo lá fóra na rua; mas Jeronymo nada vira de tudo -isso; nada vira senão uma coisa, que lhe persistia no espirito: a -mulata offegante a resvalar voluptuosamente nos braços do Firmo. - -Só deu por si, quando, já pela madrugada, se callaram de todo os -instrumentos e cada um dos folgadores se recolheu á casa. - -E vio a Rita levada para o quarto pelo seu homem, que a arrastava pela -cintura. - -Jeronymo ficou sózinho no meio da estalagem. A lua, agora inteiramente -livre das nuvens que a perseguiam, lá ia caminhando em silencio na sua -viagem mysteriosa. As janellas do Miranda fecharam-se. A pedreira, ao -longe, por detraz da ultima parede do cortiço, erguia-se como um -monstro illuminado na sua paz. Uma quietação densa pairava já sobre -tudo; só se distinguiam o bruxulear dos pyrilampos na sombra das hortas -e dos jardins, e os murmurios das arvores que sonhavam. - -Mas Jeronymo nada mais sentia, nem ouvia, do que aquella musica -embalsamada de baunilha, que lhe entontecêra a alma; e comprehendeu -perfeitamente que dentro d'elle aquelles cabellos crespos, brillantes e -cheirosos, da mulata, principiavam a formar um ninho de cobras negras e -venenosas, que lhe iam devorar o coração. - -E, erguendo a cabeça, notou no mesmo céo, que elle nunca vira senão -depois de sete horas de somno, que era já quasi occasião de entrar -para o seu serviço, e resolveu não dormir, porque valia a pena esperar -de pé. - - - - -VIII - - -No dia seguinte, Jeronymo largou o trabalho á hora de almoçar e, em -vez de comer lá mesmo na pedreira com os companheiros, foi para casa. -Mal tocou no que a mulher lhe apresentou á mesa e metteu-se logo depois -na cama, ordenando-lhe que fosse ter com João Romão e lhe dissesse que -elle estava incommodado e ficava de descanço aquelle dia. - ---Que tens tu Jeromo?... - ---Morrinhento, filha. Vae anda! - ---Mas sentes-te mal?... - ---Ó mulher! vae fazer o que te disse e ao depois então darás á -lingoa! - ---Valha-me a Virgem! Não sei se haverá chá preto na venda! - -E ella sahio, afflicta. Qualquer novidade no marido, por menor que -fosse, punha-a doida, «Pois um homem rijo, que nunca cahia doente? -Seria a febre amarella?...» Jesus, Santo Filho de Maria, que nem pensar -n'isso era bom! Credo! - -A noticia espalhou-se logo ali entre as lavadeiras. - ---Foi da friage da noite, affirmou a Bruxa; e deu um pulo á casa do -trabalhador para receitar. - -O doente repellio-a, pedindo-lhe que o deixasse em paz; que elle do que -precisava era de dormir. Mas não o conseguio: atraz da Bruxa correu a -segunda mulher, e a terceira, e a quarta; e, afinal, fez-se durante -muito tempo em sua casa um entrar e sahir de saias. Jeronymo perdeu a -paciencia e ia protestar brutalmente contra semelhante invasão, quando, -pelo cheiro, sentio que a Rita se approximava tambem. - ---Ah! - -E desfranzio-se-lhe o rosto. - ---Bons dias! Então que é isso, vizinho? Você cahio doente com a minha -chegada? Se tal soubéra não vinha! - -Elle rio-se. E era a primeira vez que ria desde a vespera. - -A mulata aproximou-se da cama. - -Como principiara a trabalhar esse dia, tinha as saias apanhadas na -cintura e os braços completamente nús e frios da lavagem. O seu -casaquinho branco abria-lhe no pescoço, mostrando parte do peito côr -de canella. - -Jeronymo apertou-lhe a mão. - ---Gostei de vel-a hontem dansar, disse, muito mais animado. - ---Já tomou algum remedio?... - ---A mulher fallou ahi em chá preto... - ---Chá! Que asneira! Chá é agoa morna! Isso que você tem é uma -resfriagem. Vou lhe fazer uma chicara de café bem forte para você -beber com um gole de paraty, e me dirá se súa ou não, e fica depois -fino e prompto para outra! Espere ahi! - -E sahio logo, deixando todo o quarto impregnado d'ella. - -Jeronymo, só com respirar aquelle almiscar, parecia melhor. Quando -Piedade tornou, pesada, triste, resmungando comsigo mesma, elle sentio -que principiava a enfaral-a; e, quando a infeliz se approximou do -marido, este, fora do costume, notou-lhe o cheiro azedo do corpo. -Voltou-lhe então o máo-estar e desappareceu o ultimo vestigio do -sorriso que elle tivera havia pouco. - ---Mas que sentes tu, Jeromo?... Falla, homem! Não me dizes nada! Assim -m'assustas... Que tens, diz'lo! - ---Não cozas o chá. Vou tomar outra coisa... - ---Não queres o chá? Mas é o remedio, filhinho de Deus! - ---Já te disse que tomo oitra mezinha. Oh! - -Piedade não insistio. - ---Queres tu um escalda-pés?... - ---Tomal-o tu! - -Ella calou-se. Ia a dizer que nunca o vira assim tão aspero e secco, -mas receiou importunal-o. «Era naturalmente a molestia que o punha -resinguento.» - -Jeronymo fechára os olhos, para a não ver, e ter-se-ia, se pudesse, -fechado por dentro, para a não sentir. Ella, porém, coitada! fôra -assentar-se á beira da cama, humilde e solicita, a suspirar, vivendo -n'aquelle instante, pura e exclusivamente, para o seu homem, fazendo-se -muito escrava d'elle, sem vontade propria, acompanhando-lhe os menores -gestos com o olhar, inquieta, que nem um cão que, ao lado do dono, -procura adivinhar-lhe as intenções. - ---'Stá bem, filha, não vaes tratar do teu serviço?... - ---Não te dê isso cuidado! Não parou o trabalho! Pedi á Leocadia que -me esfregasse a roupa. Ella hoje tinha pouco que fazer e... - ---Andaste mal... - ---Ora! Não ha tres dias que fiz outro tanto por ella... E de mais, não -foi que tivesse o homem doente, era a calaçaria do capinzal! - ---Bom, bom, filha! não digas mal da vida alheia!... Melhor seria que -estivesses á tua tina em vez de ficar ahi a murmurar do proximo... -Anda! vae tomar conta das tuas obrigações. - ---Mas estou-te a dizer que não ha transtorno!... - ---Transtorno já é estar eu parado; e peior será pararem os dois! - ---Eu queria ficar a teu lado, Jeromo!... - ---E eu acho que isso é tolice! Vae! anda! - -Ella ia retirar-se, como um animal enxotado, quando deu com a Rita, que -entrava muito ligeira e sacudida, trazendo na mão a fumegante palangana -de café com paraty e no hombro um cobertor grosso para dar um suadoiro -ao doente. - ---Ah! fez Piedade, sem encontrar uma palavra para a mulata. - -E deixou-se ficar. - -Rita, despreoccupadamente, alegre e bemfazeja como sempre, pousou a -vasilha sobre a commoda do oratorio e abrio o cobertor. - ---Isto é que o vae pôr fino! disse. Vocês tambem, seus portuguezes, -por qualquer coisinha ficam logo pr'a morrer, com uma cara da ultima -hora! E ai, ai, Jesus, meu Deus! Ora esperte-se! Não me seja maricas! - -Elle rio-se, assentando-se na cama. - ---Pois não é assim mesmo? perguntou ella á Piedade, apontando para o -carão barbado de Jeronymo. Olhe só pr'aquella cara e diga-me se não -está a pedir que o enterrem! - -A portugueza não dizia nada, sorria contrafeita, no intimo, resentida -contra aquella invasão de uma estranha nos cuidados pelo seu homem. -Não era a intelligencia nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o -instincto, o faro subtil e desconfiado de toda a femea pelas outras, -quando sente o seu ninho exposto. - ---Está-me a parecer que agora te achas melhor, hein?... desembuchou -afinal, procurando o olhar do marido, sem conseguir disfarçar de todo o -seu descontentamento. - ---Só com o cheiro! reforçou a mulata, apresentando o café ao doente. -Beba, ande! beba tudo e abafe-se! Quero, quando voltar logo, encontral-o -prompto, ouvio?--E acrescentou fallando á Piedade, em tom mais baixo e -pousando-lhe a mão no hombro carnudo:--Elle d'aqui a nada deve estar -ensopado de suor; mude-lhe toda a roupa e dê-lhe dois dedos de paraty, -logo que peça agua. Cuidado com o vento! - -E sahio expedita, agitando as saias, d'onde se evolavam effluvios de -mangerona. - -Piedade chegou-se então para o cavouqueiro, que já tinha sobre as -pernas o cobertor offerecido pela Rita, e, ajudando-o a levar a tigela -á bocca, resmungou: - ---Deus queira que isto não te vá fazer mal em vez de bem!... Nunca -tomas café, nem gostas!... - ---Isto não é por gosto, filha, é remedio! - -Elle com effeito nunca entrara com o café e ainda menos com a cachaça; -mas engolio de uma assentada o conteúdo da tigela, puxando em seguida o -cobertor até ás ventas. - -A mulher tratou de abafar-lhe bem os pés e foi buscar um chale para lhe -cobrir a cabeça. - ---Trata de socegar! Não te mexas! - -E dispôz-se a ficar junto da cama, a vigial-o, só andando na ponta dos -pés, abafando a respiração, correndo a cada instante á porta de casa -para pedir que não fizessem tanta bulha lá fóra; toda ella -desassocegada, numa afflicção quasi supersticiosa por aquelle -incommodo de seu homem. Mas Jeronymo não levou muito que a não -chamasse para lhe mudar a roupa. O suor inundava-o. - ---Ainda bem! exclamou ella, radiante. - -E, depois de fechar hermeticamente a porta do quarto e metter um punhado -de roupa suja n'uma fresta que havia n'uma das paredes, saccou-lhe fóra -a camisa molhada, enfiando-lhe logo outra pela cabeça; em seguida -tirou-lhe as ceroulas e começou, munida de uma toalha, a enxugar-lhe -todo o corpo, principiando pelas costas, passando depois ao peito e aos -sovacos, descendo logo ás nadegas, ao ventre e ás pernas, e esfregando -sempre com tamanho vigor de pulso, que era antes uma maçagem que lhe -dava; e tanto assim que o sangue do cavouqueiro se revolucionou. - -E a mulher, a rir-se, lisongeada, ralhava: - ---Tem juizo! Acommoda-te! Não vês que estás doente?... - -Elle não insistio. Agasalhou-se de novo e pedio agua. - -Piedade foi buscar o paraty. - ---Bebe isto, não bebas a agua agora. - ---Isto é cachaça! - ---Foi a Rita que disse para te dar... - -Jeronymo não precisou de mais nada para beber de um trago os dois dedos -de restillo que havia no copo. - -Sobrio como era, e depois d'aquelle despendio de suor, o alcool -produzio-lhe logo de prompto o effeito voluptuoso e agradavel da -embriaguez nos que não são bebedos: um delicioso desfallecer de todo o -corpo; alguma coisa do longo espreguiçamento que antecede á -satisfação dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar por ella -algum tempo, aproxima-se afinal de nós, n'uma avidez gulosa de beijos. -Agora, no conforto da sua cama, na doce penumbra do quarto, com a roupa -fresca sobre a pelle, Jeronymo sentia-se bem, feliz por ver-se longe da -pedreira ardente e do sol caustico; ouvindo, de olhos fechados, o -rom-rom monotono da machina de massas, arfando ao longe, e o zum-zum das -lavadeiras a trabalharem, e, mais distante, um interminavel cantar de -gallos á porfia, emquanto um dobre de sinos rolava no ar, tristemente, -annunciando um defunto da parochia. - -Quando Piedade chegou lá fóra, dando parte do bom resultado do -remedio, a Rita correu de novo ao quarto do doente. - ---Então, que me diz agora? Sente-se ou não melhorzinho? - -Elle voltou para a rapariga o seu olhar de animal prostrado e, por unica -resposta, passou-lhe o braço esquerdo na cintura e procurou com a mão -direita segurar a d'ella. Queria com isto traduzir o seu reconhecimento, -e a mulata assim o entendeu, tanto que consentiu; mal porém a sua carne -lhe tocou na carne, um desejo ardente apossou-se d'elle; uma vontade -desensoffrida de senhorear-se no mesmo instante d'aquella mulher e -possuil-a inteira, devoral-a num só hausto de luxuria, trincal-a como -um cajú. - -Rita, ao sentir-se empolgar pelo cavouqueiro, escapou-lhe das garras com -um pulo. - ---Olha que peste! Faça-se de tolo, que digo á sua mulher, hein? Ora -vamos lá! - -Mas, como a Piedade entrava na salinha ao lado, disfarçou logo, -acrescentando n'outro tom:--Agora é tratar de dormir e mudar de roupa, -se suar outra vez. Até logo! - -E sahio. - -Jeronymo ouvio as suas ultimas palavras já de olhos fechados e, quando -Piedade entrou no quarto, parecia succumbido de fraqueza. A lavadeira -aproximou-se da cama do marido em ponta de pés, puxou-lhe o lençol -mais para cima do peito e afastou-se de novo, abafando os passos. Á -porta de entrada a Augusta, que fora fazer uma visita ao enfermo, -perguntou-lhe por este com um gesto interrogativo; Piedade respondeu sem -fallar, pondo a mão no rosto e vergando d'esse lado a cabeça, para -exprimir que elle agora estava dormindo. - -As duas sahiram para fallar á vontade; mas, n'essa occasião, lá fóra -no pateo da estalagem, acabava de armar-se um escandalo medonho. Era o -caso que o Henriquinho da casa do Miranda ficava ás vezes á janella do -sobrado, nas horas de preguiço, entre o almoço e o jantar, entretido a -ver a Leocadia lavar, seguindo-lhe os movimentos uniformes do grosso -quadril e o tremular das redondas tetas á larga dentro do cabeção de -chita. E, quando a pilhava sozinha, fazia-lhe signaes bregeiros, piscava -lhe o olho, batendo com a mão direita aberta sobre a mão esquerda -fechada. Ella respondia, indicando com o pollegar o interior do sobrado, -como se dissesse que fosse procurar a mulher do dono da casa. - -N'aquelle dia, porém, o estudante appareceu á janella, trazendo nos -braços um coelhinho todo branco, que elle na vespera arrematára n'um -leilão de festa. Leocadia cobiçou o bichinho e, correndo para o -deposito de garrafas vasias, que ficava por debaixo do sobrado, pedio -com muito empenho ao Henrique que lh'o désse. Este, sempre com o seu -systema de conversar por mimica, declarou com um gesto qual era a -condição da dadiva. - -Ella meneou a cabeça affirmativamente, e elle fez-lhe signal de que o -esperasse por detraz do cortiço, no capinzal dos fundos. - -A familia do Miranda havia sahido. Henrique, mesmo com a roupa de andar -em casa e sem chapéo, desceu á rua, ganhou um terreno que existia á -esquerda do sobrado e, com o seu coelho debaixo do braço, atirou-se -para o capinzal. Leocadia esperava por elle debaixo das mangueiras. - ---Aqui não! disse ella, logo que o vio chegar. Aqui agora podem dar com -a gente!... - ---Então onde? - ---Vem cá! - -E tomou á sua direita, andando ligeira e meio vergada por entre as -plantas. Henrique seguio-a no mesmo passo, sempre com o coelho -sobraçado. O calor fazia-o suar e esfogueava-lhe as faces. Ouvia-se o -martellar dos ferreiros e dos trabalhadores da pedreira. - -Depois de alguns minutos, ella parou n'um lugar plantado de bambús e -bananeiras, onde havia o resto de um telheiro em ruinas. - ---Aqui! - -E Leocadia olhou para os lados, assegurando-se de que estavam a sós. -Henrique, sem largar o coelho, atirou-se sobre ella, que o conteve: - ---Espera! preciso tirar a saia; está encharcada! - ---Não faz mal! segredou elle, impaciente no seu desejo. - ---Póde me vir um corrimento! - -E sacou fóra a saia de lã grossa, deixando ver duas pernas, que a -camisa a custo só cobria até ao joelho, grossas, massiças, de uma -brancura levemente rósea e toda marcada de mordeduras de pulgas e -mosquitos. - ---Avia-te! Anda! apressou ella, lançando-se de costas no chão e -arregaçando a fralda até á cintura; as coxas abertas. - -O estudante atirou-se sofrego, sentindo-lhe a frescura da sua carne de -lavadeira, mas sem largar as pernas do coelho. - -Passou-se um instante de silencio entre os dois, em que as folhas seccas -do chão rangeram e farfalharam. - -Olha! pedio ella, faze-me um filho, que eu preciso alugar-me de ama de -leite... Agora estão pagando muito bem as amas! A Augusta Carne Molle, -n'esta ultima barriga, tomou conta de um pequeno ahi na casa de uma -familia de tratamento, que lhe dava setenta mil reis por mez!... E muito -bom passadio!... Sua garrafa de vinho todos os dias!... Se me arranjares -um filho dou-te outra vez o coelho! - -E o pobre brutinho, cujas pernas o estudante não largava, começou a -queixar-se dos repellões que recebia cada vez mais accelerados. - ---Olha que matas o bichinho! reclamou a lavadeira. Não batas assim com -elle! mas não o soltes, hein! - -Ia dizer ainda alguma coisa, mas acudio-lhe o espasmo e ella fechou os -olhos e pôz-se a dar com a cabeça de um lado para outro, rilhando os -dentes. - -N'isto, passos rapidos fizeram-se sentir galgando as plantas, na -direcção em que os dois estavam; e Henrique, antes de ser visto, -lobrigou a certa distancia a insociavel figura do Bruno. - -Não lhe deu tempo a que se approximasse; de um salto galgou por detraz -das bananeiras e desappareceu por entre o mattagal de bambús, tão -rapido como o coelho que, vendo se livre, ganhára pela outra banda o -caminho do capinzal. - -Quando o ferreiro, logo em seguida, chegou perto da mulher, esta ainda -não tinha acabado de vestir a saia molhada. - ---Com quem te esfregavas tu, sua vacca?! bradou elle, a botar os bofes -pela bocca. - -E, antes que ella respondesse, já uma formidavel punhada a fazia rolar -por terra. - -Leocadia abrio n'um berreiro. E foi debaixo de uma chuva de bofetadas e -pontapés que acabou de amarrar a roupa. - ---Agora eu vi! sabes? Nega se fores capaz! - ---Vá á pata que o pôz! exclamou ella, com a cara que era um tomate. -Já lhe disse que não quero saber de você pr'a nada, seu bebado! - -E, vendo que elle ia recomeçar a dansa, abaixou-se depressa, segurou -com ambas as mãos um matacão de granito que encontrou a seus pés, e -gritou, erguendo-o sobre a cabeça: - ---Chega-te pr'a cá e verás se te abro aqui mesmo ou não o casco! - -O ferreiro comprehendeu que ella era capaz de fazer o que dizia e -estacou livido e offegante. - ---Arme a trouxa e rua! sabe? - ---Olha a desgraça! Tinha de muito assentado de ir! Queria era uma -occasião! Nem preciso de você pra nada, fique sabendo! - -E, para metter-lhe mais raiva, acrescentou, empinando a barriga:--Já -cá está dentro com que hei de ganhar a vida! Alugo-me de ama! Ou -pensará que todos são como você, que nem para fazer um filho serve, -diabo do sem-prestimo? - ---Mas não me has de levar nada de casa! Isso te juro eu, biraia! - ---Ah, descance! que não levarei nada do que é seu, nem preciso! - ---Põe essa pedra no chão! - ---Um corno! Eu arrumo-l'a na cabeça se te chegas pr'a cá! - ---Sim, sim, sim, com tanto que te musques por uma vez! - ---Pois então despache o beco! - -Elle virou-lhe as costas e tornou lentamente por onde viera, de cabeça -pendida, as mãos nas algibeiras das calças, aparentando agora um -soberano desprezo pelo que se passava. - -Só então foi que ella se lembrou do coelho. - ---Ora gaitas! disse, endireitando-se e tomando direcção contraria á -do marido. - -Este fôra d'ahi direito ao cortiço narrar, a quem quizesse ouvir, o -que se acabava de dar. O escandalo assanhou a estalagem inteira, como um -jacto de agua quente sobre um formigueiro. «Ora aquillo tinha de -acontecer mais hoje mais amanhã!--Um bello dia a casa vinha abaixo!--A -Leocadia parecia não desejar senão isso mesmo!» Mas ninguem atinava -com quem diabo pilhára o Bruno a mulher no capinzal. Fizeram-se mil -hypotheses; lembraram-se nomes e nomes, sem se chegar a nenhum resultado -satisfactorio. O Albino tentou logo arranjar a reconciliação no casal, -jurando que o Bruno estava enganado com certeza e que vira mal. -«Leocadia era uma excellente rapariga, incapaz de tamanha safadagem!» -O ferreiro tapou-lhe a bocca com uma bolacha, e ninguem mais se metteu a -congraçal-os. - -Entretanto, o Bruno entrara em casa e lançava pela janella cá para -fóra tudo o que ia encontrando pertencente á mulher. Uma cadeira fez-se -pedaços contra as pedras, depois veio um candieiro de kerozene, uma -trouxa de roupa, saias e casaquinhos de chita, caixas de chapéos cheias -de trapos, uma gaiola de passaro, uma chaleira; e tudo era arremessado -com furia ao meio da área, entre o silencio commovido dos que assistiam -ao despejo. Um chim, que entrára para vender camarões e parara -distrahido perto da janella do ferreiro, levou na cabeça com uma bilha -da Bahia e berrava como criança que acaba de ser esbordoada. A Machona, -que não podia ouvir ninguem gritar mais alto do que ella, cahio-lhe em -cima aos murros e o pôz fóra do portão com tremenda descompostura. -«Era o que faltava que viesse tambem aquelle salamaleque do inferno -para azoinar uma creatura mais do que já estava!» Dona Isabel, com as -mãos crusadas sobre o ventre, tinha para aquella destruição um -profundo olhar de lastima. Augusta meneava a cabeça tristemente, sem -conceber como havia mulheres que procuravam homem, tendo um que lhes -pertencia. A Bruxa, indifferente, não interrompêra sequer o seu -trabalho; ao passo que a das Dôres, de mãos nas cadeiras, a saia pelo -meio das canellas, um cigarro no canto da boca, encarava desdenhosa a -sanha daquelle marido, tão brutal como o d'ella o fôra. - ---Sempre os mesmos pedaços d'asno!... commentava franzindo o nariz. Se -a tôla da mulher só lhes procura agradar e fazer-lhes o gosto, ficam -enjoados, e, se ella não toma a sério a borracheira do casamento, dão -por páos e por pedras, como esta besta! Uma sucia, todos elles! - -Florinda ria, como de tudo, e a velha Marcianna queixava-se de que lhe -respingaram kerozene na roupa estendida ao sol. N'essa occasião -justamente, um sacco de café, cheio de borra, deu duas voltas no ar e -espalhou o seu conteúdo, pintalgando de pontos negros os coradoiros. -Fez-se logo um alarido entre as lavadeiras. «Aquillo não tinha geito, -que diabo! Armavam lá as suas turras e os outros é que haviam de -aturar?!... Cebo! que os mais não estavam dispostos a supportar as -furias de cada um! Quem parira Matheos que o embalasse! Se agora, todas -as vezes que a Leocadia se fosse espojar no capinzal, o bruto do marido -tinha de sujar d'aquelle modo o trabalho da gente, ninguem mais poderia -ganhar ali a sua vida! Que espiga!» Pombinha chegára á porta do -numero 15, dando fé do barulho, com uma costura na mão, e Nênêm, -toda afogueada do ferro de engommar, perguntava, com um frouxo de riso, -se o Bruno ia reformar a mobilia da casa. A Rita fingia não ligar -importancia ao facto e continuava a lavar á sua tina. «Não faziam -tanta festa ao tal casamento? Pois que aguentassem! Ella estava bem -livre de soffrer uma d'aquellas!» O velho Liborio chegára-se, para ver -se, no meio da confusão, apanhava alguma coisa do despejo, e a Machona, -notando que o Agostinho fazia o mesmo, berrou-lhe do logar em que se -achava: - ---Sae d'ahi, safado! Toca lá no quer que seja, que te arranco a pelle -do rabo! - -Um irmão do santissimo entrára na estalagem, com a sua capa encarnada, -a sua vara de prata em uma das mãos, na outra a salva do dinheiro, e -parára em meio do pateo, supplicando, muito fanhoso: «Uma esmola para -a cera do Sacramento!» As mulheres abandonaram por um instante as tinas -e foram beijar devotamente a columbina imagem do Espirito Santo. -Pingaram na salva moedinhas de vintem. - -Todavia, o Bruno acabava afinal de despejar o que era da mulher e sahia -de novo de casa, dando uma volta feroz á fechadura. Atravessou por -entre o murmurante grupo dos curiosos que permanecia defronte da sua -porta, mudo, com a cara fechada, jogando os braços, como quem, apezar -de ter feito muito, não satisfizera ainda completamente a sua colera. - -Leocadia appareceu pouco depois e, vendo por terra tudo que era seu, -partido e inutilisado, apoderou-se de furia e avançou sobre a porta, -que o marido acabava de fechar, arremettendo com as nadegas contra as -duas folhas, que cederam logo, indo ella cahir lá dentro de barriga -para cima. - -Mas ergueu-se, sem fazer caso das risadas que rebentaram cá fóra e, -escancarando a janella com arremeço, começou por sua vez a arrazar e -destruir tudo que ainda encontrara em casa. - -Então principiou a verdadeira devastação. E a cada objecto que ella -varria para o pateo, gritava sempre: «Upa! Toma, diabo!» - ---Ahi vae o relogio! Upa! Toma, diabo! - -E o relogio espatifou-se na calçada. - ---Ahi vae o alguidar! - ---Ahi vae o jarro! - ---Ahi vão os copos! - ---O cabide! - ---O garrafão! - ---O bacio! - -Um riso geral, communicativo, absoluto, abafava o barulho da louça -quebrando-se contra as pedras. E Leocadia já não precisava acompanhar -os objectos com a sua phrase de imprecação, porque cada um d'elles era -recebido cá fóra com um côro que berrava: - ---Upa! Toma, diabo! - -E a limpeza proseguia. João Romão acudio de carreira, mas ninguem se -incommodou com a presença d'elle. Já defronte da porta do Bruno havia -uma montanha de cacos accumulados; e o destroço continuava ainda, -quando o ferreiro reappareceu, vermelho como malagueta, e foi galgando a -casa, com um raio de roda de carro na mão direita. - -Os circumstantes o seguiram, atropelladamente, num clamor. - ---Não dá! - ---Não póde! - ---Prende! - ---Não deixa bater! - ---Larga o páo! - ---Segura! - ---Aguenta! - ---Cérca! - ---Toma o porrete! - -E Leocadia escapou afinal das páoladas do marido, a quem o povaréo -desarmára num fecha-fecha. - ---Ordem! Ordem! Vá de rumor! exclamava o vendeiro, a quem, aproveitando -a confusão, haviam já ferrado um pontapé por detraz. - -O Alexandre, que vinha chegando do serviço n'esse momento, apressou-se -a correr para o logar do conflicto e cheio de autoridade, intimou o -Bruno a que se contivesse e deixasse a mulher em paz, sob pena de seguir -para a estação no mesmo instante. - ---Pois você não vê esta gallinha, que apanhei hoje com a boca na -botija, não me vem ainda por cima dar cabo de tudo?!... interrogou o -Bruno, espumando de raiva e quasi sem folego para fallar. - ---Porque você pôz em cacos o que é meu! gritou Leocadia. - ---Está bom! está bom! disse o policia, procurando dar á voz -inflexões autoritarias e reconciliadoras. Falle cada um por sua vez! -Seu marido ... accrescentou elle, voltando-se para a accusada, diz que a -senhora... - ---É mentira! interrompeu ella. - ---Mentira?! É boa! Tinhas a saia despida e um homem por cima! - ---Quem era?--Quem foi?--Quem era o homem? interrogaram todos a um só -tempo. - ---Quem era elle, no fim de contas? inquirio tambem Alexandre. - ---Não lhe pude ver as fuças!... respondeu o ferreiro; mas, se o -apanho, arrancava-lhe o sangue pelas costas! - -Houve um côro de gargalhadas. - ---É mentira! repetio Leocadia, agora succumbida por uma reacção de -lagrimas. Ha muito tempo que este malvado anda caçando pretexto para -romper commigo e, como eu não lh'o dou... - -Uma explosão de soluços a interrompeu. - -D'esta vez não riram, mas um bichanar de cochichos formou-se em torno -do seu pranto. - ---Agora ... continuou ella, enxugando os olhos na costa da mão; não -sei o que será de mim, porque este homem, além de tudo, escangalhou-me -até o que eu trouxe quando me casei com elle!... - ---Não disseste que já tinhas ahi dentro com que ganhar a vida?... E -andar! - ---É falso! soluçou Leocadia. - ---Bem, interveio Alexandre, embainhando o seu refle: está tudo -terminado! Seu marido vae recebel-a em boa paz... - ---Eu?! esfuziou o ferreiro. Você não me conhece! - ---Nem eu queria! retorquio a mulher. Prefiro metter-me com um cavallo de -tilbury a ter de aturar este bruto! - -E, catando em casa alguma coisa sua que ainda havia, e recolhendo do -montão dos cacos o que lhe pareceu aproveitavel, fez de tudo uma grande -trouxa e foi chamar um carregador. - -A Rita sahio-lhe ao encontro. - ---Para onde vais tu?... perguntou-lhe em voz baixa. - ---Não sei, filha, por ahi!... Hei de encontrar um furo!... Os cães -não vivem?... - ---Espera um instante ... disse a mulata. Olha, empurra a trouxa ahi para -dentro do meu commodo.--E correndo ao Albino, que lavava:--Passa-me no -sabão aquella roupa, ouviste? E, quando Firmo acordar, diz-lhe que -precisei ir á rua. - -Depois, deu um pulo ao quarto, mudou a saia molhada, atirou nos hombros -o seu chale de crochet e, batendo nas costas da campanheira, -segredou-lhe: - ---Anda cá commigo! não ficarás á tôa! - -E as duas sahiram, ambas sacudidas, deixando atraz de si suspensa a -curiosidade do cortiço inteiro. - - - - -IX - - -Passaram-se semanas. Jeronymo tomava agora, todas as manhãs, uma -chicara de café bem grosso, á moda da Ritinha, e tragava dois dedos de -paraty «pr'a cortar a friagem. » - -Uma transformação, lenta e profunda, operava-se n'elle, dia a dia, -hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num -trabalho mysterioso e surdo de chryzallida. A sua energia afrouxava -lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a -natureza do Brazil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e -seductores que o commoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de -ambição, para idealisar felicidades novas, picantes e violentas; -tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de -guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se -preguiçoso, resignando-se, vencido, ás imposições do sol e do calor, -muralha de fogo com que o espirito eternamente revoltado do ultimo -tamoyo entrincheirou a patria contra os conquistadores aventureiros. - -E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus habitos -singelos de aldeão portuguez: e Jeronymo abrasileirou-se. A sua casa -perdeu aquelle ar sombrio e concentrado que a entristecia; já -appareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos -de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o -jantar. A revolução afinal foi completa: a aguardente de canna -substituio o vinho; a farinha de mandioca succedeu á brôa; a carne -secca e o feijão preto ao bacalháo com batatas e ceboulas cozidas; a -pimenta malagueta e a pimenta de cheiro invadiram victoriosamente a sua -mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repellidos pelos -ruivos e gostosos quitutes bahianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo -carurú; a couve á mineira desthronou a couve á portugueza; o pirão de -fubá ao pão de rala, e, desde que o café encheu a casa com o seu -aroma quente, Jeronymo principiou a achar graça no cheiro do fumo e -não tardou a fumar tambem com os amigos. - -E o curioso é que, quanto mais ia elle cahindo nos usos e costumes -brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em -detrimento das suas forças physicas. Tinha agora o ouvido menos -grosseiro para a musica, comprehendia até as intenções poeticas dos -sertanejos, quando cantam á viola os seus amores infelizes; seus olhos, -d'antes só voltados para a esperança de tornar á terra, agora, como -os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céo e -mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do -Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros -illimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço, -surge um monarcha gigante, que o sol veste de oiro e ricas pedrarias -refulgentes e as nuvens toucam de alvos turbantes de cambraia, n'um luxo -oriental de arabicos principes voluptuosos. - -Ao passo que com a mulher, a S'ôra Piedade de Jesus, o caso mudava -muito de figura. Essa, feita de um só bloco, compacta, inteiriça e -tapada, recebia a influencia do meio só por fóra, na maneira de viver, -conservando-se inalteravel quanto ao moral, sem conseguir, á -semelhança do esposo, afinar a sua alma pela alma da nova patria que -adoptaram. Cedia passivamente nos habitos de existencia, mas no intimo -continuava a ser a mesma colona saudosa e desconsolada, tão fiel ás -suas tradições como a seu marido. Agora estava até mais triste; -triste porque o Jeronymo fazia-se outro; triste porque não se passava -um dia que lhe não notasse uma nova transformação; triste, porque -chegava a estranhal-o, a desconhecel-o, afigurando-se-lhe até que -commettia um adulterio, quando á noite acordava assustada ao lado -d'aquelle homem que não parecia o d'ella, aquelle homem que se lavava -todos os dias, aquelle homem que aos domingos punha perfumes na barba e -nos cabellos e tinha a boca cheirando a fumo. Que pesado desgosto não -lhe apertou o coração a primeira vez em que o cavouqueiro, repellindo -o caldo que ella lhe apresentava ao jantar, disse-lhe: - ---Ó filha! porque não experimentas tu fazer uns pitéos á moda de -cá?... - ---Mas é que não sei ... balbuciou a pobre mulher. - ---Pede então á Rita que t'o ensine... Aquillo não terá muito -q'aprender! Vê se me fazes por arranjar uns camarões, como ella -preparou aquelles d'outro dia. Souberam-me tão bem! - -Este resvalamento do Jeronymo para as coisas do Brasil, penalisavam -profundamente a infeliz creatura. Era ainda o instincto feminil que lhe -fazia prever que o marido, quando estivesse de todo brasileiro, não a -quereria para mais nada e havia de reformar a cama, assim como reformou -a mesa. - -Jeronymo, com effeito, pertencia-lhe muito menos agora do que d'antes. -Mal se chegava para ella; os seus carinhos eram frios e distrahidos, -dados como por condescendencia; já lhe não affagava os rins, quando os -dois ficavam a sós, malucando na sua vida commum; agora nunca era elle -que a procurava para o matrimonio, nunca; se ella sentia necessidade do -marido, tinha de provocal-o. E, uma noite, Piedade ficou com o coração -ainda mais apertado, porque elle, a pretexto de que no quarto fazia -muito calor, abandonou a cama e foi deitar-se no sofá da salinha. Desde -esse dia não dormiram mais ao lado um do outro. O cavouqueiro arranjou -uma rede e armou-a defronte da porta de entrada, tal qual como havia em -casa da Rita. - -Uma outra noite a coisa ainda foi peior. Piedade, certa de que o marido -não se chegava, foi ter com elle; Jeronymo fingio-se indisposto, -negou-se, e terminou por dizer-lhe, repellindo-a brandamente: - ---Não te queria fallar, mas ... sabes? deves tomar banho todos os dias -e ... mudar de roupa... Isto aqui não é como lá! Isto aqui sua-se -muito! É preciso trazer o corpo sempre lavado, que senão cheira-se -mal!... Tem paciencia! - -Ella desatou a soluçar. Foi uma explosão de resentimentos e desgostos -que se tinham accumulado no seu coração. Todas as suas magoas -rebentaram n'aquelle momento. - ---Agora estás tu a chorar! Ora, filha, deixa-te disso! Ella continuou a -soluçar, sem folego, dando arfadas com todo o corpo. - -O cavouqueiro, acrescentou no fim de um intervallo: - ---Então que é isto, mulher? Pôes-te agora a fazer tamanho escarcéo, -nem que se cuidasse de coisa séria! - -Piedade desabafou: - ---E que já não me queres! Já não és o mesmo homem para mim! D'antes -não me achavas que pôr, e agora até já te cheiro mal! - -E os soluços recrudesciam. - ---Não digas asnices, filha! - ---Ah! eu bem sei o que isto é!... - ---É bobagem tua, é o que é! - ---Maldita hora em que viemos dar ao raio d'esta estalagem! Antes me -tivéra cahido um calháo na cabeça! - ---Estás a queixar-te da sorte sem razão! Que Deus te não castigue! - -Esta resinga chamou outras que, com o correr do tempo, se foram -amiudando. Ah! já não havia duvida que mestre Jeronymo andava meio -cahido para o lado da Rita Bahiana; não passava pelo numero 9, sempre -que vinha á estalagem durante o dia, que não parasse á porta um -instante, para perguntar-lhe pela «saúdinha». O facto de haver a -mulata lhe offerecido o remedio, quando elle esteve incommodado, foi -pretexto para lhe fazer presentes amaveis, pôr os seus prestimos á -disposição d'ella e obsequial-a em extremo todas as vezes que a -visitava. Tinha sempre qualquer coisa para saber da sua boca, a respeito -da Leocadia, por exemplo; pois, desde que a Rita se arvorara em -protectora da mulher do ferreiro, Jeronymo affectava grande interesse -pela «pobrezinha de Christo.» - ---Fez bem, 'nhá Rita, fez bem!... A se'ora mostrou com isso que tem bom -coração... - ---Ah, meu amigo, n'este mundo hoje por mim, amanhã por ti!... - -Rita havia aboletado a amiga, a principio em casa de umas engommadeiras -do Catette, muito suas camaradas; depois passou-a para uma familia, a -quem Leocadia se alugou como ama secca; e agora sabia que ella acabava -de descobrir um bom arranjo n'um collegio de meninas. - ---Muito bem! muito bem! applaudia Jeronymo. - ---Ora, o que! O mundo é largo! sentenciou a Bahiana! Ha logar pr'o -gordo e ha logar pr'o magro! Bem tolo é quem se mata! - -Em uma das vezes em que o cavouqueiro perguntou-lhe, como de costume, -pela pobrezinha de Christo, a mulata disse que Leocadia estava gravida. - ---Gravida? mas então não é do marido!... - ---Póde bem ser que sim. Barriga de quatro mezes... - ---Ah! mas ella não foi ha mais tempo do que isso?... - ---Não. Vae fazer agora pelo São João quatro mezes justamente. - -Jeronymo já nunca pegava na guitarra senão para procurar acertar com -as modinhas que a Rita cantava. Em noites de samba era o primeiro a -chegar-se e o ultimo a ir embora; e durante o pagode ficava de queixo -bambo, a ver dansar a mulata, abstracto, pateta, esquecido de tudo; -babão. E ella, consciente do feitiço que lhe punha, ainda mais se -requebrava e remexia, dando-lhe embigadas ou fingindo que lhe limpava a -baba no queixo com a barra da saia. - -E riam-se. - -Não! definitivamente estava cahido! - -Piedade agarrou-se com a Bruxa para lhe arranjar um remedio que lhe -restituisse o seu homem. A cabocla velha fechou-se com ella no quarto, -accendeu vélas de cêra, queimou hervas aromaticas e tirou a sorte nas -cartas. - -E, depois de um jogo complicado de reis, valetes e damas, que ella -dispunha sobre a mesa caprichosamente, a resmungar a cada figura que -sahia do baralho uma phrase cabalistica, declarou convicta, muito calma, -sem tirar os olhos das suas cartas: - ---Elle tem a cabeça virada por uma mulher trigueira. - ---É o diacho da Rita Bahiana! exclamou a outra. Bem cá me palpitava por -dentro! Ai, o meu rico homem! - -E a chorar, limpando, afflicta, as lagrimas no avental de canhamo, -supplicou á Bruxa, pelas alminhas do purgatorio, que lhe remediasse -tamanha desgraça. - ---Ai, se perco aquella creatura, S'ôra Paula, lamuriou a infeliz entre -soluços; nem sei que virá a ser de mim n'este mundo de Christo!... -Ensine-me alguma coisa que me puxe o Jeromo! - -A cabocla disse-lhe que se banhasse todos os dias e désse a beber ao -seu homem, no café pela manhã, algumas gottas das aguas da lavagem; e, -se no fim de algum tempo, este regimen não produzisse o desejado -effeito, então cortasse um pouco dos cabellos do corpo, torrasse-os -até os reduzir a pó e lh'os ministrasse depois na comida. - -Piedade ouvio a receita com um silencio respeitoso e attento, o ar -compungido de quem recebe do medico uma sentença dolorosa para um -doente que estimamos. Em seguida, metteu na mão da feiticeira uma moeda -de prata, promettendo dar-lhe coisa melhor se o remedio tivesse bons -resultados. - -Mas não era só a portugueza quem se mordia com o descahimento do -Jeronymo para a mulata, era tambem o Firmo. Havia muito já que este -andava com a pulga atraz da orelha e, quando passava perto do -cavouqueiro, olhava-o atravessado. - -O capadocio ia dormir todas as noites com a Rita, mas não morava na -estalagem; tinha o seu commodo na officina em que trabalhava. Só pelos -domingos é que ficavam juntos durante o dia e então não relaxavam o -seu jantar de pandega. Uma vez em que elle gazéara o serviço, o que -não era raro, foi vel-a fóra das horas do costume e encontrou-a a -conversar junto á tina com o portuguez. Passou sem dizer palavra e -recolheu-se ao numero 9, onde ella foi logo ter de carreira. Firmo não -lhe disse nada a respeito das suas apprehensões, mas tambem não -escondeu o seu máo-humor; esteve impertinente e resingueiro toda a -tarde. Jantou de cara amarrada e durante o paraty, depois do café, só -fallou em rôlos, em dar cabeçadas e navalhadas, pintando-se terrivel, -recordando façanhas de capoeiragem, nas quaes sangrára taes e taes -typos de fama; «não contando dois gallegos que mandara pr'ás -minhocas, porque isso para elle não era gente!--Com um par de cocadas -boas ficavam de pés unidos pra sempre!» Rita percebeu os ciumes do -amigo e fez que não dera por coisa alguma. - -No dia seguinte, ás seis horas da manhã, quando elle sahia da casa -d'ella, encontrou-se com o portuguez, que ia para o trabalho, e o olhar -que os dois trocaram entre si era já um cartel de desafio. Entretanto, -cada qual seguio em silencio para o seu lado. - -Rita deliberou prevenir Jeronymo de que se acautelasse. Conhecia bem o -amante e sabia de quanto era elle capaz sob a influencia dos ciumes; -mas, na occasião em que o cavouqueiro desceu para almoçar, um novo -escandalo acabava de explodir, agora no numero 12, entre a velha -Marcianna e sua filha Florinda. - -Marcianna andava já desconfiada com a pequena, porque o fluxo mensal -d'esta se desregrára havia tres mezes, quando, n'esse dia, não tendo -as duas acabado ainda o almoço, Florinda se levantou da meza e foi de -carreira para o quarto. A velha seguio-a. A rapariga fôra vomitar ao -bacio. - ---Que é isto?... perguntou-lhe a mãe, apalpando-a toda com um olhar -inquiridor. - ---Não sei, mamãe... - ---Que sentes tu?... - ---Nada... - ---Nada, e estás lançando?... Hein?! - ---Não sinto nada, não senhora!... - -A mulata velha aproximou-se, desatou-lhe violentamente o vestido, -levantou-lhe as saias e examinou-lhe todo o corpo, tacteando-lhe o -ventre, já zangada. Sem obter nenhum resultado das suas diligencias, -correu a chamar a Bruxa, que era mais que entendida no assumpto. A -cabocla, sem se alterar, largou o serviço, enxugou os braços no -avental, e foi ao numero 12; tenteou de novo a mulatinha, fez-lhe varias -perguntas e mais á mãe, e depois disse friamente: - ---Está de barriga. - -E afastou-se, sem um gesto de surpreza, nem de censura. - -Marcianna, tremula de raiva, fechou a porta da casa, guardou a chave no -seio e, furiosa, cahio aos murros em cima da filha. Esta, em balde -tentando escapar-lhe, berrava como uma louca. - -Abandonaram-se logo todas as tinas do pateo e algumas das mezas do -frege, e o populacho, curioso e alvoroçado, precipitou-se para o numero -12, batendo na porta e ameaçando entrar pela janella. - -Lá dentro, a velha escarranchada sobre a rapariga que se debatia no -chão, perguntava-lhe gritando e repetindo: - ---Quem foi?! Quem foi?! - -E de cada vez desfechava-lhe um sopapo pelas ventas. - ---Quem foi?! - -A pequena berrava, mas não respondia. - ---Ah! não queres dizer por bem? Ora espera! - -E a velha ergueu-se para apanhar a vassoura ao canto da sala. - -Florinda, vendo imminente o cacete, levantou-se de um pulo, ganhou a -janella e cahio de um salto lá fóra, entre o povo amotinado. Coisa de -uns nove palmos de altura. - -As lavadeiras a apanharam, cuidando em defendel-a da mãe, que surgio -logo á porta, ameaçando para o grupo, terrivel e armada de páo. - -Todos procuraram chamal-a á razão: - ---Então que é isso, tia Marcianna?! Então que é isso?! - ---Que é isto?! É que esta assanhada está de barriga! Está ahi o que -é! Para tanto não lhe faltou geito, nem foi preciso que a gente -andasse atraz d'ella se matando, como succede sempre que ha um pouco -mais de serviço e é necessario puxar pelo corpo! Ora está ahi o que -é! - ---Bem, disse a Augusta, mas não lhe bata agora, coitada! Assim você -lhe dá cabo da pelle! - ---Não! Eu quero saber quem lhe encheu o bandulho! E ella ha de dizer -quem foi ou quebro-lhe os ossos! - ---Então, Florinda, diz logo quem foi... É melhor! aconselhou a das -Dôres. - -Fez-se em torno da rapariga um silencio avido, cheio de curiosidade. - ---Estão vendo?... exclamou a mãe. Não responde, este diabo! Mas -esperem, que eu lhes mostro se ella falla ou não! - -E as lavadeiras tiveram de agarrar-lhe os braços e tirar-lhe o cacete, -porque a velha queria crescer de novo para a filha. - -Ao redor d'esta a curiosidade assanhava-se cada vez mais. Estalavam -todos por saber quem a tinha emprenhado «Quem foi?! Quem foi?!» esta -phrase apertava-a num torniquete. Afinal, não houve outro remedio: - ---Foi seu Domingos ... disse ella, chorando e cobrindo o rosto com a -fralda do vestido, rasgado na lucta. - ---O Domingos!... - ---O caixeiro da venda!... - ---Ah! foi aquelle cara de nabo? gritou Marcianna. Vem cá! - -E, agarrando a filha pela mão, arrastou-a até a venda. - -Os circumstantes acompanharam-na ruidosamente e de carreira. - -A taverna, como a casa de pasto, ferviam de concurrencia. - -Ao balcão d'aquella, o Domingos e o Manoel aviavam os freguezes, numa -roda viva. Havia muitos negros e negras. O barulho era enorme. A Leonor -lá estava, sempre aos pulos, mexendo com um, mexendo com outro, -mostrando a dupla fila de dentes brancos e grandes, e levando apalpões -rudes de mãos de couro nas suas magras e escorridas nadegas de negrinha -virgem. Tres marujos inglezes bebiam gengibirra, cantando, ebrios, na -sua lingua e mascando tabaco. - -Marcianna na frente do grande grupo e sem largar o braço da filha, que -a seguia como um animal puxado pela colleira, ao chegar á porta lateral -da venda, berrou: - ---Ó seu João Romão! - ---Que temos lá? perguntou de dentro o vendeiro, atrapalhado de -serviço. - -Bertoleza, com uma grande colher de zinco gottejante de gordura, -appareceu á porta, muito ensebada e suja de tisna; e, ao ver tanta -gente reunida, gritou para seu homem: - ---Corre aqui, seu João, que não sei o que houve! - -Elle veio afinal. - -Que diabo era aquillo? - ---Venho entregar-lhe esta perdida! Seu caixeiro a cobrio, deve tomar -conta d'ella! - -João Romão ficou perplexo. - ---Hein?! Que é lá isso?! - ---Foi o Domingos! disseram muitas vozes. - ---Ó seu Domingos! - -O caixeiro respondeu: «Senhor...» com uma voz de delinquente. - ---Chegue cá! - -E o criminoso apresentou-se, livido de morte. - ---Que fez você com esta pequena? - ---Não fiz nada, não senhor!... - ---Foi elle, sim! desmentio-o a Florinda.--O caixeiro desviou os olhos, -para a não encarar.--Um dia de manhãzinha, ás quatro horas, no -capinzal, debaixo das mangueiras... - -O mulherio em massa recebeu estas palavras com um coro de gargalhadas. - ---Então o senhor anda-me aqui a fazer conquistas, hein?!... disse o -patrão, meneando a cabeça. Muito bem! Pois agora é tomar conta da -fazenda e, como não gosto de caixeiros amigados, póde procurar arranjo -n'outra parte!... - -Domingos não respondeu patavina; abaixou o rosto e retirou-se -lentamente. - -O grupo das lavadeiras e dos curiosos derramou-se então pela venda, -pelo portão da estalagem, pelo frege, por todos os lados, repartindo-se -em pequenos magotes que discutiam o facto. Principiaram os commentarios, -os juizos pró e contra o caixeiro; fizeram-se prophecias. - -Entretanto, Marcianna, sem largar a filha, invadira a casa de João -Romão e perseguia o Domingos que preparava já a sua trouxa. - ---Então? perguntou-lhe. Que tenciona fazer? - -Elle não deu resposta. - ---Vamos! vamos! falle! desembuche! - ---Ora lixe-se! resmungou o caixeiro; agora muito vermelho de colera. - ---Lixe-se, não!... Mais de vagar com o andôr! Você ha de casar: ella -é menor! - -Domingos soltou uma palavrada, que enfureceu a velha. - ---Ah, sim?! bradou esta. Pois veremos! - -E despejou da venda, gritando para todos: - ---Sabe? O cara de nabo diz que não casa! - -Esta phrase produzio o effeito de um grito de guerra entre as -lavadeiras, que se reuniram de novo, agitadas por uma grande -indignação. - ---Como, não casa?!... - ---Era só o que faltava! - ---Tinha graça! - ---Então mais ninguem póde contar com a honra de sua filha? - ---Se não queria casar pr'a que fez mal? - ---Quem não póde com o tempo não inventa modas! - ---Ou elle casa ou sáe d'aqui com os ossos em sôpa! - ---Quem não quer ser lobo não lhe vista a pelle! - -A mais empenhada n'aquella reparação era a Machona, e a mais indignada -com o facto era Dona Isabel. A primeira corrêra á frente da venda, -disposta a segurar o culpado, se este tentasse fugir. Com o seu exemplo -não tardou que em cada porta, por onde era possivel uma escapula, se -postassem as outras de sentinella, formando grupos de tres e quatro. E, -no meio de crescente algazarra, ouviam-se pragas ferozes e ameaças: - ---Das Dôres! toma cuidado, que o patife não espirre por ahi! - ---Ó seu João Romão, se o homem não casa, mande nol-o pra cá! Temos -ainda algumas pequenas que lhe convêm! - ---Mas onde está esse ordinario?! - ---Saia o canalha! - ---Está fazendo a trouxa! - ---Quer escapar! - ---Não deixa sahir! - ---Chama a policia! - ---Onde está o Alexandre? - -E ninguem mais se entendia. Á vista d'aquella agitação, o vendeiro -foi ter com o Domingos. - ---Não saia agora, ordenou-lhe. Deixe-se ficar por emquanto. Logo mais -lhe direi o que deve fazer. - -E chegando a uma das portas que davam para a estalagem, gritou: - ---Vá de rumor! Não quero isto aqui! É safar! - ---Pois então o homem que case! responderam. - ---Ou dê-nos pr'a cá o patife! - ---Fugir é que não! - ---Não foge! não deixa fugir! - ---Ninguem se arrede! - -E, como a Marcianna lhe lançasse uma injuria mais fórte, ameaçando-o -com o punho fechado, o taverneiro jurou que se ella insistisse com -desaforos, a mandaria jogar lá fóra, junto com a filha, por um urbano. - ---Vamos! Vamos! Volte cada uma para a sua obrigação, que eu não posso -perder tempo! - ---Ponha-nos então pr'a cá o homem! exigio a mulata velha. - ---Venha o homem! acompanhou o côro. - ---É preciso dar-lhe uma lição! - ---O rapaz casa! disse o vendeiro com ar sisudo. Já lhe fallei... Está -perfeitamente disposto! E, se não casar, a pequena terá o seu dote! -Vão descansados; respondo por elle ou pelo dinheiro! - -Estas palavras apaziguaram os animos; o grupo das lavadeiras afrouxou; -João Romão recolheu-se: chamou de parte o Domingos e disse-lhe que -não arredasse pé de casa antes de noite fechada. - ---No mais ... acrescentou; póde tratar de vida nova! Nada o prende -aqui. Estamos quites. - ---Como? se o senhor ainda não me fez as contas?!... - ---Contas? Que contas? O seu saldo não chega para pagar o dote da -rapariga!... - ---Então eu tenho de pagar um dote?!... - ---Ou casar... Ah, meu amigo, este negocio de tres vintens é assim! -Custa dinheiro! Agora, se você quizer, vá queixar-se á policia... -Está no seu direito! Eu me explicarei em juizo!... - ---Com que, não recebo nada?... - ---E não principie com muita coisa, que lhe fecho a porta e deixo-o -ficar ás turras lá fóra com esses damnados! Você bem vio como estão -todos a seu respeito! E, se ha pouco não lhe arrancaram os figados, -agradeça-o a mim! Foi preciso prometter dinheiro e tenho de cahir com -elle, de certo! mas não é justo, nem eu admitto, que saia da minha -algibeira, porque não estou disposto a pagar os caprichos de ninguem, e -muito menos dos meus caixeiros! - ---Mas... - ---Basta! Se quizer, por muito favor, ficar aqui até á noite, ha de -ficar calado; ao contrario, rua! - -E afastou-se. - -Marcianna resolveu não ir ao sub-delegado, sem saber que providencias -tomaria o vendeiro. Esperaria até ao dia seguinte «para ver só!» O -que n'esse ella fez foi dar uma boa lavagem na casa e arrumal-a muitas -vezes, como costumava, sempre que tinha lá as suas zangas. - -O escandalo não deixou de ser, durante o dia, discutido um só -instante. Não se fallava n'outra coisa; tanto que, quando, já á -noite, Augusta e Alexandre receberam uma visita da comadre, a Leonie, -era ainda esse o principal assumpto das conversas. - -Leonie, com as suas roupas exageradas e barulhentas de cocote á -franceza, levantava rumor quando lá ia e punha expressões de assombro -em todas as caras. O seu vestido de seda côr de aço, enfeitado de -encarnado sangue de boi, curto, petulante, mostrando uns sapatinhos á -moda com um salto de quatro dedos de altura; as suas luvas de vinte -botões que lhe chegavam até aos sovacos; a sua sombrinha vermelha, -sumida n'uma nuvem de rendas côr de rosa e com um grande cabo cheio de -arabescos extravagantes; o seu pantafaçudo chapéo de immensas abas -forradas de veludo escarlate, com um passaro inteiro grudado á copa; -as suas joias caprichosas, scintillantes de pedras finas: os seus labios -pintados de carmim; suas palpebras tingidas de violeta; o seu cabello -artificialmente loiro; tudo isto contrastava tanto com as vestimentas, -os costumes e as maneiras d'aquella pobre gente, que de todos os lados -surgiam olhos curiosos a espreital-a pela porta da casinha do Alexandre; -Augusta, ao ver a sua pequena, a Jujú, como vinha tão embonecada e -catita, ficou com os d'ella arrazados d'agoa. - -Leonie trazia sempre muito bem calçada e vestida a afilhada, levando o -capricho ao ponto de lhe mandar talhar a roupa da mesma fazenda com que -fazia as suas e pela mesma costureira; arranjava-lhe chapéos -escandalosos como os d'ella e dava-lhe joias. Mas, n'aquelle dia, a -grande novidade que Jujú apresentava era estar de cabellos loiros, -quando os tinha castanhos por natureza. Foi caso para uma revolução na -estalagem; a noticia correu logo de numero a numero, e muitos moradores -se abalaram do commodo para ver a filhita da Augusta «com cabellos de -franceza.» - -Tal successo pôz Leonie radiante de alegria. Aquella afilhada era o seu -luxo, a sua originalidade, a coisa boa da sua vida de cansaços -depravados; era o que aos seus proprios olhos a resgatava das -abjecções do officio. Prostituta de casa aberta, presava todavia com -admiração e respeito a honestidade vulgar da comadre; sentia-se -honrada com a sua estima; cobria-a de obsequios de toda a especie. Nos -instantes que estava ali, entre aquelles seus amigos simplorios, que a -matariam de ridiculo em qualquer outro logar, nem ella parecia a mesma, -pois até os olhos lhe mudavam de expressão. E não queria -preferencias: assentava-se no primeiro banco, bebia agoa pela caneca de -folha, tomava ao collo o pequenito da comadre e, ás vezes, descalçava -os sapatos para enfiar os chinellos velhos que encontrasse debaixo da -cama. - -Não obstante, o acatamento que lhe votavam Alexandre e a mulher não -tinha limites; pareciam capazes dos maiores sacrificios por ella. -Adoravam-na. Achavam-na boa de coração como um anjo, e muito linda nas -suas roupas de espavento, com o seu rostinho redondo, malicioso e -petulante, onde reluziam dentes mais alvos que um marfim. - -Jujú, com um embrulho de balas em cada mão, era carregada de casa em -casa, passando de braço a braço e levada de bocca em bocca, como um -idolo milagroso, que todos queriam beijar. - -E os elogios não cessavam: - ---Rica pequena!... - ---É um enlevo olhar a gente pr'o demoninho! - ---É mesmo uma lindeza de criança! - ---Uma criaturinha dos anjos! - ---Uma boneca franceza! - ---Uma menina Jesus! - -O pai acompanhava-a commovido, mas solemne sempre, parando a todo -momento, como em procissão, á espera que cada qual desafogasse por sua -vez o enthusiasmo pela criança. Silenciosamente risonho, com os olhos -humidos, patenteava em todo o seu carão mulato, de bigode que parecia -postiço, um ar condolente e estupido de um profundo reconhecimento por -aquella fortuna, que Deus lhe dera á filha, enviando-lhe dos ceus o -ideal das madrinhas. - -E, emquanto Jujú percorria a estalagem, conduzida em triumpho, Leonie -na casa da comadre, cercada por uma roda de lavadeiras e crianças, -discreteava sobre assumptos sérios, fallando compassadamente, cheia de -inflexões de pessoa pratica e ajuisada, condemnando máos actos e -desvarios, applaudindo a moral e a virtude. E aquellas mulheres, aliás -tão alegres e vivazes, não se animavam, defronte d'ella, a rir nem -levantar a voz, e conversavam a medo, cochichando, a tapar a bocca com a -mão, tolhidas de respeito pela cocote, que as dominava na sua -sobranceria de mulher loira vestida de seda e coberta de brilhantes. A -das Dôres sentio-se orgulhosa, quando Leonie lhe pousou no hombro a -mãozinha enluvada e rescendente, para lhe perguntar pelo seu homem. -E não se fartavam de olhar para ella, de admiral-a; chegavam a -examinar-lhe a roupa, revistar-lhe as saias, apalpar-lhe as meias, -levantando-lhe o vestido, com exclamações de assombro á vista de -tanto luxo de rendas e bordados. A visita sorria, por sua vez commovida. -Piedade declarou que a roupa branca da madama era rica nem como a da -Nossa Senhora da Penha. E Nênêm, no seu enthusiasmo, disse que a -invejava do fundo de coração, ao que a mãe lhe observou que não -fosse besta. O Albino contemplava-a em extasis, de mão no queixo, o -cotovelo no ar. A Rita Bahiana levára-lhe um ramalhete de rosas. Esta -não se illudia com a posição da loureira, mas dava-lhe apreço talvez -por isso mesmo e, em parte, porque a achava deveras bonita. «Ora! era -preciso ser bem esperta e valer muito para arrancar assim da pelle dos -homens ricos aquella porção de joias e todo aquelle luxo de roupa por -dentro e por fóra!» - ---Não sei, filha! pregava depois a mulata, no pateo, a uma companheira; -seja assim ou assado, a verdade é que ella passa muito bem de bocca e -nada lhe falta: sua boa casa; seu bom carro para passeiar á tarde; -theatro toda a noite; bailes quando quer e, aos domingos, corridas, -regatas, pagodes fóra da cidade e dinheirama grossa para gastar á -farta! Emfim, só o que afianço é que esta não está sujeita, como a -Leocadia e outras, a pontapés e cachações de um bruto de marido! É -dona das suas acções! livre como o lindo amor! Senhora do seu -corpinho, que ella só entrega a quem muito bem lhe der na veneta! - ---E Pombinha?... perguntou a visita. Não me appareceu ainda!... - ---Ah! esclareceu Augusta. Não está ahi, foi á sociedade de dansa com -a mãe. - -E, como a outra mostrasse na cara não ter comprehendido, explicou que a -filha de Dona Isabel ia todas as terças, quintas e sabbados, mediante -dois mil reis por cada noite, servir de dama n'uma sociedade em que os -caixeiros do commercio aprendiam a dansar. - ---Foi lá que ella conheceu o Costa... acrescentou. - ---Que Costa? - ---O noivo! Então a Pombinha já não foi pedida? - ---Ah, sei... - -E a cocote perguntou depois, abafando a voz: - ---E aquillo?... Já veio afinal?... - ---Qual! Não é por falta de boa vontade da parte d'ellas, coitadas! -Agora mesmo a velha fez uma nova promessa á Nossa Senhora da -Annunciação ... mas não ha meio! - -D'ahi a pouco, Augusta apresentou-lhe uma chicara de café, que Leonie -recusou por não poder beber. «Estava em uso de remedios...» Não -disse porém quaes eram estes, nem para que molestia os tomava. - ---Prefiro um copo de cerveja, declarou ella. - -E, sem dar tempo a que se oppuzessem, tirou da carteira urna nota de dez -mil reis, que deu a Agostinho para ir buscar tres garrafas de Carls -Berg. - -Á vista dos copos, liberalmente cheios, formou-se um silencio -enternecido. A cocote distribuio-os por sua propria mão aos -circumstantes, reservando um para si. Não chegavam. Quiz mandar buscar -mais; não lh'o permittiram, objectando que duas e tres pessoas podiam -beber juntas. - ---Para que gastar tanto?... Que alma grande! - -O troco ficou esquecido, de proposito, sobre a commoda, entre uma -infinita quinquilharia de coisas velhas e bem tratadas. - ---Quando você, comadre, agora me apparece por lá?... quiz saber -Leonie. - ---Pr'a semana, sem falta; levo-lhe toda a roupa. Agora, se a comadre tem -precisão de alguma ... póde-se apromptar com mais pressa... - ---Então é bom mandar-me toalhas e lençóes... Camisas de dormir, é -verdade! tambem tenho poucas. - ---Depois d'amanhã está tudo lá. - -E a noite ia se passando. Deram dez horas. Leonie, impaciente já pelo -rapaz que ficára de ir buscal-a, mandou ver se elle por acaso estaria -no portão, á espera. - ---E aquelle mesmo que veio da outra vez com a comadre?... - ---Não. É um mais alto. De cartola branca. - -Correu muita gente até á rua. O rapaz não tinha chegado ainda. Leonie -ficou contrariada. - ---Imprestavel!... resmungou. Faz-me ir sozinha por ahi ou incommodar -alguem que me acompanhe! - ---Porque a comadre não dorme aqui?... lembrou Augusta. Se quizer, -arranja-se tudo! Não passará bem como em sua casa, mas uma noite corre -depressa!... - -Não! não era possivel! Precisava estar em casa essa noite: no dia -seguinte pela manhã iriam procural-a muito cedo. - -N'isto chegou Pombinha com Dona Isabel. Disseram-lhes logo á entrada -que Leonie estava em casa do Alexandre, e a menina deixou a mãe um -instante no numero 15 e seguio sozinha para ali, radiante de alegria. -Gostavam-se muito uma da outra. A cocote recebeu-a com exclamações de -agrado e beijou-a nos dentes e nos olhos repetidas vezes. - ---Então, minha flôr, como está essa lindeza? perguntou-lhe, mirando-a -toda. - ---Saudades suas ... respondeu a moça, rindo bonito na sua bocca ainda -pura. - -E uma conversa amiga, cheia de interesse para ambas, estabeleceu-se, -isolando-as de todas as outras. Leonie entregou á Pombinha uma medalha -de prata que lhe trouxéra; uma tetéia que valia só pela exquisitice, -representando uma fatia de queijo com um camondongo em cima. Correu logo -de mão em mão, levantando espantos e gargalhadas. - ---Por um pouco que não me apanhas ... continuou a cocote na sua -conversa com a menina. Se a pessoa que me vem buscar tivesse chegado -já, eu estaria longe.--E mudando de tom, a acarinhar-lhe os -cabellos:--Porque não me appareces?... Não tens que receiar: minha -casa é muito socegada... Já lá tem ido familias!... - ---Nunca vou á cidade... É raro! suspirou Pombinha. - ---Vai amanhã com tua mãe; jantam as duas commigo... - ---Se mamãe deixar... Olha! ella ahi vem. Peça. - -Dona Isabel prometteu ir, não no dia seguinte, mas no outro immediato, -que era domingo. E a palestra durou animada até que chegou, d'ahi a um -quarto de hora, o rapaz por quem esperava Leonie. Era um moço de vinte -e poucos annos, sem emprego e sem fortuna, mas vestido com esmero e -muito bem apessoado. A cocote, logo que o vio approximar-se, disse -baixinho á menina: - ---Não é preciso que elle saiba que vais lá domingo, ouviste? - -Jujú dormia. Resolveram não acordal-a; iria no dia seguinte. - -Na occasião em que Leonie partia pelo braço do amante, acompanhada -até ao portão por um sequito de lavadeiras, a Rita, no pateo, beliscou -a coxa do Jeronymo e soprou-lhe á meia voz: - ---Não lhe cáia o queixo!... - -O cavouqueiro teve um desdenhoso sacudir d'hombros. - ---Aquella pr'a cá,nem pintada! - -E, para deixar bem patente as suas preferencias, virou o pé do lado e -bateu com o tamanco na canella da mulata. - ---Olha o bruto!... queixou-se esta, levando a mão ao logar da pancada. -Sempre ha de mostrar que é gallego! - - - - -X - - -No outro dia a casa do Miranda estava em preparos de festa. Lia-se no -«Jornal do Commercio» que S. Ex. fôra agraciado pelo governo -portuguez como titulo de Barão do Freixal; e como os seus amigos se -achassem prevenidos para ir comprimental-o no domingo, o negociante -dispunha-se a recebel-os condignamente. - -Do cortiço, onde esta novidade causou sensação, viam-se nas janellas -do sobrado, abertas de par em par, surgir de vez em quando Leonor ou -Izaura, a sacudirem tapetes e capachos, batendo-lhes em cima com um -páo, os olhos fechados, a cabeça torcida para dentro por causa da -poeira que a cada pancada se levantava, como fumaça de um tiro de -peça. Chamaram-se novos criados para aquelles dias. No salão da -frente, pretos lavavam o soalho, e na cozinha havia reboliço. Dona -Estella, de penteador de cambraia enfeitado de laços côr de rosa, era -lobrigada de relance, ora de um lado, ora de outro, a dar as suas -ordens, abanando-se com um grande leque; ou apparecia no patamar da -escada do fundo, preoccupada em soerguer as saias contra as aguas sujas -da lavagem, que escorriam para o quintal. Zulmira tambem ia e vinha, com -a sua pallidez fria e humida de menina sem sangue. Henrique, de paletó -branco, ajudava o Botelho nos arranjos da casa e, de instante a -instante, chegava á janella, para namoriscar Pombinha, que fingia não -dar por isso, toda embebida na sua costura, á porta do numero 15, numa -cadeira de vime, uma perna dobrada sobre a outra, mostrando a meia de -seda azul e um sapatinho preto de entrada baixa; só de longo em longo -espaço, ella desviava os olhos do serviço e erguia-os para o sobrado. -Entretanto, a figura gorda e encanecida do novo Barão, sobrecasacado, -com o chapéo alto derreado para traz na cabeça e sem largar o -guarda-chuva, entrava da rua e atravessava a sala de jantar, seguia até -á despensa, diligente e esbaforido, indagando se já tinha vindo isto e -mais aquillo, provando dos vinhos que chegavam em garrafões, examinando -tudo, voltando-se para a direita e para a esquerda, dando ordens, -ralhando, exigindo actividade, e depois tornava a sahir, sempre -apressado, e mettia-se no carro que o esperava á porta da rua. - ---Toca! toca! Vamos ver se o fogueteiro apromptou os fogos! - -E viam-se chegar, quasi sem intermittencia, homens carregados de gigos -de champanha, caixas de porto e bordeus, barricas de cerveja, cestos e -cestos de mantimentos, latas e latas de conserva; e outros traziam perus -e leitões, canastras d'óvos, quartos de carneiro e de porco. E as -janellas do sobrado iam-se enchendo de compoteiras de doce ainda quente, -sahido do fogo, e travessões, de barro e de ferro, com grandes peças -de carne em vinha d'alhos, promptos para entrar no forno. Á porta da -cozinha penduraram pelo pescoço um cabrito esfolado, que tinha as -pernas abertas, lembrando sinistramente uma criança a quem enforcassem -depois de tirar-lhe a pelle. - -Todavia, cá em baixo, um caso palpitante agitava a estalagem: Domingos, -o seductor da Florinda, desapparecêra durante a noite e um novo -caixeiro o substituia ao balcão. - -O vendeiro retorquia atravessado a quem lhe perguntava pelo evadido: - ---Sei cá! Creio que não podia trazel-o pendurado ao pescoço!... - ---Mas você disse que respondia por elle! repontou Marcianna, que -parecia ter envelhecido dez annos n'aquellas ultimas vinte e quatro -horas. - ---De accordo, mas o tratante cegou-me! Que havemos de fazer?... É ter -paciencia! - ---Pois então ande com o dote! - ---Que dote? Você está bebada? - ---Bebada, hein?! Ah, corja! tão bom é um como o outro! Mas eu hei de -mostrar! - ---Ora, não me amole! - -E João Romão virou-lhe as costas, para fallar á Bertoleza que se -chegára. - ---Deixa estar, malvado, que Deus é quem ha de punir por mim e por minha -filha! exclamou a desgraçada. - -Mas o vendeiro afastou-se, indifferente ás phrases que uma ou outra -lavadeira imprecava contra elle. Ellas, porém, já se não mostravam -tão indignadas como na vespera; uma só noite rolada por cima do -escandalo bastara para tirar-lhe o merito de novidade. - -Marcianna foi com a pequena á procura do sub-delegado e voltou -aborrecida, porque lhe disseram que nada se poderia fazer emquanto não -apparecesse o delinquente. Mãe e filha passaram todo esse sabbado na -rua, n'uma roda viva, da secretaria e das estações de policia para o -escriptorio de advogados que, um por um, lhes perguntavam de quanto -dispunham para gastar com o processo, despachando-as, sem mais -considerações, logo que se inteiravam da escassez de recursos de ambas -as partes. - -Quando as duas, prostradas de cansaço, esbrazeadas de calôr, tornaram -á tarde para a estalagem, na hora em que os homens do mercado, que ali -moravam, recolhiam-se já com os balaios vazios ou com o resto da fructa -que não conseguiram vender na cidade, Marcianna vinha tão furiosa que, -sem dar palavra á filha e com os braços moidos de esbordoal-a, abrio -toda a casa e correu a buscar agoa para baldear o chão. Estava -possessa. - ---Vê a vassoura! Anda! Lava! lava, que está isto n'uma porcaria! -Parece que nunca se limpa o diabo d'esta casa! É deixal-a fechada uma -hora e morre-se de fedor! Apre! isto faz peste! - -E notando que a pequena chorava:--Agora déste para chorar, hein?! mas -na occasião do relaxamento havias de estar bem disposta! - -A filha soluçou. - ---Cala-te, coisa ruim! Não ouviste? - -Florinda soluçou mais forte. - ---Ah! choras sem motivo?... Espera, que te faço chorar com razão! - -E precipitou-se sobre uma acha de lenha. - -Mas a mulatinha, de um salto, pinchou pela porta e atravessou de uma só -carreira o pateo da estalagem, fugindo em desfilada pela rua. - -Ninguem teve tempo de apanhal-a, e um clamor de gallinheiro assustado -levantou-se entre as lavadeiras. - -Marcianna foi até ao portão, como uma doida e, comprehendendo que a -filha a abandonava, desatou por sua vez a soluçar, de braços abertos, -olhando para o espaço. As lagrimas saltavam-lhe pelas rugas da cara. E -logo, sem transição, disparou da colera, que a convulsionava desde a -manhã da vespera, para cahir n'uma dôr humilde e enternecida de mãe -que perdeu o filho. - ---Para onde iria ella, meu pai do ceu?... - ---Pois você desd'hontem que bate na rapariga!... disse-lhe a Rita. -Fugio-lhe, é bem feito! Que diabo! ella é de carne, não é de ferro! - ---Minha filha! - ---É bem feito! Agora chore na cama, que é logar quente! - ---Minha filha! Minha filha! Minha filha! - -Ninguem quiz tomar o partido da infeliz, á excepção da cabocla velha, -que foi collocar-se perto d'ella, fitando-a, immovel, com o seu -desvairado olhar de bruxa feiticeira. - -Marcianna arrancou-se da abstração plangente em que cahira, para -arvorar-se terrivel defronte da venda, apostrophando com a mão no ar e -a carapinha desgrenhada: - ---Este gallego é que teve a culpa de tudo! Maldito sejas tu, ladrão! -Se não me déres conta de minha filha, malvado, pego-te fogo na casa! - -A bruxa sorrio sinistramente ao ouvir estas ultimas palavras. - -O vendeiro chegou á porta e ordenou em tom secco á Marcianna que -despejasse o numero 12. - ---É andar! é andar! Não quero esta berraria aqui! Bico, ou chamo um -urbano! Dou-lhe uma noite! amanhã pela manhã, rua! - -Ah! elle esse dia estava intolerante com tudo e com todos; por mais de -uma vez mandara Bertoleza á coisa mais immunda, apenas porque esta lhe -fizera algumas perguntas concernentes ao serviço. Nunca o tinham visto -assim, tão fora de si, tão cheio de repellões; nem parecia aquelle -mesmo homem inalteravel, sempre calmo e methodico. - -E ninguem seria capaz de acreditar que a causa de tudo isso era o facto -de ter sido o Miranda agraciado com o titulo de Barão. - -Sim, senhor! aquelle taverneiro, na apparencia tão humilde e tão -miseravel; aquelle sovina que nunca sahíra dos seus tamancos e da sua -camisa de riscadinho de Angola; aquelle animal que se alimentava peior -que os cães, para pôr de parte tudo, tudo, que ganhava ou extorquia; -aquelle ente atrophiado pela cobiça e que parecia ter abdicado dos seus -privilegios e sentimentos de homem; aquelle desgraçado, que nunca -jamais amára senão ao dinheiro, invejava agora o Miranda, invejava-o -devéras, com dobrada amargura do que soffrera o marido de Dona Estella, -quando, por sua vez, o invejara a elle. Acompanhára-o desde que o -Miranda viera habitar o sobrado com a familia; vira-o nas felizes -occasiões da vida, cheio de importancia, cercado de amigos e rodeado de -aduladores; vira-o dar festas e receber em sua casa as figuras mais -salientes da praça e da politica; vira-o luzir, como um grosso pião de -ouro, girando por entre damas da melhor e mais fina sociedade -fluminense; vira-o metter-se em altas especulações commerciaes e -sahir-se bem; vira seu nome figurar em varias corporações de gente -escolhida e em subscripções, assignando bellas quantias; vira-o fazer -parte de festas de caridade e festas de regosijo nacional; vira-o -elogiado pela imprensa e acclamado como homem de vistas largas e grande -talento financeiro; vira-o enfim em todas as suas prosperidades, e nunca -lhe tivera inveja. Mas agora, estranho deslumbramento! quando -o vendeiro leu no «Jornal do Commercio» que o visinho estava -barão--Barão!--sentio tamanho calafrio em todo o corpo, que a vista -por um instante se lhe apagou dos olhos. - ---Barão! - -E durante todo o santo dia não pensou n'outra coisa. «Barão!... Com -esta é que elle não contava!...» E, defronte da sua preoccupação, -tudo se convertia em commendas e crachás; até os modestos dois vintens -de manteiga, que media sobre um pedaço de papel de embrulho para dar ao -freguez, transformavam-se, de simples mancha amarella, em opulenta -insígnia de oiro cravejada de brilhantes. - -Á noite, quando se estirou na cama, ao lado da Bertoleza, para dormir, -não poude conciliar o somno. Por toda a miseria d'aquelle quarto -sordido; pelas paredes immundas, pelo chão enlameado de poeira e cebo, -nos tectos funebremente velados pelas teias de aranha, estrellavam -pontos luminosos que se iam transformando em gram-cruzes, em habitos e -veneras de toda a ordem e especie. E em volta do seu espirito, pela -primeira vez allucinado, um turbilhão de grandezas, que elle mal -conhecia e mal podia imaginar, perpassou vertiginosamente, em ondas de -seda e rendas, velludo e perolas, collos e braços de mulheres seminuas, -num fremir de risos e espumar aljofrado de vinhos côr de oiro. E nuvens -de caudas de vestido e abas de casaca lá iam, rodando deliciosamente, -ao som de langorosas valsas e á luz de candelabros de mil vélas de -todas as cores. E carruagens desfilavam reluzentes, com uma corôa á -portinhola, o cocheiro tezo, de libré, sopeando parelhas de cavallos -grandes. E interminaveis mezas estendiam-se, serpenteando a perder de -vista, accumuladas de iguarias, n'uma encantadora confusão de flores, -luzes, baixellas e crystaes, cercadas de um e de outro lado por luxuoso -renque de convivas, de taça em punho, brindando o amphitryão. - -E, porque nada d'isso o vendeiro conhecia de perto, mas apenas pelo -ruido namorador e fatuo, ficava deslumbrado com o seu proprio sonho. -Tudo aquillo, que agora lhe deparava o delirio, até ahi só lhe passara -pelos olhos ou lhe chegara aos ouvidos como o echo e reflexo de um mundo -inattingivel e longinquo; um mundo habitado por seres superiores; um -paraizo de gozos excellentes e delicados, que os seus grosseiros -sentidos repelliam; um conjuncto harmonioso e discreto de sons e côres -mal definidas e vaporosas; um quadro de manchas pallidas, sussurrantes, -sem firmezas de tintas, nem contornos, em que se não determinava o que -era petala de rosa ou aza de borboleta, murmurio de brisa ou ciciar de -beijos. - -Não obstante, ao lado d'elle a crioula roncava, de papo para o ar, -gorda, estrompada de serviço, tresandando a uma mistura de suor com -cebola crua e gordura podre. - -Mas João Romão nem dava por ella; só o que elle via e sentia era todo -aquelle voluptuoso mundo inaccessivel vir descendo para a terra, -chegando-se para o seu alcance, lentamente, accentuando-se. E as dubias -sombras tomavam forma, e as vozes duvidosas e confusas transformavam-se -em fallas distinctas, e as linhas desenhavam-se nitidas, e tudo ia se -esclarecendo e tudo se aclarava, n'um reviver de natureza ao raiar do -sol. Os tenues murmurios suspirosos desdobravam-se em orchestras de -baile, onde se distinguiam instrumentos, e os surdos rumores indefinidos -eram já animadas conversas, em que damas e cavalheiros discutiam -politica, artes, litteratura e sciencia. E uma vida inteira, completa, -real, descortinou-se amplamente defronte dos seus olhos fascinados; uma -vida fidalga, de muito luxo, de muito dinheiro; uma vida em palacio, -entre mobilias preciosas e objectos esplendidos, onde elle se via -cercado de titulares millionarios, e homens de farda bordada, a quem -tratava por tu, de igual para igual, pondo-lhes a mão no hombro. E ali -elle não era, nunca fôra, o dono de um cortiço, de tamancos e em -mangas de camisa; ali era o Sr. Barão! O Barão do oiro! o Barão das -grandezas! o Barão dos milhões! Vendeiro? Qual! era o famoso, o enorme -capitalista! o proprietario sem igual! o incomparavel banqueiro, em -cujos capitaes se equilibrava a terra, como immenso globo em cima de -columnas feitas de moedas de oiro. E vio-se logo montado a cavalleiras -sobre o mundo, pretendendo abarcal-o com as suas pernas curtas; na -cabeça uma corôa de rei e na mão um sceptro. E logo, de todos os -cantos do quarto, começaram a jorrar cascatas de libras esterlinas; e a -seus pés principiou a formar-se um formigueiro de pygmeus em grande -movimento commercial; e navios descarregavam pilhas e pilhas de fardos -e caixões marcados com as iniciaes do seu nome; e telegrammas faiscavam -electricamente em volta da sua cabeça; e paquetes de todas as -nacionalidades giravam vertiginosamente em torno do seu corpo de -colosso, arfando e apitando sem tregoa; e rapidos comboios a vapor -atravessavam-no todo, de um lado a outro, como se o cosessem com uma -cadeia de wagons. - -Mas, de repente, tudo desappareceu com a seguinte phrase: - ---Acorda, seu João, para ir á praia. São horas! - -Bertoleza chamava-o aquelle domingo, como todas as manhãs, para ir -buscar o peixe, que ella tinha de preparar para os seus freguezes. João -Romão, com medo de ser illudido, não confiava nunca dos empregados a -menor compra a dinheiro; n'esse dia, porém, não se achou com animo de -deixar a cama e disse á amiga que mandasse o Manoel. - -Seriam quatro da madrugada. Elle conseguio então passar pelo somno. - -Ás seis estava de pé. Defronte, a casa do Miranda resplandecia já. -Içaram-se bandeiras nas janellas da frente; mudaram-se as cortinas, -armaram-se florões de murta á entrada e recamaram-se de folhas de -mangueira o corredor e a calçada. Dona Estella mandou soltar foguetes e -queimar bombas ao romper da alvorada. Uma banda de musica, em frente á -porta do sobrado, tocava desde essa hora. O Barão madrugara com a -familia; todo de branco, com uma gravata de rendas, brilhantes no peito -da camisa, chegava de vez em quando a uma das janellas, ao lado da -mulher ou da filha, agradecendo para a rua; e limpava a testa com o -lenço; accendia charutos, risonho, feliz, resplandecente. - -João Romão via tudo isto com o coração moído. Certas duvidas -aborrecidas entravam-lhe agora a roer por dentro. Qual seria o melhor e -o mais acertado:--ter vivido como elle vivera até ali, curtindo -privações, em tamancos e mangas de camisa; ou ter feito como o -Miranda, comendo boas coisas e gosando á farta?... Estaria elle, João -Romão, habilitado a possuir e desfrutar tratamento igual ao do -visinho?... Dinheiro não lhe faltava para isso... Sim, de accordo! mas -teria animo de gastal-o assim, sem mais nem menos?... sacrificar uma boa -porção de contos de réis, tão penosamente accumulados, em troca de -uma tetéia para o peito?... Teria animo de dividir o que era seu, -tomando esposa, fazendo familia e cercando-se de amigos?... Teria animo -de encher de finas iguarias e vinhos preciosos a barriga dos outros, -quando até ali fôra tão pouco condescendente para com a propria?... -E, caso resolvesse mudar de vida radicalmente, unir-se a uma senhora bem -educada e distincta de maneiras, montar um sobrado como o do Miranda e -volver-se titular, estaria apto para o fazer?... poderia dar conta do -recado?... Dependeria tudo isso sómente da sua vontade?... «Sem nunca -ter vestido um paletó, como vestiria uma casaca?... com aquelles pés, -deformados pelo diabo dos tamancos, criados á solta, sem meias, como -calçaria sapatos de baile?... E suas mãos, callosas e mal tratadas, -duras como as de um cavouqueiro, como se ageitariam com a luva?... E -isso ainda não era tudo! O mais difficil seria o que tivesse de dizer -aos seus convidados!... Como deveria tratar as damas e cavalheiros, em -meio de um grande salão cheio de espelhos e cadeiras doiradas?... Como -se arranjaria para conversar, sem dizer barbaridades?... - -E um desgosto negro e profundo assoberbou-lhe o coração, um desejo -forte de querer saltar e um medo invencivel de cahir e quebrar as -pernas. Afinal, a dolorosa desconfiança de si mesmo e a terrivel -convicção da sua impotencia para pretender outra coisa que não fosse -ajuntar dinheiro, e mais dinheiro, e mais ainda, sem saber para que e -com que fim, acabaram azedando-lhe de todo a alma e tingindo de fel a -sua ambição e despolindo o seu oiro. «Fôra urna besta!... pensou de -si proprio, amargurado: uma grande besta!... Pois não! porque em tempo -não tratára de habituar-se logo a certo modo de viver, como faziam -tantos outros seus patricios e collegas de profissão?... Porque, como -elles, não aprendêra a dansar? e não frequentára sociedades -carnavalescas? e não fôra de vez em quando á rua do Ouvidor e aos -theatros, e a bailes, e a corridas e a passeios?... Porque se não -habituara com as roupas finas, e com o calçado justo, e com a bengala, -e com o lenço, e com o charuto, e com o chapéo, e com a cerveja, e com -tudo que os outros usavam naturalmente, sem precisar de privilegio para -isso?... Maldita economia!» - ---Teria gasto mais, é verdade?... Não estaria tão bem!... mas, ora -adeus! estaria habilitado a fazer do meu dinheiro o que bem quizesse!... -Seria um homem civilisado!... - ---Você deu hoje pr'a conversar com as almas, seu João?... -perguntou-lhe Bertoleza, notando que elle fallava sozinho, distrahido do -serviço. - ---Deixe-me! Não me amole você tambem. Não estou bom hoje! - ---Ó gentes! não fallei por mal!... Crédo! - ---'Stá bem! Basta! - -E o seu máo humor aggravou-se pelo correr do dia. Começou a implicar -com tudo. Arranjou logo uma péga, á entrada da venda, com o fiscal da -rua: «Pois elle era lá algum parvo, que tivesse medo de ameaças de -multas?... Se o bolas do fiscal esperava comel-o por uma perna, como -costumava fazer com os outros, que experimentasse, para ver só quanto -lhe custaria a festa!... E que lhe não rosnasse muito, que elle não -gostava de cães á porta!... Era andar!» Pegou-se depois com a -Machona, por causa de um gato d'esta, que, a semana passada, lhe fôra -ao taboleiro do peixe frito. Parava defronte das tinas vazias, -encolerisado, procurando pretextos para ralhar. Mandava, com um berro, -sahirem as crianças do seu caminho: «Que praga de piolhos! Arre, -demonio! Nunca vira gente tão damnada para parir! Pareciam ratas!» Deu -um encontrão no velho Liborio. - ---Sai tu tambem do caminho, fona de uma figa! Não sei que diabo fica -fazendo cá no mundo um caco velho como este, que já não presta para -nada! - -Protestou contra os gallos de um alfaiate, que se divertia a fazel-os -brigar, no meio de grande roda enthusiasmada e barulhenta. Vituperou os -italianos, porque estes, na alegre independencia do domingo, tinham á -porta da casa uma esterqueira da cascas de melancia e laranja, que elles -comiam tagarelando, assentados sobre a janella e a calçada. - ---Quero isto limpo! bramava furioso. Está peior que um chiqueiro de -porcos! Apre! Tomára que a febre amarella os lamba a todos! maldita -raça de carcamanos! Hão de trazer-me isto asseiado ou vai tudo para o -olho da rua! Aqui mando eu! - -Com a pobre velha Marcianna, que não tratára de despejar o numero 12, -conforme a intimação da vespera, a sua furia tocou ao delirio. A -infeliz, desde que Florinda lhe fugira, levava a choramingar e -maldizer-se, monologando com persistencia maniaca. Não pregou olho -durante toda a noite; sahíra e entrára na estalagem mais de vinte -vezes, irrequieta, ululando, como uma cadella a quem roubaram o -cachorrinho. - -Estava apatetada; não respondia ás perguntas que lhe dirigiam. João -Romão fallou-lhe; ella nem sequer se voltou para ouvir. E o vendeiro, -cada vez mais excitado, foi buscar dois homens e ordenou que esvaziassem -o numero 12. - ---Os tarecos fóra! e já! Aqui mandou eu! Aqui sou eu monarcha! - -E tinha gestos inflexiveis de despota. - -Principiou o despejo. - ---Não! aqui dentro não! Tudo lá fóra! na rua! gritou elle, quando os -carregadores quizeram depôr no pateo os trens de Marcianna. Lá fóra -do portão! Lá fóra do portão! - -E a misera, sem oppôr uma palavra, assistia ao despejo, acocorada na -rua, com os joelhos juntos, as mãos crusadas sobre as canellas, -resmungando. Transeuntes paravam, a olhal-a. Formava-se já um grupo de -curiosos. Mas ninguem entendia o que ella rosnava; era um rabujar -confuso, interminavel, acompanhado de um unico gesto do cabeça, triste -e automatico. Ali perto, o colchão velho, já rôto e destripado, os -moveis desconjuntados e sem verniz, as trouxas de molambos uteis, as -louças ordinarias e sujas do uso, tinham, tudo amontoado e sem ordem, -um ar indecoroso de interior de quarto de dormir, devassado em flagrante -intimidade. E veio o homem dos cinco instrumentos, que aos domingos -apparecia sempre; e fez-se o entra e sáe dos mercadores; e lavadeiras -ganharam a rua em trajos de passeio, e os taboleiros de roupa engommada, -que sabiam, cruzaram-se com os saccos de roupa suja, que entravam; e -Marcianna não se movia do seu lugar, monologando. João Romão -percorreu o numero 12, escancarando as portas, a dar arres e empurrando -para fóra, com o pé, algum trapo ou algum frasco vazio que lá ficára -abandonado; e a enxotada, indifferente a tudo, continuava a sussurrar -funebremente. Já não chorava, mas os olhos tinha-os ainda relentados -na sua muda fixidez. Algumas mulheres da estalagem iam ter com ella de -vez em quando, agora de novo compungidas, e faziam-lhe offerecimentos; -Marcianna não respondia. Quizeram obrigal-a a comer; não houve meio. A -desgraçada não prestava attenção a coisa alguma; parecia não dar -pela presença de ninguem. Chamaram-na pelo nome repetidas vezes; ella -persistia no seu inintelligivel monologo, sem tirar a vista de um ponto. - ---Cruzes! parece que lhe deu alguma! - -A Augusta chegára-se tambem. - ---Teria ensandecido?... perguntou á Rita, que, a seu lado olhava para a -infeliz, com um prato de comida na mão. Coitada! - ---Tia Marcianna! dizia a mulata. Não fique assim! Levante-se! Metta os -seus trens pr'a dentro! Vá lá pr'a casa até encontrar arrumação!... - -Nada! O monologo continuava. - ---Olhe que vai chover! Não tarda a cahir agoa! Já senti dois pingos na -cara. - -Qual! - -A Bruxa, a certa distancia, fitava-a com estranheza, igualmente immovel, -como por um effeito de suggestão. - -Rita affastou-se, porque acabava de chegar o Firmo, acompanhado pelo -Porfiro, trazendo ambos embrulhos para o jantar. O amigo da das Dôres -tambem veio. Deram tres horas da tarde. A casa do Miranda continuava em -festa animada, cada vez mais cheia de visitas; lá dentro a musica quasi -que não tomava folego, enfiando quadrilhas e valsas; moças e meninas -dansavam na sala da frente, com muito riso; desarrolhavam-se garrafas a -todo o instante; os criados iam e vinham, de carreira, da sala de jantar -á despensa e á cozinha, carregados de copos em salvas; Henrique, suado -e vermelho, apparecia de quando em quando á janella, impaciente por -não ver Pombinha, que estava esse dia de passeio com a mãe em casa de -Leonie. - -João Romão, depois de serrazinar na venda com os caixeiros e com a -Bertoleza, tornou ao pateo da estalagem, queixando-se de que tudo ali ia -muito mal. Censurou os trabalhadores da pedreira, nomeando o proprio -Jeronymo, cuja força physica aliás o intimidára sempre. «Era um -relaxamento aquella porcaria de serviço! Havia tres semanas que estavam -com uma broca á tôa, sem atar, nem desatar; afinal ahi chegára o -domingo e não se havia ainda lascado fogo! Uma verdadeira calaçaria! O -tal seu Jeronymo, d'antes tão apurado, era agora o primeiro a dar o -máo exemplo! perdia noites no samba! não largava os rastros da Rita -Bahiana e parecia embeiçado por ella! Não tinha geito!» Piedade, -ouvindo o vendeiro dizer mal do seu homem, saltou em defeza d'este com -duas pedras na mão, e uma contenda travou-se, assanhando todos os -animos. Felizmente, a chuva, cahindo em cheio, veio dispersar o -ajuntamento que se tornava serio. Cada um correu para o seu buraco, n'um -alvoroço exagerado; as crianças despiram-se e vieram cá fóra tomar -banho debaixo das gotteiras, por pagode, gritando, rindo, saltando e -atirando-se ao chão, a espernearem; fingindo que nadavam. E lá -defronte, no sobrado, ferviam brindes, emquanto a agoa jorrava -copiosamente, alagando o pateo. - -Quando João Romão entrou na venda, recolhendo-se da chuva, um caixeiro -entregou-lhe um cartão do Miranda. Era um convite para lá ir á noite -tomar uma chavena de chá. - -O vendeiro, a principio, ficou lisongeado com o obsequio, primeiro -d'esse genero que em sua vida recebia; mas logo depois voltou-lhe a -colera com maior impeto ainda. Aquelle convite irritava-o como um -ultraje, uma provocação. «Porque o pulha o convidára, devendo saber -que elle de certo lá não ia?... Para que, senão para o enfreneziar -ainda mais do que já estava?!... Seu Miranda que fosse á tabúa com a -sua festa e com os seus titulos!» - ---Não preciso d'elle para nada!... exclamou o vendeiro. Não preciso, -nem dependo de nenhum safardana! Se gostasse de festas, dava-as eu! - -No emtanto, começou a imaginar como sería, no caso que estivesse -prevenido de roupa e acceitasse o convite; figurou-se bem vestido, de -panno fino, com uma boa cadeia de relogio, uma gravata com alfinete de -brilhante; e vio-se lá em cima, no meio da sala, a sorrir para os -lados, prestando attenção a um, prestando attenção a outro, -discretamente silencioso e affavel, sentindo que o citavam dos lados em -voz mortiça e respeitosa como um homem rico, cheio de independencia. E -adivinhava os olhares approbativos das pessoas sérias; os oculos -curiosos das velhas assestados sobre elle, procurando ver se estaria ali -um bom arranjo para uma das filhas de menor cotação. - -N'esse dia servio mal e porcamente aos freguezes; tratou aos repellões -a Bertoleza e, quando, já ás cinco horas, deu com a Marcianna, que, -uns negros por compaixão haviam arrastado para dentro da venda, -disparatou: - ---Ora bolas! Pr'a que diabo me mettem em casa este estupor?! Gosto de -ver taes caridades com o que é dos outros! Isto aqui não é acoito de -vagabundos!... - -E, como um policia, todo encharcado de chuva, entrasse para beber um -gole de paraty, João Romão voltou-se para elle e disse-lhe:--Camarada, -esta mulher é gira! não tem domicilio, e eu não hei de, quando fechar -a porta, ficar com ella aqui dentro da venda! - -O soldado sahio e, d'ahi a coisa de uma hora, Marcianna era carregada -para o xadrez, sem o menor protesto e sem interromper o seu monologo de -demente. Os cacaréos foram recolhidos ao deposito publico por ordem do -inspector do quarteirão. E a Bruxa era a unica que parecia deveras -impressionada com tudo aquillo. - -Entretanto, a chuva cessou completamente, o sol reappareceu, como para -despedir-se; andorinhas esgaivolaram no ar; e o cortiço palpitou -inteiro na trefega alegria do domingo. Nas salas do barão a festa -engrossava, cada vez mais estrepitosa; de vez em quando vinha de lá uma -taça quebrar-se no pateo da estalagem, levantando protestos e -surriadas. - -A noite chegou muito bonita, com um bello luar de lua cheia, que -começou ainda com o crepusculo; e o samba rompeu mais forte e mais cedo -que de costume, incitado pela grande animação que havia em casa do -Miranda. - -Foi um forrobodó valente. A Rita Bahiana essa noite estava de veia para -a coisa; estava inspirada! divina! Nunca dansára com tanta graça e -tamanha lubricidade! - -Tambem cantou. E cada verso que vinha da sua bocca de mulata era um -arulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bebado de volupia, -enroscava-se todo ao violão; e o violão e elle gemiam com o mesmo -gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos -sensuaes, n'um desespero de luxuria que penetrava até ao tutano com -lingoas finissimas de cobra. - -Jeronymo não poude conter-se: no momento em que a bahiana, offegante de -cansaço, cahio exhausta, assentando-se ao lado d'ella, o portuguez -segredou-lhe com a voz estrangulada de paixão: - ---Meu bem! se você quizer estar commigo, dou uma perna ao demo! - -O mulato não ouvio, mas notou o cochicho e ficou, de má cara, a rondar -disfarçadamente o rival. - -O canto e a dansa continuavam todavia, sem afrouxar. Entrou a das -Dôres. Nênêm, mais uma amiga sua, que fôra passar o dia com ella, -rodavam de mãos nas cadeiras, rebolando em meio de uma volta de palmas -cadenciadas, no acompanhamento do rhythmo requebrado da musica. - -Quando o marido de Piedade disse um segundo cochicho á Rita, Firmo -precisou empregar grande esforço para não ir logo ás do cabo. - -Mas, lá pelo meio do pagode, a bahiana cahira na imprudencia de -derrear-se toda sobre o portuguez e soprar-lhe um segredo, requebrando -os olhos. Firmo, de um salto, aprumou-se então defronte d'elle, -medindo-o de alto a baixo com um olhar provocador e atrevido. Jeronymo, -tambem posto de pé, respondeu altivo com um gesto igual. - -Os instrumentos calaram-se logo. Fez-se um profundo silencio. Ninguem se -mexeu do logar em que estava. E, no meio da grande roda, illuminados -amplamente pelo capitoso luar de Abril, os dois homens, perfilados -defronte um de outro, olhavam-se em desafio. - -Jeronymo era alto, espadaúdo, construcção de touro, pescoço de -Hercules, punho de quebrar um côco com um murro: era a força -tranquilla, o pulso de chumbo. O outro--franzino, um palmo mais baixo -que o portuguez, pernas e braços seccos, agilidade de maracajá: era a -força nervosa; era o arrebatamento que tudo desbarata no sobresalto do -primeiro instante. Um, solido e resistente; o outro, ligeiro e -destemido; mas ambos corajosos. - ---Senta! Senta! - ---Nada de rôlo! - ---Segue a dansa! gritaram em volta. - -Piedade erguêra-se para arredar o seu homem d'ali. - -O cavouqueiro afastou-a com um empurrão, sem tirar a vista de cima do -mulato. - ---Deixa-me ver o que quer de mim este cabra!... rosnou elle. - ---Dar-te um banho de fumaça, gallego ordinario! respondeu Firmo, frente -a frente; agora avançando e recuando, sempre com um dos pés no ar, e -bamboleando todo o corpo e meneando os braços, como preparado para -agarral-o. - -Jeronymo, esbravecido pelo insulto, cresceu para o adversario com um -socco armado; o cabra, porém, deixou-se cahir de costas, rapidamente, -firmando-se nas mãos, o corpo suspenso, a perna direita levantada; e o -sôco passou por cima, varando o espaço, emquanto o portuguez apanhava -no ventre um pontapé inesperado. - ---Canalha! berrou possesso; e ia precipitar-se em cheio sobre o mulato, -quando uma cabeçada o atirou no chão. - ---Levanta-te, que não dou em defuntos! exclamou o Firmo, de pé, -repetindo a sua dansa de todo o corpo. - -O outro erguêra-se logo e, mal se tinha equilibrado, já uma rasteira o -tombava para a direita, emquanto da esquerda elle recebia uma tapona na -orelha. Furioso, desferio novo sôco, mas o capoeira deu para traz um -salto de gato e o portuguez sentio um pontapé nos queixos. - -Espirrou-lhe sangue da bocca e das ventas. Então fez-se um clamor -medonho. As mulheres quizeram metter-se de permeio, porém o cabra as -emborcava com rasteiras rapidas, cujo movimento de pernas apenas se -percebia. Um horrivel sarilho se formava. João Romão fechou ás -pressas as portas da venda e trancou o portão da estalagem, correndo -depois para o logar da briga. O Bruno, os mascates, os trabalhadores da -pedreira, e todos os outros que tentaram segurar o mulato, tinham rolado -em torno d'elle, formando-se uma roda limpa, no meio da qual o terrivel -capoeira, fóra de si, doido, reinava, saltando a um tempo para todos os -lados, sem consentir que ninguem se approximasse. O terror arrancava -gritos agudos. Estavam já todos assustados, menos a Rita que, a certa -distancia, via, de braços crusados, aquelles dois homens a se baterem -por causa d'ella; um ligeiro sorriso encrespava-lhe os labios. A lua -escondêra-se; mudara o tempo: o céo, de limpo que estava, fizéra-se -côr de lousa; sentia-se um vento humido de chuva. Piedade berrava, -reclamando policia; tinha levado um troca-queixos do marido, porque -insistia em tiral-o da lucta. As janellas do Miranda accumulavam-se de -gente. Ouviam-se apitos, soprados com desespero. - -N'isto, echoou na estalagem um bramido de féra enraivecida: Firmo -acabava de receber, sem esperar, uma formidavel cacetada na cabeça. É -que Jeronymo havia corrido á casa e armára-se com o seu varapáo -minhoto. E então o mulato, com o rosto banhado de sangue, refilando as -prezas e espumando de colera, erguêra o braço direito, onde se vio -scintillar a lamina de uma navalha. - -Fez-se uma debandada em volta dos dois adversarios, estrepitosa, cheia -de pavor. Mulheres e homens atropellavam-se, cahindo uns por cima dos -outros. Albino perdera os sentidos; Piedade clamava, estarrecida e em -soluços, que lhe iam matar o homem; a das Dôres soltava censuras e -maldições contra aquella estupidez de se destriparem por causa de -entre-pernas de mulher; a Machona, armada com um ferro de engommar, -jurava abrir as fuças a quem lhe désse um segundo coice como acabava -ella de receber um nas ancas; Augusta enfiára pela porta do fundo da -estalagem, para atravessar o capinzal e ir á rua ver se descobria o -marido, que talvez estivesse de serviço no quarteirão. Por esse lado -acudiam curiosos, e o pateo enchia-se de gente de fóra. Dona Isabel e -Pombinha, de volta da casa de Leonie, tiveram difficuldade em chegar ao -numero 15, onde, mal entraram, fecharam-se por dentro, praguejando a -velha contra a desordem e lamentando-se da sorte que as lançou -n'aquelle inferno. Em tanto, no meio de uma nova roda, encintada pelo -povo, o portuguez e o brasileiro batiam-se. - -Agora a lucta era regular: havia igualdade de partidos, porque o -cavouqueiro jogava o páo admiravelmente; jogava-o tão bem quanto o -outro jogava a sua capoeiragem. Embalde Firmo tentava alcançal-o; -Jeronymo, sopesando ao meio a grossa vara na mão direita, girava-a com -tal pericia e ligeireza em torno do corpo, que parecia embastilhado por -uma teia impenetravel e sibilante. Não se lhe via a arma, só se ouvia -um zunido do ar simultaneamente cortado em todas as direcções. - -E, ao mesmo tempo que se defendia, atacava. O brasileiro tinha já -recebido páoladas na testa, no pescoço, nos hombros, nos braços, no -peito, nos rins e nas pernas. O sangue inundava-o inteiro; elle rugia e -arfava, iroso e cansado, investindo ora com os pés, ora com a cabeça, -e livrando-se d'aqui, livrando-se d'ali, aos pulos e ás cambalhotas. - -A victoria pendia para o lado do portuguez. Os espectadores -acclamavam-no já com enthusiasmo; mas, de subito, o capoeira mergulhou, -n'um relance, até ás canellas do adversario e surgio-lhe rente dos -pés, grudado n'elle, rasgando-lhe o ventre com uma navalhada. - -Jeronymo soltou um mugido e cahio de borco, segurando os intestinos. - ---Matou! Matou! Matou! exclamaram todos com assombro. - -Os apitos esfuziaram mais assanhados. - -Firmo varou pelos fundos do cortiço e desappareceu no capinzal. - ---Pega! Pega! - ---Ai, o meu rico homem! ululou Piedade, atirando-se de joelhos sobre o -corpo ensanguentado do marido. Rita viera tambem de carreira lançar-se -ao chão junto d'elle, para lhe afagar as barbas e os cabellos. - ---É preciso o doutor! supplicou aquella, olhando para os lados á -procura de uma alma caridosa que lhe valesse. - -Mas n'isto um estardalhaço de formidaveis pranchadas estrugio no -portão da estalagem. O portão abalou com estrondo e gemeu. - ---Abre! Abre! reclamavam de fóra. - -João Romão atravessou o pateo, como um general em perigo, gritando a -todos: - ---Não entra a policia! Não deixa entrar! Aguenta! Aguenta! - ---Não entra! Não entra! repercutio a multidão em côro. - -E todo o cortiço ferveu que nem uma panella ao fogo. - ---Aguenta! Aguenta! - -Jeronymo foi carregado para o quarto, a gemer, nos braços da mulher e -da mulata. - ---Aguenta! Aguenta! - -De cada casulo espipavam homens armados de páo, achas de lenha, varaes -de ferro. Um empenho collectivo os agitava agora, a todos, n'uma -solidariedade briosa, como se ficassem deshonrados para sempre se a -policia entrasse ali pela primeira vez. Emquanto se tratava de uma -simples lucta entre dois rivaes, estava direito! «Jogassem lá as -cristãs, que o mais homem ficaria com a mulher!» mas agora tratava-se -de defender a estalagem, a communa, onde cada um tinha a zelar por -alguem ou alguma coisa querida. - ---Não entra! Não entra! - -E berros atroadores respondiam ás pranchadas, que lá fóra se repetiam -ferozes. - -A policia era o grande terror d'aquella gente, porque, sempre que -penetrava em qualquer estalagem, havia grande estropicio: á capa de -evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos, -quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão -de odio velho. - -E, emquanto os homens guardavam a entrada do capinzal e sustentavam de -costas o portão da frente, as mulheres, em desordem, rolavam as tinas, -arrancavam giráos, arrastavam carroças, restos de colchões e saccos -de cal, formando ás pressas uma barricada. - -As pranchadas multiplicavam-se. O portão rangia, estalava, começava a -abrir-se; ia ceder. Mas a barricada estava feita e todos entrincheirados -atraz d'ella. Os que entraram de fora por curiosidade não puderam sahir -e viam-se mettidos no surumbamba. As cercas das hortas voaram. A Machona -terrivel fungára as saias e empunhava na mão o seu ferro de engommar. -A das Dôres, que ninguem dava nada por ella, era uma das mais duras e -que parecia mais empenhada na defeza. - -Afinal o portão lascou; um grande rombo abrio se logo; cahiram taboas; -e os quatro primeiros urbanos que se precipitaram dentro foram recebidos -a pedradas e garrafas vazias. Seguiram-se outros. Havia uns vinte. Um -sacco de cal, despejado sobre elles, desnorteou-os. - -Principiou então o sarilho grosso. Os sabres não podiam alcançar -ninguem por entre a trincheira; ao passo que os projectis, arremeçados -lá de dentro, desbaratavam o inimigo. Já o sargento tinha a cabeça -partida e duas praças abandonavam o campo, á falta de ar. - -Era impossivel invadir aquelle baluarte com tão poucos elementos, mas a -policia teimava, não mais por obrigação que por necessidade pessoal -de desforço. Semelhante resistencia os humilhava. Se tivessem -espingardas fariam fogo. O unico d'elles que conseguio trepar á -barricada, rolou de lá abaixo sob uma carga de páo e teve de ser -carregado para a rua pelos companheiros. O Bruno, todo sujo de sangue, -estava agora armado de um refle e o Porfiro, mestre na capoeiragem, -linha na cabeça uma barretina de urbano. - ---Fóra os morcegos! - ---Fóra! Fóra! - -E, a cada exclamação, tome pedra! tome lenha! tome cal! tome fundo de -garrafa! - -Os apitos estridulavam mais e mais fortes. - -N'essa occasião, porém, Nênêm gritou, correndo na direcção da -barricada. - ---Acudam aqui! Acudam aqui! Ha fogo no numero 12. Está sahindo fumaça! - ---Fogo! - -A este grito um panico geral apoderou-se dos moradores do cortiço. Um -incendio lamberia aquellas cem casinhas emquanto o diabo esfrega um -olho! - -Fez-se logo medonha confusão. Cada qual pensou em salvar o que era seu. -E os policias, aproveitando o terror dos adversarios, avançaram com -impeto, levando na frente o que encontravam e penetrando emfim no -infernal reducto, a dar espadeiradas para a direita e para a esquerda, -como quem destroça uma boiada. A multidão atropellava-se, -desembestando n'um alarido. Uns fugiam á prisão; outros cuidavam em -defender a casa. Mas as praças, loucas de colera, mettiam dentro as -portas e iam invadindo e quebrando tudo, sequiosas de vingança. - -N'isto, roncou no espaço a trovoada. O vento do norte zunio mais -estridente e um grande pé d'agoa desabou cerrado. - - - - -XI - - -A Bruxa, por influencia suggestiva da loucura de Marcianna, peiorou do -juizo e tentou incendiar o cortiço. - -Emquanto os companheiros o defendiam a unhas e dentes, ella, com todo o -disfarce, carregava palha e sarrafos para o numero 12 e preparava uma -fogueira. Felizmente acudiram a tempo; mas as consequencias foram do -mesmo modo desastrosas, porque muitas outras casinhas, escapando como -aquella ao fogo, não escaparam á devastação da policia. Algumas -ficaram completamente assoladas. E a coisa seria ainda mais feia, se -não viera o providencial agoaceiro apagar tambem o outro incendio ainda -peior, que, de parte a parte, lavrava nos animos. A policia retirou-se -sem levar nenhum preso. «A ir um, iriam todos á estação! Deus te -livre! Demais, para que? o que ella queria fazer, fez! Estava -satisfeita!» - -Apezar do empenho do João Romão, ninguem conseguio descobrir o autor -da sinistra tentativa, e só muito tarde cada qual cuidou de pregar -olho, depois de reaccommodar, entre plangentes lamentações, o que se -salvou do destroço. O tempo levantou de novo á meia noite. Ao romper -da aurora já muita gente estava de pé e o vendeiro passava uma revista -minuciosa no pateo, avaliando e carpindo, inconsolavel e furioso, o seu -prejuizo. De vez em quando soltava uma praga. Além do que escangalharam -os urbanos dentro das casas, havia muita tina partida, muito giráo -quebrado, lampeões em fanicos, hortas e cercas arrazadas; o portão da -frente e a taboleta foram reduzidos a lenha. João Romão meditava, para -cobrir o damno, carregar um imposto sobre os moradores da estalagem, -augmentando-lhes o aluguel dos commodos e o preço dos generos. Vio-se -n'uma dobadoira durante o dia inteiro; desde pela manhã déra logo os -providencias para que tudo voltasse aos seus eixos o mais depressa -possivel: mandou buscar novas tinas; fabricar novos giráos e concertar -os quebrados; pôz gente a remendar o portão e a taboleta. Ao meio dia -teve de comparecer á presença do subdelegado na secretaria da policia. -Foi mesmo em mangas de camisa e sem meias; muitos do cortiço o -acompanharam, quer por espirito de camaradagem, quer por simples -curiosidade. - -Uma verdadeira patuscada esse passeio á cidade! Parecia uma romaria; -algumas mulheres levavam os seus pequenitos ao collo; um magote de -italianos ia á frente, macarroneando, a fumar cachimbo; alguns -cantavam. Ninguem tomou bonde; e por toda a viagem discutiram e -altercaram em grande troça, commentando com gargalhadas e chalaças -gordas o que iam encontrando, a chamar a attenção das ruas por onde -desfilava a ruidosa farandula. - -A sala da policia encheu-se. - -O interrogatorio, exclusivamente dirigido a João Romão, era respondido -por todos a um só tempo, a despeito dos protestos e das ameaças da -autoridade, que se vio tonta. Nenhum d'elles nada esclarecia e todos se -queixavam da policia, exagerando as perdas recebidas na vespera. - -A respeito de como se travara o conflicto e quem o provocara, o -taverneiro declarou que nada podia saber ao certo, porque na occasião -se achava ausente da estalagem. Do que tinha certeza era de que as -praças lhe invadiram a propriedade e poseram em cacos tudo o que -encontraram, como se aquillo lá fosse roupa de francez! - ---Bem feito! bradou o subdelegado. Não resistissem! - -Um côro de respostas assanhadas levantou-se para justificar a -resistencia. «Ah! Estavam mais que fartos de ver o que pintavam os -morcegos, quando lhes não sabia alguem pela frente! Esbodegavam até á -ultima, só pelo gostinho de fazer mal! Pois então uma creatura, porque -estava a divertir-se um bocado com os amigos, havia de ser aperreada que -nem boi ladrão?... Tinha lá geito?... Os rôlos era sempre a policia -quem os levantava com as suas furias! Não se mettesse ella na vida de -quem vivia socegado no seu canto, e não sahiria tanto barulho!...» -Como de costume, o espirito de collectividade, que unia aquella gente em -circulo de ferro, impedio que transpirasse o menor vislumbre de -denuncia. O subdelegado, depois de dirigir-se inutilmente a um por um, -despachou o bando, que fez logo a sua retirada, no meio de uma -alacridade mais quente ainda que a da ida. - -Lá no cortiço, de portas a dentro, podiam esfaquear-se a vontade, que -nenhum d'elles, e muito menos a victima, seria capaz de apontar o -criminoso; tanto que o medico, que, logo depois da invasão da policia, -desceu da casa do Miranda á estalagem, para soccorrer Jeronymo, não -conseguio arrancar d'este o menor esclarecimento sobre o motivo da -navalhada. «Não fôra nada!... Não fôra de proposito!.. Estavam a -brincar e succedêra aquillo!... Ninguem tivera a menor intenção de -fazer-lhe móssa!...» - -Rita mostrou-se de uma incansavel solicitude para com o ferido. Foi ella -quem correu a buscar os remedios, quem servio de ajudante ao medico e -quem servio de enfermeiro ao doente. Muitos lá iam, demorando-se um -instante, para dar fé; ella, porém, desde que Jeronymo se achou -operado, não lhe abandonou a cabeceira; ao passo que Piedade, afflicta -e atarantada, não fazia senão chorar e arreliar-se. - -A mulata, essa não chorava; mas a sua physionomia tinha uma profunda -expressão de magoa enternecida. Agora toda ella se sentia apegar-se -áquelle homem bom e forte; áquelle gigante inoffensivo; áquelle -hercules tranquillo, que mataria o Firmo com uma punhada, mas que, na -sua boa fé, se deixára navalhar pelo facinora. «E tudo por causa -d'ella! só por ella!» Seu coração de mulher rendia-se captivo a -semelhante dedicação ensanguentada e dolorosa. E elle, o misero, -interrompia as contracções do rosto para sorrir defronte dos olhos -enamorados da bahiana, feliz n'aquella desgraça que lhe permittia gosar -dos seus carinhos. E tomava-lhe as mãos, e cingia-lhe a cintura, -resignado e commovido, sem uma palavra, sem um gesto, mas a dizer bem -claro, na sua dôr silenciosa e quieta de animal ferido, que a amava -muito, que a amava loucamente. - -Rita affagava-o, já sem a menor sombra de escrupulo, tratando-o por tu, -ameigando-lhe os cabellos sujos de sangue com a polpa macia da sua mão -feminil. E, ali mesmo em presença da mulher d'elle, só faltava -beijal-o com a boca, que com os olhos o devorava de beijos ardentes e -sequiosos. - -Depois da meia noite dada, ella e Piedade ficaram sozinhas velando o -enfermo. Deliberou-se que este iria pela manhã para a Ordem de Santo -Antonio, de que era irmão. E, com effeito, no dia immediato, emquanto o -vendeiro e seu bando andavam lá ás voltas com a policia, e o resto do -cortiço formigava, tagarelando em volta do concerto das tinas e -giráos, Jeronymo, ao lado da mulher e da Rita, seguia dentro de um -carro para o hospital. - -As duas só voltaram de lá á noite, cahindo de fadiga. De resto, toda -a estalagem estava igualmente prostrada e morrendo pela cama, se bem que -n'esse dia as lavadeiras em geral gazeassem o trabalho; as que tinham -roupa com mais pressa foram lavar fóra ou arrastaram bacias de banho -para debaixo das bicas, á falta de melhor vasilha para o serviço. -Discutio-se a campanha da vespera sem variar de assumpto. Aqui era um -que lembrava as suas proezas com os urbanos, descrevendo enthusiasmado -os pormenores da lucta; ali, outro repetia, cheio de empafia, os -desaforos que dissera depois nas bochechas da autoridade; mais adiante -trocavam se queixas e recriminações; cada qual, mulheres e homens, -soffrêra o seu prejuizo ou a sua arranhadura, e mostravam entre si, -numa febre de indignação os objectos partidos ou a parte do corpo -escoriada. - -Mas ás nove da noite já não havia viva alma no pateo da estalagem. A -venda fechou-se um pouco mais cedo que de costume. Bertoleza atirou-se -ao colchão, estrompada; João Romão recolheu-se junto d'ella, porém -não conseguio dormir: sentia calafrios e pontadas na cabeça. Chamou -pela amiga, a gemer, e pedio-lhe que lhe désse alguma coisa para suar. -Suppunha estar com febre. - -A crioula só descansou quando, muitas horas adiante, depois de -mudar-lhe a roupa, o vio pegar no somno; e, d'ahi a pouco, ás quatro da -madrugada, erguia-se ella, com estalos de juntas, a bocejar, fungando no -seu estremunhamento pesadão, e pigarreando forte. Acordou o caixeiro -para ir ao mercado; gargarejou um pouco d'agoa á torneira da cozinha e -foi fazer fogo para o café dos trabalhadores, riscando phosphoros e -accendendo cavacos num fogareiro, donde começaram a borbotar grossos -novelos de fumo espesso. - -Lá fóra clareava já, e a vida renascia no cortiço. A lucta de todos -os dias continuava, como se não houvera interrupção. Principiava o -borborinho. Aquella noite bem dormida punha-os a todos de bom humor. - -Pombinha, entretanto, nessa manhã acordara abatida e nervosa, sem animo -de sahir dos lençóes. Pedio café á mãe, bebeu, e tornou a -abraçar-se nos travesseiros, escondendo o rosto. - ---Não te sentes melhor hoje, minha filha?... perguntou-lhe Dona Isabel, -apalpando-lhe a testa. Febre não tens. - ---Ainda sinto o corpo molle ... mas não é nada... Isto passa!... - ---Foi de tanto gelo, que tomaste em casa da madama!... Não te dizia?... -Agora, o melhor é dar-te um escalda-pés!... - ---Não! não, por amor de Deus! D'aqui a pouco estou em pé! - -Ás oito horas, com effeito, levantava-se e fazia, indolentemente, o -alinho da cabeça, defronte do seu modesto lavatorio de ferro. Dir-se-ia -sem forças para a menor coisa; toda ella transpirava uma contemplativa -melancolia de convalescente; havia uma doce expressão dolorosa na -limpidez crystallina de seus olhos de moça enferma; um pobre sorriso -pallido a entreabrir-lhe as petalas da boca, sem lhe alegrar os labios, -que pareciam resequidos á mingoa de beijos de amor; assim a delicada -planta murcha, languece e morre, se carinhosa borboleta não vae sacudir -sobre ella as azas prenhes de fecundo e doirado pollen. - -O passeio á casa de Leonie fizera-lhe muito mal. Trouxe de lá -impressões e intimos vexames, que nunca mais se apagariam por toda a -sua vida. - -A cocote recebeu-a de braços abertos, radiante com apanhal-a junto de -si, n'aquelles divans fôfos e traidores, entre todo aquelle luxo -extravagante e requintado, proprio para os vicios grandes. Ordenou á -criada que não deixasse entrar ninguem, ninguem, nem mesmo o Bebê, e -assentou-se ao lado da menina, bem juntinho uma da outra, tomando-lhe as -mãos, fazendo-lhe uma infinidade de perguntas, e pedindo lhe beijos, -que saboreava gemendo, de olhos fechados. - -Dona Isabel suspirava tambem, mas d'outro modo; na sua parva -comprehensão do conforto, aquelles impertinentes espelhos, aquelles -moveis casquilhos e aquellas cortinas escandalosas arrancavam-lhe -saudosas recordações do bom tempo e avivavam a sua impaciencia por -melhor futuro. - -Ai! assim Deus quizesse ajudal-a!... - -Ás duas da tarde, Leonie, por sua propria mão, servio ás visitas um -pequeno lunch de _foie-gras_, presunto e queijo, acompanhado de -champanha, gelo e agoa de Seltz; e, sem se descuidar um instante da -rapariga, tinha para ella extremas solicitudes de namorado: levava-lhe -a comida á boca, bebia do seu copo, apertava-lhe os dedos por debaixo -da mesa. - -Depois da refeição, Dona Isabel, que não estava habituada a tomar -vinho, sentio vontade de descansar o corpo; Leonie franqueou-lhe um bom -quarto, com boa cama, e, mal percebeu que a velha dormia, fechou a porta -pelo lado de fóra, para melhor ficar em liberdade com a pequena. - -Bem! Agora estavam perfeitamente a sós! - ---Vem cá, minha flôr!... disse-lhe, puxando-a contra si e deixando-se -cahir sobre um divan. Sabes? Eu te quero cada vez mais!... Estou louca -por ti! - -E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que suffocavam a -menina, enchendo-a de espanto e de um instinctivo temor, cuja origem a -pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era. - -A cocote percebeu o seu enleio e ergueu-se, sem largar-lhe a mão. - ---Descansemos nós tambem um pouco... propôz, arrastando-a para a -alcova. - -Pombinha assentou-se, constrangida, no rebordo da cama e, toda perplexa, -com vontade de affastar-se, mas sem animo de protestar, por acanhamento, -tentou reatar o fio da conversa, que ellas sustentavam um pouco antes, -á meza, em presença de Dona Isabel. Leonie fingia prestar-lhe -attenção e nada mais fazia do que affagar-lhe a cintura, as coxas e o -collo. Depois, como que distrahidamente, começou a desabotoar-lhe o -corpinho do vestido. - ---Não! Para que?... Não quero despir-me... - ---Mas faz tanto calor... Põe-te a gosto... - ---Estou bem assim. Não quero! - ---Que tolice a tua! Não vês que sou mulher, tolinha?... De que tens -medo?... Olha! Vou dar o exemplo! - -E, n'um relance, desfez-se da roupa, e proseguio na campanha. - -A menina, vendo-se descomposta, crusou os braços sobre o seio, vermelha -de pudor. - ---Deixa! segredou-lhe a outra, com os olhos envesgados, a pupilla -tremula. - -E, apezar dos protestos, das supplicas e até das lagrimas da infeliz, -arrancou-lhe a ultima vestimenta, e precipitou-se contra ella, a -beijar-lhe todo o corpo, a empolgar-lhe com os labios o roseo bico do -peito. - ---Oh! Oh! Deixa d'isso! Deixa d'isso! reclamava Pombinha, estorcendo-se -em cócegas, e deixando ver preciosidades de nudez fresca e virginal, -que enlouqueciam a prostituta. - ---Que mal faz?... Estamos brincando... - ---Não! não! balbuciou a victima, repellindo-a. - ---Sim! Sim! insistio Leonie, fechando-a entre os braços, como entre -duas columnas e pondo em contacto com o d'ella todo o seu corpo nú. - -Pombinha arfava, reluctando; mas o attrito d'aquellas duas grossas pomas -irrequietas sobre o seu mesquinho peito de donzella impubere, e o roçar -vertiginoso d'aquelles cabellos asperos e crespos nas estações mais -sensitivas da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a polvora do -sangue, desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos. - -Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes, fremindo-lhe a carne em -crispações de espasmo; ao passo que a outra, por cima, doida de -luxuria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos de egoa, bufando e -relinchando. - -E mettia-lhe a lingoa tersa pela bocca e pelas orelhas, e esmagava-lhe -os olhos debaixo dos seus beijos lubrificados de espuma, e mordia-lhe o -lobulo dos hombros, e agarrava-lhe convulsivamente o cabello, como se -quizesse arrancal-o aos punhados. Até que, com um assomo mais forte, -devorou-a num abraço de todo o corpo, ganindo ligeiros gritos, seccos, -curtos, muito agudos, e a final desabou para o lado, exanime, inerte, os -membros atirados n'um abandono de bebado, soltando de instante a -instante um soluço estrangulado. - -A menina voltára a si e torcêra-se logo em sentido contrario á -adversaria, cingindo-se rente aos travesseiros e abafando o seu pranto, -envergonhada e corrida. - -A impudica, mal orientada ainda e sem conseguir abrir os olhos, procurou -animal-a, ameigando-lhe a nuca e as espaduas. Mas Pombinha parecia -inconsolavel, e a outra teve de erguer-se a meio e puxal-a como uma -criança para o seu collo, onde ella foi occultando o rosto, a soluçar -baixinho. - ---Não chores assim, meu amor!... - -Pombinha continuou a soluçar. - ---Vamos! Não quero ver-te d'este modo!... Estás zangada commigo?... - ---Não volto mais aqui! nunca mais! exclamou por fim a donzella, -desgalgando o leito para vestir-se. - ---Vem cá! Não sejas ruim! Ficarei muito triste se estiveres mal com a -tua negrinha!... Anda! Não me feches a cara!... - ---Deixe-me! - ---Vem cá, Pombinha! - ---Não vou! Já disse! - -E vestia-se com movimentos de raiva. Leonie saltara para junto d'ella e -pôz-se a beijar-lhe, á força, os ouvidos e o pescoço, fazendo-se -muito humilde, adulando-a, compromettendo-se a ser sua escrava e -obedecer-lhe como um cachorrinho, com tanto que aquella tyranna não se -fosse assim zangada. - ---Faço tudo! tudo! mas não fiques mal commigo! Ah! se soubesses como -eu te adoro!... - ---Não sei! Largue-me! - ---Espera! - ---Que amolação! Oh! - ---Deixa de tolice!... Escuta, por amor de Deus! Pombinha acabava de -encasar o ultimo botão do corpinho, e repuxava o pescoço e sacudia os -braços, ajustando bem a sua roupa ao corpo. Mas Leonie cahíra-lhe aos -pés, enleando-a pelas pernas e beijando-lhe as saias. - ---Olha!... Ouve!... - ---Deixe-me sahir! - ---Não! Não has de ir zangada, ou faço aqui um escandalo dos diabos! - ---É que mamãe já acordou com certeza!... - ---Que acordasse! - -Agora a meretriz defendia a porta da alcova. - ---Oh! meu Deus! Deixe-me sahir! - ---Não deixo, sem fazermos as pazes... - ---Que aborrecimento! - ---Dá-me um beijo! - ---Não dou! - ---Pois então não sabes! - ---Eu grito! - ---Pois grita! Que me importa? - ---Arrede-se d'ahi, por favor!... - ---Faz as pazes... - ---Não estou zangada, creia! Estou é indisposta... Não me sinto boa! - ---Mas eu faço questão do beijo! - ---Pois bem! Está ahi! - -E beijou-a. - ---Não quero assim! Foi dado de má vontade!... - -Pombinha deu-lhe outro. - ---Ah! Agora bem! Espera um nada! Deixa arranjar-me! É um instante! - -Em tres tempos, lavou-se ligeiramente no bidé, endireitou o penteado -defronte do espelho, n'um movimento rapido de dedos, e empoou-se, e -perfumou-se, e enfiou camisa, anagoa e penteador, tudo com uma -expedição de quem está habituada a vestir-se muitas vezes por dia. E, -prompta, correu uma vista d'olhos pela menina, desenrugou-lhe a saia, -concertou-lhe melhor os cabellos e, readquerindo o seu ar tranquillo de -mulher ajuisada, tomou-a pela cintura e levou-a vagarosamente até á -sala de jantar, para tomarem vermouth com gazoza. - -O jantar foi ás seis e meia. Correu frio, não tanto per parte de -Pombinha, que aliás se mostrava bem incommodada, como porque Dona -Isabel, dormindo até o momento de a chamarem para mesa, sentia-se -aziada com o _foie-gras_. A dona da casa, todavia não se forrou a -desvelos e fez por alegral-as rindo e contando anecdotas burlescas. Ao -café appareceu Jujú, que a criada levára a passeiar desde logo depois -do almoço, e uma affectação de agrados levantou-se em torno da -pequerrucha. Leonie pôz-se a conversar com ella, fallando como -criança, dizendo-lhe que mostrasse a Dona Isabel «o seu papatinho -novo!» - -Mais tarde, no terraço, emquanto fumava um cigarro, tomou a mão de -Pombinha e metteu-lhe no dedo um annel com um diamante cercado de -perolas. A menina recusou o mimo, formalmente. Foi precisa a -intervenção da velha para que ella consentisse em aceital-o. - -Ás oito horas retiraram-se as visitas, seguindo direitinho para a -estalagem. Durante toda a viagem Pombinha parecia preoccupada e triste. - ---Que tens tu?... perguntou-lhe a mãe duas vezes. - -E de ambas a filha respondeu: - ---Nada! aborrecimento... - -No pouco que dormio essa noite, que foi a do barulho com a policia, teve -sonhos agitados e passou mal todo o dia seguinte, com mollezas de febre -e dôres no utero. Não arredou pé de casa, nem para ver os destroços -do conflicto. A noticia do desfloramento e da fuga de Florinda, como a -da loucura da velha Marcianna, produziram-lhe grande abalo nos nervos. - -Na manhã immediata, a despeito de fazer-se forte, torceu o nariz ao -pobre almoço que Dona Isabel lhe apresentou carinhosa. Persistiam-lhe -as dôres uterinas, não vivas, mas constantes. Não teve animo de pegar -na costura, e um livro que ella tentou ler foi por varias vezes -repellido. - -As onze para o meio dia era tal o seu constrangimento e era tal o seu -desasocego entre as apertadas paredes do numero 15, que, máo grado os -protestos da velha, sahio a dar uma volta por detraz do cortiço, á -sombra dos bambús e das mangueiras. - -Uma irresistivel necessidade de estar só, completamente só, uma -afflicção de conversar comsigo mesma, a apartavam do seu estreito -quarto suffocante, tão tristonho e tão pouco amigo. Pungia-lhe na -brancura da alma virgem um arrependimento incisivo e negro das torpezas -da ante-vespera; mas, lubrificada por essa recordação, toda a sua -carne ria e rejubilava-se, presentindo delicias que lhe pareciam -reservadas para mais tarde, junto de um homem amado; dentro d'ella -balbuciavam desejos, até ahi mudos e adormecidos; e mysterios -desvendavam-se no segredo do seu corpo, enchendo-a de surpreza e -mergulhando-a em fundas concentrações de extasis. Um ineffavel -quebranto afrouxava-lhe a energia e destendia-lhe os musculos com uma -embriaguez de flôres traiçoeiras. - -Não poude resistir: assentou-se debaixo das arvores, um cotovelo em -terra, a cabeça reclinada contra a palma da mão. - -Na doce tranquillidade d'aquella sombra morna, ouviam-se retinir -distantes a picareta dos homens da pedreira e o martello dos ferreiros -na forja. E o canto dos trabalhadores, ora mais claro, ora mais -duvidoso, acompanhando o marulhar dos ventos, ondeava no espaço, -melancolico e sentido, como um côro religioso de penitentes. - -O calor tirava do capim um cheiro sensual. - -A moça fechou as palpebras, vencida pelo seu delicioso entorpecimento, -e estendeu-se de todo no chão, de barriga para o ar, braços e pernas -abertas. - -Adormeceu. - -Começou logo a sonhar que em de redor ia tudo se fazendo de um côr de -rosa, a principio muito leve e transparente, depois mais carregado, e -mais, e mais, até formar-se em torno d'ella uma floresta vermelha, côr -de sangue, onde largos tinhorões rubros se agitavam lentamente. - -E vio-se núa, toda núa, exposta ao céo, sob a tepida luz de um sol -embriagador, que lhe batia de chapa sobre os seios. - -Mas, pouco a pouco, seus olhos, posto que bem abertos, nada mais -enxergavam do que uma grande claridade palpitante, onde o sol, feito de -uma só mancha reluzente, oscillava como um pendulo phantastico. - -Entretanto, notava que, em volta da sua nudez aloirada pela luz, iam-se -formando ondulantes camadas sanguineas, que se agitavam, desprendendo -aromas de flor. E, rodando o olhar, percebeu, cheia de encantos, que se -achava deitada entre petalas gigantescas, no regaço de uma rosa -interminavel, em que seu corpo se atufava como em ninho de velludo -carmezim, bordado de oiro, fofo, macio, trescalante e morno. - -E suspirando, espreguiçou-se toda n'um enleio de volupia ascetica. - -Lá do alto o sol a fitava obstinadamente, enamorado das suas mimosas -fórmas de menina. - -Ella sorrio para elle, requebrando os olhos, e então o fogoso astro -tremeu e agitou-se, e, desdobrando-se, abrio-se de par em par em duas -azas e principiou a fremir, attrahido e perplexo. Mas de repente, nem -que se de improviso lhe inflammassem os desejos, precipitou-se lá de -cima agitando as azas, e veio, enorme borboleta de fogo, adejar -luxuriosamente em torno da immensa rosa, em cujo regaço a virgem -permanecia com os peitos franqueados. - -E a donzella, sempre que a borboleta se approximava da rosa, sentia-se -penetrar de um calor estranho, que lhe accendia, gotta a gotta, todo o -seu sangue de moça. - -E a borboleta, sem parar nunca, doidejava em todas as direcções, ora -fugindo rapida, ora se chegando lentamente, medrosa de tocar com as suas -antennas de braza a pelle delicada e pura da menina. - -Esta, delirante de desejos, ardia por ser alcançada e empinava o collo. -Mas a borboleta fugia. - -Uma sofreguidão lubrica, desensoffrida, apoderou-se da moça; queria a -todo custo que a borboleta pousasse n'ella, ao menos um instante, um só -instante, e a fechasse n'um rapido abraço dentro das suas azas -ardentes. Mas a borboleta, sempre doida, não conseguia deter-se; mal se -adiantava, fugia logo, irrequieta, desvairada de volupia. - ---Vem! Vem! supplicava a donzella, apresentando o corpo. Pousa um -instante em mim! Queima-me a carne no calor das tuas azas! - -E a rosa, que a tinha ao collo, é que parecia fallar e não ella. De -cada vez que a borboleta se avisinhava com as suas negaças, a flôr -arregaçava-se toda, dilatando as petalas, abrindo o seu pistillo -vermelho e avido d'aquelle contacto com a luz. - ---Não fujas! Não fujas! Pousa um instante! - -A borboleta não pousou; mas, n'um delirio, convulsa de amor, sacudio as -azas com mais impeto e uma nuvem de poeira doirada desprendeu-se sobre a -rosa, fazendo a donzella soltar gemidos e suspiros, tonta de gosto sob -aquelle effluvio luminoso e fecundante. - -N'isto, Pombinha soltou um ai formidavel e despertou sobresaltada, -levando logo ambas as mãos ao meio do corpo. E feliz, e cheia de susto -ao mesmo tempo, a rir e a chorar, sentio o grito da puberdade sahir-lhe -afinal das entranhas, em uma onda vermelha e quente. - -A natureza sorrio-se commovida. Um sino, ao longe, batia alegre as doze -badaladas do meio dia. O sol, victorioso, estava a pino e, por entre a -copagem negra da mangueira, um dos seus raios descia em fio de oiro sobre -o ventre da rapariga, abençoando a nova mulher que se formava para o -mundo. - - - - -XII - - -Pombinha ergueu-se de um pulo e abrio de carreira para casa. No logar em -que estivera deitada o capim verde ficou matizado de pontos vermelhos. A -mãe lavava á tina, ella chamou-a com instancia, enfiando cheia de -alvoroço pelo numero 15. E ahi, sem uma palavra, ergueu a saia do -vestido e expôz a Dona Isabel as suas fraldas ensanguentadas. - ---Veio!! perguntou a velha com um grito arrancado do fundo d'alma. - -A rapariga meneou a cabeça affirmativamente, sorrindo feliz e -enrubecida. - -As lagrimas saltaram dos olhos da lavadeira. - ---Bemdito e louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo! exclamou ella, -cahindo de joelhos defronte da menina e erguendo para Deus o rosto e as -mãos tremulas. - -Depois abraçou-se ás pernas da filha e, no arrebatamento da sua -commoção, beijou-lhe repetidas vezes a barriga e parecia querer beijar -tambem aquelle sangue abençoado, que lhes abria os horizontes da vida, -que lhes garantia o futuro; aquelle sangue bom, que descia do ceu, como -a chuva bemfazeja sobre uma pobre terra esterilisada pela secca. - -Não se poude conter: emquanto Pombinha mudava de roupa, sahio ella ao -pateo, apregoando aos quatro ventos a linda noticia. E, se não fôra a -formal opposição da menina, teria passeado em triumpho a camisa -ensanguentada, para que todos a vissem bem e para que todos a adorassem, -entre hymnos de amor, que nem a uma veronica sagrada de um Christo. - ---Minha filha é mulher! Minha filha é mulher! - -O facto abalou o coração do cortiço: as duas receberam parabens e -felicitações. Dona Isabel accendeu velas de cêra á frente do seu -oratorio, e nesse dia não pegou mais no trabalho, ficou estonteada, sem -saber o que fazia, a entrar e a sahir de casa, radiante de ventura. De -cada vez que passava junto da filha dava-lhe um beijo na cabeça e em -segredo recommendava-lhe todo o cuidado. «Que não apanhasse humidade! -que não bebesse coisas frias! Que se agazalhasse o melhor possivel e, -no caso de sentir o corpo molle, que se mettesse logo na cama! Qualquer -imprudencia poderia ser fatal!...» O seu empenho era pôr o João da -Costa, no mesmo instante, ao corrente da grande novidade e pedir-lhe que -marcasse logo o dia do casamento; a menina entendia que não, que era -feio, mas a mãe arranjou um portador e mandou chamar o rapaz com -urgencia. Elle appareceu á tarde. A velha convidára gente para jantar; -matou duas gallinhas, comprou garrafas de vinho, e, á noite, servio, -ás nove horas, um chá com biscoitos. Nênêm e a das Dôres -apresentaram-se em trajos de festa; fez-se muita ceremonia; conversou-se -em voz baixa, formando todos em volta de Pombinha uma solicita cadeia de -agrados, uma respeitosa preoccupação de bons desejos, a que ella -respondia sorrindo commovida, como que exhalando da frescura da sua -virgindade um victorioso aroma de flôr que desabrocha. - -E a partir d'esse dia Dona Isabel mudou completamente. As suas rugas -alegraram-se; ouviam-na cantarolar pela manhã, emquanto varria a casa e -espanava os moveis. - -Não obstante, depois do tremendo conflicto que acabou em navalhada, uma -tristeza ia minando uma grande parte da estalagem. Já se não faziam as -quentes noitadas de violão e dança ao relento. A Rita andava -aborrecida e concentrada, desde que Jeronymo partio para a ordem; Firmo -fôra intimado pelo vendeiro a que lhe não puzesse, nunca mais, os pés -em casa, sob pena de ser entregue á policia; Piedade, que vivia a dar -ais, carpindo a ausencia do marido, ainda ficou mais consumida com a -primeira visita que lhe fez ao hospital: encontrou-o frio e sem uma -palavra de ternura para ella, deixando até perceber a sua impaciencia -por ouvir fallar da outra, d'aquella maldita mulata dos diabos, que, no -fim de contas, era a unica culpada de tudo aquillo e havia de ser a sua -perdição e mais do seu homem! Quando voltou de lá atirou-se á cama, -a soluçar sem alivio, e n'essa noite não poude pregar olho, senão já -pela madrugada. Um negro desgosto comia-a por dentro, como tuberculos de -tisica, e tirava-lhe a vontade para tudo que não fosse chorar. - -Outro que tambem, coitado! arrastava a vida muito triste, era o Bruno. A -mulher, que a principio não lhe fizera grande falta, agora o torturava -com a sua distancia; um mez depois da separação, o desgraçado já -não podia esconder o seu soffrimento e ralava-se de saudades. A Bruxa, -a pedido delle tirou a sorte nas cartas e disse-lhe mysteriosamente que -Leocadia ainda o amava. - -Só Dona Isabel e a filha andavam devéras satisfeitas. Essas sim! nunca -tinham tido uma epoca tão boa e tão esperançosa. Bombinha abandonara -o curso de dança; o noivo ia agora visital-a, invariavelmente, todas as -noites; chegava sempre ás sete horas e demorava-se até ás dez; -davam-lhe café numa chicara especial, de porcelana; ás vezes jogavam a -bisca, e elle mandava buscar, de sua algibeira, uma garrafa de cerveja -allemã, e ficavam a conversar os tres, cada qual defronte do seu copo, -a respeito dos projectos de felicidade commum; outras vezes o Costa, -sempre muito respeitador, muito bom rapaz, accendia o seu charuto da -Bahia e deixava-se cahir n'uma pasmaceira, a olhar para a moça, todo -embebido n'ella. Pombinha punha alegrias n'aquelles serões com as suas -garrulices de pomba que prepara o ninho. Depois do seu idyllio com o sol -fazia-se muito amiga da existencia, sorvendo a vida em haustos largos, -como quem acaba de sahir de uma prisão e saborêa o ar livre. Volvia-se -carnuda e cheia, sazonava que nem uma fructa que nos provoca o appetite -de morder. Dona Isabel, ao lado d'elles, toscanejava do meio para o fim -da visita, traçando cruzes na bocca e afugentando os bocejos com -voluptuosas pitadas da sua insigne tabaqueira. - -Fixado o dia do casamento, o assumpto inalteravel da conversa era o -enxoval da noiva e a casinha que o Costa preparava para a lua de mel. -Iriam todos tres morar juntos; teriam cozinheiro e uma criada que -lavasse e engommasse. O rapaz trouxera peças de linho e de algodão, e -ali, á luz amarellado velho candieiro de kerosene, emquanto a mãe -talhava camisas e lençóes, a filha cosia valentemente n'uma machina -que lhe offerecêra o noivo. - -Uma vez, eram duas da tarde, ella pregava rendas n'uma fronha de -almofada, quando o Bruno, cheio de hesitações, a coçar os cabellos da -nuca, pallido e mal asseiado, disse-lhe, encostando-se á hombreira da -porta: - ---Ora, nham Pombinha ... tinha-lhe um servicinho a pedir ... mas -vosmecezinha anda agora tão tomada com o seu enxoval e não ha de -querer dar-se a maços... - ---Que queres tu, Bruno? - ---N'é nada, é que precisava que vosmecezinha me fizesse uma carta -pr'aquelle diabo ... mas já se vê que não tem cabimento... Fica pr'ao -depois! - ---Uma carta para tua mulher, não é? - ---Coitada! É mais doida do que ruim! Pois se a gente até dos brutos -tem pena!... - ---Pois estás servido. Queres para já? - ---Não vale estorvar! Continue seu servicinho! Eu volto pr'outra vez!... - ---Não! anda cá, entra! O que se tem de fazer, faz-se logo! - ---Deus lhe pague! vosmecezinha é mesmo un anjo! Não sei a quem se -chegue a gente ao depois que já lh'a não tivermos cá!... - -E continuou a louvar a bondade da rapariga, emquanto esta, toda -serviçal, preparava numa mezinha redonda os seus apetrechos de -escripta. - ---Vamos lá, Bruno! que queres tu mandar dizer á Leocadia? - ---Diga-lhe, antes de mais nada, que aquillo que quebrei d'ella, que dou -outro! Que ella fez mal em quebrar tambem o que era meu, mas que fecho -os olhos! Agoas passadas não movem moinho! Que sei que ella agora está -desempregada e aos páos; que está a dever para mais de mez na -estalagem; mas que não precisa dar cabeçadas: que me mande cá o -senhorio, que me entendo com elle. Que acho bom que ella deixe a casa da -crioula onde come, porque a mulher já se queixou e já disse, a quem -quiz ouvir, que aquillo lá não era ponto de vadios e mulheres de má -vida! Que ella, se tivesse um pouco de tino nem precisava estar ás -migalhas dos outros, que eu na forja fazia para a trazer de barriga -cheia e mais aos filhos que Deus mandasse...--Principiava a tomar -calor--Que a culpada de tudo isto é só ella e mais ninguem! tivesse um -bocado de juizo e não precisava envergonhar a cara por ahi... - ---Isso já está dito, Bruno! - ---Pois arrume-lhe outra vez, a ver se ella toma brio! - ---E que mais? - ---Que lhe não quero mal, nem lhe rogo pragas, mas que é bem feito que -ella amargue um pouco do pão do diabo, pr'a ficar sabendo que uma -mulher direita não deve olhar senão pr'a seu marido; e que, se ella -não fosse tão maluca... - ---Já ahi vae você repetir inda uma vez a mesma cantiga!... - ---Mas diga-lhe sempre, tenha paciencia, nham Pombinha!... Que ainda -estaria aqui, commigo, como d'antes, sem aguentar repellões -d'estranhos!... - ---Adiante, Bruno! - ---Diga-lhe... - -E interrompeu-se. - -Ora, que mais elle tinha a dizer?... - -Coçou a cabeça. - ---Veja, Bruno, você é quem sabe o que precisa escrever a sua mulher... - ---Diga-lhe... - -Não se animava. - ---Que... - ---Diga-lhe... Não! não lhe diga mais nada!... - ---Posso então fechar a carta?... - ---Está bom ... resmungou o ferreiro, decidindo-se. Vá lá! Diga-lhe -que... - ---Que... - -Houve um silencio, no qual o desgraçado parecia arrancar de dentro uma -phrase que, no emtanto, era a unica idéa que o levava a dirigir-se á -mulher. Afinal, depois de coçar mais vivamente a cabeça, gaguejou com -a voz estrangulada de soluços: - ---Diga-lhe que ... se ella quizer tornar pra minha companhia ... que -póde vir... Eu esqueço tudo! - -Pombinha, impressionada pela transformação da voz d'elle, levantou o -rosto e vio que as lagrimas lhe desfilavam duas a duas, tres a tres, -pela cara, indo afogar-se-lhe na moita cerdosa das barbas. E, coisa -estranha, ella, que escrevera tantas cartas n'aquellas mesmas -condições; que tantas vezes presenciara o choro rude de outros muitos -trabalhadores do cortiço, sobresaltava-se agora com os desalentados -soluços do ferreiro. - -Porque, só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas -entranhas ella sentio o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos -para essas violentas miserias dolorosas, a que os poetas davam o bonito -nome de amor. A sua intellectualidade, tal como seu corpo, desabrochara -inesperadamente, attingindo de subito, em pleno desenvolvimento, uma -lucidez que a deliciava e surprendia. Não a commovêra tanto a -revolução physica. Como que n'aquelle instante o mundo inteiro se -despia á sua vista, de improviso esclarecida, patenteando-lhe todos os -segredos das suas paixões. Agora, encarando as lagrimas do Bruno, ella -comprehendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade d'esses -animaes fortes, de musculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se -deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão -da fêmea. - -Aquella pobre flôr de cortiço, escapando á estupidez do meio em que -desabotoou, tinha de ser fatalmente victima da propria intelligencia. Á -mingoa de educação, seu espirito trabalhou á revelia, e atraiçoou-a, -obrigando-a a tirar da substancia caprichosa da sua phantasia de moça -ignorante e viva, a explicação de tudo que lhe não ensinaram a ver e -sentir. - -Bruno retirou-se com a carta. Pombinha pousou os cotovelos na meza e -tulipou as mãos contra o rosto, a scismar nos homens. - -Que estranho poder era esse, que a mulher exercia sobre elles, a tal -ponto, que os infelizes, carregados de deshonra e de ludibrio, ainda -vinham covardes e supplicantes mendigar-lhe o perdão pelo mal que ella -lhes fizera?... - -E surgio-lhe então uma idéa bem clara da sua propria força e do seu -proprio valor. - -Sorrio. - -E no seu sorriso já havia garras. - -Uma alluvião de scenas, que ella jamais tentára explicar e que até -ahi jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora -nitidas e transparentes. Comprehendeu como era que certos velhos -respeitaveis, cujas photographias Leonie lhe mostrara no dia que -passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, captivos e -submissos, pagando a escravidão com a honra, os bens, e até com a -propria vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o -corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse -outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que no emtanto -fôra posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo -ridiculo que, para gosar um pouco, precisava tirar da sua mesma illusão -a substancia do seu goso; ao passo que a mulher, a senhora, a dona -d'elle, ia tranquillamente desfrutando o seu imperio, endeosada e -querida, prodigalisando martyrios, que os miseraveis aceitavam -contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacaveis mãos que -os estrangulavam. - ---Ah, homens! homens!... sussurrou ella de envolta com um suspiro. - -E pegou de novo na costura, deixando que o pensamento vadiasse á solta, -emquanto os dedos iam machinalmente pregando as rendas n'aquella -almofada, em que a sua cabeça teria de repousar para receber o primeiro -beijo genital. - -N'um só lance de vista, como quem apanha uma esphera entre as pontas de -um compasso, medio com as antennas da sua perspicacia mulheril toda -aquella esterqueira, onde ella, depois de se arrastar por muito tempo -como larva, um bello dia acordou borboleta á luz do sol. E sentio -diante dos olhos aquella massa informe de machos e femeas, a comichar, a -fremir concupiscente, suffocando-se uns aos outros. E vio o Firmo e o -Jeronymo atassalharem-se, como dois cães que disputam uma cadella da -rua; e vio o Miranda, lá defronte, subalterno ao lado da esposa infiel, -que se divertia a fazel-o dançar a seus pés seguro pelos chifres; e -vio o Domingos, que fora da venda, furtando horas ao somno, depois de um -trabalho de burro, e perdendo o seu emprego e as economias ajuntadas com -sacrificio, só para ter um instante de luxuria entre as pernas de uma -desgraçadinha irresponsavel e tola; e tornou a ver o Bruno a soluçar -pela mulher; e outros ferreiros e hortelões, e cavouqueiros, e -trabalhadores de toda a especie, um exercito de bestas sensuaes, cujos -segredos ella possuiu, cujas intimas correspondencias escrevera dia a -dia, cujos corações conhecia como as palmas das mãos, porque a sua -escrivaninha era um pequeno confissionario, onde toda a salsugem e todas -as fezes d'aquella praia de despejo foram arremessadas espumantes de -dôr e aljofradas de lagrimas. - -E na sua alma enfermiça e aleijada, no seu espirito rebelde de flôr -mimosa e peregrina criada n'um monturo, violeta infeliz, que um estrume -forte de mais para ella atrophiára, a moça presentio bem claro que -nunca daria de si ao marido que ia ter uma companheira amiga, leal e -dedicada; presentio que nunca o respeitaria sinceramente como a um ser -superior por quem damos a vida; que nunca lhe votaria enthusiasmo, e por -conseguinte nunca lhe teria amor; d'esse de que ella se sentia capaz de -amar alguem, se na terra houvéra homens dignos disso, Ah! não o amaria -de certo, porque o Costa era como os outros, passivo e resignado, -aceitando a existencia que lhe impunham as circumstancias, sem ideaes -proprios, sem temeridades de revolta, sem atrevimentos de ambição, sem -vicios tragicos, sem capacidade para grandes crimes; era mais um animal -que viera ao mundo para propagar a especie; um pobre diabo emfim que já -a adorava cegamente e que mais tarde, com ou sem razão, derramaria -aquellas mesmas lagrimas, ridiculas e vergonhosas, que elle vira -decorrendo em quentes camarinhas pelas asperas e mal tratadas barbas do -marido de Leocadia. - -E não obstante, até então, aquelle matrimonio era o seu sonho -doirado. Pois agora, nas vesperas de obtel-o, sentia repugnancia em -dar-se ao noivo, e, se não fôra a mãe, seria muito capaz de dissolver -o ajuste. - -Mas, d'ahi a uma semana, a estalagem era toda em reboliço desde logo -pela manhã. Só se fallava em casamento; havia em cada olhar um -sanguineo reflexo de noites nupciaes. Desfolharam-se rosas á porta da -Pombinha. Ás onze horas parou um carro á entrada do cortiço com uma -senhora gorda, vestida de seda côr de perola. Era a madrinha, que vinha -buscar a noiva para a egreja de São João Baptista. A cerimonia estava -marcada para o meio dia. Toda esta formalidade embatucava os -circumstantes, que se alinhavam immoveis defronte do numero 15, com as -mãos crusadas atraz, o rosto paralysado por uma commoção respeitosa; -alguns sorriam enternecidos; quasi todos tinham os olhos resumbrados -d'agoa. - -Pombinha surgio á porta de casa, já prompta para desferir o grande -vôo; de véo e grinalda, toda de branco, vaporosa, linda. Parecia -commovida; despedia-se dos companheiros atirando-lhes beijos com o seu -ramalhete de flores artificiaes. Dona Isabel chorava como criança, -abraçando as amigas, uma por uma. - ---Deus lhe ponha virtude! exclamou a Machona. E que lhe dê um bom -parto, quando vier a primeira barriga! - -A noiva sorria, de olhos baixos. Uma fimbria de desdem toldava-lhe a -rosada candura de seus labios. Encaminhou-se para o portão, cercada -pela bênção de toda aquella gente, cujas lagrimas rebentaram afinal, -feliz cada um por vel-a feliz e em caminho da posição que lhe competia -na sociedade. - ---Não! aquella não nascera para isto!... sentenciou o Alexandre, -retorcendo o reluzente bigode. Seria lastima se a deixassem ficar aqui! - -O velho Liborio, cascalhando uma risada decrepita, queixou-se de que o -maganão do Costa lhe passara a perna, roubando-lhe a namorada. - -Ingrata! Elle que estava disposto a fazer uma asneira! - -Nênêm deu uma corrida até á noiva, na occasião em que esta chegava -á carruagem e, estalando-lhe um beijo na boca, pedio-lhe com empenho que -se não esquecesse de mandar-lhe um botão da sua grinalda de flores de -larangeira. - ---Diz que é muito bom para quem deseja casar!... e eu tenho tanto medo -de ficar solteira...! É todo o meu susto! - - - - -XIII - - -Á proporção que alguns locatarios abandonavam a estalagem, muitos -pretendentes surgiam disputando os commodos desalugados. Delporto e -Pompeu foram varridos pela febre amarella e tres outros italianos -estiveram em risco de vida. O numero dos hospedes crescia, os casulos -subdividiam-se em cubiculos do tamanho de sepulturas, e as mulheres iam -despejando crianças com uma regularidade de gado procreador. Uma -familia, composta de mãe viuva e cinco filhas solteiras, das quaes -d'estas a mais velha tinha, trinta annos e a mais moça quinze, veio -occupar a casa que Dona Isabel esvasiou poucos dias depois do casamento -de Pombinha. - -Agora, na mesma rua, germinava outro cortiço ali perto, o «Cabeça de -Gato.» Figurava como seu dono um portuguez que tambem tinha venda, mas -o legitimo proprietario, era um abastado conselheiro, homem de gravata -lavada, a quem não convinha, por decoro social, apparecer em semelhante -genero de especulações. E João Romão, estalando de raiva, vio que -aquella nova republica da miseria promettia ir adiante e ameaçava -fazer-lhe á sua perigosa concurrencia. Poz-se logo em campo, disposto -á luta, e começou a perseguir o rival por todos os modos, peitando os -fiscaes e guardas municipaes, para que o neo deixassem respirar um -instante com multas e exigencias vexatorias; emquanto pela sorrelfa -plantava no espirito dos seus inquilinos um verdadeiro odio de partido, -que os incompatibilisava com a gente do Cabeça de Gato. Aquelle que -não estivesse disposto a isso ia direitinho para a rua, «que ali se -não admittia meias medidas a tal respeito! Ali: ou bem peixe ou bem -carne! Nada de embrulho!» É inutil dizer que a parte contraria lançou -mão igualmente de todos os meios para guerrear o inimigo, não tardando -que entre os moradores das duas estalagens rebentasse uma tremenda -rivalidade, dia a dia aggravada por pequenas brigas e resingas, em que -as lavadeiras se destacavam sempre com questões de freguezia de roupa. -No fim de pouco tempo os dois partidos estavam já perfeitamente -determinados; os habitantes do Cabeça de Gato tomaram por alcunha o -titulo do seu cortiço, e os de São Romão, tirando o nome do peixe que -a Bertoleza mais vendia á porta da taverna, foram baptisados por -«Carapicús.» Quem se désse com um carapicú não podia entreter a -mais ligeira amisade com um cabeça de gato; mudar-se alguem de uma -estalagem para a outra era renegar idéas e principios e ficava apontado -a dedo; denunciar a um contrario o que se passava, fosse o que fosse, -dentro do circulo opposto, era commetter traição tamanha, que os -companheiros a puniam a páo. Um vendedor de peixe, que cahio na asneira -de fallar a um cabeça de gato a respeito de uma briga entre a Machona e -sua filha, a das Dôres, foi encontrado quasi morto perto do cemiterio -de São João Baptista. Alexandre, esse então não cochilava com os -adversarios: nas suas partes policiaes figurava sempre o nome de um -delles pelo menos, mas entre os proprios policias havia adeptos de um e -de outro partido; o urbano que entrava na venda de João Romão tinha -escrupulo de tomar qualquer coisa ao balcão da outra venda. Em meio do -pateo do Cabeça de Gato arvorára-se uma bandeira amarella; os -carapicús responderam logo levantando um pavilhão vermelho. E as duas -côres olhavam-se no ar como um desafio de guerra. - -A batalha era inevitavel. Questão de tempo. - -Firmo, assim que se instaurara a nova estalagem, abandonou o quarto na -officina e metteu-se lá de sucia com o Porfiro, apezar da opposição -de Rita, que mais depressa o deixaria a elle do que aos seus velhos -camaradas de cortiço. D'ahi nasceu certa ponta de discordia entre os -dois amantes; as suas entrevistas tornavam-se agora mais raras e mais -difficeis. A bahiana, por coisa alguma d'esta vida, poria os pés no -Cabeça de Gato e o Firmo achava-se, como nunca, incompatibilisado com -os carapicús. Para estar juntos tinham encontros mysteriosos n'um -calogio de uma velha miseravel de rua de São João Baptista, que lhe -cedia a cama, mediante esmolas. O capoeira fazia questão de ficar no -Cabeça de Gato, porque ahi se sentia resguardado contra qualquer -perceguição que o seu delicto motivasse; de resto, Jeronymo não -estava morto e, uma vez bem curado, podia vir sobre elle com gana. No -Cabeça de Gato, o Firmo conquistára rapidas sympathias e -constituira-se chefe de malta. Era querido e venerado; os companheiros -tinham enthusiasmo pela sua destreza e pela sua coragem; sabiam-lhe de -cór a legenda rica de façanhas e victorias. O Porfiro secundava-o sem -lhe disputar a primasia, e estes dois, só por si, impunham respeito aos -carapicús, entre os quaes, não obstante, havia muito boa gente para o -que désse e viesse. - -Mas ao cabo de tres mezes, João Romão, notando que os seus interesses -nada soffriam com a existencia da nova estalagem e, até pelo contrario, -lucravam com o progressivo movimento de povo que se ia fazendo no -bairro, retornou á sua primitiva preoccupação com o Miranda, unica -rivalidade que verdadeiramente o estimulava. - -Desde que o visinho surtio com o baronato, o vendeiro transformava-se -por dentro e por fóra a causar pasmo. Mandou fazer boas roupas e aos -domingos refestelava-se de casaco branco, e de meias, assentado defronte -da venda, a ler jornaes. Depois deu para sahir a passeio, vestido de -casimira, calçado e de gravata. Deixou de tosquiar o cabello á -escovinha; pôz a barba abaixo, conservando apenas o bigode, que elle -agora tratava com brilhantina todas as vezes que ia ao barbeiro. Já -não era o mesmo lambusão! E não parou ahi fez-se: socio de um club de -dança e, duas noites por semana, ia aprender a dançar; começou a uzar -relogio e cadeia de ouro; correu uma limpeza no seu quarto de dormir, -mandou soalhal-o, forrou e pintou-o; comprou alguns moveis em segunda -mão; arranjou um chuveiro ao lado da retrete: principiou a comer com -guardanapo e a ter toalha e copos sobre a mesa; entrou a tomar vinho, -não do ordinario que vendia aos trabalhadores, mas de um especial que -guardava para seu gasto. Nos dias de folga atirava-se para o passeio -publico depois do jantar ou ia ao theatro São Pedro de Alcantara -assistir aos espectaculos da tarde; do Jornal do Commercio, que era o -unico que elle assignava havia já tres annos e tanto, passou a receber -mais dois outros e a tomar fasciculos de romances francezes traduzidos, -que o ambicioso lia de cabo a rabo, com uma paciencia de santo, na doce -convicção de que se instruia. - -Admittio mais tres caixeiros; já se não prestava muito a servir -pessoalmente á negralhada da vizinhança, agora até mal chegava ao -balcão. E em breve o seu typo começou a ser visto com frequencia na -rua Direita, na praça do commercio e nos bancos, o chapéu alto -derreado para a nuca e o guarda-chuva debaixo do braço. Principiava a -metter-se em altas especulações, aceitava acções de companhias de -titulos inglezes e só emprestava dinheiro com garantias de boas -hypothecas. - -O Miranda tratava-o já de outro modo, tirava-lhe o chapéo, parava -risonho para lhe fallar quando se encontravam na rua, e ás vezes -trocava com elle dois dedos de palestra á porta da venda. Acabou por -offerecer-lhe a casa e convidal-o para o dia de annos da mulher, que era -d'ahi a pouco tempo. João Romão agradeceu o obsequio, desfazendo-se em -demonstrações de reconhecimento, mas não foi lá. - -Bertoleza é que continuava na cepa torta, sempre a mesma crioula suja, -sempre atrapalhada de serviço, sem domingo nem dia santo; essa, em -nada, em nada absolutamente, participava das novas regalias do amigo; -pelo contrario, á medida que elle galgava posição social, a -desgraçada fazia-se mais e mais escrava e rasteira. João Romão subia -e ella ficava cá em baixo, abandonada como uma cavalgadura de que já -não precisamos para continuar a viagem. Começou a cahir em tristeza. - -O velho Botelho chegava-se tambem para o vendeiro, e ainda mais do que o -proprio Miranda. O parasita não sabia agora depois do almoço para a -sua prosa na charutaria, nem voltava á tarde para o jantar, sem -deter-se um instante á porta do visinho ou, pelo menos, sem lhe gritar -lá para dentro: «Então, seu João, isso vai ou não vai?...» E tinha -sempre uma phraze amigavel para lhe atirar cá de fóra. Em geral o -taverneiro acudia a apertar-lhe a mão, de cara alegre, e propunha-lhe -que bebesse alguma coisa. - -Sim, João Romão já convidava para beber alguma coisa. Mas não era á -tôa que o fazia, que aquelle mesmo não mettia prego sem estopa! Tanto -assim que uma vez, em que os dois sahiram á tardinha para dar um giro -até á praia, Botelho, depois de fallar com o costumado enthusiasmo do -seu bello amigo Barão e da virtuosissima familia d'este, accrescentou -com o olhar fito: - ---Aquella pequena é que lhe estava a calhar, seu João!... - ---Como? Que pequena? - ---Ora morda aqui! Pensa que já não dei pelo namoro?... Maganão! - -O vendeiro quiz negar, mas o outro atalhou: - ---É um bom partido, é! Excellente menina ... tem um genio de pomba ... -uma educação de princeza: até o francez sabe! Toca piano como você -tem ouvido ... canta o seu bocado ... aprendeu desenho ... muito boa -mão de agulha!... e... - -Abaixou a voz e segredou grosso no ouvido do interlocutor:--Ali, tudo -aquillo é solido!... Predios e acções do banco!... - ---Você tem certeza d'isso? Já vio? - -Já! Palavra d'honra! - -Calaram-se um instante. - -Botelho continuou depois: - ---O Miranda é bom homem, coitado! tem lá as suas fumaças de grandeza, -mas não o podemos criminar ... são coisas pegadas da mulher; no -emtanto acho-o com boas disposições a seu respeito ... e, se você -souber leval-o, apanha-lhe a filha... - ---Ella talvez não queira... - ---Qual o que! Pois uma menina d'aquellas, criada a obedecer aos pais, -sabe lá o que é não querer? Tenha você uma pessoa, de intimidade com -a familia, que de dentro empurre o negocio e verá se consegue ou não! -Eu, por exemplo! - ---Ah! se você se mettesse n'isso, que duvida! Dizem que o Miranda só -faz o que você quer... - ---Dizem com razão. - ---E você está resolvido a...? - ---A protegel-o?... Sim, de certo: n'este mundo estamos nós para servir -uns aos outros!... apenas, como não sou rico... - ---Ah! Isso é dos livros! Arranje-me você o negocio e não se -arrependerá... - ---Conforme, conforme... - ---Creio que não me suppõe um velhaco!... - ---Por amor de Deus! Sou incapaz de semelhante sacrilegio! - ---Então!... - ---Sim, sim ... em todo o caso fallaremos depois, com mais vagar... Não -é sangria desatada! - -E desde então, com effeito, sempre que os dois se pilhavam a sós -discutiam o seu plano de ataque á filha do Miranda. Botelho queria -vinte contos de réis, e com papel passado a praso de casamento; o outro -offerecia dez. - ---Bom! então não temos nada feito ... resumio o velho. Trate você do -negocio só por si; mas já lhe vou prevenindo de que não conte comigo -absolutamente... Comprehende? - ---Quer dizer que me fará guerra... - ---Valha-nos Deus, creatura! não faço guerra a ninguem! guerra está -você a fazer-me, que não me quer deixar comer uma migalha da bella -fatia que lhe vou metter no papo!... O Miranda hoje tem para mais de mil -contos de réis! Agora, fique sabendo que a coisa não é assim tambem -tão facil, como lhe parece talvez... - ---Paciencia! - ---O Barão ha de sonhar com um genro de certa ordem!... - -Ahi algum deputado ... algum homem que faça figura na politica aqui da -terra! - ---Não! melhor seria um principe!... - ---E mesmo a pequena tem um doutorzinho de boa familia, que lhe ronda -muito a porta... E ella, ao que parece, não lhe faz má cara... - ---Ah! n'esse caso é deixal-os lá arranjar a vida! - ---É melhor, é! Creio até que com elle será mais facil qualquer -transacção... - ---Então não fallemos mais n'isto! Está acabado! - ---Pois não fallemos! - -Mas no dia seguinte voltaram á questão: - ---Homem! disse o vendeiro; para decidir, dou-lhe quinze! - ---Vinte! - ---Vinte, não! - ---Por menos não me serve! - ---E eu vinte não dou! - ---Nem ninguem o obriga... Adeuzinho! - ---Até mais ver. - -Quando se encontraram de novo, João Romão rio-se para o outro, sem -dizer palavra. O Botelho, em resposta, fez um gesto de quem não quer -intrometter-se com o que não é da sua conta. - ---Você é o diabo!... faceteou aquelle, dando-lhe no hombro uma palmada -amigavel, Então não ha meio de chegarmos a um accordo?... - ---Vinte! - ---E, caso esteja eu pelos vinte, posso contar que...? - ---Caso o meu nobre amigo se decida pelos vinte, receberá do Barão um -chamado para lá ir jantar ao primeiro domingo; acceita o convite, vae, -e encontrará o terreno preparado. - ---Pois seja lá como você quer! mais vale um gosto do que quatro -vintens! - -O Botelho não faltou ao promettido: dias depois do contracto sellado e -assignado, João Romão recebeu uma carta do visinho, solicitando-lhe a -fineza de ir jantar com elle mais a familia. - -Ah! que revolução não se ferio no espirito do vendeiro! passou dias a -estudar aquella visita; ensaiou o que tinha que dizer, conversando -sósinho defronte do espelho do seu lavatorio; afinal, no dia marcado, -banhou-se em varias agoas, areiou os dentes até fazel-os bem limpos, -perfumou-se todo dos pés á cabeça, escanhoou-se com esmero, aparou e -burnio as unhas, vestio-se de roupa nova em folha, e ás quatro e meia -da tarde apresentou-se, risonho e cheio de timidez, no espelhado e -pretencioso salão de S. Ex.ª. - -Aos primeiros passos que déra sobre o tapete, onde seus grandes pés, -affeitos por toda vida á independencia do chinello e do tamanco, se -destacavam como um par de tartarugas, sentio logo o suor dos grandes -apuros innundar-lhe o corpo e correr-lhe em bagada pela fronte e pelo -pescoço, nem que se o desgraçado acabasse de vencer n'aquelle instante -uma legoa de carreira ao sol. As suas mãos, vermelhas e redondas, -gottejavam, e elle não sabia o que fazer d'ellas, depois que o Barão, -muito solicito, lhe tomou o chapéo e o guarda-chuva. - -Arrependia-se já de ter lá ido. - ---Fique a gosto, homem! bradou-lhe o dono da casa. Se tem calor venha -antes aqui para a janella. Não faça cerimonia! Ó Leonor! trago -vermouth! Ou o amigo prefere tomar um copinho de cerveja? - -João Romão acceitava tudo, com sorrisos de acanhamento, sem animo de -arriscar palavra. A cerveja fel-o suar ainda mais e, quando appareceram -na sala Dona Estella e a filha, o pobre diabo chegava a causar dó de -tão atrapalhado que se via. Por duas vezes escorregou, e n'uma d'ellas -foi apoiar-se a uma cadeira que tinha rodizios; a cadeira afastou-se e -elle quasi vai ao chão. - -Zulmira rio-se, mas disfarçou logo a sua hilaridade pondo-se a -conversar com a mãe em voz baixa. Agora, refeita nos seus desesete -annos, não parecia tão anemica e deslavada; vieram-lhe os seios e -engrossára-lhe o quadril. Estava melhor assim. Dona Estella, coitada! -é que se precipitava, a passos de granadeiro, para a velhice, a -despeito da resistencia com que se rendia; tinha já dois dentes -postiços, pintava o cabello, e dos cantos da bocca duas rugas -serpenteavam-lhe pelo queixo abaixo, desfazendo-lhe a primitiva graça -maliciosa dos labios; ainda assim, porém, conservava o pescoço branco, -liso e grosso, e os seus braços não desmereciam dos antigos creditos. - -Á meza, a visita comeu tão pouco e tão pouco bebeu, que os donos da -casa a censuraram jovialmente, fingindo acceitar o facto como prova -segura de que o jantar não prestava; o obsequiado pedia por amor de -Deus que não acreditassem em tal e jurava sob palavra de honra que se -sentia satisfeito e que nunca outra comida lhe soubéra tão bem. -Botelho lá estava, ao lado de um velhote fazendeiro, que por essa -occasião hospedava-se com o Miranda. Henrique, approvado no seu -primeiro anno de medicina, fôra visitar a familia em Minas. Isaura e -Leonor serviam aos commensaes, rindo ambas á socapa por verem ali o -João da venda engravatado e com piegas de visita. - -Depois do jantar appareceu uma familia conhecida, trazendo um rancho de -moças; vieram tambem alguns rapazes; formaram-se jogos de prendas, e -João Romão, pela primeira vez em sua vida, vio-se mettido em taes -funduras. Não se sahio mal todavia. - -O chá das dez e meia correu sem novidade; e, quando emfim o neophyto se -pilhou na rua, respirou com independencia, remexendo o pescoço dentro -do collarinho engommado e soprando com allivio. Uma alegria de Victoria -transbordava-lhe do coração e fazia-o feliz n'esse momento. Bebeu o ar -fresco da noite com uma volupia nova para elle e, muito satisfeito -comsigo mesmo, entrou em casa e recolheu-se, rejubilando com a idéa de -que ia descalçar aquellas botas, desfazer-se de toda aquella roupa e -atirar-se á cama, para pensar mais á vontade no seu futuro, cujos -horizontes se rasgavam agora illuminados de esperança. - -Mas a bolha do seu desvanecimento engelhou logo á vista de Bertoleza -que, estendida na cama, roncava, de papo para o ar, com a boca aberta, a -camisa soerguida sobre o ventre, deixando ver o negrume das pernas -gordas e lustrosas. - -E tinha de estirar-se ali, ao lado d'aquella preta fedorenta a cozinha e -bodum de peixe! Pois, tão cheiroso e radiante como se sentia, havia de -pôr a cabeça n'aquelle mesmo travesseiro sujo em que se enterrava a -hedionda carapinha da crioula?... - ---Ai! ai! gemeu o vendeiro, resignando-se. - -E despio-se. - -Uma vez deitado, sem animo de afastar-se da beira da cama, para não se -encostar com a amiga, surgio-lhe nitida ao espirito a comprehensão do -estorvo que o diabo d'aquella negra seria para o seu casamento. - -E elle que até ahi não pensara n'isso!... Ora o demo! - -Não poude dormir; pôz-se a malucar: - -Ainda bem que não tinham filhos! Abençoadas drogas que a Bruxa déra -á Bertoleza nas duas vezes em que esta se sentio gravida! Mas, afinal, -de que modo se veria livre d'aquelle trambolho? E não se ter lembrado -d'isso ha mais tempo!... parecia incrivel! - -João Romão, com effeito, tão ligado vivêra com a crioula e tanto se -habituara a vel-a ao seu lado, que nos seus devaneios de ambição, -pensou em tudo, menos n'ella. - -E agora? - -E malucou no caso até ás duas da madrugada, sem achar furo. Só no dia -seguinte, ao contemplal-a de cocaras á porta da venda, abrindo e -destripando peixe, foi que, por associação de idéas, lhe acudio esta -hypothese: - ---E se ella morresse?... - - - - -XIV - - -Iam-se assim os dias, e assim mais de tres mezes se passaram depois da -noite da navalhada. Firmo continuava a encontrar-se com a bahiana na rua -de São João Baptista, mas a mulata, já não era a mesma para elle; -apresentava-se fria, distrahida, ás vezes impertinente, puxando -questão por dá cá aquella palha. - ---Hun! hun! temos mouro na costa! rosnava o capadocio com ciumes. Ora -queira Deus que eu me engane! - -Nas entrevistas apresentava-se ella agora sempre um pouco depois da hora -marcada, e a sua primeira phrase era para dizer que tinha pressa e não -podia demorar-se. - ---Estou muita apertada de serviço! accrescentava á replica do amante. -Uma roupa de uma familia que embarca amanhã para o norte! Tem de ficar -prompta esta noite! - -Já hontem fiz serão! - ---Agora estás sempre apertada de serviço!... resmungava o Firmo. - ---É que é preciso puxar por elle, filho! Ponha-me eu a dormir e quero -ver do que como e com que pago a casa! Não ha de ser com o que levo -daqui! - ---Ora essa! Tens coragem de dizer que não te dou nada? E quem foi que te -deu esse vestido que tens no corpo?! - ---Não disse que nunca me désse nada, mas com o que você me dá não -pago a casa e não ponho a panella no fogo! Tambem não lhe estou -pedindo coisa alguma! Oh! - -Azedavam-se d'este modo as suas entrevistas, esfriando as poucas horas -que os dois tinham para o amor. Um domingo, Firmo esperou bastante tempo -e Rita não appareceu. O quarto era acanhado e sombrio, sem janellas, -com um cheiro máo de bafio e humidade. Elle havia levado um embrulho de -peixe frito, pão e vinho, para almoçarem juntos. Deu meio dia e Firmo -esperou ainda, passeiando na estreiteza da miseravel alcova, como uma -onça enjaulada, rosnando pragas obscenas; o sobrolho intumescido, os -dentes cerrados. «Se aquella safada lhe apparecesse n'aquelle momento, -elle seria capaz de torcel-a nas mãos!» - -Á vista do embrulho da comida estoirou-lhe a raiva. Deu um pontapé -n'uma bacia de louça que havia no chão, perto da cama, e soltou um -murro na cabeça. - ---Diabo! - -Depois assentou-se no leito, esperou ainda algum tempo, fungando forte, -sacudindo as pernas crusadas, e afinal sahio, atirando para dentro do -quarto uma palavra porca. - -Pela rua, durante o caminho, jurava que «aquella caro pagaria a -mulata!» Um sofrejo desejo de castigal-a, no mesmo instante, o attrahia -ao cortiço de São Romão, mas não se sentio com animo de lá ir, e -contentou-se em rondar a estalagem. Não conseguio vel-a; resolveu -esperar até á noite para lhe mandar um recado. E vagou aborrecido pelo -bairro, arrastando o seu desgosto por aquelle domingo sem pagode. Ás -duas horas da tarde entrou no botequim do Garnizé, uma espelunca, perto -da praia, onde elle costumava beber de sucia com o Porfiro. O amigo não -estava lá. Firmo atirou-se n'uma cadeira, pedio um martello de paraty -e accendeu um charuto, a pensar. Um mulatinho, morador no Cabeça de -Gato, veio assentar-se na mesma meza e, sem rodeios, deu-lhe a noticia -de que na vespera o Jeronymo tivera baixa no hospital. - -Firmo acordou com um sobresalto. - ---O Jeronymo?! - ---Apresentou-se hoje pela manhã na estalagem. - ---Como soubeste? - ---Disse-me o Pataca. - ---Ora ahi está o que é! exclamou o capoeira, soltando um murro na -meza. - ---Que é o que? interrogou o outro. - ---Nada! É cá comigo. Toma alguma coisa? - -Veio novo copo, e Firmo resmungou no fim de uma pausa: - ---É! não ha duvida! Por isto é que a perua ultimamente me anda de -vento mudado!... - -E um ciume doido, um desespero feroz rebentou-lhe por dentro e cresceu -logo como a sede de um ferido. «Oh! precisava vingar-se d'ella! d'ella -e d'elle! O amaldiçoado resistio á primeira, mas não lhe escaparia da -segunda!» - ---Veja mais um martello de paraty! gritou para o portuguezinho da -espelunca. E acrescentou, batendo com toda a força o seu petropolis no -chão:--E não passa de hoje mesmo! - -Com o chapéo á ré, a gaforina mais assanhada que de costume, os olhos -vermelhos, a boca espumando pelos cantos, todo elle respirava uma febre -de vingança e de odio. - ---Olha! disse ao companheiro de meza. D'isto, nem pio lá com os -carapicús! Se abrires o bico dou-te cabo da pelle! Já me conheces! - ---Tenho nada que fallar! Pr'a que? - ---Bom! - -E ficaram ainda a beber. - -Jeronymo, com effeito, tivera alta e tornára aquelle domingo ao -cortiço, pela primeira vez depois da doença. Vinha magro, pallido, -desfigurado, apoiando-se a um pedaço de bambú. Crescêra-lhe a barba e -o cabello, que elle não queria cortar sem ter cumprido certo juramento -feito aos seus brios. A mulher fôra buscal-o ao hospital e caminhava ao -seu lado, igualmente abatida com a molestia do marido e com as causas -que a determinaram. Os companheiros receberam-no compungidos, tomados de -uma tristeza respeitosa; um silencio fez-se em torno do convalescente; -ninguem fallava senão a meia voz; a Rita Bahiana tinha os olhos -arrazados d'agoa. - -Piedade levou o seu homem para o quarto. - ---Queres tomar um caldinho? perguntou-lhe. Creio que ainda não estás -de todo prompto... - ---Estou! contrapôz elle. Diz o doutor que preciso é de andar, para ir -chamando força ás pernas. Tambem estive tanto tempo preso á cama! Só -de uma semana p'ra cá é que encostei os pés no chão! - -Deu alguns passos na sua pequena sala e disse depois, tornando junto da -mulher:--O que me saberia bem agora era uma chicrinha de café, mas -queria-o bom como o faz a Rita... Olha! pede-lhe que o arranje. - -Piedade soltou um suspiro e sahio vagarosamente, para ir pedir o -obsequio á mulata. Aquella preferencia pelo café da outra doía-lhe -duro que nem uma infidelidade. - ---Lá o meu homem quer do seu café e torce o nariz ao de casa... Manda -pedir-lhe que lhe faça uma chicara. Pode ser? perguntou a portugueza á -bahiana. - ---Não custa nada! respondeu esta. Com poucas está lá! - -Mas não foi preciso que o levasse, porque d'ahi a um instante, -Jeronymo, com o seu ar tranquillo e passivo de quem ainda se não refez -de todo depois de uma longa molestia, surgio-lhe á porta. - ---Não vale a pena estorvar-se em lá ir... Se me dá licença, bebo o -cafézinho aqui mesmo... - ---Entra, seu Jeronymo. - ---Aqui elle sabe melhor... - ---Você pega já com partes! Olha, sua mulher, anda de pé atraz comigo! -E eu não quero historias!... - -Jeronymo sacudio os hombros com desdem. - ---Coitada!... resmungou depois. Muito boa creatura, mas... - ---Cala a boca, diabo! Toma o café e deixa de maldizencia! E mesmo vicio -de Portugal: comendo e dizendo mal! - -O portuguez sorveu com delicia um gole de café. - ---Não digo mal, mas confesso que não encontro n'ella umas tantas -coisas que desejava... - -E chupou os bigodes. - ---Vocês são tudo a mesma sucia! Bem tola é quem vai atraz de labia de -homem! Eu cá não quero mais saber d'isso... Ao outro despachei já! - -O cavouqueiro teve um tremor de todo o corpo. - ---Outro quem? O Firmo? - -Rita arrependeu-se do que disséra, e gaguejou: - ---É um coisa ruim! Não quero saber mais d'elle!... Um traste! - ---Elle ainda vem cá? perguntou o cavouqueiro. - ---Aqui? Qual! N'essa não cáe! E se vier não lhe abro a porta! Ah! -quando embirro com uma pessoa é que embirro mesmo! - ---Isso é verdade, Rita? - ---Que? Que não quero saber mais d'elle? Esta que aqui está nunca mais -fará vida com semelhante cábula! Juro por esta luz! - ---Elle fez-lhe alguma? - ---Não sei! não quero! acabou-se! - ---E que então você tem outro agora... - ---Que esperança! Não tenho, nem quero mais ter homem! - ---Porque, Rita? - ---Ora! não paga a pena! - ---E ... se você encontrasse um ... que a quizesse devéras ... para -sempre?... - ---Não é com essas!... - ---Pois sei de um que a quer como Deus aos seus!... - ---Pois diga-lhe que outro officio! - -Ella se chegou para recolhera chicara, e elle apalpou-lhe a cintura. - ---Olha! Escuta! - -Rita fugio com uma rabanada, e disse rapido, muito a serio: - ---Deixa d'isso. Póde tua mulher ver! - ---Vem cá! - ---Logo. - ---Quando? - ---Logo mais. - ---Onde? - ---Não sei. - ---Preciso muito te fallar... - ---Pois sim, mas aqui fica feio. - ---Onde nos encontramos então? - ---Sei cá! - -E, vendo que Piedade entrava, ella disfarçou, dizendo sem transição: - ---Os banhos frios é que são bons para isso! Põem duro o corpo! - -A outra, embesourada, atravessou em silencio a pequena sala, foi ter com -o marido e communicou-lhe que o Zé Carlos queria fallar-lhe, junto com -o Pataca. - ---Ali! fez Jeronymo. Já sei o que é. Até logo, nhá Rita. Obrigado. -Quando quizer qualquer coisa de nós, lá estamos. - -Ao sahir no pateo aquelles dois vieram ao seu encontro. O cavouqueiro -levou-os para a casa, onde a mulher havia posto já a meza do almoço, e -com um signal prevenio-os de que não fallassem por emquanto sobre o -assumpto que os trouxera ali. Jeronymo comeu ás pressas e convidou as -visitas a darem um giro lá fóra. - -Na rua, perguntou-lhes em tom mysterioso: - ---Onde poderemos fallar á vontade? - -O Pataca lembrou a venda do Manoel Pépé, defronte do cemiterio. - ---Bem achado! confirmou Zé Carlos. Ha lá bons fundos para se -conversar. - -E os tres puzeram-se a caminho, sem trocar mais palavra até á esquina. - ---Então está de pé o que dissemos?... indagou afinal aquelle ultimo. - ---De pedra e cal! respondeu o cavouqueiro. - ---E o que é que se faz? - ---Ainda não sei... Preciso antes de tudo saber onde o cabra é -encontrado á noite. - ---No Garnizé, affirmou o Pataca. - ---Garnizé? - ---Aquelle botequim ali ao entrar da rua da Passagem, onde está um gallo -á taboleta. - ---Ah! Defronte da pharmacia nova... - ---Justo! Elle vai lá agora todas as noites, e lá esteve hontem, que o -vi, por signal que n'um gole... - -Muito bebedo, hein? - ---Como uma gambá! Aquillo foi alguma, que a Rita Bahiana lhe pregou de -fresco! - -Tinham chegado á venda. Entraram pelos fundos e assentaram-se sobre -caixas de sabão vazias, em volta de uma meza de pinho. Pediram paraty -com assucar. - ---Onde é que elles se encontravam?... informou-se Jeronymo, affectando -que fazia esta pergunta sem interesse especial. Lá mesmo no São -Romão?... - ---Quem? A Rita mais elle? Ora o que! Pois se elle agora é todo Cabeça -de Gato!... - ---Ella ia lá? - ---Duvido! Então logo aquella! Aquella é carapicú até o sabugo das -unhas! - ---Nem sei como ainda não romperam! interveio Zé Carlos, que continuou -a fallar a respeito da mulata; emquanto Jeronymo o escutava abstracto, -sem tirar os olhos de um ponto. - -O Pataca, como se acompanhasse o pensamento do cavouqueiro, disse-lhe -emborcando o resto do copo: - ---Talvez o melhor fosse liquidar a coisa hoje mesmo!.. - ---Ainda estou muito fraco ... observou lastimoso o convalescente. - ---Mas o teu páo está forte! E alem disso cá estamos nós dois. Tu -podes até ficar em casa, se quizeres... - ---Isso é que não! atalhou aquelle. Não dou o meu quinhão pelos -dentes da boca! - ---Eu cá tambem vou que o melhor seria pespegar-lhe hoje mesmo a -sova ... declarou o outro. Pão de um dia pr'a outro fica duro! - ---E eu estou-lhe com uma gana!... accrescentou o Pataca. - ---Pois seja hoje mesmo! resolveu Jeronymo. E o dinheiro lá está em -casa, quarenta pr'a cada um! Em seguida á méla corre logo o cobre! E -ao depois vai a gente tomar uma fartadela de vinho fino! - ---A que horas nos juntamos? perguntou Zé Carlos. - ---Logo ao cahir da noite, aqui mesmo. Está dito? - ---E será feito, se Deus quizer! - -O Pataca accendeu o cachimbo, e os tres puzeram-se a cavaquear -animadamente sobre o effeito que aquella sova havia de produzir; a cara -que o cabra faria entre tres bons cacetes. «Então é que queriam ver -até onde ia a imposturia da navalha! Diabo de um colhordas que, por -um--vai tu, irei eu--arrancava logo pelo ferro!...» - -Dois trabalhadores, em camisa de meia, entraram na tasca e o grupo -calou-se. Jeronymo fogueou um cigarro no cachimbo do Pataca e -despedio-se, relembrando aos companheiros a hora da entrevista e -atirando sobre a meza um nikel de duzentos reis. - -Foi direito para o cortiço. - ---Fazes mal em andar por ahi com este sol!... reprehendeu Piedade, ao -vel-o entrar. - ---Pois se o doutor me disse que andasse quanto pudesse... - -Mas recolheu-se á casa, estirou-se na cama e ferrou logo no somno. A -mulher, que o acompanhara até lá, assim que o vio dormindo, enxotou as -moscas de junto d'elle, cobrio-lhe a cara com uma cambraia que servia -para os taboleiros de roupa engommada, e sahio na ponta dos pés, -deixando a porta encostada. - -Jantara d'ahi a duas horas, Jeronymo comeu com appetite, bebeu uma -garrafa de vinho, e a tarde passaram-na os dois de palestra, assentados -á frente de casa, formando grupo com a Rita e a gente da Machona. Em -torno d'elles a liberdade feliz do domingo punha alegrias naquella -tarde. Mulheres amamentavam o filhinho ali mesmo, ao ar livre, mostrando -a uberdade das tetas cheias. Havia muito riso, muito parolar de -papagaios; pequenos travessavam, tão depressa rindo como chorando; os -italianos faziam a ruidosa digestão dos seus jantares de festa; -ouviam-se cantigas e pragas entre gargalhadas. A Augusta, que estava -gravida de sete mezes, passeava solemnemente o seu bandulho, levando um -outro filho ao collo. O Albino, installado defronte de uma mezinha em -frente á sua porta, fazia, á força de paciencia, um quadro, composto -de figurinhas de caixa de phosphoros, recortadas a tesoura e grudadas em -papelão com gomma arabica. E lá em cima, numa das janellas do Miranda, -João Romão, vestido de casimira clara, uma gravata á moda, já -familiarisado com a roupa e com a gente fina, conversava com Zulmira -que, ao lado d'elle, sorrindo de olhos baixos, atirava migalhas de pão -para as gallinhas do cortiço; ao passo que o vendeiro lançava para -baixo olhares de desprezo sobre aquella gentalha sensual, que o -enriquecêra, e que continuava a mourejar estupidamente, de sol a sol, -sem outro ideal senão comer, dormir e procrear. - -Ao cahir da noite, Jeronymo foi, como ficára combinado, á venda do -Pépé. Os outros dois já lá estavam. Infelizmente havia mais alguem -na tasca. Tomaram juntos, pelo mesmo copo, um martello de paraty e -conversaram em voz surda n'uma conspiração sombria em que as suas -barbas roçavam umas com as outras. - ---Os páos onde estão?... perguntou o cavouqueiro. - ---Ali, junto ás pipas ... segredou o Pataca, apontando com disfarce -para uma esteira velha enrolada. Preparei-os ainda ha pouco... Não os -quiz muito grandes... D'este tamanho. - -E abrio a mão contra a terra no logar do peito.--Estiveram de molho -até agora ... acrescentou, piscando o olho. - ---Bom! approvou Jeronymo, esgotando o copo com um ultimo gole. Agora -onde vamos nós? Parece-me ainda cedo para o Garnizé. - ---Ainda! confirmou o Pataca. Deixemo-nos ficar por aqui mais um pouco e -ao depois então seguiremos. Eu entro no botequim e vocês me esperam -fóra no logar que marcarmos... Se o cabra não estiver lá, volto logo -a dizer-lhes, e, caso esteja, fico ... chego-me para elle, procuro -entrar em conversa, puxo discussão e afinal desafio-o pr'a rua; elle -cáe na esparrella, e então vocês dois surgem e mettem-se na dansa, -como quem não quer a coisa! Que acham? - ---Perfeito! applaudio Jeronymo, e gritou para dentro.--Olha mais um -martello de paraty! - -Em seguida enterrou a mão no bolso da calça e saccou um rôlo grosso -de notas. - ---Podem enxugar á vontade! disse. Aqui ainda ha muito com que! - -E, ordenando as notas, separou oitenta mil reis, em cedulas de vinte. - ---Isto é o do ajuste! Este é sagrado! acrescentou, guardando-as na -algibeira do lado esquerdo. - -Depois separou ainda vinte mil reis, que atirou sobre a meza. - ---Esse ahi é para festejarmos a nossa victoria! - -E fazendo do resto do seu dinheiro um bolo, que elle, um pouco ebrio, -apertava nos dedos, agora claros e quasi descalejados, socou-o na -algibeira do lado direito, explicando entre dentes que ali ficava ainda -bastante para o que désse e viesse, no caso de algum contratempo. - ---Bravo! exclamou Zé Carlos. Isto é o que se chama fazer as coisas á -fidalga! Haja contar comigo pr'a vida e pr'a morte! - -O Pataca entendia que podiam tomar agora um pouco de cerveja. - ---Cá por mim não quero, mas bebam-na vocês, acudio Jeronymo. - ---Preferia um trago de vinho branco, contraveio o terceiro. - ---Tudo o que quizerem! franqueou aquelle. Eu tomo tambem um pouco de -vinho. Não! que o que estamos a beber não é dinheiro de navalhistas, -foi ganho ao sol e á chuva com o suor do meu rosto! E entornar pr'a -baixo sem caretas, que este não pesa na consciencia de ninguem! - ---Então, á sua! brindou Zé Carlos, logo que veio o novo reforço. -Pr'a que não torne você a dar que fazer á má casta dos boticarios! - ---Á sua, mestre Jeronymo! concorreu o outro. Jeronymo agradeceu e -disse, depois de mandar encher os copos: - ---Aos amigos e patricios com quem me achei para o meu desforço! - -E bebeu. - ---Á da Sóra Piedade de Jesus! reclamou o Pataca. - ---Obrigado! respondeu o cavouqueiro, erguendo-se. Bem! Não nos deixemos -agora ficar aqui toda a noite; mãos á obra! São quasi oito horas. - -Os outros dois esvaziaram de um trago o que ainda havia no fundo dos -copos e levantaram-se tambem. - ---É muito cedo ainda ... obtemperou Zé Carlos, cuspindo de esguelha e -limpando o bigode nas costas da mão. - ---Mas talvez tenhamos alguma demora pelo caminho, advertio o -companheiro, indo buscar junto ás pipas o embrulho dos cacetes. - ---Em todo o caso vamos seguindo, resolveu. Jeronymo, impaciente, nem se -temesse que a noite lhe fugisse de subito. - -Pagou a despeza, e os tres sahiram, não cambaleando, mas como que -empurrados por um vento forte, que os fazia de vez em quando dar para -frente alguns passos mais rapidos. Seguiram pela rua de Sorocaba e -tomaram depois a direcção da praia, conversando em voz baixa, muito -excitados. Só pararam perto do Garnizé. - ---Vais tu então, não é? perguntou o cavouqueiro ao Pataca. - -Este respondeu entregando-lhe o embrulho dos páos e afastando-se de -mãos nas algibeiras, a olhar para os pés, fingindo-se mais bebado do -que realmente estava. - - - - -XV - - -O Garnizé tinha bastante gente essa noite. Em volta de umas doze -mezinhas toscas, de páo, com uma coberta de folha de Flandres pintada -de branco fingindo marmore, viam-se grupos de tres e quatro homens, -quasi todos em mangas de camisa, fumando e bebendo no meio de grande -algazarra. Fazia-se largo consumo de cerveja nacional, vinho virgem, -paraty e laranginha. No chão coberto de areia havia cascas de queijo de -Minas, restos de iscas de figado, espinhas de peixe, dando idéa de que -ali não só se enxugava como tambem se comia. Com effeito, mais para -dentro, n'um engordurado bufete, junto ao balcão e entre as prateleiras -de garrafas cheias e arrolhadas, estava um travessão de assado com -batatas, um osso de presunto e varios pratos de sardinhas fritas. Dois -candieiros de kerozene fumegavam, encarvoando o tecto. E de uma porta ao -fundo, que escondia o interior da casa com uma cortina de chita -vermelha, vinha de vez em quando uma baforada de vozes roucas, que -parecia morrer em caminho, vencida por aquella densa atmosphera cor de -opala. - -O Pataca estacou á entrada, affectando grande bebedeira e procurando -com disfarce, em todos os grupos, ver se descobria o Firmo. Não o -conseguio; mas alguem, em certa meza, lhe chamára a attenção, porque -elle se dirigio para lá. Era uma mulatinha magra, mal vestida, -acompanhada por uma velha quasi cega e mais um homem, inteiramente -calvo, que soffria de asthma e, de quando em quando, abalava a meza com -um frouxo de tosse, fazendo dansar os copos. - -O Pataca bateu no hombro da rapariga. - ---Como vais tu, Florinda? - -Ella olhou para elle, rindo; disse que ia bem, e perguntou-lhe como -passava. - ---Róla-se, filha. Tu que fim levaste? Ha um par de quinze dias que te -não vejo! - ---É mesmo. Desde que estou com seu Bento não tenho sahido quasi. - ---Ah! disse o Pataca, estas amigada? Bom!... - ---Sempre estive! - -E ella então, muito expansiva com a sua folga d'aquelle domingo e com o -seu bocado de cerveja, contou que, no dia em que fugio da estalagem, -ficou na rua e dormio n'umas obras de uma casa em construcção na -travessa da Passagem, e que no seguinte, offerecendo-se de porta em -porta, para alugar-se de criada ou de ama secca, encontrou um velho -solteiro e agebado que a tomou ao seu serviço e metteu-se com ella. - ---Bom! muito bom! annuio Pataca. - -Mas o diabo do velho era um safado; dava-lhe muita coisa, dinheiro até, -trazia-a sempre limpa e de barriga cheia; sim senhor! mas queria que -ella se prestasse a tudo! Brigaram. E, como o vendeiro da esquina estava -sempre a chamal-a para casa, um bello dia arribou, levando o que -apanhára ao velho. - ---Estás então agora com o da venda? - -Não! O tratante, a pretexto de que desconfiava d'ella com o Bento -marceneiro, pôl-a na rua, chamando a si o que a pobre de Christo -trouxéra da casa do outro e deixando-a só com a roupa do corpo e ainda -por cima doente por causa de um aborto que tivera logo que se mettêra -com semelhante peste. O Bento tomára-a então á sua conta, e ella, -graças a Deus, por em quanto não tinha razões de queixa. - -O Pataca olhou em torno de si com o ar de quem procura alguem, e -Florinda, suppondo que se tratava do seu homem, accrescentou: - ---Não está cá, está lá dentro. Elle, quando joga, não gosta que eu -fique perto; diz que encabula. - ---E tua mãe? - ---Coitada! foi pr'o hospicio... - -E passou logo a fallar a respeito da velha Marcianna; o Pataca, porém, -já lhe não prestava attenção, porque n'esse momento acabava de -abrir-se a cortina vermelha, e Firmo surgia muito ebrio, a dar bordos, -contando, sem conseguir, uma massagada de dinheiro, em notas pequenas, -que elle afinal entrouxou n'um bolo e recolheu na algibeira das calças. - ---Ó Porfiro! não vens? gritou lá para dentro, arrastando a voz. - -E, depois de esperar inutilmente pela resposta, fez alguns passos na -sala. - -O Pataca deu á Florinda um «até logo» rapido e, fingindo-se de novo -muito bebado, encaminhou-se na direcção em que vinha o mulato. - -Esbarraram-se. - ---Oh! Oh! exclamou o Pataca. Desculpe! - -Firmo levantou a cabeça e encarou-o com arrogancia; mas desfranzio o -rosto logo que o reconheceu. - ---Ah! és tu, seu gallego? Como vai isso? A ladroeira corre? - ---Ladroeira tinha a avó na cuia! Anda a tomar alguma coisa. Queres? - ---Que ha de ser? - ---Cerveja. Vai? - ---Vá lá. - -Chegaram-se para o balcão. - ---Uma Guarda velha, ó pequeno! gritou o Pataca. - -Firmo puxou logo dinheiro para pagar. - ---Deixa! disse o outro. A lembrança foi minha! - -Mas, como o Firmo insistisse, consentio-lhe que fizesse a despeza. - -E os nikeis do troco rolaram no chão, fugindo por entre os dedos do -mulato, que os tinha duros na tensão muscular da sua embriaguez. - ---Que horas são? perguntou Pataca, olhando quasi de olhos fechados o -relogio da parede. Oito e meia. Vamos a outra garrafa, mas agora pago -eu! - -Beberam de novo, e o coadjutor de Jeronymo, observou depois: Você hoje -ferrou-a devéras! Estás que te não podes lamber! - ---Desgostos ... resmungou o capoeira, sem conseguir lançar da bocca a -saliva que se lhe grudava á lingua. - ---Limpa o queixo que estás cuspido. Desgostos de que? Negocio de -mulher, aposto! - ---A Rita não me appareceu hoje, sabes? Não foi, e eu bem calculo -porque! - ---Porque? - ---Porque a peste do Jeronymo voltou hoje á estalagem! - ---Ah! Não sabia!... A Rita está então com elle?... - ---Não está, nem nunca ha de estar, que eu d'aqui mesmo vou á procura -d'aquelle gallego ordinario e ferro-lhe a sardinha no pandulho! - ---Vieste armado? - -Firmo saccou da camisa uma navalha. - ---Esconde! não deves mostrar isso aqui! Aquella gente ali da outra meza -já não nos tira os olhos de cima! - ---Estou me ninando pr'a elles! E que não olhem muito, que lhes dou uma -de amostra! - ---Entrou um urbano! Passa-me a navalha! - -O capadocio fitou o companheiro, estranhando o pedido. - ---E que, explicou aquelle, se te prenderem não te encontram ferro... - ---Prender a quem? a mim? Ora, vai-te calar! - ---E ella é boa? Deixa ver! - ---Isto não é coisa que se deixe ver! - ---Bem sabes que não me entendo com armas de barbeiro! - ---Não sei! Esta é que não me sae das unhas, nem para meu pai, que a -pedisse! - ---É porque não tens confiança em mim! - ---Confio nos meus dentes, e esses mesmos me mordem a lingoa! - ---Sabes quem vi ainda ha pouco? Não és capaz de adivinhar!... - ---Quem? - ---A Rita. - ---Onde? - ---Ali na praia da Saudade. - ---Com quem? - ---Com um typo que não conheço... - -Firmo levantou-se de improviso e cambaleou para o lado da sahida. - ---Espera! rosnou o outro, detendo-o. Se queres vou comtigo; mas é -preciso ir com geito, porque, se ella nos bispa, foge! - -O mulato não fez caso d'esta observação e sabio a esbarrar-se por -todas as mezas. Pataca alcançou-o já na rua e passou-lhe o braço na -cintura, amigavelmente. - ---Vamos de vagar... disse; senão o passaro se arisca! - -A praia estava deserta. Cahia um chuvisco. Ventos frios sopravam do mar. -O ceu era um fundo negro, de uma só tinta; do lado opposto da bahia os -lampeões pareciam surgir d'agoa, como algas de fogo, mergulhando bem -fundo as suas tremulas raizes luminosas. - ---Onde está ella? perguntou o Firmo, sem se aguentar nas pernas. - ---Ali mais adiante, perto da pedreira. Caminha, que has de ver! - -E continuaram a andar para as bandas do hospicio. Mas dois vultos -surdiram da treva; o Pataca reconheceu-os e abraçou-se de improviso ao -mulato. - ---Segurem-lhe as pernas! gritou para os outros. - -Os dois vultos, pondo o cacete entre os dentes, apoderaram-se de Firmo, -que bracejava seguro pelo tronco. - -Deixára-se agarrar--estava perdido. - -Quando Pataca o vio preso pelos sovacos e pela dobra dos joelhos, -sacou-lhe fóra a navalha. - ---Prompto! Está desarmado! - -E tomou tambem o seu páo. - -Soltaram-no então. O capoeira, mal tocou com os pés em terra, desferio -um golpe com a cabeça, ao mesmo tempo que a primeira cacetada lhe abria -a nuca. Deu um grito e voltou-se cambaleando. Uma nova páulada -cantou-lhe nos hombros, e outra em seguida nos rins, e outra nas coxas, -outra mais violenta quebrou-lhe a clavicula, emquanto outra logo lhe -rachava a testa e outra lhe apanhava a espinha, e outras, cada vez mais -rapidas, batiam de novo nos pontos já espancados, até que se -converteram n'uma carga continua de porretadas, a que o infeliz não -resistio, rolando no chão, a gottejar sangue de todo o corpo. - -A chuva engrossava. Elle agora, assim, debaixo d'aquelle bate-bate sem -tregoas, parecia muito menor, mingoava como se estivesse ao fogo. -Lembrava um rato morrendo a páo. Um ligeiro tremor convulsivo era -apenas o que ainda lhe denunciava um resto de vida. Os outros tres não -diziam palavra, arfavam, a bater sempre, tomados de uma irresistivel -vertigem de pizar bem a cacete aquella trouxa de carne molle e -ensanguentada, que grunhia frouxamente a seus pés. Afinal, quando de -todo já não tinham forças para bater ainda, arrastaram a trouxa até -a ribanceira da praia e lançaram-na ao mar. Depois, arquejantes, -deitaram a fugir, á tôa, para os lados da cidade. - -Chovia agora muito forte. Só pararam no Cattete, ao pé de um kiosque; -estavam encharcados; pediram paraty e beberam como quem bebe agoa. -Passava já de onze horas. Desceram pela praia da Lapa; ao chegarem -debaixo de um lampeão, Jeronymo parou, suando apezar do agoaceiro que -cahia. - ---Aqui têm vocês, disse, tirando do bolso as quatro notas de vinte mil -reis. Duas para cada um! E agora vamos tomar qualquer coisa quente em -logar secco. - ---Ali ha um botequim, indicou o Pataca, apontando a rua da Gloria. - -Subiram por uma das escadinhas que ligam essa rua á praia, e d'ahi a -pouco installavam-se em volta de uma meza de ferro. Pediram de comer e -de beber e puzeram-se a conversar em voz soturna, muito cansados. - -A uma hora da madrugada o dono do café pôl-os fóra. Felizmente chovia -menos. Os tres tomaram de novo a direcção de Botafogo; em caminho -Jeronymo perguntou ao Pataca se ainda tinha comsigo a navalha do Firmo e -pedio-lh'a, ao que o companheiro cedeu sem objecção. - ---É para conservar uma lembrança d'aquelle bisborria! explicou o -cavouqueiro, guardando a arma. - -Separaram-se defronte da estalagem. Jeronymo entrou sem ruido; foi até -á casa, espiou pelo buraco da fechadura; havia luz no quarto de dormir; -comprehendeu que a mulher estava á sua espera, acordada talvez; pensou -sentir, vindo lá de dentro, o bodum azedo que ella punha de si, fez uma -careta de nojo e encaminhou-se resolutamente para a casa da mulata, em -cuja porta bateu devagarinho. - -Rita, essa noite, recolhêra-se afflicta e assustada. Deixára de ir ter -com o amante e mais tarde admirava-se como fizera semelhante -imprudencia; como tivera coragem de pôr em pratica, justamente no -momento mais perigoso, uma coisa que ella, até ahi, não se sentira com -animo de praticar. No intimo respeitava o capoeira; tinha-lhe medo. -Amára-o a principio por affinidade de temperamento, pela irresistivel -connexão do instincto luxurioso e canalha que predominava em ambos, -depois continuou a estar com elle por habito, por uma especie de vicio -que amaldiçoamos sem poder largal-o; mas desde que Jeronymo propendeu -para ella, fascinando-a com a sua tranquilla seriedade de animal bom e -forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e -Rita preferio no europeu o macho de raça superior. O cavouqueiro, pelo -seu lado, cedendo ás imposições mesologicas, enfarava a esposa, sua -congenere, e queria a mulata, porque a mulata era o prazer, era a -volupia, era o fructo doirado e acre d'estes sertões americanos, onde a -alma de Jeronymo aprendeu lascivias de macaco e onde seu corpo porejou o -cheiro sensual dos bodes. - -Amavam-se brutalmente, e ambos sabiam d'isso. Esse amor irracional e -empirico carregára-se muito mais, de parte a parte, com o tragico -incidente da lucta, em que o portuguez fôra victima. Jeronymo -aureolou-se aos olhos d'ella com uma sympathia de martyr sacrificado á -mulher que ama; cresceu com aquella navalhada; illuminou-se com o seu -proprio sangue derramado; e, depois, a ausencia no hospital veio -completar a crystallisação do seu prestigio, como se o cavouqueiro -houvera baixado a uma sepultura, arrastando atraz de si a saudade dos -que o choravam. - -Entretanto, o mesmo phenomeno se operava no espirito de Jeronymo com -relação á Rita: arriscar espontaneamente a vida por alguem é aceitar -um compromisso de ternura, em que empenhamos alma e coração; a mulher -por quem fazemos tamanho sacrificio, seja ella quem fôr, assume de um -só vôo em nossa phantasia ás proporções de um ideal. O desterrado, -á primeira troca de olhares com a bahiana, amou-a logo, porque sentio -n'ella o resumo de todos os quentes mysterios que o enleiaram -voluptuosamente n'estas terras da luxuria; amou-a muito mais quando teve -occasião de jogar a existencia por esse amor, e amou-a loucamente -durante a triste e dolorosa solidão da enfermaria, em que os seus -gemidos e suspiros eram todos para ella. - -A mulata bem que o comprehendeu, mas não teve animo de confessar-lhe -que tambem morria de amores por elle; receiou prejudical-o. Agora, com -aquella loucura de faltar á entrevista justamente no dia em que -Jeronymo voltava á estalagem, a situação parecia-lhe muito -melindrosa. Firmo, desesperado com a ausencia d'ella, embebedava-se -naturalmente e vinha ao cortiço provocar o cavouqueiro; a briga -rebentaria de novo, fatal para um dos dois, se é que não seria para -ambos. Do que ella sentira pelo navalhista persistia agora apenas o -medo, não como elle era d'antes, indeterminado e frouxo, mas ao -contrario, sobresaltado, nervoso, cheio de apprehensões que a punham -afflicta. Firmo já lhe não apparecia no espirito como um amante -ciumento e perigoso, mas como um simples facinora, armado de uma velha -navalha desleal e homicida. O seu medo transformava-se em uma mistura de -asco e terror. E, sem achar só cego na cama, deixava-se atordoar pelos -seus presentimentos, quando ouvio bater na porta. - ---É elle! disse, com o coração a saltar. - -E via já de fronte de si o Firmo, bebado, a reclamar o Jeronymo aos -berros, para esfaqueal-o ali mesmo. Não respondeu ao primeiro chamado; -ficou escutando. - -Depois de uma pausa bateram de novo. - -Ella estranhou o modo pelo qual batiam. Não era natural que o facinora -procedesse com tanta prudencia. Ergueu-se, foi á janella, abrio uma das -folhas e espreitou pelas rotulas. - ---Quem está ahi?... perguntou á meia voz. - ---Sou eu ... disse Jeronymo, chegando-se. - -Reconheceu-o logo e correu a abrir. - ---Como?! É você, Jeromo? - ---Schit! fez elle, pondo o dedo na bocca. Falla baixo. Rita começou a -tremer: no olhar do portuguez, nas suas mãos encardidas de sangue, no -seu todo de homem ebrio, encharcado e sujo, havia uma terrivel -expressão de crime. - ---D'onde vens tu?... segredou ella. - ---De cuidar da nossa vida... Ahi tens a navalha com que fui ferido! - -E atirou-lhe sobre a meza a navalha de Firmo, que a mulata conhecia como -as palmas da mão. - ---E elle? - ---Está morto. - ---Quem o matou? - ---Eu. - -Calaram-se ambos. - ---Agora ... acrescentou o cavouqueiro, no fim de um silencio arquejado -por ambos; estou disposto a tudo para ficar comtigo. Sahiremos os dois -d'aqui para onde melhor fôr... Que dizes tu? - ---E tua mulher?... - ---Deixo-lhe as minhas economias de muito tempo e continuarei a pagar o -collegio á pequena. Sei que não devia abandonal-a, mas pódes ter como -certo que, ainda que não queiras vir commigo, não ficarei com ella! -Não sei! já não a posso supportar! Um homem enfára-se! Felizmente -minha caixa de roupa está ainda na Ordem e posso ir buscal-a pela -manhã. - ---E para onde iremos? - ---O que não falta é pr'onde ir! Em qualquer parte estaremos bem. Tenho -aqui sobre mim uns quinhentos mil réis, para as primeiras despezas. -Posso ficar cá até ás cinco horas; são duas e meia; saio sem ser -visto por Piedade; mando-te ao depois dizer o que arranjei, e tu irás -ter commigo... Está dito? Queres? - -Rita, em resposta, atirou-se ao pescoço d'elle e pendurou-se-lhe nos -labios, devorando-o de beijos. - -Aquelle novo sacrificio do portuguez; aquella dedicação extrema que o -levava a arremeçar para o lado familia, dignidade, futuro, tudo, tudo -por ella, enthusiasmou-a loucamente. Depois dos sobresaltos d'esse dia e -d'essa noite, seus nervos estavam afiados e toda ella electrica. - -Ah! não se tinha enganado! aquelle homemzarrão herculeo, de musculos -de touro, era capaz de todas as meiguices do carinho. - ---Então? insistio-elle. - ---Sim, sim, meu captiveiro! respondeu a bahiana, fallando-lhe na bocca; -eu quero ir comtigo; quero ser a tua mulata, o bem do teu coração! Tu -és os meus feitiços! - -E apalpando-lhe o corpo:--Mas como estás ensopado! Espera! espera! o -que não falta aqui é roupa de homem pr'a mudar!... Podias ter uma -recahida, cruzes! Tira tudo isso que está alagado! Eu vou accender o -fogareiro e estende-se em cima o que é casimira, para te poderes vestir -ás cinco horas. Tira as botas! Olha o chapéo como está! Tudo isto -secca! Tudo isto secca! Mira, toma já um golle de paraty pr'atalhar a -friage! Depois passa em todo o corpo. Eu vou fazer café! - -Jeronymo bebeu um bom trago de paraty, mudou de roupa e deitou-se na -cama de Rita. - ---Vem pr'a cá ... disse, um pouco rouco. - ---Espera! espera! O café está quasi prompto! - -E ella só foi ter com elle, levando-lhe a chave na fumegante da -perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores; -assentou-se ao rebordo da cama e, segurando com uma das mãos o pires e -com a outra a chicara, ajudava-o a beber, golle por golle, emquanto seus -olhos o acarinhavam, scintillantes de impaciencia no antegoso d'aquelle -primeiro enlace. - -Depois, atirou fóra a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu -amado, n'um frenezi de desejo doido. - -Jeronymo, ao sentil-a inteira nos seus braços; ao sentir na sua pelle a -carne quente d'aquella brasileira; ao sentir innundar-lhe o rosto e as -espaduas, n'um effluvio de baunilha e cumarú, a onda negra e fria da -cabelleira da mulata: ao sentir esmagarem-se no seu largo e pelludo -collo de cavouqueiro os dois globos tumidos e macios, e nas suas coxas -as coxas d'ella; sua alma derreteu-se, fervendo e borbolhando como um -metal ao fogo, e sahio-lhe pela bocca, pelos olhos, por todos os póros -do corpo, escandescente, em braza, queimando-lhe as proprias carnes e -arrancando-lhe gemidos surdos, soluços irrepremiveis, que lhe sacudiam -os membros, fibra por fibra, n'uma agonia extrema, sobrenatural, uma -agonia de anjos violentados por diabos, entre a vermelhidão cruenta das -labaredas do inferno. - -E com um arranco de besta féra cahiram ambos prostados, arquejando. -Ella tinha a bocca aberta, a lingoa fóra, os braços duros, os dedos -inteiriçados, e o corpo todo a tremer-lhe da cabeça aos pés, -continuamente, como se estivesse morrendo; ao passo que elle, de subito -arremeçado longe da vida por aquella explosão inesperada dos seus -sentidos, deixava-se mergulhar n'uma embriaguez deliciosa, atravez da -qual o mundo inteiro e todo o seu passado fugiam como sombras fatuas. E, -sem consciencia de nada que o cercava, nem memoria de si proprio, sem -olhos, sem tino, sem ouvidos, apenas conservava em todo o seu ser uma -impressão bem clara, viva, inextinguivel: o attrito d'aquella carne -quente e palpitante, que elle em delirio apertou contra o corpo, e que -elle ainda sentia latejar-lhe debaixo das mãos, e que elle continuava a -comprimir machinalmente, como a criança que, já dormindo, affaga ainda -as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao -mundo. - - - - -XVI - - -A essas horas Piedade de Jesus ainda esperava pelo marido. - -Ouvíra, assentada impaciente á porta de sua casa, darem oito horas, oito -e meia; nove, nove e meia. «Que teria acontecido, Mãe Santissima ... Pois -o homem ainda não estava prompto de todo e punha-se ao fresco, -mal engolira o jantar, para demorar-se d'aquelle modo?... Elle que nunca -fôra capaz de semelhantes tonteiras!...» - ---Dez horas! Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo! - -Foi até ao portão da estalagem, perguntou a conhecidos que passavam se -tinham visto Jeronymo; ninguem dava noticias d'elle. Sahio, correu á -esquina da rua; um silencio de cansaço bocejava n'aquelle resto de -domingo; ás dez e meia recolheu-se sobresaltada, com o coração a -sahir-lhe pela garganta, o ouvido alerta, para que ella acudisse ao -primeiro toque na porta; deitou-se sem tirar a saia, nem apagar de todo -o candieiro. A ceia frugal de leite fervido e queijo assado com assucar -e manteiga ficou intacta sobre a meza. - -Não conseguio dormir: trabalhava-lhe a cabeça, afastando para longe o -somno. Começou a imaginar perigos, rôlos, em que o seu homem recebia -novas navalhadas; Firmo figurava em todas as scenas do delirio; em todas -ellas havia sangue. Afinal, quando, depois de muito virar de um para -outro lado do colchão, a infeliz ia cahindo em modorra, o mais leve -rumor lá fóra a fazia erguer-se de pulo e correr á rotula da janella. -Mais não era o cavouqueiro, da primeira, nem da segunda, nem de nenhuma -das vezes. - -Quando principiou a chover, Piedade ficou ainda mais afflicta; na sua -sobre excitação afigurava-se-lhe agora que o marido estava sobre as -agoas do mar, embarcado, entregue unicamente á protecção da Virgem, -em meio de um temporal medonho. Ajoelhou-se defronte do oratorio e rezou -com a voz emmaranhada por uma agonia suffocadora. A cada trovão -redobrava o seu sobresalto. E ella, de joelhos, os olhos fitos na imagem -de Nossa Senhora, sem consciencia do tempo que corria, arfava -soluçando. De repente, ergueu-se, muito admirada de se ver sozinha, -como se só n'aquelle instante déra pela falta do marido a seu lado. -Olhou em torno de si, espavorida, com vontade de chorar, de pedir -soccorro; as sombras espichadas em volta do candieiro, tracejando -tremulas pelas paredes e pelo tecto, pareciam querer dizer-lhe alguma -coisa mysteriosa. Um par de calças, dependurado á porta do quarto, com -um paletó e um chapéo por cima, representou-lhe de relance o vulto de -um enforcado, a mexer com as pernas. Benzeu-se. Quiz saber que horas -eram e não poude; afigurava-se-lhe terem decorrido já tres dias pelo -menos durante aquella afflicção. Calculou que não tardaria a -amanhecer, se é que ainda amanheceria; se é que aquella noite infernal -não se fosse prolongando infinitamente, sem nunca mais apparecer o sol! -Bebeu um copo d'agoa, bem cheio, apezar de haver pouco antes tomado -outro, e ficou immovel, de ouvido attento, na espectativa de escutar as -horas de algum relogio da visinhança. - -A chuva diminuíra e os ventos principiavam a soprar com desespero. Lá -de fóra a noite dizia-lhe segredos pelo buraco da fechadura e pelas -frinchas do telhado e das portas; a cada assobio a misera julgava ver -surgir um espectro que vinha contar-lhe a morte de Jeronymo. O desejo -impaciente de saber que horas eram punha-a doida; foi á janella, -abrio-a; uma rajada humida entrou na sala, esfuziando, e apagou a luz. -Piedade soltou um grito e começou a procurar a caixa de phosphoros, aos -esbarrões, sem conseguir reconhecer os objectos que tacteava. Esteve a -perder os sentidos; afinal achou os phosphoros, accendeu de novo o -candieiro e fechou a janella. Entrára-lhe um pouco de chuva em casa; -sentio a roupa molhada no corpo; tomou um novo copo d'agoa; um calafrio -de febre percorreu-lhe a espinha, e ella atirou-se para a cama, batendo -o queixo, e metteu-se debaixo dos lençóes, a tiritar de febre. Veio de -novo a modorra, fechou os olhos; mas ergueu-se logo, assentando-se no -colchão: parecia lhe ter ouvido alguem fallar lá fóra, na rua; o -calafrio voltou; ella, tremula, procurava escutar. Se se não enganava, -distinguira vozes abafadas, conversando, e as vozes eram de homem; -deixou-se ficar á escuta, concheando a mão atraz da orelha; depois -ouvio baterem, não na sua porta, mas lá muito mais para adiante, na -casa da das Dôres, da Rita, ou da Augusta. «Devia ser o Alexandre que -voltava do serviço...» Quiz ir ter com elle e pedir-lhe noticias de -Jeronymo, o calafrio porém obrigou-a a ficar debaixo das cobertas. - -Ás cinco horas levantou-se de novo com um salto. «Já havia gente lá -fóra com certeza!...» Ouvira ranger a primeira porta; abrio a janella, -mas ainda estava tão escuro que se não distinguia patavina. Era uma -preguiçosa madrugada de Agosto, nebulosa, humida; parecia disposta a -resistir ao dia. «Ó senhores! aquella noite dos diachos não acabaria -nunca mais?...» Entretanto, adivinhava-se que ia amanhecer. Piedade -ouvio dentro do pateo, do lado contrario á sua casa, um zum-zum de duas -vozes cochichando com interesse. «Virgem do céo! dir-se-ia a voz do -seu homem! E a outra era voz de mulher, credo! Illusão sua com certeza! -ella essa noite estava para ouvir o que não se dava...» Mas aquelles -cochichos dialogados na escuridão causavam-lhe extremo alvoroço. -«Não! Como poderia ser elle?... Que loucura! se o homem estivesse ali -teria sem duvida procurado a casa!...» E os cochichos persistiam -emquanto Piedade, toda ouvidos, estalava de agonia. - ---Jeromo! gritou ella. - -As vozes calaram-se logo, fazendo o silencio completo; depois nada mais -se ouvio. - -Piedade ficou á janella. As trevas dissolveram-se afinal; uma claridade -triste formou-se no nascente e foi, a pouco e pouco, se derramando pelo -espaço. O ceu era uma argamassa cinzenta e gorda. O cortiço acordava -com o remancho das segundas feiras; ouviam-se os pigarros das resacas de -paraty. As casinhas abriam-se; vultos espreguiçados vinham bocejando -fazer a sua lavagem á bica; as chaminés principiavam a fumegar; -rescendia o cheiro do café torrado. - -Piedade atirou um chale em cima dos hombros e sahio ao pateo; a Machona, -que acabava de apparecer á porta do numero 7 com um berro para acordar -a familia de uma só vez, gritou-lhe: - ---Bons dias, visinha! Seu marido como vai? melhor? - -Piedade soltou um suspiro. - ---Ai, não m'o porgunte, sóra Leandra! - ---Peiorou, filha? - ---Não veio esta noite pr'a casa... - ---Olha o demo! Como não veio? Onde ficou elle então? - ---Cá está quem não lh'o sabe responder. - ---Ora já se vio?! - ---Estou com o miolo que é agoa de bacalháo! Não preguei olho durante -a noite! Forte desgraça a minha! - ---Teria-lhe succedido alguma?... - -Piedade pôz-se a soluçar, enxugando as lagrimas no chale de lã; ao -passo que a outra, com a sua voz rouca e forte, que nem o som de uma -trompa enferrujada, passava adiante a nova de que o Jeronymo não se -recolhera aquella noite á estalagem. - ---Talvez voltasse pr'o hospital ... obtemperou Augusta, que lavava junto -a uma tina a gaiola do seu papagaio. - ---Mas elle hontem veio de muda ... contrapoz Leandra. - ---E lá não se entra depois das oito horas da noite, acrescentou outra -lavadeira. - -E os commentarios multiplicavam-se, palpitando de todos os lados, n'uma -boa disposição para fazer d'aquillo o escandalo do dia. Piedade -respondia friamente ás perguntas curiosas que lhe dirigiam as -companheiras; estava triste e succumbida; não se lavou, não mudou de -roupa, não comeu nada, porque a comida lhe crescia na bocca e não lhe -passava da garganta; o que fazia só era chorar e lamentar-se. - ---Forte desgraça a minha! repetia a infeliz a cada instante. - ---Se vais assim, filha, estás bem arranjada! exclamou-lhe a Machona, -chegando á porta de sua casa a dar dentadas num pão recheado de -manteiga. Que diabo, creatura! O homem não te morreu, pr'a estares -agora ahi a carpir d'esse modo! - ---Sei-o eu lá se me morreu?... disse Piedade entre soluços. Vi tanta -coisa esta noite!... - ---Elle te appareceu nos sonhos?... perguntou Leandra com assombro. - ---Nos sonhos não, que não dormi, mas vi a modos que phantasmas... - -E chorava. - ---Ai, credo, filha! - ---Estou desgraçada! - ---Se te appareceram almas, de certo; mas põe a fé em Deus, mulher! e -não te rales d'esse modo, que a desgraça pode ser maior! O choro puxa -muita coisa! - ---Ai, o meu rico homem! - -E o mugido lugubre d'aquella pobre creatura abandonada antepunha á rude -agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vacca -chamando ao longe, perdida ao cahir da noite n'um logar desconhecido e -agreste. Mas o trabalho aquecia já de uma ponta á outra da estalagem; -ria-se, cantava-se, soltava-se a lingua; o formigueiro assanhava-se com -as compras para o almoço; os mercadores entravam e sahiam: a machina de -massas principiava a bufar. E Piedade, assentada á soleira de sua -porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono, maldizia a -hora em que sahíra da sua terra, e parecia disposta a morrer ali mesmo, -n'aquelle limiar de granito, onde ella, tantas vezes, com a cabeça -encostada ao hombro do seu homem, suspirava feliz, ouvindo gemer na -guitarra d'elle os queridos fados de além mar. - -E Jeronymo não apparecia. - -Ella ergueu-se finalmente, foi lá fóra ao capinzal, pôz-se a andar -agitada, fallando sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de -desespero, quando levantava para o ceu os punhos fechados, dir-se-ia que -não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquella -amaldiçoada luz allucinadora, contra aquelle sol crapuloso, que fazia -ferver o sangue aos homens e mettia-lhes no corpo luxurias de bode. -Parecia rebellar-se contra aquella natureza alcoviteira, que lhe -roubára o seu homem para dal-o a outra, porque a outra era gente do seu -peito e ella não. - -E maldizia soluçando a hora em que sahira da sua terra; essa boa terra -cansada, velha, como que enferma; essa boa terra tranquilla, sem -sobresaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios e -melancolicos, de um verde aloirado e quieto, e não ardentes e -esmeraldinos e affogados em tanto sol e em tanto perfume como os d'este -inferno, onde em cada folha que se pisa ha debaixo um reptil venenoso, -como em cada flôr que desabotôa e em cada moscardo que adeja ha um -virus de lascivia. Lá, nos saudosos campos da sua terra, não se ouviam -em noites de lua clara roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã, ao -romper do dia, rilhava o bando truculento dos queixadas; lá não varava -pelas florestas a anta feia e terrivel, quebrando arvores; lá a -sucurujú não chocalhava a sua campainha funebre, annunciando a morte, -nem a coral esperava traidora o viajante descuidado para lhe dar o bote -certeiro e decisivo; lá o seu homem não seria anavalhado pelo ciume de -um capoeira; lá Jeronymo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e -meigo, seria o mesmo lavrador triste e contemplativo, como o gado que á -tarde levanta para o ceu de opala o seu olhar humilde, compungido e -biblico. - -Maldita a hora em que ella veio! Maldita! mil vezes maldita! - -E tornando á casa, Piedade ainda mais se enraivecia, porque ali -defronte, no numero 9, a mulata bahiana, a dansadeira de chorado, a -cobra assanhada, cantava alegremente, chegando de vez em quando á -janella para vir soprar fóra a cinza da fornalha do seu ferro de -engommar, olhando de passagem para a direita e para a esquerda, a -affectar indifferença pelo que não era de sua conta, e desapparecendo -logo, sem interromper a cantiga, muito embebida no seu serviço. Ah! -essa não fez commentarios sobre o estranho procedimento de mestre -Jeronymo, nem mesmo quiz ouvir noticias d'elle; pouco arredou o pé de -dentro de casa e, n'esse pouco que sahio, foi ás pressas e sem dar -trela a ninguem. - -Nada! que as penas e desgostos não punham a panella no fogo! - -Entretanto, ah! ah! ella estava bem preoccupada. Apezar do allivio que -lhe trouxera ao espirito a morte do Firmo e a despeito do seu -contentamento de passar por uma vez aos braços do cavouqueiro, um -sobresalto vago e oppressivo esmagava-lhe o coração e matava-a de -impaciencia por atirar-se á procura de noticias sobre as occorrencias -da noite; tanto assim que, ás onze horas, mal percebeu que Piedade, -depois de esperar em vão pelo marido, sahia afflicta em busca d'elle, -disposta a ir ao hospital, á policia, ao necroterio, ao diabo, com -tanto que não voltasse sem algum esclarecimento, ella atirou logo o -trabalho para o canto, enfiou uma saia, crusou o chale no hombro, e -ganhou o mundo, tambem disposta a não voltar sem saber tim-tim por -tim-tim o que havia de novo. - -Foi cada uma para seu lado e só voltaram á tarde, quasi ao mesmo -tempo, encontrando o cortiço cheio já e assanhado com a noticia da -morte de Firmo e do terrivel effeito que esta causara no Cabeça de -Gato, onde o crime era attribuido aos Carapicús, contra os quaes -juravam-se extremas vinganças de desaffronta. Soprava de lá, rosnando, -um halito morno de colera mal soffrida e sequiosa que crescia com a -approximação da noite e parecia sacudir no ar, ameaçadoramente, a -irrequieta flamula amarella. - -O sol descambava para o ocaso, indefesso e nú, tingindo o ceu de uma -vermelhidão presaga e sinistra. - -Piedade entrou carrancuda na estalagem; não vinha triste, vinha -enfurecida; soubera na rua a respeito do marido mais do que esperava. -Soubera em primeiro logar que elle estava vivo, perfeitamente vivo, pois -fôra visto aquelle mesmo dia, mais de uma vez, no Garnizé e na praia -da Saudade, a vagar macambuzio; soubera, por intermedio de um rondante -amigo de Alexandre, que Jeronymo surgira de manhãzinha do capinzal -perto da pedreira de João Romão, o que fazia crer viesse elle -n'aquelle momento de casa, sahindo pelos fundos do cortiço; soubera -ainda que o cavouqueiro fôra á Ordem buscar a sua caixa de roupa e -que, na vespera, estivera a beber á farta na venda do Pépé, de sucia -com o Zé Carlos e com o Pataca, e que depois seguiram para os lados da -praia, todos tres mais ou menos no gole. Sem a menor desconfiança do -crime, a desgraçada ficou convencida de que o marido não se recolhera -aquella noite á casa, porque ficára em grossa pandega com os amigos e -que, voltando tarde e bebado, dera-lhe para metter-se com a mulata, que -o aceitou logo. «Pudera! Pois se havia muito a deslambida não queria -outra coisa!...» Com esta convicção inchou-lhe de subito por dentro -um novello de ciumes, e ella correu incontinenti para a estalagem, certa -de que iria encontrar o homem e despejaria contra elle aquella tremenda -tempestade de resentimentos e despeitos accumulados, que ameaçavam -suffocal-a se não rebentassem de vez. Atravessou o cortiço sem dar -palavra a ninguem e foi direito á casa; contava encontral-a aberta e a -sua decepção foi cruel ao vel-a fechada como a deixára. Pedio a chave -á Machona, que, ao entregal-a, inquirio sobre Jeronymo e pespegou-lhe -ao mesmo tempo a noticia do assassinato de Firmo. - -Com esta nova é que Piedade não contava. Ficou livida; um pavoroso -presentimento varou-lhe o espirito como um raio. Afastou-se logo, com -medo de fallar, e foi tremula e offegante que abrio a porta e metteu-se -no numero 35. - -Atirou-se a uma cadeira. Estava morta de cansaço; não tinha comido -nada esse dia e não sentia fome; a cabeça andava-lhe á roda, as pernas -pareciam-lhe de chumbo. - -Seria elle?!... interrogou a si propria. - -E os raciocinios começaram a surdir-lhe em massa, ensarilhados, -atropellando-lhe a razão. Não conseguia coordenal-os; entre todas uma -idéa insubordinava-se com mais teima, a perturbar as outras, ficando -superior, como uma carta maior que o resto do baralho: «Se elle matou -o Firmo, dormio na estalagem e não veio ter commigo, é porque então -deixou-me de feita pela Rita!» - -Tentou fugir a semelhante hypothese; repellio-a indignada. Não! não -era possivel que o Jeronymo, seu marido de tanto tempo, o pai de sua -filha, um homem a quem ella nunca déra razão de queixa e a quem sempre -respeitára e quizera com o mesmo carinho e com a mesma dedicação, a -abandonasse de um momento para outro, e por quem?! por uma não sei que -diga! um diabo de uma mulata assanhada, que tão depressa era de Pedro -como de Paulo! uma sirigaita, que vivia mais para a folia do que para o -trabalho! uma peste, que... Não! Qual! Era lá possivel?! Mas então -porque elle não viéra?... porque não vinha?... porque não dava -noticias suas?... porque fôra pela manhã á Ordem busquar a caixa da -roupa?... O Roberto Papa-defuntos dissera-lhe que o encontrara ás duas -da tarde ali perto, ao dobrar da rua Bambina, e que até pararam um -instante para conversar. Com mais alguns passos teria chegado á casa! -Seria possivel, santos do ceu! que o seu homem estivesse disposto a -nunca mais tornar para junto d'ella? - -Nisto entrou a outra, acompanhada por um pequeno descalço. Vinha -satisfeita; estivera com Jeronymo, jantaram juntos, n'uma casa de pasto; -ficára tudo combinado; arranjára-se o ninho. Não se mudaria logo para -não dar que fallar na estalagem, mas levaria alguma roupa e os objectos -mais indispensaveis e que não dessem na vista por occasião do -transporte. Voltaria no dia seguinte ao cortiço, onde continuaria a -trabalhar; á noite iria ter com o novo amante, e, no fim de uma -semana—zaz! fazia-se a mudança completa, e adeus coração!--Por aqui -é o caminho! O cavouqueiro, pelo seu lado, mandaria uma carta a João -Romão, despedindo-se do seu serviço, e outra á mulher, dizendo com -boas palavras que, por uma d'essas fatalidades de que nenhuma creatura -está livre, deixava de viver em companhia d'ella, mas que lhe -conservaria a mesma estima e continuaria a pagar o collegio da filha; e, -feito isto, prompto! entraria em vida nova, senhor da sua mulata, livres -e sozinhos, independentes, vivendo um para o outro, n'uma eterna -embriaguez de gosos. - -Mas, na occasião em que a bahiana, seguida pelo pequeno, passava -defronte da porta de Piedade, esta deu um alto da cadeira e gritou-lhe: - ---Faz favor? - ---Que é? resmungou Rita, parando sem voltar senão o rosto, e já a -dizer no seu todo de impaciencia que não estava disposta a muita -conversa. - ---Diga-me uma coisa, inquerio aquella; você muda-se? - -A mulata não contava com semelhante pergunta, assim á queima-roupa; -ficou calada sem achar o que responder. - ---Muda-se, não é verdade? insistio a outra, fazendo-se vermelha. - ---E o que tem você com isso? Mude-me ou não, não lhe tenho de dar -satisfações! Metta-se lá com a sua vida! Ora esta! - ---Com a minha vida é que te metteste tu, cigana! exclamou a portugueza, -sem se conter e avançando para a porta com impeto. - ---Hein?! Repete, cutruca ordinaria! berrou a mulata, dando um passo em -frente. - ---Pensas que já não sei de tudo? Maleficiaste-me o homem e agora -carregas-me com elle! Que a má coisa te saiba, cabra do inferno! Mas -deixa estar que has de amargar o que o diabo não quiz! quem t'o jura -sou eu! - ---Pula cá pr'a fóra, perúa chóca, se és capaz! - -Em torno de Rita já o povaréo se reunia alvoroçado; as lavadeiras -deixaram logo as tinas e vinham, com os braços nús, cheios de espuma -de sabão, estacionar ali ao pé, formando roda, silenciosas, sem -nenhuma d'ellas querer metter-se no barulho. Os homens riam e atiravam -chufas ás duas contendoras, como succedia sempre quando no cortiço -qualquer mulher se disputava com outra. - ---Isca! Isca! gritavam elles. - -Ao desafio da mulata, Piedade saltara ao pateo, armada com um dos seus -tamancos. Uma pedrada recebeu-a em caminho, rachando-lhe a pelle do -queixo, ao que ella respondeu desfechando contra a adversaria uma -formidavel pancada na cabeça. - -E pegaram-se logo a unhas e dentes. - -Por algum tempo luctaram de pé, engalfinhadas, no meio da grande -algazarra dos circumstantes. João Romão acudio e quiz separal-as; -todos protestaram. A familia do Miranda assomou á janella, tomando -ainda o café de depois do jantar, indifferente, já habituada áquellas -scenas. Dois partidos todavia se formavam em torno das luctadoras; quasi -todos os brasileiros eram pela Rita e quasi todos os portuguezes pela -outra. Discutia-se com febre a superioridade de cada qual dellas; -rebentavam gritos de enthusiasmo a cada mossa que qualquer das duas -recebia; e estas, sem se desunharem, tinham já arranhões e mordeduras -por todo o busto. - -Quando menos se esperava, ouvio-se um baque pesado e vio-se Piedade de -bruços no chão e a Rita por cima, escarranchada sobre as suas largas -ancas, a socar-lhe o cachaço de murros contínuos, desgrenhada, rota, -offegante, os cabellos cahidos sobre a cara, gritando victoriosa, com a -bocca escorrendo sangue: - ---Toma pr'o teu tabaco! Toma, gallinha podre! Toma, pr'a não te -metteres commigo! Toma! Toma, baiacú da praia! - -Os portuguezes precipitaram-se para tirar Piedade de debaixo da mulata. -Os brasileiros oppozeram-se ferozmente. - ---Não póde? - ---Enche! - ---Não deixa! - ---Não tira! - ---Entra! Entra! - -E as palavras «gallego» e «cabra» cruzaram-se do todos os pontos, -como bofetadas. Houve um vaváo rapido e surdo, e logo em seguida um -formidavel rôlo, um rôlo a valer, não mais de duas mulheres, mas de -uns quarenta e tantos homens de pulso, rebentou como um terremoto. As -cercas e os giráos desappareceram do chão e estilhaçaram-se no ar, -estalando em descarga; ao passo que n'uma berraria infernal, n'um -fecha-fecha de formigueiro em guerra, aquella onda viva ia arrastando o -que topava no caminho; barracas e tinas, baldes, regadores e caixões de -planta, tudo rolava entre aquella centena de pernas confundidas e -doidas. Das janellas do Miranda apitava-se com furia; da rua, em todo o -quarteirão, novos apitos respondiam; dos fundos do cortiço e pela -frente surgia povo e mais povo. O pateo estava quasi cheio; ninguem mais -se entendia; todos davam e todos apanhavam; mulheres e crianças -berravam. João Romão, clamando furioso, sentia-se impotente para -conter semelhantes demonios. «Fazer rôlo áquella hora, que -imprudencia!» Não conseguio fechar as portas da venda, nem o portão -da estalagem; guardou ás pressas na burra o que havia em dinheiro na -gaveta, e, armando-se com uma tranca de ferro, pôz-se de sentinella ás -prateleiras, disposto a abrir o casco ao primeiro que se animasse a -saltar-lhe o balcão. Bertoleza, lá dentro na cozinha, apromptava uma -grande chaleira de agoa quente, para defender com ella a propriedade do -seu homem. E o rôlo a ferver lá fóra, cada vez mais inflammado com um -terrivel sopro de rivalidade nacional. Ouviam-se, n'um clamor de pragas -e gemidos, vivas a Portugal e vivas ao Brazil. De vez em quando, o -povaréo, que continuava a crescer, afastava-se em massa, rugindo de -medo, mas tornava logo, como a onda no refluxo dos mares. A policia -appareceu e não se achou com animo de entrar, antes de vir um reforço -de praças, que um permanente fôra buscar a galope! - -E o rôlo fervia. - -Mas, no melhor da lucta, ouvio-se na rua um côro de vozes que se -approximava das bandas do Cabeça de Gato. Era o canto de guerra dos -capoeiras do outro cortiço, que vinham dar batalha aos Carapicús, para -vingar com sangue a morte de Firmo, seu chefe de malta. - - - - -XVII - - -Mal os Carapicús sentiram a approximação dos rivaes, um grito de -alarma echoou por toda a estalagem e o rôlo dissolveu-se de improviso, -sem que a desordem cessasse. Cada qual correu á casa, rapidamente, em -busca do ferro, do páo e de tudo que servisse para resistir e para -matar. Um só impulso os impellia a todos; já não havia ali -brasileiros e portuguezes, havia um só partido que ia ser atacado pelo -partido contrario; os que se batiam ainda ha pouco emprestavam armas uns -aos outros, limpando com as costas da mão o sangue das feridas. -Agostinho, encostado ao lampeão do meio do cortiço, cantava em altos -berros uma coisa que lhe parecia responder á musica barbara que -entoavam lá fora os inimigos; a mãe déra-lhe licença, a pedido -d'elle, para pôr um cinto de Nênêm, em que o pequeno enfiou a faca da -cozinha. Um mulatinho franzino, que até ahi não fôra notado por -ninguem no São Romão, postou-se defronte da entrada, de mãos limpas, -á espera dos invasores; e todos tiveram confiança n'elle, porque o -ladrão, além de tudo, estava rindo. - -Os Cabeças de Gato assomaram afinal ao portão. Uns cem homens, em que -senão via a arma que traziam. Porfiro vinha na frente, a dansar, de -braços abertos, bamboleando o corpo e dando rasteiras para que ninguem -lhe estorvasse a entrada. Trazia o chapéo á ré, com um laço de fita -amarella fluctuando na copa. - ---Aguenta! Aguenta! Faz frente! clamavam de dentro os Carapicús. - -E os outros, cantando o seu hymno de guerra, entraram e approximaram-se -lentamente, a dansar como selvagens. - -As navalhas traziam-nas abertas e escondidas na palma da mão. - -Os Carapicús enchiam a metade do cortiço. Um silencio arquejado -succedia á estrepitosa vozeria do rôlo que findara. Sentia-se o hausto -impaciente da ferocidade que atirava aquelles dois bandos de capoeiras -um contra o outro. E no emtanto o sol, unico causador de tudo aquillo, -desapparecia de todo nos limbos do horizonte, indifferente, deixando -atraz de si as melancolias do crepusculo, que é a saudade da terra -quando elle se ausenta, levando comsigo a alegria da luz e do calor. - -Lá na janella do Barão, o Botelho, enthusiasmado como sempre por tudo -que lhe cheirava a guerra, soltava gritos de applauso e dava brados de -commando militar. - -E os Cabeças de Gato approximavam-se cantando, a dansar, rastejando -alguns de costas para o chão, firmados nos pulsos e nos calcanhares. - -Dez Carapicús sahiram em frente; dez Cabeças de Gato se alinharam -defronte d'elles. - -E a batalha principiou, não mais desordenada e cega, porém com -methodo, sob o commando de Porfiro que, sempre a cantar ou a assobiar, -saltava em todas as direcções, sem nunca ser alcançado por ninguem. - -Desferiram-se navalhas contra navalhas, jogaram-se as cabeçadas e os -vôa-pés. Par a par, todos os capoeiras tinham pela frente um -adversario de igual destreza que respondia a cada investida com um salto -de gato ou uma queda repentina que annullava o golpe. De parte a parte -esperavam que o cansaço desequilibrasse as forças, abrindo furo á -victoria; mas um facto veio neutralisar inda uma vez a campanha: Immenso -rebentão de fogo esgargalhava-se de uma das casas do fundo, o numero -88. E agora o incendio era a valer. - -Houve nas duas maltas um subito espasmo de terror. Abaixaram-se os -ferros e calou-se o hymno de morte. Um clarão tremendo ensanguentou o -ar, que se fechou logo de fumaça fulva. - -A Bruxa conseguira afinal realisar o seu sonho de louca: o cortiço ia -arder; não haveria meio de reprimir aquelle cruento desovar de -labaredas. Os Cabeças de Gato, leaes nas suas justas de partido, -abandonaram o campo, sem voltar o rosto, desdenhosos de aceitar o -auxilio de um sinistro e dispostos até a soccorrer o inimigo, se assim -fosse preciso. E nenhum dos Carapicús os ferio pelas costas. A lucta -ficava para outra occasião. E a scena transformou-se n'um relance; os -mesmos que barateavam tão facilmente a vida, apressavam-se agora a -salvar os miseraveis bens que possuiam sobre a terra. Fechou-se um -entra-e-sáe de maribondos defronte d'aquellas cem casinhas ameaçadas -pelo fogo. Homens e mulheres corriam de cá para lá com os tarecos ao -hombro, numa balburdia de doidos. O pateo e a rua enchiam-se agora de -camas velhas e colchões espocados. Ninguem se conhecia n'aquelle zumba -de gritos sem nexo, e choro de crianças esmagadas, e pragas arrancadas -pela dôr e pelo desespero. Da casa do Barão sahiam clamores -apopleticos; ouviam-se os guinchos de Zulmira que se espolinhava com um -ataque. E começou a apparecer agoa. Quem a trouxe? Ninguem sabia -dizel-o; mas viam-se baldes e baldes que se despejavam sobre as chammas. - -Os sinos da visinhança começaram a badalar. - -E tudo era um clamor. - -A Bruxa surgio á janella da sua casa, como a bocca de uma fornalha -accesa. Estava horrivel; nunca fôra tão bruxa. O seu moreno trigueiro, -de cabocla velha, reluzia que nem metal em braza; a sua crina preta, -desgrenhada, escorrida e abundante como a das egoas selvagens, dava-lhe -um caracter phantastico de furia sabida do inferno. E ella ria-se, ebria -de satisfação, sem sentir as queimaduras e as feridas, victoriosa no -meio d'aquella orgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em -segredo a sua alma extravagante de maluca. - -Ia atirar-se cá para fóra, quando se ouvio estalar o madeiramento da -casa incendiada, que abateu rapidamente, sepultando a louca n'um montão -de brazas. - -Os sinos continuavam a badalar afflictos. Surgiram agoadeiros com as -suas pipas em carroça, alvoroçados, fazendo cada qual maior empenho em -chegar antes dos outros e apanhar os dez mil reis da gratificação. A -policia defendia a passagem ao povo que queria entrar. A rua lá fóra -estava já atravancada com o despojo de quasi toda a estalagem. E as -labaredas iam galopando desembestadas para a direita e para a esquerda -do numero 88. Um papagaio, esquecido á parede de uma das casinhas e -preso á gaiola, gritava furioso, como se pedisse soccorro. - -Dentro de meia hora o cortiço tinha de ficar em cinzas. Mas um fragor -de repiques de campainhas e estridente silvar de valvulas encheu de -subito todo o quarteirão, annunciando que chegava o corpo dos -bombeiros. - -E logo em seguida apontaram carros á desfilada, e um bando de demonios -de blusa clara, armados uns de archotes e outros de escadinhas de ferro, -apoderaram-se do sinistro, dominando-o incontinenti, com uma expedição -magica, sem uma palavra, sem hesitações e sem atropellos. A um só -tempo viram-se fartas mangas d'agoa chicoteando o fogo por todos os -lados; emquanto, sem se saber como, homens, mais ageis que macacos, -escalavam os telhados abrazados por escadas que mal se distinguiam; e -outros invadiam o coração vermelho do incendio, a dardejar duchas em -torno de si, rodando, saltando, piruetando, até estrangularem as -chammas que se atiravam ferozes para cima d'elles, como dentro de um -inferno; ao passo que outros, cá de fóra, imperturbaveis, com uma -limpeza de machina moderna, fusilavam d'agoa toda a estalagem, numero -por numero, resolvidos a não deixar uma só telha enxuta. - -O povo applaudia-os enthusiasmado, já esquecido do desastre e só -attenção para aquelle duello contra o incendio. Quando um bombeiro, de -cima do telhado, conseguio suffocar uma ninhada de labaredas, que -surgira defronte d'elle, rebentou cá de baixo uma roda de palmas, e o -heróe voltou-se para a multidão, sorrindo e agradecendo. - -Algumas mulheres atiravam-lhe beijos, entre brados de ovação. - - - - -XVIII - - -Por esse tempo, o amigo de Bertoleza, notando que o velho Liborio, -depois de escapar de morrer na confusão do incendio, fugia agoniado -para o seu esconderijo, seguio-o com disfarce e observou que o -miseravel, mal deu luz á candeia, começou a tirar offegante alguma -coisa do seu colchão immundo. - -Eram garrafas. Tirou a primeira, a segunda, meia duzia d'ellas. Depois -puxou ás pressas a coberta do catre e fez uma trouxa. Ia de novo ganhar -a sahida, mas soltou um gemido surdo e cahio no chão sem forças -arrevessando uma golfada de sangue e cingindo contra o peito o -mysterioso embrulho. - -João Romão appareceu, e elle, assim que o vio, redobrou de afflicção -e torceu-se todo sobre as garrafas, defendendo-as com o corpo inteiro, a -olhar aterrado e de esguelha para o seu interventor, como se déra cara -a cara com um bandido. E, a cada passo que o vendeiro adiantava, o -tremor e o sobresalto do velho recresciam, tirando-lhe da garganta -grunhidos roucos de animal batido e assustado. Duas vezes tentou -erguer-se; duas vezes rolou por terra moribundo. João Romão -objurgou-lhe que qualquer demora ali seria morte certa: o incendio -avançava. Quiz ajudal-o a carregar o fardo. Liborio, por unica -resposta, arregaçou os beiços, mostrando as gengivas sem dentes e -tentando morder a mão que o vendeiro estendia já sobre as garrafas. - -Mas, lá de cima, a ponta de uma lingoa de fogo varou o tecto e -illuminou de vermelho a miseravel pocilga. Liborio tentou ainda um -esforço supremo, e nada poude, começando a tremer da cabeça aos pés, -a tremer, a tremer, grudando-se cada vez mais á sua trouxa, e já -estrebuchava, quando o vendeiro lh'a arrancou das garras com violencia. -Tambem era tempo, porque, depois de insinuar a lingoa, o fogo mostrou a -bocca e escancarou afinal a guela devoradora. - -O tratante fugio de carreira, abraçado á sua preza, em quanto o velho, -sem conseguir pôr-se de pé, rastreava na pista d'elle, -difficultosamente, estrangulado de desespero senil, já sem falla, -rosnando uns vagidos de morte, os olhos turvos, todo elle roxo, os dedos -enriçados como as unhas de um abutre ferido. - -João Romão atravessou o pateo de carreira e metteu-se na sua tóca -para esconder o furto. Ao primeiro exame, de relance, reconheceu logo -que era dinheiro em papel o que havia nas garrafas. Enterrou a trouxa na -prateleira de um armario velho cheio de frascos e voltou lá fóra para -acompanhar o serviço dos bombeiros. - -Á meia noite estava já completamente extincto o fogo e quatro -sentinellas rondavam a ruina das trinta e tantas casinhas que arderam. O -vendeiro só poude voltar á trouxa das garrafas ás cinco horas da -manhã, quando Bertoleza, que fizera prodigios contra o incendio, -passava pelo somno, encostada na cama, com a saia ainda enxarcada -d'agoa, o corpo cheio de pequenas queimaduras. Verificou que as garrafas -eram oito e estavam cheias até á bocca de notas de todos os valores, -que ahi foram mettidas, uma a uma, depois de cuidadosamente enroladas e -dobradas á moda de bilhetes de rifa. Receioso, porém, de que a crioula -não estivesse bem adormecida e desse pela coisa, João Romão resolveu -adiar para mais tarde a contagem do dinheiro e guardou o thesouro -n'outro logar mais seguro. - -No dia seguinte a policia averiguou os destroços do incendio e mandou -proceder logo ao desentulho, para retirar os cadaveres que houvesse. - -Rita desapparecêra da estalagem durante a confusão da noite; Piedade -cahíra de cama, com um febrão de quarenta gráos; a Machona tinha uma -orelha rachada e um pé torcido; a das Dôres a cabeça partida; o Bruno -levara uma navalhada na coxa; dois trabalhadores da pedreira estavam -gravemente feridos; um italiano perdêra dois dentes da frente, e uma -filhinha da Augusta Carne Molle morréra esmagada pelo povo. E todos, -todos se queixavam de damnos recebidos e revoltavam-se contra os rigores -da sorte. O dia passou-se inteiro na computação dos prejuizos e a -dar-se balanço no que se salvara do incendio. Sentia-se um fartum -aborrecido de estorrilho e cinza molhada. Um duro silencio de desconsolo -embrutecia aquella pobre gente. Vultos sombrios, de mãos crusadas -atraz, permaneciam horas esquecidas, a olhar immoveis os esqueletos -carbonisados e ainda humidos das casinhas queimadas. Os cadaveres da -Bruxa e do Liborio foram carregados para o meio do pateo, disformes, -horrorosos, e jaziam entre duas vélas accesas, ao relento, á espera do -carro da Misericordia. Entrava gente a rua para os ver; descobriam-se -defronte d'elles, e alguns curiosos lançavam piedosamente uma moeda de -cobre no prato que, aos pés dos dois defuntos, recebia a esmola para a -mortalha. Em casa de Augusta, sobre uma meza coberta por uma ceremoniosa -toalha de rendas, estava o cadaverzinho da filha morta, todo enfeitado -de flôres, com um Christo de latão á cabeceira e dois cirios que -ardiam tristemente. Alexandre, assentado a um canto da sala, com o rosto -escondido nas mãos, chorava, aguardando o pesame das visitas; -fardára-se, só para isso, com o seu melhor uniforme, coitado! - -O enterro da pequenita foi feito á custa de Leonie, que appareceu ás -tres da tarde, vestida de setineta côr de creme, n'um carrinho dirigido -por um cocheiro de calção de flanella branca e libré agaloada de ouro. - -O Miranda apresentou-se na estalagem logo pela manhã, o ar compungido, -porém superior. Deu um ligeiro abraço em João Romão, fallou-lhe em -voz baixa, lamentando aquella catastrophe, mas felicitou-o porque tudo -estava no seguro. - -O vendeiro, com effeito, impressionado com a primeira tentativa de -incendio, tratara de segurar todas as suas propriedades; e, com tamanha -inspiração o fez que, agora, em vez de lhe trazer o fogo prejuizo, -até lhe deixava lucros. - ---Ah, ah, meu caro! Cautela e caldo de gallinha nunca fizeram mal a -doente!... segredou o dono do cortiço, a rir. Olhe, aquelles é que com -certeza não gostaram da brincadeira! accrescentou, apontando para o -lado em que maior era o grupo dos infelizes que tomavam conta dos restos -de seus tarecos atirados em montão. - ---Ah, mas esses, que diabo! nada têm que perder!... considerou o outro. - -E os dois visinhos foram até o fim do palco, conversando em voz baixa. - ---Vou reedificar tudo isto! declarou João Romão, com um gesto energico -que abrangia toda aquella babylonia desmantelada. - -E expoz o seu projecto: Tencionava alargar a estalagem, entrando um pouco -pelo capinzal. Levantaria do lado esquerdo, encostado ao muro do -Miranda, um novo correr de casinhas, aproveitando assim parte do pateo, -que não precisava ser tão grande; sobre as outras levantaria um -segundo andar, com uma longa varanda na frente toda gradeada. -Negociozinho para ter ali, a dar dinheiro, em vez de uma centena de -commodos, nada menos de quatrocentos a quinhentos, de doze a vinte e -cinco mil reis cada um! - -Ah! elle havia de mostrar como se fazem as coisas bem feitas. - -O Miranda escutava-o calado, fitando-o com respeito. - ---Você é um homem dos diabos! disse afinal, batendo-lhe no hombro. - -E, ao sahir de lá, no seu coração vulgar de homem que nunca produzio -e levou a vida, como todo o mercador, a explorar a boa fé de uns e o -trabalho intellectual de outros, trazia uma grande admiração pelo -visinho. O que ainda lhe restava da primitiva inveja transformou-se -n'esse instante n'um enthusiasmo illimitado e cego. - ---É um filho da mãe! resmungava elle pela rua, em caminho do seu -armazem. É de muita força! Pena é estar mettido com a peste d'aquella -crioula! Nem sei como um homem tão esperto cahio em semelhante asneira! - -Só lá pelas dez e tanto da noite foi que João Romão, depois de -certificar-se de que Bertoleza ferrára n'um somno de pedra, resolveu -dar balanço ás garrafas de Liborio. O diabo é que elle tambem quasi -que se não aguentava nas pernas e sentia os olhos a fecharem-se-lhe de -cansaço. Mas não podia socegar sem saber quanto ao certo apanhára do -avarento. - -Accendeu uma véla, foi buscar a immunda e preciosa trouxa, e carregou -com esta para a casa de pasto ao lado da cozinha. - -Depôz tudo sobre uma das mezas, assentou-se, e principiou a tarefa. -Tomou a primeira garrafa, tentou despejal-a, batendo-lhe no fundo; -foi-lhe porém necessario extrahir as notas, uma por uma, porque estavam -muito socadas e peganhentas de bolor. A proporção que as fisgava, ia -logo as desenrolando e estendendo cuidadosamente em maço, depois de -seccar-lhes a humidade ao calor das mãos e da véla. E o prazer que -elle desfructava n'este serviço punha-lhe em jogo todos os sentidos e -afugentava-lhe o somno e as fadigas. Mas, ao passar á segunda garrafa, -soffreu uma dolorosa decepção: quasi todas as cedulas estavam já -prescriptas pelo thesouro; veio-lhe então o receio de que a melhor -parte do bôlo se achasse inutilisada; restava-lhe todavia a esperança -de que fosse aquella garrafa a mais antiga de todas e a peior por -conseguinte. - -E continuou com mais ardor o seu delicioso trabalho. - -Tinha já esvaziado seis, quando notou que a véla, consumida até o -fim, bruxuleava a extinguir-se; foi buscar outra nova e vio ao mesmo -tempo que horas eram. «Oh! como a noite corrêra depressa!...» Tres e -meia da madrugada. «Parecia impossivel!» - -Ao terminar a contagem, as primeiras carroças passavam lá fóra na rua. - ---Quinze contos, quatrocentos e tantos mil reis!... disse João Romão -entre dentes, sem se fartar de olhar para as pilhas de cedulas que tinha -defronte dos olhos. - -Mas oito contos e seiscentos eram em notas já prescriptas. E o -vendeiro, á vista de tão bella somma, assim tão estupidamente -compromettida, sentio a indignação de um roubado. Amaldiçoou aquelle -maldito velho Liborio por tamanho relaxamento; amaldiçoou o governo -porque limitava, com intenções velhacas, o praso da circulação dos -seus titulos; chegou até a sentir remorsos por não se ter apoderado do -thesouro do avarento, logo que este, um dos primeiros moradores do -cortiço, lhe appareceu com o colchão as costas, a pedir chorando que -lhe dessem de esmola um cantinho onde elle se mettesse com sua miseria. -João Romão tivera sempre uma vidente cobiça sobre aquelle dinheiro -engarrafado; fariscára-o desde que fitou de perto os olhinhos vivos e -redondos do abutre decrepito, e convenceu-se de todo, notando que o -miseravel dava prompto sumisso a qualquer moedinha que lhe cahia nas -garras. - ---Seria um acto de justiça! concluio João Romão; pelo menos seria -impedir que todo este pobre dinheiro apodrecesse tão barbaramente! - -Ora adeus! mas sete ricos continhos quasi inteiros ficavam-lhe nas -unhas. «E depois, que diabo! os outros assim mesmo haviam de ir com -geito... Hoje impingiam-se dois mil reis: amanhã cinco. Não nas -compras, mas nos trocos... Porque não? Alguem reclamaria, mas muitos -enguliriam a bucha... Para isso não faltavam estrangeiros e -caipiras!... E demais, não era crime!... Sim! se havia n'isso -ladroeira, queixassem-se do governo! o governo é que era o ladrão! - ---Em todo o caso, rematou elle, guardando o dinheiro bom e máo e -dispondo-se a descançar; isto já serve para principiar as obras! -Deixem estar, que d'aqui a dias eu lhes mostrarei para quanto presto! - - - - -XIX - - -D'ahi a dias, com effeito, a estalagem mettia-se em obras. Á desordem do -desentulho do incendio succedia a do trabalho dos pedreiros; -martelava-se ali de pela manhã até á noite, o que aliás não impedia -que as lavadeiras continuassem a bater roupa e as engommadeiras -reunissem ao barulho das ferramentas o choroso falsete das suas eternas -cantigas. - -Os que ficaram sem casa foram aboletados a troxe-moxe por todos os -cantos, á espera dos novos commodos. Ninguem se mudou para o Cabeça de -Gato. - -As obras principiaram pelo lado esquerdo do cortiço, o lado do Miranda; -os antigos moradores tinham preferencia e vantagens nos preços. Um dos -italianos feridos morreu na Misericordia e o outro, tambem lá, -continuava ainda em risco de vida. Bruno recolhêra-se á Ordem de que -era irmão, e Leocadia, que não quiz attender áquella carta escripta -por Pombinha, resolveu-se a ir visitar o sou homem no hospital. Que -alegrão para o infeliz a volta da mulher, aquella mulher levada dos -diabos, mas de carne dura, a quem elle, apezar de tudo, queria muito. -Com a visita reconciliaram-se, chorando ambos, e Leocadia decidio tornar -para o São Romão e viver de novo com o marido. Agora fazia-se muito -séria e ameaçava com pancada a quem lhe propunha bregeirices. - -Piedade, essa é que se levantou das febres completamente transformada. -Não parecia a mesma depois do abandono de Jeronymo; emmagrecêra em -extremo, perdêra as côres do rosto, ficara feia, triste e resmungona; -mas não se queixava, e ninguem lhe ouvia fallar no nome do esposo. - -Esses mezes, durante as obras, foram uma época especial para a -estalagem. O cortiço não dava idéa do seu antigo caracter, tão -accentuado e no emtanto tão mixto: aquillo agora parecia uma grande -officina improvisada, um arsenal, em cujo fragor a gente só se entende -por signaes. As lavadeiras fugiram para o capinzal dos fundos, porque o -pó da terra e da madeira sujavam-lhes a roupa lavada. Mas, dentro de -pouco tempo, estava tudo prompto; e, com immenso pasmo, viram que a -venda, a sebosa bodega, onde João Romão se fez gente, ia tambem entrar -em obras. O vendeiro resolvera aproveitar d'ella sómente algumas das -paredes, que eram de um metro de largura, talhadas á portugueza; -abriria as portas em arco, suspenderia o tecto e levantaria um sobrado, -mais alto que o do Miranda e, com toda a certeza, mais vistoso. Prédio -para metter o do outro no chinello; quatro janellas de frente, oito de -lado, com um terraço ao fundo. O logar em que elle dormia com -Bertoleza, a cozinha e a casa de pasto seriam abobadadas, formando, com -a parte da taverna, um grande armazem, em que o seu commercio iria -fortalecer-se e alargar-se. - -O Barão e o Botelho appareciam por lá quasi todos os dias, ambos muito -interessados pela prosperidade do visinho; examinavam os materiaes -escolhidos para a construcção, batiam com a biqueira do chapéo de sol -no pinho de Riga destinado ao assoalho, e affectando-se bons -entendedores, tomavam na palma da mão e esfarelavam entre os dedos um -punhado da terra e da cal com que os operarios faziam barro. Ás vezes -chegavam a ralhar com os trabalhadores, quando lhes parecia que não iam -bem no serviço! João Romão, agora sempre de paletó, engravatado, -calças brancas, collete e corrente de relogio, já não parava na -venda, e só acompanhava as obras na folga das occupações da rua. -Principiava a tomar tino no jogo da Bolsa; comia em hoteis caros e bebia -cerveja em larga camaradagem com capitalistas nos cafés do commercio. - -E a crioula? Como havia de ser? - -Era isto justamente o que, tanto o Barão como o Botelho, morriam porque -lhe dissessem. Sim, porque aquella bôa casa que se estava fazendo, e os -ricos moveis encommendados, e mais as pratas e as porcelanas que haviam -de vir, não seriam de certo para os beiços da negra velha! -Conserval-a-ia como criada? Impossivel! Todo Botafogo sabia que elles -até ahi fizeram vida commum! - -Todavia, tanto o Miranda, como o outro, não se animavam a abrir o bico -a esse respeito com o visinho e contentavam-se em boquejar entre si -mysteriosamente, palpitando ambos por ver a sahida que o vendeiro -acharia para semelhante situação. - -Maldita preta dos diabos! Era ella o unico defeito, o senão, de um -homem tão importante e tão digno! - -Agora, não se passava um domingo sem que o amigo de Bertoleza fosse -jantar á casa do Miranda. Iam juntos ao theatro. João Romão dava o -braço á Zulmira, e, procurando galanteal-a e mais ao resto da familia, -desfazia-se em obsequios brutaes e dispendiosos, com uma franqueza -exagerada que não olhava gastos. Se tinham de tomar alguma coisa, elle -fazia vir logo tres, quatro garrafas ao mesmo tempo, pedindo sempre o -triplo do necessario e accumulando compras inuteis de doces, flôres e -tudo que apparecia. Nos leilões das festas de arraial era tão feroz a -sua febre de obsequiar á gente do Miranda, que nunca voltavam para casa -sem um homem atraz, carregado com os mimos que o vendeiro arrematava. - -E Bertoleza bem que comprehendia tudo isso e bem que estranhava a -transformação do amigo. Elle ultimamente mal se chegava para ella e, -quando o fazia, era com tal repugnancia, que antes o não fizesse. A -desgraçada muita vez sentia-lhe cheiro de outras mulheres, perfumes de -cocotes estrangeiras, e chorava em segredo, sem animo de reclamar os -seus direitos. Na sua obscura condição de animal de trabalho, já não -era amor o que a misera desejava, era sómente confiança no amparo da -sua velhice, quando de todo lhe faltassem as forças para ganhar a vida. -E contentava-se em suspirar no meio de grandes silencios durante o -serviço de todo o dia, covarde e resignada, como seus paes que a -deixaram nascer e crescer no captiveiro. Escondia-se de todos, mesmo da -gentalha do frege e da estalagem, envergonhada de si propria, -amaldiçoando-se por ser quem era, triste de sentir-se a mancha negra, a -indecorosa nodoa d'aquella prosperidade brilhante e clara. - -E, no emtanto, adorava o amigo; tinha por elle o fanatismo irracional -das caboclas do Amazonas pelo branco a que se escravisam, d'essas que -morrem de ciumes, mas que tambem são capazes de matar-se para poupar ao -seu idolo a vergonha do seu amor. O que custava áquelle homem consentir -que ella, uma vez por outra, se chegasse para junto d'elle? Todo o dono, -nos momentos de bom humor, affaga o seu cão... Mas qual! o destino de -Bertoleza fazia-se cada vez mais estreito e mais sombrio; pouco a pouco -deixara totalmente de ser a amante do vendeiro, para ficar sendo só uma -sua escrava. Como sempre, era a primeira a erguer-se e a ultima a -deitar-se; de manhã escamando peixe, á noite vendendo-o á porta, para -descançar da trabalheira grossa das horas de sol; sempre sem domingo -nem dia santo, sem tempo para cuidar de si, feia, gasta, immunda, -repugnante, com o coração eternamente emprenhado de desgostos que -nunca vinham á luz. Afinal, convencendo-se de que ella, sem ter ainda -morrido, já não vivia para ninguem, nem tão pouco para si, desabou -n'um fundo entorpecimento apathico, estagnado como um charco podre que -causa nojo. Fizera-se aspera, desconfiada, sobrolho carrancudo, uma -linha dura de um canto ao outro da bocca. E durante dias inteiros, sem -interromper o serviço, que ella fazia agora automaticamente, por um -habito de muitos annos, gesticulava e mexia com os labios, monologando -sem pronunciar as palavras. Parecia indifferente a tudo, a tudo que a -cercava. - -Não obstante, certo dia em que João Romão conversou muito com -Botelho, as lagrimas saltaram dos olhos da infeliz, e ella teve de -abandonar a obrigação, porque o pranto e os soluços não lhe deixavam -fazer nada. - -Botelho havia dito ao vendeiro: - ---Faça o pedido! É occasião. - ---Hein? - ---Póde pedir a mão da pequena. Está tudo prompto! - ---O Barão dá-m'a? - ---Dá. - ---Tem certeza d'isso? - ---Ora! se não tivesse não lh'o diria d'este modo! - ---Elle prometteu? - ---Fallei-lhe; fiz-lhe o pedido em seu nome. Disse que estava autorisado -por você. Fiz mal? - ---Mal? Fez muito bem. Creio até que não é preciso mais nada! - ---Não, se o Miranda não vier logo ao seu encontro é bom você lhe -fallar, comprehende? - ---Ou escrever. - ---Tambem. - ---E a menina? - ---Respondo por ella. Você não tem continuado a receber as flôres? - ---Tenho. - ---Pois então não deixe pelo seu lado de ir mandando tambem as suas e -faça o que lhe disse.--Atire-se, seu João, atire-se emquanto o angú -está quente! - -Por outro lado, Jeronymo empregára-se na pedreira de São Diogo, onde -trabalhava d'antes, e morava agora com a Rita numa estalagem da Cidade -Nova. - -Tiveram de fazer muita despeza para se installarem; foi-lhes preciso -comprar de novo todos os arranjos de casa, porque do São Romão -Jeronymo só levou dinheiro, dinheiro que elle já não sabia poupar. -Com o asseio da mulata a sua casinha ficou, todavia, que era um regalo; -tinham cortinado na cama, lençóes de linho, fronhas de renda, muita -roupa branca, para mudar todos os dias, toalhas de meza, guardanapos; -comiam em pratos de porcelana e uzavam sabonetes finos. Plantaram á -porta uma trepadeira que subia para o telhado, abrindo pela manhã -flôres escarlates, de que as abelhas gostavam muito; penduraram gaiolas -de passarinho na sala de jantar; sortiram a despensa de tudo que mais -gostavam; compraram gallinhas e marrecos e fizeram um banheiro só para -elles, porque o da estalagem repugnou á bahiana que, n'esse ponto, era -muito escrupulosa. - -A primeira parte da sua lua de mel foi uma cadeia de delicias continuas; -tanto elle como ella, pouco ou nada trabalharam; a vida dos dois -resumíra-se, quasi que exclusivamente, nos oito palmos de colchão -novo, que nunca chegava a esfriar de todo. Jámais a existencia pareceu -tão boa e corredia para o portuguez; aquelles primeiros dias -fugiram-lhe como estrophes seguidas de uma deliciosa canção de amor, -apenas espacejada pelo estribilho dos beijos em dueto; foi um prazer -prolongado e amplo, bebido sem respirar, sem abrir os olhos, n'aquelle -collo carnudo e doirado da mulata, a que o cavouqueiro se abandonara -como um bebedo que adormece abraçado a um garrafão inesgotavel de -vinho gostoso. - -Estava completamente mudado. Rita apagára-lhe a ultima restea das -recordações da patria; seccou, ao calor dos seus labios grossos e -vermelhos, a derradeira lagrima de saudade, que o desterrado lançou do -coração com o extremo arpejo que a sua guitarra suspirou. - -A guitarra! substituio-a ella pelo violão bahiano, e deu-lhe a elle uma -rede, um cachimbo, e embebedou-lhe os sonhos de amante prostrado com as -suas cantigas do norte, tristes, deleitosas, em que ha caboclinhos -corropiras que no sertão vêm pitar á beira das estradas em noites de -lua clara, e querem que todo o viajante que vae passando lhes ceda fumo -e cachaça, sem o que, ai d'elles! o corropira transforma-os em bicho do -matto. E deu-lhe do seu de comer da Bahia, temperado como fogoso azeite -de dendem, côr de braza; deu-lhe das suas muquecas escandescentes, de -fazer chorar, e habituou-lhe a carne ao cheiro sensual d'aquelle seu -corpo de cobra, lavado tres vezes ao dia e tres vezes perfumado com -hervas aromaticas. - -O portuguez abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das -extravagancias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fôra-se-lhe de vez o -espirito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e -deu-se todo, todo inteiro, á felicidade de possuir a mulata e ser -possuido só por ella, só ella, e mais ninguem. - -A morte do Firmo não vinha nunca toldar-lhes o goso da vida; quer elle, -quer a amiga, achavam a coisa muito natural. «O facinora matara tanta -gente; fizera tanta maldade; devia pois acabar como acabou! Nada mais -justo! Se não fosse Jeronymo, seria outro! Elle assim o quiz--bem -feito!» - -Por esse tempo, Piedade de Jesus, sem se conformar com a ausencia do -marido, chorava o seu abandono e ia tambem agora se transformando de dia -para dia, vencida por um desmazelo de chumbo, uma dura desesperança, a -que nem as lagrimas bastavam para adoçar as agruras. A principio, ainda -a pobre de Christo tentou resistir com coragem áquella viuvez peior que -essa outra, em que ha, para elemento de resignação, a certeza de que a -pessoa amada nunca mais terá olhos para cobiçar mulheres, nem bocca -para pedir amores; mas depois começou a afundar sem resistencia na lama -do seu desgosto, covardemente, sem forças para illudir-se com uma -esperança fatua, abandonando-se ao abandono, desistindo dos seus -principios, do seu proprio caracter, sem se ter já n'este mundo na -conta de alguma coisa e continuando a viver sómente porque a vida era -teimosa e não queria deixal-a ir apodrecer lá em baixo, por uma vez. -Deu para desleixar-se no serviço; as suas freguezas de roupa começaram -a reclamar; foi-lhe fugindo o trabalho pouco a pouco; fez-se madraça e -moleirona, precisando já empregar grande esforço para não bolir nas -economias que Jeronymo lhe deixára, porque isso devia ser para a filha, -aquella probrezita orphanada antes da morte dos paes. - -Um dia, Piedade levantou-se queixando-se de dôres de cabeça, zoada nos -ouvidos e o estomago embrulhado; aconselharam-lhe que tomasse um trago -de paraty. Ella aceitou o conselho e passou melhor. No dia seguinte -repetio a doze; deu-se bem com a perturbação em que a punha o alcool, -esquecia-se um pouco durante algum tempo das amofinações da sua vida; -e, gole a gole, habituára-se a beber todos os dias o seu meio martello -de aguardente, para enganar os pezares. - -Agora, que o marido já não estava ali para impedir que a filha puzesse -os pés no cortiço, e agora que Piedade precisava de consolo, a pequena -ia passar os domingos com ella. Sahira uma criança forte e bonita; -puxara do pae o vigor physico e da mãe a expressão bondosa da -physionomia. Já tinha nove annos. - -Eram esses agora os unicos bons momentos da pobre mulher, esses que ella -passava ao lado da filha. Os antigos moradores da estalagem principiavam -a distinguir a menina com a mesma predilecção com que amavam Pombinha, -porque em toda aquella gente havia uma necessidade moral de eleger para -mimoso da sua ternura um entezinho delicado e superior, a quem elles -privilegiavam respeitosamente, como subditos a um principe. -Chrismaram-na logo com o cognome de «Senhorinha». - -Piedade, apezar do procedimento do marido, ainda no intimo se -impressionava com a idéa de que não devia contrarial-o nas suas -disposições de pae. «Mas que mal tinha que a pequena fosse ali?... -Era uma esmola que fazia á mãe! Lá pelo risco de perder-se... Ora -adeus, só se perdia quem mesmo já nascêra para a perdição! A outra -não se conservára sã e pura? não achára noivo? não casára e não -vivia dignamente com o seu marido? Então?!» E Senhorinha continuou a -ir á estalagem, a principio nos domingos pela manhã, para voltar á -tarde, depois já de vespera, nos sabbados, para só tornar ao collegio -na segunda feira. - -Jeronymo, ao saber disto, por intermedio da professora, revoltou-se no -primeiro impeto, mas, pensando bem no caso, achou que era justo deixar -á mulher aquelle consolo. «Coitada! devia viver bem aborrecida da -sorte!» Tinha ainda por ella um sentimento compassivo, em que a melhor -parte nascêra com o remorso. «Era justo, era! que a pequena aos -domingos e dias santos lhe fizesse companhia!» E então, para ver a -filha, tinha que ir ao collegio nos dias de semana. Quasi sempre -levava-lhe presentes de doce, fructas, e perguntava-lhe se precisava de -roupa ou de calçado. Mas, um bello dia, apresentou-se tão ebrio, que -a directora lhe negou a entrada. Desde essa occasião, Jeronymo teve -vergonha de lá voltar, e as suas visitas á filha tornaram-se muito -raras. - -Tempos depois, Senhorinha entregou á mãe uma conta de seis mezes da -pensão do collegio, com uma carta em que a directora negava-se a -conservar a menina, no caso que não liquidassem promptamente a divida. -Piedade levou as mãos á cabeça: «Pois o homem já nem o ensino da -pequena queria dar?! Que lhe valesse Deus! onde iria ella fazer dinheiro -para educar a filha?!» - -Foi á procura do marido; já sabia onde elle morava. Jeronymo -recusou-se, por vexame; mandou dizer que não estava em casa. Ella -insistio; declarou que não arredaria d'alli sem lhe fallar; disse em -voz bem alta que não ia lá por elle, mas pela filha, que estava -arriscada a ser expulsa do collegio; ia para saber que destino lhe havia -de dar, porque agora a pequena estava muito taluda para ser engeitada na -roda! - -Jeronymo appareceu afinal, com um ar triste de vicioso envergonhado que -não tem animo de deixar o vicio. A mulher, ao vel-o, perdeu logo toda a -energia com que chegára e com moveu-se tanto, que as lagrimas lhe -saltaram dos olhos ás primeiras palavras que lhe dirigio. E elle -abaixou os seus e fez-se livido defronte d'aquella figura avelhantada, -de pelles vazias, de cabellos sujos e encanecidos. Não lhe parecia a -mesma! Como estava mudada! E tratou-a com brandura, quasi a pedir-lhe -perdão, a voz muito expremida no aperto da garganta. - ---Minha pobre velha!... balbuciou, pousando-lhe a mão larga na cabeça. - -E os dois emmudeceram um defronte do outro, arquejantes. Piedade sentio -ancias de atirar-se-lhe nos braços, possuida de imprevista ternura com -aquelle simples affago do seu homem. Um subito raio de esperança -illuminou-a toda por dentro, dissolvendo de relance os negrumes -accumulados ultimamente no seu coração. Contava não ouvir ali senão -palavras duras e asperas, ser talvez repellida grosseiramente, insultada -pela outra e coberta de ridiculo pelos novos companheiros do marido; -mas, ao encontral-o tambem triste e desgostoso, sua alma prostrou-se -reconhecida; e, assim que Jeronymo, cujas lagrimas corriam já -silenciosamente, deixou que a sua mão fosse descendo da cabeça ao -hombro e depois á cintura da esposa, ella desabou, escondendo o rosto -contra o peito d'elle, n'uma explosão de soluços que lhe faziam vibrar -o corpo inteiro. - -Por algum tempo choraram ambos abraçados. - ---Consola-te! que queres tu?... São desgraças!... disse o cavouqueiro -afinal limpando os olhos. Foi como se eu te tivesse morrido ... mas -pódes ficar certa de que te estimo e nunca te quiz mal!... Volta para -casa; eu irei pagar o collegio de nossa filhinha e hei de olhar por ti. -Vae, e pede a Deus Nosso Senhor que me perdôe os desgostos que te tenho -eu dado! - -E acompanhou-a até ao portão da estalagem. - -Ella, sem poder pronunciar palavra, sahio cabisbaixa, a enxugar os olhos -no chale de lã, sacudida ainda de vez em quando por um soluço -retardado. - -Entretanto, Jeronymo não mandou saldar a conta do collegio, no dia -seguinte, nem no outro, nem durante todo o resto do mez; e elle, -coitado! bem que se mortificou por isso; mas onde ir buscar dinheiro -n'aquella occasião? o seu trabalho mal lhe dava agora para viver junto -com a mulata; estava já alcançado nos seus ordenados e devia ao -padeiro e ao homem da venda. Rita era desperdiçada e amiga de gastar á -larga; não podia passar sem uns tantos regalos de barriga e gostava de -fazer presentes. Elle, receioso de contrarial-a e quebrar o ôvo da sua -paz, até ahi tão completo com respeito á bahiana, subordinava-se -calado e affectando até satisfação; no intimo, porém, o infeliz -soffria deveras. A lembrança constante da filha e da mulher -apoquentavam-no com pontas de remorso, que dia a dia alastravam na sua -consciencia, á proporção que esta ia acordando d'aquella cegueira. O -desgraçado sentia e comprehendia perfeitamente todo o mal da sua -conducta; mas só a idéa de separar-se da amante, punha-lhe logo o -sangue doido e apagava-lhe de novo a luz dos raciocinios. «Não! não! -Tudo que quizessem, menos isso!» - -E então, para fugir áquella voz irrefutavel, que estava sempre a -serrazinar dentro delle, bebia em camaradagem com os companheiros e -habituára-se, dentro em pouco, á embriaguez. Quando Piedade, quinze -dias depois da sua primeira visita, tornou lá, um domingo, acompanhada -pela filha, encontrou-o bebendo, n'uma roda de amigos. - -Jeronymo recebeu-as com grande escarcéo de alegria. Fel-as entrar. -Beijou a pequena repetidas vezes e suspendeu-a pela cintura, soltando -exclamação de enthusiasmo. - -Com um milhão de raios! Que linda estava a sua morgadinha! - -Obrigou-as logo a tomar alguma coisa e foi chamar a mulata; queria que -as duas mulheres fizessem as pazes no mesmo instante. Era questão -decidida! - -Houve uma scena de constrangimentos, quando a portugueza se vio defronte -da bahiana. - ---Vamos! vamos! Abracem-se! Acabem com isso por uma vez! bradava -Jeronymo, a empurral-as uma contra a outra. Não quero aqui caras -fechadas! - -As duas trocaram um aperto de mão, sem se fitarem. Piedade estava -escarlate de vergonha. - ---Ora muito bem! accrescentou o cavouqueiro, agora, para a coisa ser -completa, hão de jantar comnosco! - -A portugueza oppoz-se, resmungando desculpas, que o cavouqueiro não -aceitou. - ---Não as deixo sahir! É boa! Pois hei de deixar ir minha filha sem -matar as saudades? - -Piedade assentou-se a um canto, impaciente pela occasião de entender-se -com o marido sobre o negocio do collegio. Rita, voluvel como toda a -mestiça, não guardava rancores, e, pois, desfez-se em obzequios com a -familia do amigo. As outras visitas sahiram antes do jantar. - -Puzeram-se á mesa ás quatro horas e principiaram a comer com boa -disposição, carregando no virgem logo desde a sopa. Senhorinha -destacava-se do grupo; na sua timidez de menina de collegio parecia, -entre aquella gente, triste e assustada ao mesmo tempo. O pae -acabrunhava-a com as suas solicitudes brutaes e com as suas perguntas -sobre os estudos. Á excepção d'ella, todos os outros estavam, antes -da sobremeza, mais ou menos chumbados pelo vinho. Jeronymo, esse estava -de todo. Piedade, instigada por elle, esvasiára frequentes vezes o seu -copo e, ao fim do jantar, déra para queixar-se amargamente da vida; foi -então que ella, já com azedume na voz, fallou na divida do collegio e -nas ameaças da directora. - ---Ora, filha! disse-lhe o cavouqueiro. Agora estás tu tambem para ahi -com essa mastigação! Deixa as tristezas para outra vez! Não nos -amargures o jantar! - ---Triste sorte a minha! - ---Ai, ai! que temos lamuria! - ---Como não me hei de queixar, se tudo me corre mal?! - ---Sim? Pois se é para isso que aqui vens melhor será não tornares -cá!... resmungou Jeronymo, franzindo o sobrolho. Que diabo! com -choradeiras nada se endireita! Tenho eu culpa de que sejas infeliz?... -Tambem o sou e não me queixo de Deus! - -Piedade abrio a soluçar. - ---Ahi temos! berrou o marido, erguendo-se e dando uma punhada forte -sobre a meza. E aturem-na! Por mais que um homem se não queira zangar, -ha de estoirar por força! Ora bolas! - -Senhorinha correu para junto do pae, procurando contel-o. - ---Sebo! berrou elle, desviando-a. Sempre a mesma coisa! Pois não estou -disposto a aturar isto! Arre! - ---Eu não vim cá por passeio!... proseguio Piedade entre lagrimas! Vim -cá para saber da conta do collegio!... - ---Pague-a você, que tem lá o dinheiro que lhe deixei! Eu é que não -tenho nenhum! - ---Ah! então com que não pagas?! - ---Não! Com um milhão de raios! - ---É que és ainda muito peior do que eu suppunha! - ---Sim, hein?! Pois então deixe-me cá com toda a minha ruindade e -despache o becco! Despache-o, antes que eu faça alguma asneira! - ---Minha pobre filha! Quem olhará por ella, Senhor dos afflictos?! - ---A pequena já não precisa de collegio! deixe-a cá commigo, que nada -lhe faltará! - ---Separar-me de minha filha? a unica pessoa que me resta?! - ---Ó mulher! você não está separada d'ella a semana inteira?... Pois -a pequena, em vez de ficar no collegio, fica aqui, e aos domingos irá -vel-a! Ora ahi tem! - ---Eu quero antes ficar com minha mãe!... balbuciou a menina, -abraçando-se a Piedade. - ---Ah! tambem tu, ingrata, já me fazes guerra?! Pois vão com todos os -diabos! e não me tornem cá para me ferver o sangue, que já tenho de -sobra com que arreliar-me! - ---Vamos d'aqui! gritou a portugueza, travando da filha pelo braço. -Maldita a hora em que vim cá! - -E as duas, mãe e filha, desappareceram; emquanto Jeronymo, passeiando -de um para outro lado, monologava, furioso sob a fermentação do vinho. - -Rita não se mettêra na contenda, nem se mostrára a favor de nenhuma -das partes. «O homem, se quizesse voltar para junto da mulher, que -voltasse! Ella não o prenderia, porque amor não era obrigado!» - -Depois de fallar só por muito espaço, o cavouqueiro atirou-se a uma -cadeira, despejou sombrio dois dedos de laranginha n'um copo e bebeu-os -de um trago. - ---Arre! Assim tambem não! - -A mulata então approximou-se d'elle, por detraz; segurou-lhe a cabeça -entre as mãos e beijou-o na bocca, arredando com os labios a espessura -dos bigodes. - -Jeronymo voltou-se para a amante, tomou-a pelos quadris e assentou-a em -cheio sobre as suas coxas. - ---Não te rales, meu bem! disse ella, affagando-lhe os cabellos. Já -passou! - ---Tens razão! besta fui eu em deixal-a pôr pé cá dentro de casa! - -E abraçaram-se com impeto, como se o breve tempo roubado pelas visitas -fosse uma interrupção nos seus amores. - -Lá fora, junto ao portão da estalagem, Piedade, com o rosto escondido -no hombro da filha, esperava que as lagrimas cedessem um pouco, para as -duas seguirem o seu destino de enxotadas. - - - - -XX - - -Chegaram á casa ás nove horas da noite. Piedade levava o coração -feito em lama; não déra palavra por todo o caminho e logo que recolheu -a pequena, encostou-se á commoda, soluçando. - -Estava tudo acabado! Tudo acabado! - -Foi á garrafa de aguardente, bebeu uma boa porção; chorou ainda, -tornou a beber, e depois sahio ao pateo, disposta a parasitar a alegria -dos que se divertiam lá fóra. - -A das Dôres tivera jantar de festa; ouviam-se as risadas d'ella e a voz -avinhada e grossa do seu homem, o tal sujeito do commercio, abafadas de -vez em quando pelos berros da Machona, que ralhava com Agostinho. Em -diversos pontos cantavam e tocavam viola. - -Mas o cortiço já não era o mesmo; estava muito differente; mal dava -idéa do que fôra. O pateo, como João Romão havia promettido, -estreitára-se com as edificações novas; agora parecia uma rua, todo -calçado por igual e illuminado por tres lampeões grandes, -symetricamente dispostos. Fizeram-se seis latrinas, seis torneiras -d'agoa e tres banheiros. Desappareceram as pequenas hortas, os jardins -de quatro a oito palmos e os immensos depositos de garrafas vasias. Á -esquerda, até onde acabava o predio do Miranda, estendia-se um novo -correr de casinhas de porta e janella, e d'ahi por diante, acompanhando -todo o lado do fundo e dobrando depois para a direita até esbarrar no -sobrado de João Romão, erguia-se um segundo andar, fechado em cima do -primeiro por uma estreita e extensa varanda de grades de madeira, para a -qual se subia por duas escadas, uma em cada extremidade. De cento e -tantos, a numeração dos commodos elevou-se a mais de quatrocentos; e -tudo caiadinho e pintado de fresco; paredes brancas, portas verdes e -gotteiras encarnadas. Poucos logares havia desoccupados. Alguns -moradores puzeram plantas á porta e á janella, em meias tinas serradas -ou em vazos de barro. Albino levou o seu capricho até á cortina de -labyrintho e chão forrado de esteira. A casa d'elle destacava-se das -outras; era no andar de baixo, e cá de fóra via-se-lhe o papel -vermelho da sala, a mobilia muito brunida, jarras de flôres sobre a -commoda, um lavatorio com o espelho todo cercado de rosas artificiaes, -um oratorio grande, resplandescente de palmas doiradas e prateadas, -toalhas de renda por toda a parte, n'um luxo de egreja, casquilho e -defumado. E elle, o pallido lavadeiro, sempre com o seu lenço cheiroso -á volta do pescocinho, a sua calça branca de bocca larga, o seu -cabello molle cahido por detraz das orelhas bambas, preoccupava-se muito -em arrumar tudo isso, eternamente, como se esperasse a cada instante a -visita de um estranho. Os companheiros de estalagem elogiavam-lhe -aquella ordem e aquelle asseio; pena era que lhe dessem as formigas na -cama! Em verdade, ninguem sabia porque, mas a cama de Albino estava -sempre coberta de formigas. Elle a destruil-as, e o demonio do bichinho -a multiplicar-se cada vez mais e mais todos os dias. Uma campanha -desesperadora, que o trazia triste, e aborrecido da vida. Defronte -justamente ficava a casa do Bruno e da mulher, toda mobiliada de novo, -com um grande candieiro de kerosene em frente á entrada, cujo reverbero -parecia olhar desconfiado lá de dentro para quem passava cá no pateo. -Agora, entretanto, o casal vivia em santa paz. Leocadia estava discreta; -sabia-se que ella dava ainda muito que fazer ao corpo sem o concurso do -marido, mas ninguem dizia quando, nem onde. O Alexandre jurava, que, ao -entrar ou sahir fora d'horas, nunca a pilhara no vicio; e a esposa, a -Augusta Carne Molle, ia mais longe na defeza, porque sempre tivera pena -de Leocadia, pois entendia que aquelle assanhamento por homem não era -maldade n'ella; era praga de algum bocca do diabo que a quiz e a -pobrezinha não deixou.--Estava se vendo d'isso todos os dias!--tanto -que ultimamente, depois que a creatura pedio a um padre um pouco de agua -benta e benzeu-se com esta em certos logares, o fogo desapparecêra -logo, e ella ahi vivia direita e séria que não dava que fallar a -ninguem! Augusta ficára com a familia n'uma das casinhas do segundo -andar, á direita; estava gravida outra vez; e á noite via-se o -Alexandre, sempre muito circumspecto, a passeiar ao comprido da varanda, -acalentando uma criancinha ao collo, emquanto a mulher dentro de casa -cuidava de outras. A filharada crescia-lhes, que mettia medo. «Era um -no papo, outro no sacco!» Moravam agora tambem d'esse lado os dois -cumplices de Jeronymo, o Pataca e o Zé Carlos, occupando juntos o mesmo -commodo; defronte da porta tinham um fogãozinho e um fogareiro, em que -preparavam elles mesmos a sua comida. Logo adiante era o quarto de um -empregado do correio, pessoa muito callada, bem vestida e pontual no -pagamento; sahia todas as manhãs e voltava ás dez da noite -invariavelmente; aos domingos só ia á rua para comer, e depois -fechava-se em casa e, houvesse o que houvesse no cortiço, não punha -mais o nariz de fóra. E, assim como este, notavam-se por ultimo na -estalagem muitos inquilinos novos, que já não eram gente sem gravata -e sem meias. A feroz engrenagem d'aquella machina terrivel, que nunca -parava, ia já lançando os dentes a uma nova camada social que, pouco a -pouco, se deixaria arrastar inteira lá para dentro. Começavam a vir os -estudantes pobres, com os seus chapéos desabados, o paletó fuveiro, -uma pontinha de cigarro a queimar-lhes a pennugem do buço, e as -algibeiras muito cheias, mas só de versos e jornaes; surgiam continuos -de repartições publicas, caixeiros de botequim, artistas de theatro, -conductores de bonde, e vendedores de bilhetes de loteria. Do lado -esquerdo, toda a parte em que havia varanda foi monopolisada pelos -italianos; habitavam cinco a cinco, seis a seis no mesmo quarto, e -notava-se que n'esse ponto a estalagem estava já muito mais suja que -nos outros. Por melhor que João Romão reclamasse, formava-se ahi todos -os dia uma esterqueira de cascas de melancia e laranja. Era uma communa -ruidosa e porca a dos demonios dos mascates! Quasi que se não podia -passar lá, tal a accumulação de taboleiros de louça e objectos de -vidro, caixas de quinquilharia, molhos e molhos de vasilhame de folha de -Flandres, bonecos e castellos de gesso, realejos, macacos, o diabo! E -tudo isso no meio de um fedor nauseabundo de coisas podres, que -empestava todo o cortiço. A parte do fundo da varanda era asseiada -felizmente e destacava-se pela profusão de passaros que lá tinham, -entre os quaes sobresahia uma arara enorme que, de espaço a espaço, -soltava um formidavel sibilo estridente e rouco. Por debaixo ficava a -casa da Machona, cuja porta, como a janella, Nênêm trazia sempre -enfeitadas de tinhorôes e begonias. O predio do Miranda parecia ter -recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão das casinhas da -esquerda, e agora olhava a medo, por cima dos telhados, para a casa do -vendeiro, que lá defronte erguia-se altiva, desassombrada, o ar -sobranceiro e triumphante. João Romão conseguira metter o sobrado do -visinho no chinello; o seu era mais alto e mais nobre, e então com as -cortinas e com a mobilia nova impunha respeito. Foi abaixo aquelle -grosso e velho muro da frente com o seu largo portão de cocheira, e a -entrada da estalagem era agora dez braças mais para dentro, tendo entre -ella e a rua um pequeno jardim com bancos e um modesto repuxo ao meio, -de cimento, imitando pedra. Fôra-se a pittoresca lanterna de vidros -vermelhos; foram-se as iscas de figado e as sardinhas preparadas ali -mesmo á porta da venda sobre as brazas; e na taboleta nova, muito maior -que a primitiva, em vez de «Estalagem de São Romão» lia-se em -lettras caprichosas: - - -=«Avenida São Romão»= - - -O Cabeça de Gato estava vencido finalmente, vencido para sempre; nem -já ninguem se animava a comparar as duas estalagens. Á medida que a de -João Romão prosperava d'aquelle modo, a outra decahia de todo; raro -era o dia em que a policia não entrava lá e baldeava tudo aquillo a -espadeirada de cego. Uma desmoralisação completa! Muitos Cabeças de -Gato viraram casaca, passando-se para os Carapicús, entre os quaes um -homem podia até arranjar a vida, se soubesse trabalhar com geito em -tempo de eleições. Exemplos não faltavam! - -Depois da partida de Rita, já se não faziam sambas ao relento com o -choradinho da Bahia, e mesmo a canna verde pouco se dansava e cantava; -agora o forte eram os forrobodós dentro de casa, com tres ou quatro -musicos, ceia de café com pão; muita calça branca e muito vestido -engommado.--E toca a enfiar para ahi quadrilhas e polkas até romper a -manhã! - -Mas n'aquelle domingo o cortiço estava banzeiro; havia apenas uns -grupos magros, que se divertiam com a viola á porta de casa. O melhor, -ainda assim, era o da das Dôres. Piedade dirigio-se logo para lá, -sombria e cabisbaixa. - ---Com o demo! você anda agora que nem o boi castrado! exclamou-lhe o -Pataca, assentando-se ao lado d'ella. As tristezas atiram-se para traz -das costas, creatura de Dons! A vida não dá para tanto! O homem -deixou-te? Ora sebo! mette-te com outro e põe o coração á larga! - -Ella suspirou em resposta, ainda triste; porém a garrafa de paraty -correu a roda, de mão em mão, e, á segunda volta, Piedade já parecia -outra. Começou a conversar e a tomar interesse no pagode. D'ahi a pouco -era, de todos a mais animada, fallando pelos cotovellos, criticando e -arremedando as figuras ratonas da estalagem. O Pataca ria-se, a quebrar -a espinha, cahindo por cima della e passando-lhe o braço na cintura. - ---Você ainda é mulher pr'um homem fazer uma asneira! - ---Olha p'ra que lhe deu a ebria! Solta-me a perna, estupor! - -O grupo achava graça nos dois e applaudia-os com gargalhadas. E o -paraty a circular sempre de mão em mão. A das Dôres não descansava -um momento; mal vinha de encher a garrafa lá dentro de casa, tinha de -voltar outra vez para enchel-a de novo. «Olha que estafa! Vão beber -pr'o diabo!» Afinal appareceu com o garrafão e pousou o no meio da -roda. - ---Querem saber? Empinem por ahi mesmo, que já estou com os quartos -doendo de tanto andar de lá p'ra cá! - -Essa noite, a bebedeira de Piedade foi completa. Quando João Romão -entrou, de volta da casa do Miranda, encontrou-a a dansar ao som de -palmas, gritos e risadas, no meio de uma grande troça, a saia -levantada, os olhos requebrados, a pretender arremedar a Rita no seu -choradinho do Bahia. Era a bôba da roda. Batiam-lhe palmadas no -trazeiro e com o pé embaraçavam-lhe as pernas, para a ver cahir e -rebolar-se no chão. - -O vendeiro, de fraque e chapéo alto, foi direito ao grupo, então muito -mais reforçado de gente, e intimou a todos que se recolhessem. Aquillo -já não eram horas para semelhante algazarra! - ---Vamos! Vamos! Cada um para sua casa! - -Piedade foi a unica que protestou, reclamando o seu direito de brincar -um pouco com os amigos. - -Que diabo! Não se estava fazendo mal a ninguem! - ---Ora vá mas é p'ra cama cozer a mona! vituperou-lhe João Romão, -repellindo-a. Você, com uma filha quasi mulher, não tem vergonha de -estar aqui a servir de palhaço?! Forte bebada! - -Piedade assomou-se com a descompostura, quiz despicar-se, chegou a -arregaçar as mangas e sungar a saia; mas o Pataca metteu-se no meio e -conteve-a, pedindo a João Romão que não levasse aquillo em conta, -porque era tudo cachaça. - ---Bom, bom, bom! mas aviem-se! Aviem-se! - -E não se retirou sem ver a roda dissolvida, e cada qual procurando a -casa. - -Recolheram-se todos em silencio; só o Pataca e Piedade deixaram-se -ficar ainda no pateo, a discutir o acto do vendeiro. O Pataca tambem -estava bastante toucado. Ambos reconheciam que lhes não convinha -demorar-se ali, porém nenhum dos dois se sentia disposto a metter-se no -quarto. - ---Você tem lá alguma coisa que beber em casa? perguntou elle afinal. - -Ella não sabia ao certo; foi ver. Havia meia garrafa de paraty e um -resto de vinho. Mas era preciso não fazer barulho, por'mor da pequena -que estava dormindo. - -Entraram em ponta de pés, a fallar surdamente. Piedade deu mais luz ao -candieiro. - ---Olha agora! Vamos ficar ás escuras! Acabou-se o gaz! O Pataca sahio, -para ir á casa buscar uma véla, e de volta trouxe tambem um pedaço de -queijo e dois peixes fritos, que levou ao nariz da lavadeira, sem dizer -nada. Piedade, aos bordos, desoccupou a meza do engommado o servio dois -pratos. O outro reclamou vinagre e pimentas e perguntou se havia pão. - ---Pão ha. O vinho é que é pouco! - ---Não faz mal! Vae mesmo com a canninha! - -E assentaram-se. O cortiço dormia já e só se ouviam, no silencio da -noite, cães que ladravam lá fóra na rua, tristemente. Piedade -começou a queixar-se da vida veio-lhe uma crise de lagrimas e soluços. -Quando poude fallar contou o que lhe succedêra essa tarde, narrou os -pormenores da sua ida com a filha á procura do marido, o jantar em -commum com a peste da mulata, e afinal a sua humilhação de vir de lá -enxovalhada e corrida. - -Pataca revoltou-se, não com o procedimento de Jeronymo mas com o -d'ella. - -Rebaixar-se áquelle ponto! com effeito!... Ir procurar o homem lá na -casa da outra!... Oh! - ---Elle tratou-me bem, quando lá fui da primeira vez... Hoje é que não -sei o que tinha: só faltou pôr-me na rua aos pontapés! - ---Foi bem feito! Ainda acho pouco! Devia ter lhe mettido o páo, para -você não ser tôla! - ---É mesmo! - ---Pois não! O que não falta são homens, filha! O mundo é grande! -Para um pé doente ha sempre um chinello velho!--E ferrou-lhe a mão nas -pernas--chega-te para mim, que te esquecerás do outro! - -Piedade repellio-o. - -Que se deixasse de asneiras! - ---Asneiras! É o que se leva d'esta vida! - -A pequena acordára lá no quarto e viera descalça até á porta da sala -de jantar, para espiar o que faziam os dois. - -Não deram por ella. - -E a conversa proseguio, esquentando á medida que a garrafa de paraty se -esvasiava. Piedade deu de mão aos seus desgostos, pôz-se a papaguear -um pouco; as lagrimas foram-se-lhe; e ella manducou então com appetite, -rindo já das pilherias do companheiro, que continuava a apalpar-lhe de -vez em quando as coxas. - -Aquellas coisas, assim, sem se esperar, é que tinham graça!... dizia -elle, excitado e vermelho, comendo com a mão, a embeber pedaços de -peixe no molho das pimentas. Bem tolo era quem se matava! - -Depois lembrou que não viria fóra de proposito uma chicrinha de café. - ---Não sei se ha, vou ver, respondeu a lavadeira, erguendo-se agarrada -á meza. - -E bordejou até á cozinha, a dar esbarrões pela direita e pela -esquerda. - ---Tento no leme, que o mar está forte! exclamou Pataca, levantando-se -tambem, para ir ajudal-a. - -Lá perto do fogão agarrou-a de subito, como um gallo abafando uma -gallinha. - ---Larga! reprehendeu a mulher, sem forças para se defender. - -Elle apanhou-lhe as fraldas. - ---Espera! Deixa! - ---Não quero! - -E ria-se por ver a attitude comica do Pataca vergado defronte d'ella. - ---Que mal faz?... Deixa! - ---Sahe d'ahi, diabo! - -E, cambaleando, amparados um no outro, foram ambos ao chão. - ---Olha que peste! resmungou a desgraçada, quando o adversario conseguio -saciar-se n'ella. Marráios te partam! - -E deixou-se ficar por terra. Elle pôz-se de pé e, ao encaminhar-se -para a sala de jantar, sentio uma ligeira sombra fugirem sua frente. Era -a pequena, que fora espiar á porta da cozinha. - -Pataca assustára-se. - ---Quem anda aqui a correr como gato?... perguntou voltando a ter com -Piedade, que permanecia no mesmo logar; agora quasi adormecida. - -Sacudio-a. - ---Olá! Queres ficar ahi, ó creatura! Levanta-te! Anda a ver o café! - -E, tentando erguel-a, suspendeu-a por debaixo dos braços. Piedade, mal -mudou a posição da cabeça, vomitou sobre o peito e a barriga uma -golphada fetida. - ---Olha o demo! resmungou Pataca. Está que se não póde lamber! - -E foi preciso arrastal-a até á cama, que nem uma trouxa de roupa suja. -A infeliz não dava accordo de si. - -Senhorinha acudira, perguntando afflicta o que tinha a mãe. - ---Não é nada, filha! explicou o Pataca. Deixa-a dormir, que isso -passa! Olha! se ha limão em casa passa-lhe um pouco atraz da orelha, e -verás que amanhã acorda fina e prompta p'ra outra! - -A menina desatou a soluçar. - -E o Pataca retirou-se, a dar encontrões nos trastes, furioso, porque, -afinal, não tomára café. - ---Sebo! - - - - -XXI - - -Ao mesmo tempo, João Romão, em chinellas e camisola, passeava de um -para outro lado no seu quarto novo. Um aposento largo e forrado de azul -e branco com flôrinhas amarellas fingindo oiro; havia um tapete aos -pés da cama, e sobre a peniqueira um despertador de nikel, e a mobilia -toda era já de casados, porque o esperto não estava para comprar -moveis duas vezes. - -Parecia muito preoccupado; pensava em Bertoleza que, a essas horas, -dormia lá em baixo, n'um vão de escada, aos fundos do armazém, perto -da commúa. - -Mas que diabo havia elle de fazer afinal d'aquella peste?... - -E coçava a cabeça, impaciente por descobrir um meio de ver-se livre -d'ella. - -É que n'essa noite o Miranda lhe fallára abertamente sobre o que -ouvira de Botelho, e estava tudo decidido: Zulmira aceitava-o para -marido e Dona Estella ia marcar o dia do casamento. - -O diabo era a Bertoleza!... - -E o vendeiro ia e vinha no quarto, sem achar uma boa solução para o -problema. - -Ora, que raio de difficuldade armára elle proprio para se coser!... -Como poderia agora mandal-a passear, assim, de um momento para outro, se -o demonio da crioula o acompanhava já havia tanto tempo e toda a gente -na estalagem sabia d'isso? - -E sentia-se revoltado e impotente defronte d'aquelle tranquillo -obstaculo que lá estava em baixo, a dormir, fazendo-lhe em silencio um -mal horrivel, perturbando-lhe estupidamente o curso da sua felicidade, -retardando-lhe, talvez sem consciencia, a chegada d'esse bello futuro -conquistado á força de tamanhas privações e sacrificios! - -Que ferro! - -Mas, só com lembrar-se da sua união com aquella brasileirinha fina e -aristocratica, um largo quadro de victorias rasgava-se defronte da -desensoffrida avidez da sua vaidade. Em primeiro logar fazia-se membro -de uma familia tradicionalmente orgulhosa, como era, dito por todos, a -de Dona Estella; em segundo logar augmentava consideravelmente os seus -bens com o dote da noiva, que era rica; e em terceiro, afinal, -caber-lhe-ia mais tarde tudo o que o Miranda possuia, realisando-se -d'este modo um velho sonho que o vendeiro affagava desde o nascimento da -sua rivalidade com o visinho. - -E via-se já na brilhante posição que o esperava: uma vez de dentro, -associava-se logo com o sogro e iria, pouco a pouco, como quem não quer -a coisa, o empurrando para o lado, até empolgar-lhe o logar e fazer de -si um verdadeiro chefe da colonia portugueza no Brasil; depois quando o -barco estivesse navegando ao largo a todo o panno--Tome lá alguns pares -de contos de reis e passe-me para cá o titulo de Visconde! - -Sim, sim, Visconde! Porque não? E mais tarde, com certeza, Conde! Eram -favas contadas! - -Ah! elle, posto nunca o disséra a ninguem, sustentava de si para si nos -ultimos annos o firme proposito de fazer-se um titular mais graduado que -o Miranda. E, só depois de ter o titulo nas unhas, é que iria á -Europa, de passeio, sustentando grandeza, mettendo invejas, cercado de -adulações, liberal, prodigo, brasileiro, atordoando o mundo velho com -o seu oiro novo americano! - -E a Bertoleza? gritava-lhe do interior uma voz impertinente. - ---É exacto! E a Bertoleza?... repetia o infeliz, sem interromper o seu -vae-e-vem ao comprido da alcova. - -Diabo! E não poder arredar logo da vida aquelle ponto negro; apagal-o -rapidamente, como quem tira da pelle uma nódoa de lama! Que raiva ter de -reunir aos vôos mais fulgurosos da sua ambição a idéa mesquinha e -ridicula d'aquella inconfessavel concubinagem! E não podia deixar de -pensar no demonio da negra, porque a maldita ali estava perto, a -rondal-o ameaçadora e sombria; ali estava como o documento vivo das -suas miserias, já passadas mas ainda palpitantes. Bertoleza devia ser -esmagada, devia ser supprimida, porque era tudo que havia de máo na -vida d'elle! Seria um crime conserval-a a seu lado! Ella era o torpe -balcão da primitiva bodega; era o aladroado vintemzinho do manteiga em -papel pardo; era o peixe trazido da praia e vendido á noite ao lado do -fogareiro á porta da taberna; era o frege immundo e a lista cantada das -comezanas á portugueza; era o somno roncado num colchão fetido, cheio -de bichos; ella era a sua cumplice e era todo o seu mal--devia pois -extinguir-se! Devia ceder o logar á pallida mocinha de mãos delicadas -e cabellos perfumados, que era o bem, porque era o que ria e alegrava, -porque era a vida nova, o romance solfejado ao piano, as flôres nas -jarras, as sedas e as rendas, o chá servido em porcelanas caras; era -emfim a doce existencia dos ricos, dos felizes e dos fortes, dos que -herdaram sem trabalho ou dos que, a puro esforço, conseguiram accumular -dinheiro, rompendo e subindo por entre o rebanho dos escrupulosos ou dos -fracos. E o vendeiro tinha defronte dos olhos o namorado sorriso da -filha do Miranda, sentia ainda a leve pressão do braço melindroso que -se apoiara ao seu, algumas horas antes, em passeio pela praia de -Botafogo; respirava ainda os perfumes da menina, suaves, escolhidos e -penetrantes como palavras de amor; nos seus dedos grossos, curtos, -asperos e vermelhos, conservava a impressão da tepida caricia d'aquella -mãozinha enluvada que, dentro em pouco, nos prazeres garantidos do -matrimonio, affagar-lhe-ia as carnes e os cabellos. - -Mas, e a Bertoleza?... - -Sim! era preciso acabar com ella! despachal-a! sumil-a por uma vez! - -Deu meia noite no relogio do armazem. João Romão tomou uma véla e -desceu aos fundos da casa, onde Bertoleza dormia. Approximou-se d'ella, -pé ante pé, como um criminoso que leva uma idéa homicida. - -A crioula estava immovel sobre o enxergão, deitada de lado, com a cara -escondida no braço direito, que ella dobrára por debaixo da cabeça. -Apparecia-lhe uma parte do corpo, núa. - -João Romão contemplou-a por algum tempo, com asco. - -E era aquillo, aquella miseravel preta que ali dormia indifferentemente, -o grande estorvo da sua ventura!... Parecia impossivel! - ---E se ella morresse?... - -Esta phrase, que elle tivera, quando pensou pela primeira vez n'aquelle -obstaculo á sua felicidade, tornava-lhe agora ao espirito, porém já -amadurecida e transformada n'esta outra: - ---E se eu a matasse? - -Mas logo um calafrio de pavor correu-lhe por todos os nervos. - -Além disso, como?... Sim, como poderia despachal-a, sem deixar signaes -compromettedores do crime?... Envenenando-a?... Dariam logo pela -coisa!... Matal-a a tiro?... Peior! Leval-a a um passeio fóra da -cidade, bem longe e, no melhor da festa, atiral-a ao mar ou por um -despenhadeiro, onde a morte fosse infallivel?... Mas como arranjar tudo -isso, se elles nunca passeiavam juntos?... - -Diabo! - -E o desgraçado ficou a pensar, abstracto, de castiçal na mão, sem -despregar os olhos de cima de Bertoleza, que continuava immovel, com o -rosto escondido no braço. - ---E se eu a esganasse aqui mesmo?... - -E deu, na ponta dos pés, alguns passos para frente, parando logo, sem -deixar nunca de contemplal-a. - -Mas a crioula ergueu de improviso a cabeça e fitou-o com olhos de quem -não estava dormindo. - ---Ah! fez elle. - ---Que é, seu João? - ---Nada. Vim só ver-te... Cheguei ainda não ha muito... Como vais -tu?... Passou-te a dôr do lado?... - -Ella meneou os hombros, sem responder ao certo. Houve um silencio entre -os dois. João Romão não sabia o que dizer e sahío afinal, escoltado -pelo imperturbavel olhar da crioula, que o intimidava mesmo pelas -costas. - ---Teria desconfiado? pensou o miseravel, subindo de novo para o quarto. -Qual? Desconfiar de que?... - -E metteu-se logo na cama, disposto a não pensar mais n'isso e dormir -incontinenti. Mas o seu pensamento continuou rebelde a parafusar sobre o -mesmo assumpto. - ---É preciso despachal-a! É preciso despachal-a quanto antes, seja lá -como fôr! Ella, até agora, não deu ainda signal de si; não abrio o -bico a respeito da questão; mas, Dona Estella está a marcar o dia do -casamento; não levará muito tempo para isso ... o Miranda naturalmente -communica a noticia aos amigos ... o facto corre de bocca em bocca ... -chega aos ouvidos da crioula, e esta, vendo-se abandonada, estoira! -estoira com certeza! E agora o verás! Como deve ser bonito, hein?... -Ir tão bem até aqui e esbarrar na opposição da negra!... E os -commentarios depois!... O que não dirão os invejosos lá da Praça?... -«Ah, ah! elle tinha em casa uma amiga, uma preta immunda com quem -vivia! Que typo! Sempre ha de mostrar que é gentinha de laia muito -baixa!... E aqui a engazopar-nos com uns ares de capitalista que se -trata á véla de libra! Olha o Carapicú para que havia de dar! Sáe -sujo!» E, então, a familia da menina, com medo de cahir tambem na -bocca do mundo, volta atraz e dá o dito por não dito! Bem sei que ella -está a par de tudo; isso, olé se está! mas finge-se desentendida, -porque conta, e com razão, que eu não serei tão parvo que espere o -dia do casamento sem ter todo sumisso á negra! contam que a coisa -correrá sem o menor escandalo! E eu, no emtanto, tão besta que nada -fiz! E a peste da crioula está ahi senhora do terreiro como d'antes, e -não descubro meio de ver-me livre d'ella!... Ora já se vio como -arranjei semelhante entalação?... Isto contado não se acredita! - -E pisava e repisava o caso, sem achar meio de dar-lhe sahida. - -Diabo! - ---Ella ha muito que devia estar longe de mim ... fiz mal em não cuidar -logo d'isso antes de mais nada!... Fui um pedaço d'asno! Se eu a -tivesse despachado logo, quando ainda se não fallava no meu casamento, -ninguem desconfiaria da historia: «Porque diabo iria o pobre homem dar -cabo de uma mulher, com quem vivia na melhor paz e que era até, dentro -de casa, o seu braço direito?...» Mas agora, depois de todas aquellas -reformas de vida; depois da separação das camas, e principalmente -depois que corresse a noticia do casamento, não faltaria de certo quem -o accusasse, se a negra apparecesse morta de repente! - -Diabo! - -Deram quatro horas, e o desgraçado nada de pregar olho; continuava a -matutar sobre o assumpto, virando se de um para o outro lado da sua -larga e rangedora cama de casados. Só pelo abrir da aurora conseguio -passar pelo somno; mas, logo ás sete da manhã, teve de pôr-se a pé: -o cortiço estava todo alvoroçado com um desastre. - -A Machona lavava á sua tina, ralhando e discutindo como sempre, quando -dois trabalhadores, acompanhados de um ruidoso grupo de curiosos, -trouxeram-lhe sobre uma taboa o cadaver ensanguentado do filho. -Agostinho havia ido, segundo o costume, brincar á pedreira com outros -dois rapazitos da estalagem; tinham, cabritando pelas arestas do -precipicio, subido a uma altura superior a duzentos metros do chão e, -de repente, faltára-lhe o equilibrio e o infeliz rolou de lá abaixo, -partindo os ossos e atassalhando as carnes. - -Todo elle, coitadinho, era uma só massa vermelha; as canellas quebradas -no joelho, dobravam molles para debaixo das coxas; a cabeça, -desarticulada, abrira no casco e despejava o pirão dos miolos; n'uma -das mãos faltavam-lhe todos os dedos e no quadril esquerdo via-se-lhe -sahir uma ponta de osso ralado pela pedra. - -Foi um alarme no pateo quando elle chegou. - -Cruzes! que desgraça! - -Albino, que lavava ao lado da Machona, teve uma syncope; Nênêm ficou -que nem doida, porque ella queria muito áquelle irmão; a das Dôres -imprecou contra os trabalhadores, que deixavam um filho alheio matar-se -d'aquelle modo em presença d'elles; a mãe, essa apenas soltou um -bramido de monstro apunhalado no coração e cahio mesquinha junto do -cadaver, a beijal-o, vagindo como uma criança. Não parecia a mesma! - -As mães dos outros dois rapazitos esperavam immoveis e lividas pela -volta dos filhos, e, mal estes chegaram á estalagem, cada uma se -apoderou logo do seu e cahio-lhe em cima, a soval-os ambos que mettia -medo. - ---Mira-te n'aquelle espelho, tentação do diabo! exclamava uma d'ellas, -com o pequeno seguro entre as pernas e a encher-lhe a bunda de -chinelladas. Não era aquelle que devia ir, eras tu, peste! aquelle, -coitado! ao menos ajudava a mãe, ganhava dois mil reis por mez regando -as plantas do Commendador, e tu, coisa ruim, só serves para me dar -consumições! Toma! Toma! Toma! - -E o chinello cantava entre o berreiro feroz dos dois rapazes. - -João Romão chegou ao terraço de sua casa, ainda em mangas de camisa, -e de lá mesmo tomou conhecimento do que acontecera. Contra todos os -seus habitos impressionou-se com a morte de Agostinho; lamentou-a no -intimo, tomado de estranhas condolencias. - ---Pobre pequeno! tão novo ... tão esperto ... e cuja vida não -prejudicava a ninguem, morrer assim, desastradamente!... ao passo que -aquelle diabo velho da Bertoleza continuava agarrado á existencia, -envenenando-lhe a felicidade, sem se decidir a despachar o beco! - -E o demonio da crioula parecia mesmo não estar disposta a ir só com -duas razões; apezar de triste e acabrunhada, mostrava-se forte e rija. -Suas pernas curtas e lustrosas eram duas peças de ferro unidas pela -culatra, das quaes ella trazia um par de balas penduradas em sacco -contra o peito; as roscas lustrosas do seu cachaço lembravam grossos -chouriços de sangue, e na sua carapinha compacta ainda não havia um -fio branco. Aquillo, arre! tinha vida para o rosto do seculo! - ---Mas deixa estar, que eu te despacho bonito e asseiado!... disse o -vendeiro de si para si, voltando ao quarto para acabar de vestir-se. - -Enfiava o collete quando bateram pancadas familiares na porta do -corredor. - ---Então?! Ainda se está em val de lençóes?... - -Era a voz do Botelho. - -O vendeiro foi abrir e fel-o entrar ali mesmo para a alcova. - ---Ponha-se a gosto. Como vai você? - ---Assim. Não tenho passado lá essas coisas... - -João Romão deu-lhe noticia da morte do Agostinho e declarou que estava -com dôr de cabeça. Não sabia que diabo tinha elle aquella noite, que -não houve meio de pegar direito no somno. - ---Calor ... explicou o outro. E proseguio depois de uma pausa, -accendendo um cigarro: Pois eu vinha cá fallar-lhe... Você não -repare, mas... - -João Romão suppoz que o parasita ia pedir-lhe dinheiro e preparou-se -para a defeza, queixando-se inopinadamente de que os negocios não lhe -corriam bem; mas calou-se, porque Botelho accrescentou com o olhar fito -nas unhas: - ---Não devia fallar n'isto ... são coisas suas lá particulares, em que -a gente não se mette, mas... - -O taberneiro comprehendeu logo onde a visita queria chegar e -approximou-se d'ella, dizendo confidencialmente: - ---Não! Ao contrario! falle com franqueza... Nada de receios... - ---É que ... sim, você sabe que eu tenho tratado do seu casamento com a -Zulmirinha... Lá em casa não se falla agora n'outra coisa ... até a -propria Dona Estella já está muito bem disposta a seu favor ... mas... - ---Desembuche, homem de Deus! - ---É que ha um pontinho que é preciso pôr a limpo... Coisa -insignificante, mas... - ---Mas, mas! você não desembuchará por uma vez?... Falle, que diabo! - -Um caixeiro do armazem appareceu á porta, prevenindo de que o almoço -estava na meza. - ---Vamos comer, disse João Romão. Você já almoçou? - ---Ainda não, mas lá em casa contam commigo... - -O vendeiro mandou o seu empregado dizer lá defronte á familia do -Barão que seu Botelho não ia ao almoço. E, sem tomar o casaco, passou -com a visita á sala de jantar. - -O cheiro activo dos moveis, polidos ainda de fresco, dava ao aposento um -caracter insociavel de logar deshabitado e por alugar. Os trastes, tão -nús como as paredes, entristeciam com a sua fria nitidez de coisa nova. - ---Mas vamos lá! Que temos então?... inquirio o dono da casa, -assentando-se á cabeceira da meza, emquanto o outro, junto d'elle, -tomava logar á extremidade de um dos lados. - ---É que, respondeu o velho em tom de mysterio, você tem cá em sua -companhia uma ... uma crioula, que... Eu não creio, note-se, mas... - ---Adiante! - ---É! Dizem que ella é coisa sua... Lá em casa rosnou!... O Miranda -defende-o, affirma que não... Ah! aquillo é uma grande alma! mas Dona -Estella, você sabe o que são mulheres!... torce o nariz e... Em uma -palavra: receio que esta historia nos traga qualquer embaraço!... - -Calou-se, porque acabava de entrar um portuguezinho, trazendo uma -travessa de carne ensopada com batatas. - -João Romão não respondeu, mesmo depois que o pequeno sahio; ficou -abstracto, a bater com a faca entre os dentes. - ---Porque você a não manda embora?... arriscou-o Botelho, despejando -vinho no seu e no copo do companheiro. - -Ainda d'esta vez não obteve logo resposta; mas o outro tomando, afinal, -uma resolução, declarou confidencialmente: - ---Vou dizer-lhe toda a coisa como ella é ... e talvez que você até me -possa auxiliar!... - -Olhou para os lados, chegou mais a sua cadeira para junto da de Botelho -e accrescentou em voz baixa:--Esta mulher metteu-se commigo, quando eu -principiava minha vida... Então, confesso ... precisava de alguem nos -casos d'ella, que me ajudasse ... e ajudou-me muito, não nego! Devo-lhe -isso! não! ajudar-me ajudou!... mas... - ---E depois? - ---Depois, ella foi ficando para ahi; foi ficando ... e agora... - ---Agora é um trambolho que lhe póde escangalhar a egreginha! É o que -é! - ---Sim, que duvida! póde ser um obstaculo sério ao meu casamento! Mas, -que diabo! eu tambem, você comprehende, não a posso pôr na rua, -assim, sem mais aquellas!... Seria ingratidão, não lhe parece?... - ---Ella já sabe em que pé está o negocio?... - ---Deve desconfiar de alguma coisa, que não é tola!... Eu, cá por mim, -não lhe toquei em nada... - ---E você ainda faz vida com ella? - ---Qual! ha muito tempo que nem sombras d'isso... - ---Pois então, meu amigo, é arranjar-lhe uma quitanda em outro bairro; -dar-lhe algum dinheiro e... Boa viagem! O dente que já não presta -arranca-se fóra! - -João Romão ia responder, mas Bertoleza assomou á entrada da sala. -Vinha tão transformada e tão livida que só com a sua presença -intimidou profundamente os dois. A indignação tirava-lhe faiscas dos -olhos e os labios tremiam-lhe de raiva. Logo que fallou veio-lhe espuma -aos cantos da bocca. - ---Você está muito enganado, seu João, se cuida que se casa e me atira -á tôa! exclamou ella. Sou negra, sim, mas tenho sentimentos! Quem me -comeu a carne tem de roer-me os ossos! Então ha de uma creatura ver -entrar anno e sahir anno, a puxar pelo corpo todo o santo dia que Deus -manda ao mundo, desde pela manhãzinha até pelas tantas da noite, para -ao depois ser jogada no meio da rua, como gallinha podre?! Não! Não ha -de ser assim, seu João! - ---Mas, filha de Deus, quem te disse que eu quero atirar-te á tôa?... -perguntou o capitalista. - ---Eu escutei o que você conversava, seu João! A mim não me cegam -assim só! Você é fino, mas eu tambem sou! Você está armando -casamento com a menina de seu Miranda! - ---Sim, estou! Um dia havia de cuidar de meu casamento!... Não hei de -ficar solteiro toda a vida, que não nasci para pandego! Mas tambem não -te sacudo na rua, como disseste; ao contrario agora mesmo tratava aqui -com seu Botelho de arranjar-te uma quitanda e... - ---Não! Com a quitanda principiei; não hei de ser quitandeira até -morrer! Preciso de um descanço! Para isso mourejei junto de você -emquanto Deus Nosso Senhor me deu força e saude! - ---Mas afinal que diabo queres tu?! - ---Ora essa! Quero ficar a seu lado! Quero desfructar o que nós dois -ganhámos juntos! quero a minha parte no que fizemos com o nosso -trabalho! quero o meu regalo, como você quer o seu! - ---Mas não vês que isso é um disparate?... Tu não te conheces?... Eu -te estimo, filha; mas por ti farei o que fôr bem entendido e não -loucuras! Descança que nada te ha de faltar!... Tinha graça, com -effeito, que ficassemos vivendo juntos!... Não sei como não me -propões casamento! - ---Ah! agora eu não me enxergo! agora eu não presto para nada! Porém, -quando você precisou de mim não lhe ficava mal servir-se de meu corpo -e aguentar a sua casa com o meu trabalho! Então a negra servia para um -tudo; agora não presta para mais nada, e atira-se com ella no monturo -do cisco! Não! assim tambem Deus não manda! Pois se aos cães velhos -não se enxotam, porque me hão de pôr fóra d'esta casa, em que metti -muito suor do meu rosto?... Quer casar, espere então que eu feche -primeiro os olhos; não seja ingrato! - -João Romão perdeu por fim a paciencia e retirou-se da sala, atirando -á amante uma palavrada porca. - ---Não vale a pena encanzinar-se ... segredou-lhe o Botelho, -acompanhando-o até á alcova, onde o vendeiro enterrou com toda a -força o chapéu na cabeça e enfiou o paletó com a mão fechada em -murro. - ---Arre! Não a posso aturar nem mais um instante! Que vá para o diabo -que a carregue! em casa é que não me fica! - ---Calma, homem de Deus! Calma! - ---Se não quizer ir por bem, irá por mal! Sou eu quem o diz! - -E o vendeiro esfuziou pela escada, levando atraz de si o velhote, que -mal podia acompanhal-o na carreira. Já na esquina da rua parou e, -fitando no outro o seu olhar flammejante, perguntou-lhe: - ---Você vio?! - ---É ... resmungou o parasita, de cabeça baixa, sem interromper os -passos. - -E seguiram em silencio, andando agora mais de vagar; ambos preoccupados. - -No fim de uma boa pausa, Botelho perguntou se Bertoleza era escrava -quando João Romão tomou conta d'ella. - -Esta pergunta trouxe uma inspiração ao vendeiro. Ia pensando em -mettel-a como idiota no Hospicio de Pedro II, mas accudia-lhe agora -coisa muito melhor: entregal-a ao seu senhor, restituil-a legalmente á -escravidão. - -Não seria difficil ... considerou elle; era só procurar o dono da -escrava, dizer lhe onde esta se achava refugiada e aquelle ir logo -buscal-a com a policia. - -E respondeu ao Botelho: - ---Era e é! - ---Ah! Ella é escrava? De quem? - ---De um tal Freitas de Mello. O primeiro nome não sei. Gente de fóra. -Em casa tenho as notas. - ---Ora! então a coisa é simples!... Mande-a para o dono! - ---E se ella não quizer ir?... - ---Como não?! A policia a obrigará! É boa! - ---Ella ha de querer comprar a liberdade... - ---Pois que a compre, se o dono consentir!... Você com isso nada mais -tem que ver! E se ella voltar á sua procura, despache-a logo; se -insistir, vá então á autoridade e queixe-se! Ah, meu caro, estas -coisas, para ser bem feitas, fazem-se assim ou não se fazem! Olhe que -aquelle modo com que ella lhe fallou ha pouco é o bastante para você -ver que semelhante estupor não lhe convém dentro de casa nem mais um -instante! Digo-lhe até: já não só pelo facto do casamento, mas por -tudo! Não seja molle! - -João Romão escutava, caminhando calado, sem mais vislumbres de -agitação. Tinham chegado á praia. - ---Você quer encarregar-se d'isto? propoz elle ao companheiro, parando -ambos á espera do bonde; se quizer, póde tratar, que lhe darei uma -gratificação menos má... - ---De quanto?... - ---Cem mil reis! - ---Não! dobre! - ---Terá os duzentos! - ---Está dito! Eu cá, para tudo que fôr pôr cobro a relachamentos de -negro, estou sempre prompto! - ---Pois então logo mais á tarde lhe darei, ao certo, o nome do dono, o -logar em que elle residia quando ella veio para mim e o mais que -encontrar a respeito. - ---E o resto fica a meu cuidado! Póde dal-a por despachada! - - - - -XXII - - -Desde esse dia Bertoleza fez-se ainda mais concentrada e resmungona e -só trocava com o amigo um ou outro monosyllabo inevitavel no serviço -da casa. Entre os dois havia agora d'esses olhares de desconfiança, que -são abysmos de constrangimento entre pessoas que moram juntas. A -infeliz vivia n'um sobresalto constante; cheia de apprehensões, com -medos de ser assassinada; só comia do que ella propria preparava para -si e não dormia senão depois de fechar-se á chave. Á noite o mais -ligeiro rumor a punha de pé; olhos arregalados, respiração convulsa, -bocca aberta e prompta para pedir soccorro ao primeiro assalto. - -No emtanto, em redor do seu desassocego e do seu máo estar, tudo ali -prosperava forte em grosso, aos contos de reis, com a mesma febre com -que d'antes, em torno da sua actividade de escrava trabalhadeira, os -vintens choviam dentro da gaveta da venda. Durante o dia paravam agora -em frente do armazem carroças e carroças com fardos e caixas, trazidas -da alfandega, em que se liam as iniciaes de João Romão; e rodavam-se -pipas e mais pipas de vinho e de vinagre, e grandes partidas de barricas -de cerveja e de barris de manteiga e de saccos de pimenta. E o armazem, -com as suas portas escancaradas sobre o publico, engolia tudo de um -trago, para depois ir deixando sahir de novo, aos poucos com um lucro -lindissimo, que no fim do anno causava assombros. João Romão fizera-se -o fornecedor de todas as tabernas e armarinhos de Botafogo; o pequeno -commercio sortia-se lá para vender a retalho. A sua casa tinha agora, -um pessoal complicado de primeiros, segundos e terceiros caixeiros, -além do guarda livros, do comprador, do despachante e do caixa; do seu -escriptorio sahiam correspondencias em varias linguas e, por dentro das -grades de madeira polida, onde havia um bufete sempre servido com -presunto, queijo e cerveja, faziam-se largos contractos commerciaes, -transacções em que se arriscavam fortunas; e propunham-se -negociações de emprezas e privilegios obtidos do governo; e -realisavam-se vendas e compras de papeis; e concluiam-se emprestimos de -juros fortes sobre hypothecas de grande valor. E ali ia de tudo: o alto -e o baixo negociante; capitalistas adulados e mercadores fallidos; -corredores da praça, zangões, cambistas; empregados publicos, que -passavam procuração contra o seu ordenado; emprezarios de theatro e -fundadores de jornaes, em apuros de dinheiro; viuvas, que negociavam o -seu monte pio; estudantes, que iam receber a sua mezada; e capatazes de -vários grupos de trabalhadores pagos pela casa; e, destacando-se de -todos, pela quantidade, os advogados e a gente miuda do fôro, sempre -inquieta, farisqueira, a metter o nariz em tudo, feia, a papelada -debaixo do braço, a barba por fazer, o cigarro babado e apagado a um -canto da bocca. - -E, como a casa commercial de João Romão, prosperava igualmente a sua -avenida. Já lá se não admittia assim qualquer pé rapado: para entrar -era preciso carta de fiança e uma recommendação especial. Os preços -dos commodos subiam, e muitos dos antigos hospedes, italianos -principalmente, iam, por economia, desertando para o Cabeça de Gato e -sendo substituidos por gente mais limpa. Decrescia tambem o numero das -lavadeiras, e a maior parte das casinhas eram occupadas agora por -pequenas familias de operarios, artistas e praticantes de secretaria. O -cortiço aristocratisava-se. Havia um alfaiate logo á entrada, homem -sério, de suissas brancas, que cosia na sua machina entre officiaes, -ajudado pela mulher, uma lisboeta côr de nabo gorda, velhusca, com um -principio de bigode e cavagnac, mas extremamente circumspecta; em -seguida um relojoeiro calvo, de oculos, que parecia mumificado atraz da -vidraça em que elle, sem mudar de posição, trabalhava, da manhã até -á tarde; depois um pintor de tectos e taboletas, que levou a phantasia -artistica ao ponto de fazer, a pincel, uma trepadeira em volta da sua -porta, onde se viam passaros de varias côres e feitios, muitos -compromettedores para o credito profissional do autor; mais adiante -installára-se um cigarreiro, que occupava nada menos de tres numeros na -estalagem e tinha quatro filhas e dois filhos a fabricarem cigarros, e -mais tres operarias que preparavam palha de milho e picavam e desfiavam -tabaco. Florinda, mettida agora com um despachante da estrada de ferro, -voltára para o São Romão e trazia a sua casinha em muito bonito pé -de limpeza e arranjo. Estava ainda de luto pela mãe, a pobre velha -Marcianna, que ultimamente havia morrido no hospicio dos doidos. Aos -domingos o despachante costumava receber alguns camaradas para jantar, e -como a rapariga puxava os feitios da Rita Bahiana, as suas noitadas -acabavam sempre em pagode de dansa e cantarola, mas tudo de portas a -dentro, que ali já se não admittiam sambas e chinfrinadas ao relento. -A Machona quebrára um pouco de genio depois da morte de Agostinho e era -agora visitada por um grupo de moços do commercio, entre os quaes havia -um pretendente á mão de Nênêm, que se mirrava já de tanto esperar a -secco por marido. Alexandre fôra promovido a sargento e empertigava-se -ainda mais dentro da sua farda nova, de botões que cegavam; a mulher, -sempre indifferentemente fecunda e honesta, parecia criar bolôr na sua -molleza humida e tinha um ar triste de cogumelo; era vista com -frequencia a dar de mammar a um pequerrucho de poucos mezes, empinando -muito a barriga para a frente, pelo habito de andar sempre gravida. A -sua comadre Léonie continuava a visital-a de vez em quando, aturdindo -a actual pacatez d'aquelle cenobio com as suas roupas gritadoras. Uma -occasião em que lá fóra, um sabado á tarde, produzira grande -alvoroço entre os decanos da estalagem, porque comsigo levava Pombinha, -que se atirára ao mundo e vivia agora em companhia d'ella. - -Pobre Pombinha! no fim dos seus primeiros dois annos de casada já não -podia supportar o marido; todavia, a principio, para conservar-se mulher -honesta, tentou perdoar-lhe a falta de espirito, os gostos razos e a sua -risonha e fatigante palermice de homem sem ideal; ouvio-lhe, resignada, -as confidencias banaes nas horas intimas do matrimonio; attendeu-o nas -suas exigencias mesquinhas de ciumento que chora; tratou-o com toda a -solicitude, quando elle esteve a decidir com uma pneumonite aguda; -procurou afinar em tudo com o pobre rapaz: não lhe fallou nunca em -coisas que cheirassem a luxo, a arte, a esthetica, a originalidade; -escondeu a sua mal educada e natural intuição pelo que é grande, ou -bello, ou arrojado, e fingio ligar interesse ao que elle fazia, ao que -elle dizia, ao que elle ganhava, ao que elle pensava e ao que elle -conseguia com paciencia na sua vida estreita de negociante rotineiro; -mas, de repente, zás! faltou-lhe o equilibrio e a misera escorregou, -cahindo nos braços de um bohemio de talento, libertino e poeta, jogador -e capoeira. O marido não deu logo pela coisa, mas começou a estranhar -a mulher, a desconfiar d'ella e a espreital-a, até que um bello dia, -seguindo-a na rua sem ser visto, o desgraçado teve a dura certeza de -que era trahido pela esposa, não mais com o poeta libertino, mas com um -artista dramatico, que muitas vezes lhe arrancára, a elle, sinceras -lagrimas de commoção, declamando no theatro em honra da moral -triumphante e estigmatisando o adulterio com a rethorica mais vehemente -e indignada. - -Ah não poude illudir-se! ... e, a despeito do muito que amava á -ingrata, rompeu com ella e entregou-a á mãe, fugindo em seguida para -São Paulo. Dona Isabel, que sabia já, não d'esta ultima falcatrua da -filha, mas das outras primeiras, que bem a mortificaram, coitada! -desfez-se em lagrimas, aconselhou-a a que se arrependesse e mudasse de -conducta; em seguida escreveu ao genro, intercedendo por Pombinha, -jurando que agora respondia por ella e pedindo-lhe que esquecesse o -passado e voltasse para junto de sua mulher. O rapaz não respondeu á -carta, e dahi a mezes, Pombinha desappareceu da casa da mãe. Dona -Isabel quasi morre de desgosto. Para onde teria ido a filha?... «Onde -está? onde não está! Procura d'aqui! procura d'ahi!» Só a descobrio -semanas depois; estava morando n'um hotel com Léonie. A serpente vencia -afinal. Pombinha foi, pelo seu proprio pé, attrahida, metter-se-lhe na -bocca. A pobre mãe chorou a filha como morta; mas, visto que os -desgosto não lhe tiraram a vida por uma vez e, como a desgraçada não -tinha com que matar a fome, nem forças para trabalhar, aceitou de -cabeça baixa o primeiro dinheiro que Pombinha lhe mandou. E, desde -então, aceitou sempre, constituindo-se a rapariga no seu unico amparo -da velhice e sustentando-a com os ganhos da prostituição. Depois, como -n'este mundo uma creatura a tudo se acostuma, Dona Isabel mudou-se para -a casa da filha. Mas não apparecia nunca na sala quando havia gente de -fóra; escondia-se; e, se algum dos frequentadores de Pombinha a pilhava -de improviso, a infeliz, com vergonha de si mesma, fingia-se criada ou -dama de companhia. O que mais a desgostava, e o que ella não podia -tolerar sem apertos de coração, era ver a pequena endemoninhar-se com -champanha depois do jantar e pôr-se a dizer tolices e a estender-se ali -mesmo no collo dos homens. Chorava sempre que a via entrar ébria, fóra -d'horas, depois de uma orgia; e, de desgosto em desgosto, foi se -sentindo enfraquecer e enfermar, até cahir de cama e mudar-se para uma -casa de saude, onde afinal morreu. - -Agora, as duas cocotes, amigas, inseparaveis, terriveis n'aquella -inquebrantavel solidariedade, que fazia d'ellas uma só cobra de duas -cabeças dominavam o alto e o baixo Rio de Janeiro. Eram vistas por toda -a parte onde houvesse prazer; á tarde, antes do jantar, atravessavam o -Catette em carro descoberto, com a Jujú ao lado; á noite, no theatro, -em um camarote de bocca, chamavam sobre si os velhos conselheiros -desfibrados pela politica e avidos de sensações extremas, ou -arrastavam para os gabinetes particulares dos hoteis os sensuaes e -gordos fazendeiros de café, que vinham á côrte esbodegar o farto -producto das safras do anno, trabalhadas pelos seus escravos. Por cima -d'ellas duas passára uma geração inteira de devassos. Pombinha, só -com tres mezes de cama franca, fizera-se tão perita no officio como a -outra; a sua infeliz intelligencia, nascida e criada no modesto lodo da -estalagem, medrou logo admiravelmente na lama forte dos vicios de largo -folego; fez maravilhas na arte; parecia adivinhar todos os segredos -d'aquella vida; seus labios não tocavam em ninguem sem tirar sangue; -sabia beber, gotta a gotta, pela bocca do homem mais avarento, todo o -dinheiro que a victima pudesse dar de si. Entretanto, lá na Avenida -São Romão, era, como a mestra, cada vez mais adorada pelos seus velhos -e fieis companheiros de cortiço; quando lá iam, acompanhadas por -Jujú, a porta da Augusta ficava, como d'antes, cheia de gente, que as -abençoava com o seu estupido sorriso de pobreza hereditaria e humilde. -Pombinha abria muito a bolsa, principalmente com a mulher de Jeronymo, -a cuja filha, sua protegida predilecta, votava agora, por sua vez, uma -sympathia toda especial, identica á que n'outro tempo inspirára ella -propria á Léonie. A cadeia continuava e continuaria interminavelmente; -o cortiço estava preparando uma nova prostituta n'aquella pobre menina -desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria. - -E era, ainda assim, com essas esmolas de Pombinha, que na casa de -Piedade não faltava de todo o pão, porque já ninguem confiava roupa -á desgraçada, e nem ella podia dar conta de qualquer trabalho. - -Pobre mulher! chegára ao extremo dos extremos. Coitada! já não -causava dó, causava repugnancia e nojo. Apagaram-se-lhe os ultimos -vestigios do brio; vivia andrajosa, sem nenhum trato e sempre ébria, -d'essa embriaguez sombria e morbida que se não dissipa nunca. O seu -quarto era mais immundo e o peior de toda a estalagem; homens malvados -abusavam d'ella, muitos de uma vez, aproveitando-se da quasi completa -inconsciencia da infeliz. Agora, o menor trago de aguardente a punha -logo prompta; acordava todas as manhãs apatetada, muito triste, sem -animo para viver esse dia, mas era só correr á garrafa e voltavam-lhe -as risadas frouxas, de bocca que já se não governa. Um empregado de -João Romão, que ultimamente fazia as vezes d'elle na estalagem, por -tres vezes a enxotou, e ella, de todas, pedio que lhe dessem alguns dias -de espera, para arranjar casa. Afinal, no dia seguinte ao ultimo em que -Pombinha appareceu por lá com Léonie e deixou-lhe algum dinheiro, -despejaram-lhe os tarecos na rua. - -E a misera, sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha, no Cabeça -de Gato que, á proporção que o São Romão se engrandecia, mais e -mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais -abjecto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o -outro regeitava, como se todo o seu ideal fosse conservar inalteravel, -para sempre, o verdadeiro typo da estalagem fluminense, a legitima, a -legendaria; aquella em que ha um samba e um rôlo por noite; aquella em -que se matam homens sem a policia descobrir os assassinos; viveiro de -larvas sensuaes em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma -lama; paraiso de vermes; brejo de lodo quente o fumegante, donde brota a -vida brutalmente, como de uma podridão. - - - - -XXIII - - -A porta de uma confeitaria da rua do Ouvidor, João Romão, apurado n'um -fato novo de casimira clara, esperava pela familia do Miranda, que -n'esse dia andava em compras. - -Eram duas horas da tarde e um grande movimento fazia-se ali. O tempo -estava magnifico; sentia-se pouco calor. Gente entrava e sahia, a passo -frouxo, da casa Pascoal. Lá dentro janotas estacionavam de pé, -soprando o fumo dos charutos, á espera que desoccupassem uma das -mezinhas de marmore preto; grupos de senhoras, vestidas de seda, faziam -lanche com vinho do Porto. Respirava-se um cheiro agradavel de essencias -e vinagres aromaticos; havia um rumor quente e garrido, mas bem educado; -namorava-se forte, mas com disfarce, furtando-se olhares no complicado -encontro dos espelhos; homens bebiam ao balcão e outros conversavam, -comendo empadinhas junto ás estufas; algumas pessoas liam já os -primeiros jornaes da tarde; serventes, muito atarefados, despachavam -compras de doce e biscoitos e faziam sem descançar, pacotes de papel de -côr, que os compradores levavam pendurados n'um dedo. Ao fundo, de um -dos lados do salão, aviavam-se grandes encommendas de banquetes para -essa noite, traziam-se lá de dentro, já promptas, torres e castellos -de balas e trouxas d'ovos e imponentes peças de cozinha caprichosamente -enfeitadas; criados desciam das prateleiras as enormes baixellas de -metal branco, que os companheiros iam embalando em caixões com papel -fino picado. Os empregados das secretarias publicas vinham tomar o seu -vermuth com siphão; reporteres insinuavam-se por entre os grupos dos -jornalistas e dos politicos, com o chapéo á ré, avidos de noticias, -uma curiosidade indiscreta nos olhos. João Romão sem deixar a porta, -apoiado no seu guarda chuva de cabo de marfim, recebia cumprimentos de -quem passava na rua; alguns paravam para lhe fallar. Elle tinha sorrisos -e offerecimentos para todos os lados; e consultava o relogio de vez em -quando. - -Mas a familia do Barão surgio afinal. Zulmira vinha na frente, com um -vestido côr de palha justo ao corpo, muito elegante no seu typo de -fluminense pallida e nervosa; logo depois Dona Estella, grave, toda de -negro, passo firme e ar severo de quem se orgulha das suas virtudes e do -bom cumprimento dos seus deveres. O Miranda acompanhava-as, de -sobrecasaca, fitinha ao peito, o collarinho até ao queixo, botas de -verniz, chapéo alto e bigode cuidadosamente raspado. Ao darem com João -Romão, elle sorrio e Zulmira tambem; só Dona Estella conservou -inalteravel a sua fria mascara de mulher que não dá verdadeira -importancia senão a si mesma. - -O ex-taverneiro e futuro visconde foi, todavia, ao encontro d'elles, -cheio de solicitude, descobrindo-se desde logo e convidando-os com -empenho a que tomassem alguma coisa. - -Entraram todos na confeitaria e apoderaram-se da primeira meza que se -esvaziou. Um criado acudio logo e João Romão, depois de consultar Dona -Estella, pedio sandwichs doces e moscatel de Setubal. Mas Zulmira -reclamou sorvete e licor. E só esta fallava; os outros estavam ainda á -procura de um assumpto para a conversa; afinal o Miranda que, durante -esse tempo considerava o tecto e as paredes, fez algumas considerações -sobre as reformas e novos adornos do salão da confeitaria. Dona Estella -dirigio, de má, a João Romão varias perguntas sobre a companhia -lyrica, o que confundio por tal modo ao pobre homem, que o poz vermelho -e o desnorteou de todo. Felizmente, n'esse instante chegava o Botelho e -trazia uma noticia: a morte de um sargento no quartel; questão entre -inferior e superior. O sargento, insultado por um official do seu -batalhão, levantara a mão contra elle, e o official então arrancára -da espada e atravessára-o de lado a lado. Estava direito! Ah! elle era -rigoroso em pontos de disciplina militar! Um sargento levantar a mão -para um official superior!... devia ficar estendido ali mesmo, que -duvida! - -E faiscavam-lhe os olhos no seu inverterado enthusiasmo por tudo que -cheirasse á farda. Vieram logo as anecdotas analogas; o Miranda contou -um facto identico que se dera vinte annos atraz e Botelho citou uma -enfiada d'elles interminavel. - -Quando se levantaram, João Romão deu o braço a Zulmira e o Barão á -mulher, e seguiram todos para o largo de São Francisco, lentamente, em -andar de passeio, acompanhados pelo parasita. Lá chegados Miranda -queria que o visinho acceitasse um logar no seu carro, mas João Romão -tinha ainda que fazer na cidade e pedio dispensado obsequio. Botelho -tambem ficou; e, mal a carroagem partio, este disse ao ouvido do outro, -sem tomar folego: - ---O homem vae hoje, sabe? Está tudo combinado! - ---Ah! vae? perguntou João Romão com interesse, estacando no meio do -largo. Ora graças! Já não é sem tempo! - ---Sem tempo! Pois olhe, meu amigo, que tenho suado o topete! Foi uma -campanha! - ---Ha que tempo já tratamos d'isto!... - ---Mas que quer você, se o homem não apparecia?... Estava fóra! -Escrevi-lhe varias vezes, como sabe, e só agora consegui pilhal-o. Fui -tambem á policia duas vezes e já lá voltei hoje; ficou tudo prompto! -mas você deve estar em casa para entregar a crioula quando elles lá se -apresentarem ... - ---Isso é que seria bom se se pudesse dispensar... Desejava não estar -presente... - ---Ora essa! Então com quem se entendem elles?.... Não! tenha paciencia! -é preciso que você lá esteja! - ---Você podia fazer as minhas vezes... - ---Peior! Assim não arranjamos nada! Qualquer duvida póde entornar o -caldo! E melhor fazer as coisas bem feitas Que diabo lhe custa isto?... -Os homenzinhos chegam, reclamam a escrava em nome da lei, e você a -entrega--prompto! Fica livre d'ella para sempre, e d'aqui a dias estoira -o champanha do casorio! Hein, não lhe parece? - ---Mas... - ---Ella ha de choramigar, lazer lamurias e coisas, mas você pôe-se duro -e deixe-a seguir lá o seu destino!... - -Bolas! não foi você que a fez negra!... - ---Pois vamos lá! creio que são horas. - ---Que horas são! - ---Tres e vinte. - ---Vamos indo. - -E desceram de novo a rua do Ouvidor até ao ponto dos bondes de -Gonçalves Dias. - ---O de São Clemente não está agora, observou o velho. Vou tomar um -copo d'agoa emquanto o esperamos. - -Entraram no botequim do logar e, para conversar assentados, pediram dois -calices de cognac. - ---Olhe, acrescentou Botelho; você nem precisa dizer palavra ... faça -como coisa que não tem nada com isso, comprehende? - ---E se o homem quizer os ordenados de todo o tempo em que ella esteve em -minha companhia?... - ---Como, filho, se você não a alugou das mãos de ninguem?!... Você -não sabe lá se a mulher é ou era escrava; tinha-a por livre -naturalmente; agora apparece o dono, reclama-a, e você a entrega, -porque não quer ficar com o que lhe não pertence! Ella sim, póde -pedir o seu saldo de contas; mas para isso você lhe dará qualquer -coisa... - ---Quanto devo dar-lhe? - ---Ahi uns quinhentos mil reis, para fazer a coisa á fidalga. - ---Pois dou-lh'os. - ---E feito isso--acabou-se! O proprio Miranda vae logo, logo, ter com -você! Verá! - -Iam fallar ainda, mas o bonde de São Clemente acabava de chegar, -assaltado por todos os lados pela gente que o esperava. Os dois só -conseguiram logar muito separados um do outro, de sorte que não puderam -conversar durante a viagem. - -No largo da Carioca uma victoria passou por elles, a todo o trote. -Botelho vergou-se logo para traz, procurando os olhos do vendeiro, a -rir-se com intenção. Dentro de carro ia Pombinha, coberta de joias, ao -lado de Henrique; ambos muito alegres, em pandega. O estudante, agora no -seu quarto anno de medicina, vivia á solta com outros da mesma idade e -pagava ao Rio de Janeiro o seu tributo de rapazola rico. - -Ao chegarem á casa, João Romão pedio ao cumplice que entrasse e -levou-o para o seu escriptorio. - ---Descance um pouco ... disse-lhe. - ---É, se eu soubesse que elles se não demoravam muito, ficava para -ajudal-o. - ---Talvez só venham depois do jantar, tornou aquelle, assentando-se á -carteira. - -Um caixeiro approximou-se d'elle respeitosamente e fez-lhe varias -perguntas relativas ao serviço do armazem, ao que João Romão -respondia por monosyllabos de capitalista; interrogou-o por sua vez e, -como não havia novidade, tomou Botelho pelo braço e convidou-o a -sahir. - ---Fique para jantar. São quatro e meia, segredou-lhe na escada. - -Já não era preciso prevenir lá defronte, porque agora o velho -parazita comia muitas vezes em casa do visinho. - -O jantar correu frio e contrafeito; os dois sentiam-se ligeiramente -dominados por um vago sobresalto. João Romão foi pouco além da sôpa e -quiz logo a sobremeza. - -Tomavam café, quando um empregado subio para dizer que lá em baixo -estava um senhor, acompanhado de duas praças, e que desejava fallar ao -dono da casa. - ---Vou já! respondeu este. - -E accrescentou para o Botelho:--São elles! - ---Deve ser, confirmou o velho. - ---E desceram logo. - ---Quem me procura?... exclamou João Romão com disfarce, chegando ao -armazem. - -Um homem alto, com ar de estroina, adiantou-se e entregou-lhe uma folha -de papel. - -João Romão, um pouco tremulo, abrio-a defronte dos olhos e leu-a -demoradamente. Um silencio formou-se em torno d'elle; os caixeiros -pararam em meio do serviço, intimidados por aquella scena em que -entrava a policia. - ---Está aqui com effeito ... disse afinal o negociante. Pensei que fosse -livre... - ---É minha escrava, affirmou o outro. Quer entregar-m'a?... - ---Mas immediatamente. - ---Onde está ella? - ---Deve estar lá dentro. Tenha a bondade de entrar... - -O sujeito fez signal aos dois urbanos, que o acompanharam logo, e -encaminharam-se todos para o interior da casa. Botelho, á frente -delles, ensinava-lhes o caminho. João Romão ia atraz, pallido, com as -mãos crusadas nas costas. - -Atravessaram o armazem, depois um pequeno corredor que dava para um -pateo calçado, e chegaram finalmente á cozinha. Bertoleza, que havia -já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cocaras no chão, -escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando vio parar defronte -d'ella aquelle grupo sinistro. - -Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um -calafrio percorreu-lhe o corpo. N'um relance de grande perigo -comprehendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê -perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta -de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para -matal-a, restituia-a ao captiveiro. - -Seu primeiro impulso foi de fugir, Mal, porém, circumvagou os olhos em -torno de si, procurando escapúla, o senhor adiantou-se d'ella e -segurou-lhe o hombro. - ---É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada -a seguil-os.--Prendam-na! É escrava minha! - -A negra, immovel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das -mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, -olhou aterrada para elles, sem pestanejar: - -Os policias, vendo que ella se não despachava, desembainharam os -sabres. Bertoleza então, erguendo-se com impeto de anta bravia, recuou -de um salto e, antes que alguem conseguisse alcançal-a, já de um só -golpe certeiro e fundo rasgára o ventre de lado a lado. - -E depois emborcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa -lameira de sangue. - - -João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazem, tapando o -rosto com as mãos. - -N'esse momento parava á porta da rua uma carruagem. Era uma commissão -de abolicionistas que vinham, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o -diploma de socio benemerito. - -Elle mandou que os conduzissem para a sala de visitas. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O CORTIÇO *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for -copies of this eBook, complying with the trademark license is very -easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation -of derivative works, reports, performances and research. Project -Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away--you may -do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected -by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm -electronic works. See paragraph 1.E below. - -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the -Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when -you share it without charge with others. - -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country other than the United States. - -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: - -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work -on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the -phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: - - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and - most other parts of the world at no cost and with almost no - restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it - under the terms of the Project Gutenberg License included with this - eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the - United States, you will have to check the laws of the country where - you are located before using this eBook. - -1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase "Project -Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. - -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. - -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg-tm License. - -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format -other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg-tm website -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain -Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works -provided that: - -* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation." - -* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm - works. - -* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - -* You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg-tm works. - -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of -the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the Foundation as set -forth in Section 3 below. - -1.F. - -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. - -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right -of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. - -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. - -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. - -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. - -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any -Defect you cause. - -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm - -Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org - -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation's website -and official page at www.gutenberg.org/contact - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without -widespread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our website which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This website includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/69187-0.zip b/old/69187-0.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 7d06e0a..0000000 --- a/old/69187-0.zip +++ /dev/null diff --git a/old/69187-h.zip b/old/69187-h.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 3457647..0000000 --- a/old/69187-h.zip +++ /dev/null diff --git a/old/69187-h/69187-h.htm b/old/69187-h/69187-h.htm deleted file mode 100644 index 3042db5..0000000 --- a/old/69187-h/69187-h.htm +++ /dev/null @@ -1,13131 +0,0 @@ -<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" - "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> -<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> - <head> - <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=utf-8" /> - <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" /> - <title> - The Project Gutenberg eBook of O cortiço, by Aluísio Azevedo. - </title> - <style type="text/css"> - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - - h1,h2,h3,h4,h5,h6 { - text-align: center; /* all headings centered */ - clear: both; -} - -p { - margin-top: .51em; - text-align: justify; - margin-bottom: .49em; - text-indent:4%; -} - -.nind {text-indent:0%;} - -.center {text-align: center;text-indent:0%;} - -hr { - width: 33%; - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - margin-left: auto; - margin-right: auto; - clear: both; -} - -table { - margin-left: auto; - margin-right: auto; -} - -.blockquote { - margin-left: 5%; - margin-right: 10%; -} - -.blockquote-half { - padding-top: 2em; - padding-bottom: 2em; - margin-left: 50%; -} - -/* Images */ -.figcenter { - margin: auto; - text-align: center; -} - -/* Poetry */ -.poem { - margin-left:10%; - margin-right:10%; - text-align: left; -} - -.poem br {display: none;} -.poem { display: inline-block; text-align: left; } -.poem .stanza {margin-top: 1em;margin-bottom:1em;} -.poem span.i2 {display: block; margin-left: 1em; padding-left: 3em; text-indent: -3em;} - - </style> - </head> -<body> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>O Cortiço</span>, by Aluízio Azevedo</p> -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you -are not located in the United States, you will have to check the laws of the -country where you are located before using this eBook. -</div> -</div> - -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>O Cortiço</span></p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Aluízio Azevedo</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: October 20, 2022 [eBook #69187]</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p> - <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by Gallica, Bibliothèque nationale de France.)</p> -<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O CORTIÇO</span> ***</div> - - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/cortico_cover.jpg" width="500" alt="" /> -</div> - -<p><br /><br /></p> - -<h1>ALUIZIO AZEVEDO</h1> - -<p><br /><br /></p> - -<h2>O CORTIÇO</h2> - -<p><br /><br /></p> - -<h3>QUARTA EDIÇÃO</h3> - -<p><br /><br /></p> - -<h4>RIO DE JANEIRO</h4> - -<h4>H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR</h4> - -<h5>71, Rua do Ouvidor, 71</h5> - -<h5>E</h5> - -<h5>6, Rue des Saints-Pères, 6</h5> - -<h4>PARIS</h4> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<div class="blockquote-half"> -<p> -«Periculum dicendi non recuso.» -</p> -<p style="margin-left: 40%;">(CICERO.)</p></div> - -<div class="blockquote-half"> -<p> -«La vérité, toute la vérité, rien que la vérité.» -</p> -<p style="margin-left: 40%;">(<i>Droit criminel.</i>)</p></div> - -<div class="blockquote-half"> -<p> -«Os meus honrados collegas do jornalismo, e todos esses grandes -publicistas que fatigam o céo e a terra para provar que esta em que -estamos é a verdadeira epoca de transição, esses nos dirão se a -Providencia andaria bem ou mal se hoje suscitasse um novo Timon da -verdadeira raça das furias, que com as pontas viperinas do azorrague -vingador lacerasse sem piedade os crimes e os vicios que a deshonram.» -</p> -<p style="margin-left: 40%;">(JOÃO FRANCISCO LISBOA, <i>Jornal -de Timon</i>. Prospecto—Obras -completas, 1° vol., pag. 12.)</p></div> - -<div class="blockquote-half"> -<p> -«Ung oyseau qui se nomme cigale estoit en un figuier, et François -tendit sa main et appella celluy oyseau, et tantost il obeyt et vint sur -sa main. Et il lui deist: Chante, ma seur, et loue nostre Seigneur. Et -adoncques chanta incontinent, et ne sen alla devant quelle eust -congé.» -</p> -<p style="margin-left: 40%;">(JACQUES DE VORAGINE, <i>La Légende -Dorée</i>. Traduction française.)</p></div> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>INDICE</h4> -<p class="nind"> -CAPITULO <a href="#I">I</a><br /> -CAPITULO <a href="#II">II</a><br /> -CAPITULO <a href="#III">III</a><br /> -CAPITULO <a href="#IV">IV</a><br /> -CAPITULO <a href="#V">V</a><br /> -CAPITULO <a href="#VI">VI</a><br /> -CAPITULO <a href="#VII">VII</a><br /> -CAPITULO <a href="#VIII">VIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#IX">IX</a><br /> -CAPITULO <a href="#X">X</a><br /> -CAPITULO <a href="#XI">XI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XII">XII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIII">XIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIV">XIV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XV">XV</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVI">XVI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVII">XVII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XVIII">XVIII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XIX">XIX</a><br /> -CAPITULO <a href="#XX">XX</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXI">XXI</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXII">XXII</a><br /> -CAPITULO <a href="#XXIII">XXIII</a></p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>O CORTICO</h4> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="I">I</a></h4> - -<p> -João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco annos, empregado de um -vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura -taverna nos refolhos do bairro de Botafogo; e tanto economisou do pouco -que ganhára n'essa duzia de annos, que, ao retirar-se o patrão para a -terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda -com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro. -</p> -<p> -Proprietario e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á -labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delirio de -enriquecer, que affrontava resignado as mais duras privações. Dormia -sobre o balcão da propria venda, em cima de uma esteira, fazendo -travesseiro de um sacco de estopa cheio de palha. A comida -arranjava-lh'a, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua -vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego -residente em Juiz de Fóra e amigada com um portuguez que tinha uma -carroça de mão e fazia fretes na cidade. -</p> -<p> -Bertoleza tambem trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem -afreguezada do bairro. De manhã vendia angú, e á noite peixe frito e -iscas de figado; pagava de jornal a seu dono vinte mil réis por mez, e, -apezar d'isso, tinha de parte quasi que o necessario para a alforria. Um -dia, porém, o seu homem, depois de correr meia legua, puxando uma carga -superior ás suas forças, cahio morto na rua, ao lado da carroça, -estrompado como uma besta. -</p> -<p> -João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até -participante directo dos soffrimentos da vizinha, e com tamanho empenho -a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas -desventuras. Abrio-se com elle, contou-lhe a sua vida de amofinações e -difficuldades. «Seu senhor comia-lhe a pelle do corpo! Não era -brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar p'rali, todos os mezes, -vinte mil réis em dinheiro!» E segredou-lhe então o que já tinha -junto para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe -guardasse as economias, porque já de certa vez fôra roubada por -gatunos que lhe entraram na quitanda pelos fundos. -</p> -<p> -D'ahi em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o -conselheiro da crioula. No fim de pouco tempo era elle quem tomava conta -de tudo que ella produzia, e era tambem quem punha e dispunha dos seus -peculios, e quem se encarregava de remetter ao senhor os vinte mil réis -mensaes. Abrio-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando -precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até á venda e -recebia-o das mãos do vendeiro, de «Seu João,» como ella dizia. Seu -João debitava methodicamente essas pequenas quantias n'um quaderninho, -em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escripto e em letras cortadas de -jornal: «Activo e passivo de Bertoleza.» -</p> -<p> -E por tal fórma foi o taverneiro ganhando confiança no espirito da -mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava -d'elle, cegamente, todo e qualquer arbitrio. Por ultimo, se alguem -precisava tratar com ella qualquer negocio, nem mais se dava ao trabalho -de procural-a, ia logo direita a João Romão. -</p> -<p> -Quando deram fé estavam amigados. -</p> -<p> -Elle propoz-lhe morarem juntos, e ella concordou de braços abertos, -feliz em metter-se de novo com um portuguez, porque, como toda a cafusa, -Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instinctivamente -o homem n'uma raça superior á sua. -</p> -<p> -João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de -terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas -portas, dividida ao meio parallelamente á rua, sendo a parte da frente -destinada á quitanda e a do fundo para um dormitorio que se arranjou -com os cacarecos de Bertoleza. Havia, além da cama, uma commoda de -jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarello já mareadas, um -oratorio cheio de santos e forrado de papel de côr, um bahú grande de -couro crú taxeado, dous banquinhos de páo feitos de uma só peça e um -formidavel cabide de pregar na parede, com a sua competente coberta de -retalhos de chita. -</p> -<p> -O vendeiro nunca tivera tanta mobilia. -</p> -<p> -—Agora, disse elle á crioula, as coisas vão correr melhor para você. -Você vae ficar fôrra; eu entro com o que falta. -</p> -<p> -N'esses dias elle sahio muito á rua, e uma semana depois appareceu com -uma folha de papel toda escripta, que leu em voz alta á companheira. -</p> -<p> -—Você agora não tem mais senhor! declarou em seguida á leitura, que -ella ouvio entre lagrimas agradecidas. Agora está livre! De ora avante -o que você fizer é só seu e mais de seus filhos, se os tiver. -Acabou-se o captiveiro de pagar os vinte mil réis á peste do cego! -</p> -<p> -—Coitado! A gente se queixa é da sorte! Elle, como meu senhor, exigia -o jornal, exigia o que era seu! -</p> -<p> -—Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova! -</p> -<p> -Contra todo o costume, abrio-se n'esse dia uma garrafa de vinho do -Porto, e os dous beberam-n'a em honra ao grande acontecimento. -Entretanto, a tal carta de liberdade era obra do proprio João Romão, e -nem mesmo o sello, que elle entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar -á burla maior formalidade, representava despeza, porque o esperto -aproveitára uma estampilha já servida. O senhor de Bertoleza não teve -sequer conhecimento do facto; o que lhe constou, sim, foi que a sua -escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo. -</p> -<p> -—O cego que venha buscal-a aqui, se fôr capaz!... desafiou o vendeiro -de si para si. Elle que caia n'essa e verá se tem ou não para peras! -</p> -<p> -Não obstante, só ficou tranquillo de todo d'ahi a tres mezes, quando -lhe constou a morte do velho. A escrava passara naturalmente em herança -a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que receiar: -dous pandegos de marca maior que, empolgada a legitima, cuidariam de -tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam de -muitos annos áquella parte. «Ora! bastava já, e não era pouco, o que -lhe tinham sugado durante tanto tempo!» -</p> -<p> -Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel triplice de -caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre; -ás quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o -café para os freguezes e depois preparando o almoço para os -trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal -aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão na -taverna, quando o amigo andava occupado lá por fóra; fazia a sua -quitanda durante o dia no intervallo de outros serviços, e á noite -passava-se para a porta da venda, e, defronte de um fogareiro de barro, -fritava figado e frigia sardinhas, que Romão ia pela manhã, em mangas -de camisa, de tamancos e sem meias, comprar á praia do Peixe. E o -demonio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e concertar, além -da sua, a roupa do seu homem, que esta, valha a verdade, não era tanta -e nunca passava em todo o mez de alguns pares de calças de zuarte e -outras tantas camisas de riscado. -</p> -<p> -João Romão não sahia nunca a passeio, nem ia á missa aos domingos; -tudo que rendia a sua venda e mais a quitandas eguia direitinho para a -caixa economica e d'ahi então para o banco. Tanto assim que, um anno -depois da acquisição da crioula, indo em hasta publica algumas braças -de terra situadas ao fundo da taverna, arrematou-as logo e tratou, sem -perda de tempo, de construir tres casinhas de porta e janella. -</p> -<p> -Que milagres de esperteza e de economia não realizou elle n'essa -construcção! Servia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava -pedra; pedra, que o velhaco, fóra d'horas, junto com a amiga, furtavam -á pedreira do fundo, da mesma forma que subtrahiam o material das casas -em obra que havia por ali perto. -</p> -<p> -Estes furtos eram feitos com todas as cautelas e sempre coroados do -melhor successo, graças á circumstancia de que n'esse tempo a policia -não se mostrava muito por aquellas alturas. João Romão observava -durante o dia quaes as obras em que ficava material para o dia seguinte, -e á noite lá estava elle rente, mais a Bertoleza, a removerem taboas, -tijolos, telhas, saccos de cal, para o meio da rua, com tamanha -habilidade que se não ouvia vislumbre de rumor. Depois, um tomava uma -carga e partia para casa, emquanto o outro ficava de alcatéa ao lado do -resto, prompto a dar signal em caso de perigo; e, quando o que tinha ido -voltava, seguia então o companheiro, carregado por sua vez. -</p> -<p> -Nada lhes escapava, nem mesmo as escadas dos pedreiros, os cavallos de -páo, o banco ou a ferramenta dos marceneiros. -</p> -<p> -E o facto é que aquellas tres casinhas, tão engenhosamente -construidas, foram o ponto de partida do grande cortiço de São Romão. -</p> -<p> -Hoje quatro braças de terra, amanhã seis, depois mais outras, ia o -vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da sua -bodega; e, á proporção que o conquistava, reproduziam-se os quartos e -o numero dos moradores. -</p> -<p> -Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia santo, não perdendo -nunca a occasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas -as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os freguezes, -roubando nos pezos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o -que os escravos furtavam da casa dos seus senhores, apertando cada vez -mais as proprias despezas, empilhando privações sobre privações, -trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois, João Romão veio -afinal a comprar uma boa parte da bella pedreira, que elle, todos os -dias, ao cahir da tarde, assentado um instante á porta da venda, -contemplava de longe com um resignado olhar de cobiça. -</p> -<p> -Pôz lá seis homens a quebrarem pedra e outros seis a fazerem lagedos e -parallelepipedos, e então principiou a ganhar em grosso, tão em -grosso que, dentro de anno e meio, arrematava já todo o espaço -comprehendido entre as suas casinhas e a pedreira, isto é, umas oitenta -braças de fundo sobre vinte de frente em plano enxuto e magnifico para -construir. -</p> -<p> -Justamente por essa occasião vendeu-se tambem um sobrado que ficava á -direita da venda, separado d'esta apenas por aquellas vinte braças; de -sorte que todo o flanco esquerdo do predio, coisa de uns vinte e tantos -metros, despejava para o terreno do vendeiro as suas nove janellas de -peitoril. Comprou-o um tal Miranda, negociante portuguez, estabelecido -na rua do Hospicio com uma loja de fazendas por atacado. Corrida uma -limpeza geral no casarão, mudar-se-hia elle para lá com a familia, -pois que a mulher, Dona Estella, senhora pretenciosa e com fumaças de -nobreza, já não podia supportar a residencia no centro da cidade, como -tambem sua menina, a Zulmirinha, crescia muito pallida e precisava de -largueza para enrijar e tomar corpo. -</p> -<p> -Isto foi o que disse o Miranda aos collegas, porém a verdadeira causa -da mudança estava na necessidade, que elle reconhecia urgente, de -afastar Dona Estella do alcance dos seus caixeiros. Dona Estella era uma -mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze annos e -durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos. Ainda antes -de terminar o segundo anno de matrimonio, o Miranda pilhou-a em -flagrante delicio de adulterio; ficou furioso e o seu primeiro impulso -foi de mandal-a para o diabo junto com o cumplice; mas a sua casa -commercial garantia-se com o dote que ella trouxera, uns oitenta contos -em predios e acções da divida publica, de que se utilisava o -desgraçado tanto quanto lhe permittia o regimen dotal. Além de que, um -rompimento brusco seria obra para escandalo, e, segundo a sua opinião, -qualquer escandalo domestico ficava muito mal a um negociante de certa -ordem. Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a -idéa de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para -recomeçar a vida, depois de se haver habituado a umas tantas regalias e -affeito á hombridade de portuguez rico que já não tem patria na -Europa. -</p> -<p> -Acovardado defronte d'estes raciocinios, contentou-se com uma simples -separação de leitos, e os dous passaram a dormir em quartos separados. -Não comiam juntos, e mal trocavam entre si uma ou outra palavra -constrangida, quando qualquer inesperado acaso os reunia a contra gosto. -</p> -<p> -Odiavam-se. Cada qual sentia pelo outro um profundo desprezo, que pouco -a pouco se foi transformando em repugnancia completa. O nascimento de -Zulmira veio aggravar ainda mais a situação; a pobre criança, em vez -de servir de elo aos dous infelizes, foi antes um novo isolador que se -estabeleceu entre elles. Estella amava-a menos do que lhe pedia o -instincto materno por suppol-a filha do marido, e este a detestava -porque tinha convicção de não ser seu pae. -</p> -<p> -Uma bella noite, porém, o Miranda, que era homem de sangue esperto e -orçava então pelos seus trinta e cinco annos, sentio-se em -insupportavel estado de lubricidade. Era tarde já e não havia em casa -alguma criada que lhe pudesse valer. Lembrou-se da mulher, mas repellio -logo esta idéa com escrupulosa repugnancia. Continuava a odial-a. -Entretanto este mesmo facto de obrigação em que elle se collocou de -não servir-se d'ella, a responsabilidade de desprezal-a, como que ainda -mais lhe assanhava o desejo da carne, fazendo da esposa infiel um fructo -prohibido. Afinal, coisa singular, posto que moralmente em nada -diminuisse a sua repugnancia pela perjura, foi ter ao quarto d'ella. -</p> -<p> -A mulher dormia a somno solto. Miranda entrou pé ante pé e -approximou-se da cama. «Devia voltar!... pensou. Não lhe ficava bem -aquillo!...» Mas o sangue latejava-lhe, reclamando-a. Ainda hesitou um -instante, immovel, a contemplal-a no seu desejo. -</p> -<p> -Estella, como se o olhar do marido lhe apalpasse o corpo, torceu-se -sobre o quadril da esquerda, repuxando com as coxas o lençol para a -frente e patenteando uma nesga de nudez estofada e branca. O Miranda -não pôde resistir, atirou-se contra ella, que, num pequeno sobresalto, -mais de sorpresa que de revolta, desviou-se, tornando logo e enfrentando -com o marido. E deixou-se empolgar pelos rins, de olhos fechados, -fingindo que continuava a dormir, sem a menor consciencia de tudo -aquillo. -</p> -<p> -Ah! ella contava como certo que o esposo, desde que não teve coragem de -separar-se de casa, havia, mais cedo ou mais tarde, de procural-a de -novo. Conhecia-lhe o temperamento, forte para desejar e fraco para -resistir ao desejo. -</p> -<p> -Consummado o delicto, o honrado negociante sentio-se tolhido de vergonha -e arrependimento. Não teve animo de dar palavra, e retirou-se tristonho -e murcho para o seu quarto de desquitado. -</p> -<p> -Oh! como lhe doia agora o que acabava de praticar na cegueira da sua -sensualidade. -</p> -<p> -—Que cabeçada!... dizia elle agitado. Que formidavel cabeçada!... -</p> -<p> -No dia seguinte, os dois viram-se e evitaram-se em silencio, como se -nada de extraordinario houvera entre elles acontecido na vespera. Dir-se -ia até que, depois d'aquella occurrencia, o Miranda sentia crescer o -seu odio contra a esposa. E, á noite d'esse mesmo dia, quando se achou -sozinho na sua cama estreita, jurou mil vezes aos seus brios nunca mais, -nunca mais, praticar semelhante loucura. -</p> -<p> -Mas, d'ahi a um mez, o pobre homem, acommettido de um novo accesso de -luxuria, voltou ao quarto da mulher. -</p> -<p> -Estella recebeu-o d'esta vez como da primeira, fingindo que não -acordava; na occasião, porém, em que elle se apoderava d'ella -febrilmente, a leviana, sem se poder conter, soltou-lhe em cheio contra -o rosto uma gargalhada que a custo sopeava. O pobre diabo desnorteou, -devéras escandalisado, soerguendo-se, brusco, n'um estremunhamento de -somnambulo acordado com violencia. -</p> -<p> -A mulher percebeu a situação e não lhe deu tempo para fugir; -passou-lhe rapido as pernas por cima e, grudando-se-lhe ao corpo, cegou-o -com uma metralhada de beijos. -</p> -<p> -Não se fallaram. -</p> -<p> -Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão violenta no prazer. -Estranhou-a. Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada; -descobrio n'ella o capitoso encanto com que nos embebedam as cortezãs -amestradas na sciencia do gozo venereo. Descobrio-lhe no cheiro da pelle -e no cheiro dos cabellos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro -halito, outro som nos gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a -loucamente, com delirio, com verdadeira satisfação de animal no cio. -</p> -<p> -E ella tambem, ella tambem gozou, estimulada por aquella circumstancia -picante do resentimento que os desunia; gozou a deshonestidade d'aquelle -acto que a ambos acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se toda, -rangendo os dentes, grunhindo, debaixo d'aquelle seu inimigo odiado, -achando-o tambem agora, como homem, melhor que nunca, suffocando-o nos -seus abraços nús, mettendo-lhe pela bocca a lingua humida e em braza. -Depois, n'um arranco de corpo inteiro, com um soluço guttural e -estrangulado, arquejante e convulsa, estatelou-se n'um abandono de -pernas e braços abertos, a cabeça para o lado, os olhos moribundos e -chorosos, toda ella agonisante, como se a tivessem crucificado na cama. -</p> -<p> -A partir d'essa noite, da qual só pela manhã o Miranda se retirou do -quarto da mulher, estabeleceu-se entre elles o habito de uma felicidade -sexual, tão completa como ainda não a tinham desfrutado, posto que no -intimo de cada um persistisse contra o outro a mesma repugnancia moral -em nada enfraquecida. -</p> -<p> -Durante dez annos viveram muito bem casados; agora, porém, tanto tempo -depois da primeira infidelidade conjugal, e agora que o negociante já -não era acommettido tão frequentemente por aquellas crises que o -arrojavam fora d'horas ao dormitorio de Dona Estella; agora, eis que a -leviana parecia disposta a reincidir na culpa, dando corda aos caixeiros -do marido, na occasião em que estes subiam para almoçar ou jantar. -</p> -<p> -Foi por isso que o Miranda comprou o predio vizinho a João Romão. -</p> -<p> -A casa era boa; seu unico defeito estava na escassez do quintal; mas -para isso havia remedio: com muito pouco compravam-se umas dez braças -d'aquelle terreno do fundo, que ia até á pedreira, e mais uns dez ou -quinze palmos do lado em que ficava a venda. -</p> -<p> -Miranda foi logo entender-se com o Romão e propoz-lhe negocio. O -taverneiro recussou formalmente. -</p> -<p> -Miranda insistio. -</p> -<p> -—O senhor perde seu tempo e seu latim! retrucou o amigo de Bertoleza. -Nem só não cedo uma pollegada do meu terreno, como ainda lhe compro, -sem o quizer vender, aquelle pedaço que lhe fica ao fundo da casa! -</p> -<p> -—O quintal? -</p> -<p> -—É exacto. -</p> -<p> -—Pois você quer que eu fique sem chacara, sem jardim, sem nada? -</p> -<p> -—Para mim era de vantagem... -</p> -<p> -—Ora, deixe-se d'isso, homem, e diga lá quanto quer pelo que lhe -propuz. -</p> -<p> -—Já disse o que tinha a dizer. -</p> -<p> -—Ceda-me então ao menos as dez braças do fundo. -</p> -<p> -—Nem meio palmo! -</p> -<p> -—Isso é maldade de sua parte, sabe? Eu, se faço tamanho empenho, é -pela minha pequena, que precisa, coitada, de um pouco de espaço para -alargar-se. -</p> -<p> -—E eu não cedo, porque preciso do meu terreno! -</p> -<p> -—Ora qual! Que diabo póde lá você fazer ali? Uma porcaria de um -pedaço de terreno quasi grudado ao morro e aos fundos de minha casa! -quando você, aliás, dispõe de tanto espaço ainda! -</p> -<p> -—Hei de lhe mostrar se tenho ou não o que fazer ali! -</p> -<p> -—É que você é teimoso! Olhe, se me cedesse as dez braças do fundo, -a sua parte ficaria cortada em linha recta até á pedreira, e escusava -eu de ficar com uma aba de terreno alheio a metter-se pelo meu. Quer -saber? não amuro o quintal sem você decidir-se! -</p> -<p> -—Então ficará com o quintal para sempre sem muro, porque o que tinha -a dizer já disse! -</p> -<p> -—Mas, homem de Deus, que diabo! pense um pouco! Você ali não póde -construir nada! Ou pensará que lhe deixarei abrir janellas sobre o meu -quintal?... -</p> -<p> -—Não preciso abrir janellas sobre o quintal de ninguem! -</p> -<p> -—Nem tão pouco lhe deixarei levantar parede, tapando-me as janellas -da esquerda! -</p> -<p> -—Não preciso levantar parede d'esse lado... -</p> -<p> -—Então que diabo vai você fazer de todo este terreno?... -</p> -<p> -—Ah! isso agora é cá comigo!... O que fôr soará! -</p> -<p> -—Pois creia que se arrepende de não me ceder o terreno!... -</p> -<p> -—Se me arrepender, paciencia! Só lhe digo é que muito mal se sahirá -quem quizer metter-se cá com a minha vida! -</p> -<p> -—Passe bem! -</p> -<p> -—Adeus! -</p> -<p> -Travou-se então uma lucta renhida e surda entre o portuguez negociante -de fazendas por atacado e o portuguez negociante de seccos e molhados. -Aquelle não se resolvia a fazer o muro do quintal, sem ter alcançado o -pedaço de terreno que o separava do morro; e o outro, por seu lado, -não perdia a esperança de apanhar-lhe ainda, pelo menos, duas ou tres -braças aos fundos da casa; parte esta que, conforme os seus calculos, -valeria oiro, uma vez realizado o grande projecto que ultimamente o -trazia preoccupado—a creação de uma estalagem em ponto enorme, uma -estalagem monstro, sem exemplo, destinada a matar toda aquella miuçalha -de cortiços que alastravam por Botafogo. -</p> -<p> -Era este o seu ideal. Havia muito que João Romão vivia exclusivamente -para essa idéa; sonhava com ella todas as noites; comparecia a todos os -leilões de materiaes de construcção; arrematava madeiramentos já -servidos; comprava telha em segunda mão; fazia pechinchas de cal e -tijolos; o que era tudo depositado no seu extenso chão vasio, cujo -aspecto tomava em breve o caracter estranho de uma enorme barricada, tal -era a variedade de objectos que ali se apinhavam accumulados: taboas e -sarrafos, troncos d'arvore, mastros de navio, caibros, restos de -carroças, chaminés de barro e de ferro, fogões desmantelados, pilhas -e pilhas de tijolos de todos os feitios, barricas de cimento, montes de -arêa e terra vermelha, aglomerações de telhas velhas, escadas -partidas, depositos de cal, o diabo emfim; ao que elle, que sabia -perfeitamente como essas coisas se furtavam, resguardava, soltando á -noite um formidavel cão de fila. -</p> -<p> -Este cão era pretexto de eternas resingas com agente do Miranda, a cujo -quintal ninguem de casa podia descer, depois das dez horas da noite, sem -correr o risco de ser assaltado pela féra. -</p> -<p> -—É fazer o muro! dizia João Romão, sacudindo os hombros. -</p> -<p> -—Não faço! replicava o outro. Se elle é questão de capricho, eu -tambem tenho capricho! -</p> -<p> -Em compensação, não cahia no quintal do Miranda gallinha ou frango, -fugidos do cercado do vendeiro, que não levasse immediato sumiço. -João Romão protestava contra o roubo em termos violentos, jurando -vinganças terriveis, fallando em dar tiros. -</p> -<p> -—Pois é fazer um muro no gallinheiro! repontava o marido de Estella. -</p> -<p> -D'ahi a alguns mezes, João Romão, depois de tentar um derradeiro -esforço para conseguir algumas braças do quintal do vizinho, resolveu -principiar as obras da estalagem. -</p> -<p> -—Deixa estar, conversava elle na cama com a Bertoleza; deixa estar -que ainda lhe hei de entrar pelos fundos da casa, se é que não lhe entre -pela frente! Mais cedo ou mais tarde como-lhe, não duas braças, mas -seis, oito, todo o quintal e até o proprio sobrado talvez! -</p> -<p> -E dizia isto com uma convicção de quem tudo póde e tudo espera da sua -perseverança, do seu esforço inquebrantavel e da fecundidade -prodigiosa do seu dinheiro, dinheiro que só lhe sahia das unhas para -voltar multiplicado. -</p> -<p> -Desde que a febre de possuir se apoderou d'elle totalmente, todos os -seus actos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse -pecuniario. Só tinha uma preoccupação: augmentar os bens. Das suas -hortas recolhia para si e para a companheira os peiores legumes, -aquelles que, por máos, ninguem compraria; as suas gallinhas produziam -muito e elle não comia um ovo, do que no emtanto gostava immenso; -vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos -trabalhadores. Aquillo já não era ambição, era uma molestia nervosa, -uma loucura, um desespero de accumular, de reduzir tudo a moeda. E seu -typo baixote, socado, de cabellos á escovinha, a barba sempre por -fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda ás hortas e ao -capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando -para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com -os olhos, de tudo aquillo de que elle não podia apoderar-se logo com as -unhas. -</p> -<p> -Entretanto, a rua lá fóra povoava-se de um modo admiravel. -Construia-se mal, porém muito; surgiam chalets e casinhas da noite para -o dia; subiam os alugueis; as propriedades dobravam de valor. -Montára-se uma fabrica de massas italianas e outra de vélas, e os -trabalhadores passavam de manhã e ás Ave-Marias, e a maior parte -d'elles ia comer á casa de pasto que João Romão arranjára aos fundos -da sua venda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser -tão afreguezada como a d'elle. Nunca o seu negocio fora tão bem, nunca -o finorio vendêra tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos annos -anteriores. Teve até de admittir caixeiros. As mercadorias não lhe -paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais -gasto. E o dinheiro a pingar, vintem por vintem, dentro da gaveta, e a -escorrer da gaveta para a burra, aos cincoenta e aos cem mil réis, e da -burra para o banco, aos contos e aos contos. -</p> -<p> -Afinal, já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos armazens -fornecedores; começou a receber alguns generos directamente da Europa: -o vinho, por exemplo, que elle d'antes comprava aos quintos nas casas de -atacado, vinha-lhe agora de Portugal ás pipas, e de cada uma fazia tres -com agua e cachaça; e despachava facturas de barris de manteiga, de -caixas de conserva, caixões de phosphoros, azeite, queijos, louça e -muitas outras mercadorias. -</p> -<p> -Creou armazens para deposito, abolio a quitanda e transferio o -dormitorio, aproveitando o espaço para ampliar a venda, que dobrou de -tamanho e ganhou mais duas portas. -</p> -<p> -Já não era uma simples taverna, era um bazar em que se encontrava de -tudo: objectos de armarinho, ferragens, porcelanas, utensilios de -escriptorio, roupa de riscado para os trabalhadores, fazenda para roupa -de mulher, chapéos de palha proprios para o serviço ao sol, -perfumarias baratas, pentes de chifre, lenços com versos de amor, e -anneis e brincos de metal ordinario. -</p> -<p> -E toda a gentalha d'aquellas redondezas ia cahir lá, ou então ali ao -lado, na casa de pasto, onde os operarios das fabricas e os -trabalhadores da pedreira se reuniam depois do serviço, e ficavam -bebendo e conversando até ás dez horas da noite, entre o espesso fumo -dos cachimbos, do peixe frito em azeite e dos lampeões de kerosene. -</p> -<p> -Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado, -quando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo -ordenado não fosse inteirinho para ás mãos do velhaco. E sobre este -cobre, quasi sempre emprestado aos tostões, cobrava juros de oito por -cento ao mez, um pouco mais do que levava aos que garantiam a divida com -penhores de oiro ou prata. -</p> -<p> -Não obstante, as casinhas do cortiço, á proporção que se -atamancavam, enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas -seccassem. Havia grande avidez em alugal-as; aquelle era o melhor ponto -do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam -todos morar lá, porque ficavam a dous passos da obrigação. -</p> -<p> -O Miranda rebentava de raiva. -</p> -<p> -—Um cortiço! exclamava elle, possesso. Um cortiço! Maldito seja -aquelle vendeiro de todos os diabos! Fazer-me um cortiço debaixo das -janellas!... Estragou-me á casa, o malvado! -</p> -<p> -E vomitava pragas, jurando que havia de vingar-se, e protestando aos -berros contra o pó que lhe invadia em ondas as salas, e contra o -infernal barulho dos pedreiros e carpinteiros que levavam a martellar de -sol a sol. -</p> -<p> -O que aliás não impedio que as casinhas continuassem a surgir, uma -após outra, e fossem logo se enchendo, a estenderem-se unidas por ali -afóra, desde a venda até quasi ao morro, e depois dobrassem para o -lado do Miranda e avançassem sobre o quintal d'este, que parecia -ameaçado por aquella serpente de pedra e cal. -</p> -<p> -O Miranda mandou logo levantar o muro. -</p> -<p> -Nada! aquelle demonio era capaz de invadir-lhe a casa até a sala de -visitas! -</p> -<p> -E os quartos do cortiço pararam emfim de encontro ao muro do -negociante, formando com a continuação da casa d'este um grande -quadrilongo, especie de pateo de quartel, onde podia formar um -batalhão. -</p> -<p> -Noventa e cinco casinhas comportou a immensa estalagem. -</p> -<p> -Promptas, João Romão mandou levantar na frente, nas vinte braças que -separavam a venda do sobrado do Miranda, um grosso muro de dez palmos de -altura, coroado de cacos de vidro e fundos de garrafa, e com um grande -portão no centro, onde se dependurou uma lanterna de vidraças -vermelhas, por cima de uma taboleta amarella, em que se lia o seguinte, -escripto a tinta encarnada e sem ortographia. -</p> -<p> -«Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para -lavadeiras.» -</p> -<p> -As casinhas eram alugadas por mez e as tinas por dia: tudo pago -adiantado. O preço de cada tina, mettendo a agua, quinhentos réis; -sabão á parte. As moradoras do cortiço tinham preferencia e não -pagavam nada para lavar. -</p> -<p> -Graças a abundancia d'agua que lá havia, como em nenhuma outra parte, -e graças ao muito espaço de que se dispunha no cortiço para estender -a roupa, a concurrencia ás tinas não se fez esperar; acudiram -lavadeiras de todos os pontos da cidade, entre ellas algumas vindas de -bem longe. E, mal vagava uma das casinhas, ou um quarto, um canto onde -coubesse um colchão, surgia uma nuvem de pretendentes a disputal-os. -</p> -<p> -E aquillo se foi constituindo n'uma grande lavanderia, agitada e -barulhenta, com as suas cercas de varas, as suas hortaliças verdejantes -e os seus jardinzinhos de tres e quatro palmos, que appareciam como -manchas alegres por entre a negrura das limosas tinas transbordantes e o -reverbero das claras barracas de algodão crú, armadas sobre os -lustrosos bancos de lavar. E os gottejantes giráos, cobertos de roupa -molhada, scintillavam ao sol, que nem lagos de metal branco. -</p> -<p> -E n'aquella terra encharcada e fumegante, n'aquella humidade quente e -lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma -coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontanea, ali mesmo, -d'aquelle lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="II">II</a></h4> - -<p> -E durante dous annos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando -forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto -com aquella exhuberancia brutal de vida, aterrado defronte d'aquella -floresta implacavel que lhe crescia junto da casa, por debaixo das -janellas, e cujas raizes, peiores e mais grossas do que serpentes, -minavam por toda parte, ameaçando rebentar o chão em torno d'ella, -rachando o solo e abalando tudo. -</p> -<p> -Posto que lá na rua do Hospicio os seus negocios não corressem mal, -custava-lhe a soffrer a escandalosa fortuna do vendeiro «aquelle typo! -um miseravel, um sujo, que não puzera nunca um paletó, e que vivia de -cama e mesa com uma negra!» -</p> -<p> -Á noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando -elle, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar estendido -n'uma preguiçosa, junto á mesa da sala de jantar, e ouvia, a -contra-gosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem n'uma exhalação -forte de animaes cansados. Não podia chegar á janella sem receber no -rosto aquelle bafo, quente e sensual, que o embebedava com o seu fartum -de bestas no coito. -</p> -<p> -E depois, fechado no quarto de dormir, indifferente e habituado ás -torpezas carnaes da mulher, isento já dos primitivos sobresaltos que -lhe faziam, a elle, ferver o sangue e perder a tramontana, era ainda a -prosperidade do vizinho o que lhe obcecava o espirito, ennegrecendo-lhe -a alma com um feio resentimento de despeito. -</p> -<p> -Tinha inveja do outro, d'aquelle outro portuguez que fizera fortuna, sem -precisar roer nenhum chifre; d'aquelle outro que, para ser mais rico -tres vezes do que elle, não teve de casar com a filha do patrão ou com -a bastarda de algum fazendeiro freguez da casa! -</p> -<p> -Mas então, elle, Miranda, que se suppunha a ultima expressão da -ladinagem e da esperteza; elle, que, logo depois do seu casamento, -respondendo para Portugal a um ex-collega que o felicitava, dissera que -o Brasil era uma cavalgadura carregada de dinheiro, cujas redeas um -homem fino empolgava facilmente; elle, que se tinha na conta de -invencivel matreiro, não passava afinal de um pedaço d'asno comparado -com o seu vizinho! Pensara fazer-se senhor do Brasil e fizera-se escravo -de uma brasileira mal educada e sem escrupulos de virtude! Imaginára-se -talhado para grandes conquistas, e não passava de uma victima ridicula -e soffredora!... Sim! no fim de contas qual fôra a sua Africa?... -Enriquecêra um pouco, é verdade, mas como? a que preço? -hypothecando-se a um diabo, que lhe trouxera oitenta contos de réis, -mas incalculaveis milhões de desgostos e vergonhas! Arranjára a vida, -sim, mas teve de aturar eternamente uma mulher que elle odiava! E do que -afinal lhe aproveitára tudo isso? Qual era afinal a sua grande -existencia? Do inferno da casa para o purgatorio do trabalho e -vice-versa! Invejavel sorte, não havia duvida! -</p> -<p> -Na dolorosa incerteza de que Zulmira fosse sua filha, o desgraçado nem -sequer gozava o prazer de ser pae. Se ella, em vez de nascer de Estella, -fora uma engeitadinha recolhida por elle, é natural que a amasse, e -então a vida lhe correria de outro modo; mas, n'aquellas condições, a -pobre criança nada mais representava que o documento vivo do ludibrio -materno, e o Miranda estendia até á innocentezinha o odio que -sustentava contra a esposa. -</p> -<p> -Uma espiga a tal da sua vida! -</p> -<p> -—Fui uma besta! resumio elle, em voz alta, apeiando-se da cama, onde -se havia recolhido inutilmente. -</p> -<p> -E pôz-se a passeiar no quarto, sem vontade de dormir, sentindo que a -febre d'aquella inveja lhe estorricava os miolos. -</p> -<p> -Feliz e esperto era o João Romão! esse, sim, senhor! Para esse é que -havia de ser a vida!... Filho da mãe, que estava hoje tão livre e -desembaraçado como no dia em que chegou da terra sem um vintém de seu! -esse, sim, que era moço e podia ainda gozar muito, porque, quando mesmo -viesse a casar e a mulher lhe sahisse uma outra Estella, era só -mandal-a p'ra o diabo com um pontapé! Podia fazel-o! Para esse é que -era o Brasil! -</p> -<p> -—Fui uma besta! repisava elle, sem conseguir conformar-se com a -felicidade do vendeiro. Uma grandissima besta! No fim de contas que -diabo possuo eu?... Uma casa de negocio, da qual não posso separar-me -sem comprometter o que lá está enterrado! um capital mettido n'uma -rêde de transacções que não se liquidam nunca, e cada vez mais se -complicam e mais me grudam ao estupor d'esta terra, onde deixarei a -casca! Que tenho de meu, se a alma do meu credito é o dote, que me -trouxe aquella sem vergonha, e que a ella me prende como a peste da casa -commercial me prende a esta Costa d'Africa?... -</p> -<p> -Foi da suppuração fetida d'estas idéas que se formou no coração -vasio do Miranda um novo ideal—o titulo. Faltando-lhe temperamento -proprio para os vicios fortes que enchem a vida de um homem; sem familia -a quem amar e sem imaginação para poder gozar com as prostitutas, o -naufrago agarrou-se áquella taboa, como um agonisante, consciente da -morte, que se apega á esperança de uma vida futura. A vaidade de -Estella, que a principio lhe tirava dos labios incredulos sorrisos de -mofa, agora lhe comprazia á farta. Procurou capacitar-se de que ella -com effeito herdara sangue nobre, e que elle, por sua vez, se não o -tinha herdado, trouxera-o por natureza propria, o que devia valer mais -ainda; e desde então principiou a sonhar com um baronato, fazendo -d'isso o objecto querido da sua existencia, muito satisfeito no intimo -por ter afinal descoberto uma coisa em que podia empregar dinheiro, sem -ter, nunca mais, de restituil-o á mulher, nem ter de deixal-o a pessoa -alguma. -</p> -<p> -Semelhante preoccupação modificou-o em extremo. Deu logo para -fingir-se escravo das conveniencias, affectando escrupulos sociaes, -empertigando-se quanto podia e disfarçando a sua inveja pelo vizinho -com um desdenhoso ar de superioridade condescendente. Ao passar-lhe -todos os dias pela venda, cumprimentava-o com protecção, sorrindo sem -rir e fechando logo a cara em seguida, muito serio. -</p> -<p> -Dados os primeiros passos para a compra do titulo, abrio a casa e deu -festas. A mulher, posto que lhe apontassem já os cabellos brancos, -rejubilou com isso. -</p> -<p> -Zulmira tinha então doze para treze annos e era o typo acabado da -fluminense; pallida, magrinha, com pequeninas manchas roxas nas mucosas -do nariz, das palpebras e dos labios, faces levemente pintalgadas de -sardas. Respirava o tom humido das flores nocturnas, uma brancura fria -de magnolia; cabellos castanho claro, mãos quasi transparentes, unhas -molles e curtas, como as da mãe, dentes pouco mais claros do que a -cutis do rosto, pés pequenos, quadril estreito, mas os olhos grandes, -negros, vivos e maliciosos. -</p> -<p> -Por essa época, justamente, chegava de Minas, recommendado ao pae -d'ella, o filho de um fazendeiro importantissimo que dava bellos lucros -á casa commercial do Miranda e que era talvez o melhor freguez que este -possuia no interior. -</p> -<p> -O rapaz chamava-se Henrique, tinha quinze annos e vinha terminar na -côrte alguns preparatorios que lhe faltavam para entrar na academia de -medicina. Miranda hospedou-o no seu sobrado da rua do Hospicio, mas o -estudante queixou-se, no fim de alguns dias, de que ahi ficava mal -accommodado, e o negociante, o quem não convinha desagradar-lhe, -carregou com elle para a sua residencia particular de Botafogo. -</p> -<p> -Henrique era bonitinho, cheio de acanhamentos, com umas delicadezas de -menina. Parecia muito cuidadoso dos seus estudos e tão pouco -extravagante e gastador, que não despendia um vintem fóra das -necessidades de primeira urgencia. De resto, a não ser de manhã para -as aulas, que ia sempre com o Miranda, não arredava pé de casa senão -em companhia da familia d'este. Dona Estella, ao cabo de pouco tempo, -mostrou por elle estima quasi maternal e encarregou-se de tomar conta da -sua mesada, mesada posta pelo negociante, visto que o Henriquinho tinha -ordem franca do pae. -</p> -<p> -Nunca pedia dinheiro; quando precisava de qualquer coisa, reclamava-a de -Dona Estella, que por sua vez encarregava ao marido de compral-a, sendo -o objecto lançado na conta do fazendeiro com uma commissão de -usurario. Sua hospedagem custava duzentos e cincoenta mil réis por mez, -do que elle todavia não tinha conhecimento, nem queria ter. Nada lhe -faltava, e os criados da casa o respeitavam como a um filho do proprio -senhor. -</p> -<p> -Á noite, ás vezes, quando o tempo estava bom, Dona Estella sahia com -elle, a filha e um moleque, o Valentim, a darem uma volta até á praia, -e, em tendo convite para qualquer festa em casa das amigas, levava-o em -sua companhia. -</p> -<p> -A criadagem da familia do Miranda compunha-se de Izaura, mulata ainda -moça, moleirona e tola, que gastava todo a vintemzinho que pilhava em -comprar capilé na venda de João Romão; uma negrinha virgem, chamada -Leonor, muito ligeira e viva, lisa e secca como um moleque, conhecendo -de orelha, sem lhe faltar um termo, a vasta technologia da obscenidade, -e dizendo, sempre que os caixeiros ou os freguezes da taberna, só para -mexer com ella, lhe davam atracações: «Oia, que eu me quexo ao juiz -de orfe!» e finalmente o tal Valentim, filho de uma escrava que foi de -Dona Estella e a quem esta havia alforriado. -</p> -<p> -A mulher do Miranda tinha por este moleque uma affeição sem limites: -dava-lhe toda a liberdade, dinheiro, presentes, levava-o comsigo a -passeio, trazia-o bem vestido e muita vez chegou a fazer ciumes á -filha, de tão solicita que se mostrava com elle. Pois se a caprichosa -senhora ralhava com Zulmira por causa do negrinho! Pois, se quando se -queixavam os dous, um contra o outro, ella nunca dava razão á filha! -Pois se o que havia de melhor na casa era para o Valentim! Pois, se -quando foi este atacado de bexigas e o Miranda, apezar das supplicas e -dos protestos da esposa, mandou-o para um hospital, Dona Estella chorava -todos os dias e durante a ausencia d'elle não tocou piano, nem cantou, -nem mostrou os dentes a ninguem? E o pobre Miranda, se não queria -soffrer impertinencias da mulher e ouvir semsaborias defronte dos -criados, tinha de dar ao moleque toda a consideração e fazer-lhe -humildemente todas as vontades. -</p> -<p> -Havia ainda, sob as telhas do negociante, um outro hospede alem do -Henrique, o velho Botelho. Este porém na qualidade de parasita. -</p> -<p> -Era um pobre diabo caminhando para os setenta annos; antipathico, -cabello branco, curto e duro como escova, barba e bigode do mesmo theor; -muito macilento, com uns oculos redondos que lhe augmentavam o tamanho -da pupilla e davam-lhe á cara uma expressão de abutre, perfeitamente -de accordo com o seu nariz adunco e com a sua bocca sem labios; -viam-se-lhe ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que pareciam -limados até ao meio. Andava sempre de preto, com um guarda-chuva -debaixo do braço e um chapéu de Braga enterrado nas orelhas. Fôra em -seu tempo empregado do commercio, depois corretor de escravos; contava -mesmo que estivera mais de uma vez na Africa, negociando negros por sua -conta. Atirou-se muito ás especulações; durante a guerra do Paraguay -ainda ganhara forte, chegando a ser bem rico; mas a roda desandou e, de -malogro em malogro, foi-lhe escapando tudo por entre as suas garras de -ave de rapina. E agora, coitado, já velho, comido de desillusões, -cheio de hemorrhoidas, via-se totalmente sem recursos e vegetava á -sombra do Miranda, com quem por muitos annos trabalhou em rapaz, sob as -ordens do mesmo patrão, e de quem se conservara amigo, a principio por -acaso e mais tarde por necessidade. -</p> -<p> -Devorava-o, noite e dia, uma implacavel amargura, uma surda tristeza de -vencido, um desespero impotente, contra tudo e contra todos, por não -lhe ter sido possivel empolgar o mundo com as suas mãos hoje inuteis e -tremulas. E, como o seu actual estado de miseria não lhe permittia -abrir contra ninguem o bico, desabafava vituperando as idéas da época. -</p> -<p> -Assim, eram ás vezes muito quentes as sobremesas do Miranda, quando, -entre outros assumptos palpitantes, vinha á discussão o movimento -abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco. -Então o Botelho ficava possesso e vomitava phrases terriveis, para a -direita e para a esquerda, como quem dispara tiros sem fazer alvo, e -vociferava imprecações, aproveitando aquella valvula para desafogar o -velho odio accumulado dentro d'elle. -</p> -<p> -—Bandidos! berrava apoplectico. Cafila de salteadores! -</p> -<p> -E o seu rancor irradiava-lhe dos olhos em settas envenenadas, procurando -cravar-se em todas as brancuras e em todas as claridades. A virtude, a -belleza, o talento, a mocidade, a força, a saude, e principalmente a -fortuna, eis o que elle não perdoava a ninguem, amaldiçoando todo -aquelle que conseguia o que elle não obtivéra; que gosava o que elle -não desfructára; que sabia o que elle não aprendêra. E, para -individualisar o objecto do seu odio, voltava-se contra o Brasil, essa -terra que, na sua opinião, só tinha uma serventia: enriquecer os -portuguezes, e que, no emtanto, o deixára, a elle, na penuria. -</p> -<p> -Seus dias eram consumidos do seguinte modo: acordava ás oito da manhã, -lavava-se mesmo no quarto com uma toalha molhada em espirito de vinho; -depois ia ler os jornaes para a sala de jantar, a espera do almoço; -almoçava e sahia, tomava o bonde e ia direitinho para uma charutaria da -rua do Ouvidor, onde costumava ficar assentado até ás horas do jantar, -entretido a dizer mal das pessoas que passavam lá fóra, de fronte -d'elle. Tinha a pretenção de conhecer todo o Rio de Janeiro e os -podres de cada um em particular. Ás vezes, poucas, Dona Estella -encarregava-o de fazer pequenas compras de armarinho, o que o Botelho -desempenhava melhor que ninguem. Mas a sua grande paixão, o seu fraco, -era a farda, adorava tudo que dissesse respeito ao militarismo, posto -que tivéra sempre invencivel medo ás armas de qualquer especie, -mórmente ás de fogo. Não podia ouvir disparar perto de si uma -espingarda, enthusiasmava-se porém com tudo que cheirasse a guerra; a -presença de um official em grande uniforme tirava-lhe lagrimas de -commoção; conhecia na ponta da lingua o que se referia á vida de -quartel; distinguia ao primeiro lance d'olhos o posto e o corpo a que -pertencia qualquer soldado, e, apezar dos seus achaques, era ouvir tocar -na rua a corneta ou o tambor conduzindo o batalhão, ficava logo no ar, -e, muita vez, quando dava por si, fazia parte dos que accompanhavam a -tropa. Então, não tornava para casa emquanto os militares não se -recolhessem. Quasi sempre voltava d'essa loucura ás seis da tarde, -moido a fazer dó, sem poder ter-se nas pernas, estrompado de marchar -horas e horas ao som da musica de pancadaria. E o mais interessante é -que elle, ao vir-lhe a reacção, revoltava-se furioso contra o maldito -commandante que o obrigára áquella estopada, levando o batalhão por -uma infinidade de ruas e fazendo de proposito o caminho mais longo. -</p> -<p> -—Só parece, lamentava-se elle, que a intenção d'aquelle malvado era -dar-me cabo da pelle! Ora vejam! Tres horas de marche-marche por uma -soalheira de todos os diabos! -</p> -<p> -Uma das birras mais comicas do Botelho era o seu odio pelo Valentim. O -moleque causava-lhe febre com as suas petulancias de mimalho, e, -velhaco, percebendo quanto ellas o irritavam, ainda mais abusava, seguro -na protecção de Dona Estella. O parasita de muito que o teria -estrangulado, se não fôra a necessidade de agradar a dona da casa. -</p> -<p> -Botelho conhecia as fallas de Estella como as palmas da propria mão. O -Miranda mesmo, que o via em conta de amigo fiel, muitas e muitas vezes -lh'as confiára em occasiões desesperadas de desabafo, declarando -francamente o quanto no intimo a desprezava e a razão porque não a -punha na rua aos pontapés. E o Botelho dava-lhe toda a razão; entendia -tambem que os serios interesses commerciaes estavam acima de tudo. -</p> -<p> -—Uma mulher n'aquellas condições, dizia elle convicto, representa -nada menos que o capital, e um capital em caso nenhum a gente despreza! -Agora, você o que devia era nunca chegar-se para ella... -</p> -<p> -—Ora! explicava o marido. Eu me sirvo d'ella como quem se serve de -uma escarradeira! -</p> -<p> -O parasita, feliz por ver quanto o amigo aviltava a mulher, concordava -em tudo plenamente, dando-lhe um carinhoso abraço de admiração. Mas -por outro lado, quando ouvia Estella fallar do marido, com infinito -desdem e até com asco, ainda mais resplandecia de contente. -</p> -<p> -—Você quer saber? affirmava ella, eu bem percebo quanto aquelle -traste do senhor meu marido me detesta, mas isso tanto se me dá como a -primeira camisa que vesti! Desgraçadamente para nós, mulheres de -sociedade, não podemos viver sem o esposo, quando somos casadas; de -forma que tenho de aturar o que me cahio em sorte, quer goste d'elle -quer não goste! juro-lhe, porém, que, se consinto que o Miranda se -chege ás vezes para mim, é porque entendo que paga mais á pena ceder -do que puxar discussão com uma besta d'aquella ordem! -</p> -<p> -O Botelho, com a sua encanecida experiencia do mundo, nunca transmittia -a nenhum dos dous o que cada qual lhe dizia contra o outro; tanto assim -que, certa occasião, recolhendo-se á casa incommodado, em hora que -não era do seu costume, ouvio, ao passar pelo quintal, sussurros de -vozes abafadas que pareciam vir de um canto afogado de verdura, onde em -geral não ia ninguem. -</p> -<p> -Encaminhou-se para lá em bicos de pés e, sem ser percebido, descobrio -Estella entalada entre o muro e o Henrique. Deixou-se ficar espiando, -sem tugir nem mugir, e, só quando os dous se separaram, foi que elle se -mostrou. -</p> -<p> -A senhora soltou um pequeno grito, e o rapaz, de vermelho que estava, -fez-se côr de cera; mas o Botelho procurou tranquillisal-os, dizendo em -voz amiga e mysteriosa: -</p> -<p> -—Isso é uma imprudencia o que vocês estão fazendo!... Estas coisas -não é d'este modo que se arranjam! Assim como fui eu, podia ser outra -pessoa... Pois n'uma casa, em que ha tantos quartos, é lá preciso vir -metterem-se n'este canto do quintal?... -</p> -<p> -—Nós não estávamos fazendo nada! disse Estella, recuperando o sangue -frio. -</p> -<p> -—Ah! tornou o velho, apparentando summo respeito: então desculpe, -pensei que estivessem... E olhe que, se assim fosse, para mim seria o -mesmo, porque acho isso a coisa mais natural do mundo e entendo que -d'esta vida a gente só leva o que come!... Se vi, creia, foi como se -nada visse, porque nada tenho a cheirar com a vida de cada um!... A -senhora está moça, está na força dos annos; seu marido não a -satisfaz, é justo que o substitua por outro! Ah! isto é o mundo, e, se -é torto, não fomos nós que o fizemos torto!... Até certa idade todos -temos dentro um bichinho carpinteiro, que é preciso matar, antes que -elle nos mate! Não lhes doam as mãos!... apenas acho que, para outra -vez, devem ter um pouquito mais de cuidado e... -</p> -<p> -—Está bom! basta! ordenou Estella. -</p> -<p> -—Perdão! eu, se digo isto, é para deixal-os bem tranquillos a meu -respeito. Não quero, nem por sombra, que se persuadam de que... -</p> -<p> -O Henrique atalhou, com a voz ainda commovida: -</p> -<p> -—Mas, acredite, seu Botelho, que... -</p> -<p> -O velho interrompeo-o tambem por sua vez, passando-lhe a mão no hombro -e affastando-o comsigo: -</p> -<p> -—Não tenha receio, que não o comprometterei, menino! -</p> -<p> -E, como já estivessem distantes de Estella, segredou-lhe em tom -protector: Não torne a fazer isto assim, que você se estraga... Olhe -como lhe tremem as pernas! -</p> -<p> -Dona Estella acompanhou-os a distancia, vagarosamente, affectando -preoccupação em compor um ramalhete, cujas flores ella ia colhendo com -muita graça, ora toda vergada sobre as plantas rasteiras, ora pondo-se -na pontinha dos pés para alcançar os heliotropos e os manacás. -</p> -<p> -Henrique seguio o Botelho até ao quarto d'este, conversando sem mudar -de assumpto. -</p> -<p> -—Você então não falia n'isto, hein? Jura? perguntou-lhe. -</p> -<p> -O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhára em flagrante e que -ficára bom tempo a espreita. -</p> -<p> -Fallar o que, seu tolo?... Pois então quem pensa você que eu sou?... -Só abrirei o bico se você me der motivo para isso, mas estou -convencido que não dará... Quer saber? eu até sympathiso muito com -você, Henrique! Acho que você é um excellente menino, uma flôr! E -digo-lhe mais: hei de proteger os seus negocios com Dona Estella... -</p> -<p> -Fallando assim, tinha-lhe tomado as mãos e affagava-as. -</p> -<p> -—Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se metta com donzellas, -entende?... São o diabo! Por dá cá aquella palha fica um homem em -apuros! agora quanto ás outras, papo com ellas! Não mande nenhuma ao -vigario, nem lhe dôa a cabeça, porque, no fim de contas, nas -circumstancias de Dona Estella, é até um grande serviço que você lhe -faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e pilha -a geito um rapazito da sua idade, é como se descobrisse oiro em pó! -sabe-lhe a gaitas! Fique então sabendo de que não é só a ella que -você faz o obsequio, mas tambem ao marido: quanto mais escovar-lhe -você a mulher, melhor ella ficará de genio, e por conseguinte melhor -será para o pobre homem, coitado! que tem já bastante com que se -aborrecer lá por baixo, com os seus negocios, e precisa de um pouco de -descanço quando volta do serviço e mette-se em casa! Escove-a, -escove-a! que a porá macia que nem velludo! O que é preciso é muito -juizinho, percebe? Não faça outra criançada como a de hoje e continue -para diante, não só com ella, mas com todas as que lhe cahirem debaixo -da aza! Vá passando! menos as de casa aberta, que isso é perigoso por -causa das molestias; nem tão pouco donzellas! Não se metta com a -Zulmira! E creia que lhe fallo assim, porque sou seu amigo, porque o -acho sympathico, porque o acho bonito! -</p> -<p> -E acarinhou-o tão vivamente d'esta vez, que o estudante, fugindo-lhe -das mãos, affastou-se com um gesto de repugnancia e desprezo, emquanto -o velho lhe dizia em voz comprimida: -</p> -<p> -—Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="III">III</a></h4> - -<p> -Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os -olhos, mas a sua infinidade de portas e janellas alinhadas. -</p> -<p> -Um acordar alegre e farto de quem dormio de uma assentada sete horas de -chumbo. Como que se sentia ainda na indolencia da neblina as derradeiras -notas da ultima guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se á luz -loira e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra -alheia. -</p> -<p> -A roupa lavada, que ficára de vespera nos córadoiros, humedecia o ar e -punha-lhe um fartum acre de sabão ordinario. As pedras do chão, -esbranquiçadas no logar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo -anil, mostravam uma pallidez grisalha e triste, feita de accumulações -de espumas seccas. -</p> -<p> -Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de somno; -ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; -pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as chicaras a -tilintar; o cheiro quente do café aquecia, supplantando todos os -outros; trocavam-se de janella para janella as primeiras palavras, os -bons dias; reatavam-se conversas interrompidas á noite; a pequenada cá -fora traquinava já, e lá de dentro das casas vinham choros abafados de -crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava, -destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, -grasnar de marrecos, cantar de gallos, cacarejar de gallinhas. De alguns -quartos sabiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a -gaiola do papagaio, e os loiros, á semelhança dos donos, -cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se á luz nova do dia. -</p> -<p> -D'ahi a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma -agglomeração tumultuosa de machos e femeas. Uns, após outros, lavavam -a cara, incommodamente, debaixo do fio d'agoa que escorria da altura de -uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já -prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a -tostada nudez dos braços e do pescoço, que ellas despiam, suspendendo o -cabello todo para o alto do casco; os homens, esses não se preoccupavam -em não molhar o pello, ao contrario mettiam a cabeça bem debaixo da -agoa e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando -contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era -um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sahir sem treguas. Não -se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; -as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali -mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto -das hortas. -</p> -<p> -O rumor crescia, condensando-se; o zum-zum de todos os dias -accentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruido -compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na -venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e -pragas; já se não fallava, gritava-se. Sentia-se n'aquella -fermentação sanguinea, n'aquella gula viçosa de plantas rasteiras que -mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer -animal de existir, a triumphante satisfação de respirar sobre a terra. -</p> -<p> -Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas, -fazendo compras. -</p> -<p> -Duas janellas do Miranda abriram-se. Appareceu n'uma a Izaura, que se -dispunha a começar a limpeza da casa. -</p> -<p> -—Nhá Dunga! gritou ella para baixo, a sacudir um panno de mesa; se -você tem cús-cús de milho hoje, bata na porta, ouvio? -</p> -<p> -A Leonor surgio logo tambem, enfiando curiosa a carapinha por entre o -pescoço e o hombro da mulata. -</p> -<p> -O padeiro entrou na estalagem, com a sua grande cesta á cabeça e o seu -banco de páo fechado debaixo do braço, e foi estacionar em meio do -pateo, a espera dos freguezes, pousando a canastra sobre o cavallete que -elle armou promptamente. Em breve estava cercado por uma nuvem de gente. -As crianças adulavam-no, e, á proporção que cada mulher ou cada -homem recebia o pão, disparava para casa com este abraçado contra o -peito. Uma vacca, seguida por um bezerro amordaçado, ia, tilintando -tristemente o seu chocalho, de porta em porta, guiada por um homem -carregado de vasilhame de folha. -</p> -<p> -O zum-zum chegava ao seu apogeu. A fabrica de massas italianas, ali -mesmo da visinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o -seu arfar monotono de machina a vapor. As corridas até á venda -reproduziam-se, transformando-se n'um verminar constante de formigueiro -assanhado. Agora, no logar das bicas apinhavam-se latas de todos os -feitios, sobresahindo as de kerozene com um braço de madeira em cima; -sentia-se o trapejar da agoa cahindo na folha. Algumas lavadeiras -enchiam já as suas tinas; outras estendiam nos córadoiros a roupa que -ficára de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das gargantas os fados -portuguezes e as modinhas brasileiras. Um carroção de lixo entrou com -grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma algazarra medonha -algaraviada pelo carroceiro contra o burro. -</p> -<p> -E, durante muito tempo, fez-se um vae-vem de mercadores. Appareceram os -taboleiros de carne fresca e outros de tripas e fatos de boi; só não -vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no cortiço. Vieram os -ruidosos mascates, com as suas latas de quinquilharia, com as suas -caixas de candieiros e objectos de vidro e com o seu fornecimento de -caçarolas e chocolateiras de folha de Flandres. Cada vendedor tinha o -seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas, com -as cestas do peixe dependuradas, á moda de balança, de um páo que -elle trazia ao hombro. Nada mais foi preciso do que o seu primeiro -guincho estridente e guttural para surgirem logo, como por encanto, uma -enorme variedade de gatos, que vieram correndo acercar-se d'elle com -grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas arregaçadas e miando -supplicantemente. O sardinheiro os affastava com o pé, emquanto vendia -o seu peixe á porta das casinhas, mas os bichanos não desistiam e -continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cuidadosamente -tapava mal servia ao freguez. Para ver-se livre por um instante dos -importunos era necessario atirar para bem longe um punhado de sardinhas, -sobre o qual se precipitava logo, aos pulos, o grupo dos pedinchões. -</p> -<p> -A primeira que se pôz a lavar foi a Leandra, por alcunha a «Machona», -portugueza feroz, berradora, pulsos cabelludos e grossos, anca de animal -do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Anna das -Dores, a quem só chamavam a «das Dores» e outra donzella ainda, a -Nênêm, e mais um filho, o Agostinho, menino levado dos diabos, que -gritava tanto ou melhor que a mãe. A das Dores morava em sua casinha á -parte, mas toda a familia habitava no cortiço. -</p> -<p> -Ninguem ali sabia ao certo se a Machona era viuva ou desquitada; os -filhos não se pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, affirmavam -que fôra casada e que largára o marido para metter-se com um homem do -commercio; e que este, retirando-se para a terra e não querendo -soltal-a ao desamparo, deixara o socio em seu logar. Teria vinte e cinco -annos. -</p> -<p> -Nênêm desesete. Espigada, franzina e forte, com uma prôazinha de -orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos -rapazes que a queriam sem ser para casar. Engommava bem e sabia fazer -roupa branca de homem com muita perfeição. -</p> -<p> -Ao lado da Leandra foi collocar-se á sua tina a Augusta Carne Molle, -brasileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta annos, -soldado de policia, pernostico, de grande bigode preto, queixo sempre -escanhoado e um luxo de calças brancas emgommadas e botões limpos na -farda, quando estava de serviço. Tambem tinham filhos, mas ainda -pequenos, e um dos quaes, a Jujú, vivia na cidade com a madrinha que se -encarregava d'ella. Esta madrinha era uma cocote de trinta mil réis -para cima, a Léonie, com sobrado na cidade. Procedencia franceza. -</p> -<p> -Alexandre, em casa, á hora de descanso, nos seus chinellos e na sua -camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem, -conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o -bigode e empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar -as calças de brim, ninguem mais lhe via os dentes e então a todos -fallava tezo e por cima do hombro. A mulher, a quem elle só dava tu -quando não estava fardado, era de uma honestidade proverbial no -cortiço, honestidade sem merito, porque vinha da indolencia do seu -temperamento e não do arbitrio do seu caracter. -</p> -<p> -Junto d'ella pôz-se a trabalhar a Leocadia, mulher de um ferreiro -chamado Bruno, portugueza pequena e socada, de carnes duras, com uma -fama terrivel de leviana entre as suas visinhas. -</p> -<p> -Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam -todos pelas virtudes de que só ella dispunha para benzer erysipelas e -cortar febres por meio de rezas e feitiçarias. Era extremamente feia, -grossa, triste, com olhos desvairados, dentes cortados á navalha, -formando ponta, como dentes de cão, cabellos lisos, escorridos e ainda -retintos apezar da idade. Chamavam-lhe «Bruxa.» -</p> -<p> -Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A primeira, -mulata antiga, muita séria e asseada em exagero: a sua casa estava -sempre humida das consecutivas lavagens. Em lhe apanhando o máo humor -punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a raiva era -grande, corria a buscar um balde d'agua e descarregava-o com furia pelo -chão da sala. A filha tinha quinze annos, a pelle de um moreno quente, -beiços sensuaes, bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ella -estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade e não -cedia, nem á mão de Deus Padre, aos rógos de João Romão, que a -desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no peso das -compras que Florinda fazia diariamente á venda. -</p> -<p> -Depois via-se a velha Isabel, isto é, Dona Isabel, porque ali na -estalagem lhe dispensavam todos certa consideração, privilegiada pelas -suas maneiras graves de pessoa que já teve tratamento: uma pobre mulher -comida de desgostos. Fôra casada com o dono de uma casa de chapéos, -que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha e -fraca, a quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe mestre até -de francez. Tinha uma cara macilenta de velha portugueza devota, que já -foi gorda, bochechas molles de pellangas rechupadas, que lhe pendiam dos -cantos da bocca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos -castanhos, sempre chorosos e engolidos pelas palpebras. Puxava em -bandós sobre as fontes o escasso cabello grisalho untado de oleo de -amendoas doces. Quando sahia á rua punha um eterno vestido de seda -preta, achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um chale encarnado -que lhe dava a todo o corpo um feitio pyramidal. Da sua passada grandeza -só lhe ficára uma caixa de rapé de oiro, na qual a inconsolavel -senhora pitadeava agora, suspirando a cada pitada. -</p> -<p> -A filha era a flôr do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha, Bonita, posto -que enfermiça e nervosa ao ultimo ponto; loira, muito pallida, com uns -modos de menina de boa familia. A mãe não lhe permittia lavar, nem -engommar, mesmo porque o medico o prohibira expressamente. -</p> -<p> -Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço do commercio, estimado do -patrão e dos collegas, com muito futuro, e que a adorava e conhecia -desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se fizesse -já. É que Pombinha, orçando aliás pelos dezoito annos, não tinha -ainda pago á natureza o cruento tributo da puberdade, apezar do zelo da -velha e dos sacrificios que esta fazia para cumprir á risca as -prescripções do medico e não faltar á filha o menor desvelo. No -emtanto, coitadas! d'aquelle casamento dependia a felicidade de ambas, -porque o Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de -quem mais tarde havia de ser socio, tencionava, logo que mudasse de -estado, restituil-as ao seu primitivo circulo social. A pobre velha -desesperava-se com o facto e pedia a Deus, todas as noites, antes de -dormir, que as protegesse e conferisse á filha uma graça tão simples -que elle fazia, sem distincção de merecimento, a quantas raparigas -havia pelo mundo; mas, a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma -d'esta vida consentiria que a sua pequena casasse antes de «ser -mulher», como dizia ella. E «que deixassem lá fallar o doutor, -entendia que não era decente, nem tinha geito, dar homem a uma moça -que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vel-a solteira -toda a vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquelle inferno da -estalagem!» -</p> -<p> -Lá no cortiço estavam todos a par d'esta historia: não era segredo -para ninguem. E não se passava um dia que não interrogassem duas e -tres vezes á velha com estas phrases: -</p> -<p> -—Então? já veio? -</p> -<p> -—Porque não tenta os banhos de mar? -</p> -<p> -—Porque não chama outro medico? -</p> -<p> -—Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo! -</p> -<p> -A velha respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ella. E -suspirava resignada. -</p> -<p> -Quando o Costa apparecia depois da sua obrigação para visitar a noiva, -os moradores da estalagem cumprimentavam-no em silencio com um -respeitoso ar de lastima e piedade, empenhados tacitamente por aquelle -caiporismo, contra o qual não valiam nem mesmo as virtudes da Bruxa. -</p> -<p> -Pombinha era muito querida por toda aquella gente. Era quem lhe escrevia -as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem tirava as -contas; quem lia o jornal para os que quizessem ouvir. Presavam-na com -muito respeito e davam-lhe presentes, o que lhe permittia certo luxo -relativo. Andava sempre de botinas ou sapatinhos com meias de côr, seu -vestido de chita engommado; tinha as suas joiazinhas para sahir á rua, -e, aos domingos, quem a encontrasse á missa na egreja de São João -Baptista, não seria capaz de desconfiar que ella morava em cortiço. -</p> -<p> -Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito -afeminado, fraco, côr de espargo cozido e com um cabellinho castanho, -deslavado e pobre, que lhe cahia, n'uma só linha, até ao pescocinho -molle e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem -já estava tão familiarisado que ellas o tratavam como a uma pessoa do -mesmo sexo; em presença d'elle fallavam de coisas que não exporiam em -presença de outro homem; faziam-no até confidente dos seus amores e -das suas infidelidades, com uma franqueza que o não revoltava, nem -commovia. Quando um casal brigava ou duas amigas se disputavam, era -sempre Albino quem tratava de reconcilial-os, exhortando as mulheres á -concordia. D'antes encarregava-se de cobrar o rol das collegas, por -amabilidade; mas uma vez, indo a uma republica de estudantes, deram-lhe -lá, ninguem sabia porque, uma duzia de bolos, e o pobre diabo jurou -então, entre lagrimas e soluços, que nunca mais se incumbiria de -receber os róes. -</p> -<p> -E d'ahi em diante, com effeito, não arredava os pésinhos do cortiço, -a não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dansarina, -passear á tarde pelas ruas e á noite dansar nos bailes dos theatros. -Tinha verdadeira paixão por esse divertimento; ajuntava dinheiro -durante o anno para gastar todo com a mascarada. E ninguem o encontrava, -domingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que não estivesse com -a sua calça branca engommada, a sua camisa limpa, um lenço ao -pescoço, e, amarrado á cinta, um avental que lhe cahia sobre as pernas -como uma saia. Não fumava, não bebia espiritos e trazia sempre as -mãos geladas e humidas. -</p> -<p> -N'aquella manhã levantára-se ainda um pouco mais languido que de -costume, porque passára mal a noite. A velha, Isabel, que lhe ficava ao -lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com insistencia, perguntou-lhe o que -tinha. -</p> -<p> -Ah! muita molleza de corpo e uma pontada no vazio que o não deixava! -</p> -<p> -A velha receitou diversos remedios, e ficaram os dois, no meio de toda -aquella vida, a fallar tristemente sobre molestias. -</p> -<p> -E, emquanto, no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a Leocadia, a -Bruxa, a Marciana e sua filha, conversavam de tina a tina, berrando e -quasi sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo serviço, defronte -d'ellas, separado pelos giráos, formava-se um novo renque de -lavadeiras, que acudiam de fóra, carregadas de trouxas, e iam -ruidosamente tomando logar ao lado umas das outras, entre uma agitação -sem tregoas, onde se não distinguia o que era galhofa e o que era -briga. Uma a uma occupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos do -cortiço sahiam homens para as suas obrigações. Por uma porta que -havia ao fundo da estalagem desappareciam os trabalhadores da pedreira, -donde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de -calças de brim, chapéo alto e sobrecasaca preta, passou lá fóra, em -caminho para o armazem, acompanhado pelo Henrique que ia para as aulas. -O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada, entrou solemne, -atravessou o pateo, sem fallar a ninguem, nem mesmo á mulher, e -recolheu-se á casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o -Pompéo, o Francesco e o Andréa, armado cada qual com a sua grande -caixa de bugigangas, sahio para a perigrinação de todos os dias, -altercando e praguejando em italiano. -</p> -<p> -Um rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar á Machona pela -inhá Rita. -</p> -<p> -—A Rita Bahiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que ella arribou! -</p> -<p> -A Leocadia explicou logo que a mulata estava com certeza de pandega com -o Firmo. -</p> -<p> -—Que Firmo? interrogou Augusta. -</p> -<p> -—Aquelle cabravasco que se mettia ás vezes ahi com ella. Diz que é -torneiro. -</p> -<p> -—Ella mudou-se? perguntou o pequeno. -</p> -<p> -—Não, disse a Machona; o quarto está fechado, mas a mulata tem coisas -lá. Você o que queria? -</p> -<p> -—Vinha buscar uma roupa que está com ella. -</p> -<p> -—Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão, que talvez te -possa dizer alguma coisa. -</p> -<p> -—Ali? -</p> -<p> -—Sim, pequeno, n'aquella porta, onde a preta do taboleiro está -vendendo! Ó diabo! olha que pizas a boneca de anil! Já se vio que -sorte? Parece que não vê onde piza este raio de criança! -</p> -<p> -E, notando que o filho, o Agostinho, se approximava para tomar o logar -do outro que já se ia:—Sahe d'ahi, tu tambem, peste! Já principias na -reinação de todos os dias? Vem para cá, que levas! Mas, é verdade, -que fazes tu que não vaes regar a horta do Commendador? -</p> -<p> -—Elle disse hontem que eu agora fosse á tarde, que era melhor. -</p> -<p> -—Ah! E amanhã, não te esqueças, recebe os dois mil réis, que é fim -do mez. Olha! Vae lá dentro e diz a Nênêm que te entregue a roupa que -veio hontem á noite. -</p> -<p> -O pequeno afastou-se de carreira, e ella lhe gritou na pista.—E que -não ponha o refogado no fogo sem eu ter lá ido! -</p> -<p> -Uma conversa cerrada travára-se no resto da fila de lavadeiras a -respeito da Rita Bahiana. -</p> -<p> -—É doida mesmo!... censurava Augusta. Metter-se na pandega sem dar -conta da roupa que lhe entregaram... Assim ha de ficar sem um freguez... -</p> -<p> -—Aquella não endireita mais!... Cada vez fica até mais assanhada!... -Parece que tem fogo no rabo! Póde haver o serviço que houver, -apparecendo pagode, vae tudo pr'o lado! Olha o que sahio o anno passado -com a festa da Penha!... -</p> -<p> -—Então agora, com este mulato, o Firmo, é uma pouca vergonha! Est'ro -dia, pois você não vio? levaram ahi n'uma bebedeira, a dansar e cantar -á viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre! -</p> -<p> -—Para tudo ha horas e ha dias!... -</p> -<p> -—Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é apparecer -quem puxe por ella! -</p> -<p> -—Ainda assim não é má creatura... Tirante o defeito da vadiagem... -</p> -<p> -—Bom coração tem ella, até de mais, que não guarda um vintém pr'o -dia d'amanhã. Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo! -</p> -<p> -—Depois é que são ellas!... O João Romão já lhe não fia! -</p> -<p> -—Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ella tem -dinheiro é porque o gasta mesmo! -</p> -<p> -E as lavadeiras não se calavam, sempre a esfregar, e a bater, e a -torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercicio. Ao passo que, -em torno da sua tagarelice, o cortiço se enbandeirava todo de roupa -molhada, donde o sol tirava scintillações de prata. -</p> -<p> -Estavam em dezembro e o dia era ardente. A grama dos córadoiros tinha -reflexos esmeraldinos; as paredes que davam frente ao nascente, -caiadinhas de novo, reverberavam illuminadas, offuscando a vista. Em uma -das janellas da sala de jantar do Miranda, Dona Estella e Zulmira, ambas -vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda, -indifferentes á agitação que ia lá em baixo, muito esquecidas na sua -tranquillidade de entes felizes. -</p> -<p> -Entretanto, agora o maior movimento era na venda á entrada da -estalagem. Davam nove horas e os operarios das fabricas chegavam-se para -o almoço. Ao balcão o Domingos e o Manoel não tinham mãos a medir -com a criadagem da visinhança; os embrulhos de papel amarello -succediam-se, e o dinheiro pingava sem intermittencia dentro da gaveta. -</p> -<p> -—Meio kilo de arroz! -</p> -<p> -—Um tostão de assucar! -</p> -<p> -—Uma garrafa de vinagre! -</p> -<p> -—Dois martellos de vinho! -</p> -<p> -—Dois vintens de fumo! -</p> -<p> -—Quatro de sabão! -</p> -<p> -E os gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons. -</p> -<p> -Ouviam-se protestos entre os compradores: -</p> -<p> -—Me avie, seu Domingos! Eu deixei a comida no fogo! -</p> -<p> -—O peste! dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer! -</p> -<p> -—Seu Manoel, não me demore essa manteiga! -</p> -<p> -Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de saias arrepanhadas no -quadril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha de uma -panella á outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira -aos trabalhadores assentados num compartimento junto. Admittira-se um -novo caixeiro, só para o frege, e o rapaz, a cada commensal que ia -chegando, recitava, em tom cantado e estridente, a sua interminavel -lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite frito -predominava. O paraty circulava por todas as mezas, e cada caneca de -café, de louça espessa, erguia um vulcão de fumo tresandando a milho -queimado. Uma algazarra medonha, em que ninguem se entendia! Crusavam-se -conversas em todas as direcções, discutia-se a berros, com valentes -punhados sobre as mesas. E sempre a sahir, e sempre a entrar gente, e os -que sahiam, depois d'aquella comesaina grossa, iam radiantes de -contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar. -</p> -<p> -N'um banco de páo tosco, que existia do lado de fóra, junto á parede -e perto da venda, um homem, de calça e camisa de zuarte, chinellos de -couro crú, esperava, havia já uma boa hora, para fallar com o -vendeiro. -</p> -<p> -Era um portuguez de seus trinta e cinco a quarenta annos, alto, -espadaúdo, barbas asperas, cabellos pretos e mal tratados cahindo-lhe -sobre a testa, por debaixo de um chapéo de feltro ordinario; pescoço -de touro e cara de Hercules, na qual os olhos todavia, humildes como os -olhos de um boi de canga, exprimiam tranquilla bondade. -</p> -<p> -—Então ainda não se póde fallar ao homem? perguntou elle, indo ao -balcão entender-se com o Domingos. -</p> -<p> -—O patrão está agora muito occupado. Espere! -</p> -<p> -—Mas são quasi dez horas e estou com um gole de café no estomago! -</p> -<p> -—Volte logo! -</p> -<p> -—Moro na cidade nova. É um estirão d'aqui! -</p> -<p> -O caixeiro gritou então para a cozinha, sem interromper o que fazia: -</p> -<p> -—O homem que ahi está, seu João, diz que se vae embora! -</p> -<p> -—Elle que espere um pouco, que já lhe fallo! respondeu o vendeiro no -meio de uma carreira. Diga-lhe que não vá! -</p> -<p> -—Mas é que ainda não almocei e estou aqui a tinir!... observou o -hercules com a sua voz grossa e sonora. -</p> -<p> -—Ó filho, almoce ahi mesmo! Aqui o que não falta é de comer. Já -podia estar aviado! -</p> -<p> -—Pois vá lá! resolveu o homemzarrão, sahindo da venda para entrar na -casa de pasto, onde os que lá se achavam o receberam com ar curioso, -medindo-o da cabeça aos pés, como faziam sempre com todos os que ahi -se apresentavam pela primeira vez. -</p> -<p> -E assentou-se a uma das mezinhas, vindo logo o caixeiro cantar-lhe a -lista dos pratos. -</p> -<p> -—Traga lá o pescado com batatas e venha um martello de vinho. -</p> -<p> -—Quer verde ou virgem? -</p> -<p> -—Venha o verde; mas anda com isso, filho, que já não vem sem tempo! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="IV">IV</a></h4> - -<p> -Meia hora depois, quando João Romão se vio menos occupado, foi ter com -o sujeito que o procurava e assentou-se defronte d'elle, cahindo de -fadiga, mas sem se queixar, nem se lhe trahir na physionomia o menor -symptoma de cansaço. -</p> -<p> -—Você vem da parte do Machucas? perguntou-lhe. Elle fallou-me de um -homem que sabe calçar pedra, lascar fogo e fazer lagedo... -</p> -<p> -—Sou eu. -</p> -<p> -—Estava empregado n'outra pedreira? -</p> -<p> -—Estava e estou. Na de São Diogo, mas desgostei-me d'ella e quero -passar adiante. -</p> -<p> -—Quanto lhe dão lá? -</p> -<p> -—Setenta mil réis. -</p> -<p> -—Oh! Isso é um disparate! -</p> -<p> -—Não trabalho por menos... -</p> -<p> -—Eu, o maior ordenado que faço é de cincoenta. -</p> -<p> -—Cincoenta ganha um macaqueiro... -</p> -<p> -—Ora! tenho ahi muitos trabalhadores de lagedo por esse preço! -</p> -<p> -—Duvido que prestem! Aposto a mão direita em como o senhor não -encontra por cincoenta mil réis quem dirija a broca, pese a polvora e -lasque fogo, sem lhe estragar a pedra e sem fazer desastres! -</p> -<p> -—Sim, mas setenta mil réis é um ordenado impossivel! -</p> -<p> -—N'esse caso vou como vim... Fica o dito por não dito! -</p> -<p> -—Setenta mil réis é muito dinheiro!... -</p> -<p> -—Cá por mim, entendo que vale a pena pagar mais um pouco a um -trabalhador bom, do que estar a soffrer desastres, como o que soffreu -sua pedreira a semana passada! Não fallando na vida do pobre de Christo -que ficou debaixo da pedra! -</p> -<p> -—Ah! O Machucas fallou-lhe no desastre? -</p> -<p> -—Contou-m'o, sim senhor, e o desastre não aconteceria se o homem -soubesse fazer o serviço! -</p> -<p> -—Mas setenta mil réis é impossivel. Desça um pouco! -</p> -<p> -—Por menos não me serve... E escusamos de gastar palavras! -</p> -<p> -—Você conhece a pedreira? -</p> -<p> -—Nunca a vi de perto, mas quiz me parecer que é boa. De longe -cheirou-me a granito. -</p> -<p> -—Espere um instante. -</p> -<p> -João Romão deu um pulo á venda, deixou algumas ordens, enterrou um -chapéo na cabeça e voltou a ter com o outro. -</p> -<p> -—Ande a ver! gritou-lhe da porta do frege, que a pouco e pouco se -esvaziara de todo. -</p> -<p> -O cavouqueiro pagou doze vintens pelo seu almoço e acompanhou-o em -silencio. -</p> -<p> -Atravessaram o cortiço. -</p> -<p> -A labutação continuava. As lavadeiras tinham já ido almoçar e tinham -voltado de novo para o trabalho. Agora estavam todas de chapéo de -palha, apezar das toldas que se armaram. Um calor de caustico -mordia-lhes os toutiços em brasa e scintillantes de suor. Um estado -febril apoderava se d'ellas n'aquelle rescaldo; aquella digestão feita -ao sol fermentava-lhes o sangue. A Machona altercava com uma preta que -fôra reclamar um par de meias e destrocar uma camisa; a Augusta, muito -molle sobre a sua taboa de lavar, parecia derreter-se como cebo; a -Leocadia largava de vez em quando a roupa e o sabão para coçar as -comichões do quadril e das virilhas, assanhadas pelo mormaço; a Bruxa -monologava, resmungando n'uma insistencia de idiota, ao lado da -Marcianna que, com o seu typo de mulata velha, um cachimbo ao canto da -bocca, cantava toadas monotonas do sertão: -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2">«Maricas tá marimbando.</span><br /> -<span class="i2">Maricas tá marimbando,</span><br /> -<span class="i2">Na passage do riacho</span><br /> -<span class="i2">Maricas tá marimbando.»</span> -</div></div> - -<p> -A Florinda, alegre, perfeitamente bem com o rigor do sol, a rebolar sem -fadigas, assobiava os chorados e lundús que se tocavam na estalagem, e -junto d'ella, a melancolica senhora Dona Isabel suspirava, esfregando a -sua roupa dentro da tina, automaticamente, como um condemnado a -trabalhar no presidio; ao passo que o Albino, saracoteando os seus -quadris pobres de homem lymphatico, batia na taboa um par de calças, no -rhythmo cadenciado e miudo de um cozinheiro a bater bifes. O corpo -tremia-lhe todo, e elle, de vez em quando, suspendia o lenço do -pescoço para enxugar a fronte, e então um gemido suspirado subia-lhe -aos labios. -</p> -<p> -Da casinha numero 8 vinha um falsete agudo, mas afinado. Era a das Dores -que principiava o seu serviço; não sabia engommar sem cantar. No -numero 7 Nênêm cantarolava em tom muito mais baixo; e de um dos -quartos do fundo da estalagem sahia de espaço a espaço uma nota aspera -de trombone. -</p> -<p> -O vendeiro, ao passar por detrás de Florinda, que no momento apanhava -roupa do chão, ferrou-lhe uma palmada na parte do corpo então mais em -evidencia. -</p> -<p> -—Não bula, hein?!... gritou ella, rapido, erguendo-se teza. -</p> -<p> -E, dando com João Romão:—Eu logo vi! Leva implicando aqui com a gente -e depois, vae-se comprar na venda, o safado rouba no peso! Diabo do -gallego! Eu não te quero, sabe? -</p> -<p> -O vendeiro soltou-lhe nova palmada com mais força e fugio, porque ella -se armára com um regador cheio d'agoa. -</p> -<p> -—Vem p'ra cá, se és capaz! Diabo da peste! -</p> -<p> -João Romão já se havia afastado com o cavouqueiro. -</p> -<p> -—O senhor tem aqui muita gente!... observou-lhe este. -</p> -<p> -—Oh! fez o outro, sacudindo os hombros, r disse depois com -empafia:—Houvesse mais cem quartos que estariam cheios! Mas é tudo -gente séria! Não ha chinfrins n'esta estalagem; se apparece uma rusga, -eu chego, e tudo acaba logo! Nunca nos entrou cá a policia, nem nunca -la deixaremos entrar! E olhe que se divertem bem com as suas violas! -Tudo gente muito boa! -</p> -<p> -Tinham chegado ao fim do pateo do cortiço e, depois de transporem uma -porta que se fechava com um pezo amarrado a uma corda, acharam-se no -capinzal que havia antes da pedreira. -</p> -<p> -—Vamos por aqui mesmo que é mais perto, aconselhou o vendeiro. -</p> -<p> -E os dois, em vez de procurarem a estrada, atravessaram o capim quente e -trescalante. -</p> -<p> -Meio dia em ponto. O sol estava a pino; tudo reverberava á luz -irreconciliavel de dezembro, n'um dia sem nuvens. A pedreira, em que -ella batia de chapa em cima, cegava olhada de frente. Era preciso -martyrisar a vista para descobrir as nuances da pedra; nada mais que uma -grande mancha branca e luminosa, terminando pela parte de baixo no chão -coberto de cascalho miudo, que ao longe produzia o effeito de um betume -cinzento, e pela parte de cima na espessura compacta do arvoredo, onde -se não distinguiam outros tons mais do que nodoas negras, bem negras, -sobre o verde-escuro. -</p> -<p> -Á proporção que os dois se aproximavam da imponente pedreira, o -terreno ia-se tornando mais e mais cascalhudo; os sapatos -enfarinhavam-se de uma poeira clara. Mais adiante, por aqui e por ali, -havia muitas carroças, algumas em movimento, puxadas a burro e cheias -de calhaus partidos; outras já promptas para seguir, a espera do -animal, e outras enfim com os braços para o ar, como se acabassem de -ser despejadas n'aquelle instante. Homens labutavam. -</p> -<p> -Á esquerda, por cima de um vestigio de rio, que parecia ter sido bebido -de um trago por aquelle sol sedento, havia uma ponte de taboas, onde -tres pequenos, quasi nús, conversavam assentados, sem fazer sombra, -illuminados a prumo pelo sol do meio dia. Para adiante, na mesma -direcção, corria um vasto telheiro, velho e sujo, firmado sobre -columnas de pedra tosca; ahi muitos portuguezes trabalhavam de canteiro, -ao barulho metallico do picão que feria o granito. Logo em seguida, -surgia uma officina de ferreiro, toda atravancada de destroços e -objectos quebrados, entre os quaes avultavam rodas de carro; em volta da -bigorna dois homens, de corpo nú, banhados de suor e alumiados de -vermelho como dous diabos, martellavam cadenciosamente sobre um pedaço -de ferro em brasa; e ali mesmo, perto d'elles, a forja escancarava uma -guela infernal, d'onde sahiam pequenas linguas de fogo, irrequietas e -gulosas. -</p> -<p> -João Romão parou á entrada da officina e gritou para um dos -ferreiros: -</p> -<p> -—Ó Bruno! Não se esqueça do varal da lanterna do portão! -</p> -<p> -Os dois homens suspenderam por um instante o trabalho. -</p> -<p> -—Já lá fui ver, respondeu o Bruno. Não vale a pena concertal-o; -está todo comido de ferrugem! Faz se-lhe um novo, que é melhor! -</p> -<p> -—Pois veja lá isso, que a lanterna está a cahir! -</p> -<p> -E o vendeiro seguio adiante com o outro, emquanto atrás recomeçava o -martellar sobre a bigorna. -</p> -<p> -Em seguida via-se uma miseravel estrebaria, cheia de capim secco e -excremento de bestas, com logar para meia duzia de animaes. Estava -deserta, mas, no vivo fartum exhalado de lá, sentia-se que fora -habitada ainda aquella noite. Havia depois um deposito de madeiras, -servindo ao mesmo tempo de officina de carpinteiro, tendo á porta -troncos d'arvore, alguns já cerrados, muitas taboas empilhadas, restos -de cavernas e mastros de navio. -</p> -<p> -D'ahi á pedreira restavam apenas uns cincoenta passos e o chão era já -todo coberto por uma farinha de pedra moida que sujava como a cal. -</p> -<p> -Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se trabalhadores, uns ao sol, -outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de -palmeira. De um lado cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam a -picareta; de outro afeiçoavam lagedos a ponta de picão; mais adiante -faziam parallelepipedos a escopro e macete. E todo aquelle retimtim de -ferramentas, e o martellar da forja, e o côro dos que lá em cima -brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zuada ao longe, que -vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada; tudo dava a idéa de uma -actividade feroz, de uma luta de vingança e de odio. Aquelles homens -gottejantes de suor, bebedos de calor, desvairados de insolação, a -quebrarem, a espicaçarem, a torturarem a pedra, pareciam um punhado de -demonios revoltados na sua impotencia contra o impassivel gigante que os -contemplava com desprezo, imperturbavel a todos os golpes e a todos os -tiros que lhe desfechavam no dorso, deixando sem um gemido que lhe -abrissem as entranhas de granito. -</p> -<p> -O membrudo cavouqueiro havia chegado á fralda do orgulhoso monstro de -pedra; tinha-o cara a cara, medio-o de alto abaixo, arrogante, n'um -desafio surdo. -</p> -<p> -A pedreira mostrava n'esse ponto de vista o seu lado mais imponente. -Descomposta, com o escalavrado flanco exposto ao sol, erguia-se -altaneira e desassombrada, affrontando o céo, muito ingreme, lisa, -escaldante e cheia de cordas que mesquinhamente lhe escorriam pela -cyclopica nudez com um effeito de teias de aranha. Em certos logares, -muito alto do chão, lhe haviam espetado alfinetes de ferro, amparando, -sobre um precipicio, miseraveis taboas que, vistas cá de baixo, -pareciam palitos, mas em cima das quaes uns atrevidos pigmêos de forma -humana equilibravam-se, desfechando golpes de picareta contra o gigante. -</p> -<p> -O cavouqueiro meneou a cabeça com ar de lastima. O seu gesto -desaprovava todo aquelle serviço. -</p> -<p> -—Veja lá! disse elle, apontando para certo ponto da rocha. Olhe -pr'aquillo! Sua gente tem ido ás cegas no trabalho d'esta pedreira! -Deviam atacal-a justamente por aquel'outro lado, para não contrariar os -veios da pedra. Esta parte aqui é toda granito, é a melhor! Pois olhe -só o que elles têm tirado de lá—umas lascas, uns calháos que não -servem para nada! É uma dôr de coração ver estragar assim uma peça -tão boa! Agora o que hão de fazer d'essa cascalhada que ahi está -senão macacos? E brada aos céos, creia! ter pedra d'esta ordem para -empregal-a em macacos! -</p> -<p> -O vendeiro escutava-o em silencio, apertando os beiços, aborrecido com -a idéa d'aquelle prejuizo. -</p> -<p> -—Uma porcaria de serviço! continuou o outro. Ali onde está aquelle -homem é que deviam ter feito a broca, porque a explosão punha abaixo -toda esta aba que é separada por um veio. Mas quem tem ahi o senhor -capaz de fazer isso? Ninguem; porque é preciso um empregado que saiba o -que faz; que, se a polvora não fôr muito bem medida, nem só não se -abre o veio, como ainda succede ao trabalhador o mesmo que succedeu ao -outro! É preciso conhecer muito bem o trabalho para se poder tirar -partido vantajoso d'esta pedreira! Boa é ella, mas não nas mãos em -que está! É muito perigosa nas explosões; é muito em pé! Quem lhe -lascar fogo não póde fugir senão para cima pela corda, e se o sujeito -não fôr fino leva-o o demo! Sou eu quem o diz! -</p> -<p> -E depois de uma pausa, acrescentou, tomando na sua mão, grossa como o -proprio cascalho, um parallelipipedo que estava no chão:—Que digo -eu?! Cá está! Macacos de granito! Isto até é uma coisa que estes burros -deviam esconder por vergonha! -</p> -<p> -Acompanhando a pedreira pelo lado direito e seguindo-a na volta que ella -dava depois, formando um angulo obtuso, é que se via quanto era grande. -Suava-se bem antes de chegar ao seu limite com a matta. -</p> -<p> -—Que mina de dinheiro!... dizia o homemzarrão, parando enthusiasmado -defronte do novo panno de rocha viva que se desdobrava na presença -d'elle. -</p> -<p> -—Toda esta parte que se segue agora, declarou João Romão ainda não -é minha. -</p> -<p> -E continuaram a andar para diante. -</p> -<p> -D'este lado multiplicavam-se as barraquinhas; os macaqueiros trabalhavam -á sombra d'ellas, indifferentes áquelles dois. Viam-se panellas ao -fogo, sobre quatro pedras, ao ar livre, e rapazitos tratando do jantar -dos paes. De mulher nem signal. De vez em quando, na penumbra de um -ensombro de lona, dava-se com um grupo de homens, comendo de cocaras -defronte uns dos outros, uma sardinha na mão esquerda, um pão na -direita, ao lado de uma garrafa d'agua. -</p> -<p> -—Sempre o mesmo serviço mal feito e mal dirigido!... resmungou o -cavouqueiro. -</p> -<p> -Entretanto, a mesma actividade parecia reinar por toda a parte. Mas, lá -no fim, debaixo dos bambus que marcavam o limite da pedreira, alguns -trabalhadores dormiam á sombra, de papo para o ar, a barba espetando -para o alto, o pescoço entumecido de cordoveias grossas como enxarcias -de navio, a bocca aberta, a respiração forte e tranquilla de animal -sadio, n'um feliz e plethorico resfolgar de besta cansada. -</p> -<p> -—Que relaxamento! resmungou de novo o cavouqueiro. Tudo isto está a -reclamar um homem tezo que olhe a sério para o serviço! -</p> -<p> -—Eu nada tenho que ver com este lado! observou Romão. -</p> -<p> -—Mas lá da sua banda hão de fazer o mesmo! Olaré! -</p> -<p> -—Abusam, porque tenho de olhar pelo negocio lá fora... -</p> -<p> -—Commigo aqui é que elles não fariam cera. Isso juro eu! Entendo que -o empregado deve ser bem pago, ter para a sua comida á farta, o seu -gole de vinho, mas que deve fazer serviço que se veja, ou, então, rua! -Rua, que não falta por ahi quem queira ganhar dinheiro! Auctorise-me a -olhar por elles e verá! -</p> -<p> -—O diabo e que você quer setenta mil réis... suspirou João Romão. -</p> -<p> -—Ah! nem menos um real!... Mas commigo aqui ha de ver o que lhe faço -entrar pr'algibeira! Temos cá muita gente que não precisa de estar. -Para que tanto macaqueiro, por exemplo? Aquillo é serviço para -descanço; é serviço de criança! Em vez de todas aquellas lesmas, -pagas talvez a trinta mil reis... -</p> -<p> -—É justamente quanto lhes dou. -</p> -<p> -—... melhor seria tomar dois bons trabalhadores de cincoenta, que -fazem o dobro do que fazem aquelles monos e que podem servir para outras -coisas! Parece que nunca trabalharam! Olhe, é já a terceira vez que -aquelle que alli está deixa cahir o escopro! Com effeito! -</p> -<p> -João Romão ficou calado, a scismar, emquanto voltavam. Vinham ambos -pensativos. -</p> -<p> -—E você, se eu o tomar, disse depois o vendeiro, muda-se cá para -estalagem? -</p> -<p> -—Naturalmente! não hei de ficar lá na cidade nova, tendo o serviço -aqui!... -</p> -<p> -—E a comida, forneço-a eu?... -</p> -<p> -—Isso é que a mulher é quem a faz; mas as compras sahem-lhe da -venda... -</p> -<p> -—Pois está fechado o negocio! deliberou João Romão, convencido de -que não podia, por economia, dispensar um homem d'aquelles. E pensou -lá de si para si: «Os meus setenta mil reis voltar-me-hão á gaveta. -Tudo me fica em casa!» -</p> -<p> -—Então estamos entendidos?... -</p> -<p> -—Estamos entendidos! -</p> -<p> -—Posso amanhã fazer a mudança? -</p> -<p> -—Hoje mesmo, se quizer; tenho um commodo que lhe ha de calhar. É o -numero 35. Vou mostrar-lh'o. -</p> -<p> -E, aligeirando o passo, penetraram na estrada do capinzal com direcção -ao fundo do cortiço. -</p> -<p> -—Ah! é verdade! como você se chama? -</p> -<p> -—Jeronymo, para o servir. -</p> -<p> -—Servir a Deus. Sua mulher lava? -</p> -<p> -—É lavadeira, sim senhor. -</p> -<p> -—Bem, precisamos ver-lhe uma tina. -</p> -<p> -E o vendeiro empurrou a porta do fundo da estalagem, d'onde escapou, -como de uma panella fervendo que se destapa, uma baforada quente, -vozeria tresandante á fermentação de suores e roupa ensaboada -seccando ao sol. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="V">V</a></h4> - -<p> -No dia seguinte, com effeito, ali pelas sete da manhã, quando o -cortiço fervia já na costumada labutação, Jeronymo apresentou-se -junto com a mulher, para tomarem conta da casinha alugada na vespera. -</p> -<p> -A mulher chamava-se Piedade de Jesus; teria trinta annos, boa estatura, -carne ampla e rija, cabellos fortes de um castanho fulvo, dentes pouco -alvos, mas solidos e perfeitos, cara cheia, physionomia aberta; um todo -de bonhomia toleirona, desabotoando-lhe pelos olhos e pela bocca numa -sympathica expressão de honestidade simples e natural. -</p> -<p> -Vieram ambos á boléa da andorinha que lhes carregou os trens. Ella -trazia uma saia de sarja roxa, cabeção branco de panninho de algodão -e na cabeça um lenço vermelho de alcobaça; o marido a mesma roupa do -dia anterior. -</p> -<p> -E os dois apearam-se muito atrapalhados com os objectos que não -confiaram dos homens da carroça; Jeronymo abraçado a duas formidaveis -mangas de vidro, das primitivas, d'essas em que se podia á vontade -enfiar uma perna; e a Piedade atracada com um velho relogio de parede e -com uma grande trouxa de santos e palmas bentas. E assim atravessaram o -pateo da estalagem, entre os commentarios e os olhares curiosos dos -antigos moradores, que nunca viam sem uma pontinha de desconfiança os -inquilinos novos que surgiam. -</p> -<p> -—O que será este pedaço d'homem? indagou a Machona da sua visinha de -tina, a Augusta Carne-molle. -</p> -<p> -—A modos, respondeu esta, que vem pr'a trabalhar na pedreira. Elle -hontem andou por lá um rôr de tempo com o João Romão. -</p> -<p> -—Aquella mulher que entrou junto será casada com elle? -</p> -<p> -—E de crer. -</p> -<p> -—Ella me parece gente das ilhas. -</p> -<p> -—Elles o que têm é muito bons trastes de seu! interveio a Leocadia. -Uma cama que deve de ser um regalo e um toucador com um espelho maior do -que aquella peneira! -</p> -<p> -—E a commoda, você vio, nhá Leocadia? perguntou Florinda, gritando -para ser ouvida, porque entre ella e a outra estavam a Bruxa e a velha -Marcianna. -</p> -<p> -—Vi. Rico traste! -</p> -<p> -—E o oratorio, então? Muito bonito!... -</p> -<p> -—Vi tambem. E obra de capricho. Não! elles, sejam lá quem fôr, são -gente arranjada... Isso não se lhes póde negar! -</p> -<p> -—Se são bons ou máos só com o tempo se saberá!... arriscou Dona -Isabel. -</p> -<p> -—Quem vê cara não vê corações ... sentenciou o triste Albino, -suspirando. -</p> -<p> -—Mas o numero 35 não estava occupado por aquelle homem muito amarello -que fazia charutos?... inquirio Augusta. -</p> -<p> -—Estava, confirmou a mulher do ferreiro, a Leocadia, porém creio que -arribou, devendo não sei quanto, e o João Romão então esvaziou-lhe -hontem a casa e tomou conta do que era d'elle. -</p> -<p> -É! accudio a Machona; hontem, pelo cahir das duas da tarde, o Romão -andava ahi as voltas com os cacarecos do charuteiro. Quem sabe, se o -pobre homem não levou a breca, como succedeu aquel'outro que trabalhava -de ourives? -</p> -<p> -—Não! Este creio que está vivo... -</p> -<p> -—O que lhe digo é que aquelle numero 35 tem máo agouro! Eu cá por -mim não o queria nem de graça! Foi lá que morreu a Maricas do -Farjão! -</p> -<p> -Tres horas depois, Jeronymo e Piedade achavam-se installados e -dispunham-se a comer o almoço, que a mulher preparara o melhor e o mais -depressa que poude. Elle contava aviar até á noite uma infinidade de -coisas, para poder começar a trabalhar logo no dia seguinte. -</p> -<p> -Era tão methodico e tão bom como trabalhador quanto o era como homem. -</p> -<p> -Jeronymo viéra da terra, com a mulher e uma filhinha ainda pequena, -tentar a vida no Brazil, na qualidade de colono de um fazendeiro, em -cuja fazenda moirejou durante dois annos, sem nunca levantar a cabeça, -e donde afinal se retirou de mãos vazias e com grande birra pela -lavoura brasileira. Para continuar a servir na roça tinha que -sujeitar-se a emparelhar com os negros escravos e viver com elles no -mesmo meio degradante, encurralado como uma besta, sem aspirações, nem -futuro, trabalhando eternamente para outro. -</p> -<p> -Não quiz. Resolveu abandonar de vez semelhante estupor de vida e -atirar-se para a côrte, onde, diziam-lhe patricios, todo o homem bem -disposto encontrava furo. E, com effeito, mal chegou, devorado de -necessidades e privações, metteu-se a quebrar pedra n'uma pedreira, -mediante um miseravel salario. A sua existencia continuava dura e -precaria; a mulher já então lavava e engommava, mas com pequena -freguezia e mal paga. O que os dois faziam chegava-lhes apenas para não -morrer de fome e pagar o quarto da estalagem. -</p> -<p> -Jeronymo, porém, era perseverante, observador e dotado de certa -habilidade. Em poucos mezes se apoderava do seu novo officio e, de -quebrador de pedra, passou logo a fazer parallelepipedos; e depois foi -se ageitando com o prumo e com a esquadria e metteu-se a fazer lagedos; -e finalmente, á força de dedicação pelo serviço, tornou-se tão bom -como os melhores trabalhadores de pedreira e a ter salario igual ao -d'elles. Dentro de dois annos, distinguia-se tanto entre os -companheiros, que o patrão o converteu n'uma especie de contra-mestre e -elevou-lhe o ordenado a setenta mil réis. -</p> -<p> -Mas não foram só o seu zelo e a sua habilidade o que o pôz assim para -a frente; duas outras coisas contribuiram muito para isso: a força de -touro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos -trabalhadores, como ainda, e talvez principalmente, a grande seriedade -do seu caracter e a pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma -honestidade a toda a prova e de uma primitiva simplicidade no seu modo -de viver. Sahia de casa para o serviço e do serviço para a casa, onde -nunca ninguem o vira com a mulher senão em boa paz; traziam a filhinha -sempre limpa e bem alimentada, e, tanto um como o outro, eram sempre os -primeiros á hora do trabalho. Aos domingos iam ás vezes á missa ou, -á tarde, ao passeio publico; n'essas occasiões, elle punha uma camisa -engommada, calçava sapatos e enfiava um paletó; ella o seu vestido de -ver a Deus, os seus oiros trazidos da terra, que nunca tinham ido ao -monte de soccorro, máo grado as difficuldades com que os dois lutaram a -principio no Brazil. -</p> -<p> -Piedade merecia bem o seu homem, muito diligente, sadia, honesta, forte, -bem acommodada com tudo e com todos, trabalhando de sol a sol e dando -sempre tão boas contas da obrigação, que os seus freguezes de roupa, -apezar d'aquella mudança para Botafogo, não a deixaram quasi todos. -</p> -<p> -Jeronymo, ainda na cidade nova, logo que principiara a ganhar melhor, -fizéra-se irmão de uma ordem terceira e tratára de ir pondo alguma -coisinha de parte. Metteu a filha num collegio, «que a queria com outro -saber que não elle, a quem os paes não mandaram ensinar nada.» Por -ultimo, no cortiço em que então moravam, a sua casinha era a mais -decente, a mais respeitada e a mais confortavel; porém, com a morte do -seu patrão e com uma reforma estupida que os successores d'este -realisaram em todo o serviço da pedreira, o colono desgostou-se d'ella -e resolveu passar para outra. -</p> -<p> -Foi então que lhe indicaram a do João Romão, que, depois do desastre -do seu melhor empregado, andava justamente á procura de um homem nas -condições de Jeronymo. -</p> -<p> -Tomou conta da direcção de todo o serviço, e em boa hora o fez, -porque dia a dia a sua influencia se foi sentindo no progresso do -trabalho. Com o seu exemplo os companheiros tornavam-se igualmente -serios e zelosos. Elle não admittia relaxamentos, nem podia consentir -que um preguiçoso se demorasse ali tomando o logar de quem precisava -ganhar o pão. E alterou o pessoal da pedreira, despedio alguns -trabalhadores, admittio novos, augmentou o ordenado dos que ficaram, -estabelecendo-lhes novas obrigações e reformando tudo para melhor. No -fim de dois mezes já o vendeiro esfregava as mãos de contente e via, -radiante, quanto lucrara com a acquisição de Jeronymo; tanto assim que -estava disposto a augmentar-lhe o ordenado para conserval-o em sua -companhia, «Valia a pena! Aquelle homem era um achado precioso! -Abençoado fosse o Machucas que lh'o enviára!» E começou a -distinguil-o e respeital-o como não fazia a ninguem. -</p> -<p> -O prestigio e a consideração que Jeronymo gosava entre os moradores da -outra estalagem d'onde vinha, foi a pouco e pouco se reproduzindo entre -os seus novos companheiros de cortiço. Ao cabo de algum tempo era -consultado e ouvido, quando qualquer questão difficil os preoccupava. -Descobriam-se defronte d'elle, como defronte de um superior; até o -proprio Alexandre abrira uma excepção nos seus habitos e fazia-lhe uma -ligeira continencia com a mão no boné, ao atravessar o pateo, todo -fardado, por occasião de vir ou de ir para o serviço. Os dois -caixeiros da venda, o Domingos e o Manoel, tinham enthusiasmo por elle. -«Aquelle é que devia ser o patrão, diziam. É um homem sério e -destemido! Com aquelle ninguem brinca!» E, sempre que a Piedade de -Jesus ia lá a taverna fazer as suas compras, a fazenda que lhe davam -era bem escolhida, bem medida ou bem pezada. Muitas lavadeiras tomavam -inveja d'ella, mas Piedade era de natural tão bom e bemfazejo que não -dava por isso e a maledicencia murchava antes de amadurecer. -</p> -<p> -Jeronymo acordava todos os dias ás quatro horas da manhã, fazia antes -dos outros a sua lavagem á bica do pateo, soccava-se depois com uma boa -palangana de caldo de unto, acompanhada de um pão de quatro; e, em -mangas de camisa de riscado, a cabeça ao vento, os grossos pés sem -meias mettidos em um formidavel par de chinellos de couro crú, seguia -para a pedreira. -</p> -<p> -A sua picareta era para os companheiros o toque de reunir. Aquella -ferramenta movida por um pulso de Hercules valia bem os clarins de um -regimento tocando alvorada. Ao seu retinir vibrante surgiam do chaos -opalino das neblinas vultos côr de cinza, que lá iam, como sombras, -galgando a montanha, para cavar na pedra o pão-nosso de cada dia. E, -quando o sol desfechava sobre o pincaro da rocha os seus primeiros -raios, já encontrava de pé, a bater-se contra o gigante de granito, -aquelle misero grupo de obscuros batalhadores. -</p> -<p> -Jeronymo só voltava á casa ao descahir da tarde, morto de fome e de -fadiga. A mulher preparava-lhe sempre para o jantar alguma das comidas -da terra d'elles. E ali, n'aquella estreita salinha, socegada e humilde, -gosavam os dois, ao lado um do outro, a paz feliz dos simples, o -voluptuoso prazer do descanso após um dia inteiro de canceiras ao sol. -E, defronte do candieiro de kerosene, conversavam sobre a sua vida e -sobre a sua Marianita, a filhinha que estava no collegio e que só os -visitava aos domingos e dias santos. -</p> -<p> -Depois, até ás horas de dormir, que nunca passavam das nove, elle -tomava a sua guitarra e ia para defronte da porta, junto com a mulher, -dedilhar os fados da sua terra. Era n'esses momentos que dava plena -expansão ás saudades da patria, com aquellas cantigas melancolicas em -que a sua alma de desterrado voava das zonas abrazadas da America para -as aldeias tristes da sua infancia. -</p> -<p> -E o canto d'aquella guitarra estrangeira era um lamento choroso e -dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes do que uma oração em alto -mar, quando a tempestade agita as negras azas homicidas, e as gaivotas -doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos presagos, -tontas como se estivessem fechadas dentro de uma abobada de chumbo. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="VI">VI</a></h4> - -<p> -Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz -e pouco calor. -</p> -<p> -As tinas estavam abandonadas; os córadoiros despidos. Taboleiros e -taboleiros de roupa engommada sahiam das casinhas, carregados na maior -parte pelos filhos das proprias lavadeiras que se mostravam agora quasi -todas de fato limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias -de chita de côr. Desprezaram-se os grandes chapéos de palha e os -aventaes de aniagem; agora as portuguezas tinham na cabeça um lenço -novo de ramagens vistosas e as brazileiras haviam penteado o cabello e -pregado nos cachos negros um ramalhete de dois vintens; aquellas -traçavam no hombro chales de lã vermelha, e estas de crochet, de um -amarello desbotado. Viam-se homens de corpo nú, jogando a placa, com -grande algazarra. Um grupo de italianos, assentado debaixo de uma -arvore, conversava ruidosamente, fumando cachimbo. Mulheres ensaboavam -os filhos pequenos debaixo da bica, muito zangadas, a darem-lhe murros, -a praguejar, e as crianças berravam, de olhos fechados, esperneando. A -casa da Machona estava n'um reboliço, porque a familia ia sahir a -passeio; a velha gritava, gritava Nênêm, gritava o Agostinho. De -muitas outras sahiam cantos ou sons de instrumentos; ouviam-se -harmonicas e ouviam-se guitarras, cuja discreta melodia era de vez em -quando interrompida por um ronco forte de trombone. -</p> -<p> -Os papagaios pareciam tambem mais alegres com o domingo e lançavam das -gaiolas phrases inteiras, entre gargalhadas e assobios. Á porta de -diversos commodos, trabalhadores descansavam, de calça limpa e camisa -de meia lavada, assentados em cadeira, lendo e soletrando jornaes ou -livros; um declamava em voz alta versos d'«Os Luziadas», com um -empenho feroz, que o punha rouco. Transparecia n'elles o prazer da roupa -mudada depois de uma semana no corpo. As casinhas fumegavam um cheiro -bom de refogados de carne fresca, fervendo ao fogo. Do sobrado do -Miranda só as duas ultimas janellas já estavam abertas e, pela escada -que descia para o quintal, passava uma criada carregando baldes de agoas -servidas. Sentia-se n'aquella quietação do dia inutil a falta do -resfolegar afflicto das machinas da visinhança, com que todos estavam -habituados. Para além do solitario capinzal do fundo a pedreira parecia -dormir em paz o seu somno de pedra; mas, em compensação, o movimento -era agora extraordinario á frente da estalagem e á entrada da venda. -Muitas lavadeiras tinham ido para o portão, olhar quem passava; ao lado -d'ellas o Albino, vestido de branco, com o seu lenço engommado ao -pescoço, entretinha-se a chupar balas de assucar, que comprara ali -mesmo ao taboleiro de um baleiro freguez do cortiço. -</p> -<p> -Dentro da taverna, os martellos de vinho branco, os copos de cerveja -nacional e os dois vintens de paraty ou laranginha succediam-se por cima -do balcão, passando das mãos do Domingos e do Manoel para as mãos -ávidas dos operarios e dos trabalhadores, que os recebiam com -estrondosas exclamações de pandega. A Izaura, que fôra n'um pulo -tomar o seu primeiro capilé, via-se tonta com os apalpões que lhe -davam. Leonor não tinha um instante de socego, saltando de um lado para -outro, com uma agilidade de mono, a fugir dos punhos callosos dos -cavouqueiros que, entre risadas, tentavam agarral-a; e insistia na sua -ameaça do costume: «que se queixava ao juiz de orfe!» mas não se ia -embora, porque defronte da venda viera estacionar um homem que tocava -cinco instrumentos ao mesmo tempo, com um acompanhamento desafinado de -bombo, pratos e guizos. -</p> -<p> -Eram apenas oito horas e já muita gente comia e palavreava na casa de -pasto ao lado da venda. João Romão, de roupa mudada como os outros, -mas sempre em mangas de camisa, apparecia de espaço a espaço, servindo -os commensaes; e a Bertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem domingo -nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as panellas e enchendo os -pratos. -</p> -<p> -Um acontecimento, porém, veio revolucionar alegremente toda aquella -confederação da estalagem. Foi a chegada da Rita Bahiana, que voltava -depois de uma ausencia de mezes, durante a qual só déra noticias suas -nas occasiões de pagar o aluguel do commodo. -</p> -<p> -Vinha acompanhada por um moleque, que trazia na cabeça um enorme -samburá carregado de compras feitas no mercado; um grande peixe espiava -por entre folhas de alface com o seu olhar embaciado e triste, -contrastando com as risonhas côres dos rabanetes, das cenouras e das -talhadas de abobora vermelha. -</p> -<p> -—Põe isso tudo ahi n'essa porta. Ahi no numero 9, pequeno! gritou -ella ao moleque, indicando-lhe a sua casa, e depois pagou-lhe o -carreto.—Podes ir embora, carapeta! -</p> -<p> -Desde que do portão a bisparam na rua, levantou-se logo um côro de -saudações. -</p> -<p> -—Olha! quem ahi vem! -</p> -<p> -—Olé! Bravo! É a Rita Bahiana! -</p> -<p> -—Já te faziamos morta e enterrada! -</p> -<p> -—E não é que o demo da mulata está cada vez mais sacudida?... -</p> -<p> -—Então, coisa ruim! por onde andaste atirando esses quartos? -</p> -<p> -—D'esta vez a coisa foi de esticar, hein?! -</p> -<p> -Rita havia parado em meio do pateo. -</p> -<p> -Cercavam-na homens, mulheres e crianças; todos queriam novas d'ella. -Não vinha em trajo de domingo; trazia casaquinho branco, uma saia que -lhe deixava ver o pé sem meia n'um chinello de polimento com enfeites -de marroquim de diversas côres. No seu farto cabello, crespo e -reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão e um -pedaço de baunilha espetado por um gancho. E toda ella respirava o -asseio das brazileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromaticas. -Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril bahiano, respondia -para a direita e para a esquerda, pondo á mostra um fio de dentes -claros e brilhantes que enriqueciam a sua physionomia com um realce -fascinador. -</p> -<p> -Acudio quasi todo o cortiço para recebel-a. Choveram abraços e as -chufas do bom acolhimento. -</p> -<p> -Por onde andara aquelle diabo, que não apparecia para mais de tres -mezes? -</p> -<p> -—Ora, nem me falles, coração! Sabe? pagode de roça! Que hei de -fazer? é a minha cachaça velha!... -</p> -<p> -—Mas onde estiveste tu enterrada tanto tempo, creatura? -</p> -<p> -—Em Jacarepaguá. -</p> -<p> -—Com quem? -</p> -<p> -—Com o Firmo... -</p> -<p> -—Oh! Ainda dura isso? -</p> -<p> -—Cala a bocca! A coisa agora é seria! -</p> -<p> -—Qual! Quem mesmo? tu? Passa fóra! -</p> -<p> -—Paixões da Rita! exclamou o Bruno com uma risada. Uma por anno! Não -contando as miudas! -</p> -<p> -—Não! isso é que não! Quando estou com um homem não olho p'ra -outro! -</p> -<p> -Leocadia, que era perdida pela mulata, saltára-lhe ao pescoço ao -primeiro encontro, e agora, defronte d'ella, com as mãos nas cadeiras, -os olhos humidos de commoção, rindo, sem se fartar de vel-a, fazia-lhe -perguntas sobre perguntas: -</p> -<p> -—Mas porque não te mettes tu logo por uma vez com o Firmo? porque não -te casas com elle? -</p> -<p> -—Casar? protestou a Rita. N'essa não cáe a filha de meu pae! Casar? -livra! Para que? para arranjar captiveiro? Um marido é peior que o -diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! qual! Deus te livre! -Não ha como viver cada um senhor e dono do que é seu! -</p> -<p> -E sacudio todo o corpo n'um movimento de desdem que lhe era peculiar. -</p> -<p> -—Olha só que peste! considerou Augusta, rindo, muito molle, na sua -honestidade preguiçosa. -</p> -<p> -Esta tambem achava infinita graça na Rita Bahiana e seria capaz de -levar um dia inteiro a vel-a dansar o chorado. -</p> -<p> -Florinda ajudava á mãe a preparar o almoço, quando lhe cheirou que -chegara a mulata, e veio logo correndo, a rir-se desde longe, cahir-lhe -nos braços. A propria Marcianna, de seu natural sempre triste e mettida -comsigo, appareceu á janella, para saudal-a. A das Dôres, com as saias -arrepanhadas no quadril e uma toalha por cima amarrada pela parte de -traz e servindo de avental, o cabello ainda por pentear, mas entrouxado -no alto da cabeça, abandonou a limpeza que fazia em casa e veio ter com -a Rita, para dar-lhe uma palmada e gritar-lhe no nariz: -</p> -<p> -—D'esta vez tomaste um fartão, hein, mulata assanhada?... -</p> -<p> -E, ambas a cahirem de riso, abraçaram-se em intimidade de amigas, que -não têm segredos de amor uma para a outra. -</p> -<p> -A Bruxa veio em silencio apertar a mão de Rita e retirou-se logo. -</p> -<p> -—Olha a feiticeira! bradou esta ultima, batendo no hombro da idiota. -Que diabo você tanto reza, tia Paula? Eu quero que você me dê um -feitiço para prender meu homem! -</p> -<p> -E tinha uma phrase para cada um que se aproximasse. Ao ver Dona Isabel, -que appareceu toda cerimoniosa na sua saia da missa e com o seu velho -chale de Macáo, abraçou-a e pedio-lhe uma pitada, que a senhora -recusou, resmungando: -</p> -<p> -—Sae d'ahi, diabo! -</p> -<p> -—Cadê Pombinha? perguntou a mulata. -</p> -<p> -Mas, nessa occasião, Pombinha acabava justamente de sahir de casa, -muito bonita e asseiada com um vestido novo de setineta. As mãos -occupadas com o livro de rezas, o lenço e a sombrinha. -</p> -<p> -—Ah! Como está chique! exclamou a Rita, meneando a cabeça. É mesmo -uma flor!—E logo que Pombinha se pôz ao seu alcance, abraçou-lhe a -cintura e deu-lhe um beijo.—O João Costa se não te fizer feliz como -os anjos sou capaz de abrir-lhe o casco com o salto do chinello! Juro -pelos cabellos do meu homem!—E depois, tornando-se séria, perguntou -muito em voz baixa á Dona Isabel:—Já veio?...—ao que a velha -respondeu negativamente com um desconsolado e mudo abanar de orelhas. -</p> -<p> -O circumspecto Alexandre, sem querer declinar da sua gravidade, pois que -estava fardado e prompto para sahir, contentou-se em fazer com a mão um -cumprimento á mulata, ao qual retrucou esta com uma continencia militar -e uma gargalhada que o desconcertaram. -</p> -<p> -Iam fazer commentarios sobre o caso, mas a Rita, voltando-se para o -outro lado, gritou: -</p> -<p> -—Olha o velho Liborio! Como está cada vez mais duro!... Não se -entrega por nada o demonio do judeu! -</p> -<p> -E correu para o lugar, onde estava, aquecendo-se ao bello sol de abril, -um octogenário, secco, que parecia mumificado pela idade, a fumar n'um -resto de cachimbo, cujo pipo desapparecia na sua bocca já sem labios. -</p> -<p> -—Ê! ê! fez elle, quando a mulata se approximou. -</p> -<p> -—Então? perguntou Rita, abaixando-se para tocar-lhe no hombro. Quando -é o nosso negocio?... Mas você ha de deixar-me primeiro abrir o -bahuzinho de folha!... -</p> -<p> -Liborio rio-se com as gengivas, tentando apalpar as coxas da Bahiana, -por caçoada, affectando luxuria. -</p> -<p> -Todos acharam graça n'esta pantominice do velhinho, e então, a mulata, -para completar a brincadeira, deu uma volta entufando as saias e -sacudio-as depois sobre a cabeça d'elle, que se fingio indignado, a -fungar exageradamente. -</p> -<p> -E entre a alegria levantada pela sua reapparição no cortiço, a Rita -deu conta do que pintára na sua ausencia; disse o muito que festou em -Jacarepaguá; o entrudo que fizera pelo Carnaval. Tres mezes de folia! -E, afinal, abaixando a voz, segredou ás companheiras que á noite teriam -um pagodinho de violão. Podiam contar como certo! -</p> -<p> -Esta ultima noticia causou verdadeiro jubilo no auditorio. As patuscadas -da Rita Bahiana eram sempre as melhores da estalagem. Ninguem como o -diabo da mulata para armar uma funcção que ia pelas tantas da -madrugada, sem saber a gente como foi que a noite se passou tão -depressa. Além de que «era aquella franqueza! emquanto houvesse -dinheiro ou credito, ninguem morria com a tripa murcha ou com a guéla -secca!» -</p> -<p> -—Diz me cá, ó Leocadinha! quem são aquelles jururús que estão agora -no 35? indagou ella, vendo o Jeronymo á porta de casa com a mulher. -</p> -<p> -—Ah! explicou a interrogada, é o Jeronymo e mais a Piedade, um casal -que inda não conheces. Entrou ao depois que arribaste. Boa gente, -coitados! -</p> -<p> -Rita carregou para dentro de seu commodo as provisões que trouxera; -abrio logo a janella e poz-se a cantar. Sua presença enchia de alegria -a estalagem toda. -</p> -<p> -O Firmo, o mulato com quem ella agora vivia mettida, o demonio que a -desencabeçara para aquella maluqueira de Jacarepaguá, ia lá jantar -esse dia com um amigo. Rita declarava isto ás companheiras, amolando -uma faquinha no tijollo da sua porta, para escamar o peixe; emquanto os -gatos, aquelles mesmos que perseguiam o sardinheiro, vinham, um a um, -chegando-se todos só com o ruido da afiação do ferro. -</p> -<p> -Ao lado direito da casinha da mulata, no numero 8, a das Dores -preparava-se tambem para receber n'esse dia o seu amigo e dispunha-se a -fazer uma limpeza geral nas paredes, nos tectos, no chão e nos moveis, -antes de metter-se na cozinha. Descalça, com a saia levantada até ao -joelho, uma toalha na cabeça, os braços arregaçados, viam-na passar -de carreira, de casa para a bica e da bica outra vez para casa, -carregando pezados baldes cheios d'agoa. E d'ahi a pouco appareciam -ajudantes gratuitos para os arranjos do jantar, tanto do lado da das -Dores, como do lado da Rita Bahiana. O Albino encarregou-se de varrer e -arrumar a casa d'esta, entretanto que a mulata ia para o fogão preparar -os seus quitutes do norte. E veio a Florinda, e veio a Leocadia, e veio -a Augusta, impacientes todas ellas pelo pagode que havia de sahir á -noite, depois do jantar. Pombinha não appareceu durante o dia, porque -estava muito occupada, aviando a correspondencia dos trabalhadores e das -lavadeiras: serviço este que ella deixava para os domingos. -</p> -<p> -N'uma pequena mesa, coberta por um pedaço de chita, com o tinteiro ao -lado da caixinha de papel, a menina escrevia, emquanto o dono ou dona da -carta dictava em voz alta o que queria mandar dizer á familia ou a -algum máo devedor de roupa lavada. E ia lançando tudo no papel, apenas -com algumas ligeiras modificações, para melhor, no modo de exprimir a -idéa. Prompta uma carta, subscriptava-a, entregava-a ao dono e chamava -por outro, ficando a sós com um de cada vez, pois que nenhum d'elles -queria dar o seu recado em presença de mais ninguem senão de Pombinha. -De sorte que a pobre rapariga ia accumulando no seu coração de -donzella toda a summula d'aquellas paixões e d'aquelles resentimentos, -ás vezes mais fetidos do que a evaporação de um lameiro em dias de -grande calor. -</p> -<p> -—Escreva lá, Nhan Pombinha! disse junto d'ella um cavouqueiro, -coçando a cabeça; mas faça letra grande, que é pr'a mulher entender! -Diga-lhe que não lhe mando d'esta feita o dinheiro que me pedio, porque -agora não no tenho e estou muito acossado de apertos; mas que lh'o -prometto pr'o mez. Ella que se va arrajando por lá, que eu cá sabe -Deus como me coso; e que, se o Luiz, o irmão, resolver de vir, que m'o -mande dizer com tempo, para ver se se lhe dá furo á vida por aqui; que -isto de vir sem inda ter pr'onde, é fraco negocio, porque as coisas por -cá não correm lá para que digamos! -</p> -<p> -E depois que Pombinha escreveu, accrescentou: -</p> -<p> -—Que eu tenho sentido muito a sua falta d'ella; mas tambem sou o -mesmo e não me metto em porcarias e relaxamentos; e que tenciono mandar -buscal-a, logo que Deus me ajude, e a Virgem! Que elle não tem de que -se arreliar por mór do dinheiro não ir d'esta; que, como lá diz o -outro: quando não ha el-rei o perde! Ah! (ia esquecendo!) quanto á -Libania, é tirar d'ahi o juizo! que a Libania se atirou aos cães e faz -hoje má vida na rua de São Jorge; que se esqueça d'ella por vez e -perca o amor ás duas coroas que lhe emprestou! -</p> -<p> -E a menina escrevia tudo, tudo, apenas interrompendo o seu trabalho para -fitar, com a mão no queixo, o cavouqueiro, á espera de nova phrase. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="VII">VII</a></h4> - -<p> -E assim ia correndo o domingo no cortiço até ás tres da tarde, horas -em que chegou mestre Firmo, acompanhado pelo seu amigo Porfiro, trazendo -aquelle o violão e o outro o cavaquinho. -</p> -<p> -Firmo, o actual amante de Rita Bahiana, era um mulato pachola, delgado -de corpo e agil como um cabrito; capadocio de marca, pernostico, só de -maçadas, e todo elle se quebrando nos seus movimentos de capoeira. -Teria seus trinta e tantos annos, mas não parecia ter mais de vinte e -poucos. Pernas e braços finos, pescoço estreito, porém forte; não -tinha musculos, tinha nervos. A respeito de barba, nada mais que um -bigodinho crespo, petulante, onde reluzia cheirosa a brilhantina do -barbeiro; grande cabelleira encaracolada, negra e bem negra, dividida ao -meio da cabeça, escondendo parte da testa e estufando em grande -gaforina por debaixo da aba do chapéo de palha, que elle punha de -banda, derreado sobre a orelha esquerda. -</p> -<p> -Vestia, como de costume, um paletó de lustrina preta já bastante -usado, calças apertadas nos joelhos, mas tão largas na bainha que lhe -enguliam os pésinhos seccos e ligeiros. Não trazia gravata, nem -collete, sim uma camisa de chita nova e ao pescoço, resguardando o -collarinho, um lenço alvo e perfumado; á bocca um enorme charuto de -dois vintens e na mão um grosso porrete de Petropolis, que nunca -socegava, tantas voltas lhe dava elle a um tempo por entre os dedos -magros e nervosos. -</p> -<p> -Era official de torneiro, official perito e vadio; ganhava uma semana -para gastar n'um dia; ás vezes porém os dados ou a roleta -multiplicavam-lhe o dinheiro, e então elle fazia como n'aquelles -ultimos tres mezes; afogava-se n'uma boa pandega com a Rita Bahiana. A -Rita ou outra «O que não faltava por ahi eram saias para ajudar um -homem a cuspir o cobre na bocca do diabo!» Nascera no Rio de Janeiro, -na Côrte; militara dos doze aos vinte annos em diversas maltas de -capoeiras; chegára a decidir eleições nos tempos do voto indirecto. -Deixou nome em varias freguezias e mereceu abraços, presentes e -palavras de gratidão de alguns importantes chefes de partido. Chamava a -isso a sua época de paixão politica; mas depois desgostou-se com o -systema de governo e renunciou ás lutas eleitoraes, pois não -conseguira nunca o logar de continuo n'uma repartição publica—o seu -ideal!—Setenta mil reis mensaes; trabalho das nove ás tres. -</p> -<p> -Aquella amigação com a Rita Bahiana era uma coisa muito complicada e -vinha de longe; vinha do tempo em que ella ainda estava chegadinha de -fresco da Bahia, em companhia da mãe, uma cafusa dura, capaz de -arrancar as tripas ao Manduca da Praia. A cafusa morreu e o Firmo tomou -conta da mulata; mas pouco depois se separaram por ciumes, o que aliás -não impedio que se tornassem a unir mais tarde, e que de novo brigassem -e de novo se procurassem. Elle tinha «paixa» pela Rita, e ella, apezar -de voluvel como toda a mestiça, não podia esquecel-o por uma vez; -mettia-se com outros, é certo, de quando em quando, e o Firmo então -pintava o caneco, dava por páos e por pedras, enchia-a de bofetadas, -mas, afinal, ia procural-a, ou ella a elle, e ferravam-se de novo, cada -vez mais ardentes, como se aquellas turras constantes reforçassem o -combustivel dos seus amores. -</p> -<p> -O amigo que Firmo trazia aquelle domingo em sua companhia, o Porfiro, -era mais velho do que elle e mais escuro. Tinha o cabello encarapinhado. -Typographo. Afinavam-se muito os dois typos com as suas calças de bocca -larga e com os seus chapéos ao lado; mas o Porfiro tinha outra linha: -não dispensava a sua gravata de côr saltando em laço frouxo sobre o -peito da camisa; fazia questão da sua bengalinha com cabeça de prata e -da sua piteira de ambar e espuma, em que elle equilibrava um cigarro de -palha. -</p> -<p> -Desde a entrada dos dois, a casa da Rita esquentou. Ambos tiraram os -paletós e mandaram vir Paraty, «a abrideira pr'a muqueca Bahiana.» E -não tardou que se ouvissem gemer o cavaquinho e o violão. -</p> -<p> -Ao lado chegava tambem o homem da das Dôres, com um companheiro do -commercio; vinham vestidos de fraque e chapéo alto. A Machona, Nênêm -e o Agostinho, já de volta do seu passeio á cidade, lá estavam -ajudando. Ficariam para o regabofe. -</p> -<p> -Um rumor quente, do dia de festa, ia-se formando n'aquelle ponto da -estalagem. -</p> -<p> -Tanto n'uma casa, como na outra, o jantar seria ás cinco horas. Rita -«botou» vestido branco, de cambraia, encanudado a ferro. Leocadia, -Augusta, o Bruno, o Alexandre e o Albino jantariam com ella no numero 9; -e no numero 8, com a das Dôres, ficariam, além dos parentes d'esta, -Dona Isabel, Pombinha, Marcianna e Florinda. -</p> -<p> -Jeronymo e sua mulher foram convidados para ambas as mezas, mas não -acceitaram o convite para nenhuma, dispostos a passar a tarde ao lado um -do outro, tranquillamente, como sempre, comendo em boa paz o seu cozido -á moda da terra e bebendo o seu quartilho de verde pela mesma infusa. -</p> -<p> -Entretanto, os dois jantares visinhos principiaram ruidosos logo desde a -sôpa e assanharam-se progressivamente. -</p> -<p> -Meia hora depois vinha das duas casas uma algazarra infernal. Fallavam e -riam todos ao mesmo tempo; tilintavam os talheres e os copos. Cá de -fóra sentia-se perfeitamente o prazer que aquella gente punha em comer -e beber á farta, com a bocca cheia, os beiços envernisados de molho -gordo. Alguns cães rosnavam á porta, roendo os ossos que traziam lá -de dentro. De vez em quando, da janella de uma das casas apparecia uma -das moradoras, chamando a visinha, para entregar um prato cheio, -permutando as duas entre si os quitutes e as petisqueiras em que eram -mais peritas. -</p> -<p> -—Olha! gritava a das Dôres para o numero 9, diz á Rita que prove -d'esse zôrô, pr'a ver que tal o acha, e que o vatapá estava muito -gostoso! Se ella tem pimentas, que me mande algumas! -</p> -<p> -Do meio para o fim do jantar o barulho em ambas as casas era medonho. No -numero 8 berravam-se brindes e cantos desafinados. O portuguez amigo da -das Dôres, já desengravatado e com os braços á mostra, vermelho, -lustroso de suor, intumescido de vinho virgem e leitão de forno, -repotreava-se na sua cadeira, a rir forte, sem calar a bocca, com a -camisa a espipar-lhe pela braguilha aberta. O sujeito que o -accompanhára fazia fosquinhas a Nênêm, protegido no seu namoro por -toda a roda, desde a respeitavel Machona até ao endemoninhado -Agostinho, que não ficava quieto um instante, nem deixava socegar a -mãe, gritando um contra o outro como dois possessos. Florinda, sempre -muito risonha e esperta, divertia-se a valer e, de vez em quando, -levantava-se da mesa, para ir de carreira levar lá fora ao numero 12 um -prato de comida á sua velha que, á ultima hora, vindo-lhe o -aborrecimento, resolvêra não ir ao jantar. Á sobremesa o esfogueado -amigo da dona da casa exigio que a amante se lhe assentasse nas coxas e -dava-lhe beijos em presença de toda a companhia, o que fez com que Dona -Isabel, impaciente por afastar a filha d'aquelle inferno, declarasse que -sentia muito calor e que ia lá para a porta esperar mais á fresca o -café. -</p> -<p> -Em casa da Rita Bahiana a animação era ainda maior. Firmo e Porfiro -faziam o diabo, cantando, trocando bestialogicos, arremedando a falla -dos pretos cassanges. Aquelle não largava a cintura da mulata e só -bebia no mesmo copo com ella; o outro divertia-se a perseguir o Albino, -galanteando-o affectadamente, para fazer rir á sociedade. O lavadeiro -indignava-se, dava o cavaco. Leocadia, a quem o vinho produzia delirios -de hilaridade, torcia-se em gargalhadas, tão fortes e sacudidas que -desconjuntavam a cadeira em que ella estava; e, muito lubrificada pela -bebedeira, punha os pezados pés sobre os de Porfiro, roçando as pernas -contra as d'elle e deixando-se apalpar pelo capadocio. O Bruno, defronte -d'ella, rubro e suado como se estivesse a trabalhar na forja, fallava e -gesticulava sem se levantar, praguejando ninguem sabia contra quem. O -Alexandre, á paizana, assentado ao lado da mulher, conservava quasi -toda a sua seriedade e pedia que não fizessem tanto barulho porque -podiam ouvir da rua. E notou, em voz mysteriosa, que o Miranda tinha -vindo já espiar por varias vezes da janella do sobrado. -</p> -<p> -—Que espie as vezes que quizer! bradou a Rita. Pois então a gente não -é senhora de estar um domingo em casa a seu gosto e com os amigos que -entender?... Que vá pr'o diabo que o lixe! Eu não como nem bebo do que -é d'elle! -</p> -<p> -Os dois mulatos e o Bruno tambem eram da mesma opinião. «Pois então! -Desde que se não offendia, nem prejudicava a safardana nenhum com -aquelle divertimento, não havia de que fallar!» -</p> -<p> -—E que não entiquem muito, ameaçou o Firmo, que commigo é nove! E o -trunfo é páos! -</p> -<p> -O Porfiro exclamou: -</p> -<p> -—Se se incommodam com a gente ... os incommodados são os que se -mudam! Ora pistolas! -</p> -<p> -—O domingo fez-se pr'a gosar!... resmungou o Bruno, deixando cahir a -cabeça nos braços crusados sobre a mesa. -</p> -<p> -Mas ergueu-se logo, cambaleando, e acrescentou, despindo o braço -direito até ao hombro:—Elles que se façam finos, que os racho! -</p> -<p> -O Alexandre procurou acalmal-o, dando-lhe um charuto. -</p> -<p> -Em uma outra casinha do cortiço acabava de estalar uma nova sobremesa, -engrossando o barulho geral: era o jantar de um grupo de italianos -mascates, onde o Delporto, o Pompêo, o Francesco e o Andréa -representavam as principaes figuras. Todos elles cantavam em coro, mais -afinados que nas outras duas casas; quasi, porém, que se lhes não -podiam ouvir as vozes, tantas e tão estrondosas eram as pragas que -soltavam ao mesmo tempo. De quando em quando, de entre o grosso e macho -vozear dos homens, esguichava um falsete feminino, tão estridente que -provocava replica aos papagaios e aos perus da visinhança. E, d'aqui e -d'ali, iam rebentando novas algazarras em grupos formados cá e lá pela -estalagem. Havia nos operarios e nos trabalhadores decidida disposição -para pandegar, para aproveitar bem, até ao fim, aquelle dia de folga. A -casa de pasto fermentava revolucionada, como um estomago de bebado -depois de grande brodio, e arrotava sobre o pateo uma baforada quente e -ruidosa que entontecia. -</p> -<p> -O Miranda appareceu furioso á janella, com o seu typo de commendador, a -barriga empinada pr'a frente, de paletó branco, um guardanapo ao -pescoço e um trinchante empunhado na destra, como uma espada. -</p> -<p> -—Vão gritar pr'a o inferno, com um milhão de raios! berrou elle, -ameaçando para baixo. Isto tambem já é de mais! Se não se calam, vou -d'aqui direito chamar a policia! Sucia de brutos! -</p> -<p> -Com os berros do Miranda muita gente chegou á porta de casa, e o côro -de gargalhadas, que ninguem podia conter n'aquelle momento de alegria, -ainda mais o pôz fóra de si. -</p> -<p> -—Ah, canalhas! O que eu devia fazer era atirar-lhes d'aqui, como a -cães damnados! -</p> -<p> -Uma vaia unisona echoou em todo o pateo da estalagem, emquanto em volta -do negociante surgiam varias pessoas, puxando-o para dentro de casa. -</p> -<p> -—Que é isso, Miranda! Então! Estás agora a dar palha?... -</p> -<p> -—O que elles querem é que encordôes!... -</p> -<p> -—Saia d'ahi, papáe! -</p> -<p> -—Olhe alguma pedrada, esta gente é capaz de tudo! -</p> -<p> -E via-se de relance Dona Estella, com a sua pallidez de flôr meio -fanada, e Zulmira, livida, um ar de fastio a fazel-a feia, e o -Henriquinho, cada vez mais bonito, e o velho Botelho, indifferente, a -olhar para toda esta porcaria do mundo com o profundo desprezo dos que -já não esperam nada dos outros, nem de si proprio. -</p> -<p> -—Canalhas! repisava o Miranda. -</p> -<p> -O Alexandre, que fôra de carreira enfiar a sua farda, apresentou-se -então e disse ao negociante que não era prudente atirar insultos cá -pr'a baixo. Ninguem o tinha provocado! Se os moradores da estalagem -jantavam em companhia de amigos, lá em cima o Miranda tambem estava -comendo com os seus convidados! Era máo insultar, porque palavra puxa -palavra, e, em caso de ter de depor na policia, elle, Alexandre, deporia -a favor de quem tivesse razão!... -</p> -<p> -—Fomente-se! respondeu o negociante, voltando-lhe as costas. -</p> -<p> -Já se vio chubregas mais atrevido?! exclamou Firmo, que até ahi -estivera calado, á porta da Rita, com as mãos nas cadeiras, a fitar -provocadoramente o Miranda. -</p> -<p> -E gritando mais alto, para ser bem ouvido:—Facilita muito, meu boi -manso, que te escorvo os galhos na primeira occasião! -</p> -<p> -O Miranda foi arrancado com violencia da janella, e esta fechada logo em -seguida com estrondo. -</p> -<p> -—Deixa lá esse labrego! resmungou Porfiro, tomando o amigo pelo braço -e fazendo-o recolher-se á casa da mulata. Vamos ao café, é o que é, -antes que esfrie! -</p> -<p> -Defronte da porta de Rita tinham vindo postar-se diversos moradores do -cortiço, jornaleiros de baixo salario, pobre gente miseravel, que mal -podia matar a fome com o que ganhava. Ainda assim não havia entre elles -um só triste. A mulata convidou-os logo a comer um bocado e beber um -trago. A proposta foi acceita alegremente. -</p> -<p> -E a casa d'ella nunca se esvasiava. -</p> -<p> -Anoitecia já. -</p> -<p> -O velho Liborio, que jamais ninguem sabia ao certo onde almoçava ou -jantava, surgio do seu buraco, que nem jaboti quando vê chuva. -</p> -<p> -Um typão, o velho Liborio! Occupava o peior canto do cortiço e andava -sempre a fariscar os sobejos alheios, filando aqui, filando ali, pedindo -a um e a outro, como um mendigo, chorando miserias eternamente, -apanhando pontas de cigarro para fumar no cachimbo, cachimbo que o -sumitico roubára de um pobre cego decrepito. Na estalagem diziam -todavia que Liborio tinha dinheiro aferrolhado, contra o que elle -protestava resentido, jurando a sua extrema penuria. E era tão feroz o -demonio n'aquella fome de cão sem dono, que as mães recommendavam ás -suas crianças todo o cuidado com elle, porque o diabo do velho, quando -via algum pequeno desacompanhado, punha-se logo a rondal-o, a cercal-o -de festas e a fazer-lhe ratices para o engabelar, até conseguir -furtar-lhe o doce ou o vintemzinho que o pobrezito trazia fechado na -mão. -</p> -<p> -Rita fel-o entrar e deu-lhe de comer e de beber; mas sob condição de -que o esfomeado não se soccasse demais, para não rebentar ali mesmo. -</p> -<p> -Se queria estoirar, fosse estoirar para longe! -</p> -<p> -Elle pôz-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os -lados, como se temesse que alguem lhe roubasse a comida da boca. Engolia -sem mastigar, empurrando os bocados com o dedo, agarrando-se ao prato e -escondendo nas algibeiras o que não podia de uma só vez metter para -dentro do corpo. -</p> -<p> -Causava terror aquella sua implacavel mandibula, assanhada e devoradora; -aquelle enorme queixo, avido, ossudo e sem um dente, que parecia ir -engolir tudo, tudo, principiando pela propria cara, desde a immensa -batata vermelha e grelada, que ameaçava já entrar-lhe na boca, até as -duas bochechinhas engelhadas, os olhos, as orelhas, a cabeça inteira, -inclusive a sua grande calva, lisa como um queijo e guarnecida em redor -por uns pellos puídos e ralos como farripas de côco. -</p> -<p> -Firmo propoz embebedal-o, só para ver a sorte que elle daria. O -Alexandre e a mulher oppuzeram-se, mas rindo muito; nem se podia deixar -de rir, apezar do espanto, vendo aquelle resto de gente, aquelle -esqueleto velho, coberto por uma pelle secca, a devorar, a devorar sem -tregoas, como se quizesse fazer provisão para uma outra vida. -</p> -<p> -De repente, um pedaço de carne, grande de mais para ser ingerido de uma -vez, engasgou-o sériamente. Liborio começou a tossir, afflicto, com os -olhos sumidos, a cara tingida de uma vermelhidão apopletica. A -Leocadia, que era quem lhe ficava mais perto, soltou-lhe um murro nas -costas. -</p> -<p> -O glutão arrevessou sobre a toalha da mesa o bocado de carne já meio -triturado. -</p> -<p> -Foi um nojo geral. -</p> -<p> -—Porco! gritou Rita, arredando-se. -</p> -<p> -—Pois se o bruto quer socar tudo ao mesmo tempo! disse Porfiro. -Parece que nunca vio comida, este animal! -</p> -<p> -E notando que elle continuava ainda mais sofrego por ter perdido um -instante:—Espera um pouco, lobo! Que diabo! A comida não foge! Ha -muito ahi com que te fartares por uma vez! Com effeito! -</p> -<p> -—Beba agoa, tio Liborio! aconselhou Augusta. -</p> -<p> -E, boa, foi buscar um copo d'agoa e levou-lh'o á boca. -</p> -<p> -O velho bebeu, sem despregar os olhos do prato. -</p> -<p> -—Arre diabo! resmungou Porfiro, cuspindo para o lado. Este é mesmo -capaz de comer-nos a todos nós, sem achar espinhas! -</p> -<p> -Albino, esse, coitado! é que não comia quasi nada e o pouco que -conseguia metter no estomago fazia-lhe mal. Rita, para bulir com elle, -disse que semelhante fastio era gravidez com certeza. -</p> -<p> -—Você já começa, hein?... balbuciou o pobre moço, esgueirando-se -com a sua chicara de café. -</p> -<p> -—Olha, cuidado! gritou-lhe a mulata. Pouco café, que faz mal ao -leite, e a criança póde sahir trigueira! -</p> -<p> -O Albino voltou para dizer muito serio á Rita que não gostava d'essas -brincadeiras. -</p> -<p> -Alexandre, que havia accendido um charuto, depois de offerecer outros, -galantemente, aos companheiros, arriscou, para tambem fazer a sua -pilheria, que o sonso do Albino fôra pilhado ás voltas com a Bruxa no -capinzal dos fundos da estalagem, debaixo das mangueiras. -</p> -<p> -Só a Leocadia achou graça n'isto e rio a bandeiras despregadas. Albino -declarou, quasi chorando, que elle não mexia com pessoa alguma, e que -ninguem, por conseguinte, devia mexer com elle. -</p> -<p> -—Mas afinal, perguntou Porfiro, é mesmo exacto que este pamonha não -conhece mulher?... -</p> -<p> -—Elle é quem póde responder! accudio a mulata. E esta historia vae -ficar hoje liquidada! Vamos lá, ó Albino! confessa-nos tudo, ou mal te -terás de haver com a gente! -</p> -<p> -Se eu soubesse que era para isto que me chamaram, não tinha vindo cá, -sabe? gaguejou o lavadeiro, amuado. Eu não sirvo de palito! -</p> -<p> -E ter-se-ia retirado chorando, se a Rita não lhe cortasse a sahida, -dizendo, como se fallasse a uma creatura do seu sexo, mais fraca do que -ella: -</p> -<p> -—Ora não sejas tôlo! Deixa-te ficar ahi! Se deres o cavaco é peior! -</p> -<p> -Albino limpou as lagrimas e foi assentar-se de novo. -</p> -<p> -Entretanto, a noite fechava-se, refrescando a tarde com o sudoeste. -Bruno roncava no logar em que tinha jantado. A Leocadia passára -livremente a perna para cima da de Porfiro, que a abraçava, bebendo -paraty aos calices. -</p> -<p> -Mas o Firmo lembrou que seria melhor irem lá para fóra; e todos, menos -o Bruno, dispozeram-se a deixar a sala, emquanto o velho Liborio pedia a -Alexandre um cigarro para despejar no cachimbo. Servido, o filante -desappareceu logo, correndo ao faro de outros jantares. Rita, Augusta e -Albino ficaram lavando a louça e arrumando a casa. -</p> -<p> -Lá fóra o côro dos italianos se prolongava n'uma cadencia monotona e -arrastada, em que havia muito pezo de embriaguez. Junto á porta de -varias casas faziam-se grupos de pessoas assentadas em cadeiras ou no -chão; mas a roda da Rita Bahiana era a maior, porque fóra engrossada -pelos convivas da das Dôres. O fumo dos cachimbos e dos charutos -elevava-se de toda a parte. Decrescera o ruido geral; fazia-se a -digestão; já ninguem discutia e todos conversavam. -</p> -<p> -Accendeu-se o lampeão do pateo. Illuminaram-se diversas janellas das -casinhas. -</p> -<p> -Agora, no sobrado do Miranda é que era o maior barulho. Sahia de lá -uma terrivel gritaria de hippes e burrahs, virgulada pelo desarolhar de -garrafas de champanha. -</p> -<p> -—Como elles atacam!... observou Alexandre, já de novo sem farda. -</p> -<p> -—E no emtanto reprovam que a gente coma o que é seu com um pouco mais -de alegria! commentou a Rita. Uma sucia! -</p> -<p> -Fallou-se então largamente a respeito da familia do Miranda, -principalmente de Dona Estella e do Henrique. A Leocadia afiançou que, -uma occasião, espiando por cima do muro, trepada n'um montão de -garrafas vazias que havia no pateo do cortiço, vira a sirigaita com a -cara agarrada á do estudante, aos beijos e aos abraços, que era obra; -e assim que os dois deram fé que ella os espreitava, deitaram a fugir -que nem cães apedrejados. -</p> -<p> -A Augusta Carne-molle benzeu-se, com uma invocação á Virgem -Santissima, e o companheiro do amigo da das Dôres, que insistia no seu -namoro com a Nênêm, mostrou-se muito admirado com a noticia, -«suppunha Dona Estella um modelo de seriedade.» -</p> -<p> -—Qual! negou Alexandre. Isso por ahi é tudo uma pouca vergonha, que -faz descrer um homem de si mesmo! -</p> -<p> -Eu tambem já vi de uma feita bem boas coisas pela sombra d'ella na -parede; mas não era com o estudante, era com um sujeito que lá ia ás -vezes, um barbado, careca e comido de bexigas. E a pequena vae pelo -mesmo conseguinte... -</p> -<p> -Esta novidade produzio grande surpreza no grupo inteiro. Quizeram os -pormenores e o Alexandre não se fez rogado: o namoro da Zulmira era com -um rapazola magro, de lunetas, bigode loiro, bem vestido, que lhe -rondava a casa á noite e ás vezes de madrugada. Parecia estudante! -</p> -<p> -—O que elles tem feito? inquerio a das Dôres. -</p> -<p> -—Por emquanto a coisa não passa de namorico da janella pr'a rua. -Conversam sempre n'aquella ultima do lado de lá de fóra. Já os tenho -apreciado quando estou de serviço. Elle falla muito em casamento e a -pequena o quer; mas, pelo geito, o velho é que lhe corta as azas. -</p> -<p> -—Elle não tem entrada na casa? -</p> -<p> -—Não! Pois isso é que eu acho feio!... Se elle quer casar com a -menina, devia entender-se com a familia e não estar agora d'aqui -debaixo a fazer-lhe fosquinhas! -</p> -<p> -—Sim! intrometteu-se o Firmo; mas não vê que aquelle mesmo, o -Miranda, vae dar a filha a um estudante! Guarda-a para um dos seus... -Quem sabe até se o bruto não tem já de olho por ahi algum cafezista -pé de boi!... Eu sei o que é essa gente! -</p> -<p> -—Por isso é que se vê tanta porcaria por esse mundo de Christo! disse -a Augusta. Filha minha só se casará com quem ella bem quizer; que isto -de casamentos empurrados á força acabam sempre desgraçando tanto a -mulher como o homem! Meu marido é pobre e é de côr, mas eu sou feliz, -porque casei por meu gosto! -</p> -<p> -—Ora! Mais vale um gosto que quatro vintens! -</p> -<p> -N'isto começou a gemer á porta do 35 uma guitarra; era de Jeronymo. -Depois da ruidosa alegria e do bom humor, em que palpitara áquella -tarde toda a republica do cortiço, ella parecia ainda mais triste e -mais saudosa do que nunca. -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2">«Minha vida tem desgostos,</span><br /> -<span class="i2">Que só eu sei comprender...</span><br /> -<span class="i2">Quando me lembro da terra</span><br /> -<span class="i2">Parece que vou morrer...»</span> -</div></div> - -<p> -E, com o exemplo da primeira, novas guitarras foram acordando. E, por -fim, a monotona cantiga dos portuguezes enchia de uma alma desconsolada -o vasto arraial da estalagem, contrastando com a barulhenta alacridade -que vinha lá de cima, do sobrado do Miranda. -</p> - -<div class="poem"><div class="stanza"> -<span class="i2">«Terra minha, que te adoro,</span><br /> -<span class="i2">Quando é que eu te torno a ver?</span><br /> -<span class="i2">Leva-me d'este desterro;</span><br /> -<span class="i2">Basta já de padecer.»</span> -</div></div> - -<p> -Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostalgico dos desterrados, iam -todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e cahindo em tristeza; -mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do -Firmo, romperam vibrantemente com um chorado bahiano. Nada mais que os -primeiros accordes da musica crioula para que o sangue de toda aquella -gente despertasse logo, como se alguem lhe fustigasse o corpo com -ortigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais -ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam, -eram lubricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem -serpenteando, como cobras n'uma floresta incendiada; eram ais convulsos, -chorados em frenezi de amor; musica feita de beijos e soluços gostosos; -caricia de fera, caricia de doer, fazendo estalar de goso. -</p> -<p> -E aquella musica de fogo doidejava no ar como um aroma quente de plantas -brasileiras, em torno das quaes se nutrem, girando, moscardos sensuaes e -besoiros venenosos, freneticamente, bebedos do delicioso perfume que os -mata de volupia. -</p> -<p> -E á viva crepitação da musica bahiana calaram-se as melancolicas -toadas dos de além-mar. Assim á refulgente luz dos tropicos amortece a -fresca e doce claridade dos céos da Europa, como se o proprio sol -americano, vermelho e esbrazeado, viesse, na sua luxuria de sultão, -beber a lagrima medrosa da decahida rainha dos mares velhos. -</p> -<p> -Jeronymo alheiou-se da sua guitarra e ficou com as mãos esquecidas -sobre as cordas, todo attento para aquella musica estranha, que vinha -dentro d'elle continuar uma revolução começada desde a primeira vez -em que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz -d'este sol orgulhoso e selvagem, e lhe cantou no ouvido o estribilho da -primeira cigarra, e lhe acidulou a garganta o succo da primeira fructa -provada n'estas terras de braza, e lhe entonteceu a alma o aroma do -primeiro bogary, e lhe transtornou o sangue o cheiro animal da primeira -mulher, da primeira mestiça, que junto d'elle sacudio as saias e os -cabellos. -</p> -<p> -—Que tens tu, Jeromo?... perguntou-lhe a companheira, estranhando-o. -</p> -<p> -—Espera, respondeu elle, em voz baixa; deixa ouvir! -</p> -<p> -Firmo principiava a cantar o chorado, seguido por um acompanhamento de -palmas. -</p> -<p> -Jeronymo levantou-se, quasi que machinalmente, e, seguido por Piedade, -aproximou-se da grande roda que se formara em torno dos dois mulatos. -Ahi, de queixo grudado ás costas das mãos contra uma cerca de jardim, -permaneceu, sem tugir nem mugir, entregue de corpo e alma áquella -cantiga seductora e voluptuosa que o enleiava e tolhia, como á robusta -gameleira brava o cipó flexivel, carinhoso e traiçoeiro. -</p> -<p> -E vio a Rita Bahiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de -hombros e braços nus, para dansar. A lua destoldára-se n'esse momento, -envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da -mestiça melhor se accentuavam, cheios de uma graça irresistivel, -simples, primitiva, feita toda de peccado, toda de paraiso, com muito de -serpente e muito de mulher. -</p> -<p> -Ella saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as -ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a -direita, como n'uma sofreguidão de goso carnal, num requebrado -luxurioso que a punha offegante; já correndo de barriga empinada; já -recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse -afundando n'um prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e -nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse á vida, soltava um -gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, -descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida -sapateava, miudo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os -braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, emquanto a carne -lhe fervia toda, fibra por fibra, titillando. -</p> -<p> -Em torno o enthusiasmo tocava ao delirio; um grito de applausos explodia -de vez em quando, rubro e quente como deve ser um grito sabido do -sangue. E as palmas insistiam, cadentes, certas, n'um rhythmo nervoso, -n'uma persistencia de loucura. E, arrastado por ella, pulou á arena o -Firmo, agil, de borracha, a fazer coisas phantasticas com as pernas, a -derreter-se todo, a sumir-se no chão, a resurgir inteiro com um pulo, -os pés no espaço batendo os calcanhares, os braços a querer -fugirem-lhe dos hombros, a cabeça a querer saltar-lhe. E depois, surgio -tambem a Florinda, e logo o Albino e até, quem diria! o grave e -circumspecto Alexandre. -</p> -<p> -O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando aos que -não sabiam dansar. Mas, ninguem como a Rita; só ella, só aquelle -demonio, tinha o magico segredo d'aquelles movimentos de cobra -amaldiçoada; aquelles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a -mulata soltava de si e sem aquella voz doce, quebrada, harmoniosa, -arrogante, meiga e supplicante. -</p> -<p> -E Jeronymo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos olhos -enamorados. -</p> -<p> -N'aquella mulata estava o grande mysterio, a synthese das impressões -que elle recebeu chegando aqui: ella era a luz ardente do meio dia; ella -era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos -trevos e das baunilhas, que o atordoara nas mattas brasileiras; era a -palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; -era o veneno e era o assucar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e -era a castanha do cajú, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ella -era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, -que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo d'elle, -assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela -saudade da terra, picando-lhe as arterias, para lhe cuspir dentro do -sangue uma centelha d'aquelle amor septentrional, uma nota d'aquella -musica feita de gemidos de prazer, uma larva d'aquella nuvem de -cantharidas que zumbiam em torno da Rita Bahiana e espalhavam-se pelo ar -n'uma phosphorescencia aphrodisiaca. -</p> -<p> -Isto era o que Jeronymo sentia, mas o que o tonto não podia conceber. -De todas as impressões d'aquelle resto de domingo só lhe ficou no -espirito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho, -mas de mel chuchurreado no calice de flores americanas, d'essas muito -alvas, cheirosas e humidas, que elle na fazenda via debruçadas -confidencialmente sobre os limosos pantanos sombrios, onde as oiticicas -trescalam um aroma que entristece de saudade. -</p> -<p> -E deixava-se ficar, olhando. Outras raparigas dansaram, mas o portuguez -só via a mulata, mesmo quando, prostrada, fôra cahir nos braços do -amigo. Piedade, a cabecear de somno, chamára-o varias vezes para se -recolherem; elle respondeu com um resmungo e não deu pela retirada da -mulher. -</p> -<p> -Passaram-se horas, e elle tambem não deu pelas horas que fugiram. -</p> -<p> -O circulo do pagode augmentou: vieram de lá defronte a Izaura e a -Leonor; o João Romão e a Bertoleza, desembaraçados da sua faina, -quizeram dar fé da patuscada um instante antes de cahirem na cama; a -familia do Miranda puzera-se á janella, divertindo-se com a gentalha da -estalagem; reunira povo lá fóra na rua; mas Jeronymo nada vira de tudo -isso; nada vira senão uma coisa, que lhe persistia no espirito: a -mulata offegante a resvalar voluptuosamente nos braços do Firmo. -</p> -<p> -Só deu por si, quando, já pela madrugada, se callaram de todo os -instrumentos e cada um dos folgadores se recolheu á casa. -</p> -<p> -E vio a Rita levada para o quarto pelo seu homem, que a arrastava pela -cintura. -</p> -<p> -Jeronymo ficou sózinho no meio da estalagem. A lua, agora inteiramente -livre das nuvens que a perseguiam, lá ia caminhando em silencio na sua -viagem mysteriosa. As janellas do Miranda fecharam-se. A pedreira, ao -longe, por detraz da ultima parede do cortiço, erguia-se como um -monstro illuminado na sua paz. Uma quietação densa pairava já sobre -tudo; só se distinguiam o bruxulear dos pyrilampos na sombra das hortas -e dos jardins, e os murmurios das arvores que sonhavam. -</p> -<p> -Mas Jeronymo nada mais sentia, nem ouvia, do que aquella musica -embalsamada de baunilha, que lhe entontecêra a alma; e comprehendeu -perfeitamente que dentro d'elle aquelles cabellos crespos, brillantes e -cheirosos, da mulata, principiavam a formar um ninho de cobras negras e -venenosas, que lhe iam devorar o coração. -</p> -<p> -E, erguendo a cabeça, notou no mesmo céo, que elle nunca vira senão -depois de sete horas de somno, que era já quasi occasião de entrar -para o seu serviço, e resolveu não dormir, porque valia a pena esperar -de pé. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="VIII">VIII</a></h4> - -<p> -No dia seguinte, Jeronymo largou o trabalho á hora de almoçar e, em -vez de comer lá mesmo na pedreira com os companheiros, foi para casa. -Mal tocou no que a mulher lhe apresentou á mesa e metteu-se logo depois -na cama, ordenando-lhe que fosse ter com João Romão e lhe dissesse que -elle estava incommodado e ficava de descanço aquelle dia. -</p> -<p> -—Que tens tu Jeromo?... -</p> -<p> -—Morrinhento, filha. Vae anda! -</p> -<p> -—Mas sentes-te mal?... -</p> -<p> -—Ó mulher! vae fazer o que te disse e ao depois então darás á -lingoa! -</p> -<p> -—Valha-me a Virgem! Não sei se haverá chá preto na venda! -</p> -<p> -E ella sahio, afflicta. Qualquer novidade no marido, por menor que -fosse, punha-a doida, «Pois um homem rijo, que nunca cahia doente? -Seria a febre amarella?...» Jesus, Santo Filho de Maria, que nem pensar -n'isso era bom! Credo! -</p> -<p> -A noticia espalhou-se logo ali entre as lavadeiras. -</p> -<p> -—Foi da friage da noite, affirmou a Bruxa; e deu um pulo á casa do -trabalhador para receitar. -</p> -<p> -O doente repellio-a, pedindo-lhe que o deixasse em paz; que elle do que -precisava era de dormir. Mas não o conseguio: atraz da Bruxa correu a -segunda mulher, e a terceira, e a quarta; e, afinal, fez-se durante -muito tempo em sua casa um entrar e sahir de saias. Jeronymo perdeu a -paciencia e ia protestar brutalmente contra semelhante invasão, quando, -pelo cheiro, sentio que a Rita se approximava tambem. -</p> -<p> -—Ah! -</p> -<p> -E desfranzio-se-lhe o rosto. -</p> -<p> -—Bons dias! Então que é isso, vizinho? Você cahio doente com a minha -chegada? Se tal soubéra não vinha! -</p> -<p> -Elle rio-se. E era a primeira vez que ria desde a vespera. -</p> -<p> -A mulata aproximou-se da cama. -</p> -<p> -Como principiara a trabalhar esse dia, tinha as saias apanhadas na -cintura e os braços completamente nús e frios da lavagem. O seu -casaquinho branco abria-lhe no pescoço, mostrando parte do peito côr -de canella. -</p> -<p> -Jeronymo apertou-lhe a mão. -</p> -<p> -—Gostei de vel-a hontem dansar, disse, muito mais animado. -</p> -<p> -—Já tomou algum remedio?... -</p> -<p> -—A mulher fallou ahi em chá preto... -</p> -<p> -—Chá! Que asneira! Chá é agoa morna! Isso que você tem é uma -resfriagem. Vou lhe fazer uma chicara de café bem forte para você -beber com um gole de paraty, e me dirá se súa ou não, e fica depois -fino e prompto para outra! Espere ahi! -</p> -<p> -E sahio logo, deixando todo o quarto impregnado d'ella. -</p> -<p> -Jeronymo, só com respirar aquelle almiscar, parecia melhor. Quando -Piedade tornou, pesada, triste, resmungando comsigo mesma, elle sentio -que principiava a enfaral-a; e, quando a infeliz se approximou do -marido, este, fora do costume, notou-lhe o cheiro azedo do corpo. -Voltou-lhe então o máo-estar e desappareceu o ultimo vestigio do -sorriso que elle tivera havia pouco. -</p> -<p> -—Mas que sentes tu, Jeromo?... Falla, homem! Não me dizes nada! Assim -m'assustas... Que tens, diz'lo! -</p> -<p> -—Não cozas o chá. Vou tomar outra coisa... -</p> -<p> -—Não queres o chá? Mas é o remedio, filhinho de Deus! -</p> -<p> -—Já te disse que tomo oitra mezinha. Oh! -</p> -<p> -Piedade não insistio. -</p> -<p> -—Queres tu um escalda-pés?... -</p> -<p> -—Tomal-o tu! -</p> -<p> -Ella calou-se. Ia a dizer que nunca o vira assim tão aspero e secco, -mas receiou importunal-o. «Era naturalmente a molestia que o punha -resinguento.» -</p> -<p> -Jeronymo fechára os olhos, para a não ver, e ter-se-ia, se pudesse, -fechado por dentro, para a não sentir. Ella, porém, coitada! fôra -assentar-se á beira da cama, humilde e solicita, a suspirar, vivendo -n'aquelle instante, pura e exclusivamente, para o seu homem, fazendo-se -muito escrava d'elle, sem vontade propria, acompanhando-lhe os menores -gestos com o olhar, inquieta, que nem um cão que, ao lado do dono, -procura adivinhar-lhe as intenções. -</p> -<p> -—'Stá bem, filha, não vaes tratar do teu serviço?... -</p> -<p> -—Não te dê isso cuidado! Não parou o trabalho! Pedi á Leocadia que -me esfregasse a roupa. Ella hoje tinha pouco que fazer e... -</p> -<p> -—Andaste mal... -</p> -<p> -—Ora! Não ha tres dias que fiz outro tanto por ella... E de mais, não -foi que tivesse o homem doente, era a calaçaria do capinzal! -</p> -<p> -—Bom, bom, filha! não digas mal da vida alheia!... Melhor seria que -estivesses á tua tina em vez de ficar ahi a murmurar do proximo... -Anda! vae tomar conta das tuas obrigações. -</p> -<p> -—Mas estou-te a dizer que não ha transtorno!... -</p> -<p> -—Transtorno já é estar eu parado; e peior será pararem os dois! -</p> -<p> -—Eu queria ficar a teu lado, Jeromo!... -</p> -<p> -—E eu acho que isso é tolice! Vae! anda! -</p> -<p> -Ella ia retirar-se, como um animal enxotado, quando deu com a Rita, que -entrava muito ligeira e sacudida, trazendo na mão a fumegante palangana -de café com paraty e no hombro um cobertor grosso para dar um suadoiro -ao doente. -</p> -<p> -—Ah! fez Piedade, sem encontrar uma palavra para a mulata. -</p> -<p> -E deixou-se ficar. -</p> -<p> -Rita, despreoccupadamente, alegre e bemfazeja como sempre, pousou a -vasilha sobre a commoda do oratorio e abrio o cobertor. -</p> -<p> -—Isto é que o vae pôr fino! disse. Vocês tambem, seus portuguezes, -por qualquer coisinha ficam logo pr'a morrer, com uma cara da ultima -hora! E ai, ai, Jesus, meu Deus! Ora esperte-se! Não me seja maricas! -</p> -<p> -Elle rio-se, assentando-se na cama. -</p> -<p> -—Pois não é assim mesmo? perguntou ella á Piedade, apontando para o -carão barbado de Jeronymo. Olhe só pr'aquella cara e diga-me se não -está a pedir que o enterrem! -</p> -<p> -A portugueza não dizia nada, sorria contrafeita, no intimo, resentida -contra aquella invasão de uma estranha nos cuidados pelo seu homem. -Não era a intelligencia nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o -instincto, o faro subtil e desconfiado de toda a femea pelas outras, -quando sente o seu ninho exposto. -</p> -<p> -—Está-me a parecer que agora te achas melhor, hein?... desembuchou -afinal, procurando o olhar do marido, sem conseguir disfarçar de todo o -seu descontentamento. -</p> -<p> -—Só com o cheiro! reforçou a mulata, apresentando o café ao doente. -Beba, ande! beba tudo e abafe-se! Quero, quando voltar logo, encontral-o -prompto, ouvio?—E acrescentou fallando á Piedade, em tom mais baixo e -pousando-lhe a mão no hombro carnudo:—Elle d'aqui a nada deve estar -ensopado de suor; mude-lhe toda a roupa e dê-lhe dois dedos de paraty, -logo que peça agua. Cuidado com o vento! -</p> -<p> -E sahio expedita, agitando as saias, d'onde se evolavam effluvios de -mangerona. -</p> -<p> -Piedade chegou-se então para o cavouqueiro, que já tinha sobre as -pernas o cobertor offerecido pela Rita, e, ajudando-o a levar a tigela -á bocca, resmungou: -</p> -<p> -—Deus queira que isto não te vá fazer mal em vez de bem!... Nunca -tomas café, nem gostas!... -</p> -<p> -—Isto não é por gosto, filha, é remedio! -</p> -<p> -Elle com effeito nunca entrara com o café e ainda menos com a cachaça; -mas engolio de uma assentada o conteúdo da tigela, puxando em seguida o -cobertor até ás ventas. -</p> -<p> -A mulher tratou de abafar-lhe bem os pés e foi buscar um chale para lhe -cobrir a cabeça. -</p> -<p> -—Trata de socegar! Não te mexas! -</p> -<p> -E dispôz-se a ficar junto da cama, a vigial-o, só andando na ponta dos -pés, abafando a respiração, correndo a cada instante á porta de casa -para pedir que não fizessem tanta bulha lá fóra; toda ella -desassocegada, numa afflicção quasi supersticiosa por aquelle -incommodo de seu homem. Mas Jeronymo não levou muito que a não -chamasse para lhe mudar a roupa. O suor inundava-o. -</p> -<p> -—Ainda bem! exclamou ella, radiante. -</p> -<p> -E, depois de fechar hermeticamente a porta do quarto e metter um punhado -de roupa suja n'uma fresta que havia n'uma das paredes, saccou-lhe fóra -a camisa molhada, enfiando-lhe logo outra pela cabeça; em seguida -tirou-lhe as ceroulas e começou, munida de uma toalha, a enxugar-lhe -todo o corpo, principiando pelas costas, passando depois ao peito e aos -sovacos, descendo logo ás nadegas, ao ventre e ás pernas, e esfregando -sempre com tamanho vigor de pulso, que era antes uma maçagem que lhe -dava; e tanto assim que o sangue do cavouqueiro se revolucionou. -</p> -<p> -E a mulher, a rir-se, lisongeada, ralhava: -</p> -<p> -—Tem juizo! Acommoda-te! Não vês que estás doente?... -</p> -<p> -Elle não insistio. Agasalhou-se de novo e pedio agua. -</p> -<p> -Piedade foi buscar o paraty. -</p> -<p> -—Bebe isto, não bebas a agua agora. -</p> -<p> -—Isto é cachaça! -</p> -<p> -—Foi a Rita que disse para te dar... -</p> -<p> -Jeronymo não precisou de mais nada para beber de um trago os dois dedos -de restillo que havia no copo. -</p> -<p> -Sobrio como era, e depois d'aquelle despendio de suor, o alcool -produzio-lhe logo de prompto o effeito voluptuoso e agradavel da -embriaguez nos que não são bebedos: um delicioso desfallecer de todo o -corpo; alguma coisa do longo espreguiçamento que antecede á -satisfação dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar por ella -algum tempo, aproxima-se afinal de nós, n'uma avidez gulosa de beijos. -Agora, no conforto da sua cama, na doce penumbra do quarto, com a roupa -fresca sobre a pelle, Jeronymo sentia-se bem, feliz por ver-se longe da -pedreira ardente e do sol caustico; ouvindo, de olhos fechados, o -rom-rom monotono da machina de massas, arfando ao longe, e o zum-zum das -lavadeiras a trabalharem, e, mais distante, um interminavel cantar de -gallos á porfia, emquanto um dobre de sinos rolava no ar, tristemente, -annunciando um defunto da parochia. -</p> -<p> -Quando Piedade chegou lá fóra, dando parte do bom resultado do -remedio, a Rita correu de novo ao quarto do doente. -</p> -<p> -—Então, que me diz agora? Sente-se ou não melhorzinho? -</p> -<p> -Elle voltou para a rapariga o seu olhar de animal prostrado e, por unica -resposta, passou-lhe o braço esquerdo na cintura e procurou com a mão -direita segurar a d'ella. Queria com isto traduzir o seu reconhecimento, -e a mulata assim o entendeu, tanto que consentiu; mal porém a sua carne -lhe tocou na carne, um desejo ardente apossou-se d'elle; uma vontade -desensoffrida de senhorear-se no mesmo instante d'aquella mulher e -possuil-a inteira, devoral-a num só hausto de luxuria, trincal-a como -um cajú. -</p> -<p> -Rita, ao sentir-se empolgar pelo cavouqueiro, escapou-lhe das garras com -um pulo. -</p> -<p> -—Olha que peste! Faça-se de tolo, que digo á sua mulher, hein? Ora -vamos lá! -</p> -<p> -Mas, como a Piedade entrava na salinha ao lado, disfarçou logo, -acrescentando n'outro tom:—Agora é tratar de dormir e mudar de roupa, -se suar outra vez. Até logo! -</p> -<p> -E sahio. -</p> -<p> -Jeronymo ouvio as suas ultimas palavras já de olhos fechados e, quando -Piedade entrou no quarto, parecia succumbido de fraqueza. A lavadeira -aproximou-se da cama do marido em ponta de pés, puxou-lhe o lençol -mais para cima do peito e afastou-se de novo, abafando os passos. Á -porta de entrada a Augusta, que fora fazer uma visita ao enfermo, -perguntou-lhe por este com um gesto interrogativo; Piedade respondeu sem -fallar, pondo a mão no rosto e vergando d'esse lado a cabeça, para -exprimir que elle agora estava dormindo. -</p> -<p> -As duas sahiram para fallar á vontade; mas, n'essa occasião, lá fóra -no pateo da estalagem, acabava de armar-se um escandalo medonho. Era o -caso que o Henriquinho da casa do Miranda ficava ás vezes á janella do -sobrado, nas horas de preguiço, entre o almoço e o jantar, entretido a -ver a Leocadia lavar, seguindo-lhe os movimentos uniformes do grosso -quadril e o tremular das redondas tetas á larga dentro do cabeção de -chita. E, quando a pilhava sozinha, fazia-lhe signaes bregeiros, piscava -lhe o olho, batendo com a mão direita aberta sobre a mão esquerda -fechada. Ella respondia, indicando com o pollegar o interior do sobrado, -como se dissesse que fosse procurar a mulher do dono da casa. -</p> -<p> -N'aquelle dia, porém, o estudante appareceu á janella, trazendo nos -braços um coelhinho todo branco, que elle na vespera arrematára n'um -leilão de festa. Leocadia cobiçou o bichinho e, correndo para o -deposito de garrafas vasias, que ficava por debaixo do sobrado, pedio -com muito empenho ao Henrique que lh'o désse. Este, sempre com o seu -systema de conversar por mimica, declarou com um gesto qual era a -condição da dadiva. -</p> -<p> -Ella meneou a cabeça affirmativamente, e elle fez-lhe signal de que o -esperasse por detraz do cortiço, no capinzal dos fundos. -</p> -<p> -A familia do Miranda havia sahido. Henrique, mesmo com a roupa de andar -em casa e sem chapéo, desceu á rua, ganhou um terreno que existia á -esquerda do sobrado e, com o seu coelho debaixo do braço, atirou-se -para o capinzal. Leocadia esperava por elle debaixo das mangueiras. -</p> -<p> -—Aqui não! disse ella, logo que o vio chegar. Aqui agora podem dar -com a gente!... -</p> -<p> -—Então onde? -</p> -<p> -—Vem cá! -</p> -<p> -E tomou á sua direita, andando ligeira e meio vergada por entre as -plantas. Henrique seguio-a no mesmo passo, sempre com o coelho -sobraçado. O calor fazia-o suar e esfogueava-lhe as faces. Ouvia-se o -martellar dos ferreiros e dos trabalhadores da pedreira. -</p> -<p> -Depois de alguns minutos, ella parou n'um lugar plantado de bambús e -bananeiras, onde havia o resto de um telheiro em ruinas. -</p> -<p> -—Aqui! -</p> -<p> -E Leocadia olhou para os lados, assegurando-se de que estavam a sós. -Henrique, sem largar o coelho, atirou-se sobre ella, que o conteve: -</p> -<p> -—Espera! preciso tirar a saia; está encharcada! -</p> -<p> -—Não faz mal! segredou elle, impaciente no seu desejo. -</p> -<p> -—Póde me vir um corrimento! -</p> -<p> -E sacou fóra a saia de lã grossa, deixando ver duas pernas, que a -camisa a custo só cobria até ao joelho, grossas, massiças, de uma -brancura levemente rósea e toda marcada de mordeduras de pulgas e -mosquitos. -</p> -<p> -—Avia-te! Anda! apressou ella, lançando-se de costas no chão e -arregaçando a fralda até á cintura; as coxas abertas. -</p> -<p> -O estudante atirou-se sofrego, sentindo-lhe a frescura da sua carne de -lavadeira, mas sem largar as pernas do coelho. -</p> -<p> -Passou-se um instante de silencio entre os dois, em que as folhas seccas -do chão rangeram e farfalharam. -</p> -<p> -Olha! pedio ella, faze-me um filho, que eu preciso alugar-me de ama de -leite... Agora estão pagando muito bem as amas! A Augusta Carne Molle, -n'esta ultima barriga, tomou conta de um pequeno ahi na casa de uma -familia de tratamento, que lhe dava setenta mil reis por mez!... E muito -bom passadio!... Sua garrafa de vinho todos os dias!... Se me arranjares -um filho dou-te outra vez o coelho! -</p> -<p> -E o pobre brutinho, cujas pernas o estudante não largava, começou a -queixar-se dos repellões que recebia cada vez mais accelerados. -</p> -<p> -—Olha que matas o bichinho! reclamou a lavadeira. Não batas assim com -elle! mas não o soltes, hein! -</p> -<p> -Ia dizer ainda alguma coisa, mas acudio-lhe o espasmo e ella fechou os -olhos e pôz-se a dar com a cabeça de um lado para outro, rilhando os -dentes. -</p> -<p> -N'isto, passos rapidos fizeram-se sentir galgando as plantas, na -direcção em que os dois estavam; e Henrique, antes de ser visto, -lobrigou a certa distancia a insociavel figura do Bruno. -</p> -<p> -Não lhe deu tempo a que se approximasse; de um salto galgou por detraz -das bananeiras e desappareceu por entre o mattagal de bambús, tão -rapido como o coelho que, vendo se livre, ganhára pela outra banda o -caminho do capinzal. -</p> -<p> -Quando o ferreiro, logo em seguida, chegou perto da mulher, esta ainda -não tinha acabado de vestir a saia molhada. -</p> -<p> -—Com quem te esfregavas tu, sua vacca?! bradou elle, a botar os bofes -pela bocca. -</p> -<p> -E, antes que ella respondesse, já uma formidavel punhada a fazia rolar -por terra. -</p> -<p> -Leocadia abrio n'um berreiro. E foi debaixo de uma chuva de bofetadas e -pontapés que acabou de amarrar a roupa. -</p> -<p> -—Agora eu vi! sabes? Nega se fores capaz! -</p> -<p> -—Vá á pata que o pôz! exclamou ella, com a cara que era um tomate. -Já lhe disse que não quero saber de você pr'a nada, seu bebado! -</p> -<p> -E, vendo que elle ia recomeçar a dansa, abaixou-se depressa, segurou -com ambas as mãos um matacão de granito que encontrou a seus pés, e -gritou, erguendo-o sobre a cabeça: -</p> -<p> -—Chega-te pr'a cá e verás se te abro aqui mesmo ou não o casco! -</p> -<p> -O ferreiro comprehendeu que ella era capaz de fazer o que dizia e -estacou livido e offegante. -</p> -<p> -—Arme a trouxa e rua! sabe? -</p> -<p> -—Olha a desgraça! Tinha de muito assentado de ir! Queria era uma -occasião! Nem preciso de você pra nada, fique sabendo! -</p> -<p> -E, para metter-lhe mais raiva, acrescentou, empinando a barriga:—Já -cá está dentro com que hei de ganhar a vida! Alugo-me de ama! Ou -pensará que todos são como você, que nem para fazer um filho serve, -diabo do sem-prestimo? -</p> -<p> -—Mas não me has de levar nada de casa! Isso te juro eu, biraia! -</p> -<p> -—Ah, descance! que não levarei nada do que é seu, nem preciso! -</p> -<p> -—Põe essa pedra no chão! -</p> -<p> -—Um corno! Eu arrumo-l'a na cabeça se te chegas pr'a cá! -</p> -<p> -—Sim, sim, sim, com tanto que te musques por uma vez! -</p> -<p> -—Pois então despache o beco! -</p> -<p> -Elle virou-lhe as costas e tornou lentamente por onde viera, de cabeça -pendida, as mãos nas algibeiras das calças, aparentando agora um -soberano desprezo pelo que se passava. -</p> -<p> -Só então foi que ella se lembrou do coelho. -</p> -<p> -—Ora gaitas! disse, endireitando-se e tomando direcção contraria á -do marido. -</p> -<p> -Este fôra d'ahi direito ao cortiço narrar, a quem quizesse ouvir, o -que se acabava de dar. O escandalo assanhou a estalagem inteira, como um -jacto de agua quente sobre um formigueiro. «Ora aquillo tinha de -acontecer mais hoje mais amanhã!—Um bello dia a casa vinha -abaixo!—A Leocadia parecia não desejar senão isso mesmo!» Mas -ninguem atinava com quem diabo pilhára o Bruno a mulher no capinzal. -Fizeram-se mil hypotheses; lembraram-se nomes e nomes, sem se chegar a -nenhum resultado satisfactorio. O Albino tentou logo arranjar a -reconciliação no casal, jurando que o Bruno estava enganado com -certeza e que vira mal. «Leocadia era uma excellente rapariga, incapaz -de tamanha safadagem!» O ferreiro tapou-lhe a bocca com uma bolacha, e -ninguem mais se metteu a congraçal-os. -</p> -<p> -Entretanto, o Bruno entrara em casa e lançava pela janella cá para -fóra tudo o que ia encontrando pertencente á mulher. Uma cadeira fez-se -pedaços contra as pedras, depois veio um candieiro de kerozene, uma -trouxa de roupa, saias e casaquinhos de chita, caixas de chapéos cheias -de trapos, uma gaiola de passaro, uma chaleira; e tudo era arremessado -com furia ao meio da área, entre o silencio commovido dos que assistiam -ao despejo. Um chim, que entrára para vender camarões e parara -distrahido perto da janella do ferreiro, levou na cabeça com uma bilha -da Bahia e berrava como criança que acaba de ser esbordoada. A Machona, -que não podia ouvir ninguem gritar mais alto do que ella, cahio-lhe em -cima aos murros e o pôz fóra do portão com tremenda descompostura. -«Era o que faltava que viesse tambem aquelle salamaleque do inferno -para azoinar uma creatura mais do que já estava!» Dona Isabel, com as -mãos crusadas sobre o ventre, tinha para aquella destruição um -profundo olhar de lastima. Augusta meneava a cabeça tristemente, sem -conceber como havia mulheres que procuravam homem, tendo um que lhes -pertencia. A Bruxa, indifferente, não interrompêra sequer o seu -trabalho; ao passo que a das Dôres, de mãos nas cadeiras, a saia pelo -meio das canellas, um cigarro no canto da boca, encarava desdenhosa a -sanha daquelle marido, tão brutal como o d'ella o fôra. -</p> -<p> -—Sempre os mesmos pedaços d'asno!... commentava franzindo o nariz. Se -a tôla da mulher só lhes procura agradar e fazer-lhes o gosto, ficam -enjoados, e, se ella não toma a sério a borracheira do casamento, dão -por páos e por pedras, como esta besta! Uma sucia, todos elles! -</p> -<p> -Florinda ria, como de tudo, e a velha Marcianna queixava-se de que lhe -respingaram kerozene na roupa estendida ao sol. N'essa occasião -justamente, um sacco de café, cheio de borra, deu duas voltas no ar e -espalhou o seu conteúdo, pintalgando de pontos negros os coradoiros. -Fez-se logo um alarido entre as lavadeiras. «Aquillo não tinha geito, -que diabo! Armavam lá as suas turras e os outros é que haviam de -aturar?!... Cebo! que os mais não estavam dispostos a supportar as -furias de cada um! Quem parira Matheos que o embalasse! Se agora, todas -as vezes que a Leocadia se fosse espojar no capinzal, o bruto do marido -tinha de sujar d'aquelle modo o trabalho da gente, ninguem mais poderia -ganhar ali a sua vida! Que espiga!» Pombinha chegára á porta do -numero 15, dando fé do barulho, com uma costura na mão, e Nênêm, -toda afogueada do ferro de engommar, perguntava, com um frouxo de riso, -se o Bruno ia reformar a mobilia da casa. A Rita fingia não ligar -importancia ao facto e continuava a lavar á sua tina. «Não faziam -tanta festa ao tal casamento? Pois que aguentassem! Ella estava bem -livre de soffrer uma d'aquellas!» O velho Liborio chegára-se, para ver -se, no meio da confusão, apanhava alguma coisa do despejo, e a Machona, -notando que o Agostinho fazia o mesmo, berrou-lhe do logar em que se -achava: -</p> -<p> -—Sae d'ahi, safado! Toca lá no quer que seja, que te arranco a pelle -do rabo! -</p> -<p> -Um irmão do santissimo entrára na estalagem, com a sua capa encarnada, -a sua vara de prata em uma das mãos, na outra a salva do dinheiro, e -parára em meio do pateo, supplicando, muito fanhoso: «Uma esmola para -a cera do Sacramento!» As mulheres abandonaram por um instante as tinas -e foram beijar devotamente a columbina imagem do Espirito Santo. -Pingaram na salva moedinhas de vintem. -</p> -<p> -Todavia, o Bruno acabava afinal de despejar o que era da mulher e sahia -de novo de casa, dando uma volta feroz á fechadura. Atravessou por -entre o murmurante grupo dos curiosos que permanecia defronte da sua -porta, mudo, com a cara fechada, jogando os braços, como quem, apezar -de ter feito muito, não satisfizera ainda completamente a sua colera. -</p> -<p> -Leocadia appareceu pouco depois e, vendo por terra tudo que era seu, -partido e inutilisado, apoderou-se de furia e avançou sobre a porta, -que o marido acabava de fechar, arremettendo com as nadegas contra as -duas folhas, que cederam logo, indo ella cahir lá dentro de barriga -para cima. -</p> -<p> -Mas ergueu-se, sem fazer caso das risadas que rebentaram cá fóra e, -escancarando a janella com arremeço, começou por sua vez a arrazar e -destruir tudo que ainda encontrara em casa. -</p> -<p> -Então principiou a verdadeira devastação. E a cada objecto que ella -varria para o pateo, gritava sempre: «Upa! Toma, diabo!» -</p> -<p> -—Ahi vae o relogio! Upa! Toma, diabo! -</p> -<p> -E o relogio espatifou-se na calçada. -</p> -<p> -—Ahi vae o alguidar! -</p> -<p> -—Ahi vae o jarro! -</p> -<p> -—Ahi vão os copos! -</p> -<p> -—O cabide! -</p> -<p> -—O garrafão! -</p> -<p> -—O bacio! -</p> -<p> -Um riso geral, communicativo, absoluto, abafava o barulho da louça -quebrando-se contra as pedras. E Leocadia já não precisava acompanhar -os objectos com a sua phrase de imprecação, porque cada um d'elles era -recebido cá fóra com um côro que berrava: -</p> -<p> -—Upa! Toma, diabo! -</p> -<p> -E a limpeza proseguia. João Romão acudio de carreira, mas ninguem se -incommodou com a presença d'elle. Já defronte da porta do Bruno havia -uma montanha de cacos accumulados; e o destroço continuava ainda, -quando o ferreiro reappareceu, vermelho como malagueta, e foi galgando a -casa, com um raio de roda de carro na mão direita. -</p> -<p> -Os circumstantes o seguiram, atropelladamente, num clamor. -</p> -<p> -—Não dá! -</p> -<p> -—Não póde! -</p> -<p> -—Prende! -</p> -<p> -—Não deixa bater! -</p> -<p> -—Larga o páo! -</p> -<p> -—Segura! -</p> -<p> -—Aguenta! -</p> -<p> -—Cérca! -</p> -<p> -—Toma o porrete! -</p> -<p> -E Leocadia escapou afinal das páoladas do marido, a quem o povaréo -desarmára num fecha-fecha. -</p> -<p> -—Ordem! Ordem! Vá de rumor! exclamava o vendeiro, a quem, -aproveitando a confusão, haviam já ferrado um pontapé por detraz. -</p> -<p> -O Alexandre, que vinha chegando do serviço n'esse momento, apressou-se -a correr para o logar do conflicto e cheio de autoridade, intimou o -Bruno a que se contivesse e deixasse a mulher em paz, sob pena de seguir -para a estação no mesmo instante. -</p> -<p> -—Pois você não vê esta gallinha, que apanhei hoje com a boca na -botija, não me vem ainda por cima dar cabo de tudo?!... interrogou o -Bruno, espumando de raiva e quasi sem folego para fallar. -</p> -<p> -—Porque você pôz em cacos o que é meu! gritou Leocadia. -</p> -<p> -—Está bom! está bom! disse o policia, procurando dar á voz -inflexões autoritarias e reconciliadoras. Falle cada um por sua vez! -Seu marido ... accrescentou elle, voltando-se para a accusada, diz que a -senhora... -</p> -<p> -—É mentira! interrompeu ella. -</p> -<p> -—Mentira?! É boa! Tinhas a saia despida e um homem por cima! -</p> -<p> -—Quem era?—Quem foi?—Quem era o homem? interrogaram todos -a um só tempo. -</p> -<p> -—Quem era elle, no fim de contas? inquirio tambem Alexandre. -</p> -<p> -—Não lhe pude ver as fuças!... respondeu o ferreiro; mas, se o -apanho, arrancava-lhe o sangue pelas costas! -</p> -<p> -Houve um côro de gargalhadas. -</p> -<p> -—É mentira! repetio Leocadia, agora succumbida por uma reacção de -lagrimas. Ha muito tempo que este malvado anda caçando pretexto para -romper commigo e, como eu não lh'o dou... -</p> -<p> -Uma explosão de soluços a interrompeu. -</p> -<p> -D'esta vez não riram, mas um bichanar de cochichos formou-se em torno -do seu pranto. -</p> -<p> -—Agora ... continuou ella, enxugando os olhos na costa da mão; não -sei o que será de mim, porque este homem, além de tudo, escangalhou-me -até o que eu trouxe quando me casei com elle!... -</p> -<p> -—Não disseste que já tinhas ahi dentro com que ganhar a vida?... E -andar! -</p> -<p> -—É falso! soluçou Leocadia. -</p> -<p> -—Bem, interveio Alexandre, embainhando o seu refle: está tudo -terminado! Seu marido vae recebel-a em boa paz... -</p> -<p> -—Eu?! esfuziou o ferreiro. Você não me conhece! -</p> -<p> -—Nem eu queria! retorquio a mulher. Prefiro metter-me com um cavallo -de tilbury a ter de aturar este bruto! -</p> -<p> -E, catando em casa alguma coisa sua que ainda havia, e recolhendo do -montão dos cacos o que lhe pareceu aproveitavel, fez de tudo uma grande -trouxa e foi chamar um carregador. -</p> -<p> -A Rita sahio-lhe ao encontro. -</p> -<p> -—Para onde vais tu?... perguntou-lhe em voz baixa. -</p> -<p> -—Não sei, filha, por ahi!... Hei de encontrar um furo!... Os cães -não vivem?... -</p> -<p> -—Espera um instante ... disse a mulata. Olha, empurra a trouxa ahi -para dentro do meu commodo.—E correndo ao Albino, que -lavava:—Passa-me no sabão aquella roupa, ouviste? E, quando Firmo -acordar, diz-lhe que precisei ir á rua. -</p> -<p> -Depois, deu um pulo ao quarto, mudou a saia molhada, atirou nos hombros -o seu chale de crochet e, batendo nas costas da campanheira, -segredou-lhe: -</p> -<p> -—Anda cá commigo! não ficarás á tôa! -</p> -<p> -E as duas sahiram, ambas sacudidas, deixando atraz de si suspensa a -curiosidade do cortiço inteiro. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="IX">IX</a></h4> - -<p> -Passaram-se semanas. Jeronymo tomava agora, todas as manhãs, uma -chicara de café bem grosso, á moda da Ritinha, e tragava dois dedos de -paraty «pr'a cortar a friagem. » -</p> -<p> -Uma transformação, lenta e profunda, operava-se n'elle, dia a dia, -hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num -trabalho mysterioso e surdo de chryzallida. A sua energia afrouxava -lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a -natureza do Brazil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e -seductores que o commoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de -ambição, para idealisar felicidades novas, picantes e violentas; -tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de -guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se -preguiçoso, resignando-se, vencido, ás imposições do sol e do calor, -muralha de fogo com que o espirito eternamente revoltado do ultimo -tamoyo entrincheirou a patria contra os conquistadores aventureiros. -</p> -<p> -E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus habitos -singelos de aldeão portuguez: e Jeronymo abrasileirou-se. A sua casa -perdeu aquelle ar sombrio e concentrado que a entristecia; já -appareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos -de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o -jantar. A revolução afinal foi completa: a aguardente de canna -substituio o vinho; a farinha de mandioca succedeu á brôa; a carne -secca e o feijão preto ao bacalháo com batatas e ceboulas cozidas; a -pimenta malagueta e a pimenta de cheiro invadiram victoriosamente a sua -mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repellidos pelos -ruivos e gostosos quitutes bahianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo -carurú; a couve á mineira desthronou a couve á portugueza; o pirão de -fubá ao pão de rala, e, desde que o café encheu a casa com o seu -aroma quente, Jeronymo principiou a achar graça no cheiro do fumo e -não tardou a fumar tambem com os amigos. -</p> -<p> -E o curioso é que, quanto mais ia elle cahindo nos usos e costumes -brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em -detrimento das suas forças physicas. Tinha agora o ouvido menos -grosseiro para a musica, comprehendia até as intenções poeticas dos -sertanejos, quando cantam á viola os seus amores infelizes; seus olhos, -d'antes só voltados para a esperança de tornar á terra, agora, como -os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céo e -mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do -Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros -illimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço, -surge um monarcha gigante, que o sol veste de oiro e ricas pedrarias -refulgentes e as nuvens toucam de alvos turbantes de cambraia, n'um luxo -oriental de arabicos principes voluptuosos. -</p> -<p> -Ao passo que com a mulher, a S'ôra Piedade de Jesus, o caso mudava -muito de figura. Essa, feita de um só bloco, compacta, inteiriça e -tapada, recebia a influencia do meio só por fóra, na maneira de viver, -conservando-se inalteravel quanto ao moral, sem conseguir, á -semelhança do esposo, afinar a sua alma pela alma da nova patria que -adoptaram. Cedia passivamente nos habitos de existencia, mas no intimo -continuava a ser a mesma colona saudosa e desconsolada, tão fiel ás -suas tradições como a seu marido. Agora estava até mais triste; -triste porque o Jeronymo fazia-se outro; triste porque não se passava -um dia que lhe não notasse uma nova transformação; triste, porque -chegava a estranhal-o, a desconhecel-o, afigurando-se-lhe até que -commettia um adulterio, quando á noite acordava assustada ao lado -d'aquelle homem que não parecia o d'ella, aquelle homem que se lavava -todos os dias, aquelle homem que aos domingos punha perfumes na barba e -nos cabellos e tinha a boca cheirando a fumo. Que pesado desgosto não -lhe apertou o coração a primeira vez em que o cavouqueiro, repellindo -o caldo que ella lhe apresentava ao jantar, disse-lhe: -</p> -<p> -—Ó filha! porque não experimentas tu fazer uns pitéos á moda de -cá?... -</p> -<p> -—Mas é que não sei ... balbuciou a pobre mulher. -</p> -<p> -—Pede então á Rita que t'o ensine... Aquillo não terá muito -q'aprender! Vê se me fazes por arranjar uns camarões, como ella -preparou aquelles d'outro dia. Souberam-me tão bem! -</p> -<p> -Este resvalamento do Jeronymo para as coisas do Brasil, penalisavam -profundamente a infeliz creatura. Era ainda o instincto feminil que lhe -fazia prever que o marido, quando estivesse de todo brasileiro, não a -quereria para mais nada e havia de reformar a cama, assim como reformou -a mesa. -</p> -<p> -Jeronymo, com effeito, pertencia-lhe muito menos agora do que d'antes. -Mal se chegava para ella; os seus carinhos eram frios e distrahidos, -dados como por condescendencia; já lhe não affagava os rins, quando os -dois ficavam a sós, malucando na sua vida commum; agora nunca era elle -que a procurava para o matrimonio, nunca; se ella sentia necessidade do -marido, tinha de provocal-o. E, uma noite, Piedade ficou com o coração -ainda mais apertado, porque elle, a pretexto de que no quarto fazia -muito calor, abandonou a cama e foi deitar-se no sofá da salinha. Desde -esse dia não dormiram mais ao lado um do outro. O cavouqueiro arranjou -uma rede e armou-a defronte da porta de entrada, tal qual como havia em -casa da Rita. -</p> -<p> -Uma outra noite a coisa ainda foi peior. Piedade, certa de que o marido -não se chegava, foi ter com elle; Jeronymo fingio-se indisposto, -negou-se, e terminou por dizer-lhe, repellindo-a brandamente: -</p> -<p> -—Não te queria fallar, mas ... sabes? deves tomar banho todos os dias -e ... mudar de roupa... Isto aqui não é como lá! Isto aqui sua-se -muito! É preciso trazer o corpo sempre lavado, que senão cheira-se -mal!... Tem paciencia! -</p> -<p> -Ella desatou a soluçar. Foi uma explosão de resentimentos e desgostos -que se tinham accumulado no seu coração. Todas as suas magoas -rebentaram n'aquelle momento. -</p> -<p> -—Agora estás tu a chorar! Ora, filha, deixa-te disso! Ella continuou -a soluçar, sem folego, dando arfadas com todo o corpo. -</p> -<p> -O cavouqueiro, acrescentou no fim de um intervallo: -</p> -<p> -—Então que é isto, mulher? Pôes-te agora a fazer tamanho escarcéo, -nem que se cuidasse de coisa séria! -</p> -<p> -Piedade desabafou: -</p> -<p> -—E que já não me queres! Já não és o mesmo homem para mim! D'antes -não me achavas que pôr, e agora até já te cheiro mal! -</p> -<p> -E os soluços recrudesciam. -</p> -<p> -—Não digas asnices, filha! -</p> -<p> -—Ah! eu bem sei o que isto é!... -</p> -<p> -—É bobagem tua, é o que é! -</p> -<p> -—Maldita hora em que viemos dar ao raio d'esta estalagem! Antes me -tivéra cahido um calháo na cabeça! -</p> -<p> -—Estás a queixar-te da sorte sem razão! Que Deus te não castigue! -</p> -<p> -Esta resinga chamou outras que, com o correr do tempo, se foram -amiudando. Ah! já não havia duvida que mestre Jeronymo andava meio -cahido para o lado da Rita Bahiana; não passava pelo numero 9, sempre -que vinha á estalagem durante o dia, que não parasse á porta um -instante, para perguntar-lhe pela «saúdinha». O facto de haver a -mulata lhe offerecido o remedio, quando elle esteve incommodado, foi -pretexto para lhe fazer presentes amaveis, pôr os seus prestimos á -disposição d'ella e obsequial-a em extremo todas as vezes que a -visitava. Tinha sempre qualquer coisa para saber da sua boca, a respeito -da Leocadia, por exemplo; pois, desde que a Rita se arvorara em -protectora da mulher do ferreiro, Jeronymo affectava grande interesse -pela «pobrezinha de Christo.» -</p> -<p> -—Fez bem, 'nhá Rita, fez bem!... A se'ora mostrou com isso que tem -bom coração... -</p> -<p> -—Ah, meu amigo, n'este mundo hoje por mim, amanhã por ti!... -</p> -<p> -Rita havia aboletado a amiga, a principio em casa de umas engommadeiras -do Catette, muito suas camaradas; depois passou-a para uma familia, a -quem Leocadia se alugou como ama secca; e agora sabia que ella acabava -de descobrir um bom arranjo n'um collegio de meninas. -</p> -<p> -—Muito bem! muito bem! applaudia Jeronymo. -</p> -<p> -—Ora, o que! O mundo é largo! sentenciou a Bahiana! Ha logar pr'o -gordo e ha logar pr'o magro! Bem tolo é quem se mata! -</p> -<p> -Em uma das vezes em que o cavouqueiro perguntou-lhe, como de costume, -pela pobrezinha de Christo, a mulata disse que Leocadia estava gravida. -</p> -<p> -—Gravida? mas então não é do marido!... -</p> -<p> -—Póde bem ser que sim. Barriga de quatro mezes... -</p> -<p> -—Ah! mas ella não foi ha mais tempo do que isso?... -</p> -<p> -—Não. Vae fazer agora pelo São João quatro mezes justamente. -</p> -<p> -Jeronymo já nunca pegava na guitarra senão para procurar acertar com -as modinhas que a Rita cantava. Em noites de samba era o primeiro a -chegar-se e o ultimo a ir embora; e durante o pagode ficava de queixo -bambo, a ver dansar a mulata, abstracto, pateta, esquecido de tudo; -babão. E ella, consciente do feitiço que lhe punha, ainda mais se -requebrava e remexia, dando-lhe embigadas ou fingindo que lhe limpava a -baba no queixo com a barra da saia. -</p> -<p> -E riam-se. -</p> -<p> -Não! definitivamente estava cahido! -</p> -<p> -Piedade agarrou-se com a Bruxa para lhe arranjar um remedio que lhe -restituisse o seu homem. A cabocla velha fechou-se com ella no quarto, -accendeu vélas de cêra, queimou hervas aromaticas e tirou a sorte nas -cartas. -</p> -<p> -E, depois de um jogo complicado de reis, valetes e damas, que ella -dispunha sobre a mesa caprichosamente, a resmungar a cada figura que -sahia do baralho uma phrase cabalistica, declarou convicta, muito calma, -sem tirar os olhos das suas cartas: -</p> -<p> -—Elle tem a cabeça virada por uma mulher trigueira. -</p> -<p> -—É o diacho da Rita Bahiana! exclamou a outra. Bem cá me palpitava -por dentro! Ai, o meu rico homem! -</p> -<p> -E a chorar, limpando, afflicta, as lagrimas no avental de canhamo, -supplicou á Bruxa, pelas alminhas do purgatorio, que lhe remediasse -tamanha desgraça. -</p> -<p> -—Ai, se perco aquella creatura, S'ôra Paula, lamuriou a infeliz entre -soluços; nem sei que virá a ser de mim n'este mundo de Christo!... -Ensine-me alguma coisa que me puxe o Jeromo! -</p> -<p> -A cabocla disse-lhe que se banhasse todos os dias e désse a beber ao -seu homem, no café pela manhã, algumas gottas das aguas da lavagem; e, -se no fim de algum tempo, este regimen não produzisse o desejado -effeito, então cortasse um pouco dos cabellos do corpo, torrasse-os -até os reduzir a pó e lh'os ministrasse depois na comida. -</p> -<p> -Piedade ouvio a receita com um silencio respeitoso e attento, o ar -compungido de quem recebe do medico uma sentença dolorosa para um -doente que estimamos. Em seguida, metteu na mão da feiticeira uma moeda -de prata, promettendo dar-lhe coisa melhor se o remedio tivesse bons -resultados. -</p> -<p> -Mas não era só a portugueza quem se mordia com o descahimento do -Jeronymo para a mulata, era tambem o Firmo. Havia muito já que este -andava com a pulga atraz da orelha e, quando passava perto do -cavouqueiro, olhava-o atravessado. -</p> -<p> -O capadocio ia dormir todas as noites com a Rita, mas não morava na -estalagem; tinha o seu commodo na officina em que trabalhava. Só pelos -domingos é que ficavam juntos durante o dia e então não relaxavam o -seu jantar de pandega. Uma vez em que elle gazéara o serviço, o que -não era raro, foi vel-a fóra das horas do costume e encontrou-a a -conversar junto á tina com o portuguez. Passou sem dizer palavra e -recolheu-se ao numero 9, onde ella foi logo ter de carreira. Firmo não -lhe disse nada a respeito das suas apprehensões, mas tambem não -escondeu o seu máo-humor; esteve impertinente e resingueiro toda a -tarde. Jantou de cara amarrada e durante o paraty, depois do café, só -fallou em rôlos, em dar cabeçadas e navalhadas, pintando-se terrivel, -recordando façanhas de capoeiragem, nas quaes sangrára taes e taes -typos de fama; «não contando dois gallegos que mandara pr'ás -minhocas, porque isso para elle não era gente!—Com um par de cocadas -boas ficavam de pés unidos pra sempre!» Rita percebeu os ciumes do -amigo e fez que não dera por coisa alguma. -</p> -<p> -No dia seguinte, ás seis horas da manhã, quando elle sahia da casa -d'ella, encontrou-se com o portuguez, que ia para o trabalho, e o olhar -que os dois trocaram entre si era já um cartel de desafio. Entretanto, -cada qual seguio em silencio para o seu lado. -</p> -<p> -Rita deliberou prevenir Jeronymo de que se acautelasse. Conhecia bem o -amante e sabia de quanto era elle capaz sob a influencia dos ciumes; -mas, na occasião em que o cavouqueiro desceu para almoçar, um novo -escandalo acabava de explodir, agora no numero 12, entre a velha -Marcianna e sua filha Florinda. -</p> -<p> -Marcianna andava já desconfiada com a pequena, porque o fluxo mensal -d'esta se desregrára havia tres mezes, quando, n'esse dia, não tendo -as duas acabado ainda o almoço, Florinda se levantou da meza e foi de -carreira para o quarto. A velha seguio-a. A rapariga fôra vomitar ao -bacio. -</p> -<p> -—Que é isto?... perguntou-lhe a mãe, apalpando-a toda com um olhar -inquiridor. -</p> -<p> -—Não sei, mamãe... -</p> -<p> -—Que sentes tu?... -</p> -<p> -—Nada... -</p> -<p> -—Nada, e estás lançando?... Hein?! -</p> -<p> -—Não sinto nada, não senhora!... -</p> -<p> -A mulata velha aproximou-se, desatou-lhe violentamente o vestido, -levantou-lhe as saias e examinou-lhe todo o corpo, tacteando-lhe o -ventre, já zangada. Sem obter nenhum resultado das suas diligencias, -correu a chamar a Bruxa, que era mais que entendida no assumpto. A -cabocla, sem se alterar, largou o serviço, enxugou os braços no -avental, e foi ao numero 12; tenteou de novo a mulatinha, fez-lhe varias -perguntas e mais á mãe, e depois disse friamente: -</p> -<p> -—Está de barriga. -</p> -<p> -E afastou-se, sem um gesto de surpreza, nem de censura. -</p> -<p> -Marcianna, tremula de raiva, fechou a porta da casa, guardou a chave no -seio e, furiosa, cahio aos murros em cima da filha. Esta, em balde -tentando escapar-lhe, berrava como uma louca. -</p> -<p> -Abandonaram-se logo todas as tinas do pateo e algumas das mezas do -frege, e o populacho, curioso e alvoroçado, precipitou-se para o numero -12, batendo na porta e ameaçando entrar pela janella. -</p> -<p> -Lá dentro, a velha escarranchada sobre a rapariga que se debatia no -chão, perguntava-lhe gritando e repetindo: -</p> -<p> -—Quem foi?! Quem foi?! -</p> -<p> -E de cada vez desfechava-lhe um sopapo pelas ventas. -</p> -<p> -—Quem foi?! -</p> -<p> -A pequena berrava, mas não respondia. -</p> -<p> -—Ah! não queres dizer por bem? Ora espera! -</p> -<p> -E a velha ergueu-se para apanhar a vassoura ao canto da sala. -</p> -<p> -Florinda, vendo imminente o cacete, levantou-se de um pulo, ganhou a -janella e cahio de um salto lá fóra, entre o povo amotinado. Coisa de -uns nove palmos de altura. -</p> -<p> -As lavadeiras a apanharam, cuidando em defendel-a da mãe, que surgio -logo á porta, ameaçando para o grupo, terrivel e armada de páo. -</p> -<p> -Todos procuraram chamal-a á razão: -</p> -<p> -—Então que é isso, tia Marcianna?! Então que é isso?! -</p> -<p> -—Que é isto?! É que esta assanhada está de barriga! Está ahi o que -é! Para tanto não lhe faltou geito, nem foi preciso que a gente -andasse atraz d'ella se matando, como succede sempre que ha um pouco -mais de serviço e é necessario puxar pelo corpo! Ora está ahi o que -é! -</p> -<p> -—Bem, disse a Augusta, mas não lhe bata agora, coitada! Assim você -lhe dá cabo da pelle! -</p> -<p> -—Não! Eu quero saber quem lhe encheu o bandulho! E ella ha de dizer -quem foi ou quebro-lhe os ossos! -</p> -<p> -—Então, Florinda, diz logo quem foi... É melhor! aconselhou a das -Dôres. -</p> -<p> -Fez-se em torno da rapariga um silencio avido, cheio de curiosidade. -</p> -<p> -—Estão vendo?... exclamou a mãe. Não responde, este diabo! Mas -esperem, que eu lhes mostro se ella falla ou não! -</p> -<p> -E as lavadeiras tiveram de agarrar-lhe os braços e tirar-lhe o cacete, -porque a velha queria crescer de novo para a filha. -</p> -<p> -Ao redor d'esta a curiosidade assanhava-se cada vez mais. Estalavam -todos por saber quem a tinha emprenhado «Quem foi?! Quem foi?!» esta -phrase apertava-a num torniquete. Afinal, não houve outro remedio: -</p> -<p> -—Foi seu Domingos ... disse ella, chorando e cobrindo o rosto com a -fralda do vestido, rasgado na lucta. -</p> -<p> -—O Domingos!... -</p> -<p> -—O caixeiro da venda!... -</p> -<p> -—Ah! foi aquelle cara de nabo? gritou Marcianna. Vem cá! -</p> -<p> -E, agarrando a filha pela mão, arrastou-a até a venda. -</p> -<p> -Os circumstantes acompanharam-na ruidosamente e de carreira. -</p> -<p> -A taverna, como a casa de pasto, ferviam de concurrencia. -</p> -<p> -Ao balcão d'aquella, o Domingos e o Manoel aviavam os freguezes, numa -roda viva. Havia muitos negros e negras. O barulho era enorme. A Leonor -lá estava, sempre aos pulos, mexendo com um, mexendo com outro, -mostrando a dupla fila de dentes brancos e grandes, e levando apalpões -rudes de mãos de couro nas suas magras e escorridas nadegas de negrinha -virgem. Tres marujos inglezes bebiam gengibirra, cantando, ebrios, na -sua lingua e mascando tabaco. -</p> -<p> -Marcianna na frente do grande grupo e sem largar o braço da filha, que -a seguia como um animal puxado pela colleira, ao chegar á porta lateral -da venda, berrou: -</p> -<p> -—Ó seu João Romão! -</p> -<p> -—Que temos lá? perguntou de dentro o vendeiro, atrapalhado de -serviço. -</p> -<p> -Bertoleza, com uma grande colher de zinco gottejante de gordura, -appareceu á porta, muito ensebada e suja de tisna; e, ao ver tanta -gente reunida, gritou para seu homem: -</p> -<p> -—Corre aqui, seu João, que não sei o que houve! -</p> -<p> -Elle veio afinal. -</p> -<p> -Que diabo era aquillo? -</p> -<p> -—Venho entregar-lhe esta perdida! Seu caixeiro a cobrio, deve tomar -conta d'ella! -</p> -<p> -João Romão ficou perplexo. -</p> -<p> -—Hein?! Que é lá isso?! -</p> -<p> -—Foi o Domingos! disseram muitas vozes. -</p> -<p> -—Ó seu Domingos! -</p> -<p> -O caixeiro respondeu: «Senhor...» com uma voz de delinquente. -</p> -<p> -—Chegue cá! -</p> -<p> -E o criminoso apresentou-se, livido de morte. -</p> -<p> -—Que fez você com esta pequena? -</p> -<p> -—Não fiz nada, não senhor!... -</p> -<p> -—Foi elle, sim! desmentio-o a Florinda.—O caixeiro desviou os -olhos, para a não encarar.—Um dia de manhãzinha, ás quatro horas, no -capinzal, debaixo das mangueiras... -</p> -<p> -O mulherio em massa recebeu estas palavras com um coro de gargalhadas. -</p> -<p> -—Então o senhor anda-me aqui a fazer conquistas, hein?!... disse o -patrão, meneando a cabeça. Muito bem! Pois agora é tomar conta da -fazenda e, como não gosto de caixeiros amigados, póde procurar arranjo -n'outra parte!... -</p> -<p> -Domingos não respondeu patavina; abaixou o rosto e retirou-se -lentamente. -</p> -<p> -O grupo das lavadeiras e dos curiosos derramou-se então pela venda, -pelo portão da estalagem, pelo frege, por todos os lados, repartindo-se -em pequenos magotes que discutiam o facto. Principiaram os commentarios, -os juizos pró e contra o caixeiro; fizeram-se prophecias. -</p> -<p> -Entretanto, Marcianna, sem largar a filha, invadira a casa de João -Romão e perseguia o Domingos que preparava já a sua trouxa. -</p> -<p> -—Então? perguntou-lhe. Que tenciona fazer? -</p> -<p> -Elle não deu resposta. -</p> -<p> -—Vamos! vamos! falle! desembuche! -</p> -<p> -—Ora lixe-se! resmungou o caixeiro; agora muito vermelho de colera. -</p> -<p> -—Lixe-se, não!... Mais de vagar com o andôr! Você ha de casar: ella -é menor! -</p> -<p> -Domingos soltou uma palavrada, que enfureceu a velha. -</p> -<p> -—Ah, sim?! bradou esta. Pois veremos! -</p> -<p> -E despejou da venda, gritando para todos: -</p> -<p> -—Sabe? O cara de nabo diz que não casa! -</p> -<p> -Esta phrase produzio o effeito de um grito de guerra entre as -lavadeiras, que se reuniram de novo, agitadas por uma grande -indignação. -</p> -<p> -—Como, não casa?!... -</p> -<p> -—Era só o que faltava! -</p> -<p> -—Tinha graça! -</p> -<p> -—Então mais ninguem póde contar com a honra de sua filha? -</p> -<p> -—Se não queria casar pr'a que fez mal? -</p> -<p> -—Quem não póde com o tempo não inventa modas! -</p> -<p> -—Ou elle casa ou sáe d'aqui com os ossos em sôpa! -</p> -<p> -—Quem não quer ser lobo não lhe vista a pelle! -</p> -<p> -A mais empenhada n'aquella reparação era a Machona, e a mais indignada -com o facto era Dona Isabel. A primeira corrêra á frente da venda, -disposta a segurar o culpado, se este tentasse fugir. Com o seu exemplo -não tardou que em cada porta, por onde era possivel uma escapula, se -postassem as outras de sentinella, formando grupos de tres e quatro. E, -no meio de crescente algazarra, ouviam-se pragas ferozes e ameaças: -</p> -<p> -—Das Dôres! toma cuidado, que o patife não espirre por ahi! -</p> -<p> -—Ó seu João Romão, se o homem não casa, mande nol-o pra cá! Temos -ainda algumas pequenas que lhe convêm! -</p> -<p> -—Mas onde está esse ordinario?! -</p> -<p> -—Saia o canalha! -</p> -<p> -—Está fazendo a trouxa! -</p> -<p> -—Quer escapar! -</p> -<p> -—Não deixa sahir! -</p> -<p> -—Chama a policia! -</p> -<p> -—Onde está o Alexandre? -</p> -<p> -E ninguem mais se entendia. Á vista d'aquella agitação, o vendeiro -foi ter com o Domingos. -</p> -<p> -—Não saia agora, ordenou-lhe. Deixe-se ficar por emquanto. Logo mais -lhe direi o que deve fazer. -</p> -<p> -E chegando a uma das portas que davam para a estalagem, gritou: -</p> -<p> -—Vá de rumor! Não quero isto aqui! É safar! -</p> -<p> -—Pois então o homem que case! responderam. -</p> -<p> -—Ou dê-nos pr'a cá o patife! -</p> -<p> -—Fugir é que não! -</p> -<p> -—Não foge! não deixa fugir! -</p> -<p> -—Ninguem se arrede! -</p> -<p> -E, como a Marcianna lhe lançasse uma injuria mais fórte, ameaçando-o -com o punho fechado, o taverneiro jurou que se ella insistisse com -desaforos, a mandaria jogar lá fóra, junto com a filha, por um urbano. -</p> -<p> -—Vamos! Vamos! Volte cada uma para a sua obrigação, que eu não posso -perder tempo! -</p> -<p> -—Ponha-nos então pr'a cá o homem! exigio a mulata velha. -</p> -<p> -—Venha o homem! acompanhou o côro. -</p> -<p> -—É preciso dar-lhe uma lição! -</p> -<p> -—O rapaz casa! disse o vendeiro com ar sisudo. Já lhe fallei... Está -perfeitamente disposto! E, se não casar, a pequena terá o seu dote! -Vão descansados; respondo por elle ou pelo dinheiro! -</p> -<p> -Estas palavras apaziguaram os animos; o grupo das lavadeiras afrouxou; -João Romão recolheu-se: chamou de parte o Domingos e disse-lhe que -não arredasse pé de casa antes de noite fechada. -</p> -<p> -—No mais ... acrescentou; póde tratar de vida nova! Nada o prende -aqui. Estamos quites. -</p> -<p> -—Como? se o senhor ainda não me fez as contas?!... -</p> -<p> -—Contas? Que contas? O seu saldo não chega para pagar o dote da -rapariga!... -</p> -<p> -—Então eu tenho de pagar um dote?!... -</p> -<p> -—Ou casar... Ah, meu amigo, este negocio de tres vintens é assim! -Custa dinheiro! Agora, se você quizer, vá queixar-se á policia... -Está no seu direito! Eu me explicarei em juizo!... -</p> -<p> -—Com que, não recebo nada?... -</p> -<p> -—E não principie com muita coisa, que lhe fecho a porta e deixo-o -ficar ás turras lá fóra com esses damnados! Você bem vio como estão -todos a seu respeito! E, se ha pouco não lhe arrancaram os figados, -agradeça-o a mim! Foi preciso prometter dinheiro e tenho de cahir com -elle, de certo! mas não é justo, nem eu admitto, que saia da minha -algibeira, porque não estou disposto a pagar os caprichos de ninguem, e -muito menos dos meus caixeiros! -</p> -<p> -—Mas... -</p> -<p> -—Basta! Se quizer, por muito favor, ficar aqui até á noite, ha de -ficar calado; ao contrario, rua! -</p> -<p> -E afastou-se. -</p> -<p> -Marcianna resolveu não ir ao sub-delegado, sem saber que providencias -tomaria o vendeiro. Esperaria até ao dia seguinte «para ver só!» O -que n'esse ella fez foi dar uma boa lavagem na casa e arrumal-a muitas -vezes, como costumava, sempre que tinha lá as suas zangas. -</p> -<p> -O escandalo não deixou de ser, durante o dia, discutido um só -instante. Não se fallava n'outra coisa; tanto que, quando, já á -noite, Augusta e Alexandre receberam uma visita da comadre, a Leonie, -era ainda esse o principal assumpto das conversas. -</p> -<p> -Leonie, com as suas roupas exageradas e barulhentas de cocote á -franceza, levantava rumor quando lá ia e punha expressões de assombro -em todas as caras. O seu vestido de seda côr de aço, enfeitado de -encarnado sangue de boi, curto, petulante, mostrando uns sapatinhos á -moda com um salto de quatro dedos de altura; as suas luvas de vinte -botões que lhe chegavam até aos sovacos; a sua sombrinha vermelha, -sumida n'uma nuvem de rendas côr de rosa e com um grande cabo cheio de -arabescos extravagantes; o seu pantafaçudo chapéo de immensas abas -forradas de veludo escarlate, com um passaro inteiro grudado á copa; -as suas joias caprichosas, scintillantes de pedras finas: os seus labios -pintados de carmim; suas palpebras tingidas de violeta; o seu cabello -artificialmente loiro; tudo isto contrastava tanto com as vestimentas, -os costumes e as maneiras d'aquella pobre gente, que de todos os lados -surgiam olhos curiosos a espreital-a pela porta da casinha do Alexandre; -Augusta, ao ver a sua pequena, a Jujú, como vinha tão embonecada e -catita, ficou com os d'ella arrazados d'agoa. -</p> -<p> -Leonie trazia sempre muito bem calçada e vestida a afilhada, levando o -capricho ao ponto de lhe mandar talhar a roupa da mesma fazenda com que -fazia as suas e pela mesma costureira; arranjava-lhe chapéos -escandalosos como os d'ella e dava-lhe joias. Mas, n'aquelle dia, a -grande novidade que Jujú apresentava era estar de cabellos loiros, -quando os tinha castanhos por natureza. Foi caso para uma revolução na -estalagem; a noticia correu logo de numero a numero, e muitos moradores -se abalaram do commodo para ver a filhita da Augusta «com cabellos de -franceza.» -</p> -<p> -Tal successo pôz Leonie radiante de alegria. Aquella afilhada era o seu -luxo, a sua originalidade, a coisa boa da sua vida de cansaços -depravados; era o que aos seus proprios olhos a resgatava das -abjecções do officio. Prostituta de casa aberta, presava todavia com -admiração e respeito a honestidade vulgar da comadre; sentia-se -honrada com a sua estima; cobria-a de obsequios de toda a especie. Nos -instantes que estava ali, entre aquelles seus amigos simplorios, que a -matariam de ridiculo em qualquer outro logar, nem ella parecia a mesma, -pois até os olhos lhe mudavam de expressão. E não queria -preferencias: assentava-se no primeiro banco, bebia agoa pela caneca de -folha, tomava ao collo o pequenito da comadre e, ás vezes, descalçava -os sapatos para enfiar os chinellos velhos que encontrasse debaixo da -cama. -</p> -<p> -Não obstante, o acatamento que lhe votavam Alexandre e a mulher não -tinha limites; pareciam capazes dos maiores sacrificios por ella. -Adoravam-na. Achavam-na boa de coração como um anjo, e muito linda nas -suas roupas de espavento, com o seu rostinho redondo, malicioso e -petulante, onde reluziam dentes mais alvos que um marfim. -</p> -<p> -Jujú, com um embrulho de balas em cada mão, era carregada de casa em -casa, passando de braço a braço e levada de bocca em bocca, como um -idolo milagroso, que todos queriam beijar. -</p> -<p> -E os elogios não cessavam: -</p> -<p> -—Rica pequena!... -</p> -<p> -—É um enlevo olhar a gente pr'o demoninho! -</p> -<p> -—É mesmo uma lindeza de criança! -</p> -<p> -—Uma criaturinha dos anjos! -</p> -<p> -—Uma boneca franceza! -</p> -<p> -—Uma menina Jesus! -</p> -<p> -O pai acompanhava-a commovido, mas solemne sempre, parando a todo -momento, como em procissão, á espera que cada qual desafogasse por sua -vez o enthusiasmo pela criança. Silenciosamente risonho, com os olhos -humidos, patenteava em todo o seu carão mulato, de bigode que parecia -postiço, um ar condolente e estupido de um profundo reconhecimento por -aquella fortuna, que Deus lhe dera á filha, enviando-lhe dos ceus o -ideal das madrinhas. -</p> -<p> -E, emquanto Jujú percorria a estalagem, conduzida em triumpho, Leonie -na casa da comadre, cercada por uma roda de lavadeiras e crianças, -discreteava sobre assumptos sérios, fallando compassadamente, cheia de -inflexões de pessoa pratica e ajuisada, condemnando máos actos e -desvarios, applaudindo a moral e a virtude. E aquellas mulheres, aliás -tão alegres e vivazes, não se animavam, defronte d'ella, a rir nem -levantar a voz, e conversavam a medo, cochichando, a tapar a bocca com a -mão, tolhidas de respeito pela cocote, que as dominava na sua -sobranceria de mulher loira vestida de seda e coberta de brilhantes. A -das Dôres sentio-se orgulhosa, quando Leonie lhe pousou no hombro a -mãozinha enluvada e rescendente, para lhe perguntar pelo seu homem. -E não se fartavam de olhar para ella, de admiral-a; chegavam a -examinar-lhe a roupa, revistar-lhe as saias, apalpar-lhe as meias, -levantando-lhe o vestido, com exclamações de assombro á vista de -tanto luxo de rendas e bordados. A visita sorria, por sua vez commovida. -Piedade declarou que a roupa branca da madama era rica nem como a da -Nossa Senhora da Penha. E Nênêm, no seu enthusiasmo, disse que a -invejava do fundo de coração, ao que a mãe lhe observou que não -fosse besta. O Albino contemplava-a em extasis, de mão no queixo, o -cotovelo no ar. A Rita Bahiana levára-lhe um ramalhete de rosas. Esta -não se illudia com a posição da loureira, mas dava-lhe apreço talvez -por isso mesmo e, em parte, porque a achava deveras bonita. «Ora! era -preciso ser bem esperta e valer muito para arrancar assim da pelle dos -homens ricos aquella porção de joias e todo aquelle luxo de roupa por -dentro e por fóra!» -</p> -<p> -—Não sei, filha! pregava depois a mulata, no pateo, a uma -companheira; seja assim ou assado, a verdade é que ella passa muito bem -de bocca e nada lhe falta: sua boa casa; seu bom carro para passeiar á -tarde; theatro toda a noite; bailes quando quer e, aos domingos, -corridas, regatas, pagodes fóra da cidade e dinheirama grossa para -gastar á farta! Emfim, só o que afianço é que esta não está -sujeita, como a Leocadia e outras, a pontapés e cachações de um bruto -de marido! É dona das suas acções! livre como o lindo amor! Senhora -do seu corpinho, que ella só entrega a quem muito bem lhe der na -veneta! -</p> -<p> -—E Pombinha?... perguntou a visita. Não me appareceu ainda!... -</p> -<p> -—Ah! esclareceu Augusta. Não está ahi, foi á sociedade de dansa com -a mãe. -</p> -<p> -E, como a outra mostrasse na cara não ter comprehendido, explicou que a -filha de Dona Isabel ia todas as terças, quintas e sabbados, mediante -dois mil reis por cada noite, servir de dama n'uma sociedade em que os -caixeiros do commercio aprendiam a dansar. -</p> -<p> -—Foi lá que ella conheceu o Costa... acrescentou. -</p> -<p> -—Que Costa? -</p> -<p> -—O noivo! Então a Pombinha já não foi pedida? -</p> -<p> -—Ah, sei... -</p> -<p> -E a cocote perguntou depois, abafando a voz: -</p> -<p> -—E aquillo?... Já veio afinal?... -</p> -<p> -—Qual! Não é por falta de boa vontade da parte d'ellas, coitadas! -Agora mesmo a velha fez uma nova promessa á Nossa Senhora da -Annunciação ... mas não ha meio! -</p> -<p> -D'ahi a pouco, Augusta apresentou-lhe uma chicara de café, que Leonie -recusou por não poder beber. «Estava em uso de remedios...» Não -disse porém quaes eram estes, nem para que molestia os tomava. -</p> -<p> -—Prefiro um copo de cerveja, declarou ella. -</p> -<p> -E, sem dar tempo a que se oppuzessem, tirou da carteira urna nota de dez -mil reis, que deu a Agostinho para ir buscar tres garrafas de Carls -Berg. -</p> -<p> -Á vista dos copos, liberalmente cheios, formou-se um silencio -enternecido. A cocote distribuio-os por sua propria mão aos -circumstantes, reservando um para si. Não chegavam. Quiz mandar buscar -mais; não lh'o permittiram, objectando que duas e tres pessoas podiam -beber juntas. -</p> -<p> -—Para que gastar tanto?... Que alma grande! -</p> -<p> -O troco ficou esquecido, de proposito, sobre a commoda, entre uma -infinita quinquilharia de coisas velhas e bem tratadas. -</p> -<p> -—Quando você, comadre, agora me apparece por lá?... quiz saber -Leonie. -</p> -<p> -—Pr'a semana, sem falta; levo-lhe toda a roupa. Agora, se a comadre -tem precisão de alguma ... póde-se apromptar com mais pressa... -</p> -<p> -—Então é bom mandar-me toalhas e lençóes... Camisas de dormir, é -verdade! tambem tenho poucas. -</p> -<p> -—Depois d'amanhã está tudo lá. -</p> -<p> -E a noite ia se passando. Deram dez horas. Leonie, impaciente já pelo -rapaz que ficára de ir buscal-a, mandou ver se elle por acaso estaria -no portão, á espera. -</p> -<p> -—E aquelle mesmo que veio da outra vez com a comadre?... -</p> -<p> -—Não. É um mais alto. De cartola branca. -</p> -<p> -Correu muita gente até á rua. O rapaz não tinha chegado ainda. Leonie -ficou contrariada. -</p> -<p> -—Imprestavel!... resmungou. Faz-me ir sozinha por ahi ou incommodar -alguem que me acompanhe! -</p> -<p> -—Porque a comadre não dorme aqui?... lembrou Augusta. Se quizer, -arranja-se tudo! Não passará bem como em sua casa, mas uma noite corre -depressa!... -</p> -<p> -Não! não era possivel! Precisava estar em casa essa noite: no dia -seguinte pela manhã iriam procural-a muito cedo. -</p> -<p> -N'isto chegou Pombinha com Dona Isabel. Disseram-lhes logo á entrada -que Leonie estava em casa do Alexandre, e a menina deixou a mãe um -instante no numero 15 e seguio sozinha para ali, radiante de alegria. -Gostavam-se muito uma da outra. A cocote recebeu-a com exclamações de -agrado e beijou-a nos dentes e nos olhos repetidas vezes. -</p> -<p> -—Então, minha flôr, como está essa lindeza? perguntou-lhe, mirando-a -toda. -</p> -<p> -—Saudades suas ... respondeu a moça, rindo bonito na sua bocca ainda -pura. -</p> -<p> -E uma conversa amiga, cheia de interesse para ambas, estabeleceu-se, -isolando-as de todas as outras. Leonie entregou á Pombinha uma medalha -de prata que lhe trouxéra; uma tetéia que valia só pela exquisitice, -representando uma fatia de queijo com um camondongo em cima. Correu logo -de mão em mão, levantando espantos e gargalhadas. -</p> -<p> -—Por um pouco que não me apanhas ... continuou a cocote na sua -conversa com a menina. Se a pessoa que me vem buscar tivesse chegado -já, eu estaria longe.—E mudando de tom, a acarinhar-lhe os -cabellos:—Porque não me appareces?... Não tens que receiar: minha -casa é muito socegada... Já lá tem ido familias!... -</p> -<p> -—Nunca vou á cidade... É raro! suspirou Pombinha. -</p> -<p> -—Vai amanhã com tua mãe; jantam as duas commigo... -</p> -<p> -—Se mamãe deixar... Olha! ella ahi vem. Peça. -</p> -<p> -Dona Isabel prometteu ir, não no dia seguinte, mas no outro immediato, -que era domingo. E a palestra durou animada até que chegou, d'ahi a um -quarto de hora, o rapaz por quem esperava Leonie. Era um moço de vinte -e poucos annos, sem emprego e sem fortuna, mas vestido com esmero e -muito bem apessoado. A cocote, logo que o vio approximar-se, disse -baixinho á menina: -</p> -<p> -—Não é preciso que elle saiba que vais lá domingo, ouviste? -</p> -<p> -Jujú dormia. Resolveram não acordal-a; iria no dia seguinte. -</p> -<p> -Na occasião em que Leonie partia pelo braço do amante, acompanhada -até ao portão por um sequito de lavadeiras, a Rita, no pateo, beliscou -a coxa do Jeronymo e soprou-lhe á meia voz: -</p> -<p> -—Não lhe cáia o queixo!... -</p> -<p> -O cavouqueiro teve um desdenhoso sacudir d'hombros. -</p> -<p> -—Aquella pr'a cá,nem pintada! -</p> -<p> -E, para deixar bem patente as suas preferencias, virou o pé do lado e -bateu com o tamanco na canella da mulata. -</p> -<p> -—Olha o bruto!... queixou-se esta, levando a mão ao logar da pancada. -Sempre ha de mostrar que é gallego! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="X">X</a></h4> - -<p> -No outro dia a casa do Miranda estava em preparos de festa. Lia-se no -«Jornal do Commercio» que S. Ex. fôra agraciado pelo governo -portuguez como titulo de Barão do Freixal; e como os seus amigos se -achassem prevenidos para ir comprimental-o no domingo, o negociante -dispunha-se a recebel-os condignamente. -</p> -<p> -Do cortiço, onde esta novidade causou sensação, viam-se nas janellas -do sobrado, abertas de par em par, surgir de vez em quando Leonor ou -Izaura, a sacudirem tapetes e capachos, batendo-lhes em cima com um -páo, os olhos fechados, a cabeça torcida para dentro por causa da -poeira que a cada pancada se levantava, como fumaça de um tiro de -peça. Chamaram-se novos criados para aquelles dias. No salão da -frente, pretos lavavam o soalho, e na cozinha havia reboliço. Dona -Estella, de penteador de cambraia enfeitado de laços côr de rosa, era -lobrigada de relance, ora de um lado, ora de outro, a dar as suas -ordens, abanando-se com um grande leque; ou apparecia no patamar da -escada do fundo, preoccupada em soerguer as saias contra as aguas sujas -da lavagem, que escorriam para o quintal. Zulmira tambem ia e vinha, com -a sua pallidez fria e humida de menina sem sangue. Henrique, de paletó -branco, ajudava o Botelho nos arranjos da casa e, de instante a -instante, chegava á janella, para namoriscar Pombinha, que fingia não -dar por isso, toda embebida na sua costura, á porta do numero 15, numa -cadeira de vime, uma perna dobrada sobre a outra, mostrando a meia de -seda azul e um sapatinho preto de entrada baixa; só de longo em longo -espaço, ella desviava os olhos do serviço e erguia-os para o sobrado. -Entretanto, a figura gorda e encanecida do novo Barão, sobrecasacado, -com o chapéo alto derreado para traz na cabeça e sem largar o -guarda-chuva, entrava da rua e atravessava a sala de jantar, seguia até -á despensa, diligente e esbaforido, indagando se já tinha vindo isto e -mais aquillo, provando dos vinhos que chegavam em garrafões, examinando -tudo, voltando-se para a direita e para a esquerda, dando ordens, -ralhando, exigindo actividade, e depois tornava a sahir, sempre -apressado, e mettia-se no carro que o esperava á porta da rua. -</p> -<p> -—Toca! toca! Vamos ver se o fogueteiro apromptou os fogos! -</p> -<p> -E viam-se chegar, quasi sem intermittencia, homens carregados de gigos -de champanha, caixas de porto e bordeus, barricas de cerveja, cestos e -cestos de mantimentos, latas e latas de conserva; e outros traziam perus -e leitões, canastras d'óvos, quartos de carneiro e de porco. E as -janellas do sobrado iam-se enchendo de compoteiras de doce ainda quente, -sahido do fogo, e travessões, de barro e de ferro, com grandes peças -de carne em vinha d'alhos, promptos para entrar no forno. Á porta da -cozinha penduraram pelo pescoço um cabrito esfolado, que tinha as -pernas abertas, lembrando sinistramente uma criança a quem enforcassem -depois de tirar-lhe a pelle. -</p> -<p> -Todavia, cá em baixo, um caso palpitante agitava a estalagem: Domingos, -o seductor da Florinda, desapparecêra durante a noite e um novo -caixeiro o substituia ao balcão. -</p> -<p> -O vendeiro retorquia atravessado a quem lhe perguntava pelo evadido: -</p> -<p> -—Sei cá! Creio que não podia trazel-o pendurado ao pescoço!... -</p> -<p> -—Mas você disse que respondia por elle! repontou Marcianna, que -parecia ter envelhecido dez annos n'aquellas ultimas vinte e quatro -horas. -</p> -<p> -—De accordo, mas o tratante cegou-me! Que havemos de fazer?... É ter -paciencia! -</p> -<p> -—Pois então ande com o dote! -</p> -<p> -—Que dote? Você está bebada? -</p> -<p> -—Bebada, hein?! Ah, corja! tão bom é um como o outro! Mas eu hei de -mostrar! -</p> -<p> -—Ora, não me amole! -</p> -<p> -E João Romão virou-lhe as costas, para fallar á Bertoleza que se -chegára. -</p> -<p> -—Deixa estar, malvado, que Deus é quem ha de punir por mim e por -minha filha! exclamou a desgraçada. -</p> -<p> -Mas o vendeiro afastou-se, indifferente ás phrases que uma ou outra -lavadeira imprecava contra elle. Ellas, porém, já se não mostravam -tão indignadas como na vespera; uma só noite rolada por cima do -escandalo bastara para tirar-lhe o merito de novidade. -</p> -<p> -Marcianna foi com a pequena á procura do sub-delegado e voltou -aborrecida, porque lhe disseram que nada se poderia fazer emquanto não -apparecesse o delinquente. Mãe e filha passaram todo esse sabbado na -rua, n'uma roda viva, da secretaria e das estações de policia para o -escriptorio de advogados que, um por um, lhes perguntavam de quanto -dispunham para gastar com o processo, despachando-as, sem mais -considerações, logo que se inteiravam da escassez de recursos de ambas -as partes. -</p> -<p> -Quando as duas, prostradas de cansaço, esbrazeadas de calôr, tornaram -á tarde para a estalagem, na hora em que os homens do mercado, que ali -moravam, recolhiam-se já com os balaios vazios ou com o resto da fructa -que não conseguiram vender na cidade, Marcianna vinha tão furiosa que, -sem dar palavra á filha e com os braços moidos de esbordoal-a, abrio -toda a casa e correu a buscar agoa para baldear o chão. Estava -possessa. -</p> -<p> -—Vê a vassoura! Anda! Lava! lava, que está isto n'uma porcaria! -Parece que nunca se limpa o diabo d'esta casa! É deixal-a fechada uma -hora e morre-se de fedor! Apre! isto faz peste! -</p> -<p> -E notando que a pequena chorava:—Agora déste para chorar, hein?! mas -na occasião do relaxamento havias de estar bem disposta! -</p> -<p> -A filha soluçou. -</p> -<p> -—Cala-te, coisa ruim! Não ouviste? -</p> -<p> -Florinda soluçou mais forte. -</p> -<p> -—Ah! choras sem motivo?... Espera, que te faço chorar com razão! -</p> -<p> -E precipitou-se sobre uma acha de lenha. -</p> -<p> -Mas a mulatinha, de um salto, pinchou pela porta e atravessou de uma só -carreira o pateo da estalagem, fugindo em desfilada pela rua. -</p> -<p> -Ninguem teve tempo de apanhal-a, e um clamor de gallinheiro assustado -levantou-se entre as lavadeiras. -</p> -<p> -Marcianna foi até ao portão, como uma doida e, comprehendendo que a -filha a abandonava, desatou por sua vez a soluçar, de braços abertos, -olhando para o espaço. As lagrimas saltavam-lhe pelas rugas da cara. E -logo, sem transição, disparou da colera, que a convulsionava desde a -manhã da vespera, para cahir n'uma dôr humilde e enternecida de mãe -que perdeu o filho. -</p> -<p> -—Para onde iria ella, meu pai do ceu?... -</p> -<p> -—Pois você desd'hontem que bate na rapariga!... disse-lhe a Rita. -Fugio-lhe, é bem feito! Que diabo! ella é de carne, não é de ferro! -</p> -<p> -—Minha filha! -</p> -<p> -—É bem feito! Agora chore na cama, que é logar quente! -</p> -<p> -—Minha filha! Minha filha! Minha filha! -</p> -<p> -Ninguem quiz tomar o partido da infeliz, á excepção da cabocla velha, -que foi collocar-se perto d'ella, fitando-a, immovel, com o seu -desvairado olhar de bruxa feiticeira. -</p> -<p> -Marcianna arrancou-se da abstração plangente em que cahira, para -arvorar-se terrivel defronte da venda, apostrophando com a mão no ar e -a carapinha desgrenhada: -</p> -<p> -—Este gallego é que teve a culpa de tudo! Maldito sejas tu, ladrão! -Se não me déres conta de minha filha, malvado, pego-te fogo na casa! -</p> -<p> -A bruxa sorrio sinistramente ao ouvir estas ultimas palavras. -</p> -<p> -O vendeiro chegou á porta e ordenou em tom secco á Marcianna que -despejasse o numero 12. -</p> -<p> -—É andar! é andar! Não quero esta berraria aqui! Bico, ou chamo um -urbano! Dou-lhe uma noite! amanhã pela manhã, rua! -</p> -<p> -Ah! elle esse dia estava intolerante com tudo e com todos; por mais de -uma vez mandara Bertoleza á coisa mais immunda, apenas porque esta lhe -fizera algumas perguntas concernentes ao serviço. Nunca o tinham visto -assim, tão fora de si, tão cheio de repellões; nem parecia aquelle -mesmo homem inalteravel, sempre calmo e methodico. -</p> -<p> -E ninguem seria capaz de acreditar que a causa de tudo isso era o facto -de ter sido o Miranda agraciado com o titulo de Barão. -</p> -<p> -Sim, senhor! aquelle taverneiro, na apparencia tão humilde e tão -miseravel; aquelle sovina que nunca sahíra dos seus tamancos e da sua -camisa de riscadinho de Angola; aquelle animal que se alimentava peior -que os cães, para pôr de parte tudo, tudo, que ganhava ou extorquia; -aquelle ente atrophiado pela cobiça e que parecia ter abdicado dos seus -privilegios e sentimentos de homem; aquelle desgraçado, que nunca -jamais amára senão ao dinheiro, invejava agora o Miranda, invejava-o -devéras, com dobrada amargura do que soffrera o marido de Dona Estella, -quando, por sua vez, o invejara a elle. Acompanhára-o desde que o -Miranda viera habitar o sobrado com a familia; vira-o nas felizes -occasiões da vida, cheio de importancia, cercado de amigos e rodeado de -aduladores; vira-o dar festas e receber em sua casa as figuras mais -salientes da praça e da politica; vira-o luzir, como um grosso pião de -ouro, girando por entre damas da melhor e mais fina sociedade -fluminense; vira-o metter-se em altas especulações commerciaes e -sahir-se bem; vira seu nome figurar em varias corporações de gente -escolhida e em subscripções, assignando bellas quantias; vira-o fazer -parte de festas de caridade e festas de regosijo nacional; vira-o -elogiado pela imprensa e acclamado como homem de vistas largas e grande -talento financeiro; vira-o enfim em todas as suas prosperidades, e nunca -lhe tivera inveja. Mas agora, estranho deslumbramento! quando -o vendeiro leu no «Jornal do Commercio» que o visinho estava -barão—Barão!—sentio tamanho calafrio em todo o corpo, que a -vista por um instante se lhe apagou dos olhos. -</p> -<p> -—Barão! -</p> -<p> -E durante todo o santo dia não pensou n'outra coisa. «Barão!... Com -esta é que elle não contava!...» E, defronte da sua preoccupação, -tudo se convertia em commendas e crachás; até os modestos dois vintens -de manteiga, que media sobre um pedaço de papel de embrulho para dar ao -freguez, transformavam-se, de simples mancha amarella, em opulenta -insígnia de oiro cravejada de brilhantes. -</p> -<p> -Á noite, quando se estirou na cama, ao lado da Bertoleza, para dormir, -não poude conciliar o somno. Por toda a miseria d'aquelle quarto -sordido; pelas paredes immundas, pelo chão enlameado de poeira e cebo, -nos tectos funebremente velados pelas teias de aranha, estrellavam -pontos luminosos que se iam transformando em gram-cruzes, em habitos e -veneras de toda a ordem e especie. E em volta do seu espirito, pela -primeira vez allucinado, um turbilhão de grandezas, que elle mal -conhecia e mal podia imaginar, perpassou vertiginosamente, em ondas de -seda e rendas, velludo e perolas, collos e braços de mulheres seminuas, -num fremir de risos e espumar aljofrado de vinhos côr de oiro. E nuvens -de caudas de vestido e abas de casaca lá iam, rodando deliciosamente, -ao som de langorosas valsas e á luz de candelabros de mil vélas de -todas as cores. E carruagens desfilavam reluzentes, com uma corôa á -portinhola, o cocheiro tezo, de libré, sopeando parelhas de cavallos -grandes. E interminaveis mezas estendiam-se, serpenteando a perder de -vista, accumuladas de iguarias, n'uma encantadora confusão de flores, -luzes, baixellas e crystaes, cercadas de um e de outro lado por luxuoso -renque de convivas, de taça em punho, brindando o amphitryão. -</p> -<p> -E, porque nada d'isso o vendeiro conhecia de perto, mas apenas pelo -ruido namorador e fatuo, ficava deslumbrado com o seu proprio sonho. -Tudo aquillo, que agora lhe deparava o delirio, até ahi só lhe passara -pelos olhos ou lhe chegara aos ouvidos como o echo e reflexo de um mundo -inattingivel e longinquo; um mundo habitado por seres superiores; um -paraizo de gozos excellentes e delicados, que os seus grosseiros -sentidos repelliam; um conjuncto harmonioso e discreto de sons e côres -mal definidas e vaporosas; um quadro de manchas pallidas, sussurrantes, -sem firmezas de tintas, nem contornos, em que se não determinava o que -era petala de rosa ou aza de borboleta, murmurio de brisa ou ciciar de -beijos. -</p> -<p> -Não obstante, ao lado d'elle a crioula roncava, de papo para o ar, -gorda, estrompada de serviço, tresandando a uma mistura de suor com -cebola crua e gordura podre. -</p> -<p> -Mas João Romão nem dava por ella; só o que elle via e sentia era todo -aquelle voluptuoso mundo inaccessivel vir descendo para a terra, -chegando-se para o seu alcance, lentamente, accentuando-se. E as dubias -sombras tomavam forma, e as vozes duvidosas e confusas transformavam-se -em fallas distinctas, e as linhas desenhavam-se nitidas, e tudo ia se -esclarecendo e tudo se aclarava, n'um reviver de natureza ao raiar do -sol. Os tenues murmurios suspirosos desdobravam-se em orchestras de -baile, onde se distinguiam instrumentos, e os surdos rumores indefinidos -eram já animadas conversas, em que damas e cavalheiros discutiam -politica, artes, litteratura e sciencia. E uma vida inteira, completa, -real, descortinou-se amplamente defronte dos seus olhos fascinados; uma -vida fidalga, de muito luxo, de muito dinheiro; uma vida em palacio, -entre mobilias preciosas e objectos esplendidos, onde elle se via -cercado de titulares millionarios, e homens de farda bordada, a quem -tratava por tu, de igual para igual, pondo-lhes a mão no hombro. E ali -elle não era, nunca fôra, o dono de um cortiço, de tamancos e em -mangas de camisa; ali era o Sr. Barão! O Barão do oiro! o Barão das -grandezas! o Barão dos milhões! Vendeiro? Qual! era o famoso, o enorme -capitalista! o proprietario sem igual! o incomparavel banqueiro, em -cujos capitaes se equilibrava a terra, como immenso globo em cima de -columnas feitas de moedas de oiro. E vio-se logo montado a cavalleiras -sobre o mundo, pretendendo abarcal-o com as suas pernas curtas; na -cabeça uma corôa de rei e na mão um sceptro. E logo, de todos os -cantos do quarto, começaram a jorrar cascatas de libras esterlinas; e a -seus pés principiou a formar-se um formigueiro de pygmeus em grande -movimento commercial; e navios descarregavam pilhas e pilhas de fardos -e caixões marcados com as iniciaes do seu nome; e telegrammas faiscavam -electricamente em volta da sua cabeça; e paquetes de todas as -nacionalidades giravam vertiginosamente em torno do seu corpo de -colosso, arfando e apitando sem tregoa; e rapidos comboios a vapor -atravessavam-no todo, de um lado a outro, como se o cosessem com uma -cadeia de wagons. -</p> -<p> -Mas, de repente, tudo desappareceu com a seguinte phrase: -</p> -<p> -—Acorda, seu João, para ir á praia. São horas! -</p> -<p> -Bertoleza chamava-o aquelle domingo, como todas as manhãs, para ir -buscar o peixe, que ella tinha de preparar para os seus freguezes. João -Romão, com medo de ser illudido, não confiava nunca dos empregados a -menor compra a dinheiro; n'esse dia, porém, não se achou com animo de -deixar a cama e disse á amiga que mandasse o Manoel. -</p> -<p> -Seriam quatro da madrugada. Elle conseguio então passar pelo somno. -</p> -<p> -Ás seis estava de pé. Defronte, a casa do Miranda resplandecia já. -Içaram-se bandeiras nas janellas da frente; mudaram-se as cortinas, -armaram-se florões de murta á entrada e recamaram-se de folhas de -mangueira o corredor e a calçada. Dona Estella mandou soltar foguetes e -queimar bombas ao romper da alvorada. Uma banda de musica, em frente á -porta do sobrado, tocava desde essa hora. O Barão madrugara com a -familia; todo de branco, com uma gravata de rendas, brilhantes no peito -da camisa, chegava de vez em quando a uma das janellas, ao lado da -mulher ou da filha, agradecendo para a rua; e limpava a testa com o -lenço; accendia charutos, risonho, feliz, resplandecente. -</p> -<p> -João Romão via tudo isto com o coração moído. Certas duvidas -aborrecidas entravam-lhe agora a roer por dentro. Qual seria o melhor e -o mais acertado:—ter vivido como elle vivera até ali, curtindo -privações, em tamancos e mangas de camisa; ou ter feito como o -Miranda, comendo boas coisas e gosando á farta?... Estaria elle, João -Romão, habilitado a possuir e desfrutar tratamento igual ao do -visinho?... Dinheiro não lhe faltava para isso... Sim, de accordo! mas -teria animo de gastal-o assim, sem mais nem menos?... sacrificar uma boa -porção de contos de réis, tão penosamente accumulados, em troca de -uma tetéia para o peito?... Teria animo de dividir o que era seu, -tomando esposa, fazendo familia e cercando-se de amigos?... Teria animo -de encher de finas iguarias e vinhos preciosos a barriga dos outros, -quando até ali fôra tão pouco condescendente para com a propria?... -E, caso resolvesse mudar de vida radicalmente, unir-se a uma senhora bem -educada e distincta de maneiras, montar um sobrado como o do Miranda e -volver-se titular, estaria apto para o fazer?... poderia dar conta do -recado?... Dependeria tudo isso sómente da sua vontade?... «Sem nunca -ter vestido um paletó, como vestiria uma casaca?... com aquelles pés, -deformados pelo diabo dos tamancos, criados á solta, sem meias, como -calçaria sapatos de baile?... E suas mãos, callosas e mal tratadas, -duras como as de um cavouqueiro, como se ageitariam com a luva?... E -isso ainda não era tudo! O mais difficil seria o que tivesse de dizer -aos seus convidados!... Como deveria tratar as damas e cavalheiros, em -meio de um grande salão cheio de espelhos e cadeiras doiradas?... Como -se arranjaria para conversar, sem dizer barbaridades?... -</p> -<p> -E um desgosto negro e profundo assoberbou-lhe o coração, um desejo -forte de querer saltar e um medo invencivel de cahir e quebrar as -pernas. Afinal, a dolorosa desconfiança de si mesmo e a terrivel -convicção da sua impotencia para pretender outra coisa que não fosse -ajuntar dinheiro, e mais dinheiro, e mais ainda, sem saber para que e -com que fim, acabaram azedando-lhe de todo a alma e tingindo de fel a -sua ambição e despolindo o seu oiro. «Fôra urna besta!... pensou de -si proprio, amargurado: uma grande besta!... Pois não! porque em tempo -não tratára de habituar-se logo a certo modo de viver, como faziam -tantos outros seus patricios e collegas de profissão?... Porque, como -elles, não aprendêra a dansar? e não frequentára sociedades -carnavalescas? e não fôra de vez em quando á rua do Ouvidor e aos -theatros, e a bailes, e a corridas e a passeios?... Porque se não -habituara com as roupas finas, e com o calçado justo, e com a bengala, -e com o lenço, e com o charuto, e com o chapéo, e com a cerveja, e com -tudo que os outros usavam naturalmente, sem precisar de privilegio para -isso?... Maldita economia!» -</p> -<p> -—Teria gasto mais, é verdade?... Não estaria tão bem!... mas, ora -adeus! estaria habilitado a fazer do meu dinheiro o que bem quizesse!... -Seria um homem civilisado!... -</p> -<p> -—Você deu hoje pr'a conversar com as almas, seu João?... -perguntou-lhe Bertoleza, notando que elle fallava sozinho, distrahido do -serviço. -</p> -<p> -—Deixe-me! Não me amole você tambem. Não estou bom hoje! -</p> -<p> -—Ó gentes! não fallei por mal!... Crédo! -</p> -<p> -—'Stá bem! Basta! -</p> -<p> -E o seu máo humor aggravou-se pelo correr do dia. Começou a implicar -com tudo. Arranjou logo uma péga, á entrada da venda, com o fiscal da -rua: «Pois elle era lá algum parvo, que tivesse medo de ameaças de -multas?... Se o bolas do fiscal esperava comel-o por uma perna, como -costumava fazer com os outros, que experimentasse, para ver só quanto -lhe custaria a festa!... E que lhe não rosnasse muito, que elle não -gostava de cães á porta!... Era andar!» Pegou-se depois com a -Machona, por causa de um gato d'esta, que, a semana passada, lhe fôra -ao taboleiro do peixe frito. Parava defronte das tinas vazias, -encolerisado, procurando pretextos para ralhar. Mandava, com um berro, -sahirem as crianças do seu caminho: «Que praga de piolhos! Arre, -demonio! Nunca vira gente tão damnada para parir! Pareciam ratas!» Deu -um encontrão no velho Liborio. -</p> -<p> -—Sai tu tambem do caminho, fona de uma figa! Não sei que diabo fica -fazendo cá no mundo um caco velho como este, que já não presta para -nada! -</p> -<p> -Protestou contra os gallos de um alfaiate, que se divertia a fazel-os -brigar, no meio de grande roda enthusiasmada e barulhenta. Vituperou os -italianos, porque estes, na alegre independencia do domingo, tinham á -porta da casa uma esterqueira da cascas de melancia e laranja, que elles -comiam tagarelando, assentados sobre a janella e a calçada. -</p> -<p> -—Quero isto limpo! bramava furioso. Está peior que um chiqueiro de -porcos! Apre! Tomára que a febre amarella os lamba a todos! maldita -raça de carcamanos! Hão de trazer-me isto asseiado ou vai tudo para o -olho da rua! Aqui mando eu! -</p> -<p> -Com a pobre velha Marcianna, que não tratára de despejar o numero 12, -conforme a intimação da vespera, a sua furia tocou ao delirio. A -infeliz, desde que Florinda lhe fugira, levava a choramingar e -maldizer-se, monologando com persistencia maniaca. Não pregou olho -durante toda a noite; sahíra e entrára na estalagem mais de vinte -vezes, irrequieta, ululando, como uma cadella a quem roubaram o -cachorrinho. -</p> -<p> -Estava apatetada; não respondia ás perguntas que lhe dirigiam. João -Romão fallou-lhe; ella nem sequer se voltou para ouvir. E o vendeiro, -cada vez mais excitado, foi buscar dois homens e ordenou que esvaziassem -o numero 12. -</p> -<p> -—Os tarecos fóra! e já! Aqui mandou eu! Aqui sou eu monarcha! -</p> -<p> -E tinha gestos inflexiveis de despota. -</p> -<p> -Principiou o despejo. -</p> -<p> -—Não! aqui dentro não! Tudo lá fóra! na rua! gritou elle, quando os -carregadores quizeram depôr no pateo os trens de Marcianna. Lá fóra -do portão! Lá fóra do portão! -</p> -<p> -E a misera, sem oppôr uma palavra, assistia ao despejo, acocorada na -rua, com os joelhos juntos, as mãos crusadas sobre as canellas, -resmungando. Transeuntes paravam, a olhal-a. Formava-se já um grupo de -curiosos. Mas ninguem entendia o que ella rosnava; era um rabujar -confuso, interminavel, acompanhado de um unico gesto do cabeça, triste -e automatico. Ali perto, o colchão velho, já rôto e destripado, os -moveis desconjuntados e sem verniz, as trouxas de molambos uteis, as -louças ordinarias e sujas do uso, tinham, tudo amontoado e sem ordem, -um ar indecoroso de interior de quarto de dormir, devassado em flagrante -intimidade. E veio o homem dos cinco instrumentos, que aos domingos -apparecia sempre; e fez-se o entra e sáe dos mercadores; e lavadeiras -ganharam a rua em trajos de passeio, e os taboleiros de roupa engommada, -que sabiam, cruzaram-se com os saccos de roupa suja, que entravam; e -Marcianna não se movia do seu lugar, monologando. João Romão -percorreu o numero 12, escancarando as portas, a dar arres e empurrando -para fóra, com o pé, algum trapo ou algum frasco vazio que lá ficára -abandonado; e a enxotada, indifferente a tudo, continuava a sussurrar -funebremente. Já não chorava, mas os olhos tinha-os ainda relentados -na sua muda fixidez. Algumas mulheres da estalagem iam ter com ella de -vez em quando, agora de novo compungidas, e faziam-lhe offerecimentos; -Marcianna não respondia. Quizeram obrigal-a a comer; não houve meio. A -desgraçada não prestava attenção a coisa alguma; parecia não dar -pela presença de ninguem. Chamaram-na pelo nome repetidas vezes; ella -persistia no seu inintelligivel monologo, sem tirar a vista de um ponto. -</p> -<p> -—Cruzes! parece que lhe deu alguma! -</p> -<p> -A Augusta chegára-se tambem. -</p> -<p> -—Teria ensandecido?... perguntou á Rita, que, a seu lado olhava para -a infeliz, com um prato de comida na mão. Coitada! -</p> -<p> -—Tia Marcianna! dizia a mulata. Não fique assim! Levante-se! Metta os -seus trens pr'a dentro! Vá lá pr'a casa até encontrar arrumação!... -</p> -<p> -Nada! O monologo continuava. -</p> -<p> -—Olhe que vai chover! Não tarda a cahir agoa! Já senti dois pingos na -cara. -</p> -<p> -Qual! -</p> -<p> -A Bruxa, a certa distancia, fitava-a com estranheza, igualmente immovel, -como por um effeito de suggestão. -</p> -<p> -Rita affastou-se, porque acabava de chegar o Firmo, acompanhado pelo -Porfiro, trazendo ambos embrulhos para o jantar. O amigo da das Dôres -tambem veio. Deram tres horas da tarde. A casa do Miranda continuava em -festa animada, cada vez mais cheia de visitas; lá dentro a musica quasi -que não tomava folego, enfiando quadrilhas e valsas; moças e meninas -dansavam na sala da frente, com muito riso; desarrolhavam-se garrafas a -todo o instante; os criados iam e vinham, de carreira, da sala de jantar -á despensa e á cozinha, carregados de copos em salvas; Henrique, suado -e vermelho, apparecia de quando em quando á janella, impaciente por -não ver Pombinha, que estava esse dia de passeio com a mãe em casa de -Leonie. -</p> -<p> -João Romão, depois de serrazinar na venda com os caixeiros e com a -Bertoleza, tornou ao pateo da estalagem, queixando-se de que tudo ali ia -muito mal. Censurou os trabalhadores da pedreira, nomeando o proprio -Jeronymo, cuja força physica aliás o intimidára sempre. «Era um -relaxamento aquella porcaria de serviço! Havia tres semanas que estavam -com uma broca á tôa, sem atar, nem desatar; afinal ahi chegára o -domingo e não se havia ainda lascado fogo! Uma verdadeira calaçaria! O -tal seu Jeronymo, d'antes tão apurado, era agora o primeiro a dar o -máo exemplo! perdia noites no samba! não largava os rastros da Rita -Bahiana e parecia embeiçado por ella! Não tinha geito!» Piedade, -ouvindo o vendeiro dizer mal do seu homem, saltou em defeza d'este com -duas pedras na mão, e uma contenda travou-se, assanhando todos os -animos. Felizmente, a chuva, cahindo em cheio, veio dispersar o -ajuntamento que se tornava serio. Cada um correu para o seu buraco, n'um -alvoroço exagerado; as crianças despiram-se e vieram cá fóra tomar -banho debaixo das gotteiras, por pagode, gritando, rindo, saltando e -atirando-se ao chão, a espernearem; fingindo que nadavam. E lá -defronte, no sobrado, ferviam brindes, emquanto a agoa jorrava -copiosamente, alagando o pateo. -</p> -<p> -Quando João Romão entrou na venda, recolhendo-se da chuva, um caixeiro -entregou-lhe um cartão do Miranda. Era um convite para lá ir á noite -tomar uma chavena de chá. -</p> -<p> -O vendeiro, a principio, ficou lisongeado com o obsequio, primeiro -d'esse genero que em sua vida recebia; mas logo depois voltou-lhe a -colera com maior impeto ainda. Aquelle convite irritava-o como um -ultraje, uma provocação. «Porque o pulha o convidára, devendo saber -que elle de certo lá não ia?... Para que, senão para o enfreneziar -ainda mais do que já estava?!... Seu Miranda que fosse á tabúa com a -sua festa e com os seus titulos!» -</p> -<p> -—Não preciso d'elle para nada!... exclamou o vendeiro. Não preciso, -nem dependo de nenhum safardana! Se gostasse de festas, dava-as eu! -</p> -<p> -No emtanto, começou a imaginar como sería, no caso que estivesse -prevenido de roupa e acceitasse o convite; figurou-se bem vestido, de -panno fino, com uma boa cadeia de relogio, uma gravata com alfinete de -brilhante; e vio-se lá em cima, no meio da sala, a sorrir para os -lados, prestando attenção a um, prestando attenção a outro, -discretamente silencioso e affavel, sentindo que o citavam dos lados em -voz mortiça e respeitosa como um homem rico, cheio de independencia. E -adivinhava os olhares approbativos das pessoas sérias; os oculos -curiosos das velhas assestados sobre elle, procurando ver se estaria ali -um bom arranjo para uma das filhas de menor cotação. -</p> -<p> -N'esse dia servio mal e porcamente aos freguezes; tratou aos repellões -a Bertoleza e, quando, já ás cinco horas, deu com a Marcianna, que, -uns negros por compaixão haviam arrastado para dentro da venda, -disparatou: -</p> -<p> -—Ora bolas! Pr'a que diabo me mettem em casa este estupor?! Gosto de -ver taes caridades com o que é dos outros! Isto aqui não é acoito de -vagabundos!... -</p> -<p> -E, como um policia, todo encharcado de chuva, entrasse para beber um -gole de paraty, João Romão voltou-se para elle e disse-lhe:—Camarada, -esta mulher é gira! não tem domicilio, e eu não hei de, quando fechar -a porta, ficar com ella aqui dentro da venda! -</p> -<p> -O soldado sahio e, d'ahi a coisa de uma hora, Marcianna era carregada -para o xadrez, sem o menor protesto e sem interromper o seu monologo de -demente. Os cacaréos foram recolhidos ao deposito publico por ordem do -inspector do quarteirão. E a Bruxa era a unica que parecia deveras -impressionada com tudo aquillo. -</p> -<p> -Entretanto, a chuva cessou completamente, o sol reappareceu, como para -despedir-se; andorinhas esgaivolaram no ar; e o cortiço palpitou -inteiro na trefega alegria do domingo. Nas salas do barão a festa -engrossava, cada vez mais estrepitosa; de vez em quando vinha de lá uma -taça quebrar-se no pateo da estalagem, levantando protestos e -surriadas. -</p> -<p> -A noite chegou muito bonita, com um bello luar de lua cheia, que -começou ainda com o crepusculo; e o samba rompeu mais forte e mais cedo -que de costume, incitado pela grande animação que havia em casa do -Miranda. -</p> -<p> -Foi um forrobodó valente. A Rita Bahiana essa noite estava de veia para -a coisa; estava inspirada! divina! Nunca dansára com tanta graça e -tamanha lubricidade! -</p> -<p> -Tambem cantou. E cada verso que vinha da sua bocca de mulata era um -arulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bebado de volupia, -enroscava-se todo ao violão; e o violão e elle gemiam com o mesmo -gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos -sensuaes, n'um desespero de luxuria que penetrava até ao tutano com -lingoas finissimas de cobra. -</p> -<p> -Jeronymo não poude conter-se: no momento em que a bahiana, offegante de -cansaço, cahio exhausta, assentando-se ao lado d'ella, o portuguez -segredou-lhe com a voz estrangulada de paixão: -</p> -<p> -—Meu bem! se você quizer estar commigo, dou uma perna ao demo! -</p> -<p> -O mulato não ouvio, mas notou o cochicho e ficou, de má cara, a rondar -disfarçadamente o rival. -</p> -<p> -O canto e a dansa continuavam todavia, sem afrouxar. Entrou a das -Dôres. Nênêm, mais uma amiga sua, que fôra passar o dia com ella, -rodavam de mãos nas cadeiras, rebolando em meio de uma volta de palmas -cadenciadas, no acompanhamento do rhythmo requebrado da musica. -</p> -<p> -Quando o marido de Piedade disse um segundo cochicho á Rita, Firmo -precisou empregar grande esforço para não ir logo ás do cabo. -</p> -<p> -Mas, lá pelo meio do pagode, a bahiana cahira na imprudencia de -derrear-se toda sobre o portuguez e soprar-lhe um segredo, requebrando -os olhos. Firmo, de um salto, aprumou-se então defronte d'elle, -medindo-o de alto a baixo com um olhar provocador e atrevido. Jeronymo, -tambem posto de pé, respondeu altivo com um gesto igual. -</p> -<p> -Os instrumentos calaram-se logo. Fez-se um profundo silencio. Ninguem se -mexeu do logar em que estava. E, no meio da grande roda, illuminados -amplamente pelo capitoso luar de Abril, os dois homens, perfilados -defronte um de outro, olhavam-se em desafio. -</p> -<p> -Jeronymo era alto, espadaúdo, construcção de touro, pescoço de -Hercules, punho de quebrar um côco com um murro: era a força -tranquilla, o pulso de chumbo. O outro—franzino, um palmo mais baixo -que o portuguez, pernas e braços seccos, agilidade de maracajá: era a -força nervosa; era o arrebatamento que tudo desbarata no sobresalto do -primeiro instante. Um, solido e resistente; o outro, ligeiro e -destemido; mas ambos corajosos. -</p> -<p> -—Senta! Senta! -</p> -<p> -—Nada de rôlo! -</p> -<p> -—Segue a dansa! gritaram em volta. -</p> -<p> -Piedade erguêra-se para arredar o seu homem d'ali. -</p> -<p> -O cavouqueiro afastou-a com um empurrão, sem tirar a vista de cima do -mulato. -</p> -<p> -—Deixa-me ver o que quer de mim este cabra!... rosnou elle. -</p> -<p> -—Dar-te um banho de fumaça, gallego ordinario! respondeu Firmo, -frente a frente; agora avançando e recuando, sempre com um dos pés no -ar, e bamboleando todo o corpo e meneando os braços, como preparado -para agarral-o. -</p> -<p> -Jeronymo, esbravecido pelo insulto, cresceu para o adversario com um -socco armado; o cabra, porém, deixou-se cahir de costas, rapidamente, -firmando-se nas mãos, o corpo suspenso, a perna direita levantada; e o -sôco passou por cima, varando o espaço, emquanto o portuguez apanhava -no ventre um pontapé inesperado. -</p> -<p> -—Canalha! berrou possesso; e ia precipitar-se em cheio sobre o -mulato, quando uma cabeçada o atirou no chão. -</p> -<p> -—Levanta-te, que não dou em defuntos! exclamou o Firmo, de pé, -repetindo a sua dansa de todo o corpo. -</p> -<p> -O outro erguêra-se logo e, mal se tinha equilibrado, já uma rasteira o -tombava para a direita, emquanto da esquerda elle recebia uma tapona na -orelha. Furioso, desferio novo sôco, mas o capoeira deu para traz um -salto de gato e o portuguez sentio um pontapé nos queixos. -</p> -<p> -Espirrou-lhe sangue da bocca e das ventas. Então fez-se um clamor -medonho. As mulheres quizeram metter-se de permeio, porém o cabra as -emborcava com rasteiras rapidas, cujo movimento de pernas apenas se -percebia. Um horrivel sarilho se formava. João Romão fechou ás -pressas as portas da venda e trancou o portão da estalagem, correndo -depois para o logar da briga. O Bruno, os mascates, os trabalhadores da -pedreira, e todos os outros que tentaram segurar o mulato, tinham rolado -em torno d'elle, formando-se uma roda limpa, no meio da qual o terrivel -capoeira, fóra de si, doido, reinava, saltando a um tempo para todos os -lados, sem consentir que ninguem se approximasse. O terror arrancava -gritos agudos. Estavam já todos assustados, menos a Rita que, a certa -distancia, via, de braços crusados, aquelles dois homens a se baterem -por causa d'ella; um ligeiro sorriso encrespava-lhe os labios. A lua -escondêra-se; mudara o tempo: o céo, de limpo que estava, fizéra-se -côr de lousa; sentia-se um vento humido de chuva. Piedade berrava, -reclamando policia; tinha levado um troca-queixos do marido, porque -insistia em tiral-o da lucta. As janellas do Miranda accumulavam-se de -gente. Ouviam-se apitos, soprados com desespero. -</p> -<p> -N'isto, echoou na estalagem um bramido de féra enraivecida: Firmo -acabava de receber, sem esperar, uma formidavel cacetada na cabeça. É -que Jeronymo havia corrido á casa e armára-se com o seu varapáo -minhoto. E então o mulato, com o rosto banhado de sangue, refilando as -prezas e espumando de colera, erguêra o braço direito, onde se vio -scintillar a lamina de uma navalha. -</p> -<p> -Fez-se uma debandada em volta dos dois adversarios, estrepitosa, cheia -de pavor. Mulheres e homens atropellavam-se, cahindo uns por cima dos -outros. Albino perdera os sentidos; Piedade clamava, estarrecida e em -soluços, que lhe iam matar o homem; a das Dôres soltava censuras e -maldições contra aquella estupidez de se destriparem por causa de -entre-pernas de mulher; a Machona, armada com um ferro de engommar, -jurava abrir as fuças a quem lhe désse um segundo coice como acabava -ella de receber um nas ancas; Augusta enfiára pela porta do fundo da -estalagem, para atravessar o capinzal e ir á rua ver se descobria o -marido, que talvez estivesse de serviço no quarteirão. Por esse lado -acudiam curiosos, e o pateo enchia-se de gente de fóra. Dona Isabel e -Pombinha, de volta da casa de Leonie, tiveram difficuldade em chegar ao -numero 15, onde, mal entraram, fecharam-se por dentro, praguejando a -velha contra a desordem e lamentando-se da sorte que as lançou -n'aquelle inferno. Em tanto, no meio de uma nova roda, encintada pelo -povo, o portuguez e o brasileiro batiam-se. -</p> -<p> -Agora a lucta era regular: havia igualdade de partidos, porque o -cavouqueiro jogava o páo admiravelmente; jogava-o tão bem quanto o -outro jogava a sua capoeiragem. Embalde Firmo tentava alcançal-o; -Jeronymo, sopesando ao meio a grossa vara na mão direita, girava-a com -tal pericia e ligeireza em torno do corpo, que parecia embastilhado por -uma teia impenetravel e sibilante. Não se lhe via a arma, só se ouvia -um zunido do ar simultaneamente cortado em todas as direcções. -</p> -<p> -E, ao mesmo tempo que se defendia, atacava. O brasileiro tinha já -recebido páoladas na testa, no pescoço, nos hombros, nos braços, no -peito, nos rins e nas pernas. O sangue inundava-o inteiro; elle rugia e -arfava, iroso e cansado, investindo ora com os pés, ora com a cabeça, -e livrando-se d'aqui, livrando-se d'ali, aos pulos e ás cambalhotas. -</p> -<p> -A victoria pendia para o lado do portuguez. Os espectadores -acclamavam-no já com enthusiasmo; mas, de subito, o capoeira mergulhou, -n'um relance, até ás canellas do adversario e surgio-lhe rente dos -pés, grudado n'elle, rasgando-lhe o ventre com uma navalhada. -</p> -<p> -Jeronymo soltou um mugido e cahio de borco, segurando os intestinos. -</p> -<p> -—Matou! Matou! Matou! exclamaram todos com assombro. -</p> -<p> -Os apitos esfuziaram mais assanhados. -</p> -<p> -Firmo varou pelos fundos do cortiço e desappareceu no capinzal. -</p> -<p> -—Pega! Pega! -</p> -<p> -—Ai, o meu rico homem! ululou Piedade, atirando-se de joelhos sobre o -corpo ensanguentado do marido. Rita viera tambem de carreira lançar-se -ao chão junto d'elle, para lhe afagar as barbas e os cabellos. -</p> -<p> -—É preciso o doutor! supplicou aquella, olhando para os lados á -procura de uma alma caridosa que lhe valesse. -</p> -<p> -Mas n'isto um estardalhaço de formidaveis pranchadas estrugio no -portão da estalagem. O portão abalou com estrondo e gemeu. -</p> -<p> -—Abre! Abre! reclamavam de fóra. -</p> -<p> -João Romão atravessou o pateo, como um general em perigo, gritando a -todos: -</p> -<p> -—Não entra a policia! Não deixa entrar! Aguenta! Aguenta! -</p> -<p> -—Não entra! Não entra! repercutio a multidão em côro. -</p> -<p> -E todo o cortiço ferveu que nem uma panella ao fogo. -</p> -<p> -—Aguenta! Aguenta! -</p> -<p> -Jeronymo foi carregado para o quarto, a gemer, nos braços da mulher e -da mulata. -</p> -<p> -—Aguenta! Aguenta! -</p> -<p> -De cada casulo espipavam homens armados de páo, achas de lenha, varaes -de ferro. Um empenho collectivo os agitava agora, a todos, n'uma -solidariedade briosa, como se ficassem deshonrados para sempre se a -policia entrasse ali pela primeira vez. Emquanto se tratava de uma -simples lucta entre dois rivaes, estava direito! «Jogassem lá as -cristãs, que o mais homem ficaria com a mulher!» mas agora tratava-se -de defender a estalagem, a communa, onde cada um tinha a zelar por -alguem ou alguma coisa querida. -</p> -<p> -—Não entra! Não entra! -</p> -<p> -E berros atroadores respondiam ás pranchadas, que lá fóra se repetiam -ferozes. -</p> -<p> -A policia era o grande terror d'aquella gente, porque, sempre que -penetrava em qualquer estalagem, havia grande estropicio: á capa de -evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos, -quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão -de odio velho. -</p> -<p> -E, emquanto os homens guardavam a entrada do capinzal e sustentavam de -costas o portão da frente, as mulheres, em desordem, rolavam as tinas, -arrancavam giráos, arrastavam carroças, restos de colchões e saccos -de cal, formando ás pressas uma barricada. -</p> -<p> -As pranchadas multiplicavam-se. O portão rangia, estalava, começava a -abrir-se; ia ceder. Mas a barricada estava feita e todos entrincheirados -atraz d'ella. Os que entraram de fora por curiosidade não puderam sahir -e viam-se mettidos no surumbamba. As cercas das hortas voaram. A Machona -terrivel fungára as saias e empunhava na mão o seu ferro de engommar. -A das Dôres, que ninguem dava nada por ella, era uma das mais duras e -que parecia mais empenhada na defeza. -</p> -<p> -Afinal o portão lascou; um grande rombo abrio se logo; cahiram taboas; -e os quatro primeiros urbanos que se precipitaram dentro foram recebidos -a pedradas e garrafas vazias. Seguiram-se outros. Havia uns vinte. Um -sacco de cal, despejado sobre elles, desnorteou-os. -</p> -<p> -Principiou então o sarilho grosso. Os sabres não podiam alcançar -ninguem por entre a trincheira; ao passo que os projectis, arremeçados -lá de dentro, desbaratavam o inimigo. Já o sargento tinha a cabeça -partida e duas praças abandonavam o campo, á falta de ar. -</p> -<p> -Era impossivel invadir aquelle baluarte com tão poucos elementos, mas a -policia teimava, não mais por obrigação que por necessidade pessoal -de desforço. Semelhante resistencia os humilhava. Se tivessem -espingardas fariam fogo. O unico d'elles que conseguio trepar á -barricada, rolou de lá abaixo sob uma carga de páo e teve de ser -carregado para a rua pelos companheiros. O Bruno, todo sujo de sangue, -estava agora armado de um refle e o Porfiro, mestre na capoeiragem, -linha na cabeça uma barretina de urbano. -</p> -<p> -—Fóra os morcegos! -</p> -<p> -—Fóra! Fóra! -</p> -<p> -E, a cada exclamação, tome pedra! tome lenha! tome cal! tome fundo de -garrafa! -</p> -<p> -Os apitos estridulavam mais e mais fortes. -</p> -<p> -N'essa occasião, porém, Nênêm gritou, correndo na direcção da -barricada. -</p> -<p> -—Acudam aqui! Acudam aqui! Ha fogo no numero 12. Está sahindo fumaça! -</p> -<p> -—Fogo! -</p> -<p> -A este grito um panico geral apoderou-se dos moradores do cortiço. Um -incendio lamberia aquellas cem casinhas emquanto o diabo esfrega um -olho! -</p> -<p> -Fez-se logo medonha confusão. Cada qual pensou em salvar o que era seu. -E os policias, aproveitando o terror dos adversarios, avançaram com -impeto, levando na frente o que encontravam e penetrando emfim no -infernal reducto, a dar espadeiradas para a direita e para a esquerda, -como quem destroça uma boiada. A multidão atropellava-se, -desembestando n'um alarido. Uns fugiam á prisão; outros cuidavam em -defender a casa. Mas as praças, loucas de colera, mettiam dentro as -portas e iam invadindo e quebrando tudo, sequiosas de vingança. -</p> -<p> -N'isto, roncou no espaço a trovoada. O vento do norte zunio mais -estridente e um grande pé d'agoa desabou cerrado. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XI">XI</a></h4> - -<p> -A Bruxa, por influencia suggestiva da loucura de Marcianna, peiorou do -juizo e tentou incendiar o cortiço. -</p> -<p> -Emquanto os companheiros o defendiam a unhas e dentes, ella, com todo o -disfarce, carregava palha e sarrafos para o numero 12 e preparava uma -fogueira. Felizmente acudiram a tempo; mas as consequencias foram do -mesmo modo desastrosas, porque muitas outras casinhas, escapando como -aquella ao fogo, não escaparam á devastação da policia. Algumas -ficaram completamente assoladas. E a coisa seria ainda mais feia, se -não viera o providencial agoaceiro apagar tambem o outro incendio ainda -peior, que, de parte a parte, lavrava nos animos. A policia retirou-se -sem levar nenhum preso. «A ir um, iriam todos á estação! Deus te -livre! Demais, para que? o que ella queria fazer, fez! Estava -satisfeita!» -</p> -<p> -Apezar do empenho do João Romão, ninguem conseguio descobrir o autor -da sinistra tentativa, e só muito tarde cada qual cuidou de pregar -olho, depois de reaccommodar, entre plangentes lamentações, o que se -salvou do destroço. O tempo levantou de novo á meia noite. Ao romper -da aurora já muita gente estava de pé e o vendeiro passava uma revista -minuciosa no pateo, avaliando e carpindo, inconsolavel e furioso, o seu -prejuizo. De vez em quando soltava uma praga. Além do que escangalharam -os urbanos dentro das casas, havia muita tina partida, muito giráo -quebrado, lampeões em fanicos, hortas e cercas arrazadas; o portão da -frente e a taboleta foram reduzidos a lenha. João Romão meditava, para -cobrir o damno, carregar um imposto sobre os moradores da estalagem, -augmentando-lhes o aluguel dos commodos e o preço dos generos. Vio-se -n'uma dobadoira durante o dia inteiro; desde pela manhã déra logo os -providencias para que tudo voltasse aos seus eixos o mais depressa -possivel: mandou buscar novas tinas; fabricar novos giráos e concertar -os quebrados; pôz gente a remendar o portão e a taboleta. Ao meio dia -teve de comparecer á presença do subdelegado na secretaria da policia. -Foi mesmo em mangas de camisa e sem meias; muitos do cortiço o -acompanharam, quer por espirito de camaradagem, quer por simples -curiosidade. -</p> -<p> -Uma verdadeira patuscada esse passeio á cidade! Parecia uma romaria; -algumas mulheres levavam os seus pequenitos ao collo; um magote de -italianos ia á frente, macarroneando, a fumar cachimbo; alguns -cantavam. Ninguem tomou bonde; e por toda a viagem discutiram e -altercaram em grande troça, commentando com gargalhadas e chalaças -gordas o que iam encontrando, a chamar a attenção das ruas por onde -desfilava a ruidosa farandula. -</p> -<p> -A sala da policia encheu-se. -</p> -<p> -O interrogatorio, exclusivamente dirigido a João Romão, era respondido -por todos a um só tempo, a despeito dos protestos e das ameaças da -autoridade, que se vio tonta. Nenhum d'elles nada esclarecia e todos se -queixavam da policia, exagerando as perdas recebidas na vespera. -</p> -<p> -A respeito de como se travara o conflicto e quem o provocara, o -taverneiro declarou que nada podia saber ao certo, porque na occasião -se achava ausente da estalagem. Do que tinha certeza era de que as -praças lhe invadiram a propriedade e poseram em cacos tudo o que -encontraram, como se aquillo lá fosse roupa de francez! -</p> -<p> -—Bem feito! bradou o subdelegado. Não resistissem! -</p> -<p> -Um côro de respostas assanhadas levantou-se para justificar a -resistencia. «Ah! Estavam mais que fartos de ver o que pintavam os -morcegos, quando lhes não sabia alguem pela frente! Esbodegavam até á -ultima, só pelo gostinho de fazer mal! Pois então uma creatura, porque -estava a divertir-se um bocado com os amigos, havia de ser aperreada que -nem boi ladrão?... Tinha lá geito?... Os rôlos era sempre a policia -quem os levantava com as suas furias! Não se mettesse ella na vida de -quem vivia socegado no seu canto, e não sahiria tanto barulho!...» -Como de costume, o espirito de collectividade, que unia aquella gente em -circulo de ferro, impedio que transpirasse o menor vislumbre de -denuncia. O subdelegado, depois de dirigir-se inutilmente a um por um, -despachou o bando, que fez logo a sua retirada, no meio de uma -alacridade mais quente ainda que a da ida. -</p> -<p> -Lá no cortiço, de portas a dentro, podiam esfaquear-se a vontade, que -nenhum d'elles, e muito menos a victima, seria capaz de apontar o -criminoso; tanto que o medico, que, logo depois da invasão da policia, -desceu da casa do Miranda á estalagem, para soccorrer Jeronymo, não -conseguio arrancar d'este o menor esclarecimento sobre o motivo da -navalhada. «Não fôra nada!... Não fôra de proposito!.. Estavam a -brincar e succedêra aquillo!... Ninguem tivera a menor intenção de -fazer-lhe móssa!...» -</p> -<p> -Rita mostrou-se de uma incansavel solicitude para com o ferido. Foi ella -quem correu a buscar os remedios, quem servio de ajudante ao medico e -quem servio de enfermeiro ao doente. Muitos lá iam, demorando-se um -instante, para dar fé; ella, porém, desde que Jeronymo se achou -operado, não lhe abandonou a cabeceira; ao passo que Piedade, afflicta -e atarantada, não fazia senão chorar e arreliar-se. -</p> -<p> -A mulata, essa não chorava; mas a sua physionomia tinha uma profunda -expressão de magoa enternecida. Agora toda ella se sentia apegar-se -áquelle homem bom e forte; áquelle gigante inoffensivo; áquelle -hercules tranquillo, que mataria o Firmo com uma punhada, mas que, na -sua boa fé, se deixára navalhar pelo facinora. «E tudo por causa -d'ella! só por ella!» Seu coração de mulher rendia-se captivo a -semelhante dedicação ensanguentada e dolorosa. E elle, o misero, -interrompia as contracções do rosto para sorrir defronte dos olhos -enamorados da bahiana, feliz n'aquella desgraça que lhe permittia gosar -dos seus carinhos. E tomava-lhe as mãos, e cingia-lhe a cintura, -resignado e commovido, sem uma palavra, sem um gesto, mas a dizer bem -claro, na sua dôr silenciosa e quieta de animal ferido, que a amava -muito, que a amava loucamente. -</p> -<p> -Rita affagava-o, já sem a menor sombra de escrupulo, tratando-o por tu, -ameigando-lhe os cabellos sujos de sangue com a polpa macia da sua mão -feminil. E, ali mesmo em presença da mulher d'elle, só faltava -beijal-o com a boca, que com os olhos o devorava de beijos ardentes e -sequiosos. -</p> -<p> -Depois da meia noite dada, ella e Piedade ficaram sozinhas velando o -enfermo. Deliberou-se que este iria pela manhã para a Ordem de Santo -Antonio, de que era irmão. E, com effeito, no dia immediato, emquanto o -vendeiro e seu bando andavam lá ás voltas com a policia, e o resto do -cortiço formigava, tagarelando em volta do concerto das tinas e -giráos, Jeronymo, ao lado da mulher e da Rita, seguia dentro de um -carro para o hospital. -</p> -<p> -As duas só voltaram de lá á noite, cahindo de fadiga. De resto, toda -a estalagem estava igualmente prostrada e morrendo pela cama, se bem que -n'esse dia as lavadeiras em geral gazeassem o trabalho; as que tinham -roupa com mais pressa foram lavar fóra ou arrastaram bacias de banho -para debaixo das bicas, á falta de melhor vasilha para o serviço. -Discutio-se a campanha da vespera sem variar de assumpto. Aqui era um -que lembrava as suas proezas com os urbanos, descrevendo enthusiasmado -os pormenores da lucta; ali, outro repetia, cheio de empafia, os -desaforos que dissera depois nas bochechas da autoridade; mais adiante -trocavam se queixas e recriminações; cada qual, mulheres e homens, -soffrêra o seu prejuizo ou a sua arranhadura, e mostravam entre si, -numa febre de indignação os objectos partidos ou a parte do corpo -escoriada. -</p> -<p> -Mas ás nove da noite já não havia viva alma no pateo da estalagem. A -venda fechou-se um pouco mais cedo que de costume. Bertoleza atirou-se -ao colchão, estrompada; João Romão recolheu-se junto d'ella, porém -não conseguio dormir: sentia calafrios e pontadas na cabeça. Chamou -pela amiga, a gemer, e pedio-lhe que lhe désse alguma coisa para suar. -Suppunha estar com febre. -</p> -<p> -A crioula só descansou quando, muitas horas adiante, depois de -mudar-lhe a roupa, o vio pegar no somno; e, d'ahi a pouco, ás quatro da -madrugada, erguia-se ella, com estalos de juntas, a bocejar, fungando no -seu estremunhamento pesadão, e pigarreando forte. Acordou o caixeiro -para ir ao mercado; gargarejou um pouco d'agoa á torneira da cozinha e -foi fazer fogo para o café dos trabalhadores, riscando phosphoros e -accendendo cavacos num fogareiro, donde começaram a borbotar grossos -novelos de fumo espesso. -</p> -<p> -Lá fóra clareava já, e a vida renascia no cortiço. A lucta de todos -os dias continuava, como se não houvera interrupção. Principiava o -borborinho. Aquella noite bem dormida punha-os a todos de bom humor. -</p> -<p> -Pombinha, entretanto, nessa manhã acordara abatida e nervosa, sem animo -de sahir dos lençóes. Pedio café á mãe, bebeu, e tornou a -abraçar-se nos travesseiros, escondendo o rosto. -</p> -<p> -—Não te sentes melhor hoje, minha filha?... perguntou-lhe Dona -Isabel, apalpando-lhe a testa. Febre não tens. -</p> -<p> -—Ainda sinto o corpo molle ... mas não é nada... Isto passa!... -</p> -<p> -—Foi de tanto gelo, que tomaste em casa da madama!... Não te -dizia?... Agora, o melhor é dar-te um escalda-pés!... -</p> -<p> -—Não! não, por amor de Deus! D'aqui a pouco estou em pé! -</p> -<p> -Ás oito horas, com effeito, levantava-se e fazia, indolentemente, o -alinho da cabeça, defronte do seu modesto lavatorio de ferro. Dir-se-ia -sem forças para a menor coisa; toda ella transpirava uma contemplativa -melancolia de convalescente; havia uma doce expressão dolorosa na -limpidez crystallina de seus olhos de moça enferma; um pobre sorriso -pallido a entreabrir-lhe as petalas da boca, sem lhe alegrar os labios, -que pareciam resequidos á mingoa de beijos de amor; assim a delicada -planta murcha, languece e morre, se carinhosa borboleta não vae sacudir -sobre ella as azas prenhes de fecundo e doirado pollen. -</p> -<p> -O passeio á casa de Leonie fizera-lhe muito mal. Trouxe de lá -impressões e intimos vexames, que nunca mais se apagariam por toda a -sua vida. -</p> -<p> -A cocote recebeu-a de braços abertos, radiante com apanhal-a junto de -si, n'aquelles divans fôfos e traidores, entre todo aquelle luxo -extravagante e requintado, proprio para os vicios grandes. Ordenou á -criada que não deixasse entrar ninguem, ninguem, nem mesmo o Bebê, e -assentou-se ao lado da menina, bem juntinho uma da outra, tomando-lhe as -mãos, fazendo-lhe uma infinidade de perguntas, e pedindo lhe beijos, -que saboreava gemendo, de olhos fechados. -</p> -<p> -Dona Isabel suspirava tambem, mas d'outro modo; na sua parva -comprehensão do conforto, aquelles impertinentes espelhos, aquelles -moveis casquilhos e aquellas cortinas escandalosas arrancavam-lhe -saudosas recordações do bom tempo e avivavam a sua impaciencia por -melhor futuro. -</p> -<p> -Ai! assim Deus quizesse ajudal-a!... -</p> -<p> -Ás duas da tarde, Leonie, por sua propria mão, servio ás visitas um -pequeno lunch de <i>foie-gras</i>, presunto e queijo, acompanhado de -champanha, gelo e agoa de Seltz; e, sem se descuidar um instante da -rapariga, tinha para ella extremas solicitudes de namorado: levava-lhe -a comida á boca, bebia do seu copo, apertava-lhe os dedos por debaixo -da mesa. -</p> -<p> -Depois da refeição, Dona Isabel, que não estava habituada a tomar -vinho, sentio vontade de descansar o corpo; Leonie franqueou-lhe um bom -quarto, com boa cama, e, mal percebeu que a velha dormia, fechou a porta -pelo lado de fóra, para melhor ficar em liberdade com a pequena. -</p> -<p> -Bem! Agora estavam perfeitamente a sós! -</p> -<p> -—Vem cá, minha flôr!... disse-lhe, puxando-a contra si e deixando-se -cahir sobre um divan. Sabes? Eu te quero cada vez mais!... Estou louca -por ti! -</p> -<p> -E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que suffocavam a -menina, enchendo-a de espanto e de um instinctivo temor, cuja origem a -pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era. -</p> -<p> -A cocote percebeu o seu enleio e ergueu-se, sem largar-lhe a mão. -</p> -<p> -—Descansemos nós tambem um pouco... propôz, arrastando-a para a -alcova. -</p> -<p> -Pombinha assentou-se, constrangida, no rebordo da cama e, toda perplexa, -com vontade de affastar-se, mas sem animo de protestar, por acanhamento, -tentou reatar o fio da conversa, que ellas sustentavam um pouco antes, -á meza, em presença de Dona Isabel. Leonie fingia prestar-lhe -attenção e nada mais fazia do que affagar-lhe a cintura, as coxas e o -collo. Depois, como que distrahidamente, começou a desabotoar-lhe o -corpinho do vestido. -</p> -<p> -—Não! Para que?... Não quero despir-me... -</p> -<p> -—Mas faz tanto calor... Põe-te a gosto... -</p> -<p> -—Estou bem assim. Não quero! -</p> -<p> -—Que tolice a tua! Não vês que sou mulher, tolinha?... De que tens -medo?... Olha! Vou dar o exemplo! -</p> -<p> -E, n'um relance, desfez-se da roupa, e proseguio na campanha. -</p> -<p> -A menina, vendo-se descomposta, crusou os braços sobre o seio, vermelha -de pudor. -</p> -<p> -—Deixa! segredou-lhe a outra, com os olhos envesgados, a pupilla -tremula. -</p> -<p> -E, apezar dos protestos, das supplicas e até das lagrimas da infeliz, -arrancou-lhe a ultima vestimenta, e precipitou-se contra ella, a -beijar-lhe todo o corpo, a empolgar-lhe com os labios o roseo bico do -peito. -</p> -<p> -—Oh! Oh! Deixa d'isso! Deixa d'isso! reclamava Pombinha, -estorcendo-se em cócegas, e deixando ver preciosidades de nudez fresca -e virginal, que enlouqueciam a prostituta. -</p> -<p> -—Que mal faz?... Estamos brincando... -</p> -<p> -—Não! não! balbuciou a victima, repellindo-a. -</p> -<p> -—Sim! Sim! insistio Leonie, fechando-a entre os braços, como entre -duas columnas e pondo em contacto com o d'ella todo o seu corpo nú. -</p> -<p> -Pombinha arfava, reluctando; mas o attrito d'aquellas duas grossas pomas -irrequietas sobre o seu mesquinho peito de donzella impubere, e o roçar -vertiginoso d'aquelles cabellos asperos e crespos nas estações mais -sensitivas da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a polvora do -sangue, desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos. -</p> -<p> -Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes, fremindo-lhe a carne em -crispações de espasmo; ao passo que a outra, por cima, doida de -luxuria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos de egoa, bufando e -relinchando. -</p> -<p> -E mettia-lhe a lingoa tersa pela bocca e pelas orelhas, e esmagava-lhe -os olhos debaixo dos seus beijos lubrificados de espuma, e mordia-lhe o -lobulo dos hombros, e agarrava-lhe convulsivamente o cabello, como se -quizesse arrancal-o aos punhados. Até que, com um assomo mais forte, -devorou-a num abraço de todo o corpo, ganindo ligeiros gritos, seccos, -curtos, muito agudos, e a final desabou para o lado, exanime, inerte, os -membros atirados n'um abandono de bebado, soltando de instante a -instante um soluço estrangulado. -</p> -<p> -A menina voltára a si e torcêra-se logo em sentido contrario á -adversaria, cingindo-se rente aos travesseiros e abafando o seu pranto, -envergonhada e corrida. -</p> -<p> -A impudica, mal orientada ainda e sem conseguir abrir os olhos, procurou -animal-a, ameigando-lhe a nuca e as espaduas. Mas Pombinha parecia -inconsolavel, e a outra teve de erguer-se a meio e puxal-a como uma -criança para o seu collo, onde ella foi occultando o rosto, a soluçar -baixinho. -</p> -<p> -—Não chores assim, meu amor!... -</p> -<p> -Pombinha continuou a soluçar. -</p> -<p> -—Vamos! Não quero ver-te d'este modo!... Estás zangada commigo?... -</p> -<p> -—Não volto mais aqui! nunca mais! exclamou por fim a donzella, -desgalgando o leito para vestir-se. -</p> -<p> -—Vem cá! Não sejas ruim! Ficarei muito triste se estiveres mal com a -tua negrinha!... Anda! Não me feches a cara!... -</p> -<p> -—Deixe-me! -</p> -<p> -—Vem cá, Pombinha! -</p> -<p> -—Não vou! Já disse! -</p> -<p> -E vestia-se com movimentos de raiva. Leonie saltara para junto d'ella e -pôz-se a beijar-lhe, á força, os ouvidos e o pescoço, fazendo-se -muito humilde, adulando-a, compromettendo-se a ser sua escrava e -obedecer-lhe como um cachorrinho, com tanto que aquella tyranna não se -fosse assim zangada. -</p> -<p> -—Faço tudo! tudo! mas não fiques mal commigo! Ah! se soubesses como -eu te adoro!... -</p> -<p> -—Não sei! Largue-me! -</p> -<p> -—Espera! -</p> -<p> -—Que amolação! Oh! -</p> -<p> -—Deixa de tolice!... Escuta, por amor de Deus! Pombinha acabava de -encasar o ultimo botão do corpinho, e repuxava o pescoço e sacudia os -braços, ajustando bem a sua roupa ao corpo. Mas Leonie cahíra-lhe aos -pés, enleando-a pelas pernas e beijando-lhe as saias. -</p> -<p> -—Olha!... Ouve!... -</p> -<p> -—Deixe-me sahir! -</p> -<p> -—Não! Não has de ir zangada, ou faço aqui um escandalo dos diabos! -</p> -<p> -—É que mamãe já acordou com certeza!... -</p> -<p> -—Que acordasse! -</p> -<p> -Agora a meretriz defendia a porta da alcova. -</p> -<p> -—Oh! meu Deus! Deixe-me sahir! -</p> -<p> -—Não deixo, sem fazermos as pazes... -</p> -<p> -—Que aborrecimento! -</p> -<p> -—Dá-me um beijo! -</p> -<p> -—Não dou! -</p> -<p> -—Pois então não sabes! -</p> -<p> -—Eu grito! -</p> -<p> -—Pois grita! Que me importa? -</p> -<p> -—Arrede-se d'ahi, por favor!... -</p> -<p> -—Faz as pazes... -</p> -<p> -—Não estou zangada, creia! Estou é indisposta... Não me sinto boa! -</p> -<p> -—Mas eu faço questão do beijo! -</p> -<p> -—Pois bem! Está ahi! -</p> -<p> -E beijou-a. -</p> -<p> -—Não quero assim! Foi dado de má vontade!... -</p> -<p> -Pombinha deu-lhe outro. -</p> -<p> -—Ah! Agora bem! Espera um nada! Deixa arranjar-me! É um instante! -</p> -<p> -Em tres tempos, lavou-se ligeiramente no bidé, endireitou o penteado -defronte do espelho, n'um movimento rapido de dedos, e empoou-se, e -perfumou-se, e enfiou camisa, anagoa e penteador, tudo com uma -expedição de quem está habituada a vestir-se muitas vezes por dia. E, -prompta, correu uma vista d'olhos pela menina, desenrugou-lhe a saia, -concertou-lhe melhor os cabellos e, readquerindo o seu ar tranquillo de -mulher ajuisada, tomou-a pela cintura e levou-a vagarosamente até á -sala de jantar, para tomarem vermouth com gazoza. -</p> -<p> -O jantar foi ás seis e meia. Correu frio, não tanto per parte de -Pombinha, que aliás se mostrava bem incommodada, como porque Dona -Isabel, dormindo até o momento de a chamarem para mesa, sentia-se -aziada com o <i>foie-gras</i>. A dona da casa, todavia não se forrou a -desvelos e fez por alegral-as rindo e contando anecdotas burlescas. Ao -café appareceu Jujú, que a criada levára a passeiar desde logo depois -do almoço, e uma affectação de agrados levantou-se em torno da -pequerrucha. Leonie pôz-se a conversar com ella, fallando como -criança, dizendo-lhe que mostrasse a Dona Isabel «o seu papatinho -novo!» -</p> -<p> -Mais tarde, no terraço, emquanto fumava um cigarro, tomou a mão de -Pombinha e metteu-lhe no dedo um annel com um diamante cercado de -perolas. A menina recusou o mimo, formalmente. Foi precisa a -intervenção da velha para que ella consentisse em aceital-o. -</p> -<p> -Ás oito horas retiraram-se as visitas, seguindo direitinho para a -estalagem. Durante toda a viagem Pombinha parecia preoccupada e triste. -</p> -<p> -—Que tens tu?... perguntou-lhe a mãe duas vezes. -</p> -<p> -E de ambas a filha respondeu: -</p> -<p> -—Nada! aborrecimento... -</p> -<p> -No pouco que dormio essa noite, que foi a do barulho com a policia, teve -sonhos agitados e passou mal todo o dia seguinte, com mollezas de febre -e dôres no utero. Não arredou pé de casa, nem para ver os destroços -do conflicto. A noticia do desfloramento e da fuga de Florinda, como a -da loucura da velha Marcianna, produziram-lhe grande abalo nos nervos. -</p> -<p> -Na manhã immediata, a despeito de fazer-se forte, torceu o nariz ao -pobre almoço que Dona Isabel lhe apresentou carinhosa. Persistiam-lhe -as dôres uterinas, não vivas, mas constantes. Não teve animo de pegar -na costura, e um livro que ella tentou ler foi por varias vezes -repellido. -</p> -<p> -As onze para o meio dia era tal o seu constrangimento e era tal o seu -desasocego entre as apertadas paredes do numero 15, que, máo grado os -protestos da velha, sahio a dar uma volta por detraz do cortiço, á -sombra dos bambús e das mangueiras. -</p> -<p> -Uma irresistivel necessidade de estar só, completamente só, uma -afflicção de conversar comsigo mesma, a apartavam do seu estreito -quarto suffocante, tão tristonho e tão pouco amigo. Pungia-lhe na -brancura da alma virgem um arrependimento incisivo e negro das torpezas -da ante-vespera; mas, lubrificada por essa recordação, toda a sua -carne ria e rejubilava-se, presentindo delicias que lhe pareciam -reservadas para mais tarde, junto de um homem amado; dentro d'ella -balbuciavam desejos, até ahi mudos e adormecidos; e mysterios -desvendavam-se no segredo do seu corpo, enchendo-a de surpreza e -mergulhando-a em fundas concentrações de extasis. Um ineffavel -quebranto afrouxava-lhe a energia e destendia-lhe os musculos com uma -embriaguez de flôres traiçoeiras. -</p> -<p> -Não poude resistir: assentou-se debaixo das arvores, um cotovelo em -terra, a cabeça reclinada contra a palma da mão. -</p> -<p> -Na doce tranquillidade d'aquella sombra morna, ouviam-se retinir -distantes a picareta dos homens da pedreira e o martello dos ferreiros -na forja. E o canto dos trabalhadores, ora mais claro, ora mais -duvidoso, acompanhando o marulhar dos ventos, ondeava no espaço, -melancolico e sentido, como um côro religioso de penitentes. -</p> -<p> -O calor tirava do capim um cheiro sensual. -</p> -<p> -A moça fechou as palpebras, vencida pelo seu delicioso entorpecimento, -e estendeu-se de todo no chão, de barriga para o ar, braços e pernas -abertas. -</p> -<p> -Adormeceu. -</p> -<p> -Começou logo a sonhar que em de redor ia tudo se fazendo de um côr de -rosa, a principio muito leve e transparente, depois mais carregado, e -mais, e mais, até formar-se em torno d'ella uma floresta vermelha, côr -de sangue, onde largos tinhorões rubros se agitavam lentamente. -</p> -<p> -E vio-se núa, toda núa, exposta ao céo, sob a tepida luz de um sol -embriagador, que lhe batia de chapa sobre os seios. -</p> -<p> -Mas, pouco a pouco, seus olhos, posto que bem abertos, nada mais -enxergavam do que uma grande claridade palpitante, onde o sol, feito de -uma só mancha reluzente, oscillava como um pendulo phantastico. -</p> -<p> -Entretanto, notava que, em volta da sua nudez aloirada pela luz, iam-se -formando ondulantes camadas sanguineas, que se agitavam, desprendendo -aromas de flor. E, rodando o olhar, percebeu, cheia de encantos, que se -achava deitada entre petalas gigantescas, no regaço de uma rosa -interminavel, em que seu corpo se atufava como em ninho de velludo -carmezim, bordado de oiro, fofo, macio, trescalante e morno. -</p> -<p> -E suspirando, espreguiçou-se toda n'um enleio de volupia ascetica. -</p> -<p> -Lá do alto o sol a fitava obstinadamente, enamorado das suas mimosas -fórmas de menina. -</p> -<p> -Ella sorrio para elle, requebrando os olhos, e então o fogoso astro -tremeu e agitou-se, e, desdobrando-se, abrio-se de par em par em duas -azas e principiou a fremir, attrahido e perplexo. Mas de repente, nem -que se de improviso lhe inflammassem os desejos, precipitou-se lá de -cima agitando as azas, e veio, enorme borboleta de fogo, adejar -luxuriosamente em torno da immensa rosa, em cujo regaço a virgem -permanecia com os peitos franqueados. -</p> -<p> -E a donzella, sempre que a borboleta se approximava da rosa, sentia-se -penetrar de um calor estranho, que lhe accendia, gotta a gotta, todo o -seu sangue de moça. -</p> -<p> -E a borboleta, sem parar nunca, doidejava em todas as direcções, ora -fugindo rapida, ora se chegando lentamente, medrosa de tocar com as suas -antennas de braza a pelle delicada e pura da menina. -</p> -<p> -Esta, delirante de desejos, ardia por ser alcançada e empinava o collo. -Mas a borboleta fugia. -</p> -<p> -Uma sofreguidão lubrica, desensoffrida, apoderou-se da moça; queria a -todo custo que a borboleta pousasse n'ella, ao menos um instante, um só -instante, e a fechasse n'um rapido abraço dentro das suas azas -ardentes. Mas a borboleta, sempre doida, não conseguia deter-se; mal se -adiantava, fugia logo, irrequieta, desvairada de volupia. -</p> -<p> -—Vem! Vem! supplicava a donzella, apresentando o corpo. Pousa um -instante em mim! Queima-me a carne no calor das tuas azas! -</p> -<p> -E a rosa, que a tinha ao collo, é que parecia fallar e não ella. De -cada vez que a borboleta se avisinhava com as suas negaças, a flôr -arregaçava-se toda, dilatando as petalas, abrindo o seu pistillo -vermelho e avido d'aquelle contacto com a luz. -</p> -<p> -—Não fujas! Não fujas! Pousa um instante! -</p> -<p> -A borboleta não pousou; mas, n'um delirio, convulsa de amor, sacudio as -azas com mais impeto e uma nuvem de poeira doirada desprendeu-se sobre a -rosa, fazendo a donzella soltar gemidos e suspiros, tonta de gosto sob -aquelle effluvio luminoso e fecundante. -</p> -<p> -N'isto, Pombinha soltou um ai formidavel e despertou sobresaltada, -levando logo ambas as mãos ao meio do corpo. E feliz, e cheia de susto -ao mesmo tempo, a rir e a chorar, sentio o grito da puberdade sahir-lhe -afinal das entranhas, em uma onda vermelha e quente. -</p> -<p> -A natureza sorrio-se commovida. Um sino, ao longe, batia alegre as doze -badaladas do meio dia. O sol, victorioso, estava a pino e, por entre a -copagem negra da mangueira, um dos seus raios descia em fio de oiro sobre -o ventre da rapariga, abençoando a nova mulher que se formava para o -mundo. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XII">XII</a></h4> - -<p> -Pombinha ergueu-se de um pulo e abrio de carreira para casa. No logar em -que estivera deitada o capim verde ficou matizado de pontos vermelhos. A -mãe lavava á tina, ella chamou-a com instancia, enfiando cheia de -alvoroço pelo numero 15. E ahi, sem uma palavra, ergueu a saia do -vestido e expôz a Dona Isabel as suas fraldas ensanguentadas. -</p> -<p> -—Veio!! perguntou a velha com um grito arrancado do fundo d'alma. -</p> -<p> -A rapariga meneou a cabeça affirmativamente, sorrindo feliz e -enrubecida. -</p> -<p> -As lagrimas saltaram dos olhos da lavadeira. -</p> -<p> -—Bemdito e louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo! exclamou ella, -cahindo de joelhos defronte da menina e erguendo para Deus o rosto e as -mãos tremulas. -</p> -<p> -Depois abraçou-se ás pernas da filha e, no arrebatamento da sua -commoção, beijou-lhe repetidas vezes a barriga e parecia querer beijar -tambem aquelle sangue abençoado, que lhes abria os horizontes da vida, -que lhes garantia o futuro; aquelle sangue bom, que descia do ceu, como -a chuva bemfazeja sobre uma pobre terra esterilisada pela secca. -</p> -<p> -Não se poude conter: emquanto Pombinha mudava de roupa, sahio ella ao -pateo, apregoando aos quatro ventos a linda noticia. E, se não fôra a -formal opposição da menina, teria passeado em triumpho a camisa -ensanguentada, para que todos a vissem bem e para que todos a adorassem, -entre hymnos de amor, que nem a uma veronica sagrada de um Christo. -</p> -<p> -—Minha filha é mulher! Minha filha é mulher! -</p> -<p> -O facto abalou o coração do cortiço: as duas receberam parabens e -felicitações. Dona Isabel accendeu velas de cêra á frente do seu -oratorio, e nesse dia não pegou mais no trabalho, ficou estonteada, sem -saber o que fazia, a entrar e a sahir de casa, radiante de ventura. De -cada vez que passava junto da filha dava-lhe um beijo na cabeça e em -segredo recommendava-lhe todo o cuidado. «Que não apanhasse humidade! -que não bebesse coisas frias! Que se agazalhasse o melhor possivel e, -no caso de sentir o corpo molle, que se mettesse logo na cama! Qualquer -imprudencia poderia ser fatal!...» O seu empenho era pôr o João da -Costa, no mesmo instante, ao corrente da grande novidade e pedir-lhe que -marcasse logo o dia do casamento; a menina entendia que não, que era -feio, mas a mãe arranjou um portador e mandou chamar o rapaz com -urgencia. Elle appareceu á tarde. A velha convidára gente para jantar; -matou duas gallinhas, comprou garrafas de vinho, e, á noite, servio, -ás nove horas, um chá com biscoitos. Nênêm e a das Dôres -apresentaram-se em trajos de festa; fez-se muita ceremonia; conversou-se -em voz baixa, formando todos em volta de Pombinha uma solicita cadeia de -agrados, uma respeitosa preoccupação de bons desejos, a que ella -respondia sorrindo commovida, como que exhalando da frescura da sua -virgindade um victorioso aroma de flôr que desabrocha. -</p> -<p> -E a partir d'esse dia Dona Isabel mudou completamente. As suas rugas -alegraram-se; ouviam-na cantarolar pela manhã, emquanto varria a casa e -espanava os moveis. -</p> -<p> -Não obstante, depois do tremendo conflicto que acabou em navalhada, uma -tristeza ia minando uma grande parte da estalagem. Já se não faziam as -quentes noitadas de violão e dança ao relento. A Rita andava -aborrecida e concentrada, desde que Jeronymo partio para a ordem; Firmo -fôra intimado pelo vendeiro a que lhe não puzesse, nunca mais, os pés -em casa, sob pena de ser entregue á policia; Piedade, que vivia a dar -ais, carpindo a ausencia do marido, ainda ficou mais consumida com a -primeira visita que lhe fez ao hospital: encontrou-o frio e sem uma -palavra de ternura para ella, deixando até perceber a sua impaciencia -por ouvir fallar da outra, d'aquella maldita mulata dos diabos, que, no -fim de contas, era a unica culpada de tudo aquillo e havia de ser a sua -perdição e mais do seu homem! Quando voltou de lá atirou-se á cama, -a soluçar sem alivio, e n'essa noite não poude pregar olho, senão já -pela madrugada. Um negro desgosto comia-a por dentro, como tuberculos de -tisica, e tirava-lhe a vontade para tudo que não fosse chorar. -</p> -<p> -Outro que tambem, coitado! arrastava a vida muito triste, era o Bruno. A -mulher, que a principio não lhe fizera grande falta, agora o torturava -com a sua distancia; um mez depois da separação, o desgraçado já -não podia esconder o seu soffrimento e ralava-se de saudades. A Bruxa, -a pedido delle tirou a sorte nas cartas e disse-lhe mysteriosamente que -Leocadia ainda o amava. -</p> -<p> -Só Dona Isabel e a filha andavam devéras satisfeitas. Essas sim! nunca -tinham tido uma epoca tão boa e tão esperançosa. Bombinha abandonara -o curso de dança; o noivo ia agora visital-a, invariavelmente, todas as -noites; chegava sempre ás sete horas e demorava-se até ás dez; -davam-lhe café numa chicara especial, de porcelana; ás vezes jogavam a -bisca, e elle mandava buscar, de sua algibeira, uma garrafa de cerveja -allemã, e ficavam a conversar os tres, cada qual defronte do seu copo, -a respeito dos projectos de felicidade commum; outras vezes o Costa, -sempre muito respeitador, muito bom rapaz, accendia o seu charuto da -Bahia e deixava-se cahir n'uma pasmaceira, a olhar para a moça, todo -embebido n'ella. Pombinha punha alegrias n'aquelles serões com as suas -garrulices de pomba que prepara o ninho. Depois do seu idyllio com o sol -fazia-se muito amiga da existencia, sorvendo a vida em haustos largos, -como quem acaba de sahir de uma prisão e saborêa o ar livre. Volvia-se -carnuda e cheia, sazonava que nem uma fructa que nos provoca o appetite -de morder. Dona Isabel, ao lado d'elles, toscanejava do meio para o fim -da visita, traçando cruzes na bocca e afugentando os bocejos com -voluptuosas pitadas da sua insigne tabaqueira. -</p> -<p> -Fixado o dia do casamento, o assumpto inalteravel da conversa era o -enxoval da noiva e a casinha que o Costa preparava para a lua de mel. -Iriam todos tres morar juntos; teriam cozinheiro e uma criada que -lavasse e engommasse. O rapaz trouxera peças de linho e de algodão, e -ali, á luz amarellado velho candieiro de kerosene, emquanto a mãe -talhava camisas e lençóes, a filha cosia valentemente n'uma machina -que lhe offerecêra o noivo. -</p> -<p> -Uma vez, eram duas da tarde, ella pregava rendas n'uma fronha de -almofada, quando o Bruno, cheio de hesitações, a coçar os cabellos da -nuca, pallido e mal asseiado, disse-lhe, encostando-se á hombreira da -porta: -</p> -<p> -—Ora, nham Pombinha ... tinha-lhe um servicinho a pedir ... mas -vosmecezinha anda agora tão tomada com o seu enxoval e não ha de -querer dar-se a maços... -</p> -<p> -—Que queres tu, Bruno? -</p> -<p> -—N'é nada, é que precisava que vosmecezinha me fizesse uma carta -pr'aquelle diabo ... mas já se vê que não tem cabimento... Fica pr'ao -depois! -</p> -<p> -—Uma carta para tua mulher, não é? -</p> -<p> -—Coitada! É mais doida do que ruim! Pois se a gente até dos brutos -tem pena!... -</p> -<p> -—Pois estás servido. Queres para já? -</p> -<p> -—Não vale estorvar! Continue seu servicinho! Eu volto pr'outra -vez!... -</p> -<p> -—Não! anda cá, entra! O que se tem de fazer, faz-se logo! -</p> -<p> -—Deus lhe pague! vosmecezinha é mesmo un anjo! Não sei a quem se -chegue a gente ao depois que já lh'a não tivermos cá!... -</p> -<p> -E continuou a louvar a bondade da rapariga, emquanto esta, toda -serviçal, preparava numa mezinha redonda os seus apetrechos de -escripta. -</p> -<p> -—Vamos lá, Bruno! que queres tu mandar dizer á Leocadia? -</p> -<p> -—Diga-lhe, antes de mais nada, que aquillo que quebrei d'ella, que -dou outro! Que ella fez mal em quebrar tambem o que era meu, mas que fecho -os olhos! Agoas passadas não movem moinho! Que sei que ella agora está -desempregada e aos páos; que está a dever para mais de mez na -estalagem; mas que não precisa dar cabeçadas: que me mande cá o -senhorio, que me entendo com elle. Que acho bom que ella deixe a casa da -crioula onde come, porque a mulher já se queixou e já disse, a quem -quiz ouvir, que aquillo lá não era ponto de vadios e mulheres de má -vida! Que ella, se tivesse um pouco de tino nem precisava estar ás -migalhas dos outros, que eu na forja fazia para a trazer de barriga -cheia e mais aos filhos que Deus mandasse...—Principiava a tomar -calor—Que a culpada de tudo isto é só ella e mais ninguem! tivesse um -bocado de juizo e não precisava envergonhar a cara por ahi... -</p> -<p> -—Isso já está dito, Bruno! -</p> -<p> -—Pois arrume-lhe outra vez, a ver se ella toma brio! -</p> -<p> -—E que mais? -</p> -<p> -—Que lhe não quero mal, nem lhe rogo pragas, mas que é bem feito que -ella amargue um pouco do pão do diabo, pr'a ficar sabendo que uma -mulher direita não deve olhar senão pr'a seu marido; e que, se ella -não fosse tão maluca... -</p> -<p> -—Já ahi vae você repetir inda uma vez a mesma cantiga!... -</p> -<p> -—Mas diga-lhe sempre, tenha paciencia, nham Pombinha!... Que ainda -estaria aqui, commigo, como d'antes, sem aguentar repellões -d'estranhos!... -</p> -<p> -—Adiante, Bruno! -</p> -<p> -—Diga-lhe... -</p> -<p> -E interrompeu-se. -</p> -<p> -Ora, que mais elle tinha a dizer?... -</p> -<p> -Coçou a cabeça. -</p> -<p> -—Veja, Bruno, você é quem sabe o que precisa escrever a sua mulher... -</p> -<p> -—Diga-lhe... -</p> -<p> -Não se animava. -</p> -<p> -—Que... -</p> -<p> -—Diga-lhe... Não! não lhe diga mais nada!... -</p> -<p> -—Posso então fechar a carta?... -</p> -<p> -—Está bom ... resmungou o ferreiro, decidindo-se. Vá lá! Diga-lhe -que... -</p> -<p> -—Que... -</p> -<p> -Houve um silencio, no qual o desgraçado parecia arrancar de dentro uma -phrase que, no emtanto, era a unica idéa que o levava a dirigir-se á -mulher. Afinal, depois de coçar mais vivamente a cabeça, gaguejou com -a voz estrangulada de soluços: -</p> -<p> -—Diga-lhe que ... se ella quizer tornar pra minha companhia ... que -póde vir... Eu esqueço tudo! -</p> -<p> -Pombinha, impressionada pela transformação da voz d'elle, levantou o -rosto e vio que as lagrimas lhe desfilavam duas a duas, tres a tres, -pela cara, indo afogar-se-lhe na moita cerdosa das barbas. E, coisa -estranha, ella, que escrevera tantas cartas n'aquellas mesmas -condições; que tantas vezes presenciara o choro rude de outros muitos -trabalhadores do cortiço, sobresaltava-se agora com os desalentados -soluços do ferreiro. -</p> -<p> -Porque, só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas -entranhas ella sentio o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos -para essas violentas miserias dolorosas, a que os poetas davam o bonito -nome de amor. A sua intellectualidade, tal como seu corpo, desabrochara -inesperadamente, attingindo de subito, em pleno desenvolvimento, uma -lucidez que a deliciava e surprendia. Não a commovêra tanto a -revolução physica. Como que n'aquelle instante o mundo inteiro se -despia á sua vista, de improviso esclarecida, patenteando-lhe todos os -segredos das suas paixões. Agora, encarando as lagrimas do Bruno, ella -comprehendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade d'esses -animaes fortes, de musculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se -deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão -da fêmea. -</p> -<p> -Aquella pobre flôr de cortiço, escapando á estupidez do meio em que -desabotoou, tinha de ser fatalmente victima da propria intelligencia. Á -mingoa de educação, seu espirito trabalhou á revelia, e atraiçoou-a, -obrigando-a a tirar da substancia caprichosa da sua phantasia de moça -ignorante e viva, a explicação de tudo que lhe não ensinaram a ver e -sentir. -</p> -<p> -Bruno retirou-se com a carta. Pombinha pousou os cotovelos na meza e -tulipou as mãos contra o rosto, a scismar nos homens. -</p> -<p> -Que estranho poder era esse, que a mulher exercia sobre elles, a tal -ponto, que os infelizes, carregados de deshonra e de ludibrio, ainda -vinham covardes e supplicantes mendigar-lhe o perdão pelo mal que ella -lhes fizera?... -</p> -<p> -E surgio-lhe então uma idéa bem clara da sua propria força e do seu -proprio valor. -</p> -<p> -Sorrio. -</p> -<p> -E no seu sorriso já havia garras. -</p> -<p> -Uma alluvião de scenas, que ella jamais tentára explicar e que até -ahi jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora -nitidas e transparentes. Comprehendeu como era que certos velhos -respeitaveis, cujas photographias Leonie lhe mostrara no dia que -passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, captivos e -submissos, pagando a escravidão com a honra, os bens, e até com a -propria vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o -corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse -outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que no emtanto -fôra posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo -ridiculo que, para gosar um pouco, precisava tirar da sua mesma illusão -a substancia do seu goso; ao passo que a mulher, a senhora, a dona -d'elle, ia tranquillamente desfrutando o seu imperio, endeosada e -querida, prodigalisando martyrios, que os miseraveis aceitavam -contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacaveis mãos que -os estrangulavam. -</p> -<p> -—Ah, homens! homens!... sussurrou ella de envolta com um suspiro. -</p> -<p> -E pegou de novo na costura, deixando que o pensamento vadiasse á solta, -emquanto os dedos iam machinalmente pregando as rendas n'aquella -almofada, em que a sua cabeça teria de repousar para receber o primeiro -beijo genital. -</p> -<p> -N'um só lance de vista, como quem apanha uma esphera entre as pontas de -um compasso, medio com as antennas da sua perspicacia mulheril toda -aquella esterqueira, onde ella, depois de se arrastar por muito tempo -como larva, um bello dia acordou borboleta á luz do sol. E sentio -diante dos olhos aquella massa informe de machos e femeas, a comichar, a -fremir concupiscente, suffocando-se uns aos outros. E vio o Firmo e o -Jeronymo atassalharem-se, como dois cães que disputam uma cadella da -rua; e vio o Miranda, lá defronte, subalterno ao lado da esposa infiel, -que se divertia a fazel-o dançar a seus pés seguro pelos chifres; e -vio o Domingos, que fora da venda, furtando horas ao somno, depois de um -trabalho de burro, e perdendo o seu emprego e as economias ajuntadas com -sacrificio, só para ter um instante de luxuria entre as pernas de uma -desgraçadinha irresponsavel e tola; e tornou a ver o Bruno a soluçar -pela mulher; e outros ferreiros e hortelões, e cavouqueiros, e -trabalhadores de toda a especie, um exercito de bestas sensuaes, cujos -segredos ella possuiu, cujas intimas correspondencias escrevera dia a -dia, cujos corações conhecia como as palmas das mãos, porque a sua -escrivaninha era um pequeno confissionario, onde toda a salsugem e todas -as fezes d'aquella praia de despejo foram arremessadas espumantes de -dôr e aljofradas de lagrimas. -</p> -<p> -E na sua alma enfermiça e aleijada, no seu espirito rebelde de flôr -mimosa e peregrina criada n'um monturo, violeta infeliz, que um estrume -forte de mais para ella atrophiára, a moça presentio bem claro que -nunca daria de si ao marido que ia ter uma companheira amiga, leal e -dedicada; presentio que nunca o respeitaria sinceramente como a um ser -superior por quem damos a vida; que nunca lhe votaria enthusiasmo, e por -conseguinte nunca lhe teria amor; d'esse de que ella se sentia capaz de -amar alguem, se na terra houvéra homens dignos disso, Ah! não o amaria -de certo, porque o Costa era como os outros, passivo e resignado, -aceitando a existencia que lhe impunham as circumstancias, sem ideaes -proprios, sem temeridades de revolta, sem atrevimentos de ambição, sem -vicios tragicos, sem capacidade para grandes crimes; era mais um animal -que viera ao mundo para propagar a especie; um pobre diabo emfim que já -a adorava cegamente e que mais tarde, com ou sem razão, derramaria -aquellas mesmas lagrimas, ridiculas e vergonhosas, que elle vira -decorrendo em quentes camarinhas pelas asperas e mal tratadas barbas do -marido de Leocadia. -</p> -<p> -E não obstante, até então, aquelle matrimonio era o seu sonho -doirado. Pois agora, nas vesperas de obtel-o, sentia repugnancia em -dar-se ao noivo, e, se não fôra a mãe, seria muito capaz de dissolver -o ajuste. -</p> -<p> -Mas, d'ahi a uma semana, a estalagem era toda em reboliço desde logo -pela manhã. Só se fallava em casamento; havia em cada olhar um -sanguineo reflexo de noites nupciaes. Desfolharam-se rosas á porta da -Pombinha. Ás onze horas parou um carro á entrada do cortiço com uma -senhora gorda, vestida de seda côr de perola. Era a madrinha, que vinha -buscar a noiva para a egreja de São João Baptista. A cerimonia estava -marcada para o meio dia. Toda esta formalidade embatucava os -circumstantes, que se alinhavam immoveis defronte do numero 15, com as -mãos crusadas atraz, o rosto paralysado por uma commoção respeitosa; -alguns sorriam enternecidos; quasi todos tinham os olhos resumbrados -d'agoa. -</p> -<p> -Pombinha surgio á porta de casa, já prompta para desferir o grande -vôo; de véo e grinalda, toda de branco, vaporosa, linda. Parecia -commovida; despedia-se dos companheiros atirando-lhes beijos com o seu -ramalhete de flores artificiaes. Dona Isabel chorava como criança, -abraçando as amigas, uma por uma. -</p> -<p> -—Deus lhe ponha virtude! exclamou a Machona. E que lhe dê um bom -parto, quando vier a primeira barriga! -</p> -<p> -A noiva sorria, de olhos baixos. Uma fimbria de desdem toldava-lhe a -rosada candura de seus labios. Encaminhou-se para o portão, cercada -pela bênção de toda aquella gente, cujas lagrimas rebentaram afinal, -feliz cada um por vel-a feliz e em caminho da posição que lhe competia -na sociedade. -</p> -<p> -—Não! aquella não nascera para isto!... sentenciou o Alexandre, -retorcendo o reluzente bigode. Seria lastima se a deixassem ficar aqui! -</p> -<p> -O velho Liborio, cascalhando uma risada decrepita, queixou-se de que o -maganão do Costa lhe passara a perna, roubando-lhe a namorada. -</p> -<p> -Ingrata! Elle que estava disposto a fazer uma asneira! -</p> -<p> -Nênêm deu uma corrida até á noiva, na occasião em que esta chegava -á carruagem e, estalando-lhe um beijo na boca, pedio-lhe com empenho que -se não esquecesse de mandar-lhe um botão da sua grinalda de flores de -larangeira. -</p> -<p> -—Diz que é muito bom para quem deseja casar!... e eu tenho tanto medo -de ficar solteira...! É todo o meu susto! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XIII">XIII</a></h4> - -<p> -Á proporção que alguns locatarios abandonavam a estalagem, muitos -pretendentes surgiam disputando os commodos desalugados. Delporto e -Pompeu foram varridos pela febre amarella e tres outros italianos -estiveram em risco de vida. O numero dos hospedes crescia, os casulos -subdividiam-se em cubiculos do tamanho de sepulturas, e as mulheres iam -despejando crianças com uma regularidade de gado procreador. Uma -familia, composta de mãe viuva e cinco filhas solteiras, das quaes -d'estas a mais velha tinha, trinta annos e a mais moça quinze, veio -occupar a casa que Dona Isabel esvasiou poucos dias depois do casamento -de Pombinha. -</p> -<p> -Agora, na mesma rua, germinava outro cortiço ali perto, o «Cabeça de -Gato.» Figurava como seu dono um portuguez que tambem tinha venda, mas -o legitimo proprietario, era um abastado conselheiro, homem de gravata -lavada, a quem não convinha, por decoro social, apparecer em semelhante -genero de especulações. E João Romão, estalando de raiva, vio que -aquella nova republica da miseria promettia ir adiante e ameaçava -fazer-lhe á sua perigosa concurrencia. Poz-se logo em campo, disposto -á luta, e começou a perseguir o rival por todos os modos, peitando os -fiscaes e guardas municipaes, para que o neo deixassem respirar um -instante com multas e exigencias vexatorias; emquanto pela sorrelfa -plantava no espirito dos seus inquilinos um verdadeiro odio de partido, -que os incompatibilisava com a gente do Cabeça de Gato. Aquelle que -não estivesse disposto a isso ia direitinho para a rua, «que ali se -não admittia meias medidas a tal respeito! Ali: ou bem peixe ou bem -carne! Nada de embrulho!» É inutil dizer que a parte contraria lançou -mão igualmente de todos os meios para guerrear o inimigo, não tardando -que entre os moradores das duas estalagens rebentasse uma tremenda -rivalidade, dia a dia aggravada por pequenas brigas e resingas, em que -as lavadeiras se destacavam sempre com questões de freguezia de roupa. -No fim de pouco tempo os dois partidos estavam já perfeitamente -determinados; os habitantes do Cabeça de Gato tomaram por alcunha o -titulo do seu cortiço, e os de São Romão, tirando o nome do peixe que -a Bertoleza mais vendia á porta da taverna, foram baptisados por -«Carapicús.» Quem se désse com um carapicú não podia entreter a -mais ligeira amisade com um cabeça de gato; mudar-se alguem de uma -estalagem para a outra era renegar idéas e principios e ficava apontado -a dedo; denunciar a um contrario o que se passava, fosse o que fosse, -dentro do circulo opposto, era commetter traição tamanha, que os -companheiros a puniam a páo. Um vendedor de peixe, que cahio na asneira -de fallar a um cabeça de gato a respeito de uma briga entre a Machona e -sua filha, a das Dôres, foi encontrado quasi morto perto do cemiterio -de São João Baptista. Alexandre, esse então não cochilava com os -adversarios: nas suas partes policiaes figurava sempre o nome de um -delles pelo menos, mas entre os proprios policias havia adeptos de um e -de outro partido; o urbano que entrava na venda de João Romão tinha -escrupulo de tomar qualquer coisa ao balcão da outra venda. Em meio do -pateo do Cabeça de Gato arvorára-se uma bandeira amarella; os -carapicús responderam logo levantando um pavilhão vermelho. E as duas -côres olhavam-se no ar como um desafio de guerra. -</p> -<p> -A batalha era inevitavel. Questão de tempo. -</p> -<p> -Firmo, assim que se instaurara a nova estalagem, abandonou o quarto na -officina e metteu-se lá de sucia com o Porfiro, apezar da opposição -de Rita, que mais depressa o deixaria a elle do que aos seus velhos -camaradas de cortiço. D'ahi nasceu certa ponta de discordia entre os -dois amantes; as suas entrevistas tornavam-se agora mais raras e mais -difficeis. A bahiana, por coisa alguma d'esta vida, poria os pés no -Cabeça de Gato e o Firmo achava-se, como nunca, incompatibilisado com -os carapicús. Para estar juntos tinham encontros mysteriosos n'um -calogio de uma velha miseravel de rua de São João Baptista, que lhe -cedia a cama, mediante esmolas. O capoeira fazia questão de ficar no -Cabeça de Gato, porque ahi se sentia resguardado contra qualquer -perceguição que o seu delicto motivasse; de resto, Jeronymo não -estava morto e, uma vez bem curado, podia vir sobre elle com gana. No -Cabeça de Gato, o Firmo conquistára rapidas sympathias e -constituira-se chefe de malta. Era querido e venerado; os companheiros -tinham enthusiasmo pela sua destreza e pela sua coragem; sabiam-lhe de -cór a legenda rica de façanhas e victorias. O Porfiro secundava-o sem -lhe disputar a primasia, e estes dois, só por si, impunham respeito aos -carapicús, entre os quaes, não obstante, havia muito boa gente para o -que désse e viesse. -</p> -<p> -Mas ao cabo de tres mezes, João Romão, notando que os seus interesses -nada soffriam com a existencia da nova estalagem e, até pelo contrario, -lucravam com o progressivo movimento de povo que se ia fazendo no -bairro, retornou á sua primitiva preoccupação com o Miranda, unica -rivalidade que verdadeiramente o estimulava. -</p> -<p> -Desde que o visinho surtio com o baronato, o vendeiro transformava-se -por dentro e por fóra a causar pasmo. Mandou fazer boas roupas e aos -domingos refestelava-se de casaco branco, e de meias, assentado defronte -da venda, a ler jornaes. Depois deu para sahir a passeio, vestido de -casimira, calçado e de gravata. Deixou de tosquiar o cabello á -escovinha; pôz a barba abaixo, conservando apenas o bigode, que elle -agora tratava com brilhantina todas as vezes que ia ao barbeiro. Já -não era o mesmo lambusão! E não parou ahi fez-se: socio de um club de -dança e, duas noites por semana, ia aprender a dançar; começou a uzar -relogio e cadeia de ouro; correu uma limpeza no seu quarto de dormir, -mandou soalhal-o, forrou e pintou-o; comprou alguns moveis em segunda -mão; arranjou um chuveiro ao lado da retrete: principiou a comer com -guardanapo e a ter toalha e copos sobre a mesa; entrou a tomar vinho, -não do ordinario que vendia aos trabalhadores, mas de um especial que -guardava para seu gasto. Nos dias de folga atirava-se para o passeio -publico depois do jantar ou ia ao theatro São Pedro de Alcantara -assistir aos espectaculos da tarde; do Jornal do Commercio, que era o -unico que elle assignava havia já tres annos e tanto, passou a receber -mais dois outros e a tomar fasciculos de romances francezes traduzidos, -que o ambicioso lia de cabo a rabo, com uma paciencia de santo, na doce -convicção de que se instruia. -</p> -<p> -Admittio mais tres caixeiros; já se não prestava muito a servir -pessoalmente á negralhada da vizinhança, agora até mal chegava ao -balcão. E em breve o seu typo começou a ser visto com frequencia na -rua Direita, na praça do commercio e nos bancos, o chapéu alto -derreado para a nuca e o guarda-chuva debaixo do braço. Principiava a -metter-se em altas especulações, aceitava acções de companhias de -titulos inglezes e só emprestava dinheiro com garantias de boas -hypothecas. -</p> -<p> -O Miranda tratava-o já de outro modo, tirava-lhe o chapéo, parava -risonho para lhe fallar quando se encontravam na rua, e ás vezes -trocava com elle dois dedos de palestra á porta da venda. Acabou por -offerecer-lhe a casa e convidal-o para o dia de annos da mulher, que era -d'ahi a pouco tempo. João Romão agradeceu o obsequio, desfazendo-se em -demonstrações de reconhecimento, mas não foi lá. -</p> -<p> -Bertoleza é que continuava na cepa torta, sempre a mesma crioula suja, -sempre atrapalhada de serviço, sem domingo nem dia santo; essa, em -nada, em nada absolutamente, participava das novas regalias do amigo; -pelo contrario, á medida que elle galgava posição social, a -desgraçada fazia-se mais e mais escrava e rasteira. João Romão subia -e ella ficava cá em baixo, abandonada como uma cavalgadura de que já -não precisamos para continuar a viagem. Começou a cahir em tristeza. -</p> -<p> -O velho Botelho chegava-se tambem para o vendeiro, e ainda mais do que o -proprio Miranda. O parasita não sabia agora depois do almoço para a -sua prosa na charutaria, nem voltava á tarde para o jantar, sem -deter-se um instante á porta do visinho ou, pelo menos, sem lhe gritar -lá para dentro: «Então, seu João, isso vai ou não vai?...» E tinha -sempre uma phraze amigavel para lhe atirar cá de fóra. Em geral o -taverneiro acudia a apertar-lhe a mão, de cara alegre, e propunha-lhe -que bebesse alguma coisa. -</p> -<p> -Sim, João Romão já convidava para beber alguma coisa. Mas não era á -tôa que o fazia, que aquelle mesmo não mettia prego sem estopa! Tanto -assim que uma vez, em que os dois sahiram á tardinha para dar um giro -até á praia, Botelho, depois de fallar com o costumado enthusiasmo do -seu bello amigo Barão e da virtuosissima familia d'este, accrescentou -com o olhar fito: -</p> -<p> -—Aquella pequena é que lhe estava a calhar, seu João!... -</p> -<p> -—Como? Que pequena? -</p> -<p> -—Ora morda aqui! Pensa que já não dei pelo namoro?... Maganão! -</p> -<p> -O vendeiro quiz negar, mas o outro atalhou: -</p> -<p> -—É um bom partido, é! Excellente menina ... tem um genio de -pomba ... uma educação de princeza: até o francez sabe! Toca piano como -você tem ouvido ... canta o seu bocado ... aprendeu desenho ... muito boa -mão de agulha!... e... -</p> -<p> -Abaixou a voz e segredou grosso no ouvido do interlocutor:—Ali, tudo -aquillo é solido!... Predios e acções do banco!... -</p> -<p> -—Você tem certeza d'isso? Já vio? -</p> -<p> -Já! Palavra d'honra! -</p> -<p> -Calaram-se um instante. -</p> -<p> -Botelho continuou depois: -</p> -<p> -—O Miranda é bom homem, coitado! tem lá as suas fumaças de grandeza, -mas não o podemos criminar ... são coisas pegadas da mulher; no -emtanto acho-o com boas disposições a seu respeito ... e, se você -souber leval-o, apanha-lhe a filha... -</p> -<p> -—Ella talvez não queira... -</p> -<p> -—Qual o que! Pois uma menina d'aquellas, criada a obedecer aos pais, -sabe lá o que é não querer? Tenha você uma pessoa, de intimidade com -a familia, que de dentro empurre o negocio e verá se consegue ou não! -Eu, por exemplo! -</p> -<p> -—Ah! se você se mettesse n'isso, que duvida! Dizem que o Miranda só -faz o que você quer... -</p> -<p> -—Dizem com razão. -</p> -<p> -—E você está resolvido a...? -</p> -<p> -—A protegel-o?... Sim, de certo: n'este mundo estamos nós para servir -uns aos outros!... apenas, como não sou rico... -</p> -<p> -—Ah! Isso é dos livros! Arranje-me você o negocio e não se -arrependerá... -</p> -<p> -—Conforme, conforme... -</p> -<p> -—Creio que não me suppõe um velhaco!... -</p> -<p> -—Por amor de Deus! Sou incapaz de semelhante sacrilegio! -</p> -<p> -—Então!... -</p> -<p> -—Sim, sim ... em todo o caso fallaremos depois, com mais vagar... Não -é sangria desatada! -</p> -<p> -E desde então, com effeito, sempre que os dois se pilhavam a sós -discutiam o seu plano de ataque á filha do Miranda. Botelho queria -vinte contos de réis, e com papel passado a praso de casamento; o outro -offerecia dez. -</p> -<p> -—Bom! então não temos nada feito ... resumio o velho. Trate você do -negocio só por si; mas já lhe vou prevenindo de que não conte comigo -absolutamente... Comprehende? -</p> -<p> -—Quer dizer que me fará guerra... -</p> -<p> -—Valha-nos Deus, creatura! não faço guerra a ninguem! guerra está -você a fazer-me, que não me quer deixar comer uma migalha da bella -fatia que lhe vou metter no papo!... O Miranda hoje tem para mais de mil -contos de réis! Agora, fique sabendo que a coisa não é assim tambem -tão facil, como lhe parece talvez... -</p> -<p> -—Paciencia! -</p> -<p> -—O Barão ha de sonhar com um genro de certa ordem!... -</p> -<p> -Ahi algum deputado ... algum homem que faça figura na politica aqui da -terra! -</p> -<p> -—Não! melhor seria um principe!... -</p> -<p> -—E mesmo a pequena tem um doutorzinho de boa familia, que lhe ronda -muito a porta... E ella, ao que parece, não lhe faz má cara... -</p> -<p> -—Ah! n'esse caso é deixal-os lá arranjar a vida! -</p> -<p> -—É melhor, é! Creio até que com elle será mais facil qualquer -transacção... -</p> -<p> -—Então não fallemos mais n'isto! Está acabado! -</p> -<p> -—Pois não fallemos! -</p> -<p> -Mas no dia seguinte voltaram á questão: -</p> -<p> -—Homem! disse o vendeiro; para decidir, dou-lhe quinze! -</p> -<p> -—Vinte! -</p> -<p> -—Vinte, não! -</p> -<p> -—Por menos não me serve! -</p> -<p> -—E eu vinte não dou! -</p> -<p> -—Nem ninguem o obriga... Adeuzinho! -</p> -<p> -—Até mais ver. -</p> -<p> -Quando se encontraram de novo, João Romão rio-se para o outro, sem -dizer palavra. O Botelho, em resposta, fez um gesto de quem não quer -intrometter-se com o que não é da sua conta. -</p> -<p> -—Você é o diabo!... faceteou aquelle, dando-lhe no hombro uma palmada -amigavel, Então não ha meio de chegarmos a um accordo?... -</p> -<p> -—Vinte! -</p> -<p> -—E, caso esteja eu pelos vinte, posso contar que...? -</p> -<p> -—Caso o meu nobre amigo se decida pelos vinte, receberá do Barão um -chamado para lá ir jantar ao primeiro domingo; acceita o convite, vae, -e encontrará o terreno preparado. -</p> -<p> -—Pois seja lá como você quer! mais vale um gosto do que quatro -vintens! -</p> -<p> -O Botelho não faltou ao promettido: dias depois do contracto sellado e -assignado, João Romão recebeu uma carta do visinho, solicitando-lhe a -fineza de ir jantar com elle mais a familia. -</p> -<p> -Ah! que revolução não se ferio no espirito do vendeiro! passou dias a -estudar aquella visita; ensaiou o que tinha que dizer, conversando -sósinho defronte do espelho do seu lavatorio; afinal, no dia marcado, -banhou-se em varias agoas, areiou os dentes até fazel-os bem limpos, -perfumou-se todo dos pés á cabeça, escanhoou-se com esmero, aparou e -burnio as unhas, vestio-se de roupa nova em folha, e ás quatro e meia -da tarde apresentou-se, risonho e cheio de timidez, no espelhado e -pretencioso salão de S. Ex.ª. -</p> -<p> -Aos primeiros passos que déra sobre o tapete, onde seus grandes pés, -affeitos por toda vida á independencia do chinello e do tamanco, se -destacavam como um par de tartarugas, sentio logo o suor dos grandes -apuros innundar-lhe o corpo e correr-lhe em bagada pela fronte e pelo -pescoço, nem que se o desgraçado acabasse de vencer n'aquelle instante -uma legoa de carreira ao sol. As suas mãos, vermelhas e redondas, -gottejavam, e elle não sabia o que fazer d'ellas, depois que o Barão, -muito solicito, lhe tomou o chapéo e o guarda-chuva. -</p> -<p> -Arrependia-se já de ter lá ido. -</p> -<p> -—Fique a gosto, homem! bradou-lhe o dono da casa. Se tem calor venha -antes aqui para a janella. Não faça cerimonia! Ó Leonor! trago -vermouth! Ou o amigo prefere tomar um copinho de cerveja? -</p> -<p> -João Romão acceitava tudo, com sorrisos de acanhamento, sem animo de -arriscar palavra. A cerveja fel-o suar ainda mais e, quando appareceram -na sala Dona Estella e a filha, o pobre diabo chegava a causar dó de -tão atrapalhado que se via. Por duas vezes escorregou, e n'uma d'ellas -foi apoiar-se a uma cadeira que tinha rodizios; a cadeira afastou-se e -elle quasi vai ao chão. -</p> -<p> -Zulmira rio-se, mas disfarçou logo a sua hilaridade pondo-se a -conversar com a mãe em voz baixa. Agora, refeita nos seus desesete -annos, não parecia tão anemica e deslavada; vieram-lhe os seios e -engrossára-lhe o quadril. Estava melhor assim. Dona Estella, coitada! -é que se precipitava, a passos de granadeiro, para a velhice, a -despeito da resistencia com que se rendia; tinha já dois dentes -postiços, pintava o cabello, e dos cantos da bocca duas rugas -serpenteavam-lhe pelo queixo abaixo, desfazendo-lhe a primitiva graça -maliciosa dos labios; ainda assim, porém, conservava o pescoço branco, -liso e grosso, e os seus braços não desmereciam dos antigos creditos. -</p> -<p> -Á meza, a visita comeu tão pouco e tão pouco bebeu, que os donos da -casa a censuraram jovialmente, fingindo acceitar o facto como prova -segura de que o jantar não prestava; o obsequiado pedia por amor de -Deus que não acreditassem em tal e jurava sob palavra de honra que se -sentia satisfeito e que nunca outra comida lhe soubéra tão bem. -Botelho lá estava, ao lado de um velhote fazendeiro, que por essa -occasião hospedava-se com o Miranda. Henrique, approvado no seu -primeiro anno de medicina, fôra visitar a familia em Minas. Isaura e -Leonor serviam aos commensaes, rindo ambas á socapa por verem ali o -João da venda engravatado e com piegas de visita. -</p> -<p> -Depois do jantar appareceu uma familia conhecida, trazendo um rancho de -moças; vieram tambem alguns rapazes; formaram-se jogos de prendas, e -João Romão, pela primeira vez em sua vida, vio-se mettido em taes -funduras. Não se sahio mal todavia. -</p> -<p> -O chá das dez e meia correu sem novidade; e, quando emfim o neophyto se -pilhou na rua, respirou com independencia, remexendo o pescoço dentro -do collarinho engommado e soprando com allivio. Uma alegria de Victoria -transbordava-lhe do coração e fazia-o feliz n'esse momento. Bebeu o ar -fresco da noite com uma volupia nova para elle e, muito satisfeito -comsigo mesmo, entrou em casa e recolheu-se, rejubilando com a idéa de -que ia descalçar aquellas botas, desfazer-se de toda aquella roupa e -atirar-se á cama, para pensar mais á vontade no seu futuro, cujos -horizontes se rasgavam agora illuminados de esperança. -</p> -<p> -Mas a bolha do seu desvanecimento engelhou logo á vista de Bertoleza -que, estendida na cama, roncava, de papo para o ar, com a boca aberta, a -camisa soerguida sobre o ventre, deixando ver o negrume das pernas -gordas e lustrosas. -</p> -<p> -E tinha de estirar-se ali, ao lado d'aquella preta fedorenta a cozinha e -bodum de peixe! Pois, tão cheiroso e radiante como se sentia, havia de -pôr a cabeça n'aquelle mesmo travesseiro sujo em que se enterrava a -hedionda carapinha da crioula?... -</p> -<p> -—Ai! ai! gemeu o vendeiro, resignando-se. -</p> -<p> -E despio-se. -</p> -<p> -Uma vez deitado, sem animo de afastar-se da beira da cama, para não se -encostar com a amiga, surgio-lhe nitida ao espirito a comprehensão do -estorvo que o diabo d'aquella negra seria para o seu casamento. -</p> -<p> -E elle que até ahi não pensara n'isso!... Ora o demo! -</p> -<p> -Não poude dormir; pôz-se a malucar: -</p> -<p> -Ainda bem que não tinham filhos! Abençoadas drogas que a Bruxa déra -á Bertoleza nas duas vezes em que esta se sentio gravida! Mas, afinal, -de que modo se veria livre d'aquelle trambolho? E não se ter lembrado -d'isso ha mais tempo!... parecia incrivel! -</p> -<p> -João Romão, com effeito, tão ligado vivêra com a crioula e tanto se -habituara a vel-a ao seu lado, que nos seus devaneios de ambição, -pensou em tudo, menos n'ella. -</p> -<p> -E agora? -</p> -<p> -E malucou no caso até ás duas da madrugada, sem achar furo. Só no dia -seguinte, ao contemplal-a de cocaras á porta da venda, abrindo e -destripando peixe, foi que, por associação de idéas, lhe acudio esta -hypothese: -</p> -<p> -—E se ella morresse?... -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XIV">XIV</a></h4> - -<p> -Iam-se assim os dias, e assim mais de tres mezes se passaram depois da -noite da navalhada. Firmo continuava a encontrar-se com a bahiana na rua -de São João Baptista, mas a mulata, já não era a mesma para elle; -apresentava-se fria, distrahida, ás vezes impertinente, puxando -questão por dá cá aquella palha. -</p> -<p> -—Hun! hun! temos mouro na costa! rosnava o capadocio com ciumes. Ora -queira Deus que eu me engane! -</p> -<p> -Nas entrevistas apresentava-se ella agora sempre um pouco depois da hora -marcada, e a sua primeira phrase era para dizer que tinha pressa e não -podia demorar-se. -</p> -<p> -—Estou muita apertada de serviço! accrescentava á replica do amante. -Uma roupa de uma familia que embarca amanhã para o norte! Tem de ficar -prompta esta noite! -</p> -<p> -Já hontem fiz serão! -</p> -<p> -—Agora estás sempre apertada de serviço!... resmungava o Firmo. -</p> -<p> -—É que é preciso puxar por elle, filho! Ponha-me eu a dormir e quero -ver do que como e com que pago a casa! Não ha de ser com o que levo -daqui! -</p> -<p> -—Ora essa! Tens coragem de dizer que não te dou nada? E quem foi que -te deu esse vestido que tens no corpo?! -</p> -<p> -—Não disse que nunca me désse nada, mas com o que você me dá não -pago a casa e não ponho a panella no fogo! Tambem não lhe estou -pedindo coisa alguma! Oh! -</p> -<p> -Azedavam-se d'este modo as suas entrevistas, esfriando as poucas horas -que os dois tinham para o amor. Um domingo, Firmo esperou bastante tempo -e Rita não appareceu. O quarto era acanhado e sombrio, sem janellas, -com um cheiro máo de bafio e humidade. Elle havia levado um embrulho de -peixe frito, pão e vinho, para almoçarem juntos. Deu meio dia e Firmo -esperou ainda, passeiando na estreiteza da miseravel alcova, como uma -onça enjaulada, rosnando pragas obscenas; o sobrolho intumescido, os -dentes cerrados. «Se aquella safada lhe apparecesse n'aquelle momento, -elle seria capaz de torcel-a nas mãos!» -</p> -<p> -Á vista do embrulho da comida estoirou-lhe a raiva. Deu um pontapé -n'uma bacia de louça que havia no chão, perto da cama, e soltou um -murro na cabeça. -</p> -<p> -—Diabo! -</p> -<p> -Depois assentou-se no leito, esperou ainda algum tempo, fungando forte, -sacudindo as pernas crusadas, e afinal sahio, atirando para dentro do -quarto uma palavra porca. -</p> -<p> -Pela rua, durante o caminho, jurava que «aquella caro pagaria a -mulata!» Um sofrejo desejo de castigal-a, no mesmo instante, o attrahia -ao cortiço de São Romão, mas não se sentio com animo de lá ir, e -contentou-se em rondar a estalagem. Não conseguio vel-a; resolveu -esperar até á noite para lhe mandar um recado. E vagou aborrecido pelo -bairro, arrastando o seu desgosto por aquelle domingo sem pagode. Ás -duas horas da tarde entrou no botequim do Garnizé, uma espelunca, perto -da praia, onde elle costumava beber de sucia com o Porfiro. O amigo não -estava lá. Firmo atirou-se n'uma cadeira, pedio um martello de paraty -e accendeu um charuto, a pensar. Um mulatinho, morador no Cabeça de -Gato, veio assentar-se na mesma meza e, sem rodeios, deu-lhe a noticia -de que na vespera o Jeronymo tivera baixa no hospital. -</p> -<p> -Firmo acordou com um sobresalto. -</p> -<p> -—O Jeronymo?! -</p> -<p> -—Apresentou-se hoje pela manhã na estalagem. -</p> -<p> -—Como soubeste? -</p> -<p> -—Disse-me o Pataca. -</p> -<p> -—Ora ahi está o que é! exclamou o capoeira, soltando um murro na -meza. -</p> -<p> -—Que é o que? interrogou o outro. -</p> -<p> -—Nada! É cá comigo. Toma alguma coisa? -</p> -<p> -Veio novo copo, e Firmo resmungou no fim de uma pausa: -</p> -<p> -—É! não ha duvida! Por isto é que a perua ultimamente me anda de -vento mudado!... -</p> -<p> -E um ciume doido, um desespero feroz rebentou-lhe por dentro e cresceu -logo como a sede de um ferido. «Oh! precisava vingar-se d'ella! d'ella -e d'elle! O amaldiçoado resistio á primeira, mas não lhe escaparia da -segunda!» -</p> -<p> -—Veja mais um martello de paraty! gritou para o portuguezinho da -espelunca. E acrescentou, batendo com toda a força o seu petropolis no -chão:—E não passa de hoje mesmo! -</p> -<p> -Com o chapéo á ré, a gaforina mais assanhada que de costume, os olhos -vermelhos, a boca espumando pelos cantos, todo elle respirava uma febre -de vingança e de odio. -</p> -<p> -—Olha! disse ao companheiro de meza. D'isto, nem pio lá com os -carapicús! Se abrires o bico dou-te cabo da pelle! Já me conheces! -</p> -<p> -—Tenho nada que fallar! Pr'a que? -</p> -<p> -—Bom! -</p> -<p> -E ficaram ainda a beber. -</p> -<p> -Jeronymo, com effeito, tivera alta e tornára aquelle domingo ao -cortiço, pela primeira vez depois da doença. Vinha magro, pallido, -desfigurado, apoiando-se a um pedaço de bambú. Crescêra-lhe a barba e -o cabello, que elle não queria cortar sem ter cumprido certo juramento -feito aos seus brios. A mulher fôra buscal-o ao hospital e caminhava ao -seu lado, igualmente abatida com a molestia do marido e com as causas -que a determinaram. Os companheiros receberam-no compungidos, tomados de -uma tristeza respeitosa; um silencio fez-se em torno do convalescente; -ninguem fallava senão a meia voz; a Rita Bahiana tinha os olhos -arrazados d'agoa. -</p> -<p> -Piedade levou o seu homem para o quarto. -</p> -<p> -—Queres tomar um caldinho? perguntou-lhe. Creio que ainda não estás -de todo prompto... -</p> -<p> -—Estou! contrapôz elle. Diz o doutor que preciso é de andar, para ir -chamando força ás pernas. Tambem estive tanto tempo preso á cama! Só -de uma semana p'ra cá é que encostei os pés no chão! -</p> -<p> -Deu alguns passos na sua pequena sala e disse depois, tornando junto da -mulher:—O que me saberia bem agora era uma chicrinha de café, mas -queria-o bom como o faz a Rita... Olha! pede-lhe que o arranje. -</p> -<p> -Piedade soltou um suspiro e sahio vagarosamente, para ir pedir o -obsequio á mulata. Aquella preferencia pelo café da outra doía-lhe -duro que nem uma infidelidade. -</p> -<p> -—Lá o meu homem quer do seu café e torce o nariz ao de casa... Manda -pedir-lhe que lhe faça uma chicara. Pode ser? perguntou a portugueza á -bahiana. -</p> -<p> -—Não custa nada! respondeu esta. Com poucas está lá! -</p> -<p> -Mas não foi preciso que o levasse, porque d'ahi a um instante, -Jeronymo, com o seu ar tranquillo e passivo de quem ainda se não refez -de todo depois de uma longa molestia, surgio-lhe á porta. -</p> -<p> -—Não vale a pena estorvar-se em lá ir... Se me dá licença, bebo o -cafézinho aqui mesmo... -</p> -<p> -—Entra, seu Jeronymo. -</p> -<p> -—Aqui elle sabe melhor... -</p> -<p> -—Você pega já com partes! Olha, sua mulher, anda de pé atraz comigo! -E eu não quero historias!... -</p> -<p> -Jeronymo sacudio os hombros com desdem. -</p> -<p> -—Coitada!... resmungou depois. Muito boa creatura, mas... -</p> -<p> -—Cala a boca, diabo! Toma o café e deixa de maldizencia! E mesmo -vicio de Portugal: comendo e dizendo mal! -</p> -<p> -O portuguez sorveu com delicia um gole de café. -</p> -<p> -—Não digo mal, mas confesso que não encontro n'ella umas tantas -coisas que desejava... -</p> -<p> -E chupou os bigodes. -</p> -<p> -—Vocês são tudo a mesma sucia! Bem tola é quem vai atraz de labia de -homem! Eu cá não quero mais saber d'isso... Ao outro despachei já! -</p> -<p> -O cavouqueiro teve um tremor de todo o corpo. -</p> -<p> -—Outro quem? O Firmo? -</p> -<p> -Rita arrependeu-se do que disséra, e gaguejou: -</p> -<p> -—É um coisa ruim! Não quero saber mais d'elle!... Um traste! -</p> -<p> -—Elle ainda vem cá? perguntou o cavouqueiro. -</p> -<p> -—Aqui? Qual! N'essa não cáe! E se vier não lhe abro a porta! Ah! -quando embirro com uma pessoa é que embirro mesmo! -</p> -<p> -—Isso é verdade, Rita? -</p> -<p> -—Que? Que não quero saber mais d'elle? Esta que aqui está nunca mais -fará vida com semelhante cábula! Juro por esta luz! -</p> -<p> -—Elle fez-lhe alguma? -</p> -<p> -—Não sei! não quero! acabou-se! -</p> -<p> -—E que então você tem outro agora... -</p> -<p> -—Que esperança! Não tenho, nem quero mais ter homem! -</p> -<p> -—Porque, Rita? -</p> -<p> -—Ora! não paga a pena! -</p> -<p> -—E ... se você encontrasse um ... que a quizesse devéras ... para -sempre?... -</p> -<p> -—Não é com essas!... -</p> -<p> -—Pois sei de um que a quer como Deus aos seus!... -</p> -<p> -—Pois diga-lhe que outro officio! -</p> -<p> -Ella se chegou para recolhera chicara, e elle apalpou-lhe a cintura. -</p> -<p> -—Olha! Escuta! -</p> -<p> -Rita fugio com uma rabanada, e disse rapido, muito a serio: -</p> -<p> -—Deixa d'isso. Póde tua mulher ver! -</p> -<p> -—Vem cá! -</p> -<p> -—Logo. -</p> -<p> -—Quando? -</p> -<p> -—Logo mais. -</p> -<p> -—Onde? -</p> -<p> -—Não sei. -</p> -<p> -—Preciso muito te fallar... -</p> -<p> -—Pois sim, mas aqui fica feio. -</p> -<p> -—Onde nos encontramos então? -</p> -<p> -—Sei cá! -</p> -<p> -E, vendo que Piedade entrava, ella disfarçou, dizendo sem transição: -</p> -<p> -—Os banhos frios é que são bons para isso! Põem duro o corpo! -</p> -<p> -A outra, embesourada, atravessou em silencio a pequena sala, foi ter com -o marido e communicou-lhe que o Zé Carlos queria fallar-lhe, junto com -o Pataca. -</p> -<p> -—Ali! fez Jeronymo. Já sei o que é. Até logo, nhá Rita. Obrigado. -Quando quizer qualquer coisa de nós, lá estamos. -</p> -<p> -Ao sahir no pateo aquelles dois vieram ao seu encontro. O cavouqueiro -levou-os para a casa, onde a mulher havia posto já a meza do almoço, e -com um signal prevenio-os de que não fallassem por emquanto sobre o -assumpto que os trouxera ali. Jeronymo comeu ás pressas e convidou as -visitas a darem um giro lá fóra. -</p> -<p> -Na rua, perguntou-lhes em tom mysterioso: -</p> -<p> -—Onde poderemos fallar á vontade? -</p> -<p> -O Pataca lembrou a venda do Manoel Pépé, defronte do cemiterio. -</p> -<p> -—Bem achado! confirmou Zé Carlos. Ha lá bons fundos para se -conversar. -</p> -<p> -E os tres puzeram-se a caminho, sem trocar mais palavra até á esquina. -</p> -<p> -—Então está de pé o que dissemos?... indagou afinal aquelle ultimo. -</p> -<p> -—De pedra e cal! respondeu o cavouqueiro. -</p> -<p> -—E o que é que se faz? -</p> -<p> -—Ainda não sei... Preciso antes de tudo saber onde o cabra é -encontrado á noite. -</p> -<p> -—No Garnizé, affirmou o Pataca. -</p> -<p> -—Garnizé? -</p> -<p> -—Aquelle botequim ali ao entrar da rua da Passagem, onde está um -gallo á taboleta. -</p> -<p> -—Ah! Defronte da pharmacia nova... -</p> -<p> -—Justo! Elle vai lá agora todas as noites, e lá esteve hontem, que o -vi, por signal que n'um gole... -</p> -<p> -Muito bebedo, hein? -</p> -<p> -—Como uma gambá! Aquillo foi alguma, que a Rita Bahiana lhe pregou de -fresco! -</p> -<p> -Tinham chegado á venda. Entraram pelos fundos e assentaram-se sobre -caixas de sabão vazias, em volta de uma meza de pinho. Pediram paraty -com assucar. -</p> -<p> -—Onde é que elles se encontravam?... informou-se Jeronymo, affectando -que fazia esta pergunta sem interesse especial. Lá mesmo no São -Romão?... -</p> -<p> -—Quem? A Rita mais elle? Ora o que! Pois se elle agora é todo Cabeça -de Gato!... -</p> -<p> -—Ella ia lá? -</p> -<p> -—Duvido! Então logo aquella! Aquella é carapicú até o sabugo das -unhas! -</p> -<p> -—Nem sei como ainda não romperam! interveio Zé Carlos, que continuou -a fallar a respeito da mulata; emquanto Jeronymo o escutava abstracto, -sem tirar os olhos de um ponto. -</p> -<p> -O Pataca, como se acompanhasse o pensamento do cavouqueiro, disse-lhe -emborcando o resto do copo: -</p> -<p> -—Talvez o melhor fosse liquidar a coisa hoje mesmo!.. -</p> -<p> -—Ainda estou muito fraco ... observou lastimoso o convalescente. -</p> -<p> -—Mas o teu páo está forte! E alem disso cá estamos nós dois. Tu -podes até ficar em casa, se quizeres... -</p> -<p> -—Isso é que não! atalhou aquelle. Não dou o meu quinhão pelos -dentes da boca! -</p> -<p> -—Eu cá tambem vou que o melhor seria pespegar-lhe hoje mesmo a -sova ... declarou o outro. Pão de um dia pr'a outro fica duro! -</p> -<p> -—E eu estou-lhe com uma gana!... accrescentou o Pataca. -</p> -<p> -—Pois seja hoje mesmo! resolveu Jeronymo. E o dinheiro lá está em -casa, quarenta pr'a cada um! Em seguida á méla corre logo o cobre! E -ao depois vai a gente tomar uma fartadela de vinho fino! -</p> -<p> -—A que horas nos juntamos? perguntou Zé Carlos. -</p> -<p> -—Logo ao cahir da noite, aqui mesmo. Está dito? -</p> -<p> -—E será feito, se Deus quizer! -</p> -<p> -O Pataca accendeu o cachimbo, e os tres puzeram-se a cavaquear -animadamente sobre o effeito que aquella sova havia de produzir; a cara -que o cabra faria entre tres bons cacetes. «Então é que queriam ver -até onde ia a imposturia da navalha! Diabo de um colhordas que, por -um—vai tu, irei eu—arrancava logo pelo ferro!...» -</p> -<p> -Dois trabalhadores, em camisa de meia, entraram na tasca e o grupo -calou-se. Jeronymo fogueou um cigarro no cachimbo do Pataca e -despedio-se, relembrando aos companheiros a hora da entrevista e -atirando sobre a meza um nikel de duzentos reis. -</p> -<p> -Foi direito para o cortiço. -</p> -<p> -—Fazes mal em andar por ahi com este sol!... reprehendeu Piedade, ao -vel-o entrar. -</p> -<p> -—Pois se o doutor me disse que andasse quanto pudesse... -</p> -<p> -Mas recolheu-se á casa, estirou-se na cama e ferrou logo no somno. A -mulher, que o acompanhara até lá, assim que o vio dormindo, enxotou as -moscas de junto d'elle, cobrio-lhe a cara com uma cambraia que servia -para os taboleiros de roupa engommada, e sahio na ponta dos pés, -deixando a porta encostada. -</p> -<p> -Jantara d'ahi a duas horas, Jeronymo comeu com appetite, bebeu uma -garrafa de vinho, e a tarde passaram-na os dois de palestra, assentados -á frente de casa, formando grupo com a Rita e a gente da Machona. Em -torno d'elles a liberdade feliz do domingo punha alegrias naquella -tarde. Mulheres amamentavam o filhinho ali mesmo, ao ar livre, mostrando -a uberdade das tetas cheias. Havia muito riso, muito parolar de -papagaios; pequenos travessavam, tão depressa rindo como chorando; os -italianos faziam a ruidosa digestão dos seus jantares de festa; -ouviam-se cantigas e pragas entre gargalhadas. A Augusta, que estava -gravida de sete mezes, passeava solemnemente o seu bandulho, levando um -outro filho ao collo. O Albino, installado defronte de uma mezinha em -frente á sua porta, fazia, á força de paciencia, um quadro, composto -de figurinhas de caixa de phosphoros, recortadas a tesoura e grudadas em -papelão com gomma arabica. E lá em cima, numa das janellas do Miranda, -João Romão, vestido de casimira clara, uma gravata á moda, já -familiarisado com a roupa e com a gente fina, conversava com Zulmira -que, ao lado d'elle, sorrindo de olhos baixos, atirava migalhas de pão -para as gallinhas do cortiço; ao passo que o vendeiro lançava para -baixo olhares de desprezo sobre aquella gentalha sensual, que o -enriquecêra, e que continuava a mourejar estupidamente, de sol a sol, -sem outro ideal senão comer, dormir e procrear. -</p> -<p> -Ao cahir da noite, Jeronymo foi, como ficára combinado, á venda do -Pépé. Os outros dois já lá estavam. Infelizmente havia mais alguem -na tasca. Tomaram juntos, pelo mesmo copo, um martello de paraty e -conversaram em voz surda n'uma conspiração sombria em que as suas -barbas roçavam umas com as outras. -</p> -<p> -—Os páos onde estão?... perguntou o cavouqueiro. -</p> -<p> -—Ali, junto ás pipas ... segredou o Pataca, apontando com disfarce -para uma esteira velha enrolada. Preparei-os ainda ha pouco... Não os -quiz muito grandes... D'este tamanho. -</p> -<p> -E abrio a mão contra a terra no logar do peito.—Estiveram de molho -até agora ... acrescentou, piscando o olho. -</p> -<p> -—Bom! approvou Jeronymo, esgotando o copo com um ultimo gole. Agora -onde vamos nós? Parece-me ainda cedo para o Garnizé. -</p> -<p> -—Ainda! confirmou o Pataca. Deixemo-nos ficar por aqui mais um pouco -e ao depois então seguiremos. Eu entro no botequim e vocês me esperam -fóra no logar que marcarmos... Se o cabra não estiver lá, volto logo -a dizer-lhes, e, caso esteja, fico ... chego-me para elle, procuro -entrar em conversa, puxo discussão e afinal desafio-o pr'a rua; elle -cáe na esparrella, e então vocês dois surgem e mettem-se na dansa, -como quem não quer a coisa! Que acham? -</p> -<p> -—Perfeito! applaudio Jeronymo, e gritou para dentro.—Olha mais -um martello de paraty! -</p> -<p> -Em seguida enterrou a mão no bolso da calça e saccou um rôlo grosso -de notas. -</p> -<p> -—Podem enxugar á vontade! disse. Aqui ainda ha muito com que! -</p> -<p> -E, ordenando as notas, separou oitenta mil reis, em cedulas de vinte. -</p> -<p> -—Isto é o do ajuste! Este é sagrado! acrescentou, guardando-as na -algibeira do lado esquerdo. -</p> -<p> -Depois separou ainda vinte mil reis, que atirou sobre a meza. -</p> -<p> -—Esse ahi é para festejarmos a nossa victoria! -</p> -<p> -E fazendo do resto do seu dinheiro um bolo, que elle, um pouco ebrio, -apertava nos dedos, agora claros e quasi descalejados, socou-o na -algibeira do lado direito, explicando entre dentes que ali ficava ainda -bastante para o que désse e viesse, no caso de algum contratempo. -</p> -<p> -—Bravo! exclamou Zé Carlos. Isto é o que se chama fazer as coisas á -fidalga! Haja contar comigo pr'a vida e pr'a morte! -</p> -<p> -O Pataca entendia que podiam tomar agora um pouco de cerveja. -</p> -<p> -—Cá por mim não quero, mas bebam-na vocês, acudio Jeronymo. -</p> -<p> -—Preferia um trago de vinho branco, contraveio o terceiro. -</p> -<p> -—Tudo o que quizerem! franqueou aquelle. Eu tomo tambem um pouco de -vinho. Não! que o que estamos a beber não é dinheiro de navalhistas, -foi ganho ao sol e á chuva com o suor do meu rosto! E entornar pr'a -baixo sem caretas, que este não pesa na consciencia de ninguem! -</p> -<p> -—Então, á sua! brindou Zé Carlos, logo que veio o novo reforço. -Pr'a que não torne você a dar que fazer á má casta dos boticarios! -</p> -<p> -—Á sua, mestre Jeronymo! concorreu o outro. Jeronymo agradeceu e -disse, depois de mandar encher os copos: -</p> -<p> -—Aos amigos e patricios com quem me achei para o meu desforço! -</p> -<p> -E bebeu. -</p> -<p> -—Á da Sóra Piedade de Jesus! reclamou o Pataca. -</p> -<p> -—Obrigado! respondeu o cavouqueiro, erguendo-se. Bem! Não nos -deixemos agora ficar aqui toda a noite; mãos á obra! São quasi oito horas. -</p> -<p> -Os outros dois esvaziaram de um trago o que ainda havia no fundo dos -copos e levantaram-se tambem. -</p> -<p> -—É muito cedo ainda ... obtemperou Zé Carlos, cuspindo de esguelha e -limpando o bigode nas costas da mão. -</p> -<p> -—Mas talvez tenhamos alguma demora pelo caminho, advertio o -companheiro, indo buscar junto ás pipas o embrulho dos cacetes. -</p> -<p> -—Em todo o caso vamos seguindo, resolveu. Jeronymo, impaciente, nem -se temesse que a noite lhe fugisse de subito. -</p> -<p> -Pagou a despeza, e os tres sahiram, não cambaleando, mas como que -empurrados por um vento forte, que os fazia de vez em quando dar para -frente alguns passos mais rapidos. Seguiram pela rua de Sorocaba e -tomaram depois a direcção da praia, conversando em voz baixa, muito -excitados. Só pararam perto do Garnizé. -</p> -<p> -—Vais tu então, não é? perguntou o cavouqueiro ao Pataca. -</p> -<p> -Este respondeu entregando-lhe o embrulho dos páos e afastando-se de -mãos nas algibeiras, a olhar para os pés, fingindo-se mais bebado do -que realmente estava. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XV">XV</a></h4> - -<p> -O Garnizé tinha bastante gente essa noite. Em volta de umas doze -mezinhas toscas, de páo, com uma coberta de folha de Flandres pintada -de branco fingindo marmore, viam-se grupos de tres e quatro homens, -quasi todos em mangas de camisa, fumando e bebendo no meio de grande -algazarra. Fazia-se largo consumo de cerveja nacional, vinho virgem, -paraty e laranginha. No chão coberto de areia havia cascas de queijo de -Minas, restos de iscas de figado, espinhas de peixe, dando idéa de que -ali não só se enxugava como tambem se comia. Com effeito, mais para -dentro, n'um engordurado bufete, junto ao balcão e entre as prateleiras -de garrafas cheias e arrolhadas, estava um travessão de assado com -batatas, um osso de presunto e varios pratos de sardinhas fritas. Dois -candieiros de kerozene fumegavam, encarvoando o tecto. E de uma porta ao -fundo, que escondia o interior da casa com uma cortina de chita -vermelha, vinha de vez em quando uma baforada de vozes roucas, que -parecia morrer em caminho, vencida por aquella densa atmosphera cor de -opala. -</p> -<p> -O Pataca estacou á entrada, affectando grande bebedeira e procurando -com disfarce, em todos os grupos, ver se descobria o Firmo. Não o -conseguio; mas alguem, em certa meza, lhe chamára a attenção, porque -elle se dirigio para lá. Era uma mulatinha magra, mal vestida, -acompanhada por uma velha quasi cega e mais um homem, inteiramente -calvo, que soffria de asthma e, de quando em quando, abalava a meza com -um frouxo de tosse, fazendo dansar os copos. -</p> -<p> -O Pataca bateu no hombro da rapariga. -</p> -<p> -—Como vais tu, Florinda? -</p> -<p> -Ella olhou para elle, rindo; disse que ia bem, e perguntou-lhe como -passava. -</p> -<p> -—Róla-se, filha. Tu que fim levaste? Ha um par de quinze dias que te -não vejo! -</p> -<p> -—É mesmo. Desde que estou com seu Bento não tenho sahido quasi. -</p> -<p> -—Ah! disse o Pataca, estas amigada? Bom!... -</p> -<p> -—Sempre estive! -</p> -<p> -E ella então, muito expansiva com a sua folga d'aquelle domingo e com o -seu bocado de cerveja, contou que, no dia em que fugio da estalagem, -ficou na rua e dormio n'umas obras de uma casa em construcção na -travessa da Passagem, e que no seguinte, offerecendo-se de porta em -porta, para alugar-se de criada ou de ama secca, encontrou um velho -solteiro e agebado que a tomou ao seu serviço e metteu-se com ella. -</p> -<p> -—Bom! muito bom! annuio Pataca. -</p> -<p> -Mas o diabo do velho era um safado; dava-lhe muita coisa, dinheiro até, -trazia-a sempre limpa e de barriga cheia; sim senhor! mas queria que -ella se prestasse a tudo! Brigaram. E, como o vendeiro da esquina estava -sempre a chamal-a para casa, um bello dia arribou, levando o que -apanhára ao velho. -</p> -<p> -—Estás então agora com o da venda? -</p> -<p> -Não! O tratante, a pretexto de que desconfiava d'ella com o Bento -marceneiro, pôl-a na rua, chamando a si o que a pobre de Christo -trouxéra da casa do outro e deixando-a só com a roupa do corpo e ainda -por cima doente por causa de um aborto que tivera logo que se mettêra -com semelhante peste. O Bento tomára-a então á sua conta, e ella, -graças a Deus, por em quanto não tinha razões de queixa. -</p> -<p> -O Pataca olhou em torno de si com o ar de quem procura alguem, e -Florinda, suppondo que se tratava do seu homem, accrescentou: -</p> -<p> -—Não está cá, está lá dentro. Elle, quando joga, não gosta que eu -fique perto; diz que encabula. -</p> -<p> -—E tua mãe? -</p> -<p> -—Coitada! foi pr'o hospicio... -</p> -<p> -E passou logo a fallar a respeito da velha Marcianna; o Pataca, porém, -já lhe não prestava attenção, porque n'esse momento acabava de -abrir-se a cortina vermelha, e Firmo surgia muito ebrio, a dar bordos, -contando, sem conseguir, uma massagada de dinheiro, em notas pequenas, -que elle afinal entrouxou n'um bolo e recolheu na algibeira das calças. -</p> -<p> -—Ó Porfiro! não vens? gritou lá para dentro, arrastando a voz. -</p> -<p> -E, depois de esperar inutilmente pela resposta, fez alguns passos na -sala. -</p> -<p> -O Pataca deu á Florinda um «até logo» rapido e, fingindo-se de novo -muito bebado, encaminhou-se na direcção em que vinha o mulato. -</p> -<p> -Esbarraram-se. -</p> -<p> -—Oh! Oh! exclamou o Pataca. Desculpe! -</p> -<p> -Firmo levantou a cabeça e encarou-o com arrogancia; mas desfranzio o -rosto logo que o reconheceu. -</p> -<p> -—Ah! és tu, seu gallego? Como vai isso? A ladroeira corre? -</p> -<p> -—Ladroeira tinha a avó na cuia! Anda a tomar alguma coisa. Queres? -</p> -<p> -—Que ha de ser? -</p> -<p> -—Cerveja. Vai? -</p> -<p> -—Vá lá. -</p> -<p> -Chegaram-se para o balcão. -</p> -<p> -—Uma Guarda velha, ó pequeno! gritou o Pataca. -</p> -<p> -Firmo puxou logo dinheiro para pagar. -</p> -<p> -—Deixa! disse o outro. A lembrança foi minha! -</p> -<p> -Mas, como o Firmo insistisse, consentio-lhe que fizesse a despeza. -</p> -<p> -E os nikeis do troco rolaram no chão, fugindo por entre os dedos do -mulato, que os tinha duros na tensão muscular da sua embriaguez. -</p> -<p> -—Que horas são? perguntou Pataca, olhando quasi de olhos fechados o -relogio da parede. Oito e meia. Vamos a outra garrafa, mas agora pago -eu! -</p> -<p> -Beberam de novo, e o coadjutor de Jeronymo, observou depois: Você hoje -ferrou-a devéras! Estás que te não podes lamber! -</p> -<p> -—Desgostos ... resmungou o capoeira, sem conseguir lançar da bocca a -saliva que se lhe grudava á lingua. -</p> -<p> -—Limpa o queixo que estás cuspido. Desgostos de que? Negocio de -mulher, aposto! -</p> -<p> -—A Rita não me appareceu hoje, sabes? Não foi, e eu bem calculo -porque! -</p> -<p> -—Porque? -</p> -<p> -—Porque a peste do Jeronymo voltou hoje á estalagem! -</p> -<p> -—Ah! Não sabia!... A Rita está então com elle?... -</p> -<p> -—Não está, nem nunca ha de estar, que eu d'aqui mesmo vou á procura -d'aquelle gallego ordinario e ferro-lhe a sardinha no pandulho! -</p> -<p> -—Vieste armado? -</p> -<p> -Firmo saccou da camisa uma navalha. -</p> -<p> -—Esconde! não deves mostrar isso aqui! Aquella gente ali da outra -meza já não nos tira os olhos de cima! -</p> -<p> -—Estou me ninando pr'a elles! E que não olhem muito, que lhes dou uma -de amostra! -</p> -<p> -—Entrou um urbano! Passa-me a navalha! -</p> -<p> -O capadocio fitou o companheiro, estranhando o pedido. -</p> -<p> -—E que, explicou aquelle, se te prenderem não te encontram ferro... -</p> -<p> -—Prender a quem? a mim? Ora, vai-te calar! -</p> -<p> -—E ella é boa? Deixa ver! -</p> -<p> -—Isto não é coisa que se deixe ver! -</p> -<p> -—Bem sabes que não me entendo com armas de barbeiro! -</p> -<p> -—Não sei! Esta é que não me sae das unhas, nem para meu pai, que a -pedisse! -</p> -<p> -—É porque não tens confiança em mim! -</p> -<p> -—Confio nos meus dentes, e esses mesmos me mordem a lingoa! -</p> -<p> -—Sabes quem vi ainda ha pouco? Não és capaz de adivinhar!... -</p> -<p> -—Quem? -</p> -<p> -—A Rita. -</p> -<p> -—Onde? -</p> -<p> -—Ali na praia da Saudade. -</p> -<p> -—Com quem? -</p> -<p> -—Com um typo que não conheço... -</p> -<p> -Firmo levantou-se de improviso e cambaleou para o lado da sahida. -</p> -<p> -—Espera! rosnou o outro, detendo-o. Se queres vou comtigo; mas é -preciso ir com geito, porque, se ella nos bispa, foge! -</p> -<p> -O mulato não fez caso d'esta observação e sabio a esbarrar-se por -todas as mezas. Pataca alcançou-o já na rua e passou-lhe o braço na -cintura, amigavelmente. -</p> -<p> -—Vamos de vagar... disse; senão o passaro se arisca! -</p> -<p> -A praia estava deserta. Cahia um chuvisco. Ventos frios sopravam do mar. -O ceu era um fundo negro, de uma só tinta; do lado opposto da bahia os -lampeões pareciam surgir d'agoa, como algas de fogo, mergulhando bem -fundo as suas tremulas raizes luminosas. -</p> -<p> -—Onde está ella? perguntou o Firmo, sem se aguentar nas pernas. -</p> -<p> -—Ali mais adiante, perto da pedreira. Caminha, que has de ver! -</p> -<p> -E continuaram a andar para as bandas do hospicio. Mas dois vultos -surdiram da treva; o Pataca reconheceu-os e abraçou-se de improviso ao -mulato. -</p> -<p> -—Segurem-lhe as pernas! gritou para os outros. -</p> -<p> -Os dois vultos, pondo o cacete entre os dentes, apoderaram-se de Firmo, -que bracejava seguro pelo tronco. -</p> -<p> -Deixára-se agarrar—estava perdido. -</p> -<p> -Quando Pataca o vio preso pelos sovacos e pela dobra dos joelhos, -sacou-lhe fóra a navalha. -</p> -<p> -—Prompto! Está desarmado! -</p> -<p> -E tomou tambem o seu páo. -</p> -<p> -Soltaram-no então. O capoeira, mal tocou com os pés em terra, desferio -um golpe com a cabeça, ao mesmo tempo que a primeira cacetada lhe abria -a nuca. Deu um grito e voltou-se cambaleando. Uma nova páulada -cantou-lhe nos hombros, e outra em seguida nos rins, e outra nas coxas, -outra mais violenta quebrou-lhe a clavicula, emquanto outra logo lhe -rachava a testa e outra lhe apanhava a espinha, e outras, cada vez mais -rapidas, batiam de novo nos pontos já espancados, até que se -converteram n'uma carga continua de porretadas, a que o infeliz não -resistio, rolando no chão, a gottejar sangue de todo o corpo. -</p> -<p> -A chuva engrossava. Elle agora, assim, debaixo d'aquelle bate-bate sem -tregoas, parecia muito menor, mingoava como se estivesse ao fogo. -Lembrava um rato morrendo a páo. Um ligeiro tremor convulsivo era -apenas o que ainda lhe denunciava um resto de vida. Os outros tres não -diziam palavra, arfavam, a bater sempre, tomados de uma irresistivel -vertigem de pizar bem a cacete aquella trouxa de carne molle e -ensanguentada, que grunhia frouxamente a seus pés. Afinal, quando de -todo já não tinham forças para bater ainda, arrastaram a trouxa até -a ribanceira da praia e lançaram-na ao mar. Depois, arquejantes, -deitaram a fugir, á tôa, para os lados da cidade. -</p> -<p> -Chovia agora muito forte. Só pararam no Cattete, ao pé de um kiosque; -estavam encharcados; pediram paraty e beberam como quem bebe agoa. -Passava já de onze horas. Desceram pela praia da Lapa; ao chegarem -debaixo de um lampeão, Jeronymo parou, suando apezar do agoaceiro que -cahia. -</p> -<p> -—Aqui têm vocês, disse, tirando do bolso as quatro notas de vinte mil -reis. Duas para cada um! E agora vamos tomar qualquer coisa quente em -logar secco. -</p> -<p> -—Ali ha um botequim, indicou o Pataca, apontando a rua da Gloria. -</p> -<p> -Subiram por uma das escadinhas que ligam essa rua á praia, e d'ahi a -pouco installavam-se em volta de uma meza de ferro. Pediram de comer e -de beber e puzeram-se a conversar em voz soturna, muito cansados. -</p> -<p> -A uma hora da madrugada o dono do café pôl-os fóra. Felizmente chovia -menos. Os tres tomaram de novo a direcção de Botafogo; em caminho -Jeronymo perguntou ao Pataca se ainda tinha comsigo a navalha do Firmo e -pedio-lh'a, ao que o companheiro cedeu sem objecção. -</p> -<p> -—É para conservar uma lembrança d'aquelle bisborria! explicou o -cavouqueiro, guardando a arma. -</p> -<p> -Separaram-se defronte da estalagem. Jeronymo entrou sem ruido; foi até -á casa, espiou pelo buraco da fechadura; havia luz no quarto de dormir; -comprehendeu que a mulher estava á sua espera, acordada talvez; pensou -sentir, vindo lá de dentro, o bodum azedo que ella punha de si, fez uma -careta de nojo e encaminhou-se resolutamente para a casa da mulata, em -cuja porta bateu devagarinho. -</p> -<p> -Rita, essa noite, recolhêra-se afflicta e assustada. Deixára de ir ter -com o amante e mais tarde admirava-se como fizera semelhante -imprudencia; como tivera coragem de pôr em pratica, justamente no -momento mais perigoso, uma coisa que ella, até ahi, não se sentira com -animo de praticar. No intimo respeitava o capoeira; tinha-lhe medo. -Amára-o a principio por affinidade de temperamento, pela irresistivel -connexão do instincto luxurioso e canalha que predominava em ambos, -depois continuou a estar com elle por habito, por uma especie de vicio -que amaldiçoamos sem poder largal-o; mas desde que Jeronymo propendeu -para ella, fascinando-a com a sua tranquilla seriedade de animal bom e -forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e -Rita preferio no europeu o macho de raça superior. O cavouqueiro, pelo -seu lado, cedendo ás imposições mesologicas, enfarava a esposa, sua -congenere, e queria a mulata, porque a mulata era o prazer, era a -volupia, era o fructo doirado e acre d'estes sertões americanos, onde a -alma de Jeronymo aprendeu lascivias de macaco e onde seu corpo porejou o -cheiro sensual dos bodes. -</p> -<p> -Amavam-se brutalmente, e ambos sabiam d'isso. Esse amor irracional e -empirico carregára-se muito mais, de parte a parte, com o tragico -incidente da lucta, em que o portuguez fôra victima. Jeronymo -aureolou-se aos olhos d'ella com uma sympathia de martyr sacrificado á -mulher que ama; cresceu com aquella navalhada; illuminou-se com o seu -proprio sangue derramado; e, depois, a ausencia no hospital veio -completar a crystallisação do seu prestigio, como se o cavouqueiro -houvera baixado a uma sepultura, arrastando atraz de si a saudade dos -que o choravam. -</p> -<p> -Entretanto, o mesmo phenomeno se operava no espirito de Jeronymo com -relação á Rita: arriscar espontaneamente a vida por alguem é aceitar -um compromisso de ternura, em que empenhamos alma e coração; a mulher -por quem fazemos tamanho sacrificio, seja ella quem fôr, assume de um -só vôo em nossa phantasia ás proporções de um ideal. O desterrado, -á primeira troca de olhares com a bahiana, amou-a logo, porque sentio -n'ella o resumo de todos os quentes mysterios que o enleiaram -voluptuosamente n'estas terras da luxuria; amou-a muito mais quando teve -occasião de jogar a existencia por esse amor, e amou-a loucamente -durante a triste e dolorosa solidão da enfermaria, em que os seus -gemidos e suspiros eram todos para ella. -</p> -<p> -A mulata bem que o comprehendeu, mas não teve animo de confessar-lhe -que tambem morria de amores por elle; receiou prejudical-o. Agora, com -aquella loucura de faltar á entrevista justamente no dia em que -Jeronymo voltava á estalagem, a situação parecia-lhe muito -melindrosa. Firmo, desesperado com a ausencia d'ella, embebedava-se -naturalmente e vinha ao cortiço provocar o cavouqueiro; a briga -rebentaria de novo, fatal para um dos dois, se é que não seria para -ambos. Do que ella sentira pelo navalhista persistia agora apenas o -medo, não como elle era d'antes, indeterminado e frouxo, mas ao -contrario, sobresaltado, nervoso, cheio de apprehensões que a punham -afflicta. Firmo já lhe não apparecia no espirito como um amante -ciumento e perigoso, mas como um simples facinora, armado de uma velha -navalha desleal e homicida. O seu medo transformava-se em uma mistura de -asco e terror. E, sem achar só cego na cama, deixava-se atordoar pelos -seus presentimentos, quando ouvio bater na porta. -</p> -<p> -—É elle! disse, com o coração a saltar. -</p> -<p> -E via já de fronte de si o Firmo, bebado, a reclamar o Jeronymo aos -berros, para esfaqueal-o ali mesmo. Não respondeu ao primeiro chamado; -ficou escutando. -</p> -<p> -Depois de uma pausa bateram de novo. -</p> -<p> -Ella estranhou o modo pelo qual batiam. Não era natural que o facinora -procedesse com tanta prudencia. Ergueu-se, foi á janella, abrio uma das -folhas e espreitou pelas rotulas. -</p> -<p> -—Quem está ahi?... perguntou á meia voz. -</p> -<p> -—Sou eu ... disse Jeronymo, chegando-se. -</p> -<p> -Reconheceu-o logo e correu a abrir. -</p> -<p> -—Como?! É você, Jeromo? -</p> -<p> -—Schit! fez elle, pondo o dedo na bocca. Falla baixo. Rita começou a -tremer: no olhar do portuguez, nas suas mãos encardidas de sangue, no -seu todo de homem ebrio, encharcado e sujo, havia uma terrivel -expressão de crime. -</p> -<p> -—D'onde vens tu?... segredou ella. -</p> -<p> -—De cuidar da nossa vida... Ahi tens a navalha com que fui ferido! -</p> -<p> -E atirou-lhe sobre a meza a navalha de Firmo, que a mulata conhecia como -as palmas da mão. -</p> -<p> -—E elle? -</p> -<p> -—Está morto. -</p> -<p> -—Quem o matou? -</p> -<p> -—Eu. -</p> -<p> -Calaram-se ambos. -</p> -<p> -—Agora ... acrescentou o cavouqueiro, no fim de um silencio arquejado -por ambos; estou disposto a tudo para ficar comtigo. Sahiremos os dois -d'aqui para onde melhor fôr... Que dizes tu? -</p> -<p> -—E tua mulher?... -</p> -<p> -—Deixo-lhe as minhas economias de muito tempo e continuarei a pagar o -collegio á pequena. Sei que não devia abandonal-a, mas pódes ter como -certo que, ainda que não queiras vir commigo, não ficarei com ella! -Não sei! já não a posso supportar! Um homem enfára-se! Felizmente -minha caixa de roupa está ainda na Ordem e posso ir buscal-a pela -manhã. -</p> -<p> -—E para onde iremos? -</p> -<p> -—O que não falta é pr'onde ir! Em qualquer parte estaremos bem. Tenho -aqui sobre mim uns quinhentos mil réis, para as primeiras despezas. -Posso ficar cá até ás cinco horas; são duas e meia; saio sem ser -visto por Piedade; mando-te ao depois dizer o que arranjei, e tu irás -ter commigo... Está dito? Queres? -</p> -<p> -Rita, em resposta, atirou-se ao pescoço d'elle e pendurou-se-lhe nos -labios, devorando-o de beijos. -</p> -<p> -Aquelle novo sacrificio do portuguez; aquella dedicação extrema que o -levava a arremeçar para o lado familia, dignidade, futuro, tudo, tudo -por ella, enthusiasmou-a loucamente. Depois dos sobresaltos d'esse dia e -d'essa noite, seus nervos estavam afiados e toda ella electrica. -</p> -<p> -Ah! não se tinha enganado! aquelle homemzarrão herculeo, de musculos -de touro, era capaz de todas as meiguices do carinho. -</p> -<p> -—Então? insistio-elle. -</p> -<p> -—Sim, sim, meu captiveiro! respondeu a bahiana, fallando-lhe na -bocca; eu quero ir comtigo; quero ser a tua mulata, o bem do teu coração! -Tu és os meus feitiços! -</p> -<p> -E apalpando-lhe o corpo:—Mas como estás ensopado! Espera! espera! o -que não falta aqui é roupa de homem pr'a mudar!... Podias ter uma -recahida, cruzes! Tira tudo isso que está alagado! Eu vou accender o -fogareiro e estende-se em cima o que é casimira, para te poderes vestir -ás cinco horas. Tira as botas! Olha o chapéo como está! Tudo isto -secca! Tudo isto secca! Mira, toma já um golle de paraty pr'atalhar a -friage! Depois passa em todo o corpo. Eu vou fazer café! -</p> -<p> -Jeronymo bebeu um bom trago de paraty, mudou de roupa e deitou-se na -cama de Rita. -</p> -<p> -—Vem pr'a cá ... disse, um pouco rouco. -</p> -<p> -—Espera! espera! O café está quasi prompto! -</p> -<p> -E ella só foi ter com elle, levando-lhe a chave na fumegante da -perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores; -assentou-se ao rebordo da cama e, segurando com uma das mãos o pires e -com a outra a chicara, ajudava-o a beber, golle por golle, emquanto seus -olhos o acarinhavam, scintillantes de impaciencia no antegoso d'aquelle -primeiro enlace. -</p> -<p> -Depois, atirou fóra a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu -amado, n'um frenezi de desejo doido. -</p> -<p> -Jeronymo, ao sentil-a inteira nos seus braços; ao sentir na sua pelle a -carne quente d'aquella brasileira; ao sentir innundar-lhe o rosto e as -espaduas, n'um effluvio de baunilha e cumarú, a onda negra e fria da -cabelleira da mulata: ao sentir esmagarem-se no seu largo e pelludo -collo de cavouqueiro os dois globos tumidos e macios, e nas suas coxas -as coxas d'ella; sua alma derreteu-se, fervendo e borbolhando como um -metal ao fogo, e sahio-lhe pela bocca, pelos olhos, por todos os póros -do corpo, escandescente, em braza, queimando-lhe as proprias carnes e -arrancando-lhe gemidos surdos, soluços irrepremiveis, que lhe sacudiam -os membros, fibra por fibra, n'uma agonia extrema, sobrenatural, uma -agonia de anjos violentados por diabos, entre a vermelhidão cruenta das -labaredas do inferno. -</p> -<p> -E com um arranco de besta féra cahiram ambos prostados, arquejando. -Ella tinha a bocca aberta, a lingoa fóra, os braços duros, os dedos -inteiriçados, e o corpo todo a tremer-lhe da cabeça aos pés, -continuamente, como se estivesse morrendo; ao passo que elle, de subito -arremeçado longe da vida por aquella explosão inesperada dos seus -sentidos, deixava-se mergulhar n'uma embriaguez deliciosa, atravez da -qual o mundo inteiro e todo o seu passado fugiam como sombras fatuas. E, -sem consciencia de nada que o cercava, nem memoria de si proprio, sem -olhos, sem tino, sem ouvidos, apenas conservava em todo o seu ser uma -impressão bem clara, viva, inextinguivel: o attrito d'aquella carne -quente e palpitante, que elle em delirio apertou contra o corpo, e que -elle ainda sentia latejar-lhe debaixo das mãos, e que elle continuava a -comprimir machinalmente, como a criança que, já dormindo, affaga ainda -as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao -mundo. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XVI">XVI</a></h4> - -<p> -A essas horas Piedade de Jesus ainda esperava pelo marido. -</p> -<p> -Ouvíra, assentada impaciente á porta de sua casa, darem oito horas, oito -e meia; nove, nove e meia. «Que teria acontecido, Mãe Santissima ... Pois -o homem ainda não estava prompto de todo e punha-se ao fresco, -mal engolira o jantar, para demorar-se d'aquelle modo?... Elle que nunca -fôra capaz de semelhantes tonteiras!...» -</p> -<p> -—Dez horas! Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo! -</p> -<p> -Foi até ao portão da estalagem, perguntou a conhecidos que passavam se -tinham visto Jeronymo; ninguem dava noticias d'elle. Sahio, correu á -esquina da rua; um silencio de cansaço bocejava n'aquelle resto de -domingo; ás dez e meia recolheu-se sobresaltada, com o coração a -sahir-lhe pela garganta, o ouvido alerta, para que ella acudisse ao -primeiro toque na porta; deitou-se sem tirar a saia, nem apagar de todo -o candieiro. A ceia frugal de leite fervido e queijo assado com assucar -e manteiga ficou intacta sobre a meza. -</p> -<p> -Não conseguio dormir: trabalhava-lhe a cabeça, afastando para longe o -somno. Começou a imaginar perigos, rôlos, em que o seu homem recebia -novas navalhadas; Firmo figurava em todas as scenas do delirio; em todas -ellas havia sangue. Afinal, quando, depois de muito virar de um para -outro lado do colchão, a infeliz ia cahindo em modorra, o mais leve -rumor lá fóra a fazia erguer-se de pulo e correr á rotula da janella. -Mais não era o cavouqueiro, da primeira, nem da segunda, nem de nenhuma -das vezes. -</p> -<p> -Quando principiou a chover, Piedade ficou ainda mais afflicta; na sua -sobre excitação afigurava-se-lhe agora que o marido estava sobre as -agoas do mar, embarcado, entregue unicamente á protecção da Virgem, -em meio de um temporal medonho. Ajoelhou-se defronte do oratorio e rezou -com a voz emmaranhada por uma agonia suffocadora. A cada trovão -redobrava o seu sobresalto. E ella, de joelhos, os olhos fitos na imagem -de Nossa Senhora, sem consciencia do tempo que corria, arfava -soluçando. De repente, ergueu-se, muito admirada de se ver sozinha, -como se só n'aquelle instante déra pela falta do marido a seu lado. -Olhou em torno de si, espavorida, com vontade de chorar, de pedir -soccorro; as sombras espichadas em volta do candieiro, tracejando -tremulas pelas paredes e pelo tecto, pareciam querer dizer-lhe alguma -coisa mysteriosa. Um par de calças, dependurado á porta do quarto, com -um paletó e um chapéo por cima, representou-lhe de relance o vulto de -um enforcado, a mexer com as pernas. Benzeu-se. Quiz saber que horas -eram e não poude; afigurava-se-lhe terem decorrido já tres dias pelo -menos durante aquella afflicção. Calculou que não tardaria a -amanhecer, se é que ainda amanheceria; se é que aquella noite infernal -não se fosse prolongando infinitamente, sem nunca mais apparecer o sol! -Bebeu um copo d'agoa, bem cheio, apezar de haver pouco antes tomado -outro, e ficou immovel, de ouvido attento, na espectativa de escutar as -horas de algum relogio da visinhança. -</p> -<p> -A chuva diminuíra e os ventos principiavam a soprar com desespero. Lá -de fóra a noite dizia-lhe segredos pelo buraco da fechadura e pelas -frinchas do telhado e das portas; a cada assobio a misera julgava ver -surgir um espectro que vinha contar-lhe a morte de Jeronymo. O desejo -impaciente de saber que horas eram punha-a doida; foi á janella, -abrio-a; uma rajada humida entrou na sala, esfuziando, e apagou a luz. -Piedade soltou um grito e começou a procurar a caixa de phosphoros, aos -esbarrões, sem conseguir reconhecer os objectos que tacteava. Esteve a -perder os sentidos; afinal achou os phosphoros, accendeu de novo o -candieiro e fechou a janella. Entrára-lhe um pouco de chuva em casa; -sentio a roupa molhada no corpo; tomou um novo copo d'agoa; um calafrio -de febre percorreu-lhe a espinha, e ella atirou-se para a cama, batendo -o queixo, e metteu-se debaixo dos lençóes, a tiritar de febre. Veio de -novo a modorra, fechou os olhos; mas ergueu-se logo, assentando-se no -colchão: parecia lhe ter ouvido alguem fallar lá fóra, na rua; o -calafrio voltou; ella, tremula, procurava escutar. Se se não enganava, -distinguira vozes abafadas, conversando, e as vozes eram de homem; -deixou-se ficar á escuta, concheando a mão atraz da orelha; depois -ouvio baterem, não na sua porta, mas lá muito mais para adiante, na -casa da das Dôres, da Rita, ou da Augusta. «Devia ser o Alexandre que -voltava do serviço...» Quiz ir ter com elle e pedir-lhe noticias de -Jeronymo, o calafrio porém obrigou-a a ficar debaixo das cobertas. -</p> -<p> -Ás cinco horas levantou-se de novo com um salto. «Já havia gente lá -fóra com certeza!...» Ouvira ranger a primeira porta; abrio a janella, -mas ainda estava tão escuro que se não distinguia patavina. Era uma -preguiçosa madrugada de Agosto, nebulosa, humida; parecia disposta a -resistir ao dia. «Ó senhores! aquella noite dos diachos não acabaria -nunca mais?...» Entretanto, adivinhava-se que ia amanhecer. Piedade -ouvio dentro do pateo, do lado contrario á sua casa, um zum-zum de duas -vozes cochichando com interesse. «Virgem do céo! dir-se-ia a voz do -seu homem! E a outra era voz de mulher, credo! Illusão sua com certeza! -ella essa noite estava para ouvir o que não se dava...» Mas aquelles -cochichos dialogados na escuridão causavam-lhe extremo alvoroço. -«Não! Como poderia ser elle?... Que loucura! se o homem estivesse ali -teria sem duvida procurado a casa!...» E os cochichos persistiam -emquanto Piedade, toda ouvidos, estalava de agonia. -</p> -<p> -—Jeromo! gritou ella. -</p> -<p> -As vozes calaram-se logo, fazendo o silencio completo; depois nada mais -se ouvio. -</p> -<p> -Piedade ficou á janella. As trevas dissolveram-se afinal; uma claridade -triste formou-se no nascente e foi, a pouco e pouco, se derramando pelo -espaço. O ceu era uma argamassa cinzenta e gorda. O cortiço acordava -com o remancho das segundas feiras; ouviam-se os pigarros das resacas de -paraty. As casinhas abriam-se; vultos espreguiçados vinham bocejando -fazer a sua lavagem á bica; as chaminés principiavam a fumegar; -rescendia o cheiro do café torrado. -</p> -<p> -Piedade atirou um chale em cima dos hombros e sahio ao pateo; a Machona, -que acabava de apparecer á porta do numero 7 com um berro para acordar -a familia de uma só vez, gritou-lhe: -</p> -<p> -—Bons dias, visinha! Seu marido como vai? melhor? -</p> -<p> -Piedade soltou um suspiro. -</p> -<p> -—Ai, não m'o porgunte, sóra Leandra! -</p> -<p> -—Peiorou, filha? -</p> -<p> -—Não veio esta noite pr'a casa... -</p> -<p> -—Olha o demo! Como não veio? Onde ficou elle então? -</p> -<p> -—Cá está quem não lh'o sabe responder. -</p> -<p> -—Ora já se vio?! -</p> -<p> -—Estou com o miolo que é agoa de bacalháo! Não preguei olho durante -a noite! Forte desgraça a minha! -</p> -<p> -—Teria-lhe succedido alguma?... -</p> -<p> -Piedade pôz-se a soluçar, enxugando as lagrimas no chale de lã; ao -passo que a outra, com a sua voz rouca e forte, que nem o som de uma -trompa enferrujada, passava adiante a nova de que o Jeronymo não se -recolhera aquella noite á estalagem. -</p> -<p> -—Talvez voltasse pr'o hospital ... obtemperou Augusta, que lavava -junto a uma tina a gaiola do seu papagaio. -</p> -<p> -—Mas elle hontem veio de muda ... contrapoz Leandra. -</p> -<p> -—E lá não se entra depois das oito horas da noite, acrescentou outra -lavadeira. -</p> -<p> -E os commentarios multiplicavam-se, palpitando de todos os lados, n'uma -boa disposição para fazer d'aquillo o escandalo do dia. Piedade -respondia friamente ás perguntas curiosas que lhe dirigiam as -companheiras; estava triste e succumbida; não se lavou, não mudou de -roupa, não comeu nada, porque a comida lhe crescia na bocca e não lhe -passava da garganta; o que fazia só era chorar e lamentar-se. -</p> -<p> -—Forte desgraça a minha! repetia a infeliz a cada instante. -</p> -<p> -—Se vais assim, filha, estás bem arranjada! exclamou-lhe a Machona, -chegando á porta de sua casa a dar dentadas num pão recheado de -manteiga. Que diabo, creatura! O homem não te morreu, pr'a estares -agora ahi a carpir d'esse modo! -</p> -<p> -—Sei-o eu lá se me morreu?... disse Piedade entre soluços. Vi tanta -coisa esta noite!... -</p> -<p> -—Elle te appareceu nos sonhos?... perguntou Leandra com assombro. -</p> -<p> -—Nos sonhos não, que não dormi, mas vi a modos que phantasmas... -</p> -<p> -E chorava. -</p> -<p> -—Ai, credo, filha! -</p> -<p> -—Estou desgraçada! -</p> -<p> -—Se te appareceram almas, de certo; mas põe a fé em Deus, mulher! e -não te rales d'esse modo, que a desgraça pode ser maior! O choro puxa -muita coisa! -</p> -<p> -—Ai, o meu rico homem! -</p> -<p> -E o mugido lugubre d'aquella pobre creatura abandonada antepunha á rude -agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vacca -chamando ao longe, perdida ao cahir da noite n'um logar desconhecido e -agreste. Mas o trabalho aquecia já de uma ponta á outra da estalagem; -ria-se, cantava-se, soltava-se a lingua; o formigueiro assanhava-se com -as compras para o almoço; os mercadores entravam e sahiam: a machina de -massas principiava a bufar. E Piedade, assentada á soleira de sua -porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono, maldizia a -hora em que sahíra da sua terra, e parecia disposta a morrer ali mesmo, -n'aquelle limiar de granito, onde ella, tantas vezes, com a cabeça -encostada ao hombro do seu homem, suspirava feliz, ouvindo gemer na -guitarra d'elle os queridos fados de além mar. -</p> -<p> -E Jeronymo não apparecia. -</p> -<p> -Ella ergueu-se finalmente, foi lá fóra ao capinzal, pôz-se a andar -agitada, fallando sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de -desespero, quando levantava para o ceu os punhos fechados, dir-se-ia que -não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquella -amaldiçoada luz allucinadora, contra aquelle sol crapuloso, que fazia -ferver o sangue aos homens e mettia-lhes no corpo luxurias de bode. -Parecia rebellar-se contra aquella natureza alcoviteira, que lhe -roubára o seu homem para dal-o a outra, porque a outra era gente do seu -peito e ella não. -</p> -<p> -E maldizia soluçando a hora em que sahira da sua terra; essa boa terra -cansada, velha, como que enferma; essa boa terra tranquilla, sem -sobresaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios e -melancolicos, de um verde aloirado e quieto, e não ardentes e -esmeraldinos e affogados em tanto sol e em tanto perfume como os d'este -inferno, onde em cada folha que se pisa ha debaixo um reptil venenoso, -como em cada flôr que desabotôa e em cada moscardo que adeja ha um -virus de lascivia. Lá, nos saudosos campos da sua terra, não se ouviam -em noites de lua clara roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã, ao -romper do dia, rilhava o bando truculento dos queixadas; lá não varava -pelas florestas a anta feia e terrivel, quebrando arvores; lá a -sucurujú não chocalhava a sua campainha funebre, annunciando a morte, -nem a coral esperava traidora o viajante descuidado para lhe dar o bote -certeiro e decisivo; lá o seu homem não seria anavalhado pelo ciume de -um capoeira; lá Jeronymo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e -meigo, seria o mesmo lavrador triste e contemplativo, como o gado que á -tarde levanta para o ceu de opala o seu olhar humilde, compungido e -biblico. -</p> -<p> -Maldita a hora em que ella veio! Maldita! mil vezes maldita! -</p> -<p> -E tornando á casa, Piedade ainda mais se enraivecia, porque ali -defronte, no numero 9, a mulata bahiana, a dansadeira de chorado, a -cobra assanhada, cantava alegremente, chegando de vez em quando á -janella para vir soprar fóra a cinza da fornalha do seu ferro de -engommar, olhando de passagem para a direita e para a esquerda, a -affectar indifferença pelo que não era de sua conta, e desapparecendo -logo, sem interromper a cantiga, muito embebida no seu serviço. Ah! -essa não fez commentarios sobre o estranho procedimento de mestre -Jeronymo, nem mesmo quiz ouvir noticias d'elle; pouco arredou o pé de -dentro de casa e, n'esse pouco que sahio, foi ás pressas e sem dar -trela a ninguem. -</p> -<p> -Nada! que as penas e desgostos não punham a panella no fogo! -</p> -<p> -Entretanto, ah! ah! ella estava bem preoccupada. Apezar do allivio que -lhe trouxera ao espirito a morte do Firmo e a despeito do seu -contentamento de passar por uma vez aos braços do cavouqueiro, um -sobresalto vago e oppressivo esmagava-lhe o coração e matava-a de -impaciencia por atirar-se á procura de noticias sobre as occorrencias -da noite; tanto assim que, ás onze horas, mal percebeu que Piedade, -depois de esperar em vão pelo marido, sahia afflicta em busca d'elle, -disposta a ir ao hospital, á policia, ao necroterio, ao diabo, com -tanto que não voltasse sem algum esclarecimento, ella atirou logo o -trabalho para o canto, enfiou uma saia, crusou o chale no hombro, e -ganhou o mundo, tambem disposta a não voltar sem saber tim-tim por -tim-tim o que havia de novo. -</p> -<p> -Foi cada uma para seu lado e só voltaram á tarde, quasi ao mesmo -tempo, encontrando o cortiço cheio já e assanhado com a noticia da -morte de Firmo e do terrivel effeito que esta causara no Cabeça de -Gato, onde o crime era attribuido aos Carapicús, contra os quaes -juravam-se extremas vinganças de desaffronta. Soprava de lá, rosnando, -um halito morno de colera mal soffrida e sequiosa que crescia com a -approximação da noite e parecia sacudir no ar, ameaçadoramente, a -irrequieta flamula amarella. -</p> -<p> -O sol descambava para o ocaso, indefesso e nú, tingindo o ceu de uma -vermelhidão presaga e sinistra. -</p> -<p> -Piedade entrou carrancuda na estalagem; não vinha triste, vinha -enfurecida; soubera na rua a respeito do marido mais do que esperava. -Soubera em primeiro logar que elle estava vivo, perfeitamente vivo, pois -fôra visto aquelle mesmo dia, mais de uma vez, no Garnizé e na praia -da Saudade, a vagar macambuzio; soubera, por intermedio de um rondante -amigo de Alexandre, que Jeronymo surgira de manhãzinha do capinzal -perto da pedreira de João Romão, o que fazia crer viesse elle -n'aquelle momento de casa, sahindo pelos fundos do cortiço; soubera -ainda que o cavouqueiro fôra á Ordem buscar a sua caixa de roupa e -que, na vespera, estivera a beber á farta na venda do Pépé, de sucia -com o Zé Carlos e com o Pataca, e que depois seguiram para os lados da -praia, todos tres mais ou menos no gole. Sem a menor desconfiança do -crime, a desgraçada ficou convencida de que o marido não se recolhera -aquella noite á casa, porque ficára em grossa pandega com os amigos e -que, voltando tarde e bebado, dera-lhe para metter-se com a mulata, que -o aceitou logo. «Pudera! Pois se havia muito a deslambida não queria -outra coisa!...» Com esta convicção inchou-lhe de subito por dentro -um novello de ciumes, e ella correu incontinenti para a estalagem, certa -de que iria encontrar o homem e despejaria contra elle aquella tremenda -tempestade de resentimentos e despeitos accumulados, que ameaçavam -suffocal-a se não rebentassem de vez. Atravessou o cortiço sem dar -palavra a ninguem e foi direito á casa; contava encontral-a aberta e a -sua decepção foi cruel ao vel-a fechada como a deixára. Pedio a chave -á Machona, que, ao entregal-a, inquirio sobre Jeronymo e pespegou-lhe -ao mesmo tempo a noticia do assassinato de Firmo. -</p> -<p> -Com esta nova é que Piedade não contava. Ficou livida; um pavoroso -presentimento varou-lhe o espirito como um raio. Afastou-se logo, com -medo de fallar, e foi tremula e offegante que abrio a porta e metteu-se -no numero 35. -</p> -<p> -Atirou-se a uma cadeira. Estava morta de cansaço; não tinha comido -nada esse dia e não sentia fome; a cabeça andava-lhe á roda, as pernas -pareciam-lhe de chumbo. -</p> -<p> -Seria elle?!... interrogou a si propria. -</p> -<p> -E os raciocinios começaram a surdir-lhe em massa, ensarilhados, -atropellando-lhe a razão. Não conseguia coordenal-os; entre todas uma -idéa insubordinava-se com mais teima, a perturbar as outras, ficando -superior, como uma carta maior que o resto do baralho: «Se elle matou -o Firmo, dormio na estalagem e não veio ter commigo, é porque então -deixou-me de feita pela Rita!» -</p> -<p> -Tentou fugir a semelhante hypothese; repellio-a indignada. Não! não -era possivel que o Jeronymo, seu marido de tanto tempo, o pai de sua -filha, um homem a quem ella nunca déra razão de queixa e a quem sempre -respeitára e quizera com o mesmo carinho e com a mesma dedicação, a -abandonasse de um momento para outro, e por quem?! por uma não sei que -diga! um diabo de uma mulata assanhada, que tão depressa era de Pedro -como de Paulo! uma sirigaita, que vivia mais para a folia do que para o -trabalho! uma peste, que... Não! Qual! Era lá possivel?! Mas então -porque elle não viéra?... porque não vinha?... porque não dava -noticias suas?... porque fôra pela manhã á Ordem busquar a caixa da -roupa?... O Roberto Papa-defuntos dissera-lhe que o encontrara ás duas -da tarde ali perto, ao dobrar da rua Bambina, e que até pararam um -instante para conversar. Com mais alguns passos teria chegado á casa! -Seria possivel, santos do ceu! que o seu homem estivesse disposto a -nunca mais tornar para junto d'ella? -</p> -<p> -Nisto entrou a outra, acompanhada por um pequeno descalço. Vinha -satisfeita; estivera com Jeronymo, jantaram juntos, n'uma casa de pasto; -ficára tudo combinado; arranjára-se o ninho. Não se mudaria logo para -não dar que fallar na estalagem, mas levaria alguma roupa e os objectos -mais indispensaveis e que não dessem na vista por occasião do -transporte. Voltaria no dia seguinte ao cortiço, onde continuaria a -trabalhar; á noite iria ter com o novo amante, e, no fim de uma -semana—zaz! fazia-se a mudança completa, e adeus coração!—Por aqui -é o caminho! O cavouqueiro, pelo seu lado, mandaria uma carta a João -Romão, despedindo-se do seu serviço, e outra á mulher, dizendo com -boas palavras que, por uma d'essas fatalidades de que nenhuma creatura -está livre, deixava de viver em companhia d'ella, mas que lhe -conservaria a mesma estima e continuaria a pagar o collegio da filha; e, -feito isto, prompto! entraria em vida nova, senhor da sua mulata, livres -e sozinhos, independentes, vivendo um para o outro, n'uma eterna -embriaguez de gosos. -</p> -<p> -Mas, na occasião em que a bahiana, seguida pelo pequeno, passava -defronte da porta de Piedade, esta deu um alto da cadeira e gritou-lhe: -</p> -<p> -—Faz favor? -</p> -<p> -—Que é? resmungou Rita, parando sem voltar senão o rosto, e já a -dizer no seu todo de impaciencia que não estava disposta a muita -conversa. -</p> -<p> -—Diga-me uma coisa, inquerio aquella; você muda-se? -</p> -<p> -A mulata não contava com semelhante pergunta, assim á queima-roupa; -ficou calada sem achar o que responder. -</p> -<p> -—Muda-se, não é verdade? insistio a outra, fazendo-se vermelha. -</p> -<p> -—E o que tem você com isso? Mude-me ou não, não lhe tenho de dar -satisfações! Metta-se lá com a sua vida! Ora esta! -</p> -<p> -—Com a minha vida é que te metteste tu, cigana! exclamou a -portugueza, sem se conter e avançando para a porta com impeto. -</p> -<p> -—Hein?! Repete, cutruca ordinaria! berrou a mulata, dando um passo em -frente. -</p> -<p> -—Pensas que já não sei de tudo? Maleficiaste-me o homem e agora -carregas-me com elle! Que a má coisa te saiba, cabra do inferno! Mas -deixa estar que has de amargar o que o diabo não quiz! quem t'o jura -sou eu! -</p> -<p> -—Pula cá pr'a fóra, perúa chóca, se és capaz! -</p> -<p> -Em torno de Rita já o povaréo se reunia alvoroçado; as lavadeiras -deixaram logo as tinas e vinham, com os braços nús, cheios de espuma -de sabão, estacionar ali ao pé, formando roda, silenciosas, sem -nenhuma d'ellas querer metter-se no barulho. Os homens riam e atiravam -chufas ás duas contendoras, como succedia sempre quando no cortiço -qualquer mulher se disputava com outra. -</p> -<p> -—Isca! Isca! gritavam elles. -</p> -<p> -Ao desafio da mulata, Piedade saltara ao pateo, armada com um dos seus -tamancos. Uma pedrada recebeu-a em caminho, rachando-lhe a pelle do -queixo, ao que ella respondeu desfechando contra a adversaria uma -formidavel pancada na cabeça. -</p> -<p> -E pegaram-se logo a unhas e dentes. -</p> -<p> -Por algum tempo luctaram de pé, engalfinhadas, no meio da grande -algazarra dos circumstantes. João Romão acudio e quiz separal-as; -todos protestaram. A familia do Miranda assomou á janella, tomando -ainda o café de depois do jantar, indifferente, já habituada áquellas -scenas. Dois partidos todavia se formavam em torno das luctadoras; quasi -todos os brasileiros eram pela Rita e quasi todos os portuguezes pela -outra. Discutia-se com febre a superioridade de cada qual dellas; -rebentavam gritos de enthusiasmo a cada mossa que qualquer das duas -recebia; e estas, sem se desunharem, tinham já arranhões e mordeduras -por todo o busto. -</p> -<p> -Quando menos se esperava, ouvio-se um baque pesado e vio-se Piedade de -bruços no chão e a Rita por cima, escarranchada sobre as suas largas -ancas, a socar-lhe o cachaço de murros contínuos, desgrenhada, rota, -offegante, os cabellos cahidos sobre a cara, gritando victoriosa, com a -bocca escorrendo sangue: -</p> -<p> -—Toma pr'o teu tabaco! Toma, gallinha podre! Toma, pr'a não te -metteres commigo! Toma! Toma, baiacú da praia! -</p> -<p> -Os portuguezes precipitaram-se para tirar Piedade de debaixo da mulata. -Os brasileiros oppozeram-se ferozmente. -</p> -<p> -—Não póde? -</p> -<p> -—Enche! -</p> -<p> -—Não deixa! -</p> -<p> -—Não tira! -</p> -<p> -—Entra! Entra! -</p> -<p> -E as palavras «gallego» e «cabra» cruzaram-se do todos os pontos, -como bofetadas. Houve um vaváo rapido e surdo, e logo em seguida um -formidavel rôlo, um rôlo a valer, não mais de duas mulheres, mas de -uns quarenta e tantos homens de pulso, rebentou como um terremoto. As -cercas e os giráos desappareceram do chão e estilhaçaram-se no ar, -estalando em descarga; ao passo que n'uma berraria infernal, n'um -fecha-fecha de formigueiro em guerra, aquella onda viva ia arrastando o -que topava no caminho; barracas e tinas, baldes, regadores e caixões de -planta, tudo rolava entre aquella centena de pernas confundidas e -doidas. Das janellas do Miranda apitava-se com furia; da rua, em todo o -quarteirão, novos apitos respondiam; dos fundos do cortiço e pela -frente surgia povo e mais povo. O pateo estava quasi cheio; ninguem mais -se entendia; todos davam e todos apanhavam; mulheres e crianças -berravam. João Romão, clamando furioso, sentia-se impotente para -conter semelhantes demonios. «Fazer rôlo áquella hora, que -imprudencia!» Não conseguio fechar as portas da venda, nem o portão -da estalagem; guardou ás pressas na burra o que havia em dinheiro na -gaveta, e, armando-se com uma tranca de ferro, pôz-se de sentinella ás -prateleiras, disposto a abrir o casco ao primeiro que se animasse a -saltar-lhe o balcão. Bertoleza, lá dentro na cozinha, apromptava uma -grande chaleira de agoa quente, para defender com ella a propriedade do -seu homem. E o rôlo a ferver lá fóra, cada vez mais inflammado com um -terrivel sopro de rivalidade nacional. Ouviam-se, n'um clamor de pragas -e gemidos, vivas a Portugal e vivas ao Brazil. De vez em quando, o -povaréo, que continuava a crescer, afastava-se em massa, rugindo de -medo, mas tornava logo, como a onda no refluxo dos mares. A policia -appareceu e não se achou com animo de entrar, antes de vir um reforço -de praças, que um permanente fôra buscar a galope! -</p> -<p> -E o rôlo fervia. -</p> -<p> -Mas, no melhor da lucta, ouvio-se na rua um côro de vozes que se -approximava das bandas do Cabeça de Gato. Era o canto de guerra dos -capoeiras do outro cortiço, que vinham dar batalha aos Carapicús, para -vingar com sangue a morte de Firmo, seu chefe de malta. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XVII">XVII</a></h4> - -<p> -Mal os Carapicús sentiram a approximação dos rivaes, um grito de -alarma echoou por toda a estalagem e o rôlo dissolveu-se de improviso, -sem que a desordem cessasse. Cada qual correu á casa, rapidamente, em -busca do ferro, do páo e de tudo que servisse para resistir e para -matar. Um só impulso os impellia a todos; já não havia ali -brasileiros e portuguezes, havia um só partido que ia ser atacado pelo -partido contrario; os que se batiam ainda ha pouco emprestavam armas uns -aos outros, limpando com as costas da mão o sangue das feridas. -Agostinho, encostado ao lampeão do meio do cortiço, cantava em altos -berros uma coisa que lhe parecia responder á musica barbara que -entoavam lá fora os inimigos; a mãe déra-lhe licença, a pedido -d'elle, para pôr um cinto de Nênêm, em que o pequeno enfiou a faca da -cozinha. Um mulatinho franzino, que até ahi não fôra notado por -ninguem no São Romão, postou-se defronte da entrada, de mãos limpas, -á espera dos invasores; e todos tiveram confiança n'elle, porque o -ladrão, além de tudo, estava rindo. -</p> -<p> -Os Cabeças de Gato assomaram afinal ao portão. Uns cem homens, em que -senão via a arma que traziam. Porfiro vinha na frente, a dansar, de -braços abertos, bamboleando o corpo e dando rasteiras para que ninguem -lhe estorvasse a entrada. Trazia o chapéo á ré, com um laço de fita -amarella fluctuando na copa. -</p> -<p> -—Aguenta! Aguenta! Faz frente! clamavam de dentro os Carapicús. -</p> -<p> -E os outros, cantando o seu hymno de guerra, entraram e approximaram-se -lentamente, a dansar como selvagens. -</p> -<p> -As navalhas traziam-nas abertas e escondidas na palma da mão. -</p> -<p> -Os Carapicús enchiam a metade do cortiço. Um silencio arquejado -succedia á estrepitosa vozeria do rôlo que findara. Sentia-se o hausto -impaciente da ferocidade que atirava aquelles dois bandos de capoeiras -um contra o outro. E no emtanto o sol, unico causador de tudo aquillo, -desapparecia de todo nos limbos do horizonte, indifferente, deixando -atraz de si as melancolias do crepusculo, que é a saudade da terra -quando elle se ausenta, levando comsigo a alegria da luz e do calor. -</p> -<p> -Lá na janella do Barão, o Botelho, enthusiasmado como sempre por tudo -que lhe cheirava a guerra, soltava gritos de applauso e dava brados de -commando militar. -</p> -<p> -E os Cabeças de Gato approximavam-se cantando, a dansar, rastejando -alguns de costas para o chão, firmados nos pulsos e nos calcanhares. -</p> -<p> -Dez Carapicús sahiram em frente; dez Cabeças de Gato se alinharam -defronte d'elles. -</p> -<p> -E a batalha principiou, não mais desordenada e cega, porém com -methodo, sob o commando de Porfiro que, sempre a cantar ou a assobiar, -saltava em todas as direcções, sem nunca ser alcançado por ninguem. -</p> -<p> -Desferiram-se navalhas contra navalhas, jogaram-se as cabeçadas e os -vôa-pés. Par a par, todos os capoeiras tinham pela frente um -adversario de igual destreza que respondia a cada investida com um salto -de gato ou uma queda repentina que annullava o golpe. De parte a parte -esperavam que o cansaço desequilibrasse as forças, abrindo furo á -victoria; mas um facto veio neutralisar inda uma vez a campanha: Immenso -rebentão de fogo esgargalhava-se de uma das casas do fundo, o numero -88. E agora o incendio era a valer. -</p> -<p> -Houve nas duas maltas um subito espasmo de terror. Abaixaram-se os -ferros e calou-se o hymno de morte. Um clarão tremendo ensanguentou o -ar, que se fechou logo de fumaça fulva. -</p> -<p> -A Bruxa conseguira afinal realisar o seu sonho de louca: o cortiço ia -arder; não haveria meio de reprimir aquelle cruento desovar de -labaredas. Os Cabeças de Gato, leaes nas suas justas de partido, -abandonaram o campo, sem voltar o rosto, desdenhosos de aceitar o -auxilio de um sinistro e dispostos até a soccorrer o inimigo, se assim -fosse preciso. E nenhum dos Carapicús os ferio pelas costas. A lucta -ficava para outra occasião. E a scena transformou-se n'um relance; os -mesmos que barateavam tão facilmente a vida, apressavam-se agora a -salvar os miseraveis bens que possuiam sobre a terra. Fechou-se um -entra-e-sáe de maribondos defronte d'aquellas cem casinhas ameaçadas -pelo fogo. Homens e mulheres corriam de cá para lá com os tarecos ao -hombro, numa balburdia de doidos. O pateo e a rua enchiam-se agora de -camas velhas e colchões espocados. Ninguem se conhecia n'aquelle zumba -de gritos sem nexo, e choro de crianças esmagadas, e pragas arrancadas -pela dôr e pelo desespero. Da casa do Barão sahiam clamores -apopleticos; ouviam-se os guinchos de Zulmira que se espolinhava com um -ataque. E começou a apparecer agoa. Quem a trouxe? Ninguem sabia -dizel-o; mas viam-se baldes e baldes que se despejavam sobre as chammas. -</p> -<p> -Os sinos da visinhança começaram a badalar. -</p> -<p> -E tudo era um clamor. -</p> -<p> -A Bruxa surgio á janella da sua casa, como a bocca de uma fornalha -accesa. Estava horrivel; nunca fôra tão bruxa. O seu moreno trigueiro, -de cabocla velha, reluzia que nem metal em braza; a sua crina preta, -desgrenhada, escorrida e abundante como a das egoas selvagens, dava-lhe -um caracter phantastico de furia sabida do inferno. E ella ria-se, ebria -de satisfação, sem sentir as queimaduras e as feridas, victoriosa no -meio d'aquella orgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em -segredo a sua alma extravagante de maluca. -</p> -<p> -Ia atirar-se cá para fóra, quando se ouvio estalar o madeiramento da -casa incendiada, que abateu rapidamente, sepultando a louca n'um montão -de brazas. -</p> -<p> -Os sinos continuavam a badalar afflictos. Surgiram agoadeiros com as -suas pipas em carroça, alvoroçados, fazendo cada qual maior empenho em -chegar antes dos outros e apanhar os dez mil reis da gratificação. A -policia defendia a passagem ao povo que queria entrar. A rua lá fóra -estava já atravancada com o despojo de quasi toda a estalagem. E as -labaredas iam galopando desembestadas para a direita e para a esquerda -do numero 88. Um papagaio, esquecido á parede de uma das casinhas e -preso á gaiola, gritava furioso, como se pedisse soccorro. -</p> -<p> -Dentro de meia hora o cortiço tinha de ficar em cinzas. Mas um fragor -de repiques de campainhas e estridente silvar de valvulas encheu de -subito todo o quarteirão, annunciando que chegava o corpo dos -bombeiros. -</p> -<p> -E logo em seguida apontaram carros á desfilada, e um bando de demonios -de blusa clara, armados uns de archotes e outros de escadinhas de ferro, -apoderaram-se do sinistro, dominando-o incontinenti, com uma expedição -magica, sem uma palavra, sem hesitações e sem atropellos. A um só -tempo viram-se fartas mangas d'agoa chicoteando o fogo por todos os -lados; emquanto, sem se saber como, homens, mais ageis que macacos, -escalavam os telhados abrazados por escadas que mal se distinguiam; e -outros invadiam o coração vermelho do incendio, a dardejar duchas em -torno de si, rodando, saltando, piruetando, até estrangularem as -chammas que se atiravam ferozes para cima d'elles, como dentro de um -inferno; ao passo que outros, cá de fóra, imperturbaveis, com uma -limpeza de machina moderna, fusilavam d'agoa toda a estalagem, numero -por numero, resolvidos a não deixar uma só telha enxuta. -</p> -<p> -O povo applaudia-os enthusiasmado, já esquecido do desastre e só -attenção para aquelle duello contra o incendio. Quando um bombeiro, de -cima do telhado, conseguio suffocar uma ninhada de labaredas, que -surgira defronte d'elle, rebentou cá de baixo uma roda de palmas, e o -heróe voltou-se para a multidão, sorrindo e agradecendo. -</p> -<p> -Algumas mulheres atiravam-lhe beijos, entre brados de ovação. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XVIII">XVIII</a></h4> - -<p> -Por esse tempo, o amigo de Bertoleza, notando que o velho Liborio, -depois de escapar de morrer na confusão do incendio, fugia agoniado -para o seu esconderijo, seguio-o com disfarce e observou que o -miseravel, mal deu luz á candeia, começou a tirar offegante alguma -coisa do seu colchão immundo. -</p> -<p> -Eram garrafas. Tirou a primeira, a segunda, meia duzia d'ellas. Depois -puxou ás pressas a coberta do catre e fez uma trouxa. Ia de novo ganhar -a sahida, mas soltou um gemido surdo e cahio no chão sem forças -arrevessando uma golfada de sangue e cingindo contra o peito o -mysterioso embrulho. -</p> -<p> -João Romão appareceu, e elle, assim que o vio, redobrou de afflicção -e torceu-se todo sobre as garrafas, defendendo-as com o corpo inteiro, a -olhar aterrado e de esguelha para o seu interventor, como se déra cara -a cara com um bandido. E, a cada passo que o vendeiro adiantava, o -tremor e o sobresalto do velho recresciam, tirando-lhe da garganta -grunhidos roucos de animal batido e assustado. Duas vezes tentou -erguer-se; duas vezes rolou por terra moribundo. João Romão -objurgou-lhe que qualquer demora ali seria morte certa: o incendio -avançava. Quiz ajudal-o a carregar o fardo. Liborio, por unica -resposta, arregaçou os beiços, mostrando as gengivas sem dentes e -tentando morder a mão que o vendeiro estendia já sobre as garrafas. -</p> -<p> -Mas, lá de cima, a ponta de uma lingoa de fogo varou o tecto e -illuminou de vermelho a miseravel pocilga. Liborio tentou ainda um -esforço supremo, e nada poude, começando a tremer da cabeça aos pés, -a tremer, a tremer, grudando-se cada vez mais á sua trouxa, e já -estrebuchava, quando o vendeiro lh'a arrancou das garras com violencia. -Tambem era tempo, porque, depois de insinuar a lingoa, o fogo mostrou a -bocca e escancarou afinal a guela devoradora. -</p> -<p> -O tratante fugio de carreira, abraçado á sua preza, em quanto o velho, -sem conseguir pôr-se de pé, rastreava na pista d'elle, -difficultosamente, estrangulado de desespero senil, já sem falla, -rosnando uns vagidos de morte, os olhos turvos, todo elle roxo, os dedos -enriçados como as unhas de um abutre ferido. -</p> -<p> -João Romão atravessou o pateo de carreira e metteu-se na sua tóca -para esconder o furto. Ao primeiro exame, de relance, reconheceu logo -que era dinheiro em papel o que havia nas garrafas. Enterrou a trouxa na -prateleira de um armario velho cheio de frascos e voltou lá fóra para -acompanhar o serviço dos bombeiros. -</p> -<p> -Á meia noite estava já completamente extincto o fogo e quatro -sentinellas rondavam a ruina das trinta e tantas casinhas que arderam. O -vendeiro só poude voltar á trouxa das garrafas ás cinco horas da -manhã, quando Bertoleza, que fizera prodigios contra o incendio, -passava pelo somno, encostada na cama, com a saia ainda enxarcada -d'agoa, o corpo cheio de pequenas queimaduras. Verificou que as garrafas -eram oito e estavam cheias até á bocca de notas de todos os valores, -que ahi foram mettidas, uma a uma, depois de cuidadosamente enroladas e -dobradas á moda de bilhetes de rifa. Receioso, porém, de que a crioula -não estivesse bem adormecida e desse pela coisa, João Romão resolveu -adiar para mais tarde a contagem do dinheiro e guardou o thesouro -n'outro logar mais seguro. -</p> -<p> -No dia seguinte a policia averiguou os destroços do incendio e mandou -proceder logo ao desentulho, para retirar os cadaveres que houvesse. -</p> -<p> -Rita desapparecêra da estalagem durante a confusão da noite; Piedade -cahíra de cama, com um febrão de quarenta gráos; a Machona tinha uma -orelha rachada e um pé torcido; a das Dôres a cabeça partida; o Bruno -levara uma navalhada na coxa; dois trabalhadores da pedreira estavam -gravemente feridos; um italiano perdêra dois dentes da frente, e uma -filhinha da Augusta Carne Molle morréra esmagada pelo povo. E todos, -todos se queixavam de damnos recebidos e revoltavam-se contra os rigores -da sorte. O dia passou-se inteiro na computação dos prejuizos e a -dar-se balanço no que se salvara do incendio. Sentia-se um fartum -aborrecido de estorrilho e cinza molhada. Um duro silencio de desconsolo -embrutecia aquella pobre gente. Vultos sombrios, de mãos crusadas -atraz, permaneciam horas esquecidas, a olhar immoveis os esqueletos -carbonisados e ainda humidos das casinhas queimadas. Os cadaveres da -Bruxa e do Liborio foram carregados para o meio do pateo, disformes, -horrorosos, e jaziam entre duas vélas accesas, ao relento, á espera do -carro da Misericordia. Entrava gente a rua para os ver; descobriam-se -defronte d'elles, e alguns curiosos lançavam piedosamente uma moeda de -cobre no prato que, aos pés dos dois defuntos, recebia a esmola para a -mortalha. Em casa de Augusta, sobre uma meza coberta por uma ceremoniosa -toalha de rendas, estava o cadaverzinho da filha morta, todo enfeitado -de flôres, com um Christo de latão á cabeceira e dois cirios que -ardiam tristemente. Alexandre, assentado a um canto da sala, com o rosto -escondido nas mãos, chorava, aguardando o pesame das visitas; -fardára-se, só para isso, com o seu melhor uniforme, coitado! -</p> -<p> -O enterro da pequenita foi feito á custa de Leonie, que appareceu ás -tres da tarde, vestida de setineta côr de creme, n'um carrinho dirigido -por um cocheiro de calção de flanella branca e libré agaloada de ouro. -</p> -<p> -O Miranda apresentou-se na estalagem logo pela manhã, o ar compungido, -porém superior. Deu um ligeiro abraço em João Romão, fallou-lhe em -voz baixa, lamentando aquella catastrophe, mas felicitou-o porque tudo -estava no seguro. -</p> -<p> -O vendeiro, com effeito, impressionado com a primeira tentativa de -incendio, tratara de segurar todas as suas propriedades; e, com tamanha -inspiração o fez que, agora, em vez de lhe trazer o fogo prejuizo, -até lhe deixava lucros. -</p> -<p> -—Ah, ah, meu caro! Cautela e caldo de gallinha nunca fizeram mal a -doente!... segredou o dono do cortiço, a rir. Olhe, aquelles é que com -certeza não gostaram da brincadeira! accrescentou, apontando para o -lado em que maior era o grupo dos infelizes que tomavam conta dos restos -de seus tarecos atirados em montão. -</p> -<p> -—Ah, mas esses, que diabo! nada têm que perder!... considerou o -outro. -</p> -<p> -E os dois visinhos foram até o fim do palco, conversando em voz baixa. -</p> -<p> -—Vou reedificar tudo isto! declarou João Romão, com um gesto energico -que abrangia toda aquella babylonia desmantelada. -</p> -<p> -E expoz o seu projecto: Tencionava alargar a estalagem, entrando um pouco -pelo capinzal. Levantaria do lado esquerdo, encostado ao muro do -Miranda, um novo correr de casinhas, aproveitando assim parte do pateo, -que não precisava ser tão grande; sobre as outras levantaria um -segundo andar, com uma longa varanda na frente toda gradeada. -Negociozinho para ter ali, a dar dinheiro, em vez de uma centena de -commodos, nada menos de quatrocentos a quinhentos, de doze a vinte e -cinco mil reis cada um! -</p> -<p> -Ah! elle havia de mostrar como se fazem as coisas bem feitas. -</p> -<p> -O Miranda escutava-o calado, fitando-o com respeito. -</p> -<p> -—Você é um homem dos diabos! disse afinal, batendo-lhe no hombro. -</p> -<p> -E, ao sahir de lá, no seu coração vulgar de homem que nunca produzio -e levou a vida, como todo o mercador, a explorar a boa fé de uns e o -trabalho intellectual de outros, trazia uma grande admiração pelo -visinho. O que ainda lhe restava da primitiva inveja transformou-se -n'esse instante n'um enthusiasmo illimitado e cego. -</p> -<p> -—É um filho da mãe! resmungava elle pela rua, em caminho do seu -armazem. É de muita força! Pena é estar mettido com a peste d'aquella -crioula! Nem sei como um homem tão esperto cahio em semelhante asneira! -</p> -<p> -Só lá pelas dez e tanto da noite foi que João Romão, depois de -certificar-se de que Bertoleza ferrára n'um somno de pedra, resolveu -dar balanço ás garrafas de Liborio. O diabo é que elle tambem quasi -que se não aguentava nas pernas e sentia os olhos a fecharem-se-lhe de -cansaço. Mas não podia socegar sem saber quanto ao certo apanhára do -avarento. -</p> -<p> -Accendeu uma véla, foi buscar a immunda e preciosa trouxa, e carregou -com esta para a casa de pasto ao lado da cozinha. -</p> -<p> -Depôz tudo sobre uma das mezas, assentou-se, e principiou a tarefa. -Tomou a primeira garrafa, tentou despejal-a, batendo-lhe no fundo; -foi-lhe porém necessario extrahir as notas, uma por uma, porque estavam -muito socadas e peganhentas de bolor. A proporção que as fisgava, ia -logo as desenrolando e estendendo cuidadosamente em maço, depois de -seccar-lhes a humidade ao calor das mãos e da véla. E o prazer que -elle desfructava n'este serviço punha-lhe em jogo todos os sentidos e -afugentava-lhe o somno e as fadigas. Mas, ao passar á segunda garrafa, -soffreu uma dolorosa decepção: quasi todas as cedulas estavam já -prescriptas pelo thesouro; veio-lhe então o receio de que a melhor -parte do bôlo se achasse inutilisada; restava-lhe todavia a esperança -de que fosse aquella garrafa a mais antiga de todas e a peior por -conseguinte. -</p> -<p> -E continuou com mais ardor o seu delicioso trabalho. -</p> -<p> -Tinha já esvaziado seis, quando notou que a véla, consumida até o -fim, bruxuleava a extinguir-se; foi buscar outra nova e vio ao mesmo -tempo que horas eram. «Oh! como a noite corrêra depressa!...» Tres e -meia da madrugada. «Parecia impossivel!» -</p> -<p> -Ao terminar a contagem, as primeiras carroças passavam lá fóra na rua. -</p> -<p> -—Quinze contos, quatrocentos e tantos mil reis!... disse João Romão -entre dentes, sem se fartar de olhar para as pilhas de cedulas que tinha -defronte dos olhos. -</p> -<p> -Mas oito contos e seiscentos eram em notas já prescriptas. E o -vendeiro, á vista de tão bella somma, assim tão estupidamente -compromettida, sentio a indignação de um roubado. Amaldiçoou aquelle -maldito velho Liborio por tamanho relaxamento; amaldiçoou o governo -porque limitava, com intenções velhacas, o praso da circulação dos -seus titulos; chegou até a sentir remorsos por não se ter apoderado do -thesouro do avarento, logo que este, um dos primeiros moradores do -cortiço, lhe appareceu com o colchão as costas, a pedir chorando que -lhe dessem de esmola um cantinho onde elle se mettesse com sua miseria. -João Romão tivera sempre uma vidente cobiça sobre aquelle dinheiro -engarrafado; fariscára-o desde que fitou de perto os olhinhos vivos e -redondos do abutre decrepito, e convenceu-se de todo, notando que o -miseravel dava prompto sumisso a qualquer moedinha que lhe cahia nas -garras. -</p> -<p> -—Seria um acto de justiça! concluio João Romão; pelo menos seria -impedir que todo este pobre dinheiro apodrecesse tão barbaramente! -</p> -<p> -Ora adeus! mas sete ricos continhos quasi inteiros ficavam-lhe nas -unhas. «E depois, que diabo! os outros assim mesmo haviam de ir com -geito... Hoje impingiam-se dois mil reis: amanhã cinco. Não nas -compras, mas nos trocos... Porque não? Alguem reclamaria, mas muitos -enguliriam a bucha... Para isso não faltavam estrangeiros e -caipiras!... E demais, não era crime!... Sim! se havia n'isso -ladroeira, queixassem-se do governo! o governo é que era o ladrão! -</p> -<p> -—Em todo o caso, rematou elle, guardando o dinheiro bom e máo e -dispondo-se a descançar; isto já serve para principiar as obras! -Deixem estar, que d'aqui a dias eu lhes mostrarei para quanto presto! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XIX">XIX</a></h4> - -<p> -D'ahi a dias, com effeito, a estalagem mettia-se em obras. Á desordem do -desentulho do incendio succedia a do trabalho dos pedreiros; -martelava-se ali de pela manhã até á noite, o que aliás não impedia -que as lavadeiras continuassem a bater roupa e as engommadeiras -reunissem ao barulho das ferramentas o choroso falsete das suas eternas -cantigas. -</p> -<p> -Os que ficaram sem casa foram aboletados a troxe-moxe por todos os -cantos, á espera dos novos commodos. Ninguem se mudou para o Cabeça de -Gato. -</p> -<p> -As obras principiaram pelo lado esquerdo do cortiço, o lado do Miranda; -os antigos moradores tinham preferencia e vantagens nos preços. Um dos -italianos feridos morreu na Misericordia e o outro, tambem lá, -continuava ainda em risco de vida. Bruno recolhêra-se á Ordem de que -era irmão, e Leocadia, que não quiz attender áquella carta escripta -por Pombinha, resolveu-se a ir visitar o sou homem no hospital. Que -alegrão para o infeliz a volta da mulher, aquella mulher levada dos -diabos, mas de carne dura, a quem elle, apezar de tudo, queria muito. -Com a visita reconciliaram-se, chorando ambos, e Leocadia decidio tornar -para o São Romão e viver de novo com o marido. Agora fazia-se muito -séria e ameaçava com pancada a quem lhe propunha bregeirices. -</p> -<p> -Piedade, essa é que se levantou das febres completamente transformada. -Não parecia a mesma depois do abandono de Jeronymo; emmagrecêra em -extremo, perdêra as côres do rosto, ficara feia, triste e resmungona; -mas não se queixava, e ninguem lhe ouvia fallar no nome do esposo. -</p> -<p> -Esses mezes, durante as obras, foram uma época especial para a -estalagem. O cortiço não dava idéa do seu antigo caracter, tão -accentuado e no emtanto tão mixto: aquillo agora parecia uma grande -officina improvisada, um arsenal, em cujo fragor a gente só se entende -por signaes. As lavadeiras fugiram para o capinzal dos fundos, porque o -pó da terra e da madeira sujavam-lhes a roupa lavada. Mas, dentro de -pouco tempo, estava tudo prompto; e, com immenso pasmo, viram que a -venda, a sebosa bodega, onde João Romão se fez gente, ia tambem entrar -em obras. O vendeiro resolvera aproveitar d'ella sómente algumas das -paredes, que eram de um metro de largura, talhadas á portugueza; -abriria as portas em arco, suspenderia o tecto e levantaria um sobrado, -mais alto que o do Miranda e, com toda a certeza, mais vistoso. Prédio -para metter o do outro no chinello; quatro janellas de frente, oito de -lado, com um terraço ao fundo. O logar em que elle dormia com -Bertoleza, a cozinha e a casa de pasto seriam abobadadas, formando, com -a parte da taverna, um grande armazem, em que o seu commercio iria -fortalecer-se e alargar-se. -</p> -<p> -O Barão e o Botelho appareciam por lá quasi todos os dias, ambos muito -interessados pela prosperidade do visinho; examinavam os materiaes -escolhidos para a construcção, batiam com a biqueira do chapéo de sol -no pinho de Riga destinado ao assoalho, e affectando-se bons -entendedores, tomavam na palma da mão e esfarelavam entre os dedos um -punhado da terra e da cal com que os operarios faziam barro. Ás vezes -chegavam a ralhar com os trabalhadores, quando lhes parecia que não iam -bem no serviço! João Romão, agora sempre de paletó, engravatado, -calças brancas, collete e corrente de relogio, já não parava na -venda, e só acompanhava as obras na folga das occupações da rua. -Principiava a tomar tino no jogo da Bolsa; comia em hoteis caros e bebia -cerveja em larga camaradagem com capitalistas nos cafés do commercio. -</p> -<p> -E a crioula? Como havia de ser? -</p> -<p> -Era isto justamente o que, tanto o Barão como o Botelho, morriam porque -lhe dissessem. Sim, porque aquella bôa casa que se estava fazendo, e os -ricos moveis encommendados, e mais as pratas e as porcelanas que haviam -de vir, não seriam de certo para os beiços da negra velha! -Conserval-a-ia como criada? Impossivel! Todo Botafogo sabia que elles -até ahi fizeram vida commum! -</p> -<p> -Todavia, tanto o Miranda, como o outro, não se animavam a abrir o bico -a esse respeito com o visinho e contentavam-se em boquejar entre si -mysteriosamente, palpitando ambos por ver a sahida que o vendeiro -acharia para semelhante situação. -</p> -<p> -Maldita preta dos diabos! Era ella o unico defeito, o senão, de um -homem tão importante e tão digno! -</p> -<p> -Agora, não se passava um domingo sem que o amigo de Bertoleza fosse -jantar á casa do Miranda. Iam juntos ao theatro. João Romão dava o -braço á Zulmira, e, procurando galanteal-a e mais ao resto da familia, -desfazia-se em obsequios brutaes e dispendiosos, com uma franqueza -exagerada que não olhava gastos. Se tinham de tomar alguma coisa, elle -fazia vir logo tres, quatro garrafas ao mesmo tempo, pedindo sempre o -triplo do necessario e accumulando compras inuteis de doces, flôres e -tudo que apparecia. Nos leilões das festas de arraial era tão feroz a -sua febre de obsequiar á gente do Miranda, que nunca voltavam para casa -sem um homem atraz, carregado com os mimos que o vendeiro arrematava. -</p> -<p> -E Bertoleza bem que comprehendia tudo isso e bem que estranhava a -transformação do amigo. Elle ultimamente mal se chegava para ella e, -quando o fazia, era com tal repugnancia, que antes o não fizesse. A -desgraçada muita vez sentia-lhe cheiro de outras mulheres, perfumes de -cocotes estrangeiras, e chorava em segredo, sem animo de reclamar os -seus direitos. Na sua obscura condição de animal de trabalho, já não -era amor o que a misera desejava, era sómente confiança no amparo da -sua velhice, quando de todo lhe faltassem as forças para ganhar a vida. -E contentava-se em suspirar no meio de grandes silencios durante o -serviço de todo o dia, covarde e resignada, como seus paes que a -deixaram nascer e crescer no captiveiro. Escondia-se de todos, mesmo da -gentalha do frege e da estalagem, envergonhada de si propria, -amaldiçoando-se por ser quem era, triste de sentir-se a mancha negra, a -indecorosa nodoa d'aquella prosperidade brilhante e clara. -</p> -<p> -E, no emtanto, adorava o amigo; tinha por elle o fanatismo irracional -das caboclas do Amazonas pelo branco a que se escravisam, d'essas que -morrem de ciumes, mas que tambem são capazes de matar-se para poupar ao -seu idolo a vergonha do seu amor. O que custava áquelle homem consentir -que ella, uma vez por outra, se chegasse para junto d'elle? Todo o dono, -nos momentos de bom humor, affaga o seu cão... Mas qual! o destino de -Bertoleza fazia-se cada vez mais estreito e mais sombrio; pouco a pouco -deixara totalmente de ser a amante do vendeiro, para ficar sendo só uma -sua escrava. Como sempre, era a primeira a erguer-se e a ultima a -deitar-se; de manhã escamando peixe, á noite vendendo-o á porta, para -descançar da trabalheira grossa das horas de sol; sempre sem domingo -nem dia santo, sem tempo para cuidar de si, feia, gasta, immunda, -repugnante, com o coração eternamente emprenhado de desgostos que -nunca vinham á luz. Afinal, convencendo-se de que ella, sem ter ainda -morrido, já não vivia para ninguem, nem tão pouco para si, desabou -n'um fundo entorpecimento apathico, estagnado como um charco podre que -causa nojo. Fizera-se aspera, desconfiada, sobrolho carrancudo, uma -linha dura de um canto ao outro da bocca. E durante dias inteiros, sem -interromper o serviço, que ella fazia agora automaticamente, por um -habito de muitos annos, gesticulava e mexia com os labios, monologando -sem pronunciar as palavras. Parecia indifferente a tudo, a tudo que a -cercava. -</p> -<p> -Não obstante, certo dia em que João Romão conversou muito com -Botelho, as lagrimas saltaram dos olhos da infeliz, e ella teve de -abandonar a obrigação, porque o pranto e os soluços não lhe deixavam -fazer nada. -</p> -<p> -Botelho havia dito ao vendeiro: -</p> -<p> -—Faça o pedido! É occasião. -</p> -<p> -—Hein? -</p> -<p> -—Póde pedir a mão da pequena. Está tudo prompto! -</p> -<p> -—O Barão dá-m'a? -</p> -<p> -—Dá. -</p> -<p> -—Tem certeza d'isso? -</p> -<p> -—Ora! se não tivesse não lh'o diria d'este modo! -</p> -<p> -—Elle prometteu? -</p> -<p> -—Fallei-lhe; fiz-lhe o pedido em seu nome. Disse que estava -autorisado por você. Fiz mal? -</p> -<p> -—Mal? Fez muito bem. Creio até que não é preciso mais nada! -</p> -<p> -—Não, se o Miranda não vier logo ao seu encontro é bom você lhe -fallar, comprehende? -</p> -<p> -—Ou escrever. -</p> -<p> -—Tambem. -</p> -<p> -—E a menina? -</p> -<p> -—Respondo por ella. Você não tem continuado a receber as flôres? -</p> -<p> -—Tenho. -</p> -<p> -—Pois então não deixe pelo seu lado de ir mandando tambem as suas e -faça o que lhe disse.—Atire-se, seu João, atire-se emquanto o angú -está quente! -</p> -<p> -Por outro lado, Jeronymo empregára-se na pedreira de São Diogo, onde -trabalhava d'antes, e morava agora com a Rita numa estalagem da Cidade -Nova. -</p> -<p> -Tiveram de fazer muita despeza para se installarem; foi-lhes preciso -comprar de novo todos os arranjos de casa, porque do São Romão -Jeronymo só levou dinheiro, dinheiro que elle já não sabia poupar. -Com o asseio da mulata a sua casinha ficou, todavia, que era um regalo; -tinham cortinado na cama, lençóes de linho, fronhas de renda, muita -roupa branca, para mudar todos os dias, toalhas de meza, guardanapos; -comiam em pratos de porcelana e uzavam sabonetes finos. Plantaram á -porta uma trepadeira que subia para o telhado, abrindo pela manhã -flôres escarlates, de que as abelhas gostavam muito; penduraram gaiolas -de passarinho na sala de jantar; sortiram a despensa de tudo que mais -gostavam; compraram gallinhas e marrecos e fizeram um banheiro só para -elles, porque o da estalagem repugnou á bahiana que, n'esse ponto, era -muito escrupulosa. -</p> -<p> -A primeira parte da sua lua de mel foi uma cadeia de delicias continuas; -tanto elle como ella, pouco ou nada trabalharam; a vida dos dois -resumíra-se, quasi que exclusivamente, nos oito palmos de colchão -novo, que nunca chegava a esfriar de todo. Jámais a existencia pareceu -tão boa e corredia para o portuguez; aquelles primeiros dias -fugiram-lhe como estrophes seguidas de uma deliciosa canção de amor, -apenas espacejada pelo estribilho dos beijos em dueto; foi um prazer -prolongado e amplo, bebido sem respirar, sem abrir os olhos, n'aquelle -collo carnudo e doirado da mulata, a que o cavouqueiro se abandonara -como um bebedo que adormece abraçado a um garrafão inesgotavel de -vinho gostoso. -</p> -<p> -Estava completamente mudado. Rita apagára-lhe a ultima restea das -recordações da patria; seccou, ao calor dos seus labios grossos e -vermelhos, a derradeira lagrima de saudade, que o desterrado lançou do -coração com o extremo arpejo que a sua guitarra suspirou. -</p> -<p> -A guitarra! substituio-a ella pelo violão bahiano, e deu-lhe a elle uma -rede, um cachimbo, e embebedou-lhe os sonhos de amante prostrado com as -suas cantigas do norte, tristes, deleitosas, em que ha caboclinhos -corropiras que no sertão vêm pitar á beira das estradas em noites de -lua clara, e querem que todo o viajante que vae passando lhes ceda fumo -e cachaça, sem o que, ai d'elles! o corropira transforma-os em bicho do -matto. E deu-lhe do seu de comer da Bahia, temperado como fogoso azeite -de dendem, côr de braza; deu-lhe das suas muquecas escandescentes, de -fazer chorar, e habituou-lhe a carne ao cheiro sensual d'aquelle seu -corpo de cobra, lavado tres vezes ao dia e tres vezes perfumado com -hervas aromaticas. -</p> -<p> -O portuguez abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das -extravagancias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fôra-se-lhe de vez o -espirito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e -deu-se todo, todo inteiro, á felicidade de possuir a mulata e ser -possuido só por ella, só ella, e mais ninguem. -</p> -<p> -A morte do Firmo não vinha nunca toldar-lhes o goso da vida; quer elle, -quer a amiga, achavam a coisa muito natural. «O facinora matara tanta -gente; fizera tanta maldade; devia pois acabar como acabou! Nada mais -justo! Se não fosse Jeronymo, seria outro! Elle assim o quiz—bem -feito!» -</p> -<p> -Por esse tempo, Piedade de Jesus, sem se conformar com a ausencia do -marido, chorava o seu abandono e ia tambem agora se transformando de dia -para dia, vencida por um desmazelo de chumbo, uma dura desesperança, a -que nem as lagrimas bastavam para adoçar as agruras. A principio, ainda -a pobre de Christo tentou resistir com coragem áquella viuvez peior que -essa outra, em que ha, para elemento de resignação, a certeza de que a -pessoa amada nunca mais terá olhos para cobiçar mulheres, nem bocca -para pedir amores; mas depois começou a afundar sem resistencia na lama -do seu desgosto, covardemente, sem forças para illudir-se com uma -esperança fatua, abandonando-se ao abandono, desistindo dos seus -principios, do seu proprio caracter, sem se ter já n'este mundo na -conta de alguma coisa e continuando a viver sómente porque a vida era -teimosa e não queria deixal-a ir apodrecer lá em baixo, por uma vez. -Deu para desleixar-se no serviço; as suas freguezas de roupa começaram -a reclamar; foi-lhe fugindo o trabalho pouco a pouco; fez-se madraça e -moleirona, precisando já empregar grande esforço para não bolir nas -economias que Jeronymo lhe deixára, porque isso devia ser para a filha, -aquella probrezita orphanada antes da morte dos paes. -</p> -<p> -Um dia, Piedade levantou-se queixando-se de dôres de cabeça, zoada nos -ouvidos e o estomago embrulhado; aconselharam-lhe que tomasse um trago -de paraty. Ella aceitou o conselho e passou melhor. No dia seguinte -repetio a doze; deu-se bem com a perturbação em que a punha o alcool, -esquecia-se um pouco durante algum tempo das amofinações da sua vida; -e, gole a gole, habituára-se a beber todos os dias o seu meio martello -de aguardente, para enganar os pezares. -</p> -<p> -Agora, que o marido já não estava ali para impedir que a filha puzesse -os pés no cortiço, e agora que Piedade precisava de consolo, a pequena -ia passar os domingos com ella. Sahira uma criança forte e bonita; -puxara do pae o vigor physico e da mãe a expressão bondosa da -physionomia. Já tinha nove annos. -</p> -<p> -Eram esses agora os unicos bons momentos da pobre mulher, esses que ella -passava ao lado da filha. Os antigos moradores da estalagem principiavam -a distinguir a menina com a mesma predilecção com que amavam Pombinha, -porque em toda aquella gente havia uma necessidade moral de eleger para -mimoso da sua ternura um entezinho delicado e superior, a quem elles -privilegiavam respeitosamente, como subditos a um principe. -Chrismaram-na logo com o cognome de «Senhorinha». -</p> -<p> -Piedade, apezar do procedimento do marido, ainda no intimo se -impressionava com a idéa de que não devia contrarial-o nas suas -disposições de pae. «Mas que mal tinha que a pequena fosse ali?... -Era uma esmola que fazia á mãe! Lá pelo risco de perder-se... Ora -adeus, só se perdia quem mesmo já nascêra para a perdição! A outra -não se conservára sã e pura? não achára noivo? não casára e não -vivia dignamente com o seu marido? Então?!» E Senhorinha continuou a -ir á estalagem, a principio nos domingos pela manhã, para voltar á -tarde, depois já de vespera, nos sabbados, para só tornar ao collegio -na segunda feira. -</p> -<p> -Jeronymo, ao saber disto, por intermedio da professora, revoltou-se no -primeiro impeto, mas, pensando bem no caso, achou que era justo deixar -á mulher aquelle consolo. «Coitada! devia viver bem aborrecida da -sorte!» Tinha ainda por ella um sentimento compassivo, em que a melhor -parte nascêra com o remorso. «Era justo, era! que a pequena aos -domingos e dias santos lhe fizesse companhia!» E então, para ver a -filha, tinha que ir ao collegio nos dias de semana. Quasi sempre -levava-lhe presentes de doce, fructas, e perguntava-lhe se precisava de -roupa ou de calçado. Mas, um bello dia, apresentou-se tão ebrio, que -a directora lhe negou a entrada. Desde essa occasião, Jeronymo teve -vergonha de lá voltar, e as suas visitas á filha tornaram-se muito -raras. -</p> -<p> -Tempos depois, Senhorinha entregou á mãe uma conta de seis mezes da -pensão do collegio, com uma carta em que a directora negava-se a -conservar a menina, no caso que não liquidassem promptamente a divida. -Piedade levou as mãos á cabeça: «Pois o homem já nem o ensino da -pequena queria dar?! Que lhe valesse Deus! onde iria ella fazer dinheiro -para educar a filha?!» -</p> -<p> -Foi á procura do marido; já sabia onde elle morava. Jeronymo -recusou-se, por vexame; mandou dizer que não estava em casa. Ella -insistio; declarou que não arredaria d'alli sem lhe fallar; disse em -voz bem alta que não ia lá por elle, mas pela filha, que estava -arriscada a ser expulsa do collegio; ia para saber que destino lhe havia -de dar, porque agora a pequena estava muito taluda para ser engeitada na -roda! -</p> -<p> -Jeronymo appareceu afinal, com um ar triste de vicioso envergonhado que -não tem animo de deixar o vicio. A mulher, ao vel-o, perdeu logo toda a -energia com que chegára e com moveu-se tanto, que as lagrimas lhe -saltaram dos olhos ás primeiras palavras que lhe dirigio. E elle -abaixou os seus e fez-se livido defronte d'aquella figura avelhantada, -de pelles vazias, de cabellos sujos e encanecidos. Não lhe parecia a -mesma! Como estava mudada! E tratou-a com brandura, quasi a pedir-lhe -perdão, a voz muito expremida no aperto da garganta. -</p> -<p> -—Minha pobre velha!... balbuciou, pousando-lhe a mão larga na cabeça. -</p> -<p> -E os dois emmudeceram um defronte do outro, arquejantes. Piedade sentio -ancias de atirar-se-lhe nos braços, possuida de imprevista ternura com -aquelle simples affago do seu homem. Um subito raio de esperança -illuminou-a toda por dentro, dissolvendo de relance os negrumes -accumulados ultimamente no seu coração. Contava não ouvir ali senão -palavras duras e asperas, ser talvez repellida grosseiramente, insultada -pela outra e coberta de ridiculo pelos novos companheiros do marido; -mas, ao encontral-o tambem triste e desgostoso, sua alma prostrou-se -reconhecida; e, assim que Jeronymo, cujas lagrimas corriam já -silenciosamente, deixou que a sua mão fosse descendo da cabeça ao -hombro e depois á cintura da esposa, ella desabou, escondendo o rosto -contra o peito d'elle, n'uma explosão de soluços que lhe faziam vibrar -o corpo inteiro. -</p> -<p> -Por algum tempo choraram ambos abraçados. -</p> -<p> -—Consola-te! que queres tu?... São desgraças!... disse o cavouqueiro -afinal limpando os olhos. Foi como se eu te tivesse morrido ... mas -pódes ficar certa de que te estimo e nunca te quiz mal!... Volta para -casa; eu irei pagar o collegio de nossa filhinha e hei de olhar por ti. -Vae, e pede a Deus Nosso Senhor que me perdôe os desgostos que te tenho -eu dado! -</p> -<p> -E acompanhou-a até ao portão da estalagem. -</p> -<p> -Ella, sem poder pronunciar palavra, sahio cabisbaixa, a enxugar os olhos -no chale de lã, sacudida ainda de vez em quando por um soluço -retardado. -</p> -<p> -Entretanto, Jeronymo não mandou saldar a conta do collegio, no dia -seguinte, nem no outro, nem durante todo o resto do mez; e elle, -coitado! bem que se mortificou por isso; mas onde ir buscar dinheiro -n'aquella occasião? o seu trabalho mal lhe dava agora para viver junto -com a mulata; estava já alcançado nos seus ordenados e devia ao -padeiro e ao homem da venda. Rita era desperdiçada e amiga de gastar á -larga; não podia passar sem uns tantos regalos de barriga e gostava de -fazer presentes. Elle, receioso de contrarial-a e quebrar o ôvo da sua -paz, até ahi tão completo com respeito á bahiana, subordinava-se -calado e affectando até satisfação; no intimo, porém, o infeliz -soffria deveras. A lembrança constante da filha e da mulher -apoquentavam-no com pontas de remorso, que dia a dia alastravam na sua -consciencia, á proporção que esta ia acordando d'aquella cegueira. O -desgraçado sentia e comprehendia perfeitamente todo o mal da sua -conducta; mas só a idéa de separar-se da amante, punha-lhe logo o -sangue doido e apagava-lhe de novo a luz dos raciocinios. «Não! não! -Tudo que quizessem, menos isso!» -</p> -<p> -E então, para fugir áquella voz irrefutavel, que estava sempre a -serrazinar dentro delle, bebia em camaradagem com os companheiros e -habituára-se, dentro em pouco, á embriaguez. Quando Piedade, quinze -dias depois da sua primeira visita, tornou lá, um domingo, acompanhada -pela filha, encontrou-o bebendo, n'uma roda de amigos. -</p> -<p> -Jeronymo recebeu-as com grande escarcéo de alegria. Fel-as entrar. -Beijou a pequena repetidas vezes e suspendeu-a pela cintura, soltando -exclamação de enthusiasmo. -</p> -<p> -Com um milhão de raios! Que linda estava a sua morgadinha! -</p> -<p> -Obrigou-as logo a tomar alguma coisa e foi chamar a mulata; queria que -as duas mulheres fizessem as pazes no mesmo instante. Era questão -decidida! -</p> -<p> -Houve uma scena de constrangimentos, quando a portugueza se vio defronte -da bahiana. -</p> -<p> -—Vamos! vamos! Abracem-se! Acabem com isso por uma vez! bradava -Jeronymo, a empurral-as uma contra a outra. Não quero aqui caras -fechadas! -</p> -<p> -As duas trocaram um aperto de mão, sem se fitarem. Piedade estava -escarlate de vergonha. -</p> -<p> -—Ora muito bem! accrescentou o cavouqueiro, agora, para a coisa ser -completa, hão de jantar comnosco! -</p> -<p> -A portugueza oppoz-se, resmungando desculpas, que o cavouqueiro não -aceitou. -</p> -<p> -—Não as deixo sahir! É boa! Pois hei de deixar ir minha filha sem -matar as saudades? -</p> -<p> -Piedade assentou-se a um canto, impaciente pela occasião de entender-se -com o marido sobre o negocio do collegio. Rita, voluvel como toda a -mestiça, não guardava rancores, e, pois, desfez-se em obzequios com a -familia do amigo. As outras visitas sahiram antes do jantar. -</p> -<p> -Puzeram-se á mesa ás quatro horas e principiaram a comer com boa -disposição, carregando no virgem logo desde a sopa. Senhorinha -destacava-se do grupo; na sua timidez de menina de collegio parecia, -entre aquella gente, triste e assustada ao mesmo tempo. O pae -acabrunhava-a com as suas solicitudes brutaes e com as suas perguntas -sobre os estudos. Á excepção d'ella, todos os outros estavam, antes -da sobremeza, mais ou menos chumbados pelo vinho. Jeronymo, esse estava -de todo. Piedade, instigada por elle, esvasiára frequentes vezes o seu -copo e, ao fim do jantar, déra para queixar-se amargamente da vida; foi -então que ella, já com azedume na voz, fallou na divida do collegio e -nas ameaças da directora. -</p> -<p> -—Ora, filha! disse-lhe o cavouqueiro. Agora estás tu tambem para ahi -com essa mastigação! Deixa as tristezas para outra vez! Não nos -amargures o jantar! -</p> -<p> -—Triste sorte a minha! -</p> -<p> -—Ai, ai! que temos lamuria! -</p> -<p> -—Como não me hei de queixar, se tudo me corre mal?! -</p> -<p> -—Sim? Pois se é para isso que aqui vens melhor será não tornares -cá!... resmungou Jeronymo, franzindo o sobrolho. Que diabo! com -choradeiras nada se endireita! Tenho eu culpa de que sejas infeliz?... -Tambem o sou e não me queixo de Deus! -</p> -<p> -Piedade abrio a soluçar. -</p> -<p> -—Ahi temos! berrou o marido, erguendo-se e dando uma punhada forte -sobre a meza. E aturem-na! Por mais que um homem se não queira zangar, -ha de estoirar por força! Ora bolas! -</p> -<p> -Senhorinha correu para junto do pae, procurando contel-o. -</p> -<p> -—Sebo! berrou elle, desviando-a. Sempre a mesma coisa! Pois não estou -disposto a aturar isto! Arre! -</p> -<p> -—Eu não vim cá por passeio!... proseguio Piedade entre lagrimas! Vim -cá para saber da conta do collegio!... -</p> -<p> -—Pague-a você, que tem lá o dinheiro que lhe deixei! Eu é que não -tenho nenhum! -</p> -<p> -—Ah! então com que não pagas?! -</p> -<p> -—Não! Com um milhão de raios! -</p> -<p> -—É que és ainda muito peior do que eu suppunha! -</p> -<p> -—Sim, hein?! Pois então deixe-me cá com toda a minha ruindade e -despache o becco! Despache-o, antes que eu faça alguma asneira! -</p> -<p> -—Minha pobre filha! Quem olhará por ella, Senhor dos afflictos?! -</p> -<p> -—A pequena já não precisa de collegio! deixe-a cá commigo, que nada -lhe faltará! -</p> -<p> -—Separar-me de minha filha? a unica pessoa que me resta?! -</p> -<p> -—Ó mulher! você não está separada d'ella a semana inteira?... Pois -a pequena, em vez de ficar no collegio, fica aqui, e aos domingos irá -vel-a! Ora ahi tem! -</p> -<p> -—Eu quero antes ficar com minha mãe!... balbuciou a menina, -abraçando-se a Piedade. -</p> -<p> -—Ah! tambem tu, ingrata, já me fazes guerra?! Pois vão com todos os -diabos! e não me tornem cá para me ferver o sangue, que já tenho de -sobra com que arreliar-me! -</p> -<p> -—Vamos d'aqui! gritou a portugueza, travando da filha pelo braço. -Maldita a hora em que vim cá! -</p> -<p> -E as duas, mãe e filha, desappareceram; emquanto Jeronymo, passeiando -de um para outro lado, monologava, furioso sob a fermentação do vinho. -</p> -<p> -Rita não se mettêra na contenda, nem se mostrára a favor de nenhuma -das partes. «O homem, se quizesse voltar para junto da mulher, que -voltasse! Ella não o prenderia, porque amor não era obrigado!» -</p> -<p> -Depois de fallar só por muito espaço, o cavouqueiro atirou-se a uma -cadeira, despejou sombrio dois dedos de laranginha n'um copo e bebeu-os -de um trago. -</p> -<p> -—Arre! Assim tambem não! -</p> -<p> -A mulata então approximou-se d'elle, por detraz; segurou-lhe a cabeça -entre as mãos e beijou-o na bocca, arredando com os labios a espessura -dos bigodes. -</p> -<p> -Jeronymo voltou-se para a amante, tomou-a pelos quadris e assentou-a em -cheio sobre as suas coxas. -</p> -<p> -—Não te rales, meu bem! disse ella, affagando-lhe os cabellos. Já -passou! -</p> -<p> -—Tens razão! besta fui eu em deixal-a pôr pé cá dentro de casa! -</p> -<p> -E abraçaram-se com impeto, como se o breve tempo roubado pelas visitas -fosse uma interrupção nos seus amores. -</p> -<p> -Lá fora, junto ao portão da estalagem, Piedade, com o rosto escondido -no hombro da filha, esperava que as lagrimas cedessem um pouco, para as -duas seguirem o seu destino de enxotadas. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XX">XX</a></h4> - -<p> -Chegaram á casa ás nove horas da noite. Piedade levava o coração -feito em lama; não déra palavra por todo o caminho e logo que recolheu -a pequena, encostou-se á commoda, soluçando. -</p> -<p> -Estava tudo acabado! Tudo acabado! -</p> -<p> -Foi á garrafa de aguardente, bebeu uma boa porção; chorou ainda, -tornou a beber, e depois sahio ao pateo, disposta a parasitar a alegria -dos que se divertiam lá fóra. -</p> -<p> -A das Dôres tivera jantar de festa; ouviam-se as risadas d'ella e a voz -avinhada e grossa do seu homem, o tal sujeito do commercio, abafadas de -vez em quando pelos berros da Machona, que ralhava com Agostinho. Em -diversos pontos cantavam e tocavam viola. -</p> -<p> -Mas o cortiço já não era o mesmo; estava muito differente; mal dava -idéa do que fôra. O pateo, como João Romão havia promettido, -estreitára-se com as edificações novas; agora parecia uma rua, todo -calçado por igual e illuminado por tres lampeões grandes, -symetricamente dispostos. Fizeram-se seis latrinas, seis torneiras -d'agoa e tres banheiros. Desappareceram as pequenas hortas, os jardins -de quatro a oito palmos e os immensos depositos de garrafas vasias. Á -esquerda, até onde acabava o predio do Miranda, estendia-se um novo -correr de casinhas de porta e janella, e d'ahi por diante, acompanhando -todo o lado do fundo e dobrando depois para a direita até esbarrar no -sobrado de João Romão, erguia-se um segundo andar, fechado em cima do -primeiro por uma estreita e extensa varanda de grades de madeira, para a -qual se subia por duas escadas, uma em cada extremidade. De cento e -tantos, a numeração dos commodos elevou-se a mais de quatrocentos; e -tudo caiadinho e pintado de fresco; paredes brancas, portas verdes e -gotteiras encarnadas. Poucos logares havia desoccupados. Alguns -moradores puzeram plantas á porta e á janella, em meias tinas serradas -ou em vazos de barro. Albino levou o seu capricho até á cortina de -labyrintho e chão forrado de esteira. A casa d'elle destacava-se das -outras; era no andar de baixo, e cá de fóra via-se-lhe o papel -vermelho da sala, a mobilia muito brunida, jarras de flôres sobre a -commoda, um lavatorio com o espelho todo cercado de rosas artificiaes, -um oratorio grande, resplandescente de palmas doiradas e prateadas, -toalhas de renda por toda a parte, n'um luxo de egreja, casquilho e -defumado. E elle, o pallido lavadeiro, sempre com o seu lenço cheiroso -á volta do pescocinho, a sua calça branca de bocca larga, o seu -cabello molle cahido por detraz das orelhas bambas, preoccupava-se muito -em arrumar tudo isso, eternamente, como se esperasse a cada instante a -visita de um estranho. Os companheiros de estalagem elogiavam-lhe -aquella ordem e aquelle asseio; pena era que lhe dessem as formigas na -cama! Em verdade, ninguem sabia porque, mas a cama de Albino estava -sempre coberta de formigas. Elle a destruil-as, e o demonio do bichinho -a multiplicar-se cada vez mais e mais todos os dias. Uma campanha -desesperadora, que o trazia triste, e aborrecido da vida. Defronte -justamente ficava a casa do Bruno e da mulher, toda mobiliada de novo, -com um grande candieiro de kerosene em frente á entrada, cujo reverbero -parecia olhar desconfiado lá de dentro para quem passava cá no pateo. -Agora, entretanto, o casal vivia em santa paz. Leocadia estava discreta; -sabia-se que ella dava ainda muito que fazer ao corpo sem o concurso do -marido, mas ninguem dizia quando, nem onde. O Alexandre jurava, que, ao -entrar ou sahir fora d'horas, nunca a pilhara no vicio; e a esposa, a -Augusta Carne Molle, ia mais longe na defeza, porque sempre tivera pena -de Leocadia, pois entendia que aquelle assanhamento por homem não era -maldade n'ella; era praga de algum bocca do diabo que a quiz e a pobrezinha -não deixou.—Estava se vendo d'isso todos os dias!—tanto -que ultimamente, depois que a creatura pedio a um padre um pouco de agua -benta e benzeu-se com esta em certos logares, o fogo desapparecêra -logo, e ella ahi vivia direita e séria que não dava que fallar a -ninguem! Augusta ficára com a familia n'uma das casinhas do segundo -andar, á direita; estava gravida outra vez; e á noite via-se o -Alexandre, sempre muito circumspecto, a passeiar ao comprido da varanda, -acalentando uma criancinha ao collo, emquanto a mulher dentro de casa -cuidava de outras. A filharada crescia-lhes, que mettia medo. «Era um -no papo, outro no sacco!» Moravam agora tambem d'esse lado os dois -cumplices de Jeronymo, o Pataca e o Zé Carlos, occupando juntos o mesmo -commodo; defronte da porta tinham um fogãozinho e um fogareiro, em que -preparavam elles mesmos a sua comida. Logo adiante era o quarto de um -empregado do correio, pessoa muito callada, bem vestida e pontual no -pagamento; sahia todas as manhãs e voltava ás dez da noite -invariavelmente; aos domingos só ia á rua para comer, e depois -fechava-se em casa e, houvesse o que houvesse no cortiço, não punha -mais o nariz de fóra. E, assim como este, notavam-se por ultimo na -estalagem muitos inquilinos novos, que já não eram gente sem gravata -e sem meias. A feroz engrenagem d'aquella machina terrivel, que nunca -parava, ia já lançando os dentes a uma nova camada social que, pouco a -pouco, se deixaria arrastar inteira lá para dentro. Começavam a vir os -estudantes pobres, com os seus chapéos desabados, o paletó fuveiro, -uma pontinha de cigarro a queimar-lhes a pennugem do buço, e as -algibeiras muito cheias, mas só de versos e jornaes; surgiam continuos -de repartições publicas, caixeiros de botequim, artistas de theatro, -conductores de bonde, e vendedores de bilhetes de loteria. Do lado -esquerdo, toda a parte em que havia varanda foi monopolisada pelos -italianos; habitavam cinco a cinco, seis a seis no mesmo quarto, e -notava-se que n'esse ponto a estalagem estava já muito mais suja que -nos outros. Por melhor que João Romão reclamasse, formava-se ahi todos -os dia uma esterqueira de cascas de melancia e laranja. Era uma communa -ruidosa e porca a dos demonios dos mascates! Quasi que se não podia -passar lá, tal a accumulação de taboleiros de louça e objectos de -vidro, caixas de quinquilharia, molhos e molhos de vasilhame de folha de -Flandres, bonecos e castellos de gesso, realejos, macacos, o diabo! E -tudo isso no meio de um fedor nauseabundo de coisas podres, que -empestava todo o cortiço. A parte do fundo da varanda era asseiada -felizmente e destacava-se pela profusão de passaros que lá tinham, -entre os quaes sobresahia uma arara enorme que, de espaço a espaço, -soltava um formidavel sibilo estridente e rouco. Por debaixo ficava a -casa da Machona, cuja porta, como a janella, Nênêm trazia sempre -enfeitadas de tinhorôes e begonias. O predio do Miranda parecia ter -recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão das casinhas da -esquerda, e agora olhava a medo, por cima dos telhados, para a casa do -vendeiro, que lá defronte erguia-se altiva, desassombrada, o ar -sobranceiro e triumphante. João Romão conseguira metter o sobrado do -visinho no chinello; o seu era mais alto e mais nobre, e então com as -cortinas e com a mobilia nova impunha respeito. Foi abaixo aquelle -grosso e velho muro da frente com o seu largo portão de cocheira, e a -entrada da estalagem era agora dez braças mais para dentro, tendo entre -ella e a rua um pequeno jardim com bancos e um modesto repuxo ao meio, -de cimento, imitando pedra. Fôra-se a pittoresca lanterna de vidros -vermelhos; foram-se as iscas de figado e as sardinhas preparadas ali -mesmo á porta da venda sobre as brazas; e na taboleta nova, muito maior -que a primitiva, em vez de «Estalagem de São Romão» lia-se em -lettras caprichosas: -</p> - -<p><br /></p> - -<p class="center"> -<b>«Avenida São Romão»</b> -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -O Cabeça de Gato estava vencido finalmente, vencido para sempre; nem -já ninguem se animava a comparar as duas estalagens. Á medida que a de -João Romão prosperava d'aquelle modo, a outra decahia de todo; raro -era o dia em que a policia não entrava lá e baldeava tudo aquillo a -espadeirada de cego. Uma desmoralisação completa! Muitos Cabeças de -Gato viraram casaca, passando-se para os Carapicús, entre os quaes um -homem podia até arranjar a vida, se soubesse trabalhar com geito em -tempo de eleições. Exemplos não faltavam! -</p> -<p> -Depois da partida de Rita, já se não faziam sambas ao relento com o -choradinho da Bahia, e mesmo a canna verde pouco se dansava e cantava; -agora o forte eram os forrobodós dentro de casa, com tres ou quatro -musicos, ceia de café com pão; muita calça branca e muito vestido -engommado.—E toca a enfiar para ahi quadrilhas e polkas até romper a -manhã! -</p> -<p> -Mas n'aquelle domingo o cortiço estava banzeiro; havia apenas uns -grupos magros, que se divertiam com a viola á porta de casa. O melhor, -ainda assim, era o da das Dôres. Piedade dirigio-se logo para lá, -sombria e cabisbaixa. -</p> -<p> -—Com o demo! você anda agora que nem o boi castrado! exclamou-lhe o -Pataca, assentando-se ao lado d'ella. As tristezas atiram-se para traz -das costas, creatura de Dons! A vida não dá para tanto! O homem -deixou-te? Ora sebo! mette-te com outro e põe o coração á larga! -</p> -<p> -Ella suspirou em resposta, ainda triste; porém a garrafa de paraty -correu a roda, de mão em mão, e, á segunda volta, Piedade já parecia -outra. Começou a conversar e a tomar interesse no pagode. D'ahi a pouco -era, de todos a mais animada, fallando pelos cotovellos, criticando e -arremedando as figuras ratonas da estalagem. O Pataca ria-se, a quebrar -a espinha, cahindo por cima della e passando-lhe o braço na cintura. -</p> -<p> -—Você ainda é mulher pr'um homem fazer uma asneira! -</p> -<p> -—Olha p'ra que lhe deu a ebria! Solta-me a perna, estupor! - -O grupo achava graça nos dois e applaudia-os com gargalhadas. E o -paraty a circular sempre de mão em mão. A das Dôres não descansava -um momento; mal vinha de encher a garrafa lá dentro de casa, tinha de -voltar outra vez para enchel-a de novo. «Olha que estafa! Vão beber -pr'o diabo!» Afinal appareceu com o garrafão e pousou o no meio da -roda. -</p> -<p> -—Querem saber? Empinem por ahi mesmo, que já estou com os quartos -doendo de tanto andar de lá p'ra cá! -</p> -<p> -Essa noite, a bebedeira de Piedade foi completa. Quando João Romão -entrou, de volta da casa do Miranda, encontrou-a a dansar ao som de -palmas, gritos e risadas, no meio de uma grande troça, a saia -levantada, os olhos requebrados, a pretender arremedar a Rita no seu -choradinho do Bahia. Era a bôba da roda. Batiam-lhe palmadas no -trazeiro e com o pé embaraçavam-lhe as pernas, para a ver cahir e -rebolar-se no chão. -</p> -<p> -O vendeiro, de fraque e chapéo alto, foi direito ao grupo, então muito -mais reforçado de gente, e intimou a todos que se recolhessem. Aquillo -já não eram horas para semelhante algazarra! -</p> -<p> -—Vamos! Vamos! Cada um para sua casa! -</p> -<p> -Piedade foi a unica que protestou, reclamando o seu direito de brincar -um pouco com os amigos. -</p> -<p> -Que diabo! Não se estava fazendo mal a ninguem! -</p> -<p> -—Ora vá mas é p'ra cama cozer a mona! vituperou-lhe João Romão, -repellindo-a. Você, com uma filha quasi mulher, não tem vergonha de -estar aqui a servir de palhaço?! Forte bebada! -</p> -<p> -Piedade assomou-se com a descompostura, quiz despicar-se, chegou a -arregaçar as mangas e sungar a saia; mas o Pataca metteu-se no meio e -conteve-a, pedindo a João Romão que não levasse aquillo em conta, -porque era tudo cachaça. -</p> -<p> -—Bom, bom, bom! mas aviem-se! Aviem-se! -</p> -<p> -E não se retirou sem ver a roda dissolvida, e cada qual procurando a -casa. -</p> -<p> -Recolheram-se todos em silencio; só o Pataca e Piedade deixaram-se -ficar ainda no pateo, a discutir o acto do vendeiro. O Pataca tambem -estava bastante toucado. Ambos reconheciam que lhes não convinha -demorar-se ali, porém nenhum dos dois se sentia disposto a metter-se no -quarto. -</p> -<p> -—Você tem lá alguma coisa que beber em casa? perguntou elle afinal. -</p> -<p> -Ella não sabia ao certo; foi ver. Havia meia garrafa de paraty e um -resto de vinho. Mas era preciso não fazer barulho, por'mor da pequena -que estava dormindo. -</p> -<p> -Entraram em ponta de pés, a fallar surdamente. Piedade deu mais luz ao -candieiro. -</p> -<p> -—Olha agora! Vamos ficar ás escuras! Acabou-se o gaz! O Pataca sahio, -para ir á casa buscar uma véla, e de volta trouxe tambem um pedaço de -queijo e dois peixes fritos, que levou ao nariz da lavadeira, sem dizer -nada. Piedade, aos bordos, desoccupou a meza do engommado o servio dois -pratos. O outro reclamou vinagre e pimentas e perguntou se havia pão. -</p> -<p> -—Pão ha. O vinho é que é pouco! -</p> -<p> -—Não faz mal! Vae mesmo com a canninha! -</p> -<p> -E assentaram-se. O cortiço dormia já e só se ouviam, no silencio da -noite, cães que ladravam lá fóra na rua, tristemente. Piedade -começou a queixar-se da vida veio-lhe uma crise de lagrimas e soluços. -Quando poude fallar contou o que lhe succedêra essa tarde, narrou os -pormenores da sua ida com a filha á procura do marido, o jantar em -commum com a peste da mulata, e afinal a sua humilhação de vir de lá -enxovalhada e corrida. -</p> -<p> -Pataca revoltou-se, não com o procedimento de Jeronymo mas com o -d'ella. -</p> -<p> -Rebaixar-se áquelle ponto! com effeito!... Ir procurar o homem lá na -casa da outra!... Oh! -</p> -<p> -—Elle tratou-me bem, quando lá fui da primeira vez... Hoje é que não -sei o que tinha: só faltou pôr-me na rua aos pontapés! -</p> -<p> -—Foi bem feito! Ainda acho pouco! Devia ter lhe mettido o páo, para -você não ser tôla! -</p> -<p> -—É mesmo! -</p> -<p> -—Pois não! O que não falta são homens, filha! O mundo é grande! -Para um pé doente ha sempre um chinello velho!—E ferrou-lhe a mão nas -pernas—chega-te para mim, que te esquecerás do outro! -</p> -<p> -Piedade repellio-o. -</p> -<p> -Que se deixasse de asneiras! -</p> -<p> -—Asneiras! É o que se leva d'esta vida! -</p> -<p> -A pequena acordára lá no quarto e viera descalça até á porta da sala -de jantar, para espiar o que faziam os dois. -</p> -<p> -Não deram por ella. -</p> -<p> -E a conversa proseguio, esquentando á medida que a garrafa de paraty se -esvasiava. Piedade deu de mão aos seus desgostos, pôz-se a papaguear -um pouco; as lagrimas foram-se-lhe; e ella manducou então com appetite, -rindo já das pilherias do companheiro, que continuava a apalpar-lhe de -vez em quando as coxas. -</p> -<p> -Aquellas coisas, assim, sem se esperar, é que tinham graça!... dizia -elle, excitado e vermelho, comendo com a mão, a embeber pedaços de -peixe no molho das pimentas. Bem tolo era quem se matava! -</p> -<p> -Depois lembrou que não viria fóra de proposito uma chicrinha de café. -</p> -<p> -—Não sei se ha, vou ver, respondeu a lavadeira, erguendo-se agarrada -á meza. -</p> -<p> -E bordejou até á cozinha, a dar esbarrões pela direita e pela -esquerda. -</p> -<p> -—Tento no leme, que o mar está forte! exclamou Pataca, levantando-se -tambem, para ir ajudal-a. -</p> -<p> -Lá perto do fogão agarrou-a de subito, como um gallo abafando uma -gallinha. -</p> -<p> -—Larga! reprehendeu a mulher, sem forças para se defender. -</p> -<p> -Elle apanhou-lhe as fraldas. -</p> -<p> -—Espera! Deixa! -</p> -<p> -—Não quero! -</p> -<p> -E ria-se por ver a attitude comica do Pataca vergado defronte d'ella. -</p> -<p> -—Que mal faz?... Deixa! -</p> -<p> -—Sahe d'ahi, diabo! -</p> -<p> -E, cambaleando, amparados um no outro, foram ambos ao chão. -</p> -<p> -—Olha que peste! resmungou a desgraçada, quando o adversario -conseguio saciar-se n'ella. Marráios te partam! -</p> -<p> -E deixou-se ficar por terra. Elle pôz-se de pé e, ao encaminhar-se -para a sala de jantar, sentio uma ligeira sombra fugirem sua frente. Era -a pequena, que fora espiar á porta da cozinha. -</p> -<p> -Pataca assustára-se. -</p> -<p> -—Quem anda aqui a correr como gato?... perguntou voltando a ter com -Piedade, que permanecia no mesmo logar; agora quasi adormecida. -</p> -<p> -Sacudio-a. -</p> -<p> -—Olá! Queres ficar ahi, ó creatura! Levanta-te! Anda a ver o café! -</p> -<p> -E, tentando erguel-a, suspendeu-a por debaixo dos braços. Piedade, mal -mudou a posição da cabeça, vomitou sobre o peito e a barriga uma -golphada fetida. -</p> -<p> -—Olha o demo! resmungou Pataca. Está que se não póde lamber! -</p> -<p> -E foi preciso arrastal-a até á cama, que nem uma trouxa de roupa suja. -A infeliz não dava accordo de si. -</p> -<p> -Senhorinha acudira, perguntando afflicta o que tinha a mãe. -</p> -<p> -—Não é nada, filha! explicou o Pataca. Deixa-a dormir, que isso -passa! Olha! se ha limão em casa passa-lhe um pouco atraz da orelha, e -verás que amanhã acorda fina e prompta p'ra outra! -</p> -<p> -A menina desatou a soluçar. -</p> -<p> -E o Pataca retirou-se, a dar encontrões nos trastes, furioso, porque, -afinal, não tomára café. -</p> -<p> -—Sebo! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXI">XXI</a></h4> - -<p> -Ao mesmo tempo, João Romão, em chinellas e camisola, passeava de um -para outro lado no seu quarto novo. Um aposento largo e forrado de azul -e branco com flôrinhas amarellas fingindo oiro; havia um tapete aos -pés da cama, e sobre a peniqueira um despertador de nikel, e a mobilia -toda era já de casados, porque o esperto não estava para comprar -moveis duas vezes. -</p> -<p> -Parecia muito preoccupado; pensava em Bertoleza que, a essas horas, -dormia lá em baixo, n'um vão de escada, aos fundos do armazém, perto -da commúa. -</p> -<p> -Mas que diabo havia elle de fazer afinal d'aquella peste?... -</p> -<p> -E coçava a cabeça, impaciente por descobrir um meio de ver-se livre -d'ella. -</p> -<p> -É que n'essa noite o Miranda lhe fallára abertamente sobre o que -ouvira de Botelho, e estava tudo decidido: Zulmira aceitava-o para -marido e Dona Estella ia marcar o dia do casamento. -</p> -<p> -O diabo era a Bertoleza!... -</p> -<p> -E o vendeiro ia e vinha no quarto, sem achar uma boa solução para o -problema. -</p> -<p> -Ora, que raio de difficuldade armára elle proprio para se coser!... -Como poderia agora mandal-a passear, assim, de um momento para outro, se -o demonio da crioula o acompanhava já havia tanto tempo e toda a gente -na estalagem sabia d'isso? -</p> -<p> -E sentia-se revoltado e impotente defronte d'aquelle tranquillo -obstaculo que lá estava em baixo, a dormir, fazendo-lhe em silencio um -mal horrivel, perturbando-lhe estupidamente o curso da sua felicidade, -retardando-lhe, talvez sem consciencia, a chegada d'esse bello futuro -conquistado á força de tamanhas privações e sacrificios! -</p> -<p> -Que ferro! -</p> -<p> -Mas, só com lembrar-se da sua união com aquella brasileirinha fina e -aristocratica, um largo quadro de victorias rasgava-se defronte da -desensoffrida avidez da sua vaidade. Em primeiro logar fazia-se membro -de uma familia tradicionalmente orgulhosa, como era, dito por todos, a -de Dona Estella; em segundo logar augmentava consideravelmente os seus -bens com o dote da noiva, que era rica; e em terceiro, afinal, -caber-lhe-ia mais tarde tudo o que o Miranda possuia, realisando-se -d'este modo um velho sonho que o vendeiro affagava desde o nascimento da -sua rivalidade com o visinho. -</p> -<p> -E via-se já na brilhante posição que o esperava: uma vez de dentro, -associava-se logo com o sogro e iria, pouco a pouco, como quem não quer -a coisa, o empurrando para o lado, até empolgar-lhe o logar e fazer de -si um verdadeiro chefe da colonia portugueza no Brasil; depois quando o -barco estivesse navegando ao largo a todo o panno—Tome lá alguns -pares de contos de reis e passe-me para cá o titulo de Visconde! -</p> -<p> -Sim, sim, Visconde! Porque não? E mais tarde, com certeza, Conde! Eram -favas contadas! -</p> -<p> -Ah! elle, posto nunca o disséra a ninguem, sustentava de si para si nos -ultimos annos o firme proposito de fazer-se um titular mais graduado que -o Miranda. E, só depois de ter o titulo nas unhas, é que iria á -Europa, de passeio, sustentando grandeza, mettendo invejas, cercado de -adulações, liberal, prodigo, brasileiro, atordoando o mundo velho com -o seu oiro novo americano! -</p> -<p> -E a Bertoleza? gritava-lhe do interior uma voz impertinente. -</p> -<p> -—É exacto! E a Bertoleza?... repetia o infeliz, sem interromper o seu -vae-e-vem ao comprido da alcova. -</p> -<p> -Diabo! E não poder arredar logo da vida aquelle ponto negro; apagal-o -rapidamente, como quem tira da pelle uma nódoa de lama! Que raiva ter de -reunir aos vôos mais fulgurosos da sua ambição a idéa mesquinha e -ridicula d'aquella inconfessavel concubinagem! E não podia deixar de -pensar no demonio da negra, porque a maldita ali estava perto, a -rondal-o ameaçadora e sombria; ali estava como o documento vivo das -suas miserias, já passadas mas ainda palpitantes. Bertoleza devia ser -esmagada, devia ser supprimida, porque era tudo que havia de máo na -vida d'elle! Seria um crime conserval-a a seu lado! Ella era o torpe -balcão da primitiva bodega; era o aladroado vintemzinho do manteiga em -papel pardo; era o peixe trazido da praia e vendido á noite ao lado do -fogareiro á porta da taberna; era o frege immundo e a lista cantada das -comezanas á portugueza; era o somno roncado num colchão fetido, cheio -de bichos; ella era a sua cumplice e era todo o seu mal—devia pois -extinguir-se! Devia ceder o logar á pallida mocinha de mãos delicadas -e cabellos perfumados, que era o bem, porque era o que ria e alegrava, -porque era a vida nova, o romance solfejado ao piano, as flôres nas -jarras, as sedas e as rendas, o chá servido em porcelanas caras; era -emfim a doce existencia dos ricos, dos felizes e dos fortes, dos que -herdaram sem trabalho ou dos que, a puro esforço, conseguiram accumular -dinheiro, rompendo e subindo por entre o rebanho dos escrupulosos ou dos -fracos. E o vendeiro tinha defronte dos olhos o namorado sorriso da -filha do Miranda, sentia ainda a leve pressão do braço melindroso que -se apoiara ao seu, algumas horas antes, em passeio pela praia de -Botafogo; respirava ainda os perfumes da menina, suaves, escolhidos e -penetrantes como palavras de amor; nos seus dedos grossos, curtos, -asperos e vermelhos, conservava a impressão da tepida caricia d'aquella -mãozinha enluvada que, dentro em pouco, nos prazeres garantidos do -matrimonio, affagar-lhe-ia as carnes e os cabellos. -</p> -<p> -Mas, e a Bertoleza?... -</p> -<p> -Sim! era preciso acabar com ella! despachal-a! sumil-a por uma vez! -</p> -<p> -Deu meia noite no relogio do armazem. João Romão tomou uma véla e -desceu aos fundos da casa, onde Bertoleza dormia. Approximou-se d'ella, -pé ante pé, como um criminoso que leva uma idéa homicida. -</p> -<p> -A crioula estava immovel sobre o enxergão, deitada de lado, com a cara -escondida no braço direito, que ella dobrára por debaixo da cabeça. -Apparecia-lhe uma parte do corpo, núa. -</p> -<p> -João Romão contemplou-a por algum tempo, com asco. -</p> -<p> -E era aquillo, aquella miseravel preta que ali dormia indifferentemente, -o grande estorvo da sua ventura!... Parecia impossivel! -</p> -<p> -—E se ella morresse?... -</p> -<p> -Esta phrase, que elle tivera, quando pensou pela primeira vez n'aquelle -obstaculo á sua felicidade, tornava-lhe agora ao espirito, porém já -amadurecida e transformada n'esta outra: -</p> -<p> -—E se eu a matasse? -</p> -<p> -Mas logo um calafrio de pavor correu-lhe por todos os nervos. -</p> -<p> -Além disso, como?... Sim, como poderia despachal-a, sem deixar signaes -compromettedores do crime?... Envenenando-a?... Dariam logo pela -coisa!... Matal-a a tiro?... Peior! Leval-a a um passeio fóra da -cidade, bem longe e, no melhor da festa, atiral-a ao mar ou por um -despenhadeiro, onde a morte fosse infallivel?... Mas como arranjar tudo -isso, se elles nunca passeiavam juntos?... -</p> -<p> -Diabo! -</p> -<p> -E o desgraçado ficou a pensar, abstracto, de castiçal na mão, sem -despregar os olhos de cima de Bertoleza, que continuava immovel, com o -rosto escondido no braço. -</p> -<p> -—E se eu a esganasse aqui mesmo?... -</p> -<p> -E deu, na ponta dos pés, alguns passos para frente, parando logo, sem -deixar nunca de contemplal-a. -</p> -<p> -Mas a crioula ergueu de improviso a cabeça e fitou-o com olhos de quem -não estava dormindo. -</p> -<p> -—Ah! fez elle. -</p> -<p> -—Que é, seu João? -</p> -<p> -—Nada. Vim só ver-te... Cheguei ainda não ha muito... Como vais -tu?... Passou-te a dôr do lado?... -</p> -<p> -Ella meneou os hombros, sem responder ao certo. Houve um silencio entre -os dois. João Romão não sabia o que dizer e sahío afinal, escoltado -pelo imperturbavel olhar da crioula, que o intimidava mesmo pelas -costas. -</p> -<p> -—Teria desconfiado? pensou o miseravel, subindo de novo para o -quarto. Qual? Desconfiar de que?... -</p> -<p> -E metteu-se logo na cama, disposto a não pensar mais n'isso e dormir -incontinenti. Mas o seu pensamento continuou rebelde a parafusar sobre o -mesmo assumpto. -</p> -<p> -—É preciso despachal-a! É preciso despachal-a quanto antes, seja lá -como fôr! Ella, até agora, não deu ainda signal de si; não abrio o -bico a respeito da questão; mas, Dona Estella está a marcar o dia do -casamento; não levará muito tempo para isso ... o Miranda naturalmente -communica a noticia aos amigos ... o facto corre de bocca em bocca ... -chega aos ouvidos da crioula, e esta, vendo-se abandonada, estoira! -estoira com certeza! E agora o verás! Como deve ser bonito, hein?... -Ir tão bem até aqui e esbarrar na opposição da negra!... E os -commentarios depois!... O que não dirão os invejosos lá da Praça?... -«Ah, ah! elle tinha em casa uma amiga, uma preta immunda com quem -vivia! Que typo! Sempre ha de mostrar que é gentinha de laia muito -baixa!... E aqui a engazopar-nos com uns ares de capitalista que se -trata á véla de libra! Olha o Carapicú para que havia de dar! Sáe -sujo!» E, então, a familia da menina, com medo de cahir tambem na -bocca do mundo, volta atraz e dá o dito por não dito! Bem sei que ella -está a par de tudo; isso, olé se está! mas finge-se desentendida, -porque conta, e com razão, que eu não serei tão parvo que espere o -dia do casamento sem ter todo sumisso á negra! contam que a coisa -correrá sem o menor escandalo! E eu, no emtanto, tão besta que nada -fiz! E a peste da crioula está ahi senhora do terreiro como d'antes, e -não descubro meio de ver-me livre d'ella!... Ora já se vio como -arranjei semelhante entalação?... Isto contado não se acredita! -</p> -<p> -E pisava e repisava o caso, sem achar meio de dar-lhe sahida. -</p> -<p> -Diabo! -</p> -<p> -—Ella ha muito que devia estar longe de mim ... fiz mal em não cuidar -logo d'isso antes de mais nada!... Fui um pedaço d'asno! Se eu a -tivesse despachado logo, quando ainda se não fallava no meu casamento, -ninguem desconfiaria da historia: «Porque diabo iria o pobre homem dar -cabo de uma mulher, com quem vivia na melhor paz e que era até, dentro -de casa, o seu braço direito?...» Mas agora, depois de todas aquellas -reformas de vida; depois da separação das camas, e principalmente -depois que corresse a noticia do casamento, não faltaria de certo quem -o accusasse, se a negra apparecesse morta de repente! -</p> -<p> -Diabo! -</p> -<p> -Deram quatro horas, e o desgraçado nada de pregar olho; continuava a -matutar sobre o assumpto, virando se de um para o outro lado da sua -larga e rangedora cama de casados. Só pelo abrir da aurora conseguio -passar pelo somno; mas, logo ás sete da manhã, teve de pôr-se a pé: -o cortiço estava todo alvoroçado com um desastre. -</p> -<p> -A Machona lavava á sua tina, ralhando e discutindo como sempre, quando -dois trabalhadores, acompanhados de um ruidoso grupo de curiosos, -trouxeram-lhe sobre uma taboa o cadaver ensanguentado do filho. -Agostinho havia ido, segundo o costume, brincar á pedreira com outros -dois rapazitos da estalagem; tinham, cabritando pelas arestas do -precipicio, subido a uma altura superior a duzentos metros do chão e, -de repente, faltára-lhe o equilibrio e o infeliz rolou de lá abaixo, -partindo os ossos e atassalhando as carnes. -</p> -<p> -Todo elle, coitadinho, era uma só massa vermelha; as canellas quebradas -no joelho, dobravam molles para debaixo das coxas; a cabeça, -desarticulada, abrira no casco e despejava o pirão dos miolos; n'uma -das mãos faltavam-lhe todos os dedos e no quadril esquerdo via-se-lhe -sahir uma ponta de osso ralado pela pedra. -</p> -<p> -Foi um alarme no pateo quando elle chegou. -</p> -<p> -Cruzes! que desgraça! -</p> -<p> -Albino, que lavava ao lado da Machona, teve uma syncope; Nênêm ficou -que nem doida, porque ella queria muito áquelle irmão; a das Dôres -imprecou contra os trabalhadores, que deixavam um filho alheio matar-se -d'aquelle modo em presença d'elles; a mãe, essa apenas soltou um -bramido de monstro apunhalado no coração e cahio mesquinha junto do -cadaver, a beijal-o, vagindo como uma criança. Não parecia a mesma! -</p> -<p> -As mães dos outros dois rapazitos esperavam immoveis e lividas pela -volta dos filhos, e, mal estes chegaram á estalagem, cada uma se -apoderou logo do seu e cahio-lhe em cima, a soval-os ambos que mettia -medo. -</p> -<p> -—Mira-te n'aquelle espelho, tentação do diabo! exclamava uma d'ellas, -com o pequeno seguro entre as pernas e a encher-lhe a bunda de -chinelladas. Não era aquelle que devia ir, eras tu, peste! aquelle, -coitado! ao menos ajudava a mãe, ganhava dois mil reis por mez regando -as plantas do Commendador, e tu, coisa ruim, só serves para me dar -consumições! Toma! Toma! Toma! -</p> -<p> -E o chinello cantava entre o berreiro feroz dos dois rapazes. -</p> -<p> -João Romão chegou ao terraço de sua casa, ainda em mangas de camisa, -e de lá mesmo tomou conhecimento do que acontecera. Contra todos os -seus habitos impressionou-se com a morte de Agostinho; lamentou-a no -intimo, tomado de estranhas condolencias. -</p> -<p> -—Pobre pequeno! tão novo ... tão esperto ... e cuja vida não -prejudicava a ninguem, morrer assim, desastradamente!... ao passo que -aquelle diabo velho da Bertoleza continuava agarrado á existencia, -envenenando-lhe a felicidade, sem se decidir a despachar o beco! -</p> -<p> -E o demonio da crioula parecia mesmo não estar disposta a ir só com -duas razões; apezar de triste e acabrunhada, mostrava-se forte e rija. -Suas pernas curtas e lustrosas eram duas peças de ferro unidas pela -culatra, das quaes ella trazia um par de balas penduradas em sacco -contra o peito; as roscas lustrosas do seu cachaço lembravam grossos -chouriços de sangue, e na sua carapinha compacta ainda não havia um -fio branco. Aquillo, arre! tinha vida para o rosto do seculo! -</p> -<p> -—Mas deixa estar, que eu te despacho bonito e asseiado!... disse o -vendeiro de si para si, voltando ao quarto para acabar de vestir-se. -</p> -<p> -Enfiava o collete quando bateram pancadas familiares na porta do -corredor. -</p> -<p> -—Então?! Ainda se está em val de lençóes?... -</p> -<p> -Era a voz do Botelho. -</p> -<p> -O vendeiro foi abrir e fel-o entrar ali mesmo para a alcova. -</p> -<p> -—Ponha-se a gosto. Como vai você? -</p> -<p> -—Assim. Não tenho passado lá essas coisas... -</p> -<p> -João Romão deu-lhe noticia da morte do Agostinho e declarou que estava -com dôr de cabeça. Não sabia que diabo tinha elle aquella noite, que -não houve meio de pegar direito no somno. -</p> -<p> -—Calor ... explicou o outro. E proseguio depois de uma pausa, -accendendo um cigarro: Pois eu vinha cá fallar-lhe... Você não -repare, mas... -</p> -<p> -João Romão suppoz que o parasita ia pedir-lhe dinheiro e preparou-se -para a defeza, queixando-se inopinadamente de que os negocios não lhe -corriam bem; mas calou-se, porque Botelho accrescentou com o olhar fito -nas unhas: -</p> -<p> -—Não devia fallar n'isto ... são coisas suas lá particulares, em que -a gente não se mette, mas... -</p> -<p> -O taberneiro comprehendeu logo onde a visita queria chegar e -approximou-se d'ella, dizendo confidencialmente: -</p> -<p> -—Não! Ao contrario! falle com franqueza... Nada de receios... -</p> -<p> -—É que ... sim, você sabe que eu tenho tratado do seu casamento com a -Zulmirinha... Lá em casa não se falla agora n'outra coisa ... até a -propria Dona Estella já está muito bem disposta a seu favor ... mas... -</p> -<p> -—Desembuche, homem de Deus! -</p> -<p> -—É que ha um pontinho que é preciso pôr a limpo... Coisa -insignificante, mas... -</p> -<p> -—Mas, mas! você não desembuchará por uma vez?... Falle, que diabo! -</p> -<p> -Um caixeiro do armazem appareceu á porta, prevenindo de que o almoço -estava na meza. -</p> -<p> -—Vamos comer, disse João Romão. Você já almoçou? -</p> -<p> -—Ainda não, mas lá em casa contam commigo... -</p> -<p> -O vendeiro mandou o seu empregado dizer lá defronte á familia do -Barão que seu Botelho não ia ao almoço. E, sem tomar o casaco, passou -com a visita á sala de jantar. -</p> -<p> -O cheiro activo dos moveis, polidos ainda de fresco, dava ao aposento um -caracter insociavel de logar deshabitado e por alugar. Os trastes, tão -nús como as paredes, entristeciam com a sua fria nitidez de coisa nova. -</p> -<p> -—Mas vamos lá! Que temos então?... inquirio o dono da casa, -assentando-se á cabeceira da meza, emquanto o outro, junto d'elle, -tomava logar á extremidade de um dos lados. -</p> -<p> -—É que, respondeu o velho em tom de mysterio, você tem cá em sua -companhia uma ... uma crioula, que... Eu não creio, note-se, mas... -</p> -<p> -—Adiante! -</p> -<p> -—É! Dizem que ella é coisa sua... Lá em casa rosnou!... O Miranda -defende-o, affirma que não... Ah! aquillo é uma grande alma! mas Dona -Estella, você sabe o que são mulheres!... torce o nariz e... Em uma -palavra: receio que esta historia nos traga qualquer embaraço!... -</p> -<p> -Calou-se, porque acabava de entrar um portuguezinho, trazendo uma -travessa de carne ensopada com batatas. -</p> -<p> -João Romão não respondeu, mesmo depois que o pequeno sahio; ficou -abstracto, a bater com a faca entre os dentes. -</p> -<p> -—Porque você a não manda embora?... arriscou-o Botelho, despejando -vinho no seu e no copo do companheiro. -</p> -<p> -Ainda d'esta vez não obteve logo resposta; mas o outro tomando, afinal, -uma resolução, declarou confidencialmente: -</p> -<p> -—Vou dizer-lhe toda a coisa como ella é ... e talvez que você até me -possa auxiliar!... -</p> -<p> -Olhou para os lados, chegou mais a sua cadeira para junto da de Botelho -e accrescentou em voz baixa:—Esta mulher metteu-se commigo, quando eu -principiava minha vida... Então, confesso ... precisava de alguem nos -casos d'ella, que me ajudasse ... e ajudou-me muito, não nego! Devo-lhe -isso! não! ajudar-me ajudou!... mas... -</p> -<p> -—E depois? -</p> -<p> -—Depois, ella foi ficando para ahi; foi ficando ... e agora... -</p> -<p> -—Agora é um trambolho que lhe póde escangalhar a egreginha! É o que -é! -</p> -<p> -—Sim, que duvida! póde ser um obstaculo sério ao meu casamento! Mas, -que diabo! eu tambem, você comprehende, não a posso pôr na rua, -assim, sem mais aquellas!... Seria ingratidão, não lhe parece?... -</p> -<p> -—Ella já sabe em que pé está o negocio?... -</p> -<p> -—Deve desconfiar de alguma coisa, que não é tola!... Eu, cá por mim, -não lhe toquei em nada... -</p> -<p> -—E você ainda faz vida com ella? -</p> -<p> -—Qual! ha muito tempo que nem sombras d'isso... -</p> -<p> -—Pois então, meu amigo, é arranjar-lhe uma quitanda em outro bairro; -dar-lhe algum dinheiro e... Boa viagem! O dente que já não presta -arranca-se fóra! -</p> -<p> -João Romão ia responder, mas Bertoleza assomou á entrada da sala. -Vinha tão transformada e tão livida que só com a sua presença -intimidou profundamente os dois. A indignação tirava-lhe faiscas dos -olhos e os labios tremiam-lhe de raiva. Logo que fallou veio-lhe espuma -aos cantos da bocca. -</p> -<p> -—Você está muito enganado, seu João, se cuida que se casa e me atira -á tôa! exclamou ella. Sou negra, sim, mas tenho sentimentos! Quem me -comeu a carne tem de roer-me os ossos! Então ha de uma creatura ver -entrar anno e sahir anno, a puxar pelo corpo todo o santo dia que Deus -manda ao mundo, desde pela manhãzinha até pelas tantas da noite, para -ao depois ser jogada no meio da rua, como gallinha podre?! Não! Não ha -de ser assim, seu João! -</p> -<p> -—Mas, filha de Deus, quem te disse que eu quero atirar-te á tôa?... -perguntou o capitalista. -</p> -<p> -—Eu escutei o que você conversava, seu João! A mim não me cegam -assim só! Você é fino, mas eu tambem sou! Você está armando -casamento com a menina de seu Miranda! -</p> -<p> -—Sim, estou! Um dia havia de cuidar de meu casamento!... Não hei de -ficar solteiro toda a vida, que não nasci para pandego! Mas tambem não -te sacudo na rua, como disseste; ao contrario agora mesmo tratava aqui -com seu Botelho de arranjar-te uma quitanda e... -</p> -<p> -—Não! Com a quitanda principiei; não hei de ser quitandeira até -morrer! Preciso de um descanço! Para isso mourejei junto de você -emquanto Deus Nosso Senhor me deu força e saude! -</p> -<p> -—Mas afinal que diabo queres tu?! -</p> -<p> -—Ora essa! Quero ficar a seu lado! Quero desfructar o que nós dois -ganhámos juntos! quero a minha parte no que fizemos com o nosso -trabalho! quero o meu regalo, como você quer o seu! -</p> -<p> -—Mas não vês que isso é um disparate?... Tu não te conheces?... Eu -te estimo, filha; mas por ti farei o que fôr bem entendido e não -loucuras! Descança que nada te ha de faltar!... Tinha graça, com -effeito, que ficassemos vivendo juntos!... Não sei como não me -propões casamento! -</p> -<p> -—Ah! agora eu não me enxergo! agora eu não presto para nada! Porém, -quando você precisou de mim não lhe ficava mal servir-se de meu corpo -e aguentar a sua casa com o meu trabalho! Então a negra servia para um -tudo; agora não presta para mais nada, e atira-se com ella no monturo -do cisco! Não! assim tambem Deus não manda! Pois se aos cães velhos -não se enxotam, porque me hão de pôr fóra d'esta casa, em que metti -muito suor do meu rosto?... Quer casar, espere então que eu feche -primeiro os olhos; não seja ingrato! -</p> -<p> -João Romão perdeu por fim a paciencia e retirou-se da sala, atirando -á amante uma palavrada porca. -</p> -<p> -—Não vale a pena encanzinar-se ... segredou-lhe o Botelho, -acompanhando-o até á alcova, onde o vendeiro enterrou com toda a -força o chapéu na cabeça e enfiou o paletó com a mão fechada em -murro. -</p> -<p> -—Arre! Não a posso aturar nem mais um instante! Que vá para o diabo -que a carregue! em casa é que não me fica! -</p> -<p> -—Calma, homem de Deus! Calma! -</p> -<p> -—Se não quizer ir por bem, irá por mal! Sou eu quem o diz! -</p> -<p> -E o vendeiro esfuziou pela escada, levando atraz de si o velhote, que -mal podia acompanhal-o na carreira. Já na esquina da rua parou e, -fitando no outro o seu olhar flammejante, perguntou-lhe: -</p> -<p> -—Você vio?! -</p> -<p> -—É ... resmungou o parasita, de cabeça baixa, sem interromper os -passos. -</p> -<p> -E seguiram em silencio, andando agora mais de vagar; ambos preoccupados. -</p> -<p> -No fim de uma boa pausa, Botelho perguntou se Bertoleza era escrava -quando João Romão tomou conta d'ella. -</p> -<p> -Esta pergunta trouxe uma inspiração ao vendeiro. Ia pensando em -mettel-a como idiota no Hospicio de Pedro II, mas accudia-lhe agora -coisa muito melhor: entregal-a ao seu senhor, restituil-a legalmente á -escravidão. -</p> -<p> -Não seria difficil ... considerou elle; era só procurar o dono da -escrava, dizer lhe onde esta se achava refugiada e aquelle ir logo -buscal-a com a policia. -</p> -<p> -E respondeu ao Botelho: -</p> -<p> -—Era e é! -</p> -<p> -—Ah! Ella é escrava? De quem? -</p> -<p> -—De um tal Freitas de Mello. O primeiro nome não sei. Gente de fóra. -Em casa tenho as notas. -</p> -<p> -—Ora! então a coisa é simples!... Mande-a para o dono! -</p> -<p> -—E se ella não quizer ir?... -</p> -<p> -—Como não?! A policia a obrigará! É boa! -</p> -<p> -—Ella ha de querer comprar a liberdade... -</p> -<p> -—Pois que a compre, se o dono consentir!... Você com isso nada mais -tem que ver! E se ella voltar á sua procura, despache-a logo; se -insistir, vá então á autoridade e queixe-se! Ah, meu caro, estas -coisas, para ser bem feitas, fazem-se assim ou não se fazem! Olhe que -aquelle modo com que ella lhe fallou ha pouco é o bastante para você -ver que semelhante estupor não lhe convém dentro de casa nem mais um -instante! Digo-lhe até: já não só pelo facto do casamento, mas por -tudo! Não seja molle! -</p> -<p> -João Romão escutava, caminhando calado, sem mais vislumbres de -agitação. Tinham chegado á praia. -</p> -<p> -—Você quer encarregar-se d'isto? propoz elle ao companheiro, parando -ambos á espera do bonde; se quizer, póde tratar, que lhe darei uma -gratificação menos má... -</p> -<p> -—De quanto?... -</p> -<p> -—Cem mil reis! -</p> -<p> -—Não! dobre! -</p> -<p> -—Terá os duzentos! -</p> -<p> -—Está dito! Eu cá, para tudo que fôr pôr cobro a relachamentos de -negro, estou sempre prompto! -</p> -<p> -—Pois então logo mais á tarde lhe darei, ao certo, o nome do dono, o -logar em que elle residia quando ella veio para mim e o mais que -encontrar a respeito. -</p> -<p> -—E o resto fica a meu cuidado! Póde dal-a por despachada! -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXII">XXII</a></h4> - -<p> -Desde esse dia Bertoleza fez-se ainda mais concentrada e resmungona e -só trocava com o amigo um ou outro monosyllabo inevitavel no serviço -da casa. Entre os dois havia agora d'esses olhares de desconfiança, que -são abysmos de constrangimento entre pessoas que moram juntas. A -infeliz vivia n'um sobresalto constante; cheia de apprehensões, com -medos de ser assassinada; só comia do que ella propria preparava para -si e não dormia senão depois de fechar-se á chave. Á noite o mais -ligeiro rumor a punha de pé; olhos arregalados, respiração convulsa, -bocca aberta e prompta para pedir soccorro ao primeiro assalto. -</p> -<p> -No emtanto, em redor do seu desassocego e do seu máo estar, tudo ali -prosperava forte em grosso, aos contos de reis, com a mesma febre com -que d'antes, em torno da sua actividade de escrava trabalhadeira, os -vintens choviam dentro da gaveta da venda. Durante o dia paravam agora -em frente do armazem carroças e carroças com fardos e caixas, trazidas -da alfandega, em que se liam as iniciaes de João Romão; e rodavam-se -pipas e mais pipas de vinho e de vinagre, e grandes partidas de barricas -de cerveja e de barris de manteiga e de saccos de pimenta. E o armazem, -com as suas portas escancaradas sobre o publico, engolia tudo de um -trago, para depois ir deixando sahir de novo, aos poucos com um lucro -lindissimo, que no fim do anno causava assombros. João Romão fizera-se -o fornecedor de todas as tabernas e armarinhos de Botafogo; o pequeno -commercio sortia-se lá para vender a retalho. A sua casa tinha agora, -um pessoal complicado de primeiros, segundos e terceiros caixeiros, -além do guarda livros, do comprador, do despachante e do caixa; do seu -escriptorio sahiam correspondencias em varias linguas e, por dentro das -grades de madeira polida, onde havia um bufete sempre servido com -presunto, queijo e cerveja, faziam-se largos contractos commerciaes, -transacções em que se arriscavam fortunas; e propunham-se -negociações de emprezas e privilegios obtidos do governo; e -realisavam-se vendas e compras de papeis; e concluiam-se emprestimos de -juros fortes sobre hypothecas de grande valor. E ali ia de tudo: o alto -e o baixo negociante; capitalistas adulados e mercadores fallidos; -corredores da praça, zangões, cambistas; empregados publicos, que -passavam procuração contra o seu ordenado; emprezarios de theatro e -fundadores de jornaes, em apuros de dinheiro; viuvas, que negociavam o -seu monte pio; estudantes, que iam receber a sua mezada; e capatazes de -vários grupos de trabalhadores pagos pela casa; e, destacando-se de -todos, pela quantidade, os advogados e a gente miuda do fôro, sempre -inquieta, farisqueira, a metter o nariz em tudo, feia, a papelada -debaixo do braço, a barba por fazer, o cigarro babado e apagado a um -canto da bocca. -</p> -<p> -E, como a casa commercial de João Romão, prosperava igualmente a sua -avenida. Já lá se não admittia assim qualquer pé rapado: para entrar -era preciso carta de fiança e uma recommendação especial. Os preços -dos commodos subiam, e muitos dos antigos hospedes, italianos -principalmente, iam, por economia, desertando para o Cabeça de Gato e -sendo substituidos por gente mais limpa. Decrescia tambem o numero das -lavadeiras, e a maior parte das casinhas eram occupadas agora por -pequenas familias de operarios, artistas e praticantes de secretaria. O -cortiço aristocratisava-se. Havia um alfaiate logo á entrada, homem -sério, de suissas brancas, que cosia na sua machina entre officiaes, -ajudado pela mulher, uma lisboeta côr de nabo gorda, velhusca, com um -principio de bigode e cavagnac, mas extremamente circumspecta; em -seguida um relojoeiro calvo, de oculos, que parecia mumificado atraz da -vidraça em que elle, sem mudar de posição, trabalhava, da manhã até -á tarde; depois um pintor de tectos e taboletas, que levou a phantasia -artistica ao ponto de fazer, a pincel, uma trepadeira em volta da sua -porta, onde se viam passaros de varias côres e feitios, muitos -compromettedores para o credito profissional do autor; mais adiante -installára-se um cigarreiro, que occupava nada menos de tres numeros na -estalagem e tinha quatro filhas e dois filhos a fabricarem cigarros, e -mais tres operarias que preparavam palha de milho e picavam e desfiavam -tabaco. Florinda, mettida agora com um despachante da estrada de ferro, -voltára para o São Romão e trazia a sua casinha em muito bonito pé -de limpeza e arranjo. Estava ainda de luto pela mãe, a pobre velha -Marcianna, que ultimamente havia morrido no hospicio dos doidos. Aos -domingos o despachante costumava receber alguns camaradas para jantar, e -como a rapariga puxava os feitios da Rita Bahiana, as suas noitadas -acabavam sempre em pagode de dansa e cantarola, mas tudo de portas a -dentro, que ali já se não admittiam sambas e chinfrinadas ao relento. -A Machona quebrára um pouco de genio depois da morte de Agostinho e era -agora visitada por um grupo de moços do commercio, entre os quaes havia -um pretendente á mão de Nênêm, que se mirrava já de tanto esperar a -secco por marido. Alexandre fôra promovido a sargento e empertigava-se -ainda mais dentro da sua farda nova, de botões que cegavam; a mulher, -sempre indifferentemente fecunda e honesta, parecia criar bolôr na sua -molleza humida e tinha um ar triste de cogumelo; era vista com -frequencia a dar de mammar a um pequerrucho de poucos mezes, empinando -muito a barriga para a frente, pelo habito de andar sempre gravida. A -sua comadre Léonie continuava a visital-a de vez em quando, aturdindo -a actual pacatez d'aquelle cenobio com as suas roupas gritadoras. Uma -occasião em que lá fóra, um sabado á tarde, produzira grande -alvoroço entre os decanos da estalagem, porque comsigo levava Pombinha, -que se atirára ao mundo e vivia agora em companhia d'ella. -</p> -<p> -Pobre Pombinha! no fim dos seus primeiros dois annos de casada já não -podia supportar o marido; todavia, a principio, para conservar-se mulher -honesta, tentou perdoar-lhe a falta de espirito, os gostos razos e a sua -risonha e fatigante palermice de homem sem ideal; ouvio-lhe, resignada, -as confidencias banaes nas horas intimas do matrimonio; attendeu-o nas -suas exigencias mesquinhas de ciumento que chora; tratou-o com toda a -solicitude, quando elle esteve a decidir com uma pneumonite aguda; -procurou afinar em tudo com o pobre rapaz: não lhe fallou nunca em -coisas que cheirassem a luxo, a arte, a esthetica, a originalidade; -escondeu a sua mal educada e natural intuição pelo que é grande, ou -bello, ou arrojado, e fingio ligar interesse ao que elle fazia, ao que -elle dizia, ao que elle ganhava, ao que elle pensava e ao que elle -conseguia com paciencia na sua vida estreita de negociante rotineiro; -mas, de repente, zás! faltou-lhe o equilibrio e a misera escorregou, -cahindo nos braços de um bohemio de talento, libertino e poeta, jogador -e capoeira. O marido não deu logo pela coisa, mas começou a estranhar -a mulher, a desconfiar d'ella e a espreital-a, até que um bello dia, -seguindo-a na rua sem ser visto, o desgraçado teve a dura certeza de -que era trahido pela esposa, não mais com o poeta libertino, mas com um -artista dramatico, que muitas vezes lhe arrancára, a elle, sinceras -lagrimas de commoção, declamando no theatro em honra da moral -triumphante e estigmatisando o adulterio com a rethorica mais vehemente -e indignada. -</p> -<p> -Ah não poude illudir-se! ... e, a despeito do muito que amava á -ingrata, rompeu com ella e entregou-a á mãe, fugindo em seguida para -São Paulo. Dona Isabel, que sabia já, não d'esta ultima falcatrua da -filha, mas das outras primeiras, que bem a mortificaram, coitada! -desfez-se em lagrimas, aconselhou-a a que se arrependesse e mudasse de -conducta; em seguida escreveu ao genro, intercedendo por Pombinha, -jurando que agora respondia por ella e pedindo-lhe que esquecesse o -passado e voltasse para junto de sua mulher. O rapaz não respondeu á -carta, e dahi a mezes, Pombinha desappareceu da casa da mãe. Dona -Isabel quasi morre de desgosto. Para onde teria ido a filha?... «Onde -está? onde não está! Procura d'aqui! procura d'ahi!» Só a descobrio -semanas depois; estava morando n'um hotel com Léonie. A serpente vencia -afinal. Pombinha foi, pelo seu proprio pé, attrahida, metter-se-lhe na -bocca. A pobre mãe chorou a filha como morta; mas, visto que os -desgosto não lhe tiraram a vida por uma vez e, como a desgraçada não -tinha com que matar a fome, nem forças para trabalhar, aceitou de -cabeça baixa o primeiro dinheiro que Pombinha lhe mandou. E, desde -então, aceitou sempre, constituindo-se a rapariga no seu unico amparo -da velhice e sustentando-a com os ganhos da prostituição. Depois, como -n'este mundo uma creatura a tudo se acostuma, Dona Isabel mudou-se para -a casa da filha. Mas não apparecia nunca na sala quando havia gente de -fóra; escondia-se; e, se algum dos frequentadores de Pombinha a pilhava -de improviso, a infeliz, com vergonha de si mesma, fingia-se criada ou -dama de companhia. O que mais a desgostava, e o que ella não podia -tolerar sem apertos de coração, era ver a pequena endemoninhar-se com -champanha depois do jantar e pôr-se a dizer tolices e a estender-se ali -mesmo no collo dos homens. Chorava sempre que a via entrar ébria, fóra -d'horas, depois de uma orgia; e, de desgosto em desgosto, foi se -sentindo enfraquecer e enfermar, até cahir de cama e mudar-se para uma -casa de saude, onde afinal morreu. -</p> -<p> -Agora, as duas cocotes, amigas, inseparaveis, terriveis n'aquella -inquebrantavel solidariedade, que fazia d'ellas uma só cobra de duas -cabeças dominavam o alto e o baixo Rio de Janeiro. Eram vistas por toda -a parte onde houvesse prazer; á tarde, antes do jantar, atravessavam o -Catette em carro descoberto, com a Jujú ao lado; á noite, no theatro, -em um camarote de bocca, chamavam sobre si os velhos conselheiros -desfibrados pela politica e avidos de sensações extremas, ou -arrastavam para os gabinetes particulares dos hoteis os sensuaes e -gordos fazendeiros de café, que vinham á côrte esbodegar o farto -producto das safras do anno, trabalhadas pelos seus escravos. Por cima -d'ellas duas passára uma geração inteira de devassos. Pombinha, só -com tres mezes de cama franca, fizera-se tão perita no officio como a -outra; a sua infeliz intelligencia, nascida e criada no modesto lodo da -estalagem, medrou logo admiravelmente na lama forte dos vicios de largo -folego; fez maravilhas na arte; parecia adivinhar todos os segredos -d'aquella vida; seus labios não tocavam em ninguem sem tirar sangue; -sabia beber, gotta a gotta, pela bocca do homem mais avarento, todo o -dinheiro que a victima pudesse dar de si. Entretanto, lá na Avenida -São Romão, era, como a mestra, cada vez mais adorada pelos seus velhos -e fieis companheiros de cortiço; quando lá iam, acompanhadas por -Jujú, a porta da Augusta ficava, como d'antes, cheia de gente, que as -abençoava com o seu estupido sorriso de pobreza hereditaria e humilde. -Pombinha abria muito a bolsa, principalmente com a mulher de Jeronymo, -a cuja filha, sua protegida predilecta, votava agora, por sua vez, uma -sympathia toda especial, identica á que n'outro tempo inspirára ella -propria á Léonie. A cadeia continuava e continuaria interminavelmente; -o cortiço estava preparando uma nova prostituta n'aquella pobre menina -desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria. -</p> -<p> -E era, ainda assim, com essas esmolas de Pombinha, que na casa de -Piedade não faltava de todo o pão, porque já ninguem confiava roupa -á desgraçada, e nem ella podia dar conta de qualquer trabalho. -</p> -<p> -Pobre mulher! chegára ao extremo dos extremos. Coitada! já não -causava dó, causava repugnancia e nojo. Apagaram-se-lhe os ultimos -vestigios do brio; vivia andrajosa, sem nenhum trato e sempre ébria, -d'essa embriaguez sombria e morbida que se não dissipa nunca. O seu -quarto era mais immundo e o peior de toda a estalagem; homens malvados -abusavam d'ella, muitos de uma vez, aproveitando-se da quasi completa -inconsciencia da infeliz. Agora, o menor trago de aguardente a punha -logo prompta; acordava todas as manhãs apatetada, muito triste, sem -animo para viver esse dia, mas era só correr á garrafa e voltavam-lhe -as risadas frouxas, de bocca que já se não governa. Um empregado de -João Romão, que ultimamente fazia as vezes d'elle na estalagem, por -tres vezes a enxotou, e ella, de todas, pedio que lhe dessem alguns dias -de espera, para arranjar casa. Afinal, no dia seguinte ao ultimo em que -Pombinha appareceu por lá com Léonie e deixou-lhe algum dinheiro, -despejaram-lhe os tarecos na rua. -</p> -<p> -E a misera, sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha, no Cabeça -de Gato que, á proporção que o São Romão se engrandecia, mais e -mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais -abjecto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o -outro regeitava, como se todo o seu ideal fosse conservar inalteravel, -para sempre, o verdadeiro typo da estalagem fluminense, a legitima, a -legendaria; aquella em que ha um samba e um rôlo por noite; aquella em -que se matam homens sem a policia descobrir os assassinos; viveiro de -larvas sensuaes em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma -lama; paraiso de vermes; brejo de lodo quente o fumegante, donde brota a -vida brutalmente, como de uma podridão. -</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="XXIII">XXIII</a></h4> - -<p> -A porta de uma confeitaria da rua do Ouvidor, João Romão, apurado n'um -fato novo de casimira clara, esperava pela familia do Miranda, que -n'esse dia andava em compras. -</p> -<p> -Eram duas horas da tarde e um grande movimento fazia-se ali. O tempo -estava magnifico; sentia-se pouco calor. Gente entrava e sahia, a passo -frouxo, da casa Pascoal. Lá dentro janotas estacionavam de pé, -soprando o fumo dos charutos, á espera que desoccupassem uma das -mezinhas de marmore preto; grupos de senhoras, vestidas de seda, faziam -lanche com vinho do Porto. Respirava-se um cheiro agradavel de essencias -e vinagres aromaticos; havia um rumor quente e garrido, mas bem educado; -namorava-se forte, mas com disfarce, furtando-se olhares no complicado -encontro dos espelhos; homens bebiam ao balcão e outros conversavam, -comendo empadinhas junto ás estufas; algumas pessoas liam já os -primeiros jornaes da tarde; serventes, muito atarefados, despachavam -compras de doce e biscoitos e faziam sem descançar, pacotes de papel de -côr, que os compradores levavam pendurados n'um dedo. Ao fundo, de um -dos lados do salão, aviavam-se grandes encommendas de banquetes para -essa noite, traziam-se lá de dentro, já promptas, torres e castellos -de balas e trouxas d'ovos e imponentes peças de cozinha caprichosamente -enfeitadas; criados desciam das prateleiras as enormes baixellas de -metal branco, que os companheiros iam embalando em caixões com papel -fino picado. Os empregados das secretarias publicas vinham tomar o seu -vermuth com siphão; reporteres insinuavam-se por entre os grupos dos -jornalistas e dos politicos, com o chapéo á ré, avidos de noticias, -uma curiosidade indiscreta nos olhos. João Romão sem deixar a porta, -apoiado no seu guarda chuva de cabo de marfim, recebia cumprimentos de -quem passava na rua; alguns paravam para lhe fallar. Elle tinha sorrisos -e offerecimentos para todos os lados; e consultava o relogio de vez em -quando. -</p> -<p> -Mas a familia do Barão surgio afinal. Zulmira vinha na frente, com um -vestido côr de palha justo ao corpo, muito elegante no seu typo de -fluminense pallida e nervosa; logo depois Dona Estella, grave, toda de -negro, passo firme e ar severo de quem se orgulha das suas virtudes e do -bom cumprimento dos seus deveres. O Miranda acompanhava-as, de -sobrecasaca, fitinha ao peito, o collarinho até ao queixo, botas de -verniz, chapéo alto e bigode cuidadosamente raspado. Ao darem com João -Romão, elle sorrio e Zulmira tambem; só Dona Estella conservou -inalteravel a sua fria mascara de mulher que não dá verdadeira -importancia senão a si mesma. -</p> -<p> -O ex-taverneiro e futuro visconde foi, todavia, ao encontro d'elles, -cheio de solicitude, descobrindo-se desde logo e convidando-os com -empenho a que tomassem alguma coisa. -</p> -<p> -Entraram todos na confeitaria e apoderaram-se da primeira meza que se -esvaziou. Um criado acudio logo e João Romão, depois de consultar Dona -Estella, pedio sandwichs doces e moscatel de Setubal. Mas Zulmira -reclamou sorvete e licor. E só esta fallava; os outros estavam ainda á -procura de um assumpto para a conversa; afinal o Miranda que, durante -esse tempo considerava o tecto e as paredes, fez algumas considerações -sobre as reformas e novos adornos do salão da confeitaria. Dona Estella -dirigio, de má, a João Romão varias perguntas sobre a companhia -lyrica, o que confundio por tal modo ao pobre homem, que o poz vermelho -e o desnorteou de todo. Felizmente, n'esse instante chegava o Botelho e -trazia uma noticia: a morte de um sargento no quartel; questão entre -inferior e superior. O sargento, insultado por um official do seu -batalhão, levantara a mão contra elle, e o official então arrancára -da espada e atravessára-o de lado a lado. Estava direito! Ah! elle era -rigoroso em pontos de disciplina militar! Um sargento levantar a mão -para um official superior!... devia ficar estendido ali mesmo, que -duvida! -</p> -<p> -E faiscavam-lhe os olhos no seu inverterado enthusiasmo por tudo que -cheirasse á farda. Vieram logo as anecdotas analogas; o Miranda contou -um facto identico que se dera vinte annos atraz e Botelho citou uma -enfiada d'elles interminavel. -</p> -<p> -Quando se levantaram, João Romão deu o braço a Zulmira e o Barão á -mulher, e seguiram todos para o largo de São Francisco, lentamente, em -andar de passeio, acompanhados pelo parasita. Lá chegados Miranda -queria que o visinho acceitasse um logar no seu carro, mas João Romão -tinha ainda que fazer na cidade e pedio dispensado obsequio. Botelho -tambem ficou; e, mal a carroagem partio, este disse ao ouvido do outro, -sem tomar folego: -</p> -<p> -—O homem vae hoje, sabe? Está tudo combinado! -</p> -<p> -—Ah! vae? perguntou João Romão com interesse, estacando no meio do -largo. Ora graças! Já não é sem tempo! -</p> -<p> -—Sem tempo! Pois olhe, meu amigo, que tenho suado o topete! Foi uma -campanha! -</p> -<p> -—Ha que tempo já tratamos d'isto!... -</p> -<p> -—Mas que quer você, se o homem não apparecia?... Estava fóra! -Escrevi-lhe varias vezes, como sabe, e só agora consegui pilhal-o. Fui -tambem á policia duas vezes e já lá voltei hoje; ficou tudo prompto! -mas você deve estar em casa para entregar a crioula quando elles lá se -apresentarem ... -</p> -<p> -—Isso é que seria bom se se pudesse dispensar... Desejava não estar -presente... -</p> -<p> -—Ora essa! Então com quem se entendem elles?.... Não! tenha -paciencia! é preciso que você lá esteja! -</p> -<p> -—Você podia fazer as minhas vezes... -</p> -<p> -—Peior! Assim não arranjamos nada! Qualquer duvida póde entornar o -caldo! E melhor fazer as coisas bem feitas Que diabo lhe custa isto?... -Os homenzinhos chegam, reclamam a escrava em nome da lei, e você a -entrega—prompto! Fica livre d'ella para sempre, e d'aqui a dias -estoira o champanha do casorio! Hein, não lhe parece? -</p> -<p> -—Mas... -</p> -<p> -—Ella ha de choramigar, lazer lamurias e coisas, mas você pôe-se duro -e deixe-a seguir lá o seu destino!... -</p> -<p> -Bolas! não foi você que a fez negra!... -</p> -<p> -—Pois vamos lá! creio que são horas. -</p> -<p> -—Que horas são! -</p> -<p> -—Tres e vinte. -</p> -<p> -—Vamos indo. -</p> -<p> -E desceram de novo a rua do Ouvidor até ao ponto dos bondes de -Gonçalves Dias. -</p> -<p> -—O de São Clemente não está agora, observou o velho. Vou tomar um -copo d'agoa emquanto o esperamos. -</p> -<p> -Entraram no botequim do logar e, para conversar assentados, pediram dois -calices de cognac. -</p> -<p> -—Olhe, acrescentou Botelho; você nem precisa dizer palavra ... faça -como coisa que não tem nada com isso, comprehende? -</p> -<p> -—E se o homem quizer os ordenados de todo o tempo em que ella esteve -em minha companhia?... -</p> -<p> -—Como, filho, se você não a alugou das mãos de ninguem?!... Você -não sabe lá se a mulher é ou era escrava; tinha-a por livre -naturalmente; agora apparece o dono, reclama-a, e você a entrega, -porque não quer ficar com o que lhe não pertence! Ella sim, póde -pedir o seu saldo de contas; mas para isso você lhe dará qualquer -coisa... -</p> -<p> -—Quanto devo dar-lhe? -</p> -<p> -—Ahi uns quinhentos mil reis, para fazer a coisa á fidalga. -</p> -<p> -—Pois dou-lh'os. -</p> -<p> -—E feito isso—acabou-se! O proprio Miranda vae logo, logo, ter -com você! Verá! -</p> -<p> -Iam fallar ainda, mas o bonde de São Clemente acabava de chegar, -assaltado por todos os lados pela gente que o esperava. Os dois só -conseguiram logar muito separados um do outro, de sorte que não puderam -conversar durante a viagem. -</p> -<p> -No largo da Carioca uma victoria passou por elles, a todo o trote. -Botelho vergou-se logo para traz, procurando os olhos do vendeiro, a -rir-se com intenção. Dentro de carro ia Pombinha, coberta de joias, ao -lado de Henrique; ambos muito alegres, em pandega. O estudante, agora no -seu quarto anno de medicina, vivia á solta com outros da mesma idade e -pagava ao Rio de Janeiro o seu tributo de rapazola rico. -</p> -<p> -Ao chegarem á casa, João Romão pedio ao cumplice que entrasse e -levou-o para o seu escriptorio. -</p> -<p> -—Descance um pouco ... disse-lhe. -</p> -<p> -—É, se eu soubesse que elles se não demoravam muito, ficava para -ajudal-o. -</p> -<p> -—Talvez só venham depois do jantar, tornou aquelle, assentando-se á -carteira. -</p> -<p> -Um caixeiro approximou-se d'elle respeitosamente e fez-lhe varias -perguntas relativas ao serviço do armazem, ao que João Romão -respondia por monosyllabos de capitalista; interrogou-o por sua vez e, -como não havia novidade, tomou Botelho pelo braço e convidou-o a -sahir. -</p> -<p> -—Fique para jantar. São quatro e meia, segredou-lhe na escada. -</p> -<p> -Já não era preciso prevenir lá defronte, porque agora o velho -parazita comia muitas vezes em casa do visinho. -</p> -<p> -O jantar correu frio e contrafeito; os dois sentiam-se ligeiramente -dominados por um vago sobresalto. João Romão foi pouco além da sôpa e -quiz logo a sobremeza. -</p> -<p> -Tomavam café, quando um empregado subio para dizer que lá em baixo -estava um senhor, acompanhado de duas praças, e que desejava fallar ao -dono da casa. -</p> -<p> -—Vou já! respondeu este. -</p> -<p> -E accrescentou para o Botelho:—São elles! -</p> -<p> -—Deve ser, confirmou o velho. -</p> -<p> -—E desceram logo. -</p> -<p> -—Quem me procura?... exclamou João Romão com disfarce, chegando ao -armazem. -</p> -<p> -Um homem alto, com ar de estroina, adiantou-se e entregou-lhe uma folha -de papel. -</p> -<p> -João Romão, um pouco tremulo, abrio-a defronte dos olhos e leu-a -demoradamente. Um silencio formou-se em torno d'elle; os caixeiros -pararam em meio do serviço, intimidados por aquella scena em que -entrava a policia. -</p> -<p> -—Está aqui com effeito ... disse afinal o negociante. Pensei que -fosse livre... -</p> -<p> -—É minha escrava, affirmou o outro. Quer entregar-m'a?... -</p> -<p> -—Mas immediatamente. -</p> -<p> -—Onde está ella? -</p> -<p> -—Deve estar lá dentro. Tenha a bondade de entrar... -</p> -<p> -O sujeito fez signal aos dois urbanos, que o acompanharam logo, e -encaminharam-se todos para o interior da casa. Botelho, á frente -delles, ensinava-lhes o caminho. João Romão ia atraz, pallido, com as -mãos crusadas nas costas. -</p> -<p> -Atravessaram o armazem, depois um pequeno corredor que dava para um -pateo calçado, e chegaram finalmente á cozinha. Bertoleza, que havia -já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cocaras no chão, -escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando vio parar defronte -d'ella aquelle grupo sinistro. -</p> -<p> -Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um -calafrio percorreu-lhe o corpo. N'um relance de grande perigo -comprehendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê -perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta -de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para -matal-a, restituia-a ao captiveiro. -</p> -<p> -Seu primeiro impulso foi de fugir, Mal, porém, circumvagou os olhos em -torno de si, procurando escapúla, o senhor adiantou-se d'ella e -segurou-lhe o hombro. -</p> -<p> -—É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada -a seguil-os.—Prendam-na! É escrava minha! -</p> -<p> -A negra, immovel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das -mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, -olhou aterrada para elles, sem pestanejar: -</p> -<p> -Os policias, vendo que ella se não despachava, desembainharam os -sabres. Bertoleza então, erguendo-se com impeto de anta bravia, recuou -de um salto e, antes que alguem conseguisse alcançal-a, já de um só -golpe certeiro e fundo rasgára o ventre de lado a lado. -</p> -<p> -E depois emborcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa -lameira de sangue. -</p> - -<p><br /></p> - -<p> -João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazem, tapando o -rosto com as mãos. -</p> -<p> -N'esse momento parava á porta da rua uma carruagem. Era uma commissão -de abolicionistas que vinham, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o -diploma de socio benemerito. -</p> -<p> -Elle mandou que os conduzissem para a sala de visitas. -</p> - -<p><br /><br /></p> - -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O CORTIÇO</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™ -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for -copies of this eBook, complying with the trademark license is very -easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation -of derivative works, reports, performances and research. Project -Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away—you may -do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected -by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. -</div> - -<div style='margin-top:1em; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg™ electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person -or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg™ electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg™ electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg™ -electronic works. See paragraph 1.E below. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (“the -Foundation” or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg™ electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg™ mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg™ -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg™ name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg™ License when -you share it without charge with others. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg™ work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country other than the United States. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg™ License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg™ work (any work -on which the phrase “Project Gutenberg” appears, or with which the -phrase “Project Gutenberg” is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: -</div> - -<blockquote> - <div style='display:block; margin:1em 0'> - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most - other parts of the world at no cost and with almost no restrictions - whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms - of the Project Gutenberg License included with this eBook or online - at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you - are not located in the United States, you will have to check the laws - of the country where you are located before using this eBook. - </div> -</blockquote> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.2. If an individual Project Gutenberg™ electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase “Project -Gutenberg” associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg™ -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.3. If an individual Project Gutenberg™ electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg™ License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg™ -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg™. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg™ License. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg™ work in a format -other than “Plain Vanilla ASCII” or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg™ website -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original “Plain -Vanilla ASCII” or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg™ License as specified in paragraph 1.E.1. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg™ works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg™ electronic works -provided that: -</div> - -<div style='margin-left:0.7em;'> - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg™ works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg™ trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, “Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation.” - </div> - - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg™ - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg™ - works. - </div> - - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - </div> - - <div style='text-indent:-0.7em'> - • You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg™ works. - </div> -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg™ electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of -the Project Gutenberg™ trademark. Contact the Foundation as set -forth in Section 3 below. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg™ collection. Despite these efforts, Project Gutenberg™ -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain “Defects,” such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the “Right -of Replacement or Refund” described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg™ trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg™ electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you ‘AS-IS’, WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg™ electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg™ -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg™ work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg™ work, and (c) any -Defect you cause. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg™ -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state’s laws. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation’s website -and official page at www.gutenberg.org/contact -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread -public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state -visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of -volunteer support. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Most people start at our website which has the main PG search -facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. -</div> - -</div> -</div> -</body> - -</html> diff --git a/old/69187-h/images/cortico_cover.jpg b/old/69187-h/images/cortico_cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index ab997cb..0000000 --- a/old/69187-h/images/cortico_cover.jpg +++ /dev/null |
